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Iberografias
GEOGRAFIA SEM FRONTEIRAS
DIÁLOGOS ENTRE PORTUGAL E O BRASIL

Coordenação:
Rui Jacinto

41
Iberografias
Coleção Iberografias
Volume 4

Título: Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Coordenação: Rui Jacinto
Apoio à edição: Ana Margarida Proença
Autores: Adriana Loureiro, Adriana Veríssimo Serrão, Álvaro Domingos, Alvaro Ferreira, Ana Fani Alessandri Carlos, Ana Monteiro,
Angelo Serpa, António Campar de Almeida, Antonio Colinas, António Gama, Antonio Nivaldo Hespanhol, Antonio Pedro Pita,
Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Arlete Moyses Rodrigues, Bartolomeu Israel de Souza, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro,
Carlos Walter Porto Gonçalves, Carminda Cavaco, Clara Almeida Santos, Claudino Ferreira, Cláudio Antonio Di Mauro, Cláudio
Zanotelli, Dirce Maria Antunes Suertegaray, Eliseu Savério Sposito, Fernanda Delgado Cravidão, Fernando Oliveira Baptista, Fer-
nando Pauloro Neves, Fernando R. de la Flor, Florencio Maíllo Cascón, Helena Freitas, Jaime Couto Ferreira, João Ferrão, João
Guerreiro, João Lima Sant’Anna Neto, João Rua, Jorge Gaspar, Jorge Luiz Barbosa, Jorge Macaísta Malheiras, Jorge Paiva, José Al-
berto Fernandes, José Aldemir de Oliveira, José António Bandeirinha, José Borzachiello da Silva, José Luis Puerto, José Luíz Zêzere,
José Manuel Llorente Pinto, José Manuel Simões, Luciano Lourenço, Lucimar de Fátima dos Santos Vieira, Lúcio Cunha, Maria
Adélia de Souza, Maria Auxiliadora da Silva, Maria Encarnação Beltrão Sposito, Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira, Maria
Laura Silveira, Maria Lucinda Fonseca, Maria Tereza Duarte Paes, Messias Modesto dos Passos, Neli Aparecida de Mello-Théry,
Paula Santana, Paulo Nuno Nossa, Paulo Peixoto, Pedro de Almeida Vasconcelos, Pedro Hespanha, Roberto Lobato Corrêa, Rober-
to Verdum, Rogério Haesbaert, Rosangela Ap. de Medeiros Hespanhol, Rui Jacinto, Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior, Sandra
Lencioni,Teresa Barata Salgueiro, Thalita Xavier Garrido Miranda, Valentín Cabero Diéguez, Walter Rossa

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa:
Fotografia:

Impressão e acabamento: Europress – Indústria Gráfica, Lda.

1.ª edição:
Depósito legal n.º

ISBN:
ISBN:

Edição n.º

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 Lisboa
geral@ancora-editora.pt
www.ancora-editora.pt
www.facebook.com/ancoraeditora

O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressas.
A opção ou não pelas regras do novo acordo ortográfico é da responsabilidade dos autores

Apoios:
Imagem e território: foto(geo)grafia ou a demanda dos rumores do mundo
Rui Jacinto

Imagem e Exclusão Territorial: Transversalidades, uma Cartografia da Ausência e da


Memória Transfonteiriça
Fotografia sem Fronteiras: ler as diversidades, interpretar as mudanças, combater as
desigualdades
Imaginar o mundo na era da imagem
Foto(Geografia): a luz que (d)escreve a terra
Viagens, Paisagens, Imagens: Fotografia e Território
Poéticas do olhar: imagem e cultura territorial

Viagem, imagem e as narrativas do mundo


Geografias Efémeras: as imagens e o lugar, o lugar das imagens
Imagem & território: em demanda dos Rumores do Mundo
Geografias do Olhar: "Se podes olhar vê. Se podes ver, repara"

património natural, paisagens e biodiversidade

Geografias do sofrimento e da melancolia


Jorge Gaspar
Imágenes y miradas solidarias
Valentín Cabero Diéguez
Reserva de Imaginário
Fernando Pauloro Neves
Fotografia e Paisagem
Jorge Gaspar
O horizonte que vem até nós
Adriana Veríssimo Serrão

Memórias geográficas, paisagens literárias


Maria Auxiliadora da Silva; Thalita Xavier Garrido Miranda

A paisagem vista através de uma lente


António Campar de Almeida
Paisagens, biodiversidade e património natural
Lúcio Cunha
Património natural, paisagens e biodiversidade
Helena Freitas

Paisagem e Território
Messias Modesto dos Passos
Património natural e conservação da fitodiversidade urbana
Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira

Atividade de campo, paisagem e patrimônio natural


Dirce Maria Antunes Suertegaray
Paisagens e Viagens (Trans)Amazónicas
José Aldemir de Oliveira
Paisagens ribeirinhas e à beira-rio
Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior
Paisagens do Pampa hibridismo natureza - sociedade
Roberto Verdum; Lucimar de Fátima dos Santos Vieira
Patrimônio natural, biodiversidade e alterações da paisagem na Caatinga
Bartolomeu Israel de Souza
Lugares de Ontem, Lugares de Hoje, Lugares de Amanhã: Permanência e Mudança
nos Lugares Naturais Raianos
Lúcio Cunha
O Ser Humano e a Natureza
Lúcio Cunha
Da concepção física do universo ao sentimento de mundo
João Lima Sant’Anna Neto
O Tempo da natureza e do homem
Antonio Nivaldo Hespanhol; Rosangela Ap. de Medeiros Hespanhol
A Biodiversidade, a Água e as Alterações Climáticas
Jorge Paiva
Alterações e riscos climáticos e seus efeitos
Ana Monteiro
Riscos e Desastres em tempo de Alterações Climáticas
José Luís Zêzere

Espaços rurais, agricultura e povoamento


Sociedade rural e espaço
Carminda Cavaco
Espaços rurais - três percursos
Fernando Oliveira Baptista
Rural - modos de ficcionar
Álvaro Domingues
Os paradoxos do mundo agrícola, a ruralidade do Homem e a mundialidade da
tecnologia
Neli Aparecida de Mello-Théry
A revalorização das áreas rurais
João Guerreiro
Luchar por la Subsistencia: Otros Tiempos, Otras Actividades
José Manuel Llorente Pinto
Espaço rural português: despovoamento, declínio da agricultura e aumento do risco
de incêndio florestal
Luciano Lourenço
Conflitos no campo do Brasil entre camponeses, quilombolas, indígenas e grileiros
Ariovaldo Umbelino de Oliveira
Triângulo Mineiro, Terra da Chapadas e Veredas
Cláudio Antonio Di Mauro
“L’essentiel est invisible pour les yeux”
Pedro Hespanha
Grande sertão: veredas. O Homem, o Campo e suas (inter) relações
Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro
E no interior do Estado do Rio de Janeiro ainda se dança o fado
João Rua

Cidade e processos de urbanização

As cidades e os processos de urbanização


António Gama
Cidade e Processos de Urbanização
Pedro de Almeida Vasconcelos
Uma leitura da cidade
Ana Fani Alessandri Carlos
A cidade, feixe de razões e temporalidades
Maria Laura Silveira
A cidade e suas contradições
Sandra Lencioni
Direito à moradia - uma luta sem tréguas
Arlete Moyses Rodrigues
Cidades e Processos de Urbanização
Paula Santana; Adriana Loureiro
Cidade e sociedade urbana
Maria Adélia de Souza
Mil cidades. E em cada cidade outras tantas cidades
João Ferrão
Paisagem, campo e cidade
José Borzachiello da Silva
Urbanização e cidades, ciência e arte: a fotografia como linguagem
Maria Encarnação Beltrão Sposito
Cultura e sociedade – cidade, arte e política
António Pedro Pita
Provas de Contacto com a Urbanidade
Walter Rossa

Olhares transversais: a cidade entre a imagem e a palavra


Claudino Ferreira
Como uma transversal do tempo e do espaço
Maria Encarnação Beltrão Sposito
A cidade é passado e presente ansiando pelo futuro
José Manuel Simões
A Cidade num Mundo Global e Urbanizado
Teresa Barata-Salgueiro
Uma Região de Cidades
José António Bandeirinha
Las pequeñas ciudades fronterizas: nuevo protagonismo en la vertebración y
cohesión territorial de la raya ibérica
Valentín Cabero Diéguez
Urbano, Urbanização e Urbanidade
José Alberto Rio Fernandes
Metropolização do Espaço, Cotidiano e Transformação da Cidade
Alvaro Ferreira

Cultura e sociedade: diversidade cultural e inclusão social


Cultura e Sociedade: Diversidade Cultural e Social
Roberto Lobato Corrêa
Cultura, imagens e paisagens
Maria Tereza Duarte Paes
Superar los Límites, Aproximar las Culturas
Antonio Colinas
Una mirada transversal comprometida con la vida y con el territorio
Valentín Cabero Diéguez
O instante que se torna eterno
Fernanda Delgado Cravidão
Figuras de Mundo
António Pedro Pita
A Mirada Extrañada
Fernando R. de la Flor
Configurar a própria imagem a partir da imagem do outro
Rogério Haesbaert
A imagem, a cultura e a cultura da imagem
Eliseu Savério Sposito
Conhecer, amar e cuidar: às vezes, há (a)casos assim
Clara Almeida Santos
Transversalizando: contribuição para um diálogo de saberes
Carlos Walter Porto-Gonçalves
O lugar: entre fixação e fluidez, repouso e mobilidade
Rogério Haesbaert
Los Lugares, Territorios de Memoria y Identidad. Por una Geografía Activa y Cultural
del Lugar
Valentín Cabero Diéguez
Identidades Mitigadas
José António Bandeirinha
Topografias de la Memoria
José Luis Puerto
Porém as Coisas de que Falam as Fábulas Já Não se Encontram Mais…
Antonio Gama
100 anos é muito tempo. 100 quilómetros é muito longe
Paulo Peixoto
O governo neoliberal por meio da guerra no Brasil
Cláudio Zanotelli
A Todos os Civis Fuzilados nas Guerras
Jaime Couto Ferreira
Desigualdades socioterritoriais na gestão da pandemia por COVID-19
Paulo Nuno Nossa
Cultura e sociedade: diversidade cultural e inclusão social em Salvador-Bahia
Angelo Serpa
As Favelas na Invenção da Cultura Urbana
Jorge Luiz Barbosa
Vivências da Nossa Ausência: Ecos de Lá e de Cá
Fernanda Delgado Cravidão
Migrações, envelhecimento demográfico, urbanização e despovoamento das
áreas rurais
Maria Lucinda Fonseca
Por estranhos paradoxos… em tempos de cosmopolitismo e globalização
Jorge Macaísta Malheiros
Tiempos de Emigración
Florencio Maíllo Cascón
IMAGEM E TERRITÓRIO:
foto(geo)grafia ou a demanda
dos rumores do mundo
Imagem e Território: Foto(Geo)grafia
ou a demanda dos Rumores do Mundo

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT); Representante
da Universidade de Coimbra na Comissão Executiva do CEI

Imagem e Exclusão Territorial: Transversalidades, uma Cartografia da


Ausência e da Memória Transfronteiriça (2008)

“Fotografar é também resistir e cada um resistirá conforme a sua pessoa. Não é huma-
namente possível fotografar tudo; há que escolher, portanto há que excluir. Mas também
não é possível reduzir o mundo à sua representação fotográfica. Tendo a acreditar que a
fotografia está para a realidade como o mapa está para o território. Um minuto depois do
“clic”, o mundo já não é exactamente assim. Um dia depois do temporal, o mapa já não
espelha fielmente o terreno” (Castello-Lopes, 2004: 121).

O Centro de Estudos Ibéricos tem centrado a sua missão na promoção de iniciativas 13 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

de cooperação transfronteiriça, aprofundando um diálogo que visa combater os efeitos


nefastos da prolongada separação entre territórios contíguos, contribuindo, assim, para
permeabilizar a fronteira e promover a coesão destes débeis espaços.
Transversalidades, projecto que se começa a materializar com esta edição, comunga destes
pressupostos e da convicção que as imagens, ao permitirem reconstruir identidades individuais
e colectivas, podem ajudar a reverter a depauperada auto-estima de quem habita tais perife-
rias. Resgatadas à história no âmbito deste projecto, as imagens que deram corpo à exposição
e ao catálogo que as perpetuará identificam sinais comuns à raia de aquém e além-fronteira,
recuperam memórias, renovam olhares, perscrutam marcas da ausência e da perda de den-
sidade, dinâmicas estruturantes dum território onde se instalaram tendências que importa
contrariar.
Mais que o título dum trabalho ou uma breve introdução a novas abordagens interpre-
tativas duma realidade que, apesar de tudo, não deixa de ser complexa, Transversalidades
encerra um conceito rico, exprime o que alguns consideram ser a “definição deste ‘ser
conjunto’ das posturas, dos olhares e das atitudes criticas quais sejam as suas heterogenei-
dades” (Castello-Lopes, 2004: 121)1, pretende trabalhar o conhecimento para conseguir
“uma reintegração de aspectos que ficaram isolados uns dos outros pelo tratamento dis-
ciplinar”, “uma visão mais ampla e adequada da realidade, que tantas vezes aparece frag-
mentada pelos meios de que dispomos para conhece-la e não porque o seja em si mesma”2.
Numa época dominada pelas imagens, aqueles territórios não as podem dispensar
enquanto matéria-prima do marketing territorial utilizado para os afirmar e promover.
Pode-se questionar, relativamente a esta matéria, se aquilo ou aqueles que foram excluídos
o foram por razões endógenas, por que o fotógrafo não gosta ou não os quer fotografar, ou
por motivos exógenas, pois não pode ou está interdito de o fazer. Como alguém já referiu,
é “possível aceitar-se uma arte fotográfica como prática do lugar mas que essa prática não
constitui o essencial da fotografia. Por outras palavras, entendo que a fotografia do lugar
não é o lugar da fotografia. Esse lugar está armazenado algures na cabeça ou, se se preferir,
na alma do fotógrafo” (Castello-Lopes, 2004: 107). Compreende-se, pois, que não sejam
exclusivamente razões materiais, como a criação dum banco de imagens sobre estas regi-
ões, os motivos que alimentaram o desenvolvimento dum projecto desta natureza.
As imagens também são uma possível componente das estratégias de desencravamento
destas regiões, a utilizar como “cada família constrói, através da fotografia, uma crónica de
si mesma, uma série tátil de imagens que testemunha a sua coesão”, ser vindo tanto para
recordar como para “restabelecer simbolicamente a precária continuidade e o progressivo
desaparecimento da vida familiar”, permitindo “a presença simbólica dos parentes dis-
14 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

persos”. Ao proporcionarem “a posse imaginária de um passado irreal, também ajudam a


dominar o espaço em que as pessoas se sentem inseguras. Assim, a fotografia desenvolve-se
em consonância com uma das actividades mais características da actualidade” (o turismo)
(Sontag, 1986: 18), permitindo visitar lugares e estabelecer uma nova empatia com esses
recônditos territórios.
A génese deste projecto é indissociável dum envolvimento comprometido com a
Raia Central, espaço tocado pela ausência dos que partiram, silenciado e remetido a um

1
http://fr.wikipedia.org/wiki/Jacques_Ardoino
2
http://www.educabrasil.com.br/eb/dic/dicionario.asp?id=70
progressivo esquecimento, votado a uma discriminação negativa pelos meios de comuni-
cação dominantes, a que não foi alheio, também, o conhecimento dum trabalho exemplar
(Maillo, 2007), realizado por colegas espanhóis, parceiros da aventura colectiva que tem
sido o CEI. As imagens utilizadas tiveram várias proveniências, foram captadas com in-
tuitos profissionais ou artísticos, com fins científicos, jornalísticos ou meramente pessoais,
feitas para ser virem de documento, testemunhar um acto ou uma vivência particular de
muitas histórias de vida, para serem usadas na comunicação profissional e interpessoal ou
para simples prazer contemplativo.
Ao focar a nossa observação num espaço de contornos históricos e geográficos relati-
vamente difusos, cujo conhecimento estamos empenhados em aprofundar, propõe-se que
revisitemos uma das parcelas da península mais fragilizada e remetida para as margens do
desenvolvimento. Se na selecção foram privilegiados conteúdos temáticos que permitem
desvendar algumas facetas dum período recente da nossa história comum, a qualidade
documental e estética do material utilizado acaba por lhe conferir uma significativa carga
nostálgica e afectiva.
Num mundo em rápida mutação importa construir uma nova cultura territorial, as-
sente em valores mais positivos e amigáveis para com os territórios mais frágeis e despro-
tegidos, que passará, necessariamente, por um discurso visual renovado, que lhes conceda
mais visibilidade e os liberte da dependência de velhos clichés e da imagem tradicional
que carregam e os estigmatiza. Esta missão não dependerá, apenas, do clássico fotógrafo,
termo insuficiente para designar a “profissão destes caçadores de fascínios”, industriados
do poder mágico de manejarem as imagens com que podemos imaginar as do futuro.
Comprometidos e solidários poderão “desocultar os múltiplos sentimentos do acontecido,
libertar o tudo que poderia ter sido naquilo que simplesmente foi. (...) Que estas palavras
sejam lidas como o insuficiente reconhecimento para com esses que nos doaram um outro
olhar e nos facultaram a descoberta de fascinantes mundos que tão perto estavam mas que
não sabíamos ver” (Couto, 2005: 83).
15 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Num momento em que as imagens se impõem ditatorialmente, as pessoas e os lugares
ausentes dum olhar que os retrate acabam remetidos para um anonimato que afasta qual-
quer possibilidade de serem contemplados, lembrados e, portanto, melhor conhecidos e
interpretados. Dando por válido que uma imagem vale mais que mil palavras, a proposta
deste roteiro por locais perdidos no mapa e esquecido no tempo, tanto os resgata para o
convívio da nossa memória colectiva como constitui um sinal de resistência e um forte
apelo a favor da sua inclusão.
A variedade de olhares e de usos da imagem é tão ampla quanto os possíveis discursos
fotográficos, bastando recordar o do velho retratista ambulante, do viajante, coleccionador
de instantâneos de locais mais ou menos icónicos, ou o do actual produtor de imagens
apelativas, usadas pelas autoridades locais, regionais e nacionais para promoverem os res-
pectivos territórios, procurando veicular a ideia de estarmos perante espaços competitivos
e, portanto, potencialmente atractivos. As imagens impressas neste catálogo ultrapassam
o que se acaba de exemplificar: desenham um roteiro pela raia delimitada pelo Douro e
o Tejo, convidam a percorrer o período mediado entre a vaga emigratória da primeira
metade do século vinte e o dealbar da democracia nos estados peninsulares. Ao visitarmos
um tempo e um espaço, simultaneamente próximos e longínquos, plenos de memórias
silenciadas pela história e pela geografia, detectamos sinais que se foram esbatendo, activi-
dades e modos de vida que marcaram uma época cujos traços perduram, indelevelmente,
na sociedade e no território.
Ao retratarem as mudanças ocorridas num território concreto, estas imagens são novos
elementos genéticos a incorporar numa cultura e identidade territorial que se pretendem
renovadas. O modo de as ler e contemplar não será indiferente nem dispensa a visita a
estes locais, onde “a impressão causada pela contemplação de uma paisagem sempre esta
rá dependente das variações temperamentais e do humor jovial ou atrabilioso que estive-
rem actuando dentro de nós no preciso momento em que a tivermos diante dos olhos”
(Saramago, 2006: 20).
Além da justa homenagem aos homens e às mulheres anónimas que, com as fronteiras
sempre por perto, viveram a imperiosa necessidade de superarem as suas múltiplas contin-
gências, Transversalidades também sublinha uma certa resistência à cultura visual dominante,
onde o que não se vê não existe, postura que apaga ou subalterniza imagens aparentemente
banais, por não serem de autor nem veiculadas pelos meios de referência, embora possam ser
portadoras dum elevado conteúdo informativo, emocional ou, mesmo, estético.
No início dum novo ciclo de políticas públicas para o desenvolvimento territorial,
este será um modesto contributo para se encontrarem novas coordenadas que concorram
para a coesão dos espaços fronteiriços. Através dum projecto que ajuda a esboçar o retra-
to sócio-espacial duma área relativamente desconhecida e marginal, o CEI participa no
16 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

debate que urge aprofundar sobre o futuro da Raia Central Ibérica, na definição duma
estratégia que aproveite e valorize os seus recursos, na construção de parcerias e de redes de
cooperação territorial que concorrem para desencravar e recentrar tais periferias.

Referências

Florencio Maillo (2007). Identidades, Ediciones de la Diputación de Salamanca.


Gérard Castello-Lopes (2004). Reflexões sobre fotografia. Eu, a fotografia, os outros. Lisboa: Assírio
& Alvim.
José Saramago (2006). As pequenas memórias. Lisboa: Caminho.
Mia Couto (2005). Pensatempos. Textos de Opinião. Lisboa: Caminho.
Susan Sontag (1986 [1973]). Ensaios sobre fotografia. Lisboa: Dom Quixote.

17 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Fotografia Sem Fronteiras: ler as diversidades, interpretar as mudan-
ças, combater as desigualdades (2011)

As paisagens naturais e humanas a que nos fomos afeiçoando não ficaram imunes à
sucessão de acontecimentos que culminaram na crise que estamos a atravessar, responsável
pelos novos mapas, de contornos ainda indefinidos, que estão a redesenhar as emergentes
geografias locais, regionais e globais. Duas décadas de apregoada globalização aceleraram as
mudanças económicas, sociais, culturais e políticas, comprimiram o tempo, desregularam
os frágeis equilíbrios ambientais, alimentares, energéticos e financeiros que colocaram a
generalidade dos territórios à mercê de voracidades predadoras e pouco éticas, expondo-os
a incertezas, precariedades e angústias insuportavelmente pesadas e injustas.
As tensões conflituantes entre tradição e modernidade, arcaísmo e inovação, conti-
nuidade e mudança, inerentes aos actuais processos de reestruturação económica, social
e territorial, proporcionam imagens representativas de fenómenos novos que podem ser
captados nas mais populosas metrópoles, nos espaços mais despovoados, recônditos e re-
motos, ou nas mais longínquas e profundas regiões de fronteira. A imagem adquiriu, por
outro lado, enorme centralidade nas sociedades contemporâneas, tornou-se decisiva para
ler o mundo e interpretar as mudanças que nele se estão a operar, factos que acabaram
por condenar vastas áreas do globo à exclusão visual, essa forma eficaz de marginalização,
por ausência de imagens, em que os média se especializaram. Difundir fotografias que
evidenciem a diversidade de um mundo em mutação, que mostrem as desigualdades, as
diferenças e as clivagens que conduzem à exclusão de populações e de lugares não deixa de
contribuir para a reconstrução dos mapas mentais onde se pode alicerçar uma nova cultura
territorial e uma geografia mais responsável e inclusiva de pessoas e territórios.
Tentando superar o conceito para onde o termo nos remete, Transversalidades não
se limita à simples compilação de material para alimentar um banco de imagens sobre as
transformações em curso, usa-as como “cada família constrói, através da fotografia, uma
18 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

crónica de si mesma, uma série portátil de imagens que testemunha a sua coesão”. Não
existe, pois, a preocupação exclusiva de recordar através das imagens, mas “restabelecer
simbolicamente a precária continuidade e o progressivo desaparecimento da vida familiar”
e, assim, assegurar “a presença simbólica dos parentes dispersos”, valores que conferem
à fotografia tanto “a posse imaginária de um passado irreal” como “ajudam a dominar o
espaço em que as pessoas se sentem inseguras” (Sontag, 1986: 18).
O Centro de Estudos Ibéricos (CEI) procura superar, através deste projecto, o seu âm-
bito de actuação mais imediato, confinado à Raia portuguesa e espanhola, alargando este
espaço a países de outros continentes onde perduram marcas da presença ibérica. Sem per-
der de vista o compromisso histórico que mantém com os territórios de baixa densidade,
periféricos e de fronteira, a viagem protagonizada por este projecto leva-nos a contactar
realidades naturais e humanas dispersas por diferentes contextos geográficos, outra manei-
ra de promover o diálogo entre Territórios, Sociedades e Culturas e, assim, esbater tantas e
tão artificiosas fronteiras.
Com este pano de fundo e tendo presente as contradições, complexidades e perplexida-
des do momento que vivemos, Transversalidades foi concebido com base em múltiplos pro-
pósitos: fixar diferentes sinais que emanam das actuais dinâmicas sócio-territoriais, utilizar a
fotografia para denunciar e combater a exclusão, recorrer à imagem para incentivar o diálogo
e a cooperação territorial. O projecto assentou nos seguintes objectivos específicos:
- aproveitar o valor documental, pedagógico e estético da imagem para promover a in-
clusão dos territórios menos visíveis, inventariar recursos, valorizar paisagens, culturas e
patrimónios;
- promover a cooperação entre pessoas, instituições e territórios, de aquém e além fronteiras,
fomentar a troca de experiências e de conhecimentos entre espaços unidos pela matriz
ibérica comum, espalhados por diferentes países de vários continentes;
- formar novos públicos e usar as novas tecnologias de comunicação como meio privilegiado
de comunicar, tendo como foco os jovens estudantes universitários e o alargamento da rede
internacional de investigadores que se vai organizando a partir do CEI.

O mapa não é o território como a imagem não é, também, a coisa que retrata. Esta
evidência, que nos obriga reconhecer que a fotografia não é testemunha absoluta de nada,
não nos impede constatar que o conhecimento ainda se constrói, em boa medida, a partir
de imagens, porque “muitos são os objectos, os processos, os fenómenos, os lugares, os
rostos aos quais só elas permitem o acesso” (Sicar, 2006: 15). Estamos submersos em ima-
gens, oriundas de muitas fontes e das mais variadas proveniências, fruto da simplificação
e da democratização do acesso à fotografia e da evolução técnica, industrial e artística que
massificou a respectiva produção e difusão. Omnipresente, a fotografia é substituída a cada
19 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
instante por outra fotografia, tornou-se num divertimento banal e numa forma de arte de
massas que invadiu os espaços públicos e a esfera privada.
Ninguém contesta, apesar desta expansão, que a fotografia, sob múltiplos aspectos, se
afirmou “como uma forma de expressão, de informação e de comunicação total, essencial e
específica”, um importante “testemunho artístico ou jornalístico sobre o mundo” (Bauret,
2000: 9). Ao retratar pessoas e lugares que acaba por impor ou iconizar, a fotografia veicula
mensagens, influencia comportamentos, molda a visão do mundo, concorre para impor a
ditadura da imagem que, hoje, nos esmaga. A fotografia não é, como nunca foi, uma pro-
dução simples, inocente, casual ou mecânica de imagens, nem, “como muitos pensaram
durante muito tempo, uma simples reprodução da “natureza”, do mundo que nos rodeia,
mas antes uma linguagem relativamente estruturada nas suas formas e significados, e “tra-
balhada” por uma história que se foi progressivamente enriquecendo” (Bauret, 2000: 10).
Sendo a fotografia uma linguagem, o fotógrafo é um autor que, segundo alguns, devia
chamar-se imaginógrafo, porque estes profissionais são caçadores de fascínios, manejam
o poder mágico da imagem, possuem o condão de “desocultar os múltiplos sentimentos
do acontecido, libertar o tudo que poderia ter sido naquilo que simplesmente foi”. As
imagens submetidas a este concurso carregam a sua história, transportam uma mensagem,
encerram uma estética e um discurso resultantes dum olhar, pessoal e intransmissível,
próprio de cada autor, pois “o que não se ensina (o que não quer dizer que não se aprenda)
é a ver. E é bom que assim seja. Se todos tivéssemos o olhar do Cartier-Bresson, todos fo-
tografaríamos como ele, o que, além de monótono, seria triste. A aprendizagem do olhar
faz-se só. Não serve adoptar o olhar dum mestre senão para tentar ir mais longe do que ele
ou, por rebeldia, fazer o que ele não fez” (Castello-Lopes, 2004: 100).

As imagens utilizadas no catálogo têm várias proveniências, resultam de múltiplos


olhares, foram captadas com intuitos profissionais, por fotógrafos, jornalistas ou cientistas
de várias matizes, por estudantes e cidadãos comuns que recorrem a este meio de comuni-
cação para transmitirem emoções, preservarem memórias ou, simplesmente, colecciona-
rem fotografias que arquivam num sempre incompleto álbum pessoal. A visão do mundo
que facultam está condicionada pelos termos de referência que deram o mote e estrutura-
ram o concurso, seja o tema geral ou os cinco temas específicos: 1. Paisagens naturais e
espaços rurais. Paisagens, recursos e riscos naturais; espaços rurais, povoamento e processos
migratórios; 2. Cidade e actividades urbanas e industriais. Cidade, arquitectura e regene-
ração urbana; inovação e processos de reestruturação industrial; 3. Património material e
intangível, construído, histórico, cultural; 4. Modos de vida, condições sociais, processos de
desenvolvimento sustentável. Profissões e exclusão social; desenvolvimento e sustentabilida-
de: políticas, programas e projectos; cooperação territorial: iniciativas e actores; 5. Espaços
20 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

de fronteira. Fronteiras políticas, limites administrativos, novas fronteiras sócio-territoriais.


A informação disponível sobre os concorrentes (271) e as imagens submetidas a con-
curso (1592) permite evidenciar os aspectos relevantes quanto ao perfil dos candidatos e à
geografia que está implícita às fotografias candidatas:
- os concorrentes são predominantemente jovens e o género feminino tem uma ex-
pressiva representação. Os concorrentes com menos de 25 anos representam 29% do total
(78) e os do escalão entre 25 e 35 anos atingem 39% (100); isto é, 66% dos candidatos
têm foram apresentadas por pessoas com menos de 35 anos. As mulheres protagonizam
44% das candidaturas, sendo maioritárias entre o grupo mais jovem (representam 66% no
escalão com menos de 25 anos) e entre os estudantes (65%);
- as categorias socioprofissionais mais representadas são a dos estudantes (com 88
candidaturas, isto é, 32% do total), dos licenciados (71, 26% do total), dos fotógrafos/
jornalistas (22, 8%) e dos arquitectos/ designers/ artistas plásticos (22, cerca de 8%);
- os temas mais procurados foram: 1. Paisagens naturais e espaços rurais (37%
do total das imagens foram candidatas a este tema), 3. Património material e intangível
(23%), 4. Modos de vida, condições sociais (20%), 2. Cidade e actividades urbanas e in-
dustriais (15%) e 5. Espaços de fronteira (4%);
- houve um número significativo de candidatos brasileiros (49, 18% do total), além
de portugueses (206, 76%) e espanhóis (7, cerca de 3%). A origem dos concorrentes
portugueses, segue o padrão das dicotomias e polarizações que caracterizam o território
português, se exceptuarmos o elevado número de candidatos da área da Guarda (14%),
predominando a concentração de candidatos no litoral e nas áreas metropolitanas de
Lisboa e Porto (32%);
- merece ainda uma referência particular o facto dos mapas que mostram dos locais
onde foram realizadas as fotografias não coincidirem com os das residências dos concor-
rentes. Os locais onde foram captadas as fotografias apresentadas a concurso, denunciam
países que estiveram na rota de viagens marcantes para os concorrentes (África, Ásia ou
América Central e do Sul) ou concelhos de Portugal onde se deslocaram por motivos
lúdicos ou procurando cenários ideais para realizar fotografia: os concelhos do interior,
que apresentam paisagens rurais e maior densidade de património natural ou construído,
acabam por ser mais procurados para a prática da fotografia.

Tudo o que existe no mundo só existe para vir a acabar num livro, afirmação que,
abusivamente generalizada, permite pensar que “hoje em dia, tudo o que existe, existe
para vir a acabar numa fotografia” (Sontag, 1986: 32), suporte, cada vez mais virtual, onde
terminam paisagens distantes, cidades longínquas, pessoas e lugares que nos são próximos,
experiências e momentos marcantes, individuais ou colectivos. A relação entre a imagem
21 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
e a escrita, contudo, foi mudando desde o tempo em que os textos explicavam as imagens
e as desmitificavam. “Doravante, as imagens ilustram os textos, remitificando-os. Os ca-
pitéis românticos serviam aos textos bíblicos com o fim de desmagicizá-los. Os artigos de
jornal servem às fotografias para os remagicizarem. No curso da História, as imagens eram
subservientes, podia-se dispensá-las. Actualmente, os textos são subservientes e podem ser
dispensados” (Flussel, 1998: 76).
As fotografias contidas no catálogo, resultantes duma apertada selecção feita entre as
submetidas a concurso, esboçam um roteiro que tem por coordenadas lugares e pessoas
dispersas no mapa e perdidos no tempo, desenham a cartografia possível das desigualda-
des e diferenças que fracturam o mundo, das clivagens abertas pelas novas fronteiras que
fragmentam as sociedades e os territórios. A fotografia num livro é, como alguém disse,
a imagem de uma imagem, onde a “sequência em que as fotografias devem ser olhadas é
proposta pela ordem das páginas, mas nada obriga os leitores a seguirem a ordem recomen-
dada ou indica a quantidade de tempo que devem dedicar a cada fotografia” (Sontag 1986:
15). O ritmo será, pois, ditado pelos interesses, sensibilidades e emoções de cada um, que
pode demorar o olhar nos lugares mais silenciados, nas pessoas remetidas para as margens
do anonimato, fazendo deste reencontro um sinal de resistência contra o esquecimento a
que são votados. A fotografia terá muitos enquadramentos e possíveis abordagens, mas “a
imagem fotográfica só existe plenamente se for fruída por um leitor que lhe dê uma inter-
pretação e, nesse sentido, opere activamente uma espécie de reescrita, de recriação. Este
valor acrescentado é igualmente tributário do contexto em que a fotografia é olhada e lida.
Uma modificação do contexto equivale, muitas vezes, a uma modificação de interpretação
e de leitura. É assim que muitos são, por vezes, tentados a dizer que a melhor imagem é
aquela em que todos os tipos de leitura são possíveis” (Bauret, 2000: 11).
A fotografia, como a paisagem, não deixa de ser “um estado de alma, o que, posto em
palavras comuns, quererá dizer que a impressão causada pela contemplação de uma paisa-
gem (como de uma fotografia) sempre estará dependente das variações temperamentais e
do humor jovial ou atrabilioso que estiverem actuando dentro de nós no preciso momento
em que a tivermos diante dos olhos” (Saramago, 2006: 20.
Os avisados chamam à atenção dos mais incautos para uma incontornável incompati-
bilidade de funções: ou se vive ou se fotografa. “Ao contrário do que é geralmente aceite,
afigura-se-me que fotografar algo é, de certo modo, desalfandegarmo-nos da obrigação de
o recordar, é delegar na imagem a recordação do que momentaneamente nos cativou, é
uma cábula contra as nossas desejadas amnésias, é um adiar da verdadeira contemplação,
é, finalmente, uma forma de alienação do real substituindo-o pelo seu pálido mapa foto-
gráfico” (Castello-Lopes, 2004: 103).
Incapaz de expressar com idêntica precisão e eloquência os sentimentos que nos assal-
22 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

tam quando deparamos com certos livros ou certas fotografias, aproprio-me das palavras
de Ruy Duarte de Carvalho quando, ao percorrer o território descrito por Euclides da
Cunha em Os Sertões, sintetizou desta maneira o que gostaria transmitir, quando, em jeito
de balanço, depois de ter contemplado algumas fotografias do acervo submetido a con-
curso: “há um enorme lastro de erudição, há intuições poderosas, fantasia e razão crítica,
poesia e ciência, uma dialéctica entre o descobrir e o encobrir, explicar e murmurar, eluci-
dar e iludir, espaço dado ao incomensurável, ao desmedido, ao irracional, ao horroroso, ao
esmagador, majestoso, indizível, paradoxal” (Ruy Duarte de Carvalho).
Referências

Gabriel Bauret (2000). A fotografia. Lisboa. Edições 70.


Gérard Castello-Lopes (2004). Reflexões sobre fotografia. Eu, a fotografia, os outros. Lisboa: Assírio
& Alvim.
José Saramago (2006). As pequenas memórias. Lisboa: Caminho.
Monique Sicar (2006 [1998]). A fábrica do olhar. Lisboa: Edições 70.
Ruy Duarte de Carvalho (2007). Desmedida, Luanda/São Paulo - São Francisco e Volta. Lisboa:
Livros Cotovia.
Susan Sontag (1986 [1973]). Ensaios sobre fotografia. Lisboa: Dom Quixote.
Vilém Flussel (1998). Ensaio sobre a fotografia. Para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio
d’Água.

23 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Imaginar o mundo na era da imagem (2013)

“O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza
é esta que uma lente fria documenta? (…) A realidade verdadeira dum objecto é apenas
parte dele; o resto é o pesado tributo que ele paga à matéria em troca de existir no espaço.
Semelhantemente, não há no espaço realidade para certos fenómenos que no sonho são
palpavelmente reais. Um poente real é imponderável e transitório. Um poente de sonho é
fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe ver os seus sonhos nitidamente (e é assim)
ou ver em sonho a vida, ver a vida imaterialmente, tirando-lhe fotografias com a máqui-
na do devaneio, sobre a qual os raios do pesado, do útil e do circunscrito não têm acção,
dando negro na chapa espiritual” (Fernando Pessoa, Livro do desassossego).

O sonho do fotógrafo na era da imagem: imaginar o mundo. A produção exponencial


e a difusão viral de fotografias, provenientes de recônditos lugares e retratando distintas
situações, permite aceder, quase instantaneamente, a uma avalanche de imagens, das mais
simples, banais e anónimas às mais complexas, sofisticadas e icónicas. A rapidez com que
circulam e a banalização dos respectivos conteúdos transformaram a fotografia num pro-
duto instantâneo, retirando-lhe densidade, espessura e a áurea de mistério que a envolvia.
O momento capital que fixa o meio natural, a diversidade de paisagens e as manifes-
tações humanas, captadas em variados contextos económicos, sociais, culturais e políticos,
esboça em cada fotografia uma pequena geografia que revela como “o espaço é a acumu-
lação desigual dos tempos”, qual mapa onde se condensa o movimento e a mudança que
ocorre a montante e a jusante daquele instante. A uniformização e crescente fragmentação
dos territórios, que se verifica em todos os continentes e a todas as escalas, das locais às
globais, também subtraiu capacidade da fotografia, inequivocamente e de modo imediato,
interpretar e situar os espaços retratados. Porque nem sempre mostra toda a verdade e
pode ser usada para manipular ou, mesmo, mentir, é legítima a interrogação se a fotografia
24 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

continua a valer mais que as apregoadas mil palavras. Todas estas razões converteram a
fotografia numa das metáforas do nosso tempo.
Desde os seus primórdios que a fotografia cumpre a nobre missão de retirar do anoni-
mato pessoas e territórios olvidados, incomoda quando produz testemunhos que perma-
necerão como memória futura, interpela ao mostrar o que alguns pretendem ocultar, traz
ao conhecimento público casos e situações que gostariam de manter esquecidos. Razões
estéticas, documentais ou emocionais concentram em determinadas imagens tal carga sim-
bólica, que somos obrigados a questionar, como outros já o fizeram, por que certas foto-
grafias nos obrigam a olhar para o que não queremos ver.
A comunicação inter-pessoal, o acesso à informação e ao conhecimento, do mais sim-
ples ao mais elaborado, fizeram-nos dependentes de imagens. Um breve acesso ao universo
das redes sociais mostra como naufragamos num oceano de tantas e tão variadas imagens,
como o excesso de elementos visuais pode não dar resposta cabal à necessidade real de
informação estratégica. Esta irónica contradição mostra como a quantidade avassaladora
de informação visual que continuamente nos submerge, por si só e de forma imediata,
não é sufi ciente para descodificar as mensagens que carregam nem estruturar uma leitu-
ra assertiva do mundo que nos rodeia sem recurso a adequadas ferramentas de leitura e
intermediação.
A fotografia, contudo, continua a ser uma convenção do olhar, uma linguagem de
representação, a expressão de um olhar sobre o mundo, imagem híbrida onde a realidade
captada passa a incorporar e a veicular uma mensagem com determinado conteúdo histó-
rico, social e cultural. “Nesse sentido, as imagens são ambíguas (por sua natureza técnica) e
passíveis de múltiplas interpretações (em relação ao meio através do qual elas circulam e do
olhar que as contempla). Por isso, para a sua interpretação, são necessárias a compreensão
e a desconstrução desse olhar fotográfico, através de uma discussão teórico metodológica,
que permita formular problemas históricos e visuais, no sentido de que a dimensão pro-
priamente visual do real possa ser integrada à pesquisa histórica” (Monteiro, 2012: 14).
Como os exploradores, os cartógrafos e a generalidade dos geógrafos, também os fo-
tógrafos retratam territórios físicos e imateriais, desenham mapas imagéticos onde vertem
o sonho que todos continuam a prosseguir: resumir numa única imagem, seja fotografia,
desenho ou mapa, tanto o que lhes vai na alma como o conhecimento do mundo acumu-
lado em longas viagens interiores e exteriores. Como se velho geógrafo, perante a ingenui-
dade desarmante do Principezinho, continuasse a esgrimir argumentos na vã tentativa de
eternizar o efémero: “As geografias, disse o geógrafo, são os livros de mais valor. Nunca
ficam fora de moda. É muito raro que um monte troque de lugar. É muito raro um oceano
esvaziar-se. Nós escrevemos coisas eternas.” É o que, à sua maneira, também pretende o
25 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
fotógrafo.

“Exclusão seria o que o fotógrafo não gosta, não quer, não pode ou está proibido de
fotografar. Razões endógenas (não gostar, não querer), razões exógenas (não poder, ser in-
terdito). (…) Fotografar é também resistir e cada um resistirá conforme a sua pessoa. Não
é humanamente possível fotografar tudo; há que escolher, portanto há que excluir. Mas
também não é possível reduzir o mundo à sua representação fotográfica. Tendo a acreditar
que a fotografia está para a realidade como o mapa para o território. Um minuto depois
do “clic”, o mundo já não é exactamente assim. Um dia depois do temporal, o mapa já
não espelha fielmente o terreno. Tudo isto me leva a concluir que a fotografia é sempre
uma ficção porque a sua relação com o real é, por inerência, filtrada pelo olhar do autor
que exclui segundo os seus valores éticos e estéticos” (Castello-Lopes, 2004: 117-121).

Transversalidades: fotografia, inclusão e identidade territorial. A imagem, desde


as cavernas e as remotas pinturas rupestres, tem acompanhado o processo de socialização,
ordenado a relação entre os homens, feito a sua intermediação com o visível, o invisível e
o transcendente; desde Lascaux e Altamira, o homem “parece ser possuído por essa quase
religiosa necessidade de representar, de recriar o mundo, para o celebrar ou para lhe escon-
jurar os perigos.” As imagens, no passado mais recente, invadiram todos os domínios do
quotidiano e da organização social, tornaram-se omnipresentes, conheceram uma difusão
tão prolífera que, em muitos casos, configura uma verdadeira poluição visual. Na sua ver-
são digital ou virtual, estão na televisão, no cinema, nos jogos, na internet, no telefone e
em toda a parafernália de gadgets, assumindo um significado que transcende o seu incon-
testado valor estético, documental ou pedagógico.
Os territórios (lugares, regiões ou países), por outro lado, também constroem a sua
própria imagem, combinando marcas materiais com sinais intangíveis, desde as crenças
às ideias, impressões e expectativas que suscitam. Porque, “em última instância, o espaço
regional é também uma imagem. Entre os homens e o espaço em que vivem, uma das re-
lações mais fundamentais é a da percepção, do comportamento psicológico em relação ao
espaço vivido”. Como salientou Armand Fremont em A região, espaço vivido (1980: 109),
“os mecanismos da aculturação e da alienação impõem aos homens uma certa imagem
dos lugares onde vivem, do seu espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, recalcada ou
recusada, constitui um elemento essencial das combinações regionais, o laço psicológico
do homem com o espaço, sem o qual a região seria apenas a adaptação de um grupo a um
meio, ou um encontro de interesses dum espaço dado”.
A imagem, em sentido lato, por todas estas razões, viu reforçada a sua importância
26 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

como objecto de estudo, mas, também, como elemento estratégico a ter em conta na
acção, sobretudo quando estão em causas certas políticas públicas. O campo de investi-
gação que se abriu em torno da imagem, necessariamente interdisciplinar, tem por objec-
tivo “problematizar a centralidade das imagens e a importância do olhar nas sociedades
contemporâneas”, envolve as artes, a comunicação, a geografia, a história, a antropologia,
a psicologia, a sociologia. Os estudos sobre a cultura visual analisam “a forma como os
diversos tipos de imagens perpassam a vida social cotidiana (a visualidade de uma época),
relacionando as técnicas de produção e circulação das imagens à forma como são vistos os
diferentes grupos e espaços sociais (os padrões de visualidade), propondo um olhar sobre
o mundo (a visão), mediando a nossa compreensão da realidade e inspirando modelos de
ação social (os regimes de visualidade)” (Monteiro, 2012.: 11).
A utilização da fotografia na promoção dos territórios tem sido analisada, sobretudo,
em estudos sobre os centros urbanos e a actividade turística: concluem que o discurso ima-
gético é de forte selectividade, recorre a fotografias que apenas divulgam aspectos singu-
lares ou marcas parcelares, vincando fragmentos estetizados da paisagem, da arquitectura
monumental ou conjuntos urbanos limpos e bem conservados. Este tipo de comunicação
obedece a uma estratégia simples e eficaz: ressaltar elementos arquitectónicos imponentes
ao mesmo tempo que omite ou desvaloriza expressões materiais de alguma degradação ou
descaracterização física; a humanização da paisagem e do seu entorno é feita por perso-
nagens, geralmente estereótipos, facilmente identificáveis, donde se excluíram pedintes,
ambulantes e, por vezes, até pessoas comuns.
A narrativa deste discurso prossegue um único objectivo: tornar apelativos certos lu-
gares pela exaltação da beleza, do esplendor e da glória, quase sempre passada, construir
ícones e clichés a partir de material imagético, quase sempre redutor, com forte carga ideo-
lógica, que valoriza a paisagem e o património, real e simbólico, enquanto recursos consu-
míveis pelo turismo e actividades similares. Os sinais fortes que os lugares encerram viram
marca territorial, elemento nuclear dum conceito que é colocado ao serviço da promoção
espacial. A criação e a gestão de imagens transformam-se, pois, na estratégia quase exclusi-
va do marketing territorial, apostado em valorizar certos atributos dos lugares, por vezes de
forma artificiosa se não artificial, para lhes conferir notoriedade, induzir competitividade
e, deste modo, os tornar mais atractivos junto de diferentes públicos internos e externos.
Além da coesão territorial a fotografia tem servido outras causas, designadamente a da
coesão social. Como ferramenta é usada em metodologias de investigação/acção partici-
pativa, como o projecto Photovoice, cujo referencial teórico é a educação crítica de Paulo
Freire, as teorias feministas e a fotografia documental social, com os seguintes objectivos:
“encorajar os indivíduos a identificar e a reflectir sobre aspectos da sua própria experiência
27 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
pessoal e comunitária; promover o diálogo crítico e o conhecimento sobre aspectos impor-
tantes da sua comunidade; projectar a visão acerca das suas vidas a outros, especialmente
poderosos agentes políticos”3.
A fotografia está na base doutro tipo de projectos, designadamente pedagógicos, orien-
tados para a “educação do olhar” ou a análise de contextos económicos e sociais, onde se
integram os respectivos participantes, a partir das suas experiências e vivências. Quando
estão em causa fins científicos, a fotografia fica na fronteira fluida definida pelos códigos

Photovoice (http://www.photovoice.org), projecto lançado por Carolina C. Wang (Universidade de


3

Michigan) e Mary Ann Burris (Universidade de Londres); Sofi a Rodrigues & Liliana Sousa, Comunicar
com famílias pobres: o Photovoice (www.ua.pt/cs/ReadObject.aspx?obj=15508)
de leitura visual dos respectivos especialistas. É a partir do valor plástico ou científico que
reconheçam às imagens, provenientes da astronomia, imagiologia médica e de outras ciên-
cias, sobretudo sociais (paisagens, lugares, pessoas, elementos, peças do vestuário, símbo-
los, cenas do quotidiano, etc.), que avançam com outros olhares possíveis sobre o mundo.
A imagem, em geral, e a fotografia, em particular, jogam ainda um papel, que não
é despiciendo, na (re)construção das identidades territoriais, processo permanente que
se alimenta duma infinidade de elementos sociais, históricos, culturais e políticos. Os
poderes e autoridades públicas, regionais e locais, apostam na criação de imagens que os
diferencie dos restantes para, assim, ajudar ao desencravamento físico e imaterial, reforçar
a auto-estima dos habitantes e, em última instância, contribuir para a promoção da coesão
territorial e social. O projecto Transversalidades, fotografia sem fronteiras, é tributário de
toda esta cultura visual, recorre à imagem como instrumento para promover o diálogo e a
cooperação territorial, tendo como coordenadas: aproveitar o valor estético, documental e
pedagógico da imagem para promover a inclusão dos territórios menos visíveis, inventariar
recursos, valorizar paisagens, culturas e patrimónios locais; promover a cooperação entre
pessoas, instituições e territórios, de aquém e além fronteiras, fomentar a troca de expe-
riências e de conhecimentos entre espaços unidos pela matriz ibérica comum, espalhados
por diferentes países de vários continentes; formar novos públicos e usar as novas tecno-
logias de comunicação como meio privilegiado de comunicar, apelando à participação de
jovens estudantes universitários e, assim, alargar a rede internacional de investigadores que
se vai organizando a partir da entidade promotora desta iniciativa (CEI).

“Como designar, então, a profissão destes caçadores de fascínio? Fotógrafo é um termo


que não basta. Melhor seria chamá-los de imaginógrafos. Com eles todos sangramos da
mesma ferida, todos reacendemos igual esperança, todos ousamos de novo assaltar o futu-
ro. Eles manejaram o poder mágico da imagem: desocultar os múltiplos sentidos do acon-
tecido, libertar o tudo que poderia ter sido naquilo que simplesmente foi. (…) doaram
28 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

um olhar e nos facultaram a descoberta de fascinantes mundos que tão perto estavam mas
que não sabíamos ver” (Mia Couto, 2005: 83).

Todos nós fotógrafos: participação e cultura territorial. A nossa relação com a fo-
tografia mudou, deixamos de ser meros espectadores, de ter a posição passiva de simples
consumidores para sermos, também, protagonistas e produtores de imagens. Cada um à
sua maneira, hoje, é caçador casual de imagens, faz registos para alimentar a memória e
mais tarde recordar, faz apontamentos mais intencionais destinados a partilhar causas ou
transmitir sentimentos.
Os 166 participantes no concurso, que submeteram 841 imagens, são predominan-
temente jovens, do sexo masculino, oriundos de meios urbanos, com qualificações re-
lativamente elevadas, exercendo profissões técnicas. Uma análise mais fi na mostra que
25% dos participantes têm menos de 25 anos, valor que atinge 42% se estendermos este
limite aos 30 anos; embora predominem os homens, as mulheres representam 32% dos
concorrentes. Aos portugueses (que representam 59% do total de participantes), espanhóis
(20%) e brasileiros (13%) juntam-se concorrentes doutros países de língua portuguesa
(Cabo Verde e Moçambique) e continentes (Uruguai, Venezuela, Japão, Polónia, África
do Sul, etc.). A origem dos concorrentes é, também, variada, embora prevaleça, entre os
portugueses, além da Guarda (12), os que residem, em Lisboa (8), Porto e Coimbra (7),
Viana do Castelo (8), Leiria
e Viseu (3); os espanhóis são, fundamentalmente, de Salamanca (5), Madrid, Barcelona
e Sevilha (3), os brasileiros do Rio de Janeiro (4), Porto Alegre (3) e São Paulo (3). Depois
dos estudantes (39), destacam-se as seguintes profissões: professores (21), fotógrafos (13),
designers (8), arquitectos (6), além de outras mais técnicas (biólogos, engenheiros, geógra-
fos, etc.) ou de carácter generalista (administrativo, secretária, etc.).
A elevada participação não deixa de ser uma manifestação de cidadania, de envolvi-
mento e desejo cooperação através da fotografia, veiculando mensagens que espelham,
além de valor documental, uma cultura territorial relativamente abrangente e tematica-
mente variada: o tema paisagens, biodiversidade e património natural recebeu 360 ima-
gens (42% do total) de 66 concorrentes (40%); os espaços rurais, povoamento e processos
migratórios (13% de imagens, 14% de participantes); cidade e processos de urbanização
(14 %); cultura e sociedade (31 e 32%, respectivamente).
O espectro dos lugares e países onde as fotografias foram captadas são incompara-
velmente superiores e mundialmente mais representativos. Portfolios com discursos in-
tencionais, maduros e consistentes convivem com outras leituras mais fragmentadas,
complementando abordagens temáticas igualmente diversas, dos territórios naturais e
29 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
sociais específicos (geomonumentos, ria de Aveiro; Bairro do Aleixo, etc.) aos do traba-
lho e da cultura (vindima, pesca, pastorícia, etc.). Para além dos vencedores, inerentes a
qualquer concurso, fi ca para memória futura um conjunto de imagens que nos ajudam a
compreender melhor o mundo e o tempo em que vivemos, peças dum complexo mosaico
com que vamos construindo um pequeno atlas imagético do mundo.

“Ora nenhuma outra cultura celebrou tanto as imagens, em detrimento do livro e do


conceito, como a nossa. O texto irá desaparecer, o livro também, em proveito das imagens
icónicas, pixelizadas, digitalizadas, o real recua na sua espessura carnal em proveito da
modalidade virtual: alcançamos o culminar da imagem e, como acontece sempre nestas
alturas, o excesso mata a própria possibilidade delas poderem ter verdadeiramente signi-
ficado” (Onfray, 2009: 25).

Atlas imagético do mundo: temas e territórios; significado e utilidade das imagens.


As imagens obtidas no âmbito deste concurso são olhares subjectivos, abordagens pessoais
dos temas que enquadravam o concurso, documentos que mostram a diversidade de geogra-
fias, a variedade de processos e reestruturações que percorrem os territórios, as sociedades e as
culturas de vários continentes. Através delas captam-se sinais de continuidade e de mudança,
arcaísmos e inovações, diferentes modos de organização social e espacial que ocorrem tanto
nas metrópoles mais populosas como em despovoadas, remotas e longínquas áreas rurais.
O catálogo e os textos que estruturam os respectivos capítulos obedecem aos temas do
concurso: paisagens, biodiversidade e património natural; espaços rurais, povoamento e
processos migratórios; cidade e processos de urbanização; cultura e sociedade. O resultado
que fi ca plasmado é um mosaico de imagens do mundo, pequeno atlas imagético que nos
permite viajar por múltiplos e variados territórios. As fotografias, ao mostrarem e permiti-
rem ler as paisagens naturais, económicas, sociais e culturais, sobretudo as dos territórios
periféricos, marginais e menos visíveis, acabam por se transformar num instrumento de
cooperação e inclusão territorial.
Embora predominem fotografias captadas na Europa, o catálogo inclui muitas que são
provenientes do Sul, para onde parece ter emigrado a esperança, que aqui retorna sob a
forma de imagem. Quando as observamos assaltam-nos reflexões contraditórias. Vêm-nos
à memória os mapas que desenham as geografias da guerra, da fome e das abissais desigual-
dades que fragmentam o mundo; concluímos que as análises de Josué de Castro só peca-
ram por defeito, que as novas fronteiras destes flagelos se tornaram mais fluidas, chegam a
penetrar na Europa, continente donde se pensava estarem praticamente erradicadas. Esta
leitura é reforçada pelo insucesso dos nobres Objectivos de Desenvolvimento do Milénio,
30 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

definidos em 2000 pelas Nações Unidas, quando 191 estados assumiram acabar, até 2015,
com a extrema pobreza e a fome, promover a igualdade de género, erradicar doenças que
continuam a matar injustificadamente milhões de pessoas em todo o mundo.
Enquanto pensamos nisto, mergulhados na crise, angústia e incerteza que actualmente
nos enreda, deparamos com sinais bem diferentes, a avaliar pelo novo relatório do de-
senvolvimento humano de 2013, divulgado pelo PNUD: “A ascensão do Sul: progresso
humano num mundo diversificado”. Referia uma fonte, com base naquele estudo, que
os países do Sul se desenvolvem “a uma velocidade e escala sem precedentes”, resgatando
centenas de milhões de pessoas da pobreza, integrando outras numa nova classe média
mundial.
“Nunca, na História, as condições de vida e as perspectivas de futuro de tantos indi-
víduos mudaram de forma tão considerável e tão rapidamente”. Enquanto o crescimento
nos países do Sul está a permitir um “reequilíbrio global sem precedentes”, o lado oposto
do globo conhece, pelo contrário, políticas de austeridade e ausência de crescimento eco-
nómico que “dificultam a vida de milhões de pessoas desempregadas e privadas de benefí-
cios”, crise que começa a ameaçar a paz social. Até 2020, “o produto combinado das três
principais economias do Sul (China, India e Brasil) ultrapassará o produto agregado dos
Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá”.
A mesma fonte escrevia que a ascensão meteórica do Sul, num mundo interdepen-
dente, ficará comprometida se as economias dos Estados Unidos e da Europa titubearem.
Alguém referiu recentemente que “a Europa tornou-se um museu de si mesma” (Eduardo
Lourenço), assumpção implícita da agonia do eurocentrismo, esse olhar desfocado com
que se insistiu ler e interpretar o mundo. Torna-se ainda mais evidente que há mais mundo
para além de Gibraltar, facto que irá impor alguma humildade para se reaprender com o
Sul os caminhos da esperança, onde foram adoptadas, sem complexos e contra algumas
cabeças bem pensantes, receitas que funcionam e começam a apresentar resultados.

Referências

Armand Fremont (1980 [1976]). A região, espaço vivido. Coimbra: Almedina.


Charles Monteiro (Org.; 2012). Fotografia, História e Cultura Visual. Pesquisas recentes. Porto
Alegre: EdiPUCRS. (http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/fotografi a.pdf )
Fernando Pessoa. Livro do desassossego.
Gérard Castello-Lopes (2004). Reflexões sobre fotografia. Eu, a fotografia, os outros. Lisboa: Assírio
& Alvim.
Mia Couto (2005). Pensatempos. Textos de Opinião. Lisboa: Caminho.
Michel Onfray (2009). Teoria da Viagem. Uma poética da geografia. Lisboa: Quetzal.
31 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Photovoice (http://www.photovoice.org), projecto lançado por Carolina C. Wang (Universidade
de Michigan) e Mary Ann Burris (Universidade de Londres); Sofia Rodrigues & Liliana Sousa,
Comunicar com famílias pobres: o Photovoice (www.ua.pt/cs/ReadObject.aspx?obj=15508
Foto(Geo)grafia: a luz que (d)escreve a terra (2014)

S. Martinho de Anta, 14 de Setembro de 1981 – Venham como vierem, cobertos de


favores do mundo ou simples mortais, procedo sempre da mesma maneira. Mostro-lhes
o que nunca viram: panoramas que são autênticas obras-primas da ecúmena, onde a
geografia física e a geografia humana se complementam. A ossatura telúrica e a epiderme
elaborada. O natural e o cultural em conjunção perfeita. E fico desobrigado. O resto é
da conta deles. Se prestam, vão mais ricos. Dilataram o espírito à proporção dos horizon-
tes. Se não prestam, vão mais pobres. Mediram-se com a grandeza e perderam (Miguel
Torga, Diário XIII).

A relação antiga, íntima e cúmplice, que a geografia mantém com a fotografia não se
resume a uma afinidade etimológica que remete para a descrição da terra, num caso, e, no
outro, para escrever com a luz. Ao advertir que “a geografia do mundo melhor se aprende
vista no mesmo mundo que pintada no mapa” (Sermões: 137), Padre António Vieira
apenas visionou que a prática de qualquer daquelas artes exige trabalho de campo e de
gabinete, ir ao terreno, estar no sítio certo à hora certa, se houver a intenção de observar a
paisagem ou determinado acontecimento a partir do ângulo adequado.
Tal nomadismo é inerente à condição de qualquer explorador que tenha por missão
(d)escrever o planeta e imprescindível para o (foto)geógrafo que pretenda captar o exato
momento em que a luz e a terra se (con)fundem. Depois da sua invenção no século XIX,
a fotografia passou a testemunhar a passagem por lugares exóticos, paisagens deslumbran-
tes, acontecimentos invulgares, modos de vida diferentes. A sua descoberta, além de abrir
novas perspetivas de trabalho para a geografia, habilitou o geógrafo a apresentar evidências
das suas deambulações, a cumprir o que alguém lembrou ser uma das exigências da sua
profissão: “E o geógrafo, depois de abrir o livro de registos, pôs-se a afiar o lápis. As desco-
bertas dos exploradores são primeiro anotadas a lápis. Só são passadas a tinta depois de o
32 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

explorador apresentar provas” (Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho).


Desde o seu aparecimento que a fotografia e a geografia trilharam caminhos parale-
los, pois, enquanto “as técnicas fotográficas progrediram e se consolidaram, a Geografia
progrediu e afirmou-se como domínio científico. Não admira, pois, que os primeiros la-
boratórios de Geografia do início do século XX tenham atribuído um lugar central à
fotografia, tanto nos seus equipamentos como nas coleções, a par com mapas e atlas,
com os quais aliás a imagem fotográfica foi construindo relações e associações originais
e fecundas” (Gaspar, 2013: 28). Começava a fazer caminho a ideia, não isenta de rigor e
contradição, que uma imagem vale mais que mil palavras ou que a geografia se limitaria
à descrição, fria e estrita, de realidades objetivas. Sabemos, hoje, que qualquer realidade
é, em primeira instância, uma representação. Daí a importância que os geógrafos sempre
atribuíram às imagens, usadas para distintas finalidades, o que traduz a umbilical relação
entre geografia e imagem: o mapa, o desenho, o esquisso ou a pintura apenas antecederam
a utilização de imagens mais “realistas” e complexas proporcionadas pelo imparável pro-
gresso tecnológico.
Com o advento da era digital a produção de imagens tornou-se tão sofisticada que os
métodos analógicos ficaram rapidamente arcaicos e obsoletos. A geografia abriu-se a esta
nova geração de imagens, quase sempre geradas ou manipuladas por computador, fixas
(fotografia) e em movimento (cinema, televisão e vídeo), incorporando-as com fins didáti-
cos, científicos ou, mesmo, estéticos. A produção, a difusão e o consumo de imagens glo-
balizou-se, ficou mais acessível, imediato e massificado, prenuncio duma democratização
que é indissociável da acrítica banalização que atingiu a fotografia. Enquanto as imagens
de satélite destronavam as velhas fotografias aéreas, usadas para investigar o meio físico
ou a acção humana, as cartas topográficas, com as suas delicadas curvas de nível, cediam
terreno aos mapas elaborados instantaneamente por diversas ferramentas que suportam os
atuais sistemas de informação geográficos (SIG).
Continuação do mapa duma outra maneira, a imagem, sobretudo a fotografia, acabou
por fazer emergir uma nova linguagem no seio da geografia. A geografia começou por
estar focada em explorar a materialidade da fotografia, tendo prestado um inquestionável
contributo para o reforço do paradigma paisagístico da Geografia, além de usada para ilus-
trar livros e artigos de revistas. Nesta fase, “a fotografia estava tão fortemente associada ao
progresso científico da Geografia que o congresso da UGI que teve lugar em Washington
DC, em 1904, aprovou a proposta do geomorfólogo alemão Albrecht Penck para que se
promovesse um levantamento fotográfico da superfície da Terra”. Esta iniciativa “viria a
originar o Atlas phographique des formes du relief terrestre, da autoria de Jean Brunhes,
Émile Chaix e Emmanuelle De Martonne, cujas primeiras lâminas foram apresentadas por
33 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
De Martonne no X Congresso Internacional de Geografia, Roma 1913”. Sucederam-se
outros projetos de envergadura, como o iniciado em 1909, pelo banqueiro Albert Khan,
que patrocinou o levantamento fotográfico e cinematográfico, Les Archives de la Planète,
cuja direção científica entregou, em 1912, ao geografo Jean Brunhes, iniciativa que havia
de terminar devido á grande crise financeira de 1929 (Gaspar, 2013: 29).
Muitos destes projetos, mais ou menos utópicos, respondem ao desejo de evasão e
descoberta que povoam o nosso imaginário, quase sempre alimentados por imagens cap-
tadas em viagens feitas a lugares recônditos e exóticos, o que testemunha a capacidade
que a fotografia encerra para desocultar espaços marginais e inacessíveis. Assim se explica,
também, o sucesso dos grandes livros de viagens (Odisseia, Lusíadas, etc.), onde estão
plasmadas imagens escritas que oscilam entre realidade e ficção, a longevidade da National
Geographic Society e da sua revista, fundada em 1888, cuja notoriedade provém dos mapas
e fotografias que sempre editou, ou a recente popularidade alcançada pelo Google Earth.
Ao permitirem viajar virtualmente pelo mundo e pelas ruas das cidades, o Google Earth
ou o Street View parecem institucionalizar um big brother geográfico e visual que permite
aceder em tempo real a imagens de qualquer lugar do planeta. Aqui chegados, nunca
estivemos tão perto da metáfora concebida por Jorge Luís Borges quando imaginou que
“Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa
do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto”.
Se estivesse convencido desta possibilidade o autor não teria adiantado, de seguida, que
“Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse
dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e
dos Invernos” (Sobre o Rigor da Ciência). As olímpicas imagens que, hoje, nos chegam de
mais alto, mais longe e com mais pormenor parecem condenadas ao mesmo destino; ou-
tros autores, nesta mesma senda, também advertiram “sobre a impossibilidade de desenhar
um mapa do Império em uma escala de 1 para 1”(Umberto Eco).
Telas, mapas ou fotografias moldam um certo modo de olhar o mundo, são imagens
que contam as suas histórias e, ao descreverem e representarem o espaço que nos rodeia,
ficam impregnadas dos contextos políticos, históricos e sociais do seu tempo. O mapa e a
fotografia, ao omitirem ou distorcerem partes da realidade, ficam sem capacidade para a
representar na sua plenitude, expondo os limites que as imagens comportam. Haverá sem-
pre discrepância entre aquelas imagens e os territórios que tentam representar, o que abre
espaço e margem de manobra para interpretações. O mesmo acontece com os sistemas de
informação geográficos, por mais sofisticados que venham a ser, pela mesma razão que os
velhos cartógrafos, com os seus pretensos mapas científicos, jamais conseguiram superar
inquestionavelmente a complexidade das diferentes visões do mundo.
A geografia acabou por se preocupar, entretanto, não apenas com o palpável, mas
34 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

também com o sentir e os sentidos, pois a sua construção incide “sobre o conhecimento
do mundo, não sobre o próprio mundo”. Não podemos estranhar, por este motivo, a
importância dada a “compreender os processos que conduzem à percepção, às representa-
ções e aos comportamentos que são, portanto, indispensáveis a toda a forma de geografia
ativa” (A. Bailly, citado por Alegria, 2010). Os trabalhos pioneiros de Peter Gould (Mental
Maps, 1974) e de Armand Frémont (A região espaço vivido, 1976) exprimem a maior
atenção que os geógrafos, como outros cientistas sociais, passaram a dar às representações
cartográficas e às imagens, sejam mapas ou fotografias, estáticas ou em movimento. O
reconhecimento da importância que as imagens assumiram nos média, no nosso compor-
tamento quotidiano e, consequentemente, na construção de novos mapas mentais levou a
várias análises críticas do papel das representações geográficas na realidade cultural, desig-
nadamente a levada a cabo pela referida União Geográfica Internacional, sob a presidência
de Paul Claval (Alegria, 2010).
Estudos sobre a imagem, feitos entre nós, mostram o baixo conhecimento do quadro
espacial que se deve, em boa medida, ao facto da televisão deixar flutuar os acontecimen-
tos “num espaço impreciso, não estruturado, sem dimensão e abstracto”, como observou
Suzanne Daveau (1984) em o peso da televisão e dos “media”. Num outro contexto, par-
tindo de “imagens mentais sugeridas por fotografias de diversos espaços geográficos” foram
exploradas as geografias do mundo imaginado através das representações mentais de alguns
países, levando à conclusão “que a geografia tem muito a ver com a construção de imagens
do mundo e não apenas com uma realidade objectiva” (Alegria, 2010). Os geógrafos não
ficaram indiferentes, como vimos, à geograficidade latente na imagem, particularmente
na fotografia, ao ponto de reconhecerem que “em última instância, o espaço regional é
também uma imagem”. Os mecanismos de aculturação “impõem aos homens uma certa
imagem dos lugares onde vivem, do seu espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, re-
calcada ou recusada, constitui um elemento essencial das combinações regionais, o laço
psicológico do homem com o espaço, sem o qual a região seria apenas a adaptação de um
grupo a um meio, ou um encontro de interesses dum espaço dado” (Fremont, 1980: 109).
A cultura territorial também se constrói a partir de imagens, que fornecem tantas vezes
uma perspetiva parcelar, imprecisa e desfocada dos lugares, regiões e países que tentam re-
presentar. Estas imagens, quase sempre estereotipadas ou icónicas, acabam por ser explora-
das até à exaustão pelo turismo, pela publicidade e pelo marketing territorial. Com outras
coordenadas e novas imagens representativas doutros tempos e espaços é possível esboçar
mapas mais amplos e abrangentes desses territórios, desenhar com outras linguagens uma
geografia mais assertiva que aponte para novas gramáticas. A partir deste olhar, a fotografia
tanto pode ser encarada como um fim ou como um meio. Um meio, se utilizada como
documento com objetivos científicos ou pedagógicos ou, de maneira mais banal, quando
35 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
recorremos à sua mensagem para recrear uma nova viagem ou estória. Um fim, quando a
imagem adquire valor próprio que a aproxima de qualquer outra expressão artística, reúne
condimentos estéticos e condensa sentimentos que, podendo não ser diretamente apreen-
didos, nos permite recrear espaços e emoções que o seu autor nunca terá imaginado.
A fotografia tem a virtude de nos confrontar com a complexidade plural do mundo
que nos rodeia, situada algures entre o real e o imaginário. Deste modo, através das
imagens fotográficas acabamos por ficar “confrontados com as estranhezas do mundo.
E mais ainda: em seu frescor, em sua atividade própria, a imaginação torna estranho o
familiar. Com um detalhe poético, a imaginação coloca-nos diante de um mundo novo.
Consequentemente, o detalhe predomina sobre o panorama. Uma simples imagem,
se for nova, abre um mundo. Visto de mil janelas do imaginário, o mundo é mutável”
(Bachelard, 1980: 143). É talvez por isto que almejamos ser foto(geo)grafos para usar e
abusar da fotografia na esperança de, mesmo virtualmente, (re)visitar geografias vividas ou
imaginadas, percorrer espaços e tempos onde fomos felizes e, em dado momento, tivemos
o privilégio de observar paisagem que, cada um à sua maneira, tentou ler e interpretar.
“Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco/ E este é meu ofício de poeta
para a reconstrução do mundo”. Nestes límpidos e densos versos do poema A Forma Justa
(in “O Nome das Coisas”), Sophia de Mello Breyner Andresen apenas dá voz aos que,
com as limitadas armas que dispõem, tentam explorar a ténue fronteira entre geografia e
imagem em demanda duma poética do espaço.
O projeto Transversalidades, onde se inscreve a presente publicação, recorre à fotogra-
fia para abrir janelas para o mundo, esbater fronteiras, promover a cooperação entre pesso-
as e territórios. A imagem é, neste caso, um meio para encontrar outras geografias a partir
das coordenadas que norteiam a cartografia do Transversalidades, fotografia sem fronteiras:
Paisagens e património natural, organizado com fotografias que retratam a natureza, o tra-
balho e as paisagens entretanto humanizadas; Espaço e sociedade rural, onde encontramos
imagens que mostram a diversidade de paisagens, de contextos sociais e do trabalho em
meio rural; Cidade e sociedade urbana, que nos permite visualizar a multiplicidade de pai-
sagens, arquiteturas e vivências urbanas, de novas urbanidades, cenas e cenários urbanos;
Cultura e sociedade, onde a diversidade social e o diálogo cultural se apreendem a partir
de imagens das paisagens culturais que espelham a panóplia de usos, costumes, tradições e
modos de vida que enriquecem de múltiplas vivências o nosso quotidiano.

