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A FORMAÇÃO DO SUJEITO-EDUCANDO: O PODER DA RELAÇÃO ENTRE A

MÍDIA E O DISCURSO

Diana de Jesus Ribeiro


Faculdade de Tecnologias e Ciências- FTC/EAD/ISEO
Jocenildes Zacarias Santos
Universidade do Estado da Bahia- UNEB
Faculdade de Tecnologias e Ciências- FTC/EAD
Núcleo de Tecnologias Educacionais- NTE

Eixo Temático: Leitura e escrita na escola: tecnologias possíveis.

RESUMO

Historicamente a língua sofreu várias mudanças em todas as modalidades.. O crescimento das


mídias contribuiu significativamente para esta realidade; proporcionando novas formas de
comunicação.O contexto de mudanças pelo qual a educação vem passando impõe uma
reflexão mais profunda sobre a linguagem e a mídia. Esses três aspectos são basilares para a
compreensão do processo educacional e do imbricamento com as Tecnologias da Informação
e Comunicação (TIC). As tecnologias estão cada vez mais presentes dentro da sociedade,
instaurando novas formas de interação dos sujeitos com o social e possibilitando a construção
de diferentes aprendizagens. Os conhecimentos produzidos nas comunidades da internet
pressupõem a existência de um espaço comunicacional responsável pelo rompimento de
fronteiras e distâncias temporais e educacionais, construindo novas linguagens e
determinando novas relações. Por meio da linguagem o homem determina sua ocupação na
sociedade e as relações econômicas e sociais são estruturadas e fundamentadas na
interpretação que se constitui a partir desta ocupação. A linguagem pode ser caracterizada
como um elemento de poder, visto que, na sociedade, poucas pessoas têm acesso à
escolarização e a interpretação da realidade em uma dimensão crítica, política e reflexiva. A
comunicação por meio dos sentidos reestrutura a sociedade e legitima a autoridade nas
comunidades. Assim, o presente artigo apresenta uma reflexão sobre a influência da mídia na
formação do sujeito a partir do diálogo entre autores como Gnerre (1994), Orlandi (2005),
dentre outros.

Palavras-Chave: Linguagem, Tecnologias, Mídias.

Introdução

As Tecnologias estão cada vez mais presentes na sociedade. O homem a partir da


interação com os elementos tecnológicos, no cotidiano, constrói a realidade comunicacional,
instaura novos conhecimentos e reescreve a sua história a partir das diversas potencialidades
que as Tecnologias de Comunicação e Informação-TIC apresentam nesta sociedade
informacional.
As TIC estão possibilitando algumas modificações com relação à educação e à
aprendizagem. O que pode ser aprendido não é mais previamente planejado, nem
precisamente definido. Os percursos da prática pedagógica e os perfis de competência estão se
formando cada vez mais de maneira coletiva, e,cada vez menos, surge a possibilidade de
canalizar em programas ou currículos que sejam válidos para todo o mundo.
Considera-se de fundamental importância compreender as diferentes formas de
articulação entre o processo educacional, o currículo e as tecnologias, visto que as práticas
pedagógicas existentes ainda não conseguem concretizar a relação teoria-prática, instituindo a
práxis educacional.
Assim, ao analisar os processos de interação e interatividade que constitui a práxis
educacional, acabamos por construir novos processos de aprendizagem que viabilizarão na
relação educador-educando, educando-educando e educando-conhecimento.

