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Iberografias43-vfinal14Junho.

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IBEROGRAFIAS

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PAISAGENS
E DESENVOLVIMENTO RURAL

Coordenação:
Rui Jacinto

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IBEROGRAFIAS

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Coleção Iberografias
Volume 42

Título: Paisagens e Desenvolvimento Rural


Coordenação: Rui Jacinto
Apoio à edição: Ana Margarida Proença
Autores: Adriana Rangel de Souza Silva; Amarildo Augusto Oliveira; Ana Dalva de Oliveira Santos Neto; Ana Paula Novais Pires
Koga; Antonio Nivaldo Hespanhol; Daniel Boyano Sotillo; Diogo Laércio Gonçalves; Elaine Santos; Giampietro Mazza; Humberto
Yamaki; Idelvone Mendes Ferreira; Javier Dóniz-Páez; José Antônio Baptista Neto; José Januário; José Luis Domínguez Álvarez;
Juliane Maistro; Lía Fernández Sangrador; Lucas Ferreira Rodrigues; Manuel Francisco Bandeira; Manuela Delrio; Margarete
Cristiane de Costa Trindade Amorim; Maria Madalena Ferreira; Marilia Teresa Lima do Nascimento Neto; Messias Modesto dos
Passos; Mônica Pereira dos Santos; Paola Verri de Santana; Rejany Ferreira dos Santos; Renan Ricardo Galdino Inácio; Rogério
António de Castro Coelho; Rosangela Hespanhol; Rui Jacinto; Salvatore Lampreu; Thais Helena Gonçalves

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: Tiago Melo | Âncora Editora


Fotografia: Inés García Ruiz

Impressão e acabamento: Locape - Artes Gráficas, Lda.

1.ª edição: Junho de 2022


Depósito legal n.º x

ISBN CEI: 978 989 8676 32 0


ISBN: 978 972 780 817 5

Edição n.º 41042

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 Lisboa
geral@ancora-editora.pt
www.ancora-editora.pt
www.facebook.com/ancoraeditora

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Apoios:

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PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO RURAL 7
Rui Jacinto

I. DINÂMICAS DA PAISAGEM E INJUSTIÇA AMBIENTAL: GEODIVERSIDADE, BIODIVERSIDADE E


ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO

Levantamentos Fitossociológicos na raia divisória São Paulo-Mato Grosso do Sul, Brasil: 11


uma análise de remanescentes florestais, através das pirâmides de vegetação
Diogo Laércio Gonçalves; Messias Modesto dos Passos

Processos de degradação na dinâmica da paisagem: estudo de voçorocas no 29


município de Ouvidor (GO)
Lucas Ferreira Rodrigues; Idelvone Mendes Ferreira

Diagnóstico-Prognóstico das obras compensatórias e mitigatórias da UHE de Porto 45


Primavera para os municípios da raia divisória São Paulo – Mato Grosso do Sul
Messias Modesto dos Passos; Diogo Laércio Gonçalves; Juliane Maistro

Restauração Ecológica em propriedade rural na Área de Proteção Ambiental do 79


Córrego Timburi, Município de Presidente Prudente-SP
Thais Helena Gonçalves

Brasil: incertezas na indústria extrativa no Amazonas 95


Paola Verri de Santana

No tabuleiro estratégico da “economia verde” a exploração do lítio no Brasil e em Portugal 115


Elaine Santos

A Educação Ambiental na perspectiva da interdisciplinaridade: o que revelam os 125


professores sobre suas práticas pedagógicas no ensino fundamental em suas
unidades escolares em Porto Velho-Ro-Amazonia Ocidental-Brasil
Amarildo Augusto Oliveira; Maria Madalena Ferreira

As paisagens urbanas e rurais e a formação das ilhas de calor em ambiente tropical 143
continental
Margarete Cristiane de Costa Trindade Amorim

II. PATRIMÓNIO NATURAL E TURISMO

São Salvador (1925), Silêncio e poder nas margens do rio Paranapanema 157
Humberto Yamaki

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Conservación del patrimonio natural, cultural en inmaterial de Sanabria desde los 167
movimientos sociales rurales. Caso de la Asociación Cryosanabria
Daniel Boyano Sotillo

SISTUR: da teoria à aplicabilidade na geração de recurso natural em produto turístico 175


Renan Ricardo Galdino Inácio

O turismo na região litoral Centro, Sul e Leste de Angola – visões e estratégias a partir 187
do potencial do corredor do Lobito
Manuel Francisco Bandeira; José Januário

Propuesta de georruta por La Geria (Lanzarote, España): una experiencia entre 205
volcanes y vinos
Javier Dóniz-Páez; Salvatore Lampreu

Trilho do Corgo em Faiões – No Vale da história e da memória 221


Rogério António de Castro Coelho

III. DESENVOLVIMENTO RURAL: AGRICULTURA, SEGURANÇA ALIMENTAR E POLÍTICAS PÚBLICAS

La dinámica geodemográfica en la raya luso-salmantina: implicaciones en tiempos 235


de pandemia
Lía Fernández Sangrador

Território em movimento. Fazenda Taveiras e distrito de Cerrado: uma leitura sobre 255
a apropriação do Cerrado Goiano
Mônica Pereira dos Santos

Desarrollo rural sostenible transfronterizo. Hacia una gobernanza contra la despoblación 269
José Luis Domínguez Álvarez

O vinho em Mamoiada (Sardegna–Itália). Entre enoturismo e territorialização 285


Giampietro Mazza; Manuela Delrio

Histórias atravessadas pelos canais da transposição do Rio São Francisco: uma análise 305
nas Vilas Produtivas Rurais Captação e Baixio dos Grandes, Cabrobó, Pernambuco, Brasil
Ana Paula Novais Pires Koga; Messias Modesto dos Passos

Políticas públicas e o uso de agrotóxicos na olericultura em Lumiar – Região Serrana 321


do Rio de Janeiro
Ana Dalva de Oliveira Santos Neto; Marilia Teresa Lima do Nascimento Neto; Rejany
Ferreira dos Santos; Adriana Rangel de Souza Silva; José Antônio Baptista Neto

Desmonte das políticas de segurança alimentar e seus efeitos nos municípios que 331
integram a região de Dracena, Estado de São Paulo, Brasil
Rosangela Hespanhol; Antonio Nivaldo Hespanhol

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Paisagens e desenvolvimento rural

Rui Jacinto1

O livro que se dá à estampa resulta da XXI edição do Curso de Verão, realizada entre os
dias 6 e 10 de julho de 2021, subordinada ao título “Novas fronteiras, outros diálogos: coo-
peração e desenvolvimento”2. Esta iniciativa emblemática que o Centro de Estudos Ibéricos
(CEI) realiza ininterruptamente faz duas décadas, a par doutros eventos que promove
anualmente, responde diretamente a uma missão que tem como foco o Conhecimento, a
Cooperação e a Cultura. O Curso de Verão, ao apostar na difusão de informação sobre os
territórios e as culturas ibéricas, afirmou-se como uma importante iniciativa de cooperação
territorial que honra o compromisso do CEI com os espaços mais débeis e excluídos.
A edição de 2021, que decorreu virtualmente, contou com cerca de 350 partici-
pantes, dispersos por vários pontos do país e do estrangeiro, e a apresentação de cerca
de 80 comunicações por investigadores de diversas nacionalidades. O elevado número
de participantes e de comunicações permitiram organizar um evento que contou com
várias Conferências3, Mesas Redondas4, um Forum5 e múltiplos Painéis6 envolvendo
1
Centro de Estudos Ibéricos (CEI)
2
https://www.cei.pt/cv/programacao-2021.html.
3
Conferências: 1. A charneca: memória, paisagem e património (Jorge Gaspar, Portugal); 2. Paisaje y
Patrimonio (Josefina Gómez Mendoza, Espanha); 3. O grito e a explosão do território brasileiro: desi-
gualdades e seletividades socioespaiais. Debates urgentes (Maria Adélia Souza, Brasil); 4. O Ensino
Superior em Cabo Verde: cooperação e desenvolvimento territorial (Judite Nacimento, Cabo Verde).
4
As Mesas Redondas estruturam-se em torno de quatro temas fundamentais: I. Paisagens e Patrimónios
com intervenções de Lúcio Cunha; Alipio de Celis; António Campar de Almeida; Antonio Campesino; II.
História Local, História Ibérica, História Pública -Território, Memória, Identidade (Rita Costa Gomes;
7 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Diego Piay Augusto e Patricia Argüelles Álvarez; Irene Sánchez Izquierdo; Antonieta Pinto e António Prata
Coelho; Arsenio Dacosta); III. Cooperação e Desenvolvimento (Valentín Cabero; Victor Casas; António Pedro
Pita) IV. Coesão Territorial (Rui Jacinto; Lorenzo López Trigal; João Ferrão).
5
Forum “As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa” (Intervenções de: Lúcio Cunha; Dirce
Suertegaray; José Maria Semedo; Rui Jacinto; José Borzacchiello da Silva; Inês Macamo Raimundo; Maria
Fernanda Delgado Cravidão).
6
Painéis: 1. Geodiversidade, biodiversidade, ordenamento do território, moderado por Lúcio Cunha; 2.

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uma rede de investigadores, que se vai alargando, oriundos de universidades de dife-
rentes países. Além de Portugal e de Espanha, de Cabo Verde, Angola e Moçambique,
houve inúmeras intervenções do Brasil que fizeram desta edição a mais participada e
mais internacionalizada de sempre. A realização virtual devido à pandemia implicou
substituir os tradicionais Trabalhos de Campo por documentários que coincidiram com
os quatro temas das mesas redondas.
A presente edição reúne vinte e um textos relativos a comunicações apresentadas
e que abordam temas que vão ao encontro das atuais agendas tanto da investigação
como da ação, isto é, das preocupações das políticas públicas com incidência territo-
rial. As áreas de investigação repartem-se por diferentes regiões, especialmente do Brasil
(14), englobando outros países como Espanha (4), Portugal (2), Angola (1) e Itália
(1). Embora abordem problemáticas relativamente diversas, as afinidades temáticas que
evidenciam permitiu estruturar a sua apresentação em tornos de três coordenadas fun-
damentais: dinâmicas da paisagem e injustiça ambiental, tratando de matérias como a
geodiversidade, a biodiversidade e o ordenamento do território; património natural e
turismo, onde fica patente a importância dos recursos locais na promoção dos territórios
e na organização da visitação quer a nível regional como local; desenvolvimento rural,
destacando as condições sociais nos campos, a importância da agricultura e o papel das
políticas públicas na segurança alimentar.
Importa agradecer a preciosa colaboração dos autores dos textos cujo contributo au-
menta um património coletivo que o CEI dignifica ao promover a sua difusão.

Dinâmicas da paisagem e injustiça ambiental (António Campar de Almeida); 3. Recursos naturais e educa-
8 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

ção ambiental (Messias Modesto dos Passos); 4. Património e turismo (Maria Fernanda Delgado Cravidão);
5. Património, patrimonialização, memória (António Pedro Pita); 6. Agricultura e desenvolvimento rural
(Rosangela Hespanhol); 7. Rural, segurança alimentar, políticas públicas (María Isabel Martín Jiménez);
8. Cidade e evolução urbana (Valentin Cabero); 9. Cidade, paisagem e imagem urbana (Rui Jacinto); 10.
Literatura e leituras do território (Cristina Robalo-Cordeiro); 11. Dinâmicas económicas e sociais (David
Ramos Pérez); 12. Temas pós-coloniais (Ivaldo Lima); 13. Políticas públicas e sistemas de saúde (María
Isabel Martín Jiménez); 14. Governação e movimentos sociais (José Borzacchiello da Silva).

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I. DINÂMICAS DA PAISAGEM
E INJUSTIÇA AMBIENTAL:
GEODIVERSIDADE, BIODIVERSIDADE
E ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO

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Levantamentos Fitossociológicos na raia
divisória São Paulo–Mato Grosso do Sul,
Brasil: uma análise de remanescentes flores-
tais, através das pirâmides de vegetação

Diogo Laércio Gonçalves1


Messias Modesto dos Passos2

Introdução

A produção do espaço geográfico e a transformação da paisagem caminham juntos ao


longo da história da humanidade. Não obstante, a ação antrópica acelera estes impactos
sobre o ambiente natural, mudando estes cenários ao introduzir suas culturas, áreas ur-
banas, grandes obras da engenharia moderna etc. Neste ínterim, as paisagens naturais são
lentamente “sufocadas” e “isoladas” pelo “desenvolvimento” da sociedade, restringindo-se
em apenas alguns enclaves fragmentados.
No caso da Raia Divisória: São Paulo e Mato Grosso do Sul, geograficamente loca-
lizada em uma faixa de transição de dois biomas brasileiros: Mata Atlântica e Cerrado,
este processo não foi diferente. Do ponto de vista da sua fisionomia, o rio Paraná, sempre
exerceu a função de divisão territorial e ligação no contexto das relações econômicas, em
especial a agricultura e pecuária, entre os respectivos entes federados brasileiros.
Outro fator de extrema relevância nesta ligação, se dá pela construção da Usina
Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta, concluída em 1999 pela Companhia Energética de
São Paulo, alagando uma área de 2.250km², sendo a maior parte no território sul-mato-
-grossense. Estas notórias transformações ocorridas nos últimos anos, implicaram não só
na diminuição da cobertura vegetal para o setor agropecuário, como também ameaçando
11 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

o futuro da fauna e flora local, em razão da fragmentação dos habitats.

1
FCT-UNESP, Presidente Prudente, São Paulo, Brasil
diogo.goncalves@unesp.br
2
FCT-UNESP, Presidente Prudente, São Paulo, Brasil
mmpassos86@gmail.com

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Para este trabalho, considerando este mosaico paisagístico formado por diversos geo-
complexos que constituem a área delimitada, chamaremos de Raia Divisória, a porção
bem delimitada envolvendo: parte do sudoeste do estado de São Paulo e do sudeste do
estado do Mato Grosso do Sul, formada por um conjunto de bacias hidrográficas no alto
curso do rio, tendo como epicentro os municípios de Rosana no Estado de São Paulo e de
Anaurilândia no Mato Grosso do Sul, devido sua localização geográfica na qual se consti-
tui numa região de contato imediato entre os dois estados.
Como foco central, iremos analisar a estrutura vertical da cobertura vegetal de al-
guns remanescentes florestais pela representação de modelos gráficos de pirâmides de
vegetação na Raia Divisória São Paulo-Mato Grosso do Sul, Brasil, por meio de le-
vantamentos fitossociológicos feitos ao longo da área, na transição dos biomas: Mata
Atlântica-Cerrado (Figura 1)

Figura 1 – Localização da Raia Divisória SP-MS


12 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

O método fitossociológico, constitui-se em algumas etapas fundamentais caracte-


rizadas por: o reconhecimento prévio da composição do geocomplexo em estudo (solo,
rocha-mãe, clima, relevo etc.) através de mapas, imagens orbitais ou aerofotografias; o
inventário das associações vegetais (distribuição das espécies, abundância-dominância

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e sociabilidade, composição dos estratos vegetais); o grau de interferência/influência
antrópica no lote analisado e a sistematização dos dados em fichas de campo, que
posteriormente podem ser transformadas em modelos gráficos como as pirâmides de
vegetação.
Em suma, a fitossociologia fornece tanto para a ecologia como para a geografia física
através da biogeografia ferramentas importantes do ponto de vista teórico-metodológico,
através de práticas de campo e modelos gráficos (a exemplo das pirâmides de vegetação)
que contribuem para o entendimento da estrutura da paisagem e do grau de antropização
no meio ambiente em questão.
Veremos, portanto, neste trabalho, a análise através de levantamentos fitossociológicos
realizados em quatro pontos distintos da Raia Divisória, sendo dois próximos ao Parque
Estadual Morro do Diabo em Teodoro Sampaio (maior reserva florestal da região) e ou-
tros dois no epicentro raiano em Rosana e Anaurilândia. Estes resultados fazem parte de
uma pesquisa de doutorado iniciada em 2017 e concluída em 2020 pelo autor intitulada:
Políticas Ambientais na Raia Divisória SP-PR-MS: estudo das áreas potenciais para a cria-
ção de corredores ecológicos3.

Procedimentos Metodológicos

A preparação para os levantamentos, consiste na escolha prévia das áreas indicadas por
meio de imagens de satélite atuais. Com a coleta das coordenadas de cada local escolhido,
é feita a validação em campo e a descrição da composição florística presente nos lotes
analisados. No campo, os lotes são escolhidos de acordo com a disponibilidade de acesso,
principalmente no caso de áreas privadas. Seguindo a metodologia de Bertrand (1966),
escolhe-se um terreno que represente o estado médio da formação vegetal em estudo deli-
mitando um raio de 10 metros dentro do lote.
Para a identificação das espécies em campo, contamos com o apoio de dois mateiros
que prestavam serviços à Companhia Energética de São Paulo (CESP) dentro do Viveiro de
Mudas de Porto Primavera, na coleta de sementes de dois Bancos Ativos de Germoplasma,
criados pela CESP para o reflorestamento de áreas na região, como medida compensatória
a construção da hidrelétrica, com espécies de Cerrado e Mata Atlântica.
13 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

A identificação e classificação das espécies, é registrada na ficha biogeográfica que


leva em consideração uma escala global proposta por Braun-Blanquet (1951), que esti-
ma os níveis de abundância/dominância e de sociabilidade sendo estes representados na
tabela 1 e 2.
3
Disponível em < http://hdl.handle.net/11449/194383>

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ABUNDÂNCIA/ DOMINÂNCIA
+ planta esparsa com um valor de cobertura muito pequeno (raros exemplares)
1 abundante, mas com um baixo valor de cobertura (não superando 10%)
2 muito abundante, mas com baixa cobertura (entre 10% a 25%)
3 cobrindo entre 25% a 50%
4 cobrindo entre 50% a 75%
5 cobrindo acima de 75%

Tabela 1 – Percentuais de abundância/dominância.

SOCIABILIDADE
+ Planta rara ou isolada
1 Indivíduos isolados
2 Agrupados em 2 ou 3
3 Crescimento em grupos
4 Crescimento em pequenas colônias; manchas densas pouco extensas.
5 População contínua; manchas densas

Tabela 2 – Relações de Sociabilidade.

Com o preenchimento das informações em campo por meio da ficha biogeográfica,


utilizou-se a metodologia descrita em Bertrand (1966) que consiste na elaboração de
um modelo de representação para os dados de abundância/dominância e sociabilidade,
através da construção de pirâmides de vegetação.
Trata-se de um gráfico estrutural e dinâmico que leva em consideração os aspectos
fisionômicos: altura, densidade, estratificação e composição florística, bem como os as-
pectos dinâmicos como o estado de equilíbrio e o senso de evolução. Desta forma, esta
representação simples e didática, permite à título de comparação avaliar as formações
vegetais em determinados geocomplexos e mosaicos de paisagem.
A representação da pirâmide de vegetação também deve incluir outros componentes do
geossistema, tais como a litologia da área e o tipo de solo, além de possíveis inclinações em
14 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

decorrência da estrutura do relevo local. Soma-se a isto, a ficha biogeográfica de análise (onde
são estabelecidas as porcentagens de abundância/dominância e relações de sociabilidade, des-
tacadas anteriormente) a análise da ação antrópica dentro e/ou no entorno do lote levantado.
Sua construção é composta por três etapas: a primeira é a criação da base onde serão
inseridas as representações do perfil vertical e estrutura litológica do terreno além do

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solo e espessura da camada orgânica de húmus ou serrapilheira. Em seguida, é elabo-
rado a composição dos estratos seguindo a ordem presente na ficha biogeográfica do
menor para o maior. A espessura do estrato é definida a partir dos níveis de Abundância/
Dominância de cada estrato, já a cor representante indica a Sociabilidade de cada estrato.
No final, insere-se as informações gerais do lote baseadas na cartografia temática da
área de estudo já levantada, tais como: litologia, solo, clima, geomorfologia, inclinação
do terreno, altitude, domínio bioclimático, coordenadas geográficas, além de imagem de
satélite da área para a visualização aérea do lote em geral. A construção gráfica de todas
as etapas foi realizada no software Corel Draw, especifico para desenho vetorial.

Resultados e Discussões

Ao todo foram analisados quatro lotes nos Estados de São Paulo e Mato Grosso do
Sul, entre os anos de 2017 e 2019. Procurou-se elencar neste sentido, aspectos distintos
da vegetação raiana representados nas observações de campo através da análise da estru-
tura vertical da vegetação em fichas biogeográficas e pirâmides de vegetação.
O primeiro lote registrado no dia 12 de maio de 2017 está localizado em uma
área de Formação Pioneira com influência fluvial e/ou lacustre em área de várzea do
rio Paranapanema no município de Teodoro Sampaio-SP próximo ao Parque Estadual
Morro do Diabo, mas especificamente na área de exploração de argila da Cerâmica Vera
Cruz. Esta região da Raia abriga tanto do lado paulista como no paranaense, extensas
áreas de exploração de argila dada pela presença expressiva de Argissolos Vermelho-
Amarelo Eutrófico (PVAe).
Por se tratar de uma área de exploração de argila, a ação antrópica tanto na área
como no entorno é constante. Há uma estrada carreadora dentro do lote, provavelmente
fruto de uma área aterrada para atingir outros pontos de exploração de argila ao longo
dos alagados de várzea formados pela dinâmica do rio Paranapanema. Ademais, notou-
-se a presença de barcos, áreas de queimadas (fogueiras) e lixo próximas à beira do rio,
provavelmente pela ação de pescadores ou banhistas no entorno, onde há uma pousada
que recebe turistas frequentemente (Pousada Pouso da Garça).
A altitude no ponto é próxima à cota do rio Paranapanema neste trecho, com 254
metros. Ressalta-se que neste ponto o Paranapanema possui um dos poucos trechos de
15 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

leito regular na Raia estando à jusante da UHE Taquaruçu. De maneira geral, a compo-
sição florística do lote apresenta pouca diversidade de espécies distribuídas apenas nos
estratos: herbáceo-rasteiro, subarbustivo e arbustivo. Trata-se de uma vegetação primária
típica de terrenos recentes com constante influência fluvial e/ou lacustre, especialmente
pelo dinâmica sazonal do rio Paranapanema.

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Devido à ausência dos estratos arborescente e arbóreo, não há a ocorrência de húmus
(serrapilheira) no lote. Além disso, dado o grau de antropização no lote, a vegetação
apresenta-se de forma ruderal. A maior diversidade de espécies é dada pelo estrato herbá-
ceo-rasteiro, especialmente pela presença do Brachiaria (Capim Brachiaria) e Eichhornia
crassipes (Aguapé), cobrindo entre 10 a 25% do lote, com crescimento em grupos, pe-
quenas colônias ou manchas densas pouco extensas, encontrando-se em progressão.
O estrato subarbustivo, também apresenta características parecidas com o anterior,
destacando-se pela presença expressiva de espécies como: Indigofera tinctoria (Anil) e
Panicum maximum (Capim Colonião). A sociabilidade do estrato é marcada pelo cresci-
mento em grupos, população contínua e manchas densas. Já a abundância/dominância
no lote tem a mesma representatividade do estrato herbáceo-rasteiro (entre 10 a 25%).
No estrato arbustivo, temos a menor diversidade florística com apenas três espécies ca-
talogadas, sendo estas: Melia azedarach (Santa Bárbara), Peschiera fuchsiaefoila (Leiteiro) e
Trema micrantha (Candiúva). A abundância/dominância do estrato não representa mais do
que 10% em relação ao lote, enquanto que a sociabilidade é marcada por indivíduos isolados
não ultrapassando 5 metros de altura. Apresentaremos a seguir, o mosaico de imagens (figura
2) mostrando a caracterização geral do lote e das áreas em seu entorno, bem como a sua
representação por meio de pirâmide de vegetação (figura 3)
16 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 2 – Mosaico de imagens da estrutura interna e arredores do lote nº 01

A: Área da Cerâmica Vera Cruz com depósito de lenhas ao lado B: Trecho de várzea onde o rio Paranapanema aden-
tra formando pequena lagoa C: Estrada carreadora em área de aterro da Cerâmica Vera Cruz D: Visão geral do lote.
Fotos: Trabalho de Campo (2017)

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Figura 3 – Pirâmide de Vegetação do lote nº01

O segundo lote também registrado no dia 12 de maio de 2017, está locali-


zado próximo ao Assentamento Rural Dona Carmem, em Teodoro Sampaio-SP,
no baixo curso da bacia hidrográfica do ribeirão Cuiabá próximo à sua foz no rio
Paranapanema. A área em questão figura na margem esquerda do ribeirão, na divisa
com o município de Mirante do Paranapanema. A composição florística no lote é
composta por menos de 10 espécies, porém, apresentando equilíbrio em todos os
estratos, tratando-se de um fragmento de floresta secundária com forte perturbação
antrópica em seu entorno.
A litologia da área indica uma das poucas regiões de afloramento basáltico da
Formação Serra Geral (K1βsg) com cobertura pedológica de Argissolo Vermelho
Distrófico (PVd). O terreno é relativamente plano apresentando menos de 5% de
17 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

inclinação. No que se refere à presença de húmus/serrapilheira a ocorrência é mínima,


exibindo uma quantidade significativa cascalhos, especialmente seixos, no horizonte
subsuperficial. Não há foco de erosão no lote em questão, todavia, o entorno é mar-
cado principalmente pela presença de pastagem onde foi possível encontrar alguns
pontos de erosão e assoreamento em afluentes do ribeirão Cuiabá.

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Na área da foz com o rio Paranapanema é comum a presença de pescadores que
têm acesso pela estrada que corta o Assentamento Rural Dona Carmem, à margem
esquerda do ribeirão. Em conversas informais com assentados do entorno, nota-se
que a principal atividade desenvolvida no local é a pecuária leiteira, além da pre-
sença de algumas áreas de agricultura familiar, sobretudo de: hortaliças, mandioca e
abóbora. Por se tratar de uma área de desapropriação relativamente recente, datada,
de 2008, boa parte dos lotes ainda se encontrava em fase de instalação, possuindo
assim, a presença de muitos materiais de construção tais como: tijolo, cascalho, de-
pósito de seixo etc.
A presença da pastagem ao redor, bem como da estrada carreadora que liga o
assentamento até a margem do ribeirão Cuiabá, faz com que a área do lote apresente
pouca diversidade. No estrato arbóreo, a presença da espécie Lonchocarpus muehlber-
gianus (Maçaranduba) é marcante, sendo que foi possível observar aproximadamente
40 espécies em alturas que variam entre 10 a 13 metros, cobrindo mais de 50% do
lote e distribuindo-se em populações contínuas. Devido ao seu sombreamento, o cres-
cimento de outras espécies é limitado, sendo a única espécie diferente encontrada no
estrato arbóreo a Brosimum gaudichaudii (Mamica-de-cadela).
No estrato arborescente, a presença da espécie Pterogyne nitens (Amendoim-do-
Campo) foi a mais notada, distribuindo-se em exemplares com aproximadamente 7 me-
tros de altura, agrupando-se em grupos de dois ou três exemplares, porém, com baixo
valor de cobertura, não ultrapassando 10% do lote. A distribuição dos exemplares desta
espécie, apresenta característica peculiar com muitos galhos entrelaçados, bem como al-
guns ninhos de cupins bem desenvolvidos.
O estrato arbustivo, por sua vez, apresentou apenas um exemplar de Brosimum
gaudichaudii (Mamica-de-cadela), de aproximadamente 4 metros, enquanto no su-
barbustivo, houve a presença de mais espécies, especialmente a: Coutarea hexandra
(Murta-do-mato) e da palmeira Syagrus romanzoffiana (Jerivá). Por fim, o estrato her-
báceo-rasteiro, apresentou somente dois exemplares de Lonchocarpus muehlbergianus
(Maçaranduba) e de Myrciaria tenella (Cambui), ambos estratos, no entanto, com o
baixo percentual de cobertura, assim como no estrato anterior.
O mosaico de imagens da figura 4 a seguir, mostra uma visão geral do lote nº2,
registrado em trabalho de campo, bem como a pirâmide de vegetação (figura 5) em
18 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

sequência:

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Figura 4 – Mosaico de imagens da estrutura interna e arredores do lote nº 02

A: Entorno do lote com a presença de pastagem e focos de erosão e assoreamento. B: Composição do estrato
arborescente com a presença de galhos entrelaçados C: Serrapilheira contando com muitos cascalhos (seixos)
D: Exemplar de Lonchocarpus muehlbergianus (Maçaranduba), expressiva no estrato arbóreo.
Fotos: Trabalho de Campo (2017)
19 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Figura 5 – Pirâmide de Vegetação do lote nº02

O lote nº 03 fica no lado sul-mato-grossense, sendo uma área de reflorestamento


iniciada em 2001 pela CESP. Próximo à única estrada que dá acesso ao lote, existe uma
propriedade rural cuja principal atividade é a pecuária extensiva e, portanto, o uso da
terra é destinado predominantemente à pastagem.
Devido ao acesso restrito ao local, a atividade antrópica tanto no lote como nos arre-
dores é relativamente baixa, sendo seu desenvolvimento acompanhado constantemente
pela CESP desde sua implementação em 2001. Em seu conjunto, o lote apresenta dinâ-
mica estável, com progressão nos estratos: arbóreo e subarbustivo. A composição florís-
tica do lote, remete a uma área ecótono entre os biomas da Mata Atlântica e Cerrado,
20 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

pensada propositalmente pela equipe da CESP.


A maior parte das espécies são de Mata Atlântica, especialmente no estrato arbóreo onde
temos: Anadenanthera colubrina (Angico-Branco) e Peltophorum dubium (Canafístula), além
de espécies recorrentes nos dois biomas como: Albizia hasslerii (Farinha Seca) e Acacia polyphylla
(Monjoleiro). O estrato arbóreo apresenta-se bem desenvolvido com espécies atingindo até

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18 metros de altura aproximadamente, e cobrindo mais de 50% do lote com sociabilidade
distribuída entre dois ou três indivíduos, apresentando-se em evolução progressiva.
O estrato arborescente por sua vez, apresenta menor diversidade florística com
relação ao estrato anterior com espécies típicas do ecótono Mata Atlântica/Cerrado,
tais como: Peltophorum dubium (Canafístula), Nectandra saligna (Canelinha) e
Mabea fistulifera (Canudo-de-Pito). No geral abundância/dominância do estrato é
relevante, porém, com baixo valor de cobertura não superando 25% do lote em si.
A maior parte dos indivíduos encontram-se isolados, o que configura baixo grau de
sociabilidade. Todavia, a dinâmica do estrato apresenta-se em equilíbrio.
No estrato arbustivo, a diversidade florística e dinâmica do estrato é muito próxima
ao anterior, diferindo-se apenas pela presença de espécies como: Gochnatia polymorpha
(Candeia) e Zanthoxylum sp. (Mamica-de-Porca), além de apresentar maior grau de so-
ciabilidade com indivíduos agrupados entre dois ou três. Em alguns exemplares deste
estrato, foi possível observar a presença de cupins.
Já o estrato subarbustivo é o que contém maior diversidade florística (6 espécies),
bem como do número de indivíduos (27). O destaque é pela presença da espécie fru-
tífera Citrus × limonia (popularmente conhecida como Limão-Rosa ou Cravo) típica
do Cerrado, além do Ricinus communis (Carrapateiro ou Mamona), agrupando-se na
mesma configuração do estrato arbustivo, porém, com baixa abundância/dominância
não superando 10% do lote. Diferentemente do estrato anterior, a dinâmica do subar-
bustivo encontra-se em progressão.
Por último, o estrato herbáceo-rasteiro apresentou-se com baixa abundância/domi-
nância, entretanto, com dinâmica em equilíbrio e sociabilidade dos indivíduos distri-
buídas em manchas densas pouco estendidas em especial da espécie Panicum maximum
(Capim Colonião), que se alastrou pelo lote muito provavelmente pela proximidade com
a área de pastagem da propriedade rural ao lado, porém, sem prejudicar o desenvolvimen-
to das demais espécies.
A presença de húmus (serrapilheira) é significativa com cerca de 6 cm de espessura,
sendo composta por folhas e pequenos galhos em decomposição. O mosaico de imagens
da figura 6 a seguir, mostra uma visão geral do lote nº 03 bem como a pirâmide de ve-
getação (figura 7) em sequência:
21 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Figura 6 – Mosaico de imagens da estrutura interna e arredores do lote nº 03

A: Propriedade Rural ao lado do lote B: Estrada de acesso restrito da CESP C: Visão interna do lote nos estratos:
arbustivo, subarbustivo e herbáceo-rasteiro D: Visão interna do lote nos estratos: arbóreo e arborescente.
Fotos: Trabalho de Campo (2019)
22 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 7– Pirâmide de Vegetação do lote nº03

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O último lote, localiza-se na área de reflorestamento da CESP na margem paulista do rio
Paraná, próximo à antiga área de escritórios da UHE Engenheiro Sérgio Motta em Rosana.
Assim como no lote anterior, o acesso à área é restrito para a equipe de meio ambiente da
CESP, onde o desenvolvimento do reflorestamento é acompanhado constantemente bem
como é feita a coleta de sementes semanalmente no Banco Ativo de Germoplasma (BAG)
localizado ao lado do lote. Apesar da diferença de apenas um ano com relação à área de reflo-
restamento da margem sul-mato-grossense, o lote em geral possui maior diversidade florística,
bem como progressão em todos os estratos analisados.
A ação antrópica no lote também é baixa, e assim como no lote anterior, as adja-
cências conta com áreas de pastagem para pecuária extensiva. Notou-se algumas marcas
de patas e fezes deixadas pelos bovinos, o que indica que, eventualmente, algum tipo de
animal de criação escapa e transite, sobretudo nas estradas carreadoras de uso exclusivo.
Ademais, observou-se a presença de alguns focos de queimadas no entorno, fato este
que chamou atenção dos técnicos da CESP que ficaram de apurar quais foram as causas
deste incidente.
Quanto à composição dos estratos, percebe-se uma grande diversidade florística típica
de Floresta Estacional Semidecidual especialmente nos estratos superiores. A diversidade
em questão é dada pela distribuição maior da área de reflorestamento do que a anterior.
Na parcela observada, o estrato arbóreo apresenta-se em progressão com espécies atingindo
até 15 metros de altura destacando-se pela presença da espécie Anadenanthera macrocarpa
(Angico-Branco). O estrato ocupa a maior parte do lote com sociabilidade das espécies
agrupando-se em dois ou três indivíduos.
No estrato arborescente, a diversidade de espécies também se faz presente contendo al-
gumas mais recorrentes a exemplo da Luehea candicans (Açoita-Cavalo) e Acrocomia aculeata
(Macaúba ou Coco-de-Espinho). Esta última, uma espécie de palmeira muito comum na
região, cujo fruto é constituído por pequenos cocos agrupados em cachos. Seu uso é desti-
nado tanto para consumo humano, como para a extração de seu óleo para uso industrial.
A abundância/dominância do estrato figura entre 25% a 50% do total do lote, enquanto a
sociabilidade dos indivíduos é determinada pelo crescimento em grupos.
Já no estrato arbustivo, a espécie mais recorrente foi a Trichilla catiguá (Catiguá) com
espécies até 6 metros de altura além da Chorisia speciosa (Paineira) e da Inga uruguensis
(Ingá-Açu). A abundância/dominância do estrato, no entanto, apresentou-se com baixa
23 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

cobertura no lote em si (entre 10% a 25%), com espécies agrupadas em grupos de dois
ou três indivíduos. Enquanto isto, o estrato subarbustivo conta com menos diversidade
de espécies, contendo apenas a Luehea candicans (Açoita-Cavalo) e Allophylus edulis (Chal-
Chal), ambas distribuídas em grupos, mas com baixo valor de cobertura, não superando 10%
do lote.

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O estrato herbáceo-rasteiro por sua vez, conta com a presença significativa da espécie trepadeira
Cissampelos andromorpha (Cissampelo), sendo indeterminado a quantidade de indivíduos dis-
tribuindo-se em manchas densas, porém, com baixo valor de cobertura com relação a totalida-
de do lote. Assim como no lote anterior, devido à proximidade da área de pastagem observou-se
a presença do Panicum maximum (Capim Colonião).
A presença de húmus (serrapilheira) foi mais expressiva do que o lote anterior, com
cerca de 10 cm de espessura com folhas e galhos em decomposição. O mosaico de imagens
abaixo (Figura 8), mostra a caracterização do lote e sua área de entorno. Posteriormente,
apresentamos a pirâmide de vegetação (Figura 9):
24 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 8 – Mosaico de imagens da estrutura interna e arredores do lote nº 04

A: Estrada de acesso restrito da CESP B: Queimada na área do BAG ao lado do lote C: Visão interna do lote nos
estrato herbáceo-rasteiro D e E: Visão interna do lote nos estratos: arbóreo e arborescente.
Fotos: Trabalho de Campo (2019)

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Figura 9 – Pirâmide de Vegetação do lote nº04

Considerações Finais

A análise da flora local, especificamente nos fragmentos florestais dispostos ao longo


da Raia Divisória São Paulo e Mato Grosso do Sul, através de levantamentos fitossocio-
lógicos e sua representação gráfica disposta pelas pirâmides de vegetação, nos mostra um
panorama característico do complexo geográfico e paisagístico no qual este tipo de vegeta-
ção se insere, permitindo análises e discussões mais profundas acerca do atual estágio desta
vegetação e as perturbações existentes no seu entorno em decorrência da ação antrópica.
Desta forma, este trabalho se presta não só para uma análise da paisagem na Raia
Divisória como também numa perspectiva geral, apresentar a aplicação desta metodolo-
gia e suas potencialidades no estudo dos geofacies e geocomplexos .
25 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Cabe salientar que anteriormente à sua ocupação a Raia Divisória ocupava uma das
maiores reservas de Mata Atlântica interiorizada na porção paulista além de uma extensa
área de transição para o bioma do Cerrado na porção sul-mato-grossense que tem sido
ameaçada constantemente pelo desenvolvimento econômico, sobretudo, da expansão do
setor agropecuário, principalmente, desde meados do século XX.

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Como resultado deste processo boa parte da vegetação foi suprimida, dando lugar
para a pastagem e culturas temporárias em especial, a cana-de-açúcar. Atualmente, a
Mata Atlântica na Raia encontra-se disposta em pequenos fragmentos florestais ao longo
da região, além da maior reserva florestal da área: o Parque Estadual Morro do Diabo
com 338,5 km². Na porção sul-mato-grossense, o Cerrado é representado especifica-
mente pelas reservas legais existentes em propriedades rurais e das Áreas de Preservação
Permanente (APP) ao longo dos cursos d’água afluentes do rio Paraná, em consonância
com o Código Florestal Brasileiro.
Algumas experiências de reflorestamento ocorreram, especificamente nas úl-
timas duas décadas, como obras compensatórias à construção da Usina Hidrelétrica
Engenheiro Sérgio Motta (popularmente conhecida como Porto Primavera) em Rosana,
subsidiadas pela extinta Companhia Energética de São Paulo (CESP), no qual se con-
centra a análise dos levantamentos fitossociológicos dos dois últimos lotes em Rosana
no Estado de São Paulo e Anaurilândia no Mato Grosso do Sul. Soma-se a isto, ações de
secretarias de meio ambiente dos municípios paulistas e sul-mato-grossenses, projetos
ambientais de Organizações Não-Governamentais (ONGs), bem como a própria ade-
quação ao Código Florestal Brasileiro por parte dos proprietários de imóveis rurais de
ambos os estados.
Neste contexto, espera-se que a partir desta metodologia de análise da paisagem a
partir da estrutura vertical da vegetação remanescente, possamos oferecer os subsídios
necessários para o entendimento da fisiologia da paisagem e do grau de antropização
no geocomplexo em questão, trazendo o debate para uma efetiva implementação de
um planejamento ambiental que, somados à participação da comunidade local, possam
conduzir ao desenvolvimento sustentável na Raia Divisória, de forma descentralizada e
participativa.

Resumo
O presente trabalho tem como intuito principal fazer uma análise da estrutura vertical da
cobertura vegetal de alguns remanescentes florestais pela representação de modelos gráficos de
pirâmides de vegetação na Raia Divisória São Paulo-Mato Grosso do Sul, Brasil, por meio de
levantamentos fitossociológicos feitos ao longo da área, na transição dos biomas: Mata Atlântica-
Cerrado. A metodologia inclui trabalhos de campo ao longo dos anos de 2017 e 2019 onde
26 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

foram analisados em quatro lotes distintos da Raia os parâmetros de: abundância/dominância e


sociabilidade de acordo com Braun-Blanquet (1951). Neste contexto, a análise da estrutura verti-
cal da vegetação, foi realizada a partir da composição dos estratos vegetais distribuídos em quatro
grupos principais: arbóreo, arbustivo, herbáceo-rasteiro. Inicialmente foram analisados dois lotes
no município de Teodoro Sampaio, no Estado de São Paulo, próximo ao Parque Estadual Morro
do Diabo. Posteriormente, foram feitas análises nos municípios de Rosana e Anaurilândia na

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transição entre os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, respectivamente. Para a identifi-
cação das espécies, utilizou-se o apoio técnico da Companhia Energética de São Paulo (CESP),
que disponibilizou a equipe de mateiros que realizam trabalhos de reflorestamento e coleta de
sementes para o Horto Florestal de Rosana. As informações colhidas em campo foram cataloga-
das na ficha biogeográfica, contando com a composição das espécies por estrato, e as informações
referentes à presença de serrapilheira, o tipo de clima, solo e estrutura litológica, além dos aspec-
tos antrópicos dentro e no entorno do lote que compõem a dinâmica deste conjunto. Por fim,
os dados foram compilados por meio de representação gráfica em pirâmides de vegetação feitas
no software CorelDraw, utilizando a metodologia de Bertrand (1966). A partir desta análise,
pretende-se contribuir para o entendimento da estrutura da paisagem e do grau de antropização
no geocomplexo em questão.
Palavras-Chave: Remanescentes Florestais, Levantamentos Fitossociológicos, Pirâmides de
Vegetação, Análise da Paisagem

Abstract
The main purpose of this work is to analyze the vertical structure of the vegetation cover of
some forest remnants through the representation of graphic models of vegetation pyramids in
Raia Divisória São Paulo-Mato Grosso do Sul, Brazil, through phytosociological surveys carried
out throughout of the area, in the transition of biomes: Atlantic Forest-Cerrado. The methodo-
logy includes fieldwork throughout 2017 and 2019 where the parameters of abundance/domi-
nance and sociability were analyzed in four different lots of Raia, according to Braun-Blanquet
(1951). In this context, the analysis of the vertical structure of the vegetation was carried out
from the composition of the plant strata distributed into four main groups: arboreal, shru-
bby, and creeping herbaceous. Initially, two lots were analyzed in the municipality of Teodoro
Sampaio, in the State of São Paulo, near the Morro do Diabo State Park. Subsequently, analyzes
were carried out in the municipalities of Rosana and Anaurilândia in the transition between
the states of São Paulo and Mato Grosso do Sul, respectively. To identify the species, technical
support was used from the Companhia Energética de São Paulo (CESP), which provided a team
of woodsmen who carry out reforestation and seed collection work for the Horto Florestal de
Rosana. The information collected in the field was cataloged in the biogeographic file, including
the composition of species by stratum, and information regarding the presence of litter, the type
of climate, soil and lithological structure, in addition to the anthropic aspects within and around
the lot that make up the dynamics of this set. Finally, the data were compiled through graphical
representation in vegetation pyramids made in CorelDraw software, using the methodology of
Bertrand (1966). From this analysis, it is intended to contribute to the understanding of the
27 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

landscape structure and the degree of anthropization in the geocomplex in question.


Keywords: Forest Remnants, Phytosociological Surveys, Vegetation Pyramids, Landscape
Analysis

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Referências Bibliográficas

Bertrand, Georges, Pour une étude géographique de la végétation – Revue géographique des
Pyrénées et du Sud-Ouest, tome 37, fascicule 2,. pp. 129-144, 1966
Braun-Blanquet, J. – Fitosociologia : bases para el estudio de las comunidades vegetales
(Pflanzensoziologie: Grundzüge der Vegetationskunde, 1951) – Tradução espanhola por H.
Blume Ediciones. Rosario, Madrid, 1979
Gonçalves, Diogo Laércio. Políticas Ambientais na Raia Divisória SP-PR-MS: estudo das áreas
potenciais para a criação de corredores ecológicos – Tese (Doutorado em Geografia) Faculdade
de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente-SP, 2020.
Lacoste, Alain e Salanon, – Eléments de Biogéographie et d’écologie – Université Nathan
Information Formation, França, 1969
____________, Biogeografía – Editora Oikos-Tau, Barcelona-Espanha, 1973.
Passos, Messias Modesto dos – Biogeografia e Paisagem.-2 ed. Maringá:[s.n.], 2003.
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Processos de degradação na dinâmica
da paisagem: estudo de Voçorocas no
município de Ouvidor (GO)

Lucas Ferreira Rodrigues1


Idelvone Mendes Ferreira2

Introdução

Nos estudos da dinâmica da paisagem, dentre os maiores problemas enfrentados pelo


homem atualmente, e que merecem atenção especial e medidas urgentes por parte de
Governos, população humana e comunidade científica, destaca-se a degradação quanto ao
udo da terra e a consequente erosão dos solos, considerando que tratam-se de graves alte-
rações na dinâmica da paisagem, podendo acarretar em danos que, na maioria das vezes,
se tornam irreversíveis se não tratados corretamente.
Nesse contexto, o objetivo deste trabalho é apresentar considerações sobre a dinâmica
da paisagem e o uso do solo como influência direta em processos de degradação do am-
biente, como o processo de formação de Voçorocas, utilizando-se como lócus a área do Alto
Curso da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Ouvidor, no município de Ouvidor, Sudeste do
Estado de Goiás, Brasil, onde já existem processos de voçorocamentos em andamento.
Assim, foi realizado estudos que investigaram as alterações no contexto da paisagem
local e a evolução do processo erosivo, identificando possíveis mecanismos formadores,
visando a proposição de possíveis sugestões para a contenção e a interrupção dos mecanis-
mos de degradação que vêm afetando a paisagem local, bem como mecanismos visando a
restauração da referida área.
29 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

O motivo que culminou no desenvolvimento desta pesquisa foi a necessidade


de que problemas ambientais derivados de degradação ambiental tenham maior
1
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Geografia – IGEO/UFCAT
lucas.ufg01@gmail.com
2
Professor Associado do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Catalão (UFCAT)
idelvone_ferreira@ufcat.edu.br

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visibilidade enquanto fatores de riscos, evitando-se problemas futuros maiores. Além
da necessidade de se buscar compreender mais a respeito da dimensão que o tema
proposto abrange, aliada a falta de estudos locais mais aprimorados sobre a temática –
processos erosivos superficiais e formação de voçorocas, afim de sugerir possíveis ações
mitigadoras para a reparação na dinâmica da paisagem local, por meio de proposições
de métodos paliativos a curto prazo, e corretivos a médio e longo prazos, culminando
em oportunidades de estudos que agreguem valor para a preservação ambiental no
espaço local.

Caracterização da área em estudo

A área foco compõe a Bacia Hidrográfica do Ribeirão Ouvidor, localizada no Sudeste


do Estado de Goiás, Brasil, que de acordo com Freires (2019), possui área de captação de
517 km², e aproximadamente 108km de perímetro. Compondo essa paisagem, o local da
pesquisa faz parte da poção média, próxima ao final do Alto Curso e início do Médio Curso
da referida Bacia Hidrográfica, áreas essas onde existem atividades antrópicas quase similares
às exintentes na área da cabeceira no Alto Curso, porém com atividades reduzidas (Figura 1).
30 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 1 – Localização e limites do município de Ouvidor (GO) – Brasil


Fonte: Município de Ouvidor-GO (2017). Org.: FREIRES, A. S. (2019).

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O processo de voçorocamento está localizado na área de um manancial tributário do
Ribeirão Ouvidor, que se torna palco das atividades em estudo referentes as degradações,
fazendo parte de um conjunto de uma rica rede de disponibilidade hídrica pertencente
que compõem o território do Município de Ouvidor (GO), como é possível observar na
Figura 1.
Considerando a presença de atividades de Mineração e as consequentes atividades
de adequação de Barragens de Rejeitos, como as existentes nas cabeceiras de drenagens
presentes na área do Alto Curso do Ribeirão Ouvidor, o local estudado também apresenta
atividades ligadas ao Agronegócio e a Silvicultura de Eucalipto, atividades essas, mesmo
que agressivas, se fazem presentes de forma menos enérgica, como pode ser observado na
Figura 2, tendo a presença do Ribeirão Ouvidor margeando a divisa dos municípios de
Catalão e Ouvidor, no Sudeste do Estado de Goiás, Brasil.

Figura 2 – Dinâmica do uso do solo no município de Ouvidor (GO/Brasil) – 2018


31 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Fonte: Base cartográfica – Imagem Landsat 8 221/72 (2018). Organização: FREIRES, A. S. (2019).

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constantes


do Censo Socioeconômico (2017), o município de Ouvidor possui uma área de 413,78

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km², ou 41.378 hectares, sendo que cerca de 24.731 hectares pertencem a estabeleci-
mentos agropecuários, representando mais da metade da superfície total do Município,
as quais são destinadas exclusivamente para esta prática agrícola (IBGE, 2017), sendo
que cerca de 52% dessa área do Município é para uso em pastagens, e com a agricultura
e silvicultura com, respectivamente, cerca de 4,2% e 4,1% (IBGE, 2017). A partir do
recorte espacial feito, as primeiras impressões a serem notadas decorrem do uso do solo
para a produção agropecuária de produção animal, especificamente a bovinocultura e
seus potenciais impactos socioambientais negativos no local, agredadas as demais ativi-
dades do agronegócio.

Considerações Teóricas

Epistemologicamente, Voçoroca ou boçoroca é um fenômeno geológico que consiste


na formação de grandes buracos de  erosão  causados pela água da chuva e intempéries
em solos onde a vegetação não protege mais o solo, que fica cascalhento e suscetível de
carregamento por enxurradas. A voçoroca torna o solo pobre, seco, quimicamente morto e
nada fecundo. Conforme Navarro (2013), os termos “voçoroca” e “boçoroca” têm origem
no termo Tupi antigo ybysoroka, que significa “terra rasgada” (yby, “terra” + sorok, “rasgar-
-se, romper-se” + a, sufixo nominal).
O conhecimento da interação entre as particularidades do sistema natural e do sistema
antrópico permite identificar àquelas características responsáveis pela dinâmica da paisa-
gem, como também identificar suas fragilidades ambientais e sociais, elementos essenciais
para a gestão de uma paisagem, mais especificamente as áreas de Bacias Hidrográficas, na
concepção de serem as melhores Unidades de Planejamento (AMORIM; OLIVEIRA,
2008), em uso na Ciencia Geográfica.
No que diz respeito a paisagem, Bertrand (2004) a define como sendo uma determi-
nada porção do espaço resultante da interação dialética, dinâmica e instável entre compo-
nentes físicos, biológicos e ação antrópica, que a torna um conjunto único e indissociável.
O referido autor ainda frisa sobre o conceito que a paisagem, portanto, não é a simples
soma de elementos geográficos incoerentes, mas sendo o resultado dos diversos elementos
e ações que a compões e nela intervêm, considerando que a paisagem
32 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

[...] não é a simples adição de elementos geográficos disparatados. É, em uma


determinada porção do espaço, o resultado da combinação dinâmica, portanto
instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente
uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em
perpétua evolução. (BERTRAND, 2004, p. 141).

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Nesse raciocínio, Christofoletti (1998 apud AMORIM; OLIVEIRA, 2008), assim
como Bertrand (2004), atribui ao termo paisagem a ideia de ser um conceito chave para
a Geografia, uma vez que possibilita compreender a dinâmica da superfície terrestre, para
muitos tido como o espaço/objeto de estudo da Geografia, como um sistema ambiental,
físico e socioeconômico, em complexa inter-relação, funcionamento e dinâmica com os
elementos físicos, biológicos, geográficos, sociais e econômicos, refletido na cultura local e/
ou regional, possibilitando a compreensão das diferentes complexidades e fenômenos que
se interagem na superfície terrestre.
Nessa acepção, Bertrand (2004) entende que a paisagem é o resultado da combinação
dinâmica, e em perpétua evolução, que contempla tanto os elementos naturais, quanto
os elementos construídos pelo homem, formando o patrimônio paisagístico da coletivi-
dade, e entendendo esse resultado como produto, uma estrutura determinada, que pode
ser mensurada, quantificada e qualificada. A paisagem, portanto, não pode ser configu-
rada como uma realidade imóvel, uma vez que a presença do homem, por meio de sua
ação tecnificada sobre os componentes paisagísticos, produz efeitos de sua própria cultura/
atividade.
Torna-se evidente, então, que ao longo de muitos anos a paisagem vem sofrendo trans-
formações para fins de desenvolvimento humano, principalmente quanto aos aspectos
socioeconômicos e culturais. As alterações na paisagem, derivadas de ações antrópicas, assu-
mem proporções alarmantes em várias regiões do globo e no Brasil. A retirada da cobertura
vegetacional natural de uma determinada paisagem para uso da terra em atividades agrope-
cuárias, de mineração ou silviculturas, geralmente, rompe o equilíbrio natural local e pode
iniciar processos de erosão diversos e que culminam em diferentes impactos socioambientais.
Decorrentes dessas práticas, há muito tempo, vem-se observando no Brasil, em especial
na região do Cerrado, a utilização de práticas agropecuárias inadequadas, como o uso da
terra para plantio de forma contínua, queimadas em áreas de preservação ambiental, uso
indiscriminado das águas, retirada das vegetações ciliares que protegem as águas, entre outras
ações agressivas, que podem ocasionar sérias consequências ambientais negativas, como a
formação de sulcos e ravinas, muitas vezes culminando em voçorocamentos, onde os sedi-
mentos erodidos e carreados vão causar impactos em áreas periféricas e a jusante. Esses pro-
cessos de degradação da paisagem podem criar voçorocas, sendo elas “[...] a maior evidência
da degradação das terras.” (ANDRADE; PORTO CARRERO; CAPECHE, 2005, p. 1).
33 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Sendo iniciado o processo de voçorocamento, portanto, decorrente de uma utilização


inadequada da terra, por práticas não recomendadas, por excesso de uso da terra ou de
forma natural, o processo erosivo “[...] começa sob a forma de erosão laminar que perma-
nece imperceptível durante os primeiros estágios”, indicando uma “[...] fase mais crítica de
paisagem desequilibrada, surgindo o fator antrópico como agente catalisador” (MACEDO

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et al., 1998, p. 1). A somatória desses impactos pode desencadear desequilíbrio locais, que
podem afetar toda uma região, muitas vezes sendo inreversiveis os impactos.
Nessa concepção, esses processos de voçorocamentos geralmente são comuns na pai-
sagem quando há degradação dos sistemas de drenagem superficiais decorrentes de usos
inadequados do solo, frequentemente localizadas em locais desprotegidos e/ou degrada-
dos, como margens de estradas, áreas de cultivos, áreas de mineração, áreas com solos
susceptíveis à erosão natural, entre outros impactos (ANDRADE; PORTO CARRERO;
CAPECHE, 2005).
Assim esses processos degradacionais, em geral, são gerados pelo aprofundamento e
alargamento de ravinas, ou erosão causada por escoamento superficial concentrado, dando
origem a sulcos profundos e longos, que corroem a paisagem onde ocorrem, tendo como
características gerais possuírem paredes laterais íngremes, terem fundos chatos, e geral-
mente com um fluxo de água que corre no seu interior, durante determinados períodos. A
depender do seu avanço, as voçorocas podem atingir o lençol freático em profundidade,
passando a drenar a área afetada (SUERTEGARAY, 2008), constituindo-se num processo
erosivo acelerado e de instabilidade nas paisagens afetadas.
Quanto sua classificação, FLEURY (1983, apud CARNEIRO; PAULO; MELO,
2014) classifica as voçorocas em:
• Voçorocas mortas ou inativas, que são aquelas que sua evolução cessou ou foi
reduzida;
• Voçoroca viva ou ativa, que está em constante progressão;
• Voçorocas isoladas, onde se tem várias voçorocas separadas por espaços de terra;
Voçorocas múltiplas, onde existem várias e próximas entre si;
• Voçoroca seca, quando a erosão não atinge o lençol freático;
• Voçoroca úmida, quando a erosão mantém um fluxo d’água permanente no fundo
da valeta.

Dentre os tipos citados, pode-se notar que as voçorocas

[...] constituem a forma de erosão mais severa e se desenvolvem melhor onde há


um horizonte C muito profundo e um solum de pequena espessura. A decapitação
de todo o solum em alguma parte da encosta, geralmente nas partes mais baixas,
34 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

expõe o horizonte C à intensa remoção de partículas e, por solapamento, a voçoroca


cresce rapidamente no material pouco coerente desse horizonte, culminando com a
perda do solo como um todo. As suas dimensões e a extensão dos danos que pode
causar estão intimamente relacionadas com o clima, topografia do terreno, gênese do
solo, forma de manejo e classe de solo. (MACEDO et al., 1998, p. 1).

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Ainda trabalhando sobre o conceito de voçoroca e os inúmeros danos que elas podem
causar à dinâmica da paisagem local, Lopes e Guerra (2001) trazem que o termo ‘voçoroca’
pode ser compreendido como sendo uma escavação ou rasgão na terra, que as vezes expõe o
lençol subterrâneo.
Apesar disso, sabe-se que “[...] as voçorocas possuem um prazo de maturidade e senili-
dade” (ANDRADE; PORTO CARRERO; CAPECHE, 2005, p. 2). Assim, esse processo,
depois de algum tempo de evolução,

[...] pode ser reduzida a disponibilidade de material a ser erodido, além do fato
de que, quando diminui a taxa de incisão, a vegetação tende a se estabelecer dentro
da voçoroca, o que normalmente acaba por estabilizá-la em longo prazo. Isto não
quer dizer que as voçorocas não mereçam especial atenção por parte do homem, mas
só aponta para o fato de que, independente da intervenção antrópica, as voçorocas
sempre existiram, evoluíram e entraram em senilidade, sendo que as mesmas são
também grandes responsáveis pela formação dos vales e encostas que vemos no rele-
vo atual (ANDRADE; PORTO CARRERO; CAPECHE, 2005, p. 2).

Assim, a voçoroca é um processo erosivo semisuperficial de massa/sedimentos, face aos


fenômenos global das erosões superficiais presentes na superfície terrestre e ao consequente
desmonte de maciços de solos dos taludes, ao longo dos fundos de vale ou de sulcos rea-
lizados no terreno pelos agentes erosivos, principalmente decorrentes das águas pluviais.
Entretanto, independentemente da implantação de projetos de revegetação e estabili-
zação natural, essas áreas degradadas se encontram parcialmente protegidas por suas ações
independentes, e que geralmente necessitam de ações antrópicas especificas e planejadas
para sua contenção definitiva e recuperação.

Procedimentos metodológicos

Para a elaboração deste trabalho foram utilizados, inicialmente, embasamentos teórico


bibliográficos que trabalham a temática proposta, a partir de estudiosos como Ferreira
(1996), Bertrand (2004), Guerra (2006), Suertegaray (2005), Andrade, Portocarrero e
Capeche (2005), Silva et al. (2005) e Freires (2019), entre outros, abordando a paisagem
35 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

regional e/ou local, como palco de dinâmicas constantes de fenômenos onde se desenvol-
vem elementos físico-ambientais pelos usos socioeconômicos e consequências dos mesmos.
Após a pesquisa bibliográfica, foi realizada a pesquisas documental sobre o uso do solo
na região, dos quais foram consultados órgãos como IBGE, Instituto Mauro Borges (IMB)
e produções regionais/locais do Município, para extração de conteúdos sobre a área de

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estudo referente ao uso do solo e qualquer material de relevância para a pesquisa do ponto
de vista de uso do solo e mapeamentos existentes para compreensão da dinâmica local.
Realizadas as pesquisas bibliográficas para compreensão do conteúdo sobre o local, foram
realizadas pesquisas de campo de cunho qualitativo, que constituíram em visitas em campo para
coleta de materiais e recursos na forma de imagens e fotografias, que auxiliaram o mapeamento
das áreas de voçorocas, e serviram como registros e para apoio a pesquisas futuras e para a análise
correspondente ao uso do solo e das consequências do movimento de antropização local.
Por último, foram analizados os pressupostos teórico-metodológicos e os resultados obti-
dos em campo, passando as respectivas análises que possibilitaram a redação final deste texto.

