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A Doença Como Caminho de Cura

Humbertho Oliveira, Mauricio Tatar Susana Hertelendy e Vania Didier
Trabalho apresentado no II Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia, em 28 de abril de 1996, em Salvador, Bahia, Brasil

Introdução
Este trabalho discute questões filosóficas e teóricas relacionadas à prática do acompanhamento terapêutico a pessoas com doenças físicas graves e/ou terminais dentro de uma perspectiva não-mecanicista dos novos paradigmas. Ele é resultado das atividades de um grupo de estudo e pesquisa, baseado na troca de experiências em torno dos atendimentos que fazemos, e numa ampla discussão que temos tido com profissionais ligados à área de saúde e áreas afins. Nesses encontros levantamos questões tais como: O que é doença, saúde e cura? Criariam as pessoas suas próprias doenças? Seriam as doenças oportunidades de aprendizados? O potencial de cura é inerente ao humano? Seria o terapeuta um curador ou um acompanhante de um processo de transformação? Aqui sistematizamos algumas dessas questões, dando-lhes a seguinte ordem: conceitos de sáude numa visão energética - a polaridade doença/saúde dentro de uma visão energética fala de uma busca mais profunda de equilíbrio; psicoterapia corporal e psicossomática - a mobilização dos bloqueios energéticos do organismo possibilita o encontro com sentidos mais profundos da gênese de uma doença; a doença como significado (claro ou oculto) - as contingências da linguagem na transição para o terceiro milênio - só é possível mudar atitudes e preconceitos em relação à doença e à morte re-significando a linguagem usada comumente para designar os processos de adoecimento e de morte; impermanência e consciência - a reorganização da vida emocional, a mudança dos padrões cotidianos e o encontro com a perspectiva espiritual podem ser vistos como um caminho de cura verdadeira. Acreditamos na importância de se aprofundar o estudo e a pesquisa de temas relacionados a essas novas perspectivas da assistência terapêutica a pessoas que passam pelo processo de adoecimento e de morte, razão pela qual propomos o diálogo.

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Esse fluxo contínuo de energia nos mantém vivos. o yin só existe porque existe o yang e vice-versa. conhecidas como yin e yang. do que compreender a mensagem que o organismo está sinalizando. rapidamente. a sensação do desconforto. não existe nada absoluto. a dor mobilizam o indivíduo a fazer algo para recuperar a harmonia. essas duas polaridades. segundo a visão da medicina chinesa. cura esta que.em troca. acompanhada de padrões mentais e emocionais bem determinados. assim como através das trocas contínuas entre o corpo e o meio ambiente. embora o homem demonstre a força yang e a mulher a yin. o desequilíbrio através de pequenas alterações funcionais sem substrato físico. órgão ou víscera. e. provavelmente. Com a não valorização desses sinais e a manuntenção do mesmo padrão de vida. funcionam segundo o mesmo princípio. as alterações físico-químicas vão-se cronificando. seria não apresentar mais aqueles sinais ou sintomas de ordem física. independente do indivíduo. ambos apresentam correspondentemente seus aspectos femininos e masculinos. simplesmente. o corpo humano é um microcosmo do universo. portanto. a resposta a essas perguntas seria sim. É muito mais fácil tomar um medicamento para aliviar uma dor de cabeça. mental ou emocional. numa perspectiva energética? O universo. Quando a circulação de energia não ocorre de uma maneira adequada surgem as doenças. independente de fatores externos ou internos. de não mal-estar ou dor. O corpo humano possui uma inteligência fisiológica cuja função básica é manter a homeostase do organismo diante de todos os estímulos do mundo exterior e interior. uma célula é um microcosmo do organismo. Melhor dizen-do. a doença passa a se expressar em algum tecido. com muita antecedência. com todos os seus elementos oscilando entre duas forças opostas. No jogo das forças. O bom exemplo disso se refere ao fato de que. interdependentes e complementares. o tratamento seria sempre o mesmo. teríamos o restabelecimento das funções normais. o ficar curado. não buscamos a origem ou as causas de nossas doenças. Nosso corpo vai sinalizando. uma mesma doença apresentaria sempre os mesmos sinais e sintomas. De uma maneira geral. Somos muito imediatistas. se solidificando até atingirem o segmento físico. Se assim fosse. Dentro dessa abordagem. o bem-estar. isto