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Luiz Carlos Lisboa

O Som do Silêncio

Dados do Livro Editora : VERUS ISBN : 8587795562 Espec. : AUTO AJUDA BROCHURA

1 º Edição - 2004 - 116 pág.

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SUMÁRIO.
Prefácio de Lygia Fagundes Telles Amigos e escravos. O gérmen da violência. A importância da importância. O pecado de todos. A violência nos outros. Tempos de obscuridade. A era da destruição. O eterno Ano Novo. Amanhã, a felicidade. Borges, tempo e invenção. Mortos e sonâmbulos. A ajuda mútua. O medo da liberdade. O eterno nos livros. Estoicismos. Melancolia. Anatomia da ignorância. A tarefa de cada dia. Viagens. A serpente de duas cabeças.

No coração do mistério. A pedra filosofal. A natureza humanizada. O sentido do perdão. Energia, energias. A nova idolatria. O fermento da falta. Eros mistificado. Entender, simplesmente. A perplexidade, um bem. O bom navegante. Barulho interior. A fala frívola. Depois da crise. Responsabilidade. A simples realidade. As grandes intuições. Formas de crescimento. Natal, o que resta. Alguma coisa morre. A linhagem do fanatismo. A dúvida criadora. Mudar o mundo. Reação adequada. A mãe-terra. Em busca da cura. Um Brasil kitsch. A fome de certeza.

O fator humano. Com água pelo pescoço. Servidão voluntária. Contos de fadas. Questões abertas. A arte de desaprender.

e esta vareta mais ambígua. Que acaba por enquadrar o homem todo poderoso na gaiola das certezas quando lá fora está a perplexidade e o imprevisto. o que é uma outra coisa. Destaco desse leque duas varetas: a da servidão ao poder econômico. é manhã. sugere neste belo livro a arte de desaprender. Eu sei – alardeia o segundo. Avarícia e pedantismo – pavões sem mistério passeando suas pompas e glórias num jardim mais artificial do que um cenário de teatro. E se conhecendo melhor pode ir se limpando dos excessos intoxicantes na nova caminhada de orvalho e luminosidade. vaidade das vaidades na ânsia de prestígio. ambos arrogantes como todos os fanáticos que se escravizam a uma disciplina cega. que pode plasmar o avarento. Cuidadoso e paciente. fontes jorrando inesgotáveis das incertezas do infinito. . mas o erudito.PREFÁCIO A insegurança e o medo – esses os principais geradores da desesperada vontade de poder que se abre como um amplo leque diante do homem. amordaçada por fórmulas e dogmas. um pensador raro porque de imaginação cintilante e fervorosa sensibilidade. Luiz Carlos Lisboa. O excesso de ouro e de saber indiscriminado fazendo da pele algo insensível sob a crosta de camada e camadas de supérfluo. de costas para la noche oscura ele indica atalhos e veredas nas quais o leitor pode se encontrar no humilde exercício do nosce te ipsum. Eu tenho – diz o primeiro. Há esperança. não o homem culto. que faz o erudito. da servidão ao saber.

diz Luiz Carlos Lisboa. Então é preciso coragem para atirar longe toda essa carga que já virou sangue.Para aquele que se impregnou de um saber mais espesso do que uma armadura fica difícil e dolorida essa tarefa de guardar o essencial e rejeitar o ostentatório porque nesse resíduo também está a memória. sejam elas de ouro ou não. A compensação da arte de desaprender estaria em reaprender a arte de viver. Preocupado com as dificuldades do homem neste emaranhado. solto. num estilo poético. Cita o inglês Clive Bell num instante inspirado: "A regra de ouro neste mundo é negar a validade de todas as regras. do absoluto. do que distinguir o que é importante". ele fornece ao leitor todas as pistas de leituras. Se isso nos deixa inseguros. hoje como ontem. tanto pior para a nossa necessidade doentia de segurança". mas é precisamente no seu texto que estão os mais profundos e enriquecedores achados em torno dos temas que envolvem a condição humana. Mais inspirado ainda do que o instante do inglês é o instante do brasileiro quando diz que "os problemas que mais doem na carne do homem são derivados. compassivo diante de sua luta para se agüentar com os frágeis instrumentos que Deus lhe deu. Mas como reconhecer no nosso cotidiano o desimportante sempre tão misturado ao que verdadeiramente importa? Imperturbável manipulador de idéias. que é a vida. consegue aliar ao prazer da leitura a . talvez. procura ele não sobrecarregar ainda mais esse homem-leitor apressado e desgastado. "Nada é mais importante. do conclusivo". nervos. da busca constante do definitivo. Assim.

por sua sensibilidade quase humana. Consciente disso. Nos Estados . Luiz Carlos Lisboa evita a retórica dos ensinamentos. das mensagens. atribuía a alguns animais uma profunda identidade com o homem.Eliot considerava "o maior poeta da língua inglesa no século XX". Toda criação é liberdade. L ygia Fagundes Telles AMIGOS E ESCRAVOS Willian Butler Yeats. razão porque DELPHIS é a palavra grega que significa útero.seriedade de um vidente. é preciso ser vidente no ofício de escrever. num ato de amor acaba por nos dar uma admirável lição de vida. Mas sabendo também que só através do amor é possível penetrar na complicada estrutura deste mundo. foi para os gregos o símbolo da conexão entre a vida e a morte.S. O golfinho. a quem T.

Rick Gaffney. além de indenizar o centro de pesquisa pela perda dos animais.Unidos. condenados a pagar uma multa elevada. Lilly soltou todos os animais que estava estudando. Kenny Levasseur e Steve Sipman realizavam trabalho de pesquisa psicofísica sobre a agudeza de percepção dos sons pelos golfinhos. por isso. o que começa a ser chamado "o direito dos animais" será uma realidade muito em breve. tem revelado a extraordinária memória e a capacidade de aprendizado desses cetáceos. Um consultor de assuntos do mar. o médico John Lilly foi o precursor dos testes de inteligência em animais. desde que descobriram neles uma forma característica de ansiedade por estarem presos. Passou a trabalhar com um grupo de pesquisadores. inclusive privando-os da liberdade. Foram. Os cientistas declararam seu propósito de não mais aprisionar animais. quando descobrirmos que. Os resultados de trabalhos semelhantes. em Honolulu. onde se adaptaram durante milhões de anos. tiramos os animais de seu meio natural. dois cientistas decidiram libertar os golfinhos que utilizavam em experiências havia alguns anos. até hoje considerados "os mais próximos dos homens". na Flórida. distingue dois tipos de pessoas quando se trata de . usando modelos estimulados por computadores. superiores mesmo às dos chimpanzés. levados a efeito nos últimos dez anos. No laboratório de Kewalo Basin. convencido de que esses testes sacrificavam os golfinhos com que trabalhava. Na década de 60. Em sua opinião. em nome da pesquisa científica e até de amizade pelos bichos. para transformá-los em objeto com função e utilidade. chamado a opinar no processo.

tudo feito em nome da ternura. é muito importante e merece . Os que reagem a essas idéias de respeito pela vida animal alegam as mil razões conformistas que sempre justificaram o aprisionamento e a tortura. Esse argumento tem seu peso. na época. no passado. freqüentemente involuntária. É bom lembrar que a "coisificação" de pessoas teve. uma vez que a maioria das pessoas defende. de ver filmes e aprender sobre bichos.perseguição. age diferentemente. a começar pelos animais domésticos". O assunto provocou muita controvérsia. maus tratos e extinção de espécies animais: "As que gostam de olhar. desde já. Até que ponto essas alegações são verdadeiras ou escondem o mais elementar impulso egoísta de transformar seres vivos em coisas úteis ou utilizáveis é um caso a estudar. as mulheres. da amizade adquirida. na prática. do interesse da ciência. essa questão que encerra tanto incompreensão quanto hipocrisia. as minorias étnicas e religiosas sofreram e ainda sofrem restrições. resultantes da cegueira egoísta dos beneficiários de sua exploração. teoricamente. É oportuno considerar que as crianças. dos bichos que convivem com o homem. quando tantos seres humanos ainda precisam conquistar direitos. no mundo. mas. da necessidade de companhia. aprisionando e dificultando a vida natural. O problema da caça. alguns elementares. em nossos dias. a preservação das espécies animais e o tratamento humanitário dos bichos. o nome de escravidão. Talvez ainda esteja longe a vez dos animais. e as que querem salvá-los imediatamente. mas aparentemente não há por que deixar de discutir. etc. e de crueldades correlatas.

e à convicção de que essa coisa toda de "direito dos animais" é pura pieguice. tanto que suas espécies resistiram em liberdade até que o homem resolveu domesticá-los. quando a nossa verdade interior está em jogo.atenção. isto é. mas de compreender a motivação dos donos desses animais. cães e gatos em casa. O que parece fútil assume importância inesperada. Quando Yeats atribuía aos seus irmãos irracionais uma profunda identidade com o ser humano. descobrimos muito da nossa realidade pessoal. mas é preciso começar a debater imediatamente a atitude humana contemporânea em relação aos animais domésticos. estava aludindo também – o que é comum em sua obra – à extraordinária . entre as paredes de um apartamento. a não ser para nos fazerem companhia. também nesse relacionamento. bem como o que nos induz a essa atitude super protetora em relação a animais que sempre viveram muito bem em seus habitat naturais. individualmente. como os cientistas da Flórida e de Honolulu fizeram com seus golfinhos. à proteção que a maioria dos donos proporciona ao seu animal. Seria útil interiorizar a investigação do assunto vendo que nos leva. Não se trata de libertar imediatamente esses bichos. ou para nos orgulharmos de seu porte e pedigree? Os argumentos favoráveis ao costume são todos "exteriores". a ter pássaros. dizem respeito à domesticidade desses bichos que convivem com o homem há milênios. quando. ao fato de que eles não sentem como nós. a não ser para exibi-los e para ouvir seu canto? Por que ter cães em casa. Por que ter pássaros em gaiolas e viveiros.

ou que não acumule ambas para encurtar os caminhos e lavar as mãos. O homem de hoje é o mesmo de sempre. agora. O GÉRMEN DA VIOLÊNCIA Esse problema imenso da violência no mundo. que certamente virá de uma observação interessada e isenta. tem sido encaminhado sempre para as alternativas inevitáveis da punição e da advertência de fundo moral. mas também com sua . O que fazemos. desejos e agressividade. neste estado de nebulosa ignorância em que a maioria de nós vive. são apenas nossas propriedades e servem só à nossa vaidade e ao medo de solidão que mora conosco.possibilidade que temos de nos conhecer pelo relacionamento com os animais que nos cercam. Difícil encontrar uma colocação que não tome essas feições. doença que contaminou todas as sociedades desse sistema de vasos comunicantes que é a cultura humana moderna. Talvez a partir desse autoconhecimento. como fazemos e por que fazemos nesse convívio podem esclarecer muita coisa a nosso respeito. com sua animalidade e seus temores. seja fácil e até mesmo instintivo agir com naturalidade em relação aos bichos que.

é altamente contagiosa. estamos constatando sua existência longe de nós. estamos nos distanciando dela. Somos os observadores da violência. Essa é uma das ilusões sutis que a linguagem permite. em outro. Não é de psicólogos e sociólogos que precisamos para entender o fenômeno. seu surgimento e auge. Alguma coisa detonou. A descoberta da violência em nós. e uma sucessão de causas e efeitos incorporou à vida humana o hábito da resposta violenta. apenas interessados no problema. Para entender a violência. Não é só uma questão de linguagem.divindade muito característica. atuando nesse nível discreto em que ela costuma atuar nas pessoas ditas civilizadas. mas de penitentes dispostos a um ato de contrição sem qualquer laivo de culpa. da qual estamos separados. na ação e na reação. a brutalidade como ação. perceber sua genealogia. . A abordagem do problema da violência por esses ângulos cansados do castigo e da advertência já não atende à necessidade de entender. Não é a violência que interessa. ou até em tese. A violência. em nosso mundo. como se sabe. interna e externamente. há mais coisa envolvida nisso do que parece à primeira vista. é o violento – é o fenômeno enquanto vivo. Quando falamos em violência. nos nossos desejos e temores. nos últimos vinte anos. que algumas pessoas começam a intuir como a única alternativa. uma reação em cadeia que trouxe à tona o pior e relegou ao fundo do esquecimento o 'sal da terra'. é preciso conhecer nossa violência pessoal. é a extinção da violência no mundo – de início.

Toda perseguição estimula secretamente o perseguido. depois porque esse tipo de apelo é dirigido à consciência. a repressão. Os hábitos. os conceitos de ordem moral repercutem fracamente. quando é abarcante e integral. pelas restrições que desencadeiam.As ameaças de punição. Ninguém deixa de ser violento fazendo força para não praticar atos violentos. dominando a própria vontade. talvez mais forte. porque ensejam uma sátira que supõe inteligência e espírito em quem a exercita. Primeiro. prevenção podem obter resultados. sem escolha ou engano de qualquer ordem. A violência em nós é flagrante . o medo do castigo. é verdade. cerceamento. são técnicas inadequadas porque supõem a continuação da ignorância. mas não curam uma epidemia dessa dimensão. A compreensão é uma forma diferente de abordagem. dá a ele uma "razão para viver". enfim. mas muito em breve haverá outra irrupção. um motivo por que combater. Policiamento. As advertências e conselhos de fundo moral são o que existe de improfícuo com respeito à violência. da violência. isto é. e a violência deita suas raízes em terreno um pouco mais profundo. O problema coloca-se todo diante de nós. ignorando todo discurso e desconhecendo toda forma de coação. Na época em que vivemos. as necessidades. Os vícios de fundo psicológico são fortalecidos. O ímpeto está dominado provisoriamente. como ninguém ignora. as deformações ganham energia quando reprovados e combatidos. A apreensão de determinado fato ou fenômeno contém uma dinâmica muito peculiar.

O dramático na questão da violência é que ninguém está a salvo de suas investidas. no desprezo pelas minorias. não os violentos do outro lado da rua – tem em si próprio a violência que abomina nos demais e que deseja remover do mundo pela repressão ou pelo discurso indignado. e nós. Há violência porque falta seriedade – não a sisudez mal humorada ou a austeridade fingida. Os livros. as correntes. Por essas razões ficamos distantes da violência. no convívio familiar. Os mais pacíficos e inocentes são atingidos pela onda de insanidade que está nas relações sociais. Nosso único contato com ela ocorre quando somos suas vítimas. os mestres já ensinaram o que tinham de ensinar. A maneira de deixar a teoria de lado e passar aos fatos consiste na constatação da nossa violência miúda (mas . no insignificante e superficial espírito de competição. enquanto isso é possível. é perceptível na impaciência. nas injustiças sociais. Há quem faça isso por nós. A violência prolifera no caldo de cultura da ignorância. pessoas comuns. Cada um de nós – não os outros.nas pequenas e menores reações. no trânsito. Essa é uma porta real para um problema terrível que ameaça a todos. para observar. para entender. temos somente de viver a vida. já disseram tudo a respeito. na ansiedade. mas a honestidade de propósitos interior – porque poucos estão interessados nas causas e nas conseqüências de suas próprias ações. no mundo dos negócios. e se alastra pelo exemplo e pela imitação. no grande desencontro afetivo entre homens e mulheres. sem maiores complicações. Não somos pagos para pensar. no menosprezo pelos demais.

resolvidos. como resultado. básicos – que. no entusiasmo e no tédio. A maioria das pessoas encontra dificuldades em precisar as questões fundamentais. mas de uma extraordinária realidade que se confirma a cada momento. na relação com os outros.virulenta). talvez do que saber distinguir o que é importante. A crise de energia. são esses os problemas mais importantes com que o homem se defronta? . no dia-a-dia. mera conseqüência de outros – esses sim. a distribuição da riqueza. inclusive a violência. Não se trata de um calembur. acabariam por sanar. todos os outros. na ingenuidade e no ceticismo. nas escolhas e decisões. está o conhecimento das coisas. a desumanização do homem pela tecnologia e pela competição. Nesse caleidoscópio de cada momento. A IMPORTÂNCIA DA IMPORTÂNCIA O que parece um jogo banal de palavras pode encerrar um significado imenso: nada é mais importante. a difícil convivência entre os homens nos grandes centros urbanos. a produção de alimentos no mundo. de fato. Alguns daqueles problemas hoje considerados importantes são. no prazer e na dor. que é impossível reproduzir e que pertence exclusivamente a cada homem. na simplicidade de cada instante. e na duvida acaba optando pelo fútil e pelo acessório.

passa por ele e a ele continuará ligada até um ponto impreciso no futuro. teceram a malha fantástica que algum dia terá de ser desenrolada para que o homem reencontre o que de certo modo.Essas dificuldades não surgiram sozinhas. a irresponsabilidade na produção e na distribuição de alimentos no mundo. o trabalho feliz. É verdade que a situação agora está aguda como nunca. foi criada por todos e ninguém está alheio a essa responsabilidade. separados do fulcro da violência e da injustiça. seus desejos. mas do resultado de um desenvolvimento complexo. O mundo não se encontra em crise há apenas alguns anos. a justiça. pelo menos nos últimos 30 séculos. como se não tivessem em seu espírito aquela mesma matéria prima que produz a morte e os ferimentos. por razões que merecem ser examinadas. tudo começa. a indiferença diante da dor e a ambição de chegar ao poder e de se manter ali. que se colocam como todos nós. mas o problema é antigo. o amor. tornou incrivelmente complicada a vida comunal. Seus receios. afinal. a robotização do homem pela tecnologia. tem sido uma sucessão de incompreensões. . os crimes hediondos cometidos em nome da felicidade humana e da justiça social desmascaram os melhores propósitos de líderes e estadistas. As guerras cruéis. sua necessidade frenética de segurança. O ser humano. os tratados hipócritas. brutalidades e egoísmos de todos os matizes e gêneros. é seu por direito: a tranqüilidade. a distribuição da riqueza. A trama não surgiu sozinha. uma espessa malha de causas e feitos que começou no homem. A História do Homem. A crise o petróleo.

arquiva uma bagagem variável de dados e experiências que usa em função dos seus impulsos. um computador sofisticado que se alimenta a si mesmo conduzido pelo impulso de preservação e pelo desejo de sobrepor-se a tudo mais. comandado pelo que julgamos ser consciência. de um lado. o consumismo neurótico do Ocidente. nas células onde vive. o Poder. há o dualismo típico da mente conturbada. Pela sua peculiar estrutura. Esse centro – que não é a mente no seu todo – criou o mundo que conhecemos. Na conflagração do petróleo está. O eu é um punhado de condicionamentos. que às vezes confunde com os interesses do mundo. concentrado nos seus pequenos interesses. fundamentais. que só .na maneira como pensamos o mundo. cada dia de modo mais perceptível. mas que são decorrentes de outros. esse mundo que está. e. de outro. no modo como nos situamos na vida. isto é. Esse núcleo tem vagas idéias a respeito de si próprio e. o escândalo de uma chantagem mundial feita com pretextos nobres e um background religioso pouco convincente. cada um de nós. em plena crise. invariavelmente egocêntricos. o eu vive em torno de si mesmo. Tudo converge e parte desse centro. Em todos os problemas que os homens elegeram como prioritários. No caso da distribuição das riquezas existe também a alternativa maniqueísta opondo a insensibilidade dos que muito possuem à exploração política dos que fazem da justiça social uma escada para sua verdadeira meta. As dificuldades com a tecnologia que coisifica o homem são produto evidente da imaturidade desse mesmo homem. Somos um núcleo solidamente instalado. e em nosso redor o universo gravita.

Por trás das imensas questões que fazem tremer o planeta. pode parecer vazio e cansativo. e elas estão centradas na mente humana. praticamente já acabadas que são os resultados. se for visto apenas como a crônica dos grandes problemas que afligem o homem. Decretos. econômicas. igualmente decisões. e que pode ser um aprendizado diário inestimável. O noticiário impresso e falado que dá conta do que se passa no mundo todos os dias. Nada muda quando somente os resultados são modificados. inócuos enquanto cuidarem dessas situações "mortas". do que saber distinguir o que é importante. As tentativas de resolução que partem apenas da modificação dos efeitos são inúteis. hoje mais do que nunca. não nas dificuldades que essa mente produziu no mundo exterior com seu egoísmo e sua vulgaridade. são medidas militares. As crises políticas. ou afastar a fumaça sem apagar o fogo. prisioneira da própria ignorância. . são industriais e administrativas revoluções. efeitos.pensa nos resultados e não leva em consideração os meios. então. meros drásticas religiosas. está o espírito. também hoje mais do que nunca doente. a mente do homem. Seria o mesmo que eliminar a febre sem procurar a causa. Nada é mais importante. Nos exemplos todos é possível encontrar questões realmente importantes.

Muitos imaginavam suplícios variados. no mínimo. O que não foi talvez apreciado devidamente é o potencial de violência contido nos que clamavam por justiça e castigo. como esfolamento e amputação de membros. naquele território onde é indispensável garantir homem sentimentos contraditórios e desperta uma energia que visa reconquistar seu oásis. a morte dos delinqüentes. Na pesquisa as pessoas exigiam. como remédio para a onda de assaltos e homicídios nas grandes cidades.O PECADO DE TODOS Uma sondagem de opinião feita num programa de TV. revela uma série de rostos contraídos pedindo penas severas de tortura e morte. O homem um mínimo de paz. o cansaço também. As opiniões eram . e mostrada em pequenos e sucessivos instantâneos. O clima de insegurança e de revolta ante a impunidade foi o principal móvel dessa indignação generalizada. A revolta é compreensível. comum foi atingido fundamente em sua A perda da segurança desencadeia no tranqüilidade. inadequados e sintomáticos. sem o qual não vale a pena viver. mas os remédios sugeridos à autoridade são desproporcionais.

A vasta realidade da suscetível de ser entendida quando certos violência é artifícios são afastados do caminho dessa compreensão. de certa forma. os segundos exigindo reparação imediata e cruenta de todas as ofensas recebidas. como se sabe.não podem fazer muito mais do que conhecer o processo em que estão envolvidos. o mundo foi dividido entre ofensores e ofendidos. ao longo da vida. para que se pudesse fazer com ele o que não se fez com escaparam. para então se libertarem de suas contradições e de seu atavismo. circunscritas a uma reorganização do aparelho policial e esbarram nas dificuldades burocrático-orçamentárias que tem aspecto força para milhares de outros que adiar todas as decisões. Eram todos linchadores potenciais que pediam um culpado em suas mãos. que arma o braço dos assaltantes. na descoberta da violência . inclusive as indispensáveis. Mas esse é. e soavam como sentenças. A tarefa começa em cada homem.dadas com gravidade. Era a mesma violência. exatamente a mesma. As medidas de ordem legal e administrativa estão. Sobre a violência. Mas não vem ao caso discutir a validade da pena de talião: o importante é examinar o tipo de impulso que a tortura dos levou tantas pessoas a pedir a morte e delinqüentes que agem em São Paulo e no Rio. Era vingança o que se pedia. Naquele instante. mecânico. com freqüência maior do que se imagina . vítimas e algozes – que trocam suas posições. prepara o furto e induz ao homicídio. não a aplicação da lei ou a punição de um delito.

momento. O problema é conhecido dos que não ignoram tudo a respeito de si próprios. com a humildade característica de quem quer saber e condessa que nada sabe ainda. têm alguma noção de sua realidade ou vivem em total ignorância a respeito. não importa que rótulos tenha colecionado e o que tenha de fato feito na vida. os escritórios. tem de começar por si próprio.existente em cada pessoa. mas revela uma tática sutilíssima da mente humana. A atitude mais comum quando se trata do assunto é o distanciamento crítico. estão em toda parte. esconjurada. Esse é o grande desafio. e apertaram determinado seu apenas não puxaram seu gatilho. São pacientes psiquiátricos e também psiquiatras. problema às vezes acessível aos outros mas de difícil transposição para o próprio indivíduo. as salas. enchem as ruas. os lares. a cultura é a mesma. O grande ato violento é o mesmo impulso violento que se manifesta no cotidiano. Os grandes criminosos que nunca cometeram um crime são numerosos. e que pode ser disfarçado com um simples pensamento. Denunciar uma parte da humanidade como violenta equivale a eleger uma outra parte como imune à violência. o julgamento pessoal. Tem o tremendo potencial dos que perpetraram as maiores violências. quando a mente é uma só. que visa situar "fora de si . extrovertidos e introvertidos. os condicionamentos se equivalem. O homem comum. não não aceleraram seu carro em botão. são poderosos e humildes. a constatação da violência como coisa que ocorre aos outros. e que deve ser classificada. denominada. Essa colocação não é apenas um erro de perspectiva.

o que. No século XX essa mentira ganhou aperfeiçoada em proveito político. queimamos e linchamos. Quando esses pretextos não estão disponíveis. se não nos satisfaz plenamente. batemos. novelas. A trucagem pode ser descoberta imediatamente quando temos verdadeiro no assunto. A justiça com sabor de vingança é um exercício antigo. famintos dessa forma complexa de violência que se exerce em nome do combate à violência. desejando. A violência não é alguma nas coisa dos outros. Os depoimentos mostrados na sondagem de opinião revelaram rostos cansados ou congestionados pela raiva.mesma" as atitudes interesse reprovadas e os defeitos rejeitados. Os homens continuam usando pretextos elevados e motivos nobres para cometer suas uma certa velhas dignidade abjeções que antigamente dispensavam justificativas. nos jornais. . agindo e vivendo violentamente. que não perdeu sua fascinação para muita gente. pensando. algo assim que acontece fora de mim e só posso encontrar na rua. ainda que na mornidão aparente de um dia comum. elegemos culpados. O único modo de flagrar o fato é aqui e agora. e pouca gente se incomoda com isso. situamos os males da época nos outros. nos comentários. Os mais altos ideais têm sido invocados para abonar as vilanias mais sórdidas. pelo menos nos deixa perfeitamente a salvo.

A VIOLÊNCIA NOS OUTROS A idéia de que a cidade grande modifica o homem. com o individual e o reciprocamente. é uma das crenças modernas mais difundidas. dissolvido. nascido no egocentrismo conservado na ignorância da própria realidade. espaço limitado. As comum e O grandes concentrações urbanas tornam mais evidente o que sempre existiu nele. para pior. Culpar o grande influenciando-se aglomerado é tão frívolo quanto responsabilizar a febre pela . coletivo O aumento da tensão do espelho decorre e ações alheias. relacionamento interpessoal mais estreito e freqüente produz no habitante dos centros populosos uma concentração de experiências que torna agudos Aquilo que num os problemas individuais. onde vê a todo instante sua própria ação e suas dessa a efervescência em temperatura até enfermidade. elevando o espasmo da violência. ali das meio mais rarefeito seria reforça as características e agrava seus males. O homem é colocado com dramática insistência diante contradições.

é resto do iceberg. mas influem pouco na eclosão de um surto de violência. Melhor será examinar outros aspectos. ou qualquer coisa do gênero. Talvez aí esteja tudo o que precisamos saber sobre a brutalidade que ganha as páginas dos jornais e pinta um quadro terrível das grandes cidades. O problema da violência não pode ser compreendido à luz das grandes crises. são culminâncias. através do noticiário policial. onde os desequilíbrios sociais são mais evidentes. os seqüestros bem premeditados. Nem sempre. sem desculpas ou atenuantes. no cidadão anônimo que defende a pena de morte numa entrevista apressada de rua. O que precisa ser conhecido. embora reconhecendo que aquela concepção tosca satisfaz perfeitamente os que querem qualquer explicação e que por natureza são menos exigentes. ou no crescimento aparentemente repentino da criminalidade. a fome. mal dissimulado no cotidiano do homem comum. A menos que a explicação seja usada como denúncia de efeito político. na mulher que arrasta o filho pequeno numa calçada cheia de gente. no motorista que dirige a caminho do emprego. mas a pequenina. não há por que dar ênfase a esses fatores na busca de entendimento para a questão. Os assaltos planejados. disfarçada no diaa-dia. Esse conhecimento . no funcionário que atende por trás de um balcão. na ação e no pensamento do homem que se considera pacífico. Não é a grande violência que interessa. a liquidação de criminosos por bandos particulares.A inflação. a violência é maior. as desigualdades sociais interferem muito na vida de uma coletividade. do ângulo das estatísticas.

É preciso iniciar na raiz. é um filosófico. é flagrante a infantilidade dos que teimam em ver a solução dependendo reforma urbana. Cada homem observar os problemas terá de começar a "fora de nós" é descobrir a sua violência. não O da fato simples que pode ser verificado. todo o tempo. O adequado seria deixar de lado a idéia de culpa. A quase irresistível. da conversão a uma nova corrente. Como as crianças às vezes fazem. da "dos outros". somos mais ou menos capacidade de ver. Sob qualquer envolvidos. nada temos a fazer. etc. O regime político. de uma adoção de determinado revolução.não pode ser começado de fora para dentro. Isso não é nada metafísico ou místico. chegam a ser sinceras e não há nada a fazer exceto constatar homem no processo cultural violência varia de acordo com sua submissão às pressões da moda. ouvir. aos valore vigentes. No caso da responsabilidade pela violência crescente nas grandes cidades. da regime político. antes de qualquer coisa. pomos a culpa em alguma coisa alheia a nós. nosso estimado ego está a salvo. depois descobrir em que medida estamos também envolvidos nisso censuramos e que modo somos o que queremos rejeitar. a organização econômica tem pouca importância no caso. a única que está a seu alcance. e a razão disso é óbvia: estamos absolvidos. . entender. na câmara escura que está escondida de todas as aparências do tendência para mundo. conforme nossa sistema. Nossas preocupações com a sociedade como nos enganamos com envolvimento de cada tudo isso.

Os livros que lemos. Vemos claramente a violência. A descoberta das nossas limitações nos outros é especialmente desagradável. por outro lado. só é desconfortável porque passa muito por cima os fatos. Henry David Thoreau escreveu uma vez que "ver-se a si mesmo é tão difícil quanto olhar para trás sem virar a . é da mesma essência daquela que ganha os títulos dos jornais de sensação. A revelação incômoda de que. o sistema. a maneira negociamos que como e o modo como nos relacionamos com os mais humildes. ambições. disfarces. desejos. Depois. mas. faria uma constatação pura e simples. A violência dos nossos pensamentos. Se penetrasse um pouco mais em sua crosta. e temos em nós o vilão e o herói.é bem mais reveladora do processo geral da violência do que qualquer outra coisa. somos como todo mundo.A violência naquele que se escondida no homem comum – às considera um pacifista vezes . é comumente superficial. afinal. o futebol que nos distrai. De fato. a TV e o cinema com que nos divertimos. para os acontecimentos maiores – a culminância de um processo que começou pequenino e vive em nós residualmente. sem qualquer conotação pessoal ou impressão subjetiva. a cidade grande. Se desconfiarmos que está em nós. as provocações que sofremos. temos olhos somente para os grandes eventos. desde que não seja em nós. estão impregnados da violência que nas suas manifestações mais visíveis e concentradas nos parece tão repulsiva. os comentários fazemos. é aliviadora. anseios. culpamos logo a sociedade.

mas sua presença aqui se justifica exclusivamente pela atenção que concede a um problema difícil e dramático.cabeça". O historiador e antropólogo italiano Julius Evola. como um período de obscuridade e conflito. em A Metafísica do Sexo (Edições Afrodite. . A visão de Evola merece toda atenção. kalyyuga. Talvez seja necessário apenas dar uma meia volta completa. TEMPOS DE OBSCURIDADE A versão tântrica de uma antiga tradição hindu que fala das quatro idades do mundo aponta o tempo presente. aborda o assunto para estudar o que chama de "pandemia sexual de nosso tempo". cercado de preconceitos e idéias feitas. mas hostil a essa mesma felicidade. isolada e a exploração precisa da voltar sexualidade. que só encontrará alívio "quando transformar o veneno em remédio". Essa visão profética de quatro mil anos é ainda mais surpreendente pela solução que prescreve para esta idade de confusão e egoísmo. mas atentamente. marcado pela liberação dos instintos feita em nome da felicidade humana. O livro é já um clássico na especialidade. que é cada indivíduo. Lisboa).

compreensível após tantos séculos de repressão. à saúde psicológica e outras razões igualmente imprecisas e altissonantes. Isso exige um intensidade. perfazendo um círculo. viu-se que um novo produto estava sendo vendido com grande lucro em toda parte. aumenta a insegurança geral.e nada indica que para melhor. todos sabemos que existe uma vasta mistificação. e eis o processo em movimento. As imagens tornaram-se início. O medo e a insegurança típicos da atual "idade do mundo" são atenuados menor. Hoje. A insegurança produz um processo de fuga que. em torno da sexualidade no mundo. A venda de produtos normalmente alheios ao corpo e à sensualidade. houve prestigiosas da publicidade e da ficção amarras. e que esse negócio rendoso era justificado com fórmulas e idéias liberais ligadas a direitos humanos.igualmente seus olhos para um fenômeno que está mudando o mundo . intencionalmente sexuais em nossa época. Os exageros que vieram depois uma explosão natural. à libertação do corpo. Depois. observam a vida sabem os reflexologistas e todos os que em redor. Aos poucos. De um anseio de libertação de velhas antigas prisões hipócritas que estimulavam a mentira e foram tomados à conta de exigiam meras aparências. em todos os os estímulos fazem efeito reforço de seus conhecidos. sustentada por sistemas comerciais e outros. com temas sexuais é sinal evidente de que os reflexos dos compradores . menos confessáveis. e esse ciclo não tem fim senão na insensibilidade e no desespero. A causa era justa e estimulante. como com a busca do prazer.

A sexualidade é talvez a mais eficiente ocupação do espírito que não que ver. caracterizado pelas fugas que empreendemos sempre que é preciso olhar. Nosso comportamento infantil. estamos desatentos. O mal é da época.potenciais já estão exauridos. compreender e reconhecer. porque é uma azáfama e um entorpecimento ao mesmo tempo. Os que participam dessa trama têm justificativas mais ou menos convincentes para esclarecer sua conivência no grande absurdo. a distração esquecer. corremos para o copo. segundo a recomendação tântrica muito antiga. O psicológica. política ou econômica. isenção e tranqüilidade. e a época é impalpável. dentro da De um modo ou de outro. é obviamente desonesto e visa a pescar compradores. é o gatilho de todo o processo. que exige atenção. o sono. não soma de tudo e de pode ser responsabilizada porque é a amadurecimento interior do homem passou a ser visto como um ideal distante. equivale a tomar a . fugimos ao confronto. quanto o visual. vê-la. alguma. a intoxicação. complexo. Diante de um problema delicado. Ninguém é responsável por coisa todos. Correndo ou dormindo. no mundo da publicidade. ou uma especulação secundária. A crise não exclusivamente é moral. Tudo o que se faz nesse terreno. a ocupação pueril. "Transformar o veneno em remédio". A atividade entorpecimento e o cansaço de fundo psicológico. mas essencialmente humana. febril serve tanto para adiar e o sexo. evitamos o percebimento. permanecemos dificuldade evitando deformando-a e "interpretando-a".

pode estar a caminho e a chave para o fim deste tempo de obscuridade e conflito. e com elas a noção de tempo dominante hoje. tempo em que todo entendimento é desprezado como perigoso ou inútil. como se processa. Na escala miúda do cotidiano de cada homem. Queremos ficar livres do veneno. afirma a tradição hindu.dificuldade nas mãos e se integra examiná-la de perto. A fórmula tântrica propõe coisa diferente. . e assim não a esquecer que é feita. O começo disso tudo está na observação das coisas pequenas. "as quatro idades do mundo terminarão". quando o identificamos como queremos vê-lo mais. precisamente. "Querer livrar-se" é o oposto de entender. Quando isso acontecer em grande escala. não nas cosmogonias e nas concepções gerais do mundo. O kaly-yuga em que vivemos é a era da fuga e do esquecimento sutis. ignorar e até negar a existência. A tal. verificando de de se confundir conosco. como reagimos a ela. Todos querem libertar-se do que incomoda e o caminho em que se acredita é o esquecimento. e na compreensão o problema dissolve imediatamente. Isso não é caminho para coisa alguma. Ficar livre equivale imediatamente. como ela em nós a ponto dificuldade é essa. a ignorância. na visão humilde dos momentos simples e anônimos. diz ela. O único modo de mudar é permanecer para se compreender.

da deterioração. Na "Era da Destruição". desenhou-se sempre na história recente do homem o espectro da decadência. muitos veículos de comunicação deixaram-se desvirtuar crítica pela crítica. a inspiração ainda o visita com as mesmas conseqüências sempre.A ERA DA DESTRUIÇÃO A Era da Destruição. afinal. do pelo modismo da pessimismo iconoclasta. a inspiração religiosa ou onde o homem se filosófica. na morte de um presidente. da difamação . até mesmo num certo ceticismo em relação a esse bem que todos respeitam. importa o país. no New York Times. o problema está presente encontra e onde produz alguma coisa. como a chama James Reston num retrospecto dos últimos vinte anos. de maneira sutil ou de modo evidente. foi marcada pela queda . esse conceito arquetípico e fatal que acompanha o homem desde os tempos mais remotos. a liberdade. na decepção crescente em face das ideologias. mas em todo empreendimento tem benéficas de Não aparecido a marca da desintegração e do desmoronamento. A energia humana é a mesma. na renúncia de outro. Em toda parte. Mas Reston fala sobretudo nos grandes sinais exteriores da crise. no descrédito que cerca os políticos e os intelectuais. o regime. lembra Reston.