Resultados e Discussões

Neste trabalho buscou-se compreender a complexidade de trabalhar em uma área com


alteração em função das atividades vinculadas ao agronegócio e a mineração e com grande
proximidade a zona urbana da cidade de Ouvidor. Com uma área extensa, e de grande
atividade local, a Bacia Hidrográfica do Ribeirão Ouvidor sofreu e vem sofrendo modifi-
cações ao longo dos anos, principalmente devido ao grande movimento socioeconômico
na área de sua abrangência, mais especificamente em seu Alto Curso.
Por meio da análise da Carta de Dinâmica do uso do solo no município de Ouvidor
(GO/Brasil) – 2018, apresentada na Figura 2, pode-se visualizar que a área se encontra sob
condições de grande alteração no contexto atual, onde ao longo da Bacia do Ribeirão Ouvidor
e seus tributários, percebe-se que há atividades intensas de silvicultura (Eucalipto) e do agro-
negócio, principalmente de criação de gado bovino e cultivo de grãos, como milho e soja.
No contexto da área analisada, o tributário em estudo está localizado próximo a zona
urbana da cidade de Ouvidro, na porção ao final do Alto Curso do Ribeirão, próximo a
ponte que interliga os municípios de Ouvidor e Catalão, pela via “Estrada Velha”. Este tri-
butário, que por sua vez é o foco da análise, cuja área vem sofrendo alteração na paisagem
pela ação antrópica, que culminou no surgimento de uma voçoroca como resultante dos
processos de degradação na área da bacia. Também foi observado que o manancial em es-
tudo está sendo utilizado de forma indiscriminada para atividades de irrigação de lavouras
nas proximidades, principalmente de atividades de produção hortifrutegangeiras.
Percebe-se, ainda, que existem áreas com fragilidades físico-químicas, configuradas
36 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

por solos mais arenosos sobre embasamento siltoso, expostas a processos erosivos e a lon-
gos períodos sem manejo adequado, e que tem sido utilizadas da mesma forma pelo setor
agrosilvipastoril durante os últimos quatorze anos ininterruptos (de 2006 a 2020), acar-
retando em degradação e assoreamento dos cursos de menores portes, de acordo com as
imagens do Google Earth, expostas nas Figuras 3 e 4.

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Nesse processo perceptivo, a Figura 3, datada de maio de 2006, aponta a área do manan-
cial, o tributário do Ribeirão Ouvidor, que em suas vertentes à montante está sendo ocupada
de forma irregular. Observando a Figura 3, pode-se ver que na área de capitação e respectiva
vertente da bacia paralela à GO-330 existe, assim como em grande parte na extensão do
Ribeirão Ouvidor, áreas de Silvicultura, destinadas a remoção/corte para alimentação das cal-
deiras pertencentes à Industria Mineradora local, que estão com atividades/uso desde 1985.

Figura 3 –Tributário do Ribeirão Ouvidor (GO) no início do Médio Curso – 2006


Fonte: Google Earth (2006). Org.: RODRIGUES, L. F. (2021).

37 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 4 – Área de tributário do Ribeirão Ouvidor localizado no Alto Curso – 2021


Fonte: Google Earth (2021). Org.: RODRIGUES, L. F. (2021).

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Atividades relativas ao Agronegócio, como pastagens cultivadas e cultivo de grãos,
também estão presentes na área, considerando o mesmo período supracitado, e acom-
panham as atividades que alteram a paisagem na área do manancial e bacia do Ribeirão
Ouvidor, como um todo na área do Alto Curso.
Na Figura 4, pode-se perceber algumas alterações na paisagem contextual, como o
avanço de cultura anuais, à montante, para um pequeno barramento feito para capitação
e irrigação dessa atividade no Ponto A, constante da referida figura. Observa-se também o
aparecimento de uma caixa de empréstimo no Ponto B, provavelmente feita de forma irre-
gular, na vertente oposta a GO-330, e evolução da vegetação primária dentro da voçoroca.
Considerando as imagens visualizadas nas Figura 3 e 4, pode-se notar uma considerável
capacidade regenerativa da vegetação primária na área do manancial, mesmo havendo gran-
de ação de antropização em seu espaço. Segundo Silva et al. (2005), em pesquisas realizadas
na área da Bacia do Ribeirão Ouvidor, isto ocorre devida a menor atividade antropica em sua
área, apontando melhores capacidades regenerativas ao longo da área do Alto Curso.
Com fatores de alterações menos degradantes, o local, por meio de sua capacidade na-
tural de regeneração, conseguiu estabilizar de forma natural o desenvolvimento da voçoroca,
tornando-a, de acordo com a Classificação de Voçoroca de Fleury (1983, apud CARNEIRO,
PAULO, MELO, 2014), do tipo Inativa, onde os fatores de desenvolvimentos são reduzidos, e
sua evolução é mínima, sendo superados pela vegetação pioneira interna nas vertentes e fundo
da Voçoroca. Como pode ser visualizado na Figura 4, o aumento de espécies de vegetação ras-
teira locais (espécies típicas do Cerrado), possuindo até mesmo espécies de grande porte em seu
interior, como pode ser constatado na Foto 1, localizada no ponto D da Figura 4.
38 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Foto 1 – Voçoroca em estado de estabilização natural na área


do Alto Curso do Ribeirão Ouvidor (GO/Brasil) – junho de 2021
Fonte: Trabalho de campo (2021). Foto: Rodrigues, L. F. (Junho/2021).

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Apesar de apresentar locais com boa estabilização, existem locais, como áreas a
montante, que necessitam ainda de atenção especial e tecnificada, pois localizam-se
abaixo de um barramento realizado para captação de água para irrigação de plantio
de soja localizado no Ponto A, conforme a Figura 4. Esse barramento possui um “la-
drão de água”, que não possui vegetação para mitigar os possíveis impactos gerados
pelas alterações quanto ao uso do solo, como em todo a área do manancial, com solos
expostos e permitindo o desenvolvimento livre da Voçoroca, que vem utilizando do
caminho preferencial das águas pelo “ladrão” para se desenvolver em direção ao barra-
mento, oferecendo riscos de instabilidade, como mostra a Foto 2, este localiza-se no
Ponto C na Figura 4.
Com o desenvolvimento da voçoroca pelo caminho preferencial das águas do “ladrão do
barramento”, desenvolve-se também a preocupação com o avanço do processo erosivo sobre
o próprio barramento, como mostra a Foto 3, sendo o ponto A na Figura 4, e a possibilidade
de causar rompimento e destruir a contenção das águas, com possibilidades de danos am-
bientais e sociais pelo volume acumulado, com consequente destruição da vegetação e ativa-
mento acelerado do desenvolvimento da voçoroca na parte estabilizada por causas naturais.

39 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Foto 2 – Processo erosivo em área a montante do Ribeirão Ouvidor, abaixo do Barramento de Água utilizada
captação para irrigação – junho de 2021
Fonte: Trabalho de campo (2021). Foto: Rodrigues, L. F. (2021).

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Foto 3 – Barramento construído em tributário do Ribeirão Ouvidor
e utilizado para captação de água para irrigação – junho de 2021
Fonte: Trabalho de campo (2021). Foto: Rodrigues, L. F. (2021).

Considerando o volume das ações antrópicas e uso indiscriminado do solo na região


do manancial na área do Alto Curso do Ribeirão Ouvidor, evidenciada neste estudo ini-
cial, pode-se considerar que está ocorrendo uma estabilização quanto a evolução da voço-
roca de forma natural, apesar da continuidade do uso intensivo do solo em curso na região.
No entanto, é importante salientar que, independentemente dessa estabilização natu-
ral, ainda há necessidade de implementar medidas mitigadoras de contenção e prevenção,
bem como a implementação de um planejamento adequado em relação ao uso do solo,
limitação do uso das águas para atividade agricolas, implementar projetos de replantio
de espécies nativas, entre outras ações correlatas visando amenizar os impactos negativos
constatado na área.
Há, portanto, em locais pontuais e críticos na área do Alto Curso do Ribeirão
Ouvidor necessidade de disciplinamento das águas, com o devido manejo mais adequa-
do de acessos de pessoas e animais, retaludamento das vertentes, replantio de vegetação
nativa local para diferentes controles do fundo, vertentes e cabeceira da voçoroca, assim
40 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

como a recuperação das áreas de amortecimento dos processos naturais de cunho climá-
ticos, com as espécies vegetacionais, como aponta Ferreira (2015), além de outras ações
que se fizerem necessárias ao longo do trabalho de recuperação do local, culminando
com um processo eficiente de Educação Ambiental da coletividade humana envolvida
nesse contexto.

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Considerações preliminares

Esta pesquisa revigora a necessidade de chamar e apontar ações mitigadoras socioam-


bientais para locais que necessitam de atenção do Poder Público e da sociedade humana
organizada em ações para a gestão do uso solo e/ou da terra dentro de seus limites, evi-
denciando situações de alerta e descrevendo atividades degradacionais e suas respectivas
consequências, visitando locais com processos de degradação, como possível resultantes de
uma má gestão ou monitoramento quanto ao uso do solo na área estudada.
O desenvolvimento, assim como a estabilização de forma natural do local estudado,
mostra fragilidades do sistema natural que cumpre a paisagem na área do Alto Curso da
Bacia Hidrográfica do Ribeirão Ouvidor, mas também mostra a capacidade de recupera-
ção de áreas com avançado grau de degradação, apenas com a redução de atividades degra-
dantes, se comparado ao início das atividades antrópicas na área do Alto Curso, revela-se
então que há meios de recuperar essas áreas com melhor efetividade, se também forem
empregadas técnicas mecânicas, se bem planejadas, que potencializarão o fator natural de
regeneração local.
Assim, termina-se esse estudo afirmando que é necessário uma reflexão mais ampla
sobe a questão, e que se comece a adotar técnicas mais apropriadas para melhor gestão de
riscos das suas áreas e o consequente uso do solo, e com uma fiscalização adequada, bem
como incorporar culturalmente técnicas adequadas para melhorar o uso do solo, discipli-
namento das águas, manutenção e preservação de vegetação natural de forma estratégica,
afim de evitar perdas advindas dos movimentos de massas por degradação e perda da qua-
lidade e quantidade das águas superficiais e subsuperficiais.

Resumo – O presente artigo busca apresentar considerações sobre a dinâmica da paisa-


gem e o uso do solo como influência para a formação de processos de degradação da paisagem
tipo Voçorocas, utilizando como lócus a Bacia Hidrográfica do Ribeirão Ouvidor, município
de Ouvidor, Estado de Goiás, Brasil, por meio de um estudo que investigou os processos de
alterações na paisagem local e a evolução dos processos erosivos decorrentes, identificando
possíveis processos formadores, propondo possíveis sugestões para contenção e a interrup-
ção dos processos de degradação da paisagem local. O motivo que culminou na escrita deste
artigo foi a necessidade de compreender mais a respeito da dimensão que o tema proposto
abrange, aliada a falta de estudos locais sobre essa temática, para sugerir possíveis melhorias e
41 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

para a reparação da dinâmica da paisagem local, a partir de métodos paliativos a curto prazo,
e corretivos a médio e longo prazo e fazendo deste uma oportunidade de estudo que agregue
valor à preservação ambiental na área do Município. Para isso, foram utilizados inicialmente
os embasamentos bibliográficos que trabalham a temática proposta, a partir de estudiosos
como Bertrand (2004), Guerra (2006), Suertegaray (2005), Andrade, Portocarrero e Capeche

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(2005), Silva et al (2005), Freires (2019), entre outros, abordando a paisagem do Cerrado
como palco da dinâmica antrópica intervencionista constante, onde se desenvolvem elementos
físico-ambientais decorrentes desses usos socioeconômicos. Num segundo momento foi reali-
zada pesquisa de campo, que consistiu em visitas em campo para coleta de materiais e aquisi-
ção de recursos cartográficos como imagens, mapas, fotografias, realização de mapeamento da
voçoroca, entre outros, e pesquisa de dados secundários no Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), documentos municipais, entre outras fontes. Decorrentes dessas etapas,
foi possível observar e constatar que os processos erosivos afetaram a paisagem local, sendo
urgente a implementação de medidas mitigadoras.
Palavras–chave: Dinâmica da Paisagem. Degradação ambiental. Voçorocas. Ouvidor (GO).

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iberografias42.indb 43 17/06/2022 18:00:32


iberografias42.indb 44 17/06/2022 18:00:32
Diagnóstico-prognóstico das obras com-
pensatórias e mitigatórias da UHE de Porto
Primavera para os municípios da raia divi-
sória São Paulo–Mato Grosso do Sul

Messias Modesto dos Passos1


Diogo Gonçalves2
Juliane Maistro3

Introdução

Os termos “regiões fronteiriças”, “espaços fronteiriços”, “raia transfronteiriça” são pouco utiliza-
dos pela geografia brasileira. Utilizamos as unidades administrativas, as microrregiões propostas pelo
IBGE; são mais práticas, sobretudo, quando há necessidade de se trabalhar com dados estatísticos.
No quadro de programas de desenvolvimento local e regional da União Europeia
(Interreg – Programa de Cooperação entre Regiões – ; Feder – Fundo Europeu de
Desenvolvimento Regional etc.) é dada atenção especial às áreas de fronteiras: Portugal-
Espanha; Espanha-França etc.
Ademais, as “fronteiras” são raias, isto é, áreas de intergradação nas quais os processos
se manifestam segundo uma lógica de descontinuidade objetiva da paisagem ou, ainda, se-
gundo uma impermeabilidade muito acentuada entre as parcelas do território submetidas
às definições e redefinições territoriais mais ou menos independentes.
No Brasil, encontramos várias raias que reclamam uma análise no sentido de revelar
suas potencialidades paisagísticas e suas peculiaridades culturais, sociais e econômicas, obje-
tivando a implantação de planos de desenvolvimento regional, capazes de superar o estágio
de periferia a partir de uma gestão territorial que contemple, acima de qualquer “modismo
globalizante”, a integração regional.
45 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

1
Programa de Pós-Graduação em Geografia da FCT-UNESP – Presidente Prudente/SP – Coordenador
do Projeto: Avaliação: diagnóstico-prognóstico das obras compensatórias e mitigatórias da UHE de Porto
Primavera para os municípios da raia divisória São Paulo – Mato Grosso do Sul.
2
Membro da Equipe do Projeto FAPESP – Proc. 2020-0457-3
3
Membro da Equipe do Projeto FAPESP – Proc. 2020-0457-3

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Entre os inúmeros exemplos de raias (área de intergradação), lembramos:
No Oeste da Bahia: o Vale do rio Grande, raia de manifestação de dois domínios
morfoclimáticos distintos – caatinga e campos gerais, atualmente, sob o fogo cruzado de
dois modelos de ocupação conflitantes, de um lado, os “sertanejos”, dentro de um padrão
tradicional e confinado; de outro, “os sulistas”, que aí chegaram, em meados dos anos
1970 e implantaram a monocultura de soja, com inversão de grandes capitais e, claro, dos
impactos previsíveis em situações dessa natureza.
No Centro-Oeste brasileiro podem-se colher vários exemplos. Lembremos dois, por
serem mais didáticos: o primeiro, a ocupação dos vales dos grandes e médios rios da região
pelos criadores de gado (mineiros e paulistas, principalmente) a partir dos anos 1920,
constituindo uma raia, ora mais integrada, ora mais isolada, com os chapadões areníti-
cos, ocupados mais tarde (a partir de 1970) pela agroindústria (soja, milho, algodão),
pilotada pelos “sulistas” e com a benevolência dos subsídios fiscais. O segundo está no
curto espaço compreendido pelos municípios de Rondonópolis (pecuária/soja), Primavera
do Leste (soja) e Poxoréo (garimpo de ouro e diamante). São mundos diferentes, que só
recentemente, a partir da necessidade de diversificação da economia regional, dão sinais
mais claros de raia, no sentido de que estamos empregando, ou seja, de intergradação dos
elementos envolvidos no processo de gestão do território.
Apreendemos para uma análise eco histórica da paisagem, a raia divisória São Paulo-
Mato Grosso do Sul (Figura 1), mais precisamente a parcela do território conhecido geo-
graficamente pelas denominações de “Pontal do Paranapanema”, “Sudeste do Mato Grosso
do Sul” e, a calha do Alto Curso do rio Paraná – à altura da UHE de Porto Primavera – ,
que atua ora como elo de aproximação, ora como linha divisória dessas parcelas territoriais.
46 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 1 – Localização da raia divisória São Paulo – Mato Grosso do Sul.

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A raia divisória: O sudoeste do estado de São Paulo/O sudeste sul
mato-grossense

Inicialmente, vamos abordar algumas dinâmicas territoriais das duas porções que op-
tamos como recorte geográfico da raia divisória São Paulo – Mato Grosso do Sul.

O sudoeste do estado de São Paulo – O Pontal do Paranapanema

O Pontal do Paranapanema ocupa a porção Extremo-Oeste do Estado de São Paulo.


É uma “mesopotâmia”, limitada ao norte pelo rio Paraná, ao sul pelo rio Paranapanema,
a oeste pela confluência desses dois rios. O seu limite leste deslocou-se ao sabor do avan-
ço da fronteira agrícola. Atendendo às características do processo de ocupação, optamos
pelo ribeirão das Anhumas – vertente do rio Paraná – e pelo ribeirão do Engano ou Santo
Antônio – vertente do rio Paranapanema –, como seu limite leste.
Podemos chamar essa área – acima delimitada – de “área core4 do Pontal”, tendo em
vista que, no início da década de 1940, uma porção territorial maior, englobando os atuais
municípios de Mirante do Paranapanema, Sandovalina e Marabá Paulista, constituíam um
espaço paulista, marginalizado e que preferimos chamar de “Grande Pontal”.
Os “plantadores e pioneiros” do oeste paulista caminharam junto à linha de ferro que
se estabeleceu ao longo dos espigões. Foram surgindo, assim, cidades como Presidente
Prudente (1917), Presidente Bernardes (1919), Santo Anastácio (1920), Presidente
Venceslau (1921) e Presidente Epitácio (1922), esta última na barranca do rio Paraná.
Dessa forma, a porção mais Sudoeste, distante da ferrovia, ficou marginalizada e, vaga-
mente denominada Pontal.
Com a chegada da fronteira agrícola (1940) na área do atual município de Mirante do
Paranapanema, teve início o processo de desmatamento e ocupação agrícola – baseada es-
sencialmente na cultura do algodão e amendoim. Nesse momento, a fronteira agrícola não
ultrapassou os ribeirões Santo Antônio e das Anhumas, que passaram assim a limitar duas
porções de ocupação bem diferenciadas: à leste, uma ocupação agrícola que provocou uma
morfogênese muito agressiva, resultando em um rápido exaurimento do solo, com erosão
e assoreamento dos córregos e, a oeste desses ribeirões, a mata semidecídua, que somente
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mais tarde passaria a ser substituída pelas pastagens (1945-1965), com uma evolução di-
nâmica característica diferenciada da anterior.

4
“Área Core”: utilizada, aqui, para fazer referência à área nuclear, mais característica do Pontal do Paranapanema
– Sudoeste Paulista.

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O geocomplexo

A distribuição das precipitações tem uma evolução muito identificada com a distribui-
ção das temperaturas, ou seja, os meses quentes são os mais chuvosos, podendo-se afirmar
que é alta a evapotranspiração regional.
O período mais úmido (outubro a fevereiro) e de temperaturas mais elevadas tem um
impacto significativo nos processos morfogenéticos e pedogenéticos, sobretudo por oca-
sião de precipitações convectivas muito intensas.
A agressividade com que se processou a ocupação do solo, sobretudo nas áreas agríco-
las e nas pequenas propriedades, resultou em uma fragilidade do geocomplexo em análise:
mesmo pancadas de chuvas não muito excepcionais são causadoras de estragos, apesar de
tratar-se de um espaço geográfico caracterizado por certa homogeneidade geomorfológica,
litológica e climática.
No período seco, os processos morfogenéticos relacionados ao escoamento subsuperfi-
cial se mantêm inativos. É nesse período que o processo de assoreamento e de despereniza-
ção dos córregos e ribeirões melhor se evidencia. Vários trechos de alguns ribeirões chegam
a secar totalmente.
O gráfico ombrotérmico (Gráfico 1), elaborado a partir de dados da Estação
Meteorológica da Unesp/Presidente Prudente, permite observar:

Gráfico 1. Gráfico ombrotérmico – Presidente Prudente/SP.


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• a temperatura média mensal das máximas absolutas do mês mais quente: T´= 4l,1ºC;
• a temperatura média mensal das mínimas absolutas do mês mais frio: m´= 8,3ºC.
Portanto o período de atividade vegetal (PAV) é favorável ao longo dos doze meses
do ano;

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• a linha das temperaturas médias mensais acusa poucas oscilações. Na verdade,
o grande impacto das baixas temperaturas, associadas ao período seco do ano,
se manifesta de forma mais concreta sobre a vegetação, diluindo-se nos gráficos
climáticos;
• a distribuição das precipitações está concentrada nos meses de outubro a março.
Forte insolação e elevadas temperaturas (verão), ou vento seco e baixas temperaturas
(inverno), associadas à litologia arenítica da Formação Caiuá provoca stress hídrico
nos cultivos, sobretudo quando não se concretizam as expectativas de chuvas de
primavera e mesmo durante o verão: quando ocorrem os “veranicos”, ou seja, curtos
períodos de forte insolação sem chuvas, notadamente no período de dezembro a
fevereiro.

Os meses efetivamente mais quentes são novembro, dezembro, janeiro e fevereiro,


com temperaturas médias mensais variando entre 24ºC e 26ºC. As temperaturas máximas
absolutas mais elevadas são mais frequentes em dezembro e fevereiro, podendo chegar a
38ºC.
Nesse período quente do ano, as massas de ar em circulação na região relacionam-se
com a Massa Polar Atlântica e Massa Tropical Continental, ativada pela dinâmica da Baixa
do Chaco (Monteiro, 1973; Tarifa, 1973).
O período frio abrange os meses de maio, junho julho e agosto, com temperaturas
médias mensais mais frequentes entre 18ºC e 22ºC. Os meses efetivamente mais frios são
junho e julho, quando a região passa a ser dominada por incursões mais frequentes da
Massa Polar Atlântica e Polar Continental (Monteiro, 1973).
A combinação dos fatores geomorfológicos e clímato-hidrológicos constitui o “po-
tencial ecológico” do geocomplexo em estudo. O geocomplexo define-se, em seguida, por
certo tipo de exploração biológica do espaço, onde estão articulados esses atributos do
potencial ecológico.
No início do século XIX, a região do Pontal do Paranapanema era totalmente flo-
restada. O gradiente fisionômico da mata estava condicionado, sobretudo, às condições
pedológicas e hidrológicas, sendo possível, ainda, deduzir-se a influência das condi-
ções paleoclimáticas através de espécies vegetais típicas de climas mais secos (Cereus sp),
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ainda hoje existentes em forma de “enclave” – definindo um geofácies botânico bastante


exótico.
A partir da restituição das imagens de radar/1976 – folhas SF-22-Y-A e SF-22-Y-B e de
observações de campo, elaboramos o mapa do “uso do solo e da cobertura vegetal residual
do Pontal do Paranapanema – 1976” (Figura 2).

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Figura 2 – Uso do solo e cobertura vegetal residual no Pontal do Paranapanema – 1976.

Nas áreas de matas remanescentes, efetuamos levantamentos fitossociológicos – para a


identificação e determinação da frequência das principais espécies vegetais – e observações
biogeográficas para definição e avaliação de algumas áreas em condições de abrigar a fauna
que foi deslocada da parte sul da Reserva Estadual do Morro do Diabo, antes do preenchi-
mento do reservatório da Usina Hidrelétrica de Rosana.
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Pirâmide de vegetação
Figura 3 – Pirâmide de vegetação: Reserva Estadual do Morro do Diabo/SP
Fonte: Passos, M.M. dos.

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Os resultados deste estudo são apresentados de três formas: (a) A ficha biogeográfica,
(b) a pirâmide de vegetação e (c) fotos ilustrativas.

Lote Nº
FICHA BIOGEOGRÁFICA
01

Domínio: Tropical

Formação Vegetal: Floresta Tropical


Série de Vegetação: Floresta do SW de São Paulo
Semidecídua
Localização: Margem direita do Córrego Taquara – Reserva
Município: Teodoro Sampaio
Estadual do Morro do Diabo
Estado: São Paulo Data: 14/01/2001

Espécies Vegetais por: Espécies: Estratos


Estratos: Nº de Altitude (m)
indivíduos Aprox.: A/D S A/D
Arbóreo:
Astronium graveolens (Guaritá) 3 20 1 1
Tabebuia avellanedae Lor. Ex Griseb
2 20 + 1
(Ipê-roxo)
Cabralea canjerana Vell. Mart.
2 15 + 1
(Canjarana)
=2=
Copaifera langsdorffii Desf. (Copaíba) 4 25 1 1
Aspidosperma cylindrocarpon M. Arg.
4 30 1 2
(Peroba)
Peltophorum dubium (Spreng.) 2 15 + +
Taub. (Guarucaia) 2 25 1 +
Arborescente:
Guarea guidonia (L.) Sleumer
2 12 1
(Marinheiro)
Campomanesia xanthocarpa Berg
3 06 2 1
(Guabiroba)
Tabebuia impetiginosa (Mart.) (Piúna) 1 10 + 1
=2=
Pterogyne nitens Tul. (Carne-de-vaca) 2 15 1 2
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Nectandra megapotamica (Spreng.)


3 10 2 1
(Canelinha)
Psidium cattleianum Sabine (Araçá) 4 08 1 1
Ocotea velutina (Nees) (Canelão) 2 12 + 1

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Arbustivo:
Metrodorea nigra St. Hil (Chupa ferro) 3 2,5 + +
Aspidosperma polyneuron M. Arg.
1 3,0 + +
(Peroba) <= 2 =>
Tabebuia impetiginosa (Mart.) (Piúna) 1 2,5 + +
Metrodorea sp (Carrapateira) 2 3,0 1 +
Subarbustivo:
Guarea guidonia (L.) Sleumer
2 1,2 + 1
((Marinheiro)
Casearia gossypiosperma Briquet =2=
5 0,7 + +
(Espeteiro)
Tabebuia avellanedae (Ipê) 2 1,0 + 1
Herbáceo-rasteiro:
(Samambaia) 22 0,4 3 3
<= 3 =>
(Caraguatá) 20 0,6 3 4
FATORES BIOGEOGRÁFICOS
Humus: Predominância de areia quartzosa terraço fluvial, com baixo teor de matéria orgânica. Evidências
pedológicas de influência de paleoclima mais seco (Plioceno-Pleistoceno?)
Declivida-
Altitude: 290m Exposição: SW
de: 15º
Clima: Tropical, com duas estações: chuvosa (outubro-abril) e seca (maio-setembro).
Microclima: O interior da mata e a localização do lote (margem direita do Córrego Taquara) contribuem
para um micro-clima úmido e sombreado, onde a presença de insetos e de carrapatos causa desconforto às
pessoas.
Rocha-Mãe: Arenito Caiuá
Erosão Superficial: Ausente
Ação Antrópica: até 1960 a estrada, que corta a Reserva Estadual no sentido Norte-Sul, e que permitia o
acesso à balsa (travessia do Rio Paranapanema/divisa São Paulo-Paraná) era um elemento perturbador da
biodiversidade. Atualmente, a estrada está desativada e a fiscalização dos guardas florestais é eficiente.
Dinâmica de Conjunto: Dada as condições pedológicas desfavoráveis e, ao mesmo tempo, o isolamento
do lote – interior da Reserva Estadual do Morro do Diabo – é possível afirmarmos que a dinâmica de
conjunto será mantida, dentro da evolução apontada em cada um dos estratos, conforme assinalamos na
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ficha.

Figura 4 – Ficha com os dados do levantamento fitossociológioco


realizado no interior da reserva estadual do Morro do Diabo.

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FOTO 1 – Reserva Estadual do Morro do Diabo. Nessa parcela do lote de 25 m x 25 m, observa-se a predominância
dos estratos arbustivo e subarbustivo. As condições edáficas (areia quartzosa) de terraço fluvial é determinante para a es-
tratificação da vegetação. A inclinação do lote e a “abertura”, devido à proximidade do Córrego Taquara, permitem uma
infiltração da luz solar mais intensa, elementos que contribuem para a baixa abundância-dominância do estrato arbóreo.
Fonte: Foto do Autor (14/1/2001)

Os processos morfogenéticos e a fisiologia da paisagem

Nas últimas décadas, em vários países surgiram inúmeras tentativas para restabelecer
a visão integrada da paisagem, com a elaboração de novos métodos, novas abordagens
e novos paradigmas. A aplicação da teoria dos sistemas aos estudos geográficos propa-
gou-se ampla e rapidamente entre os geógrafos e a abordagem sistêmica tem fornecido,
há algum tempo, uma unidade metodológica a esses estudos, revitalizando-os, dinami-
zando-os e fornecendo oportunidade para reconsiderações críticas de muitos conceitos.
Dentre eles, pode-se dar destaque ao conceito de paisagem, pois, resultante da interação
de elementos diversos, que funcionam integralmente, a paisagem deve ser analisada
como um sistema polissêmico.
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Sempre presente no contexto geográfico, esse conceito sofreu amplas considerações,


de acordo com a tendência teórico-metodológica que predominava em diferentes épocas.
Mas, desde a focalização global de Humboldt, passando pela perspectiva ideográfica, que
originou as famosas monografias regionais com La Blache como o grande expoente e, den-
tro da nova fase integradora impulsionada por Troll e ampliada pelo enfoque geossistêmico

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de Sochava e pela Geografia Global de Bertrand, o objetivo praticamente permaneceu o
mesmo: a paisagem, mudando apenas a perspectiva, a abordagem e o vocabulário. Na
realidade, todas as linhas de estudo e de pesquisa retomaram o tema mais tradicional da
prática geográfica – a paisagem – ora conferindo este ou aquele suporte teórico.
No presente estudo, valorizou-se a observação direta de campo, análise de fotos aéreas,
imagens de satélite e dados meteorológicos. A análise dos processos morfogenéticos atuais e a
fisiologia da paisagem na raia divisória: São Paulo – Mato Grosso do Sul também se sustenta
na bibliografia consultada (Ruellan, 1953; Erhart, 1955; Fournier, 1960; Tricart; Cailleux,
1956; Christofoletti, 1968; Cruz, 1974; Lombardi Neto; Bertoni, 1975; Sudo, 1980).
Os processos morfogenéticos têm suas características definidas pela ação conjunta da
compartimentação geomorfológica, das condições geo-pedológicas, da dinâmica clímato-
-hidrológica, da exploração biológica e das alterações antrópicas.
A eliminação da cobertura vegetal natural é o início de toda uma fase resistásica. O
processo de posse e ocupação das terras do Pontal do Paranapanaema está ligado ao des-
matamento e formação imediata das pastagens. Em muitas glebas, primeiro plantou-se o
capim, depois se criou o boi e, no final desse processo é que veio o desmatamento, con-
substanciando a posse da terra.
A sequência capim-boi-pastagem-desmatamento definiu, na área core do Pontal, uma
morfogênese de impactos negativos menos significativos quando comparados às áreas
essencialmente agrícolas do município de Mirante do Paranapanema, onde a sequência
desmatamento-agricultura-exaurimento do solo-pastagem determinou um caráter muito
mais agressivo dos agentes morfogenéticos.
Nas áreas de ocupação agrícola, os agentes morfogenéticos passaram a se manifestar
com grande agressividade, definindo uma dinâmica da paisagem com características de
ruptura: erosão em sulcos – que resultaram na formação de inúmeras voçorocas –, erosão
laminar intensa, com eliminação dos horizontes superficiais do solo, em intervalo curto
de tempo e ainda com assoreamento e desperenização de muitos córregos e ribeirões, de
grande importância na dinâmica clímato-hidrológica, figura 5. A elevação do nível de base
regional (rios Paraná e Paranapanema) em função dos reservatórios formados para atender
às usinas hidrelétricas da CESP, agravou o processo de assoreamento dos cursos d’água.
A Formação Caiuá apresenta um padrão de drenagem que se caracteriza por cursos
d’água de perfil longitudinal retilíneo e alongado, sem afluentes, ao contrário da Formação
54 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Bauru, onde os cursos d’água apresentam um perfil longitudinal com arcos e curvas peque-
nas e inúmeros afluentes, definindo uma densidade hidrográfica mais elevada que atua no
modelado de forma mais agressiva. Os geótopos, onde os valores de densidade hidrográfica
são mais elevados, apresentam afloramentos do arenito Bauru (espigão divisor dos rios
Paraná e Paranapanema: nascentes dos ribeirões Água Sumida, Nhacá, Cuiabá, Córrego do

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Bonito, Água da Prata, principalmente). O arenito Bauru – menos permeável – constitui
nível de base para o lençol de água subterrânea, conforme observamos nessas cabeceiras.
Grosso modo, podemos afirmar que a compartimentação geomorfológica da região
do Pontal, onde se destacam (1) o espigão divisor dos rios Paraná e Paranapanema, (2) o
varjão, (3) os baixos terraços, (4) as planícies aluviais, (5) as vertentes dos dois grandes rios,
com encostas e rampas pouco elevadas com espessa cobertura coluvial, representa um con-
junto de unidades topográficas pouco diversificadas, contribuindo, ao lado de outros fato-
res para que as alterações morfogenéticas e pedogenéticas sejam de certa forma atenuadas.

55 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 5 – Unidade de paisagem em resistasia, retomada por ação antrópica, com potencial ecológica degradado –,
podendo ser reconhecidos como verdadeiros geótopos áridos, sem que a pedogênese completasse sua evolução.
Em sua gênese, incluem-se fatos ligados a uma predisposição da estrutura geoecológica, na maior parte das vezes
acentuada por ações antrópicas.

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O sudeste sul matogrossense

Vamos limitar a presente abordagem a alguns aspectos/temas:


• geomorfologia da planície de inundação do alto curso do rio Paraná;
• história territorial da ocupação regional.

Aspectos geomorfológicos da planície de inundação do alto curso


do rio Paraná

A planície do rio Paraná, no conceito do IBGE (1990), é uma ampla área de acumu-
lação que ocupa toda a calha do rio no segmento compreendido entre Três Lagoas (MS)
e Guaira (PR). Essa designação abrange uma área que apresenta duas feições distintas: o
Terraço Baixo e a Planície Fluvial (Figura 6).
56 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 6 – A planície de inundação do alto curso do rio Paraná.


Fonte: Relatório Síntese – Reservatório de Porto Primavera (1980).

A superfície da planície fluvial é o resultado da evolução de um sistema anastomo-


sado que esteve ativo antes da implantação do atual padrão de canal. As feições nela

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existentes são resultantes daquele sistema, embora haja relíquias de um outro padrão
anterior, além das formas associadas aos canais atuais (Souza Filho, 1993).
Os estudos para o EIA-Rima da UHE de Porto Primavera possibilitaram o mapea-
mento geomorfológico e geológico de toda a área a montante da foz do rio Paranapanema,
assim como a realização de diversos estudos sobre o tema (Pires Neto et al., 1994).
O substrato geológico da calha fluvial do rio Paraná é constituído por basalto da
formação Serra Geral e por arenito da formação Caiuá. O basalto ocorre a montante
da UHE de Porto Primavera, até a região de Três Lagoas, e a jusante, a partir de
Guairá para o sul. A área de menor taxa de soerguimento é responsável pela preser-
vação do arenito do Grupo Bauru, sobre os quais o rio corre por mais de 450 km,
até Guairá.
Os diferentes substratos rochosos impõem características distintas a partes diver-
sas do rio. Nas áreas de ocorrência de basaltos, o vale é mais fechado, com corredeiras e
saltos, como os de Urubupungá e de Sete Quedas, hoje encobertos pelos reservatórios
de Jupiá e de Itaipu. Na área de ocorrência do arenito do Grupo Bauru, o quadro é
bastante distinto, pois não há corredeiras e o vale é bastante aberto. Em alguns locais,
as águas do rio Paraná tornam-se mais rápidas, graças à modificação do gradiente
imposto por movimentos tectônicos recentes ao longo de estruturas transversais ao
curso do rio.
O relevo da bacia do alto Paraná é acidentado na parte leste e sudeste graças
à ocorrência de rochas cristalinas e à taxa de ascensão mais elevada. Nas demais
áreas, dominam formas tabulares onduladas, com inclinação suave em direção ao rio
Paraná, interrompidas localmente por escarpas das cuestas da Serra Geral. A parte
central desse segundo conjunto foi denominada inicialmente “Bacia do Alto Paraná”
(Ab´Sáber, 1955; Almeida, 1956), posteriormente “Planalto do Alto Rio Paraná
(Justus, 1985) e, por fim, “Planalto Central da Bacia do Paraná” (IBGE, 1990). A
área ribeirinha à calha do rio Paraná foi designada pelo IBGE (1990) como “Planície
do Rio Paraná”.
O Alto Curso do rio Paraná encontra-se, na atualidade, com seu potencial total-
mente esgotado em termos de aproveitamento para a hidroenergia. Três grandes barra-
gens foram construídas, transformando-o em um grande rio de águas controladas, com
um verdadeiro complexo hidrelétrico: a Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, a Usina
57 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Hidrelétrica de Jupiá (Eng. Souza Dias), parte integrante do Complexo de Urubupungá,


e a Usina Hidrelétrica de Porto Primavera (Eng. Sérgio Motta). Esse complexo hidre-
létrico reflete o predomínio absoluto do Estado como empreendedor do sistema de
geração de hidroeletricidade no Brasil, como modelo de desenvolvimento adotado desde
algumas décadas.

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História territorial da ocupação regional

Segundo Abreu (1976), a necessidade de encurtar o caminho das boiadas vindas do


sul do Mato Grosso para São Paulo e quebrar o isolamento regional fez com que o criador
de gado Manoel da Costa Lima, conhecido como Major Cecílio, dono da fazenda Ponte
Nova – situada nos campos de Vacaria (Campo Grande) – tomasse a iniciativa de abrir
uma estrada ligando Campo Grande às margens do rio Paraná.
Ao mesmo tempo em que Major Cecílio abria a estrada de Vacaria ao Porto 15 de
Novembro, no Estado de São Paulo a Empresa Diederichesen & Tibiriçá abria a estra-
da de Campos Novos do Paranapanema à margem esquerda do rio Paraná, onde cons-
truiu o Porto Tibiriçá. Em maio de 1907, a firma Diederichesen & Tibiriçá adquiriu
a concessão de exploração do Major Cecílio passando a controlar todo o trajeto, entre
Campo Grande e São Paulo. A criação da Companhia de Viação São Paulo – Mato
Grosso foi uma das consequências da evolução da empresa Diederichesen & Tibiriçá
(Abreu, 1976).
As florestas-galerias dos afluentes do rio Paraná (Quebrachos, Quiteroi, Três Barras
e Samambaia) foram divididas em lotes de cerca de 25 hectares que se destinavam aos
pequenos agricultores. Os setores de savanas, ao contrário, foram vendidos a criadores sob
forma de grandes fazendas de criação que chegavam a ultrapassar 7000 hectares (Pébayle;
Koechlin, 1981, p. 12).
O Sudeste-Sul Mato-grossense estava, até o final da década dos anos 1970, em mar-
cante isolamento, sobretudo por ser uma zona de baixo índice de ocupação e pela qual
o poder público estadual e municipal não demonstravam interesse especial, certamente
explicado pela falta de atrativos para a implantação de políticas públicas de desenvolvi-
mento, que demandariam investimentos em infra-estruturas. Os municípios ali instalados,
com seus núcleos urbanos modestos e de uma dinâmica econômica igualmente modesta,
garantiam apenas a reprodução das condições então vigentes.
A ocupação, isto é, a posse das terras da região data, ainda, do século XIX, quando,
após a Guerra do Paraguai, a Companhia Mate Laranjeira passou a explorar a erva-mate
nativa no sul do Estado colocando sob sua influência toda a extensão que vai, na atualida-
de, de Bataguassu, na divisa com o Estado de São Paulo, a Porto Murtinho, na fronteira
com o Paraguai5. Fabrini (1996, p. 34-35) descreve alguns detalhes da ação da Cia. Mate
58 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Laranjeiras:

5
Para aprofundamento do assunto, consultar Figueiredo (1967)

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No sul de Mato Grosso do Sul a expansão da pequena propriedade esteve
controlada pela Cia Mate Laranjeira, através do monopólio de exploração da
erva-mate. Isso não permitiu o desenvolvimento de pequenas propriedades, nem
mesmo para que os pequenos proprietários servissem como mão-de-obra na co-
leta da erva-mate, com a formação dos chamados “viveiros” de mão-de-obra.
Esta era recrutada no Paraguai, onde mais de três mil trabalhadores paraguaios
chegavam perto da margem do rio Paraná fazendo a coleta daquele produto para
a empresa monopolista.

Para uma análise e entendimento mais aprofundados das transformações verificadas


na paisagem na Raia Divisória SP-MS, notadamente da importância contextual da UHE
de Porto Primavera, é preciso que voltemos um pouco mais no tempo, indo além daquele
registrado pelas imagens de satélite disponíveis, antes mesmo da implantação do canteiro
de obras, a qual se deu em 1979/1980. As informações das condições da paisagem que
se dispõe da área de estudo, do referente período, são fornecidas pelos dados das Cartas
Topográficas, escala 1:250.000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
e da Diretoria do Serviço Geográfico do Exército (DSG), datadas da década de 1970,
atualizadas com dados de 1974 a 19786, que servem para se produzir uma imagem da
paisagem de então.
Na porção Sul-Mato-Grossense, podemos identificar dois setores interligados que co-
nheciam uma ocupação efetiva àquela época: a zona que bordeja a planície de inundação
do rio Paraná, vizinha do Estado de São Paulo (e Paraná) e uma outra, ligada à primeira,
que avança para o interior, dividida em vários eixos acompanhando os cursos dos ribeirões
principais. No interior, grandes extensões de terras conservavam suas características natu-
rais, recobertas pela vegetação natural (cerrados e matas) e continuavam, em sua maioria,
inexploradas, ainda que apropriadas sob a forma de grandes propriedades (de especula-
ção). Por outro lado, a porção paulista gozava de uma ocupação efetiva com pastagens e
agricultura (Figura 7).
59 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

6
Para a porção que compreende a área de pesquisa, foi feito o mosaico utilizando partes das seguintes
Cartas Topográficas: Folha Dracena atualizada com dados de cartas topográficas do DSG (Presidente
Epitácio), de 1974, na escala de 1:100.000; Folha Loanda, atualizada com cartas topográficas do DSG,
na escala de 1:100.000, de 1972-1974 e cartas topográficas do IBGE, escala 1:50.000, de 1973, com
atualização viária do DNER de 1975; Folha Presidente Prudente, atualizada com cartas topográficas do
IBGE, na escala 1:50.000, de 1976 a 1978, com atualização viária do DNER-RFFSA de 1978; Folha
Xavantina, atualizada com cartas topográficas do DSG, na escala 1:100.000, de 1974, com atualização
viária do DNER de 1977.

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Figura 7 – Ocupação do solo na raia divisória SP – PR – MS (Década de 1970).
Fonte: Cartas Topográficas DSG e IBGE (Xavantina, Dracena, Loanda e Presidente Prudente). Escala:
1:250.000 – atualização com dados de 1974 e 1978
60 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 8 – Pirâmide de vegetação resultante do levantamento fitossociológico efetuado na microbacia do


Córrego Três Barras/MS

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A cobertura vegetal residual do Sudeste-Sul Mato Grossense apresenta uma dis-
tribuição/organização espacial de difícil cartografia tal é a ocorrência “aleatória” de
cerrado, cerradão, florestas, campos e, mesmo, de vegetação xerofítica. No intuito
de registrar o que consideramos mais significativo/representativo desse elemento da
paisagem, efetuamos levantamentos fitossociológicos para efeito de ilustração da ve-
getação predominante nessa parcela da raia divisória, conforme os dados da ficha
biogeográfica (Figura 9):

Lote Nº
FICHA BIOGEOGRÁFICA
02
Formação: Cerrado Domínio: Cerradão
Sítio: Córrego Três Barras Série de Vegetação: Cerradão
Município: Anaurilandia Localização: Microbacia do Córrego Três Barras
Estado: Mato Grosso do Sul Data: 15/04/2001
Espécies Vegetais por: Espécies: Estratos
Estratos: Nº de Altitude (m)
indivíduos Aprox.: A/D S A/D
Arbóreo:
Aspidosperma tomentosum – Peroba-
3 8 2 2
docampo
Annona coriacea – Araticum-do-campo 3 5 2 2
Caryocar brasiliense – Pequi 1 5 + 1
Dimorphandra mollis – Barbatimão folha
4 4 1 2
Miúda
Machaerium acutifolium – Jacarandá-do-
4 6 2 2
campo
Piptadenia sp – Angico 8 8 3 3
<= 3 =>
Stryphnodendron adstringens –
1 5 1 1
Barbatimão
Tabebuia ochracea – Ipê-amarelo 3 4 1 2
Qualea grandiflora – Pau-terra 2 4 1 2
Copaifera langsdorfii – Copaíba/pau
2 7 2 2
d’óleo
Platypodium elegans Amendoim-do-
3 8 2 2
campo
61 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Kielmeyra sp – Saco-de-boi 1 5 + +
Arborescente:
Ausência deste estrato

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Arbustivo:
Duguetia furfuracea – Cabeça-de-negro/
5 1,5 2 2
Marolo
Eugenia micheli – Pitanga 10 1,5 2 3
Psidium sp – Araçá 10 1,5 3 3
Calliandra sp – 3 1,0 1 1
Bauhinia monandra – Unha-de-vaca 5 2,5 2 2 <= 2 =>
Byrsonima intermedia – Mata-rato 4 2,0 1 1
Annona dioica – Araticum-rasteiro 8 1,5 1 3
Campomanesia guabiraba – Gabiroba 12 1,5 2 2
Tibouchina stenocarpa – Quaresmeira 3 2,5 2 1
Matayba sp – Peito-de-pomba 5 2,0 1 1
Subarbustivo:
Ausência deste estrato
Herbáceo-rasteiro:
Adiantum curvatum – Samambaia-do-
30 0,3 2 3
mato
Aristolochia sp – Papo-de-peru; Mil
5 Cipó + +
homens
Echinolaena inflexa – Grama-do-campo 80 0,3 4 5 <= 2 =>

Smilax sp – Cipó-japecanga 5 Cipó + +


Bromelia antiacantha – Gravatá 20 0,3 2 3
Lippia lupulina – Hortelã-do-campo 5 0,7 + 1
FATORES BIOGEOGRÁFICOS
Humus: camada descontínua e pouco espessa de folhas secas em decomposição; presença de raízes
secundárias sub-superficialmente.
Declividade:
Altitude: 310 metros Exposição: N-NW

Clima: Tropical com duas estações (seca/chuvosa) bem definidas.
Microclima: relativamente úmido, dada a proximidade do curso d’água (Córrego Três Barras). No entanto,
o solo arenoso e permeável deve refletir umidade edáfica baixa, no período de estiagem (maio-setembro).
Rocha-Mãe: Arenito Caiuá – capeado por latossolo amarelado
Erosão: praticamente ausente nessa área de vertente. Contudo, as margens dos cursos d’água apresentam-
se bastante erodidas por dois motivos: solos hidromorfizados e pisoteio do gado. Há uma preocupação
positiva das autoridades e, inclusive, alguns programas bem monitorados para controle dessas erosões,
62 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

localizadas mas de forte impacto.


Ação Antrópica: A vegetação da raia sul mato-grossense apresenta-se bastante parcelada, ora com
predomínio de vegetação de floresta, ora com predomínio de cerrado e cerradão. As áreas de cerrado são,
preferencialmente ocupadas com pastagens artificiais que sustentam um rebanho de gado nelore (corte e
recria) de qualidade bastante satisfatória.

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Dinâmica do Conjunto: A evolução da cobertura vegetal, conforme mostra as imagens LANDSAT TM de
1986 e 1999, revelam que há uma forte pressão sobre as áreas “preservadas” para efeito de formação de
pastagens e/ou de culturas: mandioca, milho, soja... Do ponto de vista da dinâmica paisagística observa-se
equilíbrio biostásico – mesmo nas áreas de pastagens artificiais – ; contudo, é preocupante o alto nível de
lesionamento (erosão dos terraços fluviais) em claro processo resistásico, felizmente, ainda, restrito aos fundos
de vale. A presença da Cesp e, claro, a preocupação com o equilíbrio hídrico regional dará, certamente, uma
resposta positiva com a implantação de projetos de monitoramento de microbacias.

Figura 9 – Ficha biogeográfica resultante do levantamento fitossociológico efetuado


na microbacia do Córrego Três Barras/MS

A partir da década de 1980 houve uma importante aceleração no ritmo da cons-


trução paisagística notadamente na porção Sul-Mato-Grossense. As transformações
que a região conheceu deram uma nova fisionomia à paisagem. Comparando-se os
dados constantes das cartas topográficas da década de 1970 com a imagem de saté-
lite de 1986 (Figura 10), verificamos uma grande diferença no nível fisionômico da
paisagem, traduzida por uma grande abertura de novas áreas para a implantação da
atividade agropastoril. A Figura 11 destaca os 4 eixos de pressão para o interior da
área, identificados na época (1986).
O Sudeste Sul-Mato-Grossense conheceu uma ocupação efetiva mais tardia, que
se deu basicamente pela travessia do rio Paraná, feita por paulistas e paranaenses, após
a década de 1940, com o que se poderia denominar “avanço da fronteira agrícola”. Na
época, dava-se início, também, à penetração dos sulistas (paranaenses, catarinenses e
gaúchos) em direção à região Centro-Oeste que, no Estado de Mato Grosso do Sul,
preferiram as “terras basálticas” da região de Dourados, mais propícias para os fins
agrícolas e de fertilidade e manejo já conhecidos pelos ocupantes em suas regiões de
origem. A baixa fertilidade das “terras areníticas” da porção Sudeste do Estado (área
de estudo), desinteressava qualquer frente de ocupação em busca da produção de
grãos e, portanto, continuou confinada ao desuso ou ao uso com pastagens extensivas
e alguns pequenos núcleos agrícolas, nas proximidades das pequenas vilas ou cidades
(Bataguassu, Anaurilândia, Bataiporã, Nova Andradina).
63 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Figura 10 – Uso da terra, da raia divisória SP-MS, em 1986.

A ocupação mais marcante na porção centro-sul do Mato Grosso do Sul7 se deu a par-
tir da década de 1940, ainda no Governo de Getúlio Vargas, com o projeto “Marcha para
o Oeste”, quando foi criada a Colônia Agrícola Federal de Dourados. Dois tipos diferentes
de ocupação podem ser distinguidos nessa região, os quais criaram paisagens igualmente
diferenciadas: o setor oeste, nas circunvizinhanças de Dourados, de grandes propriedades
destinadas à agricultura capitalista e outro, marcado pela agricultura algodoeira desen-
volvida em médias propriedades, nos arredores de Deodápolis, Fátima do Sul, Glória de
Dourados e outras pequenas cidades do setor leste. A estagnação econômica nos anos 1970
e as sucessivas crises na produção acabaram levando este segundo setor à decadência, dian-
te da falta de alternativas e recursos para diversificar a produção. A consequência imediata
disso foi um rápido processo de anexação por compra/venda de boa parte das pequenas
propriedades, gerando novas grandes propriedades8, como já se observava no setor oeste,
que passaram a ter a pecuária como atividade principal. Contudo, as impressões da ocupa-
64 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

ção original ficaram registradas na paisagem, uma vez que, mesmo com o desaparecimento

7
Na época, ainda era Estado de Mato Grosso. A divisão de Mato Grosso e a criação do Estado de Mato
Grosso do Sul se deu em 1977, com sua implantação em 1979.
8
É interessante destacar que algumas propriedades chegam a possuir um conjunto de escrituras, fruto da
anexação de diversas pequenas propriedades.

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de muitas cercas, as marcas do parcelar podem ainda ser percebidas. Outros elementos,
como a presença de pomares, poços d’água, casas abandonadas etc., testemunham da
mesma forma o passado do território.
Como verificamos, desde o princípio esse processo de ocupação incentivado pela
“Marcha para o Oeste” não contemplou a zona ora em estudo, o que a deixou margina-
lizada, fora do processo de desenvolvimento. Na década de 1970, percebia-se uma ocu-
pação efetiva apenas da faixa que bordeja a planície de inundação do rio Paraná, feita
pelos paulistas que se interessaram pelas pastagens naturais (gramíneas) ali presentes e
decidiram cruzar o rio e investir na atividade pastoril. Não obstante, àquela época, já se
podia observar pelo menos três frentes de pressão para o interior dessa área: Frente 1 – os
paulistas avançando numa faixa no sentido noroeste-sudoeste ao longo do rio Paraná e
pressionando em direção ao interior da área, adentrando pelos vales dos rios e ribeirões;
Frente 2 – os paranaenses, entrando pelo vale do rio Ivinhema, vindo de sul para o norte
e penetrando para o interior; Frente 3 – a frente criada pelos projetos da “Marcha para o
Oeste” da região de Deodápolis, Fátima do Sul, Glória de Dourados etc., pressionando do
oeste para o leste.
A criação e/ou a melhoria de vias de comunicação é um dos primeiros atrativos a in-
centivar a ocupação de uma região. Regra geral, o adensamento de vias de comunicação se
dá simultaneamente ao processo de ocupação. Nesses termos, a partir da década de 1980,
percebemos, nitidamente, o aparecimento de uma nova frente de avanço, criada pela fa-
cilidade de acesso proporcionada pelas melhorias na BR-267, rodovia que liga o Estado
de São Paulo a Campo Grande, cortando a área no sentido Leste-Oeste, em sua porção
norte (Frente 4). Assim, o que se vislumbra nessas últimas décadas são quatro frentes de
pressão que trouxeram grandes mudanças nas paisagens da zona destacada (Figura 11). Os
pequenos centros urbanos da região atuaram, igualmente, como pontos que irradiavam
a ocupação de seus entornos. Além das melhorias nas condições de acesso pela BR-267,
muitas outras vias secundárias foram criadas cruzando o interior da área em diversos sen-
tidos, funcionando como novos incentivos para a ocupação de novas áreas. Assim, no
caso da área em pauta, os eixos de penetração estiveram ligados às vias de comunicação e,
também, aos vales dos ribeirões principais.
Nesse mesmo contexto, a partir da década de 1980, entraram em cena outros agentes
que exerceram papéis importantes no incentivo à ocupação da área. A chegada da CESP
65 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

veio criar novas dinâmicas no âmbito regional, seja, de um lado, o incentivo à ocupação de
novas áreas diante da iminência de porções a serem “perdidas” com a formação do reserva-
tório da UHE de Porto Primavera, seja de outro lado, a desvalorização das terras motivadas
pelas incertezas com relação às indenizações. À medida que a situação ficou “mais clara”,
os comportamentos mudaram consideravelmente.

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Figura 11. Frentes de avanço da ocupação para o interior
da porção sul-mato-grossense da Raia Divisória (1986).

A Cesp e as obras compensatórias e mitigatórias

Frente ao conjunto de impactos negativos, causados no contexto regional pela im-


plantação dos projetos hidroenergéticos, a CESP e toda empresa, enquanto empreen-
dedora, torna-se obrigada a minimizar e mitigar ao máximo esses efeitos, perante o
ambiente e a sociedade.
A CESP, considerada uma das mais importantes empresas do setor, no Brasil, com
sua experiência e tecnologia reconhecidas mundialmente, tem, ao longo do tempo,
procurado neutralizar, minimizar ou mitigar os efeitos negativos ao meio ambiente e
à sociedade, causados pelos grandes reservatórios. Ao mesmo tempo, tem estimulado o
aproveitamento múltiplo das novas condições paisagísticas criadas com seus empreen-
dimentos, voltando-os para o desenvolvimento de novas atividades como navegação,
irrigação, turismo, recreação etc., na região afetada.
66 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Podemos resumir em duas as formas de solucionar ou amenizar os danos e as perdas


inseridos no meio ambiente e na sociedade por um empreendimento como uma usina
hidrelétrica: as obras compensatórias e as obras mitigatórias.
Uma das formas mais comuns de buscarmos um balanceamento entre o desastre
e sua contrapartida é a realização de obras compensatórias, voltadas para a sociedade,

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em forma de benefícios, mesmo que estas não estejam diretamente ligadas ao proble-
ma causado propriamente dito, isto é, podemos, em troca da inundação de uma área
de importância econômica para o município, construir uma estrada que facilite a cir-
culação e o deslocamento na região, ainda que esta não venha beneficiar diretamente
o grupo atingido.
No caso específico de Porto Primavera, a CESP – via acordos e negociações com os
municípios afetados –, construiu uma série de obras compensatórias – genericamente,
de cunho social –, beneficiando, destacadamente, o lado mais atingido, isto é, o Estado
de Mato Grosso do Sul.
Todo o conjunto de obras compensatórias e mitigatórias e as ações da CESP que
vieram agregadas à construção da UHE, serviram de estímulo à reativação econômica da
porção do Estado de Mato Grosso do Sul. As terras, a princípio desvalorizadas, conhece-
ram uma supervalorização por toda a região. A CESP constituiu, de fato, um importante
agente na transformação e na construção da paisagem9 regional.
Juntamente com a implantação da UHE de Porto Primavera, a região conheceu ou-
tros acontecimentos que contribuíram, em maiores ou menores medidas para uma im-
portante transformação na paisagem regional, criando na região uma nova fisionomia,
assim como novas potencialidades de desenvolvimento socioeconômico. Entre os acon-
tecimentos mais marcantes, pode-se citar o papel exercido pelo Movimento dos Sem-
Terra (MST), que desde 1980 tem lutado por uma transformação na estrutura agrária
do Pontal do Paranapanema paulista, através da implantação de assentamentos rurais;
a implantação da UHE de Rosana, no rio Paranapanema, de porte muito inferior em
relação a Porto Primavera, mas, proporcionalmente, com os mesmos efeitos clássicos; e
a efetivação da Hidrovia Tietê-Paraná que trouxe uma nova oportunidade de ligação da
região com outras áreas.
As transformações conhecidas pela região da Raia Divisória de SP-MS, motivadas
pela implantação da UHE de Porto Primavera, não foram, obviamente, as mesmas e
nem tiveram as mesmas intensidades em cada uma das duas porções. Em termos am-
bientais, a porção sul-mato-grossense sofreu os maiores impactos; a porção paulista des-
taca-se por uma maior evidência de efeitos no nível socioeconômico.
A outra via centra-se nas obras necessárias para mitigar ou minimizar os efeitos do
empreendimento. Nesse caso, refere-se àquelas obras que devem ser feitas, refeitas e/ou
67 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

9
Utilizar-se-á a terminologia “construção da paisagem”, tendo como princípio a noção de paisagem como o
resultado de uma construção histórica da sociedade. No caso específico da área estudada, essa concepção do
termo é ainda mais reveladora, visto a construção da paisagem ter se dado sobre grandes extensões ainda em
condições originais, o que denota a construção de uma paisagem antrópica recente.

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relocadas, as quais não podem ser negociadas por outro tipo de operação, que venha
compensar as perdas e os danos engendrados.
Porto Primavera foi concebida para abrigar 18 turbinas de 103 MW cada uma, o
que soma uma capacidade de produção energética superior a 1.800MW, no seu total
funcionamento. A obra é constituída por uma barragem de 11.380 m de comprimento,
localizada a 28 km ao norte da confluência do rio Paranapanema com o rio Paraná. Seu
reservatório criou uma zona inundável de 2.250 km2, com uma extensão de 250 km, até
o local da usina hidrelétrica de Jupiá. Devido a suave declividade da margem direita, o
lago se apresenta bastante largo e com uma imensa lâmina de água de pequena profun-
didade. Em algumas partes sua largura chega a atingir 21 km.
Por esses dados técnicos, podemos constatar que a usina hidrelétrica de Porto
Primavera é um megaprojeto de custos bastantes elevados para o ambiente e para a
sociedade. Mato Grosso do Sul, o Estado mais atingido pelos impactos, perdeu espaços
explorados especialmente pelas grandes propriedades de pecuária do tipo extensiva. A
inundação atingiu, igualmente, importantes espaços agrícolas e jazidas de argila expor-
tadas pelas indústrias de cerâmica da região.
O Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) são documentos realiza-
dos antes das construção de grandes obras. No presente caso, esses estudos começaram
a ser elaborados seis anos após o início da edificação da barragem, o que é bem tardio,
mas explicado pelo fato de na época não haver ainda uma lei ambiental que obrigasse a
realização dos mesmos. Mesmo assim, os estudos documentaram preciosas informações
sobre os impactos previstos no contexto socioambiental regional. Ainda que a relação
custo-benefício não tenha tido um balanço positivo, de fato, as obras haviam começado
e prosseguiram.
Para tentar compensar os prejuízos, os proprietários rurais ou urbanos diretamente
atingidos pela inundação são indenizados pela perda de todo ou parte de seus bens.
Entretanto, os municípios enquanto entidades administrativas recebem, igualmente,
uma compensação financeira por parte da CESP. Estes passam, então, a receber royal-
ties, proporcionalmente à superfície perdida, o que vem a contribuir sensivelmente para
dinamizar suas atividades econômicas. Por vezes, o montante recebido é superior às
perdas avaliadas ou a riqueza potencial das áreas inundadas. Além disso, muitos outros
equipamentos sociais foram construídos ou reconstruídos: centros comunitários, áreas
68 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

de lazer, reforma e ampliação de hospitais e escolas, asfaltamento de estradas, criação de


parque ecológico etc.
Uma obra desse tipo tende também a acarretar metamorfoses no contexto da
ocupação da região, seja pelas transformações infraestruturais, seja pelas obras
complementares que permitiram um estreitamento de relações entre os Estados

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de São Paulo e de Mato Grosso do Sul e, em menor escala, com o Estado do
Paraná.

As imagens Landsat TM de 1986 e 2001

As duas imagens de satélite utilizadas para efetuar os estudos cobrem uma superfície
de 110 X 114 km, perfazendo uma área total de 12.540 km2. Todavia, devido ao grande
comprimento do reservatório da usina hidrelétrica de Porto Primavera, elas compreendem
apenas a porção inferior e média do mesmo. Entretanto, é o suficiente para avaliar a mag-
nitude das transformações aportadas pela obra ao espaço regional.
A análise das imagens mostra que muita coisa mudou na paisagem entre o período
dos dois registros (1986 e 2001 – Figuras 12 e 13). Essas transformações estiveram,
sobretudo, ligadas ao preenchimento do reservatório, quando extensas superfícies foram
inundadas, seja da planície aluvial ou de ilhas e ilhotas, conforme demonstram as ima-
gens anteriores.

