2 • Público • Quinta-feira 16 Junho 2011

Destaque
Eleições no PS A primeira entrevista de António José Seguro enquanto candidato

Seguro diz “não” à revisão constitucional de Passos Coelho
O memorando da troika exige mexer na lei fundamental, mas o candidato a líder socialista avisa que não abre mão do Estado social
Leonete Botelho e Maria José Oliveira

António José Seguro, ontem, na redacção do PÚBLICO

a Mal apresentou a sua candidatura a líder do PS, começou a recolher apoios da maioria das federações. António José Seguro, de 49 anos, concorre à sucessão de José Sócrates e, caso seja eleito a 23 de Julho, quer promover uma cultura interna de debate. Admite acordos de incidência parlamentar com o Governo, mas quer estar pronto para, a qualquer momento, levar a votos uma alternativa governamental. Quer estar preparado para, no caso de este ciclo de quatro anos não se cumprir, poder governar? Admito que isso possa acontecer. Não é desejável, porque o país deve ter estabilidade, sobretudo num momento difícil da vida nacional. Mas o meu dever é ter o PS rapidamente preparado e disponível para apresentar essa alternativa. Mas não tenho pressa. Tenho um calendário estabelecido, que passa, em primeiro lugar, por apoiar os socialistas da Madeira numa luta difícil que vão ter em Outubro; a seguir, e partindo do congresso de Setembro, quero lançar um debate interno sobre novas formas de organização e funcionamento interno do PS. Quero que o PS seja construído da base para o topo e não do topo para a base. E espero ter esse processo concluído no primeiro semestre de 2012. Logo a seguir, haverá eleições para as estruturas concelhias e federativas. E nessa altura estaremos prontos para, de uma maneira mais concentrada, desenvolvermos essa proposta política. Vai ter de responder na Assembleia da República (AR) nos próximos quatro anos pelos últimos seis. Será fácil para si fazer isso? Quem tem de responder na AR vai ser o Governo e vai ter de responder bem, porque eu não tenho intenções de deixar o Governo à solta. Até que ponto está disponível para dialogar com o Governo sobre medidas que poderão ir além do

que está no memorando com a troika? Quero uma cooperação sadia com o Governo e com todos os órgãos de soberania. Quero honrar todos os compromissos assinados pelo actual secretário-geral do PS e primeiroministro no memorando. Tudo o resto tem de ser visto caso a caso. Mas há uma matriz de referência: a declaração de princípios do PS. Não teme que haja alguma dificuldade de conciliação entre a matriz do PS e o memorando? O caminho não vai ser fácil, e isso torna o desafio mais exigente. Nesta fase em que sou candidato, as minhas preocupações concentramse em honrar uma assinatura e agir de acordo com a matriz ideológica do PS. No memorando, há medidas que são claríssimas e não se pode ir por outro caminho. Mas quando o objectivo é ir buscar à Saúde 100 milhões de euros ou diminuir a despesa na Educação em 50 milhões, então aí há maneiras diferentes de conseguir reduzir. Não me esqueço que o líder do PSD anunciou, na campanha, que haveria disponibilidade para optarmos por outras soluções desde que se conseguisse a mesma redução. O memorando não é uma Bíblia. Qual a disponibilidade do PS para uma revisão constitucional? Aproveitaria para introduzir temas como o sistema eleitoral? Comigo, não haverá votos do PS para o PSD fazer a revisão constitucional que apresentou no Verão. Se houver necessidade de fazer alguma revisão, terá de ser visto caso a caso, mas volto a dizer que a nossa posição será sempre ancorada na nossa declaração de princípios. Olharei para o mérito das propostas e não para quem tem a iniciativa. Em relação ao sistema político, há proximidades entre o seu pensamento e o do líder do PSD, como no sistema do voto preferencial e na redução do número de deputados. Estou disponível e determinado para que haja alterações no sistema

O país deve ter estabilidade, sobretudo num momento difícil da vida nacional Entre mim e Pedro Passos Coelho, há um oceano enorme de diferenças ideológicas Não sou obstinado pelas minhas soluções

