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LuizLuiz CarlosCarlos LisboaLisboa

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Dados do Livro

Editora : VERUS ISBN : 8587795562 Espec. : AUTO AJUDA BROCHURA

1 º Edição - 2004 - 116 pág.

SUMÁRIO.

http://groups.google.com/group/digitalsource SUMÁRIO. Prefácio de Lygia Fagundes Telles Amigos e escravos. O gérmen

Prefácio de Lygia Fagundes Telles

Amigos e escravos.

O

gérmen da violência.

A

importância da importância.

O

pecado de todos.

A

violência nos outros.

Tempos de obscuridade.

A

era da destruição.

O

eterno Ano Novo.

Amanhã, a felicidade. Borges, tempo e invenção. Mortos e sonâmbulos.

A

ajuda mútua.

O

medo da liberdade.

O

eterno nos livros.

Estoicismos.

Melancolia.

Anatomia da ignorância.

A tarefa de cada dia.

Viagens.

A serpente de duas cabeças.

No coração do mistério.

A

pedra filosofal.

A

natureza humanizada.

O

sentido do perdão.

Energia, energias.

A

nova idolatria.

O

fermento da falta.

Eros mistificado. Entender, simplesmente.

A

perplexidade, um bem.

O

bom navegante.

Barulho interior.

A fala frívola.

Depois da crise. Responsabilidade.

A simples realidade.

As grandes intuições.

Formas de crescimento. Natal, o que resta. Alguma coisa morre.

A linhagem do fanatismo.

A dúvida criadora.

Mudar o mundo.

Reação adequada.

A mãe-terra.

Em busca da cura. Um Brasil kitsch.

A fome de certeza.

O fator humano.

Com água pelo pescoço. Servidão voluntária. Contos de fadas. Questões abertas.

A arte de desaprender.

PREFÁCIO

A insegurança e o medo – esses os principais geradores da desesperada vontade de poder que se abre como um amplo leque diante do homem. Destaco desse leque duas varetas: a da servidão ao poder econômico, que pode plasmar o avarento, e esta vareta mais ambígua, da servidão ao saber, que faz o erudito, não o homem culto, mas o erudito, o que é uma outra coisa. Avarícia e pedantismo – pavões sem mistério passeando suas pompas e glórias num jardim mais artificial do que um cenário de teatro. Eu tenho – diz o primeiro. Eu sei – alardeia o segundo, ambos arrogantes como todos os fanáticos que se escravizam a uma disciplina cega, amordaçada por fórmulas e dogmas. O excesso de ouro e de saber indiscriminado fazendo da pele algo insensível sob a crosta de camada e camadas de supérfluo, vaidade das vaidades na ânsia de prestígio. Que acaba por enquadrar o homem todo poderoso na gaiola das certezas quando lá fora está a perplexidade e o imprevisto, fontes jorrando inesgotáveis das incertezas do infinito. Luiz Carlos Lisboa, um pensador raro porque de imaginação cintilante e fervorosa sensibilidade, sugere neste belo livro a arte de desaprender. Cuidadoso e paciente, de costas para la noche oscura ele indica atalhos e veredas nas quais o leitor pode se encontrar no humilde exercício do nosce te ipsum. E se conhecendo melhor pode ir se limpando dos excessos intoxicantes na nova caminhada de orvalho e luminosidade, é manhã. Há esperança.

Para aquele que se impregnou de um saber mais espesso do que uma armadura fica difícil e dolorida essa tarefa de guardar o essencial e rejeitar o ostentatório porque nesse resíduo também está a memória, que é a vida. Então é preciso coragem para atirar longe toda essa carga que já virou sangue, nervos. A compensação da arte de desaprender estaria em reaprender a arte de viver. "Nada é mais importante, talvez, do que distinguir o que é importante", diz Luiz Carlos Lisboa. Mas como reconhecer no nosso cotidiano o desimportante sempre tão misturado ao que verdadeiramente importa? Imperturbável manipulador de idéias, ele fornece ao leitor todas as pistas de leituras, mas é precisamente no seu texto que estão os mais profundos e enriquecedores achados em torno dos temas que envolvem a condição humana. Cita o inglês Clive Bell num instante inspirado: "A regra de ouro neste mundo é negar a validade de todas as regras, sejam elas de ouro ou não. Se isso nos deixa inseguros, tanto pior para a nossa necessidade doentia de segurança". Mais inspirado ainda do que o instante do inglês é o instante do brasileiro quando diz que "os problemas que mais doem na carne do homem são derivados, hoje como ontem, da busca constante do definitivo, do absoluto, do conclusivo". Preocupado com as dificuldades do homem neste emaranhado, compassivo diante de sua luta para se agüentar com os frágeis instrumentos que Deus lhe deu, procura ele não sobrecarregar ainda mais esse homem-leitor apressado e desgastado. Assim, num estilo poético, solto, consegue aliar ao prazer da leitura a

seriedade de um vidente, é preciso ser vidente no ofício de escrever. Toda criação é liberdade. Consciente disso, Luiz Carlos Lisboa evita a retórica dos ensinamentos, das mensagens. Mas sabendo também que só através do amor é possível penetrar na complicada estrutura deste mundo, num ato de amor acaba por nos dar uma admirável lição de vida.

Fagundes Telles

L ygia

AMIGOS E ESCRAVOS

Willian Butler Yeats, a quem T.S.Eliot considerava "o maior poeta da língua inglesa no século XX", atribuía a alguns animais uma profunda identidade com o homem. O golfinho, por sua sensibilidade quase humana, foi para os gregos o símbolo da conexão entre a vida e a morte, razão porque DELPHIS é a palavra grega que significa útero. Nos Estados

Unidos, o médico John Lilly foi o precursor dos testes de inteligência em animais. Na década de 60, convencido de que esses testes sacrificavam os golfinhos com que trabalhava, inclusive privando-os da liberdade, Lilly soltou todos os animais que estava estudando. Passou a trabalhar com um grupo de pesquisadores, na Flórida, usando modelos estimulados por computadores. Em sua opinião, o que começa a ser chamado "o direito dos animais" será uma realidade muito em breve, quando descobrirmos que, em nome da pesquisa científica e até de amizade pelos bichos, tiramos os animais de seu meio natural, onde se adaptaram durante milhões de anos, para transformá-los em objeto com função e utilidade. No laboratório de Kewalo Basin, em Honolulu, dois cientistas decidiram libertar os golfinhos que utilizavam em experiências havia alguns anos. Foram, por isso, condenados a pagar uma multa elevada, além de indenizar o centro de pesquisa pela perda dos animais. Kenny Levasseur e Steve Sipman realizavam trabalho de pesquisa psicofísica sobre a agudeza de percepção dos sons pelos golfinhos. Os resultados de trabalhos semelhantes, levados a efeito nos últimos dez anos, tem revelado a extraordinária memória e a capacidade de aprendizado desses cetáceos, superiores mesmo às dos chimpanzés, até hoje considerados "os mais próximos dos homens". Os cientistas declararam seu propósito de não mais aprisionar animais, desde que descobriram neles uma forma característica de ansiedade por estarem presos. Um consultor de assuntos do mar, Rick Gaffney, chamado a opinar no processo, distingue dois tipos de pessoas quando se trata de

perseguição, maus tratos e extinção de espécies animais: "As que gostam de olhar, de ver filmes e aprender sobre bichos, e as que querem salvá-los imediatamente, a começar pelos animais domésticos". O assunto provocou muita controvérsia, na época, uma vez que a maioria das pessoas defende, teoricamente, a preservação das espécies animais e o tratamento humanitário dos bichos, mas, na prática, age diferentemente, aprisionando e dificultando a vida natural. Os que reagem a essas idéias de respeito pela vida animal alegam as mil razões conformistas que sempre justificaram o aprisionamento e a tortura, freqüentemente involuntária, dos bichos que convivem com o homem, tudo feito em nome da ternura, da necessidade de companhia, da amizade adquirida, do interesse da ciência, etc. Até que ponto essas alegações são verdadeiras ou escondem o mais elementar impulso egoísta de transformar seres vivos em coisas úteis ou utilizáveis é um caso a estudar. É bom lembrar que a "coisificação" de pessoas teve, no passado, o nome de escravidão. É oportuno considerar que as crianças, as mulheres, as minorias étnicas e religiosas sofreram e ainda sofrem restrições, em nossos dias, resultantes da cegueira egoísta dos beneficiários de sua exploração. Talvez ainda esteja longe a vez dos animais, quando tantos seres humanos ainda precisam conquistar direitos, alguns elementares, no mundo. Esse argumento tem seu peso, mas aparentemente não há por que deixar de discutir, desde já, essa questão que encerra tanto incompreensão quanto hipocrisia. O problema da caça, e de crueldades correlatas, é muito importante e merece

atenção, mas é preciso começar a debater imediatamente a atitude humana contemporânea em relação aos animais domésticos. O que parece fútil assume importância inesperada, quando a nossa verdade interior está em jogo, quando, também nesse relacionamento, descobrimos muito da nossa realidade pessoal. Por que ter pássaros em gaiolas e viveiros, a não ser para exibi-los e para ouvir seu canto? Por que ter cães em casa, entre as paredes de um apartamento, a não ser para nos fazerem companhia, ou para nos orgulharmos de seu porte e pedigree? Os argumentos favoráveis ao costume são todos "exteriores", isto é, dizem respeito à domesticidade desses bichos que convivem com o homem há milênios, à proteção que a maioria dos donos proporciona ao seu animal, ao fato de que eles não sentem como nós, e à convicção de que essa coisa toda de "direito dos animais" é pura pieguice. Seria útil interiorizar a investigação do assunto vendo que nos leva, individualmente, a ter pássaros, cães e gatos em casa, bem como o que nos induz a essa atitude super protetora em relação a animais que sempre viveram muito bem em seus habitat naturais, tanto que suas espécies resistiram em liberdade até que o homem resolveu domesticá-los. Não se trata de libertar imediatamente esses bichos, como os cientistas da Flórida e de Honolulu fizeram com seus golfinhos, mas de compreender a motivação dos donos desses animais. Quando Yeats atribuía aos seus irmãos irracionais uma profunda identidade com o ser humano, estava aludindo também – o que é comum em sua obra – à extraordinária

possibilidade que temos de nos conhecer pelo relacionamento com os animais que nos cercam. O que fazemos, como fazemos e por que fazemos nesse convívio podem esclarecer muita coisa a nosso respeito. Talvez a partir desse autoconhecimento, que certamente virá de uma observação interessada e isenta, seja fácil e até mesmo instintivo agir com naturalidade em relação aos bichos que, agora, neste estado de nebulosa ignorância em que a maioria de nós vive, são apenas nossas propriedades e servem só à nossa vaidade e ao medo de solidão que mora conosco.

O GÉRMEN DA VIOLÊNCIA

Esse problema imenso da violência no mundo, doença que contaminou todas as sociedades desse sistema de vasos comunicantes que é a cultura humana moderna, tem sido encaminhado sempre para as alternativas inevitáveis da punição e da advertência de fundo moral. Difícil encontrar uma colocação que não tome essas feições, ou que não acumule ambas para encurtar os caminhos e lavar as mãos. O homem de hoje é o mesmo de sempre, com sua animalidade e seus temores, desejos e agressividade, mas também com sua

divindade muito característica. Alguma coisa detonou, nos últimos vinte anos, uma reação em cadeia que trouxe à tona o pior e relegou ao fundo do esquecimento o 'sal da terra'. A violência, como se sabe, é altamente contagiosa, e uma sucessão de causas e efeitos incorporou à vida humana o hábito da resposta violenta. A abordagem do problema da violência por esses ângulos cansados do castigo e da advertência já não atende à necessidade de entender, que algumas pessoas começam a intuir como a única alternativa. Não é a violência que interessa, é o violento – é o fenômeno enquanto vivo, a brutalidade como ação. Não é só uma questão de linguagem, há mais coisa envolvida nisso do que parece à primeira vista. Quando falamos em violência, estamos nos distanciando dela, estamos constatando sua existência longe de nós, em outro, ou até em tese. Somos os observadores da violência, da qual estamos separados. Essa é uma das ilusões sutis que a linguagem permite. Para entender a violência, perceber sua genealogia, seu surgimento e auge, é preciso conhecer nossa violência pessoal, atuando nesse nível discreto em que ela costuma atuar nas pessoas ditas civilizadas. Não é de psicólogos e sociólogos que precisamos para entender o fenômeno, mas de penitentes dispostos a um ato de contrição sem qualquer laivo de culpa, apenas interessados no problema. A descoberta da violência em nós, interna e externamente, nos nossos desejos e temores, na ação e na reação, é a extinção da violência no mundo – de início, em nosso mundo.

As ameaças de punição, o medo do castigo, a repressão, enfim, são técnicas inadequadas porque supõem a continuação da ignorância, isto é, da violência. Ninguém deixa de ser violento fazendo força para não praticar atos violentos, dominando a própria vontade. O ímpeto está dominado provisoriamente, mas muito em breve haverá outra irrupção, talvez mais forte. Policiamento, cerceamento, prevenção podem obter resultados, é verdade, mas não curam uma epidemia dessa dimensão. Toda perseguição estimula secretamente o perseguido, dá a ele uma "razão para viver", um motivo por que combater. Os vícios de fundo psicológico são fortalecidos, como ninguém ignora, pelas restrições que desencadeiam. Os hábitos, as necessidades, as deformações ganham energia quando reprovados e combatidos. As advertências e conselhos de fundo moral são o que existe de improfícuo com respeito à violência. Primeiro, porque ensejam uma sátira que supõe inteligência e espírito em quem a exercita; depois porque esse tipo de apelo é dirigido à consciência, e a violência deita suas raízes em terreno um pouco mais profundo. Na época em que vivemos, os conceitos de ordem moral repercutem fracamente. A compreensão é uma forma diferente de abordagem, ignorando todo discurso e desconhecendo toda forma de coação. A apreensão de determinado fato ou fenômeno contém uma dinâmica muito peculiar, quando é abarcante e integral. O problema coloca-se todo diante de nós, sem escolha ou engano de qualquer ordem. A violência em nós é flagrante

nas pequenas e menores reações, é perceptível na impaciência, na ansiedade, no menosprezo pelos demais, no insignificante e superficial espírito de competição. Essa é uma porta real para um problema terrível que ameaça a todos. O dramático na questão da violência é que ninguém está a salvo de suas investidas. Os mais pacíficos e inocentes são atingidos pela onda de insanidade que está nas relações sociais, no trânsito, no mundo dos negócios, no convívio familiar, no grande desencontro afetivo entre homens e mulheres, nas injustiças sociais, no desprezo pelas minorias. Há violência porque falta seriedade – não a sisudez mal humorada ou a austeridade fingida, mas a honestidade de propósitos interior – porque poucos estão interessados nas causas e nas conseqüências de suas próprias ações. Os livros, as correntes, os mestres já ensinaram o que tinham de ensinar, já disseram tudo a respeito, e nós, pessoas comuns, temos somente de viver a vida, sem maiores complicações. Não somos pagos para pensar, para observar, para entender. Há quem faça isso por nós. Por essas razões ficamos distantes da violência, enquanto isso é possível. Nosso único contato com ela ocorre quando somos suas vítimas. A violência prolifera no caldo de cultura da ignorância, e se alastra pelo exemplo e pela imitação. Cada um de nós – não os outros, não os violentos do outro lado da rua – tem em si próprio a violência que abomina nos demais e que deseja remover do mundo pela repressão ou pelo discurso indignado. A maneira de deixar a teoria de lado e passar aos fatos consiste na constatação da nossa violência miúda (mas

virulenta), no dia-a-dia, na simplicidade de cada instante, na relação com os outros, nas escolhas e decisões, no prazer e na dor, no entusiasmo e no tédio, na ingenuidade e no ceticismo. Nesse caleidoscópio de cada momento, que é impossível reproduzir e que pertence exclusivamente a cada homem, está o conhecimento das coisas, inclusive a violência.

A IMPORTÂNCIA DA IMPORTÂNCIA

O que parece um jogo banal de palavras pode encerrar um significado imenso: nada é mais importante, talvez do que saber distinguir o que é importante. Não se trata de um calembur, mas de uma extraordinária realidade que se confirma a cada momento. A maioria das pessoas encontra dificuldades em precisar as questões fundamentais, e na duvida acaba optando pelo fútil e pelo acessório. Alguns daqueles problemas hoje considerados importantes são, de fato, mera conseqüência de outros – esses sim, básicos – que, resolvidos, acabariam por sanar, como resultado, todos os outros. A crise de energia, a distribuição da riqueza, a desumanização do homem pela tecnologia e pela competição, a produção de alimentos no mundo, a difícil convivência entre os homens nos grandes centros urbanos, são esses os problemas mais importantes com que o homem se defronta?

Essas dificuldades não surgiram sozinhas, mas do resultado de um desenvolvimento complexo, uma espessa malha de causas e feitos que começou no homem, passa por

ele e a ele continuará ligada até um ponto impreciso no futuro.

O ser humano, por razões que merecem ser examinadas,

tornou incrivelmente complicada a vida comunal. Seus receios, seus desejos, sua necessidade frenética de segurança, teceram a malha fantástica que algum dia terá de ser desenrolada para que o homem reencontre o que de certo

modo, é seu por direito: a tranqüilidade, o amor, o trabalho feliz, a justiça. A trama não surgiu sozinha, foi criada por todos e ninguém está alheio a essa responsabilidade. O mundo não

se encontra em crise há apenas alguns anos. É verdade que a

situação agora está aguda como nunca, mas o problema é antigo. A História do Homem, pelo menos nos últimos 30 séculos, tem sido uma sucessão de incompreensões, brutalidades e egoísmos de todos os matizes e gêneros. As guerras cruéis, os tratados hipócritas, os crimes hediondos cometidos em nome da felicidade humana e da justiça social

desmascaram os melhores propósitos de líderes e estadistas, que se colocam como todos nós, separados do fulcro da violência e da injustiça, como se não tivessem em seu espírito aquela mesma matéria prima que produz a morte e os ferimentos, a indiferença diante da dor e a ambição de chegar

ao poder e de se manter ali.

A crise o petróleo, a distribuição da riqueza, a robotização do homem pela tecnologia, a irresponsabilidade na produção e na distribuição de alimentos no mundo, tudo começa, afinal,

na maneira como pensamos o mundo, isto é, no modo como nos situamos na vida. Somos um núcleo solidamente instalado, cada um de nós, e em nosso redor o universo gravita. Tudo converge e parte desse centro, comandado pelo que julgamos ser consciência. Pela sua peculiar estrutura, o eu vive em torno de si mesmo, concentrado nos seus pequenos interesses, que às vezes confunde com os interesses do mundo. Esse núcleo tem vagas idéias a respeito de si próprio e, nas células onde vive, arquiva uma bagagem variável de dados e experiências que usa em função dos seus impulsos, invariavelmente egocêntricos. O eu é um punhado de condicionamentos, um computador sofisticado que se alimenta a si mesmo conduzido pelo impulso de preservação e pelo desejo de sobrepor-se a tudo mais. Esse centro – que não é a mente no seu todo – criou o mundo que conhecemos, esse mundo que está, cada dia de modo mais perceptível, em plena crise. Em todos os problemas que os homens elegeram como prioritários, mas que são decorrentes de outros, fundamentais, há o dualismo típico da mente conturbada. Na conflagração do petróleo está, de um lado, o consumismo neurótico do Ocidente, e, de outro, o escândalo de uma chantagem mundial feita com pretextos nobres e um background religioso pouco convincente. No caso da distribuição das riquezas existe também a alternativa maniqueísta opondo a insensibilidade dos que muito possuem à exploração política dos que fazem da justiça social uma escada para sua verdadeira meta, o Poder. As dificuldades com a tecnologia que coisifica o homem são produto evidente da imaturidade desse mesmo homem, que só

pensa nos resultados e não leva em consideração os meios. Nos exemplos todos é possível encontrar questões realmente importantes, e elas estão centradas na mente humana, não nas dificuldades que essa mente produziu no mundo exterior com seu egoísmo e sua vulgaridade. Nada é mais importante, então, do que saber distinguir o que é importante. As tentativas de resolução que partem apenas da modificação dos efeitos são inúteis. Nada muda quando somente os resultados são modificados. As crises políticas, econômicas, militares, religiosas, industriais e administrativas são meros efeitos. Decretos, decisões, revoluções, medidas drásticas são igualmente inócuos enquanto cuidarem dessas situações "mortas", praticamente já acabadas que são os resultados. Seria o mesmo que eliminar a febre sem procurar a causa, ou afastar a fumaça sem apagar o fogo. O noticiário impresso e falado que dá conta do que se passa no mundo todos os dias, e que pode ser um aprendizado diário inestimável, se for visto apenas como a crônica dos grandes problemas que afligem o homem, pode parecer vazio e cansativo. Por trás das imensas questões que fazem tremer o planeta, hoje mais do que nunca, está o espírito, a mente do homem, também hoje mais do que nunca doente, prisioneira da própria ignorância.

O PECADO DE TODOS

Uma sondagem de opinião feita num programa de TV, e mostrada em pequenos e sucessivos instantâneos, revela uma série de rostos contraídos pedindo penas severas de tortura e morte, como remédio para a onda de assaltos e homicídios nas grandes cidades. O clima de insegurança e de revolta ante a impunidade foi o principal móvel dessa indignação generalizada. O que não foi talvez apreciado devidamente é o potencial de violência contido nos que clamavam por justiça e castigo. O homem comum foi atingido fundamente em sua tranqüilidade, naquele território onde é indispensável garantir um mínimo de paz. A perda da segurança desencadeia no homem sentimentos contraditórios e desperta uma energia que visa reconquistar seu oásis, sem o qual não vale a pena viver. A revolta é compreensível, o cansaço também, mas os remédios sugeridos à autoridade são desproporcionais, inadequados e sintomáticos. Na pesquisa as pessoas exigiam, no mínimo, a morte dos delinqüentes. Muitos imaginavam suplícios variados, como esfolamento e amputação de membros. As opiniões eram

dadas com gravidade, e soavam como sentenças. Era vingança o que se pedia, não a aplicação da lei ou a punição de um delito. Mas não vem ao caso discutir a validade da pena de talião: o importante é examinar o tipo de impulso que levou tantas pessoas a pedir a morte e a tortura dos delinqüentes que agem em São Paulo e no Rio. Era a mesma violência, exatamente a mesma, que arma o braço dos assaltantes, prepara o furto e induz ao homicídio. Naquele instante, o mundo foi dividido entre ofensores e ofendidos, os segundos exigindo reparação imediata e cruenta de todas as ofensas recebidas. Eram todos linchadores potenciais que pediam um culpado em suas mãos, para que se pudesse fazer com ele o que não se fez com milhares de outros que escaparam. Sobre a violência, vítimas e algozes – que trocam suas posições, ao longo da vida, com freqüência maior do que se imagina - não podem fazer muito mais do que conhecer o processo em que estão envolvidos, para então se libertarem de suas contradições e de seu atavismo. As medidas de ordem legal e administrativa estão, como se sabe, circunscritas a uma reorganização do aparelho policial e esbarram nas dificuldades burocrático-orçamentárias que tem força para adiar todas as decisões, inclusive as indispensáveis. Mas esse aspecto é, de certa forma, mecânico. A vasta realidade da violência é suscetível de ser entendida quando certos artifícios são afastados do caminho dessa compreensão. A tarefa começa em cada homem, na descoberta da violência

existente em cada pessoa, problema às vezes acessível aos outros mas de difícil transposição para o próprio indivíduo. O problema é conhecido dos que não ignoram tudo a respeito de si próprios. O grande ato violento é o mesmo impulso violento que se manifesta no cotidiano, e que pode ser disfarçado com um simples pensamento. Os grandes criminosos que nunca cometeram um crime são numerosos, estão em toda parte, enchem as ruas, as salas, os escritórios, os lares. São pacientes psiquiátricos e também psiquiatras, são poderosos e humildes, extrovertidos e introvertidos, têm alguma noção de sua realidade ou vivem em total ignorância a respeito. Tem o tremendo potencial dos que perpetraram as maiores violências, e apenas não puxaram seu gatilho, não apertaram seu botão, não aceleraram seu carro em determinado momento. Denunciar uma parte da humanidade como violenta equivale a eleger uma outra parte como imune à violência, quando a mente é uma só, a cultura é a mesma, os condicionamentos se equivalem. O homem comum, não importa que rótulos tenha colecionado e o que tenha de fato feito na vida, tem de começar por si próprio, com a humildade característica de quem quer saber e condessa que nada sabe ainda. Esse é o grande desafio. A atitude mais comum quando se trata do assunto é o distanciamento crítico, o julgamento pessoal, a constatação da violência como coisa que ocorre aos outros, e que deve ser classificada, denominada, esconjurada. Essa colocação não é apenas um erro de perspectiva, mas revela uma tática sutilíssima da mente humana, que visa situar "fora de si

mesma" as atitudes reprovadas e os defeitos rejeitados. A trucagem pode ser descoberta imediatamente quando temos interesse verdadeiro no assunto. A violência não é alguma coisa dos outros, algo assim que acontece fora de mim e só posso encontrar na rua, nos jornais, nos comentários, nas novelas. O único modo de flagrar o fato é aqui e agora, pensando, desejando, agindo e vivendo violentamente, ainda que na mornidão aparente de um dia comum. Os depoimentos mostrados na sondagem de opinião revelaram rostos cansados ou congestionados pela raiva, famintos dessa forma complexa de violência que se exerce em nome do combate à violência. A justiça com sabor de vingança é um exercício antigo, que não perdeu sua fascinação para muita gente. Os homens continuam usando pretextos elevados e motivos nobres para cometer suas velhas abjeções que antigamente dispensavam justificativas. No século XX essa mentira ganhou uma certa dignidade aperfeiçoada em proveito político. Os mais altos ideais têm sido invocados para abonar as vilanias mais sórdidas, e pouca gente se incomoda com isso. Quando esses pretextos não estão disponíveis, situamos os males da época nos outros, elegemos culpados, batemos, queimamos e linchamos, o que, se não nos satisfaz plenamente, pelo menos nos deixa perfeitamente a salvo.

A VIOLÊNCIA NOS OUTROS

A idéia de que a cidade grande modifica o homem, para pior, é uma das crenças modernas mais difundidas. As grandes concentrações urbanas tornam mais evidente o que sempre existiu nele, nascido no egocentrismo comum e conservado na ignorância da própria realidade. O relacionamento interpessoal mais estreito e freqüente produz no habitante dos centros populosos uma concentração de experiências que torna agudos os problemas individuais. Aquilo que num meio mais rarefeito seria dissolvido, ali reforça as características e agrava seus males. O homem é colocado com dramática insistência diante do espelho das ações alheias, onde vê a todo instante sua própria ação e suas contradições. O aumento da tensão decorre dessa efervescência em espaço limitado, com o individual e o coletivo influenciando-se reciprocamente, e elevando a temperatura até o espasmo da violência. Culpar o grande aglomerado é tão frívolo quanto responsabilizar a febre pela enfermidade.

A inflação, a fome, as desigualdades sociais interferem muito na vida de uma coletividade, mas influem pouco na eclosão de um surto de violência, ou no crescimento aparentemente repentino da criminalidade. A menos que a explicação seja usada como denúncia de efeito político, não há por que dar ênfase a esses fatores na busca de entendimento para a questão. Nem sempre, onde os desequilíbrios sociais são mais evidentes, a violência é maior. Melhor será examinar outros aspectos, embora reconhecendo que aquela concepção tosca satisfaz perfeitamente os que querem qualquer explicação e que por natureza são menos exigentes. O problema da violência não pode ser compreendido à luz das grandes crises, através do noticiário policial, do ângulo das estatísticas, ou qualquer coisa do gênero. Não é a grande violência que interessa, mas a pequenina, disfarçada no dia- a-dia, na ação e no pensamento do homem que se considera pacífico. Talvez aí esteja tudo o que precisamos saber sobre a brutalidade que ganha as páginas dos jornais e pinta um quadro terrível das grandes cidades. Os assaltos planejados, os seqüestros bem premeditados, a liquidação de criminosos por bandos particulares, são culminâncias. O que precisa ser conhecido, sem desculpas ou atenuantes, é resto do iceberg, mal dissimulado no cotidiano do homem comum, no motorista que dirige a caminho do emprego, no funcionário que atende por trás de um balcão, no cidadão anônimo que defende a pena de morte numa entrevista apressada de rua, na mulher que arrasta o filho pequeno numa calçada cheia de gente. Esse conhecimento

não pode ser começado de fora para dentro. É preciso iniciar na raiz, na câmara escura que está escondida de todas as aparências do mundo. Cada homem terá de começar a descobrir a sua violência, a única que está a seu alcance. A tendência para observar os problemas "fora de nós" é

quase irresistível, e a razão disso é óbvia: estamos absolvidos, nada temos a fazer, nosso estimado ego está a salvo. No caso da responsabilidade pela violência crescente nas grandes cidades, é flagrante a infantilidade dos que teimam

em ver

revolução, da reforma urbana, da adoção de determinado regime político, da conversão a uma nova corrente, etc. Como as crianças às vezes fazem, pomos a culpa em alguma coisa alheia a nós. O adequado seria deixar de lado a idéia de culpa, antes de qualquer coisa, depois descobrir em que medida estamos também envolvidos nisso censuramos e que modo somos o que queremos rejeitar. Isso não é nada filosófico, metafísico ou místico, é um fato simples que pode ser verificado. Nossas preocupações com a sociedade não chegam a ser sinceras e não há nada a fazer exceto constatar como nos enganamos com tudo isso, todo o tempo. O envolvimento de cada homem no processo cultural da violência varia de acordo com sua submissão às pressões da moda, aos valore vigentes. O regime político, a organização econômica tem pouca importância no caso. Sob qualquer sistema, somos mais ou menos envolvidos, conforme nossa capacidade de ver, ouvir, entender.

a solução dependendo "dos outros", de uma

A violência escondida no homem comum – às vezes naquele que se considera um pacifista - é bem mais reveladora do processo geral da violência do que qualquer

outra coisa. A descoberta das nossas limitações nos outros é especialmente desagradável, mas, por outro lado, é aliviadora. A revelação incômoda de que, afinal, somos como todo mundo, e temos em nós o vilão e o herói, é comumente superficial. De fato, só é desconfortável porque passa muito por cima os fatos. Se penetrasse um pouco mais em sua crosta, faria uma constatação pura e simples, sem qualquer conotação pessoal ou impressão subjetiva. Vemos claramente a violência, desde que não seja em nós. Se desconfiarmos que está em nós, culpamos logo a sociedade, o sistema, a cidade grande, as provocações que sofremos. Depois, temos olhos somente para os grandes eventos, para os acontecimentos maiores – a culminância de um processo que começou pequenino e vive em nós residualmente. A violência dos nossos pensamentos, desejos, disfarces, ambições, anseios, é da mesma essência daquela que ganha

os

títulos dos jornais de sensação. Os livros que lemos, a TV e

o

cinema com que nos divertimos, os comentários que

fazemos, o futebol que nos distrai, a maneira como negociamos e o modo como nos relacionamos com os mais humildes, estão impregnados da violência que nas suas manifestações mais visíveis e concentradas nos parece tão repulsiva. Henry David Thoreau escreveu uma vez que "ver-se a si mesmo é tão difícil quanto olhar para trás sem virar a

cabeça". Talvez seja necessário apenas dar uma meia volta completa.

TEMPOS DE OBSCURIDADE

A versão tântrica de uma antiga tradição hindu que fala das quatro idades do mundo aponta o tempo presente, kaly- yuga, como um período de obscuridade e conflito, marcado pela liberação dos instintos feita em nome da felicidade humana, mas hostil a essa mesma felicidade. Essa visão profética de quatro mil anos é ainda mais surpreendente pela solução que prescreve para esta idade de confusão e egoísmo, que só encontrará alívio "quando transformar o veneno em remédio". O historiador e antropólogo italiano Julius Evola, em A Metafísica do Sexo (Edições Afrodite, Lisboa), aborda o assunto para estudar o que chama de "pandemia sexual de nosso tempo". O livro é já um clássico na especialidade, mas sua presença aqui se justifica exclusivamente pela atenção que concede a um problema difícil e dramático, cercado de preconceitos e idéias feitas, que é a exploração da sexualidade. A visão de Evola merece toda atenção, mas cada indivíduo, isolada e atentamente, precisa voltar

igualmente seus olhos para um fenômeno que está mudando

o mundo - e nada indica que para melhor.

As imagens prestigiosas da publicidade e da ficção tornaram-se intencionalmente sexuais em nossa época. De início, houve um anseio de libertação de velhas amarras, antigas prisões hipócritas que estimulavam a mentira e exigiam meras aparências. A causa era justa e estimulante. Os exageros que vieram depois foram tomados à conta de uma explosão natural, compreensível após tantos séculos de repressão. Depois, viu-se que um novo produto estava sendo vendido com grande lucro em toda parte, e que esse negócio

rendoso era justificado com fórmulas e idéias liberais ligadas a direitos humanos, à libertação do corpo, à saúde psicológica

e outras razões igualmente imprecisas e altissonantes. Hoje,

todos sabemos que existe uma vasta mistificação, sustentada

por sistemas comerciais e outros, menos confessáveis, em torno da sexualidade no mundo. O medo e a insegurança típicos da atual "idade do mundo" são atenuados com a busca do prazer, em todos os

seus conhecidos. Aos poucos, os estímulos fazem efeito menor, como sabem os reflexologistas e todos os que observam a vida em redor. Isso exige um reforço de intensidade, e esse ciclo não tem fim senão na insensibilidade

e no desespero. A insegurança produz um processo de fuga

que, perfazendo um círculo, aumenta a insegurança geral, e eis o processo em movimento. A venda de produtos normalmente alheios ao corpo e à sensualidade, com temas sexuais é sinal evidente de que os reflexos dos compradores

potenciais já estão exauridos. Tudo o que se faz nesse terreno, no mundo da publicidade, é obviamente desonesto e visa a pescar compradores. Os que participam dessa trama têm justificativas mais ou menos convincentes para esclarecer sua conivência no grande absurdo. Ninguém é responsável por coisa alguma. O mal é da época, e a época é impalpável, não pode ser responsabilizada porque é a soma de tudo e de todos. A crise não é moral, política ou econômica, mas exclusivamente psicológica, essencialmente humana. O amadurecimento interior do homem passou a ser visto como um ideal distante, ou uma especulação secundária. Nosso comportamento infantil, caracterizado pelas fugas que empreendemos sempre que é preciso olhar, compreender e reconhecer, é o gatilho de todo o processo. Diante de um problema delicado, complexo, que exige atenção, isenção e tranqüilidade, corremos para o copo, o sexo, a distração visual, a ocupação pueril, a intoxicação, o sono. A atividade febril serve tanto para adiar e esquecer, quanto o entorpecimento e o cansaço de fundo psicológico. Correndo ou dormindo, estamos desatentos, fugimos ao confronto, evitamos o percebimento. De um modo ou de outro, permanecemos dentro da dificuldade evitando vê-la, deformando-a e "interpretando-a". A sexualidade é talvez a mais eficiente ocupação do espírito que não que ver, porque é uma azáfama e um entorpecimento ao mesmo tempo. "Transformar o veneno em remédio", segundo a recomendação tântrica muito antiga, equivale a tomar a

dificuldade nas mãos e examiná-la de perto, verificando de que é feita, como se processa, como reagimos a ela, como ela se integra em nós a ponto de se confundir conosco. A dificuldade é essa, precisamente. Queremos ficar livres do veneno, quando o identificamos como tal, e assim não queremos vê-lo mais. Ficar livre equivale a esquecer imediatamente, ignorar e até negar a existência. Isso não é caminho para coisa alguma. "Querer livrar-se" é o oposto de entender. O kaly-yuga em que vivemos é a era da fuga e do esquecimento sutis, tempo em que todo entendimento é desprezado como perigoso ou inútil. Todos querem libertar-se do que incomoda e o caminho em que se acredita é o esquecimento, a ignorância. A fórmula tântrica propõe coisa diferente. O único modo de mudar é permanecer para compreender, diz ela, e na compreensão o problema se dissolve imediatamente. Quando isso acontecer em grande escala, afirma a tradição hindu, "as quatro idades do mundo terminarão", e com elas a noção de tempo dominante hoje. O começo disso tudo está na observação das coisas pequenas, não nas cosmogonias e nas concepções gerais do mundo. Na escala miúda do cotidiano de cada homem, na visão humilde dos momentos simples e anônimos, pode estar a caminho e a chave para o fim deste tempo de obscuridade e conflito.