A influência do discurso midiático na formação do sujeito-educando

Estudar a língua como sistema de signos, como sistema de regras formais, como
norma do bem dizer é estar preso aos pensamentos da Lingüística Estruturalista e da
Gramática Normativa. Foi tomando isso como base e buscando novas áreas do conhecimento
científico que a Análise de Discurso - AD surgiu. Essa nova ciência concebe a linguagem
como mediação entre o homem e suas realidades naturais e individuais, sendo essa mediação
o discurso que possibilita a permanência e a continuidade, ou destacamento ou transformação
do homem e da realidade em que vive.
A Análise do Discurso não concebe a língua como sistema de códigos, mas sim como
a linguagem contextualizada, imersa no mundo, com o homem falando, levando em conta as
condições de produção do sentido, a história, os processos e as condições de produção da
linguagem. Essa concepção está diretamente atrelada aos estudos da relação que o sujeito
tem com a língua e como as situações a afetam, ou seja, as condições em que se produz o
dizer, também é cabível assentir que a Análise do Discurso não dissocia a linguagem da
exterioridade.
Para as Ciências Sociais, a ideologia significa ocultação da realidade, contudo a
Análise do Discurso vê a ideologia se materializar no discurso, e a materialização do discurso
é a língua, por isso se estuda/trabalha a relação língua-discurso-ideologia. Nessa relação entra
o sujeito, uma vez que não há discurso sem sujeito e, por sua vez, não há sujeito sem
ideologia, porque esta está na história e o sujeito quando nasce a encontra estruturada e
cristalizada, restando a ele apenas se adequar/enquadrar a ela. Partindo desse ponto,
sinalizamos que é no discurso que observamos a relação entre língua e ideologia e como a
língua produz sentido para o sujeito.
Historicamente, a língua sofreu e continua sofrendo mudanças em sua estrutura, e o
crescimento das mídias contribuiu, de forma significativa, para esta realidade; proporcionando
novas formas de uso dessa ferramenta para comunicação.
Nesse sentido, a linguagem pode ser caracterizada como um elemento de poder, visto
que, na sociedade, poucas pessoas têm acesso à escolarização e à interpretação da realidade
em uma dimensão crítica, política e reflexiva, uma vez que, conforme argumenta Orlandi
(2005), o poder de interpretar é delegado a poucos. Dessa forma, à massa resta aceitar e
executar, o que é caracterizado pela limitação da interpretabilidade. Sabemos que a
comunicação, por meio dos sentidos, reestrutura a sociedade e legitima a autoridade nas
comunidades.
O sujeito entra em contato com o mundo por meio da linguagem, que não existe sem
ideologia e não há discurso sem ideologia. Nesse sentido, a linguagem é, para alguns autores,
o espelho do pensamento humano, uma ferramenta. E o jogo da interpretação crítica do que
nos é apresentado pela mídia transita entre sujeito, ideologia e discurso. Conforme argumenta
Orlandi (2005), o sujeito se constitui pela interpelação que a ideologia faz a ele, que
corresponde a desistoricizacão do sujeito do capitalismo, além disso, é determinado por
condições externas e autonomia, o que implica sujeitos com direitos e deveres.
No entanto, para falar de sujeito e sua relação com o mundo exterior, é necessário
discorrer sobre a diferença entre sujeito e indivíduo. Este é chamado para se travestir de
sujeito, assumir um papel social, ocupar um lugar na sociedade, assumir uma posição e a
partir daí seu dizer estará carregado de ideologia, ele se constituirá pela língua e pela história.
A Ideologia e o inconsciente estão materialmente ligados.” (ORLANDI, 2005, p. 47).
Por esse viés, a ideologia e o inconsciente são estruturas de funcionamentos. Ambos simulam
sua própria existência dentro do próprio funcionamento. Ela coloca o homem na relação
imaginária com as próprias condições materiais de existência do sujeito, dessa forma, produz
duas evidências: a do sentido e a do sujeito.
Nesse sentido, é por meio da linguagem que o homem determina sua ocupação na
sociedade e as relações econômicas e sociais são estruturadas e fundamentadas na
interpretação que se constitui a partir desta ocupação. Assim,

A linguagem não é usada somente para veicular informações, isto é, a


função referencial denotativa da linguagem não é senão uma entre outras;
entre estas ocupa uma posição central a função de comunicar ao ouvinte a
posição que o falante ocupa de fato ou acha que ocupa na sociedade em que
vive. As pessoas falam para serem “ouvidas”, às vezes para serem
respeitadas e também para exercer uma influência no ambiente em que
realizam os atos lingüísticos. O poder da palavra é o poder de mobilizar a
autoridade acumulada pelo falante e concentrá-la num ato lingüístico.
(BOURDIEU, 1977 apud GNERRE,1998, p. 6).