Referências

Antoine de Saint-Exupéry (1943). O Principezinho.


Armand Fremont (1980 [1976]). A região espaço vivido. Coimbra: Almedina.
36 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Gaston Bachelard (2005 [1957]). A poética do espaço. S. Paulo: Martins Fontes.


Jorge Gaspar (2013). Fotografia e paisagem. In Transversalidades, CEI, Guarda.
Maria Fernanda Alegria (2010). Geografias do mundo imaginado. Finisterra, XLV, 89.
Miguel Torga (1982). Diário XIII.
Padre António Vieira. Sermões.
Viagens, Paisagens, Imagens: Fotografia e Território (2015)

“As fotografias são uma forma de imobilizar e aprisionar a realidade, considerada


rebelde e inacessível. Ou ainda de ampliar uma realidade que sentimos retraída, esva-
ziada, perecível, remota. Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se (e ser-se
possuído por) imagens” (Sontag, 1986: 144).

Fotografia e cultura territorial: o estado do mundo e a reconstrução material e


afetiva da sua percepção. As fotografias que captamos e as que a cada minuto nos chegam
através de diferentes meios e suportes mostram como são mutáveis os mapas materiais e
afectivos que moldam a percepção do mundo que nos rodeia. Ainda não terminou 2015,
declarado Ano Mundial do Solo e Europeu do Desenvolvimento, e os nossos olhos já
estão cheios de imagens da escalada da guerra, dos atentados ao património e das dife-
rentes crises, das económicas e sociais às políticas, que persistem e teimam em alastrar. A
icónica imagem do menino sírio, de apenas três anos, resgatado sem vida, numa praia do
Mediterrâneo, continua cravada na nossa retina, alertando consciências para a importância
do momento crítico que atravessamos. O impacto, a emoção e a corrente de solidariedade
geradas por esta fotografia acabou por ser tão efémera como outras que a antecederam,
mostrando a incapacidade das imagens resistirem, nos dias que correm, à voracidade da
comunicação.
As mensagens igualmente positivas, entretanto surgidas, parecem aguardar destino se-
melhante, como a recente encíclica, “Laudato Si - sobre o cuidado da casa comum”, anun-
ciada em 18 de Junho. Este veemente apelo do Papa Francisco para se cuidar do ambiente
fazendo um uso mais justo e uma gestão mais equilibrada dos recursos (solo, ar, água,
património, etc.), consentânea com o apelidado desenvolvimento “sustentável”, arrisca-se
a ter igual sorte de tantas outras declarações, feitas no último quarto de século, igual-
mente generosas, que o tempo revelaram inconsequentes. Lembremos as propostas que 37 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
levaram à revisão do Conceito e Medição do Desenvolvimento Humano, defendida no
Relatório do Desenvolvimento Humano (1990), da agenda para um desenvolvimento glo-
bal, onde se destacaram os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (2003), uma ambiciosa
assumpção que preconizava Um Pacto Entre Nações para Eliminar a Pobreza Humana. Sem
lograrem resultados palpáveis, estas (boas) intenções, acabaram por se banalizar, descredi-
bilizar, quiçá, desacreditar. Contudo, o tempo acabou por enriquecer a agenda do desen-
volvimento global com a inclusão de temas tão díspares quanto pertinentes: Participação
das Pessoas, Segurança Género e Desenvolvimento, Crescimento Económico Erradicar a
Pobreza, Padrões de Consumo, Direitos Humanos e Desenvolvimento Humano, Novas
Tecnologias, Liberdade Cultural, Cooperação Internacional, Água (Escassez e Crise
Mundial da Água; Alterações Climáticas, Mobilidade, Sustentabilidade e Equidade,
Reduzir as Vulnerabilidades e Reforçar a Resiliência.
Muitas destas preocupações pareciam exteriores e distantes da Europa, até ao momen-
to em que lhes começaram a bater à porta, que vivia entre euforia e deslumbramento a
queda do Muro de Berlim (1989). A crise que se agravou depois de 2008 foi esvanecendo
um estado de espírito que atingiu a economia e contaminou a sociedade, com índices
de desemprego desesperantes, até atingir o âmago da construção europeia, ressuscitando
memórias e fantasmas que se julgavam sepultados. A situação financeira da Grécia, que
atingiu o seu zénite em 2015 numa dramática cimeira, realizada em Bruxelas num inter-
minável domingo de Julho, convocada para “negociar” a resolução deste problema, havia
de se prolongar, ininterruptamente, antes terminar sem honra nem glória quando já ia alta
a manhã de segunda-feira. A Europa acordou diferente, suspensa e sobressaltada, à mercê
dum futuro mais incerto.
O quadro, já de si complexo, agravou-se com a crise emigratória, de dimensões e con-
sequências imprevisíveis, o que faz aumentar a pressão da “fronteira da fome” que, galgan-
do o Mediterrâneo, invade o continente. Todas estas dinâmicas e incertezas estão a mudar
o estado do mundo e a geopolítica, acentuando as desigualdades económicas, sociais e
territoriais que moldam as geografias emergentes, das globais e europeias às nacionais e lo-
cais. No plano doméstico não estamos imunes a processos tão violentos e dolorosos, tanto
mais que as políticas públicas encetadas desde que Portugal aderiu à CEE, entre virtudes
e defeitos, não lograram reverter as assimetrias estruturais existentes, vulnerabilidades que
se agudizaram e adquiriram novos contornos com a recente crise.
O panorama imagético do mundo e do país mudou com este turbilhão de trans-
formações, acompanhado duma produção avassaladora e exponencial de imagens e da
subtil substituição da palavra escrita pela imagem e pelo audiovisual, colocando-nos à
beira duma poluição visual que incapacita a retenção, com perenidade, de testemunhos
38 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

visuais representativos do tempo que vivemos. Semelhante evolução, além de diminuir a


capacidade de refletir e imaginar, reduz o espírito crítico e aumenta o risco da liberdade
se diluir numa cultura visual que resvala cada vez mais para o puro entretenimento. Tais
acontecimentos ocorrem quando “a economia afectiva dos corpos mudou, enquanto os
nossos modelos mentais correspondentes não desapareceram ainda. O mapa material (de-
mográfico, comunicacional, urbanístico) do nosso país modificou-se e, com ele, o mapa
dos nossos investimentos afectivos. A paisagem é um corpo. Mas o horizonte espiritual do
nosso povo inteiro, dos nossos homens políticos e dos nossos governantes, com excepção
de certos artistas e homens de cultura, continua a ser o de antigamente, não tendo sequer
integrado as transformações da cartografia do espaço físico e do tempo” (Gil, 2005: 73).
A nova cultura territorial implica uma nova percepção do mundo e do espaço vivido
cuja renovação também passa pelas viagens que se fazem, reais e virtuais, as paisagens que
se alcançam e as imagens que se interiorizam. Embora passado, portanto, já memória,
qualquer fotografia desperta sentimentos que nos surpreendam e emocionam onde é pos-
sível alicerçar a réstia de sonho indispensável para perscrutar o futuro com mais esperança.

“A fotografia, sendo uma forma de comprovar a experiência, é também um meio de


a negar, ao limitá-la a uma procura do fotogénico, ao convertê-la numa imagem, numa
recordação. A viagem torna-se uma estratégia para acumular fotografias. O próprio acto
de fotografar é tranquilizante e atenua a sensação de desorientação que as viagens prova-
velmente exacerbam” (Sontag, 1986: 19).

Viagem e fotografia: retalhos do mundo, fragmentos da memória. A viagem e a fo-


tografia são indissociáveis porque é absolutamente necessário deslocarmo-nos para captar
imagens e possuir um registo fotográfico para garantir a sua efetiva realização. A viagem,
hoje, só parece existir quando temos uma imagem que a testemunhe, qual troféu que se
exibe para gáudio pessoal, provar como somos nómadas e cosmopolitas, um documento
que se guarda para memória futura. A necessidade de termos um registo faz com que
cada um recorra a técnicas diferentes conforme as que melhor domina: “a aguarela ou a
fotografia, o poema ou o desenho, a nota breve ou a longa dissertação, a carta ou o postal.
Cada suporte invoca um tempo singular: a velocidade excessiva da máquina fotográfica
por um lado, a demorada paciência da escrita por outro, a imagem aqui o texto acolá, a
cor misturada com a água num caso, traço vivo, seco e cursivo no outro, o verbo” (Onfray,
2009: 54).
A captação de imagens tornou-se numa importante motivação para se realizarem via-
gens que, juntamente com a sua turistificação, alteraram tanto a vivência como o encanta-
mento que as envolviam. Por esta razão, há quem considere que “a viagem distorce a nossa 39 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
curiosidade vinculando-a a uma lógica geográfica superficial. Tão superficial como seria
a de um programa de estudos universitários que fizesse as suas indicações bibliográficas
considerando o seu volume em vez do seu conteúdo” (Botton, 2004: 126). Contudo,
nunca deixou de existir um entendimento, porventura mais romântico, arcaico e telúrico,
para quem ”o viajar é viver”, “é ampliar de um modo indefinido a existência”, pois “a imo-
bilidade pertence aos túmulos: à vida pertence o movimento” (Herculano, [1853-1864]:
185-8). Os que cultivam esta perspetiva continuam a acreditar que “de vez em quando,
em viagem, acontece alguma coisa inesperada que transforma toda a natureza da vida e fica
com o viajante” (Theroux, 2012: 355).
Os motivos e as formas de viajar sempre foram muitas e variadas: sem recuarmos a um
tempo mais longínquo, lembremos a viagem de Alexander von Humboldt pela América
do Sul, entre 1799 e 1804, que relatou em Viagem às Regiões do Equinócio do Novo
Continente, ou a realizada por Xavier de Maistre, feita nove anos antes, num espaço fecha-
do, na primavera de 1790, durante os meses da sua convalescença, que originou a célebre
Viagem à Volta do Meu Quarto. Estas duas aproximações traduzem abordagens radical-
mente distintas da viagem: “a primeira necessitou de dez mulas, trinta baús de bagagem,
quatro intérpretes, um cronómetro, um sextante, dois telescópios, um teodolito Banda,
um barómetro, uma bússola, um higrómetro, cartas de recomendação do rei de Espanha
e uma pistola. A segunda, um pijama cor-de-rosa e um pijama azul” (Botton, 2004: 240).
Foi nesta última que Almeida Garrett se inspirou para engendrar, por oposição, as suas
típicas, simbólicas e míticas Viagens na minha terra, publicadas sob a forma de folhetim,
durante os anos de 1845 e 1846, que abriu com a seguinte observação: “Que viaje à roda
do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio
como S. Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu,
onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que
aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.” É a proposta duma viagem alternativa, a céu
aberto, que fosse inspiradora de “pensamentos novos, uma coisa digna do século”, que não
originasse nem se resumisse a “quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título
de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum
proveito da ciência e do adiantamento da espécie.“ Nesta viagem que empreendeu Tejo
arriba, onde “está simbolizada a marcha do nosso progresso social”, o autor critica “esta
gente de Lisboa” que “não vêem mundo, não viajam, não saem” e que, não indo além do
Chiado, da rua do Oiro e do teatro de S. Carlos, “como hão-de alargar a esfera de seus
conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura do século?”
Por essa altura, viajar para conhecer mundo começa a ser sinónimo de cosmopoli-
tismo, como nos dá conta Eça de Queiroz, em As cidades e as serras, livro publicado em
40 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

1901, um ano depois da sua morte: “Parti então, com muita alegria, para a minha apeteci-
da romagem às Cidades da Europa. Ia viajar!... Viajei.” Estávamos nos alvores do turismo
de massas, que o autor antevia com esta apreciação irónica: “Trinta e quatro vezes, à pressa,
bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num
vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocando, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em
cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a
entranha. Catorze vezes subi derreadamente, atrás dum criado, a escadaria desconhecida
dum Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama
desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um
café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes
travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam” (etc., etc.). Remata
esta passagem do livro de maneira cáustica: “Gastei seis mil francos. Tinha viajado.”
Quando o turismo de massas já dominava e se havia afirmado como verdadeira indus-
tria José Gomes Ferreira fornece-nos um retrato mais consentâneo com esta modernidade
emergente: “Em meu entender, a intricadíssima arte de viajar pode resumir-se em dois
estilos essenciais: o turístico, inerente a uma multidão de monstros de olhos muito abertos
que olham, olham, OLHAM, com entusiasmo de rebanho esbaforido, para a superfície do
brilho das coisas (o ideal seria cortar-lhes as pálpebras!), e o aristocrático – em que os ho-
mens dão ao mundo a honra de se deslocarem, para continuarem no empenho de desco-
nhecê-lo. Uns buscam, passivos, o que lhes mostram. Os outros trazem em si o que depois
fingem encontrar” (Ferreira, 1971: 31. O modo de viajar, como de fotografar, mudou ao
ponto de assumir possibilidades quase infinitas, umas mais desassossegadas - “As viagens
são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos” (Fernando Pessoa)
-, outras mais metafóricas e sentimentais, como as sugeridas por Mia Couto: “Lançamos
o barco, sonhamos a viagem: quem viaja é sempre o mar” (Mar me quer); “A viagem não
começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras
interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar”
(O outro pé da sereia: 77).
Os nómadas em que nos transformamos, como concluiu Saramago ao fazer a sua
Viagem a Portugal, deixaram de estranhar que “a viagem não acaba nunca. Só os viajantes
acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa.
Quando o viajante se sentou na areia da praia disse: “não há mais que ver”, sabia que não
era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo doutra”. Voltar a percorrer caminhos
e lançar novos, distantes e mais (des)comprometidos olhares é aceitar que “viajar não faz
bem apenas aos homens,/ também, é bom para os próprios percursos/ ter homens que os
percorram./ Um caminho é como uma casa:/ é necessário abrir a janela, de vez em quando,
/ para que o ar circule./ Precisa de ser arejado, o caminho, e os homens/ que o percor-
41 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
rem são os que executam este ofício./ São os homens e as mercadorias/ que conservam a
estrada” (Tavares, 201: 210). Visitar velhos itinerários é, por vezes, expressar o desejo de
regressar ao lugar de partida, como se depreende das imagens que as comunidades em
diáspora partilham nas redes sociais. São imagens de virtuais viagens às respetivas origens,
exercício de memória contra o esquecimento, afirmação de pertença contra a perda de
referências dum território e duma comunidade a que se continua umbilicalmente ligado.
“Eis como funciona a memória: recolhe na imensidão extensa lenta da diversidade os pon-
tos de referência vivos e densos necessários à cristalização, reconstituição, e fortalecimento
das recordações. A substância da recordação é aquilo que deslumbra o espírito depois de
abandonada a geografia” (Onfray, 2009: 52). Assim se combate a ausência e se alimenta a
expetativa dum regresso às origens, ao torrão natal, às pequenas pátrias que nunca deixam
de ser a nossa casa comum.
As imagens captadas durante tais itinerários são crónicas de lugares onde se demorou o
olhar a procurar o outro mas que é, tantas vezes, uma tentativa desesperada de nos encon-
trarmos a nós mesmos. Tais imagens, sejam banais subprodutos da viagem ou documentos
intencionais recolhidos por profissionais, são o espelho dum mundo em mudança, retrato
da transformação de lugares que, assim, vão perdurar na memória. Embora a fotogra-
fia seja “uma língua estrangeira que todo mundo acha que sabe falar” (Philip-Lorca di
Corcia), é uma linguagem indispensável para recolhermos os retalhos do mundo e, a par-
tir destes fragmentos da memória, contarmos a história da permanente viagem, porque,
como ensina qualquer Manual do Viajante, “é muito raro poder dizer-se que uma viagem é
perfeita antes de acabar. Mas acontece” (Mendonça e Costa, 1907). As imagens que ficam
do tempo que passa são “a substância da recordação é aquilo que deslumbra o espírito de-
pois de abandonada a geografia”. Porque, antes de mais, “é preciso tomar em consideração
esse conjunto de imagens e de sensações ao qual se reduz inevitavelmente uma viagem no
seu imediato. Emoções difusas, percepções desordenadas, ideias confusas, fragmentos e
pedaços de real sem qualquer relação à partida, a não ser o facto de serem apreendidos em
determinado lugar, tempo, hora e sítio” (Onfray, 2009: 52).

“A paisagem está lá, para dizer que o mundo exterior existe e nos escapará sempre
um pouco, à revelia dos nossos desejos e dos nossos talentos. Talvez então a paisagem não
seja senão a metáfora de uma exterioridade distante e maior, muito maior, que as leis e
os livros. À apreensão do espaço que a paisagem é, talvez não possa afinal aplicar-se nem
a mediação do peso da história nem a das narrações, mas tão-só esse outro mistério que
a intuição é. O espaço percebido deixará então de oferecer-se como representação para
revelar-se como imagem, imagem do próprio espaço” (Carvalho, 2005: 129).
42 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Paisagens e imagens fugidias: fixar sinais dum mundo que nos escapa. As imagens
submetidas a concurso, sobretudo as seleccionadas para figurarem no presente catálogo,
esboçam distintas cartografias onde se inscrevem e perpetuam a memória dos lugares.
Desenhada a partir de traços naturais e humanos e de modos de vida, rurais e urbanos,
que teimam em subsistir, estas complexas topografias são referências incontornáveis que
definem, identificam e decifram o código genético das paisagens e das comunidades que
as foram moldando.
. Paisagens, biodiversidade e património natural. O mosaico paisagístico que o catálogo
permite percorrer é trespassado pela diversidade de contextos onde se observam distintas
relações entre o homem e o meio. Há uma presença forte do mar, limitado por praias,
arribas e escarpas que o céu prolonga em infinitos reflexos espelhados na água e nostálgicos
pôr-do-sol. O tempo é um grande escultor (geo)morfológico, de vales, como os modelados
por glaciares, de cavernas, com as suas estalactites e estalagmites, de (geo)monumentos,
quando se conjuga favoravelmente a orientação e a composição do terreno. Há, ainda,
paisagens antropizadas, onde o homem explora recursos, seja a pesca, a extração de sal ou
a energia eólica, cujas torres começam a pontuar o horizonte. As paisagens consideradas
Património da Humanidade estão bem representadas tanto pelas que sofreram uma forte
ação do homem (socalcos do Douro, p. ex.) como palas que ainda se encontram em rela-
tivo estado puro (Lençóis Maranhenses).
. Espaços rurais: povoamento, atividades, modos de vida. O despovoamento, o envelheci-
mento e o abandono dos campos são retratos que se impuseram, depois dos campos terem
sofrido, ao longo de mais de meio século, sucessivas vagas de crises com diferentes matizes.
A agricultura mais moderna, competitiva e tecnologicamente evoluída está pouco repre-
sentada. Prevalecem imagens de hortas cultivadas por idosos, rendidos à pura subsistência.
Os sinais de vitalidade nos campos chegam dos países do Sul, das pampas argentinas ou
dos sertões do Paraná, colonizados pelo agronegócio. Os modos de vida que os concorren-
tes mais valorizaram são os de pendor tradicional, extintos ou em vias de extinção (pas-
tores, transumâncias, matança do porco, capeia raiana, etc.), as atividades, as profissões e
os saberes artesanais ligados à proto-indústria (ferreiro, moleiro, alfaiate, etc.). Nas aldeias
vão à procura das marcas do património e da arquitectura rural, de certos detalhes e alguns
e estereótipos dum passado glorioso quando eram os núcleos que organizavam o espaço e
a sociedade rural. O que nos mostram é um rural quase sem agricultura, caracterizado pelo
abandono: retratam fechaduras de portas que já não se abrem, casas antigas, abandonadas,
em ruínas; a aldeia é um mundo onde se confrontam presença e ausência e a relação tensa
entre tradição e modernidade é o prenúncio da transição dum paradigma do espaço para
o do tempo que está a ditar uma nova empatia dos ausentes e dos exógenos com estes
territórios. No limiar dum novo tempo, o discurso imagético sobre o rural mitifica uma
43 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
estética que passa pelo recurso mais expressivo a imagens a preto e branco e a retratos de
pessoas deslocadas no tempo, marcadas pela ausência e por modos de vida que nos pare-
cem distantes.
. Cidade e processos de urbanização. As topografias da memória e as contradições urba-
nas estão plasmadas em imagens que mostram o contrate entre o novo e o velho, o antigo e
o moderno, sinais do passado e da modernidade que se espelham tanto na nova arquitetura
como nos vazios e espaços abandonados que proliferam. As cidades estão em permanente
transformação, coexistindo espaços públicos novos ou renovados paredes-meias com va-
zios e ruínas - alguns centros históricos são situações paradigmáticas -, que o colorido dos
graffiti assinalam e destacam. As paisagens, os ambientes e as vivências urbanas mudam ao
ritmo das refuncionalizações e das novas centralidades, tornando mais vincadas a segrega-
ção (favelas, p. ex.), a pobreza e a solidão urbana.
. Cultura e sociedade: diversidade cultural e social. O catálogo permite uma viagem a
diferentes lugares que nos mostram um mundo em mudança, visitar paisagens naturais e
humanas mais ou menos familiares ou exóticas. Este contacto com outros povos e outras
culturas permite conhecer outros modos de vida, usos e costumes ancestrais, extinção em
extinção, que se registam para memória futura.
Recolhidas em aprazíveis viagens, encontros inesperados ou momentos insólitos, as ima-
gens aqui partilhadas oscilam entre uma beleza bucólica e onírica, que idealizamos intempo-
ral, e o seu oposto quando mostram a exclusão de pessoas, territórios ou denunciam efeitos
negativos sobre o meio. Quando exprimem tensões e conflitos ou retratam desastres naturais
ou o sofrimento humano as fotografias não são inócuas, tanto mais que o ato de fotografar
implica selecionar o que se pretende mostrar e escolher o que fica de fora: “enquadrar é
excluir, é delimitar um in e um off, é, finalmente, fraccionar o mundo, privilegiar um aqui
contra um ali, de forma tal que o nosso olhar é incapaz de fixar do mesmo modo. Escolher
um “aqui” equivale, finalmente, a escolher um “agora”; oblitera-se um “além” e um “aquém”
como se despreza um “antes” e um “depois” (Castello-Lopes, 2004: 83).
O investimento que é feito para divulgar, promover e construir novas imagens de
territórios e lugares é correlativo da proliferação de folhetos, desdobráveis e livros editados
por diferentes entidades. As imagens incluídas neste catálogo não se inscrevem nesta pre-
ocupação, exploram outros pontos de vista para abordar a partir doutros ângulos lugares
perdidos no mapa, longe da vista e porque, aparentemente, nada de relevante aí acontece,
foram apagados e esquecidos pela (in)cultura territorial dominante representada pela ge-
neralidade dos média. A origem e o principal objectivo do Projecto Transversalidades é
o de resgatar através da imagem territórios silenciados, promover a inclusão de lugares e
de pessoas que foram sendo remetidas para a lonjura do esquecimento. Ao reconhecer a
importância e o valor estético, documental e pedagógico da imagem, além de promover a
44 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

cooperação entre pessoas e territórios, o Transversalidade contribui para recentrar perife-


rias, desencravar territórios e incluir pessoas para, deste modo, promovendo através duma
nova cultura visual e territorial uma renovada geografia visual e inclusiva.

Referências

Alain de Botton (2004). A Arte de Viajar. Lisboa: Dom Quixote.


Alexandre Herculano [1853-1864]. Apontamentos de viagem. Obras Completas. Tomo V. (reuni-
dos e organizados por Vitorino Nemésio). Lisboa: Livraria Bertrand.
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Charles Monteiro (Org.; 2012). Fotografia, História e Cultura Visual. Pesquisas recentes. Porto
Alegre: EdiPUCRS. (http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/fotografi a.pdf )
Eça de Queiroz (1901). As cidades e as serras.
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Gérard Castello-Lopes (2004). Reflexões sobre fotografia. Eu, a fotografia, os outros. Lisboa: Assírio
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José Gomes Ferreira (1971). O Irreal Quotidiano - histórias e invenções. Lisboa: Portugália.
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Mia Couto (2005). O outro pé da sereia. Lisboa: Caminho.
Mia Couto (2005). Pensatempos. Textos de Opinião. Lisboa: Caminho.
Michel Onfray (2009). Teoria da Viagem. Uma poética da geografia. Lisboa: Quetzal.
Papa Francisco (2015). Encíclica Laudato Si - sobre o cuidado da casa comum.
Paul Theroux (2012). A Arte da Viagem. Lisboa: Quetzal Editores.
Ruy Duarte de Carvalho (2005). As paisagens Propícias. Lisboa: Livros Cotovia.
Susan Sontag (1986 [1973]). Ensaios sobre fotografia. Lisboa: Dom Quixote.
Xavier de Maistre (1794). Viagem à Volta do Meu Quarto.

45 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Poéticas do olhar: imagem e cultura territorial (2016)

“As imagens são mediações entre o homem e o mundo. O homem «existe», isto é, o
mundo não lhe é acessível imediatamente. As imagens têm o propósito de lhe representar
o mundo. Mas ao fazê-lo, entrepõem-se entre mundo e homem. O seu propósito é serem
mapas do mundo, mas passam a ser biombos. O homem, ao invés de se servir das imagens
em função do mundo, passa a viver o mundo em função de imagens. Cessa de decifrar as
cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivencia-
do como um conjunto de cenas.” (Flusser, 1998: 29)

Geografia e imagem: cultura visual, memória territorial. O homem sempre recor-


reu à imagem para (d)escrever o mundo que o rodeia e imaginar o lugar que nele pensa
ocupar. A sua relação com o território também se constrói a partir de imagens pois “os me-
canismos da aculturação e da alienação impõem aos homens uma certa imagem dos luga-
res onde vivem, do seu espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, recalcada ou recusada,
constitui um elemento essencial das combinações regionais, o laço psicológico do homem
com o espaço, sem o qual a região seria apenas a adaptação de um grupo a um meio, ou
um encontro de interesses dum espaço dado” (Fremont, 1980: 109). Num tempo onde
real e imaginário cada vez mais se (con)fundem, a geografia vivida resulta da incorporação
de sinais e a apropriação de imagens que os lugares emitem. É por tudo isto que “todos os
lugares começam por ser nomes, lendas, mitos, narrativas. Não existe geografia que nos
seja exterior. Os lugares – por mais que nos sejam desconhecidos – já nos chegam vestidos
com as nossas projecções imaginárias. O mundo já não vive fora de um mapa, não vive
fora da nossa cartografia interior” (Mia Couto, Interinvenções: 78).
A história da arte ensina-nos que, apesar das mudanças ocorridas, na forma e no con-
teúdo, as imagens continuam a ter uma tremenda importância social. Nos tempos mais
recentes, o desenvolvimento científico conferiu-lhes um papel novo e uma importância
46 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

acrescida, pois, em muitas circunstâncias, são a única possibilidade de acedermos a certos


processos, fenómenos, objetos, lugares, rostos. O enorme investimento feito nas técnicas
de fabrico e de reprodução de imagens decorre deste facto, evolução que ditou o pro-
gressivo distanciamento entre as imagens e o olhar, ao ponto de, hoje, não vermos o que
vêm os olhos humanos, mas o que é construído em computadores. A imagem, por este
facto, está mais ausentes de referências corpóreas diretas, deixou de ser um registo passivo,
quando passou a criar objetos específicos, como acontece com a fotografia. A evolução
da imagiologia (médica, de satélites, digital, etc.), nascida no final do século XIX, obriga
a novas confianças, deixando que se instalasse a dúvida se podemos “acreditar em formas
das quais só conhecemos imagens, intimamente herdeiras das máquinas de visão” (Sicard,
2006: 18). Tal como o mapa não é o território também a imagem se distanciou da coisa
representada, tornando legitima a pergunta se ainda podemos acreditar nelas, se continu-
am testemunhas fiéis e credíveis do que temos por evidente.
Uma vez captadas, a fotografia desterritorializa-se, emigra dos lugares para ser memó-
ria dessa ausência. Embora se compreenda que quando “A raiz da paisagem foi cortada./
Tudo flutua ausente e dividido,/ Tudo flutua sem nome e sem ruido” (Sophia de Mello
Breyner Andresen; Coral), o cordão umbilical que liga a fotografia ao lugar nunca é defi-
nitivamente rompida pois o leve rasto de luz que a tocou perpetuará sempre uma indelé-
vel relação com as primordiais origens. Por isso “uma determinada foto não se distingue
nunca do seu referente (daquilo que representa)”, mesmo quando tudo parece que “flutua
ausente e dividido”, “sem nome e sem ruido”, como acontece com as imagens dos lugares
mais remotos, sujeitos a profundas transfigurações. Mesmo se impercetíveis, as marcas que
as ligam aos territórios donde emanam, faz com que “toda a fotografia é um certificado
de presença. Esse certificado é o gene novo que a sua invenção introduziu na família das
imagens” (Barthes, 1980: 98).
A relação intima entre Geografia e fotografia radica na mútua necessidade de espaço e
de tempo para se materializarem, na história paralela, desde os tempos modernos, quando
a primeira emerge como ciência e a segunda surge como uma inovação técnica que rapi-
damente se popularizou. Como sugere o étimo das duas palavras, ambas prosseguem o
objetivo comum de (d)escrever, cumplicidade que leva, no caso da geografia, à “descrição
da terra” e, no da fotografia, a “escrever com a luz”. A viagem é, por isso, uma causa igual-
mente comum, vital à geografia e à fotografia, obrigando-as a caminharem juntas e a terem
de cumprir a profecia de Padre António Vieira, quando vaticinou, nos seus Sermões, que
“a geografia do mundo melhor se aprende vista no mesmo mundo que pintada no mapa”.
A associação da fotografia ao progresso científico da Geografia é tão forte que num
congresso da União Geográfica Internacional, realizou em 1904, em Washington, foi
47 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
aprovada “a proposta do geomorfólogo alemão Albrecht Penck para se promover um
levantamento fotográfico da superfície da Terra. Esta iniciativa “viria a originar o Atlas
phographique des formes du relief terrestre, da autoria de Jean Brunhes, Émile Chaix e
Emmanuelle De Martonne, cujas primeiras lâminas foram apresentadas por De Martonne
no X Congresso Internacional de Geografia, Roma 1913”. Sucederam-se outros projetos
de envergadura, como o iniciado em 1909, pelo banqueiro Albert Khan, que patrocinou
o levantamento fotográfico e cinematográfico, Les Archives de la Planète, cuja direção
científica entregou, em 1912, ao geógrafo Jean Brunhes, iniciativa que terminou com a
grande crise financeira de 1929 (Gaspar, 2013: 29).
A cultura territorial, que continua a ser uma aposta da Geografia, só é plena quando
complementada com uma sólida cultura visual, alicerçada em imagens, sejam desenhos,
mapas ou fotografias. A geograficidade latente nas imagens não nos é indiferente, das que
captamos às captadas por outros, pois é através dela que se alimenta a memória e aumenta
o nosso património visual. Os suportes usados para as adquirir e fixar acabam por invocar
a singularidade do tempo, que oscila entre a velocidade excessiva da máquina fotográfica
ou a demorada paciência da escrita e do desenho. Continuamos a recolher e criar ima-
gens para enganar a memória, na tentativa de encontrar “na imensidão extensa e lenta da
diversidade os pontos de referência vivos e densos necessários à cristalização, recordação
e fortalecimento das recordações. A substância das recordações é aquilo que deslumbra o
espírito depois de abandonada a geografia” (Onfray, 2009: 52).

“Pretendemos examinar imagens bem simples, as imagens do espaço feliz. Nessa pers-
petiva, nossas investigações mereceriam o nome de topofilia. (…) O espaço percebido
pela imaginação não poder ser o espaço indiferente entregue à mensuração e à reflexão
do geómetra. É um espaço vivido. É vivido não em sua positividade, mas com todas
as parcialidades da imaginação. (…) Mas as imagens não aceitam ideias tranquilas,
nem sobretudo ideias definitivas. Incessantemente a imaginação imagina e se enrique-
ce com novas imagens. É essa riqueza do ser imaginado que gostaríamos de explorar”
(Bachelard, 2005: 19).

Poética do Olhar: observar, ver, imaginar. As novas tecnologias proporcionam ima-


gens cada vez mais sofisticadas que nem sempre são as mais esclarecedoras, impactantes
ou apelativas. Mesmo em tempos de aparatos e de aparências, os recursos técnicos, os mé-
todos e as possibilidades imagéticas atuais não são as únicas variáveis que influenciam um
resultado mais satisfatório. A riqueza documental, estética e o valor patrimonial de cada
imagem, além do respetivo conteúdo, da informação esclarecida e da carga emocional que
48 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

incorporam, dependem da intencionalidade, subtileza e sensibilidade do olhar de quem,


naquele preciso instante, faz o disparo. A sensibilidade (artística, geográfica, etc.) de quem
elabora o discurso visual plasmado em cada imagem continua a ser decisiva. Hoje como
ontem, na era do analógico, a relevância do olhar do fotógrafo é equivalente à observação
arguta e à sensibilidade apurada do geógrafo, de quem depende a qualidade das anotações
e dos desenhos deixados nos velhos cadernos de campo.
A experiência mostra-nos que pode bastar uma única imagem para ter um impacto
tocante, profundo e demolidor. Foi suficiente uma fotografia para causar uma emoção ge-
neralizada, como aconteceu recentemente, com aquele menino refugiado, prostrado inerte
ao sabor das ondas numa praia da Grécia, com o rapaz sírio, na ambulância, com o olhar
perdido no infinito, ferido numa guerra donde não podia escapar. Estas imagens arrasa-
doras, repetidas até à exaustão nas redes sociais e nos meios de comunicação social, cujos
gritos lancinantes calam tão fundo quanto efémeros e passageiros são os seus ecos iniciais.
A comoção desencadeada parece esgotar-se na voracidade mediática que parece viver da
banalização da dor a que nos habituaram, que nos anestesia e torna insensíveis perante a
incapacidade de encontrar soluções justas e rápidas.
As imagens, nestes como em muitos outros conflitos anteriores, também entram em
combate, despertam consciências, alertam para os horrores da guerra, sensibilizam para
sofrimento de milhões de pessoas desesperadas, votadas ao mais completo abandono.
Quando as imagens carregam este significado adquirem vida própria, assumem um poder
real e inesperado, dão visibilidade a causas, pessoas e territórios esquecidos e abandonados.
Nestas situações, a imagem desperta consciências, ajuda a integrar periferias, desoculta
pessoas territórios olvidados, disputa o espaço mediático às imagens banais e coloridas
impostas pelos poderes e pelo turismo.
A fotografia, por fornecer retalhos estáticos do passado, mostra-se incapaz de retratar
o presente na sua plenitude, de mostrar a dinâmica subjacente ao movimento do mundo.
Contudo, são imprescindíveis para o ler e interpretar para além das aparências, caso o
leitor conjugue imaginação e sensibilidade com capacitação assertiva. O primeiro passo é
não ser ingénuo para acreditar que uma fotografia, por mais rigorosa, clara e evocadora que
seja, mostra sempre toda a verdade. Tem de superar a instável confiança, por vezes cega,
que nela possa depositar se pretende aceder ao que ela realmente esconde, aos segredos e
detalhes que nos escapam ao primeiro olhar, suscetíveis de nos emocionar quando os des-
vendamos. O fascínio da fotografia está na capacidade de nos continuar a surpreender, o
que acontece quando não nos limitarmos a ver e a observar, mas recorremos a imaginação
com o exato entendimento que a “imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens”
(Vilém Flusser).
49 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

“A fotografia não se limita a reproduzir o real, recicla-o, o que constitui um processo


chave de uma sociedade moderna. As coisas e os acontecimentos são submetidos, sob a
forma de imagens fotográficas, a novos usos, recebem novos significados que estão para
além das distinções entre o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o útil e o inútil, o bom e o
mau gosto” (Sontag, 1986: 153).

Transversalidades: um atlas visual do mundo. Uma qualidade importante da foto-


grafia é ser “uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução”
(Sebastião Salgado). Os segredos contidos nesta linguagem também ajudam a explicar a
vitalidade e o crescimento do projeto “Transversalidades – Fotografia sem Fronteiras” que
superou as melhores expetativas, na edição de 2016, indo além do âmbito inicial estrita-
mente transfronteiriço. Os resultados quantitativos e qualitativos alcançados atestam a
maturidade e a valia da iniciativa: foram submetidas cerca de 700 candidaturas (mais do
dobro da edição anterior) e a sua penetração alcançou mais de 30 países. Embora predomi-
nem concorrentes de Portugal (30%) e do Brasil (28%), é relevante a presença da América
Latina (16%), sobretudo da Argentina com 7%, e dos Países de Língua Portuguesa, es-
pecialmente Moçambique. O concurso mobiliza predominantemen-te jovens (mais de
40% dos concorrentes tem menos de 30 anos), equilibrado em termos de género (mais de
40% dos concorrentes são do sexo feminino) e regista uma elevada taxa de participação de
profissionais ligados ao ramo e às artes (fotógrafos, fotojornalistas, jornalistas, designers e
outras, etc.).
As sete centenas de participantes, provenientes de quase todos os continentes, assegu-
ram uma representatividade geográfica alargada. É possível, a partir de imagens oriundas
de lugares e países bem distintos, lançar múltiplos olhares sobre pessoas, territórios e paisa-
gens, contemplar a partir desta mostra a riqueza e a diversidade natural, humana e cultural
do planeta. O projeto Transversalidades, como testemunha o espólio visual reproduzido
nos catálogos já editados, transcende um simples concurso de fotografia. Estruturado a
partir de quatro coordenadas fundamentais - património natural, paisagens e biodiversi-
dade; espaços rurais, agricultura e povoamento; cidade e processos de urbanização; cultura
e sociedade: diversidade cultural e inclusão social – coleciona um acervo documental que
constitui um pequeno observatório que progride, a cada ano, para um pequeno atlas visual
do mundo em mudança.

Referências

Gaston Bachelard (2005 [1957]). A poética do espaço. Martins Fontes, S. Paulo.


50 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Mia Couto (2009). Interinvenções [E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções]. Lisboa:
Caminho.
Michel Onfray (2009). Teoria da Viagem. Uma poética da geografia. Lisboa: Quetzal.
Monique Sicard (2006). A Fábrica do Olhar - Imagens de Ciência e Aparelhos de Visão (Século
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Susan Sontag (1986 [1973]). Ensaios sobre fotografia. Lisboa: Dom Quixote.
Vilém Flussel (1998). Ensaio sobre a fotografia. Para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio
d’Água.
Viagem, imagem e as narrativas do mundo (2017)

O advento do digital, a evolução técnica da produção fotográfica e o número cres-


cente de pessoas que se deslocam elevaram a níveis sem precedentes a possibilidade, real e
virtual, de viajar, captar imagens e as difundir instantaneamente. A viagem e a fotografia
tornaram-se interdependentes, não apenas pelo ócio que as motiva ou pelo negócio que
geram mas pela necessidade mútua dum lugar, de estar no sítio certo à hora certa, para
usufruir e retratar, nas melhores condições, experiências ou paisagens.
As imagens não só estimulam o desejo de viajar como influenciam as escolhas e con-
dicionam os destinos, princípio levado à exaustão pelo marketing territorial e turístico.
Além dos mapas mentais, também partimos com a cabeça povoada de imagens que se
esperam encontrar nos lugares a visitar, onde nos deslocamos, tantas vezes, na expectativa
de, realmente, as poder captar. A obsessão que nos faz escravos do registo para memória
futura não deixa de subtrair algum romantismo e encanto à viagem, ao roubar espaço para
usufruir o lugar e retirar tempo para apreender o espírito que dele emana.
A verdadeira arte de viajar terá de conviver com o apelo e a crescente avidez pela foto-
grafia. Nos locais que o turismo de massas tornou icónicos depararmos com o espetáculo
insólito duma avalanche de máquinas e, agora, de telemóveis, a disparar incessantemente
em todas as direcções, cujo resultado se observa imediatamente publicado nas redes so-
ciais. Não tendo esta produção quantitativa de imagens uma equivalente tradução qua-
litativa, tal pegada imagética começa a raiar uma nefasta poluição visual. Tal constatação
reclama uma nova geografia do olhar, mais pausada e sustentável, contida, comedida e com-
prometida, sustentada numa literacia visual mais sólida e responsável, que não limite nem
coarte a natural necessidade dos viajantes relatarem as suas peregrinações e as registarem
em qualquer um dos suportes disponíveis.
As memórias que se captam nestas viagens são a maneira do viajante adiar o seu fim,
de as prolongar para além do regresso a casa. A captação de evidências é a sua aposta na
51 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
pós-viagem, em criar um património afectivo que possa partilhar com amigos, de construir
um legado íntimo que seja a narrativa pessoal da sua passagem pelo mundo. Através das
imagens também nos apropriamos dos territórios, mesmo os marcados pela ausência, na
tentativa de os resgatar do esquecimento a que foram votados pelos poderes dominantes,
políticos ou dos meios de comunicação.
A fotografia peca por se centrar, cada vez mais, na interacção com os gadgets que
com as pessoas e as paisagens que retrata. Contudo, mantem intacta a capacidade de dar
visibilidade a territórios e notoriedade a pessoas, de quebrar o isolamento das mais exclu-
ídas e integrar as mais marginalizadas, continua a ser um auxiliar importante para (des)
escrever o mundo que nos rodeia. Por outro lado, quem trabalha na área da comunicação,
das humanidades e da literacia visual, nos dias que correm, sobretudo nas redes sociais,
debate-se com a dificuldade de definir balizas irrefutáveis que distinga entre o verdadeiro
e o falso.
A recolha de imagens que captem a alma e o espírito dos lugares passa pela sua vi-
vência, em demorar o olhar nas paisagens e interagir com as pessoas, ir além da epiderme
com que os territórios e os homens se defendem do voyeurismo exógeno. A fotografia
instantânea, que tem vindo a ganhar espaço, tem de ser contrabalançada com a captura
de imagens mais ponderada, alicerçada num projecto consistente. É este sentimento que
percorre a generalidade das imagens submetidas ao Concurso Transversalidade – Fotografia
sem Fronteiras, que reúne uma boa representação das melhores práticas e tendências que
percorrem a fotografia da contemporânea. Passar os olhos pelas páginas do catálogo que
se dá à estampa é, pois, um convite a viajar por lugares inolvidáveis e abrir janelas que nos
ajudem a melhor compreender o outro.
52 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Geografias Efémeras: as imagens e o lugar, o lugar das imagens
(2018)

A verdadeira (r)evolução imagética a que se tem assistido, nem sempre acompanhada


duma adequada literacia visual, é correlativa duma profunda mudança na relação que
passámos a ter com a imagem e na maneira como interferiu e influenciou a nossa perceção
dos territórios. A permanente exposição a um caudal vertiginoso de imagens, reais e vir-
tuais, verdadeiras ou nem tanto, altera a noção de espaço e de tempo, induz novos mapas
mentais, muda a cultura territorial e, portanto, o modo como lemos e interpretamos os
espaços que nos rodeiam, isto é, o nosso entendimento da geografia.
A fotografia vai resistindo a esta compressão do espaço e do tempo como sobreviveu
à morte que lhe foi anunciada com o advento das imagens em movimento. As imagens
fixas encerram propriedades que perpetuam na memória pessoas e lugares, subtraindo-
-os à voracidade do tempo e prolongando a sua reconfortante presença, particularmente
importante nos momentos mais pesados e nostálgicos de perda e ausência. As imagens
espelham, ainda, diferentes modos de ver e de estar no mundo: os geógrafos expressam
tais representações através de mapas, os escritores (des)escrevem paisagens literárias nas
páginas de suas ficções, os pintores exprimem a sua visão quando dão cor aos desenhos
que esboçam sobre as telas. Os fotógrafos, com as suas câmaras, andam há mais de século e
meio a escrever com a luz, a retirar do anonimato os lugares que os seus olhos conseguem
alcançam. Ao eternizarem paisagens esquecidas e lugares invisíveis acabam por produzir
imagens icónicas, que se confundem com tais lugares, os passam a identificar e a que ficam
perenemente ligadas.
As imagens, como os demais documentos visuais, sobretudo os (foto)gráficos e os
cartográficos, são produzidas por instrumentos cada vez mais sofisticados. A cartogra-
fia, um dos métodos expeditos de representar os territórios, foi perdendo antigos per-
gaminhos até sucumbir perante as “abstrações da cartografia automática ou ao traço
53 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
esquemático”, abandonando a pretensão de ser uma “ambiciosa obra-prima expressiva
do esboço regional” (Fremont, 1980 (1976): 102). Foi longo o caminho desde que o
homem começou a desenhar nas cavernas, a fazer esquissos e croquis, ao correr da pena,
durante uma qualquer viagem, a pintar e, finalmente, a fotografar, quando em plena
revolução industrial se aperfeiçoou a mecânica, a ótica e a química. A subsequente mu-
dança tecnológica, ao permitir a captação remota de imagens, massiva e automatizada,
reduz a participação humana neste processo e substitui os aviões por satélites. Se o
detalhe alcançado vai relegar as saudosas fotografias aéreas para os arquivos, o nível de
precisão da georreferenciação irá permitir navegar com maior facilidade até aos lugares
mais recônditos do planeta.
A digitalização, que se esconde sob o manto frio e rigoroso da matemática, respon-
sável por uma verdadeira revolução conceptual, democratiza a produção e o consumo de
imagens, generaliza a sua captação, emissão e receção em tempo real, primeiro passo para
uma monitorização constante onde nos deixámos mergulhar. Esta permanente e fluida
interação que mantemos com a fotografia, a exemplo do que aconteceu com outras artes,
já levou a considerar que “a imagem empírica virtual vem de qualquer espaço e de qual-
quer tempo, inserindo-se em qualquer contexto, dela emana o Presente único, que con-
centra todas as dimensões do tempo (a arte contemporânea pode utilizar toda a espécie
de imagens da história da arte). A desterritorialização das imagens permitiu esta abertura
indefinida da obra de arte contemporânea, e é a condição para que se possa conectar com
qualquer outra sem criar um contexto novo definidor (um território). No fundo, porque
pode pertencer a um qualquer contexto, a imagem contemporânea é definitivamente sem
contexto, desterritorializada (como se vê bem, por exemplo, nos retratos fotográficos, ou
na arquitectura – exemplos, a Casa da Musica, do Porto, de Rem Koolhas ou o Museu
Guggenheim, de Bilbao, de Frank Gerhy)”. Refere ainda o mesmo autor que “uma especi-
ficidade dessa imagem é que não reenvia para nenhuma outra imagem nem para si própria,
para nenhum referente (como a imagem da arte moderna), para nenhum sentido escondi-
do, para nenhum invisível. O seu sentido vai concentrar-se inteiramente na sua presença
empírica e esgotar-se na evidência dessa presença” (Gil, 2018: 410).
A compreensão da nossa relação com o espaço vivido exige meios, ferramentas e docu-
mentos que nos habilitem a interpretar as suas múltiplas interdependências. A palavra e a
observação, fundamentais no trabalho de campo, precisam ser complementadas com do-
cumentos de natureza variada, que sejam verdadeiros elementos de intermediação “entre
o investigador e uma certa realidade a descobrir”. Os documentos, embora “não sendo
a realidade acaba por a transcrever e refletir”, da simples narrativa (texto) aos de índole
numérica (série estatística) ou visual (mapa, fotografia, etc.), são inestimáveis contributos
que nos permitem restituir o passado, revelar aspetos invisíveis, escondidos ou condensar
54 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

uma determinada situação (Fremont, 1980: 97).


O repositório fotográfico captado desde a invenção da fotografia é um inquestionável
património visual ao dispor das comunidades. A capacidade deste legado em exorcizar
tempos e espaços e tecer afetos que alimentam e sedimentam o sentimento de pertença a
um dado território, são importantes ativos a valorizar no reforço da identidade das pessoas
e dos lugares. O empenho crescente em torno do estudo e da divulgação da fotografia, bem
como da sua recolha, conservação e arquivo, não decorre apenas do seu valor artístico nem
da sua importância documental. A justificação não reside, unicamente, no facto de serem
verdadeiras testemunhas para memória futura, de revelarem facetas menos conhecidas da
história dos lugares ou de sociabilizarem informação, dispersa sobre diversos contextos
territoriais, mas no suplemento de alma que aportam ao processo de reabilitação da auto-
estima, quase sempre debilitada, das comunidades mais fragilizadas.
Além dos múltiplos discursos que permite sustentar, o património visual é, como
referido, um importante tónico para a reconstrução do percurso identitário de pessoas e
lugares. Tais imagens, embora estáticas e datadas, portanto, representativas dum determi-
nado passado, além de desocultarem facetas menos conhecidas da história, estimulam a
afirmação da cidadania na justa medida em que podem ser pretexto e servir de base para
refletir sobre os caminhos do futuro, onde as comunidades se empenham sobretudo em
tempos de maior angústia e incerteza. A fotografia encerra a capacidade de estimular dife-
rentes diálogos, com benefícios recíprocos, tanto entre pessoas e territórios como áreas dis-
ciplinares. Ao estimular estes exercícios duma geografia poética, imagética e, porventura,
imaginada, não deixa de impulsionar a geografia da esperança que urge inventar.
O lugar das imagens, por tudo isto, não se pode confinar aos museus e aos arquivos,
mas extravasar para o espaço publico e interagir com a comunidade. A atenção que merece
a defesa e a divulgação do património fotográfico, local e regional, é tanto mais impor-
tante quanto, “em última instância, o espaço regional é também uma imagem. Entre os
homens e o espaço em que vivem, uma das relações mais fundamentais é a da percep-
ção, do comportamento psicológico em relação a um espaço vivido. (…) Os mecanismos
da aculturação e da alienação impõem aos homens uma certa imagem dos lugares onde
vivem, do seu espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, recalcada ou recusada, constitui
um elemento essencial das combinações regionais, o laço psicológico do homem com o
espaço” (Fremont, 1980: 109).

Referências

José Gil (2018). Caos e ritmo. Lisboa: Relógio d’ Água. 55 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Armand Fremont (1980 [1976]). A Região Espaço Vivido. Coimbra: Almedina.
Imagem & território: em demanda dos Rumores do Mundo (2019)

“A imagem empírica virtual vem de qualquer espaço e de qualquer tempo, inserin-


do-se em qualquer contexto, dela emana o Presente único, que concentra todas as dimen-
sões do tempo (a arte contemporânea pode utilizar toda a espécie de imagens da história
da arte). A desterritorialização das imagens permitiu esta abertura indefinida da obra
de arte contemporânea, e é a condição para que se possa conectar com qualquer outra
sem criar um contexto novo definidor (um território). No fundo, porque pode pertencer a
um qualquer contexto, a imagem contemporânea é definitivamente sem contexto, dester-
ritorializada (como se vê bem, por exemplo, nos retratos fotográficos, ou na arquitectura
– exemplos, a Casa da Música, do Porto, de Rem Koolhas ou o Museu Guggenheim, de
Bilbao, de Frank Gerhy). Uma especificidade dessa imagem é que não reenvia para ne-
nhuma outra imagem nem para si própria, para nenhum referente (como a imagem da
arte moderna), para nenhum sentido escondido, para nenhum invisível. O seu sentido
vai concentrar-se inteiramente na sua presença empírica e esgotar-se na evidência dessa
presença” (José Gil, 2018: 410).

Geografias do olhar: as novas imagens de efémeras cartografias. Os amantes da fo-


tografia gastam boa parte do tempo e investem o melhor do seu talento a procurar lugares
e paisagens singulares, físicas e humanas, para captarem imagens que façam a diferença
perante a vulgaridade das que constantemente atinge o nosso olhar. Em cada esquina de-
paramos com cenas elucidativas do modo como se está a (con)viver, produzir e comunicar
através da imagem, sobretudo quando se generalizou o acesso de todos os estratos sociais
ao telemóvel. O uso intensivo e ostensivo deste recurso está a gerar tal nuvem de imagens
banais que será longo o caminho a percorrer até superar esta verdadeira poluição visual em
que nos deixamos mergulhar.
A importância da imagem nas sociedades contemporâneas e a rápida mutabilidade do
56 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

seu significado só tem paralelo na proliferação e popularidade alcançada pelas selfies. O


poder que a imagem encerra, patente nesta manifestação de narcisismo exacerbado, quiçá
doentio, é utilizado para, através dela, se tentar projetar um perfil ou uma faceta que, em
muitos casos, é pura fake. Não é por acaso que selfie já foi a palavra do ano, que se começa
a discutir a influência deste hábito na saúde, que a sua prática, em situações extremas,
representa um risco efetivo, mais nefasto que, por exemplo, os ataques de tubarões. Os
jornais noticiaram, recentemente, que entre outubro de 2011 e novembro de 2017, pelo
menos 259 pessoas morreram, em todo o mundo, enquanto faziam selfies, balanço que é
superior em 50 vítimas mortais aos ataques de tubarões.
O culto obsessivo da imagem, aprisionada e subjugada às estratégias pessoais de au-
topromoção, caminha a par das mudanças profundas e aceleradas que se operam nas pai-
sagens imagéticas emergentes. O telemóvel, usado individualmente ou em grupo, virou
um divertimento a que se recorre em todos os contextos e ambientes, dos mais íntimos
aos verdadeiramente públicos, para veicular a ideia, através de poses, ora esdrúxulas ora
ousadas, dum quotidiano que transborda felicidade. Em tempo de selfies a fotografia não
concede espaço para existir gente melancólica. A invenção dos bookings, sobre as mais
variadas temáticas, e as poses estudadas, em sítios idílicos e lugares icónicos, ameaçam re-
sumir a viagem à sua própria imagem, ao ponto de ser, para alguns turistas mais acidentais,
a principal razão que os move a viajar e a optar por certos destinos.
A passagem da imagem fixa para a imagem em movimento, da fotografia estática
para o vídeo dinâmico, coloca a literacia imagética num patamar alinhado com demais
metamorfoses que atravessam a sociedade. Nesta sociedade mediática e do espetáculo, o
primado da imagem é uma componente estruturante da nova cultura popular e de massas
que está para além da técnica (fotográficas, telemóvel, computador, etc.) e, mesmo, do
modo como é usada para comunicar. As redes sociais (blogue, facebook, instagram, twitter,
etc.) e as diferentes plataformas, embora acelerem a circulação de enorme quantidade de
informação potenciaram a imagem sobre o texto na razão inversa da qualidade e densidade
dos respetivos conteúdos. Vai longe a época dos fotógrafos ambulantes, “à la minuta”, al-
mocreves que não deixaram qualquer rasto digital, parcimónia que não alimentou diários
que cada um, hoje, escreve através de imagens reais e virtuais. Esta sugestiva auto-geogra-
fia, mistura entre realidade e ficção, tem uma manifesta carga simbólica: georreferencia
os lugares visitados, diz quando lá se esteve, mostra os gostos pessoas, dos gastronómicos
e estéticos aos políticos e culturais, sem deixar de denunciar as causas que se abraçaram
nem os acontecimentos onde se participou. Esta forma de expressão não deixa de repre-
sentar um micro-trabalho, fornecido a custo zero para quem aproveita este manancial de
informação em proveito próprio, utilizada para fins duvidosos, alimentando um negócio
57 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
gerador lucros astronómicos.
Quem no futuro recorrer a estas fontes para fazer a cronica dos dias que correm irá
deparar com uma caudalosa torrente de imagens consumida com voracidade por ansiosas
redes sociais. Esta enorme pegada imagética é o que fica do tempo que passa, herança
digital dum futuro incerto pelo risco de ingovernabilidade. A desmesurada memória que
se fica para a posteridade, porventura ingerível devido à sua dimensão, pode conhecer o
mesmo destino que o metafórico mapa, imaginado por Jorge Luís Borges, construído na
escala de 1 para 1, que acabou algures, sem glória nem proveito, moribundo, pois “esse
extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e
dos Invernos”. A fotografia, ao ceder à tentação de viver do aparato e da aparência, pode
resvalar para os antípodas das anteriores gerações analógicas que privilegiavam o conteúdo
em detrimento da forma. Por tudo isto, a fotografia mostra-se mais vulnerável e volátil,
parecendo esgotar-se na espuma dos dias, refém do tempo para se inscrever e do espaço
para se imprimir, no papel ou na retina.

“De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que / se perdia nos longes da Bolívia /
E veio uma iluminura em mim. / Foi a primeira iluminura. / Depois botei meu primei-
ro verso: / Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem. / Mostrei a obra para
minha mãe. / A mãe falou: / Agora você vai ter que assumir as suas / irresponsabilidades.
/ Eu assumi: entrei no mundo das imagens” (Manoel de Barros).

Fotografia sem fronteiras: invisibilidade, exclusão, silêncio e poética do olhar. O


tempo que corre não disfarça o inultrapassável paradoxo de estarmos perante um brutal
aumento da produção de imagens enquanto permanecem visualmente excluídas extensas
parcelas de território e grande quantidade de pessoas. Ao mantê-las invisíveis e esquecidas,
longe das câmaras e do radar dos principais meios de comunicação, o registo fotográfico
apenas perpetua as assimetrias já diagnosticadas em termos económicos e sociais. A forte
dicotomia entre a luz e a sombra assim refletida mostra o lado mais condenável dum ciclo
vicioso que esteve na base da miríade de discursos a favor da tão propalada coesão, da vasta
plêiade de politicas, estratégias e programas que se sucederam para tentar reverter aquele
estado de coisas.
O fotógrafo, ao enquadrar e selecionar o que pretende captar, está a decidir o que fica
dentro e o que fica de fora do retrato. Este processo de exclusão, territorial, social ou de
qualquer outro tipo, está na raiz do panorama visual que passa diante dos nossos olhos
e nos leva a questionar onde está a gente pobre e os lugares sombrios. Esta invisibilidade
também oculta os novos emigrantes, mesmo os que têm emprego, nómadas que convivem
com toda a sorte de precaridade e divagam à mercê de empregos voláteis. O novo precaria-
58 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

do, que se expandiu desmesuradamente e viu a sua fragilidade aumentar com as crises mais
recentes, já não vive em bairros de lata, anda disfarçado, dorme algures, porventura, num
carro estacionado, na cidade, ou contentorizado, no campo, ligado à internet, num gueto
criado junto às estufas ou do agronegócio onde labuta, literalmente, pelo pão de cada dia.
Estes excluídos e olvidados, aqui ou em qualquer ponto da Europa ou do Mundo,
são os menos fotografados. Quando o apagamento não é total, as suas imagens não
conseguem competir com as idílicas paisagens naturais e humanas, limpas e modernas,
cujo glamour faustoso e ostentatório prevalece, acabando por submergir o que é dife-
rente do padrão ou pretensamente mais arcaico. A inclusão através da imagem continua
a ser uma aposta dum projeto cujos pressupostos evoluíram, sem deixar de assumir a
ideia, porventura utópica, que todos nós somos fotógrafos. A importância documental e
pedagógica da fotografia, contudo, não pode alienar a sua dimensão estética como bem
documenta, aliás, o presente catálogo. O valor artístico e a poética intrínseca à fotografia
acaba por, mesmo nas situações mais duras e realísticas, suavizar a violência que grassa
no mundo em que vivemos.
O poeta Manoel de Barros explicitou este conceito ao derramar um certo entendimen-
to de poética do olhar em Ensaios fotográficos (Manoel de Barros, 2000). Começa por colo-
car em epígrafe, na primeira parte deste seu livro de poemas, uma pertinente advertência
do escritor argentino Jorge Luís Borges: “Imagens não passam de incontinências do visual”.
Em O Fotografo, poema que se tornaria famoso, começa por explanar, logo no primeiro
verso, uma verdade tão verdadeira quanto inquietante: “Difícil fotografar o silêncio”; de
seguida, no segundo verso, propõe-se explicar o entendimento que tem sobre esta matéria:
“Entretanto tentei. Eu conto”; no final do citado poema conclui que “A foto saiu legal”. Para
correr atrás do prejuízo e superar a dificuldade de fotografar o silêncio recorreu à técnica
comum a qualquer fotógrafo: “Preparei minha máquina”; na ânsia de fotografar o dito “si-
lêncio” vai captando o que aparece: fotografa “esse carregador”, “o perfume”, “a existência
dela” (da lesma), “o perdão, “o sobre” e “a Nuvem de calça e o poeta”.
O seu jeito para esboçar a dita poética e “entrar no mundo das imagens” foi abordá-las
pela dimensão mais singela e intangível. A fórmula encontrada para “assumir as suas (ir)
responsabilidades” nesta matéria foi recorrer a uma literatura imagética e, com ela, costu-
rar uma cartografia poética com que desenhou verdadeiros mapas (in)visuais. Em Auto-
retrato, na segunda parte daqueles Ensaios, tem no topo do seu Álbum de família uma frase
lapidar de Clarice Lispector a abrir o poema: “Eu te invento, ó realidade”. Nesta fotografia
poética descreve a sua mátria, dando cor e forma às paisagens matriciais das suas longín-
quas origens pantaneiras: “Ao nascer eu não estava acordado, de forma que / não vi a hora. /
Isso faz tempo. / Foi à beira de um rio.” Em outro poema, Fotografia documental, prossegue
a descrição dessas paisagens recorrendo a um universo fantástico, imaginário tão fértil que
59 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
o leva a concluir que os nomes atribuídos pela geografia são redutores e empobrecerem as
imagens captadas pela observação: “O rio que fazia uma volta / atrás da nossa casa / era a
imagem de um vidro mole... / / Passou um homem e disse: / Essa volta que o rio faz... / se chama
enseada... / / Não era mais a imagem de uma cobra de vidro / que fazia uma volta atrás da
casa. / Era uma enseada. / Acho que o nome empobreceu a imagem”.
Resistir e pugnar pela coesão também pode passar por fotografar os mais excluídos e
invisíveis, sejam pessoas ou territórios, subtrair ao esquecimento quem permanece oculto
sob o manto diáfano das mais densas penumbras. Fotografar esses territórios e essas pesso-
as é, porventura, mais difícil que fotografar o silêncio.
“Em última instância, o espaço regional é também uma imagem. Entre os homens
e o espaço em que vivem, uma das relações mais fundamentais é a da percepção, do
comportamento psicológico em relação a um espaço vivido. (...) Os mecanismos da acul-
turação e da alienação impõem aos homens uma certa imagem dos lugares onde vivem,
do seu espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, recalcada ou recusada, constitui um
elemento essencial das combinações regionais, o laço psicológico do homem com o espaço”
(Frémont, 1980 [1976]: 109).

Transversalidades: memória e reconstrução do património visual. A compreensão


da nossa relação com o espaço vivido exige meios, instrumentos e documentos que nos
habilitem a apreender as suas múltiplas inter-relações. A observação precisa de documen-
tos complementares para intermediar e discernir a realidade a descobrir, sejam de natureza
narrativa (um texto), numérica (uma série estatística) ou visual (um mapa). Tais documen-
tos, onde se inclui a fotografia, embora não sejam a realidade, são inestimáveis contributos
para refletir sobre o passado, revelar aspetos invisíveis ou escondidos, transcrever ou espe-
cular sobre o futuro.
A evolução técnica facultou instrumentos cada vez mais sofisticados para produzir
imagens e outros documentos visuais, sobretudo cartográficos e (foto)gráficos. A cartogra-
fia, enquanto modo rápido de explicitar e traduzir um lugar ou uma região, conheceu uma
evolução profunda com a computação passando duma ambiciosa obra-prima expressiva
do esboço regional às abstrações da cartografia automática ou ao traço esquemático. Os de-
senhos, esquissos e croquis, apontamentos feitos ao correr da pena durante uma viagem ou
uma investigação de campo, percorreram um longo o caminho até se consagrarem como
pinturas esboçadas numa tela ou fotografias gerar por máquinas, entretanto inventadas.
A produção de imagens, apesar destas profundas mudanças, nunca dispensou a pre-
sença humana antes de serem geradas de modo automático ou remotamente. Quando
o satélite substituiu o avião e se passam a captar imagens com maior detalhe e georrefe-
60 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

renciadas com mais precisão, não só as saudosas fotografias aéreas são relegadas para os
arquivos como se pode navegar com precisão pelos recantos mais recontos do planeta.
Por outro lado, o facto de passarem a ser obtidas em tempo real, vai permitir que as mu-
danças que se operam no mundo que nos rodeia estejam em permanente monitorização.
Concomitantemente, a digitalização que se esconde sob o manto frio e rigoroso da ma-
temática, potencia a emergência dum novo paradigma de interação com as imagens que
tanto democratiza a produção e o consumo como generaliza o acesso à emissão e à receção
de imagens.
A profusão instantânea de imagens desmaterializadas alteram a nossa perceção do espa-
ço e a relação que estabelecemos com os territórios onde nos movimentamos. As imagens
que vamos acumulando funcionam, simultaneamente, como memória, como património
visual ou como documentos que nos ajudam a ler e interpretar tais territórios. Aqui reside
um dos papéis importantes da fotografia, contributo inestimável para reconstruir os mapas
mentais e descodificar as novas geografias. Levando em consideração o projeto e o catálogo
que culmina esta edição do concurso, a grelha de leitura que é oferecida para ler o mundo
é organizada a partir de quatro coordenadas fundamentais: (i) Património natural, paisa-
gens e biodiversidade; (ii) Espaços rurais, agricultura e povoamento; (iii) Cidade e processos de
urbanização; (iv) Cultura e sociedade: diversidade cultural e inclusão social.

