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Educação do Campo

Pinto, A. V. Sete lições sobre educação de adultos. 6. ed. São Paulo: Cortez; Campinas:
Autores Associados, 1989. (Educação Contemporânea).
Stedile, J. P. A Reforma Agrária e a luta do MST. Petrópolis: Vozes, 1997.
Vargas, M. C. Uma história em construção: EJA no campo. In: TV Escola, E
Salto para o Futuro. Educação de Jovens e Adultos: continuar... e aprender por
toda a vida. Boletim, 20-29 set. 2004. Disponível em: http://www.cereja.org.br/
arquivos_upload/saltofuturo_eja_set2004_progr4.pdf. Acesso em: 23 ago. 2011.

Educação do campo
Roseli Salete Caldart

A Educação do Campo nomeia um cretas e na forma de construir políticas


fenômeno da realidade brasileira atual, prota- de educação.
gonizado pelos trabalhadores do cam- Segundo Williams, “sempre é difí-
po e suas organizações, que visa incidir cil datar uma experiência datando um
sobre a política de educação desde os conceito, porém, quando aparece uma
interesses sociais das comunidades cam- palavra – seja uma nova ou um novo
ponesas. Objetivo e sujeitos a remetem sentido de uma palavra já existente –,
às questões do trabalho, da cultura, do alcança-se uma etapa específica, a mais
conhecimento e das lutas sociais dos próxima possível de uma consciência
camponeses e ao embate (de classe) en- de mudança” (2003, p. 80). Este texto
tre projetos de campo e entre lógicas de pretende tratar das principais caracte-
agricultura que têm implicações no pro-
rísticas da prática social que vem produ-
jeto de país e de sociedade e nas con-
zindo o conceito de Educação do Cam-
cepções de política pública, de educação
po, do tipo de “consciência de mudan-
e de formação humana.
ça” que ele materializa ou projeta, e de
Como conceito em construção, a que relações fundamentais constituem
Educação do Campo, sem se descolar seu breve percurso histórico.1
do movimento específico da realidade
O protagonismo dos movimentos
que a produziu, já pode configurar-se
como uma categoria de análise da situação sociais camponeses no batismo originá-
ou de práticas e políticas de educação rio da Educação do Campo nos ajuda
dos trabalhadores do campo, mesmo a puxar o fio de alguns nexos estrutu-
as que se desenvolvem em outros lu- rantes desta “experiência”, e, portanto,
gares e com outras denominações. E, nos ajuda na compreensão do que es-
como análise, é também compreensão sencialmente ela é e na “consciência de
da realidade por vir, a partir de possibili- mudança” que assinala e projeta para
dades ainda não desenvolvidas histori- além dela mesma.
camente, mas indicadas por seus sujei- O surgimento da expressão “Edu-
tos ou pelas transformações em curso cação do Campo” pode ser datado.
em algumas práticas educativas con- Nasceu primeiro como Educação Básica

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Dicionário da Educação do Campo

do Campo no contexto de preparação da a sobrevivência desse trabalho.