A ERA DA DESTRUIÇÃO

A Era da Destruição, como a chama James Reston num retrospecto dos últimos vinte anos, no New York Times, foi marcada pela queda , esse conceito arquetípico e fatal que acompanha o homem desde os tempos mais remotos. Em toda parte, de maneira sutil ou de modo evidente, desenhou-se sempre na história recente do homem o espectro da decadência, da deterioração. A energia humana é a mesma, a inspiração ainda o visita com as mesmas conseqüências benéficas de sempre, mas em todo empreendimento tem aparecido a marca da desintegração e do desmoronamento. Não importa o país, o regime, a inspiração religiosa ou filosófica, o problema está presente onde o homem se encontra e onde produz alguma coisa. Mas Reston fala sobretudo nos grandes sinais exteriores da crise, na morte de um presidente, na renúncia de outro, no descrédito que cerca os políticos e os intelectuais, na decepção crescente em face das ideologias, até mesmo num certo ceticismo em relação a esse bem que todos respeitam, afinal, a liberdade. Na "Era da Destruição", lembra Reston, muitos veículos de comunicação deixaram-se desvirtuar pelo modismo da crítica pela crítica, do pessimismo iconoclasta, da difamação

sensacionalista. Esses veículos, como alguns poucos que cumpriram sua missão, podiam salvar o mundo do ceticismo, e renovar nos homens o vigor que a decadência e o humanitarismo produzem, quando são sinceros. Essa era de negativismo tem vergonha dos seus bons sentimentos, e tem todas as desconfianças possíveis a respeito do amor. Mas a campanha de desmoralização atinge as pequenas instituições, como as grandes, falando mal de tudo o que parece tradição e suspeitando de tudo o que, inexplicavelmente, parece bem intencionado. Agora mesmo, analisa James Reston, quando nos Estados Unidos tudo indica que parou de soprar o vento da auto critica sistemática e os impulsos autodestrutivos gerados pela guerra do Vietnã – e a outra guerra qe se travou detrás dela – abrandaram visivelmente, um jornalista do The Washington Post, aquele que mais contribuiu para desnudar o escândalo de "Watergate", publica uma série de artigos mostrando o que considera "fraquezas" da Suprema Corte de Justiça norte-americana, um caminho que vai minar a credibilidade do alto tribunal que tanto contribuiu para garantir os direitos humanos em seu pais. Reston vê nisso um recrudescimento daquela vesânia de autoflagelação que permitiu a entrega do Vietnã do Sul à dominação totalitária. A "Era da Destruição" não encerrou, provavelmente, seu ciclo. Os homens que vão viver nela precisam estar prevenidos para a moderna tentação de primeiro descrer e depois conhecer. Essa coisa extraordinária, que já foi chamada de fé – não a crença incondicional em princípios, dogmas ou conceitos, mero fatalismo – existe ainda em todo homem, apesar das

pressões para que não se manifeste exteriormente. O ânimo inexplicável que mantém um homem em seu caminho, a capacidade de sentir amor em meio à injustiça e até à agressão podem ser incluídos entre as experiências renovadoras que sustentam um indivíduo acordado entre milhões de sonâmbulos, um raríssimo cristão – reconhecido como tal, ou não, pouco importa - em meio às feras que se multiplicam por toda pare, obedientes aos novos costumes e ao modismo que a todo momento muda de face. Essa renovação é possível, e o próprio fato de ser possível contém beleza porque atiça as brasas da esperança e abre mais os olhos de quem ainda não adormeceu completamente. Há maneiras diversas de agir destrutivamente, como há origens diferentes para esse impulso de destruição. Os psicólogos, os sociólogos, os comportamentistas não precisam falar para que todos nós, pessoas comuns não especializadas, percebamos que alguns se inclinam para a negação sistemática por imposição fisiológica, talvez genética. Outros nada tem de deprimidos, embora tenham muito de maníacos. Esses são os contestadores sistemáticos, aqueles que balançam a cabeça antes mesmo de entender o que estão vendo, profissionais da desesperança e do desânimo. Tais agentes da "Era da Destruição" não somente desacreditam o que ainda está de pé, como contribuem para minar o que evidentemente vai bem, a fim de que logo possam carpir sobre o desastre que ajudaram a desencadear. Essa doença tem muitas designações, e uma delas é

"vocação totalitária", qualquer coisa que se disfarça sob a liberdade de criticar e o direito de descrer. Até a pouco, as diversas situações individuais eram mais interessantes que as somas que elas formavam, nas diversas coletividades que compunham. Hoje a coisa ameaça inverter-se: os resultados dessas neuroses – permita-me a palavra - criaram situações coletivas que parecem muito significativas e ilustram melhor o que acontece ao homem

e ao mundo, atualmente. O que criou esse dédalo que vemos

para todos os lados foi, sem sombra de dúvida, a mente do ser humano. Quem pode desfazer tudo, se é que alguém se

interessa por isso, é o próprio homem e a própria mente que enovelou a vida. A "Era da Destruição" é fruto de um modo de pensar permanente, onde o mito predominante é o da queda,

a perda de alguma coisa preciosa, o pecado original e a culpa

conseqüente, a sensação imprecisa de que tudo podia ser diferente, muito mais intenso e mais puro, sem simulações ou artifícios, fórmulas salvadoras ou ódios disfarçados em verdades finais.

O ETERNO ANO NOVO

O antigo e elaborado simbolismo que reveste os rituais

civilizados da passagem de ano é disfarçado pelos costumes

e pela superficialidade contemporânea. Nas sociedades

primitivas os ritos têm uma gravidade que os modernos não conhecem, e uma franqueza que revela claramente seu sentido. Wensinck, Frazer, Dumezil e Eliade estudaram a fundo a "morfologia dos temas rituais periódicos" e localizaram em todos eles, inclusive na nossa Festa de Ano Novo, características comuns, em algumas culturas muito evidentes, noutras muito dissimuladas. Purificação das faltas e expulsão do mal é uma delas. A extinção e renovação do fogo sagrado, símbolo de uma nova energia, é outra. Uma homenagem aos mortos também e, finalmente, as saturnais, a alteração momentânea da ordem normal, orgia. "Basta conhecer o mito para conhecer a vida", diz Van Der Leeuw em "O Homem Primitivo" e a "Religião". O simbolismo da passagem de ano é muito expressivo a respeito do homem e do mundo que ele construiu. Todo recomeço, afirma Mircea Eliade, é um "illud tempus", uma abertura sobre a eternidade. A crença popular de "aquilo que se fizer na passagem de ano será feito todo o ano" é

parte dessa concepção mítica plantada no inconsciente humano. O "eterno retorno" é um outro aspecto, também

comum, que insinua a purificação contida em todo o reinício. O primitivo que persiste dentro do "homo sapiens" é um desafio a todo racionalismo, numa peça que a realidade prega na consciência orgulhosa de sua lógica e sua técnica. Todos os ritos e símbolos perseguem um único fim, nas Festas de Fim de Ano: a abolição do tempo transcorrido durante o ciclo que termina. No plano da cosmologia, quando o fogo se extingue, sobrevêm as trevas e o mundo todo perde seu contorno e realidade. O novo ano acende um outro fogo, que não somente anula o caos - o absurdo, a morte, o não-ser – como confere uma dimensão nova às coisas do universo material. Naquele momento de treva, porém, as culturas antigas acreditavam possível uma comunicação fugaz com o mundo dos mortos, com as revelações que daí decorrem. Esse instante de "nada" seria a reprodução do espaço vazio que ocorre entre dois pensamentos, de onde uma velha e espalhada crença deriva toda inspiração. Para Eliade, esse desejo de abolir o tempo é mais visível na orgia que tem lugar, numa escala variada de violência, nas cerimônias de Ano Novo. A renúncia voluntária à "ordem natural" é uma regressão ao caos primordial, e essa visita precede toda criação, como a treva precedeu o universo no Gênesis. O "não-ser" que todo festejo exacerbado procura, com ajuda do álcool, da dança, da explosão emocional, seria o "nada' fecundante que precede uma nova aurora, um novo momento da criação. A euforia e os excessos do"reveillon"moderno podem derivar desse rio subterrâneo pagão, dessa remota necessidade primitiva de "morrer para

germinar" – um antigo arquétipo humano, presente em quase todas as culturas. No mundo em que vivemos hoje, tornado pequeno e íntimo pela explosão das comunicações, damos pouca importância a essas raízes. Tudo isso, entretanto, está em nossas veias e, de fato, "somos nós". A fina camada da superfície não está interessada nos seus subterrâneos e origens, o que é compreensível na medida em que essas sondagens passam, às vezes, por regiões um tanto dolorosas que é melhor ignorar. Esse mergulho na inconsciência coletiva, empreendido por uns poucos e impopulares estudiosos, tem como seu aspecto mais curioso o temor que desencadeia, freqüentemente disfarçado de indiferença e ceticismo. O homem, tal como se apresenta atualmente, é resultado de uma soma, fruto de longa e minuciosa acumulação de tudo o que foi, sofreu e viveu no passado. Quem não se interessa por esse "background", não se interessa por mais nada que valha a pena. Dos temas rituais periódicos, a passagem de ano oferece talvez o conjunto mais fascinante, com um elenco de simbolismos perceptível a todos que não estejam completamente adormecidos. Cada indivíduo é portador desse patrimônio, desse passado sedimentar, manifestado na forma de impulsos aparentemente incompreensíveis ou de aceitação imediata de rituais, mesmo quando ocultos sob pretextos de sociabilidade moderna. Os mitos do Ano Bom são como leite materno para as crianças primitivas escondidas no homem pretensamente civilizado de agora. Der Leeuw não se enganou

ao dizer que "conhecer o mito é conhecer a vida". E a vida é também essa atração pela renovação do fogo sagrado, pela purificação das faltas e pela expulsão do mal, bem como essa vontade de celebrar e subverter, por instantes, a ordem normal das nossas rotinas, numa visita criativa e momentânea, embora inofensiva ao caos primitivo. A noção de que toda e qualquer "abertura para eternidade" deve ser dissociada do consciente teima em marcar presença nos mitos e rituais humanos, como uma verdade difícil de ser ignorada. A supressão provisória da consciência, porém, não é uma negação da ordem, devendo ser entendida apenas como um desmaio da lógica e da razão, um sono profundo, mas passageiro que só deseja permitir o acesso de alguma coisa maior, capaz de visitar o homem, mas de essência divina. Essa morte fortuita do ego, o pessoal e o coletivo, está presente nas celebrações do Ano Novo, escondida no champanha e na aguardente, nos votos murmurados e nos gritos da euforia, no sono profundo da madrugada e, no dia seguinte, na renovação do fogo da vida.

AMANHÃ, A FELICIDADE.

Alguns sucessos da tecnologia, principalmente nas áreas da Astronáutica, da eletrônica e da cirurgia, abriram os olhos do homem comum para as possibilidades aparentemente ilimitadas do futuro. Essas maravilhas contribuíram para renovar uma fé imprecisa, mas obstinada na capacidade da ciência como avalista da felicidade humana. Removidas as espessas camadas de ingenuidade que cobrem essas esperanças, resta a constatação objetiva de que nem todo progresso material possível – o que já temos e o que virá depois – será capaz de proporcionar ao homem a segurança psicológica com que sonha desde as épocas mais remotas. Produtos químicos no cérebro podem criar a ilusão dessa segurança, mas isso será apenas miragem. O avanço científico, realizado graças à competição natural e a um anseio humano de afastar o sofrimento, proporciona benefícios incalculáveis à humanidade, mas não pode oferecer com êxito, indefinidamente, um substitutivo satisfatório da realidade. Na década que começa agora devem aumentar as desilusões a esse respeito. Mais adiante, quando a revolução biológica modificar totalmente a vida na Terra – de maneira ainda imprevisível -, essa verdade será visível de maneira mais clara. A adoração da técnica é fenômeno compreensível, comumente associado ao fascínio que as culturas primitivas sentem por objetos considerados banais em outras sociedades – como os índios com nossos espelhos, facões e máquinas

fotográficas -, a adoração de técnicas mais adiantadas precisa ser compreendida para ter reduzido seu potencial de perplexidade e ilusão. Precisamos estar preparados para "milagres" muito mais sedutores que a energia nuclear, a conquista do espaço, a explosão das comunicações e o prolongamento da vida humana. A revolução biológica pode ser transformada numa espécie de religião nos próximos trinta anos, tão fantásticas suas possibilidades e tão grande nossa tendência para endeusar o que simboliza poder. As possibilidades da engenharia biológica parecem hoje, numa visão meramente especulativa, infinitas. As transformações que advirão de descobertas em processo de desenvolvimento parecem muito radicais. Esses avanços iniciam uma cadeia de rápido desdobramento, em que novos caminhos e técnicas ensejam novas técnicas e caminhos, numa expansão ilimitada. O progresso tecnológico não é mais feito de passos isolados, como a um século. A fabricação de proteínas, por exemplo, promete resolver o problema da fome no mundo, o que será uma maravilha. A produção de "bactérias amigas do homem" pertence a uma etapa posterior, quando microorganismos farão a tarefa dos faxineiros, copeiros e serventes, num trabalho de qualidade inigualável. A engenharia genética aplicada ao homem será o ponto mais alto dessa escalada. O 'aperfeiçoamento" físico do ser humano em laboratórios, por meio de um controle eficaz dos genes que permita a escolha de caracteres hereditários, é um assunto explosivo e vai exigir definições prévias sobre igualdade, conceito de beleza, liberdade e direitos humanos.

Calcula-se que nos próximos cinqüenta anos o homem vai poder dispor do patrimônio genético de seus antepassados. Os filhos, desenvolvidos fora do corpo materno, como no "Admirável Mundo Novo" de Huxley, serão "planejados"em sua aparência física e em seus atributos intelectuais. Esse mundo de Apolos, Vênus e Adônis parece um tanto melancólico, visto daqui, mas tudo pode ser diferente, afinal, se uma legislação rigorosa limitar os caprichos e vaidades paternas, em função dos direitos do nascituro. Ainda uma vez os problemas psicológicos – para chamar assim a caldeira borbulhante que existe dentro de cada mente – vão prevalecer sobre os progressos superficiais nascidos da consciência, dos conhecimentos técnicos, da memória e disso que chamamos experiência. Abaixo dessas finas camadas existe uma realidade que somente o próprio indivíduo pode conhecer – e que ele recusa enfrentar, embora viva intuindo sua existência. A ciência e a tecnologia modificam o mundo exterior, proporcionam conforto, saúde e um relativo bem-estar. A partir de certo ponto, nada podem fazer. Um homem em estado "selvagem', isto é, sem os condicionamentos culturais, tem mais possibilidades de viver uma vida plena e integral que o homem dividido que chamamos civilizado. A civilização não é um mal em si, naturalmente – e esse é um antigo debate, ainda não encerrado - ,mas ela acumulou preconceitos, condicionamentos, temores e desejos demais. Os homens "educados" são freqüentemente apenas contidos. Os vitoriosos são, às vezes, os mais vorazes e ousados. O que precisa ser conhecido – antes de ser modificado, ao contrário do que

pensam muitos – não é a sociedade de molde capitalista ou de inspiração socialista, mas o microcosmo que é o homem, criador desses artifícios sociais que servem como biombo para esconder a própria realidade interior, e seus reflexos no mundo. Sabemos todos muito pouco a respeito da verdadeira liberdade, mas os regimes que se preocupam com ela ainda são os melhores, não importa a maneira como a produção é distribuída. Ser livre para pensar, observar, ler, interrogar-se e ouvir é ainda uma bênção. A sociedade em volta pode parecer enlouquecida, às vezes, mas essa impressão é passageira entre os que aceitam o lado bom da tecnologia – e de toda uma cultura que está longe de ser satisfatória – mas descrêem, tranqüilamente, de suas promessas de felicidade, porque sabem que o único inimigo é a ignorância de si mesmo e essas promessas reforçam essa ignorância; esses não precisam de mais nada porque já tem tudo.

BORGES, TEMPO E INVENÇÃO.

"Um homem impõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, reinos, montanhas, baías, barcos, ilhas, peixes, habitações,

instrumentos, astros, cavalos e pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu próprio rosto". Na última parte de El Hacedor, Jorge Luis Borges fala uma vez mais nas intrigantes correlações da existência humana, lembrando o quanto somos aquilo que fazemos e de que modo voltamos a nós mesmos, em nossa busca de compreensão do mundo. Talvez por isso, porque contenha um pouco de tudo que existe, artista algum

é totalmente objetivo.

No ensaio autobiográfico Perfis (Editora Globo-MEC), Borges renuncia decididamente ao ideal da objetividade e conta a descoberta da simplicidade como a grande aventura na vida interior do artista. Ainda moço, quando o beletrismo e os remendos dourados do estilo pareciam fascinantes, teve a

sorte de ler Arnold Bennett, quando lhe mostrou que nada era pior que "o grandioso de terceira categoria". Nos vinte anos, o movimento espanhol ultraísta serviu de espelho para as ilusões da vaidade jovem. A descoberta de um vasto universo contido em parte nas letras francesas e muito na "música verbal inglesa" revelou sua própria pequenez e serviu de desafio. Ainda assim, o primeiro livro de poemas e o primeiro conto foram bairristas, limitados e veementes.

A paixão das descoberta que só o autodidata conhece

pode levar longe e abrir as portas a outros universos. Blake,

Swedenborg, os místicos persas e chineses, o budismo, a

poesia gauchesca, Martin Buber, a Cabala, as Mil e uma Noites, T.E.Lawrence, a poesia germânica medieval, as sagas islandesas, Heine, Dante, o expressionismo e Cervantes, tudo isso foi visitado pela curiosidade do escritor e fixado em sua memória. O gosto pelo patético foi substituído, na calma dos cinqüenta anos, pelo amor à moderação e ao comedimento. A companhia de Adolfo Bioy-Casares, também escritor, influiu positivamente na obra de Borges. "Se me permitem uma afirmação generalizada, Bioy levou-me gradualmente ao classicismo". Essa combinação de tranqüilidade e interesse apaixonado produz energia nova e insuspeitada, conserva o corpo e torna ágil o espírito. O escritor está cego, a mãe, que lhe emprestava os olhos em longas leituras nas tardes frias de Buenos Aires, morreu a caminho dos cem anos. No apartamento pequeno, o escritor faz como o Homero de seu conto primoroso: mergulha na memória e tira de lá todos os brilhos, perfumes, paisagens e idéias que formaram o acervo da fantasia humana. No conto "Ererything and Nothing", o personagem é um poeta que só se revela no final, e que aos vinte anos vai a Londres procurar uma profissão. "Instintivamente" - conta Borges – "já se havia adestrado no hábito de simular que era alguém, para que se não descobrisse sua condição de ninguém". A sensação de vazio, de não ser, acompanha o jovem por toda parte e o abandona apenas quando sobe ao palco, na profissão que acabou achando, e encarna um personagem. Vinte anos depois, o personagem retorna à sua cidade de Avon - e aqui ele já se identifica – e tenta, uma vez

mais e por caminhos diferentes, fugir à sensação de não ser, agora como homem de alguma fortuna, ligado à pequena usura. No final da história, Shakespeare fala com Deus, na hora da morte, e se queixa de ter sido tantos homens, quando na verdade só quis ser um. "Sonhei o mundo como sonhaste tua obra" - é a resposta do alto - " e entre as formas do meu sonho estás tu, que como eu és muitos e ninguém". Aqui já não somos o que fazemos, como nas últimas linhas do El Hacedor, mas somos um vazio de múltipla aparência, à procura de uma imagem. A mitologia borgiana é toda ela metafísica e essencial. Nos seus grandes homens como nos pequenos cumpadritos estão latentes os problemas fundamentais da Humanidade, apresentados de um misterioso modo ocasional que lhes confere força extraordinária. Nossos sentidos se aguçam na leitura de Borges, tentando discernir na voz suave e descontraída do narrador as pequenas frestas por onde passa o transcendental. O tempo e a fragilidade do espírito perdido em suas dobras têm destaque nessa obra pouco conhecida, apesar de tão referida. E em "Limites" o autor empurra o leitor para os abismos da meditação, com a ajuda de oito linhas poéticas: "Há uma linha em Verlaine que não voltarei a recordar / Há uma rua por perto que está vedada aos meus passos / Há um espelho que me viu pela última vez / Há uma porta que fechei até o fim do mundo / Entre os livros de minha estante, que vejo / Há algum que não abrirei jamais / Farei cinqüenta anos este verão / A morte me desgasta, incessante".

Todas as exaltações do pensamento são contidas pela certeza de que a sobriedade leva mais longe que o excesso, e não exclui necessariamente o ardor. A energia concentrada de uma descoberta apaixonante que é mantida em segredo tem a força de mil tempestades e pode ser mais bem dirigida pela vontade, quando é oportuno dirigi-la. Jorge Luiz Borges usa em seu trabalho poderes telúricos que nunca foram antes postos a serviço da expressão artística, talvez com exceção dos haicais japoneses do século XVII. São forças naturais que se conjugam e invocam para servir a comunicação, transmitindo o que fica escondido no cotidiano mas representa, de fato, o fundamento de toda idéia e de toda ação. A poesia, a prosa, a música, o teatro, a dança procuram conhecer e manifestar esse segredo.

MORTOS E SONÂMBULOS.

"O longo hábito de viver"- dizia Thomas Browne, no século XVII - " indispôs-nos a morrer". Lewis Thomas, no seu extraordinário As Vidas de uma Célula (Editora Brasiliense, 1976), lembra que viver hoje é mais que um longo hábito, porque de fato estamos todos agarrados a este máximo bem que é a vida. A morte será adiada com os avanços da tecnologia e as revelações da pesquisa científica, e no futuro será possível prolongar a existência como os russos da Abkhasia, que conservam a saúde, segundo se diz, por um século e meio. As doenças crônicas e degenerativas, o câncer, os derrames e as doenças coronárias vão ser vencidos, com certeza, nos próximos anos. Quando isso ocorrer, diz Lewis Thomas, "deixaremos a vida como que soprados por uma suave brisa", bem mais tarde do que agora, mas iremos morrer sempre. O homem talvez esteja na iminência de descobrir que a morte não é a pior de todas as coisas. O autor conta uma experiência vivida por David Livingstone na África, quando os dentes de um leão começaram a triturar os ossos do seu tórax. Um tiro providencial salvou-lhe a vida, mas, naquele instante, segundo Livingstone contou o resto de seus dias, houve uma extraordinária tranqüilidade. A paz à beira da morte é um depoimento comum entre os que sobrevivem e reconstituem aqueles que seriam seus últimos momentos. Lewis Thomas, que é médico e está, portanto, familiarizado com a morte, especula a respeito da existência de um "mecanismo de proteção" que impede qualquer sofrimento maior no último instante. São freqüentes os depoimentos de

pessoas salvas da agonia, que permaneceram lúcidas todo o

tempo, a respeito do contraste entre a agitação dos que os socorriam, e a grande tranqüilidade interior do moribundo. "A morte é, antes de tudo" – diz Lewis Thomas – a mais antiga e fundamental função biológica e seus mecanismos foram desenvolvidos com a mesma atenção para os detalhes,

a mesma preocupação com o máximo de vantagens para o

organismo, a mesma abundância de informações genéticas para guiar os diferentes estágios, tudo enfim que estamos há muito acostumados a encontrar em todas as funções cruciais da vida". Segue-se, então, o problema mais importante

associado com a morte: há possibilidade do desaparecimento total e definitivo da consciência, após a morte? "Considerando

a tendência da natureza de utilizar mecanismos complexos e

intrincados" - conclui o autor – "isto me parece antinatural.

Prefiro pensar que a consciência é, de alguma forma, separada de seu corpo e então aspirada de volta à sua

membrana de origem, uma memória nova para um sistema nervoso biosférico, mas eu não tenho dados sobre o assunto ". Thomas deixa o tema "para uma outra ciência, para uma outra data". Uma antiga tradição, contida em mitos que chegaram até

o presente, dá à morte um tratamento curioso, que aos

nossos olhos pragmáticos de habitantes do século XX parece um tanto desfocado. A morte física, segundo essa tradição, antecipa um mistério insondável para a mente do homem - feita para lidar com a vida, e a ela limitada. Nenhuma resposta sobre o post-mortem pode ser compreendida por um

sistema feito para atua no mundo dos vivos. A tradição vai mais além: a morte, no entanto, é o símbolo perfeito de um processo de "perda se si mesmo" para alguns valores do mundo que esses mitos consideram ilusórios. O Cristianismo fala em "morrer para o mundo" e lembra que "a semente precisa morrer, para poder frutificar". O Zen, o Tao, a tradição sufi do Islamismo, referem-se a coisas semelhantes. A morte seria, assim, exemplar. A grande revolução proposta pelas correntes subterrâneas esotéricas de todas as religiões teria como ponto de partida, a morte – não a morte fisiológica, mas uma outra, que imita a natural no que respeita ao abandono total das coisas que prendem e limitam o homem, criando dependências e desejos infinitamente renováveis. A analogia com a morte material produz um impacto talvez necessário à compreensão dessa outra morte - o abandono da auto-imagem, a perda de uma vida egocêntrica do mundo, a desilusão a respeito dos mil artifícios da auto-afirmação e do personalismo. Essa velha tradição perde-se muitas vezes nos incontáveis meandros da história humana, mas o que há de notável nela é exatamente sua teimosia em ressurgir de tempos a tempos como tudo que é fundamental ao homem. Com ela não fica resolvido, nem de longe, o antigo problema da morte que vem crucificando o homem desde que ele aprendeu a pensar. Através das muitas formas de fé religiosa, o ser humano descansou seu espírito dessa dúvida permanente. No século do racionalismo, o problema ressurgiu com toda sua força, mas nem toda

racionalidade do mundo consegue resposta satisfatória para a pergunta. Não é fácil, com os elementos de que dispõe a mente humana, ir muito além do ponto em que todos nós, como Lewis Thomas, chegamos. Longe de alguma fé religiosa específica, o caminho chega somente até aí. Um desvio, entretanto, pode levar à antiga tradição que aproveita o fenômeno "mais antigo e fundamental da humanidade" como símbolo de um outro fato, talvez profundamente revolucionário, que consiste em "morrer para o mundo", continuando vivo e ativo, útil e participante. A esse respeito, a velha tradição acrescenta alguma coisa: aquele que conhece essa morte figurada é o único que pode ser considerado realmente vivo. Os demais, não se pode dizer que estejam mortos, mas são como sonâmbulas.

A AJUDA MÚTUA.

O estudo metódico da sociologia animal, desenvolvido neste século por W.C.Allee, inspirou-se numa constatação do zoólogo russo Kessler, que, numa famosa conferência feita em São Petersburgo em 1880, sustentou que muito maior que a lei da sobrevivência das espécies seria a "lei da ajuda mútua", fenômeno mais comum e mais importante para a evolução das espécies. Para Darwin, a luta entre animais da mesma espécie era fator preponderante naquele processo natural. Os trabalhos de Zukermann, Kropotkin e Allee revelaram a existência de uma infinita e complexa colaboração entre seres vivos. Insetos sociais, bisões, lobos, joaninhas, escaravelhos e chimpanzés dedicam-se, de algum modo, aos demais indivíduos do seu grupo ou ao conjunto como um todo. Separados da comunidade, atuam desordenadamente, sem muitos dos seus atributos. Carpenter, Koehler, Schneiria e outros verificaram que a integração individual nos agregados da espécie reduz algumas capacidades e faz surgir outras. Nas sociedades infra-humanas isso é visível. Sobre os homens ainda há muito a verificar, mas a experiência imediata de cada um faz com que ele saiba de certas coisas a respeito, sem poder explicar em termos científicos ou sequer racionais. Percebemos claramente que algumas habilidades humanas são estimuladas nas atividades sociais, enquanto outras esmaecem no grupo. O homem gregário como inegavelmente é, perde alguma coisa quando atua na sociedade. No isolamento, em estado de tranqüilidade vigilante, desenvolve-se nele uma sensibilidade aguda em relação ao mundo e a si mesmo. Esse é um tipo de experiência

que é preciso viver para conhecer. Ninguém pode chegar a isso por meio dos livros, ou de informação de terceiros. Quando o homem regressa ao convívio dos semelhantes, seu estado comum, essa percepção pode ressurgir, mas muito raramente. É distante do grupo que ela o visita, como um milagre ou uma inspiração. Integrado na sociedade, o indivíduo fica socializado, isto é, condicionado pela opinião, pela imitação, pelas muitas pressões sutis que cobram pensamentos comuns, juízos semelhantes, conceitos gerais, definições generalizadas. Socializar-se, aqui, significa estar bem com o meio, deixar-se ficar no banho morno na unanimidade. Integrar-se é proteger- se. Isso não faz da contestação uma virtude, entretanto. Contestar é manifestar por meio de gestos, palavras e ações de significação simbólica, discordância de alguma coisa – mera opinião. Não estar integrado dispensa, quando essa não- integração é lúcida, aparências e sinais exteriores. "Dara César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"significa que é possível cumprir os rituais da cultura sem pagar a ela nenhuma dependência. Protestar aos brados e empunhar armas pode alterar as coisas pela força, mas isso não significa basicamente nada. As estruturas permanecem intactas. Por isso mesmo, toda revolução que começa do lado de fora do homem, para depois modificar o interior, está irremediavelmente fadada ao fracasso, como de resto é possível observar em toda parte. A "lei de ajuda mútua"é uma constante no mundo, mas ela não obriga a um gregarismo de tempo integral, nem gera

necessariamente dependência. Essas deformações decorrem de abusos cometidos em seu nome. A ajuda mútua é mais natural quando é conseqüência da compreensão, quando normas morais não são impostas de cima para baixo, nem se recomenda esforço, sacrifício ou rigidez. Primeiro percebemos o quanto somos desinteressados dos demais, sob mil disfarces generosos, religiosos e éticos. Examinando o que pensamos ter e não temos, descobrimos que a virtude não pode ter consciência de si mesma, e o que é natural e bom existe espontaneamente. A 'lei da ajuda mútua" – se a frase designa, afinal, alguma coisa bem delineada – n ao pode ser vista pelo indivíduo atuando em si mesmo. Presente nos animais, no homem tem componentes mais ricos e pode ser designada, afinal, como amor. A imensa carga de significados que se pendura nessa palavra inibe qualquer tentativa de discutir mais a fundo a questão. Em todos os quadrantes e em todos os tempos, o homem teve de isolar-se momentaneamente do grupo para por-se em contato com determinadas características inomináveis, existentes em sua própria natureza. O que parece romântico, místico, vagamente misterioso, é real e simples, além de isento de qualquer fantasia. Há uma infinidade de nuanças nessa experiência. Grande parte das pessoas devotadas a uma visão pragmática da vida sente um certo aprofundamento, nessas circunstâncias, que logo trata de eliminar com uma ocupação, um divertimento, um prazer, uma banalidade. Outros permanecem um pouco mais, vão mais a fundo, e em seguida se entregam a um duro exercício de racionalização,

ornamentando de palavras sua experiência. Outros, ainda, permanecem em paz, entregam-se a uma observação ativa e serena de uma solidão momentânea, do seu estar-no-mundo, e disso tiram uma energia assombrosa. Descobrem, então, que a "lei do mais forte" é uma configuração provisória, uma projeção da vontade, uma espécie de miragem que nem de longe explica o deserto. "Ser prático", nessa circunstancia, parece uma forma de loucura benigna, competir é empenhar- se numa brincadeira de mau gosto, filiar-se a explicações globais da existência, é uma forma grotesca de correr e esconder-se da vida. Os insetos, os bisões, os lobos e os chimpanzés não têm opiniões nem teorias sobre o mundo, simplesmente porque não se sentem separados dele. Quando isso acontece com o homem, o que ocorre não é mais susceptível de ser descrito, mas é fundamentalmente digno de ser vivido.

O MEDO DA LIBERDADE.

Pode ser surpreendente descobrir que um número imenso de pessoas prefere alimentar fantasias e crenças distanciadas da realidade a enfrentar aquilo que, por parecer pobre, feio ou ameaçador, existe e não pode ser ignorado. O sucesso dos movimentos e idéias totalitárias de nosso tempo dão a medida exata dessa forma de loucura disfarçada, fazendo passar por ideal o que não passa de espetacular fuga. Aqueles que se inclinam por doutrinas impositivas, por sistemas fechados de pensamento, aderem de fato ao estágio mais sutil e refinado da violência. Feita em nome de altos ideais, não deixa de ser brutal e injusta, como não chega nunca aos fins que alega querer atingir, porque fins e meios são uma coisa só. Nada é tão fascinante nessa terrível aberração quanto verificar que a ficção política e filosófica é alimento para um grande número de pessoas que se consideram lúcidas e despertas. Hannah Arendt, François Bayle, Franz Borkenau, Albert Camus, Arthur Koestler, Alexandre Koyré e outros trataram do assunto em diferentes níveis, pondo maior ou menor ênfase no fenômeno da adoção de uma idéia fantasiosa como muleta intelectual e apoio emocional. Na obra As Origens do Totalitarismo, Arendt mostra que, quanto maior o absurdo afirmado pela ideologia ou pela propaganda, mais ardente é a devoção do seguidor. Trotski perdeu para Stalin, lembra a autora, não apenas porque o segundo controlou a máquina da repressão, como porque o primeiro manipulou menos a ficção política. A simplicidade honesta da democracia é um

prato insípido para determinado tipo de mente,

principalmente porque ela não explica o universo nem possui fórmulas infalíveis. Há espíritos que precisam muito do agasalho da certeza, e isso o pensamento fechado do totalitarismo garante.

A história longa do stalinismo e a breve e sangrenta

passagem o nazismo são ricas em ensinamentos e significação. A liquidação lenta e metódica das facções divergentes foi o caminho seguido por essas duas enfermidades políticas. O nazismo foi liquidado por sua imprudência. O stalinismo é uma metástase ainda viva, que assume outros nomes e amplia seus domínios com os mais variados pretextos. Os sonhos hegemônicos são comuns na História, e não é isso que espanta o crescimento desmesurado desse último pretexto totalitário. Seu horror está contido, afinal, numa revelação da natureza humana, isto é, na aceitação e no consumo de uma interpretação

delirante do mundo, possível graças ao medo da realidade, à necessidade de fantasiar e à faculdade de criar imagens e auto-imagens para escapar dos fatos.