significa. a saúde é encarada como se fosse um estado de não-doença. Como podemos analisar saúde-doença. O equilíbrio é conseguido através da livre circulação de energia no organismo. tanto para o terapeuta quanto para o cliente. nada que não esteja em interação . O mal-estar. não há nada a nível orgânico que justifique aqueles sinais ou sintomas. tratamos apenas das aparências. Será que saúde é algo estático? É simplesmente não apresentar qualquer sintoma? Se o homem fosse uma máquina e todas as suas engrenagens funcionassem perfeitamente. encontra-se em um estado de equilíbrio dinâmico. dentro do aspecto yin encontram-se aspectos yang e não há como ver um sem o outro. 2 .Conceitos de Saúde numa Visão Energética A grande maioria das pessoas procura o consultório do profissional da área de saúde por não se sentir bem com aqueles sinais e/ou sintomas que estão apresentando há muito ou pouco tempo. isto é. quando o indivíduo pode continuar a levar a sua vida sem grandes alterações ou questionamentos. voltar ao estado anterior à doença: ficar assintomático.

também. O ser humano pode-se instalar na doença. um fenômeno psique-soma no processo de adoecimento físico do ser humano. que nada mais é do que resgatar o amor próprio. é fazer-se entrar em contato com a própria essência. o qual passa. não é algo que vem de fora ou já está lá antecipada. uma forma de o organismo expressar conflitos profundos. sonhar e realizar. e seu estudo. curar-se é abrir o canal de comunicação. É sempre. um novo patamar energético. Sem flexibilidade não há equilíbrio. sim. foi iniciado por Freud. Como os distúrbios digestivos. Verifica-se. de modo que o problema original e as razões para a escolha de uma certa via de fuga possam ser levadas a um nível consciente onde o problema possa ser resolvido. o corpo relata. Psicoterapia Corporal e Psicossomática A doença não é um acontecimento que atinge um indivíduo. entre o desejo e a necessidade. É através da doença que alcançamos saúde. Como diz a música de Milton Nascimento e Fernando Brandt. é despertar para a capacidade de ser. a partir do momento em que se conscientizaram de sua doença. possibilitando o resgate da auto-estima. também. um modo de se relacionar com as pessoas em volta. um modo de ser no mundo. pois. da aceitação e do perdão. um modo peculiar de a pessoa se comunicar em circunstâncias adversas. adaptativo e da vida de relação. principalmente. O organismo doente está envolvido no aparecimento. seus outros sistemas e o meio exterior e. expressão de conflitos entre o reter e o expelir. É. vivencia-se a doença. a conseqüência de um conjunto de fatores que culminam em desarmonia e desequilíbrio. um sistema auto-regulável. Através do desequilíbrio atingimos novo equilíbrio. Estar em desequilíbrio significa passar por fases temporárias de doença. poder ajudá-lo a entrar em sintonia com seus próprios recursos de cura. em 3 . a estar a ela submetido. Períodos de saúde precária são estágios naturais na interação contínua entre o indivíduo e o meio onde ele está inserido. Essa auto-descoberta é o caminho da auto-cura. pode obter com ela benefícios. fala. estar. portanto. então. no desenvolvimento e na cura de sua doença. Para vivermos em harmonia. criar e descriar. pela doença. A doença. O conhecimento atual sobre o sistema imunológico. A doença é uma oportunidade para a introspecção. é. dentro de uma perspectiva moderna. com uma certa freqüência. pois. exprimir tendências profundas. como mantenedor da integridade corporal . em suas várias formas. relatos acerca de estarem vivendo melhor ou mais saudavelmente.portanto. a partir de seus estudos sobre a "histeria de conversão". por exemplo. e. nas quais se pode aprender a crescer. que são. A função básica do terapeuta está em espelhar a verdade para o paciente. No acontecimento histérico. descarrega e protesta através do seu próprio adoecimento.Saúde e doença são aspectos de um mesmo movimento. mas pode. Existe. muitas vezes. uma nova freqüência. sim. precisamos ter flexibilidade e disposição para um grande número de opções de interação para com o meio ambiente. Ela não é considerada como algo estranho mas. em pacientes com doenças graves ou terminais. ajudá-lo a desenvolver uma consciência do processo de vida e dos mecanismos (obstáculos e ilusões) que se criam para gerar a doença. estando. então. visto como um sistema intermediário entre o indivíduo. a psicossomática. No período de transição para esse novo padrão. "o que importa é ouvir a voz que vem do coração".