“Como potenciais consumidores de imagens, nosso olhar, nossa atenção e nosso inte-
resse são solicitados permanentemente nesse desfile ininterrupto de formas, cores e signifi-
cados. Há uma imensa competição dessas imagens pela captura atenta dos olhares. Não
apenas dos olhares: algumas imagens deliberadamente procuram, sobretudo, atrair nossa
atenção. Em um universo de múltiplas e contínuas possibilidades colocadas ao olhar, as
imagens que conseguem prender nosso interesse estabelecem para si um campo de visibi-
lidade privilegiado.
Ao mesmo tempo, essas imagens, objetos centrais de nossa atenção, tornam as outras
desinteressantes ou despercebidas, ou seja, paralelamente se estabelece um campo de re-
lativa invisibilidade. Assim, existem aquelas imagens que, por conseguirem se extrair do
fluxo da continuidade, se singularizam; mais do que percebidas, elas são individualiza-
das e recebidas com destaque” (Gomes, 2013).

Rumores do mundo: o lugar do olhar e as (re)leituras do território. Os lugares e os


territórios, sejam cidades, regiões, países ou continentes, remetem para uma determinada
imagem que imediatamente os identifica. Em função de quem a esboça e dos fins em vista
pode-se privilegiar mapa, no caso do geógrafo, o desenho, no do pintor, o livro se a repre-
sentação do mundo estiver a cargo do escritor. Faz mais de século e meio que se anda a
61 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
escrever com a luz, a captar e reproduzir fotografias, levando-nos a concluir que “determi-
nadas condições contribuem diretamente para que algumas imagens sejam mais notadas,
sejam privilegiadas em detrimento de outras. Variados elementos são concebidos e cons-
truídos para realçá-las. Isso significa que, nessa competição entre imagens, desenvolvem-se
verdadeiras estratégias para seduzir os olhares, para chamar a atenção, para despertar o
interesse. Essas estratégias procuram primeiramente atrair, mas logo depois buscam meios
de fixar o foco sobre si. É preciso capturar o olhar e simultaneamente conservá-lo. Há mui-
tas astúcias, das mais sutis às mais evidentes, para justificar, de forma convincente, a razão
de se conferir e guardar aquela visão. Algumas imagens se impõem sobre outras e parecem
legitimamente gozar do direito de ofuscar as demais” (Gomes, 2013).
A imagem, seja fotografia, mapa, pintura ou outra, continua a ser uma ferramenta útil
e imprescindível para ler, interpretar e descodificar o mundo que nos rodeia. Li algures
que a “fotografia não desafiou a pintura porque imitava melhor a realidade, mas porque
suscitou um efeito-de-real na percepção das imagens e das coisas que a pintura da época
não era capaz de produzir. Numa escala incomparavelmente mais vasta, a imagem virtual
está hoje a provocar o mesmo efeito - e também o efeito contrário, perverso, de grandes
fechamentos desrealizantes”. As imagens também viajam e se recriam quando se cruzam
ou enxertam com outras para (re)criarem novas e inéditas conexões.
O catálogo é uma miscigenação, mistura fertilizada cujo resultado não é um labirinto
desordenado de imagens descontextualizadas, mas num produto novo mais complexo e
rico de informação. O novo significado que as imagens adquirirem permitem uma leitura
mais abrangente, que não é fragmentada apesar de terem sido retiradas do seu contexto.
Ao serem reinscritas num outro território, acabaram reapropriadas como as citações, pro-
porcionando uma geografia imaginária aberta para novas leituras do mundo.

Referências

Armand Frémont (1980 [1976]). Região, espaço vivido. Coimbra: Livraria Almedina.
José Gil (2018). Caos e ritmo. Lisboa: Relógio d’ Água.
Manoel de Barros (2000). Ensaios fotográficos. In Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011.
Paulo Cesar Costa Gomes (2013). O lugar do olhar: elementos para uma geografia da visibilidade.
Rio de Janeiro: Bertrand.
62 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Geografias do Olhar: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara (2019)

“o olho que vê a fotografia, justamente por ser fotografia o que vê, não é o mesmo,
ainda que o mesmo seja, que olhou e viu uma parte do mundo para fotografá-la”
(Saramago, 1996: 25).

Geografias do Olhar: (d)escrever a terra com um raio de luz. O momento único


e irrepetível registado numa qualquer fotografia, lapso de tempo subtraído às efémeras
geografias que a cada instante nos escapam, pode não se resumir a uma circunscrita bidi-
mensionalidade. Extravasar a anónima contemplação nas duas dimensões duma folha de
papel, tela de computador ou ecrã do telefone depende da transcendência do tema que
representa, das razões que lhe deram origem, do percurso que venha a conhecer ou das
camadas de informação, por vezes simbólicas, que a imagem incorpora.
O progresso científico e a revolução industrial permitiriam, no decurso do século XIX,
a produção em massa de vários tipos de imagens, onde se incluí a fotografia, através de
distintos processos que tiveram aplicações em diferentes domínios, da saúde à propaganda,
da guerra ao uso lúdico. Os geógrafos, como os cultores doutras disciplinas, reconhece-
ram desde cedo o potencial científico, pedagógico, documental e estético da fotografia.
Também a cartografia, herdeira duma tradição mais antiga, atingiria nessa altura um certo
esplendor ao executar mapas cada vez mais rigorosos. A fotografia e o mapa tornaram-se,
a partir de então, técnicas inseparáveis e complementares que se juntaram ao desenho e à
pintura na representação de paisagens e na leitura e interpretação de territórios.
A proliferação de fotografias e de mapas, em todas as escalas e nos mais variados es-
tilos e suportes, ajudaram a democratizar as viagens virtuais a lugares nunca alcançados
e a difundir uma cultura visual que foi fundamental para a promoção do conhecimento
dos territórios e a construção duma nova perceção do mundo. A aproximação fotográfica,
contudo, ganhou vantagem ao popularizar a visualização de lugares remotos e abrir novas
63 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
perspetivas à investigação por cruzar a interpretação objetiva de análise científica com a
sensibilidade fotográfica do observador. Não admira, pois, que os pioneiros da moderna
Geografia tenham lançado a ideia, tão generosa quanto utópica, de criar um atlas visual do
mundo, projeto que teve como principal animador Jean Brunhes (1869-1930), o geografo
que mais cedo utilizou a fotografia, em larga escala, para ilustrar a sua produção científica.
Jean Brunhes acabou por dirigir entre 1912 e 1930 aquele projeto, Archives de la
Planète, patrocinado pelo banqueiro Albert Kahn (1860-1940), financiador de expedições
e da recolha de imagens para os arquivos. Esta parceria, que denuncia o casamento entre
o interesse científico de um e o pragmatismo iluminado do outro, mostra como, ontem
como hoje, o conhecimento do mundo é estratégico para apoiar a decisão, informação que
a geografia continua a fornecer à economia, à sociedade e à administração pública.
A conceção deste puzzle imagético, representativo do mundo visível, que hoje de-
signaríamos por banco de imagens, foi ensaiado quando a Geografia dava os primeiros
passos e tinha “como campo próprio o estudo da obra dos homens sobre a Terra; da
obra visível, tangível, nós diríamos, em Geografia, a obra Paisagística”, como refere Pierre
Deffontaines, no prefácio da edição brasileira da Geografia Humana de Jean Brunhes
(1962 [1ª ed. 1910]).
O seu mestre Paul Vidal de la Blache (1845-1918), fundador da escola francesa de
Geografia, na apresentação desta mesma obra, em 1911, refere-se assim a Jean Brunhes:
“um excelente observador, dotado de um sentido estético que parece aguçar a sagacidade
crítica: “Não vê quem quer”, disse êle, em algum lugar. Viu a Espanha, a África do Norte,
a Palestina, o Cáucaso, e assim soube reunir um tesouro de imagens características do qual
nos faz participar”. O empenho de Jean Brunhes em documentar com intuitos didáticos,
científicos e memorialistas a diversidade do mundo e as mudanças aceleradas que o esta-
vam a percorrer, levou-o a superar os mestres que se limitavam, neste particular, a contem-
plar e descrever o “labirinto das formas”. Recorriam a verbos como “olhar, ver, mostrar,
perceber, contemplar” para descrever os roteiros feitos durante o trabalho de campo e as
observações anotadas. “A descrição feita por Vidal é fortemente impregnada desse olhar
geográfico, o texto se transforma assim em imagem pela vivacidade dos elementos descri-
tos e não necessariamente precisaríamos de imagens gráficas para ilustrar o texto”. Não
podemos estranhar, portanto, que na primeira edição do Tableau de la Géographie de la
France não há imagens, enquanto na segunda já existam diversas fotografias a ilustram o
texto (Paulo César, 2012).
Outra obra angular de Vidal de la Blache, Princípios de Geografia de Geografia
Humana, que o seu genro Emmanuel de Martonne publicou postumamente em 1921,
não incluiu as numerosas figuras que o autor havia planeado, como referiu no prefácio: “a
64 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

ilustração é mais pobre do que a teria querido Vidal de la Blache, mas, ainda assim, pu-
demos reproduzir os quatros grandes planisférios que ele próprio havia estudados até aos
últimos pormenores”. Alfredo Fernandes Martins, que fez a tradução desta obra editada
mais tarde em Portugal (Edições Cosmos, 1954), justificaria porque a ilustrou com 84 fi-
guras, criteriosamente selecionadas, incluindo alguns admiráveis desenhos e 4 planisférios,
feitos pelo seu próprio punho, a que acrescentou 61 fotografias: “embora correndo o risco
de discordância com o plano de ilustração gráfica foi aumentada com alguns mapas, vários
desenhos e fotografias. Não teriam sido esses os documentos escolhidos por La Blache?
Ainda assim afigura-se-me conveniente dá-los à estampa, pois sublinham passagens do
texto, contemplando-as pela imagem, e permitem “ver” paisagens e factos evocados pelo
autor”.
A geração dos pioneiros influenciada pela chamada “escola francesa de geografia” re-
correu com intensidade à imagem, tendo por inspiração o manual Géographie Humaine,
de Jean Brunhes, em dois volumes, sendo o segundo inteiramente ocupado por fotografias.
Formados nesta matriz, as primeiras gerações de geógrafos fizeram a sua aprendizagem a
exercitar e desenvolver o que acabou por ficar consagrado como “olhar geográfico” (Paulo
César, 2012). Seguindo os mesmos percursos metodológicos, anotavam laboriosamente
nos cadernos de campo observações, croquis e esboços a par da recolha de fotografias. O
terreno era parte importante da investigação cujos trabalhos, quando publicados, eram
ilustrados com figuras, mapas e fotografias. Os pioneiros da investigação e da consolidação
da Geografia nas Universidades portuguesas, onde se destacam Aristides de Amorim Girão
(1895-1960), Orlando Ribeiro (1911-1997) e Alfredo Fernandes Martins (1916-1982),
não só seguiram aqueles métodos como as suas obras e os respetivos espólios evidenciam a
cabal importância que deram à fotografia.
A relação da Geografia com imagem muda quando a fotografia, como o mapa, deixa
de ser pacífica por razões teóricas, conceptuais, ideológicas e políticas. A suspeita do poder
intrínseco que carrega, mas, também, a desconfiança de poder induzir simulacros e forjar
falsificações leva à perda do consenso existente em torno da imagem. Em termos religio-
sos, aliás, sempre existiu uma relação complexa por causa das representações, ao ponto de
alguns movimentos religiosos, muitas vezes, estarem na origem de grandes cruzadas icono-
clastas. A atitude crítica face à imagem foi reforçada pela forte influência de algumas cor-
rentes da filosofia nas ciências humanas (Foucault, Lefèbvre, Derida, etc.) “que rejeitaram,
de uma forma ou de outra, a ordem visual moderna, acusada de ter sido estabelecida pelos
poderes sociais que eles denunciam”. A grande repercussão que tiveram a par da difusão
da bibliografia anglo-saxônica foi muito importante no desenvolvimento da geografia em
geral. É natural constatar, por isso, a relutância de muitos geógrafos em relação às imagens,
65 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
tendência que as concebe como “distorção e como produto de uma ideologia falsificadora.
Até mesmo os mapas, tão valorizados em geral na Geografia, foram vistos com muita sus-
peição” (Paulo César, 2012).
Assim se explica a desvalorização e perda de centralidade da imagem nos trabalhos
científicos realizados pela comunidade geográfica, sobretudo entre os mais focados na ver-
tente humana, a partir dos anos 70, onde o uso da fotografia e do próprio mapa está,
por vezes, ausente ou utilizado com desconfiança e parcimónia. A retoma da imagem vai
acontecer mais tarde com a exigência “que esse olhar e as formas que ele contemplava de-
veriam ser formalizadas, geometrizadas ou matematizadas. Os esquemas gráficos passaram
ser cada vez mais abstratos e formais entrando em rutura com a linguagem natural”. A
proposta dos coremas feita por Roger Brunet, que se enquadra neste paradigma, vai no
sentido desse processo de generalização formal, sugerindo “uma verdadeira gramática de
formas geométricas que traduziriam relações e fluxos espaciais”. Importa salientar que “os
geógrafos não se cansam de chamar a atenção para a diferença entre a “fraudulenta” ma-
neira como as coisas se apresentam e a forma que efetivamente elas seriam, o que é inter-
pretado como uma exitosa estratégia para esconder os problemas reais. Mesmo alguns dos
estudos muito eruditos que se concentraram na análise de imagens, têm destacado como
resultado principal a construção de ideologias” (Paulo César, 2012).
A falta de confiança na pesquisa com imagens só muito recentemente se começa a
esvanecer com o retorno da valorização da ideia “de um olhar geográfico, que seria um
importante formador ou conformador epistemológico para os geógrafos”. Subsiste, no
entanto, uma pergunta fundamental para apreciar “o estatuto do olhar para o conheci-
mento é aquela de saber se há preeminência do olhar sobre a compreensão ou da com-
preensão sobre o olhar? Em outros termos, devemos refletir e nos indagar”, seguindo os
que acreditam que “ver é compreender” ou os que estão convencidos que “só vemos o que
compreendemos”. Importa distinguir na configuração do olhar geográfico “o papel diverso
que concedemos às imagens. Se elas servem para ilustrar ou mostrar significa que estão
ontologicamente separadas do processo de pensar. Refletimos antes e só depois procura-
mos as formas que ilustram os elementos ou as conclusões dessa reflexão. É possível, aliás,
constatar facilmente que essa é a tônica na Geografia. Seria, no entanto, possível pensar
com as imagens? Refletir junto com elas? (Paulo César, 2012).

“Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas”
(Calvino, 1990: 18).

Fotografia, literatura e as leituras do mundo: procurar legendas para o atlas ima-


gético. A perda de visão que se difundia entre as pessoas com a progressão da hipotética
66 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

pandemia imaginada por José Saramago levou o autor do Ensaio sobre a Cegueira a enfa-
tizar a importância do olhar ao ponto de colocar, na portada deste romance, uma citação
lapidar: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. A acreditar na convicção de Saramago
que ”a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”,
olhar com olhos de ver o que se passa à nossa volta pode ser, também, uma forma de re-
sistir àquela fatalidade, de questionar a persistência de tais invisibilidades e de tamanhas
desigualdades.
A literatura, que revela uma capacidade ímpar de fornecer coordenadas para a leitura e
a interpretação do mundo, quando se conjuga com a imagem, sobretudo com a fotografia,
não só reforça a memória como ajuda a moldar a identidade das pessoas e dos lugares. Esta
cumplicidade, presente na obra de muitos autores, é paradigmática em algumas passagens
da escrita de Mia Couto, onde se encontram fragmentam por nos dar perspetivas e ân-
gulos de observação muito peculiares. Recordemos algumas passagens onde se recorre aos
múltiplos significados da fotografia para reavivar memórias, lutar contra o esquecimento,
balsamos para a terapia da alma4:

. “Na parede húmida estava ainda uma fotografia sua, em moldura de madeira.
Aquela era sua única imagem. Por isso, lhe ocorreu levar a foto consigo. Quando a re-
tirava viu que, no papel amarelecido, ela já não estava sozinha. Em redor do rosto dela
estavam desenhadas figurinhas várias, tantas que pareciam mover-se e trocarem de posi-
ção. Sorriu, decidida a devolver a moldura à parede. Aquela era obra de Virginha, pondo
vida em seu retrato. (…) / Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas
e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de
me roubarem do presente” (Mia Couto, 1992).

. “Ficava na janela olhando o país que inexistia, desenhando em geografia da sauda-


de. Sobre velhas fotografias, com um lápis, a velha portuguesa desenhava outras imagens.
Às vezes, recortava-as com uma tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas outras.
Era como se movesse o passado dentro do presente (…) Tal parente jamais estivera em
África. Mas Farida nem ousava desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades
a uma vida feita de mentiras (Mia Couto, 1992).

. “Eram papéis em branco. /– Não está nada escrito aqui. /– Exatamente. E veja
as fotos!/ Eram papéis de fotografia, mas em branco. Era esse o mistério – aqueles papéis
e aquelas imagens não eram virgens. Até ali estavam maculados por letras, por imagens
gravadas” (Mia Couto, O último voo do flamingo, 2005).

67 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


. “Agora, meu neto, me chegue aquele álbum. / Aponta um velho álbum de fotogra-
fias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança
do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências. / Mas quando o
álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As pági-
nas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram
coladas fotos. / – Vá. Sente aqui que eu lhe mostro. / Finjo que acompanho, cúmplice
da mentira. / – Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato? / E vai

Dobras Visuais (https://www.dobrasvisuais.com.br/tag/mia-couto/). Algumas citações foram recolhidas


4

neste endereço; os anos remetem obras referenciadas no final.


repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se
não quisesse despertar os fotografados. / – Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta,
você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo? / Me comovo, tal é a convicção
que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum.
Mas Dulcineusa corrige-me. / – Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o
contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias” (Mia Couto, 2003).

. “A fotografia estendida na mão de Dona Constança era um modo de deitar leveza


no momento. (…) Pegou na imagem e conduziu-a à chamada “parede dos ausentes”. No
corredor exibiam-se as fotos dos familiares defuntos. No chão, um balde recolhia as lágri-
mas dos falecidos. (…) E estivesse ou não estivesse chovendo, todos os domingos Constança
retirava as molduras da parede e conduzia as imagens dos falecidos a passear pela vila. Se
alguém a questionasse sobre a inusitada procissão, ela repositava:/ – Não é de flores que
os mortos necessitam. Carecem é de companhia” (Mia Couto, 2006).

. “À noite, Mwadia sentou-se na varanda. Olhou o horizonte como um fundo esbo-


roado, uma espécie de parede escura, ponteada de rostos. Ergueu-se como que para ganhar
precisão e foi caminhando até distinguir as fotografias, uma por uma, expostas nesse
paredão de ardósia. (…) Como se caminhasse dentro de si mesma, foi passando a revista
aos retratos e reparou que, no fundo, havia um espaço branco, uma moldura ainda sem
imagem. Naquele momento, sentiu que trazia algo em suas mãos. Era uma fotografia.
Com passo vagaroso, se encaminhou para o fim do paredão para colocar na moldura a
imagem. A foto do último ausente” (Mia Couto, 2006).

Este exercício de memória é semelhante ao que resta aos lugares e grupos sociais que se
encontram submersos sob o manto diáfano da invisibilidade, confrontados com o parado-
xo embaraçoso dum apagão visual em tempos que se caracterizam pela omnipresença da
68 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

imagem. Este fatalismo, análogo ao da metafórica cegueira, é o fardo que carregam, que os
condena ao esquecimento e coarta a esperança num futuro mais promissor. Isto acontece
no justo momento em que se insinuam, discretamente, perante os nossos olhos, imagens
que são manipulações intencionais, distorções grosseiras ou, mesmo, mentiras descaradas.
É uma situação que, não sendo nova, atingiu enormes proporções, facto que valida a
convicção dos que vinham avisando não ser possível continuar a depositar fé absoluta nas
imagens, que a fotografia não passava duma grotesca imitação da realidade. “Ver para crer”
ou “uma imagem vale mais que mil palavras” são expressões que viraram, cada vez mais,
simples retórica.
Percorrer os labirintos que nos levam além do invisível, escondido sob a névoa das apa-
rências, é uma tarefa exigente, morosa e persistente. Foi o que nos ensinou Italo Calvino,
mestre na arte de perscrutar o invisível, que nos devemos demorar enquanto “o olhar per-
corre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo o que devemos pensar, faz-nos repetir
o seu discurso, e enquanto julgamos visitar Tamara limitamo-nos a registar os nomes com
que ela se define a si mesma e todas as suas partes”. (…) “Entra-se nela por ruas pejadas de
letreiros que sobressaem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas
que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do arranca-dentes, a garrafa a taverna,
a alabarda o corpo da guarda, a balança romana a ervanária” (Italo Calvino, 1990: 18).
Viajar nesses meandros perdidos é recuperar o tempo perdido e a sucessão de imagens por
ele inscritas até ficarem retidas na memória: “Mas não por ela deixar como outras cidades
memoráveis uma imagem fora do comum nas recordações. Zora tem a propriedade de
ficar na memória ponto por ponto, na sucessão das ruas, e das casas ao longo das ruas, e das
portas e das janelas das casas, embora não apresentando nelas belezas ou raridades particu-
lares. O seu segredo é o modo como a vista percorre figuras que se sucedem como numa
partitura musical em que não se pode mudar ou deslocar nenhuma nota” (ob. cit.: 19).
A captação de imagens, diretamente pela retina ou por algum interposto instrumento,
é indispensável para o desenvolvimento duma cultura territorial assertiva. A viagem, como
o acervo de informação que pode proporcionar, fundamental neste processo, é decisiva
para o contínuo desenho do nosso mapa mental. Sob pena de se revelar inútil, o mapa
que resulta desta geografia vivida, nunca poderá coincidir com o mundo real, pela mesma
razão que, como alguém advertiu, uma fotografia grande não é, necessariamente, uma
grande fotografia. Dispensar a necessária intermediação que as circunstâncias impõem
seria cair numa armadilha sem ter aprendido a lição de Jorge Luís Borges sobre o preten-
so rigor da ciência: “Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o
mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma
Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram mais e os Colégios
69 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e
coincidia pontualmente com ele. Menos dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações
Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entrega-
ram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas
Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra
relíquia das Disciplinas Geográficas” (Jorge Luís Borges, Do rigor na ciência, 1946).
A incessante procura de legendas para o atlas imagético que nos ajude a ler o mundo
tem de considerar as observações pertinentes feitas por Mia Couto, que “os lugares não se
encontram, constroem-se (2003), que “os fatos só são verdadeiros depois de serem inventa-
dos”, que “o mundo não é o que existe, mas o que acontece” (2005). Sem nos esquecermos
que “o importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora”, nem que
“quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna” (2003). Por isso,
“se um dia me arriscar num outro lugar, hei de levar comigo a estrada que não me deixa
sair de mim” (1992).

“Ao ler as imagens destes fotógrafos dou-me conta de que, para além da visão, outros
sentidos são convocados. Eu não apenas vejo. Eu ouço a fotografia. O contacto visual
acorda em mim sons que deveriam ter rodeado o momento fixado em imagem. Apto ape-
nas para inscrever a imagem, o papel não foi capaz de expulsar as vozes” (Mia Couto,
2005: 75).

Transversalidades: observar os subtis rumores do mundo. A importância da ima-


gem nas sociedades contemporâneas, correlativa da intensidade com que proliferam, não é
compatível com as assimetrias imagéticas, pela notória desigualdade na distribuição espa-
cial dos lugares e das pessoas retratadas. Como a história é sempre feita pelos vencedores
e mais competitivos também os mais frágeis, remotos e longínquos são menos fotogra-
fados e, portanto, permanecem invisíveis e com menor representação. Esta constatação
foi um dos motivos que levou ao lançamento do projeto Transversalidades. Fotografia sem
Fronteiras destinado a alertar para a invisibilidade de vastas regiões do nosso país e do
mundo. Na presunção que promover a coesão também passa por dar visibilidade às pessoas
e aos territórios mais excluídos e marginalizados.
As imagens submetidas a concurso, oriundas de dezenas de países de todos os conti-
nentes, embora não invertam tal tendência, são uma montra representativa da diversidade
geográfica, do património, dos usos da terra, dos modos de vida, da biodiversidade natu-
ral, das atividades, das culturas. Cada imagem incluída no catálogo é, pois, o “fragmento
de um todo ou da sua aparência, cada fotografia, por sua vez, é fragmento de fragmentos,
e, por um movimento de aproximação e expansão em todas as direções, ao mesmo tempo
70 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

que pelo movimento contrário de conversão ao ponto de resolução que finalmente é, tor-
na-se, na imagem única que apresenta, leitura múltipla do mundo (José Saramago, 1996).
As imagens, como as palavras, sucedem-se em vagas com intensidade e impacto va-
riáveis, que evoluem ao sabor de modas e agendas mediáticas, com um ritmo tão veloz
quanto a rapidez com que, no momento imediato, caem no esquecimento. Quem não se
lembra, por exemplo, do menino imigrante na praia, arrastado pelas ondas do mar, quan-
do se encontrava nas margens da redenção: a eleição de imagens feita anualmente parece
fluir ao ritmo das estações do ano. A observação das fotografias que dão corpo a este livro,
como a qualquer outro livro de fotografia, apenas torna mais firme a convicção que “a
imagem é tanto mais bela quanto ela for auditiva, evocando sonoridades do momento.
A escrita (e a foto enquanto um modo de escrita) é vencida por uma outra lógica” (Mia
Couto, 2005). Um “jogo de miragens e ilusões”.
Aqui chegado, resta apenas continuar a dar a palavras aos mestres: “Espalhamos as
fotografias diante de nós, dispomo-las por temas, assuntos, afinidades, queremos que umas
façam perguntas e outras respondam, desejaríamos que contassem uma história, mesmo
que breve, mesmo que não viéssemos a conhecer-lhe o fim. Mas parece ser do natural das
imagens, ainda quando colhidas de um mesmo objecto e num período mínimo de tempo,
resistirem a perder a sua identidade: cada uma delas quererá ser, por supostas e exclusivas
virtudes suas, o alfa e o ómega, não só da compreensão de si mesma mas também de todas
as decifrações possíveis do espaço invisível que a rodeia, dessa ausência representada pela
brancura das margens. O que a fotografia não pode mostrar é precisamente o que emprestaria
sentido de realidade ao que estiver mostrando” (José Saramago, 1996)

Referências

Italo Calvino (2006 [1990]): As cidades invisíveis. Editorial Teorema, Lisboa.


Jean Brunhes (1962 [1ª ed. 1910]) - Geografia Humana. Editora Fundo de Cultura, Rio de Janeiro.
Jorge Luís Borges (1946). Do rigor na ciência (Publicado originalmente na primeira edição de
História Universal de la Infâmia).
José Saramago: Ensaio sobre a Cegueira (1995); Cadernos de Lanzarote. Diário III (1996).
Mia Couto: Terra Sonâmbula (1992); Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003); O
último voo do flamingo (2005); O outro pé da sereia (2006); Pensatempos. Textos de Opinião
(2005).
Paul Vidal de la Blache (1954 [1921]) - Princípios de Geografia de Geografia Humana. Edições
Cosmos, Lisboa.
Paulo C. da Costa Gomes (2012) - O lugar do olhar: Elementos para uma geografia da visibilidade,
Rio de Janeiro, Bertrand Brasil. Ver ainda, deste autor, A longa constituição do olhar geográfi-
71 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
co. Revista GeoUECE, v. 1, nº 1, p. 1-7, dez. 2012. http://seer.uece.br/geouece
PATRIMÓNIO NATURAL,
PAISAGENS E BIODIVERSIDADE
pAISAGENS (BIO)DIVERSAS, MATERIALIDADE,
REPRESENTAÇÕES. A NATUREZA E A “NATUREZA”
DOS LUGARES E TERRITÓRIOS
Geografias do sofrimento e da melancolia

Jorge Gaspar
Geógrafo; Professor Emérito da Universidade de Lisboa

Chegado a esta fase da minha vida é já muito difícil ver alguma coisa que não pelo
filtro da Geografia, do onde das coisas e das pessoas, que com as coordenadas definem os
lugares. Mas hoje, quis a sorte, ou seja, a mão do meu querido amigo Rui Jacinto, que
não ficasse com os lugares, nem com as paisagens, nem norte nem sul, nem este ou oeste,
mas com os rostos: uma coleção de rostos que pelo que ficou dito, são necessariamente
rostos de geografias. Desde logo, numa primeira viagem a galgar páginas, a galgar imagens,
encontro duas geografias muito evidentes: uma geografia do sofrimento e uma geografia
da melancolia.
Rostos que são os mapas das geografias do poder, os mapas que os impérios desenham
e depois dominam, exploram, à escala natural, à escala um para um: um ser humano, um
ser explorado, um ser descontado, um espaço vazio, pronto para novo ciclo. Rostos que
75 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
traduzem as ações de abuso. São fotografias implacáveis, na denúncia, mas também na
exaltação da desgraça, da iniquidade, do fim sem retorno, sem paraísos ocultos, sem terras
prometidas.
Na sua crueza, no seu isolamento, estes rostos são representantes de geografias deslo-
cadas, são imagens descoordenadas, sem azimute. Olhando estas imagens verificamos que
na sua maioria parecem deslocadas das geografias originais, pertencem a viajantes errantes,
surpreendidos numa estação da sua deambulação. Por isso, num primeiro impulso de or-
ganização taxonómica, procurei agrupá-los por tipos de passageiros: estantes, migrantes,
turistas e deslocados, sem terra, sem pão, sem, sem, sem nada. São cenas da “marcha da
Humanidade” que prossegue inexorável, desenhando mais e mais labirintos, jogos para
cegos. Detenho-me na profunda melancolia inscrita nos olhares a que eu me fixo, me-
lancolia da vida que não chegou, que não veio mesmo. Vejo-os todos enquanto crianças,
que nunca deixaram de ser, inocentes, sobretudo as crianças, Senhor!!! Não houve, talvez
não pudesse mesmo haver lugar a uma poética da esperança, tão vivas eram as feridas, as
más memórias, tão grandes que nem o pitoresco conseguiu lugar. Ficou-nos assim o grito
suspenso destes rostos que nos interpelam.
Sinto-me numa vertigem, procuro uma âncora, no espaço e no tempo, seguro-me na
tábua cronológica, já que as geografias são insuficientes, vou procurar os lugares no tempo,
decifrar as memórias apagadas nestes rostos que para já estão imobilizados no tempo das
imagens e descubro que são rostos que nos puxam para um tempo sem tempo, para um
buraco, o buraco que ameaça a Humanidade.

O atlas escolar

Lembro-me do Atlas Escolar Português do Professor João Soares, uma versão por-
tuguesa, excelente, de um Atlas do Instituto Agostini de Novara. Quantas viagens ma-
ravilhosas me proporcionou esse Atlas. No final tinha uma rica ilustração fotográfica e a
série que mais me animava era a dedicada às raças humanas: rostos de gentes dos cinco
continentes.
Nós, crianças, viajávamos no Mundo através daqueles rostos amigos, dos nossos irmãos
europeus, dos nossos irmãos africanos, asiáticos, oceânicos, das fadas da Nova Zelândia e
da Austrália, aos exóticos papuásios/novaguineenses. Aos queridos chineses de olhos em
bico, que nos ofereciam/vendiam gravatas na Baixa de Lisboa - já tinha passado o tempo
do “perigo amarelo”, juntavam-se os índios que nos arrepiavam nos ecrãs dos cinemas,
onde os heróis eram os vaqueiros e pistoleiros brancos, por vezes com as fardas das tropas
da União e, aí, já metia cornetas e clarins. Índios que ali nas belas páginas daquele adorado
Atlas também se tornavam figuras familiares, com seus adornos, colares e coifas de penas
76 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

de aves exóticas. E as viagens tornavam-se mais locais, com os rostos a afeiçoarem-se às


aldeias e às cidades.

Das utopias e das distopias

Rezem irmãos, ao Senhor dos Aflitos, à Senhora das Candeias à Virgem de Guadalupe,
ao grande Haddad, senhor do tempo, das trovoadas e das chuvas, a Baal que comanda o
trovão e protege os navegantes e os comerciantes, a Yu Shi, o mestre das chuvas que nos
dá a água e nos defende das secas, a Indra o Rei dos Deuses, o rei da luz e do trovão, da
chuva e dos rios: Mestres do Tempo e do Clima, que são também os Mestres do Futuro
que agora nos atormenta.
As mudanças climáticas e as alterações dos elementos comandam as novas marchas da
Humanidade e aumentam as angústias, ansiedades e desesperos, E tudo já começou, tanto
que foi ao encontro destes fotógrafos, passou por estes rostos.
As Virgens voltam a ensaiar bailados para aplacar as fúrias dos deuses e dos demónios.

Em cada rosto igualdade

De facto, a grande utopia de Zeca Afonso torna-se enorme necessidade face a estes
rostos que nos contemplam a lembrar a tábua cronológica e o Atlas da Humanidade.
Temos que fincar bem os pés no futuro para ver que a nova Amaurota poderá mesmo ser a
Grândola que, como sinal, até encerra nos seus limites geográficos uma Aldeia do Futuro.

Terra da Fraternidade
Em cada rosto igualdade

77 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Imágenes y miradas solidarias

Valentín Cabero Diéguez


Geógrafo; Professor Catedrático da Universidade de Salamanca

“Hoy se venera la salvación del mercado como instantánea, porque cada vez hay
menos distinción entre la realidad virtual y la realidad. El futuro se ha eliminado”.
John Berger, Luz de Candil, 1995

La idea de transversalidade atraviesa con sentido abierto y universal las actividades


del Centro de Estudios Ibéricos, y nos acerca de nuevo a través de la mirada fotográfica y
artística a la sociedad en que vivimos. Aquí no sólo se muestra como registro o documento
puntual, sino que cruza como interrogante vital el paso del tiempo y del espacio, descu-
briéndonos diferentes formas de ser y estar en el mundo. Es una lectura que compartimos
desde distintos lugares y experiencias, aunque es cierto que la acumulación de imágenes
que nos invade desde ángulos y medios contradictorios puede falsearnos y trastocarnos
79 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
la ver-dadera realidad, construida bajo la dialéctica territorial y social de la desigualdad.
Detrás de la estética y belleza de estas imágenes, descubrimos y percibimos, no obstante,
un hondo compromiso con el entorno y con sus habitantes, en apuestas y mensajes perso-
nales que reclaman una sociedad más responsable con el devenir de sus propios paisajes y
más solidaria con el futuro de sus hombres y mujeres o con la conservación de sus riquezas
naturales y culturales.
Cuando los dioses y dueños del mercado nos hacen vivir momentos orwelianos y de
banalización de principios y de conceptos para nosotros casi sagrados como los de paisaje
o sostenibilidad, las fotografías nos reconcilian con la memoria y también con la propia
realidad, en palabras de Susan Sontag1. Más aún, la presencia humana del trabajo, de la
artesanía transformada en tejidos de un cromatismo deslumbrante, o de símbolos repre-
sentativos del transcurso del tiempo y de las mudanzas sociales y culturales, convierten
a estas imágenes en un “modo de ver” y de reencuentro inteligente con el territorio y la
sociedad, bien desde la evocación o bien desde la lectura explícita de las instantáneas,
aproximándonos a historias desconocidas y a lugares extraños para la globalización y para
la macroeconomía 2.
Posiblemente sean las imágenes sobre el trabajo individual o colectivo en medios car-
gados de dificultades, las que nos expresan con mayor fuerza la historia laboral de nuestra
sociedad y de nuestros paisajes culturales en esos cuerpos curtidos por el sol y el viento o
por el sudor (ganarás el pan con el sudor de tu frente). El trabajo humano no es una metá-
fora estética, se manifiesta en personas y en lugares que en todos los rincones del planeta se
adapta a condiciones distintas y a la vez análogas. Los ojos inquietos de nuestros fotógra-
fos y sus instantáneas se trocan, por tanto, en una reivindicación de muchos trabajadores
anónimos cuya labor nunca ha sido reconocida por una sociedad que ahora renuncia al
modelo del bien-estar y se entrega sin rebeldía en los brazos del poder financiero y del
mercado global.
Una vez más es la fuerza expresiva de las miradas la que nos habla con contundencia
y sensibilidad de nuestra sociedad. La belleza y lectura de las miradas asombradas, tristes,
asustadas, tímidas, perplejas, limpias, serenas, humilladas por la pobreza, o marcadas por
la ingenuidad, por la ternura o por la esperanza infantil, nos enfrenta sin duda a la vida
cotidiana y a sus seres más desvalidos. Sin estar ante maestros de la fotografía, el poder de
estas miradas, nos ayuda a conocer el mundo y a interpretar los escenarios que nos rodean,
recordándonos “los lazos humanos existentes entre todos nosotros”, en palabras del gran
fotógrafo Steve Mccurry.
Y en claro contraste, observamos cómo a las dinámicas de abandono marcadas por
las ruinas y la soledad, se contraponen paradójicamente procesos insolentes de especula-
80 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

ción que sin piedad devoran y banalizan entornos naturales y culturales preñados aún de
memoria. Nuevas fisonomías se construyen sobre los despojos en los bordes de la ciudad
o en medio de paisajes residuales y lugares olvidados. Y allí, los artilugios desechados por
la sociedad, herrumbrosos y carcomidos por el óxido de la intemperie, se transmutan

1
SONTAG, Susan: Sobre la fotografía, Edhasa, Barcelona, 1996, p.190: “Las imágenes son más reales de
lo que cualquiera pudo haber imagina-do. Y como son un recurso ilimitado que jamás se agotará con el
despilfarro consumista, hay razones de más para aplicar el remedio conservacionista. Si acaso existe un modo
mejor de incluir el mundo de las imágenes en el mundo real, se necesitará una ecología no solo de las cosas
reales sino también de las imágenes”.
2
Ver con más detalle Valentín CABERO DIÉGUEZ, “El Palimpsesto del paisaje y la memoria del lugar”, en
León, Palimpsesto. Forcal, 2008.pp.31-41.
silenciosamente en símbolos de la contingencia y despiertan delicados sentimientos de
pérdida.
La fuerza expresiva de las imágenes adquiere un significado cargado de dignidad y de
humanidad en los rostros de las mujeres anónimas que, alegres y juveniles o ajadas por el
paso del tiempo, nos envuelven entrañablemente en los brazos de la mansedumbre o en
la calma de la maternidad y de la crianza, reivindicando a la vez el reconocimiento vital
de su presencia y de su trabajo en la construcción de una sociedad solidaria y justa. Unas
imágenes universales y sin fronteras.

81 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Reserva de Imaginário

Fernando Pauloro Neves


Jornalista; Escritor

É um mundo à parte. O tempo cavou a margem e o homem criou dentro dela um uni-
verso, uma identidade, um viver. Poiso os olhos na “manta de retalhos” que é a Beira, tal
como a configurou a geografia de Orlando Ribeiro, e, tributário da Meseta, subo à Estrela
para a cartografia do imaginário - olhar os horizontes infinitos recomendados por Torga,
ou descobrir os azuis sobrepostos das montanhas, oceano imaginário onde porventura
Vergílio Ferreira consubstanciou a metáfora que sintetiza a aventura intemporal de uma
pátria: “Da minha Língua vê-se o mar”,
No pino do Verão, o verde pinho mal se agita, imóvel parece estar este “reino de silên-
cio, luz e pedra”. Respira-se claridade por todo o lado, a luz incendeia e fixa os contrastes.
Pedras, muros, muitos muros de pedras com a cor do tempo, às vezes alfaias de lavoura
abandonadas: a imensa solidão dos campos à espera de gente que partiu um dia em busca
do pão elementar. 83 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Para se abarcar toda a imensidão da paisagem é preciso andar por caminhos que, às
vezes, parece quererem tocar os céus, de onde apenas se divisam serranias, e ir mais longe
à procura de aldeias fora do mapa, onde, se tivermos sorte encontramos velhos sentados à
soleira da porta olhando para antigamente, crianças que montam cavalos imaginários que
correm à desfilada do futuro, ou até o sagrado e o profano de mãos dadas numa festa do
santo padroeiro com banda filarmónica a preceito.
Aqui e ali ainda se descortinam feridas de incêndios que calcinaram tudo, até o chão,
mas a vegetação rasteira, às vezes estevas e flores silvestres, impõe o seu ciclo de renovação
vegetal. De longe, quando a brisa do fim de tarde sopra de mansinho e o sol se afasta no
horizonte, a caminho de outro dia, as copas das árvores ondulam suavemente e a terra de
palha seca e as pedras ganham tonalidades amarelecidas, doiradas. A estrada é uma cobra
negra que serpenteia, só lá ao fundo, nos vales que se alargam à beira de ribeiras e fios
de água, ladeados de salgueiros e choupos, a fazer lembrar imagens poéticas de António
Machado, deslumbrado pelos campos mais vastos de Cória. Aqui são nesgas de terra, sem-
pre resguardadas por muros de pedra cor de tempo, em que a agricultura ainda aparece,
fragmentária, com sábia resistência. O agro é escasso, às vezes terras xistosas ou graníticas
empobrecidas pela erosão onde pinheiros de passo largo irrompem teimosos. Mas quando
menos se espera aparecem olivais e árvores de fruto e adivinham-se velhos lagares de varas,
agora espaços de arqueologia industrial.
A paisagem fornece-nos ainda hoje essa imagem, quase de secura verde (Albano
Martins), que é traço identificador da terra e do homem. Aqui a “manta de retalhos” da
Beira cresceu no meio de uma solidão, vasta e profunda, o que deu à ocupação do terri-
tório uma matriz muito própria, quase linear e comum na cal branca das casas, às vezes
debrua das de azul, nas paredes acastanhadas de xisto, na relação telúrica, na iconografia
popular do diálogo entre o sagrado e o profano, no caminhar temporal das aldeias que são
o universo primordial do mundo rural. Mas quem olha para os socalcos conquistados às
barreiras bravias que ladeiam o Tejo, o Ocreza ou o Zêzere e para os muros de pedra solta
elevados à condição de altares para oliveiras, como se fossem jardins imaginários, não pode
deixar de pensar nu ma saga humana em louvor da humanização e de um combate decisivo
contra a adversidade do meio.
O homem afeiçoou a terra às suas necessidades, E pequenas hortas, com a sua picota
ou o rego de água da nascente que a estiagem ainda não secou, surgem como espaços onde
velhas sabedorias cultivam tudo o que a família precisa e abastece também a arca dos que
estão longe. Quando a paisagem as sim se humaniza, surgem as aldeias, às vezes pequenas
urbes com a torre da Igreja por referência e casas de granito ou estilizadas pelo sucesso da
emigração, onde o rosto da cor das sardinheiras à porta são o sinal de humana presença,
84 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

paredes-meias com outras, mais antigas, onde já não se ouve ninguém e o vazio parece en-
trar pelas janelas sem vidros e pela porta que a cravelha trancou quando o último morador
morreu.
Estão espalhados pelo vasto território da periferia transfronteiriça estes lugares.
Viveram tempos de isolamento, numa hibernação profunda, a relação entre os povos ou
com o mundo era coisa nenhuma, os caminhos de andar muito penosos, até a morte, às
vezes, fardo difícil de descartar. Não havia nada, ou apenas migalhas de vida. O progresso
era utopia que morava longe, morria-se por dá cá aquela palha, os “anjinhos” (eufemismo
da mortalidade infantil) partiam para o céu em mortes anunciadas. Terras de gente que
morria cedo e aldeias povoadas de “mulheres de preto, vestidas de sombra até à alma”
(Eugénio de Andrade).
O mar imóvel de pedra, onde o homem milenar mente mede forças contra tudo,
transfigura a realidade. Essa dimensão fantasmática levou Eduardo Lourenço (0 Outro
Lado da Lua) a ver uma cidade, a Guarda, “coroada por uma Sé fortaleza, navio de pedra
ao alto de uma montanha” e numa paisagem dominadora em que nos revemos “como se
fôssemos irmãos gémeos das pedras que na montanha nos parecem gente viva”.
Mil vezes, como um toiro enraivecido, o homem se ergueu contra a realidade inóspita,
acolhendo se para suavizar o drama a mitos incontornáveis, até que cansado de pobrezas e
de fomes ancestrais, partiu para longe, em viagens de longa distância. A emigração para a
estranja ou para a cidade grande abriu a porta à aventura possível. Partiram muitos para o
“labirinto da saudade” por caminhos que o diabo inventou.
Mais tarde, deram conta do sucesso, primeiro em cartas escritas com lágrimas, depois
em obras (casas: o lugar primacial), expressão de uma nova realidade social que era a exacta
medida do êxito subido a pulso. Novas necessidades, sublinhadas pela vivência de outras
práticas sociais, moldaram o tempo e o espaço, como se quisessem amadurecer o tempo
para as mudanças do 25 de Abril no espaço rural, aparentemente, só aparentemente, imu-
tável. Os direitos elementares inscreveram-se na paisagem e os rostos lavrados pela vida
abriram-se em esperança e alegria. Navegações em terra que Abril abriu. A electrificação
rural (outra revolução por estudar) dilatou o mundo e alargou consumos e imaginários.
“Minha aldeia é todo o mundo”: é isso também que agora significam as parabólicas globa-
lizadoras, erguidas ao alto, nos confins, certificando uma presença de novo tipo. No ime-
diato quotidiano do café da terra, como se também eles pertencessem agora à cartografia
europeia de Steiner, entre um jogo de matraquilhos e um copo, ou um torneio de sueca,
abre-se a janela para o mundo na liturgia convivial de um novo espectáculo.
Tudo se renova. A democratização do automóvel e da motorizada criou surpreendente
mobilidade, mesmo naquele interior à beira do deserto, sobre tudo entre os mais jovens
85 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
da tribo. A carcaça do automóvel e não da charrua no meio de um pinhal calcinado, é um
símbolo dos novos tempos.
Há periferias dentro das periferias que espartilham o mundo rural. Aldeias mais afas-
tadas de uma âncora urbana mais forte (a sede do concelho) vivem outra espécie de morte.
Mais isoladas, encerrada a escola e a estação dos correios, ou emparedada a estação do
caminho-de-ferro, se o comboio entrar na geografia local, adensa-se o silêncio prenuncia-
dor da morte a prazo.
As que resistem procuram um salvo-conduto para o turismo, revitalizam velhos sabe-
res, aprendem a tecer o futuro. As aldeias históricas constituem um exemplar processo de
valorização de um património de grande significado e de afirmação de memória.
Às vezes, ainda há sorrisos e gargalhadas de crianças. Encontro essa efémera imagem
no universo de um jardim infantil da Beira (o acesso à Educação): no miúdo que faz a sua
caligrafia de riscos e de cores e eleva subitamente os olhos para o conhecimento pode estar
aquela reserva de humanidade que é suplemento de futuro.
O mar de pedra tem no seu dorso aldeias, gente, rios, floresta, pedras em geometria de
difícil equilíbrio, figurações petrificadas que parecem vir do fundo dos séculos, memórias,
muitas memórias, a crosta dos dias, paisagens de encher os olhos à imaginação. Regresso
à escrita de Eduardo Lourenço, à procura de uma ideia norteadora, e logo a descubro na
densidade das suas páginas: “A evocação ou a referência ao passado só é interessante por
pôr em causa o presente e explicar as suas nostalgias ou o seu mal-estar”.
Olho outra vez a Serra e os seus vastos territórios afluentes, a perder de vista, escala
próxima de um país, lá ao longe se apurar bem o olhar são terras de Espanha, pela certa.
O sol despede-se no horizonte, a estas horas do fim da tarde as nuvens desenham no céu
castelos, rostos, cidades, sei lá, tudo aquilo que a imaginação quiser. Lá ao longe, muito
ao longe, na linha do horizonte é ainda o sol que se despede numa explosão cromática de
verme Thos e amarelos.

Lourenço, Eduardo - O Outro Lado da Lua. A Ibéria segundo Eduardo Lourenço, Edição e entrevista
de Maria Manuel Baptista, Campo das Letras e Centro de Estudos Ibéricos, 2005.
86 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Fotografia e Paisagem

Jorge Gaspar
Geógrafo; Professor Emérito da Universidade de Lisboa

É em nós que as paisagens têm paisagem.


BS/FP: Livro do Desassossego

Fotografia e paisagem são dois termos que aparecem frequentemente associados. Num
artigo de 2001 em que defendíamos a ideia de que o interesse da Geografia pela paisa-
gem se tinha renovado, escrevíamos: “Mas o regresso à paisagem não é só apanágio da
Geografia, manifesta-se em vários outros domínios onde é necessário apreender a luz, as
formas, os ambientes, para compreender os lugares e o sentido do espaço e do tempo; daí
as novas paisagens da pintura, da literatura, da arquitetura e a continuidade renovada da
fotografia.”. Assim se tem verificado.
A fotografia de certo modo veio “democratizar” a arte e ao mesmo tempo dar outra
87 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
amplitude àquele que era um dos grandes desideratos das artes visuais – o permitir a ob-
jetivação/concretização/materialização da memória. Se a pintura, a escultura, a tapeçaria,
tinham permitido sobrelevar determinados factos e personagens memoráveis, a fotografia
permitiu o crescente alargamento dessa memória material para as pessoas, as coisas, as
experiências, as vivências, os acontecimentos banais. Assim, com a fotografia, também a
imagem da paisagem se banalizou e, sobretudo, deixou de ser necessária ao que continua a
ser um domínio maior da fotografia: o retrato – do retrato de pose, intencionalmente en-
cenado, ao retrato de identificação pretensamente objetivo: dos arquivos (civis, militares,
judiciais, prisionais), ao passaporte, bilhete de identidade, entre outros.
É interessante que tendo a paisagem sido inventada pela pintura, mormente o retrato,
conferindo-lhe um enquadramento, ou servindo como pretexto, foi o retrato fotográfico
que desvinculou a paisagem dessa função, autonomizando o tema central.
Desde a Primeira Exposição Universal no Crystal Palace, onde o fotógrafo america-
no Mathew Brady apresentou, entre outros trabalhos, daguerreótipos de paisagens, que
a fotografia de paisagem não deixou de se banalizar e em certo sentido, passaram a ser
uma das fontes de construção da “paisagem”. Primeiro através da difusão dos álbuns de
fotografias e a partir de finais do século, através do postal ilustrado, sem dúvida o principal
agente de construção e divulgação de paisagens. É famoso o primeiro postal ilustrado,
mostrando a paisagem alpina de Davos, enviado da estação de correios local, em 30 de
Dezembro de 1890.
A fotografia é desde cedo associada ao caminho-de-ferro, contribuindo para fomentar
o interesse pela viagem e pelas paisagens. As estações dos caminhos-de-ferro, e também
as carruagens, vão ser dos mais conspícuos apresentadores de fotografias, sobremaneira as
dedicadas a paisagens. É o nascimento do turismo moderno. Por todo o Mundo, as gares
mostravam, em fotografia, revelavam através da reprodução de imagens fotográficas, pa-
noramas, paisagens, hotéis e monumentos, lojas e restaurantes, onde se podia chegar no
conforto do comboio.
Poucos anos depois, sobretudo após a 1ª Grande Guerra, o automóvel irá, a um tempo,
competir e complementar o caminho-de-ferro. O automóvel vai permitir o alargamento
de horizontes e aprofundamento da sua pesquisa. Disso nos deu nota Miguel Unamuno,
já em 1907, nas suas notas finais sobre as viagens Por Tierras de Portugal y de España:
«Outra de las cosas que contribuyen hoy aquí a desarrollar la afición al campo y al goce de
las bellezas de la Naturaleza es el automóvil. El deporte automovilista ha llebado a muchos
a conocer campiñas y rincones que antes ignoraban, ha hecho que muchos empiecen a
descubrir España.» (Unamuno, 1907; 1960, pp. 187-188).
A popularização do automóvel que entretanto se verificou a níveis nunca imaginados,
88 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

não só banalizou o passeio, como a viagem, permitindo multiplicar ao infinito as visões


de paisagens, que variam segundo o observador, mas também, e de que forma, segundo a
velocidade.
Até que o TGV veio trazer novas imagens, como nos apresentou Yoshio Nakamura «Le
TGV est un aspirateur du paysage» a-t-on dit quelque part en une bien intéressante méta-
phore. En effet, le paysage, disséminé en corps poudreux comme de la poussière, est aspiré
vers l’arrière, comme dans un aspirateur. A la pointe de la civilisation contemporaine, cette
métaphore célèbre annonce la mort du paysage traditionel» e mais adiante «L’aspirateur
du paysage fait pressentir que le train à grande vitesse est un outre un média générateur
d’images.» (Nakamura, Frieling e Hunt, 1993, pp.16-17).
A fotografia permite nos nossos dias múltiplas interações com a paisagem: registo, ar-
quivo e instrumento de planeamento (guia para a intervenção), ela prolonga ou recupera
a contemplação, permitindo ou facilitando imaginar/construir futuros. A fotografia, ao
representar a paisagem enquanto modelo, constitui um campo aberto não só à leitura e
interpretação, como à intervenção, à imaginação, à manipulação, à (re)criação…
Se o objetivo da Geografia é contribuir para o conhecimento do Planeta, não nos
pode surpreender que o aparecimento da fotografia no século XIX tenha contribuído para
novas perspetivas do trabalho dos geógrafos. Assim, ao mesmo tempo que as técnicas
fotográficas progrediram e se consolidaram, a Geografia progrediu e afirmou-se como do-
mínio científico. Não admira, pois, que os primeiros laboratórios de Geografia do início
do século XX tenham atribuído um lugar central à fotografia, tanto nos seus equipamentos
como nas coleções, a par com mapas e atlas, com os quais aliás a imagem fotográfica foi
construindo relações e associações originais e fecundas. Correlativamente, os livros e os ar-
tigos das revistas de Geografia passaram a apresentar regularmente ilustrações fotográficas,
ao mesmo tempo que a fotografia contribuía para o reforço do paradigma paisagístico
da Geografia. A fotografia estava tão fortemente associada ao progresso científico da
Geografia que o congresso da UGI que teve lugar em Washington DC, em 1904, aprovou
a proposta do geomorfólogo alemão Albrecht Penck para que se promovesse um levan-
tamento fotográfico da superfície da Terra, o que viria a originar o Atlas phographique
des formes du relief terrestre, da autoria de Jean Brunhes, Émile Chaix e Emmanuelle De
Martonne, cujas primeiras lâminas foram apresentadas por De Martonne no X Congresso
Internacional de Geografia, Roma 1913, (Robic,1993).
Mais ambicioso seria o banqueiro Albert Kano que em 1909 inicia o projecto de le-
vantamento fotográfico e cinematográfico, Les Archives de la Planète, para cuja direcção
científica convida, em 1912, o geógrafo Jean Brunhes, projecto que terminaria por efeito
da grande crise financeira de 1929. Entre 1909 e 1931foram realizados e arquivados 72000
autocromos, 4000 fotografias a preto e branco, e cerca de 100 horas de filme, abrangendo
89 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
meia centena de países. Este acervo pode ser visitado em Paris, no museu Albert Khan.

Toda a paisagem não está em parte nenhuma.


BS/FP: Livro do Desassossego

Acabo de ler que no dia 25 de Abril p.f. o pároco de Fátima irá celebrar uma missa
às escuras dedicada aos invisuais; todos poderão assistir, desde que coloquem vendas que
serão distribuídas. Olho agora para estas fascinantes 44 fotografias que já me levaram em
múltiplas viagens (à volta do meu quarto…) e procuro imaginá-las às escuras, feitas numa
noite de lua nova e com o céu carregado de nuvens baixas, sem luzes.
Está tudo naqueles 44 retângulos negros, só falta a luz, mas são 44 paisagens, para
lá da luz. Mas não são paisagens das trevas. E, no entanto, à medida que aprofundo esta
procura das paisagens na escuridão (os deuses vivem da luz, até ao exagero de serem só
luz – só Espírito Santo), navego sobre as águas de rios e oceanos, de montanhas velhas da
Ibéria ou sobre os jovens sertões dos Brasis. Sinto os frios na cara e ouço aves, ventos e
pessoas… vozes, cantigas, florestas, vinhedos, ondas, cheiro mais e mais e a cada minuto
que passa cresce em mim aquele impulso táctil de que escreveu Y Fu Tuan a propósito do
The Leaping Horse de John Constable, e em relação ao qual Robert Hughes foi definitivo:
“...this is the landscape of touch.”(Tuan, 1993, 43).
Respiro mais e mais fundo, na busca do fundo daquelas paisagens e sinto a angústia
da busca ansiosa de Kazimir Malevich, 18 meses de escuridão iluminada até chegar ao
quadrado negro (черный квадрат Tchorniquadrat).
Volto a respirar bem fundo, e percebo que as funções vitais adquirem a sua plenitude
quando se processam ao ar livre, “em plena paisagem”. Comer na paisagem é um acto que
marca a estética dos séculos XIX e XX – Le déjeuner sur l´herbe!
A vitória da liberdade, “que c’est bon de se desembêter!”, na expressão queiroziana, e a
recuperação do gosto simples, da vida saudável, é o contraponto aos miasmas pútridos da
cidade. Daí também o fascínio de pintores e de fotógrafos pela comida na paisagem que
nos actos prosaicos e populares dos habitantes de Lisboa de 1900 era prática frequente -
comer fora de portas porque as portas davam acesso aos ares puros, à natureza, ao que hoje
diríamos paisagem, no sentido de campo.
É assim que inspirados, por exemplo, no picnic de burguesas do Cesário Verde, pode-
mos encenar sobre a toalha, as paisagens de diferentes latitudes. Entre nós os mais comuns
podem resumir-se na memória literária de Orlando Ribeiro: as paisagens mediterrâneas
e as paisagens atlânticas, que poderão ser mescladas com uma paisagem ibérica, onde as
90 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

cecinas e os quesos assumem o essencial da paisagem da meseta, podendo mesmo convocar


as dimensões gustativas do Quijote e esconjurar a hambre do Lazarillo. Com luz, espanto,
serenidade e grandeza.
Dia a dia recebemos testemunhos, também através das leituras fotográficas, das con-
tradições resultantes dos movimentos que se operam nas infinitas dimensões do Planeta,
que por um lado se encolhe e achata e, por outro, nos mostra o crescendo explosivo das
rugosidades da paisagem.
E aquelas ovelhas, exibindo a pele da sua pele, paisagens mutantes, paisagens do corpo,
que virão a transmutar-se em pele de outros corpos. Lembro-me de David Mourão Ferreira
“Quem foi que à tua pele conferiu esse papel de mais que tua pele ser pele da minha pele”.
De facto, não podemos deixar de ter presente, entre outros, dois factos que colocam
limites à capacidade da fotografia captar as paisagens. Por um lado, a paisagem é a síntese
de um lugar, de um território, de uma região, mas é uma síntese modelizada (simplificada).
Vidal de La Blache escreveu que a construção mental da paisagem é o resultado da me-
mória, é aquilo que fica...; por outro lado, como se sublinhou nos trabalhos conducentes
ao PNPOT (Programa Nacional de Políticas de Ordenamento do Território): “É ainda
necessário ter presente que a paisagem, enquanto valor cultural e societal, constitui uma
realidade dinâmica. Por essa razão, a paisagem não é passível de tipificações datadas nem
de processos de cristalização: os usos alteram-se, assim como as relações dos habitantes e
dos visitantes com os territórios. É fundamental saber incorporar subtilmente as mudan-
ças, mantendo ou reforçando os valores de identidade, de memória e de uso”.
Estas 44 imagens mostram-nos outras paisagens para lá da fotografia, para lá da luz.

Paisagem
Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.
Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.
Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.
E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»
Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.
(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
David Mourão-Ferreira, in “A Secreta Viagem” 91 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
O horizonte que vem até nós

Adriana Veríssimo Serrão


Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa; Centro de Filosofia da
Universidade de Lisboa

Se cada de nós sente espontaneamente que está numa paisagem, mais difícil será en-
contrar a definição capaz de agregar a diversidade dessas peculiares experiências do mundo.
O que é uma paisagem? A linguagem parece deter-se numa impossibilidade, relegando-a
para a esfera do que se pode sentir e pensar, mas não efectivamente conhecer. Também
aqui, como na confissão agostiniana acerca do tempo, se não nos perguntam, sabemos; se
nos perguntam, deixamos de saber.
Na busca de respostas à complexa questão da essência da Paisagem entendida como
uma das grandes categorias do pensamento humano, uma das mais fecundas tem sido a
associação à noção de horizonte.
O geógrafo Eric Dardel usou a metáfora da janela aberta para acentuar que a paisa-
gem nunca é uma coisa, um objecto parado à nossa frente, mas um lugar que se abre para
93 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
outros lugares, uma realidade que se expande para fora dela, sendo meramente aparentes
e transitórias as suas fronteiras: “A paisagem não é um círculo fechado, mas um desdobra-
mento. Uma janela sobre possibilidades ilimitadas: um horizonte. Não uma linha fixa, mas
um desdobramento, um impulso.”
Não há aqui um espaço fechado sobre outro igualmente fechado – quando uma sala
confina com outro compartimento; a janela não é aquela moldura de um interior de onde
se avista qualquer coisa lá fora, mas já lugar situado, a “céu aberto” que constantemente se
abre e que nesse estender se ganha temporalidade.
A mesma ênfase colocada nesse misto de densidade (intrínseca) e irradiação (centrífu-
ga) subjaz ao entendimento, proposto por Michel Corajoud, de um lugar onde céu e terra
se tocam. Unidade dinâmica resultante da conjunção do múltiplo, é sempre mais que a
soma aritmética dos seus elementos. Envolvência de elementos que por sua vez confinam
com outros, extravasa-se a si mesma tanto na extensão da superfície da terra quanto na
elevação em altura. O horizonte é condição de identidade e de relação, de ligação e cru-
zamento; tanto sugere a horizontalidade quanto a verticalidade. “O horizonte, enquanto
dimensão espácio temporal prévia que se desloca e recua sob o impulso do olhar, é pers-
pectivado como a potência de abertura da paisagem que, simultaneamente, lhe confere o
seu poder de coesão próprio.”
Procuremos entender melhor a pertinência desta imagem, sendo que, por um lado, ela
pretende contrariar a ideia feita de uma circunscrição espacial e objectiva, eventualmente
mensurável, de uma região que vai deste ponto até àquele, mas não deixa, por outro, de
apontar para uma delimitação virtual. Estará precisamente nesta tensão entre limitado e
ilimitado a figuração do paradoxo constitutivo da paisagem. Porque enquanto porção de
natureza, que nela se manifesta como princípio vivificante, a paisagem não tem limites.
Mas ao mesmo tempo o horizonte, que não é de facto uma linha de demarcação física, dá
subtilmente conta de um certo recolhimento em si mesma que lhe confere um rosto único,
uma fisionomia irrepetível. É próprio da paisagem a singularidade.
A paisagem é sempre dual, mista: ponto de encontro entre objectividade e subjectivi-
dade, entre em si e para nós; em última instância, enlace entre Homem e Natureza. Para
que seja autêntico, este encontro implica ultrapassar o plano da representação, da visão à
distância, para mergulharmos no ser. Porque o mundo não está à nossa frente, a experiên-
cia passageira não poderia ser exclusivamente visual. Daí a valorização cada vez maior que
a filosofia da paisagem tem atribuído à sensação, que une o ser com o ser, e à experiência
estética como vivência ontológica: experienciar a paisagem é também tomar consciência
da condição terrena e natural do nosso ser no mundo. É a ela que devemos aquilo que
vivemos nela.
Uma via privilegiada desta apreensão directa é a caminhada. Fazendo-nos participan-
94 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

tes, pedindo ao corpo que se desloque, avançamos em direcção ao horizonte, que a cada
passo se revela e a cada passo se afasta. As sensações de limitação e imensidão mesclam-se.
O que existe ainda não se deu totalmente neste momento presente. Encontra-se lá, mas
escondido, como um além pressentido, um futuro prometido. Recorrendo à formulação
magnífica de Rosario Assunto, a finitude aberta da paisagem é “presença do infinito no
finito”.
A outra é-nos dada pelo fotografar. Ao contrário do caminhar, distensão temporal do
horizonte a perder de vista que o movimento do corpo afasta sempre para mais longe, na
fotografia as possibilidades da paisagem são como que trazidas até nós. As dimensões do
ser - densidade e profundidade, texturas, volumes e cores, cambiantes de luz - são conden-
sadas numa presença sintética e inclusiva. O infinito foi comprimido no finito.
A fotografia está imune à condenação que impende sobre muitas formas de arte: de
serem projecções da subjectividade, a imposição de um acto que pretende orgulhosamente
sobrepor-se ao mundo, rivalizando com ele, ou mesmo “substituindo ou reivindicando”
uma superior capacidade expressiva. A Natureza tornar-se-ia significante somente enquan-
to recriada ou interpretada. Tal sucede na pintura de paisagem, uma imagem do mundo,
mas não o mundo.
Mas a fotografia, se não é uma criação humana arbitrária, mas uma atitude de contor-
nos éticos em que a marca do autor se desvanece para deixar simplesmente surgir a escrita
da Luz, pode tornar visível o invisível e invisível o visível. O que estava lá mas não se via
passou a estar. Ao entregar à Luz, e não ao Eu, o poder revelador, o real enriqueceu-se com
possibilidades inscritas no ser mesmo da paisagem.
Demos agora a palavra ao fotógrafo Rui Cambraia numa reflexão sobre a afinidade
entre Paisagem e fotografia.
“Fotografar é como espreitar pelo buraco de uma fechadura, encerrados numa cum-
plicidade secreta – nós e o segredo, a fechadura como moldura, o fragmento visível apre-
endido como um todo: tal é a experiência da Paisagem.”

Referências:

Eric Dardel, L’homme et la terre, 1952. Rosario Assunto, Il paesaggio e l’estetica, 1973.
Michel Corajoud, Le paysage c’est l’endroit où le ciel et la terre se touchent, 1982.
Rui Cambraia, “Paisagem e Fotografia. Luz, fotossensibilidade, o olho e o olhar”, in Filosofia e
Arquitectura da Paisagem. Um Manual, coord. Adriana Veríssimo Serrão, Lisboa, Centro de
Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012; 2014.
95 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Memórias geográficas, paisagens literárias

Maria Auxiliadora da Silva


Professora da Universidade Federal da Bahia; Coordenadora do Grupo de
Pesquisa Produção do Espaço Urbano (PEU)

Thalita Xavier Garrido Miranda


Mestre, Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da
Bahia

A imagem diz o indizível: as plumas leves são pedras. Há que retornar à linguagem
para ver como a imagem pode dizer o que, por natureza, a linguagem parece incapaz de
dizer (PAZ, 1996, p 44).

