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Felizmente Há Luar!

ESTRUTURA EXTERNA / INTERNA

O conflito de Felizmente há Luar! desenvolve-se entre um passado de repressão e obscurantismo (governadores) e um futuro que se anuncia de esperança e de liberdade (Gomes Freire). O facto de o general nunca aparecer em cena pode simbolizar o silenciamento brutal a que eram sujeitos todos os que se insurgiam contra a violência, a opressão e a tirania dos governantes. Acto I Apresentação da situação política e social da época, denunciando -se o modo maquiavélico como o Poder funciona, recorrendo à repressão e à conspiração (a conspiração hábil e desleal contra Gomes Freire prova que o regime precisava de eleger um bode expiatório para garantir a sua força). Acto II O espectador é conduzido ao campo do antipoder e da resistência à tirania e à repressão, assistindo à prisão e esforços para a libertação de Gomes Freire. Matilde encarna o heroísmo anónimo, construído no silêncio, tecido pelo sofrimento, mas não pela resignação. ESTRUTURA BIPARTIDA ± FUNCIONALIDADE A estrutura bipartida não é ocasional, mas antes procura inspirar no espectador a consciência de que também ele encarna a revolta popular contra todas as formas de perseguição e aviltamento da dignidade humana. Perante a mesma personagem, o mesmo cenário, as mesmas dúvidas, a obra confirma a sua atmosfera simbólica, universal e intemporal. O CARÁCTER TRÁGICO A obra remete para aspectos trágicos, nomeadamente pelos elementos seguintes: y O carácter excepcional das personagens: Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de justiça e liberdade; Matilde, pela nobreza moral, pela grandeza dos seus sentimentos e pela progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota; A simplicidade da acção e o despojamento cénico; O desenlace trágico: o martírio e morte de Gomes Freire.

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O CARÁCTER APOTEÓTICO O clima apoteótico é recriado através da fogueira onde Gomes Freire é martirizado que, em vez de ser dissuasora,

interpretando. Ao contrário do teatro clássico. porque símbolo do protesto e do inconformismo face à ditadura. da opressão e injustiça que dominam o Portugal da década de sessenta. da recusa da tirania em defesa dos ideais de justiça e liberdade. lúcido. para servirem de denúncia da situação social e política do país dos anos 60. seja pela sua lúcida integridade moral. símbolo da integridade de carácter.. É também o símbolo da modernidade e do progresso. já que move o espectador a intervir lúcida e criticament sobre a e realidade social em que vive. Inteligente. silenciado pelo regime. para que. um «estrangeirado». ou até mesmo pela admiração incontestável que lhe dedica o povo. É assumido como uma ameaça à autoridade dos governadores. assume a sua posição testemunhal. possa emitir juízos críticos sobre a realidade apresentada. o drama épico leva o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. gerando ódios e desejos mesquinhos de vingança. A técnica da distanciação / a função pedagógica À semelhança de Brecht. O martírio de Gomes Freire é também o do general Humberto Delgado. as primeiras manifestações sociais e políticas. reflectindo e julgando os acontecimentos apresentados. Análise crítica da sociedade Ao mostrar a realidade. de forma mais autêntica. inspirando-lhe emoções e sentimentos. assim. já que adepto das novas ideias liberais. já que nunca se serviu do seu estatuto para influenciar o povo.torna-se inspiração para que outros lutem pela liberdade: «Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim. combatendo todas as formas de injustiça e opressão. Assim. O teatro assume. Este. O TEATRO ÉPICO (INSPIRAÇÃO DE BERTOLT BRECHT) A fábula histórica Sttau Monteiro recupera acontecimentos que marcam o início do século XIX. mas antes torná-lo uma voz activa no julgamento da própria sociedade em que se insere. . o drama épico não procura criar um efeito hipnótico sobre o espectador. Os Revolucionários Gomes Freire de Andrade É um homem instruído. capaz de ver para além da hipocrisia dos poderosos. que levaram à revolução liberal. uma finalidade pedagógica. em vez de a representar. enquanto elemento de uma sociedade. mas humilde e discreto. em plena ditadura salazarista. seja pela sua argúcia excepcional de militar.. letrado.». Sttau Monteiro propõe um afastamento do espectador perante a história narrada. servem também como denúncia da miséria.

