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DAVID S.

SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO I

AS DUAS CISÕES DA CRISTANDADE

Todos vós sois peregrinos e levais convosco Deus, e o templo, e Cristo, e a santidade.
Inácio, Ep. Aos Efésios

Por mais de quatro séculos o Protestantismo e o Romanismo têm florescido


lado a lado, cada qual professando ser expoente legítimo dos ensinamentos de Cristo e
depositário de sua encarnação, ressurreição e propiciação. A controvérsia que se tem
travado entre eles é a disputa religiosa mais importante e de maior projeção que jamais
se ergueu dentro das fronteiras da Cristandade, desde as discussões em que se
empenharam os grupos judaico e gentílico do Cristianismo. A controvérsia em apreço
tem sido mais constante do que as lutas da antiga Igreja em torno da Divindade de
Cristo e de sua Pessoa; tem ido mais longe do que as cruzadas, que, por duzentos anos,
dissiparam as energias vitais da Europa. Em certas ocasiões, tem-se ela conduzido tão
veementemente como o conflito entre o papa e o imperador, conflito esse que encheu a
maior parte da Idade Média. Qualquer entendimento entre os dois sistemas parece não
estar mais próximo hoje do que o estava há quatro séculos, embora se tenha asserenado
o ardor de ambos os partidos. Os interesses da verdade exigem que as divergências e os
pontos de contato sejam repetidamente definidos com simplicidade na esperança de que
os erros sejam abandonados e a verdadeira religião, como veio de Cristo e foi
preservada pelos Apóstolos, seja ensinada e crida. Todos concordam em que o próprio
Cristo é o expoente do Cristianismo e que, na medida em que Ele seja exaltado,
prevalecerá a verdadeira religião. Em terreno algum as amarguras de espírito e a
aspereza dos impulsos são mais lastimáveis do que quando se discutem as diferenças
religiosas; e em parte alguma pode ser mais adequado o uso da tolerância na definição
da verdade, do que quando se confrontam os dois sistemas do Cristianismo Ocidental.
Mais justificável se torna a comparação, quando cordialmente se reconhece que tem
existido em ambos os grupos, Protestante e Católico Romano, elevada piedade, e
quando o objetivo é por em relevo seus pontos de concordância.

§ 1. A cisão greco-romana. - Dos dois cismas radicais do mundo cristão, o


que se deu entre a Igreja Oriental e a Igreja Latina antedata de sete séculos a Reforma
Protestante, tendo sido praticamente consumada em 867. Muito antes dessa data, os
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fatores determinantes da divisão já se encontravam em campo. Constantinopla e Roma


eram centros rivais de influência e autoridade cristã, desde que a cidade do Bósforo fora
erigida por Constantino em capital do Império Romano. Roma, a velha capital,
residência do bispo romano, encontrara certa compensação pela perda da prerrogativa
de ser a sede de residência do Imperador e do Senado, na conversão dos vigorosos
povos celtas e germânicos do Norte e do Oeste da Europa e na submissão deles à sua
jurisdição espiritual; mas estava pouco inclinada a conceder à nova capital do Império
Romano, estabelecida por Constantino, autoridade espiritual igual à sua. A importância
da Nova Roma, como centro eclesiástico, ficou demonstrada pela reunião, dentro de
seus muros ou em suas vizinhanças, dos primeiros sete Concílios Ecumênicos, de 325 a
787. Violentas controvérsias tiveram lugar, antes de ocorrer a cisão, entre os dois
centros eclesiásticos, sobre o culto de imagens e sobre a questão de ter Cristo duas
vontades ou apenas uma – questões afinal decididas em favor do ponto de vista em que
se colocara Roma. Pela teoria vigente ao findar do IV século, o sistema patriarcal de
governo da Igreja estava em plena força, dividindo-se o mundo cristão em cinco
jurisdições. As igrejas do Oriente encaravam os cinco patriarcas estabelecidos em
Roma, Antioquia, Alexandria, Jerusalém e Constantinopla como detentores de igual
autoridade, sendo cada um supremo em seu próprio território jurisdicional. O bispo de
Roma, desprezando esse conceito e tendo-o como filho de orgulho inaudito, declarou
pertencer-lhe, por intervenção divina, o primado da Igreja universal. Essa usurpação da
autoridade conduziu ao cisma do mundo cristão. Finalmente, o pontífice romano,
Nicolau, aventurando-se a tomar conhecimento de assuntos eclesiásticos afetos à Roma
oriental, sua competidora, e a decidir quem fosse seu patriarca legítimo, excomungou o
patriarca Photius e Photius a seu turno excomungou a Nicolau – iguais expulsando a
iguais, como os gregos haviam proclamado. Durante as Cruzadas a brecha ainda mais se
alargou. Tornaram-se infrutíferas as tentativas formalmente feitas, nos Concílios de
Lion, 1274, e de Ferrara, 1439, no sentido de unir as duas partes. A brecha ainda
continua aberta. A partir da guerra de 1914, os pontífices romanos têm tido gestos
amigáveis, chamando a Igreja Grega à obediência papal. Em uma encíclica – 5 de
agosto de 1921 – Bento XV pede auxílio em favor dos russos, declarando-os “nossos
filhos distantes que, embora separados de nós por barreiras que longos séculos
ergueram, estão todos tanto mais perto de nosso coração paternal, quanto maior é o seu
infortúnio”. Em 1918 foi estabelecido em Roma um Colégio de línguas e ritos orientais,
com o declarado propósito de levar as igrejas gregas à aceitação da liturgia ocidental; e
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em 1920 uma prova de amizade se deu, quando o prelado oriental, Ephraem de Edessa,
foi colocado por Bento XV ao lado de Crisóstomo, Agostinho e Tomaz de Aquino,
como um dos doutores da igreja.

§ 2. A cisão da Cristandade Ocidental. – Se o cisma eclesiástico que


ocorreu no século XVI for contrastado com a primeira divisão entre Leste e Oeste,
verificar-se-á que eles pouco têm em comum, a não ser o fato de serem cisões da
Cristandade. Diferem em origem, em abrangência geográfica, e nas divergências
doutrinárias e rituais que lhes deram começo. A divisão entre o Leste e o Oeste se fez
por uma questão de jurisdição eclesiástica e foi alimentada pela rivalidade municipal
entre a Roma sobre o Tibre e a Nova Roma sobre o Bósforo. A divisão do século XVI
foi devida às ostensivas corrupções de doutrina, rito e prática que se tinham introduzido
na Igreja Ocidental. Durante séculos o Cristianismo grego foi tratado como cisma,
embora também tenha sido definido como heresia por Leão X, em 1520. O
protestantismo, desde o começo, foi condenado como heresia e igualmente como cisma.
O cisma grego desenvolveu-se através de longa série de conflitos entre os bispos
romanos e os imperadores bizantinos. A heresia protestante teve origem súbita e não
relacionada com discórdias políticas. As igrejas romana e grega têm-se mantido
separadas por limites geográficos definidos: o Romanismo e o Protestantismo têm
vivido lado a lado, no mesmo território, separando povos que falam as mesmas línguas.
A superior importância da denunciação protestante se patenteia nas transformações
intelectuais e políticas que tiveram lugar na Europa Ocidental e na América, assim
como se mostra na mudança notável operada nas esferas do governo civil e das
instituições sociais que se desenvolveram naquelas regiões. Em ambas as divisões, a
causa propulsionadora e imediata de separação foi a presunção da “grande metrópole e
sé de Roma”, querendo ser a sede do supremo domínio temporal de toda a Cristandade.

§ 3. Os nomes “Romanista” e “Protestante”. – O uso do termo


“Romanista”, aplicado aos Católicos Romanos, não implica em calúnia; o nome
“Protestante” representa uma elevada herança. A palavra “Cristão”, usada pela primeira
vez em Antioquia – Atos 11:26 – é reivindicada por ambas as comunhões e pertence a
ambas. Designa aquilo que elas têm em comum. Cristo é o autor de sua religião e Cristo
é o fundamento de sua confiança. Os outros nomes, aplicados no Novo Testamento aos
seguidores de Cristo, foram sendo gradualmente abandonados: - discípulos, crentes,
santos, irmãos e amigos; nos primeiros anos do segundo século, “Cristãos” era o
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termo usado por Tácito, ao descrever a perseguição de Nero. Plínio dele usou em sua
carta ao imperador Trajano – e o edito de Trajano considera crime capital ser alguém
um “cristão.” O vocábulo foi também usado certo número de vezes por um dos
primitivos escritores cristãos, Inácio, que fala dos que são “realmente cristãos e não de
nome somente”, e de “Cristãos em Éfeso”, tendo também empregado a palavra
“Cristianismo”. Nos círculos da Igreja gradualmente entrou em uso a expressão “o fiel”,
que foi empregada largamente pelos escolásticos e nos documentos papais. Ela remonta
a expressões apostólicas, como: “os fiéis em Cristo Jesus” – Efe. 1:1 – e vem da palavra
grega designativa de “fé”. Depois do quarto século, a palavra foi também usada para
distinguir os catecúmenos dos membros da Igreja em plena comunhão, sendo o serviço
religioso celebrado para os membros comungantes da Igreja tratado pelo nome de
“missa dos fiéis”.

Durante a Idade Média, veio a ser costume entre os povos da Europa,


usarem os nomes “Romano” e “Romanista” como sinônimos de Cristão. Um “cristão” e
um “romano” eram a mesma pessoa. Por outro lado, os termos eram empregados para
indicar os eclesiásticos italianos nomeados pelo papa para as paróquias inglesas.
Quando Mateus Paris, escrevendo cerca de 1250, chamava a Grosseteste, bispo de
Lincoln, “o espoliador o desprezador dos romanos”, tinha em mente os prelados
italianos a devorarem as rendas dos cargos eclesiásticos ingleses. No Concílio de Trento
as palavras “cristão” e “católico” foram usadas indiferentemente, o que também se fez
na bula em que Paulo III convocou o Concílio. O Concílio utilizou alternativamente as
duas palavras para qualificar a verdade, o povo, a religião, a comunidade, as nações, os
reis e os príncipes, a fé e a igreja. Chamou à Igreja Romana – ecclesia romana – a Santa
Igreja Romana, a Santa igreja e a Igreja Católica. A expressão Igreja Romana têm-na os
papas constantemente empregado.

Já em 1519 os aderentes do velho sistema eram tratados pelos Reformadores


como Católicos Romanos, Romanistas ou Papistas. Na Confissão Escocesa a Igreja
Romana é chamada “Igreja Papística”. Os XXXIX Artigos falam de “doutrinas
romanas” e a Confissão de Westminster alude a “cerimônias papistas” e “doutrinas
papistas”. Quanto aos Protestantes, os nomes primitivos com que Lutero e seus
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seguidores foram rotulados pelos oponentes eram os de herétic1os, hussitas e boêmios


(1). Uma carta inglesa de 1520 dizia que “ultimamente há heréticos que aceitam as
opiniões de Lutero”. Esses nomes prontamente cederam lugar às expressões Luteranos e
Zwinglianos e, mais tarde, Calvinistas. Alexandre, legado papal na corte de Carlos V,
fala de “velhacos luteranos” e trata seus líderes de “arquiluteranos”. Um ano mais tarde,
o arcebispo de Mogúncia, escrevendo a Leão X, fala da “multidão de luteranos”. O papa
Adriano VI, 1521-1523, seguindo o modo de dizer que se tornara vulgar, condenava os
“luteranos” por assacarem graves insultos a Deus e a sua santa religião. “Agora é a
mesma coisa tratá-los de luteranos ou tratá-los de heréticos” – Escreve Sir Thomas
More em seu Diálogo sobre as imagens – “sendo equivalentes as duas maneiras de
tratar. De todos os heréticos que jamais surgiram na Igreja de Cristo, os piores e mais
bestiais são os luteranos”. No convite enviado aos protestantes para assistirem ao
concílio de Trento, aqueles eram chamados “aderentes da Confissão de Augsburgo” e
assim foram eles também chamados um século depois, no tratado de Westphalia.

Entre os protestantes, a primeira designação favorita era a de evangélicos,


designação corrente na Itália a partir de 1525. Erasmo dela usou e Bullinger, em sua
comparação entre as doutrinas velhas e novas, definiu os evangélicos como sendo os
que seguiam o puro Evangelho – evangelium. Em relação às igrejas que seguiram o tipo
luterano de Reforma, o nome “Luterano” tornou-se fixo, a despeito do protesto de
Lutero. O título de igreja Reformada tornou-se usual em relação aos seguidores de
Calvino e Zwinglio em França, Holanda e outros países. A Assembléia de Westminster
foi convocada para acomodar as concepções inglesas de doutrina e prática ao modelo
das “melhores igrejas reformadas do estrangeiro”. A palavra “protestante” deriva-se do
“protesto” levantado pela minoria evangélica da Dieta de Spira, 1529, contra a ação da
maioria católica. Nove anos antes, em 1520, Lutero havia usado a palavra “protesto”
como título de um documento em que ele invocava a proteção do imperador contra as
falsas acusações que lhe eram feitas, assim como a seus companheiros. O
pronunciamento da Dieta virtualmente condenou todas as inovações religiosas que se
tinham introduzido na Alemanha e excluiu os zwinglianos da tolerância.. Tal atitude foi

(1). A palavra aqui aparece como sinônimo de Hussita, visto ter sido na Boêmia, região da Europa
Central, que se deu o memorável movimento precursor da Reforma, chefiado pelo grande João Huss,
(1369-1415). A palavra boêmio aparece muitas vezes neste livro, não tendo nunca, porém, a acepção de
cigano, vagabundo e estroina que, por força da influência literária francesa, veio o vocábulo a ter entre
nós. N. do T.
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encarada pelos membros protestantes da Dieta – João da Saxônia, o Duque de


Brandeburgo e outros príncipes, juntamente com os delegados de 14 cidades imperiais,
como rompimento da paz celebrada na reunião precedente, efetuada em Spira, no ano de
1526. Aquela assembléia havia concedido a ambos os partidos o direito de sustentarem
os ensinos religiosos de que pudessem prestar contas a Deus e ao imperador. O que
passasse disso seria encarado como violação dos direitos da consciência e da autoridade
das Escrituras. O documento assinado pela minoria dizia: “Nós protestamos e
sustentamos ser vossa resolução nula e inoperante, e desejamos, em matéria de religião,
de tal modo viver e servir a nossos governos, que possamos estar prontos a responder
diante de Deus e de sua majestade imperial. Por amor de nossas consciências, somos
constrangidos, antes de todas as coisas, a dar atenção a Deus nosso Senhor, e, em
assuntos que pertençam à honra de Deus, à salvação de nossas almas e à vida eterna,
cada um deve permanecer firme e dar contas de si mesmo”. O nome “protestante” está
exposto à objeção de que parece implicar num sistema de negações e tem fornecido aos
católicos romanos motivo aparentemente razoável de acusação. Bem compreendido, o
nome, pela sua origem histórica, habilita o Protestantismo a exibi-lo com honra. O
Protestantismo não protesta contra o Cristianismo, mas contra as corrupções
introduzidas na Igreja Cristã do século XVI.

Os documentos papais e dos controversistas, tais como o cardeal Belarmino,


usualmente tratam os aderentes do “novo caminho” como Luteranos ou Calvinistas,
assim realçando a alegada origem humana e abominável do Protestantismo. O termo
“protestante” foi usado pelo concílio de Trento, pelo menos uma vez em suas decisões
oficiais. Nos tempos recentes Pio IX condenou o protestantismo, não o considerando
como “forma de religião cristã”. Um de seus sucessores, Leão XIII, apontou os
protestantes como inimigos do nome cristão.1

Neste volume, os termos Romanista e Católico Romano serão usados


indiferentemente e palavras tais como Papismo e Papista – usadas pelos antigos
escritores protestantes – não terão lugar, por serem sujeitas a interpretações de sentido
ofensivo. Os Protestantes e os Romanistas são partes da Igreja Cristã.

§ 4. Tentativas de reconciliação dos dois sistemas. – Desde o princípio,


nenhum esforço foi feito da parte de Roma para, através do caminho da discussão e da
persuasão, chegar a deter a revolta de Lutero. Arrogando-se da qualidade de cabeça da
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Cristandade, o papa não quis discutir: somente ordenou. A paz religiosa só era possível
pela submissão da parte dissidente. Os protestantes nunca enfrentaram os católicos
romanos num Concílio geral, como se dera com os gregos. A instâncias de Carlos V,
bom católico romano, foram feitas tentativas de reconciliação dos dois partidos, pelo
método de consultas, sem a participação ativa do papa. Essas tentativas, levadas a
efeito, enquanto todos os reformadores, exceto Zwinglio, eram ainda vivos, tiveram sua
expressão nos três chamados “Colóquios”, realizados no período entre 1540 e 1542, em
Worms e em Regensburg. Carlos estava interessado na unidade da Igreja e ainda mais o
estava na unidade de seu império. Nessas disputas, Calvino, Melanchton e outros
Reformadores representaram o Protestantismo, enquanto que João Eck, Cochlaeus, os
cardeais Campeggio e Morone e outros representaram o lado Romano. Lutero se
recusou a assistir, atendendo a que, fazê-lo seria perda de tempo e de energias. O
convite enviado aos líderes protestantes para assistirem ao Concílio de Trento foi
categoricamente recusado, como o fez Lutero, ou rejeitado pelos outros, após saberem
que lhes não seria dado o direito de voto.

Em anos posteriores foram feitos ensaios em favor da reconciliação, por


homens eminentes como o cardeal Richelieu, Grotius, Bossuet e Leibnitz, mas não
resultaram em mais estreita aproximação das duas comunhões. Em 1868, as
comunidades protestantes foram notificadas da reunião, que se aproximava, do Concílio
do Vaticano, sendo convidados por Pio IX a entrarem no aprisco romano. Em muitos
documentos saídos do Vaticano, Leão XIII deu ênfase à doutrina da unidade da Igreja,
em sua significação de Igreja Romana, e estabeleceu como único método de
reconciliação e cooperação cristã a completa submissão ao pontífice romano. Os
protestantes jamais concordaram em ser tratados como sectários postos à margem da
verdadeira Igreja. Professando submissão a Cristo, eles, como todos os demais cristãos,
possuem legítimo direito aos benefícios do Evangelho. Instruindo-se, com inteligente
compreensão, nas Santas Escrituras, sustentam que estão de posse das verdades que a
Igreja Romana ou explicitamente nega, ou substitui pelo erro.

Bibliografia e Notas

1- Em sua encíclica sobre Canisius, 1897, Leão XIII, depois de caracterizar


a “rebelião luterana” como “uma ruína da moral... e um mau veneno espalhado por
quase todas as terras”, fala daqueles a quem Canisius combateu, isto é, dos protestantes,
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como “inimigos do nome cristão” – Christiani nominis hostes. Em sua encíclica sobre
as Missões na Índia, o mesmo papa alude à resistência dos católicos romanos à
“empresa dos heréticcos que, usurpando o nome de Cristo”, prosseguiam na sua obra.
Em sua encíclica Barromeo, Pio X tratou os primeiros líderes do protestantismo como
“inimigos da cruz de Cristo”, como havia feito Nicolau V, em 8 de janeiro de 1454, em
relação aos Sarracenos.
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CAPÍTULO II

DEFINIÇÃO DAS CRENÇAS PROTESTANTE E ROMANA

A primeira lei da história é temer a divulgação da falsidade; depois, não ter receio de
proclamar a verdade; e, finalmente, os escritos do historiador não devem ser expostos à
suspeita de parcialidade e animosidade. – Leão XIII, Obras, II:20.

Investigando as crenças e os ritos característicos das comunhões Romana e


Protestante, deve-se discriminar entre os documentos autorizados por adoção oficial e os
escritos doutrinários e polêmicos produzidos por autoridade individuais, como as obras
do cardeal Belarmino e de Chillingworth. Para o católico romano, os decretos papais e
os credos ecumênicos são de decisiva obrigatoriedade; para o protestante, os credos
foram formulados para servirem a um propósito apologético, fixando os princípios que
tinham conduzido à rejeição do pontífice romano e do sistema que dele decorre. A
exaltação indevida de sua autoridade – ou a simbolatria – partiu do Romanismo, no
período das controvérsias do século XVII, e violenta o gênio da Reforma, que põe em
evidência o livre exame, tendo as Escrituras como suficiente guia religioso.

§ 1. Autoridades comuns aos dois grupos. – As autoridades que as duas


comunidades sustentam em comum são a Bíblia, o Credo dos Apóstolos, o Credo de
Nicéia e a Definição de Calcedônia. Ambas as comunhões ensinam que a Bíblia é a
infalível expressão da revelação de Deus ao homem, distinguindo-se, porém, que, no
sistema Católico Romano, a Tradição se erige em autoridade igual à Bíblia. O Credo
dos Apóstolos, embora não tenha sido elaborado pelos Apóstolos, remonta, quanto à
maior parte de seus artigos, ao segundo século, ou a época anterior talvez, e de todas as
composições religiosas de origem humana, é a única que maior estima arrebanha através
da Cristandade ocidental. A Segunda Confissão Helvética a ele se refere como
documento que contém a “verdadeira fé”; e o Breve Catecismo de Westminster adotou-
o na íntegra. Seus artigos foram comentados por Lutero e Calvino em seus catecismos e
no Catecismo de Heidelberg. O Credo de Nicéia, formulado no primeiro dos Concílios
ecumênicos, 325, e aumentado no Concílio de Constantinopla, 381, apresenta em
termos teológicos, as doutrinas da Divindade de Cristo e da Trindade. O Sínodo local de
Toledo, 589, acrescentou á definição nicena a frase: “O Espírito Santo procede do Pai e
do Filho”, e é sob esta forma que o credo é aceito pela Cristandade ocidental. A Igreja
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Grega omite a expressão – “e do Filho” – fazendo proceder o Espírito Santo somente do


Pai. O Concílio de Trento inicia seus decretos pela reprodução do Credo de Nicéia; e a
Confissão de Augsburgo proclamou verdadeiros os artigos desse credo. A Definição de
Calcedônia, adotada no Concílio de Calcedônia, 451, foi redigida em termos
intensamente metafísicos e define a Cristo como tendo combinado as duas naturezas,
divina e humana, em uma única pessoa.

A esses documentos, seguidos do mesmo modo por protestantes e católicos


romanos, pode-se aduzir o Te Deum, que se inicia com as palavras: “Louvamos-te, ó
Deus”. Atribuído outrora a Ambrósio de Milão, o Te Deum vem a ser um brado de fé e
piedade cristã não ultrapassado na literatura da Igreja Cristã, como definição de doutrina
e manual de experiência cristã. O credo Atanasiano, datando do V século e usado na
Igreja Romana, foi tido em alta estima por Lutero e por outros Reformadores
protestantes. Os XXXIX Artigos da Igreja Anglicana adotam-no como digno de ser
recebido juntamente com os Credos de Nicéia e dos Apóstolos. Foi excluído da edição
revista adotada pela Igreja Episcopal Protestante e não tem posição de autoridade no
seio da maior parte das comunidades protestantes. Consiste de um repeticioso e
metafísico panegírico da Trindade – e declara que não podem ser salvos os que não
aceitarem suas próprias palavras.

§ 2. As expressões características da Autoridade Romana são: - 1) As


bulas papais; 2) os Padrões Tridentinos; 3) os Padrões Vaticanos e 4) o Direito
Canônico. As decisões do papa, quer proferidas antes, quer depois da Reforma, na
medida em que versam sobre doutrina e moral, são infalíveis e não podem ser
discutidas, sem que se incorra em censura eclesiástica. Entre essas decisões figuram a
bula de Martinho V, condenando Wycliff e Huss; a de Leão X, condenando Lutero
(1520); a de Pio V, (1567), condenando as LXXIX Proposições de Miguel Baius; a de
Inocêncio X, (1653), condenando os cinco erros de Cornélio Jansen; a de Inocêncio XI,
(1679), condenando o Probabilismo; a bula Unigenitus, (1713), de Clemente XI,
condenando os erros de Quesnel, e outros pronunciamentos baixados no Syllabus de
1864, assim como os decretos de Pio X contra o Modernismo, 1907-1910. Aqui também
entraram os decretos dos Concílios Ecumênicos, desde que tenham alcançado aprovação
do papa. Os mais importantes Concílios da Idade Média são o 4º Lateranense, ou 12º
Ecumênico, 1215, que definiu o dogma da transubstanciação, e o Concílio de Ferrara, o
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primeiro Concílio Ecumênico a definir oficialmente os sete sacramentos e outros


dogmas medievais.

Os Padrões Tridentinos, em número de três, são os Decretos e Cânones de


Trento, a Profissão de Fé Tridentina e o Catecismo Romano. Esses documentos definem
os princípios característicos do Romanismo em face do Protestantismo. O Concílio de
Trento, 1545-1563, reunido na cidade de Trento, no Tirol, e reconhecido como o 19º
Concílio Ecumênico, foi convocado por Paulo III a pedido insistente de Carlos V, que
havia prometido aos protestantes alemães promover um Concílio Geral para examinar
as divergências religiosas da época. A maioria esmagadora dos prelados era constituída
de italianos e espanhóis, com os jesuítas exercendo influência poderosa e por vezes
decisiva. Sob todos os pontos de vista, o Concílio de Trento é uma das mais importantes
assembleias da Cristandade: ele confirmou o sistema que havia se desenvolvido durante
a Idade Média e, não somente enfrentou o Protestantismo por meio de proposições
doutrinárias, mas expulsou os dissidentes protestantes do seio da Igreja, mediante o uso
terrível do anátema. Por outro lado, decretou a abolição de vários abusos eclesiásticos
vigentes na comunhão romana e introduziu reformas de certa importância no tocante a
indulgências, educação moral do clero, ordens monásticas e sobre a prática da
acumulação de cargos eclesiásticos (pluralismo).

Os Decretos e Cânones de Trento, aprovados pelo voto do Concílio, foram


confirmados por Pio IV, 1564, reservando-se o papa o exclusivo direito de os
interpretar. Entre suas mais importantes definições, figuram as da Tradição, da
Justificação e da eficácia dos Sete Sacramentos. Os Cânones, em número de quase 150,
condenam os erros sustentados em oposição àquelas definições, encerrando-se cada
cânon com um anátema pronunciado contra os que possam incorrer nos erros
condenados. Na definição da Justificação, nada menos de 33 cânones se amontoam.
Para dar um exemplo das condenações, um dos cânones sobre o Matrimônio estatui que:
“se alguém disser que não seja melhor e mais bem-aventurado permanecer em
virgindade ou em celibato do que se unir em matrimônio, seja anátema”.

A Profissão de Fé Tridentina – forma professionis orthodoxae fidei –


resultou de uma sugestão formulada no Concílio de Trento e foi preparada por uma
comissão de cardeais nomeada por Pio IV, 1564. Tem também o nome de Credo de Pio
IV e, por uma bula dupla, foi imposta a todos os sacerdotes, professores e mestres, isto
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é, à “igreja docente”. Depois de reproduzir o Credo Niceno, o documento, em doze


artigos, define os princípios característicos da Igreja Romana, como os Sete
Sacramentos, o Sacrifício da Missa, a Transubstanciação, o Purgatório, o Culto dos
Santos, o Ofício Vicário do Bispo Romano. A esses artigos foi adicionada por Pio IX,
em 1877, uma declaração de crença na Imaculada Conceição e na “primazia e
infalibilidade” do bispo de Roma.

O Catecismo Romano, terceiro Padrão Tridentino, também publicado por


Pio IV, não é, como o título poderia sugerir, um manual para meninos, disposto em
perguntas e respostas, mas uma exposição cuidadosa do Credo dos Apóstolos, dos
Sacramentos, do Decálogo e da Oração Dominical, para o uso dos sacerdotes. Omite
alguns dos princípios distintivos do Romanismo, tais como as indulgências, mas trata de
outros não decididos pelo Concílio de Trento, tais como a autoridade do papa e o limbus
patrum – morada temporária dos varões do Velho Testamento, antes da morte de Cristo.

Os Padrões Vaticanos, também em número de três e publicados durante o


pontificado de Pio IX, 1846-1878, são: o Decreto da Imaculada Conceição, o Syllabus
de Erros e os Decretos Dogmáticos do Concílio do Vaticano. O decreto que define a
imaculada conceição de Maria foi publicado por Pio IX em 1854, na presença de
duzentos cardeais, bispos e outros dignitários. O Syllabus condenou oitenta erros
modernos, assim chamados, tais como a liberdade religiosa, as Sociedades Bíblicas
protestantes e a Separação da Igreja do Estado.1 Foi dirigido a todos os bispos em forma
de decreto autoritário e foi substancialmente confirmado por Leão XIII em suas
encíclicas de 1º de novembro de 1885, 1º de junho de 1888 e fevereiro de 1890. Pio X
também o confirmou.

Os Decretos do Concílio do Vaticano, 1870, reconhecido como o 20º


Concílio Ecumênico, constam de duas partes. Na primeira, o racionalismo, o
materialismo, e o ateísmo são condenados e é definida a relação entre a Revelação e a
razão natural. Dezoito anátemas são pronunciados contra as heresias em causa e a
“Santa Madre Igreja” é declarada mestra e guia suprema de todos os cristãos. Na
segunda parte, que é a mais importante, afirma-se o primado de S. Pedro e define-se o
dogma da Infalibilidade Papal. Finalmente, quatro anátemas são pronunciados contra os
que negarem estes últimos dogmas.
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O Código de Direito Canônico, preparado por ordem de Pio X e publicado


por Bento XV, 1917, contém definições de doutrina católica e regras de conduta
católica. Substitui o Código preparado por Graciano, professor de Direito Canônico em
Bolonha, no século XI. A compilação de Graciano que, segundo Dollinger, está “inçada,
de ponta a ponta, de invencionice e erro” – Papstthum, p. 55 – foi, com as adições feitas
por Gregório IX, 1234, e pelos últimos papas, lançada ao fogo por Lutero, em 1520, de
envolta com a bula de Leão X. O Código publicado por Bento XV foi erigido, por bula
papal, em lei obrigatória da Igreja, e quem quer que ouse alterá-la, cairá sob a ira do
Todo-Poderoso Deus e dos Apóstolos Pedro e Paulo. Aos documentos assim
enumerados deve o estudioso recorrer, se quiser certificar-se do que sejam os ensinos
oficiais da Igreja Romana.

§ 3. Autoridades Protestantes. – Os princípios e práticas do Protestantismo


se acham expressos na Confissões do período da Reforma, desde a Confissão de
Augsburgo, 1530, até a Confissão de Westminster, 1647; nas declarações feitas em
tempos mais recentes pelos Wesleyanos, Congregacionalistas e outras comunidades, e
nas revisões a que foram submetidos os documentos originais, como as dos Artigos
Anglicanos e da Confissão de Westminster. Essas Confissões, apesar de elaboradas em
diferentes países, concordam em todos os pontos principais, como nas doutrinas da
autoridade final das Escrituras e da Justificação pela fé, e na rejeição das definições
características dos Decretos Tridentinos e Vaticanos. As Confissões do período da
Reforma de dividem em duas classes, representando os tipos Luterano e Reformado, ou
Calvinista. Somente as Confissões mais importantes serão aqui mencionadas.

Os dois principais Padrões Luteranos são a Confissão de Augsburgo e a


Fórmula de Tolerância. A Confissão de Augsburgo, obra devida principalmente a
Melanchthon, foi preparada para apresentar a definição oficial das novas concepções.
Durante a leitura desse documento perante a Dieta de Augsburgo, em 1530, o imperador
Carlos V dormiu, privilégio de que também desfrutou, poucas semanas depois, quando
o documento papal, que refutava a Confissão, foi lido por Eck. O documento salienta
abusos, tais como o culto dos santos e a venda de indulgências, e define as doutrinas
protestantes da Justificação pela Fé e da autoridade final das Escrituras. Não atira
anátemas contra os Romanistas, mas condena os Anabatistas pelo fato de negarem o
batismo das crianças e em razão de sua atitude para com o governo civil, colocando-os
no mesmo plano dos Arianos e outros hereges. Calvino expressou seu apoio a essa
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Confissão, dando-lhe sua assinatura. Fogem ao tom sereno desse documento os artigos
de Schmalkad, que Lutero preparou, em 1577, em resposta à convocação feita por Paulo
III, de um concílio a reunir-se em Mantua. Esses artigos são fortemente polêmicos,
denunciando a missa como sendo a mais horrível das mistificações e o papa como o
próprio anticristo. A Fórmula de Concórdia, 1577, composta depois da morte de Lutero
e Melanchthon, tinha como objetivo o estabelecimento de uma acomodação doutrinária
entre os partidos luteranos. À maneira do Concílio de Trento, o documento primeiro
apresenta, sob a forma de definições positivas, a verdadeira doutrina e depois, em
artigos bem dispostos, os erros correspondentes, mas sem aduzir anátemas.

Os símbolos Reformados coincidem com os símbolos luteranos, exceto na


definição da Ceia do Senhor e na negação da ubiqüidade do corpo de Cristo. Estes são
os principais símbolos Reformados: a Primeira e a Segunda Confissão Helvética, 1536 e
1566, que tiveram origem em Zuric, sob a orientação de Bullinger. A primeira foi
traduzida pelo mártir escocês George Wishart; a última foi oficialmente aprovada, não
só na Suíça, mas também na Escócia. Como outras Confissões de tipo Calvinista e
Zwingliano, elas tornam as violações da primeira tábua do Decálogo, assim como as
transgressões da segunda, puníveis pelo magistrado civil.

A Confissão Galicana, Credo da Igreja Reformada da França, foi elaborada


por Calvino e um de seus discípulos, tendo sido adotada pelo Sínodo de Paris, em 1559.
A Confissão Belga, 1561, escrita por Guido de Brès, que sofreu o martírio em Bruxelas,
foi adotada pelos Sínodos da Bélgica e da Holanda e é considerada por Felipe Schaff
como a melhor exposição doutrinária do sistema Calvinista, depois da Confissão de
Westminster.

O Catecismo de Heidelberg, 1563, foi preparado por dois discípulos de


Melanchthon e Calvino e tira seu nome da cidade em que foi primeiro divulgado.
Adotou-o a Assembléia Escocesa, e a Assembléia Presbiteriana dos Estados Unidos
declarou ser ele “um valioso compêndio escriturístico de doutrina e prática”. É o
principal Padrão doutrinário da Igreja Reformada nos Estados Unidos. O Calvinismo,
em sua expressão mais severa, foi exposto nos Cânones do Sínodo de Dort, 1619, que se
tornaram o credo da Igreja da Holanda e de sua filha nos Estados Unidos.

A primeira Confissão Escocesa, 1560, preparada por João Knox e uma


comissão nomeada pelo Parlamento Escocês, é rigorosamente Calvinista e fortemente
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anti-Romana. Trata extensamente das “invenções da igreja papística” e proclama que os


papistas “têm perniciosamente ensinado e danosamente crido na transubstanciação”. Em
1647 foi substituída como Confissão oficial da Igreja Escocesa, pela Confissão de
Westminster. Esta Confissão de Fé, elaborada pela Assembléia de teólogos de
Westminster, reunida em Londres, de 1643 a 1648, embora adotada pelo Parlamento
inglês como lei da Inglaterra, nunca foi aceita fora dos círculos puritanos. Ela tem sido o
Padrão das comunidades Presbiterianas de língua inglesa, através do mundo e, para
servir de “substância de doutrina’, foi adotada pelos Congregacionalistas no Sínodo de
Cambridge, 1648, ao formular-se a primeira exposição eclesiástica oficialmente escrita
na América do Norte. Numa revisão feita pela Igreja Presbiteriana do Norte, em 1902, a
declaração de que “o sacrifício da missa é abominavelmente ofensivo ao único sacrifício
de Cristo” foi mantida sem alteração, mas a antiga denunciação do papa como “o
anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição”, foi cancelada.

Os XXXIX Artigos de Religião, 1562, e o Livro de Oração Comum, 1559,


são os Símbolos da Igreja Anglicana e, com algumas alterações, da Igreja Episcopal
Protestante dos Estados Unidos. O Livro de Oração Comum ocupa posição
intermediária, em liturgia e governo da igreja, entre o Romanismo e o Protestantismo.
Foi imposto pelo Ato de Uniformidade, 1559, que estabeleceu severas penalidades civis
contra os que se recusassem a usar o Livro, o que dividiu o Protestantismo Inglês entre
os partidos Anglicano e Puritano. Os XXXIX Artigos são estritamente protestantes,
condenando o Purgatório, a Transubstanciação e outras doutrinas romanas, fazendo
distinção entre a Igreja Visível e a Igreja Invisível e reafirmando a falibilidade das
igrejas históricas.

§ 4. Os Catecismos. – Certos catecismos, em forma de preguntas e


respostas, tomaram o lugar de definições, integral ou parcialmente autorizadas, nas
igrejas Protestante e Romana. Na Igreja Romana tais catecismos, como os de Canisius,
cardeal Belarmino e Pio X, foram recomendados por ordem papal. Pedro Canisius,
jesuíta, cujos catecismos foram os primeiros dentro das fronteiras da comunhão
Romana, 1534-1566, foi declarado doutor da Igreja, em 1925. Acerca do manual do
cardeal Belarmino, 1603, o papa Clemente VIII declarou ser ele uma exposição
autorizada do Catecismo Tridentino. O Catecismo de Pio X – Catechismo della dottrina
cristiana – Contém 433 perguntas e respostas e foi divulgado em 1912 “por ordem de
Pio X”. Por ato recente do governo italiano, seu uso se tornou obrigatório nas escolas
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primárias da Itália. O Catecismo da Doutrina Cristã, preparado sob a direção do


Terceiro Concílio Plenário de Baltimore, 1885, é o manual usado pela Igreja Romana
nos Estados Unidos, sendo distribuído em seis modelos, com a aprovação oficial dos
cardeais McCloskey, Gibbons e Hayes.

A Igreja Protestante foi a primeira a publicar um catecismo, em 1528. O


grande e o pequeno Catecismo de Lutero, preparados em 1529, estão ainda em uso nas
igrejas Luteranas. Depois desses, os mais importantes são: o Catecismo de Heidelberg e
o Breve Catecismo e o Catecismo Maior de Westminster, elaborado pela Assembléia de
Westminster e adotados na Igreja da Escócia e nas Igrejas Presbiterianas da América.
Esses Catecismos foram precedidos pelo de Calvino, contendo aproximadamente
quatrocentas perguntas e respostas. O catecismo mais notável produzido no solo
americano foi o do Rev. João Cotton, intitulado: “Leite para crianças, extraído do seio
de ambos os Testamentos”. Atingiu uma posição que, na Nova Inglaterra, somente cede
lugar ao Breve Catecismo de Westminster, tendo sido incluído na Cartilha da Nova
Inglaterra.

Posições extra-oficiais do Romanismo e do Protestantismo

Por quatro séculos os ensinos das duas comunhões têm sido expostos em
inumeráveis tratados teológicos e tornaram-se assunto de muitos escritos, rasgadamente
polêmicos. O valor desses escritos está em proporção à sua fidelidade aos Padrões
Oficiais das duas comunidades. Os que apareceram de 1517 até época relativamente
recente, foram pervadidos de espírito polêmico, frequentemente acrimonioso, servindo
mais para o acirramento das paixões do que para convencer o intelecto; servindo mais
para alargar a brecha da separação do que para a fechar. Nos tempos mais recentes,
certo abrandamento do espírito de polêmica se tem feito sentir entre os principais
escritores. Por outro lado, a chama do ardor controversista continua a lavrar nos escritos
de outros. Embora não seja possível assinalar claramente, por meio de datas rigorosas,
os estágios da controvérsia, quatro períodos se podem distinguir: O período dos
Reformadores, que vai até o ano 1570; o período de Belarmino e Cillingworth, 1570-
1650; o período que tem a Bossuet no centro, 1750; e o período do século XIX, em que
são proeminentes os nomes de Milner, cardeal Wiseman, Mohler, Dollinger, Balmes,
arcebispo Spalding e cardeal Gibbons. As duas obras principais sobre história da igreja
Cristã, escritas durante o século XVI, ambas eruditas e volumosas, foram polêmicas na
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

intenção – Séculos de Magdeburg, escrita por protestantes, 1559-1574, e os volumes do


cardeal Baronius, 1583-1607. Seguem-se os principais controversistas, Protestantes e
Romanos, segundo os vários períodos.

§ 5. A Controvérsia durante o período da Reforma, 1517-1570. – Do


lado Protestante, Lutero, Calvino e outros Reformadores definiram exaustivamente os
princípios do Protestantismo. Entre as principais obras de controvérsia de Lutero,
figuram a Carta à nobreza Alemã, O Cativeiro Babilônico, O Papado em Roma, o
tratado sobre as Boas Obras e seu opúsculo sobre os Votos Monásticos, escrito em
1521. A essas produções devem-se acrescentar, como de capital importância, o debate
do Reformador com Eck, em Leipzig, e as razões dadas por aquele no tocante à queima
da bula papal, em 1520.

As principais obras polêmicas de Calvino são suas Institutas, 1536,


motivadas pelas perseguições movidas aos protestantes em Paris e dirigidas ao rei da
França, Francisco I; sua Réplica ao Cardeal Sadolet, Antídoto contra os artigos
publicados pela Faculdade de Paris; e Necessidade de Reforma da Igreja. As Institutas,
que o cardeal inglês Allen qualificou como “o livro mais blasfemo”, foram por algum
tempo usadas como livro de classe nas universidades inglesas. A Réplica a Sadolet foi
motivada pelo apelo feito pelo cardeal aos genebrinos, no sentido de repudiarem o novo
sistema. O Tratado sobre a Reforma da Igreja, apresentado à Dieta de Spira, 1544,
explana aquele assunto sob três aspectos: 1) Os males da Igreja; 2) Os remédios
preconizados pelos Reformadores; 3) A necessidade de os aplicar de uma vez por todas.
Em suas 67 Conclusões, 1523, Zwinglio apresenta uma clara discriminação da maior
parte das divergências existentes entre as duas Igrejas, como fez Bullinger em seu
livrinho – Contraste entre os Ensinos Evangélicos e Romanos, 1551. A mais minuciosa
obra preparada do lado Protestante foi publicada por Martin Chemnitz, em resposta aos
Decretos de Trento, 1565-1573.

Na Inglaterra, os quatro principais escritores foram os três mártires,


Tyndale, morto em 1536; Bispo Hooper, morto em 1555; Latimer e Jewel, Bispo de
Salisbury, morto em 1571. Entre as obras de Tyndale, figuram a Parábola do Mammon
Iníquo e a

Obediência de um Cristão, que excitou a pena de Sir Thomas More. O bispo


Hooper, morto em 1555, não sendo um escritor hábil, escreveu, “por profunda
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convicção”, a Confissão e Protesto da Fé Cristã e Comentários sobre o Credo. Os


sermões do bispo Latimer, principalmente os que foram pregados perante a assembléia e
Plow, são fecundos em representações populares e convincentes do Protestantismo. A
Apologia da Igreja Anglicana, do bispo Jewel, 1562, tem sido um baluarte literário do
Protestantismo inglês. Jewel divulgou um desafio, propondo-se a abandonar o
Protestantismo, caso alguém conseguisse provar que as vinte e sete proposições, que ele
negava, se encontram nos autores dos seis primeiros séculos. Entre as proposições
figuravam estas: não havia missas privadas; Cristo não era oferecido como sacrifício
sobre o altar; o cálix não era recusado aos leigos. A Apologia é uma definição serena da
atitude Protestante. Depois de recordar a seus leitores que os profetas e mártires tinham
sido reputados como “em nada melhores que do que a mais vil imundície, escárnio e
zombaria de todo o mundo”, Jewel tomou em consideração a alegação de que os
Reformadores tinham desprezado a verdadeira fé e quebrado a unidade da verdadeira
Igreja, “de novo trazendo do inferno heresias velhas e já de há muito condenadas”,
separando-se da obediência ao papa, não por motivos de religião, mas pelo gosto de
discórdia e contenda. Mostrou, a seguir, que os protestantes eram os restauradores da
verdadeira fé Cristã, de novo anunciando os ensinos dos Apóstolos e dos Pais
primitivos. “A Santa Escritura está patente – e esta seria sua arma”. O papa é
estigmatizado como o precursor do anticristo e o rei do orgulho. O poder das chave não
consiste em autoridade para ouvir confissões privadas, mas em poder para ensinar e
pregar. Os Protestantes, embora divididos em seitas – insiste ele – unem-se em torno de
todos os pontos essenciais. Escrevendo acerca da morte de Jewel, Thomas Fuller
graciosamente observa que “é difícil dizer qual tenha chegado primeiro ao céu, se sua
alma ou suas orações, já que ele orava morrendo e morreu orando”.

Do lado Romano, os principais controversistas foram Eck, na Alemanha; Sir


Thomas More, na Inglaterra; e cardeal Sadolet, na Suíça. O sistema romano contraiu
para com Sir Thomas More uma dívida perpétua, já pela defesa literária que fez de sua
posição, já por seu martírio. Suas principais obras foram: a Resposta, em que defende
Henrique VIII contra Lutero; o Diálogo sobre as Imagens, a Súplica das Almas do
Purgatório e a Refutação de Tyndale. Pelo estilo claro e vigoroso e pela alta posição
política do autor, essas obras oferecem perene interesse. A atitude assumida por More
foi a de que a seita Luterana era “toda a multidão de heresias reunidas”. Às novas
concepções ele as acusou de inovações e acusou Lutero de “mentiroso, rebelde e sócio
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

do diabo”. “Esses hereges – observa More – reduzem a zero a opinião comum e as


crenças, a persuasão de quase todo o mundo e, como são muito extravagantes, fazem
pequeno esforço racional e ainda invocam a Escritura, como se cressem na Santa
Escritura.” Lutero, Zwinglio, Bucer e Tyndale, ele os classificou como a “sombra de
Satanás e os servos do demônio”.

O cardeal Sadolet, 1477-1547, homem notável por seus estudos


humanísticos, fala de Calvino, Farel e outros Reformadores de Genebra como “homens
matreiros, inimigos da unidade e da paz cristã, que desviaram os genebrinos do caminho
verdadeiro, semeando as sementes ruins da rebeldia e sedição”. Qualificou a fé que
“aqueles inventores de novidades tinham pregado” como um sentimento divorciado do
amor e do dever cristão. Sendo a verdadeira Igreja Católica um organismo que tem
existido por 1500 anos, ela não pode errar; mas, ainda que pudesse errar, os que
seguissem os antepassados no acatamento de sua direção, não seriam condenados diante
do tribunal do Juízo. Os homens da nova ordem – escreveu ele – rasgaram a túnica de
Cristo; e as seitas em que se acham divididos provam que a verdade não pode estar com
eles. Se nesses escritos, pertencentes aos primeiros cinquenta anos que se seguiram ao
estalar da Reforma, todos os argumentos no tocante ao novo caminho eram claramente
expressos, também as objeções levantadas do lado do velho caminho francamente se
definiam. Os escritos posteriores, Protestantes e Romanos, pouco mais fazem do que
reeditar as atitudes primitivas.

§ 6. A controvérsia no segundo período, 1570-1650 – Todos os escritos


católicos romanos do século XVII foram eclipsados pelo cardeal Belarmino, da Itália.
Na Inglaterra, os principais polemistas do lado Romano foram Sanders e Stapleton. A
Apologia de Jewel levantara vigorosa oposição entre os Dissidentes em Louvain e
Doual – Desde Thomas Harding até o cardeal Allen e outros. A primeira Réplica de
Harding alinhou pela sua ordem vinte e sete proposições de Jewel e foi contraditada
pelo mesmo Jewel, que encontrou na obra de Harding 255 afirmações falsas. Nicolau
Sanders – ou Sander – morto em 1581, era sacerdote e professor em Louvain. A partir
de 1573, gastou mais ou menos tempo na corte de Madri, açulando Felipe II em sua
empresa contra Isabel. Acompanhou a expedição espanhola à Irlanda, em 1759,
declarando que as tropas romanistas “estavam combatendo sob a autoridade do chefe da
Igreja”. Como quase todos os Dissidentes, ele se tornou jesuíta e defendeu com a pena,
assim como por outras atividades, a deposição de Isabel por Pio V. Seus mais
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

cuidadosos tratados de polêmica são a Monarquia Visível da Igreja e A Rocha da


Igreja. Sua mentalidade se retrata nestas palavras: “A estabilidade do Cristianismo
depende de um vigoroso assalto à Inglaterra”. A Reforma ele a fazia derivar dos
impulsos da depravação natural. Numa obra sobre o cisma Anglicano, repetiu a história
– se acaso não deu origem a ela – de ser Ana de Boleyn filha do próprio Henrique VIII.
Por esta e outras fábulas que propalou, Sanders se tornou popularmente conhecido na
Inglaterra como o Doutor Slanders (1). Thomas Fuller acusou-o de “haver-se fartado de
mentiras incapazes de prova e por ele forjadas em primeira mão, sobre a natividade da
rainha Isabel”.

Thomas Stapleton, chamado por Wood “o mais erudito católico romano de


todos os tempos”, professor em Douai e em Louvain, foi chamado por pio V a dar
parecer no negócio da deposição de Isabel. Seus escritos fizeram grandes e1 infamantes
acusações contra o caráter de Lutero e Melanchthon e causaram escândalo ainda maior
por suas tentativas de enlamear a pessoa e a memória de Calvino. A esses dois
poderosos defensores de Roma, deve-se adicionar, ainda entre os ingleses, William
Allen, cujos escritos primam pela virulência e são também dignos de nota, porque, por
mais de três séculos, Allen foi o único inglês a ser cardeal. Foi o chefe dos chefes nas
medidas tomadas pelo Vaticano e por Felipe II contra Isabel e a Inglaterra Protestante.
Em suas concepções dos direitos do soberano, acompanhou a Pio V, escrevendo:
“Ninguém se maravilhe de que, no caso de heresia, o soberano perca sua superioridade e
direito sobre seu povo e reino, que não pode ser um estado e comunidade legais e
cristãos, fora da devida obediência a Cristo e às leis da Igreja”. Da Advertência à
Nobreza e Povo da Inglaterra e Irlanda, publicada antes da partida da Armada, o dr.
Lingard diz que foi “talvez o mais virulento libelo jamais escrito”, e a acusação do
cardeal contra Isabel ele a julgou “mais do que abominável, acusação que vem a ser a de
que ela não se casou porque não podia limitar-se a um só homem”; atroz é também a
acusação de que “o novo clero era propriamente o refúgio da pior espécie de mortais”.
Allen comparou Isabel a Nero.

O cardeal Belarmino, 1542-1621, por sua obra paciente, laboriosa e hábil,


continua a ser o mais eminente e mais acatado dos teólogos romanos, que escreveram
durante os últimos trezentos anos, em refutação dos princípios protestantes. Foi o

(1). Doutor Maledicência. Em termos vulgares, seria o doutor Queima-Campo. N. do Trad.


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primeiro jesuíta a ensinar em Louvain. Em duas ocasiões se candidatou à tiara. O que é


Tomaz de Aquino nos domínios da teologia romana, Belarmino o é na apologia do
sistema romano. Depois de longa hesitação, foi proclamado venerável por Pio XI – 3 de
maio de 1923. Sua famosa obra polêmica, escrita em latim – Argumentação sobre as
Controvérsias da Fé Cristã contra os Hereges destes Tempos – foi preparada quando
lecionava no Colégio Romano – 1576-1589. É um repositório de argumentos contra as
concepções de Wyclif, Huss, Lutero, Calvino, Chemnitz e outros Reformadores da
Igreja, que ele cita por extenso, e também um armazém de acusações contra suas idéias
e pessoas, alardeando pretensos males decorrentes da revolta Protestante. Como os
escolásticos, sua ambição é a de ser exaustivo e, como os homens de indústria, é
infatigável. Desenvolve seu tema em quatro volumes: o livro inicial trata das Escrituras,
de Cristo e do Pontífice Romano; o segundo, da Igreja e do Clero; o terceiro, dos
Sacramentos; e o último, do Pecado, Graça e Justificação. É estranho dizê-lo, mas Sixto
V, a quem foi dedicado o primeiro volume, colocou-o no Index, em razão da suposta
posição intermediária que o autor assume em face da autoridade do papa em assuntos
temporais – tratamento aquele que o próprio Belarmino refere em sua auto-biografia.
Como seu predecessor, Tomaz de Aquino, o cardeal primava pelo seu método de
apresentação. Cotton Mather chama-o “o último Golias dos Filisteus”.

As mais hábeis dentre muitas réplicas feitas àqueles e a outros escritores


católicos romanos, foram produzidas por Whitaker – Sobre as Escrituras, 1588, e por
Chillingworth – A Religião dos Protestantes, Caminho Seguro de Salvação, 1637.
Whitaker, professor de teologia em Cambridge, dirigiu sua obra especialmente contra
Stapleton e Belarmino, escrevendo a Cecil: “Em Belarmino temos afinal o próprio
espelho do papismo”. Com erudição e tato dialético, tratou da Bíblia em seis capítulos:
o cânon, as versões, sua autoridade, clareza, interpretação e perfeição.

William Chillingworth, 1602-1644, que veio do Romanismo, tentando expor


as razões que o levavam a ser católico romano, passou em revista suas concepções e
regressou à fé Protestante. Sua obra clássica foi provocada por uma polêmica com certo
jesuíta de Oxford, sobre se os protestantes podem ser salvos. Ele definiu o
Protestantismo como “aquilo em que Lutero, Calvino, a Igreja Inglesa e todas as
Confissões Protestantes concordam ser a perfeita regra da Bíblia”, e usou repetidamente
da famosa expressão: “A Bíblia, digo eu, a Bíblia é a única Religião dos Protestantes”.
A doutrina romana – assim o diz Chillingworth – torna “todos os homens sujeitos aos
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reis e deixa-os servir a Cristo em medida que não exceda à vontade do papa”. Negou a
infalibilidade da Igreja, fez clara distinção entre o fundamental e o acessório em
religião, insistiu no direito de juízo privado e livre exame, favoreceu a subscrição liberal
dos XXXIX Artigos e declarou que quem quer que subscrevesse as cláusulas
condenatórias do Credo Atanasiano, subscrevia a própria condenação.

O século XVII foi, na Inglaterra e na Alemanha, uma era de amarga disputa


religiosa, não somente entre Protestantes e Católicos Romanos, mas entre Anglicanos e
Puritanos e entre Luteranos e o partido Reformado. Escritor após escritor retomou, na
Inglaterra, o fio da controvérsia Romana. Os Sinais da Igreja, de Belarmino, provocou
réplicas do bispo Patrick, arcebispo Tenison, William Sherlock e muitos outros
eminentes teólogos ingleses. De Twisse, presidente da Assembléia de Westminster, diz
o bispo Hall: “era um homem tão eminente em teologia, que os jesuítas se curvaram
perante seu poder”. Hall definiu suas idéias na obra A Velha Religião e Salvaguarda
contra o Romanismo, 1628, como fez Isaac Barrow, 1630-1677, em sua obra - A
Monarquia Papal e a Unidade da Igreja, e Jeremias Taylor, 1613-1667, em seus
Discursos do Papado. Richard Baxter escreveu contra o sistema Tridentino e o
arcebispo Tillotson e o bispo Bull, 1634-1710, contra as concepções da Igreja de Roma.

§ 7. A Controvérsia, 1650-1800. – A esta altura nos transferimos para a


França, sendo Bossuet, 1627-1704, e Bayle os nomes proeminentes. À “obsequiosa
retórica”, para usarmos da expressão de Lord Acton, estilo vigoroso e vasto
conhecimento da história eclesiástica, Bossuet aliava a maestria na arte de contender.
Perante Luiz XIV, a quem ele saudou como “um segundo Constantino, o novo
Teodósio, o novo Carlos Magno”, exclamou que, haver confirmado a fé e exterminado
os hereges, “esta é a obra digna de teu reino, de teu caráter real”. Enalteceu a revogação
do edito de Nantes, banindo os Huguenotes, como a realização mais bela, “graças à qual
a heresia já não existe”. Como a obra de Belarmino se adaptava aos estudantes, assim os
escritos do pregador da corte francesa se endereçavam ao homem de cultura e foram
provavelmente mais bem sucedidos do que quaisquer outros escritos polêmicos o teriam
sido, no arrebanhar protestantes para sua fé, exceto, talvez, as produções de Wiseman,
Newman e Gibbons. Entre os conversos ganhos por Bossuet, figuram o Marechal
Turenne e o historiador Gibbon, que, todavia, abjurou mais tarde o sistema romano.
Gibbon fala de Bossuet “como mestre em todas as armas de controvérsia”. Bossuet
reconheceu as corrupções existentes ao estalar da Reforma, mas defendeu o princípio de
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que a religião precisa ter na terra um supremo expoente da verdade, o papa. A revolta
contra aquela autoridade conduz ao ateísmo e às desordens sociais. No prefácio de suas
Variações das Igrejas Protestantes, Bossuet expressava a confiança de que sua
exposição era capaz de fazer os adeptos da Reforma somente sentissem desprezo pelo
nome “protestante”.

Durante a última parte do século XVIII, a literatura polêmica, publicada do


lado Protestante, exibiu escasso vigor, em confronto com o século precedente.. Não
havia consumo de pólvora ou ataques partidos do lado dos Dissidentes, nem príncipe
estrangeiro ou pontífice que despertasse temores no público inglês, embora as
hostilidades se conservassem despertas, em razão das tentativas de restauração dos
Stuarts, reveladas nas conspirações de Gordon, pelo fim do século XVIII. A política de
tolerância religiosa foi gradualmente relaxando as leis que coagiam os católicos
romanos – e o projeto de Liberdade Católica passou em 1791, depois que mil e
quinhentos católicos ingleses assinaram uma petição, negando a infalibilidade do papa.
O principal representante da fé romana, na Inglaterra, no século XVIII, foi o dr.
Challoner, 1691-1781, nomeado vigário apostólico. Ele é melhor conhecido através de
sua revisão da Bíblia de Rheims. Suas obras de controvérsia foram escritas num espírito
relativamente moderado.

§ 8. A Controvérsia, 1800-1925. – Durante o século XIX, todas as


restrições impostas aos católicos romanos da Inglaterra foram abolidas por ato do
Parlamento. Nos Estados Unidos prevalecem iguais direitos constitucionais em matéria
de religião. A controvérsia contra o Protestantismo foi impulsionada com novo zelo e
conduzida não somente por hábeis antagonistas educados na comunhão romana, mas
por um grande e influente grupo de conversos saídos da Igreja da Inglaterra. O
Protestantismo Anglicano foi sacudido até os fundamentos pelo movimento de Oxford,
chefiado por João Henrique Newman e Eduardo Manning, tendo sofrido um prejuízo tal
como o Protestantismo jamais teria experimentado em parte alguma, exceto na Boêmia.
A três escritores católicos romanos pertence a responsabilidade da eclosão do
movimento Católico Romano na Igreja Inglesa: dr. João Milner, o historiador Lingard e
o cardeal Newman. Milner, 1752-1818, nomeado vigário apostólico na Inglaterra, foi
chamado por Newman o Atanásio inglês. Sua obra, O Fim da Controvérsia Religiosa,
causou sensação. O rev. João Lingard, em sua História da Inglaterra, 1819-1830,
apresentou pela primeira vez uma atraente exposição histórica, escrita do ponto de vista
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romano. Wiseman, 1892-1865, primeiro cardeal do território inglês desde Wolsey e


Pole, por sua sabedoria e habilidade interpôs-se entre a escola Anglo-Católica de
Oxford e a Comunhão Romana. Transferido do Colégio Inglês em Roma, de que era
diretor, para Londres, despertou grande atenção por suas conferências sobre os
Princípios, Doutrinas e Práticas da Igreja Católica. Num artigo publicado na Revista
Católica, 1840, Newman assinalou “o primeiro toque real do Romanismo”. O sermão
fúnebre de Newman foi pregado por Manning, anteriormente arquidiácono da Igreja
Anglicana, que ascendeu ao arcebispado de Westminster e foi mais tarde feito cardeal.

A propaganda católica romana, partindo de Oxford, entregou-se ao estudo


dos Pais Cristãos e foi conduzida através dos Tratados de Oxford e de outros escritos.
Richard Hurrell Froude, que morreu cedo, ardoroso inimigo de Newman, invocava a
protestantização e desmiltonização da “Igreja da Inglaterra”. De Froude disse Newman:
“odiava a Reforma e odiava cada vez mais os Reformadores, e Luteranismo e
Calvinismo tornaram-se para ele heresias repugnantes à Escritura e anatematizadas pelo
Oriente e pelo Ocidente”. A Igreja e sua unidade tornaram-se as idéias dominantes de
Newman – e em 1845 ele saltou para a comunhão romana. Pelo estilo claro e fascinante
e pela firmeza confiante de seus sermões, sua Gramática de Assentimento, seu Ensaio
sobre os Milagres, o Desenvolvimento da Doutrina e outras obras, Newman exerceu
profunda influência sobre muitos dos mais jovens clérigos ingleses. Sua Apologia de
minha Vida, pintando as lutas íntimas no romper com a Igreja da Inglaterra e passar-se
para Roma, é, em toda a literatura autobiográfica inglesa, um dos volumes que mais
prendem.

Na Alemanha, nova era foi aberta na história da Controvérsia por Mohler,


professor católico romano em Tubingen, com seu Simbolismo ou Exposição das
Divergências Doutrinárias entre Católicos e Protestantes, obra baseada nos Credos
históricos, que apareceu em 1832. A obra fez, nos círculos teológicos, sensação não
igualada desde os dias de Bossuet. O autor, que era severo com os papas dos séculos X
e XI, reconhecia que, ao tempo de sua eclosão, o Protestantismo em parte se justificava,
pelo muito que havia de deficiente e censurável na prática da Igreja; e que, pondo de
parte abusos, sua influência tinha sido parcialmente benéfica.. A obra de Mohler
provocou vigorosas réplicas de parte de seu colega, Baur, 1834, e de outros conhecidos
teólogos alemães. Depois da morte prematura de Mohler, em 1838, na idade de 42 anos,
o dr. Dollinger, através de sua História da Reforma, 1846-1848, tornou-se o principal
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advogado germânico do Catolicismo Romano. Recentemente Jansen, em sua História


do Povo Alemão, tentou valorizar as proposições segundo as quais as forças do
progresso moderno tinham começado a mostrar-se antes do aparecimento de Lutero,
tendo sido uma grande desventura o Protestantismo, porque veio interromper um
pretenso processo de reforma em elaboração na Europa e porque causou a divisão da
Igreja. Mais recentemente, Denifle e Grisar, eminentes estudiosos da História, em suas
bem trabalhadas vidas de Lutero, tentaram outra vez vibrar profundo golpe no
Protestantismo, atacando as intenções e os hábitos de Lutero. Nicolau Paulus tenta
exculpar as indulgências e outras práticas, sob o fundamento de que os Reformadores
protestaram contra os abusos e não contra as doutrinas reais da Igreja.

Na Itália, as preleções teológicas – Praelectiones – de Giovanni Perrone,


professor do Colégio jesuíta de Roma, apresentaram uma definição nova das doutrinas
romanas e defenderam o dogma da infalibilidade. A obra do espanhol Balmes, falecido
em 1848, tem tido larga circulação. Perrone tratou o Protestantismo como uma chaga
que corrói o vigor do corpo, devendo cada um retroceder à simples menção dela, como
se se tratasse de assalto à própria vida. A obra de Balmes é um nojento panegírico do
papado: incide em abundantes perversões da História e descamba para a omissão de
fatos que a conveniência de Roma manda que o controversista esqueça.

Em defesa do Protestantismo, as obras recentes mais notáveis são: a


Polêmica de Hase, escrita em excelente espírito; Claras razões para que não se filie à
Igreja de Roma, de Littledale; e A Infalibilidade da Igreja, de Salmon. Entre os últimos
católicos romanos da Europa que têm atacado as doutrinas e práticas de sua Igreja,
conta-se o Conde Von Hoensbroech, falecido em 1923, que, após ter sido jesuíta por
dezesseis anos, desmascarou, em numerosas obras a Companhia e o Partido
Ultramontano, no ponto em que seus ensinos se referem ao Estado, à razão e aos
direitos individuais, em matéria religiosa. Tratar-se-á, em outro lugar, dos assim
chamados Modernistas, que vão sendo excluídos da comunhão romana.

§ 9. Os Estados Unidos. – Desde o período primitivo da Nova Inglaterra,


ouviu-se o rumor da controvérsia Católica Romana. Em 1631, Richard Brown,
presbítero da congregação de Watertown, juntamente com seu pastor, Mr. Philips,
lembraram-se de expressar, como nos informa o Governador Winthrop, “a opinião de
que as igrejas de Roma eram verdadeiras igrejas”. As congregações de Watertown e
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Boston decidiram que Mr. Brown estava errado; mas, a despeito dessa decisão, o
ofensor persistiu em sua opinião a respeito da “igreja romana”; e, incidindo em outro
erro, foi despojado de seu ofício como presbítero. O Capitão Johnson, em sua
Maravilhosa Providência, não tem peias na linguagem, colocando o papa e o turco (1)
na mesma classe. Para ele, assim como para os demais puritanos da Nova Inglaterra,
Roma era sinônimo de Babilônia e o papa era o anticristo. O Governador Bradford fala
das cerimônias romanas como “drogas papais”, como “relíquias daquele homem de
pecado” e como “tolices papais e anticristãs, flagelo da Inglaterra nestes dias”. Pelas leis
do Massachussetts, 1647, os jesuítas que penetrassem na colônia deviam ser banidos e,
se voltassem, condenados à morte. Afortunadamente, não se tornou necessário aplicar a
lei. Não se deve esquecer que o padre Druillets, enviado do Governador do Canadá, foi
cortesmente tratado em Boston, Plymouth e Salém. No Norte, os protestantes franceses
eram impedidos de entrar na Nova França e, no remoto Sul, estava estabelecida a
Inquisição espanhola.

Vivendo um século após a promulgação da lei do Massachussetts, Jonathan


Edwards não se mostrou contrariado com a primitiva intolerância. Em sua História da
Redenção, que não consagra à Idade Média senão dez páginas de trezentas e noventa do
volume, emparceira o papa com Maomé e declara “que foi ordenado que aquele homem
de pecado, o anticristo, assentar-se-ia no templo ou na Igreja visível de Deus,
pretendendo estar revestido de divino poder, como cabeça da Igreja, e que tudo isso se
havia exatamente cumprido na Igreja de Roma”. Em sua “Humilde Indagação”, nega
que “os romanistas estejam própria e regularmente qualificados para a Ceia do Senhor”.
Para ele, o papado era a obra-prima de todas as maquinações do diabo contra o Reino de
Cristo. Edwards encontra um forte argumento de que as Escrituras são a Palavra de
Deus – “no provado cumprimento de passagens de Daniel e do livro de Apocalipse no
papa e na Igreja de Roma”. Entre os mais famosos estudos do assunto, feito durante o
primitivo período colonial, figura o sermão do dr. Jonathan Mayhew, de Boston, sobre a
Idolatria Papal, 1765, e um sermão pregado pelo rev. Hugh Jones, de Virgínia, e
publicado em 1745, sob o título de Um protesto contra o Papado. O primeiro ministro
da Nova Inglaterra a converter-se ao Romanismo foi João Thayer, cerca de 1782, o qual
serviu como sacerdote em Boston e em outros lugares. Seus artigos de polêmica com o
rev. George Leslie, de New Hampshire, foram publicados em Filadélfia, em 1795.
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Nos meados do século XIX, uma grave revolta popular, dirigida contra os
pretensos desígnios políticos da hierarquia americana, de subverter as instituições
nacionais, manifestou-se na Ordem dos Americanos Unidos e o movimento “Know-
nothing” fez-se acompanhar de atos de violência, praticados pela população em
Filadélfia, Charleston e outras cidades. Cincoenta anos depois, o mesmo sentimento se
corporizou na Ku-Klux-Klan, que buscava e conseguiu influência política em diversos
Estados. A discussão literária tomou a forma de cartas trocadas entre indivíduos em
desacordo, opúsculos e livros de maior tomo. A discussão que despertou maior atenção
foi, talvez, a série de cartas trocadas entre Kirwan e o arcebispo Hughes, de Nova York,
e entre o dr. Hopkins, bispo protestante episcopal, de Vermont, e o arcebispo Kenrick,
de Baltimore. Kirwan, cujo nome real era Nicolau Murray, clérigo de Elizabeth, New
Jersey, nasceu católico romano, na Irlanda, e tornou-se protestante depois de haver
chegado aos Estados Unidos. Sua primeira série de cartas, denunciando abusos
religiosos que se teriam praticado na Irlanda, acobertados pela hierarquia, apareceu no
New York Observer, 1847. Uma segunda série provocou réplica por parte do dr.
Hughes, consubstanciada em dez mensagens publicadas no Freeman’s Journal e depois
em seis cartas diretamente dirigidas a Kirwan. O dr. Hughes havia antes se empenhado
em controvérsia com o dr. João Breckinridge, de Princeton. Kirwan ainda dirigiu outra
série de cartas a Roger B. Taney, católico romano e magistrado dos Estados Unidos,
descrevendo o que o escritor havia observado numa visita a Roma, em 1852. Diga-se o
que disser da correção de Kirwan como jornalista; certo é, porém, que demonstrou ser
mau profeta, quando predisse que o “papado era então uma árvore abatida, cujos ramos
se separavam, e que em breve viria o tempo em que o historiador falaria da Igreja
Romana como de alguma coisa que havia sido mas já não era”. Por outro lado, os
Protestantes, somos demasiadamente ousados para esperar que o professor Grisar e
recentes colaboradores de jornais católicos romanos, que predisseram que o
Protestantismo na Europa e na América era uma causa perdida, igualmente se mostram
indignos de crédito.

A controvérsia foi também entretida por Brownlee, O Papado, Inimigo da


Liberdade Civil e Religiosa, 1836; Liman Beecher, Queixa do Oeste, 1835; Nevins,
Reflexões sobre o Papado, 1836; Edward Beecher, A Conspiração Papal Descoberta, e
outros escritores. O Princípio do Protestantismo, do dr. Philip Schaff, primeiro
divulgado sob a forma de discurso inaugural, 1844, e tendo em vista defender os
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princípios dos Reformadores Protestantes, acarretou ao autor um processo por heresia.


Nenhuma explanação, do ponto de vista protestante, tem-se colocado em plano mais
elevado do que o ensaio do dr. Channing.

Os principais querelantes que defenderam o Romanismo foram o arcebispo


Spalding e o cardeal Gibbons. O dr. Martin J. Spalding, 1810-1872, bispo de Louisville
e depois arcebispo de Baltimore, fez, em sua História da Reforma Protestante, a mais
cuidadosa exposição do ponto de vista Católico Romano, jamais produzida em solo
americano. As quatro proposições que o autor se empenhou em provar, foram: 1) Que
Lutero e os outros Reformadores não eram homens que Deus pudesse ter escolhido para
reformar a Igreja; 2) Suas razões não eram tais que Deus as pudesse sancionar; 3)
Nenhuma reforma na religião e na moral foi efetuada pela Reforma; 4) Sua influência
tem sido perniciosa à sociedade, ao governo liberal e à civilização. Em seu começo e em
seu desdobramento, a Reforma foi a operação de três grandes concupiscências; a cobiça
dos olhos, a cobiça da carne e a vaidade da vida. Lutero, humilde monge antes de 1517,
caiu como Lúcifer e deu expansão às paixões mais baixas. Quanto aos outros
Reformadores – afirma-o o bispo – “não eram, com inquestionável evidência, em coisa
alguma melhores do que Lutero”. Entre as muitas suspeitas infundadas do volume,
figura a de que Ana Boleyn era filha de Henrique VIII – Vol. 2:484 e segs.

A obra popular do cardeal Gibbons, morto em 1921, A Crença de nossos


Pais, que apareceu pela primeira vez em 1876, tem circulado em número não inferior a
2.000.000 de exemplares. Seu objetivo, conforme o autor anuncia, é tornar conhecida
“aos Protestantes a verdade do Catolicismo”. Desarmado por seu estilo suave, seu
espírito bondoso e pelas explicações satisfatórias de certas práticas romanas e certos
eventos da História, o leitor protestante, se não estiver de sobreaviso, corre o risco de
ser levado à convicção de que o conceito Protestante do sistema Romano tem sido total
e dolorosamente deturpado. Não que o cardeal Gibbons discorde de qualquer dos
dogmas romanos. Ele não o faz. Advoga a infalibilidade papal, pela qual votou em
Roma, e ainda o poder temporal do papa; mas tão hábil se mostra na apresentação desse
assunto, que aqueles e outros dogmas não parecem ser o que são, segundo os definiram
os decretos Tridentinos e Vaticanos. Tratando, por exemplo, da Bíblia, o cardeal
salienta que a Igreja, durante a Idade Média, foi guardiã do livro; e ele tanto se interessa
por esse fato – que ninguém, aliás, põe em dúvida – que faz o leitor desprevenido pensar
que a Igreja Romana foi então, e sempre tem sido, favorável á colocação da Bíblia nas
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mãos de toda gente. Quando se discute o sacramento do matrimônio, a questão do


divórcio é tratada de maneira a parecer que o Protestantismo é responsável por esse mal
e que os países católicos romanos são muito superiores às terras protestantes, em
castidade e fidelidade conjugal. Tratando dos direitos individuais, o autor realça a parte
que os barões católicos tiveram na elaboração da Magna Carta e o apoio dado a ela pelo
arcebispo Langton; mas passa por cima do fato de que Inocêncio III lançou pelo menos
três bulas anulando a Carta, no todo ou em parte, assim como sobre o fato de ter-se o
papa aliado a João contra os barões, suspendendo o arcebispo Langton. O cardeal faz a
perigosa afirmativa de que a Igreja “nunca, em decreto, advogou a tortura ou a morte
por motivo de consciência”. Inocêncio IV certamente que autorizou a tortura e, se João
Huss e milhares de outros não morreram por motivo de consciência, quem – pode-se
perguntar – foi jamais impulsionado pela consciência?

Entre os conversos americanos que defenderam o Romanismo com sua pena


ou pela tribuna, o mais notável foi Levi S. Ives, outrora bispo protestante Epicopal de
Carolina do Norte, com seu livro: Estágios da Mente em sua Marcha para o
Catolicismo; também merecem referência, Orestes A. Brownson e o padre Isaac T
Hecker, da ordem dos Paulinianos. Entre os conversos que militaram do lado
Protestante da controvérsia, figuram o padre Chiniquy – 1809-1899 – natural de
Quebec, com sua Autobiografia e outros escritos, e o barnabita A. Gavazzi, italiano –
1809-1889 – que pronunciou conferências nos Estados Unidos. Como fonte de
informações e de argumento, no que se refere ao lado Romano da controvérsia, o tratado
do cardeal Belarmino permanece inigualado. Pela mesma forma, as exposições
protestantes do século XVI, oriundas das penas de Lutero, Calvino, Jewel e outros
Reformadores, são insubstituíveis, quer em conhecimento bíblico, quer em vigor de
expressão e em evidências deduzidas da História. Depois dos dias dos Reformadores e
do cardeal, com os novos dogmas da Imaculada Conceição e da Infalibilidade Papal, e
com os mais recentes ataques do papa à liberdade do moderno estudo da Bíblia, novas
barreiras se têm levantado entre as duas comunidades. Na discussão dessas e de outras
discordâncias, seria possível a um escritor protestante, sem subestimar sua importância,
verberar o estado da mente de Andréas Musculus, patenteado em sua obra, em 1557,
quando alinha nada menos de vinte e sete pontos de contato entre os sistemas papal e
maometano, ou Conyers Middleton, que dois séculos mais tarde, 1729, tentava provar a
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“exata concordância entre o Papismo e o Paganismo”, e que “a religião dos romanos


atuais procede inteiramente da de seus ancestrais pagãos”?

Bibliogtafia e Notas

1- As opiniões divergem entre católicos, sobre a autoridade do Syllabus de


1864. Newman rejeitou alguns de seus artigos, estribado no fato de que eles não tinham
sido assinados por Pio IX. Carta ao duque de Norfolk, p. 108. Hergenrother, Manning,
Petri priv. 6:38; Lehm kuhl 2:780 e Straub 2:398-402, e Leitner, p. 115, declararam-na
infalível. Lord Acton, Cor.. p. 148, disse ser difícil de provar que o documento
constituísse uma declaração ex-cathedra, mas ser impossível provar o contrário. O dr.
Briggs referiu que Pio X lhe afirmara que o Syllabus não era infalível e, para o
demonstrar, aduziu a opinião de que a própria encíclica de Pio sobre o Modernismo não
devia ser encarada como pronunciamento infalível. Quanto à dificuldade de se decidir o
que seja uma decisão ex-cathedra, vide Dollinger, Papstthum, p. 227 e ss.

2- Dollinger-Reusch, Selbstbiog. D. Card. Bellarmin, p. 94, diz que “o livro


de Belarmino nunca foi publicado em Roma” – afirmativa aparentemente desmentida
por uma edição de 1840-30, datada de Roma. O processo de Beatificação de Belarmino,
iniciado em 1629, foi repetidamente interrompido, até que em 1866 foi finalmente
decidida. As objeções levantadas se referiam à suposta ambição do cardeal, nepotismo e
prevaricação.
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CAPÍTULO III

NECESSIDADE DE UMA REFORMA DA IGREJA NO SÉCULO XVI

Evangelizatio verbi est precisior quam ministratio alicujus ecclesiastici sacramenti.

A pregação da Palavra está acima da ministração de qualquer sacramento da Igreja. –


Wyclif, op. ev. I:375.

O Movimento Protestante do século XVI não foi como um continente que


surgisse sem que ilhas o anunciassem. Enquanto ia sendo construído o sistema
doutrinário e ritual da Idade Média, em diferentes partes da Europa apareciam sinais de
descontentamento – e um prolongado esforço se fazia para realizar um programa de
melhoria do estado da Cristandade Ocidental. A tentativa de melhorar as condições foi
conduzida nos séculos XIV e XV por grupos de homens religiosos, não excedidos, em
qualquer período da História da Igreja, na seriedade de seus propósitos morais. Ao
tempo em que se levantou o Protestantismo, a necessidade da Reforma da Igreja havia
alcançado seu ponto culminante, em face das corrupções do Vaticano. Os esforços feitos
no sentido de libertar a Igreja de suas baixas condições espirituais e morais terminaram
em completo insucesso, até que apareceu Lutero.

O ideal da Idade Média era um império religioso governado de Roma e


abarcando o mundo. Nele se incluía um Código, cujas leis se destinavam a regular todos
os atos humanos, e uma liturgia religiosa que encerrasse a todos os cristãos numa única
forma de culto. Exaltava-se o sacerdócio e desprezavam-se os direitos do homem
comum em face de Deus. O sistema fez do sacerdote o soberano da vida. Ao povo
bastava obedecer. Não é justo dizer que todo o individualismo tivesse sido aniquilado
por essa teocracia, que colocara em lugar da Divina Mensagem um sistema forjado pelo
homem. A Idade Média assistiu aos mais nobres eventos; o aparecimento do
escolasticismo, a fundação das universidades, a ereção das catedrais. Todavia, é verdade
que todos os movimentos se avaliavam segundo sua maior ou menor eficácia no
avolumar a autoridade do pontífice romano e da hierarquia. Qualquer iniciativa que
diminuísse aquela autoridade, era combatida por todos os meios, espirituais e seculares.

Esse sistema avassalador, que não conhecia lei fora de sua própria vontade,
foi, a princípio, contrariado pelos imperadores medievais, no interesse da independência
do governo civil e, a partir do ano de 1200, pela dispersa dissidência popular,
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revelando-se através da constituição de seitas cristãs e através de escritos inspirados nos


interesses da liberdade humana, sancionados pelo ensino dos Evangelhos e dos
Apóstolos. Um terceiro movimento de resistência veio dos homens da Renascença, cuja
riqueza de cultura afrouxava as algemas com que o poder sacerdotal havia agrilhoado o
espírito europeu. A despeito desses elementos de oposição, o sistema se mantinha
imutável. Finalmente, veio a Reforma Protestante, corporizando as aspirações de
liberdade intelectual e de liberdade de ensino Apostólico, num movimento que
demonstrou ser permanente.

§ 1. Os maiores abusos medievais. - Os três maiores males desenvolvidos


pela Igreja Medieval foram a presunção papal, o sistema sacramental e a Inquisição
papal. Pela teoria da supremacia papal, o pontífice romano se julgava vice-regente de
Deus, sendo sua voz equivalente à lei de Deus. A resistência que o indivíduo opusesse a
um decreto seu, era como um desafio lançado contra Deus. A salvação cristã se fundava
na obediência ao papa. A teoria de Gregório VII e de seus sucessores não apenas
entrega ao sumo pontífice o governo de toda a Igreja, mas até a suserania do poder civil,
tornando-se o mesmo pontífice responsável por todos os reinos e principados do mundo
cristão, dos quais daria contas a Deus. O que os papas asseveravam eles o cumpriam, até
onde fossem capazes. Henrique IV foi conduzido em humilhante submissão, a Canossa,
por Gregório VII, em 1076. O bravo Frederico Barbarroxa ajoelhou-se diante de
Alexandre III, por ocasião da Paz de Veneza – 1777. João da Inglaterra foi obrigado a
ceder suas prerrogativas reais a Inocêncio III. A casa Imperial de Hohenstaufen foi
levada à ruína pelos sucessores de Inocêncio, que declararam os herdeiros de Frederico
II “geração pestilenta de um dragão de raça venenosa” – digna somente de extermínio
deste mundo e de miséria no outro.

O sistema sacramental, segunda construção imponente da Idade Média,


comunicava certas graças celestiais a uma série de atos litúrgicos, cuja virtude se
derivava da ministração sacerdotal. Era prerrogativa do sacerdote retirar ou conceder o
dom da vida eterna.

A Inquisição, terceira dentre as maiores construções e misérias eclesiásticas


da Idade Média, tornou-se a polícia oficial da Igreja, por iniciativa de Inocêncio III. Ela
tratava qualquer divergência do sistema eclesiástico como o pior dos crimes, para o qual
a prisão ou a morte neste mundo e a perdição no mundo vindouro eram justas punições.
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§ 2. A Bula “Unam Sanctam”. – A teoria medieval do poder eclesiástico e


da dependência pessoal do sacerdócio encontra um sucinto delineamento na bula de
Bonifácio VIII, a unam sanctam, publicada em 1302. Por sua intolerável arrogância,
desacompanhada de força moral da parte do autor, a delivrance assinalou uma crise na
história do domínio papal e foi seguida por uma era de ardente controvérsia em torno da
extensão do poder papal. Bonifácio não soube discernir a mudança que ia
experimentando o pensamento europeu. Fora-se o tempo em que, a uma palavra do
Vaticano, rolavam exércitos para esmagar a inquietação religiosa. A Europa parecia
pronta para um líder espiritual. Não deu as boas-vindas a um edito arbitrário. Quando
Bonifácio foi eleito para o trono papal, o papado estava no pináculo de seu poder; por
ocasião de sua morte, encontrava-se humilhado até o pó. Considerado do ponto de vista
dos direitos humanos, nenhum pensamento mais sinistro saiu do Vaticano, do que a bula
de Bonifácio, só se abrindo exceção para o decreto Vaticano da Infalibilidade Papal.
Bonifácio fez três reivindicações: 1. A Igreja Cristã é um organismo único, sob o
governo do bispo de Roma, a quem os gregos que “não são ovelhas de Cristo” devem
obediência – para que entrem na nova arca de Noé, que é o refúgio da salvação. 2. O
papa exerce autoridade sobre ambos os reinos – o espiritual e o civil. Com a espada
espiritual distribui castigos espirituais; a espada civil deve ser desembainhada quando o
papa ordena que tal se faça. 3. É inteiramente necessário a todo homem, para ser salvo,
sujeitar-se ao romano pontífice – subesse romano pontifici omnino esse de necessitate
salutis.

Essa peça resultou numa verdadeira bomba e desencadeou as forças


vigorosas do descontentamento. Ataques contra as pretensas prerrogativas do papa se
fizeram desde Roma até Paris, e de Oxford a Praga – ataques tais como o papado nunca,
em séculos precedentes, tinha sido obrigado a enfrentar. Felipe IV de França, para quem
a bula parecia conter alguma advertência, transformou-se em contendor do pontífice.
Com o parlamento francês diante de si, denunciou a fulminação como obra do orgulho.
Afirmando a independência do poder civil, disse ao papa que a Igreja é composta tanto
de leigos como de clérigos – e apelava para um papa legítimo e um Concílio Geral. A
humilhação de Bonifácio se completou quando foi preso por soldados franceses em,
Anagni. Posto em liberdade e restituído ao Vaticano, morreu em desespero ou, como
afirmou seu médico espanhol – fora de seu juízo.1

§ 3. O Exílio de Avinhão e o Cisma Papal, 1305-1417. – Tendo morrido


DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Bonifácio, a Cristandade ficou sem papa certo número de meses. Afinal,


Felipe conseguiu que um arcebispo francês fosse eleito papa. Sob o nome de Clemente
V, foi o novo papa coroado em território francês e instalou em Avinhão a sede papal: ali
os papas continuaram a residir por mais de setenta anos. Esse período, chamado
cativeiro babilônico do papado, foi seguido nos últimos quarenta anos, pelo cisma
papal: dois pontífices, cada qual protestando ser o sucessor legítimo de S. Pedro,
reinaram contemporaneamente, um nas margens do Tibre, outro nas margens do
Ródano. Graças a esses eventos, abalou-se a teoria segundo a qual Roma era o centro
divinamente indicado do poder eclesiástico. Os mesmos eventos também despertaram
na mente de alguns a convicção de que a Cristandade bem podia passar sem papa. Esta
última idéia ainda mais se fortaleceu em face da corrupção moral da corte de Avinhão,
que se tornou o opróbrio da Cristandade. O palácio papal havia se convertido no
principal balcão da Europa. A avidez de seus exércitos de secretários e seu tráfico
desabusado de emolumentos da Igreja tornaram-se, na época, o principal motivo de
queixa. A simonia, certa vez tão fortemente denunciada por Gregório VII, tornou-se o
pecado ilustre da Cristandade. Escrevendo a respeito do primeiro papa de Avinhão,
Clemente V, e de seu sucessor, diz Pastor que a luxúria e a vida dissoluta prevaleciam
na corte papal em escala alarmante. O papa não somente exercia o direito de preencher
todos os cargos eclesiásticos, mas foi muito mais longe: estabeleceu o sistema de
reservas e expectações, mediante o qual os candidatos recebiam nomeações para
sucessores em bispados e em outras dignidades, enquanto os respectivos titulares ainda
viviam. De todas as partes da Europa ocidental os litigantes traziam suas causas a
Avinhão, o que ensejava ao pessoal da residência pontifícia inesgotável fonte de
extorsões. Em seu Lamento da Igreja, Álvaro Pelayo, bispo da época, bem
familiarizado com as coisas sobre que escreveu, relata que todas as vezes que penetrava
nas câmaras papais, encontrava mesas cobertas de moedas de ouro e uma hoste de
empregados eclesiásticos contando-as e pesando-as. Petrarca, que visitou Avinhão,
chamou-a Babilônia Ocidental e atribuiu à vida que ali se levava “tudo quanto de
medonho jamais existiu ou foi imaginado por um espírito em desordem”. A cidade era o
Monte Carlo da época.

O cisma papal, que começou em 1378, veio a ser, se possível, desgraça


ainda maior que o exílio de Avinhão. Pastor o qualifica como a maior calamidade que se
poderia imaginar viesse sobre a igreja. A túnica inconsútil de Cristo parecia partida em
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duas. Os escritores contemporâneos lamentavam que a Igreja não mais pudesse dizer:
“Meu pombal é um”. A Europa estava dividida entre as duas obediências papais, como
eram chamadas. Cada pontífice tinha seu próprio colégio de cardeais e cada um
fulminava maldições contra o outro, considerando-o usurpador. A simonia progrediu em
ambas as residências papais. De Bonifácio IX, da linha romana, disse um
contemporâneo que ele não passava de uma voragem insaciável. – vorago insatiabilis.
Outro escritor da época, Adão de Usk, afirma que, “embora saturado de simonia,
Bonifácio não ficou satisfeito até o dia da morte”.

§ 4. Tentativas de Reforma da Igreja. – Os escândalos centralizados no


ofício papal determinaram que, de grande parte da Cristandade ocidental, se erguessem
clamores em prol de reformas na Igreja. Por mais de um século a reforma da Igreja foi
assunto absorvente, uma reforma na cabeça e nos membros – in capite et membris – isto
é, do papa para baixo. As exposições teológicas da época precedente, escritas por
eruditos, deram lugar a resoluções aprovadas por universidades e a oportunos tratados
reclamando a remoção de prementes abusos da Igreja. Títulos como: Ruína da Igreja e
Necessidade de Reforma dão certa idéia de sua intenção. Não se questionava sobre se a
Igreja padecia de enfermidade; a questão era saber-se como poderia ser debelada a
enfermidade.

Depois de inúteis apelos aos pontífices rivais, no sentido de conciliarem o


cisma e a remediarem as calamitosas condições, o recurso preconizado pelas principais
autoridades da Europa e pelos cardeais das duas obediências foi um Concílio Geral. A
esse plano razoável os dois prelados, cada qual alegando ser legítimo chefe da
Cristandade, negaram assentimento. É provável que nenhum dos Concílios da Igreja se
reuniu jamais sob o domínio de tal sentimento de pureza de propósitos e com mais altas
esperanças do que os três Concílios da primeira metade do século XV, que se instalaram
em Pisa, Constança e Basiléia, e são conhecidos na história como Concílios
Reformatórios. Eles deram fim ao cisma papal; mas, como instrumentos destinados a
instituir reformas, falharam. O Concílio de Pisa, 1409, depôs os papas rivais de Roma e
de Avinhão, como “notórios heréticos e cismáticos, ofensores da unidade da Igreja”, e
elegeu em lugar deles Alexandre V. Então a Cristandade assistiu ao espetáculo de três
pontífices, cada qual pretendendo ser o sucessor legal de S. Pedro; porque ambos os
reclamantes, de Roma e de Avinhão, recusaram-se a abdicar. Quanto às medidas para a
reforma dos abusos da Igreja, o Concílio adiou para uma reunião futura.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

A reunião de Constança, 1414-1418, uma das mais notáveis que jamais


houve em solo europeu, tornou-se famosa por três coisas: solenemente proclamou a
superioridade dos Concílios Gerais sobre o papa; queimou a João Huss e Jerônimo de
Praga; debelou o cisma papal. Embora durasse quatro anos, o Concílio não fez grande
progresso no embaraçante problema de corrigir os abusos da Igreja, tarefa que do
mesmo modo se transferiu para um Concílio futuro. O terceiro Concílio Reformatório,
reunido em Basiléia, em 1431, teve contra si o papa; e em Ferrara, para onde fora
transferido por Eugênio IV, a reforma da Igreja nem figurou entre os tópicos abertos à
discussão. Assim, todas as altas esperanças de livrar a Igreja dos males com que era
castigada, embora sustentadas pelos principais eclesiásticos da Europa, e reunindo três
notáveis assembléias da Igreja, foram totalmente dissipadas.

§ 5. Escritos anti-papais. – De outra parte, a pena de escritores avançados


enfraquecia a autoridade do papado. Duas séries de vigorosas composições tiveram
início a propósito da contenda de Bonifácio VIII com Felipe IV. Os primeiros atacavam
as pretensões civis e espirituais do papado. Entre seus autores figura Dante que, em sua
Monarquia, denunciou a aspiração do papa à supremacia temporal e insistiu em que o
imperador recebia de Deus sua investidura, por livre direito; e Constantino, conferindo,
como se alegava, poderes temporais a Silvestre, agira sem autoridade para tal. Do grupo
que atacou as funções espirituais do papado, Marsílio de Pádua e Wyclif são os mais
proeminentes. Marsílio, um dos mais famosos panfletários da história, sustentou em seu
Defensor da Paz muitas das atitudes mais tarde assumidas pelos Reformadores
protestantes, tanto que Dollinger tem toda razão em chamá-lo – um Calvino completo
antes de Calvino. Assegurou que a autoridade conferida a Pedro não era maior do que a
dos demais apóstolos; que o papa conserva sua investidura, não por sanção divina, mas
apenas na medida em que é reconhecido pelo Estado; que as Escrituras são a autoridade
final; que os leigos devem tomar parte nos Concílios da Igreja e que a função de ligar e
desligar é declarativa e não judicial. Como Frederico II comparou Gregório IX ao
cavaleiro montado no cavalo vermelho do Apocalipse, que destruiu a paz da terra, assim
Marsílio trata o pontífice então reinante, João XXII, de “o dragão, a serpente antiga”.
Wyclif, como se verá depois, foi igualmente audaz, e foi além, se possível, do italiano.
As novas e frutíferas idéias tinham repercussões em Roma e em todo o mundo, e
atraíam os mais severos castigos fulminados contra os que cuidassem de as propalar.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

§ 6. O Pietismo no norte. – As reformas que os Concílios não foram


capazes de iniciar, foram realizadas, em certa extensão, nas regiões ribeirinhas do Reno,
da Suíça ao Canal Inglês. O movimento, conhecido pelo nome de Misticismo
Germânico ou Dominicano, espalhou-se como raiz retirada de chão arenoso – e
principalmente nos meios leigos. Não atacou as instituições eclesiásticas prevalecentes;
mas, dando ênfase à religião pessoal e à vida correta, exaltava a piedade quotidiana em
detrimento da aliança desigual dos sacramentos com o poder sacerdotal. Dignificava
todas as ocupações legítimas, considerando a fidelidade do sapateiro tão honrosa quanto
a fidelidade do prelado. Em seus sermões, Meister Eckart, um dos chefes do
movimento, insistiu em temas tais como a filiação dos crentes, a cegueira do homem
natural e a imediata iluminação do Espírito. João Tauler pregou muito sobre a conversão
– kehr – e a piedade diária. Gerhard Groot e outros, na Holanda, cuidaram de auxiliar
aos necessitados por meio de obras filantrópicas. Esses grupos pietistas usavam a língua
vulgar nos sermões e copiavam manuscritos. Sua mais ampla influência se exerceu
através das escolas em que eles ensinaram e que foram por eles fundadas. O derradeiro
fruto de sua atividade foi a Imitação de Cristo, de Tomaz à Kempis, e o volume
conhecido como a Teologia Alemã, em que se exalta a fé em Cristo como o meio
suficiente de salvação. Este último livro foi posto no Index como pernicioso, em 1621.
Lutero, que foi muito influenciado pela obra, qualificou-a como um poço profundo de
sabedoria religiosa e comparou-as às águas puras tiradas da torrente do Jordão por
algum Natanael. Aqueles místicos alemães apontaram o caminho da religião pura e
imaculada e, embora tivessem afetado pouco a Igreja da época, prepararam o terreno
para a Reforma alemã.

§ 7. Reformadores Doutrinários. – A baixa condição espiritual da Igreja


despertou outro grupo de reformadores doutrinários; estes foram mais longe do que os
Concílios Reformatórios, que apenas cogitaram de introduzir reformas na administração
por meios constitucionais, e ainda mais longe foram do que os místicos, que se
contentavam com as obras da piedade prática. Aqueles homens deliberadamente
atacaram as definições e dogmas medievais e fizeram distinção entre as Escrituras e aa
interpretações eclesiásticas. Pertenciam a diversas partes da Europa: Wyclif à Inglaterra,
Huss à Boêmia, Wessel e João de Wesel à Holanda. A esse número também pertence
Savonarola, de Florença. Alguns desses reformadores foram presos; outros, como Huss,
Jerônimo de Praga e Savonarola, foram queimados. Wyclif morreu de morte natural,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

mas, por ordem do Concílio de Constança, seus ossos foram exumados e reduzidos a
cinzas.

João Wyclif – 1320-1384 – a figura talvez mais eminente da história


religiosa da Inglaterra, é merecidamente chamado a Estrela d’Alva da Reforma.
Combateu, como patriota, o tributo anual de 1.000 marcos, que Inocêncio III havia
imposto ao rei João; como guia religioso, censurou os monges em razão de sua
ignorância e preguiça e pela desilusão que eles causavam ao povo. Apegando-se ao
Novo Testamento como suprema fonte de verdade religiosa, pôs à margem a
transubstanciação e outras doutrinas e práticas correntes na Igreja, coisa que ele
considerava “novidades” recentemente introduzidas na Igreja. Insistiu no direito de todo
leigo à posse das Escrituras em sua própria língua. Em relação ao papa, a severidade de
Lutero excedeu de muito pouco à do professor e publicista de Oxford. Wyclif denunciou
o pontífice como o pior dos ladrões, exortando-o a abandonar a pompa mundana e a
vanglória, regressando à simplicidade dos Apóstolos. Logo após sua morte, seus ensinos
provocaram o ato inglês que autorizava a queima de hereges – 1402.

Na Boêmia, Wyclif veio a ser conhecido como o quinto evangelista. Seu


espírito foi assimilado por João Huss, de praga. Jamais teve um mestre mais devotado
discípulo. Como o inglês, Huss era tanto um patriota como um reformador religioso, e,
também como aquele, era professor de universidade e pregador. Seus escritos tornaram-
no o principal autor entre os checos. Ele censurava o clero por seus pecados.
Denunciava a fraude das relíquias sagradas. Pregava contra a venda de indulgências.
Continuou a sustentar Wyclif depois que os escritos deste foram publicamente
queimados pelo arcebispo de Praga. Intimado a ir a Roma, recusou-se a obedecer. Por
sugestão de Segismundo e com promessa de salvo-conduto, foi a Constança, onde
esperava que o ensino da Escritura fosse tratado como soberana autoridade. Foi metido
na prisão, tomaram-lhe a Bíblia e condenaram-no à morte, o que foi feito pelo Concílio
de Constança, sem que uma única voz se erguesse em sua defesa. Após ter sido
emparelhado com os piores heréticos e sua alma encomendada ao diabo, foi entregue ao
braço secular e queimado. Dando seu último testemunho perante o Concílio, na catedral,
expressou o desejo de que sua alma fosse para onde se achava a de Wyclif. Com seu
mestre inglês, Huss definiu a Igreja como o corpo dos eleitos, asseverando que a Igreja
Romana é uma comunhão particular e não a totalidade do corpo dos crentes. Seu
testemunho acerca da soberania da consciência dificilmente tem sido igualado pelo
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

homem. Quando foi convidado a retratar-se, ele negou a isso, dizendo: “Não suceda que
eu peque contra a consciência e contra a verdade de Deus”. Depois de se ter
familiarizado com a obra de Huss – Sobre a Igreja – Lutero escreveu a Leão X, em
1520: “Digo-o diante de tua face, Santíssimo vigário de Deus, que todos os artigos de
João Huss, condenados em Constança, são verdadeiros e cristãos”. Mais tarde ele deu
testemunho de que, se jamais o sol brilhou sobre um homem cristão e mártir, esse
homem foi João Huss.

O movimento de Florença, conduzido por Savonarola, em prol de


transformações políticas e de aspirações morais, levou Savonarola à fogueira. O
pontífice então reinante, Alexandre VI, só viu no monge um perturbador da paz e um
sacerdote rebelde e escreveu que ainda que ele fosse outro João Batista, mesmo assim
seria condenado à morte. Já com a respiração ofegante de moribundo – 1498 – e
desafiando a autoridade pontifícia, quando o bispo de Vasona pronunciou as palavras:
“Separo-te da Igreja militante e triunfante”, Savonarola replicou: “Não; da Igreja
triunfante, não”. Esses homens, Wyclif, Huss e Savonarola, conhecidos como
Reformadores antes da Reforma, deram digno testemunho de que a autoridade das
Escrituras é, na Igreja, superior a toda autoridade humana, testemunho que, em tempos
mais favoráveis, o mundo estaria pronto a escutar.

