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SOCIEDADE DE ENSINO SUPERIOR ESTÁCIO DE SÁ FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ DE VITÓRIA CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL HABILITAÇÃO EM JORNALISMO

RENATO DE OLIVEIRA SANTOS

A FICÇÃO COMO PRODUTO DA REALIDADE: ANÁLISE DA TRANSFORMAÇÃO DE UMA HISTÓRIA DE VIDA EM FOLHETIM

VITÓRIA 2010

RENATO DE OLIVEIRA SANTOS

A FICÇÃO COMO PRODUTO DA REALIDADE: ANÁLISE DA TRANSFORMAÇÃO DE UMA HISTÓRIA DE VIDA EM FOLHETIM

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de comunicação social da Sociedade de Ensino Superior Faculdade Estácio de Sá como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientador: a MSc. Cristiane Palma dos Santos Bourguignon.

VITÓRIA 2010

RENATO DE OLIVEIRA SANTOS A FICÇÃO COMO PRODUTO DA REALIDADE: ANÁLISE DA TRANSFORMAÇÃO DE UMA HISTÓRIA DE VIDA EM FOLHETIM

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de comunicação social da Sociedade de Ensino Superior Faculdade Estácio de Sá como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientador: a MSc. Cristiane Palma dos Santos Bourguignon.

Aprovada em 20 de novembro de 2010.

COMISSÃO EXAMINADORA

_____________________________________________ Profª. MSc. Cristiane Palma dos Santos Bourguigno Orientadora Faculdade de Ensino Superior Estácio de Sá

_____________________________________________ Profª. Faculdade de Ensino Superior Estácio de Sá

_____________________________________________ Profª. Faculdade de Ensino Superior Estácio de Sá

meu sonho. meus pais. A Fabíola. por acreditar em mim. o autor e consumador da minha fé. A Leonor e Geraldo.A Deus. . minha vida. Tudo que sou devo a eles.

de ver sua descendência alcançar o êxito no campo do conhecimento. Em especial a professora mestre Cristiane Palma dos Santos Bourguignon que possibilitou e preencheu com seu conhecimento as lacunas desse trabalho A minha esposa Fabíola. e me ensinaram a enfrentar o mundo. Gostaria de agradecer aos meus pais e meus irmãos que sempre acreditaram em mim e me ajudaram a chegar até este momento. A Deus toda minha gratidão. que sempre esteve ao meu lado. . Aos professores da Faculdade Estácio de Sá que contribuíram diretamente para que essa etapa fosse alcançada. A todos que de alguma forma.AGRADECIMENTOS Devo tudo Àquele que fez todas a coisas e proporcionou que eu chegasse até aqui. Ao meus pais devo tudo. pois eles forjaram o meu caráter e personalidade. em cada momento da produção desse trabalho. Agradeço por cada momento difícil que passei em minha vida. Agradeço a cada um que me apoiou ou me encorajou nesta etapa que chega a passos largos ao fim. Gostaria de agradecer aos meus avôs José Santos e Armindo de Oliveira (in memorian) que sempre me incentivaram nos meus estudos. os momentos de dificuldade só foram fáceis porque ela estava ao meu lado. algo mais. Se eles estivessem aqui eu estaria realizando o sonho deles. voluntária ou involuntariamente possibilitaram a conclusão trabalho.

Ator Selton Melo. no filme Jean Charles .“porque mentira tem que ser bem contada. quando você conta com detalhe aí que a mentira funciona”. tem que ser contada com detalhe.

dirigido por Henrique Goldman. e que abra caminho para uma nova configuração da produção jornalística. Ele apresenta o folhetim como um modelo narrativo que estabelece uma comunicação com a cultura popular. O objetivo deste trabalho é apresentar a ficção como uma obra da realidade que favoreça a reflexão da realidade por ela representada. E busca compreender as representações sociais como meios de interpretação e construção da realidade.RESUMO Este trabalho aborda a ficção como um produto da realidade. As informações e comparações podem servir para a compreensão das narrativas ficcionais dos filmes e factuais dos jornais que são produzidas de forma fragmentada.Chave: Ficção. Comunicação . o jornal e o cinema. questiona sobre as possíveis formas de construção da realidade. Realidade. Folhetim. como uma construção narrativa da sociedade representada. através de dois suportes narrativos e midiáticos. Além de analisar a história da vida do brasileiro Jean Charles de Menezes. representados pelo jornal A Tribuna e pelo filme Jean Charles. Ao apontar a linha tênue existente entre a ficção e a realidade na produção jornalística. Palavras. com o auxilio do trabalho jornalístico analisado em comparação a obra ficcional.

............13 2.........48 6 REFERÊNCIAS ...50 .SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .......................................................................1 O JORNALISMO ENTRE A FICÇÃO E O REAL ..............24 3 A REALIDADE PRODUZIDA E FRAGMENTADA ...............................................................................................................................................................09 2 O FOLHETIM COMO MODELO NARRATIVO ....................28 4 A CONSTRUÇÃO IMAGÉTICA DA REALIDADE ........38 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................................................. ...............................................

morria aos 26 anos. de modo a causar uma reflexão social. há quatro anos um jovem ganhava a vida como eletricista. em comparação com as histórias publicadas na editoria de Internacional no jornal A Tribuna de 2005. dirigido por Henrique Goldman. morte. Nossa hipótese principal é que produtos da indústria cultural. Ao propor a ficção como um produto da realidade. dia 22 de julho de 2005. Assim como outros brasileiros. em 2009. Este é o objeto empírico desta pesquisa: a história narrada no filme Jean Charles. que pelo fim trágico virou notícia e ganhou as telas dos cinemas. pânico. repercutir os fatos à exaustão. O dia seria tranqüilo para mais um brasileiro no exterior. em outro país. possam favorecer a reflexão de um fato. o sonho de morar e trabalhar fora do país estavam sendo realizados. Mas oito tiros interromperam uma história de vida comum. utilizando um meio que possibilite fazer a . as notícias publicadas nos jornais não sofrem uma exaustiva análise. sobre a morte do eletricista. a quase inexistência de reflexão por parte da mídia informativa de massa. Numa sexta feira. pois não sobra tempo para pensar nos detalhes. Devido à dinâmica das redações. Em resumo.9 1 INTRODUÇÃO De casa para o trabalho. tiros. Natural da cidade mineira de Gonzaga. nos leva a crer que a produção de obras ficcionais baseadas na realidade social deve ser considerada como fonte que preenche as lacunas deixadas pelas mídias informativas. significa compreender e debater assuntos relevantes para a sociedade. como os filmes. Metrô da estação de Stockwell no sul de Londres. Jean Charles de Menezes e nascia uma série de narrativas de diferentes suportes que tentaram dar conta de sua história.

2007. p.1970. 1995. por isso a sociedade pode interpretar essa comunicação (ROCHA. a interpretação artística da realidade. Filme esse que deseja imprimir no público o mundo como ele é no dia-a-dia. assim. para Coutinho (1970). serão percebidos por nós a partir do entendimento do autor sobre o folhetim. Isso nos remete a Adorno (2007). pt. p. possibilita uma compreensão maior dos fatos. Pois a comunicação de massa afirma que na ficção tudo se organiza em sociedade.com/writingand-speaking/speech/1898555-fic%C3%A7%C3%A3o-narrativa/. mas antes cria uma imagem da realidade.shvoong. A ficção pode ficar próxima ou distante do reino da experiência humana real. que foi realizada com a aplicação da metodologia apresentada por Barbero (2001). uma forma artística pela qual o escritor engloba numa estória as suas idéias e sentimentos acerca da vida (COUTINHO. pois em seu significado de simulacro da realidade a interpreta.96).15). Ele afirma que: A ficção não pretende fornecer um simples relato da realidade.. Dentro do contexto apresentado.10 mediação. fugindo ao real. A sociedade. Assim. 2010). Submetendo-se ao real. A ficção é. o qual mistura realidade com ficção. “O mundo inteiro é forçado a passar pelo crivo da indústria cultural [. poderá exercitar a reflexão que é necessária para um melhor desenvolvimento social e cultural dos indivíduos que a forma.. acesso em 24 de mar. Essa construção da narrativa cinematográfica do filme Jean Charles. o conceito de folhetim é o norte da nossa análise. temos a ficção realista. quando afirma que. Afinal. então. a rua parece a continuação do filme.] tanto mais fácil fazer crer que o mundo de fora é o simples prolongamento daquele que se acaba de ver no cinema” (ADORNO. Da mesma maneira vamos entender que o filme de Goldman reinterpreta os fatos de uma forma com que o público se identifique com as histórias narradas. na experiência do espectador. uma reinterpretação. A ficção. surge a ficção romântica ou fantasista. pode servir de suporte à realidade. desmembrando forma e conteúdo. . dos jornais e do filme. e os aspectos de narrativas. a realidade cria a condição de consumo no público ao produzir uma ficção reflexiva sobre a cultura dos imigrantes brasileiros em Londres. uma revisão e o espetáculo da vida através do olhar interpretativo do artista.