I Conferência Nacional por uma Edu- Mas, quando se discutir a edu-
cação Básica do Campo, realizada em cação do campo, se estará tra-
Luziânia, Goiás, de 27 a 30 de julho tando da educação que se volta
1998. Passou a ser chamada Educação ao conjunto dos trabalhadores
do Campo a partir das discussões do Se- e das trabalhadoras do campo,
minário Nacional realizado em Brasília sejam os camponeses, incluindo
de 26 a 29 de novembro 2002, decisão os quilombolas, sejam as nações
posteriormente reafirmada nos debates indígenas, sejam os diversos tipos
da II Conferência Nacional, realizada de assalariados vinculados à vida
em julho de 2004. e ao trabalho no meio rural. Em-
As discussões de preparação da I bora com essa preocupação mais
Conferência iniciaram-se em agosto de ampla, há uma preocupação es-
1997, logo após o I Encontro Nacional pecial com o resgate do conceito
dos Educadores e Educadoras da Re- de camponês. Um conceito histó-
forma Agrária (Enera), realizado pelo rico e político... (Kolling, Nery e
Movimento dos Trabalhadores Rurais Molina, 1999, p. 26)
Sem Terra (MST) em julho daquele
ano, evento em que algumas entidades2 O argumento para mudar o termo
desafiaram o MST a levantar uma dis- Educação Básica do Campo para Edu-
cussão mais ampla sobre a educação no cação do Campo aparece nos debates
meio rural brasileiro. de 2002, realizados no contexto da
aprovação do parecer do Conselho Na-
No mesmo bojo de desafios, surgiu
cional de Educação (CNE) nº 36/2001,
o Programa Nacional de Educação na
relativo às Diretrizes Operacionais
Reforma Agrária (Pronera), instituído
para a Educação Básica nas Escolas do
pelo governo federal em 16 de abril de
Campo (Brasil, 2001) e com a marca de
1998 e que ainda hoje está em vigência,
ampliação dos movimentos campone-
mesmo que sob fortes tensões.3
ses e sindicais envolvidos nessa luta:
Nas discussões de preparação do
documento base da I Conferência,
Temos uma preocupação prio-
concluído em maio de 1998 e debati-
ritária com a escolarização da
do nos encontros estaduais que ante-
população do campo. Mas, para
cederam o evento nacional, estão os
nós, a educação compreende
argumentos do batismo do que repre-
todos os processos sociais de
sentaria um contraponto de forma e
formação das pessoas como
conteúdo ao que no Brasil se denomina
sujeitos de seu próprio destino.
Educação Rural:
Nesse sentido, educação tem
relação com cultura, com valo-
Utilizar-se-á a expressão campo, e res, com jeito de produzir, com
não a mais usual, meio rural, com o formação para o trabalho e para
objetivo de incluir no processo da a participação social. (Kolling,
conferência uma reflexão sobre o Cerioli e Caldart, 2002, p. 19)
sentido atual do trabalho camponês
e das lutas sociais e culturais dos E, no plano da luta por escolas,
grupos que hoje tentam garantir afirmou-se ali que o direito à educação

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Educação do Campo

compreende da educação infantil à uni- constituir diferentes mecanismos para


versidade (ibid., p. 34). impedir a universalização da educação
O esforço feito no momento de escolar básica, mesmo pensada dentro
constituição da Educação do Campo, e
que se estende até hoje, foi de partir das
dos parâmetros das relações sociais ca-
pitalistas (Frigotto, 2010, p. 29)? E
lutas pela transformação da realidade O que no período inicial destes
educacional específica das áreas de Re- debates não estava tão evidente como
forma Agrária, protagonizadas naquele hoje é que o quadro em que esta nova/
período especialmente pelo MST, para velha luta se inseria era o de transição
lutas mais amplas pela educação do de modelos econômicos que implicava
conjunto dos trabalhadores do campo. um rearranjo do papel da agricultura
Para isso, era preciso articular experiên- na economia brasileira. Durante a I
cias históricas de luta e resistência, Conferência Nacional, houve um de-
como as das escolas família agrícola, bate acalorado pela reentrada do cam-
do Movimento de Educação de Base po na agenda nacional, o que acabou
(MEB), das organizações indígenas e acontecendo na década seguinte, mas
quilombolas, do Movimento dos Atin- não pelo polo do trabalho, e sim, pelo
gidos por Barragens (MAB), de organi- polo do capital, materializado no que
zações sindicais, de diferentes comuni- se passou a denominar Agronegócio,
promovendo uma marginalização ainda
dades e escolas rurais, fortalecendo-se
maior da agricultura camponesa e da
a compreensão de que a questão da
Reforma Agrária, ou seja, das questões
educação não se resolve por si mesma
e dos sujeitos originários do movimen-
e nem apenas no âmbito local: não é
to por uma Educação do Campo.
por acaso que são os mesmos traba-
lhadores que estão lutando por terra, A II Conferência Nacional por uma
trabalho e território os que organizam Educação do Campo, realizada em julho
esta luta por educação. Também não é de 2004, com mais de mil participantes
por acaso que se entra no debate sobre representando diferentes organizações
política pública. sociais e também escolas de comunida-
des camponesas, demarcou a amplia-
A realidade que produz a Educação ção dos sujeitos dessa luta. Foram 39
do Campo não é nova, mas ela inau- entidades, incluindo representantes de
gura uma forma de fazer seu enfrenta- órgãos de governo, organizações não
mento. Ao afirmar a luta por políticas governamentais, organizações sindi-
públicas que garantam aos trabalha- cais de trabalhadores rurais e de pro-
dores do campo o direito à educação, fessores, além dos movimentos sociais
especialmente à escola, e a uma educa- camponeses, que assinaram a declara-
ção que seja no e do campo,4 os movi- ção final da conferência. Foi também
mentos sociais interrogam a sociedade nesse momento que aconteceu uma
brasileira: por que em nossa formação explicitação mais forte do contrapon-
social os camponeses não precisam ter to de projetos de campo, distinguindo
acesso à escola e a propalada univer- posições entre as entidades de apoio e
salização da educação básica não in- entre as próprias organizações de tra-
clui os trabalhadores do campo?5 Uma balhadores que passaram a integrar a
interrogação que remete à outra: por Articulação Nacional por uma Educa-
que em nosso país foi possível, afinal, ção do Campo.