Os Governadores D. não poupando elogios à conduta do homem corajoso com quem partilhara sonhos e ideais. Miguel É o protótipo do pequeno tirano. O seu discurso final é uma resposta provocatória à violência da sociedade e um anúncio de esperança numa nova era. O seu espírito decrépito e caduco impede o progresso. Reage violentamente perante o ódio e as injustiças. Revela uma inteligência subtil e uma grande capacidade de argumentação. assume-se como a voz da consciência dos governantes. exprime romanticamente o amor que a faz acreditar no sentido da sua vida e ajuda a manter a esperança de o marido conseguir vencer a vilania da morte a que foi sujeito. . a sua ambição desmedida e um egoísmo arrogante. no apoio incondicional que lhes dedica. simbolizando a decadência do país que governa. inseguro e arrogante. no exercício do poder. já que acredita fanaticamente na manutenção de um governo absolutista. embora não se contenha e chegue mesmo a pôr em risco a sua vida ao insultar D. obrigando a enfrentar os -os seus actos de cobardia. minado pela hipocrisia e pela mesquinhez. Corajosa. A sua crueldade revela-se perante a execução de Gomes Freire. a traição. chega a reconhecer a sua cobardia e a inutilidade da sua luta. Frio. Miguel. que será exemplo para os que ousem desafiá-lo. acompanhando a esposa do general na angustiosa tentativa de o libertar. a manipulação perversa do poder. revela o seu calculismo político. desumano. De carácter megalómano e prepotente. esposa e «companheira de todas as horas» do general. desmascarando o interesse mesquinho. O seu sentido crítico fá-lo duvidar da justiça dos governantes e revoltar-se contra a indignidade do tratamento dado ao general durante a sua prisão. é a «personificação da mediocridade consciente e rancorosa». a hipocrisia.Matilde Amante. capaz de desarmar os falsos valores dos governantes. António de Sousa Falcão A sua lealdade a Gomes Freire e Matilde é revelada na profunda admiração. Perante o exemplo de coragem do general.

procura a todo o custo salvaguardar o seu posto de militar. Marechal Beresford Representa o poder calculista e o interesse material. através da astúcia e da adulação. . representam o grupo dos delatores. procura. justificam a denúncia do general e a traição aos valores que defendem. embora não esconda a sua animosidade pelo inglês. defende o valor do dinheiro e do poder como forma de ascender socialmente. Servil e materialista. que colaboram com o regime visando o lucro pessoal. apenas para manter a sua consciência tranquila. ainda que o faça pela traição e pela denúncia. que fazem dele um mercenário astuto e arrogante. Hipócrita. os principais responsáveis pelo clima de revolta que agita o reino e justifica a condenação de Gomes Freire por um desagravo cometido sobre um familiar. Hipócrita.Principal Sousa De carácter mesquinho e vingativo. A falta de escrúpulos. o seu discurso religioso é continuamente deturpado em função dos seus interesses monetários. participando activamente no processo de condenação do homem que poria em risco a sua carreira. O seu carácter cobarde enuncia-se no modo como se apresentam perante os governadores. o seu prestígio e os seus privilégios. De carácter trocista e mordaz. nomeadamente os ideais maçónicos e o seu pretenso patriotismo. mesmo que tenha de trair os da sua classe. i não desperdiçando qualquer oportunidade para ridicularizar a sua pequenez e provincianismo. Reconhecendo ser alvo do desprezo do povo. A sua cobardia impede-o de manter uma discussão séria com Beresford. tenta dissimular a indignidade dos seus actos através do serviço a el-rei e à Pátria. diz odiar os franceses. Andrade Corvo e Morais Sarmento Tal como Vicente. não esconde o seu desprezo pelo país onde é obrgado a viver. e a adulação é também a forma usada para cair nas graças dos poderosos. «embuçados». a ganância e a preguiça. embora tente dissimulá-la sob a forma de um acto de defesa do reino. conquistar a simpatia dos governadores. da ambição e do oportunismo. Os Delatores Vicente Símbolo da falsidade.