A radicalização deixa de ser um exagero para ser um

vicio enraizado. A identificação desse desvio é o começo da compreensão do fenômeno, mas ela é muito rara e difícil

devido aos condicionamentos que prejudicam ou impedem um enfoque objetivo da questão. A disponibilidade intelectual é apontada pelo radicalismo como indício de fraqueza de convicções, ou de amolecimento moral. Esse preconceito assenta suas raízes na crença de que pode

haver uma "chave geral" para todos os problemas e uma

única explicação fundamental para todas as questões. A idéia da disponibilidade – da abertura para a realidade, do exame das situações uma a uma – é desagradável e humilhante para esses espíritos. Esse é seu erro fundamental. O "estar disponível" é um estado em que se percebe, em que se absorve, em que se penetra a essência das coisas, mas no qual não há envolvimento ou dependência. Isso é estranho ao radical, ao homem que "já encontrou a verdade" ou estruturou uma doutrina fixa do mundo. Radicalizar é enlouquecer um pouco. A flexibilidade de espírito é a saúde. Os sistemas de pensamento, não seduzem o homem que prova de todas as fontes e descobre o sabor das coisas por si mesmo. Diante de um problema a liberdade consiste em descobrir a solução única e específica naquela circunstância, naquele momento. A escravidão é lembrar de fórmulas rígidas e tentar aplica-

las à realidade mutável e sempre renovada do mundo,

forçando situações e dobrando circunstância. Por isso o totalitário não é basicamente o possessivo, mas o medroso e o inseguro, aquele que para viver necessita de toda certeza e antes de empreender uma viagem precisa estudar os mapas e trilhas, de modo que nenhuma curva do

caminho seja inesperada. O contrário disso é o espírito que descobre e empreende, em liberdade absoluta, intuindo

e percebendo à medida que as coisas acontecem. No nível político esse é o clima da democracia.

O sucesso do totalitarismo surpreende num século que se ufana do seu realismo e da sua técnica, pode ser mais bem compreendido com o conhecimento do medo e da

necessidade de certeza. Os modelos rígidos funcionam como elemento tranqüilizador, dada sua capacidade de atuar diretamente pela simples pressão de um dedo. Os mecanismos de repressão suprimem a diversidade, mas impedem o surgimento da criatividade que nasce do debate.

A época é de medo - mais que de qualquer outra coisa – e

por isso mesmo é tempo também de rigidez, de controle e

de monólogo. Por esse motivo florescem as simpatias

totalitárias e há tanta compreensão a propósito de regimes fortes, centralizados, em que se pretende que uma classe exerça uma ditadura sobre uma sociedade, mas em que de fato existe o amordaçamento do que há de melhor no espírito humano.

O ETERNO NOS LIVROS

Não admira que a música, a pintura, a escultura, a cerâmica e a arquitetura de outros tempos mantenham viva sua sedução para com o homem comum moderno. O interesse contemporâneo pela literatura de há um século, por exemplo, já é motivo de admiração quando se considera que as sociedades nela retratadas praticamente desapareceram, assim como os temas e a maneira de pensar e comunica. Não são apenas os críticos e pesquisadores que se deixam fascinar por Balzac, Stendhal, Flaubert e Zola, para citar exemplos. Em toda parte do mundo - na Europa e Estados Unidos principalmente -, a atração que os grandes romancistas do passado exercem sobre leitores não especializados é quase inexplicável. O crítico suíço Ferdinand Lion, em O Romance Francês no Século XIX, procura explicar o fenômeno – afirmando que aqueles romances hoje são mais "atuais" do que na época em que foram escritos – com a inconsciente afirmação de que "a burguesia ainda sobrevive" e tem idiossincrasias semelhantes em todos os tempos, despertando a curiosidade de sua similar contemporânea. Excluído o simplismo da análise, resta a constatação relativamente fácil de que a realidade humana transcende a cultura e sobrevive naqueles autores que retratam realmente a vida. O que pode ser um dado familiar à teoria literária é redescoberta constante dos que se propõem observar, através de uma lente antropológica, o mundo em que vivemos.

"In interiori homine habitat veritas", diz Santo Agostinho. Na literatura de qualidade também, podemos acrescentar. O trabalho literário, afinal, é a redescoberta e a exposição da realidade humana, tornada atraente com a ajuda de elementos como a fidelidade, a elegância e a inteligência. Ao contrário do que se pensa vulgarmente, a ficção tem imenso significado mesmo quando cópia minuciosa e fiel do mundo, e não apenas quando faz uma interpretação, ou é enfeitada. A "não participação” do autor confere à obra, com freqüência, uma beleza difícil de explicar por outras razões. Quando Flaubert afirma que "um artista não deve aparecer em sua obra mais do que Deus na natureza", sabe do que está falando. A reprodução pura e simples da vida conserva a criatividade inerente às coisas reais, bem como as descobertas potenciais que tudo esconde e somente às vezes libera. A expressão literária seria o símbolo de um símbolo e isso pode ser explicado sem as complexidades que habitualmente calcificam o assunto e afugentam o leitor não especializado. Se os próprios fatos são emblemáticos e referem-se, conforme seu interesse, a uma outra realidade que não pode ser percebida por meio de pensamentos-palavras, a narrativa desses fatos será duplamente simbólica, o que não anula seu carisma nem mistifica as verdades que possa conter. Flaubert tem sempre consciência desse fenômeno e sabe todo o tempo que a beleza de um trabalho literário depende da fidelidade em relação ao modelo, mais do que qualquer acréscimo feito para "melhorar" o mundo. Diferentemente do que acontece

com a fotografia, onde a produção é apenas uma representação da vida – uma estrela fotografada não tem luz própria, embora seu brilho esteja registrado na foto -, a narrativa literária reconstrói a realidade, onde pode ser encontrada a mesma riqueza do modelo, ou a escondida atrás dele.

Os grandes romances de há um século ou mais são "atuais" precisamente por isso. Se a televisão não fosse obviamente contemporânea, assim como outras formas de passatempo mais ou menos leves, a literatura teria aumentado de interesse hoje em dia, graças principalmente à falta de importância do cotidiano, agora. A necessidade de fabulação, às vezes compensatória, outra vezes referencial do indizível, é atualmente quase uma obsessão. A violência, componente constante da ficção, satisfaz a necessidade de fugir e o impulso para compensar, no homem, mas ela não é necessária nem atende aos chamados da vontade de conhecer que serve de drive nas grandes conquistas e descobertas humanas. O essencial é a realidade, ou qualquer coisa nela contida – e contida no homem, certamente -, capaz de manter a atenção presa e a respiração suspensa, em alguns casos, e propiciadora sempre de um interesse que não pode ser explicado satisfatoriamente de outro modo. O romance cumpre seu destino quando põe diante do leitor uma amostragem da realidade, tão significativa que consiga trazer consigo a riqueza particular de todo fato, pessoa ou objeto. As variações impressionistas valem na medida em que mostram a mente do narrados funcionando, esse fato

natural extraordinário, com seu ritmo próprio, seu segredo e suas conseqüências. O Ulisses, de Joyce, é um pedaço da realidade, uma parte estonteante e suculenta da verdade do dia-a-dia, embora a vida comum não esteja ali reproduzida de maneira naturalista. Na sua leitura sobressai o cotidiano palpitante, com seu marasmo, seu mistério e seu absurdo. Na Comédia Humana Balzac chega ao mesmo fim trilhando o caminho da reprodução da realidade objetiva, imitando tempo e seqüência, como faz a consciência humana na sua interpretação do mundo. A verdadeira literatura consegue o milagre de manter sua "atualidade", isto é, sua eternidade, reproduzindo o real que, este sim, contém em si tudo o que importa ao homem, como o aleph no porão de uma velha casa de arrabalde, segundo Jorge Luiz Borges.

ESTOICISMOS

Sustine et abstine, Zenão, Cleanto, Epicteto e Marco Aurélio ensinavam o estoicismo por diferentes caminhos e com motivações diversas. Ainda hoje os homens estão divididos entre os partidários da virtude imposta por convicção, por necessidade, por apreço à disciplina ou pela necessidade de construir pelo esforço um mundo maior, e aqueles outros, evidentemente minoritários, que propõem uma prévia compreensão profunda do processo em si mesmo, capaz de gerar um estado de "vazio" onde existe ordem e harmonia. Na sua formulação verbal, as diferenças parecem pequenas, as duas concepções têm aparência confusa e o tema todo parece um emaranhado de sutilezas mais ou menos inúteis. Tentando isolar os enunciados do fenômeno em si, é possível vislumbrar alguma simplicidade fundamental em tudo isso. A sobriedade é certamente uma qualidade. Não se confunde jamais com a apatia ou com a indiferença, porque o equilíbrio que a caracteriza não exclui a participação nem descarta a sensibilidade. Vive com temperança aquele que não apenas olha, mas também vê e percebe, e na medida em que entende está aprendendo os significados, não apenas identificando símbolos e reagindo a eles. Ser sóbrio, ser simples, ser humilde é uma coisa só, e ninguém há de chegar a isso sem esforço, tomando a determinação de alcançar esse ponto de perfeição. Nosso pensamento rotineiro – essa vaga consciência que verbaliza toda experiência e gira em torno de um núcleo egocêntrico – cria constantemente uma ilusão de continuidade a respeito de si mesmo e a propósito de tudo. Isso faz da consciência uma entidade exigente, que cobra

seqüência a uma estrutura, a mente, que vive momento a momento. Criamos para nós próprios uma imagem, espécie de "personagem", e com isso tentamos viver. Os fracassos nesse grande jogo são a causa do sofrimento humano, naquela extraordinária que todos conhecemos. As experiências mais extraordinárias na vida do homem ocorrem geralmente dentro dele, nesse vasto campo inexplorado que chamamos espírito. Uma dessas aventuras pode ser a percepção da inutilidade de todo esforço visando a modificação interior. Os estóicos gregos sabiam disso, pelo menos alguns deles. Lao-Tsé referiu-se a isso de mil maneiras diferente, no Tao-te-Ching multiplicando as tentativas de fazer-se ouvir. A decisão de ser alguma coisa nova permanece como decisão que não se concretiza. Essa "alguma coisa" não será mais aquele que toma a decisão, o que torna impossível a passagem de um a outro. Todo bom propósito é inútil, a menos que a pessoa já seja aquilo que se dispõe a ser. Um outro pensador que falava disso, Chuang-Tsé, lembrava a insuficiência das palavras, no caso, quando não ocorre uma predisposição favorável, isto é, quando já não estamos no assunto. Sustine et abstine. Quando o homem percebe, com leveza e profundidade – não há contradição, aqui -, que todo esforço e compulsão resultam em imobilidade fica aberto aos fatos, disponível para toda percepção ou evento na área do espírito. No conhecimento, então, pode existir uma ordem que nada consegue abalar, uma disciplina espontânea porque vem de dentro para fora e não se conflita com o resto. A

abstenção é natural, a sobriedade é harmônica, a continência é desejada. Não existe, então, o propósito de agir assim porque assim é melhor, ou porque deve ser assim. Em destaque, nesse tipo de percebimento, fica o significado profundo de todo esforço, essa forma de ação que visa mudar alguma coisa por determinada razão. Toda revolução e todo reformismo pregados no século XX apóiam-se na idéia de esforço, de mudança imposta, de alteração de alguma coisa sem a compreensão fundamental dessa coisa. Do indivíduo ao Estado, queremos mudar porque estamos descontentes com o que existe. Esse descontentamento pode ser justo, e as mudanças muitas vezes valem a pena. O problema está contido na inutilidade de alterar uma estrutura de fora para dentro. Isso não é pura teoria e pode ser verificado individualmente, quando temos tranqüilidade para isso e já não trazemos alguma fórmula pronta no bolso. No nível pessoal, é bastante fácil ver como temos uma imagem montada de nós mesmos. Nem sempre somos o que pensamos seriamente ser, e muitas vezes queremos ser alguma outra coisa que não imaginamos com nitidez e da qual só temos alguns dados. A revolução possível é implosiva, começa no autoconhecimento e irrompe nas camadas mais fundas. Nenhum resultado pode ser medido pela fita métrica da impaciência e do desejo de progresso rápido. A maioria das reações relacionadas com a pressa e a sofreguidão nesse campo são resultado de imaturidade e falta de uma serenidade que poderíamos designar como adulta.

Por isso a idéia de repressão é basicamente infantil. Claro que isso não exime ninguém de obedecer a princípios e respeitar regras de convívio social. A repressão, que é produto da imaturidade, e que impera no terreno do conhecimento e das idéias, pode ser um hábito mental ou um dispositivo neurótico de defesa e preservação de esquemas doentios de comportamento. A sobriedade natural resulta da ausência de ilusões, afirmações e impulsos que nascem da confusão e da ignorância. Em hipótese alguma é fruto da decisão de ser sóbrio, do esforço para chegar à temperança, da vontade de ser alguma coisa que na realidade não se é. Sustine et abstine, suporta e abstém-te, não vale como conselho, mas apenas como constatação.

MELANCOLIA.

No Dom Quixote, a sabedoria prática de Sancho aconselha seu amo a não se entregar ao desperdício que é a depressão. Lembra o escudeiro que "a maior loucura que

pode fazer um homem é deixar-se matar assim, sem ninguém nos matando, nem dando cabo de nós outra mãos que não sejam as da melancolia". Aos poucos volta, então, a "loucura inspirada" do cavaleiro andante e tudo se equilibra no costumeiro desequilíbrio. O bom senso de Cervantes não se interroga sobre as possíveis causas da tristeza geral e do desânimo que imobilizam o grande sonhador, estancando a energia que até a pouco dava forças a um homem maduro para afrontar inimigos e aniquilar gigantes, sejam eles reais ou mera fantasia. O espanhol mostra a doença e revela a cura, indiferente a toda racionalização, como cabe ao artista que recria o universo, sem interpretá-lo ou julgá-lo de alguma forma. Dürer representou a melancolia cercada de erudição inútil e perguntas ansiosas. O processo de desinteresse progressivo é a morte do que existe de mais vital no homem, aquela essência que se interroga todo o tempo e que na formulação adequada da pergunta encontra a resposta perfeita. O esgotamento físico, as carências alimentares, as pressões psicológicas exercem efeito às vezes imprevisto nesse processo. A idéia corrente de que é preciso haver paz e equilíbrio fisiológico para que haja lucidez e percepção nem sempre é verdadeira. Os sufis, que conservam a tradição da mística muçulmana, buscam uma forma particular de cansaço como fonte de compreensão mais sutil, usando para isso a dança. A obra de Gurdjieff revela aspectos pouco conhecidos disso que parece simples técnica do Ocidente, mas que os dervixes consideram ascese. Cansar-se e "ir um

pouco além do cansaço", obedecendo a um mesmo ritmo, com pequenas variações, pode produzir uma espécie de descortino na mente que nada tem a ver com as ilusões dos psicodélicos, segundo os sufis. Aldous Huxley afirma, num ensaio, que o percebimento penetrante tem algo a ver com o metabolismo dos açúcares no corpo humano. Para Deitaro Suzuki dá-se o contrário, é a química do organismo que se altera com o autoconhecimento e a ocorrência de um "vazio" particular no espírito. A melancolia seria o oposto disso, caracterizando-se como uma forma de indigestão de idéias contraditórias e mutuamente excludentes, que "cansaram" a mente em suas camadas mais fundas. Os biógrafos de Gurdjieff falam na sua extraordinária capacidade de refazer-se após algum tempo de concentração solitária. Os exercícios de sufis podem não ser indispensáveis, conforme o próprio russo explicava, uma vez que o importante seria um tipo de desintoxicação da mente. O grande mal moderno da depressão seria resultado da sobrecarga a que se sujeita o espírito humano em nossos dias. O desânimo, a renúncia a qualquer ação, decorrem da incerteza, da necessidade de certeza e dos conflitos subterrâneos daí derivados. Nenhuma racionalização, nenhum discurso é capaz de remediar imediatamente o problema. A melancolia não deixaria de ser uma defesa do organismo, um desligamento total, e uma entrega à sabedoria natural desse conjunto corpo-espírito, na verdade inseparável. O relacionamento superficial mantido pelo homem comum com sua própria vida psíquica é a origem da infinidade

de sofrimentos que levam milhões de pessoas a procurar terapias, religiões e ideologias que pautem seu comportamento e, de certo modo, pensem por elas. As "fórmulas prontas" são providenciais na medida em que impedem – melhor seria dizer adiam – incertezas, angústias, depressões. É idéia corrente que o contato com a realidade produz confusão e acarreta alguma forma de dor. A psicologia e a psicanálise – com exceção da chamada psicanálise integral – atribuíram sempre pouca importância a esse aspecto da questão. O fato é que os sintomas que induzem sofrimento psicológico são produto de conflitos que têm em sua raiz uma evidência e o impulso para não vê-la. Os defensores da corrente integral chegam a afirmar que os sentimentos são, na verdade, processos utilizados na rejeição da realidade pelo homem. Isso pode levar, naturalmente, a uma revolução no conhecimento do espírito pelo espírito. A melancolia do Quixote é uma repulsa ao cotidiano, àquela forma de vida que, embora desconhecendo em sua essência, ele rejeita vigorosamente. Cabe a ele e a cada homem "ficar à margem da cultura", quando isso for possível, distante dos condicionamentos e das ilusões que a vaidade fabrica, olhando dentro da própria mente no movimento que ela faz a cada instante. A repulsa ao momento é o medo da pequena (e imensa) realidade do aqui-agora, do espaço-tempo eterno que está sempre acontecendo e que só não existe no pensamento ordinário porque ele é uma fuga precisamente ao que existe. Os enunciados têm importância como setas no caminho, como indicadores que podem levar alguns homens a

trilhar seu caminho e a fazer suas descobertas. Valem até esse ponto. Como verdades finais, como sínteses definitivas, são falsas e ilusórias, servindo antes para fazer sonhar do que para desvendar a realidade. Nessas caminhadas, cada homem está absolutamente só, e é natural que seja assim. A partir de certo ponto, não haverá mais a dificuldade de trilhar um caminho duro, porque estrada e caminhante serão uma coisa única.

ANATOMIA DA IGNORÂNCIA

A gravidade de desconhecer alguma coisa tem a medida da importância que se atribui a essa coisa, obviamente. Como o conhecimento técnico e científico tem hoje peso imenso num mundo que busca segurança e certeza em valores matematicamente mensuráreis, o desconhecimento de dados práticos da ciência positiva e de algumas humanidades é o

que chamam de ignorância. Em outros tempos, como é fácil verificar em velhos documentos, valores diferentes eram considerados indispensáveis e sem eles não se admitia a presença de vida inteligente. O desconhecimento das coisas fundamentais para o ser humano é talvez o grande flagelo da Humanidade, considerando o absurdo contido nisso. A moderna acepção de ignorância é superficial porque se fixa somente na falta de conhecimentos concretos a respeito de fatos objetivos. Ignotum per ignotius. A dificuldade de explicar um assunto com uma exposição, afinal, ainda mais complicada, é a suprema ironia do pensamento discursivo e exemplo bem característico das suas limitações. A construção de frases visando à comunicação de certas circunstâncias indizíveis – ou inefáveis, como já se disse – pode ser um trabalho traiçoeiro para a limpidez do pensamento, e um obstáculo para aquele despertar de interesse que leva os indivíduos a descobertas pessoais, longe do conhecimento veiculado em segunda mão. A precisão vernacular ajuda muito pouco nesses casos, embora possa conferir beleza à complexidade aparente do fraseado. O que precisa ser dito, no entanto, não exige ornamento estilístico, mas pede discernimento em cada período, atenção em cada parágrafo, unidade perfeita em cada tema – sem qualquer garantia de sucesso, sem a mínima certeza de êxito. O discurso complica, mas é ainda o único modo de transmitir alguma coisa, quando se consegue isso. O humorista norte-americano Will Rogers dizia que "todo animal é ignorante, só que em diferentes assuntos". John

Bernal, no seu The Physical Basis of Life, afirma que "a área completa da ignorância humana ainda não foi mapeada, e no momento os homens estão apenas explorando seus limites". Esses conceitos são suficientemente genéricos, mas a ignorância no seu sentido muito antigo, tradicional e arcano, é algo bastante específico. O livro de devoção medieval anônimo, The Cloud of Unknowing define a palavra como "desconhecimento daquilo que nos é próprio e nos diz respeito mais essencialmente". Em outras palavras, alienação. O ignorante seria, assim, aquele que nada sabe de si próprio de suas motivações mais pessoais, de sua realidade interior,

independentemente dos conhecimentos especializados que tenha ou deixe de ter, do fato de ser alfabetizado ou participar

da vida de sua comunidade. O homem que vive alheio à sua

realidade essencial, e ao conjunto corpo-mente, instante a

instante, ignora o que não pode ser ignorado, permanecendo

no purgatório que costumamos designar como "vida", entre

temores e desejos, auto-afirmação e auto-negação, esperanças e desenganos.

O conhecimento, nesse caso, implica a pergunta "quem

conhece?". Esse é o começo e o fim da busca, porque importa em não mais ignorar as características e a forma de ação do "buscador". Aqui há obstáculos de duas ordens: a

convicção prévia de que essa procura é absurda, perigosa e insana, e o conhecimento teórico-verbal de aparência erudita.

O homem prático, ativo, é assediado pela primeira, o

intelectual é vítima da segunda. A tendência geral para formular conclusões discursivamente é outro óbice difícil de

superar. E o hábito, mecanismo de repetição e inconsciência, não pode ser ultrapassado senão pela mais tranqüila e permanente atenção. Não existe nenhum exotismo em tudo isso, nem nada associado com misticismo, esoterismo ou pirotecnia oriental. A questão é bastante simples e pode ser verificada imediatamente, no cotidiano de cada homem. No âmago desse fenômeno do autoconhecimento, da atenção,

da observação tranqüila, a psicologia, a religião e a filosofia são transcendidas e deixadas para trás, com seu maniqueísmo

e sua esquematização. A partir daí, tudo é muito distante

desse universo que se manifesta por palavras e se consuma por símbolos. As limitações do discurso são as limitações do pensamento, que é fatalmente discursivo. A autoridade dos especialistas, as terminologias dos tratados e das teses

devem ceder lugar a uma percepção direta e simples - e isso

é inegavelmente difícil, eis que fomos treinados desde cedo

a identificar o símbolo com a coisa simbolizada, o objeto com seu nome, os seres e funções com sua utilidade. A situação

é essa e nenhum julgamento de valor teria qualquer

importância agora. A questão fundamental é a ignorância do

homem, o que não tem nada a ver com seu desconhecimento das variadas técnicas, ciências e informações que estão nos livros, nas enciclopédias, na memória dos eruditos e nas academias. Tudo isso tem sua

função no mundo, mas não é o seu desconhecimento que faz

o ser humano ignorante, no sentido antigo e profundo da

palavra. O nosce te ipsum dos latinos, que é o nothi seauton

dos gregos, diz mais que todos os tratados conhecidos – embora muitos livros digam muito – sobre a ignorância do homem, a maneira de conhecer o desconhecimento, e a revolução que pode resultar do fato simples de perceber.

A TAREFA DE CADA DIA.

O poeta místico persa Djalal-udin-Rumi, fundador da ordem dos dervixes, gostava de dizer que o homem de bem "é filho do tempo presente e da tarefa perfeita". Em todas as épocas, onde quer que a violência e o egoísmo tenham cedido lugar à lucidez tranqüila, o trabalho gozou sempre de uma dignidade excepcional. Não o trabalho que se faz vorazmente para esquecer o mundo, ou a tarefa que se cumpre de má vontade para prover as necessidades, mas a ocupação que se exerce com amor e atenção, descobrindo que os grandes deleites são inseparáveis da simplicidade. "A vida existe no agora", – dizia o poeta – "como tudo mais no único instante

que existe de fato, fora da memória e da esperança". Toda ação ocorrendo no momento em que se dá, placidamente, sem a pressa de quem só deseja terminar, nem a contemporização de quem não deseja que termine. Não basta ao trabalho ser honrado, porque ele precisa ser também uma bênção. Nunca pelos frutos, mas pelo que existe nele próprio, ou na ação de quem executa. A tarefa simples de cada dia – e toda tarefa é simples, mesmo quando toda complexidade do mundo parece presente na sua formulação verbal – não é somente aquela que garante o sustento, mas as pequenas e infinitas coisas que fazemos a toda hora, e que geralmente desprezamos como acessórias e dispensáveis. Grande parte do descontentamento que amarga nossa vida resulta do fato de não gostarmos do que julgamos ser nossa obrigação fazer. Isso ocorre porque as tarefas que nos cometem parecem tediosas, porque criamos conflito entre vontade e ação, porque não aprendemos a ver que há beleza no trabalho humilde, isto é, aquele feito com desinteresse, simplicidade e dedicação. Há muito orgulho em jogo no nosso relacionamento com as tarefas que executamos. Aprendemos a dividir o trabalho em categorias, atribuindo a algumas importância e brilho, e a outras uma espécie de aviltamento que nada explica direito. "Quando um homem é teimoso e tende a repetir somente o que lhe ensinaram", – diz ainda Djalal-udin-Rumi – "há pó nos olhos do seu discernimento e seu espelho está encoberto por várias camadas de poeira".Para o poeta, que em delicados poemas feitos no século XII falava para o futuro, a

superficialidade comum à maioria das pessoas é que torna a vida tediosa, difícil e aparentemente sempre igual. Não existe um momento igual ao outro, lembrava. Toda ação, toda paisagem, todo som, perfume ou forma, são completamente novos a cada fração de tempo, desde que haja em nós discernimento e tenha sido abandonada a tendência para julgar tudo semelhante e repetitivo. A única coisa monótona é essa pobreza que faz ver assim. O resto, como caleidoscópio, é um eterno "tornar-se" que não se repete jamais. Ninguém é obrigado a mortificar-se, a não ser que já tenha feito disso um hábito. As tarefas desagradáveis podem tornar-se absorventes quando há atenção no que fazemos, no modo de fazê-las e na maneira como nos relacionamos com elas. Conseguimos com as queixas – as ditas e as engolidas – um jeito de construir uma imagem sofrida para nós, ou um processo de obter do mundo uma compensação pelo sacrifício. As pessoas se enganam de acordo com suas necessidades, não apenas de acordo com sua ignorância. Santa Tereza de Ávila falava assim da abstinência: "Uma vez, enquanto estava me queixando por ser obrigada a comer carne e por não fazer exercícios de ascese, alguém me disse que, às vezes, há mais amor-próprio do que desejo de mortificação nesse tipo de sofrimento". A mente humana não é simples como gostaríamos que fosse, nem é tão sutil que não possa ser, de vez em quando, desmascarada. A tarefa de cada dia não é apenas aquela levada a cabo na empresa, na fábrica ou no campo, com vista à sobrevivência. Nunca é demais repetir que ela é também o

gesto simples feito distraidamente, o pequeno trabalho executado com pressa e enfado, o escutar vagamente e com tédio – e não sabemos o que estamos perdendo com isso -, bem como as mil pequeninas coisas, enfim, que nossos braços, pernas, olhos, sentidos, atenção, pensamentos, fazem com ou sem consciência do que fazem. À primeira vista, assusta a sugestão para estarmos "presentes" em cada pequeno acontecimento da existência. A idéia sugere cansaço, esgotamento em pouco tempo. A realidade é, uma vez mais, diversa e muito mais simples. A atenção não exige nenhuma espécie de tensão, esforço ou rigidez. Pelo contrário, ela é a ausência disso tudo, como é a ausência de torpor, sonolência, desinteresse. Quando a tarefa de cada dia é feita com amor – e isso inclui toda ação e o trabalho do sustento -, há uma renovação constante em quem a faz, e naquilo que é feito. Em torno do trabalho existe, como se sabe, um emaranhado de conceitos e preconceitos relacionado com a compensação. Há certamente exploradores e explorados, mas a questão da tarefa de todo dia não pode ser olhada por esse ângulo, sob pena de não ser compreendida nunca. Esse é um vasto aspecto em torno do qual há emocionalismo demais para ser entendido facilmente. Por isso, para abordar o problema das pequenas tarefas, da ínfima ação miúda no cotidiano, é indispensável ver o modo como nos voltamos para ele, como o recebemos e nos sentimos diante dele. O que é verdadeiro na pequena escala dos gestos e dos afazeres menores é real no que respeita ao trabalho remunerado que provê a subsistência. Toda abordagem pelos ângulos

tradicionais conduz onde sempre levaram os grandes e pequenos debates de inspiração maniquéia.

VIAGENS

"Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos", dizia Lao-Tsé. A idéia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu preço, imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver. A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja -, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho, Nicolau de Cusa, Eckhart, Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável.

Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Eckhart repetia com método e tranqüilidade: "Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma". Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiper-ativos que controlam – ou julgam controlar – a sociedade humana, suas maravilhas e

seus horrores. No "não ir a parte alguma" está contido, apenas, o "ficar para não fugir todo tempo". A razão pela qual "quanto mais longe viajamos, menos conhecemos" está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. Isso não se refere apenas às viagens reais, mas ao ir e vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade. Por que ir

aprender alguma coisa, se recusamos todo aprendizado aqui

e

agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância?

Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo, o que só pode ser feito

imediatamente, não depois, pouco adiante ou mais tarde. Caminhar, viajar proporcionam prazer e são em si inofensivos.

O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou

naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando

simplesmente de lugar.

É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, a alma nobre. Calce seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos". A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um

movimento do coração. Essas referências hoje são mais difíceis

de compreender que nunca, porque é o século de ação e de

movimento – em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência. A palavra de ordem não é inovar ? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de idéias prontas. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias. Viajar para aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que somos. Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos

e como fazemos. Esse é um aprendizado insubstituível, que

não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou nas conferências. Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no instante em

que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração". Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial. As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar. Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória. A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranqüilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo. E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela ultima vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste

seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

A SERPENTE DE DUAS CABEÇAS.

Os dois extremos de um mesmo engano, o materialismo e a ignorância supersticiosa foram apontados por alguns homens incomuns como produtos identificáveis da necessidade humana de certeza e da angústia face ao nada supostamente contido na morte individual. Esses homens especiais, geralmente desligados de dogmas e assertivas rígidas, falaram das mesmas coisas nos seus estilos pessoais e viram contido na essência da natureza aquilo que alguns religiosos de todas as culturas designaram como "transcendental" ou philosophia perenis. Ralph Emerson, Walt Whitman, Wodswoth, Pascal, Thomas Paine, Helvetius, Lao-Tsé, William Law e centenas de outros descobriram nos fenômenos naturais a presença daquilo que as concepções dualistas predominantes – ontem como hoje – admitem num

único lado do espectro, em oposição ao material, ao físico e ao racional. A origem da vida, da inteligência e do espírito, segundo H.J.Morowitz, biólogo, procede do Sol. Sua exposição é feita em termos de termodinâmica, explicando a organização da matéria em estados cada vez mais ordenados, a parti de um início absolutamente natural. O faraó egípcio Akenaton (Amenófis IV), primeiro exemplo histórico de monoteísmo, pensava exatamente da mesma forma e dizia isso com clareza nas orações de alta qualidade poética que produziu em homenagem à "fonte de todas as coisas". O prana que os iogues acreditam que adquirimos pela respiração concentrada, essência da vida e da compreensão, é o que o médico e cientista norte-americano Lewis Thomas explica como "exalação dos cloroplastos que vivem nas plantas". No Brasil, o estudioso de sociobiologia Álvaro de Faria, no seu Mutação e Cromossomos, identifica as células cromossômicas com o "verdadeiro Deus e guia das existências vivas", lembrando que o cromossomo e o Logos, de que falava o evangelista São João, nada têm de diferentes. Ethan Allen, em Reason, the Only Oracle of Man (obra de quase um século, agora reeditada nos Estados Unidos), afirma basicamente que, "à medida que conhecemos a natureza, chegamos mais perto de alguma coisa que as palavras e o conhecimento racional não atendem ou explicam, e que, no entanto é perfeitamente real". Allen, chefe militar no Estado de Vermont durante a Guerra Civil Americana, recolheu-se a uma espécie de retiro no fim da vida, quando escreveu dois livros

de meditação. Neles dizia, em resumo, que a observação lúcida é aquela que não se baseia em conceitos prévios ou respostas prontas. "Não há ilusões quando olhamos em volta com absoluto realismo, e, no entanto isso é uma forma de religião", concluía. Alguns racionalistas seus contemporâneos tentaram pregar-lhe rótulos na testa, fato pouco original na história do pensamento humano. Ethan Allen era definido por eles com "deísta obscuro", "inimigo da fé", etc. Herbert Morais, no seu estudo sobre o deísmo na América do século XVIII, identifica o liberalismo político daquele período com esse tipo de pensamento que funde numa só coisa a natureza e a transcendência espiritual. O Materialismo e a ignorância supersticiosa são ambos, a seu modo, muito afirmativos. A realidade, aos seus olhos, está concluída. A verdade é estática e imutável, devendo ser venerada e jamais discutida ou observada com espírito crítico. Não é difícil ver que o materialismo é nominalista, designa todas as coisas, e essas designações vêm grávidas de julgamentos definitivos. A superstição, por seu lado, agarra-se a algumas convicções com medo de cair no vácuo da incerteza, e dali não arreda pé. Ambos têm horror ao livre- exame, à critica e à análise objetiva. Um peca por excesso de estruturas e envoltórios racionalizantes, outro por inconsistência absoluta e irracionalidade total. Em outro plano, renovando-se a cada instante, livre de ataduras intelectuais e de molduras, fica aquele tipo de discernimento que não pode ser classificado em nenhuma escola, nem atende por designações.

Essa forma de razão, como a chama Allen, sabe que a natureza não se opõe ao homem, assim como o corpo não se opõe ao espírito, o pecado à virtude e o ser ao não-ser. Tudo o que parece alternância é fruto de uma distorção da forma de ver e perceber. Uma predisposição para esse estrabismo parece profundamente arraigada nos genes humanos. Parece que foi Paul Tllich quem disse um dia que "o pecado original é uma propensão herdada", embora não uma fatalidade inapelável. Essa visão herética do mundo nunca foi bem vista pelas autoridades civis e pelos representantes das religiões oficiais, naturalmente. Ethan Allen viveu num país de notáveis tradições libertárias, mas outros pensadores independentes como ele tiveram de pedir desculpas a censores e inquisidores, ao longo dos séculos. Os gnósticos, primeiros heresiarcas localizados pelo Cristianismo, foram denunciados e perseguidos por não se sujeitarem a fórmulas rígidas, ou não aceitarem uma forma de revelação que lhes chegava indiretamente, pronta e acabada. Nesta última quadra do século XX é visível, mais do que nunca, aquele mesmo engano de duas cabeças que flagelou a Humanidade durante tanto tempo. A arrogância materialista e a teimosia supersticiosa falam hoje uma linguagem quase sofisticada, eivada de psicologismo e de expressões técnicas que visam granjear respeitabilidade. Os equívocos se dão as mãos, muitas vezes, mas normalmente se opõe como se fossem antíteses. Na verdade são pedaços de um mesmo corpo, como é possível constatar com um pouco de atenção. Essa serpente bifronte usa como peçonha a verbalização, o

discurso ardiloso, o pensamento circular. Quem quiser livrar-se dela tem de permanecer muito atento, principalmente em relação a si mesmo.

NO CORAÇÃO DO MISTÉRIO.

