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TELMO VERGARA

ESTRADA PERDIDA
Estrada perdida, de Telmo Vergara
1ª edição: 1939 Governador do Estado do Rio Grande do Sul
Colofão: Este livro foi composto e impresso nas oficinas da Empresa Gráfica José Ivo Sartori
da “Revista dos Tribunais”, à rua Bráulio Gomes, 139, São Paulo, para a Livraria
José Olympio Editora – Rio, em julho de 1939
Secretário de Estado da Cultura,Turismo, Esporte e Lazer

2ª edição: 2017 Victor Hugo Alves da Silva

Elisa Henkin, Estevão Cogoy, Giana Kipper Silva, Rogério Dorneles, Sérgio
Oliveira de Campos, Susana Dantas Guindani Diretora do Instituto Estadual do Livro
Patrícia Langlois

Conselho Editorial do IEL


Antonio Sanseverino, Carlos Alexandre Baumgarten, Charles Kiefer, Dilan
Camargo, Jacira Fagundes, Luís Dill, Marco Cena, Monique Revillion, Patricia
Langlois, Rubem Penz, Sergio Borja, Vera Teixeira Aguiar

Instituto Estadual do Livro


Rua André Puente, 318 – Porto Alegre (RS) – CEP 90035-150
Fone: (51) 33146450
© Dos detentores dos direitos (se houver)
TELMO VERGARA
Edição e revisão:
Elisa Henkin, Estevão Cogoy, Susana Dantas Guindani

Digitação:
Giana Kipper Silva, Rogério Dorneles

Editoração e capa:
Sérgio Oliveira de Campos

ESTRADA PERDIDA

ISBN 978-85-7063-387-3

Porto Alegre, 2017


ideia (que é central não apenas aqui, mas para uma melhor compreensão da
A NECESSÁRIA RETOMADA DA OBRA DE TELMO VERGARA obra literária do autor como um todo).

Definido certa vez por Reynaldo Moura como um “inquieto trabalhador


Fábio Augusto Steyer* literário”, Vergara teve repercussão não apenas em âmbito estadual, mas atin-
giu público e crítica de todo o País, especialmente a partir do Prêmio “Humber-
to de Campos”, promovido pela editora carioca José Olympio, concedido a sua
Há de se comemorar (e muito!) o relançamento de Estrada Perdida, de Tel- coletânea de contos Cadeiras na calçada (1936), quando venceu outros oitenta
mo Vergara, originalmente publicado em 1939, pela editora José Olympio, sem concorrentes de todo o Brasil. Exaltaram suas qualidades literárias críticos e
nunca ganhar uma segunda edição. Trata-se de um autor fundamental para escritores do porte de Jorge Amado, José Lins do Rego, José Geraldo Vieira,
se entender as características e a heterogeneidade da geração de escritores Amando Fontes, Dante Costa e Oscar Mendes, entre outros.
gaúchos que tinha em Erico Verissimo o nome mais evidente – fato este que
talvez tenha “apagado” nomes como o de Vergara (e outros mais) da história O prêmio lhe valeu um comentário de José Lins do Rego que acredito definir
da literatura brasileira. muito bem algumas de suas características como escritor e o vigor de sua obra,
que, a meu ver, permanece intacto até os dias de hoje: “O lírico Vergara (...) das
Tratei do autor em minha tese de doutorado em Literatura Brasileira, defen- pequenas dores, da vida que corre sem o estrépito das quedas d’água, aparece
dida na UFRGS, sob orientação de Luís Augusto Fischer¹ . E foi por sugestão cada vez mais firme e senhor de si, com o caráter de sua personalidade inal-
deste que, vasculhando a biblioteca central da PUCRS em busca dos autores terável (...) trouxe um depoimento da vida que era por demais matéria huma-
gaúchos daquela geração, acabei encontrando o romance, a partir do qual na, matéria humana bem expressa em literatura” (Dom Casmurro, 11/02/1939,
descobri a obra de Vergara. A força e o vigor do texto, além de seus temas p. 02).
profundamente relevantes e humanos, tratados literariamente de uma forma
bastante singular e próxima da literatura contemporânea, calcada nos aspectos Vergara foi um dos maiores expoentes daquele grupo de escritores gaúchos
existenciais do ser humano, me surpreenderam bastante, o que me fez buscar que poderíamos denominar “geração de Erico Verissimo”, que, aproximada-
mais informações sobre o autor. Logo em seguida, percebi que suas qualidades mente entre as décadas de 1930 e 1950, foi responsável por um dos períodos
literárias também apareciam nos livros de contos, e comecei a questionar o mais produtivos da história da literatura gaúcha e brasileira. Poucas vezes
porquê deste autor não ser mais estudado nos cursos de Letras, mesmo aqui houve em nossa história literária tantos escritores de bom nível produzindo ao
no Rio Grande do Sul, ao lado de outros escritores da mesma geração, como mesmo tempo. Nascido em Porto Alegre, no dia 18 de outubro de 1909, filho
Dyonélio Machado, Reynaldo Moura e Viana Moog, por exemplo. Sua própria de Osvaldo Vergara e Isabel Dias de Castro Vergara, fez todos os seus estudos
obra e biografia eram, pois, “estradas perdidas” à espera de alguém disposto na capital, bacharelando-se em Direito em 1931, pela Faculdade de Direito de
a percorrê-las. Porto Alegre, um dos mais importantes centros intelectuais da cidade e do Es-
tado naquela época. Também fez parte da primeira turma do curso superior
A partir daí, o romance passou a ocupar posição central em meu projeto de de Administração e Finanças da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas,
tese, sendo que o título, “estrada perdida”, acabou se transformando no con- fundada em 1931 pelos irmãos maristas, que foi o embrião da PUCRS. Além
ceito principal do trabalho. Mas não vale aqui fazer spoiler, pois o leitor perce- de escritor, atuou como advogado na capital, onde também trabalhou como
berá, por si mesmo, ao percorrer as páginas a seguir, os diversos níveis desta funcionário público estadual no Departamento das Municipalidades. Foi audi-
tor do Conselho Administrativo do Estado e do Conselho Superior de Polícia
e auditor-chefe do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul. Polivalente, tam-
* Doutor em Letras/Literatura Brasileira (UFRGS).
bém era tenor, tendo participado de diversas óperas apresentadas no Teatro
Professor de Literatura no Mestrado em Linguagem e nos cursos de Graduação em Letras da São Pedro. Faleceu precocemente no dia 12 de dezembro de 1967, aos 58 anos,
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). vítima das consequências do mal de Parkinson, sendo enterrado no cemitério
da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre.
¹ Intitulada “A Estrada Perdida de Telmo Vergara”, defendida em 2006.


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Apesar da intensa repercussão, principalmente nas décadas de 1930 e 1940, ocorrido em Porto Alegre (sua cidade), no Rio Grande do Sul e no Brasil da
Telmo Vergara é hoje um ilustre desconhecido, ocupando posição secundária primeira metade do século XX, acreditamos que Telmo Vergara não merece o
dentro da história da literatura gaúcha e brasileira, o que acreditamos ser uma esquecimento ao qual foi relegado na história da literatura brasileira. Isso tam-
enorme injustiça devido à qualidade de sua obra e ao alcance que ela teve bém pode ser explicado, em parte, pelo fato da sua literatura ser bem diferente
durante um certo período. Vergara chegou a ser considerado como um dos daquele modelo que praticamente define a literatura brasileira de sua geração,
maiores escritores brasileiros da época, tanto pela crítica local quanto pela do que está ligado ao conceito de “romance de 30”. Conceito, aliás, extremamente
centro do País, especialmente devido à reconhecida qualidade de seus contos. problemático, mas que de forma mais ou menos homogênea reúne algumas
Basta pesquisar a imprensa da época para verificar o alcance de sua obra. Foi obras e características literárias que remontam a autores que definitivamente
um dos poucos escritores gaúchos a publicar pelas cariocas Schmidt e José ocuparam e ocupam um espaço na história de nossa literatura. Ou seja: escri-
Olympio, duas das mais importantes editoras brasileiras daquele momento tores cujas “estradas” não ficaram perdidas e apagadas no tempo, que fazem
histórico, além de publicar livros pela Globo, maior expoente do mercado edi- parte do cânone e dos manuais, que praticamente definem e reproduzem o que
torial gaúcho e uma das grandes surpresas da área livreira no cenário nacional acaba sendo lido e estudado na área de literatura em nosso país.
daquele período.
Telmo Vergara não se enquadra no conceito tradicional de “romance de 30”.
Atualmente, ele raramente aparece nos livros de história da literatura É preciso bater de frente nesse conceito e mostrar suas fragilidades, pois mesmo
brasileira, exceto através de escassas e pequenas notas. Sua “estrada”, antes uma literatura “intimista”, como poderia, em parte, ser definida a de Vergara,
muito visitada, ficou praticamente perdida em algum ponto obscuro da “es- pode, sim, desvelar a sociedade da época, mesmo que numa perspectiva que
trada principal” da literatura brasileira. Mesmo em obras sobre a história da não se enquadre em certo tipo consagrado de “realismo”. Telmo Vergara retra-
literatura gaúcha, salvo raríssimas exceções, seu nome é apresentado de forma ta as transformações da sociedade de sua época, mas, ao contrário do romance
rápida, sem muitos dados, quando aparece. De igual forma são pouquíssimas de 30, está mais interessado nos aspectos humanos e existenciais destas trans-
as produções acadêmicas a respeito de sua obra. ² formações (em que a subjetividade individual das pessoas aparece como ponto
de vista privilegiado e tema fundamental) do que nos seus aspectos sociais. Em
Talvez uma explicação para o seu apagamento da história da literatura sua obra, o social aparece em função do humano, sendo que no romance de 30
brasileira esteja ligada justamente às características bastante peculiares de nos parece que ocorre o contrário. O centro de sua literatura não são as grandes
sua obra literária, que mistura o retrato da modernização urbana da primeira relações e transformações sociais, mas seus efeitos sobre a interioridade das
metade do século XX (1) com um intenso retrato psicológico das personagens pessoas; não são os grandes acontecimentos de sua época, mas os pequenos
(2) e de fatos aparentemente banais do cotidiano da cidade e do campo (3). fatos do cotidiano das pessoas, aparentemente, e apenas aparentemente, diga-
A reunião desses elementos (vistos em conjunto, e não separadamente) e a se de passagem, fugidios e esvaziados de sentido. Isso fica evidente através
maneira com que eles são combinados fazem com que o estilo e a linguagem da leitura deste Estrada perdida. Episódios como a famosa epidemia de “gripe
dos livros de Vergara sejam um tanto singulares e “diferentes”, digamos as- hespanhola”, de 1918, são mostrados no romance não em suas consequências
sim, para a época, sendo alguns de seus “parentes” mais próximos, aqui no sociais e coletivas, mas nos efeitos individuais e psicológicos sobre as pessoas
Rio Grande do Sul, Dyonélio Machado e Reynaldo Moura (em nível nacional comuns, com o uso frequente e intenso de técnicas narrativas de representação
seria Cyro dos Anjos). Além disso, Telmo Vergara também é inovador quanto do fluxo de consciência das personagens.
à temática que aborda, descrevendo os grupos sociais urbanos de sua época
e as principais transformações ocorridas durante o processo de urbanização, A modernização urbana ocorrida em Porto Alegre nas primeiras décadas do
sendo, por exemplo, um de nossos primeiros autores literários a tratar dos ne- século XX (cenário de diversos de seus livros), com várias de suas nuances e
gros de Porto Alegre com uma certa profundidade – isso em Estrada perdida, etapas, aparece de forma intensa na obra literária de Vergara. Os indícios desta
na novela Figueira velha e em alguns contos. Inovador em termos de linguagem modernização da cidade são abordados juntamente com um intenso retrato
e no trato das temáticas concernentes ao processo de modernização urbana psicológico das personagens e da vida cotidiana. Além destes “ingredientes”,
ou melhor, através da combinação deles, Vergara nos revela uma profunda
nostalgia de uma cidade que já não existe mais (a cidade antes da moderniza-
² Em minha tese de Doutorado, ofereço uma análise mais detalhada a respeito. ção urbana) e de momentos de vida que também não podem ser recuperados


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(a vida de suas personagens, que não podem voltar atrás e modificar o que já jardim do casarão ou no mato espesso das proximidades eles faziam suas es-
passou). Essa tensão entre uma cidade que não existe mais (preponderante- tripulias, contemplando muitas vezes a paisagem vista do alto do morro: o
mente agrária) e aquela em processo de modernização urbana é uma das ca- rio Guaíba, o centro da cidade a as torres da Igreja das Dores. Luís e Roberto
racterísticas mais importantes de sua obra. fumavam escondidos do avô e colecionavam as figurinhas de artistas de ci-
nema do cigarro “Para Todos”. O cinema também aparece através de termos
Parece-nos ainda que além de Telmo Vergara não se enquadrar no modelo de uso comum na época, influenciados pela crescente presença dos filmes no
tradicional do “romance de 30”, também não pode ser classificado como “ro- cenário sociocultural, como é o caso de “fazer fita”. Neste cenário dos altos do
mance intimista” -– uma divisão bastante comum feita pelos historiadores Partenon, os primos também brincam de “1ª Guerra”, um dos assuntos do mo-
e críticos com relação à literatura de sua geração. Isso se pensarmos em seus mento: “(...) Vamo na pedreira. Vamo brincá de guerra. A Ligia vai junto. Tu é
romances. Além de “escorregar”, digamos assim, para ambos os lados, acres- a Alemanha. Eu sou a França. Ela é a Inglaterra. Vale pedrada. Tá?” (p. 20 )
cente-se a isso o intenso retrato do cotidiano e o fato de sua forma privilegiada
ser o conto (e não o romance) e teremos uma literatura bastante singular, o que Além dos primos, Telmo Vergara nos apresenta outras personagens deste
resulta numa explicação que justifica em parte o seu “esquecimento”. mesmo ambiente cotidiano: Dr. Ferreira, o avô austero, mas condescendente
com algumas das traquinagens dos garotos; Dona Ritoca, sua esposa; Umbe-
Com relação ao tal “romance intimista”, no qual, ao menos em parte, Telmo lina, a empregada negra de fala “tatibitate” (“Puça piguiça danada” – p. 17;
Vergara pode ser enquadrado , é importante lembrar, como bem aponta Luís “Puça homi teimoso! Eu sei pa tê ti tu té os tatocentão...” – p. 26 ); Peleu, o “ne-
Bueno , que desta tendência “permaneceram” nos anais da literatura brasileira gro velho”, o “bugio alquebrado”, o “macaco velho” que trabalha para o Dr.
apenas aqueles escritores que vieram na esteira de Clarice Lispector, especial- Ferreira e também na Companhia Força e Luz, viúvo, que arruma uma nova
mente a partir da década de 1940. Normalmente se esquece que antes de Cla- mulher (Sia Marica, bem mais nova do que ele) e Marciano, filho de Peleu, que
rice Lispector, ainda na década de 1930, outros autores já “preparavam o ter- desejava ser jóquei (ele montava com sucesso nas corridas de cancha reta no
reno” para o sucesso destes escritores e de uma tendência mais introspectiva Passo da Cavalhada) e acabou trocando uma carreira certa no Rio de Janeiro
ou intimista. Vergara pode ser considerado um deles. pelo casamento com Isaltina (uma mulatinha “furada”, que havia entregue sua
virgindade ao carteiro), o que fez com que se entregasse totalmente aos vícios
Estrada perdida, que pode ser considerada, por suas características temáticas da bebida. O livro conta, então, o desenrolar da vida destas figuras durante os
e estilísticas, uma obra síntese da carreira de Vergara, conta uma história que vinte anos que fazem parte da narrativa. O período entre 1918 e 1938 é mar-
se passa em Porto Alegre, num período que compreende o final da 1ª Guerra cado por profundas modificações na cidade. Desta forma, na medida em que
Mundial (1918) e as vésperas da 2ª Guerra Mundial (1938). O enredo gira em a cidade muda, também vai se alterando a existência das personagens. Telmo
torno da vida de uma série de personagens neste período de aproximadamente Vergara entrelaça as duas coisas, a vida das pessoas e a cidade, compondo
vinte anos, revelando suas alegrias, tristezas, angústias, sucessos e frustrações, os caminhos de sua “estrada perdida” e entrecruzando, assim como nos seus
enfim, as modificações por que passam suas vidas e as mudanças ocasionadas contos, o retrato psicológico, o retrato do cotidiano e a modernização urbana.
em Porto Alegre pelo processo de modernização urbana. O livro é dividido em Nesse sentido, é interessante fazer um contraponto entre as duas maiores par-
quatro partes: 1) “Alguns dias de 1918”; 2) “Um dia de 1919”; 3) “Um dia de tes do livro, que são a primeira (p. 16-206) e a última (p. 218-333) : fica nítido
1920”; 4) “Alguns dias de 1938”. que, na primeira parte, o cenário principal ainda é o mundo rural ou semir-ru-
ral, dos arredores e arrabaldes da cidade, da chácara do Dr. Ferreira; na segun-
Ele começa narrando as aventuras e brincadeiras dos primos Luís, Ligia e da, o mundo urbano aparece de forma muito mais intensa. Isso mostra que no
Roberto (os meninos estudavam no então “Ginásio Anchieta”) na propriedade romance aparece uma Porto Alegre em processo de urbanização, aparecendo
do avô (Doutor Ferreira), localizada nos altos do Partenon (hoje bairro Santo aqui uma das características da obra literária de Vergara, que é justamente o
Antônio), nas proximidades da atual Igreja de Santo Antônio do Partenon. No contraponto entre o rural e o urbano, e entre o passado e o futuro.

Em novembro de 1939, o então diretor da Revista do Globo, Justino Mar-


³ BUENO, Luís. Guimarães, Clarice e antes. In: TERESA — Revista de Literatura Brasileira
tins, convidou Telmo Vergara para fazer uma entrevista-reportagem sobre a
Depto. Letras Clássicas e Vernáculas – FFLCH/USP, n° 2 (2001). São Paulo: Ed. 34, 2001, p. paisagem de Estrada perdida. Os dois, mais um fotógrafo, foram para os altos
249-259.

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do Partenon e registraram a paisagem do livro, a mesma paisagem da infância
de Telmo, segundo ele próprio, o que nos revela a nostalgia do próprio escritor. “- Está vendo estas carquejas, estas macegas, estes grava-
Escreveu Vergara: tás (...)? Eles pertencem a este morro, reino infantil de Ligia,
“(...) as paisagens da minha infância estão dentro de mim Luís e Roberto. Daqui, sentados, eles seguiam os revolteios
com a mesma força das margens da estrada por que passei da pandorga do negro João. Eles brincaram aqui, eles cor-
domingo último. reram aqui (...) eles riram aqui. Ali está a pedreira, veja. De
cima dela o labuno cego caiu, no dia em que escapou do
(...) Por isso, quando começo um livro, não tenho o tra- potreiro. A Umbelina vinha saindo daquele mato...
balho de inventar o cenário, de criar paisagens. Dirijo-me
ao meu fichário de paisagens, pois não são inventadas, são Olho o mato... É ralo e ao pé dele já passam os automóveis
lembradas, ou melhor, evocadas. Daí, talvez, a força que os luxuosos, céleres noutra faixa de cimento...
críticos querem ver nas minhas pobres árvores e nos meus
pobres morros.” 4 (...) - Este mato é gente e é meu amigo, Justino.

A nostalgia de Telmo Vergara com relação à Porto Alegre do passado, antes (...) - Vamos entrar no mato? – propus [Justino propõe].
da modernização da cidade, é a mesma de suas personagens depois de adultas,
todos vislumbrando a paisagem do alto do morro. Diz o próprio autor: - Não, não [diz Telmo]. Me desculpe. Não convém. Juro-
lhe que, se entrássemos aí, Ligia, Luís e Roberto começari-
“- E os três guris ficavam a contemplar a cidade distante, am a cirandar em torno de nós, cantando, gritando, rindo.
já com as torres altas da Igreja das Dores, o sol descendo, E nós ficaríamos encabulados, talvez mesmo comovidos.” 6
como que mergulhando no rio, por entre as ilhas verdes...

(...) - Olhe lá - arranha-céus, casas, muitas casas, janelas Fora essa nostalgia de um passado que não volta mais, que parece estar
reverberando, chaminés de fábricas, viadutos, a catedral presente tanto na biografia quanto na obra de Vergara, é importante ressaltar
crescendo – uma paisagem diferente da que os guris con- o pioneirismo do autor como um dos poucos escritores gaúchos da época a
templavam. Da antiga, só as ilhas e a Igreja das Dores. tratar dos negros da capital com uma certa profundidade. Eles podem não ser
os protagonistas, mas desempenham papéis fundamentais para a composição
Telmo fala num tom enfático. Sofre, não há dúvida. E eu da história, como é o caso de Peleu e Marciano, por exemplo. De acordo com o
[Justino Martins] também. Sofro com ele a transformação pesquisador Gregory Rabassa 7 , em seu livro sobre O negro na ficção brasileira,
por que terá passado essa paisagem que hoje guarda so- embora em outras regiões do País o negro aparecesse com regularidade na
mente a Igreja das Dores como uma marca do passado.” 5 literatura da primeira metade do século XX, no Sul isso era bem mais raro,
especialmente no Rio Grande do Sul. O retrato da interioridade de Peleu e
Telmo Vergara prossegue descrevendo a paisagem bucólica em que Luís, Marciano, por exemplo, com a utilização de técnicas de representação do fluxo
Ligia e Roberto faziam suas peraltices, já invadida pelos sinais da moderniza- de consciência, é uma das marcas mais fortes e singulares do romance, jun-
ção: tamente com a de Luís (o protagonista, por assim dizer) e a forma inusitada
com que o autor trata, do ponto de vista da subjetividade das personagens, da
morte, outro tema bastante caro ao texto.
4
MARTINS, Justino. Telmo Vergara e a paisagem de “Estrada Perdida”. In: Revista do Globo,
11/11/1939, p. 44-45 e 50.
6
Ibidem, p. 50.
5 7
MARTINS, Justino, Op. cit., p. 44-45.' RABASSA, Gregory. O negro na ficção brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1965.


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Por fim, em síntese, para não alongar demais este texto e não estragar o praz-
SUMÁRIO
er da descoberta do livro pelo leitor, há de se saudar esta iniciativa do Instituto
Estadual do Livro em trazer à tona o romance mais importante de Telmo Ver-
gara, um autor no mínimo singular dentro da história da literatura brasileira,
e que teve ampla repercussão na época em que publicou. É necessária esta
retomada de sua obra, assim como a de tantos outros que ficaram à margem
Alguns dias de 1918....................................................................16
do cânone e da história, muitas vezes por não se adequarem aos modelos pre-
ponderantes que um determinado período histórico exigia, ou que os críticos e
historiadores da literatura, a posteriori, passaram a exigir.
Um dia de 1919..........................................................................207


Um dia de 1920..........................................................................213

Alguns dias de 1938..................................................................218

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Alguns dias de 1918 vai para a cidade dos pés-juntos. A filha dele, a Biloca, se foi em uma semana
mesmo. Coitada da dona Biloca! Tifo-negro. Uma semana só... Cruzes!
O arrepio que veio agora ao corpo gordo de Umbelina não é de gozo, mas de
1. medo. E os passos arrastados se apressam, afastam a negra do poço fatídico.

Todas as árvores do mato espesso explodiram no canto estridente dos joões- Mas, em pouco, a frescura torna a envolver a negra Umbelina, a presença
de-barro, das curruíras e dos sabiás. Depois voltou o silêncio fresco e denso. E física do mato torna a se fazer sentir, como um sortilégio.
o único indício de vida no mato foi o vago brilho da luz do sol, cintilando nas Umbelina prossegue de cabeça vazia de pensamentos, com o vago sorriso
gotas de orvalho, que umedecem as folhas secas do chão escuro. nos beiços carnudos, revelando-lhe os dentes brancos e em descida, os dentes
A frescura, que se irradia do mato, envolvente, encheu as narinas abertas e de tatibitate.
frementes da negra Umbelina, que acaba de abrir a porta da cozinha e olha o Umbelina não nota a pedra redonda e grande, que está ali entre as árvores e
mato dos fundos do casarão. sobre cuja superfície se ergue outra árvore, com as raízes apertando o redondo
A negra Umbelina sente a presença do mato, do mato que é como um homem da pedra, como uma mão irada. Umbelina não percebe os bancos da cadeira,
cheio de seiva e vida, que é como um macho. Por isso, a negra Umbelina de os bancos rústicos e duros, rodeando a mesa, que está coberta de folhas secas.
narinas frementes continua a aspirar a frescura quase gelada, o frio que vem Umbelina não vê o grupo das outras pedras, pequenas e grandes, redondas
de todos aqueles troncos, de toda aquela ramaria molhada e úmida, de todas e chatas, que estão ali perto dos bancos da clareira. Umbelina não nota que
aquelas folhas esparsas pelo chão poroso e escuro. Negra Umbelina distende um dos galhos do ingazeiro alto e copado – balouça quebrado. Umbelina não
os braços gordos e retintos, enchendo o busto imenso. Espreguiça-se. Boceja. percebe os pedaços de céu e de morro, que já se adivinham por entre os roncos
Sorri. Fala: das últimas árvores do mato.

– Puça, mato bonito!...¹ Umbelina nem sente que o aclive que leva ao morro está se acentuando
cada vez mais e lhe está tornando difícil a respiração. Umbelina não sente nem
Depois de voltar ao interior da cozinha, negra Umbelina sai empunhando o vê coisa alguma. Está completamente tomada pelo sortilégio da presença física
balde, desce a rampa e entra no mato. e fria do mato, que continua a lhe arrepiar, muito de leve, a pele escura dos
braços gordos.
Que mania, a do doutor! Com tanta água nas penas preferir para o primeiro
copo do dia a água da cacimba. Logo a da cacimba, lá perto do morro, longe... Somente agora, quando o mato terminou e apareceu o princípio do morro
tomado de sol – é que Umbelina se livrou do macho imenso. De novo encheu o
Mas não faz mal que Umbelina vá buscar a água lá da cacimba, lá no princípio busto cheio. De novo espreguiçou-se, de novo bocejou, de olhos ofuscados pela
do morro. Não faz mal. Assim, Umbelina sente o mato, goza a frescura do claridade do morro. De novo sorriu e falou:
mato, que está lhe dando este arrepio gostoso de gripezinha sem importância.
– Puça piguiça danada!...
E negra Umbelina vai levando o corpo gordo e grande, vai amassando as
folhas secas e molhadas com seus passos arrastados. E se dirigiu para a cacimba, que é um barril embutido na terra, cheio de água
límpida, sob a sombra das últimas árvores do mato.
Fita de relance o poço abandonado. O poço está coberto de tábuas podres e
rachadas, está coberto de mofo. Só há um pedaço de reboco sujo. O resto são os Umbelina se ajoelha com esforço. Inspira fundo. Olha a cara preta, o branco
tijolos pardacentos e raiados de limo. dos olhos, se refletindo no espelho nítido. Inspira de novo. Lembra-se da
recomendação do patrão (“Olha esse coração, Bilina. Muito cuidado. Não
Por que que o doutor não prefere, para o primeiro copo do dia, a água do quero que faças esforço nenhum. Dilatação da aorta. Esforço nenhum. E nada
poço abandonado? Seria muito mais cômodo para Umbelina. Pois sim que ele de safadezas, também...”).
tá louco... Dá tifo, essa água. Tifo-negro, como ele diz. Uma semana e o vivente

¹ Ao longo do livro, as reproduções da fala popular empregadas pelo autor foram mantidas
em sua grafia original (N.E). 
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Umbelina mergulha o balde na cacimba, desfazendo o rosto escuro, 2.
desfazendo o sorriso de dentes em descida. Resmunga:
– Co’ação... Bobage... Safadeza não fais mal pá niguém... Pá niguém...
A sombra que a aba do telhado projeta cobre todo o grande patamar da
A gargalhada pausada e estridente se mistura com a nova explosão de joões- escada, da escada de altos degraus de laje, que se abrem em leque e que parecem
de-barro, dos sabiás e das curruíras. oferecer dois rumos a quem sai da porta do casarão e desce para o jardim.
Também as hortênsias, lilases e brancas, emaranhando-se nas pequenas
colunas do corrimão de pedra – projetam sombra sobre o recanto. E o barranco
que limita o jardim, separando-o do mato, e em cujo dorso se estende o flanco
longo dos fundos do casarão – o barranco reforça ainda mais a solidão do
recanto, do esconderijo inefável e seguro.
Aí, debaixo da escada, cercados de sombra – Luís e Roberto vão fumar.
Roberto e Luís tiraram os cigarros do bolsinho do fardamento do Ginásio
Anchieta. E acenderam-nos no isqueiro de Roberto, no isqueiro de pedra, de
corda amarelada pendente, muito maior que o isqueiro.
A primeira tragada foi um gozo calado e sem comentários. A segunda
também. Mas já na terceira veio o assunto:
– Roberto, quantas figurinha tu já tem?
Roberto não entende:
– Que figurinha? Do cigarro “Paratodos”?
Luís interrompe a quarta tragada:
– Sim. Eu já tenho quase quarenta...
Roberto afirma, orgulhoso:
– Eu tenho mais. Já tenho mais de cinquenta!
Luís se abala com a superioridade do outro. Puxa mais uma tragada e
comenta, humilde:
– Diz que a coleção é oitenta figurinha. Diz que a mais difícil de se achá é a
da Maria Walkamp...
Roberto torna com o tom de orgulho:
– Sai, trouxa! Maria Walkamp até que é fácil. Difícil de encontrá é o Edie Polo,
o Jameson e a Francisca Bertini... Maria Walkamp é canja. Eu tenho três. Edie
Polo e Francisca Bertini, tenho uma. Só me falta o Jameson. Maria Walkamp,
tenho três... Sai, trouxa!


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Luís sente vontade de contar ao primo que possui Jameson , há muito tempo Roberto continua:
já. Tão bonita a figura rara! Nº 75. De fundo laranja, com o formidável detetive
Jameson de roupa cinza e cabelos cor-de-ouro. Mas se acovarda ante o ar – O’ia o lesma! Não pode pegá uma menina... O’ia o lesma!
satisfeito e orgulhoso do primo. E contenta-se em desviar o assunto: As lágrimas de vergonha estão chegando aos olhos de Luís, que retesa os
– Sábo que vem tem sabatina de Geografia... músculos do rosto e de todo o corpo, no esforço cada vez maior. Mas Lígia
é a boneca inatingível e graciosa, que agora pulou por cima do canteiro das
Roberto não responde, absorto no cigarro “Para Todos”. Pausa. Cheiro roseiras, correu pelas ruazinhas do jardim, pulou mais canteiros, foi até o muro
do brim dos fardamentos, misturado ao dos cigarros. Luís insiste com outro de altos gradis pontudos, contornou o tronco grosso e espinhudo da paineira,
assunto: contornou, contornou e voltou a correr pelas ruazinhas do jardim, tornou a
pular por cima do canteiro das roseiras, – sempre levando no rosto moreno um
– Depois vamo brincá no morro? grande riso rebrilhante.
Roberto concorda: Luís também foi pular o canteiro das roseiras. Mas prendeu o pé no arame
– Vamo. E vamo na pedreira. Vamo brincá de guerra. A Lígia vai junto. Tu é escondido entre os galhos. E se projetou no areão grosso.
a Alemanha. Eu sou a França. Ela é a Inglaterra. Vale pedrada. Tá? O comentário gritado de Roberto:
Roberto não chegou a protestar contra o fato de valer pedrada no brinquedo – O lesma caiu! Chi! O lesma caiu!
de guerra. Porque Lígia desceu, correndo, a escada das hortênsias e invadiu,
espavorida, o esconderijo dos guris. Foi com os grandes olhos negros brilhando As lágrimas não lhe deixaram ver. Mas, mesmo sem ver, Luís se ergueu e
um brilho de temor que ela avisou: esfregou as mãos uma na outra, tirando o areão, as mãos que estão arranhadas
e lhe ardem. Ainda de olhos cegados pelas lágrimas, Luís limpa as calças na
– Oia os cigarro... O vovô já vai saí... altura dos joelhos.
Os tocos de cigarros são esfregados na sola dos sapatos. As bocas sopram o A voz do avô, lá no alto do patamar da escada:
hálito morno contra a pedra dos alicerces altos, que brotam do chão, mais altos
que os guris. E, com o coração batendo de susto, Luís e Roberto se unem a Lígia – Que foi isto, gurizada?
ali no jardim, brincando o brinquedo despistador.
Lígia bate no ombro de Roberto:
***
– Bucha!
Enquanto o dr. Ferreira desce a escada, os netos lhe contemplam o vulto
Correria de Roberto até alcançar Luís: austero, a fatiota cinzenta, os cabelos prateados aparecendo sob as abas do
chapéu de feltro, a luz do sol brincando no cavanhaque grisalho, o chicote de
– Bucha! cabo de prata sacodido pela mão magra, de longos dedos descarnados.
Agora Luís corre no encalço de Lígia, que se desvia, se furta, negaceia. O chicote ameaçou Lígia, ameaçou Luís, ameaçou Roberto. Mas não bateu
Roberto debica: em ninguém. Depois do sorriso amável, a mão magra e longa pegou a mão de
Luís, pálida e suja de terra.
– Chi! O’ia o lesma! O’ia o pandorga!
– Você se arranhou... Vá botar iodo...
Quase com raiva Luís reúne todas as forças nas pernas magras, a fim de
alcançar a prima, que no vestido branco, contrastando com a pele morena, é E, virando-se para dona Ritoca, que ainda está no patamar da escada,
uma boneca inatingível, cheia de vida e de graça, a pular, a correr, a negacear debruçada sobre o corrimão de pedra e cujo busto parece nascer do emaranhado
sempre. das hortênsias – dr. Ferreira gritou-lhe:


20 |ESTRADA PERDIDA 21
– Minha velha, bote iodo na mão do seu neto! (Outro sorriso amável) Esse O fordezinho alto e barulhento, de radiador amarelo e rodas pintadas de
maganão... (Outra ameaça de chicotada) Vá duma vez! Que que está esperando? branco, soltando a fumaça espessa, levantando pó, – o fordezinho assustou o
zaino e não deixou dr. Ferreira corresponder ao até-logo dos netos. Porém dr.
Luís suplica, tímido: Ferreira, num ápice, sustou o ameaço de corcovo, deu duas chicotadas na paleta
– Eu quero vê o senhor saí, primeiro. Não tá doendo. Posso? do zaino e, com o próprio chicote prateado, retribuiu o até-logo da gurizada.

– Pode, pode... Mas bote iodo. Pode infeccionar. (Mais uma recomendação Luís, Roberto e Lígia ficaram dependurados aos gradis, o corpo quase caindo
para dona Ritoca) Não esqueça do iodo nesse trabuzana... E até logo! para a rua. Mas a fumarada do fordezinho bulhento e a polvadeira da rua – não
lhes deixou ver o avô. Envolveu-lhe o vulto na cortina densa e azul-parda.
Dona Ritoca abana o aceno leve:
Marciano também se aproximou dos gradis e comentou:
– Até logo! Veja se volta para o café. Hoje é sábado. Volte mais cedo...
– Esse veio é bicho num cavalo... (Riu) Eu também... Já ganhei muita corrida
Dr. Ferreira responde, já caminhando: de cancha reta no Passo da Cavaiada. Se eu quisesse, eu era jóqui...
– Pode ser. Se eu não tiver nenhum chamado pelo caminho... Lígia comentou:
A gurizada acompanha o avô, contornando o casarão, passando por sob a – E por que qui tu não é?
sacada ampla, por sob as altas janelas do gabinete, beirando os canteiros das
roseiras, das margaridas, dos mimos-de-vênus e dos sagus, atingindo o outro Marciano sacodiu os ombros, torceu o bigode ralo, melancólico:
lado do casarão, que é um pátio todo calçado de pedra irregular e coberto da – Pru quê? Pruque mi casei, pronto! Pruque mi casei! Quem mi mandô sê
sombra das paineiras. besta? Tenho trinta ano e tô na idade boa pra sê jóqui. Peso só cincoenta e
A porta grande do porão está aberta de par em par. Do lado de fora, o zaino treis quilo. Dava pra sê jóqui de prado, de camiseta de cô... Cheguei a tá de
elegante se agita, faceiro e inquieto, seguro pelas mãos do mulato Marciano. mala pronta pra embarcá pro Rio... Mais quem me mando sê besta? Quem me
mandou mi esquentá pra casá? Voceis não entende, meninada, mais é por isso
– Seu doutô, o zaino hoje tá esquentado... Quaji me deu um manotaço... que eu às veis bebo...
Antes de responder, dr. Ferreira corre a mão cariciosa no pescoço nédio do Roberto se espantou:
cavalo, passeia o chicote sobre as clinas escuras, abre-as, penteia-as com vagar.
– Às vez? Tu tá sempre no pileque, Marciano...
– Isto é cavalo muito bom, Marciano...
Marciano sorriu, ainda com melancolia, outra vez torcendo o bigode. Ia talvez
O zaino conheceu o dono. Aquietou-se, ficou imóvel, pareceu cavalo de narrar com mais pormenores a sua mágoa, o seu recalque de jóquei gorado, ia
estátua. Só tornou a agitar-se, quando dr. Ferreira já lhe estava no lombo, sobre remoer lentamente a sua dor, quando da sacada do gabinete, chegou o grito de
a sela de couro claro e luzidio. O zaino ameaçou um arranco de corrida, mas foi dona Ritoca:
sofreado pelo tirão hábil das rédeas. E desceu de lado, baixando e levantando a
cabeça bonita, fazendo as ferraduras baterem nas pedras da descida. O rumor – Luís! Venha botar o iodo!
de pedras pisadas foi substituído pelas batidas nas tábuas do estrado que liga – Já vai, vovó...
a calçada ao chão poento da rua. Aí o rumor transformou-se num som rouco e
abafado. Luís foi correndo, com Lígia e Roberto no seu encalço.
Luís, Roberto e Lígia estão dependurados aos gradis do jardim. Gritam: Marciano ainda ficou olhando a rua, através dos gradis. Notou outro ford
de radiador amarelo, que passou também fazendo barulho, levantando pó e
– Té logo, vovô! soltando fumaça. Outro? Quem sabe é o mesmo? Talvez seja o mesmo, sim.
Vem do fim-da-linha pra cidade, e o que assustou o zaino ia pro fim-da-linha,
pro mesmo rumo do dr. Ferreira.


22 |ESTRADA PERDIDA 23
Agora passou o bonde, desengonçado e também barulhento. Luís se atemoriza:
Há uma pandorga, correndo o céu azul e tranquilo. Zigue-zagueia, agitando – Tás doida? Tu não sabe que a tia Biloca morreu de bebê essa água? Tifo-
o rabo longo, desce lenta, sobe correndo, parece que vai atingir as nuvens... negro. Tás doida...
Agora está ondulando. Sim, está galopando, é um cavalo, um cavalo no prado
imenso, galopando, galopando, levado pelo grande, pelo conhecidíssimo Lígia bate como o pé:
jóquei Marciano, de trinta anos de idade e com cincoenta e três quilos apenas... – Sei que a tia Biloca morreu. Mas não fais mal. Um dia eu bebo. Toda uma
Marciano levanta o graveto do areão do jardim. Parte-o em dois, com muita caneca. Vocês vão vê...
raiva nos braços magros, como o jóquei decepcionado, que, depois de perder a Roberto repete, com mais impaciência:
corrida, partisse o chicote.
– Vamo duma vez, guria!
E se vai rumo ao casarão, rumo ao pátio das pedras irregulares e das paineiras
altas e espinhudas, sentido a vontadezinha de beber uns bons três dedos de Recomeça a disparada. As árvores altas, os cipós grossos envolvendo o tronco
cachaça ali no armazém da esquina. de algumas, as barbas-de-pau pendendo dos galhos, apedra redonda, com a
árvore em cima, apertada pelas raízes tentaculares, mais árvores, o ingazeiro
do galho quebrado, os bancos da clareira, rodeando a mesa rústica, o grupo
*** de pedras pequenas e grandes, ovais e chatas – tudo passa veloz, na correria
descuidosa, sob a sombra fresca e espessa.
Os primos descem a escada das hortênsias. Luís ainda vem soprando a palma
da mão. Roberto insiste: E, de súbito, a claridade do morro.

– Então, vocês qué ou não qué brincá de guerra?


Lígia anui logo: ***

– Quero, sim, quero!


Luís hesita: Marciano, encostado ao umbral da porta da cozinha, diz para Umbelina que
está acocorada soprando o fogo do fogão escuro e grande:
– Não tô com vontade...
– Umbelina, tu mi discurpa. Mas eu tô precisando memo dos quatrocentos
Mas concorda, ao ouvir este comentário irônico de Roberto: rés...
– Oia o lesma, Lígia! Com um arranhãozinho de bobagem já tá com medo de Umbelina ri a risada pausada:
brincá...
– Mais ô homi! Tê ti tu feiz do teu dinheo? Tu só tem a tua muié e a tua fia
Correm os três, entram os três na sombra densa do mato. Lígia vai na frente, pitininha, te não dá tabaio nenhum...
mais veloz e mais ágil, o vestido branco esvoaçando como uma bandeira. Lígia
para diante do poço abandonado e diz, opressa: Marciano insiste, com mais coragem:

– Um dia ainda bebo a água deste poço... – Tu sabe, Bilina... O doutô só paga no princípio do meis, a Isaltina já gastô
todo o dinheiro que eu dei para ela guardá... Eu... eu tenho muita percisão
O irmão sacode os ombros, impaciente: desse dinheiro, Bilina...
– Vamo duma vez! Umbelina fecha a portinhola do fogão e se ergue com esforço:


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– Puça homi teimoso! Eu sei pa tê ti tu té os tatocentão... Tu té impiná, 3.
safado... (Outro riso grosso) Mais não fais mal... (A mão mergulha entre os
fartos seios negros, retira o saquinho de pano sujo, abre-o, pega os dois níqueis
de duzentos réis.) Toma. – Venham cá pra cima, que tá melhor!
Marciano balbucia o agradecimento, enquanto Umbelina torna, enérgica: Eles aceitaram o convite de Lígia e deixaram o fundo úmido da pedreira.
– Fim do meis, tu mi pada! Não pensa ti vai leva a nega Bilina no embuio. Escalaram a barranca vermelha, enterrando as unhas na argila mole, agarraram-
se nas enormes pedras encravadas, nos tufos de arbustos, que vicejam por entre
E, quando já embolsara o dinheiro e se ia embora – Marciano foi preso pelos as pedras. Foram escalando, foram escalando, até que o seu vulto pardacento
braços gordos e pretos, enquanto recebeu o beijo babusado: se juntou ao vulto claro de Lígia. E as três silhuetas se recortaram contra o azul
nítido do céu, os cabelos esvoaçando sob o ventinho fresco, que está começando
– Meu neguinho, meu gu’izinho safado... Ainda vô atabá ti dando todo o a soprar, renitente.
meu dinheo, meu neguinho safado... Não piciza padá, não, meu gu’izinho...
Roberto apontou o fundo da pedreira, cheio de blocos irregulares de pedra:
Mas Marciano desvencilha-se do abraço, foge da cozinha e, quase correndo,
rodeia o casarão, atravessa o jardim, passa pelo pátio das paineiras espinhudas, – Lá em baixo tá melhor pra brincá de guerra.
abre o portão da rua, a mão fechada e contraída escondendo o grande tesouro
que, dentro em pouco, se transformará no esquecimento gostoso. Lígia concorda:
– Sim, mas vamo pará um pouco, vamo até lá em cima do morro. Depois a
gente vem brincá de novo...
Luís indica a britadeira, a um canto da pedreira, parecendo um monstro
acocorado prestes a saltar, com os músculos de ferro contraídos:
– Hoje é sábado de tarde e os home não tão trabalhando. A máquina vai servir
de fortaleza pra mim. Eu sou a Alemanha e a Alemanha tem muita fortaleza...
Roberto discorda logo:
– Não, não! A fortaleza é pra mim e pra Lígia. A França e a Inglaterra têm
mais fortaleza que a Alemanha...
Luís vai protestar:
– Mas...
Lígia não lhe deixa terminar a frase. Porque já se foi correndo morro acima,
enquanto grita:
– Vamo! Vamo espiá a igreja dos capuchinho!
Sobem, amassando o capim rasteiro, sobem, desbravando as moitas agrestes,
sobem, evitando o espinho insidioso dos gravatás, sobem, beirando a cerca de
arame farpado do potreiro.
Estacam, ante a pitangueira, que é uma mancha verde, salpicada de pontinhos
vermelhos.


26 |ESTRADA PERDIDA 27
Lígia se ergue na ponta dos pés, mergulha os braços no emaranhado dos Em silêncio, devagar, continuam a subir o morro empapado de luz.
galhos frágeis, para conseguir os frutos mais gostosos e maiores, que estão lá
no alto e são difíceis de alcançar.
Agora comeu duas pitangas de uma só vez, duas pitangas cheias e ***
transbordantes de caldo saboroso, o caldo que escorre roxo dos lábios vermelhos
e grossos. Agora quis alcançar aquela pitanga que, por certo, é a maior de todas
e está bem lá em cima. Retesa os músculos das pernas, enrija o corpo assexuado. O padre gordo fechou o portão de ferro, de uma folha só e indevassável, que
separa a clausura da rua e do mundo. Empunhando uma vassoura, ele atravessa
Mas a mão do irmão vai mais alto e rouba o fruto. a rua de terra vermelha, rumo à igreja, os dedos dos pés, cheios e polpudos,
– Desgraçado! Sem-vergonha! Pegá a minha pitanga! Toma! Toma! aparecendo nas sandálias abertas, a barba loura balouçando ao sabor do vento,
a batina marrom, um tanto curta, revelando os tornozelos pelados e brancos.
As mãos morenas batem fechadas no peito de Roberto, alcançam felinas o
rosto de Roberto, fazendo o sangue gotejar de um dos sulcos de pele arrepiada, O padre está assobiando um assobio baixinho, incompreensível, mas por certo
igualzinho a sumo de pitanga. muito alegre, pois que o rubor que lhe empresta uma rodela vermelha às faces
brancas com certeza traduz alegria, alegria ingênua e satisfeita de capuchinho
Roberto se defende, tentando segurar-lhe as mãos e deixa a pitanga cair gordo e descuidado. As passadas são fortes e resolutas, acompanham o
no chão. O pé de Lígia, triunfal, se aplasta sobre a frutinha, esmigalhando-a, compasso do assobio e levam o dono rumo à porta da sacristia, que está aberta
aniquilando-a. ali nos fundos da igreja.
– Bem feito! Nem tu nem eu... – Psit! Psiiit!
Roberto passa a mão no rosto: As passadas resolutas cessam. De novo se ouve:
– Guria danada! Me arranhaste... Tá saindo sangue... – Psiiiit!
Lígia repete: A expressão de curiosidade habita o rosto satisfeito. As sandálias bulhentas
batem em direção das moitas, que beiram a cerca de arame farpado e vão até
– Bem feito! a parede da sacristia. A vassoura se ergue cautelosa, como que pressentindo
Luís se dirigiu à arvorezinha, também se ergueu na ponta dos pés, também algum perigo. Mas baixa, ao constatar o barulho de pés que correm em
alcançou uma pitanga difícil e cheia de sumo: desabalada fuga.

– Toma pra ti, Lígia... O rubor de alegria e satisfação volta ao rosto branco, a barba loura torna a
agitar-se ao léu do vento, o assobio torna aos lábios finos e em bico, os passos
Lígia quase engole-a inteira, fazendo, mais uma vez, o caldo arroxeado descer- pesados de novo se dirigem à porta da sacristia.
lhe dos cantos da boca, deixar-lhe ainda mais vermelhos os lábios polpudos.
Entram.
Roberto, ainda esfregando o rosto, comenta:
– Pegando no bico da outra, lesma...
***
– É Lígia quem defende o lesma:
Roberto grita:
– Que que tem? Não tá pegando no bico, nada! Quis me dá uma pitanga e
me deu, pronto! – Travem, travem o auto!
Luís trava primeiro, Lígia depois, mas, mesmo assim, delizam mais de um


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metro, esfregando a sola dos sapatos no capim escorregadio. aqui um dia. Vocês se lembra? Toda hora botava a mão na cabeça e dizia: “Ai,
minha cabeça, doutor, ai, minha cabeça!”.
Sentam os três, de pernas cruzadas ao modo oriental. Luís faz um risinho:
Ante o silêncio dos outros, Lígia não prossegue e também cala. Mas por
– O padre se assustou... pouco, porque logo se ergue, os olhos negros brilhando de alegria:
Lígia também ri: – Ah! Já sei! Vamo brincá de louco. Eu sou a louca, o Luís é o médico e tu é o
– Pensou que era uma cobra... Queria matá a cobra com a vassoura... enfermeiro, Roberto. Vamo?

Roberto ri por sua vez: Roberto protesta:

– Cascavel é que assobia... Pensou que era uma cascavel... – Não. Eu sou o médico. O Luís é que é o enfermeiro.

A risada gostosa e em coro desce pelo morro, passa por cima das moitas Não ouvindo nenhum protesto de Luís, Lígia é a louca. Faz uma cara fúnebre,
de gravatás, passa por cima das carquejas e das macegas, passa por sobre as arregala os olhos, curva-se como se lhe doessem as costas, leva a mão à cabeça.
pitangueiras, ecoa nas pedras da pedreira afastada. E lamenta-se, com voz cavernosa:

Vem uma pausa, em que os três se calam, enquanto aos seus ouvidos chega –Ai, minha cabeça, doutor, ai minha cabeça, doutor!...
o zumbido abafado da cidade, lá em baixo, quase apagada pela distância Espicha o lábio inferior, descabela-se, trágica. Caminha. Para. Ergue o corpo.
mas deixando adivinhar as paredes brancas das casas, os telhados vermelhos Mais uma vez o vestido branco esvoaça, desenhando-lhe as formas assexuadas.
e escuros, o revérbero das janelas, as chaminés de algumas fábricas, as duas Deixa de ser louca.
torres erguidas e altas da igreja das Dores, subindo, subindo, parecendo quase
da altura do morro, a tira azul-claro do rio, serpenteando, abraçando a cidade, – Não, não quero mais! Esse brinquedo não tem graça!
deslizando reta, de novo serpenteando, de novo deslizando reta, os recortes
das ilhas fronteiras, a distância sem contornos da outra margem do rio, a outra Torna a sentar-se ao modo oriental. E de novo os três contemplam em silêncio
margem que vai, vai, leva a paragens desconhecidas e inatingíveis. Os guris a cidade distante.
veem tudo isso, olham a cidade coberta pelo nevoeiro tênue e acinzentado. A pandorga (cavalo do jóquei Marciano, galopando veloz) ainda se estampa
Agora os olhos curiosos acompanham a alavanca do bonde, passando lá em no céu limpo. Zigue-zagueia, agitando o rabo longo. Cai. Sobe.
baixo, na rua próxima. A alavanca vai indo, vai indo, parece existir sozinha. Roberto nota a outra pandorga, que apareceu longe da primeira, aproximou-
Perde-se. E com ela o rumor do bonde. se, aproximou-se. Roberto mostra-as ao primo e à irmã:
Roberto mostra: – Oia as duas pandorga...
– O bonde vai indo pro fim da linha... A segunda pandorga está bem junto da primeira. O rabo esvoaçante quer
Luís arrisca: lamber o cordão da outra, que desce, desce, desce, e em seguida sobe, sempre
perseguida.
– Daqui a pouco, tá no Hospício... (Pausa) O vovô daqui a pouco tá de volta.
Hoje é sábado e o serviço termina cedo no Hospício... Ele disse pra vovó que Roberto afirma:
podia sê que voltasse pro café... – É o negro João. Eu conheço o jeito. Vai passá a navalha na outra. É o negro
Lígia ri: João...

– Vocês se lembra daquela louca que o vovô tava tratando? Aquela do vestido Os olhos dos guris semicerraram-se na atenção empregada. O gozo inefável
preto e dos olho arregalado? Depois que ficou melhor, saiu do Hospício e veio lhes chega ao rosto, na chuleação emocionante, enquanto acompanham a luta
das duas pandorgas.


30 |ESTRADA PERDIDA 31
Porém Lígia se ergue outra vez, estende os braços com ódio: Esfolado, sangrando, o cavalo cego volta à liberdade do morro.
– Não quero! Não quero! É judiaria! É judiaria!
Não adianta Lígia não querer. O rabo da pandorga do negro João roçou o ***
cordão da outra, duas, três vezes, até que, de súbito, esta despencou-se do céu,
aos círculos, vagarosa, como um grande pássaro ferido.
As lágrimas vieram aos olhos negros de Lígia. O choro também veio: Os olhos grandes de Lígia, já enxutos de lágrimas, avistaram primeiro:

– Judiaria... Judiaria... – Oia o cavalo cego! Oia o lobuno!

*** A nova correria desabalada levou os três para junto do lobuno, que lhes
sentiu a presença e estacou quieto.
O cavalo cego está empurrando, com o frontal duro e largo, a porteira do
potreiro. Os olhos sem vida, de um azul que, de tão claro, parece branco, não Lígia se penalizou:
estão enxergando coisa alguma. A cabeça, tonta, desnorteada, aflita, força, – Coitado! Tá saindo sangue...
força a porteira. Até que a ponta do pedaço de galho grosso escapa da argola
de arame e a porteira se aplasta no chão, com um ranger de arames retorcidos. Luís examina os arranhões, que são sulcos de pelo rasgado, sangrando um
sangue escuro. Roberto explica:
Os primeiros passos, na liberdade do morro, são ágeis, fáceis, de cavalo que
enxerga. Mas logo se acalmam. – Com certeza andou se metendo no mato...

E, num zigue-zague cauteloso, o lobuno magro, de pelo acinzentado Lígia faz uma cara gaiata:
descascando em diversos pontos, desce o trecho de morro, que separa a sua
– Hoje tá tudo arranhado... Tu, Luís, nas mão, tu, Roberto (risada) na cara,
prisão do mato próximo.
pra não sê “olho-grande”, e o coitado do lobuno nas paleta e no pescoço... Não
As primeiras árvores são desviadas, como se os olhos mortos e quase brancos vai chegá o iodo da vovó...
as vissem. Em pouco, porém, o frontal largo dá no tronco de uma, com um
Lígia se arrepende, em seguida, da frase irreverente. Torna-lhe ao rosto
ruído seco de martelo martelando madeira. O corpo grande retrocede, bate
fresco a nuvem de piedade. Toma o focinho preto nas mãos, o focinho preto
em outra árvore. A cabeça se agita para um lado e para outro, de novo tonta e
onde as narinas vermelhas formam um contraste estranho:
aflita. Parece que os olhos sem vida fazem um grande esforço para ver. Neste
momento, até parece terem visto, terem enxergado o caminho difícil, que – Coitadinho! Pobrezinho!
serpenteia entre a multidão de troncos de árvores – parece terem visto, tamanha
foi a desenvoltura com que a marcha foi reiniciada. Mas, não. Os olhos mortos, As mãos abandonam o focinho escuro, molhadas de baba. A lembrança vem:
de um azul-claro quase branco, não enxergaram. Não adiantou a desenvoltura – É preciso avisá o Marciano. Não fechou a porteira direito...
mentirosa. De novo vieram as pancadas secas no tronco das árvores, de novo
vieram as pechadas do corpanzil cinzento no ronco das árvores. Roberto ri:
A aflição foi crescendo, a cabeça se agitou ainda mais. O desespero, a fúria – O vovô vai fica danado com ele...
tomou conta do lobuno cego.
Lígia não ri. É com um aspecto muito sério que repete:
A cabeça se transformou na proa do brigue louco e desesperado, que vai
rompendo, a todo o custo, o sargaço dos cipós estirados, que vai afrontando os – É preciso avisá o Marciano. Vai, Roberto.
escolhos, mais forte e mais duro que a pedra dos rochedos. Roberto não está com vontade:


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– Ora! Vai tu, não é Luís? sei... (Prossegue o risinho) Tu sabe por que que eu não quis que tu fosse avisá
o Marciano?
Lígia não deixa Luís ir:
Luís, sempre segurando o focinho do lobuno, responde:
– Não, não vai, Luís. O Roberto é que vai. Deixa de sê preguiçoso, Roberto.
E vai ligeiro, que é pro Marciano curá esses arranhão e levá o coitado pro – Não.
potreiro...
Lígia fica séria:
Roberto vai descendo bem devagar, sem pressa nenhuma, só para contrariar.
Desce. Desce. Desaparece no mato. Ouve-se a sua voz, distante gritando: – Porque eu gosto de ficá contigo sozinha...