Na união entre Geografia e Arte, o olhar geográfico percorre diversas manifestações ar-
tísticas, ávido por decifrar como o espaço pode despertar os sentidos humanos e acumular
significados e simbolismos que contribuem para a compreensão da sociedade. Através da
combinação de palavras ou de sucessivas imagens, o ato criativo transfere a sensibilidade
97 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
do artista para sua obra, e esta passa a carregar informações preciosas para pesquisadores
interessados na relação sujeito-mundo.
Neste contexto o espaço geográfico aparece representado em diferentes manifestações
culturais, como a literatura, o cinema, a fotografia, entre outros. E diante das possibilida-
des criativas envolvendo essas formas de arte, cabe ao geógrafo identificar espacialidades e
temporalidades nas diversas versões da realidade, construídas a partir do imaginário e da
memória de cada artista.
No caso da literatura, parte-se do princípio que toda história acontece sobre um pano
de fundo que transforma o espaço em elemento fundamental para a compreensão da to-
talidade representada pelo escritor. Até mesmo a poesia, muitas vezes, é inspirada pela
atmosfera na qual o poeta está inserido e da qual retira elementos para compor seus versos.
Sendo assim, ao caminhar ao lado de uma personagem fictícia dentro de um romance ou
ao lado de um poeta numa poesia, o geógrafo é convidado a perceber o espaço através das
sensações do narrador, na tentativa de decifrar aspectos simbólicos e afetivos que ajudem
a recompor a realidade criada, que se fundamenta em uma realidade percebida, em uma
memória geográfica.
Nesse diálogo interdisciplinar, o geógrafo transita entre materialidades e imaterialida-
des, ora recorrendo à obra como um documento histórico que permite a reconstituição de
espaços físicos, costumes e práticas sociais de um determinado período, ora recorrendo a
aspectos mais subjetivos da realidade representada, explorando a obra como reveladora de
parte da essência do mundo ou do ser no mundo (MARANDOLA JR., 2010). Na presen-
te reflexão, considera-se que os dois caminhos sejam complementares, ambos colocando o
pesquisador diante da possibilidade de aprofundar importantes discussões para o conheci-
mento geográfico, como o papel da memória e o estudo da paisagem.
Um dos escritores baianos que trouxe o imaginário para seus livros, com narrativas
bem situadas no tempo e no espaço, foi Jorge Amado. Sua obra foi produzida no século
XX e ele soube bem entrelaçar a arte e a política, retratando contextos sociais da Bahia,
baseado em vivências próprias, e remetendo à reflexão sobre o real. Assim como em outras
obras de vários autores, percebe-se como o passado de um lugar colabora para a compre-
ensão do presente através da memória.
Felizmente, cada vez mais, os geógrafos recorrem à memória geográfica e ao estudo da
paisagem para explicar o que se passa na cidade, no território. Grandes geógrafos como
Jean Tricart, Pierre Monbeig, Orlando Ribeiro, Aziz Ab’Saber, entre outros, já estudavam a
paisagem com o fim de ampliar o conhecimento da ciência geográfica, estimulando assim,
a memória de seus alunos. Estudar a memória geográfica através da literatura é uma nova
perspectiva, um assunto interessante devido a sua singularidade. Trata-se do olhar transdis-
ciplinar no processo de conhecimento do passado e do presente, valorizado pela memória
98 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

e pela percepção da paisagem.


Além de expandir o espaço vivido pelo leitor, algumas obras literárias promovem a
paisagem como reflexo da relação viva e permanente entre homem e espaço geográfico.
Muitas vezes, a sensibilidade do escritor se volta para descrições detalhadas da paisagem
numa profunda interação que, de fato, coloca a mesma como uma personagem a mais
da trama. Assim, lança-se o olhar sobre um espaço animado, vivo, e através da memória
compartilhada pelo escritor, o leitor chega a se apropriar das sensações descritas podendo
interagir intimamente com a dimensão espacial criada.
Estabelece-se, dessa maneira, uma troca de experiências entre leitor e narrador, na qual
a paisagem aparece como “espaço do sentir, ou seja, o foco original de todo o encontro
com o mundo” (BESSE, 2014, p.80). Ao superar o que está ao alcance da vista e o usual
enquadramento do que é belo, a paisagem acompanha viva, em luz, cheiros e sons, o esta-
do de espírito de quem nela se insere, seja de forma concreta ou recorrendo a imaginação.
Segundo Dardel (2011), é através dessa interação com a paisagem que o sujeito entra em
contato com a totalidade do seu ser, que percebe suas ligações existenciais com o mundo,
ou sua geograficidade.
E a partir dessa profunda interação com a paisagem, permitida através da sensibilidade
do escritor, resgatada pela memória, surgem aspectos da dimensão cultural existente. Cada
sujeito, em sua relação com o mundo exterior, apresenta uma forma particular de apreen-
der as relações que conferem sentido àquilo que é visto e percebido. Mas essa apreensão
está sempre carregada de elementos e valores da sociedade em que o sujeito está inserido.
Nessa perspectiva, a literatura pode ser considerada expressão viva do contexto histórico e
social no qual foi criada.
A descrição literária de uma cidade, por exemplo, nos leva a recordar das cores, dos
perfumes, dos ruídos, das praças, das ruas e ruelas, dos becos que se abrem para outras
praças ou para um aglomerado de casas, enfim, dos elementos que compõem a dinâmica
urbana. Na totalidade representada, ao imaginário sensitivo trazido pelo escritor, somam-
-se aspectos da realidade concreta, que alimentam esse imaginário.

Ufú é a capital de Ifi, a nação mais rica de que a história tem notícia. Naturalmente,
Ufú é a mais vasta cidade que os homens já construíram, e continua a crescer. Seu núcleo
é constituído de vários núcleos menores divididos em centenas de avenidas vastíssimas,
a tal ponto que ninguém nunca percorreu qualquer delas de uma ponta a outra, muito
embora os habitantes de Ufú quase nunca andem a pé; passam boa parte de sua vida em
ônibus, trens, subterrâneos, automóveis ou helicópteros (GULLAR, 1997, p.7).

Assim, a paisagem literária, mesmo quando fictícia, como é o caso da cidade de Ufú
99 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
imaginada por Ferreira Gullar, torna-se uma ponte que nos induz à compreensão da
realidade.
Godofredo Filho, professor, poeta, nascido em Feira de Santana, que adotou Salvador
como sua cidade, encantou-se pela Ladeira da Misericórdia, cuja idade é da fundação da
cidade de Salvador e, tomou-se de afetividade, fazendo dela um poema onde a memória
passeia, ora pela realidade com a presença dos escravos, nobres e figuras históricas, ora pela
ficção.
Tanto as paisagens da cidade de Salvador quanto as do Recôncavo Baiano, da Zona
do Cacau e do Sertão Baiano, aparecem descritas nas obras de grandes nomes tais como,
Jorge Amado, Godofredo Filho, Dorival Caymmi, Vasconcellos Maia, Hélio Simões,
Florisvaldo Matos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Santos, Jose Carlos Capinan
com o seu “Canto quase Gregoriano” (de Gregório de Matos), só para citar alguns baianos
(PINHEIRO; SILVA, 2004).
Em suas obras, esses poetas, contistas, compositores e geógrafos, de ontem e de hoje,
contam e cantam a seu jeito, as belezas e mazelas desses territórios, enaltecendo aspectos
da paisagem no presente de suas vidas e nas memórias do passado, tais como: o mar, os
pescadores de Xaréu, as praças, ladeiras, becos e ruas, as baianas de acarajé, os sabores, a
conquista das terras do cacau, a seca do Nordeste, e os diversos tipos característicos que
dão vida a esses espaços:

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da Caatinga do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado
Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo
(GIL, n.p.)
100 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Em palavras como estas, o artista reflete as relações que os espaços estabelecem entre
si em diálogo com os personagens, relatando experiências de vida. Nesse sentido, cabe
ressaltar a importância de obras literárias que permitem acesso a paisagens menos visíveis,
aquelas que nem sempre aparecem em cartões postais ou propagandas de turismo, mas que
são igualmente animadas pelas pessoas que vivem ali.
Prosseguindo pela literatura brasileira, é preciso citar os clássicos que elegem como
cenário a paisagem do sertão, dentre os quais podemos destacar: Grande Sertão: Veredas
de Guimarães Rosa, Vidas Secas de Graciliano Ramos, e Os Sertões de Euclides da Cunha,
cada um representando o sertão de uma parte do interior do Brasil.
Ao retratarem a vida do povo sertanejo, exaltando a relação do mesmo com a paisa-
gem, as obras citadas, entre outras tantas, reforçam identidades culturais e denunciam o
cotidiano de um Brasil longe do foco de desenvolvimento. E apesar do tempo passado
desde a publicação de cada um desses romances, algumas problemáticas abordadas conti-
nuam atuais.
Entre denúncias de realidades sociais e relatos das sensações humanas, a literatura
exalta a relação sujeito-mundo em construções subjetivas, que colocam razão e emoção
lado a lado em discussões geográficas. Ignorando fronteiras é possível penetrar inúmeras
paisagens literárias, repletas de sentimentos e realidade. Da natureza percebida por Manoel
de Barros no pantanal Mato-Grossense à urbanidade carioca retratada por Machado de
Assis; Da África poética de moçambicano Mia Couto ao mar de lirismo do chileno Pablo
Neruda; Do sossego da Cidade de Goiás nas palavras de Cora Coralina ao Desassossego
moderno da Lisboa de Fernando Pessoa; Das cidades invisíveis de Ítalo Calvino às cidades
inventadas do poeta Ferreira Gullar...
Assim, através da descrição de vivências e de acontecimentos de paisagem, cada lugar
representado na literatura, real ou imaginário, acumula uma carga de simbolismo e signifi-
cado à medida que é vivenciado pelos poetas ou personagens. E a partir da experiência da
leitura, cada leitor tem, por sua vez, a oportunidade de ressignificar as paisagens e lugares
numa (re)construção permanente do espaço e da sociedade.
Dando acesso ao indizível sobre os conflitos humanos e as problemáticas sociais, a
arte literária, entre outras manifestações artísticas, se apresenta como matéria-prima dessa
permanente construção. Ao oferecer um leque de possibilidades para a produção de co-
nhecimento geográfico, o diálogo aberto entre geografia e literatura vem sedimentando
a relação entre arte e vivência do espaço geográfico e, como uma boa prosa, parece estar
longe de se esgotar.
101 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Referências:

BESSE, Jean-Marc. Ver a terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia. Tradução de Vladimir
Bartalini. São Paulo: Perspectiva, 2014. DARDEL, Eric. O homem e a terra. São Paulo:
Perspectiva, 2011.
GIL, Gilberto. Lamento sertanejo. [s.n.]. Não paginado. Disponível em: <http://letras.mus.br/
gilberto-gil/46212/>. Acesso em: 31 ago. 2015. GULLAR, Ferreira. Cidades Inventadas. Rio
de Janeiro: José Olympio, 1997.
MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo. Geograficidades vigentes pela literatura. In: SILVA, Maria
Auxiliadora da; SILVA, Harlan Rodrigo Ferreira da (Orgs.). Geografia, literatura e arte: refle-
xões. Salvador: EDUFBA, 2010. p. 21-32.
PAZ, Otávio. Signos em rotação. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.316 p.
PINHEIRO, Délio José Ferraz; SILVA, Maria Auxiliadora (Orgs.). Visões imaginárias da cidade da
Bahia: diálogo entre a Geografia e a literatura. Salvador: EDUFBA, 2004. 184 p.
102 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
A paisagem vista através de uma lente

António Campar de Almeida


Professor do Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras de
Coimbra da Universidade de Coimbra; Centro de Estudos de Geografia e
Ordenamento do Território (CEGOT)

Quando se fala de paisagem vem imediatamente à ideia, para o comum das pessoas, a
visão de um espaço, mais ou menos afastado do observador, mas onde este consegue dis-
tinguir os seus elementos constitutivos, permitindo que, a qualquer momento, a descreva
e distinga de outra qualquer. Porém, a paisagem é mais do que um cenário estático, não se
pode caraterizar apenas pelo que é visto num determinado momento. Qualquer paisagem
carrega uma história repleta de eventos com maior ou menor grau de traumatização, diga-
-se de transformação rápida, intercalados com tempos de maior estabilidade, mesmo as
paisagens ditas naturais. Ou seja, a paisagem é dinâmica, e esta é mais ampla do que aquilo
que é deduzido pela observação do resultado visto num determinado momento. Significa
que cada paisagem resulta da transformação, natural ou humana, de outras paisagens que
a antecederam. Ora, há elementos destas que vão ficando preservados, restantes. Cabe,
então, ao observador mais atento e desperto para esta realidade identificá-los e, se esse for 103 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
o seu intento, salientá-los como resquícios patrimoniais, naturais ou culturais, consoante
o caso, capazes de traduzir ou representar cada uma das paisagens desaparecidas e, se possí-
vel, reproduzi-las, embora concetualmente, por comparação com casos por si conhecidos.
A paisagem, porém, também é caraterizável pelos outros sentidos (do som, do cheiro,
do gosto, do tato). Os dois primeiros, em especial, podem ser muito impressivos. Há sons
e cheiros que se identificam com certas paisagens, de modo que quando são sentidos por
quem foi marcado por eles, têm o condão de lhes fazer reviver ou rever essas paisagens.
Para além do aspeto sensorial, tangível, das caraterísticas da paisagem, há as compo-
nentes emocional e simbólica que, em regra, são tanto mais fortes e arreigadas quanto o
observador faz parte dessa paisagem e, em especial, se nela reconhece muito do seu contri-
buto ou apenas muita da sua vida. Neste caso, passa-se do campo objetivo para o subjetivo
e, porventura, psico-religioso. Mais facilmente, porventura, estas pessoas reconhecem os
elementos tangíveis e intangíveis da “sua” paisagem, imbuindo-se do espírito do lugar,
ou seja identificando-se com ela, condição para a identidade local dessa paisagem. Essa
identidade local tem-se alargado para níveis regionais, nacionais e até internacionais, na
sequência da cada maior facilidade de circulação das pessoas e do papel dos meios de co-
municação social na divulgação das paisagens mais valoradas e apreciadas em função de
diversificados critérios. E há pessoas que se ligam emocionalmente a paisagens, por vezes
apenas a partir da observação de fotografias.
Se há tecnologia que se adapta bem à representação da paisagem é a da fotografia. Pelo
menos se entendermos paisagem no sentido comum daquilo que a nossa vista alcança e
discerne da superfície terrestre, sólida ou líquida. Neste sentido, ainda comum, qualquer
trecho, maior ou menor, de espaço terrestre captado pela objetiva de uma máquina foto-
gráfica reproduziria uma paisagem. Neste caso, estaríamos perante uma conceção bastante
limitada de paisagem, mas também de fotografia de paisagem.
A paisagem é, na essência, heterogeneidade: na sua composição, na sua morfologia,
na sua estrutura e orgânica, na sua evolução e dinâmica, na sua perceção e aqui não se
deve ter apenas em conta o sentido visão, mas todos os outros sentidos, como foi acima
referido, nas emoções e sentimentos que despertam, onde o sentimento de identidade
pode ser muito forte. Ou seja, um campo muito vasto de modos de abordagem, que
podem ir desde os mais positivistas de caraterização biofísica do espaço, às estruturas
criadas pelas comunidades humanas que aí permaneceram por mais ou menos tempo,
até aos mais subjetivos de apreciação e valoração da mesma paisagem, por quem esteja
dentro ou esteja fora dela.
A fotografia de paisagem só o é quando o lampejo correspondente à obtenção da
imagem pela objetiva consegue captar os mais importantes elementos caraterizadores da
104 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

paisagem. É desejável que mostre a sua alma, o espírito do lugar, o seu caráter, aquilo
que a singulariza ou pelo menos a torna tão valiosa ao olhar do mais exigente observa-
dor. E aqui entra a subtileza, a finura, de observação do fotógrafo que vê mais do que
aquilo que a sua vista alcança, vê umas vezes com a razão, outras vezes com o coração.
A subtileza manifesta-se muitas vezes no elemento que na fotografia é “puxado” para
primeiro plano porque protagoniza toda a evolução, todas as condições que explicam a
composição daquela paisagem. Uma simples construção humana – um marco, um cru-
zeiro, uma cabana – inserida no meio de uma matriz florestal igual a tantas outras, nou-
tras áreas, pode ser o elemento distintivo e valorativo daquela paisagem. A rugosidade da
face tisnada de um agricultor ou de um pescador mostra a exposição frequente e longa
à dureza dos elementos naturais que foram moldando aquela face durante inúmeros
verões escaldantes e invernos inclementes. As árvores velhas, especialmente se isoladas,
também se prestam bem a este protagonismo. Nestas, as rugas são diferentes, são as fe-
ridas de grandes cortes ou derrubes de ramos, cicatrizes de fogos, tantas vezes múltiplos,
e há que escolher bem o ângulo para conseguir apanhar o máximo dessa história que
consegue contar. Há casos, no entanto, em que a vetustez de algumas árvores chegam a
enganar os mais conhecedores e a história da paisagem acaba por ser deturpada, como
aconteceu, por exemplo, com o conhecido cedro-do-Buçaco, de facto um cipreste ori-
ginário das montanhas da América Central, mas que ao ser classificada pelo botânico
inglês Philip Miller, em 1768, a partir de exemplares levados de Portugal, onde havia
árvores com mais de cem anos, o levou a atribuir-lhe o nome específico de português,
Cupressus lusitanica. Antes de 1640 não deveria existir qualquer exemplar desta espécie
no Buçaco, de onde teriam sido levados exemplares.
A paisagem, além da sua evolução e dinâmica ao longo do tempo, tem movimentos,
aromas, sons que a atravessam em cada momento. A boa fotografia consegue transmitir
o movimento, por exemplo através do ondulado de uma ceara ou do estiramento das
folhas e ramos num sentido quando impulsionados pelo vento, ou ainda pela queda das
folhas das árvores no outono, mas também através do voo ou corrida de animais, ou
então da água em fios leitosos numa cascata ou rápido de um rio ou ainda as ondas e a
sua espuma. As dunas eólicas, como está implícito na sua denominação, existem pelo
movimento do ar, pelo vento. E as pequenas rugas na superfície das dunas, os ripples, até
indicam a orientação do vento que esteve a soprar quando da sua formação e, grosseira-
mente, a sua velocidade – é todo um conjunto de informações que é dado por uma foto-
grafia bem tirada, aproveitando uma inclinação devida do Sol. As poeiradas e os fumos,
de origem natural ou humana, são sempre um indicador de movimento. Já os sons e os
aromas exigem um maior conhecimento por parte do observador da fotografia para os
percecionar na paisagem. Em alguns casos é fácil deduzi-los através da posição da boca
105 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
ou do bico dos animais, da queda de chuva, da presença de máquinas em movimento,
da presença de flores de aroma agradável, mas também de substâncias com cheiro que
se sabe desagradáveis, etc. No caso das dunas, o movimento das areias também tem um
som específico, resultante do facto de saltarem e chocarem com outras na superfície. Em
quaisquer destas situações a fotografia ganha vida e a paisagem revela a sua respiração,
o seu pulsar.
Em Portugal há uma paisagem que, apesar de relativamente monótona, o mar, é tida
como muito apreciável à observação por parte da maioria das pessoas. Pelo menos somos
levados a concluir isso pelo que tem sido construído junto à costa de modo a que o mar
esteja sempre à vista por quem descansa, conversa, passeia, corre, almoça ou simplesmente
toma um café. Não basta haver uma avenida paralela à praia a algumas dezenas de metros
de distância, se há uma duna a interpor-se, constrói-se um passadiço em madeira sobre
a duna frontal para as pessoas passearem a ver o mar! Um bar ou restaurante a trinta ou
cinquenta metros da praia não é suficiente, constrói-se equipamentos equivalentes sobre a
duna ou mesmo na praia! Somos, de facto um povo virado para o mar…
106 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Paisagens, biodiversidade e património
natural

Lúcio Cunha
Professor Catedrático no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade
de Letras de Coimbra da Universidade de Coimbra; Centro de Estudos de
Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Neste início de século XXI, as condições demográficas, as mudanças nas condições de


trabalho e o aumento da mobilidade, a par com a valorização da educação e da cultura têm
contribuído para uma modificação das procuras turísticas e de lazer, com valorização dos
seus segmentos menos massificados, aqueles que estão ligados ao mundo rural, aos espaços
silvestres e de montanha, às águas interiores, à floresta e, de um modo geral, à valorização
da Natureza e do património natural. A crescente utilização dos chamados espaços de
baixa densidade para atividades de turismo e lazer, desportivas, tratamento terapêutico,
investigação científica e educação ambiental, tem vindo a promover a valorização cultural
e económica das paisagens de base natural e do geopatrimónio, ao mesmo tempo que faz
aumentar a sua vulnerabilidade, face a uma procura muitas vezes mal ordenada e que se
traduz numa fruição inadequada e selvagem, através de atividades desenvolvidas sem os 107 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
devidos cuidados de gestão.
A valorização da Natureza, das paisagens culturais de base geomorfológica e do patri-
mónio natural ultrapassa, em muito, o valor económico nas suas diferentes vertentes (tu-
rismo em espaço rural, animação desportiva e cultural, comércio de produtos endógenos,
emprego local) para alcançar uma dimensão cultural, científica, educativa e até social que
transporta as paisagens, a biodiversidade a geodiversidade e o património natural para um
lugar de destaque no Mundo deste conturbado início de século.
Neste contexto, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista cultural,
cabe um lugar de destaque para o geopatrimónio. Este corresponde ao património natural
abiótico, ou seja aquele que é associado a aspetos geológicos, e, sobretudo, a aspetos ge-
omorfológicos, hidrológicos e pedológicos que, pelas suas características particulares
(científicas, didáticas ou estéticas) ou pelo significado de que se reveste para a sociedade
(na cultura, na arte ou na religião) merece ser valorizado, divulgado e preservado. À se-
melhança do que já acontecia com o património humano (histórico-arqueológico, monu-
mental, imaterial) e com o património biológico ligado aos valores da biodiversidade, o
geopatrimónio tem vindo a ganhar relevância com um desenvolvimento significativo dos
estudos com vista à sua inventariação, avaliação, classificação, valorização e conservação,
um pouco por todo o Mundo, mas particularmente nos espaços rurais e de montanha, em
territórios de baixa densidade económica ou em espaços ambientalmente protegidos. Se
a utilização destes espaços e dos seus elementos patrimoniais para atividades desportivas,
para turismo e para educação ambiental, é um importante fator de valorização e de ma-
rketing territorial, logo de desenvolvimento local, importa chamar a atenção da sociedade
e dos seus actores e agentes (autarcas, gestores de áreas protegidas, operadores turísticos e
agentes desportivos) para a importância que o geopatrimónio assume enquanto recurso e,
sobretudo, para a fragilidade ambiental que, em regra, lhe está associada.
Dentro da geodiversidade, o geopatrimónio é, talvez, a forma mais acabada de en-
tendimento da relação entre a Natureza abiótica e os Seres Humanos que nela encontram
as suas raízes, a sua casa, a sua âncora, a sua base de sustentação. Por isso, o valorizam e
protegem.
Longe de ser uma relação de equilíbrio, a relação biunívoca que se estabelece entre a
Sociedade e a Natureza é, fundamentalmente, uma relação de agressão, de defesa, de posse,
de domínio. Nos dois sentidos… Se o Ser Humano, individual e, sobretudo, colectiva-
mente, tem vindo, ao longo dos tempos, a procurar o domínio da Natureza, a explorá-la, a
transformá-la, a poluí-la, a travesti-la com novas roupagens, a Natureza, o Planeta, a Gaia
no sentido de James Lovelock, tem vindo a reagir, a defender-se e, mesmo, a impor-se…
A “Vingança da Gaia”, uma das obras deste autor, fala-nos, precisamente, de alterações
108 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

climáticas, de desastres naturais de grandes dimensões, das enormes dificuldades que o


Ser Humano vai tendo para se adaptar e viver com qualidade numa Gaia em distúrbio e
que de natural vai tendo cada vez menos. Claro que a maior parte das vezes, os problemas,
bem localizados ou mais generalizados, estão, apenas, no mau ordenamento ou no mau
uso que fazemos do território, ou seja no modo como não entendemos o funcionamento
e, consequentemente, subestimamos a força da Natureza natural.
Ainda assim, alguns equilíbrios são possíveis e multiplicam-se os exemplos recentes de
situações de boa articulação entre Sociedade e Natureza, que promovem a sustentabilidade
ambiental e lhe dão novos significados. O uso crescente dos recursos renováveis (hídricos,
energéticos, bióticos), bem como o valor social e cultural das paisagens de base natural e do
geopatrimónio para fins turísticos, desportivos e de educação ambiental, são apenas dois
bons exemplos desta articulação.
Muito daquilo que é a produção de território passa por estes equilíbrios e desequilí-
brios. Passa pelo melhor e pelo pior nesta articulação entre o Ser Humano, a sua economia,
cultura e educação, com a Natureza, os seus valores, os seus recursos, as suas forças e as
suas fragilidades. A paisagem, mais natural ou mais humanizada, mas sempre cultural,
corresponde à síntese perfeita ou imperfeita destas articulações. E, como o estudo da pai-
sagem não corresponde a uma ciência exacta, uma vez que muito depende dos olhares e
da percepção que sobre ela se têm, a arte e, particularmente, a pintura e a fotografia, são
instrumentos de análise fundamentais.
As fotografias desta exposição transmitem percepções e sensações acerca de paisagens
rurais, dos valores da biodiversidade e de diferentes elementos do património natural. As
percepções são sobretudo as dos seus autores e estão associadas aos olhares das lentes das
suas máquinas! As sensações passam a pertencer, agora, também, aos leitores, aproximan-
do-os dos valores estéticos da paisagem, da Natureza, da biodiversidade e do património
natural. Cada um lerá de seu modo, cada um sentirá com a sua alma, cada um valorizará
com as suas experiências de vida! No entanto, a plástica destas imagens e o seu valor es-
tético arrastam consigo, também, um valor educativo intrínseco, que em muito ajuda a
compreender, a conhecer, a amar e, consequentemente, a conservar melhor a Natureza, em
todos os seus significados.
Porque, independentemente do modo como a vemos, usamos ou dominamos, todos
nós, fotógrafos, leitores, investigadores, desportistas ou simples turistas, somos intrinseca-
mente Natureza!

109 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Património natural, paisagens
e biodiversidade

Helena Freitas
Professora Catedrática da Universidade de Coimbra; Coordenadora do Centro
de Ecologia Funcional

A edição do Catálogo e a Exposição do curso Transversalidades, lançado pelo Centro


de Estudos Ibéricos, uma parceria entre as Universidades de Coimbra e Salamanca e a
Câmara Municipal da Guarda, é a oportunidade para uma breve reflexão sobre “Património
natural, paisagens e biodiversidade”, um dos temas propostos. O conjunto de fotografias
a concurso é ilustrativo da abrangência de olhares que podemos ter sobre os territórios e a
sua diversidade, expressão de uma natureza que se deixou fertilizar pela actividade humana
e que desvenda esta relação na exuberância das suas paisagens.
A diversidade biológica ou biodiversidade, pode definir-se como a variedade de seres
vivos e das suas componentes ecológicas, ou seja, os milhões de plantas, animais e micror-
ganismos, bem como os genes, os ecossistemas e as paisagens que integram. A diversidade
específica representa todas as espécies que existem, e expressa a gama de adaptações evolu- 111 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
tivas e ecológicas das espécies a ambiente particulares. Existirão entre 10 a 30 milhões de
espécies no mundo, conhecendo-se, de facto, cerca de 2 milhões. Na verdade, podemos
dizer que temos sobretudo informação sobre os locais onde foram identificadas, e talvez
sobre algumas das suas características, mas o que realmente sabemos sobre a maioria destas
espécies é muito pouco.
O planeta perde biodiversidade todos os dias, e em todos os grupos e níveis de orga-
nização. A título de exemplo, cerca de um terço das árvores da Amazónia e um terço das
espécies dos recifes de coral devem extinguir-se nas próximas décadas. Porque nos devemos
preocupar com esta perda de biodiversidade que acontece em todos os ecossistemas do
mundo? Desde logo porque a biodiversidade é a matéria-prima dos sistemas ecológicos e
a sua perda manifesta-se na degradação inexorável destes sistemas naturais que suportam
a vida na Terra. As zonas húmidas, as florestas, os recifes de coral, a tundra, as pradarias,
os estuários e o oceano aberto, garantem um conjunto de bens e serviços essenciais à
Humanidade; dos alimentos à água, a madeira ou a caça, a purificação do ar e da água, a
decomposição dos resíduos, a renovação do solo e a sua fertilidade, a polinização das plan-
tas, a estabilização do clima, o suporte à diversidade das culturas humanas, a beleza estética
e o incalculável contributo para o bem-estar humano.
Apesar de todo este valor, a verdade é que se degradaram as condições ambientais para
responder a todas as necessidades básicas da população da Terra em alimento, energia e
água. Esta degradação ao nível local, regional e global, a par da perda efectiva dos recursos,
vai reduzindo a capacidade de responder a essas mesmas necessidades. O reconhecimento
deste problema e a urgência em travar a perda da diversidade biológica, conduziu à afirma-
ção de compromissos políticos e sociais à escala global, regional e nacional, com o intuito
convergente de impulsionar a conservação e a gestão inteligente dos recursos naturais
da Terra. Mas a pressão que existe hoje sobre estes recursos, em especial sobre a água, os
alimentos e o solo, tenderá a agravar-se com a evolução demográfica, admitindo-se uma
duplicação das necessidades alimentares em 2050. O uso agrícola representa já cerca de
40% de toda a superfície do planeta, pelo que entrará em conflito com outros usos, tais
como a conservação das áreas protegidas, as florestas tropicais ou as florestas geridas para a
produção sustentável de matéria-prima.
Portugal tem recursos naturais excepcionais, que justificam políticas integradas e uma
visão estratégica de longo prazo. O país deve apostar na ecologia e no desenvolvimento
sustentável; na valorização ecológica do território, das áreas protegidas aos solos e aos rios,
e assumir um compromisso inequívoco pela educação e pela ciência, pilares estruturantes
de uma prosperidade sustentável.
O país beneficiará sempre com boas políticas de conservação da natureza, das paisa-
112 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

gens e da biodiversidade, com a valorização dos recursos naturais, com o ordenamento do


território, com a organização de uma floresta produtiva e variada, com a pujança dos siste-
mas agrícolas de tipologia diversa, com a requalificação dos cursos de água e dos ambientes
costeiros, e promovendo os consumos de proximidade, e uma utilização mais eficaz dos re-
cursos. Portugal beneficiará ainda com um combate activo à fragmentação e uma abolição
progressiva das fronteiras virtuais que tanto têm condicionado o progresso, inviabilizando
soluções articuladas entre freguesias, municípios e regiões, e inibido a aposta nas políticas
públicas integradas que o país tanto precisa.
Paisagem e Território

Messias Modesto dos Passos


Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Campus de Presidente Prudente;
Programa de Pós-Graduação em Geografia.

“É inútil sonhar com uma rusticidade distante de nós. Isso não existe. O que inspira
tal sonho é o charco que há em nosso cérebro e em nossas entranhas, o vigor primitivo da
Natureza existente em nós.
Nunca encontrarei nos ermos de Labrador rusticidade maior que em qualquer lugar
de Concord, pois para cá a trago”.
Henry David Thoreau in Simon Schama: “Paisagem e Memória”.

A geografia é hoje reconhecida como “a ciência social dos territórios”. A compre-


ensão geográfica do meio ambiente deve se manifestar essencialmente nessa perspectiva.
“Territorializar” o meio ambiente é, ao mesmo tempo, enraizá-lo no território dos homens
e na longa história das sociedades, fornecendo os meios conceituais e metodológicos de
113 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
fazer avançar o conhecimento ambiental nesse campo.
Enquanto por toda parte desmoronam as ideologias conhecidas, a ascensão da noção
de meio ambiente aparece como a grande revolução do século XX no modo de pensar
do mundo e, mais precisamente, nas relações do homem e da natureza. A natureza e os
fenômenos naturais aí são, certamente, considerados em si mesmos e para si mesmos, mas
cada vez mais em uma perspectiva social no amplo sentido, ao mesmo tempo econômico
e cultural. Isto não aconteceu sem reticências por parte dos cientistas “duros”, mas a “de-
manda social” foi mais forte e até suscitou a reconversão de numerosas problemáticas. A
pesquisa em meio ambiente é o próprio exemplo da pesquisa interdisciplinar confirmada
uma vez que ela associa, pelo menos na teoria, as ciências sociais às ciências da natureza.
Entre as diferentes abordagens pertinentes à descrição e análise das dinâmicas e orga-
nizações espaciais, existem duas grandes orientações que, acredito, devem ser vistas como
complementares. Uma, a análise espacial consiste em explicitar as grandes regras que estru-
turam, organizam o espaço. A outra, a geografia social, aborda os processos de construção
territorial pela análise dos comportamentos sociais. A abordagem paisagística se propõe a
costurar as relações entre estas duas orientações, para mostrar como as diferentes combi-
nações de comportamentos individuais induzem cada uma das construções paisagísticas
específicas e, pois, os modelos recorrentes de organização do território.
Nos últimos vinte anos a paisagem tem mudado de estatuto, de finalidade e de conte-
údo participando de forma explícita da cultura, da sensibilidade, do simbólico, ou seja, do
que se considera de “artialização”. E mais, a paisagem assume, a cada dia, maior relevância
como um dos componentes das políticas de ordenamento – ambiental e patrimonial - dos
territórios.
A paisagem é o sinal sobre o terreno e o olhar das convulsões ambientais que sacodem
o planeta. Trabalhar com a paisagem significa contemplar um paradigma de complexidade
e de diversidade, que transcende disciplinas e interdisciplinas. Após uma longa história, se
tem dado à paisagem, talvez como último recurso, a missão de interceder para sensibilizar,
nos dois sentidos do termo, sobre as questões do território, do meio ambiente, da orde-
nação e do desenvolvimento. A paisagem pode (e deve) ser muito mais do que um atalho,
uma moda. Ela é um longo caminho que aclara e humaniza o território.
Se há um contraste de paisagem, há, também, um contraste político-administrativo.
Para conhecera Geografia Física é preciso conhecer os problemas sociais, econômicos, ad-
ministrativos... A interdisciplinaridade, o globalismo, o ambientalismo e a análise dialética
da natureza e da sociedade não puderam se desenvolver senão num ambiente científico do-
minado pela ideia de sistema. Era o fim de uma longa tradição de setorização da pesquisa,
ao curso da qual, os elementos, isolados de um sistema de referência, conheceram longas
derivas. A recentragem em torno dos conceitos de estrutura e de sistema, e do princípio de
114 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

auto-organização, relançou a Ecologia em torno do conceito renovado de ecossistema e, a


Geografia Física, em torno do conceito de geossistema.
Este último é lentamente separado da análise paisagística para dar nascimento a um
método naturalista às margens das ciências sociais e das práticas de organização do espa-
ço. De onde a necessidade de não se analisar o meio ambiente no quadro estrito de um
único conceito, a partir de 1990, Bertrand reconhece que não é possível abordar o meio
ambiente – complexo e com diversidade -, a partir de um conceito unívoco,(ecossistema
e/ou geossistema) e, então, propõe o modelo GTP (Geosistema – Território – Paisagem).
“O meio ambiente e o retorno do geográfico”, tem como objetivo maior chamar a atenção
para o surgimento do geográfico na mídia, nas políticas de ordenamento territorial e no
cotidiano das pessoas. Esse geográfico está explícito na espetacularização do meio ambien-
te, quer seja através das imagens de catástrofes, de cenários paisagísticos; mas, também, na
necessidade de se considerar as potencialidades de determinados territórios em termos de
recursos naturais: água, solo, biodiversidade, geodiversidade, fotossíntese etc.
“A paisagem é o reflexo e a marca impressa da sociedade dos homens na natureza. Ela
faz parte de nós mesmos. Como um espelho, ela nos reflete. Ao mesmo tempo, ferramenta
e cenário. Como nós e connosco, ela evolui, móvel e frágil. Nem estática, nem condenada.
Precisamos fazê-la viver, pois nenhum homem, nenhuma sociedade, pode viver sem ter-
ritório, sem identidade, sem paisagem” (Bertrand, 2007).
Uma paisagem nasce, toda vez que um olhar cruza um território, pois a paisagem
nasce da interação de dois elementos: (a) o objeto - um determinado espaço geográfico;
(b) o sujeito - o observador, isto é, o homem com sua sensibilidade, seus projetos, etc..
O mais importante é o que existe entre os dois. Paisagem é um processo! Um modo de
representação sócio-cultural de um espaço. A cada um a sua paisagem.
A paisagem é um tema transversal. Abordar a paisagem como uma questão transversal
– e de travessia– suscita muito mais interrogações que afirmações: “Le paysage revient inat-
tendu dans le vide où le système comme un arc-en ciel dans le pré” (“ A paisagem retorna para o
vazio ou o sistema como um arco-íris no prado”) (Michel Serres, Les cinq sens, Grasset, 1985:
229), coloca as questões essenciais inerentes à paisagem e nos interpela sobre alguns pon-
tos: o retorno da paisagem, tendo sido preciso esperar o fim dos Trinta Gloriosos para que
se tivesse um olhar de interesse pela paisagem, há muito tempo esquecida, notadamente
pelos gestores do território; a relação entre paisagem e sistema; a abordagem sensível, po-
ética e cultural, que marca o retorno da paisagem através da imagem, da espetacularização
das catrástrofes ambientais...
A primeira dificuldade desde que se fala de paisagem é lhe dar uma definição. Segundo
um provérbio chinês “a paisagem está ao mesmo tempo na frente dos olhos e atrás dos olhos”.
Cada um de nós tem uma imagem associada à paisagem e a define através de suas próprias
115 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
referências. Mais, todos os povos não exprimem da mesma maneira a noção de paisagem.
Esta concepção vaga tem um sentido diferente em função das línguas e das culturas. Os
rurais não falam de paisagem, falam da terra: “a gente cultiva a terra” e “a gente olha a
paisagem”.
Além do debate em torno das definições se coloca a questão do “retorno” da paisagem.
Há muito tempo esquecida, a paisagem tornou-se atualmente uma preocupação tanto eco-
lógica e econômica como cultural, interferindo com as problemáticas do meio ambiente e
da gestão do território. Mas este novo interesse suscita outros problemas e interrogações.
Nós somos confrontados com uma multiplicidade de fontes, de interpretações históricas
e de lobbies que se interessam no sujeito. A multiplicação de correntes, tendências de
“escolas” que se opõem nas ambições e aspirações diferentes dão uma visão confusa de
percepção atual da paisagem. A noção de paisagem procede menos da polissemia que da
cacofonia (vazia de sentido, frágil, logomarca etc.); se quer ligar a paisagem às formas de
interdisciplinaridade atualmente frágeis. É preciso encontrar outra coisa, fora das discipli-
nas. É preciso reconhecer e favorecer a diversidade das interpretações e das abordagens.
Propor uma abordagem, híbrida, susceptível de associar os contrários: natureza e so-
ciedade, subjetivo e objetivo, individual e coletivo, teórico e prático, ciência e cultura, or-
dinário e extraordinário etc. Associa a paisagem ao território no sistema GTP (Geosistema
– Território - Paisagem) fundado sobre a trilogia Source-Ressource-Ressourcement. É preciso
construir um sistema a partir dos diferentes elementos. É mais que um simples agregar.
É preciso rejeitar a cesura entre geografia física e humana, aproximar-se da história. É
preciso utilizar a geografia para atravessar as outras disciplinas com a condição de traçar
um caminho. Como o diz Antonio Machado: “O caminho, a gente o faz caminhando”. É
preciso considerar que desde que a gente fala de paisagem, de meio ambiente, de gestão,
de ordenamento ou de território, agente fala sempre do mesmo objeto. É um conjunto
que a gente não pode utilizar com uma única metodologia. É um paradigma que toma em
consideração todos os elementos e híbrido dos contrários (exemplo: natureza/sociedade,
individual/coletivo, ordinário/extraordinário). É uma entrada particular no territórioque
é função de cada um.
Ver, fazer ver, prever. O objetivo primeiro das representações da paisagem é fazer ver
virtualmente, uma infinidade de paisagens, ou uma infinidade de vistas da mesma pai-
sagem. A utilização de representações em três dimensões, e não somente de fotografias,
implica uma vontade de compreensão global que ultrapassa o clichê. Trata-se de ver a
paisagem no seu conjunto, sua profundidade, para compreender não somente as diferen-
tes perspectivas, mas também as relações espaciais: visualizar os sítios de implantação do
habitat em relação ao relevo, a organização da paisagem agrária em função da inclinação
de vertente, a configuração de bacias hidrográficas etc. O objetivo é não somente ver, mas
116 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

também multiplicar os tipos de perspectivas, de olhares e, portanto, de análises: “Nossa


concepção atual de paisagem, sistema ecológico, cultural, estrutural e simbólico, cujos
significados são diversos, não pode se satisfazer, para todo modo de representação, de uma
carta de base de dados especializados” (ERVIN, S., 1994).
Depois de criar o canto, o verso, a rima, a poesia e as rezas de sol da missa do vaquei-
ro, sou também um vaqueiro montado na beleza e na grandeza dessa gente, ativado num
calor de vaquejada, cavalgando por seus cantos e seus recantos, recolhendo no chão, no
ar e no céu do sertão a emoção e vertigem dessa vivência, que pontifica o verso e constrói
o poema.
Sou um vaqueiro afoito, cansado, descontraído, emergindo da caatinga para descan-
sar na tranquilidade do trabalho realizado, e à sombra da jurema, suado, esbaforido, tiro
o chapéu, bato o pé do marmeleiro, desvencilho-me do gibão, das perneiras e das botas,
sou um homem comum na passagem da vida – bebo cachaça no chocalho, gracejo e me
divirto com meus parceiros e este mundo companheiro, sou um vaqueiro livre e eterno,
como o vento do mundo, as pedras da terra e as estrelas do céu (Janduhy Finizola da
Cunha, Missa do Vaqueiro).

As paisagens, como vimos, são às vezes produtos da natureza e da sociedade. Elas


foram, são e continuarão a ser enquanto a terra seja habitada, enquanto os olhares se co-
locaram sobre o mundo. Este mundo, que não é um jardim paradisíaco, é dominado por
duas aspirações utópicas para a felicidade. A primeira, baseada sobre o direito à liberdade,
privilegia o mercado – o livre-comércio – para criar e repartir as riquezas como os recursos.
A segunda, apoiada no princípio da igualdade, recorre às regras da democracia para regular
os efeitos perversos do livre-comércio: pobreza, segregação social, acessibilidade seletiva
aos espaços, concentração de patrimônios, destruição do meio ambiente etc.
A paisagem entre liberdade e igualdade. A liberdade de mercado pode ser o único
motor da produção de paisagens materiais? Para responder, é preciso imaginar os mundos
governados principalmente pelo interesse egoísta e a ganância, e marcado pela recusa da
responsabilidade coletiva. A liberdade de empreender, gostaria de viver como lhe apraz,
produz paisagens particulares. Elas não são ficções. Elas existem nas grandes planícies ce-
realistas da América do Norte, nas monoculturas de soja, de cana do Brasil, nos agrobu-
siness, nos centros comerciais das grades megalópoles, nos parques de atração e de lazer.
Estes empreendimentos geram paisagens de desigualdade e de exclusão social: surgimento
de favelas insalubres nas cidades africanas e sul-americanas, segregação social entre quar-
teirões ricos, médios e pobres, privatização dos serviços públicos etc. Não regulada, a li-
berdade não termina a história das paisagens, ela cria pela revolta possível as condições de
117 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
sua transformação.
Paisagem de uns, território de outros: a participação. As questões econômicas e políticas
se traduzem por questões de poder sobre a paisagem (BERDOULAY, V. et SOUBEYRAN,
0., 1992). A paisagem pode ser analisada a diferentes escalas, da unidade de paisagem ao
elemento da paisagem; mas, igualmente ser protegida a diferentes escalas, do parque regio-
nal à praça. A qual escala serão tomadas as decisões? Quem decidirá sobre a paisagem e a
qual nível de análise do pesquisador ela é integrada?
A gestão de paisagem está contida num campo de força entre o habitante que vive
na paisagem e as autoridades administrativas que agem sobre a paisagem. Entre estes dois
pólos, informações-decisões-ações estão em movimento de yo-yo que parte, regra geral,
de cima para a base. Mais precisamente se observa uma dupla tendência que pode parecer
bastante paradoxal. Progressivamente, a gestão de paisagem se integra numa lógica de
planificação que controla e enquadra a evolução do conjunto da “grande paisagem”. A
implantação de uma indústria, a organização de uma parcela, a construção de uma casa,
não pode resultar de simples decisões individuais e devem se curvar a regras relativamente
precisas e aos esquemas de conjunto.
Paralelamente, a mobilidade crescente dos atores econômicos reduz a proporção de
ações da população local sobre uma paisagem. O caso é particularmente flagrante quando
novas dinâmicas territoriais se sobrepõem aos quadros de vida tradicionais, como é o caso,
por exemplo, do avança da cana-de-açúcar no noroeste do estado do Paraná, ou, onde o
desenvolvimento do turismo e das residências secundárias leva uma “despossessão” do ter-
ritório para os habitantes de “origem”. De outra parte a paisagem, mais que um objeto, é
um produto. O reconhecimento desse produto (raramente concluído) implica, portanto,
o reconhecimento do papel de seus criadores, ou seja, os moradores locais.
A paisagem não é um quadro, é uma realidade viva.

Referências:

BERDOULAY, V. Et SOUBERYAN, O., 1992 : Pour une problématique de la planification envi-


ronnementale, construction et régultioninstituées des enjeux environnementaux. REED, avril
1992, pp. 10-12.
BERQUE, A. Les raisons du paysage. Paris : Hazan, 1995.
CLAUDE e BERTRAND G. Uma geografia transversal – e de travessias. O meio ambiente através dos
territórios e das temporalidades. Maringá:Massoni, 2007; 1ª. ed. (Tradução Messias Modesto
dos Passos)
ERVIN, S.M., 1994: Images, texts et videos…Cahiers de l´Institut d´Aménagement et d´Urbanisme de
la Région d´Îlle-de-France, n. 116, pp. 84-90.
118 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

SERRES, M. Les cinq sens (Os cinco sentidos), Grasset, Paris, 1985.
SCHAMA, S. Paisagem e Memória. São Paulo: Editora Schwarcz/Companhia das Letras, 2009
(Tradução: Hildegard Feist).
Património natural e conservação
da fitodiversidade urbana

Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira


Doutora em Geografia

O equilíbrio

Entre a Natureza e a Cultura existem relações de interdependência entre o espaço de


vida (biótopo) e os elementos vivos desse espaço (biocenoses), certamente desde os povos
colectores mais ancestrais. Somos contemporâneos de colectores que não produzem outros
recursos alimentares ou de vestuário, de colectores que recolhem parte do que se alimen-
tam, de colectores que vendem o que recolhem na Natureza, e de colectores lúdicos que
recolhem produtos silvestres para reconhecerem o momento do prazer ancestral da sua
integração na Natureza.
A atitude ambiental destes diversos tipos de colectores perante aquilo que recolhem,
é diferente, na conservação do recurso que a Natureza lhe oferece e do qual dependem
119 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
para a sobrevivência do dia-a-dia (uma banana e uma folha para a assar na brasas - não
longe de Manaus, em 1998; cinco pequenos búzios para fazer um caril familiar - Ilha de
Moçambique, em 2004), ou da do colector que vende o excedente dos “frutos-do-mato”
de que se alimenta, à beira de um caminho da Mata Atlântica (Estado de S. Paulo, perto de
Santos, 1998). Não há exploração nem desperdício do património natural do seu biótopo.
Eu própria, defensora da conservação dos recursos, fiquei envergonhada comigo própria,
por ter perguntado à vizinha africana que caminhava a meu lado, na retirada da plataforma
do recife de coral, porque não tinha recolhido mais búzios, já que havia tantos. A resposta,
com um sorriso (sábio, e talvez indulgente) foi, ao abrir a mão fechada onde estavam os
cinco pequenos búzis: “estes são para hoje, amanhã venho buscar outros para dar gosto ao
caril de amanhã; e todos os dias eles vão crescer e dar mais…”. Nunca, nunca mais vou
esquecer esse momento, em que me ensinaram, olhos nos olhos, o que é, na realidade, a
não exploração dos recursos e a sustentabilidade que permite um modo de vida humano
e a conservação das espécies, tendo em conta o equilíbrio entre a densidade da população
consumidora e a abundância dos recursos naturais consumidos.
Na história dos Povos, a recolha sistemática dos mesmos seres vivos, leva ao noma-
dismo, à desertificação, e pode terminar na extinção desses e de outros seres que com ele
vivem naturalmente associados. Tanto nas cadeias alimentares vegetal e animal.
Na história da Terra, sucessivos fenómenos naturais (variações climáticas globais e
regionais, diferentes composições químicas da atmosfera, fogos naturais, pragas) levaram à
extinção de espécies, antes de os humanos surgirem, e mesmo durante os milhões de anos
das suas pequenas populações e fracas capacidades tecnológicas de intervenção ambiental.
Os fósseis conhecidos testemunham isso. As figuras rupestres gravadas nas cavernas, de
certo modo, também ajudam, quando existe a repetição sistemática do motivo (em regra
animais).

O desequilíbrio e a revolução tecnológica

A descoberta do fogo e da fusão dos metais, que consumiu florestas e os animais que
as habitavam, levou à primeira destruição do equilíbrio entre o ser humano e o patrimó-
nio natural do seu biótopo. Depois, as revoluções agrícola e, sobretudo, industrial, que
progressivamente integraram poluentes, levaram à desertificação de alguns biótopos. As
experiências nucleares, a aviação e a disrupção da atmosfera, tal como o uso de químicos
letais nas guerras dos séculos XX e XXI. O aumento da população e a necessidade de espa-
ço saudável para produzir alimentos suficientes, destruiu os biótopos de muitos seres vivos
que actualmente se encontram em perigo ou em vias de extinção.
120 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

O reequilíbrio no enriquecimento da biodiversidade

Por outro lado, as migrações globais dos povos, milenares, contribuíram para o au-
mento da biodiversidade e para o conhecimento e a difusão de muitas espécies animais e
vegetais desconhecidas em outras latitudes, regiões e continentes. E, os mais raros e os mais
úteis, ao chegarem, foram sendo plantados em espaços onde eram protegidos, aclimatados,
e estudados os seus hábitos e o seu uso.
Desde a Antiguidade Clássica, os jardins eram (e ainda são!), pelo exotismo das suas
plantas, sinais exteriores de riqueza. A sua aquisição era dispendiosa, mas além do valor
ornamental, também eram a grande fonte dos remédios, e, portanto, o interesse medicinal,
já teorizado por Hipócrates (cinco séculos antes da Era Comum), levou ao seu cultivo em
jardins de mosteiros, onde os alquimistas e os monges se dedicavam ao estudo químico
dos componentes das plantas. Juntaram-se-lhes as plantas exóticas trazidas nas viagens
transoceânicas renascentistas, também com possível uso farmacêutico e alimentar. E passa-
ram a ser reunidas e estudadas em jardins de mosteiros e da nobreza rica e informada, que
contratava médicos (físicos) para as investigar. Nem todas as plantas trazidas se adaptavam
às condições do clima onde chegavam, e a necessidade de as proteger criou a moda das
estufas, as chamadas “orangeries” (para cultivar citrinos), na Europa (Inglaterra, França e
Alemanha); eram monumentais estufas, de elevada beleza arquitectónica, para cultivar e
aclimatar as espécies exóticas vindas de climas mais quentes. As colecções botânicas dos
jardins palacianos eram tão famosas e cobiçadas, que se realizavam viagens de cientistas
para descobrir e trazer novas espécies de plantas e de animais. Os ingleses foram pioneiros
e mestres nessas viagens de estudo, onde reuniam os seus mais famosos naturalistas, e bo-
tânicos da Suécia, Alemanha e França. Darwin, e a sua viagem no Beagle, é a mais famosa.
As colecções botânicas, conventuais e palacianas, por necessidade de estudiosos e espa-
ços de experimentação, transformam-se em jardins botânicos, inicialmente apenas espa-
ços de estudo, que foram sendo anexados às universidades, responsáveis pela investigação
e pela organização científica dos jardins. Foi o caso do Jardim Botânico de Lisboa, que,
pertença do Colégio Jesuíta da Quinta da Cotovia, foi entregue à Escola Politécnica de
Lisboa que o (re)criou segundo a classificação binominal de Lineu, no século XVIII, e o
organizou como espaço de investigação e de educação botânica. Ainda sobrevivem duas
oliveiras do pomar do Colégio Jesuíta, integradas no Arboreto. Foram contratados arqui-
tectos para delinear a paisagem de acordo com as normas sistemáticas da classificação de
Lineu, entre os quais Vandelli, que traça a disposição das plantas nos Jardins Botânicos de
Coimbra e de Lisboa, estes no Alto da Cotovia e na Ajuda. O mesmo plano do Jardin des
Plantes, em Paris.
121 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Outro modelo de Jardim Botânico, já criado com essa função, agrupa as plantas pelas
formações vegetais e áreas geográficas donde provinham, recriando os seus ecossistemas na-
turais (desertos arenosos, desertos rochosos, frios e quentes; florestas tropicais do Sudeste
da Ásia, do Brasil, etc.). Além de vastos espaços, necessitam de enormes estufas quentes,
temperadas e frias para conservar as plantas desses climas. Os famosos Jardins Reais de
Kew, no Sudoeste de Londres, são referência mundial desde o século XVIII, pela sua ex-
tensão (120 ha), fitodiversidade e diversidade geográfica, pelos estilos arquitectónicos de
jardins diversos, pela grandiosidade e beleza das estufas e dos espaços abertos, plantados
ao ar livre, pela qualidade da sua escola de jardinagem (criação de híbridos e cultivares).
Também pelo seu herbário e a sua investigação, genética (banco de germoplasma).
Consoante a localização geográfica, existem jardins botânicos temáticos, mais moder-
nos (século XX), cujas plantas pertencem aos ecossistemas ambientais climax, existentes
em diferentes partes do Mundo; vivem plantadas a céu aberto, na sucessão das estações do
ano, tal como acontece na Natureza. Um exemplo magnífico é o Jardim Botânico Árctico-
Alpino de Tromso, administrado pelo Museu da Universidade de Tromso, na Noruega;
é o Jardim Botânico mais setentrional da Terra, que reúne espécies do andar alpino das
montanhas do Himalaia, dos Andes, dos Alpes, dos Pirinéus, e dos ambientes Árcticos. É
o Jardim Botânico do Círculo Polar Árctico.
Em Doha, no Qatar, sob uma estrutura climatizada, de lazer, há poucos anos (2006)
foi criado o chamado Jardim Botânico do Trópico de Câncer, ou Jardim Botânico Aspire,
um espaço com uma colecção botânica das (de) regiões tropicais e subtropicais do hemis-
fério norte (Índia, China, Havai, México e Antilhas, e Sahel Africano, entre a Mauritânia e
o Egipto). Não é propriamente um jardim botânico, mas sim um espaço de lazer com uma
colecção botânica temática, que demonstra uma louvável preocupação estética e educativa.
Além de um espaço destinado ao estudo da Botânica, um jardim botânico, que é um
museu vivo (com as espécies identificadas por placas descritivas), pressupõe uma unidade
de investigação que apoia a conservação da flora mundial, com a criação e manutenção
de reservas reprodutivas, e com a multiplicação artificializada das espécies em perigo ou
em risco de extinção, e mesmo de algumas que, ainda cultivadas em raros jardins, já se
encontram extintas na Natureza.
São espaços de estudo, mas abertos à sociedade, também como espaços de lazer, ainda
que com condicionantes no uso. Alguns são espaços de aclimatação natural, porque re-
únem espécies de ecossistemas vários, que, plantadas a céu aberto, se reproduzem natu-
ralmente, originando novas plantas, que se designam por naturalizadas. Um exemplo, é
o Jardim Botânico de Lisboa (antigo Jardim da Faculdade de Ciências de Lisboa), onde
o pinheiro-de-são-tomé (Afrocarpus mannii), oriundo da floresta de coníferas equatorial
(1500m de altitude) floresce, frutifica, as sementes germinam e originam mudas que são
122 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

envasadas e replantadas.

A fitodiversidade urbana e a resiliência da vegetação natural

Para além dos jardins botânicos, os jardins urbanos, públicos ou de acesso ao público,
e até os privados, são espaços de conhecimento, lazer e conservação de muitas espécies
nativas e introduzidas.
As cidades e demais aglomerados urbanos não têm só espécies cultivadas. Têm vegeta-
ção nativa e até infestante introduzida, que nasce onde encontra condições para isso. De
todos os níveis taxonómicos, das algas simples às angiospérmicas de flores mais complexas.
São o quebra-cabeça das autarquias, mas a sua existência e diversidade indicam que o
meio urbano não é, naturalmente, estéril, e suporta ecossistemas específicos de elevada
resiliência.
Nas cidades, as lavagens e desinfecções químicas tendem a eliminar a flora dos pa-
vimentos e bermas dos passeios. E são eficazes, especialmente nos invernos secos e em
pavimentos sem calçada portuguesa e sem empedrados. Nos aglomerados urbanos mais
pequenos usava-se sal. Ainda se usa, sazonalmente, em espaços que prezam a sustentabili-
dade das águas que se infiltram.
Os sistemas urbanos são implantados em sistemas naturais primários ou já transforma-
dos, povoados por uma flora própria, em equilíbrio com as condições climáticas e edáficas
locais. Em regra, esta flora que é destruída na fase de construção, é tão resiliente que renas-
ce entre o empedrado dos pavimentos, nos muros descuidados, nos edifícios abandonados,
nas paredes dos edifícios com revestimentos desgastados (crescem líquenes e musgos), nos
beirais e depressões dos telhados (daí o nome de arroz-dos-telhados para o Sedum album
que aí se instala), nas bermas dos passeios por onde escorre a água e se acumulam poeiras
que funcionam como solo. São chamados de ecossistemas ruderais.
Muros de pedra e muralhas seculares, no centro de cidades, ficam cobertas de musgos,
fetos e gramíneas e outras plantas ruderais, entre as quais a hera, em ambientes sombrios
e húmidos (na muralha fernandina de Lisboa). No limite, crescem pequenas árvores nas
fendas. As figueiras (Ficus carica), são frequentes por aqui. Figueiras-de-bengala (Ficus
benghalensis), por exemplo, em ambientes tropicais húmidos, são estranguladoras, e ins-
talam-se em ruínas de palacetes seculares, alguns que em tempos até foram portugueses,
nos arredores de Kuala Lumpur, ou em Cochim e Colombo. Aqui, são especialmente cui-
dados e valorizados no Jardim Botânico de Colombo (Jardins Reais de Ceilão/Sri-Lanka).
Admiro, com fascínio, estes países e povos que valorizam todos os momentos da sua
História, com a sapiência inata da sua refinada cultura ancestral, milenar!
Nas cidades portuguesas, nos espaços devolutos, na Primavera, crescem outros sis-
123 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
temas ruderais, com graminhais, margaridas e papoilas que competem com muitos jar-
dins. São, vulgarmente chamadas de ervas daninhas. Muitas chegaram de longe, porque
as suas sementes vieram misturadas com sementes de plantas de cultivo. Um exemplo, em
Setúbal: na junção do pavimento com os passeios, e destes com algumas casas ou arma-
zéns, em qualquer fenda, nasce uma planta herbácea, chamada de botões-de-latão (pelas
suas flores amarelas, reunidas em capítulos hemisféricos com forma de botão) a Cotula
coronopilfolia, cujas sementes vieram da África do Sul, misturadas com sementes de arroz,
e que ainda infesta os muros das salinas e entra(m) pelo sapal e pelos salgados.

A vegetação introduzida (diversidade e naturalização)


Porém, tradicionalmente, quando o tema versa fitodiversidade urbana, é, sem dúvida,
a flora introduzida que assume maior relevância. Nos jardins públicos e privados, nos ar-
ruamentos e pracetas, nos cemitérios, nos parques que ligam os corredores verdes. Mesmo
assim, entre as espécies alóctones, são plantadas muitas espécies da flora local, não infes-
tante. Em regra, são restos das árvores cultivadas em quintas envolvidas pelo crescimento
urbano - oliveiras (em Lisboa, a oliveira é a mais frequente), freixos e salgueiros, raras e
mal medradas alfarrobeiras. No entanto, a introdução de espécies autóctones na vegetação
ornamental de jardins e parques corresponde a uma escola paisagística que pretende va-
lorizar a paisagem natural e a flora local (Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, em
Lisboa), que estando adaptada às condições edafo-climáticas, tem melhores condições de
adaptação ecológica e, acredita-se ter, menor custo de manutenção.
Os jardins urbanos sempre foram e continuam a ser espaços de embelezamento, públi-
cos ou privados, de lazer, de relaxamento e de meditação (mosteiros, templos, cemitérios).
Destes últimos, apenas me recordo (com saudade) do Jardim do Penedo da Meditação, em
Coimbra, e (com sagrado respeito) do Cemitério Anglicano, em Lisboa.
Nos jardins públicos existem espaços destinados ao conhecimento da flora local ou
regional, mas as espécies exóticas dominam, desde as coníferas nórdicas, às figueiras tropi-
cais. Muitos são, apesar de espaços de lazer, jardins com elevada fitodiversidade, e de con-
servação de espécimes antigos, grandiosos, verdadeiros monumentos vivos. Recentemente
cultivam-se espécies em perigo de extinção, por perda dos territórios do habitat natural.
Os parques e, especialmente as colecções botânicas, em regra privadas, contribuem muito
para o aumento da fitodiversidade.
Os jardins privados têm um significado diferente, e especial. A dimensão, a flora, e
o posicionamento do jardim em relação à casa, dependem da riqueza dos bairros, e do
estatuto social dos moradores. Refiro-me a moradias, excluindo os espaços verdes dos
condomínios, e os alegretes dos prédios. No caso de Lisboa, de um modo geral, quando
há jardim, este localiza-se em frente à casa, e a função pode ser só de embelezamento, com
124 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

arbustos apenas ornamentais e relvados (bairros com a casa em evidência), plantas de flor
sazonais, sem plantas utilitárias; o jardim das traseiras tem árvores de sombra ou é um
pátio. Um exemplo é a parte mais nova do Restelo. Não há limoeiros (o mais frequente nos
jardins de Lisboa) nem laranjeiras (Alvalade). Porém, num bairro como Alvalade, no sector
oriental do bairro, do fim de 1950 e década de 1950-60, cujos donos eram funcionários do
ministério da Agricultura, em Angola, o jardim está na frente da casa, que mal se vê da rua,
escondida por enormes e frondosas abacateiras, bananeiras e até goiabeiras e mangueiras
(estas não frutificam). No jardim de trás, o quintal, há, sim, limoeiro, a laranjeira, nespe-
reira e uma horta. O similar, na relação do dono com a terra de origem, e sem comparação
com o nível económico deste bairro, era um pequeno bairro social que já não existe, no
Rego, por trás dos edifícios do Tridente, onde as casinhas de madeira e todos os materiais,
feitas pelos próprios, tinham, na frente um jardim-quintal, de um a dois metros de largura,
com cana-de-açúcar, papaieiras, videiras, um ou outro limoeiro espalmado, e vasos com
salsa e um ou outro pé de tabaco ou de mandioca. Os moradores eram cabo-verdianos
chegados nos anos sessenta do século passado. Os jardins maiores e mais antigos, à volta de
mansões, ficavam no Alto da Ajuda e na Lapa. A parte frontal do jardim tinha arbustos or-
namentais, um ou outro topiado, e muitas flores sazonais. Buganvíleas nos muros laterais,
grandes árvores ornamentais e de sombra nos pátios traseiros (de trás), com Ficus, mag-
nólias, abetos, sobreiros e oliveiras antigas (restos da quinta), e jardins-de-cheiros e outros
de flores de corte. Os proprietários, idosos (avós), eram lisboetas e alentejanos, vaidosos e
fruidores dos seus jardins. Com muita razão! Duas dessas propriedades, actualmente são
hotéis de luxo, e três são propriedades de embaixadas.
A fitodiversidade, em si, é baixa, apesar da troca de espécies entre os vizinhos, e os
jardineiros comuns. Mas o significado social, incomparável. Apenas o reencontrei na Nova
Inglaterra (USA), nas casas dos bairros de americanos e de imigrantes açorianos e cabo-
-verdianos. Qualquer que seja a cidade, pelo jardim, por menor que seja, se identifica o ca-
rácter e a proveniência do dono. Em todas as cidades, qualquer jardim é um espaço de paz.

125 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Atividade de campo, paisagem
e patrimônio natural

Dirce Maria Antunes Suertegaray


Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS; Porto Alegre)

Geografia e imagem. A Geografia, como outras ciências empenhadas em conhecer


a Terra e desvendar o mundo, sempre teve um vínculo forte com o trabalho de campo,
no qual sempre se apoiou para representá-la sob diversas formas. A análise das diferentes
maneiras de representar a Terra ao longo dos tempos permite compreender a evolução das
técnicas, desde o desenho (em suas mais variadas formas, como croquis, perfis, esboços de
paisagens, etc), passando pela fotografia (nas suas diferentes fases) e chegando às recentes
imagens de satélite.
Aprendemos pela leitura histórica da geografia que a paisagem é aquilo que a vista
alcança através do olho humano; na atualidade esse conceito se amplia, e inclui o que
pode ser observado através de câmeras e sensores remotos. A evolução trazida por novas
tecnologias permite aproximar ou distanciar o alvo, obter maior ou menor detalhe das
127 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
imagens captadas, fazendo com que a distância deixe de ser um obstáculo. Esta mediação,
assegurada pela técnica, enriquece o olhar, mas nunca eliminará o andar; a valorização e
importância dada presentemente à imagem cria a convicção que, em certa medida, ela está
a substituir o verdadeiro prazer de andar no campo.
Observar, assim como fotografar, implica andar, fazer longos trajetos, percorrer difíceis
acessos, pois o fotógrafo, como o geógrafo, tem de trilhar caminhos para mostrar espaços
não conhecidos por outrem. Só assim se pode revelar as marcas de vida nas paisagens, nas
faces, nos lugares diversos, enfim, no mundo por onde andou o (foto) geógrafo. A foto-
grafia registra e apresenta as diferentes faces da Terra e do mundo num dado momento,
permite aceder ao desconhecido e a imagens impactantes, dum mundo diverso e profun-
damente desigual.
Instigados por quem viveu o lugar, escolheu o ângulo ou a lente, somos levados a pen-
sar sobre os processos que lhes deram origem. Contemplar imagens pode ser um momento
de aprendizado, de surpresa e reflexão sobre o que o fotógrafo nos transmite através da sua
lente.
A pergunta recorrente, sobre se irão substituir as palavras, ainda não teve uma resposta
definitiva. Se no passado os desenhos complementavam as observações em campo, hoje
é a fotografia que exerce essa tarefa. A exemplo do texto e da escrita, a apreensão da in-
tencionalidade de quem fez a fotografia tanto nos pode tornar seu cúmplice quanto pode
despertar sentimentos contrários o que não invalida pensarmos que a fotografia envolveu
o mundo e que o mundo foi envolvido pela fotografia e pela imagem.