Justiça norte-americana. Reston vê nisso recrudescimento daquela vesânia de autoflagelação que permitiu a entrega do Vietnã do Sul à dominação totalitária. Agora mesmo.sensacionalista. um jornalista do The Washington Post. um publica uma série de artigos caminho que vai minar a um mostrando o que considera "fraquezas" da Suprema Corte de credibilidade do alto tribunal que tanto contribuiu para garantir os direitos humanos em seu pais. dogmas ou conceitos. como as grandes. provavelmente. Os homens que vão viver nela precisam estar prevenidos para a moderna tentação de primeiro descrer e depois conhecer. Mas a campanha de desmoralização atinge as pequenas instituições. que já foi chamada de fé – não a crença incondicional em princípios. quando nos Estados Unidos tudo indica que parou de soprar o vento da auto critica sistemática e os impulsos autodestrutivos gerados pela guerra do Vietnã – e a outra guerra qe se travou detrás dela – abrandaram visivelmente. seu ciclo. analisa James Reston. falando mal de tudo o que parece tradição e suspeitando de tudo o que. quando são sinceros. e tem todas as desconfianças possíveis a respeito do amor. A "Era da Destruição" não encerrou. mero fatalismo – existe ainda em todo homem. Essa era de negativismo tem vergonha dos seus bons sentimentos. como alguns renovar nos homens o vigor que a poucos que e o cumpriram sua missão. podiam salvar o mundo do ceticismo. e decadência humanitarismo produzem. parece bem intencionado. apesar das . aquele que mais contribuiu para desnudar o escândalo de "Watergate". Esses veículos. Essa coisa extraordinária. inexplicavelmente.

pessoas comuns não especializadas. percebamos que alguns se negação sistemática por genética. como contribuem para minar o que evidentemente vai bem. Esses são os contestadores sistemáticos. um raríssimo cristão – reconhecido como tal. aqueles que balançam a cabeça antes que estão vendo. pouco importa . ou não. Os psicólogos. Essa renovação é possível. talvez de deprimidos. obedientes aos novos costumes e ao modismo que a todo momento muda de face.pressões para que não se manifeste exteriormente. e o próprio fato de ser possível contém beleza porque atiça as brasas da esperança e abre mais os olhos de quem ainda não adormeceu completamente. como há origens diferentes para esse impulso de destruição. profissionais da desesperança e do desânimo. . Tais agentes da "Era da Destruição" não somente desacreditam o que ainda está de pé. embora tenham mesmo de entender o muito de maníacos. Essa doença tem muitas designações. a fim de que logo e uma delas é possam carpir sobre o desastre que ajudaram a desencadear.em meio às feras que se multiplicam por toda pare. Há maneiras diversas de agir destrutivamente. os comportamentistas não precisam falar para que todos nós. os sociólogos. O ânimo inexplicável que agressão podem mantém um homem em seu caminho. ser incluídos entre as a capacidade de sentir amor em meio à injustiça e até à experiências renovadoras que sustentam um indivíduo acordado entre milhões de sonâmbulos. Outros nada tem imposição inclinam para a fisiológica.

fórmulas salvadoras ou ódios disfarçados em verdades finais. Hoje a coisa ameaça inverter-se: os resultados dessas neuroses – permita-me palavra criaram situações coletivas que parecem muito significativas e ilustram melhor o que acontece ao homem e ao mundo. onde o mito predominante é o da queda. Quem pode desfazer tudo. as coisa que se disfarça sob a individuais eram liberdade de criticar e o direito de descrer. a mente do ser humano. A "Era da Destruição" é fruto de um modo de pensar permanente. atualmente. se é que alguém se interessa por isso. nas a diversas coletividades que compunham. diversas situações as somas que mais interessantes que elas formavam. qualquer Até a pouco. sem simulações ou artifícios. . a perda de alguma coisa preciosa."vocação totalitária". a sensação imprecisa de que tudo podia ser diferente. é o próprio homem e a própria mente que enovelou a vida. O que criou esse dédalo que vemos para todos os lados foi. muito mais intenso e mais puro. o pecado original e a culpa conseqüente. sem sombra de dúvida.

a alteração momentânea da ordem normal. é outra. Nas sociedades primitivas os ritos têm uma gravidade que os modernos não conhecem. é um "illud tempus". Dumezil e Eliade estudaram a fundo a "morfologia dos temas rituais periódicos" e localizaram em todos eles. orgia. Frazer. Purificação das faltas e expulsão do mal é uma delas. O "eterno retorno" é um outro aspecto. noutras muito dissimuladas. inclusive na nossa Festa de Ano Novo. Wensinck. também . O simbolismo da passagem de ano é muito expressivo a respeito do homem e do mundo que ele construiu. A crença popular de "aquilo que se fizer na passagem de ano será feito parte dessa concepção mítica plantada todo o ano" é no inconsciente humano. diz Van Der Leeuw em "O Homem Primitivo" e a "Religião". afirma Mircea Eliade. Todo recomeço. uma abertura sobre a eternidade. em algumas culturas muito evidentes. e uma franqueza que revela claramente seu sentido. A extinção e renovação do fogo sagrado.O ETERNO ANO NOVO O antigo e elaborado simbolismo que reveste os rituais civilizados da passagem de ano é disfarçado pelos costumes e pela superficialidade contemporânea. símbolo de uma nova energia. "Basta conhecer o mito para conhecer a vida". finalmente. Uma homenagem aos mortos também e. as saturnais. características comuns.

as culturas antigas acreditavam possível uma comunicação fugaz com o mundo dos mortos. porém. esse desejo de abolir o tempo é mais visível na orgia que tem lugar. e essa visita precede toda criação. sobrevêm as trevas e o mundo todo perde seu contorno e realidade. nas cerimônias de Ano Novo. que insinua a purificação contida em todo o reinício.o absurdo. a morte. da dança.comum. de onde uma velha e espalhada crença deriva toda inspiração. A euforia e os excessos do"reveillon"moderno podem derivar desse rio subterrâneo pagão. dessa remota necessidade primitiva de "morrer para . O primitivo que persiste dentro do "homo sapiens" é um desafio a todo racionalismo. um novo momento da criação. O novo ano acende um outro fogo. que não somente anula o caos . o não-ser – como confere uma dimensão nova às coisas do universo material. nas Festas de Fim de Ano: a abolição do tempo transcorrido durante o ciclo que termina. quando o fogo se extingue. Esse instante de "nada" seria a reprodução do espaço vazio que ocorre entre dois pensamentos. numa escala variada de violência. com ajuda do álcool. O "não-ser" que todo festejo exacerbado procura. Todos os ritos e símbolos perseguem um único fim. Para Eliade. da explosão emocional. Naquele momento de treva. No plano da cosmologia. numa peça que a realidade prega na consciência orgulhosa de sua lógica e sua técnica. seria o "nada' fecundante que precede uma nova aurora. como a treva precedeu o universo no Gênesis. com as revelações que daí decorrem. A renúncia voluntária à "ordem natural" é uma regressão ao caos primordial.

A fina camada da superfície não está interessada nos seus subterrâneos e origens. tornado pequeno e íntimo pela explosão das comunicações. Cada indivíduo é portador desse patrimônio. não se interessa por mais nada que valha a pena. Tudo isso. damos pouca importância a essas raízes. o que é compreensível na medida em que essas sondagens passam. "somos nós". sofreu e viveu no passado. Esse mergulho na inconsciência coletiva. No mundo em que vivemos hoje. presente em quase todas as culturas. desse passado sedimentar. Der Leeuw não se enganou . de fato. tem como seu aspecto mais curioso o temor que desencadeia. a passagem de ano oferece talvez o conjunto mais fascinante. Os mitos do Ano Bom são como leite materno para as crianças primitivas escondidas no homem pretensamente civilizado de agora. freqüentemente disfarçado de indiferença e ceticismo.germinar" – um antigo arquétipo humano. empreendido por uns poucos e impopulares estudiosos. está em nossas veias e. às vezes. O homem. por regiões um tanto dolorosas que é melhor ignorar. manifestado na forma de impulsos aparentemente incompreensíveis ou de aceitação imediata de rituais. Quem não se interessa por esse "background". é resultado de uma soma. entretanto. tal como se apresenta atualmente. Dos temas rituais periódicos. fruto de longa e minuciosa acumulação de tudo o que foi. com um elenco de simbolismos perceptível a todos que não estejam completamente adormecidos. mesmo quando ocultos sob pretextos de sociabilidade moderna.

embora inofensiva ao caos primitivo. não é uma negação da ordem. E a vida é também essa atração pela renovação do fogo sagrado. mas passageiro que só deseja permitir o acesso de alguma coisa maior. a ordem normal das nossas rotinas. por instantes. no sono profundo da madrugada e. devendo ser entendida apenas como um desmaio da lógica e da razão. . na renovação do fogo da vida. um sono profundo. votos champanha aguardente. pela purificação das faltas e pela expulsão do mal. o pessoal e o coletivo. mas de essência divina. murmurados e nos gritos da euforia. capaz de visitar o homem. Essa morte fortuita do ego. bem como essa vontade de celebrar e subverter. como uma verdade difícil de ser ignorada. A noção de que toda e qualquer "abertura para em eternidade" deve ser dissociada do consciente teima marcar presença nos mitos e rituais humanos. A supressão provisória da consciência. porém.ao dizer que "conhecer o mito é conhecer a vida". numa visita criativa e momentânea. no dia seguinte. escondida está no presente nas e celebrações na do Ano nos Novo.

facões e máquinas . A FELICIDADE. Alguns sucessos da tecnologia. mas obstinada na capacidade da ciência como avalista da felicidade humana. essa verdade será visível de maneira mais clara. comumente associado ao fascínio que as culturas primitivas sentem por objetos considerados banais em outras sociedades – como os índios com nossos espelhos. Essas maravilhas contribuíram para renovar uma fé imprecisa. resta a constatação objetiva de que nem todo progresso material possível – o que já temos e o que virá depois – será capaz de proporcionar ao homem a segurança psicológica com que sonha desde as épocas mais remotas. Mais adiante. da eletrônica e da cirurgia. mas isso será apenas miragem. quando a revolução biológica modificar totalmente a vida na Terra – de maneira ainda imprevisível -. mas não pode oferecer com êxito. proporciona benefícios incalculáveis à humanidade. Produtos químicos no cérebro podem criar a ilusão dessa segurança. indefinidamente. A adoração da técnica é fenômeno compreensível. Na década que começa agora devem aumentar as desilusões a esse respeito. realizado graças à competição natural e a um anseio humano de afastar o sofrimento. Removidas as espessas camadas de ingenuidade que cobrem essas esperanças. um substitutivo satisfatório da realidade. O avanço científico.AMANHÃ. abriram os olhos do homem comum para as possibilidades aparentemente ilimitadas do futuro. principalmente nas áreas da Astronáutica.

conceito de beleza. quando microorganismos farão a tarefa dos faxineiros. O progresso tecnológico não é mais feito de passos isolados. A produção de "bactérias amigas do homem" pertence a uma etapa posterior. como a um século.fotográficas -. a adoração de técnicas mais adiantadas precisa ser compreendida para ter reduzido seu potencial de perplexidade e ilusão. tão fantásticas suas possibilidades e tão grande nossa tendência para endeusar o que simboliza poder. A engenharia genética aplicada ao homem será o ponto mais alto dessa escalada. Precisamos estar preparados para "milagres" muito mais sedutores que a energia nuclear. num trabalho de qualidade inigualável. a conquista do espaço. é um assunto explosivo e vai exigir definições prévias sobre igualdade. por exemplo. em que novos caminhos e técnicas ensejam novas técnicas e caminhos. Esses avanços iniciam uma cadeia de rápido desdobramento. por meio de um controle eficaz dos genes que permita a escolha de caracteres hereditários. A revolução biológica pode ser transformada numa espécie de religião nos próximos trinta anos. . As possibilidades da engenharia biológica parecem hoje. numa visão meramente especulativa. a explosão das comunicações e o prolongamento da vida humana. liberdade e direitos humanos. A fabricação de proteínas. promete resolver o problema da fome no mundo. O 'aperfeiçoamento" físico do ser humano em laboratórios. o que será uma maravilha. As transformações que advirão de descobertas em processo de desenvolvimento parecem muito radicais. infinitas. numa expansão ilimitada. copeiros e serventes.

Os filhos. Vênus e Adônis parece um tanto melancólico. naturalmente – e esse é um antigo debate. embora viva intuindo sua existência. A ciência e a tecnologia modificam o mundo exterior. Ainda uma vez os problemas psicológicos – para chamar assim a caldeira borbulhante que existe dentro de cada mente – vão prevalecer sobre os progressos superficiais nascidos da consciência. os mais vorazes e ousados. ao contrário do que . afinal. mas tudo pode ser diferente. A civilização não é um mal em si. O que precisa ser conhecido – antes de ser modificado. dos conhecimentos técnicos. nada podem fazer. tem mais possibilidades de viver uma vida plena e integral que o homem dividido que chamamos civilizado. serão "planejados"em sua aparência física e em seus atributos intelectuais.. proporcionam conforto. temores e desejos demais. Os homens "educados" são freqüentemente apenas contidos. se uma legislação rigorosa limitar os caprichos e vaidades paternas. sem os condicionamentos culturais. condicionamentos. às vezes.Calcula-se que nos próximos cinqüenta anos o homem vai poder dispor do patrimônio genético de seus antepassados. A partir de certo ponto. desenvolvidos fora do corpo materno. em função dos direitos do nascituro. da memória e disso que chamamos experiência. Os vitoriosos são. isto é. como no "Admirável Mundo Novo" de Huxley. saúde e um relativo bem-estar. Um homem em estado "selvagem'. Abaixo dessas finas camadas existe uma realidade que somente o próprio indivíduo pode conhecer – e que ele recusa enfrentar.mas ela acumulou preconceitos. Esse mundo de Apolos. visto daqui. ainda não encerrado .

de suas promessas de felicidade. TEMPO E INVENÇÃO. ler. porque sabem que o único inimigo é a ignorância de si mesmo e essas promessas reforçam essa ignorância. e seus reflexos no mundo. mas o microcosmo que é o homem. às vezes. esses não precisam de mais nada porque já tem tudo. mas os regimes que se preocupam com ela ainda são os melhores. BORGES. Sabemos todos muito pouco a respeito da verdadeira liberdade. criador desses artifícios sociais que servem como biombo para esconder a própria realidade interior. interrogar-se e ouvir é ainda uma bênção.pensam muitos – não é a sociedade de molde capitalista ou de inspiração socialista. A sociedade em volta pode parecer enlouquecida. não importa a maneira como a produção é distribuída. mas essa impressão é passageira entre os que aceitam o lado bom da tecnologia – e de toda uma cultura que está longe de ser satisfatória – mas descrêem. observar. . tranqüilamente. Ser livre para pensar.

Pouco antes de morrer. Borges renuncia decididamente ao ideal da objetividade e conta a descoberta da simplicidade como a grande aventura na vida interior do artista. Blake. montanhas. A paixão das descoberta que só o autodidata conhece pode levar longe e abrir as portas a outros universos. os místicos persas e chineses. habitações. instrumentos. ilhas. lembrando o quanto somos aquilo que fazemos e de que modo voltamos a nós mesmos. teve a sorte de ler Arnold Bennett. quando lhe mostrou que nada era pior que "o grandioso de terceira categoria". Nos vinte anos. limitados e veementes. em nossa busca de compreensão do mundo. Ainda moço. baías. No ensaio autobiográfico Perfis (Editora Globo-MEC). A descoberta de um vasto universo muito na "música inglesa" revelou sua própria pequenez e serviu de desafio. o movimento espanhol ultraísta serviu de espelho contido em parte nas letras francesas e verbal para as ilusões da vaidade jovem. cavalos e pessoas. descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu próprio rosto". Talvez por isso. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias. barcos. astros. porque contenha um pouco de tudo que existe. Ainda assim. reinos."Um homem impõe-se a tarefa de desenhar o mundo. quando o beletrismo e os remendos dourados do estilo pareciam fascinantes. peixes. a . Jorge Luis Borges fala uma vez mais nas intrigantes correlações da existência humana. Swedenborg. artista algum é totalmente objetivo. o primeiro livro de poemas e o primeiro conto foram bairristas. Na última parte de El Hacedor. o budismo.

E. perfumes. "Se me permitem uma Bioy levou-me gradualmente ao classicismo". No conto "Ererything and Nothing".Lawrence. pelo amor à moderação e ao comedimento. a poesia germânica medieval. T. afirmação generalizada. o personagem retorna à sua cidade de Avon . uma vez . e que aos vinte anos vai a Londres procurar uma profissão. "Instintivamente" conta Borges – "já se havia adestrado no hábito de simular que era alguém. O gosto pelo patético foi substituído. tudo isso foi visitado pela curiosidade do escritor e fixado em sua memória. na calma dos cinqüenta anos. e encarna um personagem. a mãe.e aqui ele já se identifica – e tenta. O escritor está cego. o escritor faz como o Homero de seu conto primoroso: mergulha na memória e tira de lá todos os brilhos. Essa combinação de tranqüilidade e interesse apaixonado produz energia nova e insuspeitada. também escritor. Dante. as sagas islandesas.poesia gauchesca. No apartamento pequeno. morreu a caminho dos cem anos. que lhe emprestava os olhos em longas leituras nas tardes frias de Buenos Aires. Vinte anos depois. A companhia de Adolfo Bioy-Casares. de não ser. o personagem é um poeta que só se revela no final. na profissão que acabou achando. influiu positivamente na obra de Borges. para que se não descobrisse sua condição de ninguém". A sensação de vazio. a Cabala. Heine. o expressionismo e Cervantes. acompanha o jovem por toda parte e o abandona apenas quando sobe ao palco. Martin Buber. conserva o corpo e torna ágil o espírito. as Mil e uma Noites. paisagens e idéias que formaram o acervo da fantasia humana.

que como eu és muitos e ninguém". fugir à sensação de não ser. No final da hora da morte. apesar de tão referida. mas somos um vazio de múltipla aparência. Nossos sentidos se aguçam na tentando discernir na voz suave e descontraída do narrador as pequenas frestas por onde passa o transcendental. usura. O tempo e a fragilidade do espírito perdido em suas dobras têm destaque nessa obra pouco conhecida. como nas últimas linhas do El Hacedor. Nos seus grandes homens como nos pequenos cumpadritos estão latentes os problemas fundamentais da Humanidade. Shakespeare fala com Deus. Aqui já não somos o que fazemos. e história. . modo ocasional que lhes força extraordinária. na se queixa de ter sido quando na verdade só quis ser um.mais e por caminhos diferentes. A mitologia borgiana é toda ela metafísica e essencial. com a ajuda de oito linhas poéticas: "Há uma linha em Verlaine que não voltarei a recordar / Há uma rua por perto que está vedada aos meus passos / Há um espelho que me viu pela última vez / Há uma porta que fechei até o fim do mundo / Entre os livros de minha estante. apresentados de um misterioso confere leitura de Borges. à procura de uma imagem. que vejo / Há algum que não abrirei jamais / Farei cinqüenta anos este verão / A morte me desgasta. ligado à pequena tantos homens.é a resposta do alto ." e entre as formas do meu sonho estás tu. "Sonhei o mundo como sonhaste tua obra" . E em "Limites" o autor empurra o leitor para os abismos da meditação. agora como homem de alguma fortuna. incessante".

a prosa.Todas as exaltações do pensamento são contidas pela certeza de que a sobriedade leva mais longe que o excesso. . São forças naturais que se conjugam e invocam para transmitindo o que fica servir a comunicação. talvez com exceção dos haicais japoneses do século XVII. A energia concentrada de uma descoberta apaixonante que é mantida em segredo tem a força de mil tempestades e pode ser mais bem dirigida pela vontade. o fundamento de toda idéia conhecer e manifestar esse segredo. e de toda escondido no cotidiano mas representa. o teatro. A poesia. Jorge Luiz Borges usa em seu trabalho poderes telúricos que nunca foram antes postos a serviço da expressão artística. ação. a música. a dança procuram MORTOS E SONÂMBULOS. quando é oportuno dirigi-la. de fato. e não exclui necessariamente o ardor.

no século XVII . A morte será adiada com os possível prolongar a existência tecnologia e as revelações da pesquisa científica. e no futuro como os russos Abkhasia. houve uma extraordinária tranqüilidade. os derrames e as doenças coronárias vão ser vencidos. Quando isso ocorrer. A paz à beira da morte é um depoimento comum entre os que sobrevivem e reconstituem aqueles que seriam seus Lewis Thomas." indispôs-nos a morrer".dizia Thomas Browne. o câncer. 1976). com certeza. naquele o resto de seus dias. lembra que viver hoje porque de fato que será é mais que um longo hábito. avanços da da estamos todos agarrados a este máximo bem é a vida. mas. segundo Livingstone contou seu tórax. mas iremos com a morte. no seu extraordinário As Vidas de uma Célula (Editora Brasiliense. Lewis Thomas. que conservam a saúde. São freqüentes os depoimentos de . "deixaremos morrer sempre. e está. portanto. por um século e meio. O autor conta uma experiência vivida por David Livingstone na África. familiarizado a vida como que soprados por uma suave brisa". O homem talvez esteja na iminência de descobrir que a morte não é a pior de todas as coisas. nos próximos anos. que é médico últimos momentos. diz Lewis Thomas."O longo hábito de viver". quando os dentes de um leão começaram a triturar os ossos do instante. segundo se diz. Um tiro providencial salvou-lhe a vida. As doenças crônicas e degenerativas. bem mais tarde do que agora. especula a respeito da existência de um "mecanismo de proteção" que impede qualquer sofrimento maior no último instante.

Prefiro pensar que a consciência é. e a grande tranqüilidade interior do moribundo. Segue-se. "A morte é. tudo enfim que estamos há muito acostumados a encontrar em todas as funções cruciais da vida". dá à morte um tratamento curioso. uma memória nova para um sistema nervoso biosférico. vantagens para o abundância de informações genéticas para guiar os diferentes estágios. Nenhuma resposta sobre o post-mortem pode ser compreendida por um . a mesma mecanismos foram desenvolvidos com a mesma atenção para os detalhes. que aos nossos olhos pragmáticos de habitantes do século XX parece um tanto desfocado. a respeito do contraste entre a agitação dos que os socorriam. para uma outra data". A morte física. mas eu não tenho dados sobre o assunto ". antecipa um mistério insondável para a mente do homem feita para lidar com a vida. antes de tudo" – diz Lewis Thomas – a mais antiga e fundamental função biológica e seus a mesma preocupação com o máximo de organismo. segundo essa tradição. Uma antiga tradição. após a morte? "Considerando a tendência da natureza de utilizar mecanismos complexos e intrincados" . de alguma forma.pessoas salvas da agonia. que permaneceram lúcidas todo o tempo. volta à sua separada de seu corpo e então aspirada de membrana de origem. o problema mais importante associado com a morte: há possibilidade do desaparecimento total e definitivo da consciência. e a ela limitada.conclui o autor – "isto me parece antinatural. então. Thomas deixa o tema "para uma outra ciência. contida em mitos que chegaram até o presente.

No século do racionalismo. a desilusão a respeito dos mil artifícios do personalismo. A grande revolução como ponto de partida. que imita a natural no que respeita ao abandono total das coisas que prendem e limitam o homem. Através das muitas formas de fé religiosa. O Zen. A analogia com a morte material produz um talvez necessário à compreensão dessa outra abandono da auto-imagem. nem de longe. O Cristianismo mundo" e lembra que "a semente precisa morrer. mas o que há de notável nela é exatamente sua teimosia em ressurgir de tempos a tempos como tudo que é fundamental ao homem. referem-se a coisas semelhantes. a morte – não mas uma proposta pelas fisiológica. Essa perde-se muitas vezes nos incontáveis meandros da história humana.sistema feito para atua no mundo dos vivos. Com ela não fica resolvido. correntes subterrâneas esotéricas de todas as religiões teria a morte outra. no entanto. mas nem toda . a tradição sufi do Islamismo. assim. o problema ressurgiu com toda sua força. A morte seria. da auto-afirmação e a perda impacto o morte - de uma vida velha tradição egocêntrica do mundo. o antigo problema da morte que vem crucificando o homem desde que ele aprendeu a pensar. criando dependências e desejos infinitamente renováveis. para poder frutificar". A tradição vai mais além: a morte. o ser humano descansou seu espírito dessa dúvida permanente. o Tao. exemplar. é o símbolo perfeito de um processo de "perda se si mesmo" para alguns valores fala em "morrer para o do mundo que esses mitos consideram ilusórios.

o caminho chega entretanto. como alguma fé religiosa somente até aí. útil e participante.racionalidade do mundo consegue resposta satisfatória para a pergunta. chegamos. Um desvio. Não é fácil. Lewis Thomas. talvez profundamente revolucionário. a velha tradição acrescenta alguma coisa: aquele que conhece essa morte figurada é o único que pode ser considerado realmente vivo. que consiste em "morrer para o mundo". com os elementos de que dispõe a mente humana. A esse respeito. mas são como sonâmbulas. continuando vivo e ativo. Os demais. ir muito além do ponto em que todos nós. pode levar à antiga tradição que aproveita o fenômeno "mais antigo e fundamental da humanidade" como símbolo de um outro fato. . A AJUDA MÚTUA. Longe de específica. não se pode dizer que estejam mortos.

Schneiria e outros verificaram que a integração individual nos agregados da espécie reduz algumas capacidades e faz surgir outras. Koehler. Para Darwin. Insetos sociais. Esse é um tipo de experiência . sem muitos dos seus atributos. lobos. Sobre os homens ainda há muito a verificar. aos demais indivíduos do seu grupo ou ao conjunto como um todo. enquanto outras esmaecem no grupo. Percebemos claramente que algumas habilidades humanas são estimuladas nas atividades sociais. escaravelhos e chimpanzés dedicam-se. em estado de tranqüilidade vigilante.C. Kropotkin e Allee revelaram a existência de uma infinita e complexa colaboração entre seres vivos. que. joaninhas. atuam desordenadamente. desenvolve-se nele uma sensibilidade aguda em relação ao mundo e a si mesmo. numa famosa conferência feita em São Petersburgo em 1880. Os trabalhos de Zukermann. No isolamento. inspirou-se numa constatação do zoólogo russo Kessler. perde alguma coisa quando atua na sociedade. desenvolvido neste século por W. de algum modo. fenômeno mais comum e mais importante para a evolução das espécies. sem poder explicar em termos científicos ou sequer racionais. Separados da comunidade. Carpenter. sustentou que muito maior que a lei da sobrevivência das espécies seria a "lei da ajuda mútua".O estudo metódico da sociologia animal. bisões. mas a experiência imediata de cada um faz com que ele saiba de certas coisas a respeito. O homem gregário como inegavelmente é.Allee. a luta entre animais da mesma espécie era fator preponderante naquele processo natural. Nas sociedades infra-humanas isso é visível.

está irremediavelmente fadada ao fracasso. seu estado comum. deixar-se ficar no banho morno na unanimidade. conceitos gerais. "Dara César o que é de César. pela imitação. Isso não faz da contestação uma virtude. aparências e sinais exteriores. palavras e ações de significação simbólica. ou de informação de terceiros. como um milagre ou uma inspiração. mas isso não significa basicamente nada. Não estar integrado dispensa. toda revolução que começa do lado de fora do homem. A "lei de ajuda mútua"é uma constante no mundo. entretanto. Contestar é manifestar por meio de gestos. nem gera . aqui. Integrar-se é protegerse. Ninguém pode chegar a isso por meio dos livros.que é preciso viver para conhecer. quando essa nãointegração é lúcida. Socializar-se. mas ela não obriga a um gregarismo de tempo integral. Protestar aos brados e empunhar armas pode alterar as coisas pela força. mas muito raramente. Integrado na sociedade. para depois modificar o interior. como de resto é possível observar em toda parte. isto é. juízos semelhantes. As estruturas permanecem intactas. condicionado pela opinião. É distante do grupo que ela o visita. pelas muitas pressões sutis que cobram pensamentos comuns. significa estar bem com o meio. definições generalizadas. o indivíduo fica socializado. discordância de alguma coisa – mera opinião. e a Deus o que é de Deus"significa que é possível cumprir os rituais da cultura sem pagar a ela nenhuma dependência. essa percepção pode ressurgir. Por isso mesmo. Quando o homem regressa ao convívio dos semelhantes.

vagamente misterioso. religiosos e éticos. uma banalidade. Há uma infinidade de nuanças nessa experiência. alguma coisa bem delineada – n ao pode ser vista pelo indivíduo atuando em si mesmo. e em seguida se entregam a um duro exercício de racionalização. como amor. afinal. um prazer. que logo trata de eliminar com uma ocupação. nessas circunstâncias. o homem teve de isolar-se momentaneamente do grupo para por-se em contato com determinadas características inomináveis. e o que é natural e bom existe espontaneamente. Examinando o que pensamos ter e não temos. Grande parte das pessoas devotadas a uma visão pragmática da vida sente um certo aprofundamento. no homem tem componentes mais ricos e pode ser designada. existentes em sua própria natureza. . nem se recomenda esforço. além de isento de qualquer fantasia.necessariamente dependência. vão mais a fundo. quando normas morais não são impostas de cima para baixo. Outros permanecem um pouco mais. místico. A 'lei da ajuda mútua" – se a frase designa. sacrifício ou rigidez. afinal. Presente nos animais. A ajuda mútua é mais natural quando é conseqüência da compreensão. Em todos os quadrantes e em todos os tempos. é real e simples. A imensa carga de significados que se pendura nessa palavra inibe qualquer tentativa de discutir mais a fundo a questão. O que parece romântico. um divertimento. sob mil disfarces generosos. Essas deformações decorrem de abusos cometidos em seu nome. Primeiro percebemos o quanto somos desinteressados dos demais. descobrimos que a virtude não pode ter consciência de si mesma.

uma projeção da vontade. que a "lei do mais forte" é uma configuração provisória. simplesmente porque não se sentem separados dele. . filiar-se a explicações globais da existência. entregam-se a uma observação ativa e serena de uma solidão momentânea. o que ocorre não é mais susceptível de ser descrito. competir é empenharse numa brincadeira de mau gosto. uma espécie de miragem que nem de longe explica o deserto. ainda.ornamentando de palavras sua experiência. nessa circunstancia. parece uma forma de loucura benigna. "Ser prático". Outros. mas é fundamentalmente digno de ser vivido. permanecem em paz. é uma forma grotesca de correr e esconder-se da vida. e disso tiram uma energia assombrosa. Os insetos. Descobrem. os bisões. do seu estar-no-mundo. os lobos e os chimpanzés não têm opiniões nem teorias sobre o mundo. Quando isso acontece com o homem. O MEDO DA LIBERDADE. então.

não deixa de ser brutal e injusta. Arthur Koestler. Alexandre Koyré e outros trataram do assunto em diferentes níveis. Trotski perdeu para maior o absurdo Stalin. mais ardente é a autora.Pode ser imenso surpreendente prefere descobrir que um número e crenças de pessoas alimentar fantasias distanciadas da realidade a enfrentar aquilo que. não apenas porque o segundo controlou a máquina da repressão. existe e não pode ser ignorado. quanto devoção do seguidor. Arendt mostra que. O sucesso dos movimentos e idéias totalitárias de nosso tempo dão a medida exata dessa forma de loucura disfarçada. fazendo passar sistemas por ideal de o que não passa de espetacular fato ao fuga. Nada é tão fascinante nessa filosófica é alimento para número que se consideram lúcidas e despertas. feio ou ameaçador. Hannah Arendt. por fechados pensamento. porque fins quanto verificar que um grande a ficção política e de pessoas e meios são uma coisa só. Aqueles que se inclinam por doutrinas impositivas. François Bayle. como não chega nunca aos terrível aberração fins que alega querer atingir. Na obra As Origens do Totalitarismo. Feita em nome de altos ideais. por parecer pobre. Albert Camus. A simplicidade honesta da democracia é um . aderem de estágio mais sutil e refinado da violência. lembra a afirmado pela ideologia ou pela propaganda. como porque o primeiro manipulou menos a ficção política. Franz Borkenau. pondo maior ou menor ênfase no fenômeno da adoção de uma idéia fantasiosa como muleta intelectual e apoio emocional.

afinal. A história longa do stalinismo e a breve e sangrenta passagem divergentes o nazismo foi o são ricas em ensinamentos por essas e significação. A radicalização deixa de ser um exagero para ser um vicio enraizado. ou de amolecimento moral. que assume outros nomes e amplia seus domínios com os mais variados pretextos. interpretação delirante do mundo. numa revelação da natureza humana. A identificação desse desvio é o começo da compreensão do fenômeno. possível graças ao medo da realidade. muito do principalmente porque ela não explica o universo nem possui fórmulas infalíveis. O stalinismo é uma metástase ainda viva. A liquidação lenta e metódica das caminho seguido enfermidades políticas.prato insípido para determinado tipo de mente. e não é isso que espanta são comuns na o crescimento horror desmesurado desse último pretexto totalitário. mas ela um enfoque objetivo intelectual é da é muito rara e difícil disponibilidade como indício de devido aos condicionamentos que prejudicam ou impedem questão. Seu isto é. A radicalismo apontada pelo fraqueza de convicções. e isso o pensamento fechado do nazismo foi liquidado por sua imprudência. O facções duas espíritos que precisam da certeza. na aceitação e no consumo de uma está contido. Esse preconceito assenta suas raízes na crença de que pode . Os sonhos hegemônicos História. à necessidade de fantasiar e à faculdade de criar imagens e auto-imagens para escapar dos fatos. Há agasalho totalitarismo garante.

mas o necessita de o medroso toda forçando situações e os o dobrando "já encontrou a verdade" ou Radicalizar é estruturou uma doutrina fixa do mundo. Diante de um problema a liberdade consiste única e específica naquela circunstância. Os sistemas de pensamento. mas no qual não há envolvimento ou dependência. A idéia da disponibilidade – da abertura para a realidade. O "estar disponível" é um estado em que se percebe. do exame das situações uma a uma – é desagradável e humilhante para esses espíritos. circunstância. intuindo percebendo à medida que as coisas acontecem. em liberdade absoluta. aquele que mapas e trilhas. não seduzem o homem que prova de todas as em descobrir a solução fontes e descobre o sabor das coisas por si mesmo. No nível político esse é o clima da democracia. em que se absorve. em que se penetra a essência das coisas. O contrário disso é e que descobre e empreende. totalitário não é basicamente o inseguro. naquele momento. . ao homem que enlouquecer um pouco. Esse é seu erro fundamental. Isso é estranho ao radical. A flexibilidade de espírito é a saúde. de para viver certeza e antes de empreender uma viagem precisa estudar modo que nenhuma curva do o espírito caminho seja inesperada. Por isso possessivo. A escravidão é lembrar de fórmulas rígidas e tentar aplicalas à realidade mutável e e sempre renovada do mundo.haver uma "chave geral" para todos os problemas e uma única explicação fundamental para todas as questões.

mais que de qualquer outra coisa – e Por esse motivo florescem as simpatias por isso mesmo é tempo também de rigidez. capacidade atuar diretamente pela simples pressão de um dedo. pode ser mais bem compreendido elemento com o conhecimento dada sua do medo de e da necessidade de certeza.O sucesso do totalitarismo surpreende num século que se ufana do seu realismo e da sua técnica. . Os mecanismos de repressão suprimem a diversidade. de controle e de monólogo. totalitárias e há tanta compreensão a propósito de regimes fortes. centralizados. em que se pretende que uma classe exerça uma ditadura sobre uma sociedade. Os modelos rígidos funcionam como tranqüilizador. A época é de medo . mas em que de fato existe o amordaçamento do que há de melhor no espírito humano. mas impedem o surgimento da criatividade que nasce do debate.

a arquitetura de pintura. para citar exemplos. O que pode ser um dado familiar à teoria literária é redescoberta constante dos que se que vivemos. por exemplo. a escultura. mundo . nela como retratadas os temas e praticamente a maneira de os críticos e toda parte do desapareceram. Excluído o simplismo da análise. O crítico suíço Ferdinand Lion. o mundo em . a atração que os grandes romancistas do passado exercem sobre leitores não especializados é quase inexplicável. a outros tempos mantenham sua sedução para com o homem comum moderno. assim Não são apenas Em pesquisadores que se deixam fascinar por Balzac. propõem observar. já é motivo de admiração quando se considera que pensar as sociedades e comunica. O interesse contemporâneo pela literatura de há um século.O ETERNO NOS LIVROS Não admira cerâmica viva e a que a música. Flaubert e Zola. procura explicar o fenômeno – afirmando que aqueles romances hoje são mais "atuais" do que na época em que foram escritos – com a inconsciente afirmação de que "a burguesia ainda sobrevive" e tem idiossincrasias semelhantes em todos os tempos. em O Romance Francês no Século XIX. resta a constatação relativamente fácil de que a realidade humana transcende a cultura e sobrevive naqueles autores que retratam realmente a vida. através de uma lente antropológica.na Europa e Estados Unidos principalmente -. Stendhal. despertando a curiosidade de sua similar contemporânea.