§ 8. Os últimos papas da Idade Média. – Não menor testemunho de toda


eloqüência, acerca da necessidade de uma reforma da Igreja, foi a corrupção da corte
papal, durante o derradeiro meio século da Idade Média. Podia parecer fosse propósito
divino tornar manifesto, pelas vidas desregradas dos últimos papas medievais, que o
Reino de Deus sobre a terra sobreviveria, apesar do desafio que os líderes da Igreja
pudessem lançar contra as leis daquele Reino. De 1470 a 1517, a corrupção do Vaticano
e dos cardeais ultrapassou a dissolução do período de Avinhão, pelo menos na prática
ostensiva do mundanismo, frivolidade e extravagância, excedendo-se em sensualismo.
Essa condição moral do papado ainda continuou por duas gerações, após 1517. O apego
dessa sucessão de pontífices ao prazer e aos assuntos mundanos era tão flagrante, que
Pastor, historiador católico romano, ousou comparar esses papas aos indignos
imperadores dos primitivos séculos cristãos. As dignidades e os benefícios eclesiásticos
pareciam existirem com o propósito único de habilitar o sumo pontífice da Cristandade
a enriquecer seu erário. Cada ofício eclesiástico tinha um preço. Era como se os papas
encarassem sua autoridade, antes de tudo, como alguma coisa que oferece oportunidade
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

de enriquecer os sobrinhos e outros parentes com títulos eclesiásticos e com situações e


ofícios civis. Bastam os seguintes exemplos: Sixto IV nomeou cardeais a três de seus
sobrinhos, assim como a um sobrinho-neto, Rafaeli Riario, de dezessete anos.
Alexandre VI, que havia nomeado seu filho, César Bórgia, arcebispo de Valência,
quando contava ele dezesseis anos, fê-lo cardeal aos dezoito. Paulo III, 1534-1549 –
admitiu ao Sacro Colégio seus netos, Alexandre Farnese, de quatorze anos, Guido
Sforza, com dezesseis e um sobrinho de igual idade. O chapéu vermelho e a mitra se
vendiam aos que oferecessem mais elevados lances. Sem darem atenção às
qualificações espirituais, os príncipes reclamavam para os filhos as mais altas honras da
Igreja. João de Médici, depois Leão X, foi feito cardeal aos treze anos; Hipólito de Este,
seu primo ilegítimo, aos quinze; João de Aragão, aos quatorze; um filho do rei da
Polônia, aos dezenove; um filho do rei de Portugal, aos sete anos. Um filho ilegítimo de
Fernando de Espanha foi arcebispo de Saragoça aos seis anos. Em toda sua história, as
acumulações de encargos eclesiásticos (pluralismo), o absentismo e a simonia não
tiveram período mais florescente como o quadro que se abre entre Sixto IV e Paulo IV.
Pastor, citando a Regesta de Leão, fala de cincoenta e cinco benefícios eclesiásticos
tocando a um único caçador de curatos. Durante o século XV, um menino de dez anos e
outro de dezessete anos, ocuparam a sé de Genebra. Na França, João, filho do duque de
Lorena, nomeado bispo coadjutor de Metz aos cinco anos de idade, e entrando em pleno
exercício do cargo sete anos depois, arrebanhou para si, um após outro, os bispados de
Toul e Terouanne, Valence e Die, Verdun, Alby, Macon, Agen e Nantes. A esses cargos
foram adicionados, em sucessão, os arcebispados de Narbona, Reims e Lyon. Na
Alemanha, havia casos de não menos de vinte benefícios tocando a um só eclesiástico.
Dos duzentos e vinte e oito bispos alemães que ocuparam seus cargos entre 1400 e
1517, todos, com exceção de treze, eram nobres. Na Inglaterra, a nomeação de italianos
para altas posições havia, desde longo tempo, constituído assunto de fortes queixas. O
conceito popular em que eles eram tidos foi revelado por Latimer, em 1549, quando
disse: “Esses chapéus romanos nunca trouxeram felicidade à Inglaterra”.

Os cardeais que residiam em Roma não procuravam resguardar as amantes


das vistas do público. A paixão do jogo os envolvia na perda ou no ganho de somas
enormes, em uma só noitada. Os papas assistiam a sujas comédias, representadas no
Vaticano e os cardeais se misturavam às senhoras que acorriam, como convidadas, às
brilhantes diversões que os papas arranjavam. Os filhos de papa eram dispensados por
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

seus pais dos votos sacerdotais, para que pudessem casar-se. A praça de S. Pedro se
transformou em tourada no dia em que o filho do papa, César Bórgia, vestido de
toureador, lutou na arena, como se deu no festival de 1492, para comemorar a libertação
da Espanha do domínio dos mouros. Escândalos dessa espécie foram presenciados por
dignitários do Vaticano, seus contemporâneos, como Infessura, Platina e Burchard, mais
tarde bispo. A negra escala ascendente de depravações morais que envolveu Alexandre
VI, pontífice durante os últimos anos do século XV – 1492-1502 – forçou Pastor a dizer
que o “demônio da sensualidade continuou a dominá-lo até o fim da vida”.2 Pelo menos
sete de seus filhos foram legitimados, quer pelo papa seu antecessor, quer por ele
próprio. As cartas de Vanozza, mãe de cinco deles ainda existem. Lucrécia, filha de
Alexandre e estrela da cidade papal, casou-se sucessivamente com três cavalheiros.
Suas terceiras núpcias foram celebradas com brilhantes festas no Vaticano, em presença
de cardeais e de cento e cincoenta damas de honra, que permaneceram até às cinco
dançando e assistindo a comédias. Quatro cardeais acompanharam César Bórgia, então
dispensado das ordens sacras, em viagem de Roma à França, para desposar sua eleita. O
sucessor imediato de Alexandre, Pio III, pai de numerosa família, bem depressa cedeu
lugar a Júlio II, conhecido como o papa guerreiro. As três filhas de Júlio não deram
escândalo no Vaticano, como havia acontecido no tempo de Alexandre. Júlio,
entretanto, não trepidou em nomear cardeais a quatro de seus sobrinhos. Era mais
soldado que sacerdote e no campo envergava uma cota de malha. Uma comédia
representada num teatro de Paris, em 1514, pouco tempo depois da morte do pontífice,
mostra-o à porta do céu, impedido ali de entrar por S. Pedro, o porteiro. Júlio reclama,
falando da opulência de Roma, de suas guerras e da multidão de empregos que
estiveram ao seu dispor, Como S, Pedro pedisse que o recém-chegado lhe dissesse
alguns de seus atos como vigário de Cristo e não lograsse resposta, o Apóstolo declara-o
pervertedor da Igreja e toma-o como o imperador Julião, o Apóstata, de regresso do
inferno.3

No pontificado de Leão X, 1513-1521, Lutero começou sua carreira. O


Vaticano era centro de alegria e boa vida. O jovem papa revelou o conceito em que
tinha o papado através de uma carta endereçada ao irmão: “Deus nos deu o papado.
Gozemos dele”. Leão era bom camarada. Era condescendente. Tinha boa aparência:
veio para o Vaticano com botas de caçador, passava dias seguidos em sua cabana de
caçada e assistia a comédias representadas no Vaticano. A despeito das rendas
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

provenientes dos domínios papais e do arrendamento de privilégios comerciais na


cidade de Roma, foi forçado a empenhar a tiara papal para fazer face aos gastos que
seus empreendimentos acarretavam. Quando Leão morreu, o tesouro papal estava com
um débito de 800.000 ducados. Seu pontificado, uma felicidade para si mesmo, foi um
desastre para a Cristandade Romana. O papado se tornara um peso morto para o
Cristianismo. Em sua história do Concílio de Trento, Sarpi observaque “Leão teria sido
um papa perfeito, se houvesse adicionado a suas demais qualidades algum
conhecimento dos negócios de religião e maior inclinação à piedade, para os quais não
manifestou grande interesse”. Não era imperiosa a oportunidade para que Lutero
escrevesse a Leão X: “É mais claro do que o dia que a Igreja Romana, outrora a mais
santa de todas, tornou-se no mais licencioso covil de ladrões, no mais impudico de
todos os lupanares, reino do pecado, da morte e do inferno, de modo que, nem mesmo o
anticristo, se viesse, nada poderia imaginar para acrescentar a essa iniqüidade”?

O sucessor de Leão, Adriano IV, 1521-1523, subiu ao trono papal com a


mente inclinada ao empreendimento de melhores coisas, mas apenas conseguiu atrair o
abandono e o ridículo por parte dos romanos. Sob seus sucessores, Clemente VII, Paulo
III e Júlio III, agravaram-se as vergonhosas condições. De fato, tão próximo chegara o
papado a ser tido como presa mundana, que o imperador Maximiliano tomou medidas
tendentes a incorporá-lo à coroa imperial.

§ 9. Abusos clericais. – Com tais escândalos avançando em Roma, capital


do mundo cristão, nenhum movimento geral tendente a reformas poder-se-ía esperar do
clero europeu. Ao longo de anos nem uma só reforma de ordem moral fora alvitrada
pelo Vaticano – e quem quer que propusesse reformas, como o admirável cardeal de
Cusa, era reprimido, acabando no cárcere ou na fogueira. Na Itália, poucos padres
sabiam ler, ou talvez nenhum. No país de que partiu a Renascença, esta não
proporcionou melhoria à moral clerical, Pelo contrário: aquele movimento foi seguido
da paganização da sociedade. Sua cultura floresceu num pântano de confusão moral e
revivificou o ateísmo. Bocaccio e Aretino satirizaram o celibato clerical e zombaram
dos exercícios religiosos. As Facetiae, ou Anedotas, de Poggio, que morreu em 1459,
após ter sido secretário de oito papas, e as Histórias de Bebel, 1497, professor em
Tubingen, estão tão repletas de obscenidades, que provavelmente as mais baixas
revistas de hoje se recusariam a reestampá-las.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

No Norte, onde havia um movimento orientado para coisas melhores, a


preguiça e ignorância do clero eram tais, que provocaram o ridículo de Erasmo e de Von
Hutten. Em Roma, como referia este último, um mesmo pálio de arcebispo fora vendido
duas vezes no mesmo dia. Três coisas, disse ele, eram expostas à venda na cidade santa:
Cristo, benefícios eclesiásticos e mulheres, e três coisas afligiam os romanos: a paz
entre os príncipes, a ilustração e a descoberta das fraudes piedosas. As dietas alemãs de
1461 a 1523 formularam queixas contra a moral e a concussão de Roma. Em 1502 e
1510 resolveram elas que o dinheiro coletado pela venda de indulgências não devia sair
da Alemanha. O real inimigo do Cristianismo – declarou a dieta de 1518 – não era o
turco, mas “o bruto do inferno, em Roma”. A dieta de 1522 e outras dietas lamentaram a
desfaçatez dos sacerdotes alemães, corrompendo mulheres, e a dieta de 1523, alinhando
em cem artigos os abusos sob os quais cambaleava a religião na Alemanha, citava como
prova o concubinato clerical, tolerado pelos bispos em troca de dinheiro. A tão grande
altura havia chegado aquele mal que, na Suíça, certas paróquias obrigavam os
sacerdotes a se casarem, como meio de proteção às famílias. Na diocese de Constança, o
imposto arrecadado em 1502, na base de 4 florins por filho de padre, somou 7.500
florins. Na diocese de Bamberg, uma faixa de 5 florins foi lançada sobre cada criança
naquelas condições: em 1512 o produto de semelhante taxa rendeu 1.500 florins. Em
1505, na primeira sessão da dieta alemã, a temporada de danças foi aberta pelo
arcebispo de Colônia, tendo uma abadessa, com freiras de Santa Úrsula e Santa Maria,
tomado parte na festa, com assistência do imperador Maximiliano. Sacerdotes, como
Zwinglio, que se uniram aos Reformadores, tinham vivido em concubinato, ou, como
Bullinger e Leão Jud, eram filhos de sacerdotes. O historiador católico, Janssen, fala da
libertinagem nas catedrais da Alemanha e da ignorância dos cânones como coisas
proverbiais, apelando para os decretos dos Sínodos, que não deixavam dúvidas sobre o
fato de que a maior parte do clero alemão havia quebrado, sem escrúpulos, os votos de
celibato.

Na Inglaterra as coisas eram um pouquinho melhores. O cardeal Wolsey


estabeleceu o exemplo de violação da lei da castidade. A ignorância quase incrível do
clero é atestada pelo relato de uma visita pastoral feita pelo bispo Hooper, em 1551: de
trezentos e onze clérigos examinados, cento e sessenta e oito, em sua diocese, foram
incapazes de repetir os Dez Mandamentos; quarenta não puderam dizer onde se
encontrava o Pai Nosso e trinta e um não sabiam dizer quem era o seu autor. No sermão
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

pregado em Stamford, Latimer disse que se habituara a recitar o Pai Nosso antes e
depois de cada sermão, visto ter encontrado muita gente que o não conhecia. A Petição
do Mendigo, escrita nas vésperas da Reforma inglesa, acusava o clero inglês de não ter
outra ocupação séria a não ser a destruição da paz das famílias pela corrupção das
mulheres. Tyndale é autoridade competente para declarar que os clérigos possuíam
concubinas, não só comprando a dinheiro aos arquidiáconos, o privilégio, mas também
mediante licenças expedidas pelo papa. Na Escócia os prelados abertamente casavam as
filhas com os filhos dos nobres. O cardeal Beaton tinha sete bastardos. Em 1546 sua
filha mais velha se casou com o conde de Crawford. A filiação ilegítima não constituía
obstáculo ao exercício de cargos eclesiásticos. O filho natural de Tiago IV se tornou
arcebispo de Santo André aos dezesseis anos. Cinco filhos bastardos de Tiago V foram
colocados à testa de outras tantas abadias escocesas. O arcebispo Himalton, de Santo
André, era filho ilegítimo do conde de Arran e abertamente reconhecia a seus filhos.4

§ 10. Superstição e feitiçaria. – A essas condições, que tornavam


imperiosa uma enérgica reforma da cristandade, somavam-se as superstições populares
e o encorajamento que elas recebiam do papa para baixo. Os crédulos, na Alemanha e
na Inglaterra, corriam em massa para os altares onde se expunha ao público, em Durren,
o crânio de Sant’Ana; em Wilsnack, a hóstia ensangüentada; o vestuário de Tomaz à
Becket em Canterbury; a imagem de nossa Senhora que movia a cabeça e o leite
coagulado saído de seu peito, em Walsingham. Roma tomou a dianteira, dando crédito
às mais selvagens falsidades e apadrinhado-as. Em 1462 a cabeça de Santo André foi
adicionada às outras relíquias da basílica de S. Pedro, tendo sido à chegada recebida
com brilhantes cerimônias e um panegírico pregado por Pio II, congratulando-se com o
crânio silencioso pelo fato de ter sido finalmente libertado das mãos do turco e de achar
lugar de repouso ao lado do irmão do Apóstolo, Pedro. Cerimônias ainda mais
pomposas, se possível, foram organizadas em Roma para a recepção da Santa Lança, a
pretensa arma com que Longuinho havia ferido o lado do Salvador. A sagrada relíquia
tinha vindo das mãos de uma personagem que era, sem tirar nem por, o Sultão Bajazet.,
e semelhante circunstância tirava todo interesse ao fato de andar a Lança sendo
disputada, ao mesmo tempo, pelas duas cidades de Nurenberg e Paris.

Encaminhando-nos para o futuro cenário da Reforma, somos levados aos


notáveis relicários do Norte, às 5.005 relíquias de Wittenberg, colecionadas quando o
Reformador contava vinte anos, e às ainda maiores coleções de Halle, com 8.933
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relíquias, pertencentes ao arcebispo de Mogúncia. Entre os tesouros de Wittenberg,


figuravam um dedo de Sant’Ana, a “bendita avó”, e também sua mão direita; leite do
seio da Virgem; um fragmento da coroa de espinhos e palha da manjedoura de Belém.
Uma relação, em 1507, oferece detalhada notícia da exposição e do divertido pasmo
com que um estudante olhava para os sagrados objetos. Não se maravilhe alguém de
que ele exclamasse que, se seus antepassados ainda vivessem, julgariam que a própria
Roma tivesse sido trasladada para a cidadezinha alemã.5

Quanto à feitiçaria, basta que neste lugar se diga que, como a Idade Média
tocava ao fim, a crença na influência maléfica ocasionada pelo contato íntimo de
homens e mulheres com os demônios, conduzia às chamas milhares de vítimas. A
crendice assumiu as proporções de pânico quando Inocêncio VIII, justamente uma
geração antes do começo da Reforma, ordenou que os inquisidores da Alemanha
cumprissem seu dever de entregar à morte as pessoas suspeitas de serem fascinadas por
aliança com o maligno.

Se a história dos dois últimos séculos da Idade Média, os séculos XIV e XV,
for devidamente estudada, ver-se-á que eles oferecem o espetáculo de tal perversão da
verdadeira crença, que eclesiásticos notáveis, como Gerson e d’Ailli, e pensadores
independentes, versados em teologia, tentavam remediar em vão, uns por meio de
reformas na administração dos negócios eclesiásticos, outros pela simples volta ao
Novo Testamento, como Código autorizado da Igreja. Se Israel teve seus profetas nos
tempos de declínio, profetas que clamavam pelo arrependimento em pó e cinza para a
reforma nacional, assim aconteceu com a Igreja durante aqueles dois séculos.

Como os profetas hebreus, os escolásticos do século XV foram


completamente derrotados. O interesse e a paixão moral da administração papalina
venceram. A sugestão do regresso aos princípios originais do Evangelho foi tratada
como a proposta de abolição da escravatura teria sido acolhida pelo Senado Romano, no
primeiro século de nossa era. Os pontífices, que se presumiam chefes da Cristandade,
não foram sequer a aparência da piedade. A noite era negra. Nenhum auxílio se
entremostrava. Conquanto em outros domínios, desde a descoberta de novas terras até a
invenção da imprensa, estavam em atividade as forças do progresso, a religião parecia
destinada a permanecer imóvel, sendo seus líderes incapazes de levar a cabo qualquer
mudança para uma nova ordem, ou estado positivamente desinteressados em tentarem
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

sequer semelhante mudança. Grande era a necessidade! O que os papas não tentaram
realizar, e eminentes chefes eclesiásticos e Concílios foram incapazes de cumprir, um só
homem, Martinho Lutero, fez.

Bibliografia e Notas

Burckhardt: The Renaiss in Italy, Basel, 1860, trad. 8a. Ed., 1920. – Scholz:
Publizistik sur Zeit Philip IV u.Bon. VIII, pp. 529, 1903. – Riezler: D. Lit. Wiedersacher
d. Papste, pp. 336, 1874. – Haller: Papstthum u. Kirchenreform., pp. 548, 1903. –
Huizinga, de Leyden: The Waning M. A., 1924. – Coulton: St. Francis to Dante, 1906;
Five Centt. Relig from1.000 A. D., Cambr., 1923, pp. 573. – Adams: Civilization dur.
the M. A., 1894 – Munro: The M. A. and Mod. Europe. 1905 – Gasquet, R. C.: Eve of
the Reftn. 1905; Monastic Life in the M. A., 1922.

1- Vide Finke – Aus d. Tagen Bon. VIII, p. 1xxxviii. Haller, p. 45, diz do
período de exílio em Avinhão – Geldsammeln war d. vornehmste Sorge.

2- Peter de Roos: Materials for a Hist. Of Alex. VI, 5 vols., 1924, fez
esforços para mostrar que Alexandre era um excelente papa e homem de boa conduta
moral, tentativa tão desesperada como a de suprimir os gelos do círculo polar. Thurston,
R. C., Month, abril de 1925, declarando fútil a tentativa de Roos, diz: “Não insistirei na
descrição, absolutamente indigna de ser impressa, de modo por que Alexandre passou a
noite entre Todos os Santos e 2 de novembro de 1501”, e alude “à metade da
propriedade dos Colonna, confiscada e doada a seu filho, que ele tivera com certa dama
de Roma, antes de se tornar papa”.

3- Escrevendo acerca de seu tempo, disse Gicciardini, 1483-1540: “Não sei


se havia homem que estivesse mais desgostoso do que eu com a ambição, avareza e
efeminação dos sacerdotes. Entretanto, minha posição na corte de vários papas havia
tornado necessário que, em razão de meus interesses particulares, respeitasse a posição
deles. Não fora isso e eu teria amado ternamente a Martinho Lutero, não com o intuito
de abrir mão das leis estabelecidas pelo governo de Cristo, mas no objetivo de ver
aquele bando de vilões reduzido à extremidade de se apresentarem sem vícios ou sem
autoridade”.

4- Jewel, apol., p. 71, expõe uma impressão acerca das condições


prevalecentes em Roma, nestes termos: “há em Roma muitos milhares de meretrizes
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públicas e o próprio papa retira, anualmente, dessas meretrizes, mais de 30.000 ducados,
a título de pensão anual. Ele próprio mantém casas de tolerância e, através de um lucro
sujíssimo, imunda e torpemente serve à própria cobiça”, etc. Em sua Obedience of a
Christ. Man., p. 191, e sua Answer to More, pp. 52, 150, Tyndale repetiu as mesmas
acusações, dizendo ainda que “o papa permitiu ilegal concubinato a tantos quanto
trouxessem dinheiro, de modo que, através da Holanda, todo sacerdote que pague em
gulden ao arcediago, terá livre e pacificamente sua concubina”, etc.

5- Viva descrição da visita do estudante, 1504, foi descoberta e publicada


por Hausleiter, 2ª ed., 1903, pp. 88.
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CAPÍTULO IV

A REFORMA PROTESTANTE

Haeresim non tam novitas quam veritas revincit.

Não é tanto a novidade que refuta a heresia, mas a verdade. – Tertuliano, de virg. vel.

A Reforma Protestante veio no momento oportuno, - no momento em que


parecia não haver esperança de melhoria da Cristandade Ocidental e quando não havia
sinal de que os precedentes esforços, feitos no sentido de reformar a Igreja, se
repetissem. Reforçavam-se os dogmas e as lei religiosas de que a Igreja se havia
carregado, como um navio se cobre de moluscos, após longa travessia. Quando chegou
o socorro, este veio, não do pontífice romano e do Vaticano, nem de um Concílio de
prelados, mas de um monge alemão e de uma obscura cidadezinha do Norte. E veio
como um raio que tombasse de um céu sereno.

§ 1. A Reforma definida. – Como movimento religioso, o despertar do


Protestantismo foi o evento mais memorável que ocorreu desde os tempos dos
Apóstolos. O ano de 1517, em que Lutero afixou as Teses, constitui uma linha divisória
nos anais humanos. Certos expedientes antigos de explicar o movimento se consideram
hoje totalmente errôneos. Não foi um conflito movido pela inveja de duas ordens, a dos
Agostinianos e a dos Dominicanos, como Cochlaeus – 1550 – alvitrou, nem foi uma
revolta selvagem que germinasse no cérebro de um monge alemão embriagado, como
Leão X a princípio imaginou. Pouco menos errôneas foram outras tentativas de
explicação do movimento, atentando para fundamentos outros que não os religiosos. A
Reforma não foi concebida deliberadamente para subtrair a Alemanha às exações
italianas, embora os clamores contra semelhantes exações fossem fortes e bem
justificados. Não foi uma jactanciosa exaltação da razão acima da piedade, ou uma
tentativa de libertar a razão do jugo da autoridade. Não foi uma revolta do laicado
contra o eclesiasticismo, provocada, como Mr. Froude preferiu dizer, “pela audaciosa
imoralidade do clero secular e regular, e pela tirania e extorsão do poder eclesiástico”. A
Reforma não teve, certamente, em seus propósitos originais, um móvel econômico. E
ainda menos foi um movimento político. 1

A acusação, agora comum entre os polemistas católicos romanos, de que a


Reforma foi o resultado da incompreensão religiosa por parte de Lutero e outros
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Reformadores, ou um explodir de obstinação e grosseira cobiça, são explicações


desmentidas pelo conhecimento experimental que eles tinham de sua época, pela sua
vida às claras e sua afoiteza em enfrentarem a morte por suas idéias, assim como pela
pronta adesão dada ao novo movimento por metade da Europa.

A Reforma foi um protesto contra os males doutrinários e práticos da Igreja


e uma proclamação do Evangelho. Foi um regresso aos preceitos do Cristianismo
original. Nenhuma verdade nova foi acrescentada ao Novo Testamento por Lutero e
Calvino, assim como nenhuma área foi adicionada à terra por Colombo e os Cabots. Os
navegantes italianos rumaram para Oeste e deram notícia dos territórios que
descobriram. Nada mais. Os Reformadores abriram um livro antigo e anunciaram o que
nele acharam. E não tentaram fazer mais do que isso.

§ 2. O motivo religioso. – O impulso que produziu o nascimento da


Reforma foi totalmente religioso. Inquietações de ordem social e econômica haviam,
sem dúvida, no século XVI, como as há no século XX. Especulações sociais, não de
todo utópicas, e certas mutações econômicas empolgavam o pensamento da época. A
melhoria social e econômica acompanhou a pregação da nova ordem religiosa; mas, em
primeira instância até o fim, os Reformadores tiveram como objetivo dominante
anunciar o caminho claro pelo qual podia o homem obter de Deus a graça salvadora e
cumprir a vontade do mesmo Deus. Quão diversa era a mentalidade de Erasmo,
representando o iluminismo intelectual! Quando o eminente humanista veio a
compreender que a nova ordem religiosa acarretaria violência, demolição de velhos
costumes, discretamente se passou para o outro lado e escreveu: “Abomino mais o
tumulto do que qualquer outra coisa. Não sou tão insensato que faça qualquer coisa
contra o vigário de Cristo e sinto-me indisposto a molestar sequer um bispo”. Presumir-
se que os Reformadores fossem movidos por outro propósito que não o de melhorar as
condições religiosas, é acusar metade da população da Europa de se ter iludido.

§ 3. A Expansão da Reforma. – Como os Pais dos séculos primitivos e os


eruditos da Idade Média, os Reformadores constituíram por si mesmos um grupo.
Uniram-se num propósito comum, embora pertencessem a diferentes nações e falassem
línguas diferentes. Coube a Lutero chefiar a Reforma. Partindo de Wittenberg, o
movimento se alastrou à Suíça, onde teve Zuric e Genebra como centros principais. Na
Dinamarca, Suécia e Noruega, o novo sistema suplantou inteiramente o velho. Na
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Hungria, dividiu a população. Triunfou na Holanda, após a mais amarga perseguição.


Na Inglaterra, cenas sangrentas se desenrolaram antes que as novas concepções se
estabelecessem, o que se deu pela perseverança da vontade popular e pela derrota da
Armada Invencível. Na Escócia, o povo e o parlamento ardentemente se uniram para
seguir a João Knox. Na França, as perspectivas da Reforma foram promissoras, mas
teve de enfrentar a má vontade do rei, que lhe moveu tremenda perseguição, queimando
a vinte e quatro hereges em Paris, no espaço de seis meses, sendo eles executados à sua
própria vista. Cincoenta anos mais tarde, com o massacre da noite de S. Bartolomeu,
1572, o partido Protestante foi quase aniquilado. Dos franceses que seguiram o novo
caminho, Calvino levou avante sua obra, exilado de sua terra natal. Na Itália e na
Espanha, os processos da Inquisição esmagaram a semente da fé que nascia. A extensa
expansão da empresa mostra quão intensamente prevalecia o descontentamento
religioso. É irracional supor que semelhante interesse geral pudesse ser despertado por
uns poucos homens, tratados em certas rodas como aventureiros religiosos e bandidos
espirituais.

§ 4. A independência dos Reformadores. – Os Reformadores Protestantes


eram em alto grau independentes uns dos outros. Não houve conluio entre eles. Nenhum
grupo de descontentes tramou qualquer plano de ação em torno de uma mesa. Lutero
nunca viu Calvino ou Cranmer. Zwinglio jamais se encontrou com Knox ou Latimer.
Não houve um pacto coletivo para o estabelecimento de novo regime religioso,
nenhuma conjuração destinada a subverter as velhas instituições. As XCV Teses foram
rapidamente divulgadas em Paris, na Inglaterra e na Escócia, mas isso não se deu em
resultado de entendimentos secretos. Quando os escritos de Lutero eram levados para a
Inglaterra “em barricas lacradas”, uma delegação estava pronta a dar as boas vindas aos
princípios que eles divulgavam. A tradução do Novo Testamento de Tyndale nasceu do
mesmo desejo de entregar as Escrituras ao povo, assim como o fez Lutero, com sua
tradução cinco anos depois. Há algum fundamento para a asserção de que a Reforma
havia de explodir em Zuric, se não explodisse em Wittenberg. A data da conversão de
Calvino às novas concepções, 1533, é demasiadamente tardia para permitir a fábula de
haver ele entrado em conspiração com Lutero. Ao tempo de sua conversão, a Reforma
Luterana já tinha dezesseis anos de existência e seus princípios já tinham tido definição
formal na Confissão de Augsburgo.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Ademais, a Reforma do século XVI foi independente dos anteriores


movimentos de reforma. Lutero não iniciou sua carreira de Reformador com um sistema
prévio copiado aos que o haviam precedido. O protesto dos Reformadores foi o
resultado de um processo gradual pelo qual eles vieram a perceber como erro aquilo que
outrora aceitaram como verdade, exatamente como o homem que, após um sonho, abre
os olhos e, olhando em torno, gradualmente percebe o que existe ao redor de si. Quando
Lutero afixou suas Teses, julgava estar de perfeito acordo com a Igreja. Até 1520,
reconheceu o papado e procurou libertá-lo das mãos violentas, comparando Leão X a
um cordeiro em meio de lobos. Lutero nunca teria sido um Reformador, se tivesse
seguido o conselho que João Nathin lhe dera no convento: “Irmão Martinho, deixa a
Bíblia em paz: lê os antigos. Eles dão a substância da Bíblia. Ler a Bíblia é procurar
inquietação”. Os Reformadores hauriram suas idéias do Novo Testamento e não das
obras de Marsílio de Pádua, Wyclif, Huss ou Wessel. É duvidoso que Lutero se tivesse
antes familiarizado com as obras de Wyclif – e só depois de haver entrado
profundamente em sua carreira é que veio a defender João Huss e a conhecer Wessel.
Como estudante em Erfurt, Lutero prontamente pôs de lado um exemplar dos Sermões
de Huss que encontrara na biblioteca, considerando que o livro estava demasiadamente
denegrido pelas heresias para que o sol se dignasse de luzir sobre ele. Não foi antes que
decorressem mais de dez anos que Lutero defendeu artigos pelos quais foi Huss
condenado em Constança. Leão X estava certo quando, em 1520, escreveu que as
opiniões de Lutero reviviam as heresias de Wyclif e dos boêmios, mas se enganava ao
atribuir a Lutero a tentativa premeditada de “ressuscitá-las”. Smith, Cor., I:334.
Entretanto, por aquela época Lutero chegava ao ponto de estar habilitado a declarar
abertamente que Huss estava certo e escreveu a Leão: “Não digo que alguns dos artigos
de João Huss sejam verdadeiros; agora digo que todos eles são verdadeiros”.

§ 5. A preparação dos Reformadores. – Os Reformadores Protestantes,


quando falam, não falam como teoristas. Falam de condições em meio das quais se
criaram. Foram educados na piedade popular do tempo. Conheciam as flutuações das
observações diárias. Quando ingressaram no novo movimento, empenharam-se tanto em
debates acadêmicos como Mr. Lincoln aparou a pena para a Proclamação da
Emancipação. Nenhum deles combateu como quem açoita o ar. A prática religiosa era
um espetáculo aberto cada dia diante de seus olhos. Quer se justifiquem, quer não, as
modificações que eles pleiteavam, de uma coisa não se pode duvidar nos arraiais amigos
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

ou inimigos: Os Reformadores, de Lutero a João Knox, sabiam o que estava sendo


ensinado em seu tempo e quais as cerimônias religiosas que estavam em uso. Sabiam o
que pensava o homem de rua, que espécie de vida levavam os sacerdotes, que preceitos
os monges observavam, que ensinos as universidades transmitiam. Samuel Adams, Otis
e Patrick Henry não podiam falar mais acertadamente acerca de assuntos de sua
especialidade do que o fizeram aqueles guias do século XVI, ao tratarem das condições
religiosas e das crenças de seu tempo. Tinham, entretanto, o melhor preparo
universitário que a época podia oferecer. Estudaram com os mestres mais acreditados
em Erfurt, Viena, Basiléia, paris, Oxford e Cambridge. Eram versados na teologia da
Idade Média. Fizeram ressurgir Santo Agostinho – quase poderia dizer-se – com seus
escritos.

Ainda mais: os Reformadores estavam habilitados para sua tarefa, pelo fato
de estarem em dia com os novos conhecimentos. Saudaram com júbilo a erudição de
seu tempo. Tiraram proveito da correspondência com Erasmo. Com uma das exceções,
tomaram os novos estudos e o aprendizado do Hebraico e do Grego como auxílio ao
esclarecimento das Escrituras. O uso das duas línguas em que os livros bíblicos foram
escritos sofria oposição por parte de muitos sacerdotes do tempo, que consideravam
perigosa e herética qualquer discordância com a Vulgata Latina. Eram obscurantistas:
para eles, os velhos moldes e os estudos tradicionais não podiam ser aperfeiçoados. Os
escolásticos e os Pais sabiam tudo quanto era digno de conhecimento. Tyndale refere
que “os Scotistas, os filhos das trevas, bramiam em todos os púlpitos contra o Grego e o
hebraico”. Quando apareceu o Novo Testamento Grego, de Erasmo, Zwinglio de seu
próprio punho copiou dele as epístolas de Paulo e a epístola aos Hebreus.
Œcolampadius possuía tão notável erudição clássica quanto Melanchthon. Os
Comentários de Calvino são um monumento de exposição crítica dos livros bíblicos.
Beza publicou um texto grego do Novo Testamento, que durante séculos foi usado nas
escolas.

Se os líderes da Reforma não tivessem sido homens superiores, não teria


havido reforma. Por aproximadamente mil anos, nenhum eclesiástico houve no
Ocidente que soubesse o Grego e Hebraico. Gregório o Grande não conhecia o grego.
Anselmo não sabia grego. S. Bernardo não sabia grego. Tomaz de Aquino não sabia
grego. Wyclif não sabia grego. Mas Lutero o sabia e sabia-o Calvino; sabiam-no
Zwinglio e Bucer, Bullinger e Beza. Os Reformadores eram igualmente homens de
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

grande atividade no manejo de seus livros. Cochlaeus, depois de ter visto a Lutero em
Worms, 1521, escreveu que os cuidados e os estudos tinham-no emagrecido tanto, que
se lhe podiam contar os ossos do corpo. Calvino era tão infatigável no estudo, que com
espanto se pergunta como podia ele achar tempo para levar avante seus estudos tão
árduos, cuidar da imensa correspondência e ao mesmo tempo tomar parte nos negócios
seculares de Genebra. Esses homens possuíam toda a bagagem humanística exigida para
a condução dum debate no terreno religioso. Eram estudiosos das Escrituras e deixaram
após si uma verdadeira biblioteca: traduções das Escrituras, Comentários, tratados de
Teologia Sistemática, obras polêmicas, escritos devocionais, Sermões, Catecismos,
Hinários e Obras Históricas. Suas produções enchem estantes tão extensas como a
biblioteca dos escritos medievais – e são mais variadas. Os Reformadores não viveram,
entretanto, em solidões monásticas: viveram à vista do público. Toda gente sabia o que
eles eram e o que diziam.

§ 6. A Reforma como Experiência Pessoal. – A reforma não foi um


movimento escolástico que germinasse no cérebro: foi uma experiência pessoal, antes
que se volvesse em movimento histórico. Foi primeiro uma convicção e não um
esquema intelectual; matéria de consciência e não de intuitos ambiciosos. “Se eu tivesse
cem cabeças” – podia Lutero escrever em Worms – “Todas seriam cortadas, antes que
eu abdicasse de minha consciência”. A Reforma foi uma descoberta e não um invento.
Lutero proclamou a nova era porque a nova era havia primeiro despontado nele. O
Novo Testamento lhe servia de livro de classe, o espírito desprevenido constituía a força
que o inclinava para ele. Sua convicção de que o homem é justificado só pela fé se
desenvolveu gradualmente através do estudo. Lutero, entretanto, tornou-se cônscio
daquela verdade num relampear. “Nos últimos anos” – assim se expressou – “a
significação da passagem: O justo viverá pela fé, caiu sobre mim subitamente.” Para
estabelecer paralelo com a experiência de Lutero, não precisamos ir até s. Paulo. Sir
William Hamilton, depois de ter trabalhado com os quaternions por quinze anos, teve
repentinamente a solução do problema, enquanto atravessava a ponte de Brouham, a 16
de outubro de 1843. Assim foi com Anselmo, no caso do argumento ontológico da
existência de Deus. O argumento fora objeto de extenso processo elaborado no espírito
de Anselmo e através de oração; e, todavia, sua solução lhe veio como revelação,
quando, nas trevas da noite, suas linhas gerais subitamente se colocaram, em clara
definição diante do intelecto do escolástico.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Foi também notável a experiência religiosa de Calvino, a qual o preparou


para sua tarefa. Ele não entrou para um convento, como Lutero, e não teve os benefícios
daí decorrentes; mas teve todas as vantagens do estudo severo, de mestres eminentes, de
três universidades e um pai que ocupava uma das mais elevadas posições eclesiásticas.
Calvino atribuiu sua adesão às novas concepções a uma súbita conversão – subita
conversio. Em um dos dois breves relatos que acerca daquele evento nos legou, conta
que, após ter experimentado por todos os meios da fé católica alcançar a paz, ficou
decepcionado; finalmente, o Evangelho, como um fulminante raio de luz, mostrou-lhe o
profundo abismo de erro em que se debatia, e, aterrorizado e com lágrimas, tomou o
caminho de Deus. A Reforma não foi simples aventura acadêmica.

§ 7. Os Princípios da Reforma. – Os princípios dominantes da Reforma


são comumente apresentados em número de dois – o princípio formal, segundo o qual
as Escrituras são a fonte da autoridade religiosa, e o princípio material, segundo o qual a
justificação é pela fé. Estes dois princípios têm entre si relação semelhante entre a que
existe entre a planta e o vaso que a contém. Os Reformadores sustentaram que as
Escrituras são o padrão pelo qual se aferem os dogmas e as tradições da Igreja.
Escrevendo ao eleitor Frederico, já em 1519, Lutero exaltava a autoridade das
Escrituras, colocando-as acima de tudo, exceto Deus, e declarando que estava “pronto a
honrar, com toda humildade, a Igreja Romana e a negar preferência a qualquer outra
coisa, no céu ou na terra, excetuando-se tão somente a Deus e sua palavra”. Seis meses
depois, escrevendo ao eleitor, acrescentou que “teria mais confiança num homem que
tivesse por si a Bíblia, do que no papa e no Concílio inteiro, sem a Bíblia”. Em Leipzig,
em 1519, e dois anos depois, em Worms, a questão foi claramente definida em termos
de um conflito entre os usos da Igreja e o Livro Sagrado. Depois da dieta de Worms,
Aleander escrevia que Lutero se recusara a submeter-se aos decretos do Concílio de
Constança, exceto nos pontos em que estivessem fundados na autoridade das Escrituras.
Na famosa carta ao imperador, em defesa de sua atitude, Lutero declarou-se pronto a
aceitar o julgamento do imperador ou o pronunciamento de qualquer Concílio, apenas
com a condição de que a Palavra de Deus se conservasse aberta e livre.2 Já em 1520, ele
atribuía à “Palavra de Deus” a agitação que ia pelo mundo. Quanto à justificação pela
fé, Lutero proclamou-a o artigo dos artigos, o artigo pelo qual a Igreja permanece ou
cai. A salvação é só pela livre graça, mediante a fé em Cristo. Em sua carta a Sadolet,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Calvino a definiu como o principal e mais incisivo ponto da questão entre os dois
partidos. Na aceitação desses dois princípios todos os Reformadores estavam de acordo.

§ 8. O valor do Homem e do Mundo. – Outro princípio que se tem tratado


como feição característica do ensino dos Reformadores, é a dignidade do homem,
encarado individualmente. Aquele ensino realça o sacerdócio de todos os crentes e seu
direito de imediato acesso a Deus e ao trono da graça. O sacerdócio medieval havia
dificultado esse acesso, graças às prescrições sacramentais, como as folhas de outono
obstruem o deslizar das torrentes. A Reforma fez de cada homem um sacerdote. Ainda
mais: ela lhe assegurou que o mundo e os bens temporais se destinam ao uso e bem-
estar humano, e não para serem evitados. A religião não consiste na abstenção de coisas
boas. Na Idade Média, os mais religiosos eram os que fugiam do mundo, renegando a
sociedade, o lar e as satisfações usuais da vida. A existência solitária e penosa constituía
a existência ideal. Um assunto sobre que muito se escreveu, foi o desprezo com que o
mundo devia ser encarado: sobre tal assunto até Inocêncio III escreveu. A Reforma
aboliu o ascetismo como prática obrigatória. Ensinou que o homem com seu arado e a
menina com sua vassoura prestam melhor serviço do que o monge que viva separado de
seus semelhantes, praticando austeridade. Rompeu as amarras da disciplina do celibato
e exaltou as virtudes da vida doméstica, a labuta do campo e o comércio, ensinando o
devido uso da propriedade. Uma vez mais anunciou as palavras que dizem: “Toda
criatura de Deus é boa e nada deve ser desprezado, se se o recebe com ações de graças”.
Os Reformadores não insistiram no milênio, mas animara o povo da Europa a orientar o
pensamento através de novas linhas. Deram aos interesses humanos e aos bens da
natureza uma importância que o medievalismo desdenhou. Nesse sentido, eles puseram
o mundo às avessas.

§ 9. Condições favoráveis à Reforma. – Quando veio a Reforma, o


movimento foi favorecido por quatro fatores; a Renascença, a publicação impressa do
Novo Testamento Grego, a invenção da imprensa e o impulso dado às novas empresas
de comércio e exploração. Tudo parecia ter sido disposto a propósito para lhe favorecer
a expansão.

A Renascença rompeu as cadeias do Escolasticismo e pôs em marcha o livre


exame. Na nova era iniciada por Dante e Petrarca, o mundo e o homem foram
recuperados. Os homens abriram os olhos, olharam e viram novos céus e nova terra. As
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

realizações humanas da história foram proclamadas como objetos dignos de estudo e de


admiração. A Idade Média só conheceu duas profissões: a carreira das armas e a carreira
monástica. A elas se acrescentaram as profissões das letras – o estudo da natureza e da
história – e a de explorador de oceanos e continentes. Os editos papais, outrora dirigidos
contra o estudo dos clássicos, foram desprezados. Vieram à luz os manuscritos dos
clássicos. As estátuas foram desenterradas do pó e da lama em que haviam lançado os
invasores procedentes do Norte. O Coliseu e outras construções antigas foram outra vez
encaradas como monumentos da capacidade humana e não como amontoados de pedra.
O latim perdeu seu monopólio como meio único de expansão ao alcance do escritor. O
conhecimento não mais se limitou ao eclesiástico. Os leigos começaram a manejar a
pena. O espírito do livre exame soprou sobre a Itália. Só o sopro da revivificação
religiosa ainda não se desencadeara. Savonarola pregou o arrependimento, mas foi
levado á morte. A cultura não trouxe regeneração. Relaxaram-se as obrigações morais.
O paganismo parecia arrebatar a sociedade italiana: “ninguém há” – diz Burckhardt –
“que, reputado pessoa culta, não alimente alguma concepção errônea acerca do
Cristianismo”. O cálix de Babilônia não contém as águas da vida. 3

No norte da Europa o despertamento intelectual não se divorciou da


religião. O norte não possuía Dante, nem Petrarca, mas contava com João Tauler e
Tomaz à Kempis. O estudo das Escrituras se fazia com profundo interesse. O
aprendizado do Grego e do Hebraico, sob a orientação de Erasmo e de Reuclin,
empreendeu-se como meio de penetrar o sentido delas. Na Inglaterra, Glocyn e Colet
ensinavam o grego e faziam preleções sobre o texto original das Epístolas de S. Paulo.
Em 1516 o Novo Testamento Grego foi publicado por Erasmo e, do ponto de vista
religioso, esse fato assinalou a culminância da contribuição feita pelo Humanismo à
verdade religiosa. O livro apareceu justamente a tempo de ser utilizado pelos
Reformadores. A rápida e crescente circulação do pensamento, possibilitada pela
invenção de Gutenberg, cerca de 1450, foi favorecida pelas casas impressoras de
Mogúncia, Colônia, Veneza e outras cidades, e as tipografias se tornaram mais
poderosas do que exércitos aguerridos. As comunicações transmitidas pela palavra
falada deram lugar às mensagens escritas a tinta. O novo Testamento e as obras de
Lutero, assim como os escritos dos outros Reformadores, espalharam-se em milhares de
cópias. Se eles apenas fossem acessíveis em exemplares manuscritos, poucos conventos,
na melhor hipótese, os teriam possuído.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Se essas influências foram favoráveis ao alastramento da Reforma, também


o foi o espírito moderno de comércio e exploração. Não foi por simples coincidência
que a investigação religiosa e as descobertas geográficas tivessem seu ponto de partida
na mesma época. Novos mundos se desenhavam no horizonte. Durante as Cruzadas, o
navegante tinha visado os portos do Levante; agora olhava para os lados do Ocidente.
Colombo descobriu um Novo Mundo. Novas cartas geográficas foram traçadas – e em
um dos mais primitivos mapas do mundo ocidental, este foi chamado Terra de Santa
Cruz – terra sanctae crucis, A Bíblia, como um novo Continente, estava aberta a
leitores de todas as línguas. A curiosidade e a busca da verdade conduziam ao mesmo
tempo o estudante bíblico e o marinheiro. Foi uma quadra de maravilhas! Coisas novas
planavam no ar. Novas vozes se faziam ouvir. Seria a religião a única província em que
nenhum progresso, nenhuma iluminação nova fosse possível? Acerca daquela era
surpreendente exclamava Ulrich von Hutten: “Florescem os estudos, despertam-se os
espíritos, existe a alegria de viver!” E Lutero, observador arguto, escreveu: “Se lerdes
todos os anais do passado, verificareis que nenhum século houve semelhante a este,
desde o nascimento de Cristo. Tal construir e planejar, semelhante bem viver e bem
vestir, tais empreendimentos de comércio, tal impulso em todas as artes, jamais se
viram desde que Cristo veio ao mundo. E quão numerosos são os povos ativos e
inteligentes, que coisa alguma deixam às ocultas e sem mudança! Hoje um moço de
vinte anos sabe mais do que costumam saber vinte doutores em teologia”. Ao tempo em
que estas palavras foram escritas, 1522, Lutero já havia rompido com Leão X e Carlos
V.

Se naquela ondulante atmosfera de estudo e descoberta, a mente religiosa da


Europa houvesse permanecido estática, uma de duas coisas ficaria provada: ou que as
condições religiosas não tinham necessidade de alteração, ou que os mestres religiosos
não estavam dispostos a estudar outra vez o Novo Testamento. Em qualquer caso, o
medievalismo estaria condenado a ser a derradeira expressão do Cristianismo. Não é
fantasia moderna o dizer–se que as autoridades de Roma controlavam a Igreja, no ano
de 1517, quando Lutero afixou suas Teses. Não sentiram necessidade de despertamento
religioso e nem sonharam com planos conducentes a isso. Longe de darem qualquer
esperança no tocante ao futuro, elas trouxeram do passado eclesiástico a teoria medieval
do papado e recorreram à instituição medieval da Inquisição. No último dos Concílios
medievais, conhecido como o Quinto Lateranense, a teoria do poder papal, representado
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

pelas duas espadas, foi reafirmada pelo cardeal Cajetano; e Marcelo, o veneziano,
dirigiu-se ao papa reinante, Júlio II, como a outro deus sobre a terra – alter deus in
terris. Antes do adiamento do Concílio, 1517, a própria bula de Bonifácio VIII – unam
sanctam – foi expressamente ratificada por Leão X, através da bula pastor aeternus.
Confirmando o ensino de seu antecessor, Leão consentiu em perverter duas passagens
tiradas do Velho Testamento, e tornou a desobediência ao papa punível com a pena de
morte. A Renascença, com sua cultura e com o aproveitamento de suas descobertas, não
ofereceu tudo o de que o mundo estava desejoso: ele precisava da mensagem dos
Evangelhos recém-abertos – e Roma estava cega. Melhor do que pensava, disse o bispo
de Isernia em seu discurso de encerramento do Quinto Lateranense: “O Evangelho é a
fonte de toda sabedoria, de toda virtude, de tudo quanto é divino e digno de admiração.
O Evangelho, digo, o Evangelho!” Quando Lutero, poucos meses depois, exteriorizou
sua primeira mensagem, começando com as palavras: “Nosso Senhor e Mestre” – de
fato reabriu o Evangelho e fez de sua mensagem uma força viva.

Bibliografia e Notas

Lives de Lutero e outros Reformadores. – Vida de Lutero. C. R. – Denifle:


Luther u. Lutherthum, 2 vols., 2a. Ed., 1904. – Grisar: Psycholog. Life of L., trad., 5
vols., 1913-17. – O’ Hare: The facts about L. Com introd. por Guilday, 1916. – Prot. –
Schaff, Kolde, Boehmer, Jacobs, McGiffert, P. Smith, mackinnon, 1 vol., 1926. – Lives
of Calvin por Schaff, W. W. Walker, Kampfschulte, R. C. – Kidd: Documents Illustr. of
the Reformation, 1911 – Hist. of the Reformation por Brieger. Rockwell: Doppelehe d.
Phil. von Hessen, pp. 374, 1904. – Walther: Fur Luther wider Rom., 1906 – Bezold,
Lindsay, 2 vols., - P. Smith: Age of the Reformation, pp.861, 1920. – A. V. Muller, ex-
cat.: Luther’s Theol. Quellen, 1912. Contra Denifle e Grisar.

1- Prof. J. A. Robinson, Am. Hist. Rev., janeiro de 1903, diz: “A declaração


de que a Reforma dificilmente pode ser chamada de qualquer modo, revolução religiosa,
pode resultar em exagero, mas há, todavia, poderosos argumentos que se podem aduzir
em abono daquela conclusão”, Vide também Harvey, Am. Journ. of Theol., outubro de
1915. Em sua obra St. Louis and Calvin, Guizot teve razão, ao proclamar “a Reforma,
essencialmente é desde o início uma reforma religiosa”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

2- A carta original, escrita a 28 de abril de 1521, foi comprada por J. P.


Morgan, em 1911, pela quantia de 25.000 dólares e oferecida a Guilherme II, que
condecorou o doador com a ordem da Águia Negra. Vide Smith, Cor. 1:547.

3- Sohm, Ch. Hist., p. 22, seguindo a Buckhardt e Gregorovius, diz: “Nunca


houve um grupo tão brilhante em sua atividade, tão rico em seus propósitos e dons, tão
forte em seu poder criador, produzindo obras imortais, e ao mesmo tempo tão egoísta e
profundamente corrupto como o grupo da Renascença na Itália, na segunda metade do
século XV”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO V

MARTINHO LUTERO, O LÍDER DA REFORMA

In theologia scholastica ego christum amiseram; in Paulo reperi.

Na teologia escolástica perco a Cristo; em Paulo eu o recupero.

- Lutero, ed. De Weimar, II:414.

A origem da significação da Reforma Protestante não podem ser


devidamente compreendidos, sem que se conheçam os fatos da vida de Lutero e a
oposição feita a seu ensino. A maior parte dos movimentos perduráveis da História tem
como centro uma personalidade dirigente. Os capítulos que se referem à Reforma
abrem-se com Lutero no Convento de Erfurt ou em sua mesa de estudo em Wittenberg,
investigando o Novo Testamento sob a orientação de Agostinho. Com as XCV Teses
seus princípios alcançaram a primeira expressão pública. Segue-se a rejeição de toda
autoridade em matéria de religião, quando pretenda contradizer a autoridade das
Escrituras. Oposição, ridículo, invectiva, ameaças, proscrição legal, servem apenas para
afervorar as convicções de Lutero e lhe fortalecer os propósitos. Em seu Problema da
Vida, Eucken observou que “a renovação da religião aviltada só podia triunfar se
aparecesse uma personalidade soberana – Lutero – em quem as correntes espirituais que
circulam através da Reforma se tornaram carne e sangue”.

§ 1. O Homem e o Reformador. – Se um homem deve ser julgado pela


influência que exerceu sobre as opiniões permanentes e sobre os destinos do mundo
cristão, Lutero é, depois de S. Paulo, a figura mais notável. Anunciando sua morte aos
estudantes de Wittenberg, Melanchthon o coloca na mesma classe em que figuram
Isaías e S. Paulo, Agostinho e S. Bernardo. Lutero era um distinto professor, pregador
convincente, claro e arguto escritor, mestre de boa linguagem alemã. Mais do que tudo,
foi um gênio religioso. Em confronto com ele, Napoleão parece pequeno. O
conquistador francês trouxe a Europa para junto de seus pés e legou-lhe um fardo de
desgraças. O Reformador alemão estimulou sua própria época e iniciou um movimento
que grande parte da Cristandade vem seguindo.

Poucos são os caracteres históricos cujo julgamento tem sido tão


contraditório. Neste sentido, Cromwell é semelhante a ele. Para os protestantes, Lutero
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foi um arauto da liberdade de pensamento, um homem enviado por Deus, o restaurador


dos primitivos ensinamentos do Cristianismo, que tinham sido remendados ou
pervertidos pelas interpretações humanas. Para os católicos romanos, se apurarmos os
conceitos extremos correntes entre eles, Lutero foi um turbulento posto em rebeldia
contra a autoridade, um agente de Satanás que dividiu a Cristandade e precipitou seus
adeptos nos declives da morte religiosa. Foi excomungado e posto fora da lei pelo
Estado. Segundo Leão X, “ele vomitou seus erros na amargura de injusta inimizade ao
Espírito Santo” – Smith I:274. Lutero estava longe de ser um santo. Ele próprio
reconhecia suas fraquezas humanas. Possuía pouco da virtude passiva que tem sido
recomendada à canonização da Igreja Romana. Era um homem de luta, quando os
tempos clamavam pela guerra; um homem entre os homens, integralizando a mais
humana personalidade. Sua missão foi a de realizar por meio de batalhas aquilo que,
segundo a conclusão a que chegara, seria impossível que se cumprisse por outros meios.
Mas esse aspecto não esgota todo o homem que havia em Lutero. O Reformador
exaltava o lar, brincava com os filhos, lutava com oração à cabeceira de sua filhinha,
Lena, quando moribunda. Não procurava celebrações litúrgicas, nem os emolumentos
que acompanham tais funções. Gozava da atenção dos príncipes, mas não se encurvava
diante deles. A celebridade não o empolgou. Era, enfim, um homem do povo, jamais se
envergonhando de sua origem camponesa. Com orgulho afirmava: “sou camponês,
meus pais e meus avós foram genuínos camponeses.” O pai orgulhava-se de seu filho e
Lutero, embora elevado a posição eminente, prestava filial obediência a seu pai e dele se
orgulhava.

§ 2. Preparação para sua obra. – A preparação de Lutero para sua missão


foi singularmente ampla. Aos invulgares dotes naturais, acrescentou diligente estudo e
conhecimento prático das condições religiosas de seu tempo. Sua vida foi, de começo a
fim, cheia de cenas dramáticas, de modo que o biógrafo, que o descreva concisamente,
sentir-se-á levado quase ao desespero, diante do vasto amontoado de notáveis eventos e
expressões admiráveis que se apresentam na carreira de Reformador. Nascido em meio
que não era o das classes aristocráticas, nem o da pobreza desvalida, Lutero teve nos
pais exemplares modelos de diligência, propósitos firmes e piedade. Sua mãe lhe
ensinou o Pai Nosso, o Credo e as devoções usuais da Igreja. Seu pai lhe deu o exemplo
de uma vontade férrea e de um elevado espírito. O adolescente teve as melhores
oportunidades que a escola e a universidade podiam oferecer. Em Erfurt, seu talento
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

veio a ser o orgulho da universidade. Sob pretexto veemente de seu pai, Lutero pôs de
lado o estudo do Direito e assumiu os votos monásticos. Tinha ficado impressionado
com a morte súbita de um amigo e com uma tempestade que, tombando, o colheu em
viagem, numa floresta, à meia-noite. O que o levou a clamar: “Auxilia-me, Sant’Ana, e
me farei monge”. Sant’Ana era a padroeira dos mineiros de cobre, classe a que pertencia
o pai de Lutero.

Uma vez encerrado entre as paredes do convento dos Agostinhos, em Erfurt,


o monge encarou a sério sua vocação. A Idade Média havia proclamado o convento
como o primeiro refúgio da santidade terrena, sendo o caminho mais seguro de alcançar
o céu. Anselmo escrevera que não havia outro meio tão seguro e S. Bernardo não teve
descanso enquanto não persuadiu seus irmãos e irmã a tomarem o hábito. Os votos
tinham chegado a ser coisa equivalente a um segundo batismo, restaurando o monge ao
estado de inocência. Segundo a crença popular, ninguém jamais poderia aspirar à
santidade meritória da profissão monástica, se se enredasse em vocações seculares.
Lutero se dedicou com zelo às regras conventuais. A tal ponto esbofeteou o corpo com
ascetismo que, anos após, falando das lutas por que passara, disse que, se jamais monge
houve que conquistasse o céu por seu monaquismo, ele o teria conquistado. Deu-lhe o
auxílio o superior da Ordem dos Agostinhos na Alemanha, João de Staupitz,
representante da velha escola dos místicos alemães, pedindo ao jovem noviço que,
alongando os olhos para além de si mesmo, contemplasse a Cristo e se lembrasse de que
Cristo não aterroriza, mas consola. Foi Paulo quem o conduziu e dominou. As palavras
do Apóstolo: “O justo viverá pela fé”, tornaram-se para Lutero, como ele próprio o
disse, a porta do paraíso.

§ 3. O Progresso de Lutero. – O jovem monge conquistou a confiança dos


superiores religiosos. A escada das honras eclesiásticas lhe estava franqueada. Em 1511
foi enviado, com outro emissário, a Roma, para representar a Ordem dos Agostinhos da
Alemanha numa causa que estava em debate. Lançando o primeiro olhar sobre a cidade,
prostrou-se no solo, exclamando: “Salve, Roma Santa!” Penetrando suas portas, correu
de altar em altar, celebrando missas e fazendo rogativas para que seu avô fosse libertado
do purgatório, e desejando ter oportunidade de retirar os pais do mesmo sítio
desconfortável. Subiu a santa scala, desejoso de alcançar a indulgência papal concedida
aos que galgassem de joelhos seus vinte e oito degraus. Não ficou satisfeito; e,
alcançando o tope da escadaria, Lutero ouviu uma voz íntima que dizia: “O justo viverá
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pela fé”. Coisas estranhas ele as ouviu nos altares romanos: viu como os sacerdotes
corriam com a missa e mastigavam o ritual. O que ele viu em Roma com os próprios
olhos foi-lhe, no desdobramento da carreira, da máxima importância. “Eu não trocaria
por 100.000 florins o que vi em Roma”, - disse ele. “Se não tivesse estado ali, poderia
crer que estava sendo injusto para com o papa; mas, como vimos, assim falamos”.

§ 4. O escritório de Wittenberg e a sala de aula. – Em seu regresso á


Alemanha, continuou a ascensão de Lutero. Foi nomeado professor efetivo da
Universidade de Wittenberg e distinto vigário de sua ordem. Lutero foi apontado como
paradigma de zelo monástico aos que pertenciam aos conventos alemães. Em 1512,
contando então 29 anos, recebeu o grau de doutor em teologia. Ele era um pregador
popular. Os cinco anos que decorrem entre 1512 e 1517, que Lutero passou no convento
Agostiniano de Wittenberg, constituíram, até certo tempo, um período muitíssimo
obscuro ao pesquisador moderno: um facho de luz se projetou, todavia, sobre ele, graças
às descobertas do último quarto de século. Agora sabemos o que fazia o jovem monge
em seu escritório e o que estava ministrando a seus alunos na sala de aulas.
Encontraram-se os livros que ele lia e anotava de seu próprio punho. Encontraram-se, a
seguir, cópias manuscritas das lições que estava professando. Sabíamos, por notícias
chegadas até nós, que Lutero fizera preleções sobre os Salmos e sobre a Epístola aos
Romanos; agora as próprias conferências que ele pronunciou sobre os Salmos, 1513-
1514, estão diante de nós, através das notas colhidas pelos estudantes. Cópias
manuscritas de suas lições sobre Tito e Hebreus foram encontradas, há poucos anos, no
Vaticano, onde permaneciam ocultas desde o tempo em que o general Tilly fizera
presente ao papa da biblioteca da Universidade de Heidelberg, conhecida como
Biblioteca Palatina. O mais importante é que nas preleções de Lutero sobre Romanos,
pronunciadas de 1515 a 1516, e escritas de seu próprio punho, foram descobertas no
Museu de Berlim.1

Nessas preleções se revela a evolução mental de Lutero. Notável, antes de


tudo, é a escolha dos livros sagrados feita pelo jovem professor, para seu estudo e
preleções – os Salmos e Romanos, livros em que a comunhão da alma com Deus é
melhor expressa e a justificação à vista de Deus melhor explanada. O Salmista e Paulo
nada sabiam da atividade intermediária de um sacerdote. Quase como um só homem, os
teólogos medievais tinham-se preocupado com o Cântico de Salomão, divertindo-se em
suas descrições tropicais, nas quais viam disseminadas propositalmente retratos de
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Cristo e da Igreja. Explorando um filão diverso, especialmente em suas preleções sobre


Romanos, encontramos o jovem professor desprendendo-se da Metafísica e da Teologia
medievais e realçando a clara significação dos Evangelhos. Ele repudiou Aristóteles, a
maior autoridade filosófica da Idade Média, tratando-o como “o maldito filósofo
pagão”. Voltou as costas a Tomaz de Aquino, encarado pelos outros como superior
teólogo. Aos escolásticos o jovem preletor, usando de uma analogia de uso comum na
época, chamou de “teólogos porcos”, significando por essa expressão que eles tinham
comido a polpa da dialética humana, em lugar de penetrarem na sabedoria das
Escrituras.2 Entretanto, à medida que acompanhamos as preleções, vemos Lutero
aprendendo cada vez mais de Agostinho, como expositor digno de confiança das
doutrinas da depravação humana e da graça imerecida, embora por vezes também
discorde da opinião de Agostinho. E, por último, encontramos Lutero comparando a
Escritura com a Escritura, a fim de descobrir a significação real dos escritos inspirados.

Diante de si, no escritório, Lutero tinha o Novo Testamento no original


grego. Chegando ao capítulo nono de suas lições sobre Romanos, ele evidentemente
passou a ter em suas mãos a edição grega de Erasmo, que acabava de aparecer, e cita-a
como “Erasmo”. Em seus comentários aos últimos capítulos da Epístola, o leitor é de
quando em quando agradavelmente arrebatado pelo fervor evangélico de que eles se
acham pervadidos: - “Não é pelas suas obras que o homem alcança a certeza da justiça”
– assim escreveu Lutero – “mas através da obra da redenção consumada sobre a cruz.
Uma vez por todas o pecador é justificado pela graça, mesmo quando possa cair,
contanto que se arrependa. O cristão é sempre um pecador, sempre um arrependido, um
justo sempre” – semper pecator, semper penitens, semper justus.

Enquanto esses cursos de estudo eram preparados, as nascentes concepções


religiosas de Lutero estavam sendo fortalecidas pelos sermões germânicos de João
Tauler e pelo tratado a que se dava o nome de Teologia Alemã, obra que Lutero
considerava mais consoante com os ensinos bíblicos. Seus próprios escritos,
inicialmente saídos do prelo, foram homilias práticas sobre o Decálogo, o Pai Nosso e
os sete Salmos penitenciais.

§ 5. A venda de indulgências. – Vimos quais foram as posições honrosas a


que Lutero havia sido promovido e as investigações a que se entregara, antes que
rompesse o dia da Reforma, em 1517. Tendo a Agostinho como guia, fizera do texto da
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Bíblia o assunto absorvente de seus estudos. A preparação humana para sua carreira
pública, como líder eclesiástico, foi o estudo diligente das escrituras; a primeira
provocação que recebeu veio da venda das indulgências. Seria difícil achar na história
da Igreja uma prática tão profundamente discordante do espírito e das promessas do
Evangelho, como a oferta por atacado do perdão de pecados, em troca do pagamento de
certa soma de dinheiro. Esse tráfico era feito nos territórios acessíveis da Europa
Central, a mandado do Vaticano. Livremente se usava tal processo como fonte de renda
com que custear as reformas da basílica de S. Pedro, em Roma, empreendidas por Júlio
II e Leão X. A bula de Leão, publicada em 1514, provia indulgências plenárias para a
venda na Alemanha, como um governo moderno pode assinar uma emissão de
obrigações a favor de uma casa bancária. O país foi dividido em três circunscrições,
sendo uma delas distribuída a Alberto de Mogúncia. A metade das rendas devia caber
ao arcebispo e a outra metade ao papa, deduzida a comissão do corretor. Semelhante
liberalidade foi usada no propósito de habilitar Alberto a solver sua dívida para com o
papa, por favores recebidos, e permitir a Leão levar avante os reparos da basílica de S.
Pedro e fazer face aos gastos individuais. Alberto tinha pago ao papa 30.000 ducados
por seus três bispados, com dinheiro tomado por empréstimo aos Fuggers de
Augsburgo, firma que representava o Wall-Street da época. Os registros da casa
bancária e as negociações feitas em Roma entre os agentes de Alberto e os domésticos
do papa, são um livro aberto. O preço de 10.000 ducados-ouro que Alberto pagou pela
compra do bispado de Mogúncia constituiu apenas a metade da primeira exigência de
Leão. A concessão que aquele obteve era válida por oito anos.3

A prática da concessão de indulgências era um desdobramento do sistema


penitencial dos séculos precedentes, segundo o qual os transgressores cumpriam uma
penalidade relativa a suas ofensas, observando prescrições impostas pelo sacerdote e
constantes dos manuais de penitências. Durante as Cruzadas, os papas assumiram o
privilégio de livremente conceder indulgências. Em 1095, Urbano II prometeu a todo
que participasse da primeira Cruzada completo perdão de todos os pecados, caso
morresse penitente no campo de batalha ou debaixo de sua barraca de campanha.
Durante a segunda Cruzada, 1146, Eugênio III estendeu a concessão da vida eterna aos
parentes dos cruzados. Cincoenta anos depois, Inocêncio III foi ainda mais longe, ao
prometer que a vida eterna seria acrescentada a todos os que contribuíssem de qualquer
forma para o sucesso das Cruzadas. Era crença vulgar que os que morressem
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

combatendo pela reconquista do Santo Sepulcro iriam imediatamente para o céu. Eles
eram “mártires evidentes” e seus nomes estavam indelevelmente inscritos no Livro da
Vida – escreveu Mateus Paris, cerca de 1250.

Os mesmos benefícios graciosos, concedidos aos soldados da Cruz no solo


sírio, foram estendidos, por decreto papal, aos que tomassem da espada contra os
Cathari da França e outros hereges, ou contra os indivíduos rebeldes que resistissem ao
papa, como o imperador Frederico II e Ladislau de Nápoles, ou antipapas como
Anacleto II. Pelos fins do século XIII, aumentaram-se enormemente as concessões
papais. Em quatro anos – 1288-1292 – Nicolau IV publicou nada menos de
quatrocentas. O ano de Jubileu, contando da primeira festa instituída por Bonifácio VIII,
1300, tornou-se em oportunidade fecunda para a distribuição de favores aos peregrinos
que visitassem Roma, aumentando ao mesmo tempo o número de visitantes da cidade.
Descobriu-se nas indulgências um instrumento admirável para a promoção de
melhoramentos públicos e empreendimentos eclesiásticos, desde a abertura de estradas
e construção de pontes, até a ereção e conserto de hospitais e igrejas. Em certo sentido,
as indulgências desempenharam durante a Idade Média a mesma função que tiveram as
loterias, há um século, nos Estados Unidos, mas com esta diferença: as loterias eram
empresas particulares; as indulgências levavam o selo papal e conferiam vantagens
espirituais. O dr. Nicolas Paulus citou avultado número de obras públicas e igrejas
construídas durante a Idade Média, sob o estímulo de indulgência papal. As catedrais de
Reims, Colônia e Paris foram auxiliadas por aquele meio, assim como o foi a basílica de
S. Pedro. Abriu-se ao papa um campo ilimitado, quando Sixto IV, em 1476, tornou as
indulgências eficazes às almas do purgatório.

Muito antes que Lutero houvesse escrito suas Teses, Wyclif, Huss e Wessel
tinham erguido suas vozes contra o tráfico. Em sua Cruciata e em outros escritos, o
publicista inglês sustentou ser divertida fantasia a idéia de que os papas são capazes de
“desembaraçar os homens da pena e do pecado, tanto neste mundo como no outro; de
modo que, quando morrem, voem para o céu sem dificuldade”. Se o papa, continua ele,
“destrói a punição, ele também destrói o pecado, porque os dois se associam e o pecado
dura tanto quanto a punição, e não mais”. Entre as curiosas indulgências correntes na
Inglaterra, no século XIV, uma havia segundo a qual todos os que fizessem
peregrinação a Roma e adorassem o Prepúcio – o prepúcio de Cristo – receberiam
perdão de 12.000 anos. Estações da Cruz, citada por Manning, p. 80. Huss escreveu um
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enérgico tratado contra as duas bulas publicadas por João XXIII em 1411, declarando
guerra contra Ladislau de Nápoles e prometendo o perdão de pecados àqueles que nela
tomassem parte. Vinte anos antes, numa vendagem feita em Prega, o preço do perdão
fora graduado segundo a possibilidade de pagar que tivessem os compradores.

Os protestos, como está provado, contra o mercadejamento, não eram mais


capazes de o estancar do que o são as aves viajoras, para deterem um transatlântico
moderno. A iniqüidade cresceu. Quando Lutero iniciou sua atividade pública, não havia,
provavelmente, negócio mais ativo do que o câmbio de perdões. Siebert, escritor
católico romano, não hesita em dizer que a própria atmosfera do final da Idade Média
estava “embebida do veneno das indulgências”. A liberdade com que esses benefícios
eram concedidos, mostram-na os pequeninos manuais de devoção que, no final do
século XV, circulavam na Alemanha. Uma reza feita, por três vezes, a Sant’Ana,
assegurava o perdão de mil anos, por pecado mortal, e vinte mil anos, por transgressões
veniais. Oitenta mil anos de indulgências, segundo o Jardim da Alma, acrescentavam-se
aos que ofereciam certa oração a Maria. Esta última concessão e outras da mesma
espécie foram feitas com fundamento em bulas publicadas por Alexandre VI e Júlio II.
Às 8.000 relíquias de Halle se associavam milhões de dias de indulgência – uma espécie
da repetição dos períodos geológicos ante-diluvianos. Para sermos exatos, aquela
coleção de relíquias eram riquezas que rendiam 39.245.120 anos e ainda o período
adicional de 6.540.000 quarentenas, sendo que a quarentena correspondia a 40 dias. Na
Holanda, segundo Motley, o descaramento do tráfico quase excedia aos limites do
crível. Uma escala graduada fora impressa, dando os preços por que os diversos crimes
podiam ser resgatados. O envenenamento era exculpado por onze ducados – seis libras;
o incesto por trinta e seis libras e três ducados; o perjúrio por sete libras e três carlins. O
homicídio, se não fosse por veneno, era mais barato. Na Inglaterra, onde a idéia
comercial nunca fez grande progresso, ainda Tyndale notava que “os homens apagam os
terríveis fogos do inferno por três pence e meio”. A frase de Erasmo – “a burla de
perdões e indulgências” traduzia a impressão geral, mas o tráfico prosseguiu.
Conferindo a Henrique VIII o título de “Defensor da Fé”, Leão X prometeu a todos os
leitores do livro que o mesmo Henrique escrevera contra Lutero, uma indulgência de
dez anos e dez quarentenas.

O apetite popular por perdões avançou tanto, que o povo se persuadiu de


que por um certo preço poder-se-ia comprar licença para cometer um crime, sem
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incorrer em culpa e castigo. Corre a História de que Tetzel foi enganado por um
cavalheiro que, pretendendo assaltar o monge dominicano, pagou-lhe uma indulgência
por adiantamento. Como Tetzel, após seu dia de vendagem, estivesse a seguir pela
estrada, o cavalheiro saltou da moita em que se ocultara e lhe agarrou o cofre. Quando o
monge protestou, o cavalheiro replicou que já lhe tinha pago o preço do perdão de seu
ato. Não há dúvida de que naquele tempo se davam tais garantias. O próprio João de
Paltz cita uma transação dessa ordem, que Berenger admite – p. 14.

Nos dias que correm, os escritos católicos romanos negam que as


autoridades da igreja fossem responsáveis pela crença de que a culpa e a divina punição
se renovassem por meio de indulgências. É irrisória a negativa. As cartas dos papas e a
pregação dos agentes vendedores deram ao povo todo o direito de crer que as
indulgências possuíam aquelas virtudes. Estava Lutero enganado quando escreveu ao
arcebispo de Mogúncia, ser crença comum que as cartas publicadas por Leão X
libertavam a alma de toda pena e culpa? Nas Teses publicadas em Francfort-sobre-o-
Oder, Tetzel positivamente declarou que o papa possuía as chaves do purgatório e que
as cartas papais de indulgência, caso o vivo fizesse confissão, “reconciliavam com Deus
o morto que estivesse no purgatório”. Odecop, acérrimo defensor da velha ordem, que
assistiu às preleções de Lutero em seu período inicial, declara que “o povo lançava
durante o dia inteiro suas moedas no cofre das indulgências e era absolvido de todos os
seus pecados, da pena e da culpa”. A libertação do castigo divino era a coisa desejada.
Que caso faz o homem vulgar da culpa, uma vez que as penas relativas à culpa sejam
retiradas? As expressões “plena” e “pleníssima” remissão de pecados – plena,
plenissima, remissio – ocorrem constantemente nas bulas da Idade Média, como
acontece com as expressões “da culpa e pena” – a culpa et poena, Certo número de
bulas, que continham estas últimas palavras, foram citadas por Wyclif e Huss. Em seu
Manual de Indulgências, escrito em 1502, João de Paltz ensinava que as cartas papais
outorgavam remissão de culpa e pena. Quando Leão X, em 1515, prometeu
“indulgência pleníssima e a remissão de todo pecado” – plenissimam omnium
peccatorum remissionem – que conclusões seria o povo capaz de tirar?

§ 6. As XCV Teses. – Dos dias dos Apóstolos até aquele instante, nenhum
manifesto produzira tão intensa e genuína sensação como as proposições que Lutero
afixou à porta da igreja de Wittenberg, a 31 de outubro de 1517. Muitos anos antes ele
havia pregado contra as indulgências. As teses eram um protesto contra a
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mercantilização das indulgências e foram compostas pelo autor para constituírem um


convite ao debate do assunto em público e na universidade. Em poucas semanas elas se
tornaram conhecidas através da Europa Ocidental. Nas instruções baixadas com as
regras que seus agentes deveriam observar ao negociarem as dádivas de Leão, Alberto
regulava os preços a serem pagos, segundo a condição dos compradores. Reis e
príncipes, arcebispos e bispos, deviam pagar pelo menos vinte e cinco florins romanos
de ouro; abades e vigários gerais, barões e cavalheiros com suas esposas, dez florins. A
mais baixa cotação era fixada em um florim; mas, como o reino dos céus tem em vista
tanto o rico como o pobre, as instruções continham providências relativas aos que
pudessem fazer pagamentos menores, sugerindo-se que o indigente tivesse a faculdade
de completar suas dádivas com orações e jejuns, destarte conseguindo pleno perdão.4

Uma grande soma se declarava suficiente pagamento do perdão de


parricídio, incesto e outros crimes graves. No afã de desenvolver uma campanha
vitoriosa, alguns dos vendedores avançaram tanto, que prometeram indulgência pelo
pecado de violação da Virgem. Em suas Teses, Lutero fez menção dessa promessa.
Tetzel sempre negou tê-la feito; mas, em suas Teses de Francfort, ele argumenta do
seguinte modo: desde que a violação da Mãe de Deus, conquanto seja uma
impossibilidade, constituiria pecado menor do que o falar contra o próprio Cristo,
aquela violação podia ser perdoada.

Têm-se levantado dúvidas sobre se o arrependimento era exigido como


condição necessária à participação dos benefícios da indulgência papal. O primitivo
costume de inserir aquela condição foi com freqüência desprezada nas bulas posteriores.
Paulus reconhece que, em certos casos, se fez a declaração expressa de que o
arrependimento e a confissão não eram exigidos. No que se refere à libertação das almas
do purgatório, Alberto seguia os ensinos da Igreja, ao prometer que o dinheiro era
suficiente para o assegurar. A crença popular se expressava no ditado:5

Tão depressa cai a moeda no cofre,

Uma alma levanta vôo do purgatório.

As Teses provaram ser mais do que provocação o discutir o assunto das


indulgências. Eram, de fato, uma provocação a toda a teoria da autoridade da Igreja.
Atacavam a idéia de que o papa fosse capaz de fazer mais do que levantar as
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penalidades impostas pelos oficiais eclesiásticos. Só Deus é capaz de remover a culpa


do pecado. Elas afirmavam que o tesouro real de mérito , do qual se retiram as graças
que se distribuem, são os Evangelhos, e não um depósito de méritos – thesaurur
meritorum – que a teoria medieval inventou e pôs à disposição da igreja e do papa.

Por mais pesado que fosse o golpe dado na venda de indulgências e na


teoria de sua eficácia, ainda mais rude foi o golpe que suas palavras vibraram na teoria
prevalecente de que a igreja, segundo sua vontade expressa através do papa, é para os
cristãos a suprema autoridade. As palavras iniciais das Teses conduziam os homens à
autoridade de Cristo, como suprema autoridade. Dizem elas: “Nosso Senhor e Mestre,
quando diz: Arrepende-te, - agite poenitentiam, quer significar que a vida inteira de
alguém se torne numa penitência”. O tom evangélico das palavras foi realçado pelas
últimas proposições: “Que os cristãos sejam exortados a seguirem a Cristo, a Cabeça,
através do sofrimento, morte e inferno, e assim, através de muitas tribulações, entrem no
reino dos céus, em lugar de se entregarem à sensação da segurança pessoal e do
livramento mediante indulgências dadas aos vivos e aos mortos”. Sem apreciar
devidamente a significação do clamor que levantava contra uma bem defendida crença e
prática, Lutero deslocou, por um golpe, a teoria medieval da supremacia do papa. Ele
era um arquierege em botão. Quando Leão, recebendo cópia das Teses, enviadas pelo
arcebispo Alberto, considerou-as como o desabafo de um alemão bêbado, colocou-se no
mesmo nível da idéia corrente nos meios populares da Itália, dos “bárbaros do Norte”,
expressa por Dante no Inferno – 17:22 – que os tratou como – “os borrachos alemães”.

Uma réplica formal foi dada a Lutero pelo camareiro do palácio papal, o
dominicano Prierias, a qual recebeu severa tréplica do monge de Wittenberg. Os
homens prediziam, acerca de Lutero, morte violenta, ou sugeriam que ele fugisse para a
Boêmia, onde os hereges estavam no poder. Lutero não era homem para fugir ou
facilmente capaz de desviar-se de uma convicção. Ele negou atenção às citações de
Leão, convidando-o a seguir “diretamente para Roma, como filho obediente, onde
encontraria no santo padre um terno e misericordioso pai”. Em vista do tratamento que
Huss havia recebido em Constança, Lutero foi prudente no tocante à aceitação das
garantias papais de paternal afeição. Seu eleitor, Frederico o Sábio, com justificável
interesse pelos direitos de seus súditos, insistiu em que se fizesse justiça e em que o
monge de Wittenberg fosse ouvido em território alemão: Lutero estava disposto – assim
escreveu – a entregar seu caso “ao claro testemunho da Escritura e que, se se instaurasse
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

um processo simplesmente inspirado nos terrores da autoridade eclesiástica, os ensinos


de Lutero, que tinham lançado profundas raízes por toda a parte da Alemanha, levariam
a uma rebelião fatal à autoridade do papa”. Combinou-se que Cajetan, um dos teólogos
aprovados da época, partiria para Augsburgo, onde Lutero era intimado a encontrar-se
com ele. Lutero compareceu, mas o legado papal se recusou a discutir. Sua exigência
peremptória era a submissão. Não se toleravam argumentos. O encontro começou e
acabou com as palavras dos antigos: “Retrate-se! Retrate-se!” Lutero regressou a seu
convento sem ter sido convencido e sem se acovardar. Por esse tempo todas as visitas se
fixavam em Roma e em Wittenberg.

§ 7. Os Concílios Gerais são falíveis. – A questão entre Lutero e seus


oponentes ficou claramente definida na disputa pública realizada em Leipzig, em 1519.
Naquele debate o dr. Eck, tão hábil disputante como erudito, concluiu que Lutero fizera
a afirmação de que os Concílios Ecumênicos podem errar, porque, como afirmara o
Reformador, o Concílio de Constança tinha errado, queimando a João Huss.
Imediatamente Eck, que sentiu ter acertado no ponto, mostrou que o professor de
Wittenberg era um herege e exclamou: “És um boêmio! Se o reverendo padre acredita
que um Concílio pode errar, torna-se para mim pagão e publicano”. Em seus métodos
de discussão, os dois contendores se distanciam tanto como o Oriente do Ocidente. Eck
apelava para o Direito Canônico e para as bulas papais; Lutero recorria incessantemente
às Escrituras, e dizia: “Eck, tu foges da Bíblia como o diabo da cruz!” Pessoas presentes
em Leipzig disseram que o tratamento dado por Lutero aos escolásticos fora “muito
escandaloso”. Outros, como Mosellus, referiram que Lutero se mostrava
maravilhosamente versado na Bíblia e parecia trazer de memória todos os textos. Smith
I:255, 283.

§ 8. Lutero Excomungado e Proscrito. – Toda a gente sabia que o ato


seguinte seria uma bula papal excomungando a Lutero, arma de que os papas tinham
usado tão freqüente e eficazmente para quebrar resistências a seus decretos. Eck tinha
ido a Roma para a obter. Antes de sua chegada a Wittenberg, Lutero, com a intrepidez
de um comandante fogoso, antecipou a bula com a publicação de três obras: - Carta à
Nobreza Alemã, escrita em alemão; O Cativeiro Babilônico, escrita em latim; e A
Liberdade do Cristão. Nos dois primeiros ele denunciava, entre outros erros opostos às
Escrituras e ao verdadeiro Cristianismo, a exclusão dos leigos do governo da Igreja e as
pretensões do papa, de ser o único intérprete da Bíblia e o único a ter o direito de
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convocar um Concílio da Igreja. Lutero declarou que a autoridade do papa “concorda


tanto com a dos Apóstolos, como Lúcifer com Cristo, o inferno com o céu e a noite com
o dia”. O beijar o pé do papa e a pompa de que o papa se cercava, eram invenções do
diabo. O guloso romano era o maior ladrão que jamais passara pela terra. O celibato
clerical e as missas pelos mortos deviam ser abolidos. Os hereges deviam ser reduzidos
pelos argumentos e não pela fogueira. O sistema sacramental da Idade Média era uma
escravidão a que a Igreja fora submetida pelos escolásticos. Quatro, pelo menos, dos
sacramentos eram considerados não escriturísticos. Em comparação com aquelas duas
publicações, que foram os golpes mais rudes até então desferidos contra o papado, a
Liberdade do Cristão era quase uma brisa de verão. Seu autor, ainda mantendo respeito
para com o ofício papal, apresenta a liberdade cristã como liberdade em Cristo – e não
separada de Cristo. Comparava Leão X, a quem se dirigia, a Daniel entre os leões e
exortava-o a que pusesse de lado a falsa glória de que a cadeira papal viera a ser
rodeada, glória própria somente de Judas Iscariotes. A despeito da inaudita altivez do
livro, Grisar e outros escritores católicos romanos concordam em recomenda-lo como
obra escrita no melhor estilo dos místicos alemães.

A bula de excomunhão – Exsurge Domine – assinada por Leão a 15 de


junho de 1520, invocava a Deus Todo-poderoso e a S. Pedro e S, Paulo e a todos os
Santos, para que se erguessem e viessem em socorro da Igreja “contra o javali das
florestas e a besta selvagem dos campos”, e para combaterem contra o “novo Porfírio”.
Suas quarenta proposições denunciavam as afirmativas de que o purgatório não possa
ser provado pelas Escrituras canônicas, que as indulgências sejam uma fraude piedosa,
que o pontífice romano não seja o vigário universal de Cristo e que os hereges não
devem ser queimados, mas convencidos. Leão outra vez citou o monge para comparecer
em Roma, declarando que, caso desobedecesse à intimação, seria exterminado “como
um ramo seco, da vinha de Cristo, sendo punido como herege”. Todos os cristãos foram
proibidos de ler seus escritos e os lugares que lhe pudessem servir de asilo foram postos
sob interdito.

Lutero desafiou a fulminação por meio de um dos atos mais ousados que os
mortais jamais praticaram: após ter dado a devida publicidade a seu propósito, na
presença dos estudantes da universidade de Wittenberg e de todos os professores, exceto
o lente de Hebraico, a 10 de dezembro de 1520 lançou às chamas o documento papal.
Naquela tarde, escrevendo a seu velho amigo Staupitz, assegurava que, antes de
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

queimar a bula, tremia e orava; mas, depois de a ter queimado, sentiu-se mais satisfeito
com a queima do que com qualquer outra coisa que houvesse feito na vida.

A bula de excomunhão, publicada por Leão X, devia entrar em vigor a 3 de


janeiro de 1521. Ela separava a Lutero do corpo de Cristo, e o pontífice nada mais podia
fazer a não ser seguir o curso normal, entregando o herege às autoridades seculares para
a punição corporal. Isso ele o fez, à semelhança do Concílio de Constança, que havia
entregue João Huss ao imperador Segismundo. As exigências do império levaram
Carlos V a hesitar. Aleander, legado do papa junto à corte imperial, cuja função era
insistir com Carlos para que agisse, escrevendo para Roma acerca das condições
prevalecentes na Alemanha, declarou que o conflito travado entre Gregório VII e
Henrique IV fora tão suave como violetas, quando comparado à contenda entre Leão e o
rebelde de Wittenberg. Toda a Alemanha, escreveu ele, estava em armas e zombava das
bulas papais. Finalmente, Carlos citou a Lutero para com ele se encontrar na dieta de
Worms, em abril de 1521. A assembléia perante a qual Lutero compareceu compunha-
se de seis dos sete eleitores, dois legados papais, bispos, príncipes, duques e
representantes das cidades livres. Na noite que se seguiu à primeira reunião, Aleander
escreveu para Roma num ar de triunfo, antecipando a completa submissão de Lutero no
dia seguinte. Naquele mesmo instante Lutero escrevia: “Não me retratarei de um til, se o
Senhor estiver a meu lado”. Acusado no dia seguinte perante a dieta, de sustentar os
artigos de João Huss, e convidado a retratar-se, ele pronunciou as palavras memoráveis,
que colocam as Escrituras e a consciência acima de todas as autoridades eclesiásticas e
civis: “A não ser que eu seja convencido por testemunhos da Escritura ou argumentos
claros – porque, por eles mesmos, não creio nem em papa, nem em concílios –
permaneço convencido pelas Escrituras, compreendidas por mim mesmo e por minha
consciência, sendo esta limitada pela Palavra de Deus. Retratar-me eu não o faço e não
o desejo, porque fazer alguma coisa contra a consciência é arriscado e perigoso. Aqui
fico. Não posso agir de outro modo. Deus me ajude. Amém.”6

Dali por diante estava a Cristandade dividida em duas partes. Está fora de
discussão qualquer arranjo. Da cena de Worms disse Froude ter sido uma das poucas
cenas grandiosas da história humana. Carlyle se pronunciou, chamando a reunião da
dieta “o maior monumento da história dos homens”. O historiador católico romano,
Lord Acton, vai muito além, quando afirma que “Lutero em Worms é o ato mais
fecundo e momentoso de nossa história”. Estando esgotado o período de trégua
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concedido pelo salvo-conduto de Carlos V, a 26 de maio o imperador declarou Lutero


proscrito, o diabo vestido de monge, e ordenou que fosse preso onde quer que fosse ele
encontrado.

Os princípios do novo movimento tinham sido definidos. Pertencia a Lutero


e aos Reformadores de outras terras fortalece-los e pô-los em prática. Lutero traduziu o
Novo Testamento para o alemão, que foi a primeira versão do grego, no decurso de
muitos séculos. Traduções em outras línguas seguiram-se prontamente, incluindo-se a
tradução de Tyndale, feita do grego para o inglês, em 1526. Em Wittenberg o elemento
sacrificial foi retirado da missa; o culto de imagens e de santos foi abolido; o cálix foi
restituído aos leigos. A pregação se tornou a parte central do culto público. Foi
introduzida a prática do cântico por toda a congregação. Prepararam-se catecismos para
o povo. Aboliu-se a prática do celibato clerical. O próprio Lutero se casou, e sua casa se
tornou o modelo do lar cristão, onde o pai canta e ora com seus filhos e a hospitalidade
se estende francamente a estudantes e a outras visitas. Em 1530 à Reforma Alemã foi
dada a fórmula de suas definições, através da Confissão de Augsburgo.

Os príncipes alemães e os legados das cidades imperiais alemãs foram


divididos em duas facções, no tocante às mudanças religiosas. O Concílio de Trento
considerou as divergências, mas reafirmou o sistema medieval. Entre os dois partidos
rebentou uma guerra açulada pelo papa, guerra que teve desfecho indeciso. Pelo tratado
de Passau, 1552, e pela resolução da dieta de Augsburgo, 1555, o Protestantismo teve
na Alemanha reconhecimento oficial.

Em outros países da Europa Ocidental, a vereda aberta por Lutero teve


seguidores. Em detalhes, que agora parecem de pequena importância, Zwinglio, Calvino
e os Reformadores Ingleses dissentiram do líder alemão. Os abusos que Lutero repudiou
como anti-escriturísticas, eles também as repudiaram. Entre os Protestantes de todos os
países, circularam as Escrituras, deu-se proeminência ao púlpito, reduziu-se o número
de sacramentos, renegou-se a supremacia do papa, o culto dos santos foi abolido e as
funções de conselho substituíram a mediação e a absolvição sacerdotais. Fundaram-se
universidades em lugares que dantes não as possuíam, como Genebra, Zuric e Holanda,
e adotou-se um sistema geral de educação. A interpretação que João Calvino deu ao
Protestantismo prevalece entre os povos da Europa Ocidental; mas os princípios
fundamentais estabelecidos por Lutero prevalecem aonde quer que o movimento aporte.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Bibliografia e Notas

1. Para a descoberta e texto das leituras, Vide Ficker: L.’s Vorlesung uber d.
Romerbr., 2 vols., 1908.

2. Falando da bíblia que Lutero usava desde o tempo em que estava no


convento, livro que ele descrevia, nos últimos anos, como encadernado em rubro. Grisar
acrescenta que o monge se aprofundou no estudo dela e, após ter brilhantemente
preenchido as condições, recebeu o título de D. D.

3. Paulus: Tetzel, p. 31, caracteriza o entendimento entre os agentes de


Alberto e Leão como “acima de tudo, uma transação financeira”. Schulte: D. Fugger in
Rom., p. 121, fala da nomeação de Alberto para a sede Halberstadt como “um exemplo
de pura e simples simonia, se jamais existiu simonia”. O original da bula de 31 de
março de 1518, concedendo a Alberto a indulgência livre, está em Munich.

4. A Tese 75a diz – etiamsi quis per impossibile dei genetricem violasse, est
insanire. Quanto à carta de Lutero a Alberto, Vide Kohler, 139, 144, e Kidd 27 e ss.
Lutero repetiu a asserção em suas Resoluções, 1518. Escrevendo a 32 de dezembro de
1518, Tetzel negou que fosse culpado da blasfêmia, fosse do púlpito ou por escrito;
Paulus, p.61.

5. Janssen – Pastor 2:83 e ss., reconhece que, de acordo com bulas papais
assim como pelas Instruções de Mainz, a única condição para a obtenção de uma
indulgência para os mortos era o pagamento de dinheiro, estando estabelecido que o
arrependimento e a confissão não eram necessários.

6. Circulou livremente através de Worms que Huss estava outra vez a ser
julgado. Sobre as cartas que trartam do incidente de Worms, Vide Smith, Cor.: 506-547.
A declaração divulgada pelo secretário, John von Eck, funcionário do arceb. de Treves,
é transcrita por Kidd, pp. 82-85. Grisar – 1:389-91 – faz esforços para mostrar que
Lutero não pronunciou todas as palavras que lhe são atribuídas. Eck mencionou as
palavras em caráter de citação e referiu que Lutero falou em Latim, até chegar à
cláusula: “Aqui permaneço”, hier steh ich. O uso das duas línguas corresponde com a
observação de Oldecop, sobre o método de Lutero na sala de estudo.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO VI

A PERSONALIDADE DE LUTERO, PRETENSO DESCRÉDITO DA

REFORMA

Se podes responder-me, põe em ordem tuas palavras diante de mim, e levanta-te. – Eliú a
Jô.

Através de repisadas alocuções papais e através do ensino oficial da


comunhão romana, o Protestantismo é uma heresia e as igrejas protestantes são
propagadoras de uma religião anticristã. São de duas espécies os argumentos aduzidos
em abono dessa atitude: a primeira classe de argumentos se baseia no fato de ser o
movimento protestante um evento que anormalmente interrompeu a vida da Igreja, que
vinha seguindo seu curso de quinze séculos, e uma rebelião contra a autoridade
divinamente constituída; a segunda classe de argumentos se tem deduzido dos
princípios característicos e das divisões denominacionais do Protestantismo e sua
suposta influência perniciosa sobre a sociedade. Os controversistas romanos costumam
dar relevo especial à primeira classe de considerações, tratando a natureza do evento em
si mesmo e o caráter do principal protagonista, Lutero, como ruins. Por outro lado, os
escritores protestantes dão principal realce aos argumentos decorrentes da concordância
de seus ensinos com as Escrituras.

O argumento que apresenta o Protestantismo como uma religião perversa


contra uma instituição que arrogava caráter divino, procura, antes de tudo, mostrar que
Lutero foi impulsionado por motivos inferiores e que sua personalidade desacredita o
Protestantismo. O artifício sobre que o argumento se constrói é expediente corriqueiro
de arrasar um movimento moral por derribar, se possível, o caráter de seu originador ou
promotor. Aplicado ao Protestantismo, ele corre nas seguintes linhas: se o autor do
Protestantismo – como Lutero é chamado – foi um homem mau, então o sistema
protestante também deve ser mau. Se aquele era corrupto, aquilo a que ele deu
existência não pode ser bom.

A resposta é, em primeiro lugar, que o expediente desvia a atenção do


assunto principal para matéria que não lhe é de importância vital. A questão é saber-se
se o Protestantismo está de acordo com a constituição da Igreja cristã, e não se Lutero
era homem bom ou indivíduo ruim. Houve outros Reformadores protestantes ao lado de
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Lutero e seus ensinos concordam com os deste. Nenhum protestante sonha com um
Martinho Lutero “autor do Protestantismo”, assim como não pensa que Copérnico seja o
autor da lei do movimento da terra ou que Newton seja o autor do sistema de gravitação.
O que o protestante diz é que Lutero descobriu o sistema protestante. O que Lutero fez
foi revelar o que ele descobriu. Toda a importância do assunto reside no saber-se o que
ele descobriu na Bíblia, aquilo que ele disse haver achado na Bíblia. Ensinam as
Escrituras aquilo que ele ensinou? Os adversários de Lutero, durante a vida deste, em
lugar de julgarem o caso pelas Escrituras, julgaram-no à luz do Direito Canônico, das
prerrogativas papais de uso histórico. Em segundo lugar, o argumento derivado da
personalidade de Lutero, para que se tornasse plausível, devia assentar que Lutero foi
um mau homem, orientado por impulsos diabólicos. Esse método ou raciocínio é de
todos o mais fácil, mas descansa sobre uma desesperada deturpação do próprio Lutero
como homem, na perversão de suas palavras e, às vezes, sobre o modo de interpretar-lhe
as expressões acerca de suas experiências pessoais e das condições prevalecentes em
seu tempo, considerando-as como falsidades deliberadas.

O Protestantismo não resultou da elaboração do cérebro de Lutero. É um


sistema que trouxe para a luz certos ensinos de Cristo, como um processo químico
reaviva num palimpsesto o escrito original, que tivera algumas partes obscurecidas ou
apagadas por algum escritor mais recente. Considerando-se o Protestantismo como um
movimento histórico, é legítimo dizer-se que Lutero foi, humanamente falando, seu
autor; mas, dizer que Lutero foi o autor do Protestantismo, considerado como um
conjunto de crenças, é afirmar uma falsidade. A segunda proposição difere da primeira e
é pura peça de velhacaria ignorar a dupla significação da palavra “autor”, quando se fala
de “autor do Protestantismo”. É mesmo possível admitir que a verdade cristã seja
descoberta por um agente não cristão. Os demônios testificaram que Cristo era o Filho
de Deus, antes que alguns dos discípulos, senão todos eles, o soubessem. Qualquer que
fosse o caráter de Lutero, isto é uma coisa, e deve ser julgada por si mesma. O
Protestantismo é outra coisa e seus méritos devem ser apreciados segundo sua
concordância com os ensinos de Cristo.

O ataque dirigido contra o Protestantismo, mediante o achincalhe do caráter


e dos móveis de Lutero, principiou nos primeiros momentos da revolução protestante.
Polemistas e pontífices, desde João Eck a Leão X, começaram prontamente a inflamá-lo
como instrumento do reino das trevas e monstruosidade moral. Esse método foi
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

francamente usado pelo cardeal Belarmino. E em tempos mais recentes, tem sido
imitado por notáveis escritores católicos romanos de três países, como o dr. Milner,
Dollinger em seu primeiro período e o bispo Spalding. Ainda mais recentemente, aquele
método foi reeditado pelo padre Denifle e por Herman Grisar, em suas Vidas de Lutero.
Se Coleridge tratou a Lutero como “a maior responsabilidade desde os dias de S.
Paulo”, Perrone, professor do Colégio Jesuíta de Roma, chamou-o de rebelde que se
rendeu à ambição. Se Carlyle viu nele “um herói verdadeiramente espiritual e um
profeta em atenção ao qual aqueles séculos e muitos que estão para vir, renderão graças
ao céu”, Urbano VIII difamou-o como monstro terrífico – monstrum teterrimum. Se
Melanchton o colocou ao nível de Isaías e S. Bernardo, Leão X e outros inimigos
chamaram-no Catilina, novo Porfírio, louco, miserável, geração do diabo. Escrevendo
em solo americano, o arcebispo Spalding fala de Lutero como “possuído de uma legião
inteira de demônios; de Zwinglio como de um verdadeiro pagão e de Calvino como um
legítimo Nero, que aniquilou as liberdades públicas em nome da liberdade”. Denifle tem
estigmatizado cada vez mais o monge alemão, tratando-o como um cabeça-oca,
mentiroso, vilão velhaco, trapaceiro, desprezível canalha, monstro moral – Ungeheuer –
culpado de terrível depravação – grauenvoller Unzucht. Voltando à popular Vida de
Lutero, p. 357, O’Hare, seu autor, obriga a língua inglesa a produzir os epítetos que ele
julga adequados, e chama a Lutero “blasfemo, libertino, revolucionário, desprezador dos
votos sagrados, desgraça da vocação clerical, pai do divórcio, advogado da poligamia e
propugnador da imoralidade e da licenciosidade ostensiva” – tudo isso de um fôlego – e
numa obra aprovada pelo cardeal americano! O dr. Guilday, no prefácio de um livro de
monsenhor O’Hare, escreve que há muitas cenas vergonhosas na vida de Lutero” e
atribui a Lutero “impotência para vencer a tentação e a negação do valor moral dos atos
humanos”. Se tais epítetos e normas de ação, pregados às costas de Martinho Lutero,
realmente representam o homem, os poderes das trevas possivelmente nunca tiveram
mais dócil serviçal. Os adjetivos maus não tornam, todavia, o homem mau. Outros
homens, antes de Lutero, foram apedrejados com doestos. Wyclif foi estigmatizado por
um dignitário de alta categoria, o arcebispo Arundel, como “aquele pestilento
desgraçado, de odiosa memória”, e tudo isso porque Wyclif, a instâncias desse mesmo
arcebispo, fizera uma tradução da Bíblia.! Profetas genuínos foram repelidos e Aquele
que era mais do que homem sofreu a calúnia de possuir demônio. Resta mostrar em que
consistem as acusações tremendas levantadas contra Lutero e determinar se há razão
líquida para que se conclua ter sido mau seu caráter e serem corruptos seus intuitos.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

§ 1. Fantasias a respeito de Lutero. – Certas acusações contra Lutero têm-


se baseado em pura fantasia. Essas invencionices se voltam para sua conduta em
rapazinho e acompanham-no até a hora da morte e sepultamento. Em criança – assim
rezam os rumores – foi acostumado a tomar o cálix na comunhão. A conclusão a tirar é
a de que sua pretensa impiedade natural começou cedo. A acusação envolvia seus pais e
Lutero a responde numa carta, 1520, em que descreve o lar de sua infância – Smith,
1:273 sq. Se a acusação fosse verdadeira, teria desacreditado a fidelidade dos sacerdotes
daquele tempo, por permitirem semelhante coisa.

Quanto ao modo por que morreu, Lutero se divertia em ler, quando vivo,
uma narrativa a esse respeito, escrita em 1545 por um engenheiro italiano. A notícia
referia que, após ter Lutero tomado o sacramento e morrido, um grande rumor se ouviu
e o sacramento foi visto suspenso no ar. Mais tarde, abrindo-se a sepultura de Lutero,
desprendeu-se um odor sulfuroso e nenhum resto de seu corpo se encontrou. Por essas
duas maravilhas – assim termina a história – muitos hereges se converteram. Lutero
possuía o folheto traduzido e publicado em Wittenberg. A história foi repetida pelo
cardeal Belarmino.

Outra anedota, contada com freqüência, veio dos lábios de um padre jesuíta
de Cheol, no Brabante, Thyraeus, o qual referiu que muitas pessoas possuídas de
espírito mau, visitando a cidade, tiveram cura temporária no próprio dia em que Lutero
morreu. No dia seguinte ao da morte de Lutero, os espíritos voltaram e entraram nas
mesmas pessoas; e, como se lhes perguntasse onde tinham estado no dia precedente,
responderam que, por ordem de seu príncipe, tinham ido esperar a alma de seu “grande
profeta e companheiro” – que outro não era senão Lutero.