que correspondem às bases energéticas das doenças graves e geralmente "incuráveis". estaria a pessoa ambientando um novo campo energético onde basear a sua saúde. úlceras não instaladas. o que significa que as atitudes corporais e as atitudes mentais-emocionais se correspondem. os quais. antes contida. mal "metabolizados". criando obstáculos diversos à vida. As doenças somato-psicológicas conhecidas como "subclínicas" (ex. bases de doenças graves e geralmente "curáveis". pode emprestar-se para representar uma zona específica de conflito. considera-se que a fonte de todos os acontecimentos humanos é a bionergia. na verdade. dá-se uma grande ênfase ao grounding espiritual e aos estados transpessoais. Um acompanhamento terapêutico baseado numa visão da integração do organismo pode. Isto nos leva a ter que encarar o limite do conhecimento técnico na compreensão dos mecanismos de formação das doenças. E assim. empatia. além de prestar-se a uma determinada função vivente. tem sido uma enorme contribuição na compreensão do tênue limite existente entre o que é propriamente somático e o que é propriamente psíquico. (2) Diante dessa concepção de interação mente/corpo/energia. amor de transferência. mobilizando o movimento respiratório irregular. As somatizações ligadas a fortes acontecimentos emocionais (como paralisias histéricas diversas). As biopatias secundárias. como na de David Boadella. possibilitaremos o encontro com os sentidos mais profundos da gênese da doença de uma pessoa. Quando mobilizados. ou orgon.: gastrites. requer uma profunda reflexão sobre a relação entre o terapeuta e seu cliente. podem liberar ou distribuir energia. podendo substituir-se e influenciar-se mutuamente. estariam também ligadas ao stress ocorrido em períodos iniciais (uterinos) e em torno do nascimento. Nessas visões. que servem de base para o desenvolvimento de doenças. propiciar uma busca mais profunda do sentido da cura. podemos observar que. podemos criar relações entre as diversas regiões do corpo afetado e a expressão de conteúdos subjetivos. o silêncio peristáltico. o contato ocular descontraído. Esses conflitos são cargas emocionais relacionadas a acontecimentos vitais do passado. reconhecendo-se que o trabalho psicossomático abre conexões para além do físico. e a organização de um novo modus vivendi psico/corporal. O trabalho terapêutico. os sons peristálticos rítmicos. permanecem e atualizam-se. conflito energético entre o psíquico e o somático. No conceito de "Unidade Funcional" ou "Identidade Básica". a contração ocular e as diversas disfunções organísmicas. o psíquico e o espiritual. no futuro. em cada organismo humano. de quem. E restabelecendo o ritmo respiratório espontâneo. em síntese. a expressão emocional. colocamo-nos a refletir sobre a importância de se mudar o foco da ação terapêutica da doença para a interação com alguém doente. É Federico Navarro quem diz que as biopatias primárias. em função desses princípios. Uma das mais importantes fórmulas acerca do encontro entre o psíquico e o somático é a fórmula da energia. desse organismo. pois. e. criado por William Reich. estariam relacionadas ao stress vivido em períodos mais tenros da vida humana (uterinos). tele são conceitos 4 . Todo o stress ocorrido durante as fases primitivas do desenvolvimento somato-emocional do indivíduo geram. podem advir os recursos realmente curadores de uma doença. etc) corresponderiam ao stress ocorrido no período da infância. Ressonância.íntima interação com o sistema nervoso e com o sistema endócrino -. o estado natural do organismo humano. reações energéticas específicas. facilitando a consciência das circunstâncias vividas. Outra maneira de olhar para o acontecimento doença/grave e a possibilidade/da/morte é a que pretende integrar o somático.(1) Cada região do corpo. corresponderiam ao stress advindo da puberdade em diante. dentro de perspectivas que consideram a questão "espiritual".