Na literatura de qualidade também. uma beleza difícil de explicar por outras razões. Se os próprios fatos são emblemáticos e referem-se."In interiori homine habitat veritas". a ficção tem imenso significado mesmo quando cópia minuciosa e fiel do mundo. tornada atraente com a ajuda de elementos como a fidelidade. Ao contrário do que se pensa vulgarmente. sabe do que está vida conserva a bem como as somente às Flaubert afirma que "um artista não deve aparecer obra mais falando. a narrativa desses fatos será duplamente simbólica. afinal. Quando em sua do que Deus na natureza". Flaubert tem sempre consciência desse fenômeno e sabe todo o tempo que a beleza de um trabalho literário depende da fidelidade em relação ao modelo. O trabalho literário. conforme seu interesse. ou é enfeitada. A expressão literária seria o símbolo de um símbolo e isso pode ser explicado sem as complexidades que habitualmente calcificam o assunto e afugentam o leitor não especializado. descobertas potenciais que tudo vezes libera. é a redescoberta e a exposição da realidade humana. a uma outra realidade que não pode ser percebida por meio de pensamentos-palavras. e não apenas quando faz uma interpretação. Diferentemente do que acontece esconde e . o que não anula seu carisma nem mistifica as verdades que possa conter. podemos acrescentar. diz Santo Agostinho. mais do que qualquer acréscimo feito para "melhorar" o mundo. com freqüência. a elegância e a inteligência. A reprodução pura e simples da criatividade inerente às coisas reais. A "não participação” do autor confere à obra.

O essencial é a realidade. onde a produção é apenas uma representação da vida – uma estrela fotografada não tem luz própria. assim como outras formas de passatempo mais ou menos leves. graças principalmente à falta de importância do cotidiano. esse fato seu brilho esteja registrado na foto -. A violência. embora narrativa dele. às vezes compensatória. tão significativa que consiga trazer consigo a riqueza particular de todo fato. em alguns casos. outra vezes referencial do indizível. e propiciadora sempre de um interesse que não pode ser explicado satisfatoriamente de outro modo. a literatura teria aumentado de interesse hoje em dia. pessoa ou objeto. certamente -. ou a escondida atrás . a pode ser literária reconstrói a realidade. Os grandes romances de há um século ou mais são "atuais" precisamente por isso. onde encontrada a mesma riqueza do modelo. ou qualquer coisa nela contida – e contida no homem. no homem. Se a televisão não fosse obviamente contemporânea. As variações impressionistas valem na medida em que mostram a mente do narrados funcionando. componente constante da ficção. capaz de manter a atenção presa e a respiração suspensa. O romance cumpre seu destino quando põe diante do leitor uma amostragem da realidade. satisfaz a necessidade de fugir e o impulso para compensar. agora.com a fotografia. A necessidade de fabulação. é atualmente quase uma obsessão. mas ela não é necessária nem atende aos chamados da vontade de conhecer que serve de drive nas grandes conquistas e descobertas humanas.

sua eternidade. de Joyce. segundo Jorge Luiz Borges. seu segredo e suas conseqüências.natural extraordinário. A verdadeira literatura consegue o milagre de manter sua "atualidade". com seu ritmo próprio. imitando tempo e seqüência. como o aleph no porão de uma velha casa de arrabalde. contém em si tudo o que importa ao homem. como faz a consciência humana na sua interpretação do mundo. com seu marasmo. embora a vida comum não esteja ali reproduzida de maneira naturalista. ESTOICISMOS . Na Comédia Humana Balzac chega ao mesmo fim trilhando o caminho da reprodução da realidade objetiva. é um pedaço da realidade. isto é. O Ulisses. Na sua leitura sobressai o cotidiano palpitante. reproduzindo o real que. uma parte estonteante e suculenta da verdade do dia-a-dia. este sim. seu mistério e seu absurdo.

Ainda hoje os homens estão divididos entre os partidários da virtude imposta por convicção. é possível vislumbrar alguma simplicidade fundamental em tudo isso. Tentando isolar os enunciados do fenômeno em si. evidentemente minoritários. que cobra . Ser sóbrio. e ninguém há de chegar a isso sem esforço. tomando a determinação de alcançar esse ponto de perfeição. não apenas ser identificando símbolos e reagindo a eles. por necessidade. Vive com temperança aquele que não apenas olha. simples. que propõem uma prévia compreensão profunda do processo em si mesmo. Cleanto. Na sua formulação verbal. as duas concepções têm aparência confusa e o tema todo parece um emaranhado de sutilezas mais ou menos inúteis. Nosso pensamento rotineiro – essa vaga consciência que verbaliza toda experiência e gira em torno de um núcleo egocêntrico – cria constantemente uma ilusão de continuidade a respeito de si mesmo e a propósito de tudo. as diferenças parecem pequenas. e na medida em que entende está aprendendo os significados. Epicteto e Marco Aurélio ensinavam o estoicismo por diferentes caminhos e com motivações diversas. por apreço à disciplina ou pela necessidade de construir pelo esforço um mundo maior. Isso faz da consciência uma entidade exigente.Sustine et abstine. A sobriedade é certamente uma qualidade. Não se confunde jamais com a apatia ou com a indiferença. e aqueles outros. ser humilde é uma coisa só. porque o equilíbrio que a caracteriza não exclui a participação nem descarta a sensibilidade. Zenão. capaz de gerar um estado de "vazio" onde existe ordem e harmonia. mas também vê e percebe.

então. disponível para toda percepção ou evento na área do espírito. no Tao-te-Ching multiplicando as tentativas de fazer-se ouvir. espécie de "personagem". quando assunto. pode existir uma ordem que nada consegue abalar. A já não estamos no . As experiências mais extraordinárias na vida do homem ocorrem geralmente dentro dele. Criamos para nós próprios uma imagem. que todo esforço e compulsão resultam em imobilidade fica aberto aos fatos. No conhecimento. Um outro pensador que falava disso. A decisão de ser alguma coisa nova permanece como decisão que não se concretiza. Todo bom propósito é inútil. e com isso tentamos viver. a mente. nesse vasto campo inexplorado que chamamos espírito. que vive momento a momento. Quando o homem percebe. lembrava a insuficiência das palavras. Essa "alguma coisa" não será mais aquele que toma a decisão. quando não ocorre uma predisposição favorável. Lao-Tsé referiu-se a isso de mil maneiras diferente. Chuang-Tsé. isto é. a menos que a pessoa já seja aquilo que se dispõe a ser. no caso. o que torna impossível a passagem de um a outro. naquela extraordinária que todos conhecemos.seqüência a uma estrutura. uma disciplina espontânea porque vem de dentro para fora e não se conflita com o resto. Sustine et abstine. Uma dessas aventuras pode ser a percepção da inutilidade de todo esforço visando a modificação interior. pelo menos alguns deles. Os fracassos nesse grande jogo são a causa do sofrimento humano. com leveza e profundidade – não há contradição. aqui -. Os estóicos gregos sabiam disso.

a continência é desejada. . então. Do indivíduo queremos mudar Esse muitas estamos descontentes o que existe. a sobriedade é harmônica. de alteração de alguma coisa sem a compreensão fundamental coisa. essa forma de ação que visa mudar alguma coisa por determinada razão. o propósito de agir assim porque assim é melhor. quando temos tranqüilidade para isso e já não trazemos alguma fórmula pronta no bolso. e muitas vezes queremos ser alguma outra coisa que não imaginamos com nitidez e da qual só temos alguns dados. ou porque deve ser assim. Não existe.abstenção é natural. nesse tipo de percebimento. começa no autoconhecimento e irrompe nas camadas mais fundas. Nem sempre somos o que pensamos seriamente ser. Toda revolução e todo reformismo pregados no século XX apóiam-se na dessa porque idéia de esforço. A maioria das reações relacionadas com a pressa e a sofreguidão nesse campo são resultado de imaturidade e falta de uma serenidade que poderíamos designar como adulta. No nível pessoal. fica o significado profundo de todo esforço. Isso não é pura teoria e pode ser verificado individualmente. Nenhum resultado pode ser medido pela fita métrica da impaciência e do desejo de progresso rápido. é bastante fácil ver como temos uma imagem montada de nós mesmos. as mudanças descontentamento pode ser justo. e vezes valem a pena. de mudança ao Estado. A revolução possível é implosiva. com imposta. Em destaque. O problema está contido na inutilidade de alterar uma estrutura de fora para dentro.

suporta e abstém-te. afirmações e impulsos que nascem da confusão e da ignorância. não vale como conselho.Por isso a idéia de repressão é basicamente infantil. Sustine et abstine. A sobriedade natural resulta da ausência de ilusões. mas apenas como constatação. pode ser um hábito mental ou preservação de esquemas doentios de comportamento. A repressão. MELANCOLIA. conhecimento um dispositivo e das neurótico e que impera de defesa e no terreno é do idéias. No Dom Quixote. Claro que isso não exime ninguém de obedecer a princípios e respeitar regras de convívio social. a sabedoria prática de Sancho que "a maior loucura que aconselha seu amo a não se entregar ao desperdício que é a depressão. Lembra o escudeiro . que produto da imaturidade. ser sóbrio. Em hipótese alguma é fruto da decisão de temperança. do esforço para chegar à da vontade de ser alguma coisa que na realidade não se é.

Os sufis. as carências alimentares. indiferente a toda racionalização.pode fazer um homem é deixar-se matar assim. O pressões nesse efeito às vezes imprevisto esgotamento físico. parece simples mas que os dervixes consideram ascese. O processo de desinteresse progressivo é a morte do que existe de mais vital no homem. Cansar-se e "ir um . isso a dança. então. sem interpretá-lo ou julgá-lo de alguma forma. Dürer representou a melancolia cercada de erudição inútil e perguntas ansiosas. O bom senso de Cervantes não se interroga sobre as possíveis causas da tristeza geral e desânimo que imobilizam o grande sonhador. sejam eles reais ou mera fantasia. O espanhol mostra a doença e revela a cura. como cabe ao artista que recria o universo. que conservam a tradição da mística muçulmana. Aos poucos volta. aquela essência que se interroga todo o tempo e que na formulação adequada da pergunta psicológicas exercem encontra a resposta perfeita. A obra conhecidos disso que buscam uma de forma particular de cansaço como fonte de compreensão mais sutil. as processo. sem ninguém nos matando. a "loucura cavaleiro andante e tudo se equilibra no do costumeiro desequilíbrio. usando para Gurdjieff revela aspectos pouco técnica do Ocidente. A idéia corrente de que é preciso haver paz e equilíbrio fisiológico para que haja lucidez e percepção nem sempre é verdadeira. nem dando cabo inspirada" do de nós outra mãos que não sejam as da melancolia". estancando a energia que até a pouco dava forças a um homem maduro para afrontar inimigos e aniquilar gigantes.

A melancolia não deixaria de ser uma defesa do organismo. da necessidade de certeza e dos conflitos subterrâneos daí derivados. obedecendo a um mesmo ritmo. O grande mal moderno da depressão seria resultado da sobrecarga a que se sujeita o espírito humano em nossos dias. uma vez que o importante seria um tipo de desintoxicação da mente. O relacionamento superficial mantido pelo homem comum com sua própria vida psíquica é a origem da infinidade . um desligamento total. que "cansaram" a mente em suas camadas mais fundas. com pequenas variações. e uma entrega à sabedoria natural desse conjunto corpo-espírito. segundo os sufis. Para Deitaro Suzuki dá-se o contrário. Nenhuma racionalização. decorrem da incerteza. A melancolia seria o oposto disso.pouco além do cansaço". Os biógrafos de Gurdjieff falam na sua extraordinária capacidade de refazer-se após algum tempo de concentração solitária. num ensaio. Aldous Huxley afirma. O desânimo. que o percebimento penetrante tem algo a ver com o metabolismo dos açúcares no corpo humano. nenhum discurso é capaz de remediar imediatamente o problema. conforme o próprio russo explicava. pode produzir uma espécie de descortino na mente que nada tem a ver com as ilusões dos psicodélicos. caracterizando-se como uma forma de indigestão de idéias contraditórias e mutuamente excludentes. Os exercícios de sufis podem não ser indispensáveis. é a química do organismo que se altera com o autoconhecimento e a ocorrência de um "vazio" particular no espírito. na verdade inseparável. a renúncia a qualquer ação.

Os enunciados têm importância como setas no caminho. olhando dentro da própria mente no movimento que ela faz a cada instante. ele rejeita vigorosamente. O fato é que os sintomas que induzem sofrimento psicológico são produto de conflitos que têm em sua raiz uma evidência e o impulso para não vê-la. de certo modo.de sofrimentos que levam milhões de pessoas a procurar terapias. A melancolia do Quixote é uma repulsa ao cotidiano. Cabe a ele e a cada homem "ficar à margem da cultura". É idéia corrente que o contato com a realidade produz confusão e acarreta alguma forma de dor. A psicologia e a psicanálise – com exceção da chamada psicanálise integral – atribuíram sempre pouca importância a esse aspecto da questão. processos utilizados na rejeição da realidade pelo homem. pensem por elas. a uma revolução no conhecimento do espírito pelo espírito. religiões e ideologias que pautem seu comportamento e. como indicadores que podem levar alguns homens a . embora desconhecendo em sua essência. depressões. A repulsa ao momento é o medo da pequena (e imensa) realidade do aqui-agora. àquela forma de vida que. naturalmente. Os defensores da corrente integral chegam a afirmar que os sentimentos são. As "fórmulas prontas" são providenciais na medida em que impedem – melhor seria dizer adiam – incertezas. angústias. distante dos condicionamentos e das ilusões que a vaidade fabrica. do espaço-tempo eterno que está sempre acontecendo e que só não existe no pensamento ordinário porque ele é uma fuga precisamente ao que existe. quando isso for possível. na verdade. Isso pode levar.

o desconhecimento de dados práticos da ciência positiva e de algumas humanidades é o . A partir de certo ponto. não haverá mais a dificuldade de trilhar um caminho duro. obviamente. cada homem está absolutamente só. porque estrada e caminhante serão uma coisa única. Como verdades finais. Valem até esse ponto.trilhar seu caminho e a fazer suas descobertas. ANATOMIA DA IGNORÂNCIA A gravidade de desconhecer alguma coisa tem a medida da importância que se atribui a essa coisa. servindo antes para fazer sonhar do que para desvendar a realidade. e é natural que seja assim. Como o conhecimento técnico e científico tem hoje peso imenso num mundo que busca segurança e certeza em valores matematicamente mensuráreis. Nessas caminhadas. como sínteses definitivas. são falsas e ilusórias.

Em outros tempos. longe do conhecimento veiculado em segunda mão. como já se disse – pode ser um trabalho traiçoeiro para a limpidez aquele do pensamento. ainda mais complicada. A construção de frases visando à comunicação de certas circunstâncias indizíveis – ou inefáveis. só que em diferentes assuntos". A moderna acepção de ignorância é superficial porque se fatos objetivos. considerando o absurdo contido nisso. e um obstáculo para despertar de interesse que leva os indivíduos a fixa somente na falta de conhecimentos concretos a respeito de descobertas pessoais. O discurso complica. mas é ainda o único modo de transmitir alguma coisa.que chamam de ignorância. quando se consegue isso. O humorista norte-americano Will Rogers dizia que "todo animal é ignorante. no entanto. A precisão vernacular ajuda muito pouco nesses casos. como é fácil verificar em velhos documentos. afinal. O que precisa ser dito. unidade perfeita em cada qualquer garantia certeza de êxito. sem a mínima período. John . Ignotum per ignotius. embora possa conferir beleza à complexidade aparente do fraseado. atenção em cada parágrafo. é a suprema ironia do pensamento discursivo e exemplo bem característico das suas limitações. A dificuldade de explicar um assunto com uma exposição. não exige ornamento estilístico. valores diferentes eram considerados indispensáveis e sem eles não se admitia a presença de vida inteligente. O desconhecimento das coisas fundamentais para o ser humano é talvez o grande flagelo da Humanidade. mas tema – sem pede discernimento em cada de sucesso.

e no momento os homens estão apenas explorando seus limites".Bernal. Aqui há obstáculos de duas ordens: convicção prévia de que essa procura é absurda. Em outras suas motivações palavras. aquele que nada sabe de si próprio de mais pessoais. nesse caso. Esses conceitos algo bastante são suficientemente específico. permanecendo no purgatório temores e que costumamos designar como "vida". perigosa e insana. mas a devoção medieval ignorância no seu sentido muito antigo. no seu The Physical Basis of Life. e o conhecimento teórico-verbal de aparência erudita. assim. O homem prático. O conhecimento. implica a pergunta "quem conhece?". esperanças e desenganos. instante a instante. alienação. A tendência geral para formular conclusões discursivamente é outro óbice difícil de . porque a importa em não mais ignorar as características e a forma de ação do "buscador". afirma que "a área completa da ignorância humana ainda não foi mapeada. O homem que vive alheio à sua realidade essencial. é assediado pela primeira. O livro de genéricos. The Cloud of Unknowing define a palavra como "desconhecimento daquilo que nos é próprio e nos diz respeito mais essencialmente". e ao conjunto corpo-mente. ignora o que não pode ser ignorado. o intelectual é vítima da segunda. entre desejos. tradicional e arcano. O interior. ignorante seria. de sua realidade independentemente dos conhecimentos especializados que tenha ou deixe de ter. do fato de ser alfabetizado ou participar da vida de sua comunidade. auto-afirmação e auto-negação. Esse é o começo e o fim da busca. ativo. é anônimo.

A questão fundamental é a ignorância do homem. com seu maniqueísmo e sua esquematização. A questão é bastante simples e pode ser verificada imediatamente.superar. As limitações do discurso são as limitações do pensamento.e isso treinados desde cedo a identificar o símbolo com a coisa simbolizada. A situação é essa e nenhum o que julgamento de valor teria qualquer não das tem variadas nada a ver com seu e importância agora. mas não é o seu desconhecimento que faz o ser humano ignorante. Não existe nenhum exotismo em tudo isso. na sua memória dos eruditos e nas academias. pirotecnia oriental. eis que fomos devem ceder lugar a uma percepção direta e simples . A autoridade dos e das teses especialistas. que é fatalmente discursivo. que é o nothi seauton . no sentido antigo e profundo da palavra. desconhecimento técnicas. a religião e a filosofia são transcendidas e deixadas para trás. no cotidiano de cada âmago desse fenômeno do autoconhecimento. O nosce te ipsum dos latinos. tudo é muito distante desse universo que se manifesta por palavras e se consuma por símbolos. mecanismo de repetição e inconsciência. A partir daí. nas enciclopédias. No atenção. a psicologia. as terminologias dos tratados é inegavelmente difícil. da da observação tranqüila. Tudo isso tem função no mundo. não pode ser ultrapassado senão pela mais tranqüila e permanente atenção. ciências informações que estão nos livros. nem nada associado com misticismo. E o hábito. esoterismo ou homem. os seres e funções com sua utilidade. o objeto com seu nome.

– dizia o poeta – "como tudo mais no único instante . Não o trabalho que se faz vorazmente para esquecer o mundo. fundador da ordem dos dervixes. onde quer que a violência e o egoísmo tenham cedido lugar à lucidez tranqüila. descobrindo que deleites são inseparáveis os grandes da simplicidade. ou a tarefa que se cumpre de má vontade para prover as necessidades. a maneira de conhecer os tratados conhecidos – o desconhecimento. mas a ocupação que se exerce com amor e atenção. O poeta místico persa Djalal-udin-Rumi. gostava de dizer que o homem de bem "é filho do tempo presente e da tarefa perfeita". e a embora muitos livros digam muito – sobre a ignorância do revolução que pode resultar do fato simples de perceber. "A vida existe no agora".dos gregos. diz mais que todos homem. Em todas as épocas. o trabalho gozou sempre de uma dignidade excepcional. A TAREFA DE CADA DIA.

atribuindo a algumas importância e brilho. Toda ação ocorrendo sem a no momento em que se dá. porque ele precisa ser também uma bênção. mas as pequenas e infinitas coisas que fazemos a toda hora. isto é. Há muito orgulho em jogo no nosso relacionamento com as tarefas que executamos. quem só deseja terminar. vontade e ação. cometem parecem tediosas.Para o poeta. Nunca pelos frutos. Não basta ao trabalho ser honrado. aquele feito simplicidade e dedicação. mas pelo que existe nele próprio. fora da memória e da esperança". porque não aprendemos a ver que há beleza no trabalho humilde. placidamente. A tarefa simples de cada dia – e toda tarefa é simples. e que geralmente desprezamos como acessórias e dispensáveis. nem a pressa de contemporização de quem não deseja que termine.que existe de fato. nossa vida Grande parte do descontentamento que amarga obrigação fazer. e a outras uma espécie de aviltamento que nada explica direito. "Quando um homem é teimoso e tende a repetir somente o que lhe ensinaram". – diz ainda Djalal-udin-Rumi – "há pó nos olhos do seu discernimento e seu espelho está encoberto por várias camadas de poeira". mesmo quando toda complexidade do mundo parece presente na sua formulação verbal – não é somente aquela que garante o sustento. Isso ocorre resulta do fato de não gostarmos do que julgamos ser nossa porque as tarefas que nos porque criamos conflito entre com desinteresse. ou na ação de quem executa. a poemas feitos no século XII falava para o . que em delicados futuro. Aprendemos a dividir o trabalho em categorias.

ou um processo de obter do mundo uma necessidades. sacrifício. A tarefa de cada dia não é apenas aquela levada a cabo na empresa. Ninguém é obrigado a mortificar-se. Toda ação. com vista à sobrevivência. A única coisa monótona é essa pobreza que faz ver assim. Não existe um momento igual ao novos a cada fração de discernimento e tenha sido outro. todo som. lembrava. alguém me disse que. nem é tão sutil que não possa ser. são julgar tudo semelhante e repetitivo. desde que haja em nós abandonada a tendência paisagem. A mente humana não é simples como gostaríamos que fosse. há mais amor-próprio do que desejo de mortificação nesse tipo de sofrimento". enquanto estava me queixando por ser obrigada a comer carne e por não fazer exercícios de ascese. As tarefas desagradáveis podem tornar-se absorventes quando há atenção no que fazemos. no modo de fazê-las e na maneira como nos relacionamos com elas. difícil e aparentemente sempre igual. Conseguimos com as queixas – as ditas e as engolidas – um jeito de construir uma imagem sofrida para nós. As pessoas se enganam de acordo com suas falava assim da abstinência: "Uma vez.superficialidade comum à maioria das pessoas é que torna a vida tediosa. às vezes. a não ser que já tenha feito disso um hábito. perfume ou forma. O resto. de vez em quando. Nunca é demais repetir que ela é também o . é um eterno "tornar-se" que não se repete jamais. na fábrica ou no campo. toda completamente para tempo. desmascarada. não Santa Tereza de apenas Ávila de acordo compensação pelo com sua ignorância. como caleidoscópio.

esforço ou rigidez. há uma renovação constante em quem a faz. fazem com ou sem consciência do que fazem. e naquilo que é feito. o pequeno trabalho executado com pressa e enfado. ela é a ausência disso tudo. diversa e muito mais simples. Por isso. como se sabe. uma vez mais. esgotamento em pouco tempo. para abordar o problema das pequenas tarefas. é indispensável ver o modo como nos voltamos para ele. da ínfima ação miúda no cotidiano. atenção. como é a ausência de torpor. Há certamente exploradores e explorados. bem como as mil pequeninas coisas. que nossos braços. sentidos. enfim. o escutar vagamente e com tédio – e não sabemos o que estamos perdendo com isso -. sonolência. desinteresse. Toda abordagem pelos ângulos . como o recebemos e nos sentimos diante dele. assusta a sugestão para estarmos "presentes" em cada pequeno acontecimento da existência. À primeira vista. Pelo contrário. um emaranhado de conceitos e preconceitos relacionado com a compensação.gesto simples feito distraidamente. olhos. Quando a tarefa de cada dia é feita com amor – e isso inclui toda ação e o trabalho do sustento -. Esse é um vasto aspecto em torno do qual há emocionalismo demais para ser entendido facilmente. A idéia sugere cansaço. pensamentos. O que é verdadeiro na pequena escala dos gestos e dos afazeres menores é real no que respeita ao trabalho remunerado que provê a subsistência. sob pena de não ser compreendida nunca. mas a questão da tarefa de todo dia não pode ser olhada por esse ângulo. pernas. Em torno do trabalho existe. A atenção não exige nenhuma espécie de tensão. A realidade é.

Benet de Canfield e o Bhagavad Gita. pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável. a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço. VIAGENS "Quanto mais longe viajamos. Ansari de Herat. Nicolau de Cusa. Willian Law. Eckhart. . mas a conquista do conhecimento e da sabedoria. A idéia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas. Tudo tem seu valor. pela rigidez. nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. tudo tem seu preço. A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja -. Pascal. dizia Lao-Tsé. Fénelon. imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver. segundo Santo Agostinho.tradicionais conduz onde sempre levaram os grandes e pequenos debates de inspiração maniquéia. ou o transcendental. menos conhecemos".

A razão pela qual "quanto mais longe viajamos. No "não ir a parte alguma" está contido. e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. apenas. menos conhecemos" está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo. . Por que ir lá aprender alguma coisa. dentro de casa ou no serviço. através dos séculos. suas maravilhas e seus horrores. não depois. mora eternamente em sua imagem. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto. mas ao ir e vir de cada dia. Caminhar. ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de lugar. pois Deus. Eckhart repetia com método e tranqüilidade: "Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade. Isso não sugere a morte em vida. se recusamos todo aprendizado aqui e agora. o "ficar para não fugir todo tempo". pouco adiante ou mais tarde. obviamente. a alma". Esse tipo de não mensagem afirma. a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade. viajar proporcionam prazer e são em si inofensivos. na plenitude de sua divindade. Isso não se refere apenas às viagens reais. que o homem precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. o que só pode ser feito imediatamente.Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões. nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiper-ativos que controlam – ou julgam controlar – a sociedade humana.

coerência. nos museus ou nas conferências. naquele coração onde estará oculta de todos". É bastante ver o que fazemos. conceitos. quando fazemos e como fazemos. conhecer compromissos. e salte por cima da idolatria de si mesmo.É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se. Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca. em alguns casos. Viajar para aprender é um antigo mito. A época é de certezas. porque é o século de ação e de movimento – em círculos. salte sobre todos os seus esforços. que não pode ser encontrado nos livros. em tudo isso. aborrece e entedia. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas. de conceitos formados. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo. Esse é um aprendizado insubstituível. de idéias prontas. Não aprendemos em algum outro lugar. Tudo o que sugere ficar. a alma nobre. A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um movimento do coração. "Descansamos" do que o que somos. onde estamos no instante em . aprendemos neste lugar aqui. semeia antipatias. diretamente no coração de Deus. Calce seus leves sapatos. Não há lugar para culpa. atrás do qual nos escondemos. de decisões rápidas. sem para trás. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência. Deixamos tudo somos. A palavra de ordem não é inovar ? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. que são a intuição e o amor.

que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração". Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial. As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar. Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória. A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranqüilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo. E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela ultima vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste

seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

A SERPENTE DE DUAS CABEÇAS.
Os dois extremos de um mesmo engano, o materialismo e a ignorância supersticiosa foram apontados por homens incomuns como produtos alguns da identificáveis

necessidade humana de certeza e da angústia face ao nada supostamente contido na morte individual. Esses homens especiais, geralmente desligados de dogmas e assertivas rígidas, falaram das mesmas coisas nos seus estilos pessoais e viram contido na essência da natureza aquilo que alguns religiosos de todas as culturas designaram como "transcendental" ou philosophia perenis. Ralph Emerson, Walt Whitman, Wodswoth, Pascal, Thomas Paine, Helvetius, Lao-Tsé, William Law e centenas de outros descobriram nos fenômenos naturais a presença daquilo que as concepções dualistas predominantes – ontem como hoje – admitem num

único lado do espectro, em oposição ao material, ao físico e ao racional. A origem da vida, da inteligência e do espírito, segundo H.J.Morowitz, biólogo, procede do Sol. Sua exposição é feita em termos de termodinâmica, explicando a organização da matéria em estados cada vez mais ordenados, a parti de um início absolutamente natural. O faraó egípcio Akenaton (Amenófis IV), primeiro exemplo histórico de monoteísmo, pensava exatamente da mesma forma e dizia isso com clareza nas orações de alta qualidade poética que produziu em homenagem à "fonte de todas as coisas". O prana que os

iogues acreditam que adquirimos pela respiração concentrada, essência da vida e da compreensão, é cientista norte-americano Lewis o que o médico e explica como Thomas

"exalação dos cloroplastos que vivem nas plantas". No Brasil, o estudioso de sociobiologia Álvaro de Faria, no seu Mutação e Cromossomos, identifica as células cromossômicas com o "verdadeiro Deus e guia das existências vivas", lembrando que o cromossomo e o Logos, de que falava o evangelista São João, nada têm de diferentes. Ethan Allen, em Reason, the Only Oracle of Man (obra de quase um século, agora reeditada nos Estados Unidos), afirma basicamente que, "à medida que conhecemos a natureza, chegamos mais perto de alguma coisa que as palavras e o conhecimento racional não atendem ou explicam, e que, no entanto é perfeitamente real". Allen, chefe militar no Estado de Vermont durante a Guerra Civil Americana, recolheu-se a uma espécie de retiro no fim da vida, quando escreveu dois livros

de meditação. Neles dizia,

em resumo, que a observação

lúcida é aquela que não se baseia em conceitos prévios ou respostas prontas. "Não há ilusões quando olhamos em volta com absoluto realismo, e, no entanto isso é uma forma de religião", concluía. Alguns racionalistas seus contemporâneos tentaram pregar-lhe rótulos na testa, fato pouco original na história do pensamento humano. Ethan Allen era definido por eles com "deísta obscuro", "inimigo da fé", etc. Herbert Morais, no seu estudo sobre o deísmo na América do século XVIII, identifica o liberalismo político daquele período com esse tipo de pensamento que funde numa só coisa a natureza e a transcendência espiritual. O Materialismo e a ignorância supersticiosa são ambos, a seu modo, muito afirmativos. A realidade, aos seus olhos, está concluída. A verdade é estática e imutável, devendo ser venerada e jamais discutida ou observada com espírito crítico. Não é difícil ver que o materialismo é nominalista, designa todas as coisas, e essas designações vêm grávidas de julgamentos definitivos. A superstição, por seu lado, agarra-se a algumas convicções com medo de cair no vácuo da incerteza, e dali não arreda pé. Ambos têm horror ao livreexame, à critica e à análise objetiva. Um peca por excesso de estruturas e envoltórios racionalizantes, outro por inconsistência absoluta e irracionalidade total. Em outro plano, renovando-se a cada instante, livre de ataduras intelectuais e de molduras, fica aquele tipo de discernimento que não pode ser classificado em nenhuma escola, nem atende por designações.

Na verdade são pedaços de um mesmo a verbalização. como é possível constatar com um pouco de atenção. sabe que a natureza não se opõe ao homem. embora não uma fatalidade inapelável. mas normalmente se opõe como se fossem antíteses. muitas vezes. ao longo dos séculos. ou não revelação chegava indiretamente. naturalmente. forma de foram que denunciados lhes e perseguidos por não se sujeitarem a fórmulas rígidas. Essa serpente bifronte usa como peçonha . Nesta última quadra do século XX é visível. como a chama Allen. o corpo. mais do que nunca.Essa forma de razão. aquele mesmo engano de duas cabeças que flagelou a Humanidade durante tanto tempo. eivada de psicologismo e de expressões técnicas que visam granjear respeitabilidade. Tudo o que parece alternância é fruto de uma distorção da forma de ver e perceber. Uma predisposição para esse estrabismo parece profundamente arraigada nos genes humanos. mas outros pensadores independentes como ele tiveram de pedir desculpas a censores e inquisidores. A arrogância materialista e a teimosia supersticiosa falam hoje uma linguagem quase sofisticada. Ethan Allen viveu num país de notáveis tradições libertárias. assim como o corpo não se opõe ao espírito. Os equívocos se dão as mãos. primeiros heresiarcas localizados aceitarem pelo uma Cristianismo. Parece que foi Paul Tllich quem disse um dia que "o pecado original é uma propensão herdada". Os gnósticos. pronta e acabada. o pecado à virtude e o ser ao não-ser. Essa visão herética do mundo nunca foi bem vista pelas autoridades civis e pelos representantes das religiões oficiais.

o feito diante de doze mil religiosos no ginásio do Ibirapuera. de "certas franjas do Cristianismo". da opinião pública e. O tema era a vida contemplativa. quem sabe. o pensamento circular. a incompreensão para a Igreja e "no coração do mistério da religião". definida por ele como "absolutamente vital para Paulo a humanidade". De todos pronunciamentos do papa João Paulo II no Brasil. continua João e mesmo a oposição do pensamento moderno. foi talvez o único não compreendido imediatamente pela grande massa de ouvintes e espectadores que tem acompanhado.discurso ardiloso. Quem quiser livrar-se dela tem de permanecer relação a si mesmo. em São Paulo. Essa vida tem merecido. A oração chega ao fim: "Que os vossos mosteiros permaneçam lugares de paz e interioridade. situada que está II. fascinada. principalmente em NO CORAÇÃO DO MISTÉRIO. muito atento. sem deixardes que pressões do exterior venham . as manifestações do papa desde sua chegada.