Uma fábula muito grave, que tem tido longa duração e que foi aceita por
eminentes letrados, corre mundo, dizendo que Lutero praticou o suicídio, pendurando-se
a uma trave do leito, sendo que, depois da morte, seu corpo emitia um odor horrível.
Recentemente, em 1890, em uma junta de negócios alemã, a história foi repetida como
fato verídico pelo padre ultramontano e editor, Manjuke de Berlim.1 O livrinho em que
o caso fora recomposto alcançou pelo menos quatro edições. Seus termos, condensados
e elaborados num panfleto de 92 páginas pelo dr. Honef, produziram sensação através
da Alemanha. A edição original fora primeiro impressa por Bozio, em 1593,
aproximadamente cincoenta anos depois da morte de Lutero. Ela discorda do
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

testemunho explícito de grande número de pessoas que se achavam presentes quando


Lutero morreu, da divulgação rápida de sua morte em Wittenberg e das honras que
imediatamente lhe foram tributadas. A intenção de Bozio era mostrar que todos os
hereges acabam por morte violenta. A história foi repetida pelo cardeal Belarmino,
juntamente com invencionices alusivas às horas derradeiras de outros Reformadores,
muitas delas retiradas do mesmo fabricante italiano. Nestes últimos tempos, apesar de
ser ainda repetida como passatempo popular, a mentira foi posta de lado por reputados
historiadores católicos, como Funk, Pastor e Janssen. Finalmente, ficou provado, a
ponto de não mais admitir qualquer dúvida, ser pura invencionice do historiador
católico romano, Paulus, baseado numa narrativa feita sobre a morte de Lutero pelo
boticário de Eisleben, que era católico romano, narrativa que durante séculos dominara
a arena polêmica.

§ 2. A linguagem violenta de Lutero. – Os adversários de Lutero


argumentam que, visto ter sido a linguagem do Reformador freqüentemente vulgar e
grosseira, seu coração devia ser ímpio. Em referência ao papa, e a outros adversários,
ele manejou os nomes mais atrevidos. O bispo Spalding disse que “Lutero esgotou
todos os epítetos da mais grosseira obscenidade contra seus oponentes, pouco
importando a respeitabilidade que eles pudessem ter”, 1:88. É verdade que Lutero fala
de Roma como de uma Sodoma, o pior antro de homicidas, assento de lupanares, fonte
e lugar de todo o pecado, morte e perdição. Fala do papado como da última desgraça
que a terra podia esperar e o pior de todos os demônios podiam fazer. Linguagem como
esta, e freqüentemente repetida, argúi-se, denota um espírito destituído de qualquer
respeito a pessoas e lugares sagrados. Seja dito de passagem que a mesma observação
pode ser feita em relação ao bispo Jewel e a Tyndale, porque eles disseram, em
substância, as mesmas coisas.

Do ponto de vista de nosso tempo, pode-se dizer que a linguagem aviltante


de que Lutero usava era, algumas vezes, atroz. Ele foi, se é possível, além dos limites.
Ao apreciar suas explosões de palavra, que com freqüência provocam risos por seu
excesso de mordacidade, não se deve esquecer que a linguagem polida do trato com
adversários, não foi característica do século XVI. Se os epítetos virulentos e soezes são
um índice seguro de virulência e grosseria, então dificilmente se encontrará um escritor
religioso, de certa projeção, na época de Leão X e Lutero. Outros Reformadores
lamentavam a linguagem violenta de que Lutero se servia ao lidar com os inimigos e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

insistiam em que ele se moderasse. O próprio professor de Wittenberg lamentava o mau


hábito. Antes de reunir-se a dieta de Worms, Lutero escreveu ao eleitor Frederico –
Smith – I;479 – pedindo que lhe perdoasse a intemperança de língua e pedindo que se
lembrasse de que tinha de combater contra quadrilhas de Moab e que Shemeis contra ele
se erguera. Não se deve olvidar que, desde os dias de Jô, raras vezes, ou talvez nunca,
houve tanta provocação à explosão de linguagem, como houve no caso de Lutero. Se o
Reformador foi implacável no trato com seus inimigos, estes foram perversos em suas
relações para com ele. O Reformador viu que às suas palavras se davam interpretações
errôneas e suas intenções eram grosseiramente falsificadas. Em vez de ser combatido
com argumentos, enfrentavam-no com ameaças e mentiras calculadas para que ele se
irritasse. Meus adversários – escreveu ele, em 1521 – não me combatem com as
Escrituras, mas com clamores de que eu seja exterminado da terra. No mesmo ano
mencionou inumeráveis falsidades contra ele inventadas durante os três últimos anos.
Se ao menos – continuou – as pessoas que veiculam as inverdades viessem a Wittenberg
e tomassem o depoimento dos vizinhos, eles de modo algum expediriam relatórios
falsos acerca de seus atos, nem seriam aduzidos a suspeitas sem base. Se Lutero deve
ser condenado por tratar com os adversários sem calçar luvas, porque seriam escusados
Leão X e Henrique VIII, quando atacaram a Lutero com os mais vigorosos epítetos e
pediram sua morte, como se tratasse de criatura indigna de viver?

§ 3. A linguagem dos adversários de Lutero. – O vocabulário de Lutero,


como já se notou, pode ser compensado pelos vocabulários de indivíduos e autoridades
que contra ele se levantaram. João Eck, um dos teólogos mais respeitados da época,
escreve: “Tenho por mais de uma vez mostrado que Lutero é mentiroso, como seu pai, o
diabo”. Em seus “Obeliscos”, 1519, o professor chamava a Lutero “rebelde, falador sem
brio, hussita.” Um ano antes, Gabriel della Volta, superior da Ordem dos Agostinhos,
proclamara ser o monge de Wittenberg “inimigo da cruz, um miserável que o papa
ordenara se metesse na prisão, ligado em cadeias e sob estrita vigilância”. Prierias não
teve remorso de tratar a Lutero de “leproso espiritual”. É para admirar que Lutero
devolvesse o bom trato recebido, e replicasse a essa e a outras provocações do
camareiro do Vaticano, estigmatizando-o como “desavergonhado e mentiroso
mensageiro do diabo”? Quem era Prierias, afinal? Sua posição no Vaticano tornava-o,
porventura, imune do castigo merecido? Por que não havia ele de observar um rígido
código de linguagem cavalheiresca, assim como os outros menos favorecidos? “Diabo”
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

era palavra bastante em voga entre os que discutiam questões de teologia. Referindo-se
ao discurso de Lutero em Leipzig, Eck declarou não ter ficado sabendo se naquela hora
Lutero trazia o diabo no ventre ou debaixo do capuz.

Se voltarmos a atenção para os dignitários, veremos que Leão X será, se


possível, menos comedido nas palavras do que o próprio Lutero. Enviando a rosa de
ouro a Frederico, 1518, ele ao mesmo tempo caracterizou o monge de Wittenberg como
“aquela ovelha escrofulosa, filha da perdição, que se diverte em pregar contra nós e
contra a santa sé romana”. Mais tarde, anunciando a Frederico a bula que estava
elaborando contra o monge, o pontífice chamava a Lutero “o homem venenoso e
pestilento, a ovelha escrofulosa, o filho da iniqüidade, o filho da perdição; o ministro de
Satanás, que era dirigido pela ambição e buscava o dinheiro do povo; o homem que
ajudava aos turcos e que fora enviado por Satanás; o homem que, no ímpeto de seu ódio
ímpio, vomitava erros contra a santa sé, pelo que o aguardava o juízo de Deus”. A
referência que Leão faz a dinheiro poderia ser impressionante, se não fossem a
desastrosa administração de seu próprio tesouro e suas dívidas á Cristandade.

O legado de Leão na corte de Carlos V igualava a seu amo no colecionar


vitupérios. Escrevendo para Roma, Aleander tratou Lutero por nomes tais como
anticristo, miserável, tolo, cão, louco, monstro pernicioso, velhaco e cachorro, para
quem as cadeias e as chamas estão preparadas – Smith, I:496, 497, 518, 525, 527, 544-
547, etc. A epítetos tão suaves como esses se equipararam as referências do embaixador
de Carlos V em Roma, escrevendo que Lutero “não seria bem recebido no inferno”. O
próprio edito do imperador atira-se contra a doutrina de Lutero, tratando-a como “a mais
cancerosa das pestes”; e proibiu a todos de darem a Lutero cama ou mesa, ou lhe
prestarem auxílio de qualquer espécie. Não se mediam as palavras em nenhuma das
facções, e é legítima a curiosidade de saber-se se alguma boa razão existe para que, de
um lado, se tenha direito de esgotar as páginas mais escabrosas dos dicionários, e não
tenha o outro lado esse direito.2

É verdade que, do ponto de vista de um fervoroso católico romano, é


bastante estranhável que Lutero tratasse os altos dignitários com malicioso desrespeito:
pensa o tal que o pontífice romano, como vice-gerente de Deus na terra, sendo
submetido àquele tratamento, não responda, ou responda, pelo menos, em linguagem
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

cortês. Suposto, porém, que o Presidente dos Estados Unidos aplicasse a um cidadão
americano epítetos

deprimentes, o americano não havia de sentir-se justificado, retrucando da


mesma maneira? Se Lutero violou os cânones do bom tom e neste excelente século XX
não merece desculpa, muito menor fundamento há para que se desculpe a Leão, que foi
criado, não como um camponês, mas em Florença, em meio da cultura e das maneiras
cortesãs dos Medicis.

Lutero foi envolvido pela guerra e não por um torneio literário. Na guerra se
usam armas, e não frases floridas. Leão deu início aos nomes deprimentes. Lutero foi
condenado como herege e bandido. Seus livros foram queimados pelas universidades.
Foi recomendado às chamas. Sua vida foi caçada. Livremente se predisse sua morte
desde o momento em que as Teses começaram a circular. O cardeal Cajetan recebeu
instruções de Leão, na dieta de Augsburgo, 1518, “para manter Lutero em segurança”.
Ao mesmo tempo se apelou para o eleitor, Frederico, para que entregasse Lutero à
autoridade de Leão. Mais tarde, Leão enviou ao eleitor um pedido específico, no sentido
de que se prendesse o monge. No mesmo propósito os cardeais reforçaram suas súplicas
ao príncipe – Smith 1:334. Lutero foi tratado como nem a um anarquista se trataria hoje.
Não se lhe deu ouvido. Em 1520 o Reformador escreveu ao eleitor que “estava cercado
pela frente e pelas costas por espadas, bulas, trombetas e buzinas papistas, mas se não
aterrorizava com suas ameaças”. O propósito papal de ver a Lutero queimado, não se
abateu com o correr dos anos. Paulo III, insistindo na sua morte, pediu a Carlos que
lembrasse de Eli, Uzias e outros transgressores, que viveram sob o Velho Pacto, e da
punição que eles tiveram de sofrer. Não é de espantar que Lutero chamasse a Paulo “sua
alteza infernal” e Calvino lhe aplicasse epítetos de igual força ou ainda mais fortes. Ao
contrário de seu predecessor, Huss, Lutero viveu até a morte natural, com a face voltada
para os inimigos e em presença das mais violentas tentativas para fazê-lo perecer.3

O século XVI não foi um modelo de delicadeza. Se alguém procura


grosserias de linguagem, não terá outra coisa a fazer senão lançar os olhos sobre os
sermões que o grande pregador Geiler proferia es Strasburgo, na época em que Lutero
estava no convento, ou tomar Reuclin, o erudito, que numa obra contra seus
caluniadores, 1513, esbordoava-os com doestos tais como bodes, cães, lobos, porcos,
porcas, cavalos, asnos, filhos do diabo e filhos do inferno.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

§ 4. O estilo de Sir Thomas More. – Dos adversários ingleses da Reforma,


poderíamos ser tentados a esperar alguma coisa diferente, mas ficamos decepcionados.
Sir Thomas More usou do mesmo vocabulário de que Lutero se serviu. More era
chanceler de Henrique VIII e um dos principais fidalgos de seu tempo. Foi beatificado
por ato recente de Leão XIII. Com toda a justiça se poderia esperar de tal homem a
maior pureza de linguagem. O senhor de More, Henrique, tinha sido rudemente tratado
por Lutero, que o chamou de “burro coroado, e com desgosto de Deus, rei da
Inglaterra”. A linguagem era acerba, mas não condenatória como a de que o rei havia
usado, quando tratou a Lutero de “lobo do inferno e membro de Satanás”. Mais tarde
Lutero expressou sua tristeza em razão de sua linguagem violenta, mas de um rei
dificilmente seria lícito esperar uma desculpa, e nenhuma desculpa veio.

O chanceler de Henrique seguiu o amo e pôs de lado, poderíamos dizer, o


decoro da controvérsia. Não o censuramos por ter caracterizado o sistema de Lutero
como “todo o amontoado de heresias reunidas”, porque ele assim o considerava. Nem,
talvez, podemos censurá-lo por haver dito em seu Diálogo sobre as Imagens – IV-15,
que “de todas as heresias que jamais surgiram na Igreja de Cristo, as piores são as
luteranas”. O caso é outro, quando o culto juiz se dirige a personalidades.
Repisadamente ele se refere a Lutero nestes termos: “aquele louco” – hic nebulo;
“aquele velhaco”; “o louco mais furioso, com intentos diabólicos”; “aquele louco de
face asinina”. Estigmatizou a Lutero como o anticristo que escondeu sob a fé sua
própria perfídia e blasfêmia. Lutero – assegurou More – escreve as mais mentirosas
blasfêmia, como nenhum asno estulto, ainda que se esforçasse, poderia zurrar” – ut
nulus asinus potuerit stolidus rudere. Todos os que forem bons cristãos – assim
aconselhava o chanceler – “devem espancar e moer os luteranos, como a Escritura
recomendou que se fizesse com as crianças de Babilônia, esmagando-lhes a cabeça de
encontro às pedras”. Quanto ao próprio Lutero, ele devia ser – “despachado como o
foram Ananias e Safira. Em sua boca disforme e monstruosa ele gerou mentiras
imundas e pestilências blasfemas de natureza tal, que o próprio Satanás dificilmente
seria capaz de imitá-lo. Nele, como num esgoto do inferno, todas as espécies de escória
lamacenta e imundície se precipitaram. Ó Satanás, com que honestidade muitíssimo
maior tu tratas a Escritura, em confronto com a maneira porque o faz Lutero, teu
discípulo!” A outros adversários, tanto ingleses como alemães, More tratou de “suínos”,
“cães infernais que o diabo guarda em seu canil”, “macacos adestrados para
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divertimento de Lúcifer”, como aconteceu em seu Diálogo, contra Frith. O derradeiro


nome deprimente que ele deu a Tyndale foi o de “tratante”. More o acusava de ser,
assim como Lutero, “criatura dominada pelo pecado e pela corrupção bestial, sendo tão
lascivo um como o outro. Raciocina como se fosse algo melhor que uma besta, de cuja
boca brutal, animalesca, sai tal baba suja de blasfêmias contra os santos sacramentos de
Cristo... Este indivíduo tão fanático e falso nas invectivas”. More se vangloriava do ódio
que nutria contra os hereges; e sobre a tortura a que os submeteu na Torre, diz ele:
“Como bem o merecem, o poder temporal queima-os; e, depois do fogo de Smithfield, o
inferno os recebe lá onde os miseráveis ardem para sempre”. De João Tewksburry,
queimado em 1531, disse o chanceler: “Nunca houve um desgraçado, concordo, mais
digno disso”. A Thomas Hylton, queimado no ano anterior, ele chamou “a panela de
fogo do diabo”. A verdade é que Lutero e More, como se diz haver observado o bispo
Atterbury, “tinham maior habilidade do que quaisquer homens da Europa, em tratarem
um ao outro pelos nomes mais crus em excelente latim”. A despeito de sua linguagem,
More está bem encaminhado a ser proclamado santo – e Lutero é ainda chamado
demônio.

O emprego de linguagem abusiva contra os adversários religiosos teve


pequeno ou nenhum abrandamento nos anos que imediatamente se seguiram ao estalar
da Reforma. No Sínodo de Passy, 1562, a que doze ministros protestantes, inclusive
Beza, foram presentes, o jesuíta Laynez chamou aos protestantes “lobos, raposas,
serpentes e assassinos”. Cem anos depois, em 1640, os jesuítas no volume jubilar
comemorativo de sua Ordem, falam de Lutero como daquela “deformidade da
Alemanha, daquele porquinho epicurista, a praga da Europa, o monstro miserável do
mundo, objeto de ódio do homem e de Deus”. Em nosso próprio tempo, ainda Leão XIII
– 3 de dezembro de 1880 – se mostrava mal informado, ou fez voluntária injustiça a
seus semelhantes, ao considerar os missionários protestantes como “homens mentirosos,
disseminadores de erros, que se fingem de apóstolos e estão empenhados no esforço de
propagar o domínio do príncipe das trevas”. Pio X, em sua encíclica Borromeu, 1910,
uniu-se a Leão XIII no estigmatizar os Reformadores como “inimigos da cruz e homens
votados aos desejos carnais, cujo deus é o ventre”. O dr. Milner, em seu Fim da
Controvérsia Religiosa, formulou suas conclusões acerca do “libertino frade alemão”
nestes termos: “Mostrei que o patriarca Lutero era joguete das paixões desenfreadas,
orgulho, ressentimento e cobiça; que ele era turbulento, desabusado e sacrílego no mais
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

alto grau; que era o trombeteiro da sedição, da guerra civil, da rebeldia e da desolação;
e, finalmente, que, por sua própria escolha, foi discípulo de Satanás no tocante ao artigo
de maior importância de sua pretensa reforma”. Tudo isso vem a significar que a
Reforma foi obra do diabo e Lutero seu agente imediato.

§ 5. Lutero, homem de espírito satânico. – Procurando razoável


explicação para a torpeza de espírito de Lutero e para a depravação de seus propósitos,
um inimigo investigou-lhe o nascimento e descobriu que “o menino fora gerado de
adultério do diabo com a mãe de Lutero”. Assim foi o assunto posto em tela por
Cochlaeus. Os escritores romanos da atualidade, não recuando a tão grande distância,
encontram nas próprias expressões de Lutero, que descrevem seu hábitos, ou que se
presumem descritivas de seus costumes, e nas explanações de suas próprias crenças,
provas de que ele era maligno de coração, vingativo, entregue à ambição grosseira, dado
à mentira e ainda à incontinência. A mais cuidadosa pesquisa feita no sentido de lhe
descobrir os intuitos íntimos, foi recentemente feita pelo dominicano Denifle e pelo dr.
Hermann Grisar. Denifle, desviando-se dos estudos medievais em que era mestre,
dedicou dois volumes a Lutero, acusando-o da depravação mais baixa que a mente
possa conceber. João XXIII foi acusado de um catálogo apavorante de iniqüidades
específicas; mas a torpeza moral nunca foi mais veemente e repetidamente argüida
contra um mortal do que o foi contra o Reformador alemão, Lutero, na denunciação de
Denifle. A que maior distância poderia ir um autor do que fez o dominicano, quando
declara que Lutero inventou a doutrina de que a justificação é pela fé, com o exato
propósito de continuar na prática desenfreada do pecado! Em comparação com Denifle,
o professor Grisar é moderado e assinala mesmo que algumas das acusações de seu
predecessor são insustentáveis. A caprichosa biografia escrita por Grisar é uma tentativa
de estudo da psicologia de Lutero. A conclusão a que chega o autor é a de que Lutero
começou bem como filho da Igreja e que algumas de suas primitivas denunciações,
contra o estado religioso de seu tempo, foram bem merecidas. Em 1520, Lutero
experimentou uma completa mudança. Vendo-se a fazer barulho na Europa, deu ensejo
ao vão amor da notoriedade e à ambição, tornando-se escravo delas. O desmedido
orgulho, alicerçado no temperamento ardente e indomável, fornece explicação ao
assalto do monge alemão contra o papado e a Igreja. Na América, o mais hábil expositor
dessa teoria foi o arcebispo Spalding.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

O juízo condenatório proferido contra Lutero por aqueles outros escritores


católicos, acerca do estado íntimo do Reformador, se baseia: 1) No pior sentido que é
possível dar-se às palavras de Lutero e na determinação de nenhuma concessão se fazer
à sua fatal extravagância no uso das palavras; 2) Na negação de qualquer veracidade ao
testemunho dos amigos de Lutero; e 3) No método de tratar-se como falsa e hipócrita
toda profissão de fé feita por Lutero em suas exposições da Bíblia, tratados e hinos, em
seus sermões, cartas e conversação. Acima de tudo, o juízo parece ser baseado na
presunção antecipada de que um homem da educação e inteligência de Lutero não podia
ter bons intuitos e, ao mesmo tempo, revoltar-se contra a autoridade da Igreja Romana.

Da obra de Denifle – Vida de Lutero – podem-se tirar exemplos que fazem o


Reformador advogar exatamente a coisa contra a qual ele estava combatendo ou
pregando, e isso é feito pelo método de desviar o autor uma frase de sua conexão
natural, investindo sobre ela, como se representasse a opinião de Lutero, quando de fato
ela expressava o próprio vício que ele empenhava em condenar.4 Como exemplos de
acepções falsas postas em palavras de Lutero, figuram as insinuações de sensualismo e
intemperança. Esta última imputação, baseada principalmente numa carta escrita de
Wartburgo por Lutero e endereçada a Melanchthon, carta que Denifle trata com grande
minúcia, é posta de lado por Grisar – I:396 sq. 482 – que conclui, após longo estudo,
que Lutero se referia a tentações e não a desonestidade, e que a imputação de
incontinência a ele feita é uma conjectura. Quão longe os críticos hostis são obrigados a
ir, para justificarem a probabilidade de impureza da parte de Lutero, vislumbrada no uso
que se faz de uma expressão deste, de ter sido um grande e impudico pecador, - ich bin
gewst ein grosser, schwerer, schändlicher Sünder (1), asserção que encontra natural
paralelo na afirmação de Paulo, de ser o principal pecador. Ao tempo do casamento de
Lutero, oito anos após a afixação das Teses, Melanchthon e outros tiveram ocasião de
louvar a castidade habitual do Reformador.

Em relação à increpação de ter sido Lutero bebedor imoderado, deve ser


dito que temperança de mesa não era virtude fulgurante do século XVI, como indicam
as descrições dos homens da época, Carlos V habitualmente bebia três quartos de vinho
ao jantar. Se consultar a Pastor, o leitor encontrará alguma coisa acerca da tolerância
para com uma forte bebida escura, a que Paulo IV, um dos contemporâneos de Lutero,
era afeiçoado. Lutero bebia, como era costume da época, e de quando em quando
mencionava o uso que fazia de vinho e cerveja. Essas bebidas – ele uma vez declarou –
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

eram-lhe prescritas para os padecimentos. Poucos dias antes de sua morte, Lutero
escreveu à esposa que os conselheiros de Eisbelen lhe haviam concedido meia pinta de
vinho do Rheno para cada refeição. O Reformador fez outras referências dessa espécie
dessa espécie, mas a única notícia que fornece possível fundamento à acusação de uso
imoderado do álcool é a declaração feita ao eleitor João Frederico, de que Lutero, em
certa ocasião, tinha bebido em excesso, embora, como a notícia esclarece, “ele nada
tenha dito de inconveniente”. Por outro lado, Lutero pregava contra o demônio da
bebida – o Saufteufel – e Melanchthon fez especial menção de sua moderação à mesa. –
Grisar, I:244-265, não somente coloca à parte a acusação de intemperança, mas diz que,
segundo a medida da época, Lutero era moderado no beber. A despeito dos fatos, um
escritor recente, Schwertner, em sua Renascença Eucarística, não hesitou em dar rédeas
à imaginação, asseverando “que Lutero e seus seguidores bebiam fartos goles de
cerveja, enquanto denunciavam os abusos da Igreja. Com o cérebro atordoado e a mente
oca, para eles a coisa mais fácil do mundo era parar com suas fulminações contra Roma,
somente para se empenharem em gritaria”. Acima da surpresa em que tal apreciação
pudesse causar, está o espanto que produz a circunstância de ter sido publicado com
aprovação eclesiástica o volume que estampou essas coisas.5

§ 6. A bigamia de Felipe de Hesse. – Causa mais justa de reprovação


oferece a atitude de Lutero, em face do casamento duplo de Felipe de Hesse. É uma
nódoa profunda deixada em sua carreira, difícil de ser lavada. Nenhuma atenuante se
pode conceder a Lutero, sob o pretenso fundamento de que ele não havia se emancipado
dos princípios da casuística e do probabilismo, defendido pelos jesuítas. Os fatos são os
seguintes: Felipe, vivendo ainda sua primeira esposa, obteve de Lutero consentimento
para tomar uma segunda mulher – permissão com que foram solidários Melanchthon e
Bucer. A permissão foi concedida sob o fundamento de que era moralmente menos
ruinoso a Felipe desposar uma segunda mulher, do que recair em adultério. Nessa
ocasião Felipe estava vivendo com a amante, circunstância que Lutero então ignorava.
A condição imposta por Lutero, para que o segundo casamento se fizesse, foi a de que
ele se mantivesse em segredo. Efetuou-se o casamento e, tornando-se o fato conhecido,
Lutero insistiu em que o landgrave negasse o casamento com formal negativa.

Acusa-se a Lutero, sob o fundamento de que a maneira por que tratou do


casamento do landgrave prova que ele fazia mesquinho conceito do matrimônio e
defendia a falsidade. A primeira acusação deve ser desfeita. Por essa transgressão
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particular não se segue que ele tenha repudiado para sempre a santidade dos laços
matrimoniais, assim como não se poderia deduzir da única negação de Pedro que este
houvesse renegado perpetuamente a Cristo. Quando, em 1541, um ministro protestante,
Neobulus, defendeu a pluralidade simultânea de casamentos (poligamia), Lutero
expressou sua indignação por essa maneira de tratar do assunto. Lutero pode ser
acusado, quando muito, de covardia moral, deixando de sustentar o caráter sagrado do
casamento, exatamente como Pedro se tornou culpado de covardia, deixando de
confessar a Cristo num momento crítico.

Contra a acusação de que, no caso de Felipe, Lutero aconselhou a mentira,


os Protestantes nada têm a dizer para alívio de sua culpa. Tenta-se explicar o caso,
recordando a natureza sagrada do conselho dado em confissão e que Lutero, quando
insistiu em que Felipe negasse o casamento, estava sob o domínio da lei da Igreja
Romana, cuja força se habituara a reconhecer. Depois que se houver dito tudo quanto se
possa dizer, o pecado de Lutero, no caso do casamento de Felipe, continuará a ser
pecado, para o qual o Protestantismo não reconhece nenhum meio legítimo de escusa.

§ 7. o verdadeiro Lutero. – A defesa de Lutero em face de acusações tais


como ignorância, maldade, incontinência, espírito vingativo e crassa ambição,
requereria prolongada análise de sua carreira e de seus escritos. É suficiente que se diga
aqui, em réplica, as seguintes coisas: 1. Quanto à ignorância, ninguém jamais acusou a
Lutero de não ter sido estudioso. Teve mestres acatados. Passou pelo curriculum
teológico oficial. Foi nomeado professor e recebeu o grau de doutor em teologia.
Conhecia o Velho e o Novo Testamento nas línguas originais. Conhecia as condições de
sua época, desde as ruas até o interior do convento; desde o vestíbulo de Wittenberg,
cheio de relíquias, até as comodidades de Roma. 2. Nenhum fundamento há para a
acusação de ter sido Lutero impulsionado pelo amor ao dinheiro ou à suntuosidade. Ao
revés, seu salário era escasso. Vivia com simplicidade. Recusou-se a receber qualquer
recompensa por seus livros, alegando que pelos “dons de Deus”, como os chamava, não
tinha direito de auferir lucro. Quisesse ele conseguir acesso, este lhe seria
proporcionado, estando reunida a dieta de Worms. O arcebispo de Treves – como
escreveu Aleander – prometeu a Lutero, se se retratasse, um rico priorado, um lugar à
mesa do arcebispo e a proteção do imperador e do papa. Ao mesmo tempo, Aleander
não teve escrúpulo de acrescentar que o arcebispo não tinha intenção de cumprir sua
promessa. A Zwinglio haviam prometido até um chapéu cardinalício, se quisesse retirar-
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

se da nova ordem. 3. Nenhuma acusação se levantou de ter sido Lutero infiel para com o
lar, a esposa ou os filhos. 4. Lutero não se deixou arrebatar pelo orgulho, em razão de
sua celebridade. Nunca se envergonhou do dever de honrar a seus pais. Não solicitou o
favor de dignitários ou de cortes. 5. Lutero enfrentou o perigo. Nunca se subtraiu a ele.
Combateu em campo aberto. Escrevendo contra Prierias, usou destas palavras: “Não
temerei milhares de papas. Maior é Aquele que é em nós do que o que está no mundo”.
Quando desceu de Wartburgo, fê-lo contra a vontade do eleitor, tendo o Reformador
escrito a este: “Não tenho o intuito de pedir o apoio de vossa graça. Demais, creio que
posso oferecer a vossa graça melhor proteção do que vossa graça é capaz de
proporcionar-me. Se eu pensasse em ter no eleitor a pessoa em quem confiar, de modo
nenhum iria a Wittenberg”. Todos os que o rodeavam prediziam-lhe morte violenta.
Acertadamente falou o velho soldado, von Frundsberg, ao dizer a Lutero, justamente
quando este penetrava na sala do Concílio, em Worms, que o embate em que ele estava
empenhado era mais tremendo do que qualquer outro jamais travado em qualquer
campo de batalha. Se às vezes Lutero se mostrava tão indomável como um leão,
também sabia revestir-se da ternura das crianças. Nenhum pai poderia falar mais
ternamente à beira do leito de morte de um filho, como Lutero falou junto ao leito de
Lena. E, em meio a todas as inscrições gravadas em túmulos de crianças, dificilmente se
encontraria uma tão patética como o epitáfio que Lutero compôs para a lousa da
filhinha. Um dos episódios de carreira que comumente se tem olvidado, é o que se
refere ao seguinte: quando Tetzel estava moribundo, Lutero lhe escreveu uma carta de
bondosa simpatia, confortando-o com a afirmação de que a culpa da comoção alemã não
pertencia a ele, Tetzel, mas recaía sobre outros ombros. 6. Os ataques pessoais feitos por
Lutero contra indivíduos revestidos de poder, relacionavam-se com os abusos
eclesiásticos, segundo ele os entendia. Em 1521 escreveu que jamais havia tocado na
pessoa de papa ou prelado, mas somente em seus vícios e seus atentados contra as
Escrituras. Não foi senão após ter anunciado quase todo o programa da Reforma que
Lutero começou a fustigar personalidades. Só depois de ter sido arrastado, enlameado e
acuado, foi que denunciou os adversários, como também havia sido denunciado. 7.
Lutero era franco. Dizia o que pensava. Quando seu eleitor lhe aconselhou a tomar
precauções, e até a guardar silêncio, ele replicou que devia falar claramente em defesa
da verdade, ainda que o eleitor se ofendesse com semelhante conduta. “Tenho sido
violento, mas sempre disse a verdade: ninguém pode acusar-me de hipocrisia” –
escreveu em 1523. Os contemporâneos que o conheceram melhor, falam bem a seu
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

respeito. Reconheceram-lhe as fraquezas e louvaram-lhe as virtudes. Lutero viveu sob


três eleitores: é quase impossível imaginar que pudesse conservar seu bom conceito
perante eles, se se tornasse suspeito de alimentar propósitos de interesse pessoal ou se
tivesse sido impuro de mente e de hábitos. Nas ruas de Wittenberg e na Universidade,
homens do povo, professores e príncipes deram testemunho de retidão de sua vida. Não
parece crível que o homem que nutrisse uma vil concepção da vida e estivesse cheio de
engano, pudesse ter escrito os hinos que Lutero escreveu ou expusesse a significação da
Escritura da forma por que o fez em suas Introduções a Romanos e Gálatas. Ademais,
como seria normalmente possível que até quase o dia da morte pudesse ele a continuar a
ministrar lições sobre o texto sagrado, tivesse um auditório de estudantes, e ainda era
homem de propósitos rasteiros?

Se se tiver em mente que a atividade de Lutero importava na renúncia da


supremacia papal, da eficácia dos sacramentos e de outros conceitos considerados como
partes essenciais da religião cristã, não será de estranhar que as intenções do
Reformador se tornassem objeto de ataque e que suas fraquezas naturais se
interpretassem como provas de que ele era emissário de Satanás. A sorte dos homens
iminentes, de Paulo para cá, sempre foi a de serem mal compreendidos e mesmo
profundamente satanizados. Nos negócios seculares assim aconteceu com Washington e
Lincoln. Em meio de sua carreira, escrevia este último: “Se eu tivesse de ler, e ainda
mais de responder, todos os ataque que me atiram, esta oficina podia perfeitamente
trancar-se a qualquer outro negócio. Procedo do melhor modo que sei, do melhor modo
que posso – e assim pretendo continuar a fazer até o fim. Se no fim eu tiver procedido
com toda a justiça, o que se diz contra mim nenhum acréscimo trará a coisa alguma; se
no fim eu me encontrara no erro, então os anjos a proclamarem que eu era justo não
alterarão as coisas”. Ao lado dessas palavras modernas, podem ser colocadas as
afirmações de Lutero, em sua obra sobre o Papado – ed. Weimar 8:323. “As censuras
com que minha pessoa está sendo atacada, eu as deixarei sem resposta. Comigo não
podem lutar meus caros romanistas, porque nunca experimentei medir-me pela estatura
dos que censuram minha vida e pessoa tão vigorosamente quanto possam: tudo está
perdoado no que se refere a mim. De mim, entretanto, não espere indulgência o homem,
qualquer que seja, que procure tornar mentiroso o Cristo Senhor, a quem sirvo, e o
Espírito Santo. Em assuntos referentes, não a mim próprio, mas à Palavra de Cristo, eu
estarei na defensiva”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Mui recentemente, em 1927, o caráter de Mr. Gladstone foi difamado. O


estadista que, quando vivo, fora tido como homem de vida exemplar, era acusado, em
letra de forma, de grossas imoralidades. O veredictum da corte, perante o qual o caso foi
levado pelo filho do estadista, absolvendo o acusado, realçou “o alto caráter moral do
falecido Mr. W. E. Gladstone”. O duradouro infortúnio de tais acusações reside no fato
de que, uma vez levantado o rumor em torno delas, estão prontas a ressurgir, mais cedo
ou mais tarde, por mais provadamente falsas que sejam. Enquanto mais ampla revisão
não se fizer dos males aparentemente incuráveis que a Igreja do século XVI herdou e
não se der tratamento liberal aos protestantes que sustentam as concepções de Lutero,
pode-se esperar pela sobrevivência, em alguns círculos católicos romanos, da caricatura,
segundo a qual, para usarmos das palavras de Carlos V, Lutero foi “o diabo vestido de
frade”.

Este capítulo pode encerrar-se com a descrição de Lutero, feita pelo cardeal
Belarmino, e com o testemunho final do dr. Dollinger. O cardeal traçou um paralelo
jocoso entre Lutero e Maomé, o falso profeta, e fez um confronto entre o líder
germânico e o próprio Satanás. Viu Lutero descrito no Apocalipse 9:7-12, como o anjo
do abismo insondável e nota que Satanás não perdeu sua recompensa ao fazer estalar a
inaudita insurreição do Levante – tantum incendium – através de Maomé e, em rebelião
semelhante, no Ocidente, através de Lutero. Como Cristo deu a Pedro as chaves do céu,
Satanás deu a seu apóstolo e primaz, Lutero, as chaves do abismo sem fundo, e Lutero
dele retirou erros monstruosos, sementeira de velhas heresias e ensinos infernais. O
Evangelho de Lutero e o Corão são iguais. Lutero recomendava a cobiça e tornou-se
modelo na sua prática. Todos os transgressores saltam para os luteranos, porque os
luteranos sustentam que os pecados não são coisa que se confesse aos sacerdotes – e
entregam-se à intemperança e à glutonaria, porque não têm jejuns, e à incontinência,
porque permitem o casamento a freiras e frades. Por nenhuma outra heresia ou
perseguição havia Satanás arruinado tão ferozmente a Igreja, como através de luteranos,
zwinglianos e calvinistas. Lutero nada deixou intacto no céu, no inferno ou no
purgatório. Despojou a Deus da Trindade, a Cristo despojou tanto da divindade como da
humanidade, aos santos lhes roubou a santidade. Na terra, a tempestade luterana –
tempestas – arrebatou à Igreja a maior parte das Escrituras, todos os sacramentos, todas
as tradições, votos, jejuns, dias santos, altares, relíquias – todos os legados de piedade
que ela herdara, leis eclesiásticas, disciplina e, finalmente, toda virtude e toda ordem e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

beleza que havia na casa de Deus. Quanto ao purgatório, o luteranismo tenta extirpar-
lhe até os próprios fundamentos. Somente houve um reino que a tempestade luterana
poupou: o inferno.

O dr. Dollinger, outrora tido entre os católicos romanos como um dos mais
eminentes historiadores eclesiásticos, no período primitivo de sua carreira tratou ainda
mais severamente o Reformador alemão. Em 1872, após ter rejeitado o dogma da
infalibilidade papal, escreveu as notáveis palavras que se seguem: “Foi a dominadora
grandeza de espírito e a maravilhosa capacidade de Lutero que fizeram dele o homem
de seu tempo e de seu povo, e é justo dizer que nunca houve na Alemanha quem tão
instintivamente compreendesse sua gente e por ela fosse, em troca, tão perfeitamente
compreendido, sim, eu poderia dizer, tão absorvido por ela, como o monge agostiniano.
O espírito e o coração dos alemães eram, em suas mãos, como harpa nas mãos de um
artista. ... Deu a seu povo mais do que qualquer outro homem, nos séculos cristãos,
jamais deu a uma nação: língua, manual de instrução popular, a Bíblia e hinos para o
culto. ... Enquanto seus adversários gaguejavam, ele falou. Ele é o único que ao mesmo
tempo imprimiu o selo imortal de sua própria alma na língua alemã e no espírito
alemão”. 6

Lutero foi um grande homem com fraquezas humanas, homem de elevados


intuitos com enfermidades. Quer seja favorável ou não ao conceito que dele se faça, a
personalidade de Lutero é uma coisa e outra é o Protestantismo. O ponto em discussão
entre Romanistas e Protestantes é se o Protestantismo, como um conjunto de
ensinamentos religiosos, está ou não em consonância com as Escrituras.

Bibliografia e Notas

1- Majunke: Luth’s. Lebensende, 4ª ed., 1890, p. 102. – Paulus: Luth’s


Lebensende und d. Eislebener Apotheker, 1898. Kidd: Luth’s. Selbstmord, 1892, etc. A
história do droguista de Eisleben foi publicada na biografia de Lutero, feita por
Cochlaeus, 1565. Recentemente exemplo de como se espalham falsos rumores
tendentes a desacreditarem a heresia, temo-la em duas narrativas das últimas horas de
Dollinger, narrativas que foram divulgadas por periódicos católicos romanos. Uma das
versões referiu que Dollinger morreu como Arius: foi desmentida pelo médico que
atendeu ao historiador à hora da morte; a outra, de ter ele voltado, antes da morte, para a
igreja católica romana, foi refutada pelo amigo íntimo de Dollinger, dr. Reusch, nas
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Cartas de Dollinger e Explanações dos Decretos Vaticanos. , 1890. A declaração de


Bozio pretendia basear-se na referência feita por um dos serviçais de Lutero, cujo nome
Bozio não registrou. Numa obra publicada em Antuérpia, 1606, Sedulius acrescentou à
mentira de Bozio que os corvos acompanharam a procissão do corpo de Lutero, desde
Eisleben até Wittenberg.

2- O Arcbp. Tenison, nas Notes of the Ch., p. 251, disse de Lutero que “era
homem de temperamento fogoso e linguagem indelicada, mas deve-se considerar que,
atravessando mar tão áspero, ser-lhe-ia quase impossível deixar de açoitar as vagas
insultosas, até que se aquietassem”.

3- Calvino, que se tornava pequeno em presença de Lutero, quanto ao uso


de linguagem extravagante, se acaso dela usava, numa carta furiosa, se bem que
merecida, a Paulo III, fala do pontífice como “o vagabundo da época, o maníaco, aquele
Satanás”. A linguagem de Knox excedia a de Lutero em aspereza e invectiva.

4- Se alguém levantou acusações pessoais, esse foi Denifle, que ousou


escrever que Lutero fora escravo da concupiscência, sendo seu Evangelho um seminário
de pecados e vícios, 1:764; que ele falsificara os escolásticos, deturpou Tauler, não leu
Tomaz de Aquino, 1:473-483, e que a noção que ele formara de Agostinho, e através da
qual encontrara as diretrizes de S. Paulo, serve somente para um ignorante, pp.463-467.
Lutero era a falsidade personificada, um pateta de tal ignorância que só provoca
hilariedade, pp. 458, 508, 544, 551. Essas asserções têm sido em grande parte
respondidas pelos escritores romanos Scheel e Holl e pelo ex-monge A. V. Muller,
assim como por Walther e outros escritores Protestantes.

5- O prof. von der Hagen, num discurso feito em Berlim e impresso em


1838 e 1883, demonstrou, com pena hábil, que Lutero nunca existiu. Compreendeu-se
que se tratava de um arremedo satírico do mito de Jesus, de Strauss, e sugeriu as Doubts
concerning Napoleon’s Existence, de Whately.

6- O notável juízo de Dollinger acerca da Reforma Alemã, formulado em


seu último período – Akad. Vortr., 1: 76, assim se expressa: “Durante longo período de
minha vida, as ocorrências da Alemanha, 1517-1552, foram um enigma indecifrável
para mim. Eu via apenas a nação dividida em duas partes e destinada a eterno ódio e
luta. Desde que estudei mais acuradamente a história da Alemanha e de Roma durante a
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Idade Média, penso compreender o mistério como jamais poderia fazê-lo dantes, e
adoro a Divina Providência pela qual o povo alemão se tornou instrumento útil na casa
de Deus, e não um vaso ignóbil... Presentemente, a Roma espiritual é na Alemanha,
mais poderosa do que na Itália. Esse era também o caso nos séculos XIV e XV, e depois
aconteceu o que todos nós sabemos”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO VII

OUTRAS EXPLICAÇÕES HOSTIS DA REFORMA

Outras explicações dadas, no intuito de desacreditar o movimento


Protestante, são as de que ele foi uma rebelião contra a autoridade legalmente
constituída, uma inovação introduzida numa instituição divinamente organizada, uma
tempestade de iconoclastia, ou que aquele movimento explodira no interesse do
relaxamento moral. É também acusado de haver interrompido uma corrente ordeira de
reforma da Igreja e quebrado a unidade da Cristandade Ocidental. Seja onde quer que
for que a culpa da eclosão e crescimento da “seita Luterana”, como Adriano VI
denominou os aderentes da Reforma, recaia, é preciso reconhecer que estes eram social
e intelectualmente tão respeitáveis como os que permaneceram fiéis ao governo do
papa. O Protestantismo não foi um movimento de populaça. As classes cultas da Europa
não lhe voltaram as costas. Príncipes, humanistas e clérigos o adotaram. Este é o fato
histórico, apesar de Sir Thomas More ter escrito a Cochlaeus que “a Alemanha produziu
maior quantidade de monstros, sim, maior quantidade de coisas prodigiosas do que a
África poderia fazê-lo, porque – que haveria de mais monstruoso do que os
anabatistas?... A idiotice do povo é bastante vasta”.

§ 1. O juízo de Adriano VI. – O sucessor de Leão X, Adriano VI, 1521-23,


levou para o Vaticano um propósito moral e reconheceu que os abusos da Igreja eram
em parte responsáveis pela tempestade que se havia desencadeado sobre a Alemanha.
Em longa missiva dirigida a seu agente, Chiergatto, o grave pontífice prometeu corrigir
determinadas práticas, mas ao mesmo tempo declarou ser a Reforma uma praga, que
ameaçava infeccionar toda a Alemanha, advertindo o povo alemão da infâmia que
ameaçava aquela nação, “a mais cristã de todas as nações”. Lutero – escreveu ele –
estava entregando o povo alemão ao inferno, porque “os erros em matéria de fé
acarretam a condenação”; e, sob o disfarce da liberdade evangélica, ele, o povo, se
encaminhava para a subversão dos príncipes e para a destruição de toda a ordem social.
Adriano exigiu que as autoridades punissem, com suplício destruidor, segundo as
sugestões do Direito Canônico, o obstinado. Para ele, como para seu predecessor, a
Reforma era de origem demoníaca, sendo um artifício urdido no abismo. O digno
pontífice, vítima, ele próprio, de ridículo e reprovação, foi tratado pelos romanos como
burro, lobo, harpia, sendo comparado a Nero e Caracala. Os piores pecados e vícios –
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

assim o diz Pastor, apologista de Adriano – foram atribuídos a este – mas não pelos
insurretos Protestantes. Quanto às várias acusações levantadas contra a Reforma, deve-
se adiantar o seguinte:

§ 2. A acusação de inovação. – Os manuais católicos romanos de história


eclesiástica atiram no movimento do século XVI o labéu de inovação – die Neuerung.
Como Vicentius de Lerins encontrara na novidade um sinal quase certo de heresia,
assim o cardeal Belarmino, mil anos depois, encara o Protestantismo sob esse prisma e a
grande distância. Em sua resposta a Sadolet, 1538, e tendo em mente essa acusação,
escreve Calvino: “Somos acusados de temerária e ímpia inovação, por termos ousado
propor que absolutamente nenhuma alteração se fizesse no primitivo modo de ser da
Igreja, e há pessoas que nos condenam sob o fundamento de que estamos certos no
desejar mudanças, mas errados na tentativa de mudança”. A “nova doutrina” foi tida
como ruim porque era nova. A acusação de inovação foi rebatida seriamente pela
Confissão de Augsburgo, pela Confissão Belga e por outras de origem protestante. Em
sua Resposta, p. 42, Tyndale rebate do seguinte modo tal acusação: “A Igreja, dizem
eles, era antes dos hereges e eles, (os adversários), eram antes de todos aqueles a quem
agora chamam de heréticos e luteranos. Logo, eles são a Igreja legítima. Quero
argumentar do mesmo modo. Primeiro, a Igreja verdadeira eram Moisés e Aarão, em
cuja cadeira se assentaram os escribas e fariseus e sumos sacerdotes do tempo de Cristo,
e eles foram antes de Cristo. E Cristo e seus Apóstolos saíram de seu meio e deles se
separaram e os deixaram; logo, os escribas, fariseus e sumos sacerdotes eram a legítima
Igreja de Cristo e hereges eram seus Apóstolos, e uma seita condenável, e, assim, os
judeus estão ainda no caminho reto e nós estamosno erro”.

Nestes últimos tempos o cardeal Newman, escrevendo em 1842, apresentou


a novidade como uma das provas mais seguras de heresia, colocando a questão nestes
termos: “Quanto aos luteranos, ou melhor, Luteranismo, considero que as marcas
eclesiásticas da heresia são externas. Apresentei duas – aparecer mais tarde e ser
desaprovado pelo Leste e pelo Oeste. Como uma Igreja se reconhece por suas marcas
exteriores, assim acontece com a heresia”.1 Essa feição dos ensinos da Reforma também
foi apontada por papas recentes. Em 4 de agosto de 1874, Leão XIII se referiu aos
Reformadores como “os inovadores agressivos do século XVI, que não trepidaram em
filosofar sem nenhuma atenção à fé e em inventar tudo quanto lhes viesse à mente”. Em
sua encíclica de 26 de maio de 1910, Pio X ridicularizou-os por tratarem a “seu motim”
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

como restauração – instauratio – como se fossem restauradores da velha ordem, quando


foram, de fato, apenas corruptores.

Se as tradições da Idade Média, tais como a doutrina dos sete sacramentos e


da recusa do cálix aos leigos, são sagradas e definitivas, então a acusação de novidade,
que foi bem feita, não é falsa; a acusação é infundada, desde que o Novo Testamento
seja a Carta Magna da Igreja Cristã. No último caso, as Confissões Reformadas estão
com a verdade, ao proclamarem que as crenças medievais, por elas repudiadas, não têm
fundamento, constituindo invenções humanas. Os protestantes encararam o movimento
do século XVI como “restauração” – palavra freqüentemente empregada pelos
Reformadores – uma reexposição do que fora ensinado por Cristo. Os líderes
protestantes regressaram ao plano original da Igreja Cristã, como se acha delineado nos
escritos apostólicos – e trataram de o seguir na obra de reconstrução. Esta idéia encontra
expressão no título completo do livro de Lutero: Carta à Nobreza Alemã acerca do
Melhoramento das Condições Cristãs. Os XXXIX Artigos falam das “fábulas da velha
ordem, com seus enganos perigosos e coisas vãmente inventadas”. Os Reformadores
tanto pensavam em dar origem a um novo sistema, como o Presidente Wilson sonhava
em dar origem a uma nova Constituição dos Estados Unidos, quando defendeu a Liga
das Nações. O bispo Jewel acostumou-se a falar da nova ordem como “a religião de
Cristo ultimamente restaurada e, por assim dizer, erguendo-se de novo”, o que também
disse Calvino. – Apol. p. 106, de ref. eccl., p. 11.

Uma inovação, para que se torne condenável, precisa que antes se prove que
ela é má. Um utensílio não é bom pelo fato de ser velho, nem se pode dizer que uma
enxada seja melhor do que um arado; e um ensino não é mau por ser novo. No terreno
religioso, como em outros terrenos, a questão primordial é indagar-se, não se um rito
tem sido longamente observado ou que uma doutrina se ensinou por muito tempo, mas
se o rito e a doutrina se conformam com a revelação cristã. À velha pergunta: “Onde
estava tua religião antes de Lutero?” ainda se dá esta resposta: “Onde estava seu rosto
antes de ser lavado”.

§ 3. A Acusação de rebelião. – O Protestantismo foi, desde o princípio,


mimoseado com a pecha de rebelião contra a autoridade constituída. Se o pontífice
romano fosse na terra o governador supremo e infalível da Igreja, a Reforma teria sido
um crime. Nos dias primitivos, a Reforma foi chamada tempestade, tumulto,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

conflagração, rebelião, sedição e de outros nomes que sugerem perversidade – Smith:


Cor.1; 320, 326, 455, 501, 502. Desde o começo os Reformadores foram tratados como
revolucionários, conforme se vê em Cochlaeus. Eles, de fato, o foram, e alguns
modernos historiadores protestantes, como Seebohm e Walker, deram aos capítulos que
versam sobre o século XVI os títulos de A Revolução Protestante ou A Revolta
Protestante; mas esses historiadores não querem dizer com tais palavras que a Reforma
fosse um movimento malsão. A guerra americana de 1776 foi uma revolução, mas não
foi um movimento pernicioso, pelo fato de ter sido uma revolução. Foi uma revolta
armada contra um regime opressivo e uma preparação para nova ordem social. Os
Reformadores protestantes destruíram e edificaram. Os pontífices romanos continuam a
denominar rebelião ao Protestantismo. A rebelião luterana – rebellio lutherana – como
se expressou Leão XIII, a 29 de junho de 1881, ao falar de príncipes e de outros chefes
que usam da doutrina da assim chamada Reforma, para combater a autoridade sagrada e
civil, assegurando que eles puseram em marcha “os mais violentos tumultos e
audaciosas revoltas, de modo que dificilmente qualquer outro lugar terá assistido a
tamanha violência popular e sangueira, como a Alemanha”. Pio X igualmente fala dos
Reformadores como de um punhado de “homens orgulhosos e rebeldes” – superbi et
rebelii homines.

Os Reformadores não se declararam em rebelião contra Cristo. A princípio


eles tentaram a Reforma por meio de apelos, chamando a atenção das autoridades
eclesiásticas para males incontestáveis. Somente depois que foram postos fora da lei, e
mesmo assim com relutância, foi que passaram a constituir-se em grupos independentes
para a prática do culto. Com muita propriedade disse Calvino que: “Quando Lutero
apareceu, tocou com mão enluvada em uns poucos abusos da mais grave espécie – e fê-
lo com tal modéstia, que indicava ser mais de seu agrado vê-los emendados do que ser
propósito seu tomar a iniciativa de corrigi-los”. Calvino chega mais tarde a dizer que “o
partido oponente recorreu às armas e julgou que a violência e a crueldade fossem o
meio melhor e mais curto de suprimir a verdade”. Quando os Reformadores insistiam
em discutir, recebiam ordem de silêncio e tinham como resposta decretos sanguinários.
O Protestantismo foi uma revolta contra a tradição e o Direito Canônico – e um regresso
ao Evangelho.

§ 4. A acusação de iconoclastia. – A terceira acusação que se faz à


Reforma é a de que seu estabelecimento foi deliberadamente acompanhado de atos de
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

destruição de objetos sagrados, até então conservados nas igrejas. O que é muito para
admirar é que os homens da nova ordem se refreassem em tão alta dose, quando se
lembra que eles associavam aqueles objetos a práticas que encaravam como idolátricas.
Devíamos pensar somente na feroz iconoclastia dos cristãos do IV século e na
destruição de templos pagãos na Síria e no Egito, antes que se tomasse a sério a
acusação de sacrilégio argüida contra os protestantes. Quando, em Wittenberg, Carlstadt
saiu a destruir as imagens das igrejas, Lutero imediatamente conteve o movimento, em
seu regresso de Wartburg. Em Zuric, as estampas de santos e os vasos sacramentais de
prata foram retirados dos santuários e devolvidos aos doadores, quando estes se podiam
encontrar, tendo sido as relíquias dos santos decentemente incineradas. Em Perth,
quando se quebravam as imagens, João Knox reprovou o ato, tendo-o como uma obra
da “multidão desprezível”.

Usa-se do fechamento dos seiscentos mosteiros ingleses como indefectível


libelo contra a Reforma, incursa ao mesmo tempo em sacrilégio e em atentado ao direito
de propriedade.2 Não há dúvida de que aquele ato foi salutar para a Inglaterra. Os
mosteiros foram revistados e verificou-se que eram ninhos de ociosidade e, muitos
deles, de perversões sexuais. Os ocupantes desalojados foram socorridos por meio de
pensões. É bem possível que, em casos isolados, alguma injustiça se tenha feito. As
propriedades seqüestradas podiam ter sido divididas com maior vantagem e os lotes
vendidos a homens que quisessem cultivar a terra, ou ser o produto delas empregado
totalmente em melhoramentos públicos. As autoridades católicas ainda se queixam de
que “a grande igreja do Estado de Inglaterra tem conservado por três séculos e meio os
bens roubados aos católicos” – Month, 1925, p. 441. Um terço, talvez, das terras
inglesas tinha, na Idade Média, gradualmente caído nas mãos de proprietários
eclesiásticos. De quem originariamente proveio essa riqueza, a não ser do povo, e até
onde vai o direito de uma geração, de ligar as mãos de sua sucessora? São perguntas que
formula o espírito do direito moderno. Não é coisa incomum a limitação das
propriedades extravagantes da Igreja: isso aconteceu na Áustria, sob José II; na Baviera
e em outras partes do sul da Alemanha, depois da Paz de Viena; em França, durante a
Revolução e no Piemonte, pela atuação de Cavour. Desde que se responsabilize a
Reforma por atos isolados de vandalismo, do mesmo modo se poderiam lembrar atos
semelhantes, como o dos condes de Northumberland e Westmoreland, no levante de
1569-73, que queimaram Bíblias e saquearam as casas dos novos clérigos de Durham, e
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o dos jesuítas, quando, na boêmia, fizeram fogueiras de livros hussitas, ou os atos da


Inquisição romana, queimando na Itália todos os livros evangélicos sobre que deitaram
as unhas.

§ 5, o Protestantismo e o alegado libertinismo. – Os Reformadores foram


acusados pelo Concílio de Trento de estimularem, sob o pretexto de restauração do
Evangelho, a licença carnal. Leão XIII, no terceiro centenário de Pedro Canisius, em
1897, declarou, como já havia feito antes, que a Reforma significava a ruína da moral e
afirmou que as multidões que haviam deixado a fé católica o fizeram por nenhum outro
motivo que não fosse a licenciosidade. Embora o Vaticano não tivesse exibido, na
primeira metade do século XVI, um só exemplo de elevada virtude, os papas reinantes e
os escritores da época trataram, todavia, a quebra dos votos sacerdotais do celibato, na
Europa Central e do Norte, como singular torpeza, sendo que o mesmo tratamento
recebe o assunto nas discussões católicas de hoje. O casamento de Lutero foi tratado
como sacrílego e o auxílio por ele prestado às freiras de Torgau, para que fugissem do
convento, tem-se considerado como crime profano. Um famoso motejo de Erasmo
corre, segundo o qual a Reforma foi metade comédia e metade tragédia, que usualmente
acaba em casamento de monge e freira. Erasmo se habituara a pilheriar. Entretanto ele
próprio havia sido dispensado da guarda dos votos monásticos. Não se fizeram
acusações aos ex-sacerdotes, de infidelidade ao lar depois do matrimônio. Zwinglio,
sobre cuja incontinência como sacerdote muito se tem arquitetado, foi bastante homem
para desposar Ana Reinhardt, com quem tivera relações ilícitas. Qual seria a conduta
mais honrosa: a de Zwinglio e dos sacerdotes que preferiram casar-se, ou os hábitos dos
sacerdotes que secretamente violavam a lei de continência? O Deão Colet fala de
clérigos ingleses que se passavam diretamente dos braços das meretrizes para o altar das
igrejas. Que seria melhor: Lutero, com seu lar em Wittenberg, ou Clemente VII levando
consigo a amante para Marselha; Rogers, Deão da Igreja de S. Paulo, com a esposa e os
filhos juntos de si, no púlpito, - ou os escândalos do Vaticano, sob o reinado de Paulo
III, seu contemporâneo, com seus filhos e netos a formarem filas no palácio papal?
Longe de dar lugar à libertinagem, a Reforma teve em vista suprimir o mal social e
fechar lupanares. Em Strasburgo se fizeram esforços para garantir emprego às decaídas
ou lhes assegurar amparo. Em 1546, fecharam-se em Londres as casas mal reputadas. O
mesmo, deve-se dizer, foi feito em Roma durante a reforma de Paulo IV, em 1556; mas
a diminuição de rendas acarretadas pelo êxodo de 25.000 mulheres e seus dependentes,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

induziu o papa, segundo se diz, a permitir-lhes o regresso. Sob o bem intencionado,


embora severo regime de Calvino, Genebra adquiriu fama de centro moralizado.3

Suponha-se que comparemos Lutero com Sir Thomas More. O alemão


deixou cartas modelares endereçadas à esposa, Catarina de Bora. More, em sua
“Utopia”, permite aos maridos castigarem a esposa e num epigrama sugeriu que,
embora a mulher fosse um fardo pesado, ela podia ser “suficientemente útil para morrer
em boa oportunidade e deixar dinheiro a seu marido”. O movimentado incidente da filha
de More, Maria Roper, abraçando e beijando o pai a caminho do cepo, é digno de ser
referido como exemplo de afeição filial e como tributo à educação do pai. Entretanto, o
chanceler inglês esperou apenas um mês, após o falecimento de sua primeira esposa,
para se casar segunda vez. Sir Thomas More voltou à carga repetidas vezes, acusando os
Reformadores de licenciosidade. “Frei Lutero” – escreveu ele – “vede-o saltando da
religião e recaindo na carniça sensual, vivendo em devassidão com uma freira, sob o
nome de casamento; e todos os principais chefes deles, outrora monges e frades e agora
apóstatas, vivendo com meretrizes disfarçadas em esposas. O frade que desposa uma
freira torna claro ao entendimento que sua doutrina não presta”. Comparem-se estas
palavras com as de Colet, já citadas, e observem-se as relações domésticas do cardeal
Wolsey, assim como as de Cranmer, antes que este adotasse o novo caminho.

Até a propósito do moderno excesso de bebidas se tem acusado a Reforma,


como uma de suas legítimas conseqüências. Um recente colaborador do Amer. Cath.
Quarterly, de janeiro de 1921, esforça-se por concluir que a embriaguês e o alcoolismo
eram, na Inglaterra, devidos à Reforma, citando como prova a legislação contra eles sob
Eduardo VI. O cardeal Damiani, em sua Sodoma e Gomorrah, escrevendo vários
séculos antes que Lutero e Calvino aparecessem – e durante os chamados Tempos de Fé
– usou da linguagem mais incisiva para acusar o clero da Itália de excessiva bebedice,
assim como de baixa moral. Há, finalmente, uma acusação, que é impossível fazer-se ao
Protestantismo. A Reforma Protestante não fomentou o peditório. Desde o dia de seus
primeiros escritos, Lutero vibrou sérios golpes naquele hábito.

§ 6. Prejudicada uma Reforma metódica. – A Reforma é acusada de


haver interrompido abruptamente uma corrente metódica de reforma, em processo na
Igreja, na primeira parte do século XVI. Entre as mais notáveis tentativas de provar
aquela tese, figuram as obras de Janssen, na Alemanha, e os escritos do cardeal Gasquet,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

na Inglaterra. Alega-se que se tornavam cada vez mais evidentes os sinais de tal
movimento. Bastante se disse já, em capítulo precedente, sobre a corrupção da Igreja e
da sociedade; e o insucesso de todas as tentativas heróicas de reforma mostra que a
proposição não se baseia em fatos históricos. O que poderia ter acontecido se não
surgisse Lutero, é assunto apenas de conjecturas. É possível que a Grã-Bretanha, no
decorrer dos anos, houvesse dado liberdade às colônias americanas, já por lhes permitir
representação parlamentar, já por lhes conceder independência. Como fato positivo, as
colônias americanas pegaram em armas, não sem que primeiro formulassem apelos e
protestos junto ao governo inglês. Mais de uma geração após haver Lutero começado
sua obra, convocou-se o Concílio de Trento, justamente com objetivos não só de
extirpar a heresia, mas de introduzir reformas na antiga organização da Igreja. O
historiador da Renascença, Burckhart, expressou a opinião de que, “sem a Reforma,
todo o Estado Eclesiástico teria de há muito passado para as mãos seculares”. Nenhuma
reforma era possível sem o apoio do Vaticano e o Vaticano não demonstrou nenhuma
disposição para reformas, até o começo do pontificado de Paulo IV.

§ 7. A unidade da Igreja quebrada. – A mais popular acusação argüída


contra a Reforma é, talvez, depois da depravação dos Reformadores, a de que ela
quebrou a chamada unidade da Igreja e dividiu a Cristandade Ocidental. A resposta a
essa acusação envolve a definição da Igreja, assunto que será ventilado depois. A
unidade da Igreja consiste na obediência ao pontífice romano ou consiste na obediência
a Cristo? É a Igreja um conjunto de pessoas que encaram Roma como a sede da
autoridade cristã, ou é um conjunto de pessoas que encontram a vontade de Deus
suficientemente expressa nas Escrituras e procuram seguir-lhes os ensinamentos?

§ 8. O caso de Henrique VIII. – É praxe desacreditar-se a Reforma Inglesa


e, com ela, todo o movimento do Protestantismo, mediante a afirmação de ter sido
Henrique VIII o “fundador da Igreja Inglesa”. O caso, segundo a versão dos polemistas
romanos, pode ser exposto nas palavras do bispo Spalding – 2:66: “Henrique VIII foi o
verdadeiro pai da Reforma Inglesa, obra caracteristicamente sua, modelada pela sua real
vontade e feita à sua própria imagem e semelhança. Este fato é incontestável. A não ser
por meio dele, não teria havido reforma na Inglaterra”. A mesma opinião expressa, em
linguagem mais ou menos modificada, o cardeal Gibbons. A apreciação perverte o fato
histórico e está tão longe da verdade, como se o autor atribuísse às extravagâncias da
rainha, esposa de Luís XVI, a responsabilidade pela Revolução Francesa. Os
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Protestantes não podem compreender como os escândalos domésticos de Henrique VIII


tivessem qualquer conexão vital com o Protestantismo inglês. O rei era um católico
romano recalcitrante e não um reformador religioso.

Os fatos são estes: Henrique, por arranjo de seu pai, desposou Catarina de
Espanha, viúva de seu irmão Artur. O casamento, que se efetuou com violação do
Direito Canônico, foi legalizado por dispensa cedida por Júlio II. O casal não teve filho
varão que sobrevivesse. Por intermédio do cardeal Wolsey, Henrique pleiteou junto de
Clemente VII um escrito de divórcio. Homem de moral fácil, Clemente estava
inteiramente pronto a consentir que Henrique tivesse ou viesse a ter amantes, e várias
vezes mandara dizer ao rei que não tivesse escrúpulo em tomar uma segunda esposa. Os
príncipes, como observa Pollard, “Têm sido estigmatizados como filhos da perdição e
filhos da iniqüidade, não porquê seja má a sua conduta, mas por enveredarem pelo
caminho da ambição papal”. Estando o papa acima do Direito Canônico, a solução dos
negócios matrimoniais de Henrique era, para Clemente, questão de mero expediente
político. O imperador Carlos V era sobrinho de Catarina e era soberano mais poderoso
do que o rei da Inglaterra. Quando Carlos, em 1539, derrotou o rei de França, Clemente,
cuja política consistia em pender para o lado mais forte, celebrou um tratado com o
vencedor, nele se incluindo uma cláusula segundo a qual a Henrique não seria
concedido divórcio. Apoiado pelas decisões da universidade de Paris e outras, Henrique
desafiou o papa, repudiou Catarina e desposou Ana Boleyn. Prosseguindo no desafio,
promulgou, em 1534, o Ato de Supremacia, pelo qual a Inglaterra se tornava livre da
jurisdição do bispo de Roma, sendo o rei, “o supremo chefe, na terra, da Igreja da
Inglaterra, chamada anglicana ecclesia”. A religião nada tinha a ver com o rompimento.
Henrique havia sido filho devotado da Igreja. Fora dos primeiros a escrever contra
Lutero, tendo enviado ao papa um exemplar de seu livro encadernado de ouro. Por duas
vezes recebera de Roma o alto título de Defensor da Fé. Suprimindo os mosteiros, ele o
fez, não porque fosse protestante, mas no caráter de voluntarioso católico romano. O
último pronunciamento de seu reinado – os VI Artigos, apelidados chicote de seis
látegos – declara encarniçada guerra às novas doutrinas, punindo a negação primária da
transubstanciação com pena de morte. Henrique tanto possuía de protestante como
possuiria de cristão o maometano que lançasse fora o turbante.

O Protestantismo da Inglaterra não proveio do rei dos Ingleses. Já estava na


Inglaterra uma dúzia de anos antes das aventuras matrimoniais de Henrique. Proveio de
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Barnes, Frith, Tyndale, Bilney, Cranmer. Latimer e outros de semelhante espírito. Por
meio de seus livros, traduções da Bíblia e sofrimentos, esses homens deram testemunho
da nova ordem e promoveram-na. O cardeal Gibbons, p. 27, coloca Henrique VIII na
mesma classe dos Reformadores, como se os intuitos daquele e os deste fossem os
mesmos e a vida íntima de um e de outro estivesse no mesmo nível. Depois de haver
entoado os louvores de “Santo Inácio de Loiola, Santo Afonso” e outros santos do
calendário romano, exclama o cardeal: “Como comparar Lutero e Calvino e Zwinglio e
Henrique VIII a esses genuínos e santos reformadores, tanto no que se refere a seus
caracteres morais como nos frutos de seus trabalhos? A vida particular daqueles pseudo-
reformadores foi estigmatizada pela crueldade, rapina, licenciosidade e, em
conseqüência de sua propaganda, a história registra guerras civis e derramamento de
sangue, e lutas religiosas encarniçadas, e o desmembramento do Cristianismo num
milhar de seitas”. Como se os países protestantes, como a Inglaterra e os Estados
Unidos, fossem mais estigmatizados pela culpa de guerras e licença do que os países
católicos espalhados pelo mundo em fora, ou em seu próprio hemisfério!

§ 9. A pretensa desilusão dos Reformadores. – Ainda outra acusação se


faz ao Protestantismo, com o fundamento de que, nos derradeiros dias, Lutero
pronunciou palavras que indicavam ter a Reforma falhado. Muito se arquitetou com
várias passagens contidas em suas últimas cartas. As meninas de Wittenberg, notava o
Reformador, estavam usando cintos baixos e os meninos, mesmo o filho de
Melanchthon, estavam contratando casamento sem licença de seus pais. A geração mais
nova estava “criando asas”, disse ele; e os pais estavam alarmando-se com o
procedimento de seus filhos nas universidades. Poucos meses antes de sua morte,
Lutero escreveu à esposa “que não havia ninguém que pudesse punir ou corrigir aqueles
excessos e que a Palavra de Deus estava sendo desprezada”. Ele disse também que nos
tempos antigos a pregação era melhor e o povo mais generoso ao praticar a caridade.
Lutero, como tanta gente boa, tinha suas manias. A observações tão extemporâneas
quanto aquelas pode-se replicar que é universal experiência dos estadistas, chegados ao
fim da carreira, mostrarem-se descontentes com o desdobramento de sua política; dos
pais, descontentarem-se com os hábitos dos filhos, transformados em homens e
mulheres; e dos eclesiásticos e reformadores da moral, chegarem ao fim da tarefa e,
olhando para trás, terem momentos de desânimo. Ao fim de sua carreira, Lutero padecia
de um conjunto de doenças. A Reforma não realizara tudo que ele e outros haviam
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esperado. O trono papal estava ocupado por Paulo III. A Alemanha se achava dividida e
o grito de guerra havia partido do papa. Mesmo João Batista, que havia visto a Jesus e
tinha-o apontado como o Cordeiro de Deus, deixou-se tocar pelo desânimo e, em tal
estado, enviou os discípulos a perguntarem: “És tu o que devia vir, ou devemos esperar
por outro?” Adriano IV, único papa de nacionalidade inglesa, declarou que o papado –
que deve ser uma boa coisa – era como um pingo de mel numa taça de vinagre e que
dificilmente tinha tido um só dia de contentamento, durante o tempo em que exerceu o
ofício. Para chegarmos aos tempos modernos, os descendentes imediatos de nossos
Puritanos da Nova Inglaterra deram guarida ao desapontamento, e seus líderes chegaram
a temer que a Nova Inglaterra fosse “paganizada”. Como compensação ao suposto
testemunho desfavorável de Lutero, quanto aos resultados do movimento da Reforma,
devem ser evocadas as palavras por ele pronunciadas à hora da morte. Quando lhe foi
perguntado se continuava firme no Evangelho que havia pregado, respondeu: “Sim”.
Como compensação, as experiências de Calvino, em seus últimos dias, com os sínodos
e ministros de Genebra, poderiam ser aduzidas, assim como se poderia a descrição das
últimas horas de Knox, escrita por Calvino.

As acusações de rebelião, novidade, quebra da chamada unidade da Igreja


ou a pretensa desilusão dos principais Reformadores, não invalidam os méritos do
Protestantismo, como a defecção de Voltaire e Rousseau, educados na Igreja Romana,
não diminui os méritos do Catolicismo Romano. O Cristianismo Protestante permanece
ou cai, na medida em que concorde com os princípios cristãos expressos nas Escrituras.

Bibliografia e Notas

1- Newman, 10 de fev. de 1842, no vol. Birmingham Oratory.

2- p. 118. Quando a convenção da diocese Episcopal de Long Isl. Enviou,


em 1922, uma delegação ao superintendente das escolas de N. Y. City, para dizer que
Henrique VIII não fora o fundador da Igreja Anglicana, “America” de 10 de junho
ridicularizou aquele ato como “a solene resolução que podia ser juntamente apreciada
como notável, por cruelmente roubar a Henrique VIII sua coroa de glória... Henrique
não deu início à Igreja da Inglaterra! Ó! Que memória curta têm os ingratos
beneficiários! Se não foi sua Majestade, quem no mundo o realizou?”
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3- O’Hare, p. 275, fala de Calvino como “vingativo e licencioso aliado (de


Lutero), que desenvolveu o horrível sistema de absoluta predestinação, sendo que
Satanás dificilmente poderia formular um dogma mais adequado a insultar a Deus e a
enganar as almas.” O card. Gibbons, p. 28, insinua que os Reformadores “seriam
saudados como verdadeiros soldados da cruz se, em lugar de sancionarem a rebelião,
tivessem declarado guerra às próprias paixões”.
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CAPÍTULO VIII

AS SUPOSIÇÕES CONDENÁVEIS DO ROMANISMO

Tomei como regra de minha vida que, encontrando uma opinião melhor do que a que
sustento, renuncio à velha e abraço à nova. – João Wyclif.

A comparação dos méritos dos sistemas Protestante e Romano continua,


tendo em vista as duas antecedentes reivindicações feitas pelo Romanismo: que a Igreja
não pode errar e que a Idade Média representa o Cristianismo em sua melhor forma.
Quanto a serem essas idéias postas, por enquanto, de lado, não pode haver discussão.

§ 1. A Igreja – o organismo Romano. - A Igreja para a qual o católico


romano reivindica o privilégio de não poder errar, coincide com o organismo romano.
As fronteiras de ambos se correspondem tanto quanto as da “América” e do “Novo
Mundo”, como primitivamente rezavam os mapas do hemisfério Ocidental. O sistema
Romano pretende que o moto: “sempre a mesma”- semper eadem – representa-o
perfeitamente. O que ele era no século XVI, tinha-o sido sempre; e, aventurar-se alguém
a lhe alterar os ensinos ou práticas oficiais, é como arriscar-se à realização do
impossível. A Igreja, isto é, o organismo romano, com o pontífice romano como cabeça,
prestando culto à Virgem Maria e derramando graças através de sete sacramentos, está
tão resguardada de ataques como Gibraltar. O fiel católico romano sempre põe termo à
discussão com a sentença: “A Igreja ensina outra coisa”. O argumento se assemelha ao
de que usava Tertuliano em sua Condenação da Heresia, em que nega aos pagãos o
direito de julgarem a religião cristã, sob o fundamento de lhes faltarem luzes espirituais.
A discussão real somente é possível quando a definição de Igreja e do que ela é se trata
como assunto suscetível de debate.

§ 2. A teologia medieval enaltecida. – O medievalismo é tratado pelos


recentes pontífices e escritores católicos romanos como o ponto culminante da religião
cristã, sendo que a cura dos presentes males religiosos e sociais reside no regresso às
condições que prevaleceram no período medieval. Escrevendo contra as XCV Teses,
Prierias enalteceu a autoridade de Tomaz de Aquino como indisputável e tratou-o como
divino – divus – e “doutor angélico”. Lutero, em linguagem franca, se opôs a Tomaz de
Aquino; e, citando a S. Paulo e Agostinho, disse: “Não temo discordar de Tomaz, mas
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receio entrar em conflito com S. Paulo e Agostinho”. Em oposição a Prierias, ele usava
as mesmas frases – Contradigo a S. Tomaz – S. Thoman nego. “A distinção feita por S.
Tomaz é falsa até não poder mais – falsissima”. A diferença de apreciação acerca dos
valores religiosos da Idade Média assinala uma separação permanente entre as
autoridades Protestantes e Católicas Romanas.

Os escritores católicos romanos da atualidade demonstram grande


admiração por Tomaz, chamando-lhe “o anjo da escola” e o “gigante intelectual da
Igreja”. O Concílio de Trento conservava a obra teológica de S. Tomaz aberta sobre o
altar, ao lado da bíblia e de um exemplar do Direito Canônico. Em 1567, um edito papal
colocou-o ao nível de Agostinho, como um dos doutores da Igreja. Três séculos depois,
Leão XIII proclamou-o com retumbância “o Príncipe dos Escolásticos”, “o mais seguro
guia filosófico no moderno combate da fé e da razão contra o ceticismo e a
incredulidade”, e, por uma segunda bula, “o protetor das escolas católicas e o guardião
dos estudos”. Em sua encíclica de 4 de agosto de 1879 – æterni patris – o pontífice
expressou a opinião de que, com exceção dos livros canônicos da Escrituras, os ensinos
de Tomaz são inigualáveis; e quem quer que se oponha à sua doutrina, deve ser tido
como suspeito de desvio da verdade. Em todos os documentos da filosofia sagrada,
Tomaz – assim continuou Leão – “iluminou, por sua acuidade, o que era obscuro e
firmou a verdade por meio de seu vigor argumentativo”.1 “Sim, ele parece ter herdado o
espírito de todos os doutores antigos. Fornecia, duma penada, elementos de refutação de
todos os erros de tempos idos e forjava as armas destinadas ao combate de erros que se
levantariam depois. Obra alguma poderia ser mais admirável do que reviver a
preeminente teologia dos escolásticos – proeclara doctrina – e fazer jorrarem as fontes
que dele fluem. De fato, Tomaz deve ser comparado ao sol, porque aquece a terra com a
chama de sua santidade e enche a terra inteira do esplendor de seus ensinos”.
Concluindo sua encíclica, Leão instruiu os bispos a invocarem o auxílio da Virgem,
sede de toda a sabedoria, e S. José, o casto esposo de Maria, assim como Pedro e Paulo,
para que “presidam a todos os ensinos da Igreja e lhe concedam a luz da sabedoria”.

Pio X, a 8 de setembro de 1907, proclamou ser a filosofia escolástica


fundamento do estudo cristão e Tomaz seu mais eminente representante. Bento XV
repetiu o conceito, segundo o qual, depois da Bíblia, as obras do doutor angélico são a
fonte final de iluminação, adaptada às discussões mais profundas do tempo – e louvou
as ordens religiosas por jamais se terem desviado um fio de cabelo dos ensinos de
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS
2
Tomaz. Em 1923 o pontífice recente, Pio XI, no sexto centenário da canonização de
Tomaz, afirmou que, aplicando regras alegóricas, tropológicas e analógicas de
interpretação, Tomaz havia retirado das Escrituras forte e opulenta colheita de ensinos
úteis e, como os egípcios foram a José pedindo sustento, assim devem os homens ir a
Tomaz, em busca do pão da sagrada doutrina. Finalizou a encíclica com a concessão de
uma indulgência de sete anos e sete quarentenas a todos que recitassem uma oração de
que Tomaz se valia e que Pio reproduziu em sua bula. Em harmonia com essas
declarações pontifícias, o Direito Canônico, ns. 589, 1366, prescreve que os professores
de teologia e filosofia natural devem explicitamente seguir os ensinos do doutor
angélico e manejar os argumentos de que ele se servia, e que esses ensinos serão o
padrão do curso de estudos teológicos. Há cinco séculos João XXII declarava que maior
progresso se faria em um só ano no estudo de Tomaz, do que em toda a existência gasta
no estudo de outros teólogos.

Os Protestantes se unem aos católicos romanos no reconhecer a genialidade


e os intuitos piedosos do eminente erudito medieval, e colocam-no ao lado de
Agostinho e Calvino como um dos três principais teólogos dos séculos cristãos.
Discordam, todavia, dos panegíricos, que praticamente fazem da teologia uma ciência
imutável.

Tomaz de Aquino – 1225-1274, era homem de raros dotes, senso comum e


pureza de vida. Em suas mãos as especulações dos escolásticos tomam a forma de uma
ordem lógica, consistente e completa, embora lhe falte, quando comparado a Anselmo, a
originalidade do grande teólogo. Ele não abusou do texto da Escritura, como fazia
Boaventura que, em dois salmos, substituiu, no interesse do culto a Maria, o nome de
Jeová pelo nome daquela. A profunda devoção religiosa de Tomaz teve expressão em
seu hino sobre a Ceia do Senhor. A composição teológica era, para ele, um exercício
piedoso, iniciado e conduzido em oração. É característico de seu espírito que, como foi
referido, estando a caminho de Paris, disse que não trocaria a exposição de Crisóstomo
sobre Mateus pela própria cidade. Por outro lado, os Protestantes não fecham os olhos
às limitações e erros de Tomaz, entre os quais figuram os que se seguem.

Tomaz de Aquino estava empenhado em defender as doutrinas tradicionais


que sua igreja havia recebido. Não tomou o encargo de discriminar entre as opiniões
herdadas pela igreja e as Escrituras. Não possuía nenhum dos conhecimentos críticos
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que a erudição de hoje tem a seu alcance. Não conhecia grego, nem hebraico. Sob nosso
ponto de vista hodierno, Tomaz não era um mestre bíblico. Em exegese, aceitava sem
discussão as opiniões dos Santos Padres. Seguindo o hábito escolástico, enredava-se em
todas as espécies de indagações curiosas, mas inúteis, como, por exemplo – se a carne
de Cristo foi concebida do mais puro sangue da Virgem – e em que caiu o diabo: in quid
cecidit diabolus? Entre os erros que ele defendeu, figura um que, partilhado pelos
hereges, levá-los ia à fogueira; aceitava a realidade de sucubus e incubus, com tudo
mais que se acha implícito na feitiçaria. O purgatório ele o localizava no centro da terra.
Às vezes os argumentos desenvolvidos por Tomaz são inacessíveis à razão, como, por
exemplo, sua argumentação feita no sentido de demonstrar porque o corpo real e o
sangue de Cristo, no sacramento, não são sensíveis ao paladar nem perceptíveis à visão.

§ 3. O Medievalismo como finalidade religiosa. – Segundo os modernos


escritores e pontífices romanos, a Idade Média foi a Idade de Ouro da sociedade cristã.
Foi um período de fé, em que a ordem civil e a paz terrena, assim como os objetivos
sagrados, prevaleceram como nunca mais se verificou depois. Esse pretenso estado
admirável de coisas assegura-se ter sido quebrado pelo Protestantismo, que é acusado de
haver introduzido a confusão social e a anarquia, dúvida em matéria religiosa, divisão e
inquietude. O Protestantismo é responsabilizado pelo espírito de rebeldia civil e
religiosa, onde quer que tal espírito se manifeste na Europa moderna, e pelas
revoluções, sangueiras e instituições imorais que se produziram nas terras protestantes e
em outras regiões colocadas dentro da esfera de influência protestante.

Os quadros da Idade Média, assim esboçados, são um sonho para os quais


não existem fundamentos nos fatos históricos: aqui é verdade o adágio que diz: “a
distância empresta encanto à paisagem”. O estudo daquele período mostra que ele foi,
em confronto com nossa era, um tempo de atraso, tanto em moral e religião como em
cultura. Foi uma era de exercício arbitrário da autoridade pontifícia, de orgulho e
mundanismo prelático e de desrespeito aos votos do celibato. Foi uma era de
assinaladas distinções sociais, de feudos, guerras religiosas, mendicidade fradesca e
superstições extravagantes. Foi uma era em que se desconheciam as modernas
aplicações do estudo bíblico e do governo constitucional. Um retrato fabuloso da
sociedade medieval e da igreja medieval e da igreja medieval foi esboçado num livro do
dr. J. J. Welsh, que considera o século XIII como o “maior século”, o século ideal entre
os séculos. O escritor inglês, católico romano, exalta, com justiça, as altas figuras
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daquela quadra, tais como Francisco de Assis, Tomaz de Aquino, Luiz IX e Dante. As
universidades, como o citado escritor imagina, estavam em pleno florescimento, sendo
vasto seu número de estudantes e sendo os estudos conduzidos com seriedade e
inteligência; nas catedrais ele encontrara a arte da escultura guindada à mais alta
perfeição e a piedade pura viçando em completo desenvolvimento. Em todos os ramos,
a obra feita foi conscienciosa e exata. Na esfera do governo, os começos da Democracia
se mostraram na Magna Carta. Na esfera da exploração, Marco Polo assinalou o roteiro
a seguir. Grandes hinos e obras teológicas foram compostos e na esfera da Caridade se
iniciou a organização das cidades-hospitais. Acima de tudo isso, havia na Europa
Ocidental uma só Igreja, um mesmo sistema sacramental, um centro eclesiástico de
poder – tudo se mantendo com geral satisfação e constituindo um núcleo de paz e uma
garantia da atividade cristã.

Tal é a atraente pintura. Nela há muito de verdade, mas essa verdade só se


conta pela metade. O século XIII não foi uma era de unidade ideal, mas de dissensão
religiosa, dissensão tão ameaçadora no norte da Itália e sul da França, que Inocêncio III
calculou que mil aldeias e cidades estavam contaminadas de depravação herética. Os
exércitos papais feriram de morte os heréticos e cobriram suas terras de devastação. Foi
a era em que César de Heisterbach, autor da Legenda Dourada, e outros escritores,
relatavam as mais grosseiras histórias de intervenções celestiais e diabólica nos
negócios terrenos – infindáveis aparições de Maria, sempre pronta a auxiliar a seus
adoradores, dentro e fora dos muros conventuais; e história sem fim de demônios a
realizarem todas as espécies de travessuras bizarras. Que se há de dizer do quadro da
vida cristã exibido no conto de S. Brandão, a navegar no mar Ocidental, onde se diz ter
visto uma arrepiante figura de Judas, nu sobre as rochas e, ancorando o santo numa ilha,
ali encontrou monges que durante oitenta anos, nenhuma palavra pronunciaram e
viviam sem fazer coisa alguma, a não ser por e tirar seus pesados barretes de ouro, andar
em procissão, na observância das horas canônicas, e sustentando-se de uma ou duas
fatias de pão a eles fornecida por arranjo sobrenatural? Que se dirá do exemplo da bem-
aventurada Santa Ângela de Foligno, falecida em 1309, que, convertida, orava para ser
libertada dos empecilhos postos à sua piedade, como a obediência ao esposo, o respeito
a sua mãe e o cuidado dos filhos, e afinal encontrando na morte deles motivos de
regozijo, por se lhe abrir oportunidades de vida “religiosa”? Que se dirá das descrições
feitas a sério de almas que foram vistas saindo de corpos mortais em forma de bolas! E
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das especulações escolásticas de que Dante tirou a substância de seus estudos sobre o
inferno e seus tormentos?3 Que se dirá das inúmeras relíquias – desde a santa cruz
(santo lenho), até o dedo que Tomé introduziu no lado do Salvador; e crinas retiradas da
cauda da besta de Balaão – tudo disputado por cidades e aldeias, reis e conventos!
Todas essas coisas pertencem mesmo ao cerne da Idade Média.

Se a Idade Média for encarada do ponto de vista da paz, verá o estudioso da


história que havia um constante estado de guerra entre imperadores e papas, e certos
príncipes, para serem reduzidos à submissão à sé apostólica, tiveram de ser
excomungados e enviados, em cumprimento de penitência, ao túmulo do Salvador
(Santo Sepulcro) e a outros lugares. O sossego religioso, que se diz ter reinado nos
círculos da igreja, briga com o testemunho de eminentes eclesiásticos. Os monges
viviam em rixa constante com o clero secular. Os dominicanos e franciscanos estiveram
durante anos em rasgado conflito. Na Inglaterra e em outros países, o descontentamento
religioso, motivado pelas vexações feitas pelos colaboradores de taxas papais, era
permanente.

Tomemos agora a civilização em sua larga abrangência. A despeito da


cavalaria, que se pode dizer acerca da baixa opinião em que eram tidas as mulheres,
como se vê dos contos horríveis dos feiticeiros sabbats e imoralidades perpetradas com
demônios? O século XIII foi uma era de servidão, uma época em que não havia escolas
para o povo e as universidades eram erigidas somente para a preparação de sacerdotes.
Os reis e príncipes habitualmente desconheciam a lei da monogamia. As doenças da
pele lavravam espantosamente, de modo que um terço da população da Inglaterra,
segundo se computou, estava contaminada por elas, e leprosários não os havia, desde
Lincoln até Veneza e Assis. A tortura dos criminosos comuns e dos hereges andava em
grande moda. Distribuíam-se indizíveis penas de morte. Quanto à limpeza, parece que
quanto mais sujo era um povo, maiores suas credenciais de santidade. S. Bernardo
proclamou como mérito dos Templários o fato de eles “raramente se lavarem”. Tal era o
ideal de humanidade, que o poeta religioso, Jacaponi da Todi, considerava uma virtude
andar de gatinhas, arreado como um burro; e o bom Francisco de Assis abraçava os
leprosos e beijava-lhes as mãos. Balmes se atreve, todavia, a dizer que qualquer que
tenha sido o progresso feito pela civilização, a partir do século XVI, tal progresso terá
sido feito “não pelo Protestantismo, mas a despeito dele; e que, antes de o
Protestantismo começar a existir, a civilização européia já havia alcançado todo o
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desenvolvimento que ela comporta”. Schwertner, em seu Sacrifício Eucarístico,


apelando para a “revivificação da glória e das realizações da Idade Média”, apenas
repete um desejo de que os escritores católicos romanos frequentemente expressam.

§ 4. O Medievalismo julgado por si mesmo. – Uma época há de ser


apreciada, em parte, através do juízo que seu povo sobre ela formule. As pessoas que
viveram no coração da Idade Média tiveram triste opinião acerca de seu tempo. Não
temos necessidade de ir até Frederico II para ouvi-lo dizer que, se o clero mudasse seus
hábitos de vida, o mundo poderia outra vez contemplar milagres como nos dias da
antiguidade. Arnoldo de Brescia pregava a mesma coisa. Pregadores populares
subseqüentes, como Bertoldo de Regensburgo e Geiler de Strasburgo, apresentam negro
panorama de vício e irreligiosidade prevalecente em todas as classes. O principal letrado
de então lamentava os males de seu tempo. “Oh! – exclamava Bernardo de Clairvaux –
se eu pudesse ver, antes de morrer, a Igreja de Deus restituída ao ideal de seus dias
primitivos! Os tempos perigosos não estão iminentes: eles são chegados. A violência
enche a terra.” Anselmo, como fez Inocêncio III, escreveu uma obra sobre a maldade de
seus dias. Escrevendo a Grosseteste acerca de sua época, o inglês Adão Marsh a ela se
refere como “os tempos mais abomináveis”. Rogério Bacon viu a decadência por toda a
parte. “O clero todo – lamentava ele – entrega-se ao orgulho, à avareza e à preguiça.
Onde os clérigos se reúnem, como em Paris e Oxford, suas querelas e vícios são um
escândalo para os leigos.”Um terceiro inglês, de um século mais tarde, Walter Map, em
seu livro Miséria do Mundo, lamentava: “A justiça foi banida da terra e cessou o culto
de Cristo” – exulat justitia, cessat Christus cultus. Finalmente, o famoso poema de
Bernardo de Cluny, de que se tirou o hino “Jerusalém Dourada”, abre-se com estas
palavras: “Os últimos tempos, os tempos piores, aí estão”.3 Negando que a Idade Média
ofereça um espetáculo de excelência moral e religiosa, não é necessário que se lhe
conteste certa grandeza imponente de concepção, como se revela nas catedrais, na
fundação das universidades, nas cruzadas e também na supremacia papal sobre todo o
mundo, cristão e pagão, embora as duas últimas realizações pregadas fossem um erro.
Disse Owst, escritor inglês, tratando da pregação na Inglaterra medieval, que “o clamor
infindável do pregador medieval era este: os dias são maus”.

§ 5. O modernismo condenado pela Igreja Romana. – A glorificação de


Tomaz de Aquino e do Medievalismo envolve a condenação da Erudição e do
Esclarecimento modernos. A liberdade de pensamento tem sofrido rude combate na
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comunhão romana, através da proscrição dos movimentos conhecidos como


Modernismo e Americanismo. Pio IX condenou a liberdade moderna, a separação da
Igreja do Estado – e negou aos habitantes de Roma o direito de escolherem seu próprio
governo. Leão XIII colocou-se em oposição aos altos estudos, afrontando, em certas
decisões bíblicas, os resultados da erudição crítica. Pio X foi, talvez, o principal
culpado, no terreno da insurgência contra a erudição: caluniou os modernistas e
proscreveu a erudição crítica e histórica que de qualquer forma se oponha aos conceitos
antigos e tradicionais. No que se refere a Pio XI, vide Cath. Hist. Rev., out. de 1923, p.
409.

O Americanismo, como se trata a corrente liberal de pensamento teológico,


nascida das entranhas da Igreja Romana nos Estados Unidos, incorreu a condenação de
Leão XIII. O fundador dessa escola, Padre Hecker, 1819-1888, converso da igreja
romana e fundador da Congregação de S. Paulo – vulgarmente conhecida como padres
Paulistas – preconizou a política de uma estrita acomodação às modernas concepções,
como se acham representadas pelos povos germânico e anglo-saxônico, e o
reconhecimento da possível existência da verdade fora dos domínios estreitos do dogma
romano. Quando a biografia de Hecker, feita por Elliott, apareceu em tradução italiana,
o livro grandemente inquietou os círculos ultramontanos de Roma; e Leão, numa carta
dirigida ao cardeal Gibbons, 1899 – Obras, 7:223-233, condenou severamente a
corrente americana de pensamento. “O Americanismo – declarou ele – contradiz a
verdade imutável e a infalibilidade que pertencem à igreja e à sé Apostólica. É função
privada do Pontífice Romano expor a verdade, e não compete a um particular a
pretensão de definir o que seja a verdade.” O Americanismo ele o condenou como
desobediência ao santo padre e, por pecar contra a unidade da Igreja, injurioso ao povo
americano. À encíclica de Leão seguiu-se a destituição do bispo Keane – reputado
protetor do padre Hecker – de seu ofício de reitor da Universidade de Washington. O
arcebispo Ireland, outro sustentáculo de Hecker, professou sua lealdade ao papa,
renunciando publicamente às antigas opiniões, pelas quais se mostrara simpático ao
movimento, que deixou então de ter advogados nos Estados Unidos.

O movimento, como se manifestou na Europa sob o nome de Modernismo,


incorreu em censura tão severa como a que havia caído sobre o Americanismo, mas não
teve efeito tão desastroso aos estudos liberais, porque alguns de seus partidários se
recusaram à submissão e deixaram a igreja romana, ou foram constrangidos a deixá-la, à
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custa de anátemas. Os líderes da Alemanha e também da França são eruditos de


primeira ordem. O movimento foi iniciado, ao expirar do século XIX, por Herman
Schell, falecido em 1906, professor de Wurzburg, através de uma obra sobre
Catolicismo e Progresso, e por um segundo livro – A Nova Era e a Velha Fé. Entre
ouros alemães proeminentes, figuraram no movimento os mestres de história da Igreja,
Hugo Koch e Joseph Schnitzer, os quais declararam que a primazia papal era assunto de
evolução eclesiástica. Na França, o abade Duchesne foi censurado por opiniões liberais
exaradas em sua História da Igreja Antiga, e Alfredo Loisy o foi pela feição crítica por
que tratou o Velho Testamento. Em 1908, Loisy foi punido com a excomunhão maior.
Na Itália, o elemento liberal contou entre seus partidários o padre Gennochi, deposto da
cátedra de erudição bíblica em Roma; Minocchi, professor em Pisa, e o novelista
Fogazzaro. Na Inglaterra, o padre Tyrrell, 1861-1909, que se passou da Igreja Anglicana
para a Companhia de Jesus, manejou um estilo brilhante para tornar conhecido o
espírito e as aspirações da corrente modernista. Tyrrell defendeu a proposição segundo a
qual, nem a teologia é uma ciência estática, nem insuscetível de erro. Submeteu a rude
crítica a encíclica de Pio X, de 1907. Em 1906 fôra expulso da Ordem dos jesuítas e um
ano depois excomungado. Um amigo seu, que à beira de seu túmulo recitou o Pai
Nosso, foi igualmente excomungado.

Ao agir contra esse movimento promissor, Pio X negou à pesquisa histórica


e ao criticismo bíblico todos os direitos à independência. Ele pronunciou nada menos de
três alocuções, entre 1907 e 1910, contra os supostos males que ameaçavam a paz e o
bem-estar da igreja, através do Modernismo. Em 1908 o papa demonstrou sua opinião
acerca da importância que atribuía ao acontecimento, pela cunhagem de medalha em
que representava a si mesmo como uma espécie de S. Jorge, destruindo a hidra
policéfala da nova heresia. O primeiro documento, divulgado em 3 de julho de 1907 em
forma de syllabus, condenava sessenta e cinco proposições. Foi declarada final a
interpretação da Escritura aprovada pela Igreja e os dogmas romanos foram enaltecidos
como verdades que desceram do céu. O documento papal denunciava as idéias de que
os sacramentos não foram instituídos diretamente por Cristo e que S. Pedro não recebeu
a primazia; e terminava repudiando o conceito segundo o qual os ensinos da Igreja
devem harmonizar-se com os resultados dos estudos modernos – expediente, afirma-o
Pio – capaz de transformar o cristianismo em alguma coisa como o livre e liberal
Protestantismo.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Na encíclica pascendi, publicada dois meses depois, o pontífice


estigmatizava os modernistas como inimigos da cruz e os acusava de tentarem promover
a derrocada do reino de Cristo. Declarou-os falsos reformadores, que desprezavam a
revelação objetiva e sobrenatural, substituindo-a pelas opiniões subjetivas, derivadas da
chamada consciência religiosa. Condenava-os como homens astuciosos,
desempenhando duplo papel, ora como racionalistas, ora como católicos, e manejando
as armas do ridículo e da injúria contra a teologia dos Escolásticos, como também
pedindo a separação da Igreja do Estado, pondo de lado os santos Padres e os concílios,
para seguirem as pegadas de Lutero. De fato, prossegue o papa, o angélico doutor S.
Tomaz grandemente excedeu aos modernistas em gênio, erudição e santidade.
Finalmente, ele acusou os erroristas de orgulho intelectual e desenfreada curiosidade,
os quais se exibiam como sumidades em crítica textual. Em sua encíclica de 1910, Pio
outra vez denunciou os modernistas como seita astuciosa – vaferrimum genus – proibiu
a leitura de seus livros e prescreveu um juramento de quatrocentas palavras, que todos
os sacerdotes e mestres eram obrigados a prestar, reclamando indiscriminado
assentimento a tudo quanto foi definido pelo assim chamado infalível ensino da igreja.
As exigências contidas no juramento incluem: que a igreja foi edificada sobre Pedro e
sobre seus sucessores, perpetuamente, e que toda a verdade é confiada ao episcopado;
exigiu também a promessa de se não empregar o princípio herético da evolução na
interpretação das Escrituras.

Schnitzer de Munich, afrontando esse mandamento papal, continua a


distinguir entre a verdadeira igreja e o organismo no qual os decretos de Inocêncio III,
Bonifácio VIII, Pio V, Pio IX e Pio X são encarados como elementos integrantes do
sistema. Ele fez distinção entre “a igreja romana, como a fez o homem, e a verdadeira
igreja”: pede que se faça a transição do romanismo para o catolicismo e do
ultramontano anti-Cristianismo para o Cristianismo de Cristo, afirmando que, a não ser
que a igreja romana tome este caminho, ela será punida com a sorte que lhe coube ao
tempo de Constantino, no quarto século, e incidirá outra vez em paganismo, de que a
presente comunidade romana conserva muitos restos – massenhafte Reste – Se nas
terras de cultura e progresso – continua o eminente publicista – a igreja quiser
sobreviver, o verdadeiro Cristianismo deve abandonar a carnal Igreja Petrina e passar-se
para a de há muito desejada Igreja espiritual, Joanina, do futuro.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

O arcebispo O’Connell, de Bostosn, agora cardeal, tem sido, nos Estados


unidos, o mais ilustre defensor da atitude de Pio. Numa carta pastoral de dezembro de
1907, o prelado afirmou que: “O Modernismo se desenvolveu nas trevas e ninguém
classificou completamente essa planta daninha até que Pio X falou. Suas devoções,
demasiado covardes para serem francas, encobriam-lhe os desígnios através de
sugestões sutis e vagas alusões... Pio, com singular clarividência, condenou essa escola
de homens perversos e mal orientados que, assumindo um direito que lhes não
pertencia, pretendiam reconciliar a igreja católica com o que eles imaginam que os
tempos modernos exigem”.

Aos protestantes essa política parece conduzir diretamente ao


obscurantismo, como a política das autoridades romanas o encorajaram no século XVI.

§ 6. O Protestantismo e o progresso teológico. – Glorificar a Idade Média,


como se ela, por sua teologia e prática religiosa, houvesse esgotado os ensinos de
Cristo, é coisa diametralmente oposta à regra do Protestantismo. O mesmo acontece
com a opinião de que a final definição da verdade cristã se tenha completado na época
da Reforma Protestante. O Protestantismo exalta o livre exame e os direitos da cultura.
Lutero reclamava discussão. É uma declaração humilhante a de que os Escolásticos
conhecessem toda a verdade de Deus e tivessem exaurido a lição das Escrituras. Os
Escolásticos não refizeram o estudo do Novo Testamento: aceitaram docilmente o que
acharam nos escritos dos Padres. Limitaram-se à atmosfera de seu tempo, exceto no
caso de Abelardo, que se abalançou a antecipações do futuro. Não previram a liberdade
moderna. Não firmaram nenhum memorial em defesa da abolição da escravatura; não
criaram escolas para o povo; não tomaram medidas para livrar sua época da crença na
feitiçaria; não fizeram esforços para limitar os horrores da tortura; não sonharam com a
tolerância religiosa. Viveram na idade Média. O Protestantismo se avantajou ao
Escolasticismo no advogar a investigação religiosa e na posse de um equipamento e
aparelhamento para o estudo das Escrituras, como os Escolásticos os não tiveram. O
aparelhamento que está hoje nas mãos dos estudiosos é superior ao de que dispunham
os Reformadores. Há problemas sociais com que a Igreja defronta hoje e que não
existiam quando os Escolásticos ainda viviam, e sérias questões teológicas estão sendo
agitadas, acerca das quais não houve dúvida que afetasse o espírito medieval. O
Protestantismo insiste em que pode haver progresso na interpretação do Cristianismo
que veio de Cristo. O Cristianismo permanece o mesmo; mas, como em astronomia e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

em todas as demais ciências, novas faces da verdade se têm revelado, também podem
ser encontradas nas Escrituras originais novas lições desconhecidas no passado.
Petrarca, ao começarem a relaxar-se as algemas da Idade Média, teve consciência
daquele princípio, quando distinguiu entre os ensinamentos das Escrituras e as
Escrituras conforme as interpretava Agostinho. A atitude dos Protestantes se expressa,
desde muito tempo, pelo moto: Sou amigo de Agostinho, de Tomaz de Aquino e de
Calvino, mas sou mais amigo da verdade – amicus Augustinus, amicus Thomaz, amicus
Calvinus, sed magis amica veritas.