os jogos de luz/sombra. a impossibilidade de mudança. O carácter simbólico da sua presença é posto em evidência através dos seguintes aspectos:  A personagem. coexistindo com a miséria. indicia a perda irremediável do general Gomes Freire e. a ignorância e a opressão. pela repressão imposta pelo Poder. ocupando um lugar à frente do palco.Os Populares Manuel «O mais consciente dos populares» é também a voz da denúncia continuamente silenciada abafada pela repressão contínua das forças policiais. lembrando o valor da luta pela liberdade. os objectos decorativos e a posição das personagens em palco são os elementos a destacar. é subitamente exposto à luz. . a impossibilidade de continuar. o pessimismo e a decepção do povo que vê adiada a possibilidade de mudança com a prisão do general. traduz a estagnação de um país. Manuel. símbolo da sua cumplicidade. enquanto símbolo do povo oprimido. mas é também a representação do desprezo a que o regime vota os homens que se sacrificam nos seus exércitos. Representa metaforicamente o povo português condenado a uma existência ignóbil. expondo a dimensão ideológica da mesma. em consequência.  A nível da movimentação. Rita A solidariedade para com Matilde é marcante. através da sua pergunta absurda. pois como mulher compreende a perda irremediável do amor e da família. É com comoção que a beija. desanimado e impotente para alterar o seu destino. a perda da esperança. depois de lhe entregar a moeda. situado num espaço cénico dominado pela escuridão. do gesto de impotência e dos trajes andrajosos que veste. Antigo Soldado A identidade anónima confirma a simbologia da sua personagem: reconstrói o percurso militar de Gomes Freire. Os sons. Também ele personaliza o desalento.  A escuridão que rodeia a personagem sugere a miséria. a fome. a opressão. ESPAÇO Espaço cénico O espaço cénico contribui para a construção de sentidos da obra. por parte da personagem («detémse»).

. «Por essas aldeias fora é cada vez maior o número dos que só pensam aprender a ler. Dizem-me que se fala abertamente em guilhotinas e que o povo canta pelas ruas canções subversivas. reflecte sobre a sua incapacidade para resistir ao sistema.) Sei bem como a palavra ³liberdade´.) Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe a conjura. na boca dos demagogos. só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum. Miguel põe em destaque a corrupção que garante a autoridade do Poder («A questão que temos de resolver (.. cadeiras como «tronos»). por isso. A corrupção... votado à miséria e ao silêncio. que integrava oficiais ingleses e membros do clero. já que representa a única esperança de revolta contra a opressão. mas apenas por interesses materiais. o homem do povo. o reino vive uma conjuntura política e social marcada pela crise e pela luta entre um poder repressivo e a aspiração da liberdade que conduzirá à revolução liberal: o Conselho de Regência. deve ser mantida inacessível às massas populares («. se torna aliciante . pelo contrário. Os poderosos. descontente. A recusa do progresso e da cultura O Principal Sousa clarifica as directrizes de um regime absolutista. No período posterior às Invasões Francesas e à partida da corte para o Brasil. não escondendo o seu desprezo pelo país onde trabalha. a execução seguir-se-á imediatamente à sentença. VALORES SOCIAIS EM CRISE A impotência do povo contra o despotismo Manuel.ESPAÇO SOCIAL Classes sociais: Povo / Poderosos O povo é caracterizado pela sua pobreza. ..a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! (.. deixando também evidente que são os caprichos pessoais que motivam a actuação política («Para o público não compreender o que se passa.»). através da interrogação que abre os dois actos («Que posso eu fazer?»)..» ).. os sacos e caixotes que servem de acomodações.. O povo.»). surgem representados na sua riqueza ostensiva e arrogante (guarda-roupa cuidado.. mantém uma política de tirania. e para evitar o perdão de el-rei.». o contínuo mendigar. a imoralidade e a injustiça dos políticos D. em que cultura é sinónimo de poder e..»).. repressão e perseguição de todos os que se insurgissem contra o poder oficial. A ambição mesquinha e a conspiração Beresford mantém-se atento à defesa dos interesses do reino («Neste país de intrigas e de traições. doença e miséria: o vestuário andrajoso. o julgamento será secreto. mas desejoso de liberdade. confere ao general Gomes Freire o estatuto de herói.