Ao analisar como uma história de vida se torna um folhetim. primeiramente no suporte que a apresenta como notícia e depois como ficção. 183). 2001. que em seguida vai se transformar em narrativas para causar sensações no público. etc. surge no lugar para a qual estamos olhando: no diálogo entre as narrativas de ficção e de realidade. nos promove uma reflexão sobre a profissão do jornalista e processo de produção de notícias na contemporaneidade. a produção midiática se aproxima do consumidor. Por isso houve a absorção do nome folhetim.] o que não era admitido no corpo do jornal. era local onde iam parar as variedades. as receitas. vale ressaltar que essa pesquisa. No primeiro capítulo.. o folhetim foi levado pelos donos dos jornais parisienses a introduzir narrativas produzidas por novelistas da época. ou seja. Segundo Barbero (2001).11 Folhetim são histórias com narrativas fragmentadas. Barbero (2001) estabelece que com o folhetim. Mas nem sempre foi assim. além de revisar o conceito de folhetim. utilizamos os estudos do . dividimos o trabalho em três capítulos. em episódios. podia sem impedimentos ser aceito no folhetim” (BARBERO. Com as transformações dos jornais em empresas comerciais. “[. Para tanto.. A princípio o folhetim era tudo o que ficava no “rodapé” da primeira página dos jornais franceses publicados no século XIX. que de alguma forma interfere na produção. apresentamos o conceito de folhetim. Afinal. Daí uma relação direta que ajude na percepção do filme como espaço de reflexão da realidade social. modelo ou forma narrativa que possui uma estrutura própria. o estudo do folhetim se justifica como uma revisão bibliográfica importante para qualquer jornalista. Além da relação com o objeto de pesquisa. p. acreditamos que seja possível perceber que suas narrativas são compostas justamente por histórias que acontecem na rotina das pessoas. as criticas literárias. Para dar conta dessa análise.

sempre em comparação com as narrativas publicadas no jornal “A Tribuna” dos dias 22 a 29 de julho de 2005. no caso estudado.. Analisaremos as condições de produção-edição. O filme. Ao apresentar o folhetim. o formato e o símbolo. respectivamente. a compensação. quando ganham as páginas a morte do eletricista. Além de estudar os dispositivos de enunciação. tais como o testemunho. p. Umberto Eco vai interpretar essa estrutura da realidade dentro da ficção como uma espécie de déjà vu “[. No segundo capitulo.. Neste capitulo três. exploraremos no terceiro capitulo a estrutura do enunciado.91). 1994.12 pesquisador de comunicação Jésus Matin-Barbero e da antropóloga Alessandra ElFar. desmonta e o divide para melhor apresentá-lo. Fazendo isso.] como se estivéssemos vivendo sobre um imenso chiclete já mascado” (ECO. Barbero (2001). forma e conteúdo narrativo do folhetim. ele nos possibilita ver com clareza. trataremos todos os aspectos do conteúdo. temos a análise das narrativas. mostrando que a morte trágica de Jean Charles é como as histórias ou estórias sobre as quais o folhetim narra. . que tratam da forma.

antes publicados na íntegra a cada edição dos jornais. precisamos de algo tangível para compreendê-lo. A principio o folhetim não constituía-se de narrativas sensacionais com historias inusitadas e enredo divido em capítulos. Isso se deu em 1836. o gênero começa a ganhar força com a adaptação para atrair cada vez mais leitores.La Presse e Le Siècle .]” (BARBERO. anúncios.] primeiro tipo de texto escrito no formato popular de massa [. Barbero (2001) afirma que o folhetim antes de se tornar romance fragmentado em episódios era uma parte do jornal que continham receitas.. como as novelas de . Essa mudança pretendia aproximar os jornais do povo. 2001. assim como o filme e o jornal. críticas de arte etc... 2000. os romances.a introduzir modificações importantes como os anúncios por palavras e a publicação de narrativas escritas por novelistas da moda. passam a serem apresentados em capítulos.. o que de modo algum equivale a confundir o popular com o que agrada as pessoas ignorantes e truculentas ” (BARBERO. A comparação de forma e o conteúdo da apresentação do caso Jean Charles de Menezes nos suportes filme e jornal.13 2 O FOLHETIM COMO MODELO NARRATIVO Antes de respondermos se o filme Jean Charles do diretor Henrique Goldman (2009). servem de apoio.201).182).. Esse tipo de narrativa surgiu na França em 1830. quando queriam ampliar o consumo de jornais.183).] (BARBERO. entendendo o folhetim como meio de comunicação de massa. Com o passar dos anos. p. 2001. Pois existe uma aproximação na medida em que configura uma experiência literária acessível às pessoas que têm um mínimo de experiência verbal prévia enquanto leitoras. piadas. Historicamente o folhetim trata-se de um “[. p.. Pouco tempo depois essas narrativas passaram a ocupar todo o espaço do folhetim daí a absorção do nome [. p. pode gerar reflexão sobre os fatos nele narrados. quando a transformação do jornal em empresa comercial levou os donos de dois jornais parisienses .

. dormimos e com pequenas alterações constituímos nossas vidas. Podemos através dessa característica. No jornal do dia 26 de Julho daquele ano o jornal corrige a informação quanto a morte de Menezes: O chanceler britânico lamentou a morte de Jean Charles. No dia seguinte. o jornal e o folhetim mostram suas . Dentro dessa forma. Os jornais revisitam os fatos anteriores. p. 2005.183). De acordo com nota oficial.14 hoje. 26 de Jul. Ele chega como uma forma narrativa que “[. Assim como a própria vida é fragmentada: acordamos. o folhetim vai fazer o mesmo. o suspeito teria aparência asiática e teria fugido ao darem voz de prisão e por isso foi morto com cincos tiros. quando a cada dia.] de qualquer modo. tal como a dinâmica da vida. apresentou os fatos reproduzindo um texto de agência ao estampar como título “Executado suspeito de terror”. o folhetim vai mostrar em episódios uma continuação da história. à medida que as informações chegam à redação. para que o leitor diário não se perca. vai falar de uma experiência cultural que inicia aí o caminho de reconhecimento” ( BARBERO. porque deve trazer novidade para quem sabe do fato. definir sua estrutura. p. trabalhamos. o jornal A Tribuna do dia 23 de Julho de 2005. Constituiu assim uma característica de narrativa fragmentada. Inicialmente.2000. e para informar aqueles que não sabiam dos últimos acontecimentos. na última sexta-feira. mas precisa relembrar os acontecimentos para situar o público que não tomou conhecimento do primeiro episódio da história. De acordo com o Manual da Folha de São Paulo. 34). o termo suíte no jornalismo é originário do francês suite que significa seqüência. Espírito Santo. o folhetim passa de romance a um gênero mais próximo do cotidiano (BARBERO. a polícia havia informado que o mineiro foi morto com cinco tiros (A TRIBUNA. executado com oito tiros – sete na cabeça e um no ombro – à queima roupa por policiais que o confundiram com um suposto terrorista na estação de metrô de Stockwell. um dia após a morte de Jean Charles Menezes. em Londres.. Internacional. 2001). Ele vai trabalhar com a realidade na sua escrita. Dessa forma. No jornalismo a suíte é como o capítulo seguinte da história. o jornal vai trazer como título “Homem morto em Londres era brasileiro” e os fatos vão se elucidando nos jornais de forma fragmentada.

queria mostrar a vida do eletricista em Londres. A personagem Vivian teve o peso de representar o papel dos antecedentes da história narrada: de como Jean construiu a sua vida até aquele momento. o mesmo é composto por uma narrativa fragmentada pelo processo de montagem. o presenciamos ganhar e perder. A montagem conforme a teoria de Eisenstein (apud LEONE. Para isso. Um personagem secundário na história real. ele deixou isso bem claro e o filme cumpre bem o papel de representar os fatos. o cinema. De um jovem que saiu do interior de Minas Gerais. MOURÃO. Jean contando a sua história. com sua montagem e linguagem próprias. deveria originar uma imagem. aprendeu a falar inglês. Como herdeiros de seu modelo narrativo. A suíte pode ser resumida como os desdobramentos dos fatos narrados. que é a base da linguagem cinematográfica.W. Griffith (1875-1948). uma história paralela à principal é contada. e podemos acrescentar nesse testamento. Este processo é o que nos dá uma breve sensação de realidade. que o diretor não conseguiria com Jean e talvez o tempo não permitisse. Jean Charles. pois obriga o diretor a se informar mais de perto (BARBERO. ou seja. 2001). nos escritos de Charles Dickens. ele se utilizou dos recursos que o folhetim propõe. Nas cenas em que vemos a prima de Jean. a junção de dois planos em cada corte deve criar no espectador um conflito originando um terceiro conceito. que na ficção ganha um peso de protagonista. trabalhou pesado. Afinal o processo de montagem foi alcançado por D. Em entrevistas. Vivian. o que ele chama de imagem. Como também assistimos a sua prima contar uma história. diretor americano. 1993).15 semelhanças. Nós vemos no filme. o filme do diretor Henrique Goldman. De igual forma. de que . o folhetim deixou as novelas do rádio e da televisão. tanto no folhetim quanto no jornal. que foi parar em um país que não conhecia. a se relacionar com as pessoas e a vencer na vida. Afinal. da cidade de Gonzaga.

16 forma ele venceu em um país. Ela conta os antecedentes do filme.. p.] os personagens concentrem em si os interesses.. apud BARBERO. Em Jean Charles de Goldman. Por isso ela é importante na trama.. A história antecedente de Jean é contada de maneira uniforme. tanto o jornal quanto o cinema. numa espécie de retrospectiva. Dessa forma cria dois tempos narrativos um no presente e outro no passado. fazem com que as pessoas tenham a sensação de estarem vendo suas próprias vidas. as paixões.com. sem o recurso narrativo de Flashback1. e esse processo é uma forma de narrativa fragmentada.36) sugere que um flashback pode aparecer para reparar o esquecimento do autor (http://spectrumgothic. Nesse ponto o folhetim assume a linha narrativa histórica sobre que tipo de romance deveria entrar no gênero e “[. Eco cita o exemplo da Itália.Ou como Eco(1994. [.htm) . mas o que devemos observar é que o filme de Goldman trata de Jean e não de Vivian.. pois ambos. e o caminho percorrido por ele antes dos acontecimentos que desencadearam a sua morte.br/literatura/glossario. e volta a eventos anteriores para explicar a história.184). para explicar esse recurso usado no filme. como fiz 1 Técnica que interrompe a ação narrativa. distante de sua família. Tomando as considerações de Eco. onde as pessoas têm o costume de entrar no cinema a qualquer momento e ficar para ver tudo do começo. Podemos utilizar o romance histórico. entendemos os dilemas da vida do eletricista. para entender o que ocorreu antes de sua chegada. Isso só é possível na ficção.]” (SCOTT.. ao olharmos para a história de Vivian..] pois acho que um filme se parece muito com a vida sob certo aspecto: entrei nesta vida quando meus pais já haviam nascido e a Odisséia de Homero já estava escrita. Para alcançar seu objetivo de mostrar a cultura do imigrante foi preciso fazer com que outro personagem contasse a história do passado do protagonista como também de outros brasileiros. vemos o porque de dar tamanha importância a um personagem e contar seus caminhos pelo filme. então procurei voltar atrás na história. os costumes e os preconceitos de uma época [. É claro que sua prima venceu na vida real. 2001. p.