O próprio Lutero dá exemplo notável da disposição para aceitar novas luzes,


qualquer que seja a direção de que promanem, pondo de lado velhas opiniões quando
achou que eram melhores as novas idéias. Lendo a obra de Huss sobre a Igreja, mudou
de opinião acerca da sede da infalível verdade religiosa. Quando o tratado de Lourenço
Valla lhe chegou às mãos, ele repudiou como enorme falsificação as Decretais
Isidorianas, que haviam desfrutado de autoridade por seis séculos, justificando as
concepções medievais do poder clerical e papal. À medida que estudava a Bíblia e
penetrava em seus ensinos, o Reformador ia gradualmente abandonando essa ou aquela
tradição que recebera por herança, substituindo as sutilezas da Escolástica pelas
definições bíblicas.

O princípio protestante do livre exame não encontra em parte alguma mais


admirável expressão do que através das palavras do rev. João Robinson, da mais
rigorosa escola calvinista, dirigidas aos Peregrinos que iam embarcar para a América:
“Os luteranos não podem ser levados para além do que Lutero disse, porque, qualquer
que fosse a parcela de vontade de Deus comunicada posteriormente a Calvino, os
luteranos preferiam morrer a abraçá-la. Assim são também os calvinistas: plantam-se
onde Calvino os deixou, o que é muito para lamentar . Porque, embora eles tivessem
sido preciosos luzeiros no seu tempo, Deus não lhes revelou toda sua vontade; e, se
ainda fossem vivos, estariam prontos a receberem maiores luzes do que receberam e
estariam desejosos de o fazer”. Depois Robinson propôs aos Peregrinos que se iam o
seguinte pacto: “Receberem quaisquer novas luzes e verdades que lhes fossem reveladas
através da Palavra de Deus escrita”. O conselho de Robinson contém o princípio do
progresso teológico e religioso.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Bibliografia e Notas

Obras contra o Modernismo. – Pio IX, Syllabus, trad. na Cath. Hist. Rev.,
julho de 1927. – Leão XIII sobre o Americanismo, Works 7, 223-33. – Encíclicas de Pio
X, 1906-10, Hecker, The Church and the Age, 10o. milheiro, 1890. – Elliott, Life of
Hecker, com introd. pelo Arebp. Ireland, 1891-1894. – Walsh, The 13 th Cent. the
Greatest of the Centt., 1907. The Calvert Series, por Belloc, Chesterton, Ward, etc. N.
Y., 1925. F. Woodlock, S. J., Modernism and the Christian Ch., 1925. Sobre o
Modernismo, Houtin: L’Americanisme, trad. 1910; Hist. du Modernisme, pp.458, 1913.
– Sell of Bonn: Kathol. und Protest. in Gesch. Rel., etc., 1908. Ex-católicos: Loisy: The
Gospel and the Ch., trad., 1912; My Duel with the Vatican, Autob. of a Cath. Modernist,
trad., 1924, etc. – Tyrrell: Programme of Modernism, a Reply to the Enc. of Pius X,
1908; Christianity at the Cross-roads, 1910; Autob. And Life, por Petrie, 2 vols., 1912. –
Schnitzer of Munich: D kathol. Modernismus, pp. 212, 1912. Koch of Braunschweig:
Katholizismus und Jesuitismus, 1913; - As obras de McCabe, e Hoensbroech-Barrett:
The Enigma of Jesuitism, 1907.

1- As palavras de Leão são omnium princeps et magister longe eminet inter


scholasticos doctores, Works, 1:88, 108. Leão frequentemente insistia no louvor de
Tomaz.

2- Sobre a trad. da bula de Bento e da bula de Pio X, de 8 de setembro de


1907, Vide Cath. Hist. Rev., 1921, 55-63, 1923, 401-12.

3- Sobre o medievalismo, Vide o ex-católico Heiler, p. 590 e ss. A luta


interna da comunhão romana contra os resultados positivos da ciência física pode ser
datada da condenação do professor católico romano Mivart, 1827-1900, cujos artigos,
publicados no Nineteenth Century, 1892-1893, foram postos no Index. Foi
excomungado pelo cardeal Vaughan. É interessante notar a incondicional admiração
que Belloc, e Chesterton em sua Back to Merry England, etc., nutrem pela Idade Média.
As obras de Coulton, baseadas em investigação histórica, apresentam a Idade Média em
sua cor real.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO IX

CRENÇAS COMUNS A PROTESTANTES E ROMANISTAS E SUAS

DIVERGÊNCIAS

A heresia, quando imputada a qualquer cristão, não deve ser levianamente condenada ou
crida. Porque heresia é desprezo da salvação, renúncia da graça de Deus, separação do
corpo de Cristo. Mas isso sempre foi velha e solene herança dos cristãos e de seus
antepassados. Se alguém se queixa de seus erros e culpas e deseja possuir a verdadeira
religião restaurada, imediatamente se condenam os tais como heréticos, como homens de
novidades e facciosos. Não foi por nenhuma outra razão que Cristo foi chamado
Samaritano, mas tão somente porque se julgava que ele houvesse incidido em certa religião
nova e fosse autor de uma nova seita. – Bispo Jewel: Apologia.

Até este ponto, a divisão da Cristandade Ocidental tem sido tratada com um
honesto esforço feito para expurgar o Cristianismo primitivo de invenções e abusos
medievais, e a emancipação do Protestantismo tem-se definido como consequência
provocada pela recusa das autoridades romanas a reconhecerem os males dominantes na
Igreja e porem em prática medidas destinadas a corrigi-los. Passamos agora a apresentar
as idéias sustentadas em comum por Protestantes e Romanistas e os pontos em que eles
divergem, comparando os últimos com as lições da Escritura.

§ 1. Pontos de concordância. – As verdades religiosas que Protestantes e


Romanistas sustentam em comum, são as seguintes: 1. Eles crêem em Deus Pai Todo-
poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o qual subsiste nas três pessoas
da Trindade, Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. 2. Crêem que Jesus
Cristo é o Filho de Deus que revelou o Pai e, por sua encarnação e morte, assegurou a
redenção dos pecadores. 3. Concordam em que todos os homens nascem em pecado e
que, fora de Cristo, não há livramento para sua escravidão nem como escapar à
condenação punitiva da parte de Deus. 4. Concordam em que Deus deve ser adorado e
deve ser objeto de confiança e amor, como nosso Pai Celestial. 5. Concordam em que os
cristãos são chamados, como S. Paulo o declara, “a andarem em novidade de vida”, ou,
como define o profeta hebreu, “a amarem a misericórdia, praticarem a justiça e andarem
humildemente com Deus”. 6. Concordam em que o Reino de Deus é um Reino Eterno.
Estes princípios cardeais de concordância, assim brevemente apresentados, distinguem a
Cristandade Romana e Protestante do Maometismo e de todas as demais religiões da
terra.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

§ 2. Pontos divergentes. – Os Protestantes e Romanistas divergem em


matéria de doutrina, governo da Igreja, culto e, até conduta cristã. Essas divergências se
relacionam com as seguintes questões: 1. Fonte de autoridade religiosa – ou se as
Escrituras são o guia suficiente de doutrina e preceitos cristãos. 2. A Igreja – ou o que
ela é e quais sejam as suas funções. 3. O papado – ou se o papa é, por determinação
divina, cabeça da Igreja Cristã visível e se é um mestre infalível. 4. O ministério – ou se
ele é ou não uma ordem investida de poder sacerdotal. 5. Os sacramentos, seu número e
sua virtude. 6. O purgatório e se tal lugar existe. 7. Maria, e se ela deve ser cultuada e se
foi concebida sem pecado. 8. Santos e relíquias e se culto e veneração devem ser-lhes
tributados. 9. O lugar das boas obras no esquema da graça.

§ 3. Importância relativa dos dogmas. – A comunhão romana não admite


gradação na culpa que a rejeição dos dogmas da igreja envolve. Os protestantes fazem
distinção entre as doutrinas que são fundamentais e as doutrinas que são de importância
secundária. Em diversas ocasiões, a partir da Reforma, eles tentaram apurar as crenças
fundamentais da fé cristã. Turrentino, Chillingworth, Calixtus, Richard Baxter,
Waterland e outros teólogos do passado, preocuparam-se com o assunto, na esperança
de promover um melhor entendimento nos círculos cristãos do Ocidente. Em 1643, uma
comissão foi nomeada pelo Parlamento inglês, para levantar uma lista de pontos
fundamentais. Nos meados do século XIX, a Aliança Evangélica organizou nove artigos
como base de cooperação e união eclesiástica. O Protestantismo faz distinção entre
doutrinas que se prendem à existência da igreja e “doutrinas salvadoras”, que se
prendem à salvação do homem. As doutrinas salvadoras estão compendiadas nas
palavras de nosso Senhor: “O que crê em mim tem a vida eterna”. São doutrinas
fundamentais aquelas sem as quais a Igreja é incapaz de subsistir. São como o coração,
o cérebro e órgãos do corpo, sem os quais a vida humana se torna impossível. A mais
curta distância a que o Romanismo chegou no terreno dessas distinções, realizou-o
Tomaz de Aquino, que declarou o batismo e a eucaristia sacramentos essenciais, sendo
os outros cinco sacramentos romanos de importância secundária. Fazendo semelhante
distinção, o teólogo tinha em mente a salvação do indivíduo e não a constituição da
Igreja.

§ 4. Heresia. – Entre os protestantes, a definição de heresia depende de


quais sejam os artigos fixados como fundamentais. A negação do batismo infantil ou a
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

afirmação da existência do purgatório eles não consideram heresia. O rito mencionado


não é explicitamente mencionado no Novo Testamento e o purgatório não é
explicitamente condenado. As modernas concepções liberais, correntes entre
protestantes, e seu livre uso dos Credos históricos, habilitam-nos facilmente a incluir
entre os salvos os católicos romanos que aceitem a Cristo como seu Salvador e se
esforçam por segui-lo, crendo, embora, na transubstanciação e que o papa seja de
ordenação divina. Por outro lado, a Igreja romana, negando a diferença de valores entre
as doutrinas que ela oficialmente proclamou, logicamente considera como herética toda
pessoa batizada que deliberadamente rejeite uma só daquelas doutrinas. Porque, todas as
doutrinas que ela definiu, ela as encara como parte do depósito de fé ou verdade que lhe
foi divinamente revelado. A Enciclopédia Católica diz que: “a consciente rejeição de
um único artigo de fé é suficiente para tornar o homem culpado de heresia”. A teologia
romana faz, todavia, exceção, entre heresia formal ou voluntária e heresia inconsciente
ou involuntária. No último caso, nenhuma culpa recai sobre o dissidente. Ele não é
herege formal. O princípio é o de que a ignorância dos ensinos romanos não acarreta
condenação, mas, sim, o desprezo deles. A distinção dá esperança a grande número de
dissidentes protestantes, mas para os letrados e entendidos, que esclarecidamente
repudiam os dogmas tais como o papado e a transubstanciação, não há esperança. A
ignorância se transforma em virtude salvadora. A inteligência é fatal. Se se pudesse
entender que “a forma de ensino”, de que Paulo fala em sua Epístola aos Romanos –
6:17 – corresponde aos catálogos de dogmas estabelecidos pela teologia romana, seria
razoável a pretensão segundo a qual se torna propriamente herético o homem que rejeita
qualquer deles. A velha alegação dos controversistas romanos, considerando
“impertinente” a distinção protestante do que é fundamental, seria correta. Vicentius de
Lerins, um apaixonado da ortodoxia estrita, fez a declaração de que ninguém jamais
sustentou heresias sem que primeiro se separasse da ecumenicidade, antiguidade e
consenso da Igreja Católica. Os protestantes concordam plenamente com ele,
entendendo, porém, por Igreja Católica, a Igreja de Cristo.

O aborrecer a heresia é tão velho como os apóstolos. No Novo Testamento a


palavra foi usada no sentido depreciativo de seita ou facção, como a seita dos fariseus e
os partidos formados na igreja de Corinto. Paulo fala do sistema cristão como sendo
chamado “heresia”, ou seita – Atos 24:14. Ele condenou as “heresias” como obras da
carne e o herético como pessoa que se devia evitar – Tito 3:10. Espalhando-se a Igreja
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Cristã e havendo grupos organizados que dissentiram de seus ensinos, as palavras mais
amargas foram escolhidas para estigmatizar a heresia e os hereges, isto é, tudo quanto se
apartava dos ensinos oficiais da Igreja. Atanásio chamava os arianos “cães, lobos, leões,
demônios” e outros nomes deprimentes. No concílio de Éfeso, 449, os membros
suspeitos de heterodoxia foram denunciados como Judas e homicidas. Às palavras de
ódio e insulto se acrescentavam violentos assaltos à pessoa dos dissidentes. Em 382 a
heresia passou a ser, perante a lei civil, crime capital, medida que perdurou até a Idade
Média e foi revigorada ao tempo da Reforma, por Leão X. Tomaz de Aquino definiu
como herética a pessoa que, nascida na crença católica, tenha renunciado a ela.

Em face da situação que resultou do movimento protestante, o Concílio de


Trento dividiu os não-católicos em hereges, cismáticos e apóstatas. Herege, segundo
define o Catecismo tridentino, é o que rejeita a autoridade da Igreja e sustenta opiniões
ímpias – 1:10, 4:13-15. Aos hereges ele trata de “emissários do diabo, coruptores da
Palavra de Deus”. Os cento e cinquenta anátemas pronunciados pelo Concílio tiveram
como alvo os próprios dissidentes e não suas doutrinas. O cardeal Belarmino – de verbo
dei 4:12 chamou-lhes “macaqueadores de católicos”, os quais, se permanecerem fora da
Igreja, estão no caminho certo do inferno – de eccl. 3:34. Deviam ser condenados à
morte, como caridosa medida destinada a impedir que eles, por iniqüidade contumaz,
incorram em maior condenação – de laicis. O Código de Direito Canônico, 1325, 2314,

define o herege como indivíduo que, após o batismo, obstinadamente –


pertimaciter – rejeita qualquer das verdades da fé católica. O que decai totalmente da fé
– totaliter – é um apóstata. Leão XIII, 1878 – Obras, 1:28, definiu como focos de
heresia as escolas e igrejas protestantes de Roma, e escreveu que, na cidade
tradicionalmente repleta de luz, aquelas instituições estavam projetando trevas e
conspirando contra a “Rocha poderosa”, sendo que aquilo era levado avante pelos
protestantes, sob o disfarce de filantropia, mas na realidade para adestrar uma geração
hostil à igreja de Cristo e preparar um povo sem religião, estando eles também levando
o povo a um estado de sensualismo. Um Guia do Examinador, publicado por um
arcebispo americano, recomenda que, na recepção de um converso à comunhão romana,
o tal não só proclame que aceita as doutrinas romanas características, mas também faça
a seguinte profissão: “Com um coração sincero e com fé não fingida, detesto e abjuro
todo erro, heresia e seita que se oponha à dita Santa, Católica e Apostólica Igreja
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Romana; assim me ajudem Deus e estes Santos Evangelhos sobre os quais ponho a
mão”. O Catecismo de Pio X – P. 127 – define os heréticos como “os que são batizados
e se recusam a crer em qualquer das verdades reveladas por Deus e ensinadas pela
Igreja, como, por exemplo, os Protestantes”. Esta definição vem comentada no Manual
de Catecismo dedicado a Pio X, significando a referida expressão uma única dentre as
verdades – anchè una sola – “reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja”. A segunda
resposta do Catecismo exclui definitivamente os protestantes da comunhão dos salvos:
“Está excluído da comunhão dos santos o que se acha excluído da Igreja. Tais são os
condenados, infiéis, judeus, hereges, apóstatas, cismáticos e excomungados”. A
Profissão de Fé Tridentina, a que todo sacerdote romano deve dar assentimento, tem
entre as palavras finais a seguinte declaração: “Sustento esta verdadeira fé católica, fora
da qual ninguém pode ser salvo”. Assegura-nos o cardeal Gibbons que “se alguém negar
um só artigo de fé, será cortado como um ramo seco”.

Este livro pretende seguir a trilha dos ensinos oficiais do sistema romano,
conforme se acham expressos nas atas dos Concílios, em decretos de papas e em
documentos que tenham logrado aprovação oficial, como o Catecismo de Pio X, não
podendo, portanto, acompanhar os conceitos particulares de católicos romanos que, em
tempos recentes, trataram os protestantes como “nossos irmãos separados”, embora se
acolham cordialmente tais indícios de atitude fraternal. Os protestantes de hoje pouco
têm a dizer acerca de heresia e jamais usam a palavra herege em relação a homem
algum. Se fossem chamados a estabelecer um padrão explícito de juízo, provavelmente,
concordariam com Agostinho, quando disse que “é quase impossível, ou, pelo menos,
muitíssimo difícil”, definir a heresia, e que, “antes que o erro em si mesmo, constitui
heresia o espírito com que o erro é sustentado”. Como para os protestantes, o
Cristianismo é mais do que o Protestantismo, assim virá o tempo, esperamos, em que,
para os romanistas, o Cristianismo será mais do que o Romanismo, sendo então
impossível repetir ou ensinar preceitos tais como os que se encontram no recente
Catecismo oficial, sancionado pelo Vaticano, assim como nos de1cretos do Concílio de
Trento e de 1870 e nas bulas papais.

§ 5. O Romanismo e o Protestantismo lado a lado. – A observação feita


por Schleiermacher – Christlicher Glaube (1) 1:24 – provavelmente nunca foi igualada

(1) “A fé cristã”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

como expressão da diferença fundamental que existe entre os dois sistemas: “O


Protestantismo coloca a relação do indivíduo para com a Igreja na dependência de sua
relação para com Cristo; o Catolicismo faz a dependência de sua relação para com
Cristo depender de sua relação para com a Igreja”. O cardeal Belarmino colocou a
aludida distinção neste terreno: “A diferença entre nossa opinião e as opiniões de todos
os outros, é que todos os outros requerem virtudes interiores para que o indivíduo seja
membro da Igreja, fazendo, assim, que a verdadeira Igreja seja invisível. Nós, por outro
lado, não cremos que nenhuma virtude íntima se exija, mas somente a exterior confissão
de fé e participação dos sacramentos” – non putamus requiri ullam internam virtutem
sed tantum externam professionem fidei et sacramentorum communionem quae ipso
sensu percipitur.

As diferenças podem ser expressas, em detalhe, nas seguintes sentenças: o


Protestantismo considera o cristianismo como sendo, precipuamente, uma disposição e
atitude espiritual; o Romanismo encara-o como profissão e obediência. O
Protestantismo toma a Cristo como caminho que leva à Igreja; o Romanismo faz da
Igreja a vereda que conduz a Cristo. O Protestantismo exalta a Cristo; o Romanismo
exalta a Igreja. O Protestantismo é escriturístico; o Romanismo é eclesiástico. O
Protstantismo diz: “Onde está Cristo, aí está a Igreja”; diz o Romanismo: “Onde está a
Igreja, aí está Cristo”. O Cristianismo Protestante é Paulino e está pronto a admitir
novas luzes, de onde quer que elas venham; o Romanismo é Petrino e está satisfeito
com suas velhas concepções. O Protestantismo realça a fé viva como prova da profissão
cristã; o Romnismo dá proeminência à submissão às prescrições sacerdotais. O
Protestantismo dá ênfase à liberdade de consciência; o Romanismo enaltece a
autoridade da Tradição. O Protestantismo é uma comunidade de crentes, constituída de
clérigos e leigos juntamente; o Romanismo é uma comunidade de sacerdotes, em que se
incluem os leigos. O protestantismo acolhe o racional e o natural; o Romanismo excita o
maravilhoso e o extático. O Protestantismo é Cristianismo em marcha; o Romanismo é
o Medievalismo em estagnação. O lema do Protestantismo é: A verdade, qualquer que
seja o lugar a que ela conduza; o lema do Romanismo é: Semper eadem – “sempre a
mesma”.

Na discussão que se segue, em torno das divergências doutrinárias, a fonte


da verdade religiosa é enunciada em primeiro lugar. Esse método segue o exemplo dos
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Decretos de Trento e da Confissão de Westminster, do cardeal Belarmino e do dr.


Milner. O cardeal Gibbons e o dr. Hase, este protestante, iniciam a discussão tratando da
Igreja. Se ficar decidido que a Igreja não pode errar e que a organização Romana é a
Igreja, então a definição de Igreja assume toda a importância e com isso a discussão se
encerra. O que resta a descobrir é o que a Igreja ensina. Por outro lado, se as Escrituras
são o suficiente guia da verdade religiosa, a tarefa de primordial importância é provar
aquela proposição – e depois confrontar todos os ensinos e práticas com o claro teor das
mesmas Escrituras.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO X

A REGRA DA VERDADE RELIGIOSA

Buscastes as Santas Escrituras, que foram dadas pelo Espírito Santo. – Clemente de Roma.

A ignorância, na Idade Média, do texto da Bíblia, não só da parte dos leigos mas também
do clero, é difícil de ser exagerada. – Coulton. Sétima preleção sobre Educação Religiosa
antes da Reforma.

A verdade cristã é de revelação sobrenatural. Nesta crença fundamental


concordam protestantes e romanistas. Diverge, entretanto, no tocante ao canal através
do qual aquela revelação se fez conhecida. Para o Protestante, as Escrituras contém tudo
quanto é necessário à crença e à pratica do cristão. Elas constituem o Código das
exigências de Deus e suficiente regra dos deveres do homem. São a Constituição
perpétua da Igreja Cristã. Às Escrituras o Romanista acrescenta um corpo adicional de
verdades, chamadas “Tradição”. À pergunta: “Onde encontras a verdade religiosa?” – o
Protestante responde: “Só na Bíblia, que é a Palavra de Deus”; mas o Romanista diz:
“Na Igreja”, ou talvez, “Na Bíblia e na Tradição”. Para os protestantes, a Constituição
cristã se tornou um volume completo quando os Apóstolos morreram. A Constituição
pode ser comentada e princípios novos nela se podem descobrir, como novos filões de
ouro em mina antiga, mas não pode ser ampliada; muito menos pode ser suprimida
qualquer disposição sua. A Bíblia não pode ser ampliada à custa de adições. Para o
católico-romano, novas doutrinas podem ser impostas pela Igreja, que é um órgão de
revelação, autorizado a proclamar novas doutrinas, ou pelo pontífice romano. Este foi o
caso, em referência à proclamação da imaculada conceição de Maria, em 1854, e ao
dogma da infalibilidade papal, em 1870. O Catecismo Plenário traz definições de Igreja,
papa e sacramentos, mas em todas as suas perguntas e respostas não se encontra
nenhuma definição da Bíblia. O Código de Direito Canônico somente por duas vezes,
ao que parece, menciona a Bíblia, e ainda assim a propósito da publicação da mesma.

§ 1. A atitude romana. – A atitude romana é a de que a Escritura,


juntamente com a Tradição, constituem a regra de fé cristã. O Espírito Santo é o autor
de ambas. Segundo as palavras do Concílio de Trento, a verdade salvadora, concernente
à fé e à moral, se contém nos livros da Escritura e nas tradições orais – in libris scriptis
et sine scripto traditionibus. O Concílio ordenou que estas duas autoridades deviam ser
aceitas e veneradas “com igual piedade e reverência”, visto terem sido ditadas pelos
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próprios lábios de Cristo ou pelo Espírito Santo, e preservados na Igreja Católica por
uma sucessão ininterrupta. Sobre todos os que “consciente e deliberadamente condenam
as tradições da igreja”, o Concílio lançou anátema. A Profissão de Fé Tridentina exige
que o sacerdote, ao proferir seus votos, declare aceitar não somente os ensinos
apostólicos, mas também “as tradições eclesiásticas da Santa Igreja Romana”.

A posição tridentina foi reafirmada pelo Concílio Vaticano, ao estatuir que


“devem ser cridas com fé divina e católica todas as coisas que se contêm na Palavra de
Deus, escrita ou transmitida (oralmente) – traditio – e o que a Igreja, quer por um
pronunciamento solene, ou em virtude de uma ordinária e universal função docente –
magisterium – oferece para ser crido como procedente de revelação divina”. Mais
recentemente, Leão XIII especificadamente condenou os que, vangloriando-se do
direito de juízo privado e repudiando as tradições e a função docente da igreja, fazem da
Escritura a única fonte de revelação e o supremo juiz em matéria de fé; princípio
seguido – assim afirma Leão – pelos Reformadores e também pelos racionalistas, “seus
filhos e herdeiros”.1 Foi em coerência com aquela idéia, de um duplo canal de
revelação, que, em 1582, ao ser publicada a versão Rhemish do Novo Testamento – a
versão inglesa de origem católica romana – trazia na página inicial uma citação da
Bíblia e outra de Santo Agostinho. Os mais modernos manuais romanos continuam a
reproduzir o princípio tridentino. Pela definição do Catecismo Plenário, “aquilo que a
Igreja encontra nas Santas Escrituras e nas tradições reveladas, é obrigada a ensinar”.
Segundo se define no Catecismo de Pio X, “o que Deus revelou e ordena seja crido por
meio da Igreja – mezzo della chiesa – encontra-se na Santa Escritura e na Tradição”.

§ 2. Que é tradição? – Os Concílios de Trento e Vaticano definem a


tradição como um conjunto de ensinamentos obrigatórios e divinos, não explicitamente
estatuídos no Novo Testamento, mas comunicados oralmente à Igreja, e “transmitidos,
por assim dizer, de mão a mão”. No uso comum da palavra, associamos com a tradição
aquilo que está sujeito a dúvidas ou que é certamente falso, como quanto dizemos: “Isso
é apenas tradição”. No sentido eclesiástico, a palavra não envolve tal acepção. O latim
traditio significa somente alguma coisa transmitida de uma a outra pessoa. Na passagem
em que Paulo recomendou aos Coríntios que mantivessem “as tradições que ele lhes
havia entregue”, as palavras “tradições” e “entregue” procedem,no original, da mesma
raiz.
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Definindo as tradições como “doutrinas e usos que não foram confiados à


escrita pelos Apóstolos”, o cardeal Belarmino as dividiu em três classes: 1) Tradições
dadas por Cristo aos Apóstolos e não preservadas nos Evangelhos; 2) Tradições que se
originaram dos Apóstolos, sob a direção do Espírito Santo e não registradas nas
Epístolas; 3) Usos eclesiásticos da igreja, que vieram a ser encarados como lei na Igreja
Romana.

Falando mais claramente, os criteria da verdade cristã se estabelecem,


segundo Belarmino, da maneira seguinte: - de verbo Dei, 4:9; 4:9.1. 1. Quando a Igreja
define ser de fé alguma coisa que se não encontra nas Escrituras, é necessário dizer que
aquilo é de tradição Apostólica, como, por exemplo, a virgindade perpétua de Maria e o
número de livros canônicos. 2. Quando a Igreja prescreve alguma coisa que ninguém,
exceto Deus, poderia ordenar, e tal coisa não se encontre nas Escrituras, então é
necessário dizer que aquilo que veio de Cristo e dos Apóstolos, como o batismo dos
heréticos. 3. Aquilo que foi aceito pela Igreja no passado, deve ser aceito no presente,
como o jejum quaresmal. 4. Quando todos os doutores da Igreja, em sua capacidade
individual de escritores, ou reunidos em Concílio Geral, concordam em ensinar alguma
coisa – communi consensu – aquilo que deve ser aceito como “tradição apostólica”,
como, por exemplo, a veneração de relíquias. 5. Que certamente é de crer aquilo que foi
transmitido pelas igrejas que se acham em ininterrupta sucessão aos Apóstolos.

Nenhuma lista autorizada de tradições jamais se confeccionou. A proposta


apresentada ao Concílio de Trento, no sentido de se publicar uma tal lista, foi rejeitada,
sob o fundamento de que, uma vez organizada, ela ataria as mãos da igreja dali para o
futuro. De tradições autorizadas, como as que se referem aos sete sacramentos, á
transubstanciação, ao purgatório, ao culto de santos e relíquias, à imaculada conceição
de Maria e á infalibilidade papal, no que diz ao apoio do Novo Testamento, o máximo
que se invoca em apoio delas é que se encontram em estado latente no recesso de suas
páginas. Pretendia o cardeal Newman que “todo católico sustenta que os dogmas
cristãos estavam na igreja desde os tempos dos Apóstoloos; que eles sempre foram, em
substância, o que são agora e que existiram antes que publicamente se adotassem
fórmulas e que, passando o tempo, foram explicitamente definidos e registrados”.

Desde o tempo antigo, duas condições foram estabelecidas na igreja romana


para se determinar o valor de uma pretensa tradição. A primeira é a regra de Vincentius
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de Lerins, monge e presbítero que viveu na ilha de Lerins, no sul da França, antes de
450. A segunda é o chamado consenso unânime dos Padres cristãos – consensus
patrum. Segundo a famosa regra de Vincentius – que, como ele diz, escreveu seu livro
para “desmascarar a fraude dos heréticos e lhes anular as armadilhas” – é certamente de
crer o que tem sido crido em todos os lugares, sempre e por todos – quod ubique, quod
semper, quod ob omnibus creditum est, Todas as verdades e costumes religiosos que se
conformem àquela regra, são partes do sistema dogmático da verdadeira Igreja e devem
ser cridos. Vicentius era contrário a qualquer alteração das crenças aceitas e herdadas
pela igreja de seus dias, dizendo: “Prefiram os homens a religião da antiguidade, em
lugar de novidades profanas; e, por mais remota que seja a antiguidade, prefiram , acima
da temeridade de um ou de uns poucos mestres, os decretos de um Concílio Geral e, se
não houver tal concílio, sigam o que venha imediatamente depois daqueles, isto é, o
juízo do maior número de doutores que se ponham de acordo”. Quanto à pergunta: “Se
as Escrituras são perfeito guia da salvação, por quê se lhe havia de acrescentar a
autoridade da Igreja?” – responde Vincentius: “Porque, sendo as Escrituras de
inexaurível profundidade e suscetíveis de diferentes interpretações, a decisão da igreja é
necessária para estabelecer o real significado delas”. Repetidamente usou Lerins da
expressão “novidades profanas que devem ser aborrecidas e detestadas”, ou o
equivalente a isso. No decurso de sua explanação, ele não menciona uma só das
doutrinas ora em debate entre protestantes e católicos romanos.

Vincentius especialmente se insurgiu contra a doutrina agostiniana da


predestinação e a substituiu por um sistema de semi-Pelagianismo. Ele também fala da
tradição como interpretação da Escritura e não como fonte autônoma de conhecimento.

A regra famosa, segundo a qual uma doutrina, para ser autorizada, deve ter
sido sustentada, “sempre, por todos e em toda a parte”, não resiste à prova da história.
Crenças e práticas há obrigatórias no sistema romano, que não foram aceitas por todos,
ou em toda a parte, ou em todos os tempos. O mencionado sistema inclui doutrinas
características que não foram referidas pelos Padres de maior antiguidade ou que foram
desmentidas por suas definições. Os dogmas do Concílio Vaticano são, por exemplo,
recentes e os Padres antigos nada souberam acerca deles. Quando o sacerdote se
compromete a seguir o “consenso unânime dos Padres”, e ensina dogmas
caracteristicamente romanos, ele subscreve uma ficção. Para valorizar o princípio,
devem ser alvitradas medidas arbitrárias. Em primeiro lugar, eminentes escritores
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

cristãos mais antigos, como Orígenes, Tertuliano, Clemente de Alexandria e


Atenágoras, devem ser excluídos do catálogo de “Padres” e postos à margem destes, na
categoria especial de “escritores cristãos”, cuja autoridade não é final. Orígenes
ensinava, por exemplo, a restauração de todas as almas, assim como a existência da
alma antes desta vida. Tertuliano negava o batismo infantil. O próprio Vincentius,
falando da unânime concordância da antiguidade – universitatem, antiquitatem,
consensionem – reconhecia a arbitrariedade da distinção entre escritores cristãos e
Padres – e fez a desastrosa afirmação de que a igreja segue “todos, ou pelo menos quase
todos, os mestres e sacerdotes do passado”. Em segundo lugar, o teólogo romano deve
reconhecer que as práticas romanas, agora tidas como autorizadas, contradizem o ensino
dos Padres primitivos. A imersão, como Tomaz de Aquino admite, era a prática
universal dos primitivos cristãos e a Igreja romana substituiu a imersão pela aspersão ou
efusão. Crisóstomo insistia em que fosse geral a leitura das Escrituras, prática essa
condenada em bulas papais. Em terceiro lugar, havia franca discussão e profundas
divergências na igreja primitiva, sobre questões tais como a validade do batismo
herético, a primazia do bispo de Roma e o tempo em que a Páscoa se devia observar.
Em quarto lugar, Jerônimo, Agostinho e Crisóstomo não somente guardam silêncio
sobre certos dogmas romanos, mas seus escritos os eliminam do conjunto da fé cristã. A
declaração do Catecismo Plenário, 3:72, “que a Igreja sempre tem crido na unanimidade
dos Padres”, é coisa que briga com os fatos. Dos sete sacramentos, os Padres primitivos
nada sabiam e, até o século XIII, e não antes, seu número não fora fixado. A igreja dos
três primeiros séculos nada sabia da monarquia papal, e desde o início foi ela repudiada
pelas igrejas orientais. Jerônimo, Agostinho e Cirilo de Alexandria, outros padres do
quarto século, vão longe em referências a Maria, mas não chegaram jamais tão longe
que depositassem fé em sua imaculada conceição. A existência de opiniões discordantes
entre os Padres foi reconhecida por Abelardo em sua Sic et Non – Sim e Não – obra em
que colocou lado a lado as opiniões em choque sustentadas por aqueles em muitos
assuntos, sem tentar, entretanto, explicar a discordância. A regra de Vincentius e a
doutrina de um consenso unânime dos Padres se resumem na proposição segundo a
qual, o que quer que tenha a igreja romana escolhido para indicar como dogma, vem a
ser lei divina, mesmo quando os Padres nada saibam a respeito daquilo, ou lhe tenham
alguns deles feito rasgada oposição. Se substituirmos a concordância dos Padres pela
concordância dos eruditos, a proposição por último referida continua a ser verdadeira, já
que mesmo entre os tais eram sustentadas opiniões teológicas que se opõem ao presente
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sistema doutrinário da igreja romana. À imaculada conceição, por exemplo, se


opuseram S. Bernardo e Tomaz de Aquino.

Certa divergência de opinião existe entre teólogos romanos, sobre se uma


tradição da igreja, para exercer autoridade, deve ou não estar contida, de forma latente,
nas Escrituras. Belarmino expressamente declarou que nem todos os dogmas
necessários se acham expressos nas Escrituras, fornecendo como exemplo, o fato de não
se aplicarem às mulheres, sob a velha dispensação, a lei da circuncisão, sendo elas,
todavia, salvas. Perrone, em seu livro sobre a imaculada conceição, emite a opinião de
que “nem a Bíblia, nem a tradição, é necessária à definição de um dogma”. A tradição
secreta – diz ele – é bastante, a saber: que uma dada verdade foi crida por bispos através
da igreja, porque, “de outro modo, não poucos dogmas teriam de ser encarados como de
origem recente, e poder-se-ia dizer que eles foram introduzidos na igreja em data
recente” – Dollinger, Papstthum, p. 252. O cardeal Gibbons, colocando-se ao lado do
mesmo conceito, afirma que as Escrituras “não contêm todas as verdades necessárias à
salvação, todas as verdades que o cristão é obrigado a crer, nem elas ensinam
expressamente todos os deveres que o cristão é obrigado a praticar”. Esta opinião fora
expressa por Prierias a Sir Thomas More, nos começos da Reforma. Respondendo à
Refutação de Tyndale, disse More: “Tyndale se mostra certo de que tudo quanto não
está na Sagrada Escritura é falso, falsidade que constitui a metade de todo o falso
fundamento sobre que Tyndale e Lutero edificaram suas heresias”. Proclamando o
dogma da infalibilidade papal, pio IX disse ser ele uma verdade divinamente inspirada.
Pio X, em seu Syllabus de 1907, condenou como falsa a opinião de que a tradição
constitutiva da substância da fé católica não se completou com os Apóstolos e que
certos dogmas, que a igreja aceita como revelados, não são verdades que desceram do
céu, mas interpretações humanas. Mohler tentou harmonizar essas teorias e veio a
concluir com Vincentius de Lerins, ao dizer “que a Escritura é a Palavra infalível de
Deus e a tradição é o conceito existente na igreja e por esta transmitido através de seus
mestres. A tradição é a palavra viva, perpetuada no coração dos crentes”.

§ 3. A atitude Protestante. – O conceito, sustentado pelos protestantes, de


que as Escrituras são o único registro infalível da verdade revelada, foi adotado por
todos os Reformadores e incorporado às Confissões protestantes. Toda a verdade, que é
necessário crer e praticar para a salvação, é explicitamente declarada nas Escrituras ou
delas se pode inferir por clara dedução. As Escrituras são o único livro de autoridade
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para a religião. Lutero e Calvino divulgaram este ensino não mais claramente do que
fizera, antes deles, Wyclif. Wyclif dissera que “as Sagradas Escrituras contêm toda a
verdade, toda a filosofia, toda a lógica, todo o ensino ético, e os que as não tratam como
a suprema autoridade, são inovadores, modernistas, pervertedores, sofistas, discípulos
do anticristo” – novelli, moderni, perversi – de ver. 1:22, 395, etc. Huss, igualmente, fez
das Escrituras o critério final da autoridade cristã e todas as crenças eclesiásticas devem
ser abandonadas, desde que se oponham a seus ensinamentos explícitos – praeter
expressam autoritatem Scripturæ. Nada é mais impressionante nos discursos e escritos
de Lutero, Calvino e outros Reformadores Protestantes, do que o respeito que eles
votavam ao Livro Sagrado e as citações bíblicas em que eram fecundos. Concordando
com suas declarações, aqueles escritores eram movidos pelo propósito orientador de
definir o que estava na Bíblia e nada mais. Lutero afirmou que um leigo com as
Escrituras é mais digno de crédito do que todos os papas sem as Escrituras, e que o
papa, e também as universidades e os doutores devem obediência a uma criança de nove
anos, que tenha fé e entenda a significação da Bíblia. A seu superior eclesiástico,
Alberto de Mogúncia, o Reformador escreveu que era compelido a ensinar o que havia
aprendido e lido nas Escrituras. Esta foi a significação de sua atitude na dieta de
Worms. Seus contemporâneos, inimigos e amigos, compreenderam que o conflito se
travava entre os claros ensinos da Escritura e os decretos incorporados no Direito
Canônico. Melanchthon disse que, quanto mais violentamente era atacado, mais
diligentemente se refugiava no estudo da Bíblia. O reitor da Universidade de
Wittenberg, dr. Pollich, emitiu a opinião de que o Reformador embaraçaria a todos os
doutores, firmaria os novos ensinos e reformaria toda a igreja romana, segundo os
escritos dos Apóstolos, que ele tomara por arrimo. Quando, em 1519, Eck verberou a
Lutero por ter posto à margem S. Bernardo e mesmo Agostinho, o Reformador
escreveu: “Se um milheiro de Agostinhos e um milheiro de igrejas fossem contra mim,
estou certo de que a verdadeira igreja sustentaria comigo a Palavra de Deus”. Em outra
ocasião disse ele: “é meu hábito, seguindo o costume de Agostinho, subir o curso da
torrente até à fonte”. Tão Firmes estavam os defensores da nova ordem naquela atitude,
que João, Eleitor de Saxônia, inscrevera em seu escudo, estandarte e nos punhos de seus
domésticos as iniciais das palavras – Verbum Dei Manet in aeternum: V. D. M. Æ. – “A
Palavra de Deus permanece para sempre”. Tendo acesso às Escrituras, Latimer se refere
ao trato com elas como “o perfume da Palavra de Deus”, assegurando “libertação dos
doutores da escola e de suas loucuras”. Jewel escreveu: “O povo de Deus é melhor
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instruído agora do que o era nos tempos passados, quando todos os ditos do bispo de
Roma eram tidos em conta de Evangelho e quando toda a religião dependia
exclusivamente da autoridade deles. Hoje, a Sagrada Escritura está aberta, estão
impressos os escritos dos Apóstolos e Profetas, pelos quais se pode aferir toda a
verdade, e a doutrina católica e qualquer heresia pode ser desmentida e refutada”.

As tradições não justificadas pelas Escrituras foram comparadas pelas


Confissões Protestantes aos fardos impostos pelos fariseus, “amargurando a consciência
dos homens até o desespero”, e como “repugnantes á Palavra de Deus”, ou “sem
garantia da parte das Escrituras”. Os XXXIX Artigos declaram que “A Santa Escritura
contém todas as coisas necessárias à salvação, de modo que aquilo que nela não se
encontra, nem pode ser por ela provado, não pode ser exigido que pessoa alguma o
aceite como artigo de fé, ou que seja tido como condição de salvação ou necessário a
ela”. A definição mais completa, que figura na Confissão de Westminster, estatui que
“todo o Conselho de Deus, contemplando todas as coisas necessárias à sua própria
glória, à salvação, fé e vida é expressamente estabelecido nas Escrituras, ou pode, por
legítima e necessária conseqüência, ser deduzido das Escrituras, à qual coisa alguma,
em tempo algum, se pode acrescentar, seja por novas revelações do Espírito, ou por
tradições dos homens”. Quanto aos escritos dos Padres e seu valor, a atitude protestante
foi assentada na Fórmula de Concórdia, ao declarar que “eles de modo algum se
rivalizavam com as Escrituras, mas são em todos os pontos provadamente inferiores a
elas”. A confissão individual de um protestante jamais foi melhor expressa do que o foi
por Chillingworth, quando disse que: “Estou plenamente convencido de que Deus não
exige de ninguém, e os homens o não devem exigir, mais do que isto: crer que as
Escrituras são a Palavra de Deus, esforçar-se por lhes descobrir o verdadeiro sentido e
viver de acordo com elas”.

§ 4. A antiga Regra de Fé. – Fazendo das Escrituras o guia final da


autoridade religiosa, os Reformadores protestantes seguiram o costuma da Igreja
primitiva. O sistema romano abrange como necessários elementos de verdade salvadora,
dogmas acerca dos quais a antiga regra de fé nada sabia. Os artigos desse venerável
padrão foram preservados nos escritos de Ireneu de Lyon e Tertuliano do Norte da
África, que floresceram cerca do ano 200. Conforme a versão de Ireneu, a regra declara
que “há somente um Deus e esse único tem também um Filho, seu Verbo, que dele
procede, por quem todas as coisas foram feitas e sem o qual nada do que foi feito se fez.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Cremos ter sido ele enviado pelo Pai à Virgem e ter nascido dela, sendo ao mesmo
tempo Deus e homem. Cremos que ele sofreu, morreu e foi sepultado segundo as
escrituras e depois foi ressuscitado pelo Pai, e que ele virá julgar o vivo e o morto; que
também enviou do céu, da parte do Pai, segundo sua promessa, o Paráclito, o
santificador dos que crêem no Pai e no Filho e no espírito Santo”. Nessa obra, chamada
“Pregação Apostólica”, recentemente descoberta, Ireneu por várias vezes insiste em que
os cristãos devem observar a regra” sem desvios e praticar os mandamentos de Deus,
crendo em Deus, temendo-o como Senhor e amando-o como Pai”. Essa regra era o
critério estabelecido para distinguir a verdadeira profissão cristã dos sistemas de
heresias e de filosofias pagãs, contra as quais Ireneu e Tertuliano escreveram, e como
exigência que se fazia aos que pediam o batismo. Em parte alguma eles se referem,
mesmo remotamente a qualquer dos dogmas romanos característicos.

Posteriormente, a contar do concílio de Nicéia, um sistema teológico


distintivo, cuidadosamente elaborado e em termos que se não encontram no Novo
Testamento, foi erigido, e outros sistemas, como o Arianismo, ramificação daquele,
foram denunciados como heréticos e não-cristãos. Finalmente, o Credo Atanasiano,
após haver amontoado regras tendentes à definição da Trindade, excluiu da salvação a
todos que repudiassem suas fórmulas.

Pelo princípio protestante, decretos de Concílios, escritos de Padres e


pronunciamentos de pontífices só têm valor no estabelecer o que devem crer os cristãos,
quando concordem com as Escrituras e não acrescentem a elas nenhum elemento
estranho. Quando Calvino escreveu ao cardeal Sadolet: “estamos armados não só da
energia da Palavra Divina, mas também com o auxílio que os Santos Padres nos dão”,
queria dizer, não que os Padres acrescentassem qualquer coisa às Escrituras, mas que
seus escritos ajudavam a descobrir o que as Escrituras ensinavam. O contraste entre as
teorias Romana e Protestante sobre a autoridade religiosa ressalta claramente da
explanação feita por Adriano IV, em 1522. Escreveu Adriano: “No que concerne à lei
divina, e à matéria dos sacramentos, devemos firmar-nos na autoridade dos santos e da
igreja. Quase todas as coisas em que Lutero diverge de nós, já foram repelidas por
Concílios Gerais e não deve haver dúvida de que tudo quanto tem sido aprovado pelos
pela igreja universal, precisa ser sustentado como artigo de fé”. O pontífice prossegue,
dizendo: “É, pois, evidente que, como Lutero e seus sequazes condenam os Concílios e
os Santos Padres, queimam os cânones sagrados e perturbam o mundo todo, assim os
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

amantes da paz devem extermina-los como inimigos e perturbadores da paz”.


Continuando, Adriano afirmou que, aceitando a tiara, ele o fizera com o “propósito de
reformar a deformada igreja”.

Um teste de bastante valor, tirado da vida diária, no tocante aos méritos da


Bíblia, segundo os pontos de vista Protestante e Católico Romano, foi-nos fornecido
pelas respostas dadas por dois eminentes cidadãos americanos, Thomas R. Marshall,
protestante, e o cardeal O’Connell, de Boston. À pergunta formulada, em 1922, por um
jornal americano: Se tivesses de ser abandonado numa ilha pelo resto da vida, quais
seriam os dez livros que desejarias levar contigo?” Mr. Marshall, posteriormente vice-
presidente dos Estados Unidos e homem de atividade no trabalho da Igreja, respondeu:
“Se eu tivesse de ser degredado, pelo resto de minha vida, numa ilha deserta, não teria
necessidade de dez livros para me entreter até minha trasladação. A Bíblia me
forneceria ampla leitura para considerar os problemas da vida, da morte e da
imortalidade, e qualquer leitura suplementar seria inútil”. A resposta do cardeal
O’Connell foi esta: “Levaria comigo o Missal Romano, o Breviário Romano, a Imitação
de Cristo, de Tomaz à Kempis; a Summa Theologica, de Tomaz de Aquino; a Cidade de
Deus, de Santo Agostinho; a Divina Comédia, de Dante; os Poemas de Alice Maynell;
As noites árabes; Os monges do Oeste, de Montalambert, e as Odes de Horácio. A lista
feita pelo cardeal não incluiu a Bíblia.

§ 5. A pretensa necessidade da tradição. – Os argumentos desenvolvidos


pelos católicos romanos, em defesa da tradição, são tirados das pretensas deficiências da
Bíblia; de suas obscuridades; do uso da “tradição” no Novo Testamento; da alegada
dependência em que se acha a Bíblia, para que tenha autoridade, da decisão da igreja; e
da ausência de qualquer mandamento dado aos Apóstolos para que escrevessem um
livro. Cada uma dessas considerações deve ser explanada e respondida por sua vez.

1. As pretensas deficiências da Escritura. – Conforme se expressa o cardeal


Gibbons, alega-se que “as Escrituras, sozinhas, não contêm toda a verdade que o Cristão
é obrigado a crer, nem elas explicitamente inculcam todos os deveres que o mesmo é
obrigado a praticar”.2 Os dois exemplos escolhidos pelo cardeal, em abono daquela
atitude, são o batismo infantil e a guarda do Dia do Senhor. Os exemplos são
inconcludentes, porque ambos os costumes podem ser claramente deduzidos das
Escrituras. Quanto ao batismo infantil, ele corresponde à circuncisão do Velho
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Testamento e teve aparente autorização no ato de Cristo, ao abençoar as criancinhas,


declarando-as dignas súditas do reino dos céus. Ademais, as famílias mencionadas no
Novo Testamento, como tendo sido batizadas, presumivelmente incluíam crianças.
Acerca do Dia do Senhor, foi nesse dia que Cristo se ergueu dentre os mortos e
apareceu a seus discípulos; que Paulo ordenou se fizessem as ofertas semanais; que ele
encontrou os discípulos de Trôade em assembleia solene, partindo o pão; e naquele dia
estava João no Espírito, quando recebeu a Revelação na ilha de Patmos. A observância
do domingo é atestada nos mais antigos escritos cristãos pós-apostólicos – O Ensino dos
Doze, Inácio e Barnabé.

As omissões bíblicas, como se verificam dos ensinos que o sistema romano


elevou à categoria de dogmas – o culto de Maria, a sonegação do cálix aos leigos, os
sete sacramentos e a infalibilidade papal – os Reformadores Protestantes as declararam
“invenções”, reputando-as como da classe das de que falou Salomão, quando afirmava
que “Deus fez o homem perfeito, mas ele se enredou em muitas invenções”.

2. As Obscuridades da Escritura. – O segundo argumento tecido em prol das


tradições é assim exposto pelo cardeal Gibbons: “A Bíblia está cheia de obscuridades,
não só para os indoutos, mas até para os eruditos”. A resposta é que as obscuridades são
em número muito menor do que o das verdades claramente definidas e inteligíveis, e
que as obscuridades resultam da própria natureza dos assuntos versados. Os mesmos
Apóstolos confessaram que não atingiam a significação integral da existência e
providência de Deus. E encaravam o futuro como um reino de mistério, embora o não
fosse de incerteza. O mistério e o “mistério da vontade de Deus”, eles o reconheciam,
mas nem por isso se esquivavam de pregar o Evangelho e de insistir com os homens que
o aceitassem. O rádio é uma força secreta cheia de mistério, mas o técnico, tentando
enumerar-lhe as aplicações, não cogita de lhes acrescentar coisa alguma. Explica-o até
onde pode, mas não remove a obscuridade. A obscuridade que incide nos mistérios
registrados no Novo Testamento pode ser aclarada até onde o especialista seja capaz de
faze-lo, mas, em assim fazendo, não se justifica que o teólogo aduza novos mistérios. O
dogma da imaculada conceição não constitui explicação de qualquer mistério bíblico. É
um mistério novo, sobre que o Novo Testamento preferiu silenciar. O cardeal
Belarmino fala da obscuridade de doutrinas como a da Trindade e do pecado original,
acerca das quais diz: “As declarações das Escrituras induzem o leitor à perplexidade”.
Pode-se afirmar que elas o fazem. Grande é o mistério das verdades em apreço. Mas
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

qualquer que seja a linguagem de que se possa utilizar o teólogo em referência à


Trindade, isso se há de fazer no propósito de tornar claro o que disseram Cristo e os
Apóstolos. Ele não pretende aduzir novas verdades à existência de Deus e ao processo
de revelação através do Pai, Filho e Espírito Santo. A fórmula Trinitária, elaborada pelo
Concílio de Nicéia, nada acrescenta, em suas cláusulas comedidas, ao que é ensinado
pelas simples asserções de Nosso Senhor. Mat. 28:19; de Paulo, II Cor. 13:14; e de
Pedro, I Ped. 1:2-12, que estabelecem uma Trindade aprendida pela experiência. As
cláusulas nicenas tornam a Trindade, se possível, um mistério ainda maior do que ele se
apresenta nas puras afirmações do Novo Testamento. Atanásio, o chefe do grupo
trinitário de Nicéia, disse que quanto mais estudava o assunto da Trindade, mais
intrincado ele se lhe tornava. Muito longe estava de suas cogitações aduzir qualquer
nova verdade às revelações do Novo Testamento. O engano do sistema católico romano
reside no fato de ele acrescentar novos ensinamentos a respeito dos quais os Apóstolos
nada disseram – e tais ensinamentos não tornam as “obscuridades” da Bíblia sequer um
milímetro mais compreensíveis.

3. “Cristo deu a seus discípulos a missão de ensinar, e não a de escrever


livros”. – Segundo este terceiro argumento, formulado em abono da teoria da tradição,
quando Cristo ordenou a seus discípulos: “Ide e ensinai a todas as nações”, suas
palavras não fizeram nenhuma insinuação no sentido de eles reduzirem qualquer coisa à
escrita. A conclusão tirada é a de que os ensinos apostólicos incluíam verdades não
contidas no Novo Testamento e que essas verdades estão em poder da igreja romana,
tendo sido preservadas e transmitidas pelos supostos sucessores dos Apóstolos. Se
aquela tivesse sido a intenção de Cristo, é para admirar que tenhamos qualquer Novo
Testamento escrito. Se – assim raciocina Belarmino – 4:4, tivesse sido intenção de
Cristo limitar a revelação aos livros escritos no Novo Testamento, ele o teria dito.
Outros escritores, alargando o argumento, como Sir Thomas More, acham fundamento
para dizer que os Apóstolos deliberadamente subtraíram à narrativa escrita do Novo
Testamento “muitos mistérios grandes e secretos”, para que não fossem perversamente
utilizados pelos leitores pagãos”.3 Os controversistas romanos criaram ainda a suposição
não histórica de que as Escrituras não foram erigidas em corte suprema de apelação para
a verdade religiosa, antes que se desse a eclosão da Reforma Protestante. O cardeal
Gibbons chega mesmo ao ponto de dizer que, até aquele tempo, era coisa inaudita
fossem os homens governados pela letra morta da lei, que são as Escrituras. A
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Sorbonne, nos artigos que publicou contra os Reformadores, coloca a questão nestes
termos: que os Apóstolos se abstiveram de registrar por escrito toda a verdade cristã,
seguindo, neste ponto, a analogia da jurisprudência; e que, assim como há uma lei
escrita e uma lei não escrita, assim seria em teologia. Recentemente o dr. Milner disse
que “o senso comum ditou a todos os legisladores que, após terem elaborado um código
de leis, nomeiem juízes e magistrados para decidirem da significação delas e garantirem
obediência a tais decisões. Poder-se-ia supor que nosso Salvador não constituísse juízes
para decidirem nas inevitáveis controvérsias resultantes deles”, isto é, dos ensinos
eclesiásticos?

Em resposta à precária argumentação baseada na ausência de qualquer


mandamento dado aos discípulos para escreverem um livro, deve-se dizer o que se
segue: Escrevendo os Evangelhos e Epístolas, os Apóstolos devem tê-lo feito como
parte de sua obediência à ordem de ensinar, recebida de Cristo. Expressamente
confessam em seus escritos que estão dando testemunho de Cristo e das coisas do
Evangelho. Esperavam que seus escritos fossem lidos desde o princípio; esses escritos
eram tidos em honra incomparável e foram afinal reunidos num volume com o Velho
Testamento, sob a denominação de “biblioteca divina”. Demais, os Apóstolos estavam
acostumados a depender de um livro – o Velho Testamento. Em Nazaré, Jesus leu no
volume da lei escrita. Em sua tentação no deserto, enfrentou o Tentador com as
palavras; “Está escrito”. Conversando com um doutor da Lei, Jesus lhe perguntou: “Que
está escrito na Lei?” Ele interpretava em todas as Escrituras as coisas referentes a si
próprio – Luc. 24:27. Os Apóstolos liam a Lei e os Profetas nas sinagogas, referindo-se
habitualmente a seus ensinos e ignorando as tradições orais; seguiram um uso familiar
ao confiarem à escrita o corpo da verdade cristã e os próprios cristãos igualmente
seguiram o uso comum, ao se apegarem a esses escritos.

4. “A Tradição é recomendada no Novo Testamento”. – As palavras


“tradição” e “tradições” são, é verdade, freqüentemente empregadas no Novo
Testamento, mas principalmente em mau sentido. Nosso Senhor colocou as tradições
em antagonismo com o Velho Testamento escrito, dizendo que “por suas tradições os
escribas e fariseus invalidavam a Palavra de Deus” – Mar. 7:7-13. Paulo também usou
da palavra em mau sentido, ao tratar de ensinos estranhos ao Velho Testamento – Col.
2:8; Tito 1:14. Por outro lado, quando o Apóstolo se refere à sua própria mensagem, usa
da palavra “tradição” em bom sentido, como quando exorta os Coríntios e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Tessalonicenses a guardarem “as tradições que lhes havia entregue”. Neste caso, é pura
fantasia pretender alguém que o escritor se referisse a ensinos não registrados nas
Epístolas. Argumentando em defesa de um pretenso corpo de tradições orais
transmitidas à igreja cristã, Belarmino aponta para o período anterior a Moisés, quando
por 1000 anos as verdades religiosas eram transmitidas de boca, isto é, por tradição. O
argumento parece provar justamente o contrário do que intentava provar. Porque,
quando as leis e costumes de Moisés foram depois registrados, o documento escrito
substituiu as tradições orais, tornando-se autoridade final.

5. “A Igreja, por ato seu, declarou ser a Bíblia a Palavra de Deus e por este
ato se impõe como árbitro do que seja a verdade Cristã”.

De todas as considerações aduzidas a favor das tradições como regra


autorizada, esta é, à primeira vista, a mais plausível. Ela reveste a igreja de
infalibilidade e torna a autoridade das Escrituras dependente do pronunciamento da
igreja. Os fatos históricos são estes: uma lista de livros do Novo Testamento foi
elaborada pelos sínodos do norte da África, de 393, 397. As listas tiveram em vista
excluir os escritos não apostólicos e reconhecer por apostólico nosso cânon atual. Até
onde sabemos, os membros daqueles sínodos não reivindicaram para si mesmos o dom
de inspiração. Ainda que se conceda que eles tivessem sido divinamente orientados, os
atos sinodais não tornaram divinos os livros bíblicos. O que eles fizeram foi reconhecê-
los como divinos. Formalmente estabeleceram o que tinha sido por duzentos anos
encarado como fato em relação à maior parte dos livros do Novo Testamento. Os livros
em questão continuariam a ser divinos e autorizados, mesmo quando os sínodos nunca
se tivessem reunido. O hemisfério Ocidental teria sido sempre o hemisfério Ocidental,
ainda que nenhum dos mapas primitivos o dissesse. Nossa aceitação do Novo
Testamento como apostólico não se funda em ato de dois sínodos locais do norte da
África, reunidos trezentos anos depois da morte dos Apóstolos. Baseia-se, primeiro, no
testemunho de escritores que viveram logo depois da era apostólica e, em segundo
lugar, no conteúdo e no testemunho dos próprios livros. A etiqueta pregada sobre sacas
procedentes do Brasil não transforma seu conteúdo em café. A evidência está no próprio
produto.

Os teólogos romanos dificilmente ousam basear o direito da igreja romana,


de declarar o que seja dogma e o que o não seja, sobre atos de dois sínodos locais. Eles
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

o baseiam na alegada infalibilidade da igreja. Em resposta às XCV Teses, Prierias


firmou o princípio de que “quem quer que não aceite a doutrina da igreja romana e o
pontífice romano como infalível regra de fé, de que até as Santas Escrituras derivam sua
força e autoridade, é um herético”. As Escrituras não implicam em que sua autoridade
tenha de derivar-se do decreto de qualquer instituição humana ou de qualquer indivíduo
isoladamente. Elas possuem evidência própria.

Em face das considerações procedentes, apresentadas para justificar a


atitude segundo a qual o Novo Testamento há de ser suplementado por um corpo de
tradições orais, de autoridade igual à sua, devem ser estatuídas as razões positivas da
suficiência do Novo Testamento como constituição permanente da igreja, a que coisa
alguma pode ser acrescentada.

§ 6. A Suficiência das Escrituras. – O conceito de serem as Escrituras uma


adequada revelação da vontade de Deus se estriba no argumento geral de que, aquilo
que era suficiente, como guia de verdade religiosa, nos dias dos Apóstolos, é guia
suficiente agora; e aquilo que precisa ser agora conhecido para que se faça a vontade de
Deus, teve necessidade de ser conhecido nos dias dos Apóstolos. As razões são, em
detalhe, as seguintes: 1. Que os Apóstolos tentaram expor em seus escritos todo o
sistema cristão; 2. Que do início até Agostinho e Crisóstomo, os escritores cristãos
encaravam os escritos apostólicos como suficientes; 3. Que, por mais de duzentos anos,
nenhuma doutrina ou prática foi encarada como autorizada, sem que se achasse neles.

1. A probabilidade antecedente é que todos os princípios que se prendem ao


sistema da redenção do homem teriam sido incorporados aos escritos apostólicos. Esses
escritos tiveram em vista dar informação aos que não tivessem visto a Cristo ou aos
Apóstolos. Os Apóstolos eram competentes para falar. A exigência de cabal
conhecimento do caminho da salvação era premente. A natureza humana e o espírito do
homem eram, no primeiro século, o mesmo que são hoje. O homem necessitava tanto de
todo o Evangelho como sistema de boas-novas para os pecadores, como muitos até
agora necessitam. A mente humana era, no primeiro século, tão capaz de aprender, em
conjunto, o plano do Evangelho, exatamente quanto o é a mente humana neste século
XX. Entretanto, os Apóstolos sabiam que não viveriam para sempre. É razoável supor
que eles houvessem preferido correr o risco de transmitir oralmente os ensinos cristãos
essenciais e deixa-los fora de seus escritos?
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

2. O declarado propósito dos Evangelistas, em compondo os Evangelhos, foi


o de registrarem todas as coisas que pertenciam à vida e aos ensinos de Cristo. Lucas o
afirma claramente, como seu escopo, nas palavras iniciais de seu evangelho. João –
20:31 – declara que escreveu sua narrativa para que os homens pudessem ser
“persuadidos a crer que Jesus era o Filho de Deus e para que, crendo, tivessem vida
através dele”. Exigindo como condição de salvação qualquer coisa mais do que o
referido no quarto Evangelho, a igreja se insurge contra a afirmativa de João.

Em relação às Epístolas, a objeção que se faz é a de que algumas dentre elas


tratam de situações excepcionais. Isto é verdade. Não obstante, nelas constantemente se
expõem doutrinas como as da divindade de Cristo, da encarnação, da ressurreição, da
segunda vinda de Cristo e da necessidade de crer em Cristo e cumprir-lhe a vontade.
Essas doutrinas são expressas como pertinentes à essência do Cristianismo. Escrevendo,
o propósito exato de Paulo era explicar e fazer conhecido o mistério do Evangelho –
Efe. 3:4, 9. Certas Epístolas possuem um grande tema. A Epístola aos Romanos foi
escrita para mostrar que todos os homens são pecadores e o meio pelo qual o indivíduo
pode tornar-se justo à vista de Deus – e nenhuma palavra há sobre “penitência”. A
Epístola aos Hebreus se preocupa com o sacerdócio de Cristo e a eficácia da propiciação
de Cristo pelos pecados do mundo – e não se menciona ali nenhuma corporação de
sacerdotes cristãos ou algum altar cristão. Nas Epístolas aos Efésios e Colossenses,
Paulo muito teve a dizer sobre a Igreja e acerca da autoridade de Cristo sobre ela. Nas
direções por ele dadas nas Epístolas de Timóteo e Tito, trata por extenso do ministério
cristão; e, todavia, em parte alguma se fala de papa e de titulares semelhantes. S. Pedro
enaltece em suas Epístolas o dever de fidelidade ao Sumo Pastor de nossas almas, como
também fez Paulo, e não invoca qualquer autoridade sacerdotal de que estivesse
investido. Ele conheceu a Maria, mãe de Cristo e, entretanto, jamais de refere a ela
como objeto de culto ou no caráter de mãe de Deus.

Sobre o caráter de serem completos os escritos apostólicos, algumas vezes


se objeta que o próprio Cristo prometeu que outras coisas, além das quais ele havia dito
aos discípulos, lhes seriam reveladas, como quando disse: “Muitas coisas tenho ainda a
vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; sabê-lo-eis quando vier o Espírito da
Verdade, e ele vos guiará a toda a verdade” – João 16:12. Quais fossem aquelas muitas
coisas, não pode ser estabelecida com certeza pelo Novo Testamento. Talvez fossem os
fatos da ressurreição, a ascensão, o derramamento do Espírito Santo no dia de
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Pentecoste ou a visão do eirado, concedida a Pedro, ou coisas como as tremendas


provas a que os cristãos seriam submetidos, na perseguição neroniana e em outras. De
qualquer forma, a idéia de que Cristo quisesse significar, com sua promessa, a revelação
de novos artigos essenciais ao plano de redenção, é repelida nas próprias afirmativas de
nosso Senhor: “Todas as coisas que ouvi de meu Pai, eu vo-las fiz conhecer”; e “A
palavra que tu me deste eu lhas dei” – João 15:15, 17:8.

3. O testemunho dos primitivos escritores cristãos é pela suficiência dos


escritos apostólicos. Se quaisquer verdades não expressas no novo Testamento fossem
confiadas oralmente pelos Apóstolos a seus seguidores, é fácil supor que esses
seguidores teriam feito referência a algumas dentre elas em seus escritos. O fato é,
porém, que os escritos cristãos dos primeiros séculos após a morte dos Apóstolos,
estranhamente trazem poucas passagens como procedentes de Cristo e não registradas
no Novo Testamento, e entre elas não figura um único dogma novo. As várias coleções
de sentenças atribuídas a Cristo e recentemente descobertas no Egito, nada contém de
novo e muito têm de duvidoso. Em geral se concorda em que a narrativa da mulher
surpreendida em adultério – João 8:1-11 – tem a aparência de genuíno pensamento não
contido nos primitivos manuscritos, sendo colocada entre colchetes na Versão Revista.
É uma das provas notáveis da integridade do Novo Testamento, que os escritores
cristãos, que imediatamente se seguiram aos Apóstolos, nada acrescentaram ao ensino
preservado nos escritos apostólicos. Se os dogmas característicos do romanismo
tivessem sido de conhecimento deles, não teriam aqueles zelosos escritores
acrescentado alguma coisa aos Evangelhos e Epístolas? Com a morte dos Apóstolos
encerrou-se a era da criação. Os cincoenta e mais anos que se seguiram foram a era de
interpretação e preservação. Os evangelhos apócrifos, compostos com o propósito de
satisfazer a curiosidade acerca de períodos da vida de Cristo sobre os quais as narrativas
dos evangelhos guardam silêncio, estão cheios de provérbios fabulosos, postos nos
lábios de Jesus e Maria, e de prodígios apenas dignos de um taumaturgo. Outras
referências provindas de escritores primitivos, têm a aparência de fábula ou, pelo
menos, de exagero, como quando Papias conta que Judas, depois de ter se enforcado, foi
esmagado por um carro, ou quando Justino refere que apareceram chamas por ocasião
do batismo de Cristo.

Outro testemunho a ser retirado doa antigos escritores pós-apostólicos, é que


desde o princípio eles citavam os escritos dos Apóstolos e os tratavam com respeito,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

encarando-os como de autoridade, exatamente como os Apóstolos tinham tratado o


Velho Testamento. Clemente de Roma, escrevendo cerca do ano 100, citava palavras
atribuídas a Cristo pelos Evangelhos e por Paulo. Ele também fala de pelo menos uma
carta escrita por S. Paulo aos Coríntios. Policarpo alude aos “sagrados escritos”, em que
– diz ele – os cristãos filipenses eram versados – e passa imediatamente a usar de
expressões que se encontram na epístola aos Romanos. Escrevendo por volta de 140,
Justino Mártir se refere às “Memórias dos Apóstolos” e testifica que os Evangelhos e o
Velho Testamento eram lidos semanalmente. Um dos mais antigos oponentes literários
do Cristianismo, Trypho, conheceu os ensinos de Cristo através do “Evangelho” – ad
Tryp., 10. – Tão vulgarizados se achavam os escritos apostólicos antes da metade do
segundo século, que o propagandista herético, Marcion, foi capaz de confeccionar, para
uso próprio, um cânon selecionado, constituído do Evangelho de Lucas e de dez entre as
Epístolas de Paulo. Os escritos apostólicos eram decorados pelas crianças. Algumas
cópias foram queimadas em épocas de perseguição – e cristãos renegados houve que
salvaram a vida, entregando-as aos oficiais romanos.

Demais, os primitivos escritores cristãos fazem clara distinção entre as


Escrituras e os costumes eclesiásticos. Tertuliano, em sua “Proscrição de Heréticos” –
25:27 – defendia o conjunto de crenças cristãs, sob o fundamento de que elas tinham
sido pregadas pelos Apóstolos. Os cristãos – disse ele – não têm doutrina oculta, como
algumas seitas gnósticas professam ter. Os Apóstolos não sonegaram a luz que
receberam. Fizeram conhecida toda a mensagem cristã. Tertuliano declarou ilegais os
costumes de jejuar e ajoelhar-se da Páscoa à Ressurreição, firmando-se em que não
havia Escritura que prescrevesse aquelas práticas, bem como a de jeuar e ajoelhar-se no
Dia do Senhor, práticas que haviam passado a costume, não por autorização, mas por
uso. Ireneu realçou os documentos escritos quando, falando das tribos germânicas,
declarou que, embora não possuíssem as Escrituras por escrito, tinham, todavia, no
coração, as coisas transmitidas pelos Apóstolos nos documentos escritos. Primeiro
proclamadas oralmente – assim o ensinavam Ireneu e Tertuliano – a verdade cristã foi
incorporada nas Escrituras. As palavras de Ireneu são estas: “Ouvimos o plano de nossa
salvação daqueles através de quem o Evangelho desceu até nós, o qual eles em certa
época proclamaram em público e, em tempo posterior, favorecidos pela vontade de
Deus, transmitiram-nos nas Escrituras, para serem a coluna e fundamento de nossa
confiança”, de haer. 3:1.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Os fatos históricos são, pois, que os escritores do Novo Testamento tiveram


em vista apresentar, em seus escritos, uma definição clara da verdade cristã, e que,
desde o princípio, esses escritos foram encarados, como no segundo século cristão,
como completos, ministrando a regra cristã de fé e prática. Por cem anos, os escritores
mais próximos aos Apóstolos e seus sucessores não ensinaram, a exemplo dos próprios
Apóstolos, qualquer dos princípios católicos romanos característicos. Durante o
segundo e terceiro séculos – diz Harnack em sua obra As escrituras na Igreja primitiva
– “Os ensinos da igreja eram ensinos da Bíblia e os princípios correntes na igreja nela se
fundavam e em nenhuma parte mais”. Os Apóstolos teriam sido estranhamente
negligentes, não registrando os dogmas romanos característicos, tais como o culto a
Maria e o ofício infalível do papa, se esses dogmas fossem lei para a Igreja Cristã. É
razoável supor-se que elementos fundamentais da carreira e do caráter de Washington se
houvessem transmitido oralmente por cinco ou seis gerações, e somente ao cabo de
mais de um século após sua morte fossem reduzidos à escrita? E até por mais de
duzentos anos, para dizer pouco, nenhum dos dogmas distintivos da igreja romana teve
expressão escrita, e dois dos mais importantes não se anunciaram senão depois de se
terem escoado dezoito séculos!

Os escritores subseqüentes continuaram a ter a mesma atitude que


assumiram os dos dois primeiros séculos; criam que as Escrituras são o padrão da
verdade cristã. Quando Agostinho escreveu sua obra – Ensino Cristão – teve em mente
a lição das Escrituras e não a tradição. “Muitos – disse ele – vivendo na solidão e sem
cópias das Escrituras, seguem a lei da fé e do amor e podem prosseguir; mas, para fins
de instrução, as Escrituras são necessárias.” Em outro lugar, em sua Harmonia dos
Evangelhos, sendo chamado a responder a objeção de não haver Cristo composto
nenhum livro, Agostinho declarou que Sócrates nada escrevera, e todavia seu sistema,
conforme o conservaram os discípulos, era aceito. “Quanto mais – continuou – devem
os ensinos e a vida daquele que em sabedoria excede a todos, ser aceitos, tendo como
base os escritos de seus discípulos, os Apóstolos!” A atitude protestante foi fielmente
definida por Crisóstomo, quando disse que “as sagradas e divinas Escrituras são
suficientes para apontar a verdade”. Em seu prefácio, a Primeira Confissão Escocesa
tem estas nobres expressões:

“Se alguém encontrar nesta nossa Confissão algum artigo ou sentença que
seja repugnante à santa Palavra de Deus, que esse alguém se digne, por sua bondade e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

por amor da caridade cristã, de nos advertir acerca do fato, por escrito, e nós, pela nossa
honra e fidelidade à graça de Deus, prometemos que, como homenagem à voz de Deus,
contida em suas Santas Escrituras, será reformado o que se prove achar defeituoso.”

Bibliografia e Notas

Vincentius de Lerins: Commonitorium pro cath. fidei et univers., Migne


60:640, Mirbt p. 57, com a bibliog. aqui dada. Trad. com texto latino, 1886, reimpressa
da edição de 1651. Também Cambr., 1915, por Moxon, com Introd. – C. R. Ingl. Vers.
do Novo Testamento aparecida em Rheims, 1582, do Velho Testamento em Douai,
1609. A vers. De Westminster, Londres, ainda não concluída. Vers. Protes. de 1611, a
Rev. Vs. De 1881-85. – Trads de Weymouth e Moffatt. Sobre explanação C. R.: C. de
Trento, 4a sessão; os Decretos Vaticanos; Leão XIII, Providentissimus. Works v:201,
224. – Belarmino de verbo em 58 caps.; Perrone: Prel. 2:1043-1254; Gibbons, VIII;
Cath. Enc. 2:545 e ss.; Gasquet: Old Engl. Bibles, 1908. – Sobre explanações
protestantes, Wyclif, de ver. scrip., 3 vols., 1904, - Tyndale: Intr. to Pentat., - Calvino;
Instt. I:1-3. 1a e 2a Confissões Hely. e de Westminster, XXXIX Artigos; Whitaker,
Chillingworth, - Arcbp. Tillotson: the Rrule of Faith and Vindication of Prot. Rel.,
1680. – Westcott: The Bible and the Ch., 1885. – Falck: D. Bibel am Ausgange d. M. A.,
1905. – Harnack: D. priv. Gebrauch d heil. Schriften in d alten Kirche, 1912. –
Dobschütz: Infl. of the Bible on Civilization, trad., 1914. – Gould Prize Essays edit. por
Jacobus. Comp. de Bíblias C. R. e Prots, 1905, 2a ed., 1908. Canton: The Bible and the
Anglo Saxon People, 1914. – Dwight: Cent. Hist. of the Am. Biblr Soc., 2 vols., 1916. –
Miss Deanesly: The Lollard Bible and Other Med. Bibl. Vss., 1920.

1. p. 149. Em Provientissimus, uma de suas mais cuidadas encíclicas, Leão


recomendou aos sacerdotes o estudo das Escrituras, mas tendo presentes as instruções
tridentinas – que a tradição está no mesmo plano sagrado e que este se deve interpretar
no sentido dado pela igreja.

2. P. 148. Byrne: Cath. Doctr., p. 11, diz que “algumas das verdades da
religião não estão incluídas nas Escrituras, mas nos foram transmitidas de geração em
geração e se acham nos Credos, nos escritos dos Pais e especialmente nos credos dos
Concílios”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

3. p. 161. Sir Thomas More arrazoa: “pela minha parte, pouca dúvida tenho
de que tanto os Evangelistas como os Apóstolos, acerca de muitos mistérios grandes e
secretos, falaram muito mais abertamente e muito mais claramente de viva voz, entre o
povo, do que reduziram a escrita. De modo que, como naquele tempo seus escritos mui
provavelmente iriam ter às mãos de pagãos e paganizados, tais porcos e cães não
tivessem aquelas pérolas preciosas ao alcance do seu focinho, nem tivessem entre os
dentes, para os despedaçar, aqueles alimentos sagrados”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO XI

O USO DAS ESCRITURAS

Os crentes devem precisar por si mesmos quais sejam os verdadeiros pontos de sua fé,
mediante a posse das Escrituras numa língua que todos entendam, porque as regras dadas
pelos prelados não devem ser aceitas como artigos de fé, a não ser que também se baseiem
nas Escrituras. – João Wyclif.

As Escrituras não foram dadas para ser um livro morto, como as velhas
liturgias siríacas e outras se usam no culto público do santuário, sem que as entendam
os assistentes. Elas não tiveram como destino a clausura num relicário conventual ou
entre capas de prata – qual tesouro demasiadamente sagrado para se por em circulação.
As Escrituras são a regra viva de fé e ensino cristão. Como devem elas ser usadas?
Devem ser livremente postas nas mãos de todos os homens, ou devem ser reservadas a
uma classe? Na resposta à pergunta acima devem ser apreciados os seguintes pontos: o
cânon ou a extensão das escrituras, seu texto autorizado, sua circulação e sua
interpretação. Este último ponto será considerado sob o título – A Igreja e suas funções.

I. O cânon das escrituras. - Em relação ao número de livros da Escritura,


conhecido como o cânon, as comunhões Romana e Protestante afortunadamente aceitam
um mesmo Novo Testamento, sem adições ou variações de texto. Quanto ao Velho
Testamento, elas divergem, adicionando a igreja romana aos trinta e nove livros que
constituem o cânon protestante, oito livros mais: Tobias, Judite, a Sabedoria de
Salomão, Eclesiástico, a Sabedoria do filho de Sirac, Baruc, os dois livros dos
Macabeus e mais algumas adições aos livros de Daniel e Ester. Estes livros, conhecidos
entre os protestantes como Apochrypha do Velho Testamento, foram colocados pelo
Concílio de Trento no mesmo pé de igualdade com o resto do Velho Testamento, sendo
punida com anátema a negação de sua autoridade igual à dos outros livros. Nas
primitivas bíblias protestantes, os apócrifos eram também incluídos, mas colocados em
lugar secundário, reconhecendo-se-lhes o mérito de repositório de conselhos sábios e
notícias de fatos históricos, mas sem autoridade doutrinária. Em sua edição de 1534,
Lutero aludiu àqueles livros como “úteis”, mas lhes negou autoridade igual à dos trinta
e nove livros. Os XXXIX Artigos, após terem posto à margem alguns dos apócrifos,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

declararam o resto útil “como exemplo de vida e para instrução acerca de costumes, mas
não aplicáveis ao estabelecimento de qualquer doutrina”.

Os apócrifos são de valor para a igreja romana, em razão do apoio textual


que elas facultam às doutrinas do purgatório e do culto dos santos. Por outro lado, em
virtude de seus contos maravilhosos, eles causam tremendo choque à fé criteriosa.
Jerônimo, que lhes assinalou um lugar subalterno, assumiu a posição de que eles não
servem para o estabelecimento de doutrinas. Os protestantes rejeitam os apócrifos pelos
seguintes motivos: 1. Eles não pertencem ao cânon hebraico, como o atesta Josefo. A
igreja romana adotou o cânon Alexandrino, usado pelos judeus da Dispersão. 2.
Nenhum dos apócrifos é citado no novo Testamento, argumento que perde parte de sua
força, em presença do fato de que o Cântico de Salomão, Ester e outros livros canônicos
do Velho Testamento, também não foram citados noNovo.

II. O texto da Escritura que exerce autoridade.- Para os protestantes, as


Escrituras no hebraico e no grego, línguas em que foram escritas, são de autoridade
final. A igreja romana atribui igual autoridade à tradução latina, feita por Jerônimo,
cerca do ano 400 e conhecida como a Vulgata. Por mil anos a Vulgata foi praticamente
a única bíblia conhecida e lida na Europa ocidental. Todos os comentários se baseavam
no texto da Vulgata. Dela se faziam as citações. Nela baseavam seus sermões Bernardo
e outros pregadores. Por ela Wyclif e seus auxiliares prepararam as versões inglesas. O
Breviário e o Missal reproduzem textos dela. Quando a arte de impressão se instituiu, as
bíblias Vulgata figuraram entre as primeiras publicações impressas. A edição conhecida
como Mazarina ou Bíblia de Gutenberg, publicada entre 1450 e 1455, foi
provavelmente o primeiro livro impresso.

No tempo da Reforma, os romanistas continuaram a cingir-se à Vulgata. Por


outro lado, Reuchlin e Erasmo estabeleceram o costume de basear os comentários no
original hebraico e grego. Os líderes protestantes seguiram o exemplo daqueles
humanistas, estudando as línguas antigas no propósito de lerem a Bíblia como saiu das
mãos de seus autores. As traduções de Lutero e Tyndale, respectivamente, para o
alemão e o inglês, foram feitas diretamente do grego e do hebraico. Sobre o texto
original, Calvino e outros Reformadores escreveram seus comentários.

O Concílio de Trento, repelindo o princípio axiomático de que o original de


um documento deve ser preferido à tradução, decretou a Vulgata equiparada aos textos
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hebraico e grego. Estabelece o decreto: “Se alguém não receber como sagrados e
canônicos os livros do Velho e do Novo Testamento, inteiros e em todas as suas partes,
como se contém na velha edição Vulgata, e conscientemente os condenar, seja
anátema”. O Concílio ainda ordenou que “a velha edição Vulgata, que pelo extenso uso
de tantos séculos tem sido aprovada na Igreja, seja usada nas leituras públicas,
discussões, sermões e exposições. Ela deve ser tida como autêntica e ninguém ouse
rejeitá-la sob nenhum pretexto que seja”. Essa ação arbitrária foi reafirmada pelo
Concílio do Vaticano.

Zeloso da versão latina, o cardeal Belarmino chegou a afirmar que onde a


Vulgata diverge do texto hebraico, é provável que a Vulgata tenha seguido um texto
melhor do que o das bíblias hebraicas de seu tempo. A igual autoridade, que nivela a
Vulgata e o texto original, o cardeal a deduziu do uso que dela fizeram os Padres e da
decisão do Concílio de Trento, baseando-se também em que, como os hebreus possuíam
o Velho Testamento na língua que eles entendiam e os gregos o Novo Testamento em
sua própria língua, assim o Senhor entendeu que os latinos deviam ter sua Bíblia na
língua latina. O argumento exigiria uma versão da Bíblia em cada língua que há debaixo
do céu.1 Em vista dos erros em que a Vulgata incide, os estudiosos de assuntos bíblicos,
filiados à comunhão romana, estão colocados em posição crítica, ante os decretos do
Concílio de Trento e certas encíclicas de pontífices romanos.

O texto da vulgata não pode ser de autoridade, porque ele desvirtua o


pensamento dos escritores originais em vários pontos doutrinários, como quanto aos
méritos de Maria e quanto aos pretensos argumentos do matrimônio e da penitência.

1. As palavras de Gênesis 3:15: “ela esmagará a cabeça da serpente”- ipsa


conteret caput tuum, quando a lição do original é: “ele esmagará”. A promessa se refere
a Cristo. A aplicação da passagem é falsamente feita, até hoje, a Maria, nas publicações
católicas romanas, para lhe provar a suposta posição altíssima no esquema da Salvação.
Maria – diz um escritor – Am. Cath. Rev., jan. 1922 – “compreendeu que era a mulher
predita do Gênesis; que ela esmagaria a cabeça da serpente – a espantosa criatura nova
que Deus havia mostrado a Jeremias” – 31:22. A recente tradução italiana do
Pentateuco, que apareceu com aprovação pontifícia, igualmente traduz a passagem: “ela
esmagará tua cabeça”, acrescentando em nota ao pé da página, mas sem assinalar que a
tradução fosse falsa, que “a descendência da mulher vencerá o diabo, do mesmo modo
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

por que um homem esmaga a cabeça de uma serpente. A descendência da mulher é, em


geral, a raça humana, mas principalmente o salvador Jesus Cristo”. A versão Douai,
seguindo a Vulgata, acrescenta uma nota que definitivamente confirma a impressão
errônea de que Maria era quem devia esmagar a cabeça da serpente.2 Belarmino – 1:12
– assegura que todos os manuscritos da Vulgata não têm o pronome feminino – “ela”; e
então, descambando para a perversão eclesiástica, tenta explicar que a forma feminina
não é “lição improvável”. Em sua “História da Bíblia”, para estudantes americanos, pgs.
11, 130, o bispo Gilmour diz que “nela, na mãe de Deus, se cumpriu a promessa feita no
jardim do paraíso, que a mulher esmagaria a cabeça da serpente... Disse Deus que poria
inimizade entre a serpente e a mulher, mas no fim a mulher esmagaria a cabeça da
serpente”.

2. Um segundo erro de considerável alcance é a tradução de Efésios 5:32:


“Este é um grande sacramento”, erro igualmente repetido na versão Douai. Para os
católicos romanos, trata-se de um conhecido texto probante do caráter sacramental do
matrimônio. A palavra é, no grego, “mistério”, e não sacramento. Paulo estava falando,
não de uma transação entre duas pessoas, mas da união mística de Cristo com a Igreja.

3. A Vulgata traduz a palavra grega metanoeite em Mat. 3:2, Atos 2:38 e


em outros lugares, como agite poenitentiam – “fazei penitência”, quando aquilo
significa “mudai vossa mente”. O erro foi repetido na versão de Rheims. A tradução
inteiramente desfigura o ensino dos escritores apostólicos. A palavra não se refere a
uma transação externa, mas a um estado interior de mente. Quando Lutero escreveu as
XCV Teses, não conhecia ainda a significação da palavra grega.

III – A circulação das Escrituras.- Para o protestante, a Bíblia é um livro


popular, tanto pra o lar como para o santuário, tanto para a choupana como para o
gabinete do erudito. Traduzida para a linguagem do leitor, ela será tão livre como o ar e
a luz do sol. É o livro da vida, a mensagem do Evangelho. Como é franca a mensagem
para todos os que a aceitem, assim o volume que contém a mensagem deve ser aberto a
todos os que queiram ler. Quem sonharia em reservar a Constituição Americana a uma
classe privilegiada, isto é, aos membros do Congresso e a nossos juízes! O prefácio à
tradução inglesa de Coverdale define adequadamente o caso do século XVI, quando
assemelha a reabertura da Bíblia e o anúncio de suas mensagens pelos Reformadores
protestantes à recuperação do Livro da Lei, sob “aquele nobre rei Josias”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Na Igreja Romana, é bastante que o sacerdote tenha a Bíblia. Suas


mensagens, assim ensina ela, estão seguras em suas mãos, e ele as transmite segundo
julgue oportuno. Ele é seu expositor oficial. Para evitar que seja mal interpretada,
restringe-se-lhe o uso no que se refere aos leigos e sua livre distribuição se proíbe. Essa
política que tem sido a política oficial do papa, começou em 1199, tornando-se o
sacerdote o único ou o principal guardião do Sagrado Escrito, que lhe confere uma
autoridade quase sobrenatural.

Numa tentativa de desmentir a acusação de que a igreja romana tem


astuciosamente embaraçado a circulação ampla das Escrituras, exclama o cardeal
Gibbons: “Deus não permita que alguém conclua que a igreja católica se oponha à
leitura da Bíblia ou que ela seja inimiga da Bíblia! A igreja católica inimiga da Bíblia!
Bondoso Deus! Que monstruosa ingratidão! Que calúnia vil se contém naquela
afirmativa! Do mesmo modo podíeis acusar a Virgem mãe de tentar esmagar em seu
seio o Salvador criancinha; bem podíeis acusar os estadistas patriotas de tentativa de
destruição da Constituição de seu país, quando intentam livrá-la de mutilação por parte
de demagogos sem princípios!” Quais sejam os “demagogos sem princípios”, que
mutilam as escrituras, o cardeal deixa que seus leitores decidam. Pretenderá incluir entre
eles Wyclif, Tyndale e os letrados que prepararam a versões inglesas de 1611 e 1885? O
cardeal embaralha as idéias, habilmente desviando a atenção do assunto – a livre
circulação de exemplares das Escrituras – para a questão de se saber se os exemplares
da Bíblia foram ou não cercados de respeito durante a Idade Média. Em vez de provar
que a livre leitura das Escrituras em vernáculo, que é a questão em foco, tem sido
estimulada pelas autoridades romanas, ele se desvia para a afirmativa de que as
Escrituras foram preservadas pela Igreja na Idade Média – matéria acerca da qual os
protestantes nunca levantaram dúvidas. Ninguém põe em dúvida o fato de que durante a
Idade Média a Igreja salvou os manuscritos da bíblia latina. Como poderiam eles ter
sido salvos por outro meio? Mas a Igreja aí se deteve. Não traduziu as Escrituras para as
línguas dos povos a que chegaram as Missões da Idade Média, dos povos da França
primitiva, da Britânia, do Peru e México. Durante a Idade Média, eram raros, mesmo
entre os sacerdotes, os exemplares da Vulgata Latina. Na Inglaterra, muitos dos
sacerdotes não compreendiam o latim; e nos testamentos ingleses que chegaram até nós,
somente meia dúzia de vezes se menciona a Vulgata, como um dos bens do testador.3
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

O cardeal Belarmino dá as seguintes razões em abono da restrição das


Escrituras às três línguas empregadas na inscrição posta sobre a cruz e para desencorajar
as traduções: 1. Os Apóstolos escreveram, não na língua do Oriente ou nas línguas de
Espanha, Egito e Gália, mas se contentaram com o hebraico e o grego e, “como dizem
alguns”, com o latim. Talvez Marcos tenha escrito em latim. 2. A Vulgata Latina tem
sido usada por séculos em Espanha, Gália e outros países cristãos. 3. A Vulgata é um
meio de preservar a unidade da Igreja e seu culto. 4. As traduções em língua vulgar
teriam de sofrer freqüentes alterações para se conformarem ao uso mutável da
linguagem. 5. O serviço da Igreja exige uma língua solene, tal como é o latim. 6. Se o
povo tiver em sua própria língua narrativas como as do adultério de Davi, e passagens
como: “Deixa que eu te beije com o beijo de meus lábios”, do Cântico de Salomão, ele
se terá por justificado nas práticas corruptas. A esses argumentos pode-se acrescentar o
conselho de Afonso de Liguori, autoridade recente, que, sendo inquirido sobre a irmã
Maria Josefa, uma freira de Frassso, fora proibida por seu confessor de ler um exemplar
italiano dos Evangelhos, respondeu: “As mulheres, e especialmente as freiras, não
devem ler livros daquela espécie, e menos ainda se traduzido em língua vulgar”. Dando
essa opinião, o santo recordava como santa Teresa se recusara a receber uma freira, que
consigo trouxera uma Bíblia para o convento, dizendo: “as freiras devem relacionar-se
com a Bíblia somente através de sermões e de seus confessores”. O cardeal Newman
declarou que a Bíblia traduzida para o inglês é a cidadela da heresia. Se Petronila fosse
realmente filha de Pedro, a prática da Igreja romana parece estranhamente estar em
desacordo cm o fresco das catacumbas, que a representa apontando para um volume,
provavelmente a santa Bíblia, colocada num cofre ao seu lado. Teria o primitivo artista
pretendido significar que o livro era para se reverenciar, mas não para se ler?

O cardeal Gibbons diz que “aquilo que o Código Civil é para o cidadão, a
Escritura é para o cristão. O que é bom para o clero deve ser também bom para os
leigos”. Seria ocioso insinuar que aquelas palavras expressam a opinião particular do
escritor. Aquela opinião é desmentida por pronunciamentos oriundos de autoridades
mais altas do que a autoridade cardinalícia. Aqueles pronunciamentos ele não os
menciona, nem menciona ele próprio que não havia tradução da Bíblia entre os celtas da
Grã-Bretanha e Irlanda e que os jesuítas no Canadá e os padres espanhóis que operaram
na parte sul da América do Norte e na Califórnia, não traduziram sequer uma folha da
Bíblia para a língua dos nativos.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Por outro lado, o princípio protestante, conforme foi expresso na Confissão


de Westminster, declara: “Em razão de ter o povo de Deus ordem de ler e examinar as
escrituras, estas devem ser traduzidas para a língua vulgar de toda nação a que elas
chegarem, de modo que, habitando a Palavra de Deus abundantemente em todos,
possam prestar-lhe culto de modo aceitável e, através da paciência e consolação das
Escrituras, possam ter esperança”.

O argumento protestante, em abono da veiculação ampla das Escrituras se


retira das próprias Escrituras, cujo testemunho é corroborado pela prática da Igreja
primitiva e pela compreensão dos povos em meio dos quais as mesmas Escrituras têm
sido livremente divulgadas.

§ 1. O testemunho das próprias Escrituras. – Os escritores do Novo


Testamento estavam habituados ao conhecimento popular da Lei e dos Profetas. Aos
sacerdotes fora recomendada a leitura da Lei em presença de todos – Deut. 31:33; Mal.
2:7. Nos tempos do Novo Testamento, as velhas escrituras eram lidas aos sábados, nas
sinagogas. O eunuco estava lendo Isaías quando Filipe com ele se encontrou. Os
bereanos foram expressamente louvados por as examinarem – Atos 8:28-32; 13:38;
17:11.

Em face do Novo Testamento, é evidente que os escritores esperavam que


aquilo que escreveram fosse lido sem restrição. Paulo diz que aquilo que ele escrevera
podia ser entendido – II Cor. 1:13. Os colossenses foram orientados pelo Apóstolo no
sentido de que, após terem lido a carta a eles dirigida, transmitissem-na a Laodicéia,
para que ela fosse lida pelos irmãos dali, lendo também aqueles o que lhes pudessem
transmitir os de Laodicéia, Col. 4:16. Do mesmo modo, sua primeira carta a Tessalônica
devia ser lida por todos os crentes naquela cidade, conforme instruções do Apóstolo. A
epístola aos Romanos não foi endereçada a quaisquer líderes ou a uma classe especial
da congregação romana, mas “a todos os que estão em Roma, chamados para serem
santos”. A epístola aos Efésios foi dirigida a todos os santos que estavam naquela
cidade. Pedro escreveu sua primeira carta aos judeus espalhados pela Ásia Menor e a
segunda a todos os que haviam alcançado fé igualmente preciosa. O autor do livro de
Apocalipse invoca uma bênção especial sobre os que lessem suas páginas. Se essas
injunções foram feitas aos leitores da era apostólica, sem exceção, por que não seriam
elas aplicáveis a esta quadra? O conteúdo da Bíblia não é mais difícil de entender hoje
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

do que o foi há dezenove séculos, e o perigo de ser mal interpretado ou pervertido pelo
leitor comum não é hoje maior. O livro é tão claro como se pode esperar seja qualquer
volume que trate de altos mistérios. Se as dificuldades fossem razão bastante para a
ocultação das Escrituras, o mais erudito seria excluído da leitura delas.

Duas passagens têm sido apresentadas para modificar aquele conceito.


Pedro fala de pessoas ignorantes e inconstantes, que torciam as epístolas de Paulo e
outras Escrituras, para sua própria perdição – II Ped. 3:16. O escritor não aconselhou a
ocultação dos escritos de Paulo ao leitor, nem estava ele tratando de seu uso popular.
Apenas censurava o abuso deles por parte de uma certa classe de gente. A segunda
passagem é a de Nosso Senhor, proibindo que se lançassem pérolas diante dos porcos.
Essas palavras foram utilizadas há seiscentos anos, pelo Chronicler Knighton, para a
circulação da bíblia de Wyclif. A passagem se presta igualmente à distribuição de todo
conselho bom e toda coisa boa. Coisa alguma de valor deve ser atirada aos que intentem
maliciosamente abusar do que se lhes dá. Não se dão jóias a crianças, nem se arranjam
concertos para selvagens.

§ 2. As Escrituras na igreja primitiva. – Circulavam livremente as


Escrituras, nos primeiros séculos cristãos. Multiplicam-se os testemunhos de que a
política era a de colocar exemplares nas mãos do povo, assim como gravar seus
preceitos em seu coração. Todos eram excitados a ler as Escrituras em particular, assim
como a ouvirem sua leitura perante a congregação. Elas não se limitavam aos textos
hebraico e grego, como se houvesse alguma coisa de sagrado naquelas línguas.
Teodoreto afirma, embora com exagero retórico, que, em seu tempo, as Escrituras
“estavam traduzidas em cada língua”. Escrevendo aos Coríntios, Clemente de Roma
apelava para o conhecimento que eles tinham da Bíblia. Policarpo caracteriza os
Filipenses como bem instruídos nas Escrituras e, antes dele, Inácio empregava
expressões dos Evangelhos que nos são familiares. Os apologistas cristãos
aconselhavam os pagãos a lerem os Sagrados Escritos. Um dos mais antigos entre eles,
Aristides, cerca de 130, dando aquele conselho, dizia: “Tomais os escritos cristãos e
lede”. Tinham-nas em mãos as seitas dos gnósticos; e Flora, uma de suas
correligionárias, era lembrada por seu mestre, Ptolomeu, como pessoa que havia lido os
livros de Moisés e os Evangelhos.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Desde os tempos primitivos, como nos assegura Justino Mártir, o culto


público incluía a leitura de uma porção da Escritura e, começando com Ireneu, os
escritores, numa corrente contínua, dão testemunho do costume de se lerem em casa os
Sagrados Escritos. Tal leitura, feita por marido e mulher, foi colocada por Clemente de
Alexandria e Tertuliano entre os elementos do lar perfeito. Quando os lares não
possuíam cópias, assim refere Tertuliano, era costume dos que a possuíssem saírem a ler
as Escrituras naquelas casas. Cerca de 250, o grande eclesiástico Cipriano, escreveu que
a vida do cristão seria de constante oração ou leitura; no primeiro caso, falando o
homem com Deus e, no segundo, Deus falando conosco. Ao mesmo tempo os cristãos
eram prevenidos contra a leitura dos Evangelhos apócrifos. O eremita egípcio, Santo
Antônio, embora não pudesse ler, sabia de cor muito das escrituras e costumava
começar os discursos dirigidos a seus confrades ermitães, fazendo uma declaração
antipapal: “As Santas Escrituras nos dão instrução suficiente”.

Em período posterior, cerca de 400, temos em Crisóstomo um advogado


fervoroso da livre leitura da Bíblia. Ele proferia sermões sobre o assunto e insistia com
seus ouvintes a não somente lerem, mas a guardarem-na de memória. Comparou a
Bíblia a uma caixa de remédios, mina de riquezas, prados verdejantes e torrentes de
águas puras. Como o militar – assim ensinava ele – estuda a arte da guerra e o
carpinteiro e o navegante os princípios de seu ofício, assim deve o cristão recorrer ao
Evangelho, aos Atos e às Epístolas como “seus constantes mestres”. O mais pobre devia
recorrer a eles como recorrem a suas ferramentas para executar seu trabalho. Os pais os
deviam ler a seus filhos. Crisóstomo exortava a gente que possuía cópias em caracteres
dourados, não as guardarem presas em cofres e não lidas. Encarecia o hábito da leitura
delas antes de recolher-se. Lembrai-vos – exclamava ele – do eunuco que, embora
bárbaro de nascimento, sobrecarregado de inúmeros cuidados e incapaz de entender o
que lia, não obstante, lia, assentado no carro. Como o diabo evita o edifício da igreja
onde um exemplar dos Evangelhos se encontra, assim ele foge da alma santificada pela
leitura dos livros sagrados. Todo argumento apresentado pelos católicos romanos, ao
tempo da Reforma ou depois dela, contra o uso popular das Escrituras, foi respondido
pelo grande pregador de Constantinopla e estudioso da Bíblia. No Ocidente, Agostinho
encarecia a simplicidade das Escrituras, que as tornava adaptáveis à capacidade dos
recém-nascidos e das crianças de peito. Mais de um século depois, escrevendo a
Teodoro, médico imperial, Gregório o Grande lamentava que, em seu apego aos
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

negócios seculares, o mesmo Teodoro havia negligenciado a “leitura diária” das


palavras do Redentor; pois, o que eram as Escrituras – continuava ele – senão carta de
Deus a suas criaturas? Ignorá-las constituía negligência tão grande, como ignorar os
decretos do Império. – Mirbt. p. 98.

§ 3. As restrições medievais. – Os decretos oficiais proibindo aos leigos a


posse da Bíblia ou restringindo seu uso, começaram com um decreto de Inocêncio III,
em 1199. É significativo que esse decreto fosse publicado numa época em que os sinais
de heresia começavam a aparecer na Europa e surgiam os primeiros sintomas de cultura
geral. Quatro períodos se podem assinalar na história dos pronunciamentos papais sobre
tal assunto: 1) - A época em que os heréticos Valdenses e os Cathari começaram sua
obra cerca de 1200; 2) - A época da reforma Protestante; 3) - A época em que surgiu o
Jansenismo em França, cera de 1650; e 4) - A época das modernas Sociedades Bíblicas,
a partir de 1800.