Assim, a comunicação entre as pessoas é construída a partir do referencial político,


histórico e social na qual estão inseridas. A linguagem assume, dessa forma, o papel de
determinar a sociedade, impondo-se e sendo imposta ao mesmo tempo, representando a
expressão do pensamento humano. Então, compreendemos que as diferentes formas de
expressão do pensamento humano são consideradas formas de comunicação. Nesse contexto,
as mídias como instrumentos comunicacionais são recursos a serviço da expressão de
diferentes culturas, que se utilizam delas para veicular informações e formar comunidades de
aprendizagem, porém é válido ressaltar que a linguagem das mídias exerce poder sobre o
pensamento e as ações dos sujeitos sociais.
Essa ação é consciente, porque as formas de governo existentes reconhecem na
linguagem midiática uma nova fonte de poder e as suas verdadeiras potencialidades. Isso
constitui um risco para o próprio sistema político-econômico, que sempre objetivou uma
manutenção de classes na sociedade. Assim,

A partir de uma determinada tradição cultural, foi extraída e definida uma


variedade lingüística usada, como já dissemos, em grupos de poder, e tal
variedade foi reproposta como algo de central na identidade nacional,
enquanto portadora de uma tradição e de uma cultura. Assim como o Estado
e o poder são representados como entidades superiores e “neutras”, também
o código aceito “oficialmente” pelo poder é apontado como neutro e
superior, e todos os cidadãos têm que produzi-lo e entendê-los nas relações
com o poder [...] (GNERRE, 1998, p.8-9)

