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Encontro 6 – Estruturação e escrita de um trabalho científico

PINKER, Steven. Guia de escrita: como conceber um texto com clareza,


precisão e elegância. São Paulo: Contexto, 2016

Tomando isso como ponto de partida, o autor procuraria identificar os fatores


que teriam levado a essa mudança de posicionamento jurisprudencial – eis
uma dúvida de pesquisa possível. Analisando minuciosamente os julgados
paradigmáticos, constataria, digamos, frequentes referências à doutrina e
filosofia alemã contemporânea, as quais conduziam a interpretações mais
integrativas dos dispositivos normativos constitucionais, principalmente com
normas de direitos fundamentais e ponderação de princípios, bem como uma
nova concepção do princípio democrático. Concluiria, enfim, que os fatores
identificados – a maior influência de uma certa corrente doutrinária – foram
provavelmente responsáveis pela nova orientação da jurisprudência,
deixando, contudo, em aberto a discussão, à espera de análises semelhantes
sobre temas diversos, para reforçar as hipóteses levantadas. Nota-se que
nesse trabalho hipotético o autor enfrentou um problema específico:
identificar os fundamentos que levaram à mudança de posicionamento do
Supremo Tribunal Federal sobre a responsabilidade civil do Estado. Eis o
cerne de um trabalho monográfico. Desde o princípio, o autor tinha um
objetivo definido, baseado em uma inquietação sobre algo que até então não
tinha respostas. Esse seu objetivo – sanar uma dúvida, responder a uma
pergunta – acaba por constituir o próprio tema da pesquisa.6
O fato de cursos e manuais não serem trabalhos monográficos não significa
que não possa haver definições e explicações de conceitos e teorias, como as
que muitas vezes aparecem nessas obras, no escopo de trabalhos
monográficos. Elas podem e devem ser usadas quando forem necessárias
para o cumprimento do objetivo do tema proposto pela monografia. Se estou
fazendo um trabalho cujo objetivo seja definir se os ministros do STF
diferenciam os conceitos de “proporcionalidade” e “razoabilidade” em seus
votos, então parece ser necessária uma explicação sobre esses conceitos,
inclusive para explicitar os critérios que permitem sua identificação na dinâmica
dos votos que analisarei3. Evite, ao contrário, usar explicações de conceitos
básicos se não for estritamente necessário. Lembre-se de que o trabalho é
dirigido a um examinador ou corretor que, em princípio, é expert no assunto, e
não precisa tomar uma aula das definições básicas da matéria com alguém
que, como jovem pesquisador escrevendo uma monografia de conclusão de
curso, possivelmente estará dando seus primeiros passos na carreira
acadêmica.
É provável que a primeira vez que se tenha de elaborar um trabalho
monográfico seja durante uma disciplina ainda no início do programa de
graduação. Ainda sem desenvoltura acadêmica, o estudante terá, via de regra,
dificuldades de realizar um trabalho com genuíno interesse científico. Um
trabalho nessa fase terá, provavelmente, finalidade sobretudo didática, para
que se comece a tomar contato com as exigências de estrutura, referências,
formatação e conteúdo envolvidos no trabalho monográfico.
A grande dificuldade das monografias disciplinares no início da vida
acadêmica encontra-se, sem dúvida, na definição de um tema e do método
apropriado para abordá-lo. Acostumado até então a lidar apenas com manuais
jurídicos, é comum que o estudante abra o primeiro livro à mão para ver
como o autor redigiu as referências bibliográficas, as quais se encontram no
centro das suas preocupações concernentes ao trabalho. O passo seguinte é
tomar o livro todo como paradigma, desde como apresentar um tema até o
estilo específico de redação, o que talvez explique a sobrevivência de
modismos e jargões da linguagem jurídica, como “é mister” ou “o festejado
autor”. A redação do manual e seu conteúdo passam a ser exemplos de como
o trabalho deve se apresentar.
Porém, manuais didáticos não são trabalhos monográficos e não devem
servir de modelo para uma monografia. Como já foi dito, para que o trabalho
tenha essência monográfica, é necessário que tenha um tema que o oriente a
um objetivo: algo que se queira descobrir, ou uma pergunta a que se queira
responder. Isso é algo raro em trabalhos dessa fase acadêmica inicial, salvo
quando houver atenta e constante orientação de um professor. Uma possível
maneira de se contornar essa dificuldade é eleger como tema alguma
discussão teórica em que haja correntes divergentes. Bastaria, então, formular
questões específicas que indiquem um problema a ser resolvido, ou uma
situação fática a ser constatada, sempre a partir de investigação e pesquisa, e
que tivesse tal divergência por objeto. Por exemplo: qual corrente prevalece