Quando a heresia subitamente apareceu no sul da frança e no norte da Itália,


pelos fins do século XII, uma de suas feições características era o uso franco da Bíblia
em traduções feitas para as línguas compreendidas pelo povo. Nos autos de milhares de
julgamentos a que os Cathari responderam por sua fé, a acusação habitual era a de que
eles usavam o Evangelho de João. Seus contemporâneos, os Valdenses, introduziram
traduções do Novo Testamento e Salmos na Itália e mais para o norte. Na Áustria, suas
Bíblias em vernáculo os colocaram sob condenação do inquisidor. Whittier, em seu
Mestre Valdense, seguindo uma antiga história, pôs estas palavras nos lábios de um
errante bufarinheiro valdense:

-Oh! Formosa dama! Tenho ainda uma gema que maior brilho
espalha do que o luzir diamantino da coroa preciosa na fronte
altiva dos reis. Uma pérola maravilhosa de excessivo preço, cujo
valor não desmerece, cujo fulgor te seria como um encanto e
uma bênção em teu caminho!”
O edito de Inocêncio III foi motivado pela notícia de que, em Metz, um
grupo de heréticos estava lendo os Evangelhos e outras porções da Escritura em
tradução gaulesa. O notável pontífice fala da “multidão de leigos e mulheres” de Metz
que desprezavam os sacerdotes e ousavam reunir-se em assembléias secretas,
comunicando uns aos outros o conteúdo dos Evangelhos, das Epístolas de Paulo e dos
Salmos. Ele louvou o desejo de compreender as Escrituras, mas, ao mesmo tempo,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

proibiu que a “gente ignorante e inculta” as usasse, dando como razão a profundeza de
seu conteúdo. Advertia ele que, como por prescrição da antiga Lei o animal que tocasse
o santo monte deveria ser apedrejado, assim, sob a Lei cristã, a massa inculta e vulgar
não devia tocar na “sublimidade das Sagradas Escrituras, ou as pregar aos outros”.

O passo dado a seguir, pelo Sínodo de Toulouse, em 1229, indica o


sentimento prevalecente, naquele período, em meio ao alto clero. O concílio proibiu aos
leigos a posse de exemplares da Bíblia ou partes dela, ou mais positivamente –
arctissime – possuí-las em traduções. Poucos anos depois, o sínodo local espanhol de
Tarragona ampliou o decreto, proibindo aos sacerdotes as Bíblias em tradução
vernácula, sob pena de serem acusados de heresia, ordenando-se, em casos tais, que
todas as traduções fossem ter ao bispo e queimadas.

Contra essa atitude para com as Escrituras, Wyclif ergueu sua voz, no que
foi seguido pelos Lollardos na Inglaterra e Huss e seus partidários na Boêmia. Ninguém
jamais fez ecoar mais constante e mais claramente a mensagem, segundo a qual a bíblia
deveria ser colocada nas mãos de todos, do que Wyclif. Seus planos para a leitura da
Bíblia pelos leigos eram, como o dr. Workman os definiu, nada menos do que uma
revolução. “A substância da lei de Deus – insistia – deve ser ensinada naquela língua
que seja mais conhecida”. Ele chamava ao Sagrado volume - o livro da vida, a lei de
Cristo, o sistema católico – fides catholica – o livro que tem suprema autoridade, acima
de papas e de todos os Concílios da igreja. Essas idéias ele as defendeu em sermão
sobre sermão, livro sobre livro, e em sua Verdade da Escritura, obra de mil páginas,
tida como seu trabalho culminante, e opus evangelicum. Proibir as Escrituras na língua
materna ele o considerava pecado fundamental, por estar em desacordo com o dom
pentecostal de línguas e o exemplo dado por S. Jerônimo, que preparou a vulgata para
os leitores latinos de seu tempo. Ele assegurava que ninguém é “tão simples, que
chegue ao ponto de não ser capaz de aprender as palavras e rudimentos do Evangelho,
em dose suficiente à sua salvação”- op. evang. I:92 – e que “qualquer porção da
Escritura Sagrada é de autoridade infinitamente maior do que decretais de não importa
que espécie”- de ver. I:395. Essas idéias atraíram ferozes medidas por parte das
autoridades inglesas. O ato que determinava a queima de hereges foi aprovado em 1402,
poucos anos depois da morte de Wyclif, e um Sínodo reunido em Oxford proibiu, sob
pena de incorrer em excomunhão maior, que alguém traduzisse a Bíblia por sua própria
autoridade, ou que lesse semelhante tradução sem licença de um superior eclesiástico.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Quatro anos mais tarde, Arundel, arcebispo de Canterbury, condenou Wyclif como
“aquele pestilento desgraçado, de execrável memória, sim, o precursor e discípulo do
anticristo que, como complemento de sua perversidade, inventou uma nova tradução das
Escrituras para sua língua materna”. Embora a condenação atirada contra as traduções
wyclifistas não incluísse a condenação de traduções da Bíblia em geral, o fato é que
nenhum arcebispo de Canterbury, ou outra autoridade eclesiástica inglesa, jamais
ordenou que se fizesse qualquer tradução, ou promoveu qualquer movimento tendente à
distribuição popular da Bíblia. Ademais, todos os grupos que possuíam partes dela,
foram perseguidos, sendo os exemplares destruídos.

§ 4. A política papal e as Ecrituras. – A segunda série de proibições


papais, interditando a circulação das Escrituras, pertence ao período da Reforma
Protestante. Antes que Lutero aparecesse, John Goch e outros Reformadores holandeses
tinham insistido na superior autoridade das Escrituras sobre decretais e decisões de
concílios, e no direito dos leigos apelarem para elas. Nas vésperas da Reforma, Erasmo
tomou forte posição em favor de sua divulgação em todas as línguas, exclamando: “Oh!
Se a Bíblia fosse traduzida na língua de todos os povos, de modo que pudesse ser lida
não só por escoceses e irlandeses, mas até pelos turcos e sarracenos!” O eminente
humanista volvia a imaginação para o tempo em que o lavrador cantaria as Escrituras
enquanto guiasse o arado, o tecelão as repetisse ao mover a lançadeira e o viandante
cansado encontrasse refrigério em suas narrativas piedosas.

Entre 1466 e 1521, ano em que Lutero preparou seu Novo Testamento,
dezoito diferentes impressões de uma versão ou de versões alemãs, foram divulgadas.
Essa fora a única tradução em qualquer língua, durante os sessenta anos que se seguiram
à invenção da imprensa. O prefácio da edição, publicada em Colônia no ano de 1480,
concitava todo cristão à leitura da Bíblia, conselho este repelido por autoridades
altamente colocadas. Em 1485, o mais elevado dos prelados alemães, Bertholdt,
arcebispo de Mogúncia, anunciou que a língua alemã não era veículo através do qual as
sublimes verdades da Escritura pudessem ser expressas com fidelidade. Nem –
prosseguiu ele – era decente colocar as Escrituras nas mãos do povo inculto e simples,
especialmente nas mãos das mulheres, visto serem incapazes de retirar delas seu
verdadeiro ensino. Sob pena de multa de 100 florins-ouro, o arcebispo proibiu a
impressão e venda de qualquer versão alemã, que não tivesse sido examinada pelos
sábios doutores de Mogúncia e Erfurt – Mirbt, p. 245. Esse decreto foi tão eficiente, que
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

durante os quarenta anos que se seguiram à sua publicação, somente quatro impressões,
sobre dezoito, foram permitidas. Geiler de Strasburg, falecido em 1510, às vésperas da
Reforma, assumiu a atitude segundo a qual era “quase uma perversidade imprimir o
texto sagrado em alemão”, comparando a bíblia nas mãos de um leigo à faca de ponta
colocada nas mãos de uma criança. Quanto à Inglaterra, nenhuma porção da Bíblia
apareceu em seu território, em caracteres impressos, até as traduções protestantes de
Coverdale, divulgadas mais de cincoenta anos após ter Caxton estabelecido oficina
impressora em Westminster, o que se deu no ano de 1476.

Os Reformadores Protestantes se apegaram firmemente às Escrituras, e,


tanto quanto foram capazes, tornaram suas páginas acessíveis a todos os homens,
suprindo o que Knox e Latimer chamavam “a fome da Palavra de Deus”. Em oposição
àquela atividade, as autoridades eclesiásticas não só legislaram contra o uso da Bíblia,
mas puniram seu uso com pena de morte. Sob as acusações de favorecer as versões
populares e de ter negado a transubstanciação, Patrick Hamilton, da Escócia, foi
queimado em Santo André, em 1528. Em 1533, os bispos escoceses baixaram um
decreto contra a leitura do Novo Testamento em vernáculo. Quando Tomaz Forret
estava sendo queimado em Glasgow, 1540, tirou um Novo Testamento que se achava
oculto no bolso e exclamou: “Este é o livro que faz todo este barulho e divergência em
nossa igreja”. Um dos juízes agradeceu a Deus por nunca ter sabido o que eram o Velho
e o Novo Testamento.

William Tyndale não encontrou no país natal onde imprimir seu Novo
Testamento inglês e teve de abalar-se para Colônia e depois para Worms, cidade em que
surgiu o primeiro Novo Testamento inglês em letra de forma. Foi um triste sinal o fato
de que todos os exemplares daquele livro, que puderam ser monopolizados, ou
confiscados, fossem entregues às chamas na igreja de S. Paulo, em 1529, sob a
fiscalização de Tunstall, bispo de Londres. O próprio Tyndale foi estrangulado e
queimado em Villevorde, após ter sido preso pelos agentes de Henrique VIII, tornando-
se, assim, mártir da tradução e divulgação do Escrito Sagrado. Na França, um gravador
a cujas mãos chegara um exemplar da tradução francesa de Le-Fevre, sofreu horrível
martírio em Metz, no ano de 1525. Por lei de Filipe II, de 1565, destinada aos Países-
Baixos, os leigos que lessem as Escrituras, se fossem homens, deviam ser queimados e,
se mulheres, enterradas vivas. Segundo Motley, não só adultos, mas ate crianças foram
queimados vivos por aquele crime. Na Boêmia e na Hungria, assim como também na
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

polônia, durante a guerra dos Trinta Anos, os jesuítas se divertiam em destruir as bíblias
em vernáculo. Um jesuíta, Koniash, gabou-se de haver queimado 60.000 livros. Em
dias recentes, após as transformações da Boêmia, exemplares da Bíblia Hussita,
mantidos ocultos por três séculos, estão sendo descobertos por famílias que
abandonaram a comunhão romana. Por outro lado, um estudante daquele país referiu ao
autor deste livro que, antes da Grande Guerra, presenciou o ato de um sacerdote a retirar
uma Bíblia das mãos de seus pais e queimá-la diante dos olhos deles.

A tradução de Lutero, feita durante sua retenção em Wartburg, foi seguida


por traduções em línguas da Alemanha, Suíça, França, Holanda, Inglaterra, Suécia,
Itália e outras. Tyndale, seguindo a Lutero, traduziu as Escrituras diretamente do
hebraico e do grego. Em seu prefácio ao Pentateuco, ele referiu como opiniões de seu
tempo, correntes na Inglaterra, as seguintes: para alguns, era tido como impossível
taduzir a escritura para o inglês; para outros, não era lícito que os leigos a possuíssem na
língua materna; e, ainda para outros, aquelas traduções produziam revoltas contra os
reis. “Deste modo, todos eles concordam – continua Tyndale – em vos afastar do
conhecimento das Escrituras, em que não tenhais o texto na língua materna e em
conservar o mundo nas trevas, com o objetivo de imperarem na consciência do povo,
através de vã superstição.”

Justificando a queima do Novo Testamento de Tyndale, Sir Thomas More


declarou que a pessoa que tenha uma gota de juízo em sua cabeça e conheça o assunto,
verá bem que Lutero e Tyndale “corromperam e alteraram o Novo Testamento,
mudando a boa, salutar doutrina de cristo em heresias diabólicas de sua própria
invenção, de modo a tornar-se ela coisa inteiramente contrária”. O chanceler inglês
passa depois a comparar a tradução inglesa de Tyndale “a um vintém de cobre, prateado
por cima” e diz que, achar defeitos nela seria o mesmo que encontrar água no oceano.
Os três pretensos enganos sobre que Sir Thomas se pronunciou extensamente, foram as
traduções: “congregação”, representando a palavra grega ekklesia, igreja; “amor”, em
lugar de caridade; e “senior” ou “ancião”, pelo vocábulo grego presbyter. Em todos
estes casos se provou ser errônea a crítica. A tradução de Tyndale está de acordo com a
erudição moderna. Em sua Súplica de Almas, More deliberadamente acusou a Tyndale,
como tradutor, de falsidade, afirmando que este “havia corrompido e voluntariamente
trocado o texto, em muitos lugares, por palavras que podiam parecer ao povo inculto
que as Escrituras lhe confirmavam as heresias”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Desde o princípio foi a tradução de Lutero acusada de conter muitos erros e


até hoje contra ele se levantam acusações, como a de ter “mutilado o texto sagrado de
maneira temerária” – America, dezembro de 1922. Tais acusações são igualmente
infundadas. O texto que empresta aos católicos romanos alguma razão de censura é a
adição da partícula “só” a Romanos 3:28: “Concluímos que o homem é justificado só
pela fé, sem as obras da lei”. Os protestantes unanimemente desaprovam essa inserção
que seria justificável numa paráfrase e nunca numa tradução. A inserção de Lutero não
altera, todavia, o sentido se S. Paulo. O Apóstolo ensina o que a tradução expressa.
Quão pequeno é o alicerce levantado sobre semelhante caso, para que se condene a
tradução de Lutero, se com ele compararmos as obscuras e falsas lições da versão de
Rheims! Littledale considera como falsificações intencionais certas expressões da
tradução francesa impressa em Bordéus, em 1686, com aprovação do arcebispo. Eis a
tradução de I Cor. 3:15: “Ele será salvo, todavia, como pelo fogo do purgatório”; e em I
Tim. 4:1, temos: “O Espírito diz expressamente que nos últimos dias alguns se
separarão da fé romana”.

A indiferença ou hostilidade dos meios católicos romanos para com a


divulgação das Escrituras se revelaram no silêncio dos Decretos de Trento sobre o
assunto e na incúria positiva em se promover uma tradução inglesa, até o aparecimento
da versão de Rheims do Novo Testamento, em 1582, mais de cincoenta anos após o
início da Reforma Inglesa. Quando aquela versão apareceu, o cardeal Allen disse a
respeito dela: “Talvez fosse mais desejável que as Escrituras jamais tivessem sido
traduzidas em línguas bárbaras. Não obstante, nos dias atuais, quando, seja da parte da
heresia ou por outras causas, grande é a curiosidade dos homens, e frequentemente há
muita necessidade de ler as Escrituras, para refutar os nossos oponentes, é melhor que
haja uma tradução fiel e católica do que usarem os homens uma versão corrupta, para
seu dano ou destruição”. Já foram dados exemplos de traduções falsas. Os seguintes
exemplos mostrarão quão ininteligível ao leitor inglês deve ser a versão de Rheims:
“Penso que as paixões deste tempo não são condignas à glória porvir”- Rom. 8:18.
“Beneficência e comunicação não se esqueçam, porque com tais hóstias Deus é
promerecido”- Heb. 13:16. Um exemplo de “Observações úteis” exaradas na versão
Douai: “Teus dois seios são com dois cabritinhos monteses que são gêmeos, pastando
entre os lírios – Cant. 4:5. Os dois seios devem ser entendidos misticamente, como o
amor de Deus e o amor de nosso próximo, que se acham tão unidos como os gêmeos
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

que pastam entre os lírios, isto é, o amor de Deus e de nosso próximo alimentam-se dos
mistérios divinos e dos santos sacramentos”.

Os pontífices, longe de darem quaisquer mostras de agrado para com as


traduções da Escritura, não só deixaram de recomendar que alguma se fizesse, mas
condenaram as traduções feitas à revelia de sua autoridade. Paulo IV e Pio IV, 1559 e
1564 – Mirbt, 289, 340 – tornaram dependentes de licença da Inquisição Romana a
posse, leitura ou impressão da Bíblia em alemão, espanhol, inglês e outras línguas – e
condenaram todas as versões feitas por acatólicos.

§ 5. A bula “Unigenitus”. – O terceiro período de oposição à livre leitura


da Bíblia se concentrou em um dos mais famosos decretos papais – a bula Unigenitus,
publicada por Clemente XI em 1713. Contra Quesnel e os Jansenistas, que tentavam
garantir a circulação irrestrita do Livro, o pontífice explicitamente, embora em forma
negativa, denunciou três proposições: que a Bíblia se destinasse a ser lida por todos; que
um dos melhores meios de santificar o dia do Senhor fosse pela sua leitura; e que a
ocultação dela, venha a ser, de fato, fechar a boca de Cristo. A bula apresentou as
obscuridades do livro como razão bastante para que sua circulação se restrinja, e a
simplicidade das mulheres – simplicitas – como razão de ser o livro subtraído a elas.
Meio século depois, em 1786, Pio VI, referindo-se ao edito de Clemente, outra vez
apresentou a apregoada obscuridade da Bíblia como razão suficiente para que ela fosse
negada ao povo.

§ 6. Os papas e as Sociedades Bíblicas. – A fundação da Sociedade Bíblica


Britânica e Estrangeira, em 1804, e da Sociedade Bíblica Americana, em 1816, abre o
quarto período na história das condenações papais das traduções da Bíblia. Começando
com Pio VII, 1816, pontífice sobre pontífice têm-se prontificado em condenar todas as
versões não aprovadas pela sé romana. Sem explicitamente condenarem a livre
divulgação da Bíblia, eles têm uniformemente anatematizado como pestes e infecções
venenosas as versões das Sociedades Bíblicas. Pio VII considerou as sociedades como
“a mais astuta das invenções, pela qual se abalam os fundamentos da religião”, e
exortou os bispos a tornarem notória a “malevolência de seu perverso intuito”. O
pontífice seguinte, Leão XII, 1824, repetiu a declaração de serem as Sociedades uma
peste e comparou suas versões a “pastagens venenosas”. Leão concluiu a sua bula
cometendo ao clero a batalha do Senhor, sob pena de em seus rebanhos “ser difundida
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

essa fatal espécie de veneno, apropriado especialmente a matar o ignorante”- ne vestro


grege exitiale id genus virus ad imperitorum præsertim necem diffundatur. Pio VIII,
1829, outra vez tratou as versões protestantes como “veneno, que produz a morte”.
Gregório XVI, 1844, arrolou as Sociedades Bíblicas com as Missões Protestantes entre
os pagãos e mais a Aliança Evangélica, como agências que pretendem propagar o nome
cristão, apesar de deixarem de fora os preceitos instituídos por Cristo”. Seguindo as
pegadas de seus antecessores, Pio IX, a 9 de novembro de 1846, falou “das astuciosas
Sociedades Bíblicas, que, renovando o antigo hábito dos heréticos, não cessam de
impingir suas bíblias a todos os homens, mesmo aos incultos; livros que têm sido
traduzidos em contravenção às leis da igreja, e abrigando, com freqüência, lições falsas,
destarte repudiando as tradições divinas, os ensinos dos Padres e a autoridade da
Igreja”. Em seu Syllabus de 1864, Pio levou sua cortesia eclesiástica até o ponto de
colocar na mesma categoria do comunismo, socialismo e outras pestilências, as
Sociedades Bíblicas. Em todas essas oportunidades nenhum dos pontífices se dignou de
indicar um caso sequer de má tradução.

Melhores coisas eram de se esperar de Leão XIII. Em várias encíclicas esse


pontífice esclarecido expressamente tratou do material das Escrituras por estudantes e
também do uso das Escrituras em traduções. Em sua encíclica Providentissimus,
publicada em 18 de novembro de 1893, expressou o ardente desejo de que maior porção
do clero se dedicasse à leitura diligente e ao estudo do volume sagrado e à exposição
dele. Encareceu o uso da Vulgata como texto autorizado, mas ao mesmo tempo
recomendou o uso dos originais hebraico e grego, nos pontos em que acontecesse ser
obscura a Vulgata. A despeito da esperança que tal atitude inspirava, Leão, a 25 de
janeiro de 1897, colocou na lista de livros proibidos, as versões publicadas pelas
Sociedades Bíblicas, “condenadas”, disse ele, “mais de uma vez por seus
predecessores”. Por outro lado, a 13 de dezembro de 1898, prometeu a todos os fiéis
leitores dos Evangelhos, que o fizessem ao menos um quarto de hora por dia, 300 dias
de indulgência. Deste e de outros modos, ele imprimiu forte sinal de aprovação
pontifícia ao uso das Escrituras em linguagem acessível ao leitor.4 Em 1902, o papa foi
mais longe, reconhecendo a Pia Sociedade de S. Jerônimo para a Divulgação dos Santos
Evangelhos, cujo objetivo era fazer circular as Escrituras em italiano. No terceiro
aniversário da Sociedade, o padre Giovanni Genocci aludiu ao fato de 300.000
exemplares terem sido postos em circulação até aquela data, e exclamou: “Mas o que
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são eles, em comparação com os milhões sobre milhões de exemplares da Bíblia


espalhados através do mundo pela Sociedade Bíblica Britânica!”

Os decretos de Leão, nos pontos em que eram liberais, foram postos à


margem por seu sucessor, Pio X. Em 1907, Pio proibiu que a Sociedade de S. Jerônimo
prosseguisse em sua tradução dos Evangelhos e Atos. Revigorou a regra contra a
interpretação privada das Escrituras e, em sua encíclica Barromeo, de 26 de maio de
1910, outra vez vibrou uma cutilada nas traduções publicadas pelos protestantes,
declarando-as uma adulteração da Palavra de Deus e um furto, aos fiéis, do pão da vida.
A legislação da igreja romana, como vem definida no Código de Direito Canônico de
Bento XV – 1385, 1391, 1399 – proíbe a publicação do texto bíblico ou qualquer versão
em vernáculo, sem permissão do sumo pontífice ou de um bispo, e, equiparando as
versões não autorizadas pela igreja romana a os livros que defendem o duelo, o divórcio
e a ordem maçônica – coloca seus autores e impressores sob excomunhão.

A partir de 1804 e até 1º de março de 1927, a Sociedade Bíblica Britânica e


Estrangeira publicou 375.000.000 de exemplares da Escrituras, ou partes delas, em 593
línguas e dialetos, tendo havido um aumento de mais de 200 línguas a contar de 1900.
Durante os 111 anos de sua história, até o fim do ano de 1926, a Sociedade Bíblica
Americana publicou 184.028.960 bíblias, ou partes da Bíblia em 168 línguas e dialetos,
dos quais 108 se falam fronteiras a dentro dos Estados Unidos. Durante o ano de 1926,
sua produção foi de 359.989 bíblias, 654.043 Novos Testamentos e 8.893.329 porções
do volume sagrado. As centenas de línguas para as quais o livro tem sido traduzido
pelas duas organizações, incluem os idiomas dos povos mais remotos das ilhas dos
mares do sul e as distantes tribos da África. Está em gritante contraste com essa
atividade o quase completo insucesso dos missionários romanos em porem a Bíblia
numa língua moderna sequer.

§ 7. Os usos nos Estados Unidos. – A igreja romana nos Estados Unidos


dá sinais de abrandamento da regra contra o uso da Bíblia. O Segundo Concílio Plenário
de Baltimore, 1866, ordenou o uso da versão Rheims-Douai em sua forma melhorada,
de modo que os leitores de língua inglesa pudessem ter “o alimento incorrupto da
Palavra de Deus”. No terceiro Concílio, 1884, foi apresentada uma proposta, no sentido
de se preparar uma nova versão inglesa, mas semelhante alvitre foi rejeitado por
pequena maioria. Durante a Grande Guerra, uma edição especial do Novo Testamento
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de Rheims, encadernada de cáqui e impressa para soldados e marinheiros americanos,


trazia notável prefácio do cardeal Gibbons. O pequeno volume continha orações a serem
usadas antes depois da leitura do Testamento e também a indulgência concedida por
Leão XIII a todos os que empregassem um quarto de hora por dia na leitura dos
Evangelhos.

A Bíblia inglesa veio com os primitivos colonos protestantes. Os Peregrinos


e Puritanos encaravam o volume como a Carta de suas liberdades e o guia da vida
diária. O exemplar do Governador William Bradford, que ele trouxera consigo no
“Mayflower”, ainda se conserva, e a inscrição hebraica gravada sobre o mármore branco
que recobre os restos do Governador, lembra ao visitante que nos últimos anos de sua
vida ele estudava o hebraico, com o objetivo, dizia ele, de aprender a ler as próprias
palavras que foram transmitidas a Moisés e aos Profetas, “na língua que os anjos usam”.
Um dos monumentos da literatura americana é a tradução do Velho e Novo Testamento
em língua dos índios, feita por João Eliot e impressa em Cambridge, Massachussetts,
1661, 1663. As tropas de Cromwell levavam consigo para a batalha a Bíblia de Bolso
para Soldados, impressa em 1643, contendo certo número de textos, quase todos
extraídos do Velho Testamento. No momento crítico da Convenção que estruturou
nossa Constituição nacional, Franklin, em meio de um notável discurso, citou as
Escrituras: “A não ser que o Senhor edifique a casa, será em vão o trabalho dos que a
edificam”. Nas primeiras palavras transmitidas por meio de cabo submarino, pela
Rainha Vitória, figuravam palavras da Escritura.5

O Governo Americano tem, por vários modos, reconhecido a Bíblia. Em


1777, o Congresso Provincial ordenou que 20.000 exemplares fossem importados da
Holanda para suprirem as necessidades dos colonizadores. Os presidentes dos Estados
\unidos prestam juramento de investidura no cargo sobre o Volume Sagrado. Lincoln
citou a bíblia em sua segunda posse. Em 1876, o Presidente Grant enviou aos alunos da
Escola Dominical do país esta mensagem: “Apegai-vos à Bíblia como à âncora mestra
de vossas liberdades. Gravai seus preceitos em vossos corações e praticai-os em vossas
vidas”. O Presidente Garfield prestou juramento do cargo sobre a Bíblia de sua mãe, e
Coolidge, em 1925, sobre a da família Coolidge. Quando o Presidente Harding prestou
juramento, colocou o dedo sobre Miquéias 6:8: “Que requer de ti o Senhor, senão que
pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com teu Deus?” Uma de
suas últimas mensagens diz: “Creio que, sob todos os pontos de vista, o estudo da Bíblia
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é um dos mais nobres a que os homens se possam devotar e que, à proporção em que
eles a conheçam e compreendam, serão melhores sua vida e suas ações”.6 O Presidente
Harrison e o vice-Presidente Marshall, assim como altas autoridades do Estado, têm
sido professores de classes bíblicas. Para os protestantes, foi uma declaração
desconcertante a que fez o cardeal Wiseman, ao dizer: “Não distribuímos a Palavra
indiscriminadamente a todos, porque o próprio Deus não fez assim. Ele não fez da
leitura parte essencial da constituição do homem, nem uma faculdade congênita, nem
uma cláusula de salvação, nem uma condição de Cristianismo. A audição é que Deus
fez para tal”. Ao cardeal contrapomos Jerônimo, que traduziu as Escritura passa todos
os que pudessem ler o latim. Em seu próogo ao livro de Isaías, escreveu ele: “A
ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”.

A apreciação protestante do valor das Escrituras para todo homem que


queira ler e, em consequência, o direito de todo homem à posse delas em sua própria
língua, foi belamente expressa na inscrição composta pelo Presidente Wilson, para as
Bíblias dadas a soldados e marinheiros, durante a guerra de 1914-18: “A Bíblia é a
palavra da vida. Lede-a, eu vos rogo, e o verificareis por vós mesmos. Quanto mais a
lerdes mais claras se vos tornarão as coisas que valem a pena e as que não valem, as
coisas que fazem os homens felizes – a lealdade, procedimento correto, amor à verdade,
prontidão no darem tudo por aquilo que julgarem ser de seu dever, e, acima de tudo, o
desejo de terem a real aprovação de Cristo, que tudo lhes deu – e as coisas que
certamente tornam o homem infeliz – o egoísmo, a covardia, a cobiça e tudo quanto é
baixo e vil. Quando tiverdes lido a Bíblia, conhecereis que ela é a Palavra de Deus,
porque tereis encontrado a chave de vosso próprio coração, vossa felicidade e vosso
próprio dever”.

Bibliografia e Notas

1. Para a exposição de Belarmino acerca de Pss. Vide Dollinger-Reusch,


Selbstbiogr. p. 181. Sobre a Vulgata, vide Berger: Hist. de la Vulgate; Art. Vulgate in
Hastings Bible Dict. e Enc. Cat.

2. O Test. Ital., ed. Em Milão, 1924, diz: “La discendenza dela donna è in
generale l’uomo genere, ma principalmente il Salvatore Gesù Cristo. A nota da versão
Douai é: “ipsa, a mulher. Assim alguns dos Pais leram acomodando-se ao latim. Outros
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lêem ipse, isto é, a semente. O sentido é o mesmo, porque é por sua semente , Jesus
Cristo, que a mulher esmaga a cabeça da serpente”.

3. Segundo Miss Deanesly, pp. 185, 333, há somente cinco casos


conhecidos de sacerdotes ingleses que, depois de 1408, possuíram exemplares da bíblia
inglesa e não há registro de um só clérigo inglês, antes daquela data, que possuísse uma
tradução anglo-saxã, inglesa ou francesa. Vide Workman , Life of Wyclif, 2:190 e ss..

4. Por volta de 1907, não menos de 880.000 exemplares dos evangelhos e


Atos em italiano tinham sido publicados. A 210ª. ed. Saiu da imprensa do Vaticano em
1923, contendo a indulgência de Leão XIII e as cartas de Pio X e Bento XV. Em 1919, a
trad. do prof. Luzzi foi pelos Valdenses colocada em lugar da Diodati, de 1607. Pio XI
recomendou a circulação das Escrituras numa carta ao arceb. Lepicier, 1924. Vide Cath.
Hist. Rev., julho de 1924.

5. Levantaram-se objeções à publicação de uma trad. gaélica da Bíblia pela


Sociedade para a Propagação do Conhecimento de cristo, com fundamento em que tal
coisa seria estimular a perpetuação daquela língua, tendo o dr. Samuel Johnson
replicado: “Não espero que, numa assembleia reunida para a propagação do
Conhecimento de Cristo, possa constituir dúvida o saber-se se alguma nação destituída
de instrução religiosa deva receber instrução, ou se aquela instrução deva ser-lhe
transmitida através de uma tradução dos livros sagrados em sua própria língua”. Ele
acabou por comparar qualquer ocultação da Bíblia ao ato de extinguirem os homens a
luz do farol, quando há navios em perigo de irem sobre as rochas.
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CAPÍTULO XII

A IGREJA

Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou no meio deles. – Mat. 18:20

Creio na Santa Igreja Católica. – Credo dos Apóstolos.

Creio na Santa Igreja Cristã – Martinho Lutero

Se os protestantes dependem das Escrituras para justificar o sistema


protestante, os católicos romanos dependem, para justificar o romanismo, da fórmula
que adotam no definirem a igreja, e dos ensinos desta. Pretendendo que a Igreja Cristã e
o organismo romano sejam uma e a mesma corporação, insistem os romanistas em que a
tal organismo foi dada do Alto autoridade para declarar, de modo infalível, o que a
verdade cristã seja ou deixe de ser. A parte do organismo, o indivíduo não possui direito
que o habilite a determinar por si mesmo qual seja a verdade cristã e o que ensinam as
escrituras. Os pronunciamentos da igreja são finais. Eles não se discutem. Isto é o que o
dr. Emmons tinha em mente quando, após dizer que “o Presbiterianismo conduz ao
Episcopado e o Episcopado leva ao Catolicismo Romano”, acrescentou: “e o
Catolicismo Romano é um fato consumado”. Obras, 1:163.

§ 1. A importância do assunto.- De todas as doutrinas que o sacerdócio é


obrigado a divulgar, a doutrina da igreja é, segundo o Catecismi tridentino, a que deve
ser mais frequentemente ensinada – omnium frequentissime. Para usarmos das palavras
de um moderno escritor católico romano, “a doutrina da igreja é o gonzo sobre que gira
toda nossa controvérsia com o Protestantismo. É impossível que alguém aceite a
verdadeira doutrina da igreja e seja ao mesmo tempo herético”. Por outro lado, o
sistema protestante exige que a doutrina que deve ser apresentada acima de todas as
outras é Jesus Cristo, e este crucificado. Conhecendo a Cristo e nele crendo, é
impossível, sustenta o protestante, que o homem seja herético e perdido.

A igreja se tornou pela primeira vez assunto de estudo independente com


Cipriano, morto em 258, em sua obra A Unidade da Igreja. Dois séculos depois,
Agostinho, em sua controvérsia com os Donatistas, discutiu a igreja em suas funções e
sob todos os aspectos. O terceiro período da discussão foi na época de Wyclif e Huss. O
quarto período se abriu na era que se iniciou com Lutero e Calvino, e nele mais tarde se
incluem Hooker, Field, o cardeal Belarmino e outros. Entre os povos de língua inglesa,
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o último período de discussão foi o do movimento de Oxford, época em que a natureza


e funções da igreja de novo se tornaram objeto de exame. Foram suas convicções acerca
da igreja que levaram Newman a se passar para Roma. Em 1844, Newman escreveu a
Klebe: “Por dois anos e meio, tornou-se em mim cada vez mais urgente e imperativa a
convicção de que a comunhão romana é a única verdadeira igreja. Essa convicção me
sobreveio quando eu lia os Padres”. Um ano depois, em seu livro “Desenvolvimento da
Doutrina Cristã”, ele identificou a igreja com a organização católica romana. Quando
mandou chamar o padre Domingos para o receber na comunhão romana – 7 de outubro
de 1845 – escreveu que era “no único aprisco verdadeiro do Redentor” que ele pedia ser
admitido.1 No que se refer às decisões papais, Leão XIII trata mais frequentemente da
definição e funções da igreja do que talvez tenha feito qualquer outro pontífice. Seu
mais importante documento versou sobre a unidade da igreja – De unitate ecclesiae. –
Obras – 6:156-189.

§ 2. A palavra “igreja” nas escrituras.- É de importância primacial


descobrir o que se quer dizer quando a palavra igreja aparece no Novo Testamento.Ela
ocorre apenas três vezes nos Evangelhos e todas em Mateus, com o intervalo de dois
versículos. Mateus coloca nos lábios de Cristo estas palavras: sobre esta pedra edificarei
minha igreja”; e: “se ele recusar ouví-los, dize-o à igreja; e se tamém recusar ouvir a
igreja, considera-o gentil e publicano” – Mat. 16:18, 18:17. Por outro lado, os termos
usados por nosso Senhor para designar o regime que ele veio estabelecer, foram o Reino
dos céus, e o Reino de Deus, que aparecem em Mateus não menos de trinta e seis vezes,
sendo também usado em Marcos, lucas, Atos, por S. Paulo e no livro do Apocalipse. As
expressões igreja e Reino de Deus não são sinônimas. Em muitas passagens seria
disparatada a substituição de uma pela outra. Na oração Dominical, dificilmente
poderíamos pedir: “Venha tua igreja”, nem poderíamos empregar a palavra igreja na
passagem: “o Reino de deus não vem visivelmente... ele está no meio de vós” – Lucas
17:20-21. Segundo sua apresentação nas parábolas, o Reino de Deus é um poder, uma
atmosfera de piedade, uma disposição, um tesouro, assim como também um grupo de
pessoas sob um governo. Como poder, nosso Senhor o comparou ao fermento, que
leveda toda a massa. Como possessão, ele o comparou a um tesouro oculto num campo.
Como Reino, foi dito ser difícil que o rico nele entrasse. Na parábola das bodas, o Reino
do céu é comparado a uma sociedade de pessoas do mesmo espírito. Paulo tinha em
mente as concepções de um poder e disposição espirituais, quando escreveu aos
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Romanos que “o Reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça e gozo e paz no
Espírito Santo. A última coisa que se registrou acerca do Apóstolo, foi que ele estava
pregando o Reino de Deus – Atos: 28:31.

A palavra igreja – ekklesia – segundo o uso comum do termo, significa uma


reunião ou assembleia de pessoas, tal como o ajuntamento tumultuoso – ekklesia – de
Éfeso, Atos: 19:32, 39. A idéia original da igreja cristã foi a de um grupo de pessoas
cristãs, reunindo-se para mútua edificação. O uso da palavra como lugar de reunião ou
edifício não ocorre no Novo Testamento e primeiro aparece no segundo século, quando
Clemente de Alexandria fala de “ir à igreja”. A partir daquele tempo, a palavra possui
duplo sentido, como a palavra casa, que ora significa edifício, lugar, ora significa a
família (1).1A palavra cristãos pode substituir a palavra igreja, como quando se diz que
Paulo e Barnabé foram acompanhados pela igreja, isto é, pelos cristãos de Antioquia, e
foram recebidos em Jerusalém “pela igreja”, isto é, pelos cristãos daquela cidade, Atos
15:1-4. Um exemplo que mostra que o escritor de Atos sempre designava pela palavra
igreja um grupo de cristãos, aparece em duas passagens que descrevem a atividade de
Paulo como perseguidor – “devastando a igreja” e “respirando ameaças contra os
discípulos do Senhor” – Atos 8:3, 9:1, 13.

No novo Testamento a palavra igreja era usada, ora em sentido lato,


referindo-se a toda a corporação dos cristãos, ora em sentido restrito, referindo-se
apenas a um grupo. A totalidade dos crentes estava compreendida, quando Cristo disse
que edificaria sua igreja sobre a rocha e quando Paulo escreveu: “Eu persegui a igreja
de Deus” – Gal. 1:13. A expressão “igreja de Deus” é usada uma vez em Atos e quatro
vezes nas Epístolas de Paulo; e a expressão “igreja do Deus vivo” uma vez, I Tim. 3:15.
A expressão “toda a igreja” ocorre três vezes, uma vez em conexão com a morte de
Ananias e Safira e duas vezes em passagens em que a referência claramente parece ser
feita ao corpo local de cristãos de Jerusalém – Atos 15:22 e Rom. 16:23. Em seu
emprego restrito, a palavra é usada em referência a cristãos pertencentes a uma única
família, como “a igreja em casa de Filemon”; vivendo numa única cidade, como “a
igreja de Éfeso”; “a igreja em Smirna”, “a igreja em Sardis”, ou a grupos que cobriam
determinado território, como “as igrejas da Galácia”, as “sete igrejas da Ásia Menor”,
ou de uma comunidade ligada pela raça ou pela língua, como “as igrejas dos gentios”,

(1) Um exemplo do sentido duplo da palavra casa temo-lo em Atos 16:34. N. do T.


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Rom. 16:4. A expressão “igrejas de Cristo” é usada uma vez no Novo Testamento, mas
a expressão – “igreja de Cristo” – não aparece no livro.

As figuras usadas no Novo Testamento como representativas da Igreja são:


rebanho, corpo humano, família, cidade, esposa, sugerindo, de um lado, dependência de
Cristo como fonte de vida e objeto de devotamento; e, por outro lado, a fraternidade
existente entre seus membros. Pedro também realçou a idéia de família, quando exortou
seus leitores a amarem “a irmandade” – I Ped. 2:17, expressão comum na igreja
primitiva, para designar os cristãos. Serapião se refere à igreja como “toda a
irmandade”.

§ 3. A Igreja no conceito dos Padres.– O primeiro escritor entre os Padres,


Clemente de Roma, ao falar da igreja de Deus, quer referir-se a todo o corpo de cristãos
com residência numa localidade particular, como quando dirigiu sua epístola “da igreja
de Deus estabelecida em Roma à igreja de Deus estabelecida em Corinto, aos que são
chamados e santificados mediante nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele usou a expressão
“toda a igreja”, como fez também Inácio. O título “igreja católica” foi empregado pela
primeira vez por Inácio quando escreveu aos cristãos em Smirna, dizendo que “onde
Cristo está, aí está a igreja católica”, significando, sem dúvida, a mesma coisa que
Clemente expressou pelas palavras – “toda a igreja”. Ireneu – de haer. 3:28 – seguiu a
mesma trilha, ao declarar que “onde está a igreja aí está o Espírito Santo; e onde está o
Santo Espírito de Deus, está a igreja e toda a graça”. Gradualmente foi-se
desenvolvendo a idéia de que a igreja é uma corporação ou instituição que aceita certas
fórmulas, ministra certas ordenanças e possui certas virtudes, em contraste com a
concepção de igreja como um conjunto de crentes. Em sua Unidade da Igreja, Cipriano
colocou a unidade do corpo de bispos, que ele caracterizou como sucessores regulares
dos Apóstolos. É fatal a desobediência àqueles ministros. A lealdade à instituição
parecia ter tomado o lugar da adesão pessoal ao Salvador. Cipriano, como antes dele o
fizera Tertuliano, usava da arca como símbolo da igreja e substituiu a expressão deste –
“fora de Cristo não há salvação” – extra Christum nulla salus, por esta fórmula
perigosa: “fora da igreja – extra ecclesiam – não há salvação”. Em lugar da expressão
de Inácio: “onde está Cristo, aí está a igreja”, Cipriano usou a expressão: “não há igreja
onde não haja bispo” – ecclesia est in epíscopo.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

A idéia de Cipriano prevaleceu. A igreja veio a ser encarada como


instituição investida de função pessoal e exclusiva. Ninguém pode com propriedade ser
chamado cristão, se se não conforma com ela. A clericalização deslocou a aquisição de
discípulos. O conceito forense estava, sem dúvida, na mente de Constantino, quando
chamou a igreja “corporação dos cristãos” – corpus christianorum. Agostinho oscilou
entre as duas concepções. De um lado, definiu a igreja como um organismo, procedendo
dos Apóstolos, possuindo os sacramentos e a prerrogativa de, por meio destes,
transmitir a graça. Por outro lado, definiu a igreja como o “agregado de santos, a soma
de justos, o conjunto dos que foram predestinados, antes da fundação do mundo; o
corpo dos eleitos”. Ele também aventou a idéia de que há uma verdadeira igreja e uma
igreja “simulada”; e, como uma casa pode ter vasos de honra e vasos de desonra, assim
a igreja é um “corpo misto”. Como os grãos no campo, de que fala a parábola, os
pecadores e não-eleitos, assim como os fiéis e eleitos, guardam seu lugar nela, até o dia
do juízo, participando dos mesmos sacramentos. Os não-eleitos estão na igreja, embora
não pertençam a ela – cum ecclesia et tamen non sunt in ecclesia.

§ 4. A concepção medieval de igreja.- A definição sacramental e


institucional prevaleceu na Idade Média: a igreja é uma corporação constituída de
pessoas batizadas e investidas das qualidades pessoais que pertencem, num corpo
governativo ou docente, ao sacerdócio. Esse conceito excluía os gregos, como
cismáticos, embora fossem batizados. Em seu manual sobre os Erros dos Gregos,
Tomaz de Aquino mencionou quatro, que os caracterizavam como cismáticos: negarem
a processão do Espírito da parte do Filho, o uso do pão não levedado no sacramento, a
negação do purgatório e da primazia do bispo de Roma. Hugo de S. Vítor, falecido em
1411, que viveu cem anos antes de Tomaz, definiu a igreja como “o corpo dos fiéis, a
totalidade dos cristãos” – universitas christianorum; mas seu livro sobre os sacramentos
mostra que pela expressão “os fiéis” ele entendia os que estavam de acordo com o
sistema romano. Desviaram-se completamente dessa idéia dos Escolásticos – sendo,
portanto, tratados como hereges – Marcílio de Pádua, Wyclif, Huss e outros escritores
que reviveram a idéia espiritual de Agostinho, segundo a qual a igreja é uma
comunidade de eleitos.

A bula de Bonifácio – unam sanctam – 1302, citando em abono da unidade


da igreja o Cântico de Salomão – “meu pombal é um”, e usando a figura da arca,
afirmou que a igreja não pode ter senão um piloto e um comandante, Pedro e seus
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sucessores. Todas as ovelhas foram confiadas a Pedro; e os gregos, repudiando a


superintendência do pontífice, confessam que não pertencem ao único rebanho. Na
discussão que se seguiu ao pronunciamento do papa, duas proposições tremendas foram
defendidas por Ockham, Marílio, Wyclif, Huss e outros, proposições que são as
seguintes: que o batismo não torna o homem necessariamente membro da igreja e o
papa não é essencial à sua existência. Esses escritores sustentaram que o organismo
romano não é idêntico à igreja de Deus, mas uma parte dela. A “universal igreja
católica”, como Ockham a designa, são “todos os fiéis, ou todos os homens fiéis que
vivem, clérigos e leigos. Ela nunca pode errar, nem pode ser atingida pela heresia, nem
pode sofrer cisão. É composta de diferentes membros, mas forma um só corpo, sejam
gregos, latinos ou bárbaros, isto é, os que crêem em Cristo”. Marcílio d Pádua definiu a
igreja como “todos os fiéis seguidores de Cristo, sacerdotes e não sacerdotes, tendo os
indivíduos de ambas as classes direito igual a serem chamados eclesiásticos” – viri
ecclesiastici. Wyclif, debruçado sobre Agostinho, disse que, como fora da arca de Noé,
nenhuma carne se salvou, assim não há salvação fora da igreja católica; mas a igreja
romana não é, entretanto, a igreja católica, mas uma parte da igreja católica. A unidade
da igreja não está enfeudada no papado e a bula de Bonifácio devia ser denunciada, por
fazer da obediência ao papa condição de salvação. Bonifácio havia colocado tal
obediência em lugar da submissão às Escrituras. Ninguém que desobedeça às Escrituras
pode figurar entre os eleitos. Uma pessoa – continua Wyclif – pode ser batizada e ainda
ser reprovada, sendo que no número dos reprovados estão alguns dos pontífices, como a
História claramente indica. A primeira acusação articulada contra Huss em Constança
foi a de que definido a igreja universal como a reunião dos eleitos – predestinatorum
universitas. Este artigo o caracterizou como herege.

O escritor francês Plaoul, 1406, definiu a igreja como sendo nada mais do
que a congregação dos que vivem juntos em amor. Vide Haller, p. 345. Cincoenta anos
mais tarde, João Wessel fez clara distinção entre a verdadeira igreja e a comunidade dos
batizados, ao escrever: “Que é a Igreja? É a comunhão dos santos a que todos os
verdadeiros crentes pertencem, os quais se acham unidos por uma fé, uma só esperança
e um mesmo amor a Cristo”. Entretanto, iam os pontífices romanos fazendo valer a
definição de Bonifácio. João XXII, por exemplo, na bula sancta romana et universalis
ecclesia, tratou como idênticas a comunhão romana e a santa igreja católica.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

§ 5. A definição romana.- A comunhão romana sustenta a definição


medieval e sacramental, dando inteiro realce ao ofício papal como centro de unidade da
igreja e sede final da autoridade religiosa. O Concílio de Trento, sem apresentar uma
explícita definição de igreja, estabeleceu, em suas definições dos sacramentos que se
encaravam como essenciais a ela o sacerdócio e outros dogmas. Aquele que nega essas
definições, é excluído da comunidade cristã. O Concílio usou como sinônimos os títulos
– “igreja de deus” e “igreja romana”. O Catecismo Tridentino definiu a igreja como “o
conjunto de todos os fiéis que têm vivido na terra até agora, com uma cabeça invisível,
Cristo, e uma cabeça visível, o sucessor de Pedro, que ocupa a sé romana”. Ficam
excluídos dessa corporação os infiéis, heréticos e cismáticos, assim como as pessoas
excomungadas, enquanto permaneçam sem absolvição. A igreja de Roma é a igreja
inteira e todos os grupos dissidentes que professam ser cristãos, são colocados pelo
Catecismo na mesma relação que existe entre um macaco, que se esforça por passar por
homem, e o homem real.

A apreciação da igreja, feita pelo cardeal Belarmino, considerada a mais


vasta porção de sua vasta obra, apresenta o conceito romano com inexcedível clareza.
Após alinhar uma a uma as definições dadas pelos Donatistas, por Wyclif e pelos
Reformaores Protestantes, definiu por sua vez a verdadeira igreja como “a companhia
de todos os que estão ligados pela profissão da mesma fé cristã e pelo uso dos mesmos
sacramentos, e estão sob o governo de legítimos pastores , principalmente do vigério de
Cristo sobre a terra, o pontífice romano”. Explanando a definição, disse o cardeal que as
marcas essenciais da igreja são: 1. Profissão da mesma fé cristã – sinal pelo qual todos
os incrédulos, que nunca creram, são excluídos, como os turcos, os judeus e os pagãos,
e todos os que creram e decaíram da fé, a saber, os heréticos e apóstatas. 2. Uso dos
mesmos sacramentos, pelo que são excluídos os catecúmenos, que se preparam para
receber os sacramentos, e todos os excomungados. 3. Obediência ao pontífice romano,
pelo que todos os cismáticos são excluídos, embora possuam os sacramentos, tais como
os cristãos gregos. Todos os demais estão incluídos na igreja, que compreende tanto
pessoas más como boas, os enfermos assim como os sãos. Quanto à localização da
comunidade, a verdadeira igreja consiste de três partes: a igreja militante, a igreja do
purgatório e a igreja triunfante. Pelos três sinais de Belarmino, os protestantes, embora
não citados pelo nome, estão destituídos de qualquer esperança de pertencerem à
comunhão dos salvos, caso perseverem em sua “rebelião”. A “fé” – deve-se entender –
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

de que fala Belarmino, é o sistema doutrinário católico romano e não a salvadora


confiança da alma em Cristo.

A definição de Belarmino é, em substância, senão nas próprias palavras,


repetidas pelas modernas autoridades romanas. O Catecismo Plenário de Baltimore, à
pergunta: “Que é a Igreja?”, responde: “A igreja é a congregação de todos os que
professam a fé de Cristo, participam dos mesmos sacramentos e são governados por
seus pastores legítimos, sob um chefe visível”. À pergunta: “Quem é o santo padre?” –
responde: “O papa, o bispo de Roma, o vigério de cristo sobre a terra”. O Catecismo de
Pio X, depois de estabelecer que “a igreja é uma sociedade de verdadeiros cristãos, que
são os batizados que professam a fé e a doutrina de Jesus Cristo, participam dos
mesmos sacramentos e obedecem aos pastores designados por ele”, declara ser o
pontífice romano sucessor de S. Pedro e identifica “a igreja de Jesus Cristo com a Igreja
Católica Romana, porque somente ela é uma, santa, católica e apostólica, como Jesus
Cristo ordenou que ela fosse”. O catecismo passa depois a dizer que há muitas
sociedades religiosas fundadas por homens, que falsamente usurparam o nome de
“igreja”. Os papas recentes reafirmaram a atitude que identifica a igreja romana com a
igreja de Cristo e torna essencial a obediência ao papa para que o homem seja memro
dela. Em sua bula Unigenitus, Clemente XI, 1713, condenou a definição segundo a qual
a igreja católica não é mais do que uma sociedade de filhos de Deus, redimidos pelo
sangue de Cristo; que todos os seus membros são santos – sanctos – e que o que vive
uma vida de amor tem “a Deus como seu Pai e a Cristo como cabeça”. Repetidamente
Leão XIII, como a 22 de janeiro de 1899, reafirmou que a igreja é “uma, tendo seu
centro e base estabelecidos por Deus na sé apostólica, porque onde está Pedro, aí está a
igreja”.

§ 6. A definição Protestante.- A definição dada pelos reformadores


Protestantes foi baseada nas Escrituras. Ela reproduz o conceito espiritual de Agostinho,
que declarou ser requisito prévio e sinal da condição de membro da igreja a eleição por
parte de Deus. Lutero identificou a igreja cristã com a comunhão dos Santos inscrita no
Credo dos Apóstolos. O papado não é de investidura divina. As formas de governo
humano – presbiteriana, anglicana ou congregacional, são de importância secundária.
João Eck estava com a verdade quando, logo após a disputa de Leipzig, escreveu que
Lutero negava que a igreja estivesse edificada sobre Pedro. Ele concluiu corretamente
que Lutero pretendia incluir no plano de salvação crentes gregos e cismáticos – Smith:
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Cor. 1:205. Segundo a definição de Calvino, “a igreja é o corpo dos eleitos, a que
pertencem muitos que foram iluminados pelo Espírito, sem a pregação do Evangelho”,
ou, como definiu em seu Catecismo – “A igreja é o corpo e sociedade dos que crêem, os
quais Deus ordenou e escolheu para a vida eterna”. Longe de depreciar a igreja, Lutero
declarou que não há verdade, nem bênção fora dela. Lutero e Calvino, condenando as
condições da igreja, censuraram a hierarquia, ou “igreja docente”, e não a comunidade
dos crentes em Cristo.

Se nos voltarmos para os Reformadores ingleses, encontraremos Tyndale –


Resposta, págs 30-42 – tratando como “a igreja de Cristo toda a multidão de pecadores
arrependidos, que crêem em Cristo e depositam sua confiança na misericórdia de Deus”.
O bispo Hooper – Últimos Escritos, p. 41 – que tinha estado em Zuric, afirmou que “a
igreja, invisível aos olhos do homem, é conhecida de Deus e a mesma igreja é unida no
coração, vontade e espírito pelo laço da fé e da caridade”. A definição protestante
oficial, segundo foi expressa na Confissão de Augsburg, 1530, nunca foi excedida: “A
igreja é a congregação dos santos, na qual o Evangelho é corretamente ensinado e os
sacramentos corretamente administrados”. Com esta definição concordam os XXXIX
Artigos quase literalmente: “A igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na
qual se prega a pura Palavra de Deus e os sacramentos são devidamente administrados,
segundo a ordenação de Cristo, em todas as coisas que necessariamente se requerem dos
mesmos”. Um século depois, Richard Field – Da Igreja, pág. 11 – respondendo às
definições de Stapleton e Belarmino, disse que “A igreja é o conjunto daqueles a quem
Deus separou do resto do mundo pela operação de sua graça e chamou à participação da
felicidade eterna, pelo conhecimento das verdades sobrenaturais que ele revelou em seu
Filho, e através de outros meios preciosos que ele ordenou para aperfeiçoar a obra de
sua salvação, etc.”.

§ 7. As definições Protestante e Romana comparadas.- Os Protestantes e


os Romanistas concordam em que Cristo estabeleceu a igreja, Diferem, entretanto, no
seguinte: 1. A definição romana identifica “o reino de deus” e “a igreja”, como fez
Prierias em sua respostas a Lutero. A definição romana faz depender da obediência ao
pontífice romano , como suposto vigário de Cristo, a condição de membro da igreja. Os
protestantes fazem clara distinção entre o Reino de deus e a igreja. A verdadeira igreja
não possui outro chefe senão Jesus Cristo e só a ele os crentes devem sujeição. 2. A
definição romana inclui um reino intermediário, chamado Purgatório, cuja existência os
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

protestantes negam. 3. Os romanistas rejeitam a distinção entre a igreja invisível e a


igreja visível, que os protestantes reconhecem. Belarmino afirmou que a igreja é tão
visível e palpável como a comunidade romana, a república de Veneza ou o reino de
Nápoles. Embora o governador esteja ausente, seu regente, o pontífice romano se vê e
sua voz se ouve. A distinção protestante entre a igreja visível e a igreja invisível se acha
definida na Confissão de Westminster: “A igreja católica ou universal, que é invisível,
consiste da totalidade dos eleitos, e é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que é tudo
em todos. A igreja visível, que é também católica ou universal, não se limitando a
nenhuma nação, consiste de todos os que, através do mundo, professam a verdadeira
religião, juntamente com seus filhos, e é o reino do Senhor Jesus Cristo, fora do qual
não há possibilidade ordinária de salvação”. A distinção parece ter por si a autoridade
de Paulo – Rom. 2:26-29 – que asseverou que todos os que são de Israel não são Israel,
podendo haver uma circuncisão exterior, na carne, onde não haja mudança de coração.
Como havia um Israel carnal, que Cristo condenou, e um Israel espiritual, assim há uma
igreja nominal e uma igreja real, o corpo exterior dos aderentes da igreja, cujos
membros podem ser contados, e o corpo místico de Cristo, “a plenitude daquele que é
tudo em todos” – Efé. 1:23. Como Wyclif recordou – de eccl. P. 89, - “uma coisa é ser
da igreja e outra coisa é estar na igreja” – aliud esse de ecclesia et aliud esse in ecclesia.
Judas e Ananias possuíam as marcas externas, sem a realidade da condição de membros
da igreja. Por outro lado, Jó e Melquisedec pertenciam à igreja de Deus, embora lhes
faltasse o sinal exterior da circuncisão. A igreja invisível ou a sociedade dos eleitos, só
Deus infalivelmente a conhece – II Tim. 2:19. Seus membros dependem da vocação e
eleição de Deus e o batismo ministrado pelas mãos humanas não é um requisito que não
admita exceção.

4. A definição romana substitui o antigo moto de Tertuliano – fora de Cristo


não há salvação, e o de Cipriano – fora da igreja não há salvação, pela máxima: “Fora
da Igreja Romana não há salvação” – extra ecclesiam rmana nulla salus. Isto foi dado a
entender pelo quarto Concílio Lateranense, 1215, quando declarou: “A igreja universal
dos fiéis” é uma comunhão “fora da qual ninguém será salvo d emodo nenhum”, extra
quam nemo omnino salvatur. Em 1441, Eugênio IV afirmou que “a santa igreja romana
plenamente crê que os que se acham fora dela, pagãos e judeus, hereges e cismáticos,
não podem tornar-se – fieri non posse – participantes da vida eterna, mas irão para o
fogo eterno , preparado para o diabo e seus anjos”. Pio V iniciou sua fulminação contra
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Isabel, declarando que “fora da única Santa Igreja Católica e Apostólica”, no governo
da qual Deus colocou o pontífice romano, “não há salvação”. No século XIX Gregório
XVI aduziu à afirmação de que os homens “somente se salvam na religião católica”, a
declaração de que “os que morrem na heresia não podem alcançar a vida eterna”. Seu
sucessor, Pio IX, em suas alocuções de 9 de dezembro de 1854 e 10 de agosto de 1865,
afirmou ser “o mais seguro dogma e matéria d fé, que fora da igreja apostólica romana a
ninguém é possível salvar-se, e os que resistem a sua autoridade e obstinadamente se
subtraem à sua unidade, separando-se do sucessor de S. Pedro, não podem alcançar a
vida eterna”.2

Por outro lado, tem sido princípio protestante, desde os primeiros tempos,
reconhecer a comunhão romana como parte da igreja cristã. Disse Lutero que “em
qualquer paróquia em que se batizam crianças, prega-se o Evangelho e se proclama a
Cristo, aí está a igreja”. Outra vez diz ele: “Reconhecemos que há sob o papado muita
coisa boa e cristã, e até tudo quanto é bom e cristão, as Santas Escrituras, o batismo
válido, válido sacramento do altar, as chaves do perdão de pecados, verdadeira pregação
e verdadeiro catecismo. Por isso digo que sob o papa existe verdadeiro cristianismo e
muitos piedosos e grandes santos”. Em seu Catecismo Maior, ele definiu o caso de
modo mais abrangente, ao dizer que fora do Cristianismo – extra Christianitatem – não
há remissão de pecados. Os Padrões reformados, ao assentarem os termos da redenção,
regressaram ao velho moto: “Fora de Cristo não há salvação” – extra Christum nulla
salus. A Segunda Confissão Helvética diz: “Cremos que fora de Cristo não há certeza
de salvação”. Durante o estabelecimento da Reforma, era costume de aderentes do novo
sistema , na Inglaterra, usar da expressão “igrejas particulares” para designar as
diferentes comunidades eclesiásticas, como Wyclif e Huss tinham feito antes. O “Livro
do Rei”, 1543, fala da Igreja da Inglaterra e outras conhecidas igrejas particulares, em
que o nome de Cristo é verdadeiramente honrado e que sejam membros de toda a igreja
católica, no caso em que simplesmente professem e ensinem a fé e a religião de Cristo,
segundo as Escrituras e a doutrina apostólica”. O “Livro do Bispo”, 1537, havia falado
da “Igreja de Roma com todas as igrejas particulares do mundo, que se estreitam e unem
para formar e constituir apenas uma comunidade católica”. Os protestantes seriam
infiéis ao seu passado, se negassem que a igreja romana seja parte da Igreja de Cristo.

5. A definição protestante se conforma de modo mais íntimo com a natureza


espiritual do Cristianismo, que, segundo o Novo Testamento, é, antes, matéria de
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

vontade e afeições, uma disposição e um propósito, do que uma série de observâncias


exteriores e fórmulas teológicas. Paul orava por que “Cristo habitasse em nossos
corações pela fé”. Belarmino, como já se disse, encontra motivo de objeção contra o
Protestantismo no fato de este dar proeminência às disposições internas e espirituais,
enquanto que o catolicismo dá realce aos sinais exteriores e cerimoniais.

6. A definição protestante alarga as fronteiras da comunidade e aumenta o


número dos que são herdeiros da salvação. Se a obediência ao papa e os Decretos
Tridentinos é condição de recepção dos benefícios do Evangelho, multidões de homens
e mulheres de bem e conscienciosos estarão perdidos para sempre, por terem
deliberadamente rejeitado o papa e aqueles decretos. Se, por outro lado, como sustentam
os protestantes, a divina eleição é que determina quais os que receberão os benefícios do
Evangelho, então o número dos salvos não depende de estatísticas humanas. Em suas
Institutas, Calvino fala da ovelha fora do aprisco da igreja. Zwinglio adiantou-se não só
em relação a seu tempo, mas em confronto mesmo com os colegas da Reforma, quando,
baseado na graça predestinada por Deus, explicitamente incluiu entre os salvos não só
os homens bons do mundo clássico, que não tiveram oportunidade de ouvir o
Evangelho, mas também os filhos de pagãos que morreram na infância. A mais larga
abrangência geográfica que, a partir do século XVI, a sociedade tem conquistado, torna
cada vez mais difícil crer na definição católica romana, que faz da obediência ao papa a
condição de pertencer o homem à igreja de Cristo. Pela concepção protestante, o
tremendo problema do destino final de milhões que nunca ouviram de Cristo, encontra
pelo menos uma solução provável, que concorda com a infinita misericórdia de deus.
Pela concepção romana oficial, não há esperança para homens como Washington, João
Marshall, Lincoln e McKinley, tendo todos estes conscientemente rejeitado os dogmas
romanos característicos. O mesmo será verdade em relação a homens como Roger
Williams e Jônatas Edwards, Charles Hodge e bispo Brooks. O recente escritor Straub,
em sua obra erudita sobre a igreja – 2:307 – continua a defender a histórica definição
romana e afirma que a igreja não pode ser acusada de severidade cruel, excluindo da
salvação as crianças não batizadas que morram na infância e os membros das seitas
falsas – falsas sectas.

7. A concepção protestante da igreja é a concepção escriturística; a romana é


produto de especulação teológica e elaboração eclesiástica. A passagem do Novo
Testamento que mais se aproxima de uma definição foi formulada por Cristo, quando
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

disse: “Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou eu no meio deles”
– Mat. 18:20. Um grupo de pessoas que se reúnam em nome de Cristo e no meio das
quais Cristo esteja, deve constituir uma igreja. Desde muito tempo, Tertuliano, segundo
a definição de Cristo, dizia que, onde estão três, mesmo que sejam leigos, aí está a igreja
– ubi três sint ibi ecclesia, licet laici. O manual italiano para explicar o Catecismo de
Pio X, diz que a igreja romana é a única igreja e os protestantes não podem ser parte
dela, porque “eles não possuem santidade e não reconhecem a única fundação de Jesus
Cristo, mas a fundação de Lutero, Calvino e Henrique VIII, homens rebeldes e de vida
viciosa, cruel e adúltera”. Rompendo com a idéia medieval, Lutero, em sua Carta à
Nobreza Alemã, ilustrou a verdade tão bem quanto o fizera Huss antes dele, ao dizer
que, “se uma pequena sociedade de leigos cristãos forem arrebatados e conduzidos a um
deserto, e não houver entre eles um sacerdote consagrado por um bispo, e se
concordarem em eleger um para absolver pecados e pregar, esse homem será tão
verdadeiramente sacerdote como todos os bispos e todos os papas o tivessem
consagrado, e tais crentes constituiriam a igreja naquela localidade”. O segredo da
condição de membro da igreja se acha implícito na resposta dada a uma pergunta
formulada pelo missionário morávio, Spangenberg, a João Wesley, nesse tempo capelão
Anglicano na Geórgia: “Conheces a Jesus Cristo?” Para os protestantes de hoje, o
derradeiro critério humano de reconhecimento da condição de membro da igreja é uma
atitude adequada para com cristo, como Salvador e Senhor, como se faz ele conhecido
nas Escrituras. Sendo as condições de membro da igreja uma disposição de coração e
virtuosa conduta diária, os protestantes aceitam o conceito de Ireneu, quando disse: “A
coluna e o firmamento da Igreja são os Evangelhos e o espírito de Vida” – de haer.
3:11, 8.

Bibliografia e Notas

Católicos romanos: - Tomaz de Aquino: contra errores Grecorum, ed. Por


Reusch, com textos grego e latino, 1889. – Cat. Tridentino. – Belarmino. – Leão Xiii: de
unitate eccl., Works 5:156, 189. – Newman: Devel. of Doctr., etc. – Straub de
Innsbruck: de eccles. – Card. Gibbons, pp. 74-92. – Wilhelm e Scannell, 2:285-351. –
Prots.: Wyclif: de eccl., pp. 600, - Huss: the Church. – Augsb., II Hel. E Westminster,
XXXIX Arts. – Notes of the Ch., as laid down by Card. Bellarmine. – Hatch: Growth of
Crist. Institutions, 1887. – Mort: The Chr. Ecclesia, 1897. – Gore The Ch. and the
Ministry, 4a. ed., 1899. – Lindsay: The Ch. and the Ministry in the Early Centt., 1902. –
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Briggs: Unity of the Chr. Ch., 1909. – Rashdall: Christus in ecclesia, 1912. – Swete:
The Holy Cath. Ch., 1915. – Headlam Doctr. of the Ch. and Reunion, 1920.

1. Ward: Life of Newman 1:88,94. Encarregando a Dalgairns de falar ao


padre Dominic de seu propósito, disse Newman: “Eu o desejo para receber-me na igreja
de Cristo”. Vide também o vol. Birmingham Oratory, p. 313. Escrevendo a Henry
Wilberforce, disse Newman: “É profundamente maravilhoso que uma pessoa de vosso
claro intelecto, possa seduzir-se com a noção de que uma parte da cristandade, que tem
sido desaprovada por todas as partes, pelo Oriente e pelo Ocidente, por 300 anos, e não
é parte de nenhuma comunhão existente, mas um todo em si mesmo, seja, não obstante,
porção de alguma outra comunidade visível que existe, embora o não seja dos dois
organismos existentes, Grego e Latino”. Ward 1:129.
2. Pio IX, segundo foi citado por Straub 1:307, notissimum est cath. dogma
neminem extra cath. eccl. posse salvari, etc. O Ensino dos Doze Apóstolos faz distinção
entre igreja e reino de Deus: “Permite que tua igreja seja congregada dos confins da
terra em teu reino”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO XIII

A IGREJA – SEUS ATRIBUTOS E FUNÇÕES

Onde existe a verdadeira fé, aí há novo nascimento: e onde há novo nascimento, aí está a
igreja. – Adam Pastor, o Anabatista

Sob a expressão “igreja”, a concepção romana mistura ao conceito de um


grupo de crentes a falsa concepção de personalidade, de que promanam as leis cristãs e
por intermédio da qual se faz a dispensação dos sacramentos. Fala-se e pensa-se da
igreja como quem realiza atos e confere graça salvadora. Como um indivíduo, ela
manda, ela batiza, ela ensina. Quando Calvino, em sua obra sobre a Reforma da Igreja,
fala da especiosa palavra “igreja”, tem em mente aquela concepção antiescriturística.
Quando o protestante atribui à igreja funções ativas, ele fala metaforicamente. Para ele a
igreja não administra os sacramentos, como se fora uma entidade vital, separada do
corpo de crentes. Os sacramentos são administrados entre os crentes que compõem a
igreja.

Para evitar confusão entre a igreja, como uma corporação de crentes, e, ao


mesmo tempo, uma personalidade funcionando à parte, a comunhão romana discrimina
entre a “igreja docente” e a “igreja crente”, ou entre “a igreja que consiste dos que
governam, ensinam e edificam” e “a igreja que recebe ensino, direção e sacramentos”.
Em vista de tal definição, quando alguém fala de igreja, pode querer significar o
sacerdócio ou pode querer significar a comunhão romana. Justificando a distinção,
Straub - 1:10 – cita Atos 15:4: “eles foram recebidos pela igreja e pelos Apóstolos e
principais”. Filipe IV tinha em mente a falácia da distinção, quando replicou a
Bonifácio que a igreja se constitui de leigos, assim como de clérigos.1

Tão facilmente se ilude o espírito com uma palavra usada em duplo sentido,
que, durante a Idade média, o pontífice romano e os cardeais eram com frequência
tomados como se fossem a igreja. Esse conceito popular tanto se espalhou, que
Marcílio, Wyclif e Huss, e mais tarde Lutero, Hooper e outros Reformadores
Protestantes, repetidamente protestaram contra ele. “O povo – disse Wyclif – entende
por igreja romana o papa e os cardeais, a quem todos os demais precisam obedecer” –
de eccl. V. Muito antes, já Tertuliano – de pud. – estava em guarda contra semelhante
erro, quando afirmou que “a igreja não é a corporação dos bispos”. Replicando a Lutero,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Prierias – Erlang ed. 1:346 – distinguiu três corporações que se tratavam pelo nome de
“igreja”. A igreja, dizia ele, “é essencialmente a companhia de todos os que crêem em
Cristo; virtualmente, é a igreja romana, que é a cabeça de todas as igrejas e o supremo
pontífice; e representativamente, o colégio de cardeais, embora em sentido diverso do
em que Cristo é a cabeça da igreja”. Quando o padre dominicano empregou a palavra
“virtualmente”, ele se referia ao exercício do poder. A distinção entre a “igreja docente”
e a “igreja crente”, tem sido comparada à distinção que há entre “o governo e o povo
dos Estados Unidos”. A analogia decepciona, porque o governo dos Estados Unidos é o
próprio povo funcionando através de seus representantes escolhidos. Na comunhão
romana, a “igreja docente” é um corpo à parte, que atua independentemente do povo e
não é responsável perante o povo.

I. Os atributos da Igreja. – Quatro atributos foram assinalados à igreja pelo


Credo Niceno, no artigo: “Creio em uma igreja única, santa, católica e apostólica” – o
que vem a ser unidade, santidade, catolicidade ou universalidade e apostolicidade.
Protestantes e romanistas igualmente pretendem esses atributos, com a diferença de que
a igreja romana os reivindica exclusivamente para si mesma, enquanto que os
protestantes não os recusam à comunhão romana. Nenhuma dessas qualidades
expressamente se une à palavra igreja no Novo Testamento. A expressão que mais se
aproxima disso é a declaração de Pedro, que chamou aos cristãos “uma nação santa”. O
único predicado expressamente atribuído à igreja pelo Novo Testamento é o de
“gloriosa”. Na consumação final, Cristo apresentará a si mesmo “uma igreja gloriosa,
sem mácula, ou defeito, ou qualquer outra coisa”. Efé. 5:27. Passaremos a examinar os
quatro atributos, um por um.

§ 1. Unidade.- A unidade pretendida pelo Catecismo Tridentino e pelos


teólogos romanos vem a ser solidariedade exterior, baseada na uniformidade de
definição doutrinária, governo papal e rito. O cardeal Gibbons afirma que “Cristo queria
que sua igreja tivesse uma doutrina em que todos os cristãos se comprometessem a crer
e um governo uniforme a que todos lealmente se devotassem”. O cardeal também dá
ênfase ao culto comum praticado pelos católicos romanos, quer eles estejam em
Melbourne, em S. Francisco ou em Roma, “todos assistindo ao mesmo sacrifício da
missa”. O principal critério de unidade, expresso desde o cardeal Sadolet e Prierias até
Leão XIII e Straub, é a obediência implícita ao pontífice romano. Os protestantes
colocam a unidade cristã na disposição interior, pela qual Deus é chamado Abba Pai, no
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

confessar a Cristo como Senhor e Salvador e na aceitação das Escrituras como regra de
fé e prática. O protestantismo diverge do romanismo, concedendo certa soma de
liberdade individual nas formas externas da devoção religiosa e no governo da igreja, e
segue a S. Paulo, que fala da “unidade do Espírito e de um Senhor, uma fé, um batismo,
um só Deus e Pai de todos – Efé. 4:5. Quando o bispo de Rochester enunciou a
proposição: “A igreja é uma, tendo uma cabeça, o papa, que é o vigário de Cristo”,
Tyndale com razão replicou: “Como é que Rochester não permite sejamos chamados
uma congregação, em razão de um Espírito, um Evangelho, uma fé, uma esperança e
um batismo, tão merecidamente quanto os outros o sejam por causa de um papa?” –
Obediência do Cristão, pág. 212.

As objeções de que o Protestantismo se acha dividido em famílias e que essa


divisão torna impossível que os protestantes repitam com sinceridade o artigo Niceno,
são grandemente alardeadas pelos escritores romanos. O cardeal Gibbons, por exemplo,
se estende sobre “a multiplicidade de seitas nos Estados Unidos, com suas
recriminações mútuas, sendo essa multiplicidade o escândalo do Cristianismo e o maior
obstáculo à conversão dos pagãos”. O protestante responde que a distribuição em
famílias não implica necessariamente em conflitos e querelas; de outro modo os
diferentes Estados da República Americana viveriam sempre querelando. Os olhos não
estão em discórdia com os ouvidos, e eles são do mesmo corpo. A figura de corpo,
usada por Paulo, não implica em uniformidade. Unidade não é monotonia. A unidade e
a variedade são bastante coerentes. Se não fosse assim, não haveria florestas compostas
de uma diversidade de árvores – olmos, acerríneas, faias – todas brotando do mesmo
solo e recebendo a luz do mesmo sol. Faz muito tempo que Isaac Barrow disse que a
unidade da igreja é semelhante à unidade da humanidade – Obras, 6:501. O gênero
humano por toda a parte participa da “racionalidade comum” e todos os homens têm
sinais que os distinguem como pertencentes à família humana, a despeito das diferenças
de linguagem. Calvino encarou o assunto desta maneira: “Eu na verdade admito que
terrível vingança de Deus impende sobre todos os que tomam a seu cargo violar a
unidade da Igreja; mas, que maior violação da unidade pode ser produzida do que
quando se adultera a pureza da doutrina e Cristo, por assim dizer, é, em consequência,
reduzido a pedaços?” O reformador, que estava escrevendo a Paulo III, acrescentou:
“Quem, a não seres tu, Farnese, é o autor e sumo sacerdote de tal desmembramento?”
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

A aceitação de dogmas que se não encontram nas Escrituras, como a


infalibilidade papal e a recusa do cálix aos leigos, pode unir os católicos romanos, mas
não pode perturbar a união dos cristãos com Cristo, porque Cristo jamais ensinou
dogmas. Quanto à paz, que é a resultante da real unidade espiritual, a história exibe
muitas violações dela na comunhão romana. Tem havido rivalidade entre as ordens
monásticas e amargas disputas no seio das diversas ordens, como na ordem de S.
Francisco de Assis, a propósito da regra de pobreza completa. Cerca de 1650, a origem
da ordem dos Carmelitas motivou amarga discórdia entre seus membros e os jesuítas.
Os Carmelitas sustentavam que tinham tido a Elias como seu fundador. A discussão
aberta terminou quando Inocêncio XII ordenou que as ordens se mantivessem em
silêncio, até que a cátedra papal pudesse proferir uma decisão – coisa que ainda não
aconteceu. Os jesuítas têm tido seus altos e baixos na igreja e seus castigos às mãos dos
pontífices, em razão das discórdias que eles andaram semeando por terras cristãs e
pagãs. Têm havido disputas entre teólogos romanos, desde a bulha entre os seguidores
de Tomaz de Aquino e os de Duns Scotus, até as querelas entre os aderentes do
Galicanisno e do Ultramontanismo em França, e entre os Infalibilistas e os Velhos
Católicos, e os Modernistas e os Medievalistas, em tempos mais recentes. As
divergências em matérias não essenciais podem ser indício de vitalidade. O movimento
evita a estagnação. Depois de tudo, as presentes variações dos Protestantes, sobre as
quais tantos controversistas romanos – que não são Bossuets – se estendem a perder de
vista, não são tão más. A fraternidade prevalece muito mais entre as corporações
protestantes do que a divisão. A diferença entre o espírito da escola de Bossuet e o
espírito da escola do Arcebispo Fenelon foi muito mais pronunciada do que as
diferenças que hoje separam Metodistas e Presbiterianos, Congregacionalistas e
Batistas, e outras comunhões protestantes. Bossuet recorreu ao papa para obter a
condenação de seu piedoso oponente e conseguiu o que desejava. Nenhum metodista
digno procuraria a condenação de um presbiteriano, ou buscaria o presbiteriano a
condenação de um batista.

Unidade de espírito e propósito é uma coisa; uniformidade da corporação


cristã, outra. Uma é obediência a Cristo; a outra é obediência a um sistema humano.
Duas famílias não têm de habitar sob o mesmo teto para que desfrutem do sol e do ar e
para que vivam juntas em consonância. É certo que Pedro e Paulo tinham divergências e
escolheram campos de trabalho diferentes. Os protestantes sustentam que há unidade
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onde haja obediência a Cristo; o romanista pensa que há unidade onde haja obediência
ao papa. Leão XIII em sua encíclica sobre a unidade da igreja, acompanhou seus
predecessores, Bonifácio VIII e Leão X, ensinando que a unidade de comunhão – unitas
communionis – acompanha a unidade da fé e a unidade d egoverno – unitas regiminis –
pelos quais se entendem o sistema doutrinário romano e o governo papal. A
Enciclopédia Católica, em seu artigo sobre a igreja, representa o Protestantismo como
“uma Babel de organizações religiosas e corporações rivais, cujas doutrinas são
contraditórias”. Os protestantes negam a imputação e asseguram que, em matérias
claramente expressas nas Escrituras, eles concordam; e as matérias em que divergem,
tais como forma de administração e métodos de batismo, são negócios pequeninos, que
não afetam o caráter cristão e a unidade espiritual.

§ 2. Santidade.- De santidade, segundo atributo da igreja, nem a comunhão


romana, nem a comunhão protestante, possuem qualquer excesso de que se possam
gabar. A velha interpretação do Cântico de Salomão: “Tu és formosa, meu amor; e em ti
não há defeito”, como profecia acerca da igreja, pode ainda subsistir para os que
preferem a alegoria à história, mas S. Paulo foi contra isso, quando implicitamente
asseverou que, na presente dispensação, a igreja tem “rugas e defeitos”. O que faz santa
a igreja? O dr. Milner responde: “Sua doutrina”. A própria razão, diz ele, noa assegura
que “o Deus da pureza e santidade não poderia instituir uma religião desprovida de
santidade”. O doutor tinha razão, mas a religião é uma coisa e outra coisa é o organismo
romano. O Decálogo era um bom Código religioso. Israel o possuía, mas Israel não
possuía bondade ou religião de que se gloriar. As igrejas da Ásia Menor, assim como as
de Corinto, tinham os Apóstolos como seus superintendentes, eram organizações cristãs
e foram, todavia, acusadas de indiferença e de ofensas positivas à lei de Cristo. Se é
“razoável” que Deus tivesse feito a igreja santa, não é igualmente razoável que ele
houvesse feito santo o papado, instituição que os romanistas admitem ser de origem
divina. Santidade como ideal é uma coisa; santidade como qualidade inerente, outra; e
esta só pertence à Igreja Triunfante.

É interessante acompanhar as evidências apresentadas pelos escritores


católicos romanos, em abono da santidade da comunhão romana. Straub, por exemplo,
exibe a santidade de muitíssimos de seus membros, os méritos excepcionais de muitos
dentre eles e o serem dotados de poderes miraculosos. O cardeal Gibbons, em notável
passagem, assegura que é absurdo atribuir o predicado de santidade a seja o que for que
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não seja a igreja romana. Só ela possui verdadeiros livros devocionais, como as obras de
Tomaz à Kempis e Rodriguez, o último sendo comparado com o Peregrino de Bunyan –
em detrimento deste. Ela possui muitas personalidades santas em seus quadros e,
comparados com ela, os registros protestantes não contêm um único santo. Cincoenta
anos antes do cardeal, já o dr. Milner evocava a grande parada dos santos romanos e os
comparava em religião e moralidade aos protestantes, por exemplo: o cardeal Fisher
com o arcebispo Cranmer e Maria, rainha da Escócia, com Isabel. Dos partidários que
ele chamava “ímpio e imoral sistema de Calvino, tais como os Wesleyanos, e Morávios,
e os Tremedores”, exclamava: podiam ajudar, mas para que alguém fosse mau” De
passagem, ao dr. Milner podia ter ocorrido colocar lado a lado: cardeal Wolsey e o
bispo Latimer; Luiz XIV e Washington, Clemente VII e o general Booth; ele não quis,
entretanto, obrigar o polemista a ir além de uma lista reduzida, quando se aduziam
referências históricas.

Ao catálogo de santos e mártires romanos, o dr. Gibbons acrescenta a


companhia das virgens consagradas, com seus santos ministros e sacerdotes vivendo em
celas, não tendo o Protestantismo nada a mostrar parecido. Muito infiéis à história e
descorteses seriam os protestantes se se dispusessem a negar a elevada devoção e a
grande piedade que se têm mostrado na comunhão romana. Eles não regateiam aplausos
a Tomaz à Kempis, nem recusam bondade ao cardeal Fisher. Por outro lado, não
compreendem porque a maternidade fiel não tenham lugar no rol de santidade, nem
porque não se acharia lugar, nas tábuas de estatística religiosa, para homens como João
Eliot, o apóstolo dos índios da Nova Inglaterra; Henry Martin, apóstolo da Índia;
Livingstone, apóstolo da África, e mulheres como Isabel Fry, Florence Nightingale e
Frances Willard, todos protestantes. O Catecismo de Keenan ensina que a igreja
protestante é ímpia, porque ela “ensina que Deus é o autor do pecado”, e fala da
“debochada Igreja da Inglaterra”, e da “coisa entumecida chamada Igreja Inglesa”. O
Protestantismo, assevera o Catecismo, “é uma forma absurda de heresia, descendo do
Metodismo até o Modernismo, que são emanações mal cheirosas que necessariamente
se escapam de seus progenitores em decadência”. Tais apreciações, feitas em tempos
recentes, podem emparelhar-se com os nomes dados pelos antigos protestantes à igreja
de Roma. Ambos os modos de expressão devem ser repudiados, como relíquias do
passado e curiosidades da irritação polêmica. Nada mais se pode dizer do caráter moral
de uma comunidade cristã, ou da igreja como um todo, do que pode ser dito com justiça
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

do caráter daqueles que a compõem. A resistência da corda está na proporção da


fortaleza de suas fibras. Os cristãos foram chamados para serem santos. Eles ainda não o
são. A santidade da igreja consiste em sua obediência aos apelos feitos no sentido de
buscar a santidade. Tendo sido perguntado a Pedro Cartwright se ele era santificado,
respondeu: “Sim, mas em manchas”. O mesmo se dá com a igreja, romana ou
protestante. É santa, na proporção em que o são seus membros. É santa, porque seus
membros receberam o mandamento de serem santos, como disse Deus: Sede santos,
como eu sou santo”.

§ 3. Catolicidade.- O termo católico quer dizer “universal”. Não foi


empregado pelos escritores do Novo Testamento. A expressão que mais se lhe aproxima
é:” toda a igreja”, usada em referência à corporação inteira de cristãos ou a uma
comunidade particular, como a de Corinto – Rom, 16:23, I Cor. 14:23. Faz muito tempo
que Wyclif deduziu do termo católico um sinal de ignorância, tendo sua origem no
orgulho – de eccl. p. 39. O cardeal Gibbons limita a palavra “católico” à comunhão
romana e os fundamentos que ele apresenta são seu número superior, sua distribuição
geográfica, e pretensa origem católica romana da igreja cristã em todas as terras. “Tão
evidente é isto – afirma ele – que só a igreja romana mereça o nome de católica, que é
ridículo negá-lo. Seus filhos são abundantes em toda a parte do globo. As igrejas
protestantes, mesmo tomadas coletivamente, são demasiadamente insignificantes em
matéria de números e demasiadamente circunscritas em sua extensão territorial, para
que possam ter quaisquer pretensões ao título católico”. O cardeal computa o número de
católicos romanos em quatro vezes o número de protestantes. Não discutindo a acurácia
das cifras, o protestante responde que, como os Republicanos ou Democráticos podem
ser minoria num Estado, entretanto, igualmente são cidadãos do Estado, assim os
homens, se reconhecem a Cristo, ainda que inferiores em número, são da Igreja. Às
vezes a minoria num estado recruta a parte mais inteligente da coletividade. Mesmo que
o total protestante fosse imponderável, podiam ter suficiente graça e virtude cristã para
ocupar posição proeminente em maio dos seguidores de cristo. Houve um tempo, nos
dias de certo profeta hebreu, em que os praticantes da verdadeira religião estavam em
minoria ínfima. Se sei insistir sobre o test geográfico, os protestantes, não menos que os
romanistas, se acham em todas as nações da terra. Se se fizer o test pela linguagem,
verificar-se-á que são imensamente mais as línguas em que o Sermão do Monte e os
Evangelhos saem dos prelos protestantes do que dos romanistas.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

A suposição de que o romanismo possa dizer em referência a todas as partes


do mundo: “Ali estava eu primeiro”, se baseia, antes de tudo, no uso ambíguo de
palavras, segundo as quais a igreja, até o século XVI, se identifica com a presente
organização romana, confundindo-se as duas, e também no desprezo pelos fatos
históricos. A pretensão geográfica, encarecida longamente pelo dr. Milner, assim como
pelo cardeal Gibbons, é tão especiosa quanto pode sê-lo. Nasce desordenadamente da
imaginação. O Evangelho foi levado a Samaria, Grécia e Egito antes que se começasse a
falar de igreja de Roma. O Evangelho foi primeiro divulgado pela igreja de Jerusalém e
pela igreja de Antioquia. Uma parte considerável da Europa oriental recebeu o
Evangelho de Constantinopla e não de Roma. Nestes tempos modernos, os primeiros a
levarem a religião de Cristo a certas partes do mundo foram os protestantes, como
quando os ingleses se estabeleceram em Jamestown, o Mayflower na Inglaterra, os
holandeses e huguenotes chegaram a Nova York, os quakers atingiram Filadélfia e os
presbiterianos transpuseram os Alleganys. Os missionários protestantes foram os
primeiros na implantação do Cristianismo no Labrador, nas ilhas dos mares do sul, entre
tribos da África Central, na Austrália e em outras partes.

Em imaginário diálogo com um protestante, o dr. Milner estabeleceu a


seguinte proposição: “Toda vez que um cândido protestante se dirige a Deus em culto, é
forçado a repetir a cláusula: - Creio na Santa Igreja Católica; e, todavia, se se lhe
perguntar: És um católico? – ele certamente responderá: Não; sou protestante. Houve
jamais, entre criaturas racionais, exemplo tão fulgurante de condenação própria?” A
maneira de o dr. Milner focalizar o caso leva suficientemente àquela conclusão.
Suponhamos que o protestante replicasse: “Dr. Milner, sois cristão e repetiste a cláusula
do Credo dos Apóstolos: Creio na Santa Igreja Católica. Sois um cristão católico
romano, eu sou um cristão católico protestante”. O dr. Milner retrucaria: “Nunca ouvi
falar, em toda minha vida, de um protestante católico ou de um católico protestante!” E
atalha o protestante: “E eu nunca ouvi de uma versão do Credo dos Apóstolos que
dissesse: Creio na Igreja Católica Romana”. Ser cristão e ser católico são uma e a
mesma coisa, como em se tratando de nacionalidade, ser “americano” e “cidadão dos
Estados Unidos” vêm a ser uma só coisa. Lutero alvitrou que o artigo do Credo fosse:
“Creio na Santa Igreja Cristã”. Assim alterada a redação, o artigo significaria
exatamente o que os Apóstolos tiveram em mente fosse a igreja. A mudança tornaria
impossível qualquer trocadilho lógico, baseado no falso emprego da palavra católico.
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Uma excelente definição de catolicidade se dá na bizarra linguagem da Confissão


Escocesa, de 1560, ao dizer o que a igreja é. “Uma igreja, que é também o corpo e
esposa de Cristo Jesus, é igreja católica, isto é, universal, porque reúne os eleitos de
todas as idades, de todas as nações, reinos e línguas”.

§ 4. Apostolicidade.- Este atributo faz a igreja remontar aos Apóstolos. Os


protestantes e os católicos têm igual razão de reivindicar uma ascendência apostólica, na
medida em que se conformam, em ensino e prática, à regra apostólica. Esse juízo teve
um veiculador importante em Tertuliano, que disse – de presb.. 32 – que as igrejas “que
concordam com a mesma fé, são apostólicas, em razão da consanguinidade de
doutrina”. Quando os católicos romanos discutem a apostolicidade, o nome
“protestante” se trata como fatal. O cardeal Gibbons exclama: “Quem ouviu falar de
uma igreja batista, ou episcopal, ou de qualquer igreja protestante, antes da Reforma?”
Quem ouviu – poder-se-ia rebater – qualquer alusão a um romanista ou a um católico
romano no Novo Testamento ou durante séculos após a morte de Pedro e Paulo?

Quando Lutero foi chamado a Roma por Leão X, ele o foi para responder
pelo que havia dito “contra nosso supremo Senhor” – significando o papa – “e contra a
santa igreja romana” – Smith; Cor. 1:107, 153. Se Lutero tivesse ido a Roma e
explicado o que os Apóstolos estabeleceram no Novo Testamento, e Leão lhe houvesse
atendido, a igreja que é agora romana seria protestante, embora não sob este nome. As
partidos protestantes do século XVI, como já se disse, foram forçados a constituir,
contra sua vontade, um distinto grupo cristão, como abelhas que voam para nova
colmeia. Acusado de rebeldia e de renunciar a apostolicidade, Calvino colocou a
questão nestes termos: “Verdadeiramente renunciamos à igreja em que não podemos ter
nem a Palavra de Deus sinceramente ensinada, nem os sacramentos devidamente
ministrados. Abandonamos a igreja como se encontra agora e não como era no tempo
antigo, e assim saímos dela como saiu Daniel da cova dos leões e os moços saíram da
fornalha ardente e, para dizer a verdade, fomos expulsos e amaldiçoados, como
costumam dizer, com livro, campainha e vela, em vez de nos termos separados por nós
mesmos”

Os protestantes e os católicos romanos do mesmo modo representam com


honestidade e compreensão o artigo do Credo Niceno: “Creio em uma Igreja santa,
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

católica, apostólica”, na medida em que Cristo seja o centro de sua confiança e


esperança e sejam repelidas quaisquer opiniões e práticas que ele condena.

II. Funções da Igreja.- Na procura da verdadeira igreja, tão indispensável é


que se determine se ela exerce funções vivificantes, como determinar quais sejam seus
atributos e em que consistem. Quanto ao sistema romano, a igreja é representada a
governar, ministrando os sacramentos, sendo a guardiã das escrituras e tendo o direito
exclusivo de as interpretar, como se a igreja fosse uma personalidade distinta de seus
membros, de modo a se afirmar que “ela”faz isto ou aquilo. Os protestantes acreditam
que há grande perigo em tratar a “igreja” como se ela fosse uma pessoa distinta, dotada
de faculdades e, embora seja difícil evitar que se trate a igreja como um organismo vital,
como uma individualidade à parte, deve-se ensinar que a igreja nada mais é senão o
corpo de cristãos, isto é, cristãos, poucos ou muitos, que se conduzam em obediência
aos preceitos do Evangelho. Aqui serão consideradas as supostas funções da “igreja”,
sendo que outras o serão no capítulo sobre o Ministério e o Sacerdócio.

§ 5. A igreja como guardiã das Escrituras.- A posição romana é a de que


as Escrituras foram confiadas à igreja para conservação e distribuição. Ela é, como se
expressam os Decretos Vaticanos, a guardiã e mestra da Palavra revelada – custos et
magistral. Pela enganadora palavra “igreja” aí se quer dizer, porém, não o número total
de cristãos, mas um grupo seleto, conhecido como a “igreja docente”, isto é, a
corporação dos bispos ou o sacerdócio como um todo. A posição protestante é a de que
se as Escrituras foram confiadas a todo cristão individualmente, para que cada um as
guardasse, lesse e as recomendasse aos outros. Elas contêm a revelação cristã e
pertencem a todo peregrino, para salvaguarda e uso próprio. Como fato histórico, o
texto do livro tem sido guardado mais seguramente e prezado mais dignamente por
Tischendorf, Westcott e outros erudito modernos, do que por muitos papas e muitas
gerações de sacerdotes. A erudição moderna não só tem descoberto e trazido à luz
manuscritos ocultos e depreciados, a não ser como veneráveis pergaminhos, do Mt.
Santa Catarina para conventos do Ocidente, mas tem colocado nosso texto grego em
mais perfeita harmonia com os originais apostólicos. Ao mesmo tempo, simples
indivíduos, como Pedro Waldo e os Waldenses, fizeram mais para adequadamente
honrar as Escrituras, disseminando suas páginas, do que fez toda a “igreja” em certos
países. A guarda do Sagrado Registro foi confiada, não à “igreja”, mas aos cristãos – e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

os cristãos devem mostrar sua estima para com ele de maneira outra que não seja a de
escondê-lo num leito.

§ 6. A igreja como intérprete da verdade Cristã.- A pretensão romana vai


mais além – e transforma “a igreja” em intérprete exclusiva das Escrituras. Aqui outra
vez se quer significar, pela expressão – “a igreja” – não a massa de cristãos, mas a
“igreja docente” ou a hierarquia. Por outro lado, os protestantes sustentam que a todo
cistão pertence o direito de interpretar as Escrituras por si mesmo. Esse direito de juízo
privado, Lutero o tinha em mente no prefácio de sua tradução do Novo Testamento, ao
escrever: “Seria conveniente colocar em circulação este livro sem prefácio de qualquer
espécie e sem qualquer nome que não figure no texto, mas exatamente como ele é, nada
sendo aduzido a seu título e conteúdo”. Foi de acordo com aquele princípio que, após a
dieta de Worms ele escreveu; “Que o cristão exerça o privilégio de julgar a Palavra de
Deus e a fé por si mesmo, ainda que isto lhe seja questão de vida e de morte. Porque a
Palavra de Deus e a fé são propriedade de todo homem, na comunidade inteira” –
Smith: Cor. 1:536. O cardeal Gibbons desdenhosamente insinua que “todo clérigo
protestante, apenas emplumado, com um preparo superficial, pode imprimir o nome a
qualquer coisa que se trata a si mesma como “igreja”.

O caso figurado pelo cardeal é de ocorrência possível, porque a Palavra de


Deus é livre e, sendo livre, está sujeita a abuso. Ela tem sido deturpada por patriarcas
das grandes sés de Roma e Constantinopla, assim como pelos não católicos, que talvez
estivessem no pensamento do cardeal. Tudo quanto é bom pode dar lugar a abuso e todo
livro bom pode ser mal interpretado. Tem-se levantado a acusação de que os
protestantes proclamam a fantasia de serem todos os homens igualmente capazes de
acertar com a significação das Escrituras. Pelo contrário, eles dão tanta aos altos estudos
como nenhum outro grupo humano e insistem na posse das qualificações intelectuais
por parte do ministério. Mas o direito de buscar a sabedoria celestial no Livro dos livros
pertence a todos e o caminho da salvação pode facilmente ser apontado por suas
páginas. O assunto em questão jamais foi exposto mais lucidamente do que pela
Confissão de Westminster, ao dizer que: “Conquanto todas as coisas da Escritura não
sejam igualmente claras em si mesmas, nem igualmente claras para todos, todavia as
coisas cujo conhecimento é necessário à salvação são tão claramente apresentadas e
francas, num ou noutro lugar das Escrituras, que não só o entendido como o iletrado
pode, no devido exercício dos meios ordinários, alcançar suficiente compreensão delas”.
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A atitude protestante é a de que, como os bereanos da antiguidade investigavam as


Escrituras e foram louvados por assim procederem, assim investiguem todos os homens,
por si mesmos, e que nenhuma corporação em conjunto ou indivíduo tem o direito de
usurpar o monopólio de decidir qual seja a verdade cristã. “Nem o testemunho de
Agostinho, nem o de Jerônimo, nem o de qualquer outro santo – como Wyclif
corretamente se expressou – teria melhor aceitação do que possui o que se baseia na
Escritura”. Ou, como disse ele em seu Trialogus, “se houvesse cem papas e todos os
frades se convertessem em cardeais, suas decisões em matéria de fé não mereceriam
crédito, a não ser que elas se fundassem na Escritura”. Se a exposição dos costumes e
das leis dos gregos se acha preservada na literatura helênica e se insiste com os homens
a busca-la, lendo-a por si mesmos, porque não seriam os homens exortados a buscar o
mais sagrado dos livros, que contém os ensinamentos pertinentes à vida eterna?

O cânon que nega ao indivíduo o direito de interpretar as escrituras por si


mesmo, tem sido defendido com as palavras de Paulo, ao dizer que “a igreja é a coluna
e o firmamento da verdade”; mas acontece que os primitivos escritores cristãos
aplicaram a declaração paulina tanto aos cristãos individualmente, como à igreja, como
fizeram Clemente de Alexandria e Ireneu. O próprio Paulo aludiu a Tiago e outros como
“colunas da igreja” – Gal. 2:9.

Como fato histórico, a verdade que se contém nas Escrituras tem sido
descoberta pelos indivíduos, exatamente como, no reino da natureza, pelos indivíduos é
que a verdade se tem descoberto. As sociedades científicas nunca fizeram o que fizeram
Newton, Pasteur e Edison. Se indivíduos como Atanásio, Agostinho e outros tivessem
sido amordaçados, estaríamos tremendamente prejudicados no que tange ao
conhecimento teológico. Foram os profetas, individualmente, que, falando
independentemente, disseram a Israel o em que consistia o preceito divino. O estudioso
e os grupos cristãos de hoje acrescentam a seus princípios o testemunho individual dsde
Clemente de Roma e Justino Mártir até Tomaz de Aquino e Calvino – católicos
romanos e protestantes, consistindo a diferença em os católicos romanos acompanharem
certos testemunhos pelo fato de o terem feito seus pais espirituais e os protestantes os
seguirem na proporção em que concordem com a página escrita da Bíblia.