Nesse contexto, refletimos sobre a linguagem da televisão, sendo esta para a sociedade
um recurso que possibilita as pessoas a se relacionarem com o mundo. A cada troca de canal,
nos telejornais, as notícias são apresentadas e o sentimento de estar perto/longe é minimizado
pelas imagens e pelos sons. Saber das notícias de outros espaços do mundo e, ao mesmo
tempo, poder visualizar a moda, os costumes, a sociedade de maneira geral, são sonhos de
consumo de grande parte da população.
Atualmente, a TV ainda se mantém como um recurso tecnológico mais acessível à
população. Nota-se que em lugares onde a pobreza se apresenta, há como único bem familiar
a televisão. Essa realidade revela que, historicamente, a TV assumiu seu papel de
entretenimento e socialização de informações para uma grande parte da população. Vale
ressaltar que também sabemos da grande parte da população que em estado de pobreza não
possuem condições para adquirir tal recurso.
A televisão, na contemporaneidade, tem uma função determinante nos modos e
costumes sociais; as propagandas são recursos de venda de produtos para um consumo
exacerbado, porém, em contrapartida, assistimos diariamente as causas e conseqüências desse
consumo. Logo, podemos compreender que a TV assume um duplo papel na sociedade, isso
porque, ao mesmo tempo em que ela informa, “forma” e “deforma” os sujeitos que a assistem.
A “forma” explicita o fato de a televisão delimitar e predeterminar regras para a
convivência social, como também de ela transgredir essas regras e criar uma realidade “irreal”
da própria sociedade.
No que diz respeito ao consumo, à moda, aos bens materiais e às relações de poder se
intensificam. Nesse sentido, questionamos: mas a televisão não é feita por sujeitos da
sociedade? Por que então a mantemos assim? Esta reflexão nos remete à compreensão de que,
enquanto humanos, somos determinantes e determinados. Essa necessidade de um padrão a
ser seguido, de uma organização utópica, nos remete à tomada de consciência sobre a
importância de ter algo que sustente as nossas convicções, sejam elas positivas ou negativas.
Assim, transferimos para alguns recursos materiais além de outros, porém aqui mais
especificamente a TV, a concretização dessas convicções.
Buscamos um suporte teórico nas concepções de interpretação que se referem à
questão de não limitação, que extrapola, trabalha seus limites, seus mecanismos como parte
do processo de significação, não procura um único sentido, nem um sentido verdadeiro,
distinguindo-se da hermenêutica (interpretação dos sentidos das palavras), pois concebe a
interpretação como um dos passos para a compreensão e para a construção do sentido. E
assim, cabe-nos interpelar: como se relaciona a interpretação crítica do mundo midiático e a
formação do sujeito-educando?
A Análise do Discurso tem o cunho de fazer compreender como os objetos simbólicos
produzem sentido. Elencando três grupos: a inteligibilidade, que refere o sentido à língua; a
interpretabilidade, que visa ao sentido pensando o co-texto, as outras frases do texto e o
contexto imediato; e a compreensibilidade, que significa ter ciência de como a interpretação
funciona, pois quando interpretamos já estamos presos a sentidos previamente estabelecidos,
assim a compreensão procura a explicitação do processo de significação, bem como um
objeto simbólico produz sentido. Dessa forma, tece Orlandi (2005, p. 31) que “[...] a memória
e as circunstâncias mostram que os sentidos não estão só nas palavras, nos textos, mas na
relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos e que não dependem
só da intenção do sujeito”.
Os sujeitos, a situação e a memória fazem parte das condições de produção do
discurso. Sabemos que a circunstância da enunciação é o contexto ou o referente. Isso no
sentido estrito das condições de produção, mas se considerarmos o sentido amplo, as
condições de produção levarão em conta o contexto sócio-histórico ideológico.
Na acepção de Eni Orlandi (2005), os dizeres não são em si só mensagens que devem
ser decodificadas, elas são produzidas sob determinadas condições e carregam em seu bojo
sentidos que têm a ver com o dito e o não dito.
Por outro lado, não se pode perder de vista que as mídias também possibilitam um
transcender do mundo real ao mundo imaginário. Quantas vezes interagimos com as cenas
dos filmes, das novelas, nos afligimos e sentimos prazer com uma partida de futebol? Quando
interagimos em sites que apresentam imagens, sons, movimentos? É sinal de que a linguagem
expressada permite incorporar os sujeitos no seu imaginário. A sensação de poder sair do real
para um mundo de sonhos que envolvem som e imagem cria, em alguns momentos, nos
sujeitos o desejo de estar e conviver no mundo que se apresenta.
Tem-se também como ponto para a nossa reflexão o fato de as mídias, atualmente,
incorporar nas suas programações reportagens e documentários sobre os problemas sociais
existentes. Essa possibilidade ajuda a ampliar as discussões que envolvem questões
subjacentes à convivência dentro da própria sociedade.
Essas reflexões servem para compreender sobre a utilização da linguagem e das mídias
como meio de interação dos sujeitos com o mundo. Porém, não se pode perde de vista que,
enquanto recurso tecnológico, linguagem e mídias, por si só, não possuem poder para
determinar os problemas sociais, mas o uso que se faz delas, pelos sujeitos que as manipulam
ou utilizam, podem sim beneficiar ou destruir uma sociedade.
Quando concebida enquanto um instrumento de formação para a cidadania, amplia a
capacidade de informação, acreditando nas potencialidades que ela apresenta e na proposição
da mesma em poder ajudar na reconstrução da educação no mundo plural. Esta realidade
tende a objetivar a criação de espaços de cultura que são socializados pela TV, computador,
rádio, jornal e ao mesmo tempo reconstruídos a partir das imagens e informações que ela
apresenta.
Os espaços culturais são redesenhados numa concepção de reconhecimento dos
sujeitos históricos, políticos e sociais. Partem da realidade para a superação dos problemas e
necessidades que acabam por definir a cultura da supremacia das raças, das etnias, do poder,
do capitalismo, da violência, do ter sobre o ser.
Podemos compreender que, a linguagem televisiva é uma comunicação sinestésica,
mexe com todos os sentidos dos sujeitos que estão assistindo. O aspecto de a imagem
provocar uma visualização mais próxima do telespectador, bem como a elaboração das cenas,
das falas, dos sons, acabam por envolver a pessoa e integrar-se a ela em uma relação de
provocação de emoções.

A eficácia de comunicação dos meios eletrônicos, em particular da


televisão, deve-se à capacidade de articulação, de superposição e de
combinação de linguagens totalmente diferentes – imagens, falas, música,
escrita – com narrativa fluida, uma lógica pouco delimitada, gêneros,
conteúdos e limites éticos pouco precisos, o que lhe permite alto grau de
ambigüidade, de interferências por parte de concessionários, produtores e
consumidores (MORAN et al. 2000, p.35).