uma espécie de cidadania mais onerosa. Tudo bem "contidinho". Luta consigo própria: "que é isso?. que tinha sido bem tratada. um sentido espiritual de contínuo aprendizado.. Nesse sentido. Permitir-se sofrer por suas próprias dores. na experiência de estar doente e/ou de morrer. é "apenas uma doença". mas "esqueceu-se" de valorizar os aspectos emocionais vividos por uma criança diante de experiência tão limitadora. ensinou-a a lidar. em lágrimas e estoicismo. exímios cuidados médicos e familiares. uma no reino da saúde e outra no reino da doença. muito refletimos sobre essa questão. de uma criança com febre reumática. sente-se machucada no seu peito: deprime-se. Embora todos prefiramos usar somente o bom passaporte. provavelmente... A família.. Conceitos como o de inner-ground. sentindo essas coisas incontroláveis. mais cedo ou mais tarde. sentiu medo .. que "dói aqui. eu superior e outros fazem referência a uma realidade essencial. passado o pós-operatório. a identificar-se como cidadão do outro país. é "natural" a sua doença.mas tranqüilizou-se e cuidou-se muito bem: fisicamente. (3) Haveria. dói ali. Alice! Bravo! Haveria como aplicar essa visão não-preconceituosa da naturalidade da doença para com as concepções acerca da morte? 5 . sempre. Era a consequência de anos de um longo curso de uma febre reumática. relacionada à presença e ao ser mais profundo em cada um de nós. também. cada um de nós será obrigado. passara uma infância limitada em seus movimentos e possibilidades. Segundo Susan Sontag. não pôde valorizar os aspectos emocionais ligados às suas próprias vivências diante de tarefa tão árdua como a de cuidar. Alice teve que fazer uma cirurgia cardíaca para instalar uma válvula-prótese. Teve uma boa cirurgia. Perto da cirurgia. pois. sem a proximidade de sua família. poderia haver um grande amparo no processo de adoecimento e de morte de uma pessoa se ela experimentasse a presença de um outro corpo/espelho/apoio/contato a estimular-lhe a vida. self. Lamente-se. -Bravo. estóica. E.é aquela que esteja mais depurada de pensamentos metafóricos. (. sozinha. pelo menos por um curto período. Transforma-se. agora." -Mas chore. excelente recuperação. "a doença é o lado sombrio da vida. Como terapeutas precisamos encontrar vias em nós mesmos e nos prepararmos para exercer essa forma de ajuda. já que quaisquer esforços agudizavam a sua doença. com as suas condições de saúde..) Meu ponto de vista é que a doença não é uma metáfora e que a maneira mais honesta de encará-la . É verdade. Alice construiu-se. Alice! Seu peito foi aberto. objetivamente natural.e a mais saudável de ficar doente . E agora. eu..diversos para falar da mesma e necessária humanidade dessa relação. Evidentemente. bastante naturalmente.. Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania.?" É preciso "convencê-la" a emocionar-se." (4) Atendendo Alice. ininterruptamente. É só ser humana! Alice "atende".