nos tribunais brasileiros quanto à polêmica da internalização dos tratados de
direitos humanos? Quais são os limites de aplicação da corrente que
considera os tratados incorporados anteriores à EC n. 45/2004 como
infraconstitucionais e supralegais? Isto é, em quais situações tal corrente não
resolve o problema da interpretação do texto anterior à referida emenda de
maneira satisfatória? E assim por diante. O importante é evitar um trabalho
que imite um manual, cuja única finalidade seja resumir a matéria, sem algo
que se queira propriamente concluir. O ponto central, que realmente agrega
qualidade ao trabalho, é realizar análises e interpretações próprias, pautadas
numa lógica objetiva e em critérios avaliatórios explícitos, que demonstrem
coerência nos argumentos, conduzindo o texto a uma conclusão. Isso é
possível mesmo a um aluno de graduação, desde que proximamente
orientado.
Contudo, isso deve ser seguido apenas se o professor não estabelecer um
roteiro obrigatório de redação, caso em que o trabalho talvez sequer chegue a
ser monográfico. Nesses casos, quer-se apenas que o aluno estude o
conteúdo
e redija um texto para fixação do aprendizado sob regras da redação
acadêmica.
Na graduação em direito, os TCCs são, em regra, monografias jurídicas,
geralmente produzidas sob orientação de um professor do curso. No entanto,
a própria dedicação do aluno ao trabalho rivaliza com outras coisas
importantes em sua vida, já que, além de ter de estudar para as provas finais,
existe o assombro do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, muitas
vezes somado à busca da efetivação em seu emprego. Nessa fase, soluções
práticas são interessantes.
Nesse contexto, a primeira recomendação ao aluno é que escolha um tema
com que tenha afinidade. Tal escolha permite manejar temas de maior
complexidade mais facilmente, o que, além de ser o caminho mais seguro
para a produção de trabalhos consistentes e interessantes, é um bom ensaio
para aqueles que vislumbram fazer logo uma pós-graduação. Em sentido
contrário, a falta de afinidade prévia com o tema pode levar (e normalmente
leva) à elaboração de um trabalho não monográfico, com tendências a
replicar manuais, que são, usualmente, o tipo de literatura a que um novato
em qualquer assunto é obrigado a recorrer.
Alguns alunos têm dificuldades para encontrar um tema em que se julguem
minimamente especialistas. Os que fazem estágio durante a faculdade têm um
pouco mais de facilidade para tanto, já que seus trabalhos em geral os tornam
mais peritos em determinado assunto. Entretanto, há outras maneiras de se
chegar a um tema com que se tenha familiaridade, inclusive para o aluno que
não queira fazer seu trabalho sobre o mesmo tema de seu estágio: o assunto
de um trabalho importante que tenha sido feito durante a faculdade; um livro ou
autor lidos com especial afinco para uma disciplina, ou por gosto pessoal; um
seminário preparado com empenho, do qual ainda se tenha algum material de
preparação guardado; ou até mesmo um ponto de matéria estudado com
especial afinco para uma prova.
Embora já se encontrem na pós-graduação pesquisas bem realizadas e
trabalhos com grande qualidade científica, nesse nível também há frequentes
trabalhos produzidos à semelhança de cursos e manuais, o que, reitera-se, se
deve evitar. Muitas razões distintas contribuem para isso. Uma delas é o vício
trazido da graduação nos inúmeros trabalhos disciplinares escritos de maneira
explicativa, de modo a demonstrar ao professor o aprendizado da matéria. Em
outros casos, por desencantamento com o curso ou qualquer outra frustração
acumulada ao longo da pós-graduação, o aluno perde a motivação para fazer
um trabalho mais desafiador e instigante. Mas também há, paradoxalmente,
alunos muito interessados que desejam produzir trabalhos diferenciados.
Motivados em inovar, porém, acabam confundindo “diferenciado” e
“diferente”: elegem como assunto de trabalho temas exóticos e obscuros, ou
então inteiramente alheios às suas respectivas áreas de familiaridade.
Consequentemente, passam a maior parte do tempo de pesquisa aprendendo
o
básico a seu respeito. Ao final, sentem dificuldade até mesmo para identificar
um objeto de pesquisa e terminam por realizar trabalhos que se resumem a
transcrever trechos de manuais ou jurisprudência consagrada. Há também
aquele aluno que está na pós-graduação para qualificar-se para o exercício
profissional em uma nova área, e este também tende a gastar tempo excessivo
em meio à literatura voltada a principiantes. Por isso, reitera-se: na
pósgraduação,
mais do que nunca, deve-se desenvolver um tema familiar. O
nível acadêmico exige, inclusive, certo domínio sobre a matéria. É um erro
querer escrever sobre um tema que não se conhece, mesmo que esteja
compreendido na especialidade cursada.