– Marciano! Marciano! À seriedade seguiu a gargalhada súbita. Luís olha a prima escanchada no
cavalo cego, perto de seu rosto, parecendo tão grande e tão alta, o vestido
Lígia ordena a Luís: sungado mostrando-lhe os joelhos marcados de tombos. Olha. Não acha
nada para dizer, enquanto, incontrolável, avassaladora, chega-lhe ao rosto a
– Me segura a cabeça dele. onda quente de cábula, e as mãos tremem tanto que quase não tem força para
Luís obedece, também aperta com as mãos o focinho preto e molhado, segurara cabeça do cavalo.
sentindo a testa úmida, através da camisa rala, que aparece por entre o casaco O coração ainda está lhe batendo descompassado, quando os gritos de
aberto. Lígia monta de um pulo. Recomenda: Roberto precedem o dono, já fora do mato, subindo o pedaço de morro:
– Fica segurando sempre, que ele pode saí disparando. – O Marciano já vem vindo, pessoal!
Luís discorda: Só quando Marciano está bem perto, num vago gingar de bebedeira,
– Ele não dispara, ele é cego. arrastando o cabresto de couro pelos capins do chão – só então é que Lígia pula
do cavalo, num salto ágil de bugra selvagem e afogueada.
Lígia faz um risinho, sacode a cabeça:
Marciano resmunga:
– Não faiz mal. Não larga, sim?
– Um dia, esse diabo veio ainda cai da pedreira...
Luís sente o fio da baba escorrendo das narinas abertas e vermelhas,
empapando o gelo preto do focinho. Lígia continua a sacudir a cabeça, bem de
leve, bem de leve.
Um pedaço da cidade, visto aqui do princípio do morro, está oculto pela copa
das árvores do mato. Mas outro pedaço ainda se avista, com as torres da Igreja
das Dores, com os telhados, com o revérbero das janelas, com as chaminés das
fábricas, com a tira longa e azulada do rio, serpenteando outra vez.
E é esse quadro que os olhos de Lígia vislumbram, rápido, sacodido para lá e
para cá, no menear da cabeça irriquieta. A tontura. Lígia para logo e diz a Luís:
– Fiquei tonta.
– Ahn!
– Tu disse que o cavalo é cego e que não pode dispará. (Outro risinho) Eu


34 |ESTRADA PERDIDA 35
4. – Ola, galinhas porca!
O cabresto é jogado no fundo do carro. O pé sacode o carro, que range, como
se alguém lhe subisse para o bojo. Range mais. Diversas pessoas subiram,
Os passos arrastados do Marciano ainda são firmes. Só o leve, o vago gingar diversos fantasmas sentaram no banco da frente e no banco de trás.
do corpo magro, lembrando uma das flechilhas do morro, batidas pelo vento,
denuncia a metamorfose dos quatrocentos réis da Umbelina em quatro dedos Sacode, sacode, desgranido! Sacode, joga longe esse pó, joga longe essas
grossos de cachaça. bosticas!
Os passos arrastados continuam firmes, amassam as folhas secas, passam Carro velho e sem serventia, que só serve para entupir este porão. Melhor
pelos bancos e pela mesa da clareira, passam pelo grupo das pedras longas e seria que se tocasse fogo nele, que se fizesse uma fogueira com ele, uma fogueira
chatas, tangenciam a pedra redonda, abarcada pelas raízes longas, passam pelas bem forte e bem cheia de fumaça, queimando a mágoa do mulato Marciano.
moitas, pelas inúmeras árvores, detêm-se junto aos tijolos do poço fatídico, os Mulato besta e sem coragem...
tijolos escuros e rajados de limo.
Carro sem serventia, que que estás fazendo aqui no porão, atravancando
Resmungo pastoso: a entrada, servindo de poleiro para galinhas, servindo de depósito de coisas
velhas? Que que estás fazendo?
– Cruis, poço do diabo! Pois sim qu’eu vô bebê a tua água...
Que mania, a do dr. Ferreira!
Os passos arrastados abandonam a sombra fresca. Mergulham na luz do
jardim. Detêm-se novamente, quando esta frase chega da porta da cozinha: Marciano se lembra bem, apesar da vaga nuvem que lhe está enchendo o
cérebro. Faz três anos. Foi Marciano quem notou. Atrelou o lobuno e o lobuno
– Tu impinô, hein, mulato safado? não queria arrancar. Foi preciso dar-lhe duas chicotadas. Aí o lobuno caminhou,
O troco saiu, também pastoso e resmungado: bem devagar, parecendo ter medo. Já ali no pátio, se o Marciano não puxasse as
rédeas com vigor, o lobuno iria de encontro a uma das paineiras espinhudas.
– Vai prantá batata, nega assanhada! Marciano desceu do carro sem compreender. Olhou a cara do lobuno e então
notou a coisa espantosa. Os olhos do cavalo, escuros, estavam azuis, estavam
A gargalhada grossa da Umbelina ficou rolando, rolando, enquanto os passos
quase brancos. Marciano ameaçou com o chicote, bem perto dos olhos pardos.
lentos se afastaram, continuaram vagarosos, sem pressa nenhuma, seguidos
A cabeça permaneceu quieta, sem notar a tira temida do chicote. Marciano,
pela cobra de couro do cabresto, que rasteja levantando o pozinho vago e sem
então, compreendeu. O lobuno estava cego, o lobuno cegara de repente.
importância.
Marciano foi correndo, chamar o dr. Ferreira, que veio logo, examinou os olhos
Agora os pés sujos e grossos arrastam-se pela frente do casarão, passam do cavalo, teve um jeito muito triste e falou, quase sem voz: “Ficou cego mesmo,
debaixo da grande sacada do gabinete, passam debaixo das duas altas, das Marciano. Que coisa horrível! Ficou cego...” A voz do dr. Ferreira estava tremida
duas largas janelas da sala, beiram o canteiro das roseiras, quebram para o e Marciano é capaz de jurar que viu lágrimas nos olhos do patrão. Dr. Ferreira
lado do pátio, esfregam-se sobre as pedras irregulares do pátio, sentem o caminhou, de cabeça baixa, mas se voltou em seguida e disse para Marciano,
frio das pedras cobertas pela sombra das três paineiras espinhudas. Estacam, ainda de voz tremida: “Não tem cura, Marciano. Coitado do lobuno velho!”.
esparramados na madeira do portal. Pisam a terra dura do porão. Outros passos para a frente, outro retorno: “Leva o coitado pro potreiro, leva
bem devagar... E guarda esse carro”. Aí a voz do dr. Ferreira perdeu o tom
Um dos pés sujos e grossos repousa, neste momento, sobre o estribo do carro tremido e saiu, enérgica: “Guarda esse carro! Nunca mais vou me servir dele!
mergulhado na penumbra do porão, descansando inclinado sobre os varais e De hoje em diante, quando precisar, chamo um carro de praça! Guarda esse
que está coberto de pó, já tem um rasgão nos gomos do assento da frente, tem carro!”. Dr. Ferreira, então, se afastou de vez, voltou para o casarão, vagaroso,
lembranças cinzentas de galinhas espalhadas no toldo. arqueado, levando uma grande tristeza sobre os ombros caídos.
Exclamação irada: Na verdade, dr. Ferreira nunca mais quis servir-se do carro, que ficou ali


36 |ESTRADA PERDIDA 37
no porão, abandonado, cobrindo-se de pó, transformando-se aos poucos em Depois do salto do vapor, o amor retornou com mais intensidade, o casamento
depósito de coisas velhas, em poleiro de galinhas desavergonhadas. Que se apressou... E (as sacudidelas no estribo do carro cessaram de todo, esgotadas,
mania, a do doutor! cansadas) e ... e (uma única e fraca sacudidela) o Marciano deixou de ser jóquei,
de uma vez por todas...
Tudo por causa dum cavalo velho, que cegou de repente. Marciano não
consegue entender como se sinta a cegueira de um cavalo ao ponto de abandonar Novo acesso frenético de sacudidelas, mais fantasmas imponderáveis
um carro bom desses, um carro de dois assentos e com molas de primeira... Vá subindo para o bojo do carro.
se entender esses doutores... Parece que todos terminam meio malucos. O dr.
Ferreira, então, sempre lidando com os loucos... Terminou gira, também... E – o que é pior – Marciano casou com a Isaltina, apesar de saber que ela era,
sim, sim! – furada... Casou com uma furada, sabendo... Animal!
A risadinha sem vontade morreu logo. E tornou a sacudidela no estribo do
carro, voltaram os rangidos no carro, voltaram os fantasmas, subindo, subindo, Sabia que a mulatinha bonita e carnuda dera a virgindade ao carteiro, ao
atopetando os dois assentos. branco limpo, elegante e sem-vergonha. Sabia disso. Mas pensou que esqueceria,
que, com o casamento, com o contato quotidiano e gostoso daquele corpo cheio
O dr. Ferreira ficou com pena do lobuno, ficou desgostoso com a cegueira do e requeimado – viria o esquecimento. Qual! Cada dia a lembrança vem com
lobuno. E deu para tratá-lo com mais carinho do que antes, como se o lobuno mais intensidade. O contato do corpo querido, pelo contrário, traz a lembrança
fosse seu filho bem-amado. Pena dum cavalo de puxar carro... Ainda se fosse malvada. E a angústia chega, insopitável, se mistura com a mágoa do jóquei
um cavalo de montaria... de um cavalo como aqueles que o Marciano montava, gorado, do homem que abandonou a vocação, arranjou um empreguinho besta
nas corridas de cancha reta lá no Passo da Cavalhada... Ah, as inesquecíveis de cuidador de cavalos, o empreguinho besta que, não obstante, rende mais que
corridas, ah, os gostosos tempos de páreos de apenas dois cavalos! Tarará-tarará- o de corredor de paralheiros de cancha-reta... Tudo por causa de uma furada!...
tarará-tarará... E os gritos do povo, na torcida emocionante. E a terra vermelha
da cancha, e os capins da margem da cancha – ficando pra trás, ficando pra trás, É por tudo isso que a vontade de beber cachaça se apresenta incontrolável,
na velocidade da corrida... E as brigas, e as facas relampejando ao sol, os tiros irresistível. É por isso que os quatrocentos réis de Umbelina não dão pra fazer
das pistolas de dois canos, os gritos dos ratos-brancos no brigão renitente... E esquecer e, ao inverso, fazem a recordação má se impor, com mais nitidez
as palmas naquele dia da vitória bonita, aquela frase que o Marciano nunca ainda...
esqueceu e que não sabe de quem partiu: “Esse mulato vai longe...”. E o bom, É preciso beber mais, muito mais, é preciso que os quatro dedos de cachaça
o merecidíssimo copo de cachaça, na venda, cercado de admiradores, que se multipliquem ao infinito!...
disputavam a honra de pagar-lhe a cachaça...
A angústia se estampa no rosto do mulato, tornando-o de uma palidez escura,
Mas depois... Mas depois o namoro com a Isaltina, o noivado, o casamento. parecida com o pelo do lobuno. Marciano quase corre para um lado e outro.
E o abandono da profissão de corredor, que mal dava para os seus gastos de Estaca, rijo, apertando, com as mãos magras, as grades de uma das janelas do
solteiro... porão, da janela que dá para o jardim, mostra todos os canteiros floridos, enche
O pior (agora as sacudidelas no estribo do carro recomeçam, frenéticas, se de luz o recanto escuro do porão.
sucedem com rapidez) o pior foi aquele convite que lhe fez o homem do Rio As mãos apertam, cada vez mais, as grades frias, as mãos estrangulam as
de Janeiro. Garantiu que, no Rio, Marciano faria furor com o jóquei de prado, grades frias. A luz, que entra pela janela, semeia de pontinhos dourados o
como jóquei de cancha redonda e de camiseta de cor. Marciano desapareceu bigode ralo.
da casa da noiva, arranjou os seus poucos tarecos no saco de aniagem de
armazém. Embarcou, com a passagem de terceira paga pelo homem do Rio. A queixa sai, baixinho, tímida quase:
Mas, depois que o vapor deu o terceiro apito e começou a se afastar do cais,
– Furada! Só mesmo te metendo a faca... Furada!
Marciano não tolerou a saudade de Isaltina, que com o primeiro apito nascera
estranha e incontrolável. Pulou do vapor para o cais, esquecendo o saco de Não continua, quando o mulato escuta o rumor alegre dos cascos do zaino
bugigangas, quase caindo n’água, sob os gritos espantados do homem do Rio, do dr. Ferreira, batendo nas pedras irregulares do pátio.
dos passageiros do vapor e da gente que ainda estava no cais.


38 |ESTRADA PERDIDA 39
De pé, sempre gingando, suavemente, no centro do quadro da porta aberta, nuvens, fitando todo um lado da pedreira, que se adivinha com a argila
Marciano olha o tronco espinhudo das paineiras, olha os frutos de casca vermelha engastando os pedaços de pedra, os tufos de arbustos, os riscos de
espessa espalhados pelas pedras do chão, vê o dr. Ferreira saltando do zaino, água descendo ralos por entre as pedras.
ágil, lépido, remoçado, um sorriso satisfeito aclarando o cavanhaque grisalho.
Luís continua morto. Lígia e Roberto abandonam a fortaleza, descem da
A ordem vem carinhosa, amiga, quase um convite: britadeira. O regimento dos soldados franceses e ingleses se aproxima, devagar,
cauteloso. Mas quando chega bem perto do inimigo morto, este se levanta, de
– Depois de soltares o zaino no potreiro, junta essas painas... Quero altear o surpresa, estira o fuzil do dedo em riste. E fere Roberto em pleno peito. Grita:
travesseiro... E vê como está o lobuno...
– Morre! Morre, Roberto. Te acertei!
Dr. Ferreira desaparece pela frente do casarão, batendo com o chicote de cabo
de prata nas calças impecáveis, como se ainda estivesse montando o zaino. A Inglaterra protesta:
– Não vale. Foi traição...
*** Luís insiste, já sem muito ardor:
– Eu te acertei...
A britadeira é a fortaleza inabordável, defendida pelos soldados da França Mas Lígia se oferece:
e da Inglaterra.
– Pois morro eu...
A França está afogueada. O suor desce-lhe pela testa, riscada de fios de
cabelo empapado. O vestido branco está sujo de manchas de barro. Os olhos E se deita, com os olhos grandes também fitos no céu límpido, também
pretos e grandes cerram-se quase, atentos na pontaria. A metralha sai da ponta vislumbrando o lado da pedreira, com os arbustos, com as pedras engastadas,
do dedo estirado. Também da metralhadora da Inglaterra chispam as balas com os fios d’água deslizando entre as pedras, parecendo veias da terra
pipocantes. E à fuzilaria ininterrupta dos franceses e dos ingleses, vinda lá de vermelha.
cima da fortaleza, a Alemanha responde cá de baixo, oculta atrás da pedra, que Lígia fala, sorrindo:
ficou esquecida no centro do solo da pedreira.
– Tá morto, é bom...
Na enorme pá da britadeira, cheia de pedaços de pedra triturada (o monstro
de ferro está farto e não pode fechar a boca, de tão cheia) – na pá da britadeira, Novo sorriso. Os olhos negros semicerram-se na volúpia da morte de mentira.
Lígia deitou-se agora, heroica, sem procurar resguardar-se. Do dedo estirado Abrem-se de repente, Lígia se ergue:
partem as balas mortais, visando a cabeça de Luís, vislumbrada por cima da
– Vou beber água na cacimba... Perem um pouco...
pedra grande.
Corre, o vestido branco sempre esvoaçando, sempre lhe revelando as pernas
Lígia grita para Luís:
morenas e o corpo sem contornos.
– Morre! Morre!
Ajoelha-se à borda do barril embutido na terra. As últimas árvores do mato,
Luís não quer morrer e continua respondendo ao fogo do inimigo. Lígia a essa hora da tarde, não dão sombra. O sol bate de cheio sobre a água quieta,
insiste: ofuscando os olhos de Lígia, não permitindo que Lígia veja o rosto moreno, o
branco que circunda os grandes olhos negros, o branco que brilha nos dentes
– Tens que morrer! Eu te acertei a bala na cabeça! Anda! da boca carnuda e sorridente.
Luís morre. Estira-se no chão úmido da pedreira, os olhos muito abertos As mãos se afirmam espalmadas na terra, enquanto os lábios, o rosto, quase
fitando o corvo, que passa lá em cima, negro, pequenino, risca o céu sem a cabeça, mergulham na água fresca, que é bebida aos sorvos vorazes, desce
veloz pela garganta afogueada.

40 |ESTRADA PERDIDA 41
O descanso. A cabeça se volta para o lado dos guris. A pergunta: 5.
– Tu não vai dormi aqui hoje, Luís?
– Não. Negro Peleu apara, com a borda afiada da machadinha, a grama do canteiro
estreito, que beira todo o casarão e que debrua de verde a pedra dos alicerces.
– Por quê? Amanhã é domingo. Não tem colégio...
Peleu está começando aqui, quase de baixo da escada das hortênsias. A
Luís detalha, com desgosto: camisa branca, arremangada até perto dos sovados suados, deixa mais negra
– A mamãe disse que eu voltasse hoje, no bonde das cinco hora, que ela tem a pele retinta dos braços, revela os bíceps terríveis, que tremem estuantes, no
que saí com o noivo e eu tenho que acompanhá... Disse que amanhã vem passá esforço leve. A enxadinha, batendo, batendo certeira , vai cortando os brotos
o dia. E então eu venho... rebeldes da grama, que quiseram escapar do canteiro, que quiseram alastrar-
se pelo areão, parecendo bichos verdes, fugindo no zigue-zague zaranza. O
Lígia lamenta: canteiro cortado, cortado, certo, lembra pescoço de homem, alinhado pela
ponta da tesoura do barbeiro.
– Ora!
Negro Peleu se ergue, distendendo os braços, descansando as costas doídas.
Outra vez o rosto mergulha na água fresca. Outra vez as mãos morenas,
Então se nota melhor o seu porte hercúleo e se sente mais o contraste da camisa
espalmadas na terra das bordas da cacimba, evitam a queda da dona. Outra
branca contra a pele pretíssima, reluzindo nos braços fortes, nas mãos enormes,
vez os sorvos vorazes e bulhentos, tão bulhentos que não deixam Lígia escutar
no rosto suado, onde alguns fios de bigode são tão brancos quanto a camisa.
a voz de Umbelina, ali dentro do mato, se aproximando aos poucos:
Peleu enxuga a testa com o braço, coça a carapinha grisalha, enche o tórax
– Oia o tafé, meninada! Tá na mesa... Sá Titota mandô çamá... Oia o tafé,
amplo. Respira fundo. De novo se curva e recomeça o corte da grama.
meninada!
Os bichos verdes, que queriam fugir dos canteiros, vão sendo decapitados,
pacientemente, sem exceção. O alinhamento da tira verde de capim vai
prosseguindo lento.
Negro Peleu assobia, satisfeito, o assobio grosso e másculo de um chótis
morto há muito.
O sol está dando no cachaço preto, o sol, apesar de morno e de cortado
pelo vento fresco, está grudando a camisa nas costas amplas. Mesmo assim, o
assobio continua, com satisfação e desenvoltura.
Chótis, chótis bom que mexe com a gente, que dá uma irreprimível vontade
de também se cair na dança... Três passos pra frente, três passos pra trás, duas
voltinhas...
O assobio cessa. É substituído pelo chamado da voz grossa de barítono
retinto:
– Marciano!
Pausa. Novo chamado da voz grossa:
– Mar-ci-a-no!


42 |ESTRADA PERDIDA 43
Marciano aparece, surgindo da frente do casarão, vindo do lado do canteiro as tiras de borracha vermelha.
das roseiras, a cara mulata sumida sob o chapéu grande, o chapéu de abas
largas. – O sinhô tá di funda, seu Luís... Oia se o seu avô vê...

– Sinhô, pai? Luís explica:

Mais uma vez o braço enrolado de músculos enxuga a testa úmida. Mais – Andei caçando aí no mato... O vovô não vê, não.
uma vez os dedos compridos coçam a carapinha: A funda, sempre enrolada, é guardada dentro do bolso da calça do ginásio.
– Vai fazê uma vassoura de erva pra varrê essa grama... A outra risada de Peleu:

Marciano tem os olhos circundado de olheiras, tem o rosto macerado. A sua – Antão o sinhô andô caçando? Quantas perdis? Muito marrecão, também?
frase também possui um tom pisado. Me convide pro banquete...

– Tá bem, meu pai. Daqui a poco trago... Luís acha muita graça na troça do Peleu. Ri um risinho fininho, espremido
entre os dentes.
Afasta-se devagar, cabeça caída para o peito. Mas para ao escutar a voz de
Peleu outra vez: – Bom menino. Vou terminá o meu serviço...

– Quando é que tu vai criá vergonha, mulato? Quando é que tu vai dexá de A enxadinha recomeça a tarefa, batendo as pancadas breves, degolando os
bebê, mulato? Pensa qu’eu não vi essa noite? Tu chegô já tava clareando... A tua bichos verdes, aparando, alinhando a tira longa da grama.
muié chorô inté não podê mais... Quando é que tu vai criá vergonha, mulato? Ali no chão, acocorado, Luís contempla o vulto do negro Peleu, muito grande,
Marciano não responde coisa alguma. Faz uma cara de menino amuado, afinando para o alto, subindo, mergulhando a carapinha grisalha no azul do
resmunga qualquer coisa, ajeita o chapéu gaúcho e se some, dobrando para a céu riscado de nuvens. A cada pancada da lâmina no capim, o vulto avança
frente do casarão. para a direita, muito lentamente, quase imperceptivelmente. E, a cada esforço,
o busto, envolto na camisa branca, se enche, rouba um pedaço de céu.
Negro Peleu recomeça o trabalho da enxadinha. Na terceira pancada estaca,
ao ouvir a voz de Luís, nas suas costas: Luís se recorda:

– O, Peleu! – Ah, Peleu! Como é que tu disse que cantaro o Quizomba lá na Bahia? Foi
defronte da igreja, não foi?
Peleu se volta, de enxadinha empunhada:
Peleu para mais uma vez. Outra coçadela rápida na cabeça grisalha. O rosto
– Ah, é o sinhô, seu Luís! Como vai o sinhô? escuro de súbito se transfigura, fica menos preto, caiado pela alegria, que
chegou súbita e se espraiou:
Luís acocora-se na terra, bem perto dos grandes pés pretos esparramados:
– Ah, menino! Pra que me perguntô isso, menino? Foi defronte da igreja do
– Bem, obrigado. E tu? Sinhô do Bom Fim, seu Luís... Foi no dia que dero a notiça que a guerra do
Riso largo, nova coçadela na carapinha: Paraguai tinha acabado... Rezaro missa... Despois da missa ajuntô povo, que
não foi brinquedo no largo que tem defronte da igreja...
– Eu vô indo aqui, como nego veio que não descansa nunca... (Outro riso)
Nem nos domingo... E a sua mãe, como vai? O entusiasmo tomou conta, totalmente, do negro Peleu. Os olhos chisparam
de alegria. Os braços se agitaram na gesticulação desordenda:
– Vai bem.
– Ajuntô povo que não foi brinquedo, sim, menino. Povo como nunca tinha
Peleu nota a funda que Luís tem enrolada na mão, a funda de forquilha, com ajuntado na Bahia... Tudo defronte da Igreja do Sinhô do Bom Fim... A gente que


44 |ESTRADA PERDIDA 45
tava na igreja saiu e se misturô com a gente que tava na rua. Tudo conversava ó querida mariposa,
com os outro, inté com os que não ero conhecido... E antão começô a dança.
Tudo dançô, branco com preto, rico com pobre... E tudo aquele mundo de povo o quizomba!
cantô o canto do Quizomba... As mãos de Luís se cerram, duras de emoção, os olhos se arregalam, atentos,
Não foi preciso que Luís, cujos olhos se arregalam na representação da cena o vago arrepio passeia-lhe pelo couro cabeludo, a respiração se suspende –
descrita pelo negro – não foi preciso que Luís pedisse. Porque o canto começou enquanto o negro continua a pular, desengonçado.
grave, no compasso da macumba: ............
Ivem, ivem o quizomba, Tem dinheiro de papé,
ó querida mariposa, o quizomba,
o quizomba! pra dá pras muié,
Tem anel de prata, o quizomba!
o quizomba, O canto termina nesse ponto, a fúria serena, os gestos desengonçados se
pra dá pras mulata, acalmam, enquanto a enxadinha é retomada com rapidez e a vergonha vem
ao rosto do negro dançarino, que avistou o dr. Ferreira descendo a escada das
o quizomba! hortênsias em companhia do genro.
Peleu está possuído pelo ritmo molenga e gostoso. Peleu não é mais o negro A voz cordial do dr. Ferreira:
Peleu. É o pai de Santo, é o próprio Oxu, o próprio Ogun, o próprio Ajê-Xaluga.
É um bugio fortíssimo, musculoso, retinto, prenhe de lanor, a pular, mole, mas – Então, batucando, Peleu?
de uma moleza estranhamente vigorosa, que aos poucos, vai crescendo, vai se Peleu não responde logo. Reinicia a podação do canteiro, a enxadinha
transformando em fúria. cortando, cerces, os capins fujões, a camisa completamente empapada de suor,
Ivem, ivem o quizomba, denunciando a agitação de há pouco. Só no momento em que o dr. Ferreira,
de cigarrinho caporal ao canto da boca com a estrelinha da brasa brilhando na
ó querida mariposa, cinza do cavanhaque, está bem perto, na companhia do genro – só então é que
Peleu responde, fitando o chão:
o quizomba!
– Eu tava mostrando pro seu Luís o canto do Quizomba... Foi ele que pediu...
Tem anel de ouro, Eu tava aqui capinando a grama e ele veio me pedi, seu dotô...
o quizomba, – Não é pra ficar com vergonha, Peleu... Quem é que não gosta de se lembrar
pra dá pras crioula, dos bons tempos?...

o quizomba! – É isso mesmo, seu dotô... O menino foi mexê com os marimbondo...

A fúria mística está chegando ao auge, a voz grossa está se transformando O genro do doutor Ferreira indaga:
num grito lamentosos, os pulos do bugio parecem querer atingir o céu, parecem – Foi bom quando terminou a guerra do Paraguai, não foi, Peleu?
querer levar o dono para o reino de Exu, de Ogun e de Ajê-Xalunga.
Tornou a brilhar, vagamente, no rosto do Peleu, a alegria do bugio dançarino
Ivem, ivem o quizomba, e cantor:


46 |ESTRADA PERDIDA 47
– Sim, sinhô, seu Antônio! Resaro missa. E quando terminô a missa, o povo – És mina, não?
todo se ajuntô no largo que tem na frente da igreja e começô com o ...
A voz de barítono responde:
Novo ar de cabula. Novo riso corajoso:
– Não sô mina puro, não sinhô, seu dotô. O meu pai era mina, mas a minha
– Tá vendo? O sinhô também foi mexê com os marimbondo, seu Antônio... mãe era nagô...
Mais outra vez, a podação na grama do canteiro logo é reiniciada. A frase Dr. Ferreira de novo se dirige ao genro. A brasa do caporal se extinguiu e
finaliza: continua apagada entre os fios grisalhos do cavanhaque.
– Nego veio sem miolo... – Dá no mesmo, Antônio. O fato é que não se intercalou o sangue branco...
Mina e nagô são raças africanas, com o mesmo vigor e a mesma capacidade
O bíceps retinto do braço direito está, novamente, bolindo, gelatinoso, no terrível de viver...
esforço leve. O suor escorre da testa negríssima, não obstante o vento fresco,
que aos poucos está se tornando frio. Ri. Convida o genro:
Dr. Ferreira atalha; – Vamos dar uma espiada no jardim?
– Descansa um pouco Peleu... (Pausa) Como te vais na Força e Luz? Muito Antes de se ir de vez, dr. Ferreira fala para o Peleu e para o neto, que
serviço? permaneceu acocorado, escutando a conversa dos grandes:
Peleu repousa as duas mãos no cabo da enxadinha. Dá de ombros: – Continua com o teu serviço, negro forte... E você, Luís, por que que não foi
à missa, com a sua avó e com os seus primos?
– Nem munto, nem pouco, seu dotô. Mais cansa munto, seu dotô. Todos os
dia trepado nos poste que nem macaco veio... Chega de noite a gente tá que Luís dá a explicação:
nem aguenta... Só tem vontade de dormi...
– É que eu já fui na missa de manhã cedo, na igreja lá perto de casa... A
Lembrando-se que, neste momento, está trabalhando para o dr. Ferreira e mamãe foi junto com a vovó...
que este pode interpretar mal a sua queixa – Peleu se apressa em explicar:
Dr. Ferreira sacode a cabeça, compreendendo. Vai de braço como genro, vão
– Mais esse servicinho de jardim inté dá gosto fazê... (Tom humilde) E se os dois contornando os canteiros das roseiras, dos mimos-de-vênus, dos sagus,
trabaia com mais gosto ainda, quando é pro branco de coração grande... das margaridas, passam os dois pelo banco de ferro, vão os dois se aproximando
do pátio das paineiras, chegam os dois ao pátio das paineiras, ao pátio coberto
Dr. Ferreira e o genro riem outra vez. Dr. Ferreira, depois de um silêncio, diz: pelas pedras irregulares.
– Quantos anos tens? Peleu prossegue, em silêncio, aparando a beira do canteiro, que é uma longa
Peleu pensa, pensa, coça a carapinha: cobra verde, a contornar o casarão.

– Já fiz setenta. Seu dotô... Luís se levantou, neste momento, de pernas doendo. Volta a se acocorar, com
a dorzinha gostosa doendo nos músculos das pernas e das coxas. Pergunta,
Dr. Ferreira pega o braço do genro: tímido:
– Vês? Quase da minha idade... O que é a raça preta, Antônio! Quantas – Tu qué cantá de novo o Quizomba?
gerações sem conta estão aí no sangue do Peleu, puras, sem mistura! E repara
que vigor, que musculatura!... Mais forte que um branco de vinte anos... Peleu nem se vira, para responder. Curvado sobre a enxadinha, contesta:

Peleu sorri, encabulado, olhando o céu. Dr. Ferreira faz a nova pergunta: – Não sinhô. Hoje não tem mais...


48 |ESTRADA PERDIDA 49
Avançando lentamente para a direita, está quase na extremidade lateral do Ri uma risada gostosa. Roberto responde, brabo:
canteiro, no ponto em que este forma um ângulo reto e dobra para a frente do
casarão, passando por debaixo da sacada grande, passando por debaixo das – Cara de Renô, tem tu, guria besta!
altas janelas da sala, passando rente aos pés do banco de ferro, invadindo o A gargalhada continua, implicante. A mãe de Lígia reclama, lá de trás:
país florido do jardim.
– Para com esse riso, Lígia! Que que parece esse barulho depois da missa?
Tenha modos!
*** Lígia se volta para o lado da mãe. Por detrás da avó e da tia, misturadas na
Porque desceram correndo os degraus da igrejinha, Lígia e Roberto foram multidão que desce a lomba – Lígia vê a mancha branca da igrejinha, erguendo
os primeiros a avistar a cidade lá em baixo, já se libertando da cerração, já a cruz de ferro no topo, destacando-se contra o azul do céu riscado de nuvens.
ostentando as torres erguidas da igreja das Dores, já mostrando os telhados Lígia se vira para o irmão, repetindo por entre dentes:
vermelhos e as paredes brancas das casas, já revelando a linha azul-claro do – Renô...
rio, que serpenteia, desliza reto, abraça a cidade, já mostrando o recorte verde
das ilhas fronteiras.
Dona Ritoca, a filha e a nora, desceram depois e parece que nem olharam ***
a cidade, que é o espetáculo bonito, indicado a Roberto pela mão morena da
Luís está dependurado ao gradil alto do jardim. A sua cabeça, metida
irmã:
entre duas pontas de ferro alto e retorcido, que parecem labaredas de aço –
– Oia a cidade, Roberto! acompanha a passagem do bonde ruidoso. Vê que no banco da frente vai uma
freira, o papo branco destacando-se do negrume da batina. Depois, olhando
Roberto comenta, prático: para a calçada, avista o grupo, que vem vindo, já próximo do casarão.
– Ainda tem cerração... Lígia, sempre vigilante, avistou-o por sua vez. Abanou de longe, com a mão
Os dois irmãos prosseguem, calados, começando a descer a lomba vermelha, morena balouçando lenta. Gritou, alegre:
marginada de poucas casas, Roberto com expressão distraída e desligada, Lígia – Luís!
com um intenso ar de felicidade a brilhar nos grandes olhos escuros.
Afastam-se, para dar passagem ao auto bulhento, que klaxonou e se foi
levantando pó e vomitando fumaça. Afastam-se outra vez, deixando passar ***
mais este auto.
Peleu já está debaixo da sacada grande, a enxadinha batendo sempre
Roberto diz: compassado. Marciano, de cara sumida no chapéu gaúcho, se aproximou,
empunhando a vassoura bruta, de cabo de galho de árvore e de ervas agrestes
– O primeiro é Ford... O outro é Renô... servindo de palha.
Lígia ri: – Tá pronto, pai.
– Renô, é? Que auto feio, pomba! Parece que não tem motor... Parece um Peleu ordena:
bicho...
– Vai varrê, mulato caxa-d’água...
Ri de novo. Para de rir. Olha Roberto:
– Tu tem cara de Renô...


50 |ESTRADA PERDIDA 51
Resmungando, Marciano se dirige para a sombra da escada das hortênsias. 6.
E começa a varrer os pedaços de brotos de grama, com raiva, levantando o pó,
jogando longe os grãos de areão, zangadíssimo como vento frio e teimoso.
A treva, a treva absoluta baixou sobre o mato. Emaranhou-se na copa das
árvores, colou-se nos galhos, desceu pelos troncos, estendeu-se por sobre as
folhas secas do chão, cobriu as pedras redondas exatas, envolveu os bancos e
a mesa rústica, fundiu, num só vulto fantasmagórico, a árvore e a pedra, que
estão ligadas pelas raízes contraídas.
Depois que o rumor do bonde cessou o zumbido esmorizante – voltou o
silêncio.
Saci Perere não quis quebrar o silêncio amável. Com o cachimbo apagado
passou sem rumor, por entre os vultos dos troncos altos, subiu nas árvores,
desceu, perdeu-se na treva. Currupira, não, Currupira quis fazer bulha, quis
quebrar o silêncio do mato. E o seu vulto, escanchado na capivara, passou
rápido, com um tropel de patas pequenas, serpenteando por entre os caules
grossos, desaparecendo por detrás do vulto estranho da árvore e da pedra.
As demais capivaras não seguiram o Currupira, ficaram perdidas no mais
profundo do mato escuro.
E o silêncio de novo impôs a sua presença na treva, na treva habitada de
formas longas e sem feitio, de vultos cheios e balofos, de pedaços de coisas
indefinidas.
O vento zuniu veloz, vindo do jardim, entrando na treva, levantando as
folhas secas, batendo nas árvores, agitando os galhos tortos, roçando nas
pedras, lambendo os bancos e as mesas da clareira. Quis subir, quis fugir pelo
pedaço aberto do céu pontilhado de estrelas, desceu, quebrou para o lado do
morro, galopou morro acima.
Após, a nova quietude, o novo silêncio amável, a presença integral da treva.
Os dois vultos desceram a rampa que liga a cozinha ao mato, desenharam-se
sob a luz fraca da lâmpada, que se derrama pálida sobre os degraus da escada
das hortênsias.
Os dois vultos sumiram-se no negrume do mato, misturaram-se com as
formas longas e sem feitio, colaram-se às formas cheias e balofas.
A voz arrastada falou, baixinho, quente:
– Vamo lá p’a tais da ped’a...
A outra voz mais grossa, respondeu sem calor:


52 |ESTRADA PERDIDA 53
– Acho que tá muito frio, hoje, Bilina... 7.
Estalo de beijo úmido:
– Tá fio o tê! Eu ti estento... Puça home! Tu inté pa’ece ma’ica... Dr. Ferreira ajeitou-se melhor na poltrona de palhinha trançada. As rótulas
desenharam-se magras, cortadas ao meio pelo friso perfeito das calças
Resmungo da voz grossa: cinzentas. As mãos longas e de veias esclerosadas apertaram a madeira escura
– Mais se arguem vem no mato? dos braços da poltrona. Depois afrouxaram, descansaram na curva da madeira,
abandonadas, esquecidas.
Riso abafado:
Do gris do cavanhaque bem cuidado, a voz escorreu, calma:
– O homi med’oso! Tem é ti vai vi ati estas hora?
– É isso, meu genro, é isso mesmo... Essa guerra precisa terminar... Estamos
Novo resmuno da voz grossa: no fim de agosto, não é? Pois já faz quatro anos, então... Quatro anos!
– Eu não tô munto disposto, Bilina... Antônio, sentado na outra poltrona de palhinha, fechou a mão gorda, bateu
no braço da poltrona, com todo o vigor de seu corpo cheio:
Outro estalo de beijo babusado. Riso:
– Quatro anos de horrores, dr. Ferreira! Quatro anos de barbaridade, quatro
– Tu fita... (Tom enérgico). Oia!! Dexa de fita! Deja de bestaje te não ti impesto
anos de vandalismo!
mais dine’o p’a tua tachaça...
Dr. Ferreira sacode a cabeça, lentamente, concordando, fazendo a ponta do
Ante o silêncio da voz grossa, os dois vultos prosseguem, devagar, internam-
cavanhaque grisalho roçar o peito branco da camisa, a lapela do casaco fechado:
se pela treva.
– Vandalismo... Tens razão, Antônio... Vândalos...
– Oia o poço, Marciano!
Silêncio na ala dos homens. Na ala das mulheres, reunidas no sofá de
– Eu nem gosto de oia esse tinhoso...
palhinha e na cadeira de embalo vienense – na ala das mulheres a conversa
Os dois vultos internam-se, ainda mais, entre as formas longas e sem feitio. está animada.
Desaparecem de todo, engolidos pela treva.
Dona Ritoca, envolta no chalé escuro, embalando-se bem devagar na cadeira
O bisbilho perdido e insituado é o risinho malicioso do Saci, ainda de vienense, dando o impulso vago com a ponta dos pés escondidos nos chinelos
cachimbo apagado, correndo por entre as árvores, dependurando-se às barbas- de lã – dona Ritoca exclama:
de-pau, pulando por sobre as cordas distendidas dos cipós.
– Mas que inverno brabo foi este, minhas filhas!
A nora ri:
– Foi, não, dona Ritoca! Está sendo...
Dona Ritoca para o embalo da cadeira:
– Também, falta menos de um mês pra chegar a primavera... Pode-se dizer
que o inverno terminou... Muito mais com o calor que fez ontem e hoje de
manhã...
A filha interfere:


54 |ESTRADA PERDIDA 55
– Por sinal que está ficando frio de novo. Calor de manhã e frio de noite... – Estás vendo?! Crimes, barbaridades de todos os lados, loucura de parte a
parte... Já te deste ao trabalho de imaginar um navio afundando, com os gritos
Dona Ritoca recomeça o embalo da cadeira: de horror, com os passageiros se atirando n’água, desesperados? Acusaram os
– Tempo louco... O tempo está ficando cada vez mais louco... alemães e fazem o mesmo... loucura, loucura geral...

As outras concordam: Antônio sorri:

– É mesmo... – Sim, é loucura geral... Mas o fato é que a guerra não dura muito... E, além
do mais, a vingança, nesses casos, se impõe...
Dona Ritoca insiste para o marido:
Dr. Ferreira chega a se erguer da poltrona, levanta os indicadores das magras
– O tempo está ficando louco... mãos esclerosadas:
Dr. Ferreira não ouviu bem: – A vingança se impõe, seu Antônio?! Haverá alguma hipótese em que a
vingança se justifique?!
– Louco? Quem que está louco?
Antônio recua:
Dona Ritoca ri:
– Não, não quero dizer isso...
– Não te assustes. Não é nenhum cliente teu. É o tempo. Eu estava dizendo
pra Ana e pra Elisa que o tempo não regula mais. Calor em agosto, com frio de Prossegue a indignação do Dr. Ferreira, que arqueja enquanto brada:
novo em seguida...
– Nem na guerra a vingança se justifica! Que que resolve um novo torpedo
Dr. Ferreira aquiesce, com um sorriso que mal lhe aflora à boca escondida na em troca de um torpedo anterior? Os gritos de horror, a disparada louca pelo
cinza do bigode: convés, o assalto aos escaleres, com as cenas de egoísmo animal – não é tudo o
mesmo, não é tudo cheio do mesmo terror e da mesma loucura?! (Voz reticente)
– Tens razão, minha velha... (Vigor súbito) E sabes por que é? (Uma das
Olhe, seu Antônio, eu sou médico e médico lida dia a dia com a morte. (Nova
mãos esclerosadas se ergue, enristando o dedo descarnado) É consequência da
indignação) Pois quanto mais vejo a morte, mais tenho pena dos homens. A
loucura do mundo! Tudo anda louco, tudo anda completamente louco, tudo
agonia estampa sempre o terror nos olhos do moribundo, a morte traz sempre
perdeu o juízo! Então, pode-se compreender essa mortandade na Europa?!
o pavor. Não há quem, lúcido, morra com coragem. Até nos olhos dos loucos,
(A mão bate na testa enrugada) Pode-se compreender?! É loucura, loucura
tenho visto o horror da morte! Todos têm o mais entranhado amor à sua
completa, são doidos varridos! (O vigor desapareceu, a voz acalmou) Quatro
vidinha!... Por aí, seu Antônio, você bem pode avaliar o desespero dos sodados
anos de guerra... Quatro anos de vandalismo, como disseste muito bem,
morrendo nas trincheiras, a angústia dos afogados no alto mar, o pavor dos
Antônio... (Pausa) Como é que o tempo não vai estar louco também? (Riso)
habitantes das cidades escutando o ronco dos zepelins e dos aviões... (Máximo
Tens razão , minha velha: mais um cliente para mim...
de exaltação) A vingança, a vingança nunca se justifica, seu Antônio! Nem na
Antônio faz um esboço de gesto com a mão gorda: guerra!
– Felizmente parece que a coisa está diminuindo, parece que não demora Dona Ritoca atalhou, carinhosa:
muito a terminar... Os boches estão recuando, dia a dia... No jornal de hoje vi
– Pare com esse assunto de guerra, meu velho. Olhe o seu coração...
uma notícia sobre a guerra no mar. O sr. não viu, dr. Ferreira? Dizia que um
submarino italiano “F 7” – até me lembro do número! – passou por uma zona Dr. Ferreira se acalma de súbito. A camisa branca ainda levanta e baixa no
perigosa do Mar Adriático, conseguiu não tocar nas minas e botou no fundo um arfar do peito. A resposta à dona Ritoca é calma:
enorme navio austríaco... Até na guerra submarina os boches estão perdendo...
– Não tenha cuidado, Ritoca. Esse coração ainda aguenta muita coisa... E é
Dr. Ferreira mais uma vez ergue o indicador indignado: melhor que o da Umbelina... (Sorriso) Eu não me exaltei...


56 |ESTRADA PERDIDA 57
Antônio ri: escuras, passando, fragmentadas, por entre caules espaçados de árvores. A luz,
que se irradiou do bonde e invadiu o jardim do casarão, revelando melhor a
– É, não se exaltou... forma dos arbustos, aclarando a entrada do mato – a luz se extinguiu logo,
Dr. Ferreira de novo se ajeita melhor na poltrona de palhinha. Mais esta como o rápido clarão de um farol chicoteando a praia escura. E a treva voltou,
vez, as mãos se abandonam na curva da madeira, caídas, de veias salientes. outra vez povoada de formas vagas, outra vez perfurada pela luz oscilante das
A cabeça grisalha sacode, de novo roçando a cinza do cavanhaque no peito lâmpadas da rua, batidas com mais energia pelo vento gelado.
branco da camisa. A ilha nítida, no meio do lago opaco, foi perdendo o brilho, foi se embaciando,
– Esse tempo louco que você falou, Ritoca, essas mudanças de temperatura até submergir, cedendo lugar, por inteiro, ao mar de bafo e umidade, ocultando
são terríveis para a gripe... Quero só ver se a Influenza Espanhola se lembrar de dos olhos do guri o espetáculo de mistério e de treva.
bater em Porto Alegre... Dizem que já há suspeitos no Pará... Mais esta... Como As mãos apenas esboçaram o gesto impaciente, para a nova limpeza do
se não bastasse a guerra... vidro. Estacaram a meio, quando a voz de Lígia falou perto:
Há um grande silêncio na sala, enquanto uma vaga expressão de medo passa – Que qui tu tá fazendo, aí, Luís?
nos olhos de todos, escurece o rosto de todos, cheio de pedaços de sombra,
recortadas pela luz amarelada da lâmpada, que pende do centro do teto alto, Luís demora a responder:
não consegue espalhar a sua claridade fraca até as paredes, povoa de farrapos
de treva os móveis altos e de ornatos em relevo, povoa de pedaços de fantasmas – Nada. Tava olhando pro jardim...
as junções das paredes como teto, os recantos escuros. Lígia ri:
– Olhando pra vê nada...
*** Porém, mesmo para não ver nada, Lígia, num gesto brusco, esfrega a mão
O rosto de Luís, colado ao vidro de uma das folhas da porta que dá para morena no vidro embaciado da outra folha da porta, fazendo nascer não a
a escada das hortênsias – o rosto de Luís sente o frio, que vagarosamente, ilhazinha pequena de há pouco, mas uma ilha longa, escandalosa, impossível,
insidiosamente, está envolvendo as pequenas formas dos arbustos do jardim, quase do tamanho do próprio vidro.
está baixando sobre o vulto informe do mato, está perpassando as paredes – Oia ali, Luís, oia ali!
grossas do casarão, está embaciando a lâmina gelada do vidro da porta.
Lígia puxa Luís pelo braço, encosta-o ao seu corpo, faz as duas cabeças se
Luís limpa com os dedos o bafo úmido e denso. No meio do lago opaco, roçarem, misturarem os cabelos:
nasce a ilha de contornos irregulares, cheia de penínsulas e de baías, mas nítida
e limpa. Através dela os olhos do guri veem as duas lâmpadas lá da rua, baças, – Oia ali!
fracas, perfurando a escuridão, balouçando agitadas pelo vento, fazendo polvos
Luís não compreende:
longos, de compridíssimos tentáculos, caminhar na noite.
– Ali onde?
A lâmpada do alto da escada das hortênsias, ali bem perto dos olhos do
guri, estende o trilho amarelado sobre os degraus de pedra. O trilho abandona Lígia encosta o indicador no vidro, apontando:
a escada e continua até certo ponto do chão do jardim. Termina de repente,
dando lugar à treva, à treva que está sempre habitada pelos pequenos vultos – Ali perto do mato...
mal delineados dos arbustos, avança, fica mais negra na orla do mato, torna-se Luís não enxerga:
totalmente impenetrável no bojo do mato.
– Sim. Tô vendo o mato. Que qui tem?
As muitas janelinhas do bonde adivinharam-se agora, emoldurando silhuetas


58 |ESTRADA PERDIDA 59
Lígia sussurra, bem junto ao ouvido de Luís: – Vamo.
– Não diz nada pro Roberto, viu? Lígia dá o beliscão carinhoso no rosto do irmão:
Luís promete, impaciente: – Vamo brinca de telefone, Renozinho?...
– Sim, que qui tem? Roberto custa a ceder. Enfim, o sorriso chega:
Lígia prossegue, o hálito morno bafejando o rosto de Luís: – Vamo. Mas quedê as duas latas? Nóis perdeu uma...
– Tu sabe o que qui eu tô vendo ali no mato? Desolação no rosto moreno:
Gargalhada escandalosa: – Ora! É mesmo... Então não dá...
– Nada, bobo! Nada! Novo silêncio, enquanto os três pares de olhos vislumbram, embaciado pelo
mar de bafo, que já está começando a cobrir a longa ilha impossível – o clarão
Apesar da gargalhada e da revelação do logro – Lígia não quer afastar a cabeça oscilante das duas lâmpadas da rua, bolindo sempre, ao sabor do vento frio,
da de Luís, quer deixar os cabelos fartos e negros continuarem misturados aos fazendo os polvos compridos agitar os tentáculos escuros em gestos frenéticos.
de Luís, como o calor bom do seu rosto requeimado passando, suave, para o
rosto frio de Luís. Mas a timidez súbita toma conta de Luís, fazendo-o afastar- Comentário de Roberto:
se brusco.
– O vovô tava brabo com a guerra...
Roberto se aproxima:
Pausa. Resposta de Luís:
– Que qui tu tava rindo, guria?
– O tio Antônio também tava...
Lígia faz um muchocho:
Outra pausa. Vez de Lígia:
– Choriço...
– Amanhã vamo brinca de guerra de novo?
Roberto se enfurece e grita:
Luís discorda, sem vigor:
– Guria besta!
– Amanhã não dá, Lígia. Tem colégio. Tu te esqueceu? Só quarta de tarde.
Lígia cresce para o irmão, os olhos cintilando de furor:
Novo ar de amuo na boca carnuda:
– Besta é tu, Renô...
– É mesmo. Colégio implicante...
As unhas afiadas já se dirigem para o rosto de Roberto, quando Antônio, lá
da cadeira de palhinha, grita para os filhos: Outra vez os três pares de olhos fitam a treva através do pedaço de vidro, já
quase opaco de todo.
– Ai, ai! Que é isso? Parem quietos!
Mal dá para se notar o balouço da luz.
Silêncio. Ar de amuo na boca carnuda de Lígia. O amuo não obstante termina
ligeiro e vem o ar de descoberta, arregalando os olhos negros:
– Ah! Vamo brincá de telefone? ***

Roberto não responde, zangado. Luís diz:


60 |ESTRADA PERDIDA 61
Dr. Ferreira se vira para dona Ritoca: Ainda com lágrimas nos olhos e de voz trêmula, dona Ritoca prossegue:
– Minha velha, o Marciano não lhe entregou ontem as painas que eu mandei – Eu sei, Elisa, eu sei... Mas é que o coitado nasceu pra ser infeliz. Foi a
ele juntar do chão? estrela dele. Cada qual nasce com a sua. Como a coitada da Biloca, também.
Tão alegre, tão forte, tão barulhenta, tão cheia de vida assim como a Lígia (O
Dona Ritoca para com o embalo da cadeira vienense: choro se impõe) e morrer daquela doença estúpida (Os punhos se crispam) por
– Entregou. causa daquele poço amaldiçoado! (Soluços). A não ser contigo, Ana, eu não fui
feliz com os meus filhos... E afinal és a única que me sobra...
Dr. Ferreira risca o fósforo e, ao mesmo tempo que acompanha com os olhos
o trajeto da chama trêmula até o momento em que esta acende a extremidade O silêncio constrangido é quebrado pelo assobiozinho nervoso do dr. Ferreira,
loura do cigarro – detalha: que sai, fininho, de entre os fios grisalhos. O assobiozinho é substituído pela
voz, também trêmula, mas esforçando-se por ser firme, enquanto a mão longa
– Então, não esqueça de encher o meu travesseiro... aperta o braço magro da mulher, que está envolto no xale negro:
Sopra a chama, apagando-a. No silêncio o barulho do fósforo, tocando o – Ora, minha velha, ora! Você, ainda agora, me proibiu de falar em assuntos
chão – ecoa como se o fósforo fosse um pedaço grande de madeira. Dona Ritoca de guerra e agora se põe a recordar coisas que lhe fazem mal e não adianta
recomeça o embalo da cadeira, as pontas grossas do chinelo de lã roçando a nada recordar! (Firmeza total, na voz) Coisíssima nenhuma!
tábua larga do soalho. Prossegue no seu assunto com a filha e com a nora.
Dirige-se a esta: Novo aperto do braço magro envolto no chalé negro. Sorriso encorajador:

– Elisa, você precisa apertar o Luís... Nessa idade, os meninos não estudam – Tem graça, dona Ritoca...
por gosto... É preciso a gente estar sempre em cima... Eu sei pelo coitado do Os lábios secos e pálidos de dona Ritoca bebem as lágrimas, enquanto o
Manoel. Tu nem imaginas, Elisa, o trabalho que nos deu o coitado... sorriso sem brilho consegue se esboçar:
Dr. Ferreira ouviu a frase da mulher. Por isso, interrompeu a palestra com o – A idade também ataca os nervos...
Antônio e disse:
Antônio consegue atrair a atenção de todos, com as palavras abundantes e
– É mesmo... Deu trabalho... Dos doze aos quinze anos, ainda foi fácil, mas ruidosas:
dos quinze aos dezessete – foi horrível... Chegou a mentir-me, é incrível! Um
dia, deixei-o no gabinete, estudando, entrei de repente, ele escondeu o livro – Não viram o anúncio do Cinema Guarani no Correio de hoje? Vão começar
debaixo dos papéis. Perguntei que livro era e ele me disse que era História um espetáculo formidável amanhã, uma fita sobre a guerra! Sobre a Bélgica,
Natural. Fui olhar e era um livro de Júlio Verne, o “Matias Sandorf”, me parece. É sobre a Bélgica, mesmo! Não viram?
lembro... Chegou a me mentir, o coitado... O resultado foi... foi... foi ele nunca
ser nada, nunca passar de quarto escriturário do Tesouro... Mas... mas pra que Dona Ritoca, Ana e Elisa dizem que não. Dr. Ferreira aproveita o instante e
falar em coisas que vocês todos sabem? enxuga, com a ponta do dedo magro, a lágrima, que estava brilhando no canto
de um dos olhos baços e ameaçava escorrer-lhe pelo rosto. Depois, também
Dona Ritoca tem lágrimas nos olhos. Fala, no tom de choro: responde ao genro:
– E morreu tão cedo, o pobre... Você me desculpe, Elisa, mas o meu filho – Não vi, não. Será boa mesmo, essa fita?
nunca foi feliz...
Antônio garante, com uma veemência de excitação que lhe trai a emoção de
Elisa contém a irritação: há pouco:
– Não foi porque eu não fizesse por onde, dona Ritoca... Eu dei tudo que podia, – Pelo anúncio, acho que vai ser formidável!... Não querem ver o jornal? Está
pra fazer o Manoel feliz. Até um filho, em menos de dois anos de casamento... lá na varanda, na pasta. Vou mandar o Roberto buscar. (Tom alto) Roberto?
Roberto? Não ouves? Que que vocês estão fazendo aí na porta?


62 |ESTRADA PERDIDA 63
É Lígia quem responde: A solidariedade de novo entrelaça as mãos geladas. Sem combinação prévia,
bem como na vinda, a corrida irrompe, levando para longe os corações agitados
– Nada, papai. Nós tava olhando o jardim. Tá tão escuro... de medo, deixando para trás a boca escancarada do quarto do alçapão, logrando
Antônio ordena: os fantasmas do corredor, os fantasmas que se perfilam nas paredes, que se
colam ao teto, que se deitam ao longo dos rodapés, que sopram na nuca da
– Roberto, vá buscar o Correio de hoje lá na pasta... gente.
Roberto protesta:
– Eu não vô sozinho, papai... ***
Antônio ri: Antônio toma o jornal, folheia-o. Levanta, vai para mais perto da luz fraca,
que escorre da tulipa branca.
– Vá com a Lígia e com o Luís, seu medroso...
– Está aqui, dr. Ferreira. Veja só, veja se não é formidável...
Os olhos de Antônio se apertam, lutando com a luz pálida. A leitura sai,
***
compassada:
Os três saem da luz fraca da sala e entram na escuridão do corredor
“CINEMA GUARANI
interminável, do corredor que tem fantasmas perfilados ao longo das paredes,
como soldados em formatura, que tem fantasmas agachados pelos cantos, Amanhã – o mais estupendo espetáculo do ano – amanhã
colados aos rodapés, soprando na nuca da gente.
BÉLGICA! BÉLGICA!
O medo faz nascer a solidariedade plena, faz as mãos geladas se apertarem
umas nas outras. Os passos são vagarosos, são cautelosos. Evoca este nome uma tragédia que enche de consternada indignação a geração
moderna e cobrirá de opróbio, por séculos...”
O lugar terrível, o lugar pior está se aproximando. O misterioso quartinho
do alçapão vai abrir a guela da esquadria sem porta, pululando de fantasmas A leitura firme é substituída pelo sussurro ininteligível. Torna a leitura firme:
e transbordando de negror. Os corações batem, batem, desesperados, as “É uma produção de Sidney Films Corporation. Walter Whiteside no papel de Mr.
respirações quase cessam. E, sem combinação, sem aviso, a corrida principia, Morenne e miss Valentine Grant no papel de Mle. Jeanne d’Intrées.”
rápida, deixando para trás o quarto do alçapão, logrando os fantasmas.
Exclamação:
A varanda recebe os guris, iluminada pela vaga luz das duas lâmpadas
distantes da rua, que entra pelas janelas de guilhotina, ainda de batentes abertos. – Agora, dr. Ferreira, agora é que vem o interessante!
A mão de Roberto, nervosa, zaranza, tateia até achar a chave da lâmpada alta,
tão difícil, incrustada no suporte da própria lâmpada. Os olhos se apertam ainda mais, para aproveitar bem a claridade amarelada:

A luz repentina traz o alívio inefável aos rostos pálidos. Os rostos pálidos “A orquestra do Cinema Guarani executará os hinos nacionais correspondentes aos
sorriem vagamente. O jornal é tirado de entre os muitos, que estão ali na pasta pavilhões dos países aliados, que se forem desfraldando durante o desfile das tropas, que
dependurada à parede. marcham impávidas e irresistíveis, pela vitória da liberdade dos povos!”