então o que nos acontece é algo pelo qual podemos ser responsáveis por um lado. é importante também registrar que o atual momento de transição planetária traz. por exemplo. Só é possível mudar comportamentos e atitudes. se os conceitos em que se baseiam estão claramente expressos nas palavras que representam uma língua. Com freqüência.como a suposta cura . familiares e de amigos. A doença seria. Freqüentemente. então. entregues a algum tratamento ou alguma direção imposta. alguma reflexão sobre o que se passa conosco poderá estar se realizando em níveis menos conscientes. ela pode ter inúmeras leituras para cada pessoa. deprimidos e sem mais indagar ou buscar formas próprias de entender ou conviver com o que nos acontece. etc. o estreitamento da relação entre aspectos conhecidos e desconhecidos pode trazer a integração com a essência. Como misteriosa é a própria vida.. Hoje. poderíamos dizer que ela tem um sentido muito pessoal para cada um. enquanto nossos limites assim se manifestam. Poderíamos. às vezes. E.. Mas os significados da época em que vivemos são ambíguos e. é tão vasto o mundo que habitamos e tão imprevisíveis e insondáveis as interações e influências. Passivamente. algo que nos atinge e que. sem grande esforço da nossa 6 . A mudança de paradigmas se reflete profundamente na linguagem. se somos organismos com aspectos que vão além do físico e fisiológico. uma entrada em outra realidade.As contingências da linguagem na transição para o terceiro milênio Nossa proposta é de re-significar. e se somos criaturas inseridas num contexto mais amplo e que dependemos de tudo o que nos cerca. não nos ajudam no confronto com as questões contemporâneas. Em muitos casos. em nossa sociedade. proporcionam um contato com outras dimensões do ser talvez negligenciadas. com a natureza e com os seres animados e inanimados. má nutrição. enquanto que por outro. Mas. acima de tudo. A doença. à luz. no mínimo. então. com o divino. é comunicação. A doença. aceitamos o que nos dizem os meios médicos.. este seria efetivamente um lado da questão.A Doença como Significado (claro ou oculto) . é transformação. trazendo um confronto com a "sombra" do indivíduo em questão. portanto também deve ser erradicado através de uma interferência externa. freqüentemente. outras vias antes ocultas. restritas a meios específicos. que. que é a fusão harmoniosa do ser como um todo. a cada momento de indagação. E só o conhecimento em si dessas dimensões. entre outras coisas. Mas. terapêuticos. nos acomodamos e seguimos passivos. os significados tornaram-se obsoletos e inapropriados. em última análise. poderíamos argumentar que a doença é um instrumento introduzido por outro aspecto de nosso ser que quer nos dizer algo a respeito de nossas relações conosco mesmos. o que poderíamos dizer é que a doença . religiosos e espirituais. (3) Nesse sentido. Nesse contexto.e elas podem ser complementares -. Como o sonho. nos revoltamos com as doenças ou. freqüentemente. ou simplesmente. uma bactéria. com a vida. exceto quando hereditária. o acesso a outros planos ou aspectos nossos e/ou da realidade em que vivemos se torna possível. dizer que a doença é passagem. mais lentas e difíceis de contactar. é vista. assim como a dificuldade emocional . como algo que é o resultado de uma interferência externa: um vírus.constituem-se em mistérios.