Barbero (2001). Tanto o folhetim quanto o filme Jean Charles apresenta certos níveis de discussão entre escrita e leitura de que Barbero (2001) fala. não fazem uma exposição do caso e não criam um espetáculo com o incidente. p. às vezes para explicar algo. 1994. e se ajustou ao tempo das classes populares. até entender mais ou menos o que acontecera no mundo antes de eu chegar. Com isso. Onde o texto é dividido em episódios são produzidos por uma leitura não especializada. nem quando se descobre que era um brasileiro e o título toma um tom mais brando. “Homem morto em Londres era brasileiro” que do dia anterior. Ao ser questionado se houve adaptações na história de Jean para que ela pudesse ser encaixada no roteiro. Os jornais A Tribuna dos dias 23 e 24 de julho de 2005 (ANEXO B e C). pois não vimos uma repercussão nos jornais da época que causasse certo espetáculo midiático. assim como o cinema quando pretende contar histórias baseadas em fatos. de usar o que ocorreu no passado.17 com Sylvie. também tornando-se acessível a elas.71). afirma que dentro da narrativa do folhetim encontramos impressões que nos conduzem à cultura popular. ou para entreter e obter sucesso de bilheteria com um tema muito explorado pela mídia. O folhetim também tem essa característica de explicar. “Executado suspeito de terror”. o folhetim se libertou dos jornais e passou a ser publicado como “romance de entrega” publicado na França e na Espanha com 8 páginas. Ambos apresentam a cultura como um produto a ser consumido. o diretor Henrique Goldman afirma que sim. Analisaremos os jornais mais à frente no momento em que falamos do trabalho jornalístico na construção de representações da realidade. pois Jean . O segundo não acontece com Jean Charles. assim acho certíssimo fazer a mesma coisa com os filmes (ECO.

O filme Jean Charles apresenta cenas do cotidiano de Londres. por isso ele coloca a história do eletricista sobre um aspecto cultural. não vemos nelas nenhuma diferença cultural. sua rudeza com a herdeira viciada são. sendo cada vez subordinados à finalidade que o esquema lhes atribui [. em lazer. Filmes. Os pormenores tornaram-se fungíveis. Sobre a narrativa de Jean Charles.. serviu para causar sensações dentro da narrativa do filme. Mas a ordem dos eventos não são necessariamente a mesma” (Henrique Goldman. Goldman. . 2002. que é o dos brasileiros no exterior. p. servem para realizar a montagem do filme de forma a desempenhar seu papel..] A cultura contemporânea a tudo confere um ar de semelhança. nas ruas.]” (ADORNO. Ele queria mostrar as diferenças culturais. afirma que cenas como essas narradas acima. Adorno (2002) sugere que não há um caos cultural. “[.] mas sempre fiel ao espírito do mundo que está retratando.18 Charles se trata de uma obra de ficção “[.7)..14). morto em 2005 em um metrô pela policia inglesa. os saudáveis tapas que a bela recebe da mão pesada do astro. Goldman afirma em entrevista que sua intenção era mostrar a cultura dos imigrantes brasileiros. p.. Cenas assim nos servem para compreender o sistema ou esquema constituído pelos veículos de massa de que fala Adorno (2002). Em algumas delas vemos as pessoas trabalhando. diretor do filme. E sobre essas diferenças culturais. o vexame temporário do herói por ele esportivamente aceito. pois os fatos do dia a dia não dão suporte a essa afirmação.. no primeiro olhar.. nos parques. como ocorre em qualquer outro lugar.] (ADORNO. salpicados aqui e ali. esquematizado pelo diretor de apresentar a cultura dos imigrantes. rádio e semanários constituem um sistema [. A breve sucessão de intervalos que se mostrou eficaz em um sucesso musical. E a história de Jean Charles de Menezes.. como todos os pormenores e clichês. em entrevista a UOL no dia 06/04/09). 2002..

Jean Charles já está dentro do trem ao ser apontado pelo policial à paisana e é imediatamente morto sem tempo para reagir. Internacional. nos faz levá-la a sério”. p. 23 de Jul. Eco (1994) é quem expressa de forma clara o que se passa diante de nossos olhos ao assistir a determinados filmes. Contudo. No filme de Goldman. micro histórias. mesmo que não o seja. “O homem de aparência asiática foi abatido ao entrar num trem da linha Northern. nas observações e nos julgamentos de valor do diretor.19 Como produto da indústria cultural. Espírito Santo. ao criar à narrativa. no qual temos que entender que tudo que se passa na tela é verdade. Segundo o jornal. Fugia de diversos agentes.. clichês. utilizando certos detalhes. nas entrevistas. Ou seja. numa perseguição iniciada perto da estação [. É o chamado pacto ficcional. finge escrever verdades.]” (Executado suspeito de terror. pressupondo que o seu leitor vai fingir que sua história também seja verdadeira. tudo o que ocorre na ficção deve ser aceito como verdade. no caso do filme Jean Charles. exposto por Eco (1994). 2005. Apesar de a indústria controlar certos clichês. a história de sua morte segue os fatos que foram publicados nos jornais. que estão amarrados e em volta da trágica história da morte de Jean Charles. e de uma montagem quase documental. podemos observar o que seria verossímil na história narrada.44).. no qual todos os pormenores de Jean Charles comunicam ou confirmam o esquema proposto por Goldman citado a pouco. o filme desempenhou seu papel no campo das sensações. o filme é uma ficção controlada. esses detalhes “falsos” não são tão perceptíveis se não nos forem avisados. A obra de ficção nos encerra nas fronteiras de seu mundo e. A Tribuna. de uma forma ou de outra. Mesmo utilizando fatos que realmente ocorreram. Em comparação entre os fatos publicados no jornal A Tribuna de 2005 e no filme. Se . pois o autor. “Esse é o verdadeiro atrativo de qualquer ficção verbal ou visual.

Não existe nenhuma regra relativa ao número de elementos ficcionais aceitáveis numa obra.] significa que os mundos ficcionais são parasitas do mundo real. para os romances de aventura que. pois apresentavam ações do cotidiano e eram publicados no rodapé da primeira página dos jornais. foi preciso conhecer os fatos e tentar entender a cultura alheia para que a narrativa ficcional fizesse sentido. Goldman cria no público uma sensação diferente do que se vê no jornal. devemos entender que tudo aquilo que o texto não diferencia explicitamente do que existe no mundo real corresponde às leis e condições do mundo real (ECO. 1994. pois a vida de Jean Charles de Menezes deixa de ser algo privado e torna-se uma representação da sociedade.. ou nos comover.. os fatos narrados são uma reconstrução que devemos tê-la por verdade apenas para fins de compreender a obra. A história se torna sensacional (no sentido de atraente) pelo fim trágico que sua trajetória conduz.. Goldman transforma sua história em folhetim.89). Por isso podemos chamar as narrativas sensacionais de folhetim dentro deste estudo.. A história em si torna-se uma notícia sensacional no filme e no jornal. nos assustar. [. o termo sensação a princípio foi usado na França. molda e rompe uma relação com o público de maneira trágica. mesmo ela tendo ocorrido em determinado ponto da realidade. como o que realmente aconteceu. pois leva o mundo real para dentro da tela para servir de pano de fundo de modo a nos causar perturbações. . porque ela apresenta. p.20 considerarmos a informação jornalística. pois. devido a suas histórias cativantes. conforme El Far (2002). e o modelo proposto por Barbero (2000). como “à sensation”. pois se trata de um ponto de vista cultural as formas como o cineasta e o jornalista enxergam a história. Ao conceber tal ficção. Ao criar uma narrativa que causa sensação. de acordo com Eco (1994).] No entanto. se justifica. Ao fazer o filme com a percepção de realidade.[. um sujeito que sonha em ganhar a vida no exterior. causavam certas sensações.

a morta virgem. 2001.] viam-se obrigadas a abandonar a segurança e a tranquilidade de uma vida pacata para mergulhar numa sucessão de acontecimentos dramáticos. Ambos experimentariam pela primeira vez as sensações do amor. p. um jovem moreno de vinte anos e estudante de Direito. [. A duração do folhetim. a palavra “sensação” tornou-se sinônimo de grandes fatos de imprevisível desfecho. consegue se confundir com a vida.. Dr. Elzira aos poucos foi morrendo.. pois para ele “[. São nos dispositivos de sedução. o mundo do leitor deixa seus traços na obra escrita. que pretendia entregá-la a outro acadêmico. Uma dessas histórias que causam sensações e possivelmente representam o cotidiano da sociedade brasileira do século XIX.. 2002. para Barbero (2001). cheios de aventura. segundo o autor.. pois se recusava a tomar os medicamentos. Cândida. D.. que era rico desde o nascimento. Elzira dá seu último suspiro nos braços do amado que acabava de . Após reconhecer o erro que cometia. Esses dispositivos de sedução que definem melhor o folhetim: a organização narrativa fragmentada e uma estrutura aberta. p. que escrevesse para Amâncio permitindo o casamento. que discorre sobre a vida de uma jovem de quinze anos que se apaixona por Amâncio. Elzira já não comia o bastante nem dormia. o que contrariava os desejos da mãe de Elzira. p. no modelo de Barbero (2001) que ocorre o diálogo entre ficção e realidade.118).113). Como protesto às vontades da mãe e apaixonada por Amâncio.191). as personagens “[. a mãe de Elzira pedia ao marido.] a dialética entre escritura e leitura é um dispositivo-chave para o funcionamento de qualquer folhetim” (Barbero. Siqueira..] Eram notícias que costumavam prender a atenção das pessoas pela singularidade do ato praticado ou pelo estado de penúria de suas vitimas (EL FAR. Dr. Que. é narrada por El Far (2004). Tísica. injustos e sanguinolentos” (EL FAR. repentinos. Flores. Ela conta uma história intitulada de Elvira. mas já era tarde. Dentro dessas histórias narradas no folhetim. Amâncio possuía algumas restrições financeiras. Porém.21 Nos jornais e nos textos literários. 2004. surpreendentes.