De todos pronunciamentos do papa João Paulo II no Brasil, o feito diante de doze mil religiosos no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, foi talvez o único não compreendido imediatamente pela grande massa de ouvintes e espectadores que tem acompanhado, fascinada, as manifestações do papa desde sua chegada. O tema era a vida contemplativa, definida por ele como "absolutamente vital para a Igreja e para a humanidade", situada que está "no coração do mistério da religião". Essa vida tem merecido, continua João Paulo II, a incompreensão e mesmo a oposição do pensamento moderno, da opinião pública e, quem sabe, de "certas franjas do Cristianismo". A oração chega ao fim: "Que os vossos mosteiros permaneçam lugares de paz e interioridade, sem deixardes que pressões do exterior venham

demolir vossas tradições e anular vossos meios de cultivar e promover o recolhimento". Uma tradição que vem do Iluminismo e ganha corpo na irreverência superficial de nosso tempo considera a vida conventual uma forma de egoísmo e a oração contemplativa um resquício medieval. Os grandes estudiosos do fenômeno religioso, como William James, Max Scheler, Durkhelm, Lévy- Bruhl, Joachim Wach e principalmente Mircea Eliade, pensam

de maneira completamente diferente. De início, para Scheler a

experiência religiosa resulta da fé, não do pensamento, fazendo parte do homem como a consciência moral. James

e

Kierkegaard afirmam a importância do contato individual

e

aludem à intransmissibilidade da experiência. Na Igreja,

finalmente, Thomas Merton estuda – com extraordinária simplicidade e, ao mesmo tempo, com sua típica seriedade - a significação da vida monástica, a revolução que a experiência religiosa, o "estado teopático", pode produzir no homem - inclusive e talvez principalmente no homem contemporâneo, esse desiludido, do milagre tecnológico. Levaria muito longe estabelecer diferenças entre "oração mental" e "oração mística", bem como analisar os graus dessas orações. Tudo isso, como foi demonstrado pelos autores acima e repetido pelos santos e inspirados de todos os tempos, não leva muito longe na medida em que teorização nenhuma leva. A noite dos sentidos "de São João da Cruz", as visitas do Verbo "segundo São Bernardo, os" contentamentos da alma "referidos por Santa Tereza de Ávila, a" união pacífica "de Santa Gertrudes e a" oração

insensível "de São Francisco de Assis empalidecem um pouco - porque são reveladas atrás de exposições inevitavelmente discursivas – diante da poesia alusiva, disfarçada sob excelente prosa, da pequena obra de Thomas Merton, Na Liberdade da Solidão (Editora Vozes-tradução do original

Thoghts in Solitude). As notas do monge são de 1954, e seu tema é a vida contemplativa, essa forma de existir que, de acordo com João Paulo II", atesta a dimensão transcendente da pessoa humana e leva os homens, as mulheres e os homens, a pensar, e a interrogar-se sobre o sentido da vida ".

"A sociedade depende", - diz Merton - "para existir, da

inviolável solidão pessoal de seus membros (

pessoa implica responsabilidade e liberdade; ambas implicam uma certa solidão interior, um senso de integridade pessoal, um senso da própria realidade pessoal e da capacidade que se tem para se dar à sociedade - ou recusar-se esse dom". Quando os homens são empurrados pelas pressões do meio, dos temores e desejos coletivos, perdem a centelha que só os homens possuem e os animais não conhecem. Quando as pessoas são privadas da solidão e da liberdade a que têm direito, "a sociedade em que vivem apodrece, ulcerada pelo servilismo, o rancor, o ódio". E o

Ser uma

)

progresso tecnológico, que continua, não pode substituir a verdadeira criatividade, a que nasce no espírito que é livre e se encontra a si mesmo a cada momento.

O maior desastre da vida espiritual, prossegue Thomas

Merton, é a imersão na irrealidade, a fé cega nas "coisas

criadas". Precisamos uma certa distância das criaturas e das coisas para podermos compreendê-las em sua realidade. O profundo realismo necessário à vida espiritual exige uma noção bem nítida disso que chamamos pensamento e daquilo que chamamos sentimento. Para viver a vida contemplativa, "o homem tem de estar plenamente vivo, corpo, alma, coração, mente, espírito. Tudo tem de ser elevado e transformado pela ação de Deus, no amor e na fé". Nenhuma meditação pode ser feita pensando, passando em revista um exército de banalidades. Não podemos substituir a vida pelo pensamento, e as ações pelas idéias. A descoberta de que "a vida é sempre coisa nova" depende do nosso êxito de afugentar a preguiça e a covardia, que colocam em primeiro plano o nosso bem-estar e nossas conveniências. A tentação de fugir de todo risco é fatal, na vida do espírito. E há o problema da atenção. "A vida espiritual"- escreve Merton - "é em primeiro lugar uma questão de estar desperto. Não devemos perder nossa sensibilidade às inspirações espirituais. Devemos estar sempre prontos a corresponder aos mínimos avisos que falam, como que por um instinto oculto, nas profundezas da alma que está espiritualmente viva". A finalidade da vida contemplativa é uma forma de sabedoria que transcende todas as outras. "A sabedoria é o conhecimento da Verdade em sua mais íntima realidade, a experiência da Verdade a que se chega pela retidão de nossa própria alma. A sabedoria conhece a Deus em nós mesmos e nos conhece em Deus" (Na Liberdade da Solidão, cap. XIX).

A solidão dos religiosos, "absolutamente vital para a humanidade", visa à descoberta de Deus através da descoberta de si mesmo. Não é uma psicoterapia, porque é incomparavelmente mais. Como toda volta sobre si mesmo, é difícil e às vezes dolorosa. Por não ter uma finalidade prática, é árdua de entender e de tolerar, não apenas pelo pensamento moderno e pela opinião pública como até por "certas franjas do Cristianismo".

A PEDRA FILOSOFAL.

Um símbolo, dizem os estudiosos, é um objeto que representa outro de natureza diversa. O domínio do religioso é, por excelência, o domínio da representação simbólica, mas o estético e o científico também estão a ela associados. A antropologia tem o seu caminho semeado de simbolismos. A morte ocupa um lugar de destaque nesse universo, o que é compreensível, mas há um tipo especial de morte que é constante nas mitologias, e que o pensamento rotineiro do homem contemporâneo desconhece. A Bíblia faz menção a ele quando, no Novo Testamento, afirma que o grão precisa morrer para germinar. O nigredo da alquimia, isto é, a redução das substâncias à matéria prima, era precisamente um símbolo dessa morte. A concepção da eternidade dependeria de qualquer coisa prévia como "a morte pelo espírito", estágio preparatório da

mente antes da modificação fundamental. Georg von Welling,

no seu Opus Cabbalisticum Et Theosophicum (1735), resume

suas experiências assim: "De fato, não posso alcançar o reino

se não nascer uma segunda vez. Eis porque preciso morrer

interiormente, para tudo que criei e o mundo criou em mim, antes de abrir os olhos de verdade". A morte iniciática de que fala C.Jung e Julius Évola tem relação com a alquimia, com a cosmologia e está presente numa dezena de lendas e narrativas antigas. A "reintegração na noite cósmica" é a noche oscura de São João da Cruz, a perda de tudo que antecede a aquisição de tudo – embora a pessoa não seja a mesma que perdeu, quando ganha. O alquimista sabe que não consegue obter a matéria-

prima, a pedra filosofal, trabalhando com as "formas" já gastas pelo tempo. Daí a necessidade do dissoluto, do putrefacto e do nigredo, etapas da obra alquímica. Micea Eliade chama atenção para o aparente paradoxo de uma alquimia que publica vastas bibliotecas sobre os passos iniciais do Opus, com minúcias que chegam ao ridículo, e depois silencia sobre as etapas mais avançadas do processo, emudecendo totalmente a respeito do Mysterium Magnum – aquele ponto em que fica evidente que não é a matéria que deve ser mudada, mas quem a manipula pretendendo muda-la. A "Atenção Perfeita" do operador volta-se ao plano objetivo para

o subjetivo, da decisão de alterar a matéria para a

inconsistência daquele que quer altera-la, e que tem a ilusão

de "ser alguém no espaço, durando no tempo".

É ainda Eliade quem nos informa que após o mergulho na morte espiritual – que importa em abandonar tudo de que se gosta, perder todas as fontes de prazer e de auto-afirmação, e de deixar até a própria identidade – há o ressurgimento na "Obra Branca", a leukosis ou albedo. Essa parte do simbolismo também é vasta, está presente em quase todas as cosmogonias e mora, provavelmente, no inconsciente de cada um de nós. No plano espiritual é a ressurreição, aquele estado de que falam muitas religiões, atenuando a carga simbólica com "questões de fé" - algo no qual se acredita sem discutir, ignorada a condição meramente simbólica da coisa. Na alquimia, a pedra filosofal está próxima. Na mística, terminada a "Noite Escura", vem uma tranqüilidade desconhecida, na qual fica muito claro que o mundo não está dividido em certo e errado, bom e mau, bonito e feio, mas é uma coisa e outra ao mesmo tempo, sem qualquer perigo de contradição ou conflito. A morte pelo espírito, então leva ao abandono do dualismo, do pensamento alternativo, em que falsas escolhas são impostas a um espírito atormentado pelo medo de errar e pelo sentimento de culpa. Na "Subida do Carmelo", outro simbolismo religioso dos espanhóis do século XVI, já não existe um espírito tendo de tomar decisões, alguém responsável pelos próprios pensamentos, capaz de preferir as virtudes e abominar os vícios. Esse vazio, inacessível à mente convencional como a conhecemos na cultura do Ocidente, não pode ser conhecida pelo consciente. A pergunta "quem poderia conhecê-lo?" continua infinitamente sem a resposta, uma vez

que aquela mesma consciência que não pode responder continua no comando. O materialismo da moda no século XX é, a respeito dessas questões, tão ignorante e pretensioso quanto a mais tola superstição religiosa de uma povoação primitiva. Os tabus de algumas sociedades polinésias perecem enormemente com os preconceitos científicos de alguns especialistas da nossa época. Preconceitos "civilizados" e tabus primitivos tem muito em comum, principalmente o medo de receber informações que façam desmoronar estruturas e conclusões já enraizadas por infinitas "confirmações". O conhecimento científico pode ser calcificado sem que se perceba, e isso acontece todos os dias nos grandes centros urbanos, nos laboratórios e universidades. Aos poucos, a informação transforma-se em convicção, e em seguida vira dogma – sem que esta palavra seja jamais pronunciada a seu respeito, naturalmente. O homo religiosus que nada tem a ver com o supersticioso, o místico, o crente, é finalmente aquele mais apto a perceber o que acontece no mundo, e de que modo esse mundo se reflete no espírito humano. Somente ele presencia a "transmutação do Cosmo através das hierofanias". As coisas imensas tornam-se invisíveis a olhos convencionais. Como diz Eliade, brincando com símbolos: "A pedra filosofal não pode ser percebida pelos olhos profanos, e, no entanto as crianças brincam com ela nas ruas, porque ela está em toda parte".

A NATUREZA HUMANIZADA.

Um numero cada vez maior de pessoas procura hoje um contato mais freqüente e estreito com a natureza. Criar plantas, falar delas, decorar apartamentos e casas com folhas e flores são costumes novos, desenvolvidos na segunda metade do século. Os exageros comuns a todo ímpeto novo estão aí para nossa constatação: o isolamento e uma proclamada fascinação pela vida selvagem não passam de ilusões típicas de determinados temperamentos. Aos poucos, consolida-se a verdadeira vocação do homem, até a pouco embevecido com as delicias da vida urbana. Queremos de fato criar nosso próprio ambiente humano, civilizado, em meio à natureza. Com isso, renunciamos à solidão e rompemos definitivamente com os sonhos sobre a vida selvagem. Em Moutain Gloom and Mountain Glory (Univ. de Cornell, 1960), Marlorie Nicolson empreende alguns estudos sobre mudanças de opinião do homem comum sobre a natureza. No século XIX, as árvores e as montanhas eram obstáculos

maléficos, e a vida no desconforto dos campos e das brenhas era qualquer coisa humilhante para o homem. A admiração da natureza selvagem foi exclusividade de alguns poetas e filósofos que nunca deixaram por muito tempo seus confortáveis gabinetes de trabalho. Uma reação aos requintes artificiais das cortes européias lançou esses teóricos nos braços da natureza. A incidência de epidemias nos centros urbanos de há alguns séculos, onde nada se sabia de higiene e arejamento, levou muita gente a acreditar que as árvores e os regatos eram benfazejos, o que é real até certo ponto. Uma soma de coincidências e superstições ajudou a formar uma idéia romântica sobre um vago retorno à natureza. A imprecisão geral sustentou o mito por muito tempo. As grandes florestas que desapareceram em toda parte, nos últimos cinco séculos, testemunham o desprezo antigo do homem pelas árvores e pelos acidentes geográficos que se interpunham em seu caminho. As plantas cultivadas sempre mereceram mais atenção que a natureza selvagem, e elas precisam de sol para crescer. A agricultura abriu grandes clareiras por toda parte, desde a Idade do Bronze. Na América dos primeiros tempos, os pioneiros viam nas árvores não somente um obstáculo ao plantio de seus alimentos, como um emaranhado onde os índios se escondiam para atacá-los. O contato com a natureza bruta é uma experiência que a maioria dos homens faz, quando faz, uma única vez na vida. A nostalgia que isso pode deixar vai alimentar a experiência de outros, mas não chega a encorajar uma repetição do próprio.

Thoreau, Worddwoth, Daniel Boone, John Muir e outros defenderam um contato com a natureza capaz de regenerar o homem, mas não propuseram nunca a solidão absoluta, nem a participação humana num ambiente realmente selvagem. Esses exageros doentios são antinaturais. A natureza humanizada é precisamente aquilo que o homem sempre procurou – não o que o atraiu sob certas influencias, ou em determinados modismos. A natureza humanizada é o próprio homem, afinal. E os japoneses sabem disso há muitos séculos, com seus jardins harmoniosos como não existe em outro lugar do mundo, com seus arranjos florais, com suas artes enriquecidas de experiência e beleza pela tradição Zen. A preservação da natureza é, no seu verdadeiro sentido, a manutenção de sua essência – o que inclui beleza espontaneidade, respeito aos seus ritmos e processos -, e não seu isolamento e posterior abandono. Preservar é ajudar, também, sem a hipocrisia dos que modificam com o pretexto de auxílio. O mundo vegetal não é uma cultura social, que se altera inevitavelmente em contato com a civilização humana, como ocorre com os índios. O verde pode ser humanizado sem ser afetado. Essa é, de fato, a única maneira de não destruí-lo. Os bosques bem cuidados são basicamente naturais, as sebes bem tratadas ganham em beleza e não perdem em espontaneidade. A solidão dos eremitas, muito associada aos ermos vegetais, é experiência ocasional na vida do ser humano comum. O contato com a natureza, entretanto, é parte da vida ideal do homem, aquela que tudo indica foi perdida

juntamente com o instinto e a intuição, na imprecisa, mas provável queda de que falam as mitologias e os relatos tradicionais. Outros mitos, como o isolamento completo, são meras caricaturas de um ascetismo inútil e precisam de proximidade para se revelar como são. A vida selvagem como cura do espírito, as dietas brutas do crudoverdurismo, a talassoterapia, tudo contém sua dose de verdade e sua quota de fantasia, e só um conhecimento de suas características – bem como das nossas motivações – pode revelar sua autenticidade. "Isso que eu chamo de Deus" - como dizia Robert Browning – "e que os tolos preferem chamar de natureza", inclui sem duvida o homem, e a obra-prima de tudo mais, seu espírito. A separação homo e natura é arbitrária, mas compreensível. A mente que designa as coisas vê o mundo constantemente separado em realidade objetiva e sujeito. Esse dualismo está presente no nosso dia-a-dia, e só inexiste quando estamos completamente atentos. Apesar de parte inseparável da natureza, o homem vê-se como peça isolada, nascendo aí seu relacionamento deformado com esse todo que na verdade o inclui, quer queira, quer não. Eis porque a compreensão do fenômeno natureza, e da relação entre ela e o homem, tem de voltar sempre a essa questão que, à primeira vista, parece tão distante: o homem e o conhecimento que tem de si mesmo. Enquanto isso não começa, o mais que podemos fazer é seguir o modismo ecológico e criar plantas em casa, quanto mais melhor.

O SENTIDO DO PERDÃO.

Madame de Staël teria chegado apenas à metade do caminho quando disse que "compreender tudo é perdoar tudo". Os fatos são iluminados de um modo diferente quando são compreendidos em sua realidade, sem as meias-tintas de meras impressões, desejos e expectativas. Se a compreensão é completa, no entanto, não há nada a perder, simplesmente porque nos situamos diante de um fato, constatando-º Seria possivelmente mais verdadeiro dizer que "compreender é transfigurar tudo". Em face dessa transfiguração que leva à percepção das coisas como elas se apresentam, não há nada a fazer, não há qualquer ação que deva ser empreendida, seja meditada ou instintiva. O que foi transfigurado pela observação pura e direta é simples e sempre muito expressivo. Como há uma distância muito grande entre a formulação verbal de alguma coisa e a coisa em si, somente a experiência imediata dessa observação pode dar a medida de sua intensidade. O problema é que as

pessoas estão voltadas para projeções que fazem do mundo, não para o mundo, e isso arreda a questão para um canto da mente onde ficam arquivados os elementos que "vamos examinar um dia", isto é, provavelmente nunca. O que mantemos no primeiro plano é essa mistura de ficção e realidade que chamamos de vida. Imaginamos um roteiro e uma imagem para nossa existência: somos personagens, temos uma história, nossa vida tem um sentido qualquer coerente que acreditamos conhecer, embora nebulosamente. Essas são apenas projeções do mundo, e de nossa atuação nele. Como não abrimos mão dessas ficções lentamente criadas e forçadas ao longo do tempo, vemos apenas o que confirma o que nos convém, deixando de perceber – isso é literal – o que não corrobora as estruturas criadas ou que conflita com elas. Não leva a lugar nenhum saber que Heráclito discutiu o assunto, ou que os haicais de Bashô cogitam desse mesmo tema. A erudição pode ser agradável quando não é ostentada, e produz muito prazer interior, mas através de referências comparações e citações não chegamos ao ponto em que estávamos pouco antes. Ninguém ensina ninguém a observar as coisas: isso é simples demais para caber numa fórmula, ou para ser contido num método. A descoberta de que "compreender tudo é perdoar tudo" não passa de meia verdade é um teste importante de observação. Quem acredita em perdão parece, de fato, perdido em formulas exclusivamente discursivas ou intelectuais. O mecanismo de perdoar inclui esforço para esquecer, abarca uma decisão de

deixar passar, engloba uma forma de tolerância que deixa entrever uma divisão. Alguma coisa por dentro não aceita, mas a parte predominante admite e tolera, isto é, perdoa. Se a compreensão é para valer, se é penetrante e livre de verdade, não há nada para perdoar, nem existe mais a atitude de quem perdoa, de quem concede. É claro que um pensamento acostumado a trabalhar somente com palavras não estabelece diferenças nesse campo. A idéia de perdão pode apresentar-se como coisa concreta e única: a decisão de esquecer uma afronta, de desligar-se de um sofrimento infligido por alguém. Não há exagero em dizer que quando existe perdão não houve compreensão completa. Seria superficial concluir que o ressentimento é mantido, então. Na realidade, o que acontece é aquilo que pode ser chamado de "transfiguração do fato". Na compreensão perfeita de qualquer realidade resta apenas a realidade tal como ela é, e qualquer ação em face dela é supérflua. Isso nem sempre é fácil de ser entendido, quando passamos uma vida inteira repetindo fórmulas e deixando que idéias prontas – verdadeiros padrões – atuem sobre nosso espírito. Reagimos em função dessas pílulas que ingerimos constantemente. Madame de Staël, se é que a frase é mesmo dela, percebeu apenas uma metade da questão, a de que a compreensão altera tudo. Quando acrescentou que o perdão resulta de compreender, usou uma idéia padronizada, um lugar-comum do pensamento coletivo. Essas "noções comprimidas" abastecem e informam milhões de existências,

orientam os dirigentes e os estadistas, motivam os movimentos políticos e religiosos, justificam a violência e dão asas aos lugares-comuns e às superstições. A meia percepção à maneira de Staël é moeda corrente em nossa vida, e isso podemos ver a cada instante, principalmente em nós mesmos – o que nem sempre é agradável. E essa é outra questão relacionada com esse conhecimento desagradável é apenas a idéia de olhar nossas ações, nosso íntimo, nossa verdade refletida nos outros. Olhar, em si, não é bom nem mau. É tão neutro quanto toda compreensão verdadeira. Mas o que prevalece é a idéia, a imagem do que seria o entendimento, coisa muito diferente do entendimento. Não é complicado ver que o perdão tem dois tempos. Reagimos mal a determinado fato que nos atingiu e resolvemos esquecer, deixar de lado, não atuar mais em função daquele fato. A divisão e o esforço são evidentes. A compreensão "esvazia" o ego, aquele centro que reage culturalmente o tempo todo porque foi programado para isso desde a mais tenra infância, e trouxe consigo do berço uma tendência inata para reagir assim. Assim, o perdão é uma concessão, e supõe sempre um espírito dividido entre duas tendências, do que se deduz que não houve compreensão prévia do problema, pelo menos compreensão perfeita. E o que é feito de maneira incompleta deixa resíduos que crescem depressa e cobram seus direitos quando menos se espera. Mas Madame de Staël entrou um pouco por acaso na História, como Pilatos do Credo.

ENERGIA, ENERGIAS.

No folclore, na história das religiões, na arte antiga, na preocupação de alguns pensadores e em todo o material utilizável pela antropologia, repetem-se referências a um fenômeno que, para estabelecer uma premissa, podemos chamar de energia. Não se trata naturalmente da energia que o homem contemporâneo conhece com familiaridade, a que resulta da eletricidade, dos combustíveis fósseis e da fissão nuclear. Aquelas alusões antigas, quase sempre nebulosas, dizem respeito a um outro gênero de coisas, algo que está presente em nosso dia-a-dia e que, de tão entranhado em nós, escapa à observação comum. O nome que alguns dão a isso – prana, élan vital, energia nervosa, inspiração – não esclarece muito e serve para distrair. O cientista, matemático e lingüista inglês John G.Bennet, em seu livro Energies (Coombe Spring Press, Londres 1964), estuda com minúcia esse curioso metabolismo que a ciência oficial deixa de explicar, embora

não ignore como fato. As transformações interiores, a realidade e sua constatação, bem como o amor, são algumas questões relacionadas com o assunto que Bennet disseca com as dificuldades comuns a toda incursão em terreno ainda não controlado pela cultura acadêmica. Bhagwan Shree Rrajneesh, em A Semente de Mostarda (Tao editora, 1980), ocupa-se do tema a seu modo, numa linguagem simples e às vezes francamente brincalhona, entrecortada de exemplos e anedotas, à maneira de Chuang- Tsé. Referindo-se à energia, Rajneesh fala no "fogo", como os sufis muçulmano s e os cabalistas, alguma coisa a partir da qual a vida existe, que flui e se exaure sem causa aparente. As religiões prescrevem sobriedade tendo em vista os níveis de energia. A abstinência sexual, o silêncio, a omissão consentida são como que técnicas para acumular esse prana. Quem conserva um suave metabolismo, sem grandes gastos ou aquisições, "utiliza apenas as camadas superficiais de si mesmo". Com a pressão e o conflito – impulso para agir num sentido e omissão do respectivo movimento nessa direção – a camada superficial do espírito se esgota e a "segunda camada entra em funcionamento". Rajneesh fala em Geoges Gurdjieff, o russo que morou em Paris durante muitos anos e que criou uma terapia e uma forma de meditação em torno do metabolismo da energia interior. Em A Semente da Mostarda, Rajneesh mostra de que modo a vigília, a ausência deliberada de sono, pode induzir estados de grande acumulação de energia psíquica. O conflito, ou fricção, leva a uma forma de unidade que se manifesta pela

lucidez tranqüila. Lembra, no entanto, que isso pode ser usado erradamente, de forma bastante perigosa. O próprio Gurjieff criou uma situação em que ficou à beira da morte, tendo recusado sedativos para permanecer lúcido todo o tempo. Mas Rajneesh lembra que esses são casos excepcionais, e o que importa é compreender que o conflito, a crise, é a encruzilhada que, na vida de cada homem, pode levá-lo a um encontro consigo mesmo. Por outro lado, é preciso seguir o próprio caminho sem aparentar seu não-condicionamento, sua não- identificação com a cultura, com o mundo. "É preciso estar livre, não mais relacionado, com os valores que constituem a vida como a conhecemos, mas é preciso continuar preenchendo as formalidades. Se você der algum sinal de que está desenraizado, tentarão mudá-lo. Não lhes dê nenhuma oportunidade: deixe que isso seja uma jornada interior. Se você se mantiver exteriormente formal, eles ficarão satisfeitos, porque vivem de formalidades, vivem apenas do lado de fora. Para eles, a representação é suficiente". Rajneesh não é sempre claro, mas nesse tipo de abordagem as dificuldades são muito grandes: as palavras não foram feitas para esse gênero de comunicação, nossos ouvidos conhecem alguns códigos, não todos, e finalmente só entendemos o que, de algum modo, já conhecemos previamente. A questão da energia conhece obstáculos evidentes na sua comunicação. Há uma dúzia de palavras envolvidas no caso, cada uma delas com diferentes significados. Além disso, recusamos compreender aquilo que é novo e sem função claramente indicada. Falar em energia

psíquica impõe limitações, porque há versões, definições e correntes que classificam e explicam a expressão. Com qualquer outra designação acontece coisa semelhante, nessa área. É preciso descobrir por conta própria, sem comparações com os dados fornecidos pelo conhecimento acadêmico, nominalista e metódico – necessário em outras circunstâncias, inibidor aqui. Respirar, comer, repousar, prestar atenção, amar são fontes de energia. No conflito, mabaratamos essa força. O que Rajneesh propõe – e milhares antes dele, no folclore, nas religiões e na arte – é a acumulação de energia dentro do homem visando uma transformação interior. A abstinência, a não-reação, o silêncio seriam formas ocasionais de chegar lá, não recomendações de fundo moral ou regras para uso permanente na vida. De acordo com o Taoismo, a percepção da realidade – quando não há desperdício do murmúrio interior, da futilidade, do esforço para compreender, etc. – carrega nossas baterias no cotidiano mais humilde. Há uma analogia entre a crise mundial do petróleo e o dispêndio das reservas naturais de energia pelos indivíduos. A cada homem cabe a tarefa de descobrir se isso existe de fato, o que só pode ocorrer no plano individual, nunca no coletivo, livresco, erudito ou discursivo. Essa descoberta seria apenas o primeiro passo. O resto virá com a vida, com respirar, prestar atenção, repousar e amar.

A NOVA IDOLATRIA.

A correspondência de Thomas Arnold, autor de Preching

é rica em observações profundas a respeito das

pequenas coisas imensas que povoam o cotidiano de todos os homens, e que somente alguns são capazes de destacar. Numa carta que escreveu a seu futuro biógrafo A.Scofield, fala na tendência humana para a veneração da banalidade. "O fanatismo é idolatria, e ele contem o malefício moral da idolatria, isto é, um fanático cultua algo que é a criação do seu próprio desejo. Até sua abnegação é abnegada apenas na aparência, pois de fato ele está fazendo com que parte de sua mente que menos valoriza ofereça sacrifícios àquela que mais valoriza. A falta moral – diz Arnold – é a idolatria, a utilização de alguma idéia que elegemos como importante, em lugar privilegiado que acaba aumentando sua importância em nosso

a mente estreita tende para a maldade porque não

estende sua vigilância a cada parte de nossa natureza moral, e

espírito (

of Islan,

)

a negligencia fomenta a maldade nas partes assim negligenciadas". Nos campos da religião, da política, e mesmo nas pequenas opções do cotidiano, o homem faz pequenas escolhas iniciais baseado em simples capricho ou em alguma idéia fugaz. A partir daí, ou existe uma confirmação constante daquela semente, até que ela se transforme em árvore e domine o semeador, ou há uma rejeição progressiva e ela não chega a germinar de todo. O segundo aspecto é irrelevante, mas o primeiro tem muita importância enquanto explica a atração que o fanatismo e o totalitarismo exercem sobre alguns espíritos. A escolha inicial quase nunca é percebida, dada a insignificância da semente, mas em estágios mais avançados é relativamente fácil perceber o desenvolvimento de uma crença, de uma conclusão, de uma ideologia, sempre no rumo da confirmação e do reforço. O impulso nessa direção depende das carências pessoais do autor, e do fato dele fazer disso uma "razão de ser". Thomas Arnold compreendeu que todo fanatismo é a adoração de um conceito, e é também o desejo de que esse conceito seja verdadeiro e absoluto. Essa torcida tem um desempenho importantíssimo no crescimento da idéia central que domina o fanático, o sectário, o engajado. Há uma aspiração geral, no homem, no sentido de que exista um significado para a vida, para a morte, para o mundo.Essa sede pode acabar numa avidez que não ajuda muito o discernimento e rouba a necessária tranqüilidade. O mal da

idolatria – da certeza apaixonada numa fórmula qualquer, seja religiosa ou política – está no fato dela fortalecer no espírito uma ilusão mais ou menos evidente. A questão não é difícil:

acreditamos naquilo que queremos. O mais superficial egoísmo, o impulso animal mais elementar conduzem a uma escolha pequena, aparentemente secundária, momentânea. Tudo mais que vemos, ouvimos, lemos, sonhamos, confirma aquela tese, aquele germe, aquela cepa. Seu crescimento acontece porque precisamos daquilo como referência, ponto de apoio, inspiração e escudo. A vigilância de que fala Arnold é a única maneira de evitar a infiltração de reforços que transformam pequenas idéias em gigantescas certezas. Essas convicções bem estruturadas impedem a percepção de qualquer coisa que contrarie seu sentido e seu significado geral. Uma forma de cegueira – primeiro sutil, depois grosseira – toma o lugar do percebimento, da capacidade de julgar, da lucidez, enfim. A partir de certo ponto, a mente foi engolida pelo monstro e já não se movimenta a não ser que isso interesse à causa. Essa rigidez autoriza todas as vilanias, da inquisição às farsas judiciárias do stalinismo, das cartas anônimas à intriga sistemática. A esclerose do espírito começa acidentalmente, numa pequenina escolha sem importância. As pressões culturais, da época, são às vezes decisivas no desenvolvimento dessa doença moral. O desejo generalizado de estr integrado em seu tempo – no fundo a vontade de ser aceito – faz com que se busque uma adesão aos valores vigentes. Arnold conclui adiante que não é preciso dar nomes a essas coisas

para compreendê-las. Podemos acrescentar que sem designações pomposas elas até são mais compreensíveis. Causa alguma admiração que o século XX, do racionalismo e da tecnologia, seja marcadamente idólatra. Claro que a idolatria predominante hoje é mais sofisticada que a de tempos distantes, mas na essência o fenômeno é o mesmo e seu crescimento idêntico ao do passado. O homem persegue a certeza e quer dar continuidade ao que nele é efêmero. Isso exige manobras complexas, escolhas rápidas e espertas. Nossas opções são inspiradas nesses anseios secretos, e a confirmação do que colhemos nessas escolhas é ratificada também avidamente. A mente do homem comum – nós todos, afinal – procura constantemente segurança, com a pressa dos que não têm certeza e a ilusão de quem acredita que, na falta de qualidade, tudo se resolve com a quantidade. Somos acumuladores por natureza – isto é, essa nossa mente ordinária é assim. Há alguma coisa mais no homem que não é somente isso. Essa parte faz a critica da idolatria, quando não foi silenciada pelo fanatismo ou esmagada pela presença opressora de uma "verdade definitiva" de fundo religioso ou ideológico. Se não fosse por ela, não haveria a presença saneadora da dúvida, nem a humildade que permite desconfiar da nossa lucidez e propõe o ato de contrição, o exame de consciência e a autocrítica.

O FERMENTO QUE FALTA.

A certa altura da vida, Isaac Newton abandonou por dois anos tudo o que estava fazendo e isolou-se numa fazenda de Lincolnshire, para se esconder da grande peste que devastava a Europa. Naquele período, por alguma razão nunca devidamente explicada, produziu mais que mil homens durante três séculos, nos diferentes campos da química, da ótica, da matemática, da astronomia. Além de inventar dispositivos engenhosos, concebeu e desenvolveu a famosa Lei da Gravitação Universal. O isolamento prolongado e o corte em todas as atividades rotineiras, que desenvolvia até ali, produziram alguma coisa extraordinária em seu espírito. Newton desatrelou sua criatividade numa direção, a da ciência dos elementos exteriores, onde o domínio do homem se exerce de maneira absoluta. Outros, em isolamento semelhante, mergulham em outras direções igualmente profundas.

O domínio sobre esses elementos exteriores tornou-se

incalculável neste final do século XX. O domínio do homem sobre si mesmo, no entanto – tomando domínio como conhecimento – é restrito e limitado. Toda vaidade com o progresso material apóia-se num milagre que aconteceu unilateralmente. Todo desenvolvimento foi feito com total assimetria, crescendo numa direção e permanecendo raquítico de outro lado – precisamente o lado decisivo da questão, porque referente ao conhecedor. O pensamento moderno tornou-se, então, basicamente nominalista, de que resultou o imanentismo que faz todo conhecimento terminar na sensação ou na idéia. Essa "exteriorização” da mente e dos interesses humanos conferiu uma feição muito característica à chamada modernidade – essa excitação toda por nada, um injustificado amor pelo barulho e pelas formas dramatizadas de expressão.

Coisas como o silêncio, a solidão (não como situação efetiva), a sobriedade, tornaram-se depressa símbolos de fraqueza e inexpressividade.

O isolamento sistemático pode ter raízes na patologia,

pode resultar de um impulso para fugir. Mas a capacidade de isolar-se temporariamente é parte da "normalidade", e um retiro periódico torna-se necessário a algumas naturezas. No seu livro Diário da Ásia, Thomas Merton narra seu diálogo com o Dalai Lama, na Tailândia, em que o religioso tibetano recomenda um isolamento anual para todo homem, como condição de equilíbrio emocional e fator de reencontro do ser humano consigo mesmo. Merton concorda sobre a necessidade de uma ruptura periódica com a rotina e o ruído, anotando em

seu diário: "O ideal seria, para o religioso, dividir o ano em dois períodos, um deles dedicado à" exteriorização ". Ao leigo, aquele que vive no mundo e ganha seu sustento em tarefas executadas no dia-a-dia, duas semanas ao longo do ano, criteriosamente espaçadas, seriam suficientes". Há um enriquecimento característico dos grandes períodos de silêncio e solidão. Thoreau, às margens do Walden, acumulava energias que iria gastar pelo resto da vida. Dostoievski, no exílio siberiano, deixou de lado "Velho Adão" por alguns dias, e de certo modo escreveu sobre isso em todas as obras posteriores. Soljenitsin fala na mesma coisa em Um Dia na Vida de Ivã Denisovitch: a insignificância do homem na vastidão do Gulag é uma lição que só não penetra os espíritos mais fechados. Fernando Pessoa escreveu o "Something in me was born before the stars", depois de uma semana num ermo povoado. Maomé trouxe sua mensagem do silêncio do deserto. Os eremitas e contemplativos de todas as épocas conheceram as virtudes de um particular vazio facilitado no isolamento. Ao que vive mergulhado na cultura, tudo isso parece um pouco fantástico, ou lembra vagamente o discurso psicopatológico. É natural que seja assim, ou o mundo não seria o que é. O que Newton conheceu em Lincolnshire foi uma concentração de energia – a energia de um tipo muito particular – produzida pela mudança de ambiente e pelo isolamento temporário. Se sua mente escolheu a via nominalista para se expressar, isso não invalida o fenômeno. As ciências positivas foram beneficiadas com esse rumo, resultado provável de um condicionamento do formulador da

Lei da Gravitação Universal. A inspiração da maçã e sua analogia com o sistema planetário são o lado anedótico do caso. O importante é essa acumulação de força, que não é apenas física, nervosa ou psíquica, e que embora não designada com um nome respeitável qualquer, simplesmente existe. Os Vedas falavam no Prana há quatro mil anos, e a ioga moderna fez uma mistura que perturbou um pouco os fatos, mas não obscureceu totalmente o fenômeno. Pode ser que a respiração adequada acumule essa energia, mas a grande via de aquisição dessa coisa não definida foi sempre, dentro da melhor tradição esotérica, a atenção. A idéia parece no mínimo exótica, à primeira vista. As palavras que designam essas experiências estão há muito desgastadas, como se sabe, em virtude da tremenda exploração místico-orientalista das últimas décadas. Os horóscopos, as profecias de almanaque, os truques que aspiram a um status de paranormalidade, tudo contribui para uma imensa desatenção em face de grandes realidades que se escondem nas pequenas coisas com as quais já nos acostumamos. Não temos senão um ligeiro e fugaz percebimento do mundo em que vivemos, das coisas que nos envolvem e do nosso comportamento na vida. Não estamos jamais acordados para o que estamos fazendo agora. Um pouco de isolamento pode ser fermento que falta a uma potencialidade que não se manifesta nunca porque, com mil diferentes pretextos, estamos ocupados demais e temos horror de ficar sozinhos por algum tempo.