Outra excusativa apresentada pelos romanistas, para que se restrinja à


“igreja docente” a interpretação das escrituras, baseia-se falsamente nas palavras da
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segunda epístola de Pedro, 1:20-21: “Nenhuma profecia da Escritura é de particular


interpretação”. A palavra “particular” – private no inglês – é tradução da palavra grega
idias, que significa “próprio de alguém” como de Cristo se disse ter ele ido a “sua
própria cidade”. A advertência de Pedro se dirigia contra arbitrárias e maldosas
asserções nos lábios dos profetas, que eles, escrevendo sob a direção do Espírito Santo,
não poderiam subscrever.2

Ainda outra justificativa se estriba nas palavras muito citadas de que


Agostinho se serviu, escrevendo aos maniqueus: “Eu não creria no evangelho, se não
tivesse crido na igreja”. A conclusão que se tira daí é que o escritor reconhecia que sua
razão de crer nas escrituras era a autoridade da igreja. Ainda que fosse tal a intenção de
Agostinho, seu testemunho não constituiria um princípio geral, a não ser que tal coisa se
conformasse com os ensinos das Escrituras e com os ditames da sã razão. Agostinho era
humano e a linha de raciocínio que ele seguiu não se aplica necessariamente aos outros.
A declaração em apreço é isolada e, de outras passagens por ele subscritas, exaltando a
autoridade das Escrituras, é quase certo que não pretendia dizer mais do que, pela igreja,
seus exercícios e influência, fora levado a considerar a mensagem cristã com espírito
desprevenido. Com igual razão poderia ter ele dito: “Eu não creria no Evangelho, se não
tivesse acreditado em minha mãe, Mônica, ou ouvido a Ambrósio, ou escutado os
cânticos da catedral de Milão”. A voz que Agostinho ouviu no jardim, citando a
Escritura, foi a crise d sua conversão. Ele não comparava os méritos do Evangelho com
a autoridade da igreja, como o claro contexto da passagem mostra. Depois de escrever
as palavras citadas, prossegue dizendo: “Longe esteja de mim não crer no Evangelho,
porque, nele crendo, não acho meio de vos crer. Para me convencerdes, tendes de
colocar à parte o Evangelho”. Agostinho não disse: “para me convencerdes tendes de
colocar à parte a igreja”. Mais e mais ele insistia com os Maniqueus a lerem as
Escrituras, para que verificassem se suas atitudes eram corretas ou erradas, instando por
que verificassem se suas atitudes eram corretas ou erradas, instando por que
descobrissem pelas Escrituras se aquelas concepções eram obra do Espírito Santo.
Comentando as obras de Agostinho, Wessel observa que ele podia ter igualmente dito:
“Eu não creria no Evangelho, a não ser que houvesse crido em Pedro. Assim, em meu
próprio caso atual, se eu não tivesse crido, em criança, nos membros d minha família e,
mais tarde, na escola, em meus professores, e finalmente, nos clérigos, não creria agora
no Evangelho. Entretanto, agora creio no Evangelho mais do que creio em qualquer
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número de mortais”. Todos ou quase todos os Reformadores, a conhecer Lutero e


Calvino, comentaram as palavras de Agostinho. Whitaker, p. 320-322 observou que “a
autoridade da igreja pode, a princípio, dispor-nos ao conhecimento das Escrituras; mas
depois, quando as estudamos a nós mesmos, concebemos verdadeira fé, não porque a
igreja julgue que devemos crer, mas porque o Espírito Santo nos persuade interiormente
de que elas, as Escrituras, são a Palavra de Deus”.3

§ 7. A igreja não é mestra infalível.- é difícil compreender como a igreja e


mais o papa possam ser mestres infalíveis, reivindicação que é feita por ambos. A
posição romanista é a de que, em matéria de doutrina e moral, está isenta de erro e
nunca ensinou o que fosse falso. Gregório VII – MIRBT 146 – disse que a
“igrejaromana nunca errou e jamais erará no futuro, disto sendo testemunha as
escrituras”. Esta afirmativa vem sendo repetida pelos sucessores de Gregório. O
Catecismo Tridentino assim apresenta a teoria: “A igreja não pode errar em matéria de
fé e moral, desde que é governada pelo Santo Espírito; segue-se, em consequência, que
todas as outras corporações, que se arrogam o título de igreja, uma vez que são
conduzidas pelo espírito maligno, devem viver nos erros mais perniciosos de doutrina e
de moral”. Segundo a proposição do Catecismo Plenário, “a igreja não pode errar
quando ensina uma doutrina de fé ou de moral. Uma doutrina de fé ou de moral se
refere a qualquer coisa em que devemos crer para sermos salvos”. O Catecismo de pio
X põe a questão em termos um tanto diversos: “A igreja docente não pode errar em
ensinando a verdade revelada de Deus” – e cita a passagem” “O Espírito da verdade vos
guiará a toda a verdade” e as palavras ditas a Maria: “Salve cheia de graça! O Senhor é
contigo”. Belarmino – de eccl. 3:14 – diz que “é absolutamente impossível à igreja
errar, seja em matéria que ela nos proponha como coisa em que se deva crer, seja em
coisas que se devam praticar”. É verdade que ele, prosseguindo diz: “quer essas coisas
sejam expressamente declaradas nas Escrituras, quer o não sejam”. O Concílio de
Trento limitou tanto o direito de interpretação, como o sentido a ser dado pelo
intérprete, decretando que “ninguém, confiando em seu próprio talento, se atreva, em
matéria de fé e moral, pertinente à edificação da doutrina cristã, forçando a Escritura em
sua própria significação, a interpretar a Sagrada Escritura contrariamente àquela
significação que a santa madre igreja – a quem pertence julgar do verdadeiro sentido e
interpretação das escrituras – tem sustentado ou pode vir a sustentar, ou ainda em
contrário ao consenso unânime dos Padres”. Leão XIII declarou que a igreja, sendo uma
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sociedade perfeita, Cristo havia de investi-la de uma função suprema de ensino.


Condenando o Americanismo, assegurou que a igreja não pode errar ou ser contaminada
de heresia, ou decair da fé, ou sofrer cisão. Seguindo este princípio, Chillingworth,
“tornando-se papista”, disse: “Eu me reconciliei com a igreja de Roma, porque pensava
ter suficientes razões para crer que houve e deve haver no mundo alguma igreja
insuscetível de erro; e, em consequência, vendo que todas as demais igrejas se
desinteressavam do privilégio de não estarem sujeitas a erro, ela, a igreja de Roma,
devia ser aquela igreja que não pode errar” – ed. Patrick, pág. 64.

A pretensa garantia da infalibilidade eclesiástica se baseia nas seguintes


passagens: “as portas do hades não prevalecerão contra ela”; “Eis que estou sempre
convosco, até a consumação”; “Tudo que ouvi de meu Pai eu vo-lo fiz conhecer”; e,
“Quando ele, o Espírito de Verdade, vier, vos aguiará a toda a verdade” – Mat. 16:18,
28:19; João 14:16, 16:13. Da passagem – “As portas do hades não prevalecerão contra
ela”, é suficiente dizer que o texto promete à igreja perpetuidade, e não infalibilidade.
Nas outras três afirmativas, não há promessa de que a igreja fosse infalível. Tomadas
em si mesmas. Independentemente do contexto, as promessas de assistência do Espírito
se limitariam aos doze discípulos; e, se todas as passagens do último discurso do
Senhor, a começar de João 13:22, fossem entendidas segundo aquele princípio, então
cada promessa que o mesmo discurso contém se limitaria aos doze discípulos, inclusive
as palavras: “Não se turbe o vosso coração”. Mas se todo o discurso teve em vista
quaisquer pessoas, então a promessa de assistência do Espírito aproveita a todos os
cristãos, grandes e pequenos, leigos e clérigos.

A teoria de que a igreja não pode errar choca-se com os duros fatos da
história. Ela voluntariamente pecou contra o que são agora sentimentos gerais,
prevalecentes através do mundo, entre os cristãos. A citação de quatro desses erros será
suficiente para provar a proposição. I durante séculos a igreja deu sua aprovação à
escravatura. Quando Leão XIII, em 1888, disse que a escravidão tinha sido “abolida
principalmente pelos esforços benéficos da igreja cristã”, disse a verdade, mas ele podia
também ter dito que a escravidão e a escravatura não foram, durante séculos, abolidos
em países cristãos, e que durante a mui decadente Idade Média, teólogos e pontífices
romanos justificaram positivamente a escravidão e deram licença a reis e exércitos para
escravizarem seus prisioneiros. Tomaz de Aquino defendeu a instituição sob o
fundamento da queda de Adão e declarou que a descendência perpetua as entranhas, já
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que a progênie recebe sua substância de mãe. Clemente V, 1309, instruiu os sitiantes de
Veneza no sentido de transformarem os prisioneiros em escravos. Em 1577, Las Casas
conseguiu a lei segundo a qual cada um dos residentes espanhóis das Índias Ocidentais
podia importar doze escravos negros. Os Padres não pronunciaram uma só palavra em
prol da abolição da escravidão e contra ela nenhum papa legislou. II. Por mais de dois
séculos a igreja aprovou as Cruzadas, que eram guerras. Bernardo expressou a opinião
de seu tempo, no assegurar que “é melhor que os pagãos morram, antes que permaneça
o domínio dos iníquos sobre a possessão dos justos. Os justos não temem o pecado de
matar o inimigo de Cristo. O soldado de Cristo pode seguramente matar e mais
seguramente morrer. Quando morre, colhe proveito; quando mata, beneficia a Cristo”.
III. A igreja aprovou a queima de heréticos. IV. Ela aprovou manifestas deturpações das
Escrituras, aceitando ensino de líderes eclesiásticos e doutores da igreja. O cântico de
Salomão oferece um exemplo que dificilmente pode ser desmentido. Os escolásticos
nele encontraram descrições proféticas e explícitas da igreja cristã, que Bonifácio VIII e
outros papas adotaram. A esse respeito também erraram alguns protestantes, como
nosso teólogo de Boston, João Cotton; e Whitaker, p. 32, que julgou que podia provar
que o Cântico pertence ao cânon, em razão de que suas descrições tropicais teriam sido
“comparações prodigiosas e absurdas”, se Salomão houvesse desejado apenas louvar a
esposa; assim, deviam elas referir-se a outro Salomão e sua esposa mística. Há séculos
que a igreja sustenta que as Escrituras têm pelo menos, quatro sentidos. Contra a
“multiplicidade de sentidos”, defendida por Eck, de acordo com a teologia medieval,
Lutero sustentou “um claro e único sentido”, tendo sido acompanhado pelos outros
Reformadores.

A despeito dos fatos da história, é difícil compreender como podia o cardeal


Gibbons exclamar que “é muito estranhável que a Igreja Católica deva pedir desculpas
ao mundo por simplesmente declarar que ela diz a verdade, toda a verdade e coisa
alguma exceto a verdade!” Ele desafiou a quem citasse um único caso de erro. Lutero
escreveu a Leão X – ed. Weimar, VII: 86 – que o dogma da infalibilidade da igreja em
matéria de fé é uma fantasia. O dogma foi posto à margem pelos XXXIX Artigos,
quando estatuíram que, “como as igrejas de Jerusalém, Alexandria e Antioquia erraram,
assim também a igreja de Roma erra, não só em seus costumes e cerimônias, mas
também em matéria de fé”. Segundo se expressa a Confissão de Westminster, “as mais
puras igrejas debaixo do céu estão sujeitas à corrupção e ao erro”. Se a igreja fosse
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infalível, é impossível compreender porque os dogmas que dizem haver sete


sacramentos e ser o papa infalível, não fossem publicados antes de 1439 e 1870,
respectivamente. A infalibilidade reside nas escrituras e o guia infalível de sua
interpretação é o Espírito Santo. É missão do Espírito Santo guiar na verdade tanto
indivíduos, como grupos particulares de crentes, ou toda a igreja. Certas pessoas têm
conhecido individualmente mais do que Concílios. Algumas vezes temos “Atanásio
contra o mundo”. O critério final foi assim estabelecido pela Confissão de Westminster:
“A completa persuasão e certeza da verdade infalível da Escritura procede da obra
interior do Espírito Santo, testificando pela Palavra e com a Palavra em nossos
corações. Isto significa que o cristão, individualmente, buscando conhecer a verdade,
tem o soberano direito de orar, para que o Espírito Santo lhe ensine qual seja a verdade
divina.

§ 8. A igreja não é uma instituição salvadora.- O costume de chamar à


igreja “nossa mãe” e “nossa santa mãe”, facilmente engendra a superstição de que a ela
pertence real maternidade e que os cristãos são por ela gerados nas experiências
salvadoras, como os filhos são gerados pelos pais me relação ao mundo. As palavras de
Cipriano encorajaram a suposição de que a igreja fosse uma personalidade salvadora,
embora tivessem sido empregadas, indubitavelmente, em sentido figurado: “Ninguém
pode ter a deus por seu Pai, se não tiver a igreja por sua mãe. De seu ensino nascemos,
somos nutridos por seu leite, por seu espírito somos vivificados” – habere non potest
deum patrem qui eccles no habet matrem – de unit.5

Agostinho seguiu a mesma linha, quando falou da “mãe igreja que gerou
Abel e Enoc, Noé e Abraão, e também a Moisés e os profetas, os Apóstolos, Mártires e
todos os bons cristãos... A igreja que gerou Caim e Ismael e Esaú, é a mesma que gerou
Dotam e outros”. João Huss, em seu primeiro período, comentando as Sentenças de
Pedro Lombardo, p. 469, tratou a igreja como “nossa querida mãe e mãe digníssima dos
eleitos”, e recomendou “filial obediência ao pai e mãe, isto é, a Cristo e à Igreja”. O
Quarto Concílio Lateranense, citado por Leão XIII em sua encíclica sobre a Unidade da
Igreja, afirmou que “a igreja romana recebeu, por ordenança de Deus, superior
autoridade como mãe e mestra de todos os fiéis de Cristo” – e o mesmo Leão disse que
“os que desejam ser contados entre os filhos de Deus, devem ter a Cristo como seu
irmão e, ao mesmo tempo, a igreja como sua mãe” – Obras, VI: 179, 189. A profissão
Tridentina exige que os sacerdotes aceitem “a santa igreja Católica, apostólica e
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Romana como mãe e mestra de todas as igrejas”. Os Decretos Vaticanos aludem a


“filhos da igreja católica” e a “doutrinas que nossa santa mãe igreja ensina”. Tal
linguagem somente pode ser usada figuradamente. Paulo se refere a Timóteo e a Tito
como seus filhos e ao mesmo tempo alude a Tito como seu irmão, II cor. 2:13. Quando
João fala da “esposa do Cordeiro”, é claro que fala metaforicamente, porque
imediatamente a identificou como “a grande cidade que desce dos céus”. Se a igreja e o
Reino de Deus forem uma e a mesma coisa, o ser depois o Reino de Deus nossa mãe
será de evidente falsidade. Policarpo, escrevendo aos Filipenses, fala da “fé, que é a mãe
de todos nós”.

O perigo que há em usar-se do nome de “mãe”, em referência à igreja, foi


com frequência apontado por Wyclif e Huss.4 A despeito das explanações que fizeram,
o cardeal Sadolet, em sua Carta aos Genebrinos, convidando-os a regressarem ao
caminho antigo, escreveu que “a igreja nos regenerou para Deus – nos regeneravit – em
Cristo, sustenta-nos e confirma-nos, instrui-nos no tocante ao caminhoatravés do qual
podemos alcançar o céu, sobre o que pensar, em que por nossa esperança e em que se há
de crer”. Se o cardeal houvesse substituído a igreja pelo Espírito Santo, como agente
realizador daqueles frutos, teria falado como falaram os Apóstolos. Calvino tratou do
“título vão e falso – igreja”, e com os outros Reformadores mostrou a decepção a que o
espírito está exposto, quando a igreja é chamada “nossa mãe”, a ela atribuindo
qualidades fictícias e atributos que só pertencem ao próprio Deus. A igreja não concede
vida: concede-a Deus. As palavras de Cristo não foram “Ide à igreja e achareis
descanso”, mas “Vinde a mim e achareis descanso”. O Novo Testamento não se refere
ao cristão como nascido da igreja, mas nascido de Deus, da água e do espírito, de
semente incorruptível, pela Palavra de Deus e de cima – João 3:8; I João 4:7, 5:18; I
Ped. 1:23. Quando Paulo, escrevendo aos Coríntios, disse que os havia “gerado pelo
Evangelho”, e quando disse a Onésimo qe o havia “gerado em suas prisões”, pretendia
dizer que, mediante seu ensino e persuasão, havia conduzido aquelas pessoas a Cristo,
como André havia conduzido Pedro, seu irmão, ao mesmo Cristo. A igreja não salva.
Cristo é quem salva. A igreja é um sanatório em que os enfermos estão sendo curados
pelo grande Médico e pelas ministrações do Espírito Santo. Quando Cipriano disse - ep.
70: - “Tu crês na vida eterna e na remissão dos pecados através da santa igreja” – per
sanctam ecclesiam – realçou o meio comum pelo qual os homens são levados a Cristo e
edificados nele, mas não o único meio, sendo Paulo exemplo disto. Pela direção de uma
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só homem e através do estudo particular das páginas abertas da escritura, assim como
por meio dos serviços religiosos das igrejas, alguns homens foram escolhidos por Deus,
que os iluminou e os chamou das trevas espirituais para a luz. Foi uma voz interior que
levou Agostinho e Calvino à obediência de Cristo. Através do Espírito Santo, que opera
quando e como lhe apraz, alguns homens nasceram no Reino de Deus. O Senhor não
agregou “à igreja” os que estavam para ser salvos, como traz a Versão Autorizada –
Atos 2:47. – Ele agregou ao número dos crentes os que se iam salvando.

§ 9. As marcas da igreja.- As chamadas marcas da igreja, que se fizeram


famosas através do cardeal Belarmino, foram estampadas uns tantos sinais ou feições
pelos quais a verdadeira igreja, que é a comunhão romana, pode ser reconhecida.
Conforme foi elaborada pelo cardeal, a matéria comporá quinze capítulos. Por mais de
um século aquelas marcas constituíram objeto de muita controvérsia. Aqui são elas
resumidamente enumeradas, para demonstrar quão prontamente o grande controversista
tomou falsidades como fatos e quão facilmente deu crédito a correligionários fanáticos,
no tocante a milagres e santidade. O cardeal inicia sua exposição, reproduzindo as sete
marcas da igreja apresentadas por Lutero: - a pregação do Evangelho, a administração
adequada do batismo, a eucaristia, o legítimo uso das chaves, um ministério válido,
oração pública e cânticos em linguagem compreendida pelo povo, contrição interior
demonstrada por meio de obras exteriores.

Os quinze sinais do cardeal são os seguintes: 1. O nome “católico”. 2. A


antiguidade da igreja romana. 3. Sua existência ininterrupta a partir dos Apóstolos,
enquanto que os luteranos datam de 1517, os zwinglianos de 1525 e os calvinistas de
1538. $. Amplitude, isto é, o número de fiéis, abrangendo todos os lugares, todas as
nações, todas as raças. 5. Sua sucessão de bispos, desde os Apóstolos. 6. A harmonia
doutrinária de suas partes, contrastando com os Pelagianos, Arianos, Luteranos,
Calvinistas, Schwenckfeldianos e Puritanos, todos os quais – alega o cardeal – se têm
discordado entre si e uns dos outros. 7. Sua união e paz sob um chefe – o pontífice
romano. 8. Sua santidade de doutrina, não se encontrando nos credos romanos nada de
falso ou corrupto. Licurgo elogiou o adultério, Platão tomou medidas tendentes à posse
comum das mulheres, os Anabatistas permitiram ao homem desposar a irmã de sua
esposa. Os Calvinistas ensinaram a eleição separada da livre vontade e que Deus é autor
do pecado. “Nossa verdadeira igreja”, afirmava o cardeal, “não divulgava torpeza e
coisa alguma contra a razão”. 9. Eficiência para a conversão. Os hereges jamais
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converteram nenhum pagão ou judeu, embora muitos judeus vivam entre os protestantes
na Polônia e na Alemanha. O que todos os protestantes tem feito é levar os católicos à
indiferença. Se se objetar que os heréticos arianos converteram os godos, a resposta será
que aquilo não foi conversão, mas decepção miserável. 10. A santidade dos Padres
primitivos, que se fizeram gloriosos pela probidade no combate às heresias. De Simão
Mago para cá, os heréticos têm sido homens maus, com o vício do orgulho comum a
todos eles. Lutero, Henrique VIII, Calvino, eram maus. É verdade que, na igreja
católica, muitos também são maus, mas “entre os heréticos, não há nenhum que preste”
– nullus est bonus.

11. Na igreja romana constantemente estão sendo opreados milagres. Entre


as seitas faltam os poderes miraculosos. Em aparente contradição com este fato,
produziram-se milagres nos corpos dos heréticos, depois da morte destes. Lutero, por
exemplo, morreu no inverno e, embora seu corpo tivesse sido posto, com toda
segurança, num caixão, começou a exalar tais odores pestilentos, que ninguém foi capaz
de o transportar; e, os eu tentaram fazê-lo, foram forçados a soltar o caixão na estrada.
12. A profecia continua na verdadeira igreja. Lutero tentou predizer o futuro, mas em
vão. Narra Cochlaeus que em 1525 Lutero declarou que, se ele se entregasse à pregação
por dois anos mais, papas, cardeais, bispos, monges e missas deixariam de existir. Ele
pregou por vinte anos depois de ter feito sua profecia e, ao morrer, em 1546, papas e
cardeais ainda floresciam. 13. O testemunho de “nossos adversários”. Os maometanos
não honram a S. Francisco e o ariano Totila a S. Benedito? Não declarou Lutero que sob
o papado tem havido muitos homens bons cristãos e Calvino não considerou a S.
Bernardo escritor piedoso? E Bernardo era, todavia, papista.

14. A morte infeliz dos que se têm rebelado contra a verdadeira igreja.
Começando de muito longe, com Faraó e Jezabel, e não omitindo Herodes, Nero e
Domiciano, o cardeal fez especial menção dos hereges cristãos, desde Árius e Juliano o
Apóstata, para chegar finalmente no fim miserável dos Reformadores Protestantes.
Lutero, depois de ter jantado alegremente e gracejado com seus companheiros, morreu
naquela mesma noite. Zwinglio tombou em combate. Œcolampadius se recolheu ao
leito com saúde e na manhã seguinte foi encontrado morto. A morte de Carlstadt foi, se
possível, pior. Foi morto pelo diabo. Calvino foi devorado pelos vermes, após ter
invocado o demônio e proferido blasfêmias. 15. A felicidade temporal dos defensores da
fé. Aí outra vez a lista começa de longe, com Abraão e Moisés, e inclui os imperadores
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Constantino, Teodósio e Justiniano, embora – nota o cardeal – a felicidade de Justiniano


durasse apenas enquanto ele se conservou bom católico. Tornando-se herético, o
imperador foi desarraigado repentinamente. No cerco de Jerusalém, 1099, conquanto os
Cruzados não tivessem cavalos e muitos chefes fossem obrigados a cavalgar jumentos,
ele, todavia, venceram. Nos dias de Inocêncio III, oito mil heréticos foram mortos na
França, em uma só batalha. Os exércitos dos católicos suíços se bateram com os
protestantes em cinco recontros, e apesar de inferiores em número, sempre saíram
vitoriosos. Por milagre, Carlos V derrotou os luteranos em 1547. Na Gália e na Bélgica,
embora os hereges excedessem fartamente às forças católicas, foram todavia, batidos
num momento.

Passando os olhos naquelas marcas, a atenção do leitor é despertada pela


facilidade com que o controversista circunscreve sua memória histórica aos fatos
convenientes. Ele podia ter aberto um pouco mais os registros do passado. Podia ter-se
detido em face da morte de certos eclesiásticos católicos romanos, como João XII e
Alexandre VI, e dado alguma notícia de suas derradeiras horas. Em relação a vantagens
de guerra, ele podia ter recordado que em batalha após batalha os Cruzados foram
batidos e dezenas de milhares deles deixaram seus restos na Palestina ou na estrada que
leva a ela, , até que seus exércitos, profundamente dizimados pelos adversários, foram
forçados a abandonar por completo a empresa, em 1292. O cardeal podia ter contado
que Carlos V foi também estrondosamente derrotado e na tentativa naval de Filipe II, de
suprimir o regime de heresia na Inglaterra. Quanto ao ponto em que entra em cena a
morte dos Reformadores, seus derradeiros momentos nada têm de miserável, desde que
se leve em consideração o testemunho de pessoas presentes e d cidades inteiras.

§ 10. Conclusão.- Não há conceito que embrulhe tanto as relações entre


romanistas e protestantes, como o que se envolve na palavra igreja. Para o protestante, a
palavra significa todos os que crêem em Cristo como seu Salvador, pois que “a quantos
o receberam, deu-lhes o poder d se tornarem filhos de Deus” – João 1:12. Para o
romanista, a palavra significa, ora toda a comunidade como a Igreja Católica Romana;
ora a hierarquia, a quem, como a uma personalidade única, foi dado o poder de fixar os
dogmas de que depende a salvação e de dizer o que sejam os ensinos da Escritura. Em
aditamento, existe a fantasia de que a “igreja” confere bênçãos espirituais como mãe,
quando, na realidade, a igreja romana, como corporação integral, não significa senão “a
igreja docente”, isto é, a hierarquia. Se a maternidade for atribuída à hierarquia, negar-
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

se-á virtualmente a promessa da operação do Espírito Santo em cada crente. Clemente


XI, em sua bula – unigenitus – declarou falsa a definição segundo a qual a igreja nada
mais é do que a sociedade dos filhos de Deus – coetus filiorum dei – definindo ser ela
“uma personalidade única”, isto é, uma instituição tangível, separada da comunidade
dos crentes.

A igreja é, segundo o Novo Testamento, a família dos crentes. As notas ou


marcas pelas quais a verdadeira igreja se faz conhecida, são as marcas pelas quais se
revela o caráter cristão de cada indivíduo. A verdadeira igreja é toda a sociedade de
verdadeiros cristãos, na qual todos podem ser justos, ou podem ser alguns justos e
outros injustos. Em uma decisão sua, proferida em 1927, pronunciou-se deste modo a
Corte de Apelação de Nova York: “O reino de Cristo na terra é uma comunidade de
todo o corpo de pessoas fiéis a Cristo, tomadas coletivamente, todos os que estão
espiritualmente ligados a Cristo, como cabeça da Igreja”. A igreja é uma camaradagem,
uma combinação dos seguidores de Cristo, e não duas coisas – “a igreja docente” e “a
igreja crente”. O Anabatista Adam Pastor produziu uma bela definição ao dizer que
“onde existe a verdadeira fé, aí há novo nascimento; e onde há novo nascimento, aí está
a igreja”.

Bibliografia e Notas

1. Straub menciona oito atributos, 2: 590, a saber: visibilidade, unidade,


infalibilidade, santidade, apostolicidade, perpetuidade, catolicidade, necessidade. Em
relação à unidade, um bom anglo-católico como o dr. Gore, diz: “A unidade da igreja é,
na Escritura, uma unidade de vida interior, um fato invisível: nisto é que primeiramente
consiste sua unidade essencial” Roman. Cath. Claims, p. 30.

2. Erasmo, Lutero, etc. deram a interpretação de que o leitor não deve


depender de sua própria compreensão, mas do Espírito Santo: Bengel e Alford
interpretam que os profetas, predizendo eventos futuros, não falam pelo próprio cérebro,
mas do modo por que os eventos futuros lhes são interpretados pelo Espírito Santo.
Passando-se para a igreja romana, Newman, Apol. 189, escreveu: “Temos
demasiadamente grande horror ao princípio do juízo privado, para que nele confiemos
em assunto imenso, como o de mudar de uma para outra comunhão”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

3. Chillingworth observa que Agostinho se decidiu pela Bíblia contra os


Maniqueus, fundado na fama, celebridade, consenso e antiguidade. Clavino, Instt. 1:7 e
Ttracts p. 39, diz que “Agostinho não tinha intenção de diminuir nossa confiança nas
Escrituras em homenagem à igreja, mas somente observou que os ainda não iluminados
pelo Espírito de Deus se tornam capazes de ensino pelo respeito à igreja, e assim se
submetem à instrução de fé pelos Evangelhos”.

4. Wyclif escreveu que “quando o povo fala da igreja, ele quer significar o
papa e os cardeais” – de eccl., p. 99; Sel. Works, ed. Por Arnold 3:44, etc. Em sua
primitiva obra sobre o Decálogo – Flajshans ed., p. 19, - Huss afirmou que o Cristão
tem três mães; uma segundo a carne; uma espiritual, a igreja; e uma celestial, Maria. O
dr. Briggs, em sua Theol. Symbolics, constantemente chama à igreja “Nossa Mãe”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO XIV

O PAPADO

O PAPA COMO PRETENSO CABEÇA DA IGREJA VISÍVEL

Es ist ein Menschenfund, das Pappsthum da Gott nichts davon Weiss. O papado é uma
invenção do homem. Deus nada sabe a seu respeito. – Lutero. Grund und Ursach, 1521, ed.
Weimar, VII, 433

Ecclesiae quoniam deus in cathedra beati Petri centrum ac fundamentum esse statuit, júri
romana dicitur: ubi Petrus ibi ecclesia. Uma vez que Deus fez da cadeira de S. Pedro o
centro e alicerce de sua igreja, ela tem o direito de ser chamada romana, porque onde está
Pedro, aí está a igreja. – Leão XIII, Obras, VII, 232.

O pontífice romano e o Concílio Vaticano de 1870 baixaram uma definição


oficial do papado. De então para cá, tudo quanto puder ser dito da igreja, como
organismo dirigente e docente, pode ser dito do papa. Nele se concentra toda a
autoridade e poder da comunidade romana. É o pretenso cabeça da igreja, na terra e no
purgatório. É o sucessor de Pedro e o Vigário de Cristo – e é infalível na qualidade de
mestre. Todos os que deliberadamente repudiam aquelas definições, estão sob anátema
e não têm parte na economia da redenção. Os protestantes arguem que tais crenças não
têm apoio na escritura e estão em divergência com os fatos históricos, sendo que
algumas dentre elas derrogam a autoridade de Cristo, e vêm a ser, portanto, explícita
arrogância. Belarmino disse, em parte, a verdade, quando afirmou que “Martinho Lutero
e outros heréticos após ele tentaram com todas as forças, destruir o ofício pontifical
romano e demonstrar que o bispo romano fora, em certo tempo, um bispo como os
outros, sendo agora nada menos do que anticristo”. Numa discussão em torno do
papado, a instituição deve ser estudada sob três aspectos: o papa como pretenso cabeça
visível da igreja, como mestre infalível da verdade cristã e como soberano temporal. Em
todos aqueles misteres ele atua como vice-regente de Deus – assim se apregoa. A
soberania temporal será examinada sob o título – A Igreja e o Estado.

§ 1. As pretensões romanas.- Os mais altos tribunais romanos – Concílios


Gerais e papa – decretaram que o pontífice romano é o vice-regente de Deus na terra e o
chefe visível da igreja cristã. Que considerações podem ser formuladas em abono dessas
vastas pretensões, e que argumentos, se algum existe, podem ser levantados contra elas?
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

O pontífice romano baseia aquelas pretensões no fato de ele ser sucessor de S. Pedro, a
quem – assim se desenvolve o argumento reivindicatório – Cristo conferiu o encargo de
governar toda a igreja cristã. Isto é o que se entende pelo primado papal. O título de
papa se tornou privativo do bispo de Roma por decreto de Gregório VII, de 1073. O
título “Santo Padre” parece ser o preferido pelos católicos de língua inglesa. Os Padrões
Tridentinos tratam o papa como sucessor de S. Pedro, o vigário de Cristo, o santíssimo
pontífice romano, o sumo pontífice, nosso santíssimo senhor, o vigário do próprio Deus
na terra – ipsius dei in terris vicarius. Os mesmos títulos e outros mais foram usados
pelo Concílio de Ferrara, 1439. O ofício papal não foi definido em Trento. A lacuna foi
suprida pelo Catecismo Tridentino, nestas palavras: “Há um chefe e governador
invisível da igreja, Cristo, e um governador visível, que é o legítimo sucessor de Pedro.
Ele preside à igreja universal e é o pai de todos os fiéis, dos bispos e de todos os
prelados”. À entronização do papa, um diácono lhe coloca a tiara na cabeça, dizendo:
“Recebei a tiara com três coroas e reconhecei que sois o pai de príncipes e governador
de reis, verdadeiramente o vigário de nosso salvador, Jesus Cristo, sobre a terra”.1 O
arcebispo Dowlling, em seu discurso na consagração da catedral de S. Luiz, em junho
de 1926, chamou ao papa “grande padre branco da Cristandade”. Alguns católicos
romanos, como Schwertner, escrevem-lhe o título com inicial maiúscula. O título
usualmente empregado nas bulas papais é “Servo dos servos de Deus”.

O Concílio Vaticano proclamou que “o pontífice romano, como sucessor de


Pedro, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a igreja e o pai e o mestre de
todos os cristãos, a quem foi dada a autoridade de instruir, pastorear e governar a igreja
universal, autoridade a ele conferida por Jesus Cristo”. O Concílio afirmou que suas
definições seguiam o testemunho das escrituras e os explícitos decretos de papas
precedentes e dos Concílios Gerais. Ele dedicou quatro Constituições dogmáticas ao
primado de S. Pedro, à jurisdição do papa sobre toda a igreja e à infalibilidade papal.
Essas prerrogativas foram repisadamente reafirmadas por Leão XIII. Em sua bula sobre
a Unidade da Igreja, Leão disse que “Cristo queria que seu reino fosse um reino visível
– conspicuum regnum – e que por essa razão havia de designar alguém para presidir, na
terra, em seu lugar, depois que tivesse voltado aos lugares celestiais”. A regra
beneditina – cânon 218 – afirma que o pontífice romano não somente goza de uma
“primazia de honra, mas tem supremo e pleno poder de jurisdição sobre a igreja
universal, tanto em assuntos pertinentes à fé e à moral, como em matérias que
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pertencem ao governo e administração da igreja, em qualquer parte onde ela se espalhe,


através do mundo todo”. Entre as muitas referências feitas pelo Código, figuram a bula
de Martinho V contra Wyclif e Huss e a de Leão X contra Lutero.

Às definições da chefia de Pedro sobre a igreja, o Concílio Vaticano aduziu


dois anátemas: “Se alguém disser que Pedro não foi constituído príncipe de todos os
Apóstolos e chefe visível de toda a igreja militante, ou afirmar que Pedro só recebeu
diretamente de nosso Senhor Jesus Cristo um primado de honra e não d verdadeira e
real jurisdição, seja anátema”; ou se alguém “negar que, por divina instituição do
próprio Cristo, Pedro tenha sucessores perpétuos, ou que o pontífice romano seja seu
sucessor naquele primado, seja anátema”. A autoridade do papa não depende de escolha
ou assentimento humano. A igreja não o elege. Os cardeais, reunindo-se em conclave,
não o elegem. Eles o reconhecem ou o apontam como pontífice, como João Batista
apontou para Jesus como o Cordeiro de Deus. O bispo Gilmour, p. 254, continua a
ensinar que Pedro presidiu por oito anos em Antioquia e depois se transferiu para Roma,
ond fixou sua sede, e por vinte e cinco anos governou toda a igreja como bispo de
Roma. Pio VI, 1786, declarou ser heresia o afirmar-se que o pontífice romano deriva o
seu poder da igreja e não diretamente de Cristo, através da pessoa de S. Pedro – Vide
Straub, 1:375. Pio X, no Syllabus de 1907, condenou as proposições modernistas, de S.
Pedro nunca ter suspeitado de que havia recebido o primado sobre a igreja e que o
papado é uma elaboração histórica.

§ 2. As funções do papa.- AO pontífice romano pertence, segundo a teoria


romana, as seguintes funções: 1. É o juiz em todas as questões eclesiásticas, sendo que
ele próprio não está sujeito a nenhum tribunal humano. Todos os casos eclesiásticos
estão sujeitos à sua revisão e de sua sentença não se pode apelar. 2. É o supremo
administrador e despenseiro de todos os benefícios eclesiásticos e tem poder sobre todos
os cargos, para nomear e demitir titulares. Nas palavras do Código Beneditino, ele tem
“imediata autoridade episcopal sobre cada uma das igrejas e sobre a igreja em conjunto,
sobre cada bispo e sobre todos eles em massa, sobre todos os pastores – e é
independente de qualquer autoridade romana”. 3. Ele tem autoridade para nomear e
depor todos os bispos. Nos Estados Unidos é costume do arcebispo e bispos, com ou
sem sugestão do clero, enviarem a Roma, de quando em quando, uma lista de nomes,
dentre os quais possa o papa escolher ou deixar de escolher bispos, segundo lhe
aprouver. 4. É superior a Concílios Ecumênicos; convoca-os, preside a eles –
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diretamente ou através de legados – e pode transferir esses Concílios de um para outro


lugar, como fez Eugênio IV, relativamente ao Concílio de Basiléia, em 1438; ratifica
suas decisões e reserva-se o direito de interpretar o significado de seus decretos. Diz o
cardeal Belarmino – de conc. 2:17 – que “o papa é absolutamente superior a todos os
Concílios”.2 Pondo de lado o solene decreto do Concílio de Constança, o Quinto
Lateranense, 1516, afirmou aquela superioridade. 5. O papa nomeia os cardeais e os
legados junto às nações ou, como no caso dos Estados Unidos, um legado apostólico
junto às igrejas católicas romanas. 6. Ele tem o direito exclusivo de canonizar santos. 7.
Pode dispensar a observância “de qualquer voto, por mais solene e sagrado que seja”,
mesmo os votos irrevogáveis dos religiosos. 8. Pode abdicar por sua própria vontade,
mas não pode ser deposto. 9. Sua jurisdição se estende aos cismáticos e heréticos, a
todos por quem Cristo derramou seu sangue.3 Belarmino declarou que, embora os
heréticos e apóstatas estejam fora do rebanho em relação às bênçãos, todavia, em
matéria de penalidade – in poenalibus – estão ainda sujeitos ao papa. 10. O papa pode
depor os reis e príncipes, e desligar os súditos de sua obediência a eles. A outra
reivindicação, de jurisdição sobre toda a humanidade, feita no século XIV por escritores
como Alexandre Triumphus, não se acha claramente expressa em encíclicas papais,
embora possa ser inferida de fatos como, por exemplo, o de haver Leão XIII afirmado
que Pedro recebeu o direito de governar a todos os homens por quem Cristo derramou
seu sangue. O cardeal Gibbons nos assegura que todas as prerrogativas conferidas a
Pedro foram dadas aos papas, exceto o dom de milagres e a inspiração.

§ 3. O papado e a Bíblia.- O papado é uma concepção humana. As


Escrituras nada sabem a respeito dele. Duas passagens bíblicas, falsamente citadas em
abono daquela instituição, se encontram nas palavras de Cristo dirigidas a Pedro: - “Tu
és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela”; e: “pastoreia minhas ovelhas; pastoreia meus cordeiros” –
Mat. 16:18; João 21:15. As duas passagens se acham inscritas na base da cúpula da
basílica de S. Pedro em grandes letras douradas, que podem ser lidas do pavimento que
lhe fica por debaixo. Nenhuma passagem da Escritura tem dado causa a maiores
divergências de opinião e controvérsias do que Mat. 16:18. Para os romanistas, é a carta
magna do papado. Cristo havia perguntado a seus discípulos: “Quem dizeis que sou eu?
E Simão Pedro respondeu, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus,
respondendo, lhe disse: Bem-aventurado és, Simão Bar-jonas; porque não foi carne e
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sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus. Também te digo que tu és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e as portas do hades não
prevalecerão contra ela”. Que queria dizer Cristo, através da solene declaração: “sobre
esta pedra edificarei a minha igreja?” Quereria ele se referir a Pedro e que a igreja seria
fundada sobre Pedro, ou quereria ele dar a entender aquilo e ainda mais, isto é, que a
edificaria sobre Pedro e sobre os pretensos sucessores de Pedro, os pontífices romanos?
Por um lado, a passagem se torna mais difícil de interpretar pelo uso da palavra petra,
cognata de Pedro, no sentido de rocha; e, por outro lado, para os que sustentam o ponto
de vistaromanista, torna-se fácil, dado o uso daquela palavra. As interpretações que se
têm dado às palavras de nosso Senhor, são as seguintes:

1. A interpretação católica romana. – Pedro – Petrus – é a rocha – petra,


sobre a qual Cristo prometeu edificar sua igreja. Se Cristo tivesse pretendido usar de
linguagem inteiramente destituída de ambiguidade, não deixando dúvida sobre o que se
havia de entender acerca de Pedro, ele teria dito, como Wyclif e Huss há muito tempo
aventaram, “Tu és Pedro e sobre ti, a rocha, edificarei a minha igreja”.

2. A confissão de Pedro é a rocha.- Esta é a interpretação comumente


adotada pelos protestantes. É favorecida pela forma feminina da palavra grega – petra –
e especialmente pelo movimento da conversação como um todo, mantida por Cristo por
seus discípulos. Pedro havia dito: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Abençoando a
Pedro, Cristo declarou ser aquela confissão de sua divindade a pedra fundamental de sua
igreja. Isto está de acordo com a declaração habitual: “Quem quer que me confessar
diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai” e com as declarações dos
Apóstolos – como João: “Quem quer que confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus
estará nele e ele em Deus” – Mat. 10:22; I João 4:15.

3. O próprio Cristo é a rocha.- Esta foi a interpretação preferida por Santo


Agostinho e expressa em sua última obra, as Retratações, em que ele passa em revista
os escritos anteriores, corrigindo definições neles exaradas. A paráfrase de Agostinho
decorre nestes termos: “Tu és Pedro, teu nome significa pedra, e sobre a rocha, minha
própria pessoa divina, edificarei minha igreja, já que me confessaste como o Filho de
Deus”. Conquanto houvesse escolhido esta interpretação como a melhor, Agostinho
deixou a cargo de seus leitores o decidir se deviam encarar a Pedro ou a cristo como a
rocha. Segundo Melanchthon, Lutero sustentou em Leipzig que a rocha era Cristo.
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4. Pedro tipificava todos os cristãos.- Pedro foi tratado como tipo e exemplo
de todos os que, em qualquer tempo, confessem ser o Cristo o Filho de Deus. Todo
mortal que faça essa confissão, é uma rocha sobre que Cristo edifica sua igreja. Esta
opinião foi sustentada por Orígenes e, nos últimos tempos, por homens como Wyclif,
bispo Jewel e Isaac Barrow.

Os argumentos contra a interpretação romana, de ter sido Pedro indicado


como a rocha ou alicerce da igreja, são os seguintes:

1. Nas passagens paralelas – Mar. 8:29 e Luc. 9:20 – Cristo faz aos
discípulos a mesma pergunta referida por Mateus – “Quem dizeis que sou eu?” – a que
Pedro deu a resposta: “Tu és o Cristo”, como reproduzido por Marcos, ou “Tu és o
Cristo de Deus”, como registrado por Lucas. Com estas palavras, segundo ambos os
evangelistas, sustou-se a conversação. Se os Apóstolos e a igreja do primeiro século
tivessem tido a mais pequenina idéia de que Pedro houvesse sido nomeado chefe da
igreja, seria muito difícil desculpar a importante omissão, por parte dos dois
evangelistas, das palavras: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.
Marcos e Lucas não merecem ser chamados heréticos? A explicação dada por alguns
eruditos católicos romanos, de que Marcos, que estava provavelmente agindo como
porta-voz de Pedro, fora inspirado pela modéstia ao silenciar aquela circunstância, não
indicaria que Pedro não tivesse em alta conta o ofício a ele, por hipótese conferido.4

2. Em todos os lugares do Novo Testamento, com exceção, apenas, da


passagem de Mateus, o próprio Cristo é chamado a rocha, ou fundamento, ou pedra
angular da igreja. “Ninguém pode por outro fundamento – disse Paulo – senão o que foi
posto, que é Jesus Cristo” – I Cor. 3:11. Em parte alguma Pedro é chamado “alicerce”
da igreja. Os Apóstolos tinham sido instruídos pelo Velho Testamento a pensarem em
Deus como sendo a rocha. Em muitas passagens ocorrem expressões como esta: “O
Senhor é minha rocha e minha fortaleza” – e seria natural que Cristo seguisse tal uso. O
cardeal Belarmino julgou ter removido a dificuldade, colocando a questão neste pé:
“outro fundamento ninguém pode por além de Cristo, mas depois de Cristo está Pedro, e
a não ser através de Pedro, ninguém pode chegar até Cristo”.

3. Tudo quanto sabemos a respeito de Pedro, pel livro de Atos, se opõe à


teoria romana. Os doze discípulos designaram os sete diáconos. No sínodo de
Jerusalém, fala-se de Pedro como de um dos Apóstolos – 15:4, 14. Ele não tentou
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perdoar pecados e recusou adoração – 8:22; 10:25. Do mesmo modo as Epístolas de S.


Pedro nada revelam do espírito de alguém que estivesse cônscio de ser chefe da igreja.
Pedro fala de Cristo como da “pedra angular” e dos cristãos, indistintamente, como
“pedras vivas”, e de si mesmo como “co-presbítero” – I Ped. 2:5; 5:1.

4. O título “cabeça da igreja” é usado certo número de vezes por Paulo em


suas cartas aos Efésios e Colossenses, sendo invariavelmente aplicado a Cristo.

5. No Novo Testamento os Apóstolos se associam como iguais em


autoridade. Nenhuma distinção foi feita em favor de Pedro, quando lhes foi dada a
ordem de irem por todo o mundo, pregando o Evangelho – Mat. 28:19. Segundo Paulo,
I. Cor. 12:28, “Deus estabeleceu alguns na igreja: primeiramente, os apóstolos; em
segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, doutores”. Se tivesse sido conferida a
primazia a Pedro, seria natural que Paulo dissesse: “Deus estabeleceu alguns na igreja:
primeiro Pedro; depois, os Apóstolos...” Quando Pedro e João foram a Samaria, não
partiram por sua própria deliberação: foram “enviados pelos Apóstolos” – Atos 8:14.
Nenhuma precedência se dá a Pedro entre os nomes dos doze Apóstolos, representados
como esculpidos nos doze fundamentos da Nova Jerusalém – Apoc. 21:14.

6. A posição de Paulo na igreja desmente a teoria de que alguém estivesse


acima dele, a não ser Cristo. Se Paulo alguma vez ouviu dizer que Pedro fora designado
por Cristo como cabeça da igreja, ele não só deliberadamente deixou de tomar
conhecimento desse fato, mas o desmentiu. Os cristãos – escreveu ele – são “edificados
sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, sendo a principal pedra angular o próprio
Cristo Jesus” – Efe. 2:20. Insistiu em sua própria comissão independente como
Apóstolo dos Gentios, enquanto que a Pedro fora confiado o apostolado da Circuncisão
– Gal. 2:7. Em relação à igreja de Roma, se Pedro alguma vez se relacionou com ela, o
Novo Testamento não julgou tal relação de suficiente importância para a mencionar
explicitamente. A carta aos cristãos romanos foi escrita por Paulo. Paulo pregou em
Roma, escreveu cartas de Roma e em Roma fez conversos, como Onésimo. Da mesma
sorte, em lugar de dizer que o cuidado de todas as igrejas pesava sobre si, teria
modificado o modo de se expressar, se qualquer autoridade humana, superior a ele,
houvesse sido outorgada a primazia na igreja. Ademais, Paulo resistiu a Pedro num dos
períodos mais críticos da igreja apostólica, quando se levantou a questão sobre se os
gentios deviam ser recebidos na igreja mediante profissão de sua fé em Cristo, ou
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somente depois de terem cumprido o ritual mosaico, como Pedro afirmava. No Novo
Testamento ninguém é exortado a confiar em Pedro ou a ir a Pedro para ter as palavras
de vida. Quando Paulo falou dos partidos em Corinto – I Cor. 1:12 – tratando-se cada
qual pelo nome do próprio Paulo e pelos nomes de Pedro, Apolo e Cristo, o Apóstolo
deu todo destaque a Cristo, como é natural inferir, reduzindo à paridade os três obreiros
apostólicos.

7. Pedro se assentou nos bancos, no único Concílio da igreja referido como


tendo tido lugar nos tempos apostólicos – o Concílio reunido em Jerusalém, no ano 51.
Tiago foi o presidente – Atos 15:13. Por que Pedro o não presidiu, se fora constituído
chefe da igreja? No que se refere a João, não é concebível que ele se subordinasse a
qualquer outro Apóstolo, no cuidar das sete igrejas da Ásia.

8. As interpretações de Mat. 16:18, dadas pelos Padres, foram


eminentemente contrárias à opinião de que Pedro tivesse tido preeminência entre os
Apóstolos. Conforme foram catalogadas pelo dr. Kenrick, arcebispo católico de S. Luiz,
num discurso composto para ser pronunciado no Concílio do Vaticano, aquelas
interpretações se agrupavam como se segue: 1. A interpretação de que Pedro seja a
rocha foi dada por dezessete Padres, incluindo Cipriano, Leão o Grande, Jerônimo,
Agostinho; 2. Que todo o colégio apostólico seja a rocha, foi admitido por oito padres,
entre eles Orígenes, Cipriano, Jerônimo e Agostinho; 3. Que a confissão da divindade
de Cristo, feita por Pedro, fosse a rocha, por quarenta e quatro Padres, contando-se entre
estes Gregório de Nissa, Crisóstomo, Hilário, Ambrósio e Agostinho; 4. Que fosse o
próprio Cristo, dezesseis Padres, inclusive Agostinho; 5. Todos os cristãos que
confessem ser Cristo o Filho de Deus. Baseado nessa lista, o arcebispo passa a dizer:
“Se seguirmos os Padres, um argumento de mesquinha probabilidade se pode retirar das
palavras de Mat. 16:18, em abono do primado do bispo romano. Se nos limitarmos a
seguir a maioria dos Padres nesse negócio, então seremos constrangidos a admitir que
pela pedra deve ser entendida a fé professada por Pedro, e não sua profissão de fé”.
Aquela classificação prova ser inteiramente falsa a conclusão de Belarmino, de que “o
consenso de toda a igreja, os Padres latinos e gregos”, interpretaram como referente a
Pedro o que se lê em Mat. 16:18.

A carreira de Pedro após a ascensão, conforme vem traçada no Novo


Testamento, foi esta: durante os primeiros anos, Pedro teve lugar de proeminência entre
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os Apóstolos, mas não de superioridade oficial. Presidiu no cenáculo e falou à multidão


no dia de Pentecoste. Juntamente com João, saiu de Jerusalém para observar a obra em
Samaria. Recebeu a mensagem no eirado, em Jope. Daí por diante, Pedro deixou de ser
a principal personagem nas atividades da igreja. Novo período se abriu com o
apostolado de Paulo – e dois terços do livro de Atos se ocupam de suas experiências e
de sua carreira. Podemos, portanto, dizer com Lutero: “é claro como a luz do dia que,
pelo Novo Testamento, Pedro foi um pescador e um Apóstolo; mas não há uma palavra
que indique que ele houvesse sido posto como chefe de todas as igrejas do mundo” –
Grund und Urasch, p. 409.

Para sustentar a teoria romana de que Cristo dispusera, através de Pedro,


uma chefia perpétua da igreja visível, com sede em Roma, dois fatos seriam
necessários: 1) Que Pedro fosse instruído no sentido de transferir seu ofício a um
sucessor; e 2) Que ele efetivamente houvesse nomeado um sucessor. Para nenhuma
dessas hipóteses existe a mais esbatida insinuação no Novo Testamento ou nos escritos
dos primeiros 150 anos de nossa era. Paulo encarregou a Tito e Timóteo de certas
funções e nomeou oficiais por onde quer que estabeleceu igrejas. De Pedro nenhum
caso semelhante se referiu, antes que várias gerações de obreiros cristãos tivessem
passado. Levanta-se dúvida sobre se Pedro jamais esteve em Roma. Uma única
referência feita no Novo Testamento possivelmente associa o nome do Apóstolo com o
da cidade máxima, e vem a ser o fato de Pedro enviar saudações, em sua primeira carta,
da “igreja que está em Babilônia” – I Ped. 5:13. A cidade sobre o Tibre é chamada
Babilônia no livro de Apocalipse, mas é coisa duvidosa se Pedro teria escrito sua carta
dali ou da Babilônia sobre o Eufrates. Por outro lado, a declaração de Calvino coloca a
questão em repouso, no que concerne aos protestantes, ao dizer que: “Eu não insisto em
discutir o fato do martírio de Pedro em Roma, que é unanimemente atestado por todos
os historiadores” – Inst. 4:6. A permanência e o martírio de Pedro na capital imperial
são atestados por escritores da igreja de período muito primitivo. Nenhuma voz
discordante chegou até nós. Pedro e Paulo são invariavelmente associados como tendo
juntamente “plantado” a congregação romana. Cerca do ano 100, Clemente de Roma,
falando do fato de terem eles sofrido e ido “para o designado lugar de glória”, mui
provavelmente quis significar que Pedro padeceu como mártir em Roma, como
aconteceu com Paulo. Cinco ou dez anos depois, em sua carta endereçada aos romanos,
Inácio referiu que os dois Apóstolos instruíram a igreja romana. Cerca de 170, Dionísio
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de Corinto fala deles como tendo “plantado” a igreja romana. Um pouco depois,
segundo Caius, o túmulo dos dois Apóstolos era mostrado na cidade. A partir daquele
tempo, são contínuos os testemunhos de que Pedro e Paulo juntamente pregaram na
cidade e ali morreram. Muito antes de Pedro ou Paulo ter ido a Roma, a igreja romana
tinha sido provavelmente fundada por alguns dos “moradores de Roma”, presentes em
Jerusalém no dia de Pentecoste – Atos 2:10. Quando Paulo chegou à Itália, foram a seu
encontro irmãos cristãos da cidade. Em 58, quando Paulo escreveu aos cristãos
romanos, a igreja era tão forte, que ele podia afirmar que sua fé era divulgada em todo o
mundo – Rom. 1:8. É difícil aceitar a declaração de Paulo, de que não era seu costume
construir sobre fundamento alheio – Rom. 15:21 – se Pedro na ocasião estivesse dando
começo à igreja romana. Pedro foi bispo de Roma? Quando muito, Pedro e Paulo
exerceram em Roma igual autoridade. Escrevendo cerca de 180, Ireneu, que se refere à
igreja de Roma como tendo sido fundada pelos “dois mui gloriosos Apóstolos Pedro e
Paulo”, também fala de uma “sucessão de bispos”, remontando ao tempo deles, quando
Pedro e Paulo transmitiram a Lino a administração daquela igreja. Lino recebeu sua
investidura – assim Ireneu expressamente declara – não de um, mas de ambos os
Apóstolos. Trinta ou quarenta anos mais tarde, Tertuliano fez diversa afirmativa,
dizendo que Pedro nomeara clemente para seu sucessor, como João havia nomeado a
Policarpo em Smirna. Os três primeiros oficiais da igreja romana, após os Apóstolos,
Lino, Anacleto e Clemente, conforme são citados por aqueles dois autores e pelo
catálogo Liberiano, são colocados em diferentes posições, sendo ora um, ora outro,
posto em primeiro lugar, na sucessão. Em vista de tal discrepância, Lepsius e outros
eruditos alvitraram que aqueles homens fossem administradores contemporâneos ou co-
presbíteros da igreja romana.

Pelo ano 400 ocorre uma tradição uniforme que, segundo foi transmitida por
Jerônimo, asism rezava: “Simão Pedro, depois de ter sido bispo de Antioquia, foi para
Roma no segundo ano do reinado de Cláudio, e ali ocupou a cadeira sacerdotal –
cathedra sacerdotalem – por vinte e cinco anos, até o último ano do reinado de Nero,
sob quem foi crucificado com a cabeça para baixo, dizendo que não era digno de ser
crucificado pelo modo por que o Senhor fora”. A parte da tradição segundo a qual Pedro
foi bispo de Roma por vinte e cinco anos, é repudiada pelos estudiosos, como
incompatível com as atividades de Pedro, reveladas no Novo Testamento. A opinião
que se formou e que prevaleceu por séculos, de que nenhum papa poderia exceder ao
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pretenso período pontifício de Pedro, foi desmentida por Pio IX, que reinou por mais de
trinta anos – 1846 a 1878, e por Leão XIII, que reinou alguns meses além de um quarto
de século – 1878 a 1903. Em vista do testemunho histórico, que concorda em associar
Pedro e Paulo como fundadores da igreja romana, o máximo que se pode dizer é que
Pedro foi o chefe reconhecido da facção judaizante da igreja romana, opinião a favor da
qual a declaração contida nos últimos versículos de Atos pode, por inferência, ser
citada. Em 1647, Inocêncio X condenou como heresia a opinião que coloca Pedro e
Paulo no mesmo pé de igualdade e “não subordina Paulo a Pedro na escala do supremo
governo da igreja universal”.

§ 4. O papado – instituição humana.- Os testemunhos históricos são


contrários à suposição de ser o papado de ordenação divina. A instituição foi o
desenvolvimento gradual resultante, em parte, das aspirações humanas dos bispos
romanos, e, em parte, de sua importância, derivada da posição de Roma como capital do
império, da importância da condição de membro da congregação romana e do fato de
Roma possuir os túmulos de Pedro e Paulo. No primeiro estágio, o bispo romano tinha
jurisdição igual à dos outros bispos; no segundo, tinha primazia de honra, concedida
pelas igrejas do Oriente; e, finalmente, o bispo de Roma usurpou a primazia de
jurisdição sobre o Ocidente e reivindicou essa primazia em relação a todo o mundo
cristão. Leão I, papa dos meados do quinto século, foi o principal arquiteto da idéia
papal, de que o bispo romano é, por designação divina, o chefe da cristandade,
derivando a pretensão das palavras que Cristo dirigiu a Pedro e registradas no
Evangelho de Mateus. As considerações retiradas da história, provando que a teoria e o
ofício resultaram de elaboração gradual, são as seguintes: desde o princípio as igrejas do
Oriente repudiaram a pretensão do bispo romano. Em segundo lugar, os primitivos
escritores cristãos deram realce à comunidade romana e não a seu oficial dirigente.
Escrevendo à igreja romana, Inácio dirigiu sua carta, não ao bispo de Roma, mas “aos
romanos”. Ele falou da igreja romana e não de sua pretensa cabeça, como exercendo a
presidência na terra dos romanos, que ele chamou “uma presidência de amor”. Em
terceiro lugar, as decisões do bispo romano eram tratadas como juízos de um igual e não
de um superior.

Quando Policarpo visitou Roma, a fim de conversar com Aniceto acerca da


data da Páscoa, aquele não se submeteu às suas opiniões como às de um superior; mas,
voltando ao Oriente, continuou a observar a Páscoa da maneira por que o fazia dantes.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

O primeiro escritor do Ocidente a atribuir certa superioridade eclesiástica à igreja


romana, foi Ireneu, que se referiu a ela como “a igreja maior e mais antiga”. O escritor
acrescentou significativamente que, em vista de sua mais poderosa localização – propter
potentiorem principalitatem – era conveniente que cada igreja estivesse de acordo com
ela. Em quarto lugar, se o bispo romano estivesse cônscio de estar colocado na chefia do
mundo cristão, é legítimo supor-se que ele desde o começo tivesse feito valer sua
autoridade. Por mais de um século após a morte de Pedro, não há evidência de que o
bispo de Roma tivesse tido tal idéia. O único documento produzido em Roma nesse
período, foi a carta de Clemente aos Coríntios, cerca do ano 100, e Clemente não dá
nenhum sinal de que tivesse sido nomeado por Pedro para seu sucessor, mas,
inconsciente de qualquer autoridade episcopal superior, não escreveu em seu próprio
nome, mas em nome da congregação romana. O mais antigo documento oriundo de
Roma e tendo tom de superioridade, veio de Vítor, 189-198, que ameaçou de excluir da
comunhão cristã as igrejas do Oriente, por persistirem em seu costume de celebrar a
páscoa no dia 14 do mês de Nisan. Longe de submeter-se a essa pretensão, Polícrates,
bispo de Éfeso, afirmou sua livre autoridade, replicando a Vítor que ele pertencia a uma
família que havia dado oito bispos à igreja e que Vítor não o podia atemorizar com suas
ameaças.

Até cerca de 220, conforme registrou Tertuliano, as palavras dirigidas a


Pedro – Mat. 16:18 – não foram utilizadas pelo bispo romano. O do Norte da África
repudiou a pretensão de Calixto e o repreendeu por ter ousado falar como somente um
pontífice máximo romano e pagão podia ter falado, e como se fora bispo dos bispos!
Quando Calixto se estribou em Mat. 16:18 – continua Tertuliano – ele deu provas de ser
um usurpador. A autoridade que cristo havia conferido a Pedro, ele lha conferira
individualmente e somente em sua capacidade individual. Trinta anos depois de Calixto,
a pretensão de Roma ameaçou dividir a igreja do Ocidente, quando Estêvão I – 255-257
– e Cipriano de Cartago tiveram acalorado debate sobre a validade do batismo herético.
Os legados que Cipriano enviou a Roma para sustentarem sua causa, rejeitaram os
pontos de vista e a autoridade de Estêvão; mas antes que eles de novo alcançassem, de
regresso, Cartago, Cipriano morreu. A teoria do grande clérigo norte-africano, acerca do
episcopado, era de que cada bispo é soberano em sua própria diocese, enquanto
simultaneamente concedia ao bispo romano uma primazia de respeito ou dignidade, mas
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

não de ordem e autoridade. O que teria acontecido, se Cipriano tivesse vivido tivesse
vivido e recebido seus legados, é matéria digna de conjecturas.5

De igual modo, Concílios Ecumênicos houve que não só desconheceram a


primazia romana, mas agiram segundo princípio diverso. Em Nicéia, 325, foi
reconhecida aos bispos de Alexandria e Antioquia jurisdição sobre suas províncias, tal
como a que o bispo de Roma exercia sobre a província romana. O reconhecimento, por
parte de Concílios, da autoridade romana, começou pelo ato do Sínodo de Sárdis, 343,
que deu ao bispo de Roma, Júlio, certa jurisdição de apelação, no aprovar os bispos
eleitos, mas o Sínodo foi uma assembleia partidária, composta de clérigos ocidentais, e
a decisão não se impunha com força de regra geral. Mais tarde, por conveniência
política ou por um pouco de ignorância, foi que o papa Zózimo, 417, citou o decreto
sardicano como se tivesse sido ato do Concílio de Nicéia. Pelo final do quarto século, o
mundo cristão estava dividido entre os cinco patriarcas de Antioquia, Alexandria,
Jerusalém, Constantinopla e Roma. Os patriarcas de Roma e Constantinopla tornaram-
se rivais, em razão da importância adquirida por Constantinopla como capital do
império. O Concílio de Calcedônia, 451, baseado naquele fato, em seu cânon 28º.
Concedeu ao patriarca da “nova Roma” prerrogativas iguais – ipsa presbeia – às
concedidas ao patriarca da velha Roma. Esse cânon, que os representantes papais se
recusaram a assinar, ocasionou o protesto feito por Leão I, no qual explicitamente fez
derivar a prerrogativa da sé romana das palavras de Cristo – Mat. 16:18. A primazia do
bispo de Roma – escreveu Leão – repousava, não sobre a importância política da mesma
Roma, mas sobre divina ordenação; o bispo de Roma é o primaz de todos os bispos –
primus omnium episcoporum – e a ele pertence a plenitude do poder – plenitudo
potestatis. Como Cristo dera força a Pedro, assim a Pedro competia dar força a seus
companheiros de apostolado. A resistência à pretendida autoridade de Roma, Leão
ousadamente a qualificou como sendo “perversa e inaudita manifestação de orgulho e
seguro caminho do inferno”. E exortou a Anatólio de Constantinopla a abandonar sua
ambição e a contentar-se com o que legalmente possuía, para que não perdesse a coroa.
O prestígio e o poder das igrejas do Oriente ficaram grandemente reduzidos com a
conquista maometana. Alexandria e Jerusalém caíram em 636-639, e seus bispos apenas
conservaram um simulacro de autoridade. Antioquia, o terceiro patriarcado antigo do
Oriente, desapareceu antes de se encerrar o drama das Cruzadas. Em face do silêncio
dos primitivos Padres cristãos ou de seu positivo repúdio do primado governamental do
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

pontífice romano, das declarações explícitas de Concílios Ecumênicos e da atitude hostil


de toda a igreja oriental, mantida desde o começo, Leão XIII – Obras, VI:179 – ousou
ainda asseverar que “o consenso da antiguidade reconheceu, sem a menor dúvida, em
todos os tempos, os bispos romanos como os sucessores legais de S. Pedro”, passando
depois a proclamar os direitos monárquicos da sé papal.

§ 5. Maquinações em favor do papado.- Às causas naturais que


favoreceram a primazia romana, foram adicionadas deliberadamente corrupções de
antigos documentos históricos e maquinações, pelas mãos de ocidentais, de novos
documentos, para que se exaltasse o bispo de Roma. A obra de Cipriano sobre a
Unidade da Igreja sofreu interpolação de afirmativas tais como: “a primazia foi dada a
S. Pedro para mostrar a unidade da igreja de Cristo” e “como pode haver alguém que,
negando que Cristo fundou a sé de Pedro, sobre a qual a igreja repousa, acredite estar na
igreja?” O cânon niceno, reconhecendo a paridade de jurisdição de Alexandria,
Antioquia e Roma, cada qual em seu próprio território, apareceu na tradução latina com
o título: - “Roma sempre teve o primado” – Roma semper primatum habuit. A frase de
Agostinho – causa finita est – a causa está decidida, foi mudada para: Roma locuta est;
causa finita est: Roma falou, decidiu-se a causa, e foi assim citada no Manual de
Catecismo de Pio X, p. 210. Agostinho falava da decisão de dois sínodos africanos,
sobre Pelágio, a qual havia sido enviada à “sé apostólica”. Suas palavas se referiam à
resposta recebida e, conquanto tivessem demonstrado grande respeito à sé romana, não
definiram um princípio, como a invencionice teve em vista fazer que procedesse de
Agostinho. As referidas palavras são estas: causa finita est, utinam aliquando finiatur
error! A causa está decidida. Oh! Que o erro também tenha fim! Se Agostinho tivesse
encarado os bispos de Roma como chefes da igreja, não teria dado preferência à
interpretação de Mat. 16:18, nos termos em que elucidou a passagem em suas últimas
obras.

A mais audaciosa manipulação e, se levarmos em conta suas consequências


perniciosas, a mais influente fraude documental da história, foram as Decretais
Isidorianas, que apareceram cerca de 853 e foram utilizadas por Nicolau I em seu debate
com Hincmar, o recalcitrante arcebispo de Rheims. As Decretais se incorporaram ao
Direito canônico e por 600 anos continuaram a ser usadas como a prova máxima da
supremacia papal sobre a igreja e o Estado. Segundo o pseudo-Isidoro, a sé romana é “a
cabeça, coração, mãe e cúpula de todas as igrejas” e não está sujeita a tribunal algum. A
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

mais conhecida porção do documento espúrio consiste na pretensa “doação de


Constantino”, pela qual o imperador, segundo se dizia, teria concedido ao bispo romano
a supremacia sobre todo o Ocidente. Quando o documento primeiro apareceu, como os
bispos galicanos sustentassem que ele não era antigo, Nicolau lhe defendeu a
autenticidade, assegurando que a obra tinha sido inviolavelmente preservada nos
arquivos da igreja romana e que as forjadas decretais dos pontífices romanos, que ela
continha, eram genuínas.

A fábula isidoriana foi primeiro denunciada por Laurentius Valla, no século


XV; e quando Lutero se pôs a par do escândalo, através da tradução de Hutten,
escreveu: “Justos céus! Que escuridão e iniquidade há em Roma! É para se admirar dos
juízos de Deus, que tais mentiras sem autenticidade, grosseiras, deslavadas,
prevalecessem por tantos séculos e fossem incorporadas ao Direito Canônico e, para que
não faltasse nenhum requinte de horror, se transformassem em artigos de fé!”
Belarmino, no século XVI, continuou a defender a Isidoro.6 Trezentos ou quatrocentos
anos após a invenção, outra maquinação foi colocada por Urbano IV nas mãos de
Tomaz de Aquino, que a incluiu em seu tratado “Contra os erros dos gregos”. Mediante
citações apócrifas dos Concílios gregos, dos Cirilos de Alexandria e d Jerusalém e de
outros Padres, o inventor estabeleceu que não houve tempo em que deixasse de ser
reconhecida a monarquia papal. Duas gerações após a morte de Tomaz, Martin de
Troppau, escrevendo a instâncias de Clemente V, falsificou a história para provar a
supremacia dos papas sobre os príncipes. Dollinger proclamou o livro de Martin como
sendo o mais amplamente divulgado, a obra histórica mais mentirosa e mais fabulosa da
Idade Média.

§ 6. O papado medieval e a Reforma.- A teoria de ser o bispo romano


chefe visível de toda a igreja e também soberano dos reis e préincipes, foi plenamente
desenvolvida na Idade Média, embora a tivesse repudiado Gregório I, 590-603. Este
bispo romano declarou ser o título “bispo universal” – uma expressão viciosa e um
título gerado do orgulho – nefandum elationis vocabulam... superbiæ appelatinis – e se
recusou a permitir que ela lhe fosse aplicada. Um dos sucessores imediatos de Gregório
adotou o título. Interferindo nos negócios da diocese de Constantinopla e anulando atos
do arcebispo Hincmar, Nicolau I efetivamente assegurou o primado sobre a Igreja. A
segunda pretensão, de superioridade em negócios seculares, foi reivindicada pelos
grandes sucessores de Nicolau – Gregório VII, 1073-85; Alexandre III, 1159-81; e
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Inocêncio III, 1198-1216. Finalmente, a teoria logrou definição teológica por parte de
Tomaz de Aquino. Em vão se opuseram à parte política da teoria Frederico Barbarroxa
e outros imperadores. A seguir, a teoria do papado, de cercer soberania sobre a igreja,
foi atacada por Marcílio de Pádua e outros escritores. Wyclif declarou que, “embora
reputado vigário de Cristo, o bispo de Roma podia ser um demônio, o homem do
pecado, ou mesmo vigário-mor do maligno”. Chamou a Gregório XI “terrível demônio”
– de eccl. 366, e ridicularizou o título, tratando-o como “a santa novidade”. Em vista
dos escândalos do cisma papal, Wyclif chegou ao ponto de dizer que era venenoso o
próprio ofício papal – totum papale officium venonosum, nenhum papa havendo entre os
predestinados. Um dos dezenove artigos dos wiclifeanos, que Gregório XI condenou,
foi a afirmativa de que todos os homens combinados não tinham poder para conceder a
Pedro autoridade universal. Huss acusou os doutores de tratarem o pontífice romano
como a quarta pessoa da trindade e colocarem-no em paridade com o Espírito Santo.
Ockham havia considerado o papado como de ordenação humana – ex humana
ordinatione – e não essencial à igreja.

Lutero a princípio limitou seus ataques à pompa mundana do papa e suas


falsas pretensões que, dizia ele, concordam tanto com o governo dos Apóstolos como
Lúcifer com Cristo, o inferno com o céu, a noite com o dia. Até o fim do ano de 1519,
ele continuou a encarar o papa como o supremo dignitário da Cristandade. Começou a
falar de modo diferente em sua Carta à Nobreza Alemã, 1520, em que rejeitou as
pretensões do papa, de ser o único intérprete da Escritura e a única autoridade idônea
para convocar concílios. Naquele mesmo tempo – 15 de jnho de 1520 – Leão X
afirmava que o pontífice romano é o vigário de Cristo, revestido de autoridade universal
sobre as igrejas – super omnes totius mundi ecclesias. Três anos antes, Prierias, em sua
réplica às Teses de Lutero, havia proclamado a posição do papa, segundo a qual a igreja
universal, um Concílio Geral e o papa não podem errar.

Após ter lido a denúncia de Valla, da falsificação isidoriana, Lutero aludiu,


por escrito, à “tirania do anticristo romano, que estava destruindo as almas de todo o
mundo”. Desde então ele fala do papa com bondosa familiaridade, como o homem trata
a seu igual, ou lida com ele através de alusões cortantes. O bispo Jewel avançou tanto
como Lutero no desacreditar as pretensões papais, escrevendo: - Apol. 60 – “O papa é o
rei do orgulho, Lúcifer, que se exaltou acima de seus irmãos, e é o precursor do
anticristo”. Lutero não teria sido Lutero, se se tivesse docilmente prestado a ser tratado
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

por Leão X como “outro Porfírio” e se tivesse evitado a excomunhão à custa de se


rtratar de tudo quanto havia dito, como a bula de Leão insinuava que fizesse. Em sua
última investida contra o papado, 1545, Lutero falou “do papado diabólico, a última das
desgraças da terra, pior do que o que todos os demônios possam fazer com seu poder”.
Estas palavras, que eram grosseiras e cortantes, precisam ser julgadas não somente à luz
do tratamento que o monge recebeu de Leão X, mas à luz das corrupções que
continuaram a ser praticadas no Vaticano pelos sucessores de Leão, Clemente VII e
Paulo III, e de seus esforços para atearem as chamas da guerra e da sangueira na
Alemanha.

Os outros reformadores foram tão severos na condenação do conceito papal


quanto o foi Lutero. Calvino tratou o papa de “anticristo romano, príncipe de toda
apostasia”, e se referiu a Paulo III, pontífice de seu tempo, como o insensato que se não
vexava de comparar-se a Moisés e Aarão. “Não tendes maior semelhança com Pedro –
assim escreveu Calvino – do que a tendes com qualquer Nero, Calígula ou Domiciano”.
Também aludiu a Paulo III como “cão impuro, cujo ladrar só havia de parar com
pauladas e pedradas, ao invés de com palavras”. Tyndale e o bispo Hooper chamaram
ao papa anticristo e falaram de Roma como a prostituta de Babilônia. O primeiro livro
inglês de Oração Comum continha a petição: “Da tirania do bispo de Roma e de todas
as suas detestáveis extravagâncias, livra-nos, Bom Senhor”. O prefácio da versão bíblica
do rei Tiago, 1611, fala do pontífice romano como – “o homem do pecado”. O título de
anticristo também foi usado nos Artigos de Schmalkald, nos Artigos Irlandeses de 1615,
na Confissão de Westminster e em outros credos protestantes. Em sua forma ortogonal,
o documento de Westminster declara: “Não há outro chefe da igreja senão o Senhor
Jesus Cristo, nem pode o papa de Roma ser, em nenhum sentido, cabeça dela, mas é
aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição, que a si mesmo se exalta
na igreja, contra Cristo e tudo que se chama Deus”.

§ 7. Argumentos extra-bíblicos em abono da primazia papal.- Os


escritores romanos tomaram o encargo de fazer a apologia da primazia papal,
descobrindo sua razoabilidade com analogias retiradas de corporações seculares. Leão
XIII colocou a questão neste terreno – Obras, 6:174: “Nenhuma sociedade perfeita se
pode conceber, que não seja governada por alguma autoridade suprema. Cristo exerce a
magistratura suprema da igreja, ao qual toda a corporação de cristãos deve obedecer.
Por esta razão, para que haja unidade da igreja, sendo ela um organismo perfeito, a
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

unidade de administração é exigida por ordenação divina, para o fim de realizar a


unidade social da igreja e aperfeiçoar tal unidade”. As analogias aduzidas desde o
cardeal Belarmino até o cardeal Gibbons, são as seguintes: 1. Da monarquia que,
consoante a descrição feita pelo cardeal Belarmino – de rom. pont. 1:1-6 – é tida como
“a melhor e mais proveitosa forma de governo terreno” – e, portanto, apropriada à igreja
visível. 2. De Miguel, que é o chefe dos anjos. Apesar de ter o cardeal Gibbons
aventado essa analogia, temos a infelicidade de saber pouco de Miguel. 3. O sumo
sacerdote na igreja judaica. 4. O general à frente do seu exército, o pastor à testa do
rebanho, a cabeça a dirigir o corpo humano. 5. A República Americana, à custa da qual
o cardeal Gibbons arrazoa tão plausivelmente quanto o fazia o cardeal Belarmino a
propósito da monarquia. Deus é o governador da República e ela tem, todavia, um chefe
visível. 6. Da Corte Suprema dos Estados Unidos. O cardeal Gibbons, que insiste com
prazer nesta analogia, afirma que “o que é a Corte Suprema para os Estados Unidos, é o
soberano pontífice para a igreja, em esfera mais elevada”. Um é o guardião de nossa
Constituição religiosa; a Corte Suprema é a guardiã de nossas instituições civis – p. 121.

Se essas analogias forem examinadas, como foi a comparação usada por Pio
II numa carta à Universidade de Colônia, em 1463. Disse o pontífice que como as
cegonhas seguem a um chefe e as abelhas têm uma rainha, assim a igreja militante tem
propriamente no vigário de Cristo aquele que é moderador e juiz de todos – uma tolice
fulgurante, desde que as abelhas se conduzem sem rainha; mas um princípio
impressionante pode ressaltar, a despeito da falácia das comparações. Essas analogias
começam por ignorar o fato de que Jesus Cristo se revelou expressamente como cabeça
da igreja, que ele governa por sua imediata presença e o poder do Espírito santo. Ele é o
Capitão da nossa salvação, o único Pastor e Bispo de nossas almas, a cabeça do corpo, a
videira a que os ramos se acham unidos. Tão desnecessária é a unidade do corpo cristão
quanto é anti-escriturística a idéia de que haja uma segunda cabeça da igreja, para fazer
aquilo que Cristo prometeu fazer por si mesmo. A ordem e a disciplina sobre a terra não
exigem que haja um governo único. Os diversos povos escolhem suas próprias formas
de governo.

O paralelo entre o governo dos Estados Unidos e o governo papal não só é


falaz, mas é também fatal. O governo Americano se baseia no direito do voto exercido
pelo povo. O presidente exerce suas funções por vontade do povo. O governo católico
romano é uma hierarquia. Não procede do povo sua autoridade, mas esta se perpetua por
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

si mesma. O presidente dos Estados Unidos é responsável perante o povo. O papa não
se submete a nenhum tribunal humano. É um monraca absoluto: elabora as leis
doutrinárias, executa-as e pronuncia sentenças judiciais. Sua vontade é lei. Sua palavra
não pode ser governada nem pelo homem, nem por Deus, porque ele é o vigário de
Deus e, quando fala, é o memso Deus quem fala. Tal é a teoria. Igualmente falaz é a
analogia baseada no ofício de presidente da Corte Suprema. De si mesmo ele nada
decide. É um dentre nove ministros. A opinião da maioria dos ministros da Corte é a
opinião da Corte. Em segundo lugar, a corte não reclama infalibilidade. Suas decisões se
tornam efetivas pela vontade e consentimento do povo. Nenhum americano encara a
Corte Suprema como infalível. As decisões do papa são infalíveis e de validade
perpétua. É crime por em dúvida a autoridade delas. Em causas de importância, as
decisões da Corte Suprema têm sido proferidas por maioria de um, como na decisão
prolatada a 8 de março de 1920, sobre a questão de saber-se se os dividendos de capital
estavam sujeitos ao imposto sobre a renda. Suas decisões têm sido anuladas por
decisões subsequentes. A última das grandes decisões de Marshall , presidente da Corte
Suprema, no caso de Graig versus Missouri, 1822, foi “inteiramente repudiada pela
Corte, depois da morte de Mr. Marshall”. Beveridge IV:509. O presidente da Corte,
Taft, num discurso sobre a pessoa do seu antecessor Chase, 1923, declarou que “erros
têm sido cometidos pela Corte Suprema no passado e que a Corte era e é uma
instituição humana”. As decisões da Corte têm sido igualmente anuladas por certos
eventos. Em seu discurso de Springfield – 26 de junho de 1857, Lincoln teve ocasião de
falar da decisão do presidente da Corte, Taney, no caso de Dred Scott. “Julgamo-la
errônea. Sabemos que a Corte Suprema que a proferiu tem frequentemente reformado
suas próprias decisões e faremos o que pudermos para conseguir a reforme desta”. A
guerra civil pôs à margem a decisão da Corte.

§ 8. Conclusão.- O título od papa – “cabeça da igreja” – é invenção


humana. À objeção erguida pelo cardeal Gibbons, de que os protestantes estão “sem um
centro comum de união ou base de união”, respondem eles que o centro de união
estabelecido na Escrituras é suficiente – o Cristo crucificado e ressurreto. Ele reina. Ele
é o Filho em sua própria casa, cuja casa somos nós – Heb. 3:6. A igreja ocidental tem
por vezes ficado sem uma cabeça papal – e ela continua. Em que se torna a igreja e a
religião no intervalo entre a morte de um papa e a eleição de seu sucessor? Está morta a
igreja quando não há cabeça papal, como está morto o corpo privado da cabeça física?
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Se os vários e longos intervalos históricos, entre a morte de papas e a eleição de seus


sucessores, forem somados, o período resultante subirá a mais de doze anos.
Começando em 1268, há um interregno papal de dois anos e meio. A partir de 1241, não
houve papa por vinte meses; de 1292, quinze meses; em 1304, por onze meses e de
1415, por vinte e nove meses. Estava a igreja privada de vida naqueles tempos em que
estava sem cabeça visível, ou, como Wyclif e Huss se expressaram, quando a igreja
estava acéfala? Ademais, períodos houve em que dois e até três indivíduos pretenderam
ser legítimos pontífices – e durante o período de quarenta anos – 1377 a 1417 – houve
dois papas, um em Avinhão e outo em Roma, cada qual pretendendo ser o sucessor de
Pedro, cada qual eleito por cardeais e praticando cada um atos papais, sendo cada um
reconhecido por partes da Europa católica. Que mortal possui bastante autoridade para
decidir infalivelmente qual dos dois era o verdadeiro papa/ No século XV se alvitou a
idéia de que podia haver uma dúzia de papas e a igreja continuar, todavia, a existir. A
Universidade de Paris escreveu a Clemente VII que muitos não hesitavam em dizer que
podia haver dois ou dez pontífices e que cada terra podia ter seu próprio papa. O
dualismo papal levou Wyclif a afirmar que a Cristandade bem podia marchar sozinha,
sem papa de espécie alguma.7

A opinião protestante é que uma forma particular de governo terreno não é


essencial à existência da igreja. Governo é matéria de expediente. Não afeta a existência
da igreja. Governo é matéria de expediente. Não afeta a existência da igreja, mas se
entende como seu bem-estar. Os protestantes não têm direito de verberar a comunhão
católica romana por encarar o bispo de Roma como seu líder, enquanto este não reclame
prerrogativas que pertencem somente a Cristo. E se coloque sobre todo povo cristão, e
enquanto não pretenda expulsar a cristãos que conhecem tanto as escrituras quanto ele e
têm o mesmo acesso ao auxílio divino que ele tenha. A atitude protestante se acha bem
expressa na Confissão de Westminster, segundo a revisão feita em 1902: “Não há outro
chefe da igreja senão o Senhor Jesus Cristo; e a pretensão de qualquer homem a ser o
vigário de Cristo e cabeça da igreja, é anti-escriturística, sem apoio nos fatos e uma
usurpação que desonra ao Senhor Jesus Cristo”.

Bibliografia e Notas

Mirbt: D. Papstthum – Shotwell-Lewis: The See of St. Peter. Trad. De


documentos patrísticos com explanações. – Cat. Rom. : T. de Aquino: The Errors of the
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Greeks, - Cat. Trid. – Vat. Dogm. Decrees – Bellarmine, 5 livros. Muito minuciosos –
Gibbons, pp. 92-132 e Vatican Council after Fifty Years, 1:1, 186. – Straub: de eccles.,
2:348-594. – Pastor: Hist. of the Popes. – Arcebp. Kenrick: The Address intended for
the Vat. Council, Nápoles, 1870, trad. Am. Tract. Soc. – Langen: D. Vatik. Dogma, etc.,
1871-73. Lord Acton: The Vat. Council in Freedom of Thought. – Newman: The
Vatican Council, the Syllabus of 1864 and the Vatican Decree in ANgl. Difficulties,
1875. – Card. Manning: Temporal Power of the Pope, the Vicar of J. Chr., 1866; Petri
Privilegium, três cartas, duas escritas antes do Concílio do Vaticano e uma depois,
1871. – Barry: The Papal Monarchy from Greg. VII to Boniface VIII, 1302. – Lattery, S.
J.: The Papacyi, 1924. – Carrière: The PopeI, trad.; 1925. – Art. Pope na Enc. Católica.
Prot.: Confs. de Augsb., II Helv.; Conf. De Westminster. – Barrow-Ranke: Hist. of the
Popes. – Nielsen: The Papacy in the 19th Cent. – Kruger: The Papacy in Mod. Times,
trad., 1909. – Schaff: The Vat. Council in Creeds, vol. I. – Lietzman: Petrus and Paulus
in Rom., 1915, 2a. ed., 1927. – Jackson: Peter. Prince of Apostles, pp. 320, 1927. – Ex-
católicos: - Dollinger, Das Papstthum, ed. Aumentada de Der Papst und das Concil, por
Janus, escrito durante o Concílio do Vaticano. – Koch: Cyprian und d.rom. Ptimat.,
1910. – Schnitzer: Hat Jesus d. Pappsthum gestiftet e D. Pappsthum keine Stiftung
Jesus, pp.73, 83, 1910. – Hoensbroech: D. papastthum. – McCabe: Crisis in the Hist. of
the Papacy.

1. Sobre prerrogativas papais, Vide Cód. de Direito Canônico, n.os 219, 221,
226, 227, 329, 452, 1143, 1518, etc. – Sobre nomes, Vide Belarmino. O Annuario
Pontificio abre sua lista de prelados com as palavras: “Pio IX, Glorioso regnante,
Sommo Pontifice, Successore di S. Pietro”. – Os nomes dados no Dic. Católico, 1923,
são: “Sua Santidade, o Papa, Bispo de Roma e Vigário de Jesus Cristo, Sucessor de S.
Pedro, Príncipe dos Apóstolos, Santíssimo Pontífice, Supremo Pontífice da Igreja
Universal, Patriarca do Oriente, Primaz da Itália, Arcebispo e Metropólita da Província
Romana, Soberano dos Domínios Temporais da Santa Igreja Romana”.

2. Leitner: Kath. Kirchner., pp. 13-15, diz que o papa não está escravizado a
cânones de concílios e os concílios não mais têm direito de definir dogmas, porque os
concílios não são preconizados pela Escritura; os papas têm alterado atos conciliares,
como quando Siricius rejeitou o cânon Niceno sobre celibato clerical e Leão I rejeitou o
28º. Cânon de Calcedônia, etc.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

3. Gubernandi omnes homines quórum saluto Jesus Chrustus profuse


sanguine prospexerat, Leão XIII, de unit. – Belarmino: de rom. pon., 1:19 e ss.,
menciona entre as razões da primazia papal, o fato de ter sido Pedro o único discípulo
que andou com Cristo, após a ressurreição deste.

4. Vide os reparos de Schnitzer: Hat Jesus, etc., p. 42, e Smith: Cor. Of


Luther, 1:255. – Barrow, 6:57 e ss., diz eu “particularmente não é crível que S. Lucas
dormisse sobre tão notável passagem, o estabelecimento de um monarca na igreja de
Deus e um soberano no colégio Apostólico”. Paterson, p. 48, faz a estranha declaração
de que “é agora geralmente concedido pela exegese protestante que a rocha sobre a qual
Cristo prometeu edificar sua igreja era Pedro e não sua confissão”. Referindo-se ao
Concílio de Jerusalém, o bispo Gilmour, p. 243, assevera que em Jerusalém “os
Apóstolos e os anciãos se reuniram sob a presidência de Pedro” e tirou a conclusão de
que, quando o papa “preside a um concílio de bispos, suas decisões são infalíveis!”
Tertuliano, de Scor., disse que “aquele que confessa a Cristo como fez Pedro, leva
consigo as chaves do reino do céu” e, de pud., Pedro cumpriu, Mat. 16:18, por “abrir o
batismo”, etc.

5. O uso excepcional, feito por Mateus, da palavra “igreja” – uso


excepcional entre os Evangelistas – levou Schnitzer e outros críticos modernos a
encararem Mat. 16:18 como interpolação, feita no interesse da soberania papal. Eles
salientam que os Apóstolos esperavam a vinda próxima de Cristo e não podiam ter
apresentado o Senhor a fundar um sistema de governo de igreja, sendo que nenhum
papa usou da passagem para corroborar suas pretensões, até Calixto. Schnitzer tamém
realça a expressão paulina “carne e sangue”, que nunca foi atribuída a Cristo, a não ser
em Mat. 16:18.

6. Vide Dollinger: Fables of the M. A. Harnack, Reden und Aufsatze, 1:7


trata o pseudo-Isidoro como o “verhangnissvollste Legendenbildung die in d Kirche je
vorgekommen ist”. Salmon, The Church, p. 455, diz: “Nunca foi um caso tõa
gangrenado pela falsificação como foi aquele em prol das pretensões papais”.

7. Vide Haller, p. 346. Gerson, assim como Wyclif, muito fizeram em torno
do pontificado de um papa feminino, a papisa Joana ou Agnes, que se presumiu haver
reinado no 9º. Século, tirando daí argumento contra a infalibilidade papal. A ficção do
pontificado de Joana foi incontroversa durante cinco séculos. Jewel – Apol, p. 71, -
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

disse: “de Agnes, como papa, que todos os anos, naquela santa sé, se divertia em
enganar; por fim, saindo em procissão pela cidade, à vista de todos os cardeais,
abertamente caiu, em plena rua, em trabalho de parto”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO XV

O PAPADO

A INFALIBILIDADE PAPAL

Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, o único Deus, seja honra e glória para sempre. – I
Timóteo 1:17

A teoria da infalibilidade não se funda meramente num costume extra-crítico e ilógico, mas
sobre imperdoável desonestidade no manejo dos textos. – Lord Acton, Hist. da Liberdade.
P. 513.

O dogma segundo o qual o papa é infalível, é a cúpula das pretensões do


papado. Sustentado como opinião particular durante séculos, foi solenemente declarado
artigo essencial da igreja cristã, no Concílio do Vaticano, em 1870. Ele foi além da
teoria do primado papal. Como primaz, o papa, segundo se pretende, tem jurisdição
universal. Como mestre infalível e governador, não pode errar quando fala em caráter
oficial. O dogma da infalibilidade marca época na constituição da igreja romana,
colocando definitivamente o papa acima de concílios ecumênicos. Em seu enunciado, os
ensinos de Liguori e do partido Ultramontano, com os jesuítas, triunfaram. Os
protestantes repudiam o dogma, por estar em conflito com as promessas de Cristo, ser
atentatório ao ofício do Espírito Santo e ter sido desmentido por muitos
pronunciamentos papais.

§ 1. Opiniões correntes na igreja, antes de 1870.- A infalibilidade papal


não mereceu cogitação por parte dos Padres cristãos, ao longo de 600 anos. A teoria,
exposta nas Decretais Isidorianas, evoluiu com a afirmação da liderança papal durante
as Cruzadas e nas lutas dos papas medievais contra os imperadores. As opiniões entre os
eclesiásticos divergiam. Bernardo parece tê-la negado. Tomaz de Aquino tem sido
interpretado de forma a emprestar à doutrina o prestígio de seu nome.1 Escritores que
devassaram o passado, como Wyclif e Huss, mostraram que certos papas tinham sido de
vida pecaminosa e vários dentre eles foram heréticos. Papas se poderiam encontrar –
diziam eles – entre os reprovados – præsciti – e perdidos, como o foi Judas, embora um
dos doze discípulos. Pedro errou – e Wessel declarou que Deus havia permitido que ele
errasse, para desse modo mostrar que a igreja não está escravizada às decisões de
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pontífices, mas que todo crente pode seguir o exemplo de Paulo e resistir ao papa em
sua face, como aquele Apóstolo resistiu a Pedro. Obras, 1:303. João Gerson, o principal
teólogo do século XV, expressou a opinião de que o papa podia ser um herege.

No período da Reforma, prevalecia no Vaticano a opinião de que o papa não


só tinha direito de exercer disciplina sobre toda a igreja, mas de decidir infalivelmente
quais fossem os ensinos da mesma igreja. Prierias, o camareiro papal, escreveu que “o
papa é a tal ponto infalível, que até as Escrituras dele derivam sua autoridade”. O
Concílio de Trento declinou de levantar a questão da infalibilidade papal. O dogma
encontrou na ordem dos \jesuítas uma fervorosa advogada. Seu principal escritor, o
cardeal Belarmino – de pont. rom. 4:3-5 – disse que “o sumo pontífice, quando ensina a
toda a igreja, naquelas coisas pertencem à fé, não pode, em circunstância alguma, erar...
nem em questões de moral que ele prescreva e que sejam necessárias à salvação, sejam,
em si mesmas, matérias boas ou más”. Mais além, declarou o cardeal que, se o sumo
pontífice, por engano, ordenasse vícios e proibisse virtudes, a igreja seria forçada a crer
que os vícios fossem bons e as virtudes más. Entretanto, ele foi de opinião, com Cajetan
e outros, assim como com os concílios do século XV, que o papa pode incorrer em
heresia e, por esta causa, ser punido pela igreja.

As divergências que dividiram os católicos romanos sobre a questão da


infalibilidade tornaram-se salientes nas lutas entre Luiz XIV e o Vaticano. Bossuet, o
líder do partido Galicano contra os Jesuítas e o partido Ultramontano, sustentou que o
papa pode errar. O Galicanismo tinha como seu primeiro princípio o de que o papa está
subordinado a um Concílio Geral. Até o momento em que se reuniu o Concílio do
Vaticano, os livros de classe de procedência católica romana e outras autoridades
continuaram a ensinar que o papa pode errar. Antes que a lei de Liberdade de 1791
passasse no parlamento britânico, mil e quinhentos católicos ingleses assinaram uma
declaração, negando que a infalibilidade papal fosse doutrina da igreja romana. Um
século depois, escrevendo de Roma (1870), Lord Acton fez a afirmativa de que o papa
estava agindo desonestamente, ao declarar a infalibilidade, tanto mais que os católicos
da Inglaterra e Irlanda tinham oficialmente negado a doutrina como dogma da igreja.
Em 1825, os bispos irlandeses, Doyle, Murray e Kelly afirmaram perante uma comissão
do parlamento que a infalibilidade papal era limitada pelos Concílios Ecumênicos e
também que tal autoridade não se estendia aos negócios civis. Na quarta edição de sua
obra – Evidências do Cristianismo, 1866, p. 377, o arcebispo Spalding, de Baltimore,
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declarou quea doutrina da infalibilidade era opinião sustentada por uns poucos católicos
romanos, sendo que ele próprio a rejeitava. O Catecismo de Controvérsia de Keenan
caracterizou a doutrina como invenção protestante. O Catecismo foi aprovado pelos
bispos escoceses e recomendado pelo episcopado irlandês. Depois de 1871, omitiu-se a
página do Catecismo que continha a negação da infalibilidade papal.

§ 2. O Concílio Vaticano, de 1870.- A infalibilidade papal foi proclamada


como Dogma do Concílio do Vaticano, apesar da oposição de uma grande e ilustrada
corporação de bispos europeus e americanos. Ao se aproximar a data da abertura do
Concílio, com espanto de muitos homens eminentes na igreja romana, não só pela
erudição como pela posição oficial, anunciou-se que o dogma da infalibilidade devia ser
apresentado. Entre seus mais insistentes advogados, figurava o arcebispo Manning. Em
1868, dois anos antes de reunir-se o Concílio, ele e o bispo Senestry de Regensburg,
quando em Roma, assumiram o voto de tudo fazerem a seu alcance para conseguir a
definição do dogma, tendo sido tal voto arranjado pelo padre jesuíta Liberatore.2 O
dogma foi votado em sessão secreta, a 13 de julho de 1870. Quatrocentos e cincoenta e
um bispos votaram pela afirmativa, sessenta e dois por uma afirmativa condicional –
placet juxta modum – e mais oitenta pela negativa. Ente os últimos estavam os bispos
americanos de Montreal, S. Luiz, Pittsburgh, Rochester e Louisville e os prelados
europeus Darboy, de Paris; Dupanloup, de Orleans; os cardeais Rauscher e
Schwarzenburg; e os bispos Ketteler e Hefele. Os prelados em minoria enviaram uma
deputação ao papa, rogando-lhe que não apressasse o dogma. Era muito tarde. Na quarta
sessão pública, de 18 de julho, foi feita a promulgação na presença de quinhentos e
trinta e cinco prelados. Para não serem testemunhas da cena, muitos dos membros
dissidentes do Concílio tinham deixado Roma, incluindo-se entre eles o dr. MacQuaid,
de Rochester. Na votação final, somente dois prelados presentes deliberaram votar pela
negativa: Fitzgerald, de Little Rock, Arkansas, e Rizzio, de Cajazzo, na Sardenha.
Referindo-se ao voto do bispo americano, conta-se que Pio IX dissera que a Pedra
Pequena ousara colocar-se em oposição à Grande Pedra. Dos 759 prelados que
assistiram ao Concílio, 276 eram italianos, ou seja mais da metade dos que votaram a
favor do dogma , em 18 de julho. Os bispos que dissentiram foram aderindo um a um.

O decreto foi lido à luz de uma vela por Pio IX em pessoa, aos conciliares
que se agrupavam na galeria direita de S. Pedro. Uma placa colocada agora na parede
interior da igreja contém os nomes dos bispos que votaram pelo dogma, incluindo-se o
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nome do cardeal Gibbons, então bispo À hora da leitura uma violenta tempestade
desabava, ocorrência incomum em Roma, e os relâmpagos fuzilavam através da cúpula
da basílica. Como no caso dos rumores do terremoto verificado por ocasião do Concílio
que julgou a Wyclif e dos trovões e relâmpagos sobre o Monte Sinai, a tempestade foi
interpretada por alguns como confirmação do dogma por Parte do céu e por outros como
sinal de desagrado divino. O murmúrio sinistro de outra tempestade tinha enchido o ar –
e no outro dia, 19 de julho, foi declarada a guerra contra a Prússia e a França. O
imperador francês, Napoleão III, retirou de Roma os 10.000 soldados franceses que, por
um quarto de século aproximadamente, tinha garantido o papa em seu domínio
temporal. Poucos meses depois, foi constituído o reino da Itália e o povo romano, por
uma votação esmagadora, saiu de sob a jurisdição do papa, tornando-se Roma a capital
da Itália unificada.

O dogma da infalibilidade papal conquistou o assentimento dos católicos


romanos através do mundo. O arcebispo Kenrick de S. Luz, que havia publicado um
panfleto contra a infalibilidade, proclamou-a em sua diocese. O bispo Hefele, de
Wuttemburg, foi o último dos bispos dissidentes a submeter-se. Por outro lado, o dogma
foi permanentemente rejeitado por alguns dos mais eruditos católicos romanos da
Alemanha, incluindo-se entre eles Dollinger, de Munich; Friederichs, Reusch e Langen;
o eloquente pregador francês, padre Hyacinthe; e Lord ACton, que tem escrito acerca
“da insana empresa de proclamar a infalibilidade ilimitada”. Os dissidentes alemães se
reuniram na igreja dos Velhos Católicos, tendo o historiador Dollinger como líder e o
dr. Reinkens como seu primeiro bispo, o qual recebeu suas ordens das mãos do bispo
jansenista de Haarlem, em 1873. A maior parte dos chefes, senão todos, parece ter sido
excomungada, exceto Lord Acton, que com sua pena continuou, até a morte, a opor-se
ao dogma.

§ 3. O decreto Vaticano.- Professando “conhecer mais plenamente que a sé


de S. Pedro permanece para sempre livre de toda mancha e erro”, Pio IX anunciou que o
que “o pontífice romano, falando ex-cathedra – o que vale dizer, quando cumpre seu
ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude de sua suprema autoridade
apostólica – define uma doutrina referente à fé ou à moral, de fide vel moribus, como
crença que deva ser aceita pela igreja universal – nessas circunstâncias, graças à divina
assistência que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro, goza plenamente daquela
infalibilidade que o divino Redentor desejava tivesse sua igreja, no definir doutrina
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

referente à fé e à moral: consequentemente, tais definições do pontífice romano são de


natureza imutável e não podem ser alteradas mediante aprovação da igreja". ”obre os
que possivelmente contrariassem essa definição, foi pronunciado anátema.

Os quatro sucessores de Pio IX têm concordado com este em afirmar a


prerrogativa da infalibilidade daquele modo proclamada. Em um de seus
pronunciamentos – 21 de abril de 1878 – Obras 1:13 – Leão XIII pretendia que “a
salvação e a prosperidade devem ser buscadas no infalível ensino oficial da cadeira
apostólica”.

São os seguintes os principais detalhes da proclamação vaticana: 1. Não é


possível que o pontífice romano, falando oficialmente – es-cathedra – erre em matéria
de fé e moral. 2. O dogma foi divinamente revelado. 3. O papa proclamou o dogma; o
Concílio o aceitou. 4. O dogma é “uma tradição recebida desde o começo da fé cristã” e
sempre tem sido crido pela igreja. 5. É um dogma essencial. Não pode sofrer revisão ou
alteração e os que o negarem incorrem em anátema.

O argumento, conforme foi exposto pelo cardeal Manning, enquanto o


Concílio Vaticano estava em sessão – argumento que ele reputou completo e final –
assim se desdobra: a igreja tem tradição. A história humana não pode determinar o que
seja a tradição e o que o não seja. Só a igreja pode determina-lo. Foi de acordo com a
tradição que Pio, por inspiração própria, anunciou o dogma. De acordo com a teoria do
dr. Manning, Pio, na conferência particular com os bispos dissidentes – a isso equivale a
história – teria feito a observação característica: “A tradição sou eu” – La tadizione son’
io, exatamente como Luiz XIV dissera: “O Estado sou eu” – L’ État c’ est moi.

O dogma da infalibilidade invalida a antiga opinião segundo a qual os


concílios Ecumênicos são superiores ao papa e são falíveis as decisões deste. Quando o
pontífice romano fala, é Deus quem fala. Inútil e herético foi o protesto publicado por
Dollinger e os Velhos Católicos, a 26 de agosto de 1870, alegando que o dogma
Vaticano não preenchia nenhuma das três condições de autoridade religiosa
estabelecidas por Vicentius de Lerins. Ele, o dogma, não fora crido por todos, nem em
todos os tempos, nem por toda a parte. O dogma parece derrogar as Escrituras. Aos
católicos romanos basta saber o que diz o pontífice romano. Como expositor da verdade
religiosa à Cristandade, o papa toma o lugar de Cristo. O Manual do Catecismo de Pio
X cita, com aprovação, as palavras: Il papa è Gesu Cristo sulla terra – O papa é Jesus
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Cristo sobre a terra. Há quatro séculos, Lutero, em sua Carta à nobreza Alemã,
discutindo o conceito segundo a qual a autoridade da igreja daria lugar à autoridade de
um só homem, o pontífice romano, sugeria que, se a opinião fosse verdadeira, a
cláusula: - “Creio na Santa Igreja Catpolica” teria de ser mudada para” “Creio no papa
de Roma”, mudança que ele declarava ser “erro infernal e diabólico”.