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Dicionário da Educação do Campo

O lema formulado na II Conferência no campo, assumindo o compromisso


Nacional, “Educação do Campo: direito coletivo de contraponto ao agronegó-
nosso, dever do Estado!”, expressou o cio e de combate à criminalização dos
entendimento comum possível naquele movimentos sociais (Fórum Nacional
momento: a luta pelo acesso dos traba- de Educação do Campo, 2010, p. 3).
lhadores do campo à educação é espe- Integra esse momento político a con-
cífica, necessária e justa, deve se dar no quista de um decreto da Presidência da
âmbito do espaço público, e o Estado República que dispôs sobre a política
deve ser pressionado para formular de educação do campo e o Programa
políticas que a garantam massivamen- Nacional de Educação na Reforma
te, levando à universalização real e não Agrária (Brasil, 2010), entendido pe-
apenas princípio abstrato. Em meio aos las organizações do fórum como mais
debates, às vezes acirrados, ficou rea- uma ferramenta na pressão para que a
firmada a posição originária de vínculo situação educacional dos trabalhadores
da Educação do Campo com o polo do do campo efetivamente se altere.
trabalho, o que significa assumir o con- As tensões sobre configurar a Edu-
fronto de projetos, e desde os interesses cação do Campo na agenda da ordem
da agricultura camponesa. ou da contraordem aumentam na pro-
De 2004 até hoje, as práticas de edu- porção em que as contradições sociais
cação do campo têm se movido pelas envolvidas na sua origem e no seu des-
contradições do quadro atual, às vezes tino se explicitam com maior força na
mais, às vezes menos conflituoso, das realidade brasileira. Lutar por políticas
relações imbricadas entre campo, edu- públicas parece ser agenda da “or-
cação e políticas públicas. Houve avan- dem”, mas, em uma sociedade de clas-
ços e recuos na disputa do espaço pú- ses como a nossa, quando são políticas
blico e da direção político-pedagógica pressionadas pelo polo do trabalho,
de práticas e programas, assim como na acabam confrontando a lógica de mer-
atuação das diferentes organizações de cado, que precisa ser hegemonizada
trabalhadores, conforme o cenário em todas as esferas da vida social para
das lutas mais amplas e da correlação garantir o livre desenvolvimento do ca-
de forças de cada momento. O enfren- pital. O Estado não pode negar o prin-
tamento das políticas neoliberais para a cípio (republicano) da universalização
educação e para a agricultura continua do direito à educação, mas, na prática,
como desafio de sobrevivência. não consegue operar a sua realização
Em 2010, foi criado o Fórum Na- sem que se disputem, por exemplo, os
cional de Educação do Campo (Fonec), fundos públicos canalizados para a re-
no esforço de retomar a atuação articu- produção do capital, o que, no caso do
lada de diferentes movimentos sociais, campo, significa, hoje especialmente,
organizações sindicais e outras insti- fundos para o avanço do agronegócio,
tuições, com destaque agora para uma inclusive em suas práticas de Educa-
participação mais ampliada de univer- ção corporativa.

sidades e institutos federais de educa- Pela lógica do modelo dominante, é


ção. Em seu documento de criação, o a educação rural e não a Educação do
Fonec toma posição contra o fechamen- Campo, que deve retornar à agenda
to e pela construção de novas escolas do Estado, reciclada pelas novas de-