Imagem e Paisagem; apontamento sobre o patrimônio natural do Brasil. Uma


breve passagem de olhos pelas fotografias premiadas no Transversalidades 2017 revela lu-
gares, rostos, expressões e percursos não conhecidos por todos, paisagens, pessoas, faces
que expressam a sensibilidade de quem fotografou. Essa observação permitiu algumas
reflexões: de um lado, a imponente natureza, seja ela fotografada em detalhes ou enquanto
paisagens; de outro, a paisagem dita humanizada, onde os rostos das pessoas, adultos ou
crianças, jovens ou idosos, refletem um profundo contraste com o pulsar da natureza.
Esse pulsar se expressa através de exuberância e de beleza, mas, também, através de
desalento e desgaste físico e emocional. Esse paradoxo, sendo nós homens e mulheres na-
tureza, é revelador de nossa natureza diferenciada – uma natureza que, sendo humana, se
desumaniza. Um processo que marca os corpos, depositando neles a exaustão de uma vida
de dificuldades, de esforço, de cansaço físico por vezes brutal, de luta pela sobrevivência.
O olhar captado revela – por vezes entrelaçadas com a esperança, por vezes com descon-
fiança – a alegria em viver no seu lugar, com sua gente, com seus pertences: a pessoa em
128 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

seu pertencimento.
Esse ângulo, que é uma leitura possível, deixa a questão: que processos, que existência,
que cotidiano promoveu nesses rostos essas marcas? A fotografia nos instiga a refletir sobre
a dinâmica da natureza, sobre a sua humanização e sobre a naturalização do humano, além
de convidar a pensar sobre as marcas sociais que se inscreveram nos rostos e nas paisagens,
algo que, embora o possamos conceber como natural, não deixa de ser o resultado das
contradições de ordem (ou desordem) social em que vivemos.
As fotografias revelam tanto o olhar de quem as construiu como os processos e co-
tidianos comuns, do norte ao sul, do ocidente ao oriente, com matizes diferentes, mas
que se fundam, certamente, numa luta cotidiana na e com a natureza para dela extrair o
sustento – subsistir –, seja colhendo cana, cuidando os animais ou cultivando. O universo
infindo de possibilidades analíticas aberto pela observação dessas fotografias é o mesmo
universo infindo de possibilidade de trajeto para o fotógrafo e para o geógrafo fotógrafo:
que trajetos são esses? Que escolhas são essas?
Compreender a imagem exige conhecer o projeto de quem fotografa, suas intenções,
desejos e forma de estar no mundo. Embora vulgarizado contemporaneamente, fotografar
pressupõe um projeto, uma intencionalidade, um querer produzir uma imagem a partir
de um ângulo de visada, mas, também, fornecer um ponto de vista, nem sempre revelado
na foto, mas que se pode decifrar quando compreendemos o projeto. Embora fiquemos
muitas vezes absortos nas formas e cores reveladas, as imagens permitem-nos ir mais além,
instigando-nos a conhecer os projetos e a tentar perceber o sentido atribuído à natureza ou
dado às vidas humanas através do olhar do fotógrafo.
Exemplificaremos o sentido atribuído à natureza, manifesto nas políticas construídas
pelo Estado, com o caso brasileiro: a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) indica
o sentido atribuído ao patrimônio natural afirmando que a proteção e a gestão do patri-
mônio cultural brasileiro são de responsabilidade do poder público em colaboração com
as comunidades envolvidas.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o pa-
trimônio nacional compreende a valorização do natural e do cultural. Ao se referir ao
patrimônio natural, expressa duas razões para sua valoração: uma de caráter ético, que diz
respeito à necessidade de o homem, único ser com compacidade de reconhecer os fenô-
menos materiais e imateriais que o cerca, ser capaz de ter solidariedade com a diversidade
natural e cultural com as quais coabita no espaço-tempo; a outra, que é de caráter prático,
é a necessidade de preservação da natureza, uma vez que dela o homem depende para sua
existência.
Esta perspectiva da valoração da natureza, ou seja, da ampliação e consolidação de sua
preservação ou conservação, foi expressa particularmente no contexto das leis e normativas
129 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
de regulação dos cuidados com o meio ambiente, em particular desde 1888. A preser-
vação do patrimônio natural, no entendimento desse Instituto de Proteção (IPHAN) é
fundamental para que se reconheça a dinâmica dessas paisagens, suas riquezas, seu valor
estético e, sobretudo, que permita a manutenção da biodiversidade cultural, posto que é
da coexistência do homem com a natureza que emergem as culturas e as formas sociais
diferentemente organizadas.
A paisagem vem sendo, neste contexto, cada vez mais valorizada como registro e com-
preensão do patrimônio de um determinado país ou região e não é diferente no caso
brasileiro. Através dela é possível compreender não só marcas do presente, mas, sobretudo,
entender sua transformação no tempo-espaço. A paisagem revela o passado no presente.
Sua imagem é a expressão de um conjunto de constituintes, sejam de ordem natural ou
humana.
A partir dessa perspectiva, a imagem da paisagem torna-se relevante porque ela pro-
move o registro do que poderá ser preservado. A paisagem aqui não é só imagem: ela exige,
para ser patrimônio natural ou cultural, uma compreensão e justificativa que evocam, em
muitos dos casos, a História, outros registros, imagens de outros tempos. Portanto, ima-
gens, fotografias e desenhos são também instrumentos que auxiliam na descoberta e na
compreensão da natureza e da cultura. A fotografia das paisagens sugere possibilidades de
escolhas de patrimônios naturais e ao mesmo tempo permite revelar os elementos que a
constituem num dado espaço-tempo.

Transversalidades: um retrato do mundo presente. A fotografia, enquanto forma de


revelação artística, não é a natureza e não é a realidade, embora revele a natureza e revele
a realidade, por sua capacidade de explicitar ou esconder facetas da dimensão da vida: ela
capta e divulga representações da natureza ou da realidade vivida, espelha a alegria dos
rostos e, mesmo, as suas tristezas. A fotografia é presente e passado, pois “uma vez captada,
desterritorializa-se, emigra de lugares para se tornar memória dessa ausência” (Jacinto,
R. 2016) sendo espaço e movimento, reúne essa capacidade de fixar um fragmento, uma
centelha de tempo e espaço.
Desde o Brasil acompanho Transversalidades - fotografias sem fronteiras. Esse projeto
constitui uma iniciativa singular que nos permite, através das imagens produzidas, via-
jar. Aliás, enquanto geógrafos e geógrafas, sempre gostamos de viajar; só que, apesar de
o mundo na atualidade oferecer essa possibilidade, nem sempre a viagem se concretiza,
então é a fotografia que nos permite viajar. Por isso essa iniciativa ultrapassa fronteiras, seja
no ato de fotografar, seja na difusão de imagens.
Lugares outros são conhecidos, lugares outros são comparados com nossos lugares, se-
melhanças e diferenças são registradas. Instigantes semelhanças revelam heranças, expres-
130 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

sam memórias, práticas, ações de um mundo de conexões, subordinações, autonomismos,


resistências e tanto mais. São singulares as fotos selecionadas para esta publicação tanto
aquelas em cores quanto as em preto e branco.
Aqui, ao falar em imagens em preto e branco resgato a escrita de um colega, Nelson
Rego, em prefácio de um livro no qual o desenho é a expressão central. Diz Nelson Rego:
“O preto e branco destaca analiticamente as formas ao afastar a origem sensorial das cores
(...). Esse outro mundo propiciado pelo olhar de outro modo o mesmo mundo é misterio-
so, pois o outro mundo é sempre misterioso, mesmo na comédia”.
Neste conjunto de imagens ora publicadas, essa forma de retratar o mundo está pre-
sente, expressando aquilo que nos diz Nelson: uma tomada de visão que tecnicamente,
reproduz de outro modo o mesmo mundo. Ao iniciar este texto, escolhi abordar Geografia,
atividade de campo e imagem ou fotografia. A escolha se deu pelo fato de ser geógrafa e,
portanto, o mundo que observo é, em certa medida, filtrado por esse olhar. No entanto,
muitos outros olhares são possíveis, de acordo com a formação, especialização ou desejo de
quem fotografa ou de quem observa.
Falar sobre fotografias num mundo dominado pelas imagens é da maior importância.
Muitas leituras são feitas, muitas escritas são produzidas; a importância dessa técnica de
captação de imagens é divulgada e tudo é analisado. Mas este texto não trata disto; este
texto apenas deseja expressar uma forma de observar e refletir sobre fotografia, e mais,
dizer de sua importância no registro das mais diferentes dimensões da vida natural e da
vida social. O planeta está apropriado socialmente, nossa natureza já não é mais natureza
primeira, de qualquer forma seus processos estão presentes na dinâmica do mundo e po-
demos captar e cristalizar esses processos e suas formas na sua diversidade.
As fotografias são representações do mundo. Mesmo não sendo o mundo no seu mo-
vimento, nos permitem sua contemplação, e sobretudo nos instigam a compreendê-lo e
buscar, nas possibilidades do presente, perspectivas de transformação. Tranversalidades -
fotografias sem fronteiras me permitiu viajar, atravessar o oceano e conhecer, embora como
representação, diferentes espaços, diferentes formas e matizes da natureza, diferentes fa-
zeres da natureza humana. O convite feito para olhar e escrever sobre as fotografias dessa
nova edição do concurso me tornou mais próxima dos colegas de Portugal e estimulou o
desejo de andar. Por isso, agradeço pela oportunidade.

Para Érico Veríssimo existem duas categorias principais de viajantes: os que viajam
para fugir e os que viajam para buscar. Entre os que buscam estão eles – os fotógrafos e os
geógrafos fotógrafos.

131 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Paisagens e Viagens (Trans)Amazónicas

José Aldemir de Oliveira


Professor Titular na Universidade Federal do Amazonas (UFA; Manaus)

A terra das águas. As várzeas do Solimões ainda estão no ventre da mãe d’água que
engole casas, bichos, plantas, campos de bola e de gado. As escolas estão fechadas, as fes-
tas rarearam, pois as sedes como a terra estão em pousio. Não há barcos nos portos, pois
portos não há. A água que no início de agosto ainda está grande, faz mudar as gentes que
encaixotam os santos que os protegem e se vão para as periferias das cidades. Antes apenas
os encantos que pululavam nas mentes ficavam debaixo d’água, agora é tudo.
Passando no rio, à primeira visão, tudo é igual e vazio, é um mundão de água, a mata
ao fundo e um céu limpo e azul que, no horizonte, abraça as águas num contraste de cores.
Aqui e acolá o barco para, e a primeira visão se esvai, pois ainda há homens que ficam em
suas casas penduradas em nada. Num canteiro flutuante extenso - alguns medem mais de
50 metros de comprimento - plantam hortaliças de onde tiram o sustento nestes tempos 133 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
de vacas na maromba, e preparam as mudas, guardam a maniva para quando a água baixar
e a terra sair fértil recomeçar a vida.
Diz-se amiúde que a Amazônia é um arsenal de problemas e também de soluções e se
configura como uma das mais importantes regiões do planeta e por isso deve ser protegida
e preservada. Para quem? Em primeiro lugar, deveria ser para a humanidade próxima,
aquela que vive aqui.
Viaja-se o dia todo de Manaus até as cidades do médio Solimões numa lancha rápida
e não se vê nada que apoie essa gente, um barquinho sequer fazendo atendimento médico,
ajudando a passar a água. E assim tem sido nas repetidas cheias que atingem a região com
mais frequência desde 2009. De abril a setembro homens e mulheres que vivem da terra,
água e floresta perdem seus meios de vivência, a caça se vai para longe, o peixe se torna raro
e a terra desaparece. A vida de abundância torna-se de privação, são cinco longos meses
comendo o que a água deixou colher.
Ainda há quem se aproveite disso. Assim como há a indústria da seca no Nordeste,
aqui se repete a indústria da enchente. Até os postes sabem que no médio Solimões o rio
seca até final de outubro ou início de novembro quando vem o repiquete, para em segui-
da continuar secando e, no final de dezembro, iniciar a enchente que vai até meados de
junho. Por que em todo ano há emergência? Será que não há técnicas que poderiam ajudar
essa gente das várzeas a passar com menos sofrência o período das cheias?
A ideia de que o homem é um intruso não se sustenta. Mesmo antes da chegada do
colonizador as várzeas amazônicas já eram ocupadas e as práticas das gentes criavam as
condições alternativas de vivência por meio de processos criativos e eficazes, concilian-
do a ocupação da várzea com a da terra firme. Ao longo do tempo, quando a terra se
torna mercadoria, essas práticas foram se perdendo, e hoje as enchentes dos rios tornam-se
transtornos. Portanto, intrusos não são homens e mulheres enquanto seres genéricos, mas
quando inseridos num sistema em que a terra e a natureza são vendidas e compradas, e um
fenômeno natural como a enchente torna-se meio para ganhar dinheiro, de preferência
com a miséria humana.

O velho e o lugar. O velho volta ao lugar. Aquela casinha de madeira coberta de zinco
ainda está lá, o pé de coqueiro na frente também e, de tão velho, vergou, mas não caiu.
É um lugar perdido na curva do rio cuja correnteza já não fertiliza a terra como antes de
tão constante que são as enchentes. As chuvas, antes regavam as plantas, agora degradam
o solo desprotegido por causa do desmatamento. As abelhas e os besouros não polinizam
as flores, trabalho feito pelas mãos delicadas das mulheres em longas jornadas diárias, pas-
sando os dedos nas flores de maracujá. As lagartas já não se transformam em borboletas
134 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

de todas as cores a enfeitar os jardins, foram mortas por inseticidas que fazem adoecer os
homens. As sementes não são guardadas para o próximo plantio, são compradas em casas
da agricultura na cidade e são cada vez mais caras. As histórias contadas pareciam tão reais,
hoje ainda são contadas, da “boca pra fora”, sem nenhum realismo, não assustam e não
encantam os meninos que se entretêm com seus brinquedos eletrônicos. Rios e lagos já não
comportam as cidades encantadas.
Do lugar, quase nada restou, especialmente na alimentação, nas formas de trabalho e
nas festas, desde que o futuro foi embora. O quebra-jejum é café com leite em pó e pão
com margarina, bem diferente da primeira refeição de antes, com café retirado de uns pou-
cos pés cultivados ali mesmo ao redor da casa, temperado com mel de cana, acompanhado
de leite de vaca, fruto da ordenha de umas vaquinhas de curral que não eram muitas, mas
o suficiente para fornecer o leite aos pequenos. O café era acompanhado com biju, cara,
batata doce ou macaxeira. Na merenda, um poncho de fruta, às vezes plantada, às vezes
coletada na mata, ou mingau de carimã.
O almoço era quase sempre peixe fresco, pescado num lago ali próximo da casa. O
lago está lá, os peixes, como eles dizem, “nem prá remédio”. Às vezes comia-se carne caçada
no fundo do terreno, complementada com o leitão do chiqueiro e a galinha do terreiro.
Hoje o almoço é frango congelado com macarrão, ou linguiça com arroz, o peixe está
escasso, e o que se pesca é tudo para vender.
As festas em que as moças deslizavam no salão com garbo e leveza ao som de conjuntos
musicais, varavam as noites até o raiar do dia. As damas deveriam estar acompanhadas de
seus maridos ou namorados. Caso estivessem sozinhas e rejeitassem um cavalheiro, geraria
atrito. Os botequins vendiam bebidas e comidas a noite toda. Hoje as festas do interior
não mais existem, também se perderam como as estórias e a fartura.
O lugar está lá, mas o encanto acabou, e a vida continuou devagar e com paciência,
transformando velhas coisas e costumes em vida nova. Todos, ou quase, têm celular, há
luz elétrica, escolas de ensino regular: do fundamental presencial ao ensino médio a dis-
tância. Há posto médico, clube social que também é de esportes, um posto de saúde, em
quase todos os portos há um motorzinho de centro e o remo foi substituído “pela rabeta”.
Todavia, continua-se a tomar água sem tratamento e o banheiro é fossa negra. Pode-se
dizer que houve uma modernização incompleta.
Assim é o lugar que, como aquele homem, envelheceu. Mas a vida também continuou
para ele e há de haver outro lugar pelos caminhos aonde vai. A vida naquele lugar não é
necessariamente melhor ou pior do que era antes, é apenas uma nova vida. A questão é que
a vida não volta e os sonhos se perderam naquele velho lugar que ele imagina ainda ser seu.
Não se sabe até quando, ele e o lugar.

135 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


O barco. Durante o dia o horizonte é água barrenta, à noite as luzes são iguais. Num
como noutro as horas passam lentamente sem pressa de chegar. Escuta-se o tempo que não
corre e o vento que zumbe na sanefa. Há um emaranhado de redes em todos os lados. São
homens e mulheres, velhos e moços, gente do beiradão, de rostos queimados e um olhar
de intensa profundidade. Gente de longe, aventureiro que vai conhecer ou se defender
ganhando algum trocado.
De modo geral há precariedade no transporte fluvial do Amazonas quanto à seguran-
ça, rapidez, higiene e preço das passagens. Todavia é importante reconhecer que do meu
tempo de menino para o nosso agora as mudanças foram grandes para o bem e para o mal.
Agora os donos dos barcos se organizam como empresas e fazem pesados investimen-
tos. Os barcos são de ferro, feitos a partir de projetos assinados por engenheiros navais
e, embora incipiente, já existe preocupação com o ambiente, tratamento de esgoto, reci-
clagem de lixo, se bem que este é descartado no último porto e vai para o lixão. Não ser
jogado no rio já é um avanço.
A comida é farta e boa, embora nunca sirvam peixe. A tripulação é sempre prestativa
no atendimento aos passageiros. Esses avanços nos barcos de linha de grandes percursos
demarcam a melhoria do transporte de passageiros, mas ainda há problemas, dentre ou-
tros, o fato de os engenheiros navais que projetam os barcos e os que os constroem terem
faltado à aula sobre banheiros: estes são horríveis, pequenos, sem ventilação e escuros,
As melhorias são alvissareiras e, embora pontuais, de certo modo retomam o que já
existiu na Amazônia em tempos pretéritos. Louis Agassiz, geógrafo suíço que por aqui
navegou no século XIX, descreve que é impossível maior conforto e comodidade que se
oferece ao viajante nos vapores do Amazonas. São admiravelmente mantidos com asseio
extremo. A mesa é perfeita, cuidadosamente servida e a comida excelente, se bem que
pouco variada.
O barco descrito por Agassiz bem como o que viajamos recentemente talvez não sejam
parâmetros, mas lá como cá mostram que há sinais de modernização no transporte de
passageiros na Amazônia. De qualquer modo, antes como agora andar de barco de linha
tem lá seus encantos.
O barco navega e nos barrancos os pescadores arrumam seus utensílios e de vez em
quando recolhem peixe das redes, enquanto meninos correm e brincam e as mulheres em
parelhas ou pequenos grupos lavam roupa. A vida que se desenrola no barco parece colidir
com a tranquilidade daquelas pessoas guardadoras do rio e das matas amazônicas.
Subir ou descer o rio, ir ou voltar faz grande diferença. Ao subir pelo Solimões o barco
leva gente que vai chegando à noite e, embora só saia às sete da manhã, as redes devem
ser atadas desde cedo. O barco leva produtos manufaturados, mas leva também frango
136 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

congelado, ovos, banana e goma, ou melhor fécula para fazer a nossa tapioquinha de cada
dia que não é mais feita de goma, daquela branquinha tirada do repouso do tucupi, agora
é de fécula produzida no Estado do Paraná.
O barco para somente nas cidades e principais vilas. Ao se aproximar do porto as
pessoas que vão desembarcar envolvem se numa intensa preparação. Banham-se, perfu-
mam-se, as mulheres se maquiam, colocam a melhor roupa e arrumam a criançada num
burburinho de festa. O regozijo não é menor entre os que esperam o barco no porto, pa-
recendo que toda a cidade está ali, todos a esperar todos. A chegada do barco é uma festa.
Na volta ou na ida para Manaus, dependendo do ponto de vista, o barco traz gente
que se achega logo cedo e vai embarcando no porto de cada cidade e das vilas maiores e vai
armando suas redes. Antigamente essa gente misturava suas redes com o produto do seu
trabalho, frutas, verduras, pequenos animais domésticos e da mata. Durante anos assim
aconteceu, pessoas que traziam seus produtos e partiam para a cidade maior. Navegavam
sem pressa com o tempo a medir as distâncias percorridas, onde era difícil ver outra coisa
que não fosse a linha do horizonte e água cravadas nas pupilas, A fortuna estava na fartura
da colheita e da coleta no fabrico bem sucedido.
Agora é só gente, não vem quase nada, um pouco de farinha e só.
Apesar das mudanças e das permanências, é no convés dos barcos que cruzam esse
mundão amazônico que a vida se desenrola com paciência, correndo parada como a água
do rio que vai passando sem fim.

137 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Paisagens ribeirinhas e à beira-rio

Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior


Doutor em Geografia Humana; Professor Titular do Núcleo de Altos Estudos
Amazônicos – NAEA, Universidade Federal do Pará (UFPA)

Sobre cidades e espelhos: à guisa de introdução. Valdrada, uma das “cidades in-
visíveis” de Calvino (1990), fora construída pelos antigos à beira de um lago. Essa sua
condição impressionava os visitantes que, ao chegarem a ela, deparavam-se, na verdade,
não com uma, mas com duas cidades: a primeira, emersa, às margens do lago; a segunda,
submersa, a imagem da primeira refletida de forma invertida nas águas. Para as pessoas que
ali viviam, a Valdrada espelhada nas águas, mesmo que de cabeça para baixo, era, como
em uma fotografia, a imagem da cidade que se queria repassar para os que nela não habi-
tavam; daí a intenção de sempre fazê-la espetacular. Esta consciência, todavia, impedia
que seus moradores, mesmo que por um só instante, deixassem-se abandonar ao acaso e
passassem a viver mais espontaneamente, tal a preocupação que tinham com as imagens a
serem projetadas.
No mundo de hoje um anseio semelhante se faz perceber em cidades que buscam, 139 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

por meio de políticas urbanas, tornarem-se competitivas. Neste caso, o espetáculo pro-
porcionado é marcado por contrastes e cisões, um atributo recorrente da vida cotidiana
dita moderna, na qual “o mais comum é que a consciência do espectador passe do real ao
imaginário, evadindo-se nas imagens do fascínio de uma outra vida que lhe é inacessível”
(NUNES, 2009, p. 45). É dessa forma que cidades contemporâneas parecem replicar,
pelos quatro cantos do mundo, a Valdrada de Calvino (1990).
E assim o fazem incorporando muitas vezes paisagens naturais - concebidas por plane-
jadores, Estado e empreendedores urbanos - como sendo verdadeiros patrimônios e partes
de suas histórias.
Em razão disso, desenham-se novas imagens para elas, incorporando-se os “espelhos
d’água” naturais existentes em suas margens. Prevalece, com isso, o princípio da reflexi-
vidade, por meio do qual uma cidade tem melhores performances quando se vê refletida
em seu próprio espelho, operando-se, a partir disso, uma reduplicação espetacular: “para
que exista patrimônio reconhecível, é preciso que ele possa ser gerado, que uma sociedade
se veja no espelho de si mesma, que considere seus locais, seus objetos, seus monumentos
reflexos inteligíveis de sua história e de sua cultura” ( JEUDY, 2005, p. 19).

Da reflexividade às paisagens. No jogo de reflexividade, em que a natureza também


é envolvida, as novas paisagens a serem definidas tornam-se fundamentais. Para além da
estética e da moldura que os mares, rios e lagos proporcionam, acrescentam-se nelas equi-
pamentos de turismo, de lazer, de comércio e de consumo em geral. Algumas experiências
convertem-se em intervenções urbanísticas esteticamente arrojadas, conformando cenários
atrativos e sofisticados do ponto de vista do desenho, da arquitetura, das funções e dos
valores urbanos. Tornam-se, na verdade, Grandes Projetos Urbanos (GPUs), caracteriza-
dos menos pelo tamanho físico apresentado que pela complexidade assumida diante da
realidade local (BOURDIN, 2006).
Isso é o que verdadeiramente acontece com algumas cidades banhadas por impor-
tantes cursos fluviais e lagos, localizadas em vários pontos do planeta, onde os GPUs
ganham a forma de waterfront, como o Puerto Madero, às margens do Rio da Prata, em
Buenos Aires (Argentina); a Expo 98, às margens do belo Tejo, em Lisboa (Portugal); a
HafenCity, no Rio Elba, em Hamburgo (Alemanha); a Docklands, no famoso Tâmisa,
em Londres (Inglaterra); o Warterfront Toronto, no grande lago Ontário, na cidade de
Toronto (Canadá); e a Estação das Docas, na Baía fluvial de Guajará, na região amazônica,
em Belém (Brasil).
Não se trata, portanto, de um modelo de urbanização confinado a determinados países
ou regiões. Pelo contrário, aproxima-se muito mais da ideia de “urbanização planetária”
140 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

(LEFEBVRE, 2014), caracterizada pela padronização e homogeneização de paisagens, mas,


igualmente e fundamentalmente, pela difusão generalizada de valores urbanos. Tais valores
se estendem a diferentes pontos do planeta, seja por meio de uma urbanização mais difusa
e pontual, seja através de grandes aglomerações, que incluem espaços reconhecidamente
dinâmicos do ponto de vista econômico, mas que também alcançam realidades mais longe
desses epicentros da economia mundial, a exemplo da floresta amazônica (SOJA, 2013).
Considerando a importância do componente natural que muitas vezes constitui essas
novas paisagens urbanas, cabe perguntar: de que natureza se está a falar? Evidentemente
que os “espelhos d’água” não nos remetem a uma natureza intocada do passado, mesmo
que assim o pretendam; nem, tampouco, à natureza de múltiplas e intensas relações com
a vida local e regional que ainda acontece em vários cantos do planeta, como se vê no
interior da Amazônia. Isso porque o sentido que a natureza assume ao longo da existência
humana tem mudado substancialmente com o tempo. Por isso, talvez seja mais prudente
falarmos de paisagem natural em vez de natureza, a menos que concebamos esta última
como uma natureza segunda, distante, portanto, do espaço natural de outrora.
Como paisagem, entendemos, à maneira de Santos (1991), o conjunto de objetos e
formas natural ou artificialmente criadas, resultantes de uma acumulação de tempos no
espaço, cuja apreensão nos é dada sensorialmente quando entramos em contato com con-
tornos espaciais, texturas, volumes, sons, cores, odores etc. Para além do que os sentidos
captam, entretanto, as paisagens são governadas por relações que elas apenas, como em
uma fotografia, encarregam-se de exteriorizar. Por isso, ao menor descuido, podem ser
enganosas; menos em razão delas mesmas, e mais em decorrência das maneiras pelas quais
nós as apreendemos, se, por qualquer motivo, desconsideramos as relações que lhes dão
sentido. Nesse sentido, deve-se ler as paisagens como se leem as fotografias, acompanhadas
de suas histórias, de suas narrativas, de suas relações.

Das paisagens aos espaços. Em se tratando de paisagens fluviais, seguindo as mes-


mas reflexões de Santos (1991), elas não têm nada de fixo e de imóvel. À semelhança da
“sociedade urbana” (LEFEBVRE, 2014) que as define hoje, inserem-se em um mundo em
movimento; daí se transformarem continuamente para se adaptarem às novas necessida-
des dessa mesma sociedade, dela sendo inseparável, sempre a compor os espaços que são
produzidos socialmente. Estes, por sua vez, são bem mais que as paisagens que os exterio-
rizam. Para Santos (1991), o espaço, nada mais é do que um casamento entre a paisagem
e a sociedade, sendo ipso facto uma forma-conteúdo. Nessa condição, os objetos materiais
que o formam, arranjados em forma de paisagem, não trazem em si mesmos explicações;
estas requerem articulações dos objetos com os processos que lhe ocasionaram (SANTOS, 141 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
1991, p. 40).
Destarte, as paisagens fluviais que compõem os waterfronts, ainda que aparentemente
se pretendam naturais, nas concepções em que são traçadas no interior de políticas urba-
nas, dessa maneira não podem ser apreendidas. Isso porque o grau de artificialidade com
que se inserem no cenário urbano revela a intensidade de processos históricos e sociais que
nelas se projetam, configurando rupturas nas relações que se estabelecem entre sociedade
e natureza, entre cidade e rio.
Mesmo que significativas situações de permanência possam ser ainda reconhecidas, há
um certo grau de negação da natureza nessa relação, uma vez que as múltiplas e intensas
interações das populações com os rios tendem a ser desfeitas em decorrência do próprio
ritmo imposto pela vida urbana, bem diferente do que acontece, por exemplo, em várias
comunidades ribeirinhas do interior da Amazônia, onde a relação com o rio adquire certa
proximidade, se confrontada com outras realidades.
Nessa região, em várias situações, o elemento hídrico não é sempre um mero compó-
sito de paisagens a definir um “tableau regional”, aquele cujos gêneros de vida, em cará-
ter mais ou menos duradouro, fazem-se impressos no solo pelo homem (LA BLACHE,
1946). É possível, portanto, reconhecer realidades particularizadas onde os cursos fluviais
são mais que isso. Revelam-se como dimensões do vivido, como partes dos “espaços de
representação” de que nos fala Lefebvre (2000), com simbolismos, experiências cotidianas
e imaginários, e, por isso, mostram-se intensamente imbricados à vida humana.
Mesmo que a presença do waterfront componha hoje também a paisagem amazônica,
ainda é possível se falar, do ponto de vista regional, de relações horizontais, organicamente
solidárias (SANTOS, 1996), de proximidades, portanto, entre os indivíduos, e destes com
a natureza ainda pouco transformada. Isso não implica em dizer que os rios não são espa-
ços de contemplação. Eles também são, mas nessa função não se esgotam, havendo outras
a serem consideradas. Como vias, possibilitam a circulação de pessoas, que através deles se
comunicam; como fontes de recursos, permitem a alimentação de populações ribeirinhas,
ao mesmo tempo em que saciam sua sede e ajudam a fertilizar periodicamente, com a
subida de suas águas, as terras que se encontram às suas margens.
A estreita proximidade da vida ribeirinha com o rio confere ao elemento hídrico tam-
bém, nesse caso, um uso doméstico rotineiro, prestando-se à limpeza, seja dos objetos,
instrumentos e indumentárias de uso cotidiano; seja do corpo e também da alma de co-
munidades rurais e de cidades que estão às suas margens. Os mergulhos dessas popula-
ções nas águas de seus rios são representativos de práticas com fortes dimensões lúdicas
e simbólico-culturais que os definem como lugares de pertencimento. Deles emergem
lendas, mitos, histórias, estórias, tradições, religiosidades, enfim, uma infinita quantidade
142 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

de representações das águas que preenche talvegues, escava leitos, transborda margens,
provoca “terras caídas”, permitindo um rico movimento de erosão e sedimentação a definir
formas e conteúdos fisiográficos, sociais, econômicos e culturais.

Das paisagens ribeirinhas às paisagens beira-rio. Não raro, no caso amazônico, é


a vida ribeirinha que, nas novas paisagens das cidades reinventadas, busca-se recompor,
como em uma volta nostálgica a uma região do passado ou a uma Amazônia profunda,
ainda muito presente no interior da floresta. A pretensa multidimensionalidade da vida
nela expressa, todavia, parece restrita à função de circulação, ou à de contemplação do
“natural”. Dessa maneira, torna o rio um espaço esvaziado de suas relações múltiplas para
os citadinos que passam a admirar sua beleza, mas não necessariamente a decifrar sua po-
tencialidade de uso e de representação sociocultural.
Diante da riqueza de vida e cultura que o rio permite criar e manter é impossível,
entretanto, concebê-lo como simples paisagem desvinculada da vida que lhe dá sentido,
pelo menos se pensarmos realidades como a amazônica. Nessa região, para as populações
e comunidades enraizadas à cultura da floresta, ele guarda o significado de um patrimônio
coletivo. É, por essa razão, um “comum”, no sentido que é dado a essa noção por Harvey
(2012) e por Dardot e Laval (2017).
Para o primeiro autor, a ideia de “comum” decorre de práticas e de estratégias não
mercantilizadas de gestão estabelecidas ou criadas através de relação entre um dado grupo
e elementos do meio social e/ou físico, tidos como essenciais para a vida, subsistência e be-
nefícios coletivos (HARVEY, 2012). Em complemento, os dois últimos autores remetem
o seu sentido a um princípio político anticapitalista que resguarda objetos de naturezas
diversas voltados para usos, apropriações e atividades coletivas dos indivíduos (DARDOT;
LAVAL, 2017). Como “comum”, as águas convertem-se também, naquele caso em parti-
cular, em uma espécie de patrimônio, onde natural e cultural não estão separados.
As novas formas espaciais que consagram os waterfronts tendem a se distanciar, entre-
tanto, dessa perspectiva. Muitas vezes apresentados como espaços públicos, acabam sendo
reduzidos a meros espaços coletivos, sem usos e apropriações pautados em um princípio de
interesse comum e de acesso universal pleno. Isso porque tendem a conceber novos estilos
de vida diretamente associados às artificialidades e à programação da vida urbana, como
o lazer citadino, que remete a uma forma de retorno à natureza, mas com forte apelo à
artificialidade do mercado e às estratégias seletivas de apropriação do espaço.
Nessa projeção de uma nova vida urbana, o “direito à cidade”, nos termos de Lefèbvre
(1991), apresenta-se também como um possível direito ao rio. Diferentemente, entre-
tanto, do que é postulado pelo filósofo francês, que vê naquele direito a possibilidade da
143 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
liberdade do indivíduo e da plena apropriação e uso da cidade, destituída de sua condição
precípua de mercadoria, o direito à natureza acaba por se converter naquilo que o mesmo
autor denomina de um “pseudodireito à cidade”, pois tende a ser apreendido tão somente
pela estética da paisagem, mutilada e destituída de suas múltiplas relações com a vida hu-
mana que lhe dá sentido.

Sobre espelhos e cidades: à guisa de conclusão. O direito à natureza, portanto,


tende a entrar para a prática social em favor dos lazeres: “a ‘natureza’, ou aquilo que é
tido como tal, aquilo que dela sobrevive, torna-se o gueto dos lazeres, o lugar separado
do gozo, a aposentadoria da ‘criatividade’” (LEFEBVRE, 1991, p. 116). No caso dos rios,
e parafraseando o mesmo autor ao se referir à vida camponesa, diríamos que, colonizada
pela vida urbana, a paisagem beira-rio perde as qualidades, propriedades e encantos da
vida ribeirinha.
Por que isso ocorre? De multidimensional e multifuncional, os espaços ribeirinhos
tendem a ser reduzidos a apenas uma ou duas de suas funções e dimensões. Por meio
destas confinam-se notadamente aos objetos e elementos que as exteriorizam, como uma
fotografia sem história, uma espécie de cartão postal a ser visto e admirado. Assim, as pai-
sagens que eram ribeirinhas tendem a ser reduzidas a paisagens localizadas tão somente à
beira do rio.
Assim reduzidas, as cidades inspiradas no modelo waterfront do mundo globalizado,
fazem-nos lembrar, mais uma vez, a Valdrada de Calvino (1990). Se nas águas buscam
refletir suas imagens, não é com as águas que elas, de fato, buscam interagir e se relacionar.
Nessas cidades, o mais importante não são os atos e relações que no seu interior aconte-
cem, mas principalmente as imagens límpidas e frias desses atos e relações que nos “espe-
lhos d´água” se projetam. Por isso, “as duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se
nos olhos continuamente, mas sem se amar” (CALVINO, 1990, p. 55).

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145 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Paisagens do Pampa hibridismo
natureza – sociedade

Roberto Verdum
Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS; Porto Alegre)

Lucimar de Fátima dos Santos Vieira


Bióloga e Geógrafa; Professora do Departamento Interdisciplinar da Universidade
do Rio Grande do Sul

Marcas das mãos humanas na história das paisagens do Pampa

Quando pedimos para as pessoas descreverem a paisagem do Pampa, algumas referên-


cias se cristalizam como marcas desta paisagem: “um relevo igual, uma monotonia geográfi-
ca, uma horizontalidade em que se confundem a imensidão do conjunto que une a superfície
da terra e o céu, uma silenciosa monotonia...”.
Sem desconsiderar estas marcas que revelam certas circunstâncias em que os seres hu-
manos captaram, se apropriaram e forjaram ao longo de sua história o viver e o passar pelo
Pampa, podemos considerar que essas marcas são generalizações necessárias para nos situar
na sua amplidão geobio-histórica.
Quando descobrimos a sua temporalidade ao longo da escala geológica, nos damos
147 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
conta que os nossos sentidos que elaboram a paisagem deixam de considerar as circuns-
tâncias dos detalhes de sua conformação, desde os tempos pretéritos até nossos dias. Os
mosaicos do conhecimento científico revelam que as suas origens são confundidas com as
do próprio planeta, há mais de 800 milhões de anos atrás, ou seja, a paisagem do Pampa
percorreu uma trajetória nada monótona.
Essa dinâmica ocorreu tanto na formação dos atributos da natureza quanto na for-
mação dos Estados Nacionais, enquanto territórios e identidades, tanto regional como
nacional, além de ser um espaço de circulação, de produção e de habitat de pessoas e de
seus bens, que se iniciou com as populações pré-colombianas.
As paisagens do Pampa, também denominada de Província do Pampa, Pampa,
Pampas, Campos Pampeanos, Província dos Campos do Sul, entre outras denominações1
é uma área geográfica de aproximadamente 700.000 km2, localizada em todo o território
da República do Uruguai, parte centro-leste da República da Argentina e parte do Brasil
(apenas 2,07%). Caracterizada pela quase ausência de formações florestais, apenas com
formações campestres, eventualmente cortados por matas galerias e modificadas, princi-
palmente, pela variação dos solos, do relevo, da litologia e do clima.
Atualmente, todo este mosaico é esculpido pelos agentes intempéricos que não se-
guem qualquer regra de homogeneidade durante o ano e no passar deles. São chuvas tor-
renciais, secas, calores tórridos e frios quase glaciais que geram a diversidade de materiais
que formam os solos pedregosos, pouco profundos e húmicos de diversos matizes, de boa
fertilidade natural, embasados por rochas ígneas, metamórficas e sedimentares. Sobre estes
solos, a diversidade biológica revela o predomínio dos campos herbáceos e arbustivos e
matas ciliares que acompanham a drenagem como sendo dendritos que guardam no seu
padrão a memória da erosão continua.
Os campos são diversos pelas suas composições herbáceas e arbustivas e que ainda
estão em processo de descoberta. São diversas famílias, gêneros e espécies vegetais que se
associam e revelam o caminhar silencioso das plantas segundo as variações climáticas regis-
tradas na ocupação dos espaços mais diversos. Elas avançam e retrocedem de seus refúgios
de clímax tropicais e semiáridos do cerrado da região centro-oeste no Brasil ou das estepes
da região do Monte na Argentina, se adaptando e resistindo às novas condições de clima
úmido e solos arenosos ou pedregosos do Pampa.
Assim, nos campos encontramos vegetais que são relictos de climas do passado, mas
também registros de adaptações biológicas, como se buscassem recriar as condições de seus
meios originais. Todas essas dinâmicas, formas e estruturas vegetais se expandem por todo
o Pampa, revelando que compor clima, relevo e solos em diversas escalas gera adaptações
e socializações entre plantas e animais que fogem a qualquer monotonia ao olhar obser-
148 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

vador, interessado em reconhecer esta diversidade. Ou seja, reconhecer o diverso numa


monotonia velada.
O registro arqueológico2, mais antigo no estado do Rio Grande do Sul, mostra que
os primeiros povoadores viveram na transição entre os períodos do Pleistoceno e do
Holoceno, em uma paisagem de planícies e planaltos, com ventos frios que sopravam na

1
Pastizales Pampeanos, Pastizales del Río de la Plata, Província Bonariense, Pradera Papeana, Ecorregión de
las Pampas.
2
A arqueologia classifica essas populações de acordo com a cultura material. A cultura material desses povos
foi classificada de acordo com os objetos líticos encontrados nos sítios arqueológicos e não aos povos que as
fabricavam.
direção sul-norte e pouca precipitação pluvial, com verão temperado e inverno rigoroso,
onde os campos predominavam sobre as florestas e a fauna representada por animais de
grande porte, adaptados ao clima.
As fronteiras paisagísticas que existiam entre os grupos indígenas foram redefinidas
a partir do século XVI com a chegada dos espanhóis e portugueses. O território do Rio
Grande do Sul, pertencia à Coroa Espanhola. A historiografia explica que neste espaço
habitavam os grupos indígenas: Jê, Guarani e Pampeanos.
A conquista dos territórios indígenas ocorreu do século XVII até o século XX. A maio-
ria dos povos indígenas foram dizimados pelo colonizador europeu, ainda que, tenham
ocorrido processos de mestiçagem biológica e cultural entre os mesmos. Atualmente, parte
do território indígena tem sido restituído por intermédio de processos judiciais. Segundo
o Instituto Geográfico de Economia e Estática (IBGE), no Censo Demográfico de 2010
consta 34.001 pessoas indígenas em todo o Estado, sendo que dessas, apenas 18.616 resi-
dem em terras indígenas.
O Pampa, inseriu-se na economia colonial como fornecedor de gado bovino, cavalar
e muar, levado pelos tropeiros, para o abastecimento e transporte de mercadorias e de pes-
soas para a região mineradora do país. Na metade do século XVIII inicia-se a colonização
açoriana. Os açorianos receberam as datas (1⁄4 de légua quadrada – 272 hectares) para de-
senvolverem a agricultura. Os produtos comerciais eram a carne, o linho e, principalmente
o trigo. Como produtos de subsistência cultivavam arroz, milho, batata, mandioca, frutas
e outros legumes.
Durante o século XVIII e no início do século XIX, a Capitania de Rio Grande de São
Pedro (subordinada ao Rio de Janeiro) insere-se economicamente no mercado interno
brasileiro, pela produção do trigo e pela atividade pecuária. Neste período, a atividade
de pecuária apresentou duas fases: preia do gado selvagem e a produção do charque. Os
produtos pecuários corresponderam a 70% das exportações da capitania, destacando-se o
charque, o couro e o gado em pé (cavalos, mulas e bovinos). As charqueadas foram esta-
149 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
belecidas no Pampa, entre as lagunas dos Patos e Mirim, com destaque para Pelotas, pela
sua localização estratégica, com a proximidade das vias de escoamento fluvial e marítimo.
Na metade do século XIX foi promulgada a Lei de Terras (1850), a qual previa, entre
outras mudanças: a proibição da doação de terras no Brasil, a venda de terra aos coloni-
zadores com proibição de mão-de-obra escrava, a regulamentação fundiária da posse e do
uso da terra e, também, o início do processo de expansão em direção ao norte do Estado
do Rio Grande do Sul, terras historicamente ocupadas, pelos grupos indígenas falantes
da língua Jê. Como consequência, ocorreu o cercamento das terras e a dispensa de um
grande contingente de pessoas que viviam nos limites das propriedades (como posteiros,
posseiros, agregados, ervateiros, indígenas, africanos), levando à favelização nas cidades e à
dificuldade dos produtores pobres de legitimarem suas terras.
Assim, inicialmente, tivemos como características a estrutura fundiária baseada no
latifúndio; a formação das estâncias e das charqueadas; o uso e ocupação da terra predo-
minantemente na pecuária com trabalho escravo; a pouca distribuição de renda; a pouca
diversificação da matriz econômica; a baixa densidade demográfica; uma classe hegemô-
nica e a formação de núcleos urbanos distantes um dos outros. A estância significou a
exploração da atividade econômica e da unidade produtiva, além do núcleo de defesa e
manifestação do poder e da riqueza.
Até este período histórico, a paisagem e a identidade que deram origem aos habitantes
do Pampa podem ser consideradas como sendo basicamente campestres. Desta forma, o
desaparecimento do campo nativo substituído por lavouras, principalmente por monocul-
turas de grãos e arbórea, sobretudo a partir dos anos 1970, atuam também na transforma-
ção de uma identidade.
Atualmente, enquanto que sobre as coxilhas e os cerros o olhar reconhece estas ruptu-
ras históricas que elaboram um mosaico heterogêneo sob forte influência da mecanização,
nas amplas planícies aluviais a paisagem associada às extensas produções de arroz irrigado,
desde os anos de 1920, reafirmam este cultivo como “natural” ao olhar do gaúcho e do
viajante que vive e percorre as paisagens do Pampa.
Por outro lado, os campos herbáceos nativos e com atividade de pecuária, em torno de
40% do território do Pampa, são considerados remanescentes da paisagem original. Esta
atividade econômica sobre o campo nativo, quando manejada de forma correta, é econo-
micamente viável e sustentável em relação à conservação da diversidade biológica, sobre-
tudo, quando comparada com as intensas transformações associadas aos cultivos que, na
atualidade, se encontram em fase de expansão e recriando uma nova paisagem pampeana.

Belezas cênicas pampeanas: resgate dos valores paisagísticos


150 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

A beleza cênica da paisagem é o espaço cênico de sua observação, ou seja, é o cená-


rio com propriedades estéticas formais e estruturais marcadas pela harmonia, proporção,
luminosidade, textura, cor, integridade e equilíbrio. A paisagem cênica caracteriza-se por
gerar sentimentos ou sensações agradáveis, como prazer, deleite, satisfação, tranquilidade
e paz de espírito.
As belezas cênicas das paisagens possuem importância social, cultural, histórica, eco-
nômica e ecológica. Assim, muitas vezes, ao lembrarmos do passado, fortalecemos o senti-
mento identitário, as pessoas se conectam à natureza e ao universo; as paisagens produzem
qualidade de vida e bem-estar social, relaxamento, paz interior e espiritual; estas por serem
reais, são independentes de qualquer convenção, possuem valor intrínseco, seja financeiro,
seja utilitário; apresentam atributos raros, elementos singulares da natureza; são permeadas
de cultura, contribuindo na reprodução social e no modo de vida das comunidades.
Ao observar e fazer a leitura de uma paisagem, fazemos um exercício de selecionar, or-
ganizar e formar imagens mentais para caracterizá-las fisiograficamente e morfologicamen-
te, em relação ao seu entorno e a sequência de seus componentes, principalmente aqueles
que conduzem para as lembranças de experiências passadas. Essa leitura da paisagem que
fazemos é o resultado de uma educação, de um contexto social, econômico, político e
cultural das nossas vivências.
Ao pesquisarmos o Pampa, foram identificadas 198 paisagens portadoras de belezas
cênicas. A leitura da paisagem foi associada, preferencialmente, aos elementos da nature-
za. As paisagens com elementos construídos pela(s) sociedade(s) humana(s), como faróis,
cercas, taipas, fazendas, estâncias, pontes e prédios, foram identificadas porque estas fazem
parte da história e da identidade da cultura gaúcha.
Os fatores que mais contribuem para a qualidade cênica da paisagem do Pampa foram
a morfologia, a água, a vegetação, a cor, o fundo cênico e a raridade. A morfologia suave
das colinas; a morfologia singular das Formações das Guaritas em Caçapava do Sul; a
morfologia das dunas na Planície Costeira; a vegetação com sua diversidade de exemplares
da vegetação num único espaço, pela raridade e pela importância ecológica; a água com
predomínio tanto em movimento quanto em repouso (na condição de refletir – como um
espelho – o entorno); a combinação de cores variadas e contrastantes entre a vegetação,
as rochas e a água; o fundo cênico, com a possibilidade de visualizar o horizonte ou várias
linhas, como por exemplo, a paisagem do alto de um cerro ou de uma coxilha e a raridade
de um elemento identificado pelo conhecimento científico dos pesquisadores.
Até hoje, admiramos as paisagens de acordo com os padrões do século XVIII, buscan-
do essencialmente, as sensações que estas nos oferecem pela sua beleza cênica, pela subli-
151 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
midade, pelo pitoresco e de preferência na área rural, ou seja, uma busca pelas paisagens
que são dignas de serem representadas em uma fotografia, uma imagem ou um desenho.
Ainda hoje, se exibem estas paisagens em folhetos, fotos de calendário, cartões postais nas
lojas de souvenir, nas empresas de turismo e, atualmente, em folhetos publicitários para
venda de casas e apartamentos em condomínios fechados, onde se incorpora a concretude
e o simbólico associado à beleza cênica das paisagens do Pampa, como um atributo a mais
no valor venal.
Ao desejar uma qualidade de vida melhor, o ser humano, também, deseja uma paisa-
gem de qualidade que se agrega, não só do ponto de vista estético, mas da variedade de in-
terligações das diferentes formas de vida e de suas funcionalidades. Por isso, é importante
que as paisagens, os sítios de valor paisagístico, de valor universal excepcional (parâmetros
estético, ecológico, histórico, cultural e científico), tornem-se não somente um bem jurí-
dico merecedor de proteção, principalmente aquelas consideradas portadoras de belezas
cênicas, sublimes e pitorescas, mas como referências para gerar uma matriz identitária às
pessoas; não somente transformadas em peças de museus, pois elas devem evoluir com a
história e fazer parte das relações sociais que as protegem e/ou as transformam.
Deste modo, ao entender as paisagens como polissêmicas, dinâmicas e complexas, ao
compreender que a(s) sociedade(s) humana(s) procuram nas paisagens uma experiência
estética, ao constatar que esta possui impressas as marcas, as emoções e as lembranças do
passado, que se modificam conforme o local, a escala e o tempo de quem as percebe; as
paisagens também se tornam marcas das mãos humanas ao longo da história do Pampa, ao
resgatarmos os seus valores intrínsecos e as suas belezas cênicas.

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153 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Patrimônio natural, biodiversidade
e alterações da paisagem
na Caatinga

Bartolomeu Israel de Souza


Professor da Universidade Federal da Paraíba (UFP; João Pessoa)

Introdução

Grandes depressões interplanálticas onde pontualmente vemos inselbergues e alguma


serras de altitude mais expressiva (acima dos 600 metros); vegetação esparsa, sem folhas
a maior parte do ano, onde sobressaem muitas Cactáceas, conferindo a muitos lugares a
aparência de deserto; contraste marcante entre as secas dominantes (capazes de durar anos)
e as chuvas tão esperadas pela população, criando, a seu tempo, paisagens barbaramente
estéreis e maravilhosamente exuberantes, na visão de Cunha (1995); gado morto pela
fome, praticamente mumificado diante da inclemência do calor; casas de taipa; pobreza.
Esses são os cenários que ainda hoje passam pela cabeça de muitas pessoas quando
ouvem falar do semiárido brasileiro, o que também é em grande parte divulgado pela
televisão, livros e Internet. Essas paisagens, sem deixarem de ser parcialmente reais, come- 155 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

çaram a se consolidar no imaginário popular somente a partir do início do Séc. XX, através
da literatura, música, televisão, teatro, cinema e também por muitos políticos regionais
que fortaleciam essa visão para obterem benefícios econômicos, como ainda hoje muitos
o fazem.
Também é o espaço da saudade, como defende Albuquerque Júnior (2011), onde tan-
tos filhos de famílias tradicionais e seus descendentes se lamentaram pelo declínio econô-
mico da região, enquanto os menos favorecidos financeiramente tiveram de deixar sua vida
no campo e migraram para as grandes metrópoles do Centro-Sul do Brasil, deixando seu
local de nascimento para tentar a sobrevivência em lugares alheios, fugindo de um espaço
em crise, lembrado por muitos como uma perda dolorosa para onde, tão logo as condições
financeiras permitissem, retornariam, seja nas férias anuais ou como aposentado.
Exclusiva dessa parte do Brasil, a Caatinga é um bioma que abrange grande parte
da Região Nordeste e um pequeno trecho da Região Sudeste do país, ocupando cerca
de 845.000km² (IBGE, 2004), o que equivale a quase 10% do território nacional, onde
existe uma elevada diversidade de paisagens, estando aí incluídas fisionomias vegetais de
extrema heterogeneidade.

A vegetação como expressão da diversidade de paisagens na Caa-


tinga

Até o momento são reconhecidas 3347 espécies vegetais, sendo 962 gêneros e 153
famílias, das quais 526 espécies e 29 gêneros são consideradas endêmicas (FERNANDES
et al., 2020), números que fazem da Caatinga a floresta tropical sazonalmente seca mais
extensa e ecologicamente mais diversa do mundo (LESSA et al., 2019).
A flora da Caatinga apresenta biodiversidade diretamente relacionada aos elementos
chuva e solos. O primeiro, no que diz respeito a quantidade e distribuição espacial, o que
nos remete diretamente a dinâmica regional das massas de ar nessa parte do Brasil, assim
como as influências locais ligadas ao relevo. O segundo, quanto a capacidade de acumular
recursos hídricos, além de sua fertilidade. Nesse último caso, a estrutura geológica apre-
senta papel fundamental, fazendo com que se apresentem conjuntos de paisagens distribu-
ídos, de forma generalizada, entre terrenos cristalinos, sedimentares e inselbergs, criando
padrões de diversidade de espécies e paisagens heterogêneas (MORO et al., 2016a).
Como regra, solos derivados de rochas cristalinas são mais ricos em nutrientes, embora
também sejam rasos e pedregosos, o que limita a retenção de água, enquanto solos deriva-
dos de rochas sedimentares são pobres em nutrientes, apresentando maior profundidade,
portanto, capacidade mais elevada de retenção de água que os primeiros. Nos inselbergs,
156 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

os solos estão diretamente relacionados a topografia (MORO et al., 2014; MORO et


al., 2016b), havendo grande diversidade de microhabitats onde, em alguns casos, ocorre
maior concentração de sedimentos e água o suficiente para se estabelecer uma vegetação
do tipo arbustivo-arbórea (POREMBSKI, 2007), incluindo espécies vegetais que na lite-
ratura constam como pertencentes a biomas de climas úmidos e subúmidos, como Mata
Atlântica, Floresta Amazônica e Cerrado.
Nesse caso, essas áreas de inselbergues, para além da elevada importância biológica e
hídrica atual, constituem partes importantes da paisagem que ainda resguardam elemen-
tos fundamentais ligados a história da evolução da Caatinga, constituindo-se assim como
rugosidades de valor inestimável no que diz respeito a compreensão de dinâmicas naturais
passadas, em algum momento dominantes de forma mais generalizada.
Fazendo parte dessa heterogeneidade, considerando todo o bioma, também encontra-
mos diversos encraves com tipos de vegetação estabelecidos em microclimas subúmidos à
úmidos de abrangência espacial mais ampla, como resultado de fatores ligados ao relevo
no que diz respeito ao posicionamento de suas vertentes em relação à direção das massas
de ar úmidas, além da altitude, estabelecendo-se disjunções da Mata Atlântica (Brejos de
Altitude) e do Cerrado, além de Campos Rupestres, embora não venham a se constituir
como ecossistemas pertencentes à Caatinga.

Ameaças e possíveis soluções à degradação da Caatinga

Todo esse rico e ainda pouco conhecido patrimônio vem passando historicamente por
diversas ameaças. Mais recentemente, Antongiovanni et. al. (2018) identificaram que 90%
dos remanescentes vegetais da Caatinga apresentam tamanho inferior a 500 ha., submeti-
dos a elevada pressão antrópica, onde se destacam o extrativismo vegetal e a expansão da
agropecuária.
Em 1818, ao atravessar parte do sertão da Bahia, Martius comentou que a Caatinga,
denominada por ele de Hamadryades e de silva aestu aphylla, em função da aparência de
morte da maioria das espécies vegetais, devido a ausência de folhas na estação seca, estava
contida em uma região pobre de água e com florestas ralas, descrevendo uma natureza
de grande hostilidade, a ponto de também denominá-la de silva horrida (LAHMEYER,
2017). Essa foi a primeira descrição de impacto dessa região a ser levada mundo afora, o
que causou grande curiosidade no mundo acadêmico e popular, sendo também decisivo
na criação de uma impressão até certo ponto estereotipada, ainda hoje dominante.
Entretanto, baseado no que já comentamos sobre o conhecimento atual desse bioma,
é provável que as paisagens observadas por Martius e do seu parceiro Spix tivessem sido
157 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
submetidas anos antes a elevadas taxas de desmatamento, devido ao uso histórico da
madeira para a produção de cercas das propriedades, carvão, lenha, uso na construção
civil e principalmente para expandir as lavoras de algodão, do qual o semiárido brasileiro
foi grande produtor desde o século XVIII até a metade do XX (JOFFILY, 1902; 1910;
LUETZELBURG, 1922).
Esse conjunto de ações acabou fazendo com que, basicamente nas áreas de relevo com
topografia mais íngreme e solos com elevada pedregosidade e rochosidade, ao dificultarem
o uso mais intenso dos recursos naturais, venham a se constituir a muito tempo como
os poucos lugares em que ainda sobrevivem os maiores remanescentes de uma Caatinga
mais original, compondo verdadeiramente uma mata de aparência esbranquiçada (dado o
xerofilismo dominante e os caules de cor clara de várias plantas), conforme o significado
desse nome indígena.
Contribuindo decisivamente para esse quadro, temos mais recentemente a questão
fundiária. De acordo com o último Censo Agropecuário, 75,1% do total de propriedades
dessa região tinham áreas de tamanho inferior a 20 hectares e, dentre estas, 50,2% apresen-
tavam tamanho inferior a 5 hectares (IBGE, 2017), o que as caracteriza como minifúndios
e torna praticamente impossível, nas condições climáticas e socioeconômicas dominantes,
o desenvolvimento de práticas agropecuárias sustentáveis (BUAINAIN; GARCIA, 2020)
que, por sua vez, também compromete a recuperação dos recursos vegetais nativos a ser
efetuada por qualquer intervenção que possa vir a ocorrer, já que normalmente isso acar-
reta a interrupção, por diversos anos, do uso direto da terra, ação que esses pequenos
proprietários não tem como efetuar, sem que isso ameace ainda mais a sua subsistência.
No caso da criação oficial de áreas protegidas para diminuir os impactos das ações
humanas na Caatinga, também nesse quesito a situação da Caatinga é crítica. De acordo
com Hoeffel et al. (2010), somente 1% desse bioma está protegida como unidade de
conservação integral, onde não é permitido o uso econômico direto, enquanto 6% são
unidades de uso sustentável, destacando-se a categoria Área de Proteção Ambiental - APA,
onde são permitidas essas atividades. Particularmente nas APAs, entre o que existe na lei
e o que se pratica, a distância é muito grande, já que a sua gestão ocorre em propriedades
privadas, o que geralmente intensifica conflitos sem precedentes (HOEFFEL et al., 2010),
ficando pouco do que de fato poderíamos considerar de sustentável nos usos dessas terras.
A última observação acima ratifica a ideia de Kremen; Merenlender (2018), para
quem a criação de unidades de conservação pode apresentar resultados positivos reduzi-
dos, quando efetuado sem estar atrelado a outras ações, relacionadas a gestão dessas terras
e das propriedades que estão no seu entorno, criando estratégias de conservação das áreas
utilizadas na agropecuária para amenizar e reduzir as ameaças que se expandem para além
das que estão sob a proteção do Estado, como a perda de biodiversidade, mudança climá-
158 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

tica e uso insustentável dos solos.


Pensar em alternativas para a problemática da degradação e da desertificação no semi-
árido brasileiro não é uma tarefa fácil e nem simples, envolvendo questões de ordem eco-
lógica, social e financeira. Desses três, apesar do pouco conhecimento sobre os processos
de restauração natural da Caatinga, em comparação a outros ecossistemas de climas secos
(MATESANZ; VALLADARES, 2007), as maiores dificuldades estão ligadas a questão
social e financeira.
A reintrodução maciça de espécies vegetais nativas já conhecidas pela Ciência poderia
ser uma alternativa para dar início a um processo de recuperação dessas áreas degrada-
das nesse bioma, embora as dificuldades econômicas possam tornar tal ação parcialmente
impraticável, pelo menos em grandes áreas, dado o volume de capital necessário para esse
empreendimento. Portanto, para além dos entraves econômicos, isso nos levar a discutir,
obrigatoriamente, até que ponto a sociedade civil e os governantes consideram importante
que ações desse tipo, entre outras possíveis e conhecidas, sejam empreendidas e o quanto
de Ciência e ações estamos dispostos a promover nessa parte do Brasil. A cidade torna-se
oca, sugada pelas construções onde antes era o núcleo e a vida cotidiana. Descobre-se,
porém, que as terras no interior da cidade denominadas como terrenos/ imóveis, são a base
para construir os abrigos para morar. Mas de quem é a terra? Quem paga por ela? Quem
obtêm renda advinda da produção coletiva da cidade? O que se esconde quando apenas se
visualizam as edificações que estão sobre ela? Como obter uma moradia digna?

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160 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Lugares de Ontem, Lugares de Hoje,
Lugares de Amanhã:
Permanência e Mudança nos Lugares
Naturais Raianos

Lúcio Cunha
Professor Catedrático no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade
de Letras de Coimbra da Universidade de Coimbra; Centro de Estudos de
Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Dos muitos conceitos geográficos, o conceito de lugar é dos mais utilizados, dos mais
bem percebidos por cientistas e leigos, mas também dos que, porque polissémicos, são
mais difíceis de definir rigorosamente.
No entanto, é fácil chegar ao conceito de lugar, através das fotografias deste catálogo.
Aqui se encontram as articulações entre a sociedade e natureza, necessárias ao conceito,
aqui se encontra a escala local de observação que convém à percepção do lugar, aqui se
encontra, finalmente, o sentimento, o sentido que permite a verdadeira apreensão do es-
pírito do lugar.
Os lugares são, na sua essência, uma construção humana, são espaços com significado,
são espaços com alma. Construção física ou mental, o lugar pode ser uma cidade ou uma
aldeia, pode ser grande ou pequeno, pode ser artificial ou natural. Tudo depende do modo 161 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
como a sociedade o percebe e sente, como com ele se identifica, como o dá a conhecer ao
outro, tudo depende, ao fim e ao cabo, do modo como é construído o espírito do lugar, de
cada lugar, sempre diferente, sempre específico, sempre particular.
A Natureza e os seus elementos desempenham um importante papel na construção
dos lugares, pelo que representam como quadro de suporte para a sua construção física,
mas também, muitas vezes, por si próprios. Há paisagens naturais, serras e vales, rios e
matas, penedos e árvores que, de per se, pelo significado que assumem em cada momento
da história de uma sociedade, são também lugares. Embora não tenha sentido, invocar
a este propósito a “Natureza natural” de Ivette VEYRET1, os modos de organização da
natureza sem intervenção humana são importantes no modo como a sociedade selecciona
e constrói os seus “lugares naturais”. Mesmo com intervenção humana, existem lugares em
que a “Natureza é natural”, como nos diz Paul CLAVAL2 ao afirmar que os povos Inuit
(esquimós) circulam por extensões de dezenas de milhar de quilómetros quadrados e dis-
põem de poucos topónimos, muito irregularmente repartidos, e que designam acidentes
de relevo, bacias, cabos, vales, lagos onde os grupos permanecem mais tempo. Estes lugares
são conhecidos de todos, há necessidade de falar deles. Para isso são precisos nomes, mas a
marca da Natureza é inelutável.
Neste catálogo retrata-se, de algum modo, o que resta de uma sociedade que mudou
rapidamente, o que ficou ou está a ficar para trás na vertigem das mudanças económicas,
sociais, territoriais e paisagísticas impostas pela sociedade do século XXI, culturalmen-
te globalizada, economicamente liberal, territorialmente competitiva, mas localmente
identitária.
Quais as leituras dos lugares naturais para as sociedades predominantemente rurais,
que precisam descortinar o seu papel inovador de repositório, santuário e diversidade (so-
cial, certamente; económica, necessariamente), nesta Raia do Centro de Portugal? Sem
pretensões de exaustão, refira-se que, antes de mais, os lugares naturais assumem uma
referência locativa para o espaço vivido, para os percursos do dia a dia: são enquadramen-
tos, são caminhos, são encruzilhadas, são pontos de paragem e descanso, são pontos de
encontro, com o sentido que CLAVAL utiliza nas suas referências aos Inuit. São muitos os
exemplos neste espaço raiano e, de entre eles, sublinhamos os que podem ser encontrados
nos estudos sobre as rotas da transumância na Serra de Estrela3, como as muitas canadas
na Serra ou fora dela, por onde eram levados os rebanhos, como o lugar das “Eiras” ou a
“Aldeia do Gado” em Fernão Joanes, ponto de encontro e pernoita, ou como as inúmeras
fontes do gado, ponto de paragem nestas longas deslocações.
São também, sobretudo pela imponência e pelo significado estético que, por vezes,
162 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

assumem, ou pela sua significação histórica, referências simbólicas e espirituais da vivên-


cia quotidiana de cidadãos. Nalguns casos podem, mesmo, assumir relevância ao nível
religioso, como acontece com a Senhora da Estrela, o Castelo de Monsanto ou muitos pe-
quenos santuários, ermidas e capelas, situadas quase sempre em locais altos, panorâmicos,
rochosos, imponentes, que emprestam o misticismo natural necessário a uma melhor e
mais completa reflexão interior por parte de quem os procura. Emprestam, pelo menos, o

1
VEYRET, Ivette (2000) - Géo environnement (2a ed.). Armand Colin, Paris, 186 p.
2
CLAVAL, Paul (2001) - Épistémologie de la géographie. Coll. Fac, Nathan, Paris, 266 p.
3
FIGUEIREDO, Rui e CUNHA, Lúcio (2004) - Rotas de transumância serrana para a Beira Baixa.
Itinerários e património associado. Iberografias, CEI, Guarda, 8, pp. 305-327.
mistério do que não controlamos em plenitude ou do que não conhecemos bem e nos faz
sempre, perante a incerteza, querer ver mais, saber melhor, perceber tudo.
São também lugares de utilização individual ou colectiva, lugares que pelas suas ca-
racterísticas são identificados com determinados usos. Continuando a buscar exemplos
na Serra da Estrela, será o caso do Vale do Zêzere em Manteigas, claramente associado à
actividade agro-pastoril serrana com os seus caminhos, os seus campos, as suas “cortes”.
Muitos são lugares vistos de longe, de fora, como acontece com os lugares de referên-
cia climática. O adagiário popular relaciona claramente situações de tempo com a direc-
ção do vento e, para situar essa direcção lá está, sempre presente, o lugar: por exemplo,
“Quando estiver vermelho para Viseu, leva o teu capote que eu levo o meu”, ou para os de
Castelo Branco, “De Sarzedas, nem bom vento nem bom casamento”4 ou, ainda, para os
de Folgosinho na Serra da Estrela, “quando o vento sopra da Pedra Furada anuncia neve
buraqueira”5.
Muitos outros e melhores exemplos poderiam ser apontados para explicitar a natureza,
o simbolismo e a importância efectiva do lugar ou dos lugares na vivência quotidiana do
povo raiano. E dentro destes lugares, a importância dos lugares marcados pelas suas carac-
terísticas naturais, os lugares da Natureza, a que a vida da sociedade raiana tem estado mais
ou menos ligada. No entanto, servirão os exemplos apontados para justificar ou ajudar a
melhor ler os lugares retratados neste catálogo fotográfico.
Os últimos 30 a 40 anos foram de profunda mudança, tanto nos espaços rurais como
nos espaços urbanos da Raia. Os fenómenos de terciarização das economias, de urbaniza-
ção dos territórios e de litoralização do país, provocaram profundas transformações, com o
abandono progressivo das actividades tradicionais de sabor agro-silvo-pastoril, sabor tantas
vezes penoso, hoje talvez apenas bucólico, com certeza identitário, por vezes produtivo,
dependendo de quem observa. A actividade agrícola predominante, porque tradicional e
pouco rendível, encorajou outro facto social de grande significado nestes lugares: a migra-
ção acentuada da população jovem para as cidades e para o estrangeiro. Esta mobilidade
163 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
repulsiva apresentou um efeito que nos leva até outro dos factos identitários mais expres-
sivos destes lugares: a rarefacção e envelhecimento das populações que permanecem nos
espaços rurais. As lógicas economicistas da sociedade dita moderna, com os seus círculos
viciosos de rendibilização, racionalidade e optimização entre a população, os equipamen-
tos e os serviços públicos postos à sua disposição, encarregam-se, depois, de desmantelar

4
ALVES, Manuel Costa (2002) - Mudam os ventos, mudam os tempos. O adagiário popular meteorológico.
Gradiva, Lisboa, 149 p.
5
ABRANTES, Leonel (1997) - Novas portas de acesso à Serra da Estrela. Folgosinho. 277 p. A Pedra Furada
é um grande bloco granítico que a erosão desenhou com a forma de um enorme cão da Serra, descansando
sobre as patas traseiras.
ou desestruturar os frágeis restos, transformando-os, muitas vezes, em despojos. Os peque-
nos centros urbanos, os pequenos lugares vêem fechar escolas, centros de saúde, postos das
forças de segurança, estações de correios. A já baixa densidade da demografia, da economia
e da sociedade nos espaços rurais raianos diminui ainda mais, a economia fenece, a socie-
dade marginaliza-se, o território desarticula-se.
Todavia, os modos de exploração coerciva do meio e o nível económico, técnico e
tecnológico não são factores únicos de diferenciação regional dos territórios. Importa,
também, a forma de conceber os lugares (que são, todos juntos, o Mundo) e o significado
atribuído a todos e a cada um de deles.
Com estas mudanças, muda também o modo de olhar o espaço, o território, os luga-
res. Sucedem-se as tentativas, mais ou menos bem sucedidas, de tentar acordar, reabilitar
e desenvolver os espaços rurais com actividades ligadas ao turismo e ao lazer, trazendo de
fora as pessoas, os meios financeiros, a vida que permita rentabilizar as potencialidades na-
turais e culturais de um mundo quase em extinção. Como referem SANTOS e CUNHA6,
estabelece-se uma nova relação entre o rural e o urbano, relação sempre desigual, com os
“urbanitas” a criar a sua própria imagem do meio rural, idílico e atractivo, depreciando
os elementos que não correspondem ao seu estereótipo. O isolamento, a tranquilidade e
o bucolismo oferecidos pelo mundo rural são, em regra, a sua imagem de marca para o
desenvolvimento com base em actividades de lazer, mas com base nestas características
imagéticas, desenvolvem-se outras, reabilitam-se alguns produtos agrícolas (vinho, azeite,
queijo) não só na sua produção, mas também na sua imagem e distribuição, recuperam-se
recantos fluviais, agora transformados em praias, reforça-se a oferta termal, valorizam-se
sítios e percursos naturais.
Os modos de estar, de pensar e de viver urbanos atingem o rural. O visitante reencon-
tra-se e reconcilia se com o seu passado rural recente, revive a vida dos seus pais e avós,
aprende a ler outros lugares que sente de algum modo como seus, mesmo que nunca o
tenham sido, porque ao tornar seus os lugares com outras culturas, outras experiências,
164 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

outras almas, ficará mais alerta para melhor sentir e interpretar os seus lugares de vivência
quotidiana7.
Muda, assim, a percepção do lugar na Raia. Um pouco por todo o lado surgem, sob a
forma de percursos, de mapas, de livros, de guias, novas leituras do território e dos lugares,
porque destinadas a novos usufrutuários.
6
SANTOS, Norberto e CUNHA, Lúcio (2008) - Novas oportunidades para o espaço rural. Análise exploratória
no Centro de Portugal. Actas do VI Congresso da Geografia Portuguesa, Associação Portuguesa de Geógrafos,
Lisboa (no prelo).
7
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Território: espaços rurais pós-agrícolas e novos lugares de turismo e lazer. Livro de Homenagem à Professora
Doutora Carminda Cavaco. CEG, Lisboa, pp. 269-278.
No que diz respeito à Natureza, o estado de abandono da agricultura e a diminuição
clara da pressão sobre a Terra promovem a recuperação do coberto vegetal autóctone, mas
com a falta dos “jardineiros” ou “guardas” da Natureza - os agricultores, tratadores da terra
- aumenta também a degradação, particularmente pelo efeito devastador que os incêndios
florestais vão tendo todos os verões.
É difícil dizer se o meio físico, a Natureza, os seus pontos de referência, os seus luga-
res, saem reforçados ou valorizados com as transformações ocorridas nos últimos 30 anos.
Mais segura é a constatação de que em função dos novos usos, pouco a pouco, se trans-
forma o seu espírito, se modifica o modo como são percebidos, se alteram as referências e
as interpretações. Perde-se, ou pelo menos enfraquece, o espírito do lugar. O lugar faz-se
com as suas populações, faz-se com conhecimento dos modos como se chega, como se
está, como se sai. Faz-se com o conhecimento da história que encerra, dos símbolos que
esconde, dos modos como é vivido e percebido.
O que antes eram penhas, penedos e locais míticos de referência para pastores e agri-
cultores, hoje são em monumentos naturais, geomonumentos8, sítios geomorfológicos,
valorizando a geodiversidade9 e estimulando oportunidades de desenvolvimento com base
em utópicos projectos de desenvolvimento turístico. Um simples exemplo, uma vez mais
na Serra da Estrela, o Cabeço da Velha: o que antes era o “escultura ciclópica que o tempo
abriu na rocha viva... de configuração estranha, a que não falta o ar de velha escarninha”10
com que se atemorizavam crianças e jovens incumpridores das regras de uma socieda-
de tradicional e fechada, hoje reduz-se a um simples “bloco granítico antropomórfico”11,
capaz de atrair visitantes interessados nos sempre espectaculares particularismos da erosão
granítica. Todavia, ainda assim, não queremos perder dos lugares, ou queremos conjugar
com a sua melhor compreensão pela ciência, o seu lado mítico, irreal, sobrenatural e oníri-
co, porque estaremos, assim, melhor preparados para as nossas experiências de vida.
Seja como for, ainda que enfraquecidos ou mudados nos seus sentidos, os lugares de ontem
servem a sociedade e o desenvolvimento de hoje. As suas memórias e os seus espíritos, aqui
165 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
vistos através de um vasto reportório fotográfico, são muitas vezes um dos poucos ou mesmo o
único recurso a que o desenvolvimento da região raiana pode deitar mãos. Por isso, também, a
leitura dos lugares raianos é uma leitura necessária e útil, que se justifica e se impõe.