– Vê se esse Correio é de hoje, mesmo. Não vá a gente tê que volta de novo... O triunfo tine na voz de Antônio:

– É sim, Lígia. Tá aqui. Domingo, 30 de agosto. – Então? Não vai ser bonito? A Marselhesa, o Hino da Itália, o Hino da
Inglaterra, o Hino dos Estados Unidos, tudo quanto é hino... Não vai ser
A luz se apaga, com o estalido seco. formidável?!


64 |ESTRADA PERDIDA 65
Todos sacodem a cabeça, aprovativamente. Dr. Ferreira murmura: – Caduquices...
– Vai ser, sim. Vocês vão ver? Os dedos magros e longos tamborilam na madeira negra dos braços da
poltrona:
Antônio olha para a mulher.
– Caduquice, mesmo (Energia) Ué? Onde é que se viu estar toda hora
– Não sei. Tenho vontade. Depende da Ana. Queres ir? pensando no que passou, no que está definitivamente pra trás? Não acha, seu
Ana pergunta: Antônio? Não achas, minha filha? Não acha, Elisa?

– É amanhã? É Elisa quem fala:

– Sim, amanhã. – Acho mesmo. E acho uma grande tolice de minha sogra não querer divertir-
se. Pois se a diversão é que faz a gente esquecer o que passou! (Palavras
Ana sorri: velozes) Eu, por mim, não perco ocasião de me divertir... E não falho a essa fita.
Vou amanhã mesmo... Me desculpe, dona Ritoca, mas é tolice sua não querer
– Pois vamos, na primeira sessão.
divertir-se.
Dr. Ferreira toca no xale de dona Ritoca:
Dona Ritoca não diz nada. Ana inquire:
– Vamos nós também?
– Com quem vais ao Guarani?
Os pés de dona Ritoca, envoltos nos chinelos de lã, param como o embalo da
Elisa se constrange para responder.
cadeira vienense. Dona Ritoca dá de ombros:
– Eu... Eu acho que vou com o Luís e ... e...
– Vá você sozinho. (Sorriso vago) Você bem sabe que eu não gosto de cinema...
Um desusado ar severo chega ao rosto do dr. Ferreira, ao passo que as mãos
O novo cigarro brilha na cinza do cavanhaque:
longas, em vez de tamborilar, apertam a madeira da poltrona. Fala, seco:
– Sim, eu sei que você não gosta de cinema, que em toda a sua vida não foi
– Eu sei com quem que você vai, Elisa, eu sei...
seis vezes ao cinema. Mas devia de ir amanhã. Vai ser um espetáculo estupendo,
como diz o jornal. Você devia ir, Ritoca. O rubor encalistrado colore as faces de Elisa. Dr. Ferreira, notando as lágrimas
que brilham nos olhos de dona Ritoca – sacode a cabeça e diz apenas:
O novo dar de ombros mexe com o xale preto. A voz de dona Ritoca treme:
– Cada qual é dono de sua vida... (Sorriso vago) E o que passou, passou...
– Vá você sozinho. Eu... eu não posso ir a cinemas... Não acho graça em
diversões... Se for, garanto que (Quase um soluço) começo a me lembrar do O novo silêncio constrangido se impõe. A quietude da sala, com os cantos
Manoel e da Biloca... Eu (Outro princípio de soluço) já disse ind’agora: a idade cheios de sombra, com os móveis antigos mal esboçados na penumbra, com a
ataca os nervos... luz fraca pintando olheiras espessas nos rostos – a quietude seria completa se
não fosse o vento, lá fora, zunindo forte.
Mais este assobiozinho nervoso flui do cavanhaque grisalho. Estaca logo,
dando lugar à voz corajosa: Afinal a quietude é quebrada pelo comentário de Antônio:
– Ai, ai, ai! Chega de tristezas por hoje! (Riso forçado) Eu irei por nós dois – Está ventando...
e espantarei as tristezas de nós todos... (Riso fraco) Estou lhe desconhecendo,
Ritoca... Novo silêncio, desta vez interrompido por Ana, que se levanta e diz ao dr.
Ferreira:
Dona Ritoca consegue esboçar o sorriso:
– O sr. não vai ouvir ópera, hoje, papai?


66 |ESTRADA PERDIDA 67
A grande alegria vem súbita à fisionomia sombria: Elisa levanta:
– É mesmo, Ana! Já ia me esquecendo... Vá buscar. – Bom, está ficando na hora do bonde das nove... Vamos, Luís.
Ana pergunta: Dr. Ferreira fá-la sentar-se, como o sorriso cordial:
– Qual, hoje? – Não senhora, ainda é cedo. Vá no bonde das nove e meia. Ouça o primeiro
ato.
O dedo longo bate no lábio escondido pelo cavanhaque. Bole, bole.
Lígia, Roberto e Luís olham o aparelho, bem de perto. Notam os dois pratos
– Espera, espera... Ah! Traz a Carmen... cobertos pelos discos, com o furinho do centro deixando passar a haste cor de
Antes de entrar no outro corredor, que leva para a frente do casarão – Ana cobre. Notam os dois buracos, de madeira envernizada, por onde o som sai e
chama os guris: que estampam os homens brancos e nus, de músculos distendidos, iniciando
o gesto vigoroso, que jogará longe o disco prateado. Lígia, Roberto e Luís
– Venham me ajudar... olham ainda o letreiro dourado, destacando-se na madeira rebrilhante: PATHÉ
FRÈRES.
Antônio pergunta ao sogro:
Os três se assustam, quando a ouverture salta, inopinada, de dentro dos
– É só o senhor que tem este aparelho em Porto Alegre?
buracos.
Mais uma invasão de grande alegria no rosto sombrio:
Os discóbolos brancos e nus, empunhando o disco de prata, nem dão conta.
– Só eu, sim. E comprado antes da guerra. Imagina se eu encomendasse Continuam firmes o arremesso gorado.
depois. Com o franco como está (Ar de orgulho). E com agulhas de diamante...
Antônio quer enveredar pelo assunto predileto:
***
– Por falar em guerra, doutor, que que o senhor acha, qual a maior batalha
travada até agora? Marne?
Luís e Roberto estão acocorados perto da mesa, olhos pesados de sono.
Dr. Ferreira se entusiasma. O dedo comprido se enrista:
Roberto resmunga qualquer coisa no ouvido do outro, mas para, ao ouvir:
– Nem Marne, nem Some, nem Dardanelos, nem coisa alguma, seu Antônio!
– Psiu...
Pela importância que parece estar tendo para guerra – de certo que foi a segunda
batalha do Marne. O general Galienne e o Gal. Foche foram gênios da defensiva, Vira-se e vê que é a avó, lhe pedindo silêncio, com o dedo nos lábios, enquanto
não resta dúvida, a mobilização de Paris também foi uma coisa estupenda. Mas com a cabeça aponta para o dr. Ferreira, que está afundado na poltrona, o
a batalha, em si, não teve o vulto, a grandiosidade de Tanemberg! A batalha dos sorriso de profunda felicidade brilhando no cavanhaque grisalho, os olhos
lagos Mazurianos é maior que Waterloo e Austerlitz! Disso não tenha dúvidas, cerrados, a cabeça balouçando lenta, a mão magra, com as veias em relevo,
seu Antônio! (Pausa) Digo isso sem esquecer que toda essa grandiosidade não dando o compasso à melodia.
absolve as barbaridades incríveis!
O tenor inicia, com a voz quente e moça:
A chegada de Ana e da criançada – corta o entusiasmo do doutor Ferreira.
Ana pousa o aparelho em cima da mesinha como maior cuidado. Destampa-o. La fleur que tu m’as donnée,
Toma os montes de discos negros, cobertos pelo envelope pardo e que estavam Carmen...
sobraçados por Luís, Lígia e Roberto. Os discos são guardados debaixo da
mesinha. Dois são colocados nos pratos verdes. O novo silêncio da sala está Lígia, no colo do pai, grande, abandonada, descerra os olhos, que se arregalam,
sendo quebrado pelo rumor da manivela, dando corda. sem compreender o mundo, e se fecham em seguida. O sono profundo volta,


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embalado pelo canto dolente. 8.
... Carmen
je la porte sur mon coeur... Negro Peleu salta do bonde ainda em movimento, a bolsa das ferramentas
pendendo da mão retinta. Parece que vai cair. Dá três passos rápidos e pesados.
Mas se apruma logo e já caminha com firmeza, quando o bonde retoma a
marcha veloz e se vai, num zumbido crescente.
Negro Peleu abana para o bonde, como quem abana para um amigo. Grita:
– Tás com pressa de chegá no fim da linha... Não vai passa dos trilho...
A gargalhada sem entusiasmo ecoa, enquanto Peleu atravessa os trilhos e se
dirige para a ruazinha quieta.
Na loja da esquina, o seu Nunes está à porta, de bonezinho à cabeça e
esfregando as mãos. Peleu cumprimenta o homem:
– B’a tarde, seu Nune.
Seu Nunes responde, sempre esfregando as mãos:
– Boa tarde, Peleu. Muito serviço, hein?
Peleu retarda os passos:
– Regulá, seu Nune...
O assunto brota torrencial das mãos do homem, que se esfregam, se esfregam,
frenéticas:
– Que frio, hein? Barbaridade! E semana passada aquele calor, hein? Puxa!
Hoje arrebentou o fio da luz ali na esquina da lomba da igreja. Foste tu que
arrumaste, hein?
Peleu não está com vontade de conversar. Responde caminhando:
– Não fui eu, não, seu Nune. Té menhã, seu Nune. Tá na hora da janta...
O rumor de suas passadas firmes e decididas não lhe permite escutar o último
“hein?” do homem, que continua a esfregar as mãos, sempre à porta da loja.
Ola branco enjoado! Quando esse homem começa a falar, não para mais.
Não há quem aguente. Ola branco enjoado! E depois de um dia como o de hoje
não há quem aguente mesmo...
Ola branco enjoado! Ola dia brabo, ola serviço de escangalhar, serviço de
descadeirar...


70 |ESTRADA PERDIDA 71
Seu Nunes perguntou se não foi o Peleu quem consertou o fio arrebentado O grande sorriso pincela de branco o piche da cara satisfeita. Os passos
da esquina da lomba. Não foi o Peleu, não. Mas Peleu não sabe por que esse continuam a descer o vago declive poento, mais resolutos ainda. Os olhos
serviço também não lhe tocou hoje, hoje que Peleu trepou em quase uma dúzia vivíssimos veem o vulto incolor dos casebres crescer, pouco a pouco. Dão nos
de postes, fazendo instalações novas, desligando antigas, cortando a luz de primeiros pés de tuna, que se erguem à beira da sanga úmida, como milhares
casas remissas. O macaco velho hoje trepou em quase uma dúzia de postes. de mãos verdes agitando-se crispadas, e que são a única nota de vida no ermo
Deixa ver, deixa ver... Em dez, bem contados. O macaco velho está com as da ruazinha. Os olhos se adiantam, passam por sobre os pés de tuna, descem
cadeiras em pandarecos... E o seu Nunes ainda queria que fosse o Peleu quem todo o declive, detêm-se na amurada da pontezinha, que branqueia lá no fundo,
tivesse consertado o fio da esquina da lomba... Ele pensa que se trepa em poste próxima ao casebre da Baixada.
como quem esfrega as mãos... Ola branco enjoado!
Quando os olhos dão na pontezinha branca, a satisfação foge, as rugas
A irritação crescente vai semeando mais rugas na testa negríssima, vai voltam, incontáveis, à testa reluzente.
crispando, cada vez com mais força, a mão que segura as alças da bolsa das
ferramentas, vai dando mais vigor aos passos pesados, que já se aproximam do O Senhor do Bom Fim que perdoe, mas a verdade, a verdade que só neste
leve declive da ruazinha poenta. momento é que Peleu está compreendendo – a verdade é que o casebre amigo,
com os pés de tuna, o jasmineiro e a lamparina sempre acesa, está vazio demais.
Trepar, trepar em postes, todos os dias. Como se a vida fosse uma floresta de O Marciano, a Isaltina e a mulatinha não bastam, não mais enchem o casebre.
postes... E com esse frio, Senhor do Bom Fim! O ferro dos postes fica gelado, as O vazio que a falecida, que a Tomásia deixara e que há tanto tempo não se
mãos encarangam, perigando de afrouxarem e largarem o macaco velho na laje fazia sentir – o vazio tornou, gelado, amedrontador... A falecida, a branca aça,
dura da calçada. Postes! Postes! Mais postes!... Senhor do Bom Fim! a Tomásia, que, não obstante a sua brancura, amara o negro Peleu – a branca
Tomásia está definitivamente esquecida. O vazio voltou.Marciano, Isaltina e
O campo vazio, sem casa nenhuma, que começa nos fundos da loja do seu a filhinha – não bastam. O vazio precisa desaparecer... Precisa ser enchido...
Nunes, agora principia a ser marginado pela sanga funda e vermelha, de um Enchido...
vermelho mais escuro que o chão da rua, como o fio de água lodosa correndo
no fundo. As passadas resolutas estacam. A lufada de vento frio bate no rosto retinto,
bate nos olhos vivíssimos, que se semicerram doídos, mas, mesmo doídos,
Os passos pesados descem o leve declive, que leva aos casebres de madeira, ainda fitam o branco distante de pontezinha. A inspiração funda enche o tórax
semeados na planície barrenta da Baixada, lá longe, lá em baixo. possante, banha de ar frio o peito angustiado.
Quando os olhos de Peleu batem nos casebres distantes – a irritação O Senhor do Bom Fim, o afastadíssimo Senhor milagroso que perdoe o Peleu.
desaparece do rosto cor de piche, as rugas diminuem na testa enrugada. A branca morta, a aça Tomásia que também perdoe o Peleu. Mas a verdade
Mas, Senhor do Bom Fim, Senhor distante, apesar de toda essa trabalheira agora revelada – é que o macaco velho precisa de mulher... Mulher que, mais
diária, apesar de todo esse cansaço e esse descadeiramento – há coisas boas na do que nora, sempre a dar de mamar para a mulatinha esquelética – cuide
vida do macaco velho, há coisas que fazem esquecer os postes, os inúmeros, os do casebre, faça boa feijoada, cuide do jasmineiro, cuide dos pés de tuna, não
infindáveis postes. A casa do negro Peleu, por exemplo, aparecendo lá embaixo, deixe apagar a lamparina do Senhor do Bom Fim. Mulher que nas noites frias,
no barro da Baixada infecta, entre os casebres guenzos, a casa do negro Peleu, nas noites em que o vento gelado entra assobiando pelas frestas do quarto –
também guenza, também frágil, também deixando o minuano entrar por entre aqueça o corpo ainda moço, o corpo ainda vigoroso, apesar dos setenta e tantos
as frestas da madeira, também trescalando bodum e com mosquitos em pleno invernos trabalhosos.
inverno, mas, não obstante, acolhedora, desejada... A casa do negro Peleu é o A caminhada resoluta prossegue, menos rápida. Os olhos fitam sempre a
guenzo, o duro, o incômodo palácio confortável, com os pés de tuna à entrada, ponte branca, que está se aproximando, está mostrando com mais nitidez, o cal
com o jasmineiro à frente, com a lamparina sempre acesa sob a imagem do da amurada e dos pilares, contrastando no verde vago da Baixada.
Senhor do Bom Fim, na peça da frente, enquadrada na moldura de papelão
envolto em papel prateado. E a mulher que o negro Peleu precisa está ali, ainda moça, lavando a
roupa, como todos os dias, com o vestido sungado mostrando as coxas pretas


72 |ESTRADA PERDIDA 73
e redondas. Como todos os dias, ela está ali, debaixo da ponte, à beira do – Não é doença qu’eu tenho, sia Marica. Não é. A senhora sabe, sia Marica,
arroiozinho, batendo, esfregando na pedra a roupa molhada, tremendo o corpo eu... eu tô veio, eu já passei dos setenta, mas... mas podia tá mais veio...
cheio, cantando o canto distraído.
Marica afirma, com uma seriedade que destoa com o ar trocista dos olhos
A ponte branca cresce, cresce, inunda os olhos do negro Peleu. pequenos:
*** – Eu não le acho veio, seu Peleu...
A negra não notou a aproximação de Peleu. Torceu a roupa entre as duas mão Peleu não deu conta do comentário. Continuou falando de olhos fitos na
pretas, revelando, ainda mais, as coxas roliças, de um negrume que destoa da água do arroio:
sola dos pés, clara, quase branca. Estende sobre a pedra a peça úmida. Levanta,
puxando para baixo o vestido, que está molhado no ventre e que se colara ao – Eu podia tá mais veio, memo. Trabaiei tanto, des que nasci, sia Marica...
relevo das nádegas. Vira-se para o lado de Peleu. Ri, assustada: Tenho viajado tanto, sia Marica...(A narrativa prossegue, num tom modesto,
mas que trai o vago orgulho) Munto branco não tem viajado tanto como o
– O sinhô tava aí, seu Peleu?! Se fosse uma cobra, me mordia... macaco veio, sia Marica... Eu já era rapais taludo quando vim da Bahia pra
Corte, com meu padrinho (Tom franco de orgulho, enquanto os olhos fitam
Peleu se encosta ao pilar branco. Também ri: a negra e logo voltam à água do arroio) o capitão da Real Armada, doutô de
– Le mordia, memo... medicina, Francisco Texera da Costa. Ele vinha pra Assunção, cuidá da febrea
amarela, que tinha dado lá nos marinheiro que era coisa munto de arrespeitá...
A negra, faceira, ajeita a carapinha, que está se espichando, bem no alto da No Rio de Janero, me disse: “Não, neguinho, tu fica aqui, na casa do meu
cabeça como um topete de pássaro. Diz: ermão, porque a febre amarela pode te pegá, lá no Paraguai”. Eu fiquei na
casa do ermão dele. Ele foi pra Assunção cuidá dos marinheiro, pego a febrea
– Como vai o sinhô, seu Peleu?
amarela e morreu (Peleu tira o chapéu). Que Deus vele a arma do coitado!
Peleu ainda está encostado ao pilar: (Põe o chapéu). Pois é, sia Marica, o macaco veio tem viajado. Do Rio fui pro
Esprito Santo, mas antis acompanhei o Imperadô, quando ele foi vê a estrada
– Não vô munto bem, sia Marica. de ferro que ia de Santo pra São Paulo. (Riso). A Imperatriz me chamava de
A negra se aproxima, interessada: Benedito. “Benedito, me arcança essa mala! Benedito, me trais aquela caxa!”
Daí de Santo vortei pro Rio e fui pro Esprito Santo, trabaiá com os engenheiro,
– Que qui o sinhô tem? Defruxo? pra abri colonas pros imigrante... Tinha um ingreis munto engraçado, o mist
Charle, que ficô munto amigo do neguinho... (Outro riso) “Du-u-du, Pileu?”
– Antis fosse, sia Marica! – E, subitamente sério – O que o macaco veio tem Despois vim com o ingreis pra Punta Arena, um lugar frio que é coisa danada,
não é doença, não, mas é munto pió que doença... que tem bem lá nos cafundó do juda... quaji morri de frio. Despois, mist Charle
Marica de novo bole na carapinha, evidenciando o busto discreto, mostrando foi pra Rosaro de Santa Fé. E o neguinho sempre junto. Inté argentino o nego
o breu profundo das axilas. Sorri, meneando a cabeça, num trejeito gaiato e veio aprendeu: “Buenas, che! Como le vá, amigo?”
encorajador. Não obstante, Peleu não sente coragem de falar. Os olhos fitam corajosos, demorados, os olhos pequenos da negra:
Percorre, com os olhos, o corpo da negra, detém-nos no ventre molhado, – Minha vida é munto comprida pra tá contando. Não termina nunca. Nego
desvia-os. Rápidos, para o alto, fita o cimo da cobertura dos casebres distantes, veio tem viajado munto, sia Marica, munto mais que munto branco... Um dia
a orla dos pés de tuna, o verde do capim, o vermelho do leito da rua. Baixa-os le conto tudo. Nego veio viajô munto...
para a água do arroio que rola, serena e quieta.
Peleu se aproxima da negra. Outra vez, percorre com os olhos o corpo da
Com os olhos sempre na água do arroio, Peleu recobra a coragem e fala, negra, detém-se no ventre molhado, sobe-os com rapidez, fixa-os nos olhos
lento, mansinho: pequenos de Marica:


74 |ESTRADA PERDIDA 75
– Mas o nego veio não tá tão veio assim... – Pode esperá, seu Peleu.
Silêncio, grande, enorme esforço. E a pergunta é desfechada: O controle de Peleu não consegue evitar o enorme sorriso de ventura.
– O Maneca dexô a senhora, não dexô?
Marica sacode a cabeça, dizendo que sim. Outro grande esforço para
desabafar a nova pergunta:
***
– A sinhora qué se ajuntá comigo, sia Marica?
Marica fita o chão, ainda sem responder. Peleu insiste, de respiração cortada
pela emoção: A passos largos, Peleu deixa para trás os pés de tuna da entrada, o jasmineiro
velho e espesso, de galhos grossos e emaranhados, já com a mancha clara de
– O Maneca dexô a senhora, e eu tenho casa, ganho meu dinheirinho na algumas flores. Grita para o cachorro, que o recebera pulando:
Companhia e os meus biscate do dr. Ferrera... A minha casa dá pra senhora e
pra sua fia... A senhora trais a sua fia... Que se ajuntá comigo, sia Marica? – Tá quieto, cusco!

Marica ergue os olhos do chão. Fixa-os nos de Peleu. Responde, com grande Entra com vigor na saleta. Joga longe a bolsa das ferramentas. Persigna-se
naturalidade: sob a lamparina acessa, sob a imagem do Senhor do Bom Fim, crucificado entre
as tiras prateadas da moldura. Entra na outra saleta, que é o quarto do filho e
– Quero, seu Peleu. (Pausa) Quando é que que qui nóis vá? da nora. Vê a Isaltina com a mulatinha magra, de braços tão fininhos, chupando
o seio redondo. Peleu grita, contentíssimo:
Peleu ri, ainda opresso de emoção:
– Quando o Marciano chegaá do doutô Ferrera, voceis dá um jeito de se
– Hoje memo. mudá pro quartinho dos fundo... Vamo trocá. Voceis vai pro meu quarto e eu
Com a maior naturalidade a conversa prossegue: venho pro de voceis. Amenhã chega gente nova!

– Hoje não dá, seu Peleu. Inda tenho que passá essa roupa e lev pra muié Isaltina deixa de olhar a filha, que continua a chupar-lhe o seio roliço. Não
do seu Nune. Inda tenho qui arrumá as minhas coisa, tenho que desalugá o tem a curiosidade de perguntar quem seja a gente nova que chega amanhã.
quarto. Amenhã. Tá? Apenas concorda:

Grande sorriso: – Sim, sinhô.

– Tá. Amenhã de menhã cedo, antes do macaco veio saí pro serviço... Peleu volta para a saleta da frente. Olha ao gramofone de caixa amarela, de
longo fone pintado de verde, o barato, o feio gramofone. Canta:
Marica se baixa e começa a colocar as peças úmidas de roupa no bojo da
bacia de folha. Ri, também: Em casa de Mãe Teté,

– Macaco veio, o que, seu Peleu! O sinhô tá mais moço que munto mulato ó calunga,
besta... tinha uma mulatinha,
Calmo, controlado, Peleu sobe para o leito da ponte. Daí de cima sobre o ó calunga,
branco da amurada, ainda diz:
que o gato levô
– Amenhã de menhã, sia Marica. Vô le esperá.
ó calunga,
Marica, ainda acocorada e colocando peças de roupa na bacia de folha –
responde, sem se virar:

76 |ESTRADA PERDIDA 77
que o gato papô, 9.
ó calunga...
Para. Fala, atrapalhado pelo riso: Marciano deixou-os à esquina da lomba da igreja.
– Disco da Casa Eletra, Porto Alegre! – Daqui voceis vai sozinho. Eu vô dá uma chegadinha na venda.
Lígia pergunta:
– Que qui tu vai fazê na venda?
Marciano torce o bigode, embaraçado:
– Comprá umas coisa que a dona Ritoca mandô...
Lígia fecha o sobrolho, num ar de censura:
– Mas a vovó não compra nada nessa venda...
Marciano dá outra torcida no bigode, embaraçadíssimo:
– Compra, sim. Às veis...
Lígia estoura a risada:
– Mas que negro mentiroso!... Eu sei que qui tu vai fazê na venda. Vai tomá
cachaça...
Marciano não acha nada pra dizer. Dá uma torcida na ponta do bigode ralo.
Dobra aba do chapéu gaúcho. Tenta falar. Cala. Lígia repete:
– Tu vai tomá cachaça, negro mentiroso...
A sua gargalhada contagia Roberto e Luís. Os três riem, aumentando o
embaraço de Marciano, que, na quarta torcida do bigode, consegue dizer:
– Despois, eu acho bobage da dona Ritoca acompanhá voceis inté na casa do
douto Rodrigue. Dois moço e uma moça... O seu Roberto inté já tem doze ano...
Notando que o seu último argumento devolvera a seriedade à meninada –
Marciano prossegue, já conseguindo falar com desembaraço:
– Dois moço e uma moça... Inté fica feio saí pra rua acumpanhado... Como se
fosse umas criancinha de peito... (Pausa) E memo já tá tão perto a casa do douto
Rodrigue... (Outra pausa) Pois é. Voceis vai e eu fico ali na venda. Quando
voceis vortá, passa na venda e me chama.
Marciano não espera a aquiescência da gurizada. Dirige-se, sem pressa, para


78 |ESTRADA PERDIDA 79
a venda que está ali do outro lado da rua e abre a porta bem na esquina da – Que coisa pau a gente tê que visitá o primo Rodrigues e a prima Sinhá!
lomba. Lígia, Luís e Roberto veem-no entrar, veem-no desaparecer na porta
aberta. E iniciam a subida da lomba. Os outros sacodem a cabeça, aprovativamente. Lígia, ainda:

Do lado esquerdo, os maricás estendendo os galhos espinhudos para fora – Hoje tá tão bom pra se brincá no morro...
da cerca de arame. Por entre a ramaria rala, eles avistam o trecho distante da Mais um trecho da lomba é subido em silêncio. Lígia outra vez:
paisagem conhecidíssima, a copa verde-escuro e espessa do mato, o verde claro
do morro, subindo, subindo, no mesmo sentido da lomba, o borrão vermelho – Puxa que é dura, a barba do primo Rodrigues! E espinha a cara da gente...
da pedreira, com as manchas prateadas das pedras incrustadas, o pedaço Velho pandorga!...
do telhado do casarão, como o casco de um barco virado, boiando no mar
Roberto acrescenta, ríspido:
calmo. No verde-claro do morro, na parte livre e descampada, aparece, quase
ininteligível, a mancha cinzenta do cavalo cego. – E a prima Sinhá, com a bobage de contá a história do noivo? Voceis qué
jogá que ela vai contá tudo pra gente de novo? Que visita a vovó foi inventá
Luís mostra aos primos:
pra gente!
– Oia lá o lobuno...
Luís é o primeiro a avistar o frontispício branco da igrejinha, com a cruz de
Roberto diz: ferro no topo, lá no fim da lomba, onde os maricás terminam, bem no alto do
morro. Luís lembra, com a sua voz tímida:
– É mesmo. Já fais tempo que ele não foge...
– Depois que nois saí do primo Rodrigues, vamo brincá atrais da Igreja?
Lígia discorda;
Os olhos de Lígia brilham. Os lábios carnudos se descerram. A fala tem um
– O, Renô bobo! Fais tempo, nada! Sabo passado ele inda fugiu... tom de êxtase:
Roberto cerra os punhos, indignado: – É mesmo... Vamo...
– Já te disse que não me chames de Renô!... Roberto não diz nada, carrancudo, ainda zangado como o apelido de Renô.
Lígia arregala os grandes olhos negros. Dá ao rosto moreno um quê
inocentíssimo:
***
– Ah, é?!
Subiram, correndo, os quatro degraus, que são cavados na terra e estão
Silêncio. A subida continua, com Roberto ainda de punhos crispados, mas cobertos pelas lajes. Lígia, que os galgou em duas pernadas, chegou primeiro
calado, sem disposição para discussões. ao jardinzinho, pulou um canteiro, deu mais três pernadas para vencer os
Do lado direito, as casas se alinham, galgando a lomba, vagarosas, pesadas. vários degraus da escada maior. Ergueu-se na ponta dos pés. Apertou no botão
Do lado esquerdo, os maricás se sucedem, estendendo, sempre, para a rua, da campainha.
os galhos malvados, revelando sempre, por entre as falhas da ramaria rala, Os três agrupados no patamar da escada, ainda avistaram, pela última vez,
os pedaços da paisagem conhecida, a copa das árvores do mato, o morro, a o telhado do casarão distante, o vidro da janela, a orla verde-escuro do mato, o
pedreira, a mancha cinzenta do cavalo cego, o pedaço do telhado do casarão, verde mais claro do morro. Não deu para enxergar nem a mancha cinzenta do
que, aos poucos, está mostrando também um pedaço da parede amarelada, lobuno cego, nem o vermelho da pedreira. Depois os três ouviram a tossezinha,
também o vidro de uma janela. se aproximando. Ouviram o barulho do escarro, já bem perto. Viram o trinco
Lígia comenta: da porta se mexer.
Antes do rosto do primo Rodrigues, a barba amarelada e dura apareceu na


80 |ESTRADA PERDIDA 81
fresta da porta. Somente após isso é que os olhos surgiram, pequenos, cinzentos, A resposta vem lá de dentro, abafada:
piscando. A boca pequena e quase sem lábios se descerrou, emitindo a vozinha
fanhosa: – Que é, Mano?

– Ah! São vocês?! Explicação ainda gritada:

A vozinha fanhosa se tornou antipática: – A fedelhada do primo Ferreira está aqui.

– Não é preciso grudar o dedo na campainha!... Basta um toque!... Ninguém A voz torna a chegar lá de dentro da casa fria:
é surdo aqui em casa!... – Eles que entrem. Eu estou aqui no meu quarto, costurando...
A porta se abriu de todo, revelando o corpo alto e magro, envolto na Primo Rodrigues pega Lígia pelo braço, apertando-o, mergulhando os dedos
roupa preta, que destaca o amarelado da barba mal cuidada. Como os guris na carne trigueira. Empurra-a, na direção do corredor:
continuassem no patamar, a pergunta enérgica veio fanhosa, enquanto os
olhinhos piscaram, piscaram duros: – Vá tomar a bênção da sua prima... Ande...

– Que que estão esperando?! Entrem, entrem! Querem me dar um pneumonia Mas detém Luís e Roberto, estendendo a mão trêmula:
com esse frio?
– Eu não disse que vocês fossem! Disse? Ela que vá. Mulher se entende com
Notando o silêncio desenxabido dos meninos e da menina – primo Rodrigues mulher! Homem com homem!
deflagra a gargalhada satisfeita, enquanto a expressão de simpatia torna menos
Primo Rodrigues senta na cadeira giratória, que está por detrás do birô.
duro os olhos cinzentos:
Pergunta, enérgico:
– Que cara de susto é esta? Estão com medo do velho maluco, estão?
– Que que vocês estão fazendo aí de pé? Sentem, sentem!
Nova gargalhada satisfeita, que sacode o corpo alto e curvo, que agita as costas
Mal Luís e Roberto sentaram nas poltronas de palhinha – primo Rodrigues
magras, cheias de protuberâncias de ossos se desenhando no preto da fazenda.
abandonou a cadeira giratória e se parou no meio da sala. Estendeu os dois
Os olhos de Lígia, Roberto e Luís acompanham o trajeto da mão trêmula, se
braços em direção de Luís:
dirigindo para o trinco da porta. Parece que a mão trêmula não conseguirá
atingir o trinco. Consegue, enfim, abarca-o, com vagar. Lígia, Roberto e Luís – Venha!
suspiram, aliviados.
Luís não tem coragem de se erguer. Os braços estendidos insistem:
Terceira gargalhada do primo Rodrigues:
– Venha! Que que está esperando?!
– Se assustaram com o velho maluco, se...
Luís obedece, a passos tardos, com um grande medo estampado no rosto
Não termina a frase, atrapalhado pelo acesso de tossezinha encatarrada, que pálido. Primo Rodrigues se dobra, aproxima a cara enrugada do guri, chega
tine na garganta, como se dentro desta houvesse um metal partido, roçando as bem próximo aos olhos do guri, os olhos cinzentos e duros que piscam, piscam
duas metades num atrito fininho. sempre. E a barba dura, de arame, se esfrega nas bochechas de Luís. Só as
abandona quando elas estão bem vermelhas.
Quando o acesso de tosse termina – primo Rodrigues enxuga, com as costas
da mão, a barba cuspida, enxuga, com o nó dos dedos, a água que brilha nos Risinho de alegria gaiata, brotando da boca pequena e sem lábios.
olhos cinzentos e duros. Primo Rodrigues grita em direção do corredor que
leva ao interior da casa: – Vá sentar!

– Mana? (Silêncio espesso na casa fria) Sinhá-á? Os braços estendidos se dirigem para Roberto.


82 |ESTRADA PERDIDA 83
– Venha! se deve ter medo! Compreenderam? Nem quando se vai num quarto escuro,
buscar uma coisa que o pai da gente mandou... Isso são medinhos de mulher,
Igualmente com Roberto, foi preciso insistir. Porque Roberto só obedeceu medinhos pra Lígia, compreenderam? Nunca se deve ter medo, seus cagarolas!
na segunda ordem, também com expressão assustada e também a passos De coisa alguma! Nem mesmo da morte, compreenderam?! Nem mesmo com
tardos. Outra vez os olhos piscaram, piscaram, e a barba dura, a barba de esta quedinha pras gripes pneumônicas, com estes pulmões de borra, que estão
arame amarelado se esfregou, se esfregou, até o fogo avermelhado vir ao rosto pedindo que a Gripe Espanhola venha duma vez, ouviram bem? Nem mesmo
do menino. Outra vez, o risinho saiu da boca pequena, escorreu pela barba assim, com a passagem comprada...
amarelada, trouxe água aos olhos cinzentos e duros.
O vulto negro e alto mais esta vez abandona a cadeira giratória. Caminha
Primo Rodrigues tornou a enxugar os olhos com o nó dos dedos. Tornou a para um lado e outro da sala.
sentar na cadeira giratória. O último risinho sacudiu o peito côncavo. A cabeça
abanou, pesarosa: – Nunca se deve ter medo... De coisa nenhuma...
– Cagarolas, guris de borra! O murro bate na superfície do birô, sacudindo o vaso sem flores:
A cabeça parou de abanar. A mão enxugou o cuspo possível da barba – Nunca, guris de borra!
espinhuda:
Recomeça a caminhada para um lado e outro da sala, acompanhada pelos
– Como vai o primo Ferreira, cagarolas? Como vai a prima Ritoca? O primo olhos atentos dos guris:
Antônio? A prima Ana? A prima Elisa? Como vai essa cambada?
– Olhem, se eu fosse cagarola, como vocês, não tinha sido nada na minha vida,
Luís não sente vontade de falar, ainda de rosto ardendo. Roberto é que não tinha passado de mediquinho sem importância, de mediquinho de aldeia...
responde: Mas tive coragem, tive audácia, entenderam? E peguei nome, entenderam?
(O sorriso feliz distende os lábios finos, dá um pouco mais de extensão à
– Vão bem, obrigado. E o senhor como vai? boca pequena) Foi quando Pedro II passou aqui em Porto Alegre, pra ir para
O muchocho desdenhoso desdobra os lábios finos: Uruguaiana... Parou no Palácio dos Câmara... Junto com ele veio o Conde d’Eu.
Eles iam a Uruguaiana, compreenderam? Foi na Guerra do Paraguai. Vocês
– Eu?! Com o pé no cemitério, como não podia deixar de ser, com passagem sabem o que foi a Guerra do Paraguai? Não sabem, seus vagabundos. (Novo
comprada pro outro mundo! (O dedo trêmulo se ergue) Com esta predisposição sorriso feliz) Pois o Imperador e o Conde d’Eu, genro dele, sabem? – um rapaz
pra pneumonia, esta carcaça está pedindo um tumulozinho dos confortáveis... (O louro, bonitão, sabem? – pois eles pararam no Palácio dos Câmara. E deu uma
dedo se dobra, mas de novo se enrista, num gesto de descoberta) Mas não tenho cólica no ajudante de ordens do Conde D’Eu. O homem parecia que ia morrer,
medo, compreenderam, guris? Não sou cagão, como vocês, compreenderam, gritando como um doido. Eu me dava muito com um filho do Visconde de
fedelhos?! Pelotas. E sabem quem foi que o filho do Visconde de Pelotas se lembrou de
chamar para atender a cólica do ajudante de ordens do Conde D’Eu, sabem?
Luís cria coragem para falar. Diz, tímido:
(As mãos batem no peito côncavo, com orgulho) Este velho maluco, que
– Sim, senhor. naquele tempo era um médico principiante, moço, e de bigodinho petulante...
Eu era moço mas já estava formado há três anos. O avô de vocês ainda estava
Os olhos cinzentos fuzilam: cursando a Academia de São Paulo. Me formei cinco anos antes do Ferreira.
– Sim, senhor, por quê?! Como é que você diz sim senhor quando lhe chamo Ele também é um bom médico, sabem? Também é corajoso, compreenderam?
de cagão? Vocês não puxaram a ele, cagarolas! (Outro sorriso feliz, distendendo os lábios
finos) Mas, como eu estava dizendo, escolheram a mim para curar a cólica
Luís balbucia a frase ininteligível. Primo Rodrigues ri o riso fininho: do ajudante de ordens do Conde d’Eu. E pensam que eu tive medo, que eu
titubiei, que eu testavilhei, balastracas? Não, fui no Palácio dos Câmara, deitei
– Não encabule, não encabule! (As duas mãos trêmulas se levantam) Nunca um ar de importância, fui logo dizendo que não era nó na tripa, que era um


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ataque de fígado, dei uma dose cavalar da calomelano pro homem, o homem branquíssima e limpa parecendo um lago cor de leite premido entre rochedos
se borrou todo no outro dia e ficou bom... Foi assim que comecei o meu nome, negros. Prima Sinhá, pequeninha, o vestido preto afogando-lhe o pescoço na
compreenderam? (Risinho fanhoso) Com audácia e calomelano! gola engomada – prima Sinhá é o vultinho humilde, se embalando na cadeira
de balanço.
O risinho continua. Parece que não quer terminar. Termina e, com ele, a
caminhada para um lado e outro da sala. A cadeira giratória é de novo ocupada: Os olhos de prima Sinhá, intensamente negros e vivos, postos em relevo
pelos cabelos prateados – fitam os guris. O convite parte, mansinho, carinhoso:
– Vocês querem saber de uma coisa? Só se pode ser feliz se não se tem medo
nunca, entenderam? (Exaltação) E, pra se ter coragem sempre, é preciso que a – Sentem aí na cama, também...
gente não se case. Entenderam?
Os meninos sentam. O sorriso, também mansinho, também carinhoso,
Desta vez é Roberto quem diz: ilumina o rosto enrugado:
– Sim, senhor. – Como vão vocês?
Novamente, os dedos se enristam, ao passo que a exaltação aumenta: Depois que os guris respondem que vão bem e agradecem – o sorriso
mansinho cessa. A calma cordial desaparece do rosto enrugado. Os olhos
– Sim senhor por quê, seu cara de mico? Quem casa tem medo de tudo! Tem vivíssimos se inquietam, contrastando, ainda mais, com a prata dos cabelos.
medo de morrer pra não deixar a mulher e ela não casar com outro, tem medo A voz de passarinho fala, com energia súbita, mas com uma energia que não
que o dinheiro não dê para os gastos do fim do mês, tem medo que os filhos consegue roubar a essa voz o tom fininho e doente:
morram, tem medo que a mulher morra! Tem medo de tudo, o desgraçado!
E como é que se vai ser feliz, assim? (Quase um grito) Foi por isso que eu – Meninos, eu estava dizendo aqui pra Lígia. O Mano tem a mania de dizer
nunca quis saber de me casar, que eu tive a coragem de não me casar, sabem? que não se deve casar, porque o casamento tira a coragem e o medo traz a
Mulheres só de passagem, ouviram? (O dedo de novo se enrista) Não casem infelicidade. Ele não tem razão! Eu acho que se deve casar, sim, mas por amor.
nunca, ouviram? (Muchocho desdenhoso) A Mana também não casou nunca... Só por amor! Vocês querem coisa mais bonita do que casar por amor?! Olha,
Mas não foi por ser corajosa... Foi por outros motivos... Por motivos que ela é Lígia, vocês dois, tu e o Luís. Eu estou vendo com estes olhos que nunca me
que bem entende... mentiram– eu estou vendo que vocês ainda vão se casar. E por amor!
A calma, que devolvera a placidez aos olhos cinzentos e duros– desapareceu A vergonha chega ao rosto de Luís, faz-lhe as mãos tremerem, tira-lhe a
logo. O dedo tornou a se estender, pareceu passar por cima do birô, pareceu respiração. Lígia ri, satisfeita. A voz fininha e doente prossegue:
passar por cima do vaso sem flores, pareceu atravessar a sala, pareceu espetar-
se no rosto dos guris: – Vê?! O Luís encabulou, ó! Hão de casar, sim, hão de casar por amor. Mas
aconteça o que acontecer, nunca esqueçam isto que esta velha sem graça está
– Agora chega de conversa, seus cagarolas! Vão tomar a bênção da Mana... dizendo: só se deve casar por amor... (Tristeza pungente e súbita, na voz doente)
Andem! Andem! E, se não se pode casar com quem se ama, então, não se case com ninguém...
Fique-se solteiro, a vida inteira, morra-se solteiro...
Mais este risinho partiu dos lábios finos, da barba amarelada e dura.
Pausa enquanto os olhos vivíssimos se cerram e o suspiro vem, fundo. Lígia
*** aproveita a distração da prima para pegar do braço de Luís e dizer, num risinho
sussurrado:

Quando Luís e Roberto entraram no quarto sem janelas, iluminado – Aí vem a história do noivo...
frouxamente pela claridade que vem do corredor – quando Luís e Roberto – Lígia acertou. De fato, a história do noivo da prima Sinhá chega, trazida
entraram, Lígia estava sentada à beira da cama da prima Sinhá, da cama pela voz doente, que agora está banhada de tristeza:
de madeira escura, a alta cabeceira ornada de desenhos em relevo, a colcha


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– É. Se não se pode casar com quem se ama, então se morra solteiro... Eu... Prima Sinhá ameaça levantar da cadeira de embalo. Desiste, apontando os
eu... eu não pude casar com o homem que amei... E, por isso... por isso, fiquei poucos livros que estão ali no armariozinho de porta de vidro:
solteira, sou hoje este caco velho e sem serventia... O Mário era um advogado
moço e inteligente, mas era boêmio. Vocês não sabem o que quer dizer boêmio, – Vocês estão vendo esses livros? Romance, quase tudo... Coisa boa, da
mas sabem o que é um bêbado. Ele era inteligente, mas era bêbado, era assim fina... Lamartine, Walter Scott, Balzac... Vocês, mais tarde, compreenderão o
como o Marciano, esse mulato sem-vergonha... E eu gostava muito dele, muito que valem estes nomes... Pois saibam que esses livros me deram a ventura que
mesmo... E, quando se gosta – fica sabendo Lígia! quando se gosta de um homem não tive na vida, a felicidade que não consegui possuir nunca... Mas aqueles
que que importa se ele é bêbado, ladrão, bandido mesmo? Que que importa? três volumes pequenos e brancos – aqueles três volumes valem muito mais que
(O tom triste chega ao auge, parece querer transformar-se em choro) Mas o todos os padres do mundo amontoados...
meu pai não entendeu assim. E, quando o Mário veio lhe pedir a minha mão – O dedo aponta o armário. A fala, mansinha, ordena a Roberto:
papai deu-lhe uma corrida em regra. Que não ia entregar a filha a um boêmio,
que zelava pela felicidade de sua filha, que Mário fizesse o favor de nunca mais – Abra o armário e me traga os livros brancos, Roberto.
aparecer, de nem passar pela janela da nossa casa... O Mário, graças a Deus,
Roberto obedece, abre o armário, cuja porta range fanhosa. Entrega os livros
tinha orgulho, meninos – e eu não lhe perdoaria, se depois disso ele aparecesse
à prima Sinhá, que folheia o primeiro e chama Lígia e Luís:
– o Mário tinha orgulho e nunca mais apareceu. Nem de relance! (Agora prima
Sinhá enxugou a lágrima, sim) Eu ia esquecendo de dizer. Quando papai veio – Venham, venham pra cá, venham ver...
me comunicar que cortara as asas do Mário, sabem o que eu disse? “Está bem,
meu pai. Não tenha cuidado – Não me casarei com ele nem com nenhum A mão continua a folhear o livro. Acha:
outro.” Passou o tempo... Eu não me casei (Vago sorriso faceiro) Não que não – Aqui.Vejam este gorducho, com cara cansada e com jeito de quem comeu
aparecessem candidatos. Muitos, até! (Novo sorriso faceiro) Eu não era nada demais... Olhem bem, guardem este gorducho na cachola... Sabem quem foi
feia... (O sorriso é substituído pela expressão de orgulho) Os anos continuaram ele? Não ? Foi Renan! Este renegado, este amaldiçoado, vale mais do que todos
passando e, um dia, o papai veio me dar a grande notícia: Mário morrera num os Santos Agostinhos e do que todos os Pascais, juntos e empilhados. Guardem
acesso alcoólico, caído na calçada. Papai me comunicou isso, dizendo: “Vês do bem esta cara gorda e cansada, meninos, guardem bem... Ele desfez a lorota da
que te livrei? Que que eu te dizia?” (O orgulho se exaspera, dá um tom gritado vida eterna, ele...
à vozinha doente, faz crescer o corpo pequeno) E que que vocês imaginam que
eu respondi ao papai? Isto: “Está bem, papai. Mas eu não me arrependeria!”... O início do discurso da prima Sinhá é interrompido pela chegado do primo
Rodrigues, que veio pelo corredor, anunciando-se pela tossezinha, entrou na
Prima Sinhá faz um gesto de quem afasta um importuno. Suspira. Consegue penumbra do quarto, parou de tossir, enxugou a barba amarelada com o nó dos
sorrir: dedos. Foi direito a Lígia, tomou-lhe o rosto moreno entre as mãos trêmulas,
– Que que adianta estar remexendo em coisas mortas? Não deem atenção esfregou a barba amarelada, esfregou, esfregou. Riu. Disse:
a este assunto de velha sem graça... (Pergunta inopinada) Vocês aí, meninos, – Não me escapavas...
como é que vão de religião? Qual foi a última burrice que o padre meteu na
cabeça de vocês? Falou para a irmã:
Prima Sinhá não espera a resposta dos guris. Fala, sorrindo com um jeito – Que que está falando em Renan pra esta gurizada burra?
irônico:
Os olhos vivíssimos de prima Sinhá querem fulminar o irmão.
– Padres imbecis! Sempre a meter na cabeça das crianças as lorotas da vida
eterna, da morte, do inferno, do céu, do purgatório... Tudo isso são patranhas, – Estava falando porque quis. Que que você tem a ver com isso?
meninada, são lorotas das mais descabeladas... Vida eterna... (Muchocho A voz fanhosa escorre da barba dura, num tom de escárnio:
desdenhoso) Puf, vida eterna!
– Sim, eu sei que foi porque você quis. Mas garanto que também falou do
casamento por amor, não é?


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Desta vez, prima Sinhá se ergue da cadeira de embalo, aproxima-se do irmão, Lígia pergunta:
pequeninha, menor ainda pelo contraste com a altura deste:
– Por quê?
– Sim, falei. E – diga-me, se me faz favor, diga-me! – que que você tem a ver
com isso? Quê? Diga-me, ande, diga-me, seu velho ranzinza!! Luís explica:

Primo Rodrigues perde o controle. Grita no rosto enrugado da irmã: – Disse qui soube que o vovô andô falando qui ela vai se casá de novo, andô
dizendo qui fica feio casá de novo, qui ela é igual ao Peleu.
– Velho ranzinza é você, sua velha caduca!
Lígia bate na perna de Luís, aflita:
Prima Sinhá se ergue na ponta dos pés, aproxima o seu rosto da barba
amarelada do irmão: – E ela não deixa tu vi?

– Velha caduca?! Repita! Repita! Luís retruca:

Primo Rodrigues não pode repetir. Não por medo, mas porque o novo acesso – Deixa, sim. Disse qui eu posso vi, porque eu sou neto, mas qui ela não vem
de tossezinha, da tossezinha metálica e encatarrada – não lhe deixa dizer coisa mais...
alguma. Lígia sorri, aliviada:
– Então, não fais mal...
*** O rumor da cidade de novo sobe morro acima, trazido por esta outra lufada
de vento frio. Klaxonada distante. Roberto ri:

Dentro em breve, o sol baixará sobreo o verde das ilhas fronteiras à cidade, – Chi, Lígia! A prima Sinhá disse qui tu vai casá com o lesma... Chi!
recortadas no azul claro do rio. Por enquanto, o sol se limita a incendiar a Lígia acompanha o riso do irmão. Diz para Luís, atrapalhada pelo riso:
superfície crespa da água, que cintila, fazendo o reflexo passar por cima das
casas, passar por entre as torres eretas da Igreja das Dores, perpassar chaminés, – Nóis vamo se casá, hein, Luís?
galgar o morro, ofuscar os olhos de Lígia, de Luís e de Roberto, com se fosse
Luís outra vez sente o coração se acelerar, outra vez sente o rubor queimar-
reflexo de um espelho.
lhe o rosto pálido. Depois de um grande esforço, consegue balbuciar estas
Os olhos dos guris, que sentados nos degraus da igrejinha, teimam, frases, que desviarão o assunto constrangedor:
semicerram-se, gozando a cidade distante. Os guris escutam, no silêncio da
– Brigaro, o primo Rodrigues e a prima Sinhá...
esplanada – o rumor surdo e afastado da cidade, misturado com o latido
insistente e próximo de um guaipeca insituado. O latido cessa. Logo em seguida Roberto reforça:
vem a resposta, menos próxima, quase vencida pelo rumor da cidade. Agora
o latido se cola ao zumbido do bonde, que zune, zune lá embaixo, invisível, – A prima Sinhá tava danada...
rumo ao fim da linha. Lígia também reforça:
Quando o zumbido se extingue de todo, os cachorros já deixaram de latir. – O primo Rodrigues se guspiu todo... Me acerto guspe aqui na mão...
E então o rumor da cidade distante domina na esplanada. Neste momento,
parece que ele se aproximou, grosso, trazido por essa rajada de vento frio. Lígia mostra aos outros a mão morena e polpuda. É só Luís quem olha.
Porque Roberto levanta do degrau da igreja, brusco, e bate no ombro da Lígia:
A voz de Luís:
– Bucha!
– Voceis sabia? A mamãe disse que não vem mais na casa do vovô...


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O vestido verde-claro esvoaça, desenha o corpo trigueiro, que corre, corre, Os três correm em direção à lomba vermelha, velozes, afogueados, margeiam
zigue-zagueia, veloz, pula sobre tufos de ervas, salta por sobre a vala vermelha, rápidos o carreiro de maricás, parecendo que são levados pela gargalhada
consegue retribuir a batida. estridente de Lígia. O vitral redondo da fachada da igrejinha parece também
rir, faiscando ao sol.
– Bucha!
***
Agora são as duas manchas cáquis que se perseguem também pulando valetas
vermelhas, também saltando por cima de tufos de ervas. Roberto alcança Luís: Marciano, encostado ao balcão da venda, finge que não ouve. Mas Roberto
insiste:
– Bucha!
– Vamo, Marciano...
Também hoje está difícil de alcançar Lígia. O vestido verde-claro, esvoaçando
sempre, enrolando-se nas formas mal definidas, parece emprestar mais Marciano teima:
velocidade à boneca fujona, que dá pulos incríveis por sobre as valetas, por
sobre os tufos de ervas, que sobe nos degraus da igreja, que desce os degraus – Não amola, guri!
da igreja, que torna a pular valetas e tufos, enquanto o reflexo do sol, vindo da Lígia, pondo para dentro da porta da venda o rosto moreno e contraindo as
água crespa do rio, incendeia o rosto moreno, dá mais vida à boca carnuda e sobrancelhas espessas – Lígia ameaça:
úmida, que está sempre rindo, rindo, rindo...
– Olha qu’eu conto pro vovô!
O padre louro e gordo, com a barbicha em ponta e a careca incipiente, sai
da clausura. Fecha a folha única do portão indevassável. Dirige-se para a porta A ameaça de Lígia surte efeito. Marciano emborca o último gole do grosso
aberta da sacristia, assobiando o assobio fininho e vago. Lígia para. Diz a Luís, copo de gomos. Estala a língua, o gozo profundo brilhando nos olhos raiados
que estacou a corrida e quase lhe caiu por cima: de sangue. Atira o níquel no balcão. Abana para os outros homens, toca na aba
do chapéu gaúcho:
– Não vale mais.
– Chiau!
Chama Roberto. Fala para os dois, baixinho:
Vai atrás dos guris, cambaleando pela calçada sem lajes. Agora para. Grita,
– É o padre aquele, o que pensou qui o assobio era assobio de cobra... Voceis com o braço erguido num gesto de discurso:
se lembra?
– Eu peso só cincoenta e treis quilo, cambada! se eu quisesse, eu era jóqui!
Os outros anuem com meneio de cabeça. O risinho sai, oculto pela mão em Viu, cambada? Jóqui de prado, jóqui de camiseta de cô?! Eu peso só cincoenta
concha, desperta o risinho dos outros. O padre louro e gordo, com a batina e treis quilo!
parda, curta demais e revelando um pedaço das canelas branquíssimas, com
os dedos cabeçudos aparecendo nas falhas das sandálias – o padre interrompe
o assobio, ao notar o grupo dos meninos. Olha-os desconfiado. Mas logo
desvia os olhos e continua em direção da sacristia. Entra sempre assobiando o
assobiozinho vago.
Roberto nota que o sol está menos de um palmo do recorte verde das ilhas.
– Chi! Vamo’imbora, pessoal. Tá ficando tarde...
Lígia arregala os grandes olhos negros:
– É mesmo. A vovó vai fica furiosa. (Repete, destacando as sílabas) Fu-ri-o-
sa... Vamo dizê pra ela qui a prima Sinhá não queria deixa a gente saí... Fu-ri-
o-sa...