do surgimento de novas palavras e expressões -. nos comunicando as necessidades do nosso organismo que antes não podiam ser acolhidas. Acima de tudo é possível compreender que nem sempre conseguiremos explicar o que nos acontece. Assim. já que pode nos ensinar a ter uma nova relação com tudo o que nos cerca e com a vida. se formos humildes e confiantes. Exemplo disso são os debates e eventos públicos como esse. expressar conscientemente a nossa intenção com referência aos medicamentos que tomamos e aos tratamentos aos quais nos submetemos. Apenas permitimos a sua presença e ouvimos o que tem a dizer. e com referência ao que permanecer além disso. podemos também suavizar nossa atitude para com a doença. e inteiro quanto à nossa manifestação na vida. reforçando. Refletir sobre os sentidos da linguagem. quer através da permanência de palavras com novos sentidos e novas cargas energéticas. e também confirmar trajetórias escolhidas. A mudança de paradigmas que está acontecendo também na expressão linguística. Tais práticas e técnicas abrem o caminho para uma outra relação com a doença. enquanto nos tratamos através da medicina tradicional. a visão médica com a terapêutica e a espiritual para obter uma visão mais ampla e mais integrada do nosso processo individual. é buscar ser consciente na linguagem e no comportamento. Há muitas coisas misteriosas na vida e o decifrar delas permanecerá além do nosso alcance a despeito de qualquer esforço de nossa parte. sonhos e desejos. podemos harmonizar o tratamento tradicional com o alternativo. Essas atitudes. onde temos a oportunidade de trocar idéias. a auto-confiança existente em cada um de nós. (5) A meditação e a oração são práticas que podem nos ajudar nesse processo. valores e comportamentos que representam um momento cultural. as visualizações. 7 . em certos casos. os relaxamentos. nos guiará e ajudará a acolher e reverenciar o desígnio divino. também. as massagens. fazem parte de práticas meditativas comumente utilizadas em certas tradições espiritualistas. é claro. e para poder assumir com mais serenidade uma administração mais própria dos caminhos a seguir nas decisões exigidas por tal transição. por exemplo. buscar a coerência entre estes e os conceitos. E podemos.parte. Uma relação em que não nos apegamos a ela e nem a rejeitamos.acompanhada. assim. que imprimem de nossa parte uma qualidade positiva em um tratamento prescrito. Como também podem ser úteis os trabalhos energéticos. Essa troca faz parte da busca do "caminho do meio". Entretanto. continuará se fazendo ao longo do tempo. Em uma transição de vida. e. E ela abre o caminho para o conhecimento de outras escolhas possíveis. permitir-lhe o espaço para que sua mensagem se expresse com clareza. do equilíbrio e da harmonia. mas que atravessam também um processo de revisão. a nossa essência sempre nos mostrará o que é possível. quer através de uma profunda transformação nas línguas existentes . (6) Essa linha de pensamento faz parte do trabalho de re-significação.

simplesmente. porque. o medo é hoje e morrer é agora. pelo menos academicamente.num hospital . não se pode comunicar com ele como tal. mas eu gostaria que se apressasse. No momento. atualmente. Mas isso não tomaria muito mais do seu tempo. Será que é por eu mesma ser estudante de enfermagem. no meu caso. Ele é o símbolo do que cada ser humano teme e do que cada um de nós sabe. talvez por um ano. há um depoimento tocante de alguém que. Quão verdadeiro é esse ensinamento. Mas acabamos ficando num vazio silencioso e solitário. ninguém gosta de falar muito sobre coisa alguma. assim sendo. mas quando alguém está morrendo será que ainda é tão jovem? Tenho muitas coisas sobre as quais gostaria de conversar. Estou fora talvez por um mês. levanta um questionamento tão importante quanto inquietante sobre como os profissionais que estão em contato direto com os processos do adoecimento e do morrer mostram-se despreparados para lidar com os sentimentos e emoções evocados. mas ela é nova para mim. Se pelo menos pudéssemos ser francos. não sabem o que