8
CARVALHO, A. M. Galopim (1999) - Geomonumentos. Lisboa, 30.
9
GRAY, Murray (2004) - Geodiversity. Valuing and conserving abiotic nature. Wiley, John Wiley and Sons,
Londres, 434
10
BARBOSA, Angelina e CORREIA, António (1998) - À descoberta da Estrela. Grandes rotas pedestres. Parque
Natural da Serra da Estrela, Manteigas, 120 p. Ver p. 88.
11
FERRREIRA, Narciso e VIEIRA, Gonçalo (2000) - Guia geológico e geomorfológico do Parque Natural da
Serra da Estrela. Locais de interesse geológico e geomorfológico. Parque Natural da Serra da Estrela, Lisboa, 112
p. Ver p. 89.
O Ser Humano e a Natureza

Lúcio Cunha
Professor Catedrático no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade
de Letras de Coimbra da Universidade de Coimbra; Centro de Estudos de
Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Natureza e Sociedade são indissociáveis! No plano científico, apenas por conforto te-
órico ou por necessidade analítica as separamos uma da outra, para logo as juntarmos
quando queremos entender uma ou outra, quando queremos lê-las ou, mesmo, quando
temos necessidade de, com qualquer uma delas, nos envolvermos emocionalmente. “Não
há Homem que não seja natural, nem Natureza que não seja humana”, escreveu o filósofo
João André, em 1996. E, de facto, se a força do Ser Humano e a estrutura das suas orga-
nizações radicam e se regem, muitas vezes, por leis físico-químicas, biológicas e naturais, a
Natureza tal como a sentimos, vivemos e utilizamos hoje, mais não é do que uma criação
da inteligência humana, um modo de o Ser Humano olhar para fora de si mesmo, de sen-
tir e perceber um entorno, um meio, um ambiente de que depende, com que se relaciona
e do qual, mesmo querendo estar fora, ao fim e ao cabo, faz parte integrante. 167 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Talvez por isso, num Mundo cada vez mais terciarizado e urbanizado, a Natureza
assume uma valorização crescente não só nos planos emocional e afectivo, mas também
nos planos económico, social e cultural. O urbanita procura trazer para a cidade e manter
sempre junto a si elementos fundamentais da Natureza, quer se trate de bosques relíquia
de um tempo pré-urbano, de parques, jardins ou simples alinhamentos de árvores cuida-
dosamente planeados e tratados, ou das simbólicas hortas urbanas com que se procura
recriar o ambiente rural no entorno próximo, ao mesmo tempo que, naquilo que pode re-
presentar um esforço de reconciliação com o passado rural e com a vivência mais próxima
da Natureza, nos tempos livres, nos fins de semana ou nas férias procura espaços rurais,
territórios abertos e silvestres onde a presença da Natureza é mais forte e mais esmagadora
ou mais tranquila e acolhedora.
Esta relação entre Ser Humano e Natureza, relação muitas vezes equívoca, poucas
vezes de equilíbrio e quase sempre de dominação ou mesmo de predação desta por aquele,
é o motor da criação de territórios e da evolução das paisagens. O conceito de paisagem
cultural, hoje não só muito em voga, como também muito valorizado em termos patrimo-
niais, mais não faz que traduzir em formas, texturas, cores e tons – e, também, em cheiros,
sons e sensações – as relações mais completas, mais equilibradas ou estética e funcional-
mente mais felizes entre a Sociedade e a Natureza. Estas paisagens tendem a concentrar-se,
como parece óbvio, no mundo rural, nas montanhas, nos vales dos rios, nos litorais, ou
seja nos espaços menos pressionados pela mão humana, mas também podem ter expressão
no próprio aglomerado urbano, na grande obra hidráulica da albufeira ou no bem arran-
jado areal da praia turística.
Da Natureza, dos seus sismos e vulcões, dos rios caudalosos e do mar em fúria, das
montanhas e das vastidões dos gelos ou das areias escaldantes do deserto lemos a força, a
energia, o vigor que tantas vezes perturba o Ser Humano e as suas actividades. Dessa força
telúrica, nem sempre directamente visível, mas quase sempre muito bem perceptível, se
forjam muitas vezes caracteres e identidades de pessoas e de populações. O montanhês
(ou, à nossa escala, o serrano), algumas comunidades de pescadores, os esquimós ou os
tuaregues são exemplos de povos identificados com o meio e com a Natureza que habitam
e na qual encontram a força e a identidade que lhe são características. Mas, a Natureza não
é só força, energia, vigor! Nos grandes espaços abertos das planícies, no azul dos espelhos
de água ou no verde monótono do pinhal, à Natureza o Ser Humano vai também buscar a
placidez, a tranquilidade e a paz de que muitas vezes necessita para vencer as adversidades
do dia-a-dia, para restabelecer o seu equilíbrio, para promover o reencontro com as suas
origens e com a sua natureza natural.
A relação Sociedade-Natureza passa, também, por uma relação de posse e domínio.
168 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Ao Ser Humano a Natureza dá e tira! Dá terra, água, ar, vida, ou seja proporciona um
conjunto de bens fundamentais para a boa existência humana sobre a Terra. Aos recursos
mais convencionais, renováveis e não renováveis, da pedra para a construção à água que
bebemos todos os dias e à madeira com que fazemos os nossos utensílios, do ar que respi-
ramos e que necessitamos limpo e puro à energia que consumimos desabridamente todos
os dias, temos de acrescentar, hoje, novos recursos em relação com a procura incessante
da Natureza para actividades de lazer, de desporto e de turismo. É o caso do património
natural, nas suas vertentes geológica, geomorfológica, hidrológica e biótica, dos monu-
mentos naturais, das paisagens de sabor natural que, ao justificarem a presença de parques
naturais, geoparques ou áreas de paisagem protegida, dão corpo a esta necessidade social
de convívio, utilização e protecção dos espaços naturais. Por outro lado, a Natureza tam-
bém tira ou, pelo menos pode afectar e condicionar fortemente as actividades humanas.
A dinâmica natural, por vezes violenta e brutal, como acontece nos tremores de terra, nas
erupções vulcânicas, nos movimentos de terras, nas tempestades e inundações, nas vagas
de calor e de frio, nos incêndios florestais, afecta cada vez mais as pessoas, as suas activida-
des, os seus bens e haveres. Ao discurso mais geral e politicamente correcto das transfor-
mações climáticas à escala global, contrapõe-se, de facto, o mau uso local do território, a
desarmonia relacional do Ser Humano com a Natureza, a ocupação indevida de territórios
de risco, como causa para muitas das catástrofes com a que a Natureza, um pouco por toda
a parte, nos castiga.
Hoje é difícil falar de Natureza natural, ou seja, de Natureza intocada por mão huma-
na, livre da sua intervenção e dos impactes que a exploração dos recursos acarreta. O que
há, o que se encontra, o que se frui e admira como espaços naturais são, de facto, espaços
ou territórios que se mantêm ainda próximos das suas condições naturais, porque as inter-
venções humanas foram reduzidas, como os espaços do Gerês ou da Estrela, ou territórios
em que a intervenção sobre a Natureza, ainda que intensa, foi mais equilibrada, harmónica
e esteticamente feliz no sentido de privilegiar a Natureza, como acontece no vale do Douro
vinhateiro ou nos campos de bocage do Minho.
Daí a importância dos espaços rurais, agrícolas, silvícolas ou pastoris, como espaços
de admiração, utilização e fruição da Natureza. Num momento de grande desestruturação
dos territórios rurais nacionais, em função dos processos de abandono a que têm vindo a
ser sujeitos desde a década de sessenta do século passado, numa época em que a agricultura
e a pastorícia tradicionais quase morreram e em que as matas estão completamente aban-
donadas e entregues aos incêndios florestais que as assolam todos os Verões, a Natureza
parece ser o trunfo a jogar em termos de desenvolvimento e de modernização local dos
espaços rurais. Enquanto novas culturas agrícolas e silvícolas, mais voltadas para merca-
do, exploram, agora com técnicas modernas, velhos recursos climáticos e pedológicos, os
169 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
espaços rurais são invadidos pela busca de recursos energéticos (energia hidráulica, solar
e eólica) para a sociedade urbana e pós-industrial. Transformam-se os usos, modifica-se o
território, reconstrói-se a paisagem, mas continuamos muito longe de conseguir reverter
o abandono das gentes que ajudaram a construir os espaços rurais que hoje conhecemos
numa articulação harmónica com a Natureza. Essa Natureza que hoje é cada vez mais pro-
curada pelos citadinos nacionais e estrangeiros na sua busca de reencontro com o passado
e com a história, essa Natureza que é percorrida em termos desportivos na procura do
confronto e da superação de limites, essa Natureza vendida, nem sempre da melhor forma,
pelo turismo do século XXI.
É de Natureza e dos espaços rurais com que a identificamos que nos fala o conjunto de
fotografias que, sob a designação temática “Paisagens Naturais e Espaços Rurais”, integra a
exposição “Transversalidades”. Aqui podemos encontrar, de modo feliz e com força estéti-
ca, o modo como os quatro grandes elementos da Natureza, a Terra, a Água, o Ar e o Fogo,
se articulam entre si, como promovem a Vida vegetal e animal, e como são apropriados
pelo Ser Humano na construção de territórios e paisagens. Nestas fotografias podemos
encontrar a força e a calma da Natureza, os recursos e os riscos que proporciona, os usos e
os abusos a que é sujeita. Encontramos, finalmente, a inteligência, a pedagogia e o método
para, como seres naturais que somos, nos relacionarmos bem com a outra Natureza, aquela
que nos é exterior, mas da qual dependemos para quase todos os actos da nossa existência.
170 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Da concepção física do universo
ao sentimento de mundo

João Lima Sant’Anna Neto


Professor Titular do Departamento de Geografia. Universidade Estadual Paulista
(UNESP) – Campus de Presidente Prudente

Não seria exagerado afirmar que a concepção de mundo natural ainda se pauta numa
dualidade herdada das concepções físicas do universo, que remontam à renascença, quan-
do das descobertas científicas de Galileu Galilei e Nicolau Copérnico e, das matrizes sub-
jetivas contemplativas que nos foram legadas pelo idealismo romântico, personificado por
Alexander von Humboldt.
A dualidade Racionalismo - Romantismo, quando tratamos de nossa relação com a
natureza nos confronta a todo instante. A concepção física do universo e o sentimento do
mundo nos confundem, nos unem e nos separam - pois há uma enorme gama de tons e
matizes que possibilitam representam esta dimensão do conhecimento e dos sentimentos.
Se a racionalidade científica nos obriga a decompor os elementos e as dinâmicas da na-
tureza, o idealismo romântico nos concede o privilégio de experimentar uma subjetividade 171 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
artística e estética que nos possibilita senti-la e contemplá-la.
O mundo, além de conter as paisagens naturais, património geogenético de nossa
história geológica, também é resultado momentâneo e cambiante, marca edificatória da
existência humana sobre a Terra. Trata-se de um processo histórico-geográfico de perpétuo
metabolismo no qual as dimensões naturais e sociais se combinam de forma indissociável.
As paisagens são frações ou fragmentos únicos de nossa percepção espaço temporal,
porém umbilicalmente conectados à nossa existência material e sensorial. Assim como
não há paisagem desprovida da dimensão humana, não há humanidade fora da imanência
natural. Daí, talvez, advenha o progressivo metabolismo e a metamorfose construtiva de
um híbrido socionatural.
Não se olham as paisagens impunemente. Por meio da visão, mas também pelo tato
e por seus aromas, somos transportados para uma dimensão em que razão e emoção se
convertem em vida.
Na mesma fração de território contida numa paisagem, encontramos tanto os recur-
sos naturais explorados e obtidos pelo trabalho humano, que são fundamentais à nossa
sobrevivência material, quanto os elementos sensoriais e, por que não dizer, metafísicos,
essenciais para alimentar nossos sentimentos e emoções.
Cada trajetória individual moldada pelas experiências coletivas nos prepara para uma
viagem fantástica rumo ao inesperado. Se a Geografia nos revela os fatores, os processos,
os usos e as funções da paisagem, também nos permite observar uma profusão de cores,
formas, arranjos e perfumes. As paisagens, assim, se revelam como a plenitude da existên-
cia humana.
O que foi escrito até aqui seria uma bela história se não houvesse a possibilidade de um
contraponto. As paisagens podem conter o todo. Mas, também, o nada. E, ainda, infinitas
quantidades de mais ou menos qualquer coisa. Podem se referir ao nosso cotidiano pró-
ximo ou às nossas memórias distantes, suscitando medos, fantasias, ansiedades, saudades,
desejos e necessidades.
Nesta perspectiva, a paisagem também pode “desumanizar-se”, ao ser relegada única
e simplesmente à condição de mercadoria exposta às forças econômicas e insensíveis dos
mercados. Quando se retira da paisagem todo seu conteúdo humano, resta apenas seu
valor intrínseco à reprodução do capital.
A história da humanidade é rica em exemplos de intervenções políticas e econômicas
que mutilaram e destruíram partes importantes deste património natural. Desapareceu
uma infinidade de santuários e refúgios ecológicos que não sobreviveram à ganância de
determinados agentes econômicos.
172 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

A pós-modernidade tem nos ensinado que o conceito de paisagem está sendo ressigni-
ficado para alguma coisa nebulosa que atende pelo nome de “sustentabilidade”. Este novo
conceito tem a capacidade de mascarar uma das faces mais perversas do capitalismo, que
é o de atribuir preço e valor econômico a um bem da humanidade. Ou seja, ao atribuir
um preço, explica-se que se pode vender, comprar, inutilizar, mutilar qualquer fração da
paisagem, em nome de seu valor de troca.
As paisagens deixam de existir enquanto dimensão indissociável dos homens para se
tornar mercadoria intercambiável. E, isto é particularmente verdadeiro na periferia do
mundo desenvolvido, em que a força das grandes corporações globais não enfrenta (como
nos países centrais) as restrições legais e morais impostas pelos estados nacionais e media-
das pelos grupos sociais organizados em defesa do património natural.
A realidade dos países mais pobres (ou menos ricos) mostra que as fotografias ainda
podem ser capazes de poetizar e sublimar as formas das paisagens, mas conseguem cada vez
menos esconder as suas mazelas resultantes da depredação de sua integridade. Entretanto,
as imagens captadas pelo olhar mais sensível do observador, podem ser transformadas em
instrumento de resistência para a construção de um mundo melhor.
Que o sentimento de mundo evocado pela emoção do idealismo romântico prevaleça
sobre as intenções escusas travestidas de razão pós-moderna. Que as imagens, como as
fotografias deste livro, reveladas pela sensibilidade humana, não sucumbam e se transfor-
mem numa força simbólica em defesa de nosso património paisagístico.

173 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


O Tempo da natureza e do homem

Antonio Nivaldo Hespanhol


Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Campus de Presidente Prudente;
membro do GEOIDE

Rosangela Ap. De Medeiros Hespanhol


Coordenadora do Grupo de Estudos Dinâmica Regional e Agropecuária (GEDRA)
e do GEOIDET

“Aquilo que hoje morre não é a noção de homem, mas sim uma noção insular do
homem, retirado da natureza e da sua própria natureza; aquilo que deve morrer é a
auto-idolatria do homem, admirando-se na imagem pomposa de sua própria racionali-
dade” (Morin, 1973: 199).

A Natureza, em toda sua amplidão e beleza, tem um tempo que lhe é próprio, propi-
ciado pelas dinâmicas e processos intrínsecos aos fenômenos que marcam sua lenta evolu-
ção. Os animais selvagens, as montanhas, as espécies vegetais, o solo, o orvalho, a chuva, 175 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
o sol, enfim, são alguns dos componentes de inúmeras paisagens que, não obstante a pre-
sença do homem e de sua capacidade de intervenção e modificação expressam uma lógica
e um tempo que escapam a compreensão humana.
Na escala temporal da Natureza, aquele que envolve o tempo longo, nas palavras de
Braudel (1979), o homem, a Sociedade - entendida como uma relação de caráter mais
econômico e contratual - somente há muito pouco passou a alterar essa lógica, inicial-
mente adaptando-se a ela, para depois de conhecê-la, modificá-la, rompendo o equilíbrio
até então existente. Uma lógica e um equilíbrio em que a Natureza e sua beleza selvagem,
com toda sua diversidade, complexidade e delicadeza, passou a ser controlada, dominada
e apropriada para atender os interesses da sociedade, convertendo-se em recursos naturais.
Esse processo de dominação, controle e apropriação da Natureza pela sociedade foi
possibilitado pelo desenvolvimento das técnicas e sua aplicação ao processo produtivo,
mas, sobretudo, pelo fato do homem não se reconhecer como parte dela, o que redun-
dou no seu distanciamento, desvinculação e estranhamento em relação a algo que lhe é
intrínseco.
A domesticação de animais e o cultivo de espécies vegetais para o consumo humano
datam de aproximadamente 10 mil anos. Nos últimos 150 anos, no entanto, ocorreram
importantes mudanças que decorreram da incorporação de novas técnicas de produção
pela agricultura. O advento do petróleo resultou na segunda revolução agrícola, a qual foi
marcada pelo uso cada vez mais intenso de fertilizantes químicos, biocidas e emprego de
força mecânica em substituição à tração animal. Tais mudanças propiciaram o incremento
da produção de alimentos, fibras e matérias primas agroindustriais, mas tornaram os ali-
mentos artificiais, ampliaram a degradação ambiental, reduziram a biodiversidade, excluí-
ram agricultores, intensificaram as migrações campo-cidade e provocaram o esvaziamento
das zonas rurais. A agricultura transformou-se numa atividade econômica como qualquer
outra e, como tal, centrou-se na exploração do trabalho, apropriação dos recursos naturais
e acumulação de capital.
A despeito das profundas modificações, os espaços não se tornaram homogêneos, as
diferenciações pré-existentes não somente foram mantidas, mas até ampliadas, a partir do
aprofundamento das relações capitalistas e do processo de globalização (SANTOS, 1996).
Os espaços cada vez mais integrados, modernizados, “luminosos”, expressões de um tempo
rápido, nas palavras de Milton Santos (1996 e 2001), contrapõem-se e coexistem com es-
paços pouco integrados, tradicionais, “opacos”, detentores de um tempo lento, nos quais
os homens simples vivem e convivem cotidianamente, com as suas tradições, memórias e
lembranças de um tempo e espaço pretéritos.
176 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Nas aldeias e pequenas cidades do interior de muitos países, em que os jovens foram
obrigados a procurar novas formas de sobrevivência longe de seus lugares de origem, prin-
cipalmente nos grandes centros urbanos, esse tempo lento esta presente no cotidiano da-
queles que permaneceram e, ao mesmo tempo, envelheceram. Ele se expressa tanto por
meio de marcas em suas paisagens - como nas casas e sua forma de organização e disposi-
ção, nos caminhos tortuosos, no carroção de madeira, na capela, no fogão e forno à lenha,
no armazém e seus poucos itens - quanto nas relações sociais - marcadas pela proximidade
entre os moradores que cultivam o hábito de conversar amistosamente, de valorizar a mú-
sica que alegra a vida, de se vestir com simplicidade, de rezar para agradecer por si e pelos
outros. Nesses lugares, os conflitos e as diferenças estavam e ainda estão presentes, porém
não foram e não são a base, a essência, da vida. A palavra dada ainda tem grande valor
e os compromissos são assumidos de maneira informal, tendo o aperto de mãos grande
significado.
Nesses lugares em que o tempo é lento, a vida em coletividade, em comunidade, tem
outro sentido: o da solidariedade, do compartilhamento de experiências e saberes e de
proximidade com a Natureza. Para Tönnies é na comunidade que as relações das pessoas
são enraizadas na família, no lugar e na tradição. A comunidade envolve uma convivência
mais próxima entre as pessoas e entre estas e a natureza. Na época da colheita, da vindi-
ma, por exemplo, a ajuda mútua, o trabalho coletivo, envolve não apenas o esforço físico
e o cumprimento de um conjunto de atividades e tarefas para se alcançar determinado
objetivo, mas, sobretudo, a oportunidade de conviver, compartilhar e aprender com a
experiência dos outros, obedecendo o ritmo e o tempo da natureza. Nesse contexto, tanto
o trabalho como os seus resultados, adquirem outro sentido: da vida, da esperança e de
um futuro melhor.
O futuro é incerto para muitas dessas comunidades, cuja população está idosa e os
descendentes encontraram melhores condições de sobrevivência nas cidades, apesar da
pressa, da pressão, dos riscos e dos custos mais elevados que são próprios às grandes aglo-
merações. Por vezes aparecem alguns forasteiros, os chamados neorurais, muitos dos quais
estão a fugir do tempo rápido das cidades e procuram essas comunidades para viver em
paz ou simplesmente para se refugiar temporariamente (segunda residência), o que gera,
num primeiro momento, a desconfiança dos habitantes locais, ao mesmo tempo em que
representa um alento, pois com eles tais localidades têm a chance de continuar a existir.
Nas localidades situadas ao longo de vias ou que possuem algum atrativo aparecem os
turistas que tiram muitas fotografias, conversam, bisbilhotam, mas deixam a contrapartida
no restaurante, no armazém, na loja de artesanato e contribuem para que os lugarejos
persistam e realimentem as suas esperanças no futuro.

177 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Referências:

BRAUDEL, Fernand. Le temps du monde. Tomo 3 de Civilisation matérielle, économie et capitalisme:


XV – XVIII siècle. Paris: Armand Collin,1979.
MORIN, Edgar. O enigma do homem. RJ: Zahar Editores, 1973.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço – Técnica e tempo; razão e emoção. SP: Hucitec, 1996.
SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: Território e sociedade no início do século XXI.
RJ – SP: Editora Record, 2001.
TÖNNIES, Ferdinand. Comunidade e sociedade como entidades tipico-ideais. In: FERNANDES,
Florestan (Org.). Comunidade e sociedade: leituras sobre problemas conceituais, metodológicos e de
aplicação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, p. 96-116, 1973
178 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
A Biodiversidade, a Água e as Alterações
Climáticas

Jorge Paiva
Professor da Universidade de Coimbra; Centro de Ecologia Funcional

A Biodiversidade. Todos sabemos que precisamos de comer para viver e crescer e que
a comida é constituída por material biológico (vegetal, animal ou de outros organismos).
Também toda a gente sabe que qualquer motor para trabalhar precisa de um combus-
tível que, através de reacções químicas exotérmicas (combustão) liberta calor (energia) su-
ficiente para que o motor funcione. Os carburantes (gasolina, gasóleo, álcool, gás, etc.) são
compostos orgânicos com Carbono (C), Hidrogénio (H2) e Oxigénio (O2). Os produtos
resultantes da combustão são expelidos pelos tubos de escape, sendo até, a maioria deles,
poluentes, como, por exemplo o gás carbónico (CO2) e o monóxido de carbono (CO).
O nosso corpo tem vários “motores”. O coração é um desses “motores” que está sem-
pre a “bater” (trabalhar) e que não pode parar. Quando pára, morre-se. Se o coração é
um motor, tem de haver um combustível para que este motor funcione. Esse combustível 179 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
é a comida, que não é de plástico, nem são pedras, mas sim produtos vegetais, animais
e outros seres vivos, como, por exemplo, fungos (cogumelos e leveduras). Essa comida
que ingerimos é transformada no nosso organismo em energia (calor), através de reacções
exotérmicas (digestão) semelhantes à referida combustão, que vai fazer com que os vários
motores do nosso corpo, entre os quais o coração e os pulmões, trabalhem e nos mante-
nham vivos.
Na comida estão as substâncias combustíveis com Carbono (C), Hidrogénio (H2) e
Oxigénio (O2), como são os hidratos de carbono (açucares, farinhas, etc.), lípidos (gordu-
ras, como o azeite, a manteiga, etc.) e proteínas (na carne, no peixe, nas leguminosas, como
o feijão, a fava, a ervilha, etc.). As proteínas (C,H,O,N) são necessárias aos seres vivos, pois
o produto químico vital (ADN) é composto por C,H,O,N. O Azoto (N2), que, apesar de
nos ser muito útil em reduzida quantidade, é muito tóxico. Assim, tal como acontece com
os veículos automóveis, da comida que ingerimos, o que não é transformado em energia
e os produtos resultantes das reacções químicas no tracto digestivo são expelidos do nosso
corpo sob a forma de fezes. Mas nós temos de ter outro escape para o azoto, que é a urina.
Assim, qualquer pessoa entende que os outros seres vivos (Biodiversidade) são o nosso
“combustível” e que se não os protegermos e eles desaparecerem do Globo Terrestre, tam-
bém nós vamos desaparecer, por ficarmos sem carburante.
Todos os seres vivos necessitam dessas substâncias orgânicas como nutrientes (“com-
bustíveis”). As plantas, porém, não precisam de comer, porque são capazes de as sinte-
tizarem (produzirem), “acumulando” no seu corpo o calor (energia) do Sol (a fonte de
energia que aquece o Planeta Terra) com a ajuda de substâncias (CO2 e H2O) existentes
na atmosfera e reacções químicas endotérmicas (fotossíntese). Dessas reacções endotérmi-
cas resultam substâncias energéticas (hidratos de carbono, lípidos e proteínas), assim como
oxigénio (O2) vital para a respiração humana. Como os animais não são capazes de fazer
isso, têm que comer plantas (animais herbívoros) para terem produtos energéticos ou,
então, comerem animais que já tenham comido plantas (animais carnívoros). Nós, espécie
humana, tanto comemos plantas como animais, por isso, dizemos que somos omnívoros.
Mas os outros seres vivos não são apenas as nossas fontes alimentares, fornecem-nos
muito mais do que isso, como, por exemplo, substâncias medicinais (mais de 80% dos
medicamentos são extraídos de plantas e cerca de 90% são de origem biológica), vestuário
(praticamente tudo que vestimos é de origem animal ou vegetal), energia (lenha, petróleo,
ceras, resinas, etc.), materiais de construção e mobiliário (madeiras), etc. Até grande parte
da energia eléctrica que consumimos não seria possível sem a contribuição dos outros seres
vivos pois, embora a energia eléctrica possa estar a ser produzida pela água de uma albu-
feira ou por aerogeradores, a água tem de passar pelas turbinas da barragem e as turbinas,
180 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

assim como os aerogeradores, precisam de óleos lubrificantes. Estes óleos são extraídos do
“crude” (petróleo bruto), que é de origem biológica.
Portanto, sem o Património Biológico (Biodiversidade) não comíamos, não nos vestí-
amos, não tínhamos medicamentos, luz eléctrica, energia, etc.

A Água. É, também, do conhecimento geral, que sem água não há vida e que o corpo
dos seres vivos é maioritariamente constituído por água. Por exemplo, numa pessoa com
70 kg de peso, 42 kg são de água, 12 kg de gorduras, 12 kg de proteínas, 2 kg de açúcares
e 2 kg de outras substâncias. Isto é, a maior parte do meu corpo (cerca de 60%) é água.
É fácil demonstrar que sem água não há vida. Se deitarmos sementes em dois vasos
com terra, mas só regarmos um deles, apenas nascerão plantas no que foi regado. Assim,
nos desertos puros, onde não há água, nem chove, não há vida e nos oceanos, lagos, pân-
tanos e rios, onde abunda a água, pululam seres vivos.
Também é fácil demonstrar que o nosso corpo é maioritariamente constituído por
água. Todos sabem que a espécie humana é capaz de sobreviver 2-3 meses sem comer,
desde que se movimente o mínimo possível para não consumir combustível (gorduras,
açucares e proteínas) que tem acumulado no corpo. Uma pessoa em greve de fome emagre-
ce. Mas não há ninguém que faça greve de sede, pois não aguentava mais do que 2-3 dias
vivo. Também, quando uma pessoa está muito doente e não pode abrir a boca, dão-lhe
soro intravenoso, que é fundamentalmente água.
É por isso que, em todo o Globo Terrestre, é fundamental preservar as Zonas Húmidas,
não só por conterem uma grande diversidade e quantidade de seres vivos, como tam-
bém por serem reservas de água, muito importantes para nós e para os seres vivos de que
dependemos.
As florestas tropicais são, também, extremamente húmidas e das regiões do Globo de
maior pluviosidade. São, pois, extremamente relevantes, não só pela sua biodiversidade,
como também pelo volume de água doce que acumulam.
Portanto, sem água não há vida; sem água potável não há vida humana; sem a
Biodiversidade não sobreviveremos no Globo Terrestre.

As alterações climáticas. Entre as plantas, há enormes diferenças na quantidade de


biomassa que produzem e no volume de gás carbónico (CO2) que retiram da atmosfera
e o de oxigénio (O2) que produzem. As árvores são as que maior quantidade de biomassa
produzem, maior volume de CO2 absorvem e maior volume de O2 libertam e, entre elas,
as que maiores valores conseguem, são as árvores da floresta tropical de chuva (pluvisilva),
por se encontrarem nas zonas equatoriais, com o Sol praticamente na vertical e luminosi- 181 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
dade diária uniforme durante todo o ano. É, pois, nestas florestas que não só se encontram
os maiores seres vivos terrestres (árvores até cerca de 6000 toneladas de biomassa), como
também são as florestas de maior biomassa vegetal. Portanto, são as florestas que podem
alimentar não só os maiores herbívoros terrestres (elefantes), como grandes manadas de
outros herbívoros e uma enorme diversidade de organismos. As florestas tropicais são,
pois, os ecossistemas terrestres de maior biodiversidade; são o maior “pulmão” do Globo,
por ser aí que se produz o maior volume de O2 e são a região com maior acção “purifica-
dora” do ar, por ser aí que as plantas absorvem o maior volume de CO2.
Há países que sabem viver da floresta, mantendo sempre a mesma área global de flo-
resta, mas a enorme maioria deles, tal como Portugal, não sabe. Actualmente, é impres-
sionante a velocidade de destruição das florestas do Globo. Devido à enorme quantidade
de madeira que a pluvisilva possui, este tipo de floresta (Amazónia, África Equatorial,
Malásia, Filipinas e Papuásia) está a ser incendiada e derrubada, muitas vezes de maneira
indiscriminada e estúpida, a uma velocidade “diabólica”, desaparecendo, por cada período
de 11 segundos, uma área correspondente à superfície do relvado de um campo de futebol,
o que corresponde a uma área anual com a superfície da Inglaterra, calculando-se que, a
continuar este ritmo, não haverá pluvisilva no Globo quando se atingir a segunda metade
deste século.
Assim, estamos a diminuir drasticamente a absorção de CO2, numa contribuição para
o “Aquecimento Global” muito mais relevante do que a industrial e veículos motorizados,
e a diminuir o volume de oxigénio na atmosfera, o que é um elevado risco para a sobrevi-
vência das gerações futuras.

Conclusão. Qualquer pessoa sabe que precisa de comer para viver e crescer e que a
comida é constituída por material biológico; que a água potável é imprescindível à vida
humana; que as florestas tropicais são extremamente relevantes; que não se pode viver no
seio do lixo; que a actividade industrial tem de ter regras de conduta para não poluir; que
a atmosfera terrestre está repleta de gases tóxicos e que a concentração de gás carbónico
(CO2) tem vindo a aumentar desmesuradamente, com o consequente efeito de estufa; etc.
Praticamente toda a gente tem alguma consciência do que está a acontecer no Globo
Terrestre, com o consequente risco de sobrevivência da nossa espécie, mas, a maioria das
pessoas, não só não tem a educação ambiental necessária para entender o que se está a
passar, como também para perceber que tem de mudar a sua maneira de estar na Terra.
Não podemos continuar a poluir o Globo Terrestre como temos vindo a fazer, pois
podemos atingir um estado de poluição tal que não será possível a vivência humana nesta
182 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

gigantesca gaiola que é Terra.


Enfim, há uma enorme falta de civismo, fundamentalmente por culpa dos políticos
mundiais, que se preocupam essencialmente com o desenvolvimento económico.
É fundamental parar ou regulamentar para que este desastre não continue. Isso é pos-
sível. Apenas são necessários políticos conscientes, assim como vontade política.
Alterações e riscos climáticos e seus efeitos

Ana Monteiro
Professora Catedrática do Departamento de Geografia da Universidade do Porto

Estamos prestes a iniciar a terceira década do século XXI e continuamos a andar em


círculo à volta do conhecimento sobre os riscos que as alterações climáticas significaram
nas últimas quatro décadas, continuam a expressar hoje e podem vir a revelar no futuro
próximo. E porquê? Porque em toda a narrativa sobre este assunto faltou constantemente
o marco geodésico.
Durante estes mais de quarenta anos de intermitente preocupação com as perdas e
danos provocados pela impulsividade do sistema climático, temos colocado no debate um
belíssimo e colorido painel de azulejos onde a profusão de escalas temporais e espaciais tem
atraído, sem dúvida, a nossa atenção, mas estorvou a compreensão e consequentemente a
ação.
As evidências científicas são muitas e variadas, mas a comunicação deste conhecimen-
183 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
to tem-se limitado a mostrar-nos a maioria dos ingredientes explicativos através de janelas com
portinholas ligeiramente entreabertas.
Podemos espreitar é certo! Vemos a diversidade, o colorido e prevemos a variedade de
paladares, mas a desarrumação visível, para quem está de fora, é enigmática por parecer
demasiado caótica.
Por isso, circular intelectualmente no meio do tráfego intenso de informação sobre
as alterações climáticas e os riscos climáticos nos nossos dias obriga a regular este trânsito,
parar e estacionar, sair para o ar livre e observar a bolha atmosférica em que estamos en-
volvidos, discriminar a realidade das sombras e aliviar o caminho dos obstáculos que nos
embaraçam, confundem e baralham.
Parqueemos então a mente para refletir um pouco.

A iliteracia climatológica

Comecemos pela profusão de informação que não se transforma em conhecimento.


No caso da climatologia, como em qualquer outra área de saber, enquanto não estabelecer-
mos uma árvore conceptual sólida é impossível transformar a informação em conhecimen-
to. No caso do sistema climático, a iliteracia é grave e profunda sobretudo porque passamos
a viver cada vez mais em envelopes fechados que nos abrigam do frio, do calor, da chuva
ou do vento, mas que nos filtram o contacto com a atmosfera e prejudicam a observação.
Deixamos de depender dessa análise empírica para tomarmos decisões básicas no nosso
quotidiano como o que vestir ou o que comer. E, por esse motivo as nossas expectativas
de qualidade de vida e bem-estar, especialmente nos modus vivendi urbanos, passaram a
desenhar-se com um pano de fundo em que o conforto bioclimático é o da homotermia e
ausência de precipitação.
A variabilidade estacional deixou de marcar até a nossa alimentação porque o cabaz
pode ser o que pretendermos já que temos disponível o que quisermos ainda que impor-
tado do outro hemisfério.
Assim, sem necessidade de observação para (sobre) viver e com a crescente ilusão de
superioridade dos seres humanos sobre o ecossistema graças à inovação tecnológica e à
crença no poder ilimitado da ciência, a vulnerabilidade da espécie relativamente ao sistema
climático aumentou exponencialmente.
Construímos os espaços onde vivemos independentemente dos contextos climáticos
locais e esperamos que a ciência e a técnica encontrem soluções para nos devolver o con-
forto que queremos e, muitas vezes, o que nos é indispensável para garantir a saúde.
A surpresa com os estados de tempo indesejados é cada vez mais frequente e a memori-
zação climatológica passou a seguir caminhos ínvios que uma consulta rápida ao diagrama
184 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

termopluviométrico podia ajudar a explicar muito rapidamente.


Por isso, bombardeados pelas notícias alarmantes sobre o Aquecimento Global, o de-
saparecimento dos ursos polares, o degelo dos glaciares, o aumento do buraco na camada
do ozono, a maior frequência de extremos de temperatura, a desorganização das estações
do ano, etc., os seres humanos sentem-se preocupados, mas, não percebendo a mecâni-
ca do sistema climático, consideram-se totalmente impotentes para evitar estes desfechos
indesejáveis.

A escala espacial no discurso sobre o sistema climático


Uma boa parte do tumulto em torno dos comportamentos do sistema climático resulta
da escala espacial de abordagem preferida – a escala global.
Esta narrativa à escala global sobre um sistema que é caótico, é absolutamente ineficaz
porque dificulta a compreensão da lógica dos estímulo-resposta.
O que podemos fazer para atenuar estas perdas e danos? Se adotarmos outro compor-
tamento temos alguma garantia que este ou aquele episódio extremo não volta a suceder?
Qual é o peso da nossa mudança de atitude individual na resposta do sistema climático à
escala global?
Estas perguntas não têm resposta. No sistema climático não há nenhuma garantia que
se “nos portarmos bem, ele vai tratar-nos como queremos”. Provavelmente não, não vai.
Então, é preciso compreender que estamos perante um sistema aberto que troca ener-
gia e massa com o exterior e que, como qualquer outro sistema, procura afastar-se o mais
possível do estado de entropia total (desorganização).
Sem a motivação dada pela recompensa, como é que podemos mobilizar os seres hu-
manos a procurarem conviver de modo mais harmonioso com o seu sistema climático?
Mudando a escala espacial de abordagem.
À escala local é pedagogicamente fácil mostrar os resultados provocados pelas escolhas
das peças do puzzle com que reconstruimos artificialmente os espaços em que vivemos -
materiais, volumetrias, grau de impermeabilização, peso de mosaicos de água, proporção
de espaços verdes, emissões gasosas, atividades, número de pessoas, etc. - no sistema climá-
tico local.
À escala local podemos experimentar soluções diferentes e avaliar rapidamente as con-
sequências no conforto bioclimático indoor e outdoor. Os custos da mudança e da experi-
mentação são menores e contribuem para aprender a mecânica do sistema climático.
E, como, segundo a Teoria Geral e Sistemas, estamos perante uma cascata de soluções
top-down e bottom-up, o sentido da intervenção é indiferente para o resultado final. E o
185 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
resultado final que nos interessa como espécie é a combinação termo-higro-anemométrica
e de composição química da baixa atmosfera que nos garante a sobrevivência.
Como o discurso mediatizado até agora tem sido recorrentemente à escala global
e pulverizado com toda a controvérsia inerente à investigação científica, o ser humano
comum, o planeador e o decisor político, preocupa-se, apoquenta-se, mas continua muito
pouco esclarecido sobre os custos-benefícios se enveredar por outros paradigmas de quali-
dade de vida e bem-estar.
Por tudo isto, a trajetória mais expedita nesta temática dos riscos climáticos passará
por adotarmos uma perspetiva bottom-up em detrimento da vigente top-down e uma práxis
de adaptação em vez de combate.
Excecionalidade e normalidade em climatologia

Apesar das múltiplas definições sobre risco e consequentemente sobre risco climático,
talvez seja preferível simplificarmos. O risco climático que nos importa é aquele que provo-
ca perdas e danos. Então, basta-nos a equação simples R=ExV em que R significa o risco,
E traduz o evento climático e V a vulnerabilidade.
Se adotarmos esta definição e recordarmos a maioria dos riscos climáticos com que
temos sido confrontados nos últimos anos, somos levados a perguntar se o foco não tem
sido dirigido demasiadamente para o comportamento dos elementos climáticos e muito
menos do que devia para a vulnerabilidade.
Sabendo que o sistema climático é intrinsecamente variável, fará sentido esperar um
comportamento da temperatura, da precipitação ou do vento próximo da normal cli-
matológica? Não. Esse valor na maioria dos casos nem coincide com algum dos registos.
Então como definimos uma variação plausível de uma excecional? Em suma, quando é
que podemos científica e legitimamente culpar o clima pelas perdas e danos resultantes de
temperaturas extremas, precipitações intensas, secas ou ventos fortes?
A investigação científica tem produzido evidência neste domínio temático que ajuda a
encontrar alguns limiares de variabilidade para cada lugar, mas verificamos que a maioria
das perdas e danos resultantes dos riscos climáticos decorrem muito mais do incremento
da vulnerabilidade do que da excecionalidade. Mais, parece muito mais eficaz agir sobre as
vulnerabilidades do que sobre o sistema climático.
Assim, neste domínio onde tem predominado no planeta o que Alexandre O’Neill
descrevia no País Relativo como um “.... país engravatado todo o ano e a assoar-se na gra-
vata por engano...” (O’Neill, 1965), parece que começa a ficar muito claro como é urgente
definir novos marcos geodésicos, acreditar na importância das combinações locais people &
place, das soluções à medida e das lógicas da economia circular que nos podem permitir
186 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

retirar alguns sinais de trânsito a que nos habituamos, mas que não têm passado de obstá-
culos à construção de vidas saudáveis e felizes.
Riscos e Desastres em tempo
de Alterações Climáticas

José Luís Zêzere


Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT)– Universidade de Lisboa

“This is a climate emergency. The number of weather and climate-related disasters


has more than doubled over the past forty years. Climate actions begins with disaster
risk reduction” (Mami Mizutori, Special Representative of the Secretary-General for
Disaster Risk Reduction)

Desastres Naturais: Evolução dos conceitos, paradigmas e orienta-


ções internacionais

O conceito de desastre natural, ou catástrofe natural, tem subjacente a ocorrência de


impactos negativos significativos sobre as pessoas e comunidades, em termos sociais, eco-
nómicos e/ou ambientais, que decorrem, direta ou indiretamente, da atividade de um ou
187 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
de vários processos naturais com elevado potencial destruidor. Neste sentido, na perspetiva
atual da UNDRR (United Nations Office for Disaster Risk Reduction), não existem desastres
naturais, mas antes perigos naturais que podem resultar em desastres.
Até aos anos 60 do século XX os desastres naturais foram entendidos como ocorrên-
cias incontroláveis, responsáveis pela interrupção total ou parcial das funções essenciais
da sociedade1. Nesse contexto, a sociedade era considerada como uma entidade indefesa,
perante uma natureza implacavelmente destruidora, fora de controlo por parte do sistema

1
Fritz, C.E. (1961). Disasters. In: Merton, R.K., Nisbet, R.A. (Eds.), Contemporary Social Problems.
Harcourt, New York, p. 651–694
social2. Em conformidade, a comunidade internacional considerava os desastres como
circunstâncias excecionais, às quais era geralmente necessário responder através de ajuda
externa de emergência. O conceito de ‘gestão de risco’ era entendido como equivalente de
‘resposta à catástrofe’ e fazia parte da competência quase exclusiva de organizações como a
Cruz Vermelha, Crescente Vermelho, ou instituições nacionais de defesa e proteção civil.
Neste contexto, em 1971 foi criada a UNDRO (atualmente UNOCHA – United Nations
Office for the Coordination of Humanitarian Affairs), para mobilizar e coordenar as ativi-
dades de auxílio em situações de desastre.

A mudança no entendimento dos desastres teve início na década de 70 do século


XX, com o reconhecimento da importância da vulnerabilidade humana enquanto ele-
mento fundamental na definição do desastre3 3. No lugar de uma definição associada
exclusivamente a ocorrências físicas, requerendo soluções do tipo tecnológico, os desastres
passaram a ser entendidos como o resultado da interação complexa entre um evento físico
potencialmente destruidor (e.g., sismo, tempestade, inundação, movimento de massa em
vertente) e a vulnerabilidade da sociedade, das suas infraestruturas e economia, que são
determinadas pelo comportamento humano.
A década de 1990 foi declarada como a Década Internacional para a Redução das
Catástrofes Naturais (IDNDR) pela Organização das Nações Unidas (ONU). A IDNDR
conseguiu introduzir com sucesso o tema da redução dos riscos na agenda política e teve
continuidade com a Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (ISDR), imple-
mentada pela ONU em 2001. A ISDR evoluiu, entretanto, para o United Nations Office
for Disaster Risk Reduction (UNDRR), cujos objetivos, materializados nos Quadros de
Ação de Hyogo (2005-2015) e Sendai (2015-2030), incluem o incremento da resiliência
das sociedades aos efeitos dos perigos naturais e desastres tecnológicos e ambientais, de
modo a reduzir as perdas humanas, económicas e sociais.
No século XXI, um desastre é, fundamentalmente, um fenómeno socioeconómico. O
188 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

desastre natural é considerado como o resultado da interação entre um fenómeno natural


extremo e um grupo humano vulnerável, resultando em perturbação e destruição, perda
de vidas humanas e de meios de subsistência4. Em conformidade, a definição atualmente

2
Barkun, N. (1974). Disaster and the Millennium. Yale Univ. Press, New Haven.
3
Westgate, K.N.; O’Keefe, P. (1976). Some Definitions of Disaster. Disaster Research Unit Occasional Paper
No. 4, Department of Geography, University of Bradford.
4
Bower, A., Blok, J., Dali, M., Faivre, N., Fell, T., Ghislain, P., Happaerts, S., Kavvadas, I., Kockerols, P.,
Molnar, A.M., Quevauviller, P., Villette, F. (2017). Current status of disaster risk management and policy
framework. In: Poljanšek, K., Marín Ferrer, M., De Groeve, T., Clark, I. (Eds.). Science for disaster risk ma-
nagement 2017: knowing better and losing less. EUR 28034 EN, Publications Office of the European Union,
Luxembourg.
adotada pela UNDRR considera que um desastre consiste numa disrupção séria do fun-
cionamento de uma comunidade ou sociedade, a qualquer escala, devido à interação de
um ou vários processos perigosos com as condições de exposição, vulnerabilidade e capa-
cidade de adaptação, responsável por perdas e impactos humanos, materiais, económicos
e/ou ambientais.
A evolução dos conceitos verificada no final do século XX e início do século XXI
acompanhou, em larga medida, a mudança de paradigmas no entendimento da segu-
rança e na gestão dos desastres. Embora com algumas exceções, as questões de segurança
deslocaram-se da perspetiva militarista para uma perspetiva mais humanitária, centrada na
segurança dos indivíduos e das comunidades. No caso da gestão dos desastres passou a re-
conhecer-se que a promoção de sociedades resilientes implica que a atenção não se foque,
exclusivamente, nos perigos naturais e na sua quantificação, mas também, e cada vez mais,
na identificação e avaliação das vulnerabilidades das comunidades e dos indivíduos. Em
conformidade, a ênfase deslocou-se, progressivamente, das políticas reativas (‘resposta ao
desastre’) para as políticas preventivas (‘evitar e mitigar os desastres’).

Extensão e Impacto dos Desastres Naturais

O crescimento económico e o desenvolvimento tecnológico verificados durante o sé-


culo XX e início do século XXI não foram acompanhados pela redução do número de de-
sastres naturais5. A importância dos desastres naturais no mundo, em número de mortes,
população afetada e prejuízos materiais, está retratada na base de dados mundial EM-DAT
(Emergency Events Database) criada pelo Centre for Research on the Epidemiology of
Disasters (Université Catholique de Louvain), que inclui os eventos catastróficos verifica-
dos desde 1900 até à atualidade que respeitem, pelo menos, uma das seguintes condições:
(i) relato de 10 ou mais mortes; (ii) relato de 100 ou mais pessoas afetadas; (iii) pedido de
assistência internacional; e (iv) declaração de estado de emergência. De acordo com a EM-
189 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
DAT6, registaram-se mais de 14.000 desastres naturais no mundo, no período 1900-2017,
sendo que mais de 87% dos eventos ocorreram depois de 1974. Para além disso, a média
anual de desastres aumentou cerca de 6 vezes entre 1974 e o início do século XXI, a que
se seguiu um relativo decréscimo e estabilização em valores que se aproximam da média
impressionante de um desastre natural por dia. Neste último período os desastres naturais

5
ISDR - United Nations International Strategy for Disaster Reduction (2003). Living with Risk. A global
review of disaster reduction initiatives. United Nations, Geneva.
6
EM-DAT (2018) The OFDA/CRED International Disaster Database—www.emdat.be—Université
Catholique de Louvain, Brussels, Belgium.
foram responsáveis por 3,4 milhões de mortos e por prejuízos económicos superiores a
3,08 triliões de dólares.
Os desastres naturais ocorrem em todo o mundo, independentemente do nível de
desenvolvimento de cada nação; porém, é a população dos países menos preparados e eco-
nomicamente mais fragilizados que sofre os maiores impactos7. São também os países mais
pobres os que sentem maior dificuldade em fazer face às consequências de médio e longo
prazo que resultam da ocorrência dos fenómenos perigosos. Neste contexto, a ‘Geografia
dos desastres’ é bastante contrastada na escala mundial: mais de 75% das mortes provo-
cadas por desastres naturais ocorrem na Ásia, surgindo a África e a América Latina nas
posições imediatas. Em contrapartida, é nos países ricos (e.g., Japão, Estados Unidos da
América, Itália) que se verificam as perdas económicas mais elevadas, em termos absolutos.
No entanto, de acordo com os dados do Banco Mundial, as perdas materiais devidas aos
desastres naturais nos países em desenvolvimento são 20 vezes superiores, em percentagem
do PIB, comparativamente aos países desenvolvidos.

As causas dos desastres naturais

As justificações que determinam o incremento do número de desastres naturais no


decurso do século XX e início do século XXI têm sido objeto de amplo debate8 9.
No sentido de não enviesar a discussão, importa ter presente que o desastre não é a
causa do problema (i.e., o sismo, a cheia ou o furacão) mas antes a sua consequência, sendo
que, tipicamente, a magnitude do desastre é tanto mais elevada quanto mais os seus efeitos
excedem a capacidade da comunidade ou sociedade de recuperar com seus próprios recur-
sos. Neste quadro fica clara a dificuldade que existe em associar, com critérios científicos,
o incremento dos desastres naturais às alterações climáticas, uma vez que estas se encon-
tram do lado das causas dos problemas. As lições aprendidas da ocorrência de desastres no
190 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

mundo mostram que, em muitas circunstâncias, os desastres representam manifestações


de problemas de desenvolvimento social e económico não resolvidos.

7
Alcántara-Ayala, I. (2002). Geomorphology, natural hazards, vulnerability and prevention of natural disasters
in developing countries. Geomorphology 47, p.107–124.
8
Henson, R. (2006). The Rough Guide to Climate Change. Penguin Books, London.
9
IPCC (2012). Managing the Risks of Extreme Events and Disasters to Advance Climate Change Adaptation.
A Special Report of Working Groups I and II of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Field,
C.B., V. Barros, T.F. Stocker, D. Qin, D.J. Dokken, K.L. Ebi, M.D. Mastrandrea, K.J. Mach, G.-K.
Plattner, S.K. Allen, M. Tignor, and P.M. Midgley (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, UK,
and New York, NY, USA, 582 pp.
A sociedade contemporânea é muito consumidora de território e esse facto, associado
ao incremento da população mundial, conduziu progressivamente à ocupação de terrenos
naturalmente perigosos (e.g. leitos de cheia, vertentes instáveis, zonas sujeitas a erosão
costeira), nomeadamente junto das grandes aglomerações urbanas e nas áreas litorais. Por
outro lado, atividades antrópicas desajustadas (e.g. abertura de taludes em vertentes poten-
cialmente instáveis, impermeabilização de pequenas bacias hidrográficas sujeitas a cheias
rápidas) interferem com o funcionamento dos processos naturais, incrementando a sua
magnitude e frequência de ocorrência. Neste contexto, o aumento da exposição e, em
alguns casos, da vulnerabilidade das populações, justifica o incremento dos desastres que
decorrem dos fenómenos ligados à geodinâmica interna. No caso dos desastres de origem
climática e hidrológica, às razões anteriores acrescenta-se o provável aumento da frequên-
cia e da magnitude dos eventos extremos, decorrente das alterações climáticas.

Clima “novo”, Riscos “velhos” e “novos”?

O discurso mainstream acerca da evolução do risco de desastre em contexto de altera-


ções climáticas enfatiza a preocupação com o impacto dos fenómenos extremos, como des-
lizamentos de terrenos, cheias e inundações ou tempestades oceânicas9. Não descurando a
importância que estes processos naturais podem ter nos territórios, em termos de perdas
de vidas humanas e de prejuízos materiais, verifica-se que a ciência atual dispõe dos re-
cursos necessários para sinalizar as áreas perigosas, com margens de incerteza controladas,
de modo a que sua utilização possa ser fortemente regulada pelos instrumentos de gestão
do território. No essencial, os fenómenos extremos de origem climática e hidrológica são
os riscos “velhos” que sempre afetaram os territórios, geralmente com impactos mais ou
menos limitados no tempo e no espaço, ainda que eventualmente num contexto mais
desfavorável de frequência-magnitude.
Mas as alterações climáticas acarretam outras mudanças, mais permanentes, que exi- 191 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
gem medidas de adaptação mais estruturadas e de médio e longo termo10 11 12. No caso de

10
IPCC (2018). Summary for Policymakers. In: Global warming of 1.5°C. An IPCC Special Report on the
impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission
pathways, in the context of strengthening the global response to the threat of climate change, sustainable
development, and efforts to eradicate poverty [V. Masson-Delmotte, P. Zhai, H. O. Pörtner, D. Roberts, J.
Skea, P.R. Shukla, A. Pirani, W. Moufouma-Okia, C. Péan, R. Pidcock, S. Connors, J. B. R. Matthews, Y.
Chen, X. Zhou, M. I. Gomis, E. Lonnoy, T. Maycock, M. Tignor, T. Waterfield (eds.)].
11
Dore, M.H.I. (2005). Climate change and changes in global precipitation patterns: What do we know?
Environment International, 31, p. 1167 – 1181.
12
Dosio, A., Fischer, E.M. (2017). Will half a degree make a difference? Robust projections of indices of
mean and extreme climate in Europe Under 1.5°C, 2°C, and 3°C global warming. Geophysical Research
Letters, 45.
Portugal, destacam-se a redução da precipitação anual, o aumento da duração e da magni-
tude das ondas de calor e a subida do nível do mar. Não se tratando de processos “novos”
na realidade nacional, a persistência e intensidade que os vai caracterizar coloca desafios
originais, pelo que é lícito falar em “riscos novos”.
A redução da precipitação, associada ao incremento da irregularidade que sempre ca-
racterizou a sua distribuição interanual em Portugal, vai acentuar os episódios de seca,
que poderá vir a tornar-se quase permanente. As consequências na agricultura e pecuária
serão as mais imediatas, mas o próprio fornecimento de água potável a algumas populações
poderá vir a ser colocado em questão, caso esta ameaça não seja enfrentada com medidas
de adaptação eficazes.
O incremento das ondas de calor, traduzido no alargamento do período crítico a meses
da Primavera e Outono, para além do Verão, tem consequências ao nível da saúde huma-
na, tanto mais nefastas quanto mais se acentua o envelhecimento da população portu-
guesa. Num outro nível, as ondas de calor, mais intensas e prolongadas no tempo, têm o
potencial para gerar incêndios rurais/florestais eventualmente ainda mais devastadores do
que os verificados em 2003, 2005 e 2017. Com efeito, essa será uma consequência prati-
camente inevitável, se o País não for capaz de implementar uma transformação estrutural
na maior parte dos territórios rurais, com melhor gestão das áreas florestais e substituição
de espécies caracterizadas por elevada inflamabilidade, nomeadamente nas envolventes das
áreas urbanas.
A subida do nível do mar, associada à falta de sedimentos arenosos e à ocupação des-
regrada de muitas zonas litorais com processos extensivos de impermeabilização, produz
situações descontroladas de erosão costeira e recuo da linha de costa.
Em alguns casos, as possibilidades de intervenção estrutural com obras de engenharia
costeira estão esgotadas e a alimentação artificial tem sido a opção de intervenção eleita,
pese embora os elevados custos envolvidos. As áreas críticas estão sinalizadas e as opções
de adaptação estruturadas vão implicar o recuo de estruturas, infraestruturas e populações.
192 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Trata-se de um processo complexo, muito dispendioso e de difícil aceitação por parte das
pessoas afetadas, mas que terá de ser programado, sob pena de ter de vir a ser realizado de
forma apressada, na sequência de um desastre anunciado.
ESPAÇOS RURAIS, AGRICULTURA
E POVOAMENTO
RURALIDADES, PRESENÇAS, AUSÊNCIAS, TRANSFORMAÇÕES.
O VISÍVEL E O INVISÍVEL DO ESPAÇO RURAL
Sociedade rural e espaço

Carminda Cavaco
Geógrafa; Universidade de Lisboa

A sociedade contemporânea é urbana, não rural, mesmo se o urbano se identifica


largamente com o suburbano, desordenado, degradado, sem qualidade, algo clandesti-
no, onde proliferaram os bairros de habitações ilegais pobres e tristes, e até os bairros de
lata, que entre nós só foram tardiamente eliminados. E como reverso, o declínio do rural
tradicional e agrícola, ao nível dos espaços e correspondentes sociedades: pobreza de ren-
dimentos, alargamento dos incultos, matos e floresta, êxodo e desvitalização, isolamento e
regressão demográfica, marginalização de espaços de vida, degradação das infra-estruturas,
mesmo dos acessos, rarefacção dos serviços… Mas sobretudo novas relações entre os ho-
mens e os espaços, entre as cidades e os campos, novas utilizações dos espaços rurais e
novas ruralidades, com valorização das funções não produtivas da agricultura e das ame-
nidades rurais, atributos naturais ou fruto das acções humanas, os «Serviços Colectivos
195 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
dos Espaços Naturais e Rurais»: ambiente e biodiversidade, qualidade e disponibilidade
da água, paisagens não banais, identitárias e atractivas, produtos de qualidade, agrícolas e
artesanais, património, das construções às tradições, passando pela gastronomia, qualidade
de vida, recreação, etc.
O desenvolvimento rural ganha novas vertentes, para além da modernização agrícola,
da reestruturação parcelar, das novas culturas e das novas técnicas, das produtividades bru-
tas, dos custos e dos rendimentos líquidos, da renovação do universo empresarial: outras
populações, outros ritmos quotidianos, não determinados pelas estações, ou pelo nascer
e pôr do sol, outras relações sociais e espaciais, novas hierarquias, novos valores e novos
comportamentos, novos padrões de consumo, novas modas, economias mais monetárias,
dos que chegam, dos que partem e também dos que ficam, incluindo os rurais agrícolas,
camponeses e assalariados (pensões de velhice dos rurais), e novas dependências.
Portugal exemplifica claramente a decadência dos espaços rurais tradicionais ao longo
do século passado. Depois dos máximos demográficos dos anos 30 mas sobretudo dos me-
ados do século, êxodo, emigração, secundarização da actividade agrícola (pluriactividade
e plurirrendimento), abandono do trabalho nos campos, extensificação dos sistemas de
cultivo, alargamento de incultos, florestação, multiplicação das ausências, já não apenas
sazonais nem limitadas aos espaços nacionais, despovoamento e abandono de lugares e
aldeias, envelhecimento da população residente, mais ainda da agrícola. Valorizaram-se os
empregos na indústria próxima (minas, têxteis e calçado, pasta de papel), na construção
civil, nos transportes, no pequeno comércio e nos serviços em geral (camionistas, guardas
fiscais, polícias, contínuos, comércio de distribuição), concentrados nas vilas e cidades,
sobretudo nas áreas litorais.
A favorecer a mudança, a difusão da escolaridade, o alargamento de horizontes (rádio
e televisão), as vivências quotidianas nos destinos da emigração e nas próprias campanhas
das guerras em África, as novas oportunidades de trabalho feminino, nomeadamente no
têxtil e nos serviços, as crescentes mobilidades espaciais, as novas estradas e os novos meios
de transporte (motorizadas, camionetas, automóveis particulares), encurtando distâncias,
aproximando os diferentes espaços de vida. Todavia, em sentido inverso, modernização
agrícola localizada e estruturalmente selectiva, e sobretudo novo conforto rural: água, luz
eléctrica, gás, televisão e telefone, transportes motorizados, acessibilidades modernas, esco-
las e infantários, serviços médicos, assistência à terceira idade (IPSS, lares, centros de dia,
apoios domiciliários), outra qualidade de vida, outras condições na velhice.
Claro que persistem algumas situações dramáticas de isolamento, solidão, abandono,
na ausência de familiares, vizinhos e amigos e em lugares de casas prolongadamente va-
zias, mesmo em ruína, onde já não chega regularmente o carteiro, o padeiro, o vendedor
196 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

ambulante, onde falta mesmo a missa dominical, ocasião de encontro, de informação,


de recreio. Situações a que a comunicação social vem dando atenção, um pouco ao acaso
ou com programas específicos, recorrendo ao saber de especialistas de grande prestígio e
capacidade comunicacional, como António Barreto (Portugal, Um Retrato Social, RTP).
Neste novo Portugal rural justapõem-se modernidades e arcaísmos. Por um lado, par-
celamento e fragmentação predial, mediocridade das produções, variedades tradicionais,
modos de cultivo orgânicos, sociedades camponesas algo tradicionais, pequenas produções
largamente para autoconsumo e partilha por filhos e netos, mesmo quando ausentes (ba-
tatas, couves, azeite e vinho, ovos e «criações», …). Mas por outro, intensificação dos sis-
temas de produção, modernização tecnológica, mecanização, adubos químicos, pesticidas,
novos sistemas de rega, renovação das plantações (vinha, olival, pomares) e dos efectivos
animais, novas variedades e novas culturas comerciais, mesmo especializações individuais,
locais ou regionais, valorizadas pelo mercado, também floresta de rendimento (pinhal,
eucaliptal, montado), e no final, aumento das produtividades e dos rendimentos. Sem
esquecer as compensações ambientais nos sistemas extensivos e de agricultura marginal:
políticas comunitárias agrícolas e de desenvolvimento rural e local, políticas regionais e
políticas orientadas para os espaços objecto de protecção ambiental.
No geral, pluriactividade e plurirrendimento ao nível dos indivíduos e das famílias,
aceleração das mobilidades, proximidade de aldeias, vilas e cidades, migrações pendulares
para os centros de emprego e de serviços, quadros de vida alargados, esbatendo quoti-
dianamente as distâncias entre cidade e campo. E também atracção residencial de novos
habitantes de origem urbana, pelas condições e quadros de vida (ambiente, segurança,
convivialidade, modos de vida mais sustentáveis), urbanização (sociológica e física) das
aldeias, fluidez da fronteira rural urbano, desaparecimento do rural profundo, mesmo do
rural autêntico.
Mas as diferenças permanecem, a favor dos campos e ao sabor das estações: verdes dos
lameiros e dos pinheiros; amarelos e brancos dos giestais e estevais floridos, vermelhos e
castanhos outonais das vinhas e dos carvalhais; riachos que cantam; pássaros a chilrear,
pores de sol inesquecíveis, cimos que se elevam ao encontro das nuvens, céus estrelados, ar
puro, sombras, brisas frescas, alimentos com outros sabores, receitas com história, casas de
pedra e de taipa, tectos de cana, cobertura de telhas de canudo, contrastes fortes com as
casas dos emigrantes, com elementos de outras culturas, aldeias medievais cuidadosamente
renovadas, pombais e velhos castelos sem funções, festas populares, tradições e crenças,
saberes e saberes-fazer…
Acrescem populações genuinamente acolhedoras, orgulhosas das terras e das suas gen-
tes, abertas ao diálogo, disponíveis para uma boa conversa, algo pobres mas generosas, que
gostam de partilhar o que têm, mesmo de receber os de fora, que não conhecem, nunca
197 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
viram, mas que sabem que de uma forma ou de outra convivem com os seus ausentes, na
cidade distante, na França, no Brasil, na Venezuela… Gente que se conhece, se entreajuda
e também ajuda os de longe, anos atrás os retornados e hoje os da cidade, portadores da
mesma língua ou de outras línguas, explorando então outras formas de comunicação e
compreensão, outros linguajares….
Citadinos que se instalam, que habitam os mesmos lugares, que até pretendem cultivar
e produzir; citadinos que adquirem e renovam velhas habitações, para residências de férias
e mais ainda residências secundárias; e citadinos que apenas visitam, em estadas curtas
ou de passagem. Turismo da natureza, ecoturismo e etnoturismo, turismo rural, turismo
cultural e patrimonial, turismo gastronómico; mudança de ares e de ambientes, retorno ao
mundo dos avós, a um passado perdido, a uma ruralidade «mítica»; descoberta, novas ex-
periências e aprendizagens múltiplas; repouso, recreação, contemplações, mas igualmente
caminhadas, passeios de burro, de bicicleta ou de tractor, «ensaios» de outros modos de
vida, como ser agricultor, pastor ou contrabandista, longe da artificialidade dos meios
urbanos, bem mais tecnológicos e densos, dos seus verdes «artificiais» (parques e jardins)
e das suas atmosferas construídas, sonoras e poluídas. Sem esquecer um «turismo residen-
cial» orientado para a terceira idade e as suas debilidades e dependências físicas: residências
assistidas, lares; clientelas regionais, nacionais e estrangeiras, das classes média e alta, com
adequado nível de rendimentos.
Novas expressões da multifuncionalidade dos espaços rurais em todos os países de-
senvolvidos, mesmo onde a agricultura produtiva ainda domina claramente a paisagem, e
que ajuda a viabilizar a presença de comércios e serviços que amenizam os quotidianos dos
próprios rurais-agrícolas e de todos os rurais residentes, jovens e menos jovens, estudan-
tes, activos ou reformados.
Uma ruralidade compósita que cruza funcionalidades e mobilidades, trabalho e lazer,
produção e consumos múltiplos, natureza e paisagem, ambiente e tradição, nostalgias e
rotinas, liberdades e dependências, autonomias e solidariedades. E modos diferenciados
de habitar…
198 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Espaços rurais – três percursos

Fernando Oliveira Baptista


Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia – Universidade de Lisboa

Os espaços rurais têm tempos de mudança, com contornos distintos de um país a


outro, mas nas últimas décadas tiveram um destino comum: perderam centralidade na de-
finição das suas próprias configurações. No entanto, entre eles têm diferenças e semelhan-
ças que, por vezes, vão para além do aparente. Seguem-se três notas sobre estes percursos
de espaços rurais.