A história de Elzira se torna pertinente pelo fato de apresentar em sua narrativa um eco na realidade. p. intitulada “Por amor”. o pai de Elzira explica à sua esposa que a condição de sua filha não era única. A história de Elzira. El Far (2004) afirma que a história de “[.94). De acordo com El Far (2004). o nome dessa pequenina criatura que. El Far (2004) cita que. Elzira morre sem ter conhecido os prazeres do amor e da vida conjugal.22 chegar à sua casa. 1995. no ano de 1889.. serve de reflexão para a sociedade daquela época. pois todos os dias eram conhecidas histórias de moças que discordavam dos pais quanto à escolha do marido. as mais das vezes cruéis. a proliferação de casas de prostituições. como cita a autora. de modo a evitar. Ele indica que vamos de um lado para o outro. o status quo da sociedade do século XIX é questionado. semelhante à história de Elzira: É um pequenino romance a vida dessa menor que anteontem. 2004. Ele acentua a dimensão pura e simples do intercâmbio e da comunicação entre membros da sociedade real e da sociedade representada dentro da tela (ou da mídia). Nessa história folhetinesca.133) Assim também ocorre no filme de Goldman. p. e as doenças venéreas que atingiam a sociedade carioca. a morta virgem. Parece-nos que seria brutal profanação atirar aos comentários. antes de tudo. Jean Charles. ser um romance de caracteres verdadeiros. às duas horas da tarde. próximo à realidade. a Gazeta de Notícias publicava uma história.] Elzira. arrastada pelo . Não entregaremos seu nome à curiosidade pública. a morta virgem pretendia. Pois só assim serviria de exemplo à sociedade” (EL FAR. por meio do amor entre marido e mulher. com extrema facilidade (ROCHA. os adultérios.. no livro. divulgado por médicos e juristas da época. quis trocar todas as galas da sua mocidade pela gelidez da morte. as idéias de Elzira condiziam com o pensamento romântico do século XIX. aos quinze anos de idade. Segundo a autora.

] o editor atento à curiosidade do público sobre o caso de F. É uma história sensacional que causa uma comoção.. bem próximo da ficção. p. Diante dessa situação a vida iria retraçar a arte” (EL FAR. ingeriu a pobre menina uma pequena dose de sulfato de ferro. Mas com a história de Jean. A família. essas narrativas sensacionais produzem sensações capazes de despertar nas pessoas emoções pouco experimentadas no cotidiano. Mas podemos dizer que. 142).. Para Barbero (2001). tentara tirar a um túmulo o coração que não queriam que ela desse a quem merecera o seu estremecido afeto. a sua triste história (Gazeta de Notícias. leu a primeira edição de Elzira. de acordo com El Far (2004) meses depois do caso de F. assim a chamaremos. opôs-se ao seu enlace. principalmente em quem se encontra na mesma situação: morando longe da família. apud EL FAR. com a segunda edição em 1890. pois mostram aquilo que é reprimido no dia a dia. que a salvou. tendo como base o folhetim. mostram as possíveis comunicações entre a ficção e a realidade. porém.. ser noticiado. Ao subdelegado do segundo distrito de São José contou F. escrita por Pedro Vianna. 141). Não podemos dizer com precisão se F. . pois é uma história real. Felizmente acudiu a tempo o Sr. E o jornalismo. essa narrativa ganha um peso maior no filme. Em nosso objeto de estudo. 2004. e era correspondida. André Rangel. a morta virgem. antes publicada sem alarde. tenha vislumbrado o interesse dos leitores pela narrativa de Pedro Vianna. Segundo El Far (2004). em um país distante.23 amor. Ainda segundo a autora a narrativa de Elzira e a triste história de F. Louca de desespero. amava. o conceito de folhetim como uma narrativa sensacional e fragmentada cria uma imagem mitológica do personagem: a representação de um jovem que saiu de sua cidadezinha no interior para ganhar a vida na cidade grande e a perde. apresenta um recorte da realidade em suas notícias diárias. F.. p. Sensações essas que transformaram o folhetim. fazendo que a ficção interferisse na realidade. e essa realidade serve como pano de fundo da ficção. “[. 2004. essas formas de narrativa ganham força no folhetim.

mas sem confundir o leitor.. Produzindo então algumas sensações novas. ao terem contato com a ficção. o que é precisamente o contrário de uma escritura que se volta para o texto (BARBERO. e sim da narração. e vividas diariamente por diversas pessoas. com informações extraídas dos jornais. 194). para localizar o público na narrativa. ao penetrar na imaginação do leitor ou de seu ouvinte fornecia a possibilidade de aproximação com uma realidade que. cada jornal. os autores devem informar e ao mesmo tempo sustentar o interesse dos que já acompanham a narrativa. sintam algo transcendente do seu cotidiano. e não um caos cultural (ADORNO. em cada episódio. [. Como dito antes. mas há um interesse econômico por trás disso. de uma linguagem voltada para fora de si própria. há uma harmonia entre os segmentos. cada trecho do filme. 2002)..] deve surpreender continuamente. Isso dentro do folhetim e do jornalismo é uma forma de obter a atenção do público.]”..] a história contada. Em cada parte que compõe o filme vemos o diretor encaixar trechos de reportagens reais sobres os ataques terroristas ocorridos no ano de 2005 em Londres. [. Barbero (2001) também disserta que a fusão de realidade e ficção é efetuada no folhetim e que tornar as narrativas sensacionais .. Tal fenômeno a indústria cultural propicia. 2. levando a uma compreensão de histórias que nos parece comuns. A ficção pretende despertar no público o interesse por uma vida fora de suas realidades.. para que as pessoas. [.. p. apesar de distante poderia ser extremamente interessante.] porque o suspense é justamente um efeito não da escritura. para sua capacidade de comunicar.. isto é. p. e encaixá-las nos moldes da indústria cultural.1 O JORNALISMO ENTRE A FICÇÃO E O REAL El Far (2002.. 2001.119) explica a sensação transcendental ao dizer que “[.24 O que vemos na compreensão desses conceitos é que o filme Jean Charles vai remontar a vida do brasileiro.

. Segundo Bistane e Bacellar (2005).44). O nome vem devido a forma com que são colocadas no texto. a exigência de uma reflexão sobre a realidade das pessoas é necessária.. O jornal A Tribuna (23/07/2005. O jornalista não escreve ficções para os jornais. as informações. no primeiro parágrafo. Mas faz de forma romanesca.. criados para representar sua própria ideia dos fatos (DARNTON.190). “[. [. escreve sobre fatos. em ordem decrescente de importância. p. há um pouco de escritura literária com jornalística (BARBERO. O trabalho jornalístico fica sobre a linha tênue da ficção e da realidade.]” (BARBERO. 2005.. p. Logo. em seu lide.org/?p=501) . 44). desenhando uma linha direta do “geral” para o “específico”. 71). 2 A técnica da pirâmide invertida é muito usada no jornal diário. 2001). as perguntas: Quem? O que? Como? Quando? Onde? Por quê? O propósito levar o leitor ao ponto de maior interesse. é evidente que ele escreve suas histórias com base nos leitores. Para entender.25 pois. 1995. 2001. antes o jornalista é um contador de história. ou na imagem dos leitores. ou seja. As pessoas do povo têm a sensação de estar lendo a narrativa de suas próprias vidas. bairro no sul da capital (A Tribuna. Para Bistane e Bacellar (2005) o jornalismo é uma profissão que exige destreza. A técnica responde. O folhetim é uma confusão entre realidade e ficção. Internacional. p. para contá-la de forma atraente em um curto espaço de tempo.paragrafo. As mais importantes devem estar disponíveis ao leitor no início do texto e as demais. (http://www. No entanto. p. E essa deve causar sensações no público. responde a algumas perguntas básicas da pirâmide invertida2. A função do jornalista é informar e comunicar. prestando um serviço público à sociedade. prendendo o leitor à conclusão da história: O mundo aguardava uma reação exemplar das autoridades de segurança de Londres às tentativas de atentado de quinta-feira.] confundindo a realidade dos leitores com as fantasias do folhetim. tomamos a publicação do dia seguinte à morte de Jean. Espírito Santo. Mas pouca gente esperava as cenas de ontem de manhã na estação de metrô Stockwell. 23 de Jul. É necessário ouvir e entender uma história para então contá-la. em seguida.

p. contada por Hollywood. Ian Blair. a criação de lendas urbanas.26 Dentro da concepção de folhetim. o jornalismo. ao escrever. tende para a busca do espetacular. tendo como base o seu leitor modelo. executado na sexta-feira por agentes da corporação no interior de uma estação do metrô londrino por suspeita infundada de terrorismo (A Tribuna. O chefe da Scotland Yard. escreveu uma história ficcional de um garoto de oito anos viciado . Uma das maiores tendências na pós-modernidade é a fusão entre o mundo fantástico e o ingresso de personas históricas reais na ficção.21). 25 de Jul. quando o jornalista Daniel Defoe passa a utilizar os artifícios literários na sua profissão. classificou de tragédia a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes. Igualmente. ou bizarro. Internacional. na depreciação da palavra sensação que vimos há pouco. Através dos jornais é descoberto posteriormente que o homem executado na sexta-feira era um brasileiro. do jornal The Washington Post. Assim como a realidade em sua rotina. 2006). Muitos o fizeram. aquilo que é sensacionalista. O jornalista pode escrever com a mesma concentração de um literário. escritor do jornal americano The New Republic. que inventou e copiou 27 de seus 41 textos publicados e teve sua história nada plausível. Mas escreve a uma massa. O jornalismo literário surge no século XVIII. os fatos narrados nos jornais são contados em capítulos. Ele não escreve para algo heterogêneo. é encantar com as palavras a fim de prender o seu leitor. seguirem essa forma narrativa em que as respostas vão surgindo. Espírito Santo. mas não pode ultrapassar a fronteira da realidade para a fantasia. A jornalista Janet Cook. O papel do jornalista. vemos os jornais analisados. como Stephen Glass. sua aproximação de literatura com jornalismo foi com uma série de reportagens policiais a partir de 1725 (PENA. 2005. em que as histórias são continuadas.

p. Os limites entre fato e ficção: jornalismo literário em perspectiva. 193). as marcas pertencem ao jornalista. que quase lhe rendeu um Pulitzer de jornalismo. segue a interpretação dos fatos de acordo com seu ponto de vista. tornando a afirmação de Baudrillard válida. segundo Barbero (2000. Mônica. atravessando a quantidade e a variedade de peripécias e avatares de ação sem se perder. Na montagem da estrutura da matéria. isto é. ao escrever suas histórias. mas claro que. 3 FONTANA. na montagem seqüencial não interfere na construção da realidade. ter tempo para identificar-se com o novo tipo de personagens. por meio de dispositivos de sedução: “A organização por episódios e a estrutura „aberta‟”.27 em heroína. . Foi o sentimento de duração – como na vida – o que permitiu ao leitor popular passar do conto para o formato romance. Para Baudrillard (2003) existe uma diferença quase invisível entre a ficção e a realidade. que é algo inerente a todo tipo de pessoas é bastante utilizado. A narrativa do folhetim consegue “confundir-se com a vida”. Segundo Pena (2006) o processo jornalístico faz crer que a mediação dos fatos. o maior prêmio americano por excelência de trabalho (em fase de elaboração)3 . Logo o cotidiano. O tom e a linguagem são escolhidos pra produzir sensações. O jornalista. A organização da narrativa em episódios opera com os registros de duração e do suspense.