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Educação do Campo

mandas de preparação de mão de obra camponeses confrontam sua lógica fun-


para os processos de modernização e damental com a da exploração do traba-
expansão das relações capitalistas na lho pelo capital, resistindo em um modo
agricultura, demandas que não necessi-
tam de um sistema público de educação
distinto de produzir, de organizar a vida
social e de se relacionar com a natureza E
no campo. Porém, isso é confrontado (ver Agricultura camponesa).
pela pressão articulada que movimen- A Educação do Campo, como prá-
tos de trabalhadores camponeses conti- tica social ainda em processo de cons-
nuam a fazer a partir de outras deman- tituição histórica, tem algumas caracte-
das e na direção de outro projeto. rísticas que podem ser destacadas para
Entretanto, como defender a edu- identificar, em síntese, sua novidade ou
cação dos camponeses sem confrontar a “consciência de mudança” que seu
a lógica da agricultura capitalista que nome expressa:
prevê sua eliminação social e mesmo • Constitui-se como luta social pelo
física? Como pensar em políticas de acesso dos trabalhadores do campo
educação no campo ao mesmo tem- à educação (e não a qualquer edu-
po em que se projeta um campo com cação) feita por eles mesmos e não
cada vez menos gente? E ainda, como apenas em seu nome. A Educação
admitir como sujeitos propositores de do Campo não é para nem apenas
políticas públicas movimentos sociais com, mas sim, dos camponeses, ex-
criminalizados pelo mesmo Estado que pressão legítima de uma pedagogia
deve instituir essas políticas? do oprimido.
Ainda que a Educação do Campo se • Assume a dimensão de pressão co-
mantenha no estrito espaço da luta por letiva por políticas públicas mais
políticas públicas, suas relações consti- abrangentes ou mesmo de embate
tutivas a vinculam estruturalmente ao entre diferentes lógicas de formu-
movimento das contradições do âmbi- lação e de implementação da polí-
to da Questão agrária, de projetos de tica educacional brasileira. Faz isso
agricultura ou de produção no campo, sem deixar de ser luta pelo acesso
de matriz tecnológica, de organização do à educação em cada local ou situ-
trabalho no campo e na cidade... E as ação particular dos grupos sociais
disputas se acirram ou se expõem ain- que a compõem, materialidade que
da mais quando se adentra o debate de permite a consciência coletiva do
conteúdo da política, chegando ao ter- direito e a compreensão das razões
reno dos objetivos e da concepção de sociais que o impedem.
educação, de campo, de sociedade, • Combina luta pela educação com
de humanidade. luta pela terra, pela Reforma Agrá-
A explicitação do confronto principal ria, pelo direito ao trabalho, à
em que se move a educação do campo cultura, à soberania alimentar, ao
fortalece aos poucos a compreensão de território. Por isso, sua relação de
que, embora sejam muitos e diversos os origem com os movimentos sociais
seus sujeitos, é o camponês o sujeito de trabalhadores. Na lógica de seus
coletivo que hoje identifica, na sua es- sujeitos e suas relações, uma política
pecificidade, o polo da contradição as- de Educação do Campo nunca será
sumida. Vivendo sob o capitalismo, os somente de educação em si mesma

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Dicionário da Educação do Campo

e nem de educação escolar, embora reafirma e revigora uma concepção


se organize em torno dela. de educação de perspectiva emanci-
• Defende a especificidade dessa luta patória, vinculada a um projeto his-
e das práticas que ela gera, mas não tórico, às lutas e à construção so-
em caráter particularista, porque as cial e humana de longo prazo. Faz
questões que coloca à sociedade a isso ao se mover pelas necessidades
propósito das necessidades parti- formativas de uma classe portadora
culares de seus sujeitos não se re- de futuro.
solvem fora do terreno das contra- • Seus sujeitos têm exercitado o direi-
dições sociais mais amplas que as to de pensar a pedagogia desde a sua
produzem, contradições que, por realidade específica, mas não visan-
sua vez, a análise e a atuação especí- do somente a si mesmos: a totalidade
ficas ajudam a melhor compreender lhes importa, e é mais ampla do que
e enfrentar. E isso se refere tanto a pedagogia.
ao debate da educação quanto ao • A escola tem sido objeto central
contraponto de lógicas de produ- das lutas e reflexões pedagógicas
ção da vida, de modo de vida. da Educação do Campo pelo que
• Suas práticas reconhecem e bus- representa no desafio de formação
cam trabalhar com a riqueza social dos trabalhadores, como mediação
e humana da diversidade de seus fundamental, hoje, na apropriação
sujeitos: formas de trabalho, raí- e produção do conhecimento que
zes e produções culturais, formas lhes é necessário, mas também pe-
de luta, de resistência, de organi- las relações sociais perversas que
zação, de compreensão política, sua ausência no campo reflete e sua
de modo de vida. Mas seu percur- conquista confronta.
so assume a tensão de reafirmar, • A Educação do Campo, principal-
no diverso que é patrimônio da mente como prática dos movimen-
humanidade que se almeja a uni- tos sociais camponeses, busca con-
dade no confronto principal e na jugar a luta pelo acesso à educação
identidade de classe que objetiva pública com a luta contra a tutela
superar, no campo e na cidade, as política e pedagógica do Estado
relações sociais capitalistas. (reafirma em nosso tempo que não
• A Educação do Campo não nas- deve ser o Estado o educador do povo).
ceu como teoria educacional. Suas • Os educadores são considerados
primeiras questões foram práticas. sujeitos fundamentais da formu-
Seus desafios atuais continuam lação pedagógica e das transfor-
sendo práticos, não se resolven- mações da escola. Lutas e práticas
do no plano apenas da disputa teó- da Educação do Campo têm de-
rica. Contudo, exatamente porque fendido a valorização do seu tra-
trata de práticas e de lutas contra- balho e uma formação específica
hegemônicas, ela exige teoria, e exi- nessa perspectiva.
ge cada vez maior rigor de análise da
realidade concreta, perspectiva de Estas características definem o que
práxis. Nos combates que lhe têm é/pode ser a Educação do Campo, uma
constituído, a Educação do Campo prática social que não se compreende