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10. A porteira cede, com o rumor de arames torcidos, cai sem ruído na grama
úmida.
O trote lépido leva o evadido para longe da prisão. Mas o trote lépido logo se
A última nuvem pardacenta se desfiou, desapareceu, anulou-se no céu transforma em passos cautelosos que vão indo, vão avançando no zigue-zague
limpo. E a luz do sol banhou o morro de cheio, escorreu por sobre as macegas e calmo.
as carquejas, lambeu as pitangueiras e as flechilhas, deslizou pela orla agitada
dos “treme-treme” frágeis, faiscou prata das pedras da pedreira, inundou a A primeira árvore do mato fresco dá de cheio no frontal duro, com o ruído
relva molhada do potreiro. seco de martelada. O corpo se desvia e passa por muitas árvores, cauto, sem
bater nos troncos grossos, os cascos crescidos amassando as folhas caídas,
Os olhos mortos do cavalo cego, os olhos de um azul que, de tão fraco, parece pastosas de tão molhadas.
branco – os olhos do cavalo cego sentiram a presença súbita do sol. A cabeça
cinzenta que roçava o capim com os beiços pretos molhados e fuçando o pasto De súbito, o lobuno quer retroceder. Bate com a paleta no tronco duro, volta-
gostoso – a cabeça cinzenta se ergueu e fitou o sol. se, bate o frontal, com o mesmo ruído de martelada seca.
A luz claríssima se filtrou, penetrou os olhos sem vida, aqueceu os olhos O grande corpo cinzento treme, o pelo escuro se encrespa, o grande corpo
mortos. A inquietação fez tremer o grande corpo acinzentado, fez os cascos cinzento hesita. A inquietação crescente rola os olhos mortos, que parecem
duros escorvarem o chão úmido. empregar toda a força de que são possuidores a fim de enxergar, a fim de ver o
caminho, o caminho adivinhado que serpenteia por entre os caules molhados.
A cabeça escura se agitou. As orelhas moles e negras se levantaram parecendo
querer escutar alguma coisa muito distante. O pelo se encrespou, como um Esta pancada do frontal duro no tronco grosso cortou os beiços pretos,
trigal batido de vento. O pescoço musculoso se espichou, se alongou. sujando-os de sangue. A nova batida da paleta na outra árvore – trouxe a
loucura à cabeça inquieta, trouxe a fúria aos olhos mortos.
E o relincho partiu, festivo, alegre, ondulando nos declives do morro,
penetrando no mato, ecoando na pedreira, perdendo-se na lonjura nevoenta E a corrida absurda começa. As narinas arquejantes e banhadas de sangue
da cidade distante. enfeiam a figura esculpida do brigue doido, que, como naquele dia distante,
vai rompendo o sargaço dos cipós, vai batendo nos escolhos rijos dos troncos,
O trote miúdo aproximou o lobuno da cerca. A cabeça passou para o lado vai balouçando no tropeço das raízes distendidas, bate surdo na pedra redonda
de fora, espreitou para um rumo e outro, como se estivesse vendo. As orelhas e grande, se esfrega em mais caules de árvores altas, corta-se em espinhos
de novo se ergueram. O outro relincho partiu da cabeça esticada, também traiçoeiros e em agudos pedaços de galhos – corre, tropeça, cai, ergue-se, corre
alegre, também festivo, também ondulando pelas corcovas do morro, também sempre, rumo à luz do morro, pressentida por entre as frestas das últimas
penetrando no mato, também ecoando nas pedras faiscantes da pedreira, árvores.
também se perdendo na lonjura da cidade.
Os olhos sem vida, neste momento, já de volta à liberdade do morro – fitam,
Depois, o trote curto levou o corpanzil pesado para a porteira do potreiro. sem receio, a luz total do sol fortíssimo. Fitam, fitam, banhando-se de luz.
A cabeça outra vez se agitou, inquieta. O focinho negro arreganhou as narinas
molhadas e cheirou, cheirou, aspirando o ar líquido. Após – vem a caminhada cautelosa, por entre os tufos de gravatás e das
carquejas, amassando as flechilhas enfeitadas do brilho das gotas de sereno,
O frontal largo e duro, então, empurra a porteira, força os arames distendidos, roçando as pitangueiras molhadas e coloridas.
força o pedaço de galho grosso, enquanto os olhos sem vida bolem, bolem,
bolem ansiosos. É alegria que, agora, traz este vago brilho aos olhos mortos do lobuno pisado,
do lobuno arranhado e sangrento. É alegria que lhe faz esquecer os possíveis
A porteira não quer ceder. Mas o lobuno recua, relincha mais esta vez, torna, perigos e faz nascer este trote desenvolto de cavalo que enxerga, este trote que
teimoso, com o frontal duro e largo forçando, forçando sempre os arames é quase galope e vai subindo o aclive pronunciado do morro empapado de
distendidos e o pedaço de galho grosso, com os olhos mortos se agitando, se sol. É alegria que canta neste relincho grosso e prolongado, neste relincho que
agitando angustiados.


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sobe, sobe o morro, perde-se lá em cima, bem lá no alto onde a mancha branca tornando difícil, agora que o corpo gelatinoso, ainda sob a sombra fresca do
da igrejinha se revela, com a cruz de ferro no topo. mato, já se arrasta no início do morro.
É alegria que não faz o cavalo cego sentir a proximidade da garganta aberta Neste momento, Umbelina abandona a sombra fresca entrando na claridade
e vermelha da pedreira. É alegria que agita as orelhas negras e pontudas. do morro. Umbelina corre os olhos pelo morro, fá-los subir, subir, roçar as
carquejas, os gravatás e as macegas, roçar as pitangueiras e as flechilhas,
Os cascos crescidos, com as bordas mal recortadas lembrando pedaços de parar no telhado distante da igrejinha. Descem, escorregando morro abaixo,
fazenda rasgada – os cascos batem no barro que margeia a pedreira. Resvalam. regressam`a dona. Fitam o céu, olham o sol. Desviam-se, ofuscados.
Querem retroceder, querem estacar. Vão fazendo dois sulcos paralelos e fundos
avançar vagarosamente rumo ao abismo. Negra Umbelina esfrega os olhos com as costas da mão gorda. Sorri,
mostrando os dentes em descida. Fala, alegre:
Os dois sulcos paralelos e fundos não param mais, prosseguem lentos,
apesar de toda angústia que agita os olhos mortos, apesar de toda a força que os – Puça, só ma’vado!
músculos contraídos das pernas distendidas empregam, apesar do profundo,
do dorido apelo que grita na cabeça erguida para o sol, apesar da pungente Em pouco, as pernas gordíssimas levam Umbelina para a cacimba. Em pouco,
tristeza que berra no relincho desesperado. Umbelina se ajoelha com um suspiro de alívio. Em pouco, o balde se enche de
água gelada e limpa, num glu-glu contente.
Nada, nada conseguirá deter os sulcos paralelos e fundos.
Quando se ergueu, com outro suspiro de alívio, Umbelina deu com os olhos
no vermelho da pedreira. Deteve-os nas pedras faiscantes. Baixou-os, lentos,
pelas ervas que crescem entre as pedras, pelos veios de água, minúsculos, quase
*** imperceptíveis, que parecem veias da terra. Negra Umbelina baixou os olhos,
mais ainda. Estacou-os no corpo sangrento do lobuno , cujo resto de cabeça
esborrachada e escura repousa na pedra alta e quadrada, de bordas recortadas,
Umbelina vem embebida da frescura do mato molhado, o balde vazio que se enquista no chão barrento da pedreira.
pendendo da mão preta e gorda, o assoalho grosso escorrendo dos beiços roxos
e úmidos. O grito assustado escapa dos beiços arroxeados. O balde é esquecido ali,
rente ao espelho redondo da cacimba, semelhando uma cacimba menor. As
O assobio cessa, quando Umbelina passa rente ao poço e olha os tijolos pernas gordíssimas quase correm, voltando à sombra fresca, tornando ao
pardacentos e raiados de limo. Os olhos avermelhado se desviam rápidos. O mato denso, arrastando os pés fofos sobre as folhas empapadas, beirando o
assobio grosso volta à beiçarra túmida e roxa. grupo das pedras chatas e redondas, longas e pequenas, passando pelos tijolos
pardacentos e mofados do poço abandonado, entrando no jardim coberto de
E os passos se apressam arrastados, vão levando a negra, enquanto o corpo
sol.
cheio e transbordante treme gelatinoso, quase no mesmo compasso do balde
que balouça na mão gorda. Umbelina grita:
A pedra redonda, abarcada pelas raízes da árvore, fica para trás. Também o – Seu dotô Fe’ei’a! Seu dotô!
ingazeiro do galho quebrado. (O pedaço de galho não mais pende do alto da
árvore; está no chão, escuro, coberto de formigas). Também os bancos e a mesa Dr. Ferreira aparece no patamar da escada das hortênsias, o sorriso satisfeito
da clareira, atapetados de folhas caídas empapadas de umidade. Também as brilhando no cavanhaque grisalho:
pedras redondas e chatas, longas e pequenas. Todas, todas as árvores altas, – Que é, negra gritona?
todas as árvores imensas do mato ficam para trás.
Umbelina quase não pode falar. Inicia duas frases. Na terceira investida, diz,
O coração da negra Umbelina, lá no fundo dos enormes e gordos seios – arquejante, tatibitate, a mão gorda espalmada sobreo os seios vastos:
o coração da negra Umbelina está batendo, acelerado. A respiração está se


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– O ta’alo, seu dotô! O lobuno... – Eu não tive culpa, seu dotô... Não sei como é que esse bicho foi abri a
portera... Fechei dereito...
Do alto da escada das hortênsias, cujas latadas de pétalas lilases e miúdas,
como sempre, se emaranham nas colunas dos corrimãos de pedra – do alto da Mas dr. Ferreira não censura Marciano. Sacode a cabeça, vagarosamente:
escada das hortênsias, a pergunta vem em tom enérgico:
– Isso tinha que acontecer um dia...
– Que que há com o lobuno?...
Suspiro profundo. Ordem para Luís, Roberto e Lígia:
A explicação parte dos beiços arroxeados, ainda ofegante, ainda tatibitate:
– Saiam aí de perto! Criança não tem de estar olhando estas coisas... Vão
– Taiu da ped’ei’a, tá espatifado lá no ção!... tomar café!
Dr. Ferreira desce os degraus da escada das hortênsias, lentamente, a mão O tímido sorriso corajoso vem à cinza do cavanhaque:
deslizando pelo corrimão frio, os olhos fitos, estranhamente fitos.
– A primavera este ano entrou firme, Ritoca. A chuva não durou um dia. A
Umbelina continua a comunicar a novidade da manhã, correndo pelo jardim: primavera entrou firme... E veja como estão bonitas as florinhas do morro...
–Sá Titoca! Seu Antônio! Sá Lisa! Sá Ana! O lobuno taiu da ped’ei’a! Tá Dona Ritoca toma o marido pelo braço:
espatifado, o toitado! Ma’ciano! O lobuno...
– É mesmo. A primavera vai ser firme. Este ano não vamos ter São Miguel...
Seguem de braço dado, em direção da cacimba. Luís, Roberto e Umbelina
*** vêm atrás. Lígia ainda está junto ao cavalo morto, acocorada, olhando bem de
perto a cabeça esfacelada.
Marciano, no alto da pedreira, nota os sulcos paralelos, riscando o barro
avermelhado. Grita para o doutor Ferreira: Dr. Ferreira morde os lábios. Para. Volta-se para o Marciano e diz enérgico:
– Foi daqui qu’ele caiu, seu dotô! Tem a marca dos casco aqui, oie! – Enterra ele aí mesmo... Faz uma cova bem grande... Não quero que os
urubus comam o coitado... Faz uma cova bem grande... Ouviste?
Dr. Ferreira não olha o vulto do Marciano, lá no alto da pedreira, recortado
contra o azul do céu, as mangas da camisa esfarrapada tatalando, enfunadas Marciano resmunga:
pelo vento.
– Sim, sinhô.
Dr. Ferreira não pode tirar os olhos do corpo disforme do cavalo cego. Dr.
Ferreira não pode tirar os olhos da mancha acinzentada, ali, grande, ainda Dr. Ferreira grita para Lígia:
denunciadora de força e de vida, mas inerte e inútil, lambuzada de barro e de – Venha, Lígia!
sangue, perfurada pelo pedaço de osso grande, que rompeu o pelo escuro à
altura da paleta e saiu para fora. Dr. Ferreira não pode tirar os olhos da cabeça Dr. Ferreira repete para dona Ritoca:
esfacelada, despedaçada, aplastada sobre o duro da pedra, que está banhada
– Veja, minha velha, veja como estão bonitas as florinhas do morro...
de sangue escuro. Dr. Ferreira não pode tirar os olhos dos olhos quase brancos
do cavalo cego, dos olhos quase brancos, teimosamente abertos, teimosamente Afirma isto, mas não consegue enxergar as florinhas do morro. Porque
parados. a lágrima, chegando súbita e irreprimível, embaciou o verde do morro, o
vermelho da pedreira, o azul do céu limpo.
Foi preciso que dona Ritoca lhe batesse ao ombro e dissesse:
Umbelina segurou o balde esquecido junto à cacimba. Foi atrás do grupo,
– Vamos, Ferreira! Está na hora do café... Não adianta ficar olhando o pobre...
calma, bem devagar, o chinelo batendo o tabefe leve na sola dos pés gordos.
Marciano se aproxima. Diz, tímido, torcendo o bigode fino:


98 |ESTRADA PERDIDA 99
11.
Dr. Ferreira dobra os braços sobre o peitoril da janela do gabinete. Puxa A carijó, que se escondera atrás do tronco espinhudo da paineira – a carijó
a última tragada e, com o piparote hábil, joga longe a ponta do caporal, que tornou a aparecer, biscateando por entre as grandes vagens negras. O bico
faz a longa parábola e depois cai perpendicular sobre as pedras irregulares agora segura um fiapo de algodão.
do pátio, espalhando as centelhas minúsculas.
– Ainda tás aí, excomungada?
O vento veio da rua poenta, subiu o leve aclive calçado das mesmas pedras
irregulares, agitou os galhos tortos das paineiras espinhudas, levantou o pó Mas a galinha não esperou o taquaraço. Correu, dobrando para a frente
que jazia oculto nos interstícios das pedras, arrebatou a ponta do caporal, do casarão, com as asas de novo distendidas no arremedo de voo. Marciano
desfez o caporal, esparramou os fios do resto de fumo, levou o pedaço do vai atrás, sempre brandindo o pedaço de lasca de taquara.
papelucho desdobrado, fê-lo desaparecer para além dos caules espinhudos Dr. Ferreira ainda ouve os seus gritos:
das paineiras.
– Te pego, desgranida! Te dô largá bustica no banco do carro, excomungada!
Dr. Ferreira acompanhou, com os olhos, o trajeto da ponta do cigarro, viu Te pego!
o papelucho desaparecer entre os dois troncos das paineiras. Fitou os frutos
esparramados pelas pedras, lembrando grandes vagens pretas, rachadas de Outro sorriso melancólico aflora à boca escondida pelo emaranhado gris
tão maduras, revelando o algodão macio e branco. Escutou a explosão do do cavanhaque. A ruga funda volta a nascer entre as sobrancelhas.
canto dos barreiros, das corruíras, dos sabiás, de todos os pássaros do mato,
Ritoca não anda bem, não. Propriamente pulmão, não. Fraco ele não é, mas
cantando lá nos fundos do casarão.
forte também não é. E este ventinho da primavera... No domingo passado,
Sorriu, melancólico, enquanto a ruga funda nasceu entre as sobrancelhas à hora em que estavam vendo o pobre lobuno, Dr. Ferreira se lembra que
grisalhas. aludiu à primavera, aludiu a que a primavera entrará firme, sem chuvas.
Ritoca disse que este ano não se teria São Miguel. Mas o São Miguel não
Os gritos, saindo pela porta do porão, que se abre por debaixo da janela falhou, veio com as suas chuvaradas de três dias, com os seus raios, com os
do gabinete – os gritos fazem a ruga funda se apagar. seus trovões e os seus relâmpagos. E essas chuvas prolongadas, para aquela
– Já daí galinha porca. Já daí, bicho desgranido! Já daí, excomungada! propensão, para aquele estado quase “pre” da Ritoca – essas chuvas, esse
tempo, preocupam o dr. Ferreira. Aquela tendência de família da Ritoca
Da porta do porão saiu a galinha carijó, correndo, espavorida, num zigue- para ... para tuber... para a “peste branca” – aquela tendência da Ritoca,
zague zaranza, abrindo as asas cinzentas no arremedo de voo, o bico aberto aquele mal de família que lhes roubou o único filho homem – aquele mal
no cocoricó apavorado. Atrás da galinha saiu o Marciano, brandindo o terrível pode estar se anunciando nessa tossezinha renitente... E se a Gripe
pedaço de lasca de taquara. Espanhola vem a Porto Alegre, com as suas complicações pneumônicas,
com os seus efeitos pulmonares? A Espanhola já está no Rio de Janeiro,
– Já, bicha porca! Já! horrível, assassina, incombatível... Se a espanhola vem a Porto Alegre... Mas
Dr. Ferreira pergunta, da janela: sim, mas por que há de vir? E ... e, se vier, por que há ... por que há de levar
a Ritoca? Claro que não! O estado geral da Ritoca é bom, talvez a tossezinha
– Que é isso, Marciano? seja mesmo qualquer irritação da garganta... Pessimismo tolo! Pessimismo
barato! Pessimismo que, absolutamente, não senta com a alegria, com a
Marciano olha para cima:
luminosidade desta manhã gloriosa, deste dia inesquecível de primavera!
– Ah! O sinhô taí, seu doutô?! É essa galinha desgranida, é essa porca Pessimismo que não diz com este sol luminosíssimo, com a vida estuante
excomungada! Largô bustica no banco do carro! Na torda eu não m’importo, destas paineiras fortes e altas, destas paineiras velhas que na verdade são
seu doutô! Mais no banco, não! Há uma porção de dia qu’eu vinha achando bem velhas, quase da mesma idade do dr. Ferreira e, no entanto, têm muito
aquelas bustica bem no banco da frente. E hoje peguei a desgranida, se mais coragem, muito mais otimismo que o dr. Ferreira... se o primo Rodrigues
espremendo...


100 |ESTRADA PERDIDA 101
adivinhasse os pensamentos do dr. Ferreira, por certo que haveria de rir Luís obedece, aproxima-se do birô. Dr. Ferreira mostra-lhe a página aberta
muito, tossir, cofiar a barba espinhuda, fazer muita ironia e, depois, deitar do livro:
uma preleção sobre a coragem, sobre a necessidade de nunca se ter medo...
E o mais engraçado é que o primo Rodrigues tem razão... Pelo menos, ele – Está vendo este homem nu? Está? (tom severo) Que músculo é este?
não tem medo... Este aqui do braço? Não sabe? Mas então você não sabe que músculo é este?
Bíceps! Deve ter no seu livro Noções de Ciências... É o músculo flexor do
O novo sorriso melancólico torna a se esconder no emaranhado grisalho braço, o que dá a flexão ao braço, o que faz o braço se encolher, assim, veja.
do cavanhaque. A batida da mão espalmada na madeira do peitoril da janela E este aqui por detrás do bíceps? Também não sabe? É o tríceps, menino! O
– espanta definitivamente, irrevogavelmente, os pensamentos sem alegria. bíceps contrai e o tríceps distende. Assim, veja. (Risinho) Bíceps é o muque!
É o Maciste! (Volta o tom severo) Mas você não sabe o nome desses músculos
Dr. Ferreira, caminhando para um lado e outro do gabinete, enrola o já no segundo ano do ginásio, meu filho! Como é isto? Bem que a Ritoca me
caporal entre os dedos magros. A língua corre na borda gomada do papel, disse que soube que você não anda bem de estudo... A sua mãe devia cuidá-
que, num enrolar rápido dos dedos magros – é colado, transforma-se no lo mais, meu filho! A sua mãe... Bom (Sorriso), eu não tenho nada com a
canudinho branco, cheio de fumo amarelado. A primeira tragada sai, funda, sua mãe, mas tenho com você... Você precisa estudar mais, meu filho! Sem
abundante. estudar, o máximo que se pode ser na vida é motorneiro... E você, de certo,
Quando o fumo se desfaz de todo, a mão livre do dr. Ferreira se dirige quer ser alguma coisa mais que motorneiro... (Tom carinhoso) Mas não é
para os livros da estante. Tira o mais grosso, leva-o para cima do birô. preciso encabular... Seu avô não está lhe ralhando, está apenas mostrando
(Riso) o Maciste...
Dr. Ferreira senta na poltrona giratória e começa folhear as grandes,
encorpadas páginas do livro grosso e alto. Folheia-as, folheia-as. Para ante a A mão magra e longa bate, carinhosa, no rosto afogueado de Luís:
figura do homem vermelho, nu e sem sexo, que é todo um feixe sanguíneo – Não encabule, Herr proféssor... Vamos estudar um pouco, quer? Olhe
de músculos possantes. aqui...
Ante o estalo ali na porta do gabinete, os olhos baços do dr. Ferreira Os dedos compridos vão virando as páginas. Param na página do
desviam-se do homem vermelho e musculoso e fitam a porta. Vem Luís, esqueleto.
que ainda está do lado do corredor e não entrou.
– Veja estes ossos grandes, aqui nos ombros. Como é o nome deles?
Este sorriso é menos melancólico que os outros de há pouco: Também não sabe? Não faz mal, Herr proféssor. São as clavículas. Este mais
– Que é, maganão? grosso aqui no peito, você também não sabe, não é? Pois é o externo. E estes
todos que parecem arcos?
Luís pergunta:
Os olhos de Luís cintilam de alegria:
– O senhor não viu Roberto e a Lígia, vovô? Eles se escondero cá pra
frente... – Estes eu sei, vovô. São as costelas... (A alegria aumenta e faz aparecer o
risinho corajoso) E este osso grande aqui da perna eu também sei ...
Novo sorriso, já sem nenhuma melancolia:
O dedo longo sacode, aprovador:
– Não vi, não, Herr proféssor... O senhor, com esses cabelos melados, com
essa testa grande e esses olhos miúdos – o senhor tem cara de professor, seu – Ah, muito bem! Qual é?
Luís... (riso franco) Herr proféssor, Herr proféssor... Grande sorriso na cara do guri:
Luís retribui com um risinho vago e sem gosto. Vai voltar. Mas dr. Ferreira – Femúr...
estende a mão magra e esclerosada:
Dr. Ferreira se escandaliza:
–Não, não vá, seu maganão! Entre aqui...


102 |ESTRADA PERDIDA 103
– Femúr, não, Herr proféssor! Que horror! Fêmur é que se diz, fêmur... A cabeça grisalha tomba para trás, os olhos baços fitam as tábuas
Que horror! Bom, bom, bom! Não é preciso encabular, já disse! E estes dois esverdeadas do teto:
outros, abaixo do fêmur? Não sabe? São a tíbia e o perônio... Mas (novo
sorriso cordial no emaranhado grisalho do cavanhaque) chega de caveiras, – Os velhos são egoístas, Herr proféssor. Mas o consolo é que houve um dia
chega de coisas fúnebres... em que não eram, em que eram alegres, cordiais, satisfeitos, descuidosos...
Mas a mocidade passa ligeiro, a maturidade também passa ligeiro. E chega
Os dedos compridos e descarnados viram mais páginas, estacam no corte a velhice, com o egoísmo entranhado e sórdido... A mocidade não é egoísta,
colorido do enorme coração: ou, pelo menos, pensa nos outros, o que já é uma grande coisa... Mas, à
medida que o tempo vai passando, os homens vão esquecendo a existência
– Está vendo? Isso você sabe o que é, sabe que é o coração. É o nosso dos outros e vão pensando cada vez mais em se próprios... E quando chega
principal órgão e é o mais importante do aparelho circulatório. O aparelho a velhice, só existe o eu, só existe o ego...
circulatório, preste bem atenção, Herr proféssor – o aparelho circulatório se
compõe de um órgão destinado a movimentar o sangue, que é o coração, e de Dr. Ferreira baixa a cabeça à posição normal. Vê que a expressão do neto
um sistema de canais, onde o sangue se movimenta e que são as artérias, os é de quem não compreende coisa alguma. Mas sacode os ombros e resolve
vasos capilares e as veias. Está vendo aqui na figura, estas ramificações que prosseguir, apesar de tudo. E de fato prossegue, outra vez com a cabeça
parecem galhos podados de uma árvore? São as veias pulmonares. Aquela, tombada para trás e com os olhos no teto esverdeado do gabinete.
isolada, é a veia cava superior. Esta, mais grossa, que vem sair cá na ponta
do coração, é a aorta. Você nem calcula, Herr proféssor, a importância desse – Não devia ser assim. Mas não é por mal que isso acontece, não é por
raminho grosso. (Sorriso melancólico) Quando ele se dilata, assim como no mal que os homens vão ficando dia a dia mais egoístas... A culpa não é
seu avô... Bom! Nem vale a pena pensar... Está vendo estas fatias grandes? deles, é da vida... Da vida, que em vez de parar vai ficando, dia a dia, para
São os ventrículos, o esquerdo e o direito. Aquelas fatias menores são as trás, definitivamente, inevitavelmente para trás... Herr proféssor, você
aurículas, também esquerda e direita... Você nem calcula, Herr proféssor, a nunca ouviu dizer que não há quem pare a marcha do sol? Pois também
importância deste musculozinho... O coração é um músculo, não esqueça... não há quem pare a marcha da vida, não há quem pare a cavalgada para
a morte... Nada, força nenhuma deterá a cavalgada para a morte... A vida,
Dr. Ferreira nota a inquietação crescente, que está tomando conta do neto, Herr proféssor, não se perde de repente, ou melhor, a morte não chega de
fazendo-o esfregar o rosto, esfregar, como se comichasse a mais implicante repente. A vida se perde aos poucos, dia a dia... Cada dia que passa é mais
das comichões: um pouco da vida que ficou para trás... O erro está em se pensar que a vida
cessa de súbito. Qual nada! Ela se perde aos poucos, vai ficando aos poucos
– Você está com vontade de ir brincar, não é? E é mesmo um crime o que para trás. E sem que se possa voltar, sem que nem ao menos se possa olhar
o seu avô está fazendo, Herr proféssor. Ensinar um menino numa manhã para trás, como aquela gente que fugiu de Sodoma, Herr proféssor. A vida
de domingo, bonita como esta – só mesmo podia partir da cabeça de um se perde, dia a dia, sem que se possa olhar para trás... A vida, Herr proféssor,
velho egoísta... (Riso franco) Os velhos são egoístas, meu filho, só pensam é como uma estrada que se sabe que se andou por ela, se sabe que existiu,
em comer... Que haja galinhas gordas e gostosas, que haja toucinho na carne mas que está fechada pelas macegas e pelo inço... A vida, Herr proféssor, é
– e o resto do mundo que vá pentear macacos... uma estrada perdida... Estrada perdida, sim, estrada perdida...
Luís recua do birô: A cabeça torna brusca à posição normal. Os olhos baços chispam. A mão
– Vovô, eu vô procurá a Lígia e o Roberto... crispada aperta, mais esta vez, o brim da manga do fardamento:

Mas Dr. Ferreira não permite. Pega o braço do neto, com a tenaz dos dedos – Você viu aquela figura do homem nu e vermelho, do homem cheio de
descarnados afundando no brim do fardamento: músculos?! Você viu como é forte o bíceps da figura?! Ela é a figura de um
homem moço, cheio de vida... O seu avô também já teve o bíceps assim, já foi
– Espere um pouco, Herr proféssor, espere um pouco! Com certeza agora parecido com o Maciste!... Mas a vida se foi, dia a dia, e com ela o vigor do
eles estão se arrumando para ir à missa com a sua avó... Espere um pouco... bíceps do seu avô! E não havia força nenhuma que impedisse que o Maciste
Chegue aqui perto do seu avô...


104 |ESTRADA PERDIDA 105
do seu avô ficasse com este bracinho mirrado e sem força! Dia a dia, os Como dona Ritoca já se fosse afastando, desaparecendo no corredor – Dr.
músculos do seu avô foram murchando... (Sorriso) A vida, Herr proféssor, a Ferreira levantou da cadeira giratória, foi à porta do gabinete, apoiando-se
vida é mesmo uma estrada perdida! na meiafolha aberta:
O rumor de passos, vindos pelo corredor e se aproximando do gabinete – – Mas não precisa subir aquela lomba correndo, como se fosse tirar o pai
fez o dr. Ferreira calar e a mão magra abandonar o braço do neto. da forca... Suba devagar... O capuchinho não foge...
Lígia chegou, primeiro, à meia folha aberta da porta, mostrando o rosto Empurrão leve no ombro de Luís:
pequeno escondido pelo grande chapéu branco, cujas abas largas se dobram
para baixo puxadas pela fita vermelha. – Vá conversar com o Peleu, vá, Herr proféssor!

– Luís, tu não vai na missa? A tossezinha de dona Ritoca ecoou lá no fundo do corredor, passou pela
varanda, desceu, distante, quase inaudível, pela escada das hortênsias.
Antes que Luís respondesse – Roberto e dona Ritoca chegaram à meia
folha aberta da porta. Dona Ritoca disse ao marido: A nova ruga apareceu funda entre as sobrancelhas grisalhas. A ponta do
caporal, apagada, esquecida na beira do birô, perto do livro grosso – a ponta
– Já vou indo, Ferreira. Está na hora. E hoje vai falar um padre que dizem do caporal foi jogada pela janela, dali mesmo, ali de dentro do gabinete.
que é formidável... Chegou da França há poucos dias...
Depois, dr. Ferreira se debruçou sobre o peitoril da janela. Olhou, olhou,
Dr. Ferreira ri: procurando a ponta do caporal. Achou-a, presa no intervalo das duas pedras
irregulares.
– De certo veio corrido pela guerra... O que vale é que essa mortandade não
vai muito longe. Do jeito que as coisas andam – os alemães não aguentam Depois dr.Ferreira esperou. Esperou bastante. Mas não chegou nenhum
até o fim do ano... pé de vento, que trouxesse a poeira da rua poenta, que levasse folhas mortas,
que desfizesse cigarros, que levasse papeluchos brancos para bem longe,
Dona Ritoca ergue os olhos para o alto: por entre os troncos espinhudos das paineiras.
– Tomara, Ferreira... Dr. Ferreira não percebeu Antônio entrar no gabinete e falar, às suas
Lígia repete: costas:

– Tu não vai na missa, Luís? – Vamos pro nosso passeio no jardim? Hoje é domingo, doutor!...

Luís responde:
–Não, eu já fui na missa lá perto de casa... Vou conversá com o Peleu...
Dr. Ferreira, pela segunda vez, carinhoso, bate com a mão descarnada no
rosto do guri:
– Vá, vá conversar com o Peleu... E vá também brincar um pouco no
mato... Depois do que você aturou do seu avô, bem merece uma distração...
vá, vá brincar (Riso), Herr proféssor...
Dr. Ferreira se dirige à esposa:
– Vá duma vez, Ritoca. (Novo riso) Vá escutar o seu capuchinho fugido...


106 |ESTRADA PERDIDA 107
12. vai fazendo os guris beirarem a sanga barrenta, com o riozinho modesto
correndo no fundo, vai fazendo os guris avistarem os pés de tuna, os pés
de tuna que precedem os guris, verdes, pejados de espinhos, se alongam, se
Seu Nunes está à porta da loja, de bonezinho e esfregando, esfregando as alongam, passam pela mancha branca da ponte, enfeitam a mancha sem cor
mãos. Vê Lígia, Roberto e Luís atravessarem os trilhos, correndo, escapando dos casebres da Baixada.
do bonde, que avisou com a campainha pedalada pelo motorneiro bigodudo, Roberto resmunga, brabo:
diminuiu a marcha, reiniciou-a forte e se foi, barulhento. Seu Nunes tornou
a esfregar as mãos e disse aos guris: –Velho pau! Qué indagá tudo...
– Cuidado com os bondes, meninada! A gargalhada nasce na boca carnuda de Lígia:
A meninada parou e foi Lígia quem respondeu: – Outra vez, já sei... Quando ele perguntá adonde a gente vai, eu digo
“Choriço”...
– Não tem perigo, seu Nunes...
Os três riem em coro, avançando, fazendo ficar mais nítidas as manchas
Seu Nunes indagou: distantes dos casebres, cujos telhados de zinco cintilam ao sol.
– Como vai o dr. Ferreira? Como vão todos? Luís chuta a pedrinha branca, que voou longe e se sumiu num buraco do
Ainda é Lígia quem responde: leito da rua. Diz:

– Vão todos bem, obrigado. E o senhor, seu Nunes? – Roberto, tu não viu, hoje, no jornal? Quarta-feira vai começá no Apolo o
“Monstro Encapuzado”. Deve sê boa...
A aba do bonezinho é puxada mais para baixo. As mãos se esfregam, se
esfregam: Os olhos de Roberto se dilatam:

– Aqui, como pobre dono de loja de arrabalde. – Monstro Encapuzado?!

A nova pergunta sai curiosa: Luís chuta a nova pedrinha:

– Aonde é que vocês vão agora? – É, Monstro Encapuzado. O jornal tem figura. Ele tá com o capuz enfiado
na cabeça e os olho aparece nos buraco... Ele tá querendo isganá a mocinha...
Sempre é Lígia quem fala:
Os olhos de Roberto continuam dilatados:
– Vamo no Peleu...
– Esganá a mocinha?! Que boa! No Apolo, é?
As mãos param de se esfregar. Esfregam-se de novo:
O grande penacho amarelado da poeira, vindo lá da Baixada, vindo lá
– Ah! Vão visitar o macaco velho assanhado... Vão. dos casebres, passando pela mancha branca da ponte, marginando os pés
de tuna – o grande penacho da poeira envolveu os guris, sufocando-os,
Roberto não deixa seu Nunes continuar. Convida impaciente:
fazendo-lhes os olhos arder. Luís mal pôde dizer:
– Vamo, pessoal!
– No Apolo, sim. Quarta-feira começa. Eu vô pedi pra mamãe deixá eu í.
A disparada, deixando para trás o seu Nunes, lá na esquina, à porta da loja, Tu não vai pedí pra tia Ana?
esfregando, esfregando as mãos, a disparada estaca logo. É substituída pela
Roberto esfregou os olhos cheios de pó:
caminhada lenta, pela caminhada, que, sem pressa nenhuma, vai fazendo os
guris descerem o leve declive da rua esburacada e coberta de pó vermelho, – Vou pedí, sim. Monstro Encapuzado!... Vou pedí, sim.


108 |ESTRADA PERDIDA 109
Lígia dá o quê de desprezo à boca úmida: e orgulhoso fumador, Luís com um quê desajeitado e medroso de guri em
falta. Lígia debica, espichando os lábios polpudos:
– Guris padorga... Eu não gosto de fita em série... Não termina nunca...
– O’ia os morcego...
Roberto implica:
Sempre com jeito superior de velho fumante, Roberto notou os telhados
– Eu sei por que que tu não gosta de fita em séria... Tu só gosta de fita de de zinco dos casebres da baixada, já tão próximos, já começando, ali, logo
amor, de fita de beijo... após a ponte branca. Diz superior, cigarro colado à boca:
Lígia não dá importância à implicância. Confirma, com o vago sorriso – Tudo telhado de zinco...
clareando o rosto trigueiro:
Lígia sorri:
– Gosto, mesmo... Não acho graça nessas bobage de Monstro Encapuzado,
de isganá mocinha... – Ô Reno burro! Onde é que tu viu casa de negro com telhado de telha?!
Lígia estende os braços, crispa as mãos, imitando um estrangulamento: O cigarro é descolado da boca. A raiva grita, na advertência vigorosa:
– Onde é que tá o segredo do Tesouro, desgraçado?! Confessa, desgraçado, – Não me chama de Renô, guria!
confessa, sinão t’isgano...
Grande seriedade no rosto trigueiro:
Solta a gargalhada gostosa, os cabelos negros erguidos pela nova lufada
de vento, que lhe enche de pó os olhos negros. Os guris não riem. Só Lígia – Sim, sinhor, seu Renô!
continua a rir, rir, tremendo o corpo assexuado, que se revela no vestido Lígia foge do gesto irado, corre, desce o resto do declive, chega à amurada
branco, colado pelo vento renitente. Quando Lígia cansa de rir, Luís diz a branca da ponte. Volta-se para os guris, o branco do vestido confundindo-se
Roberto: à cal da amurada, o rosto, os braços e as pernas requeimadas destacando-se
– Ah, Roberto! Já tô com sessenta e oito figurinha do cigarro “Para todos”! nítidos. Aponta a água calma do arroio, passando por baixo da ponte. Grita:

Roberto sacode os ombros: – Se precisá de água pra botá no radiador, tem aqui... Tá ouvindo, Renô?!

– Bobage! Eu já tenho setenta e duas. Falta só oito pra terminá a coleção... A nova disparada faz Lígia abandonar a ponte, marginar os pés de tuna,
chegar aos primeiros casebres, correr por sobre a grama da margem do
Luís insiste: banhado barrento.
– Mas eu já tenho a Maria Walkamp...
Roberto torna a sacudir os ombros: ***
– Bobage! Eu tenho treis Maria Walkamp... O cachorro magro e de pelo descascando – o cachorro não queria que eles
entrassem. Latiu, latiu, sob o jasmineiro velho, entre os dois grandes pés de
Luís quer dizer ao primo que, em compensação, possui uma figurinha tuna do portão, mostrando as presas ponteagudas no arreganho do focinho.
do grande detetive Jameson – coisa dificílima e que Roberto não possui,
mas sente a timidez e não fala. Roberto puxa o toco de cigarrro apagado, A uma investida mais desenvolta do cusco magro, Lígia pediu socorro:
acende-o com o isqueiro de corda, fuma-o. Luís tira o cigarro inteiro:
– Peleu! Peleu!
– Me dá o fogo...
O socorro veio, gritado na voz grossa de Peleu, que surgiu da portinha
E os dois caminham fumando, Roberto com um jeito altaneiro de velho guenza da saleta e desceu para a sombra rala do jasmineiro:


110 |ESTRADA PERDIDA 111
– Já, Guri! pontos, viram o gramofone amarelo, de fone verde, viram a folhinha da
parede, com o calendário todo gasto e com o bersaglier envolto na bandeira
Guri ainda rosnou duas, três vezes, mas afinal resolveu calar de todo, italiana, a pena do chapéu esvoaçando ao vento da montanha, viram a
agitando o toco de cauda. cômoda de fechos enferrujados, escura, com a falta de um pé preenchida
– Marica, Isaltina, óia os menino do doutô Ferrera! – tornou a gritar o pelo pedaço de madeira, viram, por cima da cômoda, bem no alto, o quadro
Peleu, adentrando-se pela sombra rala do jasmineiro, a sombra que deixa do Senhor do Bom Fim, iluminado pela luz azulada e tremida da lamparina,
ainda mais negro o negro Peleu. que pende do teto como um turíbulo, segura pelos cordões amarelados,sujos
de manchas de moscas. Viram a Isaltina surgindo da portinha que leva ao
O convite saiu, alegre, da beiçarra abundante: quarto próximo. Isaltina vem colocando o seio para dentro da blusa frouxa.
Diz:
– Entra, meninada!
– Como vai a minha menina? Eu tava dando de mamá pra mulatinha
Lígia e Roberto entram logo. Porém Luís ainda pergunta, de olhos fitos
sem-vergonha... (riso) Como vão os tenente?
no cusco:
É Peleu quem responde:
– Ele não morde, Peleu?
– Vai tudo bem! Esta minha meninada vai sempre bem (Os olhos dão
Peleu ri:
respeitosos na imagem de Cristo Crucificado) com a ajuda do Sinhô do Bom
– Não morde, não. É só fita... O sinhô não sabe que cachorro que munto Fim...
ladra não morde? Não morde, não. Vamo entrando...
Peleu fita as visitas com um ar sério:
No momento que os três iam entrar na saleta, seguidos pelo Peleu, Marica
– Que tar tão achando a minha veia? (Risada grossa) Um biscoito, não
surgiu na porta guenza, a negrinha só em camisa, de nariz ranhento e olhos
é, não? (Outra risada grossa, enquanto a mão dá, espalmada, nas nádegas
espertos, escondendo-se na sua saia suja. Peleu disse:
cheias de Marica) Mais mió que vatapá...
– Esses são os neto do doutô Ferrera. A dona Lígia, o seu Roberto e o seu
O riso grosso parece que não quer parar. Aumenta, chega ao máximo,
Luís... (Ri e aponta a Marica) Esta é a minha véia...
dando lágrimas aos olhos rasgados de sangue, decresce, cessa afinal. Último
Marica fez o jeito amigo na cara moça: arranco.
– Ahn! O Peleu mi falava dos menino... Não qué entrá? Casa de pobre... – Esa minha veia, meninada, vale deiz muié junta...
Não arrepare... O Peleu...
Novo convite, esta vez da Marica:
A filha, sempre agarrada à saia suja, não deixou Marica terminar a frase.
– Sente, dona Lígia , sente,seu Roberto, sente o sinhô também, seu Luís.
Pôs-se a chorar o choro fanhoso, fazendo descer mais ranho do nariz. O
Não arrepare o sofá. Casa de pobre... (Brilho malicioso nos olhos irrequietos)
tabefe bateu na bundinha nua. O choro aumentou. O novo tabefe bateu com
Pobre não tem tempo de sentá... Pro mode disso é qui os sofá é duro ...
mais vigor.
Luís e Roberto sentam sem comentar. Lígia sorri, sem gosto, senta também.
– Essa neguinha manhosa, quando dá pra chorá, não para mais,... Vai lá
Pergunta a Peleu:
pra dentro, vai! Não pode vê branco? Parece bicho... Vai lá pra dentro, vai!
– Tu se casou de novo, Peleu?
O terceiro tabefe bateu na bundinha nua e magra. A negrinha sumiu-se,
acompanhada pelo choro soluçante. A onda de rubor torna cinzento o rosto retinto. As grandes mãos calosas
esboçam um gesto. Peleu não consegue dizer nada. Resmunga apenas.
Lígia, Luís e Roberto entraram na saleta, viram o sofá de palhinha, com o
assento de madeira grosseira e com a palhinha de encosto furada em diversos Mas Marica intervém, com um tom seco na voz incisiva e um brilho mau
nos olhos irrequietos:

112 |ESTRADA PERDIDA 113
– Não se casou de novo, não, dona Lígia... Eu e o Peleu se ajuntemo... Não Lígia, dobrada sobre as grades laterais, disse:
precisa casá... Casá é bobage, é luxo de branco... (O quê malicioso substitui
a expressão má dos olhos vivíssimos) É luxo pra quem tem tempo de sentá – Tá te chamando, Isaltina...
nos sofá... Isaltina ri, faceira:
Agora é aos olhos de Lígia que a malícia vem: – Ela já me conhece, essa sem-vergonha... Tá querendo mamá otra vez...
– Ah! Eu pensei que voceis tinha se casado... O rosto bonito da mulata escurece:
A cábula ainda está acinzentando o rosto retinto do bugio grisalho. Isaltina – Sempre mamando e sempre magrinha... Não sei o quê qui essa mulatinha
coça as costas. Silêncio, quebrado pela negrinha, que resolveu chorar de tem... Toda hora mamando e sempre com esse jeito de alfenim...
novo, lá nos fundos do casebre.
Lígia consola:
Marica abandona a saleta, numa meia-volta brusca. Os gritos da negrinha,
agudos, recrudescem, compassados pelo ruído fofo da palmada. Peleu – Não é tão magra assim, Isaltina... Lá no vovô tem ido criancinha muito
consegue perder a cábula e ri, sem muita vontade: mais magra...

– O macaco veio tá de miolo mole... Isaltina sacode os ombros:

Outro silêncio. Isaltina ainda coça as costas, erguendo os braços mulatos – Há de sê o que Deus quisé...
e cheios, enquanto os olhos dos guris de novo percorrem a saleta, batendo
A carinha magra distendeu os lábios roxos. Lígia mostra:
na caixa amarela do gramofone, no grande fone verde, na folhinha do
bersaglier intrépido, batendo na cômoda escura, batendo na chama tremida – Tá fazendo beicinho, ó...
da lamparina, batendo na imagem do Senhor do Bom Fim.
O choro fininho, o choro de passarinho, distante, parecendo vir de muito
Isaltina para de se coçar. Pergunta a Lígia: longe, sai da boquinha arroxeada. Cessa logo, substituído pela fungação
gulosa, enquanto a cabecinha macrocéfala sacode, sacode, procurando o
– Não qué dá uma espiada na minha mulatinha sem-vergonha, dona
bico vermelho e pontudo do seio de Isaltina.
Lígia?
Lígia olha, olha:
– É parecida com o Marciano, Isaltina...
***
Isaltina sorri o sorriso sem cor:
– As fia muié puxa os pai... foi sorte a mulatinha sem-vergonha nascê
A mulatinha sem-vergonha está deitada na cama de ferro de altas grades
muié... se nascesse home e fosse parecido com o pai – ia sê porrista na certa...
laterais, – com o suporte do mosqueteiro vazio e inútil. A cama de ferro da
mulatinha sem-vergonha já foi azul. Agora, é toda cor de ferrugem, com Lígia examina a cama de ferro, apalpa-lhe as grades:
poucas lascas de pintura azul.
– Essa cama foi que a mamãe te deu?
Na cama enferrujada, cercada pelas altas grades laterais – a mulatinha
sem-vergonha dorme, envolta no coeiro sujo e remendado. O vento, Isaltina responde, sem levantar os olhos do rosto da filha, que continua a
entrando pela fresta da madeira, que revela um fio da paisagem verde fungar, continua a chupar o seio cheio e duro:
do banhado – o vento entrando pela fresta agita os fios ralos e poucos – Foi, sim senhora. Foi a cama que a sinhora se criô...
da cabecinha macrocéfala. Os olhos ajaponezados, agora, se abriram e os
bracinhos mirrados se agitam, as mãos magrísssimas se estendem, querem
agarrar qualquer coisa.

114 |ESTRADA PERDIDA 115
Lígia arregala os olhos negros: me alembrando duma coisa. Quando me alembro disso me dá vontade de
ri... (Nova gargalhada) Mais a coisa é engraçada memo, meninos!
– Pomba! Como a gente cresce, Isaltina!
Peleu enxuga os olhos, coça a carapinha riscada de branco. Respira fundo.
Isaltina não diz nada, atentíssima à gula da mulatinha magra, que está Prossegue:
sempre fungando, está sempre chupando o bico pontudo e vermelho do
seio duro, está sempre agitando os bracinhos mirrados. Isaltina cantarola: – Quando nóis cheguemo perto do Rosaro, tinha uma venda e apeiemo
pra descançá um poco. Eu vi que um (Peleu pronuncia em espanhol) paisano
– Tutú Marambá, não venha mais cá... estava olhando como se o macaco veio fosse um bicho. De repente, meninos,
Lígia escuta o canto da Isaltina. Escuta, escuta, olhando o rostinho da o home correu pra dentro da venda e gritou pros home lá de dentro. (Peleu
mulatinha sem-vergonha, cujas narinas se afundam na carne rija do seio de novo fala em espanhol) Che, amigo, que barbaridad! Llegó un gringo tan rico
túmido, cujos bracinhos mirrados se agitam, se contorcem, como se a que tiene un velo negro en la cara.
mulatinha estivesse sentindo uma grande, uma lancinante dor. A nova risada traz mais água aos olhos raiados de sangue:
A pena, a piedade vem súbita ao peito de Lígia, que começa a sentir o mal- – Imagina, seu Luís, imagina, seu Roberto, imagina, dona Lígia (O riso
estar crescente, o mal-estar que lhe acelera o coração, que lhe empalidece o atrapalha pra falar)... Os home lá nunca tinha visto nego e pensaro que o
rosto trigueiro, que lhe faz fugir, trêmula, na ponta dos pés. macaco veio era um extranja rico e branco que trazia um véo preto na cara!...
O riso cessa, diminuindo o brilho da cara retinta, a carapinha grisalha é
*** coçada mais esta vez. Prossegue a narrativa:

Ainda na ponta dos pés, Lígia chega à saleta. – Tem munta coisa engraçada na vida deste macaco véio!... Lá memo em
Rosaro eu vi quando o otro paisano moiô o dedo no guspe pra me apertá a
Peleu, acocorado junto ao sofá, falava para os guris e para Marica, que mão. Me passô o dedo na mão, pra vê se a tisna saía... ôla, paisanos burro!
está encostada à porta da rua, voltada para dentro, com a negrinha ranhenta
segura à saia. Lígia desliza, sempre na ponta dos pés, senta no sofá, entre os Lígia pergunta:
dois guris. E escuta a voz grave de Peleu: – Como é que tu veio pará em Porto Alegre, Peleu?
– Lá do Sprito Santo, o Mist Charle me trôxe com ele. Parece mentira, mais Peleu abana a grande mão preta:
nóis viemo pará em Punta Arena, pra fazê estrada de ferro. Que lugá frio,
meninos! Diz que é o lugá mais pra baixo que tem nas América... Que lugá – Chi, dona Lígia! Isso é história munto comprida! Não termina nunca!
frio! A gente sempre encarangado, sem podê mexê com os dedo... O Mist Nego veio viajô munto, antes de dá com os costado em Porto Alegre. Premero
Charle metia pra dentro uma bebida que os ingrêis tem , um tar de isque. andei por toda Argentina, viajei no Rio Paraná, andei em Assunção (Peleu
O Mist Charle vivia no pileque... Dele isque... A gente tava trabaiando, olha para o alto) – foi lá que morreu o meu padrinho, o capitão da Real
botando os dormente e o mist Charle daqui a poco gritava: “Pileu! Mi tráis Armada, doutô Francisco Texera da Costa – que o Sinhô do Bom Fim vele
o isque !” Eu corria, pegava a garrafa no saco e dava pra ele. Ô ingrêis que a arma do coitado! – De Assunção, vortei pra Argentina, sempre com mist
metia! E quando tava tomado, dava pra dizê umas coisa em ingrêis, qu’eu Charle. Daí antão nois entremo no Rio Grande, pra fazê uma colona em
não entendia... Dizia que era uns verso... (Risada grossa) Ôta ingrêis dos Santo Antônio. De Santo Antônio, viemo pra perto de São Leopordo, pra
diabo! Tombém num lugá daquele, só mesmo impinando. Inté eu metia os abrí colona pra alamoada. Um domingo eu fui passeá em São Leopordo e
meus dedo de cachaça... Despois nóis saimo de Punta Arena e subimo pro passei na casa do seu avô, do dr. Ferrera. Eu não conhecia ele e ele não me
Rosaro de Santa Fé, pra fazê otra estrada de ferro. Aí não era frio como conhecia. Mais (sorriso esboçado) mais tinha no portão da casa dele uma
em Punta Arena e tinha mais gente, não era deserto como naquele lugá mulata aça, quaji branca. Mi deu vontade de falá com ela. Ela também gostô
desgraçado... (Nova risada grossa, que parece não querer mais ter fim) Tô de falá comigo... Pra encurtá o causo, nem dois meis despois, nóis já tava
casado...


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Marica deu um novo tabefe nas nádegas nuas da negrinha. Falou pra com os chifres retorcidos. Ameaçou a corrida. Lígia recuou, assustada. E
Peleu com energia: ouviu o comentário de Marica, à janela da cozinha, da cozinha que tem a
chaminé de canudo e zinco e é mais baixa que o resto da casa:
– Peleu, não fale da falecida... Vancê sabe qui eu não gosto...
– Tá com medo, sia Lígia? Não tem perigo... A cabrita tá amarrada... E ela
Mas a resposta de Peleu tem mais energia: é munto mansa... É dela que a gente toma leite, aqui... Pobre não toma leite
– Sê besta , nega! Quê qui tem, falá da falecida? (Volta o tom calmo) de vaca...
Foi ansim, dona Lígia, qu’eu conheci seu avô. Ele era bem moço ainda. O Os olhos de Lígia fuzilam:
macaco veio, naquele tempo, tombem era moço... Mais – como ia le dizendo
– casei com a Tomásia. O doutô Ferrera deu todo o enxová pra ela, foi o meu – Não tô com medo, não! Não tenho medo de cabrita, nem de vaca, nem
padrinho do casamento religioso. Ah! Tô me alembrando! Quando terminô de bode, nem de cachorro! Não tô com medo!
o serviço das colona, o mist Charle quis me levá junto pro norte, pro Ceará,
pra fazê uns açude... Antão eu disse pra ele que não podia, pruque tinha de Volta para a frente do casebre. Torna a mergulhar na sombra rala do
me casá... (Tom de choro, lágrimas fluindo aos olhos raiados de sangue) E jasmineiro.
o home, parece mentira, o home quaji chorô... Só disse: – “ Tá bem, Pileu...”
(Mais lágrimas nos olhos raiados de sangue) Parece mentira, o home quaji
chorô... E o macaco veio nunca mais teve notiça do coitado do ingreis... ***

Os nós dos dedos calosos das mãos negras de Peleu enxugam os olhos Peleu, sempre acocorado próximo ao sofá, está falando para os guris.
raiados de sangue. Marica dá mais um tabefe na bundinha magra da filha. Espera que Lígia sente no sofá. Recomeça:
Grita para o Peleu:
– O seu Luís me perguntô e eu tava dizendo pra ele, dona Lígia, só depois
– Nego chorão! do seu avô vi pra Porto Alegre é qu’eu vim aqui pro Partenon, aqui para
Baixada... Arranjei o serviço na Companhia Força e Luís, o seu avô mi deu o
Mais desta vez, dá a meia-volta brusca e sai da saleta, arrastando a terreno, comprei umas tábua, fiz esta casinha e fui pagando devagarzinho...
negrinha pela mão, a negrinha que se põe a chorar, a chorar. É. A vida do macaco veio não é das pió. O macaco veio trabaia munto, mais
não se quexa da vida... Tem munta gente mais desgraçada que o macaco
veio... O macaco véio inté que não é desgraçado...
***
De súbito, Peleu se ergue, dirigindo-se para de baixo da lamparina acesa,
erguendo os olhos para a imagem de Cristo Crucificado:
Lígia deixou os guris, que continuam escutando a narrativa do Peleu. – Nego veio viajô munto, nego veio viajô mais que munto branco. Nego
Lígia desce a escada de um único degrau de laje portátil, entra na sombra veio não se quexa da vida... Tem munto Nego qui, si pudesse, botava oio
rala do jasmineiro. O cusco rosnou, deitado no meio do portão, entre os dois grande no nego Peleu...
grandes pés de tuna. Lígia rolou os dedos, chamando-o:
Peleu, alto, pretíssimo, parecendo tocar no zinco do teto, – Peleu se
– Guri, Guri... persigna e baixa a cabeça sobre o peito:
O cachorro parou com o rosnado e abanou a cola, cordial. Lígia avançou – Nego veio descansa só nos domingo, mais não tem inveja de ninguém...
para os fundos do casebre, viu a cabrita, amarrada ao palanque. Aproximou- Nego veio tá munto contente... (De novo os dedos calosos tocam a testa
se, cautelosa, olhou bem de perto a barbicha suja e úmida, os chifres retorcidos, retinta, tocam as espáduas largas). Graça ao Sinhô do Bom Fim!
as patas pequenas elegantes, sentiu o cheiro enjoativo e penetrante.
Peleu ainda está de cabeça caída sobre o peito, quando se ouvem gritos lá
A cabrita recuou, escorvou o chão escuro, baixou a cabeça mirando Lígia para o lado do portão, lá para o lado dos dois grandes pés de tuna:


118 |ESTRADA PERDIDA 119
– É hoje qu’eu te passo a faca, desgranida! É hoje qui ti meto esta faca no negras, mulatas ou brancas. Neste momento, a água do arroio, sob a sombra
buxo, furada! É hoje qui tu mi paga, furada! da amurada da ponte – reflete o branco do vestido de Lígia e o brim do
fardamento dos meninos.
Os gritos se aproximam da porta que dá para a rua:
Sentada na pedra chata e fria, onde há um pedaço esquecido de sabão-
– Tu m’istragô a minha vida, disgranida! Si não fosse tu, eu era jóqui, preto – a meninada conversa.
furada dos diabo! É hoje qu’eu ti furo o buxo, excomungada! Furada!
Depois de um silêncio, Roberto fala:
Marciano, de olhos esbugalhados, bigode ralo molhado pela baba –
Marciano, de chapéu gaúcho caído para a nuca, quis entrar na saleta, – O Marciano queria matá a Isaltina...
empunhando a faca desembainhada. Mas Peleu agarrou-lhe o ombro com a
grande mão preta, apertando-o, magoando-o. Grita: Luís comenta:

– Guarda essa faca, mulato! – E que faca grande!... Imagina si ele enterra aquela faca na Isaltina...