ou seja. diretor ou do jornalista. Podemos claramente chamá-la de mentira. serve de ícone para um mundo existente ou inexistente. podemos destacar que ela representa algo que exista ou não. é como se abríssemos o diário pessoal deles. . pois o interesse do público é nas ideias narradas. o diretor do filme Jean Charles. Ela é um discurso produzido. Após um longo processo cultural. idealizado por um autor.28 3 A REALIDADE PRODUZIDA E FRAGMENTAD O verdadeiro é aquilo que funciona e não surpreende. e não uma interferência na realidade. sua voz perde a força. A ficção pode ser definida como uma imagem. o autor entra na sua própria morte (BARTHES. Sempre que um fato é narrado de maneira a representar um estado. transmitiu sua ótica cultural sobre os fatos narrados na sua obra. desfeita essa identidade surge a incerteza. e que. Henrique Goldman. Em “La novela por entregas: unidad de creación y consumo” o autor Jean-François Brotel (apud BARBERO. o público começa a enxergar que as histórias narradas nos jornais seguem o ponto de vista do escritor. encerrar o discurso ou contradizê-lo. 2001) declara que o público acreditava serem os entregadores os próprios autores dos romances que eles entregavam. algo que não existe. A ficção ou a realidade produzida é centrada no autor. no caso o jornalista. Contudo atribuir à ficção apenas como uma mentira séria. ela forja uma realidade que pode corrigir ou escapar da realidade do autor. Hipoteticamente os fatos expostos na mídia são contados sem sofrer uma reflexão profunda por parte do autor. por suas preferências e pensamentos. ou não aconteceu. 2004). De imagem. Marilena Chaui (2006) caracteriza a verdade e a realidade como idênticas. Sua intenção de apresentar a cultura brasileira possuía muito de usas ideologias.

29 O trabalho do jornalista é contar os fatos que acontecem no cotidiano de forma a prender o leitor. 2001). Sendo uma representação ou simulacro da realidade dos brasileiros no exterior. na tentativa de informar e refletir sobre o cotidiano dos imigrantes em Londres e sobre a vida do eletricista. diretor do filme Jean Charles. preenchida por conquistas. curiosidades. entre outros personagens no filme. simula o que ocorreu nos últimos dias de Jean Charles de Menezes. etc. Goldman utilizou como atores de sua ficção as pessoas próximas a Jean Charles de Menezes. acesso em 25 out. Mauricio. Henrique Goldman. que se tornou emblemática devido aos personagens envolvidos: de um lado o capitalismo e do outro o fundamentalismo. 2010). com sua ficção. é uma tradução. O filme se apresenta como um documento de uma história. de seus amigos. no filme representava o seu próprio papel. exercendo sua função social de informar a sociedade com o testemunho da violência urbana que ocorre rotineira e sistematicamente. Uma de suas primas. uma versão do diretor dos fatos (ARRUDA. Utilizando esse artifício a seu favor o diretor/autor tentou imprimir seu ponto de vista. É o folhetim. Seu empregador. exibido pelo terrorismo e bem no meio um indíviduo na busca de sobreviver às condições impostas pela realidade. o filme de Goldman não é uma fotografia. uma cópia. O filme Jean Charles é uma representação social da realidade do eletricista. a rotina insuportável faz com que o autor indague ao extremo ao mesmo momento que estimula o interesse do leitor (BARBERO. Jean Charles apresenta a nós um momento de voyeurismo ao mostrar a calmaria de uma vida. que rompe com o sistema quando passa a mediar a cultura por meio do testemunho. Ângela. . mais próximo da realidade. decepções. reflexo ou imagem exata da realidade. de sua família residente em Londres. Patrícia. também reproduziam suas vidas.

“Ele falava muito bem inglês e tinha situação legal. A execução sugeriu que ele poderia ser um homem-bomba disposto a explodir. 38). O jornalista escreve com base em personagens que viveram o fato. o jornal dá voz à família de Jean Charles de Menezes para dar suas versões dos últimos acontecimentos. .. mas pertencem ao universo sonoro. que fez o reconhecimento do corpo. disse ela. Para Dennis Guénoun (apud MAIA. prima de Jean Charles Menezes. são escutadas e que a encenação serve de suporte à palavra para trazê-la ao mundo visível. p.44). 24 de Julho de 2005. disse Alex Alves Pereira. em que elas não são vistas. O filme muito mais. O brasileiro morava com outros quatro primos. Dezenas de passageiros estavam da estação e alguns disseram que ele usava um grosso casaco de inverno inadequado ao clima. tinha permissão para estudar e trabalhar lá”. p. 2010) as palavras são uma transcrição visual da linguagem. Ambos deram voz aos envolvidos. O problema é que ele brinca muito e tinha alguém seguindo ele no metrô. Alex também contou que Jean não tinha motivos para correr da polícia. contou que ele vivia em Londres há quase cinco anos. A identidade de Jean Charles de Menezes até o momento de fechamento do jornal era desconhecida. O jornal A Tribuna do dia 23 de Julho de 2005 apresenta o testemunho de algumas pessoas ao afirmarem que o suspeito era um terrorista. de 2005. “Ele não corra de nada e não tinha nada no passado que o fizesse correr. mas de trazer à tona o que está invisível. Essa pessoa é que falou para a polícia civil que ele era suspeito”. 23 de Jul. [. acrescentando que em fevereiro passado ele esteve no Brasil em férias (A TRIBUNA.30 Igualmente o faz o jornalismo. O jornal e o filme nesse ponto se identificam. não se trata apenas de uma representação gráfica. acesso em 25 out. entretanto. Houve quem dissesse ter visto fios saindo de sua roupa. Minas Gerais. Testemunhas descreveram cenas de pânico e perseguição no metrô ( A TRIBUNA. No jornal do dia seguinte.. após a identificação do suspeito dos ataques como sendo o brasileiro natural da cidade de Gonzaga. As linguagens se assemelham quanto ao testemunho dos envolvidos.] Maria Alves. que mora em São Paulo. o drama ou de algum modo tornaram-se partícipes da história.

o de uma ação que modifica uns e outros. Em uma ficção o público se consola devido ao estado imutável de sua realidade. A linguagem pode ser conhecimento-comunicação mas também pode ser encantamento-sedução (CHAUI. pelo diálogo e pela comunicação. a linguagem pode ser cosmético. 2001). nem o de uma reação a um estímulo exterior determinado.]. veneno e cosmético. sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. . p. Ou seja.31 Conforme Chaui (2006). mesmo após vivenciar nas tramas sensações surpreendentes na história. pois mantém sua estrutura aberta e fragmentada que vai se elucidando dia após dia. maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. Pode. destinadas à interpretação e à construção da realidade (apud ARRUDA. [. uma estrutura de implicações que se referem tanto a valores como a conceitos [com] um estilo de discurso próprio..138). p. pois. 2006. ser um veneno quando. Moscovici e Nemeth dirão que: As representações sociais são conjuntos dinâmicos.. pela sedução das palavras nos faz aceitar..148). fascinados com o que vimos ou lemos. o uso da linguagem empregada é como comunicação e conhecimento. Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento.. Não as consideramos como opiniões sobre nem imagens de. mas como “teorias”. seu status é o de uma produção de comportamentos e relações com o meio. como “ciências coletivas” sui generis. ao apresentar a cultura brasileira e como viviam Jean Charles de Menezes e seus primos. Platão dizia que a linguagem é um phármakon. conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Quanto ao filme.] são sistemas que têm uma lógica própria e uma linguagem particular. Enfim. O testemunho da realidade tanto no filme Jean Charles quanto no jornal impresso A Tribuna. de maneira a constituir uma representação social que mais se aproxima da tradução do real. palavra grega da qual vem o vocábulo farmácia. trazem a compensação por meio de denúncia às contradições atrozes da sociedade (BARBERO. e não o de uma reprodução [. 2002. em suas narrativas. porém. O jornal do dia em que se descobre que o suspeito morto é brasileiro possui na sua linguagem o dispositivo de sedução. que em português significa poção com três significados: remédio.

pois não há como transmitir o significado direto (sem mediação) dos acontecimentos. ou seja. O jornalista é quem medeia todos os dias no momento em que escreve suas matérias. que as notícias são o que são pois a realidade é da mesma forma. que primeiro tentou explicar por que as notícias são o que são. Pena (2006) apresenta uma teoria do século XIX. como o que de fato ocorreu. ao encerrar o assunto o autor concorda com as idéias de Noblat (2004): Saindo da metáfora e voltando ao nosso objeto. 125). Noblat (2004) esclarece que. o que inviabiliza a existência de um simples reflexo do real. sendo que dentro deles só podemos apontar a sua morte. como o jornal e o cinema. apresentando um reflexo claro dos acontecimentos do cotidiano” (PENA.128). escrever é expor o caso para conhecimento geral. para o jornalista. A chamada teoria do espelho diz que o jornalismo reflete a realidade. Como exemplo. atribuímos características idênticas para aquilo que é verdadeiro e aquilo que é realidade. pelo simples fato de ser um passado intocado pelo homem. mesmo que haja outros interesses e motivações por trás da posição quanto autor/produtor. Os fatos devem causar uma repercussão. “ A imprensa funciona como um espelho do real. 2006. mas quando se tem um encontro cara a cara com a notícia a se vê obrigado a escolher a verdade a ser contada. p. atingir o público. a história de Jean Charles de Menezes deixou de ser real para tomar diversas formas dentro das mais variáveis narrativas. Sua premissa é modificar a realidade por meio da comunicação. A princípio. não é o que ocorre na produção da notícia. 2006. Além disso. o profissional jornalista deve “perseguir” a verdade a todo custo. a simples argumentação de que a linguagem neutra é impossível já bastaria para refutar a teoria do espelho. A verdade não é tão fácil de identificar assim como a realidade da sociedade. Na verdade. p. o jornalismo. as notícias ajudam a construir a própria realidade. Entretanto. desde cedo. os próprios jornalistas estruturam representações do que supõe ser a realidade no interior de suas rotinas produtivas e dos limites dos próprios veículos de informação (PENA.32 Já. .