Max Scheler. não leva muito longe na medida em que teorização nenhuma leva. Joachim Wach e principalmente Mircea Eliade. Durkhelm. a revolução que a experiência religiosa. finalmente. a" união pacífica "de Santa Gertrudes e a" oração . do milagre tecnológico. pode produzir no homem inclusive e talvez principalmente no homem diferenças entre contemporâneo. os" contentamentos por Santa Tereza de Ávila. Na Igreja. LévyBruhl. Levaria muito longe estabelecer "oração mental" e graus dessas orações. o "estado teopático".demolir vossas tradições e anular vossos meios de cultivar e promover o recolhimento". bem como analisar os como foi demonstrado pelos autores acima e repetido pelos santos e inspirados de todos os tempos. como William James. Os grandes estudiosos do fenômeno religioso. fazendo parte do homem como a consciência moral. esse desiludido. ao mesmo tempo. as visitas do Verbo "segundo São da alma "referidos Bernardo. Thomas a significação da Merton estuda – com extraordinária simplicidade e. Tudo isso. pensam de maneira completamente diferente. James e Kierkegaard afirmam a importância do contato individual e aludem à intransmissibilidade da experiência. não do pensamento. A noite dos sentidos "de São João da Cruz". "oração mística". para Scheler a experiência religiosa resulta da fé. De início. com sua típica seriedade vida monástica. Uma tradição que vem do Iluminismo e ganha corpo na irreverência superficial de nosso tempo considera a vida conventual uma forma de egoísmo e a oração contemplativa um resquício medieval.

perdem a centelha que só os homens possuem e os animais não conhecem. Quando as pessoas são privadas da solidão e da liberdade a que têm direito. essa forma de existir que. Quando os homens são empurrados pelas pressões do meio. "a sociedade em que vivem apodrece. As notas do monge são de 1954. a pensar."para existir. disfarçada sob excelente prosa.insensível "de São Francisco de Assis empalidecem um pouco . da pequena obra de Thomas Merton. . um senso de integridade realidade capacidade se tem para se dar à sociedade - recusar-se esse dom". prossegue Thomas Merton.. O maior desastre da vida espiritual. é a imersão na irrealidade. dos temores e desejos coletivos. E o progresso tecnológico. pessoal ambas e da ou implicam uma certa solidão interior.porque são reveladas atrás de exposições inevitavelmente discursivas – diante da poesia alusiva. não pode substituir a verdadeira criatividade. atesta a dimensão transcendente da pessoa humana e leva os homens. de acordo com João Paulo II". a fé cega nas "coisas que é livre e . ulcerada pelo servilismo. o rancor. as mulheres e os homens. da inviolável solidão pessoal de seus membros (. implica responsabilidade e um senso que da própria liberdade. a que nasce no espírito se encontra a si mesmo a cada momento.. o ódio".diz Merton . e seu tema é a vida contemplativa. "A sociedade depende".) Ser uma pessoa pessoal. e a interrogar-se sobre o sentido da vida ". Na Liberdade da Solidão (Editora Vozes-tradução do original Thoghts in Solitude). que continua.

A finalidade da vida contemplativa é uma forma de sabedoria que transcende todas as outras. XIX).criadas". "A sabedoria é o conhecimento da Verdade em sua mais íntima realidade. passando em revista um exército de banalidades. . cap. Nenhuma meditação pode ser feita pensando. como que por um instinto oculto. mente. "o homem tem de estar plenamente vivo. Não podemos substituir a vida pelo pensamento. Não devemos perder nossa sensibilidade às inspirações espirituais. A tentação de fugir de todo risco é fatal. E há o problema da atenção.escreve Merton . Precisamos das coisas exige uma para uma certa distância das criaturas e em sua chamamos podermos compreendê-las bem nítida disso que realidade. corpo. "A vida espiritual"."é em primeiro lugar uma questão de estar desperto. alma. na vida do espírito. nas profundezas da alma que está espiritualmente viva". que colocam em primeiro plano o nosso bem-estar e nossas conveniências. Para viver a vida contemplativa. A sabedoria conhece a Deus em nós mesmos e nos conhece em Deus" (Na Liberdade da Solidão. e as ações pelas idéias. A descoberta de que "a vida é sempre coisa nova" depende do nosso êxito de afugentar a preguiça e a covardia. Tudo tem de ser elevado e transformado pela ação de Deus. coração. O profundo realismo necessário à noção vida espiritual pensamento e daquilo que chamamos sentimento. espírito. a experiência da Verdade a que se chega pela retidão de nossa própria alma. no amor e na fé". Devemos sempre prontos a corresponder estar aos mínimos avisos que falam.

Não é uma psicoterapia. dizem os estudiosos. era precisamente um símbolo dessa morte. A PEDRA FILOSOFAL. é árdua de entender e de tolerar. isto é. A concepção da eternidade dependeria de qualquer coisa prévia como "a morte pelo espírito". por excelência. "absolutamente vital para a humanidade". mas há um tipo especial de morte que é constante nas mitologias. estágio preparatório da . não apenas pelo pensamento moderno e pela opinião pública como até por "certas franjas do Cristianismo". o domínio da representação simbólica. o que é compreensível. Um símbolo. porque é incomparavelmente mais. O domínio do religioso é. A Bíblia faz menção a ele quando. e que o pensamento rotineiro do homem contemporâneo desconhece. afirma que o grão precisa morrer para germinar. no Novo Testamento. é difícil e às vezes dolorosa. visa à descoberta de Deus através da descoberta de si mesmo. A morte ocupa um lugar de destaque nesse universo. Como toda volta sobre si mesmo. é um objeto que representa outro de natureza diversa. A antropologia tem o seu caminho semeado de simbolismos. O nigredo da alquimia. a redução das substâncias à matéria prima.A solidão dos religiosos. mas o estético e o científico também estão a ela associados. Por não ter uma finalidade prática.

trabalhando com as "formas" já gastas pelo tempo. Daí a necessidade do dissoluto. com a cosmologia e está presente numa dezena de lendas e narrativas antigas. com minúcias que chegam ao ridículo. A "reintegração na noite cósmica" é a noche oscura de São João da Cruz. A "Atenção Perfeita" do operador volta-se ao plano objetivo para o subjetivo. A morte iniciática de que fala C. O alquimista sabe que não consegue obter a matériaprima. e que tem a ilusão de "ser alguém no espaço. no seu Opus Cabbalisticum Et Theosophicum (1735). durando no tempo". da decisão de alterar a matéria para a inconsistência daquele que quer altera-la. Eis porque preciso morrer interiormente. não posso alcançar o reino se não nascer uma segunda vez. emudecendo totalmente a respeito do Mysterium Magnum – aquele ponto em que fica evidente que não é a matéria que deve ser mudada. mas quem a manipula pretendendo muda-la. quando ganha. para tudo que criei e o mundo criou em mim. a pedra filosofal. Micea Eliade chama atenção para o aparente paradoxo de uma alquimia que publica vastas bibliotecas sobre os passos iniciais do Opus. do putrefacto e do nigredo.Jung e Julius Évola tem relação com a alquimia. a perda de tudo que antecede a aquisição de tudo – embora a pessoa não seja a mesma que perdeu. e depois silencia sobre as etapas mais avançadas do processo.mente antes da modificação fundamental. . antes de abrir os olhos de verdade". resume suas experiências assim: "De fato. Georg von Welling. etapas da obra alquímica.

algo no qual se acredita sem discutir. atenuando a carga simbólica com "questões de fé" .É ainda Eliade quem nos informa que após o mergulho na morte espiritual – que importa em abandonar tudo de que se gosta. outro simbolismo religioso dos espanhóis do século XVI. na qual fica muito claro que o mundo não está dividido em certo e errado. inacessível à mente convencional como a conhecemos na cultura do Ocidente. do pensamento alternativo. provavelmente. sem qualquer perigo de contradição ou conflito. não pode ser conhecida pelo consciente. está presente em quase todas as cosmogonias e mora. mas é uma coisa e outra ao mesmo tempo. Essa parte do simbolismo também é vasta. bonito e feio. uma vez . no inconsciente de cada um de nós. Esse vazio. então leva ao abandono do dualismo. vem uma tranqüilidade desconhecida. capaz de preferir as virtudes e abominar os vícios. alguém responsável pelos próprios pensamentos. bom e mau. Na "Subida do Carmelo". terminada a "Noite Escura". e de deixar até a própria identidade – há o ressurgimento na "Obra Branca". perder todas as fontes de prazer e de auto-afirmação. em que falsas escolhas são impostas a um espírito atormentado pelo medo de errar e pelo sentimento de culpa. aquele estado de que falam muitas religiões. a leukosis ou albedo. No plano espiritual é a ressurreição. a pedra filosofal está próxima. Na alquimia. já não existe um espírito tendo de tomar decisões. Na mística. ignorada a condição meramente simbólica da coisa. A morte pelo espírito. A pergunta "quem poderia conhecê-lo?" continua infinitamente sem a resposta.

é finalmente aquele mais apto a perceber o que acontece no mundo. O homo religiosus que nada tem a ver com o supersticioso. As coisas imensas tornam-se invisíveis a olhos convencionais. naturalmente. brincando com símbolos: "A pedra filosofal não pode ser percebida pelos olhos profanos. e. no entanto as crianças brincam com ela nas ruas. e de que modo esse mundo se reflete no espírito humano. principalmente o medo de receber informações que façam desmoronar estruturas e conclusões já enraizadas por infinitas "confirmações". Aos poucos.que aquela mesma consciência que não pode responder continua no comando. Como diz Eliade. porque ela está em toda parte". O materialismo da moda no século XX é. e isso acontece todos os dias nos grandes centros urbanos. e em seguida vira dogma – sem que esta palavra seja jamais pronunciada a seu respeito. o crente. a respeito dessas questões. a informação transforma-se em convicção. Preconceitos "civilizados" e tabus primitivos tem muito em comum. Somente ele presencia a "transmutação do Cosmo através das hierofanias". tão ignorante e pretensioso quanto a mais tola superstição religiosa de uma povoação primitiva. O conhecimento científico pode ser calcificado sem que se perceba. nos laboratórios e universidades. Os tabus de algumas sociedades polinésias perecem enormemente com os preconceitos científicos de alguns especialistas da nossa época. . o místico.

No século XIX. Um numero cada vez maior de pessoas procura hoje um contato mais freqüente e estreito com a natureza. Criar plantas. Queremos de fato criar nosso próprio ambiente humano. consolida-se a verdadeira vocação do homem. falar delas. Os exageros comuns a todo ímpeto novo estão aí para nossa constatação: o isolamento e uma proclamada fascinação pela vida selvagem não passam de ilusões típicas de determinados temperamentos. Em Moutain Gloom and Mountain Glory (Univ. desenvolvidos na segunda metade do século. 1960). Aos poucos. Marlorie Nicolson empreende alguns estudos sobre mudanças de opinião do homem comum sobre a natureza. as árvores e as montanhas eram obstáculos . decorar apartamentos e casas com folhas e flores são costumes novos. civilizado. renunciamos à solidão e rompemos definitivamente com os sonhos sobre a vida selvagem. em meio à natureza. até a pouco embevecido com as delicias da vida urbana. Com isso. de Cornell.A NATUREZA HUMANIZADA.

Uma reação aos requintes artificiais das cortes européias lançou esses teóricos nos braços da natureza. como um emaranhado onde os índios se escondiam para atacá-los. As plantas cultivadas sempre mereceram mais atenção que a natureza selvagem. desde a Idade do Bronze.maléficos. testemunham o desprezo antigo do homem pelas árvores e pelos acidentes geográficos que se interpunham em seu caminho. e a vida no desconforto dos campos e das brenhas era qualquer coisa humilhante para o homem. A admiração da natureza selvagem foi exclusividade de alguns poetas e filósofos que nunca deixaram por muito tempo seus confortáveis gabinetes de trabalho. . e elas precisam de sol para crescer. A agricultura abriu grandes clareiras por toda parte. uma única vez na vida. os pioneiros viam nas árvores não somente um obstáculo ao plantio de seus alimentos. levou muita gente a acreditar que as árvores e os regatos eram benfazejos. Na América dos primeiros tempos. nos últimos cinco séculos. A nostalgia que isso pode deixar vai alimentar a experiência de outros. As grandes florestas que desapareceram em toda parte. mas não chega a encorajar uma repetição do próprio. A romântica imprecisão geral sustentou o mito por muito tempo. A incidência de epidemias nos centros urbanos de há alguns séculos. O contato com a natureza bruta é uma experiência que a maioria dos homens faz. quando faz. onde nada se sabia de higiene e arejamento. Uma soma de idéia coincidências e superstições ajudou a formar uma sobre um vago retorno à natureza. o que é real até certo ponto.

é parte da vida ideal do homem. a única maneira de não destruí-lo. muito associada aos ermos vegetais. mas não propuseram nunca a solidão absoluta. Essa é. de fato.Thoreau. que se altera inevitavelmente em contato com a civilização humana. Daniel Boone. com suas artes enriquecidas de experiência e beleza pela tradição Zen. aquela que tudo indica foi perdida . afinal. O contato com a natureza. A natureza humanizada é o próprio homem. E os japoneses sabem disso há muitos séculos. Preservar é ajudar. John Muir e outros defenderam um contato com a natureza capaz de regenerar o homem. com seus arranjos florais. ou em determinados modismos. é experiência ocasional na vida do ser humano comum. sem a hipocrisia dos que modificam com o pretexto de auxílio. também. Worddwoth. e não seu isolamento e posterior abandono. entretanto. no seu verdadeiro sentido. como ocorre com os índios. Os bosques bem cuidados são basicamente naturais. O verde pode ser humanizado sem ser afetado. O mundo vegetal não é uma cultura social. A preservação da natureza é. nem a participação humana num ambiente realmente selvagem. a manutenção de sua essência – o que inclui beleza espontaneidade. A solidão dos eremitas. respeito aos seus ritmos e processos -. Esses exageros doentios são antinaturais. as sebes bem tratadas ganham em beleza e não perdem em espontaneidade. com seus jardins harmoniosos como não existe em outro lugar do mundo. A natureza humanizada é precisamente aquilo que o homem sempre procurou – não o que o atraiu sob certas influencias.

à primeira vista. na imprecisa. Outros mitos. "Isso que eu chamo de Deus" . . o homem vê-se como peça isolada. quanto mais melhor. tudo contém sua dose de verdade e sua quota de fantasia. e só um conhecimento de suas características – bem como das nossas motivações – pode revelar sua autenticidade. A vida selvagem como cura do espírito. parece tão distante: o homem e o conhecimento que tem de si mesmo. como o isolamento completo. e só inexiste quando estamos completamente atentos. e da relação entre ela e o homem. mas compreensível. e a obra-prima de tudo mais. Enquanto isso não começa. Eis porque a compreensão do fenômeno natureza. são meras caricaturas de um ascetismo inútil e precisam de proximidade para se revelar como são. Apesar de parte inseparável da natureza. mas provável queda de que falam as mitologias e os relatos tradicionais.como dizia Robert Browning – "e que os tolos preferem chamar de natureza". a talassoterapia. as dietas brutas do crudoverdurismo. A mente que designa as coisas vê o mundo constantemente separado em realidade objetiva e sujeito. Esse dualismo está presente no nosso dia-a-dia. seu espírito. nascendo aí seu relacionamento deformado com esse todo que na verdade o inclui. inclui sem duvida o homem. quer queira. quer não. A separação homo e natura é arbitrária.juntamente com o instinto e a intuição. tem de voltar sempre a essa questão que. o mais que podemos fazer é seguir o modismo ecológico e criar plantas em casa.

não há nada a perder. somente a experiência imediata dessa observação pode dar a medida de sua intensidade. não há qualquer ação que deva ser empreendida. simplesmente porque nos situamos diante de um fato.O SENTIDO DO PERDÃO. O problema é que as . seja meditada ou instintiva. Os fatos são iluminados de um modo diferente quando são compreendidos em sua realidade. Se a compreensão é completa. no entanto. Em face dessa transfiguração que leva à percepção das coisas como elas se apresentam. Como há uma distância muito grande entre a formulação verbal de alguma coisa e a coisa em si. Madame de Staël teria chegado apenas à metade do caminho quando disse que "compreender tudo é perdoar tudo". O que foi transfigurado pela observação pura e direta é simples e sempre muito expressivo. constatando-º Seria possivelmente mais verdadeiro dizer que "compreender é transfigurar tudo". não há nada a fazer. sem as meias-tintas de meras impressões. desejos e expectativas.

não para o mundo. ou para ser contido num método. Ninguém ensina ninguém a observar as coisas: isso é simples demais para caber numa fórmula. embora nebulosamente. Quem acredita em perdão parece. e de nossa atuação nele. de fato. A erudição pode ser agradável quando não é ostentada. Imaginamos um roteiro e uma imagem para nossa existência: somos personagens. deixando de perceber – isso é literal – o que não corrobora as estruturas criadas ou que conflita com elas. O mecanismo de perdoar inclui esforço para esquecer. O que mantemos no primeiro plano é essa mistura de ficção e realidade que chamamos de vida. isto é. abarca uma decisão de . vemos apenas o que confirma o que nos convém. e isso arreda a questão para um canto da mente onde ficam arquivados os elementos que "vamos examinar um dia". e produz muito prazer interior. A descoberta de que "compreender tudo é perdoar tudo" não passa de meia verdade é um teste importante de observação. Como não abrimos mão dessas ficções lentamente criadas e forçadas ao longo do tempo. temos uma história. nossa vida tem um sentido qualquer coerente que acreditamos conhecer. ou que os haicais de Bashô cogitam desse mesmo tema. provavelmente nunca. Essas são apenas projeções do mundo. perdido em formulas exclusivamente discursivas ou intelectuais.pessoas estão voltadas para projeções que fazem do mundo. mas através de referências comparações e citações não chegamos ao ponto em que estávamos pouco antes. Não leva a lugar nenhum saber que Heráclito discutiu o assunto.

Quando acrescentou que o perdão resulta de compreender. Na realidade. A idéia de perdão pode apresentar-se como coisa concreta e única: a decisão de esquecer uma afronta. se é que a frase é mesmo dela. a de que a compreensão altera tudo. Madame de Staël. usou uma idéia padronizada. Na compreensão perfeita de qualquer realidade resta apenas a realidade tal como ela é. Não há exagero em dizer que quando existe perdão não houve compreensão completa. de quem concede. Se a compreensão é para valer. um lugar-comum do pensamento coletivo. quando passamos uma vida inteira repetindo fórmulas e deixando que idéias prontas – verdadeiros padrões – atuem sobre nosso espírito. Reagimos em função dessas pílulas que ingerimos constantemente. engloba uma forma de tolerância que deixa entrever uma divisão. perdoa. e qualquer ação em face dela é supérflua. Seria superficial concluir que o ressentimento é mantido. Isso nem sempre é fácil de ser entendido. se é penetrante e livre de verdade. o que acontece é aquilo que pode ser chamado de "transfiguração do fato". isto é. Essas "noções comprimidas" abastecem e informam milhões de existências. . então. de desligar-se de um sofrimento infligido por alguém. mas a parte predominante admite e tolera. não há nada para perdoar. nem existe mais a atitude de quem perdoa. percebeu apenas uma metade da questão.deixar passar. É claro que um pensamento acostumado a trabalhar somente com palavras não estabelece diferenças nesse campo. Alguma coisa por dentro não aceita.

pelo menos compreensão perfeita. A meia percepção à maneira de Staël é moeda corrente em nossa vida. A compreensão "esvazia" o ego. como Pilatos do Credo. nossa verdade refletida nos outros. motivam os movimentos políticos e religiosos. e supõe sempre um espírito dividido entre duas tendências.orientam os dirigentes e os estadistas. Reagimos mal a determinado fato que nos atingiu e resolvemos esquecer. o perdão é uma concessão. . Mas Madame de Staël entrou um pouco por acaso na História. É tão neutro quanto toda compreensão verdadeira. Mas o que prevalece é a idéia. Não é complicado ver que o perdão tem dois tempos. deixar de lado. Olhar. do que se deduz que não houve compreensão prévia do problema. justificam a violência e dão asas aos lugares-comuns e às superstições. E o que é feito de maneira incompleta deixa resíduos que crescem depressa e cobram seus direitos quando menos se espera. não atuar mais em função daquele fato. A divisão e o esforço são evidentes. não é bom nem mau. e trouxe consigo do berço uma tendência inata para reagir assim. E essa é outra questão relacionada com esse conhecimento desagradável é apenas a idéia de olhar nossas ações. a imagem do que seria o entendimento. nosso íntimo. em si. coisa muito diferente do entendimento. e isso podemos ver a cada instante. Assim. principalmente em nós mesmos – o que nem sempre é agradável. aquele centro que reage culturalmente o tempo todo porque foi programado para isso desde a mais tenra infância.

inspiração – não esclarece muito e serve para distrair. élan vital. ENERGIAS. Londres 1964). em seu livro Energies (Coombe Spring Press. repetem-se referências a um fenômeno que. energia nervosa. na preocupação de alguns pensadores e em todo o material utilizável pela antropologia.Bennet. No folclore. Aquelas alusões antigas. a que resulta da eletricidade. matemático e lingüista inglês John G. O nome que alguns dão a isso – prana. algo que está presente em nosso dia-a-dia e que. podemos chamar de energia.ENERGIA. dos combustíveis fósseis e da fissão nuclear. na história das religiões. embora . de tão entranhado em nós. na arte antiga. escapa à observação comum. quase sempre nebulosas. dizem respeito a um outro gênero de coisas. estuda com minúcia esse curioso metabolismo que a ciência oficial deixa de explicar. Não se trata naturalmente da energia que o homem contemporâneo conhece com familiaridade. O cientista. para estabelecer uma premissa.

Rajneesh fala em Geoges Gurdjieff. pode induzir estados de grande acumulação de energia psíquica. o silêncio. como os sufis muçulmano s e os cabalistas. bem como o amor. numa linguagem simples e às vezes francamente brincalhona. As religiões prescrevem sobriedade tendo em vista os níveis de energia. o russo que morou em Paris durante muitos anos e que criou uma terapia e uma forma de meditação em torno do metabolismo da energia interior. O conflito. alguma coisa a partir da qual a vida existe. ocupa-se do tema a seu modo. Quem conserva um suave metabolismo. "utiliza apenas as camadas superficiais de si mesmo". Referindo-se à energia. sem grandes gastos ou aquisições. Rajneesh fala no "fogo". em A Semente de Mostarda (Tao editora. 1980).não ignore como fato. Rajneesh mostra de que modo a vigília. a omissão consentida são como que técnicas para acumular esse prana. Em A Semente da Mostarda. leva a uma forma de unidade que se manifesta pela . A abstinência sexual. à maneira de ChuangTsé. que flui e se exaure sem causa aparente. Bhagwan Shree Rrajneesh. a ausência deliberada de sono. entrecortada de exemplos e anedotas. Com a pressão e o conflito – impulso para agir num sentido e omissão do respectivo movimento nessa direção – a camada superficial do espírito se esgota e a "segunda camada entra em funcionamento". a realidade e sua constatação. são algumas questões relacionadas com o assunto que Bennet disseca com as dificuldades comuns a toda incursão em terreno ainda não controlado pela cultura acadêmica. As transformações interiores. ou fricção.

e o que importa é compreender que o conflito. Não lhes dê nenhuma oportunidade: deixe que isso seja uma jornada interior. Há uma dúzia de palavras no cada delas significados. Para eles. com o mundo. energia uma conhece com evidentes na sua comunicação. Lembra. Por outro lado. tentarão mudá-lo. na vida de cada homem. recusamos compreender aquilo que é novo e sem função claramente indicada. sua nãoidentificação com a cultura. vivem apenas do lado de fora. Além disso. Falar em energia . nossos ouvidos conhecem alguns o A códigos. Se você se mantiver exteriormente formal. O próprio Gurjieff criou uma situação em que ficou à beira da morte. pode levá-lo a um encontro consigo mesmo. no entanto. mas nesse tipo de abordagem as dificuldades são muito grandes: as palavras não foram feitas para esse gênero de comunicação. eles ficarão satisfeitos. é preciso seguir o próprio caminho sem aparentar seu não-condicionamento. a crise. "É preciso estar livre. de forma bastante perigosa. e finalmente já só entendemos previamente. que isso pode ser usado erradamente. porque vivem de formalidades. envolvidas que.lucidez tranqüila. é a encruzilhada que. Rajneesh não é sempre claro. com os valores que constituem a vida como a conhecemos. tendo recusado sedativos para permanecer lúcido todo o tempo. conhecemos obstáculos diferentes questão caso. mas é preciso continuar preenchendo as formalidades. não mais relacionado. de da não algum todos. Se você der algum sinal de que está desenraizado. modo. a representação é suficiente". Mas Rajneesh lembra que esses são casos excepcionais.

nessa área. repousar. porque há versões. nunca no coletivo. nas religiões e na arte – é a acumulação de energia dentro do homem visando uma transformação interior. O que Rajneesh propõe – e milhares antes dele. A abstinência. o silêncio seriam formas ocasionais de chegar lá. No conflito. inibidor aqui. amar são fontes de energia. do esforço para compreender. prestar atenção. com respirar. nominalista e metódico – necessário em outras circunstâncias. a não-reação. definições e correntes que classificam e explicam a expressão. – carrega nossas baterias no cotidiano mais humilde. da futilidade. . É preciso descobrir por conta própria. não recomendações de fundo moral ou regras para uso permanente na vida. mabaratamos essa força. livresco. no folclore. a percepção da realidade – quando não há desperdício do murmúrio interior. o que só pode ocorrer no plano individual. prestar atenção. Respirar. A cada homem cabe a tarefa de descobrir se isso existe de fato. repousar e amar. Com qualquer outra designação acontece coisa semelhante. O resto virá com a vida. Há uma analogia entre a crise mundial do petróleo e o dispêndio das reservas naturais de energia pelos indivíduos. Essa descoberta seria apenas o primeiro passo. erudito ou discursivo. De acordo com o Taoismo. comer. etc.psíquica impõe limitações. sem comparações com os dados fornecidos pelo conhecimento acadêmico.

A NOVA IDOLATRIA. e que somente alguns são capazes de destacar. autor de Preching of Islan. em lugar privilegiado que acaba aumentando sua importância em nosso espírito (. A correspondência de Thomas Arnold.) a mente estreita tende para a maldade porque não estende sua vigilância a cada parte de nossa natureza moral. Até sua abnegação é abnegada apenas na aparência. pois de fato ele está fazendo com que parte de sua mente que menos valoriza ofereça sacrifícios àquela que mais valoriza. isto é.Scofield. A falta moral – diz Arnold – é a idolatria. Numa carta que escreveu a seu futuro biógrafo A. "O fanatismo é idolatria. é rica em observações profundas a respeito das pequenas coisas imensas que povoam o cotidiano de todos os homens. e . e ele contem o malefício moral da idolatria... a utilização de alguma idéia que elegemos como importante. um fanático cultua algo que é a criação do seu próprio desejo. fala na tendência humana para a veneração da banalidade.

mas o primeiro tem muita importância enquanto explica a atração que o fanatismo e o totalitarismo exercem sobre alguns espíritos. e mesmo nas pequenas opções do cotidiano. O impulso nessa direção depende das carências pessoais do autor. para o mundo. o engajado. no homem. A escolha inicial quase nunca é percebida. no sentido de que exista um significado para a vida. ou existe uma confirmação constante daquela semente.a negligencia fomenta a maldade nas partes assim negligenciadas". o homem faz pequenas escolhas iniciais baseado em simples capricho ou em alguma idéia fugaz. sempre no rumo da confirmação e do reforço. de uma conclusão. Essa torcida tem um desempenho importantíssimo no crescimento da idéia central que domina o fanático. o sectário. de uma ideologia. da política. dada a insignificância da semente. mas em estágios mais avançados é relativamente fácil perceber o desenvolvimento de uma crença. até que ela se transforme em árvore e domine o semeador. e é também o desejo de que esse conceito seja verdadeiro e absoluto. Nos campos da religião.Essa sede pode acabar numa avidez que não ajuda muito o discernimento e rouba a necessária tranqüilidade. para a morte. A partir daí. ou há uma rejeição progressiva e ela não chega a germinar de todo. O mal da . Há uma aspiração geral. Thomas Arnold compreendeu que todo fanatismo é a adoração de um conceito. e do fato dele fazer disso uma "razão de ser". O segundo aspecto é irrelevante.

Essas convicções bem estruturadas impedem a percepção de qualquer coisa que contrarie seu sentido e seu significado geral. Tudo mais que vemos. aquele germe. aquela cepa. aparentemente secundária. o impulso animal mais elementar conduzem a uma escolha pequena. enfim. ouvimos. da época. A vigilância de que fala Arnold é a única maneira de evitar a infiltração de reforços que transformam pequenas idéias em gigantescas certezas. momentânea. das cartas anônimas à intriga sistemática. A esclerose do espírito começa acidentalmente. As pressões culturais. O mais superficial egoísmo. A questão não é difícil: acreditamos naquilo que queremos. da capacidade de julgar. seja religiosa ou política – está no fato dela fortalecer no espírito uma ilusão mais ou menos evidente. a mente foi engolida pelo monstro e já não se movimenta a não ser que isso interesse à causa. numa pequenina escolha sem importância. Essa rigidez autoriza todas as vilanias. Seu crescimento acontece porque precisamos daquilo como referência. ponto de apoio. depois grosseira – toma o lugar do percebimento. Arnold conclui adiante que não é preciso dar nomes a essas coisas . O desejo generalizado de estr integrado em seu tempo – no fundo a vontade de ser aceito – faz com que se busque uma adesão aos valores vigentes. confirma aquela tese. A partir de certo ponto. são às vezes decisivas no desenvolvimento dessa doença moral. inspiração e escudo. sonhamos. lemos.idolatria – da certeza apaixonada numa fórmula qualquer. da lucidez. Uma forma de cegueira – primeiro sutil. da inquisição às farsas judiciárias do stalinismo.

Nossas opções são inspiradas nesses anseios secretos. Claro que a idolatria predominante hoje é mais sofisticada que a de tempos distantes. Causa alguma Podemos acrescentar que o século que XX. admiração racionalismo e da tecnologia. Essa parte faz a critica da idolatria. Isso exige manobras complexas. O homem persegue a certeza e quer dar continuidade ao que nele é efêmero. e a confirmação do que colhemos nessas escolhas é ratificada também avidamente. o exame de consciência e a autocrítica. tudo se resolve com a quantidade. sem do designações pomposas elas até são mais compreensíveis. mas na essência o fenômeno é o mesmo e seu crescimento idêntico ao do passado. não haveria a presença saneadora da dúvida. com a pressa dos que não têm certeza e a ilusão de quem acredita que. afinal – procura constantemente segurança. A mente do homem comum – nós todos. seja marcadamente idólatra. . na falta de qualidade. Se não fosse por ela. essa nossa mente ordinária é assim. Somos acumuladores por natureza – isto é. nem a humildade que permite desconfiar da nossa lucidez e propõe o ato de contrição.para compreendê-las. quando não foi silenciada pelo fanatismo ou esmagada pela presença opressora de uma "verdade definitiva" de fundo religioso ou ideológico. escolhas rápidas e espertas. Há alguma coisa mais no homem que não é somente isso.

a da ciência dos elementos exteriores. por alguma mais que razão mil nunca homens devidamente explicada. mergulham em outras direções igualmente profundas. . da ótica. Isaac Newton abandonou por dois anos tudo o que estava fazendo e isolou-se numa fazenda de Lincolnshire. para se esconder da grande peste que devastava a Europa. da astronomia. Newton desatrelou sua criatividade numa direção. Além de inventar dispositivos engenhosos. O isolamento prolongado e o corte em todas as atividades rotineiras. que desenvolvia até ali. concebeu e desenvolveu a famosa Lei da Gravitação Universal. Outros. A certa altura da vida.O FERMENTO QUE FALTA. Naquele período. produziram alguma coisa extraordinária em seu espírito. da matemática. produziu durante três séculos. onde o domínio do homem se exerce de maneira absoluta. em isolamento semelhante. nos diferentes campos da química.

a sobriedade. a solidão (não como situação efetiva). Todo desenvolvimento foi feito com total assimetria. basicamente nominalista. em que o religioso tibetano recomenda um isolamento anual para todo homem. no entanto – tomando domínio como conhecimento – é restrito e limitado. um injustificado amor pelo barulho e pelas formas dramatizadas de expressão. de que resultou o imanentismo que faz todo conhecimento terminar na sensação ou na idéia. Merton concorda sobre a necessidade de uma ruptura periódica com a rotina e o ruído.O domínio sobre esses elementos exteriores tornou-se incalculável neste final do século XX. como condição de equilíbrio emocional e fator de reencontro do ser humano consigo mesmo. e um retiro periódico torna-se necessário a algumas naturezas. porque referente ao conhecedor. Essa "exteriorização” da mente e dos interesses humanos conferiu uma feição muito característica à chamada modernidade – essa excitação toda por nada. Coisas como o silêncio. anotando em . Toda vaidade com o progresso material apóia-se num milagre que aconteceu unilateralmente. O isolamento sistemático pode ter raízes na patologia. então. O pensamento moderno tornou-se. crescendo numa direção e permanecendo raquítico de outro lado – precisamente o lado decisivo da questão. No seu livro Diário da Ásia. na Tailândia. pode resultar de um impulso para fugir. tornaram-se depressa símbolos de fraqueza e inexpressividade. Mas a capacidade de isolar-se temporariamente é parte da "normalidade". Thomas Merton narra seu diálogo com o Dalai Lama. O domínio do homem sobre si mesmo.

ou lembra vagamente o discurso psicopatológico. As ciências positivas foram beneficiadas com esse rumo. Os eremitas e contemplativos de todas as épocas conheceram as virtudes de um particular vazio facilitado no isolamento. Dostoievski. e de certo modo escreveu sobre isso em todas as obras posteriores. acumulava energias que iria gastar pelo resto da vida. criteriosamente espaçadas. tudo isso parece um pouco fantástico. É natural que seja assim. duas semanas ao longo do ano. para o religioso. Maomé trouxe sua mensagem do silêncio do deserto. Há um enriquecimento característico dos grandes períodos de silêncio e solidão. depois de uma semana num ermo povoado. deixou de lado "Velho Adão" por alguns dias. Ao leigo. isso não invalida o fenômeno. Soljenitsin fala na mesma coisa em Um Dia na Vida de Ivã Denisovitch: a insignificância do homem na vastidão do Gulag é uma lição que só não penetra os espíritos mais fechados. Fernando Pessoa escreveu o "Something in me was born before the stars". dividir o ano em dois períodos. aquele que vive no mundo e ganha seu sustento em tarefas executadas no dia-a-dia. seriam suficientes". Se sua mente escolheu a via nominalista para se expressar. um deles dedicado à" exteriorização ". resultado provável de um condicionamento do formulador da . Thoreau. às margens do Walden. ou o mundo não seria o que é. Ao que vive mergulhado na cultura. no exílio siberiano.seu diário: "O ideal seria. O que Newton conheceu em Lincolnshire foi uma concentração de energia – a energia de um tipo muito particular – produzida pela mudança de ambiente e pelo isolamento temporário.

os truques que aspiram a um status de paranormalidade. Os Vedas falavam no Prana há quatro mil anos. a atenção. As em das virtude últimas da tremenda Os palavras que designam essas experiências estão há muito místico-orientalista décadas. e a ioga moderna fez uma mistura que perturbou um pouco os fatos. à primeira vista. mas não obscureceu totalmente o fenômeno. ligeiro percebimento do mundo em que vivemos. mas a grande via de aquisição dessa coisa não definida foi sempre. exploração como se sabe. horóscopos. A idéia parece no mínimo desgastadas.Lei da Gravitação Universal. tudo contribui para uma imensa desatenção em face de grandes realidades que se escondem nas pequenas Não temos coisas senão com um as quais e já nos fugaz acostumamos. das coisas que nos envolvem e do nosso comportamento na vida. Um pouco de isolamento pode ser fermento que falta a uma potencialidade que não se manifesta nunca porque. nervosa ou psíquica. que não é apenas física. com mil diferentes pretextos. as profecias de almanaque. Não estamos jamais acordados para o que estamos fazendo agora. e que embora não designada com um nome respeitável qualquer. O importante é essa acumulação de força. . A inspiração da maçã e sua analogia com o sistema planetário são o lado anedótico do caso. exótica. dentro da melhor tradição esotérica. simplesmente existe. Pode ser que a respiração adequada acumule essa energia. estamos ocupados demais e temos horror de ficar sozinhos por algum tempo.

em algumas cidades do País. etc. que o mercado exerce uma seleção natural que acaba expulsando o mau gosto. Os efeitos dessa irresponsabilidade são maiores. contra revistas e filmes ditos eróticos vendidas e apresentados livremente em toda parte e a todo gênero de consumidores. que essas medidas são um retorno ao arbítrio e à censura. do que imaginam seus autores e talvez as próprias autoridades que até agora fecharam os olhos para o problema.EROS MISTIFICADO.parte da imensa onda de desinformação que varre o mundo das idéias – o que se produz e impinge indiscriminadamente é uma sórdida contrafação da beleza contida na sensualidade. Nada é mais surpreendente no caso do que o fato dessa iniciativa da autoridade haver tardado tanto. mas no Brasil a impunidade nesse terreno chegou a um ponto difícil de suportar. Em nome do "Direito de Informar" . Editores e interessados na comercialização desse material dizem que sua finalidade é artística. a mercantilização do erotismo é um problema mundial sem dúvida. . Juizes e curadores de menores começam a tomar medidas. A exploração da sexualidade. e sem dúvida diferentes.

a experiência de outros países. bem como a terminologia das escolas psicológicas. conservador. passando pelo cinema? A seleção do material a ser divulgado deve ser feita por faixa etária? A apreensão de publicações não é um precedente perigoso num país e numa época em que é vontade geral a garantia do direito de expressão? Ainda uma vez somos convidados a pensar por nós mesmos. mas que podem afogar-nos. as noções deturpadas e uma obediência quase cega aos modismos contribuem para que nada se faça no sentido de esclarecer aspectos dessa questão. na discussão do problema. na descoberta simples das coisas complexas. nos veículos de comunicação. É pena que essas medidas necessárias não venham acompanhadas de esclarecimentos. antiquado. Faz sentido esconder as muitas faces da sexualidade? Deve-se tratar de tudo o que envolve o assunto. pelos educadores e pessoas maduras encarregadas da formação de jovens. a opinião dos especialistas e técnicos. inclusive modos deformantes que vão condicionar . fechou muita boca que tinha o dever de manifestar-se claramente contra a onda de chulice que invadiu telas e publicações – a começar pelas autoridades. comportamentais e sociológicas que trouxeram muita luz a esse século. pondo de lado. Os preconceitos. Algumas perguntas saltam à frente das outras. ignoram tudo. mas há mais de um modo de apresentá-la.O medo de parecer puritano. do jornal à TV. pelo menos inicialmente. infelizmente muitos. debates e informações a respeito de um tema sobre o qual muitos. Não há nada a esconder sobre a sexualidade.