pela dignidade. que simboliza a coragem e a força de um homem que morreu pela liberdade e. o luar sublinhará a intensidade do fogo. a violência. Luz / noite A luz traduz a caminhada da sociedade em direcção à liberdade. a repressão. como se depreende da traição de Vicente e de Andrade Corvo e Morais Sarmento («Se eu souber render o peixe. foco dos ideais revolucionários liberais). recusando a violência e a repressão. Saia verde Símbolo de esperança na renovação. sou capaz de acabar com uma capela.»). capaz de conduzir a personagem a superar o seu estado de revolta e a comunicar aos outros.. . da def sa da e liberdade (fora comprada em Paris. há-de incendiar esta terra!»). assente na defesa dos valores da liberdade. Para Matilde.A traição. Traduz o amor verdadeiro e redentor. da superação da violência e da repressão. a pobreza de um povo que mendiga pela sobrevivência. A noite (escuridão. o luar permitirá que o clarão da fogueira atemorize todos os que querem lutar pela liberdade. confirmando assim o efeito dissuasor e exemplar das execuções perante aqueles que ousassem desafiar a autoridade dos Governadores. quem sabe?». apáticos e indiferentes. a conspiração generalizada A corrupção material e moral parece atingir todas as classes sociais. Miguel. a morte da «velha ordem». o obscurantismo. pelo direito à vida e à liberdade. da igualdade e da fraternidade. a vida e o conhecimento. v encendo o medo e a insegurança da noite. «Meu amigo: você í desconhece o que se compra de respeitabilidade com uma pensão anual de 800$00. Fogo A fogueira acaba por ter um carácter redentor. Aquela fogueira. a esperança. O fogo traduz a chama que se mantém viva e a fé na liberdade que há-se chegar («Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. A luz é a metáfora do conhecimento que permite o progresso da sociedade. ou chefe de pol cia. SIMBOLOGIA Luar Para D. António.. se torna símbolo do esclarecimento e da revolta contra a tirania (anúncio da revolução liberal / 25 de Abril?). simbolizando a purificação. por isso.. a conspiração («Como é que se pode lutar contra a noite?»). o futuro.. trevas) representa a morte. o castigo. Moeda Simboliza a miséria.

expondo a afectividade e os dramas interiores das personagens. uma vez que convida o espectador a assumir uma atitude crítica em relação aos factos apresentados. povo) ganha frequentemente um sentido poético. O discurso do autor/encenador é essencialmente valorativo. lembra a bíblica traição de Judas). orações coordenadas. a violência e a intimidante perseguição a que o povo era sujeito para não pôr em causa a autoridade tirânica dos governadores. «sempre presente e sempre pronta a intervir» Sinos Traduzem o perverso envolvimento da Igreja nos assuntos do Estado. traduzem a morte. As falas são mais longas. a submissão dos poderosos a interesses mesquinhos e materiais (Matilde. quando a atira ao Principal Sousa.. o poder tirânico e absolutista dos governadores e a violência e caducidade do sistema monárquico. redundâncias e pleonasmos. vocabulário familiar e popular. utilitário e material da vida. próxima do discurso oral (interrogações..Traduz a traição. interrupção. excessivamente discursivas. contribuindo para a repressão imposta sobre o povo (anunciam a morte de Gomes Freire). viva. simbolizam a opulência. porém. mas surge também dominada pela ironia e pelo sarcasmo.  A ironia. .. funciona como denúncia crítica da hipocrisia e da violência dos que representam o poder.  A voz do contrapoder (Matilde. Tambores Símbolos da repressão militar e policial que desagrega e aniquila.). Cadeiras Descritas como «pesadas e ricas com aparência de tronos». exclamações. Conflito poder / antipoder A linguagem traduz assim o conflito entre o poder e o antipoder:  A linguagem dos representantes do poder evidencia um sentido prático. a corrupção..) e tradutora das emoções das personagens (hesitação. construção sintáctica simples. LINGUAGEM Oralidade / ironia crítica A linguagem da obra é natural.