Marciano quer continuar gritando, de faca sempre empunhada no braço Lígia não diz nada. Bole com o dedo na água, desmanchando o rosto
erguido: moreno, desfazendo o branco que circunda os grandes olhos negros. Roberto
prossegue:
– Eu mato essa furada, meu pai! Eu...
– Si o Peleu não atacasse, ele matava mesmo a Isaltina...
Peleu grita com mais vigor:
Luís abre a boca, espantado:
– Guarda essa faca, mulato!
– Ele tava furioso!...
O braço erguido baixa lentamente, a faca volta à bainha, pendente da
cintura, o resmungo ininteligível brota da boca babada. Lígia para de bolir na água. Espera que o rosto se refaça, espera que os
grandes olhos negros se desenhem nítidos. Diz, sempre olhando a água do
No silêncio da saleta, escuta-se o choro de Isaltina, vindo do quarto arroio:
próximo, o choro baixinho, vagaroso, tímido.
– Vocêis não conta pro vovô, sinão o vovô é capaiz de despachá ele... (A
nuvem de pesar escurece o rosto bonito) Eu vi a filhinha deles, no quarto
da Isaltina... Tá tão magrinha! Eu disse pra Isaltina que lá em casa aparece
*** criancinha mais magra... Mas é mentira. Nunca vi uma guriazinha tão
O murmúrio da água do arroio é bem diferente do choro triste, do choro magra... (Os olhos pesarosos fitam, vagos, o irmão e o primo) Si o vovô
humílimo da Isaltina. A água do arroio, ali, antes de bater naquela pedra, despacha o Marciano, aí mesmo é que a negrinha morre...
é serena, desliza quieta. Todavia, depois de se bipartir na pedra, a água do O pesar foge logo do rosto moreno. Lígia se ergue de um pulo, a água
arroio cai, barulhenta, rola alegre e veloz. Em pouco a água junta os dois do arroio refletindo-lhe o vulto esbelto. O quê descuidado vem ao rosto
braços, torna a formar um só arroiozinho sem muito volume, mas cantante moreno:
e bulhento, o arroiozinho que lava todas as roupas de todas as lavadeiras
da Baixada, que passa por debaixo da ponte branca, que faz aquela grande – Vocêis sabe por que qui o Marciano qué matá ela? Diz que tá arrependido
curva, ajudando outras lavadeiras, que beira fundos de casebres, que avança de tê se casado com ela, qui é por causa dela qui ele não é jóqui...
na direção da cidade alta e distante, sempre bulhento e alegre, sempre
diferente do choro humílimo da Isaltina. A água do arroio, agora, espelha o brilho dos dentes claros, cintilando na
risada desenvolta. Sempre rindo, Lígia senta bem junto ao Luís, olha-o bem
Neste momento, a água do arroio, sob a sombra da amurada da ponte, nos olhos:
não reflete lavadeiras, ajoelhadas na pedra chata, mostrando as coxas


120 |ESTRADA PERDIDA 121
– A prima Sinhá disse qui nóis vai se casá, não foi? Mas tu não vai querê Seu Nunes, sempre com o jeito admirado, parou de esfregar as mãos.
mi matá, não é? Tu nunca quis sê jóqui... Puxou mais para baixo a aba do boné. Tornou a esfregar as mãos.
Continua a gargalhada desenvolta, a gargalhada que sacode o tórax 13.
assexuado de Lígia, que lhe dá um intenso brilho aos grandes olhos negros.
Roberto faz o muchocho irônico:
– Oia o namoro dos bobo... A chaveta se torceu com o estalido seco. A treva chupou a luz do quarto,
como uma esponja que aspirasse todo o conteúdo de um aquário. A esponja
Lígia torna a se erguer, no pulo ágil, e grita, sempre rindo: chupou também a respiração, a vida de Luís, que ficou junto à porta, ainda
com a mão sentindo o frio da louça da chaveta, rijo como uma estátua.
– Vamo, qui tá ficando na hora da janta...
No silêncio do quarto, Luís escutou as batidas apressadas do coração, que
E os três abandonam o arroio cantante, sobem para a ponte branca, correm parece ser o único resto de vida que a esponja não aspirou.
galgando a rampa fraca da rua poenta, beirando os grandes pés de tuna,
beirando a sanga úmida, beirando a relva das margens da sanga. Sempre rijo, sempre de respiração suspensa, Luís se dirige para a cama,
que é um vulto vago e escuro, colado ao canto do quarto.
Depois que a onda de pó, vinda lá dos casebres distantes da Baixada,
vinda lá da grande curva do arroio, – depois que a grande onda de pó os Duro, de movimentos quase tolhidos, Luís deita e se cobre até o pescoço.
envolveu, eles cansaram. Os passos largos substituíram a corrida veloz. Faz força, morde os lábios, a fim de evitar que a respiração chegue forte e
traga ao silêncio do quarto outros ruídos que não sejam o tuc-tuc apressado
Atrapalhada pela dispneia do esforço – Lígia disse, apontando a loja do do próprio coração, outros ruídos que bem podem trazer o hálito acelerado
seu Nunes, já perto, na esquina da rua dos bondes: de fantasmas malvados.
– Si o seu Nunes tivé na porta e me indagá alguma coisa, eu digo “choriço”... Os olhos, abertos e fitos na treva – notam o vago, o tímido fio de claridade,
Roberto reprova, assustado: que entra pela fresta da única janela do quarto. O fio, o fiozinho impreciso
de luz azulada, invade, vagaroso, tímido, o país da treva. Quebra-se, como
– Tás louca, guria? Ele conta pro vovô... a fotografia de um corisco, desliza reto, bate à meia altura da parede, rente
à cama de Luís. Irradia-se, ramifica-se, vago, revela a cômoda alta e pesada.
Lígia bate com o pé no chão duro da ruazinha poenta:
Aqui, na parede fronteira do quarto, junto à porta, o riozinho de luz azulada
– Que conte! Mas si ele mexericá alguma coisa, digo “choriço”. Digo e desaparece, entra na treva.
digo!
A fraca luz azulada, batendo no rosto do guri, espanta o medo, devolve-
Na verdade, seu Nunes, à porta da loja, sempre de bonezinho e esfregando lhe a coragem, liberta-lhe a respiração contida, que volta ritmada e calma.
as mãos, viu-os passar. E perguntou:
As batidas do coração continuam a ser o único rumor que os ouvidos
– Então, meninada? O Peleu contou alguma coisa de bom pra vocês, hein? atentíssimos de Luís percebem. E o sorriso mal esboçado nasce nos lábios
finos, banhados pela luzinha azulada.
E escutou a resposta de Lígia, dita num tom muito sério e compenetrado:
Esse tuc-tuc é do coração, sim. Luís tem certeza. E o vovô disse que o
– Choriço, seu Nunes... coração é um músculo, um músculo que bate, bate, sem parar. E quando
Seu Nunes, com um grande ar de espanto agrandando-lhe os olhos míopes para, babaus, tim-bum! E aquela veia mais grossa, que vem sair na ponta do
e miúdos, esfregou, esfregou as mãos, enquanto Lígia correu, distanciando- coração – aquela veia é ... – como é mesmo? Ah, órta!
se dos companheiros, as costas sacudindo na gargalhada gostosa. O vago sorriso se estampa com mais coragem no rosto aclarado pelo
riozinho de luz azulada.


122 |ESTRADA PERDIDA 123
O vovô disse que quando a orta, o raminho grosso se de ... delata, nem é São passos de gente ou... Meu Deus! Aquele esqueleto do livro do vovô...
bom pensar... Delata? Que é delata? Vovô disse: “O aparelho circulatório – Luís está vendo o esqueleto, através das cobertas, o esqueleto agitando-se
preste bem atenção, Herr proféssorr – o aparelho circulatório se compõe de desengonçado, muito branco, rindo o seu riso aberto de caveira... Vai-te
...”. Luís não se lembra. Herr proféssor... Que mania, a do vovô! embora, esqueleto! Vai-te embora! Luís sabe que esse osso comprido da tua
coxa se chama fêmur e não femúr... Se é por isso, vai-te embora. Luís não se
O risinho brilha sob o rio azulado. Perdura, mesmo quando Luís escuta enganará nunca mais, nunca mais dirá femúr em lugar de fêmur... E esses
o zumbido distante do bonde, passando lá na rua, rápido, extinguindo-se dois ossos das pernas Luís também sabe, Luís é vagabundo mas sabe: tíbia
logo. e perônio. Vai-te embora, esqueleto!
Herr proféssor... Diz que é porque Luís tem cara de professor. Luís é herr O queixo, os dentes batem mais, num rumor claro de louças se roçando.
proféssor, mas não sabe nem estudar... Luís é vagabundo... Essas coisas O ronco gutural parte do peito ofegante, quando o trinco da porta se torce,
de Ciências, essas coisas de esqueleto, de músculos e de coração, o padre com o novo estalido. O outro ronco parte do peito ofegante, quando a porta
Cláudio já lhe ensinou, mais de uma vez... Mas Luís não presta atenção, se abre, vagarosamente.
Luís não tem mesmo vontade nenhuma de estudar... Luís está no melhor
da aula, ouvindo a voz do padre Cláudio, e de repente se lembra da casa do Não obstante todo o medo, Luís descobre o rosto e olha na treva. A
avô, do morro, da pedreira, do mato, de Roberto, de Lígia correndo, pulando princípio não compreende, porém aos poucos, sob a claridade vaga do
sangas, saltando por sobre moitas, rindo, gritando... E as bebedeiras do fiozinho de luz, vai entendendo, vai compreendendo que aquele vulto baixo
Marciano? “Si eu quisesse eu era jóqui, cambada!” De tudo isso, Luís se e arredondado, envolto na roupagem branca – não é o esqueleto do livro
lembra na aula, enquanto o padre Cláudio ensina... Vovô tem razão. Luís do avô. É gente, é gente que se aproxima da cama do guri, que senta ao seu
precisa estudar mais. Sem estudar o máximo que se pode ser é motorneiro lado, que baixa o rosto escuro sobre o rosto pálido do guri. Luís sente o
de bonde. “E você quer ser alguma coisa mais do que motorneiro de bonde” hálito morno, bafejando-lhe a boca. Ouve:
– disse o vovô. Femúr. Não, não é femúr. Vovô ficou furioso. É fêmur. E
aquele músculo? Como é, mesmo? Bi... bicicleta? Bicicleta, não, bicicleta é – Não ti assusta... É a Bilina...
bobagem. Ah! Bíceps. O Maciste... A estrada perdida... “A vida é bem uma A boca beiçuda procura a boca do guri. Beija-a, bem de leve.
estrada perdida.” O Maciste. Vovô mostrou o muque...
– É a Bilina, meu gu’izinho... Dá ota bezotinha, dá?
Outro risinho estampado sob a claridade azulada do rio impreciso. O
risinho é logo substituído pela expressão de pavor, que empalidece o rosto Outra vez os beiços gordos se colam à boca de Luís. A voz de Umbelina
de Luís, que outra vez lhe diminui a respiração, que outra vez lhe enrija e sai, mansinha, vagarosa, escorrendo como uma carícia:
gela o corpo, que outra vez lhe arregala os olhos miúdos. O novo estalido, ali
– Tu tá assustado, tá, neguinho? Não ti assusta, a nega Bilina não vai ti
na varanda, mais próximo que o primeiro, ecoando no silêncio do casarão
fazê dodói, não vai ti tirá pedaço...
– o novo estalido faz a rigidez desaparecer e as mãos se movimentarem
bruscas, puxando a coberta por sobre o rosto gelado. Luís se encolhe, sob Umbelina ri o risinho abafado. Depois faz a mão gorda e calosa afagar o
as cobertas, transforma-se numa bola, numa bola insignificante, que quer rosto frio do guri, baixar, mansa, roçar-lhe o pescoço, baixar-lhe pelo peito,
volatizar-se, que quer deixar de existir. O terceiro estalido, bem junto à apalpar-lhe o ventre. Com a mão gorda sempre apalpando o ventre de
porta, faz os dentes, o queixo bater, como se a noite fresca fosse do mais frio Luís, Umbelina se dobra sobre o guri, despejando-lhe por sobre o peito os
inverno. enormes seios negros, que saltaram da camisa mal cheirosa. A mão baixa do
ventre, sempre cariciosa e sutil. Apalpa. Apalpa.
São passos de gente, não há dúvida, passos pesados que vêm se
aproximando vagarosos, estalando as tábuas do assoalho da varanda. São – Não ti assusta, sim, meu neguinho? A nega Bilina não ti tirá pedaço...
passos de gente, meu Deus! De gente ou... Meu Deus! Que mania a da tia
Ana, que mania a de fazer a gente dormir sozinho, pra criar coragem. Luís Mas quando Umbelina vai se deitar, de todo, o tremor sacode o corpo do
bem que podia dormir no quarto de Roberto... Meu Deus, outro estalo! guri e as lágrimas lhe chegam aos olhos atônitos.


124 |ESTRADA PERDIDA 125
A mão de Umbelina teima na viagem iniciadora: o Marciano, de faca empunhada, esbravejando. É o dr. Ferreira, ainda há
pouco, à noite, escutando a ópera no aparelho Pathé, de olhos fechados,
– Ti é isso, meu neguinho, tá cum temilite? ... Não ti assusta... A nega sacodindo a mão magra no ritmo da música, descerrando os olhos e dizendo:
Bilina é munto amiguinha do meu neguinho... “É agora, é agora que vem o agudo”. É dr. Ferreira, ainda dizendo: “A vida é
Às lágrimas sucedeu o pranto abafado. A mão de Umbelina parou com a bem uma estrada perdida”. É Lígia, outra vez, correndo, correndo, envolta
viagem. Umbelina se levanta fala, na treva, com o risinho sem calor: no pó da rua esburacada. É Lígia, ainda, dizendo pro seu Nunes: “Choriço,
seu Nunes”. É Roberto, fumando e afirmando que já tem três figurinhas da
– Bom, bom, meu neguinho... Não é piciso çolá... A nega Bilina tava Maria Walkamp. É o primo Rodrigues, esfregando a braba no rosto de Luís,
bintando com o seu Luís... e gritando: “Cagarola! Cagarola!” É Lígia, novamente, subindo a escada
da casa do primo Rodrigues, chegando primeiro ao patamar e apertando a
Ainda esta vez o grande corpo se baixa, ainda esta vez a boca beiçuda se
campainha na ponta dos pés. É a Lígia ainda, saltando por sobre buracos,
cola à de Luís:
fugindo, fugindo, no campinho de fronte à igreja, parando para mostrar o
– Té menhã, meu neguinho... padre e dizer: “É aquele que pensou que o assobio era de cobra”. É Lígia,
naquele dia já distante, montada no lobuno cego e rindo: “Tu sabe por que
Já abrindo o trinco da porta, o vulto baixo e cheio de se vira e a recomendação qui eu fiz o Roberto chamá o Marciano? É porque eu gosto de ficá sozinha
vem, sussurrada: contigo”. É Lígia, sempre rindo, sempre gritando, sempre correndo.
– Tu não tonta pá ninguém ti a nega Bilina veio ati. Viu, neguinho? Mas agora é Umbelina quem chega, gorda, enorme, descomunal,
Os estalos se sucedem na varanda, quebrando o silêncio do casarão. O dobrando-se sobre a cama de Luís, sufocando-o sob os seios imensos, sob a
pranto de Luís cessou, o corpo parou de tremer. A incompreensão agranda catinga forte, beijando-lhe a boca com os beiços molhados.
os olhos pequenos. O vago gesto de defesa mexeu os braços de Luís, o vago pavor empalideceu
Que que a Umbelina queria? Parecia que queria comer, aniquilar o Luís... o rosto descuidado. Mas o gesto de defesa parou logo. O pavor fugiu do rosto
Babusou a cara de Luís. Nojenta! descuidado. E veio o sorriso esboçado e feliz, e veio o abandono completo.

A mão limpa rápida a bochecha umedecida. Os olhos acompanham o Porque Lígia e Luís correm, subindo o morro, contentes, afogueados,
riozinho de luz azulada, até a nascente, que brota da fresta da janela. seguindo o lobuno também contente, seguindo o lobuno, que ressuscitou e
deixou de ser cego.
E pelo riozinho azulado o guri, olhos subitamente pesados de sono, viaja.
É a Baixada, sim, são os casebres da Baixada, agrupados, incolores, lá longe,
lá no socavão barrento. É o Peleu, sentado ao lado do sofá, sob a lamparina
acesa, sob a imagem do Senhor do Bom Fim, falando. O mist Charle, bebendo,
bebendo isque, em Punta Arena, naquele lugar frio e deserto. “Tá bem, Pileu,
tá bem. Tu estar dono teu vida”... É o cachorro, acuando, não deixando Lígia,
Luís e Roberto entrarem. É Peleu, mandando o cusco se aquietar. E a mulher
do Peleu, a Marica, dando na bunda da negrinha suja e ranhenta. São os
argentinos, os paisanos burros não compreendendo que o Peleu era negro
e pensando que ele usasse um véu preto sobre o rosto. É o outro paisano,
molhando o dedo no cuspo e passando na mão do Peleu, para tirar a tisna...
É o riso grosso do Peleu, é o Peleu, falando, comovido, de lágrimas nos olhos,
dizendo que nunca mais viu o inglês... É Lígia, já de volta do Peleu, debaixo
da ponte branca do arroio, rindo, dizendo que, quando ela e Luís se casarem,
Luís não vai querer matá-la, ao contrário do Marciano com a Isaltina... É


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14. – Sei, sei disso! Ela que venha... Para mim, dá no mesmo, primo Ferreira.
Não tenho medo, não tenho medo nenhum!
Os braços magros e altos se erguem envoltos nas mangas pretas:
O vento, o vento quase morno, veio lá do alto do morro, lá de perto
da clausura dos capuchinhos, desceu pelo morro, passou pelo potreiro, – Você tem razão... Uma semana ou pouco mais e a Espanhola está aqui,
agitou as carquejas, os gravatás e os treme-tremes, passou sobre as pedras matando gente, estragando pulmões... Você sabe, astenia nervosa, dores
faiscantes da pedreira, zuniu mais forte que a britadeira e que a grita dos pelo corpo, raquialgia, 38,6 no máximo e, bumba, sepultura! Mas e eu com
homens, entrou no mato, raspando nas árvores altas, erguendo folhas secas, isso?! Eu com essas astenias nervosas, com essas dores pelo corpo, com
levantando florinhas murchas. O vento, o vento quase morno, invadiu o essas raquialgias, com essas complicações pulmonares? Pouco se me dá,
jardim, semeou o jardim de folhas secas e de florinhas murchas, agitou as primo Ferreira! Não tenho medo, sou mais corajoso do que este ventinho
hortências coloridas da escada de pedra, continuou, passou pelos gradis de besta, que está teimando em me arrancar o chapéu! Que venham duas, três
ferro, perdeu-se na rua, erguendo o penacho de poeira. Influenzas Espanholas! Não tenho medo, não... Tocarei castanholas, em sua
homenagem!
Já no patamar da escada das hortências, dr. Rodrigues levou a mão ao
chapéu de feltro negro e disse para o dr. Ferreira: Mais um degrau é descido pelas pernas magras. A barba espinhuda é
cofiada com raiva:
– Que ventinho implicante, primo Ferreira! Quase me carrega o chapéu...
– Você não leu hoje um artigo no Correio do Povo? Foi o Mendes que
Outra vez a mão é levada à aba do chapéu preto: escreveu. Recomenda (a voz sai irônica) as me-di-das a-cau-te-la-do-ras...
– De novo! Já se viu? (O risinho sai de barba espinhuda) Ventinho macho, Puro medo, primo, puro cagaço! Medidas cagarólicas é que o Mendes devia
primo! Ventinho sem medo! Assim que eu gosto... recomendar... (Sorrisinho de escárnio na barba dura). Você me desculpe,
prima Ritoca, mas o Mendes e toda essa cambada – são uns cagarolas... (Os
Dr. Ferreira também ri: braços magros tornam a se erguer, envoltos nas mangas negras) Ca-ga-ro-
las... Puff! – como diz a mana...
– Tem razão, primo Rodrigues. Ventinho macho, ventinho sem medo...
E acho que agora precisamos ser como o vento. Vamos necessitar de muita Dr. Ferreira também desce este degrau:
coragem em Porto Alegre...
– Talvez você tenha razão, primo Rodrigues, talvez tenha mesmo muita
Dr. Rodrigues, já no segundo degrau da escada de pedra, para e se volta, razão, mas a verdade é que a Espanhola em Porto Alegre me preocupa...
falando à dona Ritoca, que está encostada no umbral da porta aberta:
Dr. Rodrigues estaca outra vez, outra vez ergue os braços magros para o
– Por que que o seu marido cagarola está falando em coragem, está céu:
dizendo que vai se precisar de muita coragem em Porto Alegre? Coragem há
de sobra... Pelo menos, neste velho magriça, que já tem passagem comprada – Preocupar, me preocupa, primo! Quem foi que lhe disse que não me
pro outro mundo... Coragem não falta, primo Ferreira... preocupa? Quem foi?! Mas daí a permitir que se encare a coisa com medo,
com cagaço, vai uma grande distância... (O longo dedo indicador espeta a
O novo risinho flui da barba amarelada e dura. Estaca, quando dr. Ferreira testa) Olhe! Devemos nos preocupar com a aproximação da Gripe Espanhola,
afirma, grave: mas (o sorriso de orgulho brilha na barba espinhuda) com a preocupação
que têm os generais antes das batalhas, uma preocupação que está longe de
– O caso não é para troças, primo... A Gripe Espanhola está se aproximando
ser medo, e, pelo contrário, é manifestação de coragem, é vontade de ouvir
de Porto Alegre... Você não viu hoje no jornal? Já ha casos suspeitos no Rio
o ronco dos canhões, o avanço das cavalarias... Que venha essa Espanhola
Grande e em Pelotas... Com as chegadas diárias de vapores, não dou uma
de borra! Tocarei castanholas...
semana pra Espanhola invadir Porto Alegre...
O sorriso orgulhoso, brilhando na barba dura e amarelada, cessa. A mão
A voz sai enérgica, zangada, da barba espinhuda:


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magra aperta o braço do dr. Ferreira: somem-se, dobrando para o lado dos canteiros das roseiras, dos mimos-de-
vênus e dos sagus. Os olhos miúdos e acinzentados acompanham a corrida
– Olhe! Você não viu, num jornal da semana passada, a ordem do dia veloz da gurizada. Os olhos miúdos e acinzentados cintilam. E a fala sai
do general Petain? Dizia, mais ou menos, assim, olhe: “Os quatro anos de gritada da barba hirsuta:
esforços, com os nossos fiéis aliados, foram quatro anos de provas estoicas
e começaram a dar frutos. Detido na sua quinta ofensiva de 1918, o invasor – Ana? Onde está a Ana?
recua, os seus efetivos diminuem, o seu moral baixa”... Agora não me lembra
bem... Espere aí, espere aí. Ah! O fim era assim: “Soldados da França, saúdo Ana também aparece no patamar da escada das hortências. Responde,
as vossas bandeiras, que construirão uma glória nova”! Veja, veja, primo, tomando do braço de dona Ritoca:
veja que coisa bela! Quanta coragem, quanto heroísmo, nas entrelinhas dessa – Senhor, primo Rodrigues?
ordem do dia! É um bicho, o general Petain, primo Ferreira! Macanudo!
Macanudíssimo! Os olhinhos miúdos quase se fecham para poderem enxergar:

No último degrau da escada das hortências, Dr. Ferreira sorri o sorriso – Onde é que está o Antônio, onde é que anda esse seu marido vagabundo?
sem calor:
Ana ri:
– Não acho beleza na guerra, primo. O que eu acho que há na guerra é
– Está trabalhando, primo. Hoje é dia de semana e ele, a esta hora, ainda
apenas banditismo, barbaria, selvageria das piores, das mais monstruosas...
está no serviço...
O rosto enrugado do Dr. Rodrigues escurece. A barba é afagada com
A cabeça sacode a barba amarelada, os olhinhos acinzentados miram os
energia. E a voz salta indignada:
do dr. Ferreira:
– Banditismo?! Selvageria?! Mas onde é que você está com a cabeça,
– Ela tem razão. O Antônio está trabalhando. (Risinho) Não é como estes
primo?! Que sentibesteiras são essas?! A guerra é a mais bela, a mais alta
velhos vagabundos. Estes, não: você lá com os seus malucos ainda trabalha.
manifestação de coragem! Na guerra não se toleram cagarolas... Veja só! Só
Eu é que sou vagabundo... Vagabundo? Pensando bem, Ferreira, acho que
isto já bastava para dar à guerra o caráter de uma coisa bela e grandiosa!
não. Esperar a Gripe Espanhola já é uma ocupação... Essa cadela que se
Abaixo o cagaço, morram os cagarolas! Selvageria?! Não, tenha paciência,
meta comigo... Ca-de-la...
primo! Deixe de sentibesteiras... A guerra...
Os olhinhos miúdos tornam a subir os degraus de pedra da escada, tornam
O acesso súbito da tossezinha metálica não permitiu que o primo Rodrigues
a fitar Ana, que está sempre de braço dado à dona Ritoca:
continuasse. Primo Rodrigues tossiu, tossiu, salpicando a barba de gotículas
de cuspo, enchendo de água os olhos baços. Quando a tosse cessou de todo, – Você sabe, Ana, por que eu queria falar com o Antônio? É que eu vi
primo Rodrigues enxugou a barba com a palma da mão, limpou os olhos essa meninada passar correndo, aí me lembrei de uma coisa. O seu filho,
com o nó dos dedos. Suspirou fundo. Ergueu, outra vez, os braços magros, o Roberto, é um grande, um refinadíssimo cagarola... O primo, o tal de
de punhos cerrados apontando o céu limpo. Gritou: Luís, também é um cagarolíssimo... Mas essa menina, a Lígia, não! (Grande
entusiasmo agitando os olhinhos miúdos) É uma menina corajosa, não tem
– Com toda essa tossezinha de sepultura, primo, não tenho medo da
medo de nada! Assim é que eu gosto! Êta, moreninha das minhas! Querem
Espanhola! Que venha, essa cadela!
ver?
Os braços baixam, os punhos cerrados deixam de apontar o céu. O sorriso
As mãos magras formam o fone, o chamado sai gritado de entre a barba
orgulhoso torna a brilhar na barba espinhuda:
dura:
– Pra gripe, eu sou o general Petain...
– Lígia! Roberto! Luís! Venham cá, seus borra-botas!
Lígia, Luís e Roberto surgem dos fundos do casarão, passam correndo,
Lígia é a primeira a chegar, surgindo da frente do casarão, correndo, o


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grande círculo de calor avermelhando o rosto trigueiro. Os guris chegam – Até outro dia, primas! (Tom severo) Não mandaram lembranças para
depois. a Mana, mas eu vou mentir, vou dizer que as primas se lembraram que ela
ainda existe...
Dr. Rodrigues aponta para Lígia:
É dona Ritoca que protesta, entre um sorriso:
– Vejam, vejam esta carinha, vejam estes olhos, vejam quanto coragem,
quanta personalidade nesta guria bonita! – Ora, primo Rodrigues, não era preciso dizer... É claro que nós estamos
sempre nos lembrando da Sinhá. É claro que mandamos lembranças para
As mãos se estendem para Lígia. A voz é enérgica, não admite ela...
contrariedades:
Primo Rodrigues contrai as sobrancelhas, severo. Mas estoura num último
– Venha cá, menina! Chegue-se para perto deste velho maluco! Ande! Não riso:
me desminta!
– Está bem...
Lígia obedece logo. Entrega o rosto à barba amarelada e dura, que se
esfrega, se esfrega, num crescendo violento. Para a esfregação. Comentário De braço dado ao do dr. Ferreira, dr. Rodrigues contorna o casarão,
entusiasmado: marginando o canteiro comprido e fino, adentra-se pelo jardim, entra nos
caminhos que separam os canteiros floridos das roseiras e dos mimos-de-
– Que que eu dizia?! Não viram? Entregou a cara sem medo nenhum. vênus, os canteiros dos sagus. Os dois primos passam por debaixo das
(Tapinha amistoso no rosto afogueado de Lígia) Muito bem, menina. Assim janelas fronteiras do gabinete, passam por baixo da grande sacada, passam
é que se deve ser... (A mão afasta Lígia com violência súbita) E vá-se embora. pelo banco de ferro, entram no pátio calçado das pedras irregulares, entram
Vá plantar batatas, ouviu, sua cara de não sei o quê! na sombra das paineiras altas e grossas. Avistam o Marciano que sai da
As mãos se estendem para Roberto: porta aberta do porão, arrastando um freio velho. Dr. Rodrigues estaca e
grita para o Marciano:
– Agora você. Chegue-se, aproxime-se do velho maluco, deixe ver esta
cara, ande! – Quê que estás fazendo com esse freio, mulato cafajeste? Freio precisa
é pras tuas bebedeiras, ouviste, mulato cafajeste? Desse jeito vais arrumar
Roberto hesita, Roberto está demorando a se entregar aos dois braços uma tuberculosezinha, ouviste, pau d’água? A Gripe Espanhola vem aí pra
estendidos, que esperam, esperam, mas desistem, cerrando os punhos e te levar, ouviste, mulato cafajeste? Freio precisas é pras tuas bebedeiras,
erguendo-se para o céu: ouviste?!
– Vá-se embora, seu cagarola! Suma-se, seu cagarolinha de borra! Suma- Marciano sorri, desajeitado, torce a ponta do bigode ralo, ajeita o chapéu
se! de gaúcho:
Roberto, seguido de Lígia e de Luís, foge, desaparece pela frente do – Sim, sinhô, seu dotô Rodrigue.
casarão. A risada gostosa, escandalosa, sacode o corpo alto e côncavo do
dr. Rodrigues, traz-lhe lágrimas aos olhos miúdos e acinzentados. De tão Os olhos miúdos se arregalam, a indignação se estampa no rosto enrugado:
forte, a gargalhada se transforma no acesso de tosse, da tosse metálica e – Sim, senhor, por quê?! Então eu lhe passo uma descompostura, lhe
líquida, que tine, dentro do peito adentrado, como um pedacinho quebrado digo uma porção de desaforos e você concorda? Ora já se viu? Responda,
de metal. Quando este novo acesso de tosse cessa de todo, dr. Rodrigues responda na altura, ouviu?! Cagarola, também! Tudo é cagarola! (Braços
limpa os olhos e a barba, faz um último risinho e diz para o dr. Ferreira: erguidos para o alto) Bolas!
– Chega de maluquices... O pátio das pedras irregulares é abandonado, as pedras irregulares
A mão magra, na ponta da manga preta, abana para dona Ritoca e Ana, da descida que leva ao portão, que leva à rua poenta, vão sendo pisadas,
que estão debruçadas ao corrimão de pedra da escada: vagarosamente. O novo pé de vento, vindo lá do alto do morro, descendo,


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passando pela pedreira, entrando no mato, passando pelo jardim, – quis – Ai, ai, primo! Essa vida é uma boa droga, mas não é das piores coisas,
levar o chapéu de feltro preto. As mãos seguram, rápidas, a aba larga. compreendeu? Primo Ferreira, eu um dia destes...
– Que ventinho macho, seu doutor Ferreira! Ventinho de coragem! Este A frase não termina, ante o barulho desusado de correntes batendo, de
ventinho é que me consola... Teimar, teimar sempre... Isso é que é direito! rodas andando velozes, de cascos martelando resolutos o chão poento da
rua.
A mão agora larga a aba do chapéu e bate na testa riscada de rugas:
Todos olham para a rua. Todos, dr. Rodrigues, dr. Ferreira e mais Luís,
– A minha bengala! Bem que eu estava sentindo que me faltava alguma Roberto e Lígia, que levantaram do banco de ferro, correram para os gradis
coisa... ponteagudos e foram ver o que era esse barulho desusado.
Dr. Ferreira grita para Luís, que está ali no jardim, no banco de ferro, O barulho desusado vem da carroça esquisita, da carroça que parece
sentado ao lado de Lígia e de Roberto: carregar uma torre, que parece ter trazido para a rua do arrabalde poento,
– Luís, vá buscar a bengala do primo Rodrigues. num furto impossível, a Torre Eiffel. A carroça-torre é puxada pelos muitos
burros apressados. No alto da Torre Eiffel, que não termina em ponta, mas
Dr. Rodrigues protesta com energia: sim num estrado cômodo e seguro, cercado de grades – no alto vai o Peleu,
comprido, muito negro, carapinha grisalha reluzindo ao sol. Peleu abana do
– Não senhor! Quero lá saber de cagarolas segurando a minha bengala?
alto da Torre Eiffel. Grita:
Não, a Lígia que vá buscar (Grito enérgico) Lígia! Vá buscar a minha bengala!
Esqueci perto do sofá. Ande! – B’a tarde, seus doutô!
Num ápice, Lígia está de volta com a bengala fininha e preta, de castão A Torre Eiffel, sempre puxada pelos muitos apressadíssimos burros, se
dourado, empunhada pela mão morena. some logo, não deixa Peleu ouvir a resposta, gritada do dr. Rodrigues:
Dr. Rodrigues ordena: – Boa tarde, macaco assanhado!
– Ponha esta bengala no ombro, como soldado. Não, não! Assim, segura Os olhos miúdos fitam os olhos baços e calmos do dr. Ferreira. A grande
pelo castão. Assim. Muito bem! seriedade habita o rosto enrugado. A bengala aponta a carroça, que já está
longe, que já passou da loja do seu Nunes:
Os olhinhos miúdos brilham de alegria, fitando Lígia, na pose marcial, a
bengala encostada ao ombro, como um fusil, cuja coronha de ouro repousa – Esse negro é dos meus, primo. Coragem ali sobra... Você pensa que
na palma da mão trigueira. é das coisas mais fáceis andar trepado em postes, andar trepado naquela
jeringonça, endireitando fios arrebentados? Este macaco assanhado é dos
– Muito bem! Isso! Veja, Ferreira, veja quanta coragem, quanta decisão
meus!
nesta menina! Muito bem, generala!
Dr. Ferreira sacode a cabeça, anuindo. Os olhos miúdos e acinzentados do
A mão magra arranca, brutal, a bengala do poder de Lígia. Empurra Lígia,
primo Rodrigues dão em Lígia, Roberto e Luís, que ainda estão dependurados
ainda com brutalidade:
aos gradis ponteagudos, aos gradis que parecem labaredas petrificadas.
– Suma-se, generala! E vá plantar batatas, ouviu?! Suma-se!
– Que que vocês estão fazendo aí, cagarolas? Vocês não podem estar perto
Lígia arregala os olhos, atônita. Mas dá a meia-volta súbita e corre, batendo desta generala, compreenderam? Generala, não ande muito seguido com
os pés descalços no frio das pedras irregulares da subida. esses cagarolas! Medo pega, ouviu?!
Dr. Rodrigues solta nova gargalhada gostosa. Novamente o nó dos dedos Lígia faz um risinho. Depois diz bem baixinho, bem junto ao ouvido de
magros enxuga os olhos acinzentados e limpa a barba amarelada. Suspiro: Luís, os cabelos negros e fartos se misturando aos do menino:


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– O primo Rodrigues tá com a barba cheia de ranho... Tu não viu? 15.
Luís não acha muita graça. Mas Lígia acha. Por isso, ri, ri. Quando para de
rir, convida os meninos:
As mãos de seu Nunes, neste momento, não estão se esfregando, se
– Vamo lá na pedreira? Hoje é dia de semana. Os home tão lá... roçando sem parar. As mãos de seu Nunes, neste momento, seguram o jornal
aberto, rijas, quase rasgando as bordas do papel. As inúmeras ruguinhas
Os guris concordam. E a corrida começa contra o vento, passando pelos se estamparam, as sobrancelhas se contraíram sob a aba do boné velho e
canteiros floridos do jardim, passando pela escada das hortências, entrando seboso.
no mato, passando pelo poço abandonado, adentrando-se pelas árvores
altas, penetrando no morro, chegando à pedreira, onde a britadeira canta o Seu Nunes, ali detrás do balcão, parecendo soterrado debaixo de tantas
seu canto estridente e triturado. peças coloridas de fazenda, debaixo de tantas caixas de papelão – seu Nunes
está sempre lendo o jornal aberto.
Por isso, não nota a chegada da fregueza, a mulherzinha pequenina e
magra, de cabelos grisalhos e chale preto. Não nota o pigarro estranhamente
grosso, que insiste em anunciar a presença da mulherzinha. Foi preciso que
o nó dos dedos da mão magra batessem no duro do balcão.
Seu Nunes estremece e olha por cima do jornal. Faz o risinho amável:
– Bom dia, dona Assunta. Quase me assustou...
A mulherzinha não gostou da falta de atenção do seu Nunes. Não retribuiu
o risinho amável e falou, dura:
– Quero meia dúzia de botão de osso. Deste tamanho. Ligeiro, seu Nunes,
que estou com pressa.
Seu Nunes larga o jornal sobre o balcão. Depois estende o braço para a
prateleira alta. E, enquanto apalpa as diversas caixas, diz:
– Que coisa horrível, dona Assunta! Que coisa horrrível, hein?
A mulherzinha não sente curiosidade. Com um ar ainda zangado, fita o
assoalho gasto da loja. Seu Nunes traz a caixa para o balcão. Repete:
– Que coisa horrível, hein?
Espalha alguns botões sobre a madeira do balcão. Dona Assunta pega um
botão entre os dedos da mãozinha magra. Larga-o logo, com jeito de nojo:
– Desses não quero! Parecem rodas de carreta... Ora que ideia , seu
Nunes!... Menores, deste tamanho, já disse...
Seu Nunes repete o risinho amável:
– É mesmo, dona Assunta. Desculpe... Foi distração. Mas é que esta coisa
horrível deixa a gente preocupado... Que coisa horrível, hein?

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Mas, a mulherzinha é dura. Continua fitando o assoalho da loja, com o Infelizmente para os Porto-alegrenses, parece que o terrível flagelo da Gripe
jeito zangado e não dá ao seu Nunes o gosto de perguntar que coisa horrível Espanhola estendeu as garras sobre a nossa cidade. O fato é que as autoridades
é essa. sanitárias, ao inspecionarem o vapor Mercedes, ontem chegado ao porto, constataram
haver no mesmo sete tripulantes acamados, com todos os sintomas da terrível
Seu Nunes traz a outra caixa para o balcão. Mostra o botão que está preso moléstia. Como esse vapor faça a linha Rio Grande-Pelotas-Porto Alegre e como
por fora, servindo de amostra. não tenham sido poucos os vapores que, nestes últimos dias, aqui apontaram com a
– É este, hein? mesma procedência – as autoridades sanitárias temem que a Influenza já esteja em
Porto Alegre, trazida por via fluvial. Além do mais, sabemos, de fonte segura, que
A mulherzinha concorda, impávida: se verificaram nestes três últimos dias dois casos suspeitos nos Navegantes e um na
Glória. De modo (seu Nunes lê “de modos”) que, muito a contragosto, temos de
– É este, sim. Me dê meia dúzia...
comunicar aos nossos leitores a dolorosa verdade: a Gripe Espanhola, infelizmente,
Seu Nunes não se conforma com a falta de curiosidade da fregueza. Dá está em Porto Alegre, estendendo sobre nós as suas terríveis garras. O dia de hoje,
o jeito trágico à fisionomia, puxa mais para baixo a aba do boné surrado, pois, 19 de outubro de 1918, é um dia de apreensões sombrias. As autoridades
sacode a cabeça com espanto: sanitárias, porém, recomendam por nosso intermédio, à população a maior calma,
pois que, com medidas de precaução, pode-se, se não debelar pelo menos diminuir
– Que coisa horrível, dona Assunta! Horrível! Horrorosa! a propagação da terrível moléstia epidêmica. A Diretoria de Higiene, assim,
A tragédia que se estampou no rosto do seu Nunes surtiu efeito. Dona por nosso intermédio, recomenda ao porto-alegrense que evite na medida do
Assunta perdeu o jeito altaneiro. Achegou-se ao balcão e perguntou, os possível os conglomerados, evite apanhar humidade e evite o relento, bem como faça,
olhos brilhantes de curiosidade: três vezes ao dia, a desinfecção nasal e da garganta. Amanhã traremos aos nossos
leitores maiores pormenores sobre a Influenza Espanhola em Porto Alegre.”
– Que foi, seu Nunes, que foi?
No rosto de seu Nunes a alegria sucedeu à tragédia. E foi como se contasse
a coisa mais divertida que ele explicou: Seu Nunes larga o jornal sobre o balcão. Toma do metro de madeira,
empunhando-o como se fosse uma lança. Diz, triunfal, para dona Assunta:
– A senhora não sabe, hein, dona Assunta? Então a senhora não leu o Correio
hoje? Horrível, dona Assunta, horrível... A Espanhola taí, a Gripe chegou em – Que qu’eu dizia, hein? Horrível! Horrível! A senhora, dona Assunta,
Porto Alegre... Uma barbaridade, dona Assunta, uma barbaridade! Então a não...
senhora não leu o Correio?! Quer ver, hein? Seu Nunes cala, percebendo o grande pavor que está escurecendo o rosto
As mãos abandonam os botões amontoados. Tomam do jornal. Abrem- da mulherzinha. Seu Nunes sorri, esfrega as mãos. Continua, de novo com
no. E a leitura é feita numa entonação de discurso: uma entonação trágica:
– É simplesmente pavoroso, dona Assunta! Isso de medidas preventivas é
bobagem deles, é uma grandíssima mentira! Estamos fritos, dona Assunta!
Evitar aglomerações, entupir o nariz com pomada, gargarejar – não adianta,
dona Assunta! A Gripe Espanhola é a maior praga que pode haver, é igual
“A GRIPE ESPANHOLA EM PORTO ALEGRE ao cólera! Imagine a senhora, dona Assunta, que a gente vai caminhando
pela rua, muito bem, muito satisfeita da vida e, de repente, bumba: cai, que
nem no tempo do cólera lá no Rio Grande... Medidas preventivas é besteira!
O vapor Mercedes – Casos suspeitos verificados ontem – Medidas profiláticas. Então a senhora não sabe como tem sido na Europa, no Rio, no mundo todo?!
É raro quem escapa! Nós, então, com esta nossa idade, estamos condenados!
Estamos fritos, dona Assunta! Que coisa horrível, hein? E dizem que há um


138 |ESTRADA PERDIDA 139
caso na Glória, aqui pertinho do Partenon... Que barbaridade, hein? Sempre zangada, o lábio polpudo espichado de brabeza, os grandes
olhos negros fitando o areão do caminho, – Lígia, agora, não salta por cima
Os lábios da mulherzinha tremem. Parece que a mulherzinha vai chorar. dos canteiros. Calma, com lentidão vai contornando os canteiros, volta ao
É com dificuldade que ela diz: banco de ferro, senta, repousa na sombra fresca da aba do telhado e das
– Me dê os botões, seu Nunes... É pra debitar... altas paineiras espinhudas, o lábio carnudo sempre espichado de brabeza.
Novo resmungo:
Seu Nunes, com o sorriso satisfeito esboçado, passa o pacotinho para as
mãos trêmulas de dona Assunta, que, mal o recebe, se afasta rumo à porta, – Esses besta!
no passinho miúdo e rápido, encolhida sob o chalé preto, menor ainda do Os grandes olhos negros percorrem o céu, examinam a forma esquisita
que quando entrara na loja. daquela nuvenzinha redonda, com fiapos escorrendo da parte inferior.
Seu Nunes insiste, ainda com o esboço de sorriso: Depois, os grandes olhos negros baixam, caminham para a esquerda,
fitam os pedaços de céu que aparece por entre as folhas da copa densa das
– Mas a senhora não diz nada, dona Assunta? Então a senhora nãosabe paineiras. Depois, os grandes olhos negros descem pelos caules espinhudos,
que é uma coisa horrível?! demoram-se nos caules espinhudos.
A mulherzinha para, já na porta. Volta-se para seu Nunes. Sacode a Sim, a nuvenzinha redonda, com fiapos escorrendo da parte inferior,
cabeça, o rosto sempre escurecido de pavor: e ainda os espinhos grossos das paineiras – a nuvenzinha e as paineiras
lembram a barba do primo Rodrigues. A barba, que se esfrega, que roça a
– É horrível, sim, seu Nunes... (suspiro profundo) Até logo, seu Nunes.
cara da gente...
Seu Nunes responde, cordialíssimo:
O lábio polpudo se encolhe, a boca retoma o feitio bonito, a frescura
– Até logo, dona Assunta. (Risos) Estamos fritos, hein? de sempre. A alegria brilha nos olhos negros e o risinho aclara os lábios
polpudos.
Dona Assunta não ouviu nem o riso nem o último comentário do seu
Nunes. Desapareceu na rua, rápida, os passinhos miúdos carregando Lígia se levanta, se enrija, toma o ar marcial, perfila-se e grita:
velozes o vulto minúsculo, coberto pelo chalé preto escuro.
– Não quero sabê de desobediência! Eu sou a Generala!
Seu Nunes, sempre do lado de dentro do balcão, esfrega, esfrega as mãos,
Silêncio, quebrado pela ramaria das paineiras, que se agitou, súbita,
satisfeito.
movida pela lufada do vento morno. A Generala continua perfilada, como
se escutasse o hino do seu grande país guerreiro. Novo grito:
O rumor do bonde se aproximando fez Lígia levantar do banco de ferro, – Eu sou a Generala!
que está coberto pela sombra fresca e espessa, pela sombra que vem da aba
Desta vez o silêncio do jardim é quebrado pelo outro bonde, que se
do telhado do casarão, que vem das grandes paineiras espinhudas. Lígia
anuncia próximo.
pulou o canteiro das roseiras, pulou o canteiro dos sagus, trepou no gradil,
passando o rosto no trigueiro por entre as duas labaredas de ferro. A Generala abandona a pose marcial, corre, pula os canteiros das roseiras e
dos sagus, dependura-se nos ferros dos gradis. A intensa, a grande satisfação
Mas o bonde não diminuiu a marcha. Cruzou, rápido, com poucos
aclara o rosto moreno, quando o bonde diminui a marcha, bem defronte ao
passageiros, guiado pelo motorneiro negro e de longos bigodes. O bonde se
casarão, e saltam Roberto e Luís, sem esperar que a marcha cesse de todo.
foi, zunindo, levantando pó.
Lígia grita, satisfeita, o rosto preso entre as duas grades ponteagudas:
Lígia desceu do gradil, bateu o pé no areão, com raiva. Resmungou:
– Ô, pessoal!
– Esses besta tá demorando!


140 |ESTRADA PERDIDA 141
De novo corre, de novo pula os canteiros floridos, passa pelo pátio, desce Depois pergunta:
pelas pedras irregulares, chega ao portão, antes dos meninos. Indaga, rindo:
– Quantas séria ainda falta?
– Então, pessoal, já acharo a mocinha?
Luís explica:
É Luís quem responde, seríssimo:
– Oito. Diz qui o Monstro Encapuzado é a fita em séria mais complicada
– Ainda não acharo... que já levô aqui...
Roberto sacode a cabeça, consternado: Lígia faz:
– Tem serviço com o Monstro Encapuzado... – Ahn!
Lígia dá a risada escandalosa: Em seguida bate na testa, lembrando-se:
– Ô bobos! Voceis tão triste porque ainda não acharo a mocinha... Voceis – Ah! É capaz que voceis não vê toda a fita...
não vê qui isso é coisa de fita besta?! Bobos!
Ambos os guris indagam, curiosos:
Roberto protesta, enérgico:
– Por quê?
– Bobo é tu, guria coió! Fita besta... Fita besta, porque não tem amor, não
tem beijo! (Muchocho desdenhoso) Não tem namoro como o de voceis... Lígia detalha a novidade:

A cábula avermelhada o rosto de Luís, que balbucia e não consegue dizer – Eu vi o vovô tá dizendo hoje pra vovó que si a Gripe Espanhola pegá
nada. Lígia, porém, não está disposta a discussões. Por isso,toma o braço do mesmo, a gente não pode í onde tem muita gente... Onde tem muita gente
irmão e pergunta, conciliatória: diz que a gripe pega... (Risinho irônico) Então voceis não pode í no cinema,
acho...
– Vamo brincá, Robertinho?
Silêncio desolado dos guris, quebrado pela nova lufada de vento morno,
Roberto responde, superior: que, como há pouco, agita a ramaria das paineiras, levanta o pó que jaz nos
interstícios das pedras do pátio.
– Pudemo...
Luís diz, com o risinho satisfeito:
Lígia também toma o braço de Luís e, entre os dois ginasianos, sobe a
rampa calçada das pedras irregulares, vai para a sombra das paineiras – Mas então não se pode í no colegio, também...
espinhudas. Aí, Lígia abandona o braço dos guris e aponta a porta aberta
do porão, por onde se vislumbra o carro velho, de varais descansando no Os olhos de Roberto cintilam:
chão escuro. – É mesmo!...
– Vamo brincá de carro? Lígia dá a nova risada escandalosa:
Roberto discorda, ainda superior: – Ô guris vagabundo!
– Não. Tem bustica de galinha. Quem gosta de fita de beijoca não pode Após outro silêncio, Roberto propõe:
brincá onde tem bustica...
– Vamo brincá na pedreira?
Mas Lígia não quer brigar. Limita-se a sorrir:
Lígia discorda logo:
– Seja bobo...


142 |ESTRADA PERDIDA 143
– Não, na pedreira já tá muito enjoado... Seu Nunes reiniciou a esfregação das mãos magras e voltou para dentro do
balcão. As mãos se esfregam no mesmo ritmo rápido do assobio magrinho,
Roberto insiste: que reproduz, meio desafinado, o “Coro das Cadeiras” da Eva.
– Então do que que vamo brincá? Os homens encasacados, de camisa engomada rebrilhante, que estão ali
Lígia bole com o dedo trigueiro na boca carnuda e úmida. Bole. na memória de seu Nunes, assobiando por detrás das cadeiras – os homens
encasacados fogem de repente.
– Ah! Já sei! Vamo brincá de gripe!...
O assobio cessa. As sobrancelhas de seu Nunes se contraem sob a aba do
Os guris estranham: boné seboso.
– De gripe?! E dr. Rodrigues surge, vindo da penumbra da rua, aparecendo na claridade
amarela da lâmpada fraca, o vulto magro e alto, envolvido na fatiota preta,
Lígia explica, rindo:
a barba espinhuda irisada de gotículas brilhantes, a bengalinha de castão
– De gripe, sim! É tão bom! Hoje de manhã, na hora do café, o vovô disse dourado agitando-se na mão fechada. Dr. Rodrigues quase grita:
pro papai que a gripe começa com espirro, com tossezinha e a pessoa vai
– Como vai esta jeringonça? Ainda não lhe requereram a falência?
morrê de falta de ar... De gripe, sim. Um brinquedo bom. Voceis qué vê?
Seu Nunes esfrega as mãos:
Lígia espirra o espirro colossal:
– Ainda não. Esta jeringonça vai mais ou menos, dr. Rodrigues. Que que
– Atchim!
manda?
Tosse, tosse. Caminha vagarosa. Cambaleia. Cai de rijo sobre as pedras
Dr. Rodrigues sacode a bengala, os olhinhos miúdos e cinzentos agitando-
frias do pátio, estende-se ao comprido. Os grandes olhos negros se arregalam.
se irados:
A respiração fica difícil, transforma-se na dispneia de agonizante. Os olhos
se fecham, docemente. O corpo se enrija. A respiração para. – Pare com essa esfregação das mãos! Que que parece isso, seu Nunes?
Não estamos no inverno! Que mania! Você é bem certo da bola, seu Nunes?
Como os guris não dizem nada, a morta grita, sempre de olhos fechados:
Seu Nunes, que já cessou com a esfregação das mãos, sorri:
– Morri, guris burros!
– Quem é que tem certeza de regular da bola, dr. Rodrigues?
Marciano surge da frente do casarão, empunhando o cabresto, que o vem
seguindo, como uma cobra, rastejando sobre as pedras. Marciano se espanta: Dr. Rodrigues se aproxima do balcão, a bengala enristada, quase espetando
o rosto de seu Nunes:
– Qui é isso, menina?
– Você está me chamando de louco? Diga! Vá! Não seja medroso! Está?
A morta torna a gritar, ainda de olhos fechados:
Seu Nunes se curva, humilde:
– Tô morta! Morri de Gripe Espanhola!
– Longe de mim, dr. Rodrigues, longe de mim...
A bengalinha bate dura na madeira gasta do balcão. Os olhinhos miúdos
As mãos de seu Nunes param de se esfregar. Uma delas tateia na parede
semicerram-se:
mal revelada na penumbra, torce a chaveta de louça branca. E a luz da
lampadazinha fraca, pendente do fio que vem lá do teto tão alto – a luz – Não negue, não negue, seu cagarola! Você me ganhou com essa sua
desfaz a penumbra, iluminando, com a sua claridade amarelada e tremida, ironiazinha e não tem coragem de sustentar a vitória?! Ora bolas, seu Nunes!
as caixas de papelão, as peças de fazenda colorida.


144 |ESTRADA PERDIDA 145
A grande risada vem, substituída logo pelo acesso da tossezinha metálica, – Que tirante quer? De cinco ou de oito mil réis? Tenho duas qualidades.
que tine, no fundo do peito côncavo, que molha os olhos miúdos, que cessa
afinal num último tinido. A bengala bate com ira:

Desta vez a bengala bate suave na madeira do balcão. Os olhos miúdos – Tirante uma ova, seu Nunes! Tirante é de cavalo e não me consta que eu
fitam calmos os de seu Nunes. seja cavalo! Suspensório, seu Nunes, suspensório!

– Então, eu sou maluco, não, seu Nunes? E quem sabe você tem razão Seu Nunes sorri amarelo:
mesmo... Quem sabe eu não preciso ser tratado pelo primo Ferreira... – Que suspensório quer? De cinco ou de oito?
Seu Nunes faz mais este protesto: Pancada da bengala:
– Mas perdão, dr. Rodrigues, eu não lhe chamei de maluco... – É claro que de oito, seu Nunes! Então pensa que eu já estou falido como
Os olhinhos cinzentos fuzilam de energia. A bengala torna a bater com você?
força no balcão. Gargalhada do dr. Rodrigues, molhando-lhe os olhos miúdos, enquanto
– Maluco, sim! Sou um velho doido! Não resta a menor dúvida! Mas não seu Nunes tira as três caixas da prateleira alta, põe-nas no balcão, abre-as,
sou cagarola como essa gente que anda por aí, se mijando de medo da Gripe diz:
Espanhola, ouviu, seu Nunes? Não sou cagarola, compreendeu? – Escolha, doutor.
Seu Nunes sacode a cabeça, afirmativamente: Os olhinhos miúdos e cinzentos percorrem as três caixas abertas, detêm-
– Eu sei, dr. Rodrigues, eu sei... se numa.

Outra batida de bengala no balcão: – Este aqui, que é mais sério, que senta mais com quem anda com o pé na
sepultura...
– Pois é bom que saiba!
O sorrisinho aflora na boca de seu Nunes. A aba do boné amassado é
Nova gargalhada. Novo acesso da tosse metálica. Novo tom calmo: puxada mais para baixo. A pergunta é proferida com contentamento:
– Esfregue, esfregue as mãos, à vontade, seu Nunes. Mas concorde que a – Por falar em sepultura, dr. Rodrigues, que que o senhor acha da gripe?
vida é boa, não?
Hoje é ao rosto do dr. Rodrigues que chega o aspecto trágico. Os olhinhos
Seu Nunes concorda: miúdos quase se fecham. A voz flui mansinha, insinuante, da barba
amarelada e espinhuda:
– Boa, sim, muito boa...
– Que que eu acho da gripe? Que que eu acho? Acho, apenas, seu Nunes,
Dr. Rodrigues desfere no balcão a pancadinha leve da bengala: que não tem mais volta, que estamos todos condenados, condenadíssimos...
– Já ia me esquecendo, seu Nunes... Não vim aqui para fazer barulho. Vim Vai ser uma calamidade dos diabos, seu Nunes! Vai ser uma desgraça
pra comprar um suspensório... Desci do bonde ali na esquina, vi a sua loja incrível... Vão morrer cagarolas que é uma coisa espantosa, compreendeu? Já
ainda aberta e me lembrei que as minhas calças estão quase caindo... Não foram recolhidos não sei quantos doentes pro Hospital de Isolamento. Mas
de medo, não de cheias, compreendeu? Mas porque este meu suspensório não adianta nada esse isolamento bobo! A gripe veio e ninguém conseguirá
está velho como o diabo, está francamente esclerosado. As presilhas foram atacar essa cadela!
subindo, foram subindo e já estão aqui atrás, quase na cintura, veja! Novo, rasgado sorriso no rosto de seu Nunes:
Seu Nunes estende a mão para a prateleira. Pergunta: – Então é coisa séria mesmo?