EROS MISTIFICADO.

Juizes e curadores de menores começam a tomar medidas, em algumas cidades do País, contra revistas e filmes ditos eróticos vendidas e apresentados livremente em toda parte e a todo gênero de consumidores. Editores e interessados na comercialização desse material dizem que sua finalidade é artística, que essas medidas são um retorno ao arbítrio e à censura, que o mercado exerce uma seleção natural que acaba expulsando o mau gosto, etc. Nada é mais surpreendente no caso do que o fato dessa iniciativa da autoridade haver tardado tanto. A exploração da sexualidade, a mercantilização do erotismo é um problema mundial sem dúvida, mas no Brasil a impunidade nesse terreno chegou a um ponto difícil de suportar. Em nome do "Direito de Informar" - parte da imensa onda de desinformação que varre o mundo das idéias – o que se produz e impinge indiscriminadamente é uma sórdida contrafação da beleza contida na sensualidade. Os efeitos dessa irresponsabilidade são maiores, e sem dúvida diferentes, do que imaginam seus autores e talvez as próprias autoridades que até agora fecharam os olhos para o problema.

O medo de parecer puritano, conservador, antiquado, fechou muita boca que tinha o dever de manifestar-se claramente contra a onda de chulice que invadiu telas e publicações – a começar pelas autoridades, pelos educadores e pessoas maduras encarregadas da formação de jovens. É pena que essas medidas necessárias não venham acompanhadas de esclarecimentos, debates e informações a respeito de um tema sobre o qual muitos, infelizmente muitos, ignoram tudo. Os preconceitos, as noções deturpadas e uma obediência quase cega aos modismos contribuem para que nada se faça no sentido de esclarecer aspectos dessa questão. Algumas perguntas saltam à frente das outras, na discussão do problema. Faz sentido esconder as muitas faces da sexualidade? Deve-se tratar de tudo o que envolve o assunto, nos veículos de comunicação, do jornal à TV, passando pelo cinema? A seleção do material a ser divulgado deve ser feita por faixa etária? A apreensão de publicações não é um precedente perigoso num país e numa época em que é vontade geral a garantia do direito de expressão? Ainda uma vez somos convidados a pensar por nós mesmos, pondo de lado, pelo menos inicialmente, a experiência de outros países, a opinião dos especialistas e técnicos, bem como a terminologia das escolas psicológicas, comportamentais e sociológicas que trouxeram muita luz a esse século, mas que podem afogar-nos, na descoberta simples das coisas complexas. Não há nada a esconder sobre a sexualidade, mas há mais de um modo de apresentá-la, inclusive modos deformantes que vão condicionar

comportamentos e mentir sobre a realidade. Não há enfoque mais falso da sexualidade que o cínico, o machista, o que associa prazer com o domínio e a superioridade. A responsabilidade imensa dos veículos de comunicação é posta à prova pela maneira como essa questão é apresentada, com o respeito e a seriedade que não excluem a descontração e a espontaneidade. Uma publicação que apregoa uma "nova liberdade" para justificar a venda de uma sexualidade sombria e patológica está mistificando conscientemente e precisa ser contida. A seleção de material para divulgação, levando em conta as faixas de idade, é solução discutível e de resultados precários, uma vez que interessa de fato a maturidade do leitor, ou espectador, não sua idade cronológica. Os que produzem os filmes e revistas pornográficos – ostenta-os disfarçadamente – são fatalmente ignorantes e supersticiosos em matéria de sexo, e por isso são muito mais nocivos. Não há, portanto, consumidores a selecionar porque não há o que escolher. Os filmes nacionais de linha pornô, financiados ou não pela Embrafilme, atentam contra a inteligência antes de atentar contra a moral, sendo todos, sem exceção nenhuma, de uma indigência intelectual de fazer pena. Sob certo ângulo isso é benéfico, na medida em que afasta os espectadores de nível mais alto. O fato, porém, não chega a ser consolador quando lembramos das grandes multidões que, sem maior capacidade crítica, assistem a esses espetáculos grotescos.

A denominada literatura erótica, que de fato não é erótica nem literatura, é o aviltamento e a humilhação da mulher. Apesar disso, é grande o número de mulheres que aceita sem protesto a existência desse comércio. Textos e filmes pornográficos estão afirmando, na realidade, que as mulheres ali representadas são a mulher – ou pelo menos é o que fica constatado entre os consumidores de todo esse lixo. Um outro aspecto revoltante do caso é a hipocrisia dos editores e diretores desse material, interessados exclusivamente nos seus ganhos e indiferentes aos prejuízos sociais e pessoais do trabalho sórdido que produzem. Essa hipocrisia é gritante quando querem provar que existe arte no que fazem, quando alegam que em países cultos tudo isso é permitido, quando afirmam que os textos que acompanham os nus tem valor literário ou jornalístico. Mas o pior mesmo é quando alegam que a liberdade de imprensa e de informação pode ser atingida com as medidas que juízes e curadores de menores começaram a tomar nos últimos dias nas principais cidades do País. O que acontece é precisamente o oposto: a liberdade só tem a ganhar com a separação nítida entre beleza e sujeira, sexualidade e parasitismo.

ENTENDER, SIMPLESMENTE.

Soa como extravagância em nossa cultura a afirmação de que o ato de compreender não exige qualquer espécie de esforço ou tensão, bem como a de que o estudo se opõe a todo tipo de resistência e rigidez. A idéia aparentemente nova encerra um conhecimento antigo e pode ser comprovada nas atividades comuns que exigem percebimento. É tudo simples demais, e talvez por isso haja ocorrido a alguém explicações discursivas, merecedoras de respeito e temor reverencial. Só acreditamos nas grandes verdades quando elas se revestem de complicada verbalização, ou de elaborada urdidura intelectual. Reagimos à simplicidade com suspeição, tal como tendemos a avaliar uma pessoa por seus títulos e seus trajes. Aprendemos a associar conhecimento com esforço para descobrir, penetrar, definir. Há bibliotecas inteiras afirmando a necessidade de impor uma disciplina para estudar, conhecer, abordar. Isso é tão enraizado no homem culto moderno que qualquer exame da questão começa com a exclusão ad limine de toda concepção diferente. A percepção imediata é sempre eivada de suspeição, acusada de superficial, impressionista e improvisada. Um exame profundo terá de pedir concentração,

gasto de energia nervosa, força de vontade, propósitos de continuidade. Esse mito afastou os estudantes ocidentais do estudo no último milênio. Esse equivoco inibiu um número incalculável de pesquisas e desviou das coisas da inteligência um contingente imenso de homens sensíveis, mas avessos à sistematização. Os diplomas obtidos com suor e lágrimas atraíram para o estudo principalmente os pertinazes, os que aceitam desafios penosos para provar que são capazes de vencê-los. Usando a biotipologia de Sheldon, podemos dizer que a erudição caiu nas mãos dos somatotônicos, fazendo desanimar os viscerotônicos e inibindo os cerebrotônicos. Os "homens práticos", ou os que têm predominâncias desse tipo, são realizadores que vencem obstáculos para atingir os fins que se determinaram, pouco importando as afinidades ou antipatias que esses obstáculos despertam neles. Os "homens-afetividade", embora comunicadores por excelência, sentem-se quase sempre impedidos fisicamente de conviver com um programa rigoroso que seja apenas um meio para atingir determinada meta. O "homem-abstração", o intelectual biotipológico, deixa-se perder em meio a um esforço que conduz a um fim, atraído, por detalhes ou novos interesses. Por tudo isso, a organização tradicional do saber é uma estrada livre para as naturezas realizadoras e determinadas, e uma trilha áspera e espinhosa para os outros tipos humanos, inclusive aqueles que por inclinação natural seriam candidatos a uma forma mais profunda de conhecimento.

Essas circunstâncias são determinadas pela convicção generalizada de que a percepção resulta de esforço, sendo um empreendimento que se põe em marcha e atinge seus objetivos graças à determinação e à concentração da vontade em algumas tarefas previamente ordenadas. Esse conceito não é mais ocidental, mas pertence ao mundo. Na China antiga, os taxistas opunham-se diretamente a essas concepções e Chuang-Tsé dizia mesmo que o "verdadeiro estudante não lê nos livros, nem se senta na classe entre paredes, diante do mestre", mas simplesmente aprende a todo instante, "olhando como se deve olhar, ouvindo como se deve ouvir". Para os educadores práticos do nosso tempo, que tem em vista um currículo determinado para atingir uma soma precisa de conhecimentos, isso tudo é muito engraçado. De fato, não há muito que discutir a respeito. As concepções divergem no que respeita não apenas ao estudo, mas a vida, mundo e tudo mais. Há um recato natural que aconselha o silêncio, quando nada para poupar energias. Tem importância muito grande, no entanto, pensar sobre essa questão que está na raiz do processo do conhecimento. Quando abordamos alguma coisa nova, estamos na iminência de conhecê-la. O que é que o esforço pode fazer no caso? Que pode a disciplina, quando se trata de entender o fato? De que maneira a persistência trabalha no sentido de induzir a percepção de fenômenos que não se reduzem a dados puramente mecânicos e isolados? Por que não esquecer, ainda que por instantes, o que dizem os tratados de pedagogia a propósito? Se alguma informação for passada sem ser

criativamente "redescoberta" - como se tivesse começado a existir no momento em que é esboçada – tudo será como uma fita gravada, sem nenhuma originalidade. Para apareça o homem, é preciso morrer o robô condicionado, o que não é nada demais porque o mundo já tem computadores muito competentes. Assim, soa como extravagância em nossa cultura a afirmação de que o ato de aprender não exige esforço nenhum. Os professores, que não se ocupam em demasia com as correntes mais avançadas em educação, tem tido oportunidade de constatar isso pessoalmente, mas com certeza não sabem como enquadrar essa conclusão no aprendizado sistemático que receberam e estão transmitindo. Essa é uma daquelas coisas extraordinárias que não se encontram nos livros, nem são ensinadas nas escolas. Exceto, talvez por pessoas suficientemente livres para deixarem de lado tudo o que são e o que acumularam, para recomeçar do nada a cada dia, na descoberta estranhíssima de que, realmente, a vida recomeça a cada instante, quando estamos atentos, sem nenhuma tensão ou esforço.

A PERPLEXIDADE, UM BEM.

Considerado a mais alta expressão da poesia de seu tempo, o poeta religioso persa Jalal-Udin Rumi (1207-1273) considerava a razão um guia bastante precário nos labirintos da vida. Em seu ceticismo em relação às soluções do racionalismo, Rumi identificava a intuição e o percebimento imediato como "a divindade". Certa vez escreveu: "A razão é como um oficial quando o rei aparece: perde seu poder e se apaga completamente. A razão é a sombra lançada pela divindade, e a divindade é o sol". Nos enigmas sutis que propunha em seus escritos, o poeta não perdia tempo com futilidades, de modo que nem mesmo uma palavra sua era desperdiçada, nos poemas que produzia lentamente. Rumi fundou a ordem dos dervixes e no que fez e escreveu teve sempre em vista o transcendental – tão desconhecido em seu tempo quanto hoje. "Venda sua inteligência" - recomendava ele aos moços – "e compre perplexidade. A inteligência é apenas opinião, a perplexidade é intuição". O espanto diante das coisas, o "não saber" eram apontados como caminhos naturais da percepção para a realidade. A palavra perplexidade tem uma sintonia exata com o fenômeno da absorção do "fato sem acréscimos,

sem interpretações". O observador que está vazio, num sentido especial, está perplexo. Esse estado – segundo Rumi e tantos outros, situados diferentemente no tempo e no espaço – ideal para descobrir, se é que se quer descobrir. E para ele o homem deve estar descobrindo permanentemente, ou estará morto por dentro sem saber. Não há nada intelectualizado a explicar que valha a pena o sacrifício, acredita Ruma. Quando estamos preparados para ver e ouvir, basta um leve toque para vejamos e ouçamos. O poeta pode dar esse toque, ou não. Tudo depende da qualidade do poeta, do conceito que ele tem do papel da poesia. Kalal-Udin Rumi conta história nos seus versos. Imagina a mãe que amamenta o filho, e se pergunta se a criança alguma vez exige provas de que o leite é bom ou fica em dúvida sobre como tomá-lo. Assim acontece com o ser humano em suas especulações sobre Deus e o amor, que só ocorrem porque não O conhece e porque não sabe amar. O homem desnaturado – na acepção mais antiga da palavra – não sabe senão se interrogar sobre questões que não conhece, e a cujo respeito não pode obter respostas. As perguntas preenchem um vácuo que quer ser ocupado, e ao qual nem todas as respostas satisfazem. Tal como a criança simplesmente mama, num impulso sem pensamentos, o homem devia apenas viver, sem antepor idéias à ação, teorias à pratica, intelecto à sabedoria. Para isso era preciso que ele vendesse sua inteligência e comprasse perplexidade. A razão pode ser importante como um oficial aos olhos de camponeses, no dizer de Rumi. Mas quando o rei se aproxima,

quem antes parecia importante desaparece na penumbra. A razão apaga-se, com seu inseparável discurso, diante do conhecimento imanente – embora este tenha sua razão de ser, como os oficiais. O racionalismo exerce um papel talvez insubstituível no mundo. O que não deve é aspirar à exclusividade, à totalidade e à dominação. A matemática, a experimentação, a lógica propõe soluções e resolvem problemas de ordem prática no mundo em que inevitavelmente vivemos. Apesar de toda técnica e da maravilha das ciências positivas, continuamos tão ignorantes em relação às principais questões do Universo quanto o homem das cavernas. Essas questões dizem respeito a origem, sentido, fim de tudo isso que vemos e percebemos. Esse mesmo que vê e percebe – quem é? No tempo de Jalal-Udin Rumi essas dificuldades já eram muito antigas, e as perguntas que cortavam o ar eram as mesmas. A perplexidade, então, é ainda mais criativa que a certeza sólida, nominalista, produto inequívoco do pensamento dualista, matéria muito parecida com o produto do computador, manipulação da memória, mero registro físico de fatos e sensações. Essa mente é uma espécie de máquina especuladora, desprovida da verdadeira criatividade, obediente a dois ou três impulsos básicos, coisa que os chips fazem perfeitamente, sem precisar de alma. Os computadores não ficam perplexos, não se abrem ao novo, não ficam naquele estado de absorção de que somente o espírito – melhor seria grafar Espírito – é capaz em toda a natureza conhecida.

Dizia Rumi: "Quando precisamos ter certeza, e isso acontece sempre, de algum modo sentimos por que a razão se tornou tão importante no mundo. Todo conhecimento

organizado, com nome próprio e bem controlado, proporciona tranqüilidade a nós todos, que temos muito medo da incerteza.

A ciência aquece o nosso coração porque nos transmite a idéia

de que não estamos sozinhos, de que sabemos o que fazemos, E, no entanto, quando queremos saber o que é mais importante na vida, temos de abandonar tudo isso". Então o que precisaria ser feito não é a rejeição da ciência e da técnica, pura e simplesmente, em nome de um naturalismo

confuso que começa a passar de moda, mas sim a identificação do que está por trás do endeusamento da técnica

e do chamado "progresso". A tarefa é a desmistificação das

esperanças criadas em torno da ciência, segundo as quais a

felicidade humana vem por aí graças ao avanço da tecnologia.

A expectativa é infundada e perigosa, como já sabia e cansou

de dizer Lala-Udim Rumi, e dezenas de outros como ele.

O BOM NAVEGANTE.

No simbolismo da arte da Renascença, o destino às vezes é representado pelo vento soprando as velas de um barco, enquanto um homem à roda do leme determina a direção, o

quanto esta pode ser determinada naquelas condições. A imagem é lembrada por Paul Tillich em A Coragem de Ser (Paz

e Terra, 1977), para mostrar que o ser humano tenta realizar

todas as suas potencialidades e alguns homens descobrem, surpresos, que essas potencialidades são inexauríveis. A maioria deles, infelizmente – e isso Tillich não diz, na

passagem -, desperdiça, ou ignora essa riqueza, e passa pela vida como o homem de negócios preocupado, que não vê jamais a paisagem que percorre diariamente. Mas tillich recorda que todos somos um microcosmo, onde as forças existem em potencial, num resumo do Universo. A união do entusiasmo e da racionalidade tem produzido

o que de melhor foi criado pelo homem. Para Tillich, a grande

energia da Renascença foi reprimida pelo Protestantismo e pelo Racionalismo, idéias disciplinadoras que imaginaram uma pureza ideal e quiseram fazer o mundo caber dentro de padrões sonhados. O homem voltado para seu próprio íntimo pode encontrar forças que normalmente não poderia supor existissem nele. Esses valores não foram criados pela sua vontade, não foram fabricados sutilmente por sua imaginação,

não foram projetados do interior, ã maneira de consolo ou estímulo. O autoconhecimento não tem o caráter cumulativo das aquisições comuns, talvez porque exista apenas momento a momento, sem nada que acumular na memória. Quem caminha por essas trilhas costuma dizer que "nada fica" das experiências que compreendem a observação de si mesmo. Em outras palavras, não há nada parecido com isso que chamamos experiência, e que afinal serve para reforçar nossa identidade. Esse aspecto desencoraja os que desejam, no fundo acumular vivências para um reforço geral de sua própria individualidade – o que não é bom nem mau, mas simplesmente acontece. A percepção lúcida gera mais percepção, essa parece uma das regras imutáveis de todo esse fenômeno. Os estóicos tinham uma noção muito precisa disso. Hoje, no Ocidente, o tema foi completamente esquecido graças ã supervalorização de um pensamento que fortalece os núcleos individuais, dando vigor ao ego, separando o homem da realidade que ele observa e na qual vive. O dualismo é a principal característica das filosofias que predominaram a partir do século XVIII, mas evidentemente ele já existia na Grécia antiga e foi a partir dali que ele influenciou a cultura ocidental. No Oriente, tradições que pomos designar como místico-psicológicas sustentaram – minoritariamente, na maioria das vezes – uma visão monista do mundo. O Taoísmo e o Budismo Chang, na China, parecem- se nisso com o Budismo Zen no Japão. Através deles, o homem que observa o universo em que vive é parte integrante e inseparável desse universo, colocando-se a pergunta sobre se

a parte pode conhecer o todo de que se compõe, ou se seu condicionamento impede isso. A partir desse ponto, toda meditação, todo filosofar, é intrinsecamente monista nessas concepções e doutrinas. Como centenas de outros ocidentais antes e depois dele, Paul Tillich abre as portas do espírito a potencialidades ilimitadas. As fronteiras impostas pela razão, até certo ponto necessárias para controlar a fantasia e manter o contato com a realidade, tornam, -se impeditivas da criatividade quando ultrapassam seus limites naturais. Essa medida é fundamental, e seu não aferimento pode romper a cerca que separa a loucura da inspiração. Nietzsche, Strindberg e Van Gog conheceram esse perigo na própria carne. O filósofo alemão Karl Jaspers afirmava que o ser humano só toma consciência de si mesmo em "situações-limite", no fracasso da razão levada até sua linha de demarcação. Ali estão os caminhos da transcendência e nada semelhante existe no cotidiano em que impera a rotina e onde dominam os mecanismos de segurança psicológica que o homem cria para si mesmo a cada pensamento e em cada escolha. O homem tem a roda do lema nas mãos, e com o vento que sopra – quando sopra – pode fazer quase tudo em sua viagem pelos mares da vida. O bom navegante a vela é o que aproveita bem o vento. Tudo o que exige para chegar onde deseja é que haja algum sopro nas velas, sem o que não há viagem, não há rumo, não há vida. O que diferencia os indivíduos é sua fé nas possibilidades de navegar, havendo os que acreditam que alguma coisa pode ser feita ao leme, e

outros que descobriram que é quase ilimitada a liberdade humana para traçar seu próprio rumo. Esses possuem uma chama especial, uma forma de entusiasmo que leva para frente e, ao mesmo tempo, conserva a tranqüilidade e o discernimento. Porque o homem vai muito além da dicotomia sujeito- objeto, base do conhecimento científico, mas insuficiente para o equacionamento do mistério humano, a descoberta do espírito só pode ser empreendida pelo próprio espírito. O microcosmo que somos forma um único corpo com o macrocosmo que nos cerca: toda separação é aparente e resulta de uma insuficiência. A revelação da nossa própria potencialidade é a primeira grande descoberta que se faz, entre tantas que podemos fazer, quando podemos e queremos, nessa ordem. O vento que sopra nas velas do barco também não difere, em sua essência, do homem que se agarra à roda do leme e traça o rumo da própria vida.

BARULHO INTERIOR.

O homem das grandes cidades deste final de século perde, aos poucos, a capacidade de escutar depois de ter perdido, há muito mais tempo, a faculdade de ouvir. Este tempo, que Aldous Huxley chamava de "Idade do Ruído", inibe a percepção ocupando os sentidos humanos com a mais perturbadora das manifestações, a auditiva. O rádio, a televisão, o cassete, a campainha, o motor do carro, são perturbações variadas, algumas aprazíveis, outras simplesmente inevitáveis, todas absolutamente presentes na nossa vida com diferentes intensidades e ao mesmo tempo atrevimento. Esse concerto dissonante em que vivemos mergulhados é mais nocivo pelo que impede de ouvir, do que pelo muito que incomoda. Quando o barulho cessa, toma seu lugar o ruído interior que a cultura instalou há muitos séculos em nossas cabeças, situando o ego em lugar privilegiado e justificando todos os narcisismos. Esse alvoroço interno preenche todos os momentos e expulsa qualquer silêncio. Assim, não ouvimos mais porque o ruído destruiu nossa sensibilidade auditiva, e não escutamos porque somos superficiais e desatentos graças a um velho esquema que nos permite fugir da realidade. O horror contemporâneo ao silêncio é um tema a ser cuidadosamente desdobrado. Estabelecendo uma diferença entre ouvir e escutar, para efeito de compreensão, verificamos que o embrutecimento do ouvido físico, que escuta, decorre

indiretamente do enfraquecimento do ouvido psicológico, que ouve. No primeiro caso, somos vítimas do mundo que fizemos, e caminhamos para a surdez. No segundo, fomos vitimas da desatenção. Os três graus de silêncio de que falava Miguel de Molinos – o da boca, o da mente e o da vontade – são desconhecidos do homem contemporâneo. A conversa frívola é considerada terapêutica e conseqüentemente estimulada. Falar, não importa sobre que, é sempre bem vindo. Calar pode ser impolido, provinciano, grosseiro mesmo. Falamos sobre o tempo, sobre o futuro, sobre as outras pessoas. Quando ficamos sozinhos e permanecemos calados, o ruído interior começa seu trabalho, sua sucessão de imagens, lembranças, desejos, temores, projetos. Ouvimos palavras pensadas e ao adormecer já não sabemos se lembramos ou se sonhamos simplesmente. Esse sussurro contínuo não cessa nunca na maioria das pessoas. O silêncio, para elas, é uma experiência tão assustadora que sua natureza acabou providenciando um remédio para essa ameaça. O excesso de decibéis na cidade grande é apenas um subproduto da irracionalidade dos grandes aglomerados. Porque somos ruidosos, criamos a Babel onde tudo é grito, explosão e rangido. É ainda Huxley que, em A Filosofia Perene lembra que o alarido moderno "vai muito além dos tímpanos porque penetra na mente, enchendo-a de distrações, com fragmentos de informação irrelevante, música coribântica e sentimental, doses repetidas de dramas que não produzem catarse, mas apenas aumentam o apetite por lavagens

emocionais diárias e freqüentes" E finalmente há o ruído provocado pela publicidade que promete o sucesso de todos os homens – de cada um dos consumidores, individualmente – através do uso de um produto determinado. O maior problema não consiste no produto ser insuficiente para produzir as maravilhas que promete, mas no reforço de ilusões que muitos tem potencialmente, e que agora ganham uma força que não tinham antes. Mas é o ruído o adversário mais implacável da atenção no homem. Fomos condicionados a dirigir nossos sentidos no rumo de barulhos sugestivos, não identificados desde logo, estranhos. O ruído mais comum, em nossos dias é a palavra, essa reunião de símbolos que freqüentemente não tem correspondência na realidade. O pensador chinês taoísta Chuang-Tsé resumia a questão com simplicidade: "Um cão não é considerado um bom cão apenas porque late bem. Um homem não deve ser considerado um bom homem apenas porque é bem-falante". E São João da Cruz, esse observador do mundo que já estava de volta quando todos nós ainda estamos indo, lembrava a alguns religiosos que tudo o que vale a pena conhecer, realmente, deve ser aprendido "com o silêncio e com a atenção, em humildade e desprendimento".

A FALA FRÍVOLA.

Em carta a Santa Joana de Chantal, São Francisco de Sales alerta para as armadilhas escondidas no prazer de falar e discorrer, onde a vaidade de ficar em primeiro plano é acalentada e o desejo de fechar os ouvidos à sabedoria é satisfeito. "Minha cara madre", - escrevia o autor do Tratado do Amor de Deus – "observe os preceitos dos santos, que sempre advertiram que aqueles que buscam a verdade devem falar pouco de si e de seus assuntos". Mais adiante concluía o santo que as novidades de nosso pequeno mundo pessoal tem pouca importância para os outros, e alem disso "tudo o que respeita à vida e à morte acontece dentro de nós", sendo dispersão e enfraquecimento todo discurso a propósito de questões pessoais. Isso tudo soa hoje estranhamente, porque a realidade contida nessas preocupações foi distanciada dos nossos interesses por conceitos diametralmente opostos, por valores que assentaram lenta e profundamente suas bases no espírito moderno. Fomos condicionados pelas idéias surgidas e desenvolvidas no século XIX, e essa colonização intelectual foi tão eficaz que hoje não apenas recusamos examinar esses problemas, como negamos o próprio condicionamento. Uma visita aos antigos pensadores – quando não a rejeitamos em nome da racionalização, do progresso ou do materialismo dos quais nos orgulhamos – pode ser um bom exercício para o espírito, um encontro natural com a humildade. O espanhol Miguel de Molinos conhecia profundamente os efeitos do silêncio consentido – hoje diríamos assumido – sobre a mente do homem. Para o quietista que converteu Fenelon e

Mme. Guénon, "há o silêncio da boca, o silêncio da mente e o silêncio da vontade". Malbaratamos energia, seriedade, sinceridade, nos volteios da conversa frívola, nos exercícios da memória e da imaginação, nos caprichos aparentemente inexplicáveis da vontade. Na "Idade do Ruído", achamos natural ouvir seletivamente – maneira de não enlouquecer, ou de não embrutecer completamente os reflexos. O ouvido seletivo é esse que escuta o que quer e fica surdo para o que teme. Preferimos ouvir o que já conhecemos e testamos devidamente a abrir nossos sentidos para um fato que vai abalar velhas convicções, estruturas enrijecidas pelo temor de estar errado. Não é por outra razão que nos tornamos tão agressivos quando nos propõe revisões desagradáveis de conceitos que desejamos solidificados para sempre. Os que "encontraram a resposta" acabam treinando um discurso bastante eficiente, com toda a argumentação favorável de que dispõe o arsenal da racionalização. Ideólogos, teólogos, apologistas, gurus, apóstolos são identificados não pela proposta que fazem de discutir algum tema, mas pela água que procuram trazer ao seu moinho, à sua convicção previamente escolhida e protegida da lógica num nicho seguro de argumentos mais verbais que racionais. Ouvir seletivamente é uma escandalosa desonestidade, mas esse é um pecado que muitos perdoam com facilidade atualmente, porque quase todos o cometem. Entre as artes perditae de nosso tempo está seguramente a de escutar – muito mais do que ouvir, sem dúvida. Ela consiste apenas em não interferir, em permanecer tranqüilo e receptivo, o que é dificílimo.

A tranqüilidade interior é rara precisamente porque temos opinião formada sobre tudo, e não queremos mudá-la porque isso nos parece penoso. Percebemos seletivamente o que vem do mundo, dos outros, de nós mesmos. Filtramos a vida através de uma cortina de preconceitos, e julgamos que

aprendemos cada vez mais, que acumulamos alguma coisa útil

que um dia será usada para fins

fantasia parece universal, vitimando gente de todos os níveis intelectuais, em todos os quadrantes, com os mais diversos pretextos. Ao lado da conversa fútil, temos o rádio, a TV, a leitura digestiva – essa série de ocupações aparentemente inofensiva que mantém nossa mente ocupada, distante daquela "tranqüilidade vazia" em que estamos disponíveis para a percepção do que realmente interessa ao homem em sua, afinal de contas, limitada e perplexa vida. Nenhum argumento é tão freqüente, diante dessa ordem de especulações, quanto o que considera que nem tudo pode ser levado tão a sério, que a vida não deve ser encarada de forma tão dramática. A evasiva é resultado, ainda, da atenção seletiva, produto do hábito de ver as coisas pela metade, pela face amena e superficial. A vontade é alimentada continuamente pelo fluxo de ruídos que nos chega a cada instante, entre os quais filtra sempre alguma informação verdadeira, que escutamos ou não, conforme nossos filtros e o que se acumulou de vontade em nós. Seria preciso empregar de maneira nova certas palavras para abordar esse novo (e ao mesmo tempo velhíssimo) problema. Assim, dizer que o mal é a intensificação do anseio – se é que isso consegue comunicar

práticos. Esse tipo de

alguma coisa – fenômeno assegurado pelo barulho, pelo discurso superficial, pela tagarelice de aparência inocente. No microcosmo de cada indivíduo acontece intensamente o que ocorre no macrocosmo social, no mundo. A percepção do meio é prejudicada pela quantidade, pela multiplicidade que pulveriza a atenção. Podemos então olhar para nossa constelação interior, sem poesia ou informação científica prévia de espécie alguma, e nela observar como a falação fútil reforça o anseio – se é possível usar a palavra sem nenhum outro complemento. Olhando a coisa, sabemos de que se trata. Não podemos, não queremos, não concebemos estar quietos por dentro, e desse modo povoamos nosso espírito com o bricabraque que vimos fabricando há tantos séculos, precisamente com essa finalidade e do modo que podemos descobrir pessoalmente.

DEPOIS DA CRISE.

Não é difícil entender de que maneira a proximidade excessiva, no espaço ou no tempo, anula a perspectiva indispensável à observação do conjunto e deforma a percepção dos fenômenos. Isso tanto vale para a psicologia quanto para a economia e a política internacional. O terremoto que abalou a vida das nações a partir de 1973, quando a mudança dos preços do petróleo alternou o curso do

desenvolvimento keynesiano que se processava há três décadas têm sido avaliado como uma espécie de catástrofe definitiva, marcha batida para o final dos tempos. Estamos todos muito próximos do processo – na verdade estamos no meio de sua ebulição – para perceber que esse tipo de interrupção no crescimento das nações é apenas a curva de um ciclo que tem a marcha lenta de todo movimento histórico medido pelos sentidos (e pela pressa) dos homens. O planeta deixou de lidar com uma energia de baixo custo, na qual apoiava seu anseio de crescimento, e despertou no outro dia dependendo de energia caríssima, capaz de variar seu custo (para mais) ao sabor de contingências políticas e até de caprichos nacionais e religiosos. A depressão, possivelmente a pior desde 1930, ameaçou o mundo com o desemprego, nos países ricos, reduziu as taxas de crescimento a zero nas nações em desenvolvimento e acenou com o fantasma da inflação descontrolada nas regiões pobres e mais densamente povoadas do globo. O envolvimento no nervosismo que decorreu dessa mudança prejudicou a percepção de suas características e, portanto de sua transitoriedade. A crise é politica, não da natureza. O encerramento de um ciclo energético resulta dos aperfeiçoamentos que estão sempre ocorrendo na tecnologia, e aconteceria suavemente se a idéia de uma mudança progressiva e contínua não tivesse sido banida como hipótese pelos que decidiram fazer da questão energética um "empurrão" a mais na derrubada de um sistema que eles querem acreditar que só precisa de alguma ajuda para

desmoronar completamente. Uma vez mais, a proximidade envolvente aconselha mal os julgamentos e tolda a realidade. Os países ricos não foram castigados pela crise, como aqueles seus inimigos pretendiam. As economias sofisticadas têm mecanismos de compensação muito eficazes. As grandes vitimas da chantagem energética – feita por uns, por inspiração de outros – foram as economias pobres, ou em difícil crescimento. O terremoto afetou a agricultura em toda parte, atingindo os tratores movidos a óleo, as usinas de irrigação e os fertilizantes. No Terceiro Mundo, meio bilhão de pessoas ficaram mais próximas da desnutrição. As preocupações com a ecologia, até então em destaque na pauta dos adversários do crescimento econômico, cederam lugar a um fato aparentemente mais concreto: o preço explosivo dos combustíveis, graças ao seu controle por um grupo de países. Na África, várias nações penderam para o autoritarismo em face de dificuldades terríveis produzidas pela crise. Na Ásia houve redução geral nos orçamentos destinados à produção de gêneros e ao bem-estar em geral. Na América do Sul e no Brasil em particular, sabe-se quais foram as conseqüências da chantagem energética, em termos de inflação e conseqüentes dificuldades políticas. Com exceção da União Soviética, não houve um único beneficiário desse espasmo que sacudiu a civilização humana nos últimos sete anos. As preocupações em relação às reservas futuras de alimento e petróleo são precedentes. Uma vez mais, a proximidade excessiva do problema – ou nosso envolvimento

pessoal nele – impede a discussão objetiva da questão, seu encaminhamento e resolução. A explosão populacional concentrou-se numa expressão, ou num punhado de lugares- comuns que políticos e especialistas atiram para o ar em ocasiões particulares. Agora mesmo, quando os primeiros resultados do senso no Brasil indicam que o País não aumentou sua taxa de natalidade como se temia, aparece quem lamente isso e proponha um novo crescimento populacional. Há o desconhecimento generalizado, ou o esquecimento geral, de que os processos naturais são necessariamente equilibrados porque contem em sua essência uma harmonia, ou dialética, que elimina os excessos e encaminha os fenômenos para uma perpetuação serena no tempo e no espaço – alguma coisa que no corpo vivo os cientistas chamam de homeóstase. A crise da energia tende a uma solução natural, quando outras fontes forem substituindo as que se exaurirem, ou estão sendo sonegadas e barganhadas. O desenvolvimento harmônico é uma tendência irresistível, na medida em que tudo se inter-relaciona e faz parte de um mesmo todo. Se um único tipo de critério pudesse controlar o mundo, nada seria tão equilibrado quanto de fato, e afinal, chega a ser. O percebimento dessa harmonia é dificultado enquanto estamos mergulhados na vastidão do problema. A economia e a politica internacionais não fazem exceção à regra, nem escapam ao movimento da vida, Os que ajudaram a desencadear a crise, que começou em fins de 1973, tinham em vista um outro alvo, é verdade, mas a violência indiscriminada não lhes parece

desagradável e faz parte, indiretamente, também de seus planos. Semear descontentamentos é uma tática mundial. Em todo lugar ela é perigosa como nitroglicerina. Apesar de tudo, no entanto, tem prevalecido sempre, desde que a memória do homem registra o que experimenta, uma tendência à harmonia e à beleza, que só desconhecem os que não sabem o que é uma coisa e outra.