A seleção de material para divulgação. porém. e por isso são muito mais nocivos. assistem a esses espetáculos grotescos. é solução discutível e de resultados precários. sem exceção nenhuma. com o respeito e a seriedade que não excluem a descontração e a espontaneidade. sendo todos. o que associa prazer com o domínio e a superioridade. Não há enfoque mais falso da sexualidade que o cínico. o machista. Uma publicação que apregoa uma "nova liberdade" para justificar a venda de uma sexualidade sombria e patológica está mistificando conscientemente e precisa ser contida. sem maior capacidade crítica. não sua idade cronológica. na medida em que afasta os espectadores de nível mais alto. portanto. A responsabilidade imensa dos veículos de comunicação é posta à prova pela maneira como essa questão é apresentada. não chega a ser consolador quando lembramos das grandes multidões que.comportamentos e mentir sobre a realidade. O fato. Não há. . uma vez que interessa de fato a maturidade do leitor. consumidores a selecionar porque não há o que escolher. ou espectador. atentam contra a inteligência antes de atentar contra a moral. de uma indigência intelectual de fazer pena. Sob certo ângulo isso é benéfico. Os que produzem os filmes e revistas pornográficos – ostenta-os disfarçadamente – são fatalmente ignorantes e supersticiosos em matéria de sexo. levando em conta as faixas de idade. financiados ou não pela Embrafilme. Os filmes nacionais de linha pornô.

A denominada literatura erótica. interessados exclusivamente nos seus ganhos e indiferentes aos prejuízos sociais e pessoais do trabalho sórdido que produzem. é o aviltamento e a humilhação da mulher. Um outro aspecto revoltante do caso é a hipocrisia dos editores e diretores desse material. na realidade. O que acontece é precisamente o oposto: a liberdade só tem a ganhar com a separação nítida entre beleza e sujeira. que as mulheres ali representadas são a mulher – ou pelo menos é o que fica constatado entre os consumidores de todo esse lixo. Apesar disso. Essa hipocrisia é gritante quando querem provar que existe arte no que fazem. que de fato não é erótica nem literatura. Mas o pior mesmo é quando alegam que a liberdade de imprensa e de informação pode ser atingida com as medidas que juízes e curadores de menores começaram a tomar nos últimos dias nas principais cidades do País. quando alegam que em países cultos tudo isso é permitido. é grande o número de mulheres que aceita sem protesto a existência desse comércio. . Textos e filmes pornográficos estão afirmando. sexualidade e parasitismo. quando afirmam que os textos que acompanham os nus tem valor literário ou jornalístico.

acusada de superficial. penetrar. Um exame profundo terá de pedir concentração. Só acreditamos nas grandes verdades quando elas se revestem de complicada verbalização. Soa como extravagância em nossa cultura a afirmação de que o ato de compreender não exige qualquer espécie de esforço ou tensão. impressionista e improvisada. A idéia aparentemente nova encerra um conhecimento antigo e pode ser comprovada nas atividades comuns que exigem percebimento. ou de elaborada urdidura intelectual. Há bibliotecas inteiras afirmando a necessidade de impor uma disciplina para estudar. abordar.ENTENDER. Aprendemos a associar conhecimento com esforço para descobrir. SIMPLESMENTE. tal como tendemos a avaliar uma pessoa por seus títulos e seus trajes. A percepção imediata é sempre eivada de suspeição. e talvez por isso haja ocorrido a alguém explicações discursivas. Reagimos à simplicidade com suspeição. É tudo simples demais. Isso é tão enraizado no homem culto moderno que qualquer exame da questão começa com a exclusão ad limine de toda concepção diferente. definir. merecedoras de respeito e temor reverencial. . conhecer. bem como a de que o estudo se opõe a todo tipo de resistência e rigidez.

gasto de energia nervosa, força de vontade, propósitos de continuidade. Esse mito afastou os estudantes ocidentais do estudo no último milênio. Esse equivoco inibiu um número incalculável de pesquisas e desviou das coisas da inteligência um contingente imenso de homens sensíveis, mas avessos à sistematização. Os diplomas obtidos com suor e lágrimas atraíram para o estudo principalmente os pertinazes, os que aceitam desafios penosos para provar que são capazes de vencê-los. Usando a biotipologia de Sheldon, podemos dizer que a erudição caiu nas mãos dos somatotônicos, fazendo desanimar os viscerotônicos e inibindo os cerebrotônicos. Os "homens práticos", ou os que têm predominâncias desse tipo, são realizadores que vencem obstáculos para atingir os fins que se determinaram, pouco importando as afinidades ou antipatias que esses obstáculos despertam neles. Os "homens-afetividade", embora comunicadores por excelência, sentem-se quase sempre impedidos fisicamente de conviver com um programa rigoroso que seja apenas um meio para atingir determinada meta. O "homem-abstração", o intelectual biotipológico, deixa-se perder em meio a um esforço que conduz a um fim, atraído, por detalhes ou novos interesses. Por tudo isso, a organização tradicional do saber é uma estrada livre para as naturezas realizadoras e determinadas, e uma trilha áspera e espinhosa para os outros tipos humanos, inclusive aqueles que por inclinação natural seriam candidatos a uma forma mais profunda de conhecimento.

Essas circunstâncias são determinadas pela convicção generalizada de que a percepção resulta de esforço, sendo um empreendimento que se põe em marcha e atinge seus objetivos graças à determinação e à concentração da vontade em algumas tarefas previamente ordenadas. Esse conceito não é mais ocidental, mas pertence ao mundo. Na China antiga, os taxistas opunham-se diretamente a essas concepções e Chuang-Tsé dizia mesmo que o "verdadeiro estudante não lê nos livros, nem se senta na classe entre paredes, diante do mestre", mas simplesmente aprende a todo instante, "olhando como se deve olhar, ouvindo como se deve ouvir". Para os educadores práticos do nosso tempo, que tem em vista um currículo determinado para atingir uma soma precisa de conhecimentos, isso tudo é muito engraçado. De fato, não há muito que discutir a respeito. As concepções divergem no que respeita não apenas ao estudo, mas a vida, mundo e tudo mais. Há um recato natural que aconselha o silêncio, quando nada para poupar energias. Tem importância muito grande, no entanto, pensar sobre essa questão que está na raiz do processo do conhecimento. Quando abordamos alguma coisa nova, estamos na iminência de conhecê-la. O que é que o esforço pode fazer no caso? Que pode a disciplina, quando se trata de entender o fato? De que maneira a persistência trabalha no sentido de induzir a percepção de fenômenos que não se reduzem a dados puramente mecânicos e isolados? Por que não esquecer, ainda que por instantes, o que dizem os tratados de pedagogia a propósito? Se alguma informação for passada sem ser

criativamente "redescoberta" - como se tivesse começado a existir no momento em que é esboçada – tudo será como uma fita gravada, sem nenhuma originalidade. Para apareça o homem, é preciso morrer o robô condicionado, o que não é nada demais porque o mundo já tem computadores muito competentes. Assim, soa como extravagância em nossa cultura a afirmação de que o ato de aprender não exige esforço nenhum. Os professores, que não se ocupam em demasia com as correntes mais avançadas em educação, tem tido oportunidade de constatar isso pessoalmente, mas com certeza não sabem como enquadrar essa conclusão no aprendizado sistemático que receberam e estão transmitindo. Essa é uma daquelas coisas extraordinárias que não se encontram nos livros, nem são ensinadas nas escolas. Exceto, talvez por pessoas suficientemente livres para deixarem de lado tudo o que são e o que acumularam, para recomeçar do nada a cada dia, na descoberta estranhíssima de que, realmente, a vida recomeça a cada instante, quando estamos atentos, sem nenhuma tensão ou esforço.

A PERPLEXIDADE, UM BEM.
Considerado a mais alta expressão da poesia de seu tempo, o poeta religioso persa Jalal-Udin Rumi (1207-1273) considerava a razão um guia bastante precário nos labirintos da vida. Em seu ceticismo em relação às soluções do racionalismo, Rumi identificava a intuição e o percebimento imediato como "a divindade". Certa vez escreveu: "A razão é como um oficial quando o rei aparece: perde seu poder e se apaga completamente. A razão é a sombra lançada pela divindade, e a divindade é o sol". Nos enigmas sutis que propunha em seus escritos, o poeta não perdia tempo com futilidades, de modo que nem mesmo uma palavra sua era desperdiçada, nos poemas que produzia lentamente. Rumi fundou a ordem dos dervixes e no que fez e escreveu teve sempre em vista o transcendental – tão desconhecido em seu tempo quanto hoje. "Venda sua inteligência" - recomendava ele aos moços – "e compre perplexidade. A inteligência é apenas opinião, a perplexidade é intuição". O espanto diante das coisas, o "não saber" eram apontados como caminhos naturais da percepção para a realidade. A palavra perplexidade tem uma sintonia exata com o fenômeno da absorção do "fato sem acréscimos,

E para ele o homem deve estar descobrindo permanentemente. teorias à pratica. sem antepor idéias à ação. basta um leve toque para vejamos e ouçamos. Esse estado – segundo Rumi e tantos outros. . ou estará morto por dentro sem saber. A razão pode ser importante como um oficial aos olhos de camponeses. Assim acontece com o ser humano em suas especulações sobre Deus e o amor. ou não. As perguntas preenchem um vácuo que quer ser ocupado. e se pergunta se a criança alguma vez exige provas de que o leite é bom ou fica em dúvida sobre como tomá-lo. O observador que está vazio. Não há nada intelectualizado a explicar que valha a pena o sacrifício. o homem devia apenas viver. e a cujo respeito não pode obter respostas. no dizer de Rumi.sem interpretações". que só ocorrem porque não O conhece e porque não sabe amar. está perplexo. num impulso sem pensamentos. Kalal-Udin Rumi conta história nos seus versos. e ao qual nem todas as respostas satisfazem. Mas quando o rei se aproxima. Quando estamos preparados para ver e ouvir. do conceito que ele tem do papel da poesia. O homem desnaturado – na acepção mais antiga da palavra – não sabe senão se interrogar sobre questões que não conhece. acredita Ruma. Imagina a mãe que amamenta o filho. se é que se quer descobrir. situados diferentemente no tempo e no espaço – ideal para descobrir. Tudo depende da qualidade do poeta. Tal como a criança simplesmente mama. Para isso era preciso que ele vendesse sua inteligência e comprasse perplexidade. num sentido especial. O poeta pode dar esse toque. intelecto à sabedoria.

Essas questões dizem respeito a origem. dualista. fim de tudo isso que vemos e percebemos. continuamos tão ignorantes em relação às principais questões do Universo quanto o homem das cavernas. mero registro físico de fatos e sensações. diante do conhecimento imanente – embora este tenha sua razão de ser. matéria produto muito inequívoco com do o pensamento produto do parecida computador. Apesar de toda técnica e da maravilha das ciências positivas. com seu inseparável discurso. A perplexidade. A matemática. sentido. não ficam naquele estado de absorção de que somente o espírito – melhor seria grafar Espírito – é capaz em toda a natureza conhecida. não se abrem ao novo. O racionalismo exerce um papel talvez insubstituível no mundo. e as perguntas que cortavam o ar eram as mesmas. a experimentação. nominalista. sem precisar de alma. é ainda mais criativa que a certeza sólida. Essa mente é uma espécie de máquina especuladora. como os oficiais.quem antes parecia importante desaparece na penumbra. coisa que os chips fazem perfeitamente. Os computadores não ficam perplexos. manipulação da memória. obediente a dois ou três impulsos básicos. à totalidade e à dominação. Esse mesmo que vê e percebe – quem é? No tempo de Jalal-Udin Rumi essas dificuldades já eram muito antigas. problemas de a lógica propõe no soluções mundo e resolvem em que ordem prática inevitavelmente vivemos. O que não deve é aspirar à exclusividade. A razão apaga-se. . desprovida da verdadeira criatividade. então.

quando queremos saber o que é mais importante na vida. e dezenas de outros como ele. E. A tarefa é a desmistificação das esperanças criadas em torno da ciência. no entanto. mas sim a identificação do que está por trás do endeusamento da técnica e do chamado "progresso".Dizia Rumi: "Quando precisamos ter certeza. A expectativa é infundada e perigosa. de que sabemos o que fazemos. com nome próprio e bem controlado. A ciência aquece o nosso coração porque nos transmite a idéia de que não estamos sozinhos. temos de abandonar tudo isso". em nome de um naturalismo confuso que começa a passar de moda. . Todo conhecimento organizado. segundo as quais a felicidade humana vem por aí graças ao avanço da tecnologia. Então o que precisaria ser feito não é a rejeição da ciência e da técnica. como já sabia e cansou de dizer Lala-Udim Rumi. que temos muito medo da incerteza. pura e simplesmente. proporciona tranqüilidade a nós todos. e isso acontece sempre. de algum modo sentimos por que a razão se tornou tão importante no mundo.

idéias disciplinadoras que imaginaram uma pureza ideal e quiseram fazer o mundo caber dentro de padrões sonhados. A imagem é lembrada por Paul Tillich em A Coragem de Ser (Paz e Terra. e passa pela vida como o homem de negócios preocupado. a grande energia da Renascença foi reprimida pelo Protestantismo e pelo Racionalismo. para mostrar que o ser humano tenta realizar todas as suas potencialidades e alguns homens descobrem. enquanto um homem à roda do leme determina a direção. surpresos. na passagem -. desperdiça. A união do entusiasmo e da racionalidade tem produzido o que de melhor foi criado pelo homem. 1977). que não vê jamais a paisagem que percorre diariamente. infelizmente – e isso Tillich não diz. Para Tillich. . o destino às vezes é representado pelo vento soprando as velas de um barco. num resumo do Universo. ou ignora essa riqueza. o quanto esta pode ser determinada naquelas condições.O BOM NAVEGANTE. Esses valores não foram criados pela sua vontade. A maioria deles. onde as forças existem em potencial. Mas tillich recorda que todos somos um microcosmo. O homem voltado para seu próprio íntimo pode encontrar forças que normalmente não poderia supor existissem nele. não foram fabricados sutilmente por sua imaginação. que essas potencialidades são inexauríveis. No simbolismo da arte da Renascença.

Através deles. colocando-se a pergunta sobre se . Os estóicos tinham uma noção muito precisa disso. e que afinal serve para reforçar nossa identidade. tradições que pomos designar como místico-psicológicas sustentaram – minoritariamente. O Taoísmo e o Budismo Chang. O autoconhecimento não tem o caráter cumulativo das aquisições comuns.não foram projetados do interior. mas evidentemente ele já existia na Grécia antiga e foi a partir dali que ele influenciou a cultura ocidental. no Ocidente. mas simplesmente acontece. Em outras palavras. Quem caminha por essas trilhas costuma dizer que "nada fica" das experiências que compreendem a observação de si mesmo. No Oriente. A percepção lúcida gera mais percepção. no fundo acumular vivências para um reforço geral de sua própria individualidade – o que não é bom nem mau. parecemse nisso com o Budismo Zen no Japão. não há nada parecido com isso que chamamos experiência. separando o homem da realidade que ele observa e na qual vive. na maioria das vezes – uma visão monista do mundo. dando vigor ao ego. talvez porque exista apenas momento a momento. O dualismo é a principal característica das filosofias que predominaram a partir do século XVIII. o tema foi completamente esquecido graças ã supervalorização de um pensamento que fortalece os núcleos individuais. ã maneira de consolo ou estímulo. sem nada que acumular na memória. Esse aspecto desencoraja os que desejam. o homem que observa o universo em que vive é parte integrante e inseparável desse universo. essa parece uma das regras imutáveis de todo esse fenômeno. na China. Hoje.

As fronteiras impostas pela razão. toda meditação. Paul Tillich abre as portas do espírito a potencialidades ilimitadas. Tudo o que exige para chegar onde deseja é que haja algum sopro nas velas. O que diferencia os indivíduos é sua fé nas possibilidades de navegar. não há vida. havendo os que acreditam que alguma coisa pode ser feita ao leme. Essa medida é fundamental. -se impeditivas da criatividade quando ultrapassam seus limites naturais. O filósofo alemão Karl Jaspers afirmava que o ser humano só toma consciência de si mesmo em "situações-limite". O homem tem a roda do lema nas mãos. é intrinsecamente monista nessas concepções e doutrinas. ou se seu condicionamento impede isso. sem o que não há viagem. e . Como centenas de outros ocidentais antes e depois dele. até certo ponto necessárias para controlar a fantasia e manter o contato com a realidade. todo filosofar. e seu não aferimento pode romper a cerca que separa a loucura da inspiração. no fracasso da razão levada até sua linha de demarcação. Ali estão os caminhos da transcendência e nada semelhante existe no cotidiano em que impera a rotina e onde dominam os mecanismos de segurança psicológica que o homem cria para si mesmo a cada pensamento e em cada escolha. e com o vento que sopra – quando sopra – pode fazer quase tudo em sua viagem pelos mares da vida. tornam. O bom navegante a vela é o que aproveita bem o vento. não há rumo. A partir desse ponto.a parte pode conhecer o todo de que se compõe. Strindberg e Van Gog conheceram esse perigo na própria carne. Nietzsche.

nessa ordem.outros que descobriram que é quase ilimitada a liberdade humana para traçar seu próprio rumo. A revelação da nossa própria potencialidade é a primeira grande descoberta que se faz. quando podemos e queremos. ao mesmo tempo. O vento que sopra nas velas do barco também não difere. a descoberta do espírito só pode ser empreendida pelo próprio espírito. O microcosmo que somos forma um único corpo com o macrocosmo que nos cerca: toda separação é aparente e resulta de uma insuficiência. do homem que se agarra à roda do leme e traça o rumo da própria vida. em sua essência. Porque o homem vai muito além da dicotomia sujeitoobjeto. Esses possuem uma chama especial. base do conhecimento científico. mas insuficiente para o equacionamento do mistério humano. . entre tantas que podemos fazer. conserva a tranqüilidade e o discernimento. uma forma de entusiasmo que leva para frente e.

a televisão. decorre . do que pelo muito que incomoda. aos poucos. inibe a percepção ocupando os sentidos humanos com a mais perturbadora das manifestações. a capacidade de escutar depois de ter perdido. há muito mais tempo. Quando o barulho cessa. Assim. verificamos que o embrutecimento do ouvido físico. Estabelecendo uma diferença entre ouvir e escutar. que escuta. que Aldous Huxley chamava de "Idade do Ruído". são perturbações variadas. a faculdade de ouvir. a auditiva. todas absolutamente presentes na nossa vida com diferentes intensidades e ao mesmo tempo atrevimento. situando o ego em lugar privilegiado e justificando todos os narcisismos. para efeito de compreensão. o motor do carro. o cassete.BARULHO INTERIOR. e não escutamos porque somos superficiais e desatentos graças a um velho esquema que nos permite fugir da realidade. Esse concerto dissonante em que vivemos mergulhados é mais nocivo pelo que impede de ouvir. Esse alvoroço interno preenche todos os momentos e expulsa qualquer silêncio. Este tempo. toma seu lugar o ruído interior que a cultura instalou há muitos séculos em nossas cabeças. algumas aprazíveis. O rádio. O horror contemporâneo ao silêncio é um tema a ser cuidadosamente desdobrado. outras simplesmente inevitáveis. a campainha. O homem das grandes cidades deste final de século perde. não ouvimos mais porque o ruído destruiu nossa sensibilidade auditiva.

Os três graus de silêncio de que falava Miguel de Molinos – o da boca. O excesso de decibéis na cidade grande é apenas um subproduto da irracionalidade dos grandes aglomerados. com fragmentos de informação irrelevante. é sempre bem vindo. Falamos sobre o tempo. doses repetidas de dramas que não produzem catarse. em A Filosofia Perene lembra que o alarido moderno "vai muito além dos tímpanos porque penetra na mente. música coribântica e sentimental. temores. o da mente e o da vontade – são desconhecidos do homem contemporâneo. criamos a Babel onde tudo é grito. Calar pode ser impolido. Esse sussurro contínuo não cessa nunca na maioria das pessoas. A conversa frívola é considerada terapêutica e conseqüentemente estimulada. o ruído interior começa seu trabalho. sobre as outras pessoas. enchendo-a de distrações. O silêncio. mas apenas aumentam o apetite por lavagens . para elas. grosseiro mesmo. não importa sobre que.indiretamente do enfraquecimento do ouvido psicológico. fomos vitimas da desatenção. projetos. e caminhamos para a surdez. é uma experiência tão assustadora que sua natureza acabou providenciando um remédio para essa ameaça. Quando ficamos sozinhos e permanecemos calados. Falar. que ouve. provinciano. desejos. Porque somos ruidosos. No segundo. somos vítimas do mundo que fizemos. lembranças. sua sucessão de imagens. Ouvimos palavras pensadas e ao adormecer já não sabemos se lembramos ou se sonhamos simplesmente. sobre o futuro. É ainda Huxley que. explosão e rangido. No primeiro caso.

deve ser aprendido "com o silêncio e com a atenção. estranhos. em humildade e desprendimento". mas no reforço de ilusões que muitos tem potencialmente. O maior problema não consiste no produto ser insuficiente para produzir as maravilhas que promete. individualmente – através do uso de um produto determinado. . Fomos condicionados a dirigir nossos sentidos no rumo de barulhos sugestivos. e que agora ganham uma força que não tinham antes. realmente. Mas é o ruído o adversário mais implacável da atenção no homem. essa reunião de símbolos que freqüentemente não tem correspondência na realidade.emocionais diárias e freqüentes" E finalmente há o ruído provocado pela publicidade que promete o sucesso de todos os homens – de cada um dos consumidores. esse observador do mundo que já estava de volta quando todos nós ainda estamos indo. não identificados desde logo. O pensador chinês taoísta Chuang-Tsé resumia a questão com simplicidade: "Um cão não é considerado um bom cão apenas porque late bem. A FALA FRÍVOLA. Um homem não deve ser considerado um bom homem apenas porque é bem-falante". lembrava a alguns religiosos que tudo o que vale a pena conhecer. em nossos dias é a palavra. E São João da Cruz. O ruído mais comum.

e essa colonização intelectual foi tão eficaz que hoje não apenas recusamos examinar esses problemas. sendo dispersão e enfraquecimento todo discurso a propósito de questões pessoais. O espanhol Miguel de Molinos conhecia profundamente os efeitos do silêncio consentido – hoje diríamos assumido – sobre a mente do homem. porque a realidade contida nessas preocupações foi distanciada dos nossos interesses por conceitos diametralmente opostos. Fomos condicionados pelas idéias surgidas e desenvolvidas no século XIX. Isso tudo soa hoje estranhamente. Para o quietista que converteu Fenelon e . . São Francisco de Sales alerta para as armadilhas escondidas no prazer de falar e discorrer. Uma visita aos antigos pensadores – quando não a rejeitamos em nome da racionalização. Mais adiante concluía o santo que as novidades de nosso pequeno mundo pessoal tem pouca importância para os outros. um encontro natural com a humildade. "Minha cara madre". e alem disso "tudo o que respeita à vida e à morte acontece dentro de nós". como negamos o próprio condicionamento.escrevia o autor do Tratado do Amor de Deus – "observe os preceitos dos santos. do progresso ou do materialismo dos quais nos orgulhamos – pode ser um bom exercício para o espírito.Em carta a Santa Joana de Chantal. onde a vaidade de ficar em primeiro plano é acalentada e o desejo de fechar os ouvidos à sabedoria é satisfeito. que sempre advertiram que aqueles que buscam a verdade devem falar pouco de si e de seus assuntos". por valores que assentaram lenta e profundamente suas bases no espírito moderno.

o que é dificílimo. estruturas enrijecidas pelo temor de estar errado. O ouvido seletivo é esse que escuta o que quer e fica surdo para o que teme. seriedade. o silêncio da mente e o silêncio da vontade".Mme. nos volteios da conversa frívola. nos exercícios da memória e da imaginação. Preferimos ouvir o que já conhecemos e testamos devidamente a abrir nossos sentidos para um fato que vai abalar velhas convicções. Ela consiste apenas em não interferir. mas esse é um pecado que muitos perdoam com facilidade atualmente. Os que "encontraram a resposta" acabam treinando um discurso bastante eficiente. . Ideólogos. Na "Idade do Ruído". "há o silêncio da boca. sem dúvida. teólogos. com toda a argumentação favorável de que dispõe o arsenal da racionalização. à sua convicção previamente escolhida e protegida da lógica num nicho seguro de argumentos mais verbais que racionais. Guénon. gurus. apóstolos são identificados não pela proposta que fazem de discutir algum tema. sinceridade. ou de não embrutecer completamente os reflexos. apologistas. nos caprichos aparentemente inexplicáveis da vontade. Entre as artes perditae de nosso tempo está seguramente a de escutar – muito mais do que ouvir. porque quase todos o cometem. em permanecer tranqüilo e receptivo. Malbaratamos energia. Ouvir seletivamente é uma escandalosa desonestidade. Não é por outra razão que nos tornamos tão agressivos quando nos propõe revisões desagradáveis de conceitos que desejamos solidificados para sempre. mas pela água que procuram trazer ao seu moinho. achamos natural ouvir seletivamente – maneira de não enlouquecer.

pela face amena e superficial. e não queremos mudá-la porque isso nos parece penoso. a TV. conforme nossos filtros e o que se acumulou de vontade em nós. Nenhum argumento é tão freqüente. produto do hábito de ver as coisas pela metade. ainda.A tranqüilidade interior é rara precisamente porque temos opinião formada sobre tudo. que escutamos ou não. diante dessa ordem de especulações. dos outros. práticos. Percebemos seletivamente o que vem do mundo.. Esse tipo de fantasia parece universal. A evasiva é resultado. quanto o que considera que nem tudo pode ser levado tão a sério. dizer que o mal é a intensificação do anseio – se é que isso consegue comunicar . limitada e perplexa vida. Assim. que a vida não deve ser encarada de forma tão dramática. que acumulamos alguma coisa útil que um dia será usada para fins. e julgamos que aprendemos cada vez mais.. de nós mesmos. temos o rádio. distante daquela "tranqüilidade vazia" em que estamos disponíveis para a percepção do que realmente interessa ao homem em sua. Filtramos a vida através de uma cortina de preconceitos. Seria preciso empregar de maneira nova certas palavras para abordar esse novo (e ao mesmo tempo velhíssimo) problema. Ao lado da conversa fútil. em todos os quadrantes. entre os quais filtra sempre alguma informação verdadeira. a leitura digestiva – essa série de ocupações aparentemente inofensiva que mantém nossa mente ocupada. A vontade é alimentada continuamente pelo fluxo de ruídos que nos chega a cada instante. vitimando gente de todos os níveis intelectuais. da atenção seletiva. afinal de contas. com os mais diversos pretextos.

precisamente com essa finalidade e do modo que podemos descobrir pessoalmente. pelo discurso superficial. O terremoto que abalou a vida das nações a partir de 1973. não concebemos estar quietos por dentro. Podemos então olhar para nossa constelação interior. quando a mudança dos preços do petróleo alternou o curso do . Não é difícil entender de que maneira a proximidade excessiva. A percepção do meio é prejudicada pela quantidade. No microcosmo de cada indivíduo acontece intensamente o que ocorre no macrocosmo social. Olhando a coisa. Não podemos. não queremos. pela tagarelice de aparência inocente. no mundo. Isso tanto vale para a psicologia quanto para a economia e a política internacional. sem poesia ou informação científica prévia de espécie alguma. anula a perspectiva indispensável à observação do conjunto e deforma a percepção dos fenômenos. no espaço ou no tempo. DEPOIS DA CRISE. e nela observar como a falação fútil reforça o anseio – se é possível usar a palavra sem nenhum outro complemento. e desse modo povoamos nosso espírito com o bricabraque que vimos fabricando há tantos séculos. pela multiplicidade que pulveriza a atenção.alguma coisa – fenômeno assegurado pelo barulho. sabemos de que se trata.

e despertou no outro dia dependendo de energia caríssima. A depressão. portanto de sua transitoriedade. possivelmente a pior desde 1930. O encerramento de um ciclo energético resulta dos aperfeiçoamentos que estão sempre ocorrendo na tecnologia. O envolvimento no nervosismo que decorreu dessa mudança prejudicou a percepção de suas características e. O planeta deixou de lidar com uma energia de baixo custo. Estamos todos muito próximos do processo – na verdade estamos no meio de sua ebulição – para perceber que esse tipo de interrupção no crescimento das nações é apenas a curva de um ciclo que tem a marcha lenta de todo movimento histórico medido pelos sentidos (e pela pressa) dos homens. na qual apoiava seu anseio de crescimento. nos países ricos. ameaçou o mundo com o desemprego. reduziu as taxas de crescimento a zero nas nações em desenvolvimento e acenou com o fantasma da inflação descontrolada nas regiões pobres e mais densamente povoadas do globo. A crise é politica. e aconteceria suavemente se a idéia de uma mudança progressiva e contínua não tivesse sido banida como hipótese pelos que decidiram fazer da questão energética um "empurrão" a mais na derrubada de um sistema que eles querem acreditar que só precisa de alguma ajuda para . marcha batida para o final dos tempos.desenvolvimento keynesiano que se processava há três décadas têm sido avaliado como uma espécie de catástrofe definitiva. não da natureza. capaz de variar seu custo (para mais) ao sabor de contingências políticas e até de caprichos nacionais e religiosos.