69 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 12 – Imagem Landsat TM – CC 453 – 02/08/1986.

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Figura 13 – Imagens Landsat TM – CC 453 – 05/08/2001.

As tonalidades de cinza nas imagens podem ser agrupadas, grosso modo, em três clas-
ses diferentes, segundo a ocupação do solo: a cor negra corresponde aos cursos d’água e
lagos; o cinza claro/azulado revelam as superfícies ocupadas por agricultura e pastagens; os
espaços florestais e de cerrados, aparecem em tom vermelho. A porção de floresta que res-
tou intacta (parte inferior direita das imagens) corresponde à Reserva Florestal do Morro
do Diabo, protegida por lei. Em oposição, o desaparecimento de superfícies florestadas é
bastante evidente ao longo do período, sobretudo no Estado de Mato Grosso do Sul, e de
forma menos intensa nos Estados de São Paulo e Paraná.
Comparando as duas datas, podemos perceber claramente a sensível dessimetria
entre as duas margens do rio Paraná. Após o preenchimento do reservatório, pouca
coisa mudou do lado do Estado de São Paulo, enquanto que no lado de Mato Grosso
do Sul, houve a completa inundação da planície aluvial, ainda visível na imagem de
1986. A mesma imagem mostra também um pequeno início de inundação na época,
70 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

causado pelo desvio do curso do rio por um canal mais estreito, criado para implan-
tar as obras da usina. Ademais, a imagem de 2001 (figura 13) mostra que, ao mesmo
tempo em que Porto Primavera estava em vias de construção, houve a implantação,
também pela CESP, da usina hidrelétrica de Rosana, no rio Paranapanema, o que veio
contribuir para aumentar e engendrar outras transformações na paisagem regional.

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As partes que mais sofreram com o desmatamento, aparecem na porção superior es-
querda e central das imagens. Em compensação, pode-se verificar que as florestas-galerias,
que acompanham os cursos d’água, em sua maioria, restaram conservadas.
Ademais, os ribeirinhos e ilhéus que viviam nas zonas ocupadas pelas águas foram
obrigados a se deslocar para outros lugares e, às vezes, obrigados também a mudar de
atividade econômica, o que provoca um sério problema cultural. Nesse caso, os empreen-
dedores da obra são também obrigados a indenizá-los financeiramente ou a criarem espa-
ços convenientes para realocá-los, sejam rurais – materializado sobretudo sob a forma de
assentamentos – ou urbanos – como o exemplo da vila de Nova Porto XV que foi recriada
justamente na nova margem do rio Paraná, a fim de realocar num ambiente parecido, os
pescadores da antiga Porto XV, hoje debaixo d’água.

Impactos Ambientais motivados pelo preenchimento do reservatório


da UHE de Porto Primavera

Da leitura e análise dos volumosos exemplares do Relatório de Impacto Ambiental


(RIMA) da UHE de Porto Primavera, constatamos, inicialmente, dois aspectos: (a)
trata-se de uma peça de caráter eminentemente burocrático, cujo conteúdo de expli-
citação do diagnóstico socioambiental apresenta inúmeros conflitos, quando confron-
tados com a realidade; (b) a prognose, em que se encontram as propostas de gestão
do território impactado, mais especificamente a atuação da CESP através das obras
compensatórias e mitigatórias, foi atropelada, num primeiro momento pela lentidão
do processo de construção das obras e, num segundo momento, pela aceleração da
construção dessas mesmas obras, tendo em vista a superação da crise energética brasi-
leira que atingiu o país e a sociedade ao longo de todo o período de estiagem do ano
de 2001 (abril-outubro).
O período de construção da UHE de Porto Primavera (1980-1999) está caracterizado
por significativas mudanças conjunturais e estruturais do Estado Brasileiro, notadamente
o aumento da dependência ao capital estrangeiro. No sentido de expormos, de forma didá-
tica, esse caráter da economia e do modelo de desenvolvimento brasileiros, transcrevemos
parte do artigo de Célia Chaim, publicado no Caderno Especial da Folha de São Paulo de
20 de maio de 2001, p. A5:
71 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

O velho modelo energético das grandes estatais morreu asfixiado pela falta de
investimentos, contidos para reduzir o déficit público (os investimentos em estatais
entravam nas contas do governo) e garantir um bom boletim para o país apresentar
ao FMI (Fundo Monetário Internacional).

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Morreu também pela utilização política, um dos muitos problemas que geraram
sua ineficiência, diz o professor Maurício Tolmasquim, da Coordenação dos Programas
de Pós-Graduação em Energia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E
morreu afogado pelo excesso cometido na concessão de subsídios às empresas chamadas
de eletrointensivas, ou seja, as grandes empresas que utilizam energia com intensidade.
Só nos projetos de alumínio da Albrás, da Alumar e da Camargo Corrêa Metais,
a Eletrobrás divulgou dados em 1989 que envolviam subsídios em torno de US$ 1,1
bilhão pelo prazo fixado na época em 20 anos. As chamadas empresas eletrointensivas
– grandes multinacionais como a americana Alcoa e grandes grupos nacionais como
a Votorantim – sempre pagaram pela energia um preço abaixo do custo, algo entre
US$ 10 por MWh e US$ 20 por MWh, enquanto o custo de geração de Tucuruí, por
exemplo, era de US$ 38 MWh, causando a perda de centenas de milhões de dólares.
................................................................................................................
Para os especialistas, essa é uma crise anunciada desde os anos 1980, quando
as fontes de financiamento do setor secaram, as obras – carregadas de sobre custos
pelas empreiteiras – foram paralisadas. Só a usina de Tucuruí, prevista para envolver
investimentos de US$ 500 por kW, custou quatro vezes mais.

Em relação ao processo de construção da UHE de Porto Primavera, caracterizado pela


sucessão de períodos de aceleração e de desaceleração das obras, o que, inegavelmente,
interfere de forma negativa nos impactos ambientais, vamos nos valer do conflito entre o
dispositivo legal (Rima) e a realidade observada in locus (Fotografia 2).
72 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Fotografia 2 – Apesar do longo período, entre o início das obras e o enchimento do reservatório da UHE de Porto
Primavera, uma grande quantidade de vegetação arbórea foi deixada dentro da cota de inundação, conforme mostra
a foto acima, tirada nas proximidades da foz do Córrego Três Barras – Anaurilândia/MS: repetição de erros, prejuí-
zos socioambientais.

iberografias42.indb 72 17/06/2022 18:00:33


O desmatamento de áreas onde irão se formar corpos d’água artificiais consiste
numa prática obrigatória por lei, a qual nem sempre é adotada ou muitas vezes é
executada em caráter parcial para melhorar a qualidade da água em regiões especi-
ficas do reservatório, evitar a formação de “paliteiros” ou facilitar o resgate da fauna
(Cesp, 1994, p. 115).

Por um esforço de síntese

No Sudoeste Paulista, a ocupação, a princípio motivada pelo avanço do café e da


ferrovia, no início do século XX, é “redefinida” a partir do uso das terras areníticas e terá
na cultura do algodão – a partir dos anos 1940 – a sua maior motivação. No extremo
Sudoeste/Pontal do Paranapanema, o caráter de apropriação ilegal das reservas florestais,
caracterizou-se por elevada agressividade, onde o desmatar foi a única forma de “legitimar”
a posse.
A ocupação do Sudeste sul-matogrossense foi uma consequência natural (osmose)
da capitalização observada nas áreas próximas e de ocupação anterior. O fato do capital
“externo” se apropriar, majoritariamente, do espaço tem um peso significativo (negativo)
na gestão do território, ainda hoje.
As desigualdades territoriais permanecem nas condições atuais. É necessário con-
siderarmos desde as características naturais herdadas até as relações sociedade-natureza
plasmadas e materializadas na paisagem.
O nosso objetivo maior foi o de entendermos os dinamismos de cada parcela e de
suas relações com os contextos socioeconômicos e políticos nacionais, até porque, são
regiões comandadas por decisões externas.
Estamos muito próximos da realidade ao afirmarmos que a raia divisória, no conjun-
to, apresenta-se como um espaço de baixa fluidez, de lentidão e opaco10.
Deixamos de lado os indicadores numéricos/estatísticos, apesar de, num primeiro
momento, termos elaborado gráficos e tabelas, a partir das informações extraídas do
BIM – Base de Informações Municipais do IBGE, 1999 – e de outras fontes. Priorizamos
a análise eco histórica.
As análises das imagens satelitares, os registros fotográficos, as observações sobre o
terreno, as entrevistas etc. se prestam melhor – acreditamos – à explicitação dos proces-
73 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

sos evolutivos do que o tratamento numérico.


Estamos, pois, assumindo uma abordagem mais qualitativa, porém mais apropriada à
compreensão do processo de construção da paisagem na raia divisória.
10
Termos emprestados de Santos, M. e M. L. Silveira: O Brasil. Território e Sociedade no início do século
XXI; capítulo XII – As diferenciações do território, p. 259.

iberografias42.indb 73 17/06/2022 18:00:33


O uso da palavra raia sugere um espaço integrado, cuja evolução contempla a partici-
pação dos agentes e dos atores no seu todo – na raia.
Não foi isso que constatamos ao longo deste estudo sobre a raia divisória São Paulo
– Mato Grosso do Sul. Talvez a única identidade – entre essas duas unidades territoriais
– esteja na ocorrência do arenito Caiuá. Os demais elementos naturais: clima e, principal-
mente, a vegetação são quase que domínios à parte.
O processo de ocupação de cada uma das parcelas se deu diferentemente: no tempo
e na forma. Essa herança ficou plasmada na paisagem atual, malgrado o curto período de
atuação dos agentes.
É possível, a partir do diagnóstico efetuado, prevermos que a infraestrutura criada
através das obras compensatórias e mitigatórias realizadas pela CESP (barragens, pontes,
estradas asfaltadas etc.) e do projeto de valorização/revalorização das terras areníticas –
Programa Fronteiras do Arenito –, mise en valeur pela Cocamar e, ainda, da atuação de
outros agentes locais-regionais (Prefeituras Municipais, Agroindústrias de laranja, de man-
dioca, de frango etc.), dinamizem os fluxos e integre a raia.

Vale destacar que:


. a ocorrência do Arenito Bauru, no Sudoeste paulista, condicionou um modelo de
ocupação marcadamente agrícola, enquanto que, nas áreas de ocorrência do Caiuá (extre-
mo Sudoeste/Pontal do Paranapanema) predominou, desde o início, a pecuária extensiva;
. no Sudoeste paulista, na área de ocorrência do Caiuá, os vales são abertos, as águas
mais espraiada. Essa morfologia do relevo, associada à dinâmica das águas fluviais, ficou
totalmente à mercê do processo de erosão, transporte e sedimentação, interferindo na
fisiologia da paisagem, notadamente pelo assoreamento e desperenização aguda dos pe-
quenos cursos fluviais.
. no Sudoeste paulista, as áreas de relevo mais rugoso (topos) estão estreitamente rela-
cionadas à ocorrência do arenito Bauru carbonatado. Os primeiros pioneiros – menos pre-
parados tecnicamente e economicamente – ocuparam essas áreas mais elevadas, autênticas
“bocas-do-sertão”11, resultando no caráter muito agressivo de lesionamento da paisagem;
. o Sudeste Sul mato-grossense apresenta uma estrutura diversa e própria: era uma
ampla planície de inundação do alto curso do rio Paraná que foi totalmente inundada
pelo lago formado para atender à Usina Hidroelétrica Engenheiro Sérgio Motta/Porto
74 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Primavera, conforme está demonstrado a partir das fotos e das imagens Landsat TM de

11
No atual município de Mirante do Paranapanema, o povoamento “efetivo” deu-se a partir da chegada de
cerca de 40 imigrantes (tchecos e húngaros), em 1926, que desmataram a machado, construíram as mora-
das, desenvolveram uma agricultura de subsistência e viveram em total isolamento até a chegada da frente
pioneira que subsistiu na euforia das boas colheitas de algodão.

iberografias42.indb 74 17/06/2022 18:00:33


1986 e 2001. Enquanto que a planície de inundação, revestida de gramíneas e de pastagens
naturais, permitiu o desenvolvimento de uma pecuária extensiva – com baixa capacidade
de criar empregos – , as baixas e médias vertentes estavam revestidas por um complexo
mosaico florístico: cerrado, cerradão, mata tropical e significativas manchas de vegetação
xerofítica de difícil cartografia.
A evolução do uso do solo, determinante para o padrão paisagístico atual, deu-se den-
tro de contextos inteiramente diversos.
No Sudoeste paulista, a frente pioneira que chegou, de forma mais agressiva, no início
dos anos 40 do século passado, produziu – em consonância com os anos da Segunda Grande
Guerra – , hortelã e algodão e, mais tarde (início dos anos 1950), foi contemplado com a che-
gada das indústrias beneficiadoras de algodão. Essas mesmas indústrias paralisaram as atividades
pouco tempo depois (início dos anos 1960), após terem motivado a eliminação da mata tropi-
cal. A partir desse momento, observou-se a desagregação da economia local e do mundo rural.
Iniciou-se a pecuarização e, paralelamente, o processo de desterritorialização mais
estúpido por nós observado: os cemitérios dos antigos bairros rurais estão encobertos
pelo capim, o gado pisoteia e pasta neles e, pior, a geração atual não tem a menor sen-
sibilidade em relação a essa realidade, conforme constatamos a partir de entrevistas. É
importante lembrar que, aqui, os plantadores de algodão sobreviveram como meeiros e
arrendatários, marcadamente.
Portanto, o plantio de algodão e a utilização de mão-de-obra para desmatar e formar
as pastagens já estavam inseridos na mentalidade dos médios e grandes proprietários rurais
da região que tinham como ambição maior a pecuária – o ser fazendeiro.
No Sudeste Sul mato-grossense, a ocupação deu-se numa base externa, ou seja, a capita-
lização das regiões Oeste de São Paulo e Norte-Noroeste do Paraná; isso permitiu que muitos
fazendeiros aí residentes comprassem as terras de várzeas e de cerrados e expandissem as suas
atividades pecuaristas para esse espaço da raia. Observamos que, uma “frente” de investidores
paranaenses deslocou-se de leste para oeste e foram se estabelecendo – como plantadores de
café e de soja (em pequena escala) ou de criadores de gado, estes últimos em maioria.
Até porque se tinha uma concepção, até então, de que as terras de cerrado não seriam
propícias à agricultura e, claro, porque o varjão (planície de inundação) era, em última
análise, um pasto natural. Os fazendeiros paulistas de Presidente Prudente, Presidente
Venceslau, Presidente Epitácio, Araçatuba e de outras cidades entraram no sentido inverso,
75 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

de oeste para leste, aproveitando-se do corredor “natural” de entrada para a região Centro-
Oeste, ou seja, a rodovia asfaltada.
Essas duas frentes encontraram-se à altura da atual barragem da UHE Eng. Sérgio
Motta. Em relação às mudanças mais recentes, as duas unidades da raia apresentam, uma
vez mais, uma evolução distinta:

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O Sudoeste Paulista:

. a paralisação das obras da CESP (hidroelétricas), associada às questões locais (contes-


tação dos títulos de posse das grandes propriedades rurais) e nacionais (abertura política/
governo Franco Montoro), desencadeiam o surgimento do MST (Movimento dos Sem
Terra) na região, que mais tarde ganha repercussão internacional;
. a implantação da Destilaria Alcídia, no contexto do primeiro choque da crise do
petróleo, não foi suficiente para uma retomada do desenvolvimento local-regional; ape-
sar dos significativos assentamentos rurais, observa-se, na paisagem, marcas concretas da
desterritorialização (estradas vicinais abandonadas e/ou destruídas pela erosão, cemitérios
abandonados, bairros rurais totalmente extintos).

No Sudeste Sul Mato-Grossense:

. o preenchimento do reservatório da UHE de Porto Primavera e os efeitos das respec-


tivas obras compensatórias e mitigatórias motivam, num primeiro momento, uma dinâ-
mica positiva (assentamentos rurais, reurbanização, abertura e asfaltamento de rodovias,
construção de áreas de lazer etc.); no entanto, a posse da terra está sob o controle dos
grandes proprietários que muito pouco contribuem para a economia local;
. os royalties da Cesp darão condições (e, talvez, acomodações) aos municípios atin-
gidos pelos reservatórios. Esta parcela da raia, certamente, manterá o modelo da grande
propriedade com pecuária extensiva e os investimentos em infraestrutura turística serão
totalmente de controle externo, pois ela é carente de agentes locais.
Enfim, a raia foi, é e continuará a ser uma região controlada por agentes externos.

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76 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Restauração Ecológica em propriedade
rural na Área de Proteção Ambiental do
Córrego Timburi, Município de Presidente
Prudente-SP

Thais Helena Gonçalves1

Introdução

Compreende-se que a interação homem-natureza, demanda cada vez mais matéria


prima e extração dos recursos naturais para o aumento da produtividade. A partir do
crescente populacional, o avanço tecnológico propiciou mais atividades exploratórias, que
interferiram de maneira significativa no equilíbrio ecológico.
No estado de São Paulo a ocupação aconteceu a partir da criação de linhas ferroviárias.
Com a construção da estrada de ferro Alta Sorocabana no século XX, cidades foram sendo
construídas ao redor. Pelo interesse em terras devolutas e a alta do plantio e consumo de
café, o crescimento do cultivo nas terras desta porção do Oeste Paulista sofreram com o
uso e ocupação do solo.
Entende-se, portanto, que seja no campo ou na cidade, as ações humanas e seus diferen-
tes usos da terra, apresentam impactos negativos para fauna e flora. No Brasil, as atividades
no âmbito rural, destacam-se pela problemática do desmatamento em áreas de preservação
permanente. Seus efeitos têm forte influência na estabilização geológica, visto que a falta de
manejo e técnicas adequadas atrapalham o desenvolvimento das culturas agrícolas. 79 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

Além disso, este solo empobrecido e exposto fica suscetível a erosão e consequente-
mente o assoreamento dos cursos d’água, processos naturais, mas que são acelerados pela
ação antrópica. Isso acaba comprometendo a qualidade e a quantidade dos recursos hídri-
cos disponíveis na bacia hidrográfica e impactando não só a natureza, mas o bem-estar da
população que depende desses recursos.
É preciso, portanto, avaliar a frequência, duração e os fatores que comprometem o
ecossistema, de modo a reestabelecer o equilíbrio ecológico. Sendo assim, visando mitigar a

1
FCT-UNESP, Presidente Prudente, São Paulo, Brasil
thais.helena@unesp.br

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degradação ambiental resultante dessa exploração, bem como a proteção da biodiversidade,
propõe-se a preservação, conservação e restauração de ambientes fragmentados, a partir da
criação de áreas protegidas.
Para diminuir tais impactos, foram criadas áreas protegidas que estão amparadas pelas
leis federais e estaduais, como a lei nº 9.985 de 2000, que instituiu o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). No caso da Área de Proteção Ambiental,
esta área permite habitação humana, desde que mantenha o uso sustentável e protegendo
a biodiversidade, e recuperando as áreas de preservação permanentes.
Conforme a legislação do estado de São Paulo, pela resolução SMA nº 32 de 2014, que
estabelece diretrizes para a restauração ecológica em áreas degradadas, levando em consideração
o equilíbrio e integridade ecológica, tem-se parâmetros que a curto e longo prazo trazem bene-
fícios para recomposição de vegetação nativa, de modo que chegue próximo ao estágio original.
Estes tipos de técnicas visam facilitar o processo de sucessão ecológica de determinada
área, para que esta se torne autossustentável ao longo dos anos. O projeto de restauração
ecológica respeita o planejamento, execução e também o monitoramento que é fundamen-
tal para acompanhar o avanço das espécies e o êxito das ações.
Neste trabalho, será considerada a Área de Proteção Ambiental Timburi, localizada
geograficamente no Município de Presidente Prudente, estado de São Paulo, tendo as
coordenadas aproximadas de 22°00’00”S e 51°22’00”O. A cobertura vegetal nativa predo-
minante de Floresta Estacional Semidecidual, do Bioma Mata Atlântica.
Conforme Nunes et al (2020), a APA tem uma área total 4.608,2 hectares, com o pre-
domínio de pastagem para o gado bovino, com processos erosivos que ocorrem na maioria
das vezes nas cabeceiras de drenagem, em forma de anfiteatro e também nos terraços e
planícies aluviais, com uma rede de drenagem que apresenta 118, 89 km de extensão.
Sua economia é baseada principalmente na agricultura de pequenas hortaliças, como
frutas e verduras e pecuária de corte e leiteira, para venda e subsistência das famílias.
Segundo Donaton (2013), há aproximadamente 82 proprietários rurais, considerando o
80 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

Bairro do Timburi e o Bairro 1º de Maio. Por sua vez, essa ocupação gerou diversas alte-
rações ambientais ao longo dos anos com pontos de alta vulnerabilidade que precisam de
manejo e conservação dos solos adequados.
A Área de Proteção Ambiental Timburi (APA) tem este nome por estar inserida na Bacia
Hidrográfica do Córrego Timburi, que é afluente do Córrego da Onça, que é afluente do rio do
Peixe. Por isso, faz parte da Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos 21 (UGRHI-21),
que tem como órgão responsável o Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Aguapeí e Peixe.
Tendo como foco principal o recorte de uma propriedade rural, escolhida estratégicamen-
te por ser uma área prioritária com necessidade de recomposição florestal, foi feito um levan-
tamento dos fatores de perturbação e análise das melhores técnicas para restauração ecológica.

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Figura 1 – Localização Geográfica da Área de Proteção Ambiental Timburi

81 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural


A restauração ecológica, constitui-se de diversas etapas para a obtenção de resultados
que estão ligados ao reconhecimento prévio da área e trabalhos de campo para avaliação.
Dentre estas etapas, podemos destacar: estudo prévio sobre a área de estudo, como os tipos
de solo, relevo, clima; identificação de problemas e análise dos fatores de perturbação para
isolamento destes; estabilização do solo e contenção de erosões com técnicas adequadas;
tipos de vegetação, presença de plantas invasoras, execução do projeto e monitoramento.
Para tanto, foi necessária a produção de mapas de uso e cobertura em áreas de preser-
vação permanente por meio da interpretação das informações, cruzando as informações
de imagens de satélite e visitas a área de estudo para confirmação. Os mapas apresentam o
recorte da APA do Timburi com enfoque na propriedade rural escolhida.

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Os resultados aqui apresentados são parte de um trabalho de conclusão de curso para
obtenção do título de bacharelado em Geografia, concluído no ano de 2021 pela autora,
intitulada: Áreas De Preservação Permanente Fluviais Na Área De Proteção Ambiental Do
Córrego Timburi, Município DePresidente Prudente-SP.

Procedimentos Metodológicos

Para o levantamento inicial da área, esta pesquisa priorizou o trabalho de gabinete com o
apoio de revisão bibliográfica de temas afins, os aspectos físicos-naturais, como o clima, tipo
de solo, e uso e cobertura da terra na extensão da Área de Proteção Ambiental do Timburi.
Buscou-se também realizar uma análise da legislação federal e estadual e resoluções pertinen-
tes a temática de conservação dos recursos naturais, meio ambiente e restauração ecológica, bem
como teses e dissertações, em plataformas como o repositório da Unesp e o Google Acadêmico.
Na produção cartográfica, foram utilizadas as bases de órgãos públicos como a Agência
Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). As escalas dos mapas não foram padronizadas e por isso foram altera-
das, a fim de garantir uma melhor visualização e qualidade na apresentação dos mesmos.
O mapa de geologia elaborado em escala 1.250.000, a base cartográfica utilizada foi
o Mapa Geodiversidade do Estado de São Paulo (CPRM, 2010). Para o mapa de decli-
vidade, foram utilizadas imagens de radar da Missão Topográfica Radar Shuttle (SRTM/
NASA, 2000), elaborado em escala 1.100.000.
No mapa de uso e cobertura da terra em APP, (escala 1.50.000), foram utilizadas as
imagens de satélite da série LANDSAT versão 8, com resolução espacial de 30 metros e
radiométrica de 16 bits, adquiridasa partir da plataforma Earth Explorer. Após a seleção das
cenas, foi feito o mosaico das imagens a partir da opção ‘mosaic to new raster’ do ArcGis. Já
para a classificação de uso e cobertura, foi utilizado o Manual Técnico de Uso da Terra IBGE
(2018) e no que se refere a elaboração dos mapas analisados, o software ArcGis, versão 10.3.
82 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

A partir disto, foram analisadas as áreas mais vulneráveis para a escolha da propriedade. Para
o mapa de localização da propriedade (escala 1.100.000) e área de preservação permanente na
APA (escala 1.50.000), foram utilizadas as bases cartográficas do IBGE (2017) e ANA (2018).
As Áreas de Preservação Permanente com remanescentes de vegetação foram identificadas
por meio de interpretação de imagem de satélite do dia 25/03/2020. A escala utilizada para
o mapa de Área de Preservação Permanente a ser restaurada na propriedade foi de 1.10.000.
Para a realização do cálculo de área total da APP na propriedade, foi feita a medição a partir
do buffer produzido pelo software ArcGis conforme a legislação a Lei 12.651/2012 do Novo
Código Florestal Brasileiro, quanto a delimitação das áreas a serem restauradas. Na medição
linear da metragem de cerca, utilizou-se uma imagem do Google Earth em formato KML.

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A proposta de restauração ecológica na propriedade rural com APP degradada, assim
como a escolha de técnica adequada, foi proposta de acordo com o mapeamento, análise
dos dados coletados e trabalhos de campo realizados na área. Ela segue de acordo com a
Lei Federal nº12.651/2012, a Resolução da Secretaria do Meio Ambiente, nº 32, de 03
de abril de 2014 e portaria da Coordenadoria Brasileira de Recursos Naturais nº 01/2015,
que estabelecem as orientações, diretrizes e critérios sobre restauração ecológica no Brasil
e no Estado de São Paulo, e monitoramento dos projetos.

Resultados e Discussões

Por ser uma área recentemente estabelecida por lei como Área de Proteção Ambiental,
não há um vasto acervo de estudos e mapeamentos. Fez-se necessário utilizar de bibliogra-
fias sobre o Oeste Paulista e materiais atualizados pelo projeto FAPESP (nº 2019/12164-4)
A APA do Timburi localiza-se na Bacia Sedimentar do Paraná. Segundo o Comitê das
Bacias Hidrográficas dos Rios Aguapeí e Peixe, 1997, há afloramento de arenitos da forma-
ção geológica Adamantina do Grupo Bauru, pertencente a Formação Serra Geral (K1Bsg)
do Grupo São Bento. A predominância é da Formação Vale do Rio do Peixe (K2vp) e
Formação Presidente Prudente (K2pp) (Mapa 1).

83 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

Mapa 1 – Área de Proteção Ambiental Timburi- Geologia

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Quanto a geomorfologia, a APA está situada no Planalto Ocidental Paulista, com um
relevo ondulado levemente, de domínio de Colinas Dissecadas e Morros Baixos (R4a2),
com uma amplitude topográfica que varia de 30a 80 metros conforme Gonçalves (2021).
Já o clima local, segundo Boin (2000) o Oeste Paulista tem um verão chuvoso, pois loca-
liza-se em uma área de transição climática do tipo tropical.
Nunes e Fushimi (2010), caracterizam os tipos de solo como Argissolos Vermelho-
Amarelo e os Neossolos Litólicos, Latossolos, Planossolos e Gleissolos. Esta característica
pedológica tem influência, pois são solos suscetíveis a erosão com moderada fragilidade
ambiental, que são aceleradas pela retirada da cobertura vegetal, pisoteio do gado e cultivos
agrícolas sem manejo. De acordo com a classificação da EMBRAPA (2006), há declives
predominantemente ondulado (entre 8 a 20%). (Mapa 2)
84 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

Mapa 2 – Área de Proteção Ambiental Timburi- Declividade

Para análise de uso e cobertura da terra, foi utilizada uma imagem do Landsat 8 do
dia 25 de março de 2020. O mapa, apresenta as classes de uso da APA atualmente. Fica
exposto que em todo recorte há um uso intensivo. Entende-se que há diversos pontos
vulneráveis com poucos fragmentos florestais. A pastagem ainda é mais expressiva, seguida
pela agricultura em diversos pontos. (Mapa 3)

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Mapa 3 – Área de Proteção Ambiental Timburi- Uso e Cobertura da Terra

É possível observar que o solo exposto é maior que a quantidade de florestas por hec-
tare. Isto indica a necessidade de trabalhar na recuperação de áreas degradadas, visando
mitigar esses impactos e realizar um projeto de restauração ecológica que contribua para o
uso sustentável. De acordo com Gonçalves (2021), na APA Timburi, de uma área total de
4.608,2 hectares, corresponde a APP, cerca de 228, 78 hectares, cerca de 2, 17%. O uso
antrópico em APP representa 126,03 hectares. (Mapa 4)
85 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

CLASSES DE USO E COBERTURA DA TERRA

Pastagem 2.249,85 ha

Agricultura 1.612,50 ha

Solo Exposto 574,08 ha

Floresta 510,85 ha

Elaboração: A autora, 2021.

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Mapa 4 – Área de Proteção Ambiental Timburi- Uso e Cobertura da Terra em APP

Foram realizados dois trabalhos de campo para averiguação das feições apresenta-
das nos mapas. A partir disso, analisou-se uma propriedade rural como prioritária, que
já está sendo área de estudos para contenção de erosões pelo projeto desenvolvido pela
Universidade Estadual Paulista- UNESP Campus de Presidente Prudente-SP.
A propriedade tem uma extensão de 173, 82 hectares, com a coordenada central (cen-
tróide) de LAT: -21,983404 LONG: -51,376494. A atividade econômica principal a pe-
86 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

cuária de corte, com criação bovina e ovina, com um uso antrópico que sobressai ao uso
natural de aproximadamente 7,09 hectares. O valor total de APP dentro desta propriedade
é de 9,25 hectares. (Mapa 5)

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Mapa 5 – Localização Geográfica da Propriedade Rural na APA Timburi

Para iniciar o projeto de restauração ecológica, é preciso realizar o isolamento dos


fatores de perturbação. As visitas a campo mostraram que o pasto avançava as áreas de
preservação permanente para a dessedentação dos animais. Por isso, a construção de cercas
rurais é fundamental para a regeneração natural e plantio de mudas.
A compactação do solo por onde os animais transitam, leva ao empobrecimento, pois
este perde suas qualidades químicas e físicas. Isso dificulta a germinação de sementes, o
desenvolvimento das plantas, e consequentemente diminui a quantidade de matéria orgâ- 87 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

nica que interfere na fertilidade do solo. Também, reduz a infiltração de água, aumenta o
escoamento superficial no período de chuvas, e facilita a erosão.
Foi realizado o cálculo da metragem de cerca, a partir da estimativa das áreas de pre-
servação permanentes no limite da propriedade. O cálculo, portanto, priorizou a cerca
adicional, sem levar em consideração as cercas já feitas pelo proprietário nos pontos
de erosão e o perímetro da propriedade. Estimou-se a necessidade de 3.010 metros de
cerca. (Figura 2)

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Figura 2- Metragem de Cercas- Cálculo de Perímetro

As plantas invasoras podem ser um fator perturbador que atrasa e contribui negativa-
mente para o crescimento das plantas em seu habitat natural. São consideradas invasoras,
plantas exóticas que não pertencem aquele ecossistema e que são trazidas de outras locali-
dades. Elas podem tomar o espaço de plantas nativas, demandando mais nutrientes, água
e luz.
Sendo assim, é importante além do cercamento, estar atento a questão de gramíneas e
outras plantas que interfiram no desenvolvimento das mudas. Propõe-se roçadas manuais
88 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

para que não haja prejuízos no crescimento das demais. A roçada mecanizada e o uso de
plantas de cobertura também são boas alternativas. Em último caso, o menos recomen-
dando é a utilização de controle químico, visto seu impacto ambiental.
A erosão, apesar de ser um processo natural, acaba sendo intensificada pelas atividades
humanas. O uso do solo sem o devido preparo, a retirada de cobertura vegetal e o tipo de
solo com maior fragilidade e suscetibilidade, clima e topografia são fatores condicionantes.
Em períodos longos de chuva, há transporte de sedimentos que levam a perda de solo e são
levados ao leito dos rios, causando o assoreamento.
Para a contenção deste problema na propriedade, vem sendo realizado um projeto
do processo FAPESP (Nº 2019/12164-4), intitulado: “Recuperação de áreas degradadas

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da Área de Proteção Ambiental de Uso Sustentável no Timburi, município de Presidente
Prudente – SP”, monitorado por professores e alunos da Universidade Estadual Paulista.
Com a implantação de barreiras de baixo custo, feitas a partir de bambu, visa a
diminuição da velocidade da água pluvial, barrando os sedimentos e estabilizando as
erosões. Esta técnica é conhecida como ‘paliçadas de bambu’, consistindo em bambus
amarrados de modo a construir uma barreira física, podendo utilizar também pneus e
sacos de ráfia ou material similar para fazer as amarrações. Notou-se melhora nos pontos
em que esta técnica foi empregada. Até o momento, houve melhora nos tamanhos dos
focos de erosão. (Figura 3)

A Autora, 2020.
89 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

Para o êxito do projeto, é preciso fazer a manutenção, monitoramento e avaliação da


propriedade. A manutenção para conduzir a regeneração de espécies nativas, como a poda e a
roçada. O monitoramento quanto ao isolamento dos fatores de perturbação e o crescimento
das plantas, bem como a análise de bioindicadores. A avaliação, feita em meses e depois em
anos, garante que a área possa se recompor conforme os objetivos propostos inicialmente.
Quanto ao custo, o projeto em parceria com a universidade e a Secretaria de Meio
Ambiente do Município de Presidente Prudente-SP, visa de recomposição de áreas de-
gradadas a partir das mudas disponíveis no viveiro. Já o custo do cercamento, fica como
responsabilidade do proprietário.

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Considerações Finais

A partir da análise da imagem de satélite, resultando no mapa a seguir da área de pre-


servação permanente a ser restaurada, seguindo a legislação de compensação a partir da
área consolidada e também pela quantidade de módulos fiscais, entende-se que é preciso
considerar o decreto nº 6.514, de 22 julho de 2008, que modificou o código florestal e
mantém a anistia aos proprietários que aderirem ao PRA (Programa de Regularização
Ambiental). (Mapa 6)

Mapa 6 – Propriedade Rural Escolhida- Área de Preservação Permanente a ser restaurada


90 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

Considerando que a propriedade rural composta por 173, 82 hectares, do qual 9,25
hectares são de APP, sabendo que um módulo fiscal no Município de Prudente equivale a
22 hectares, a propriedade está acima de 5 módulos fiscais. Por isso, pelo seu uso antrópico
que é de cerca de 7,09 hectares, e pelo decreto citado, a área de APP a ser restaurada é de
cerca de 3,5 hectares.
Admite-se, portanto, que neste projeto a melhor técnica para restaurar ecologicamente
a área seria a de plantio por mudas, como estratégia mais efetiva neste momento. O cálculo
da quantidade estimada de mudas está de acordo com o espaçamento de 3m X 2m (1.667
mudas/ha) conforme a EMBRAPA (2020). Estimou-se o plantio de aproximadamente
5.835 (cinco mil oitocentos e trinta e cinco) mudas.

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As mudas escolhidas para o plantio direto com manejo, serão conforme a lista de
espécies indicadas para fins de restauração ecológica para as regiões do Estado de São
Paulo, pela Secretaria do Meio Ambiente (SMA,2017). A variedade e a quantidade por
espécies, dependerá da disponibilidade das mudas no horto florestal da Secretaria de Meio
Ambiente do Município de Presidente Prudente-SP.
Ademais, será seguida a legislação ambiental federal, estadual e municipal, bem como
as orientações da Coordenadoria Brasileira de Recursos Naturais CBRN nº 01/2015 e a
resolução da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo nº32 de 2014. Isso visa
a regularização ambiental, monitoramento e análise dos avanços desta área, até que as APP
possam apresentar regeneração natural e reestabelecerem o equilíbrio ecológico.
Com o processo de recuperação de áreas degradadas a partir darestauração ecológi-
ca,haverá aumento da biodiversidade e da troca de fluxo gênico entre fauna e flora. Este
trabalho demandará anos para que o ecossistema chegue próximo ao original, mas pode
dar resultados significativos se for desenvolvidas as etapas de monitoramento e avaliação
pela secretaria de meio ambiente e pelo proprietário rural.
Torna-se indispensável, continuar a elaboração de projetos como este e de trabalhos de
educação ambiental na APA, para conscientizar os moradores e estimular novas ações de
recuperação. Sendo assim, a restauração de áreas de preservação permanente serão benéfi-
cas para a bacia hidrográfica do Córrego Timburi.

Resumo
Esta pesquisa é resultado de um trabalho de graduação, realizado na Área de Proteção
Ambiental do Córrego Timburi, no Município de Presidente Prudente, estabelecida pela Lei
nº 235/2019. O estudo se utilizou da produção, interpretação de mapas, aporte legislativo e
visitas à campo, tendo em vista a compreensão dos aspectos físicos e reconhecimento dos fato-
res de perturbação. Seu objetivo foi identificar as Áreas de Preservação Permanente da Área de
91 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural
Proteção Ambiental (APA) do Timburi quanto a vegetação remanescente e propor restauração
ecológica para um trecho degradado de uma propriedade rural. As Áreas de Proteção Ambiental
foram estabelecidas e destinadas a proteção dos ecossistemas regionais, permitindo a ocupação
humana desde que seja uso sustentável. Neste estudo, foram mapeadas as Áreas de Preservação
Permanente na APA, bem como o uso e cobertura da terra nas APP, a partir das imagens de radar
da Missão Topográfica Radar Shuttle (SRTM/NASA, 2000). Gerou-se produtos cartográficos
visando a compreensão de aspectos físicos-naturais, além da análise de imagens de satélite da série
LANDSAT 8, para identificar as APP com fragmentos florestais, diagnosticando para determina-
ção do trecho como necessidade de restauração ecológica na propriedade rural. Os trabalhos de
campo foram fundamentais para a confirmação dos dados anteriormente coletados em gabinete.
Sendo assim, identificou-se a melhor técnica para restauração ecológica em uma propriedade

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rural, visando recompor a mata nativa, proteger o recurso hídrico, o solo e os demais aspectos
ambientais ali presentes.
Palavras-Chave: Área de Preservação Permanente, Restauração Ecológica, Restauração de
Ecossistemas Florestais, Área de Proteção Ambiental do Timburi.

Abstract
This research is the result of an undergraduate work carried out in the Timburi Stream
Environmental Protection Area, in the municipality of Presidente Prudente, formulated by Law No.
235/2019. The study uses the production, interpretation of maps, legislative support and field visits,
with a view to understanding the physical aspects and recognizing the disturbance factors. Its ob-
jective was identified as Permanent Preservation Areas of the Environmental Protection Area (APA)
of Timburi in terms of remaining vegetation and ecological restoration proportion for a degraded
stretch of a rural property. The Environmental Protection Areas were chosen and defined to protect
regional ecosystems, allowing human occupation as long as it is sustainable use. In this study, they
were mapped as Permanent Preservation Areas in the APA, as well as the land use and coverage in the
APP, based on radar images from the Radar Shuttle Topographic Mission (SRTM / NASA, 2000).
Qualified cartographic products were generated to understand natural aspects, in addition to the
analysis of satellite images from the LANDSAT 8 series, to identify as APP with forest fragments,
diagnosing for determination of the stretch as a need for ecological restoration in the rural property.
The field work was fundamental for confirming the previous data collected in the office. Thus, the
best technique for ecological restoration in a rural property was identified, it has to recompose the
native forest, protect the water resource, the soil and other environmental aspects present there.

Keywords: Permanent Preservation Area, Ecological Restoration, Forest Ecosystem Restoration,


Timburi Environmental Protection Area.

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93 // Património natural, injustiça ambiental e desenvolvimento rural

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Brasil: incertezas na indústria extrativa
no Amazonas

Paola Verri de Santana1

Introdução

A exploração dos recursos naturais amazonenses, caso do petróleo e gás numa articu-
lação entre Urucu-Coari-Manaus, é reveladora da necessidade de se colocar em discussão a
noção de fronteira. O objetivo deste estudo é discutir as dinâmicas socioeconômicas frente
à indústria extrativa de petróleo. Para tanto, o trabalho apresentará breves considerações
sobre as noções de fronteira, no contexto da formação territorial do Amazonas. O resul-
tado será uma bibliografia comentada, no intuito de revisar a categoria de fronteira na
atualidade, tanto do ponto de vista da produção do conhecimento como do movimento
histórico e geográfico em curso no espaço brasileiro. A caracterização espaço-temporal
da economia petrolífera da bacia sedimentar do Solimões integra uma etapa dos resul-
tados dessa investigação. Por tratar-se de um universo de grandes projetos, sem a marca
da construção de estradas, para alguns setores, o desenvolvimento da área é considerado
de baixo impacto. O espaço ocupa a base do Urucu, onde pequenos pontos no centro da
floresta articulam o apoio de cidades da região e da metrópole Manaus. O processo de
produção do espaço urbano induz e é induzido por processos de industrialização e urba-
nização inerentes à dinâmica local e global. Becker (2009) sugere revisar a hipótese sobre
a tendência ao esgotamento da região amazônica como fronteira de expansão demográfica
e econômica nacional. Em especial, quando trata da possibilidade de recrudescimento
da fronteira que funciona como uma válvula reguladora de espaço para investimentos de
95 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

agentes capitalizados, que ora se expandem, ora permanecem estáveis a depender da con-
juntura. A produção e a distribuição de óleo e gás atraíram pessoas em busca de emprego e
renda, contratando, num primeiro momento, da região. Essa questão traz à tona a pobreza

1
Universidade Federal do Amazonas – UFAM/DEGEOG/PPGEOG/NEPECAB
pvsantana@ufam.edu.br

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urbana como o retrato de um processo que passa por diferentes fases. O petróleo conti-
nua produto estratégico, mas a Petrobras desde a expansão dessa fronteira tem mudado a
política “do poço ao posto” e o Amazonas tem sentido a tendência de retirada a partir da
venda de ativos.
O estudo do petróleo e do gás no estado, na Amazonia brasileira, requer considerar
a geopolítica, ou seja, as relações de poder no espaço geográfico que liga a produção ao
consumo. O Polo Urucu, um ponto de articulação dos recursos naturais entre Urucu-
Coari-Manaus, tende a ser vendido conforme a política de desinvestimento dessa cor-
poração brasileira, reafirmada no Plano Estratégico 2021-2025 da Petrobras, aprovado
em novembro de 2020. O processo tende a ser analisado no contexto da privatização aos
pedaços, apesar da Petrobras ser uma sociedade de economia mista. Diante desse fato,
convém entender que o uso dos recursos naturais na floresta tropical, em particular, a
presença da indústria extrativa de petróleo e gás, constitui riqueza que difere daquela
própria da floresta, exemplo do açaí, da castanha, etc. O fato das instalações da indús-
tria extrativa parecerem isoladas em meio à floresta e ser considerada de baixo impacto
ambiental não significa ausência de consequências sociais e econômicas. Na realidade,
a região apresenta baixos indicadores de saúde e educação e parece revelar significativa
dependência dos recursos oriundos das chamadas receitas do petróleo. Mas é num mo-
mento em que tudo vira objeto de negociação, em particular, quando da mercantilização
da natureza dentro da Amazônia, que esse estudo se volta. O processo de retirada da
Petrobras do Amazonas não é diferente. Condicionantes e exigências a esse processo são
reguladas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP),
vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME) concebida como forma de dar papel
ao Estado quanto às práticas do “poço ao posto”. No Brasil esses elementos são baliza-
dores para a efetivação do modo de comercializar. Para a ANP a economia petrolífera
atua dentro da floresta seguindo protocolos de segurança e responsabilidade ambiental,
nesses termos, a experiência da Petrobras é tida como exitosa frente aos cuidados, em
especial, quanto à preservação da diversidade ecológica e dos povos. O processo de
exploração e produção de petróleo e gás no Urucu é considerado remoto e o sistema
de transporte do gás é considerado isolado, não obstante, haja uma estrutura para dar
funcionamento sob a influência de Manaus. A infraestrutura existente de oferta e trans-
porte de petróleo e gás natural inclui transporte fluvial e aéreo, poliduto e gasoduto
96 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

que conduzem esses recursos naturais a REMAN – Refinaria Isaac Sabbá em Manaus.
A demanda e a oferta de óleo e gás na região têm articulação predominantemente ur-
bana, onde a urbanização vem sendo crescente. Essa indústria extrativa no Polo Urucu
não corresponde à Amazônia das estradas, visto que as últimas formas foram proibidas
com restrição ao chamado efeito espinha de peixe e contenção da urbanização. De todo

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modo, os dados mostram que a cidade de Coari não passou ilesa frente à instalação desse
Polo no município cuja extensão territorial é de 57.970,768 Km2 e população estimada
em 85.910 pessoas (IBGE, 2020). A distância entre os dois pontos: Urucu e sede muni-
cipal é maior que 200 km, e a população urbana mais que duplicou de 1970 para 1991
e novamente de 1991 para 2010.
Na Amazônia ocidental, em particular, no estado do Amazonas se desenvolveu uma
estratégia industrial pontual localizada na Zona Franca de Manaus. Porém, não se definiria
como frente de fronteira móvel, como os exemplos citados por Bertha Becker (2005) em
outras porções amazônicas. A Amazônia ocidental tem a maior área de fronteira política,
povoamento e estradas pontuais. É a porção mais preservada, sendo vista como caso de
resistência à destruição da floresta, como diz Becker (2005). Essa industrialização induziu
uma urbanização no Amazonas concentrada em Manaus, não obstante a presença de cida-
des e vilas no interior. A dinâmica econômica na região passou do extrativismo tradicional
para a industrialização. “Há problemas na Zona Franca, mas hoje ela é grande produtora
não só de bens de consumo duráveis, como da indústria de duas rodas, de telefonia e
mesmo de biotecnologia” (Becker, 2005, p. 73).
O fato de Becker (2005) propor que a Amazônia tenha deixado de ser uma mera área
de expansão da fronteira móvel, uma vez que considera uma região em si, decorre de uma
nova feição da fronteira e de avanços regionais em termos econômicos, sociais e políticos.
O conflito entre desenvolvimento e proteção ambiental é comum se observado mediante
comparação entre o desenvolvimento da Amazônia Oriental e o da Ocidental. O estado do
Pará parece contrastar com o do Amazonas quando se fala de modos de promoção do de-
senvolvimento, uma mais indutora do desmatamento que a outra. A condição de fronteira
no território nacional não tem sido uniforme na Amazônia. Nesse contexto, a presença da
Petrobras parece inexistir dentro da floresta não fosse a presença ocasional de pessoal da
empresa e o pagamento dos royalties aos cofres públicos.

Motivos para incertezas quanto à produção de petróleo e gás no


Amazonas

As incertezas atuais partem de uma empresa como a Petrobras que, diante da projeção
para os próximos cinco anos, apresenta decisões de investimento e de desinvestimento,
97 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

que não necessariamente se realizarão até o prazo previsto. A expansão da E&P com foco
na camada do pré-sal e nas novas frentes fora da bacia do Sudeste são os investimentos na
margem equatorial, por vias marítimas em águas ultra-profundas. Mas o desinvestimento
é o plano de se desfazer de campos terrestres através da venda do que há no Amazonas. O
momento é crítico no sentido em que os processos de negociação, efetivação, transição e

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abandono estão em curso. A Petrobras está vendendo o sistema produtivo no Amazonas.
Na escala nacional, segundo a empresa, o Portfólio do refino pretendido é ser menor, com
mais valor, isso, para manter o foco no mercado, ou seja, na logística de aproximar o con-
sumo e a oferta de petróleo. A empresa vendeu as duas Usinas Termelétricas de Manaus da
Breitener para a Ceiba Energy LP e tende a reduzir o total de 17 no país para 10. Os dois
terminais aquaviários, no Norte do país, também deverão ser vendidos até o ano de 2025.
Dos 18 dutos registrados na região Norte, a Petrobras não pretende ficar com nenhum até
2025. A tendência do sistema produtivo prevê o descomissionamento de poços. Trata-se
de mudanças de agentes porque outras empresas passam a atuar na região. A Petrobras
(2020a) esclarece, com justificativas, sua posição na venda de refinarias e de investimentos
onde houver mais retorno. Assim expõe:

1. A Petrobras está em transformação, um movimento de mudança necessário e posi-


tivo para a companhia e a sociedade.
2. Precisamos nos concentrar naquilo que sabemos fazer de melhor. Focar todo nosso
esforço e energia naquilo que nos colocou como referência no mundo: a exploração
e produção de petróleo em águas profundas.
3. Por isso, precisamos reduzir investimentos em outras atividades, mantendo nosso
compromisso com a eficiência e a geração de valor em tudo o que fazemos.
(PETROBRAS, 2020a)

O sentido da incerteza está na construção do discurso da própria companhia, confor-


me consta no Plano Estratégico 2021-2025. Fica evidente que as ações previstas para onde
a Petrobras tem instalações envolvem agentes diversos dentre dirigentes e funcionários da
empresa, investidores, agentes reguladores, população em geral, empresas concorrentes, go-
vernantes de estados, e de municípios onde tem instalações. A advertência aos investidores é:

Estas apresentações podem conter previsões acerca de eventos futuros, Tais pre-
visões refletem apenas expectativas dos administradores da Companhia sobre condi-
ções futuras da economia, além do setor de atuação, do desempenho e dos resultados
financeiros da Companhia, dentre outros, Os termos “antecipa”, “acredita”, “espera”,
“prevê”, “pretende”, “planeja”, “projeta”, “objetiva”, “deverá”, bem como outros ter-
98 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

mos similares, visam a identificar tais previsões, as quais, evidentemente, envolvem


riscos e incertezas previstos ou não pela Companhia e, consequentemente, não são
garantias de resultados futuros da Companhia, Portanto, os resultados futuros das
operações da Companhia podem diferir das atuais expectativas, e o leitor não deve se

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basear exclusivamente nas informações aqui contidas. (PETROBRAS, 2020c, Plano
Estratégico 2021-2025)
A Petrobras está vendendo seus ativos situados no Amazonas, não só nesse estado, mas
vem rompendo com a política do poço ao posto e dos campos terrestres. O momento atual
é o de transição de operadoras na exploração e produção de petróleo e gás. As concessões
no Polo Urucu estão sendo negociadas para passar para outra empresa ou virem a ter poços
descomissionados devolvidos. A questão gera preocupações quanto ao abastecimento ener-
gético da região, às possibilidades de emprego e renda, às receitas orçamentárias (royalties
e impostos) nos municípios e do estado.
As novas diretrizes da Petrobras consistem em lançar-se para a camada do pré-sal em
águas ultra profundas, onde se tornou referência mundial. O crescimento da empresa
tende a se concentrar na exploração e produção de petróleo e gás e se afastar das ativi-
dades de transporte, refino e distribuição. O redimensionamento da internacionalização
passa a fazer parte da política expansionista da empresa. Dentre os argumentos dados
para justificar essas novas medidas, há a necessidade de redução da dívida da empresa,
o enfrentamento da pandemia da Covid-19 e da crise global. A tendência é estabelecer
uma nova distribuição das atividades de operação juntamente com a reestruturação da
política expansionista da Petrobras. Dentre essas ações está a venda dos ativos situados no
Amazonas. A chamada política de desinvestimento pode ser questionada enquanto manei-
ra de privatização e/ou desmonte dessa empresa do Estado brasileiro. A empresa escolheu
se lançar para novas frentes de exploração e produção ao longo da costa Atlântica, partindo
do Sudeste, onde já se consolidou, em direção ao Nordeste e Norte do Brasil. Predomina
a expansão marítima em detrimento dos campos terrestres, que estão sendo passados a
outras empresas. Do ponto de vista da Petrobras, investir em águas ultra profundas é a
nova fronteira, em especial tecnológica. Investir em tecnologia e nas reservas dos recursos
naturais visando a produção na camada do pré-sal, é conquista alcançada. Nesse processo,
a empresa está escolhendo o que parece ser mais rentável, seguindo uma racionalidade
econômica própria da lógica corporativa. Essa linha da decisão está no Plano Estratégico
lançado em 2020, porém, o processo é mais antigo, uma vez que a descoberta da camada
do pré-sal foi em 2006.
O Polo Urucu há mais de trinta anos significou um grande projeto na Amazônia, hoje,
à medida que a Petrobras se reorganiza, vai passando a se desfazer dos campos terrestres.
99 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

No entanto, a exploração de petróleo e gás não se restringe a Urucu, há outras empresas


no Amazonas. A Rosneft, estatal Russa, está no município de Tefé, na Bacia do Solimões,
e a Eneva está em Silves e Itapiranga, com o campo do Azulão na Bacia do Amazonas. A
refinaria de Manaus é um ativo anunciado como vendido, foi uma iniciativa particular
depois incorporada ao sistema Petrobras nos anos 1970, mas agora vincula-se ao grupo

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Atem. Conforme as características técnicas sobre a declarada capacidade instalada, a refi-
naria é autossuficiente em energia, dispondo de uma central termoelétrica que produz e
distribui 5,8 megawatts, capacidade suficiente para atender a demanda por energia de uma
cidade de 35 mil habitantes. A Petrobras anuncia que a refinaria atende aos mercados do
Pará, Amapá, Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima. Os produtos são basicamente: GLP,
nafta petroquímica, gasolina, querosene de aviação, óleo diesel, óleos combustíveis, óleo
leve para turbina elétrica, óleo para geração de energia, asfalto.
Quanto à capacidade produtiva do Polo Urucu, a produção de gás-natural é expres-
siva, corresponde a 10 % da escala nacional e tem se mostrado crescente, enquanto a do
óleo está em declínio e é pouco significativa, não obstante, ser de alta qualidade. O sistema
isolado, do ponto de vista da logística do gasoduto que liga o Urucu-Coari-Manaus, faz
o Norte do Brasil ter uma estrutura situada na Bacia Petrolífera do Solimões, e mostrar
o Polo Urucu conectado com o centro consumidor e de refino que é Manaus. Boa parte
dessa produção garante o abastecimento energético do estado e da região através de usi-
nas termelétricas a diesel ou a gás. Isso representa relativa dependência dos combustíveis
fosseis para a geração de energia, em especial, para as cidades do interior amazonense.
Segundo Abraão Zuza (2019), entre os benefícios proporcionados pelo gasoduto Urucu-
Coari-Manaus, vindos como contrapartida aos municípios cortados por esta infraestrutura
logística foi a construção de cinco usinas termelétricas nas cidades de Codajás, Anamã,
Caapiranga, Anori e a de Coari. Em 2009 esse gasoduto foi inaugurado pela Petrobras,
quando a operação seria feita pela Transpetro sob a responsabilidade da Transportadora
Associada de Gás (TAG), vendida ao grupo francês Engie e o canadense Caisse de Dépôt
et Placement du Québec (CDPQ) entre 2019 e 2020.

Breve consideração sobre a noção de fronteira

A revisão do conceito de fronteira busca sua história na tentativa de propor uma aná-
lise sobre um caso existente na Amazônia brasileira. Para Lia Machado (1995) a Amazônia
é tomada como fronteira na medida em que constitui a floresta tropical ainda existente
no mundo. Para além da visão da fronteira internacional com países que compõem a
Amazônia, por exemplo, a noção de fronteira transita por outro sentido. A ideia de “vazio
100 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

demográfico” não se reduz a questão da baixa densidade demográfica, mas a existência de


terra a ser observada e apropriada pelo capital. É nesse contexto que um grande projeto,
no centro do Amazonas onde a floresta é vista como “preservada” e onde comunidades
como “isoladas”, se faz presente. Historicamente foi um projeto investido pela Petróleo
Brasileiro S.A. – Petrobras, marcado pela presença na Amazônia desde a sua criação em
1953, como conta Etelvina Garcia (2008 e 2010). Porém, o que era realidade ora está em

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retração e retirada ou com vistas à troca de agentes, ou grupos econômicos. Apesar do
tempo geológico do petróleo no Amazonas, a história que ora se investiga se confunde
com a presença dessa empresa alimentada como orgulho nacional, porém o processo de
privatização vem transformando isso em ausência. O tempo histórico nesse caso requer
um estudo geográfico, afinal, esta é uma das características da chamada geopolítica do pe-
tróleo. (Sébille-Lopez, 2007) O uso das riquezas na floresta tropical é estudado na medida
em que a indústria extrativa do petróleo e gás envolve a ação de empresas, a autonomia da
vida humana e da presença de consumidores na região Norte.
A venda da base petrolífera do Urucu é um processo a ser investigado quanto à impor-
tância dessa província para a região Norte observando os impactos econômicos, sociais,
ecológicos, regionais e ambientais ali provocados. O universo estudado encontra-se na
atividade produtiva do petróleo e gás no Amazonas. O recorte desta atividade se faz sob a
empresa Petróleo Brasileiro S.A. no comando no passado e em afastamento na atualidade.
A busca de explicação para o esvaziamento das ações fundantes tende a ser analisada no
contexto da devolução das concessões no Polo Urucu. O tema do petróleo no Amazonas
tem história e geografia, mas algo de novo desponta para a necessidade de entender os pro-
cessos recentes, em especial, aqueles que anunciam novos agentes no mercado de produção
de petróleo e gás na região. A partir da identificação de novos sujeitos que entram em
cena é que se encontra a motivação deste estudo. Ou ainda, quando dois nomes dividem
responsabilidades sobre a região produtora do Urucu-Coari-AM: o da empresa Petróleo
Brasileiro S.A., em processo de saída, bem como o da Eneva, que em 2018 adquiriu a con-
cessão no campo de Azulão. No dia 2 de fevereiro de 2021, a Eneva prestou informações
sobre o processo competitivo no Polo Urucu:

Divulgamos ao mercado um Fato Relevante sobre o convite da Petrobras para


participação da Eneva na fase de negociação para a potencial aquisição da totalidade
das participações da Petrobras no Polo de Urucu, conjunto de concessões de cam-
pos terrestres de exploração e produção de hidrocarbonetos localizado na Bacia de
Solimões (AM). (Eneva, 2021)

O site da Eneva não oficializa a atuação no Pólo Urucu. Todavia, presume-se que
101 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

entregar esse patrimônio nas mãos de uma empresa privada, poderia gerar desemprego e
submeter a floresta amazônica às condições impostas pela instituição. Observa-se a tensão
de quem aparenta estar de fora do processo de negociação, com declarações no intuito de
oficializar uma transição em curso.

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A Petrobras, em continuidade ao comunicado divulgado em 07/12/2020, informa
que recebeu propostas vinculantes para venda da totalidade de sua participação em um
conjunto de sete concessões de produção terrestres, denominado Polo Urucu, localiza-
do na Bacia de Solimões, no estado do Amazonas, e iniciou a fase de negociação com a
empresa Eneva S.A. dos termos e condições para a potencial venda. (Petrobras, 2021)

No dia 18 de dezembro de 2020 a ANP divulgou que fixou o prazo até 31 de dezembro
de 2021 para o protocolo dos termos de cessão de 15 campos dentre os polos, como o do
Urucu, que não tiveram sucesso no processo de desinvestimento da Petrobras. “A Petrobras
deverá apresentar relatórios trimestrais com o resultado de cada portão do seu processo de
desinvestimento, podendo a ANP iniciar o processo de extinção contratual para os campos
sem produção caso conclua que não houve evolução do processo.” (ANP, 2020). O Urucu
está na lista do desinvestimento, inclusive sujeito a uma devolução (análise para o descomis-
sionamento ou inclusão na Oferta Permanente). A ANP, como órgão de controle, acompanha
os contratos de concessão no intuito de garantir a realização dos compromissos e investimen-
tos estabelecidos pela Agência, de modo a ter o desenvolvimento esperado dos ativos. Essa
nova geografia parte da premissa de que a Petrobras vem assumindo um desinvestimento da
chamada política do poço ao posto. O sistema Petrobras, incluindo subsidiárias como a BR
Distribuidora S.A., refinarias e termelétricas estão sendo desligadas desse grupo econômi-
co. A privatização da BR Distribuidora S.A., em 2019, derivou num modelo empresarial e
de governança corporativa. Produtos e postos de combustíveis permaneceram com a marca
Petrobras, em parte em decorrência do prestigio no mercado, mas torna-se capital privado
com o nome de Vibra Energia S.A. Dentre as atividades está a distribuição e a venda de álcool
carburante, biodiesel, gasolina e demais derivados de petróleo, incluindo lubrificantes, assim
como gás natural numa rede de 8 mil postos espalhados pelo território brasileiro
Quanto ao histórico da produção do gás natural, o Urucu tem apresentado volumes cres-
centes no intervalo de tempo de 2000 a 2018, enquanto o de óleo vem declinando. O Estudo
Ambiental de Área Sedimentar na Bacia Sedimentar Terrestre do Solimões, iniciado em 2012
através de Portaria Interministerial do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ministério
de Minas e Energia (MME) mostrou o declínio dos volumes produzidos, a queda do preço
do barril do petróleo, os poços maduros. Em meio a tendência da queda da taxa de lucro e a
102 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

privatização da REMAN, e a devolução de campos em Coari, este estudo revela a existência


de recursos petrolíferos por intermédio da fronteira do conhecimento, caso de recursos não
convencionais como o gás de folhelho. As complicações no licenciamento ambiental também
induzem a pensar na hipótese apontada por Becker de que a fronteira seria uma válvula regu-
ladora, que se expande ou se estagna como espaço de investimentos a depender da conjuntura.