RESPONSABILIDADE.

A criminalidade, a violência e os atos anti-sociais já não pertencem mais aos compêndios e aos especialistas porque estão no nosso dia-a-dia. Uma autoridade promete um policiamento especial para o verão violento no Rio de Janeiro, e eis que é recolocado em pauta o antigo debate que pretende localizar as causas determinantes da explosão de violência que sacudiu o mundo nas duas últimas décadas. Os diversos

condicionamentos ideológicos e religiosos têm suas respostas prontas para o problema, o que é uma pena, porque não levam a parte alguma. A questão precisa ser examinada de um ângulo ainda não comprometido com uma filosofia rígida ou alguma verdade revelada. Os que atribuem a violência crescente à miséria, às injustiças sociais e a uma iníqua distribuição da riqueza no mundo ignoram o fato de que esses desequilíbrios - lamentáveis, indesculpáveis – coexistiram sempre com a paz, a dedicação e a democracia, onde estas existiram e prosperaram. Ignoram também que nos países de economia socialista as autoridades estão a braços com as mesmas dificuldades, embora sem as estatísticas honestas e a divulgação existentes nas grandes nações ocidentais. Os índices de violência eram incomparavelmente mais baixos que os de hoje, em sociedades onde os desequilíbrios sociais eram ainda mais gritantes que os atuais. A desorientação, a neurose coletiva, a agressividade inútil eram fenômenos imperceptíveis há meio século, sem essas características de epidemia que conhecemos agora. Os que atribuem a onda generalizada de violência à perda de valores morais e sociais que imperaram por muito tempo e começaram a morrer nos últimos tempos deixam de considerar que outras sociedades, ao longo da História, ignoraram muitos daqueles valores e nem por isso foram violentas. A perda daqueles conceitos ocorreu paralelamente ao crescimento da violência em toda parte. Além disso, pouco foi perdido com o desaparecimento de determinados preconceitos que se

mantinham como valores insubstituíveis. Os fatos aí estão, à espera de observação tranqüila, não engajada em posturas prévias. Essa disponibilidade intelectual, que é uma forma de honestidade cada vez mais rara atualmente, é a única maneira razoável de abordar o problema imenso do aumento da violência no mundo. Em toda forma de relacionamento com o mundo – família, nação, coisas, animais, natureza – há uma reciprocidade, ou contato dialético, sem o qual se instala o desequilíbrio e a desarmonia. Essa troca natural abrange todas as atividades humanas, como não podia deixar de ser. Temos responsabilidades, uma vez que somos racionais. O desmoronamento de alguns mitos, a multiplicação das informações, a tensão permanente de viver num mundo dividido que pode voar pelos ares a qualquer momento, tudo contribuiu para que se perdesse a velha noção direito-dever, fundamento da permuta que caracteriza a civilização dos homens, diferenciando-os das formigas e das térmitas. O reconhecimento do outro como um semelhante nosso é apenas o começo. Como decorrência disso vêm outros reconhecimentos, como a da dignidade e da necessidade do trabalho, o da importância do esforço na obtenção de um resultado. Essas noções todas foram enfraquecidas ultimamente, e no lugar delas ficou um vazio imenso. A época é principalmente de irresponsabilidade. Um estranho distributivismo difundiu a idéia falsa de que basta existir para fazer jus a um salário. Vencer sem produzir tornou- se uma espécie de ideal generalizado que, embora não

encontre confirmação em absolutamente nada, continua sendo difundido no mundo. Em toda parte a produção diminuiu e os gastos aumentaram, uma vez que alguém deve pagar as contas da improdutividade. Teriam conceitos psicanalíticos mal digeridos contribuído para a fabricação, principalmente na classe média, dessas miragens? O aumento acelerado da desintegração interpessoal – a convivência prolongada é cada vez mais difícil entre seres humanos – o abuso das drogas, o terrorismo, a angústia e a ansiedade são calamidades recentes, embora sejam males antigos. A conquista de direitos que durante séculos foram negados pode ter precipitado o homem moderno no excesso contrario, o de crer que o esforço é um castigo e o trabalho é uma pena. A hipertrofia do Estado é um fruto de uma certa filosofia segundo a qual o cidadão tem todos os direitos, cabendo ao Leviatã estatal apenas os deveres. Assim, o bem- estar acabará chegando a cada um de nós graças a uma misteriosa inevitabilidade que o tempo ficará encarregado de trazer – enquanto criticamos o grande provedor que tudo nos deve, em nome de algum direito impreciso. Ora, a liberdade – chamada em política de democracia – é exatamente o oposto disso, na medida em que exige de cada um responsabilidade. O esforço, o empreendimento, o planejamento desencadeiam respostas positivas – e é essa reciprocidade que torna o homem livre e feliz. Nunca as taxas de violência foram tão altas no mundo, nem foi tão flagrante o desejo de enriquecer depressa, mesmo entre os que ficam dentro dos limites da lei. A ânsia de usufruir

o melhor no tempo de uma vida é a exacerbação de um desejo comum a todo homem. E é precisamente a mentalidade coletiva, em que estamos quase todos incluídos, que sofreu uma forte e acentuada deformação. A idéia comum de que temos direito a tudo, seja o que for e como for, é a origem desse impulso que impele para a violência. O drive parece obscuro aos nossos olhos porque estamos envolvidos demais para uma observação de fora. A criminalidade, a violência, os atos anti-sociais têm suas raízes – impossível dizer em que medida – principalmente aí. Onde levam, quando se multiplicam, estamos vendo todos os dias.

A SIMPLES REALIDADE.

Os gregos antigos não tinham uma palavra para "verdade". Quando queriam designar alguma coisa manifesta, evidente, perceptível, usavam a palavra alethes. Sua percepção penetrante da realidade ensinava-lhes algumas lições surpreendentes, inclusive essa da verdade não ser estática, algo permanece no tempo, mas sim uma descoberta que pode ser feita momento a momento. Toda idéia de permanência é utilitária, e por trás dela alguém está tentando

fazer um uso utilitário de alguma coisa. Esse esforço desencadeia o oposto de alethes, a ilusão, o mito. O mundo em que vivemos é há muito tempo – e na era das comunicações tornou-se muito mais – embalados nos mitos criados pela ignorância e pelo medo. As grandes mentiras modernas têm muito mais força que as lendas e superstições antigas, porque se revestem da falsa autoridade de nebulosos conceitos científicos, e de hipotéticas constatações de laboratório. Como a maioria das pessoas do mundo vive num plano de desinformação quase completo, recebendo dados sobre inutilidades, mas desconhecendo o essencial, não admira que esses mitos cientificóides tenham tanta força e conquistem clientela tão vasta. Comportamento, costumes, decisões, posicionamento político e conversão religiosa obedecem às marés dessas novas crendices. Quando a análise dos fatos é substituída pela repetição dogmática – fenômeno dominante, hoje – fica perfeitamente caracterizado um dos mitos mais importantes do nosso tempo, tema de estudo do historiador que amanhã quiser entender o século XX e sua crítica segunda metade. Tudo o que temos a fazer é procurar o ta alethea, o que está diante de nós em sua simplicidade, sem designação ou conceito formado, sem conclusão definitiva ou rótulo. Isso é difícil porque somos educados – e continuamos sendo – para julgar e comparar todo o tempo. Às naturezas práticas tudo isso repugna um pouco, na medida em que não leva às metas que esses temperamentos e mentes consideram prioritárias, baseados não se sabe exatamente em quê. Quem não se

conhece razoavelmente bem, não tem condições de traçar prioridades no mundo. Limitando-se ao acaso e aos caprichos – inevitáveis no desconhecimento – chegam sempre onde sempre estiveram, no mesmo lugar, no mesmo ponto condicionado. Chamar alguma coisa de "verdade" equivale atribuir a essa coisa um rigor dogmático, uma rigidez que conduz à esclerose. Os velhos gregos sabiam o que estavam fazendo quando se referiam apenas ao manifesto, ao evidente, ao aberto, ao presente. Tomar a realidade simples de cada dia e desmontá-la peça por peça não implica um exercício racional e metódico. O que chamam de racionalidade e método costuma ser, freqüentemente, elaborados rosários de palavras, hábeis montagens que projetam seriedade graças às complexidades que ostentam. O envoltório verbal não precisa ser decomposto em sua intimidade etimologia para ser compreendido. É como símbolo que sua atuação deve ser observada, símbolo usado para determinado fim prático, na busca de segurança psicológica ou à procura do prazer que distrai e embala o espírito. Os mitos políticos são a essência da artificialidade porque resultam de camadas superpostas de interesses pessoais e de grupo, disfarçadas com expressões generosas e grandiloqüentes. Quando Raymond Aron estuda os mitos político-ideológicos de hoje, em O Ópio dos Intelectuais, está examinando somente uma área do espectro. O fato de seu livro, publicado na França em 1955, ter modificado pouco as posições políticas da intelectualidade francesa, mostra simplesmente que sua visão da realidade humana – incomum e

agudíssima – é incômoda a ponto de ser esquecida, preferencialmente a ser discutida. Que dizer do resto do espectro, ainda na sombra e fadado a permanecer ali talvez por muito tempo? "O real é a nossa mente comum", dizem os patriarcas do Zen. Soa estranhamente aos nossos ouvidos condicionados a idéia de que tudo está contido na simplicidade do cotidiano. Costumamos até invalidar todo conceito novo, sem maiores exames, atribuindo veredictos que encerram uma discussão e fecham portas. "Sabemos tudo" a respeito da nossa mente comum, disso que somos no dia-a-dia e que julgamos conhecer profundamente. A recusa de contato com a realidade é confusamente disfarçada atrás de mil razões mais ou menos obscuras, uma vez que ninguém admite claramente que "não quer ver". As ilusões são criadas suavemente, devagar, e ao fim de um certo tempo crescem como jatobás, lançando raízes em todas as direções. Não é de admirar que os mitos tenham tanta força, considerando o terreno favorável em que crescem e o farto adubo que é deitado em torno do seu caule. Os mitos mais resistentes são os que se apóiam em falsas constatações. A enumeração desses mitos, porém, soa discursivamente e não se presta senão ao velho jogo aceitação-rejeição. Essa ginástica intelectual é inútil e serve antes como distração do que como esclarecimento. Os mitos estão dentro de nós e o caminho para seu conhecimento – e conseqüente dissolução – é o contato direto com sua estrutura e suas características. Aí vem a questão: contato feito por quem? Por esses que vivem imersos no mito, isto é, pelo

próprio mito personalizado? Esse é o encaminhamento da questão, talvez. Todo o resto da longa estrada tem de ser feito indivíduo por indivíduo, e nenhum deles pode caminhar por outro. A própria estrada é o ta alethea.

AS GRANDES INTUIÇÕES.

Na encíclica Dives in Misericordia, redigida pelo papa João Paulo II em polonês, é lembrado que a justiça é necessária, mas não suficiente. Suas normas rígidas são estreitas demais para as necessidades de nosso tempo e para as dimensões do coração humano. Acima e além de tudo está a misericórdia, que só existe quando o amor é verdadeiramente amor. A respeito desse documento, diz Giovanni Testori, no Corriere Della Sera, que ali a luminosidade teológica é ofuscante e as grandes intuições dos profetas estão presentes. Uma característica do atual papa, a coragem de lidar com palavras

e temas banidos pelo século, marca a nova encíclica e acentua

o que pode ser uma ressurreição da Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. A primazia das coisas sobre as pessoas, as formas de agressão sofisticas, a "pacificação" artificial de indivíduos, sociedades e nações, a opressão que suprime a liberdade interior e a dessacralização do mundo são os erros e perigos

apontados na Dives in Misericordia, fundamento da infelicidade

e da desagregação encontrados em toda parte. Os defensores

de uma Igreja engajada na cultura, isto é, preocupada com soluções e experimentos temporais, ou ficaram descontentes com a nova encíclica ou viram nela precisamente o que vêem em tudo à sua volta, em busca do reforço de suas convicções prévias. Nada disso é motivo de espanto, sendo muito antigo. Realmente extraordinária é a própria encíclica, onde há um novo tom e sopre uma aragem de eternidade que não se encontrava há muito tempo nos pronunciamentos religiosos em geral. A época não promete um futuro melhor à humanidade, diz

a encíclica, sem qualquer preocupação de aparentar otimismo.

Não há por que acenar com felicidade quando se sabe que o mundo é a soma do que os homens têm dentro de si, e não é nada bom o que se acumula neles nestes tempos. A palavra justiça foi aviltada desde que até os totalitários falam em seu nome, desde que todos fingem amá-la e dizem lutar para sua consagração. A distribuição justa de riquezas e oportunidades é excelente, mas a mensagem cristã não se limita a isso. O desafio de seu apelo transcende as contingências em que cada

homem se encontra, precisamente porque faz dessas

contingências um caminho – áspero ou confortável demais, duas formas de dificuldade – para o que os cristãos primitivos chamavam, numa espécie de síntese, de Reino do Céu. A justiça entre os homens e nas nações é um bem a que todo indivíduo deve aspirar – mas talvez esse equilíbrio só seja possível quando se conhece, de algum modo, o Reino. A questão não é, portanto, de preferência, mas de conhecimento de prioridade.

A primazia das coisas sobre as pessoas resulta de uma

outra forma de ilusão, típica da modernidade, mas muito menos moderna que a fixação na Justiça. É milenar o prestígio do TER, em prejuízo do SER. A acumulação e suas manhas datam dos primeiros tempos do homem – na verdade. Atribuímos às coisas um peso que não possuem, na medida em que elas aumentam nossa importância, proporcionam à nossa mente uma ilusão de segurança ou simplesmente preenchem nosso espírito, sempre tão temeroso do vazio. Quanto à idolatria moderna chamada materialismo – irmã das outras formas de adoração que todos conhecemos – seu perigo consiste na afirmação geralmente aceita de que se fundamenta em verificação científica, em conhecimento objetivo provado, o que é evidente mentira. O materialismo

tateia no escuro como todas as superstições. A diferença é que fala grosso e positivo, como se soubesse de tudo.

A Dives in Misericordia trata ainda da técnica avançada

que "pacifica" os homens através de processos que vão de

hipnose sutil – chamada também de propaganda – à química

que promete paraísos e curas milagrosas. O que o homem não consegue por meios naturais, como o auto-conhecimento, procura obter por baixo do pano, pela repetição, pelas enzimas, pelos alcalóides, pelos misticismos baratos. O homem não deve ser "pacificado", e muito menos instigado, mas encorajado a discernir – e o discernimento é o filtro que revela o mundo e o que está por trás das aparências, não importa o nome que tenha. É preciso entender os muitos processos de domesticação do ser humano, para combatê-los mais eficazmente quando são usados em nós e nos outros. Os mais disfarçados são, naturalmente, os mais perigosos, e entre esses estão os que apelam para a "ação direta", a luta e as modificações radicais. O desejo de mudar deve ser precedido do conhecimento real daquilo que vai ser mudado. Mudar por mudar é como andar em círculos pode ser até divertido, mas não leva a parte alguma. Finalmente, a Dives in Misericordia fala na opressão que suprime a liberdade interior e alude ao que se poderia chamar de "dessacralização" de tudo. Toda filosofia que se prende uma resposta geral e que exclui as demais conduz à supressão do discernimento no mundo. Quem julga ter todas as respostas começa acreditando que é perda de tempo continuar procurando, e, em nome da eficiência, acaba proibindo essa busca nos demais. As doutrinas salvacionistas querem ajudar seu rebanho à força, preferindo matar as ovelhas a vê-las desgarradas. Não é exagero afirmar que mais da metade do mundo está à mercê de pais ideológicos muito possessivos. Em toda parte predominam a negação e o desconhecimento do

sagrado, onde ele existe e pode ser descoberto, na liberdade e na objetividade. Foi a partir da dessacralização sistemática inventada pelo iluminismo que alguns valores, como a misericórdia, foram desacreditados e esquecidos, como palavra e como conceito.

FORMAS DE CRESCIMENTO.

Se é verdade, como acreditava Goethe, que todos sentimos a nostalgia daquilo que, sem saber, já possuímos, nós brasileiros somos intrinsecamente maduros e responsáveis. Há uma aspiração geral e, ao mesmo tempo, um conflito, no sentido de obter um equilíbrio individual que permita desenvolver uma sociedade tão eficiente e harmônica como as melhores do mundo. A contradição consiste na distância existente entre esse desejo generalizado e nossa realidade pessoal, entre o modelo imaginado e nosso individualismo incontrolável. A re-inauguração de uma linha de

trem conta com a presença de ministros e governadores e tudo á planejado para que se faça aqui uma ferrovia em moldes escandinavos – mas a primeira viagem começa com um grande e irremediável atraso. Os telefones públicos são elegantes e permitem ligações quase instantâneas com os nossos antípodas, mas poucos aparelhos funcionam e não há fichas à venda nas proximidades. Em poucos lugares do mundo, talvez, seja tão completa a desorganização das pequenas estruturas que compõe a vida, quanto entre nós. Em nenhum lugar, certamente, o hábito de improvisar – e a fé absoluta nessa improvisação – seja tão difundido. A psicologia de uma coletividade é matéria fácil de contestar, e não há qualquer estudo sistemático a respeito, mas o fenômeno pode ser observado no cotidiano de cada um. Em cada um de nós isso opera a todo instante. Sonhamos com a ordem, com uma coletividade justa e equilibrada, em que todos os homens fazem bem seu trabalho e em que as pessoas sejam respeitadas pelo que são realmente, não pelo que representam. A esse sonho corresponde uma realidade simétrica e oposta, em que a grande referência é a pequena esperteza e a pretensão – segundo um anúncio de cigarro – de "levar sempre vantagem". O conflito entre o que deveria ser e o que é não leva muito longe quanto a resultados. O remédio, uma vez mais, é o conhecimento dessa contradição em nós mesmos. "O que desejamos" - diz Goethe em Poesia e Verdade – "são pressentimentos de potencial de que dispomos, o anuncio daquilo que somos capazes de realizar. O que queremos e

podemos obter, nossa mente projeta para fora de nós, no futuro". A antiga aspiração nacional de pontualidade, organização, crescimento planejado e progresso harmônico – encontrada nas utopias tupiniquins, nos projetos de governo em todos os tempos, e representada no passado, mas expectativas de Pedro II – será então um pressentimento do que já existe em todos nós e ainda não foi desenvolvido porque não morreu em nossa natureza, até o momento, aquele misto de instabilidade e brilho que Macunaíma simboliza muito bem. O que existe em potencial deve despontar lentamente, quem sabe se crescendo lado a lado com um florescimento econômico que parece inevitável. Esse homem mais harmônico e adulto pode aparecer nas crianças, através de seu maior conhecimento de si mesmas, de um melhor desenvolvimento crítico, de uma abordagem mais profunda do mecanismo da aprendizagem. Um professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, desenvolveu há pouco um estudo sobre amadurecimento crescente dos jovens na segunda metade do século XX, graças à multiplicação – arbitrária, confusa, às vezes frenética – dos veículos de comunicação. Keneth Keniston acha que as crianças estão mais bem aparelhadas para renunciar ao peso dos condicionamentos, uma vez que o volume que suportam é menor que o dos adultos. Isso pode ser aplicado ao Brasil se lembrarmos que os meios de comunicação – a TV, sobretudo – recebem e exercem influencias da cultura ambiente com grande velocidade e eficiência. Esses "potencializadores" dos costumes e dos valores dificultam mudanças reais nos

indivíduos e conseqüentemente na coletividade. As crianças, embora mais à mercê da televisão, tem uma carga acumulada menor e um "respeito" bem menos acentuado pelas mensagens que chegam de fora. Menos esmagadas, elas podem começar essa revolução, na medida em que a desejam e a pressentem. A nostalgia do que, sem saber, já possuímos, parece mais acentuada hoje do que há algumas décadas. Aos poucos desaprovamos o individualismo desenfreado e a pequena esperteza, trazendo para a consciência nossa estima pelo senso de coletividade, pelos valores intelectuais, pelo trabalho e pela responsabilidade. Somos nostálgicos da beleza e da ordem no meio ambiente, da justiça social e da competência – e nisso, agora, começa a haver alguma coisa mais que mera nostalgia, porque se manifesta em muitos um desejo claro de adotar esses valores aqui e agora. Mais cedo do que se pensa pode-se tornar claro que o apaziguamento artificial lançado sobre as contradições da sociedade em que vivemos não é conveniente. Goethe teve o bom senso de não fazer previsões, mas soube afirmar com muita convicção a inevitabilidade desse crescimento emocional do ser humano. Tivesse vivido no Brasil de hoje e veria o quanto desejamos essa maturidade, essa fonte de ordem, responsabilidade e seriedade – constatando que certa maneira já a possuímos, uma vez que sonhamos com ela. Afinal, o que desejamos é alguma coisa que já possuímos, mas que ainda não podemos desfrutar. Como o adolescente que parece dar saltos no seu desenvolvimento, revelando traços de adulto de um dia para o

outro, também nós vamos acordar, qualquer dia desses, com aquelas qualidades maduras de que somos tão nostálgicos.

NATAL, O QUE RESTA.

(Luiz Carlos Lisboa)

O Natal pode inspirar pensamentos sobre o sentido da fraternidade que o mundo parece ter perdido, ou sobre o significado mais ou menos oculto do renascimento espiritual acessível a todos os homens. Nos grandes centros urbanos, atualmente, o cotidiano das proximidades dessa festa religiosa induz mais a uma meditação sobre a capacidade humana de manipular os símbolos, que a outra coisa. Há uma significação religiosa para o Natal – diversa da primitiva, que envolvia o homem com uma revolução interior que importava em nascer de novo – relacionada com a vida familiar e a ternura que ela

irradia. Esse espírito foi dissolvido nos últimos cinqüenta anos, em troca de uma mentalidade que vê no Natal um recurso para vender ou um pretexto para comprar. A desobediência às grandes pressões culturais é punida, como se sabe, com o desprestígio e a depressão. Para evitar esses dois abismos somos capazes dos maiores esforços, como enfrentar filas, assistir a espetáculos que não apreciamos, vestir e calçar com sacrifício do desconforto, aderir a idéias que não entendemos bem, etc. No verão, precisamos ter a cor da pele e a descontração da moda. No inverno, é preciso uma certa atenção para saber se o tweed ainda é in ou se já foi decretado out. Há as peças de teatro, as ideologias que convém aos intelectuais, o tipo de penteado que os mais jovens estão usando e as últimas opiniões sobre conservação da natureza e dieta natural. E há o Natal, a respeito do qual já ninguém pergunta se teria mudado ou mudamos nós. Como o castigo para os que não aderem é o desprestígio e a depressão, uma forma de meditação oportuna sobre o Natal pode partir dessas ameaças para entender o que acontece nesses últimos dias de dezembro, nas grandes cidades do mundo. A desobediência aos rituais de compra, reuniões, troca de presentes, cumprimentos formais e ceias que expressam o poder aquisitivo do anfitrião, conduz a uma desqualificação pessoal de quem a pratica a um isolamento que será mais desagradável na medida em que seja maior a importância atribuída à aceitação social. As reuniões que se dizem de congraçamento atraem porque é incômodo, talvez

triste, ser excluído delas. Por isso muita gente tem problemas psicológicos em relação às festas de fim de ano. Há um aprendizado maior, no entanto, em observar os que obedecem às pressões e correspondem às expectativas, do que a esses outros, que se angustiam e fogem para longe, e de lá ficam imaginando a felicidade dos que aderiram. A obediência não exige raciocínios nem complicações, ou não seria o que é. Pede apenas que tenhamos uma visão amistosa e superficial das coisas, e que aceitemos o que já encontramos feito, repetido há muito tempo pelos nossos maiores. Assim compramos as nossas castanhas, reservamos o vinho da nossa predileção ou da nossa possibilidade, adquirimos os presentes, armamos a árvore como se usa, formulamos votos daquela maneira automática que sabemos, enganamos as crianças com o simpático mito germânico do velhinho que põe presentes em nossa lareira – o mês é dezembro, começo de verão – e achamos normal que vagas imagens contem a história, no presépio, de um homem que nasceu, e que renasce sempre, para dar um testemunho que poucas vezes na vida paramos para nos interrogar qual seria, de fato. Porque somos obedientes e não queremos ficar à margem da corrente onde fomos lançados com nosso barco, somos rotineiros e ritualistas, e por nada neste mundo queremos sair dessa condição. O Natal deve continuar sendo uma festa, como o Ano Novo, em que todo mundo é livre para fazer como todo mundo, e em que ninguém deve encontrar pretextos para deixar de fazer o que todos, afinal, fazem. A televisão leva a

todas as casas o que é hoje o Natal, para que ninguém tenha qualquer duvida. Sendo uma festa de origem religiosa, era de esperar que os religiosos saíssem em defesa de sua preservação, ou que tentassem reaver seu significado primitivo. Isso não acontece, naturalmente, porque não apenas os religiosos sofrem as mesmas pressões do meio, como porque em alguns casos estão muito ocupados com a resolução de problemas temporais difíceis, como o social. O fato é que todos parecem muito satisfeitos com a exploração comercial da maior festa religiosa do Cristianismo, razão por que tão cedo nada vai mudar a respeito. Os símbolos têm o poder de expressar o inexprimível, além de outras possibilidades. As tendências que predominam no homem acabam manipulando esses símbolos, quando seus conteúdos não são compreendidos ou conflitam com um certo impulso humano para ignorar tudo que parece incômodo ou desfaz a imagem que queremos manter perante o mundo. O Natal, hoje, é uma comemoração vazia, feita especialmente para enganar – por meio de uma afetividade vaga e confusa – os que anseiam pela religião somente como um anestésico em face das durezas da realidade, e os que precisam de apoio moral para justificar seu egoísmo. Comercializada e superficial, essa festa que no Cristianismo antigo teve um grande significado é hoje uma palavra, um conjunto de frases mais ou menos sentimentais ou um pretexto para vender o que é necessário e o que não faz falta nenhuma.

ALGUMA COISA MORRE.

A observação é de Chesterton, em sua coluna no Daily News, num dia de março de 1911: "A monarquia que morre é sempre aquela que tem poder demais, nunca de menos. A religião que declina é a que interfere mais no que não devia". O autor de Orthodixy é um observador atento do mundo, e não se deixa enganar por aparências nem submerge na cultura a ponto de não mais compreendê-la. Também agora, na segunda metade do século XX, as religiões tradicionais dão mostras de enfraquecimento, invadindo o campo temporal para compensar o que estão perdendo em sua área própria. O Islamismo exerceu sempre uma interferência peculiar no temporal, ditando regras gerais sobre a administração. No Irã, a chamada revolução islamítica alterou essa tendência e chamou a si a decisão em todos os terrenos, interferindo

mesmo em minúcias como gosto musical dos fiéis, a postura física e a alimentação. No resto do mundo, principalmente nos países em processo de desenvolvimento econômico, a Igreja Católica passou a interessar-se por temas que antes ignorou solenemente, exceto por uma ou outra declaração distante. A distribuição de renda, a divisão das terras cultiváveis, a liberdade política e os direitos humanos interessam muito aos católicos, pelo menos nos dias que correm. Esses problemas não são mais conseqüências de algum outro fator que deve ser conhecido e ultrapassado, como o egoísmo, a ignorância, o pecado. São algumas causas – as causas da infelicidade humana. A parte da igreja que fez da questão social o tema básico das suas preocupações e da sua pregação age como se as injustiças seculares nesse plano fossem o fundamento de todo o mal, não o mero efeito de um "estado de ignorância" que a religião se propõe a sanar pela conversão, pela fé, pela graça. A Igreja que se designa como "progressista" abandonou definitivamente a fé milenar na revolução interior, apoiando-se na necessidade de modificar o mundo antes de qualquer coisa, para só como conseqüência regenerar o homem. Essa atitude levou-a a interferir no que até então era seara alheia, o social, administrativo, o político. Essa busca de poder – desejada ou não, compreendida ou não – corresponde a um sintoma, pouco importando sua gênese e desenvolvimento. É o enfraquecimento, como observa Chesterton com excepcional sensibilidade, que desencadeou um aumento de esforço, uma expansão

compensadora. É a "visita da saúde", que alguns pacientes em estado desesperador conhecem: uma irrupção de vigor que antecede a morte. Isso não quer dizer que as religiões tradicionais estejam vivendo seus últimos tempos. Significa, sim , que elas terão de retornar às suas origens, renovar sua vitalidade – aquele impulso que desde o inicio projetou na Historia sua presença. As grandes correntes religiosas foram o que foram em função de uma energia imensa que geraram inicialmente, e que o tempo se encarregou de gastar e modificar. A expansão atual de algumas religiões – ou de algumas tendências no bojo das grandes religiões – é como a explosão estelar das novas recorrentes, que antecipa o surgimento de uma anã vermelha. ''Interferir no que não devia" pode ser apenas uma questão de ponto de vista, é verdade. Por isso, nunca é demais discutir a do que seria o campo de atuação legítima das religiões. É fato que o temporal não se dissocia completamente do espiritual, porque afinal não há nada totalmente dissociado na vida. O aumento da interferência de grupos religiosos em áreas que historicamente nunca foram suas é passível de constatação. Isso indica uma necessidade de permanecer vivo, um impulso para sobreviver num meio onde outras propostas podem parecer mais atraentes, mais imediatas. Ora, o campo de atuação das religiões é o espírito do homem, começo e fim do universo conhecido na medida em que é ele quem conhece – quando conhece – esse universo. Não é preciso entrar em funduras teológico filosóficas para entender isso. Pelo

contrário, essa abordagem deve ser simples e coloquial para ser eficaz. O que parece agonizante são as grandes estruturas adicionadas à mensagem fundamental das religiões. Sua rigidez tornou-as inadequadas a uma época que se interroga mais do que todas as antecedentes. O desafio do materialismo foi decisivo em sua agonia. Não pela força da promessa materialista, que é superficial e discursiva, mas pela fraqueza do arcabouço das religiões tradicionais, esclerosado no ritual, na rotina, no formalismo. No seio das correntes religiosas que sobrevivem no mundo palpita muito da mensagem inicial, e foi sempre assim ao longo da História. A renovação, o renascimento, o Natal, a aleluia são conservados no formol do hábito, na cegueira da repetição. Tem mais força o ritual, que é uma forma de agir sem pensar, de viver sem perceber. Nos mundos islamítico e cristão, os homens são os mesmos, e ao longo dos dias tendem à acomodação e à inércia, isto é, à prática da religião sem qualquer mudança na vida pessoal, nas inclinações, nos privilégios, no desconhecimento preguiçoso da realidade. No momento em que o organismo já não desperta do coma histórico, tende, como lembra Chesterton, para a expansão. O que deve ser diagnosticado como convulsão nunca como crescimento.

A LINHAGEM DO FANATISMO.

O seqüestro, o longo cativeiro, as torturas e o resgate de funcionários diplomáticos e cidadãos dos Estados Unidos no Irã, além de vergonha para os foros da nação civilizada e afronta aos princípios da tradição muçulmana, convidam a

uma reflexão sobre o significado e a genealogia do fanatismo.

A violação do princípio reconhecido universalmente da

imunidade de representantes e emissários não pode ser compreendida separadamente do processo de exaltação

política e religiosa. Poucos estudos do assunto foram tão penetrantes quanto

os que Thomas Arnold fez ao longo de sua vida, em notas,

artigos, cartas e ensaios, mas que nunca chegou a reunir em volume. Em carta à A.P. Stanley, em 1836, lembra Arnold que o fanatismo consiste, afinal, em idolatria pura e simples, na

medida em que o fanático cultua alguma coisa que é criação

do seu desejo. Todas as aparentes virtudes do sectário são,

assim, manifestações de egoísmo e de grande concentração em si mesmo. Sempre se soube que o fanatismo nada tem a ver com a escolarização e o acervo de conhecimentos do fanático, e que nem de longe são as seitas religiosas e crendices as únicas culpadas por aquela síndrome. A ideologia é atualmente a principal inspiradora do pensamento circular e do moderno salvacionismo. No Islamismo, muitas heresias e movimentos separatistas interpretam à sua maneira a sabedoria do Corão, separando-se da ortodoxia central sunita. O "Caminho do Profeta" foi desfigurado ao sabor de interesses pessoais e locais, e com exceção do sufismo – onde floresceram pensamentos como os de Al-Ghazali, Ibn Arabi e Ibn Taimia – repetiu-se no mundo muçulmano o que já havia ocorrido no seio de outras grandes religiões, com a adaptação da teologia aos caprichos da racionalização. A infiltração inevitável da violência, da busca do prazer e da superstição mais elementar transformou o que era uno e indivisível numa floresta diversificada de aforismos nem sempre coerentes. A presunção de estar certo não é o pior dos males, no surgimento das dissidências e na aparição do fanatismo. Os métodos de ação é que geram as discordâncias. O reformador supõe, naturalmente, que seu método não é apenas o melhor, mas o único capaz de regenerar, de fazer o homem feliz, de obter a justiça. Quando há resistência ou objeção, nasce a idéia de usar a força, e com ela são criadas as legiões, as tropas de adeptos, os grupos onde ninguém é pessoalmente responsável por coisa alguma e tudo é permitido. A convicção

é inofensiva até o momento da praxis, quando as imposições

começam a ferir direitos e a restringir a liberdade de outros. A partir desse ponto, toda resistência reforça a certeza, até transformar o convicto num cruzado. O fanatismo político é uma forma modernizada desse antigo fenômeno, tornado epidêmico pelos extremismos de direita e esquerda que dominaram o século XX. O drama dos reféns norte americanos no Irã colocou em realce a questão do sectarismo político-religioso – um resíduo do passado que ganha força na Era da Tecnologia. A destinação do martírio, a ressurreição do Mahdi, o "Imã Oculto", esses mitos românticos presenteiam o homem contemporâneo com uma nova motivação – na verdade antiqüíssima, mas esse é um reencontro inconsciente - e conferem um sentido maior à sua vida. A fusão do administrador e do sacerdote numa só pessoa simplifica muito as coisas, e a mente humana é ávida de coisas compreensíveis à primeira vista. Thomas Arnold viu muito longe quando disse que fanatismo é idolatria. Fabricamos as imagens que vamos adorar em seguida, e essas imagens podem ser concretas, abstratas ou especulativas. Cultuar alguma coisa feita por aquele que rende culto é idolatria – um círculo ilusório, que conduz sempre ao mesmo ponto. A intuição interior tende para

a linha reta, sem as curvas que num tempo variável conduzem

a si próprias, numa repetição eterna. Os fanáticos têm medo

da incerteza, e por isso são determinados e rígidos. Voltados numa só direção, transmitem a idéia de que sabem o caminho,

o que não acontece. Na verdade estão andando em círculos.