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SALOMON, Décio Vieira. Como fazer uma monografia. 13 ed. 2017. P 33 a


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A finalidade de uma monografia de pós-graduação é agregar valor à


comunidade científica ou profissional, por meio do compartilhamento da
expertise adquirida mediante a investigação realizada. Afinal, será um
trabalho de um especialista, e não de um simples curioso. A regra de ouro da
graduação também vale para a pós-graduação. Na verdade, ela se torna mais
importante à medida que subimos na escala acadêmica. Portanto, escreva
sobre o assunto que melhor conhece. Concentre-se em identificar
questionamentos interessantes sobre o tema escolhido. Agregue valor com
uma argumentação sólida pautada em raciocínio próprio, e não simplesmente
replicando ideias alheias.
O artigo científico é, antes de tudo, um meio de diálogo acadêmico: é o
instrumento pelo qual um pesquisador comunica ao restante da comunidade
acadêmica algum achado novo, ou conclusão importante a que chegou,
preferencialmente por meio de veículos de publicação especificamente
destinados a esse fim, como são os periódicos científicos. Segundo Severino,
um artigo tem “por finalidade registrar ou divulgar, para público
especializado, resultados de novos estudos e pesquisas sobre aspectos ainda
não devidamente explorados ou expressando novos esclarecimentos sobre
questões em discussão no meio científico” (2007, p. 208).
A finalidade de um artigo científico é, portanto, a divulgação científica, o
que afasta, mais uma vez, textos com finalidades didáticas, como são os
manuais jurídicos. Alguém que, a pretexto de escrever um artigo científico,
produza um texto superficial sobre um tema amplo, como se fosse um
capítulo de manual, comete um erro quanto ao gênero literário, como o aluno
de vestibular que escreve um poema quando o examinador pedia uma carta.
Artigos científicos apresentam argumentos, dados e conclusões de maneira
mais compacta e objetiva e, por isso, não possuem extensão ou profundidade
necessária para se tornar um livro autônomo. Embora seja plenamente
possível fazer um artigo científico de tema puramente teórico ou
especulativo, a objetividade desse gênero literário manda que grandes
explicações teóricas ou conceituais de caráter preliminar sejam suprimidas.
Não é porque meu raciocínio emprega tipos ideais que meu artigo deve ter
uma longa divagação sobre Max Weber, sua vida e sua obra. Não é preciso
sequer uma extensa explicação sobre o que são tipos. Ao mesmo tempo,
artigos devem possuir completude e clareza necessárias para que seus
argumentos, os experimentos nele descritos, ou linhas de raciocínio nele
empregadas, sejam replicáveis por qualquer leitor interessado. Isso exige
cristalina enunciação do problema de que tratam, explicitação de
pressupostos relevantes, enunciação clara das hipóteses e exposição objetiva
dos procedimentos de coleta e análise de dados, ou do material doutrinário
consultado e a forma de sua apreciação.
O conteúdo específico de um artigo variará de acordo com a natureza da
pesquisa que reproduza. Em trabalhos de caráter mais doutrinário, é
importante que o artigo ofereça uma abordagem compreensiva e abrangente
da literatura mais atual e relevante no assunto de que trata, de modo a
demonstrar que aquilo que contém está conectado com o estado da arte da
produção acadêmica sobre a matéria. Já os artigos que apresentam dados de
pesquisas empíricas precisam detalhar com clareza os procedimentos
adotados para a coleta de dados, a forma de análise das informações
coletadas, os próprios dados levantados na pesquisa e as conclusões que
deles
se podem extrair. O importante é que todos os elementos de convicção
necessários à formação da conclusão do autor do artigo, seja ele de que
natureza for, sejam explicitamente oferecidos ao leitor, para que ele mesmo
possa “replicar” o pensamento do autor do artigo e verificar se as
conclusões procedem ou não. E, claro, tudo isso deve ser feito no curto
espaço de poucas dezenas de páginas que artigos normalmente têm, razão
pela qual artigos científicos devem ser marcadamente claros, objetivos e
concisos: o que determina sua extensão é a necessidade de clareza na
comunicação dos procedimentos de pesquisa, ou dos passos argumentativos,
percorridos pelo autor.
Finalmente, vale lembrar que artigos científicos, como qualquer produção
acadêmica, deverão atender a todas as exigências de forma e estilo dos
trabalhos dessa natureza. Há, entretanto, requisitos específicos que podem
variar de um periódico científico para outro. Convém, portanto, conferir