Neste sentido, a comunicação se apresenta como elemento aberto para diversas


interpretações; cada pessoa interage com uma informação e a reinterpreta dando seu olhar
próprio.
A Análise de Discurso se apresenta como uma ciência que problematiza “as maneiras
de ler”, leva o sujeito falante e ouvinte a discutir o que produzem e o que ouvem, a ver que os
sujeitos estão presos à linguagem e a tudo que a ela pertence e a perceber que a neutralidade
da linguagem e do sujeito é uma ilusão. Além de tudo nos permite assentir que devemos ter
“[...] uma relação menos ingênua com a linguagem” (ORLANDI, 2005, p. 9).

As TIC como instrumento de formação do educando e de uso da linguagem


Além da tecnologia, o que facilita o processo de ensino-aprendizagem é a capacidade
de comunicação autêntica do professor de estabelecer relações de confiança com os seus
alunos, pelo equilíbrio, pela competência e pela simpatia com que atua (RAMAL, 2002).
O uso das mídias na sala de aula transcende a prática metodológica do ensinar e
reproduzir. Elas possibilitam mudanças na forma de aprender, na maneira de conceber o
conhecimento; alterando a forma de pensar, para uma lógica mais interativa. “Dessa forma, o
que está em jogo é a criação de novas maneiras de (re)educar as pessoas para lidar, não
exatamente com o aparato tecnológico, mas com as informações advindas desse novo tipo de
saber propiciadas por ele”. (OLIVEIRA, 2003, p.33) Contudo, se o educador não perceber a
necessidade de mudança frente a essa lógica interativa, corre o risco de continuar repetindo o
mesmo ensino tradicional de antes, subutilizando as tecnologias.
Em sendo assim, nos direcionaremos para a idéia apresentada pela Análise do
Discurso de que toda vez que falamos, interpretamos, não somos livres para interpretar da
forma que queremos, pois, de alguma maneira, os sentidos parecem que já estão construídos,
cristalizados, apesar de haver imprevisibilidade na relação do sujeito com o sentido, da
linguagem com o mundo, bem como de toda formação social. Nossas interpretações estão
condicionadas, porque, segundo Orlandi (2005, p. 10), há diversas formas de se controlar a
interpretação, que são determinados pela história. Assim, “[...] há modos de interpretar, não é
todo mundo que pode interpretar de acordo com sua vontade, há especialistas, há um corpo
social a quem se delegam poderes de interpretar”, ou seja, atribuir sentido ao discurso
enunciado. Em síntese, os sentidos são administrados; não há sentido solto.
Nesse sentido, o discurso é, na acepção de Orlandi (2005, p. 10), “[...] movimento dos
sentidos, errância dos sujeitos, lugares provisórios de conjunção e dispersão, de unidade e de
diversidade, de indistinção, de incerteza, de trajetos, de ancoragem e de vestígios: isto é
discurso”. Com base nesse trecho, nos é permitido dar uma atenção maior à expressão “lugar
provisório”, do qual podemos conjecturar: se dissermos que o discurso é o lugar provisório de
unidade e de diversidade, assentiremos, dessa forma, que o discurso está sempre em
movimento, é uma ação dinâmica. Como Orlandi bem sinaliza, o discurso é o movimento dos
sentidos, podemos também pensar que os sentidos são provisórios, pois se há movimento, há
mudança. Essa é uma lei da física que se aplica aos estudos dos discursos.
As mídias e as ferramentas síncronas e assíncronas como chat, videoconferência,
software de mensagens instantâneas - MSN,, lista de discussão, blogs e fóruns, dentre outros;
embora possam ser usadas para possibilitar uma maior interatividade e participação entre os
indivíduos, permitindo o exercício da autoria, da criatividade coletiva, não é garantia de
mudança da perspectiva educacional. Esse movimento de mudança passa a exigir conexões,
parcerias, trabalho conjunto e inter-relações, para dar conta do dinamismo, da rapidez que o
uso das TIC exige. Daí a necessidade de uma compreensão de mundo, emergindo uma
inteligência coletiva que contemple a colaboração, a participação, as diferenças entre os
sujeitos, para uma maior interatividade entre eles, que só pode ser garantida no uso das
ferramentas pela ação dos sujeitos envolvidos no processo.
A probabilidade de interação entre as pessoas, sem a necessidade da presença física,
proporcionada pelas TIC, ampliou as possibilidades de desenvolver novos processos de
ensino-aprendizagem, de construir novas linguagens comunicacionais e de vencer os limites
do tempo e do espaço que vivenciamos na educação presencial, levando-nos a projetar
processos educativos com características inovadoras e capazes de ultrapassar os limites
geográficos da cidade, do bairro ou da sala de aula, podendo interagir com um número
ilimitado de pessoas, mesmo estando em diferentes lugares ao mesmo tempo.
A construção que se dá por meio do contato direto com materiais textuais,
possibilitando a construção de significados e da linguagem, requer do estudante o desejo pelo
novo a ser descoberto. Esse desejo se dá através do outro, pelo prazer de comunicar-se, criar e
interagir com o mundo. A cada elaboração do pensamento para decodificar os símbolos
(palavras) que aparecem nos textos, se organizam idéias, reorganizam e criam seus próprios
meios para atingir o seu objetivo, que, no caso, é compreender os conceitos e dar significado,
gerando novos conhecimentos e construindo a linguagem.
Ainda nesse espaço de contradições, que, de certa forma, é necessário existir para
garantir a transformação da sociedade, bem como a existência da dialética social, algumas
escolas tentam desenvolver um trabalho utilizando a internet como espaço de construção
coletiva do conhecimento, evitando a polarização econômica e social que, conseqüentemente,
gera o empobrecimento intelectual da população. Os professores que desenvolvem este
trabalho acreditam que este imbricamento sujeito/rede possibilita o multidiálogo, as
discussões são mais inclusivas, não havendo uma relação de excluídos, em que cada sujeito
coloca-se na linha de frente sem manter suas características reprimidas, numa inter-relação de
comunidades. Observa-se que:

[...] a comunidade atribui a si própria, explicitamente, como objetivo a


negociação permanente da ordem das coisas, da sua linguagem, do papel de
cada um, a identificação e a definição dos seus objetos, a re-interpretação da
sua memória. Nada é imutável, mas isso não significa a existência da
desordem ou do relativismo absoluto, pois os atos são coordenados e
avaliados em tempo real [...] (LÈVY, 1994, p.42).

A linguagem nessa relação se constitui hibridizada e democrática. Há autorias, um


encontro de saberes que, em uma desordem organizada, se estabelece sem a necessidade de
um currículo ou disciplinas estruturadas de forma hierárquica. O espaço da web se constitui
em comunidades democráticas, podendo fazer parte dessas comunidades, sujeitos de diversas
culturas, raças, religiões e sociedades. Várias linguagens comunicam-se construindo redes de
conhecimentos.
Aparentemente, o texto visual (a propaganda, o desenho animado, os
quadrinhos, o filme, a fotografia, a telenovela etc.) já oferece uma forma
mais completa da construção mental. Entretanto, sob essa camada de
significados imediatamente perceptíveis, há muitas outras ligadas ao mundo
das idéias, dos comportamentos, das crenças, dos conceitos, das ideologias,
que é necessário “ler”: compreender, interpretar, [...] São habilidades
relacionadas à observação, à atenção, à memória [...] Elas nos permitem
perceber como os elementos da linguagem visual foram organizados:
formas, linhas, cores, luzes [...] E perceber também como esses elementos
estão associadas a outros, como músicas, as idéias, a história, a realidade,
por exemplo. (GARCEZ, 2008)

Assim como é importante tratar da formação para autoria na rede, também se torna
válido analisar sobre a construção da linguagem por meio das mídias. As leituras produzidas
pelo estudante, ao manter contato com as imagens e sons apresentados, possibilitam o seu
desenvolvimento cognitivo, pois, essa interpretação que se constrói a partir da identificação
do educando com as diferentes linguagens, cria no imaginário novas representações.
Embora se observe que o sujeito que está à frente da tela da TV ou do computador
esteja exposto a uma condição passiva, o seu pensamento está em constantes reformulações,
isso porque a própria estrutura de elaboração dos programas do computador e dos filmes
objetiva envolver o educando no mundo às vezes real ou fictício. Sendo assim,

Diante dessa evidência, a escola não pode continuar restrita ao texto


verbal escrito, embora ele seja imprescindível. É urgente que a
imagem pertença ao contexto escolar, não apenas para que esse
ambiente seja mais coerente como cotidiano do aluno, mas também
para educá-lo para a leitura crítica das imagens (GARCEZ, 2005,
p.107).