As preocupações em relação às reservas futuras de alimento e petróleo são precedentes. como aqueles seus inimigos pretendiam. No Terceiro Mundo. sabe-se quais foram as conseqüências da chantagem energética. ou em difícil combustíveis. a proximidade excessiva do problema – ou nosso envolvimento . não houve um único beneficiário desse espasmo que sacudiu a civilização humana nos últimos sete anos. Na África. As preocupações com a ecologia. meio bilhão de pessoas ficaram mais próximas da desnutrição. até então em destaque na pauta dos adversários do crescimento econômico. mais cederam o lugar preço a um fato dos aparentemente concreto: explosivo energética – feita por uns. As grandes vitimas da chantagem crescimento. as usinas de irrigação e os fertilizantes. graças ao seu controle por um grupo de países. atingindo os tratores movidos a óleo. O terremoto afetou a agricultura em toda parte. Com exceção da União Soviética. Os países ricos não foram castigados pela crise. várias nações penderam para o autoritarismo em face de dificuldades terríveis produzidas pela crise. por inspiração de outros – foram as economias pobres. As economias sofisticadas têm mecanismos de compensação muito eficazes. a proximidade envolvente aconselha mal os julgamentos e tolda a realidade. Uma vez mais.desmoronar completamente. Na América do Sul e no Brasil em particular. Uma vez mais. em termos de inflação e conseqüentes dificuldades políticas. Na Ásia houve redução geral nos orçamentos destinados à produção de gêneros e ao bem-estar em geral.

pessoal nele – impede a discussão objetiva da questão. que começou em fins de 1973. A crise da energia tende a uma solução natural. ou estão sendo sonegadas e barganhadas. quando outras fontes forem substituindo as que se exaurirem. ou num punhado de lugarescomuns que políticos e especialistas atiram para o ar em ocasiões particulares. aparece lamente populacional. nada seria tão equilibrado quanto de fato. quando os primeiros resultados quem do senso no Brasil indicam que o País não isso geral. Agora mesmo. A economia e a politica internacionais não fazem exceção à regra. e proponha um novo crescimento naturais são aumentou sua taxa de natalidade como se temia. O desenvolvimento harmônico é uma tendência irresistível. mas a violência indiscriminada não lhes parece . seu encaminhamento e resolução. é verdade. Se um único tipo de critério pudesse controlar o mundo. ou dialética. Os que ajudaram a desencadear a crise. na medida em que tudo se inter-relaciona e faz parte de um mesmo todo. O percebimento dessa harmonia é dificultado enquanto estamos mergulhados na vastidão do problema. A explosão populacional concentrou-se numa expressão. ou o esquecimento de que os processos necessariamente equilibrados porque contem em sua essência uma harmonia. Há o desconhecimento generalizado. nem escapam ao movimento da vida. que elimina os excessos e encaminha os fenômenos para uma perpetuação serena no tempo e no espaço – alguma coisa que no corpo vivo os cientistas chamam de homeóstase. chega a ser. tinham em vista um outro alvo. e afinal.

desde que a memória do homem registra o que experimenta. Em todo lugar ela é perigosa como nitroglicerina. a violência e os atos anti-sociais já não pertencem mais aos compêndios e aos especialistas porque estão no nosso dia-a-dia. Apesar de tudo. no entanto. A criminalidade. tem prevalecido sempre. Os diversos . Semear descontentamentos é uma tática mundial. também de seus planos. RESPONSABILIDADE. indiretamente. e eis que é recolocado em pauta o antigo debate que pretende localizar as causas determinantes da explosão de violência que sacudiu o mundo nas duas últimas décadas.desagradável e faz parte. que só desconhecem os que não sabem o que é uma coisa e outra. Uma autoridade promete um policiamento especial para o verão violento no Rio de Janeiro. uma tendência à harmonia e à beleza.

indesculpáveis – coexistiram sempre com a paz. pouco foi perdido com o desaparecimento de determinados preconceitos que se . Os que atribuem a onda generalizada de violência à perda de valores morais e sociais que imperaram por muito tempo e começaram a morrer nos últimos tempos deixam de considerar que outras sociedades. ignoraram muitos daqueles valores e nem por isso foram violentas. A questão precisa ser examinada de um ângulo ainda não comprometido com uma filosofia rígida ou alguma verdade revelada. sem essas características de epidemia que conhecemos agora. Ignoram também que nos países de economia socialista as autoridades estão a braços com as mesmas dificuldades. embora sem as estatísticas honestas e a divulgação existentes nas grandes nações ocidentais. A perda daqueles conceitos ocorreu paralelamente ao crescimento da violência em toda parte. ao longo da História. o que é uma pena. Os que atribuem a violência crescente à miséria. Os índices de violência eram incomparavelmente mais baixos que os de hoje. Além disso. onde estas existiram e lamentáveis. em sociedades onde os desequilíbrios sociais eram ainda mais gritantes que os atuais.condicionamentos ideológicos e religiosos têm suas respostas prontas para o problema. a prosperaram. às injustiças sociais e a uma iníqua distribuição da riqueza no mundo ignoram o fato de que esses desequilíbrios dedicação e a democracia. a neurose coletiva. A desorientação. porque não levam a parte alguma. a agressividade inútil eram fenômenos imperceptíveis há meio século.

mantinham como valores insubstituíveis. Os fatos aí estão, à espera de observação tranqüila, não engajada em posturas prévias. Essa disponibilidade intelectual, que é uma forma de honestidade cada vez mais rara atualmente, é a única maneira razoável de abordar o problema imenso do aumento da violência no mundo. Em toda forma de relacionamento com o mundo – família, nação, coisas, animais, natureza – há uma reciprocidade, ou contato dialético, sem o qual se instala o desequilíbrio e a desarmonia. Essa troca natural abrange todas as atividades humanas, como não uma de podia vez deixar que mitos, a de ser. Temos O das responsabilidades, desmoronamento somos racionais.

alguns

multiplicação

informações, a tensão permanente de viver num mundo dividido que pode voar pelos ares a qualquer momento, tudo contribuiu para que se perdesse a velha noção direito-dever, fundamento da permuta que caracteriza a civilização dos homens, diferenciando-os das formigas e das térmitas. O reconhecimento do outro como um semelhante nosso é apenas o começo. Como decorrência disso vêm outros reconhecimentos, como a da dignidade e da necessidade do trabalho, o da importância do esforço na obtenção de um resultado. Essas noções todas foram enfraquecidas ultimamente, e no lugar delas ficou um vazio imenso. A época é principalmente de irresponsabilidade. Um estranho distributivismo difundiu a idéia falsa de que basta existir para fazer jus a um salário. Vencer sem produzir tornouse uma espécie de ideal generalizado que, embora não

encontre confirmação em absolutamente nada, continua sendo difundido no mundo. Em toda parte a produção diminuiu e os gastos aumentaram, uma vez que alguém deve pagar as contas da improdutividade. Teriam conceitos psicanalíticos mal digeridos contribuído para a fabricação, principalmente na classe média, dessas miragens? O aumento acelerado da desintegração interpessoal – a convivência prolongada é cada vez mais difícil entre seres humanos – o abuso das drogas, o terrorismo, a angústia e a ansiedade são calamidades recentes, embora sejam males antigos. A conquista de direitos que durante séculos foram negados pode ter precipitado o homem moderno no excesso contrario, o de crer que o esforço é um castigo e o trabalho é uma pena. A hipertrofia do Estado é um fruto de uma certa filosofia segundo a qual o cidadão tem todos os direitos, cabendo ao Leviatã estatal apenas os deveres. Assim, o bemestar acabará chegando a cada um de nós graças a uma misteriosa inevitabilidade que o tempo ficará encarregado de trazer – enquanto criticamos o grande provedor que tudo nos deve, em nome de algum direito impreciso. Ora, a liberdade – chamada em política de democracia – é exatamente o oposto disso, na medida em que exige de cada um responsabilidade. O esforço, o empreendimento, o planejamento desencadeiam respostas positivas – e é essa reciprocidade que torna o homem livre e feliz. Nunca as taxas de violência foram tão altas no mundo, nem foi tão flagrante o desejo de enriquecer depressa, mesmo entre os que ficam dentro dos limites da lei. A ânsia de usufruir

o melhor no tempo de uma vida é a exacerbação de um desejo comum a todo homem. E é precisamente a mentalidade coletiva, em que estamos quase todos incluídos, que sofreu uma forte e acentuada deformação. A idéia comum de que temos direito a tudo, seja o que for e como for, é a origem desse impulso que impele para a violência. O drive parece obscuro aos nossos olhos porque estamos envolvidos demais para uma observação de fora. A criminalidade, a violência, os atos anti-sociais têm suas raízes – impossível dizer em que medida – principalmente aí. Onde levam, quando se multiplicam, estamos vendo todos os dias.

A SIMPLES REALIDADE.
Os evidente, gregos antigos não tinham a uma palavra alethes. para Sua

"verdade". Quando queriam designar alguma coisa manifesta, perceptível, usavam palavra percepção penetrante da realidade ensinava-lhes algumas lições surpreendentes, inclusive essa da verdade não ser estática, algo permanece no tempo, mas sim uma descoberta que pode ser feita momento a momento. Toda idéia de permanência é utilitária, e por trás dela alguém está tentando

fazer

um

uso

utilitário

de

alguma

coisa.

Esse

esforço

desencadeia o oposto de alethes, a ilusão, o mito. O mundo em que vivemos é há muito tempo – e na era das comunicações tornou-se muito mais – embalados nos mitos criados pela ignorância e pelo medo. As grandes mentiras modernas têm muito mais força que as lendas e superstições antigas, porque se revestem da falsa autoridade de nebulosos conceitos científicos, e de hipotéticas constatações de laboratório. Como a maioria das pessoas do mundo vive num plano de desinformação quase completo, recebendo dados sobre inutilidades, mas desconhecendo o essencial, não admira que esses mitos cientificóides tenham tanta força e conquistem clientela tão vasta. Comportamento, costumes, decisões, posicionamento político e conversão religiosa obedecem às marés dessas novas crendices. Quando a análise dos fatos é substituída pela repetição dogmática – fenômeno dominante, hoje – fica perfeitamente caracterizado um dos mitos mais importantes do nosso tempo, tema de estudo do historiador que amanhã quiser entender o século XX e sua crítica segunda metade. Tudo o que temos a fazer é procurar o ta alethea, o que está diante de nós em sua simplicidade, sem designação ou conceito formado, sem conclusão definitiva ou rótulo. Isso é difícil porque somos educados – e continuamos sendo – para julgar e comparar todo o tempo. Às naturezas práticas tudo isso repugna um pouco, na medida em que não leva às metas que esses temperamentos e mentes consideram prioritárias, baseados não se sabe exatamente em quê. Quem não se

no mesmo lugar. Os velhos gregos sabiam o que estavam fazendo quando se referiam apenas ao manifesto. O que chamam de racionalidade e método costuma ser. É como símbolo que sua atuação deve ser observada. ter modificado pouco as posições políticas da intelectualidade francesa.conhece razoavelmente bem. mostra simplesmente que sua visão da realidade humana – incomum e . O envoltório verbal não precisa ser decomposto em sua intimidade etimologia para ser compreendido. não tem condições de traçar prioridades no mundo. na busca de segurança psicológica ou à procura do prazer que distrai e embala o espírito. publicado na França em 1955. está examinando somente uma área do espectro. no mesmo ponto condicionado. disfarçadas com expressões generosas e grandiloqüentes. Os mitos políticos são a essência da artificialidade porque resultam de camadas superpostas de interesses pessoais e de grupo. ao aberto. símbolo usado para determinado fim prático. Tomar a realidade simples de cada dia e desmontá-la peça por peça não implica um exercício racional e metódico. em O Ópio dos Intelectuais. freqüentemente. Chamar alguma coisa de "verdade" equivale atribuir a essa coisa um rigor dogmático. Quando Raymond Aron estuda os mitos político-ideológicos de hoje. elaborados rosários de palavras. ao presente. ao evidente. hábeis montagens que projetam seriedade graças às complexidades que ostentam. Limitando-se ao acaso e aos caprichos – inevitáveis no desconhecimento – chegam sempre onde sempre estiveram. O fato de seu livro. uma rigidez que conduz à esclerose.

Essa ginástica intelectual é inútil e serve antes como distração do que como esclarecimento. Os mitos estão dentro de nós e o caminho para seu conhecimento – e conseqüente dissolução – é o contato direto com sua estrutura e suas características. lançando raízes em todas as direções. atribuindo veredictos que encerram uma discussão e fecham portas. sem maiores exames. Costumamos até invalidar todo conceito novo. A recusa de contato com a realidade é confusamente disfarçada atrás de mil razões mais ou menos obscuras. A enumeração desses mitos. Os mitos mais resistentes são os que se apóiam em falsas constatações. Soa estranhamente aos nossos ouvidos condicionados a idéia de que tudo está contido na simplicidade do cotidiano.agudíssima – é incômoda a ponto de ser esquecida. Que dizer do resto do espectro. "Sabemos tudo" a respeito da nossa mente comum. porém. Não é de admirar que os mitos tenham tanta força. considerando o terreno favorável em que crescem e o farto adubo que é deitado em torno do seu caule. disso que somos no dia-a-dia e que julgamos conhecer profundamente. e ao fim de um certo tempo crescem como jatobás. uma vez que ninguém admite claramente que "não quer ver". Aí vem a questão: contato feito por quem? Por esses que vivem imersos no mito. isto é. As ilusões são criadas suavemente. pelo . ainda na sombra e fadado a permanecer ali talvez "O real é a nossa mente comum". soa discursivamente e não se presta senão ao velho jogo aceitação-rejeição. preferencialmente por muito tempo? a ser discutida. devagar. dizem os patriarcas do Zen.

próprio mito personalizado? Esse é o encaminhamento da questão. no Corriere Della Sera. mas não suficiente. talvez. AS GRANDES INTUIÇÕES. Suas normas rígidas são estreitas demais para as necessidades de nosso tempo e para as dimensões do coração humano. que só existe quando o amor é verdadeiramente amor. diz Giovanni Testori. a coragem de lidar com palavras . que ali a luminosidade teológica é ofuscante e as grandes intuições dos profetas estão presentes. e nenhum deles pode caminhar por outro. Uma característica do atual papa. Todo o resto da longa estrada tem de ser feito indivíduo por indivíduo. A respeito desse documento. é lembrado que a justiça é necessária. Acima e além de tudo está a misericórdia. Na encíclica Dives in Misericordia. redigida pelo papa João Paulo II em polonês. A própria estrada é o ta alethea.

A palavra justiça foi aviltada desde que até os totalitários falam em seu nome. Nada disso é motivo de espanto. a "pacificação" artificial de indivíduos. fundamento da infelicidade e da desagregação encontrados em toda parte. preocupada com soluções e experimentos temporais. ou ficaram descontentes com a nova encíclica ou viram nela precisamente o que vêem em tudo à sua volta. A época não promete um futuro melhor à humanidade. mas a mensagem cristã não se limita a isso. Não há por que acenar com felicidade quando se sabe que o mundo é a soma do que os homens têm dentro de si.e temas banidos pelo século. onde há um novo tom e sopre uma aragem de eternidade que não se encontrava há muito tempo nos pronunciamentos religiosos em geral. marca a nova encíclica e acentua o que pode ser uma ressurreição da Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Realmente extraordinária é a própria encíclica. desde que todos fingem amá-la e dizem lutar para sua consagração. A distribuição justa de riquezas e oportunidades é excelente. A primazia das coisas sobre as pessoas. em busca do reforço de suas convicções prévias. sem qualquer preocupação de aparentar otimismo. as formas de agressão sofisticas. isto é. O desafio de seu apelo transcende as contingências em que cada . diz a encíclica. e não é nada bom o que se acumula neles nestes tempos. sociedades e nações. sendo muito antigo. Os defensores de uma Igreja engajada na cultura. a opressão que suprime a liberdade interior e a dessacralização do mundo são os erros e perigos apontados na Dives in Misericordia.

como se soubesse de tudo. portanto. A justiça entre os homens e nas nações é um bem a que todo indivíduo deve aspirar – mas talvez esse equilíbrio só seja possível quando se conhece.homem se encontra. Atribuímos às coisas um peso que não possuem. O materialismo tateia no escuro como todas as superstições. precisamente porque faz dessas contingências um caminho – áspero ou confortável demais. A Dives in Misericordia trata ainda da técnica avançada que "pacifica" os homens através de processos que vão de hipnose sutil – chamada também de propaganda – à química . sempre tão temeroso do vazio. A primazia das coisas sobre as pessoas resulta de uma outra forma de ilusão. mas muito menos moderna que a fixação na Justiça. mas de conhecimento de prioridade. A questão não é. na medida em que elas aumentam nossa importância. de Reino do Céu. numa espécie de síntese. de algum modo. de preferência. É milenar o prestígio do TER. conhecimento objetivo provado. o que é evidente mentira. o Reino. Quanto à idolatria moderna chamada materialismo – irmã das outras formas de adoração que todos conhecemos – seu perigo consiste na afirmação em geralmente aceita em de que se fundamenta verificação científica. em prejuízo do SER. típica da modernidade. proporcionam à nossa mente uma ilusão de segurança ou simplesmente preenchem nosso espírito. A acumulação e suas manhas datam dos primeiros tempos do homem – na verdade. duas formas de dificuldade – para o que os cristãos primitivos chamavam. A diferença é que fala grosso e positivo.

Finalmente. naturalmente. pelos alcalóides. como o auto-conhecimento. mas não leva a parte alguma. e entre esses estão os que apelam para a "ação direta". Em toda parte predominam a negação e o desconhecimento do . preferindo matar as ovelhas a vê-las desgarradas. O que o homem não consegue por meios naturais. os mais perigosos. Toda filosofia que se prende uma resposta geral e que exclui as demais conduz à supressão do discernimento no mundo. mas encorajado a discernir – e o discernimento é o filtro que revela o mundo e o que está por trás das aparências. procura obter por baixo do pano. Não é exagero afirmar que mais da metade do mundo está à mercê de pais ideológicos muito possessivos. a luta e as modificações radicais. e. pela repetição. a Dives in Misericordia fala na opressão que suprime a liberdade interior e alude ao que se poderia chamar de "dessacralização" de tudo. É preciso entender os muitos processos de domesticação do ser humano.que promete paraísos e curas milagrosas. O homem não deve ser "pacificado". em nome da eficiência. O desejo de mudar deve ser precedido do conhecimento real daquilo que vai ser mudado. Os mais disfarçados são. acaba proibindo essa busca nos demais. pelos misticismos baratos. e muito menos instigado. Mudar por mudar é como andar em círculos pode ser até divertido. As doutrinas salvacionistas querem ajudar seu rebanho à força. não importa o nome que tenha. pelas enzimas. Quem julga ter todas as respostas começa acreditando que é perda de tempo continuar procurando. para combatê-los mais eficazmente quando são usados em nós e nos outros.

foram desacreditados e esquecidos. como acreditava Goethe. A contradição consiste na distância existente entre esse desejo generalizado e nossa realidade pessoal. Foi a partir da dessacralização sistemática inventada pelo iluminismo que alguns valores. já possuímos. entre o modelo imaginado e nosso individualismo incontrolável. um conflito. Se é verdade. como a misericórdia. na liberdade e na objetividade. FORMAS DE CRESCIMENTO. ao mesmo tempo. onde ele existe e pode ser descoberto. Há uma aspiração geral e. nós brasileiros somos intrinsecamente maduros e responsáveis. que todos sentimos a nostalgia daquilo que. como palavra e como conceito.sagrado. no sentido de obter um equilíbrio individual que permita desenvolver uma sociedade tão eficiente e harmônica como as melhores do mundo. sem saber. A re-inauguração de uma linha de .

com uma coletividade justa e equilibrada. A esse sonho corresponde uma realidade simétrica e oposta. quanto entre nós. O remédio. Em nenhum lugar. certamente. Em cada um de nós isso opera a todo instante. O que queremos e . A psicologia de uma coletividade é matéria fácil de contestar. em que a grande referência é a pequena esperteza e a pretensão – segundo um anúncio de cigarro – de "levar sempre vantagem". em que todos os homens fazem bem seu trabalho e em que as pessoas sejam respeitadas pelo que são realmente. "O que desejamos" .diz Goethe em Poesia e Verdade – "são pressentimentos de potencial de que dispomos. o anuncio daquilo que somos capazes de realizar. mas o fenômeno pode ser observado no cotidiano de cada um. seja tão completa a desorganização das pequenas estruturas que compõe a vida. O conflito entre o que deveria ser e o que é não leva muito longe quanto a resultados. uma vez mais. Sonhamos com a ordem.trem conta com a presença de ministros e governadores e tudo á planejado para que se faça aqui uma ferrovia em moldes escandinavos – mas a primeira viagem começa com um grande e irremediável atraso. e não há qualquer estudo sistemático a respeito. não pelo que representam. mas poucos aparelhos funcionam e não há fichas à venda nas proximidades. é o conhecimento dessa contradição em nós mesmos. talvez. o hábito de improvisar – e a fé absoluta nessa improvisação – seja tão difundido. Em poucos lugares do mundo. Os telefones públicos são elegantes e permitem ligações quase instantâneas com os nossos antípodas.

às vezes frenética – dos veículos de comunicação. aquele misto de instabilidade e brilho que Macunaíma simboliza muito bem.podemos obter. confusa. de uma abordagem mais profunda do mecanismo da aprendizagem. organização. Um professor da Universidade de Yale. O que existe em potencial deve despontar lentamente. A antiga aspiração nacional de pontualidade. nos Estados Unidos. crescimento planejado e progresso harmônico – encontrada nas utopias tupiniquins. nossa mente projeta para fora de nós. quem sabe se crescendo lado a lado com um florescimento econômico que parece inevitável. Keneth Keniston acha que as crianças estão mais bem aparelhadas para renunciar ao peso dos condicionamentos. nos projetos de governo em todos os tempos. desenvolveu há pouco um estudo sobre amadurecimento crescente dos jovens na segunda metade do século XX. Esses "potencializadores" dos costumes e dos valores dificultam mudanças reais nos . Isso pode ser aplicado ao Brasil se lembrarmos que os meios de comunicação – a TV. e representada no passado. até o momento. mas expectativas de Pedro II – será então um pressentimento do que já existe em todos nós e ainda não foi desenvolvido porque não morreu em nossa natureza. de um melhor desenvolvimento crítico. uma vez que o volume que suportam é menor que o dos adultos. Esse homem mais harmônico e adulto pode aparecer nas crianças. graças à multiplicação – arbitrária. sobretudo – recebem e exercem influencias da cultura ambiente com grande velocidade e eficiência. através de seu maior conhecimento de si mesmas. no futuro".

sem saber. pelo trabalho e pela responsabilidade. já possuímos. agora. na medida em que a desejam e a pressentem. Aos poucos desaprovamos o individualismo desenfreado e a pequena esperteza. As crianças. mas soube afirmar com muita convicção a inevitabilidade desse crescimento emocional do ser humano. Mais cedo do que se pensa pode-se tornar claro que o apaziguamento artificial lançado sobre as contradições da sociedade em que vivemos não é conveniente. começa a haver alguma coisa mais que mera nostalgia. Menos esmagadas. da justiça social e da competência – e nisso. pelos valores intelectuais. mas que ainda não podemos desfrutar. uma vez que sonhamos com ela. Como o adolescente que parece dar saltos no seu desenvolvimento. elas podem começar essa revolução. trazendo para a consciência nossa estima pelo senso de coletividade. Afinal. A nostalgia do que. Tivesse vivido no Brasil de hoje e veria o quanto desejamos essa maturidade.indivíduos e conseqüentemente na coletividade. Somos nostálgicos da beleza e da ordem no meio ambiente. essa fonte de ordem. o que desejamos é alguma coisa que já possuímos. revelando traços de adulto de um dia para o . tem uma carga acumulada menor e um "respeito" bem menos acentuado pelas mensagens que chegam de fora. parece mais acentuada hoje do que há algumas décadas. embora mais à mercê da televisão. Goethe teve o bom senso de não fazer previsões. responsabilidade e seriedade – constatando que certa maneira já a possuímos. porque se manifesta em muitos um desejo claro de adotar esses valores aqui e agora.

atualmente. O QUE RESTA. que a outra coisa.outro. ou sobre o significado mais ou menos oculto do renascimento espiritual acessível a todos os homens. Há uma significação religiosa para o Natal – diversa da primitiva. NATAL. que envolvia o homem com uma revolução interior que importava em nascer de novo – relacionada com a vida familiar e a ternura que ela . (Luiz Carlos Lisboa) O Natal pode inspirar pensamentos sobre o sentido da fraternidade que o mundo parece ter perdido. o cotidiano das proximidades dessa festa religiosa induz mais a uma meditação sobre a capacidade humana de manipular os símbolos. também nós vamos acordar. com aquelas qualidades maduras de que somos tão nostálgicos. Nos grandes centros urbanos. qualquer dia desses.

Para evitar esses dois abismos somos capazes dos maiores esforços. é preciso uma certa atenção para saber se o tweed ainda é in ou se já foi decretado out. Há as peças de teatro. cumprimentos formais e ceias que expressam o poder aquisitivo do anfitrião. com o desprestígio e a depressão. Como o castigo para os que não aderem é o desprestígio e a depressão. talvez . No inverno. conduz a uma desqualificação pessoal de quem a pratica a um isolamento que será mais desagradável na medida em que seja maior a importância atribuída à aceitação social. como se sabe. troca de presentes. precisamos ter a cor da pele e a descontração da moda. As reuniões que se dizem de congraçamento atraem porque é incômodo. etc. A desobediência às grandes pressões culturais é punida. Esse espírito foi dissolvido nos últimos cinqüenta anos. as ideologias que convém aos intelectuais. uma forma de meditação oportuna sobre o Natal pode partir dessas ameaças para entender o que acontece nesses últimos dias de dezembro. a respeito do qual já ninguém pergunta se teria mudado ou mudamos nós. reuniões. em troca de uma mentalidade que vê no Natal um recurso para vender ou um pretexto para comprar. como enfrentar filas. No verão.irradia. A desobediência aos rituais de compra. o tipo de penteado que os mais jovens estão usando e as últimas opiniões sobre conservação da natureza e dieta natural. aderir a idéias que não entendemos bem. assistir a espetáculos que não apreciamos. vestir e calçar com sacrifício do desconforto. nas grandes cidades do mundo. E há o Natal.

e que renasce sempre. O Natal deve continuar sendo uma festa. e por nada neste mundo queremos sair dessa condição. reservamos o vinho da nossa predileção ou da nossa possibilidade. no entanto. começo de verão – e achamos normal que vagas imagens contem a história. de um homem que nasceu. afinal. Porque somos obedientes e não queremos ficar à margem da corrente onde fomos lançados com nosso barco. formulamos votos daquela maneira automática que sabemos. adquirimos os presentes. Por isso muita gente tem problemas psicológicos em relação às festas de fim de ano. A obediência não exige raciocínios nem complicações. do que a esses outros. Há um aprendizado maior. em que todo mundo é livre para fazer como todo mundo. que se angustiam e fogem para longe. ou não seria o que é. somos rotineiros e ritualistas. no presépio. em observar os que obedecem às pressões e correspondem às expectativas. para dar um testemunho que poucas vezes na vida paramos para nos interrogar qual seria. ser excluído delas. e em que ninguém deve encontrar pretextos para deixar de fazer o que todos. Pede apenas que tenhamos uma visão amistosa e superficial das coisas.triste. de fato. armamos a árvore como se usa. A televisão leva a . enganamos as crianças com o simpático mito germânico do velhinho que põe presentes em nossa lareira – o mês é dezembro. repetido há muito tempo pelos nossos maiores. e que aceitemos o que já encontramos feito. e de lá ficam imaginando a felicidade dos que aderiram. fazem. Assim compramos as nossas castanhas. como o Ano Novo.

essa festa que no Cristianismo antigo teve um grande significado é hoje uma palavra. feita especialmente para enganar – por meio de uma afetividade vaga e confusa – os que anseiam pela religião somente como um anestésico em face das durezas da realidade. Sendo uma festa de origem religiosa. era de esperar que os ou religiosos que saíssem em defesa seu de sua preservação. tentassem reaver significado primitivo. como porque em alguns casos estão muito ocupados com a resolução de problemas temporais difíceis. para que ninguém tenha qualquer duvida. hoje. Os símbolos têm o poder de expressar o inexprimível. e os que precisam de apoio moral para justificar seu egoísmo.todas as casas o que é hoje o Natal. O fato é que todos parecem muito satisfeitos com a exploração comercial da maior festa religiosa do Cristianismo. um conjunto de frases mais ou menos sentimentais ou um pretexto para vender o que é necessário e o que não faz falta nenhuma. As tendências que predominam no homem acabam manipulando esses símbolos. O Natal. além de outras possibilidades. Isso não acontece. como o social. razão por que tão cedo nada vai mudar a respeito. é uma comemoração vazia. porque não apenas os religiosos sofrem as mesmas pressões do meio. quando seus conteúdos não são compreendidos ou conflitam com um certo impulso humano para ignorar tudo que parece incômodo ou desfaz a imagem que queremos manter perante o mundo. . Comercializada e superficial. naturalmente.

ALGUMA COISA MORRE. na segunda metade do século XX. a chamada revolução islamítica alterou essa tendência e chamou a si a decisão em todos os terrenos. A observação é de Chesterton. O Islamismo exerceu sempre uma interferência peculiar no temporal. nunca de menos. A religião que declina é a que interfere mais no que não devia". num dia de março de 1911: "A monarquia que morre é sempre aquela que tem poder demais. as religiões tradicionais dão mostras de enfraquecimento. invadindo o campo temporal para compensar o que estão perdendo em sua área própria. No Irã. interferindo . Também agora. ditando regras gerais sobre a administração. em sua coluna no Daily News. O autor de Orthodixy é um observador atento do mundo. e não se deixa enganar por aparências nem submerge na cultura a ponto de não mais compreendê-la.

É o enfraquecimento.mesmo em minúcias como gosto musical dos fiéis. como o egoísmo. expansão . pouco importando sua gênese e desenvolvimento. a Igreja Católica passou a interessar-se por temas que antes ignorou solenemente. administrativo. apoiando-se na necessidade de modificar o mundo antes de qualquer coisa. No resto do mundo. São algumas causas – as causas da infelicidade humana. o político. o social. pela graça. pela fé. a divisão das terras cultiváveis. Essa atitude levou-a a interferir no que até então era seara alheia. Essa busca de poder – desejada ou não. pelo menos nos dias que correm. o pecado. Esses problemas não são mais conseqüências de algum outro fator que deve ser conhecido e ultrapassado. A Igreja que se designa como "progressista" abandonou definitivamente a fé milenar na revolução interior. a liberdade política e os direitos humanos interessam muito aos católicos. a postura física e a alimentação. compreendida ou não – corresponde a um sintoma. A distribuição de renda. a ignorância. exceto por uma ou outra declaração distante. principalmente nos países em processo de desenvolvimento econômico. como observa Chesterton um com excepcional de sensibilidade. para só como conseqüência regenerar o homem. não o mero efeito de um "estado de ignorância" que a religião se propõe a sanar pela conversão. A parte da igreja que fez da questão social o tema básico das suas preocupações e da sua pregação age como se as injustiças seculares nesse plano fossem o fundamento de todo o mal. uma que desencadeou aumento esforço.

um impulso para sobreviver num meio onde outras propostas podem parecer mais atraentes. que elas terão de retornar às suas origens. Não é preciso entrar em funduras teológico filosóficas para entender isso. ''Interferir no que não devia" pode ser apenas uma questão de ponto de vista. Isso não quer dizer que as religiões tradicionais estejam vivendo seus últimos tempos. porque afinal não há nada totalmente dissociado na vida. renovar sua vitalidade – aquele impulso que desde o inicio projetou na Historia sua presença. que alguns pacientes em estado desesperador conhecem: uma irrupção de vigor que antecede a morte. nunca é demais discutir a do que seria o campo de atuação legítima das religiões. que antecipa o surgimento de uma anã vermelha. sim . o campo de atuação das religiões é o espírito do homem. é verdade. e que o tempo se encarregou de gastar e modificar. começo e fim do universo conhecido na medida em que é ele quem conhece – quando conhece – esse universo. A expansão atual de algumas religiões – ou de algumas tendências no bojo das grandes religiões – é como a explosão estelar das novas recorrentes. O aumento da interferência de grupos religiosos em áreas que historicamente nunca foram suas é passível de constatação. É a "visita da saúde". mais imediatas.compensadora. É fato que o temporal não se dissocia completamente do espiritual. Pelo . As grandes correntes religiosas foram o que foram em função de uma energia imensa que geraram inicialmente. Significa. Isso indica uma necessidade de permanecer vivo. Por isso. Ora.

Não pela força da promessa materialista. à prática da religião sem qualquer mudança na vida pessoal. Nos mundos islamítico e cristão. mas pela fraqueza do arcabouço das religiões tradicionais. No momento em que o organismo já não desperta do coma histórico. para a expansão. nos privilégios. de viver sem perceber. Sua rigidez tornou-as inadequadas a uma época que se interroga mais do que todas as antecedentes. que é uma forma de agir sem pensar. na rotina. . o Natal. No seio das correntes religiosas que sobrevivem no mundo palpita muito da mensagem inicial. tende. os homens são os mesmos. essa abordagem deve ser simples e coloquial para ser eficaz. esclerosado no ritual. no formalismo. A renovação. o renascimento. na cegueira da repetição. e foi sempre assim ao longo da História. Tem mais força o ritual. nas inclinações. que é superficial e discursiva. no desconhecimento preguiçoso da realidade. e ao longo dos dias tendem à acomodação e à inércia. O desafio do materialismo foi decisivo em sua agonia. O que deve ser diagnosticado como convulsão nunca como crescimento. isto é.contrário. a aleluia são conservados no formol do hábito. como lembra Chesterton. O que parece agonizante são as grandes estruturas adicionadas à mensagem fundamental das religiões.

o longo cativeiro. universalmente de imunidade de representantes e emissários não pode ser compreendida separadamente processo exaltação política e religiosa. . Stanley. Todas as aparentes virtudes do sectário são. em idolatria pura e simples. na medida em que o fanático cultua alguma coisa que é criação do seu desejo. afinal.A LINHAGEM DO FANATISMO. Poucos estudos do assunto foram tão penetrantes quanto os que Thomas Arnold fez ao longo de sua vida. em 1836. O seqüestro. em notas. artigos. além de vergonha para os foros da nação civilizada e afronta aos princípios da tradição muçulmana.P. lembra Arnold que o fanatismo consiste. as torturas e o resgate de funcionários diplomáticos e cidadãos dos Estados Unidos no Irã. cartas e ensaios. Em carta à A. mas que nunca chegou a reunir em volume. A violação do princípio reconhecido do convidam a da uma reflexão sobre o significado e a genealogia do fanatismo.

nasce a idéia de usar a força. de obter a justiça. e que nem de longe são as seitas religiosas e crendices as únicas culpadas por aquela síndrome. A presunção de estar certo não é o pior dos males. e com ela são criadas as legiões. Quando há resistência ou objeção. os grupos onde ninguém é pessoalmente responsável por coisa alguma e tudo é permitido. que seu método não é apenas o melhor. A ideologia é atualmente a principal inspiradora do pensamento circular e do moderno salvacionismo. O reformador supõe. muitas heresias e movimentos separatistas interpretam à sua maneira a sabedoria do Corão. separando-se da ortodoxia central sunita. No Islamismo. com a adaptação da teologia aos caprichos da racionalização. as tropas de adeptos.assim. manifestações de egoísmo e de grande concentração em si mesmo. mas o único capaz de regenerar. Os métodos de ação é que geram as discordâncias. O "Caminho do Profeta" foi desfigurado ao sabor de interesses pessoais e locais. Ibn Arabi e Ibn Taimia – repetiu-se no mundo muçulmano o que já havia ocorrido no seio de outras grandes religiões. e com exceção do sufismo – onde floresceram pensamentos como os de Al-Ghazali. Sempre se soube que o fanatismo nada tem a ver com a escolarização e o acervo de conhecimentos do fanático. de fazer o homem feliz. A infiltração inevitável da violência. A convicção . naturalmente. no surgimento das dissidências e na aparição do fanatismo. da busca do prazer e da superstição mais elementar transformou o que era uno e indivisível numa floresta diversificada de aforismos nem sempre coerentes.

e por isso são determinados e rígidos. A destinação do martírio.e conferem um sentido maior à sua vida. O drama dos reféns norte americanos no Irã colocou em realce a questão do sectarismo político-religioso – um resíduo do passado que ganha força na Era da Tecnologia. A fusão do administrador e do sacerdote numa só pessoa simplifica muito as coisas. mas esse é um reencontro inconsciente . o que não acontece. e essas imagens podem ser concretas. numa repetição eterna. abstratas ou especulativas. Thomas Arnold viu muito longe quando disse que fanatismo é idolatria. o "Imã Oculto". A partir desse ponto. . até transformar o convicto num cruzado. transmitem a idéia de que sabem o caminho. toda resistência reforça a certeza. Os fanáticos têm medo da incerteza. tornado epidêmico pelos extremismos de direita e esquerda que dominaram o século XX. sem as curvas que num tempo variável conduzem a si próprias. Na verdade estão andando em círculos. quando as imposições começam a ferir direitos e a restringir a liberdade de outros. a ressurreição do Mahdi. esses mitos românticos presenteiam o homem contemporâneo com uma nova motivação – na verdade antiqüíssima. e a mente humana é ávida de coisas compreensíveis à primeira vista. O fanatismo político é uma forma modernizada desse antigo fenômeno.é inofensiva até o momento da praxis. que conduz sempre ao mesmo ponto. A intuição interior tende para a linha reta. Cultuar alguma coisa feita por aquele que rende culto é idolatria – um círculo ilusório. Voltados numa só direção. Fabricamos as imagens que vamos adorar em seguida.

quando tudo parece incerto. normas. provoca vertigens nos "fiéis" e engajados. É confortável obedecer. na outra ponta do espectro. porque aceitou integralmente um processo que se desenvolve à revelia do seu discernimento. de uma doutrina. é só seguir. Um conjunto de conceitos. sem as dores da incerteza. conclusões. de regras previamente impostas. Em toda parte há sempre gente querendo colocar suas energias a serviço de uma causa. O fanático é o que renunciou à crítica. Diante de uma situação nova. O oposto do fanático. Em nome da fé. a massa manobra. O homem que não se deixa envolver. consulta sua programação. No meio do rebanho. tudo embrulhado em frases encorajadoras ou denunciadoras – eis a seita. é para eles um ser desprezível que recusou a necessária "coletivização" – e aí estamos em pleno pesadelo orwelliano. que forneça as palavras de ordem e aponte que direção tomar. Os que lideram trazem quase sempre uma doutrina pronta – porque os fundadores raramente lideram. fanatizar.A necessidade de ser liderado é tanto mais visível quanto mais rude o meio em que se manifesta. . é muito menos popular. A não aceitação de antolhos. o grupo organizado. condicionar. É inconcebível para eles caminhar com as próprias pernas – isso soa à indisciplina e individualismo. alguma coisa que faça as escolhas. da justiça ou que outro nome ideal possa servir de desculpa à covardia e à indigência mental.