E não existe razão de jornal ser feito às pressas” (NOBLAT. 2004. sendo culpada por textos superficiais que enfraquecem a reflexão. Hoje as chamadas redações multimídias devem ter seu quadro aumentado. . encurtando o tempo de espera para uma resposta. Para Noblat. pois para a empresa jornalística. Escrever bem exige tempo. a notícia é uma mercadoria (MORETZSOHN. ela venderá mais do que a informação contida em suas linhas e o processo de produção fica oculto. pois um mesmo jornalista pode produzir matérias tanto para um jornal impresso quanto ao jornal online. p. O jornalista na rotina do século XXI. Tendo a idéia da notícia como mercadoria.38). p. quando a comida é fast-food. A exigência do mercado faz com que o jornalista crie um formato que vai mediar entre imprensa e empresa (BARBEIRO. Na relação entre editor e escritor. foram as condições de produção-edição que desempenharam o papel de transformar a escrita em produto. a palavra escrita é fundamental para compreensão do mundo e conclui que: “A grandeza do texto consiste em nos dar a possibilidade de refletir e de interpretar”. “Apurar bem exige tempo. p. por meio das notícias. 2009) faz importante contribuição. quando os meios de comunicação se transformaram. na construção da realidade que depois irá ser novamente contada como ficção. Quanto ao jornalismo em tempo real. como é defendida por empresas e teóricos. Silvia Moretzsohn (apud BARRETO. apud BARRETO. Para Manguel (apud NOBLAT. devido à ideologia da velocidade. o jornalista permanece em pé entre a linha da ficção e da realidade. 2001). televisivo ou radiofônico. Dessa forma. tende a correr contra o relógio e realizar uma apuração as pressas. 38).33 O que Noblat e Pena nos mostra é que o jornalista ajuda. que não sofre a reflexão. 52). as cartas são eletrônicas. 2009. 2004. os veículos evoluíram e outros surgiram. a pressa tem destruído a verdade. 2002.

Um fato que causa incômodo por tratar-se de alguém que tem uma relação em comum com seu público. escrevi um ensaio intitulado 'A Economia Política dos Signos'. Os signos evoluíram. Ainda não sabemos onde isso vai dar (BAUDRILLARD. virou valor de uso e troca a um só tempo. a arte já não consegue alterar a realidade considerando o caso como grave (BAUDRILLARD. cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche. Atualmente. a ficção serve para apontar os erros e irreflexões que não ocorrem de forma plausível na mídia. tomaram conta do mundo e hoje o dominam. não poderia refletir de forma profunda os fatos daquele fim de julho de 2005. No começo de minha carreira intelectual. Analisei o papel do valor dos signos nas trocas humanas. e ele cumpre o seu papel. ao informar seu público a respeito de um evento internacional. A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes. A ficção de Goldman aponta os erros e irreflexões deixados pelos jornais. o jornal A Tribuna serve de símbolo. na busca de meios para uma construção melhor da realidade. ou melhor. É evidente também que o jornal de nossa análise. de espaço e por formato. mostrou um olhar que o jornal não conseguiria. O filme Jean Charles não alterou a realidade apenas refletiu uma cultura. 2005). que promove intercâmbios virtuais incontroláveis. por ausência de tempo. O objeto é o discurso. Revista Época.34 Alguns críticos acreditam que ficção surgiu para corrigir as mazelas da realidade. a indústria do espetáculo ainda engatinhava e os signos cumpriam a função simples de substituir objetos reais. Serve para criar um diálogo com a realidade produtora. nos anos 60. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Trata-se de um jornal regional. pelo seu porte e classificação de níveis de audiência. Para o escritor francês. 2005). Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. um gênero narrativo. para além do objeto. O jornal tem sua . Em entrevista à Revista Época ( 2003) o pensador francês Jean Baudrillard afirma que analisa a vida que ocorre no momento e responde como ele explicaria sobre a espetacularização da realidade. Mas representando uma categoria. Como um produto da realidade.

analisada. . Ironicamente Jean Charles de Menezes morreu dentro do metrô que ele queria escapar comprando uma moto.35 narrativa fragmentada. Espírito Santo. enquanto o filme é a soma. muitos já foram elucidados.38). como motivações e desejos. 2005. o jornal insere dentro do seu espaço. O jornal constrói no dia a dia uma narrativa sobre os fatos. com desejos possivelmente iguais àqueles que desejam fugir das dificuldades. A Tribuna. pois o jornalista escreve à medida que os fatos chegam ao seu conhecimento. que pensava em comprar uma moto para evitar o metrô de Londres. Não há como colocar o jornal em detrimento do filme. Ao acrescentar algo sobre Jean Charles de Menezes. dito a narrativa jornalística acompanha os desdobramentos da realidade à medida que os fatos chegam a redação. configurando-se como uma representação social. O filme possui uma narrativa mais linear. na tentativa de humanizar suas fontes. em comparação com os filmes baseados na realidade são os primeiros suportes que tentaram dar conta dos fatos. O jornalista aqui usou do recurso da ironia para apresentar um desses fragmentos. modificada. em determinados momentos. fragmentos que representam a vítima. Internacional. pois os fatos. ele tenta inserir de forma atraente essas informações. Como. p. foi reconhecido por seu primo Alex Alves Pereira ” ( “Homem morto em Londres era brasileiro”. o jornal buscou. O jornal cita em determinado momento um dos desejos da vítima: “O corpo do brasileiro. de modo apresentar a seu público que o indivíduo morto era uma pessoa comum. a interpretação do que já ocorreu. Os jornais. 24 de Jul. a realidade pode ser representada porque ela já é de conhecimento massivo. contar algo de sua vida. é uma verdade que pode ser questionada. como o espaço é pequeno. No caso de Jean Charles de Menezes.

p. Ao retornar o jornal. 2006. Podemos dizer que a enunciação é uma etapa da mediação entre a ficção e a realidade. a tradução dos códigos da língua em um ato individual de utilização. Segundo Pena. Certeau (apud PENA. Esse processo de enunciação atrelado a um meio de comunicação que. Acesso em 26 out. isso é o processo da enunciação. de enunciação que é o ato de dizer. na época de sua publicação o jornal A Tribuna disse. rompeu o isolamento do escritor de folhetim e o situou no espaço de uma interação com o público. de 2010). pois ele construiu uma mensagem aberta. Para ele. cada acontecimento em torno de um indivíduo modificado pela mídia e transformado em capítulos é consumido como um filme. assim . Para exemplificar. o jornal trabalha com a enunciação. o processo de construção da notícia se dá pelo trabalho da enunciação. de como ocorre à passagem da língua à fala. segundo Barbero (2001). Na contemporaneidade a vida é o espetáculo (PENA. nós temos o enunciado. pois o processo narrativo e as condições que auxiliam na produção estão dizendo algo e estão construindo o enunciado (FIORIN.36 O trabalho do jornalismo é antes de tudo a “construção social de uma suposta realidade” (PENA. O jornalista se reporta a um determinado grupo de indivíduos e escreve com uma imagem de seu leitor. ou seja. A realidade é uma enunciação e a sua representação é o enunciado. 2006).2006). aplicando os seus critérios de noticiabilidade para alcançar a massa. pois “a história. Assim também serve para a escrita.157) afirma que “a história é arte da encenação” e que há uma necessidade de reflexão sobre a produção dos fatos. É o lingüista francês Emile Benveniste que denomina este processo de transformação da língua. e por um período continuou a falar. A enunciação surge para dar entendimento dos processos lingüísticos. A idéia não é discutir a ficção e a realidade. mas mostrar que a vida cotidiana todos os dias produz histórias dignas de filme.

. que por meio das escolhas dos jornalistas “constroem a narrativa do fato a ser noticiado”. mas contribui para sua construção (PENA.129). Um duplo movimento. devido aos processos de produção da notícia o jornalista fica impedido de manipulá-la. o jornalista depende do retorno da sociedade. De forma que o jornalismo não reflete a realidade como ela é. agregando o fato cotidiano e o evento. 2006. Os acontecimentos na contemporaneidade juntam as forças da informação e da mudança. p158) Através do discurso (enunciação) produzido o jornalista constrói a notícia. 2006). mas também os constroem. São construídos pelos meios de comunicação.37 como o jornalismo. que só faz aumentar a crise epistemológica da operação jornalística (PENA. Fica nítida a relação entre a realidade e a ficção. O que não se pode ignorar é o fato de que há um enorme desconhecimento do passado. o real e o ficcional. 2006). devem encarar que a compreensão da realidade humana é socialmente construída. Além dos processos. As teorias do jornalismo. a partir do pressuposto das rotinas de trabalho. Deve existir uma comunicação entre os agentes sociais. não reconstitui a verdade. o paradigma da “manipulação da noticia”. não há autonomia incondicional em sua prática profissional. p. Assim. uma suposta intenção manipuladora por parte do jornalista seria superada pelas imposições da produção jornalística ( PENA. a interpreta”. O que diminui a pertinência de alguns enfoques conspiratórios na teoria do jornalismo como. mas sim a submissão a um planejamento produtivo. O verdadeiro é a linguagem como narrativa de fatos conhecidos. por exemplo. Tem procedimentos próprios e limites organizacionais. Portanto embora o jornalista seja participante ativo na construção da realidade. Podemos então considerar as notícias como recortes da realidade. são os enunciados das coisas como elas foram ou aconteceram (CHAUI. É evidente que. 2006.

que tentaram dar conta da origem da vida. tem que ser contada com detalhe. Em ambos. designar). Há aqui outra identidade entre o filme Jean Charles. No filme a fala que transmite melhor a ideia de uma ficção é a resposta de Jean Charles de Menezes a sua prima Vivian ao sair do aeroporto logo no inicio do filme: “porque mentira tem que ser bem contada. o público os aceita como verdade dos fatos. narrar. A palavra mito vem do grego. Para ele não são apresentadas verdades mediadas. contar. Esse público sabe que há uma mediação entre o representado e a representação. mythos. anunciar. e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo (contar. seria como os mitos para os gregos. quando o público é o testemunho do fato. 2006. de Goldman e os jornais A Tribuna de 22 a 29 de julho de 2005. é uma narrativa feita em público. quando você conta com detalhe aí que a mentira funciona”. São por meio delas que o jornalista de A Tribuna e o diretor Henrique Goldman. baseada.38 4 A CONSTRUÇÃO IMAGÉTICA DA REALIDADE As representações sociais estão presentes tanto no jornal A Tribuna. aquilo que é representado é descoberto de imediato. 1998). Foi para entender os místeres da vida que o homem foi apresentado ao mito. No filme. portanto. mito é um discurso pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem a narrativa como verdadeira porque confiam naquele que narra. mas “verdades . os conceitos e explicações da vida cotidiana são entendidos por meio das representações sociais. Para os gregos. nomear.35). na autoridade e confiabilidade da pessoa do narrador. uma forma de compreensão do mundo visível e tangível. quanto no filme Jean Charles. falar alguma coisa pra outros) e do verbo mytheo (conversar. construíram e interpretaram a realidade. A representação social é uma forma de mediação.Os mitos são representações sociais. p. De acordo com Moscovici (apud CORRÊA. E essa autoridade vem do fato de que o narrador ou testemunhou diretamente o que está narrando ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentos narrados (CHAUI.