A autoria e co-autoria se apresentam, quando o estudante cria a partir da sua leitura de


mundo e do programa ou filme uma nova definição acerca do que está sendo apresentado; esta
construção não se dá única e exclusivamente por parte do próprio sujeito, mas, a partir do
diálogo em que ele (o pensamento) faz com a imagem apresentada. Essa releitura vai
potencializá-lo à construção de novas co-autorias. Assim, podemos perceber que na relação
autor e co-autor há um imbricamento, não podendo ser analisados de formas distintas.
Naturalmente, a autoria se complementa na co-autoria; na qual o sujeito individual torna-se
uma extensão da coletividade.

Considerações Finais
As mídias tornam-se elementos que podem contribuir para a formação de redes
coletivas de conhecimento por meio da mediação pedagógica que possibilita uma
sistematização das informações e redefinição dos conteúdos apresentados. A elaboração de
algumas estratégias de aprendizagem que objetive ao sujeito analisar a informação veiculada e
depois socializar com o grupo os conhecimentos por meio do debate crítico determina a
formação do autor e co-autor num diálogo próprio e baseado na realidade existente. Isso
ocorre devido à relação que o telespectador constrói com a imagem apresentada, a qual
determina uma construção mental única, porém dependente das diferentes construções já
elaboradas previamente pela equipe de produção do programa ou filme. O pensar coletivo em
rede não é perceptível fisicamente, mas, existente numa invisibilidade que contribui para dar
sentido e significado ao conhecimento construído.
Garcez (2005) aponta um fator de importante relevância no desenvolvimento da
linguagem: a possibilidade de estar na sala de aula criando estratégias de aprendizagens que
resgate ou até promovam o desenvolvimento de habilidades especificamente imperceptíveis
por nós, mas que possam se ampliar a partir da interatividade entre o estudante e os programas
e filmes apresentados pelas mídias.
Portanto, o sujeito autor/co-autor sabe se apropriar das informações, (re) significá-las e
construir novos conceitos e definições. Para tanto, é importante que a escola trabalhe tomando
por base uma concepção de aprendizagem que vise à formação do sujeito aprendente, bem
como à formação de uma aprendizagem colaborativa e interativa.
Assim, a interação na rede e pela televisão e DVD podem possibilitar ser autor/co-
autor do conhecimento, avançar no desenvolvimento da linguagem, pondo em prática as
próprias conceitualizações, num confronto real e permanente com os textos apresentados e
sujeitos que interagem. promovem-se interconexões que resultam em aprendizagens
significativas, porque respondem às necessidades surgidas durante o processo de troca de
conhecimento.

Referências
GARCEZ, Lucília Helena do Carmo. A televisão e o vídeo na escola:
a leitura da imagem. 2008 disponível em:
http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2002/tedh/tedhtxt3b.htm. Acesso em 30 jun. 2008.
GNERRE, Maurizio. Linguagem, escrita e poder. 4 ed. São Paulo, Martins Fontes,1998.
LÉVY, Pierre. A Inteligência coletiva. São Paulo: Loyola, 1994.
MATUI, Jiron. Construtivismo: teoria sócio-histórica aplicada ao ensino. São Paulo:
Moderna, 1996.
MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos T. e BEHRENS, Marilda Aparecida. Projetos de
Aprendizagem Colaborativa num paradigma emergente. In: Idem. Novas Tecnologias e
Mediação Pedagógica. 7 ed. Campinas: Papirus, 2000.
OLIVEIRA, Jeferson Bernado de . Francis Bacon e a fundamentação da ciência como
técnica. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. 6 ed.
Campinas, SP: Pontes, 2005
HAK, Tony. (orgs). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de
Michel Pêcheux. Tradução: Bethânia S. Mariane. 3 ed. São Paulo: Editora da UNICAMP,
1997. (p. 61-105)
RAMAL, Andrea Cecilia. Educação na cibercultura: hipertextualidade, leitura, escrita e
aprendizagem. Porto Alegre. Artemed, 2002.

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