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A fronteira no contexto da formação econômica e territorial do Amazonas

Urucu situa-se no contexto da formação econômica e territorial do Amazonas e essa


província petrolífera pertence ao município de Coari nesse estado. Ao longo da calha do
rio Solimões encontra-se Coari, cidade sede municipal, que se localiza entre Tabatinga e
Manaus. No extremo oeste está a tríplice fronteira Peru-Brasil-Colômbia, exemplo de cons-
trução da separação entre os Estados. Esse caso na região dá nome a um artigo “A Gênese
da Fronteira Ocidental da Amazônia: As Cidades Gêmeas Tabatinga (Brasil) e Leticia
(Colômbia)”, de autoria de Emerson Flávio Euzébio (2020). Esse autor apresenta proposta
de periodização, envolvendo as duas formações socioespaciais. A produção da fronteira
como processo é antecedida pela expansão luso-castelhana de Tordesilhas à Madri (1494-
1750), seguida da descoberta do “rio das Amazonas” e a ocupação portuguesa iniciada por
Belém. A região teve como estratégia de ocupação inicial a ação de ordens religiosas e os
fortins portugueses. A expedição de Pedro Teixeira baliza a fronteira entre as duas colônias:
pelo rio Amazonas/Solimões desde Belém até Quito no Equador (1637-1639), ainda em
vigência pela União Ibérica. A fronteira na Amazônia nasce da disputa pela borracha, em
um processo iniciado com o Tratado de Madri, que vai de 1750 a 1938. Os períodos da
crise de 1929 e do Estado Novo ou de 1938 até 1981 foram considerados de consolida-
ção da fronteira dentro da questão da integração nacional. A política da integração da
Amazônia ao país foi estratégia dos militares a partir de 1964 como resposta geopolítica
à cobiça internacional. O lema era “integrar para não entregar”. Para Euzébio (2020), a
questão geopolítica surge dos interesses na região amazônica, por isso, a Panamazônia e o
Tratado de Cooperação Amazônica (1978). e ao término da II Guerra Mundial. Com o
Plano de Integração Nacional (PIN) foi criada a SUFRAMA (1967) responsável por pro-
mover o Polo Industrial de Manaus (PIM). Outros registros podem elencar a consolidação
dessas fronteiras como a Política de Defesa Nacional brasileira, o Programa Calha Norte
(2004), o Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira (PDFF-2008).
Este breve histórico da construção da fronteira do Estado brasileiro com os países
vizinhos descrito por Euzébio (2020) revela o aspecto internacional geopolítico no qual o
Amazonas está inserido. Entretanto, outras leituras de autores como Frederich Turner, Leo
Waibel, Lia Osório Machado (1995), Bertha Becker (1990, 2013), Saint-Clair Trindade
103 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Júnior (2010), César Simoni Santos (2015), José Aldemir de Oliveira e Tatiana Schor
(2008) expressam novas interpretações no intuito de caracterizar o espaço em questão. A
ausência marcaria um sentido de fronteira. No contexto de uma região de baixa densida-
de demográfica estaria a necessidade de ocupação, daí decorre a ideia de que a fronteira
nasce urbana. A migração de diferentes povos para a Amazônia é descrita por Samuel
Benchimol, no livro Amazônia: Formação Social e Cultural (2009). As matrizes culturais

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amazônicas foram formadas pela justaposição, miscigenação, conflitos e adaptações dos
diversos povos. Nessa obra, Benchimol estuda contextos e aspectos de migrações de dife-
rentes grupos populacionais. Mas como afirma Carlos Fausto em Os Índios antes do Brasil
(2000), quando os colonizadores atracaram, muitos e diversos eram os indígenas que aqui
viviam. Ou seja, a Amazônia era habitada. As referências cronológicas aproximadas (basea-
das em escavações e datações arqueológicas) marcam 9.000 – 8.500 a.C. como o período
das mais antigas evidências de ocupação humana da Amazônia, na região de Santarém.
Fausto (2000) demonstra que há uma taxa de depopulação durante os dois primeiros sé-
culos de colonização, em decorrência de guerras, de expedições para captura de escravos e
de epidemias. Nesse sentido, foram importantes as descobertas arqueológicas e os estudos
feitos durante a construção do Gasoduto Urucu-Coari-Manaus. Consideram-se a “terra
preta de índio”, a cerâmica e as pontas de lança como registros da organização humana em
toda a região.
Importa considerar uma periodização que parte de uma antiguidade a uma idade con-
temporânea e complexa como os dias atuais. Existem heranças na formação social e eco-
nômica que ajudam a entender a formação territorial. A Amazônia é habitada por povos
a serem respeitados. A formação social da Amazônia, para Benchimol (2009) conta com
o protagonismo dos indígenas e dos caboclos, cuja herança cultural marca os dias atuais.
Essa presença passou a conviver com os portugueses na colonização, os espanhóis e gale-
gos na descoberta e na conquista, além da influência afro-brasileira (dos povos africanos
escravizados oriundos de processos migratórios compulsórios), dos “cearenses” (fugidos da
fome e da seca), nordestinos na Amazônia, dos ingleses, dos judeus, dos sírio-libaneses e
da participação norte-americana, italiana e japonesa.
Nesse processo, uma interpretação estaria na construção identitária: a formação cul-
tural, que se complementa com a formação econômica e territorial. As mudanças so-
cioespaciais na estrutura econômica da Amazônia pelo domínio do Império Português, e
pelo Estado brasileiro, deram-se a partir da formação de uma economia agroextrativista
exportadora, pela exploração dos recursos biológicos da floresta, em contraste com a
economia indígena. O povoamento durante a economia da borracha deixou marcas no
modo como a população rural está distribuída na atualidade. Das populações posterio-
res, até se chegar às economias extrativas minerais e, em particular, à economia indus-
104 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

trial extrativa de petróleo e gás, algumas considerações há de serem feitas. Uma delas é
a trajetória dos judeus vindos para o Brasil, fugidos da Espanha, Portugal e Marrocos,
tal como conta Benchimol (2009) ao tratar da formação das famílias e dos negócios na
Amazônia. O autor menciona os judeus paraenses de Alenquer, Óbidos, Santarém e,
sobretudo, de Belém que começaram a migrar para Manaus em busca de oportunidades
de trabalho e emprego. Dentre os que vieram para a comunidade de Manaus, estão os

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Sabbá, dados os destaques no âmbito da economia e da sociedade amazônicas. Pioneiro
na industrialização da Amazônia, com a construção da Refinaria de Petróleo, inaugu-
rada em 1957, Isaac Benayon Sabbá criou 41 empresas e estabelecimentos industriais.
(Benchimol, 2009, p. 359). Essa refinaria, em 31 de maio de 1974, foi incorporada ao
Sistema Petrobras como Refinaria de Manaus (REMAN) e, em 1996, em homenagem
ao seu empresário fundador, foi rebatizada de Refinaria Isaac Sabbá. Localizada às mar-
gens do Rio Negro, em Manaus, iniciou suas operações em 6 de setembro de 1956 com
a denominação de Companhia de Petróleo da Amazônia (Copam). Segundo a Petrobras,
a refinaria vem recebendo investimentos desde 1995. Em 2000, a busca por competiti-
vidade fez a unidade de destilação ser ampliada e sintonizada com novas tecnologias e
com as exigências do mercado (Petrobras, 2021). Com esse histórico de investimentos,
e a política de privatização das refinarias da Petrobras a REMAN foi vendida, conforme
o Plano Estratégico e o contrato, que inclui ativos logísticos, para o grupo ATEM. A
negociação foi divulgada, resta o processo de transição de uma empresa a outra a par-
tir da data de assinatura, no caso, dia 25 de agosto de 2021. (Corrêa, 2021). A atual
estratégia de gestão dos ativos da Petrobras está voltada à concentração do capital no
pré-sal em que a empresa considera ter maior competitividade. O Amazonas vive novo
momento a partir do processo de retirada da Petrobras, inclusive do Urucu, que abrange
sete concessões de produção (Araracanga, Arara Azul, Carapanaúba, Cupiúba, Leste do
Urucu, Rio Urucu, Sudoeste Urucu), todas localizadas nos municípios de Tefé e Coari,
ocupando uma área aproximada de 350 km². A agência de notícias da companhia, avi-
sou: “Petrobras inicia processo para venda de campos terrestres no estado do Amazonas”
(Petrobras, 2020b). O texto busca dar uma visão otimista ao relatar que a entrada de
novas empresas no segmento de óleo e gás no Amazonas alavancará o desenvolvimento
da região, promovendo o aumento de produção e reservas, além do aquecimento da
cadeia produtiva de serviços relacionada à atividade de exploração e produção.
A saída da Petrobras do Amazonas pode ser entendida como o fim de um ciclo de
desenvolvimento econômico, embora possa ser apresentado como a continuidade ou
uma oportunidade para início de novo ciclo. Resta conhecer melhor quem são estes
novos agentes, compradores dos ativos da Petrobras. Até que ponto as condicionan-
tes da ANP, MME estão regulando esse processo no sentido de dar continuidade à
105 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

produção. “O processo de passagem de operação para o novo concessionário também


prevê medidas para que não ocorra descontinuidade no fornecimento de gás natu-
ral, petróleo e GLP, com a garantia da continuidade operacional e de manutenção
do ativo” (Petrobras, 2020). Em resposta aos riscos sociais, no que concerne à classe
trabalhadora na empresa atuante no sistema produtivo do Polo Urucu, a empresa se po-
siciona afirmando que o processo de desinvestimento dos campos não prevê demissões

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de empregados da Petrobras, que todos serão realocados para outras unidades organi-
zacionais da companhia ou que podem aderir ao Plano de Desligamento Voluntário
(PDV) (Petrobras, 2020) 
Existe a tendência para tratar desses movimentos de ciclos econômicos, mas a inclina-
ção aqui não é entrar em abordagens teóricas sobre a ciclicidade e a dinâmica econômica
capitalista (Possas, 1987) quando se estuda estados de ascensão, estabilidade, depressão
e crise na economia. No entanto, há uma concordância quanto à recorrência de estados
de crise vistos em Limites do Capital (Harvey, 2013). Ademais, nota-se a observação de
Celso Furtado (2007), em Formação Econômica do Brasil, ao dizer que nos períodos de
crise econômica, em particular, na atividade principal da economia exportadora própria
de um país dependente, o mercado interno se expande. No caso, a atividade produtiva do
Polo Urucu gira em torno de uma economia regional, portanto, capaz de atender o recorte
espacial em que se encontra. Sobre a crise, convém verificar os pontos de vista para o caso
do desinvestimento da Petrobras na região. Quais os riscos econômicos para o estado do
Amazonas e o município de Coari, por exemplo?
As mudanças sinalizadas têm componentes políticos, econômicos e sociais, com
dimensões que apontam a tendência de entrada e/ou expansão de capitais exógenos
como a Rosneft, empresa estatal russa que se instalou no município vizinho de Tefé e a
Eneva presente na bacia do Amazonas, no Campo do Azulão, nos municípios de Silves e
Itapiranga. Sabe-se que para este tipo de mercado somente poucas empresas se apresen-
tam como candidatas a ingressar no sistema. O anúncio da 3R Petroleum, que disputava
o Polo Urucu, perdeu a concorrência para a Eneva. “O estado do Amazonas já possui um
setor diversificado com diferentes atores além da Petrobras atuando na geração de ener-
gia” (Petrobras, 2020). Portanto, as empresas que vierem a se inserir deverão cumprir
exigências feitas pela ANP e MME referentes às questões ambientais. “As empresas inte-
ressadas no ativo deverão atender aos requisitos do operador em área remota, conforme
exigência da ANP, além de todas as licenças operacionais e condicionantes ambientais
requeridos” (Petrobras, 2020).
Sabe-se que no tempo da borracha, os investimentos estrangeiros, de ingleses, ale-
mães e italianos, e no período pós-guerra dos norte-americanos e japoneses, foram
reorganizados os territórios de exploração econômica de base extrativista e da in-
106 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

fraestrutura de urbanização amazônica, inclusive os da fase industrial da Amazônia


Ocidental. As migrações atendiam à reprodução da grande propriedade, hoje, elas
atendem às empresas capitalistas nacionais e transnacionais, com interesses agrope-
cuários beneficiados por incentivos estatais. Supõe-se que haja conflitos advindos do
fato das riquezas e dos recursos estarem em territórios tradicionais e passarem a ser
apropriados por outros grupos populacionais. Benchimol escreve sobre as hierarquias

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entre os povos e matrizes culturais índio-caboclas cederem espaço, economia e valores
culturais. Amélia Damiani (1998) escreve que migração não é só como deslocamento
humano, mas uma irradiação geográfica de um sistema econômico. Estudar as di-
nâmicas socioeconômicas em diferentes contextos territoriais é começar pela própria
dinâmica populacional amazônica a partir da atualidade, buscando no passado uma
compreensão do presente e do futuro. Lembrando que nos séculos XVII e XVIII,
houve disputa territorial entre portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses.
Uma breve e atual caracterização demográfica seria necessária para se entender aspectos
da Amazônia contemporânea. A descrição da formação socioespacial serve para mos-
trar a diversidade da população.

Sobre a noção de fronteira na Amazônia urbano amazonense

Dentre os aspectos da ocupação no Amazonas convém esclarecer a existência de um


desenvolvimento que considerou a não construção de estradas, para contrastar com o caso
do Pará onde ocorreu maior desmatamento e crescimento de cidades superior aos encon-
trados no interior amazonense. O modelo sem estradas do Amazonas representou uma es-
tratégia que gerou a urbanização macrocefálica e teve a industrialização do Polo Industrial
de Manaus (PIM) e da Zona Franca de Manaus (ZFM), a partir da década de 1970 através
de capital externo. A cidade hoje tem mais de dois milhões de pessoas, enquanto as 61
cidades do interior do estado apresentam menos de 100 mil habitantes.
Alerta-se não ter sido construída companytown para o Polo Urucu. Também não foram
construídas estradas que o conectasse a qualquer núcleo urbano seguindo recomendações
ambientais. As instalações no Polo Urucu funcionam como um sistema remoto onde o
trabalho obedece ao regime dos embarcados, os funcionários passam 14 dias na base e 14
em suas casas. Estando a uma distância superior a 200 km de Coari, essa cidade apresentou
crescimento demográfico expressivo. Segundo Gawora (2003), o caso da construção da
base petrolífera no Urucu e depois do gasoduto Urucu-Coari-Manaus, inserido na questão
dos grandes projetos no Amazonas, aparece como fator gerador de mobilidade motivada
pela possibilidade de obtenção de trabalho. A busca por emprego e renda perdurou nas
fases iniciais das obras quando o grande projeto demandava maior quantitativo de gente
abrindo a floresta. O movimento da industrialização marca as dinâmicas urbanas na re-
107 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

gião, em especial, na cidade de Coari. Os efetivos populacionais dos municípios vizinhos


de Coari, articulados ao Polo Urucu e a Manaus, permitem observar que o crescimento
econômico aparente tende a significar desenvolvimento desigual. Estudos indagaram qual
o papel da indústria extrativa do petróleo e gás na problemática socioeconômica em cida-
des amazonenses. (Santana, 2017)

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O Censo do IBGE de 1970 revela como a população rural superava a urbana nos
municípios de Carauari, Coari e Tefé, mas essa situação se inverte em 1991, quando foi
considerado a descoberta do Urucu em 1986. A população rural tem oscilado, embora
com tendência ao aumento, enquanto a urbana tem sido sempre crescente. Coari que
tinha 21.081 pessoas na zona urbana em 1991 passa para 49.651 habitantes na sede
do município em 2010. Manaus mais que duplica sua população urbana de 1970 para
1980. Manaus tornou-se uma metrópole e, em 2007, institucionalizou uma região
metropolitana, da qual esses três municípios citados não fazem parte. A aceleração da
urbanização não é um mero processo demográfico, trata-se da reprodução de formas de
produção do espaço urbano. A produção desses recursos naturais é, em geral, consumi-
da nas cidades. Essa indústria extrativa é base energética no estado, visto que a geração
de eletricidade nas cidades tem sido feita mediante atividade de usinas termoelétricas
ora movidas pelo óleo diesel ora pelo gás natural. Manaus é uma exceção porque pas-
sou a receber, em 2013, alta tensão do linhão da hidroelétrica de Tucuruí no Pará.
Baseado nessa outra matriz energética, recebe ainda o abastecimento da hidroelétrica
de Balbina. Há nas cidades a maior parte do consumo energético em combustíveis para
uso nos meios de transporte terrestre, fluvial e aéreo. O cotidiano dos amazonenses,
ribeirinhos ou não, do campo e da cidade, está baseado no uso dos derivados do petró-
leo e do gás. Enquanto espaço novo, ou fronteira urbana, Manaus, é consumidora da
energia que se desdobra frente às tendências expansionistas do capital, tanto industrial
quanto imobiliário, etc.
O povoamento na Amazônia seguiu a forma da rede fluvial dada a facilidade de cir-
culação que, segundo Machado (1999), teve urbanização impulsionada com a economia
da borracha a partir da segunda metade do século XIX. As funções comerciais exercidas
por Manaus, conforme Machado (1999) não ameaçavam a liderança de Belém, embora
tenha registrado um aumento populacional de 8.500 habitantes em 1852 para 50.000
habitantes no passar de 60 anos. O diferencial na urbanização do Amazonas se deu a
partir de 1967 com a Zona Franca de Manaus. A população urbana de Manaus era de
283.673 pessoas em 1970 e alcançou, em 2010, um efetivo de 1.792.881 habitantes
(IBGE, 1970, 2010).
De fato, pensar em fronteira como movimento de povoamento e colonização, como
108 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

diriam Frederick J. Turner e Machado, difere do sentido de limite político internacio-


nal (Machado, 1995). A autora lembra outras concepções de fronteira como “terras
livres” ou “espaços vazios” em se tratando de grandes extensões territoriais passíveis
de serem apropriadas e tornadas propriedade privada. O Estudo Ambiental de Área
Sedimentar da Bacia Terrestre do Solimões (Brasil, 2020) definiu um espaço territorial
com potencial para exploração e produção de petróleo e gás natural que abrange mais

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de 30 municípios amazonenses. O fato do estudo ter abordado grupos sociais diversos
demonstra conhecimento de que a região não se constitui de “terras livres”, nem “espa-
ços vazios”. O argumento adotado, definidor das áreas não-aptas à comercialização de
campos foi a presença de terras indígenas e unidades de conservação. Porém, há o receio
de que outros comunitários venham perder as terras onde vivem em função de novos
investimentos daquela indústria extrativa. Projeta-se explorações de petróleo e gás, mas
a de exploração dos recursos não convencionais foi descartada devido a complicações
para obter o licenciamento ambiental. O fato de Coari ter tido uma urbanização inten-
sificada, fez com que a análise nesse estudo tenha definido essa área como indiferente ou
pouco impactada frente à possibilidade de ampliação de investimentos dentro de seus
limites municipais.
Segundo Trindade Júnior (2010) a urbanização dos grandes projetos econômicos e de
infraestrutura se referiria a um processo ligado às ações de grande escala que dependeria de
uma base urbana para a instalação e para a residência de pessoal técnico, de trabalhadores
permanentes e de atendimento à massa de trabalhadores temporários. Questiona-se em que
medida estes projetos estariam ou não interligados por estradas a cidades próximas. O Polo
Urucu, localizado na Bacia do Solimões, Amazonas, a 235 km a sudoeste da cidade de
Coari e a 623 km a sudoeste de Manaus não tem ligação por estradas. Estaria isolado caso
não houvesse o percurso fluvial e aéreo. A construção do gasoduto, todavia, passou pelos
limites das cidades de Coari, Codajás, Anori, Anamã, Caapiranga, Manacapuru, Iranduba
até chegar a Manaus. O período das obras intensificou o movimento de pessoas nessas
cidades. Com a mobilidade da população, há uma série de implicações para as cidades de
apoio às obras: poluição e geração de resíduos, degradação ambiental, diversidades culturais
de modos de vida, de circunstâncias linguísticas, religiosas, etc. A migração é um processo
associado a relações de trocas culturais, comerciais, de técnicas, etc. No crescimento popula-
cional de Coari, a migração não foi temporária, muitos ficaram depois da duração das obras,
revelando a magnitude da formação de um “exército industrial de reserva”. Essa população
excedente que fica sem emprego na expectativa de ser recrutada ajudou a formar novos bair-
ros na cidade. Essa dinâmica populacional e econômica produziu áreas urbanas e capitais
empobrecidas. Cidades amazônicas estão localizadas em meio a periferias de baixa renda.
A evolução demográfica de Coari e de cidades do entorno dá a noção de uma fronteira
109 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

humana e de uma fronteira geopolítica na Amazônia no contexto da formação social e


territorial. Além do crescimento natural, os movimentos campo-cidade e urbano-urbano,
foram observados. A urbanização de Coari e Manaus são exemplos de processos intensifi-
cados pela ação de um Estado comprometido com o crescimento da economia industrial,
como diz Santos, o “aspecto urbano da fronteira se reafirma na subordinação política e
econômica à economia urbano-industrial” (Santos, 2015, p. 27).

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Dinâmicas socioeconómicas frente a indústria extrativa de petróleo

O aumento populacional acima descrito, motivado por um crescimento econômico,


aparece em Manaus e se manifesta em Coari, ressalvadas as devidas proporções. Trata-se
do que o Henri Lefebvre (2001) entende por um processo de industrialização que induz a
urbanização. Para dar uma magnitude dessa variação em anos recentes, convém apresentar
os dois maiores PIB, Produto Interno Bruto, do Amazonas. No caso de Manaus e de Coari
podem ser reveladores essa tendência que, no caso deste último, esteve em alta até 2012,
aproximadamente. Resta saber se caso o desinvestimento da Petrobras se mantiver nesta
economia haverá uma emigração de Coari. Desse modo, se verificaria em que medida a
dinâmica econômica vem acompanhada da variação demográfica. Ao observar o Produto
Interno Bruto (PIB) do Amazonas por setor econômico, a indústria aparece como “setor
mais importante de economia impulsionado pelo Polo Industrial de Manaus registrou R$
29.935.047 mil em 2018, crescimento nominal de 11,1% e uma participação de 28,9%”
(Amazonas, 2018, p. 11)

O Setor da Indústria, no ano de 2018 apresentou valores de R$ 28,935 bilhões


contra R$ 26,056 bilhões de 2017. O município de Manaus corresponde a 91,3%
da Indústria do Estado, com valor de R$ 26,426 bilhões em 2018. Coari com R$
955,793 milhões, ocupou a segunda posição no setor, representando 3,3% de parti-
cipação na Indústria do Amazonas. (AMAZONAS, 2018, p. 11)

“Coari teve o segundo maior PIB do Estado em 2018, com R$ 2.015.916 mil e uma
participação de 2,0%, seguido pelo município de Itacoatiara com R$ 1.881.004 mil e par-
ticipação de 1,9% em relação ao Estado.” (AMAZONAS, 2018, p. 6). Dentre as princi-
pais atividades a Indústria Extrativa participou com R$ 914.165 mil, a Administração,
defesa, educação e saúde públicas e seguridade social com R$ 401.469 mil e Transporte e
Armazenagem com R$ 133.985 mil. Ainda sobre o setor da indústria, “Outro destaque foi
o município de Tefé que saiu da sexta posição em 2017 para a quarta em 2018, com valor
de R$ 212,588 milhões, cujo aumento de 142,2% foi ocasionado pelo crescimento na pro-
dução de gás natural (9,7%) e no consumo (6,3%).” (Amazonas, 2018, p. 11). Ao longo do
110 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

período de 2002 a 2018 observa-se que o PIB, no setor industrial de Coari, tem oscilado e
teve uma tendência de alta e outra de baixa. Entende-se que o Polo Urucu está em uma fase
de declínio da produção de petróleo. A devolução e venda de campos de petróleo e gás devem
ser tomadas como um fato relevante a observar o desempenho da produção não obstante as
oscilações no preço das commodities. Os dados futuros poderão ser reveladores se os níveis
produzidos permanecerem baixos ou se haverá uma nova linha ascendente.

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Uma incerteza decorre da saída da Petrobras do Amazonas. O Ministério de Minas
e Energia (MME, 2020) diz que compete à empresa seguir sua estratégia de otimização
de portfólio e melhoria de alocação do capital, concentrando os seus recursos em águas
profundas e ultra-profundas, no polígono do pré-sal, onde tem maior retorno financeiro.
A “estatal brasileira” tem se voltado para a exploração do pré-sal, com isso, o plano estraté-
gico tem sido a venda de ativos fora desse eixo. Para garantir uma “melhor venda” há pre-
parativos a serem listados. Dentro do conjunto de iniciativas está o pagamento de dívidas.
Segundo matéria a “Saída da Petrobras do AM nada tem a ver com regulação do gás, diz
secretário de Fazenda”. Na tentativa de valorizar o ativo, a Petrobras pagou dívidas com
vários estados justamente para conseguir um preço melhor na venda. “Em 2019, segundo
a Sefaz, a empresa saldou parte de sua dívida de ICMS com o estado, pagando cerca de R$
250 milhões” (Amazonas Atual, 2020). O Secretário de Fazenda do Amazonas, Alex Del
Giglio, foi entrevistado pelo Amazonas Atual no dia 20 de junho de 2020. Questionado
quanto a um possível cenário de perda de arrecadação, respondeu afirmando que a polí-
tica de desinvestimento da Petrobras conta com responsabilidade social e isso a impede
de ser substituída por uma empresa que não garanta pelo menos uma exploração igual ao
montante já realizado. Isso responderia a preocupação quanto a relativa dependência dos
orçamentos públicos aos pagamentos feitos pela Petrobras em função das atividades pro-
dutivas que realiza no estado do Amazonas. O secretário acredita que empresas de grande
porte e/ou nacionais de menor porte devem entrar no mercado com vistas a possibilidade
de aumento da produção e, consequentemente, do PIB, do ICMS e dos royalties.
O sentido de fronteira aqui está ligado a práticas expansionistas do processo de acu-
mulação e (re)produção do capital que, diante de tendências da queda da taxa de lucro,
pode justificar a retirada de agentes como as próprias empresas. Há possibilidade de visua-
lizar uma ciclicidade desse processo na medida em que se vê um momento de expansão ou
de crise e retração. A lógica econômica capitalista pode ser observada sob diferentes ângu-
los: a da empresa vendedora e a da compradora, embora ambas carreguem a racionalidade
de buscar maximizar lucro e minimizar custo. Seria o caso de investigar a geopolítica que
motiva esses movimentos de capitais em meio a Amazônia. A empresa que vier a finalizar
negociações deverá se comprometer a manter o trabalho feito pela Petrobras e avaliar o
possível descomissionamento de alguns poços e expansão de outros.
111 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Considerações finais

A Petrobras declarou querer ser a melhor empresa de energia na geração de valor para o
acionista, com foco em óleo e gás e com segurança, respeito as pessoas e ao meio ambiente.
Assim, apresenta o Plano Estratégico 2021-2025, aprovado em novembro de 2020. Nesse

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contexto, a Petrobras decide romper com a política “do poço ao posto” quando coloca à
venda as subsidiárias, as da distribuição, refinarias, termelétricas e tende a devolver os campos
petrolíferos terrestres. A empresa expansionista planeja investir em novas frentes da costa
Atlântica brasileira. A província petrolífera de Urucu é um requisito para desvendar a história
e geografia do petróleo e do gás da bacia sedimentar Solimões no estado do Amazonas. A
produção de recursos naturais se baseia em combustíveis fósseis nesse estado. As dificulda-
des e o aprimoramento das instalações, a privatização do Polo Urucu, o respectivo sistema
produtivo e a presença das cidades enquanto mercado consumidor e centros prestadores de
serviços justificam esse estudo. Uma articulação entre as noções de território, população e
recursos se faz presente no universo das incertezas na indústria extrativa no contexto da ur-
banização na Amazônia. A hipótese sugerida por Becker (2009) de que a fronteira funciona
como uma válvula reguladora de espaço para investimentos de atores capitalizados, ora se ex-
pandindo, ora permanecendo estável a depender da conjuntura parece mesmo fazer sentido.
O Polo Urucu precisa ser compreendido diante da expansão capitalista de Manaus e região.
A relação Urucu-Coari-Manaus mostra um espaço articulado com centros urbanos na região
Norte, em parte, consumidores da produção da Refinaria Isaac Sabbá (REMAN) e do gaso-
duto. A retirada da Petrobras do Amazonas estabelece uma ruptura de Coari e Manaus com
centralidades como o Rio de Janeiro (sede da Petrobras). O início das operações de petróleo
e gás no Urucu colocou Coari e Manaus no sistema produtivo nacional da Petrobras, incor-
porando-as à estrutura do território e à base logística ligando-as ao processo de urbanização
da Amazônia. Agora essa articulação tende a ser desfeita.

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No tabuleiro estratégico da “economia
verde” a exploração do lítio no Brasil
e em Portugal

Elaine Santos1

Introdução

Nas últimas décadas acompanhamos a energia aparecendo com destaque através da


chamada transição energética, neste bojo e em suas diversas vertentes teóricas, o lítio pos-
suí uma importância particular, é considerado o “petróleo branco” dado seu amplo uso,
em medicamentos, eletroeletrônicos, celulares, laptops, tablets, baterias e automóveis. A
versatilidade desta matéria prima depende do grau de pureza de sua extração. Dentro da
utilização das energias renováveis, o lítio aparece por meio da energia solar, eólica e mesmo
do urânio. Conquanto, seu maior destaque nos últimos tem sido a busca por veículos
automotores elétricos ou híbridos, principalmente no Brasil, considerando que o setor de
transportes é dependente do sistema rodoviários para o trânsito de mercadorias, fato que
torna o país um alto emissor de poluentes em comparação a outros países que possuem
como base outros tipos de transporte, apesar da mitigação por meio do etanol como com-
bustível (Rosolem et al, 2012:60).
Dentre os diversos diagnósticos realizados, a partir da necessidade de redução dos com-
bustíveis fosseis, muitos parecem ignorar as desigualdades já existentes, como se os mes-
mos modelos de combate às mudanças climáticas pudessem ser aplicados universalmente.
Segundo (Heider, 2020) a descarbonização da economia global mediante as mudanças
climáticas, as redes e o aumento da digitalização, alimentam uma corrida aos acessos de
minerais considerados críticos, atender às cadeias de suprimentos da mina ao mercado está
115 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

criando pontos prejudiciais que poderá agravar rivalidades geopolíticas. Neste sentido,
a chamada “economia verde” parece ser um novo mercado importante capaz de trazer

1
Centro de Estudos Sociais/Universidade de Coimbra
Geopolítica y Bienes Comunes – UBA/IEALC
elainesantosabc@gmail.com

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implicações às relações entre o Norte – Sul, um ideário que complexo que subjaz na di-
cotomia do desenvolvimento2 e da proteção ambiental, na emergência deste debate está o
lítio. Face a isto, pretende-se analisar desde os impactos extrativos do lítio, a repercussão e
implementação desta estratégia de desenvolvimento por parte também das comunidades
afetadas direta ou indiretamente.
Há uma previsão para o crescimento do consumo de lítio em nível mundial, na União
Europeia esta matéria-prima se encontra no grupo de recursos críticos para o desenvolvimen-
to da indústria (Viegas, et al, 2012:21). As baterias de lítio são indispensáveis para o funcio-
namento de diversos aparelhos eletrônicos, o mercado de baterias deve crescer “a uma taxa
de anual de cerca de 7% no período 2019-20243”. Até 2020 a União Europeia pretendia que
todos os seus países atingissem 10% energias renováveis no setor de transportes4 além disto,
as maiores reservas conhecidas de lítio em território europeu encontram-se em Portugal5, são
reservas relevantes, porém insuficientes para dar respostas a procura por este minério.
Em 2017 Portugal recebeu 30 novos pedidos de prospeção, segundo a Direção Geral
de Energia e Geologia6. No Brasil a ocorrência do lítio do mineral espoduménio em peg-
matito, os principais depósitos estão localizados no Vale do Jequinhonha, em Itinga e
Araçuaí, o chamado “Vale da Miséria” e a exploração do lítio vem sido mencionada como
uma possibilidade de salvação do vale7. Contudo, segundo Galizoni8 (2019) a visão de
“Vale da Miséria” é elaborada a partir de índices que dizem pouco sobre a realidade que
local, que se fundamenta na agricultura familiar e na pesca.

Os casos de Brasil e Portugal

A questão que passa com o novo “petróleo branco”, o lítio, não é novidade nenhuma
na América Latina, mas a crescente busca pela matéria prima tem intensificado a predo-
minância de algumas análises mais desenvolvimentistas focadas na exploração a qualquer

2
Entendido como desenvolvimento econômico, progresso dentro do atual sistema.
3
Disponível em <https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-06-24/battery-metals-at-risk-of-supply-
snags-as-demand-surges-un-says> acesso em 12.11.2020
4
Disponível<https://ec.europa.eu/info/eu-regional-and-urban-development/topics/cities-and-urban-
development/priority-themes-eu-cities/energy-transition-cities_pt> acesso em 15.11.2020
116 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

5
Segundo o relatório Carballo-Cruz, F., Cerejeira, J.:2020, são 60.000t de reservas existentes no país (0,4%
das reservas mundiais).
6
Disponível em <https://www.publico.pt/2017/05/23/economia/noticia/portugal-tem-30-pedidos-de-
prospeccao-e-pesquisa-de-litio-1773061> 11.11.2020
7
Movimento Atingidos por Barragens <https://mab.org.br/2019/10/14/l-tio-nova-salva-do-vale-da-mis-ria-
mesmo/>
8
Entrevista disponível em <https://www.brasildefatomg.com.br/2019/07/25/vale-do-jequitinhonha-uma-
terra-em-desenvolvimento> consultada a 20.06.2020

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custo. No caso de Portugal, há muitos artigos exaltando a riqueza descoberta, porém quais
são as vantagens desta exploração para o país e sua população? Nesta busca incessante por
recursos comumente faz-se uma abstração humana, retira-se o humano do debate e no
lugar colocamos o extrativismo e a crise climática.
A distribuição de lítio no mundo é heterogênea, contudo, tanto Brasil como Portugal
possuem suas reversas de lítio em minerais, diferentemente de outros países tais como
Argentina, Chile e Bolívia, cujas reservas estão localizadas em salmoura. Em Portugal os
territórios analisados são de baixa densidade, localizados na região de Trás os Montes9
e podem se tornar zonas de sacrifício para que a transição energética global ocorra. As
duas áreas analisadas são predominantemente agrícolas, uma é a Freguesia de Covas do
Barroso, no concelho de Boticas e a outra é a Freguesia de Morgade e Sarraquinhos, no
concelho de Montalegre. Em conformidade com um dos Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável (ODS) Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o património cultural
e natural do mundo ressalta-se que a Região do Barroso em Portugal é declarada pela
Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) patrimônio agrícola mundial.
Portugal possuí um roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 que constitui a sua
Estratégia de Desenvolvimento a Longo Prazo com Baixas Emissões de Gases com Efeito
de Estufa, previstos no Acordo de Paris ratificado em 201610.
Em breve pesquisa realizada nas terras de “Trás os Montes”, onde se localiza dois
possíveis terrenos de exploração, percebeu-se que entre 2001e 2017 o índice de envelhe-
cimento aumentou, a população residente diminuiu, houve um aumento no número de
desempregados. No caso da população de Trás os Montes o índice de analfabetismo é de
10,23%11, um número alto considerando que Portugal é um país pertencente a Europa e
se encontra dentre os países com as maiores taxas de analfabetismo na zona do euro. Como
semicolônia Portugal avança na sua transição energética dividindo-se entre a subserviência
as grandes corporações e a ideia que tudo pode ser feito por via institucional, onde por um
lado reivindica-se competência do governo e por outro, se revela a pouca preocupação com
as pessoas que vivem afastadas dos grandes centros (Lisboa/Porto).
Sob o espectro cultural prevalece as formas de organização comunitaristas, que devido ao
isolamento, os levou a desenvolver métodos de exploração adequados a si próprios. Segundo
o relatório realizado pela Universidade do Minho sob solicitação da empresa que deverá
117 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

explorar os recursos, o projeto de exploração do lítio em Covas do Barroso tem enfrenta-


do resistências a nível local, em virtude da desinformação e da deficiente gestão neste de

9
Tal como parte da América Latina – Triângulo Litífero.
10
Disponível em <https://www.portaldiplomatico.mne.gov.pt/politica-externa/temas-multilaterais/acordo-
de-paris> acesso em 11.11.2020
11
Segundos os dados censitários de 2011.

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tipo processo de licenciamento e prospeção (Carballo-Cruz, F., Cerejeira, J.:2020). Gomes
(2020) realizou uma pesquisa de caráter qualitativo nas regiões possivelmente impactadas
pela extração de lítio, dentre os entrevistados alguns expuseram opinião favorável à explora-
ção, considerando que a mineração é parte desta organização social e econômica. Contudo,
a maioria também concorda que a exploração deveria ser realizada em concordância com o
ordenamento ambiental (Gomes, 2020). Existe, contudo, uma falta de confiança e ausência
de diálogo nas informações que são publicitadas na mídia. Situação que fica bastante eviden-
te na fala de Armando Pinto, por voz da Associação Montalegre com Vida

“Nunca fomos ouvidos em todo este processo e não aceitamos que queiram
construir uma mina ao lado das nossas casas que vai alterar completamente a nossa
forma de vida. Não aceitamos que alguém em Lisboa decida que quer destruir parte
das nossas aldeias e serras e a nossa qualidade de vida”, afirmou Armando Pinto,
porta-voz da Associação Montalegre Com Vida12”

Relativamente ao Projeto extrativo da Freguesia de Morgade o Estudo de Impacto


Ambiental realizado pela empresa, pouco refere a população que vive no entorno e prevê que a
exploração terá vida útil de 32 anos, com recurso previsível de 30 milhões de toneladas e uma
reserva confirmada de 5 milhões (LusoRecursos, 2017:13). Mediante o fenômeno de desertifi-
cação de alguns lugares e concentração populacional em outros, urge algum tipo de cooperação
localizada, a saber que os impactos são sentidos em todos os lugares. Por outro lado, em Boticas
a comunidade se organizou na Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB)

Ficámos indignados com o que estávamos a ver, com a agressividade destas pros-
pecções, e achámos que devíamos fazer alguma coisa pela terra onde escolhemos viver”,
afirmou Nélson Gomes, de 42 anos, presidente da recém-criada Associação Unidos em
Defesa de Covas do Barroso (UDCB) (...) A agricultura é o sustento da maioria destas
pessoas que teimam em lutar contra o despovoamento. Nélson acredita que a polui-
ção que resultará da destruição da pedra em pó, aquando da exploração de lítio, terá
consequências na água e na terra e, consequentemente, no ganha-pão destas famílias13.
118 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Há diversos interesses envolvidos na viabilização ou não em projetos deste tipo, segun-


do Fearnside e Laurence (2012) o envolvimento de grupos poderosos pode impulsionar a

12
Entrevista concedida ao jornal <https://www.tsf.pt/portugal/politica/em-morgade-montalegre-votaram-
sete-pessoas-em-dia-de-protesto-11377164.html> acesso em 12.11.2020
13
Entrevista para o jornal Público <https://www.publico.pt/2019/01/15/local/noticia/populacao-covas-
barroso-quer-travar-mina-litio-ceu-aberto-1857919> Consultada a 09.07.2021

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viabilidade de projetos antes mesmo da avaliação dos impactos ambientais, subestimando
danos diretos que não costumam ser considerados quando se trata de viabilidade econó-
mica. Segundo CEO da empresa Savannah Resources

Queremos criar rigor, transparência e valor estratégico nas regiões e nas comuni-
dades onde nos integramos. Queremos ouvir e compreender o terreno, e as pessoas,
em total transparência dos objetivos a que nos propomos para a extração de lítio e
que podem revolucionar a dependência energética, e a mobilidade elétrica, assegu-
rando a produção de lítio dentro de fronteiras portuguesas, europeias, acrescentando
ainda a cadeia de valor do setor energético onde Portugal lidera várias iniciativas de
referência (Jornal de Notícias14, 2021)

Apesar do petróleo ainda ser a força motriz energética no sistema econômico atual e
mesmo com os investimentos em energias alternativas ainda não se sabe até que ponto
esta substituição é factível. Neste sentido, a exploração do lítio em Portugal ilustra bem o
paradoxo do pacto ecológico europeu, considerando as metas de descarbonização como
forma de melhorar a vida das pessoas que talvez não se aplique aos moradores das proxi-
midades das minas. Como afirmou João Pedro Matos Fernandes, Ministro do Ambiente
e Ação Climática de Portugal “Queremos usar o nosso potencial de lítio para nos posicio-
narmos na cadeia de valor de um elemento crucial na descarbonização15”. Por outro lado, a
Associação Povo e Natureza do Barroso (PNB) afirma que tais justificativas servem apenas
como manipulação da opinião pública

A associação Povo e Natureza do Barroso (PNB) disse hoje que os argumentos do


Governo para defender a exploração de lítio em Portugal, como a descarbonização, são
“errados” e têm como objetivo “manipular a opinião pública” (Green Savers16, 2021).

No Brasil em 2016 o CPRM (Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais) publicou


uma avaliação acerca do potencial o lítio no Brasil na área do Médio Rio, Jequitinhonha,
nordeste de Minas Gerais. O relatório se insere no Plano Nacional de Mineração de 2030
e no Plano de Aceleração do Crescimento do Governo Federal, os resultados do Relatório
119 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

14
Artigo redigido no jornal português Diário de Notícias pelo CEO da empresa Savannah Resources, David
Stuart Archer. Consultado a 15.09.2021 em <https://www.jn.pt/opiniao/convidados/por-uma-energia-
limpa-por-uma-mina-sustentavel-14117406.html>
15
<https://pt.euronews.com/2021/04/23/mina-do-barroso-ilustra-paradoxos-do-pacto-ecologico-europeu>
16
Disponível em <https://greensavers.sapo.pt/movimento-diz-que-argumentos-do-governo-para-exploracao-
de-litio-sao-errados/> consultado a 20.09.2021

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para o projeto do Potencial do lítio no Brasil demonstram vasto potencial de uso nas servas
do Rio Jequitinhonha. O relatório também indicou que o Brasil deu um salto nas reservas
mundiais de 0,5 para 8% em março de 201717.

Sendo o vale do Jequitinhonha conhecido como “Vale da Miséria”, o aumento


da demanda de lítio faz com que haja mais investimentos por parte da CBL para
estudos e exploração de lítio, visto que os municípios de Araçuaí e Itinga detém os
principais depósitos de minerais de lítio do Brasil. Tais investimentos podem, de
certa forma, mudar o cenário da região fazendo-a entrar para o cenário internacional
devido sua cadeia de produção de lítio.

Na região do vale do Jequitinhonha onde atua a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) há


mais de trinta anos, estão localizadas as principais reservas de minérios de lítio do Brasil, especi-
ficamente nos municípios de Araçuaí e Itinga, onde há reservas de espodumênio, ambligonita,
lepidolita e petalita (Salomão & Borges, 2019). A Cetem (2013) reconheceu nesta região ao
norte de Minas Gerais, sinais de desertificação em virtude da seca, do desmatamento e da mo-
nocultura de eucalipto (Cetem, 2013). Com base no mesmo relatório (Cetem, 2013) tem-se
que os impactos negativos estariam a provocar danos à saúde da população local residente no
município de Encruzilhada (BA). Em um documento do ano de 2020 assinado por entidades e
especialistas envolvidos na exploração do lítio, reivindica-se a transferência de riquezas realizadas
para uma população que parece se beneficiar pouco das explorações e impactos no seu entorno.

“É inconcebível aceitarmos que o Governo Estadual faça transferência de riquezas


de uma região que historicamente sofre pelo abandono de investimentos públicos. O
Vale do Jequitinhonha possui uma riqueza humana e ambiental extraordinária, além
disso, não podemos deixar de mencionar as riquezas minerais da região. Há dois anos
foi anunciada a descoberta de uma das maiores jazidas de lítio do mundo localizada
entre os municípios de Araçuaí e Itinga. O lítio é uma matéria-prima importante para
a produção de baterias para carros elétricos, celulares e tablets. A região possui capaci-
dade em responder por 85% do lítio produzido no país18”

Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) o discurso de desenvolvi-


120 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

mento regional que poderia advir da exploração do lítio nesta região é falacioso

17
Segundo a página de informação acerca da mineração no Brasil. Consultada a 10.07.2020 em <http://www.noti-
ciasdemineracao.com/noticiasdemineracao/news/1141642/brasil-tem-das-reservas-l%C3%ADtio-mundo>
18
Disponível em <https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2020/06/02/internas_economia,1153121/
vale-do-jequitinhonha-reivindica-fabrica-de-baterias-de-litio.shtml>

iberografias42.indb 120 17/06/2022 18:00:35


O falso discurso é de que terá desenvolvimento regional, criação de empregos
e grandes verbas para as prefeituras. Mas o que eles não falam é de como a minera-
ção impacta negativamente na vida das pessoas que moram nos locais de exploração:
muitas famílias são expulsas de suas terras, a população passa a conviver com muito
barulho (poluição sonora), poluição do ar e das águas, causando graves danos à saúde,
como é o caso de doenças respiratórias e elevação dos casos de câncer. Nas cidades em
que há grandes mineradoras, o preço dos aluguéis e dos alimentos são mais altos que
o comum, e os índices de violência, prostituição e casos de estupros são maiores com-
parados com cidades sem a presença desses empreendimentos (Informe MAB, 2020).

Na cidade de Divisa Alegre, MG, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) vem atuando
há 25 anos, o trabalho de Liba, Rocha e Castro (2020:4) trouxe considerações interessantes
sobre “as mudanças climáticas, alteração da paisagem, supressão de vegetação, pluviosida-
de, temperatura, abastecimento de água e serviço de esgoto, destino do lixo, poluição do
ar, ocorrência de acidentes ambientais, buscando identificação da percepção dos morado-
res desta região quanto aos impactos ambientais e de saúde”. Dentre as conclusões, ficou
evidente que o desenvolvimento desta cidade nas últimas décadas está relacionado com a
exploração mineira na região. Neste sentido, em grande parte das entrevistas realizadas a
população estabelece uma relação bastante favorável e mostra-se satisfeita com a empresa que
lhes possibilitou “boa qualidade de vida” (Liba, Rocha e Castro, 2020:5). Em contraponto
aos informes realizados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens que afirmam ser fa-
lacioso o discurso de desenvolvimento regional e criação de emprego propagandeado pelas
empresas exploradoras de lítio

Mas o que eles não falam é de como a mineração impacta negativamente na vida
das pessoas que moram nos locais de exploração: muitas famílias são expulsas de suas
terras, a população passa a conviver com muito barulho (poluição sonora), poluição
do ar e das águas, causando graves danos à saúde, como é o caso de doenças respira-
tórias e elevação dos casos de câncer. Nas cidades em que há grandes mineradoras, o
preço dos aluguéis e dos alimentos são mais altos que o comum, e os índices de vio-
lência, prostituição e casos de estupros são maiores comparados com cidades sem a
121 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

presença desses empreendimentos. A Mineradora Sigma, por exemplo, já informou


que vai consumir 42 mil litros de água por hora do rio Jequitinhonha. Como se não
bastasse, a Sigma também já demonstrou interesse em estudar e explorar a Área de
Preservação Ambiental da Chapada do Lagoão, que é considerada a caixa d’água
de Araçuaí, com mais de cem nascentes, e território de vida de centenas de famílias
(Movimento dos Atingidos por Barragens, 2020).

iberografias42.indb 121 17/06/2022 18:00:36


Nos últimos anos o lítio se tornou um recurso de crescente interesse, considerado
um recurso estratégico se torna alvo de muitas especulações, consumo do lítio aumentou
94 vezes dez anos, bem como o consumo para baterias de notebooks, aumentou de 3,3
toneladas para 99, sofrendo um aumento de 3000% (Zicari, 2015:16). Cabe recordar
também que em média as empresas mineradoras demoram cerca de cinco anos desde a
identificação até a primeira produção e comercialização, neste ínterim as empresas assu-
mem o risco de grande investimento de capital até os riscos ecológicos, sociais, trabalhistas
e jurídicos (Zicari, 2015). Uma das estratégias utilizadas para captar maiores taxas de lucro
é diversificar os investimentos formando alianças com o capital mineiro. Neste sentido,
é difícil prever os próximos acontecimentos relativos a exploração de lítio nos próximos
anos, considerando ainda se tratar de países distintos apesar das diversas similaridades aqui
apresentadas. A forma como a natureza é politizada e mercantilizada também demonstra a
forma como os desenvolvimentos tecnológicos ocorrerão. A referência de Zicari (2015:37)
para Argentina, serve como reflexão para onde é que os esforços necessitam ser empreendi-
dos, não somente nos esforços de valorização do recurso em si, mas nos esforços para que
sua industrialização ocorra, além de agregar valor e conseguir fabricar baterias localmente.

Conclusão

Normalmente os trabalhos de investigação realizados baseiam-se na preocupação fren-


te a possibilidade de escassez de recursos energéticos para atender as crescentes demandas
da economia e refletem pouco as aspirações coletivas e sociais que precisam ser pensadas
neste cenário. Contudo, na ótica das estratégias nacionais o que é denominado transição
energética é realizado no plural e composto por diversas frentes de usos de energias distin-
tas que buscam maior autonomia e segurança energética (Nozaki, et al. 2021).
Apesar de se tratar de localidades em países diferentes são populações que podem trocar
suas experiências e questionamentos acerca do desenvolvimento e da exploração que está a
ocorrer. Glocalidades que precisam ser evidenciadas, uma vez que socialmente construídas
são também alteradas sob um novo paradigma “verde” que se impõe a partir da exploração
dos recursos que antes pertenciam apenas a suas paisagens ou economias de subsistência.
Assim, ao analisarmos a cadeia do lítio traspassamos também por diversas dimensões geopo-
122 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

líticas que se ocultam, mas materializam-se nas múltiplas determinações. Isto não significa
que neste artigo se exercitou uma abstração, ao contrário, entender a dinâmica de uma de-
terminada matéria-prima lítio, e ações políticas localizadas, nos permite compreender sua
conexão, desenvolvimento e lacunas que nos permitirá alçar e entrelaçar possibilidades de
autonomia. Em Portugal alguns movimentos tem tido destaque na oposição da exploração
do lítio, existe um histórico de exploração mineira nesta região desde a década de 1990.

iberografias42.indb 122 17/06/2022 18:00:36


Como salientou Gomes (2020:19) as populações não querem ter explorações no fundo de
suas casas, ruído, poluição, a mudança de seus hábitos e formas de subsistência, por outro
lado, as empresas não possuem outra opção para realizar a exploração. Ao que parece em
Portugal existe uma necessidade de maior atenção aos impactos socio-ambientais relacio-
nados às atividades de mineração do lítio, além da existência de poucas publicações sobre
o tema relacionados à organização e reivindicação das populações diretamente atingidas. E
ainda que saibamos que América Latina devido ao seu caráter primário exportador possam
assumir o papel de financiador do desenvolvimento dos países centrais. No caso do lítio fica
explicito que este desenvolvimento também não tem como objetivo envolver integramente
sua população nos seus processos de decisão acerca do desenvolvimento deste país.

Resumo
Esta comunicação pretende analisar a exploração do lítio envolvendo dois países Brasil e
Portugal. O lítio é um recurso de primeira ordem na confirmação da sociedade futura, neste sen-
tido, esta comunicação pretende colocar em debate o modo como os governos locais e centrais
pensam estes mesmos horizontes. Avaliando também os impactos deste tipo de extrativismo e a
circulação desta cadeia de extração. No Brasil, o lítio, em conjunto com outros minerais é nomeado
como “portador do futuro” e é considerado um mineral estratégico face as necessidades dos países
hegemônicos, em Portugal a exploração do lítio deve iniciar em breve e poderá debilitar população
economicamente deprimidas. O presente trabalho tem como objetivo realizar o levantamento de
informação acerca da cadeia lítio através de uma revisão bibliográfica, enfatizando o objetivo 11
dentre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) que trata das cidades, assentamentos
humanos, comunidades resilientes e seguras, apoiando-se em relações econômicas sociais e am-
bientais positivas entre áreas urbanas, periurbanas e rurais, reforçando o planejamento nacional
e regional de desenvolvimento. Por outro lado, este trabalho pode nos dar uma imagem bastante
aproximada sobre os diferentes movimentos do mercado mundial e a dinâmica atual do capitalis-
mo, com regiões, produtos e tendências que indicam consolidação de novos esquemas geopolíticos
e blocos econômicos e o tratamento dado desde as grandes cidades às periferias.

Palavras chave – Lítio, Portugal, Brasil, ODS, Desenvolvimento

Referências

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-do-jequitinhonha-em-mg/>
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Agência Portuguesa do Ambiente <https://www.apambiente.pt/>
124 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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<http://recursomineralmg.codemge.com.br/substancias-minerais/litio/>
Mina do Barroso <https://minadobarroso.com/>
Direção Geral de Energia e Geologia <http://www.dgeg.gov.pt/>
Agência Portuguesa do Ambiente (APA)
<https://apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=81&sub2ref=1367>

iberografias42.indb 124 17/06/2022 18:00:36


A Educação Ambiental na perspectiva da
interdisciplinaridade: o que revelam os pro-
fessores sobre suas práticas pedagógicas
no ensino fundamental em suas unidades
escolares em Porto Velho-Ro-Amazonia
Ocidental-Brasil

Amarildo Augusto de Oliveira1


Maria Madalena Ferreira2

Introdução

As discussões sobre os problemas ambientais no mundo foram fortalecidas após a rea-


lização as Conferencias Internacionais a exemplo de Estocolmo (1972), Tibilisi (1977),
CNUMAD-RJ, conhecida como Eco/92 e as que vieram depois; fortalecendo e delinean-
-do os fundamentos e importância da Educação Ambiental (EA) como um dos principais
instrumentos para sensibilizar a sociedade para o enfrentamento e combate à destruição da
natureza e para este enfrentamento deve-se lançar mão dos meios de comunicação e dos meios
tecnológicos e informacionais e indicadores científicos para denunciar a ocorrência de eventos
extremos; a dizimação dos seres vivos em risco de extinção e de forma geral “a humanidade”.
Através da Lei 9795/99, ficou instituída PNEA (Politica Nacional de Educação
Ambiental) que deveria ser atendida pelos Estados da Federação que por sua vez, defini-
riam suas politicas publicas de gestão ambiental entre elas a Educação Ambiental; e en-
quanto guardião da Lei deveria sensibilizar, fomentar e fazer cumprir junto das unidades
escolares e sociedade civil programas que envolvessem a comunidade escolar e a população
do entorno, para dialogar sobre os problemas ambientais que afetam a própria escola,
125 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

contribuindo efetivamente para compreensão da dinâmica da natureza e dos problemas


ambientais que os afetam: agir local para contribuir globalmente.
1
Doutorando-Facultad De Humanidades Y Artes-Argentina
amarildoaugustodeoliveira@gmail.com
2
Geógrafa e Pesquisadora Integrada CEGOT-UC
madhafer@hotmail.com

iberografias42.indb 125 17/06/2022 18:00:36


Este trabalho teve a finalidade de investigar se a pratica em Educação Ambiental estava
sendo trabalhada nas escolas de forma interdisciplinar de acordo com as orientações presen-
tes nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL. MEC, 1998) e verificar se, mais do que
informações e conceitos a EA contribui para o desenvolvimento de atitudes e formação de
valores, através das práticas educativas na Escola e na comunidade onde está inserida?
A pesquisa procurou responder: a) Como os professores discutem as problemáticas
ambientais sobre a cidade Porto Velho? b) Existiam atividades interdisciplinares entre as
diferentes disciplinas à luz dos PCNs na escola? c) Desenvolviam projetos coletivos de
Educação Ambiental com envolvimento de diversos professores da mesma ou com outra
escola e como eram estas praticas? Para o alcance dos objetivos, optou-se por uma pesqui-
sa do tipo qualitativa com suporte quantitativo, utilizando-se de entrevista exploratória
através de um roteiro/guia orientador. O uso de roteiro não impediu a interação entre o
entrevistador e o entrevistado, de modo a garantir certa flexibilidade entre os envolvidos,
conforme orienta Viertler (1988) que classifica a entrevista em três tipos: a inteiramente
estruturada, com seus tópicos previamente fixados; a parcialmente estruturada, em que há
uma combinação entre os tópicos fixos e os que são redefinidos conforme o andamento da
entrevista; e a não estruturada, em que não há tópicos fixos e o diálogo segue livre entre
os entrevistados e o entrevistador. Para essa autora “... as entrevistas dão um maior controle
para o informante.” (p.17).
Para compreender o recorte teórico e legal, utilizou-se da pesquisa bibliográfica, da
legislação que regula a Educação Ambiental e documentos públicos; e em campo levan-
tamento dos diários de sala de aula, plano de curso dos professores e os projetos políticos
pedagógicos (PPP) das escolas. Para ilustrar as observações de campo, foram feitos in locus
registros fotográficos e entrevistas com professores, representantes da diretoria de cada
escola e alunos que participavam (estes aleatórios) de grupos de projetos de EA ou de na-
tureza cultural, folclore, danças, escola ativa entre outros.

A Educação Ambiental na perspectiva da interdisciplinaridade

Werneck (1987, p. 56-58) propõe que a interdisciplinaridade é a forma mais forte de


pluridisciplinaridade e deve ocorrer em interação entre as disciplinas escolares. “Trata-se de
126 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

uma concepção da divisão do saber entre as disciplinas e mostra que não vivemos de modo
compartimentado, mas interligado”. A inter ou transdisciplinaridade em sala de aula quebra-
ria uma estrutura secular, fundamentada no isolamento das disciplinas, que orienta (ainda)
o trabalho dos professores, como se cada matéria não tivesse ligação com as outras, e que: “se
analisarmos a vida em si mesma não encontramos conjuntos de elementos isolados na socie-
dade”; é só observar a dinâmica da natureza numa atividade rural, não consideramos apenas

iberografias42.indb 126 17/06/2022 18:00:36


o resultado da colheita, nós observamos o solo, as sementes, o clima, as intempéries e tudo o
que se relaciona com o plantio de modo geral. Os elementos são observados na realidade da
vida, como um grande conjunto, relacionados de tal modo que, sem estas relações, não have-
ria possibilidades de se obter uma produtividade satisfatória (WERNECK, 1993, p. 56-57).
Sendo assim, a preocupação com a interdisciplinaridade em nossas escolas vem trazer uma
nova visão didático-pedagógica à problemática da formação humana, para o autor:

O aluno dentro de uma escola com preocupação interdisciplinar não viverá um


currículo que veicule conceituações fechadas, mas sim, interligadas. As visões do
mundo e da vida, no momento em que os professores horizontalizam seus currícu-
los, é uma visão global, uma visão do todo, onde cada parte passa a ter significado,
quando adita a um grande conjunto. A estrutura pedagógica de uma escola preocu-
pada com nova visão estará sempre voltada para a transformação das disciplinas em
seus vários tópicos e possui um conjunto de objetivos bem definidos. Esta íntima
cooperação das disciplinas num determinado currículo levará a uma visão final sin-
tética das realidades, muito mais objetiva e real, muito mais formativa e humana
(WERNECK 1993, p. 57).

O autor discorre sobre a função das “coordenações pedagógicas” nas escolas; estas de-
-veriam olhar os currículos por dois ângulos: o ângulo vertical, que organiza conteúdos em
função de determinados objetivos, e o ângulo horizontal, que criará os mecanismos auxi-
-liares e definirá a estratégia nova de uma abordagem interdisciplinar; portanto os projetos
em EA na escola devem ser trabalhados de acordo com a perspectiva interdisciplinar, em
que cada professor independente de sua respectiva disciplina, assuma o seu compromisso
social, no sentido de preparar o aluno como cidadão consciente através da realização de
atividades pratica em Educação Ambiental.
Segundo Fazenda (2001, p. 15) a interdisciplinaridade é a palavra de ordem nas pro-
-postas educacionais, não só no Brasil, mas no mundo. Entretanto, ela é apenas pronun-
-ciada e os educadores não sabem bem o que fazer com ela. Sentem-se perplexos frente à
possibilidade de pratica interdisciplinar. Essa perplexidade é trazida por alguns na tentativa
da construção de novos projetos para o ensino. Entretanto, percebe-se em todos esses pro-
127 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

jetos a “marca da insegurança”.


De acordo com Werneck:

A interdisciplinaridade/pluridisciplinaridade, trata-se de novas concepções da


divisão do saber, frisando, sobretudo as interdependências existentes entre os con-
teúdos e mostrando, através do discurso ambiental, que as coisas não ocorrem na

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vida de modo compartimentado, mas interligados. É uma mudança de concepção de
ensino porque vem quebrar uma estrutura secular, fundamentada no isolamento das
disciplinas com conteúdos compartimentados e sim um ensino que aborde a pratica
de forma global (WERNECK, 1993, p. 56-57).