fazer. que são ou serão enfermeiras. Se realmente se preocupam. por seis meses. Pode ser que perguntemos sobre os porquês e os quandos. afinal. não há erro possível." (carta anônima datada de fevereiro de 1970 no livro Death: The Final Stage of Growth de Elizabeth Kübler-Ross) Na carta da jovem enfermeira.só quero saber se haverá alguém segurando a minha mão quando eu precisar. O que é que diziam na enfermagem psiquiátrica do confronto da patologia com a patologia em detrimento tanto do paciente como do enfermeiro? E também se falava muito sobre o fato de que antes de poder ajudar a alguém em relação a seus sentimentos. como em si próprios. será que perderiam tanto do seu profissionalismo se chorassem comigo? Apenas de pessoa para pessoa? Se assim fosse. não só nos que estão vivendo essa experiência. a não exagerar na alegria. faça com que algum dia sejam mais capazes de ajudar àqueles que partilham da minha experiência. O paciente que está morrendo ainda não é visto como pessoa e. Na verdade. não seria tão difícil morrer . A enfermagem deve estar evoluindo. e temos cumprido bem a nossa tarefa. Não fujam . que terá que enfrentar algum dia. se têm afeto. Tenho medo. Mas. Ensinam-nos. Talvez a morte se transforme em rotina para vocês. de ambos os lados assumir nossos medos. prestes a morrer. Talvez para vocês eu não seja especial. Mas ninguém gosta de falar dessas coisas. não estou internada. Mas. por favor. mas eu nunca morri antes.Impermanência e Consciência "Morte na Primeira Pessoa Sou aluna de enfermagem. porque sou um ser humano que percebo o seu temor? Mas seus medos aumentam o meu. era necessário conhecer os próprios. creiam em mim. Uma vez retirada a rotina do ëstá tudo bem". 8 . Escrevo para vocês. Vocês entram e saem rapidinho do meu quarto. mas na realidade não esperamos respostas. na esperança de que o ato de compartilhar meus sentimentos. ao defrontar-se com essa experiência crucial. É isso que buscamos.esperem . me dão os remédios e tiram a minha pressão. vocês já passam um tempão aqui dentro. Estou morrendo. Apenas assumam o afeto. à equipe só resta a sua própria vulnerabilidade e seu próprio medo.tendo amigos do lado. não sabem o que dizer. ou. a omitir a rotina do "está tudo bem". tocar-nos uns aos outros. Por que vocês estão com medo? Sou eu que estou morrendo! Eu sei que vocês se sentem inseguros. Para mim uma vez é muito especial! Vocês sussurram sobre a minha juventude.

temos ainda. talvez. a infantilização do paciente. não nos damos conta de que nossa consciência não tem os mesmos limites. pecado narcísico que derrota nossa onipotência e nossa tentativa de impor à natureza nossas aspirações de poder e imortalidade! Mas as leis que regem nossa realidade física são inexoráveis. talvez mesmo. "Meu espírito experimenta o mundo material através das lentes da percepção. e que não apresente reações indesejáveis.. espera-se da máquina que ela fique totalmente passiva. não se destinam à conveniência e conforto moral da equipe.Podemos nos indagar se a sujeição à rotina a que ela se refere.por um mecânico. Todos os elementos que um dia se agregam para compor a forma um dia. enquanto o mecânico faz o trabalho. "healers". mas é muito freqüente encontrarmos profissionais que parecem perfeitamente aptos a tratarem de doenças. numa injustiça com relação aos treinamentos dos profissionais da área de saúde. temos um modelo bio-médico que opera com a crença básica de que as pessoas doentes são como máquinas avariadas: em caso de mau funcionamento de suas partes constituintes. assim. morrer.. Nossa insegurança básica faz com que evitemos. Envelhecer. curandeiros. Em termos práticos. perfil de uma personalidade bem sucedida socialmente. Obviamente estamos. nunca se sabe quando. Na ilusão de um "eu" isolado nos envoltórios da experiência física. mantendo-os numa preservada redoma onde o desespero. a revolta e a dor são excluídas da percepção e conseqüentemente ignorados. beleza e tentativa de prorrogar a juventude indefinidamente são imperativo a que dificilmente nos esquivamos. Deepak Chopra. dá-nos um