A necessidade de ser liderado é tanto mais visível quanto mais rude o meio em que se manifesta. É confortável obedecer, quando tudo parece incerto. Em toda parte há sempre gente querendo colocar suas energias a serviço de uma causa, de uma doutrina, alguma coisa que faça as escolhas, que forneça as palavras de ordem e aponte que direção tomar. No meio do rebanho, é só seguir, sem as dores da incerteza. Os que lideram trazem quase sempre uma doutrina pronta – porque os fundadores raramente lideram. Um conjunto de conceitos, conclusões, normas, tudo embrulhado em frases encorajadoras ou denunciadoras – eis a seita, o grupo organizado, a massa manobra. O oposto do fanático, na outra ponta do espectro, é muito menos popular. A não aceitação de antolhos, de regras previamente impostas, provoca vertigens nos "fiéis" e engajados. É inconcebível para eles caminhar com as próprias pernas – isso soa à indisciplina e individualismo. O homem que não se deixa envolver, condicionar, fanatizar, é para eles um ser desprezível que recusou a necessária "coletivização" – e aí estamos em pleno pesadelo orwelliano. O fanático é o que renunciou à crítica, porque aceitou integralmente um processo que se desenvolve à revelia do seu discernimento. Diante de uma situação nova, consulta sua programação. Em nome da fé, da justiça ou que outro nome ideal possa servir de desculpa à covardia e à indigência mental.

A DÚVIDA CRIADORA.

Robert M. Baird, professor de filosofia da Universidade de Baylor, no Texas, e autor de livros em sua especialidade, sustenta a necessidade do que chama "Dúvida Criadora". Um estado de disponibilidade, de abertura para os fatos, conflita necessariamente com rígidas convicções e conclusões finais. É compreensível que muitos séculos de certezas tenham condicionado o homem a afirmar ou negar o transcendental, afastando de seu espírito todo vestígio de uma antiga flexibilidade que existiu provavelmente na origem de todas as filosofias e religiões. Perceber, descobrir, filosofar, intuir – isso tudo exige uma "predisposição para os fatos", isto é, uma entrega ao real, distante e acima de todo impulso para crer ou descrer, aceitar ou recusar. De acordo com Baird, a "Dúvida Criadora" é um modo construtivo de conhecimento da finitude humana, pode desempenhar um papel importante na manutenção de crenças vitais, permite a compreensão dos símbolos religiosos, impede a adoção de uma terminologia religiosa própria e evita uma

absorção nociva na necessidade de certeza que aflige certos temperamentos. Na Apologia, Platão estimula a "Dúvida Criativa" como fator de enriquecimento interior e encorajamento para os poderes da percepção que estão adormecidos na maioria dos homens. No seu Dynamics of Faith Paul Tillich distingue a dúvida metodológica da dúvida cética. A primeira é aquela que Pierce associou ao método científico, enquanto a segunda é uma forma de rejeição e uma certeza negativa – um tipo de fé cega com sinal trocado. Robert Baird explora uma pergunta comum: a noção de Deus que um homem pode ter, corresponde à realidade? A "Dúvida Criativa" reage com interesse, ante essa questão, enquanto o dogmatismo prefere suprimi-la, freqüentemente indignado. Quando as crenças não são desafiadas pelo discernimento – quando não há procura – tornam-se profissões de fé discursivas, e apenas isso. Assim, toda manifestação de rigidez aponta um conflito, uma recusa de verificar "como são as coisas". A metafísica tradicional e a teologia estão estruturadas em seus métodos, e na realidade não discutem as dúvidas, preferindo explicá-las uma vez que já têm a resposta pronta. Quem já sabe não procura, quem procura está querendo saber. A concepção "oficial" de fé religiosa diz respeito a alguma coisa feita e acabada, que não precisa ser buscada porque já foi encontrada. Na obra citada, Tillich relaciona a coragem e a dúvida. "A coragem não nega que há dúvida, tomando-a antes como expressão de sua própria finitude. Porque a coragem não precisa da segurança de uma convicção inqüestionável. Ela aceita o risco sem o qual

nenhuma vida criadora é possível". Essa abertura para a vida – para a compreensão da vida, que é viver – exige coragem, uma forma peculiar e não menos heróica de coragem, como uma disposição enérgica que se entreabre aos "perigos" da liberdade. O fato de não existir terminologia adequada para esse processo indica o quanto ele é esquivo às classificações, e à conseqüente subordinação ao discurso. Permanecer com a dúvida pede sangue frio, mas não se trata de permanecer cegamente fixo num ponto, por resistência e teimosia. Ficar com a dúvida é estar ativo em relação ao problema que suscita essa dúvida. A "Dúvida Criadora" ajuda a conhecer as limitações da mente que empreende o conhe3cimento. Duvidamos das percepções "convenientes", que nos conduzem onde queremos – ou onde quer nossa vaidade, por exemplo. Duvidamos dos conceitos que chegam prontos e embrulhados devidamente embalados pela superstição e pela preguiça. Há uma forma de atividade muito intensa nessa ação que se exerce sem movimentação exterior. O que parece obscuro torna-se claríssimo, o que é falso salta aos olhos e atrás dele vem as suas motivações. O que é real permanece como é no eterno presente. Aquele que percebe, sem medo e sem opiniões, está vazio e pleno de tranqüilidade. A esta altura há criação, mas não existe mais dúvida, nem qualquer forma de certeza. Os símbolos religiosos são alusões a alguma coisa que as palavras não transmitem satisfatoriamente – ou verdadeiramente. Por isso foram criados e são mantidos os símbolos. A "Dúvida Criadora" é uma porta aberta – insiste

Baird – para compreensão dessas referencias não verbais, conservadas como preciosidades por velhas culturas. Uma outra representação simbólica, as palavras, exerce um trabalho de trituração sobra a realidade na medida em que se alonga no tempo e conhece uso diversificado. A recusa de denominar ou a desconfiança ante as designações são escrúpulos procedentes diante da inclinação humana para modificar através do processo de dar nome. Esse exorcismo primitivo que consiste em "dominar" certa coisa pela adoção de um nome que a represente é praticado hoje em toda parte e a todo o momento. Finalmente, à ânsia de denominar para "possuir" sucede a necessidade de certeza que domina alguns temperamentos, e que aflige em menor escala o ser humano em geral. O que se passou a chamar de fé é uma contrafação do conhecimento religioso. O rigor mortis das disciplinas que desejam regular o sobrenatural é insatisfatório para o espírito ainda não tomado pela esclerose da sede de certeza. Uma vez mais a "Dúvida Criativa" é o remédio heróico que vai curar os males que mumificam o espírito e fazem dos homens carneiros, e da vida uma gangorra em que sobem e descem, alternadamente, o desejo e o medo.

MUDAR O MUNDO.

Em Ficções do Interlúdio, Fernando Pessoa atribui a Alberto Caeiro essa meditação: "Haver injustiça é como haver morte / Eu nunca daria um passo para alterar / Aquilo a que chamam a injustiça do mundo / Mil passos que desse para isso / Eram só mil passos / Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda, / E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho". O poeta conclui mais adiante: "Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. / Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?". O impulso para reparar injustiças e devolver o equilíbrio ao meio em que vive nada tem de cultural porque está na verdadeira natureza do homem. As questões relativas á constatação da desigualdade, e à sua clamorosa iniqüidade e à própria genealogia desse mal são insuportavelmente bizantinas em nosso século. O que tem produzido discordância é a maneira de resolver um desequilíbrio que todos reconhecem que existe. A partir da constatação de que é indispensável dar iguais oportunidades – não igual número de

bens, exatamente – a todos os homens, os meios para chegar

a essa meta entram em discussão e dividem

irremediavelmente o mundo. Mas se a constatação da injustiça depende somente de verificação, a maneira de resolver o problema oferece muitos

aspectos que, afinal, podem interferir na compreensão disso a

que chamamos injustiça, e que a primeira vista parece

alguma coisa simples e evidente. O desejo de reequilibrar o que é desigual nasce com o homem, mas muitos conceitos sobre o modo de chegar a esse resultado são culturais – opressivamente culturais -, numa época como a nossa, em que as generalizações são levadas pelos veículos de comunicação e transformadas depressa, pela repetição e pela intensidade, em dogmas e conclusões acabadas. O "é preciso fazer alguma coisa" transformou-se em "é preciso fazer exatamente isso ou aquilo", num abrir e fechar de olhos. O impulso para remediar metamorfoseou-se em impulso para demolir – porque é crença

difundida que primeiro é preciso destruir, para sobre as ruínas construir alguma coisa melhor. A indiferença diante da injustiça é egoísmo ou insensibilidade. A partir daí o problema ganha alguma complexidade, por mais que isso desagrade os simplistas e os que pretendem apenas capitalizar politicamente com a desigualdade. Todo fenômeno precisa ser conhecido antes de

ser removido, rejeitado, amaldiçoado, simplesmente porque

precisamos saber o que estamos arredando. Sabemos as mazela que derivam do desequilíbrio, mas pouco sabemos como ele se constitui, e de que modo afeta interiormente o

homem. Todo fraseado pretensamente prático que ridiculariza essa verificação como perfumaria é comprovadamente demagógico e visa apenas efeito. É muito fácil exigir pressa em nome da pobreza, por exemplo, e arrancar todas a ervas ao mesmo tempo, as daninhas e as medicamentosas. O totalitarismo é uma vocação que se alimenta nessa falsa eficiência, nesse machismo político feito para colher dividendos em pequenas assembléias. Não pode haver pressa quando ainda não sabemos exatamente quem é o adversário que estamos combatendo. Ninguém quer disparar contra sombras, com o risco de matar um aliado. O conhecimento exige, então, a tranqüilidade necessária a uma observação face a face. Aceitar a injustiça não é curvar-se a ela, acatando-a como definitiva. Aceitar significa deixar que ela seja como é, ainda que momentaneamente, para examiná-la sem a interferência da opinião e da vontade, da tolerância, da desaprovação e de qualquer julgamento prévio. Há manifestações locais e provisórias dessa questão, e há uma causa geral para sua existência – localizada exatamente no homem, em que quase todo homem, inclusive naquele que deseja remover tudo pela destruição pura e simples, além de imediata. A descoberta de que os desequilíbrios econômicos e sociais estão na mente do homem não deve ser antecipada verbalmente, porque o discursivo aqui é inteiramente inútil e serve para produzir eventuais resistências à realidade. Quando as decisões, as "escolhas", criaram raízes e são reforçadas pela vontade no dia-a-dia, os argumentos apresentados têm como utilidade

única confirmar o que se deseja, não contribuindo, portanto, para ajudar a ver coisa alguma. É preciso que a injustiça exista em seu estado "natural", para que possamos examiná-la diretamente. É como a morte, lembra Fernando Pessoa. "Mil passos que desse", para alterar as coisas como são, seriam apenas mil passos. Aceitar o fato, como se aceita "uma pedra não ser redonda" , é descobri-lo em sua essência. O que parece complexo à primeira vista, é difícil justamente por ser tão simples. Ignoramos o que é novo porque chegamos às coisas – às pessoas, às idéias, aos conceitos – com uma grande bagagem prévia, carregados de elementos que mal assimilamos, ainda, e que queremos usar de algum modo. Talvez que na compreensão do que é justo e do que é injusto esteja contida a resposta para aquelas preocupações que nos levam à angústia de viver num mundo que não podemos melhorar – ou modificar a nosso modo – porque desse mundo temos um conhecimento irreal e porque pouco sabemos daquele que se propõe mudar o resto, nós mesmos. Apesar de tudo, o mais difícil continua sendo nada fazer antes de tomar contato com o que se deseja mudar, e com esse que quer fazer a mudança.

REAÇÃO ADEQUADA.

O historiador filosofo Arnold Toynbee descobriu nas civilizações e nas culturas um "gosto de viver" que condiciona as respostas aos desafios que o mundo e a vida fazem infinitamente. No seu monumental Estudo da História e nas conferências que reuniu em livros, examinou os efeitos dessa vontade ou de sua ausência ao longo dos milênios que fazem a história humana sobre a Terra. Alguma coisa como um fluxo de energia, que motiva e estimula uma civilização a responder a problemas com reação adequada – expressa em trabalho, em certeza de sucesso, em espiritualidade ou numa disposição espartana de produzir sem esperar recompensa pessoal e imediata. Em outras palavras, aplica-se à História o que é verdadeiro, embora em desuso no nosso tempo, para o indivíduo. O conceito marxista segundo o qual o homem só se propõe questões que já esteja em condições de resolver, é visto como fútil por Toynbee. Os problemas são imprevisíveis, podem variar de dimensão e surgir repentinamente das trevas. Não é o caso da explosão populacional e dos surtos periódicos de totalitarismo, que podem ser previstos com antecedência, mas é o do aumento paroxístico da violência com o enorme risco de utilização de moderna tecnologia destruidora –

nuclear, química, genética – sem tempo para meditação, defesa, planejamento. Qual a resposta adequada a um desafio apocalíptico que surge praticamente da noite para o dia? O que pode a "vontade de viver" contra a associação da psicose com a alta técnica usada com efeitos mortíferos? O pessimismo e o cassandrismo não podem ser alegados em defesa do arquivamento do problema, porque ele é real, provável, talvez iminente. A esperança consiste no fato de que a reação – se é de fato adequada – não demanda tempo, pelo menos no sentido que imprimimos a essa palavra. Assim, ela só precisa ser realmente apropriada. A modernidade condicionou-se a rejeitar, no seu superficialismo, toda forma de tradição. Uma infinidade de valores antigos, no entanto, tem mais a ver com o eterno do que com o tradicional. Quando a extroversão consumista baniu a sobriedade, onde ela existia, arredou também uma extraordinária fonte de energia conhecida do homem antigo. A Contra Reforma e algumas seitas protestantes entenderam isso muito claramente, fazendo da simplicidade associada ao trabalho em uso surpreendente. Esse antigo valor foi a argamassa das vinte e uma civilizações que Toynbee relaciona como tendo nascido de reação e desafios exteriores (A Study of History). Sua desintegração posterior deveu-se à perda do "gosto de viver" e a movimentos reacionais indevidos face a grandes desafios. Nos últimos volumes de sua obra, o historiador filosofo chega lentamente a uma síntese que se pode dizer religiosa – num sentido muito amplo – na compreensão dos movimentos que caracterizam a História e

que relacionam indissoluvelmente as culturas de todos os tempos. Não importa o desafio, toda resposta é adequada enquanto inspirada na temperança, ou que outro nome tenha aquela disposição que conserva acesa uma chama interior que predispõe ao trabalho e permite desfrutar a vida. "Sobriedade" não diz tudo desse estado, porque destaca apenas um dos seus aspectos. Há um outro lado, um "gosto de viver" que é profundamente energético, e que coexiste à perfeição com a simplicidade. Essa "resposta" é coletiva, aparecendo numa sociedade para permanecer ou simplesmente. Na grande cultura ocidental unificada pela revolução das comunicações, esse élan aparece e desaparece sem que se possa concluir se é uma característica estável ou não. Face ao perigo, surge com maior freqüência e intensidade. Nos períodos de equilíbrio e prosperidade, é quase imperceptível. Toynbee teve o mérito extraordinário de entender o passado como alguma coisa que a seqüência de eventos suscetíveis de registro. A história das civilizações e das culturas é a história do homem, e nada diferente disso. A energia espiritual presente no tempo de vida das civilizações é uma lição para o presente, e pode ser configurada numa práxix. O tédio e a desesperança que a miséria e o excesso de conforto promovem não precisam ser combatidos discursivamente porque a própria realidade – no caso o conhecimento da História, de certo modo a história do homem – revela que essas enfermidades do espírito resultam de deformações da vida, ou da maneira de viver. O desafio do

lazer, por exemplo, terá de ser destinado ao conhecimento e à criatividade. Se for encarado como um vazio a ser preenchido, como alguma coisa a ser gasta de determinado modo – como quem "mata o tempo" – estaremos caindo no erro da reação inadequada, daquele gênero que precipita o fim das civilizações e das culturas. O autoritarismo, a burocracia, a especialização conduzem à monotonia asséptica do Admirável Mundo Novo, que só é admirável na ironia shakesperiana de Huxley, porque de fato é um retumbante fracasso em termos de humanidade. A eficiência dos sonhos totalitários peca pelo fato de ser compulsória, não por ser eficiente. A única ordem que não coage é a que nasce dentro do homem, quando ele descobre sua verdadeira natureza. Aí, numa progressão que não pode ser medida pelo próprio indivíduo, surgem nele a ordem, a sobriedade, o equilíbrio, cessando o burburinho interior e todo ruído inútil. As civilizações e as culturas expressam esse amadurecimento naquele "gosto de viver" que assegura sua longevidade e permite o que Arnold Toynbee chamava de reação adequada aos desafios do mundo e da vida.

A MÃE TERRA.

"O homem, a criança da mãe terra, não conseguirá sobreviver ao matricídio, se chegar a cometê-lo. A pena para esse crime será sua própria aniquilação". No último volume de A Study of History, publicado um ano após sua morte, em 1975, Arnold Toynbee havia chegado a essa conclusão, mas foi em Mankind and Mother Eart que ele desenvolveu suas idéias a respeito. A mãe terra, símbolo presente em todas as mitologias, está profundamente cravada no coração do ser humano como origem, fonte de energia e túmulo do corpo. As idéias básicas de Toynbee precisam ser previamente apreendidas, para que se faça uma avaliação em profundidade dessa sua derradeira obra. Os conceitos de noção e responsabilidade, de desafio Oriente Ocidente, do comunismo como religião, da resposta adequada ao estímulo imprevisto, reforçam sua visão final da necessidade de conhecer o passado para fazer frente ao futuro. As agressões à mãe terra, o homem as comete pela indiferença e pela ignorância. Seu engano inicial consiste em crer que existe independentemente da natureza, como um fenômeno destacado, equivoco com as teogonias – inclusive a judaico cristã, no Gênese – que mostram a criação do primeiro homem como a agregação de um corpo estranho ao mundo paradisíaco que parece existir a muito tempo. Em seguida, a

grande ilusão que acalenta todas as vaidades, segundo a qual podemos corrigir a natureza, sempre com vantagem. Os materialistas do começo do século deliciavam-se com a perspectiva do HOMO SAPIENS poder derrubar montanhas e construir represas. Os russos orgulhavam-se até há pouco tempo de uma técnica própria para alterar o curso dos rios. Entre esses dois equívocos – a separação da natureza e a possibilidade de modificá-la – teimam em existir centenas de outros, como a tendência a transportar "ambientes naturais" de um lugar para outro, ou transferir para produtos e locais artificiais meras evocações da natureza, como odores, temperatura, sons e sabores. O matricídio que a "criança da mãe terra" está perpetrando não consiste exatamente em derrubar árvores, ou em pisar na grama. O mundo tem hoje um número bastante expressivo de defensores das espécies vegetais, e esse número somente agora está crescendo no Brasil. O crime verdadeiro resume-se na não compreensão do natural, no desencontro com os animais, os vegetais e os minerais que compõe o mundo, a mãe terra. Não vemos, não mergulhamos em sua realidade. Longe disso, nós os "possuímos" no pior sentido da palavra, porque de fato nos apropriamos dos espécimes, apenas isso. Temos plantas, temos animais, temos terra, e porque os temos ao alcance da mão, não os vemos mais. Possuir é um modo de esquecer, ou um modo de identificar e passar adiante. Podemos ter bens, é claro, porque alguns deles são necessários e outros são agradáveis de ter,

mas com a natureza é diferente. Quando chegamos a ela da maneira certa ela chega até nós da única maneira possível. A mãe terra produz o homem, e tudo o que nele abriga e acalenta seu espírito. Não é diversa de seu filho porque ele possui a centelha que lhe permite desvendar essa maternidade. No entanto com a realidade natural, o homem perde as idéias românticas sobre conservacionismo que tem um potencial de destruição tão grande quanto a caça predatória e a exploração madeireira irresponsável. A radicalização na ecologia multiplicou preconceitos e dificultou a discussão de questões simples e urgentes. Não faz qualquer sentido lutar contra todo uso de pesticidas na agricultura e ser incapaz de uma comunhão com os santuários vegetais que encontramos em toda parte, às vezes bem próximos de nós. Não significa muita coisa recusar o uso pacífico do átomo e amaldiçoar os projetos energéticos e industriais, sendo insensível às humildes manifestações de vida natural que convivem conosco, e que dificilmente percebemos. O cativeiro de alguns animais, a que a maioria das pessoas é indiferente, revela os paradoxos com que o homem deste século convive. É uma pena, mas as coisas não são simples como gostaríamos que fossem. A mente humana, chave de tudo, é complexa na medida em que é sutil no sustento das ilusões que gosta de criar. Os mitos criados em torno da "volta à natureza" fazem parte de uma tela que visa manter tudo exatamente onde sempre esteve, isto é, visa aplacar nossas culpas através de um exagero protecionista que é pura irracionalidade – quando não é manobra política. Nas cidades

grandes, é fácil ver de que maneira compensamos nossa insensibilidade para com a natureza. As varandas estão repletas de plantas, há canteiros nas calçadas, há protestos públicos quando alguém quer derrubar uma árvore, as crianças aprendem nas escolas como tratar com carinho as avencas. Todo aprendizado e condicionamento, nada a partir do interior – direção natural do que é sincero e profundo. A mãe terra pode ser vista como uma imagem romântica ou, não importa o nome, como uma realidade imensa na qual estamos quase afogados, mas que praticamente desconhecemos. Nosso relacionamento com a natureza é utilitário. Por que não seria, se com as crianças, com os animais e com o mundo também é? O "sentimento" utilitário faz de tudo aquilo em que toca um meio, jamais um fim. Servir-se de alguma coisa é um modo eficaz de não ver essa coisa tal como ela é. O que é inútil, nesse somatório prático, torna-se invisível – o que é um incrível desperdício de beleza. Os poetas, alguns poetas, e os religiosos, alguns religiosos, são aqueles seres incomuns que descobriram a maravilha da gratuidade. A contemplação da natureza – sem rituais ou posturas, naturalmente – é o exercício inútil que esses privilegiados fazem no cotidiano. Para eles, a mãe terra nada tem a ver com a retórica, com a poesia e o sonho, porque está solidamente instalada no dia-a-dia.

EM BUSCA DA CURA.

No seu livro mais conhecido, A Coragem de Ser Paul Tillich define a neurose e seu séqüito de sofrimentos como a maneira de evitar o não-ser, evitando ser ". Embora a linguagem filosófica e o falar especializado tenham expulsado do campo da meditação espontânea o homem comum, tendemos todos para um reencontro com os problemas fundamentais na rotina da vida. A busca de um sentido para o sofrimento inútil, que atinge tanta gente na obscuridade do dia-a-dia, encontrou nos estudos do psiquismo humano - desenvolvidos no começo do século e fragmentados algumas décadas depois – uma ajuda esforçada, mas reconhecidamente pouco eficaz. Com Tillich, pensadores e observadores leigos mas atentos à vida concluíram que a psicanálise teria de propor o esquecimento científico na abordagem do problema patológico, para avançar de fato até onde se propõe a chegar. A idéia de analisar outra pessoa depara com uma primeira dificuldade ao tentar ver alguém "de fora para dentro", quando o contrário é viável, embora difícil. Em seguida, tropeça nos condicionamentos pessoais do analista, capazes por si de deformar sua percepção do outro. Depois, esbarra nos "padrões prévios" , critérios de abordagem que prejudicam a compreensão daquilo que se observa –e que é sempre absolutamente novo. Os critérios científicos, indispensáveis em

certos casos e úteis em outros, são rígidos e pesados demais quando se trata de investigação que tem como campo o psiquismo humano, meio em constante alteração, passível de mudança pela simples observação. Esse impasse pode ser, no entanto, ultrapassado pelas situações críticas. O encontro com a dor e o desespero pode colocar em xeque valores que até então ninguém pensaria contestar. Os esquemas férreos do cientificismo podem ser abandonados nas situações drásticas, e uma porta ser aberta para " a outra pessoa". O mecanismo que leva a " evitar o não-ser, evitando ser", é bastante simples. Sua compreensão, porém , passa antes pela desmistificação das complicadas e variáveis teorias que pretendem explicar o psiquismo. As "Teorias Fundamentai" que regem o método científico dificultam a eficácia da psicanálise como instrumento. A terapia não progride a partir de certo ponto, e tudo que alimenta sua continuidade por anos a fio são jogos sutis e intelectualizados, extraídos da imensa teia teórica que procura racionalizar os estudos da mente. A autoridade de alguns nomes famosos serve de aval e esperança, ainda quando a rotina está enraizada na terapia e o "Velho Adão" assumiu a direção do espetáculo. A contradição pode ser entendida assim: a consciência quer abarcar o processo total da mente, inclusive o que está além de sua fronteiras, tentando incluir o todo na parte. A psicoterapia enfrenta outras dificuldades, há muito discutidas e nunca solucionadas. Os que buscam a cura

desejam simplesmente a remoção dos sintomas dolorosos da "doença", não a eliminação daqueles elementos que causam a perturbação. Esses elementos são o paciente, com suas preferências, gostos e opiniões. Não há um fabricante de ilusões destacado dessas ilusões. A mente é um ramalhete de concepções falsas sobre a vida e sobre si própria, nesses casos. Extirpar as ilusões, aqui, equivale a matar o ilusionista, ou aquele que deseja livrar-se dos sintomas. No fundo de tudo - e aqui invadimos o território da metafísica – está o horror fundamental do não-ser, do sono sem sonhos, da morte absurda que imaginamos e tememos. Nossa reação a esse perigo é a recusa de ser integralmente. No mais remoto de nossa mente, rejeitamos o que parece a antítese do nada, porque sua aceitação importaria ter muito para perder. Não somos, portanto, não assumimos uma unidade; permanecemos divididos em compartimentos isolados, em fragmentos sem qualquer inteireza ou sentido. O pensamento de Tillich vai bem mais fundo nesse terreno, enquanto afirma a futilidade de um deus transcendente no infinito do espaço. Sua visão do homem ganha sentido na certeza de um deus imanente, mergulhado na profunda realidade humana. "Religião, diz ele, é a substância da cultura, e a cultura é a forma da religião". O poder do ser, a essência de todo homem - desconhecida do contemporâneo, na grande maioria dos casos – é Deus, ou que outra designação possamos dar-lhe. A realidade última é concedida ao homem na compreensão da realidade finita e trágica da Humanidade O que morre com o

homem na morte do corpo é um punhado de insignificâncias - algumas estimadas pela nossa insensatez. A procura de terapia, de salvação, é geral neste fim de século atormentado. O que busca através dessa cura é o prazer, a permanência, não a compreensão da realidade. Exatamente por isso, não há terapia adequada. Se procurarmos alguma coisa com uma idéia prévia dessa coisa, o que, mas encontrar é o ersatz do real, uma espécie de projeção de nossas crenças. Entender esse processo pode ser um caminho novo, que passa ao largo do cientificismo nominalista que predomina no pensamento discursivo, no aprendizado oficial, nos métodos de pensar. O conhecimento científico é indispensável no mundo em que vivemos, mas é sendo que conhecemos o que há em nós, começo e fim do sofrimento e do prazer, da confusa noção generalizada de tempo e permanência. A "coragem de ser" de que fala Tillich não é um segredo hermético, uma iniciação filosófica ou uma proposta intelectualizada, mas um convite a ver as coisas como elas são, estejam no intimo ou no exterior de quem as vê.

UM BRASIL KITSCH.

A onda que varreu o mundo a partir da metade da década de 60, designada com imprecisão e sem unanimidade como contracultura, trouxe consigo possibilidades de rompimento de antigas estruturas calcificadas e, ao mesmo tempo, uma infinidade de exageros e generalizações que serviram a toda forma de equívocos. O universo hippie (generoso, mas artificial), a preocupação ecológica (justa, mas logo deformada pelo fanatismo) e a liberdade sexual (que devia começar na maturidade emocional e acabou partindo da permissividade) foram algumas dessas bandeiras que ainda hoje, vinte anos depois de desfraldadas, servem a indivíduos e grupos para garantir interesses comerciais mesquinhos ou atitudes e campanhas que visam a fins dissimulados. No Brasil, o registro colorido do último carnaval, o cinema nacional "liberado" e as mais recentes telenovelas mostram até que ponto a explosão contracultural atingiu um mundo até ontem reprimido e tradicionalista, determinando o inevitável desabamento no outro extremo. Nossas Sodomas urbanas prosperam, em meio à mediocridade, ao mau gosto e à complacência de uma censura de diversões que finge de morta para compensar os excessos cometidos há alguns anos. O carnaval passado foi a festa do kitsch, da exibição do grotesco, da deformação feliniana na Tv e nas revistas pornográficas que se disfarçam, durante o ano, de domésticas e informativas. Nas bancas de jornal, nos trailers das matinês,

na televisão que hipnotiza milhões de pessoas através do País, o mesmo espetáculo grosseiro e exibicionista, a sintomatologia de uma doença que os cientistas sociais ainda não diagnosticaram de maneira satisfatória, mas que espanta pela crueza dos seus sinais. Os meios de comunicação não convidam para o show, na maioria dos casos: obrigam, simplesmente, homens, mulheres e crianças a vê-lo o tempo todo, presente que está onde quer que se ponham os olhos humanos. Há meio século apenas, o espetáculo público era alguma coisa que se procurava e ao qual só assistiam os que estavam interessados em assisti-lo. Agora é diferente, todos são espectadores compulsórios, ninguém é excluído como platéia e testemunha. E o show é vulgar como nunca, apelando para o exótico em substituição ao belo, exibindo a quantidade como alternativa da qualidade. Essa agressividade de alguns veículos de comunicação precisava de outros méritos para ser tolerável. O carnaval é uma imposição que não admite escolha, porque as comunicações invadem todos os lugares e todos os sentidos, eliminando tudo que não seja seu tema de eleição. A simpatia e a simplicidade de quatro décadas atrás foram trocadas pelo excesso de ornamentos, pelas fumaças de mitologia e erudição. O carnaval acabou complicado demais para ser alegre. Do cinema nacional "descontraído" - que não se confunda com o cinema nacional de verdade – o que se pode dizer é que ele faz uma espécie de chantagem que surte efeito em país subdesenvolvido. A ausência de uma tradição culta entre

nós criou um temor reverencial curioso a respeito de tudo que se atribua profundidade ou fale em nome da arte. O véu de charlatanismo que confunde realismo com pornografia continua atuando a favor desse estado de coisas. O sexo, a palavra forte, perfeitos quando preenchem uma função ou conferem veracidade à obra de arte, tornam-se ridículos quando usados abusivamente e francamente antipáticos quando procuram apenas o impacto ou visam a desencadear o riso nervoso dos que não sabem compensar velhas repressões de outro modo. Finalmente, temos a televisão, veículo sensibilíssimo que apaixona e enfada com a mesma rapidez, presente em todos os momentos do homem urbano, dito civilizado. A ninguém parece interessar como funciona seu poder de sedução. As pessoas preferem cair sob esse domínio, adotando sua linguagem e seus ademanes, a observar como e por que consentem nessa hipnose. O humorismo grosseiro e pouco criativo dos programas cômicos tornou-se vício porque preencheu um vazio – o abismo negro na vida das pessoas em geral. Mais difícil é suportar as telenovelas com pretensões freudianas, mesclando personagens "liberados" com neuróticos comuns, e tirando disso vagas conclusões que todos imaginam avançadas, embora não saibam por quê. As cotações do Ibope são o único critério de avaliação dos que comandam a máquina extrovertida – o que até dá bem para entender, quando lembramos que o sucesso pelo sucesso é um padrão de comportamento largamente aceito.

A exploração da sexualidade não é chocante como pensam seus patrocinadores, é ridícula. A compatibilidade entre o cômico e o sensual é sabidamente difícil. Os mafuás de auditório e os dramalhões milionários nunca deixaram de usar a mesma fórmula do passado, agora temperada com

relâmpagos em que surge a modernidade na forma de partes do corpo, vício inconfessáveis, alusões mórbidas. A infinita potencialidade da Tv é malbaratada com superficialidade e malícias de ocasião, fruto do despreparo e da má fé. Ninguém

é inocente em toda a história, mas ninguém é inteiramente

culpado, uma vez que a pressão cultural é quase irresistível. O

conhecimento do processo é uma via de superação dessa canga – mas quem está interessado nisso, quando o lucro, o

sucesso, a vaidade são a moeda corrente? O exibicionismo e

o deboche que dominaram o carnaval, um certo cinema, as

publicações vendidas nas bancas de jornal e a programação de TV mostram a quem quiser ver um outro Brasil, minoritário e barulhento, fútil, kitsch, desprovido de alma e muito diferente daquele outro, de verdade, que nada tem a ver com a decadência porque somente agora começa a crescer.

A FOME DE CERTEZA.

A facilidade com que adquirimos certezas indica apenas

o quanto precisamos delas. Para Samuel Butler, "uma coisa é na medida em que nos dá menos trabalho para pensar que

é". Além daquela medida em que é necessário estar

convencido de determinadas coisas - as pequenas coisas do cotidiano e o que pode ser mensurado pelas ciências positivas

-, toda obsessão para chegar a idéias definitivas conduz a uma forma de paralisia do espírito que todos conhecemos bem, porque é um mal que aflige milhões de pessoas em nossa época. O mecanismo dessa necessidade de certeza é pouco

observado. Não porque seja altamente complexo e exija conhecimentos especializados, além de penetração sutilíssima, mas porque não conhecer é um modo de perpetuar "uma coisa que é", ou parece ser. Dizia Goethe que o homem não nasceu para resolver os problemas do universo, mas "para colocar seu dedo sobre cada problema e permanecer depois dos limites do compreensível". De algum modo o filósofo estava dizendo que

é impossível conhecer o universo sem antes conhecer aquele

que propõe conhecê-lo. Os limites do compreensível são impostos pelas limitações de quem compreende, claro. Um espírito consegue ser aberto a fatos que até então ignora, quando filtros internos não coam e interpretam o que vêem e ouvem. As certezas são conclusões que fecham as portas

desse espírito, ou que não as fecham completamente, mas estabelecem aquele processo de filtragem que é basicamente

condicionador de novas certezas. O estado de "abertura" é uma disponibilidade da inteligência, onde reina o silêncio de quem escuta com atenção e em que se descobre que a resposta vem quase sempre no mesmo corpo da pergunta. Schopenhauer escreveu um dia que "os homens tomam os limites de sua visão como os limites do mundo". É possível que tenha acrescentado em algum lugar que esses limites podem ser alargados quase infinitamente. Pensar que o horizonte encerra o universo é tão egocêntrico quanto imaginar que esse horizonte é o limite natural e possível de cada homem. O demônio das certezas não deve ser confundido com o conhecimento objetivo das coisas sabidas e adivinhadas. Sabemos que o chão não vai afundar à medida que caminhamos, sabemos que depois da madrugada o dia vai amanhecer, sabemos milhões de coisas e de certo modo temos certeza em relação a elas. Diferente é adotar modelos, dominar fórmulas, chaves para determinados padrões, definições dentro das quais o mundo deve caber. Esse tipo de certeza, dominante em nosso tempo, não é tão difundido como decorrência de algum capricho da natureza humana, mas simplesmente porque precisamos desesperadamente dele.