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indiscutíveis”. Porque o público não tem acesso ao mundo por meio de experiências, mas através das representações apresentadas como verdadeiras. Jean Charles deve ser entendido como uma história inspirada na realidade, não sendo ela em tudo como um reflexo, ou uma narrativa exata do que ocorreu. Entretanto, é uma das poucas ficções baseadas em historias reais que utilizam imagens reais em sua montagem. As cenas em que mostram os policiais nos locais onde ocorreram os atentados, as pessoas assustadas e as narrações jornalísticas dos acontecimentos terroristas são cenas reais, que se misturam à ficção para dar conta da narrativa.

Outro recurso empregado por Goldman foi a utilização da câmera, por diversas vezes em ângulos panorâmicos, situando a todo tempo o espectador no espaço geográfico. Ao focar a visão da câmera nesse plano, mostrando a cidade, ele coloca o espectador como testemunha da cultura apresentada no filme.

Eco (1994) ao analisar a ficção Os noivos de Manzoni, explica os recursos empregados pelo autor do século XIX para descrever o cenário em que os

personagens viviam. Ao lançar nosso olhar para a ficção aqui analisada, podemos encaixar as explicações de Eco na análise do filme Jean Charles e compreender as escolhas do diretor para construir sua representação da realidade.

Assim como o jornalista, o diretor Goldman teve que mediar entre a história de Jean Charles de Menezes, a realidade representada, e a obra ficcional homônima, Jean Charles, a representação da realidade. Mediação feita por escolhas de câmeras, as histórias incluídas, os sentimentos dos personagens, as imagens reais

apresentadas. Construiu no filme a imagem da realidade que Goldman buscava.

De acordo com Eco (1994), Manzoni age como se filmasse de um helicóptero, e à medida que detalha a sua obra vai aterrissando bem lentamente, como se o olhar

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saísse do plano divino e fosse para o plano humano ou horizontal. Podemos dizer com certeza que o recurso de Manzoni foi exportado para o cinema. E vemos claramente isso no filme. A intenção de Goldman em Jean Charles, com esses recursos, é preencher os espaços da narrativa com a rotina da cidade de Londres, da cultura do povo brasileiro no exterior. A construção da imagem cinematográfica depende dos recursos de câmera bem encaixados na narrativa para mostrar uma realidade na ficção. Em algumas cenas vemos a câmera “balançar” dando a sensação de um documentário com os personagens da história.

A mistura de cenas do cotidiano da cidade, misturadas com os acontecimentos tornam a ficção de Goldman ainda mais real. Aqui as imagens não precisam ser anunciadas. No jornal, para que a história do jornalista se torne real, o cenário por ele descrito deve ser confirmado por uma testemunha. O discurso midiático diz que a realidade é visível. Sem fontes, o jornalista não tem história para contar. Assim, também o filme sem imagens não tem narrativa. A diferença desses suportes é apenas de sentidos, porque ambas estabelecem uma comunicação com o público.

Assim como a escrita é importante para o jornalismo, a imagem ou simplesmente a fotografia é para o cinema. O cinema surgiu por causa dela. Cada imagem é um ponto de vista. A imagem é como um corte, um fragmento da narrativa que graças a montagem é integrada com outros cortes imagéticos em um todo, gerando a imagem do filme (Pasolini apud PARENTE, 2000).

Chaui (2006) define que a imagem se refere a coisas diversas como filmes, fotos, ficção, símbolo, etc e que há duas diferenças importantes. A primeira é que algumas são imagens exteriores, como as pinturas, outras internas, como os sonhos e outras são ambas as coisa, tanto externas quanto internas, como a ficção literária.

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Podemos classificar no jornal A Tribuna (2005), a história de Jean como uma imagem externa e interna. Externa porque ela está ali no papel do jornal, impressa e quando lemos a escrita jornalística imaginamos, criamos uma imagem em nossa consciência, internalizamos a representação da escrita, criamos as situações narradas em nossa imaginação. Mas elas têm algo em comum, pois nos oferecem analogias de situações ou pessoas.

A segunda diferença apontada por Chaui (2006) é justamente que tipo de analogia cada imagem propõe podendo ser simbólica ou metafórica, um esquema, um sentimento, um substituto. Logo surge outra semelhança apontada pela filósofa:
raramente ou quase nunca imagem corresponde materialmente à coisa imaginada. Notamos, assim que é próprio das imagens algo que suporíamos próprio apenas da ficção, isto é, as imagens são irreais, quando comparadas ao que é imaginado através deles. Um quadro é real na condição de quadro percebido, mas é irreal se comparado à paisagem da qual é imagem (CHAUI, 2006,146).

Quando lemos o jornal do dia 23 de julho, que anuncia a morte do suspeito de envolvimento nos atentados de Londres cria-se mentalmente uma imagem análoga do suspeito. A princípio, o vemos como terrorista, em seguida o jornal descreve que o suspeito tinha uma aparência asiática (“Executado suspeito de terror”, A Tribuna, Espírito Santo, 23 de Jul., Internacional. 2005, p. 44).

Essa imagem projetada pelo jornal cria em nós um estereótipo, ou seja, uma ideia preconcebida da realidade. Por exemplo, ao falar em terroristas, as etnias orientais são as primeiras a surgirem em nosso imaginário. São reflexos das crenças que determinados grupos têm em relação a outros.

A afirmação de Pena (2006) quanto a criação de estereótipos pela imprensa serve de confirmação que os jornais, isto é, o jornalista imprime no texto suas crenças e interpretações das imagens análogas, que lhe são apresentadas para efetuar suas escolhas, para a construção imagética da realidade.

O que aconteceu de verdade foi que o Jean Charles consertou o "réchaud" de um restaurante brasileiro em Londres onde o Zeca Pagodinho iria almoçar. a princípio. um jornal regional. jornais e familiares. Toda a narrativa de Jean Charles.uol. com quem conseguiu um emprego um dia antes de sua morte. http://cinema. no filme ele salva o show do cantor (GOLDMAN. de acordo com Goldman. Outros detalhes da vida de Jean Charles são apresentados no filme. O dono do restaurante. como ficção. Em vez de salvar a feijoada. em pânico. o filme Jean Charles foi encomendado pela rede britânica BBC. podemos apontar como inverdade: o encontro de Jean Charles com Sidney Magal. A intenção do diretor era mostrar como é a cultura brasileira em Londres. Apenas um fato dentro da ficção. o empreiteiro Gésio César D‟avila. De acordo com informações obtidas pela BBC Brasil. que foi cancelado pois desejava transmitir a visão inglesa dos fatos e o diretor a visão brasileira. foi baseada no testemunho de pessoas que viveram com Jean Charles de Menezes. ligou para o Jean. ele não estava com suas ferramentas. 2009. Então pensamos em quem poderia ser um substituto à altura e que pudesse trazer uma coisa engraçada e divertida do Brasil. mas ele não tinha disponibilidade para viajar. No filme de Goldman. acesso em 17 marc. Na mesma entrevista. 2010).com. Sua construção se dá de uma forma muito complexa. de . Pensamos em fazer a cena com o Zeca Pagodinho.42 A imagem. Comparando apenas com A Tribuna. Muitos detalhes de Jean Charles podem ser encontrados com referências na realidade. o eletricista salva o show de Magal ao consertar o som. ficamos na superfície de compreender a ficção. Menezes estaria indo ao encontro de um amigo. que foi lá consertar e salvou o dia.br/ultnot/2009/04/06/ult4332u1057. Goldman deixa claro que.jhtm. não é apenas um suporte simples de representação da realidade. Esse show nunca ocorreu na história de Jean Charles de Menezes. Por isso chegamos ao Magal.

No dia 22 de Julho de 2005 (ANEXO A). Na ficção tudo pode ser encaixado ou modificado para melhor compreender o momento representado. dia da morte de Jean. o Metro. a versão de que o eletricista havia resistido à prisão e fugido foi descartada pelas autoridade britânicas. com uma matéria da realidade inglesa. do ator Selton Mello deitado no chão. não há testemunhas. cujo título da manchete é “So where are the bombers?” Algo como “Onde estão os terroristas?”. O jornal que se encontrava nas mãos de Jean no filme era do dia 11 de julho. Uma sucessão de narrativas ocupou os sete dias. entretanto de duas semanas antes. tratava-se das imagens reais do próprio Jean Charles de Menezes caído sem vida no chão do metrô. Jean Charles de Menezes deveria estar lendo um jornal. dias depois do primeiro atentado. No jornal A Tribuna. da realidade dos fatos daquele trágico dia. O filme mostra a morte de Jean Charles de Menezes. Nele é apresentado mais um cenário de terror em Londres. Gonzaga Minas Gerais. o jornal se prendeu em apenas notificar seu público quanto aos acontecimentos. Ao descer para o metrô. é a de Jean Charles de Menezes morto no chão do metrô. com os detalhes da versão brasileira. para a família de Menezes. trata-se de um jornal real. que naquele mês. O diretor colocou no filme a cena da morte de Jean da forma como foi contada a ele.43 acordo com d‟avila. da morte de Jean Charles de Menezes até o seu enterro na sua cidade natal. na composição de Goldman. A cena que mais choca. Ali não se tratava de uma imagem ficcional. o jornal noticia o ataque frustrado dos terroristas na quinta-feira. . e segundo ele. Menezes estava lendo um jornal gratuito. Os últimos momentos de Jean são representações da realidade. precisamente no dia 7 de Julho havia sofrido com 56 mortos e 700 feridos. não encontramos tal referência.