De acordo com Baird. uma entrega ao real.A DÚVIDA CRIADORA. isto é. de abertura para os fatos. Baird. impede a adoção de uma terminologia religiosa própria e evita uma . Perceber. sustenta a necessidade do que chama "Dúvida Criadora". É compreensível que muitos séculos de certezas tenham condicionado o homem a afirmar ou negar o transcendental. a "Dúvida Criadora" é um modo construtivo de conhecimento da finitude humana. e autor de livros em sua especialidade. conflita necessariamente com rígidas convicções e conclusões finais. distante e acima de todo impulso para crer ou descrer. Um estado de disponibilidade. Robert M. filosofar. no Texas. pode desempenhar um papel importante na manutenção de crenças vitais. intuir – isso tudo exige uma "predisposição para os fatos". aceitar ou recusar. descobrir. afastando de seu espírito todo vestígio de uma antiga flexibilidade que existiu provavelmente na origem de todas as filosofias e religiões. professor de filosofia da Universidade de Baylor. permite a compreensão dos símbolos religiosos.

toda manifestação de rigidez aponta um conflito. enquanto a segunda é uma forma de rejeição e uma certeza negativa – um tipo de fé cega com sinal trocado. Robert Baird explora uma pergunta comum: a noção de Deus que um homem pode ter. Na Apologia. enquanto o dogmatismo prefere suprimi-la. Platão estimula a "Dúvida Criativa" como fator de enriquecimento interior e encorajamento para os poderes da percepção que estão adormecidos na maioria dos homens. Tillich relaciona a coragem e a dúvida. ante essa questão. que não precisa ser buscada porque já foi encontrada. No seu Dynamics of Faith Paul Tillich distingue a dúvida metodológica da dúvida cética. corresponde à realidade? A "Dúvida Criativa" reage com interesse. Porque a coragem não precisa da segurança de uma convicção inqüestionável. e na realidade não discutem as dúvidas. Quem já sabe não procura. freqüentemente indignado. Na obra citada. Ela aceita o risco sem o qual . preferindo explicá-las uma vez que já têm a resposta pronta. A metafísica tradicional e a teologia estão estruturadas em seus métodos. A primeira é aquela que Pierce associou ao método científico. Assim. e apenas isso. A concepção "oficial" de fé religiosa diz respeito a alguma coisa feita e acabada. quem procura está querendo saber.absorção nociva na necessidade de certeza que aflige certos temperamentos. uma recusa de verificar "como são as coisas". Quando as crenças não são desafiadas pelo discernimento – quando não há procura – tornam-se profissões de fé discursivas. "A coragem não nega que há dúvida. tomando-a antes como expressão de sua própria finitude.

está vazio e pleno de tranqüilidade. O que parece obscuro torna-se claríssimo. por resistência e teimosia. mas não existe mais dúvida. A esta altura há criação. Duvidamos das percepções "convenientes". Duvidamos dos conceitos que chegam prontos e embrulhados devidamente embalados pela superstição e pela preguiça. como uma disposição enérgica que se entreabre aos "perigos" da liberdade. e à conseqüente subordinação ao discurso. Aquele que percebe. O fato de não existir terminologia adequada para esse processo indica o quanto ele é esquivo às classificações. O que é real permanece como é no eterno presente.nenhuma vida criadora é possível". que nos conduzem onde queremos – ou onde quer nossa vaidade. Por isso foram criados e são mantidos os símbolos. nem qualquer forma de certeza. o que é falso salta aos olhos e atrás dele vem as suas motivações. Essa abertura para a vida – para a compreensão da vida. sem medo e sem opiniões. A "Dúvida Criadora" é uma porta aberta – insiste . Há uma forma de atividade muito intensa nessa ação que se exerce sem movimentação exterior. Ficar com a dúvida é estar ativo em relação ao problema que suscita essa dúvida. por exemplo. A "Dúvida Criadora" ajuda a conhecer as limitações da mente que empreende o conhe3cimento. Permanecer com a dúvida pede sangue frio. mas não se trata de permanecer cegamente fixo num ponto. Os símbolos religiosos são alusões a alguma coisa que as palavras não transmitem satisfatoriamente – ou verdadeiramente. que é viver – exige coragem. uma forma peculiar e não menos heróica de coragem.

. Finalmente. Esse exorcismo primitivo que consiste em "dominar" certa coisa pela adoção de um nome que a represente é praticado hoje em toda parte e a todo o momento.Baird – para compreensão dessas referencias não verbais. as palavras. alternadamente. Uma vez mais a "Dúvida Criativa" é o remédio heróico que vai curar os males que mumificam o espírito e fazem dos homens carneiros. O que se passou a chamar de fé é uma contrafação do conhecimento religioso. Uma outra representação simbólica. e que aflige em menor escala o ser humano em geral. A recusa de denominar ou a desconfiança ante as designações são escrúpulos procedentes diante da inclinação humana para modificar através do processo de dar nome. e da vida uma gangorra em que sobem e descem. conservadas como preciosidades por velhas culturas. O rigor mortis das disciplinas que desejam regular o sobrenatural é insatisfatório para o espírito ainda não tomado pela esclerose da sede de certeza. à ânsia de denominar para "possuir" sucede a necessidade de certeza que domina alguns temperamentos. exerce um trabalho de trituração sobra a realidade na medida em que se alonga no tempo e conhece uso diversificado. o desejo e o medo.

/ E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho". / Para qual fui injusto – eu. As questões relativas á constatação da desigualdade. O poeta conclui mais adiante: "Cortei a laranja em duas. O que tem produzido discordância maneira desequilíbrio reconhecem que existe. e à sua clamorosa iniqüidade e à própria é a genealogia de desse resolver mal um são insuportavelmente que todos bizantinas em nosso século. A partir da constatação de que é indispensável dar iguais oportunidades – não igual número de . que as vou comer a ambas?". O impulso para reparar injustiças e devolver o equilíbrio ao meio em que vive nada tem de cultural porque está na verdadeira natureza do homem. e as duas partes não podiam ficar iguais. Fernando Pessoa atribui a Alberto Caeiro essa meditação: "Haver injustiça é como haver morte / Eu nunca daria um passo para alterar / Aquilo a que chamam a injustiça do mundo / Mil passos que desse para isso / Eram só mil passos / Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda.MUDAR O MUNDO. Em Ficções do Interlúdio.

O desejo de reequilibrar o que é desigual nasce com o homem. e que a primeira vista parece alguma coisa simples e evidente. Mas se a constatação da injustiça depende somente de verificação. afinal. Sabemos as mazela que derivam do desequilíbrio. mas muitos conceitos sobre o modo de chegar a esse resultado são culturais – opressivamente culturais -. exatamente – a todos os homens. A indiferença A diante partir da o injustiça problema é egoísmo ganha ou insensibilidade. podem interferir na compreensão disso a que chamamos injustiça. num abrir e fechar de olhos. O impulso para remediar metamorfoseou-se em impulso para demolir – porque é crença difundida que primeiro é preciso destruir. mas pouco sabemos como ele se constitui. O "é preciso fazer alguma coisa" transformou-se em "é preciso fazer exatamente isso ou aquilo". rejeitado. os meios para chegar a essa meta entram em discussão e dividem irremediavelmente o mundo. em que as generalizações são levadas pelos veículos de comunicação e transformadas depressa. para sobre as ruínas construir alguma coisa melhor.bens. amaldiçoado. Todo fenômeno precisa ser conhecido antes de ser removido. em dogmas e conclusões acabadas. pela repetição e pela intensidade. a maneira de resolver o problema oferece muitos aspectos que. simplesmente porque precisamos saber o que estamos arredando. que pretendem daí alguma com a complexidade. por mais que isso desagrade os simplistas e os apenas capitalizar politicamente desigualdade. e de que modo afeta interiormente o . numa época como a nossa.

Ninguém quer disparar contra sombras. os argumentos apresentados têm como utilidade . Não pode haver pressa quando ainda não sabemos exatamente quem é o adversário que estamos combatendo. A descoberta de que os desequilíbrios econômicos e sociais estão na mente do homem não deve ser antecipada verbalmente. acatando-a como definitiva. da tolerância. para examiná-la sem a interferência da opinião e da vontade. nesse machismo político feito para colher dividendos em pequenas assembléias. porque o discursivo aqui é inteiramente inútil e serve para produzir eventuais resistências à realidade. criaram raízes e são reforçadas pela vontade no dia-a-dia. além de imediata. Aceitar a injustiça não é curvar-se a ela. e arrancar todas a ervas ao mesmo tempo. Há manifestações locais e provisórias dessa questão. inclusive naquele que deseja remover tudo pela destruição pura e simples. com o risco de matar um aliado. e há uma causa geral para sua existência – localizada exatamente no homem. Quando as decisões. Aceitar significa deixar que ela seja como é. por exemplo. em que quase todo homem. a tranqüilidade necessária a uma observação face a face. da desaprovação e de qualquer julgamento prévio. O totalitarismo é uma vocação que se alimenta nessa falsa eficiência. ainda que momentaneamente.homem. as "escolhas". É muito fácil exigir pressa em nome da pobreza. então. Todo fraseado pretensamente prático que ridiculariza essa verificação como perfumaria é comprovadamente demagógico e visa apenas efeito. as daninhas e as medicamentosas. O conhecimento exige.

lembra Fernando Pessoa. o mais difícil continua sendo nada fazer antes de tomar contato com o que se deseja mudar. Apesar de tudo. seriam apenas mil passos. "Mil passos que desse". É preciso que a injustiça exista em seu estado "natural". Ignoramos o que é novo porque chegamos às coisas – às pessoas. O que parece complexo à primeira vista. Aceitar o fato. nós mesmos. às idéias. . portanto. para alterar as coisas como são. para que possamos examiná-la diretamente. ainda.única confirmar o que se deseja. para ajudar a ver coisa alguma. é difícil justamente por ser tão simples. aos conceitos – com uma grande bagagem prévia. e que queremos usar de algum modo. não contribuindo. como se aceita "uma pedra não ser redonda" . É como a morte. e com esse que quer fazer a mudança. carregados de elementos que mal assimilamos. é descobri-lo em sua essência. Talvez que na compreensão do que é justo e do que é injusto esteja contida a resposta para aquelas preocupações que nos levam à angústia de viver num mundo que não podemos melhorar – ou modificar a nosso modo – porque desse mundo temos um conhecimento irreal e porque pouco sabemos daquele que se propõe mudar o resto.

Em outras palavras. mas é o do aumento paroxístico da violência com o enorme risco de utilização de moderna tecnologia destruidora – . O conceito marxista segundo o qual o homem só se propõe questões que já esteja em condições de resolver. que motiva e estimula uma civilização a responder a problemas com reação adequada – expressa em trabalho. podem variar de dimensão e surgir repentinamente das trevas. Os problemas são imprevisíveis. embora em desuso no nosso tempo. examinou os efeitos dessa vontade ou de sua ausência ao longo dos milênios que fazem a história humana sobre a Terra. aplica-se à História o que é verdadeiro. que podem ser previstos com antecedência. Não é o caso da explosão populacional e dos surtos periódicos de totalitarismo. para o indivíduo. é visto como fútil por Toynbee. em espiritualidade ou numa disposição espartana de produzir sem esperar recompensa pessoal e imediata. O historiador filosofo Arnold Toynbee descobriu nas civilizações e nas culturas um "gosto de viver" que condiciona as respostas aos desafios que o mundo e a vida fazem infinitamente.REAÇÃO ADEQUADA. No seu monumental Estudo da História e nas conferências que reuniu em livros. em certeza de sucesso. Alguma coisa como um fluxo de energia.

defesa. pelo menos no sentido que imprimimos a essa palavra. toda forma de tradição. arredou também uma extraordinária fonte de energia conhecida do homem antigo. Qual a resposta adequada a um desafio apocalíptico que surge praticamente da noite para o dia? O que pode a "vontade de viver" contra a associação da psicose com a alta técnica usada com efeitos mortíferos? O pessimismo e o cassandrismo não podem ser alegados em defesa do arquivamento do problema. porque ele é real. tem mais a ver com o eterno do que com o tradicional. Assim. Esse antigo valor foi a argamassa das vinte e uma civilizações que Toynbee relaciona como tendo nascido de reação e desafios exteriores (A Study of History). Nos últimos volumes de sua obra. química. genética – sem tempo para meditação. Uma infinidade de valores antigos. planejamento. ela só precisa ser realmente apropriada. fazendo da simplicidade associada ao trabalho em uso surpreendente. talvez iminente. provável. no seu superficialismo. o historiador filosofo chega lentamente a uma síntese que se pode dizer religiosa – num sentido muito amplo – na compreensão dos movimentos que caracterizam a História e . onde ela existia. A esperança consiste no fato de que a reação – se é de fato adequada – não demanda tempo. no entanto. A Contra Reforma e algumas seitas protestantes entenderam isso muito claramente. Quando a extroversão consumista baniu a sobriedade.nuclear. A modernidade condicionou-se a rejeitar. Sua desintegração posterior deveu-se à perda do "gosto de viver" e a movimentos reacionais indevidos face a grandes desafios.

O tédio e a desesperança que a miséria e o excesso de conforto promovem não precisam ser combatidos discursivamente porque a própria realidade – no caso o conhecimento da História. aparecendo numa sociedade para permanecer ou simplesmente. e pode ser configurada numa práxix. Na grande cultura ocidental unificada pela revolução das comunicações. Essa "resposta" é coletiva. toda resposta é adequada enquanto inspirada na temperança. esse élan aparece e desaparece sem que se possa concluir se é uma característica estável ou não. Face ao perigo. A energia espiritual presente no tempo de vida das civilizações é uma lição para o presente. de certo modo a história do homem – revela que essas enfermidades do espírito resultam de deformações da vida. Não importa o desafio. um "gosto de viver" que é profundamente energético. "Sobriedade" não diz tudo desse estado. O desafio do . Nos períodos de equilíbrio e prosperidade. é quase imperceptível. porque destaca apenas um dos seus aspectos. A história das civilizações e das culturas é a história do homem. Toynbee teve o mérito extraordinário de entender o passado como alguma coisa que a seqüência de eventos suscetíveis de registro. e nada diferente disso. surge com maior freqüência e intensidade.que relacionam indissoluvelmente as culturas de todos os tempos. ou que outro nome tenha aquela disposição que conserva acesa uma chama interior que predispõe ao trabalho e permite desfrutar a vida. e que coexiste à perfeição com a simplicidade. Há um outro lado. ou da maneira de viver.

A única ordem que não coage é a que nasce dentro do homem. daquele gênero que precipita o fim das civilizações e das culturas. porque de fato é um retumbante fracasso em termos de humanidade. por exemplo. Aí. O autoritarismo. a sobriedade.lazer. que só é admirável na ironia shakesperiana de Huxley. terá de ser destinado ao conhecimento e à criatividade. Se for encarado como um vazio a ser preenchido. como alguma coisa a ser gasta de determinado modo – como quem "mata o tempo" – estaremos caindo no erro da reação inadequada. o equilíbrio. A eficiência dos sonhos totalitários peca pelo fato de ser compulsória. surgem nele a ordem. As civilizações e as culturas expressam esse amadurecimento naquele "gosto de viver" que assegura sua longevidade e permite o que Arnold Toynbee chamava de reação adequada aos desafios do mundo e da vida. cessando o burburinho interior e todo ruído inútil. não por ser eficiente. quando ele descobre sua verdadeira natureza. a burocracia. numa progressão que não pode ser medida pelo próprio indivíduo. a especialização conduzem à monotonia asséptica do Admirável Mundo Novo. .

fonte de energia e túmulo do corpo. A mãe terra. de desafio Oriente Ocidente. reforçam sua visão final da necessidade de conhecer o passado para fazer frente ao futuro. mas foi em Mankind and Mother Eart que ele desenvolveu suas idéias a respeito. Arnold Toynbee havia chegado a essa conclusão. no Gênese – que mostram a criação do primeiro homem como a agregação de um corpo estranho ao mundo paradisíaco que parece existir a muito tempo. em 1975. não conseguirá sobreviver ao matricídio. "O homem. A pena para esse crime será sua própria aniquilação". Seu engano inicial consiste em crer que existe independentemente da natureza. se chegar a cometê-lo. As idéias dessa básicas sua de Toynbee obra. da resposta adequada ao estímulo imprevisto. símbolo presente em todas as mitologias.A MÃE TERRA. para que se faça uma avaliação em profundidade derradeira conceitos responsabilidade. Em seguida. No último volume de A Study of History. a . precisam Os ser previamente de noção e apreendidas. está profundamente cravada no coração do ser humano como origem. equivoco com as teogonias – inclusive a judaico cristã. como um fenômeno destacado. a criança da mãe terra. As agressões à mãe terra. do comunismo como religião. publicado um ano após sua morte. o homem as comete pela indiferença e pela ignorância.

ou em pisar na grama. O mundo tem hoje um número bastante expressivo de defensores das espécies vegetais. Os russos orgulhavam-se até há pouco tempo de uma técnica própria para alterar o curso dos rios. Entre esses dois equívocos – a separação da natureza e a possibilidade de modificá-la – teimam em existir centenas de outros. temos terra. sempre com vantagem. . Os materialistas do começo do século deliciavam-se com a perspectiva do HOMO SAPIENS poder derrubar montanhas e construir represas. como a tendência a transportar "ambientes naturais" de um lugar para outro. temos animais. porque alguns deles são necessários e outros são agradáveis de ter. não mergulhamos em sua realidade.grande ilusão que acalenta todas as vaidades. matricídio "criança mãe terra" perpetrando não consiste exatamente em derrubar árvores. e esse número somente agora está crescendo no Brasil. está temperatura. segundo a qual podemos corrigir a natureza. e porque os temos ao alcance da mão. Não vemos. no desencontro com os animais. não os vemos mais. a mãe terra. O crime verdadeiro resume-se na não compreensão do natural. ou transferir para produtos e locais artificiais O meras evocações que a da natureza. porque de fato nos apropriamos dos espécimes. Longe disso. Temos plantas. os vegetais e os minerais que compõe o mundo. Possuir é um modo de esquecer. apenas isso. da como odores. Podemos ter bens. é claro. sons e sabores. nós os "possuímos" no pior sentido da palavra. ou um modo de identificar e passar adiante.

o homem perde as idéias românticas sobre conservacionismo que tem um potencial de destruição tão grande quanto a caça predatória e a exploração madeireira irresponsável. e tudo o que nele abriga e acalenta seu espírito. A radicalização na ecologia multiplicou preconceitos e dificultou a discussão de questões simples e urgentes. mas as coisas não são simples como gostaríamos que fossem. Não faz qualquer sentido lutar contra todo uso de pesticidas na agricultura e ser incapaz de uma comunhão com os santuários vegetais que encontramos em toda parte. É uma pena. chave de tudo. Não significa muita coisa recusar o uso pacífico do átomo e amaldiçoar os projetos energéticos e industriais. a que a maioria das pessoas é indiferente. visa aplacar nossas culpas através de um exagero protecionista que é pura irracionalidade – quando não é manobra política.mas com a natureza é diferente. isto é. Nas cidades . Não é diversa de seu filho porque ele possui a centelha que lhe permite desvendar essa maternidade. e que dificilmente percebemos. revela os paradoxos com que o homem deste século convive. No entanto com a realidade natural. Os mitos criados em torno da "volta à natureza" fazem parte de uma tela que visa manter tudo exatamente onde sempre esteve. Quando chegamos a ela da maneira certa ela chega até nós da única maneira possível. sendo insensível às humildes manifestações de vida natural que convivem conosco. é complexa na medida em que é sutil no sustento das ilusões que gosta de criar. às vezes bem próximos de nós. A mãe terra produz o homem. O cativeiro de alguns animais. A mente humana.

Nosso relacionamento com a natureza é utilitário. nada a partir do interior – direção natural do que é sincero e profundo. jamais um fim. Os poetas. O que é inútil.grandes. não importa o nome. com os animais e com o mundo também é? O "sentimento" utilitário faz de tudo aquilo em que toca um meio. se com as crianças. A mãe terra pode ser vista como uma imagem romântica ou. Servir-se de alguma coisa é um modo eficaz de não ver essa coisa tal como ela é. as crianças aprendem nas escolas como tratar com carinho as avencas. alguns poetas. . alguns religiosos. mas que praticamente desconhecemos. é fácil ver de que maneira compensamos nossa insensibilidade para com a natureza. A contemplação da natureza – sem rituais ou posturas. há protestos públicos quando alguém quer derrubar uma árvore. são aqueles seres incomuns que descobriram a maravilha da gratuidade. nesse somatório prático. como uma realidade imensa na qual estamos quase afogados. a mãe terra nada tem a ver com a retórica. As varandas estão repletas de plantas. com a poesia e o sonho. porque está solidamente instalada no dia-a-dia. naturalmente – é o exercício inútil que esses privilegiados fazem no cotidiano. torna-se invisível – o que é um incrível desperdício de beleza. Por que não seria. Todo aprendizado e condicionamento. e os religiosos. Para eles. há canteiros nas calçadas.

pensadores e observadores leigos mas atentos à vida concluíram que a psicanálise teria de propor o esquecimento científico na abordagem do problema patológico. A idéia de analisar outra pessoa depara com uma primeira dificuldade ao tentar ver alguém "de fora para dentro". A Coragem de Ser Paul Tillich define a neurose e seu séqüito de sofrimentos como a maneira de evitar o não-ser. capazes por si de deformar sua percepção do outro. Com Tillich. evitando ser ". esbarra nos "padrões prévios" . mas reconhecidamente pouco eficaz. critérios de abordagem que prejudicam a compreensão daquilo que se observa –e que é sempre absolutamente novo. Embora a linguagem filosófica e o falar especializado tenham expulsado do campo da meditação espontânea o homem comum. A busca de um sentido para o sofrimento inútil. para avançar de fato até onde se propõe a chegar. embora difícil.EM BUSCA DA CURA. tendemos todos para um reencontro com os problemas fundamentais na rotina da vida.desenvolvidos no começo do século e fragmentados algumas décadas depois – uma ajuda esforçada. tropeça nos condicionamentos pessoais do analista. quando o contrário é viável. que atinge tanta gente na obscuridade do dia-a-dia. Em seguida. Os critérios científicos. No seu livro mais conhecido. Depois. indispensáveis em . encontrou nos estudos do psiquismo humano .

certos casos e úteis em outros, são rígidos e pesados demais quando se trata de investigação que tem como campo o psiquismo humano, meio em constante alteração, passível de mudança pela simples observação. Esse impasse pode ser, no entanto, ultrapassado pelas situações críticas. O encontro com a dor e o desespero pode colocar em xeque valores que até férreos pessoa". O mecanismo que leva a " evitar o não-ser, evitando ser", é bastante simples. Sua compreensão, porém , passa antes pela desmistificação teorias eficácia Fundamentai" que regem da psicanálise por progride a partir de certo continuidade racionalizar anos o das complicadas e método científico variáveis que pretendem explicar o psiquismo. As "Teorias dificultam a não sua e como a instrumento. A terapia fio são jogos sutis então do ninguém pensaria contestar. Os esquemas nas cientificismo podem ser abandonados

situações drásticas, e uma porta ser aberta para " a outra

ponto, e tudo que alimenta

intelectualizados, extraídos da imensa teia teórica que procura os estudos da mente. A autoridade de alguns nomes famosos serve de aval e esperança, ainda quando a rotina está enraizada na terapia e o "Velho Adão" assumiu a direção do espetáculo. A contradição pode ser entendida assim: a consciência quer abarcar o processo total da mente, inclusive o que está além de sua fronteiras, tentando incluir o todo na parte. A psicoterapia enfrenta outras dificuldades, há muito discutidas e nunca solucionadas. Os que buscam a cura

desejam simplesmente a remoção dos sintomas dolorosos da "doença", não a eliminação daqueles elementos que causam a perturbação. Esses elementos são preferências, gostos concepções falsas o paciente, com suas e opiniões. Não há um fabricante de sobre a vida e sobre si própria, nesses

ilusões destacado dessas ilusões. A mente é um ramalhete de casos. Extirpar as ilusões, aqui, equivale a matar o ilusionista, ou aquele que deseja livrar-se dos sintomas. No fundo de tudo - e aqui invadimos o território da metafísica – está o horror fundamental do não-ser, do Nossa que reação a esse parece a uma antítese perigo é a recusa de sono ser sem sonhos, da morte absurda que imaginamos e tememos. integralmente. No mais remoto de nossa mente, rejeitamos o do nada, porque sua permanecemos fragmentos aceitação em importaria ter muito para perder. Não somos, portanto, não assumimos unidade; divididos compartimentos isolados, em fundo nesse sem qualquer de um

inteireza ou sentido. O pensamento de Tillich vai bem mais terreno, enquanto afirma a futilidade deus transcendente no infinito do mergulhado ele, é a espaço. Sua visão do

homem ganha sentido na certeza de um deus imanente, na profunda realidade humana. "Religião, diz substância da cultura, e a cultura é a forma da do contemporâneo, na grande maioria dos

religião". O poder do ser, a essência de todo homem desconhecida casos – é Deus, ou que outra designação possamos dar-lhe. A realidade última é concedida ao homem na compreensão da realidade finita e trágica da Humanidade O que morre com o

homem na morte do corpo é um punhado de insignificâncias algumas estimadas pela nossa insensatez. A procura de terapia, de salvação, é geral neste fim de século atormentado. O Exatamente por isso, que não busca através dessa cura é o a compreensão há terapia da realidade. adequada. Se prazer, a permanência, não

procurarmos alguma coisa com uma idéia prévia dessa coisa, o que, mas encontrar é o ersatz do um caminho novo, que passa ao real, uma espécie de largo do cientificismo projeção de nossas crenças. Entender esse processo pode ser nominalista que predomina no pensamento discursivo, no

aprendizado oficial, nos métodos de pensar. O conhecimento científico é indispensável no mundo em que vivemos, mas é sendo que conhecemos o que há em nós, começo e fim do sofrimento tempo não e do prazer, da confusa noção generalizada de hermético, uma iniciação filosófica ou exterior de e permanência. A "coragem de ser" de que fala Tillich mas um convite a ver as

é um segredo

uma proposta intelectualizada, quem as vê.

coisas como elas são, estejam no intimo ou no

UM BRASIL KITSCH.
A onda que varreu o mundo a partir da metade da década de 60, designada com imprecisão e sem unanimidade como tempo, contracultura, uma infinidade trouxe consigo possibilidades de que rompimento de antigas estruturas calcificadas e, ao mesmo de exageros e generalizações a preocupação serviram a toda forma de equívocos. O universo hippie (generoso, mas mas (que logo artificial), ecológica (justa, deformada pelo fanatismo) e a liberdade sexual

devia começar na maturidade emocional e acabou

partindo da permissividade) foram algumas dessas bandeiras que ainda hoje, vinte anos depois de desfraldadas, servem a indivíduos e grupos para garantir interesses comerciais que visam a fins mesquinhos ou atitudes e dissimulados. No Brasil, o registro colorido do último carnaval, o recentes telenovelas cinema nacional "liberado" e as mais campanhas

mostram até que ponto a explosão contracultural atingiu um mundo até ontem reprimido e tradicionalista, determinando o inevitável desabamento no outro extremo. Nossas Sodomas urbanas prosperam, em meio à mediocridade, ao mau gosto e à complacência de uma censura de diversões que finge de morta para compensar os excessos cometidos há alguns revistas anos. O carnaval passado foi a festa do kitsch, da exibição do grotesco, da deformação feliniana na Tv e nas pornográficas que se disfarçam, durante o ano, de domésticas e informativas. Nas bancas de jornal, nos trailers das matinês,

presente que está onde quer que se ponham os olhos humanos. na maioria dos casos: obrigam. eliminando tudo que não seja seu tema de eleição. exibindo a quantidade como alternativa da qualidade. A simpatia e a simplicidade de quatro décadas atrás foram trocadas pelo excesso de ornamentos. O carnaval acabou complicado Do cinema nacional "descontraído" . porque as comunicações invadem todos os lugares e todos os sentidos.na televisão que hipnotiza milhões de pessoas através do País. . O carnaval é uma imposição que não admite escolha. simplesmente. Há meio século apenas. a sintomatologia de uma doença que os cientistas sociais ainda não diagnosticaram de maneira satisfatória. Essa agressividade de alguns veículos de comunicação precisava de outros méritos para ser tolerável. ninguém é excluído como platéia e testemunha. o mesmo espetáculo grosseiro e exibicionista. A ausência de uma tradição culta entre demais para ser alegre. Os meios de comunicação não convidam para o show. apelando para o exótico em substituição ao belo. homens.que não se confunda com o cinema nacional de verdade – o que se pode dizer é que ele faz uma espécie de chantagem que surte efeito em país subdesenvolvido. o espetáculo público era alguma coisa que se é diferente. pelas fumaças de mitologia e erudição. todos são espectadores procurava e ao qual só assistiam os que estavam interessados em assisti-lo. mulheres e crianças a vê-lo o tempo todo. Agora compulsórios. mas que espanta pela crueza dos seus sinais. E o show é vulgar como nunca.

O véu de charlatanismo que confunde realismo com pornografia continua atuando a favor desse estado de coisas. dito civilizado. quando lembramos que o sucesso pelo sucesso é um padrão de comportamento largamente aceito. As cotações do Ibope são o único critério de avaliação dos que comandam a máquina extrovertida – o que até dá bem para entender. adotando sua linguagem e seus ademanes. embora não saibam por quê. O sexo. Mais difícil é suportar as telenovelas pretensões freudianas. tornam-se ridículos quando usados abusivamente e francamente antipáticos quando procuram apenas o impacto ou visam a desencadear o riso nervoso dos que não sabem compensar velhas repressões de outro modo. perfeitos quando preenchem uma função ou conferem veracidade à obra de arte. a palavra forte. Finalmente.nós criou um temor reverencial curioso a respeito de tudo que se atribua profundidade ou fale em nome da arte. temos a televisão. mesclando personagens "liberados" com neuróticos comuns. a observar como e por que consentem nessa hipnose. presente em todos os momentos do homem urbano. . A ninguém parece interessar como funciona seu poder de sedução. As pessoas preferem cair sob esse domínio. veículo sensibilíssimo que apaixona e enfada com a mesma rapidez. O humorismo grosseiro e pouco criativo dos programas cômicos tornou-se vício porque com preencheu um vazio – o abismo negro na vida das pessoas em geral. e tirando disso vagas conclusões que todos imaginam avançadas.

Ninguém é inocente em toda a história. uma vez que a pressão cultural é quase irresistível. que nada tem a ver com a decadência porque somente agora começa a crescer. fútil. quando o lucro. mas ninguém é inteiramente culpado. o sucesso. kitsch. agora temperada com relâmpagos em que surge a modernidade na forma de partes inconfessáveis. um certo cinema. é ridícula. alusões mórbidas. desprovido de alma e muito diferente daquele outro.A exploração da sexualidade não é chocante como pensam seus patrocinadores. . fruto do despreparo e da má fé. A infinita da Tv é malbaratada com superficialidade e potencialidade malícias de ocasião. as publicações vendidas nas bancas de jornal e a programação de TV mostram a quem quiser ver um outro Brasil. a vaidade são a moeda corrente? O exibicionismo e o deboche que dominaram o carnaval. minoritário e barulhento. A compatibilidade entre o cômico e o sensual é sabidamente difícil. de verdade. Os mafuás de auditório e os dramalhões milionários nunca deixaram de usar a mesma do corpo. vício fórmula do passado. O conhecimento do processo é uma via de superação dessa canga – mas quem está interessado nisso.

Para Samuel Butler. toda obsessão para chegar a idéias definitivas conduz a uma forma de paralisia do espírito que todos conhecemos bem. Um ignora. As certezas são conclusões que fecham as portas desse espírito.as pequenas coisas do cotidiano e o que pode ser mensurado pelas ciências positivas -. mas porque não conhecer é um modo de perpetuar coisa que é". Além daquela medida em que é necessário estar convencido de determinadas coisas . Dizia Goethe que o homem não nasceu para resolver os problemas do universo. Os limites do compreensível são impostos pelas limitações de quem espírito consegue compreende. Não porque seja altamente complexo e exija "uma conhecimentos especializados.A FOME DE CERTEZA. além de penetração sutilíssima. A facilidade com que adquirimos certezas indica apenas o quanto precisamos delas. O mecanismo dessa necessidade de certeza é pouco observado. porque é um mal que aflige milhões de pessoas em nossa época. claro. ser aberto a fatos que até então quando filtros internos não coam e interpretam o que vêem e ouvem. ou parece ser. "uma coisa é na medida em que nos dá menos trabalho para pensar que é". De algum modo o filósofo estava dizendo que é impossível conhecer o universo sem antes conhecer aquele que propõe conhecê-lo. mas estabelecem aquele processo de filtragem que é basicamente . mas "para colocar seu dedo cada problema e permanecer depois dos limites sobre do compreensível". ou que não as fecham completamente.

onde reina o silêncio de quem escuta com atenção e em que se descobre que a resposta vem quase sempre no mesmo corpo da pergunta. precisamos desesperadamente ciências positivas e apreciamos os benefícios que proporcionam. Diferente é adotar modelos. O estado de "abertura" é uma disponibilidade da inteligência. O universo é tão egocêntrico quanto das certezas não deve ser imaginar que esse horizonte é o limite natural e possível de demônio confundido com o conhecimento objetivo das coisas sabidas e adivinhadas. Voltaire lembrou uma vez que geometria". sabemos milhões de coisas e de certo modo temos certeza em relação a elas. não é tão mas simplesmente porque dele. Pensar que o horizonte encerra o cada homem. chaves para determinados padrões. sabemos que depois da madrugada o dia vai amanhecer. É confortável poder confiar nos especialistas que nos presenteiam com a racionalidade da microcirurgia. Conhecemos a "não há seitas na das elas nos solidez (quase) inabalável como decorrência de algum capricho da natureza humana. dominante em nosso tempo.condicionador de novas certezas. das imensas formas leves dos edifícios onde . Esse tipo de certeza. Sabemos que o chão não vai afundar à medida que caminhamos. dominar fórmulas. difundido definições dentro das quais o mundo deve caber. do avião supersônico. É possível que tenha acrescentado em algum lugar que esses limites podem ser alargados quase infinitamente. Schopenhauer escreveu um dia que "os homens tomam os limites de sua visão como os limites do mundo".