Voltaire lembrou uma vez que "não há seitas na geometria". Conhecemos a solidez (quase) inabalável das ciências positivas e apreciamos os benefícios que elas nos proporcionam. É confortável poder confiar nos especialistas que nos presenteiam com a racionalidade da microcirurgia, do avião supersônico, das imensas formas leves dos edifícios onde

vivemos, e sonhamos transportar esses resultados para

aqueles outros campos em que não nos sentimos seguros, porque afinal a ciência fez mito pouco ou nada fez neles. O sentido da vida, o mistério do EU, a morte onipresente, o enigma de um tempo que escoa entre nossos dedos - a consciência do homem permanece na mais absoluta ignorância

a respeito de tudo isso. Se nosso lado racional nos informa

que vivemos num mundo do qual nada sabemos em termos transcendentais, um outro lado menos claro instala em nosso espírito uma usina de certezas, de conclusões e de respostas prontas. Os dogmas, os arcabouços ideológicos, as correntes, as seitas, o cientismo e o misticismo, são os pacotes que a insegurança preparou para que os mais assustados façam sem muito medo, a viagem da vida. A maioria das pessoas parece ser assim, e ainda aqueles que não são às vezes se tornam. Uma forma de ignorância que pode ser chamada de sutil ampara esses necessitados, reforçando suas convicções e fazendo pequenos reparos e adaptações no seu

convencimento. Não é preciso dizer que essa forma de sobreviver é insegura, tanto quanto qualquer outra. As crenças organizadas – e isso inclui do animismo ao materialismo – são uma tentativa de defesa contra as incertezas da realidade,

o que significa que são uma recusa do que existe. O que se

opõe à realidade termina segundo um dos dois caminhos: o desaparecimento ou a fossilização. A busca ansiosa desses pacotes é já um princípio de esclerose, ou pelo menos uma propensão para essa forma peculiar de enfermidade.

"O homem é aquilo em que ele crê", diz Chekov através de um dos seus personagens mais meditativos. Os que crêem nas grandes superstições modernas não diferem dos que criam nas grandes superstições antigas que levavam hordas humanas à guerra e hereges às fogueiras. A aparente erudição e os argumentos sofisticados escondem mal o primitivo com seu tarô, sua manopla, sua vara de tanger, seu chicote. O medo da vida e da morte produziu nele a fome de certeza, e esse apetite é insaciável. Ainda que uma grande montagem de crenças convincentes possa acalentar as naturezas que precisam agudamente de segurança, haverá sempre uma dúvida que vai does de modo especial, ou uma resposta que não vai satisfazer de todo. É por aí que começam a minar os dogmas e as ideologias. O protesto dos "hereges" e dos que clamam no deserto pode ser uma semente que tem alguma possibilidade de frutificar, mas não será nunca um aríete para derrubar a estupidez do pensamento fechado. Esse desmoronamento é inevitável, mas vai começar por dentro.

O FATOR HUMANO.

É difícil encontrar um outro período da História em que o homem tenha depositado tanta confiança nos seus atributos consciente, quanto o que estamos vivendo agora. As versões científicas e filosóficas mais prestigiadas atualmente são as que põem todas as soluções no pequeno núcleo de consciência e memória que constitui apenas parte da mente, e, portanto apenas um pedaço do homem. Quando a própria observação do espírito é comprometida pelo sistema de avaliação dualística que as "ciências do consciente" impõe como único método aceitável de compreensão do mundo, resta muito pouco a fazer na tentativa de olhar de fora – sem premissas estabelecidas ou imposições metodológicas – as coisas como são, bem como o observador das coisas, exatamente como é. Karl Marx e B.F. Skinner são talvez os autores mais significativos destes tempos que acreditam piamente que as circunstâncias humanas podem e devem ser reguladas pelo próprio homem. Ambos acreditam que se o ambiente nos fez de certo modo, devemos mudar o meio social para que possamos viver em meio à justiça e à felicidade. O problema da liberdade não preocupa seriamente esses apóstolos do self made man total. A manipulação e o controle do comportamento humano conduzem a um ideal de vida no qual se crê sem reservas, hoje em dia. Aonde levam essas idéias na prática é fácil constatar procurando informações sobre o que ocorre na União Soviética, no campo da psiquiatria aplicada à "regeneração política". No Ocidente, um outro tipo

de condicionamento em massa proporciona um retrato desanimador do consumismo e da cultura compartimentada. Para B.F. Skiner, de Harvard, os caminhos soviético e ocidental incidem em erro na medida em que têm muito de ocasionais:

a psicologia tem hoje meios para moldar perfeitamente o comportamento humano, de modo a criar qualquer coisa parecida com a felicidade na Terra. No romance Walden Two, Skiner propõe algumas providências que impeçam a utilização de suas idéias pelos regimes totalitários, como se fosse possível impor limites a quem dispõe de poder ilimitado. A ingenuidade é inadmissível numa época em que todos lêem jornais e assistem aos informativos de televisão, para mencionar o mínimo. Um processo que ganha força e se robustece vendo em cada acontecimento uma confirmação só pode ser detido de dois modos: por força superior à sua, ou pela revisão das idéias que deram origem ao seu crescimento. O despotismo não é propenso a atos de contrição, ou não seria o que é O erro está no fundamento, na concepção inicial, na justificativa do primeiro movimento. É aí que os defensores do condicionamento humano – por métodos sutis ou à força – precisam ser revisados e compreendidos. Para Skiner, a liberdade individual é um mito. De tal forma que a eliminação das causas específicas da infelicidade humana não precisa levar em consideração escrúpulos sobre a supressão da escolha individual. Se não existe livre-arbítrio, tudo é permitido – principalmente quando o que se tem em vista é o bem-estar, e a ventura da espécie. Skiner defende

com rigor científico sua posição, mas as premissas de que parte são, como não podem deixar de ser, filosóficas. Como os demais pensadores contemporâneos que levaram a racionalidade às últimas conseqüências, ele se refere a uma parte da mente como o todo. A consciência-memória é

condicionável, e todos nós estamos mergulhados num oceano de constatações desse fato, deixando de observá-lo em função desse mesmo condicionamento. Tomar esse pequeno núcleo como "o homem", ou o espírito do homem, é julgar o iceberg pela ponta de gelo que emerge no mar.

As circunstâncias humanas não podem ser reguladas pelo

homem porque isso a que se chama homem não é uma unidade, e porque ninguém e nada podem regular-se a si próprios, com sucesso. Além disso, os controles são necessários quando valores fundamentais estão em perigo e não existe conhecimento da realidade. A parte não pode abranger o todo, nem sequer compreendê-lo, nisso consistindo todo o equivoco dessas formulações que advogam a melhora do ser humano através do adestramento – alguma coisa que se

faz com êxito quando se trata de cães e cavalos. A parte adestrável do homem é aquela área mais grosseira de sua mente, que se parece com o computados (um ersatz da inteligência, essencialmente diverso dela), que se relaciona com a cumulação de dados e projeta imagens do mundo e de si mesma, nem sempre condizentes com a realidade.

A liberdade individual é um mito para os espíritos

petrificados pelo condicionamento – os fanáticos de todo tipo,

os engajados de todos os matizes, os Torquemada, Himmler,

Béria, os que só acreditam no recurso à força. Esses vivem como se a liberdade fosse uma fantasia dos outros. De resto, quando a mente é flexível e não se apavora com a inexistência de certezas absolutas, a criação é um fluxo que se renova de momento a momento, na simplicidade do cotidiano e nos grandes espaços que cabem em instantes que a outros parecem fugazes. Para esses espíritos, a liberdade não é alguma coisa que se discuta, porque eles a conhecem pessoalmente. Ainda assim, não se eximem de discuti-la porque sabem o quanto as idéias se alimentam da diversidade e da controvérsia. As circunstâncias humanas não precisam ser reguladas, precisam ser conhecidas.

COM ÁGUA PELO PESCOÇO.

"Procuraste a carga mais pesada – diz Nietzche no Zaratustra – e encontraste a ti mesmo". No grande mosaico em que cada pedra é um dia, uma dor, um sofrimento, uma experiência, pouca coisa parece formar tão bem um desenho coerente quanto a opera magna da descoberta do mundo pela revelação do descobridor. Não se trata de um calembur intelectual ou de um enigma para pessoas cultas, mas da constatação de um sentido para esse conjunto de coisas que jamais deixamos de acreditar que obedecem a uma coerência. A clareza que exigimos para examinar o que a esfinge da vida propõe todo o tempo é mais do que simples objetividade é resposta. A intuição pura de Nietzche percebe que a carga só é pesada porque não nos encontramos momento a momento, preferindo esperar um instante de redenção, após o qual nada será como antes. A descoberta fundamental, no entanto, não é uma culminância, é um processo. Em carta de 1930, Hermann Hesse encaminha o assunto de maneira mais inspirada. "As sabedorias e possibilidades de salvação não estão ai para serem ensinadas e também não para assunto de conversa, senão para aqueles a quem a água já chegou ao pescoço". Não é um tema para ser meditado na Semana Santa, mas uma realidade a ser percebida quando o homem se dá conta do que significa perceber, e das implicações que isso certamente tem em sua vida. A palavra salvação está suficientemente comprometida com um dilúvio de afirmações desencontradas, para merecer algum crédito. Melhor é falar em conhecimento, a abordagem de alguma

coisa que não conhecíamos anteriormente. Quando se faz disso um passatempo, uma ocupação de pessoas pretensamente inteligentes, resta muito pouco a descobrir. Aquele "desenho coerente" que podemos encontrar no mosaico da vida está intimamente ligado com o que somos. Jorge Luiz Borges tem uma pequena história que usa a mesma analogia: um pintor tenta condensar num imenso painel o mundo, e ao fim do trabalho, quando se distancia para observar o conjunto, descobre que desenhou o próprio rosto. Seria mascarar a realidade dizer que existe um preparo para essas descobertas, qualquer coisa como uma iniciação. Quando a "água já chegou ao pescoço" de alguém, isto é, quando todas as ilusões foram gastas e nem mesmo a desilusão (essa manifestação vaidosa do cansado) permanece, há como que um vazio profundamente criativo. Esse é o ponto, e tudo que se pode dizer dele é que a idéia de fazer alguma coisa, de prosseguir segundo um método, morre ali. A carga mais pesada de que falava Nietzche deixa de existir. Nada disso, como em geral todo o resto, é definitivo e estável. Se o velho Adão recobra o fôlego e tenta uma classificação inteligente, não há vazio nenhum na medida em que há alguém tagarelando. A linha de pensamento a que estamos habituados tem uma porção de objeções a opor, a essa altura:

em que consiste tudo isso? Para quê? Por que complicar as coisas? Por que não fazer uma exposição simples e metódica do assunto? "Segundo a minha experiência – afirma Hermann Hesse, numa de sua cartas - o elemento mais irritante e destruidor

dos homens é aquele impulso baseado na preguiça de pensar e na necessidade de permanecer em paz, que leva para o coletivo, para a explicação racional, para a vulgaridade

subordinada à dogmática rigorosa, seja ela política ou religiosa". O hábito precisa ser entendido, em seu mecanismo implacável, para que seja possível vislumbrar um pouco além do cotidiano. As exposições racionais e metódicas valem para uma infinidade de circunstâncias e são de imensa importância na vida, mas nos casos em que o racionalismo e o método transformaram-se em biombos, escondendo a realidade em nome da busca dessa realidade, tudo muda de figura. A técnica, a cultura, o conhecimento acumulado são pouco ágeis

e sutis para um empreendimento tão delicado quanto à

abordagem do real, nesse "fio da navalha" que é o momento presente. Não há retórica na conclusão de que essas descobertas só podem acontecer agora - não ontem, nem dentro em pouco. O fio do momento que passa (e que ainda não passou) existe entre duas vertentes e é o único pedaço do tempo que

conhecemos de fato. O que as escolas e correntes dizem disso pode ser interessante, mas desvia atenção do assunto e "verbaliza" ainda mais o pensamento. Não há nada que a erudição possa fazer para ajudar, no caso, mesmo porque ela costuma ser prolixa, principalmente quando usada como alavanca nos truques de auto-afirmação. Essa é a carga mais pesada porque exige resistência e leveza, que freqüentemente

se excluem. É preciso resistir ao peso dos hábitos mentais,

do costume social, dos modismos de todo tipo, sendo ao

mesmo tempo flexível como um florete, e penetrante como ele.

Há preconceitos demais cercando o simples e o fundamental em nossa vida comum. Temos o espírito vergado para direções determinadas e quanto mais antiga a pressão, pior a luta para identificar o desvio. Não se trata de corrigir, mas de identificar. A isso seria possível chamar de "revolução mágica", se a expressão não fosse muito publicitária: o conhecimento modifica em profundidade. São João Evangelista disse isso de um modo, Freud de outro. Os preconceitos que cercam o simples e o fundamental são gerados pela ignorância. Não pela falta de dados acumulados – que isso qualquer computador pode fazer e nem por isso é sábio -, mas pelo desconhecimento do emaranhado de causa e efeito em que vivemos, em meio ao qual pensamos ser perfeitamente lógicos e racionais.

SERVIDÃO VOLUNTÁRIA.

Em La Barbarie à Visage Humain Bernard-Henri Levi mostra de que maneira a pergunta fundamental e milenar sobre o sentido de ser - que inspirou Platão, Shakespeare e Kierkegaard - foi substituída pela perplexidade moderna a respeito do sentido do poder. Os que não beberam a poção totalitária e ainda mantém flexibilidade de espírito voltam-se para a enormidade desse fenômeno, hoje maior do que em todos os tempos, no qual assume importância inexcedível a dominação do homem pelo Estado, pela ideologia, pelo seu semelhante. Bernard-Henri Levi, que até aqui foi escondido do leitor brasileiro, fala da "servidão voluntária", essa doença diagnosticada por Etienne de La Boetie, e que se dissemina em benefício dos ávidos de poder. A ânsia de mando e de controle é uma tentativa pouco eficaz, mas ainda muito acreditada de conferir segurança psicológica ao mundo, de corrigir o que parece precário na vida, de perpetuar o que por natureza tende a morrer depressa. O Estado é tanto mais forte quanto maior for o medo de perder os controles "num mundo basicamente mau". Esse aspecto é talvez o mais interessante do conjunto. O apologista do regime de força está convencido da inviabilidade do homem por si mesmo. Sem a proteção firme de um ego imenso, um grande irmão que pode variar de temperamento, mas que duvidará sempre das possibilidades do homem comum, nada sério e duradouro será construído. O Estado dominador, porém, é mais fácil de entender que o conjunto de idéias dominadoras, o punhado de propostas

transformadas em afirmações, que, afinal de contas, acabam sendo regras de comportamento. O século XX não abdicou das conquistas territoriais, como vimos na Segunda Guerra Mundial e, depois, até o Afeganistão. O que se deseja com o território conquistado, agora, é a implantação ali de princípios e idéias que estabelecem a dominação definitiva. Nunca ocorreu a Hitler converter os holandeses, por exemplo, àquele conjunto de certezas impingido no Mein Kampf. Hoje o domínio se faz junto ao homem, não necessariamente dentro das fronteiras em que ele vive. O novo poder é exercido no interior do indivíduo, de um modo tal que chega a contar com sua cooperação, expressa no fenômeno horrível da "servidão voluntária". Tudo o que a História nos conta de conquista e dominação - sendo esse seu tema privilegiado – teve até hoje as mesmas características de imposição pela força, prostrada também pela força à vontade dos dominados. Sempre que diminuiu a pressão, eclodiu a revolta. Pela primeira vez na História, acontece diversamente. Uma legião de "escravos felizes" surgiu como uma espécie nova, colonizados e em completa harmonia com o colonizador. É verdade que essa dominação se faz com um revestimento especial em que sobram as racionalizações e as justificativas mais engenhosas. A doutrinação supõe um convencimento livre, o que lhe confere alguma respeitabilidade. Na verdade, o que acontece é exatamente o contrário de uma conclusão racional, porque sucede nada

menos que um processo paulatino de hipnose, de "incorporação" da doutrina soprada persistentemente. O desejo secreto de ser convencido – ou de ligar-se a alguma coisa maior que oferece resposta para tudo – é meio caminho para a dominação, na medida em que reduz de muito o trabalho do dominador. A "sedução voluntária", esse paradoxo, está intimamente relacionada com a questão do poder, hoje em dia. O problema sempre existiu, é verdade, e uma vez ou outra foi discutido. Agora que ele explode como calamidade contemporânea, mudando a face do mundo em prejuízo dos melhores valores humanos, é hora de ser dimensionado. Os que se engajaram no processo – aqueles que Ionesco chamou "rinocerontes" - combatem pela causa dentro de suas áreas específicas e de acordo com suas possibilidades. Grande parte deles está empenhada em que tudo isso permaneça em silêncio, em que o fenômeno corra à conta de ficção ou de fantasias de comportamentistas, esses sonhadores. A realidade não é tão amável. A "servidão voluntária" está aí, exposta à luz do dia, pronta para ser dissecada. O que falta é disposição para isso.

Um modo de negar o fenômeno é a generalização dos seus termos. Argumentos vários lembram que homem e poder sempre estiveram juntos, que essa luta é eterna e não apresenta características novas no momento. Bernard-Henri Levi põe em destaque o conceito de poder que, de certo modo, permite que ele siga sendo buscado por meio da dominação ideológica e doutrinária. Quem define, domina. Se o poder é

uma questão de classe, se a luta por ele e a própria noção de classe já vêm definidos, há apenas uma constatação a fazer, nada mais. É esse exatamente o mecanismo de controle que se denuncia, na análise da conquista do poder from inside, pela subjugação da vontade, do discernimento, da capacidade de decisão.

A imantação das palavras é a mais sutil e proveitosa

forma de dominação – e de conquista do poder – jamais empreendida desde que o homem se organizou em sociedade. Os vocábulos não podem ser "enriquecidos" por decreto ou decisão de um grupo. O trabalho é feito pela repetição com a conotação desejada, com a concordância cabível, na entonação adequada. Quando essas designações circulam no âmbito desejado, ganham força e substituem suas equivalentes "pobres". Um conjunto de palavras devidamente "carregadas" tem a força de persuasão de mil tratados e alguns oradores experientes. Usadas por quem não concorda com elas, agem como bumerangue, condicionando as respostas antes mesmo que as perguntas sejam feitas.

CONTOS DE FADAS.

Os especialistas nem sempre explicam satisfatoriamente o fenômeno, mas quase todos abonam sua existência: a criança que não desenvolve uma forma especial de fantasia,

que não abre uma janela para o infinito ou descobre "mistérios fascinantes" na vida, conhece uma interrupção no seu crescimento interior. O mundo comum dos adultos é tão contraproducente e insípido para os pequeninos quanto as tentativas de comunicação feitas pela maior parte da ficção destinada às crianças atualmente. São as lendas, os contos de fadas e as "Histórias de Trancoso" que parecem mais sedutoras aos olhos dos que chegaram há pouco tempo à vida. O próprio adulto que tiver conservado alguma coisa das maravilhas contidas em certas revelações da infância voltará

a

descobrir um encanto inexplicável nas narrativas compiladas

e

reescritas por Andersen, Grimm, Perrault e outros, ou nas

velhas lendas das Mil e Uma Noites. Herder e Winckelmann realizaram, no século XVIII, os primeiros estudos científicos sobre os contos de fadas, partindo da certeza de que antigas crenças e símbolos significativos possuíam conteúdos capazes de explicar o próprio homem. Os irmãos Grimm recolheram narrativas populares que teriam um "sentido religioso". Mais tarde, Roger Bastilde, Mircea Eliade e Lévi-Strauss dedicaram detalhados estudos ao tema. No Brasil, Luis da Câmara Cascudo, pesquisou as histórias e lendas de recantos diferentes do País. Da metade do século XX em diante, os etnólogos e especialistas em História das Religiões usaram algumas idéias fundamentais de Jung no exame de um material que permaneceu intocado muito tempo.

Os contos de fadas e algumas histórias populares revelaram, com a ajuda da antropologia, da sociologia, da psicologia e até da arqueologia, uma riqueza que até algumas décadas ninguém poderia imaginar. As interpretações de filiação psicanalítica padecem, muitas vezes, dos mesmos erros que tornaram quase inerme a psicoterapia freudiana. Nas narrativas simples do "Gato de Botas", de "Rapunzel", de "Chapeuzinho Vermelho", de "Irmão e Irmã", da "Gata Borralheira", de "Os Três Porquinhos", tudo pode ser encontrado, mas a identificação fácil do ego, do id e do superego nos personagens é freqüentemente ridícula e fútil. Melhor que isso é a descoberta, nesses contos, de uma antiga sabedoria que conhece muito bem a importância da fantasia e da fabulação para o espírito humano. Os contos de fadas não fogem às situações duras, aos dilemas críticos. Seus leitores são postos diante de fatos, simplesmente, sem a preocupação de atenuar a realidade, típica da ficção infantil moderna, encharcada das idéias trazidas pela psicanálise. O mito apresenta seu tema de forma majestosa, de modo a transmitir uma força espiritual que a narrativa "realista" não conhece em absoluto. Os heróis dos contos de fadas têm um vigor concentrado que advém de sua simplicidade. Não são personagens que devem ser imitados, como os heróis contemporâneos, mas padrões de comportamento que podemos adotar e abandonar, conforme a situação. O dualismo às vezes simplório das lendas é uma prova disso, na medida em que qualquer criança intui que um homem não é apenas uma

coisa, mas uma multiplicidade delas. A riqueza de As Mil e Uma Noites, por exemplo, consiste na apresentação de personagens e circunstâncias que dividem entre si características humanas bem nítidas. Platão sugeriu que os cidadãos de sua república ideal seriam educados com a narração de mitos que transmitissem os ensinamentos fundamentais. Para Aristóteles, sabedoria e lenda estão intimamente ligados. Chesterton ia mais longe: "Nossa primeira e última filosofia é aprendida no berço. As coisas em que mais acreditamos sempre estão contidas nisso que chamamos contos de fada". As histórias "realistas" inibem as fontes de fantasia, da imaginação, da criatividade – e saúde mental tem muito a ver com esses atributos. Já se disse das narrativas de As Mil e Uma Noites que elas são um antídoto contra a ansiedade e a insegurança. Não porque distraiam a atenção da realidade, mas porque colocam uma parte do espírito em movimento, preparando o homem para um conhecimento que está longe de ser "prático" mas que produz resultados bem verificáveis. Bruno Bettelheim, em A Psicanálise dos Contos de Fadas (Editora Paz e Terra), estuda muitos desses fatores, mas é na análise do simbolismo de Sherazade – a personagem que conta uma fieira de histórias ao rei Shariar, para protelar indefinidamente a própria morte - que ele se defronta com o fundamental na questão das narrativas antigas. Sherazade livra-se da morte (ou da angústia de saber-se destinada a morrer um dia) pelo contato com as mil situações do mundo e da vida possível. O universo desfila diante do rei, nas

sucessivas noites em que a filha do vizir desdobra seus contos. Diz a obra que no final ocorre a cura de Shariar, compatibilizado com a vida e com o desfecho necessário da morte. É ainda Bettelheim que recorda a infância do pequeno Goethe, num depoimento da mãe do poeta: "Inventávamos estradas entre as estrelas, e os grandes espíritos que encontraríamos. Ele me devorava com os olhos. Se o destino de um de seus favoritos não corria como desejava, podia ver a raiva no seu rosto, ou seus esforços para não romper em lágrimas". As janelas abertas para o infinito não foram fechadas, para Goethe, pelo "realismo" que tem como vício principal acreditar que pode controlar a vida. As histórias antigas – e suas companheiras inseparáveis, as ilustrações também antigas – foram durante muito tempo e para muita gente, uma introdução ao mundo. Como não foram substituídas com vantagens, fariam bem em voltar.

QUESTÕES ABERTAS.

O melhor do que aprendeu ao longo de uma vida em

que observou a beleza e a realidade, o critico de arte e estudioso inglês Clive Bell reuniu em Civilization. "Somente a razão pode convencer-nos - diz ele- das três verdades fundamentais que é preciso descobrir na vida, sem as quais não existe a verdadeira liberdade: a de que aquilo em que acreditamos não é necessariamente verdadeiro, a de que aquilo de que gostamos não é necessariamente bom e a de que todas as questões devem permanecer abertas". O autor

de notáveis estudos sobre Cézanne e Proust havia adquirido

com o tempo aquela visão serena e profunda, que desfruta da

vida e não pretende converter ninguém nem mudar o mundo à sua volta. Na simplicidade que adquiriu depois de

cansativas batalhas, Bell fala com singeleza do seu ceticismo

a respeito de absolutos, e de sua fé nos dons do espírito

humano. O que pereceu a outros uma forma de capitulação não era senão a certeza de que a paz interior é para ser vivida, não para ser ensinada exaustivamente. Uma semeadura feita com amor é suficiente: para isso basta o exemplo. Enquanto em torno fervilha num mundo habitado por cruzados, que se atiram de corpo e alma a tarefas mais ou menos inúteis, esses outros poucos – que sabem com clareza que a cidade a ser sitiada e tomada é interior e invisível para os demais – ficam em sua pequena casa simbólica, na vida que lhes coube, executando suas tarefas com prazer e esquecimento de tudo mais. As acusações de indiferença, de capitulação e de imobilismo são obsessivas nos que podem ser chamados, para

efeito de compreensão, de "mundanos".São sua fraqueza e sua insegurança, justamente, que ditam essa interpretação. Ver o "outro lado" das questões é qualquer coisa como escrever na superfície da água. Temos uma visão completa do problema, e logo ela já não pode ser usada pela memória para algum fim prático. Apesar disso, podemos cultivar essa virtude, único modo de ter acesso ao amor num meio que nos empurra para longe dele todo o tempo, pelos motivos que todos sabem e pelos outros, que raramente percebemos. Os espíritos emparedados na certeza racionalista pensam que o conhecimento é um fechamento sucessivo de questões, um encerramento de inquéritos sobre a vida, uma seqüência de portas que se cerram para sempre. Clive Bell fala, como outros também falaram, do contrário, de um conhecimento que não encerra o assunto, exatamente porque formar um juízo rígido é uma forma de ignorar o movimento permanente de todas as coisas, passando de um instante a outro e sofrendo modificações infinitas. Essas idéias assustam a maioria das pessoas, que vêem nisso "um relativismo sem convicções". Essa é talvez a aparência. A colocação de todos esses termos numa ordem simétrica, procurando para eles um sentido claríssimo (leia-se familiar), desencadeia o caos ou fabrica uma espécie de rotina mental, que compreendemos, mas não entendemos. Ter certeza é necessário, as mais das vezes. Formar cadeias de certezas que acabam prevendo as situações e enquadrando a realidade é organizar uma grande mentira. Um computador é capaz de montar uma realidade "paralela",

lógica e real, mas na verdade absurda e fantasiosa. O conhecimento acumulativo - necessário em determinadas circunstâncias – pode ser reproduzido por máquinas feitas pelo homem, e se parece muito com certas habilidades humanas. O que a memória e seus circuitos (humanos ou cibernéticos) não pode fazer é a percepção do "outro lado", da alma das coisas, da empatia, do todo referente a certo assunto, sem o parti pris e a descriminação da consciência. As questões permanecem abertas quando recusamos dar um veredictum a propósito de alguma coisa, preferindo conhecê-la diretamente, instante a instante. Os sentidos não opinam, constatam. Quando a observação é perfeita, quando mergulhamos naquilo que observamos, conhecemos. Não há nada transcendental nisso – ou pelo menos não há nisso nada do que comumente designam como transcendente. A questão está centrada como vemos as coisas: se ela é integral, o objeto visto dispensa conceitos, títulos, teorias, tornando-se bastante eloqüente em sua existência. Quando se diz para que serve algo – e só se diz isso - encerra-se essa coisa numa redoma. Os pensamentos conclusivos são como sentenças sem apelação. Num instante inspirado, o inglês Clive Bell foi levado a dizer que a regra de ouro neste mundo é negar a validade de todas as regras, sejam elas de ouro ou não. Se isso nos deixa inseguros, tanto pior para a nossa necessidade doentia de segurança. Os veredictos são sintomas, não conclusões finais e acabadas.

Os problemas que mais doem na carne do homem são derivados, hoje como ontem, da busca constante do definitivo, do absoluto, do conclusivo. Foi essa fome de certeza que gerou tanta fantasia, e que produziu esse mundo aonde a quantidade vai alternando aos poucos a qualidade. Os dogmas, as ideologias, a disciplina cega são tentativas de ordenar o mundo de acordo com fórmulas diferentes, mas sempre tentativas naquela direção. A ordem que nos falta no espírito queremos criar do lado de fora, no mundo exterior. Daí o hábito da imposição, o vício da palavra final, a fé no arbítrio, a crença na fórmula, o amor da armadura dentro da qual deve ser metido à força o homem. Logo ele, em quem mal cabe um espírito que não nasceu para ser modelado, e que morre sempre que se deseja prendê-lo na gaiola de alguma idéia.

A ARTE DE DESAPRENDER.

Por toda parte ao redor do mundo existe hoje, mais do que em qualquer outra época, reverência, interesse e preocupação com os temas do ensino, do aprendizado e do conhecimento. O que significa essa realidade que se chama aprender, essa coisa de que tantos falam e sobre a qual tão pouco se sabe? Os dicionários informam que aprender é tornar-se capaz de alguma coisa em conseqüência do estudo, da observação, da experiência ou da advertência, através do armazenamento de lembranças, memórias, imagens, dados e sensações. Um pouco além dos dicionários e do senso comum, no entanto, há mais alguma coisa no ato de aprender que pode ser descoberta, e que se relaciona com a utilização ou o aproveitamento que fazemos do conhecimento que adquirimos. Há dificuldades na abordagem desse assunto. Primeiro porque há livros, teorias, correntes demais versando o tema. Depois porque a terminologia a ele referente é complexa, variada e – o que é muito pior - designa coisas diferentes pelo mesmo nome, ou dá vários nomes para as mesmas coisas. Ultrapassados esses obstáculos, talvez o resto seja surpreendentemente simples. O conhecimento prático do mundo objetivo, não há como negar é indispensável. A memória da língua, dos lugares que conhecemos e que visitamos, dos perigos que nos ameaçam e das necessidades do corpo, compõe um conjunto de informações sem o qual a vida é impossível. A fisiologia do cérebro é bastante competente para proporcionar uma relativa segurança ao homem, mesmo num meio ambiente selvagem ou agressivo. Os dados que usamos para garantir

nossa sobrevivência, porém, podem ser utilizados "artificialmente", para reforçar conclusões convenientes, para fugir ao vazio e à dor, para fabricar ilusões agradáveis, para criar mitos e idéias gratificantes. O homo sapiens dispõe da máquina sofisticada da mente - tal como ela existe hoje, condicionada, ardilosa, sutil, mas predominantemente imatura. Esse dispositivo extraordinário tem pretensões muito peculiares, aspirando à perfeição e à eternidade, sendo infelizmente bastante imperfeito e de existência fugaz. Essas contradições geram conflitos internos - que derivam para tristeza, medo, angústia, ódio, neurose, violência. Aprender devia ser uma sucessão de perceber e arquivar. Não se sabe por que nem como, tornou-se um círculo que abarca perceber, acumular, modificar, utilizar, arquivar e utilizar novamente, modificando o quanto for necessário. Modelamos a experiência da realidade de acordo com nossos medos e desejos, usando o resultado disso - as idéias, os sentimentos, as conclusões - para agir e reagir. A máquina da mente, sem dúvida esperta, mas nem remotamente sábia, atua eficazmente no sentido de eliminar o que não coincide com a "imagem" que criou de si mesma e do mundo. Esse é um dos seus atributos, mas não é o único. Atua também eficientemente fabricando sentido, tecendo enredos, produzindo uma aparência de continuidade que une fenômenos isolados ou, ao contrário, separando o que está naturalmente associado. Nos seus contatos com o mundo, o núcleo que conhecemos como eu é basicamente superficial, ruidoso, contraditório e fútil - mas tece com habilidade um

continuum para si mesmo, de forma a parecer duradouro no tempo e eficaz no espaço. O que a mente conhece como aprendizado tem dois aspectos diferentes: o prático, necessário à sobrevivência, que identifica e seleciona, e um outro, que cria um mundo paralelo sem correspondência na realidade e que serve para mascarar o que assusta e desagrada o ego. Um homem informado possui em seu arquivo mental dados utilíssimos e uma grande soma de inutilidades para uso psicológico, isto é, para criar e manter ilusões. Os conhecimentos têm o seu peso particular, o prestigio que irradia do meio psicossocial onde surgiu. Há uma respeitabilidade inerente aos conhecimentos, ante os quais nos curvamos reverentes – embora não atentos. Acreditamos nos enunciados, acatamos (sem examinar) noções e conceitos, ouvimos respeitosos as conclusões. Se discordamos, é porque fizemos uma aceitação prévia e queremos defender o nosso argumento, anteriormente aceito e incorporado ao nosso eu. O aprendizado, então, tornou-se um método de aumentar o arsenal de quinquilharias que utilizamos na confecção das ilusões que tecemos todo o tempo - ou quase todo – em que estamos vivos. Precisamente por essa razão preferimos sucata, material de segunda ordem, entulho fácil de comprimir. O que exige atenção verdadeira, o que contesta nossas bem estruturadas ilusões, o que desafia nossas crenças, repudiamos despreocupadamente. Se deparamos com uma situação "inconveniente", em que alguma coisa nos obriga a pensar ou observar mais seriamente, trazemos do nosso

imenso fichário subterrâneo entretenimentos coloridos, barulhentos, fascinantes. Ou simplesmente ficamos com sono. Os livros, as teorias, as correntes, os dogmas, excitam

uma faixa muito superficial da mente. O que é mais profundo e ligado à estrutura fica imune a qualquer contágio e praticamente não tem qualquer contato com um mundo onde tudo é rigorosamente filtrado pelo eu - a consciência e a inconsciência individuais. Cultivamos, assim, através de toda a nossa existência, com raras e anônimas exceções, um brinquedo engenhoso, um gadget feito especialmente para imitar a realidade, não para reproduzi-la ou mostrá-la aos nossos sentidos. Tudo o que já se disse sobre o uso, pelo homem, de apenas uma décima parte do potencial de seu cérebro é verdade. Apenas agora esse fato não impressiona mais como antigamente, uma vez que nos acostumamos com

o que é verdadeiro e com o que é falso. Nos livros, nas

idéias, nas teorias e nos tratados pode haver muito da

realidade, mas essas porções não servem senão como divertimento para a mente condicionada que controla tudo,

ou

quase tudo, e dá maior importância a um minuto de prazer

ou

de vaidade, do que ao universo e ao infinito.

Fora do círculo rígido mantido pela máquina em funcionamento está, quando sequer existe, toda e qualquer

esperança de regeneração do homem. Não há nada religioso,

no sentido tradicional, nessa recuperação para a realidade.

Desaprender é necessário. Não se trata de apagar da memória o que nela está, mas de compreender com intensidade, com interesse real e tranqüilidade, do que é

feito - e para que fim – esse caleidoscópio que, decerto modo, somos nós mesmos. Desaprender é descondicionar, pela via do conhecimento. Entender o mecanismo do aprendizado é morrer para o palavrório intelectualizado que aprisiona o homem no universo verbal das convenções. São muitos os truques e sutilezas usadas pelo eu - por nós mesmos, cada um de nós em particular - para continuar exatamente onde está, alongando-se no tempo e afirmando-se no espaço. A perda dessas ilusões é aquilo mesmo que alguns homens chamaram de "pequena morte", é a perda de si mesmo, a queda do grão na terra - único modo de renascer, crescer e frutificar. O caminho para isso é a arte de desaprender.

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