Durante a estruturação do “marco regulatório da EA” a discussão passou pela inclusão


ou não da EA como Disciplina Autônoma? Neste quesito Trajber (2007, p.108) diz que
se trata de um grande passo para a inclusão da dimensão ambiental; no entanto “mais do
que inserir a temática ambiental como disciplina é importante tratá-la como um tema
trans-versal no currículo; com abordagem Inter e Transdisciplinarmente; utilizando me-
todologia de projetos e de planos de ação coletiva junto da comunidade escolar até forta-
lecer suficientemente os educadores, sobre a importância de formatar uma rede de saberes
necessários para o enfrentamento da complexidade e da urgência da transformação que
almejamos” . A ideia corrente é que a EA deve ser desenvolvida de forma interdisciplinar,
tendo a participação de professores de todas as disciplinas, desenvolvendo de tal forma
uma transversalidade.
Em se tratando da interdisciplinaridade e transversalidade os PCN’s apresentam os
seguintes termos sobre:

[...] a interdisciplinaridade questiona a segmentação entre os diferentes campos


de conhecimento produzida por uma abordagem que não leva em conta a inter-re-
lação e a influência entre eles — questiona a visão compartimentada da realidade
sobre a qual a escola, tal como é conhecida, historicamente se constituiu. Refere-se,
por-tanto, a uma relação entre disciplinas. Na prática pedagógica, interdisciplinari-
dade e transversalidade alimentam-se mutuamente, pois o tratamento das questões
trazidas pelos Temas Transversais expõe as inter-relações entre os objetos de conhe-
cimento, de forma que não é possível fazer um trabalho pautado na transversalidade
tomando-se uma perspectiva disciplinar rígida. (Apud Trajber, 2018, p. 35).

Os autores acima entendem que o educador deve aplicar um enfoque interdisciplinar,


aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina [...] de modo que se adquira uma
128 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

perspectiva global (CONDE, 2016, p.72) e destacar a complexidade dos problemas am-
bientais e, em consequência, a necessidade de desenvolver o senso crítico e as habilidades
necessárias para resolver tais problemas.
Para Trajber (2007, p. 101) a transversalidade da temática ambiental na educação veio
somar-se ainda à outros aspectos para a discussão sobre Inter e transdisciplinaridade, sendo
assim, “[...] mesmo compondo ações integradas, as disciplinas ainda têm pouca entrada

iberografias42.indb 128 17/06/2022 18:00:36


na vida cotidiana. Dessa maneira que a intenção dos Parâmetros Curriculares Nacionais
em sua origem foi estimular o engajamento da escola, do seu projeto político pedagógi-
co, com as questões do seu tempo conectando conceitos teóricos à realidade cotidiana,
essência da educação para a cidadania. Assim, “[...] notou-se que a interdisciplinaridade e
transversalidade é parte essencial para a construção de uma E.A adequada, tornando-se ne-
cessária a aplicação de políticas públicas voltadas para o tema socioambiental, a formação
de professores e sua prática junto aos estudantes”

Os projetos escolares

As premissas propostas nos PCN (Carvalho, Conde, Trajber), se complementam na


construção das lacunas teóricas, no que se refere ao desenvolvimento a Educação Ambiental
a luz da interdisciplinaridade, em que os profissionais, das diferentes disciplinas, a escola e
seus respectivos alunos, compõem o cenário fundamental na construção da prática educa-
cional, em que as ações das individualidades disciplinares, devem ser trabalhadas de forma
que se complementem.
O valioso papel da escola, como centro socializador de conhecimento como locus da
comunidade escolar, se estrutura como consequência da praticidade interdisciplinar, onde
as informações e os conceitos, vão se constituir de importância, para atingir os seus reais
objetivos para os quais foram definidos; a escola como lugar onde se espera que ocorra a
materialização do saber que se expande para a vida social dos membros da comunidade
escolar, através das atitudes vividas no dia-a-dia na formação de valores, com consequência
do ensino e aprendizagem de procedimentos nas práticas educativas relacionadas as ques-
tões ambientais da própria escola e comunidade do entorno.
Portanto a escola deve valorizar o planejamento e o desenvolvimento de um projeto
pedagógico que demanda de uma série de fatores, dentre os quais, tempo, comprometi-
mento, responsabilidade e tratando-se de um projeto social com envolvimento de cada um
objetivando resultados coletivos. No projeto interdisciplinar coletivo não se ensina, nem se
aprende: vive-se, exerce-se, buscando objetivos comuns, Fazenda (2001, p. 17-18).
Do ponto de vista do corpo docente espera-se a responsabilidade individual e do
grupo que se torna a “marca do projeto interdisciplinar”, mas essa responsabilidade está
imbuída do envolvimento que diz respeito ao projeto em si, às pessoas e às instituições a
129 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

ele pertencentes. O projeto interdisciplinar surge às vezes de uma atitude individual ou


coletiva e se contamina para os outros profissionais e para o grupo.
Conforme Fazenda (2001) num projeto interdisciplinar, comumente, encontramos
múltiplas barreiras: de ordem material, pessoal, institucional e gnosiológica. Entretanto,
tais barreiras poderão ser transpostas pelo desejo de criar, de inovar, de ir além. O que

iberografias42.indb 129 17/06/2022 18:00:36


caracteriza a atitude interdisciplinar é a ousadia da busca, da pesquisa: é a transformação
da insegurança num exercício do pensar, num construir. A solidão dessa insegurança indi-
vidual que caracteriza a ação interdisciplinar pode diluir-se na troca, no diálogo, no aceitar
o “pensar do outro”. Exige a passagem da subjetividade para a inter-subjetividade, onde
a maioria dos profissionais em educação declara-se “despreparados” para trabalhar com
temas socioambientais, independentemente de sua área de formação.

O contexto das escolas observadas

A seguir um breve histórico do município de Porto Velho que está situado à mar-
gem direita do rio Madeira, na região Norte-Noroeste do estado de Rondônia-Amazônia
Ocidental. Segundo o IBGE (em 2010) possuía 334.661 habitantes com densidade demo-
gráfica de 9,82 hab./Km. Recebeu um incremento populacional de 14,39% decorrente da
instalação dos complexos hidrelétricos Santo Antônio3 e Jirau4 instalados no Rio Madeira;
a população urbana atingiu 82,37% e população rural 17,63%; setor este que a cada ano
diminui em consequência da agregação de terras pelo grande capital para a expansão do
Agrobusiness e a oferta temporária de empregos oferecidos pela construção civil na cida-
de, gerando grande demanda por moradia, serviços e equipamentos urbanos; oferta que
não foi acompanhada na mesma proporção com o atendimento à saúde, atendimento
de energia e transportes às populações de baixa renda entre outras demandas a qualidade
da educação publica. Antes dos complexos hidrelétricos, as escolas públicas no centro da
cidade atendiam a um público de classe média e alta (tradicional) com exceção apenas de
poucas escolas particulares tradicionais de origem confessionais. O crescimento recente da
cidade contribuiu para a instalação de novas escolas particulares através de franquias pro-
cedentes da região sul e sudeste do Brasil para atendimento da nova classe media, formada
por novos trabalhadores advindos para a construção dos dois complexos hidrelétricos no
Rio Madeira Santo Antônio e Jirau. A chegada de novas escolas levou à abertura de vagas
nas “escolas tradicionais públicas” a uma parcela da população que até então frequentava
escolas periféricas da cidade, que por sua vez não oferecia o mesmo padrão de qualidade
das tradicionais do centro da cidade, reputadas então pela qualidade de ensino; que passa-
ram a abrir vagas para alunos até então excluídos.
Por outro lado, a oferta de emprego prometida em decorrência da instalação dos can-
130 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

teiros de obra e expansão da construção civil na cidade, revelou uma realidade presumida,
mas não mensurada ate então. O emprego que não chegou para todos, estava justificado

3
https://www.santoantonioenergia.com.br
4
https://www.esbr.com.br

iberografias42.indb 130 17/06/2022 18:00:36


pela falta de escolaridade e profissionais disponíveis; sendo um dos fatores de decepção
para jovens e adultos desempregados: a formação profissional, o que exigiu em caráter de
urgência do Estado e da Prefeitura um improviso para a realização de cursos de formação
profissional em parcerias com as empresas as Construtoras, para a capacitação destes traba-
lhadores que deveriam possuir escolaridade mínima ensino médio completo, sendo o caso
do curso de “operação de maquinas pesadas de terraplanagem de última geração, que exi-
gia no mínimo segundo grau completo, noções de informática e inglês elementar, porque
todo o sistema digital era operado em inglês”. A realização de cursos variavam desde mecâ-
nica básica, motoristas, tratoristas, topógrafos, cozinheiros, padeiros5, auxiliares de serviços
diversos e inúmeros outras especialidades. Para algumas profissões, vieram trabalhadores
de varias nacionalidades, abrindo mercado para a instalação de escolas como a canadense6
para inclusão dos filhos destes profissionais. Resumindo: ao mesmo tempo em que contri-
buiu para a instalação de novos serviços urbanos, a instalação dos complexos hidrelétricos
contribuiu para o aumento da exclusão da população7 tradicional ribeirinha que habitava
as várzeas do rio para dar lugar à formação dos respectivos lagos: Jirau e Santo Antônio e
contribuiu para a migração campo cidade em busca de empregos , que não chegou para
todos. A escolha das escolas para esta pesquisa deu-se pela antiguidade e pelos papéis que
representaram em seu tempo, antes do “boom dos empreendimentos hidrelétricos” e hoje
recebem alunos de diversas origens socioeconômicas e bairros da cidade. O perfil do alu-
nado foi elaborado com base nos indicadores do Questionário Socioeconômico que todo
estudante concluinte do ensino médio preenche para habilitação ao vestibular da UNIR8.
Desse conjunto pudemos separar uma amostra significativa da clientela que frequentam as
escolas observadas: escolas Murilo Braga9 (localizada na parte central da cidade); a escola
Marcos de Barros Freire10 (bairro urbano e rural, com predominância de ocupações irregu-

5
Não havia em todo o estado de Rondônia, padarias que pudessem fabricar 10 a 20 mil pães/dia para cada
usina, o que obrigou as empresas a transportar “pães congelados” por avião diariamente de Goiania.
6
maplebear porto velho - canadian school - programa acadêmico (maplebearpvh.com.br)
7
https://www.youtube.com/watch?v=ZFQ11fri3vs
8
Universidade Federal de Rondônia
9
A Escola Estadual Murilo Braga, recebeu essa denominação em homenagem Murilo Braga de Carvalho
(educado radicado em Rondonia). Iniciou suas atividades em 1º de maio de 1958, sob a denominação de
131 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Grupo Escolar Municipal Murilo Braga e através do Decreto 866 de 23/09/1977, tornou -se escola estadual.
10
A “Marcos de Barros Freire” está situada na Rua Rio Lage, Nº. 11.927, Bairro Ronaldo Aragão, periferia da
cidade de Porto Velho/Rondônia; criada pelo decreto nº 4.435/89 de 24/11/89, no governado de Jerônimo
Garcia de Santana e inauguração em 24 de novembro de 1989, homenageando o professor, advogado e políti-
co brasileiro Marcos de Barros Freire, nascido em 05 de setembro de 1931, no Recife, estado de Pernambuco.
Ainda no Curso de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) destacou-se como líder estudan-
til, depois exerceu os mandatos de deputa-do federal e senador por seu estado. Morreu em um acidente aéreo
no ano de 1987, quando exercia o cargo de ministro da Reforma Agrária, no governo de José Sarney.

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lares e autoconstrução da moradia) e a Escola Manaus11 (escola antiga) próxima ao centro
urbano tradicional, caracterizado como bairro de segregação e inexplicavelmente recebe
pouco investimentos do gestor urbano (Fig 1).

Figura 1: Localização das Escolas Pesquisas Amostradas.

No entorno da Escola Murilo Braga predomina a população tradicional, conhe-


cido como “bairro dos pioneiros do Km 1” (atual Av. Sete de Setembro). O bairro
dispõe de boa infraestrutura, com oferta de água tratada, coleta esgoto, pavimentação e
calçamento; trata-se de um trecho onde estão concentrados empreendimentos comer-
ciais: lojas, supermercados, restaurantes e residências classe média. O corpo discente da
Escola Murilo Braga, procede de diversas regiões da cidade, conforme segue: Zona Leste:
Três Maria; Esperança da Comunidade; Igarapé; Industrial; Jardim Santana; Juscelino
Kubitschek; Socialista; Mariana; Nova Porto Velho; São Francisco; Pantanal; Tancredo
Neves e Ronaldo Aragão. Zona Central: Areal; Baixa da União; Centro; Liberdade;
132 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

11
A Escola Manaus foi criada pelo Decreto Nº. 800/77 e, inaugurada no dia 31 de março de 1977. É mantida
com recursos do Governo do Estado de Rondônia. Está situada na Rua Salgado Filho, Nº. 404 Bairro Mato
Grosso, na cidade de Porto Velho/Rondônia Brasil, CEP. 78.915 -500. Recebeu este nome em homenagem
a capital do vizinho Estado do Amazonas, onde esta instalada a Zona Franca da Amazônia Ocidental Legal.
Em 1991 pelo decreto 4948/91 foi implantado o Ensino Médio e recebe alunos de toda a cidade e ribeiri-
nhos do Rio Madeira.

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Nossa Senhora das Graças; Olaria; Santa Bárbara; São Cristóvão e São João Bosco. Zona
Norte: Costa e Silva; Cuniã e Teixeirão.

Figura 2: Localização dos bairros residenciais dos alunos da escola Murilo Braga em Porto Velho.

Da comunidade discente da Escola Murilo Braga apenas 11% vivem em famílias


com renda de mais de dez até vinte salários mínimos e os demais entre 1 e 2 salários
mínimos; maioria possuem um núcleo familiar entre 3 a 6 pessoas e 43% destes alu-
nos possuem empregos formais. Quanto à tecnologia 61% tem acesso ao computador
da escola ou biblioteca; 41% utilizam ônibus como o principal meio de transporte e
31% utilizam auto-móveis 14% e utilizam motocicletas. Como meio de comunicação
o aparelho de televisão da residência é o principal meio informações e 45% tem acesso
à internet.
A Escola Marcos Freire está localizada na zona leste (Fig.3) e recebe alunos de bairros
próximos da escola: Marcos Freire; Mariana; Nova Porto Velho; São Francisco e Ronaldo
133 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Aragão; não há dispersão dos alunos para chegarem a escola. No entorno da escola pre-
domina a ausência de infraestrutura básica, como água encanada e tratada, esgotamento
sanitário, ruas asfaltadas e calçadas defronte as casas; situação que se estende no entorno
das edificações da escola, refletindo o descaso dos gestores públicos e indiferença dos
moradores do bairro como um todo, onde a escola está localizada.

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Figura 3: Localizações das residências dos alunos Marcos de Barros Freire.
134 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 4: Escola Marcos de Barros Freire

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Figura 5: Pátio e corredores internos da escola.

135 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 6: O Entorno da escola Marcos de Barros Freire (2).


© Fotógrafo: Amarildo Augusto de Oliveira. (25/10/2010).

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No ano de 2010 nesta escola estavam matriculados 1.086 nos períodos matutino, ves-
pertino e noturno, com o Ensino de Jovens e Adultos (EJA); possuía um total de 75 funcio-
nários, destes 51 professores distribuídos entre o ensino fundamental e o médio. Os registros
fotográficos mostram a situação da escola Marcos de Barros Freire, evidenciando o “estado de
abandono do jardim interno” entre os blocos e a desqualificação dos espaços de uso coletivo.
Quanto ao entorno da escola constata-se a falta de pavimentação, água encanada e tratada,
esgotos a céu aberto nas áreas adjacentes, muito Lixo espalhado na via pública, animais mor-
tos e mato alto. Falta total de cuidados com os espaços coletivos entre a comunidade escolar e
moradores do entorno, comprovando a inexistência de projetos ambientais, realizados entre
a escola e comunidade. A parceria entre escola e moradores, poderia amenizar e até eliminar
essa realidade caótica, consequência do descaso de todos; realidade contrária às premissas dos
PCN “ações educativas envolvendo a comunidade escolar e a vizinhança, através de peque-
nos projetos para mudanças de valores contribuindo para a melhoria do espaço vivido, pelos
alunos e comunidade”.

Figura 7: A localização da Escola Manaus.


136 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Quanto à Escola Manaus (Fig 7) localiza-se na zona sul da cidade e funcionava


nos três turnos (matutino, vespertino e noturno), oferecendo o Ensino Fundamental e
Médio na Educação de Jovens e Adultos – (EJA). Os alunos tem origem em diversos
bairros da cidade e em 2010 registrava 1.028 alunos.

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Possuía trinta e quatro servidores de apoio: administrativo e pedagógico; dezesseis
professores do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e vinte professores do 6º ao 9º
ano do Ensino Fundamental e Ensino de Jovens e Adultos. À época da pesquisa, foram
identificados os seguintes projetos: O Projeto Folclore, o Projeto Brincando, Cantando
e Dançando, também se aprende; Preservando a Água Fonte de Vida; Projeto Festa
Junina; Projeto Gincana Ecológica; Projeto Educar a Vida; Projeto Lixo no Lixo; Projeto
Limpeza e Higiene Bucal. Tais projetos seriam realizados com a participação de alunos do
Ensino Fundamental e Médio. Em sua proposta curricular “prometia uma ação educativa
voltada a formar indivíduos autônomos, responsáveis, críticos e compromissados com os
valores de justiça e solidariedade, capazes de exerce um papel significativo na sociedade”.

Figura 8: Situação do Terreno onde está instalada a Escola Manaus


© Foto: Registros realizados em 17/09/2010-Amarildo Augusto de Oliveira.

A escola encontra-se no topo de uma colina cujo relevo acidentado foi modificado
pela ação antrópica e por não ter recebido manutenção nos taludes encontra-se com alto
grau de erosão e desmoronamento, trechos em situação de risco de desmoronamento.
Trata-se de uma unidade escolar totalmente ignorada pelas autoridades e não possuía
a altura da pesquisa, nenhum pro-grama de Educação Ambiental efetivamente sendo
137 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

realizado, apesar de estarem propostos no papel. Não havia envolvimento da comunida-


de escolar com moradores do próprio bairro. No entorno da escola foram encontrados
depósitos de lixo a céu aberto, degradação do muro causado pelo efeito das enxurradas
entre outras situações deprimentes. Não havia intervenção dos gestores públicos, tanto
do Estado ou da prefeitura em beneficio da escola e adjacências.

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O bairro em que está localizada a Escola Manaus faz parte do conjunto central
da cidade de Porto Velho, é um bairro de ocupação consolidada, porem não recebe os
serviços públicos na mesma proporção do centro tradicional, destacando a falta de esgo-
tamento sanitário, de água tratada e encanada, asfalto e calçamento, coleta dos resíduos
sólidos e limpeza pública entre outras demandas.

Figura 9 – Entrada principal da Escola Manaus


138 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 10 – Entrada principal e entorno da Escola Manaus.

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Figura 11: Dependências internas da Escola Manaus (3).
Foto: Registros realizados em 17/09/2010-Amarildo Augusto de Oliveira.

As Figuras 9 a 11 retratam o descaso e a inexistência gestão publica e de execução


de projetos de educativos, que a própria escola poderia, através de parcerias com a co-
munidade do entorno realizar pequenos projetos educativos focando na gestão e coleta
do lixo e saneamento, arborização entre outros para amenizar a degradação ambiental,
face a ausência do Gestor Público visando qualificar o ambiente no entorno da escola.

A Guisa de Conclusão

Das três escolas observadas, apenas na Escola Murilo Braga (apesar de não ter sido en-
contrado o conteúdo no Projeto Pedagógico (PPP) da escola) foi encontrado no plano de
curso e os nos diários da professora12 de Geografia que coordenava o grupo COMVIDA.
Estas comissões de “alunos pesquisadores” adotam a Metodologia de Projetos, muito
139 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

debatida durante Grandes Conferencias Nacionais de Educação Ambiental, realizadas


ainda na década de 2000 por ser a mais adequada para o exercício da transdiciplinaridade
com “temas geradores” escolhidos pelos alunos sob a coordenação de um professor que

Carmem Silvia de Andrade Correa, Licenciatura Plena e Bacharel em Geografia pela UFPA
12

geografiacarmem@yahoo.com.br

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acompanha a evolução ao longo semestre. Esta escola realizou trabalhos relevantes13 desde
hortas escolares, gestão do lixo da escola ao reaproveitamento da agua dos aparelhos do ar
condicionado da própria escola reutilizada nos canteiros da horta escolar.
De acordo com os resultados encontrados e o cotejamento da literatura consultada e o
observações in locu, podemos inferir que a escola Murilo Braga, entre as três analisadas, foi
a única que apresentou bons resultados com o grupo COMVIDA, porem os professores em
seu conjunto não realizavam atividades interdisciplinares de EA, que refletissem as proposi-
ções contidas no PCN, em detrimento do esforço de uma única professora que procurava in-
centivar pequenos grupos de alunos que buscam soluções para problemas da própria escola.

Recomendações

Ate 2010 a própria SEDUC/NEEA (Núcleo de Ensino Estadual Educação Ambiental)


informou que não existia uma politica de Educação Ambiental (aprovada), portanto,
o Governo de Rondônia estava empenhado em criar a Política Estadual de Educação
Ambiental o mais urgente possível e de forma democrática e com a participação das
Universidades, dos professores, sociedade civil organizada, município e empresas, prin-
cipalmente as grandes poluidoras. E necessário à capacitação massiva dos professores que
estão na ativa, e nos cursos de graduação inserir temas transversais em todos os cursos
sobre a importância da Gestão do Meio Ambiente e da Educação Ambiental. É necessária
a busca de novas metodologias e tecnologias inclusivas para a pratica em EA. Incentivar a
troca de experiências entre escolas e fortalecer as “redes de profissionais” que atuam com o
tema meio ambiente; é necessário treinar crianças e jovens como agentes multiplicadores
em Educação Ambiental para identificar boas praticas e buscar alternativas sustentáveis
para a revitalização destas três escolas observadas e valorizar o sistema escolar da cidade de
Porto Velho, pois trata-se de dificuldades comuns em outras unidades escolares, diante da
inexistência de um programa ou uma politica norteadora do Estado.

Resumo
Este artigo apresenta resultados de pesquisa realizada em três14 escolas da rede estadual de
ensino fundamental, localizadas na cidade de Porto Velho-RO, visando identificar as praticas em
Educação Ambiental (EA) em turmas dos 6º. ao 9º. ano, conforme as premissas dos Parâmetros
140 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Curriculares Nacionais (PCN). A pergunta norteadora consistia em identificar se os professores de-


senvolviam ou não práticas educativas relacionadas ao Meio Ambiente de forma interdisciplinar. O
estudo efetivou-se por meio de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa, utilizando-se

13
https://www.facebook.com/pg/csilviageo/posts/
14
E.E.Murilo Braga, Ecola E.E.Manaus e E.E.Marcos Freire ( Porto Velho-RO)

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de entrevistas exploratórias semi estruturadas e levantamento de dados oficiais junto aos órgãos pú-
blicos e registros das escolas, tais como: legislação, plano de cursos, diários de classes e resultados das
experiências realizadas. Das três escolas pesquisadas, apenas uma apresentou resultados animadores
(mesmo que pontualmente) numa clara demonstração do esforço direto da professora responsável
pelo grupo de alunos que participavam do COMVIDA15 ao que permitiram aventurar numa re-
flexão sobre a importância da EA, as questões ambientais da cidade e da própria escola, no período
pesquisado foi entre 2009 a 2010.
Palavras-Chaves: PCN, Educação Ambiental, Interdisciplinaridade, Prática Pedagógica,
COMVIDA

Abstract
This article presents results of research carried out in three16 schools of the state elemen-
-tary school system, located in the city of Porto Velho-RO, aiming to identify the practices in
Environmental Education (EE) in classes from 6th to the 9th, according to the premises of the
National Curriculum Parameters (NCP). The guiding question was to identify whether or not
tea-chers developed educational practices related to the environment in an interdisciplinary way.
The study was carried out through descriptive research, with a qualitative approach, using semi-
-struc-tured exploratory interviews and official data collection from public agencies and school
records, such as: legislation, course plan, class diaries and results of the experiments carried out.
Of the three schools surveyed, only one showed encouraging results (even if only occasionally) in
a clear demonstration of the direct effort of the teacher responsible for the group of students who
partici-pated in COMVIDA17, which allowed them to venture into a reflection on the importance
of EE the city’s environmental issues and from the school itself, highlighted in the article as a whole.
The period surveyed was between 2009 and 2010.
Key Words: PCN, Environmental Education, Interdisciplinarity, Pedagogical Practice,
COMVIDA.

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141 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Botelho, José M. L (2000). Educação ambiental e Formação de professores. Ji Paraná-Ro: Editora


Líder, 2000.

15
Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida
16
E.E.Murilo Braga, Ecola E.E.Manaus and E.E.Marcos Freire ( Porto Velho-RO)
17
Environment and Quality of Life Committee

iberografias42.indb 141 17/06/2022 18:00:36


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142 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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As paisagens urbanas e rurais e a forma-
ção das ilhas de calor em ambiente tropical
continental

Margarete Cristiane de Costa Trindade Amorim1

Introdução

O processo de urbanização proporciona fortes alterações na paisagem natural e cria


superfícies com características heterogêneas capazes de alterar a atmosfera na escala local.
Dentre as alterações na atmosfera causadas pela presença humana, tem-se a geração
das ilhas de calor atmosféricas (OKE; MILLS; CHRISTEN; VOOGT, 2017), que se ca-
racterizam por temperaturas do ar mais elevadas em relação a áreas rurais ou próximas às
condições superficiais menos alteradas pela sociedade.
Os ambientes rurais também foram transformados em relação às paisagens naturais,
entretanto, os efeitos do ar comprometido no urbano são mais evidentes, tanto nas gran-
des aglomerações urbanas como nas de médio e de pequeno porte (AMORIM, 2020).
As transformações na paisagem e a substituição de superfícies permeáveis por imper-
meáveis, assim como a retirada da cobertura vegetal original interferem no balanço de
energia e na capacidade evaporativa da superfície. Além disso, a geração do calor antro-
pogênico, proveniente das atividades humanas, tais como, a emissão de gases e partículas
pelo tráfego de veículos e pelas indústrias e o uso de climatizadores de ambientes internos,
propiciam a variação espacial e temporal das ilhas de calor, que se tornam mais ou menos
intensas, dependendo das características da superfície.
Embora as alterações na atmosfera e a formação das ilhas de calor sejam sentidas no
cotidiano da sociedade em cidades com diferentes contextos climáticos, é no ambiente
143 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

tropical continental que o calor se intensifica e situações de desconforto térmico podem


provocar consequências diretas na saúde e no desempenho humano (MONTEIRO,
1976).
1
Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Campus de Presidente Prudente, São Paulo, Brasil
margarete.amorim@unesp.br

iberografias42.indb 143 17/06/2022 18:00:36


Este artigo teve como objetivo analisar a frequência das intensidades das ilhas de calor
em diferentes períodos do dia, em pontos com características paisagísticas diferentes no
ambiente urbano de Presidente Prudente e no rural próximo, em dias sob condições sinó-
ticas estáveis (sem registro de precipitação), no período de junho de 2015 a fevereiro de
2016. Para isso, foram selecionadas feições urbanas e rurais para o registro da temperatura
do ar e calculadas as intensidades das ilhas de calor, considerando-se a metodologia de
Fernández García (1996) e das Zonas Climáticas Locais (STEWART; OKE, 2012).
Presidente Prudente possui população estimada de 231.953 habitantes (IBGE,
2021) e localiza-se no oeste do estado de São Paulo/Brasil (Figura 1), entre as coordena-
das 22º18´ e 22º06´ de latitude sul e 51º47’ e 51º34´ de longitude oeste. Trata-se de um
importante centro de comércio, de serviços e universitário, com setor industrial pouco
expressivo quando comparado com outras áreas do estado de São Paulo (SPOSITO,
2011). No entorno da malha urbana apresenta extensa área agropastoril, com o pre-
domínio de cobertura vegetal rasteira e alguns fragmentos arbóreos, especialmente em
fundos de vale.
144 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 1 – Localização de Presidente Prudente no oeste do estado de São Paulo/Brasil

iberografias42.indb 144 17/06/2022 18:00:37


Segundo Dubreuil et al. (2017), o clima em que a cidade está inserida é do tipo Aw (clima
tropical úmido com estação seca de inverno). Os dados meteorológicos registrados no período
de 1969 a 2015, apresentaram temperaturas diárias na primavera e no verão que oscilaram
entre os 20ºC e 32ºC, com máximas absolutas próximas aos 40ºC e nesta época do ano
concentrou-se cerca de 75% da precipitação média anual de 1.300mm (AMORIM, 2018).
As altas temperaturas são registradas em todas as épocas do ano e em estudo realizado
por Fante (2014), na análise dos desvios das temperaturas ao logo do período de 1961 a
2011, verificou-se o aumento das médias das máximas anuais e principalmente das médias
das temperaturas mínimas anuais, evidenciando-se a intensificação do calor.

Procedimentos Metodológicos

Para analisar a frequência das intensidades das ilhas de calor em pontos com caracterís-
ticas paisagísticas diferentes foram instalados sensores de temperatura do ar em 8 pontos,
sendo 5 deles com características urbanas (pontos 2, 3, 4, 5 e 6 da Figura 2) e 3 rurais
(pontos 1, 7 e 8 da Figura 2).

145 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 2 – Localização dos sensores de temperatura do ar em Presidente Prudente (SP)

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As paisagens de registros da temperatura do ar em pontos fixos foram classificadas
adaptando-se à metodologia das Zonas Climáticas Locais (Local Climates Zones – LCZ)
(STEWART; OKE, 2012), visando a comparação de feições similares da superfície. Tal
classificação é aplicável à investigação das ilhas de calor porque possibilita “encontrar uni-
formidade nos processos de superfície e características que influenciam a temperatura pró-
xima à superfície” (CARDOSO; AMORIM, 2017, p. 79).
As feições são combinadas considerando-se os tipos construtivos e as coberturas da
terra (Tabela 1 e Figura 3), pois esses critérios controlam o microclima e os climas locais
como o vento, a temperatura e a umidade (OKE; MILLS; CHRISTEN; VOOGT, 2017).
As classificações das LCZs aplicadas nesta pesquisa foram organizadas estabelecendo-
-se o limite de 100 metros de raio a partir dos pontos fixos (Figura 3), onde foram feitos
os registros de temperatura do ar.

Tabela 1 – Características dos pontos de registro da temperatura


do ar em Presidente Prudente (SP)

Coordenadas – UTM 22 S Alti-


Características
Pontos LCZ tudes
das LCZ X Y Z (m)
1 LCZ B Vegetação arbórea esparsa 452414 7551536 418
2 LCZ 3 Compacta de baixa elevação 453421 7549937 421
3 LCZ 3 Compacta de baixa elevação 455518 7555250 432
4 LCZ 6 Aberta de baixa elevação 455852 7550796 427
5 LCZ 6 Aberta de baixa elevação 458060 7553188 436
6 LCZ 2 Compacta de media elevação 460347 7553304 482
7 LCZ B Vegetação arbórea esparsa 464159 7552443 396
8 LCZ B Vegetação arbórea esparsa 464318 7552290 415
146 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Figura 3 – Localização dos sensores de temperatura do ar em Presidente Prudente (SP)

A aquisição dos dados primários de temperatura foi realizada por sensores abrigados,
instalados a 1,5 metros do solo. Os equipamentos utilizados foram do tipo data logger
(U23-002) da marca HOBO, protegidos por abrigo da mesma marca do tipo RS3 (Figura
4), e estação meteorológica do tipo Vantage PRO 2 da marca Davis Instruments (Figura 5).

147 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 4 – Abrigo meteorológico (tipo RS3 — Hobo) com registrador de temperatura e umidade com sonda externa
— data logger (U23-002) — Hobo (equipamentos instalados nos pontos 1, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 identificados na Figura 2)

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Figura 5 – Estação meteorológica do tipo Vantage Pro 2 da marca Davis Instruments (equipamento instalado no
ponto 2, identificado na Figura 2)

O período de registros da temperatura do ar ocorreu entre 01 de junho de 2015 a 28


de fevereiro de 2016, totalizando 274 dias, entretanto, em 147 dias houve precipitação,
sendo esses dias retirados da análise. Foram, portanto, utilizados os dados de 127 dias, sem
o registro de precipitação.
A opção por retirar os dias com precipitação da análise da frequência da intensidade
das ilhas de calor ocorreu por dois motivos: primeiro, porque as ilhas de calor não são bem
definidas sob condições atmosféricas instáveis; segundo, porque, em alguns episódios, foram
registrados baixos totais de precipitação em um dos pontos e não em outros, e isso pode gerar
uma falsa interpretação sobre o maior ou menor aquecimento em determinados locais. Às
148 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

vezes, a maior temperatura em determinado ponto foi consequência da ocorrência de preci-


pitação isolada em outro ponto, e não a manifestação do urbano propriamente dito.
Para a apresentação dos resultados da frequência, intensidade e magnitude das ilhas de
calor e de frescor atmosféricas foram elaborados gráficos em horários representativos dos
períodos do dia: noite e madrugada (Figura 6) e manhã e tarde (Figura 7).

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Para o cálculo da intensidade das ilhas de calor elegeu-se um ponto, localizado no
ambiente rural a leste da malha urbana (ponto 7 das Figuras 2 e 3), que apresenta um frag-
mento de mata com características próximas às condições originais locais. Esse ponto foi
considerado o ponto “0” de referência e, a partir dele, processou-se o cálculo da intensida-
de das ilhas de calor, subtraindo-se o valor medido em cada ponto (ΔT = PX – P7 LCZB).
Com a aplicação da fórmula, utilizou-se os conceitos de intensidade e de magnitude
das ilhas de calor considerando-se, respectivamente, os critérios quantitativo e qualitativo
de classificação da força do fenômeno, conforme Fernández García (1996). Segundo o re-
ferido autor, a magnitude das ilhas de calor considera as diferenças térmicas entre o rural de
referência (no caso desta pesquisa, o ponto 7 das Figuras 2 e 3) e o urbano registradas por
meio dos seguintes parâmetros: ilha de calor de fraca magnitude, quando as diferenças entre
os pontos mais quentes e mais frios variam de 0ºC a 2ºC; de moderada magnitude, quan-
do variam de 2ºC a 4ºC; de forte magnitude, quando variam de 4ºC a 6ºC; e de muito
forte, quando superiores a 6ºC. Nesta pesquisa, os intervalos das intensidades das ilhas de
calor foram adaptados considerando-se: 0,1ºC a 2ºC de fraca magnitude; 2,1ºC a 4ºC de
magnitude moderada; 4,1ºC a 6ºC de forte magnitude e superiores a 6ºC de muito forte
magnitude. As diferenças negativas entre o ponto de referência e os demais, identificam a
ilha de frescor (OKE; MILLS; CHRISTEN; VOOGT, 2017; AMORIM, 2020).

Resultados e discussões

Nas figuras 6 e 7, verificam-se as frequências das intensidades das ilhas de calor e das
ilhas de frescor nos diferentes pontos de análise nos horários representativos dos períodos
do dia (0h, 3h, 6h, 9h, 12h, 15h, 18h, 21h).
No período noturno (0h, 3h, 21h) e no início da manhã (6h), foram registradas as
maiores frequências de intensidades das ilhas de calor de forte e muito forte magnitudes
(Figura 6).
As maiores intensidades das ilhas de calor de magnitudes forte e muito forte foram re-
gistradas às 21h nas áreas densamente construídas, com construções compactas de baixa e
média elevação, localizadas em conjunto habitacional de baixo padrão construtivo (ponto
2 – LCZ 3) e no centro (ponto 6 – LCZ 2) com os lotes completamente impermeabi-
lizados (Figura 3). Somando-se as intensidades forte e de muito forte magnitudes, esses
149 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

pontos atingiram, respectivamente, 63,8% e 57,5% (Figura 6 – 21h) dos dias analisados.
Somando-se as intensidades das ilhas de calor forte (entre 4,1ºC e 6ºC) e de muito
forte magnitudes (acima de 6ºC), outros pontos que ultrapassaram os 50% dos dias anali-
sados foram os pontos 4 e 5 (LCZ 6), que são condomínios de residências de alto padrão
construtivo, mais abertos e de baixa elevação (Figura 3).

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Nos pontos representativos da paisagem rural (pontos 1 e 8, LCZ B, da Figura 3), às
21h, foram registradas ilhas de calor, em relação ao ponto “zero” (ponto 7 da figura 3),
predominantes entre as magnitudes fraca e média, entretanto, foram observadas diferenças
significativas entre eles (Figura 6). No ponto 8 (LCZ B), localizado a leste da malha urbana
(Figura 2), não foram registradas ilhas de calor de forte e muito forte magnitudes, sendo
elas observadas com pouca frequência no ponto 1 (30,7%). No ponto 8, foram registradas
ilhas de calor de fraca magnitude (61,4%) e ilhas de frescor (31,5%). As ilhas de frescor
também foram registradas no ponto 1 (5,5%).
Cabe destacar alguns aspectos importantes na análise dos pontos representativos da
paisagem rural (pontos 1 e 8 – LCZ B). Esses dois pontos, embora apresentem caracterís-
ticas muito parecidas no que se refere às suas altitudes, sendo o primeiro com 418m e o
segundo com 415m, e ao uso da terra, baixa presença de construções, com predomínio de
vegetação rasteira e arbórea dispersas no entorno (LCZ B), mostraram-se muito diferentes
quanto à frequência das intensidades das ilhas de calor e das ilhas de frescor. As explicações
para essas diferenças dizem respeito à posição que cada um deles ocupa no contexto da
malha urbana e a interferência da dinâmica dos ventos.
150 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 6 – Frequência, intensidade e magnitude das ilhas de calor atmosféricas nos pontos de registros em
Presidente Prudente (SP) às 21h, 0h, 3h e 6h

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A direção predominante do vento em Presidente Prudente é proveniente do quadrante
leste (SANT`ANNA NETO e TOMMASELLI, 2009). Desse modo, o ponto 1 (oeste da
malha urbana) está sujeito a receber o fluxo do ar proveniente de áreas construídas, e o ponto
8 (leste da malha urbana), de áreas permeáveis com cobertura vegetal rasteira e arbórea. Além
disso, a localização a oeste faz com que o ponto 1 receba maior quantidade de radiação solar
no final da tarde do que o ponto localizado a leste.
Nos outros horários noturnos (0h e 3h) e no início da manhã (6h), as ilhas de calor se
mantiveram nas áreas densamente construídas (LCZs 2, 3 e 6), seguindo o mesmo padrão
apresentado às 21h, observando-se pequena diminuição da frequência das magnitudes forte
e muito forte e aumento das magnitudes média e fraca (Figura 6).
Nos horários diurnos, as frequências das magnitudes das ilhas de calor forte e de muito
forte diminuíram significativamente nos pontos e desapareceram na maioria deles. Muitas
ilhas de frescor foram formadas mesmo em ambientes construídos (Figura 7).
Às 9h, nas paisagens rurais (pontos 1 e 8 – LCZ B), foram observadas as seguintes carac-
terísticas: as ilhas de frescor se formaram nos pontos 1 e 8 em apenas 2,4% dos dias analisa-
dos; as ilhas de calor de fraca magnitude estiveram presentes na maioria dos dias de análise
nesses dois pontos, com registros de 66,9% e 81,9%, respectivamente.
Nesse mesmo horário, as ilhas de frescor também foram registradas de maneira significa-
tiva nos pontos 2 – LCZ 3 (49,6%) e 6 LCZ 2 (15,7%).
A geração das ilhas de frescor nas referidas paisagens urbanas (pontos 2 e 6) foram
consequência das suas posições no sítio, das altitudes elevadas (no ponto 6) e da alta
densidade construtiva, proporcionando o efeito sombra. As causas das ilhas de frescor às
9h no conjunto habitacional de baixo padrão construtivo (ponto 2 – LCZ 3), decorrem
de os lotes pequenos proporcionarem o efeito sombra pelas construções e a sua posição a
sudoeste da malha urbana dificultar a incidência direta dos raios solares sobre a superfície.
No ponto 6 (LCZ 2), a altitude é elevada, com 482m e densamente construído, localizado
no centro comercial da cidade.
Desse modo, os efeitos da altitude, das construções (efeito sombra) e da posição a oeste
no sítio urbano (no ponto 2) contribuíram para que as temperaturas fossem menores no
início da manhã, quando os raios solares incidem de forma mais inclinada.
Poucos pontos apresentaram frequências de ilhas de calor de média e forte magnitudes
151 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

às 9h. Essas intensidades ocorreram nos pontos 3 (LCZ 3) e 4 (LCZ 6), sendo os principais
fatores relacionados com a presença de construções, mas que estão em uma disposição que
não proporcionaram o efeito sombra e também pela pequena quantidade de vegetação arbó-
rea nas proximidades.
Nos demais pontos (1, 5, 6 e 8), predominou a frequência de ilhas de calor de baixa
magnitude, evidenciando que, nesse horário, a cidade pouco interfere nas magnitudes

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elevadas das ilhas de calor e, em alguns casos, pode proporcionar ilhas de fresco (pontos
2 e 6). Mesmo nos pontos rurais (1 e 8), as intensidades estiveram com características
semelhantes às áreas construídas (ilhas de calor de fraca magnitude), por estarem mais
suscetíveis à incidência direta dos raios solares.
Às 12h e 15h, as ilhas de frescor e de calor de baixa magnitude permaneceram nos
pontos urbanos e também nos rurais, particularmente nas áreas com presença de cobertura
vegetal arbórea e nos bairros com terrenos maiores. Entretanto, as ilhas de calor de média
magnitude ocorreram com maior frequência nos pontos 3 (LCZ 3) e 4 (LCZ 2) e também
foram registradas frequências significativas de ilhas de calor de forte magnitude. A carência
de vegetação arbórea associada a maior densidade construtiva podem ser consideradas os
principais fatores para as temperaturas elevadas, porque estas ocorreram tanto em condo-
mínio fechado de alto padrão construtivo (ponto 4 – LCZ 2) como em bairro de médio
padrão construtivo e densamente edificado (ponto 3 – LCZ 3).
Às 18h, as frequências das magnitudes forte e muito forte voltaram a ser registradas,
prevalecendo ainda as magnitudes média e baixa, para atingirem o pico da frequência das
fortes magnitudes às 21h. Nesse horário (18h), nos pontos 2, 3 e 6, foram registradas ilhas
de calor de forte magnitude e também de muito forte magnitude no ponto 2.
152 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 7 – Frequência, intensidade e magnitude das ilhas de calor atmosféricas nos pontos de registros em
Presidente Prudente (SP) às 9h, 12h, 15h e 18h

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Considerações finais

Este estudo mostrou que as maiores frequências das intensidades das ilhas de calor de magni-
tudes forte e muito forte foram registradas no período noturno, permanecendo até pouco antes do
amanhecer, nas áreas densamente construídas, não apenas na área central (ponto 6 – LCZ 2), mas
também em conjunto habitacional de baixo padrão construtivo (ponto 2 – LCZ 3) da periferia.
As menores frequências de intensidades forte e muito forte das ilhas de calor, no pe-
ríodo noturno, foram registradas nas paisagens rurais (pontos 1 e 8 – LCZ B). A presença
da vegetação arbórea e rasteira proporciona o aumento da umidade do ar amenizando as
altas temperaturas, na medida em que retira da atmosfera o calor sensível e aumenta o calor
latente. Entretanto, foram registradas diferenças significativas entre essas duas paisagens ru-
rais. Embora tenham semelhantes condições de relevo e de uso da terra, o fato de ocuparem
posições diferentes em relação ao sítio urbano foi decisivo para justificar tais diferenças. O
rural leste (ponto 8 – LCZ B), quando comparado com o rural oeste (ponto 1 – LCZ B),
apresentou as menores diferenças de temperatura entre ele e a área vegetada, considerada
como ponto de referência para o cálculo da intensidade, inclusive ocorrendo ilhas de frescor.
Nos horários diurnos, as ilhas de calor atmosféricas de forte e muito forte magnitudes
quase desapareceram, verificando-se o registro de ilhas de frescor em alguns pontos urbanos.
Especialmente no período da manhã (9h), considera-se que o efeito sombra seja o responsável pelo
registro das ilhas de frescor, além da posição da área no quadrante oeste do sítio urbano (ponto 2
–LCZ 3), que em outros horários apresentou as maiores intensidades das ilhas de calor. Tais fatores
dificultam a incidência direta dos raios solares sobre a superfície e consequente aquecimento do ar.
As ilhas de calor urbanas atmosféricas apresentaram as maiores intensidades à noite,
porque, sem a incidência direta dos raios solares, a superfície rural se esfriou mais rapida-
mente do que as áreas construídas, que têm a capacidade de armazenar o calor por mais
tempo e retransmiti-lo para a atmosfera próxima.
Nos horários de maior incidência dos raios solares (12h) e de maior aquecimento diurno
(15h), as ilhas de calor de baixa magnitude predominaram em várias paisagens urbanas e também
nas rurais, particularmente nas áreas com presença de cobertura vegetal arbórea, assim como nos
bairros de terrenos maiores (condomínios de alto padrão construtivo – pontos 4 e 5 – LCZ 6).
Os bairros populares foram os mais quentes (LCZ 3), entretanto, mesmo em condo-
153 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

mínio fechado de alto padrão construtivo (LCZ 6), com carência de vegetação arbórea,
houve registros das temperaturas mais elevadas.
Os resultados mostraram que medidas precisam ser tomadas para amenizar situações
de forte e de muito forte magnitudes das ilhas de calor, pois essas podem intensificar o
desconforto térmico, especialmente na primavera e no verão quando as temperaturas são
naturalmente elevadas e são intensificadas pela geração das ilhas de calor.

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Nesse sentido, é evidente a necessidade de um projeto de rearborização urbana com espé-
cies adequadas ao ambiente tropical, a utilização de materiais construtivos adequados que não
exijam a climatização dos ambientes internos e quando se planejar o processo de expansão terri-
torial urbana, deve-se levar em consideração a implantação de lotes maiores e mais permeáveis.

Agradecimentos

Ao programa CAPES/COFECUB (Processo: 88881.191765/2018-01) pelo financia-


mento do projeto intitulado CiClAMEn: Cidades, clima e vegetação: modelagem e polí-
ticas públicas ambientais.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ –
Bolsa de Produtividade em Pesquisa – Processo: 307191/2018-4.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP – Processos:
2005/55505-3; 2014/16350-3; 2015/50439-4.

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a Brazilian city with continental tropical climate through remote sensing. Remote Sensing
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II. PATRIMÓNIO NATURAL
E TURISMO

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São Salvador (1925) – Silêncio e Poder
nas Margens do Paranapanema

Humberto Yamaki1

Viajar pela PR 090 (rodovia engenheiro Ângelo Lopes) que acompanha a margem es-
querda do rio Paranapanema é experiência única. Estamos na divisa dos Estados do Paraná
e São Paulo. Seguimos no sentido Leste Oeste. A seqüência de longas retas ondulantes e
curvas suaves vão revelando um mar de morros e horizontes. Plantações tecem, a cada
estação, diferentes matizes do verde. Revelam nos caminhos e carreadores, os detalhes do
parcelamento de terras. Reforçam o traçado da rodovia.
Vistas cênicas impressionam com amplitude e profundidade. (LAMPTON, 2006)
Em vários momentos é possível ver, de relance, o rio Paranapanema. Na travessia da
ponte sobre o ribeirão Vermelho, avistamos as águas calmas da represa Capivara no rio
Paranapanema. Logo adiante, uma pequena elevação. Esse foi o local planejado para im-
plantar o Patrimônio de São Salvador (1925). Daqui, para o sul, uma vista para a direção
do ramal projetado da ferrovia para a bacia do rio Ivaí. A foz do ribeirão Vermelho mostra
características de um local estratégico.
Apesar do esquecimento, essa é uma paisagem histórica. As margens do rio
Paranapanema eram consideradas “zonna de grileiros e tubarões” (JORNAL O DIA,1925).
Jornais do inicio da década de 1920 publicavam, continuamente, anúncios visando legiti-
mar as terras devolutas.
O jogo de interesses e poder significava reivindicar posses e domínios. Apresentada em
raras cartografias, resultaram em silêncios, distorções intencionais e desvios. Diferenças
157 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

nos Planos de Viação do Governo e aqueles apresentados em panfletos de Companhias de


Colonização eram constantes. Confirma as especificidades do discurso cartográfico e seus
significados (Harley, 2009).

1
Coordenador do Laboratório de Paisagem UEL
yamaki@uel.br

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Figura 1. Ponte sobre o ribeirão Vermelho tendo à direita o rio Paranapanema. Na outra margem fica o local
onde estava planejada a implantação do Patrimônio São Salvador. Fonte: Google Street View 2021.

Silêncio de Viajantes

Dois documentos são importantes para comprovar os planos para o Povoado de São
Salvador e a Estrada de Ferro Central do Paraná ajustada (1925) para a Companhia de
Terras Norte do Paraná CTNP e a estrada Cambará - São Salvador prosseguindo até o
Porto São José. São eles: 1) O “Mappa de Viação do Estado do Paraná” com indicação
de suas zonas colonizadas, organizada pela Directoria de Viação Terras e Colonização,
publicada em 30 de dezembro de 1925 e 2) “Caminhos para o Brazil – Sugestões para a
Solucção do Problema Rodoviário no Brasil” (Derron, 1928).
As frentes pioneiras nos estados de São Paulo e Paraná atraíram a atenção de vários
exploradores e pesquisadores. Pierre Monbeig (1935 e 1952) visitou a região na década de
1930. Apresentamos a seguir silêncios e desvios apresentados por autores, em cada época.
Na publicação “A Zona Pioneira no Norte do Paraná (1935)” Monbeig afirma que:

“Foi em 1929 que a empresa colonizadora britânica – deixando de lado um


primeiro projeto de estabelecimento de um ramal da Sorocabana que, partindo de
Presidente Prudente teria alcançado Londrina – resolveu explorar de novo uma linha
já existente que ia de Ourinhos a Cambará e servia algumas grandes fazendas recen-
tíssimas...”(1935 p.16)

Essa interpretação merece algumas reconsiderações. A partir do Decreto de Concessão


da Estrada de Ferro Central do Paraná EFCP (Cia Marcondes, 1922) é possível concluir
158 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

que, existia um ramal que partia da Linha Tronco, em Reserva, e seguia até o Vale do
Pirapó nas margens do Paranapanema. Esse era o ramal 1 da EFCP. No entanto, a ferrovia
que partia de Presidente Prudente e seguia até o rio Paranapanema era a Estrada de Ferro
Paranapanema (Fairbanks 1922/25). Ramal 1 da EFCP (1922) e a ferrovia EFP (1922/25)
não eram portanto ramal da Sorocabana.

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Monbeig também não cita a Estrada de Ferro Central do Paraná ajustada, da conces-
são da Cia Marcondes (1922) para a CTNP (1925), por ocasião da assinatura da Escritura
de Compra e Venda de Terras.
A repetição da história oficial e de cartografias da CTNP em Monbeig (1935) faz
com que não seja citada a Estrada de Ferro Central do Paraná ajustada (1925) e nem o
Patrimônio de São Salvador (1925) que seria o ponto final do ramal 2.
Monbeig (1952) apresenta, paralelamente, importante e detalhada analise sobre os
tipos de parcelamento em glebas nas duas margens do rio Paranapanema na publicação
Pioneiros e Fazendeiros no Estado de São Paulo (1952). No Estado de São Paulo identifica
a delimitação e subdivisão em fronteiras naturais e, no Paraná, a delimitação em linhas
perpendiculares ao Paranapanema, em radical geometria. Justifica tal característica o fato
de que ninguém pensava ainda em derrubar e plantar. O Mappa de Viação das áreas co-
lonizadas (1925) é citado em sua publicação (1952). Apresenta a legenda, porém, não o
mapa. Informa que o “mesmo traçado do mapa não apresentado figura na carta da CTNP
de 1939”. Aqui uma outra questão. A Planta CTNP (1939) não indicava a EFCP ajustada
nem o Patrimônio de São Salvador. A única ferrovia da Planta da CTNP de 1939 era a
EFSPP, de Cambará à Serra de Apucarana.
Em “O Problema das frentes Pioneiras do Estado do Paraná (1953)”, Lysia Bernardes,
outra importante pesquisadora, descreve assim a importância da obra colonizadora da
CTNP no Norte do Estado.

“O rápido avanço da frente pioneira a Oeste do Tibagi teve inicio a partir


de 1929 e foi obra da Cia de Terras Norte do Paraná, então denominada Paraná
Plantations Ltd. Esta Companhia, formada com capitais ingleses, adquiriu do go-
verno estadual uma área de *515 000 alqueires paulistas, situada a oeste do Tibagi
entre os rios Paranapanema e Ivaí; no mesmo ano comprou a Estrada de Ferro São
Paulo Paraná cujo ponto terminal era desde 1925 Cambará e em três anos levou seus
trilhos até Jataí, margem direita do Tibagi. (Bernardes, 1953, p32)

*Na Escritura de Compra e Vendas (1925) , consta que a área adquirida foi de 350
000 alqueires.
159 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

A autora repete o discurso oficial da CTNP, e também não cita a EFCP ajustada.
Na publicação “Caminhos para o Brazil (Derron, 1929)” são descritas as estradas em
projeto e construção no Brasil. No Norte do Paraná constava a estrada de Cambará a São
Salvador.
“De Congonhas está em construção um ramal de 20km até Sertanopolis, no rio
Tibagy, e dessa povoação trabalha-se em uma que permitta acesso a automóveis até

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Barra do Tibagy, Paiol, São Salvador, estando em projecto a sua continuação ao longo
do Valle do Paranapanema pelas povoações de Itaparica, Boa Esperança, Santo Inácio
e, futuramente até o Porto de São José, à margem do rio Paraná.” (Derron, 1928)

Além do que já indicava o Mappa de Viação (1925), Derron detalha o prolongamento da


estrada de Cambará / Carvalhópolis até o Porto São José no rio Paraná (1928). Revelam as es-
tratégias do Governo interligando as Terras do Norte através de estratégicas ferrovias e rodovias.
Patrimônio de São Salvador e EFCP ajustada nunca seriam citadas pela CTNP
(1938,1977). Sabe-se que partes do ramal 2 da EFCP ajustada (1925) ainda seriam uti-
lizadas como “Estrada de Autos” pela CTNP na implantação dos pioneiros patrimônios
Heimtal (1929) e Londrina (1932).(Yamaki, 2017)

O Discurso Oficial

Na Mensagem de Presidente do Estado (1926), é possível compreender a situação das


terras às margens do Paranapanema.

“A grande e rápida valorização das terras, especialmente as do norte do Estado,


tem aguçado a cobiça dos que pretendem a posse de extensas glebas nessa região, origi-
nando irritantes dissensões entre os contendores... Por isso julguei opportuno reservar
a área necessária á formação de um núcleo de povoação, que será a origem de uma
futura cidade as margens do Paranapanema, á conveniente distancia do Porto de São
Salvador”.

O Decreto 1172 de 28 de dezembro de 1925 desapropriava uma área para implantação


de uma povoação:

“O Presidente do Estado do Paraná, attendendo a necessidade de fazer conver-


gir população para o ponto norte do Estado, facilitando a colonização das extensas
zonas que ainda se acham despovoadas; attendendo que se faz mister policiar a re-
ferida zona, resolve ad-referendum do Congresso Legislativo do Estado, declarar de
160 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

utilidade e necessidade publica e desapropriar de quem de direito uma área de 2.000


(dois mil) hectares de terras sobre o Ribeirão Vermelho, em logar conveniente, nas
proximidades do Rio Paranapanema, afim de ser alli constituida e edificada a povoa-
ção de São Salvador, para o que manda depositar a importância de 16:000$000 (de-
zesseis contos de reis), em pagamento da referida área de terras e, desde já, na forma
da lei, entra na posse respectiva, afim de iniciar os trabalhos necessários.”

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Logo em seguida, o Estado manda abrir uma estrada de ligação de São Salvador
ao rio Congonhas até o prolongamento da estrada de Cambará. Visava possibilitar
o percurso de Jacarezinho à futura cidade. A mensagem informava finalmente que,
“acham-se em organização a planta das casas destinadas ao quartel da policia, escola e
á residência das autoridades e cuja construcção será iniciada sem demora.“
Sobre este Decreto, manifestou o jornal O DIA (1925): “O Governo do Estado
resolve intervir “manu militari” na zona conflagrada e ahi funda uma povoação
invocando o nome do Christo Salvador... Funda-se uma povoação para policiar a
zona.”
Para o Governo, o Povoado de São Salvador, as estradas de acesso a Cambará e a
ferrovia serviam a vários propósitos. Apaziguar o conflito de terras, efetivar a ligação
com Cambará e Jacarezinho, servir como terminal do ramal 2 da EFCP. Criar uma
rede de caminhos e ferrovias incorporando ao sistema de viação geral do Estado.
Apesar do discurso oficial, são poucas as referencias sobre o Plano de Viação de
1925. Cada concessionário de terras devolutas ou Companhia de Terras desenvolveu
seus próprios planos de colonização, de acordo com interesses e possibilidades.

Sobre Cartografias

Um mapa do Paraná do “Novo Atlas de Geographia” (1927) traz algumas poucas


indicações. Justifica o editor: ”São mappas sem pormenores demasiados que tornem
de difícil leitura. Quem consultar não se perderá em pormenores que, em regra, só
concorrem para eclipsar as noções de maior importância”. Entre as poucas indicações,
a localização de tribos Coroados e Caiaias nas terras devolutas de concessão. Harley
(1988) afirma que são formas antecipadas de indicar a ocupação do território.
São raros os mapas que trazem a indicação do Patrimônio de São Salvador e o
ramal 2 da Estrada de Ferro Central do Paraná ajustada (CTNP, 1925). O principal
documento cartográfico é Mapa do Plano de Viação do Estado do Paraná com indi-
cação de suas zonas colonizadas (31 dez 1925). O Plano de Viação era constituído de
sistema de ferrovias e estrada de autos. A Estrada de Ferro Central do Paraná ajustada
(CTNP, 1925) apresentava Linha Tronco e quatro Ramais. A linha Tronco partia de
Carambehy (estação da Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande) e seguia até as ver-
161 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

tentes do Pirapó. Três dos quatro ramais da EFCP ajustada atravessavam os 350 000
alqueires de terras adquiridas pela CTNP em 1925. Nos anos seguintes a CTNP foi
incorporando terras de concessão adjacentes retomadas pelo Governo. Parte dessas
terras eram ao longo do ramal 2 da EFCP ajustada. Esse ramal partia do rio Bom,
afluente do Ivaí e seguia até as margens do rio Paranapanema.

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Ainda no Plano de Viação 1925, estava prevista uma Estrada de Autos. Partia de
Cambará e seguia em direção ao rio Tibagy. Após a travessia do rio Congonhas, a es-
trada se subdivide. Uma segue reto em direção a Jatahy e outra segue ao Norte, acom-
panhando o Tibagy e o Paranapanema. Essa estrada atravessava as terras de Leopoldo
Vieira (Sertanópolis) e da Corain &Cia e passava por Barra do Tibagy, Patos e final-
mente São Salvador. Nesse local onde terminava a estrada de autos estava previsto o
Patrimônio de São Salvador.
Sobre essa estrada, temos a descrição de Derron (1928),

“De Congonhas está em construção um ramal de 20km até Sertanopolis,


no rio Tibagy, e dessa povoação trabalha-se em uma que permitta acesso a au-
tomóveis até Barra do Tibagy, Paiol, São Salvador, estando em projecto a sua
continuação ao longo do Valle do Paranapanema pelas povoações de Itaparica,
Boa Esperança, Santo Inácio e, futuramente até o Porto de São José, à margem
do rio Paraná.”

O Patrimônio de São Salvador era o ponto de intersecção entre a Estrada de Autos


e o ramal 2 da EFCP ajustada. Num plano maior, a Estrada de Autos previa a inter-
ligação de Ourinhos (EF Sorocabana) ao Mato Grosso. A ferrovia EFCP por sua vez,
permitia a ligação com a Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande EFSPRG e o litoral.
A Estrada de Ferro Sorocabana planejava desde 1910 um ramal a partir de
Ourinhos até o rio Paraná atravessando o território paranaense. Isso poder ter acelera-
do o Plano de Viação do Estado do Paraná (1923 e 25).
Nos panfletos e Plantas da Companhia de Terras Norte do Paraná de 1925 a 1934,
o Patrimônio de São Salvador e o ramal da EFCP ajustada não foram indicados.
Prevaleceu o discurso oficial da CTNP, de continuação de uma ferrovia a partir de
Cambará (EFSPP, 1928).
162 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Figura 2. Sketch Map das terras da Companhia de Terras Norte do Paraná em panfleto destinado a imigrantes
alemães (1934). A única ferrovia de acesso apresentada é a EFSPP (1928). Acervo MHL

163 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 3. Sobreposição do Mapa das Terras da CTNP (1934) com a EFCP ajustada do Plano de Viação (1925).
O Povoado de São Salvador foi planejado na foz do ribeirão Vermelho no rio Paranapanema.
Ponto final do ramal 2 da EFCP ajustada. Autor: Yamaki (2017/2022).