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Educação do Campo

em si mesma e nem apenas a partir das pecífica: a relação com a produção na


questões da educação, expondo e con- especificidade da agricultura campone-
frontando as contradições sociais que sa, da agroecologia; o trabalho coleti-
a produzem. E são estas mesmas ca-
racterísticas que também podem con-
vo, na forma de cooperação agrícola,
em áreas de Reforma Agrária, na luta
E
figurá-la como categoria de análise das pela desconcentração das terras e con-
práticas por ela inspiradas ou de outras tra o valor absoluto da propriedade
práticas que não atendem por esse nome privada e a desigualdade social que lhe
nem dialogam com essa experiência corresponde. Vida humana misturada
concreta. A tríade campo–educação– com terra, com soberana produção
política pública pode orientar pergun- de alimentos saudáveis, com relações de
tas importantes sobre a realidade edu- respeito à natureza, de não exploração
cacional da população trabalhadora do entre gerações, entre homens e mulhe-
campo onde quer que ela esteja. res, entre etnias. Ciência, tecnologia,
Como referência de futuro à educa- cultura, arte potencializadas como fer-
ção dos trabalhadores, a Educação do ramentas de superação da alienação do
Campo recoloca desde sua luta especí- trabalho e na perspectiva de um desen-
fica a questão sempre adiada na histó- volvimento humano omnilateral. Algo
ria brasileira da efetiva universalização disso já vem sendo experimentado em
do direito à educação, tensionando na determinados espaços de resistência e
esfera da política formas e conteúdos relativa autonomia de movimentos so-
de ações do Estado nessa direção. E ciais ou de comunidades camponesas,
se buscar confrontar a lógica que im- mas talvez possa vir a ser “universaliza-
pede os trabalhadores de ter acesso do” em uma “república do trabalho”.
pleno à educação básica não é ainda E o modo de fazer a luta pela escola
a “revolução brasileira”, na prática, a tem desafiado os camponeses a ocupá-
superação do capitalismo não se reali- la também nessa perspectiva, como
zará sem passar por este confronto e sujeitos, humanos, sociais, coletivos,
sua solução. com a vida real e por inteiro, trazendo
No plano da práxis pedagógica, a as contradições sociais, as potencia-
Educação do Campo projeta futuro lidades e os conflitos humanos para
quando recupera o vínculo essencial dentro do processo pedagógico, re-
entre formação humana e produção querendo uma concepção de conheci-
material da existência, quando concebe mento e de estudo que trabalhe com
a intencionalidade educativa na direção essa vida concreta. Isso tem exigido
de novos padrões de relações sociais, e permitido transformações na forma
pelos vínculos com novas formas de da escola, cuja função social originária
produção, com o trabalho associado prevê apartar os educandos da vida,
livre, com outros valores e compro- muito mais do que fazer da vida seu
missos políticos, com lutas sociais que princípio educativo. Acontecem hoje
enfrentam as contradições envolvidas no âmbito da Educação do Campo ex-
nesses processos. perimentos pedagógicos importantes
E sua contribuição original pode na direção de uma escola mais próxi-
vir exatamente de ter de pensar estes ma dos desafios de construção da so-
vínculos a partir de uma realidade es- ciedade dos trabalhadores.