1. Espaço rural: um percurso – Portugal século XX, o declínio da hege-


monia da agricultura

Há mais de um século, Sertório do Monte Pereira associava a diversidade do espaço


rural à geografia dos cereais de pão: trigo, milho e centeio. Rural e agricultura eram sinóni-
mos e esta hegemonizava a utilização do espaço. O abastecimento público era a função da 199 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

agricultura e os estudiosos começavam a interessar-se pelas condições de vida da população


rural.
Quase meio século depois, Orlando Ribeiro renova a leitura da diversidade do espaço
rural: mantém a referência aos cereais mas, alargando o âmbito, centra-se nos sistemas
agrários, relacionando-os com as influências climáticas e enraizando-os na sua própria
história. A agricultura continuava a coincidir com o rural, mas começava a debater-se o
seu contributo para a industrialização do país.
Esta foi-se impondo e a análise de agricultura foi mudando de referencial. Do abasteci-
mento e das condições de vida, passou-se aos temas do desenvolvimento e da modernização.
Em 1963, Castro Caldas evidencia as diferenças existentes nos níveis de desenvolvimento
agrícola dos territórios do Continente e, no ano seguinte, Sedas Nunes distingue duas
faces no país: “expansão industrial e estagnação agrícola”; “economia moderna e economia
tradicional”; “civilização moderna e civilização tradicional”.
Assistiu-se, depois, a grandes transformações no espaço rural. Inicialmente, foram as
consequências do grande êxodo da década de sessenta, uma maior abertura da economia
do país e a crescente modernização da agricultura. Depois, os acontecimentos dos anos
pós 1974, nomeadamente a Reforma Agrária e a contra-Reforma Agrária, e, sobretudo, a
acção das autarquias democraticamente eleitas. Registam-se, ainda, desde meados dos anos
oitenta, os efeitos da integração na União Europeia.
Neste percurso, o espaço agroflorestal deixou de ser hegemonizado pela agricultura,
e desta foi-se também separando progressivamente a economia da população rural. Neste
contexto, apesar da influência social e cultural da agricultura, a diversidade do espaço
rural deixou de decorrer das características dos sistemas agrários. Passou a ser marcada pela
densidade populacional e pela influência relativa dos diferentes sectores de actividade eco-
nómica. Impuseram-se ainda, desde os anos noventa, as preocupações ambientais e foram
também crescendo procuras associadas à valorização económica dos recursos naturais e do
património rural, e às actividades territoriais (caça, lazer, desporto,...).
Da classificação dos espaços rurais associada aos cereais de pão – trigo, milho e centeio
– passou-se a outra nomenclatura: rural urbano (muito marcado pela influência da malha
das cidades), da indústria e serviços (dependente do mercado de trabalho dos sectores se-
cundário e terciário, frequentemente associado a migrações pendulares e quotidianas), de
baixa densidade (onde não houve alternativas ao êxodo) e, nalgumas manchas, mantêm-se
ainda o que se pode considerar como um rural agrícola.

2. Espaço rural: uma comparação – a perda da centralidade


200 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Como antes se referiu, ao espaço rural correspondia tradicionalmente uma função


produtiva agrícola, assegurada pela população rural, e de cujo desempenho dependiam as
suas economia e condições de vida. Foi uma situação que veio a ser abalada pelas grandes
mutações que foram moldando a agricultura na sequência dos processos de industrializa-
ção e urbanização, e das dinâmicas da fase atual da economia mundial. São processos que,
em muitos países e regiões, têm conduzido a que a economia da população rural se dissocie
do abastecimento do mercado em produtos agrícolas.
Estas mudanças associaram-se, geralmente, a outros aspetos, nomeadamente à trans-
formação tecnológica da agricultura, a uma maior abertura ao mercado das vilas e aldeias,
a movimentos populacionais e à influência crescente do mundo urbano nos modelos de
consumo e nas atitudes e comportamentos. Tanto a dissociação, antes referida, como estes
factores repercutiram-se fortemente no espaço rural, em particular nas suas estruturas so-
ciais e económicas, onde as consequências foram muito distintas de um país a outro e,
muitas vezes, mesmo entre regiões. São algumas destas diferenças que se vão apresentar de
seguida, muito esquematicamente, recorrendo a quatro exemplos.
Nestas notas, a designação espaço rural não remete para qualquer especificidade socio-
lógica, mas permite apenas a identificação de um espaço sociopolítico associado a um pa-
drão de povoamento marcado por aglomerados de pequena dimensão e onde se delimita a
fronteira entre o campo e a cidade. É um referencial empírico e diferente nos quatro casos
que se vão referir, nos quais a similitude decorre apenas de, em cada caso, se estabelecer
uma delimitação entre o que se entende por rural e por urbano.
Referem-se, de seguida, os factores que contribuíram decisivamente para modificar as
configurações do rural, nos quatro casos antes referidos. O primeiro, e mais determinante,
foi a modernização tecnológica da agricultura que permitiu um notável aumento da pro-
dução e da produtividade, aumento esse que favoreceu mesmo uma baixa tendencial do
preço dos alimentos que se verificou na segunda metade do século XX. Simultaneamente,
contribuiu para a dissociação da agricultura modernizada das dinâmicas do território e
para a perda de relevância da agricultura tradicional, que era a base económica do tecido
social do rural. Foi o que aconteceu, ainda que com matizes diferentes, em França, na
península ibérica e no Brasil.
Dada a crescente liberalização dos fluxos comerciais – é o segundo fator – esta baixa
repercutiu-se mesmo em muitos países em que se mantiveram as estruturas agrícolas tradi-
cionais, mas em que estas foram afetadas pela entrada de produtos importados a um preço
inferior ao que seria possível com a produção nacional. Foi a situação de Angola em que,
por um lado, se manteve a agricultura tradicional mas, por outro, esta mesma agricultura,
dada a sua debilidade, tornou-se irrelevante para alimentar as cidades, face à concorrência
201 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
dos produtos importados.
O terceiro fator decorreu da existência de um sistema urbano cuja procura de bens e
serviços não-agrícolas no espaço rural permite a constituição de uma economia não assente
na produção agrícola, a que se associa uma população, ainda que com baixa densidade,
mas com sustentabilidade demográfica. Foi o que ocorreu em França onde, primeiro, um
amplo êxodo rural ajustou o nível da população ao desmantelamento da agricultura tra-
dicional e, posteriormente, a nova economia se associou a um patamar de população sus-
tentável. No Brasil, alguns autores defendem a existência de movimentos similares a este
modelo mas, de qualquer modo, têm apenas expressão nalgumas regiões e não emergiram
como uma alternativa na estruturação económica do rural.
As dinâmicas populacionais são o quarto fator. Tanto em França como na península
ibérica, os que sobraram da transformação tecnológica da agricultura puderam abandonar
os campos, indo para as cidades ou emigrando. Este ajustamento foi muito facilitado pela
tendência, que entretanto se instalou nestes países, de uma baixa taxa de crescimento, ou
mesmo de uma quebra populacional.
As consequências destes movimentos levaram, no rural profundo da península ibérica,
a um progressivo declínio da população, dado que as estruturas tradicionais se tinham es-
boroado e não houve condições de procura urbana, que permitissem outra economia. Em
França, como já se notou, houve primeiro um ajustamento em baixa e, posteriormente,
com a nova economia, restabeleceu-se um nível demográfico sustentável.
Em Angola, com um acentuado crescimento populacional, não se deparam à popu-
lação rural alternativas favoráveis fora das suas aldeias. Assim, a uma economia agrícola
irrelevante para o mercado, acresce uma população desnecessária para o sistema económi-
co do país.
Finalmente, no Brasil, apesar do dinamismo sectorial do agronegócio, do fortaleci-
mento de alguma agricultura familiar e da emergência das atividades não-agrícolas, persis-
te no rural um amplo contingente de famílias sem terra ou com diminutas e fragilizadas
unidades agrícolas. A sua existência decorre de um continuado crescimento populacional e
da impossibilidade de uma saída para as cidades, mas também das debilidades, em muitas
regiões, da agricultura familiar e, sobretudo, das atividades não-agrícolas. É uma realidade
que se impôs e que, de algum modo, diluiu a relevância de outras dinâmicas.
As apreciações anteriores não visam qualquer generalização, mas apenas evidenciar que
o rural que se confundia com a agricultura, tanto na economia como na vida social, passou
a ser moldado ou bloqueado – como no caso de Angola – por fatores que são exteriores às
suas vilas e aldeias. Identificaram-se alguns destes fatores, mas, o que, sobretudo, importa
destacar é a perda de centralidade do rural, na definição da sua própria configuração.
202 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

3. Espaço rural: semelhanças e diferenças

Insista-se, por último, na precaução a ter na comparação dos espaços rurais. José Maria
Arguedas, antropólogo e escritor peruano, num estudo publicado inicialmente em 1968,
comparou a zona espanhola de Sayago – que faz fronteira com Portugal – com comuni-
dades dos Andes. Constatou que havia tantas semelhanças entre o comunero de Sayago e
o andino que lhe causava “um absurdo assombroso quando (os de Sayago), em vez desse
castelhano puríssimo, não se expressavam em quechua”. Acrescentava, no entanto, uma
diferença decisiva: “Já não existe entre eles (os de Sayago) o vínculo mágico que une o
comunero índio com a natureza”.

203 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Rural – modos de ficcionar

Álvaro Domingues
Professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto

Não se sabe o que seja a ruralidade de tanto que o tema se foi expandindo do real para
o imaginário, ou do discurso científico para a poesia e para todas as artes, mensagens pu-
blicitárias, novelas, calendários e prospectos turísticos. Da enxurrada de assuntos pode-se
pescar qualquer coisa, desde a denúncia política da miséria dos camponeses de África no
limiar da auto-subsistência, às místicas da permacultura ou à síntese perfeita da comunhão
dos homens com a natureza, sustentável, claro, seja lá o que isso for.
Na cultura europeia convivem raízes e representações distintas e contraditórias sobre o
mundo rural e dos rurais, ora uma espécie rústica de infra-humano, grosseiro, andrajoso,
embriagado, ora uma entidade quase metafísica, sabedora das coisas do céu e da terra,
dono de segredos ancestrais e da alma da nação.
No classicismo das éclogas e das bucólicas, o campo, espécie de geografia metafísica,
205 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
povoa-se de pastores e pastoras, prados floridos – como antes nas cantigas de amigo – deu-
ses gregos e romanos e outros adereços sentimentais para compor poesia sobre prazeres
inocentes saturados de lirismo, faunos e metáforas. De tão afastadas dos rigores da vida
dos camponeses, estas construções literárias dizem-nos apenas do nulo interesse que esse
mundo representava para a cultura erudita então acantonada numa élite por entre cléri-
gos e aristocratas. Que poderiam os rústicos adiantar nos brilhos dos salões que não fosse
boçalidade e cheiro a esterco? Pois se até confundiam deus com bruxedos e esconjuros…
Rousseau (Émile ou De l’education, é publicado em 1762) e outros filósofos escrito-
res muito influentes na cultura europeia mudam estas tonalidades de forma radical. J.
Gottfried Herder (1744-1803, o inventor do volkgeist), os irmãos Grimm (os contos dos
irmão Grimm são publicados pela primeira vez em 1812) e toda a geração do romantismo,
reinventaram o povo enquanto entidade real/imaginária, jardineiro da paisagem, guardião
da alma da nação e de coisas preciosas e puras, em tudo diferente da artificialidade e dos
vícios da cidade. Como escrevia Jules Michelet (Le Peuple, 1846) o povo simples e sábio
era rico de sentimentos e de bondade do coração, dotado de espírito de sacrifício e de amor
pelo outro, de força, de tenacidade, de generosidade, de prudência, de virtude, coragem,
trabalhador, esforçado, sofredor, heróico, altruísta, e possuidor de outras elevadas causas
pelo bem-estar da comunidade, da família, do amor à pátria. O povo (rural, claro) encon-
tra em Michelet um dos expoentes mais encantatórios enquanto criação de um arquétipo
de pureza e de autenticidade de valores. Em Portugal a ideologia tóxica do salazarismo e
do bom povo rural que enchia as igrejas, ainda foi beber a este arquétipo, apesar da miséria
das condições de vida e da emigração em massa.

“Uns após outros desbravaram as terras, cultivaram a vinha e o milho, criaram os


filhos, sofreram. A vida é áspera, há desgostos, angústias, privações, injustiças que parece
ninguém poder reparar. Um ambiente de carinho, porém, envolve o lar e uma luz supe-
rior ilumina a existência: a velha igreja e o seu adro foram feitos a expensas de todos os
vizinhos, com esmolas e trabalho; o cemitério também. Numa parte e noutra há verda-
deiramente o suor do rosto, a preocupação do viver, a tradição do sangue, o património
moral. Do fundo das consciências claramente surgem estes imperativos: o trabalho na
vida, a propriedade na terra, a virtude na família, a esperança nas almas.”1

Para além das várzeas e dos montes há outras várzeas e outros montes, onde vivem e
trabalham homens da mesma raça, parentes próximos ou remotos, que falam a mesma lín-
gua, têm os mesmos sentimentos. Como quem desbrava o campo para cultivar e levanta as
paredes duma casa para nela viver, há muitos séculos grandes chefes traçaram com a espada
206 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

os limites e disseram: aqui se vai edificar a casa lusitana.”


A esta matriz romântica e mística acrescenta-se depois a produção científica da antro-
pologia, da etnografia ou da geografia. Todas juntas foram convivendo com sucessivas ten-
dências de estetização dos campos, desde as paisagens de Poussin ou Lorrain ainda no séc.
XVII, com os campos a servir de fundo para cenografias mitológicas, até ao misticismo de
Millet no célebre Angelus (1857), representando a oração do fim da tarde. Para além disso,
a festa, o trabalho, os trajos, as procissões foram ganhando popularidade e a vulgarização

1
António Oliveira Salazar (1936) «As grandes certezas da Revolução Nacional» - Discurso pronunciado em
Braga, no 10º aniversário do 28 de Maio, in «Discursos», Vol. II, págs. 128-129.
da fotografia, deu asas e popularidade ao pitoresco como regime de visibilidade dominan-
te. Entretanto, o desenvolvimento da etnografia mais ou menos científica deu uma outra
seriedade à questão. É na literatura e em autores como Aquilino Ribeiro que encontramos
peças magistrais sobre a condição camponesa.
Fora da Europa, o mundo colonial era claramente outro mundo. A economia da plan-
tação, o esclavagismo ou a agricultura indígena não formavam um quadro “rural” estável e
inteligível que se comparasse ao dos países colonizadores. Na grande Ásia, os camponeses
eram apenas uma massa de escravos da terra constantemente ameaçados de calamidades e
fome. No entanto, a moda do exotismo tropicalista nas exposições europeias e nos “zoos
humanos”, enfatizava mais o “indígena” e certas curiosidades raciais, de costumes, de ob-
jectos e adornos.
A intensidade do processo de modernização em modo industrialista provoca na
Europa e nos EUA uma acelerada desruralização. Modos de vida, sistemas de agrícolas,
práticas tradicionais, regimes de auto-subsistência, e paisagens de séculos, reduziram-se e
transformaram-se abruptamente com a importância da economia agrícola a caminhar para
um resíduo estatístico em termos de emprego e produto.
É aqui que o “rural” começa a perder completamente o sentido. Antes, com esforço,
o adjectivo procurava abarcar uma triologia em que havia simultaneidade entre a agricul-
tura como pilar económico da produção e do trabalho; o campesinato e os seus valores
conservadores ligados à tradição, à religiosidade, aos antepassados; e a paisagem como
marca visual desta economia/sociedade que se inscrevia num território com as suas marcas
naturais e culturais específicas. Esta tripeça produzia um certo efeito de totalidade que
fazia com que a alusão a qualquer um dos seus elementos arrasta-se os restantes quase au-
tomaticamente – fosse um burro, uma vaca, uns tamancos, uma casa tosca, uma senhora
vestida de preto a rezar ou a fiar… e logo o rural se lhe colava sem qualquer hesitação. A
pré-modernidade ajudava a compor as diferenças.
Hoje a agricultura de plantação colonial migrou para a produção ainda em maior
207 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
escala inserida em fileiras agro-industriais e interesses do capitalismo global. Na soja, na
cana-do-açúcar, na carne, no café ou na fruta… o português do Brasil chama-lhe “agro-
-negócio”. Tal como outro qualquer processo de modernização intensivo, a tecnologia, a
empresarialização, a especialização, a intensidade químico-biológica, etc., espantaram os
pastores da arcádia rural e trouxeram as polémicas dos transgénicos, da luta pela água, da
emissão de gases com efeito de estufa, do neo-esclavagismo, da fome da terra, da deflores-
tação, das catástrofes ecológicas ou dos direitos dos animais.
Perturbou-se completamente a paz que se dizia haver nos campos e a reacção cada vez
mais radical e violenta à agricultura intensiva e às suas paisagens e produtos tecnológicos,
voltou-se para uma nostalgia latejante, uma constante rememoração de um mundo mais
que perfeito do velho campo enquanto paraíso perdido. Este outro campo, semântico e
imaginário, não tem limite e a sua expansão é directamente proporcional a um certo de-
sencantamento do mundo que por aí vai.
A fotografia é excelente para ficcionar esta realidade e tapar o vazio deixado pelo senti-
mento de perda desse mundo mais que perfeito ou, ao contrário, ilustrar e mesmo denun-
ciar as misérias nos eufemisticamente chamados países em vias de desenvolvimento onde
ficaram os milhões de trabalhadores da terra que ainda não incorporaram a urbanização
da pobreza e que sobrevivem entre conflitos violentos constantes, secas, más condições de
saúde, subnutrição e abandono por parte do estado.
As infinitas ambiências que se podem congelar numa imagem são bem reveladoras das
incontáveis dobras que os “espaços rurais” permitem designar – às vezes parecem instantâ-
neos do início do mundo e do paraíso antes da serpente; outras, Ceres vinda do Olimpo
pelo Maio com braçadas de trigo e de papoilas; outras, o trabalho penoso, o viver-se com
pouco, o olhar duro, os animais, bichos entre outros, como diria Torga.
Asa Branca, a música e poema de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira (1947), é uma
espécie de hino do sertanejo pobre do Nordeste brasileiro; camponês, vaqueiro ou sem
terra, dependente dos caprichos da seca, emigrante, as mais das vezes. Miséria e nostalgia
convivem nesta poética de retorno impossível a um mundo rural perdido, mas por isso,
mais presente para compensar tristezas em terras estranhas.

Asa Branca
Quando olhei a terra ardendo
qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu,ai
por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornalha,
nenhum pé de plantação
208 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

Por falta d’água perdi meu gado,


morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a Asa Branca
bateu asas do sertão
Entonce eu disse: adeus Rosinha,
guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas léguas
nessa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
pra eu voltar pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
se espaiá na plantação
Eu te asseguro, não chores não, viu
Que eu voltarei, viu, meu coração

209 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


Os paradoxos do mundo agrícola,
a ruralidade do Homem e a mundialidade
da tecnologia

Neli Aparecida de Mello-Théry


Professora Titular na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade
de São Paulo (USP)

1. Das representações às dinâmicas: os olhares geográficos sobre as


realidades

No início dos anos 2000, escrevíamos “geógrafos têm um olhar muito próprio sobre
o mundo que os cerca: apaixonam-se por povos, culturas, paisagens, lugares… Olham as
estruturas para desvendar o poder que as sociedades têm de criar e transformar territórios;
olham as marcas deixadas nas paisagens para enxergar os processos que ali ocorreram.
Interpretam os ambientes que os cercam… Geógrafos têm a inquietude de estar sempre
procurando descobrir o novo, ou o velho que pode se transformar e criar novamente algo
novo. De pesquisar, de se colocar questões muitas vezes não respondidas, de decodificar
processos sejam eles sociais, econômicos ou naturais. De buscar a compreensão das rela- 211 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
ções dos seres humanos entre si e com seus territórios, sejam elas produtivas, sociais, cul-
turais, religiosas. Sejam da natureza que for… De ver o eterno movimento de transformar,
da vida, da sociedade, das relações. A cidade lhes encanta, atrai e entristece; o campo apela
pela majestade dos grandes espaços ou a beleza da tradição, e ambos lhes enchem de ques-
tionamentos, o inexplicável continua suscitando indagações…” (Mello & Théry). Mais
de uma década depois, esta visão persiste, mas as realidades vêm sendo permanentemente
visualizadas com imagens digitais, obtidas pelos satélites ou pelos milhões de aparelhos
inteligentes que captam o instantâneo, para ser esquecido segundos depois. Imagens ana-
lógicas, zooms das máquinas fotográficas, álbuns de fotografias parecem obsoletos.
Em 2017, Rui Jacinto afirmava que “a fotografia peca por se centrar, cada vez mais,
na interação com os gadgets do que com as pessoas e as paisagens que retrata”, mas, apesar
disto, a capacidade de dar visibilidade a territórios e notoriedade a pessoas se mantem
intacta.
O olhar geográfico é capaz de entrelaçar a multiplicidade de escalas e suas contradições:
do planeta ou dos continentes aos países, da grande Amazônia, sul americana, à brasileira,
das metrópoles aos bairros e destes à sua residência. Meu olhar nas dinâmicas territoriais,
no planejamento e gestão ambiental e territorial fundamenta-se nos referenciais teórico-
-metodológicos das dinâmicas das frentes pioneiras e do poder político de cada segmento
social (Pierre Monbeig e Claude Raffestin) e na simbiose das experiências locais, nacional
e internacional. Assim, o conhecimento geográfico não dispensa a pesquisa documental, a
de campo e a observação direta do que se quer conhecer. E, se complementa com registros
fotográficos, imagens de satélite, mapas.
Este contraste nos ensina a meditar sobre nossos comportamentos, sobre nossa inser-
ção no país, sobre o respeito ao ambiente natural e social.
Por isso, é gratificante ter sido convidada a contribuir com Transversalidades 2018. As
fotos selecionadas nos presenteiam com magníficas paisagens e nos impulsiona à sua pro-
cura. As imagens da natureza nos fazem pequenos, tamanha sua grandeza. Os contrastes
de cores, jogo de luzes, distinção e sombreamentos nas fotos preto e branco nos permitem
sonhar. Neste ano, o predomínio de paisagens humanizadas destaca as expressões fortes de
mulheres trabalhadoras na Índia (Sheliboti River 1 - Sujit Saha), idosos na Rússia e pastor
de ovelhas, também idoso, na Espanha, nos induz a supor que as dificuldades de sobrevi-
vência, o sofrimento, marcaram estas pessoas.
As imagens vencedoras trazem-me à memória flashes da(s) Índia(s) que conheci em
2009 e 2013: o mundo urbano e suas contradições na habitação e na falta de qualidade
de vida nos slums, na forma de produzir o chapati ou o naan cotidiano, na pesca em rios
poluídos que vivi na primeira visita contrasta fortemente com a Índia (2013) dos avanços
212 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

tecnológicos, dos investimentos em educação, saúde e infraestrutura urbana e rural, da


descoberta de remédios novos baseados na biodiversidade e de mecanismos para trata-
mento hospitalar voltados à população excluída. Verdadeiro paradoxo para um ocidental,
porém, nada muito longe dos contrastes brasileiros, o que nos leva a pensar que talvez a
única diferença sejam as castas formalizadas.

2. Contradições nas visões do mundo agrícola brasileiro


Dois mundos diametralmente distintos no seio da agricultura brasileira: de um lado,
produtores integrantes do segmento do agronegócio, do outro, produtores, majoritaria-
mente pequenos, voltados para sua própria sobrevivência ou para a produção de produtos
alimentares em mercados locais. No interstício destes dois universos, novos sistemas pro-
dutivos vêm surgindo. Os grandes acreditam no potencial transformador da tecnologia, os
pequenos nem sempre tem acesso a ela, mas isto não impede a velocidade das transforma-
ções nos espaços rurais.
Os problemas mais evidentes e impactantes, muitos deles advindos da mudança no
uso do solo, notadamente para a agricultura, podem ser sintetizados nas (ainda) altas taxas
de desmatamento na Amazônia, poluição hídrica no Pantanal, desertificação no interior
do Nordeste, desabamentos na Serra do Mar e o desflorestamento dos resquícios de Mata
Atlântica. Todos ligados aos processos de ocupação do território brasileiro. As dinâmicas
frentes pioneiras para o último bioma brasileiro – a floresta amazônica – possuem marca-
dores muito claros: a dinâmica dos fluxos migratórios ainda é significativa; a conversão de
florestas em áreas agrícolas, o avanço dessas atividades, baseadas em sementes adaptadas ao
clima equatorial e na qualidade do rebanho bovino, só para dar destaque a alguns dentre
eles.
Esses processos mostram, além disso, a grande defasagem entre o discurso dos gover-
nantes brasileiros e as dinâmicas territoriais amazônicas: a lentidão na ação contra a velo-
cidade das dinâmicas territoriais, nas contradições entre políticas públicas, nos conflitos
entre desenvolvimento e conservação ambiental.
A Amazônia, onde o processo é mais agudo, tornou-se uma região-laboratório.
Concentra no Mato Grosso a crescente agroindústria brasileira, assim como a produção
agrícola (soja, bovinos, milho, arroz, algodão). Distante dos principais portos de expor-
tação (Santos, Paranaguá), em um primeiro momento, suas terras eram utilizadas para
a produção; atualmente indústrias de transformação são implantadas com a finalidade
de agregação de valor aos produtos e atração de mão de obra mais qualificada. O setor
213 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
agroindustrial é um dos mais importantes das dinâmicas econômicas atuais, especialmente
na região situada entre Rondonópolis e Sinop.
Às margens deste sistema floresce uma agricultura diversificada envolvendo pequenos
produtores, assentados da reforma agrária que desenvolvem experimentos com sistemas
agroflorestais. Áreas dos projetos de assentamentos agrários tornaram-se também labora-
tório de experiências de sustentabilidade: se os beneficiários dos projetos de colonização
eram obrigados a desmatar, os assentados atuais esforçam-se para manter a floresta, asso-
ciando-a a outros produtos. Os mercados onde estes produtos são distribuídos são distin-
tos: internacional e local, respectivamente, China e Europa ou feiras e pequenos comércios
locais. A população envolvida, cuja maioria é migrante, conseguiu atingir seus sonhos de
melhoria da qualidade de vida? Para muitos a resposta é positiva; para outros, nem tanto.
Apesar das altas taxas de desmatamento, o Mato Grosso apresenta também iniciativas
que visam a conservação dos espaços naturais e a inserção social, quando se atenta para as
políticas públicas municipais de desenvolvimento sustentável. Experiências de sustenta-
bilidade no interior do mundo agrícola, na agricultura mecanizada e agricultura familiar
podem ser identificadas em Sorriso, Alta Floresta, Juína. Seus atores mostram este processo
como alternativo aos sistemas tradicionais e procuraram demonstrar que o desenvolvi-
mento sustentável é possível se decorrente de novos caminhos realizados pela população,
produzindo por meio de sistemas não impactantes ao meio ambiente.
Por outro lado, os produtores de grãos creem fortemente nas possibilidades tecnológi-
cas para garantir o aumento da produtividade e da produção, assim sendo, fortalece ainda
mais suas noções de continuidade desse modelo ao infinito. Não percebem que as mudan-
ças climáticas os poderão atingir e, portanto, não planejam ações preventivas, embora, seus
discursos incorporem todos os fatores e aspectos relevantes da sustentabilidade. Discursos
totalmente articulados com ideais internacionais e nacionais.
O futuro da sustentabilidade agrícola local depende de mudanças dos diversos siste-
mas agrícolas e de alteração comportamentais.

3. Não repetir no século XXI as formas de exploração anteriores e


incluir novos conceitos

Fernando Pessoa dizia que “tudo em nós está em nosso conceito de mundo; modificar o
nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele
nunca será para nós, senão o que é para nós...” Conceitos evoluíram e referenciais se altera-
ram ao longo da história da humanidade. Métodos e mecanismos para sua compreensão
214 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

refletem tais mudanças. Políticas e ações públicas devem ser refeitas ou adaptadas em
função destes novos rumos. O conceito de transição ecológica tem ganhado força na últi-
ma década e se consolida nos muitos meios sociais e técnicos. O mesmo, segundo alguns
cientistas, pode revelar uma mudança social, tecnológica, institucional e econômica.
Mas, comportamentos são difíceis de serem alterados e, especialmente, os setores agrí-
colas demoram muito mais. Pesquisadores e suas redes contribuem para os avanços dos
conhecimentos assim como das sociedades, com sua capacidade de resiliência. Estudos
fornecem importantes conclusões sobre a situação da Amazônia brasileira e sobre as con-
dições socio-ecológicas da região, às quais as especificidades naturais, biológicas e sociais
devem ser adaptadas. As noções de sustentabilidade, de transição, de circularidade da
economia, de segurança alimentar podem ser movimentos em direção a uma nova visão
de mundo. Então, podemos nos perguntar porque tanta dificuldade em implanta-los? No
mundo do virtual, as informações são em tempo real, permitindo seu confronto com a
realidade. Estas realidades são sensíveis na práxis da Geografia, na paisagem e no mundo
virtual. Os paradoxos opõem paisagens concretas com as virtuais e discursos com ações,
com comportamentos arcaicos ou inovadores.
O virtual das modernas tecnologias rastreadas pela transversalidade das fotografias,
estão visíveis, nas áreas de produção, nas paisagens naturais e humanizadas, na complexi-
dade analisada pela Geografia. É a complexidade visível. A possibilidade de apreensão das
dinâmicas concretas de uma nova forma de produzir com alta tecnologia pelos geógrafos é
também apreendido nas fotografias da Transversalidades 2018.
Quando as reflexões sobre o futuro tomam como base a história ambiental da Mata
Atlântica, com todas as transformações que fizeram dela uma das mais ameaçadas do pla-
neta, aceitar que a “história se repita” no bioma amazônico é não avançar. A identificação
de mecanismos que possam concretizar modelos de um futuro com sustentabilidade (am-
biental, econômica e social) não pode prescindir imagens reais, momentâneas do mundo
natural e social. Por meio delas, podemos descortinar milhares de ambientes. Por meio
delas, podemos reconstruir e reconverter. Podemos avançar para um mundo melhor...

Referências:

DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Tradução Cid
Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
JACINTO, Rui. https://fr.scribd.com/document/367161398/Catalogo-Transversalidades-2017
[consultado 15 setembro 2018]
MONBEIG, Pierre. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. Tradução Ary França e Raul de Andrade
215 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
e Silva. São Paulo: Hucitec/Polis, 1984.
PESSOA, Fernando. «Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa». Paulo Neves da Silva (org.).
Alfragide, Portugal: Casa das Letras, 9ª edição.
RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Editora Ática, 1993.
A revalorização das áreas rurais

João Guerreiro
Geógrafo; Professor na Universidade do Algarve

A especificidade que encontrávamos, no passado, nas dinâmicas das áreas rurais e ur-
banas foi sucessivamente abalada por episódios que facilmente se conseguem identificar.
Deixaram de ser ambientes sociais estanques; criaram entre si graus de dependência que
não mais deixaram de aumentar. Primeiro foi a absorção de ativos através de um verdadei-
ro abalroamento que o mundo urbano provocou junto dos espaços rurais, responsável por
um enorme fluxo migratório que dos campos se dirigiram para as cidades. A este anáte-
ma sucedeu-se a adoção de dinâmicas empresariais inexoráveis que impuseram também o
abandono das atividades destes espaços rurais, após verificarem que, para o êxito das suas
lógicas privadas, a concentração urbana seria um fator determinante.
E com esta evolução nas áreas rurais, foi-se perdendo capacidade de produzir riqueza
com expressão mercantil. 217 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Os espaços rurais passaram a ser objeto de enormes controvérsias, através de reflexões
diversas e de propostas, quase sempre de pendor voluntarista, mas, na sua maioria, desa-
justadas às realidades. Estes espaços eram considerados no passado como fiéis depositários
das virtudes sociais; mas foram paulatinamente evoluindo para territórios aparentemente
inanimados, embora escondam padrões alternativos e interessantes de desenvolvimento.
Na maior parte dos países, as áreas rurais correspondem a um mundo difícil de inte-
grar nas categorias que têm prevalecido para avaliar os processos de desenvolvimento. O
produto, medido em unidades monetárias, desce; o emprego definha; a presença de idosos
e reformados amplifica-se nas comunidades locais; e a vulnerabilidade a riscos naturais
aumenta. O fator “escala” faz a sua gradual aparição, entalado entre uma elevada capitação
das despesas públicas e a obrigatoriedade de satisfazer necessidades básicas da população
presente.
As profissões agrícolas tornaram-se minoritárias no seio dos residentes dos espaços
rurais. Mas as acessibilidades melhoraram exponencialmente, estimulando a adoção da
função residencial. As tecnologias da informação instalaram-se permitindo a plena in-
serção destes espaços nas redes virtuais, o artesanato evoluiu com o (re)aproveitamento
dos materiais autóctones, do design e concebendo novas formas de comercialização e a
criatividade social impulsionou novas profissões, relacionadas não só com a produção de
bens e serviços, como também com a recuperação de atividades ou a introdução de outras
ajustadas a uma procura que, sendo cada vez mais diversa, é também mais exigente.
Perante o reconhecimento destas fragilidades, mas também das respetivas potenciali-
dades, não tem sido fácil encontrar soluções que, simultaneamente, valorizem os recursos
próprios destes espaços e que deem justificação e coerência às intervenções públicas.
A valorização da floresta será uma das opções. Reconhece-se que, no caso português,
não tem sido fácil o reconhecimento da importância que a floresta tem para as suas co-
munidades e também para o país. Sem referir a sua expressão em espaços urbanos, na-
turalmente intercalada, e a sua presença nas áreas protegidas, a floresta é genericamente
entendida como uma componente ambiental maioritariamente capturada pelo foro priva-
do, gerando rendimentos económicos que beneficiam apenas os respetivos proprietários.
As funções nobres, de carácter ambiental, paisagístico e social, desempenhadas pela flores-
ta são raramente valorizadas pela sociedade. Muitas dessas funções, traduzidas em presta-
ção de serviços ambientais não monetarizados, são fundamentais à vida das comunidades.
A intervenção reguladora no ciclo da água, a conservação do solo, a captura de carbono, a
manutenção de sistemas faunísticos diversificados são algumas das funções essenciais de-
sempenhadas pela floresta, ainda não reconhecidas como fundamentais para a preservação
da vida humana.
218 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

A ausência de uma maior proximidade da população com a floresta e a dificuldade


de reconhecimento do sistema florestal como regulador da biodiversidade do território,
resultam, em Portugal, porventura não só da reduzida expressão da floresta pública, como
também da falta de apropriação coletiva das funções essenciais que a floresta cumpre.
Paralelamente aos serviços ambientais proporcionados pela floresta, poderá evocar
também as diversas componentes relacionadas com a paisagem e o lazer, aspetos que têm
sido igualmente pouco valorizados. A agricultura recomeça, por outro lado, também a ser
entendida como um setor com futuro no âmbito das áreas rurais. Desvalorizada nos últi-
mos tempos como uma atividade menor e limitada na capacidade de incorporar inovação,
acusa na atualidade um dinamismo que importa sublinhar.
Para além das questões de mercado, que limitaram no passado este setor, deverá re-
conhecer-se que se trata de uma atividade que predominantemente beneficia do fluxo de
energia solar gratuita que diariamente recebemos do Sol e que, por efeito do seu apro-
veitamento, produz plantas alimentares e outras que respondem as exigências das dietas
humanas e à produção de inúmeros bens essenciais. O desprezo dessa energia gratuita e a
consequente redução da produção agrícola deveria ser considerado, no mundo atual que
procura avidamente a sustentabilidade, um desperdício injustificável.
É neste cenário que se tem de reconhecer as dinâmicas em curso, desde a multiplica-
ção de mercados locais orientados para a comercialização em natureza de produtos com
características únicas, até a explorações tecnologicamente inovadoras e bem-dotadas, in-
tegrando práticas ambientalmente exigentes e garantindo elevados níveis de produtivida-
de. O panorama está a alterar-se e, como corolário, a atrair recursos humanos altamente
qualificados.
Um princípio deverá ser previamente retido. Todos os espaços territoriais, sem exce-
ção, têm recursos interessantes passíveis de serem explorados, valorizados, transformados,
comercializados e projetados. A lógica mercantil que expulsou, num primeiro momento,
as atividades económicas e, num segundo momento, o enquadramento público, deverá ser
matizada através de outras lógicas que, não se afastando do mercado e estabelecendo uma
relação amigável com o ambiente, se orientem para novos padrões de produção de bens e
serviços e para novos estilos de vida.
Um primeiro fator determinante nesta exigente e necessária evolução é o conhecimen-
to. Os fatores tradicionais que explicavam a localização das atividades estão globalmente
obsoletos. A disponibilidade e produção de conhecimento é a alavanca que permite, na
atualidade, organizar e valorizar os territórios e captá-los para um padrão de desenvolvi-
mento global.
O fluxo de diplomados que saem das instituições de ensino superior é significativo
e constitui um excecional veículo para levar o conhecimento aos diversos territórios e às
219 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
várias atividades.
A criação de unidades de I&D espalhadas pelo território e vocacionadas para estuda-
rem os recursos territoriais específicos corresponde a uma tendência, ainda pouco dissemi-
nada, mas que será determinante na valorização das dinâmicas locais.
As próprias instituições de ensino superior, mobilizadas para projetos concretos, tes-
tam nos seus laboratórios componentes e produtos novos, estudam materiais e desenhos
para as embalagens dos produtos, concebem marcas, estruturam modalidades de serviços
de base local. Tudo isto num desejável frenesim que pode conduzir a que algumas des-
tas iniciativas sejam apreendidas como extensões aplicadas dos percursos formativos dos
jovens diplomados, completando e enriquecendo os períodos de aprendizagem em sala
que tiveram nas escolas e faculdades do ensino superior.
Um segundo fator essencial para reconhecer o potencial destas áreas obriga a que o
padrão de desenvolvimento deixe de estar refém da grilheta mercantil. Não será fácil su-
perar o que tem sido o pensamento dominante que pretende atribuir valores de mercado
a tudo o que circula e que condiciona as comunidades. Mas é fundamental que os bene-
fícicios ambientais, sociais e até económicos sejam identificados tendo como referência o
equilíbrio harmonioso das atividades, a resiliência responsável dos recursos e um ambiente
social enriquecido pelo reforço qualificado das relações humanas. E esta reorientação terá
de estar fundada em novas estratégias de intervenção pública e de afetação criteriosa dos
recursos coletivos.
A designada sociedade do conhecimento tem de deixar de ser apenas um chavão ou
uma miragem. É obrigatório que comece a ser apreendida por todos, concretizada pelas co-
munidades e mobilizando de forma marcante uma fatia significativa dos recursos públicos.
220 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Luchar por la Subsistencia: Otros Tiempos,
Otras Actividades

José Manuel Llorente Pinto


Professor da Universidade de Salamanca

El mundo rural que hemos heredado es un abigarrado ámbito de esperanzas y frustra-


ciones en el que la diversidad encubre las profundas transformaciones experimentadas en
las últimas décadas por todos los territorios, que han visto cómo se pulverizaba la sociedad
tradicional. Esta tierra de los ancestros de todos nosotros ha pasado en pocos años de ser
el motor multisecular de la economía y de la sociedad a jugar un papel secundario, de
pendiente de las decisiones, de los intereses y de los gustos ajenos y de una lógica que se
construye frecuentemente en lugares muy alejados.
Así, los lugares, según los conocimos, se vuelven extraños, y la memoria de esos lugares
se adelgaza, se eclipsa, se hace borrosa, porque las nuevas realidades o poco tienen que ver
con aquello o lo reinterpretan con formatos folclorizados o turísticos en los que el “facha-
dismo” impone sus reglas y no sólo en el terreno del patrimonio arquitectónico. Es cierto 221 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
que los territorios siguen existiendo pero su sustancia se ha modificado: el campo pierde así
contenido material, pero en determinados casos acrecienta su valor simbólico, porque se
configura como el refugio de ciertas identidades territoriales, porque tiende a convertirse
en la referencia nostálgica de un pasado mitificado.
Los paisajes no se han desmenuzado en todas partes a la misma velocidad. Ciertos
elementos de los mismos o determinados paisajes se han visto protegidos en unos casos
por procesos de rehabilitación y en otras ocasiones su propia fosilización los ha preserva-
do, no sabemos hasta cuándo. Pero la mutación del contenido profundo de los espacios
rurales tiene que ver sobre todo con el radical cambio en el significado de las actividades
productivas, que han pasado de ser el fundamento material de la propia subsistencia a
convertirse en el instrumento para la obtención de unas rentas. Resulta así cada vez más
difícil hacerse una idea de lo que era la vida tradicional en cualquier pueblo, porque las
oscilaciones estacionales y cotidianas de la vida local, los quehaceres de sus habitantes, se
nos presentan como un amortiguado y deformado eco.
A mediados de los años 50, el pueblo de T. apenas resultaba visible desde la destar-
talada carretera empedrada y sólo asfaltada en dos carriles que zigzagueaba entre panes y
algunos bacelares, siguiendo el antiguo camino que llegaba desde la capital comarcal. Al
contrario de lo que hoy ocurre, con el reluciente frontón que se divisa desde los núcleos
vecinos o con el imponente depósito de agua, hace medio siglo el caserío apenas se dis-
tinguía de un fondo de colores variables, pero casi siempre cálidos y mates, que todavía
se mimetizaban más con las casas cuando a las horas centrales del día esa luz cegadora
desdibujaba los perfiles y fundía los ribazos del terreno con los zócalos de mampostería
de aquellas sobrias y recias dependencias: viviendas, corrales, paneras, pajares o bodegas.
En esta zona se labraba con vacas, y en verano el trasiego de carros tirados por yuntas
se repetía a lo largo del día con la excepción de esas horas en las que el calor parecía hacer
más denso el aire y la vida se ralentizaba momentáneamente. Las vacas, de belfos blancos y
capa oscura, eran bastante gran des si se comparaban con las cerriles que recorrían incan-
sablemente la dehesa particular que ocupaba los confines septentrionales del término. Aún
así parecía imposible que pudieran con aquellas enormes cargas de paja recién trillada que
conducían desde las eras hasta los pajares, y vuelta a empezar, con esa cadencia sosegada
pero firme.
Todo era trabajo. O al menos así lo recuerdo yo. El asueto era sólo cosa de los niños
pequeños o para fechas señaladas, y la tertulia siempre iba acompañada de otra tarea, que
parecía aligerarse por el hecho de que mientras se cosía, se lavaba, se segaba o se ordeñaba,
la conversación hacía que el tiempo discurriera más rápido y menguaran los deberes.
Todo era también esfuerzo. Conseguir cualquier cosa resultaba siempre complicado y
222 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

por eso se valoraba todo como una joya. El agua se sacaba del pozo del corral; pero si el año
había venido malo, el pozo se secaba en verano y había que ir hasta la fuente para llenar los
cántaros. Por eso los hombres se aseaban con el agua contenida en una palangana, y nada
se despilfarraba porque nada sobraba.
El esfuerzo era un esfuerzo físico, porque las máquinas eran escasas, y el duelo era
constante con esa naturaleza que sólo a medias parecía domeñada. Por eso las fórmulas de
aprovechamiento tradicional se caracterizaban por un complejo entramado de delicados
equilibrios que se reflejaban en unos sistemas de organización del espacio que hoy nos
parecen un rompecabezas y en unos modelos de articulación social sutiles y pautados.
En aquel tiempo casi todas las familias de T. se dedicaban principalmente a la labranza.
Ese era el caso de Agustín, que en el cerco del pueblo disponía de algunos pequeños peda-
zos de huerta donde recogía a lo largo del año berzas, coles, puerros, fréjoles, calabacines,
tomates, pimientos, alubias, cebollas y patatas, y también de alguna cortina de dicada a
herrén y que cultivaba todos los años para sostener al ganado de labor en las épocas más
críticas, porque el resto del año las vacas pastaban en la masa común, que era un buen
prado salpicado de fresnos, y en la dehesa boyal, donde las encinas, algo veceras, podían
acabar cebando en la montanera a los cerdos que se criaban el resto del año a base de los
desperdicios de cada casa.
El terreno de labor estaba dividido en dos hojas: una se cultivaba y otra permanecía de
barbecho, aunque en pequeñas porciones de esta última se recogían garbanzos y lentejas.
Las tierras estaban repartidas por las dos hojas, y cada familia disponía de más de cuarenta
parcelas que de ancho no solían tener más de un tiro de piedra y que se cultivaban ge-
neralmente de trigo. El rastrojo lo aprovechaban rebaños de ovejas forasteros que hacían
después el majadeo en el terreno barbechado, preparando así la próxima cosecha. Pero la
modernidad estaba a punto de llegar, porque los peritos habían empezado ya los trabajos
para acabar con aquel laberinto imposible de besanas; y se decía que con la concentración
parcelaria llegarían también los tractores.
Pero antes de esto, todo era trabajo, todo era esfuerzo, una lucha titánica para sacar
de aquellas tierras, que no eran malas, en torno a diez fanegas la fanega en el mejor de los
casos. Y una había que dejarla para la simiente del año siguiente, y además había que des-
contar la iguala del herrero, del médico, del boticario, la propina del sacristán y lo que se
terciara. Y, además, luchar (bregar) todo el año con los ratones para que el muelo que pare-
cía tan grande en la era en el verano no mermara más de la cuenta el resto de las estaciones.
Era una vida dura la de estos labradores, que, aún así, se consideraban unos privile-
giados cuando se comparaban con el recuerdo que tenían de aquellos carruchinos que
venían antaño desde las alejadas sierras con sus carretas repletas de carbón de brezo para
223 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
las fraguas, o de aceite, para después volver con trigo o sal hasta sus fragosos paisajes. Lo
que estos campeños no podían ni imaginar es que esos serranos que ellos veían eran unos
verdaderos afortunados comparados a su vez con los carboneros de verdad, es decir, con
los que descepaban el brezo y quemaban los tuérganos en las faldas de la Sierra de Gata, ya
que éstos eran jornaleros con ninguna o poca propiedad, que cuando no trabajaban en las
tierras de otros vecinos o bajaban a segar a las comarcas trigueras o a recoger la aceituna a
Extrema dura, se ejercitaban en la fabricación de carbón.
Aquí las cosas eran algo distintas, porque la mayoría de los vecinos eran labradores
medianos que para vivir no necesitaban salir de casa; y aun así su existencia consistía
fundamentalmente en asegurarse su propia subsistencia, en garantizar formalmente el
mantenimiento de la familia. Y por eso además de la cosecha principal de cereal, que en
buena medida se vendía, se destinaban básicamente al consumo interno las legumbres, las
hortalizas, los embutidos y tocinos procedentes de los cebones, los huevos y pollos de las
gallinas que deambulaban entre las eras, corrales y pajares, los pichones de los palomares,
la leche de las sufridas vacas de labor, que también daban un ternero que se solía vender
por San Martín, y el vinillo clarete y algo espumoso que se consumía en el propio año de
su vendimia. Para la lumbre se utilizaba la leña procedente del desmoche y destaramado
de las encinas de la dehesa.
Y todo esto con gran prudencia, sin alardes, con extrema moderación y templanza,
porque la principal forma de ahorrar consistía en no despilfarrar, además de en consumir
lo imprescindible y que eso procediera de casa. Sólo algunas fiestas muy señala das quebra-
ban aquella rutina de áspera disciplina; como cuando por Pentecostés se hacía la romería a
la Ermita del Cristo del Cueto. Allí se reunía toda la comarca, se fraguaban bodas y nego-
cios y por un día parecían aprobarse algunos dispendios: obleas y barquillos para los niños,
algo de quincalla y menaje para ellas, las copas, los puros y los naipes para ellos. Mañana
volvería la faena y, con ella, la severa cadencia de los días con sus esforzados quehaceres y
su mesura.
Amarrado a su paisaje, que reproduce en toda su hondura la forja de identidad de
estas tierras, el apretujado caserío que se ajusta a las arrugas del pequeño resolano no es
más que un componen te más, como el minúsculo parcelario, la rotación a año y vez, los
apartados encinares o los prados comunales, de ese desabrido recorrido que culminó con
la construcción de una determinada civilización agraria que todavía dota de significación
a de terminados elementos del territorio. Pero eso eran otros tiempos. Hoy la actividad
agraria y ganadera se encoge y, sin embargo, el pueblo se desparrama en tentáculos de hi-
leras de viviendas con jardín. Mientras se esfuma a toda prisa la memoria de los antiguos
paisajes, T. es cada vez más visible des de el Alto del Viso, con sus nuevas construcciones
que desbordan en todas las dimensiones el antiguo asiento mineral en el que estaba engar-
224 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

zado como una perla.


Espaço rural português: despovoamento,
declínio da agricultura e aumento do risco
de incêndio florestal

Luciano Lourenço
Professor Catedrático no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade
de Letras de Coimbra da Universidade de Coimbra; Centro de Estudos de
Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Há muito que nos habituámos a associar o êxodo rural e o abandono da agricultura de


muitas regiões de Portugal, sobretudo do interior Norte e Centro, considerando natural
a atração dos centros urbanos e, por conseguinte, sem nada fazer para contrariar essa ten-
dência de concentração na sede do distrito, do município ou da freguesia, uma vez que, do
ponto de vista político, social e económico, só aparentava ter vantagens.
Todavia, não foi necessário esperar muito tempo para se perceber que as consequências
do progressivo e paulatino despovoamento desses territórios, iniciado em meados do sécu-
lo passado e estimulado a partir do seu último quartel, tinham mais inconvenientes do que
vantagens, mesmo pensando apenas em termos meramente económicos.
A consequência mais visível desse êxodo rural traduziu-se no declínio da agricultura
e no posterior abandono dos campos agrícolas, em muitos dos quais se praticava uma
agricultura marginal, de subsistência ou de complementaridade, mas que desempenha- 225 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
va um importante papel em termos de paisagem, quebrando a continuidade da floresta,
contribuindo assim para travar a progressão dos incêndios florestais e para alimentar uma
impressionante quantidade de múltiplos serviços que, em termos de ecossistema, não eram
(e, muitos deles, continuam a não ser) contabilizados do ponto de vista económico, por-
que a sua valoração não é diretamente quantificável e, por conseguinte, torna-se difícil de
valorizar economicamente, o que contribui para a não atribuição de valor a essa importan-
te componente de sustentação ambiental.
Com efeito, embora a prestação desses serviços seja fundamental para o normal fun-
cionamento dos ecossistemas, ao não serem contabilizados, não são valorizados. Este
conjunto de serviços ecossistémicos inclui, entre outros, aqueles que costumam ser desig-
nados por:
- serviços de provisão, tais como: o fornecimento de alimentos (frutos, raízes, animais,
mel, vegetais), de água potável (de qualidade e em quantidade), de matérias-primas para a
construção e como combustível (madeira, biomassa, óleos de plantas) e de recursos gené-
ticos vegetais ou medicinais;
- serviços de regulação, seja: climática, do ciclo da água, do sequestro carbono, da cap-
tura de poluentes ou da melhoria da qualidade da água, do ar e do solo;
serviços de suporte, como sejam: a formação do solo, a produção de oxigénio, a recicla-
gem de nutrientes ou a manutenção da biodiversidade;
- serviços de cultura (ou culturais), designadamente os ligados ao turismo: ecoturismo,
micoturismo, turismo rural e da natureza, mas também os de recreio e lazer, de estética e
de inspiração, ou ainda os do património natural e edificado, muitas vezes traduzidos em
valores educacionais e de herança cultural.
Porque alguns destes serviços não foram devidamente valorados, o êxodo rural foi
maior do que teria sido se tivesse sido feita essa valorização, pelo que ao compararmos a
paisagem rural existente numa mesma área, em meados do século passado e na atualidade,
encontramos contrastes enormes que, basicamente, se podem reduzir aos três seguintes
aspetos:
- substancial redução ou mesmo eliminação da área agrícola envolvente das aldeias
e crescimento da área urbana das vilas e cidades que passou a invadir espaços florestais,
muitos dos quais, anteriormente, eram agrícolas, com consequências diretas nos incêndios
de interface urbano-florestal;
- transformação natural e progressiva, por abandono dos campos de cultivo, de muitas
áreas agrícolas em espaços florestais, que constituíam áreas-tampão ao avanço dos incên-
dios, aumentando assim a continuidade horizontal da floresta e facilitando a progressão
dos incêndios;
226 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

- alteração das espécies florestais, primeiro pela transformação de espaços incultos


que, progressivamente, foram sendo ocupados por mato e pinhal. Posteriormente, depois
do aumento dos grandes incêndios, pela paulatina substituição da floresta de pinheiros
e do que restava da floresta de espécies autóctones, tanto em vertentes como ao longo
dos pequenos vales e valeiros, e que também servia de travão à progressão dos incêndios,
em eucaliptais a perder de vista, cuja continuidade horizontal favorece a progressão dos
incêndios.
Com efeito, as difíceis condições de vida de muitos habitantes do interior, por falta
de investimento do Estado, explicam o abandono da agricultura e a procura de melhores
condições de vida noutros locais, o que conduziu ao despovoamento e, em consequência,
a alterações no processo de gestão dos espaços florestais, dando origem a novas paisagens
que, por falta de gestão, são muitas vezes indefensáveis quando as chamas nelas penetram.
É óbvio que não seria possível manter o estilo de vida dos anos 50/60 do século passa-
do, mas teria sido possível reduzir substancialmente o êxodo rural se tivessem sido dadas
alternativas a uma parte substancial dessa população.
E agora, o que fazer?
A resposta parece simples e consistirá em fazer, apenas, aquilo que já deveria ter sido
feito há muito tempo. Revisitando escritos com mais ou menos anos, facilmente encon-
traremos muitas das medidas que foram sendo propostas ao longo dos últimos cinquenta
anos. Num desses textos, sobre o “Risco de incêndio florestal em Portugal Continental”,
publicado na Informação Florestal, n.º 4, Lisboa, 1994, p. 22-32, indicámos sete medidas
para salvar a floresta portuguesa (p. 31-32). Como não foram tomadas, 25 anos depois,
parece-nos que ainda mantêm atualidade, pelo que entendemos fazer de novo a sua leitura.
A primeira, propunha a “compartimentação das regiões com aptidão florestal em sub-
-regiões com características semelhantes, as quais passariam a constituir futuras unidades
de intervenção independentemente de serem públicas ou privadas”. A posterior criação das
ZIF tentou dar resposta a este desiderato, mas a sua transformação em projeto/ objetivo
político, retirou-lhes a eficácia que poderiam ter tido na organização e gestão do espaço
florestal.
A segunda, visava a “definição das sub-regiões em que a intervenção é prioritária,
por se situarem em áreas críticas de alto risco, com vista à preservação das matas ainda
existentes e à recuperação das áreas ardidas”. Sabemos que os recursos são limitados e, por
conseguinte, em vez de serem distribuídos segundo critérios que, por vezes, parecem in-
compreensíveis, teria sido preferível investi-los em áreas prioritárias e, depois, promover a
respetiva gestão, mas não foi isso que sucedeu. Com efeito, a generalidade das arborizações
efetuadas acabaram por ficar entregues a si próprias e, anos mais tarde, foram reduzidas
a cinza. Ora, se estas sub-regiões se organizarem em “unidades de gestão” com dimensão
227 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
suficiente para serem rentáveis e com dinâmica empresarial, constituídas por associação
dos proprietários, arrendamento, compra e venda, ou qualquer outra forma que viabilize
a sua exploração por um tempo suficientemente longo, o qual permitirá a rentabilização
do investimento feito e evitará a continua subsídio dependência às intervenções florestais,
essas unidades tornar-se-ão autónomas e rentáveis. A subsidiação será fundamental na sua
fase inicial, mas depois ela deverá traduzir-se em acompanhamento técnico e fiscalização,
de modo a viabilizar a empresa e a torná-la dinâmica e auto suficiente.
A terceira, destinava-se à “inventariação dos respetivos cadastros”. Atendendo ao
tempo decorrido e embora considerando importante “saber o que é de quem”, pensamos
que agora esse levantamento poderá ter um enquadramento diferente, atendendo a que
não foi efetuado em tempo útil, a que o contexto social também se foi alterando e, sobre-
tudo, porque os processos de recolha de dados, bem como de representação cartográfica
se simplificaram, pelo que haverá agora formas mais expeditas de conseguir esse objetivo,
através de um cadastro simplificado, sem necessidade de proceder ao levantamento da
forma então usada.
A quarta, tinha em vista a “elaboração dos projetos florestais adequados a cada uma
delas”. Hoje consideramos que teria sido mais correto propor, a “elaboração, execução e
manutenção” dos projetos florestais, uma vez que elaborá-los é, apesar de tudo, relativa-
mente fácil. Ainda conservo um projeto para arborização de uma parte da área queimada
num grande incêndio de 1987, projeto que apesar de, tecnicamente, estar muito bem ela-
borado, nunca chegou a ser executado, ao contrário de um outro semelhante, implementa-
do numa área contígua, queimada pelo mesmo incêndio. Todavia, depois disso, essas áreas,
como muitas outras, não foram geridas (ou não o foram convenientemente) e tiveram o
mesmo destino: voltaram a ser percorridas por grandes incêndios florestais, primeiro no
ano de 2005 e depois, de novo, em 2017. Daí que elaborar projetos seja relativamente
fácil, tarefa que, por vezes, até é atribuída a estudantes estagiários, do mesmo modo que,
existindo recursos financeiros, a sua execução não é complicada, uma vez que é necessário
executá-la somente uma única vez e existem empresas disponíveis para o fazer. Daí que
o difícil, diria mesmo, o que tem sido quase impossível de realizar, é a sua manutenção,
uma vez ela implica não só recursos financeiros, mas também, e sobretudo, capacidade de
gestão, persistência, trabalho continuado e quase sem visibilidade, ao contrário do que su-
cede com as plantações ou com o combate aos incêndios florestais. Ora, na nossa opinião,
o tipo de projeto preferencial para as unidades de gestão antes mencionadas deverá con-
templar o uso múltiplo da floresta, integrando floresta de produção (de madeira, cortiça,
biomassa para a energia, resinas naturais, frutos e sementes) com floresta de proteção (da
rede hidrográfica, ambiental, microclimática, ou contra a erosão, as cheias e os incêndios
florestais) e floresta de conservação (de habitats classificados, de espécies protegidas da
228 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

fauna e da flora, de geomonumentos), sempre que tal se justifique, por exemplo com a
manutenção de galerias ripícolas junto a linhas de água, que também podem servir como
corredores ecológicos e de faixas naturais (aceiros verdes), para defesa da floresta. A floresta
de uso múltiplo permite que, além dos três tipos de floresta antes mencionados, se lhe
associem outras atividades, como sejam a silvo-pastorícia, a apicultura, a caça e a pesca
nas águas interiores, ou o recreio e o turismo, devidamente enquadrado e com valorização
da paisagem, ou, ainda, o sequestro do carbono. Com efeito, a floresta de uso múltiplo
parece-nos aquela que, em termos de futuro, se tornará mais viável, se for desenvolvida em
unidades com dimensão suficiente para serem autónomas e auto financiáveis, desde que
sejam geridas com uma dinâmica empresarial, capaz de gerar riqueza.
A quinta, diz respeito à “sensibilização dos proprietários florestais”. Se bem que nos
últimos anos ela tenha melhorado um pouco, no que à prevenção diz respeito, há todavia
um longo caminho a percorrer e um grande trabalho de extensão florestal a realizar, até
que se consigam criar as ditas unidades florestais de gestão rentável, capazes de assegurar
rendibilidade aos proprietários e, sobretudo, para que possam passar a ter outras opções
viáveis, além do eucalipto.
A sexta, trata da “afetação de meios técnicos e humanos”. Se é verdade que houve um
grande investimento em meios técnicos no que ao combate aos incêndios florestais diz
respeito, já a sua distribuição geográfica continua a suscitar-nos algumas dúvidas, bem
como a manutenção da atual organização dos bombeiros que, claramente, é incapaz de,
em primeiro lugar, evitar a ocorrência de grandes incêndios florestais e, depois, de dominar
a progressão desses grandes incêndios. Com efeito, o problema não sendo da falta de meios
operacionais, dirá respeito aos recursos humanos, cuja formação, em muitos casos, até
terá regredido face ao que acontecia há duas dezenas de anos. De facto, é fácil reconhecer
que o atual modelo de organização dos corpos de bombeiros não é o mais adequado ao
sistema de proteção civil vigente e, não tendo havido ainda coragem política para resolver
o problema, ele arrasta-se no tempo e não ajuda a contribuir para a solução. Em contra-
partida, quando pensamos na atribuição de meios técnicos e humanos à floresta, muito
pouco ou quase nada se tem observado, além de uma ou outra ação pontual. Atendendo
à dimensão e potencialidades do território florestal, torna-se necessário criar condições
para intervir neste território, à chamada escala da paisagem, que fazemos corresponder
à das unidades de gestão rentável, para debelar o flagelo dos grandes incêndios florestais.
Como temos afirmado, os incêndios florestais, embora sendo um risco antrópico, não são
um risco tecnológico, pelo que a tecnologia representa um importante contributo para a
sua redução mas não é a solução, dado que eles são um risco social e, por conseguinte, é
nas pessoas, sejam elas proprietários florestais, incendiários ou bombeiros, técnicos flores-
tais e de proteção civil, políticos, investigadores, jornalistas e comentadores, cidadãos, e
229 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
necessariamente com as pessoas que se pode encontrar solução, tanto para os grandes in-
cêndios como para a redução do número de ocorrências. E, para contactar com as pessoas,
é fundamental percorrer o território, estabelecer contacto direto com elas, uma vez que
tem muito mais força do que a informação recebida através dos meios tecnológicos, por
mais sofisticados e diretos que estes sejam. Este aspeto tem sido descurado, mas qualquer
solução terá dificuldade em ser implementada se não envolver os, já poucos, residentes nas
áreas florestais.
A sétima e última medida, correspondia ao “faseamento e calendarização das inter-
venções específicas em cada área, com vista ao acompanhamento e à manutenção dos po-
voamentos”. Com efeito, depois de ter ganho a confiança dos proprietários é importante
estabelecer com eles a programação e calendarização das ações a desenvolver ao longo dos
vários anos, não só com vista à defesa da floresta contra incêndios, mas também com vista
a obter uma produção rentável, de modo a permitir que a floresta volte a gerar riqueza e
em que os incêndios passem a ser uma perturbação de reduzido significado. Mas isso só
poderá ser feito com as pessoas e, em particular, com o envolvimento dos diretamente
interessados.
Obviamente que esta sequência pode ser complementada com outras medidas, mas se
algumas destas já tivessem sido tomadas, certamente que o panorama das florestas e dos
incêndios florestais em Portugal seria bem diferente na atualidade.
Dito isto, cada vez me convenço mais de que, como dizia o Engº Moreira da Silva, “os
incêndios florestais são uma calamidade, mas não são uma fatalidade”. De facto, somos
nós, por incapacidade de resolver o problema, que nos vamos acomodando à sua exis-
tência e os estamos a transformar numa fatalidade. Como escrevemos em 2013, alguns
de nós continuamos a pensar que “Os incêndios florestais em Portugal têm solução”
(Grandes Incêndios Florestais, Erosão, Degradação e Medidas de Recuperação dos Solos,
Universidade do Minho, Guimarães, p. 131-140) mas para que tal aconteça, todos tere-
mos de concatenar esforços e trabalhar nesse sentido, para evitar que sejam apenas alguns
a remar contra a corrente da fatalidade!
230 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Conflitos no campo do brasil entre
camponeses, quilombolas, indígenas e
grileiros 1

Ariovaldo Umbelino de Oliveira


Professor da Universidade de São Paulo (USP)

O capitalismo mergulhou, a partir de 2008, numa crise profunda. Os países não con-
seguem mais se reerguerem com as mesmas facilidades de outrora. Soma-se a crise estru-
tural, a situação grave da pandemia da Covid-19. No Brasil fala-se claramente em como
sair dela, como superá-la.
Assim, o país vai sendo tragado pelo avanço descomunal da dívida pública interna que
não apresenta, sequer pequenos números, que indiquem uma diminuição de seu tamanho.
Em 2019, o Brasil tinha a dívida pública interna era de R$ 4,248 trilhões. O que equivale
a dizer, que o país atingiu o percentual de 90,2% do total. Ou seja, a previsão para 2023,
será de 96,3%, e, por volta de 2025, o total será 100%. Os sinais do futuro são negros para
todos os brasileiros.
Soma-se a essa questão do endividamento interno, a questão dos dados do Censo
231 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Agropecuário de 2017, que indicou para o país 5.073.324 estabelecimentos contra um
total de 5.175.636 que havia em 2006, período do último censo. Uma diminuição de
102.312 estabelecimentos, ou seja, de menos de 1,98%. Porém, esta diminuição no nú-
mero de estabelecimentos não significa que esteja diminuindo o número dos proprietários,
pois, estes aumentaram de 3.946.411, em 2006, para 4.108.639 proprietários, em 2017,
ou seja, um total de 162.228 estabelecimentos a mais que 2006, ou 4,11% de aumento.