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Vale lembrar, todavia, que, os pioneiros Patrimônio de Heimtal (1929) e Londrina
(1932) foram projetados tendo como eixo uma Estrada de Autos que seguia o mesmo
traçado do ramal da EFCP (Yamaki, 2017).
Numa das terras de concessão às margens do Paranapanema, a Planta da Fazenda
Floresta (1929), é possível identificar o contorno de dois mil alqueires do Patrimônio de
São Salvador, junto à foz do ribeirão Vermelho. São sete lotes de 133 a 186 alqueires em
forma de trapézio, num total de 2036 hectares, com a frente estreita voltada ao ribeirão
Vermelho. Não há indicação da denominação Patrimônio de São Salvador.
O Comissário de Terras Mabio Palhano organiza o “Mappa Parcial da Região Cafeeira”
(Palhano 1933). Traz os parcelamentos de glebas em várias frentes de colonização nas mar-
gens do Paranapanema. É possível identificar uma área retangular com limites demarcados
na foz do ribeirão Vermelho. No centro do terreno, nas margens do Paranapanema, é in-
dicado o Porto Ribeirão Vermelho. Do outro lado do rio, uma indicação de Regente Feijó,
uma estação da Sorocabana.
“O mapa não fala. É preciso fazê-lo falar”, afirma Claval (2017).
Os mapas do empreendimento da CTNP apresentam os contornos com “degraus” na
face norte. São os encaixes de faixas de terras devolutas de concessão na margem do rio
Paranapanema. A não representação de faixas de terras devolutas cria uma falsa ilusão de
terras não colonizadas. A única ferrovia apresentada é a extensão a partir de Cambará, a
EFSPP. O mesmo pode ser afirmado em relação aos panfletos de venda de terras (1930-34)
e publicações oficiais da Companhia.

Conclusão

Identificar os componentes, avaliar a articulação de elementos e relacionar ao contexto


é essencial para interpretar a paisagem histórica é fundamental para o reconhecimento da
paisagem histórica.
Os estudos de silêncio e poder em antigas frentes pioneiras estão relacionados
com o que passa a ser legível a partir de trabalhos de campo, sobreposição de Mapas
de Viação, Mensagens de Governo e Relatos de Viajantes. Analisar mapas, identificar
pontos de visão. Ir a campo, garantir a autenticidade de leituras, conforme afirma
164 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Claval (2017).
Tentar compreender os silêncios e desvios de mapas. Identificados os elementos de
caracterização, o estratégico local de implantação do Patrimônio de São Salvador é facil-
mente decifrável. O rio Paranapanema, o ribeirão Vermelho, a estrada, a ferrovia, o relevo,
os horizontes, os panoramas passam a ter assim, em conjunto, novos significados.

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Referências

Bernardes, L. (1952) O Problema das Frentes Pioneiras no Norte do Paraná in Revista Brasileira de
Geografia Ano XV n3, Rio de Janeiro RJ
Claval, P. (2017) O papel do trabalho de campo in CONFINS n.17, Paris
Derron D.L. et alii. (1928) Caminhos para o Brazil – Sugestões para a Solucção do Problema
Rodoviário no Brasil, São Paulo Editora Limitada, São Paulo SP.
Gomes, A. (1938). Álbum do Município de Londrina, Typographia do Paraná Norte, Londrina PR
Harley, B( 2009). Mapas, Saber e Poder in CONFINS n.3, (pp2-29), Paris
Lampton, K. (2006) ; The Roadscape Guide, Champlain Valley Greenbelt Alliance, USA
Monteiro e Oliveira (1927), Novo Atlas de Geographia, Livraria Aillaud, Rio de Janeiro
Monbeig, Pierre (1952). Pioneiros e Fazendeiros no Estado de São Paulo, Hucitec, São Paulo SP
O DIA (30 out 1925), Dos lautos almoços no Automóvel Clube à sobremesa sangrenta do ribeirão
Vermelho, n. 714, p.1, Curitiba
Presidência do Estado do Paraná (1926), Mensagem de Governo, Curitiba
Santos R. (1977). Colonização e Desenvolvimento do Paraná, Editora Ave Maria, São Paulo SP
Yamaki, H. (2017). Terras do Norte: Paisagem e Morfologia. Londrina PR: UEL

165 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Conservación del patrimonio natural, cul-
tural en inmaterial de Sanabria desde los
movimientos sociales rurales. Caso de la
Asociación CRYOSANABRIA

Daniel Boyano Sotillo1

Desde mediados del siglo pasado, el concepto de sostenibilidad ambiental ha cambiado,


al igual que los procesos participativos, de ahí la reciente puesta en valor del medio rural tradi-
cional, y su forma de organización mediante asambleas, hoy imitado por asociaciones a nivel
comarcal como CRYOSANABRIA. Y es que los actos de cooperación local y ayuda mutua re-
juvenecen en momentos de gran necesidad como es el actual. Para ello es necesario potenciar y
recuperar el trabajo colaborativo y en comunidad que en el medio rural ibérico existió y existe.
Los pueblos y aldeas se organizaban, y algunas se organizan, mediante Concejo Abierto, o
lo que es lo mismo asambleas populares donde participaba toda la vecindad. Una de las tareas
de los Concejos Abiertos eran y son trabajos comunitarios de raíz democrática asamblearia,
que se ejecutan mediante las Hacenderas o Facenderas, palabra derivada del latín “facienda” y
que se refiere al trabajo al que debe acudir todo el vecindario por ser de utilidad común. Las
facenderas son el pueblo en acción para realizar una labor común, en un terreno común, con
un beneficio común. Partiendo de esta crisis actual, entiendo crisis como cambio, principal-
mente moral, base para el resto de transformaciones, la vuelta al Concejo Abierto basado en las
tierras y costumbres comunales, pretende poner en valor dichas formas ancestrales de entender
y afrontar la vida imitando a la naturaleza y la colectividad donde la economía era un simple
subsistema de la ecología local.
En contra posición hoy en día un número significativo de personas viven una vida en
el que se produce una escisión entre vida y trabajo, lo cual es lo mismo, que la escisión
entre el ser humano y la existencia humana. En el medio rural tradicional ibérico, no solo
167 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

los aspectos materiales eran compartidos, hasta el festejo servía de complemento al trabajo
y muchas veces era difícil establecer diferencias nítidas entre trabajo y tiempo, ya que los
cantares y las conversaciones, e incluso las fiestas eran frecuentes.
1
Asociación para el estudio de la montaña CRYOSANABRIA
danielboyanosotillo@gmail.com

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Los Concejos Abiertos, en los pueblos y aldeas, son el fruto de un largo proceso de orga-
nización, cultura y administración territorial ancestral donde la mujer y el hombre, enraizados
en su tierra, coexistían mediante un vínculo de unión entre la naturaleza y sus pobladores
humanos que se ocupaban y preocupaban por ella, ya que dependían de esta para vivir.
Podemos estar seguros que era muy extenso el comunal trabajado mediante Concejo
Abierto, en los siglos pasados, esto es, el conjunto de bienes de producción (no sólo la
tierra, también molinos, fuentes, bueyes... incluso patrimonio inmaterial como saberes
prácticos, fiestas ancestrales como las mascaradas, cuentos o canciones) que desde sus orí-
genes eran regidos por las y los vecinos de los pueblos por medio de la asamblea vecinal,
el concejo abierto. Si no se gestionaban, y gestionan, desde el concejo no son comunales.
En definitiva, el comunal satisfacía no solo las necesidades materiales de una determinada
localidad, sino que también las necesidades humanas psicosociales, de tipo inmaterial, la
de relación, afecto, compañía y cariño, de generosidad y servicio desinteresado, hoy casi
168 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

por completo desaparecida, según palabras de Justa, vecina de Puebla de Sanabria nos ma-
nifestaba lo siguiente cuando tenía casi 100 años de edad “hoy prevalece el quìtate tu para
ponerme yo al no haber amor a nada ni nadie n. Cada uno va lo suyo y solo se centran en
lo material. Se está perdiendo la hermandad ya que antes los vecinos eran como hermanos
y si ocurría algo en una casa todas las personas acudía para ayudar”.

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En la actualidad es complicado trabajar en común porque la sociedad actual no cree en un
futuro mejor que el vivido y porque no existen objetivos comones y cada núcleo económico
familiar tiene sus propios intereses. En el mundo rural tradicional existían intereses comunes y
cada pueblo era un gran familia. Mediante el asosacionismo rural se pretende recuperar estos
valores de cooperación y unidad, en el caso de CRYOSANABRIA, nivel comarcal de Sanabria.
De este modo nuestros antepasados durante siglos, han asistido a asambleas guber-
nativas, han hablado claro y alto en ellas y han decidido sobre sus vidas. Si ese es nuestro
pasado ése mismo ha de ser nuestro futuro, si bien adaptado a la realidad contemporá-
nea, y este esta es la línea de trabajo que seguimos en Sanabria con nuestra Asociación
CRYOSANABRIA dentro del contexto actual donde los movimientos sociales cada vez
adquieren más relevancia en contra de figuras representativas que no llegan al pueblo de
forma integral ni transversal como pueden ser los ayuntamientos o diputaciones. Mediante
los movimientos sociales se pretende complementar estas instituciones que en la actuali-
dad no tienen posibilidad de aterrizar en el mundo rural con garantías de éxito.

169 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Los movimientos sociales rurales tratan de generar cambios sociales que se oponen a los
problemas existentes y para ello no buscan el poder como los partidos políticos. Se basa en
formas de organización tradicionales, voluntarias y participativas como el concejo abierto para
poner en valor el patrimonio natural, cultural e inmaterial de un determinado espacio rural.

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Los movimientos sociales son un intento colectivo de suscitar un interés común, o de
asegurar un objetivo compartido, mediante la acción colectiva fuera de las instituciones
establecidas. Se distinguen por su carácter de organización no formal, pero a continuación
acepta que sus límites con las organizaciones formales son muy ambiguos, por lo que gru-
pos institucionalizados podrían ser clasificados como movimientos sociales en la medida
en que su actividad se orienta a realizar actos públicos o privados para promover o resistirse
al cambio social.
Los movimientos sociales alternativos más conocidos y con más historia son el femi-
nismo, el pacifismo y el ecologismo. CRYOSANABRIA trabaja de forma transversal en
estos tres ámbitos para adaptarlos al contexto rural actual que por un lado es cambiante,
al depender cada vez más de un mundo globalizado, y por otro, trata de mantener su
identidad y esencia cultural para no desintegrarse en un mundo urbanizado y en el que
el mundo rural tiende a perder peso en todos sus sentidos, desde demográgico, hasta eco-
nómico y cultural, perdiéndose de este modo un importante legado y riqueza ya que eran
sociedades social y ambientalemente equilibradas.
170 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

En definitiva la Asociación para el estudio de las montañas CRYOSANABRIA es


una organización que trabaja para mantener y recuperar el patrimonio natural, cultural e
inmaterial de los pueblos de la comarca sanabresa y áreas de montaña.

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En CRYOSANABRIA creemos que para valorar el patrimonio hay que apreciarlo y
para apreciarlo hay que conocerlo. Por ello, con más de 300 personas socias que dedican
su tiempo de forma voluntaria, CRYOSANABRIA realiza actividades de recuperación
y puesta en valor del patrimonio cultural, tanto material como inmaterial, de estudio y
protección de la naturaleza y, encuentros lúdicos que permiten a personas de todas las
edades conocer mejor la comarca, sus tradiciones y su naturaleza.
Cada año se celebran decenas de actividades, entre las que destacan:
• Recuperación de tradiciones: mascaradas tradicionales, actividades infantiles para
mantener tradiciones (mascaradas, cultura en la montaña, vida pastoril, lobo…),
concurso de ramo sanabrés – leones de Navidad, promoción de lengua sanabresa,
recuperación de juegos tradicionales.
• Cuidado del entorno natural: cursos de iniciación al montañismo y al alpinismo,
señalización de caminos SL, PR, GR y caminos tradicionales, conservación de
bienes patrimoniales (molinos, palomares, hornos…), trabajos para la prevención
de incendios y conservación de flora y fauna autóctona, campañas de recogida de
basura en la naturaleza. proyecciones y elaboración de documentales culturales,
promoción de lengua sanabresa, actividades infantiles para mantener tradiciones
(mascaradas, cultura en la montaña, vida pastoril, lobo…), colocación navideña
del visparro en una cima de Sanabria, campañas de ramo senabrés leonés de ñavi-
dá, juegos tradicionales, trabajos para la prevención de incendios y conservación
de flora y fauna autóctona, actividades con personas de edad avanzada, encuen-
tros musicales y literarios, edición de manuales y libros, guías de montaña, guías
de fauna y flora, conversatorios ambientales y culturales con personas destaca-
das, fiadeiros/filandares/seranos, exposiciones fotográficas (Paisajes de Sanabria,
Muestra tu mirada contra la desigualdad, Montañas desde el sentimiento) , taller
de astronomía...
• Investigación y divulgación: proyecciones y elaboración de documentales cul-
turales, encuentros musicales y literarios, edición de manuales y libros, guías de
montaña, guías de fauna y flora, conversatorios ambientales y culturales con per-
sonas destacadas, fiadeiros/filandares/seranos, y exposiciones fotográficas.
• Apoyo a la actividad económica y a nuevos pobladores: campañas de apoyo al
171 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

consumo de productos locales de Sanabria, facilitar a las nuevas personas que


llegan a vivir a Sanabria su llegada y acogida.

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Porque creemos que juntos somos más, CRYOSANABRIA también pretende ser un
lugar de encuentro para todas las personas que viven en Sanabria y aquellas que pasan
algún tiempo en la comarca. Además de interlocutor entre la sociedad civil rural sanabresa
con otros actores como la administración o sector empresarial.
A pesar de tener la forma de organización social rural tradicional como base,
CRYOSANABRIA se abre a redes y experiencias de otros lugares para complementar su
aprendizaje, incluso a nivel internacional.
Así CRYOSANABRIA es una de las 150 asociaciones de montaña que a nivel mun-
dial pertenecen a la Alianza para las montañas de Naciones Unidas y está alineada con la
consecución de los Objetivos de Desarrollo Sostenible además de las diversas cartas y dic-
támenes de la UE sobre las regiones de montaña. Así como las directrices para el turismo
sostenible y de montaña.
Por otra parte, la Asociación para el estudio de la montaña CRYOSANABRIA sigue
los Objetivos de Desarrollo Sostenible (ODS), que marcan una línea recta para alcanzar
172 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

un futuro sostenible con dignidad para todas las personas, incluidas las de las áreas de
montaña.
En materia de investigación, realiza trabajos en la misma línea que el Observatorio por
el derecho humano al agua, Red Montañas, la Universidad de Santiago de Compostela,
la Universidad de Murcia, la Universidad de Salamanca, el Instituto Universitario de

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Desarrollo y cooperación de la Universidad Complutense de Madrid, la Sociedad Española
de Ornitología, Furmientu, Red estatal de equipamientos y entidades de educación am-
biental, Gemosclera y programas de intercambio Erasmus+ de la unión Europea.

Por todo ello CRYOSANABRIA es una asociación integral que funciona de forma
sumativa con ideas+acciones de sus socias y socios.

173 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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SISTUR: da teoria à aplicabilidade na gera-
ção de recurso em produto turístico

Renan Ricardo Galdino Inácio 1

Introdução

Primeiramente, a contemplação da paisagem é um atrativo ao turismo em destinos que


a percebem como potencial produto, uma vez que o turista, utiliza a percepção subjetiva
para senti-la e apreciá-la a partir dos sentidos sensoriais, que o induzem a uma consciência
individual do objeto contemplado. Este trabalho pautou-se na exemplificação da aplicação
do SISTUR para o planejamento turístico de uma paisagem como o ‘pôr do sol’, buscando
demonstrar quais seriam os caminhos atribuídos por este modelo que contribuiriam para a
transformação da paisagem ‘pôr do sol’ em um futuro produto s ser ofertado.
Nesta pesquisa realiza-se uma discussão sobre a paisagem, percepção e como o modelo de
Sistema de Turismo – SISTUR de Beni (2007) pode contribuir para entender quais são as ações
e caminhos que proporcionam um planejamento turístico adequado para transformar uma
paisagem em um futuro atrativo desenvolvido e ofertado. Os resultados consubstanciados deste
trabalho são oriundos de um trabalho maior, focando em demonstrar a relação da paisagem
com a percepção de um observador, em ressaltar sobre os resultados relacionados à aplicação
do modelo SISTUR na paisagem de Panorama – SP, que foi o objeto de estudo deste trabalho.
De acordo com o Plano Diretor de Desenvolvimento Turístico de Panorama (2016), o
Município de Interesse Turístico de Panorama – SP se localiza no Brasil, ao Oeste do Estado
de São Paulo onde ocorre a fronteira com o Mato Grosso do Sul, tendo como cidade próxima
Brasilândia. A latitude se baseia em 21º21”23” sul, e longitude 51º51”35” oeste, pertencen-
175 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

do à 10ª Região Administrativa do Estado, a Região Administrativa de Presidente Prudente.


que tem como cidade sede Presidente Prudente. A história de Panorama se inter-relaciona
com o Rio Paraná devido à sua utilidade na geração de renda com o barro (na confecção
1
Universidade Estadual Paulista – UNESP Campus de Rosana
renan.inacio@unesp.br

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de cerâmicas, ou na pesca). A beleza cênica apreciada por seus pioneiros originou o nome
“Panorama” devido à paisagem panorâmica na praia que se formava nas épocas de seca.
Os mapas inseridos nas Figuras 1, 2 e 3 apresentam explicitamente a localização do município:

Figura 1. Localização do estado de São Paulo em nível nacional.


Fonte: Map of Sao Paulo, 2021
176 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 2. Localização de Panorama.


Fonte: Google Imagens, 2020.

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Figura 3. Região de Panorama.
Fonte: Guia Geográfico, 2019.

É possível perceber nas Figuras 1, 2 e 3 o estado de São Paulo em nível nacional, o


município de Panorama em vertente estadual e regional, tornando-se claro sua respectiva
localização. A questão norteadora é: o modelo de Sistema de Turismo – SISTUR é uma
ferramenta de planejamento abrangente? O SISTUR pode ser aplicado no recurso turís-
tico paisagem ‘pôr do sol’ de Panorama – SP? Caso sim, a aplicabilidade deste modelo na
paisagem pôr do sol se mostrou efetiva?
Tem-se a hipótese de que a ferramenta de planejamento SISTUR elaborada por Mario
Carlos Beni (2007) possui diversos fatores abrangentes da atividade turística, isso desde
177 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

objetivos no quais se pautam no desenvolvimento e estruturação do turismo em uma de-


terminada localidade até de componentes específicos e abrangentes capazes de classificar
tipos de atividades e aspectos que engloba o setor turístico.
Quando ocorre a existência de um recurso turístico potencial em um município, faz-se
necessário analisá-lo para investigar se o mesmo pode ser suscetível ao planejamento, desta

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forma, o Sistema de Turismo com seus fatores estruturais e abrangentes pode ser capaz
de ser aplicado em um recurso turístico potencial, propriamente dizendo a paisagem pôr
do sol de Panorama – SP. Ou seja, o pôr do sol de Panorama, por meio do Sistema de
Turismo, pode ser compreendido em um nível de planejamento por etapas, etapas estas
construídas e direcionadas por meio dos princípios englobados nos componentes de Beni
(2007).
O SISTUR pode proporcionar um direcionamento adequado de como os gestores da
Secretaria de Turismo de Panorama – SP poderão agir de acordo com o desenvolvimento
deste recurso, isso por meio de objetivos, ações e projetos. Ainda espera-se que o SISTUR
seja eficiente na aplicabilidade de seus componentes na paisagem pôr do sol, contribuindo
para um olhar estratégico e estrutural dos gestores para com o recurso potencial.
A pesquisa tem como objetivo estudar o modelo SISTUR e como ocorreria sua apli-
cabilidade em um recurso turístico potencial, a fim de que se possa utilizar esta ferramenta
para exemplificar as ações e metas para a consideração de um recurso.
O trabalho demonstrará a inter-relação entre a paisagem e percepção, ressaltando a im-
portância de compreender a percepção individual do turista perante a uma paisagem. Em
seguida, será destacado sobre o Sistema de Turismo – SISTUR e seus principais fatores e
componentes abrangentes no setor de planejamento e desenvolvimento turístico para que
nos resultados, se possa exemplificar a aplicabilidade de seus princípios teóricos na paisagem
pôr do sol de Panorama – SP, projetando como seria a prática da aplicação desta ferramenta.

Referencial Teórico

Em relação ao estudo da percepção de um indivíduo mediante a paisagem, pode-se


dizer que segundo, que a percepção pode se resultar a partir da integração das sensações
existentes no indivíduo que levam a uma consciência individual e subjetiva dos objetos e
eventos ambientais, envolvendo uma organização e interpretação dos sentidos aos aspectos
percebidos pelos sentidos sensoriais. O que seria a consciência? É um conjunto de per-
cepções e sensações, proporcionando um conhecimento do mundo exterior e derivando
também uma coleta de informações sensoriais de uma realidade física (Schiffeman, 2005).
É possível que exista uma analogia entre um objeto estético e um sujeito observador
sensível, fazendo com que essa relação estabeleça uma dependência do objeto perante ao
178 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

indivíduo classificado como sujeito observador. Deste modo, é este sujeito que determina
e julga se a paisagem possui uma qualidade estética ou não, ocasionando condições que
podem redefinir a paisagem como um objeto de qualidades estéticas que possui diferentes
elementos em um determinado território. (Boullón, 2002).

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Desta forma, o homem surge como observador de uma paisagem por meio de uma ati-
tude contemplativa, dirigida para captação de suas propriedades externas, seus aspectos, seu
caráter e outras questões particulares existentes em um objeto de apreciação (Boullón, 2002).
Na prática da visualização e observação de uma paisagem, Boullón (2002, p. 149) destaca que:
Cada paisagem é um fato singular cujo valor não se mantém constante em toda
sua extensão. Ao percorrê-la, sempre encontraremos [...] locais onde se expressa com
maior esplendor e beleza. Uma possibilidade é deixar que o turista descubra por si
mesmo esses lugares, o que só é válido para aquela minoria de excursionistas que se
internam na paisagem, deslocam-se por sua conta e permanecem muitos dias em
cada lugar que visitam (BOULLÓN, 2002).

O autor afirma que ao deslocar-se para um destino e percorrer naquele determinado


espaço um trajeto, o turista pode encontrar pontos fixos onde uma paisagem expressa com
maior esplendor e beleza as suas características e peculiaridades. Foi o que aconteceu com
os resultados parciais desta pesquisa, foi registrado três pontos focais principais de observa-
ção do pôr do sol de Panorama, pontos estes classificados pelos turistas entrevistados como
adequados para observação como mostra a Figura 4:

179 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 4. Pontos focais classificados com maior votação.


Fonte: o autor, 2021.

Sendo assim, o turismo pode potencializar o desenvolvimento aos municípios, quando


os mesmos possuem recursos naturais e culturais que planejados, se tornam produtos turís-
ticos. Em linhas gerais, a paisagem pode ser exemplificada como praias (de rio ou de mar),

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montanhas e pôr-do-sol, que vistas pelo turista, valorizam o destino ou atrativo turístico
e também ser considerada um dos principais elementos que pode compor a atividade
turística, pois além de ser um recurso turístico valioso, é também um determinante para
compreender se um local é ou não turístico, tendo assim, a paisagem como um fruto tam-
bém da interpretação que a natureza teve e tem ao longo dos tempos (Rodrigues, 2005).
Para perceber e sentir a paisagem faz-se necessário que os indivíduos saibam assimilar pontos
estratégicos de referências, sejam geográfico como as montanhas, lagos, riachos, árvores ou com
base em símbolos (prédios, praças, pontes entre outros (Oliveira; Machado, 1989). Portanto, “o
estudo da interação entre o homem e a paisagem se destaca por abordar os aspectos mais íntimos
dessa interação, dentre os quais salientamos o de como ele a percebe e a valoriza e quais são as
suas atitudes para como ela, de como ele a identifica [...]” ((Oliveira; Machado, 1989, p. 03).
O turismo pode proporcionar a venda de paisagens, pois se aproximam da percepção de
paraíso de cada indivíduo que as visitam, ou seja, o desejo de identificar uma paisagem ‘pa-
radisíaca’ influencia o deslocamento de diversos turistas para locais distintos e diferenciais no
mercado do turismo, promovendo a atividade e seu desenvolvimento (Marujo; Santos, 2012).
Portanto, a partir dos resultados relativos à atribuição dos subsistemas de Beni (2007) do
SISTUR, será possível constituir este artigo para explicar quais são seus subsistemas e como
seria as ações essenciais que poderia fazer s paisagem pôr do sol se transformar em uma futura
oferta para o município. Sendo assim, é importar iniciar mencionando sobre s paisagem,
que pode assumir diversas formas por conta de critérios de beleza estética (Yázigi, 2002),
além disso, cada paisagem tem suas características distintas tanto naturais quanto culturais.
O trabalho possui o pôr do sol como uma paisagem que, ao ter a presença de turistas para
observá-la, acaba de tornando algo atrativo que pode ser ofertado pelo local.
Essa contemplação dos turistas mediante a paisagem se dá por meio da percepção subje-
tiva que cada indivíduo possui, ou seja, cada indivíduo observador contemplará a paisagem
com sentimentos subjetivos distintos de cada um, uma vez que o homem surge como obser-
vador de uma paisagem por meio de uma atitude contemplativa, dirigida pela captação de
suas propriedades externas como os 5 sentidos sensoriais do ser humano (Boullon, 2002).
Tendo o pôr-do-sol como paisagem cênica e pontos de observação que se constituem como
“locais /espaços que, por si só, tornam-se atrativos, possibilitam a contemplação da paisagem e
do seu entorno” e também como “aspecto de relevância, formas ou fenômenos que constituem
180 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

diferenças [...] e atuem no estímulo do observador” (BRASIL, 2006, p. 22), pode-se entender
que, utilizar e demonstrar as finalidades dessas ferramentas do planejamento turístico a fim de
compreender como elas funcionam, é crucial para o processo de consolidar um recurso, apresen-
tando os equipamentos e serviços turísticos como ações importantes para o planejamento.
Desta forma, tendo a paisagem como um recurso potencial para ser ofertado, é interes-
sante demonstrar como os subsistemas do Sistema de Turismo – SISTUR pode contribuir

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para cada passo do desenvolvimento da atividade de contemplação dessa paisagem, ou
seja, por meio do uso das ideias de planejamento existentes no SISTUR se pode planejar
de maneira adequada como uma paisagem como o pôr do sol pode ser desenvolvida e
transformada em uma oferta para o mercado turístico do local e região.
Para planejar a atividade turística de forma adequada e estruturada é necessário investi-
gar quais são as características de determinado recurso potencial para elaborar projetos tu-
rísticos que possam transformá-lo em um futuro produto turístico, sendo assim, o Sistema
de Turismo – SISTUR desenvolvido por Beni (2007) é um modelo exemplo que pode
contribuir para o direcionamento do planejamento turístico com base na paisagem pôr do
sol, contemplada no espaço do Balneário Municipal de Panorama – SP.
O SISTUR é um sistema amplo que possui como principais objetivos a organização
do estudo da atividade turística, a fundamentação das hipóteses de trabalho para atingir
resultados futuros, a justificação de posturas e princípios científicos e o aperfeiçoamento
e padronização de conceitos e definições relativas ao turismo. Além destes objetivos, o
SISTUR também dimensiona a oferta turística, inventaria de forma estruturada o poten-
cial dos recursos turísticos naturais e culturais de determinado território, qualifica e deter-
mina demandas existentes, diagnostica deficiências entre outros (BENI, 2007).
Portanto, quais são os subsistemas que integram o modelo SISTUR de Beni (2007)?

Subsistemas Características
O subsistema ecológico possui como principal característica o con-
tato do ser humano com a natureza (homem-natureza), tendo as
Ecológico
paisagens como os elementos fundamentais de contemplação para
o turista.

A dinâmica se dá pelo comportamento do turista, suas motivações,


interesses e que não necessariamente tem um efeito lucrativo. De-
Social
ve-se analisar o perfil psicossocial do turista, as expectativas, grau
Conjunto das de visitação do local e a estratificação dos grupos sociais.
relações
ambientais O subsistema econômico é caracterizado por contribuir com o de-
senvolvimento da renda local, e apresenta como elementos a gera-
Econômico
ção de emprego, renda e aprimoramento do produto interno bru-
to.
181 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

O cultural está relacionado à diversidade do local, aos períodos


históricos que ocorreram o desenvolvimento dessa identidade. Este
Cultural
subsistema ressalta a importância do patrimônio cultural como he-
rança de um determinado local.

Conjunto das relações ambientais


Fonte: Beni, 2007.

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Subsistemas Características
O subsistema da superestrutura é responsável pela organização das vendas de
produtos do SISTUR de acordo com as políticas públicas constituintes para
órgãos públicos responsáveis pelo desenvolvimento do turismo. Este subsistema
busca planejar o turismo com base em diretrizes para o desenvolvimento do
Superestrutura
turismo em nível global e regional a fim de aprimorar destinos e atividades. A
Conjunto da superestrutura se dá por organizações públicas e privadas que, de certa forma,
Organização estarão se envolvendo com as atividades turísticas de determinados locais com
Estrutural base nas intervenções políticas e diretrizes que conduzem o fomento do turismo.
A infraestrutura se baseia nos critérios de suporte de determinados locais,
de caráter geral e específico. A infraestrutura pode ser dividida em básica e
turística, sendo a básica os transportes, energia, saneamento básico (água e
Infraestrutura
esgoto), segurança, hospitais etc. Já a turística se dá pelas empresas e equi-
pamentos e serviços locais turísticos como Alimentos & Bebidas, Meios de
Hospedagem e Eventos.

Conjunto da Organização Estrutural – Subsistemas e Características


Fonte: Beni, 2007.

Conjunto das Subsistemas Características


Ações Mercado O subsistema de mercado está relacionado com o que produzir (quais
Operacionais necessidades devem ser atendidas), como produzir (com maior quali-
dade e menor custo) e para quem produzir (qual grupo apresenta tais
necessidades).
Distribuição O processo de distribuição é constituído pelas medidas tomadas para
levar o produto turístico ou serviço do produto até o consumidor. Essas
medidas podem ser caracterizadas como sendo os canais necessários, a
programação de visitas, relatório de vendas, análise de vendas, selecio-
nar as ofertas dentre outros.
Oferta O subsistema da oferta se baseia no conjunto de equipamentos, servi-
ços e bens turísticos que determinado local terá para ofertar aos turis-
tas, como exemplo o setor de alimentação, lazer e recreação, alojamen-
to e eventos.
Demanda O subsistema da demanda se dá por aspectos de bens e serviços do tu-
rista, uma via de transporte rápido pode ser considerada as vias aéreas,
182 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

já a de transportes lentos a de meios terrestres e marítimos. A demanda


turística se dá pela principal característica ser a heterogeneidade, ou
seja, as demandas podem se dar por motivações como: busca por cul-
tura antiga; estilos de vida; pratica de esportes; lazer e até mesmo recu-
peração de saúde

Conjunto das Ações Operacionais – Subsistemas Características


Fonte: Beni, 2007.

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Percebe-se que o SISTUR possui uma abrangência de subsistemas que podem contri-
buir com caminhos para o planejamento turístico, além disso os resultados desta pesquisa
foram ordenados em um fluxograma de acordo com a ideia de subsistemas que o SISTUR
atribui para constituir ações, desta forma, pôde-se utilizar a ideia da paisagem pôr do sol
de acordo com cada subsistema atribuindo ações para que o leitor compreenda como seria
a aplicação do Modelo SISTUR em um recurso potencial para desenvolvimento turístico.

Metodologia

A metodologia desta pesquisa teve completo embasamento nos princípios do Sistema


de Turismo – SISTUR apresentado no referencial teórico, utilizando a ferramenta como
material metodológico de planejamento turístico em um recurso do Município de Interesse
Turístico de Panorama – SP, pautando-se também na ideia da percepção subjetiva dós turis-
tas como uma das formas de direcionar as ações de planejamento do SISTUR nos resultados.
Os conceitos e referencial se basearam em uma pesquisa bibliográfica e documental,
utilizando autores que foram capazes de contribuir para explicar sobre o significado da
relação entre paisagem e percepção e principalmente Beni (2007), que explica sobre o
Sistema de Turismo – SISTUR, sistema esse que contribui para ferramentas de planeja-
mento turístico proporcionando caminhos e formas de desenvolver recursos potenciais.
O trabalho também se baseia em uma pesquisa de caráter explicativa, que tem “[...]
como propósito identificar fatores que determinam ou contribuam para a ocorrência de
fenômenos. Estas pesquisas são as que mais aprofundam o conhecimento da realidade”
(Ferreira, 2011, p. 28). Ou seja, são pesquisas que buscam, de certa forma, uma explicação
das variáveis e temas existentes no trabalho, a fim de conectar ideias, para compreender as
causas e efeitos de determinado fenômeno e suas relações.
A percepção foi um método para o desenvolvimento da pesquisa completa no qual
este trabalho possui vínculo, pois a mesma deu base à criação de indicadores de percepção
e questionários qualitativos que contribuiu para identificar que uma determinada amos-
tragem aleatoriamente de turistas percebiam a paisagem pôr do sol de Panorama por meio
de seus sentidos sensoriais, tendo uma confirmação de que o pôr do sol tinha potencial e
era um recurso já percebido e que poderia ser pensado pelos gestores no desenvolvimento.
Por conta disto, a percepção será utilizada como parte metodológica das ações de direcio-
183 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

namento e planejamento turístico do SISTUR apresentado nos resultados.


Portanto, por se tratar de um artigo que busca apresentar como o SISTUR contribuiria
para desenvolver uma paisagem e transformá-la futuramente em um produto turístico conso-
lidado, todo trabalho se baseia em uma apenas utilizar a explicação do SISTUR e atribuí-la à
paisagem pôr do sol, paisagem esta de Panorama definida como o objeto de estudo principal.

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Resultados

O intuito principal da pesquisa foi proporcionar resultados consubstanciados de que


o SISTUR possa contribuir com caminhos e ações para o planejamento turístico de uma
paisagem como o ‘pôr do sol’, determinando ações estratégias para entender quais são os
caminhos e ferramentas essenciais.
Deste modo, de acordo nos subsistemas que compõem o SISTUR explicados an-
teriormente no referencial, é possível elaborar um fluxograma estruturado de exemplo,
aplicando a paisagem pôr do sol e o espaço Balneário Municipal a fim de compreender
melhor todo o SISTUR com relação aos principais objetos de estudo desta pesquisa. Segue
a seguir, o fluxograma elaborado com base nos modelos de Beni (2007) com a aplicação
dos objetos de estudo no modelo SISTUR:
184 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Fluxograma. Elaboração ilustrativa dos subsistemas aplicados no objeto de estudo.


Fonte: o autor, 2021.

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Foi possível aplicar a partir dos princípios dos subsistemas destacados no referencial
teórico, a ideia de como seria a prática do uso desta ferramenta de planejamento em um
recurso turístico, especificamente a paisagem do objeto de estudo.
Observou-se que a paisagem pôr do sol pode ser um recurso potencial para atrair popu-
lação local, visitantes e turistas a contemplarem sua beleza cênica utilizando um determinado
espaço. Porém, se o espaço não possuir uma estrutura adequada para a contemplação da pai-
sagem, isso pode diminuir o potencial que o município tem de receber visitantes com este ob-
jetivo, pois, se o Órgão Público da superestrutura desenvolver uma estrutura de observação do
pôr do sol e divulgá-la por meio de estratégias de Marketing em nível local, regional e até na-
cional, poderá despertar uma nova motivação no turista ao visitar o município de Panorama.
Por fim, esta nova motivação contribuirá, a longo prazo, com a futura consolidação
do atrativo turístico por meio de um aumento da visitação no município e também para
criação de novos segmentos da atividade turística no local, além de utilizar a paisagem pôr
do sol como forma de divulgação e beleza cênica do município na região.

Considerações Finais

Conclui-se que os resultados apresentados demonstraram o objeto de estudo desta


pesquisa exemplificado no modelo SISTUR de Beni (2007), buscando compreender que
ao seguir um modelo de planejamento turístico adequado, é possível por meio de um
médio ou longo prazo, o desenvolvimento de um novo produto turístico. Lembrando que
este novo produto turístico só é possível ser desenvolvido se houver um recurso turístico
potencial capaz de atrair uma demanda turística ao local para consumi-lo.
O trabalho utilizou o SISTUR como um embasamento de modelo do planejamen-
to turístico constituído por Beni, relacionando uma ideia da paisagem ‘pôr do sol’ de
Panorama como recurso potencial para uma atividade de contemplação.
Projetou-se por meio deste modelo um direcionamento de como seria o planejamento
da atividade turística de contemplação, utilizando a percepção como forma de investigar
se uma amostragem de turistas percebem ou sentem a paisagem para que então, após a
confirmação, os gestores coloquem a ideia em desenvolvimento. Utilizar e demonstrar as
finalidades de ferramentas ou ações do planejamento turístico a fim de compreender como
elas funcionam é crucial para o processo de consolidar um recurso, apresentando os equi-
pamentos e serviços turísticos como ações importantes para o planejamento.
185 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Não obstante, é importante destacar que para se transformar um recurso potencial em


um produto turístico consolidado, é possível utilizar outras formas, ideias e metodologias
existentes na academia das Ciências Sociais Aplicadas na área do Turismo, diferente do
Sistema de Turismo que foi utilizado como instrumento metodológico de planejamento
para o direcionamento das ideias de ações na paisagem pôr do sol de Panorama. Não ex-
cluindo outras possibilidades e procedimentos metodológicos existentes.

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Resumo: A contemplação da paisagem é um atrativo ao turismo em destinos que a percebem
como potencial produto, uma vez que o turista, utiliza a percepção subjetiva para senti-la e apre-
ciá-la a partir dos sentidos sensoriais, que o induzem a uma consciência individual do objeto con-
templado. A premissa: O recurso natural possui atributos para se transformar em produto turístico
por meio do planejamento? Para responder, esse trabalho utilizou-se a Teoria do Sistema Turístico
– SISTUR como estratégia para o planejamento turístico da paisagem pôr do sol em Panorama-
SP, buscando demonstrar quais seriam os caminhos atribuídos por este modelo em contribuição
à transformação daquela paisagem em produto para o turismo. Os procedimentos metodológi-
cos pautaram-se em um referencial bibliográfico e documental, apresentando autores capazes de
contribuir para a discussão entre paisagem e percepção e Mário Carlos Beni, com a explicação do
SISTUR, principal ferramenta de planejamento turístico utilizado nesta pesquisa. Após a aplicação
do SISTUR como modelo metodológico ao desenvolvimento do recurso pôr do sol em produto
turístico foi possível afirmar que as formas de divulgação podem transformar o intangível em pro-
duto de forma a compor este atrativo, outrora simples recurso ou paisagem natural em paisagem
turística. Esta discussão permitiu demonstrar que o SISTUR contribui ao planejamento turístico
de recursos naturais, transformando-os em produto.
Palavras-Chave: SISTUR; Paisagem; Percepção; Planejamento Turístico.

Referências

Beni, Mário Carlos. Analise estrutural do turismo. 12.ed. São Paulo: Senac, 2007.
Boullón, R. Planejamento do espaço turístico. 1.ed. Bauru, SP: EDUSC, 2002.
Brasil, Ministério Do Turismo. Manual do Pesquisador – Inventário da Oferta Turística: instru-
mento de pesquisa. Brasília: Ministério do Turismo, 2006.
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www.sp-turismo.com/mapas/presidente-prudente.htm>. Acesso em: 22 Set. 2021.
Marujo, Noémi.; SANTOS, Norberto. Turismo, turistas e paisagem. n. 4. p. 35-48. 2012.
Disponível em: <http://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/7678>. Acesso em: 22 Set. 2021.
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em: 22 Set. 2021.
Oliveira, L.; Machado, L. A percepção da paisagem como metodologia de investigação geográfica.
Rio Claro, SP: Departamento de Geografia UNESP Rio Claro, 1989. Disponível em: <http://
www.observatoriogeograficoamericalatina.org.mx/egal2/Teoriaymetodo/Metodologicos/10.
pdf>. Acesso em: 05 Out. 2020.
Prefeitura Municipal de Panorama. Plano diretor de desenvolvimento turístico do município de
186 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Panorama – SP. 2016. Disponível em: <https://www.panorama.sp.gov.br/?pag=T1RjPU9E-


Zz1PVFU9T0dVPU9HST1PVEE9T0dFPU9HRT0=&idmenu=273>. Acesso em: 05 Abr.
2021.
Schiffman, H. R. Sensação e percepção. 5.ed. Rio de Janeiro: LTC, 2005.
Yázigi, E. (Org.). Turismo e Paisagem. 1.ed. São Paulo: Contexto, 2002.

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O turismo na região litoral Centro, Sul e
Leste de Angola – Visões e estratégias a
partir do potencial do corredor do Lobito

Manuel Francisco Bandeira


José Januário

Introdução

A ideia de que Angola é um país com inúmeras potencialidades económicas e turísticas


resultado das vastas jazidas de recursos minerais e das inúmeras condições físico-geográ-
-ficas, geomorfológicas, ecológicas, histórico-culturais, sociais e económicas que possui é
já um dado adquirido e por diversas vezes evocado não apenas para encorajar o espírito
algo descrente de alguns sectores da sociedade, mas, também para mobilizar iniciativas
empreendedoras a nível interno e externo. Entretanto, no actual contexto de globalização
económica, a existência de potencial de recursos não é de “per si” a garantia de sucesso no
desenvolvimento económico. Um conjunto de factores de natureza objectiva e subjecti-
-va concorrem igualmente para dinamizar o crescimento e desenvolvimento económico e
social de um país tendo certamente o homem (técnica e cientificamente bem preparado)
como, o recurso âncora de toda engrenagem de desenvolvimento. No caso de Angola, as
estratégias de desenvolvimento há muito se encontram sustentadas pela dinâmica da pro-
dução e comércio do petróleo facto que converte todas as intenções do seu desenvolvimen-
to numa miragem e num sonho político. Estas e outras razões impõem, pois, recriar outras
capacidades, outras oportunidades económicas e sobretudo outras visões e estratégias para
proporcionar as condições internas e externas essenciais para o tack-off económico e social.
187 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Um dos sectores que pode rapidamente assegurar dinamizar a economia e mudar o actual
cenário social de Angola é o sector do turismo. O potencial que o país detêm, a sua loca-
-lização geográfica, o ambiente de paz e alegria e o sentido de hospitalidade empregnada
nos hábitos e costumes da população faz deste, o verdadeiro petróleo verde e industria da
paz que pôde gerar emprego, mostrar a imagem do país, proporcionar inclusão social e
assegurar a exportação invisível de bens e serviços. Neste artigo, pretende-se trazer a debate

iberografias42.indb 187 17/06/2022 18:00:42


o papel do corredor do Lobito como vector da expansão do turismo na região centro, sul e
leste de Angola, assim como a importância que este projecto anuncia para a transformação
do centro e sul e leste de Angola numa região de prosperidade.

O turismo e o desenvolvimento económico e social

Tendo se convertido no final do século XX, na actividade económica mais importante


do mundo e com níveis mais expectaculares de crescimento, o turismo é uma verdadeira
“industria da paz não apenas pelas afinidades com tranquilidade e a segurança” (Milando,
2021:11) mas, sobretudo pelo facto de nele estar associado, a valorização dos recursos reais
que o país detém sejam eles minerais, florestais, zoológicos, hídricos, humanos e geomor-
fológicos e diríamos até climáticos, promovendo igualmente a diversificação económica, o
combate à pobreza e o desenvolvimento.
Estudos vários afirmam inclusivamente que, governos dos países em desenvolvimento,
particularmente os de África, provavelmente teriam tido performances mais referenciáveis
nas suas taxas de crescimento económico e social, se nas suas estratégias de desenvolvimen-
to, tivessem investido de forma comprometida na potencialização dos recursos turísticos
– nas suas variadas formas e manifestações – pelas externalidades positivas que criaria para
o dinamização de outros sectores, tradicionalmente não exportáveis, como a agricultura,
a pecuária, o comércio, a cultura, os transportes pois, habilitaria serviços destes segmen-
tos económicos, a converter-se “em bens invisivelmente exportáveis”. Este quadro criaria
assim, não apenas benefícios para o alargamento da base de emprego da mão-de-obra
intensiva que, nestes países é extensa em razão dos altos níveis de analfabetismo e de li-
mitadas oportunidades de escolarização da população economicamente activa, mas como
também, permitiria aos governos a melhor reorientação das suas politicas no desenvolvi-
mento de sectores tradicionais economicamente competitivos no mercado internacional
como o sector mineiro e do petróleo.
No caso de Angola, a crise económica global e a pandemia da COVID-19 trouxe um
quadro de desafio à sua capacidade de resiliência face as adversidades, obrigando-a a cons-
truír soluções para contrariar os efeitos directos e indirectos sobre a sua economia real. E
ao definir no Segundo Eixo (Desenvolvimento Económico, Sustentável, Diversificado e
188 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Inclusivo) do Plano Nacional de Desenvolvimento de Angola referente ao período 2018-


2022, na opção 2.3-Fomento da Produção, Substituição de Importações e Diversificação
das Exportações, o programa de desenvolvimento da hotelaria e Turismo, o governo de
Angola, assume o interesse estratégico e a necessidade comum de se investir no sector
turístico. Entretanto para que tal ocorra é necessário um comprometido investimento em

iberografias42.indb 188 17/06/2022 18:00:42


infra-estruturas e uma atenção na garantia efectiva da segurança assim como a melhoria
da qualidade de serviços, a sustentabilidade e digitalização dos mesmo tidas por Bandeira
(2021) não apenas como as 4 chaves fundamentais para reorientar o desenvolvimento do
turismo mas, também como medidas de ajustamento ao quadro de directrizes redigidas
em cooperação com o Comité de Crise de Turismo Global.
Neste pormenor, importa referir o facto da África e logicamente Angola, lidar hoje,
com o turista da “era do conhecimento e da informação” (…) que tem ao seu alcance uma
enorme gama de ofertas turísticas e lazer, assim como uma quase ilimitada capacidade para
efectivá-las pelo aumento do tempo livre e pela continua melhoria dos meios de transporte
e da internet”.(idem, 2021:29). Logo, o interesse no desenvolvimento do sector turístico
e as consequentes opções estratégicas devem, respeitar aspectos essenciais como o posi-
cionamento estratégico de cada região escolhida, o seu potencial de desenvolvimento e as
infra-estruturas pré-existentes. O turismo é pois, na actualidade, a “correia de transmissão”
(transmission belt) entre o Norte e o Sul e interessa a todos – tanto aos países industrializa-
dos como aos países em desenvolvimento – sendo uma verdadeira alternativa sustentável
em relação a todos outros segmentos da vida económica e produtiva. Este sector concorre
sobretudo para a conservação do ambiente, para a melhoria do bem-estar das comunidades
locais de destino, para a segurança, o aprofundamento da amizade e solidariedades humanas
– valores que constituem algumas das bandeiras da defesa dos direitos humanos. Portanto
o desenvolvimento do turismo pôde como postula o Presidente de Angola, João Lourenço
, contribuir para que, “esta riqueza potencial várias vezes evocado no continente seja trans-
formada em riqueza efectiva para o bem dos seus povos”.

O turismo em Angola, ideias, planos e estratégias

A existência em Angola de um ecossistema ricamente diversificado e integrado harmo-


nicamente por vastas planícies, deserto, semi-deserto, montanhas, falésias, florestas, fauna,
flora, praias, mar e rios faz deste país dos poucos com capacidade de acolher, dar segurança
e paz à sua população e a todos quanto se propõem nela viver definitiva ou temporaria-
mente. Mas, para que tal aconteça assume-se estratégico a definição clara de políticas que
possam afirmar-se como indutoras de vontades geradoras de rendimento – fora dos perfis
tradicionais das actividades produtivas e de comércio – que possam criar e dinamizar novas
189 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

actividades, capazes de contribuir para a produção e aumento da riqueza nacional, confe-


rindo deste modo sustentabilidade e diversificação à economia nacional e a consequente
resiliência perante as adversidades.
Apesar dos diversos constrangimentos e limitações impostas pela crise internacional
e o impacto da pandemia da COVID-19, o sector do turismo constitui para Angola uma

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efectiva alternativa para a afirmação económica e social designadamente na valorização do
espaço urbano e rural, no aumento de receitas e na criação massiva de emprego para as po-
pulações e com ela na melhoria das condições de vida dos cidadãos. Como bem afirmava
o General Armando da Cruz Neto
“Os locais históricos, os parques, as paisagens, os rios e vales, as montanhas, o
mar e até as pedras, se bem aproveitados, são produtos de atracção turística”

Entretanto, para que tais potencialidades se revelem efectivas, é importante e urgente


como defende Bandeira (2020) acautelar os seguintes aspectos:

1. Do ponto de políticas públicas:


• Aprofundar a desconcentração e descentralização local no sentido de alargar o âm-
bito de intervenção dos municípios na definição, por via da participação de todos
(instituições e sociedade civil e população em geral) de estratégias de desenvolvi-
mento do turismo local tendo por base os recursos existentes;
• Pelo seu carácter multidisciplinar, multissectorial e transversal, é urgente a rees-
truturação do sector do turismo desde o topo até a base, pois a actividade não se
compadece com o empirismo e a improvisação. O ministério deve ter no desenho e
implementação das políticas, estratégias e projectos inovadores, um corpo de qua-
dros técnicos, cientificamente especializados em turismo e contar com um grupo
de consultores angolanos por regiões turísticas altamente qualificado, integrados
por especialistas. Outrossim, no aspecto institucional, urgente alinhar a estrutura
directiva e funcional do Ministério da Cultura e Turismo nacional com a província,
município e comuna.
• Dotar o Instituto Nacional de Fomento do Turismo de meios financeiros e sobretu-
do de quadros técnicos e científicos especializados na área do desenvolvimento do
turismo por formas a que esta estrutura sirva e apoie através de estudos, a realização
de mapeamento, cadastramento e organização dos recursos turísticos em todo o ter-
ritório, concepção de estratégia de marketing nacional e internacional do turismo
angolano em articulação com os operadores privados e suas associações de classe, a
realização de diagnósticos, avaliação e acompanhamento das iniciativas do gover-
190 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

no e empreendedores locais orientadas para a promoção de turismo. Em segundo


lugar, contribua com propostas de políticas para os planos de desenvolvimento do
turismo nacional;
• Se dote os Governos provinciais e municipais de quadros especializados em turis-
mo para elaboração, com apoio de consultoras, dos Planos Directores do Turismo
(PDTM/P) e os Planos Estratégicos de Desenvolvimento do Turismo.

iberografias42.indb 190 17/06/2022 18:00:42


2. Do ponto de vista da administração e gestão do território:
• Se definam rigorosamente políticas de desenvolvimento urbano e rural “que ga-
rantam” antes de mais o reordenamento do território, melhorar a seguran-
ça, garantir a mobilidade através de meios e infra-estruturas de transportes em
todas as suas formas e dimensões, vias de comunicações, água, energia assim
como a criação, ordenamento e preservação de espaços de utilidade turística
designadamente vales, colinas, montanhas, rios, lagoas, parques florestais, reservas
naturais, flora e fauna nativas e praias;
• Apoio e fomento de iniciativas de criação e modernização de infra-estruturas ho-
teleiras bem como a formação de quadros de turismo e hotelaria incluindo guias
turísticos locais e tradutores;
• Criação de agências locais de fomento e apoio do turismo que possam trabalhar
como agentes de intermediação e negociação de créditos entre os bancos e outros
fundos de financiamento e os empreendedores turísticos;
• Capitalização do empresariado nacional para estimular o crescimento das empresas
existente, fomentar o empreendedorismo e a criação de pequenas e médias empresas
ao longo de todo o território nacional. Nesta perspectiva, é importante criar as bases
para incentivar o turismo social. Para o efeito, a estratégia deve priorizar a criação de
ofertas e pacotes de produtos turísticos orientados para a grande massa de emprega-
dos públicos, sobre tudo, os professores e enfermeiros e pensar nas oportunidades
de emprego para a juventude. Para estes segmentos de demanda, os parques de
campismos, albergues, turismo de férias de empresas e estudantis e outros serviços
de baixo custo constituem importantes nixos para dinamização do mercado. Como
bem defende Bandeira (2020) num dos estudos;

(…) Só teremos turismo interno, quando os professores e os enfermeiros po-


derem retirar do seu salário um valor para as suas férias ou num fim-de-semana
prolongado, poderem se deslocar com a família e dispor um alojamento no destino
com um preço competitivamente acessível.

Segundo a proposta de Januário (20020), a capitalização requer a criação de um fundo


191 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

de desenvolvimento do turismo financiáveis por impostos ou taxas municipais com valores


e campos a definir para permitir o financiamento de projectos inovadores de turismo.

Sendo Angola um país demasiado extenso com uma geomorfologia variada que o po-
tencia como destino turístico competitivo a nível de África e do mundo, a estratégia de de-
senvolvimento do turismo tem melhor efeito em contexto de autonomia local e autárquico

iberografias42.indb 191 17/06/2022 18:00:42


ou seja num ambiente de rápida intervenção dos órgãos do poder de estado a nível local.
Este facto sugere do governo central acelerar os mecanismos que visem alcançar-se o mais
breve quanto possível (à luz da legislação) a institucionalização das autarquias locais em
Angola ou de outras formas de autonomia financeira e administrativa, por formas a redu-
zir-se a pressão às instituições do poder central para decidir, permitindo deste modo a dis-
persão das fontes de decisão e orientação em matéria de desenvolvimento e consequentes
riscos de burocratização e de corrupção.
A regionalização geográfica do turismo (regiões-províncias) é uma opção adequada
que conduz a melhoria da administração e gestão do espaço territorial turístico. Esta figura
facilita a potencialização das diferentes modalidades turísticas de acordo com o potencial
inventariado em cada região (província, município e/ou comuna), ampliar e diversificar
a oferta de produtos e serviços turísticos tendo em conta os atractivos naturais, históri-
co-monumentais e culturais das localidades de destino. Por esta via, se pode planificar e
impulsionar a criação de tipologias de infra-estruturas turísticas, hoteleiras e afins de forma
extensiva (litoral e interior) em todo o país, na perspectiva de termos um turismo mais
inclusivo;
Nesta perspectiva, alguns estudos já realizados e em curso como são os casos do Plano
Director do Turismo do Tômbwa e das potencialidades do complexos histórico-turísti-
co de Oihole no Cunene, o estudo sobre o aproveitamento turístico das Cavernas de
Deus e Maria Bonita no município do Sumbe, (Kuanza Sul) e o projecto em curso na
aldeia Camela Amões no Município do Catchiungo no Huambo, indiciam a existência
de um forte potencial sobretudo na região Centro, Sul e Leste de Angola que requere
ser catalogado, mapeado, e visitado para servirem de inspiração a ser seguida em todo
o país. A associar-se a estas iniciativas está o projecto do Corredor do Lobito que sendo
um “Corredor multimodal (…) que abrange não só o caminho-de-ferro de Benguela,
mas também um porto, estradas, aeroportos e plataformas logísticas” (Duarte, Santos &
Tjenneland, 2014:2). Enquanto conjunto de infra-estruturas de transportes se revela de-
cisivo ante as externalidades positivas a ela associadas para o desenvolvimento e integração
da região centro e leste de Angola tal como se mostra no ponto 3 a seguir.
Portanto, a existência em Angola de um ecossistema rico, diversificado e integrado
harmonicamente associada às manifestações culturais únicas, enriquecidas pela culi-
192 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

nária diversificada e a alegria natural das suas gentes expressa na sua hospitalidade, nas
danças e nos seus cantos, pode constituir-se num “escudo económico” capaz não só de
contrariar as tendências globais de crises e recessões, proporcionar crescimento e desen-
volvimento económico mas, sobretudo por ser como afirma o Presidente João Lourenço
“uma boa via de arrecadação de receitas (…) e que promove a interação cultural com
outros povos e fomenta a afirmação internacional de Angola”.

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O corredor do Lobito e sua influência na expansão do turismo na
região centro e sul de Angola

O Corredor do Lobito também chamado nos meios jornalísticos por Corredor de


Desenvolvimento do Lobito é um importante projecto de infra-estrutura de transportes
cuja ligação ferroviária ao servir Angola, Zâmbia e República Democrática do Congo
assume-se como a chave para o desenvolvimento da Sub-região da África Austral e ca-
talisador da promoção da integração da economia regional. É uma iniciativa estratégica
cuja implementação e gestão partilhada foi recentemente retomada na sequência da
Conferencia Ministerial entre Angola, Zâmbia e RDC de Fevereiro de 2021, abrange
a construção, reabilitação e financiamento da rede ferroviária do Corredor que inclui;
i) a conclusão de programas de reabilitação ferroviária em Angola isto é, do Lobito ao
Luau, junto à fronteira com a Zâmbia, e na Republica Democrática do congo, de Dilolo
até Lubumbashi, e na Zâmbia, a construção da “North Western Railwaiy” de Chingola
passando pelo posto de fronteira em Jimbe e ligando directamente à rede ferroviária do
Lobito/Benguela.
O sistema ferroviário é uma das componentes principais do corredor do Lobito já
que, uma vez operacional este corredor representará a rota mais curta para um porto
(no Lobito) a partir da região de Katanga (sul da RDC) e do copperbelt (Noroeste da
Zâmbia) que vai permitir a exportação do minério e também a importação de petróleo por
parte da Zâmbia. O corredor também tem um aeroporto internacional no município da
Catumbela, entre o Lobito e Benguela que tornar-se-á uma componente crucial do corre-
dor do Lobito ao servir de placa giratória dos diversos aeroportos provinciais construídos,
reabilitados e modernizados ao longo do corredor, incluindo Benguela, Huambo, Cuito,
Luena e Luau.

O corredor do Lobito também inclui uma significativa rede rodoviária do Lobito até
à RDC e à Zâmbia passando pelo posto fronteiriço Luau-Dilolo. A estrada está igualmen-
te ligada ao sistema rodoviário da RDC, em Kolwezi, e a uma estrada que tem início no
Luena (província do Moxico, Angola), passa por Cazombo e vai até Solwezi, na Zâmbia
estando a mesma projectada para se tornar numa autoestrada chamada Transafricana 9
193 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

(TAH 9), praticamente paralela ao Caminho-de-Ferro de Benguela que ligará o Lobito


à Beira em Moçambique. (Duarte, Santos & Tjenneland, 2014:3). Uma componente
final do corredor do Lobito são as plataformas logísticas que estão a ser planeadas e de-
senvolvidas para facilitar uma melhor utilização dos diferentes sistemas de transporte do
corredor e que de acordo com a visão do executivo angolano estas plataformas permitirão
no conjunto assegurar que o Lobito possa, em algum momento no futuro, vir a tornar-se

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num eixo logístico continental num corredor operacional do Oceano Atlântico até ao
Oceano Índico.
Com efeito e dada a envergadura do plano de desenvolvimento foi inclusivamente
lançado um Concurso internacional para concessão dos serviços de exploração, gestão e
manutenção das infra-estruturas ferroviárias, transporte de mercadorias e de logística de
suporte.
Como se pode notar, a grande importância deste projecto para o turismo radica no
potencial do fomento do movimento turístico induzido pela ligação inter-provincial por
via terrestre e o consequente aumento das trocas comerciais, situação que vai forçar e
intensificar a melhoria das infra-estruturas e serviços que além de proporcionar empre-
go vai igualmente permitir o aumento da base tributária da economia e animar outros
sectores da economia, valorizando deste modo os recursos existentes principalmente na
região centro, sul e leste de Angola. De referir que ao Projecto de corredor do Lobito está
associado um programa estratégico para a reabilitação de estradas secundárias e terciárias
(Programa de Reabilitação das Estradas Secundárias e Terciárias) das províncias abrangi-
das e que fornece as directrizes relativas à utilização de mão-de-obra e de empresas de
construção locais num esforço para não só aumentar as oportunidades de emprego mas
também para melhorar a articulação e integração das comunidades rurais no processo
de reconstrução.

Algumas referências indicativas do potencial turístico na região


centro e sul

Para o presente estudo, para além das províncias do Kwanza Sul, Benguela e Namibe,
(já profundamente estudado em termos de potencial turístico) considerou-se igualmen-
te as províncias do Huambo, Bié e Moxico que são por sinal as que estão na linha do
Corredor do Lobito além de deterem o vasto manancial de recursos turisticamente refe-
renciáveis mas não catalogados.
No caso do Huambo, localiza-se no planalto central com as coordenadas geográficas
o o
de 12 26´33 Latitude Sul e 15 44´21 Longitude tem como capital da província a cidade
do Huambo que está a 600 Km de Luanda (Capital de Angola). É limitada a Norte pelas
províncias de Kwanza-Sul, a este pela província do Bié, a Sul pela província da Huíla e a
194 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

oeste pela província de Benguela (Oeste).


A Província do Huambo possui uma área de 35.771,15 km² correspondendo a 2,87%
da superfície de Angola e tem uma população de 1.896.147 habitantes (INE, 2014) e é
predominantemente de etnia umbundo.