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Dicionário da Educação do Campo

Notas
1
Note-se que este texto integra um dicionário que leva o mesmo nome, ou tem o mesmo
objeto deste verbete, e cuja forma de organização procura nos mostrar a quantidade e a
complexidade dos nexos que permitem compreender a Educação do Campo como um
fenômeno concreto (síntese de muitas determinações).
2
As entidades que apoiaram o I Enera foram também depois, junto com o MST, as pro-
motoras da I Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef),
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Univer-
sidade de Brasília (UnB), por meio do Grupo de Trabalho em Apoio à Reforma Agrária.
3
O Pronera começou a ser gestado no I Enera, mediante o desafio colocado pelo MST
aos docentes de universidades públicas convidados ao encontro para pensar um desenho
de articulação nacional que pudesse ajudar a acelerar o acesso dos trabalhadores das áreas de
Reforma Agrária à educação escolar. A ideia foi levada pela Universidade de Brasília ao III
Fórum das Instituições de Ensino Superior em Apoio à Reforma Agrária, em novembro
de 1997, e o desenho do programa foi formatado entre janeiro e fevereiro de 1998 (ver
Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária).
4
No campo: “o povo tem direito a ser educado no lugar onde vive” (Kolling, Cerioli
e Caldart, 2002, p. 26), e do campo: “o povo tem direito a uma educação pensada desde
o seu lugar e com sua participação, vinculada à sua cultura e às suas necessidades humanas e
sociais” (ibid.), assumida na perspectiva de continuação da “luta histórica pela constituição
da educação como um direito universal” (ibid.), que não deve ser tratada nem como serviço
nem como política compensatória e muito menos como mercadoria.
5
Segundo o censo agropecuário de 2006 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,
2009), no Brasil, 30% dos trabalhadores rurais são analfabetos e 80% não chegaram a con-
cluir o ensino fundamental.

Para saber mais


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4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
Brasil. Presidência da República. Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010:
dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educa-
ção na Reforma Agrária – Pronera. Diário Oficial da União, Brasília, 5 nov. 2010.
______. Conselho Nacional de Educação (CNE). Câmara de Educação Básica
(CEB). Parecer CNB/CEB nº 36/2001: Diretrizes Operacionais para a Educação
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Caldart, R. S. Sobre educação do campo. In: Santos, C. A. (org.). Educação do cam-
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Educação e Saúde, Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, v. 7, n. 1,
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Educação Omnilateral

Frigotto, G. Projeto societário contra-hegemônico e educação do campo: desa-


fios de conteúdo, método e forma. In: Munarim, A. et al. (org.). Educação do campo:
reflexões e perspectivas. Florianópolis: Insular, 2010. p. 19-46.
Instituto Brasileiro de Geografia
2006. Rio de Janeiro: IBGE, 2009.
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Munarim, A. et al. (org.). Educação do campo: reflexões e perspectivas. Florianópolis:
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Williams, R. La larga revolución. Buenos Aires: Nueva Visión, 2003.

Educação omnilateral
Gaudêncio Frigotto

Omnilateral é um termo que vem O desenvolvimento que se expres-


do latim e cuja tradução literal signi- sa em cada ser humano não advém de
fica “todos os lados ou dimensões”. uma essência humana abstrata, mas é
Educação omnilateral significa, assim, um processo no qual o ser se consti-
a concepção de educação ou de forma- tui socialmente, por meio do trabalho;
ção humana que busca levar em conta é uma individualidade – e, consequen-
todas as dimensões que constituem a temente, uma subjetividade – que se
especificidade do ser humano e as con- constrói, portanto, dentro de determi-
dições objetivas e subjetivas reais para nadas condições histórico-sociais. Por
seu pleno desenvolvimento histórico. isso, Marx define a essência humana,
Essas dimensões envolvem sua vida na sexta tese sobre Feuerbach, como
corpórea material e seu desenvolvi- sendo o conjunto das relações sociais (Marx,
mento intelectual, cultural, educacio- 1988). E, com base nesta compreensão,
nal, psicossocial, afetivo, estético e lú- Gramsci (1978) sublinha que a humani-
dico. Em síntese, educação omnilateral dade que se reflete em cada individua-
abrange a educação e a emancipação lidade é expressão das múltiplas rela-
de todos os sentidos humanos, pois os ções do indivíduo com os outros seres
mesmos não são simplesmente dados pela humanos e com a natureza. Assim, a
natureza. O que é especificamente humano, língua que falamos, os valores, os sen-
neles, é a criação deles pelo próprio homem timentos, os hábitos, o gosto, a religião
(Mészáros, 1981, p. 181). ou as crenças e os conhecimentos que

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