previamente, junto ao periódico em que se pretenda publicar o trabalho, as
regras específicas para apresentação deste, como lembra bem Severino (2007,
p. 208). Para os programas de graduação ou pós-graduação que aceitam
artigos científicos como trabalhos de conclusão de curso, convém,
igualmente, que se confiram na secretaria acadêmica do respectivo programa
as regras para apresentação dos trabalhos.
Muitas vezes, a expressão “artigo científico” é empregada de forma menos
específica do que o definido aqui, para indicar apenas um trabalho de curta
extensão, cujo conteúdo pode ser variável: a análise de uma obra, a definição
de determinado conceito em um livro específico, ou até mesmo uma resenha
crítica. Quando uma instituição ou um professor pedem que alunos escrevam
artigos científicos, convém, portanto, certificar-se quanto ao exato produto
esperado nesses casos.
A dissertação e a tese são trabalhos monográficos exigidos para obtenção
dos títulos de mestre e doutor, respectivamente. Na escala dos trabalhos
monográficos de conclusão de curso, são os que mais demandam
planejamento e pesquisa. Falta de tempo, de dedicação e de interesse são
incompatíveis com esses trabalhos.
Idealmente, os preparativos iniciais devem começar antes mesmo do
ingresso no programa. A complexidade de trabalhos da magnitude de uma
dissertação e de uma tese exige a elaboração de um projeto cuidadoso. Em
muitos programas, o projeto é pré-requisito para a participação do processo
de seleção do curso. Nos programas mais concorridos, o projeto não pode ser
apenas bom; tem de ser excelente.
Apesar de serem trabalhos monográficos e com evidente densidade de
planejamento e pesquisa, a dissertação e a tese não são simples monografias
aprofundadas. Elas guardam certas particularidades.
A dissertação é um trabalho desenvolvido no curso de um programa de
mestrado, submetida a uma qualificação e a uma defesa pública composta por
três professores com titulação acadêmica stricto sensu na área: o orientador,
um professor da instituição do programa e um professor de outra instituição.
A tese é um trabalho desenvolvido no curso de um programa de doutorado,
submetida a uma qualificação e uma defesa pública composta por cinco
professores com título de doutor: o orientador, dois professores da instituição
do programa e dois professores de outras instituições.
Há também diferenças relativas ao programa acadêmico em que teses e
dissertações são produzidas – mestrado e doutorado, respectivamente. Em
geral, mestrados têm menor carga exigida de créditos acadêmicos (disciplinas
que se deve cursar) e créditos de pesquisa, o que faz que sejam, na prática,
mais curtos do que doutorados, embora nem sempre seja assim.
Dissertações de mestrado e teses de doutorado têm, de partida, diferenças
de profundidade. Espera-se que a tese seja um trabalho mais profundo que a
dissertação, já que, na primeira, é preciso haver contribuição original para a
área de concentração do trabalho – é necessário que haja, de fato, uma nova
tese defendida pelo doutorando. “A tese científica (...) não se ocupa tão
somente da descrição ou análise de um instituto ou questões jurídicas”, mas
“vai além dos dados citados e se caracteriza fundamentalmente (...) pela
contribuição pessoal do autor e a proposição que se expõe e se defende”
(LEITE, 2006, p. 34).
Essa exigência de inovação às vezes causa confusões, pois tanto a
dissertação quanto a tese têm de trazer contribuições à comunidade científica,
ainda que apenas a tese tenha de formular uma proposição nova e prová-la,
ou defendê-la. Tal requisito não existe na dissertação, o que não significa que
esta deva limitar-se a uma simples compilação de ideias alheias. Ela deverá
mostrar capacidade de realização de pesquisas de alguma complexidade por
parte do mestrando, ainda que seja meramente aplicando um método de
pesquisa já consolidado em objetos novos e ainda não estudados. Ela é o
produto final de um longo treino em métodos e técnicas de pesquisa,
revelando, pela sua consistência, a aptidão do candidato como pesquisador.
“A dissertação, de caráter eminentemente didático, representa treino de
iniciação à investigação, de forma que sua elaboração não levará em conta
que a investigação se concretize na comunicação de uma teoria nova, ou nova
explicação e interpretação de fatos dentro da originalidade que norteia a tese
doutoral” (LEITE, 2006, p. 33). Ao se realizar, por exemplo, uma pesquisa de
jurisprudência com metodologia consagrada sobre um conjunto de acórdãos
ainda não estudados, uma dissertação de mestrado produziria resultados
inéditos, mas sem a inovação teórica exigida de um doutorado.

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