eleitoral, quer para a AR, quer para o sistema eleitoral autárquico. Quando era líder parlamentar, em 2004, tive quase pronta uma proposta acordada com o PSD para se fazer uma alteração da legislação autárquica. Defendi um reforço da assembleia municipal. Já passaram sete anos. Na política, temos de perceber que não nos perdoam que andemos anos a dizer que há coisas prioritárias e depois estamos quase uma década sem mexer nelas. Quanto à AR, temos de dar passos firmes de modo a reforçar o pilar da governabilidade e a relação entre o deputado e o eleitor. Aqui, há dois caminhos possíveis: um, é fazer com que os deputados tenham mais tempo para estar nos seus círculos; o outro, é existirem círculos de um só deputado, conciliados com o círculo nacional, de forma a garantir a proporcionalidade e manter a voz dos pequenos partidos. Não sou obstinado pelas minhas soluções. Falou do reforço da governabilidade. A ideia é proibir na Constituição a formação de governos que não tenham maioria dos deputados na AR? Não é essa a minha intenção. Mas defendo que, quando um Governo minoritário apresenta um orçamento, ele só deve ser rejeitado se o Parlamento tiver uma maioria que aprove um novo orçamento, ou seja, uma maioria positiva. O mesmo em relação a moções de censura construtivas, em que quem apresenta tem de ter um Governo alternativo? Não. Tenho ouvido muitos argumentos a que sou sensível, como a possibilidade de devolver a

palavra ao povo e o povo expressarse em momentos de crise nacional. Falou em análises caso a caso. Esse será o critério para eventuais acordos de incidência parlamentar? Haverá disponibilidade para esse diálogo. A melhor forma de o aplicar ver-se-á na altura. Mas quero introduzir uma nova forma de decisão no PS: perante essa necessidade, quero que os órgãos do partido se pronunciem previamente. Estou a falar na Comissão Política. Quero ainda uma nova relação entre o partido e a bancada, que deverá ter mais autonomia. E defendo o princípio da liberdade de voto, excepto para questões da governabilidade, para as promessas eleitorais e questões que decorrem do nosso compromisso com o memorando. Em tudo o resto, deve haver liberdade de voto. A proximidade geracional e pessoal que há entre si e o primeiro-ministro indigitado pode tornar menos crispada a relação entre o Governo e a oposição? É preciso distinguir o relacionamento pessoal, que deve pautar-se por regras de boa convivência, e as perspectivas políticas e convicções ideológicas. Entre mim e Pedro Passos Coelho, há um oceano enorme de diferenças ideológicas. Isso impede que conversemos sobre os problemas do país e que tentemos entendernos sobre como resolver esses problemas? Não. Mas ele tem um mandato para governar e eu tenho um mandato para, na oposição, ajudar a resolver os problemas do país de acordo com a minha convicção e a matriz do PS.

Público • Quinta-feira 16 Junho 2011 • 3

JOANA FREITAS

“Dei sempre as minhas opiniões”, mas não na “praça pública” Seguro rejeita acusações de que se manteve em silêncio nos últimos anos e não apresentou propostas concretas, e expõe longa lista de cargos no partido
Apesar de, ao longo de anos, ter sido apontado como candidato a líder do PS, preferiu ser cauteloso e nunca apresentou a sua candidatura. Porquê? Não estou de acordo com essa visão. Não conheço na história da democracia portuguesa alguém que, a um ano de antecedência (e sem o saber), tenha dito publicamente que, depois de Sócrates sair, e se considerasse que tinha condições de oferecer uma alternativa credível, seria candidato à liderança do PS. Se na semana passada tivesse dito que não era candidato isso seria notícia. Alguns dos seus apoiantes lamentaram o facto de não ter feito qualquer intervenção no congresso do PS, em Abril. Por que é que não o fez? Esse congresso tinha o propósito de projectar o PS para uma campanha eleitoral muito difícil. E na vida política há quem considere que a maneira de ser mais solidário é falar. Eu não: acho que a maneira de ser mais solidário e lutar pelas ideias é estar no campo de batalha e dar a cara pelo PS. Fui cabeça de lista e tive o segundo melhor resultado no país. Cheguei ao congresso e manifestei a minha solidariedade. Em Braga, dei o meu melhor pelo PS. Tinha decidido que nunca avançaria contra Sócrates? Disse isso em Maio [de 2010]. Por uma razão simples: o líder do PS era primeiro-ministro. Alguns comentadores criticamno ao dizerem que não se lhe conhece uma ideia, uma proposta concreta. Por que é que se manteve tanto tempo em silêncio? Ser presidente da comissão de Educação no primeiro mandato do PS é manter-me em silêncio? Ser presidente da comissão de Assuntos Económicos no último ano e meio é manter-me em silêncio? Coordenar a reforma do Parlamento é manter-me em silêncio? Ser cabeça de lista por três vezes no 3.º círculo eleitoral do país é manter-me em silêncio? Sempre estive disponível em função dos convites que me fizeram para honrar o meu partido. Talvez porque tenha sido visto como candidato e havia a expectativa de que seria mais interventivo e acutilante... Dois anos de comentários na SIC Notícias, três anos de crónicas para o Expresso. Contra factos não há argumentos. Mas não vai dizer que deu sempre a sua opinião sobre a governação socialista. Dei sempre as minhas opiniões. Muitas vezes no grupo parlamentar, outras na Comissão Política, directamente ao secretário-geral do PS. Ou esperavam que eu andasse na praça pública a dar as minhas opiniões? Conhece António Costa? Conheço-o há muitos anos. É presidente da Câmara de Lisboa. Não sou munícipe aqui, mas, daquilo que me têm dito, julgo que se ele tiver oportunidade de fazer mais um mandato deixará uma marca histórica na governação da cidade. L.B. e M.J.O.