1
*A grilagem de terras é a falsificação de documentos para, ilegalmente, tomar posse de terras devolutas ou de terceiros, bem como de prédios ou prédios indivisos. O termo também

designa a venda de terras pertencentes ao poder público ou de propriedade particular mediante falsificação de documentos de propriedade da área. Os agentes de tal atividade são

chamados grileiros
.
Lembre-se que a diminuição ocorreu entre aqueles estabelecimentos que não possuíam a
propriedade da terra, ou seja, os arrendatários, os parceiros e os ocupantes.
Esse número associado a estrutura violentamente concentrada da terra no país, mos-
trou de que lado estão os muitos funcionários públicos que lá trabalham. Estão do lado
dos grileiros e dos homens mais ricos de nossa sociedade.
Aliás, ao lado dos grileiros, pois, no curto período de dois anos o vice que virou pre-
sidente, Michael Temer, enviou ao Congresso a MP 759 que tratou de resolver juridica-
mente o problema da grilagem de terras no país. Este documento virou a Lei no 13.465,
em 11 de julho de 2017, e que teve o Decreto no 9.310 em 15 de março de 2018 que a
regulamentou. Dessa forma, via legal, os grileiros de terras vão regularizando seus grilos,
até 2.500 hectares. Aquelas propriedades griladas que excediam esta dimensão vão aguar-
dando outra “oportunidade”.
Depois que passou este curto governo de dois anos, iniciou-se outro em 2019, o de Jair
Bolsonaro eleito para quatro anos, que tratou de empossar no cargo de secretário especial
da Secretaria Especial de Assuntos Fundiários - SEAF/MAPA, ninguém mais ninguém
menos do que Luiz Antônio Nabhan Garcia, que se apresentou com um currículo onde
encontrava-se o cargo que ocupava antes de assumir a Secretaria: “Presidente da União
Democrática Ruralista – UDR – Brasília – DF- período: 30 de março de 2013 a 31 de de-
zembro de 2018.” Esta pessoa é o responsável pelas ações do governo federal atual com re-
lação as medidas fundiárias. É uma espécie de uma “raposa tomando conta do galinheiro”.
É por isso que no governo federal atual não se fala mais em reforma agrária, é como se
o Capítulo III – Da Política Agricola e Fundiária e da Reforma Agrária, e os artigos 184,
185, 186, 187, 188, 189, 190 e 191 da Constituição Federal estivesse desaparecido, não
existissem mais. E lembrar que o artigo 184 diz que “compete à União desapropriar por
interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua
função social”, e, o artigo 186 diz que “a função social é cumprida quando a propriedade
rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em
232 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

lei”.
Mais, muito mais, a obrigação do governo federal fazer o PNRA (Plano Nacional de
Reforma Agrária), previsto na Constituição Federal do Brasil, e, antes dela, prevista na
Lei que criou o Estatuto da Terra, a lei 4.504 de 30/11/1964. Todas elas exigiam, porém,
não se tornou realidade pelos governos militares (65/84): O governo Sarney 85/89 fez o I
PNRA. Entretanto, os governos Collor/Itamar 90/94, e o governo FHC 95/98 e 99/02,
não o fizeram. O governo Lula 03/06 fez o II PNRA, mas, o governo Lula 07/10 não o
fez, nem o governo Dilma 11/14, e muito menos o governo de 15/16. O governo Temer
16/18 não fez, e, o governo Bolsonaro 19/22, também, ainda não fez.
Assim, a paciência já esgotou faz muito tempo, só há um rumo a seguir, aquele da con-
testação, do grito sem parar. É por isso que se precisa de lemas como este a seguir: Reforma
Agrária, Dever do Estado, Direito do Cidadão. Ou este outro, por exemplo: Reforma
Agrária é o instrumento de Política Pública para se fazer Cumprir a Função Social da
Propriedade Privada da Terra no Brasil. É como não se pudesse ser dito mais, mas, tudo o
que estão fazendo contra a Reforma Agrária, não merece esse silêncio impostos pelos meios
de comunicação de massa, pelos órgãos governamentais, e por muita gente mesmo. Por
isso é necessário dar um basta nesse silêncio sepulcral instalado por todos os lados no país.
Chega de tanta hipocrisia e silêncio, abramos nosso peito e gritemos bem alto: o governo
atual está cometendo um crime contra a Constituição Federal de 1988, particularmente,
porque não faz mais a Reforma Agrária.
Foi por todos estes atos e fatos que os conflitos no campo e sua companheira insepará-
vel a violência, não pararam de aumentar. E ela vem acompanhada do número de pessoas
assassinadas, que vão pintando com cores vermelhas os conflitos no campo brasileiro.

1. Os conflitos no campo no Brasil

Os conflitos no campo no Brasil alcançaram 1.834 conflitos em 2019. Destes, foi o


primeiro lugar em conflitos por terra já registrado no Brasil, que foi de 1.207 em 2019.
Outros dados são importantes e estão presentes no gráfico 01 e são relativos a ocupações/
retomadas e novos acampamentos que foram mais expressivos em 1998 e 1999 para os
primeiros, e, 2003 e 2004 para o segundo.
Levando em consideração o número de famílias envolvidas nos conflitos no campo
apresentaram dados um pouco diferente, pois, traziam o período do primeiro governo pós
período governado pelos militares, ou seja, o governo Sarney, quando apresentou dados
expressivos (133.435 famílias em 1987) entre 1985 e 1988. É bom lembrar que este foi o
período do I Plano Nacional de Reforma Agrária, e um dos mais violentos conflitos por 233 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
terra.
Depois, o período do primeiro mandato de Lula na presidência da república, ou seja,
entre 2003 e 2006, foi o tempo mais significativo dos conflitos no campo. Neste período,
foi quando, em 2003, chegou-se à presença de mais 100 mil famílias envolvidas em confli-
tos por terra no Brasil. Foi neste período que, pela segunda vez, o país conheceu o II Plano
Nacional de Reforma Agrária. Mas, quis a verdade que o país conhecesse a derrocada da
reforma agrária, pois, foram, no segundo governo de Lula, e, nos dois de Dilma que o país
conheceu “o final da reforma agrária”.

Gráfico 01
Entretanto, não foi somente do governo do Partido dos Trabalhadores que partiu este
lema antirreformista, mas, foi também, do principal movimento popular de luta pela re-
forma agrária, que veio a segunda derrota. Sim, foi do agora Movimento dos Sem Terra,
que havia mudado sua orientação política no ano de 2007. E trocou seu histórico lema
de luta pela reforma agrária já, pelo lema da luta pela reforma socialista para o futuro. Foi
o que sucedeu deste período até hoje, despencou o número de ocupação/retomada e de
novos acampamentos, e, no inverso, aumentou o número de conflitos por terra no Brasil.
Foram os seguintes dados em 2008, o número de famílias envolvidas em conflitos por terra
foi de 42.531, sendo que aquelas envolvidas nas ocupações/retomadas foram de 25.559
famílias, e, aquelas relacionadas nos novos acampamentos foram apenas 2.755 famílias. E,
comparando-se com os dados de 2019, ocorreu o total de 144.537 famílias envolvidas em
conflitos por terra, e, somente 3.476 famílias entre aquelas das ocupações/retomadas, e,
234 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

apenas 1.064 entre aquelas dos novos acampamentos.


É o final de um tempo em que se lutava pela reforma agrária tendo como esteio o
Movimento dos Sem Terra, agora, segue-se a luta pela reforma agrária, mas, sem um movi-
mento que dê o norte ao processo geral. Mas, uma coisa é certa, a luta pela reforma agrária
continua cada dia mais forte.
Visando, melhor mostrar, esta mudança na orientação política que o MST conheceu
nos últimos treze anos, apresento, agora, os dados sobre conflitos em um gráfico de cur-
vas sobre cada um dos três dados básicos. Observando-se o gráfico 02, verifica-se que a
curva dos conflitos por terra tem uma trajetória completamente diferente das duas outras:
ocupações/retomadas e novos acampamentos. Esta trajetória se inicia com o destaque dos
636 conflitos por terra em 1985. Este período foi aquele do início do governo Sarney após
mais de 20 anos do governo militar. Naqueles tempos, o Brasil conheceu a elaboração do
I Plano Nacional de Reforma Agrária, e, junto com ele, a fundação da União Democrática
Ruralista (UDR) liderada pelo médico de Goiás, Ronaldo Caiado. Foi um tempo dos
maiores assassinatos no campo brasileiro. Depois deste período veio os anos noventa e
a eleição de Fernando Henrique Cardoso, e, com ele o início da alavancagem do cresci-
mento do MST como movimento de massa na luta pela reforma agrária. Cabe salientar
que neste período ocorreram as repercussões em nível nacional e internacional provocados
pelos massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás, que desencadearam uma grande
onda de protestos contra a impunidade das forças policiais envolvidas e a necessidade de
se fazer a reforma agrária urgentemente. Isso sem falar da tensão crescente no Pontal do
Paranapanema, em decorrência da violência dos latifundiários, e, a Marcha Nacional por
Reforma Agrária, Emprego e Justiça que reuniu 100 mil pessoas até Brasília em 1997.

Gráfico 02

235 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

É curioso observar que de 1996 a 2000 foi um período de domínio do MST no campo
brasileiro, pois, ele atingiu no primeiro ano (1996) o total de 653 conflitos no campo com
255 conflitos por terra e 398 ocupações/retomadas. Essa hegemonia do MST no campo
no país, continuou em 1997 com 658 conflitos no campo, sendo que 195 conflitos por
terra e 463 ocupações/retomadas; em 1998 os números foram 751 conflitos no campo
e 152 conflitos por terra e 599 ocupações/retomadas; em 1999 foram 870 conflitos no
campo, sendo que foram 277 conflitos por terra e 593 ocupações/retomadas; e, no ano
2000 foram 558 conflitos no campo, sendo que foram 168 conflitos por terra e 390
ocupações/retomadas.
Depois, veio dois anos de baixa geral motivada pelas medidas anti-movimentos feita nos dois
últimos anos do governo Fernando Henrique, a saber, aumentou a criminalização das ocupações
de terra proibindo que as mesmas, fossem vistoriadas por dois anos, suspendendo qualquer nego-
ciação em caso de ocupação de prédios públicos pelos envolvidos no processo de desapropriação.
Além, dessa medida, o governo de Fernando Henrique fez o projeto de reforma agrária sem
reformar nada: a famosa “reforma agrária” pelos Correios, que não fez reforma alguma.
No primeiro mandato de Lula surgiu esperança de se fazer a reforma agrária no país.
Ledo engano, pois, o desejo de se fazer a reforma agrária morreu no ninho, pois, o pre-
sidente Lula matou a reforma, fazendo com que a equipe liderada por Plinio de Arruda
Sampaio, tivesse o plano da reforma feito, porém, só que não seria seguido. Fez uma meia
reforma, e chegou ao final do primeiro mandato com um número de novos assentamentos
pouco mais de 155 mil. Mas, foi o período que mais se fez reforma agrária nos quatorze
anos dos governos petistas no país.
No ano de 2007, o MST fez seu 5º Congresso Nacional em Brasília, e neste evento ini-
ciou o processo de mudança na sua história. Abandonou sua trajetória de mais de 20 anos de
luta pela reforma agrária, e, passou a lutar para se constituir em um “partido político”. Por
isso, passou a lutar por “reforma agrária popular” que seria correspondente a uma reforma
agrária socialista. Esse processo culminou em 2019, com um total de 28 ações de luta pela
reforma agrária com o envolvimento de apenas e tão somente, 2.353 famílias envolvidas.

Gráfico 03
236 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Este processo de retirada do MST da luta pela reforma agrária, iniciado em 2007,
ocasionou uma mudança na curva de conflitos por terra no campo brasileiro, pois, os
dois gráficos 02 e gráfico 03, apresentaram um comportamento conjunto das duas outras
curvas: a de ocupações/retomadas e a de novos acampamentos que passaram a cair rapi-
damente. Mas, quis a verdade que os conflitos por terra seguiram a mesma tendência até
2008, para depois, em 2009, iniciarem uma descolagem das duas outras curvas, ou seja,
da de ocupações/retomadas e de novos acampamentos.
E, a partir daí a curva de conflitos por terra ganhou projeção e atingiu em 2019 o total
de 1.207 conflitos com um número de famílias envolvidas de 565.992, constituindo-se no
maior número de conflitos e de famílias envolvidas nos conflitos por terra até hoje no país.
Esse aumento do número de conflitos por terra entre 2008 e 2019, foi de 163%, e, no nú-
mero de famílias foi de 166%. Ou seja, um aumento de mais de uma vez e meia, quer no
número, quer no número de famílias envolvidas. Cabe ressaltar que o número de famílias
envolvidas em conflitos por terra apresentou os maiores índices em 1986, quando chegou a
mobilizar 594.448 famílias, e, particularmente em 1987, quando atingiu o total de 667.177
famílias. Em 2019, o resultado foi de 565.992 famílias envolvidas em conflitos por terra.

2. Os assassinatos no campo

Um dos pontos mais trágicos dos acontecimentos envolvendo os movimentos socioterri-


toriais no campo brasileiro são os assassinatos. Eles têm ocorrido em grande quantidade e por
isso apresentaram o dado de 2.576 assassinatos em conflitos no campo de 1964 a 2019. Desse
total, ocorreram durante o período da ditadura militar 687 assassinatos em conflitos no campo
brasileiro. Durante o governo Sarney foram 605 assassinatos; no governo Collor/Itamar foram
outros 311 assassinatos; no governo FHC foram 292 assassinatos; no governo Lula foram 304
assassinatos; no governo Dilma foram 246 assassinatos; no governo Temer foram 99 assassina- 237 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
tos; e, no primeiro ano (2019) do governo Bolsonaro foram 32 assassinatos em conflitos no
campo. Estes números demonstram a violência com que os conflitos se dão no campo brasileiro.
Dessa forma, os assassinados/as tiveram a seguinte distribuição regional: região Norte
1.097 pessoas ou 42,6%; região Centro Oeste 3l2 pessoas ou 12,1%; região Nordeste 793
pessoas ou 30,8%; região Sudeste 243 pessoas ou 9,4%; e, região Sul 131 pessoas ou 5,1%.
Assim, o processo histórico vai sendo escrito por aqueles que lutam e buscam no
futuro um lugar para que possam produzir, e de outro, aqueles que nunca fizeram nada,
buscam indicar o caminho da reação e do conformismo. Portanto, antes que seja tarde
demais, à luta companheiros, porque ela está se ampliando no campo brasileiro!
Bibliografia

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Triângulo Mineiro, Terra da Chapadas e Veredas

Cláudio Antonio Di Mauro


Professor do Instituto de Geografia, Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Chapadas e Veredas: (geo)morfologia e ecossistemas

A Região Administrativa do Triângulo Mineiro, definida a partir dos baixos cursos do


rio Paranaíba e do rio Grande, localiza-se no estado brasileiro de Minas Gerais. Esses dois
grandes rios se encontram para formar o imponente rio Paraná que, a partir da Argentina
e do Uruguai, recebe o nome de rio da Prata, até despejar suas águas no Oceano Atlântico.
É nesse rincão do Brasil que se situam as nascentes da Bacia Platina e, também, as bordas
do norte da Bacia Sedimentar do Paraná.
Na Bacia Sedimentar do Paraná originam-se formas de relevo tabular tendo em suas
bases rochas básicas dos derrames basálticos ocorridos no Triássico-Jurássico, recobertas
por sedimentos do Grupo Bauru, de idade cretácica, composto predominantemente por
239 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
arenitos porosos intercalados por lentes de argilitos. Essa composição litológica lhes con-
fere boa qualidade para percolação de água nos arenitos e retenção nos argilitos e nos
basaltos, gerando aquíferos importantes. Os basaltos, embora fraturados, são importantes
agentes de impermeabilização, dificultando a infiltração de água. Os sedimentos mesozói-
cos do Grupo Bauru são recobertos por rochas mais modernas, originadas do terciário e
quaternário, também retentoras de águas subssuperficiais, que dão origem aos aquíferos
livres.
As formas tabulares do relevo, ou seja, seus topos planos são delimitadas por escarpas
onde os canais de drenagem aprofundaram seus leitos e produziram erosão remontante,
podendo ser identificadas capturas de leitos fluviais. Especialmente nas escarpas compostas
pelos arenitos que as contornam, o relevo é sujeito à evolução dinâmica, submetido por
processos geomorfológicos ativos. Nesses pontos, submetidas a elevadas declividades que
favorecem os recuos das escarpas, os sedimentos resultantes desse processo erosivos se acu-
mulam, formando expressivos mantos de colúvios aos seus pés. Os topos planos do relevo
tabular, mesmo apresentando baixas declividades, quase sempre inferiores aos 10°, em
rochas de baixa consolidação, estão expostos, resultando na formação de voçorocas. Nas
escarpas e nos colúvios referidos, onde as declividades são mais vigorosas, são muito fre-
quentes a formação das voçorocas. Assim são as Chapadas que se localizam nos municípios
de Uberlândia e Uberaba.
A Região Administrativa do Triângulo Mineiro é típica do clima tropical, com duas
estações bem marcadas; uma delas é seca, com baixos números das precipitações pluviais
que ocorrem do final de março até o final de setembro, e outra mais úmida, com chuvas
de outubro até o início de março. São repetidos os episódios de chuvas torrenciais, com
elevados milímetros em períodos de tempo muito curtos. O escoamento superficial duran-
te e após as chuvas é intenso podendo formar torrentes e assumir formas de enxurradas.
Contudo, sendo os topos planos, os tabuleiros conseguem reter águas das chuvas que
se infiltram na segunda fase das precipitações pluviais, após haver a substituição do ar que
se encontra nos interstícios, nos poros das rochas e dos solos. Após a saturação dos solos e
das rochas superficiais há uma tendência para formação de topos encharcados, resultando
em inundações e até mesmo em áreas que permanecem alagadas. Nesses topos tabulares,
registram-se pequenas formas de relevo côncavas, com maior capacidade de retenção das
águas das chuvas. Além disso, essas formas côncavas também são adequadas para o aflora-
mento dos aquíferos livres e, em muitos casos, de aquíferos subssuperficiais. Essas formas
de relevo, geralmente inundáveis ou encharcadas, são ocupadas por vegetação de campos
e assumem o aspecto de “brejo”.
São importantes para manutenção do ecossistema de áreas úmidas, caracterizam-se
como berçário de animais que vivem no topo tabular, plano. Servem, também, para recep-
240 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

cionar os pássaros migrantes nos períodos do frio mais intenso no sul do globo terrestre.
Quando essas concavidades aparecem isoladas, de forma circular e ou “ovalada”, na região
lhes é atribuído o nome de covoal, são os covoais. Essas áreas côncavas podem assumir
formas lineares, alongadas, sendo capturadas nos sulcos que caracterizam os escoamentos
superficiais acabando por ser incorporadas às veredas.
Nos topos dessas formas tabulares há condições muito favoráveis à formação das ve-
redas. As veredas são envolvidas pela vegetação do Cerrado. Nas proximidades dos cursos
das veredas a vegetação é herbácea, de campos de áreas alagadas. Tais áreas, em geral, são
ocupadas por muitos exemplares dos Buritis, que se destacam na observação visual. Nas
formas de relevo tabular que se situam entre Uberlândia e Uberaba a paisagem oferece
belos exemplares de veredas. A infiltração das águas, favorecida pela vegetação do Cerrado,
quando ele está preservado, se constitui no importante acontecimento para alimentar os
covoais, as veredas e demais cursos de água que aí se originam. Esses traços das paisagens
e a situação de proteção para flora e fauna fizeram com que a Fundação BIODIVERSAS
(2005) considerasse essas áreas de Uberlândia e Uberaba como prioritárias para conserva-
ção das biodiversidades de Minas Gerais.
Essa beleza exuberante foi inteiramente recoberta pelo Cerrado que se constitui no
segundo bioma em extensão no território brasileiro, sendo superado no tamanho, apenas
pelo bioma Amazônico.

O Berço das Águas: Cerrado, Veredas e a ocupação das Chapadas

As veredas são típicas dos topos dos relevos tabulares de topografias elevadas, 900
metros, mas, também podem ser registradas em vertentes, nas proximidades de escarpas e
ainda em superfícies planas, rebaixadas. Em geral, são desenhadas pela natureza nos locais
onde as camadas de rochas argilosas são sobrepostas por sedimentos arenosos. A publica-
ção de BOAVENTURA, R. (2007) mostra, com lindo levantamento fotográfico e texto, a
importância do Cerrado como “berço das águas”.
No Cerrado do Triângulo Mineiro predomina a vegetação intercalada em fundos de
vales por mata subdecídua e, especialmente nos topos planos, pelas exuberantes veredas.
Há trechos de vegetação arbórea identificada como “relito” de Mata Atlântica. Esses topos
de relevo tabular, recobertos por Cerrado e Veredas, onde se localizam berços de água e
rios, foram ideais para fixação de viajantes que conquistavam o interior do Brasil. Assim é
que os Bandeirantes, saídos de São Paulo, fizeram por essas áreas suas entradas e trajetórias.
Os topos tabulares deram origem ao que recebeu o nome de Chapadas. Nessa Chapada
localizada entre Uberlândia e Uberaba, o escritor Mário Palmério encontrou referências
para escrever seu livro A Chapada dos Bugres. Como o autor não localizou com precisão 241 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
a área por ele assim denominada, é possível se estender sua localização reconhecendo por
aqui também um trecho da Chapada dos Bugres, certamente onde viveram povos nativos,
expulsos e exterminados pela chegada do homem branco, conquistador e “produtor de
território”.
Outra componente da história de ocupação dessa Chapada é a sua identificação como
Chapada da Farinha Podre. Há quem suspeite que essa denominação foi dada pelo fato de
que em áreas desse topo os viajantes deixavam sacos de farinha que, com o passar do tempo
e expostas ao relento, apodreciam. Há também a suspeita de que com os Bandeirantes e
após eles, estiveram pela Chapada portugueses vindos da região central de Portugal, perto
de Coimbra, onde ainda se localiza a freguesia de São Pedro da Farinha Podre. Daí, ter sido
atribuída a essas áreas a denominação de Chapada da Farinha Podre.
Permanece a dúvida Chapada dos Bugres ou Chapada da Farinha Podre? É um assunto
a se aprofundar. O que se pode apreciar é que esses topos planos são bem servidos de água
e portanto, paisagens adequadas expansão da produção da agricultura e da pecuária capi-
talistas no Brasil. Pequena propriedade, produção familiar?
Nem se pode pensar em áreas tão “nobres” e cortejadas. Na segunda metade do século
passado, com a construção de Brasília, as rodovias estimularam a circulação de pessoas e
mercadorias pelo Triângulo Mineiro. A ligação por terra, do Sul do Brasil e de São Paulo
com o Centro Oeste e, em especial com a capital federal, serviu para favorecer o crescimen-
to econômico capitalista nessa Chapada.

A Chapada como Portal do Cerrado: agricultura e degradação am-


biental

Embora reconhecido como o município Portal ou Porta de Entrada no Cerrado, as


forças políticas de Uberlândia decidiram substituir tais componentes naturais pela entrada
do gado e do agronegócio, com aplicação do modelo capitalista. As pastagens em grandes
extensões, o plantio do milho, da soja e da cana de açúcar se constituíram nas preferências
oferecidas pelos cultivos que atenderam, e ainda atendem, as demandas dos mercados
nacional e internacional.
Essa opção de interesses dos negócios tem sido desastrosa para a remoção do Cerrado.
Atualmente, nos topos da Chapada estendem-se enormes propriedades rurais que se uti-
lizam do agronegócio pra atender os interesses do capital e acrescentar fundos à balança
de pagamentos do Brasil. O agronegócio, no Brasil, tem sido importante instrumento de
ajuste das exportações. Mesmo que seja com elevadíssimos custos para os componentes da
natureza, especialmente para o Cerrado e para as águas transformadas em recursos hídri-
242 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

cos. As aplicações de insumos agrícolas e agrotóxicos se dão de maneira intensiva. Ainda


tem sido possível verificar sobrevoos de pequenos aviões, espargindo o que o setor ruralista
chama de “defensivo agrícola”. Talvez, defensivo para a produção de grãos e álcool, mas
envenenadores para a saúde humana e dos animais.
Nessas áreas de topo da Chapada encontram-se as nascentes de rios que abastecem
as áreas urbanas de Uberlândia, Uberaba e Nova Ponte. Os rio Claro, rio Uberabinha
e ribeirão Bom Jardim são importantes fornecedores de águas para abastecer tais muni-
cípios. Uberlândia, como exemplo, recorre para abastecimento urbano de cerca de 600
mil pessoas às águas do ribeirão Bom Jardim, que atende 52% das águas captadas para
abastecimento e o rio Uberabinha permite a captação da água que serve os demais 48%
da população.
Mesmo assim, nas proximidades da represa localizada no baixo curso do ribeirão Bom
Jardim se identificam períodos em que trabalhadores são obrigados a se proteger com
Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para borrifar agrotóxicos em soja transgênica,
ali plantada. Não é novidade que após esse trabalho se precipitem chuvas torrenciais, certa-
mente conduzindo tais produtos químicos para dentro da represa que serve para captação
da água destinada a prover os 52% da população urbana. O abastecimento de água para os
municípios referidos, a médio prazo, está vulnerável e sujeito a riscos importantes de ficar
submetido à crise hídrica.
O mapeamento do uso do solo efetuado por Roberto ROSA (2011), inédito, mos-
tra a seguinte situação: 57,7% da área era ocupada por agricultura; 24,5% ocupada pela
vegetação do Cerrado, nas suas diversas formações (Cerrado arbóreo e mata, arbustivo e
campos); 12% para silvicultura, também uma forma de produção com vegetais exógenos;
5,5% ocupada por pastagens. A área urbana chegava a 0,3%. Em síntese, apenas 24,5% da
área continuava ocupada por vegetação nativa. Todo o restante tinha sido dizimado pelos
interesses do capital.
É nítida a demonstração de que o Cerrado (flora), os cuidados com a fauna e com água
não são prioridades, priorizando o interesse do capital, apesar de provada a importância da
água proveniente da Chapada para o abastecimento público e o desenvolvimento econô-
mico (MAURO e outros, 2011).

Chapada dos Bugres, Área de Proteção Ambiental (APA)

Os impactos negativos que são produzidos e os riscos de redução da disponibilidade de


água, um bem público, segundo a legislação brasileira, levaram um grupo de geógrafos do
Instituto de Geografia da Universidade de Uberlândia a propor a criação de um sistema de 243 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
proteção dos topos da Chapada da Farinha Podre, ou Chapada dos Bugres, que ocupam
áreas dos municípios de Uberlândia e Uberaba.
O Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (SINGREH) permitiu
a criação de Comitês de Bacias Hidrográficas (CBH), o que originou um deles vinculado
à Bacia do rio Araguari, do qual o rio Uberabinha é afluente. Assim, a proposta de criação
da Área de Proteção Ambiental na Chapada dos Bugres foi apresentada para ser incorpo-
rada pelo CBH-Araguari, como instrumento de influência nas políticas de ordenamen-
to do território, sob as origens populares. A incorporação, pelo Comitê, dessa proposta,
seria uma inovação nos processos de gestão dos territórios. Não haveria impedimento de
produção, mas estabelecimento de limites que garantissem a proteção e recuperação de
áreas antes ocupadas pelo Cerrado e, por consequência, garantia da disponibilidade da
água necessária para todas as políticas de desenvolvimento regional. Acatar essa proposta
também teria o cunho inovador, tendo em vista que as práticas de planejamento territorial
no Brasil, quase sempre, são desenvolvidas para atender os interesses dos privados.
Mesmo tendo participado do processo de formulação da proposta de criação da APA, a
Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) regional de Uberlândia, os Sindicatos
de Agricultores dos municípios envolvidos, as Prefeituras dos Municípios de Uberlândia
e Uberaba, o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE) de Uberlândia e a
Central de Desenvolvimento e Saneamento de Uberaba (CODAU) capitanearam a rejei-
ção sumária da criação da APA do Chapadão dos Bugres. Mais uma vez, ficou evidenciada
a apropriação privada dos entes públicos no Triângulo Mineiro. Ou seja, os interesses
privados aprisionaram as estruturas dos poderes locais, os interesses públicos e, com isso,
o CBH Araguari se viu na contingência de abandonar a proposta.
A proteção do Cerrado e das águas na Chapada da Farinha Podre ou Chapada dos
Bugres não é assunto superado e perdido. Constantemente, o assunto volta a ter referên-
cias. Na compreensão da dialética, poderá se constituir em uma “ferida” soterrada, cicatri-
zada de maneira indevida, superficial e que, em um momento, o movimento popular fará
aflorar para se estabelecer. Afinal, a Geografia serve também para alicerçar as lutas sociais.

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245 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil


“L’essentiel est invisible pour les yeux”

Pedro Hespanha
Centro de Estudos Sociais (CES) - Universidade de Coimbra

A imagem que hoje temos do interior do país é a de um rural abandonado, envelhe-


cido e decadente, vastos territórios outrora cheios de vida que foram sendo deixados para
trás e estão agora a agonizar. As marcas desse passado muito ativo, sejam as encostas surri-
badas em socalcos, as águas represadas por moinhos e levadas, lado a lado com caminhos,
pontes e alminhas, ou os fumos que se soltam do casario das aldeias ao crepúsculo, estão
presentes por todo o lado é certo, mas aparecem cada vez mais aos nossos olhos como
fantasmas de um passado que se vai distanciando de tal modo estas marcas estão perdidas
do mundo que lhes deu origem.
Porém, se deambularmos erraticamente pelas páginas dos municípios (e até de algu-
mas freguesias) do interior porventura à procura de um motivo para visitar ou fotografar,
em qualquer uma delas que seja, ficamos surpreendidos pela quantidade de iniciativas que 247 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
têm origem, envolvem e mobilizam a população das aldeias. As agendas culturais, despor-
tivas ou gastronómicas estão recheadas, ao longo de todo o ano, de concursos, festivais,
feiras, torneios, cerimónias, mercadinhos, festas, excursões, récitas, desgarradas, bodos e
outros programas que têm lugar nas aldeias.
Por trás dessas iniciativas é de crer que esteja muito trabalho, muita capacidade de
organização, muita entreajuda e muito brio. E assim é. Vendo de mais perto, ou seja,
acercando-nos do quotidiano das aldeias, podemos compreender como é possível em
territórios “abandonados, envelhecidos e decadentes “haver dinamismo e ação coletiva
pujante. Mas para isso, temos de pôr de parte os critérios de medição da produtividade
dos territórios e do empreendedorismo das suas gentes, caros aos economistas e decisores
políticos, e olhar para aquilo que exprime melhor o universo rural: as relações de comuni-
dade, a tramados vínculos de vizinhança, as redes horizontais e verticais de solidariedade,
a economia popular de trocas feita de dom e reciprocidade, o orgulho identitário e o amor
pelo rincão natal.
Em estudo recente, a ANIMAR dá-nos conta das condições em que as aldeias podem
contrariaras tendências para o declínio e a desertificação, tornando-se sustentáveis e ativas
económica, social e culturalmente 1. Reconhecendo que “o desenvolvimento em meio
rural se confronta, em muitos lugares, com fatores de desestruturação que funcionam não
só como poderosos obstáculos e travões à mudança, mas também como fontes de aprofun-
damento da(s) crise(s)”, o estudo identifica alguns desses fatores: a tendência para a desca-
pitalização e o desinvestimento demográfico do meio rural, a abertura à influência do meio
urbano em domínios que minam a sua identidade e reduzem a sua auto-sustentabilidade,
a híper-partidarização da participação política, respostas políticas descontinuadas ou de
emergência, muitas vezes envolvendo as próprias instituições locais em parcerias pouco
inclusivas, o desencontro entre quem intervém e os territórios intervencionados típico dos
programas de intervenção local, e o localismo para que tendem certos territórios e que se
traduz num fechamento à mudança.
Mais interessante é o reconhecimento, a partir dos casos estudados, de que a revitaliza-
ção das aldeias, quando acontece, segue padrões muito diversos e nem sempre é induzida
de fora.
Existem em muitas dessas aldeias recursos preciosos que conseguem mobilizar a co-
munidade ou setores significativos dela: desde logo, gente mais jovem e escolarizada, ávida
de mudança, gente com experiência de vida mais rica e diversificada, como os emigrantes
e os reformados que regressam à aldeia, gente com especiais qualidades de liderança e sen-
tido de comunidade mesmo que nunca tenham saído da sua aldeia, pessoas mais velhas,
homens e mulheres cujo papel desempenhado no passado os torna capazes de reavivar
248 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

as tradições e os símbolos identitários, e também os notáveis ou aspirantes a notáveis


locais que querem fazer carreira ou antevêm vantagens pessoais nos projetos. Recursos
materiais também existem ou, quando não, eles são reinventados a partir do que é mais
abundante: o trabalho voluntário não pago, incluindo o daqueles que estão fora e podem
ser convocados para ajudar. Outros recursos, mesmo que escassos, são postos ao dispor da
comunidade e multiplicados na ação coletiva, pois tudo se aproveita. E o dinheiro sempre
vai aparecendo, nem que se tenha de correr seca e meca, pois a obrigação de ajudar conta

1
http://www.asas.com.pt/
muito na economia moral das aldeias e prestigia os doadores independentemente das suas
motivações.
Em muitos outros casos, o impulso veio de fora mas foi incorporado pela comunidade
da aldeia e transformou-se num projeto de todos. Mas nem sempre as coisas se passam
deste modo. Por isso se torna importante para a avaliação do sucesso destes processos de
revitalização das aldeias saber, primeiro, se as mudanças tiveram origem dentro da comu-
nidade ou fora dela e, segundo, se, tendo origem dentro da comunidade, elas se devem à
iniciativa de uma elite social ou técnica local ou a uma iniciativa de base alargada a partir
de associações ou de grupos informais de pares.
A esta última situação – a mais favorável para a coesão interna da comunidade - cor-
responde um desenvolvimento endógeno de base associativa (com liderança partilhada e
concertação de interesses),congregando os diversos agentes (institucionais, económicos)
locais para a valorização e promoção do território (pelo turismo, produtos de qualidade,
memória e património natural) e para o envolvimento da pequena produção em redes
colaborativas ou ações de base cooperativa, por exemplo fomentando a cooperação entre
pequenos produtores agrícolas para o abastecimento das instituições sociais ou para a par-
ticipação em mercadinhos urbanos.
Situação distinta é a que se pode designar por desenvolvimento endógeno verticali-
zado, assente numa liderança individual forte e legitimada pela experiência, pela com-
petência técnica, pela autoridade carismática ou pelo capital político, capaz de angariar
apoios externos. Aqui, os casos mais bem sucedidos correspondem a situações em que se
verificou um envolvimento progressivo da população nas responsabilidades e nas decisões.
Mas, mesmo sem isso, pode ter havido uma melhoria generalizada de bem estar quando,
por exemplo, a iniciativa individual desencadeou o processo de revitalização da aldeia,
criando emprego e fixando as pessoas, valorizando os recursos endógenos (gastronomia,
plantas medicinais e aromáticas, turismo rural, etc.), criando serviços de proximidade,
requalificando edifícios e estruturas desativadas, sensibilizando a comunidade para se en-
249 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
volver em novas atividades e, assim, recuperar o gosto de viver na aldeia.
Quando o impulso vem de fora (por exemplo, de uma autarquia local, de uma univer-
sidade, de um grupo empresarial, de uma associação de desenvolvimento local ou de um
programa europeu) os bons exemplos estão associados à existência de uma capacidade de
envolvimento da população nas mudanças, de um acolhimento esclarecido dos objetivos
do projeto e de uma progressiva assunção pela população e suas organizações da condução
e do ajustamento das mudanças projetadas, para reforçar a autonomia da comunidade
face ao projeto e garantir a continuidade deste. O maior risco identificado em inúmeras
intervenções desta natureza é a descontinuação abrupta da ajuda antes que a comunidade
estivesse preparada para suportar os encargos da mudança.
Nada do que foi dito contradiz a afirmação de que o futuro do mundo rural está
ameaçado e deque são abundantes os sinais de crise: abandono das terras e das casas, en-
velhecimento e isolamento das populações, discriminação (negativa) das dos territórios,
mercadorização dos recursos locais incluindo o património, enfim, o rural como área de
negócios. Porém e em contraponto, manifestam-se hoje por todo o lado sinais de renovado
interesse pelo rural. Sinais ambíguos, decerto, pois a retórica do ruralismo dá para tudo. O
que importa refletir é sobre o que move essa procura: cansaço do modo de vida urbano?,
curiosidade pelo diferente?, refúgio para tempos de crise? ou busca de uma vida digna em
harmonia comos outros e com a natureza? Talvez um pouco de tudo isso, mas o modo
como algumas aldeias se estão a revitalizar anuncia a emergência de fatores de atração mais
baseados na vivência de valores de sociabilidade e ambientais alternativos do que na oferta
de um mero espaço de recobro temporário para o stress urbano. Assim os nossos olhos e as
lentes das câmaras fotográficas o queiram ver.
250 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Grande sertão: veredas.
O Homem, o Campo e suas (inter) relações

Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro


Geógrafo; Professor Emérito da Universidade de S. Paulo

1. As relações Homem – Natureza sob a mediação do divino1

Antes de abordar a sequência de momentos relevantes ao longo dos tempos históricos


– concernentes à cultura dita ocidental
– nos diferentes espaços da superfície terrestre e segundo diferentes divindades das reli-
giões, vou tentar o confronto mais contrastante possível entre as condições do ARCAICO
(primitivo) e do HIPERMODERNO.
A implantação do Homem na superfície terrestre observa duas situações contrastantes,
concentrada (a aldeia, burgo, cidade), dispersa (os campos de cultivo) e aquele ainda não
efetivamente ocupada, deixado como primitiva forma da natureza. Sendo o homem um
animal gregário, que vive em comunidades sociais, sua primeira preocupação é instalar-se
251 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
abrigada e confortavelmente em casas, em família, criando um espaço por ele “ordenado”,
diferentemente da natureza, ainda desconhecida, misteriosa, aparentemente o domínio do
“caos”. Além do espaço de instalação ordenado e protegido, no centro do qual se cultua e
rende graças às divindades protetoras, há aquele outro onde o homem trabalha e do qual
retira o seu sustento, onde a cobertura primitiva foi substituída por espécies selecionadas
de plantas e animais domesticados. O núcleo de concentração, germe da urbs, é circundado
pelos campos de cultivo, afastando do homem aquela reserva de natureza misteriosa, cheia
de perigos e surpresas, de onde provêm os “estrangeiros” e cuja exploração e conhecimento

Mudanças nas relações sociedade - natureza e seus reflexos na Geografia. In Geografia sempre. O homem e
1

seus mundos. Edições Territorial, Campinas, 2008, pp. 81-82.


devem ser feitos com cautela. O caráter sagrado do(s) núcleo(s) família(es), embrionários
da comunidade social, contrasta com aquele profano da “natureza”. O campo representa
assim o papel de intermediário entre o domínio organizado do cosmo e aquele ainda não
conquistado do caos. Poderíamos designar o núcleo social como VERNA, o lugar, e os
campos circundantes como ADVENA.
Poderemos aplicar a designação de arcaico tanto à ocupação de sociedades ditas primi-
tivas, como a das nossas comunidades indígenas, quanto à conquista da floresta temperada
nas latitudes média-altas da Europa Ocidental, quando os invasores bárbaros do Norte
desagregaram o Império Romano, gerando novas nações, novas línguas conduzidas pelas
ordenações cristãs, instauradoras da Idade Média.
Dando maior amplitude a esse arcaico, podemos utilizar esse primeiro esquema para
aquele tratamento geográfico de uma época definida historicamente (final do século XIX
e primeira metade do XX) quando as relações homem-natureza eram encaminhadas para
o estudo dos géneros de vida - segundo os grandes biócoros ou faixas climáticas -, tipos
de habitat rural e os primórdios do estudo das cidades (sítio-posição; forma-função, etc.).
Dando um salto para o outro extremo - o do hipermoderno - constatamos que aqueles
atributos inverteram-se. A aglomeração primitiva cresceu, agigantou-se ampliada em área,
verticalizada e inchada de população, onde as edificações e engenharias de infra-estrutura
modificaram substancialmente o primitivo quadro geoecológico com a ampliação dos
campos circundantes sobre a primitiva natureza - pari passu com o progresso dos conheci-
mentos adquiridos sobre ela - explorada em seus recursos e consideravelmente reduzida. A
cidade tornou-se agigantada pela industrialização e perturbada pela crescente velocidade
nos meios de circulação. Os meios de comunicação altamente desenvolvidos, revoluciona-
ram a vida na cidade, facultando-lhe que, expandida em condomínios fechados, centros
comerciais, centros empresariais, etc., etc, intrometa-se pelos campos. Observando-se as
oposições notamos que elas se inverteram. A cidade, degradada, passou a acumular os
epítetos negativos, tornando-se o domínio do mal e do profano. Os restos de natureza
252 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

diminuídos, mas melhor conhecidos, passam a ser o domínio do bem, do sagrado onde,
ao contrário da cidade, dispõe-se de ar puro, do verde, das áreas de recreação e lazer que a
fazem merecedora de proteção.

2. As relações cidade – campo2

Parece-me da maior relevância ter consciência das mudanças que os novos progressos
tecnológicos poderão trazer-nos no futuro, ou seja as relações cidade-campo. Num primeiro
2
A cidade como reflexo da relação homem-natureza. Limitações do planeamento. In ob.cit., pp. 146-147.
momento, a importância crescente da urbanização mas significativas mudanças, ou mesmo
transformações nas cidades, levar-nos-iam a pensar que nesta era de “globalização” tería-
mos de admitir que a presença do homem na Face da Terra implicará, forçosamente, na
geração de uma “sociedade urbana”. Contudo, diante dessas profundas mudanças impostas
sobretudo pelos subsídios da ciência e tecnologia, fadadas a um maior progresso no século
entrante, não será absurdo pensar ou admitir que venha a ocorrer uma consequente modi-
ficação nas relações cidade-campo.
Incorporando tudo aquilo que foi dito a propósito do paralelo entre a cidade arcaica
e a cidade atual, exibindo o triângulo “cidade-campo-natureza”, cabe refletir sobre as ten-
dências atuais na interpretação dos modos de viver urbano e rural.
Diante de tais evidências nas relações cidade-campo, é o caso de nos formularmos
questões tais como: Quais as possibilidades de que a cidade do futuro venha a ser organi-
zada (planejada ou corrigida) segundo os cânones vigentes agora em plena grande crise?
Se já existem evidentes sinais de interpenetração entre o urbano e o rural – a cidade espa-
lhando-se pelo campo circundante sob a forma de condomínios fechados (complicando os
limites dos primitivos urbano e rural e a cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano
– IPTU) e o rural remetendo à cidade levas contínuas de sem-terra para se tornarem cita-
dinos sem-teto – não haverá possibilidade de alcançar novos termos nesse relacionamento?
O entrosamento entre os modos de viver na cidade e no campo implica no sério pro-
blema que a concentração (urbana) e a dispersão (rural) acarretam em termos económicos
da engenharia de infra-estrutura. Enquanto a primeira é mais conveniente do ponto de
vista social e implica em menos gastos para as obras básicas, a segunda favorece as con-
dições climáticas, ambientais, resultando em ampliação considerável das redes de obras
infra-estruturais.
Embora apenas apresentando tendências e vestígios não é possível negar ou afirmar as
possibilidades de novos modos de vida entrosando o urbano-industrial ao rural-recreacio-
nal. Diante de tantas mudanças, quem sabe não estaremos na soleira de um novo modo
253 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
de organização dos espaços condizente com uma “nova civilização” que está germinando?
O que não parece razoável é que, com tanto fastígio tecnológico, não possamos resolver
os graves problemas de uma estruturação urbana debilitante, acompanhada de um sério
desequilíbrio das estruturas demográficas e sociais condicionadas a um ambiente nefasto.
Principiamos fazendo apelo ao Mito de Édipo e à utopia da Atlântida, colhidos na matriz
cultural grega de nosso universo dito ocidental. Diante de tantos problemas que afetam o
modo de viver do homem na face da Terra, no início deste terceiro milénio da era cristã,
é claro que não pode ser descartada a validade da UTOPIA. Para propô-la é indispensável
uma compreensão profunda dos reais problemas, para poder projetar as possíveis soluções
em outros níveis de combinações das diferentes variáveis e em outras escalas diferentes da-
quelas atuais. Uma projeção futura do ideal assentado na realidade do presente.

3. Grande sertão: veredas

O pacto das Veredas Mortas3. Como geógrafo, desde o final dos anos oitenta vinha
atrevendo-me a focalizar a obra de Guimarães Rosa com o intuito de, em algumas de suas
produções, extrair-lhe o conteúdo geográfico. (…) Preocupa-me esclarecer que não há, de
minha parte, qualquer pretensão de caráter “literário”. Creio que o grande interesse de que
dispunha a produção roseana, e o caráter fundamentalmente “aberto” de sua obra, justi-
ficaria múltiplas abordagens, partidas de estudiosos das mais diferentes áreas. Ao afastar-
-me do viés geográfico penso credenciar-me como um leitor muito interessado, disposto
a aceitar os desafios lançados pelo próprio autor – como era seu declarado propósito – na
leitura de sua obra. (…)
Tenho procurado dar-me conta do que se vem produzindo sobre a literatura roseana,
pelo menos no que há de mais relevante, mas, certamente, não tenho a pretensão de estar
informado de tudo. Constato que a monumentabilidade da obra roseana abre-se às mais
variadas preocupações e abordagens. Assistimos ao crescimento de abordagens. Assistimos
ao crescimento de abordagens pela crítica literária especializada, pelos filólogos e outros
estudiosos das letras; psicólogos e analistas focalizaram as personagens; geógrafos sondam,
uns, a toponímia e veracidade dos lugares, enquanto outros se preocupam com aspectos
mais profundos da realidade espacial; filósofos, cientistas sociais, biólogos, vêm juntar-se
atraídos pela abertura dessa alta literatura aos mais variados campos dos saberes.
O espaço iluminado no tempo volteador4. Numa entrevista, recordando a infância, o
escritor João Guimarães Rosa declarava-se arredio aos adultos, recolhendo-se às suas pre-
ferências: “estudar sozinho e brincar de geografia”. Ao associar a geografia a uma atividade
lúdica, Rosa demonstra que, para um menino solitário, “viajar” pelo mundo era atividade
254 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

prazerosa.
Sua formação em medicina respondia àquele seu lado cientista-amante do naturalis-
mo: botânica e zoologia. Mas sua fraca vocação para o exercício da medicina exibiu outros
tesouros de sua sabedoria, como ser poliglota, estudioso compulsivo de muitas línguas
e leitor onívoro de literaturas, religiões e filosofias. Tesouro que, em se acumulando, vai
privilegiar sua vocação suprema como escritor.

3
O pacto das Veredas Mortas. In ob.cit., pp. 151-152.
4
O espaço iluminado no tempo volteador (Grande sertão: veredas). Estudos Avançados 20 (58), 2006.
O fascínio pelo mundo, que o leva à diplomacia, fará enriquecer, com o estudo, aquilo
que fora brincadeira em geografia. Em suas funções no Itamaraty, foi diretor de Divisão
de Fronteiras e representante do Ministério das Relações Exteriores junto ao Conselho
Nacional de Geografia, do IBGE.
Assim, do lúdico ao erudito, a geografia aflorará, de modo destacado, na sua obra. O
herói de Grande sertão: veredas – Riobaldo –, também ele, demonstra pendores geográfi-
cos. “Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra de três,
até Geografia e Estudo Pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho, tracei bonitos mapas”
(p.15-6).
Um forte pendor que, na Geografia do Brasil, direciona o escritor das Minas Gerais
para o Sertão. Minas sem mar, interiorizada no Sertão.
O sertão no Brasil e no mundo (uma bifacialidade janusiana). Na longa narrativa pela
qual se estrutura o romance Grande sertão: veredas tem-se enfatizado, com insistência, o
dualismo ensejado pelo falso diálogo entre o ex-jagunço Riobaldo e seu ouvinte invisível:
o campo inculto em face do saber citadino erudito. Talvez o meu lado geógrafo leve-me a
propor acrescentar aquele outro entre o litoral e o interior. Nas dimensões continentais da
geografia brasileira avulta aquele dualismo – significativo embora alegórico – entre a face
externa de Janus, expressa pelo litoral, aberto às comunicações com outras regiões, onde
chegam as novidades, importam-se necessidades e exportam-se disponibilidades, em con-
traste com aquela voltada para o interior, ignota em princípio, lentamente conquistada.
Enquanto a face externa (litorânea) abre-se às trocas, intercâmbios e facilidades de
mudanças, aquela interna – num espaço, mas distanciado no qual o tempo flui mais len-
tamente – indutora da conservação, do mergulho sobre si mesmo, do refúgio. Enfim, a
oponência básica e fatalmente complementar entre a integração (face externa) e a auto-
-afirmação (face interna).
Sentimento contrastante perceptível em todos os países de grande extensão, nos
diferentes continentes onde se diferenciam o avant e o arrière pays, dos francófonos, o
255 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
front e back lands dos anglófonos. Talvez pela associação ao coração “desértico”, isso é
especialmente sensível na Austrália, onde a implantação britânica no litoral foi um suave
“transplante” para um domínio subtropical em violento contraste com o out back do bush
degradando-se até o deserto, preservador do aborígene e escassamente aberto à coragem
audaciosa do “jakaroo”.
Dentro da polissemia brasileira dos sertões – de feições geográficas bem variadas –, a
constante fundadora da semântica do termo parece estar vinculada a interior. As Minas
Gerais, conquistadas do final do século XVII, e especialmente ao longo do XVIII, jun-
tando a mineração à pecuária, são bem um domínio interior, no qual as ocorrências de
sertões permitem a proposta roseana de um Grande sertão. Face interna, de auto-afirmação
(rebeliões, inconfidências vingando ali antes do litoral), de desconfianças, de cautelas.
Face interior que é a base de uma mineiridade da qual Guimarães Rosa é uma magnífica
expressão.
256 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
E no interior do Estado do Rio de Janeiro
ainda se dança o fado

João Rua
Geógrafo; Professor Adjunto do Departamento de Geografia e Meio Ambiente
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Esta narrativa retrata uma vivência, desde o início dos anos 2000, numa localidade do
Norte do Estado do Rio de Janeiro, onde se notaram grandes transformações num quadro
rural muito tradicional, até recentemente. As mudanças que vivenciamos acentuaram-se
quando ainda se anunciava a grande transformação para a região: a produção de petróleo
e a dependência aos royalties recebidos por sua exploração, nas águas profundas confron-
tantes a essa localidade, em finais dos anos oitenta do século XX.
Quissamã, municipalidade de cerca de 20.000 habitantes, vem, desde o século XVIII,
sendo identificada pela agroindústria do açúcar, que deu ao lugar certo destaque principal-
mente durante o império brasileiro. Hoje em dia vive dos royalties do petróleo e (minori-
tariamente) da agroindústria que domina sua paisagem. Os extensos canaviais, as grandes
casas senhoriais, o orgulho da afro-descendência da maioria de seus habitantes e os traços
257 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
deixados pela escravidão, constituem forte matriz cultural à qual se sobrepõe a dinâmica
extrativista do petróleo. Assim, pode-se dizer que a marca mais tradicional de Quissamã
é a paisagem herdada da plantation canavieira que controlava a apropriação do espaço,
deixando ao campesinato, com algum grau de autonomia, apenas as áreas periféricas â
atividade principal.
Entretanto, as formas de sociabilidade desse mundo rural se referiam e, numa certa
medida ainda se referem, a estilos de vida, concepções de mundo, processos de decisão e
modalidades de trabalho que têm se elaborado e modificado em interações dos atores lo-
cais (em sua heterogeneidade) e outros de escalas supralocais, em nível regional, estadual,
nacional e internacional, em jogos de poder bastante assimétricos. Isso se manifestou,
fortemente, durante as transformações técnicas e jurídicas que matizaram a sociedade bra-
sileira a partir dos anos 50 do século XX. Essa relação multiescalar (nacional-local) não
alterava o fato das grandes plantations de açúcar funcionarem como unidades econômicas,
sociais, culturais e políticas bastante singulares. Nelas se combinavam os grandes cultivos
com as lavouras destinadas ao abastecimento alimentar da família do proprietário das
terras e das diversas famílias de trabalhadores residentes no domínio. Este correspondia ao
que se denominou complexo rural onde se localizavam as residências dos grandes proprie-
tários e dos trabalhadores-moradores, as atividades agroindustriais e onde se exercia a vida
familiar cotidiana.
A principal norma nesses domínios era a lealdade ao patrão, a quem deviam a casa de
moradia, o trato de terra para os cultivos, a água e a lenha para o uso doméstico, a ajuda
nos diversos momentos de necessidade e com quem eram estabelecidas relações de com-
padrio, que selavam os compromissos e atingiam até mesmo a esfera da política, já que os
trabalhadores-moradores e suas famílias também eram clientes do voto. Aí se percebia a
hierarquia constitutiva de engenhos, usinas, fazendas de açúcar, café ou gado. De um lado,
a família do chefe da unidade agroindustrial, seus ascendentes e descendentes, eventual-
mente indivíduos agregados por laços de amizade e compadrio, vivendo na casa-grande; de
outro, a multiplicidade de famílias de trabalhadores que residiam em casas diminutas de
pau-a-pique (às vezes nas antigas senzalas onde tinham sido alojados os escravos na época
da escravidão) de aspecto miserável. De um lado, os campos a perder de vista, cultivados
com a lavoura comercial sob o controle do grande proprietário; de outro o cultivo de ali-
mentos em minúsculos pedaços de terra, cedidos pelo dono apenas para uso.
Em Quissamã, tal panorama se manteve até recentemente. Foi levemente “arranha-
do” pela crise de 1930, quando diversos grandes proprietários perderam suas terras para
a onipresente usina (dona da maior parte das terras e controladora do fluxo de cana para
ser comercializada); foi, de alguma maneira atingido pelo processo de desruralização e
258 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

urbanização que vem dos anos 1950. No entanto, tal panorama só foi seriamente alterado
quando das mudanças ocorridas dos anos 1960 em diante, as quais provocaram a maciça
expulsão da mão-de-obra. Se em outras áreas do país isso levou a alterações drásticas no
padrão tecnológico, em Quissamã foram encontradas maneiras de reter os trabalhadores
próximos aos ex-domínios, o suficiente para serem utilizados sempre que se precisasse.
Como veremos num depoimento mais à frente, é importante focar aquele quadro para
compreender como as mudanças nele ocorridas são percebidas por alguns dos sujeitos que
dele participaram integrados ao princípio ordenador que concentrava tanto poder nas
mãos de poucos. As práticas de recrutamento e administração das plantations tradicio-
nais tornaram-se ineficazes, ou mesmo contraproducentes devido a efeitos combinados da
evolução dos mercados internacionais das lavouras comerciais, da possibilidade de emigrar
para as metrópoles que se industrializavam, do fortalecimento do sindicalismo rural e da
implantação de um novo padrão legal e institucional. Além disso, a ampliação dos serviços
urbanos, particularmente saúde e educação, mas também os transportes entre as localida-
des tornaram-se importantes elementos de desmonte do complexo rural e de aceleração do
êxodo e das transformações a partir daí observadas.
Resumidamente, pode-se dizer que às crises da exportação respondiam fórmulas par-
ticulares de relacionamento entre patrão e moradores que, ao baratearem a mão-de-obra,
permitiam manter os lucros daquele que só viu seu poder ser erodido pela emigração de
trabalhadores e pela implantação da legislação trabalhista no campo. Com isso o conjunto
de participantes das plantations tradicionais se viu na contingência de gerenciar, muito
desigualmente, os recursos materiais e simbólicos de que dispunha, a reconversão de suas
posições, de suas práticas e de sua percepção do mundo. Os trabalhadores passaram a ter
de assumir os custos materiais de sua reprodução social.
Dona Joana, de presumíveis 80 anos de idade, filha de escrava, moradora da senzala da
antiga fazenda Machadinha, assim nos relatou esse processo em novembro de 2001: “ah,
era muito bom morar aqui na fazenda até uns quarenta anos atrás. Tinha tudo! Depois a
coisa foi ficando ruim, muita gente foi embora. A nós deixaram ficar aqui mas só moran-
do. Nem água e lenha a gente tinha mais, tinha de comprar ou buscar longe. Fora do corte
da cana ficou difícil. Só pegando biscates na cidade. Agora já está um pouco melhor – tem
cesta básica, ajuda da prefeitura, médico toda a semana, a criançada tem praça pra jogar
bola. Se não fosse isso acho que já tinha todo mundo ido embora”.
Aí se percebe tanto a visão idealizada do passado, que esconde a violência das relações
existentes entre os patrões e os empregados-moradores, como o assistencialismo que carac-
teriza as relações no presente. Pode ser também evidência de uma certa “competição” com
alguns trabalhadores da cidade no mercado de trabalho local e que, com isso, podem ter
engrossado o forte movimento emigratório de origem rural e urbana, anterior aos anos 90.
259 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
Dona Joana vivia e vive na senzala onde seus antepassados viveram como escravos.
Não tem qualquer aparelho eletrodoméstico – “só um bico de luz”, mas acha a televisão
“uma coisa linda”. Não sabe ler nem escrever mas é o depositário da tradição cultural afro-
-brasileira, conduzindo os diversos rituais e tentando passar para os mais jovens a dança do
jongo, utilizada em alguns desses rituais. Quando perguntada como via a modernização
de Quissamã, não se fez de rogada e falou: “Agora está muito melhor. A vida está mais
fácil”. Não percebia que poucos, como ela, vivenciaram os três momentos a que se referiu
indiretamente: o da fartura sob a proteção do “bom patrão”, o da penúria, quando não
compreende por que pioraram tanto as relações com o “bom patrão” e, em 2001, quando
disse que estava tudo melhor por que atendida pelo “novo bom patrão” – o assistencialis-
mo oficial.
É nesse sentido que a memória se torna um excelente recurso para a manutenção de
“espaços de resistência” pois facilita lidar com a dimensão objetiva dos fatos mas também
com o lado subjetivo dos indivíduos que constituem os diferentes grupos sociais. Situações
conflituosas, jogos de poder e processos como o de construção da identidade territorial e
do “sentido do lugar” são melhor percebidos quando se utiliza a memória, e sua capacida-
de de ir ao passado e retorno ao presente, para descortiná-los.
Outra visão desse quadro é apresentada por José Carlos, 19 anos (em 2003), mora-
dor da senzala de Machadinha, que trabalhava eventualmente para a prefeitura e cortava
cana. Estudava no 5º ano noturno da escola de Machadinha. Tinha bicicleta, ia a Macaé
(cidade de porte médio, mais próxima) com alguma frequência “ver as meninas”, não
gostava das coisas antigas e nem dançava o fado (manifestação folclórica local). Também
não participava das cerimônias religiosas que considerava “coisa de velho”. Cortava cana
desde criança. Quando perguntado sobre o que achava da modernização de Quissamã,
respondeu que “melhorou muita coisa, mas falta muito. Não há onde se divertir. Só os
bares e o futebol. Bom são os shows de verão na praia. É de graça e não perco um. Às vezes
vem uma discoteca para cidade mas é muito caro. Mesmo assim eu vou”. Vê televisão no
bar do local onde mora.
Cristiano tinha 9 anos (em 2004) e também vivia na senzala da Machadinha desde que
nasceu. Estudava no 4º ano da escola municipal local. Gostava da escola. Disse que a me-
renda era boa. Ganhava uniforme e o material escolar. Gostava de dançar o fado (exibiu-se
várias vezes). Gostava de morar ali e quando crescesse queria dirigir ônibus, como o pai.
A diferença mostrou-se radical, entre os idosos e os mais novos. Os idosos são testemu-
nha do velho e do novo. Os mais jovens são formados num mundo em curso de melhoria
(mas de maiores desigualdades) em que estas pouco são percebidas, por conta do assisten-
cialismo e do “simulacro de consumismo” já que o acesso simultâneo aos bens materiais e
260 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

simbólicos não vem junto a um exercício pleno da cidadania. Poucos tiveram a experiência
de perder tudo ao sair das fazendas. Destes, a maioria se foi. A ideia de transição, isto é,
de processo e de movimento se (re)coloca. É um movimento que se expressa no passado,
no presente e no futuro e o conjunto de transformações que esse processo carrega, nem
sempre é percebido da mesma maneira e com a mesma intensidade.
Além disso, há momentos de transformações mais lentas e outros de transformações
mais aceleradas. As aceleradas mudanças no campo, nos anos 60, 70 e 80 não foram com-
preendidas por dona Joana, por que foram aceleradas em demasia. Já as que ocorreram
no longo período do primeiro momento, foram incorporadas e compreendidas. As do
período atual parecem, também, aceleradas em demasia para ela. Para o jovem José Carlos,
entretanto, pareciam lentas demais. Talvez nenhum deles percebesse ou perceba, clara-
mente, o que está em movimento, que é a sociedade, em suas sucessivas espacializações.
Nota-se, aí, também, uma certa retomada da tradição (como demonstrou o menino) nas
gerações mais recentes que constitui uma das marcas mais notáveis da identidade territo-
rial (sempre em reconstrução). O resgate das danças locais que vem ocorrendo se constitui
em novo atrativo turístico e marca algumas festividades.
Dentre as festas populares de Quissamã, o fado merece destaque especial (o jongo
quase não é mais dançado), por ser um baile característico que se conservou ativamente na
localidade. Trata-se de uma suíte muito ritmada, dançada ao som da viola e do pandeiro.
Provavelmente foi a forma encontrada pelos escravos de copiar a dança dos senhores, que
por sua vez a copiavam da corte. O fado é muito estimulado nas escolas, como parte do
estudo do folclore e já se nota o seu ressurgimento como divertimento das classes mais
pobres – os músicos e dançadores são camponeses e ex-trabalhadores da usina que agora
virou museu, continuando, entretanto, a fazer parte da paisagem e do imaginário locais.
Em Quissamã, o fado é dançado com frequência nos salões de festa dos bairros rurais,
mas, também, na cidade, além das escolas. A dança e sua preservação demonstram a força
de resistência das práticas espaciais da população tão alteradas pelo intenso processo de
transformações pelos quais vem passando a localidade. Esse quadro rural vem sofrendo
mudanças bem marcantes: a usina, símbolo da agroindústria, foi comprada e fechada; os
canaviais de Quissamã entregam suas canas a outra usina fora do município, agora também
proprietária das terras; o corte é bastante mecanizado; os trabalhadores, agora ocupados
em outros serviços, basicamente urbanos, quando não desempregados, recebem auxílios
oficiais e continuam a residir em bairros rurais como Machadinha; a dependência aos
royalties do petróleo ampliou-se e a severa redução dos preços do combustível acarretou
enorme queda no emprego na construção civil e nos setores ligados às atividades extrativas;
os efeitos da crise pela qual passa o país abatem-se, também, sobre as municipalidades e
demonstram as interações multiescalares que marcam o espaço geográfico. Esse quadro de
261 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
transformações recentes acentua o desmonte do que restava do antigo complexo rural e
obriga a ir à busca de alternativas que amenizem tão acentuada crise.
Dona Joana, com seus noventa e tantos anos, nada compreende; José Carlos está de-
sempregado e vive de biscates eventuais – até trabalho no corte da cana é difícil – passa o
tempo no bar e na praça de Machadinha com amigos; Cristiano trabalha embarcado nas
plataformas de petróleo e continua a morar em Machadinha. Cada um, à sua maneira,
vivencia a velocidade das transformações.
A paisagem dos extensos canaviais e dos belos solares do século XIX testemunham e
observam todo esse processo de transformações.
E o fado de Quissamã continua a ser dançado e cantado...
CIDADE E PROCESSOS DE
URBANIZAÇÃO

A CIDADE, AS CIDADES, URBANO: GLOBALIZAÇÃO,


AS ESCALAS E O TEMPO
As cidades e os processos de urbanização

António Gama
Departamento de Geografia - FLUC e Centro de Estudos Sociais (CES) - Universidade
de Coimbra.

O mundo urbaniza-se a um ritmo sem cessar de forma acelerada, em especial desde


meados do século XX. Podemos considerar, de forma simplificada, os processos de urbani-
zação como um processo social que comporta uma determinada concentração de pessoas
e de edificações num determinado espaço e que se traduz numa realidade social específica.
Pelo seu alcance espacial, compreende dois sentidos distintos e integrados: como uma
invasão dos espaços imediatos à cidade, alargando a extensão da forma urbana e como o
aumento e a extensão do número de localidades com o estatuto de cidades (Paul Claval).
Durante muito tempo as cidades agruparam efectivos pouco numerosos, sendo a acu-
mulação depopulação e a multiplicação das cidades, no essencial, obra dos dois últimos
séculos. Enquanto expressão concreta de processos sociais que envolvem toda a sociedade,
as cidades atravessam toda a história das civilizações, adquirindo maior expressão nos úl-
265 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil
timos dois séculos, associadas ao desenvolvimento das sociedades capitalistas e industriais,
denotando a modernidade correlativa. As cidades e a urbanização são ao mesmo tempo
produtos e produtoras do sistema socioeconómico reflectidos na organização do espaço ur-
bano. Por essa razão a cidade é, ao mesmo tempo, uma forma social e uma forma material,
constituindo uma fixação espacial e um espaço social.
Enquanto nas cidades pré-modernas prevaleceu o primado do político e do ideológico,
a ordenação no espaço e no tempo é relativamente fixa. Por sua vez, nas do modo de pro-
dução capitalista, a organização socio-espacial processa-se segundo a lógica dominante do
económico: a cidade tornou-se, neste caso, sobretudo um facto económico. Nela opera-se
a passagem de uma progressiva dominância do valor de troca sobre os valores de uso, ou
seja, assiste-se cada vez mais à mercantilização do espaço e do tempo, do solo e da habi-
tação, que embora de tipo diferente não deixam de ser mercadorias como as outras. Além
disso, é também um factor técnico e um factor político e ideológico.
Os espaços sociais e económicos que constituem as cidades estão atravessados por
contradições e conflitos de apropriação, de utilização e de avaliação que os grupos so-
ciais fazem do espaço e que se expressam na segregação de usos, nas formas residenciais e
nos diferentes tipos de desigualdades sociais. À nova ordem social também corresponderá
uma ordem espacial, mediada ou imposta pelos poderes instituídos e organizadores dessa
ordem, com configurações de geometria variável.
O sentido de cidade e de urbano podem resumir-se em diferentes abordagens: a mu-
dança social e a explicação da morfologia pela ecologia social ou mais modernamente pela
compreensão da estrutura sócio-espacial; a cidade à luz duma teoria da mudança social
e não o inverso, o que lhe dá um estatuto demeio onde as transformações da sociedade
se efectivavam de uma maneira específica; os modos de vidados citadinos a prova das
especificidades propriamente urbanas, expressas nos índices de uma transformação pro-
funda das relações sociais no seu conjunto, nos efeitos específicos deste meio, ao ponto de
fazer dele uma variável independente da evolução social; a quotidianidade da vida urbana,
englobando quer avida no trabalho quer fora do trabalho.
Os diferentes modos de vida urbana ofereciam assim um meio de identificação dos
diferentes grupos sociais. O foco na reprodução da força de trabalho adquire, por conse-
quência, um valor explicativo na análise dos espaços urbanos. Embora uma boa parte das
análises escamoteiem as contradições no que se refere aos modos de vida urbanos, ao tra-
balho e à vida doméstica, permitem, apesar disso, discernir as articulações entre o modo de
produção, a forma urbana e as suas actividades. As formas, do plano urbano à arquitectura,
pela sua diversidade e o seu tratamento iconográfico, convertem-se numa via privilegiada
para analisar a organização e o carácter instrumental do espaço. São os traços dos modos
de vida da população urbana que aí se encontram, e além disso, as suas transformações.
266 // Geografia sem Fronteiras. Diálogos entre Portugal e o Brasil

A heterogeneidade do território conjugada com as mudanças políticas, económicas


sociais e culturais, influenciam as estruturações hierárquicas e ajudam a transformar a
homogeneidade espacial original. A cidade, “criação político-religiosa na sua origem,
enquanto fenómeno geral, procede de seis princípios: centralização, concentração