Uma forma de ignorância que pode pequenos reparos e ser chamada de sutil adaptações no seu ampara fazendo esses necessitados. a morte onipresente.vivemos. o mistério do EU. um outro lado menos claro instala em nosso espírito uma usina de certezas. a viagem da vida. ou pelo menos uma propensão para essa forma peculiar de enfermidade. As crenças organizadas – e isso inclui do animismo ao materialismo – são uma tentativa de defesa contra as incertezas da realidade. as seitas. Não é preciso dizer que sobreviver é insegura. O que se opõe à realidade termina segundo um dos dois caminhos: o desaparecimento ou a fossilização. os arcabouços ideológicos. Se nosso lado racional nos informa que vivemos num mundo do qual nada sabemos em termos transcendentais. O sentido da vida. e sonhamos transportar esses resultados para aqueles outros campos em que não nos sentimos seguros. porque afinal a ciência fez mito pouco ou nada fez neles. A maioria das pessoas parece ser assim. Os dogmas. A busca ansiosa desses pacotes é já um princípio de esclerose. o que significa que são uma recusa do que existe. reforçando suas convicções e essa forma de convencimento. . tanto quanto qualquer outra. são os pacotes que a insegurança preparou para que os mais assustados façam sem muito medo. o cientismo e o misticismo. e ainda aqueles que não são às vezes se tornam. de conclusões e de respostas prontas. as correntes. o enigma de um tempo que escoa entre nossos dedos a consciência do homem permanece na mais absoluta ignorância a respeito de tudo isso.

seu chicote. diz Chekov através de um dos seus personagens mais meditativos. O protesto dos "hereges" e dos que clamam no deserto pode ser uma semente que tem alguma possibilidade de frutificar. Esse desmoronamento é inevitável. e esse apetite é insaciável. Os que crêem nas grandes superstições modernas não diferem dos que criam nas grandes superstições antigas que levavam hordas humanas à guerra e hereges às fogueiras. É por aí que começam a minar os dogmas e as ideologias."O homem é aquilo em que ele crê". sua manopla. sua vara de tanger. haverá sempre uma dúvida que vai does de modo especial. ou uma resposta que não vai satisfazer de todo. mas não será nunca um aríete para derrubar a estupidez do pensamento fechado. . O medo da vida e da morte produziu nele a fome de certeza. Ainda que uma grande montagem de crenças convincentes possa acalentar as naturezas que precisam agudamente de segurança. A aparente erudição e os argumentos sofisticados escondem mal o primitivo com seu tarô. mas vai começar por dentro.

quanto o que estamos vivendo agora. Aonde levam essas idéias na prática é fácil constatar procurando informações sobre o psiquiatria que ocorre na União Soviética. hoje em dia. e. Skinner são talvez os autores mais e devem ser reguladas pelo social para que significativos destes tempos que acreditam piamente que as circunstâncias humanas podem próprio homem. resta muito pouco a fazer na tentativa de olhar de fora – sem premissas estabelecidas ou imposições metodológicas – as coisas como são. O problema da liberdade não preocupa seriamente esses apóstolos do self made man total. no campo da aplicada à "regeneração política". Ambos acreditam que se o ambiente nos fez de certo modo.O FATOR HUMANO. As versões científicas e filosóficas mais prestigiadas atualmente são as que põem todas as soluções no pequeno núcleo de consciência e memória que constitui apenas parte da mente. bem como o observador das coisas. Karl Marx e B. portanto apenas um pedaço do homem. A manipulação e o controle do comportamento humano conduzem a um ideal de vida no qual se crê sem reservas. No Ocidente.F. devemos mudar o meio possamos viver em meio à justiça e à felicidade. um outro tipo . Quando a própria observação do espírito é comprometida pelo sistema de avaliação dualística que as "ciências do consciente" impõe como único método aceitável de compreensão do mundo. exatamente como é. É difícil encontrar um outro período da História em que o homem tenha depositado tanta confiança nos seus atributos consciente.

É aí que os defensores do condicionamento humano – por métodos sutis ou à força – precisam ser revisados e compreendidos. para mencionar o mínimo. De tal forma que a eliminação das causas específicas da infelicidade humana não precisa levar em consideração escrúpulos sobre a supressão da escolha individual. Para B. Se não existe livre-arbítrio. de Harvard. ou pela revisão das idéias que deram origem ao seu crescimento. Skiner. Skiner defende . Um processo que ganha força e se robustece vendo em cada acontecimento uma confirmação só pode ser detido de dois modos: por força superior à sua. os caminhos soviético e ocidental incidem em erro na medida em que têm muito de ocasionais: a psicologia tem hoje meios para moldar perfeitamente o comportamento humano. tudo é permitido – principalmente quando o que se tem em vista é o bem-estar.de condicionamento em massa proporciona um retrato desanimador do consumismo e da cultura compartimentada. ou não seria o que é O erro está no fundamento. de modo a criar qualquer coisa parecida com a felicidade na Terra. Para Skiner. Skiner propõe algumas providências que impeçam a utilização de suas idéias pelos regimes totalitários. na concepção inicial. na justificativa do primeiro movimento. e a ventura da espécie. O despotismo não é propenso a atos de contrição. a liberdade individual é um mito. A ingenuidade é inadmissível numa época em que todos lêem jornais e assistem aos informativos de televisão. No romance Walden Two.F. como se fosse possível impor limites a quem dispõe de poder ilimitado.

nem sequer compreendê-lo. ele se refere a uma parte da mente como o todo. e porque ninguém e nada podem regular-se a si próprios.com rigor científico sua posição. deixando de observá-lo em função desse mesmo condicionamento. filosóficas. As circunstâncias humanas não podem ser reguladas pelo homem porque isso a que se chama homem não é uma unidade. Além disso. A parte adestrável do homem é aquela área mais grosseira de sua mente. mas as premissas de que parte são. A parte não pode abranger o todo. Himmler. como não podem deixar de ser. . nem sempre condizentes com a realidade. ou o espírito do homem. é julgar o iceberg pela ponta de gelo que emerge no mar. os engajados de todos os matizes. A liberdade individual é um mito para os espíritos petrificados pelo condicionamento – os fanáticos de todo tipo. os controles são necessários quando valores fundamentais estão em perigo e conhecimento da realidade. que se parece com o computados (um ersatz da inteligência. não existe com sucesso. A consciência-memória é condicionável. e todos nós estamos mergulhados num oceano de constatações desse fato. essencialmente diverso dela). nisso consistindo todo o equivoco dessas formulações que advogam a melhora do ser humano através do adestramento – alguma coisa que se faz com êxito quando se trata de cães e cavalos. Como os demais pensadores contemporâneos que levaram a racionalidade às últimas conseqüências. os Torquemada. Tomar esse pequeno núcleo como "o homem". que se relaciona com a cumulação de dados e projeta imagens do mundo e de si mesma.

os que só acreditam no recurso à força. na simplicidade do cotidiano e nos grandes espaços que cabem em instantes que a outros parecem fugazes. porque eles a conhecem pessoalmente. não se eximem de discuti-la porque sabem o quanto as idéias se alimentam da diversidade e da controvérsia. precisam ser conhecidas. Para esses espíritos. Esses vivem como se a liberdade fosse uma fantasia dos outros. a liberdade não é alguma coisa que se discuta. Ainda assim. As circunstâncias humanas ser reguladas.Béria. . a criação é um fluxo que se renova de momento a momento. quando a mente é flexível e não se apavora com a inexistência de certezas absolutas. não precisam COM ÁGUA PELO PESCOÇO. De resto.

No grande mosaico em que cada pedra é um dia. uma dor. Não é um tema para ser meditado na Semana Santa. para merecer algum crédito. pouca coisa parece formar tão bem um desenho coerente quanto a opera magna da descoberta do mundo pela revelação do descobridor."Procuraste a carga mais pesada – diz Nietzche no Zaratustra – e encontraste a ti mesmo". um sofrimento. Em carta de 1930. é um processo. no entanto. A intuição pura de Nietzche percebe que a carga só é pesada porque não nos encontramos momento a momento. preferindo esperar um instante de redenção. mas da constatação de um sentido para esse conjunto de coisas que jamais deixamos de acreditar que obedecem a uma coerência. não é uma culminância. uma experiência. e das implicações que isso certamente tem em sua vida. A palavra salvação está suficientemente comprometida com um dilúvio de afirmações desencontradas. após o qual nada será como antes. A clareza que exigimos para examinar o que a esfinge da vida propõe todo o tempo é mais do que simples objetividade é resposta. "As sabedorias e possibilidades de salvação não estão ai para serem ensinadas e também não para assunto de conversa. a abordagem de alguma . A descoberta fundamental. Não se trata de um calembur intelectual ou de um enigma para pessoas cultas. Melhor é falar em conhecimento. senão para aqueles a quem a água já chegou ao pescoço". mas uma realidade a ser percebida quando o homem se dá conta do que significa perceber. Hermann Hesse encaminha o assunto de maneira mais inspirada.

é definitivo e estável. quando se distancia para observar o conjunto. Quando se faz disso Aquele um passatempo. como em geral todo o resto. de prosseguir segundo um método. Se o velho Adão recobra o fôlego e tenta uma classificação inteligente. Seria mascarar a realidade dizer que existe um preparo para essas descobertas. Nada disso. A linha de pensamento a que estamos habituados tem uma porção de objeções a opor. isto é. A carga mais pesada de que falava Nietzche deixa de existir. morre ali. descobre que desenhou o próprio rosto. quando todas as ilusões foram gastas e nem mesmo a desilusão (essa manifestação vaidosa do cansado) permanece. não há vazio nenhum na medida em que há alguém tagarelando.coisa que não conhecíamos anteriormente.o elemento mais irritante e destruidor . Quando a "água já chegou ao pescoço" de alguém. Esse é o ponto. há como que um vazio profundamente criativo. qualquer coisa como uma iniciação. e tudo que se pode dizer dele é que a idéia de fazer alguma coisa. numa de sua cartas . "desenho coerente" encontrar mosaico da vida está intimamente ligado com o que somos. resta muito pouco a descobrir. a essa altura: em que consiste tudo isso? Para quê? Por que complicar as coisas? Por que não fazer uma exposição simples e metódica do assunto? "Segundo a minha experiência – afirma Hermann Hesse. Jorge Luiz Borges tem uma pequena história que usa a mesma analogia: um pintor tenta condensar num imenso painel o mundo. uma que ocupação podemos de pessoas no pretensamente inteligentes. e ao fim do trabalho.

Não há nada que a erudição possa fazer para ajudar. É preciso resistir ao do costume social.não ontem. o conhecimento acumulado são pouco ágeis e sutis para um empreendimento tão delicado quanto à abordagem do real. nesse "fio da navalha" que é o momento presente.dos homens é aquele impulso baseado na preguiça de pensar e na necessidade de permanecer em paz. peso dos hábitos mentais. em seu mecanismo implacável. A técnica. para que seja possível vislumbrar um pouco além do cotidiano. O fio do momento que passa (e que ainda não passou) existe entre duas vertentes e é o único pedaço do tempo que conhecemos de fato. sendo ao . principalmente quando usada como alavanca nos truques de auto-afirmação. Não há retórica na conclusão de que essas descobertas só podem acontecer agora . que leva para o coletivo. O hábito precisa ser entendido. dos modismos de todo tipo. Essa é a carga mais pesada porque exige resistência e leveza. O que as escolas e correntes dizem disso pode ser interessante. para a vulgaridade subordinada à dogmática rigorosa. mesmo porque ela costuma ser prolixa. mas nos casos em que o racionalismo e o nome da busca dessa realidade. mas desvia atenção do assunto e "verbaliza" ainda mais o pensamento. a cultura. no caso. que freqüentemente se excluem. seja ela política ou religiosa". para a explicação racional. nem dentro em pouco. As exposições racionais e metódicas valem para uma infinidade de circunstâncias e são de imensa importância na vida. tudo método em transformaram-se em biombos. escondendo a realidade muda de figura.

Não se trata de corrigir. Não pela falta de dados acumulados – que isso qualquer computador pode fazer e nem por isso é sábio -. mas de identificar. São João Evangelista disse isso de um modo. Freud de outro.mesmo tempo flexível como um florete. se a expressão não fosse muito publicitária: o conhecimento modifica em profundidade. . Os preconceitos que cercam o simples e o fundamental são gerados pela ignorância. em meio ao qual pensamos ser perfeitamente lógicos e racionais. Temos o espírito vergado para direções determinadas e quanto mais antiga a pressão. pior a luta para identificar o desvio. Há preconceitos demais cercando o simples e o fundamental em nossa vida comum. e penetrante como ele. mas pelo desconhecimento do emaranhado de causa e efeito em que vivemos. SERVIDÃO VOLUNTÁRIA. A isso seria possível chamar de "revolução mágica".

que inspirou Platão. essa doença diagnosticada por Etienne de La Boetie. O Estado dominador. Bernard-Henri Levi. apologista inviabilidade do firme de um ego imenso. e que se dissemina em medo de perder os controles "num mundo basicamente mau". hoje maior do que em pelo seu todos os tempos. é mais fácil de entender que o conjunto de idéias dominadoras. pela ideologia. no qual assume importância inexcedível a dominação do homem pelo Estado. que até aqui foi escondido do voluntária". de perpetuar o que por natureza tende depressa. um grande irmão que pode variar de temperamento. O Estado Esse é tanto mais forte quanto maior for o do conjunto.Em La Barbarie à Visage Humain Bernard-Henri Levi mostra de que maneira a pergunta fundamental e milenar sobre o sentido de ser . A ânsia de mando e de controle é uma tentativa pouco eficaz. mas que duvidará sempre das possibilidades do homem comum. aspecto é talvez o mais interessante do regime de força está homem por si mesmo. de corrigir o que parece precário na vida. fala da "servidão benefício dos ávidos de poder. O convencido da Sem a proteção semelhante. porém. mas ainda muito acreditada de conferir segurança a morrer psicológica ao mundo. leitor brasileiro. Shakespeare e Kierkegaard foi substituída pela perplexidade moderna a respeito do sentido do poder. o punhado de propostas . nada sério e duradouro será construído. Os que não beberam a poção totalitária e ainda mantém flexibilidade de espírito voltam-se para a enormidade desse fenômeno.

prostrada também pela força à vontade dos dominados. Nunca ocorreu a Hitler holandeses. o que acontece é exatamente o contrário de uma conclusão racional.transformadas em afirmações. necessariamente dentro das fronteiras novo poder é exercido no interior do indivíduo. fenômeno horrível da "servidão voluntária". O expressa no certezas impingido no Mein Kampf. O que se deseja com o território conquistado.sendo esse seu tema privilegiado – teve até hoje as mesmas características de imposição pela força. ali de princípios estabelecem a dominação definitiva. por exemplo. Tudo o que a História nos conta de conquista e dominação . não em que ele vive. àquele conjunto de domínio se faz junto ao homem. O século XX não abdicou das conquistas territoriais. Sempre que diminuiu História. como vimos na Segunda Guerra agora. é a implantação converter os Hoje o Mundial e. até o e idéias que Afeganistão. que. de um modo tal que chega a contar com sua cooperação. eclodiu a revolta. É verdade que essa dominação se faz com um revestimento especial em que sobram as racionalizações e as justificativas mais convencimento engenhosas. acontece diversamente. Pela primeira vez na nova. A doutrinação o que lhe supõe um alguma livre. confere respeitabilidade. acabam sendo regras de comportamento. colonizados Uma legião de "escravos felizes" surgiu como uma espécie e em completa harmonia com o colonizador. a pressão. porque sucede nada . Na verdade. afinal de contas. depois.

e uma vez ou outra foi discutido. pronta para isso. está intimamente relacionada com a questão do poder. esses sonhadores. em que o fenômeno corra à conta de ficção ou de fantasias de comportamentistas. permite que ele siga sendo buscado por meio da dominação ideológica e doutrinária. desejo secreto de ser convencido – ou de ligar-se a alguma coisa maior que oferece resposta para tudo – é meio caminho para a dominação. esse paradoxo.menos que um processo da doutrina paulatino de soprada hipnose. Um modo de negar o fenômeno é a generalização dos seus termos. Argumentos vários lembram que homem e poder sempre estiveram juntos. A "servidão voluntária" está aí. O que falta é disposição para . na medida em que reduz de muito o trabalho do dominador. A "sedução voluntária". Se o poder é ser dissecada. de certo modo. O problema sempre existiu. Bernard-Henri Levi põe em destaque o conceito de poder que. é verdade. mudando a face do mundo em prejuízo dos melhores valores humanos. hoje em dia. é hora de ser dimensionado. que essa luta é eterna e não apresenta características novas no momento. Os que se engajaram no processo – aqueles que Ionesco chamou "rinocerontes" suas possibilidades. Quem define. domina. Agora que ele explode como calamidade contemporânea. de O "incorporação" persistentemente. Grande parte deles está combatem pela causa dentro de suas áreas específicas e de acordo com empenhada em que tudo isso permaneça em silêncio. exposta à luz do dia. A realidade não é tão amável.

Quando essas designações circulam no desejado. nada mais. ganham substituem equivalentes "pobres". se a luta por ele e a própria noção de classe já vêm definidos. do discernimento. pela subjugação da vontade. com a concordância força e cabível. na análise da conquista do poder from inside. na suas entonação adequada. da CONTOS DE FADAS. condicionando as respostas antes mesmo que as perguntas sejam feitas. capacidade de decisão. Um conjunto de palavras devidamente "carregadas" tem a força de persuasão de mil tratados e alguns oradores experientes. .uma questão de classe. A imantação das palavras é a mais sutil e proveitosa forma de dominação – e de conquista do poder – jamais empreendida desde que o homem se organizou em sociedade. agem como bumerangue. Os vocábulos não podem ser "enriquecidos" por decreto ou decisão de um grupo. É esse exatamente o mecanismo de controle que se denuncia. Usadas por quem não concorda com elas. há apenas uma constatação a fazer. O trabalho é feito pela repetição com a conotação âmbito desejada.

Grimm. os etnólogos e especialistas em História das Religiões usaram algumas idéias fundamentais de Jung no exame de um material que permaneceu intocado muito tempo. os primeiros estudos científicos sobre os contos de fadas. No Brasil. Herder e Winckelmann realizaram. Perrault e outros. partindo da certeza de que antigas crenças e símbolos significativos possuíam conteúdos capazes de explicar o próprio homem. Roger Bastilde. os contos de fadas e as "Histórias de Trancoso" que parecem mais tempo à sedutoras aos olhos dos que chegaram há pouco vida. Mircea Eliade e Lévi-Strauss dedicaram detalhados estudos ao tema.Os especialistas nem sempre explicam satisfatoriamente o fenômeno. ou nas velhas lendas das Mil e Uma Noites. conhece uma interrupção no seu crescimento interior. no século XVIII. pesquisou as histórias e lendas de recantos diferentes do País. São as lendas. . O mundo comum dos adultos é tão contraproducente e insípido para os pequeninos quanto as tentativas de comunicação feitas pela maior parte da ficção destinada às crianças atualmente. mas quase todos abonam sua existência: a criança que não desenvolve uma forma especial de fantasia. Luis da Câmara Cascudo. que não abre uma janela para o infinito ou descobre "mistérios fascinantes" na vida. O próprio adulto que tiver conservado alguma coisa das maravilhas contidas em certas revelações da infância voltará a descobrir um encanto inexplicável nas narrativas compiladas e reescritas por Andersen. Mais tarde. Da metade do século XX em diante. Os irmãos Grimm recolheram narrativas populares que teriam um "sentido religioso".

As interpretações de filiação psicanalítica padecem. mas que O podemos dualismo adotar às e a situação. de modo conhece em absoluto. de "Os Três Porquinhos". da "Gata Borralheira". de "Rapunzel". de "Chapeuzinho Vermelho". da psicologia e até da arqueologia. simplesmente.Os contos de fadas e algumas histórias populares revelaram. Os contos de fadas não fogem às situações duras. na medida em que qualquer criança intui que um homem não é apenas uma . de uma antiga sabedoria que conhece muito bem a importância da fantasia e da fabulação para o espírito humano. conforme a transmitir uma força espiritual que a narrativa "realista" não algumas décadas comportamento simplório das lendas é uma prova disso. O mito apresenta seu tema de forma majestosa. muitas vezes. mas a identificação fácil do ego. dos mesmos erros que tornaram quase inerme a psicoterapia freudiana. nesses contos. com a ajuda da antropologia. Os heróis dos contos de fadas têm um vigor concentrado que advém de sua devem padrões abandonar. Não são personagens que como os heróis contemporâneos. vezes ser imitados. Seus leitores são postos diante de fatos. de simplicidade. uma riqueza que até ninguém poderia imaginar. de "Irmão e Irmã". do id e do superego nos personagens é freqüentemente ridícula e fútil. tudo pode ser encontrado. sem a preocupação de atenuar a realidade. da sociologia. típica da ficção infantil moderna. aos dilemas críticos. Nas narrativas simples do "Gato de Botas". Melhor que isso é a descoberta. encharcada das idéias trazidas pela psicanálise.

consiste circunstâncias na apresentação de dividem entre si que características humanas bem nítidas.coisa.que ele se defronta com o fundamental na questão das narrativas antigas. mas uma multiplicidade delas. nas . para protelar indefinidamente a própria morte . mas é na análise do simbolismo fieira de de Sherazade – a histórias ao rei personagem que conta uma Shariar. Já se disse das narrativas de As Mil e Uma Noites que elas são um antídoto contra a ansiedade e a insegurança. da criatividade – e saúde mental tem muito a ver com esses atributos. Não porque distraiam a atenção homem para um da realidade. em A Psicanálise dos Contos de Fadas (Editora Paz e Terra). por personagens e exemplo. Chesterton primeira e última filosofia é aprendida no berço. Sherazade de saber-se destinada a livra-se da morte (ou da angústia da vida possível. da imaginação. O universo morrer um dia) pelo contato com as mil situações do mundo e desfila diante do rei. preparando o conhecimento que está longe de "prático" mas que produz resultados bem verificáveis. A riqueza de As Mil e Uma Noites. Bruno Bettelheim. As histórias "realistas" inibem as fontes de fantasia. estuda muitos desses fatores. mas porque ser colocam uma parte do espírito em movimento. Para Aristóteles. Platão sugeriu que os cidadãos de sua república ideal seriam educados com a narração de mitos que transmitissem os ia mais ensinamentos lenda estão longe: "Nossa fundamentais. As coisas em que mais acreditamos sempre estão contidas nisso que chamamos contos de fada". sabedoria e intimamente ligados.

As janelas abertas principal acreditar antigas – e que foram fechadas. as ilustrações ao mundo. Como não foram também antigas – foram durante muito tempo e para muita gente. fariam bem em voltar. para Goethe. uma introdução substituídas com vantagens.sucessivas noites em que a filha do vizir desdobra seus contos. pelo "realismo" que tem como vício pode controlar a vida. ou seus esforços para não romper para o infinito não em lágrimas". . Ele me devorava com os olhos. É ainda Bettelheim que recorda a infância do pequeno Goethe. e os grandes espíritos necessário da encontraríamos. Diz a obra que no final ocorre a cura de Shariar. QUESTÕES ABERTAS. Se o destino de um de seus favoritos não corria como desejava. compatibilizado com a vida e com o desfecho morte. num depoimento da mãe do poeta: "Inventávamos que estradas entre as estrelas. As histórias suas companheiras inseparáveis. podia ver a raiva no seu rosto.

o estudioso inglês Clive Bell reuniu em Civilization. O que pereceu a outros uma forma de capitulação não era senão a certeza de que a paz interior é para ser vivida. Na simplicidade que adquiriu depois de cansativas batalhas.das três verdades fundamentais que é preciso descobrir na vida. de capitulação e de imobilismo são obsessivas nos que podem ser chamados. O autor de notáveis estudos sobre Cézanne e Proust havia adquirido com o tempo aquela visão serena e profunda. esses outros poucos – que sabem com clareza que a cidade a ser sitiada e tomada é interior e invisível para os demais – ficam em sua pequena casa simbólica. que se atiram de corpo e alma a tarefas mais ou menos inúteis. Enquanto em torno fervilha num mundo habitado por cruzados. executando suas tarefas com prazer e esquecimento de tudo mais.diz ele. e de sua fé nos dons do espírito humano. não para ser ensinada exaustivamente. que desfruta da vida e não pretende converter ninguém nem mudar o mundo à sua volta. a de que aquilo de que gostamos não é necessariamente bom e a de que todas as questões devem permanecer abertas". Uma semeadura feita com amor é suficiente: para isso basta o exemplo. sem as quais não existe a verdadeira liberdade: a de que aquilo em que acreditamos não é necessariamente verdadeiro. para . As acusações de indiferença. "Somente a razão pode convencer-nos . na vida que lhes coube.O que melhor do que aprendeu ao longo de uma vida em critico de arte e observou a beleza e a realidade. Bell fala com singeleza do seu ceticismo a respeito de absolutos.

Clive Bell fala. que ditam essa interpretação. passando de um instante a outro e sofrendo modificações infinitas.efeito de compreensão. mas não entendemos. procurando para eles um sentido claríssimo (leia-se familiar). Os espíritos emparedados racionalista conhecimento é um fechamento sucessivo de questões.São sua fraqueza e sua insegurança. exatamente porque formar um juízo rígido é uma forma de ignorar o movimento permanente de todas as coisas. as mais das vezes. Apesar disso. justamente. A colocação de todos esses termos numa ordem de simétrica. uma seqüência de portas que se cerram para sempre. Formar cadeias de certezas que acabam prevendo as situações e enquadrando a realidade é organizar uma grande mentira. único modo de ter acesso ao amor num meio que nos empurra para longe dele todo o tempo. como outros também falaram. de um conhecimento que não encerra o assunto. Ter certeza é necessário. de "mundanos". . Essas idéias assustam a maioria das pessoas. que vêem nisso "um relativismo sem convicções". desencadeia o caos ou fabrica uma espécie rotina mental. Ver o "outro lado" das questões é qualquer coisa como escrever na superfície da água. Temos uma visão completa do problema. um encerramento de inquéritos sobre a vida. do contrário. que raramente percebemos. podemos cultivar essa virtude. e logo ela já não pode ser usada pela memória para algum fim prático. na certeza pelos motivos que todos pensam que o sabem e pelos outros. Essa é talvez a aparência. Um computador é capaz de montar uma realidade "paralela". que compreendemos.

O que a memória e seus circuitos (humanos ou cibernéticos) não pode fazer é a percepção do "outro lado".encerra-se essa coisa numa Bell redoma. nisso – ou pelo menos não há nisso é nada do que comumente designam como transcendente. títulos. Não há nada transcendental questão está integral. sem o parti pris e a descriminação da consciência. não conclusões finais e acabadas. tanto pior para a nossa Os veredictos são negar a validade de todas as regras. Os sentidos não opinam. mas na verdade absurda necessário muito com e fantasiosa. constatam. da alma das coisas. Quando se diz para que serve algo – e só se diz isso . conhecemos. O conhecimento acumulativo pelo homem. preferindo conhecê-la diretamente. quando mergulhamos naquilo que observamos. sintomas. Os pensamentos conclusivos são como sentenças sem apelação. Num instante inspirado. . da empatia. teorias. Se necessidade doentia de segurança. instante a instante. A centrada como vemos as coisas: se ela o objeto visto dispensa conceitos.lógica e real. Quando a observação é perfeita. tornando-se bastante eloqüente em sua existência. sejam elas de ouro ou não. do todo referente a certo assunto. o inglês Clive foi levado a dizer que a regra de ouro neste mundo é isso nos deixa inseguros. e se parece em determinadas certas habilidades circunstâncias – pode ser reproduzido por máquinas feitas humanas. As questões permanecem abertas quando recusamos dar um veredictum a propósito de alguma coisa.

e que morre sempre que se deseja prendê-lo na gaiola de alguma idéia. a fé no arbítrio. Os dogmas. as ideologias. Logo ele. A ARTE DE DESAPRENDER.Os problemas que mais doem na carne do homem são derivados. a crença na fórmula. a disciplina cega são tentativas de ordenar o mundo de acordo com fórmulas diferentes. e que produziu esse mundo aonde a quantidade vai alternando aos poucos a qualidade. Foi essa fome de certeza que gerou tanta fantasia. A ordem que nos falta no espírito queremos criar do lado de fora. da busca constante do definitivo. . o amor da armadura dentro da qual deve ser metido à força o homem. o vício da palavra final. mas sempre tentativas naquela direção. Daí o hábito da imposição. do absoluto. do conclusivo. hoje como ontem. em quem mal cabe um espírito que não nasceu para ser modelado. no mundo exterior.

mais do que em qualquer outra época. mesmo num meio ambiente selvagem ou agressivo. O conhecimento prático do mundo objetivo. versando o tema. dados e sensações. reverência. no entanto. Um pouco além dos dicionários e do senso comum. da experiência ou da advertência. compõe um conjunto cérebro é bastante de informações sem o qual a vida é impossível. há mais alguma aproveitamento adquirimos. O que significa essa realidade que se chama aprender.designa coisas diferentes pelo mesmo nome. memórias. Ultrapassados esses obstáculos. dos lugares que conhecemos e que visitamos. Depois porque a terminologia a ele referente é complexa. talvez o resto seja surpreendentemente simples. essa coisa de que tantos falam e sobre a qual tão pouco se sabe? Os dicionários informam que aprender é tornar-se capaz de alguma coisa em conseqüência do estudo. A fisiologia do competente para proporcionar uma relativa segurança ao homem. Há Primeiro porque que coisa do teorias. dos perigos que nos ameaçam e das necessidades do corpo. ou dá vários nomes para as mesmas coisas. variada e – o que é muito pior . do aprendizado e do conhecimento. há livros. da observação. e que se relaciona com a utilização ou o fazemos dificuldades na abordagem desse assunto. no ato de aprender que conhecimento correntes que demais pode ser descoberta. A memória da língua. imagens. não há como negar é indispensável.Por toda parte ao redor do mundo existe hoje. interesse e preocupação com os temas do ensino. através do armazenamento de lembranças. Os dados que usamos para garantir .

Nos seus contatos com o mundo. Esse dispositivo extraordinário tem pretensões muito aspirando à perfeição e à eternidade. que une que está continuidade eficientemente produzindo fenômenos isolados ou.para agir e reagir. separando o naturalmente associado. modificar. usando o resultado disso nem . mas remotamente sábia. arquivar e utilizar novamente. o núcleo que conhecemos como eu é basicamente superficial. modificando o quanto for necessário. as conclusões . de tecendo enredos. utilizar. atua eficazmente no sentido de eliminar o que não coincide com a "imagem" que criou de si mesma e do mundo.as idéias. ao contrário. os sentimentos. O homo sapiens dispõe da máquina sofisticada da mente condicionada. sendo conflitos internos que derivam para infelizmente bastante imperfeito e de existência fugaz. ruidoso. Modelamos a experiência da realidade de acordo com nossos medos e desejos. medo. ódio. Esse é um dos seus atributos. sutil. angústia. podem ser utilizados "artificialmente". tornou-se um círculo que abarca perceber. para reforçar conclusões convenientes. violência. acumular. predominantemente imatura. porém.mas tece com habilidade um . peculiares. mas não é o único. contraditório e fútil . para fugir ao vazio e à dor. Aprender devia ser uma sucessão de perceber e arquivar. Essas contradições geram tristeza. A máquina da mente. para fabricar ilusões agradáveis. Atua também fabricando uma aparência sentido. Não se sabe por que nem como. sem dúvida esperta. para criar mitos e idéias gratificantes. neurose.nossa sobrevivência. ardilosa. tal como ela existe mas hoje.

Um homem informado possui em psicológico. e um outro. Se deparamos com uma situação "inconveniente". ante os quais psicossocial aos conhecimentos.ou quase todo – em que estamos vivos. entulho fácil de comprimir. acatamos (sem examinar) noções e conceitos. aprendizado necessário à sobrevivência. Há Os uma dados utilíssimos e uma grande soma de inutilidades para uso manter onde conhecimentos têm o seu meio respeitabilidade inerente peso particular. anteriormente aceito e incorporado ao nosso eu. ouvimos respeitosos as conclusões. para criar e seu arquivo mental ilusões. o que ilusões. repudiamos despreocupadamente. em que alguma coisa nos obriga a pensar ou observar mais seriamente. trazemos do nosso . o que contesta nossas nossas bem estruturadas desafia crenças. nos curvamos reverentes – embora não atentos. irradia do isto é. que cria um mundo paralelo sem correspondência na realidade e que serve para mascarar o que assusta e desagrada o ego. então. o prestigio que surgiu. de forma a parecer duradouro no tempo e eficaz no espaço. tornou-se um método de aumentar o arsenal de quinquilharias que utilizamos na confecção das ilusões que tecemos todo o tempo . Se discordamos. Acreditamos nos enunciados.continuum para si mesmo. é porque fizemos uma aceitação prévia e queremos defender o nosso argumento. Precisamente por essa razão preferimos sucata. O aprendizado. material de segunda ordem. que identifica e seleciona. O que exige atenção verdadeira. O que a mente conhece como tem dois aspectos diferentes: o prático.

com interesse real e tranqüilidade. assim. que Não se trata de apagar da com nela está. Cultivamos. Nos pode haver impressiona livros. O que é mais profundo e ligado à estrutura fica imune a qualquer contágio e praticamente não tem qualquer contato com um mundo onde tudo é rigorosamente filtrado pelo eu . barulhentos. mas essas porções não servem senão como divertimento para a mente condicionada que controla tudo. Apenas agora esse fato não o que é verdadeiro e com teorias e o que é falso. excitam uma faixa muito superficial da mente. Tudo o que já se disse sobre o uso. Ou simplesmente ficamos com sono. as correntes. pelo homem.imenso fichário subterrâneo entretenimentos coloridos. toda e qualquer esperança de regeneração do homem. os dogmas. Não há nada religioso. as teorias. no sentido tradicional. e dá maior importância a um minuto de prazer ou de vaidade. mas de compreender intensidade. com raras e anônimas exceções. um gadget feito especialmente para imitar a realidade.a consciência e a inconsciência individuais. nas muito da mais como antigamente. do que é . do que ao universo e ao infinito. um brinquedo engenhoso. fascinantes. através de toda a nossa existência. não para reproduzi-la ou mostrá-la aos nossos sentidos. Desaprender memória o é necessário. nessa recuperação para a realidade. Fora do círculo rígido mantido pela máquina em funcionamento está. nas nos tratados realidade. ou quase tudo. quando sequer existe. Os livros. uma vez que nos acostumamos com idéias. de apenas uma décima parte do potencial de seu cérebro é verdade.

crescer e frutificar. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original. pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. é a perda de si mesmo. o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. conhecimento. de maneira totalmente gratuita. decerto do modo. Desaprender é descondicionar. a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância.e para via do que fim – esse caleidoscópio que. cada um de nós em particular . A generosidade e a humildade é a marca da distribuição. somos nós mesmos. A perda dessas ilusões é aquilo mesmo que alguns homens chamaram de "pequena morte". São muitos os truques e sutilezas usadas pelo eu por nós mesmos. Se quiser outros títulos nos procure : http://groups. Entender o mecanismo aprendizado é morrer para o palavrório intelectualizado que aprisiona o homem no universo verbal das convenções. O caminho para isso é a arte de Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar.feito pela .para continuar exatamente onde está. a queda desaprender. alongando-se no tempo e afirmando-se no espaço. Dessa forma. será um . prazer recebê-lo em nosso grupo.com/group/Viciados_em_Livros. portanto distribua este livro livremente. do grão na terra único modo de renascer.google.

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