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Figura 1.1: Divisão Política e Administrativa do Huambo
Fonte: Google (2021)

Localizada entre os 1400 e 1700 metros sobre o nível do mar, e onde se podem percor-
rer centenas de quilómetros sem que a altitude varie consideravelmente a região é consti-
tuída por uma série de elevações montanhosas que atingem geralmente altitudes superiores
a 2000 m como é o caso do morro do Moco com 2.620 metros e localizado no município
do Ecunha. Dos 11 municípios, o Bailundo é o que apresenta uma maior extensão terri-
2 2
torial com aproximadamente 7000 km e o Chinjenje com 800 km
A Província tem um clima alternante húmido e seco por influência da altitude com tem-
peraturas médias por ano que oscilam entre os 19ºC e os 20ºC, marcada por duas esta-
ções: a estação chuvosa e a seca. A precipitação média anual é de 1.200 mm e normalmente
ultrapassa os 1.400 mm. Possui uma vegetação diversificada composta por savanas densas
(Huambo, Bailundo, Caála), cadeias montanhosas (Ecunha, Ucúma, Londuimbali), Florestas
naturais abertas e diversificadas (Cachiungo, Bailundo, Caála, Ucúma, Tchicala Tcholoanga,
Chinjenje, Londuimbali e Longonjo) típica da região planáltica e conhecida regionalmente
por “Mata de Panda” (Dinis, A.C. 1991), caracteristicamente dominada por um estrato supe-
rior arbóreo de Brachystegiae (principalmente B. spiciformis e B. tammarindoides), Isoberlinia
angolensis e Julbernadia paniculata, e um estrato inferior arbustivo de elementos e esparsos,
revestindo o solo, para além de cobertura graminosa pouco densa e que constitui a comuni-
dade fito-climática do centro planáltico angolano. Tem uma alternância de estacões chuvosa
195 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

e seca, bem definidas e em geral correlacionando-se com solos ferralítico argiláceos que fa-
vorecem o crescimento de cedro e pinheiro, muitas flores de rara beleza, plantas comestíveis,
medicamentosas e de adorno e frutos silvestres muito apreciados pelas populações locais para
além obviamente de uma extensa bacia hidrográfica que propicia o desenvolvimento da agri-
cultura mas, e sobretudo variadas nuances de turismo, desde o turismo rural, ecológico, de

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sol, de saúde (dada a existência de várias fontes de águas termais) até ao turismo escuro dada
a existência de locais que serviram de teatro de conflitos armados como é o caso do Bailundo.
Do ponto de vista económico, a Província está voltada essencialmente para a área
de extrativismo mineral (Manganês, Diamante, Volfrâmio, Ferro, Ouro, Prata, Cobre,
Urânio) e agro-pecuária, que representa 76% da actividade económica da província, en-
quanto a área industrial ainda tenta se recuperar após a guerra civil estando neste momen-
to a desenvolver-se acções para voltar a ser o segundo maior parque industrial do País.
Por sua vez, a província do Bié localiza-se no centro de Angola e é constituído admi-
nistrativamente por 9 municípios, nomeadamente: Cuito, Chinguar, Andulo, Camacupa,
Chitembo, Cunhinga, Catabola, Cuemba e Nharea.

Figura 1.2: Divisão Política e Administrativa do Huambo


Fonte: Adaptado de Fundo de Apoio Social

A provincia do Bié tem como capital a cidade do Kuito (ex-Silva Porto) e está fixada
entre as coordenadas geográficas de 11º e 15º de latitude Sul e 14º e 18º do meridiano
oeste estando delimitado ao norte pela província do Cuanza – Sul, Malanje e Lunda-
Sul, a leste pelo Moxico, a sul pelo Cuando Cubango e a oeste pela Huila e Huambo.
Com uma população aproximada de 1.455.255 habitantes (INE, 2014) e área de 70.314
km2, é constituído por vários grupos étnicos, tais como: Ovimbundu, Nganguela, Luimbe
196 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

e Tchokwe e uma pequena área de Kimbundu nas fronteiras entre Andulo, Cuanza Sul e
Malanje. A sua localização geográfica está na base da multiculturalidade e diversidade lin-
guística, devido as zonas fronteiriças.
A populacão do Bie é constituída por diferentes etnias e línguas, tais como: os Ovimbundus
(Cuito, Chinguar, Camacupa, Cunhinga, Nharea, Catabola e Andulo); Tchokwes (Cuemba),
provenientes do nordeste de Angola (Lunda-Tchokwe e Moxico) e residentes na zona leram

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(Cuemba); os Nganguela (Chitembo), provenientes do Cuando Cubango e residentes na
zona sul do Bié e por ultimo, os Luimbi (na fronteira entre Chitembo e Moxico), pequeno
grupo étnico incorporado na zona Sul entre Chitembo e Moxico. Apesar de ser um distrito
multilingue, o Umbundu é a língua maioritariamente falada pelos bienos.
Pelo seu formato geográfico peculiar e sua localização central em relação às demais pro-
víncias angolanas, Bié é conhecida como “o coração de Angola” detendo, a semelhança da
provincia do Huambo um clima mesotérmico de altitude, caracterizada por ser seco e tem-
perado com temperatura máxima na estação quente (chuvosa) que vai de Setembro/Abril
que não excede os 20ºC à sombra, enquanto na estação fria (seca) que vai de Maio/Agosto
ocorre por vezes geadas. Possui uma cobertura vegetal típica da região planáltica resultado do
clima que o torna muito propício à actividade agrícola, uma vez que a pluviosidade durante
a estação das chuvas pode atingir os 1500 e uma vasta bacia hidrográfica situação que lhe
torna favorável ao desenvolvimento de diversas modalidade de turismo sustentável. Aliás a
própria cidade do Kuito é muitas vezes referenciada como “cidade mártir”, por ter sido uma
das cidades que mais sofreu os efeitos da guerra o que a potencia para o turismo escuro
Relativamente ao Moxico, esta é situada a leste de Angola, e está limitada a norte pela
província da Lunda Sul, a sul pela província do Kuandu-Kubango, ao oeste pela província
do Bié e ao leste está limitada pela República da Zâmbia.

Figura 1.3: Divisão Política e Administrativa do Moxico


Fonte: adaptado de Cazeza (2020)
197 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Situada nas coordenadas geográficas entre 10º 3’ e 16º de latitude sul e entre 18º e 24º 4’
de longitude este representa 16.03% do território nacional com percentagem de terra cultivável
50% a 70% e altitude máxima de 1357 metros ao longo do ano regista temperaturas máximas
do ar 32º,4 e mínimas de 5º,7 com precipitações médias anuais que rondam os 1 400 mm.

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Moxico não é unicamente lembrada como refere Cazeca (2017) pelo facto de ser aquela
que tem a maior extensão territorial, em comparação com as demais províncias, ou pela
riqueza da sua fauna e flora, mas também pelo legado cultural e histórico do seu povo. Tem
uma extensão territorial 223.023 km2 e é das mais ricas em recursos minerais, florestais e hí-
dricos e mesmo turísticas oferecendo inúmeras paisagens de sonho, alimentadas pelas águas
dos muitos rios que o cruzam. Tem como capital, a cidade do Luena (ex-Vila Luso) “também
conhecida por albergar um memorial de dimensão nacional, o «Monumento à Paz», em
alusão aos Acordos de Cessar Fogo, assinados a 4 de abril de 2002, entre o exército guerri-
lheiro das FALA (braço armado do partido União Nacional para a Independência Total de
Angola) e o exército do as Forças Armadas do Governo de Angola” (Cazeca, 2017:10).
A província do Moxico passou a ter nove municípios: município do Moxico, cuja
sede é Luena, ao mesmo tempo a capital da província, municípios de Kamanongue, Léua,
Lutchaze, Bunda, Kameia, Luau, Luacano e Alto Zambeze. A língua mais falada por quase
todos habitantes da província do Moxico é o português por ser a língua oficial em todo o
território nacional. Entretanto e dada a heterogeneidade étnica da provincia do Moxico,
a língua portuguesa coexiste com outras línguas autóctones daquela região sendo que, a
maior parte da população da província do Moxico é bilingue ou multilingue, devido ao
contacto e influências recíprocas entre línguas e povos. Nesse quadro, depois do portu-
guês, as línguas mais faladas na província do Moxico são o Tchokwe, Luvale, o Lutchaze e
o Mbunda (as duas últimas são variantes do Nganguela.
A existência no território da provincia de vegetações densas combinadas com as chanas
e vasta rede de rios de curso permanente torna-o rico em na produção de várias culturas
alimentares como turbérculos, arroz, milho, a banana, a cebola, a cana-de-açúcar, o milho,
o feijão, a batata-doce, a ginguba e a cebola e também mel.
Do ponto de vista de recursos turísticos cabe destacar a existência de quedas de água
como as de Chafinda ou Chindela, no município do Léua, do rio Luizavo, no Alto-Zambeze,
ou as de Sacapinji e Tchimbinga, no rio Cassai, em Luacano. Das lagoas de Mulondola, no
Luena, Calundo e Kamacanda, no Léua, de Mujinatena, no Alto-Zambeze, ou de Nhaumba,
em Luacano. O parque Nacional de Cameia, o Lago Dilolo – o maior de Angola e um dos
maiores de África – a mais de mil metros acima do nível do mar, e as vastas áreas protegidas
que abrigam muitas variedades de animais como leões, hienas malhadas, leopardos, chitas e
198 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

hipopótamos, são protagonista de lendas que podem atrair visitações e contribuir para a me-
lhoria das condições da população local. Mas, para tal, revela-se urgente que se defina políticas
públicas que estimulem o investimento nestas regiões. Uma delas, passariam necessariamente
pela institucionalização desta faixa leste do país como uma zona franca desonerando os inves-
tidores de encargos tributários por 10-20 anos findos os quais seria estabelecida responsabili-
dades tributárias na ordem de 50% abaixo do valor definido para os contribuintes da região

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litoral. Outro aspecto importante seria a desburocratização dos mecanismos administrativos
para criação de empresas, benefícios estes que seriam compensados pela responsabilidade social
dos investidores na melhoria das condições sociais como escolas, hospitais, estradas e outros.

Estratégias para valorização dos recursos e regionalização turística da


região

Tendo por base a análise expressa nos itens anteriores, pode construir-se uma visão
proximal do tipo de turismo que se ajusta a zona centro, sul e leste de Angola sendo certo
porém, que tal, perspectiva é penas indicativa e por isso passível de alterações tendo em
conta a realidade concreta, as prioridades ante o contexto e a vontade da população que é
o principal utente (ver anexo, figura:1).
A figura, destaca as bases de partida, para projectar a planificação e o desenvolvimento
do turismo sustentável na base dos recursos turísticos das províncias, devidamente inventa-
riados, classificados e tipificados em função das hierarquias e fluxos nos destinos turísticos
Com base nas estratégias encaminhadas inicialmente para a Região Litoral Centro
de Angola (Kwanza Sul e Benguela), a proposta consiste em ampliar o espaço territorial
turístico para outras províncias. Neste caso, na escala macro, se cria metodologicamente
a “Região Litoral Centro-Sul, Planalto Central-Leste”. Por sua vez, a região está subdividida
em duas (2) sub-regiões, nomeadamente: a) Sub-região Litoral Centro-Sul (Kwanza Sul,
Benguela e Namibe); b) Sub-região Planalto Central-Leste (Huambo, Bié e Moxico).

199 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 1.4: Região Litoral Centro-Sul Planalto Central-Leste de Angola


Fonte: Chicanha (2020)

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Na prática, com excepção das províncias do Kwanza Sul e do Namibe, as demais pro-
víncias integram o denominado “Corredor do Lobito”; uma região económica emergente
de capital importância para o país e a África Austral (SADC). Temos assim, três (3) pro-
víncias do litoral e três (3) do interior.

Tipos potenciais de turismo na região.


Inventario dos recursos

Os recursos devem ser entendidos como base sobre a qual se desenvolve a actividade
turística: natureza, cultura, história, equipamentos para o ócio e recreação, o que requer
sua avaliação. A avaliação se refere ao processo em que se determina a adequação de diver-
sos recursos para seu uso no âmbito do turismo e constitui um componente importante
da planificação e desenvolvimento desta actividade. Segundo Moscardo (2002:258), “este
processo cobre a realização de um “inventário” dos recursos disponíveis para sua utilização
no marco do turismo. Entre este tipo de recursos se podem citar as atracções, os enclaves
de interesse cultural, histórico e/ou natural e as instalações disponíveis para o transporte,
alojamentos e actividades complementares. Uma vez que se completa este tipo de inventário,
a seguinte fase do processo de planificação consiste em avaliar estes recursos no que se
refere à adequação dos mesmos para o uso turístico”.
De acordo com as propostas de Dowling (1993) e Gunn (1994), estabeleceram-se
vários critérios para a avaliação dos recursos no âmbito do turismo e se deve determinar
a capacidade de carga física e social de um determinado recurso. O objectivo deste tipo
de avaliação é medir os níveis e os tipos de uso turístico que podem sustentar o recurso.
Isto está encaminhado e implica uma valoração da relevância cultural, histórica e do meio
ambiente de um enclave ou uma zona.

Estratégia de actuação no espaço territorial turístico da região

A semelhança dos estudos desenvolvidos em algumas províncias (Kwanza Sul,


Benguela e Namibe), pela equipa de especialistas do qual os autores são parte, a es-
tratégia deve ser integrada por três peças fundamentais interligadas entre si, que são,
nomeadamente:
200 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

1. Inventário e Diagnóstico das Potencialidades Turísticas naturais, histórico-monu-


mentais e Culturais da região (províncias/municípios) (IDPT);
2. Proposta de Divulgação, Promoção e Marketing Turístico das Províncias que prio-
riza os recursos turísticos inventariados (EDPMT);

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3. Plano Director do Turismo da Província (PDTP/M) , tendo e conta a perspectiva de
regionalização geográfica.

O Inventário e Diagnóstico do Potencial Turístico (IDPT), deve priorizar: a) a recom-


pilação, ordenação e catalogação dos recursos turísticos delimitados de uma área determi-
nada (território); b) o registo e estado integrado de todos os elementos turísticos que por
suas qualidades naturais, culturais e humanas podem constituir um recurso para o turista;
c) representar um instrumento valioso para a planificação turística, que serve como ponto
de partida para realização de avaliações e estabelecer as prioridades necessárias para o de-
senvolvimento turístico a escala provincial e/ou local.
Produzir esta importante ferramenta, constitui uma actividade (tarefa) prioritária que
vai criar as premissas para iniciar o processo de planificação do turismo no espaço terri-
torial turístico e culminar com a elaboração do “Plano Director do Turismo (PDTP/M)
”onde, a perspectiva da protecção dos recursos naturais e a defesa do património natural,
histórico-monumental e cultural é fundamental.
Resulta conveniente considerar o inventário dentro de um processo de planificação
muito mais complexo que a mera identificação, localização e descrição de lugares para o
investimento turístico imediato, pois a relação entre os sítios (lugares) com o património e
a actividade turística constitui uma relação dinâmica e pode implicar valorações diversas.
Esta relação deverá ser gerida de modo sustentável para a actual e futuras gerações tal como
recomendam as normas do turismo sustentável.

A “Estratégia de Divulgação, Promoção e Marketing Turístico (EDPM) ”, vai permitir


o conhecimento prévio por parte da administração, dos empresários, turistas e outros in-
teressados, relativo ao estado do potencial de recursos turísticos inventariados, para serem
amplamente conhecidos para sua valorização e rentabilização económica. A estratégia visa
criar revistas, catálogos, desdobráveis, folhetos, calendários, criação de página Webb e ou-
tros materiais publicitários da província, município e/ou comuna. Esta actividade, é no
âmbito do plano, a primeira tarefa e deve culminar com a realização de um fórum provin-
cial e/ou municipal de exposição das potencialidades turísticas naturais, histórico-monu-
mentais, culturais e infra-estruturas para atrair investimentos nacionais e internacionais a
201 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

fim de colocar a região na rede do turismo além-fronteiras.


De acordo com esta visão, o Plano Director do Turismo (PDTP/M)
, vai responder a proposta de Ander Egg citado por Depozo (2008), que destaca: Planificar,
como “prever racionalmente as acções a realizar em função dos recursos e os objectivos que se
pretende alcançar para gerar transformações”; o Prever como “ antecipar-se aos acontecimentos
negativos; Racionalizar como “analisar os meios e fins para alcançar a coerência e os resultados

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previstos; a Acção como “Tarefas e operações concretas a realizar; Recursos: pessoas e elementos
materiais (natural-cultural); Objectivos: “resultados ou fins a alcançar e Transformações como
mudanças que se produzirão e o futuro desejado numa perspectiva melhorada.
A fase seguinte, será criar equipas técnicas multidisciplinares e expertos nacionais
em turismo com o objectivo de planificar destinos turísticos de referência ao nível da
região, sub-região e província interligadas, considerando as vantagens comparativas e com-
petitivas da região, na qual as províncias de Benguela, Huambo, Bié e Moxico deverão
evoluir como o principal destino turístico de Angola.
A referência a Benguela, Huambo, Bié e Moxico enquanto integrantes do Corredor
do Lobito assenta na relação geográfica, sócio-cultural e económica que estas províncias
apresentam mas, sobretudo no potencial de activos turísticos que detém.

Conclusões

Considerando as características físico-geográficas e económico-sociais, a região lito-


ral centro-sul e planalto central-leste de Angola, apresenta inúmeros e valiosos recursos
turísticos naturais, histórico-monumentais e culturais, subaproveitados e fora do roteiro
turístico nacional, regional e internacional. Apesar de todo este potencial, não existe ainda,
estratégias, planos e projectos de desenvolvimento turístico nas províncias, que conduzam
a efectiva valorização e rentabilização económica das potencialidades dos recursos turísti-
cos existente nas províncias que integram a região.
A proposta de regionalização turística e o início do processo de planificação, deve
começar pelo inventário das potencialidades turísticas de cada município e província, pois
este se revela, como uma ferramenta adequada e base de partida (sustentação teórico-
-prática) para a elaboração dos Planos Directores do Turismo Municipais e Provinciais
(PDTP/M) na região, tendo em conta o princípio: “pensar global e actuar localmente”.
A estratégia de desenvolvimento turístico proposto, vai seguramente, agregar valor
financeiro, económico e social ao projecto de desenvolvimento do corredor do Lobito,
inserido no âmbito da estratégia regional de integração da SADC, que se revela como uma
das mais promissoras no continente africano.
202 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Resumo
O potencial que Angola detêm, a sua localização geográfica, o ambiente de paz e alegria e o
sentido de hospitalidade impregnada nos hábitos e costumes da população faz deste, o verdadeiro
petróleo verde e indústria da paz que pode gerar emprego, mostrar a imagem do país, proporcionar
inclusão social e assegurar a exportação invisível de bens e serviços. O presente artigo, traz a debate
o papel do corredor do Lobito como vector do crescimento e desenvolvimento do sector do turismo

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na região litoral centro, sul e leste de Angola, assim como a importância que este projecto anuncia
para a transformação desta importante região de Angola, inserido no âmbito da região austral de
África (SADC), rumo a prosperidade.
Palavras-chave: Turismo, Desenvolvimento, Corredor do Lobito, diversificação económica.

Abstact
The potential that Angola holds, the geographical location, the atmosphere of peace and joy
and the sense of hospitality embedded in the habits and customs of the population make this the
true green oil and peace industry that can generate employment, show the country’s image, provide
social inclusion and ensure the invisible export of goods and services. This article discusses the role
of the Lobito corridor as a vector for the growth and development of the tourism sector in the cen-
tral coastal littoral, south and east of Angola, as well as the importance that this project announces
for the transformation of this important region of Angola, inserted within the Southern Africa
region (SADC), towards prosperity.
Keywords: Tourism, Development, Lobito Corridor an Economic Diversification.

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USAID (2015): “Plano Provincial de desenvolvimento Sanitário 2013-2017-provincia do
Huambo”. Huambo.

Anexo
204 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 1: Síntese da Estratégia


Fonte: Adaptado a partir de Bandeira (2009).

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Propuesta de georruta
por La Geria (Lanzarote, España):
una experiencia entre volcanes y vinos

Salvatore Lampreu1
Javier Dóniz-Páez2

Introducción

Durante las últimas décadas y especialmente después de la segunda Guerra Mundial, el


turismo se ha afirmado entre los sectores más prometedores para las economías de muchas
regiones del planeta. Su evolución a nivel internacional está relacionada con el crecimiento con-
stante y continuo de llegadas, con la presencia de nuevos destinos en un escenario global cada
vez más competitivo, con el nacimiento de profesiones muy especializadas vinculadas al sector
de los viajes y las vacaciones, así como el peso importante de la industria turística en términos
de PIB y en la creación de puestos de trabajo (Lozato-Giotart, 2003; Mangano, Ugolini, 2015;
Battino, Lampreu, 2018a; Gavinelli, Zanolin, 2019; UNWTO, 2020; Mariotti et al., 2020).
El turismo es un fenómeno transversal y multifacético que se ha diversificado am-
pliamente y que comprende diversas tipologías o modalidades de turismo entre los que
se pueden señalar, a día de hoy, el turismo cultural, el de balneario, el enológico, el ga-
stronómico, el urbano, el rural, el geoturismo, etc. Todas estas modalidades de turismo
generan efectos sobre el territorio que se deben tener en cuenta. En este sentido, a pesar de
las numerosas externalidades positivas generadas por el sector, relativas a la producción de
riqueza y al aumento del bienestar de los distintos destinos, es necesario recordar que los
procesos de transformación impulsados por el turismo también tienen repercusiones ne-
gativas en los territorios (Cavallo, 2007; Donato, 2007; Battino, Lampreu, 2018a; 2018b;
205 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Angelini, Giurrandino, 2019). Con respecto a las tendencias positivas registradas hasta

1
DUMAS – Universidad de Sassari
slampreu@uniss.it
2
Universidad de La Laguna-Involcan
jdoniz@ull.edu.es

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los primeros meses de 2020, la Organización Mundial del Turismo (OMT) preveía para
los próximos años un progresivo aumento de las llegadas internacionales. Sin embargo, la
irrupción de la pandemia del Covid-19 ha supuesto un parón de todas las actividades rela-
cionadas con el mundo de los viajes y las vacaciones. En relación con los efectos negativos,
estos se manifiestan en forma de conflictos sociales (piénsese en los movimientos contra
la turistification en ciudades como Venecia, Barcelona o Lisboa), medioambientales con la
alteración de los paisajes naturales como ha ocurrido con los procesos de edificación salvaje
en muchas zonas costeras e insulares de Europa y económicos debido a una distribución
desigual de la riqueza en beneficio de determinados sujetos como las grandes empresas que
operan en el ámbito del turismo digital y de los alquileres cortos (Gainsforth, 2019; 2020).
La propagación del nuevo coronavirus a escala mundial ha supuesto una gran dificultad
para el turismo (Piva y Tadini, 2020; Simancas Cruz et al., 2020). Ahora bien, la crisis sa-
nitaria ha sido también un momento para reflexionar sobre la manera de redefinir el sector
turístico, máxime cuando sabemos que está sometido a una presión creciente para buscar
respuestas adaptadas en un contexto profundamente cambiante que busca formas de turi-
smo alternativas a los modelos de consumo de masa. Estos nuevos productos y experiencias
turísticas ya surgieron en el período prepandémico, pero la diferencia con el pasado es que,
si antes se percibían como nichos de mercado minoritarios, ahora resultan especialmente
adecuadas para responder a las necesidades de los viajeros post-covid, puesto que son más
respetuosas con el medio ambiente y más acordes con la ordenación territorial.
De entre la diversidad y variedad de nuevas formas de turismo destacan todas aquellas
actividades que se inscriben en el ámbito del turismo rural. Estas se llevan a cabo en en-
tornos poco urbanizados y, por tanto, están caracterizadas por condiciones demográficas,
medioambientales y paisajísticas peculiares. En el caso de Canarias, el turismo rural es una
modalidad que cada vez se práctica más en el archipiélago (Mariotti, 2007), aunque sigue
siendo minoritario si lo comparamos con la principal oferta de Canarias que es el turismo
de sol y playa. Este ocupa una tanto por el número de plazas ofertadas como por el número
de turistas que llegan a las islas. Aunque también es cierto que existen algunos lugares en
Canarias cuya oferta principal está vinculada con los nuevos productos y experiencias
turísticas como es el caso de La Geria en Lanzarote.
Este paisaje rural, fruto de la combinación entre los volcanes y el cultivo de la vid, se
206 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

ha convertido en uno de los lugares más característicos e identitarios de Lanzarote y tam-


bién de Canarias y el turismo que lo visita está polarizado en torno al turismo ambiental,
el deportivo y el enogastronómico. Ahora bien, dado el importante papel de los volcanes
recientes e históricos en la configuración de este territorio y el auge del goeturismo desde
una aproximación geográfica, el objetivo de este trabajo es proponer un georruta por La
Geria en donde se resalte la armoniosa relación a lo largo de la historia y que es reconocida

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como la imagen de marca o brad image de la isla. Igualmente, estos paisjaes culturales tam-
bién forman parte del simbolismo y del imaginario colectivo de Lanzarote como se puede
apreciar a través de las imágenes que son transmitidas por las principales redes sociales.
Sin duda, a ello ha contribuido un paisaje en donde alternan los volcanes, los viñedos, las
bodegas y los pueblos de casas blancas, salpicados de vez en cuando por las obras del artista
isleño Cesar Manrique (Sardà Ferran, Zamora Cabrera, 2014; González Morales, Ramón
Ojeda, Hernández Torres, 2015; Battino, 2016). Por tanto, en este trabajo se pone de
manifiesto, que en el panorama global de los destinos turísticos cuya oferta se centra en el
producto vitivinícola, La Geria puede gozar de una ventaja competitiva única: su paisaje
volcánico y la técnica específica de cultivo de la vid. La acción humana es fundamental en
la definición de las diversas etapas que han caracterizado el proceso de territorialización
de este espacio y que han originado un producto-territorio con atractivo bajo el punto
de vista turístico, cultural y etnográfico (Fig. 1 y 2). Por todas estas razones el paisaje del
vino volcánico de La Geria podría resultar un fuerte catalizador con respecto a turistas e
internautas interesados en la sostenibilidad y en los valores identitarios y paisajísticos de un
territorio rural que posee un capital territorial de absoluta centralidad.

207 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 1. El paisaje vitivinícola de La Geria. Fuente: imagen propia

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Figura 2. El monumento y museo del Campesino de Cesar Manrique. Fuente: imagen propia

Vino y turismo: una alianza de exito para los territorios rurales

Las áreas rurales, a menudo asociadas con elementos negativos expresados en términos
de despoblamiento, pobreza, abandono del territorio, atraso, etc., desde hace años son
objeto de diversas políticas regionales y comunitarias destinadas a favorecer su relanza-
miento y a frenar los procesos de deterioro que subyacen a sus condiciones de debilidad
estructural. Al respecto, la Comisión Europea, aprovechando el potencial inherente a los
diversos y heterogéneos recursos presentes en los territorios rurales de manera infrautili-
zada, promueve su valorización turística a través de la REDR (Red Europea de Desarrollo
Rural), la estrategia para los smart villages y el enfoque LEADER, actualmente integrado
208 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

en el segundo pilar de la PAC (Política Agrícola Comunitaria) (Brundu, 2018).


En particular, con las Declaraciones de Cork (1996 y 2016) se hace hincapié en la necesi-
dad de dar un mayor impulso a las economías de las zonas rurales. Allí la promoción turística
de los recursos culturales y medioambientales debe realizarse con la inclusión de las comunida-
des locales, el refuerzo de la gobernanza y la explotación de las nuevas tecnologías vinculadas a
las inversiones en los ámbitos del conocimiento y la innovación (EU, 2016; Lampreu, 2020).

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El desarrollo del turismo en las zonas rurales también debe ser abordado a la luz de la
imprescindible relectura de las interconexiones existentes entre las zonas rurales y las zonas
urbanas, ambas proyectadas desde los primeros años de 1980 dentro de una articulada y
compleja dinámica de competición territorial que se juega en numerosos frentes.
Después de la crisis del modelo fordista, los territorios rurales han dejado de ser con-
siderados exclusivamente como espacios marginales, destinados a un declive inevitable y
con la única misión de abastecer a las ciudades y a las industrias de alimentos y mano de
obra. A ellos se han asociado nuevas funciones que le permiten aprovechar interesantes
oportunidades de relanzamiento y recalificación.
Las zonas rurales, depositarias de valiosos recursos medioambientales, históricos y
culturales y portadoras de un capital identitario que debe ser preservado, pueden explo-
tar estas caraterísticas para aumentar su atractivo, siempre que sepan adecuadamente
valorizarlas, promoverlas y comunicarlas. Es precisamente la ruralidad de muchos espa-
cios, condición que con anterioridad era negativa, la que enriquece con nuevos signifi-
cados a estos lugares convirtiéndolos en estratégicos. A ello ha contribuido, sin duda, el
hecho de haber estado aislada de los procesos de “modernización” e industrialización al
que se han sometido los espacios urbanos y otros ámbitos territoriales y que han man-
tenido “intactas” su patrimonio natural y cultural tangible e intangible. En estas zonas
se encuentran cada vez con mayor frecuencia excelentes experiencias de valorización de
las producciones enogastronómicas de calidad, que reflejan las características geográficas
en términos de tipicidad, trazabilidad de los alimentos, calidad de vida, relax, tradicio-
nes auténticas, relaciones humanas y valores medioambientales. Como consecuencia de
la acentuación de estos caracteres, numerosas zonas rurales se están afirmando como
destinos para un turismo sostenible y responsable, especialmente atento a esos recursos
llamados “de atmósfera”. Una actividad de absoluta importancia para estas zonas sigue
siendo la agricultura, a menudo redescubierta y reinterpretada, sobre todo con un sen-
tido multifuncional, es decir, abierta también a otras actividades, como las turísticas
centradas en la puesta en red de las producciones típicas locales, de la artesanía y de las
otras especificidades geográficas.
En la categoría de turismo rural se incluye también el turismo enogastronómico, que,
en el panorama europeo, registra un público creciente, siendo también la expresión y la
209 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

consecuencia de la afirmación de la sociedad postindustrial. El turismo del vino consti-


tuye una particular declinación de esta tipología, aprovechando el sector estratégico de la
vitivinicultura, que en países como Italia, España y Francia registra importantes resultados
desde el punto de vista cualitativo y cuantitativo. Se trata de un sector que en los últimos
años ha evolucionado en diversas formas y ha dado lugar a diversas experiencias: degusta-
ciones en bodega, cenas en viñedos, festivales y ferias enológicas, etc.

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Entre los últimos neologismos vinculados a estas manifestaciones está el del wineca-
tion, palabra utilizada para describir un viaje efectuado en un territorio vitivinícola con
el objetivo de apreciar el terroir y la atmósfera, y que sin duda mejora si se acompaña de
una experiencia en bodega, lugar principalmente destinado a la producción y a la venta
del vino.
La literatura científica aporta numerosas contribuciones al análisis del turismo enológ-
ico, un sector al que se han reconocido varias funciones: recreativas, culturales, regene-
rativas de los territorios, etc. (Grumo, 2012; Pioletti, 2012; Fuschi, Di Fabio, 2012;
Garibaldi, 2017; Torres Bernier, Valduga, Otavio Gabardo, Gonçalves Gândara, 2020;
De Jesús‑Contreras, Thomé‑Ortiz, Xavier Medina, 2020). Alebaki e Iacovidou (2010)
especifican cómo algunos autores analizan el turismo del vino desde el punto de vista del
comportamiento de consumo, viéndolo como una estrategia a través de la cual los destinos
desarrollan y promueven su propia imagen, siendo también una ocasión para los viticul-
tores de vender sus productos (Getz, Brown, 2006). En otros casos se hace referencia a
la necesidad expresada por los turistas de experimentar y descubrir tipologías de vinos y
territorios diferentes a través de la visita a viñedos, bodegas, fiestas del vino, etc., donde las
uvas y el vino constituyen el principal motivo del viaje (Hall et al., 2000).
El sector vitivinícola adquiere una gran importancia estratégica desde el punto de vista
turístico, en particular en el momento en que se integra con los demás recursos del terri-
torio para la definición de los puntos de fuerza y las ventajas de un destino competitivo. A
escala internacional se han desarrollado varios instrumentos legislativos para transformar
los territorios vitivinícolas en destinos turísticos, cuyos componentes están representados
principalmente por los actores del mundo enológico coordinados en red entre sí (bode-
gas, museos del vino, viñedos, tabernas, etc.). Se distinguen, a este respecto, las “rutas del
vino”, organizaciones nacidas en los años cincuenta en Francia y desde allí difundidas por
toda Europa, donde actualmente se cuentan más de 200, además de en California, Nueva
Zelanda, Australia, EE.UU., Sudáfrica y Suramérica.
Las Rutas del Vino, estructuradas en itinerarios temáticos, constituyen, cuando fun-
cionan efectivamente, herramientas eficaces de marketing territorial y de promoción de los
recursos locales, permitiendo apreciar determinadas zonas geográficas a través de los valores y
conocimientos del mundo enológico. Estas rutas no son la única manera de promover los ter-
210 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

ritorios vitícolas, existiendo varios proyectos financiados con la Cooperación Transfronteriza


Europea destinados a poner en red regiones pertenecientes a diferentes Estados según un
único denominador común: el vino y los paisajes vinícolas. Incluso a través del método
LEADER, ha sido posible aplicar a través de los grupos de acción local (GAL) estrategias y
nuevas modalidades de uso turístico de las zonas vitivinícolas con la participación directa de
las comunidades locales y de los pequeños operadores y campesinos.

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Otras experiencias importantes son representadas por la Red Europea de Ciudades
del Vino (RECEVIN) y por ITERVITIS, el itinerario cultural certificado en 2009 por
el Consejo de Europa, que valoriza el paisaje rural de las diferentes zonas afectadas por la
viticultura, exaltando sus significados y valores.
En la 3ª Conferencia Mundial sobre el Enoturismo, que tuvo lugar en Georgia en
2016, la OMT subrayó hasta cuanto el sector puede contribuir a alcanzar los objetivos de
sostenibilidad mediante la promoción del patrimonio tangible e intangible de los destinos.
En este sentido, el enoturismo no sólo sería capaz de generar beneficios económicos y so-
ciales para los agentes directamente implicados, sino también desempeñar un papel activo
en la preservación más amplia del capital natural y cultural.
A través del enoturismo, los destinos podrían ofrecer productos turísticos únicos e
innovadores que aumentarían la competitividad de todo el sistema territorial de referencia,
permitiendo incluso que las zonas rurales con escaso atractivo turístico evolucionen hacia
un nivel más elevado. La OMT ha vuelto a señalar estos aspectos en la 4ª Conferencia
Mundial celebrada en Chile en 2019, donde se subrayó la importancia de crear experien-
cias innovadoras de enoturismo a través de la participación de las comunidades locales y
los turistas y de recopilar y procesar datos e informaciónes que deben apoyar las decisiones
y las políticas de desarrollo de tipo place-based.
Además de esto, la OMT recomienda la creación de modelos de gobernanza sólidos
entre las comunidades locales, los turistas y las organizaciones territoriales, y una mayor
participación de los turistas mediante el uso de las nuevas tecnologías, que pueden de-
sempeñar un papel clave en la construcción de una identidad territorial centrada en las
especificidades geográficas.
Con la 5ª Conferencia Mundial del Enoturismo, celebrada en Portugal en 2021, el obje-
tivo a medio plazo confirma finalmente las orientaciones anteriormente adoptadas y conside-
ra la innovación, la asociación y la gobernanza fuertes los principales ingredientes para hacer
del turismo del vino un elemento estratégico para el desarrollo de las zonas rurales.

Metodología y herramientas

La metodología adoptada se basó en dos fuentes principales de datos. Por un lado,


se ha realizado un análisis detallado de la literatura científica y de algunos documentos
211 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

políticos sobre el tema de las zonas rurales, el desarrollo turístico sostenible y el turismo
vinícola. Por otro lado, se han llevado a cabo trabajos de campo en La Geria para identifi-
car, seleccionar y caracterizar los elementos que deben considerarse para el diseño de una
georruta que pueda implicar el paisaje volcánico, las bodegas y las actividades de cultivo
de la vid. Los datos y las informaciones recogidas han sido sometidas a operaciones de

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sistematización y procesados con los Sistemas Informativos Geográficos (SIG) a través de
los cuales se han podido realizar representaciones cartográficas en las que cada elemento
está exactamente geolocalizado y asociado a un conjunto de datos espaciales y socioeconó-
micos. Durante las investigaciones realizadas en el área de La Geria se tomaron también
fotografías, algunas de las cuales se han incluido en la presente publicación para explicar
mejor el razonamiento desarrollado y encuadrar el contexto geográfico.

Resultados

La Geria se localiza en la parte central de la isla de Lanzarote (Fig. 3) y se configura como un


pasillo topográfico en forma de U con fondo relativamente plano en torno a los 300 metros de
altitud, enmarcado por las dos alineaciones montañosas de la parte central de Lanzarote cuyas
altitudes máximas no superan los 600 metros. Las cadenas volcánicas se organizan en torno a
dos alineaciones de rumbo preferentemente NNE-SSW, de varios km de longitud, conforma-
das a partir de varias decenas de conos volcánicos basálticos monogénicos de morfología variada
(anulares abiertos en herradura típica, en arco o diapasón, múltiples, etc.) y sus correspondientes
derrames lávicos y campos de lapilli. Ahora bien, el rasgo más llamativo de este paisaje es la
presencia de materiales generados durante las erupciones históricas de Lanzarote (1730-1736).
Tal es así, que se pueden reconocer a lo largo de la zona de estudio algunos conos volcánicos, es-
pectaculares coladas de lavas aa y pahoehoe, pero sobre todo, los mantos de lapilli que recubren
la mayor parte de este espacio dotándolo de su característico color negro.
212 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 3. Localización del ENP de La Geria en Lanzarote. Fuente: IDECanarias. Elaboración propia

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El clima de la zona central de la isla se caracteriza por ser cálido y templado cálido
con temperaturas medias anuales que varían entre los 22ºC y los 19ºC (Marzol, 2000)
y con precipitaciones que en la zona central de La Geria pueden alcazar los 400 mm,
pero que en la mayor parte de ella no supera los 300 mm/año con más de 8 meses
secos (Marzol, 2000). Estos rasgos climáticos, junto con la naturaleza del sustrato
volcánico de edad reciente e histórica, determinan una vegetación con escaso recubri-
miento y pobreza florística propia de las zonas costeras de las islas. Esta se caracteri-
za bien por comunidades rúpicolas de líquenes (Stereocauletum vesuviani) y verodes
(Aeonietum lancerottensis) sobre superficies lávicas de morfología muy fresca de tipo
aa (malpaises) y pahoehoe (lajiales) y en las cimas de los conos volcánicos en donde
predominan las superficies escoriáceas (spatter). O bien por matorrales muy abiertos
de cardonal-tabaibal sobre coladas lávicas y aulagares (Launaea arborescens), malvarosa
conejero (Pelargonium capitatum), romerillo pardo (Spergulario fimbriatae) y turmero
(Helianthemetum canariensis) sobre los conos volcánicos previos a las erupciones histó-
ricas y en cuyos dorsos los procesos de meteorización y edafogénesis han dando lugar
a suelos poco evolucionados.
Los materiales volcánicos históricos cubrieron las superficies previas pero esto no
supuso un handicap para que la acción antrópica interviniera en este espacio y lo ade-
cuara a sus necesidades. En este sentido, es la actividad humana la que ha conformado
un “paisaje agro-cultural” único e icónico para el cultivo de la vid, enmarcado por es-
tructuras en piedra volcánica casi siempre semicirculares, además de otros frutales como
las higueras. Esta particular y armoniosa convivencia entre los volcanes y los hombres
ha generado uno de los principales atractivos turísticos de Lanzarote (Martín, 2000;
González Morales et al., 2015). Este se caracteriza por un paisaje con elevados valores
estéticos que combina formas, colores, texturas y la presencia de una amplia oferta de
bodegas en donde degustar el vino y aprender sobre estas técnicas productivas únicas en
el mundo que resaltan la estrecha relación entre el vino y los volcanes. Aunque es cierto
que la relación entre los volcanes y el vino no es exclusiva de Lanzarote, si lo es el modo
en como se cultivan los viñedos.
En torno a La Geria se pueden reconocer más de una decena de bodegas (Fig. 4) que
comparten las características geográficas de su localización y el sistema de cultivo utiliza-
213 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

do para los viñedos. Con respecto al primero, todas se emplazan en un paisaje volcánico
reciente en el que destacan los conos volcánicos basálticos monogénicos constituidos
por piroclastos, las coladas de lavas recientes muy poco meteorizadas y los mantos de
lapilli (rofe) de las erupciones históricas que cubren parcial o totalmente la superficies
previas. En relación con el segundo, la técnica empleada consiste en la creación de hoyos
semicirculares como conos invertidos (Fig. 5) de varios metros de profundidad hasta

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alcanzar los suelos previos y en cuyo fondo instalan los cultivos sobre todo de viñas,
pero también algunos frutales (Martín, 2000; García-Rodríguez, 2013). El constante
soplo del viento de los alisisos obliga a la construcción de muros de piedra seca basáltica
semicirculares a modo de cortavientos para proteger el cultivo. Más recientemente, en el
paisaje agrícola extensivo de secano de La Geria, se introduce la construcción de muros
longitudinales que cortan el soplo del viento y que en la búsqueda de mayor productivi-
dad rompen con la estética tradicional de este paisaje rural (Fig. 5).

Figura 4. Localización de las principales bodegas de Lanzarote y las ubicada dentro del ENP de La Geria.
Fuente: IDECanarias. Elaboración propia
214 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 5. Hoyos y muros semicirculares (izquierda) y longitudinales (derecha) en La Geria. Fuente: imagenes propias

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Todo este patrimonio natural y cultural ha contribuido para que el paisaje de La
Geria cuente con varias figuras de protección y gestión. Entre ellas está el que forma parte
de la red de espacios naturales protegidos de Lanzarote y de Canarias en la categoría de
Paisaje Protegido por disponer de unos elevados valores estéticos y culturales que mere-
cen ser protegidos. Este espacio forma también parte de la Reserva de la Bisofera como
un ejemplo sobresaliente de la simbiosis entre el medio natural y la actividad humana y,
más recientemente, ha sido incluido como uno de los geositios del geoparque Mundial
Unesco de Lanzarote y Archipiélago Chinijo acorde con la filosofía de los geoparques de
potenciar el geoturismo en zonas en donde se produce una armoniosa relación entre las
formas y procesos del relieve y la actividad humana. Este último aspecto está directamente
relacionado con elobjetivo de este trabajo de proponer una ruta geoturística por esta parte
de la isla de Lanzarote.
Como se ha mencionado este espacio es uno de los lugares más icónicos e identita-
rios de Lanzarote y, junto con el Parque Nacional de Timanfaya, uno de los principales
atractivos turísticos de la isla. Ahora bien, la promoción y el marketing asociado con
este recurso y/o atractivo turístico son los vinos elaborados en territorios volcánicos.
Este aspecto queda muy bien reflejado en la web de turismo de Lanzarote en donde se
promocionan los caldos y las bodegas asociadas. Sin embargo, los interesantes valores
vinculados con los procesos y formas volcánicas pasan a un segundo plano, cuando no
están ausentes. Por esta razón, relacionado con el objetivo de este trabajo proponemos
una georruta por la geografía de La Geria teniendo en cuenta los interesantes valo-
res geopatrimoniales derivados del fenómeno eruptivo basáltico reciente e histórico,
pero también el patrimonio cultural fruto de la larga convivencia entre el hombre y los
volcanes.
El diseño de este tipo de itinerarios geoturísticos más integrales está acorde con la
aproximación geográfica del geoturismo (Dowling y Newsome, 2018) y ya se ha im-
plementado en otros lugares de Canarias (Dóniz-Páez et al., 2019; Beltrán-Yanes et al.,
2020). En la tabla 1 se ponen de manifiesto los principales valores patrimoniales que se
pueden identificar a lo largo del recorrido por las 14 bodegas que están insertas dentro
del espacio protegido o en las proximidades de La Geria y que son los que se deben im-
plementar para dotar de contenido este tipo de georrutas.
215 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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Interés geoturístico Parimonio natural Patrimonio cultural

Volcanes basálticos monogénicos


Conos volcánicos: Cultivos de gerias, maretas, etc.
de morfología diversa
Pahoehoe, aa, de transición, blo- Cultivos de frutales en jameos, muros
ques, túmulos, tubos volcánicos, de piedra seca, gerias, construcción y
Coladas de lava:
jameos canales, muros de enfri- decoración de bodegas, senderismo, ru-
amiento, etc. tas enoturísticas
Enarenados de cultivos, gerias, vías de co-
Bombas volcánicas, escorias,
Campos de lapilli: municación tradiconales, senderismo,
lapilli y cenizas
rutas enoturísticas, jardines,
Formas de erosión y acumula- Barrancos, aluviones, taludes, Enarenados de cultivos, senderismo, ru-
ción: ripples, costras de caliche, etc. tas enoturísticas

Tabla 1. Principales valores patrimoniales de La Geria con interés geoturístico

Conclusiones

La Geria en Lanzarote constituye un paisaje rural único en el mundo y se ha convertido


en una de las señas de identidad de la isla. Estos aspectos han contribuido a que sea uno
de los principales atractivos turísticos de Lanzarote, vinculados con su icónico sistema tra-
dicional de explotación del cultivo de la vid. Más recientemente el ocio asociado con esta
parte de la isla se ha concentrado en la presencia de varias bodegas que ofertan la degusta-
ción de los vinos y otros productos tradicionales a través de rutas enoturísticas. Este tipo
de actividades están en sintonía con los postulados de las Conferencias Mundiales sobre
Enoturismo vinculadas con la innovación, la accesibilidad, el paisaje o autenticidad de la
vides, entre otros aspectos. Ahora bien, no se puede obviar que la sigularidad de este espacio
radica en la relación que el ser humano ha tenido con los volcanes a lo largo del tiempo. El
tezón, la dedicación, el conocimiento y el cuidado que el campesino/a lanzaroteño ha mos-
trado son claves en la configuración de este paisaje cultural. Pero igulamente importante es
la presencia de un relieve caracterizado por múltiples erupciones recientes e históricas que
han dado lugar al paisaje volcánico característico de la zona central de Lanzarote, por lo que
el paisaje volcánico representa más que un escenario. Por este motivo, esta comunicación
216 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

propone una georruta por La Geria y sus inmediaciones que contemple las potencialidades
derivadas de la armoniosa combinación de las formas y procesos volcánicos, las técnicas
de cultivo de la vid y las nuevas tecnologías y que desemboque en experiencias que cada
visitante pueda personalizar en relación con sus preferencias. En este sentido, sería intere-
sante poner en red, a través de una plataforma digital, el patrimonio natural y cultural de
este espacio a través de los volcanes (conos, lavas y lapilli), el cultivo de la vid y las bodegas

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y todo ello de manera interrelacionada con otros recursos naturales y culturales próximos
como el Parque Nacional de Timanfaya o el conjunto de los pueblos de la isla, e, incluso,
con otros sistemas tradicionales de cultivo como los enarendos de jable.

Agradecimientos

Este trabajo ha sido posible gracias a los proyectos “VOLTURMAC, Fortalecimiento


del volcano turismo en la Macaronesia (MAC2/4.6c/298)”, que co-financia el Programa
de Cooperación INTERREG V-A España-Portugal MAC (Madeira-Azores-Canarias)
2014-2020.

Atribuciones

El diseño del trabajo y la investigación bibliográfica son comunes para ambos autores.
Los apartados 1 y 2 se atribuyen a Lampreu S. y los apartados 3, 4 y 5 a Dóniz-Páez J.

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Trilho do Corgo em Faiões – No Vale da
história e da memória

Rogério António de Castro Coelho 1

Introdução

Neste artigo será apresentado como de forma colaborativa se tem vindo a desenvolver
o projeto do primeiro produto turístico da freguesia de Faiões, no concelho de Chaves. No
qual se pretende valorizar e fazer um resgate histórico e cultural daquilo que podemos de-
signar por “saberes de chão” ou “ecologia de saberes” da sua população, que é marcada pela
idade avançada, característica quase que intrínseca dos territórios de baixa densidade no
coração de Trás-os-Montes (Santos, 2007). Estes saberes, que são transmitidos de geração
em geração, são a base para a construção dos conteúdos, que irão ajudar na preparação de
um projeto estruturado, que possa viabilizar a criação, promoção e homologação do que
de agora em diante será designado por “Trilho do Corgo”. Este novo produto de turismo
de natureza consistirá num percurso pedestre e destina-se a ser usado por todo e qualquer
cidadão do concelho de Chaves, e/ou visitantes do território, amantes de caminhadas ao
ar livre em contacto com a natureza e com a história local.

Uma abordagem metodológica em tempos de pandemia

O Trilho do Corgo deverá ter como ponto focal de desenvolvimento a valorização


do que a comunidade local tem de mais relevante, a saber: o conhecimento cientifica-
mente não estruturado das suas gentes, a natureza, a sua cultura e o seu legado histó-
221 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

rico. Nesta iniciativa fez-se uso de metodologia que poderia configurar um caso típico
de Investigação-Acção (Almeida, 2001). Tem também como missão o envolvimento da
população da freguesia de Faiões, naquilo que normalmente se designa de metodologias

1
Instituto Politécnico de Bragança
rogerrtm@gmail.com

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participativas, trazendo os membros da comunidade para assumirem o protagonismo da
criação de soluções para os problemas que os territórios de baixa densidade enfrentam
(Ferreira & Almeida, 2016). Mas como fazer isso em tempos de covid-19? Como adap-
tar esta abordagem metodológica ao momento histórico e desafios que todos vivemos
enquanto sociedade? É neste ponto que se introduziu uma abordagem diferenciadora,
principalmente em territórios de baixa densidade.
Está a ser usada como plataforma central de participação da população local, a maior
comunidade online sobre a freguesia de Faiões, criada no ano de 2013 e que tem o nome
de “Faiões no Coração”. É por meio dela que toda a colaboração, contribuição e discussão
sobre este projeto em curso está a ser e será realizada.
De realçar que esta comunidade online, possui neste momento cerca de 1500 utiliza-
dores, sendo que segundo os censos de 2011 a população residente na freguesia de Faiões
é de apenas 873 (em 1960 tinha 1001 habitantes2). Este alcance maior do que a própria
população residente, pode ser justificado pelo facto de que pessoas naturais ou filhos de
naturais de Faiões, também participam desta comunidade online, mesmo vivendo em
outras localidades nacionais, e muitos na emigração. Esta capacidade de comunicar e inte-
ragir online, permite uma verdadeira metodologia participativa para a construção de um
produto turístico, o que se espera que ajude no sentimento de pertença ao Trilho do Corgo
por parte de toda a comunidade. Pretende-se assim, no final deste projeto, ter criado um
método facilmente replicável, para a construção de iniciativas cívicas colaborativas, em
ambiente online, para freguesias de baixa densidade, que estimule o exercício da cidadania
e da participação pública nos processos de definição das políticas locais, por parte da po-
pulação residente e ausente nestes territórios marcados pela interioridade.

Objetivos do projeto Trilho do Corgo

A estruturação dos saberes e da história da população de Faiões, que se tem vindo a


elaborar, têm como resultado pretendido um projeto viável de desenvolvimento e fomento
económico para toda a freguesia. Será também uma forma de preservar o modo de vida e as
memórias destes territórios, que são no fundo o seu maior ativo e o que os diferenciam num
mercado turístico tão ávido por descobrir e viver “like a local” e em contato com a natureza.
A criação deste produto turístico, pretende contribuir como fator de atração de tu-
222 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

ristas para o concelho fronteiriço de Chaves, criando uma nova centralidade na prática
da caminhada no território do Alto Tâmega. Este percurso pedestre poderá atrair visitan-
tes casuais, vindos dos concelhos adjacentes e integrantes do Alto Tâmega, e tem ainda

2
INE, 2011

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potencial para captar praticantes recorrentes de caminhadas de todo o território nacional
e da vizinha Galiza. A existência deste trilho, especialmente num território de baixa
densidade e de parca dinâmica económica, poderá aumentar a massa crítica que uma
freguesia como a de Faiões tem em captar investimento, por via do consumo no comércio
e restauração local.
Por outro lado, e paralelamente, este projeto visa contribuir para uma melhoria da
condição física dos habitantes do concelho de Chaves, pois irá estimular a prática de des-
porto, sendo que, com toda a certeza, este objetivo estará em linha com o desígnio mu-
nicipal flaviense de combate ao sedentarismo, que tantos malefícios acarreta para uma
população cada vez mais envelhecida. Será uma forma eficaz de colocar em prática concei-
tos como o do envelhecimento ativo, tal como aconselha e incentiva a Direção-Geral da
Saúde no seu sítio de Internet.
Por último, mas aquele objetivo que é mais mobilizador, é o facto de que com a con-
tribuição da comunidade de Faiões, se possa construir um projeto de marketing territorial
inovador, que seja reflexo de colaboração real da população, e a que todos possam dizer e
sentir que também é seu. Podendo assim servir de gatilho para que, outras freguesias com
características semelhantes, iniciem os seus projetos colaborativos, que lutem em conjunto
pela transformação do seu ambiente, com a criação de alternativas viáveis que os ajudem a
atingir o autodesenvolvimento, contrariando na práxis os que afirmam que estas comuni-
dades estão fadadas à desertificação.

Marketing territorial ao serviço da colaboração e intervenção cívica

O projeto de criação do percurso pedestre “Trilho do Corgo – No Vale da história e da


memória” tem dois pilares fundamentais sobre os quais se centra todo o trabalho que se tem
vindo a desenvolver. Por um lado, fomentar e incutir a colaboração da população de Faiões na
construção do primeiro produto turístico na freguesia, por via da partilha das suas memórias
numa plataforma online. Essas partilhas, que assumem a forma de comentários, fotos, textos
e vídeos, servem de base para elaboração de um projeto de marketing territorial, que resulta
em conteúdos estruturados que formam parte de uma viagem na memória coletiva de Faiões.
Por outro lado, pretende-se sensibilizar e incentivar a população para uma maior inter-
venção cívica ativa, recorrendo e dando destaque ao instrumento de política pública muni-
223 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

cipal designado de Orçamento Participativo, no qual a população e as forças da sociedade


civil podem e devem ajudar na tomada das decisões de governança, propondo e votando
nos projetos que melhor representem os anseios das populações locais. Com essa sensibili-
zação e com o envolvimento e conteúdos obtidos junto da população de Faiões, o projeto
Trilho do Corgo foi submetido como uma proposta formal ao Orçamento Participativo de

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Chaves 2020, no qual obteve o honroso terceiro lugar no certame. A freguesia nunca tinha
tido, até então, uma proposta a concurso.
Essa candidatura ao Orçamento Participativo do Município de Chaves 2020, teve
como eixo principal da sua estratégia de proposta de ação as seguintes atividades:
• Homologação do Trilho: É pretendido que o trilho seja homologado pela Federação
de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) na categoria de percurso de até
30 km, ou seja Pequena Rota PR, como forma de garantir a qualidade e segurança
desta instalação desportiva para a prática do pedestrianismo;
• Marcação do Trilho e instalação de equipamento de apoio aos caminhantes: Para
conseguir a homologação, o trilho deverá ser alvo de marcação e manutenção, res-
peitando os requisitos da FCMP para este tipo de percurso;
• Promoção do Trilho: Essa divulgação deverá privilegiar o marketing digital, pois
será a forma de com menos recursos, conseguir atingir mais eficazmente o seu pú-
blico-alvo, pois o direcionamento das campanhas pode ser feito com maior precisão
e fazendo chegar a mensagem às pessoas que gostam de turismo de natureza, torna-
do o funil de conversão muito mais otimizado.

Mais recentemente e fruto da discussão e mobilização pública da qual o projeto tem


sido alvo, o Trilho do Corgo foi abraçado como proposta política em tempo de eleições
autárquicas. Nas eleições de 26 de setembro de 2021, existiram na freguesia de Faiões, três
listas concorrentes à assembleia de freguesia, sendo que duas delas mostraram interesse
em realizar todos os esforços para implementar este projeto emanado da sociedade civil.
A lista concorrente à Assembleia de Freguesia “Faiões primeiro” encabeçada por Dulcina
Casas, no seu documento público de propostas eleitorais, afirmava o seguinte: “Tornaremos
possível a concretização do, tão anunciado e esperado, projeto “Trilho do Corgo``.
Já a lista “Mudar de Rumo freguesia de Faiões”, liderada por Luís Oliveira e que venceu a
corrida eleitoral, mostrou também durante a campanha, vontade de concretizar este projeto,
abordando em particular o promotor do projeto e autor deste artigo, reiterando essa ideia. Estes
fatos ajudam na validação da eficácia da metodologia utilizada, pois incute ação/reação por parte
do poder político, especialmente quando a população abraça uma ideia, contribuindo para que
se possa pensar na replicação do modelo em outras freguesias com características semelhantes.
224 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

A geografia como molde da definição de um percurso pedestre

A localização do Trilho do Corgo é inteiramente na freguesia de Faiões, no concelho de


Chaves, e tem como eixo principal de implantação a Ribeira das Avelelas, que cruza toda a
freguesia no sentido este-oeste e que está na origem do vale fluvial encaixado do Corgo. A

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freguesia de Faiões dista da fronteira com Espanha, na sua província da Galiza, a tão só 5km.
A ocupação humana da Freguesia de Faiões vem desde tempos imemoriais, a arqueologia
revelou ao longo do tempo presença humana em várias épocas. Da Idade do Cobre existe o
Castro do Alto do Circo e da Idade do Bronze foi achada a estátua-menir de Faiões, expos-
ta no Museu da Região Flaviense (Oliveira Jorge, V., & Carlos Alberto F. Almeida:1979).
De época romana existem diversos vestígios, que vão desde a mineração nas “Minas da
Porqueira”, a lagares e diversos objetos cerâmicos e líticos. Da idade média podemos obser-
var sepulturas cavadas na rocha, localizadas no adro da Capela de São Martinho. Por esta
freguesia passava uma estrada romana, uma variante da via XVII, que de Braga seguia por
Chaves, até Astorga (Colmenero et al., 2004: 693).
A referência escrita mais antiga a Faiões é de 24 de junho do ano 995, na qual, Paio
Rodrigues vende a Miro Gontemiriz e esposa duas terças de Faiões e do Mosteiro de S. João.
Esse Mosteiro estava localizado na freguesia vizinha de Santo Estêvão (Barroca, 2013). Cerca
de 50% do percurso pedestre proposto é feito na floresta de Faiões, uma das maiores áreas
contínuas de floresta de todo o município de Chaves e que é parte integrante do designado
“Perímetro florestal de Chaves”, aqui a espécie predominante é o pinheiro bravo, mas tam-
bém existe uma importante área de carvalho no Vale do Corgo. Segundo o Plano municipal
de defesa da floresta contra incêndios (2015-2019), 10% da superfície do Município de
Chaves, não é visível por nenhuma torre de vigia de incêndios florestais. A freguesia de Faiões
tem uma área do seu território que faz parte desta percentagem, que é a que vai desde a Ponte
do Corgo, na Estrada Nacional 103, prolongando-se pela Ribeira de Avelelas, no designado
Vale do Corgo, que dá nome ao presente projeto. Ao mesmo tempo a floresta de Faiões está
referenciada como uma das áreas de maior risco de incêndio em todo o concelho de Chaves.
A proposta do Trilho do Corgo pretende que esta área tenha maior atenção e manutenção
do seu coberto vegetal, fazendo dos utilizadores do percurso pedestre, agentes cívicos, ativos
e vigilantes na salvaguarda da floresta.
Os percursos pedestres são opções seguras para a prática de exercício físico, especialmente
em tempos de pandemia. Livres de horários, longe de aglomerados de pessoas, devidamente
sinalizadas e em contato com a natureza. O Trilho do Corgo pretende ser um desses lugares idí-
licos de usufruto e preservação do património natural e cultural, com os quais a comunidade de
Faiões foi brindada, mas que a comunidade, nas últimas décadas, tem vivido de costas voltadas.
225 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Geração de valor e de dinamismo local por via do levantamento,


sistematização e comunicação de património natural e cultural

Esta iniciativa de propor a criação de um produto turístico numa freguesia como a


de Faiões, por via da construção colaborativa de um projeto de marketing territorial, está

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em linha com o repto lançado por Rita Marques, secretária de Estado do Turismo, aos
portugueses, para promoverem o país como destino turístico na sequência da pandemia
de Covid-19, segundo ela “precisamos de instigar uma maior comunicação, uma melhor co-
municação, mais positiva, mais assertiva, mais contínua sobre o destino Portugal e todos os
vários ativos que temos” (Observador, 2020). Ainda Rita Marques, afirmou relativamente
ao contexto de pandemia que

O facto de todos termos plena consciência do que já vivemos e do que não


queremos voltar a viver, força-nos a ter uma promoção do destino turístico não em
busca de mais turistas, mas do melhor turista, daquele que está mais disponível para
usufruir da natureza, para respeitar as comunidades que os recebem, para procurar
soluções mais saudáveis, a nível de oferta turística, e pagar por isso (SAPO24, 2020).