146 |ESTRADA PERDIDA 147
Dr. Rodrigues afaga a barba espinhuda: pela noite, que já baixou sobre a rua quieta.
– Seríssima! Os cagarolas que se preparem, compreendeu? Seu Nunes inicia a esfregação das mãos, o sorriso ainda esboçado na boca
sem cor. Mas o arrepio, que, de repente, lhe passeia na espinha, faz o sorriso
Seu Nunes não diz nada. Esfrega as mãos, apenas, satisfeitíssimo. Dr, desaparecer, faz as mãos parar e pousar trêmulas na madeira fria do balcão.
Rodrigues nota o contentamento do seu Nunes e grita:
Os olhos tristes de dona Ritoca, cercados pelo halo azulado das olheiras,
– Você teve algum avô que foi dono de casa funerária, seu Nunes? mais tristes pelo contraste da alvura do travesseiro – os olhos tristes de dona
Seu Nunes protesta, sorrindo: Ritoca fitam, ansiosos, o dr. Ferreira, com uma expressão de interrogação e
de medo.
– Ora, doutor, ora, doutor...
Dr. Ferreira, de pé, junto à cama, fica de costas para a luz, que jorra,
Os olhinhos miúdos mais esta vez fuzilam, irados: claríssima, pela janela entreaberta. A longa mão magra, a longa mão de
veias em relevo, segura o termômetro. Os olhos ofuscados da claridade
– Teve, sim! Você está gozando com a morte dos outros, seu Nunes!
demasiada tardam a compreender. Quando compreendem, a ruga vertical
Seu Nunes repete, ainda sorrindo: nasce funda entre as sobrancelhas grisalhas, ao mesmo tempo em que a mão
magra sacode rápida, baixando a coluna fininha do mercúrio.
– Ora doutor...
Os olhos tristes de dona Ritoca, rodeados das olheiras azuladas, se
A bengala desfere a pancada fortíssima na madeira do balcão: agrandam, destacando-se ainda mais na alvura do travesseiro. A pergunta
– Sim! Você está gozando, sim! Mas fique sabendo de uma coisa: você tem é proferida com irritação:
um enorme amor a esta vidinha, você tem um grande cagaço de morrer... E – Mais de trinta e oito, não?
fique sabendo também que a Espanhola lhe levará, ora se levará! Com este
seu jeitinho magro, com esses seus pulsinhos caquéticos, você embarcará, Dr. Ferreira faz um risinho sem vida:
na certa! E embarcará se borrando todo, que nem o ajudante de ordens
– Qual nada, Ritoca. Trinta e sete escassos...
do Conde d’Eu, um cagarola que eu curei do fígado com colomelano,
compreendeu? Você embarcará, não tenha dúvida! (Outra pancada de Mais irritação na nova pergunta de dona Ritoca:
bengala) Aliás, embarcaremos! Mas com esta diferença, você se borrando e
eu... e eu... (gargalhada) me borrando também... – Então por que você sacodiu o termômetro?

Dr Rodrigues sobraça a caixa de papelão, já embrulhada, ajeita melhor o Dr. Ferreira explica:
chapéu de feltro negro, faz a bengala dar a última pancada na superfície do – Sacodi distraído...
balcão:
Tom de choro na voz de dona Ritoca:
– Fique sabendo que, quanto a mim, estou brincando. Eu não me borrarei
quando a cadela vier, porque, graças a Deus, tenho coragem, mas você, seu – É, eu sei distraído... Você está me enganando... Estou com febre alta
Nunes, não tenha dúvida, você se borrará todo! Aproveite um desses seus (irrompe o choro, controlado), estou tuberculosa... A herança braba não
suspensórios para segurar as calças... Os de cinco mil réis... falha...
Dr. Rodrigues se afasta do balcão, dirige-se à porta aberta. Volta-se: Dr. Ferreira se consterna, quer falar. Mas se atrapalha, gagueja, caminha
para um lado e outro do quarto. Depois de chegar à janela e espiar, por entre
– Esfregue, esfregue as mãos, seu Nunes... Não tenha cerimônias... os vidros, os canteiros floridos do jardim, o gradil, a rua, o morro distante –
Última gargalhada. Último acesso de tosse. Últimas lágrimas molhando depois disso, a loquacidade vem:
os olhinhos cinzentos. Dr. Rodrigues sai da claridade amarelada e é engolido


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– Ora, ora, Ritoca! Você anda nervosa! Tuberculosa por quê?! O que você O calor, o calor abafado e irritante, parece que se desprende do mato,
tem é uma simples gripezinha! Uma gripezinha sem importância, de trinta do mato que é uma floresta incendiada, onde o incêndio já apagou e onde
e sete escassos... Tuberculosa... Que ideia! as árvores se transformaram em enormes pedaços de brasa. O calor nasce
do mato e se alastra pelo morro, pela pedreira, pelo potreiro, e se alastra
Os olhos tristes de dona Ritoca se esconderam na alvura do travesseiro. A pelo casarão, pela escada das hortências, pelos canteiros das roseiras, dos
sua voz sai entrecortada pelo choro humilde: sagus e dos mimos-de-vênus. O calor faz a pedra do corrimão da escada
– Pode ser que esteja nervosa mesmo, Ferreira... Não é para menos... Mas das hortências – queimar a mão do dr. Ferreira, que vem deslizando calma,
o que eu tenho pode ser a Espanhola e a Espanhola complica muito com que vem descendo lenta, que continua no ar, distraída, quando a pedra do
pulmão... Eu estou com muito medo, Ferreira... corrimão termina, na curva brusca.

A mão longa, a mão magra e de veias saltadas, cofia com nervosismo o Daí mesmo, aí do ar, a mão magra, a mão longa e das veias em relevo,
cavanhaque grisalho. A nova afobação atrapalha dr. Ferreira, que de novo ergue-se e cobre os olhos baços, um breve instante. Depois a mão cai
caminha para um lado e outro do quarto, de novo para junto à janela, de abandonada, sem vida. E o suspiro vem, fundo, cheio.
novo olha, através dos vidros, os canteiros, o gradil, a rua, o morro distante. O canteiro fininho, a tira longa de capim verde, que contorna os altos
De novo, a paisagem traz a loquacidade: alicerces do casarão – fica para trás. A mancha colorida das roseiras, dos
– Ora, ora, Ritoca! Medo do que, minha velha? Por que que há de ser sagus e de mimos-de-vênus se aproxima, lenta, à medida que os passos
Espanhola o que você tem? E, mesmo que fosse a Espanhola, por que você tardos do dr. Ferreira avançam. Agora é a frente do casarão que surge.
havia de ter medo? A Espanhola não é tão perigosa assim... E o que você Agora é o pátio, o grande pátio calçado pelas pedras irregulares, coberto da
tem é uma simples gripezinha, já lhe disse! sombra das paineiras espinhudas.

O choro de dona Ritoca ameaça de parar. Mas continua, abafado contra o Lígia avisa ao Marciano:
travesseiro. O nervosismo não quer abandonar as mãos do dr. Ferreira, que – Oia o vovô!
cofiam o cavanhaque, que alisam a cabeleira grisalha, que fazem os dedos
longos tamborilar no rosto descarnado. Marciano tenta em vão aquietar o zaino inquieto, que, como sempre, se
acalma, fica impassível, quando o dono se aproxima e faz o chicote passar
– Ó, Senhor! Deixe desse choro, Ritoca! Você nem trinta e sete justos tem... caricioso por sobre as crinas aparadas.
Dr. Ferreira chega à porta do quarto e grita para a varanda: Dr. Ferreira diz para Lígia, sem olhá-la:
– Ana! – Vá fazer o seu gargarejo!
Em seguida, Ana chega: Monta no pulo ágil. Os cascos ferrados do zaino batem nas pedras
– Que é, papai? irregulares do pátio, batem nas pedras irregulares do pátio, batem nas
pedras irregulares da descida, batem na madeira do estrado, calam-se na
– Atenda aí a sua mãe. Está nervosa, sem ver de quê. Uma gripezinha sem terra fofa da rua poenta.
importância... Dê-lhe um pouco de melissa... E não se esqueça da poção. De
hora em hora… São duas e meia. Às três tem que tomar. Colher de sopa. Marciano comenta para Lígia:
Não esqueça... – E aproximando-se da cama e acariciando com a mão magra – O seu avô hoje tá aborrecido... E o zaino parece qui também tá, não viu?
as costas frágeis de dona Ritoca – Medrosa... Criancinha... Até logo. Já vou Não deu pulo nenhum...
indo, que tenho de atender uns chamados antes de ir ao Hospício... Até logo,
criancinha... Lígia retruca:
*** – Ahn, ahn!


150 |ESTRADA PERDIDA 151
Depois pergunta para Marciano, brusca: Dr. Ferreira reafirma, ainda rindo:
–Tu sabe o que qu’eu vou fazê agora? – Mas nada, absolutamente nada, dona Assunta! Fiz-lhe um exame em
regra, examinei-lhe a garganta, auscultei-a... A senhora não tem nada!
Marciano torce a ponta do bigode ralo:
A bruxa de pano ainda estranha:
– Sei, sim, sinhora. O seu avô lhe mandô. Gorgulejo...
– Mas e essa tosse que eu tive hoje de manhã? Essa sensação de febre?
O grande riso mostra os dentes branquíssimos, brilha na boca carnuda e
molhada: Dr. Ferreira cofia o cavanhaque grisalho. Sacode os ombros:
– Ô, mulato burro! Não é gorgulejo. É gargarejo. Assim, ó! – Um resfriado sem importância é o que a senhora tem... Gargareje
salmoura, por via das dúvidas...
A cabeça cai para trás, os cabelos negros de abrem, se derramam, escondem
os ombros trigueiros. E a boca escancarada imita o gargarejo, roncando no Os olhos negríssimos e pequenos da bruxa de pano suja e sem recheio
fundo da garganta estirada. – têm uma expressão de incredulidade. A filha da bruxa de pano, que está
ali, de pé, apoiada à cabeceira da cama de ferro, a filha da bruxa de pano,
Lígia para com o gargarejo de mentira. Faz mais este riso. também escura, também sem recheio, a filha da bruxa de pano pergunta:
– Gorgulejo... Ô, mulato pandorga! – Então, a mamãe pode levantar, doutor?
Lígia foge, corre, abandona as pedras irregulares do pátio, abandona a Dr. Ferreira concorda, encorajando:
sombra das paineiras, desaparece na frente do casarão.
– Pode! Pode! Ainda mais com este calor fora de tempo! (Riso) O que
Marciano, ainda à porta do porão, escuta o novo gargarejo de mentira, dona Assunta tem é preguiça... Resolveu descansar um pouco...
longe, quase incompreensível.
Dr. Ferreira fita o quadro, num relance. Vê o lavatório barato, vê o teto
As magras mãos do dr. Ferreira, as longas mãos de veias em relevo se em descida, vê a máquina de costuras aberta, com pedaços de fazenda
espalmam no marrom do cobertor leve. A cabeça, a cabeça grisalha está espalhados na madeira estendida, vê os recortes de revistas colados à parede,
colada àquelas costas fragílimas, cujas costelas saltam como fraturas vê os retratos de falecidos, vê o crucifixo negro, com o Cristo intensamente
expostas, àquelas costas dolorosamente fracas, dolorosamente inermes. branco, mais branco que o laqueado do lavatório e da cama. Dr. Ferreira
A orelha se descola das costas fragílimas, a cabeça se afasta, as mãos não sente a atmosfera de miséria asseada, que se exala do quartinho sem ar. Diz:
mais se apoiam no cobertor leve. – Por falar em descanso, a senhora precisa trabalhar menos, dona Assunta...
Dr. Ferreira se ergue, parece encher todo o espaço do quartinho atopetado A filha é quem responde:
de coisas, do quartinho de teto baixo e em descida, do quartinho onde mal
cabem a cama, a máquina de costura e o lavatório barato, de ferro esmaltado – Trabalhar menos como, doutor?!
de branco. Dr Ferreira ri:
Os olhinhos pretíssimos da bruxa de pano se agitam, angustiados:
– Mas a senhora não tem nada, dona Assunta!
– É mesmo, doutor! Trabalhar menos de que jeito? Lá pobre pode ter
Dona Assunta, pequeninha, sumida sob o cobertor marron, encolhida, descanso, doutor?! Quando é que eu e a minha filha descansamos, doutor?!
escura, é a bruxa de pano suja e mal feita, de pouco recheio, a bruxa de pano Essa nossa obrigação de entregar os fardamentos, com prazo certo, tira todo
que estranha a frase do médico: o tempo de descanso... Só descansamos dormindo! E assim mesmo as duas
nesta cama de solteiro... A minha filha, coitada, moça, está na idade de se
– Não tenho nada?! divertir, de namorar. Mas cadê tempo?!


152 |ESTRADA PERDIDA 153
Doutor Ferreira olha a filha de dona Assunta, magra como a mãe, moça, Agora, um dos galhos espinhudos quase pegou a manga da fatiota preta.
mas mais feia do que a mãe. Dr. Ferreira se lembra como seria difícil a filha
de dona Assunta arranjar um namorado. E continua a escutar o desabafo de As pernas longas, as pernas de gafanhoto, envoltas na fazenda negra –
dona Assunta: estacam. Os olhinhos miúdos semicerram-se, fitando a árvore. A respiração
curta não quer deixar, mas a voz irada aparece, ofegante:
– E se eu morrer, doutor?! É por isso qu’eu tenho medo que a Espanhola
me leve! Si eu morrer, como vai ser da minha filha? O trabalho de nós duas – Vá rasgar o casaco do seu avô-torto!
juntas mal dá pra se pagar o armazém e o aluguel deste quartinho... É por A bengalada violenta dá no galho estendido, despenca as folhas miúdas,
isso qu’eu tenho medo! (O choro deixa mais feia a bruxa de pano) Não é esparramam as folhas miúdas sobre o chão vermelho da lomba.
medo de morrer qu’eu tenho, doutor, é medo de faltar à minha filha... (O
choro está deixando cada vez mais feia a bruxa de pano). Tenho tanto medo Os olhinhos cinzentos, o rosto enrugado, a barba dura e amarelada – tudo
que, desde a semana passada, quando o seu Nunes me leu as notícias da goza o gozo profundo. E a caminhada difícil é reiniciada, a bengala fininha
gripe, estou sentindo uma coisa que parece um aviso, que parece dizer qu’eu sempre servindo de apoio ao longo e curvo vulto preto.
vou morrer da Gripe Espanhola... Eu tenho tanto medo, doutor Ferreira! É
Mas a caminhada logo cessa de novo, quando os olhinhos cinzentos,
um aviso. Si eu morrer, como é que a minha filha vai viver, como é, doutor?!
fitando através das falhas dos maricás, veem a paisagem inefável , a pedreira
Dr. Ferreira agita as mãos com impaciência: faiscante, a relva do morro, a copa do mato, o pedaço de telhado, apontando
por cima da ramaria, como a quilha do navio virado boiando no mar verde.
– A senhora não vai morrer, coisa nenhuma! A senhora não tem nada! E O sorriso bom aparece na barba dura, aclara o rosto enrugado, dá mais vida
aviso é nervosismo! A morte não avisa, dona Assunta, vem quando menos aos olhinhos cinzentos.
se espera...
Outra bengalada nos galhos do maricá, desfolhando-os, fazendo mais
Pausa. Como o choro da bruxa de pano não queria parar, dr. Ferreira folhas miúdas cair no chão vermelho da lomba. O sorriso perdura na barba
encoraja, reprimindo a impaciência: amarelada. Os olhinhos cinzentos acariciam o morro, a pedreira, o mato, o
– Pare com esse choro, dona Assunta! Não há necessidade de choro... Eu telhado distante. O apelativo brota da barba dura, alegre, feliz:
hoje estou condenado a ouvir choros... Pare com isso! – Generala!
Dr. Ferreira toma o chapéu, que está dependurado ao cabide de rolha, Logo após os dois primeiros passos das penas do gafanhoto preto, o
consegue rir: espirro estoura, fragoroso, abalador, borrifando a barba espinhuda. A
– Levante e vá trabalhar, sua preguiçosa! Até manhã. alegria desaparece do rosto enrugado, a raiva, quase o desespero chega aos
olhinhos cinzentos. A subida continua nas passadas iradas, absurdamente
Dr. Ferreira já saíra do quartinho na companhia da filha de dona Assunta. resolutas e longas, dispensando a ajuda da bengala, que vai na frente do
Por isso não ouviu estas palavras da bruxa de pano, da bruxa de pano sujo, vulto preto, estendida firme, como a lança do cavalariano heroico, correndo
pequena, sem recheio, encolhida sob o cobertor marron: no arremesso da carga.
– É um aviso, doutor, é um aviso... A lança só baixa, só volta a ser a bengala, aqui, já na primeira das lajes da
escada cavada no barranco. Depois do terreno do jardinzinho, já no patamar,
bem no alto, onde o vento morno chicoteia a parede da casa, a bengala bate
Os maricás traiçoeiros, cujos galhos espinhudos se estendem para fora na porta, escandalosa, impaciente.
da cerca, sobem, sobem a lomba poenta, acompanham a marcha vagarosa Logo em seguida, a porta se abre e o vulto frágil de prima Sinhá surge,
do dr. Rodrigues. A bengala fininha ajuda a subida difícil, o castão de ouro falando com energia:
escondido no oco da mão contraída.
– Você está maluco, Mano?! Então não sabe que temos compainha? Tirou
a pintura da porta, veja!

154 |ESTRADA PERDIDA 155
Dr. Rodrigues, ainda no patamar, grita: – Cadela! Cadelíssima!
– Eu com a pintura?! Eu com a campainha?! Quis bater com a bengala Prima Sinhá senta ao lado do irmão. Toma-lhe da mão trêmula, aperta-a,
e bati, pronto! (A energia desaparece e dá lugar ao tom melancólico) Não de leve:
estou maluco, não. Estou é gripado... A Espanhola me pegou...
– Não se exalte, Mano...
A hostilidade que se estampava no rosto velho mas vivíssimo de prima
Sinhá – transforma-se em carinho persuasivo: A calma súbita chega aos olhinhos irados. A mão trêmula retribui a carícia
da mão amiga. A voz sai, mansinha:
– Gripado, nada! Deixe de ser desconfiado...
– Este velho maluco se exalta sem necessidade... (Pausa, novo aperto
Primo Rodrigues entra para o gabinete, senta no sofá de palhinha, ainda carinhoso da mão trêmula) Você sabe do que que eu estou me lembrando?
de chapéu na cabeça. Respira fundo. Diz para a irmã, que já fechara a porta: Você sabe o que que a rua da Praia, deserta, sem quase ninguém, me
lembrou? Aquela viagem que fizemos ao Norte. Você se lembra? Descemos,
– Não, não é desconfiança, estou gripado mesmo. Já larguei cinco espirros, parece que em Cabedelo, não foi? E fomos caminhar pela praia. O silêncio
nesta minha maldita ida à cidade... E estou me sentindo febril... (Tom era tão grande como nunca vi. De repente sentimos um barulhinho suave,
constrangido) Não desta febrinha besta que sempre me acompanhou e que fininho, tão bonito e que não era o vento batendo nas folhas das palmeiras,
você bem sabe o que é, Mana. Não, febre de gripe. Garanto que esou com você se lembra? Depois descobrimos o que era o barulho fininho, no silêncio
mais de trinta e oito... da praia... Era o barulho dos lustres de cristal agitados pelo vento. Todas
Prima Sinhá se aproxima do irmão, põe-lhe a mão na testa: as casas tinham lustres de cristal e, no silêncio, se ouvia o barulho fininho,
você se lembra? (Nova pausa, novo aperto carinhoso da mão trêmula) Pois,
– Não acho que você esteja com febre... ind’agora, na rua da Praia, sem quase ninguém caminhando, me lembrei de
Cabedelo...
A ira súbita cintila nos olhinhos cinzentos. A bengala bate no soalho:
Nesse ponto, a mão trêmula solta a mão amiga, o vulto curvo e comprido
– E que esteja, Mana! Não faz mal! Ela pode vir, a cadela! Pode vir! Verá
se ergue, a bengala bate outra vez no soalho duro.
o que é um homem!
– Estou ficando caduco! Estou com poesias bestas, estou com sentibesteiras!
A mão se contrai no castão dourado, abarca-o todo, parece querer aniquilá-
A gripe me atacou o miolo! Essa cadela! Essa cadelíssima!
lo:
A bengala bate, bate no soalho duro, com raiva, com furor, lembrando as
– Estou frito, Mana! A Espanhola me pegou! Mas que venha, com todas
batidas nos palcos, quando o pano vai se erguer.
as suas castanholas e os seus mantones... Não tenho medo, Mana! Você bem
sabe que eu não sou nenhum cagarola! Que venha, a cadela! Não sou como Entre os dois pés de tuna da entrada e sob a sombra espessa do jasmineiro
todos esses cagarolas de Porto Alegre! Nunca vi gente tão medrosa, Mana! velho, do jasmineiro de galhos grossos como galhos de árvore – dr. Ferreira
Imagine você que fui na rua da Praia, passei pela Praça da Alfândega, fui para.
ao Banco, andei pela rua Sete e quase que não vi ninguém! As ruas estão
quase desertas, Mana! Os colégios estão fechados! As repartições com quase Peleu também para, sob a sombra do jasmineiro, entre os dois pés de
ninguém! Os cinemas também fechados! Na Praça 15 não tem carros! Os tuna. Depois de um silêncio, indaga:
boleeiros sumiram-se! Que cidade de cagarolas, Mana! Mas a Gripe que – A mulatinha não tem mais vorta, seu doutô?
venha! Se pensa que me borrarei, está muito enganada! Que venha, essa
cadela! Dr. Ferreira olha os outros casebres da Baixada, olha o banhado barrento,
olha as casas da cidade, azuladas de distância. Responde:
O peito côncavo está arfando, a mão treme, abarcando o castão dourado,
os olhos miúdos cintilam de indignação:


156 |ESTRADA PERDIDA 157
– Poucas horas, Peleu... Ela está com bronquite capilar... Catarro sufocante... Aplasta o pé grande e preto na laje do único degrau. Sobe à saleta. Fita
a imagem do Senhor do Bom Fim, incendiada pela chama trêmula da
Peleu não quer se conformar: lamparina. Hesita, hesita, mas entra no quarto. As narinas abertas do nariz
– Mas seu doutô, a mulatinha não tem mais tosse, o catarro se acabô-se... esborrachado se enchem da fumaça pardacenta, da fumaça penetrante, que
Inté qui tá tão quietinha... vem das folhas de eucalipto, queimadas sobre as brasas, sobre as brasas que
brilham o brilho vermelho, engastadas no pedaço da lata enferrujada.
Dr. Ferreira segura o braço negro do bugio fortíssimo, aperta-o:
O vento morno se esgueirou pela fresta da madeira do quarto, envolveu
– É assim mesmo, Peleu... E a menina é muito fraquinha. Ainda se fosse com a fumaça pardacenta o corpanzil retinto do Peleu. Peleu fungou, sentiu
forte, podia ser que escapasse... Paciência, Peleu... os olhos arder e se molhar.
Dr. Ferreira sai de entre os dois pés de tuna, chega ao chão vermelho Peleu fitou o vulto curvo da Isaltina, ajoelhada ao lado da caminha de ferro
da rua esburacada. A mão longa e magra, a mão de veias salientes, cofia o desbotada. Peleu notou que a Isaltina, fitando a filha, que é u’a manchinha
cavanhaque grisalho, faz os dedos tamborilar impacientes no rosto encavado. insignificante e frágil, destoando do claro dos coeiros – não lhe percebera a
chegada. Perguntou:
– Mas não é preciso dizer pra Isaltina... Faz de conta que a mulatinha não
vai morrer... Não é preciso dizer pra Isaltina... Faz botar as cataplasmas e – Quê qui tu qué, mulata?
queima as folhas de eucalipto...
Foi preciso repetir:
Os dedos tamborilam no rosto, com mais agitação. Param. A mão longa e
magra de novo aperta o braço negro de Peleu: – Quê qui tu qué, mulata?

– Paciência, Peleu, paciência... Só então Isaltina deixou de fitar a mancha insignificante, a mancha fininha,
que destoa do claro dos coeiros. Isaltina falou:
Com o salto ágil, dr. Ferreira se escancha no zaino. O estalo do chicote,
dando na paleta, é seguido das batidas dos cascos ferrados no duro da – Quê qui o doutô Ferrera disse da mulatinha sem-vergonha?
terra vermelha. Os passos pausados se transformam no barulho miúdo Peleu se atrapalhou para explicar. Tossiu:
do trote rápido. O trote se transforma no galope ritmado, sem pressa, que
vai levando o dr. Ferreira rua acima, que vai afastando o dr. Ferreira dos – Essa fumaça não dexa a gente falá...
casebres guenzos da Baixada, do banhado barrento, dos inumeros pés de
tuna. Isaltina insiste, em tom enérgico, pausada:

Peleu não olhou o dr. Ferreira se afastando.Olhou os casebres fronteiros, – Que qui o doutô Ferrera disse da mulatinha sem-vergonha?
olhou o lodo esverdeado do banhadal, olhou a mancha branca da ponte, Peleu explica, desviando os olhos dos olhos atentos de Isaltina:
olhou os telhados das casas distantes da cidade, mais alta que a Baixada.
Continuaria ali, entre os dois pés de tuna, sob a sombra fresca do jasmineiro, – Disse pra botá as catiplasma e queimá as foia do calito... Tu já queimô...
olhando sempre – se não fosse a voz da companheira, à porta da seleta da
Isaltina levanta, chega bem perto de Peleu, fita-o nos olhos, não permitindo
frente, com a negrinha ranhenta e de fralda de camisa colada à saia suja:
que estes se desviem:
– Peleu, a Isaltina tá lhe chamando...
– Não é isso, seu Peleu... Eu quero sabê se ele disse qui a minha mulatinha
Peleu abandona a sombra fresca do jasmineiro, dirige-se à porta da saleta. sem-vergonha se sarva ou se vai morrê...
Grita para a cabrita, que retesa a corda e parece querer arrancar a estaca
Peleu consegue desviar os olhos, postando-os no zinco do telhado:
enfiada no chão escuro do terreiro:
– Morrê, nada, mulata! Inté é pecado tu falá em morte... O Sinhô do Bom
– Tá quieta, diaba!


158 |ESTRADA PERDIDA 159
Fim proteje a gente e o dotô Ferrera disse qui não tem perigo, qui é só botá narinas arroxeadas que se abrem e se fecham sem cessar.
as catiplasma e queimá as foia do calito! Morrê, nada, mulata! Tu não vê qui
a mulatinha tá sem tosse e o catarro se acabô-se? A voz de Peleu quebra o silêncio, vencendo o sopro das narinas arroxeadas:

Isaltina não pôde notar a mentira que havia nos olhos atrapalhados do – Cadê o Marciano, Isaltina? Hoje, é domingo. Será que o dotô Ferrera
Peleu. Porque a mulatinha sem-vergonha, a manchinha insignificante, que mandô ele dá arguma vorta?
contraste com o claro dos coeiros, gemeu o gemido breve, quase inaudível. Isaltina responde sem se virar, sempre ajoelhada à beira da caminha de
Isaltina, num ápice, se ajoelhou outra vez ao lado da caminha de ferro ferro, sempre dobrada sobre a insignificante manchinha macrocéfala:
desbotada, com vagos restos de laqueado azul-claro, onde a mulatinha sem-
vergonha, a mulatinha macrocéfala, de fragílimos bracinhos de diminutos – Mandô nada, seu Peleu. É domingo e ele aporveitô a tarde pra tomá
ombrinhos – levanta e baixa, com rapidez, o peito doente, arfando, arfando, cachaça... Di certo tá nargum botequim...
abrindo e fechando as pequeninas narinas arroxeadas. Isaltina se dobrou
Novo silêncio. Outra vez as pequenas narina arroxeadas parecem
sobre a cama, beijou o rostinho pálido. Falou, fingindo voz infantil:
desprender o hálito de um gigante.
– Coitada da minha mulatinha sem-vergonha! Tá com farta de á... Coitada
***
da minha mulatinha sem-vergonha!
Neste momento, o hálito do gigante se apressou tanto, soprou com tanta
Vira-se, de súbito, para o Peleu, que ainda está olhando o zinco do teto:
intensidade que pareceu que as pequenas narinas arroxeadas iam estourar,
– Seu Peleu, acho meió abri a janela... pareceu que o próprio peito doente, que a própria mulatinha sem-vergonha
e macrocéfala ia estourar, como um balão de brinquedo cheio de mais.
Peleu se atrapalha ainda mais:
A noite, invadindo o quarto do casebre pela fresta larga, transformando
– Aqui no quarto não tem janela. Onde é qui tu tá com a cabeça, mulata?! em silhuetas vagas os vultos negros do Peleu e da Marica, o vulto mais
Marica que está chegando ao quarto, com a filha, como sempre, agarrada claro da Isaltina, todos absurdamente cercados de um halo de claridade – a
à saia suja – Marica comenta: noite convidou o balão de brinquedo a subir, a vagar pelo céu estrelado, a
ser mais uma estrela entre as tantas estrelas do céu. Por isso, o balão não
– Janela em todos os quarto, é luxo de rico... estourou. Subiu, rápido, vertical, súbito.
Depois de uma pausa, ri e continua: O choro humilde, o choro nada teatral da Isaltina é agora o único rumor
no quarto do casebre. Depois, vem o choro da filha de Marica, que assustou
– Mais não faiz mal, Isaltina. Tem a fresta aí, entra bastante á pela fresta... com o choro de Isaltina e chorou o choro manhoso, barulhento, irritante.
Fresta é janela de pobre...
Através da fresta aberta, através da fresta que dá entrada à noite – ouvem-
Peleu intervém com raiva, brutal: se em seguida os gritos do Marciano, arrastados, pegajosos, aproximando-
– Cala a boca, Marica! Ô muié tinhosa! Vai fazê a catiplasma pro anjinho, se aos poucos:
anda! – Eu mato essa furada! Eu meto a faca neste resto de branco! Essa furada
Marica sorri, ameaça dizer qualquer coisa, mas cala e se vai para os fundos é qui me atrapaiô! Se eu quisesse, eu era joqui, cambada! Mato essa...
do casebre, a filha, de fralda de camisa, de bundinha à mostra, sempre No quarto de dona Assunta, no quarto tão pequeno e onde mal cabem a
grudada à saia suja. máquina de costura, a cama de ferro e o lavatório laqueado, no quarto de
No silêncio do quarto, ouve-se, forte, cheio, como se partisse de amplas, telhado em descida – escutam-se as enérgicas, as desesperadas queixas da
de vastas narinas de um gigante – o sopro apressado da vida da mulatinha filha da bruxa de pano.
sem-vergonha, que sai, ritmado, das pequeninas narinas arroxeadas, das – Bem que ela dizia! Bem que ela dizia pro doutor Ferreira! Bem que ela
dizia que era um aviso!

160 |ESTRADA PERDIDA 161
Os gritos desesperados, as lamentações enérgicas, que destoam com a de julho pra cá, com os americanos pela frente, os alemães não aguentaram
magreza da bruxa de pano moça, que deixam mais feia a bruxa de pano mais... Mas não se diga que se ganhou a guerra por causa dos americanos
moça – os gritos enchem o quarto espremido, o quarto de telhado em unicamente, hein? Eles ajudaram, sim, mas se não fosse o cutuba do Foche
descida, mais altos, mais fortes que os consolos das outras bruxas de pano, não adiantava nada, hein? Que que eu lhe disse o outro dia, hein? Nem mais
das bruxas de mais recheio, das bruxas mais nutridas. um mês, hein?
– Era um aviso! Era um aviso!! Agora a rapidez com que as mãos se esfregam é tamanha, é tão veloz, que
as mãos parecem não existir, que parece terem amputado as mãos de seu
Os gritos pecham contra o lavatório laqueado, batem na máquina de Nunes. Mas a esfregação cessa de inopino, as mãos reaparecem, quando o
costura, atravessam o teto meia-água. freguês pergunta:
– Foi aquele desgraçado que deu azar! Foi o seu Nunes que deu azar! – Que que diz o telegrama, seu Nunes?
Aquele desgraçado! Aquele azarado! Azarado!!
As mãos se erguem no ar, ameaçam a nova esfregação:
As lamentações estranhamente enérgicas, estranhamente vibrantes –
abafam os consolos das demais bruxas nutridas. – Mas você não leu o telegrama?!
– Foi um aviso! Coitada da mamãe! O freguês responde:
Os gritos, agora, vibrando com penetrante intensidade, são o pássaro – Não, não li. Você tem o jornal aí?
louco, que voeja, que tatala as asas longas, desesperado, procurando fugir
do quarto espremido. As mãos mergulham, rápidas, debaixo do balcão. Trazem o jornal,
folheiam-no.
– Levaram a coitada, levaram a mamãe! E agora que vai ser de mim? Que
vai ser? – Mas então você não leu, hein? Que que vocês fazem que não leem jornais?

O pássaro louco, o pássaro de enormes asas distendidas quer fugir do As mãos continuam a folhear o jornal aberto. Acham:
quarto espremido. Tatala as asas pesadas, bate com o peito na máquina de – Aqui, homem! Escute:
costuras, no lavatório branquíssimo, no telhado meia-água. Desesperado,
vibrante, num arremesso histérico, o pássaro louco quer fugir do quarto das
marionetes mal-feitas, das marionetes que murmuram, que gesticulam, que
“Nova Iorque, 3 (Havas, cabo submarino)
se agitam, cercando a marionete magra e sem recheio.
– Segundo informações dos círculos diplomáticos, entre as condições do armistício,
apresentadas pelos aliados aos alemães, aqueles exigem: a retirada dos exércitos, que
As mãos de seu Nunes se esfregam, se esfregam satisfeitas. Param. Dão a deverão ficar trinta milhas a leste do Rheno; a entrega das munições e do material
palmada amiga na superfície do balcão. Reesfregam-se, contentes. rodante; a entrega da Fortaleza de Heligoland; a entrega da esquadra, inclusive os
submarinos.”
– Que que eu disse pra você o outro dia, hein? Eu não disse que essa
alemoada não aguentava nem mais um mês? Eu não disse, hein? Nem mais
um mês...
– Escutou, hein? Que que eu dizia, hein? Em menos de um mês os alemães
As mãos se roçam com tanta rapidez que dão a impressão de ser uma só. entregaram os pontos... E vão ter que aceitar as condições dos aliados.
Condições, não, imposições. Quem lhes mandou fazer a festa? Imagine,
– Desde 18 de julho, com a segunda batalha do Marne, essa alemoada hein? Retirada dos exércitos, entrega das munições, entrega da Fortaleza,
afrouxou... Quando eles começaram a retirada, eu logo fui dizendo: “Esse entrega da esquadra, entrega dos submarinos... Capitulação completa, hein?
cutuba do Foche acabou com a alemoada...”. Eu não me engano, hein? De 18


162 |ESTRADA PERDIDA 163
O freguês concorda: aquele major reformado, o doutor Paula, a filha do seu Miranda, o pai do
Ramires, a avó do doutor Paula – ia me esquecendo – a guriazinha da Isaltina,
– Completa... uma porção de gente mais... E quanta criança! (Os dedos de seu Nunes se
Os olhos de seu Nunes, semicerrando-se sob a aba do boné amarrotado – juntam, formam a penca de defuntos) Assim de crianças! (Sorrisinho) Que
percorrem, neste momento, a primeira página do jornal. Veem os pedaços limpa a Espanhola está fazendo no Partenon! O dr. Rodrigues está bem
de coluna, em branco, sem texto, parecendo quadros emoldurados de letras. malzinho, sabia? Ele disse que eu embarcava, mas estou vendo que quem
As mãos tornam a se esfregar, vagarosas: embarca é ele, hein?

– E a censura, hein? Os jornais saem quase em branco... O freguês sentiu o mal-estar vago, desejou sair de súbito:

As mãos readquirem a rapidez: – Bom, seu Nunes, tá perto da hora do almoço... Me alcance o meu pacote...

– Quanta coisa escondida nestes quadrinhos brancos, hein? A Gripe está Seu Nunes alcança o pacote:
um caso muito sério (Sorrisozinho esboçado)... As fábricas não têm quase – Vá almoçar. (Risinho) Enquanto pode...
operários, estão pagando salário dobrado pra quem quiser trabalhar... Você
ia, hein? As repartições não têm quase ninguém, também... Coisa muito O freguês faz um sorriso sem vontade. Vai sair pela porta da loja, vai
séria, não há dúvida! (Sorriso mais aberto). Tem morrido gente que não mergulhar na rua coberta de sol. Mas seu Nunes detém-no com esta frase:
é brinquedo! Gente caindo na rua! Carroções cheios de defuntos! Coisa
muito séria! Coisa muito séria! (Pausa. Risinho) Como é que você ainda não – E os Finados, ante’ontem, hein? Quanta gente na véspera pensava que
morreu?! ia visitar os defuntos e foi visitada, hein? Quem está ficando rico são as
floristas da Lomba do Cemitério, hein?
O freguês não gosta:
O freguês faz o novo sorriso sem vontade e desaparece na rua coberta
– Livra, seu Nunes! Estou muito satisfeito de estar vivo! de sol. Seu Nunes faz um último “hein”, baixinho, abafado. E recomeça a
esfregação das mãos velozes, das mãos rápidas, das mãos satisfeitas.
Seu Nunes continua o risinho, continua a esfregar as mãos com intensidade:
– Não é das piores coisas, hein? Viver é bom hein? (Nova pausa) Quanta
notícia boa, escondida nestes quadrinhos brancos... Besteira, a censura! As três cabeças caídas para trás, as três bocas abertas, os três pescoços
(Outra pausa) Você sabia? Diz que já morreram mais de duas mil pessoas estirados – são os três chafarizes eretos, que borbulham, que gluglulam, mas
em Porto Alegre! O número de óbitos está censurado, mas todo o mundo não têm a força necessária para fazer a água esguichar erguida, no jorro
sabe... firme e cantante.
As mãos de novo parecem uma só, de tanto que se roçam: O chafariz moreno, o chafariz dos longos cabelos negros caindo sobre
os ombros trigueiros – o chafariz moreno estourou na gargalhada súbita,
– Há coisas que não adianta esconder... O povo descobre tudo, tudo, borrifou de água os companheiros, molhou-se todo, encharcou o peito.
tudo...
Foi Roberto quem primeiro cuspiu fora o gargarejo, através da janela, e
Agora as mãos desapareceram, foram amputadas outra vez: disse à Lígia:
– E aqui no Partenon? Que limpa que a Espanhola fez, hein? Que limpa! – Não ri, guria!
As mãos param, súbito. E seu Nunes começa e enumerar, contando nos Lígia não para com a gargalhada. O chafariz moreno continua a rir.
dedos: Roberto insiste:
– A mulher do açougueiro, a cunhada do farmacêutico, a dona Assunta, – Não ri, guria. O vovô não qué qui se faça barulho. A vovó tá doente...


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Lígia consegue calar a gargalhada. Diz: pernas grossíssimas, seios imensos, braços redondos e pardos, a Umbelina,
vindo do mato no passo arrastado e pesado, entrando no jardim, passando
– Não posso. É tão engraçado o barulho do gargarejo... Rrrrrróóóóóó! É rente ao primeiro degrau da escada das hortências.
tão engraçado... Não é, Luís?
– Oia, pessoal, vamo dá um logro na Bilina? Ela vem vindo ali, ó! Eu
Luís concorda, com o risinho controlado. Roberto ordena: chamo ela pra baixo da janela e vamo cuspí o remédio em cima dela. Tá?
– Vamo continuá, pessoal! Os guris concordam. Lígia grita, dobrando-se para fora da janela:
Os copos vão às bocas, que bebem o golo da água amarelada. – Bilina!
As três cabeças caem para trás, os três pescoços se estiram, as três bocas Umbelina se aproxima da janela. Vista do alto, não se lhe notam os pés,
se abrem. Os chafarizes recomeçam o jorro frustado, borbulham, gluglulam. escondidos pela fartura dos seios amplos. Umbelina olha para cima e
Em pouco, as três cabeças dobram-se para fora da janela aberta e as bocas pergunta:
cospem a água amarelada, empapando a terra seca do jardim. – Ti é?
Roberto diz: A água amarelada cai-lhe na cara parda, molhando-lhe os seios fartos,
– A tua mãe também tá com gripe, Luís? inunda-a, viscosa e fria. A raiva torna mais tatibitate a fala atrapalhada. O
punho se ergue, fechado e ameaçador:
Luís responde, constrangido:
– Mininada sivigonha! Eu vô tonta pa sá Titoca, vadabundos! Os colezo
– Tá. feça e esses vadabundos não têm nada pa fazê e vem mecê com os mais veio.
Voceis mi pado, vadabundos!
Roberto pergunta, ainda:
Os três chafarizes erguidos, um moreno, os outros claros – os três chafarizes
– E o noivo dela?
jorram, imperturbáveis, o jato falhuto, gluglulam, borbulham, impassíveis.
Luís sacode os ombros, inopinadamente enérgico:
– Não sei, nem quero sabê!
Na treva, na treva espessa, furada apenas pelas poucas e fracas lâmpadas
Roberto ri: trêmulas, o carroção vem vindo silencioso, vem passando em silêncio pelas
ruas desertas.
– Por que qui tu não qué sabê?
Agora, depois de dobrar esta esquina, o carroção inicia a subida. As
Lígia intervém: correntes tinem compassadas. As três parelhas de burros escuros diminuem
– Dexa de sê implicante, Renô! Tu sabe qui ele não gosta qui a gente fale a marcha.
no noivo da mãe... Na quietude da lomba, escuta-se o resfolegar das ventas abertas, escuta-
Roberto bate com o nó dos dedos no peitoril carunchado da janela: se o barulho dos cascos roçando o chão duro, o chão pixado de escuridão.

– Mãe dele! E tu, guria besta, não me chama de Renô! Já ti disse! O carroção pesado, o carroção cheio de carga, sobe lentamente, aproxima-
se lentamente da mancha branca do muro longo, que se adivinha na treva,
A resposta de Lígia se limita a um “é?” gaiato, seguido pelo novo gole da bem no alto do morro.
água amarelada. Os três chafarizes gluglulam o jorro gorado.
Quando o carroção está bem perto do longo muro branco – o portão de
Quando Lígia cospe o gole da água amarelada, nota a Umbelina, gorda, ferro se abre e os vultos saem para a rua. Os vultos cercam o carroção. Um


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deles abre a parte de trás do carroção, desdobra-a, como se o carroção fosse A mão longa, a mão translúcida abandona brusca as mãos do dr. Ferreira.
despejar terra sobre o chão pixado de negrume. Mas do carroção não sai A exaltação cresce, cresce, aumentando a dispneia, que faz a colcha verde-
terra. Saem os vultos inertes, alguns de olhos fechados e sorriso beatífico, claro subir e descer com rapidez, como se o leito fosse um mar agitado pela
outros de olhos esbugalhados e boca contraída no ríctus amedrontador. tempestade:
Os vultos inertes são levados pelos vultos vivos para o lado de dentro – Calma eu tenho, primo... De sobra! Mas essa calma não me impede de
do portão, iluminado pela vaga claridade das lâmpadas distantes. O vulto gritar cadela, cadelíssima... Cadela é tudo, primo! É a morte, é a gripe! E,
vivo, que está com um lápis na mão e vai conferindo no papel a entrada dos pensando bem, primo, também é a vida! Cadela! Cadelíssima! Cadelíssima!
vultos inertes, – depois que o carroção se esvazia de todo, fala no silêncio:
O silêncio veio de inopino. A dispneia foi por instantes o único rumor do
– A lista tem dezoito e só entraram dezessete! quarto, enquanto os olhinhos miúdos, os olhinhos acinzentados fitaram com
um brilho intenso o teto alto, o teto verde, do mesmo verde do mar agitado,
Outro dos vultos vivos retruca, de voz trêmula: do mar cujas ondas sobem e baixam sem cessar, encapelam-se, erguem-se,
– Eu tenho certeza que embarcamos dezoito... parecem querer atingir o verde do teto.

O vulto vivo, que empunha o lápis e o pedaço de papel – torna a falar, Os olhinhos miúdos baixam para o dr. Ferreira. Desta vez é a mão
num tom esquisito: desencarnada que toma as mãos do dr. Ferreira. O sorrisinho se esboça na
boca seca, nos lábios rachados. A voz brota com placidez:
– Então... então vocês deixaram cair um no caminho!...
– Não duro muitas horas, primo... (Vaga energia) Não me desminta, não
E o carroção vazio, leve, desce, rápido, puxado pelas três parelhas de me desminta, não me desminta que eu não sou nenhum imbecil! (Torna a
burros escuros, desce a lomba preta, mergulha no túnel da treva silenciosa, placidez) Gripe pneumônica, da legítima, da mais pura... Estou no sétimo
deixa para trás o longo, o interminável muro branco. dia... Não resolveu no quinto... Não duro muitas horas, primo... O meu
consolo é que morro da morte que sempre previ: pneu... pneu... pneumonia,
– Cadela! Cadelíssima!
congestão pulmonar (Risinho) Como é difícil dizer essa palavra com dis...
Os olhinhos miúdos, os olhinhos acinzentados do dr. Rodrigues quase dispneia... (Outro risinho) Não esqueça nunca, primo, que o burro, o maluco
se fecham. A descompostura irada torna a saltar dos lábios ressequidos e do seu primo Rodrigues, quase na hora da morte, quase na hora da agonia,
pálidos, torna a pular da barba amarelada: fez esta observação profundíssima: é difícil dizer pneu... pneu... pneumonia
quando se está com dis... dispneia...
– Cadela! Cadelíssima!
O risinho quis se transformar em gargalhada. Mas não pôde. Porque o
Dr. Ferreira, sentado à beira da cama, contempla o rosto terrivelmente mar, o mar verde, agitando-se em demasia, encapelando de mais as ondas
descarnado, terrivelmente sem cor. Pega da mão longa, toma entre as suas a de pano, não permitiu.
mão longa e transparente. Faz um sorriso encorajador:
– A dis... dispneia está avisando que não duro muitas horas... Estou, primo
–Tenha calma, primo... – não me desminta, compreendeu? – estou em estado preagônico...
Os olhinhos miúdos piscam, a fala exaltada continua a saltar da boca O pedido sai, mansinho, destoando com a rispidez da barba espinhuda,
ressequida, da barba dura: com a expressão amedrontadora do rosto cavado e sem cor:
– Calma... Calma eu tenho, primo! Calma não me falta! Você bem sabe – Me abra toda a janela, Mana...
que eu não tenho medo de coisa nenhuma! Nem com as costas ardendo das
ventosas eu perco a calma! Bolas com a calma! Prima Sinhá, minúscula, imperceptível, levanta da cadeira, sai ali do canto
escuro do quarto, abre a restante metade da janela. Torna a sentar, torna a
ser imperceptível no canto escuro do quarto.


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Dr. Rodrigues retém a dispneia, faz a inspiração funda: Não é a voz do dr. Rodrigues, não é a voz meio fina e metálica, que começa
a falar no silêncio do quarto. É outra voz, é uma voz gutural, cavernosa,
– Aí. Agora está melhor... Obrigada, Mana... (Os olhinhos miúdos e mais distante, mais afastada:
cinzentos fitam os olhos baços do dr. Ferreira) Primo, confesso que o ar
que entrou pela janela me deu mais um pouco de alívio, um pouco mais de – General Petain! Macanudo velho! Ombro armas! General Foch!
satisfação... Mas (energia súbita) daí não vá concluir que estou com medo, Macanudíssimo! Ombro armas!
ouviu?
Grito terrível da voz distante e gutural:
Dr. Ferreira sorri, e, enquanto fala, aproveita para apalpar o pulso do dr.
Rodrigues. – Ordinário, marche! Um-dois, um-dois, um-dois! Alto!

– Eu sei, primo... A voz readquire o tom baixo e cavo:

Dr. Rodrigues retira o braço com um puxão raivoso. Grita: – Eu gosto muito de vocês, generais de borra... Vocês têm coragem, vocês
não são cagarolas!
– Largue o meu pulso! Não adianta saber como este coração besta
anda! Batendo fraco ou forte, ele parará do mesmo jeito daqui a pouco! A Novo grito terrível da voz distante e gutural:
congestão pulmonar complicará com a deficiência cardíaca, é lógico! E eu – Mas vocês não têm a coragem da Generala! A Generala Lígia é mais
não tenho medo que ele pare! Pode parar à vontade! Eu não tenho medo! macanuda do que vocês! Vão pro diabo, generais de bobagem! A Generala
Eu não sou nenhum cagarola! Não sou como esses alemães duma figa, que é que é macanuda!
andam se borrando, aceitando as imposições vergonhosas de meia dúzia
de cagarolas de casaca! Eu estou morrendo, primo, mas estou sabendo o Feliz, felicíssimo sorriso na barba espinhuda, nos lábios rachados:
que se passa no mundo... Anteontem foi o Armistício, eu li no jornal! Estou
– Ombro armas, Generalinha!
na cama morrendo, mas leio os jornais! Lerei até o fim! Porque não tenho
medo, porque não sou cagarola! Agora as mãos longas, as mãos transparentes se estendem, chamam. A
barba se esfrega, se esfrega no rosto invisível de Lígia.
Os olhinhos miúdos notam que o dr. Ferreira levantou da cama, acenou
com a cabeça para prima Sinhá, e saiu com ela, desapareceu com ela no – Generalinha... Gene...
corredor. Quando ambos voltaram para o quarto, os olhinhos cinzentos
fuzilaram: O mar verde balouça com intensidade as ondas de pano. Uma delas parece
que afogou a voz gutural, fazendo-a calar. Depois de mais um silêncio, a
– Vocês pensam que eu não sei o que foram combinar lá fora?! Pensam voz cava renasce, entrecortada, dificil:
que eu não sei? Sei, o velho maluco, o velho sem medo sabe! Vocês foram
providenciar o balão de oxigênio! Pois fiquem sabendo que ninguém, – Tome calomelano... Isso é fígado... O senhor me desculpe, Conde d’Eu,
que coisa nenhuma me fará enfiar aquela borracha besta no nariz... Balão o seu ajudante vai se curar, sim, mas à custa de purgante...
de oxigênio é demonstração de cagaço... Só os cagarolas é que cheiram a Riso, riso estranho, riso assustador, que traz água aos olhos cinzentos e
borrachinha besta... E eu não tenho medo, compreenderam? Não me tragam miúdos:
balão de oxigênio, ouviram? Jogo longe, ouviram? Não tenho medo! Que
venha a cadela, que venha a cadelíssima! Brigarei desarmado!... – Eu não dizia que o homem ficava bom? Borrou-se e curou-se... Foi assim
que eu comecei a minha vida: com audácia e calomelano...
Novo silêncio súbito. O brilho esquisito, o brilho que traduz vigor e
estranhamente também traduz apatia, o brilho esquisito tomou conta dos Outro, outro grito terrível:
olhinhos miúdos. Os olhinhos miúdos se colam, fitos, no verde do teto. O
verde do mar agitado sobe, desce, sobe, desce. As ondas de pano agigantam- – General Foch! Ombro armas, General!
se, de novo querem tocar o verde do teto.


170 |ESTRADA PERDIDA 171
No quarto, que está escurecendo aos poucos, não se vê o General Foch Teimou em seguir pelo centro da rua, zigue-zagueando no zigue-zague
de fuzil ao ombro. Mas o dr. Rodrigues de certo está vendo, tamanha é bambo.
a emoção que brilha nos olhos fitos, nos olhos que se arregalam, que se
esbugalham, enquanto as unhas das longas mãos translúcidas ficam roxas, O seu braço vai estendido, os seus punhos estão cerrados. Parece que
se maquilam de roxo. Marciano deseja dar um soco em alguem, um soco abalador, escrachante.

*** Os seus olhos úmidos, raiados de sangue, congestionados, não estão


vendo o chão poento da rua, não estão vendo os trilhos paralelos e luzentes,
Dr. Ferreira murmura ao ouvido de prima Sinhá: que se estendem, rumo ao fim da linha, somem-se depois daquela volta, não
estão vendo as casas de porta e janela, as casas de muitas janelas, não estão
– Não vai chamar um padre? vendo as raras pessoas que se acham à janela de algumas das casas.
O sussurro de prima Sinhá tem um tom de indignação amordaçada: Os seus olhos, raiados de sangue, nem o céu claríssimo, nem o céu sem
– Não senhor! Ele não havia de querer! Mas, mesmo que ele quisesse, eu nuvens estão vendo.
não deixava... Padres, longe de mim! Os olhos raiados de sangue, os olhos congestionados e úmidos veem
A mão minúscula afasta enérgica a ideia indesejável. o prado apinhado de gente, veem a cerca circular, pintada de branco,
envolvendo a circunferência verde, veem a terra vermelha da pista. Os olhos
*** raiados de sangue veem os gestos da multidão, que ergue os braços e grita,
vitoriando a chegada do cavalo zaino, gineteado pelo jóquei Marciano, que
O tubo, o longo tubo de borracha vermelha está colado às palidas narinas
enverga a camiseta colorida e fez o cavalo chegar quase cem metros antes
frementes. O tubo é o narguilé inefável, o narguilé sutil, que traz o ópio
do segundo colocado. Agora a multidão cerca o jóquei Marciano, grita-lhe o
gostoso do nirvana que se aproxima vagaroso, lento, precedido pela plácida,
nome, oferece-lhe coisas. Mas o que que está fazendo, no meio da multidão,
pela amável, pela completa inconsciência.
esse estafeta, esse carteiro fardado de brim, esse carteiro que sorri o sorriso
Os olhinhos miúdos e acinzentados não mais se esbugalham. Cerram-se de deboche? Ah! Esse canalha é o sem-vergonha que furou a Isaltina, que
no torpor do ópio gostoso. As mãos longas e translúcidas repousam inertes, papou a virgindade da mulata bem-amada! E ele veio aqui, ele se meteu no
com as unhas sempre maquiladas de azul. meio da multidão, pra debochar do Marciano, pra implicar com o jóquei
Marciano... Jóquei?! Nada! Jóquei fajuto, jóquei gorado! Canalha! Canalha!
O mar, o agitado mar de pano verde, foi serenado, lentamente,
preguiçosamente, até se transformar no mar calmo e iluminado de sol, no Os dois braços se estendem, de punhos cerrados, como se fossem bater
mar que segue as tempestades. desesperadamente, furiosamente, no peito odiado do carteiro.
O carro, com o cocheiro de cartola alta empunhando o relho tão longo, o Agora a Isaltina apareceu no meio da multidão, foi se chegando, foi se
carro de grandes rodas pintadas de vermelho – o carro bateu a campainhada chegando, deu braço ao carteiro, sorriu junto. Canalhas! Canalhas!
bulhenta:
E esse choro, esse choro fininho, esse choro interminável, penetrante,
– Delém! de criancinha de peito? Será possível? É, é, sim, é o choro da mulatinha –
coitada! Da mulatinha que foi esquecida pela Isaltina, no meio da multidão,
O carro, com o ruído seco dos cascos da parelha dos tordilhos, passou rente e talvez esteja chorando de dor, pisada por enormes, por pesados sapatos
ao Marciano, envolveu-o na onda de pó, se foi rápido, as rodas vermelhas de sola grossa. E que força tem o choro da mulatinha sem-vergonha! Chega
girando velozes. a ser mais forte que os gritos da multidão assanhada!
Marciano resmungou: Neste momento, as mãos cerradas batem no próprio peito do Marciano,
– Pra lá, caiambeque! pesadas, duras, como se batessem em alguma porta que teima em não se
abrir.