Eis algumas das recentes e grosseiras apologias do dogma: na celebração do


25º. Aniversário do pontificado de Leão XIII, levada a efeito pela Universidade de
Viena, o orador afirmou: “que a igreja tem duas cabeças em duas pessoas distintas,
Cristo e Pedro; e, como a humanidade se uniu com a divindade em Cristo, assim Pedro
se uniu com Cristo como seu Vigário sobre a igreja universal”. Corretamente agiu,
segundo a teoria do Vaticano, Catarina de Siena, chamando ao papa outo Cristo – Alter
Christus – Mirbt, in Herzog, 20:474. Segundo Koch, o bispo Korum, de Treves, disse
em 1912: “o santo padre sempre fala a palavra justa no momento oportuno; e quando ele
fala, podemos dizer: ‘Santo padre, falaste e teus filhos obedecem’ ”. Pela mesma época,
o bispo Mermillod publicamente ensinava “a tríplice encarnação de Cristo, a saber: no
seio de Maria, na Eucaristia e no Papa; e toda a reverência, a que nos impele a luz de
nossa fé, para com o Cristo, o sacerdote, o pastor e o pai terreno, culmina na reverência
ao papa. Se prestardes homenagem aos anjos, deveis prestá-la ao papa, porque ele é o
anjo visível de toda a igreja”. Foi dito pelo cardeal Gibbons, em suas Reminiscências
do Concílio do Vaticano, que “os decretos Vaticanos, muito tempo após terem passado
seus colaboradores, perpetuarão uma influência salutar sobre as gerações ainda não
nascidas”. O cardeal tratou o dr. Dollinger como o Arius do Concílio; e o padre Hecker,
escrevendo de Roma em 1870, aludiu aos estúpidos Dollingeristas”.

Devia ser fácil selecionar, dentre os pronunciamentos oriundos do Vaticano,


os que fossem infalíveis. Este não é, porém, o caso. A dificuldade se levanta, em parte,
da natureza dos assuntos tratados. Quando o papa fala sobre uma questão de moral, ele
não pode errar; mas a esfera da moral não é facilmente delimitável. Todas as questões
que dizem do bem-estar do homem parece pertencerem a ela. Os pronunciamentos
papais sobre o casamento e o divórcio, sobre o trabalho, sobre a Ordem Maçônica,
contra a qual Leão XIII falava com frequência – e sobre assuntos internacionais, tudo
isso se relaciona com o progresso moral da raça. Se as superstições, como a feitiçaria, e
a escravidão e as guerras das cruzadas não são assuntos morais, é impossível determinar
quais sejam os que devem ser assim reputados. Sobre todas essas questões os papas têm
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

tido diferentes pronunciamentos. Um característico indiscutível de alguma decisão papal


infalível deveria ser a demonstração de conhecimento e orientação sobrenaturais no
proferi-la, e a afirmação de que ela se proferiu com “seguro conhecimento”. Igualmente
infalíveis devem ser as bulas em que os pontífices solenemente invocam como
testemunhas os Apóstolos Paulo e Pedro e outros santos, assim como o próprio Deus
Todo-poderoso. Por exemplo: na decisão em virtude da qual foi dividida a América
entre a Espanha e Portugal, Alexandre fez todas aquelas invocações e a distribuição foi
declarada perpetuamente válida. Os protestantes talvez só tenham dificuldades com
bulas que declaram errôneas matérias que, segundo as leis sadias da interpretação,
mostram ser verdades escriturísticas, como os erros de que foram acusados Wyclif e
Lutero, assim como os Jansenistas e Quesmel. São bulas infalíveis ou falíveis? No rol
daquelas se devem também colocar as de Pio IX e Pio X, que declararam perigosas
certas instituições civis modernas e proibiram a livre investigação religiosa por parte
dos estudiosos. Seria um benfeitor o pontífice que, com sua própria assinatura,
publicasse uma lista de decisões infalíveis. Por quê não usar ele de suas prerrogativas,
preparando tal lista, exatamente como preparou catálogos de livros proibidos? Os
protestantes, assim como eminentes escritores romanistas, tendo nas mãos aquela lista,
não permaneceriam nas trevas acerca de certos decretos, sobre se eles pertencem ou não
à classe das definições infalíveis da verdade. O Concílio de Trento se recusou a
organizar uma lista das tradições autorizadas, sob o fundamento de que semelhante
catálogo ataria dali para o futuro as mãos da igreja...

§ 4. O Decreto Vaticano e a Escritura.- O dogma da infalibilidade papal


não tem a seu favor uma só palavra das Escrituras. O decreto Vaticano cita uma única
passagem – Luc. 22:32: “Roguei por ti – Pedro – para que a tua fé não desfaleça; e, tu,
uma vez arrependido, fortalece teus irmãos”. Citando-a, Pio IX lhe torceu o sentido e,
assim fazendo, nem deu provas de ser infalível, nem de que tivesse a prerrogativa de
declarar que os escritores querem significar alguma coisa além do que disseram.
Dirigindo-se a Pedro, Cristo não se referia à verdade objetiva formulada num credo.
Referia-se à fidelidade pessoal de Pedro, isto é, à fé que nele havia. A predição de
Cristo na verdade se cumpriu. Pedro foi tentado e negou a Cristo três vezes – e foi
restaurado. A verdade objetiva do Cristianismo não foi reestabelecida, mas foram
reestabelecidos os propósitos religiosos do próprio Pedro.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Em adição àquela tremenda afirmativa, de haver o papa deturpado o sentido


das palavras de Cristo, vem outra objeção, de que Cristo estava tratando com Pedro
pessoalmente, não havendo nem sombra de indício de que suas palavras tivessem em
vista qualquer pretenso sucessor em Roma. Quando o papa aplica a si mesmo as
referidas palavras, elas logicamente se tornam em predição de sua possível
infalibilidade. Argumentando contra o decreto da infalibilidade papal, o arcebispo
Kenrick defendeu o conceito segundo o qual, falando a Pedro, nosso Senhor tinha em
mente a idéia de “confiança, sendo que a palavra fé nunca foi usada por nosso Senhor
para significar um sistema de doutrina, sendo este último o único sentido em que ela
poderia ser usada como argumento em apoio da infalibilidade papal.” Como disse o dr.
Paterson, “o argumento exegético dos pronunciamentos do Vaticano simplesmente
exibe o melhor que se podia fazer com material demasiadamente ingrato”.

Se acompanharmos a carreira de Pedro, é evidente que o Apóstolo afinal


cometeu um erro, que foi o mais pernicioso que se podia imaginar: tivesse sua fantasia
prevalecido, e a igreja cristã teria sido degradada até os limites de uma seita judaica.
Condescendendo com alguém, que viera de Jerusalém para Antioquia, Pedro se apartou
dos cristãos gentílicos e se recusou a comer com eles, sob o pretexto de que não se tinha
conformado ao cerimonial hebraico. Fez da circuncisão uma condição de ingresso na
posse dos benefícios do Evangelho. Felizmente, Pedro se levantou, conquanto tivesse
sido herege por algum tempo. Paulo resistiu de cara a cara com seu colega de
apostolado – e o Concílio de Jerusalém, convocado para tratar do assunto, desaprovou a
atitude de Pedro e assegurou a liberdade da graça aos da incircuncisão, como aos da
circuncisão. Nesse único caso registrado nos Anais dos Apóstolos, a infalibilidade papal
naufragou como ficção dogmática.

§ 5. A infalibilidade papal julgada pela História.- À parte as Escrituras, o


decreto da infalibilidade se choca de encontro à Gibraltar dos fatos históricos. Os Padres
nada sabiam a respeito daquilo. Daquilo nada sabiam os sete primeiros Concílios
ecumênicos. Os Credos primitivos, a começar do Credo dos Apóstolos, nada sabiam
daquilo. Os Escolásticos puseram a idéia em marcha como piedosa opinião e seus
advogados – na Idade Média – tentaram estabelece-la, à custa de falsificar e inventar
documentos. Mais tarde, os jesuítas e Afonso de Liguori fizeram circular volumosas
obras de engenho para propagarem a idéia. Finalmente, um sumo pontífice, apelando
para a fantasia de pertencer a doutrina ao corpo de tradições antigas, declarou ser o
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

dogma necessário à igreja. Aqui vão alguns dos indubitáveis erros doutrinários e morais
dos papas, e casos de falsificações engendradas para valorizar o dogma:

1. Erros endossados pelos papas antigos. – Zeferino, 201-219, e Calixto,


219-221, ensinarama heresia do patripassionismo. Libério subscreveu um Credo Ariano
e se dirigiu aos arianos do Egisto como a seus maados irmãos e aos presbíteros como a
seus colegas episcopais – apostasia atestada por Atanásio. Conta Libério como “o
prevaricador”, Hilário invocou a maldição e dele fala Jerônimo como culpado de
“depravação herética”. Félix II foi declarado ariano, Zózimo, 417, a princípio declarou
Pelágio ortodoxo, após ter seu predecessor, Inocêncio I, condenado o mesmo Pelágio
como herege.

2. O caso de Honório I, 625-638.- A heresia de Honório I foi tomada como


caso típico pelo bispo Hefele, num famoso panfleto publicado ao tempo do Concílio
Vaticano – Die Honorius Frage. Honório foi expressamente condenado como réu de
heresia profana pelo Sexto Concílio Ecumênico, 681, e por Leão II. A decisão foi
aprovada por três legados do papa, presentes ao Concílio, e foi repetida pelo Sétimo e
pelo Oitavo Concílio Ecumênico, 787 e 869, ambos presididos por legados papais.3 Em
seus juramentos de investidura, os papas que se seguiram, até o século XI, condenaram
a Honório, equiparando-o a Arius e a outros falsos mestres. Os breviários romanos
continham, até o século XVI, aquela condenação. A heresia de Honório foi a do
monotelitismo – a opinião segundo a qual Cristo possuía uma só vontade. Diversas
teorias têm sido formuladas por certos eruditos romanistas, no intuito de limparem o
papa em questão de erro doutrinário, mas todas elas falham. As duas cartas que Honório
escreveu ao imperador do Oriente são evidência palpáveis, como o demonstrou Hefele,
de que o papa estava contaminado de heresia. Se eu tivesse como justificável a
explicação de não ter sido Honório monotelita, mas ter sido uma coisa e pretendido
enganar o imperador, com o intuito de preservar ou restaurar a unidade da igreja, então
o caso seria ainda pior, porque a explicação tornaria a Honório culpado de seguir o
princípio de que se pode fazer o mal de que possa resultar o bem. O dogma da
infalibilidade cai com a heresia desse único papa. Se um elo se parte, toda a corrente se
rompe.

3. Verdades condenadas como heresias.- Entre as atitudes arguidas de


heréticas em catálogos divulgados por papas, e tidos como infalíveis por escritores
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católicos romanos, figuram as seguintes: Entre as proposições de Wyclif, declaradas


heréticas por Martinho V, figuram as que dizem que os evangelhos não trazem registro
de haver Cristo instituído a missa e que a crença de ter a igreja romana soberania sobre
todas as igrejas, não é requisito de salvação. Entre os artigos de João Huss que foram
condenados como heréticos, estão os que dizem que os hereges não deveriam ser
entregues ao poder civil para serem supliciados e que a igreja é a corporação dos eleitos.
Leão X considerou como “pestífero, pernicioso, escandaloso e destrutivo da obediência
à igreja romana, mestar da fé”, a proposição de Lutero: “A queima de hereges é
contrária à vontade do Espírito”. Entre os artigos condenados na meticulosa bula de
Clemente – Unigenitus – de 1713, figuram: os artigos que dizem que a graça é recebida
só pela fé, sendo que todos deveriam ter permissão de ler as Escrituras. A bula in cœna
domini chega ao extremo na condenação do abandono moral e das ofensas que atentem
contra a sé romana. Depois de ter sido usada por muitos séculos e denunciada numa
publicação especial de Lutero, foi-lhe dada forma aperfeiçoada por Urbano VIII, 1627,
e declarada lei perpétua para todos os bispos e para todos os sacerdotes que se assentem
no confessionário. Com grande solenidade, era ela lida na basílica de S. Pedro, todos os
anos , na quinta-feira santa, até que o ofensivo costume foi abolido por Clemente XIV,
1769-1774. Pequeno espanto deve causar o fato de ter sido a bula proibida em França e
de terem contra ela se insurgido príncipes de outras nações! Invocando o nome do
Todo-poderoso Pai, Filho e Espírito Santo, ela colocava lado a lado corsários,
falsificadores de bulas papais, turcos e sarracenos, hussitas, wyclifitas, luteranos,
calvinistas, zwinglianos e anabatistas – e os anatematizava a todos como incrédulos,
apóstatas e hereges. A explosão papal também condenava os magistrados que, em
causas criminais, ousavam proceder contra eclesiásticos e todos os que invadiam os
domínios do pontífice em Roma, Sicília, Sardenha e Córsega.

4. A submissão ao papa transformada em condição de salvação.- Na bula


unam sanctam, 1302, Bonifácio VIII declarou que a submissão à sé apostólica é
condição essencial de salvação e que o papa tem autoridade para usar as espadas – a
eclesiástica e a civil – o que vale dizer que, por sua ordem, pode ele desencadear
guerras.

5. A integridade papal.- Certos papas quebraram seus juramentos, como fez


Pascoal II com Henrique V, Clemente VII com Francisco I e Pio VII com Napoleão. Em
todos esses casos, o constrangimento é encarado como suficiente razão para que se
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

considerasse não obrigatório o juramento Na bula em que confirmava a unam sanctam,


Leão X falsamente afirmou, no tocante aos Concílios de Nice, Éfeso, Calcedônia,
Constantinopla, 680, e Nice, 787, que os bispos que os integraram “humildemente
suplicaram a aprovação do papa”, para lhes assegurar a ratificação dos decretos.

6. A edição da Vulgata de 1590.- A edição da Bíblia latina, preparada por


Sixto V, foi pelo mesmo Sixto proclamada “verdadeira, válida, autêntica e destinada a
ser usada, acima de dúvida, em todas as discussões particulares e públicas”.
Dificilmente podia um pronunciamento ser mais preciso; e Sixto, além do mais,
explicitamente declarou que, para preservar de erros a edição, ele a fizera por suas
próprias mãos. As alterações do texto ele as tornou passíveis de excomunhão. Como
desmentindo àquelas afirmativas, na edição sixtina, quando apareceu, encontraram-se
nada menos de dois mil erros. Para salvar a honra do papa – salvo honore – o cardeal
Belarmino propôs que todos os exemplares da sixtina fossem destruídos e uma nova
edição se publicasse, sob o nome de Sixto, com a falsa declaração, no prefácio, de que
os erros da edição de Sixto eram erros de impressão.4 Quando, sob Clemente VIII,
1592, apareceu a nova edição, o prefácio dava a Sixto como seu autor, embora tivesse
sido redigida por Belarmino, como nos assegura, em sua auto-biografia, o próprio
Belarmino!

7. Erudição bíblica.- Leão XIII aprovou como genuína a passagem de I João


5:7: “Três são os que dão testemunho nos céus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. A
passagem, segundo todas as autoridades em crítica textual, não se encontra nos
manuscritos mais antigos.

8. Fulminações papais.- Imprecações dificilmente excedidas, se jamais o


foram, em virulência, têm sido fulminadas pelos papas contra indivíduos que lhes
desprezaram as pretensões. Duas apenas serão aqui citadas. No anátema colocado pelos
legados papais sobre o altar de Santa Sofia, 1054, censurando os gregos, assim se
amontoam as palavras: “Sejam anátema maranatha, juntamente com os simoníacos,
arianos, donatistas, nicolaitas, severianos, maniqueus e todos os heréticos, sim, com o
diabo e seus anjos. Amém, amém amém!” Em 1346, Clemente VI, amaldiçoandoo
imperador Luiz da Baviera, “invocou o Senhor para que o ferisse de cegueira e loucura
e com desequilíbrio mental, e rogou que os cataclismas do céu se abatessem sobre ele”.
Invocou contra Luiz “a ira de Deus e dos Apóstolos Pedro e Paulo”, rogando que ela, a
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

ira, lavrasse contra o imperador neste mundo e no outro e concitando o universo a lhe
fazer guerra e a terra a tragá-lo vivo. Não satisfeito, Clemente mais adiante aduziu à
condenação do imperador a condenação de sua casa à desolação e de seus filhos à
proscrição de seus domínios, e fez votos por que o infortunado homem tivesse o horror
de contemplar com os próprios olhos os filhos destruídos por seus inimigos. Tivesse
Clemente e alguns outros papas o espírito do doce herege William Penn! Numa carta ao
Secretário de Estado Inglês, Penn sugeriu que “o mais furioso sectário deve contentar-se
com privar o rival de uma parte do céu, sem que também o extermine da terra”. Pode-se
julgar seja artigo de fé que um mortal, capaz de imprecações como as que foram
referidas, tenha sido investido por Deus de infalibilidade?

9. Atos papais repudiados por outros papas.- João XXII, falecido em 1354,
sustentou, em oposição a dois predecessores, que os Apóstolos não viveram em absoluta
pobreza e fulminou como herética a opinião em contrário. A Companhia de Jesus,
aprovada por Paulo III e Paulo IV, foi abolida por Clemente XIV, 1773, que citou a
doze de seus antecessores que haviam censurado a ordem por uma ou outra causa e
haviam declarado que ela perturbara todo o mundo e quebrara a paz da igreja, Clemente
anulou todos os privilégios que a ordem tinha desfrutado e declarou-a “suprimida,
revogada e abolida, devendo permanecer abolida para sempre”. Tudo isso fez o
pontífice baseado em “conhecimento seguro e em virtude de sua autoridade apostólica
plenipotenciária”. A despeito dessa abolição, a ordem foi restaurada por Pio VII, 1814.
A abolição de uma ordem eclesiástica pode ser tratada, é verdade, como assunto de
disciplina e não de doutrina; todavia, doutrina ou disciplina, as acusações, em razão das
quais os jesuítas foram banidos, versavam sobre ofensas contra as mais importantes leis
morais e princípios religiosos.

10. A inquisição contra a heresia e a feitiçaria.- Três inquisições diversas,


para a destruição da heresia, foram expressamente inauguradas ou sancionadas por três
pontífices. Se os pronunciamentos solenes do papa, reiterados mais e mais, devem ser
encarados como infalíveis, então a perseguição religiosa até a morte é certamente um
direito eclesiástico, como é certo serem os Dez Mandamentos parte do Velho
Testamento. Em 1215, Inocêncio III inaugurou a inquisição papal. Quarenta anos
depois, Inocêncio IV legalizou a tortura. Em 1478, Sixto IV sancionou a inquisição
espanhola. A inquisição romana foi organizada por Paulo III e administrada com zelo
especial por Paulo IV, 1555-1559. O último pontífice declarou que as sentenças que
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importavam em derramamento de sangue, pela tortura ou pela morte, não acarretavam


censura aos clérigos que as pudessem pronunciar. Aquele papa declarou ao imperador
francês que, fosse embora pequena a tintura de heresia, o indivíduo devia ser entregue
às chamas, não importando a posição social que pudesse ocupar. Pastor fala da
severidade atroz de Paulo – entsetzliche Strenge. Leão X afirmou que a queima de
dissidentes religiosos era de expressa revelação do céu. O pontífice escreveu ao eleitor
da Saxônia, a 8 de julho de 1520, que, condenando a declaração de Lutero, de que os
hereges não deviam ser queimados, havia redigido suas palavras “sob a inspiração do
Espírito Santo, que em tais assuntos nunca se aparta da santa sé”.

No que se refere à feitiçaria, Inocêncio VIII, através de sua bula de 1484, foi
responsável pela morte de milhares de pessoas na Alemanha e em outras partes. Ele deu
crédito ao boato de que homens e mulheres, fascinados pelo diabo, estavam destruindo
as colheitas em regiões do norte da Europa e tornando estéreis as mulheres e os homens
impotentes, tendo encarregado os inquisidores dominicanos de procederem contra as
infelizes criaturas. Papa após papa, antes de Inocêncio VIII, acreditaram nas histórias
mais descabidas de demonologia. Gregório IX, 1233, asseverou que o diabo tinha o
hábito de aparecer osb as formas de sapo, fantasma esguio e bode preto, nas reuniões
em que se verificava indistinto comércio sexual entre mulheres e habitantes do inferno.5
Tais crendices, após ter sido publicada a bula de Inocêncio, foram enfeixadas no manual
destinado aos caçadores de feiticeiras, o Malleus Maleficarum, organizado para habilitar
os inquisidores a descobrirem as feiticeiras, livro considerado por Lea “o mais
portentoso monumento de superstição que o mundo produziu”. Nessa obra, os autores
dominicanos testificaram que, de quarenta e oito feiticeiras levadas perante eles e
queimadas, todas tinham confessado haver praticado licenciosidade com demônios,
durante períodos que variavam entre dez e trinta anos. Foram publicadas edições do
Manual com aprovação do papa. Inocêncio IV não foi o último papa que apelou para a
execução dos feiticeiros. Foi seguido por Leão X. Em 1521, Prierias declarava que
certas regiões permaneciam infestadas de feiticeiros. Que Lutero, Calvino, Richard
Baxter, Cotton Mather e outros homens eminentes, entre os protestantes, incluindo-se
ente eles até João Wesley, aceitassem a feitiçaria como fato real, ninguém discute. A
diferença entre aqueles homens eminentes e o pontífice romano é que nenhuma
pretensão existe em referência a qualquer deles, no sentido de ser algum infalível. Os
pontífices romanos são tidos como vigários de Cristo, estabelecidos para ensinar e
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governar. Como pode alguém aceitar a infalibilidade de homens, quaisquer que sejam os
títulos que possuam, que desencadearam a inquisição, graças à qual multidões eram
encarceradas perpetuamente ou queimadas – e atearam guerras religiosas de extermínio?

11. Guerras.- Os papas não somente sancionaram e ordenaram guerras para


o extermínio de hereges, mas também o fizeram para expansão territorial,
destronamento de príncipes e escravização de selvagens. Especialmente ativo foi, no
século XV, Sixto IV, instigando contendas e envolvendo a Itália em guerras, para
engrandecimento de seus sobrinhos. Um predecessor seu, Nicolau V, 1452, em dum
diversas, autorizou o príncipe Henrique de Portugal a mover guerra aos infiéis,
africanos e maometanos, a conquistar seus territórios e a escravizar suas pessoas. Vide
Amer. Hist. Rev., 1910, p. 16. Autorizando a primeira Cruzada, 1095, Urbano II se
pronunciou no sentido de não ser crime matar pessoas excomungadas, desde que tal
coisa se pratique por motivos religiosos. A decisão de Urbano foi incorporada ao
Código de Direito Canônico. Inocêncio III, pervertendo a tradução Vulgata em Deut.
!7:12, fez a passagem dizer: “Aquele que s enão submete ao juízo do sumo sacerdote, o
juiz o fará morrer”< e aplicou a passagem a si mesmo, como papa. Leão X e o Quinto
Concílio Lateranense, apelando para o livro de Reis, declararam ser punível com a pena
de morte a desobediência ao papa – Petri sucessoribus... quibus ex libris Regum
testimonio ita obedire necesse est, ut quis non obedierit, morte moriatur – Mansi,
XXXII:968. O caso da Rainha Isabel e o massacre de S. Bartolomeu serão considerados
em outro lugar.

12. Leis Civis anuladas.- Inocêncio III, 1215, anulou as cláusulas essenciais
da Magna Carta e proclamou-as anuladas para sempre – in perpetuum. Após haver
recebido a submissão de João e da coroa da Inglaterra, o pontífice se uniu ao rei,
procurando vencer os barões e lhes abafar o protesto contra o absolutismo real. São
palavras de Inocêncio: “Em defesa do Deus Trino e pela autoridade dos Apóstolos
Pedro e Paulo, assim como por nossa própria autoridade, totalmente reprovamos e
condenamos um pacto dessa espécie, e, sob pena de anátema, proibimos sua
observância pelo rei, como também qualquer exigência que façam os barões, no sentido
de que ele seja observado”. A bula papal adianta que “quais quer obrigações que tenham
sido assumidas nesse assunto – a Magna Carta – nós totalmente as anulamos, de sorte
que em tempo algum tenham validade”. Longe de favorecer a causa da liberdade
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popular, o pontífice romano ainda declarou ser a Carta “baixa e violenta, mui ilegal e
iníqua, muito fazendo pela derrogação e diminuição dos direitos e da honra do rei”.

Em 1493, quando Alexandre VI dividiu o continente ocidental, “descoberto


e permanecendo por ser descoberto”, entre Espanha e Portugal, ele afirmou ser o
decreto válido para sempre – in perpetuum. Isso afirmou o pontífice, baseando-se na
autoridade a ele pertencente como vigário de Cristo – e colocou sob anátema quem quer
que ousasse infringir os direitos de Espanha e Portugal.6 Se se disser que esses dois
documentos, de Inocêncio e de Alexandre, não incidem propriamente na definição da
infalibilidade papal, responderemos que, se assuntos de direitos populares e da posse
perpétua de um vasto continente, não são de conteúdo doutrinário e moral, são, pelo
menos, superiormente práticos e podem presumivelmente ter indizível repercussão
sobre o bem-estar da humanidade.

13. Opiniões científicas declaradas heréticas.- Baseando-se na Escritura, o


papa declarou falso e herético o sistema Copérnico. O decreto está claramente dentro do
terreno da doutrina, já que ele declara o que as Escrituras permitem ou proíbem.
Galileu, que advogou o sistema, foi, a princípio, intimado a guardar silêncio, sendo
condenado à reclusãoem sua villa em Florença. No primeiro julgamento, 1616, os
cardeais declararam a tese segundo a qual está o sol no centro do universo e estar fixo o
mesmo sol, absurda e falsa em filosofia e formalmente herética, porque expressamente
contradiz as Escrituras. Depois o tribunal condenou a proposição de não ser a terra o
centro do universo e de ela se mover cada dia, como igualmente falsa e absurda em
filosofia e sendo, do ponto de vista teológico, errônea em matéria de fé.7 Um mês
depois a Congregação da Inquisição repetiu a sentença e proibiu a divulgação das obras
de Copérnico. Quando, em 1633, Galileu foi julgado, pela segunda vez, pelo tribunal da
Inquisição Romana, ameaçaram-no de tortura, se se não retratasse e condenaram-no
“como veementemente suspeito de heresia”. A decisão, assinada por sete cardeais, por
três vezes declarava ser falsa a teoria de Copérnico e ao mesmo tempo contrária à Santa
Escritura – falsa et omnio contraria – sendo por várias vezes arrolada entre as heresias
“contrárias à igreja católica, apostólica, romana”. A decisão foi adotada por Urbano
VIII, que a remeteu a todos os núncios papais, com a recomendação de que fosse lida
pelos confessores e outros, “para que aquelas coisas fossem conhecidas de todos”. Mais
tarde, 1664, a decisão foi confirmada por Alexandre VII. O Index de 1704 continha a
proibição de “todas as obras que ensinam o movimento da terra e a imobilidade do sol”.
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Em relação à teoria de Copérnico, pode-se outra vez alegar que Lutero e


outros Reformadores protestantes, bem como lord Bacon, foram contrários a ela, quanto
o foram papas e cardeais. A réplica é outra vez esta: nenhum protestante inteligente
pretende encarar a Lutero ou Calvino como infalível. Nem os protestantes censuram a
Urbano VIII e a comissão papal por terem dado expressão ao grau de conhecimento de
sua época. Eles erraram – e o erro anula o dogma da infalibilidade papal.

Às espécies de erros papais já apontados, pode ser aduzido um número


infinito de aprovações pontifícias solenemente dadas a fábulas eclesiásticas, que o
testemunho da Escritura e o bom senso repelem. Aqui se enquadram histórias como a
lenda do Escapulário; a trasladação da suposta casa de Maria, de Nazaré para a Itália; e
a aprovação dada por Clemente V à pretensa verdadeira cruz, espalhada por diferentes
partes da Europa como genuína, e o decreto de Clemente, assegurando que o madeiro do
Calvário possui a faculdade singular de multiplicar-se indefinidamente. O mesmo
Clemente chegou a ordenar aos anjos que viessem em sua ajuda, pretensão que a
Universidade de Paris não condenou menos do que o fizeram Wyclif, Huss e Wessel.
Nestes últimos tempos, Pio IX, 1863, confirmou a decisão da Congregação de Ritos, de
1668, que havia concluído que os frascos manchados de sangue e encontrados nas
catacumbas, continham sangue de mártires; e em 1903 o Santo Ofício sancionou o uso,
como remédio, de pequenas imagens de Maria feitas de gesso, amolecidas em água e
reduzidas a pílulas. Um dos Gregórios condenou a Raimundo Lullos, por haver dito que
a misericórdia de Cristo dá fundamento à crença de que a maioria dos homens se salve,
crença rejeitada por Tomaz de Aquino. Se o dogma da infalibilidade papal for
verdadeiro, então as instituições de benemerência do protestantismo, como as
Sociedades Bíblicas e as Missões, são anticristãs e o próprio Protestantismo é do diabo.
Em sua encíclica de 20 de abril de 1884, Leão condenou a Ordem Maçônica como
sociedade empenhada em negócios do reino de Satanaz, tendo como último objetivo
completar a ruína de tudo quanto a igreja intentou realizar, para exibir entre as massas
desenfreada licença e vícios. Contra a astúcia de seus membros, homens de espírito
satânico, invocou o auxílio de Maria, “que tem vencido a Satanaz desde o instante de
sua concepção”.

§ 6. O insucesso papal nas crises morais.- O decreto Vaticano da


infalibilidade não chega a tornar impecável o pontífice romano. Após a morte do papa,
dizem-se missas pelo repouso de sua alma. Como todos os outros eclesiásticos, ele está
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sujeito a ser detido por algum tempo no purgatório. É possível que alguns papas tenham
sido réprobos, como Dante e Wyclif sustentaram e ao Concílios de Pisa e Constança
confirmaram. A infalibilidade religiosa – nós outros mui naturalmente suporíamos –
incluiria isenção de pecado pessoal, porque, em boa lógica, parece muitíssimo
improvável que Deus confiasse a pontífices ambiciosos e sensuais a infalível
prerrogativa de anunciar doutrinas religiosas de salvação. Durante os séculos X e XI,
exerceram o ofício papal papas após papas dos quais o católico romano Mohler disse: “o
inferno os tragou”. Um de menor profundeza de erudição, Belarmino, compôs
considerável lista de maus papas, sem tocar, todavia, em Alexandre VI e Paulo III. Em
meio de crises nas quais, supõe-se, o papa faria bem em interpor sua autoridade
infalível, para evitar a perda de multidões de vidas e grande sofrimento, ele não o fez,
do que há exemplo na guerra dos Trinta Anos – um conflito religioso – e, mais
recentemente, na guerra de 1914. O mesmo se pode dizer no tocante a concessões que
os papas têm feito, de altas dignidades. Eles deviam ter maior conhecimento do que o
demonstraram, ao conferir a Rosa de Ouro a Isabel de Espanha, como o fez Pio IX, ou
como fez Leão X, há muito tempo, em relação ao eleitor Federico, protetor de Lutero,
ou ao declarar Henrique VIII Defensor da Fé. Na crise que foi a guerra mundial, Bento
XV pediu a paz e convidou as nações a orarem pela paz, disposição de espírito também
demonstrada por multidões de protestantes, assim como de católicos romanos.
Houvesse o papa formulado uma opinião, indicando de que lado estava o direito, e a
guerra podia ter-se abreviado, reduzindo-se seus horrores. Em último caso, teria sido
uma atitude moral de alta significação, agir assim o papa como infalível vice-regente de
Deus. Defendendo o silêncio papal e a neutralidade, o cardeal Mercier explicou que o
pontífice não ousou “assumir a responsabilidade pela imensa perturbação de consciência
que teria resultado, se ele houvesse dito aos católicos alemães que sua guerra era injusta.
Tivesse feito isso e os alemães não lhe teriam obedecido, a ele, seu santo pai, e tal
desobediência os levaria à condição de mortais pecadores”. Numa carta ao cardeal
Pompili, 1922, referindo-se à sua encíclica sobre a paz, Pio XI escreveu: “Longe de nós
a idéia de tomar partido nas questões que estão perturbando os povos!” Os protestantes
julgam não se encontrarem muito fora do caminho, quando condenam o silêncio de
pontífices que pretendem ser infalíveis, no momento em que enormes interesses
temporais, felicidade e vida de multidões estejam em jogo,. Infalível, embora, como o
pontífice romano foi declarado ser, ele às vezes tem, entretanto, derrogado seus próprios
decretos, como fez clemente V em relação ao decreto de Bonifácio, no que se refere à
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França, e Pio X acerca da aplicação de suas leis sobre casamento na Áustria e em alguns
outros países. Bento XV parece ter agido do mesmo modo, ao chamar aos russos
“nossos filhos distantes”, quando, por séculos, os editos papais os haviam tratado de
rebeldes, cismáticos e até de hereges.

Os protestantes a ninguém chamam “Senhor, senhor”, e reconhecem a


propensão que todos os homens, mesmo os mais instruídos, têm para o erro, embora
tenham a Escritura na mão. Os protestantes estão prontos a modificar as definições
doutrinárias do passado, se julgarem que elas desfiguram as verdades das Escrituras, e a
renunciarem aos conceitos de mestres, não importando o grau de honra que tenham
merecido no passado, caso se conclua serem tais conceitos insustentáveis. Eles têm
abertamente expresso seu pesar em razão de medidas que um melhor juízo agora
condena. O legislativo de Massachussetts revogou a sentença de banimento proferida
contra Roger Williams; também repudiou as condenações votadas em Salem contra a
feitiçaria, fato que o legislativo qualificou como “desgraçada tragédia”. O diácono
Samuel Sewall, um dos juízes, ergueu-se em sua igreja de Boston e confessou que
aquilo fora um engano do demônio e que ele havia errado, sentenciando indigitados
feiticeiros á prisão e à morte. Em Genebra, no sítio em que Servetus foi queimado, os
representantes das Igrejas Protestantes da França ergueram um monumento, em cuja
inscrição reprovam o princípio que tornou possível a execução do espanhol, há trezentos
anos. Diz a inscrição: “Nós, filhos respeitosos de Calvino, nosso grande Reformador,
condenando um erro, que foi o erro de sua época, e firmemente devotados à liberdade
de consciência, conforme os verdadeiros princípios da Reforma e do Evangelho,
erguemos este monumento expiatório, a 27 de outubro de 1903”. Se algum papa
abertamente renunciasse ao princípio de condenação de cristãos não romanos e
expressasse pesar em face dos decretos que levaram mitos homens à morte, por suas
opiniões religiosas, e em face da exultação demonstrada por seus predecessores diante
de ações tais como o massacre de S. Bartolomeu – o dogma da infalibilidade sofreria,
mas a verdade e a cooperação cristã muito teriam a lucrar.

Fundados na Escritura, na história e na observação, os protestantes negam


que o pontífice romano esteja, por designação do Alto, colocado na função de governar
a igreja cristã e rejeitam-lhe a pretensão de ser o mestre infalível da verdade cristã,
considerando tais pretensões como conceito humano, gerado do orgulho ou da
ignorância. A monarquia papal é invenção do homem. O dogma da infalibilidade papal
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desonra as Escrituras e a obra do Espírito Santo, prometido a todos os homens que


roguem seu auxílio.

Bibliografia e Notas

1. Straub, 2:393, cita Tomaz de Aquino com o fim de provar que “a


autoridade para finalmente determinar as coisas pertinentes à fé, inere no supremo
pontífice”. Diz Tomaz: “pertence ao pontífice determinar o que seja matéria d fé”,
Reusch, p. 5. Diz Wyclif: “Muitos homens sinceros são levados a crer por engano,
quando o papa determina que alguma coisa seja verdade que deve ser crida. Mas,
Senhor, estaria cada papa mais e melhor com Deus do que o estava Pedro? Porque
Pedro errou e pecou muito, mesmo depois que recebeu o Espírito Santo” – ed. De
Arnold, 345.

2. As palavras reais de Manning, Purcell, 2:420, são: “na véspera do dia de


S. Pedro, eu e o bispo de Ratisbona assistíamos ao trono do papa e então se fez o voto,
extorquido pelo P. Liberatore, jesuíta italiano, de tudo fazermos ao nosso alcance para a
obtenção da definição da infalibilidade papal. Empreendemos recitar todos os dias
certas orações em latim, contidas num livrinho ainda em meu poder”, etc.

3. Na segunda ed. de sua Hist. of Councils, 3:145-177, 276, 315, Hefele


modificou seu conceito e proclamou o erro de Honório um disparatado uso de palavras
ou uma confusão dos termos “energia e vontade”, 431-44. As palavras de Leão,
confirmando a atuação do 6º. concílio ecum., reza: igualmente anatematizamos Ciro de
Alexandria, Sérgio... e também Honório, que tentou subnerter a fé imaculada por meio
de traição profana!” O ato do Concílio foi: “nós banimos a Honório da Santa Igreja
Católica de Deus” e ao mesmo tempo anatematizaram a Honório, etc.

4. Vide a cuidados narrativa feita por Dollinger-Reusch: Bellarmin,


Selbstbiog., com documentos. Explicando sua tentativa de evitar o escândalo que
produziria a circulação da errada ed. Sixtina, Belarmino ponderou que, preparando a
nova ed., ele havia recebido de Sixto o mal pelo bem, havendo Sixto colocado no Index
a explanação do cardeal, sobre o pontífice romano. – Pastor, 10:158 e ss., 590 e ss., diz
que Sixto publicou sua edição a despeito das advertências de que ela continha erros, e
que sua ordem para que ela substituísse a todas as outras edições da Vulgata foi
desobedecida pelos publicadores de Veneza e por Filipe II. Não obstante, diz Pastor que
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certas formalidades – Formlichkeiten foram omitidas na publicação da bula e por essa


razão ela não pode ser tratada como documento autorizado.

6. Diz a bula de Alexandre: “Nós, por nossa mera liberalidade e


conhecimento certo e, em virtude da plenitude de nosso poder Apostólico, pela
autoridade do onipotente Deusa nós concedida em Pedro, e em virtude de sermos o
vigário de Jesus Cristo sobre a terra, concedemos a Portugal e Espanha todas as terras e
ilhas já descobertas e a serem descobertas, e aos reis daqueles países e a seus herdeiros e
sucessores in perpetuum.” Sobre a bula, Vide Mirbt, p. 246, 248. Fiske: Discovery of
America. Schaff: Ch. Hist., 5:12, p. 468. Quanto à escravização de africanos por
Espanha e Portugal, Nicolau V, a 8 de jan. de 1454, renovou sua concessão de 1452,
feita a Afonso V, e, ainda falando de si mesmo como “o pontífice romano, o sucessor do
claviculário do reino de Deus e vigário de Jesus Cristo, que busca com paternal cuidado
o bem de todas as partes do mundo e de todos os povos e a salvação de cada um em
particular”, autorizou o rei português “a fazer guerra para a defesa da fé contra
sarracenos e outros infiéis, a conquistar e subjugar suas terras e reduzir a perpétua
escravidão suas pessoas”. Nicolau também fala da venda de “guineanos e outros negros,
que tinham sido apanhados à força”. Mirbt, p. 240 e ss. Hinschius, Kirchenr, V. 561, diz
que as guerras e a escravização de povos e pessoas, por ordem papal, prosseguiam no
século XVI, e menciona uma bula publicada por Paulo III. Vide Mirbt, p. 240, sobre
outras bulas, e sua referência a Langer: Sklaverei in Europa wahrend d. letzten Jahr d.
M. A., 1891.

7. Solem esse in centro mundi et immobilem motu locale est propositio


absurda et falsa in philos. Et formaliter herética quia est expresse contraria sac.
Scripturae, etc. Vide Funk: Abhandlungen, 2:444, 476. Quanto às observações do card.
Gibbons, p. 119. Nicolau V oferece um edificante incidente nos anais do papado, com
seu temor da morte e fuga de Roma, durante as infecções do cólera de 1450-52. Ele foi
de castelo em castelo, buscando segurança, demitindo todos os secretários, à exceção de
um, e se avistando com poucos de seus cardeais. Afinal, publicou do castelo Fabriano a
ameaça de despojar a quem quer que fosse de seus haveres, caso fosse ter com ele, papa,
partindo de sete milhas da cidade papal. Poggio ridicularizou o papa por se andar a
mover como os citas. Vide Pastor, 1ª. ed., 1:330; 2ª. ed., 1:357.
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CAPÍTULO XVI

O MINISTÉRIO E O SACERDÓCIO

Prega a Palavra, convence, repreende, exorta com toda a paciência e ensino. Cumpre teu
ministério.- II Tim. 4:2, 5.

A comunhão romana é dirigida por um corpo de oficiais conhecido como o


sacerdócio – sacerdotium; as comunidades protestantes o são por um corpo conhecido
como o ministério. O título de clérigos, que se aplica a ambas as classes, é muito antigo
e é derivada da palavra grega kleros, que significa sorte, como quando os discípulos
lançaram sortes para a eleição de Matias – Atos 1:26, e Pedro usou da palavra em
referência a todos s cristãos, como herança ou povo escolhido, I Ped. 5:3. Os
romanistas e os protestantes concordam em que os clérigos devem ser conhecidos por
sua piedade, caráter e inteligência, mas divergem profundamente em relação à origem
do governo da igreja e quanto à sua própria forma, às credenciais dos clérigos, nos
efeitos produzidos pela ordenação, hierarquia do clero, distinção enter o clero e o
liaicado, o casamento dos clérigos e a extensão de suas obrigações para com a
autoridade civil.

§ 1. O Governo da Igreja.- segundo a teoria romana, o governo da igreja é


de explícita determinação divina e o esquema romano é a forma legítima. Como seu
chefe se encontra o papa. A ele, como sumo sacerdote, se une o sacerdócio, que consta
de vários graus ou ordens, e os sacerdotes exercem suas funções em virtude de
ordenação episcopal. Alguém que não tenha sido ordenado por um bispo e que se atreva
em realizar funções clericais, é declarado réu de sacrilégio. Para acesso na carreira, o
sacerdote depende do bispo e este do papa. A corporação católica romana é a mais
compacta e, do ponto de vista terreno, a mais eficiente das organizações. A engrenagem
de seu governo é tão perfeita quanto o engenho humano poderia jamais engendrar. Os
padres e os bispos são um exército sólido, conduzido por um supremo comandante
investido de plenos poderes. O pontífice romano é o supremo governador da igreja, em
virtude de alegada investidura sobrenatural, e credenciado como diretor e mestre. De
acordo com o Concílio Vaticano, “a fortaleza e solidez de toda a igreja residem na
primazia de Pedro”. A forma papal de governo é monárquica e a condição exigida dos
que tenham de pertencer à igreja romana é a de prestarem implícita obediência ao
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monarca papal. Aquele que desobedece ao papa, o potentado terreno, desobedece a


Deus, o potentado celestial. O sistema pode ser alguma coisa que recalca o
individualismo e a liberdade de pensamento e progresso. Está construído sobre o
princípio de obediência implícita e desenvolve inquestionável submissão.

A idéia protestante é a de que a administração da igreja é matéria de


preferência e conveniência humana. A forma de administração não é de ordenação
divina ou apostólica, sendo para a fé ou para a crença doutrinária da igreja o que as
roupas são para o corpo humano. Nosso Senhor não fez mais do que chamar os
Apóstolos e enviar os setenta. Ele não estabeleceu ordens no ministério e nem conferiu
autoridade sacerdotal. Depois de sua ressurreição, surgiu na igreja uma classe de
pessoas conhecidas por diferentes títulos e exercendo diferentes funções, como a de
profecia, evangelização, ensino e governo. A natureza exata da organização da igreja, na
era apostólica, tem sido, por séculos, assunto de discussão de divergências. As
comunidades protestantes, conforme a entendem, seguem-na como modelo, com as
modificações que as circunstâncias tornem prudentes e desejáveis. A proposição
baixada pelos Puritanos da Nova Inglaterra, na Plataforma de Cambridge, em 1648,
estatuindo que todas as partes do governo da igreja são particularmente descritas no
Novo Testamento, não mais a sustentam seus descendentes espirituais. Mesmo Calvino
não foi tão longe. Lutero encarava o ministério como assunto de conveniência e não de
ordenação divina. Ele e Calvino, embora prescrevessem um governo de presbíteros,
também reconheciam o governo de bispos. AS igrejas da Dinamarca, Noruega e Suécia,
que são luteranas e derivam sua organização de Wittenberg, são presididas por bispos e
Calvino reconheceu a constituição episcopal da Polônia. Bullinger e Beza
recomendaram aos eclesiásticos ingleses o reconhecimento dos bispos anglicanos. Knox
incluiu os superintendentes – outro nome dado aos bispos – em sua forma de governo
elaborada para a Escócia, pelo menos como oficiais temporários. Presbiterianos,
luteranos e outros sistemas protestantes podem a qualquer tempo decidir concentrar em
presidentes individuais a autoridade que é agora conferida ao corpo de presbíteros. A
Confissão de Fé escocesa assumiu uma atitude perfeitamente protestante, ao declarar
que: “Na casa de Deus, cumpre sejam todas as coisas feitas decentemente e em ordem.
Não que pensemos que qualquer organização e ordem de cerimônias possam ser
determinadas para todas as idades, tempos e lugares. Porque, como as cerimônias e os
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homens que elas têm dividido são juntamente mortais, assim podem e devem ser
mudadas, quando alimentem a superstição, em lugar de edificarem a igreja que as use”.

§ 2. O ministério e o Novo Testamento.- o termo genérico de que o Novo


Testamento se serve para designar as pessoas que exerçam atividade na igreja e nas
congregações cristãs, é o ministério – diakonia – palavra empregada para denotar
qualquer serviço feito em nome de Cristo, quer seja pregação, instrução ou obra de
caridade. Foi para o “ministério” que os sete diáconos foram designados. Ao “ministério
da palavra” os Apóstolos deliberaram restringir-se; e foi para a “obra do ministério” que
os Apóstolos, presbíteros, evangelistas, pastores e doutores foram separados – Atos 6:1,
4; Efe. 4:12. Matias foi eleito sucessor de Judas, para tomar parte no “ministério” –
Atos 1:17. Febe era “ministro” – sendo a palavra grega diácono – da igreja de Cencréia.
Ser “aprovado como ministro de Deus e Cristo” era a mais alta aspiração de Paulo; e sua
chamada para ser “ministro” ele a considerava como um dom de Deus – Atos 20:24;
efe. #:7. O Apóstolo exortava a Timóteo a “bem cumprir seu ministério”. A atuação do
Evangelho era, de modo geral, conhecida como “o ministério da reconciliação” e “o
ministério dos santos” – I Cor. 16:15; II Cor. 5:18.

As funções do ministério foram desempenhadas por pessoas que tiveram os


títulos de Apóstolos, profetas, evangelistas, anjos das igrejas, bispos, pastores, mestres,
presbíteros e diáconos. Títulos como os de “papa”, “vigário de Cristo”, “santo padre”,
não se encontram no Novo Testamento. O título “sacerdote” – hiereus – nunca é usado
no Novo Testamento em relação a líderes oficiais de congregações cristãs, mas, usado
em referência a cristãos, ele se refere a todos os crentes cristãos, como quando Pedro e
João aludem a “um real e santo sacerdócio”, ou “feitos reis e sacerdotes para Deus” – I
Ped. 2:5; Apoc. 1:6. Quando Cristo usou da palavra “sacerdotes”, fê-lo invariavelmente
em relação aos sacerdotes da dispensação hebraica. Paulo e João se chamavam servos,
embaixadores, apóstolos, co-presbíteros, ministros de Cristo, mas nunca se
apresentaram como sacerdotes. Foi dito com acerto por Glover que, se o Novo
Testamento tivesse “pensado em sacerdote, ele teria dito sacerdote”. O único sacerdote
cristão conhecido dele, sendo distinto de todos os crentes, é o próprio Cristo. O objetivo
exato da Epístola aos Hebreus foi o de assegurar a abolição do sacerdócio judaico e o
cumprimento da função sacerdotal, em caráter definitivo, por Cristo. Ele é o anti-tipo do
sumo sacerdote judaico. Fez a infinita oferenda de si mesmo, uma oblação de queos
sacrifícios do templo eram tipos proféticos. O sumo sacerdote judaico entrava com
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frequência no lugar mais santo do templo. Cristo entrou uma vez por todas no lugar
santo, não feito pelas mãos. Quando o sumo sacerdote judaico morria, seu ofício
passava a um sucessor. Cristo não tem sucessor. O escritor da Epístola aos Hebreus faz
especial contraste entre o sacerdócio levítico e Cisto, o único sumo sacerdote. O
sacerdócio foi transferido para Cristo e, através deste, todos podem aproximar-se do
trono da graça. Em sua carta aos Filipenses, Policarpo chamou a Cristo “o sacerdote
eterno”.

Com o sacerdócio, nas religiões judaica e pagã, necessariamente se


confundiam o altar e os sacrifícios. No Novo Testamento, o altar judaico é mencionado
várias vezes e a única vez em que se fala de altar, em associação com a dispensação
cristã, ele vem a ser a cruz, sobre que, pela oblação de si mesmo, Cristo fez propiciação
pelos pecados do mundo – Efe. 5:2; Heb. 13:10. Os sacrifícios cristãos, além do
sacrifício da cruz, referidos no Novo Testamento, são a consagração que o homem faz
de si mesmo a Deus, a oferta de nossos corpos como “sacrifício vivo”, e os “sacrifícios
espirituais” da oração, do louvor e das obras da caridade – Rom. 12:1; Fil. 2:17; Heb.
13:16; I Ped. 2:5. Paulo também fala figuradamente dos gentios como uma oferta viva
oferecida por ele a Deus.

Os romanistas acreditam na pretensa instituição de uma ordem sacerdotal na


igreja cristã, graças à falsa tradução da palavra grega “presbiter”, feita pela Vulgata e
seguida pela versão de Rheims, servindo de desculpa àquele erro, de reconhecer o Novo
Testamento uma ordem sacerdotal, o fato de o Livro Episcopal de Oração Comum usar
indiferentemente as palavras “sacerdote” e “ministro”. No novo Testamento clara
distinção se faz entre a palavra grega usada para nomear o sacerdote – hiereus – de que
procede o vocábulo “hierarquia”, e a palavra grega presbítero – presbyteros – às vezes
traduzida por “ancião”. Os sacerdotes eram oficiais do templo judaico: os presbíteros
das sinagogas judaicas existiam para o mister de instruir e não para oferecer sacrifícios.
No interesse da teoria sacerdotal, que era a tendência dominante em seu tempo,
Jerônimo arbitrariamente alterou sua tradução da única palavra presbítero por várias
palavras latinas – ancião, maior ou velho, assim como sacerdote e presbítero. No relato
do Concílio de Jerusalém, a expressão “Apóstolos e presbíteros” é usada cinco vezes –
Atos 15:2 – 16:4. Na passagem de Atos 14:23, que declara que Paulo e Barnabé
“estabeleceram presbíteros em cada cidade”, Jerônimo traduz a palavra corretamente –
presbíteros, como também faz na passagem em que Paulo ordena a Tito – 1:5 _ o
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estabelecimento de “presbíteros em cada cidade”. Teria sido quase fatal à teoria de


Jerônimo, no tocante ao sacerdócio, haver sugerido, pela tradução do original pela
palavra “sacerdotes”, que cada uma das congregações tivesse vários sacerdotes. Por
outro lado, na passagem de I Ped. 5:1, em que Pedro a si mesmo se trata de co-
presbítero, Jerônimo a traduziu como co-ancião – deliberada tentativa, ao que parece,
de afastar a clara significação de que Pedro se colocasse na mesma classe do corpo de
presbíteros.

De modo mais incisivo, a versão de Rheims pode ser acusada de voluntária


tentativa de impingir ao Novo Testamento uma ordem especial de sacerdotes cristãos.
Quase uniformemente ela traduz a palavra grega “presbytero” como se fora hiereus, isto
é, sacerdote. Paulo e Barnabé são exibidos a estabelecerem “sacerdotes em cada cidade”
e Paulo a recomendar a Tito que ordene “sacerdotes em cada cidade”. Do mesmo modo
que a Vulgata, aquela versão traduz a expressão “presbíteros da igreja”, empregada na
passagem em que Tiago – 5:14 – recomendou que fossem eles chamados em caso de
doença, como “sacerdotes”. O propósito de introduzir uma classe de sacerdotes no Novo
Testamento, é definitivamente revelado no trato a que Jerônimo e a versão de Rheims
submetem as declarações culminantes de Atos 20:17, 28, onde o escritor sagrado tem
em mente as mesmas pessoas, isto é, membros da igreja de Éfeso, que Paulo havia
chamado a Mileto. No versículo anterior são eles chamados “presbíteros” e, no último,
“bispos”. Para lhes obscurecer a identidade, a Vulgata traduz a primeira passagem –
Paulo chamou “os velhos” – majores natu – de Mileto; e a versão de Rheims emprega a
expressão “aos antigos”, enquanto que ambas traduzem a segunda passagem deste
modo: “Cuidai da igreja de Deus, sobre a qual o espírito Santo vos colocou como
bispos”.
Causa desapontamento verificar-se que a nova versão católica de
Westminster perpetue a falsa tradução de presbítero pela palavra sacerdote, como em
Tiago 5:14. O mesmo erro é inculcado nas mentes infantis pelos catecismos romanos,
como o Catecismo de Doutrina Cristã aprovado pela hierarquia de Inglaterra, onde
Tiago se apresenta a ordenar que “os sacerdotes da igreja” sejam chamados para os
enfermos. No capítulo sobre a Ordem, o Catecismo Tridentino diz que os antigos padres
eram chamados ministros, “presbíteros e sacerdotes” – mas não se refer ao Novo
Testamento em abono desse palavreado.1
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§ 3. O Ministério Católico Romano.- Segundo o sistema católico romano,


o ministério se compõe de “bispos, sacerdotes e outros ministros”, que, reunidos,
formam “um novo, visível e externo sacerdócio” – sacerdotium – que é também
chamado a hierarquia. Esse ministério é de investidura divina, embora principalmente
os bispos – proecipue – constituam a ordem hierárquica, estabelecidos que foram para
“governar a igreja de Deus”. Os decretos de Trento são explícitos na exaltação do
sacerdócio e na definição de suas funções, e pronunciam mais de uma dúzia de
anátemas sobre quantos supostos erros corram fora da comunhão romana, no tocante ao
ministério. Aqueles decretos fazem derivar o ofício sacerdotal da instituição da Ceia do
Senhor, quando Cisto “constituiu os Apóstolos em sacerdócio e a seus sucessores no
sacerdócio foi conferido o poder de oferecer seu corpo como sacrifício propiciatório e o
poder de absolver ou reter pecados”, derivando ainda o citado ofício da faculdade dada
por Cristo aos Apóstolos, de perdoar pecados.

A culminância do sacerdócio na pessoa do pontífice romano, acha-se


esculpida na base da cúpula da basílica de S. Pedro, através das palavras “Daqui
procede a unidade do sacerdócio” – Hinc sacerdotii unitas exoritur. O sacrifício e o
sacerdócio foram reunidos inseparavelmente pelo Concílio de Trento. A única passagem
distinta que o Concílio invocou em abono da “transferência” do sacerdócio aarônico
para o novo sacerdócio cristão, foi Hebreus 7:12, que diz: “... Que necessidade havia
ainda de que um outro sacerdote se levantasse segundo a ordem de Melquisedec, e de
que não fosse contado segundo a ordem de Aarão? Pois, mudado que seja o sacerdócio,
é necessário que se faça também mudança da Lei”. A intenção do escritor parece ter
sido justamente o reverso da significação dada à passagem pelo Concílio de Trento. O
sacerdócio de Cristo, e somente este, estava sendo considerado pelo escritor – e não
uma ordem ou sucessão de sacerdotes cristãos.

Os deveres sacerdotais são, segundo a lei romana, celebrar, isto é, oferecer o


sacrifício da missa; governar, ensinar e absolver pecados – potestas regendi, magistandi
et remittendi. A habilitação ou graça recebida pelo sacerdote na ordenação, eleva-o
acima dos mais altos reis e dos santos mais devotos. Segundo afirma o Catecismo
Tridentino, “o sacerdote representa o próprio Deus sobre a terra. Não se pode imaginar
função mais elevada. Os sacerdotes são justamente chamados anjos e também deuses”.
Sua honra não se quipara a nenhuma outra sobre a terra. Os títulos do sacerdote romano,
segundo os resume o cardeal Gibbons, são: “rei, pastor, pai, juiz, cuja função é lavrar
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sentença de perdão a criminosos confessos, e médico, porque ele cura as almas das
asquerosas moléstias do pecado”. A excelência superlativa do ofício o cardeal a
expressa nestas palavras: “Como o céu está acima da terra; como a eternidade está
acima do tempo e a alma acima do corpo, assim são as prerrogativas conferidas aos
ministros de Deus mais altas do que as de qualquer potentado terreno. Um príncipe
terreno pode lançar na prisão ou dela soltar o homem. O ministro de Deus pode libertar
a alma da prisão do pecado e restituí-la à liberdade de um filho de Deus”. Não importa
quão ignorante ou mesmo criminoso o sacerdote possa ser: ele possui indelevelmente
aquela virtude em consequência de sua ordenação. Pelo sistema romano, o sacerdote é o
mediador entre o homem e Deus – e é impossível que alguém se reconcilie com Deus, a
não ser que receba os sacramentos que o sacerdote abençoa.

§ 4. O ministério Protestante.- entre os protestantes, o ministério não é


uma ordem distinta, colocada acima dos outros cristãos, mas um grupo de homens que,
em razão do discernimento espiritual e da experiência, são reconhecidos como aptos
para o ofício da pregação e do cuidado pastoral. As funções do ministro consistem no
expor as Escrituras através do ensino público e particular, administrar os sacramentos,
manter a ordem e a disciplina numa dada congregação e dar, pela sua conduta, exemplo
de piedade. Ele é o guia espiritual e não o despenseiro da virtude celeste. Seu ofício não
é o d sacerdote para conferir graça, mas o de entregar a passagem. A essência dos
conselhos do Apóstolo a Timóteo era “pregar a Palavra”. Wyclif e Huss fizeram da vida
pura a condição de cumprimento do ofício do ministério e insistiam em que o sacerdote,
em estado de culpa de pecado mortal, está desclassificado para realizar as funções
sacerdotais. É possível que Chaucer tivesse a Wyclif em mente, quando escreveu sua
famosa descrição do pastor piedoso:

“Melhor sacerdote creio não haver em parte alguma: Ele não vai em pós de
pompa, nem de reverência, nem o impele nenhum ardor de consciência; mas
o ensino de Cristo e de seus doze apóstolos prega, seguindo-o, todavia, ele
próprio, em primeiro lugar”.

A pregação, como o principal dever do ministro cristão, foi restaurada pela


Reforma. Durante a Idade Média ela havia caído em desuso. Wyclif na Inglaterra e Huss
na Boêmia, haviam exaltado o sermão em seus escritos e por seus próprios esforços de
púlpito. Wyclif dizia repetidamente que “a pregação da Palavra de Deus é ocupação
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mais preciosa do que a administração dos sacramentos”, e que ela é “ o ato mais digno
que o sacerdote pode cumprir entre os homens”. Lutero era um pregador vigoroso,
como o eram Calvino, Zwinglio, Latimer e Knox. Onde quer que tenha ido o
protestantismo, tem florescido um púlpito livre. Do ofício clerical, como era visto no
século XV, disse Calvino: “O encargo pastoral, conforme fora instituído por Cristo,
recaíra, desde muito, em desuso. Ninguém é verdadeiro pastor, se não cumpre o ofício
de ensinar. Dificilmente um em cem bispos sobe ainda ao púlpito para pregar”.

§ 5. Os dois conceitos comparados.- Os protestantes têm a seu lado as


páginas do Novo Testamento. A teoria sacerdotal é produto de elaboração eclesiástica.
É quase inconcebível que, se Cristo tencionasse instituir um sacerdócio, não houvesse
mencionado a honrosa palavra “sacerdote”, tão familiar no uso hebraico, para designar
os oficiaisod reino que ele estava estabelecendo. Em suas instruções a Timóteo e Tito,
nas quais Paulo se preocupava em expor os deveres do cargo ministerial, não há o mais
remoto vestígio de função sacerdotal. A transição do ideal do ministério, segundo o
Novo Testamento, para uma idéia de ordem sacerdotal, foi pela primeira vez revelada
no terceiro século, por Cipriano de Cartago. Começou com a inocente comparação feita
ente o ministério cristão e o sacerdócio levítico. Os escritores da última parte do
segundo século, como Clemente de Alexandria, continuavam a falar dos sacrifícios dos
hebreus como precursores, não de sacrifícios materiais, mas das orações cristãs. Ireneu
em sua Pregação Apostólica, recentemente descoberta, não faz referência a um
ministério sacrificial. Falando do sacerdócio cristão, tata do sacerdócio de santidade
moral e da negação própria, registrada no ensino Apostólico. Tertuliano continuou a
insistir no sacerdócio de todos os crentes. Seu sucessor norte-africano, Cipriano,
encontrou nas palavras de Cristo – “Vai mostrar-te ao sacerdote” – uma garantia da
divina instituição de uma ordem sacerdotal e pelo tempo de Cipriano tinha-se tornado
comum chamar “sacerdotes” aos ministros cristãos.

§ 6. A sucessão Apostólica.- Como os protestantes divergem acerca da


natureza e autoridade do sacerdócio, assim divergem quanto à teoria da assim chamada
sucessão apostólica. Entende-se por sucessão apostólica o canal através do qual o
ministro cristão deriva suas credenciais e seus dons.

A igreja romana pretende possuir uma linha ininterrupta de clérigos, desde


os dias dos Apóstolos. Esses clérigos, bispos e sacerdotes, herdaram, através dos
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Apóstolos, graça especial e a eles foi confiado o depósito da fé, do qual são guardiães
perpétuos – Concílio de Trento, 13:1-4. Segundo a teoria episcopal antiga, ou
cipriânica, quando os bispos se reúnem em concílio ecumênico ou por outra maneira se
entendem, são indisputáveis os seus juízos. Essa teoria foi modificada pelo decreto
Vaticano, que concentrou as funções de ensino, assim como as de governo, no tocante a
toda a igreja, no pontífice romano. Leão XIII – de unitate – considerou como lei divina,
que não só os bispos isoladamente, mas os bispos em conjunto, estão sujeitos à
jurisdição do pontífice romano.

A teoria da sucessão apostólica, assim entendida, é repudiada pelos


protestantes, pelas seguintes razões: Os Apóstolos eram um grupo distinto, sendo uma
de suas características o fato de terem sido testemunhas visuais da vida e ressurreição do
Senhor. Foi este o critério seguido na eleição de Matias para o apostolado e Paulo dá
realce a esse critério, quando afirma ter “visto o Senhor” – Atos 1:21; I Cor. 9:1-5.
Indicando que o número deles era definitivo, João, em seu Evangelho, sempre usava da
expressão “os doze”, em referência ao colégio apostólico. No livro de Apocalipse
escreve acerca dos “doze Apóstolos do Cordeiro”. A teoria que faz se derivem os bispos
dos Apóstolos, como seus sucessores, está em desacordo com a teoria episcopal
inaciana, segundo a qual os bispos eram tratados como representantes de Cristo e os
presbíteros como representantes dos Apóstolos. Falando da Regra da Fé, Treneu disse
que ela foi transmitida através dos presbíteros.

Se se atribuir valor à sucessão mecânica dos ministros cristãos, procedendo


dos Apóstolos, os protestantes têm direito de reclamá-la tanto quanto o fazem os
romanistas. Lutero e outros Reformadores eram presbíteros, possuidores de ordenação
válida. Mas os protestantes – com uma parte constituída das comunhões Anglicana e
Protestante Episcopal – não consideram nem presbíteros, nem bispos, como essenciais à
igreja. Com acerto disse o finado Deão Rashdall que, se a igreja que se desembaraçou
dos profetas é verdadeira igreja, assim pode ser verdadeira a igreja que se desembarace
de bispos.2 Segundo a regra protestante, o critério de um ministério válido é a aptidão
para ensinar e, acima de tudo, a vocação divina. Os homens que possuem essas
credenciais estão em regular sucessão ao ministério do Novo Testamento, que foi um
ministério carismático, isto é, um ministério dotado de carismas ou dons do Espírito
Santo. Se, nos domínios dos negócios seculares, veio a ser aceito o princípio de que a
“nobreza” não consiste de pessoas capazes de traçar uma linhagem ilustre de razoável
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extensão, mas de pessoas que vivem nobremente, no terreno espiritual, e até onde se
possa claramente perceber, estão em sucessão Apostólica as pessoas que tenham
qualidades apostólicas e preencham as exigências apostólicas.

§ 7. O celibato clerical.- Outro assunto que divide as comunhões romana e


protestante é o casamento dos clérigos. A igreja romana exige que seus clérigos e
“religiosos” não sejam casados, exigência que desde Inocêncio III se tem estendido aos
sub-diáconos – Cânon 132, 949. Os protestantes acreditam que, segundo o Novo
Testamento, o estado de matrimônio é lícito a todo homem, seja clérigo ou leigo. O
Concílio de Trento pronunciou anátema contra “os que disserem que os clérigos,
revestidos de ordens sagradas ou regulares, professando castidade, possam contrair
validamente o matrimônio” e também sobre os que afirmam que “não seja mais bem-
aventurado o permanecer em estado de virgindade ou celibato, do que a união em
matrimônio”. A imposição do celibato clerical se baseia em três considerações: o
celibato é favorável à superior santidade e ajuda a colocar o clero acima dos leigos –
Cânon 124, 125; o sacerdote, desembaraçado de cuidados domésticos, é mais apto a dar
inteira atenção às obrigações de seu ofício; é mais capaz de prestar integral obediência a
seus superiores, bispos e papa. Gregório VII afirmou que a igreja não pode ser
independente do poder dos leigos, a não ser que o clero se livre das peias maritais.

Os sacerdotes que pecam contra a lei da continência são culpados de


sacrilégio – Cânon 132, 1072. À obrigação clerical de manter-se afastado do casamento,
Belarmino e outros aplicaram a observação de Paulo a Timóteo: “Nenhum soldado se
embaraça com os negócios deste mundo” – II Tim. 2:4. A dificuldade de tal
interpretação é que naquela passagem Paulo chega a recomendar aos bispos tenham uma
só mulher e a eles se refere como tendo filhos. O casamento, após a ordenação, torna o
indivíduo incurso em excomunhão. Só o papa tem poder para desobrigar o sacerdote de
seus votos de celibato. A dificuldade em conseguir semelhante dispensa aumenta com a
elevação da ordem clerical. Entre os casos notáveis de dispensa papal, permitindo a
clérigos a faculdade de se casarem ou de conservarem a esposa, figuram as licenças
dadas ao clero inglês por Júlio III, 1554, e ao clero francês, por Pio VII, em 1801. O
direito Canônico é minucioso em suas prescrições no tocante às relações de sacerdotes
para com mulheres, excluindo do domicílio sacerdotal todas elas, exceto mãe, irmã, tia
ou sobrinha. No caso de certas seitas, ora submetidas à obediência papal, como os
Maronitas e os Gregos Uniatas, o Código Canônico abre exceção e permite que seus
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sacerdotes se casem. Isto explica os sacerdotes casados que há nos Estados Unidos,
pertencentes à comunhão romanae ministrando aos Retenianos e povos semelhantes.

A igreja romana não encara o celibato como exigência de ordem divina, mas
como uma das três recomendações ou “conselhos evangélicos”, como são chamados,
sendo os dois outros a pobreza e a obediência. O “conselho evangélico” é uma
recomendação que se distingue do preceito, por ser este de caráter obrigatório. Os
mandamentos – não furtar e amar a Deus sobre todas as coisas – são preceitos, que
todos os cristãos são obrigados a cumprir. A regra do celibato pode ser abrandada a
qualquer tempo ou anulada por autoridade da igreja, como ensinou Tomaz de Aquino. O
papa Pio II, como refere Platina, anunciou que, como tinha havido boas razões, em dado
tempo, para se decretar o celibato, assim, em seus dias, melhores razões havia para que
ele fosse abolido.

Como medida de conveniência e quanto à circunstância de o voto do


celibato classificar melhor o homem para o cumprimento de seus deveres ministeriais
do que o estado de matrimônio, tudo deve ser aferido pelos fatos da experiência. A casa
pastoral protestante deve ser comparada com a residência do sacerdote, e os hábitos dos
clérigos protestantes precisam ser comparados com os dos sacerdotes. A influência do
lar e a influência da vida celibatária devem ser estudadas lado a lado. Se o serviço
pastoral e a reputação forem tomados como ponto de referência, os ministros da Escócia
e os sacerdotes de Espanha podem ser postos em confronto, ou igual comparação se
pode fazer com outros países.

A lei que proíbe o casamento dos clérigos é contrária à original intenção,


segundo a qual Deus instituiu a família; ao exemplo e às palavras de Cristo; aos
exemplos de casamento ente os Apóstolos e às expressas injunções de Paulo. Cristo se
referiu à regra original, ao dizer: “Não lestes que no começo Deus os criou homem e
mulher” e que “por esta causa deixará o homem a seu pai e mãe e se unirá à sua
mulher?” – Mat. 19:6. Cristo não só honrou o matrimônio com sua presença, nas bodas
de Caná, mas comparou o reino dos céus a uma festa nupcial. Se sua declaração de
“haver eunucos que a si mesmos se fizeram tais por causa do reino dos céus” for
interpretada no sentido de uma lei física, então esta se imporá a todo o povo cristão,
porque aquelas palavras não foram dirigida as clérigos; e a igreja devia fazer uma lei,
aplicando a todos a exigência do celibato. O ideal, em caso tal, seria um estado social
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sem casamento e sem filhos, e os Shackers e Harmonistas, agora pertencentes ao


passado, teriam de ser reconhecidos como realizadores da perfeita sociedade cristã. A
observância da regra por parte de todos valeria como o condenar a raça à extinção, e o
velho Hierax de Leontópolis, Egito, mereceria a mais elevada honra como mestre,
porque ele se diz haver afirmado que somente poderiam ser salvas as pessoas não
casadas. Se cristo quisesse mudar a lei, em virtude da qual eram casados os sacerdotes
hebreus, e tornar o celibato obrigatório nos ministros cristãos, não teria escolhido a
Pedro como um dos discípulos – e tê-lo-ia dito em termos inequívocos. Quanto aos
Apóstolos, sabemos que Pedro era casado ao tempo em que Cristo o chamou, porque o
Senhor curou de febre a mãe de sua esposa, fato de suficiente importância para ter sido
registrado pelos três primeiros evangelistas. Vinte anos depois da cura de sua sogra,
Pedro ainda estava casado e tinha o hábito de conduzir consigo a esposa em suas
viagens, assim como o faziam também outros Apóstolos, como disse Paulo – I Cor. 9:5.
A ficção de haver Pedro despedido a esposa foi retirada por Jerônimo e outros escritores
de seu próprio cérebro, no intuito de favorecerem a exigência da igreja do IV século.
Também Filipe, um dos sete diáconos, era casado e tinha filhas – Atos 21:8.

A exposição feita por Paulo em torno do matrimônio não só fornece


minguado encorajamento à teoria do celibato, mas o condena. Em seu período
primitivo, quando escreveu aos Coríntios – I Cor. 7:9 – Paulo parece ter sido levado
pelas circunstâncias a encarar o estado de solteiro como preferível. “O que é solteiro –
disse ele – cuida das coisas do Senhor, como agradar ao Senhor; mas o que é casado
cuida das coisas do mundo, como agradar a sua esposa.” O caso de grave imoralidade
na igreja de Corinto, que havia levado à consideração de Paulo, talvez lhe influenciasse
a pena. Quando escreveu, estava apresentando seu parecer, não aos ministros, mas a
todas as classes de cristãos. Afortunadamente, dando seus conselhos, ele distintamente
esclarece que não falava por mandamento divino: dava seu parecer pessoal. Acima de
tudo, Paulo, ao tempo em que fez suas recomendações, não estava escrevendo para o
segundo ou décimo século. Escrevia com o sentimento de que a presente dispensação
estava próxima do fim. “O tempo está próximo” – dizia.

Anos depois, ele escreveu aos Coríntios e, no fim da carreira, usa palavras
de sentido diverso. A dispensação não chegara ao fim. Em suas cartas dirigidas a
Timóteo e a Tito, assim como também aos Efésios, o Apóstolo não só fala em termos de
alta consideração para com o estado matrimonial, mas positivamente recomenda o
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casamento dos clérigos, se realmente o não ordena. Comparou a relação existente entre
o homem e sua esposa à relação de Cristo para com a igreja, e assemelhou a igreja a
uma família. Pode um sacerdote ou ministro pretender qualquer santidade, quando
menospreza aquelas comparações? O Apóstolo advertiu contra a proibição do
casamento, como um sinal dos maus tempos que estavam para vir – I Tim. 4:3. Além de
tudo, ele escreveu que “o bispo deve ser marido de uma só mulher, tendo seus filhos em
sujeição com todo o respeito” – I. Tim. #:@; Tito 1:6. A palavra “deve” é imperativa e
quer dizer “é justo”, “é uma coisa recomendável”, como quando Cristo disse: “Devo
cuidar dos negócios do meu Pai”, querendo com isto significar que lhe tocava estar
atento aos negócios de seu Pai. A injunção de Paulo a Timóteo sempre tem sido tomada
pela igreja Oriental como significando que o sacerdote pode casar-se, mas não mais do
que uma vez, e pela igreja russa como significando que o sacerdote deve casar-se uma
vez.

Na igreja protestante, as palavras de Paulo a Timóteo são tomadas em seu


sentido natural, de que o ministro deve fugir à poligamia ou ao concubinato. Paulo não
proibiu um segundo casamento: o que ele proibiu foi que o indivíduo tivesse duas
esposas ao mesmo tempo. Em face das palavras de Paulo e da prática apostólica, a
igreja romana, insistindo no celibato do clero, recorre a uma das duas interpretações das
palavras – “o bispo deve ser esposo de uma só mulher”: para a média dos membros da
igreja, interpreta-se que, por esposa, se deve entender a igreja: o bispo deve ser esposo
da igreja, e somente dela. Esta interpretação se torna insustentável, em vista das
subsequentes palavras de Paulo recomendando que o bispo tivesse “seus filhos em
sujeição”. A segunda interpretação é a de que o bispo, antes de seguir a vocação
sacerdotal, possa ter sido casado uma vez, não podendo, entretanto, ter-se casado pela
segunda vez. Esta interpretação é contrária ao original grego. O verbo está no presente.
As palavras não são: “o bispo deve ter sido”, mas “deve ser” marido de uma só mulher.
O cardeal Belarmino, que recomendou esta interpretação, procurou esclarecer o caso,
ilustrando as palavras de Paulo com o grupo de “viúvas” de que também o Apóstolo
escreveu a Timóteo – I Tim. 5:9. A mulher, para ter sido registrada no grupo de
“viúvas” – disse Paulo – deve ter sido casada uma vez e ter sessenta anos. A
comparação é invencionice do cardeal; mas, se sua sugestão fosse aceita, as palavras do
Apóstolo seriam contrárias à admissão de mulheres solteiras nos conventos e à
admissão de homens celibatários no sacerdócio, dado que, para ingressar no sacerdócio,
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o homem deveria ser viúvo e contar não menos de sessenta anos! Como defesa final do
estado de celibato, o cardeal Belarmino argui que Paulo deve ter significado que os
sacerdotes se casem com a igreja, tanto mais do que todos os demais conselhos do
Apóstolo ao sacerdócio foram de natureza moral.3 É possível que o cardeal se tenha
esquecido de que Paulo recomendou a Timóteo “tomar um pouco de vinho, por causa de
seu estômago”?

Resumindo a matéria, a igreja romana, prescrevendo o celibato clerical, está


em desacordo com as injunções finais e enfáticas de S. Paulo e com a prática de S.
Pedro e outros Apóstolos. Clemente de Alexandria, aludindo aos que rejeitam o
casamento, exclama: “Querem eles rejeitar também os Apóstolos, porque Pedro e Filipe
geraram filhos e Filipe também deu suas filhas em casamento?” Clemente ainda refere
que o próprio Paulo tinha sido casado.

§ 8. A lei do celibato e o eclesiasticismo.- O celibato clerical, como


obrigação, foi desconhecido da igreja até o quarto século, pelo menos. O
desenvolvimento da idéia do celibato resultou de falsas noções quanto ao mérito das
práticas ascéticas e ao espetáculo dos eremitas que, renunciando aos laços do
matrimônio, fugiam para o deserto e se entregavam à vida solitária, a exemplo dos
sacerdotes celibatários de Apolo, das sacerdotisas solteiras de Ceres e das sete virgens
vestais que se prendiam a tal condição, por meio de voto, até os trinta anos, e da
observância de ritos orientais, que se tinham introduzido em Roma. Até o ano de 400,
ilustres clérigos eram casados. O pai de Orígenes, Leônidas, era bispo; Tertuliano era
casado. O pai de Gregório Nazianzeno era bispo; Gregório de Nissa, eminente teólogo e
também bispo, era casado. As catacumbas contém inscrições de presbíteros e suas
esposas.

Marcou época na história do casamento dos clérigos o Concílio Niceno,


325, que se recusou em fazer do celibato uma lei. A proposta fora apresentada e a
oposição conta ela foi erguida por Paphnutius, um dos confessores, que em tempo de
perseguição tivera um dos olhos arrancados e um joelho ferido. Ele próprio havia
observado a lei da continência durante sua vida, mas rogava aos membros do Concílio
não atirassem sobre o clero um fardo que nem eles eram capazes de suportar, nem seus
pais tinham sido aptos em levar. Parece inconsistente que uma proposta, rejeitada por
um Concílio Ecumênico, fosse depois sustentada como lei na igreja romana. Para a
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igreja teria sido possivelmente muito melhor que Jerônimo, um dos mais apaixonados
dentre os advogados da lei do celibato, tivesse tido a salutar companhia de uma boa
esposa. Dele é que procederam as feias declarações de que “o casamento povoa a terra,
a virgindade povoa o céu; que dois é um mau número, porque os animais impuros
entraram na arca dois a dois”; e que “a árvore do matrimônio deve ser abatida pelo
machado da virgindade”. Dificilmente terá alguém jamais expressado mais baixas
opiniões acerca das mulheres do que Jerônimo, homem que, na mocidade, fora dado à
libertinagem. Em 385, o mesmo ano em que aconteceu que os cristãos heréticos fossem
pela primeira vez executados, Cirilo, bispo de Roma, colocou-se ao lado do partido anti-
matrimonial – e somente sessenta anos depois foi baixada clara proibição do casamento
clerical pelo papa Leão I.

Durante a Idade Média, a lei do celibato foi pouco a pouco reforçada por
editos papais e Tomaz de Aquino declarou que é da própria natureza de um voto solene,
que o homem que o assume perca o domínio sobre o próprio corpo, dedicando-o a Deus
em continência perpétua. A vida religiosa é uma espécie de morte espiritual, pela qual o
homem morre para o mundo e vive para Deus”. A violação de votos era pública e geral.
Gregório VII, o ardoroso advogado do celibato, proibiu que os sacerdotes casados
dissessem missa e ordenou que despedissem suas esposas ou concubinas. O bispo
Hefele – Gesch, p. 339 – francamente admite que o concubinato entre os clérigos era,
nos dias de Gregório, geral. O contemporâneo de Gregório, cardeal Damiani, em sua
obra Gomorrhianus, traçou um negro quadro da moral clerical prevalecente na época.
Um sínodo de Paris atacou o decreto de Gregório, considerando-o “irracional e
insuportável”. O bispo de Constança ordenou que seu clero contraísse matrimônio de
uma vez. Na Inglaterra a situação, por volta de 1100, segundo foi descrita pelo biógrafo
de Anselmo, Eadmer, era esta: “quase toda a maior e melhor parte do clero inglês
provinha de filhos de sacerdotes”.4 Durante o domínio das prostitutas, 904-936, vários
papas tiveram a clérigos como pais. Adriano IV, 1254, era filho de um sacerdote inglês
de Santo Albano, e um maior do que ele, S. Patrício, era filho de diácono e neto de
sacerdote. Em 1338, bento XII perdoou a sacerdotes concubinários, em troca de quatro
dobrões; e, algum tempo depois, fixou a taxa, relativa a sacerdotes na iminência de
serem promovidos a bispos, em trinta daquelas moedas – Tangl. P. 96; Lea. P. 52. Era
de praxe em França, como em outros países, coletarem os bispos a culagium, ou taxa
sobre o concubinato sacerdotal. Escrevendo sobre as condições do século XVI, Inácio
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de Loiola referiu que o concubinato sacerdotal era universal, ao iniciar ele sua obra –
Alfredo Feder, S. J., Lebenserrinerungen d. hl. Ignat., p. 104.

Contra o regulamento papal os Reformadores se levantaram, tanto por seus


escritos como pela renúncia de seus votos, que eles consideravam exigência arbitrária e
extra-bíblica. Um escritor ainda vivo, Glover, apresenta sentenciosamente a matéria,
quando observa que “Lutero escandalizou a Europa, desposando uma freira; mas,
fazendo-o, reconquistou para a religião a vida familiar”. Em suas Conclusões, disse
Zwinglio: “Não conheço escândalo maior do que a proibição do casamentoaos clérigos,
já que lhes é permitido ter filhos em troca de dinheiro”. Em sua “Carta à Nobreza
Alemã”, Lutero articulou que o papa não tinha mais o direito de proibir a um homem de
se casar, do que de lhe proibir de comer, ou de digerir o alimento, ou de engordar.
Referindo-se à interpretação dada pelo papa às palavras: “o bispo deve ser marido da
igreja”, o antigo monge observou o extremo zelo do pontífice no cumprimento da lei,
unindo um único sacerdote a três, vinte e até cem esposas, isto é, colocando-o à testa de
três, vinte ou cem igrejas. Também ele prudentemente pediu uma lei proibindo às
mulheres de tomarem votos, enquanto não atingissem os trinta anos. No sermão pregado
em Stamford, o bispo Latimer disse: “Eles não podem negar o casamento por nenhuma
Escritura, mas o casamento dos sacerdotes é tão bom e piedoso como o casamento de
qualquer homem, porque o matrimônio é honroso entre todos os homens e o leito
nupcial é irrepreensível”.

As Confissões protestantes, a uma voz, colocaram de parte a lei do celibato,


como invenção humana, em desacordo com a lei da criação e com o Novo Testamento.
Os XXXIX Artigos dclaram que “é legal que os bispos, sacerdotes e diáconos e todos os
demais homens se casem, segundo sua própria deliberação”; e a Confissão de
Westminster considera “serem os votos monásticos dos papistas, de celibato perpétuo,
em vez de um dogma da mais alta perfeição, um laço supersticioso e pecaminoso, em
que nenhum cristão deve enredar-se”.

Quando o Concílio de Trento confirmou a regra de se não casarem os


clérigos, fê-lo a despeito de apelos para que a regra fosse abolida. Tão obstinadas têm-se
mostrado as autoridades romanas na imposição da regra, que notáveis mestres romanos
chegaram ao extremo de declarar que maior pecado comete o monge ou freira que se
ligue por um contrato matrimonial, do que se cometer licenciosidade. O cardeal
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Belarmino, defendendo semelhante posição, pronunciou estas atordoantes palavras: “...


a freira que se casa após ter feito votos, faz pior casando-se do que violando a castidade;
porque, no último caso, pode regressar a seus deveres; enquanto que, se se casar, ela se
tornará incapaz de cumprir seus votos”; e: “as núpcias, depois que se tenha feito voto,
não são núpcias, mas alguma coisa pior do que adultério” – de mon. 2:30-34.
Recentemente o erudito alemão, Hugo Koch – Kathol. und Jesuitismus – falando da
própria experiência como católico romano, disse “o sacerdote que se casa é
excomungado, enquanto que o sacerdote que viola um menino ou uma menina não
perde sua posição na igreja e facilmente alcança absolvição. Um quebrou uma lei da
igreja; o outo somente violou uma lei de Deus. Este último continua a ser bom
católico”.5 Exaltando a prática do celibato, o cardeal Gibbons, que viveu em meio de
influências protestantes e que deveria ter falado de outra forma, fez a maravilhosa
afirmativa de que “o mundo tem sido até agora convertido por clérigos celibatários e
somente por eles continuará o mundo a ser convertido”. Se estas palavras tivessem
justificação, os protestantes seriam obrigados a envergonhar-se da ineficiência de uma
longa linhagem de ministros casados que há neste país, desde os primeiros
desembarques em Plymouth Rock até a presente geração d eclérigos protestantes, nesta
e em outras nações.

§ 9. O ministério e os Leigos.- Na igreja romana o ministério e os leigos se


separam não somente pela distinção dos deveres espirituais, mas no tocante à posição
pessoal e espiritual. O sacerdócio é chamado “o estado espiritual”. O Catecismo
Tridentino ensina que “os sacerdotes do Novo Testamento excedem de muito a toda
outra gente em honra, não podendo o sacerdócio ser equiparado ou assemelhado a
qualquer outra classe osbre a terra”. Belarmino comparou o papa ao so, o imperador à
lua, os bispos às estrelas, o clero ao dia e os leigos à noite. E, diante de César, o papa
Gregório VII declarou, na linguagem mais enfática, que a dignidade sacerdotal excede a
todas as outras. É característico do sistema romano que, em seu catálogo de santos,
figuram poucos nomes que não sejam de monges e freiras, bispos e sacerdotes. Quando
morre um sacerdote, o Direito Canônico – 1205-1209 – estipula que ele seja sepultado
em lugar apartado dos leigos, ou pelo menos em lugar mais decente – decentior – do
que o destinado àqueles, projetando, assim, a distinção anti-escriturística para além
desta vida.
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O protestantismo não conhece distinção entre cristãos. Sua atitude foi


definida por Lutero na “Carta à Nobreza Alemã”, ao dizer que “É puro mito que os
papas, bispos, padres e monges sejam chamados o estado espiritual. Todos os cristãos
são o estado espiritual”. Segundo o princípio protestante, a obediência a Cristo é a única
medida do valor dos cristãos. A santa e celestial vocação eleva pai Tomaz à dignidade
de rei e a mais humilde criada cristã, fielmente servindo à casa, se emparelha, pela
vocação celestial, com os maiores santos. Pela graça são eles igualmente justificados e
pelas palavras de nosso Senhor serão julgados, quando ele disse: “O que é fiel no pouco
será fiel no muito”. Deus nõa faz acepção de pessoas.

Na comunhão romana aos leigos se nega qualquer parte na administração da


igreja. A jurisdição eclesiástica, disse o cardeal Belarmino, “não é derivada do corpo de
cristãos, mas do papae através deste, dos bispos. O povo nada tem que ver com a
escolha ou chamada de sacerdotes” – de cler. 1:4. O Código Canônico trata os leigos
como sujeito passivo. Impõe-lhes o dver de receber os sacramentos, obedecer ao
sacerdote e manter-se fora de qualquer sociedade não ciada ou recomendada pela igreja
– Cânon 684 e seg. A lei não contém preceito que exija que os laigos leiam as Escrituras
ou pratiquem o culto doméstico. Por outro lado, os manuais protestantes de culto,
esquivando-se a preceitos dogmáticos, pela maior parte se contentam em estabelecer
princípios orientadores e em encaminhar o leigo, assim como o clérigo, às Escrituras,
fonte de autoridade em matéria relativa a toda a conduta humana, e à consciência
iluminada por seus ensinos.

Bibliografia e Notas

Cat. Romanos: Trid. Decress, xxiii and Cat. – Belarmino; de cler., e de


laicis. – Gibbons: pp. 376-396. – Cod. jur. can. under clerici, sacerdotes, etc. –
Lehmkuhl, under Ordination. – Gury: Theol. Mor., pp. 488-557, 732-804. Arts. na Enc.
Cat. sobre Celibacy, por Thurston; Priesthood, por Pohle, etc. – Leitner, pp. 82-105,
208-272. – Prot.: Confissões de Augsburg e II Herv. – The Cmbr. Platform, 1648, in
Creeds and Platforms, de Walker. – As formas de governo de diferentes igrejas. – Lea:
Sacerd. Celibacy, 3ª. ed., 2 vols., 1907. – Obras de Sohm, Harnack, Hort, Hatch,
Lindsay, Gore, Rashdall e Headlam. Art. Celibacy in Dicty. of Ethics, 3:271-277. –
Hoensbroech: D. papstthum. – McCabe: Twelve Years in a Monastery.
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1. A ausência da palavra sacerdote no Novo Testamento, para dseignar um


ministro de Cristo, não é negada por muitos escritores católicos romanos. Addis, Dict.,
sob “Priest”, diz que as palavras “priest” e “priesthood” nunca se aplicam no Novo
Testamento ao ministério cristão, mas acrescenta que o reconhecimento de todos os
cristãos como sacerdotes não implica em negação de um sacerdócio especial, com
funções próprias.

2. Bispo Headlam, Doct. of the Ch., diz: pp. 45, 88, 91, que “nenhuma
forma de governo de igreja pode encontrar qualquer apoio direto ou indireto no ensino
de nosso Senhor. ... Não podemos pretender que o episcopado tenha a autoridade
Apóstólica atrás de si, ou que ele seja essencial à igreja”. Diz Hort: “No Novo
Testamento não encontramos oficiais mais graduados do que anciãos, nada que aponte
para uma inatituição ou sistema, nada de parecido com o sistema episcopal dos últimos
tempos”.

3. Belarmino, de cler., 18-24, trata com grande abundância o assunto do


celibato e, recomendando-o, cita a Jerônimo, ao dizer que, quando Pedro alegara:
“deixamos tudo para seguir-te”, quisera dizer que havia renunciado à esposa. Leitner, p.
239, apoia essa interpretação. Belarmino negou que Paphnutius dissera o que se lhe
atribui, baseado em que, se o tivesse feito, Rufino o teria referido.

4. Wyclif e Huss lamentavam a condição horrível das mulheres e filhos de


sacerdotes. Giraldus Cambrensis, cerca de 1220, testificou que quase todos os
sacerdotes da Inglaterra e Wales mantinham companheiras. Gower deu testemunho
semelhante. Tornou-se corente o adágio alusivo a sacerdotes infiéis a seus votos: si non
caste tamen caute – se não é casto, faça por onde não se encontrar fora, ou, como
Tyndale o representa: “se não vives casto, vê que te conduzas com limpeza e faze a
aventura secretamente”.

5. Recordando a história da Idade Média, diz Lea que é “talvez muitíssimo


difícil concluir que o celibato nominal do clero fosse largamente responsável pela
frouxidão moral, característica da sociedade medieval”. Em sua Span. Inquis., 2:251,
277, dedicou um capítulo à solicitação no confessionário. Hoensbroech, 2: pp. 480, 510
e ss., 599, etc., diz: “o celibato é, para o papado, medida de supremacia política. Mesmo
hoje, o celibato obrigatório ainda encobre grande miséria moral e, para comprová-lo,
não é preciso ir à América do Sul Minhas relações anteriores com a Ordem dos Jesuítas
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

impedem que eu penetre mais intimamente no assunto”. Em seguida, ele apresenta


como razões de serem tão poucos os casos de incontinência sacerdotal que vêm a
público, a política jesuítica, cujo oto invulnerável é: “Em circunstância alguma haja
escândalo público”. Loisy: My Duel with the Vatican, p. 76, diz acerca da França:
“Estou inclinado a crer que entre o clero católico francês, a regra do celibato é
desobedecida mais frequentemente do que a maioria dos leigos supõe, embora menos
frequentemente do que os adversários irreconciliáveis da igreja imaginam”, etc.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

CAPÍTULO XVII

OS SACRAMENTOS

BATISMO E CONFIRMAÇÃO

Pelo sistema romano, o sacerdote realiza seu ministério principalmente


através dos sacramentos e, sem a virtude a eles comunicada pelo sacerdote, os
sacramentos, exceto em certos casos de batismo, não têm valor. Os sacramentos, quando
devidamente consagrados e administrados pelo sacerdote, são veículos seguros da graça
celestial. O sacerdote atua como esmoler do Altíssimo, investido de poderes absolutos
para dispensar ou recusar alimento espiritual, ou seja para conceder ou negar a vida
eterna. No sistema protestante, os sacramentos são meios de graça, tendo valor somente
através da fé que tenham os que os recebem, e não através da pessoa por quem são
administrados.

O sistema sacramental é o principal legado recebido pela comunhão romana


da Idade Média. O sacramentalismo é o escolasticismo na maré alta. Em nenhum outro
terreno foram os escolásticos tão industriosos no entretecer suas concepções teológicas
– e em nenhum outro empregaram tão assinaladamente seus recursos intelectuais. O
terreno sacramental era solo quase virgem. A exploração medieval do assunto é
comparável ao esforço feito pela igreja primitiva no estudar e formular as doutrinas da
Trindade e da pessoa de Cristo. Todos os teólogos principais da Idade Média, exceto
Anselmo, trataram dos sacramentos com grande minúcia. O Concílio de Trento adorou
a teoria e a prática sacramentais da Idade Média e dedicou a metade de seus decretos à
exposição delas. O Catecismo Tridentino lhe dedicou mais de um terço de seu conteúdo.
O Catecismo Plenário de Baltimore consagra três oitavos de suas perguntas e respostas
aos sacramentos e o Catecismo de Pio X gasta com o assunto cento e quarenta e seis
perguntas, do total de quatrocentas e trinta e três. O cardeal Belarmino – de sacr. 1:26 –
que dedicou aos sacramentos um terço de seu livro, afirmou a necessidade deles para a
salvação, conforme sua administração nos moldes romanos, ao dizer: “os sacramentos
pertencem exclusivamente à igreja católica que Cristo fundou. Os hereges estão fora da
igreja e na sinagoga de Satanaz”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

Os romanistas e os protestantes concordam em aceitar a definição de


Agostinho, de ser o sacramento “sinal de alguma coisa sagrada, o símbolo visível de
uma graça invisível”. A partir deste ponto tomam por caminhos divergentes. Discordam
acerca do número de sacramentos, de sua virtude inerente e da posição que tem o
sacerdote em sua administração.

§ 1. A palavra “sacramento”.- A palavra “sacramento” não ocorre nas


versões inglesas, protestantes, das Escrituras. Na Vulgata de Jerônimo e na versão de
Rheims é empregada certo número de vezes para traduzir a palavra grega mistério –
mysterion. A palavra latina sacramento – sacramentum – foi primeiro usada, entre os
escritores cristãos, por Tertuliano, cerca do ano 200, ao falar do batismo como o
“sacramento da água” e o “sacramento da fé”, aludindo também ao “sacramento da
eucaristia”. Entre os romanos, a palavra significava o juramento de obediência prestado
pelos soldados ao estandarte militar, ou o depósito feito em juízo por litigantes.
Escrevendo cerca de 110 A. D., Plínio parece ter tido em mente a primeira acepção,
quando referiu que os cristãos se comprometiam por um juramento – Sacramentum –
não cometerem assassínio ou qualquer outro mal. A Vulgata traduz o grego – mistério
de sua vontade, mistério de piedade e o mistério das sete estrelas como “o sacramento
de sua vontade”, “o sacramento da piedade” e o “sacramento das sete estrelas” – Efé.
1:9; I Tim. 3:16; Apo. 1:20.

§ 2. O número de sacramentos.- Os protestantes sustentam que duas


ordenanças sagradas foram indicadas no Novo Testamento – o Batismo e a Ceia do
Senhor. Nosso Senhor ordenou aos discípulos fossem pelo mundo a batizar e instituiu a
Ceia do Senhor, como perpétuo memorial de si mesmo. Nenhuma outra prática ele
recomendou, a não ser a lavagem dos pés. O batismo e a ceia do Senhor foram descritos
por dois dos primitivos escritores da igreja – o autor do Ensino dos Doze Apóstolos e
Justino Mártir. A igreja romana pretende que haja sete sacramentos, a saber: batismo,
confirmação, eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio, todos
instituídos por Cristo. O Concílio de Trento pronunciou anátemas contar todos os que
ousassem afirmar que os sete sacramentos “não foram instituídos por Cristo, ou que
haja mais ou menos de sete, ou que eles não sejam necessários à salvação”. O Concílio
pontilhou a exposição dos sacramentos com não menos de 93 anátemas separados. O
sacerdote católico presta juramento, afirmando que “há verdadeiramente sete
sacramentos instituídos por cristo e necessários à salvação da humanidade”. Segundo a
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teologia romana, os sete não são de igual virtude. O batismo e a ceia do Senhor são
chamados os dois mais eficientes – potentíssima, e Tomaz de Aquino disse que,
estritamente falando, somente esses são essenciais à salvação, sendo os outros apenas
necessários como um cavalo pode sê-lo a uma viagem. Em vista do relevo dado aos
sacramentos como veículos da divina misericórdia e auxílio, é difícil explicar como os
santos eremitas, como Paulo de Tebas, que viveu por noventa anos no deserto,
passassem sem sacramento e sem sacerdote. Até plena Idade Média, os mestres
autorizados divergiam profundamente no tocante ao número de sacramentos. Agostinho
e Crisóstomo estritamente só sabiam de dois, embora Agostinho trate pelo nome de
sacramento o exorcismo e a dádiva de sal aos catecúmenos, assim também procedendo
por várias vezes em referência ao matrimônio. No século XI, Pedro Damiani fala d doze
sacramentos. Mais tarde, Abelardo e Hugo de S. Vítor falam de cinco e S. Bernardo de
dez, incluindo nesse número a sagração de bispos e o lava-pés.1 O terceiro Concílio
Lateranense, 1179, incluiu entre os sacramentos o sepultamento dos mortos
(encomendação). A incerteza chegou ao fim com Pedro Lombardo e Tomaz de Aquino,
morto em 1274, que fixaram em sete o número deles, número adotado pelo Concílio de
Ferrara, em 1439.

Somente à força de estranhas e forçadas interpretações dadas às palavras


apostólicas é que os cinco sacramentos duvidosos podem remontar a cristo e aos
Apóstolos. À pregunta: “Como sabeis que há sete sacramentos?” – responde o
Catecismo de Pio X: “Porque eles representam nossas sete necessidades espirituais, que
correspondem às sete principais necessidades de nossa vida natural. O homem nasce,
cresce, precisa de alimento e remédio, assim como auxílio especial quando enfermo”. A
resposta dada pelo Catecismo Plenário é: “Porque a igreja sempre ensinou o seu
número, e a igreja não se pode enganar”. As seguintes considerações foram elaboradas
por Tomaz de Aquino, Belarmino e outros mestres romanos, para que se fixasse em sete
o número dos sacramentos: 1. A simbólica significação e santidade do número sete nas
Escrituras, especialmente as sete expiações do Velho Testamento – exo. 29 – os sete
dias da semana, os sete dons do Espírito, os sete espíritos diante do trono, os sete
castiçais de ouro, as sete trombetas e as sete igrejas da Ásia. 2. A lei da congruidade,
isto é, a adaptação dos sete sacramentos à cura dos sete defeitos e enfermidades da alma
e para servir de fortaleza espiritual, sendo o batismo adaptado à falta de vida espiritual,
a confirmação para fortalecer os recém-nascidos, a eucaristia para prevenir a tentação de
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cair em pecado, a penitência para perdão dos pecados cometidos depois do batismo, a
extrema unção para purificar os pecados deixados pela penitência, a ordem para
enfrentar a condição perdida da humanidade e o matrimônio para auxiliar na resistência
à concupiscência. 3. Sua correspondência com as chamadas sete virtudes: o batismo, a
confirmação e a eucaristia correspondem à fé, esperança e caridade; a ordem à
iluminação; a penitência à justiça; o casamento à temperança e a extrema-unção à
paciência. Seguindo a Agostinho, os escolásticos deleitaram-se no comparar os
sacramentos à armadura do soldado e estenderam-se sobre a graça que eles
proporcionam, no combate espiritual em que o guerreiro cristão se acha empenhado.

Os protestantes põem de lado o número sete, como coisa de invenção


eclesiástica. Sua opinião, segundo a definem os XXXIX Artigos, é a de que “há dois
sacramentos instituídos por Cristo. Os cinco comumente considerados sacramentos, isto
é, confirmação, penitência, ordem, matrimônio e extrema-unção, não se contam como
sacramentos do Evangelho. Eles não possuem sinal visível ou rito ordenado por Deus”.

§ 3.ficácia dos sacramentos.- Perante o ensino romano, os sacramentos têm


eficácia, graças à virtude intrínseca que eles contém, quando devidamente administrados
pelo sacerdote – e de si mesmos transmitem graça sobrenatural. As palavras do Concílio
de Trento afirmam que eles contêm e conferem graça – continere et confere gratiam.
Todas as negações da definição se colocam sob anátema. Pelos sacramentos, segundo o
Concílio, toda verdadeira justiça – que é a religião salvadora – começa ou, estando
começada, aumenta-se; ou, perdida, se restaura. O Catecismo Plenário diz que eles
“sempre conferem graça, se os recebemos com boa disposição” – aparente desvio da
atitude tridentina, segundo a qual os sacramentos operam, a não ser que um obstáculo –
obex – se lhe colocque no caminho. A doutrina, conforme vem definida no Código
Canônico – 628 – é a de que o sacramento foi instituído por Cristo para
permanentemente significar e conferir graça. A Enciclopédia Católica emprega a
expressão: “eles produzem graça na alma dos homens”. Os escolásticos compararam os
sacramentos a remédios, que o grande Samaritano aplica às feridas do pecado original e
das transgressões atuais. Boaventura intitulou seu capítulo sobre o assunto – Medicina
Sacramental. No conceito de Hugo de S. Vítor, Deus é o médico; o homem é o
enfermo; o sacerdote é o agente ministrante; a graça é o antídoto; o símbolo sacramental
é o vaso. O médico concede, o sacerdote administra, o vaso contém o remédio espiritual
que cura o pecador. Em última análise, a eficácia do sacramento é devida a Cristo, que
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transmite ao sacerdote o poder de consagrar, mas os símbolos usados não têm virtude
salvadora e não conferem graça, a não ser que sejam consagrados pelo sacerdote.