Proposta consta da moção ao congresso

“Quero reactivar o gabinete de estudos do PS”
a Na moção de orientação que vai apresentar ao congresso de Setembro, António José Seguro vai propor a reabertura do gabinete de estudos, abandonado por Sócrates. Afirma estar “surpreendido” com o apoio da maioria das federações, mas nota que esteve sempre ao lado dos militantes nos “momentos difíceis”. Como é que, em tão pouco tempo, conseguiu reunir os apoios da maioria das federações do PS? Devo dizer que eu próprio estou surpreendido. Na minha página do Facebook, há centenas e centenas de mensagens de pessoas que eu não conheço e que me deixam com um sentimento de orgulho, pelas palavras de incentivo e apoio. Mas também alguma preocupação pela esperança que depositam nesta candidatura. Tudo farei para corresponder a isso. Há pessoas que dizem estar disponíveis para virem para o PS. Uma das propostas que vou fazer na minha moção é a reactivação do gabinete de estudos do PS, para que seja um pilar forte para a elaboração da proposta política do partido. A minha candidatura não nasceu de cima para baixo, mas de baixo para cima. De muita gente que quer voltar ao PS, dar o seu contributo e eu quero dar-lhes esperança. Como é que interpreta o facto de, há apenas dois meses, no congresso de Matosinhos, todas as federações terem glorificado Sócrates e agora, em poucos dias, estejam consigo? A 5 de Junho, fechou-se um ciclo. Foi o próprio José Sócrates quem o fez. E agora abriu-se um novo ciclo. O que interessa é que as pessoas convirjam numa proposta de futuro e honra-me muito que a esmagadora maioria dos presidentes de federação, como os presidentes de concelhia, os presidentes das câmaras e sobretudo os militantes de base, expressem apoio à minha candidatura. Ao longo destes anos, o seu trabalho fez-se junto dos militantes já pensando numa candidatura à liderança do PS? Raramente recusei um convite dos militantes do PS para estar junto deles em momentos difíceis. Quer fosse para um debate, para uma candidatura autárquica ou qualquer outra iniciativa de formação e conversa. Estive sempre disponível. Tenho uma relação de proximidade com as pessoas. E quero mantê-la e incentivá-la. É isso que motiva a minha acção política. Sou deputado por Braga, desde 2005, e tenho, como os meus camaradas eleitos por aquele círculo, uma presença assídua no terreno. Temos um gabinete no Governo Civil, onde cada um de nós está disponível para atender os seus eleitores às segundas-feiras. O facto de termos tido mais 5 por cento do que a média nacional deve muito ao trabalho dos deputados do PS em Braga. É assim que eu gosto de estar na política e é isso que me dá energia. Porque em Lisboa há demasiada hipocrisia, demasiado cinismo nos corredores do poder. E há mais naturalidade, franqueza e sinceridade junto das pessoas que a única coisa que querem é lutar por ideias. Dê-nos um exemplo desse cinismo e hipocrisia. Os corredores do poder são na Assembleia? Na Assembleia ou noutros sítios que existem em Lisboa, em que as pessoas dizem uma coisa e pensam outra. Isso também acontece no seu partido. Acontece em toda a vida política portuguesa. E não haverá mudanças de um dia para o outro. Não. Eu é que não mudo na minha maneira de ser e de entender. Quero mudar a cultura interna de debate, quero os órgãos a decidir, quero dar mais poder aos militantes, para participarem mais no debate político. Não quero só debate político em vésperas de eleições, quero um debate permanente no interior do PS. Quero que o PS beneficie do melhor que os militantes têm. Quero um PS atractivo e que os homens e mulheres de esquerda que neste momento não têm motivação para participar na vida partidária possam participar activamente. E hei-de encontrar formas de o fazer não só para os militantes, mas também para aqueles que não querem preencher uma ficha no partido. Tenho uma tarefa enorme: fazer com que o PS, nas próximas eleições, tenha uma proposta política credível e mobilizadora.

Em Lisboa, há demasiada hipocrisia, demasiado cinismo nos corredores do poder

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