172 |ESTRADA PERDIDA 173
O branco canalha, o carteiro sem-vergonha diz qualquer coisa ao ouvido espreitam a porta escancarada da rua, bolem outra vez, detêm-se no jornal.
de Isaltina. Dá para entender. É: “Si não fosse tu, ele era jóqui!” Ah, canalha!
Ah, canalha! O jornal é abandonado sobre a madeira do balcão. As mãos se esfregam
de leve. Param. Tornam a empunhar o jornal aberto. O sorriso mal esboçado,
Que seria que sucedeu? O prado, a cerca branca, circundando a relva de gozo distante, acompanha a leitura.
verde, a multidão, os cavalos, as camisetas coloridas, as arquibancadas, a
própria Isaltina e o amante – tudo desapareceu de súbito. E chegou, enorme,
gordíssima, de vastíssimos seios, de redondíssimas pernas, onipresente, “Paris, 15 (Havas, cabo submarino) – São contraditórias as notícias sobre a fuga
morna, os dentes em descida aparecendo no vago sorriso, os beiços roxos do Kaizer. Mas, se bem que sejam confusos os detalhes sobre a fuga do Imperador
tremendo de prazer – apareceu a Umbelina. A Umbelina é u’a massa flácida, vencido, pode-se afirmar que ela se deu rumo a Holanda. É duvidoso, também, que
que se desdobra, que se multiplica, que abarca, que sufoca. A Umbelina, o ex-kromprinz e a ex-kaizerina tenham fugido em companhia de Guilherme II, não
agora, troca a cabeça com a Isaltina. Depois substitui-a pela do carteiro. O se podendo precisar qual a direção tomada por essas figuras do Império derrotado. A
estranho vulto híbrido domina, possui, enche, aniquila o Marciano. megalomania do Kaizer é acentuada por todos os jornais da Europa, os quais, na sua
Marciano cai, sem um gesto, sem uma palavra, sobre o chão poento e totalidade, se referem ao ex-monarca sem a menor simpatia, talvez a Europa tivesse
vermelho da rua, o bigode ralo e babado enchendo-se de terra, o chapéu evitado a terrível hecatombe verificada em quatro anos de horror e morticínio. Esses
gaúcho empapando-se de poeira. jornais afirmam mesmo que, em toda a história do mundo, nunca um imperador,
partidário da expansão e da conquista, foi tão odiado.”
Algum tempo depois, quando, já de rosto voltado para o céu, descerra
um dos olhos raiados de sangue, Marciano escuta vozes. Orienta-se. Vê
a ambulância parada rente à calçada, puxada pelos cavalos inquietos, os O sorriso esboçado, o sorriso de gozo distante, se espraia, ilumina o bigode
cavalos finos, que lembram os luzentes, os fogosos parelheiros de prado. grisalho. As mãos novamente depõem o jornal sobre a madeira do balcão
Mas a voz que agora escuta não é de turfista emocionado. É seca, sem e novamente se esfregam, satisfeitas. Do bigode grisalho parte o murmúrio
entusiasmo e está comentando: arrastado, enquanto as mãos cessam a esfregação.

– Vamos levar esse mulato pro Hospital... É mais um caso de astenia – Ôrre tasca!
nervosa... A Espanhola tem disso... Aliás, esse é o terceiro que atendemos Mas, quando as mãos querem recomeçar o roçado alegre, o espirro estoura
hoje... brutal, inesperado, molhando de gotículas esparsas o papel do jornal aberto.
Marciano compreende. E protesta, pastoso, o bigode ainda sujo de terra: Outro espirro, outro ainda.

– Prá lá! Eu não tô morto! Quem morreu foi o seu dotô Rodrigue, trás- O gozo distante do sorriso esboçado desaparece. O sorriso se estanca. A
ont’onte! Eu tô é bebido! Espanhola o quê, cambada! Eu tô é bebido! E fica sombra, a escura sombra, cobre o rosto enrugado de seu Nunes.
sabendo cambada, qui, si eu quisesse, eu era jóqui, jóqui de camiseta de cô! As mãos descansam mortas sobre a madeira do balcão. A ruga funda
Si não era aquela furada, eu... nasce entre as sobrancelhas, sob a aba do boné seboso.
A gargalhada, a gargalhada de desafogo, que sai de todas aquelas – Malditos espirros! Será?! Será possível?!
gargantas – bem que parece a alegria da multidão, da multidão que no
prado, onde a cerca branca circunda a relva, vitória, alegre, cordialíssima, o Uma das mãos mortas ressuscita e apalpa a garganta estreita, o pomo de
grande, o inigualável jóquei Marciano. Adão saliente e feio.

A aba do boné seboso é puxada mais para baixo, cobre um pouco mais E esta ardência na garganta?! Será?! Será possível?! Aguentar até agora,
a testa enrugada, dá mais sombra aos olhos míopes, aos olhos míopes até meados de novembro, e esta desgraça vir? Não, não é possível. Talvez
que bolem, passam por sobre o jornal aberto, passam por cima do balcão, seja um simples resfriado.


174 |ESTRADA PERDIDA 175
Os ombros sacodem, superiores. As mãos se esfregam. Param. Retomam Se pudesse mexer com os dedos duros e pudesse esfregar as mãos
o jornal. A leitura prossegue, sem sorriso. geladas – seu Nunes de certo o faria. Porque deve haver um profundo, um
longo prazer, naquela calma, naquela impassibilidade, naquele corpo hirto
e duro, que agora desaparece oculto pela tampa negra da madeira onde a
“Londres, 15 (Havas, cabo submarino) – Afirma-se que o Tratado da Paz será cruz dourada se destaca.
assinado em Versalhes, na famosa “Sale des Glaces”, onde, em 1871, foi criado o Nem com esta luz claríssima, nem com este céu sem nuvens, nem com
Império Alemão.” esta manhã luminosíssima, que, neste instante, está envolvendo as madeiras
pretas e que seguramente há de perpassar as madeiras pretas – nem assim
seu Nunes consegue bolir com as mãos e esfregá-las satisfeito.
As mãos se fecham iradas, amassam, amarfanham o jornal, jogam-no
bruscas sobre o balcão. Duro, hirto, frio, de mãos imóveis, de olhos cerrados – seu Nunes vai.

– Orre tasca! Vai.

Sim, orre, orre tasca! Bem feito. Assinar a paz, pedir penico na sala onde Vai.
criaram o Império. Bem feito! Bem... Apenas um fraco, um imperceptível ventinho quente agita as últimas
O novo, o abalador, o terrível espirro cortou a meio o pensamento de seu folhas das árvores do mato. As demais folhas, os galhos, os leves gravetos
Nunes. As mãos outra vez se espraiaram mortas sobre a madeira do balcão. do chão – tudo está imovel e parado. Também estão imóveis e parados
os mimos-de-vênus, as rosas e os sagus do jardim. Nem a relva verde do
– A Gripe?! A Espanhola?! Será possível?! Não pode ser, não pode ser... canteiro que circunda o casarão – bole.
Novo espirro terrível, novo espirro abalador. A única, a vaga nuvem esfiapada, que é u’a mancha rala no azul limpo do
céu calmo – a única, a vaga nuvem esfiapada está imovel.
– Esta ardência na garganta?! Meu Deus! Será possível?!
O calor, o calor intenso e pesado, que é o hálito quente de todos os duendes
E o doutor Rodrigues, àquele dia, quando veio comprar suspensório,
do mato, ressonando cansados – o calor envolve, aplasta o casarão batido de
afirmou que ambos morreriam. Ele já embarcou. O seu Nunes embarcará
sol.
também? “Com esses seus bracinhos caquéticos você embarcará, seu Nunes,
não tenha dúvida! E embarcará se borrando... Você tem um grande amor a Mas a aba do telhado do casarão, enfeitada de dragões perfurados,
esta vidinha, seu Nunes... Embarcará se borrando, não tenha dúvida...” projeta a sombra amável sobre o patamar da escada das hortências. Mas o
patamar da escada das hortências é a ilha de sombra no mar reverberante e
Mais este espirro terrível, mais este espirro abalador.
iluminado.
A sombra, a grande sombra, escurece o rosto enrugado de seu Nunes.
Na ilha de sombra, dr. Ferreira e dona Ritoca repousam, ele de pé, apoiado
Os olhos, míopes, quase ocultos sob a aba do boné seboso, se agrandam de
ao corrimão de pedra, e’a na cadeira de embalo, a cabeça descansando na
terror, fitando a rua, que aparece pela porta aberta, dourada de luz.
madeira do espaldar.
As mãos não se esfregam. Continuam mortas sobre a madeira do balcão.
Dr. Ferreira olha o cimo das árvores do mato, vê a calma do jardim, a
placidez das roseiras, dos mimos-de-vênus e dos sagus, a quietude das
hortências, das hortências que são buquês lilases, enfeitados de folhas verdes,
Nem que quisesse, seu Nunes, neste momento, poderia esfregar as mãos. enroscando-se nas colunatas de pedra, lambendo a pedra do corrimão. Dr.
Não que elas estejam amarradas, não. Mas porque, na postura de reza, Ferreira diz para dona Ritoca:
de dedos entrelaçados, as mãos de seu Nunes são imóveis, são duras, são
geladas, parecem de ferro. – Está tudo quieto, Ritoca... Só se mexe a copa das árvores, veja...


176 |ESTRADA PERDIDA 177
Dona Ritoca não descola a cabeça do espaldar da cadeira, não tira os olhos – Você está me enganando, Ferreira... Eu sei o que é essa febrinha de todas
da nuvenzinha esfiapada, perdida no céu limpo: as tardes, essa febrinha que estou sentindo agora... E aquele suor de noite?
Eu sei... Eu... eu... eu estou tuberculosa, a gripe me deixou tuberculosa... A
– Calor, Ferreira... Dezembro entrou quente... herança não falhou...
A cabeça se descola do espaldar da cadeira, os olhos se desviam da O choro, o choro que chegou irreprimível e sacode as costas frágeis de
nuvenzinha esfarrapada, fitam os olhos do dr. Ferreira: dona Ritoca – não quer permitir. Mas a mão trêmula consegue esterder-se,
– Este é o meu último dezembro, Ferreira... o dedo translúcido apontando o outro braço magríssimo, quase caquético:

Os olhos do dr. Ferreira fitam, demoradamente, o rosto cavo, os braços – E estes braços de palito? (As mãos apalpam iradas os seios mortos) E
magríssimos, as mãos descarnadas de dona Ritoca, que abarcam os braços este peito sumido? Eu sei, eu sei...
da cadeira de embalo. Os olhos do dr. Ferreira desviam-se rápidos dos olhos O choro irreprimível. O choro profundo e sem controle teima em sacudir
brilhantes de dona Ritoca: as costas fragílimas. Os dedos magros do dr. Ferreira chegam ao máximo no
– Não diga tolices, Ritoca! Último dezembro o quê! Você não tem mais tamborilar das faces cavas. Param, estendem-se, alongam-se na direção de
nada, você está boa... Lígia e Roberto, que chegam correndo do bojo do mato.

Dona Ritoca abana a cabeça e sorri incrédula: – Lígia! Roberto!

– Eu sei... O menino e a menina sobem, correndo, os degraus de pedra.

Dr. Ferreira fala, sempre sem olhar dona Ritoca: – Que é, vovô?

– Pois saiba, mesmo! Você não tem mais nada! Você escapou da Espanhola A ordem é dada com nervosismo, em atropelo:
e ainda fala?! Você não morreu, como o primo Rodrigues, como o seu – Vão dizer pra sua mãe me trazer o aparelho aqui no patamar. Para trazer
Nunes, como tanta gente, morreu?! Tolice, Ritoca! Você não tem nada! Você a mesinha do gabinete, que é pra botar o aparelho em cima. Vocês ajudam a
se queixa de farta!... trazer os discos. Andem! Andem!
O leve, o tristonho sorriso desaparece dos lábios pálidos de dona Ritoca. E, quando Lígia e Roberto já iam entrando na porta da varanda, na porta
A aflição, a dor chega aos olhos brilhantes, que fitam, desesperadamente, o que dá para o patamar:
vulto do dr. Ferreira, apoiado no corrimão de pedra, recortado contra o azul
claro do céu limpo. A aflição, a dor chega aos olhos brilhantes, que pedem, – A Carmem, ouviram? A Carmem!
que reclamam socorro ao vulto do dr. Ferreira:
***
– Então o que é esta febrinha que sinto todas as tardes? O que é esse suor
que me vem de noite? Estampados na madeira reluzente dos bojos profundos, – os dois homens
brancos nus, retesos no perene arremesso gorado, vão lançar longe, muito
Os dedos longos, os dedos magros da mão esclerosada do dr. Ferreira longe, os discos prateados.
tamborilam no rosto cavo, aflitos, desnorteados:
A voz quente e máscula sai aveludada de um dos bojos recurvos. Estanca
– Tolice, Ritoca, tolice... Você está boa... as lágrimas dos olhos brilhantes e doridos de dona Ritoca, acaricia o rosto
descuidado de Ana, afaga os olhos fechados do dr. Ferreira, desce, passa
Os olhos doridos, os olhos brilhantes pedem mais, mais socorro ao vulto pelo rosto trigueiro de Lígia, desce mais, roça os olhos distraídos de Roberto,
que se apoia no corrimão de pedra e é uma silhueta recortada contra o azul desce mais ainda, avança pelo jardim, roça as roseiras, os sagus e os mimos-
do céu: de-vênus, entra pelo mato, mistura-se com o vago vento, que agita de leve as
primeiras folhas das árvores, perde-se, dilui-se no azul limpo do céu.


178 |ESTRADA PERDIDA 179
Os longos, os magros dedos da mão descarnada do dr. Ferreira ajudam o 16.
tenor, marcam-lhe o compasso. A mezza-voce trêmula e murmurada ensina
ao tenor a melodia apaixonada e morna:
La fleur que tu m’as donnée, Lígia passou o rosto requeimado entre os dois gradis, que parecem
labaredas de ferro eternamente acessas e oscilantes. Os olhos negros
Carmen, prescrutaram a rua poenta, viram o carro bulhento, o carro, com o cocheiro
de cartola alta, passar veloz, viram a carroça vindo logo depois, envolta na
Je la porte sur mon coeur... polvadeira vermelha, que o carro levantou.
Descansando os braços sobre a madeira do balcão, estão o farmacêutico e O pescoço moreno espichou-se, a cabeça foi mais fora ainda, os grandes
a mulher. O farmacêutico dá a palmada escandalosa nas nádegas cheias da olhos negros prescrutaram, prescrutaram inquietos. Mas, brilharam de
companheira. Ri: alegria, quando o bonde apareceu, surgindo da curva distante, aproximou-
– A Espanhola nos concertou, minha velha! Doze contos de lucro líquido se, cresceu, cresceu diminuiu a marcha, deixando Luís saltar, continuou,
em dois meses justos... Dois meses justos, sim. Não foi em 16 de outubro que zuniu, sumiu-se.
a Espanhola começou? E hoje é 15, não é? Foi, sim. Dois meses justos... Quando Luís pôs o pé na calçada, já o portão se abrira e Lígia o esperava
Grande riso. Nova palmada escandalosa nas nádegas cheias da com o grande sorriso na boca vermelha e carnuda.
companheira: Lígia se aproximou de Luís, chegou-lhe bem perto o anguloso, o bonito
– Dois meses de lucro! ... Doze contos!... rosto trigueiro, os grandes olhos negros bem abertos, sem piscar. Estourou-
lhe, na gargalhada:
Mais um riso, mais uma palmada:
– Então, pandorga, não morreste?!
– Fiquei tão acostumado a lucrar com a desgraça dos outros que não estou
estranhando que não tenha ganho nada com a morte do Sidônio Pais... Porém, à expressão intensamente satisfeita, que fez o rosto trigueiro
brilhar como se estivesse molhado de água fresca, de água purrísima – à
A mulher estranha: expressão satisfeita sucedeu logo a inquietação. As sobrancelhas espessas
contraíram-se, apreensivas. O tom da voz foi meigo e quente:
– Sidônio Pais? Quem é?
– Mas como tu emagreceu, Luís!
– O Presidente de Portugal, minha velha! Foi assassinado ontem! Os
jornais deram... Luís faz o jeito orgulhoso:
A mulher dá de ombros. Faz o sorriso amigo: – A gripe me pegô de verdade... (O tom de orgulho cresce) Tu não teve
gripe, Lígia... Gripe é coisa danada, Lígia...
– Sai, maluco...
Lígia espicha o beiço, sacode a cabeça, agitando os cabelos fartos:
Nova palmada escandalosa nas nádegas cheias:
– Não tive, não...
– Maluco?! Maluco ficaria eu, sim, se viesse uma nova Gripe Espanhola!
Doze contos! Em dois meses, minha velha, em dois meses! A ruga de contrariedade, que nascera na testa lisa e grande, desapareceu
logo. Os ombros sacudiram longe a grande vergonha de Lígia não ter tido
Última gargalhada. Última palmada nas nádegas cheias.
gripe. A nova gargalhada irrompe barulhenta:
– Gripe não dá em Generala!


180 |ESTRADA PERDIDA 181
A gargalhada não quer parar. Continua, enquanto Lígia toma do braço de Luís explica:
Luís, entra pelo grande portão aberto, sobe as pedras irregulares do pátio,
pela sombra densa das enormes paineiras espinhudas. A gargalhada só – A vovó não queria dexá eu vi... Me pegô a mão e não queria largá mais...
aqui, debaixo da grande sacada do gabinete, junto ao banco de ferro. Lígia Lígia confirma:
ainda se atrapalha para repetir:
– A vovó agora tá com essa mania... Pega a mão da gente e não larga
– Gripe não dá em Generala, Luís!... mais... E pega a chorá...
Agora a alegria de Lígia contagia Luís, que ri o seu risinho tímido e afirma: O tom vagamente tristonho desaparece. O braço de Luís é tomado outra
– Mas dá em tenente... vez:

Lígia acha muita graça na piada de Luís. Ri, ri, os grande olhos negros se – Vamo mexê com o Roberto?
molhando como se Lígia estivesse chorando. Lígia não espera a anuência de Luís. Arrasta-o para debaixo da janela de
Todavia, já perto da escada das hortências, a seriedade veio súbita ao guilhotina, cuja metade inferior está erguida e se confunde com a superior.
rosto trigueiro. A ordem foi dada com severidade: Grito irônico:

– Vai duma veiz falá com a vovó pra nós dois í brincá no morro... – Renoo! (Pausa) Renoo!

Luís estranha: Roberto aparece na janela:

– Nós dois? E o Roberto? – Vai plantá batata, guria besta! Eu vô contá pro papai qui tu tá me
atrapalhando pra fazê a cópia!
Lígia sacode a perna, impaciente:
Vozinha refinadamente irônica de Lígia:
– O Roberto tá de castigo... O papai deixô ele copiando a lição de geografia
todinha... Tem que tá pronta quando o papai voltá... (A perna sacode com – Tô atrapalhando o castigo, é, Renô?
mais impaciência) Anda! Vai falá com a vovó duma veiz! Eu espero aqui na Roberto se vinga com a cheissima cuspida. Mas Lígia salta para o lado.
escada... Convida:
– Tu não qué brincá no morro, Renozinho?
*** Roberto nota Luís. Vinga-se nele:
Contra o claro do corrimão da escada, contra o verde e o lilás das hortências, – Que qui tais olhando, lesma? Nunca viu, cara de pavio?
cujos cachos enchem as colunatas do corrimão – contra esse fundo, o rosto
trigueiro de Lígia é mais bonito. E amadureceu, e antecipou-se muitos anos, É Lígia quem responde por Luís:
e é o rosto de u’a moça morena, de uma rapariga trigueira, cujas sobrancelhas
– Primeira vez que ti vejo, cara de percevejo!
espessas se contraem contrariadas, mas duma contrariedade que, ao mesmo
tempo, é antevisão de prazer, de satisfação intensa. Novamente Lígia arrasta Luís, leva-o, guia-o, transfarma-o em coisa que
apenas obedece.
Quando a porta lá do patamar da escada se abre, fanhosa, o rosto
contrariado da rapariga trigueira torna a ser o rosto bonito da menina As primeiras árvores do mato ficam para trás. As folhas secas, os gravetos,
morena e assexuada, que se levanta ágil e grita contente: são amassados pelos pés vagarosos. Os pés vagarosos estacam, rentes ao
poço abandonado, ao poço sem reboco, de tijolos pardacentos e úmidos,
– Puxa qui tu demorô, Luís!
cobertos de limo.


182 |ESTRADA PERDIDA 183
Lígia abandona o braço de Luís. Aponta a lata velha de compota, a lata escuros, o revérbero das janelas, as duas torres altas da Igreja das Dores, que
enferrujada, junto ao poço. Fala, séria: sobem, que parecem mais altas que o morro, a estrada azul-claro do rio, que
serpenteia, que abraça a cidade, que desliza reta, que de novo serpenteia,
– Tu tá vendo essa lata? os recortes verdes das ilhas fronteiras, a distância mal delineada da outra
Luís meneia a cabeça, concordando. Lígia prossegue: margem do rio, que se alonga, foge, leva ao país misterioso e sem nome.

– Pois eu sô capais de enchê ela de água do poço e bebê... Luís fala, ainda de respiração entrecortada:

Luís retruca, medroso: – Como é qui o Roberto tá fazendo castigo? Não tem exame este ano...
Todo mundo vai passá sem fazê exame...
– Tu tá doida, Lígia? Essa água mata... Dá tifo!
Lígia também fala de respiração entrecortada:
Lígia deixa a cabeça tombar para trás, os cabelos fartos se abrindo sobre
os ombros. Os grandes olhos negros cintilam. O tom da fala é de êxtase: – O papai disse qui é uma vergonha essa história de passá por... por...
como é mesmo?
– Não tenho medo... Um dia bebo essa água...
Luís ensina:
Neste momento é Luís quem toma do braço de Lígia, quem quer arrastá-
la. Não consegue. Lígia, sempre de cabeça caída para trás, sempre de cabelos – Decreto...
esparramados sobre os ombros, sempre de olhos cintilantes – Lígia não quer Lígia continua:
se afastar. Puxa o braço, desvencilhando-se de Luís. Fala:
– Pois é. Passá por decreto. O papai disse qui é uma vergonha. Perguntô
– Um dia bebo mesmo... Não tenho medo... umas coisas de geografia pro Roberto e ficô furioso porque o Roberto não
Mas de repente a cabeça baixa, os olhos retomam a expressão costumeira. sobe. (Risinho) O Renô tá copiando toda a lição das serra do Brasil... Tem
E é Lígia quem toma o braço de Luís, é Lígia quem o arrasta, é Lígia quem que tá pronta quando o papai voltá do serviço, meio-dia...
convida: Pausa, cheia do zumzum afastado da cidade, o zumzum que vem
– Vamo no morro, pandorga! da distância enevoada, sobe pelas carquejas, pelos treme-treme, pelas
vassouras, pelas moitas do morro, envolve os guris, os dois filhos de
A corrida começa, passando pelas muitas, pelas altas árvores enfeitadas samurais, displicentes, fitando a paisagem amável. Lígia faz o novo risinho:
de barba-de-pau, passando pela pedra redonda, premida pelas raízes
tentaculares da árvore, passando pelos bancos, pela mesa da clareira, – Tu é qui tá gostando, hein?
passando por mais árvores altas, passando pelo grupo das pedras, das Luís não compreende:
pedras longas e chatas, redondas e pequenas, passando pelas últimas
árvores, chegando à claridade do morro, do morro verde, que sobe, sobe, – Gostando do quê?
bate no céu tão azul.
Os olhos de Lígia têm o trejeito gaiato:
***
– Aula agora só em março, hein? Coisa boa, de ... decreto, não, pandorga?
O calor, o fogo que abrasa o rosto trigueiro de Lígia e o rosto pálido
de Luís – impõe o silêncio. As bocas descerradas, aspirando o ar morno, Luís concorda, sacodindo a cabeça, o riso tímido exprimido nos lábios
as pernas cruzadas ao modo oriental, eles sentaram na sombra rala da finos. Lígia também rindo lhe fita as mãos pálidas e magras, descansando
pitangueira e olham a cidade distante, escutam o zum-zum abafado da no verde da relva. Para o riso e exclama:
cidade afastada, da cidade toda coberta do azulado da lonjura, que cobre, – Como tu emagreceu com a gripe, Luís! Parece qui a gente enxerga o
num nevoeiro vago, as paredes brancas das casas, os telhados vermelhos e outro lado da tua mão!


184 |ESTRADA PERDIDA 185
Ao ar consternado seguiu o quê, sério, adulto: Ri, ri muito, os grandes olhos negros brilhando de gozo. Convida,
zombeteira:
– Tu vai passá duas semana aqui, não vai? Eu vô ti cuidá... Vô ti engordá...
Tu vai enjoá gema de ovo com vinho do Porto, de tanto qu’eu vô ti fazê – Vem me pegá! Vem me pegá, pandorga!
comê... Vô ti deixá mais gordo que a Bilina...
Luís corre, corre no encalço de Lígia, pulando por sobre os tremes-tremes
A mão trigueira toma a mão de Luís, envolve-a entre os dedos morenos, frágeis, saltando por cima dos tufos verde-claros das carquejas, arranhando-
aperta-a. se nos gravatás traiçoeiros, correndo, descendo o morro. Porém Lígia, como
sempre, é a boneca infatigável, a boneca ágil, a boneca inatingível, que
– Como tu tá magro! (Risinho) Coitado do meu pandorga! negaceia, que para, que prossegue, que corre, corre, sem cansar.
A mão trigueira abandona a mão pálida. A pergunta vem, brusca, Lígia só estaca, só deixa Luís alcançá-la no chão da pedreira, na sombra
completamente deslocada: fresca e úmida, sob a barraca vermelha, engastada da prata das pedras
– E o noivo da tua mãe ficô bom da gripe? faiscantes.

Luís sacode os ombros com indiferença. Responde, azedo: – Tu me pegô porque eu quis. Tu não me pega nunca...

– Ficô... Inveiz de morrê com a Espanhola... Os dois sentam, ali mesmo, sobre o chão úmido e vermelho. Lígia nota a
pedra grande, bem no centro do terreno aplanado. Lembra-se:
Lígia estoura na gargalhada:
– Oia a pedra qui o lobuno caiu em cima...
– Tu tá brabo qu’ele não morreu! Ô pandorga malvado!
Luís comenta:
Luís repete:
– Coitado do lobuno!
– Ele podia morrê mesmo...
Pausa. Ouve-se o rumor do bonde passando na rua próxima, a alavanca
Lígia retoma a seriedade. Diz, de voz perdida: adivinhando-se por cima da copa de muitas altas, correndo, sumindo-se por
detrás da ramaria de uma grande árvore qualquer. Lígia diz:
– E o coitado do primo Rodrigues...
– É aqui debaixo de nós qui o lobuno tá enterrado...
Luís sacode a cabeça, desolado. Lígia prossegue:
Nova pausa, desta vez sem rumor de bonde passando na rua próxima,
– Não pode mais esfregá a barba na cara da gente! (Outra gargalhada)
cheia apenas da respiração cansada de Lígia e de Luís.
Engraçado, o primo Rodrigues!
Lígia retoma na mão trigueira a mão pálida de Luís. Pergunta, brusca:
Lígia se ergue, toma a atitude marcial, grita com voz máscula:
– Tu teve medo de morrê com a Espanhola?
– Generala! Generala!
Ante o silêncio do companheiro, ergue-se, o vestido branco manchado
Torna a sentar:
pela nódoa parda da terra úmida. Afirma, com grande seriedade:
– Engraçado, o primo Rodrigues! Que mania!
– Tu teve medo, Luís...
Abraça Luís no abraço repentino. Aperta-o. Esfrega-lhe o rosto trigueiro
Nova pausa, desta vez cheia de rumor de correntes tinindo, das correntes
no rosto pálido, molha-lhe o rosto pálido com a boca úmida. De novo se
da carroça que passa na rua próxima. O tom vago, o tom misterioso vela as
ergue, de novo toma a atitude marcial, de novo fala com voz máscula:
palavras de Lígia.
– Tá vendo a minha barba?! Espinha, não é?


186 |ESTRADA PERDIDA 187
– Eu não tenho medo de morrê, Luís... Não tenho... Eu... eu... eu vô tomá 17.
a água do poço... Agora mesmo!
Peleu, entre os dois troncos espinhudos das paineiras, é a árvore rija, a
Lígia corre passa, passa pelo espelho redondo da cacimba fresca, entra no árvore que ficou preta no incêndio, no incêndio que não chegou a atingir a
mato, passa pelo grupo das várias pedras, pula por sobre um dos bancos copa, onde vicejam as flores grisalhas. O braço, erguido agora, é o galho de
da clareira, passa pela mesa rústica, passa pela pedra redonda, em cujo madeira retorcida e nodosa, o galho duro que se agita, batido pelo vento.
cimo a árvore se equilibra, segura pelos tentáculos curvos das raízes, passa
pelas muitas, pelas grossas, pelas altas árvores enfeitadas de barba-de-pau, A árvore negra fala:
sempre seguida de Luís, que vai gritando com desespero: – Foi despois que o mist Charles foi s’imbora pro Norte e despois qu’eu me
– Lígia! Para, Lígia! Lígia! Lígia! casei com a Tomásia. Foi despois, meninos...

A boneca agilíssima, a boneca inatingível, chegou ao poço abandonado, Lígia, Luís e Roberto, acocorados sobre as pedras irregulares do pátio, à
ao poço sem reboco, de tijolos pardacentos e raiados de limo. Juntou a lata sombra das altas paineiras espinhudas, escutam a narrativa da árvore negra. E
velha de compota. Mergulhou-a na água suja, riscada de fios de limo e a árvore negra fala, fala, sacudindo o galho do braço erguido:
coberta de teia de aranha. Mexeu, mexeu com a lata, limpando a água. – Foi despois, meninos... Eu me casei com a Tomásia e viemo pra Porto
Bebeu a água gelada, sôfrega, de um só sorvo. Alegre, quando o seu dotô Ferrera veio... Arranjei o achego na Companhia
Força e Luz, o seu dotô Ferrera me deu o terreno e fiz a casinha...
O galho preto e nodoso baixou, colou-se ao tronco da árvore, que continua
a falar:
– O nego veio era moço, nesse tempo... O nego veio já tava cum pedaço da
casinha pago, quando a Tomásia teve uma dô no estambo. Aqui, lá nela. O dotô
Ferrera tava de viaje. Vai antão a dona Ritoca me disse qu’eu fosse percurá o
primo, o dotô Rodrigue. O home tombém era moço naquele tempo, meninos...
Não tinha aquela barba... Foi entrando na casa, examinô a Tomásia e foi logo
dizendo. “Nego cagarola! A tua muié não vai morrê, nada! Ela percisa é de um
purgante! O que ela tem é farta de purgante! E tu também toma, nego cagarola!
Pra passá o cagaço!”
A árvore negra se sacode, na gargalhada contente, como se fosse batida pelo
ciclone, súbito.
– Aquilo era home muito bom, meninos... Com aquela mania de gritá, de
chamá os outro de medroso – aquilo era um coração de moça...
Silêncio. A árvore está parada, completamente imóvel, sob a calmaria da
manhã quente e ensolarada.
– Foi nesse tempo qu’eu conheci a dona Sinhá... Tombém é um coração
de oro. Tem pena dos pobre... Óie, o Marciano era muito doentinho, muito
enfezadinho, quando era guri. E a dona Sinhá ia lá em casa visitá a gente, vê se
o mulato ia mió. Levava ropinha pro mulato... Gente boa, gente boa, meninos...


188 |ESTRADA PERDIDA 189
O tom da voz da árvore negra velou-se. A comoção embarga-lhe a – Tô com dor de cabeça, Peleu... Dês de onte...
desenvoltura:
Peleu aconselha:
– Coitado do seu dotô Rodrigue! Espanhola marvada!
– Vá pedi remédio pro seu avô...
O galho nodoso, o galho forte ergueu-se irado. Mas baixou logo, de novo
colando-se ao tronco. A entonação comovida da voz continua: Lígia sacode os ombros. Os grandes olhos negros fitam as pedras irregulares
do pátio. A voz é cansada e fraca:
– Oie, meninos, é por isso que o nego veio às veiz fica pensando, fica pensando
e não atina... Nego veio é burro e não atina... Mais, mais... (O galho se ergue a – Não. Passa sem remédio...
meio, irado, trêmulo) mais pru que que gente boa ansim morre? Pru quê? Peleu ainda faz esta recomendação:
Lágrimas, lágrimas tímidas aparecem nos olhos baços e raiados de sangue. – Vá pedi, dona Lígia. Oie que dô de cabeça pode sê doença...
A entonação da voz grossa é mais comovida ainda:
Lígia de novo sacode os ombros, indiferente. Não fala. Continua acocorada
– Que que adianta a pessoa sê boa, se despois morre do mesmo jeito que e fitando as pedras do pátio.
os ruim? (O galho irado se ergue todo, treme, batido pelo vento) A espanhola
levô o seu Nune, aquele mexeriquero ruim, não levô? Mais levô tombém o dotô Peleu repete o riso:
Rodrigue, um home que não fazia mal nem pra uma formiga... (O galho baixa,
– Vô trabaiá no jardim, meninada. Vanceis me dexaro vagabundo...
se cola ao tronco da árvore, inerte, vencido) Não paga a pena sê bom, meninos!
Mas, quando Peleu se dirige para a frente do casarão, os grandes pés negros
Uma das lágrimas, tímidas, rolou rápida dos olhos raiados de sangue,
se esparramando sobre as pedras irregulares do pátio – Luís pede:
molhou o bigode grisalho, a beiçarra polpuda e roxa.
– Peleu, canta o Quizomba...
– Coitado do seu dotô Rodrigue!
Peleu não quer. Prossegue rumo à frente do casarão. Roberto também pede:
O galho se ergue, dobra-se. A mão calosa e grande enxuga as lágrimas
tímidas, enxuga a beiçarra polpuda. O riso vem, também tímido, à beiçarra – Canta, Peleu...
arroxeada:
A este novo pedido, Peleu atende. Estaca. Volta-se para os guris. Ri mais
– Nego veio é besta que nem muié... Por quarqué deréis de mel coado, pega uma vez:
a chorá... Não arrepare, meninos... Nego veio é muito besta...
– Vanceis não qué me dexá trabaiá, meninos! Tá bem. Canto, mais só uma
O riso tímido se transforma em riso franco e gostoso: veiz...
– Nego veio vai trabaiá, meninos! Vanceis inté me fizero esquecê o jardim... Começa o canto do bugio fortíssimo, do bugio que, aos poucos, se vai
Seu dotô Ferrera vai me passá carão... penetrando do ritmo molenga e sincopado, que aos poucos, vai se transportando
ao reino de Oxu, Ogun, e Ajê-Xalunga.
Luís e Roberto se erguem. Lígia continua acocorada sobre as pedras
irregulares, sob a sombra espessa das paineiras. Peleu sai de entre os dois
troncos das paineiras, deixa de ser a árvore queimada pelo incêndio. Para,
notando que Lígia não se ergueu: Ivem, ivem o quizomba,

– Que que a senhora tem, dona Lígia? Tá com jeito aborrecido... ó querida mariposa,

Lígia ergue os grandes olhos negros. Explica: o quizomba!


Tem anel de prata,


190 |ESTRADA PERDIDA 191
o quizomba, o quizomba,
pra dá pras mulata, pra dá pras muié,
o quizomba! o quizomba!

Luís e Roberto arregalam os olhos, contêm a respiração, atentíssimos ao As palmas estrugem, os gritos irrompem da frente do lado do jardim:
canto grave e envolvente, atentíssimos aos pulos desengonçados, aos saltos
loucos, aos meneios lúbrigos do bugio fortíssimo, que dança, dança, os olhos – Muito bem! Muito bem!
cerrados, tomado do êxtase místico. Lígia não ouve, nem vê. De olhos fitos nas O bugio serena, volta a ser o negro Peleu. A vergonha acinzenta a cara retinta:
pedras irregulares, ela continua acocorada, o rítus de dor contraindo a boca
vermelha e carnuda. – Foro os menino, seu dotô Ferrera! Eu não queria! Eles pediro pra cantá o
Quizomba... Eu não queria! Eles pediro... E eu se alembrei da Bahia, do Sinhô
do Bom Fim. A gente se alembra da terra da gente e fica besta, seu dotô. Eu não
Ivem, ivem o quizomba queria... O sinhô me discurpe. O seu Antônio tombém me discurpe...

ó querida mariposa, Dr. Ferreira e Antônio riem. Dr. Ferreira pergunta:

o quizomba! – Desculpar do quê, Peleu?

Tem anel de ouro, A cara retinta do Peleu ainda está cinzenta de cábula. Peleu fala, olhando as
pedras irregulares do chão.
o quizomba,
– Da malandrage, seu dotô. Nego veio tá dançando e cantando, inveiz de
pra dá pras criola, trabaiá...
o quizomba! Dr. Ferreira e Antônio riem mais desta vez. É Antônio quem faz este
comentário:
– Tu estás dizendo que és negro velho, Peleu... Tens mais de setenta anos,
Nesta altura, o bugio fortíssimo chegou ao máximo, atingiu o auge da fúria mesmo. Mas, por falar em negro velho, como vai passando a tua mulher?
mística, da fúria que o faz pular, saltar, enorme, desengonçado, parecendo
o grande pássaro, o estranho pássaro negro, que, se não fossem as asas tão Peleu não compreende:
pesadas, por certo levantaria voo, rápido, reto, veloz, em direção do céu
claríssimo, onde se escondem Oxu, Ogun e Ajê-Xaluga. Antônio explica, risonho:
– A mulher do negro velho está de barriga, não está? É por isso que eu
pergunto como ela vai... Dizem que touro velho não falha...
Ivem, ivem o quizomba
Peleu perde a cábula. O rosto volta ao piche de sempre. A gargalhada estoura,
ó querida mariposa, grossa e satisfeita:
o quizomba! – Ora, seu Antônio! O sinhô tem tempo...
Tem dinheiro de papé, Ainda rindo a gargalhada grossa e satisfeita, Peleu se afasta, sai do pátio das
pedras irregulares, desaparece na frente do casarão, rumo ao jardim.


192 |ESTRADA PERDIDA 193
Lígia levantou, sempre com rítus de dor na boca vermelha e cheia. Fez um paineiras espinhudas, desaparece, dobrando para a frente do casarão, sempre
aceno para os meninos, convidando-os a ir para o jardim. Mas Antônio lhe seguida dos guris.
notou o jeito doentio. Chamou-a:
Antônio insiste para o dr. Ferreira:
– Venha cá, minha filha!
– Não sei, mas Lígia está tão assim, tão calada, tão quieta... Desde ontem...
Lígia se aproximou, com o quê contrariado no rosto trigueiro:
O grito alegre, o grito agudo de Lígia vem lá do jardim:
– Sinhor, pai?
– Não vale, não vale, Roberto! Tu não me pegô!
Antônio toma-lhe o rosto entre as mãos. Olha-a nos olhos. Diz para dr.
Ferreira: Dr. Ferreira bate no braço de Antônio:

– Essa menina não anda bem, doutor. Muito calada, muito quieta... Esta – Escute, ó! Criança doente não brinca...
menina não anda bem... Antônio concorda com o leve meneio de cabeça, a preocupação lhe
Lígia quer fugir, quer tirar de entre as mãos gordas do pai o rosto trigueiro e escurecendo ainda o rosto gordo e claro. Dr. Ferreira lhe toma do braço e
contrariado. Antônio não deixa: recomeça a inspeção no pátio das pedras irregulares, que estão sempre cobertas
pela sombra densa das altas paineiras espinhudas.
– Espera aí, menina chucra!
Dr. Ferreira chama Lígia:
– Venha cá...
Lígia se aproxima do avô, sempre com o ar contrariado. Dr. Ferreira interroga:
– Você não está sentindo nada?
Lígia faz que não com a cabeça, sacudindo os fartos cabelos negros, os
cabelos que se esparramam sobre os ombros morenos. Dr. Ferreira prossegue
no interrogatório:
– Não está com dor de cabeça?
Lígia continua a negar, sacudindo os cabelos fartos. Dr. Ferreira manda:
– Bota a língua pra fora!
A língua cheia, a língua gorda, de ponta aguda, a língua de um vermelho
menos forte que os lábios túmidos – a língua apareceu reluzente. Dr. Ferreira
dá o tabefe amigo nas bochechas trigueiras.
– Você não tem nada. Vá brincar, vá!
Mais esta vez, Lígia é a boneca inatingível, a boneca velocíssima, a boneca
ágil, que capitaneia os guris, que vai correndo na frente, seguida dos
companheiros, abandona o pátio, as pedras irregulares, a sombra densa das


194 |ESTRADA PERDIDA 195
18. O beiço roxo e duplo se estica ainda mais, parece que vai cobrir o queixo
lustroso:
– A toitada vai molê igualzinho cumo a tia... Eu me alembro... Tifo é ansim...
Os doridos, os profundos, os lamentosos gritos penetram no cérebro de Luís. Esses guito é dô na baliga... Dói... dói... Vai molê a toitada! Puça doença
Mesmo aqui no corredor penumbrento, mesmo aqui na porta do quartinho extomundada.
do alçapão, mesmo aqui na varanda inundada da luz que entra pelas vidraças
abertas, os gritos doridos, os gritos lamentosos penetram o cérebro de Luís. Os olhos de Luís se agrandam:
Na cozinha distante e escura, aqui no fim da casa – os gritos chegam abafados, – Então tu … tu... tua acha qui a Lígia vai morrê?!
mas revelando ainda a profunda, a lancinante dor.
O beiço roxo se estica outra vez, outra vez cobre o queixo lustroso:
Umbelina destampa a panela fumegante. Tampa-a novamente. Comenta
com Luís: – Mole sim. Doença extomundada!

– Toitadinha da minina... A angústia traz a sensação de vazio ao peito de Luís, resseca-lhe a garganta:

Luís concorda, sacudindo a cabeça. Olha o mato, tão próximo, aparecendo – Então, vai morrê?!
pela janela aberta. Vê o joão-de-barro, saltando do galho para o chão. Vê que A sacudida leve da cara parda e gorda confirma, seguida do suspiro fundo,
o vultinho pardo caminhou nos pulinhos rápidos e elegantes, o bico batendo do suspiro que encheu os seios fartos.
na terra, levantando pedacinhos minúsculos de gravetos. Vê que a bolinha fofa
e pardacenta, de repente, correu, assustada, levantou o voo rápido, voltou ao Os gritos distantes continuam a chegar à cozinha, abafados, continuam a
galho da árvore. penetrar no cérebro de Luís, aumentando-lhe a angústia, aumentando-lhe a
sensação de vazio. Luís despende um grande esforço para conseguir descolar
Chegando ao galho da árvore, o joão-de-barro abriu o bico e explodiu o canto os lábios secos e indagar:
estridente e agudo.
– Por que qui ela não qué me vê, Bilina?
No cérebro de Luís, o canto agudo do joão-de-barro se entremeou com os
gritos lancinantes, que continuam a chegar, abafados, vindos lá da frente do Umbelina levanta do mocho guenzo, torna a destampar a panela, torna a
casarão. tampar. Volta ao mocho guenzo:

Luís desvia os olhos do retângulo colorido da janela. Passeia-os pela cozinha, – Essa doença é ansim... O doente peda implicança cum as pessoa...
olha as prateleiras escuras, cobertas de jornais recortados nas bordas, olha o
Neste instante, o grito abafado redobrou de força, pareceu o grito de alguém
fogão preto, com o fogo adivinhado na portinhola entreaberta. Nota as panelas
que está sendo assassinado, com a mais terrível das mortes. As lágrimas
chiando. Vê Umbelina, que neste momento está sentada no mochinho guenzo
encheram os olhos de Luís, enquanto a sensação de vazio se mesclou à de
e repete:
náusea e a garganta ardeu como se Luís estivesse com febre.
– Toidada da minina!...
O novo grito dorido, o novo grito terrível puxou Luís, que abandonou a
Luís fala: cozinha, correu, entrou na varanda caiada da luz que jorra pelas janelas
erguidas, passou pelo quarto sem porta, pelo quarto do alçapão, correu pelo
– Tá doente muito... corredor escuro, chegou à sala de jantar, correu pelo outro corredor, entrou no
Umbelina estica o beiço roxo e desdobrado, o beiço duplo. Maneia a grande quarto de Lígia.
cara gorda e lustrosa: Contra o travesseiro branquíssimo, afundado no travesseiro branquíssimo, o
– Minina artera! Tem mandô ela tomá a água do poço? Te nem a tia, a sá rosto bonito de Lígia ainda é mais trigueiro, os grandes olhos negros são mais
Biloca! Igualzinha! Artera te nem a tia! Teimosa te nem a tia! negros, os cabelos fartos são mais negros.


196 |ESTRADA PERDIDA 197
A boca vermelha, agora pálida e de lábios fendido, a boca quer continuar – Chorando, Luís?
fechada, quer reprimir a dor profunda. Os dentes rilham no esforço incrível.
Porém o grito explode, profundo, doloroso, ao passo que as mãos morenas Luís nega com o meneio de cabeça. Mas a lágrima rola-lhe dos olhos,
afastam a colcha branca, crispam-se, apertam o ventre, que arfa sem parar. desmentindo-o. Prossegue a voz amiga do avô:

– Mamãe! Mamãe! Não posso mais, mamãe! Ai minha barriga! Ai minha – Eu sei por que que você está chorando... É porque a Lígia não lhe quer ver,
barriga!!! não é?

O grito cessou de súbito. O alívio repentino serenou o rosto trigueiro. Mas Luís confessa, ainda com o maneio de cabeça. A voz amiga continua a fluir
por pouco, porque Lígia tornou a gritar, quando avistou Luís, apontando-lhe do cavanhaque grisalho:
a porta do quarto: – Mas você não deve ficar triste com isso... No tifo os doentes têm ódio das
– Vai t’imbora! Vai t’imbora, lesma! Vai t’imbora! pessoas que mais querem... A Lígia é muito sua amiga...

Luís não quer sair, fitando Lígia com os olhos aparvalhados. Lígia repete, Ao novo grito lancinante, dr. Ferreira abandona Luís e se precipita para o
com uma intensa ira, com um grande ódio: quarto de Lígia.

– Vai t’imbora, lesma! Que qui tu tá me olhando? Vai t’imbora, lesma! Lesma! O vago sorriso vem aos lábios finos de Luís, que recorda a frase do avô.
Lesma!! Todavia as lágrimas continuam a embaciar-lhe os olhos, que, mesmo assim,
enxergam o joão-de-barro, cujo vultinho cor de tijolo, acinzentado pela névoa
Luís ainda não quer obedecer. Ana porém lhe faz um aceno, convidando-o a das lágrimas, teima em descer ao chão, em correr nos seus pulinhos miúdos e
sair, enquanto sorri um sorriso doloroso. elegantes, em erguer com o bico minúsculo gravetos imponderáveis.
Luís olha uma última vez o rosto trigueiro afundado no travesseiro branco,
os cabelos fartos, os grandes olhos negros de Lígia, que o fitam com ódio, que
sublinham mais esta ordem de Lígia:
– Vai t’imbora! Vai t’imbora!
Luís sai do quarto, corre para a sala de jantar, os olhos embaciados de
lágrimas.
Através das lágrimas, Luís, encostado à janela aberta, que também dá para o
mato, torna a ver o joão-de-barro, o joão-de-barro que outra vez salta do galho
para o chão, corre, nos pulinhos elegantes e miúdos, biscateia, o bico pegando
os gravetos invisíveis, outra vez se assusta e volta para o galho da árvore, outra
vez canto o canto agudo e estridente.
Mais esta vez, o canto estridente do joão-de-barro se mistura aos gritos de
Lígia, agora bem próximos:
– Mamãe! Mãezinha! Não posso mais! Ai, minha barriga, mãezinha! Ai,
minha barriiiiiiga!!
Os olhos de Luís ainda estão nublados pelas lágrimas, a angústia ainda lhe
esvazia o peito e lhe resseca a garganta, quando a mão longa, a mão magra, a
mão de veias salientes lhe pesa no ombro. Luís se volta e vê dr. Ferreira, que
fala, de olhos baços perdidos, a voz amiga fluindo do cavanhaque grisalho:

198 |ESTRADA PERDIDA 199
19. Lígia, naquele dia, acocorada, dizendo pro Peleu que estava com dor de cabeça,
mas que não tinha importância. Aquela coisa acocorada parece que está se
mexendo! Irá se levantar?! Não, não, Lígia! Não vem! Luís não quer, Luís tem
O alçapão está duro, não quer ceder. Mas Luís pega com as duas mãos a medo, sim, Luís tem muito medo!
alcinha de couro, puxa-a com toda a força dos seus braços magros, geme, Luís foge do cerne da treva, abandona o subsolo do alçapão, precipita-se
funga. Em pouco o pó cinzento, que é uma tira fininha grudada ao longo do porão adentro, quase tropeça no varal do carro abandonado.
quadrado de madeira, vai se rachando, vai fendendo, como terra escura se
abrindo no terremoto. A tampa salta, de súbito, quase derrubando Luís. E o O medo vai ao máximo, o coração quase estoura de tanto bater, quando, com
buraco, o escuro buraco, revelando apenas o primeiro degrau da escada, se o golpe no varal, a galinha salta do todo do carro, no voo barulhento, pousa no
abre, fundo, amedrontador, transbordante de treva. chão duro, cocoricando desesperada, foge pelo portão aberto, desaparece na
luz rala da manhã nevoenta, sempre cocoricando desesperada.
Luís olha o buraco insondável. Quer descer, colocando o pé no primeiro
degrau da escada. O coração, porém, bate forte, enchendo-o de medo, do medo Os olhos de Luís bebem, sôfregos, a luz rala e baça, como se a manhã nublada
que o faz retirar o pé da treva do abismo. fosse a mais clara, a mais luminosa das manhãs. O coração diminui as batidas.
As mãos deixam de tremer. O sorriso tímido aflora aos lábios finos.
Os lábios finos cerram-se, estiram-se, controlando o medo, conseguem fazer
a coragem chegar. Galinhas sem-vergonhas! Galinhas porcas! Se o Marciano vê... Olha o toldo
como está, todo cheio de bosticas secas.
Luís, então, desce correndo a escada de poucos degraus, aporta ao cerne da
treva, o coração sempre batendo acelerado. Luís trepa no estribo, faz o carro ranger, estira-se, consegue olhar o toldo,
bem de perto. O piparote joga longe a bostica seca.
Os olhos fazem um grande esforço para enxergar. Semicerram-se. O foco
de luz pálida, que se insinua através da falha retangular da parede, de onde Com a lembrança seca e branca da galinha vai junto o medo de Luís, que
extraíram um tijolo, o fio de luz pálida ajuda os olhos de Luís, que aos poucos repete o sorriso tímido, desce do carro, torna a atravessar o porão e se dirige ao
vão se descerrando, que aos poucos compreendem, adivinham os detalhes da quartinho do baú.
treva.
A porta de tábuas presas pelo sarrafo em Z – se abre com um rangido,
Aquela mancha mais escura é o grande alicerce coberto de limo. Aquela coisa revelando o quarto cheio de caixotes, iluminado pela luz nevoenta, que entra
comprida e alta, aquela coisa esguia e escura, com certeza é o pilar de cimento, pela janela cortada de grades.
o pilar que sustenta a altura insondável e negra, a altura incompreensível.
Aquelas coisas quadradas e meio avermelhadas, batidas de cheio pelo fio da A um canto mais escuro, onde a luz nublada não vai com plenitude, está o
luz pálida – aquelas coisas se vê que são os tijolos nus, os tijolos sem reboco, baú, o alto baú de latão, descansando sobre os dois pedaços de caibros.
os tijolos da parede do quartinho do baú. Aquela coisa cor de prata, de que Luís corre para o baú. Abre-o com precipitação. Olha, olha, goza o baú, o
um pedaço tem um brilho opaco só o fio da luz pálida – também se vê que é a grande baú de latão, que tem manchas de ferrugem sujando-lhe o brilho de
lata velha de querosene, emborcada, esquecida no subsolo do alçapão. É a lata alumínio.
velha de querosene. A lata em que Lígia bebeu água do poço era de compota,
de compota de pêssego... Mas aquela coisa baixa, aquela coisa escura e sem Com o novo sorrisozinho estampada nos lábios finos, Luís olha as revistas
contornos, aquela coisa que parece alguém acocorado, alguém que vai pular velhas, as folhas soltas e amareladas de mais revistas, os jornais rasgados e
em Luís, que vai estrangulá-lo, aquela coisa que será?! antigos, os livros de todo o tamanho, alguns quase intactos, a maioria sem capa,
de capa solta ou de lombada arrancada, revelando os cordões das costuras,
Os cabelos de Luís se arrepiam, um calafrio lhe percorre a espinha, as mãos engomados de cola, as páginas furadas pelas traças.
tremem.
Onde está o maior, onde está o livro grande, sem capa, com falta de páginas,
Aquela coisa agachada, sim, aquela coisa agachada parece Lígia, parece mas guardando as figuras estranhas? Onde está?


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As mãos mergulham nervosas no mar de papel, reviram as revistas, reviram Mas... Mas aquela noite, em que a Umbelina veio no quarto de Luís e o beijou
os livros, fazem a barata escapulir afobada, sair do baú, subir pela parede de na boca, babusando-o, fedorenta – aquela noite foi só de nojo... Então o mistério
tijolos, desaparecer. será assim, nojento?
Aqui está! Aqui está! Apesar da recordação dos beijos de Umbelina, Luís não quer tirar os olhos do
corpo longo da mulher. O calor intenso continua a corre-lhe nas veias, contínua
Os dedos trêmulos folheiam o grande livro estragado. Procuram, procuram. a parecer sair do próprio corpo apunhalado da mulher.
Encontram.
A angústia chega ao peito de Luís, faz-lhe as mãos tremerem, abandonarem
O que está escrito em baixo é uma linguagem que Luís não compreende. o livro grande, deixá-lo cair no bojo fofo, sobre as revistas e os demais livros.
Porém a figura, a figura se oferece inteira a Luís, é nítida, é compreensível.
Quando a respiração se acalma e as mãos deixam de tremer, Luís torna a
No primeiro plano, a mulher e o homem, nus, flutuando no espaço negro, mergulhar o braço no baú, tirando o outro livro.
no espaço que Luís sente ser abafado e denso. O homem e a mulher, nus,
abraçados, flutuam no espaço, como se fossem puro espírito. Mas têm formas, Porém, a figura do livro menor, sem frontespício, todo rasgado, mas deixando
têm corpo, um corpo cheio e vivo. A angústia dá um aspecto de dor ao rosto do ler o título no cimo das páginas – MATIAS SANDORFF – a figura não interessa
homem, coberto de sombra, não se mostrando em todos os detalhes. O rosto da Luís. Os inúmeros barcos, rentes ao cais de pedra, de velas recolhidas, dando
mulher, porém aparece com toda a nitidez, estampa a beleza profunda, a calma a impressão de que o mar está eriçado de mastros vazios – os barcos não
intensa. E o corpo, o corpo perfeito e carnudo, o corpo longo, de seios rijos e interessam Luís, que faz MATIAS SANDORFF voltar ao bojo do baú.
eretos, de quadris acentuados – o corpo de onde o sangue escorre na ferida
aberta – o corpo é de uma vida tão forte, que parece ser em relevo. Precedendo As mãos descuidadas tomam a revista sem capa, amarelada, mas com todas
o corpo do homem e da mulher, e, ao mesmo tempo, seguindo-os, a multidão as páginas. Os dedos folheiam-na, displicentes. Param nesta altura. Os olhos
de corpos nus, os mais próximos nítidos, os mais afastados perdendo os batem no cimo da página. Leem, em letra bordada: REVISTA DA SEMANA.
contornos, formando a turba que flutua no espaço escuro e denso, a procissão Baixam.
que se alonga, se afina, se afina, até desaparecer, no infinito, no último, no Na reprodução do desenho a crayon, o grande Zepelin, bem baixo, atravessado
invisível plano da figura escura. por sobre a popa do navio, em cujo costado se estampa, mas grandes letras
O corpo nítido da mulher, o corpo cheio da mulher de rosto belo e calmo, o brancas, o nome MURYEK. Sobre o mar afitado, que envolve o navio, o escaler
grande corpo apunhalado, está tomando cada vez mais relevo, ante os olhos joga, cheio de gente. A um canto da figura, Luís lê: “A navegação mercante
atônitos de Luís. O mistério, o mistério gostoso, que se evola do corpo longo e do Mar do Norte protegida pelos zepelins contra os ataques dos submarinos
perfeito – o mistério envolve Luís, dá-lhe o calor bom, que lhe corre nas veias ingleses”.
túmidas. Desinteressados, os olhos de Luís baixam mais. Leem, em letras gordas e
O mistério impenetrável, mas que deixa adivinhar verdades esplêndidas, o negras: A EUROPA DEVASTADA PELA GUERRA.
mistério está cortando a respiração de Luís. O calor bom está atingindo uma Os olhos de Luís cintilam de interesse. Tentam ler:
intensidade tal que parece vir do próprio corpo da mulher. Sim, é do corpo
apunhalado da mulher, é do corpo longo e cheio, dos seios rijos e eretos, das “As tentativas, que se estão fazendo, para ocultar a importância militar política das
ancas acentuadas – é daí que vem o calor que corre, que lateja nas veias túmidas novas operações delineadas e executadas triunfalmente nos Balkãs pelos exércitos dos
de Luís. dois Impérios Centrais da Europa, não podem mais surtir...”