Assim, este projeto, pretende dar uma resposta concreta a esse desafio, gerando valor,
por via da criação de um novo produto turístico no concelho de Chaves, fazendo uso da
natureza, história e cultura da freguesia de Faiões, que pode e deve ser mais divulgada e
potenciada. A importância de se conhecer melhor os elementos diferenciadores de uma
comunidade, estruturando conhecimento popular e disperso, reside na disponibilização aos
seus habitantes de um mecanismo formal reivindicativo, com o qual podem exigir a quem
de direito a preservação daquilo que é a marca de um povo, por via da valorização do seu
património. Um caso paradigmático onde isso pode ser feito em Faiões, é o Castro do Alto
do Circo, um local com vestígios históricos da idade do cobre, mas que nunca foi alvo de
um verdadeiro projeto de intervenção arqueológica. A que foi realizada data de décadas atrás
e foi muito insípida. É credível que com a tecnologia que hoje está ao dispor dos investiga-
dores, se possa na atualidade entender melhor este sítio, o que contribuiria para uma maior
valorização de um dos pontos de interesse previsto no trajeto de percurso pedestre proposto
em sede de candidatura ao Orçamento Participativo do Município de Chaves 2020.
Dar a conhecer aos visitantes do Trilho do Corgo o património local, e mostrando a
quem de direito que esse património pode ser mais valorizado, pretende contribuir como
alavanca reivindicativa de maior atenção para a freguesia, em linha com o conceito de de-
senvolvimento sustentável3, contribuindo para que a comunidade possa lutar pelo direito
226 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

à fruição cultural. Além disso, a visão para o projeto Trilho do Corgo assume-se como
uma ideia que pretende colocar no território de uma freguesia marcada pela interioridade
a visão que a Agenda Territorial 20304 descreve no ponto 55
3
ODS-11 Cidades e Comunidades Sustentáveis
4
Disponível em <https://territorialagenda.eu/wp-content/uploads/TA2030_jun2021_pt.pdf> Consultado a
20.09.2021

iberografias42.indb 226 17/06/2022 18:00:46


O património natural e cultural da Europa é um bem único e diversificado que
deve ser protegido, gerido e desenvolvido mais aprofundadamente. As zonas ricas em
património natural e cultural ou as paisagens únicas necessitam de utilizar da melhor
forma estes bens e o seu potencial inexplorado. Precisam de conciliar a conservação
da natureza, a utilização sustentável dos recursos naturais e o desenvolvimento eco-
nómico, nomeadamente mediante a criação de empregos respeitadores do ambiente,
a promoção do crescimento e do bem-estar da comunidade ou mediante o trabalho
com empresários sociais inovadores. Concentrar-nos-emos no reforço da sensibili-
zação e da capacitação das comunidades locais e regionais para proteger, reabilitar,
utilizar e reutilizar os seus ambientes (construídos), paisagens, bens culturais mate-
riais e imateriais e outros valores únicos através de instrumentos da política de coesão
da UE, da política de desenvolvimento rural, do ordenamento do território ou de
quaisquer outros instrumentos que reforcem o desenvolvimento territorial ou local
integrado, entre outros. Estes podem já estar efetivamente presentes no território
(Agenda territorial, 2030:23).

Atividade metas e desafios do desenho de um percurso

O desafio de traçar, comunicar e promover um percurso pedestre que ajude a desen-


volver uma narrativa atraente para quem o venha a percorrer, tanto a nível das suas carac-
terísticas técnicas, como dos seus conteúdos, acarreta consigo várias etapas, entre as quais
se destacam as seguintes:
1. Levantamento online de informação junto da população sobre a freguesia de Faiões,
que deverá ser tratada e estruturada para que resulte em conteúdos que sejam re-
flexo da memória de um povo e ajude na definição do percurso pedestre (realizado
desde julho de 2020).
2. Levantamento cartográfico do Trilho do Corgo, e dos seus principais pontos de
interesse com recurso a dispositivo GPS para obtenção de percurso ideal e do perfil
de elevação mais adequado, tendo em conta a acessibilidade do mesmo em termos
de grau de dificuldade (realizado em julho e agosto de 2020).
3. Com base na informação recolhida online, fruto do envio da mesma pela popula-
ção e depois de a agrupar, ordenar e relacionar, foi construído um enquadramento
227 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

geográfico e histórico de cada ponto de interesse do percurso pedestre (realizado em


agosto de 2020).

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Pontos de interesse Descrição e enquadramento geográfico
Vale fluvial do corgo O vale fluvial encaixado do Corgo é resultado da ação da ribeira das Ave-
lelas ao longo de milhões de anos. É marcado pela densa e rica flora, com
zonas húmidas, originadas pela pouca exposição solar de que a área é alvo.
Ao longo do vale podemos observar pequenas charcas e reentrâncias nas
rochas, fruto da erosão hídrica e que nos colocam num ambiente que nos
remete para o imaginário céltico, onde fadas, druidas e duendes percor-
riam os vales do noroeste peninsular.
Casa da guarda florestal Feita num projeto sóbrio, que pretendia passar a ideia da altivez própria
do Estado Novo, esta casa servia de habitação para o destacamento de
guardas florestais que zelavam pela floresta estatal. Localizada num ter-
reno aplanado, a casa é rodeada por uma vegetação frondosa, sendo um
ótimo local para fazer uma paragem para descanso dos caminhantes.
Castro do Alto do Circo O castro da idade do Cobre do Alto do Circo tem diversos vestígios do
neolítico. É definido por uma elevação ou entrincheiramento de terra
rodeando a coroa dos montes, muito embora hajam enterradas muralhas
de pedra. A origem do topónimo provém do fato das muralhas formarem
um circuito. É um povoado de pequenas dimensões, sendo composto por
um sistema defensivo simplificado, com apenas uma linha de muralha e
um fosso na vertente Este do castro. Relativamente ao espólio devemos
salientar o facto de se terem recolhido fragmentos de cerâmica tipicamen-
te castreja (Teixeira, R.,1996: Martins, J. B.:1985).
Minas romanas da porqueira As Minas da Porqueira ficam situadas no Alto da Regueira em Faiões,
localizam-se a Sudeste da aldeia e são constituídas por trincheiras e des-
montes superficiais.
Na atualidade encontram-se relativamente descaracterizadas devido a
trabalhos contemporâneos. Tendo começado a ser mineradas em época
romana, a valorização e divulgação deste património mineiro, iria en-
riquecer ainda mais o concelho, contribuindo para o reforço de Chaves
como um município rico em vestígios romanos (Martins, 2010).
Escola de Faiões Considerada quase de forma unânime como a mais bela escola primária
de Portugal, é construída totalmente em granito, que lhe dá um ar mo-
numental, foi inaugurada na década de 30 do século XX e foi obra do
esforço conjunto da população da freguesia e do benemérito, António
Luís Morais Sarmento, natural de Faiões e antigo reitor da Universidade
de Coimbra. Por esse facto, os traços arquitetónicos da construção fazem
uma clara alusão ao Paço das Escolas da Universidade de Coimbra.
Túmulos cavados na rocha Túmulos localizados junto da Capela de São Martinho na Aldeia de
Faiões, estas sepulturas cavadas na rocha estão situadas no adro desta
construção religiosa. Estão totalmente ao ar livre e num bom estado de
228 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

conservação, o que fará o visitante ter, com toda a certeza, o momento


de maior introspeção da caminhada, pois será remetido para a ideia de
finitude da vida terrena. (Teixeira, 1996).

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Relógio solar Localizado numa travessa entre a Rua de São Martinho e a Rua Cen-
tral, no seio do conjunto de casario mais antigo e pitoresco da Aldeia de
Faiões, este exemplar mostra um aspecto bastante rústico, é esculpido
num único bloco granítico. A envolvente arquitetónica de vias e vielas
onde está inserido, dá-lhe toda uma mística, e remete-nos para outros
tempos, onde o passar do tempo tinha um ritmo bem mais demorado,
ditado inteiramente pelo ciclo do Sol.
Ponte romano-medieval O traçado da variante da via XVII romana, a partir de Chaves, subia por
Faiões, onde atravessava a Ribeira das Avelelas, numa ponte de um arco;
seguia pelo termo das Assureiras – Souto Bravo, onde ainda se observam
alguns troços de calçada, até ao Castelo de Monforte. A atual construção
será uma reconstrução da idade média (Teixeira, 1996:45).

Quadro 1: Pontos de interesse propostos para o percurso pedestre Trilho do Corgo


Fonte: Elaboração própria

1. Divulgação da proposta do Trilho no âmbito do Orçamento Participativo de Chaves


2020, com foco na população da freguesia de Faiões, com vista a uma mobilização
conjunta dos habitantes deste território, para que não deixem de exercer o seu sen-
tido cívico do voto (realizado em novembro e dezembro de 2020).
2. Publicação dos conteúdos produzidos no âmbito deste projeto em website temá-
tico5, como forma de valorização do conhecimento até então não estruturado, em
diversos formatos multimédia, entre os quais vídeos, imagens e texto (realizado
desde janeiro de 2021).

Resultados e disseminação, como desígnio de um percurso que se


quer em permanente construção

Por um lado, foi possível contribuir para uma maior consciencialização e mobilização
da população da freguesia de Faiões para as políticas públicas, chamando a si o protagonis-
mo das escolhas que a democracia lhe atribui. Foi elaborado um roteiro que contém a des-
crição do percurso pedestre, bem como dos principais pontos de interesse a visitar, trazendo
para a atualidade as características geográficas e culturais únicas de cada um deles, e que
até ao momento, permaneciam grandemente na memória coletiva da população de Faiões.
Esse material produzido para a criação de um roteiro, possibilitou entregar uma pro-
229 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

posta de criação, promoção e homologação do Trilho do Corgo, por via da candidatura ao


Orçamento Participativo do Município de Chaves na sua edição de 2020. A proposta é um
dossier que permite uma fácil concretização do Trilho por parte do Município de Chaves
e/ou pela Junta de Freguesia de Faiões.

5
Disponibilizado em <www.trilhodocorgo.pt>

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Como desafio futuro, está posto ainda a criação de um kit de material didático, em
jeito de tutorial, que permita que outras freguesias de baixa densidade, possam criar os
seus próprios projetos de dinamização cultural e económica, fazendo uso de comunidades
online para escalar a capacidade de comunicação e colaboração das suas populações, viabi-
lizando a preservação cultural e o desenvolvimento local sustentado.
Como limitação, visto que é um projeto em curso, temos o facto de que a implemen-
tação do Trilho ainda estar por concretizar, mas o projeto obteve o reconhecimento e com-
prometimento político da autarquia local em prol da execução do mesmo, fazendo assim
ser crível que tal possa estar no terreno no presente mandato autárquico.
Com a missão de disseminar mais o presente projeto, será elaborado um folheto digital
do percurso pedestre “Trilho do Corgo”, que terá como base as memórias da população de
Faiões e que reforce a importância de as preservar.
A ideia de disseminação esteve presente desde o primeiro momento no projeto, fun-
cionando como devolutiva imediata para a comunidade em forma de conhecimento estru-
turado. No âmbito da participação no Orçamento Participativo do Município de Chaves
2020, o projeto foi apresentado publicamente por via dos canais de comunicação digitais
do município flaviense em formato de vídeo promocional.
Ainda no âmbito da disseminação, foi possível usufruir de cobertura mediática dos prin-
cipais órgãos de comunicação social concelhia e regionais, resultando em diversas notícias que
ressaltam o reconhecimento do projeto. Para fomentar essa cobertura mediática, foi produ-
zida uma nota de imprensa apresentando o Trilho do Corgo para a sociedade6. Por fim, no
que toca à divulgação junto das instituições do poder local, o projeto teve a oportunidade de
ser apresentado no seio de uma iniciativa interna da Comunidade intermunicipal do Alto
Tâmega, designada por “Conversas CIM_3ª sessão”, em que se deu a conhecer a metodologia
usada na criação online de projetos cívicos, direcionada para as freguesias de baixa densidade.

Bibliografia

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Práticas, (37), 175-176.
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230 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

6
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Diário de Trás-os-Montes <https://www.diariodetrasosmontes.com/noticia/trilho-do-corgo-em-faioes-cha-
ves-apresentado-no-centro-de-estudos-ibericos>

iberografias42.indb 230 17/06/2022 18:00:47


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Observador <https://observador.pt/2020/07/16/governo-desafia-portugueses-a-promover-o-pais-
-como-destino-turistico>
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) <https://www.ods.pt/objectivos/11-cidades-e-
-comunidades-sustentaveis/?portfolioCats=24>
Sapo 24 <https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/rita-marques-vamos-ter-as-slowcations-que-sao-
-justamente-estas-ferias-em-que-se-procura-a-calma-e-a-natureza>
231 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

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III. DESENVOLVIMENTO RURAL:
AGRICULTURA, SEGURANÇA
ALIMENTAR E POLÍTICAS PÚBLICAS

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La dinámica geodemográfica en la raya
luso-salmantina: implicaciones en tiempos
de pandemia

Lía Fernández Sangrador1

Introducción

Los territorios que componen el espacio transfronterizo luso-salmantino presentan


una serie de fracturas sociales derivadas de la merma de población y de la emigración de
mediados del siglo pasado. La marcha de personas en cohortes fértiles trae consigo una
reducción drástica de la fecundidad y la natalidad. No menos incidencia tiene la situación
periférica. Varios estudios publicados en la última década del siglo XX dejaban constancia
de los efectos demográficos, materializados en una despoblación cada vez mayor y un perfil
envejecido de los habitantes (Cabero, 1993; Sánchez y Cabero, 1994; Cabero, Santos y
Jacinto, 1994; Cabero, 1998). Dichos trabajos ya vaticinaban la posterior evolución regre-
siva, la pérdida de población y el acusado envejecimiento.
El marcado carácter rural de la raya ibérica (entre Salamanca y Portugal), unido
a la baja ocupación y a las débiles conexiones viarias intrarregionales y transfronteri-
zas ha motivado su consideración como territorio deprimido (OAEDR, 2006, p. 20;
Hortelano 2015, p. 250; Hortelano y Mansvelt, 2017, p. 39). Según los informes de
cohesión territorial de la Unión Europea, el espacio fronterizo a ambos lados de la raya
está catalogado como una región en desventaja geográfica (Comisión Europea, 2004;
Hortelano y Martín, 2017). Además, el Instituto Nacional de Estadística portugués
incluye la mayoría de las freguesias ubicadas en la franja fronteriza de la Región Centro
235 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

que limita con Salamanca entre las áreas con un índice de marginalidad funcional muy

1
Personal Investigador en Formación.
Departamento de Geografía. Universidad de Salamanca. Esta investigación se ha realizado al amparo del
contrato predoctoral de la Universidad de Salamanca cofinanciado por el Banco de Santander (Programa
III: Ayudas para contratos predoctorales, convocatoria de 2019).
liafernandez@usal.es

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alto (INE, 2004). A todo ello hay que añadir la escasez de núcleos urbanos que permi-
tan articular el territorio (Cabero, 1998, p. 72). Si bien esta situación tenía una serie de
consecuencias, materializadas por ejemplo en déficits en las infraestructuras y servicios,
lo cierto es que han surgido nuevas complicaciones para los habitantes derivadas de la
pandemia declarada en 2020.
En este marco surgió, desde el ámbito institucional, la Estrategia Común de Desarrollo
Transfronterizo como instrumento para paliar los efectos del COVID-19 y complemen-
tar las acciones en materia de reto demográfico2. Además, el acuciante problema de la
despoblación ha propiciado en los últimos años la elaboración de otras estrategias para
frenarlo y tratar de minimizar los efectos del progresivo envejecimiento. Por ejemplo,
en 2019 se aprobaron las Directrices Generales de la Estrategia Nacional frente al Reto
Demográfico y en 2021 el Ministerio para la Transición Ecológica y el Reto Demográfico
ha lanzado el Plan de Recuperación: 130 medidas ante el Reto Demográfico. Desde el
marco universitario, investigadores de la Universidad de Zaragoza han publicado el
Mapa 174. Zonificación de los municipios españoles sujetos a desventajas demográficas gra-
ves y permanentes (Zúñiga y Guillén, 2020), con el que han medido dichas desventajas a
partir de 6 variables (altitud, pendiente media, densidad de población, índice de enve-
jecimiento, porcentaje de población entre 0 y 4 años y evolución de la población entre
1991 y 2018).
Sobre la base de todas esas cuestiones, el fundamento principal de esta investigación
es realizar una aproximación al escenario geodemográfico del espacio transfronterizo (a
uno y otro lado de la raya luso-salmantina) anterior a la llegada de la pandemia. Para ello
se ha construido una radiografía de la situación demográfica en el último periodo y se ha
llevado a cabo un análisis multicriterio (basado en una selección de seis indicadores rela-
cionados con la dinámica poblacional y la accesibilidad a las infraestructuras sanitarias)
con la finalidad de conocer el marco de partida con el que estos territorios se enfrentaron
a la irrupción del COVID-19. Esta evaluación multicriterio ha permitido obtener una
imagen de las áreas con mayores desventajas geodemográficas acumuladas. Asimismo, se
han estudiado las repercusiones que continúan teniendo estas estructuras sobre la vida de
los habitantes en el momento actual.
236 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

2
El quinto objetivo estratégico está orientado a “favorecer la fijación de población en las zonas trans-
fronterizas” (República Portuguesa y Ministerio para la Transición Ecológica y el Reto Demográfico,
2020, p. 3).

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Metodología

Delimitación del marco geográfico

La heterogeneidad existente entre las divisiones político-administrativas de España y


las de Portugal supone una dificultad añadida a la hora de realizar estudios que permitan
analizar de forma comparada y congruente la situación (en este caso demográfica) de los
territorios que configuran la zona fronteriza. La complejidad que conlleva seleccionar un
marco de estudio fronterizo con coherencia territorial ha sido comentada por algunos au-
tores como Campesino (2013), quien explica que “las provincias españolas se asemejan a
los distritos portugueses y desbordan el limitado alcance de la frontera […] pero tampoco
resulta viable […] la compartimentación comarcal por falta de reconocimiento jurídico de
este lado de la raya e inexistencia de tal agrupación supramunicipal al otro lado de la fron-
tera” (p.11). Por estos motivos, la elección del nivel de deslinde y definición del espacio
rayano siempre ha constituido una ardua tarea. Además, tampoco hay una concreción del
alcance del denominado “efecto frontera”.
En las diversas investigaciones y publicaciones realizadas a lo largo de los años se han
empleado distintas fórmulas, de tal forma que no existe una delimitación única, sino que
varía dependiendo de los fundamentos de cada estudio. Tanto la indefinición de la franja
fronteriza ibérica como la dificultad en la acomodación a una división administrativa se-
mejante persisten a pesar de que, en la década de 1970, la Oficina Europea de Estadística
(EUROSTAT) creó una división geográfica, basada en distintos niveles jerárquicos, de los
territorios de los Estados miembros de la Unión Europea, con la finalidad de recabar series
de datos con una cierta homogeneidad y estabilidad3.
La desagregación geográfica considerada en el presente trabajo son los municipios
en la zona española y los concelhos en el lado portugués, siguiendo la propuesta adop-
tada por la Red Ibérica de Entidades Transfronterizas (RIET) en el Observatorio de
Frontera y más recientemente por Izquierdo (2021) en el Atlas de la Frontera Hispano-
Portuguesa. La razón es que, como señalan Sánchez y Cabero (1994, p. 33), “el concel-
ho constituye la unidad básica de la Administración Portuguesa” (ya que las freguesias
carecen de órganos jurisdiccionales) y en España “los municipios son las entidades bá-
237 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

sicas de la organización territorial del Estado”, según se establece en el artículo primero


de la Ley 7/1985, de 2 de abril, Reguladora de las Bases del Régimen Local. Además,
esta elección también ha estado condicionada por la disponibilidad de las estadísticas.

3
Esta propuesta no adquirió un estatus legal hasta la aprobación del Reglamento (CE) nº 1059/2003 del
Parlamento Europeo y del Consejo, de 26 de mayo de 2003, por el que se establece una nomenclatura
común de unidades territoriales estadísticas (NUTS).

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Para la definición y concreción del área de estudio se ha tenido en cuenta la zonifica-
ción sanitaria4 y que las unidades territoriales se encuentren dentro de una franja de 50
km a cada lado de la raya ibérica. Así, el espacio de análisis está formado por un total
de 95 municipios, contenidos en 7 Zonas Básicas de Salud salmantinas (Vitigudino,
Aldeadávila de la Ribera, Lumbrales, Fuentes de Oñoro, Fuenteguinaldo, Robleda y
Ciudad Rodrigo), englobando una superficie de 4547,5 km2, y por los 13 concelhos
lusos que cubre la Unidade Local de Saúde da Guarda5, ocupando una extensión de
5340,2 km2 (v. figura 1).

Figura 1 – La raya luso-salmantina: zona de estudio.


Fuente: Instituto Geográfico Nacional y Direção-Geral do Território. Elaboración propia

4
Uno de los criterios analizados en el estudio es la accesibilidad a los centros de salud, por lo que era necesario
238 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

tener en cuenta una zonificación adecuada a esta variable, de ahí que los municipios seleccionados se hayan
ceñido a este marco territorial de las Zonas Básicas de Salud (v. infra).
5
Dentro de la Unidade Local de Saúde da Guarda (cuya extensión corresponde al Distrito, a excepción
del municipio de Aguiar da Beira que no pertenece a esta ULS) existen 13 Núcleos Locais de Saúde
Pública (NLSP) ubicados en el núcleo principal de cada concelho: Almeida, Celorico da Beira, Figueira
de Castelo Rodrigo, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Meda, Pinhel, Sabugal, Seia,
Trancoso y Vila Nova de Foz Côa. Véase: Serviço Nacional de Saúde (SNS). Saúde Pública. Unidade Local
de Saúde da Guarda.

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Fuentes, materiales y métodos

La investigación sobre la dinámica geodemográfica en la raya luso-salmantina ha


partido de la revisión de diversas fuentes, referencias bibliográficas (libros y artícu-
los de revistas científicas) así como informes de programas institucionales relaciona-
dos con el desarrollo y la cooperación transfronteriza y el reto demográfico. Además,
se han procesado datos facilitados por el Instituto Nacional de Estadística de España
(procedentes del Padrón de Habitantes y del Movimiento Natural de la Población) y
por el Instituto Nacional de Estadística de Portugal (Estimativas Anuais da População
Residente, Nados-vivos y Óbitos). También se ha revisado la información disponible
acerca de los centros de salud a través de la Infraestructura de Datos Espaciales de la
Junta de Castilla y León (IDECYL) y de la Direção-Geral da Saúde (mediante el visor
GeoSaúde). Se han consultado otras estadísticas sanitarias relacionadas con la inciden-
cia del coronavirus.
Como herramienta para el tratamiento de los datos se ha utilizado el Sistema de
Información Geográfica ArcGIS y como recurso para presentar los resultados se ha em-
pleado la cartografía temática. Se han confeccionado una serie de mapas temáticos, tanto
cualitativos como cuantitativos, para apoyar las distintas secciones del estudio.
Además, se ha llevado a cabo una evaluación multicriterio, conjugando una serie de
indicadores, configurada en una matriz regular de celdas poligonales, que permite aunar
en una única medida normalizada todos los criterios analizados manteniendo la dimen-
sión espacial. La valoración conjunta de estas seis variables facilita la obtención de una
imagen de los territorios en función de la acumulación de “desventajas” (tienen menor
puntuación aquellos con peores indicadores en el cómputo global, y representan, por
tanto, situaciones desfavorables). Para la ejecución de la evaluación se han normalizado
las variables, se ha asignado una puntuación a cada criterio y se ha realizado la pondera-
ción utilizando el complemento de libre acceso sobre “multi criteria decision analysis” que
ofrece Quantum GIS (QGIS).

La dinámica demográfica en el espacio transfronterizo


239 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

En los últimos años, la dinámica demográfica en el espacio rayano no ha sido favo-


rable. Se ha perpetuado la fragilidad social que ya se contemplaba hace tres décadas, en
los estudios de los años noventa (Cabero, 1993; Sánchez y Cabero, 1994). Actualmente,
la mayor parte de las entidades salmantinas de la frontera se encuentran en una situación
demográfica muy grave por estar sujetas a desventajas permanentes (Zúñiga y Guillén,

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2020) y buena parte del territorio fronterizo portugués ha sido catalogado como áreas
de marginalidad funcional muy fuerte, especialmente las freguesias más próximas al lí-
mite rayano, enmarcadas en el concelho de Almeida y en menor medida en Sabugal y
Figueira de Castelo Rodrigo (INE, 2004, pp. 53-54). Aunque existen algunas similitudes
en la zona rayana, ya que es una región caracterizada por la intensa despoblación, el en-
vejecimiento y la atonía económica, también son apreciables algunos contrastes (Lois y
Carballo, 2014; Jacinto, 2014).

Figura 2 – Estructura de la población en 2019.


Fuente: INE, Estimativas anuais da população residente y Estadística del padrón continuo.
Elaboración propia. Software: José Ignacio Izquierdo Misiego.

Desde una panorámica de conjunto, en 2019 la parte salmantina de la Raya ibérica


presentaba una densidad de población de 8,2 hab/km2, un umbral por debajo del mínimo
de los 10 hab/km2 que marca la Unión Europea como señal indicativa de un grave proble-
ma en la gestión de los recursos naturales (Cabero, 1993; Hortelano y Mansvelt, 2017).
Además, ha disminuido respecto al año 2011, donde la media era de 9,5 hab/km2. Esto es
fruto del descenso poblacional. Los 43.320 habitantes que poblaban la raya de Salamanca
en 2011 se redujeron a 37.075 en 2019, lo que supuso una pérdida del 14,4%. En 2019,
más del 36% de la población superaba los 65 años de edad y únicamente el 7,5% tenía
240 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

menos de 15 años. El crecimiento natural negativo (del – 1,5%) derivado de una baja tasa
de natalidad (del 3,3‰) y una tasa de mortalidad alta (del 18, 7‰), unido a la estructura
demográfica envejecida (v. figura 2), supone un condicionante importante de cara al relevo
generacional del futuro.
La despoblación y el envejecimiento en la franja portuguesa, de forma global, no es
tan acusado como en tierras españolas debido a la influencia que ejerce Guarda como

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principal núcleo urbano y capital de distrito (INE, 2004, p. 56). Sin embargo, tienen
en común la pérdida de población. En 2019 eran 138.528 los habitantes empadrona-
dos, es decir, un 9,9% menos que los que había en 2011 (153.752 habitantes). Esta
pérdida se ha visto reflejada en la disminución de la densidad de demográfica, que ha
descendido de los 28,8 hab/km2 en 2011 a los 25,9 hab/km2 en 2019, aunque estas
cifras no son tan alarmantes como las del espacio salmantino. En esta fecha, los mayores
de 65 años representaban cerca de un tercio de la estructura demográfica (un 29,7%),
mientras que los menores de 15 años constituían el 9,6%. En comparación a la franja
española, el territorio luso tenía más presencia de jóvenes y menos porcentaje de po-
blación con más de 65 años. Sin embargo, en 2019 también registró un crecimiento
natural negativo (del – 1,2%), fruto de una baja tasa de natalidad (5,5‰) y una elevada
mortalidad (17,6‰).
La pérdida de población en la frontera ibérica ha sido constante. En un marco más
detallado, cabe señalar que la zona más afectada ha sido la correspondiente a Salamanca.
En 34 municipios, la población de 2019 era entre un 20 y un 30% menor que la de
2011, y otros 26 había perdido entre un 10 y un 20% (v. figura 3). Estas entidades
se concentraron especialmente en la propia raya y en el sector más septentrional. La
merma en los concelhos fue menor, aunque existen algunos contrastes. Los más próxi-
mos a la frontera, como Almeida y Sabugal, fueron los que más habitantes perdieron
respecto a 2011, siendo el descenso de un 17,5 y un 14,3% respectivamente. Por el
contrario, la variación en Guarda, Fornos de Algodres y Celorico da Beira fue inferior
al 10% (un 7,5, 8,8 y 8,9%).
Existe una falta de vitalidad causada por una dinámica natural desfavorable. La Tasa
Bruta de Natalidad para el periodo 2011-2019 reflejaba la atonía demográfica en la que
se encontraba parte de la frontera salmantina. Desde el año 2011 no se registró ningún
nacimiento en 14 municipios, la mayoría situados en las proximidades de Vitigudino (v.
figura 4). En 40 municipios la Tasa Bruta de Natalidad del periodo fue inferior al 2‰, y
de menos del 1‰ en 16 de ellos. En la franja española 7 municipios tenían tasas de na-
talidad por encima del 5‰ (Trabanca, Monsagro, Pastores, Ciudad Rodrigo, Vitigudino,
Guadramiro y La Bouza), de los cuales sólo La Bouza superaba los 10 nacimientos por
cada mil habitantes. Los concelhos con mejores tasas de natalidad fueron Guarda, Figueira
241 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

de Castelo Rodrigo y Seia, con unos valores en torno al 6‰. La natalidad más baja se
registró en Almeida.

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Figura 3 – Variación de la población entre 2011 y 2019.
Fuente: INE, Estimativas anuais da população residente y Estadística del padrón continuo. Elaboración propia.
242 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 4 – Tasa Bruta de Natalidad en el periodo 2011-2019.


Fuente: INE, Nados-vivos y Movimiento Natural de la Población. Elaboración propia.

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Figura 5 – Tasa Bruta de Mortalidad en el periodo 2011-2019.
Fuente: INE, Óbitos por local de residencia y Movimiento Natural de la Población. Elaboración propia.

243 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 6 – Densidad demográfica en 2019.


Fuente: Fuente: INE, Estimativas anuais da população residente y Estadística del padrón continuo.
Elaboración propia.

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En relación a la Tasa Bruta de Mortalidad, cabe destacar que las cifras más elevadas, superio-
res al 25‰, se localizan en los municipios con mayor número de habitantes de más de 65 años (v.
figuras 5 y 7). El resultado de ambas tasas ha sido un crecimiento natural negativo en el periodo
2011-2019 en todas las entidades de la raya luso-salmantina con una pérdida entre el 0,5 y el 3%.
Como es evidente, todo ello ha influido en la densidad de población. Mientras que en
2011 eran 39 los municipios con una densidad demográfica inferior a los 5 hab/km2, en 2019
la cifra ascendía a 57 de los 95 considerados, es decir, más de la mitad de los municipios no
llegaban a los 5 hab/km2, y otros 30 no alcanzaban los 10 hab/km2 (v. figura 6). Esto supone
que más del 90% del territorio rayano salmantino estaba con grandes vacíos, al límite de la
“desertización”. Preocupan especialmente los 11 municipios6 que en 2019 no superaban los
2 hab/km2. Solamente Ciudad Rodrigo y Vitigudino tenían una situación más favorable, con
51,4 y 47,8 hab/km2 respectivamente, seguidos por Aldeadávila de la Ribera (con 26,5 hab/
km2), Lumbrales (con 22,7 hab/km2) y Fuentes de Oñoro (con 19,8 hab/km2). En Portugal,
las áreas menos afectadas por la despoblación se localizan en los concelhos “más alejados” de
la frontera, como Guarda y Seia, donde hay más de 50 hab/km2 (en concreto, 54,7 y 51),
mientras que las menores densidades se concentran en las proximidades de la raya, en Figueira
de Castelo Rodrigo, Almeida y Sabugal, con 11, 11,3 y 12,9 hab/km2 respectivamente.
244 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 7 – Porcentaje de mayores de 65 años en 2019.


Fuente: INE, Estimativas anuais da população residente y Estadística del padrón continuo. Elaboración propia.

6
Espadaña, Pozos de Hinojo, Villarmuerto, Olmedo de Camaces, Peralejos de Arriba, Ahigal de Villarino,
Puertas, Tremedal de Tormes, Castillejo de Martín Viejo, Carpio de Azaba y Puerto Seguro.

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Y en consecuencia, a la baja ocupación del territorio se suma el elevado envejecimiento de
los habitantes de la zona transfronteriza. En 2019, los mayores de 65 años constituían más de la
tercera parte de la población en 90 de los 95 municipios, superando el 50% en 21 de ellos. El
perfil envejecido de estos 21 municipios donde más de la mitad de los habitantes tienen más de
65 años se ve acentuado por la escasa presencia de jóvenes, que no supera el 5%. Las zonas más
envejecidas se concentran en los espacios de montaña (Sierra de Gata y Sierra de Francia) y en
la comarca de La Ribera y La Ramajería (cf. Llorente, 1980, p. 79), y coinciden con las zonas de
menor porcentaje de menores de 15 años (v. figuras 7 y 8). En Cerezal de Peñahorcada más de
dos tercios de los habitantes rebasan los 65 años de edad (representando el 70,5% de la pobla-
ción) y no hay presencia de jóvenes (no hay ningún empadronado con menos de 15 años). En la
parte lusa el envejecimiento de los pobladores no es tan acusado. Los concelhos más afectados son
Sabugal, Mêda y Almeida, donde la población con más de 65 años constituye alrededor del 35%.
En contraste, el peso de la población joven en el territorio salmantino es muy bajo.
En 59 municipios los habitantes menores de 15 años no llegaban al 5% del total y en 8
de ellos no había ni un solo joven7 (v. figura 8). En los concelhos el porcentaje de jóvenes
oscilaba entre el 7,5 y el 9%, salvo en Almeida, que suponían el 5,8%, y en Guarda y
Figueira de Castelo Rodrigo, que representaban en torno al 11%.

245 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 8 – Porcentaje de menores de 15 años en 2019.


Fuente: INE, Estimativas anuais da população residente y Estadística del padrón continuo. Elaboración propia.

7
Los municipios en los que no había jóvenes en 2019 eran: Brincones, Cerezal de Peñahorcada, Espadaña,
Herguijuela de Ciudad Rodrigo, Peralejos de Arriba, Tenebrón, Villarmuerto y Zamarra.

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La desarticulación del poblamiento actual es consecuencia de la desestructuración
territorial originada por los efectos de la fuerte emigración en el siglo pasado, que pro-
vocó una concentración de población en los núcleos urbanos de mayor tamaño (aleja-
dos de esta zona) y debilitó los espacios rurales (Cabero, 1993, pp. 77-78; Sánchez y
Cabero, 1994, p. 32; Hortelano, 2008, p. 92). A pesar de que los episodios migratorios
se han frenado, el retroceso demográfico ha continuado debido a la desvitalidad y al
envejecimiento de la población.
En definitiva, la evolución demográfica en el espacio transfronterizo considerado se ha
caracterizado por una regresión continua, fruto de las bajas tasas de natalidad y las elevadas
tasas de mortalidad, que han dado lugar a un crecimiento natural negativo. Esto ha llevado
a un vaciamiento demográfico (aunque no hay que perder la perspectiva de que el modelo
de poblamiento castellanoleonés siempre ha sido de baja densidad). La situación futura
tampoco se presenta positiva debido a la estructura poblacional cada vez más envejecida y
con escasa presencia de grupos jóvenes.

Equipamiento sanitario: la accesibilidad a los centros de salud

Para tener una visión más integrada de la situación en la que se encontraba el territo-
rio rayano antes de la irrupción de la pandemia, además de considerar las características
demográficas conviene prestar atención al acceso a un servicio básico como es la asistencia
sanitaria. Tiene relevancia, entre otras cuestiones, por dos aspectos; primero, por el perfil
envejecido de los pobladores, y segundo, por las implicaciones añadidas tras la declaración
de la pandemia mundial.
Según establece la Ley 8/2010, de 30 de agosto, de ordenación del sistema de salud
de Castilla y León, “la Zona Básica de Salud es el marco territorial y poblacional donde
se desarrollan las actividades sanitarias de la Atención Primaria” y “contará con un Centro
de Salud, como estructura física y funcional” (Artículo 15, apartados 1 y 3 (Título I,
Capitulo II)). Atendiendo a esta ordenación oficial, los 95 municipios considerados en-
marcados en la raya española están distribuidos en 7 Zonas Básicas de Salud, con los res-
pectivos Centros de Salud ubicados en Aldeadávila de la Ribera8, Vitigudino, Lumbrales,
246 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Fuentes de Oñoro, Ciudad Rodrigo, Fuenteguinaldo y Robleda. Además, existe un centro

8
En varias ocasiones los habitantes de Las Arribes (especialmente en Aldeadávila de la Ribera, Barruecopardo
y Villarino de los Aires) han protestado para reclamar servicios asistenciales dignos y evitar el cierre de las
urgencias nocturnas. Los vecinos manifiestan el aislamiento por estar a más de una hora de camino de cual-
quier hospital ante cualquier necesidad durante la noche.

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de guardia en Villarino de los Aires y en Barruecopardo y los diferentes núcleos de pobla-
ción cuentan con un consultorio local de atención primaria. El espacio portugués corres-
ponde a la Unidade Local de Saúde da Guarda que abarca 13 Núcleos Locais de Saúde
Pública (NLSP) ubicados en el núcleo principal de cada concelho: Almeida, Celorico da
Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas,
Meda, Pinhel, Sabugal, Seia, Trancoso y Vila Nova de Foz Côa. La ciudad de Guarda
cuenta con equipamiento hospitalario, mientras que en la zona salmantina es preciso des-
plazarse hasta la capital para acceder a este servicio, con el inconveniente que supone la
duración del trayecto.
Aunque en el establecimiento de la delimitación de las Zonas Básicas de Salud se
tuvieron en cuenta varios criterios, como geográficos, demográficos, de vías de comunica-
ción o de optimización de los propios recursos, y se veló por mantener un desplazamiento
con recorridos de menos de 30 minutos, lo cierto es que no resulta posible en todos los
casos debido a condicionantes como la propia orografía y las conexiones de la red viaria
(v. figura 9). El espectacular encajamiento del río Duero que otorga una singularidad pai-
sajística de gran valor ecológico, turístico y energético (por el potencial hidráulico) lleva
asociada la contrapartida de una fragmentada red de comunicaciones en la “raya húmeda”.
Esta cuestión es más patente en la tradicional comarca de La Ribera (cf. Llorente, 1980),
en el sector norte de la frontera salmantina. El condicionante hidrográfico también tiene
incidencia en algunas carreteras portuguesas (por ejemplo, en la Nacional 222, en las
proximidades de Vila Nova de Foz Côa).
A través del mapa de accesibilidad a los centros de salud puede apreciarse una es-
timación del tiempo medio de desplazamiento en coche hacia la instalación corres-
pondiente9. Se observa la mayor duración del trayecto en las zonas montañosas de los
municipios de la Sierra de Gata y de la Sierra de Francia, así como en algunas zonas de
La Ribera y Las Arribes, y en terreno portugués en las proximidades del río Côa, en el
espacio intermedio entre Vila Nova de Foz Côa y Figueira de Castelo Rodrigo. También
se puede ver que en el sector fronterizo del concelho de Sabugal el tiempo de desplaza-
miento es mayor, igual que en la zona sur del concelho del Almeida, lo que supone una
desventaja respecto a otras áreas. En los espacios de penillanura las comunicaciones son
más favorables.
247 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

9
Los sectores de difícil acceso coinciden con espacios de montaña (Serra da Estrela y Sierra de Francia) y con
el encajamiento de los ríos Duero y Águeda.

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Figura 9 – Accesibilidad a los centros de salud: tiempo estimado del desplazamiento.
Fuente: Serviço Nacional de Saúde y Junta de Castilla y León. Elaboración propia.

Evaluación de la situación geodemográfica: valoración de las


desventajas territoriales

Una forma de aproximación al escenario en el que se encontraba el territorio rayano


para afrontar la pandemia es a través de la realización de una evaluación multicriterio, va-
lorando el acceso a recursos sanitarios esenciales y la acumulación de desventajas derivadas
(o resultado) de unas desfavorables características demográficas. Este método permite mo-
delizar la realidad en base a una ponderación de variables convenientemente normalizadas
(Barredo y Bosque, 1999). Los criterios son las variables que inciden en forma de ventaja o
inconveniente y en este caso los seis que se han considerado han sido: la variación de la po-
blación en el periodo 2011-2019, la Tasa Bruta de Natalidad y la Tasa Bruta de Mortalidad
248 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

para el periodo 2011-2019, el porcentaje de mayores de 65 años en 2019, el porcentaje de


menores de 15 años en 2019 y la accesibilidad a las infraestructuras sanitarias (mediante
una estimación en tiempo de recorrido).
Según los resultados tematizados a través del mapa (v. figura 10), las áreas con más
desventaja territorial se localizaban en la franja salmantina más próxima a la frontera y en
la Sierra de Gata (afectando a la parte norte de la ZBS de Vitigudino, el sector oriental de

iberografias42.indb 248 17/06/2022 18:00:51


la ZBS de Aldeadávila de la Ribera, la zona sur de la ZBS de Ciudad Rodrigo y la parte
más oriental de la ZBS de Robleda). Por municipios, los que presentan la situación menos
favorable son: Pereña de la Ribera, La Peña, Cabeza del Caballo, La Vídola, Almendra,
Mieza, Vilvestre, Saucelle, Sobradillo, Ahigal de los Aceiteros, San Felices de los Gallegos,
Villar de Ciervo, Aldea del Obispo, Agallas, Serradilla del Llano, Serradilla del Arroyo,
Martiago y Zamarra. En las cabeceras de comarca como Ciudad Rodrigo y Vitigudino,
que presentan algo más de dinamismo que el resto de núcleos, es donde las puntuaciones
indican una situación con menores desventajas acumuladas.
En la parte lusa, los concelhos con peor escenario son Almeida, seguido de Sabugal. Estas
zonas precisamente coinciden con las áreas de elevado índice de marginalidad funcional con-
templadas por el Instituto Nacional de Estadística portugués (INE, 2004, p58). Con unas
puntuaciones intermedias están Mêda y Gouveia. El concelho con la situación más favora-
ble, y por ende con menor acumulación de desventajas o factores negativos, es Guarda, fruto
de ser el núcleo polarizador y el principal centro de influencia con funciones especializadas.

249 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

Figura 10 – Acumulación de desventajas geodemográficas (periodo 2011-2019).


Fuente: Instituto Nacional de Estadística. Elaboración propia.

En cómputo, la zona española presenta peores puntuaciones, debido a la mayor acu-


mulación de desventajas, reflejo del alto grado de envejecimiento de la población, la falta

iberografias42.indb 249 17/06/2022 18:00:52


de jóvenes, los escasos nacimientos, el elevado número de fallecimientos, la pérdida de
población y el desigual acceso a los recursos sanitarios. La parte portuguesa tiene, a priori,
una mejor situación gracias a los indicadores más favorables10.

La raya luso-salmantina en tiempos de pandemia: repercusiones

A comienzos del año 2020, la expansión del coronavirus SARS-CoV-2, ampliamente


conocido como Covid-19, supuso un cambio en el orden establecido. Como consecuencia
de la irrupción repentina del virus, transformado en pandemia mundial, se confinó a la
población, se implantaron restricciones de movilidad y se decretó el cierre de la frontera.
La incidencia del coronavirus en las entidades fronterizas es muy difícil de determinar
de forma comparada debido a la disparidad de las fuentes (sobre todo al comienzo de la
pandemia) y las diferencias en la recogida y difusión de los datos11. Además, se trata de un
fenómeno muy cambiante y difícilmente predecible.
La estructura demográfica ha tenido una influencia directa, puesto que la enfermedad
ha afectado especialmente a personas mayores debido al mayor grado de vulnerabilidad.
Precisamente, el grupo de mayores de 65 años es el que más afectado se ha visto en relación
a la sobremortalidad que ha originado el COVID-19. Por otra parte, en la expansión de los
contagios han intervenido otros factores como la movilidad, la aglomeración, etc. (Kontis,
Bennett, Rashid et al., 2020).
Algunas de las implicaciones que ha tenido la llegada de la pandemia, que han su-
puesto una dificultad añadida a los núcleos rurales de la frontera, han sido el cierre de los
consultorios locales y más recientemente los desplazamientos y la movilización derivada
de la campaña de vacunación. Por un lado, en un momento de máxima demanda, durante
el confinamiento, los consultorios quedaron cerrados dejando en precariedad la asistencia

10
Debe subrayarse que el nivel de concelho encubre las diferencias que puedan existir entre las freguesias y que
al tener una mayor extensión que los municipios salmantinos el detalle es menor.
11
A modo de ejemplo, según los datos que ofrece el Instituto Nacional de Estadística portugués, en la evolución
de casos confirmados (cada siete días) entre mayo y septiembre de 2020 casi todos los concelhos presentaron
una misma tendencia, manteniéndose en una incidencia inferior a los 5 casos por cada 10.000 habitantes.
Sin embargo, a partir de la última semana de septiembre y durante la primera quincena del mes de octubre
250 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

se aprecia la llegada de la nueva oleada que vino acompañada de la declaración del estado de calamidad. El
número de casos se disparó prácticamente en todos los concelhos, especialmente en Vila Nova de Foz Côa
(78,4 casos por cada 10.00 habitantes), Pinhel (64,6), Figueira de Castelo Rodrigo (46,6), Guarda (37,2) o
Trancoso (36,1). Aunque cabría esperar que los territorios más afectados coincidieran con las zonas de mayor
acumulación de desventajas, con una situación demográfica “más desfavorable”, lo cierto es que en este pe-
riodo (en el lado luso) no fue así, ya que influyeron otros factores. Por otra parte, en la zona salmantina el
coronavirus ha mantenido en jaque a parte de las Zonas Básicas de Salud, con niveles de riesgo muy alto (en
distintos meses), entre las que destaca Aldeadávila de la Ribera, Robleda, Lumbrales o Ciudad Rodrigo.

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sanitaria del medio rural, que se realizaba mediante llamadas telefónicas. Además, su rea-
pertura fue postergada, hecho del que se hicieron eco numerosas noticias de prensa para
denunciar la situación en la que habían quedado los núcleos rurales. Por otro lado, en
2021, la acelerada campaña de vacunación ha motivado la movilización de las personas
a los espacios habilitados para administrar las dosis e inmunizar a la población. Esto ha
implicado desplazamientos a las cabeceras de las Zonas Básicas de Salud para recibir las
vacunas, aunque en algunos casos se ha vacunado en los consultorios locales. Sin embargo,
en ocasiones ha supuesto una complicación para la población dependiente.
No obstante, no todo han sido cuestiones negativas. Durante la pandemia se ha pro-
ducido un retorno a los pueblos, al mundo rural, y sólo las cifras confirmarán si esta ten-
dencia se mantiene en un futuro.

Conclusiones y consideraciones finales

La raya luso-salmantina constituye un territorio de muy baja ocupación con una


fragilidad social muy marcada. Los procesos emigratorios de mediados del siglo pasado
han supuesto un fuerte condicionante en su desarrollo y desde la pérdida masiva de po-
blación en aquella época no ha conseguido remontar. Puede apreciarse que las zonas de
borde son las más afectadas por el envejecimiento y la despoblación. Estas similitudes
en los territorios contiguos a la frontera contrastan con la situación de los concelhos de
la parte portuguesa más alejados, donde la ruptura demográfica no es tan acusada. Sin
embargo, la franja salmantina se encuentra entre las áreas más desfavorecidas en relación
a los indicadores analizados.
De forma general, los territorios que flanquean la frontera ibérica están sujetos a una
regresión demográfica que continuará en el futuro debido a la estructura envejecida de
sus pobladores, a las bajas tasas de natalidad y a la escasa presencia de población joven. La
sobremortalidad regional causada por el coronavirus ha propiciado una situación aún más
preocupante en todo el espacio rayano. Además, la pandemia ha traído consigo nuevas
dificultades a las que han tenido que enfrentarse los habitantes, afectando directamente
a la población dependiente, especialmente ligado al desplazamiento para el acceso a las
251 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

infraestructuras sanitarias.
Los próximos años se presentan poco favorables, por lo que se hacen necesarias las
estrategias comunes de desarrollo transfronterizo que favorezcan la fijación de población,
la llegada de jóvenes y preserven la calidad de vida de los mayores.

iberografias42.indb 251 17/06/2022 18:00:52


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253 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

iberografias42.indb 253 17/06/2022 18:00:52


iberografias42.indb 254 17/06/2022 18:00:52
Território em movimento. Fazenda Taveiras
e distrito de Cerrado: uma leitura sobre a
apropriação do Cerrado Goiano

Mônica Pereira Dos Santos1

Introdução

Este trabalho é fruto de leituras desenvolvidas no decorrer da disciplina Ambiente


e Ocupação do Espaço no Cerrado, do programa de pós-graduação da Universidade
Federal de Goiás, em conjunto com revisão bibliográfica do tema de Geografia de
Goiás. Intencionamos com essas ações, tecer uma leitura sobre a constituição do
território do Distrito de Cerrado, por meio de duas fases, de ocupação do Cerrado
Goiano. Compreendido por (Chaveiro, Barreira 2010) como um bioma território
que carrega no imaginário coletivo, duas modalidades representativas uma positiva e
outra negativa.
A primeira representação do Cerrado Goiano, é tecida por adjetivos formulados em
decorrência da implantação do programa de modernização da agricultura, em que ele é
mencionado como celeiro agrícola do país, berço das águas, floresta de cabeça para baixo,
corredor produtivo, terra de oportunidade para o agronegócio. A outra representação, tida
como uma tendência negativa, é associada ao período em que o Cerrado Goiano estava
inserido, em uma economia de troca simples, movimentada pela pecuária e venda de ex-
cedentes, lhe rendeu associações como lugar de “vegetação feia”, paus tortos, solo pobre,
modo de vida rude, atrasado, tempo lento, sertão inóspito e outros.
Para os autores, tanto essas representações, quanto o conhecimento que é adquiri-
255 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

do do Cerrado pelas instituições de pesquisas, que buscaram decifra-lo, por meio da sua
biodiversidade, das culturas tradicionais, da economia sustentável, do avanço do agrone-
gócio, ou dos impactos ambientais, foi – e foram constituídos por interesses políticos e

1
Universidade Federal de Goiás Instituto de Estudos Socioambientais
monicacarpedine@gmail.com

iberografias42.indb 255 17/06/2022 18:00:52


econômicos, inseridos dentro de um contexto histórico, em que este <bioma-território>
foi apropriado por atores internos e externos sucessivamente, como uma fonte de riqueza,
ou apenas como lócus de um modo de vida sertanejo.
Inseridos dentro do contexto de apropriação do Cerrado Goiano, figurando entre os
atores externos, mencionamos o Estado brasileiro que ao longo do tempo implantou pro-
gramas, visando à inserção desse território na economia nacional. Sendo que este processo,
iniciou-se com a entrada das bandeiras no período em que a mineração era a atividade
econômica mais rentável no país, posteriormente por meio dos planos de desenvolvimento
nacional que almejaram (re) incorporar o Cerrado e consequentemente o Estado de Goiás
em uma economia de mercado.
Em consequência, deste plano de desenvolvimento nacional, o Estado promoveu
a implantação da “Marcha para o Oeste”, Construção e ampliação da Estrada de Ferro,
Construção de Goiânia e Brasília, Planos Rodoviários, Planos Nacional de Desenvolvimento
I e II e outros. No grupo interno, destacamos as ações da elite politica e econômica local que
propiciou a implementação de alguns desses planos, nos “territórios”, em que eles tinham
um domínio politico, facilitando desta maneira a inserção do capital externo no estado.
No entanto, para superarmos essa visão, estruturalista ou mesmo dualista de Cerrado
moderno ou atrasado criado, após os anos de 1930, é necessário projetarmos novas leituras
sobre ele. Isso pressupõe que precisamos compreender que não basta apenas identificarmos
as suas caraterísticas, físico naturais ou as suas fitofisionomias. Cabe além dessas,
averiguarmos, o modo com esse ambiente heterogêneo foi apropriado, usado e impactado,
por um tipo de modelo econômico. Da mesma forma, devemos conhecer as estratégias de uso
deste < bioma – território>, o papel da logística espacial contida nele, além da infraestrutura
instalada e das diferenças regionais que ele apresenta (Chaveiro, Barreira 2010). Todos esses
componentes, são importantes para nos ajudar a esclarecer como esse território foi construído
e territorializado por esses agentes, no decorrer do processo de ocupação. Essa leitura nos dá
a possibilidade de delimitarmos este território, como domínio de disputa e conflitos, entre
agentes locais e externos que buscaram homogeneizar um poder econômico sobre ele.
A partir desta premissa que nos debruçamos sobre a formação das fazendas goianas, nú-
cleo inicial de várias cidades do estado de Goiás. Particularmente daquelas que estão localiza-
das na região do “Mato Grosso Goiano”, que é caraterizada como uma área florestal de solos
256 // Paisagens e Desenvolvimento Rural

férteis. Que foi apropriado primeiro, por meio da ação de viajantes que se fixaram durante o
período da mineração, quando estavam de passagem para as áreas de garimpo. Depois, por
posseiros durante a chamada expansão agrícola e posteriormente, apropriada por uma ação
ordenada do Estado, de incorporação do Cerrado Goiano, na economia nacional e interna-
cional, por meio da construção da estrada de ferro e da produção de gêneros alimentícios
como café, arroz, milho, carne bovina e outros, destinados para a exportação.

iberografias42.indb 256 17/06/2022 18:00:52


Toda essa conjuntura possibilitou, a apropriação do território que hoje constitui a ci-
dade de Nerópolis-Goiás, o qual iremos traçar, a partir deste momento. Para isso estrutura-
mos o presente trabalho em duas partes. Na primeira parte denominada: A Construção de
um Território: As Primeiras Formas de Ocupação das Terras Goianas descrevemos como
ocorreu a construção do território, e como a mineração contribui para a formação inicial,
do território da Fazenda Taveiras, consequentemente do Distrito de Cerrado. Na segunda
parte intitulada: Trilhas e Trilhos: De Fazenda Taveiras á Distrito de Cerrado, comentamos
a formação da Fazenda Taveiras no chamado Mato Grosso Goiano, durante a expansão
agropecuarista, e como o Distrito de Cerrado foi influenciado pela estrada de ferro.

A construção de um território: as primeiras formas de ocupação


das terras Goianas

Para iniciarmos uma leitura, sobre o processo que culminou com a ocupação do terri-
tório, no qual se localizava a Fazenda Taveiras e consequentemente o Distrito de Cerrado.
Faz-se necessário primeiramente sintetizarmos, como ocorre à formação de um território.
Para isso, iremos utilizar as diretrizes balizadas por Claude Raffestin, esboçadas no livro
“Por uma Geografia Do Poder”. O autor ressalta que para compreendermos o que é terri-
tório, é indispensável partirmos do espaço, pois este é entendido como a categoria chave
para a formação do território.
[...] o espaço é um dado, anterior ao território, é um dado preexistente a qualquer
ação, ou seja, ele é uma matéria prima, que não tem valor. (RAFFESTIN, 1993, p.)
No entanto, ele só adquire valor, por meio de uma representação, para produzir essa
representação, é necessário que haja um trabalho, uma produção. Isso quer dizer que, o
território, é um espaço onde se projetou um determinado trabalho, realizado por atores
que empreenderam algum tipo de conhecimento, seja ele prático ou cientifico sobre ele.
Por consequência, dessas ações, as relações marcadas pelo poder são reveladas.
Para o autor, o “poder se configura como um conjunto de instituições que garante
a sujeição dos cidadãos a um estado determinado [...], o poder é postulado como dados
iniciais, para a soberania do Estado” (RAFFESTIN, 1993, p.51). Logo, o Cerrado Goiano
nessa visão, só passa a existir, quando se inicia o processo de ocupação e apropriação do
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Cerrado em decorrência da mineração, atividade econômica empreendida pelo Estado,


que visava à soberania do Estado nacional.
No entanto, Silveira (2011, p.153) corrobora que “[...] é, o uso do território, e não,
o território em si mesmo, que faz dele objeto de análise social, uma vez que, o território
inclui todos os atores, e não apenas o Estado”. Mas, apropriação do território acontece,

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“por meio do estabelecimento dos modos de vida, e das formas como as pessoas produzem
e traduzem o território (e são por ele produzidas traduzidas), bem como o seu valor de uso,
que é simbolicamente construído” (BORGES, 2013, p.84).
A apropriação é uma representação que se cria do território – a mineração criou uma
primeira imagem do Cerrado Goiano, e a partir dela que os atores sociais se apropriaram
dele, em diferentes etapas de ocupação. Autores como Estevam (2008), Palacin (1994),
Chaul (1998), Arrais (2013) revelam que o Cerrado Goiano, passou por diferentes proces-
sos de ocupação, teve inicio com a mineração, prosseguiu como a pecuária, agricultura e
com a expansão e modernização da fronteira agrícola nacional.
No entanto Chaveiro; Barreira (2010) destacam cinco etapas que concorreram para a
ocupação e apropriação do Cerrado Goiano, a saber:
• Primeira etapa – ocupação do ouro a partir de 1970, século XVIII;
• Segunda etapa – ocupação do sul pelos geralistas a partir da segunda década do
século XIX;
• Terceira etapa – estrada de ferro a partir da segunda década do século XX;
• Quarta etapa – Marcha para o Oeste a partir da década de 1940, com a criação da
Colônia Agrícola nacional (CANG);
• Quinta etapa – expansão da fronteira agrícola a partir dos meados da década de
1970 (CHAVEIRO; BARREIRA, 2010, p.24).

Para os autores, essa ocupação ocorreu de maneira diferenciada entre as regiões do


Estado de Goiás, favoreceram o surgimento e a fixação de várias localidades. Iniciaram-se
com pequenos povoados, que deram suporte para as atividades econômicas desenvolvidas,
em um dado momento e depois evoluíram para arraiais, distritos, vilas e cidades, assim,
como a Fazenda Taveiras. Por isso vamos demonstrar como duas etapas de ocupação,
contribuíram para com a constituição desta Fazenda e consequentemente como o Distrito
de Cerrado.
Uma vasta literatura demonstra que no século XIX, já se manifestava o esgotamento
das lavras auríferas dos garimpos da então capitania de Goiás. Este esgotamento veio em
decorrência do tipo de exploração que era empreendido nas jazidas sedimentares do ouro
de aluvião, conhecido também como “ouro de cascalho”, a sua extração consistia na retirada
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e lavagem do cascalho até que a areia se separasse do mineral, no fundo da bateia ou canoas.
No entanto este tipo de mineração é a mais simples e foi praticamente quase à única
utilizada até então nos garimpos em Goiás no decorrer do século XVIII e XIX, levando os
garimpos ao esgotamento num curto período de tempo. Em consequência deste manejo
os garimpeiros mudavam constantemente para outro local a procura do ouro, e quase
todo o território goiano foi percorrido. Por isso, os núcleos de povoamento provenientes

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das atividades aurífera eram irregulares e instáveis, instalados geralmente próximos aos
garimpos.
A busca continua por novos garimpos de acordo com Palacin (1994), foi o fator que
favoreceu a ocupação da capitania de Goiás e estabeleceu três zonas de povoamento. A
primeira situava–se no centro–sul com uma série desconexa de Arraias, no caminho de São
Paulo, ou em suas proximidades. Entre elas citamos: Santa Cruz, Santa Luzia (Luziânia),
Jaraguá, Vila Boa e arraiais vizinhos, Meia Ponte (Pirenópolis) convertiam no principal
centro de comunicações da capitania.
A segunda zona, situava-se na “região do Tocantins” no alto do Tocantins ou Maranhão
era a mais densa em povoação compreendia: Água Quente, São José (Niquelândia), Santa
Rita, Mequém, Traíras e outros. Ao norte tínhamos uma extensa zona, com aglomera-
ções dispersas entre o Tocantins e os chapadões, faziam limites com a Bahia: São Felix,
Cavalcante, Natividade, Porto Real (Porto Nacional). Fora dessas zonas havia também,
outras aglomerações que surgiram pela exigência da mineração a exemplo disto temos
Pilões, Crixás, Pilar, Couros (Formosa) e Sant Anna das Antas (Anápolis).
Durante o auge da atividade de mineração, nos séculos XVIII e XIX a extração de
ouro e de pedras preciosas, era a atividade com fins econômica mais praticada no estado,
no entanto a agricultura e a pecuária coexistiram, com a produção de gêneros alimentícios
de ciclo produtivo curto, como o milho e mandioca, eram plantados, em roças próximas
aos garimpos, em consonância com a criação de animais de pequeno porte como porcos
e galinhas.
Essa produção era destinada para o abastecimento dos arraias e povoamentos que
se formavam no entorno dos garimpos, isso garantia o provimento de alimentos para a
população que estava envolvida com a mineração (ARRAIS, 2013, p.30). Essas localida-
des, também contavam com o abastecimento feito por tropeiros que traziam carne seca e
couro, produzidos em fazendas de outras regiões, além de ferramentas e outros utensílios.
O comércio entre as localidades, já estabelecidos e os povoados, tidos como “flu-
tuantes”, devido à efemeridade da vida produtiva dos garimpos. Eram abastecidos por
tropeiros que realizavam o transporte desses produtos no lombo de animais por meio da
junta de carga. O tropeirismo e a agricultura de subsistência foram atividades comple-
mentares a atividade mineradora [...]. Dificultado pela inexistência de estradas sempre
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que a Geografia permitia, o transporte de mercadoria era feito no lombo de animais


(MOREIRA, 2006, p.4).
Assim, a dificuldade de se transportar as mercadorias e a distância percorrida pelos tro-
peiros e viajante, entre os arraiais favoreceu o surgimento de localidades denominadas de
pousos, local escolhido pelo tropeiro chefe, para o descanso dos homens e animais no final
do dia. Para (CRISPIM, 1978, p.28) os pousos eram normalmente fazendas que ofereciam

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pernoite para os viajantes, e áreas de descanso para os animais, utilizados no transporte de
cargas, ou boiadas que estavam de passagem, com destino a outras regiões.
Muitos desses pousos deram origem a algumas localidades como o arraial de Santa
Anna Das Antas – atual cidade de Anápolis – Goiás, pertencia á Pirenópolis, onde existia
a extração de minérios. A ligação entre Pirenópolis, Santa Anna das Antas – Anápolis, a
Fazenda Taveiras e o Distrito de Cerrado se deu desta genealogia.
Pirenópolis nasceu no encontro da estrada que levava os viajantes á Cidade de Goiás,
localizada no norte do estado essa rota ligava Goiás á São Paulo e ao Rio de Janeiro. A
movimentação constante de viajantes favoreceu a formação de fazendas que se dedica-
vam a atividade agropecuária ao longo deste trajeto (OLIVEIRA, 2010, p. 18). Em con-
sequência deste trânsito entre os arraias ocorreu o surgimento do arraial de Santa Anna
das Antas, por sua vez abarcou uma grande área territorial. Uma vez que se encontrava
ligada a atividades de mineração e continha estabelecimentos que ofereciam pouso –
campo de de