O conceito protestante é o de que os dois sacramentos não têm virtude em si


mesmos. Como a oração, em escala talvez maior, eles são meios de graça. A virtude
depende da fé do recipiente, segundo o modo por que ele apreende a Cristo. Este ensino
desloca a eficácia da atuação do ministro para a disposição do crente e é bem definido
pelo Breve Catecismo de Westminster, ao dizer que “os sacramentos se tornam meios
efetivos de salvação, não por qualquer virtude que haja neles próprios ou naqueles que o
administra, mas somente pela bênção de Cristo e pela operação de seu Espírito naqueles
que o recebem pela fé”.

Lutero foi o primeiro a atacar o sistema de sacramentos de procedência


medieval, o que fez em seu Cativeiro Babilônico, e limitou os sacramentos ao batismo,
eucaristia e penitência, aceitando o último de maneira modificada. Ele os considerou
como tendo sido guardados em prisão durante a Idade Média, querendo dizer com isso
que sua verdadeira significação tina sido deturpada por elementos de invenção humana.
Zwinglio deu ênfase aos sacramentos como sinais representativos do que se acha
ausente; Calvino os realçou como sinais que revelam o que se acha presente. Nenhuma
definição melhor a vazada em linhas gerais, foi dada pelos Reformadores, do que a que
formulou Bullinger, ao dizer que “Os santos sacramentos não têm em si mesmos graça e
não operam como se comunicassem de si mesmos a graça de Deus, mas são sinais do
mistério de nossa interior comunhão com Deus. Eles são também testemunhas e selo da
promessa e da graça de Deus. Apresentam-nos, concedem-nos e em nós renovam a
bondade e os dons de Deus – e recordam-nos o dever que temos”. A não ser que Deus
opere através deles, disse Calvino, não valem mais do que o sol brilhando nas pupilas
do cego.2

§ 4. A administração dos sacramentos.- A administração válida dos


sacramentos depende, na igreja romana, da intenção do ministro celebrante e do uso que
ele faça da fórmula prescrita. Se o sacerdote não tiver o propósito de consagrar o
sacramento ou se, tendo o propósito, omitir uma parte da fórmula prescrita, o
sacramento não terá virtude. Eles devem ser “administrados com a maior reverência e
cuidado, tanto quanto ao tempo, como quanto ao ritual” – assim prescreve o Código
Canônico, 731 – visto que todos foram instituídos por Cristo e são meios principais de
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santificação e salvação. Os costumes pessoais do sacerdote, a dignidade ou a


indignidade, não afetam a virtude da transação. Se, segundo os Concílios de Constança
e de Trento, o sacerdote está em pecado mortal quando administra os sacramentos, sua
administração é válida. Os protestantes também sustentam que a alta significação da
Ceia do Senhor e do batismo exige que sejam celebrados com solenidade e geralmente
concordam em que é conveniente restringir-se sua administração a ministros; mas não
proíbem que os leigos, isto é, pessoas não ordenadas, os administrem.

Contrastando com a atitude dos católicos romanos, a posição dos


protestantes é a seguinte: 1. Há somente dois sacramentos ou ordenanças prescritas por
Cristo e registradas no Novo Testamento. 2. Os sacramentos não contém graça, ou não
operam por virtude inerente a eles próprios. Eles não possuem o poder de “operar em
nós santidade e justiça”, como o Catecismo Tridentino entende. 3. Sua eficácia não
depende da exatidão das palavras usadas pelo ministrante, mas da fé ativa do recipiente.

§ 5. O Batismo.- Tanto para os protestantes como para os romanistas, o


batismo é o primeiro dos sacramentos, sendo o rito introdutório do indivíduo à Igreja
cristã e a seus privilégios. É chamado na teologia católica “porta da igreja e do reino do
céu” – janua ecclesiæ et regni cœlorum. Ambos os grupos concordam em que Cristo
ordenou que o batismo fosse administrado com água, em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Nos tempos do Novo Testamento, o rito parece ter sido administrado em
nome de Cristo apenas – Atos 2:38; 8:16; 10:48; 19:5 – sistema ainda em voga aqui e
ali, até o século XIII, como testifica Boaventura. Tal batismo foi declarado sem valor
pelo Concílio Lateranense, 1215, e pelo Concílio de Trento – Trid. Cat. 2:2, P. 16. Não
é provável que uma comunidade protestante assumisse tal atitude. O príncipe dos
mariólatras, Afonso de Liguori, foi tão longe, que chegou a introduzir no batismo o
nome de Maria – in nomine B. v. M. – para ser usado após o nome das pessoas da
Trindade, desde que a adição seja apenas a expressão de uma fervorosa devoção à
Virgem – Gury, q. 657.

Os protestantes, com exceção dos Batistas, Discípulos e algumas


comunidades menores, concordam com os católicos romanos no uso da efusão ou
aspersão como forma adequada de batismo, assim como na administração do rito às
crianças. A imersão, que geralmente se reconhece ter sido a forma original, é
universalmente seguida no Oriente e foi prática no Ocidente até plena Idade Média.
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Tomaz de Aquino a preferia como o processo mais seguro. Lutero também a preferia e
Calvino a aceitou como o sistema original, mas considerou a forma de importância
secundária.

A diferença entre romanistas e protestantes em relação ao batismo se prende


à necessidade dele como condição de salvação. Pelo conceito romano, o batismo é o
sacramento da regeneração. É necessário à salvação. Liberta do pecado original e de sua
culpa e também da culpa de pecado atual, cometido até o tempo de sua administração.
Foi por essa razão que o imperador Constantino adiou seu batismo até o fim da vida.
Embora todos os pecados anteriores, com sua culpa e punição, sejam lavados no
batismo, a concupiscência ou cobiça, como agente instigador do pecado, permanece. A
concupiscência não é pecado em si mesma e não acarreta culpa, enquanto não se torne
ativa pelo consentimento da vontade. Seguindo a doutrina tridentina, o Catecismo
Plenário ensina que o batismo “purifica do pecado original e nos torna cristãos, filhos de
Deus e herdeiros do céu”.

O batismo imprime um sinal indelével. Não pode ser repetido. Embora seja
ordenança salvadora, sua eficácia cessa quando a pessoa batizada dá lugar a pecado
mortal. As pessoas batizadas que morram excomungadas estão, entretanto, perdidas. A
igreja romana admite duas exceções à necessidade do batismo: os mártires que tenham
recebido o batismo de sangue e os que desejam ser batizados e morrem antes de
conseguir que alguém lhe administre o rito. A igreja romana priva, todavia, de
esperança os pagãos e todas as crianças que morram na infância, sem batismo. O cardeal
Gibbons diz que “o filho é privado do céu quando o pai o priva do batismo”. O
Catecismo Plenário ensina que “sem batismo nõa podemos entrar no reino do céu”. Em
vista do suposto poder salvador do batismo, não era invulgar, na Idade Média,
batizarem-se os filhos de judeus, contra o protesto de seus pais, costume que Tomaz de
Aquino condenou. Os missionários jesuítas, ao longo do S. Lourenço e dos grandes
Lagos, gloriavam-se de ter chegado água à fronte de crianças, assim transformando
“pequeninos índios e pequeninos anjos”, embora o fizessem furtivamente e sem o
conhecimento dos pais. “Talvez – escreveu o padre Le Mercier – o diabo esteja
zangado, porque colocamos no céu grande número daqueles inocentinhos”.

A idéia de ser o batismo uma ordenança salvadora é baseada nas declarações


de nosso Senhor: “A não ser que o homem seja nascido da água e do Espírito, não pode
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entrar no reino do céu”; e: “O que crê e é batizado será salvo” – João 3:5; Mar. 14:16. A
doutrina deduzida destas passagens é contrabalançada por outras lições e por
ocorrências individuais que aparecem no Novo Testamento.

Recomenda-se nos formulários romanos que à criança que é batizada se dê


um nome de santo, para que este lhe sirva de exemplo e lhe dê proteção, conselho
ultimamente repetido no Catecismo de Pio X. Por outro lado, Calvino e a Constituição
de Genebra proibiram que fossem dados nomes de santos às crianças daquela cidade
suíça.

A atitude protestante é a de que, embora o batismo se tenha tornado num


dever por mandamento de Cristo, ele não é condição de salvação. Segundo foi definido
pela Confissão de Fé de Westminster, “é pecado condenar ou negligenciar o batismo;
entretanto, a graça e a salvação não se acham tão inseparavelmente ligados a ele, que
ninguém possa ser regenerado ou salvo sem ele”. O conceito agora sustentado pelos
protestantes é que, em vista do infinito valor da propiciação e da abundante misericórdia
de Deus, os benefícios da salvação se estendem para muito além do número dos que
foram batizados. Esta era a opinião em que insistia Zwinglio, firmado na eleição de
Deus, a qual não está atada ao batismo. À objeção tirada das palavras do Senhor: - “o
que crê e é batizado será salvo”, responde-se que a fé exigida na passagem implica em
instrução prévia e vem a ser fé racional, não podendo, portanto, a passagem referir-se às
crianças. É também significativo que a segunda cláusula da passagem, referindo-se à
punição eterna, não menciona o batismo: “o que não crê será condenado”. Entre as
pessoas não batizadas e salvas, referidas na Escritura, figuram o ladrão moribundo e
também Melquisedec e Jó, que nem pertenciam à dispensação mosaica. Por outro lado,
Simão Mago, a despeito de seu batismo, permaneceu em fel de amargura e no laço da
iniquidade – Atos 8:13, 23.

Os protestantes também negam que o batismo tenha poder regenerador. A


aplicação de água não opera transformação mágica. É um sinal externo da bênção
interior e espiritual. O perdão de pecado que ele simboliza, é dom de Deus; e a
experiência, assim como as Escrituras, mostram que o rito e o benefício divino nem
sempre se associam. Paulo raramente fala do batismo com água, mas frequentemente
alude à obediência interior e à fé. Os protestantes seguem o que se acha estatuído no
Livro Luterano de Oração Comum: orações devem ser feitas para que “Deus, por sua
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bondade, receba a criança, através do batismo, na igreja do Redentor e a torne membro


vivo da mesma”; e consideram como assunto apenas conhecido de Deus o ser a pessoa
que se batiza regenerada ou não. O Livro de Oração Comum é uma exceção em meio
dos demais formulários protestantes, apresentando o conceito segundo o qual a
regeneração acompanha o batismo, de modo que o ministro, após celebrar o rito, usa as
palavras: “Visto que esta criança é regenerada e enxertada no corpo de Cristo...” Os
XXXIX Artigos falam dos sacramentos como “seguros testemunhos e sinais efetivos da
graça que Deus opera invisivelmente me nós”.

§ 6. Quem pode administrar o batismo?- A administração do batismo não


é privativa de ministros ordenados, nem na igreja romana, nem nas igrejas protestantes.
Em caso de necessidade, quando não se possa encontrar um ministro, outras pessoas
podem batizar. Em casos tais, segundo a prática romana, a validade do rito depende da
intenção adequada da pessoa que batiza e do uso da fórmula trinitária. Tomaz de
Aquino considerou válido o batismo ministrado não só por leigos cristãos, de ambos os
sexos, mas também por judeus, hereges e infiéis, desde que se não possa encontrar um
sacerdote e uma vez que o batismo seja administrado em nome da Trindade e com a
intenção de batizar. Formulando tal conceito, ele foi movido, como escreveu, pelo
desejo de abrir tão amplamente quanto possível a porta do reino dos céus. A idéia foi
adotada pelo Concílio de Trento, o qual lançou anátema contra todos os que negarem a
validade de semelhante batismo. Assim, se Mr. Robert Ingersoll tivesse administrado
batismo e, fazendo-o, tivesse a intenção convincente e usasse da fórmula prescrita, o
batismo teria sido válido.

Os protestantes, embora concedam aos leigos o direito de batizar,


rejeitariam provavelmente a doutrina que leva a conceder a um infiel aquele direito,
fundados em que o batismo não é coisa essencial no esquema da salvação. Quando um
protestante vai ser recebido na igreja romana, ele é rebatizado, caso o sacerdote tenha
qualquer desconfiança de que no batismo anteriormente recebido certas condições
impostas pela lei romana não se tenham cumprido. Em tais casos, o batismo é
administrado condicionalmente – sub conditione – usando o celebrante das palavras:
“Se tu és batizado, eu te não batizo outra vez; mas, se tu não és batizado, eu te batizo em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. A este respeito alguns protestantes são
menos liberais do que os católicos romanos e repetem a administração do batismo aos
conversos procedentes da comunhão romana. Segundo semelhante regra, eles se
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mostram inconsistentes; e, se fossem lógicos, seriam forçados a negar a validade do


batismo de Lutero, Latimer, Calvino e outros primitivos protestantes, que receberam o
batismo das mãos de sacerdotes romanos. As divergências em matéria de batismo são,
pois, as seguintes: para o católico romano, o batismo é uma ordenança salvadora. Ele
regenera. É absolutamente essencial, de sorte que estão perdidos os que morrem sem
batismo. Quanto aos protestantes, o batismo é um símbolo do perdão de pecados. É uma
obrigação, mas não essencial à salvação. Os Quakers rejeitam inteiramente o símbolo
exterior, crendo, todavia, no perdão de pecados.

§ 7. Confirmação.- A Confirmação, ou cisma, como também é chamada, é


a segunda exigência sacramental da igreja romana. Foi declarada pelo Concílio de
Trento ser verdadeiro e legítimo sacramento, conferindo força – robur – e habilitando o
recipiente a tornar-se perfeito soldado de Cristo. Ela aperfeiçoa a graça dada no batismo
e por esta razão o rito é também conhecido pelas palavras latinas perfectio e
consummatio. Salvo em casos extraordinários, em que a um sacerdote se delega
autoridade para crismar, o rito é administrado por um bispo – e foi pronunciado anátema
contra quem disser que a confirmação não seja prerrogativa episcopal. Esse sacramento
não é essencial à salvação e não se destina a ser repetido. Aos protestantes que se
passem para a comunhão romana ele é, todavia, obrigatório.3 a idade para a confirmação
foi, por Pio X, fixada em sete anos.

A confirmação é, segundo o conceito protestante, ordenança eclesiástica e


não tem garantia específica do Novo Testamento. As passagens às vezes citadas em
abono dela são as em que figuram as expressões: “imposição das mãos”, quando as
pessoas batizadas recebiam o espírito Santo – Atos 8:14, 19:5 – e também, “unção”,
“confirmação” e “sendo selados” – I Tes. 2:20; Fil. 1:7;Efe. 4:30. Nos três últimos
casos, há referência a um dom celestial, mas não se alude à associação desse dom como
batismo. Tomaz de Aquino se contentou em basear o sacramento da confirmação na
promessa geral do Espírito Santo – João 16:7. Formulando regras destinadas aos
pastores, para que explicassem que “a confirmação foi instituída por Cristo”, o
Catecismo Tridentino fez citações de dois papas do segundo e terceiro séculos, Fabiano
e Melquíades, e de Atos 1:24: “Foram todos cheios do Espírito Santo”. Tanto relevo deu
o cardeal Gibbons ao rito da confirmação, que afirmou que “as mãos dos bispos
protestantes Episcopais estão espiritualmente paralisadas pelo ato suicida dos
Reformadores, negando-lhes caráter sacramental”.
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Para a maior parte dos protestantes, a “recepção na igreja” ou a “pública


profissão de fé” equivale à confirmação. Nas comunhões Anglicana, Protestante
Episcopal, Luterana e outras, em que se conserva o rito da confirmação, esta é
considerada como ratificação das promessas batismais. Não confere graça. As pessoas
que, batizadas na infância, se unem à igreja, cumprem as palavras de Cristo, ao dizer:
“Aquele que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai que
está no céu”. A cerimônia me apreço consiste principalmente na promessa que fazem os
professandos perante a congregação. O valor dessa prática depende das disposições
interiores da pessoa que fez a confissão, e não do ato do ministro.4

Bibliografia e Notas

Bibliografia referente aos capítulos XVII e XVIII - Cat. Rom.: C. de ferrara,


Mirbt, 234-236. – Decretos Tridentss. VII-XXIV, Cat. – Belarmino, metade de sua
grande obra – Cor. jur. Can., 731-1273, 2214, 2414, etc. – Gibbons, 254-406. –
Wilhelm e Scannell, 2:349-535. – Slater, 2:1:361. – Leitner e Eichmann – Sobre a I. M.,
Schwane-Straub: The Church. – Pohle: The Sacrr., a Dogma. Treatise, trad. da 5a. ed.
Germânica, 1917. – Smarius, s. J.: The Real Presence. – Walsh: The Mass and the
Vestments of the Cath. Ch., 1916. – Fortescue: The Mass, a study os the Roman Liturgy,
nova ed., 1914. – Schwertner: The Euchar. Renaissance or the Internat. Euchar.
Congresses, p. 366, 1926. – Thurston: Hist. of the Holy Euch. in Gt.Brit. – Cath. Ency.,
XIII: 295-305, etc. – Prot.: - Confs. de Augsb., II Helv. E Westminster, XXXIX Arts. –
Wyclif: de euch. e de eccl., etc. – Huss: The Church. – Lutero: Babyl. Captiv. – Grund
und Urasche, etc. – Calvino: Instt, Andidote, etc. - Jer. Taylor: The Real Presence e
Transub., VI, 1-168. – Gore: The Body of Christ … on the Holy Com., pp. 330, 1901. –
stone: Holy Bapt., pp. 303-1901. – The Reserved Sacr. Pp. 143, 1917. – Chase, Bp. de
Ely: Confirmation in the AP. Age, pp. 130, 1913. Obras sobre Theol. Dogm.

1. Os Menonitas e outras pequenas comunidades cristãs, conservam a


cerimônia do lava-pés. Os Morávios a aboliram. Na quinta-feira santa, o papa costuma
lavar os pés a doze pobres, prática da qual disse Lutero que o pontífice demonstraria
maior humildade em lavar os pés de um único rei, do que o de uma centena de
mendigos.

2. Os XXXIX Artigos dão excelente definição, dizendo que “os sacramentos


são seguras testemunhas e sinais efetivos da graça e da boa vontade de Deus praa
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conosco, pelos quais ele opera invisivelmente em nós e não só desperta, mas fortalece a
fé que temos nele”. O conceito liberal da igreja anglicana é expresso pelo Bp. Headlam,
pp. 265-269, que diz que as igrejas não conformistas possuem sacramentos válidos,
porque elas obedecem ao mandamento de Cristo e procuram fazer o que Cristo ordenou.
Uma das proposições da Petição Milenária, 1603, foi que às mulheres fosse vedado
batizar. Vide Gee e Hardy, p. 509.

3. Tomaz de Aquino cita em abono da confirmação Eze. 3:8: “Endurecerei


tua face contra a face deles”. O ritual católico romano consiste em o bispo fazer o sinal
da cruz e ungir o candidato, na fronte, com o crisma, que vem a ser certa mistura de
óleo e bálsamo.

4. Tyndale, Obed. of a Chr. Man, p. 277, diz: “Aquilo que os sacerdotes


chamam de confirmação, o povo trata como “sopro de bispo”, etc. A crença existente na
Igreja da Inglaterra, de ter a confirmação caráter sacramental, foi expressa pelo bispo de
Londres numa saudação aos ministros wesleyanos, em fev. de 1919: “A confirmação é
não só uma fórmula pela qual o jovem renova os votos batismais, mas é a comunicação
do Espírito Santo ao candidato, constituindo um novo dom”.
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CAPÍTULO XVIII

A CEIA DO SENHOR

Quero comer aqui o pão de Deus,


Aqui beber contigo o vinho real dos céus;
Quero, aqui estando, abandonar todo amor terreno,
De novo provando o descanso da culpa perdoada.
Horácio Bonar

Sobre a Ceia do Senhor e na maneira de ser ela observada, as comunhões


protestante e romana divergem largamente. Em lugar de ser um ato unificador,
congregando todos os cristãos em comunhão uns com os outros e com o Senhor de
todos, ela tem mais frequentemente provocado odiosas e amargas discussões, como
aconteceu por duas vezes durante a Idade Média e ao tempo da Reforma, entre Lutero e
Zwinglio em Marburg,1529,insistindo em suas próprias idéias sobre a Ceia do Senhor e
rudemente se furtando a chegar a entendimento fraternal com Zwinglio, foi uma das
causas do revés sofrido pelo movimento protestante na Europa Central. Sua impossível
teoria da consubstanciação – estar Cristo “em, com e sob” os elementos sacramentais do
pão e do vinho – foi rejeitada pelo seu companheiro de Reforma, Melanchthon, e dela
geralmente hoje abrem mão os luteranos através do mundo, embora nem todos o
façam.1

Os diferentes conceitos acerca da Última Ceia, prevalecentes entre


romanistas e protestantes, revelam-se nos termos de que eles se servem ao aludirem à
ordenança. A igreja antiga lhe deu o nome de eucaristia, palavra que expressa o ato de
dar graças e derivada do gesto de Cristo “dando graças”, antes de distribuir o pão e o
vinho. Os romanistas se referem à Ceia, tratando-a como o santíssimo sacramento, o
sacramento do altar e a missa. Entre os protestantes, são correntes os nomes usados no
Novo Testamento: - a Ceia do Senhor e a Comunhão – I Cor. 10:16;11:20, nomes de
que também usaram os XXXIX Artigos e a Confissão de Westminster. O livro d Oração
Comum trata-a de santa comunhão. Entre os romanistas, a mesa é chamada de altar;
entre os protestantes tratam-na como a mesa do Senhor ou mesa da comunhão. Nas
igrejas protestantes, a eucaristia é um ato sacramental, de que tomam parte todos os
cristãos. Na igreja romana ela é ao mesmo tempo um serviço sacramental e um
sacrifício, em que real oferenda é feita a Deus. O pão partido –e Cristo partiu o pão – o
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cerimonial romano o substituiu pela obréia ou hóstia – hóstia – palavra latina que
designa a vítima sacrificial.

§ 1. A instituição da última ceia.- A Ceia que nosso Senhor comeu com


seus discípulos, na noite que precedeu sua crucificação, é descrita por Mateus, Marcos,
Lucas e por Paulo – I Cor. 10:16, 17; 11:23-29. O discurso de nosso Senhor acerca de si
mesmo, como o pão descido do céu, que João apresenta no sexto capítulo de seu
Evangelho, é encarado pela maior parte dos estudiosos da Bíblia como tendo ligação
profética com a Ceia do Senhor. Outras referências, certas ou prováveis, à ordenança,
encontram-se na associação de Cristo com os dois discípulos com quem se encontrou no
caminho de Emaús – Luc. 24:30 – quando se fez conhecido deles “no partir do pão”,
costume dos primeiros crentes em Jerusalém – Atos 2:46, que continuavam em comum
acordo no “partir o pão em casa”; e na reunião em Troas, no primeiro dia da semana,
quando Paulo encontrou “os discípulos reunidos para partirem o pão” – Atos 20:7. O
Ensino dos Doze traz orações eucarísticas e Justino Mártir, 140, fez uma descrição
detalhada daquela observância.

A descrição da Ceia do Senhor, apresentada por Mateus, decorre nos


seguintes termos: “Estando eles comendo, Jesus tomou o pão, deu graças e partiu-o e
deu a seus discípulos e disse: Tomai, comei, este é meu corpo. E ele tomou o cálix e deu
graças e deu-o a eles, dizendo: Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue do pacto,
que é derramado por muitos para remissão de pecados”. Lucas acrescenta: “Fazei isto
em memória de mim” e Paulo ainda acrescenta: “Porque todas as vezes que comerdes
este pão e beberdes este cálix, anunciais a morte do Senhor até que venha”.

§ 2. A importância da ordenança.- O serviço eucarístico veio a ser, de


início, a parte central do culto dos cristãos. Era tido em tal reverência que, para o manter
isento de profanação, celebravam-no em secreto, não sendo permitida a presença de
ninguém, salvo os membros em plena comunhão com a igreja. Em certos lugares
originou-se o hábito de se colocar um copo de vinho consagrado na sepultura dos
mortos, hábito condenado pelo Concílio de Cartago, em 397. A nenhum assunto os
escolásticos deram mais atenção do que à eucaristia. Por mais que os protestantes
discordem do tratamento que os escolásticos deram à matéria em exame, estão prontos a
reconhecer o elevado intuito religioso que os animava. Tomaz de Aquino dedicou a seu
estudo quatrocentas páginas. Alberto Magno escreveu um tratado especial sobre o
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assunto, que, na edição impressa de suas obras, abrange quatrocentas e trinta e cinco
páginas. Gradualmente sob o nome de missa, o elemento sacrificial se avolumou e se
tornou de maior importância do que a idéia de comunhão. O dogma construído pelos
escolásticos e o caprichoso ritual eucarístico que eles também produziram, foram
adotados por completo pelo Concílio de Trento. O Concílio pronunciou nada menos de
vinte e quatro anátemas contra os protestantes, em razão de suas concepções
características. Os Reformadores unanimemente regressaram à simples Ceia descrita nas
páginas do novo Testamento, repudiando as definições medievais e muito do cerimonial
da Idade Média, considerados por eles como invenções humanas.

Os católicos romanos e os protestantes concordam em que a Ceia do Senhor


foi instituída para ser uma ordenança perpétua na igreja; que ela se destina aos cristãos
batizados e crentes; que o pão e o vinho são os elementos a serem usados; e que as
palavras de Cristo, ao instituir a ordenança, devem ser repetidas na administração da
mesma. Os pontos sobre que divergem são os seguintes: 1) A virtude da ordenança; 2) a
transubstanciação dos elementos; 3) a negação do cálix aos leigos;4) a adoração da
hóstia e 5) o sacrifício da missa. Essas diferenças serão consideradas minuciosamente.2

§ 3. A virtude da Eucaristia.- Segundo a definição romana, o sacramento


da Ceia do Senhor tem a virtude de remover culpa e de conferir graça, quando
adequadamente celebrado pelo sacerdote. Quando o sacerdote repete as palavras: “Este
é o meu corpo”, o pão consagrado vem a possuir, como inerente a si próprio, a virtude
divina – e é a carne do Senhor. Os que participam da carne do Senhor com seus dentes –
assim ensinou Tomaz de Aquino – erguem-se como leões. O sacramento – assim o
ensina o Concílio de Trento – é antídoto que liberta os participantes das culpas diárias e
os preserva de pecados mortais. Confere remissão de pecados veniais e engendra a paz
de consciência. Esses benefícios se estendem a todos os que participem do pão, desde
que lhes não oponham tropeços. – obex. Ademais, segundo o Concílio, a intenção do
sacramento se preenche, desde que o sacerdote participa do pão e do vinho. Disse
Tomaz de Aquino: “A consumação do sacramento não consiste em seu uso por parte
dos fiéis, mas na consagração dos elementos”.

A virtude intrínseca, atribuída pela teoria romana aos elementos


eucarísticos, negam-na os protestantes. Os benefícios do sacramento se recebem pela fé
e somente pela fé. Os elementos de pão e vinho são símbolos e nada mais. Participando
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deles, os comungantes, crendo, obedecem ao mandamento de Cristo e participam de sua


promessa. Recordam com gratidão a paixão e morte de Cristo, confessam seus pecados
e indignidade e oferecem-se de novo em consagração a Cristo. Participando e tendo
comunhão com Cristo, eles comungam uns com os outros, como participantes da
mesma salvação e herdeiros da mesma herança celestial. Como a Páscoa sob a velha
dispensação e como o 7 de setembro, ambos comemorativos de importantes eventos
nacionais, a Ceia do Senhor é uma solenidade memorial, comemorando os sofrimentos
de Cristo, é uma confissão do poder salvador da cruz – e é alguma coisa mais. A
comemoração tem a garantia da viva presença de Cristo. Os protestantes se unem a
Tomaz de Aquino, quando diz: “A Ceia do Senhor contém todo o mistério de nossa
salvação”, entendendo por estas palavras que a ordenança expressa de modo figurado a
propiciação de Cristo sobre a cruz. Para os protestantes, assim como para os romanistas,
cristo cumpre a promessa que fez aos seus discípulos e põe-se em contato com os
crentes; mas o Senhor só se revela à fé que os crentes tenham. Sua presença é espiritual.
O ato do celebrante não opera transformação dos elementos e não lhe comunica virtude.
Como disse Lutero, em sua Liberdade do Cristão, nada se requer para uma digna
participação da comunhão senão fé, que repousa na promessa de Cristo.

§ 4. A Transubstanciação.- A exagerada atribuição de virtude inerente aos


elementos consagrados do pão e do vinho, encontra fácil, posto que desarrazoada,
explicação na teoria da transubstanciação. A teoria é talvez o mais arbitrário e irracional
dos ensinos transmitidos pela teologia da Idade Média. A transubstanciação foi definida
como dogma pelo Quarto Concílio Lateranense, 1215, e, consoante o ensino romano,
deve ser crida para a salvação. O dogma vem a ser isto: quando o sacerdote eleva a
hóstia e o cálix, repetindo as palavras: - “Este é o meu corpo... este é o meu sangue”, o
pão e o vinho deixam de ser pão e vinho e se mudam no verdadeiro corpo e sangue de
Cristo. A substância original dos dois elementos não mais os integra, embora os
acidentes ou qualidades do pão e do vinho permaneçam, isto é, o sabor, a cor, o peso, a
forma. Quando o comungante ingere a hóstia, ele recebe em sua boca o próprio corpo de
Cristo. Segundo o Catecismo Tridentino, o “corpo real” de Cristo, que é “o mesmo
corpo que nasceu da Virgem Maria e se assenta à mão direita de Deus”, está tão
verdadeiramente sobre todo o altar em que os sacerdotes ministram, como seu corpo
natural esteve sobre a cruz do calvário. A definição formulada pelo Concílio de Trento
diz que “Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está
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verdadeira e realmente na substância contida sob as espécies daquelas coisas tangíveis,


pão e vinho... de modo que no santíssimo sacramento da eucaristia, Cristo se contém, se
oferece e se consome – continetur, offertur et sumitur”. Em outro lugar, o Concílio mais
precisamente o definiu deste modo: “Pela consagração do pão e do vinho, faz-se a
conversão de toda a substância de seu sangue; tal conversão é com propriedade
chamada transubstanciação...” O Concílio pronunciou anátemas contra todos os que
negarem que o corpo completo de Cristo esteja nos elementos, ou afirmarem que ele ali
esteja apenas dinamicamente ou figuradamente, ou que só a fé seja suficiente para
assegurar os benefícios de sua presença. O Catecismo de Pio X estatui que a “eucaristia
contém realmente o corpo, sangue, alma e divindade de nosso salvador”. Nos séculos
que precederam à Reforma, a convicção do poder transformador do ato sacerdotal havia
alcançado tal força, que o aludido ato foi chamado “criação de Deus”, sendo tratado o
padre celebrante como “criador de Deus”. As expressões citadas incorreram em
condenação da parte de Wyclif, Huss e outros. Elas continuam a ser usadas pelos
teólogos romanos até hoje.

§ 5. A evolução do dogma da Transubstanciação.- Até cerca de 850, a


eucaristia não constituíra assunto de animada discussão teológica; entretanto, desde os
tempos primitivos, uma linguagem fortemente metafórica era usada por alguns dos
escritores cristãos, a respeito da virtude e eficácia dos elementos sacramentais, embora
não apresentassem ainda a teoria da transubstanciação. De qualquer maneira, sua
linguagem é ambígua. Inácio, escrevendo aos cristãos de Smirna, alude ao pão como “a
carne de nosso Salvador, a qual sofreu por nossos pecados”. Em sua carta aos Romanos
que “suspirava pelo pão de Deus, que é a carne de Cristo, e por uma gota de seu sangue,
que é amor incorruptível”. Justino Mártir disse que “o alimento que é abençoado pela
oração e do qual nosso sangue e carne pela transmutação se nutrem, é a carne e o sangue
de Jesus, que se fez carne”. Talvez fosse intenção dos escritores realçar, pela linguagem
realista, aos olhos dos não-cristãos, a posição central da propiciação no sistema cristão.
Pelas suas cláusulas sobrepostas, Inácio demonstra que não concebia o pão e o vinho
como se fossem o corpo real de Cristo. Outros escritores cristãos, evitando a linguagem
crua, ensinaram o conceito dinâmico ou espiritual, como fez o autor do Ensino dos
Doze, que fala da eucaristia como alimento e bebida espirituais e os interpreta como
“vida e conhecimento dados mediante Cristo”.
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

A discussão em torno da eucaristia se abriu com o tratado escrito por


Paschasius Radbertus, cerca de 850. Sem empregar a palavra transubstanciação, aquele
escritor expressou a crença de que “o pão eucarístico não é outra coisa senão a carnde
de Cristo, que nasceu de Maria, sofreu sobre a cruz e ergueu-se do túmulo”. Paschasius
teve a oposição de Ratramnus, monge de Corbay, e de outros eclesiásticos. Setecentos
anos depois, o tratado de Ratramnus foi posto no Index pelo Concílio de Trento.
Duzentos anos depois de Paschasius, nos meados do século XI, a controvérsia foi
reaberta por Berengar de Tours, o qual, como Ratramnus o fizera antes, afirmou a teoria
dinâmica ou espiritual. Berengar antecipou a maior parte dos argumentos usados em
tempos posteriores contra a transubstanciação, que ele classificava como absurdo e
tolice popular – ineptio, vecordia vulgi. O Sínodo de Ruão, que o julgou e o condenou,
queimando-lhe os livros, definiu a crença corrente na época: “ O corpo inteiro de nosso
Senhor não só está, de maneira sensível, no sacramento, mas é verdadeiramente tocado
pelas mãos do sacerdote, quebrado por ele e partido pelo fiel com os dentes”. Gregório
VII protegeu a Berengar, embora lhe condenasse as opiniões. Tomaz de Aquino seguiu
o conceito de Paschasius e ensinou que “não só se participa da carne de cristo, mas de
todo o corpo de Cristo, isto é, ossos, nervos e outras partes dessa espécie” – ossa, nervi
et alia hujusmodi.

O texto do dogma lateranense, 1215, que fixou a denominação teológica –


transubstanciação – diz que o corpo e o sangue de Cristo estão contidos no sacramento
do altar, sob as espécies de pão e vinho, sendo o pão transubstanciado no corpo e o
vinho no sangue, por divino poder – transubstantiatis pane in corpus et vino in
sanguinem potestate divina.O Concílio declarou heréticos os que rejeitassem o dogma e
lhes negou sepultura cristã. A negação da transubstanciação se tornou um dos principais
motivos da queima d hereges na Inglaterra, desde Sweeting e Brewster, 1511, e João
Fryth em 1533, que acusaram de evidente idolatria a adoração dos elementos, até
Hooper, Ridley e outros proeminentes Reformadores, durante o reinado de Maria. Em
sua última série de Artigos, como se tem dito, Henrique VIII tornou a heresia punível de
morte.

O dogma lateranense foi intrepidamente combatido por Wyclif, que, como


diz o cronista, “começou em 1381 a determinar as matérias acerca do sacramento do
altar”. Em seu tratado sobre a eucaristia e em outros escritos, antecipou a opinião
dinâmica ou protestante e todos os argumentos que se podem tirar das Escrituras e da
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observação contra a teoria romana. Cristo – ensinou ele – está nos elementos
“virtualmente e espiritualmente” como um rei está em todas as partes de seus domínios
e como o raio de sol está no vidro da vidraça. Ele classificou a doutrina da
transubstanciação entre as invenções e opiniões da igreja moderna – novellæ ecclesiæ.
Que haveria de mais terrível – escreveu ele – do que poder diariamente o sacerdote, em
quebrando a hóstia, quebrar o corpo do Senhor! Considerava a doutrina “sem
fundamento, quer no Sagrado Escrito, quer na razão e no entendimento, mas apenas
ensinada por novos hipócritas e amaldiçoados hereges, que enaltecem suas próprias
fantasias e sonhos” – de euch. p. 78, 81.

§ 6. A idéia do Novo Testamento restaurada.- Os Reformadores


protestantes restituíram aos elementos sacramentais do pão e do vinho sua natural
significação e rejeitaram a teoria medieval da transmutação, considerando-a como lenda
humana, destituída de evidência escriturística. Os XXXIX Artigos falam da
transubstanciação como “repugnante às claras palavras da Escritura, subversiva da
natureza do sacramento, tendo dado lugar a muitas superstições”. A Confissão de
Westminster afirmou que o dogma não só é “repugnante às Escrituras, mas até ao senso
comum e à razão”. O livro de Oração comum também se insurje contra a doutrina
romana, ao dizer que “o santo sacramento deve ser recebido em lembrança da meritória
cruz e paixão de Cristo e como perpétua memória de sua preciosa morte e sacrifício”.
Severas palavras foram usadas pela Confissão Escocesa, 1560, em que há referência ao
dogma que “o papismo tem perniciosamente ensinado e condenavelmente crido”.

Os fundamentos da crença na doutrina da transubstanciação, segundo os


apresenta o Catecismo Plenário, são as palavras usadas por Cristo na instituição do
sacramento e a prática constante da igreja, desde os tempos Apostólicos. O Catecismo
acrescenta que a prova escriturística da real presença “é mais forte do que a que existe a
favor de qualquer outra verdade cristã”. A resposta dada pelo Catecismo de Pio X à
pergunta: “Por que acreditas que Jesus Cristo está verdadeiramente na eucaristia?” – é:
“Creio que Jesus Cristo está verdadeiramente na eucaristia, porque ele disse que o pão
consagrado e o vinho eram seu corpo e sangue e porque a igreja assim o tem ensinado;
todavia, é um mistério, um grande mistério”.

As provas apresentadas pelos teólogos romanos são a interpretação literal


dada à palavra é, usada por nosso Senhor, quando disse: “Este é o meu corpo”, e a literal
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interpretação das palavras de Cristo referidas no Evangelho de João: “Se não comerdes
a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós
mesmos. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, porque
minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue verdadeiramente bebida”.
Replicando, os protestantes, seguindo os Reformadores, sustentam ser anti-natural a
interpretação literal da palavra é e que as palavras altamente realistas referidas por João,
no capítulo sexto de seu Evangelho, são contrabalançadas por outras expressões do
mesmo capítulo, que mostram estar Cristo falando figuradamente. O argumento tirado
da palavra é – “Este é o meu corpo” – entra em conflito com a significação que o verbo
assume em outros lugares, em que Cristo comparou a si mesmo com coisas materiais e
com a operação destas. Os protestantes dão às palavras a significação natural: “Isto
representa o meu corpo”. Quando cristo disse: “eu sou a videira”, “Eu sou a porta”, “Eu
sou o caminho”, não quis significar que fosse uma videira real, com ramos e raízes, ou
uma porta real, com ferros e gonzos, ou uma estrada por que os homens transitassem,
mas inculcou que aquelas coisas materiais eram figuras da relação espiritual que existe
entre ele e seus seguidores. Era natural que Cristo seguisse o costume do Velho
Testamento, o qual emprega com frequência linguagem figurada ao representar as
coisas espirituais, como quando os profetas e salmistas diziam que “Deus é um sol”,
“Deus é uma rocha”, “Deus é um escudo”, “Deus é uma fonte de águas”, não querendo
isso dizer que Deus fosse uma esfera incandescente, ou que ele fosse duro, ou de
bronze, ou torrente a correr. Cristo repreendeu a Nicodemus por haver tomado
literalmente suas palavras: “É-vos necessário nascer de novo”, como se eles se
referissem ao nascimento físico. Se as palavras de Cristo: “Este é o meu corpo”, devem
ser tomadas em sentido literal, então devemos aceitar “o cálix”, que contém o vinho, em
sua significação literal – e temos de bebê-lo, porque Paulo disse: “Todas as vezes que
beberdes este cálix...” “quantas vezes beberdes o cálix do Senhor...” “o cálix de bênção
que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo?” – I Cor. 10:6; 11:25-27. Pela
mesma regra de interpretação, os crentes cristãos, que participam da eucaristia, são pão,
porque Paulo disse: “Nós, que somos muitos, somos um só pão, porque todos nós
participamos de um só pão” – I Cor. 10:17.

A linguagem metafórica é empregada, através do Novo Testamento, para o


ensino de verdades religiosas. Quando João Batista apontou a cristo como “o cordeiro
de Deus”, não quis dizer que Cristo fosse um cordeiro real. Quando Paulo escreveu que
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“Moisés e os israelitas beberam da mesma rocha espiritual que os seguia e que a rocha
era Cristo”, não quis significar fosse Cristo uma rocha real. João tratou as sete igrejas da
Ásia como as sete estrelas – Apo. 1:20 – e não quis dizer outra coisa senão que as
igrejas, como as estrelas, eram destinadas à projeção de luz. Ele também chamou a
Cristo – o leão da tribo de Judá – Apo. 5:5, mas não quis dizer que Cristo fosse o rei dos
animais. Quando Joel exortou a sua geração “a rasgar seus corações e não suas vestes” e
Paulo orou, almejando que “Cristo habite em vossos corações pela fé”, não era o
coração físico que eles tinham em mente. Já Agostinho observava, faz muito tempo, que
“Cristo é metaforicamente muitas coisas que, estritamente falando, ele não é.
Metaforicamente, cristo é ao mesmo tempo uma rocha, porta, pedra angular, pastor, leão
e cordeiro. Quão numerosas são tais comparações! Mas, se desejardes a significação
estrita, então ele não é nem rocha, porque não é duro e pesado; nem porta, porque
nenhum marceneiro o construiu; nem pedra angular, porque nenhum construtor o
empregou como tal; nem pastor, porque ele não é guardador de quadrúpedes; nem leão,
porque se chega aos animais; nem cordeiro, porque não pertence ao rebanho. Todos
esses títulos servem como analogias” – Sobre João, Nic. Pais, 7:262.

O segundo argumento em abono da transubstanciação, baseado no sexto


capítulo de João, perde sua força, quando se verifica que a construção material que se
levanta sobre as palavras de Cristo, no sentido de ser sua carne comida e seu sangue
bebida, é corrigida por outras palavras pronunciadas na mesma ocasião, com o objetivo
de serem paralelas às primeiras e referindo-se a atos espirituais. Cristo também disse:
“O que vem a mim nunca terá fome e o que crê em mim nunca terá sede... e o que vem a
mim de modo nenhum o lançarei fora” – João 6:35. Ademais, após ter falado do comer-
lhe a carne e do beber-lhe o sangue, Cristo disse a seus discípulos atônitos: “O espírito é
que vivifica, a carne para nada aproveita. As palavras que vos disse são espírito e vida”.
As expressões “comer minha carne e beber meu sangue”, e “vir a mim”, e “crer em
mim”, significam a mesma coisa, sendo as mesmas bênçãos prometidas, isto é, bênçãos
espirituais. “Vir a mim” era uma expressão habitual de cristo, destinada a indicar a
relação salvadora em que ele está para com os crentes. Quando ele disse: “Se alguém
tem sede, venha a mim e beba”, não quis referir-se à sede física, nem à aproximação
corporal.

Fora da Escritura, a doutrina da transubstanciação está exposta a objeções


das maiores consequências, retiradas da observação e da lógica. Por todos os
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testemunhos da vista e do paladar, o pão e o vinho, após a consagração, permanecem


imutáveis. As dimensões, a cor, o paladar, a corruptibilidade são os mesmos, tanto antes
como depois do ato sacramental. A transubstanciação exigiria a transacidentação, isto é,
a mudança de substância acarretaria a mudança das qualidades. “Todos os clérigos
cristãos” – disse, com justiça, Wyclif, “são incapazes de dizer a causa pela qual são
deixados os acidentes sem as substâncias” – Ed. De Arnold, III:407. O pão do altar,
guardado, torna-se bolorento como qualquer outro pão. O vinho permanece líquido e
pode tornar-se ácido como qualquer outro vinho. O próprio Tomaz de Aquino disse que
o pão consagrado, uma vez ingerido, dará sustento ao corpo; e o vinho, tomado em
excesso, causará embriaguez. Mais: se se opera, de fato, a mudança, os elementos do
altar naturalmente assumirão a forma corporal de Cristo, porque Cristo disse: “Este é o
meu corpo” – soma, corpus. Ele não fala de sua carne – sarx. O Catecismo Tridentino
falaciosamente compara a mudança feita sobre o altar à mudança da água em vinho em
Caná e à mudança do alimento na substância de nosso corpo. A água em Caná perdeu
sua cor e seu sabor; com o vinho sacramental não se dá isso. No caso da digestão, o
alimento perde sua aparência e sua substância. O dogma da transubstanciação viola,
igualmente, o princípio filosófico, segundo o qual um objeto material não pode estar em
mais de um lugar ao mesmo tempo. Centenas e milhares de vezes no mesmo instante, o
espantoso milagre da transubstanciação ocorre, segundo a teoria romana, de Melbourne
a Roma. Não é para admirar que Tomaz de Aquino declarasse ser mais difícil
compreender a transubstanciação do que a criação do nada. Sr. Thomas More, em sua
Resposta a Frith, tem a dizer o seguinte acerca da definição de Agostinho – “que o
corpo com que Cristo ressuscitou deve estar em dado lugar, continuando ele no céu, até
que Cristo venha para julgar os vivos e os mortos”: Agostinho “podia ter dado a
entender, por aquelas palavras, não que o corpo de Cristo não pudesse estar no mesmo
tempo em dois lugares, mas que ele deve estar em um lugar, ou, por assim dizer, em
algum lugar, em um ou em outro lugar, ou que ele deve ter seu lugar, especial, que é o
céu” – Obras, p. 855 sq. James Anthony Froude declarou ser a transubstanciação a mais
estranha de todas as superstições. Por outro lado, o cardeal Newman, contemporâneo de
Froude, escreveu: “Não acreditei na doutrina enquanto não me fiz católico. Não tenho
dificuldade em crê-lo, desde que acreditei que a igreja católica romana é o oráculo de
Deus e que ela declarou ser aquela doutrina parte da revelação original” – Breves
Estudos – II, p. 49; Apologia, p. 239. A concepção de Newman empresta a uma decisão
eclesiástica superior valia para clara significação da linguagem, da razão e dos sentidos.
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Ainda outra objeção à doutrina da transubstanciação s encontra na


conclusão monstruosa e ao mesmo tempo necessária de que Cristo, na Última Ceia,
participou de sua própria carne e sangue. Os escritores católicos romanos não recuam
diante da hipótese, mas asseguram que na noite que precedeu à crucificação, Cristo
tomou nas mãos seu próprio corpo e seu próprio sangue e os ingeriu, e deu seu próprio
corpo e seu próprio sangue aos discípulos para que comessem e bebessem. No hino que
Tomaz de Aquino escreveu para a celebração da missa, o escolástico deu expressão
àquela crença:

“Assenta-se o rei à mesa


Rodeado pelos Doze.
Toma nas mão a si mesmo:
Ele, que é o pão, come-se a si próprio”.
“Se tenet in manibus, se cibat ipse Cibus”.

A teoria materialista da igreja romana impôs aos escolásticos a pergunta:


Que é feito do corpo de Cristo e de seu sangue, quando a hóstia cai no assoalho ou uma
gota do vinho cai sobre o pano do altar, ou corporal? Caindo uma gota de vinho sobre o
pano do altar, adotou-se a regra de lavar-se o pano em água e ser esta bebida pelo
sacerdote. Uma questão mais embaraçante se impôs: que efeito teria a hóstia, se fosse
devorada por um ratinho? Daria ela os benefícios da vida eterna ao roedor? Esta
pergunta foi assunto da mais aguda especulação escolástica. Sua resposta envolve toda a
teoria da virtude sacramental da hóstia. Boaventura concebeu a idéia mais graciosa: em
tais circunstâncias, Cristo se retira e o pão volve a ser de novo o pão natural. Tomaz de
Aquino empunhou, todavia, suas armas e ensinou que o pão continuava a ser o corpo de
Cristo;mas o camundongo, não tendo nascido para usar da hóstia como sacramento,
come-a “de modo natural e não de maneira sacramental” – non sacramentaliter sed per
accidens – distinção que exigiria a mente de um escolástico para a decifrar.

A resposta dos protestantes à teoria da transubstanciação é que ela se baseia


na interpretação anti-natural das palavras de Cristo ao instituir o sacramento e contradiz
a observação e a lógica. A teoria se torna repulsiva pela hipótese de haver Cristo comido
sua própria carne e pela exigência da crença de estarem no Cenáculo dois Cristos
completos – a personalidade que os discípulos viam diante de si e a personalidade que
eles percebiam em suas mãos. Tomaz de Aquino foi mais longe do que a subtileza
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escolástica ou a evasiva jamais poderiam ter conduzido alguém, quando apresentou três
razões pelas quais as qualidades do pão e do vinho permanecem imutáveis e
desaparecem as substâncias do pão e do vinho, às palavras do sacerdote: 1. É
repugnente aos hábitos dos cristãos o comer carne crua; 2. Evitar a acusação de
canibalismo por parte dos escarnecedores, ao contemplarem os cristãos quando
participam da eucaristia; 3. O intuito de desenvolver a fé.

À teoria da transubstanciação e do conceito materialista da eucaristia,


ensinada pela igreja romana, os XXXIX Artigos opõem a clara definição protestante,
segundo a qual “o corpo de Cristo é tomado e comido apenas de modo celestial e
espiritual, sendo a fé o meio pelo qual ele é apropriado”. A confissão de Westminster
diz: “os que participam dignamente recebem interiormente, pela fé, real e
verdadeiramente e não carnal e corporalmente, de maneira espiritual, os benefícios de
sua morte”. A verdade é expressa de modo singelo pela Confissão Galicana: “Todos os
que trazem à sagrada mesa de Cristo uma fé pura, recebem verdadeiramente aquilo de
que a Ceia do Senhor é símbolo. Cristo os alimenta e fortalece com a substância de seu
corpo e de seu sangue, e isto se faz espiritualmente”.

§ 7. A adoração da hóstia.- O culto da hóstia naturalmente decorre do


milagre da transubstanciação. Se o pão consagrado sobre o altar é o corpo real de Cristo,
então legitimamente é objeto de culto. Nas igrejas romanas, quando o sacerdote eleva a
hóstia, toca-se a campainha e o celebrante e a assistência dobram os joelhos e prestam
adoração. Esta adoração, chamada latria, é o culto devido ao próprio Deus. Todos os
que negam que a hóstia deva ser adorada, incorrem em anátema pronunciado pelo
Concílio de Trento. Outras práticas naturalmente decorrem, como a bênção com o
sacramento, ocasião em que se usa incenso e a hóstia é solenemente posta na custódia, e
a reserva do sacramento para o culto.3

A adoração da hóstia foi abolida pelos Reformadores protestantes, prática


por eles considerada invenção humana. Os XXXIX Artigos taxativamente proíbem que
os elementos sejam “reservados, trasladados, erguidos ou adorados”. A chamada rubrica
negra do Livro Anglicano de Oração declara que “não deve ser prestada adoração ao
pão sacramental, nem ao vinho, materialmente recebido, nem a qualquer presença
corpórea da carne natural e do sangue de Cristo, porque o pão e o vinho sacramentais
continuam em seu mesmo estado natural e, assim, não podem ser adorados. O corpo
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natural e o sangue de nosso Salvador estão no céu e não aqui, sendo contrário à verdade
o estar o corpo natural de Cristo em mais de um lugar ao mesmo tempo”.

A adoração da hóstia determinou a criação de uma solenidade anual,


conhecida como Corpus Christi, feita por Urbano IV em 1264, tornando-se costume
conduzir-se a hóstia, colocada na custódia, através das ruas, ajoelhando-se o povo em
atitude de adoração.4 Em 1881, os Congressos Eucarísticos começaram a promover o
culto da hóstia, reuniões que têm sido consideradas como “festas do corpo glorificado
de Cristo”. O primeiro congresso se celebrou em Lille, França; e outros se seguiram em
Avinhão, 1882; Liège, 1883; Londres, 1908, assistido por dez cardeais; Montreal, 1910;
Lourdes, 1914; Amsterdão, 1924; e em outros lugares. EM 1926 o congresso se realizou
em Chicago, sob a presidência do cardeal Mundelein; foi, talvez, o evento mais
espetacular que já se produziu no continente, tendo atraído a presença de treze cardeais,
inclusive o representante do papa, cardeal Bonzano, com duzentos bispos e arcebispos
do exterior. A 21 de junho, quinhentas mil pessoas, segundo o cálculo feito, se reuniram
no Campo dos Soldados e assistiram à missa celebrada pelo representante papal, num
altar construído a trinta e cinco metros acima do solo. Calcula-se ter um milhão de
pessoas comungado em Chicago no dia anterior. O outro congresso foi convocado para
Sidney, em 1928.

§ 8. A recusa do cálix aos leigos.- Palpável desvio do preceito expresso da


Escritura temo-lo no costume romano de subtrair o vinho aos leigos. Somente o
sacerdote bebe o vinho, esgotando o cálix. A prática de se subtrair o cálix aos leigos foi
matéria de gradual evolução, tendo sido levada a efeito, em parte, por considerações de
prudência, para prevenir sacrilégios que praticariam os que cuspissem o vinho; e, em
parte, com o propósito de realçar a importância do sacerdócio, distinguindo-o dos
leigos. Tomaz de Aquino, que usou de todos os argumentos imagináveis para justificar a
prática, a ela se refere como tendo sido introduzida apenas em poucas igrejas, em seu
tempo. Entre os argumentos manejados por Tomaz, figura o milagre da alimentação de
cinco mil pessoas, quando nenhum vinho foi distribuído. Se a ilustração é legítima,
então o peixe usado no milagre poderia substituir o vinho da eucaristia. Cento e
cincoenta anos depois da morte de Tomaz, o Concílio de Constança ameaçou de
excomunhão a qualquer sacerdote que se aventurasse a dar o cálix aos leigos, sob o
pretexto de se evitarem sacrilégios, pelo fato de se deixar cair o sangue de Cristo no
assoalho, ou nas barbas dos comungantes, ou de ele se azedar, ou congelar-se, quando
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guardado para os enfermos. O Concílio também alegou a especiosa doutrina da


concomitância, ensinada por Alexandre de Hales, falecido em 1245, e pelos escolásticos
que o seguiram. Segundo aquela ficção, todo o corpo de Cristo - divino e humano –
corpo e sangue, nervos e ossos, está no pão e do mesmo modo está Cristo completo no
vinho. Alexandre avançou tanto, que pediu que o cálix fosse negado aos leigos, com o
declarado propósito de lhes ensinar a nova doutrina. O concílio de Trento adotou a
doutrina da concomitância, na afirmação de que “Cristo, todo e completo, está debaixo
das espécies do pão e todo o Cristo está debaixo das espécies do vinho”. O Concílio
acrescentou ainda que “os que recebem um ou outro, não ficam privados de nenhuma
graça necessária à salvação” – e anatematizou aos que negassem tal doutrina. O
Catecismo Tridentino acrescentou às razões anteriormente acrescentadas em abono da
recusa do cálix, a circunstância de que “algumas pessoas têm aversão ao vinho, que não
podem suportar-lhe sequer o cheiro, e há lugares em que ele é extremamente escasso e
de difícil obtenção”. O catecismo declara, entretanto, que “a razão principal é mostrar
ao povo que o corpo integral de Cristo está em cada um dos elementos”. Um argumento
desesperado, para que o cálix seja recusado aos leigos, o dr. João Milner o encontrou na
prática da Ceia do Senhor após a ressurreição, em que se menciona apenas “o partir do
pão”. Suponhamos, em resposta, que uma pessoa hoje convidasse a outra a “partir o pão
em sua companhia”: queria isto dizer que pão e não água devesse ser servido?

O reservar-se o cálix ao sacerdote é nítida violação do mandamento de


Cristo, porque ele ordenou que todos bebessem do cálix. Depois de tomar o cálix, disse
Cisto: “bebei dele todos, porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este
cálix, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha”. Se alguém quiser arquitetar um
argumento, haverá maior razão para que o vinho seja distribuío a todos do que o seja o
pão. O cardeal Gibbons contorna o claro mandamento de Cristo, afirmando que naquele
ponto cristo teve em vista apenas os Apóstolos. Se tal foi a intenção de Cristo, porque
não entendeu também que só os apóstolos deviam comer o pão e que a Última Ceia não
devia ser repetida, ou, se devia, o fosse sem pão e sem vinho?

As palavras de Paulo – I Cor. 11:27 – têm sido algumas vezes invocadas em


defesa da subtração do cálix aos leigos: “O que come este pão, ou bebe este cálix
indignamente, é réu do corpo e do sangue do Senhor”. A interpretação se faz à revelia
do versículo que imediatamente se segue, sendo que inteiramente deturpa o pensamento
do Apóstolo. No versículo precedente declara ele que Cristo ordenou aos discípulos:
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“Comei o pão e bebei o cálix”; e a mesma coisa se diz no versículo que se segue ao
referido acima: “Coma o homem do pão e beba do cálix”. O pensamento de Paulo no
versículo intermediário é que o pão e o vinho devem ser usados; mas, se o pão ou o
vinho se usar indignamente, incorrer-se-á em culpa. Tinha o Apóstolo em mente o
excessivo beber praticado pela igreja de Corinto em suas festas de amor. Aos hussitas
fora dado o privilégio de distribuir vinho aos leigos, privilégio cassado por Pio II. A
príncipes em visita a Roma, algumas vezes se dá o cálix.5

§ 9. Práticas rituais.- Entre as práticas prescritas para a missa, que, não


sendo essenciais a ela, são, todavia, matéria preceituada pela igreja romana – non
necessitate sed precepta ecclesiæ – figuram as seguintes: 1. Mistura-se água ao vinho,
antigo costume mencionado por Justino Mártir. 2. Os pecados devem ser confessados ao
sacerdote, antes da participação do sacramento. 3. Comunhão frequente, sendo que até a
comunhão diária é encarecida. 4. Celebração de missa nupcial antes do casamento. 5. O
comungante é obrigado a jejuar desde a meia-noite, em preparação para o sacramento,
que não pode ser celebrado mais cedo do que uma hora antes do amanhecer ou mais
tarde do que uma hora depois da meia-noite. 6. Para evitar suspeita de heresia, o
católico romano deve tomar a comunhão pelo menos uma vez por ano preferivelmente
pela Páscoa, e deve toma-la também quando a morte se aproxima, porque “o viático
sustenta a alma na viagem para a eternidade” – nel viaggio all’ eternità – como se
expressa o catecismo de Pio X. 7. A não ser mediante licença especial, o sacerdote só
pode celebrar uma só missa por dia, exceto pelo Natal e no Dia de Finados. 8. A hóstia
deve ser guardada num cibório ou sacrário, acima do altar, com uma lâmpada ardendo
diante dela – Cânon 1271.

Sustentam os protestantes que todas essas práticas rituais são matéria de


conveniência e escolha. Em relação a seus próprios costumes, os protestantes respeitam
as diferenças e concedem liberdade, quer se deva comparecer à mesa do Senhor todos
os domingos, como Lutero propôs, ou a intervalos durante o ano, ou em quatro épocas
anuais, como foi proposto pela Igreja Reformada de Genebra, com sermão ou sem
sermão, com ou sem cântico de hinos, conforme prefiram as congregações. As
preferências de Calvino eram pela celebração mensal. Em referência aos costumes
eclesiásticos, como os Reformadores os encaravam, disse Calvino – de ref. p. 73: “Se
nos velhos tempos os fiéis chegavam uma vez por ano á mesa do Senhor, eles o
julgavam suficiente, sendo durante o resto do ano expectadores do que era feito pelo
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sacerdote”. Como preparação à comunhão, os protestantes dão realce às recomendações


de Paulo, no sentido de que os homens se examinem a si mesmos, antes de se
aproximarem da mesa do Senhor, se pretendem participar dignamente. Muito, como já
ficou dito, concordariam provavelmente em que nenhuma razão suficiente pode ser
tirada da Escritura para que se negue a um grupo de leigos o direito de celebrar a
comunhão entre eles. O sacramento, como disse Lutero, não pertence só ao sacerdote.
Pertence a todos os cristãos. O caráter privado da ordenança não torna essencial a
presença de um ministro. A comemoração dos sofrimentos e da morte de Cristo na cruz,
através da solenidade da Ceia do Senhor, pertence a todos que olham para Cristo como
seu Salvador e dele dependem para a graça da vida espiritual.

Bibliografia e Notas

1. O original da Conf. de Augsb., 1530, diz que “o corpo e o sangue de


Cristo estão verdadeiramente presentes e são distribuídos àqueles que comem”.
Melanchthon adotou, na revisão, 1540, o conceito de Calvino: “com o pão e o vinho, o
corpo e sangue de Cristo são verdadeiramente exibidos àqueles que participam da Ceia
do Senhor”.

2. Sir Thomas More, em sua Response acerca dos sacramentos, acusou a


Lutero de “absurdos, sandices, blasfêmia, indecência, ignorância estúpida, sofisma,
ignorância malvada, mentira impudente e abuso da Escritura”, e disse que em todos os
quatro Evangelhos o sacramento não é chamado pão e vinho, mas o corpo e sangue de
Cristo – non vocetur panis et vinum sed corpus et sanguis.

3. A Revisão do Livro de Oração Comum admitiu que a reserva do


sacramento tinha sido votada ao contrário pela Casa dos Comuns, desde 1927. O bispo
Exeter, numa pastoral de saudação, 1921, disse que “o costume de reservar os elementos
logicamente permite todo o culto do bendito sacramento, como vemos na moderna
igreja romana. A doutrina é tão perigosa como revoltante. Se meu salvador está numa
píxide, posso pensar que ele também esteja no corpo de um homem que acabou de
tomar a comunhão? Se a doutrina da reserva for verdadeira, por que, então, a Presença
se limita à igreja e por que, se eu perfurar a parede, ficando a píxide à mostra, a
Presença não se comunica a mim? Os raios X passam através da substância sólida;
porque não o fará a Presença material?”
DAVID S. SCHAFF – NOSSA CRENÇA E A DE NOSSOS PAIS

4. Tal procissão é descrita por Robertson, Papal Conquest in Italy, p. 261,


que viu em Gênova, em 1882, quando ela saía da Catedral, os prelados e sacerdotes
pomposamente vestidos e os jesuítas de preto. Logo que a procissão alcançou o nível da
praça, o povo se atirou com um grito selvagem sobre os eclesiásticos, que foram
deixados a rolar no pó.

5. More em sua Resp. to Luther, p.88, fala da “velha úlcera da Boêmia”.


Rokyzana, no Concílio de Basiléia, citou a obra d Alberto Magno sobre a eucaristia, a
qual não fizera referência à ocultação do cálix. Perrone VII:262 asseverou que “a igreja,
que é nossa mãe, por determinação de Deus, pode, com boas razões, dar o cálix a seus
filhos ou negar-lho.” O concílio de Trento deixou a questão de abrir exceções à regra de
negar o cálix “a nosso beatíssimo Senhor, o papa, que, em virtude de sua singular
sabedoria, fará oque for mais proveitoso à comunidade cristã”.
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CAPÍTULO XIX

O SACRIFÍCIO DA MISSA

Só há uma comunhão; e não missa;


Nem há sacrifício, mas festa vivificante.- Tennyson.

O dogma do sacrifício da missa é, como o dogma da transubstanciação,


igualmente contrário à Escritura.1 A palavra “missa” provém da expressão latina missa
est, que significa: “o serviço terminou” – palavras ditas no encerramento do culto dos
catecúmenos, que era assistido somente pelos membros em plena comunhão. A parte
principal do segundo era a Ceia do Senhor.

§ 1. Definição.- Na missa o sacerdote, segundo se diz, oferece sobre o altar


um verdadeiro sacrifício, tendo a Cristo como vítima – hóstia. A única diferença entre o
sacrifício consumado pelo sacerdote e o sacrifício do Calvário, é que, na missa, faz-se
uma oferenda sem sangue – incruenta – e sem dor. O Concílio de Trento ensinou que,
em ambos, “a vítima é uma e a mesma, só havendo diferença no processo do sacrifício”;
e que, instituindo a eucaristia, Cristo legou à igreja “uma oblação perpétua, pela qual
nossos pecados podem ser expiados e nosso Pai Celestial pode retroceder da ira para a
misericórdia”. Assumindo seus votos, o sacerdote professa “que, na missa, se oferece a
Deus um sacrifício verdadeiro, real e propiciatório”; e em sua ordenação lhe é dado pelo
bispo o “poder de oferecer sacrifício na igreja”.

Incluem-se os seguintes pormenores na definição tridentina: 1. O sacrifício


da missa é um sacrifício visível – e visível porque a atual natureza do homem exige
alguma coisa que apele para os sentidos. 2. É incruento. 3. A vítima é idêntica à que
sofreu de maneira cruenta sobre a cruz. 4. A missa pode ser celebrada em presença do
povo ou com uma só pessoa presente, como ajudante, para repetir os responsórios,
pessoa que, em caso de necessidade, pode ser mulher, a qual deve, no entanto,
conservar-se a considerável distância do altar – cânon 813. 5. A indignidade do
sacerdote não afeta a virtude da consagração, tanto mais que é o Cristo “que, sobre o
altar, se oferece a si mesmo a Deus, o Pai, sob a forma de pão e vinho”. 6. O sacrifício
só é oferecido a Deus e nunca a um santo. Nunca se usam palavras como: “Ofereço a ti,
Pedro”. As missas podem ser, todavia, oferecidas em honra de santos e, neste caso, a
igreja implora seu auxílio. 7. Para alívio das almas do purgatório, a mais eficaz de todas
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as ações humanas é a missa. O Concílio de Trento pronunciou não menos de nove


anátemas contra os que neguem que a missa seja um verdadeiro sacrifício oferecido a
Deus; que seja propiciatória – aproveitando tanto aos ausentes como aos presentes; que
sejam legais as missas de que somente o sacerdote participe (como comungante)); que
elas possam ser adequadamente oferecidas em louvor de santos; que os sacerdotes sejam
autorizados por Cristo a oferecerem o próprio corpo do Senhor e seu sangue; e que
algumas partes do serviço devam ser lidas em tom mais baixo do que as outras partes.

A oferta de Cristo sobre o altar é o ato central do culto romano, o mais


sagrado rito celebrado no santuário.2 Ele se celebra – assim prescreve o Concílio de
Trento – com um cerimonial acurado – ritos simbólicos, velas acesas, ornamentos
sacerdotais ricos e com frequência da mais caprichosa confecção, ou, em caso de missa
de defunto, com paramentos negros. É um dramático espetáculo em que o esquema da
redenção fere a vista. Na Idade Média, a missa tomou o lugar da pregação e a piedade
dos fiéis era alimentada à medida que assistiam à transação misteriosa e sobrenatural,
em que se repetia a tragédia da cruz. Para o devoto, é o mais pungente e significativo
drama. Ali, sobre o altar, a propiciação é forjada ainda uma vez e “os mais horrendos
crimes e pecados recebem perdão mediante a oferenda”, porque a missa tem o mesmo
valor do sacrifício da cruz. Sua superioridade sobre a eucaristia como comunhão é que
ela possui eficácia vivificante, tanto em relação aos que estão ausentes, como para os
que se acham presentes; para os mortos, assim como para os vivos. A eficácia da
transação é tão grande quando o sacerdote que ministra esteja sozinho, como quando a
congregação esteja presente – Can. 1273. Por milagre, a cerimônia é atordoante
significação, porque por vezes incontáveis, no mesmo instante e sobre inumeráveis
altares, cumpre-se o sacrifício de Cristo.

§ 2. A rejeição protestante.- Os protestantes consideram o sacrifício da


missa não só incompatível com as Escrituras e derrogatório do sacrifício da cruz, feito
uma vez por todas, mas também subversivo da razão. As Escrituras claramente expõem
que, quando Jesus foi crucificado fora dos muros de Jerusalém, a obra da propiciação se
completou. Quanto ao morrer – disse S. Paulo – Cristo morreu uma vez para o pecado.
A uma voz, os escritores do Novo Testamento firmaram-se no princípio de que não
mais subsistia sacrifício por pecados e que Cristo, nossa Páscoa, tendo sido sacrificado
por nós, não deixou subsistir a necessidade de quaisquer sacrifícios posteriores – I Cor.
5:7; Heb. 10:26. O Livro de Oração Comum fala da “oblação de Cristo, feita de si
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mesmo sobre a cruz, como completa, perfeita e suficiente oblação e satisfação pelos
pecados te todo o mundo”. As antigas Confissões protestantes não somente repudiaram
a missa, mas frequentemente a denunciaram como idolatria. Os Artigos de Schmalkald,
preparados por Lutero, 1537, declararam ser a missa “a maior e mais terrível
abominação”. Os XXXIX Artigos tratam as missas de “fábulas blasfemas e enganos
perigosos”. A Confissão Escocesa, “profundamente detestando e renunciando a doutrina
de que os sacerdotes ofereçam um sacrifício propiciatório”, considerou a missa
“blasfema e derrogatória da suficiência do sacrifício único de Cristo”. Em linguagem
não menos vigorosa, a Confissão de Westminster, um século depois, declarou ser “o
sacrifício papista da missa mui abominavelmente injurioso ao sacrifício único de Cristo,
à única propiciação por todos os pecados dos eleitos”. O bispo Latimer – para citar
apenas um Reformador inglês – em seu sermão sobre o Arado, disse: “Como a serpente
foi levantada no deserto, assim seja o próprio Cisto exaltado, para que por esse meio
tenham a salvação quantos nele confiem... Eles pretendem salvar-nos por meio de uma
diária oblação propiciatória, por um sacrifício expiatório ou remissivo... Confiemos
somente na morte de Cristo e não busquemos nenhum outro sacrifício propiciatório,
além do mesmo sacrifício cruento. Porque o próprio Cristo disse: ‘Está consumado!
Realizei a redenção do homem e resolvi a questão’. Cristo, nossa Páscoa, foi oferecido,
de modo que o ato foi consumado e Cristo o cumpriu de uma vez por todas e foi um
sacrifício cruento.3

§ 3. A argumentação.- Para sustentar a missa, o Concílio de Trento se


serviu de uma só passagem: “Fazei isto em memória de mim”, passagem a que o mesmo
Concílio deu a arbitrária significação de “celebrai em memória de mim” – Luc. 22:19. A
celebração memorial da Ceia do Senhor, em que os fiéis recordam os sofrimentos e a
propiciação da cruz, é, desse modo, transformada em ato criador e sacerdotal, pelo qual
o próprio Cristo, reencarnado, de novo se sacrifica. Se Cristo quisesse dar a entender tal
coisa, teria tido a seu alcance mais de uma palavra para significar “oferecer ou
sacrificar”, palavras de que ele poderia ter-se utilizado – e que se encontram no Novo
Testamento. Por que não preveniu a má compreensão da mais solene ordenança que
deixou à humanidade, dizendo: “Oferecei em lembrança de mim”? A palavra “oferecer”
(em sacrifício) era não só familiar, mas era o vocábulo preferido na terminologia dos
serviços sacrificiais do templo.
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Para justificar o ensino segundo o qual a missa possui mérito propiciatório


para os que se acham ausentes à celebração, tanto os vivos como as almas do
purgatório, a igreja romana atribui a mais arbitrária significação à palavra “muitos”,
registrada em passagens de Mateus e Marcos: “Este é o meu sangue que é derramado
por muitos para a remissão de pecados”. A interpretação natural da palavra é que Cristo
se referia à larga influência de sua propiciação; mas a teologia romana faz que a palavra
se refira à influência do sacramento, celebrado pelo sacerdote. Com igual propriedade
os benefícios da Última Ceia e também da propiciação podem restringir-se aos
Apóstolos que se encontravam presentes quando, segundo Lucas, as palavras ditas por
Jesus foram: “Este é o meu sangue que é derramado por vós”. O Catecismo Tridentino
retrocedeu até o Velho Testamento e encontrou uma predição da missa nas palavras de
Malaquias 1:11: “Em cada lugar uma oblação pura é oferecida a Deus” – palavra em
que o profeta evidentemente tinha em mente corações contritos e quebrantados, e não
sacrifício material.4

A missa romana é irreconciliável com os registros exarados no livro de


Atos, nas Epístolas Apostólicas e com o que sabemos dos próprios Apóstolos. Tão
claramente quanto o possa fazer a linguagem, a Epístola aos Hebreus declara que não
pode haver repetição do sacrifício de Cristo. Todos os sacrifícios materiais – afirma o
escritor – tinham sido abolidos. Cristo morreu uma vez pelo pecado e, através de sua
morte, alcanço-nos redenção eterna, “tendo entrado uma vez por todas no lugar santo”.
Se a missa romana tivesse entrado nas cogitações de Cristo, é para admirar que Paul não
houvesse dado o mínimo sinal dela em seus conselhos pastorais ministrados a Timóteo e
a Tito, e que, nas reuniões em que os Apóstolos tomaram parte, não haja notícia de
terem eles celebrado missa. Como fonte de todas as suas esperanças, atentavam para a
cruz do Calvário como altar do Sacrifício, e nunca para qualquer outro altar
propiciatório. “Pelo sangue de sua cruz” – disse S. Paulo – “ele fez a paz, reconciliando-
nos no corpo d sua carne, através da morte”. Pedro afirmou que é pelo precioso sangue
de Cristo, como de um cordeiro sem mancha ou defeito, que somos redimidos. O
terceiro dos grandes Apóstolos, João, disse que “o sangue de Jesus Cristo nos purifica
de todo pecado” – I João 1:7. Se aqueles três apóstolos tivessem qualquer idéia de um
sacrifício incruento do Calvário, não teriam feito, em uma ou outra circunstância, alusão
do fato de haver Cristo dado mandamento para que se repetisse seu sacrifício? Em face
do silêncio dos Apóstolos, o cardeal Gibbons não hesita em dizer que “a tradição com
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suas cem línguas, desde o tempo dos Apóstolos até nossos dias, proclama a perpétua
oblação do sacrifício da missa”. Para o protestante, um claro texto da Escritura vale
mais do que muitas tradições, ainda que estas se empilhem até a altura de verdadeira
montanha. À luz da história, a afirmativa do dr. Gibbons é falsa. Os primitivos
escritores cristãos falam de outros sacrifícios, mas nunca da repetição do sacrifício da
cruz. O ensino dos Doze Apóstolos, com que o cardeal teve abundantes oportunidades
de relacionar-se, informa que “no dia do Senhor reunimo-nos e partimos pão e damos
graças, tendo antes confessado nossas transgressões, para que o sacrifício de nós
mesmos possa ser puro”. O sacrifício – thusia – não é o sacrifício de Cristo, mas dos
próprios cultuadores. A declaração do Manual concorda com as palavras de S. Paulo,
que fala do sacrifício d nós mesmos e do sacrifício dos gentios. A mesma palavra –
thusia – é empregada pelo Apóstolo para designar nossa oferta como “um sacrifício
vivo” e para expressar “o sacrifício da fé”, Rom. 12:1; Fil. 2:7. Por que era a Ceia do
Senhor chamada pelos antigos cristãos o culto de ação de graças – eucaristia – e não o
sacrifício de Cristo, se aquilo era encarado como a repetição do sacrifício de Cristo? De
conformidade com a concepção do Novo Testamento, Justino Mártir, em seu Diálogo
com Trifo, proclamou “as orações e ações de graças os únicos sacrifícios perfeitos e
aceitáveis a Deus”. “A alma justa” – Disse Clemente de Alexandria – Stom. VI, VII – “é
o real altar santo. A vida inteira do cristão é uma solenidade santa. Seus sacrifícios são
orações e louvores, leituras bíblicas antes das refeições, salmos e hinos durante elas e
antes de deitar-se, e de novo orações durante a noite”. Esse autor contrastou os
sacrifícios de louvor e ações de graças, que os cristãos oferecem com a alma, com os
sacrifícios materiais feitos nos altares judaicos e pagãos. A expressão de Pedro –
“sacrifícios espirituais” – I Ped. 2:5 – animava a mente da igreja.

O cardeal Gibbons, argumentando mais além a favor da missa, confunde o


espírito dos incautos com a exclamação: “por que vós, protestantes, orais e ides à igreja,
e vos submeteis ao batismo e tomais a comunhão, se o sacrifício do Calvário é
inteiramente suficiente?!”

Se fosse necessário responder, responderíamos que a oração, a reunião dos


cristãos e o batismo se encontram claramente ordenados no Novo Testamento,
enquanto que à repetição do sacrifício de si mesmo, feito por Cristo na cuz, em parte
alguma se alude.
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No segundo século, oferendas eram feitas à celebração da comunhão, mas


eram ofertas dos elementos, feitas pelo povo, e a dedicação que o povo fazia de si
mesmo. Justino Mártir refere que o povo trazia pão e um cálix contendo vinho e água ao
“presidente dos irmãos”, que se encarregava do culto, e que o presidente dirigia, a
intervalos convenientes, graças ao Pai em nome de Jesus Cristo e do Espírito Santo,
após o que os elementos eram distribuídos à congregação e uma parte reservada aos que
não estavam presentes. Até o século XII o povo continuou a apresentar os elementos
eucarísticos, destinados à comunhão, para serem usados como ofertas de gratidão. Por
aquele tempo, operou-se a mais prodigiosa transformação, em virtude da qual a oferta
passou a ser encarada como um sacrifício de Cristo, em lugar de ser uma oferta a Cristo.
A transformação é mui difícil de explicar-se: tudo que se pode dizer é que ela se operou
no interesse da preeminência sacerdotal e pessoal do clero e resultou de especulação
escolástica, elaborando a ficção da transubstanciação. A competência para “criar a
Deus” sobre o altar elevou o sacerdócio acima de todas as dignidades e fê-lo árbitro do
destino eterno dos vivos e dos mortos. É possível que o drama religioso da Idade Média,
em que os sacerdotes frequentemente tomam parte, pretendia alguma coisa com a
mudança pela qual o altar foi exaltado e presumiu-se repetir a cena do Calvário.

O conceito sacrificial da eucaristia levou à prática da celebração de missas


particulares e missas pelos mortos, também chamadas missas negras ou missas de
réquiem, nome este derivado das primeiras palavras do ritual latino: “Dai eterno
descanso” – réquiem eternam dona. A celebração de tais missas tornou-se a principal
ocupação dos sacerdotes nos santuários e capelas. O altar se tornou o lugar de se
oferecer sacrifício expiatório por pecados e crimes, assim como o mercado é o lugar da
venda diária de utilidades. O abuso da repetição de missas se tornou tão clamoroso, que
os Sínodos limitaram a três o número delas, que cada sacerdote podia celebrar no
mesmo altar e no mesmo dia. O Código Canônico restringe o número a uma só missa
diária, exceto pelo Natal e Finados. As almas do purgatório, pelas quais se celebram
missas, incluem eclesiásticos da mais elevada hierarquia, assim como leigos da mais
humilde condição. A 24 de março de 1922, primeiro aniversário da morte do cardeal
Gibbons, o reitor da Universidade Católica Romana cantou missa, em Washington, pelo
repouso da alma do prelado. Quando monsenhor José João Suhr, vigário geral da
diocese de Pittsburgh, faleceu, em 1922, deixou 500 dólares para missas a serem ditas
“por sua própria alma e pelas almas de seus pais”. Uma semana após o assassínio de
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Gabryl Narutowicz, presidente da Polônia, foram celebradas missas pelo repouso de sua
alma, a igreja de Sto. Estanislau, em Nova York, a 24 de dezembro de 1922, tomando
parte na cerimônia o arcebispo Hayes. As missas por intenção de um falecido podem
continuar por tempo ilimitado, porque se ignora por quanto tempo pode uma alma ser
retida no purgatório. Uma das queixas frequentes que nos vieram da Inglaterra
medieval, refere-se a reclamações de executores testamentários, alegando que legados
feitos com o propósito de custear missas por alma do falecido, eram embolsados por
sacerdotes, que não cumpriam as cláusulas dos testamentos, e sacerdotes havia que
viviam em “orgia e devassidão”, enquanto os testadores jaziam no purgatório. A lei da
igreja romana prescreve que uma espórtula fixa – stipendium – seja dada ao sacerdote,
contribuindo todos os que assistem a missas – Can. 824-830.

§ 4. Os milagres da hóstia.- A teoria realista ou mecânica dos elementos


usados na eucaristia e de sua virtude, foi responsável, durante a Idade Média, por
inumeráveis milagres fictícios. Tais milagres foram relatados não só por César de
Heisterbach, Etienne de Bourbon e outros escritores populares, mas foram atestados por
Alexandre de Hales, Boaventura e outros teólogos eminentes – e os conventos em que
eles se produziram foram transformados em santuários e centros de peregrinação.
Escritores piedosos relataram casos em que a hóstia fora vista a suar sangue e Cristo
fora contemplado a sair da hóstia e regressar a ela. Uma história refere que, após ter um
abade consagrado os elementos, viu-se a Cisto assentado sobre a mão do celebrante,
como uma criança. A criança cresceu até alcançar a estatura de homem e depois voltou
à hóstia, no momento em que o abade, comungando, a consumiu. Outra história diz que,
durante um baile em que um sacerdote tomava parte, a píxide se abriu e caíram as cinco
hóstias que nela estavam. Em vão foram as hóstias procuradas, até que, tendo o povo se
retirado da casa, os sagrados objetos foram achados numa concavidade da parede, onde
os anjos os haviam colocado para sua segurança.

Mais notáveis foram os casos da hóstia ensanguentada de S. Trond, na


Bélgica, e a hóstia exsudante de Wylsnack. Quanto à hóstia de S. Trond, César
Heisterbach afirmou tê-la visto com os próprios olhos. Certa dama, que havia beijado o
amante com a hóstia na boca, pensando que por aquele meio havia de inflamar a paixão
do amigo, verificou que não podia engolir o sagrado objeto. Depondo-o num
guardanapo, a mulher revelou a ocorrência a um bispo itinerante. Os dois abriram o
guardanapo e descobriram três gotas de sangue vivo. O abade de Trond foi chamado ao
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local – e verificou-se que metade da hóstia era carne e metade pão. O sangue foi
conservado num vaso entre as relíquias da cidade e tornou-se famoso alvo de
peregrinos, sendo aquele lugar tido como sagrado até hoje. A hóstia exsudante de
Wylsnack, não longe de Berlim, que foi primeiro mostrada em 1383, foi examinada
vinte anos depois por uma comissão nomeada pelo arcebispo de Praga, figurando João
Huss entre seus membros. A comissão declarou tratar-se de fraude; mas, a despeito do
relatório, o santuário continuou a ser visitado ainda depois da Reforma, como um dos
lugares de culto mais famosos daquela parte da Europa. Entre as ações miraculosas
atribuídas ao prodígio de Wylsnack, há a experiência do cavalheiro que, depois de ter
consagrado sua armadura ao santo sangue, teve a sorte de matar em duelo a seu rival.
Ladrões que lhe fizeram votos, tornaram-se capazes de romperem as grades de sua
prisão. A última das façanhas notáveis relacionadas com as hóstias consagradas, não foi
a história do camponês que colocou uma hóstia em sua colmeia: a hóstia não só se
conservou intacta, mas as abelhas lhe prestara culto, construindo reverentemente um
santuário em miniatura, com um altar sobre que depuseram o devoto objeto. As abelhas
da vizinhança aderiram à adoração, reunindo-se e entoando melodias sacras. Em vista
dessas singulares ocorrências, o camponês, acompanhado por um bispo e seu vigário,
encaminhou-se para a colmeia e piedosamente removeu a hóstia, enquanto as abelhas
expressavam seus sentimentos pios, entoando cânticos.

Até mesmo ao encerrar-se o século XV, a hóstia consagrada era tida como
um encantamento, e a razão que Savonarola e os dominicanos alegaram para não irem,
através das chamas, até Florença, foi a de se lhes não permitir a condução da hóstia.
Dois prodígios, referidos cem anos depois pelo cardeal Belarmino – de euchar. 3:8 –
podem ser aqui citados. Um é o da mula, à qual santo Antônio de Pádua exibiu a hóstia.
Quando o santo ordenou que o animal a reverenciasse, a mula, deixando o molho de
feno e esquecendo a fome, aproximou-se do sagrado emblema, curvou a cabeça, dobrou
os joelhos e adorou. À vista desse incidente – continuou o cardeal – hereges se
converteram. O segundo prodígio foi o caso de um herege inglês, que foi levado à
presença do arcebispo, na catedral de S. Paulo, em Londres. Quando o herege afirmou
que o culto de uma aranha era mais racional do que o culto da hóstia, imediatamente
uma aranha horrível soltou-se do teto e teria entrado na boca do blasfemo, não fora a
presença dos que ali estavam e que o impediram.
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A pretensa atuação miraculosa da hóstia não se circunscreveu à Idade Média


e às narrativas do cardeal Belarmino. Um espantoso exemplo moderno temos do caso
das hóstias de Siena, cuja história, segundo se diz, data de duzentos anos. Em 1730,
verificou-se ter sido subtraído da catedral um cibório de prata, contendo muitas hóstias.
Mais tarde as hóstias foram descobertas de envolta com moedas, numa caixa de
esmolas, em que o ladrão as havia lançado – trezentas e quarenta e oito hóstias e seis
partículas. Sendo descobertas, um franciscano referiu que, na manhã do furto, ele havia
consagrado duzentas hóstias, adicionando-as a uma centena já existente no vaso
sagrado. Por ordem do arcebispo de Siena, grandes honras foram tributadas aos objetos
recuperados. Sem descermos a minúcias da história, é bastante que se diga que, em
1789, o arcebispo então em exercício, em presença de sacerdotes e nobres, abriu o
cibório e encontrou duzentas e trinta e uma hóstias e oitenta e nove fragmentos, “rijas e
frescas como se feitas recentemente”. Foram recolocadas em novo cibório, o qual tem
sido aberto várias vezes, sendo que a última o foi em 14 de junho de 1914,na presença
dos “professores de ciências de Siena e de sua universidade”. As obreias, reduzidas a
228,foram encontradas “engomadas e perfeitamente conservadas”; e, posto em água
destilada, um dos fragmentos tornou-se mole e intumescido. Todos os presentes se
uniram em referir que a substância da obreia não mostrava sinais de alteração. Foi
decidido que se expusesse o cibório, com seu conteúdo, à adoração e recomendou-se
aos adoradores que cantassem : “Adoro-te a todo momento, ó pão vivo do céu, grande
sacramento!” – te adoro, ogni momento, o vivo Pan del Ciel, grand sacramento! A
preservação daqueles elementos foi graciosamente proclamada miraculosa pelo atual
arcebispo da cidade italiana. Uma descrição minuciosa foi publicada na Revista
Histórica Católica, de janeiro de 1923, e, sem a mais leve suspeita de que as coisas
referidas não sejam fatos indubitáveis, diz a Revista que “a questão está, não nocomo
tenha o número de hóstias diminuído no correr dos anos, mas – no porque aconteceu
que algumas restassem”.

Pondo de parte todas essas histórias como fantasias, os protestantes se


voltam para as Escrituras e relêem as palavras cristalinas com que o Senhor instituiu a
festa comemorativa de sua morte: “fazei isto em memória de mim”. A eucaristia é uma
refeição comemorativa, na qual os cristãos se reúnem em obediência ao mandamento de
Cristo, rendem graças pelo sacrifício que ele cumpriu no Calvário em benefício deles e
renovam os propósitos de união com o Senhor. A eucaristia não é repetição do sacrifício
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da cruz e mudança alguma se opera no pão e no vinho mediante as palavras


pronunciadas pelo ministro. O pão e o vinho devem ser encarados com respeito, quando
separados para um santo propósito, mas não têm virtude em si mesmos, para conferir
graça aos que participam deles. A eucaristia é comunhão a que Cristo está
espiritualmente presente, como está presente onde quer que dois ou três se reúnam em
seu nome; e onde há verdadeira fé, , Cristo se encontra mais efetivamente, porque o
símbolo é visível aos olhos e a ordenança é avaliada pela intenção dos adoradores, pelo
uso das palavras de que o próprio Senhor nosso se serviu e pela promessa que ele fez.
Ali, nos elementos, a morte de Cristo se apresenta figuradamente e Cristo é aprendido
pelo crente através da fé e de maneira celestial ou espiritual. Os protestantes podem
unir-se ao mártir inglês, o bispo Ridley, dizendo reverentemente: “Presto culto a Cristo
no sacramento, não porque esteja ele incluído no sacramento, mas do modo por que lhe
presto culto nas Escrituras, sem que ele esteja incluído nelas”. Para o católico romano, a
virtude da eucaristia reside na transubstanciação dos elementos, graças ao suposto poder
sobrenatural conferido à ministração sacramental. Para o protestante, sua virtude
procede da fé que tenha o crente e da obediência ao mandamento de Cristo.

A explanação do apregoado milagre da transubstanciação e do sacrifício da


missa não procede de nenhum desejo de colocar mal a piedade dos católicos romanos.
Os protestantes reconhecem que a intenção do espírito é o princípio diretor do
verdadeiro culto e que, não obstante a teoria que se possa ter no tocante à natureza do
pão e do vinho, após terem sido consagrados, ou separados pela oração sincera, o
devoto adorador receberá a bênção prometida. Nem estão os protestantes, nesta época,
inclinados a negar que haja católicos romanos inteligentes que, para além do altar sobre
que o sacrifício incruento se diz celebrado, olham para a cruz do Gólgota, como sua
única esperança. Os dois dogmas característicos, da transubstanciação e da missa,
devem ser, todavia, considerados como ficções eclesiásticas, para as quais a linguagem
de nosso Senhor, na noite em que foi traído, não serve de apoio.

Bibliografia e Notas

1. Hallam Tennyson, na Vida, que escreveu, de seu pai, 2:412, diz que o
poeta recebeu, no gabinete de estudo, juntamente com os membros de sua família, a
comunhão, poucos meses antes de morrer. Antes de sua administração, o reitor de
Freshwater foi advertido por Mr. Tennyson de que ele não podia participar dos
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elementos, a não ser que fossem recebidos no sentido que lhes fora atribuído por
Cranmer.

2. Tomaz de Aquino declarou: hoc sacramentum vationem sacrificii habet


in quantum offertur, rationem sacramenti in quantum sumitur. Vide Cat. Trid., 2:4, e
Perrone, 7:311.

3. O bp. Hooper, Brief and Clear Conf., chamou “a missa um completo


abandono da santa ceia, porque ela atribui e prescreve a si mesma aquilo que pertencia
somente ao sangue de Cristo na cruz, isto é, satisfação, purgação e remissão de pecados,
com aumento de graça”. Quão diverso é o conceito do moderno anglo-católico, Darwell
Stone, que diz “que a eucaristia é um ato de sacrifício, em que nosso Senhor apresenta
sua humanidade sacrificada e viva”. “Cristo está presente na eucaristia, como estava
presente com seus discípulos em sua vida encarnada”.

4. O bp. Gilmour, p. 198, descrevendo a Ceia do Senhor, diz que “Jesus é o


Melquisedec da nova lei que, como rei e sacerdote, ofereceu-se a si mesmo sob a
aparência de sangue e vinho”.
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CAPÍTULO XX

PENITÊNCIA E INDULGÊNCIAS

Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos a nossos devedores. – Da Oração
do Senhor.

Cremos que virás para nos julgar.- Do Te Deum..

A penitência, quarto sacramento da lista romana, presume-se destinada a


destruir a culpa dos pecados cometidos depois do batismo. Seguindo costume que data
de Tertuliano, cerca do ano 200, o Concílio de Trento chamou à penitência segunda
tábua sobre que o náufrago encontra salvação, assim como o batismo é a primeira tábua.
O Concílio considerou o sacerdote católico romano agente indispensável, atuando como
intermediário entre o pecador e Deus., estando revestido do poder de pronunciar a
absolvição. Os Reformadores protestantes rejeitaram o sacramento; e sua teoria e ensino
são que todo crente tem imediato acesso a Cristo e ao trono da graça e tem garantia do
perdão, sem qualquer ingerência sacerdotal – Heb. 4:16. Em parte alguma de sua obra o
cardeal Belarmino com mais frequência acusou de mentira a Lutero, Melanchthon e
Calvino, do que o fez no capítulo sobre o sacramento da penitência, inculpando a Lutero
de dizer piores mentiras do que os outros – crassiora mendacia. Atacando a prática
romana conforme ele a encontrou, Lutero recorreu profundamente ao dicionário de
epítetos: “As indulgências – escreveu – são um engano infernal, demoníaco; são furto e
roubo praticados pelo anticristo, mediante os quais o Ninrod romano negocia todos os
pecados deste mundo e do próprio inferno, tudo para arrancar dinheiro do povo” – Ed.
Weimar, 7:403 . Na consideração do assunto deste capítulo, deve-se ter claramente no
espírito a distinção entre a penitência, instituição eclesiástica e compulsória, em que o
pecador penitente e o sacerdote são co-agentes, e a penitência conforme vem ensinada
no Novo Testamento – livre ato da alma, buscando a Deus, único que tem poder para
perdoar pecados.

§ 1. A origem do sacramento romano da penitência.- Como o sacrifício


da missa, a instituição romana da penitência é uma invenção eclesiástica. O Novo
Testamento nada diz a seu respeito. Até cerca de 1150,a estrutura sacramental não
estava completamente desenvolvida. A súbita mudança da idéia néo-testamentária do
perdão para a teoria romana da confissão e perdão sacerdotais, é uma das transições
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mais enigmáticas operadas na história da igreja. São obscuros os passos que culminaram
naquele resultado. Os primitivos escritores post-apostólicos não conheciam a confissão
de pecados, a não ser diretamente a Deus. Clemente de Roma declarou que, como Davi
confessou seus pecados ao Senhor, assim os cristãos devem confessá-los a Deus. O
Ensino dos Doze prescreveu que a confissão de transgressões devia ser feita na
congregação, prescrição essa que segue as palavras de nosso Senhor – Mat. 18:17.
Conta o apologista cristão, Aristides, que um pagão, ingressando na igreja, “confessa a
Deus, dizendo: ‘Por ignorância fiz aquelas coisas’ – e Deus lhe purifica o coração e
seus pecados lhe são perdoados”. Em período distante e no interesse da fidelidade cristã
e da pureza da igreja, as comunidades prescreveram exercícios públicos de penitência a
pessoas que haviam decaído dos votos batismais e pediam fossem restauradas na igreja
cristã. Esses exercícios, conhecidos como sistema penitencial de disciplina, não eram os
mesmos em toda a parte da igreja, se acaso constituíram exigência formal de toda a
igreja. A regra era curvarem-se os penitentes diante dos presbíteros e apelarem para os
irmãos, no sentido de rogarem estes a misericórdia de Deus a seu favor. Um lugar
especial lhes era reservado, fora do santuário, até que lhes fosse concedida completa
restauração. A absolvição e a plena restauração se realizavam perante a comunidade. As
penas de transgressão consistiam em jejuns, permanência em saco e cinzas e,
principalmente, orações a Deus. Para “pecados mortais”, como homicídio, idolatria e
sacrilégio e para o renegar a Cristo em tempos de perseguição, os líderes norte-
africanos, Tertuliano e Cipriano, não admitiam perdão na terra. A igreja romana não
simpatizava com semelhante rigor.

A época exata em que se iniciou a prática de se fazer penitência ou de se


fazer confissão em particular, perante o sacerdote, é coisa que se não pode determinar.
A prática estava em voga no quarto século, quando foi mencionado por Crisóstomo,
juntamente com jejum, oração e esmolas, como um dos nove meios de penitência, sendo
que não era obrigatória. Em séculos posteriores, foram compostos guias penitenciais e
os Sínodos baixaram regras, regulando os atos penitenciais. Em meados do século XII,
Graciano, o canonista, refere que duas opiniões havia na igreja, “cada qual sustentada
por homens sábios e religiosos”, a saber: que a confissão feita a Deus era suficiente ao
perdão e que era necessária a confissão perante o sacerdote. Pela mesma época, Pedro
Lombardo – falecido em 1164 – considerava a confissão feita a Deus como suficiente ao
perdão de pecados, mas declarou que em seu tempo se sustentavam três opiniões, isto é,
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que a confissão a Deus era plenamente suficiente, que a confissão ao sacerdote era
necessária e a confissão a um leigo era válida. Cincoenta anos depois, 1251, o Quarto
Concílio Lateranense tornou a confissão feita ao sacerdote, uma vez por ano, exigência
legítima da igreja. Com esse decreto nova era se abre na história do cumprimento de
penitência e do perdão sacerdotal. Nos trinta anos que se seguiram, a exigência teve um
ardoroso advogado na pessoa de Alexandre de Hales – falecido em 1245 – que explanou
a confissão sacerdotal como dogma e ensinou que sem a absolvição do sacerdote não há
perdão. Tomaz de Aquino acompanhou a Alexandre e tratou do assunto da penitência
com grande abundância. No desenvolvimento recente da etoria sacramental, exerceu
influência o tratado espúrio “Verdadeira e Falsa Penitência”, posto em circulação sob o
nome de Agostinho. O tratado foi citado como autoridade até o século XVII. A grande
importância que os escolásticos atribuíram ao dogma se revela no espaço que eles lhe
dedicaram: Pedro Lombardo, por exemplo, escreveu duas e meia vezes mais páginas
sobre aquele assunto do que sobre a eucaristia, e Boaventura escreveu quatro vezes
mais.

Nenhuma prática medieval teve mais vigorosa oposição da parte de Wyclif


do que o novo dogma da confissão sacerdotal. A principal preocupação dos frades –
dizia ele – era ouvir confissões e dar absolvições. Eles a exerciam com ameaça de
purgatório e como um fácil meio de conseguir renda. Como se compravam bois, disse
Wyclif, assim se compravam perdões. A absolvição substituía a pregação. Os homens
ricos não temiam a quebra da lei moral, porque compravam o perdão a peso de dinheiro.
O simples pronunciamento do sacerdote: “Eu te absolvo de teus pecados” – ensinava-se
ser suficiente para cobrir as ofensas mais odiosas. “A confissão a Deus – disse o
Reformador – é posta à margem e a confissão auricular se torna necessária à salvação da
alma.” A confissão feita ao sacerdote é uma blasfêmia selvagem, uma coisa
recentemente descoberta, uma invenção de Inocêncio III, agitada por último pelo diabo.
Nosso Senhor jamais a praticou ou a ensinou. A igreja se corrompeu, ao permitir que o
sacerdote competisse com Deus no perdoar pecados. Os frades – aduziu também Wyclif
– encontram no confessionário uma oportunidade de corromper mulheres. No prólogo
dos “Contos de Canterbury”, Chaucer apresenta o frade de seu tempo como “homem
fácil de impor penitência”.

§ 2. O dogma romano.- A teoria medieval foi tomada em consideração


pelo Concílio de Trento, cujos decretos sobre o assunto em debate figuram entre seus
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pronunciamentos mais rebuscados e de mais acentuado caráter polêmico. Enisnam que o


sacramento da penitência foi instituído por Cristo, quando disse a seus discípulos:
“Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoados; e àqueles a quem os
retiverdes lhes serão retidos” – João 20:23. O sacramento é necessário “para que se
reconcilie com Deu o fiel” que, depois do batismo, recai na cobiça, inveja, malícia e
outros pecados graves, por pensamento, palavras e obras – e é necessário tão
frequentemente o fiel recaia. O sacramento foi instituído para que o penitente conheça,
através de uma perceptível transação exterior, que seus pecados lhe são perdoados,
como o paralítico e os circunstantes conheceram que as palavras de Cristo se tinham
cumprido, através da capacidade do mesmo paralítico em tomar seu leito e andar – Mat.
9:6.

O sacramento romano consiste de quatro partes, todas necessárias:


contrição, confissão ao sacerdote – também chamada confissão auricular – obras de
satisfação e absolvição dada pelo sacerdote. As três primeiras são atos do penitente e
constituem a matéria da penitência; a absolvição, ato do sacerdote, é chamada a forma
da penitência. Contrição é o pesar íntimo e o propósito de o abandonar e não mais
pecar; mas a contrição do coração não é bastante. Os Decretos Tridentinos, seguindo os
escolásticos, chegaram a contentar-se com a atrição. Atrição éa convicção mental de que
o pecado merece punição, mas não inclui confiança em Deus e o propósito de emenda.
É o medo do inferno. O Catecismo de pio X a definiu como “desgosto pelos pecados
cometidos, por temor do castigo eterno ou temporal, ou mesmo pelo terror à morte”. No
tempo de Lutero, a atrição era chamada arrependimento de Judas ou arrependimento de
força Judasreue, Galgenreue. Segundo o conceito romano, esse meio arrependimento
levará o pecador para a frente, desde que ele passe às três outras partes do sacramento.
Em seu sermão sobre as Indulgências, pregado um ano antes de haver afixado as XCV
Teses, Lutero foi severíssimo para com a teoria da atrição, contrastando-a com o
verdadeiro arrependimento, que ele disse consistir na real tristeza de coração e no
propósito de obedecer a De