Goldman conseguiu transmitir a emoção que o jornal não conseguiu imprimir em suas páginas. sendo que esta arte é uma realidade ficcional. Cecília quer fugir de sua realidade.44 Na construção do filme. ocorre uma mimese. em que Cecília se relaciona com a personagem de um filme em exibição no cinema de New Jersey. A história que Goldman no apresenta. Sua intenção é tirar os estereótipos que há no imaginário. das pessoas quanto. e mostrarem através de Jean Charles de Menezes a imagem. enquanto Baxter intrigado com a realidade não . facilitando a representação do filme de Goldman. Para Aristóteles a representação da realidade. A ideia de vencer na vida é aliada à personagem. A imigração de brasileiros para outro país tem como motivo principal a busca por uma melhoria de vida. É olhando a sociedade dentro da tela. que todo brasileiro é malandro. Cecília no filme representa a realidade. misturando elementos reais com ficcionais. é uma reflexão sobre a vida. a cultura de outro país. Ele nos apresenta uma virada na vida dos primos de Jean. e Tom Baxter a ficção. mesmo com sua perda. que não existe. a começar por mostrar uma imagem que temos dos mineiros de calados. quando é transformada em arte. e viver dentro da tela. há uma permanente troca entre a sociedade representada na Indústria Cultural e a sociedade que a vê. Ele faz suas considerações ao analisar o filme de Woody Allen (1985) A Rosa Púrpura do Cairo. Vivian é a representação social dessa conquista. Esses pontos de representação da realidade em Jean Charles servem para refletir a situação social e a visão turva que temos de nossa própria realidade. mostra como a personagem Vivian cresceu. que conseguimos interpretar e entender a nossa própria realidade. Segundo Rocha (1995).Assim como o exemplo do quadro que é real como quadro mas ficcional quanto a paisagem. Entretanto apresenta diversos estereótipos em Jean Charles.

rádio e podemos acrescentar o cinema. reescreve. As definições de realidade e ficção estão bem definidas. 2002). O Folhetim. O filme mostra a troca. mas os aspectos da enunciação devem se tornar mais claros para compreender de que forma o filme Jean Charles vai fazer uma reflexão sobre os fatos. 2001. . o intercâmbio e a comunicação entre a realidade e ficção. para o editor – produtor. ou melhor a sociedade (MOTTER. levando em consideração o índice de analfabetismo no Brasil (9.185).o que implica a mediação das técnicas da escritura jornalística e da técnica do aparato tecnológico na composição e na diagramação de um formato específico e do âmbito do escritor-autor. por não estar acessível a todas as classes. p. devemos levar em consideração o caminho que o filme percorre das salas de projeção à casa do espectador através da transmissão em canal aberto. que é quem muitas vezes “tem o projeto” e dirige sua realização (BARBERO. atinge um público maior do que o jornal. Assim como as novelas. é o responsável pela mudança na estrutura literária ou ficcional. a realidade e a ficção precisam ser mediadas para que possam ser compreendidas. por meio da televisão. por meio da enunciação que a mediação vai ocorrer.2002) Como apresentamos no segundo capitulo. O que Barbero (2001) apresenta é um modelo bem parecido com a teoria do newsmaking. segundo Barbero. Apesar do cinema não ser considerado um veículo de comunicação de massa. A comunicação de massa. mais do que escrever.45 se interessa em voltar. O estatuto da comunicação literária sofre com o folhetim um duplo deslocamento: do âmbito do livro para o da imprensa . o filme quando chega à televisão por meio da comunicação estabelece as condições para abrir um dialogo com a realidade. a narrativa jornalística como um modo de construção da realidade.7%) e os excluídos da educação formal (MOTTER. que agora só entra com a matéria-prima e que por vezes.

. tornam a construção da realidade mais visível por meio das semelhanças reais dentro de sua narrativa que preenche as expectativa do público alvo. Ele tenta reconstruir a cena que “pouca gente esperava [. Na sua narrativa ele insere o público no fato ao começar com “o mundo aguardava uma reação exemplar [. deixa seu leitor curioso quanto aos fatos. onde todos os orientais . Na seqüência do parágrafo acima citado o jornal apresenta um estereótipo. Ao tomarmos como exemplo o jornal A Tribuna do dia 23 de julho de 2005. Espírito Santo. Quanto a relação do escrito e editor. sendo o jornalista um agente ativo de um processo jornalístico.. um policial à paisana matou com cinco tiros à queima-roupa um homem que estaria ligado às ações terroristas frustradas em três trens e num ônibus (A Tribuna. O mundo aguardava uma reação exemplar das autoridades de segurança de Londres às tentativas de atentado de quinta-feira.. ou seja. Internacional. Barbero (2001) visa discutir os interesses comerciais por trás do folhetim. A mediação exercida pelos jornalistas. Nos jornais a narrativa se preocupa em responder as perguntas do público de forma a atingi-lo e prendê-lo. Mas pouca gente esperava as cenas de ontem de manhã na estação de metrô Stockwell. p. editores e outro agentes sociais na imprevisibilidade dos acontecimentos permitem que a percepção das imagens sociais se tornem visíveis.]” em rápidas palavras apresentando um conjunto de sensações no público. 44). vemos a forma como o jornalista responde. que podemos nitidamente observar nas redações jornalísticas. Construção possibilitada tanto nos jornais analisados quanto no filme Jean Charles de Henrique Goldman pelo processo de montagem.]” e fazendo isso ele consegue imprimir sua opinião quanto aos acontecimentos. O jornal A Tribuna daquele dia não responde de imediato o que ocorreu. 2005. Em meio à correria de passageiros apavorados.. bairro no sul da capital. que não é simplesmente a justaposições de diferentes pontos de vista em determinado trecho do texto ou cena do filme.46 Dentro do jornal a matéria prima de que ele fala é a própria notícia. 23 de Jul.

que compõe o processo “[. que repercutirão nos dias seguintes. e. para isso ele vai apresentar alguns antecedentes da história.. ouve e sente. . Goldman apresenta uma narrativa mais próxima da realidade dos fatos. o que estabelece a reflexão dos fatos. mesmo apenas como uma representação. os atores.47 são terroristas. Fica evidente a relação escritor – leitor. sobre fatos de ontem. tornando sua reflexão mais demorada ou nunca atingida. Porque apresenta fatos passados. que por diversos fatores não são obtidos nos jornais. tornando possível a reflexão. os cenários. a trilha sonora. pois o seu objetivo é fornecer uma narrativa que desperte o interesse e com significados. ou qualquer texto o público sonha. não é apenas uma montagem de cortes e aproximação de planos que estabelece a narrativa do filme Jean Charles. comprovados e repercutidos. 1995. o que é mais importante ainda. quando o primeiro apresenta os fatos de acordo com o interesse do público. os diálogos. Já filme é construído por diversos fatores que vão colaborar na “leitura” dos fatos apresentados. O jornalista deve ter em mente a construção imagética da realidade que será produzida em seu público. O vídeo vai mostrar como ocorreram os fatos. mas os gestos. devido alguns critérios de noticiabilidade. da realidade.. o que torna impossível ao jornal. testemunhados. Na leitura do jornal. visíveis (LEONE.13-14). Segundo Leone e Mourão (1995).MOURÃO. p. pois ele escreve hoje.] como meio que conduz o espectador a penetrar inadvertidamente nos recintos mais escondidos do imaginário: as ilusões se tornam perceptíveis. ele utiliza os sentidos que o faz compreender as ideias do escritor.

por meio das montagens. uma analogia. mas uma representação dela. porque ela. para onde a sociedade possa olhar e interpretar e modificar suas condições. pode ser entendida a partir da construção de histórias sensacionais pouco ou nunca vivenciadas na rotina da sociedade. que reside sobre a linha do verdadeiro ou falso. A ficção como um produto da realidade. O jornalista e o diretor oferecem em suas narrativas uma janela da realidade. As reflexões do folhetim podem ser alcançadas partindo do formato ao que dentro dele é representado. mantiveram a . a ficção serve de simulação para que haja uma reflexão por parte da sociedade real. quando estabelece por meio da narrativa jornalística um elo. Podemos afirmar que o jornalismo é um produtor de conhecimento. enquanto filme. pois questiona a ideia regente da sociedade.48 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A obra de Goldman fica entre a realidade e a ficção. um símbolo. Jean Charles faz acusações que os jornais não o fizeram de forma clara. entre o fato narrado e o público. As nuances sociais esboçadas nos folhetim. A transformação da realidade em folhetim se dá da mesma forma como o folhetim conseguiu se transformar em um formato que estabelece uma comunicação com a cultura popular. onde a enunciação se adéqua ao interesse do receptor. Para dar luz a questões pouco discutidas ou esquecidas pela sociedade. não é a realidade de Jean Charles de Menezes. servem de reflexão para a sociedade. reconstrói a sociedade. e na interpretação da realidade no processo jornalístico. Através de uma narrativa simbólica que desperta os sentidos.

49 chamada objetividade jornalística. O que um documentário não permitiria alcançar. A princípio o jornal apresenta a morte de brasileiro como uma execução. . ou melhor como um produto. aproximou obra do público da mesma forma como os jornais o faz pois apresentou nada mais do que fatos. Scotland Yard de manter a ordem de atirar para matar o jornal assume uma postura de acusação. uma sentença. permitiu a Goldman uma discussão seria sobre as condições dos brasileiros no exterior e sobre a falta de justiças sobre a morte de Jean. algo elaborado. Ao ser revelado a identidade de Jean. pode julgar que é uma retaliação por parte de alguns amigos aborrecidos na trama. A construção da narrativa cinematográfica. Logo após as declarações da policia britânica. pois como uma representação da realidade. de merecimento da vítima. ao exibir sua morte sem qualquer reação do personagem e ocultar a motivação da morte. ao atribuir a morte de Menezes como um assassinato. a ficção alcançou. o jornal A Tribuna modificou a forma de apresentar o fato. Quem não conhece a história. após a morte do eletricista Jean Charles de Menezes. Em Jean Charles. apenas relatando em suas páginas que o jovem de 26 anos foi morto por engano. Goldman já apresenta suas acusações no momento da morte de Jean Charles de Menezes. o jornal passa a tratá-lo como vitima de um trágico engano. o que é pouco impossível. Goldman mostra o que jornal nenhum mostrou as condições que Jean se encontrava após levar sete disparos à queima roupa na estação de Stockwell. No decorre dos dias.

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53 ANEXO .

54 ANEXO A .

55 ANEXO B .

56 ANEXO C .

57 ANEXO D .

58 ANEXO E .

59 ANEXO F .

60 ANEXO G .

61 ANEXO H .