depoimento que. uma orientação narcisista que determina que vivamos voltados para a criação de uma auto-imagem em que status econômico. conforto e interferências que facilitem a cura não se resumem a intervenções cirúrgicas/químicas/fisiológicas. a tendência universal para o rompimento da ordem coexistindo com a sintropia. É a entropia. neguemos a finitude de nossa existência física e. que o priva dos sinais e símbolos de sua condição autônoma de adulta. mas não com doentes que são pessoas singulares. ah!. temos informações de procedimentos de outras culturas em que xamãs. únicas e que podem ser reduzidas a categorias e quadros clínicos. nos auxilie a re-significar nossa percepção de nós mesmos. médicos levavam em consideração o meio ambiente social/espiritual do doente bem como suas necessidades emocionais. Uma pessoa que se conhece como espírito nunca perde a visão de experimentador no meio da experiência. na não-física. se desagregam. o pânico. de quebra. nos furtemos a preparar-nos tanto emocionalmente quanto espiritualmente para a mais certa entre todas as incertezas que permeiam a nossa existência. falando da experiência de se perceber como um ser que se experimenta além das dimensões físicas. Ainda como herança da tradição cartesiana. 9 . talvez. Sua verdade interior afirma 'carrego comigo a consciência da imortalidade em meio mortalidade". Diferentemente de nossos modelos de assistência terapêutica. devem ser consertadas . esta realização torna-se genuína quando nenhum evento externo pode abalar o sentido do self. Além dos pressupostos cartesianos que norteiam nossa percepção do ser humano. incorrendo numa simplificação e. em que corpo e alma não estão dissociadas e que a forma de dar suporte. mas mesmo que nada consiga ver e ouvir. confinados nas dimensões do tempo e espaço. certamente! Naturalmente. uma eterna presença de consciência. ainda assim sou eu. a criação...

Ministra cursos desde 1989 sobre estes temas. S.NAVARRO.. Susana Hertelendy Psicóloga formada pela Columbia University.REICH. Não nos esqueçamos do que diz a jovem enfermeira: antes de poder ajudar alguém em relação aos seus sentimentos."Correntes da Vida . New York. palestras e grupos de estudo em Terapia Floral. 1a edição. .Centro de Estudos e Práticas Transomáticas.certamente criaremos práticas mais compassivas. cuidar de todos nós que estivermos vivendo nossos ritos de passagem. 1985. Resumo do currículo dos autores: Humbertho Oliveira Médico. Rio de Janeiro. São Paulo.BOADELLA.LEVINE. ."A Doença como Metáfora" . . RJ. 4 .Quando essa mudança de paradigma. 5 . 11a edição. acompanhar.KUBLER-ROSS.mudança essa que já está seguramente em curso .Edições Graal. Vania Didier Psicóloga. . Psicoterapeuta da Associação de Apoio à Criança com Câncer. Dietoterapia e Oligoelementos." Referências Bibliográficas 1 .. ."Somatopsicodinâmica das Biopatias" . é necessário conhecer os próprios. 1991. S. Cromoterapia. 1980.Editora Brasiliense. 6 . Psicoterapeuta Somática. EUA. participação em cursos. Artes de Cura | Artigos | Tribuna | Artecuradores | Eventos | Escolas | Endereços | English Version 10 . 1990. Fitoterapia. 1992."A função do Orgasmo" ."Friends of Shanti Nilaya" (magazine) . W. Mauricio Tatar Médico. Revalidação pela UFRJ.SONTAG."Healing into Life and Death" . Rio de Janeiro.Doubleday. New York. com formação em Medicina Chinesa e Homeopatia.Centro de Estudos e Práticas Transomáticas. São Paulo.Londres. nossos trânsitos no continuum vida/morte. Psicoterapeuta Somática. Guest Trainer internacional do grupo Transformational Energetics.Uma introdução à Biossíntese" Summus Editorial. Fundadora e Coordenadora do Grupo Quiron . Psicoterapeuta Somático. D. 3 . . 2 . 1984. New York. Fundadora e Membro do Quiron-Centro de Estudos e Práticas Transomáticas. Rio de Janeiro. E. essa re-significação do sentido de ser permear nossa visão científica/filosófica/social do indivíduo . 1987. mais confortadoras para assistir.Editora Relume Dumará. F. Fundador e Coordenador do Grupo Quiron . EUA em 1975.

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