Que mistério será esse? Que coisas boas serão essas que o mistério À palavra “surtir”, o interesse desaparece e o vago muxoxo vem aos lábios
impenetrável deixa pressentir? Se o homem nu abraçasse a mulher nua, ainda finos. Os olhos vagam displicentes, detêm-se na outra página. Então, os olhos
com mais força, se a boca do homem procurasse a boca da mulher nua e se de Luís se agrandram, se esbugalham na emoção.
colasse a ela e a sugasse, sugasse? Será isso o mistério?
É horror, que há nesta figura, sobre a qual está escrito: DEPOIS DA


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PASSAGEM DO ZEPELIN, é pavor que há naquela mulher correndo de olhos ao quartinho do baú e estende os braços para Luís, prometendo-lhe revelar o
tapados pelas mãos, naquele homem que perde o chapéu enquanto corre, mistério impenetrável...
naquele menino que também foge desesperado e desnorteado. O poste está
torto. As casas estão esburacadas. A fumaça enche tudo, perfurada pela luz Luís tem medo, também. Luís sente que a aflição está chegando ao auge,
que se coa não se sabe de onde, fazendo cintilar as calçadas úmidas, o leito que a garganta parece de fogo. E deseja intensamente a presença de Lígia, a
cinzento da rua. E o leito cinzento da rua está manchado pelo sangue, que flui presença trigueira, descuidosa, risonha de Lígia morta.
do peito da menina, da pobre menina, cuja cabeça repousa no braço do guarda, A mulher voltou ao livro. E Lígia veio, sim, Lígia sorri para Luís, os brancos
do guarda que tem uma expressão tristíssima, enquanto a menina ferida sorri dentes afilados aparecendo no grande sorriso, o sorriso trigueiro mal adivinhado
apesar de tudo e sussurra a frase que está escrita por baixo da figura: “ – Não contra o pardo dos tijolos sem reboco.
digas à mamãe que é grave. Ela vai chorar tanto!”. E ao lado da menina, da
menina ferida, cujo sangue mancha o leito cinzento da rua enfumaçada – ao Luís, com a dor aguda no peito, corre do quartinho do baú, foge do porão,
lado da menina, o chapéu virado, as fitas vermelhas abertas sobre o leito da entra no pátio das pedras irregulares, corre no jardim, contorna os canteiros dos
rua. sagus, dos mimos-de-vênus e das roseiras, passa pela escada das hortências.

Horror! Horror! Então eles matam meninas, matam jogando bombas lá Roberto, no patamar da escada das hortências, grita:
de cima? Bombas covardes, que não avisam, que despedaçam, que matam
– Onde tu vai, lesma?
meninas? E o que terá feito a mãe da menina, quando o guarda veio lhe contar
o que aconteceu?! Horror! Horror! Mas o rosto de Ana, pálido, dolorido, apareceu na janela da varanda. Ana fez
sinal de silêncio a Roberto. Disse, em tom de choro:
A revista volta ao baú, volta ao bojo fofo, abandonada pelas mãos trêmulas,
que apalpam a garganta seca, que se crispam contra o peito ofegante. – Não, grite, meu filho. A sua irmã se enterrou ontem... Não faça barulho...
Então a guerra, a guerra de verdade é mesmo bem diferente da guerra que A última frase de Ana para o filho foi entrecortada pelo pranto. Se Ana
Luís, Roberto e Lígia faziam lá na pedreira, estendendo o braço. Pum-pum- conseguiu dizer mais alguma coisa a Roberto, Luís não ouviu. Porque entrou
pum! Até crianças matam na guerra de verdade... Até meninas... Mas as meninas no mato, passou pelo poço abandonado, passou pelas moitas, pelas árvores,
não estão brigando, não são soldados, vão pela rua passeando, não brigam. Por enfeitadas de barba-de-pau, aproximou-se da pedra redonda, sobre cujo dorso
que, então, que a guerra de verdade também as mata?! Por quê? de cúpula se esparramaram as raízes da árvore.
É incompreensão, que neste momento agranda os olhos de Luís, de Luís, que Sempre de coração batendo, sempre trêmulo, Luís sente a presença de Lígia,
continua a crispar as mãos sobre o peito, amarfanhando a camisa. de Lígia que sorri, que meneia o rosto moreno, que sacode os cabelos fartos.
Luís não pode compreender! Não pode compreender! Por quê? Por quê? Aproximando-se da pedra redonda, sobre a qual a árvore se equilibra, no
apoio das raízes tentaculares – Luís escuta a voz conhecida de Umbelina:
Se Lígia ainda vivesse, se Lígia estivesse agora ali no quartinho, talvez lhe
respondesse, talvez lhe explicasse. “Mas tu não sabe por quê, pandorga? É – Mi dá mais um bezo...
porque...” Sim, talvez Lígia soubesse explicar por que a guerra de verdade
mata as meninas que estão passeando na rua... A voz de Marciano, grossa, responde:

Mas não será Lígia que está ali naquele canto do quartinho acocorada no – Pera um poco...
canto da parede de tijolos sem reboco? Curioso, esquecido do medo, Luís se aproxima da pedra redonda, afastando
Luís tem medo. Luís tem medo... Não será Lígia? Ou é a mulher nua, a galhos finos, afastando cipós distendidos. Vê os dois corpos abraçados,
mulher da figura do livro grande, a mulher nua, de rijos seios eretos, de vastos deitados nas folhas secas, vê o grande corpo de Umbelina escondendo o corpo
quadris recurvos, de longo copo perfeito? É a mulher, sim, é a mulher que de Marciano, escuta a respiração opressa de Umbelina.
está ali, sozinha, sem o companheiro, que abandonou o companheiro e veio


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Corre, foge das árvores no mato, foge dos bancos da clareira, chega ao morro
coberto da vaga claridade. Um dia de 1919
E desanda num grande choro convulso, sempre sentindo a presença de Lígia,
que continua a sorrir, a menear a rosto trigueiro, a sacudir os cabelos fartos.
20.
Pé ante pé, Luís avançou pelo corredor sombrio e chegou à porta do quarto
dos avós.
De respiração suspensa, Luís olhou pela porta aberta. Viu Ana, dobrada
sobre a cama grande, enfiando um sapato em Dona Ritoca, o sapato preto,
que está custando a entrar no pé tão magro, no pé que um feixe duro de ossos,
pendendo da perna magríssima e que agora cai, pesado e inerte.
Dona Ritoca, deitada na cama grande e alva, está vestida como se fosse sair.
Os cabelos estão penteados, repartidos ao meio, puxados para trás. Dona Ritoca
de olhos fechados, Dona Ritoca de mão postas sobre o peito cavo, dona Ritoca
tão magra, tão menor que o vestido domingueiro, dona Ritoca de braços sem
carne, de ossos revelados, dona Ritoca de faces cavadas – dona Ritoca parece
que vai sair, que vai à missa, assistir à prédica.
Mas dona Ritoca, já com os dois sapatos pretos e novos, de sola sem uso
e rebrilhantes – dona Ritoca não vai sair. De olhos fechados, de mãos postas
sobre o peito cavo, de braços caquéticos – dona Ritoca não necessitará sair, para
ouvir a prédica do capuchinho. Porque daqui mesmo, ela escuta a prédica,
que, por certo, é bem interessante, pois que o sorriso feliz se esboça no rosto
descarnado e calmo.
Os golpes fortes de martelo, batendo em madeira, fazem Luís abandonar
a porta do quarto e correr para a sala próxima. Também aí Luís não entra e
apenas olha. Vê o homem trepado na escada de abrir, pregando o grande pano
preto no sarrafo que já está preso à parede, o grande pano preto, onde a cruz
dourada se estampa.
O que é aquela coisa grande preta? Parece uma cama... E aqueles canos
prateados compridos, nos quatro cantos da cama preta? Ah! É para botar as
velas, as grandes, as altas velas. O homem desceu da escada de abrir e está
colocando as velas nos canos prateados. A cama preta deve ser pra vó Ritoca. Vó
Ritoca se deitará nela, com seu sorrisso esboçado, com o seu corpo magríssimo,
com seus sapatos novos. Vó Ritoca ficará entre as quatro velas, iluminada pela
luz velas... Sim, deve ser isso. Com Lígia também foi assim, Luís se lembra. A
cama de Lígia, porém, não era preta, era branca, e Lígia, coberta de flores, não
tinha um sorriso no rosto trigueiro, mas um jeito de dor, um jeito de quem


206 |ESTRADA PERDIDA 207
tinha sofrido muito. Lígia... Lígia... – Não, Bilina... O vivente diz que não tá penando, mas tá... Prega mentira pra
não aborrecê os que ficô...
As novas batidas do martelo do homem ecoam no peito de Luís, trazem-lhe
a angústia, a angústia que cresce, que aumenta, que faz Luís fugir da porta da Luís interrompe:
sala, voltar pelo corredor sombrio, passar pela varanda vazia, correr pelo outro
corredor escuro, passar pelo quartinho do alçapão, passar pela varandinha, – Onde é que tá o Roberto? Voceis não viro?
sempre cheia da luz do sol, chegar à cozinha, afinal. É Isaltina quem explica:
A mulher de Peleu, sentada no mochinho guenzo, tirou o seio pequeno e – Ele saiu com o Marciano, seu Luís... Foro comprá frô...
bicudo para fora do decote rasgado. O bico longo, que mais parece um dedo,
enfiou-se na boca gulosa do negrinho retinto envolto nos cueiros sujos. A filha, Luís se aquieta no canto da cozinha, junto à prateleira enfeitada de jornais
hoje um pouco maior, está agarrada à saia de Marica, que grita impaciente, recortados. Fita o vulto negro do Peleu, aureolado pela claridade da janela
empurrando-a: aberta, fita Marica tornando a enfiar o seio na boca do negrinho faminto, fita o
imenso, o cheíssimo ventre de Isaltina, fita o vulto gordo e pardo de Umbelina.
– Sai daí, neguinha... E não escuta nada do que eles dizem. Apenas vê as bocas se mexendo, como se
Ajeita melhor o bico do seio na boca faminta do negrinho. Continua: fossem bocas de figura de cinema.

– Essa diaba não dexa o outro mamá... Agora Umbelina está rindo. E se dirige para ele. E continua a rir. E consegue
fazer-se entender por Luís:
Peleu, de cara compungida, não diz nada. Olha o mato próximo, aparecendo
pela janela aberta. Isaltina não acha jeito para sentar no outro mochinho, – O sinhô tá suldo, seu Luís? Eu tô dizendo tê o sinhô tá fitando di buço...
tamanho é o volume do ventre cheio. Consegue acomodar-se. Fala: Quarqué dia o sinhô tá di safadeza com as neguinha...

– Coitada da dona Ritoca... A grande risada gorda continua. Cessa, para dar lugar a esta nova frase:

Umbelina, acocorada junto ao fogão, para de soprar a labareda rebelde e – Tem sabe foi o sinhô tê feiz o fio tê a Isaltina tem na baliga? … Vô tontá pô
comenta: Maciano...

– Moleu a mãe da gente... O grande riso prossegue, provocando os risos tímidos de Isaltina e de Marica,
provocando o ar de censura na cara pichada de Peleu.
Marica, atenta à fome do negrinho, está calada e não se importa que a
negrinha volte a agarrar-se à sua saia suja. Peleu cessa de fitar o mato, através A nova onda de angústia invade o peito de Luís, fá-lo abandonar a cozinha,
da janela aberta. Sacode a cabeça retinta: correr pela varandinha, pelo corredor, chegar à varanda silenciosa.

– É por isso qu’eu sempre digo que não dianta sê bom... O vivente morre Luís para, junto à janela aberta da face posterior da varanda, que também dá
sofrendo, do mesmo jeito que os peste... Não tá certo não... para o mato próximo, para o mato, onde, neste momento, explodiu a cantoria
estridente dos joões-de-barro, das curruíras, dos sabiás e dos tibirras. Quando
Umbelina levanta, para de soprar a labareda rebelde, que resolveu o canto cessou, o joão-de-barro pulou do emaranhado da árvore, aterrisou no
transformar-se em chama viva, em chama que tenta sair para fora da portinhola chão vermelho, correu nos seus pulinhos faceiros, biscateou gravetos e palhas
encostada. Diz: imponderáveis.
– Mais, seu Peleu, a sá Titoca inté que não penô... Moleu falando, tontente, Havia um joão-de-barro assim, igualzinho a este, naquele dia que a Lígia
dizendo pô dotô não simpotá... estava mal, naquele dia que a Lígia dava gritos desesperados, os gritos terríveis,
os gritos pungentes.
Peleu não concorda:
A angústia torna a esvaziar o peito de Luís.


208 |ESTRADA PERDIDA 209
Luís se volta para dentro da varanda. Olha o sofá de palhinha, vazio, as – Nesse dia eu lhe disse que a vida era como uma estrada perdida, não
cadeiras também de palhinha e também vazias, olha o tapete de pele de tigre, foi? Que a vida vai ficando para trás, como uma estrada perdida, como uma
com a cara do bicho arreganhando as presas e arregalando os olhos de vidro. estrada onde não se pode mais andar, não foi? Pois, herr proféssor, isso é uma
Luís escuta o rumor abafado, vindo ali daquela porta, vindo do quarto fechado grande verdade. Guarde as palavras de seu pobre avô, do seu avô que não tem
de Roberto. Será choro? Sim, não tem dúvida que é choro. vergonha de chorar... A vida é uma estrada perdida, herr proféssor... A vida...
Luís se aproxima do quarto, cola o ouvido à porta fechada. Escuta os soluços A pancada leve, na porta fechada do quarto, interrompe dr. Ferreira, que
abafados e graves, os soluços amordaçados. ordena a Luís:
Docemente, Luís abre a porta. Não obstante, a porta range fanhosa e faz o – Vá ver quem é...
dr. Ferreira erguer-se da cama de Roberto, cujo travesseiro está molhado de
lágrimas. Luís volta, logo:

Luís quer fugir. Dr. Ferreira, porém, não permite. Dali mesmo, sentado na – É a mamãe. Taí com o marido e qué falá com o sinhor...
cama, dr. Ferreira diz: Dr. Ferreira se ergue da cama, compõe o cabelo, enxuga a última lágrima.
– Espere, herr proféssorr... Com um ar digno, fisionomia absolutamente controlada, dr. Ferreira sai do
quarto e se dirige para Elisa e o marido:
A mão magra e longa aponta:
– Bom dia, Elisa. Folgo muito em vê-la... Há quanto tempo...
– Sente aqui perto de seu avô...
Elisa explica, atrapalhada:
Luís obedece. Dr. Ferreira enxuga as lágrimas, com as costas da mão magra,
da mão de veias saltadas. Suspira. Faz o vago sorriso. Fala suavemente: – Eu vim lhe dar pêsames, dr. Ferreira. Num dia como este, eu acho que os
ressentimentos têm que acabar... Por isso vim, com o José, lhe dar pêsames...
– Espere, herr proféssorr... Você está estranhando que seu avô esteja
chorando, está achado esquisito, não? Um homem chora, não é? Mas... mas... Dr. Ferreira afirma, calmo:
herr proféssorr, há ocasiões que só chorando... o choro, o pranto, às vezes, é a – O que passou, passou, Elisa...
única solução... (A mão magra e longa enxuga a nova lágrima). A minha velha
morreu, Luís... Nunca mais verei a minha velha... Só chorando, herr proféssor... Elisa abraça dr. Ferreira. Depois apresenta o marido:
(Os lábios finos mordem o bigode grisalho) Você ainda não pode calcular o
– O meu marido, o dr. Ferreira...
que seja isto de duas pessoas se amarem, unirem-se moças, irem aos poucos
envelhecendo e um dia... Um dia separarem-se para sempre, um dia a morte Seu José, baixo, magro, diz, vermelho de cábula:
levar uma delas... A gente não se conforma, herr proféssor... Vai-se ficando
velho aos poucos, mas quando a gente se ama, é como se não envelhecesse, é – Muito prazer, doutor.
como se fosse sempre moço... Eu... eu sempre – mesmo hoje quando ela estava Tem grande dificuldade para alcançar dr. Ferreira e abraçá-lo. Ergue-se na
morrendo – tinha nos olhos a imagem de Ritoca no dia do casamento, de véu, de ponta dos pés:
flores de laranjeira, moça, bonita, pura... Talvez você não perceba essas coisas,
herr proféssor, mas a verdade é que a gente guarda a imagem do outro sempre – E meus pêsames, doutor. Meus sinceros pêsames...
moço, e, quando a morte nos rouba a companheira – a gente não se conforma,
herr proféssor... E chora... Chorar é a única solução... (Pausa, enquanto a mão Dr. Ferreira agradece. Seu José fala, torrencial:
longa torna a enxugar a nova lágrima) Você lembra daquele dia que eu lhe dei – O senhor talvez não se lembre de mim, doutor. Mas o senhor já me tratou
uma lição de ciências? quando eu era pequeno. O meu pai era dono do Armazém Gondoleiro e o
Luís faz que sim com a cabeça. A voz de dr. Ferreira continua a fluir suave senhor tratava toda a nossa família... O papai morreu e eu fiquei dono do
do cavanhaque grisalho:


210 |ESTRADA PERDIDA 211
Armazém... Um armazém muito sortido, doutor. Agora, então, os negócios
estão como nunca, estão de vento em popa. A Elisa me ajuda muito. A Elisa é Um dia de 1920
uma ótima caixeira...
Seu José ri, gozando a piada. Cala, ante o silêncio de doutor Ferreira. 21.
Luís, de novo na janela aberta, escuta o canto estridulo dos joõs-de-barro,
dos sabiás, das curruíras e dos tibirras, explodindo outra vez ali no mato,
quebrando o silêncio constrangido da sala. A fumaça azulada rola espessa das bocas abertas, sobe, em volutas lentas,
e, quando está no alto, quase tocando a abóbada recurva do vão da escada
das hortências – foge, rápida, levada pelo vento, abandona o recanto escuro,
invade o jardim inundado de sol, perde-se, desfaz-se na luz.
Roberto chupa, chupa o cigarro, fazendo a brasa atingir a um vermelho que,
de tão intenso, parece branco. Depois solta a fumarada interminável. Pergunta,
com orgulho:
– Tu viu que tragada?!
– Parece que tu pegou fogo... – diz Luís, começando a sua nova tragada, bem
menor que a de Roberto.
Roberto outra vez chupa, chupa, fazendo a brasa parecer branca. Outra vez
solta a fumarada grossa. Outra vez indaga com orgulho:
– Tá vendo?!
Luís desta vez não diz nada. Limita-se a gozar o toco de cigarro. Roberto
prossegue:
– Lá no Ginásio não tem ninguém que trague como o degas... nem o Maneca...
(Muchocho desdenhoso) Tu é canja...
Luís não retruca e continua a gozar o toco de cigarro, acompanhando, com
os olhos semicerrados, a fumaça azulada, que sobe em meneios lentos, bate
na abóbada do vão da escada, abandona o recanto escuro, levada pelo vento,
invade o jardim, perde-se na luz intensa. Roberto, depois de chupar a nova
tragada, com a brasa quase lhe queimando os lábios, desprende outra baforada
espessa e muda de assunto:
– Por que tu fuma” Iolanda”? Cigarro porquera... Eu não gosto... Bom é o
“Tamandaré”...
Luís responde, displicente:
– Eu gosto de “Iolanda”...


212 |ESTRADA PERDIDA 213
Pausa, cheia de ruído do bonde, passando veloz lá na rua, levantando o pó, o Seu José, pequeninho, magro, sentado, numa das poltronas de palhinha, os
pó que atravessa os gradis de ferro, entra no jardim, abafa as roseiras, os mimos- pés mal tocando o chão – seu José afirma para Antônio:
de-vênus e os sagus, vai até o pátio das pedras irregulares, vai até as paineiras
espinhudas, vai até as narinas dos guris, invadindo o recanto ensombrado. – Eu sempre digo pra Elisa! Esse guri ficou vagabundo foi da Gripe Espanhola,
Luís fala: daquela história de decreto... Decreto... Vagabundagem é que deviam de ter a
coragem de dizer... Eu sempre digo pra Elisa: com essa história de passar sem
– Tu te lembra do cigarro “Para Todos”? fazer exame, o vagabundo do filho dela viciou e deu pra pensar que não se
precisa estudar pra passar nos exames... (O dedinho magro se ergueu enérgico).
– Me lembro, sim. Dois anos, dois anos perdidos, seu Antônio... Um dinheiral posto fora... (Tom
Os lábios finos, os lábios apertados de Luís, se distendem no sorriso tímido: superior) Eu, afinal, não tenho nada que ver com isso. Ele não é meu filho. Mas
é uma injustiça gastar o dinheiro da gente assim. É um roubo (Tom de orgulho)
– Eu inda tenho a coleção guardada. Inteirinha... Ah! O meu pai sabia é que sabia me ensinar... Me meteu no balcão com ele,
fazendo pacotes de batatas, pegando pedaço de bacalhau e de charque... De
Roberto retruca, brutal:
modo que nunca fui vagabundo... Esse seu Luís, Elisa, é um grande vagabundo
– Bobage, guardá coleção... Coisa de marica... A minha nem sei onde anda... é que é...
Luís parece que não ouviu o comentário agressivo. O sorriso tímido perdurou Luís sente a onda de vergonha queimar-lhe o rosto. Explode, violento, para
nos lábios finos. o padastro:
Porém, quando os passos fortes se aproximaram da escada das hortências, o – Vá cuidá da sua vida, seu bodegueiro!
sorriso de Luís, desapareceu, o cigarro foi jogado no chão, esfregado, destruído
Os bracinhos de seu José se erguem indignados, tremem de ira:
pelo borzeguim lustroso. Também o borzeguim de Roberto esfregou, destruiu
o toco do cigarro, incrivelmente pequeno. – Você está vendo, Elisa?! Você está vendo o seu malcriadinho?! Digo coisas
pro bem dele e ele inda me vem com desaforos.
Marciano, arrastando o cabestro, que, como sempre, é a cobra que o segue,
que levanta o pó, que rasteja, – Marciano, vindo do mato, viu-os e notou-lhes o Antônio desvia o assunto, com habilidade. E enquanto Antônio fala, os
jeito assustado. Riu, afagando o bigode ralo: braços magrinhos de seu José vão deixando de tremer, acalmam-se:
– Os morcêgo se assustaro... – Você não viu, seu José, a notícia que o jornal deu de chegada dos reis da
Bélgica no Rio de Janeiro?
A cobra se foi, seguindo os passos calmos do Marciano, dobrou para a frente
do casarão. Nem ela, nem Marciano ouviram o desaforo de Roberto, dito em Os bracinhos de seu José dão um último arranco de ira. Voltam a acalmar-se.
tom agressivo, em voz grossa de homem zangado: Os olhos fitos, com um lampejo de raiva, os de Luís. Em seguida transformam-
se em olhos suaves e miram Antônio:
– Morcego é a mãe!...
– Vi qualquer coisa. Passei só os olhos. Lá no armazém o serviço é danado...
E vem o convite, ainda enérgico, para Luís:
Só se descansa nos domingos, sem contar os pedidos de gente que vem bater
– Vamo pra dentro? O papai pode desconfiá que a gente tava fumando e vi na porta... Se não fosse a minha caixeira... Não é, Elisa?
me cherá a boca...
Elisa baixa os olhos, não se sabe se por modéstia ou por cábula. Seu José
Os dois sobem correndo a escada das hortências, Roberto, grande, desenvolto, indaga a Antônio:
corpulento, chegando primeiro ao patamar, sobre cujas colunatas se debruça a
– Mas que que tem os reis da Bélgica, seu Antônio?
mancha lilás e verde das hortências, Luís, franzino e desajeitado, – depois.
Antônio narra:
***


214 |ESTRADA PERDIDA 215
– Chegaram ontem no Rio... Vieram no São Paulo, o nosso maior navio de porta mal fechada. Todos olharam para a porta da escada das hortências. Todos
guerra... Veio o Rei Alberto e a Rainha... Estão parando no Palácio Guanabara... viram a porta se abrir, vagarosamente, sem deixar ver ninguém, como se desse
passagem a um fantasma.
Seu José sacode a cabeça, com espanto sublinhante:
O ganido fininho, porém, fez todos compreender.
– No Palácio Guanabara!
O cachorro branco, de manchas pardas, pequeno, guaipeca, entrou na sala,
Antônio prossegue: correu desatinado, para um lado e outro, enveredou pelo corredor, foi até a
– O Epitácio foi recebê-los na Galeota Don João VI, uma galeota cheia de porta cerrada do gabinete, fuçou-a, abandonou-a, correu para a porta do
remos... (Pausa) O Rei Alberto é um herói!... Ele tornou a Bélgica ainda maior quarto de dr. Ferreira, forçou-a com a cabeça malhada, entrou, pôs-se a ganir,
no sacrifício da guerra! É um herói... “Rei-Soldado”, é como lhe chamam... a chorar, a chorar, debaixo da cama de dr. Ferreira, da cama de solteiro, de
ferro, esmaltada de branco.
Seu José de novo sacode a cabeça com admiração. Para. Diz:
Chorando, chorando, o cachorro não queria sair debaixo da cama. Foi preciso
– Ei vi o retrato dele no Correio. Que sujeito comprido! Um jerivá. que Antônio buscasse uma bengala e o ameaçasse, para que o guaipeca branco,
de malhas pardas, saísse do quarto. Foi preciso mesmo que Antônio lhe desse
Seu José acha graça na palavra “jerivá”. Ri, ri, o seu riso fininho. Ainda não
com a bengala para que ele saísse de dentro da casa. Já no patamar da escada
cessara de rir, quando Elisa se lembra e fala para Ana:
das hortências, o guaipeca ainda arranhou a madeira da porta, ainda fuçou,
– O teu pai, com certeza, viu a chegada deles... ainda ganiu, ainda chorou, tentou voltar.
Ana confirma: Depois que os arranhões e os ganidos cessaram – Antônio disse:
– É mesmo! O papai já chegou lá há mais de uma semana... Deve ter visto, – Eu nunca vi esse cachorro...
sim.
Seu José comentou:
Elisa ainda fala:
– Estou arrepiado... Parece um aviso...
– O dr. Ferreira precisava ir, mesmo... O clima daqui não dá...
Antônio reforça, batendo com a mão gorda no braço da poltrona de palhinha:
– É claro! Todo o mundo sabe que o clima do Rio, no inverno, é ideal pro
,
coração, que esse inverno do Sul mata mais ligeiro os cardíacos... Mas ele não
queria ir... Como foi preciso insistir não, Ana? Homem teimoso! Barbaridade!
Ana comenta, em tom tristonho:
– Papai não anda bem do coração, nada bem... (Pausa) Agora a desgraça
anda rondando ele... Antes foi a Lígia, logo depois a mamãe... A desgraça anda
nos perseguindo... (Os lábios se mordem, abafando o choro) A mamãe morreu
nem um ano depois da Lígia... Papai anda mal do coração... A desgraça tomou
conta desta casa...
Antônio tenta dizer qualquer consolo. Mas a boca se fecha, sem atinar.
No silêncio que seguiu, ouviu-se de repente o vago, o leve arranhar ali na


216 |ESTRADA PERDIDA 217
Alguns dias de 1938 “Londres (Cabo submarino) – Num desesperado e último passo no intuito de conseguir
evitar a calamidade de uma nova conflagração, Chamberlain acaba de embarcar de avião
para a Alemanha, onde se avistará com Hitler, discutindo as condições de uma solução
pacífica para a questão tcheca. O histórico encontro dar-se-á em Godesberg.”
22.

Quando Luís retorna, a multidão já está menos densa, já está se dispersando.


O letreiro luminoso, acendendo e apagando no cimo do arranha-céu mais Mesmo assim, Luís se acotovela com alguns homens:
alto – é o relâmpago fortíssimo, o relâmpago que teima em riscar a noite escura,
que desaparece, que renasce, que colore a noite escura. – Dá licença?

A tempestade, pairando sobre os blocos escuros dos arranha-céus iluminados, Charberlain embarcou para a Alemanha. Um avião, voando na noite, veloz,
sobre os recortes dos telhados das casas mais baixas, sobre os vultos vagos bulhento.
das árvores da praça – a tempestade brilha intensamente no grande letreiro – Dá licença?
luminoso, brilha frenética nos inúmeros letreiros menores, espalhados pela
treva, nas vitrinas acesas, nas portas abertas dos cinemas e dos cafés, nas Charbelain é um inglês alto, seco. De guarda-chuva, de borzeguins com
lâmpadas que circundam os grandes cartazes dos cinemas, nos focos brancos dos elástico, de chapéu de feltro. Se o avião cair? (Que bichão esse alemão, che! Vai
postes da praça, nos passeios lustrosos, nas sinaleiras pálidas dos automóveis. comer o inglês por uma perna. “É mesmo. Tem serviço com o bigodinho...”)
Sim, Hitler tem um bigodinho. Chamberlain e Hitler discutirão, discutirão...
E os incontáveis, os renitentes relâmpagos explodem em sons estrídulos, Godesberg... Como será Godesberg? Com certeza, como todas essas cidades
em sons agressivos, em klaxons estridentes, em apitos grossos de bondes, em alemãs, que Luís vê nos complementos de cinemas, de casas altas, com inúmeras
campainhas tilintantes, em pregões gritados, em guinchos de trilhos, em vozes, janelas fechadas, um largo com um monumento no meio, um largo cheio de
em gritos, em zumzuns rascantes, em zumbidos penetrantes e fininhos, em gente, que levanta o braço e grita “Heil, Hitler!” Este auto vai sair. Cuidado!
tuc-tucs distantes de embarcações cortando o rio próximo, em silvos perdidos Lá se foi, reluzente, as mulheres bonitas e bem vestidas no assento de trás,
de trens forasteiros. os dois homens na frente. V-8, olha o ronco. Quanto auto! O homem aquele,
De repente, o relâmpago colorido do arranha-céu mais alto ribombou, mais o homem moreno, de voz grossa, sotaque, sotaque da fronteira, chapéu de
forte que todos os ruídos dos incontáveis, dos renitentes sons da cidade. abas demasiadamente largas – o homem tem razão: Hitler comerá o inglês por
uma perna. E engolirá a Tchecoslováquia, não tem dúvida... E ninguém dirá
O ribombo transformou-se no uivo, no terrível, no cruciante uivo, que, em nada, todos ficarão quietinhos, de medo uns dos outros, quase como naquela
um crescendo lento, foi invadindo a cidade, horrendo, dorido, vindo do mais história do bode e da onça, onde cada qual correu pro seu lado. “Tem serviço
fundo da noite mal ferida, da noite que é o bicho enorme, morrendo no lamento com o bigodinho”, mesmo, como disse o companheiro do homem moreno, do
terrível, no lamento que cresce, que zune, afina-se, guincha no máximo de homem de sotaque da fronteira. “Buenas, chê”. Ah, que bom! Não ocuparam
intensidade. o banco. Cimento fresquinho! Que lugarzinho, que recanto agradável! Esta
árvore, os outros bancos bem longe, o ruído afastado, menos enervante – é
De entre as árvores da praça, dos bancos da praça das portas abertas dos
por isso que Luís escolhe sempre esse lugar. Que sorte não terem ocupado.
cafés, das ruas próximas, de toda a parte, de todos os lados, de todos os rumos,
Chamberlain, Hitler, Godesberg, bigodinho, largo com estátua no meio e gente
os homens correram, agrupando-se perto de uma das casas mais baixas,
de braço levantado, gritando “Heil, Hitler!” Avião voando na noite. Discussão
formando a multidão espessa.
na mesa longa, coberta de vidro. Mas... Mas... mas se Chamberlain não ceder e
Luís também abandonou o banco de cimento. Passou por entre dois dos a guerra vier? Os aviões soltarão bombas, o gás asfixiante cobrirá as cidades, o
autos que se enfileiram junto ao quadrado da praça, mergulhou na multidão, raio da morte fundirá os tanques, a linha Maginot vomitará fogo sobre a linha
acotovelou a multidão. Conseguiu ler no quadro negro, afixado à sacada da Siegfried, o horror será enorme, correrá muito, muito sangue, as cidades se
casa baixa: encherão de mutilados, de restos de gente... Se a guerra vier? Horror! Porém,


218 |ESTRADA PERDIDA 219
pensando bem, que que Luís tem a ver com isso? Que que Luís tem a ver essas Pensa que ainda vou lhe emprestar dinheiro? O meu dinheiro ganho aqui no
coisas distantes, essas coisas que acontecerão na afastada, na vaga Europa? Luís suor do armazém? Tá muito enganado! Quem mandou ser gastador, quem
tem outras coisas com que se preocupar... O bigodinho de Hitler, os borzeguins mandou pôr fora quase duzentos contos? Eu lhe emprestar dinheiro?! Pois sim!
de Chamberlain, com elástico? Pro diabo! Luís tem outras coisas com que se Pois sim! Torça as orelhas! Torça as orelhas!” Tem razão o seu José, mas em
preocupar... Luís tem que pensar na sua própria vida... Pelo menos tem que ver parte, porque torcer as orelhas não resolve nada. Nada resolve nada. Tereré.
o quê que este cachorro, este cachorro que surgiu de entre dois autos, subiu à “Agora torça as orelhas!” Cigarra e a formiga. Padre Smith, explicando na sala
calçada da praça, entrou pela alameda e agora está fuçando o banco de Luís, – o sentido da fábula. “Cantavas? Pois dança agora!” Cigarra e a formiga. Quedê
tem que ver o quê que este cachorro quer. os cigarros? Ah, estão neste bolso. Acendeu logo o isqueiro. Que milagre!
“Riviera”. Cigarro forte, resseca a garganta. Também, só quinhentos réis o
Desaforo de cusco! Quase molhou o sapato de Luís. Também, ganiu com o maço... Quinhentos réis... Duzentos contos... Sim, parece mentira, mas Luís
pontapé... Lá se foi, lá desapareceu no fim da praça, perdeu-se entre as alamedas gastou quase duzentos contos em três anos... Caiu com sede no dinheiro. Logo
iluminadas. Esse cachorro deu uma lição a Luís. Quem tem toda uma vidinha que ficou maior, o tutor, o tio Antônio, lhe entregou a fortuna... E vieram três
complicada pra estudar e resolver e, não obstante, se preocupa com os problemas anos de farras, de loucuras, de mulheres – que boa que era a Ivone, que dentes,
da vaga Europa – só mesmo mijando no sapato dele... E o mais engraçado é que que ombros, que seios! – três anos de farras, os autos comprados em sucessivas
dizem que mijada de cachorro dá sorte, traz dinheiro... Dinheiro! Dinheiro para trocas, – Studebacker, Buick e Auburn – três anos... E os duzentos contos do
Luís! E como seria bem vindo o dinheiro, como Luís precisa de dinheiro! Luís vovô Ferreira voaram... E veio a quase miséria, e vieram as facadas em Roberto
necessita muito, muitíssímo, de dinheiro... Luís não pode dar o automovelzinho e tio Antônio, e veio a doença, sim, a doença do casamento. E então veio a
para a filha... Pois se Luís, 4º escriturário do Tesouro, só ganha quinhentos e humilhação do pedido ao padrasto... E, por fim, tio Antônio e Roberto lhe
cinquenta mil réis... Isso sem contar o desconto do Instituto e dos empréstimos... conseguiram o emprego no Tesouro... A princípio os quinhentos e cinquenta
Quinhentos e cinquenta mil réis. Como é que Luís vai comprar o automovelzinho mil réis davam. Mas a vida encareceu... Mas veio a Mariazinha... E os quinhentos
que custa duzentos e vinte mil réis?... Ó Senhor! Luís não poderá nunca comprar e cinquenta mil réis mal dão pra Luís e a família viver... E os quinhentos e
o automovelzinho pra Mariazinha! E, no entanto, Mariazinha ficaria tão cinquenta mil réis não permitem que Luís compre o autinho para a filha bem-
contente! Luís não esquece o dia em que a menina descobriu o automóvel... amada, Luís que gastou em três anos os duzentos contos herdados do avô, do
Luís veio com a filha à cidade, dar o passeio na rua da Praia... Todos olhavam avô que os acumulou no trabalho quotidiano e honesto... Bolas! Tereré! Só
a Mariazinha, a Mariazinha tão lourinha, tão gordinha e tão bonita... Senhoras torcendo as orelhas, torcendo-as muito, reduzindo-as a simples pedacinhos
paravam para olhar. Uma até fez festa, pegou no queixo de Mariazinha... enrolados de carne, a bifes enrolados... Sim, sim, lá na Europa os homens estão
quando passaram pela casa de brinquedos estacaram à porta. E Mariazinha com vontade de se destruir uns aos outros. Guerra! Guerra! Bombas! Petardos!
bateu palmas, alegre, pulou satisfeita, mostrou o automovelzinho. “Papai! Eu Gases! Horrível, na verdade. Porém muito mais horrível é um homem chegar
télo esse otomovezinho pa mim andá!” Mas a papeleta pendia do para-choque, aos trinta e dois anos e verificar que destruiu a própria vida, lentamente, fez
gritando 220$000. Luís não poderá dar o auto à sua filha. E, no entanto... no guerra a si próprio, jogou sobre se mesmo bombas e mais bombas, destruiu-se,
entanto, Luís já foi dono de três autos de verdade. Um Studebacker, um Buick ficou igualzinho a uma cidade arrasada... Isto sim é que é horrível! A guerra
e, por fim, um Auburn. Só o Auburn custou perto de trinta contos... E Luís não não é nada, comparada a um homem que se destruiu a si próprio... Um homem
pode dar a Mariazinha um auto de mentira, o auto que custa apenas duzentos que não soube andar pela sua estrada, um homem que não soube andar pela
e vinte mil réis... Esse auto que agora está encostando, em marcha-ré, no passeio estrada perdida, como vovô Ferreira chamava a vida... Luís hoje é um homem
da praça – olha, vai bater o para-choque no estribo! Ah! Não bateu! – esse auto que não pode dar o automovelzinho à sua filha. “Que engraçadinha!” “Papai,
é Buick, Buick último tipo, de luxo, oito cilindros, quarenta e tantos contos que eu télo esse otomovezinho pa mim andá!” “Mas, minha filha, automovelzinho
rodam sobre pneus macios... Bolas! Bolas com a Europa! Bolas com Chamberlain, não serve pra menina! É só menino que anda...” “Mas eu télo!” Luís não soube
com Hitler, com Godesberg! Luís tem, sim, problemas muito mais importantes contruir sua vida... No entanto, tio Antônio soube construir a dele. Hoje é
que os da Europa... E os quinhentos e cinquenta mil réis do emprego público? diretor-gerente da Companhia de Seguros, ganha os seus três contos por mês.
Se vier o reajustamento acrescerão mais uns bestas cem mil réis, os quais não Roberto também soube construir sua vida. Com pouco mais de trinta anos, é
resolverão os problemas de Luís. Tereré não resolve. Isso mesmo. Tereré. Te-re- um dos advogados mais procurados em Porto Alegre. Já tem a sua garçonnière,
ré... Só mesmo Luís seguindo o conselho do padastro: “Agora torça as orelhas! tem o seu automóvel, o seu V-8 de luxo, possante e flamante. Luís mora na casa


220 |ESTRADA PERDIDA 221
alugada, na casinha besta que lhe come 180$000 mensais. 550$000 menos chão escuro da rua, as fitas vermelhas abertas sobre o chão escuro da rua...
180$000 dá 370$000. É com esses 370$000 mensais, descontada a contribuição e “Mas, minha filha, automovelzinho não serve pra menina! É só menino que
os empréstimos – que Luís deve se arrumar para pagar o armazém, o açougueiro, anda...” E se os aviões sobrevoassem Porto Alegre, ou se Luís morasse na
o padeiro, o leiteiro, o verdureiro, a luz... “Mas, minha filha, automovelzinho Europa? As bombas assassinas, as bombas covardes talvez matassem
não serve pra menina! É só menino que anda...” Luís estragou a sua vida, não Mariazinha... Mariazinha cairia no chão poento da ruazinha de arrebalde,
soube caminhar pela estrada perdida, pela maldita estrada perdida... Olha! A morrendo enquanto brincava com o filho da vizinha, com o filho da doutora
primeira sessão daquele cinema terminou. Quanta gente, saindo... Muitos estão Elvira... Senhor! O sangue de Mariazinha empaparia o chão preto da rua...
se dirigindo para os autos, enfileirados rente ao passeio da praça. O zelador Mariazinha! Minha filha! Minha querida!
está abrindo a porta do vastíssimo, do lustrosíssimo Oldsmobile... O senhor
alto e gordo e a senhora bonitaça entraram. O homem alto e gordo deu o níquel ***
ao zelador, que fez uma curvatura rápida e embolsou o níquel no gesto hábil... Luís quase correu por entre os caminhos da praça, quase correu para
O Oldsmobile se foi silencioso, deslizando, apitou a buzina para afastar os atravessar a rua cheia de gente.
rapazes do meio da rua... Oldsmobile... E o Studebacker? E o Buick? E o Auburn
de quase trinta contos? “Papai, eu télo esse otomovezinho pá mim andá!” Que A passos largos, Luís enveredou pela rua menos movimentada, afastou-se
barulho de autos saindo, afastando-se da praça, cortando a multidão, buzinando da tempestade, da intensa, da inaudita tempestade, cujos relâmpagos teimosos
no concerto estridente e variado... Quanta gente foi ao cinema de auto... E os continuam a brilhar nos inúmeros letreiros acesos, nas janelas iluminadas
autos se afastam, rebrilhando, cheios de gente feliz, de gente sem problemas dos arranha-céus, nas portas abertas dos cafés e dos cinemas, nas vitrinas
que foi ao cinema... Senhor! Senhor! Luís vai virar as costas para o lado do iluminadas, nas lâmpadas que cercam os cartazes dos cinemas, nos focos
cinema, vai olhar para o outro extremo da praça. O bonde passou, lá, veloz, brancos dos combustores da praça, nas sinaleiras pálidas dos automóveis. A
entre os dois plátanos grossos, iluminados pela luz baça do foco branco. Daqui passos largos, Luís enveredou pela rua menos movimentada, afastou-se da
a pouco, Luís deverá pegar o bonde, se tocar para o arrabalde, rumo à casinha tempestade, da intensa, da inaudita tempestade, cujos relâmpagos teimosos
de aluguel, que lhe chupa os 180$000 mensais, rumo à família, rumo à Mira e à explodem em sons rascantes, em sons estrídulos, em sons agressivos e agudos,
filha, a Mariazinha. Antes de tomar o bonde, porém, é preciso que Luís considere em klaxons estridentes, em apitos grossos de bondes, em campainhas tilintantes,
bem a sua vida, a sua vida falhada, a sua vida destruída, a sua vida de cidade em guinchos de trilhos, em vozes, em gritos, em pregões, em zumzuns, em tuc-
derrocada pelas bombas dos aviões assassinos... Não resta dúvida que destruir tucs distantes de embarcações cortando o rio próximo, em silvos perdidos de
a própria vida é um crime muito maior que destruir a vida dos outros. Não trens forasteiros.
restará dúvida, mesmo? E a ânsia com que Charberlain neste momento está
A passos largos, Luís foge da tempestade.
cortando a noite rumo a Godesberg? Ó, o grande, o inenarrável horror da
guerra! Ó, os aviões sobrevoando as cidades indefesas, destruindo as pobres O ombro cheio, o ombro lustroso de Mira aparece, imóvel, brotando das
cidades indefesas, matando as crianças, os velhos, as mulheres... Era uma cena cobertas dobradas, riscado dos cabelos castanhos e fartos.
assim que aquela revista no baú do porão do casarão do vovô Ferreira –
retratava. Luís se lembra da figura com toda a nitidez. A mulher fugindo, o Quando Luís termina de abotoar o pijama e também se enfia sob as cobertas
menino também fugindo, as casas esburacadas, o reflexo de luzes, no chão – o ombro lustroso, o ombro cheio de Mira se move.
escuro da rua, onde a menina caída e ferida se amparava no braço do guarda. Mira descerra os grandes olhos esverdeados. Afasta a nesga teimosa do
O chapéu da menina estava perto, as fitas vermelhas abertas, menos vermelhas cabelo castanho e abundante. Sorri:
que o sangue da menina... E a menina dizia ao guarda – que era mesmo que ela
dizia? Ah! – a menina dizia ao guarda: “Não contes pra mamãe! Ela vai chorar – Ah! És tu...
tanto!” “Papai eu télo esse otomovezinho pá mim andá!” Senhor! Os homens
estão loucos! Os homens não se satisfizeram com a experiência da Grande Luís ajeita o travesseiro. Não diz nada. Aperta o botão da lâmpada da
Guerra e querem outra, outra guerra mais assassina, mais covarde, mais cabeceira. Mira continua:
sangrenta... Morrerão meninas inocentes, iguaizinhas à Mariazinha, bonitas, – Que tal foste de passeio?
louras, rechonchudas, como Mariazinha... O chapeuzinho delas ficará caído no


222 |ESTRADA PERDIDA 223
Treva. Silêncio. Mira prossegue: Luís afirma, no silêncio:
– Sabes quem esteve aqui? – Sábado vou visitar a prima Sinhá...
O resmungo mostra que Luís está atento: A treva riscada pelo fio de luz baça. O silêncio entrecortado da respiração
profunda de Mira. Luís estende o braço, toca com a mão o ombro de Mira, sente
– A Isaltina... Veio trazer a empregada nova. o movimento lento, quase imperceptível, do ombro morno e cheio. Escuta a
Novo resmungo. Treva. outra respiração, a respiração apressada de Mariazinha.

– É de fora, de Palmares. Viúva. Não tem filhos. Tem uns quarenta anos, eu O braço se distende mais, a mão tateia o ferro gelado da cama, consegue
acho. (Risinho) Muito feia e desdentada... (Pausa) Começa amanhã. Vem cedo, alcançar o mosquiteiro, encontra a testa da filha, afasta a franja imponderável,
às sete horas. continua espalmada sobre a testa fresca e úmida.

Neste ponto, Luís quebra o mutismo: Coaxar distante de sapo. Silêncio. Latido grosso, próximo, latido de
cachorro grande e forte. Resposta afastada do companheiro insituado. Silêncio.
– Ela aceitou trinta mil réis? Tu sabes que não podemos pagar mais... Novamente o sapo. Novamente os cachorros. Novamente o silêncio, desta
vez profundo, completo, cortado, tão somente, pela respiração de Mira e de
Novo risinho na treva:
Mariazinha.
– Eu sei, homem! Ficou muito satisfeita como os trinta mil réis... Ficou até
Súbito, o rumor do motor de um avião avançando na noite, aproximando-se,
contente... Disse que não tem ninguém por ela aqui em Porto Alegre... E parece
diminuindo, perdendo-se na noite.
que a Isaltina recomendou muito bem a gente. (Último risinho) Ficou muito
contente com os trinta mil réis, pra todo o serviço, fora a roupa da Mariazinha, Se Luís estivesse na rua e olhasse para cima, pensaria que a luzinha do
que eu disse que eu mesmo lavo... avião fosse um balão de São João, caminhando na treva. Mas... mas se o Brasil
estivesse em guerra e o avião fosse um avião inimigo, sobrevoando a cidade
Novo resmungo de Luís. Treva. Pausa, quebrada por Mira:
aberta? Se o avião desprendesse a bomba terrível, a bomba assassina, a bomba
– A Isaltina disse que o Marciano arranjou um emprego de servente nas obras covarde?
do Sanatório Belém. Vai começar pra semana. Muito bom pra eles. Diz que
A mão de Luís se crispa sobre a testa úmida e fresca de Mariazinha, que
andavam numa miséria! Que foi um achado pra eles! Coitados! O Marciano vai
se mexe, murmura qualquer coisa ininteligível, mas volta logo à imobilidade,
morar lá mesmo, perto do Sanatório. Vem só nos domingos. Diz que ele vem
com a respiração sempre apressada e forte, mais apressada que a de Mira.
cá, amanhã ou despois, se despedir de ti. Tás ouvindo, Luís?
Novo resmungo na treva. Nova pausa, também quebrada por Mira:
– Ah! Luís! A Isaltina disse que foi visitar a dona Sinhá e que a dona Sinhá
disse que os parentes não procuram mais ela, que está quase morta e ninguém
vai ver. Diz que se queixou muito de ti. Que é muito amiga tua e que faz mais
de um ano que tu não apareces...Tu... tu não... (O bocejo está atrapalhando)
achas que deves ir visitar a dona Sinhá?
Como Luís, também desta vez, cala, Mira não insiste. Silencia. Na treva
impenetrável do quarto, Mira nota a invasão sutil do fio de luz baça, que se
coa entre a frincha do tampo da janela. O fio de luz pálida vai se apagando, se
torcendo, se desfiando. Dilui-se, na treva, na treva inefável, que trouxe a paz
aos olhos esverdeados de Mira, ao corpo cheio de Mira, ao corpo que também
foi se desfiando, se diluindo na densa inconsciência do sono.


224 |ESTRADA PERDIDA 225
23. – Então hoje você não quer dar o beijo de bom-dia no seu pai?
Mariazinha nega, sacudindo a cabeça, agitando a cabeleira loura. Explode
no riso, no riso contentíssimo, que mostra os dentinhos agudos, os dentinhos
O ventinho frio varre a rua poenta e vermelha, levanta o penacho de pó, claríssimos:
fá-lo invadir os jardinzinhos dos dois bangalôs, fá-lo sacudir as roseiras, os
junquilhos, os rabos-de-galo, as adálias dos jardinzinhos dos dois bangalôs, fá- – Não télo!
lo continuar, bater na fachada branca do Armazém Gaúcho, bater nas fachadas
cinzentas das três casas de porta e janela, bater na madeira escura do casebre, Mas os bracinhos gordos cercam o pescoço de Luís e os lábios finos, os lábios
agitar a grama do campinho, chicotear o rosto gelado de Luís, continuar, escondidos afloram, juntam-se, espicham-se, encontram a boca de Luís.
arrastando o pedaço de papel, desaparecendo, embocando na rua principal, – Bom-dia (segundo beijo), pai (terceiro beijo) pai...
onde o bonde passa veloz.
Luís ergueu Mariazinha, que enrijou as pernas torneadas, agitou-as, esticou-
As narinas de Luís fremem, aspirando o ventinho frio, os olhos ardem da se, ficou mais pesada. Luís abraçou-a contra o peito:
poeira insidiosa. Luís olha o céu limpo. Desvia os olhos do fulgor do sol, que
já galgou um pedaço do azul do céu limpo. Aspira de novo o ar frio. Escuta o – Você gosta muito de seu pai?
rumor do bonde, se perdendo se extinguindo, lá na rua distante. Ouve o riso
A boquinha fina se abre no novo riso contente:
conhecido de Mariazinha. Orienta-se.
– Dóto!
Desce o único degrau, atravessa o jardinzinho, dobra-se sobre o gradil de tela
do muro baixo. Vê Mariazinha correndo atrás do filho da doutora. Passaram – Muito?
defronte à fachada branca do Armazém Gaúcho, entraram pelo campinho,
voltaram à terra dura da calçada sem lajes. Diante da primeira das três casas Os olhinhos miúdos e negros assumem um ar sério, grave. Os louros cabelos
cinzentas de porta e janela, Mariazinha alcançou o guri, bateu-lhe nas costas. imponderáveis sacodem-se, na afirmativa:
O guri deu meia-volta e perseguiu o vultinho ágil de Mariazinha, cujos – Mum...
imponderáveis cabelos louros, agitados pelo vento frio, erguem-se, cobrem os
olhinhos miúdos e negros. Luís ri, beija a filha na boca, aperta-a mais:
Luís chama: – Não é “mum”, minha filha! É “muito”...
– Mariazinha! – Mum!
A corrida para. Mariazinha diz qualquer coisa e vem veloz na direção do pai, Luís, voltado para o lado da casa, ainda está apertando a filha ao peito,
seguida pelo guri grande. Num ápice, Mariazinha trepou no muro baixo, pelo quando ouve:
lado de fora, dependurando-se no gradil de tela, o rostinho afogueado, os olhos
redondos, miúdos e negros, os imponderáveis e esvoaçantes cabelos louros. O – Bom-dia, seu Luís:
filho da doutora, de cabelos também louros, mas rentes e colados à testa, de Luís continua de costas. Retribui:
boca aberta pelo cansaço, de olhos sem brilho, de expressão apalermada – o
guri é um contraste de marasmo ante a vivacidade de Mariazinha, que, mal – Bom-dia, doutora Elvira!
trepou ao muro, perguntou?
A voz da doutora prossegue por detrás de Luís:
– Ti é, papai?
– Lambendo a cria, não, seu Luís?
Luís finge o jeito zangado:
Luís não diz nada. Ri e aperta sempre o corpo morno de Mariazinha.


226 |ESTRADA PERDIDA 227
– Quem é que não lambe a sua cria, não, seu Luís? Eu também, veja! jeito apalermado do rosto do filho, mas, não obstante, é radiante, está no auge
da satisfação.
Só então Luís solta Mariazinha e se volta pra a rua. Vê a doutora, gorda, de
vastas ancas, de farto busto, de pernas de árvore, o chapéu sem elegância posto O cumprimento é proferido com um riso:
no alto da cabeça, no alto dos cabelos duros e lisos. Excusa-se:
– Bom-dia, seu Luís!
– Desculpe estar de costas... Eu estava distraído, doutora...
Luís nota o jeito alegríssimo do marido da doutora Elvira. Por isso, pergunta,
A doutora sorri o sorriso de dentes de ouro. Sacode a cabeça compreensiva. já quando o homem e a doutora se afastavam:
Afaga os cabelos melados do filho, que baixa os olhos sem brilho, que arqueia
a boca pálida, que assume uma expressão ainda mais apalermada. Depois a – Que alegria é essa, seu Serapião?
doutora repete o sorriso de dentes de ouro e afirma: A cara claríssima, as sobrancelhas louras, tudo sorri na explicação:
– Os anjos não têm costas, seu Luís... – Nada, seu Luís, nada! Apenas me levantei me lembrando que esse ano
A mão gorda e grande afaga sempre a cabeça do guri. Súbita ordem severa: termino os preparatórios e pro ano entro pro Pré...

– Deixe ver a língua! O braço chama mais para perto de Serapião o corpo imenso da doutora,
aperta-o com vigor:
O menino obedece, fica com um jeito idiota, de língua para fora, de olhos
semicerrados. – Daqui a oito anos, serei advogado! (Grande orgulho no riso satisfeito)
Ninguém poderá conosco... A Elvira acabará com tudo que é doença. Eu
– Pode botar a língua pra dentro. Vá pra casa e peça pra sua tia lhe dar uma acabarei com os gatunos... Não haverá mais gatunos em Porto Alegre! Nem
colherinha de sal de frutas... E não esqueça do piano! doentes! Não é, minha doutorinha? Ninguém poderá conosco!
O menino já se afastava, quando Luís pediu: Serapião arrasta a doutora Elvira:
– Deixe ele brincar mais um pouco com a Mariazinha, doutora. Só dez – Dá licença, seu Luís, que está ficando na hora do emprego... Os homens
minutos. abrem às oito. Vamos tratar da vida! Pra, logo à noite, ir ao Ginásio...
Doutora Elvira concorda, com o novo sorriso de dentes de ouro: A doutora faz o último sorriso de dentes de ouro, grita o novo “Chiau!”
Serapião continua a arrastá-la. Os dois se afastam, passam pelas casas cinzentas,
– Está bem. Só dez minutos. – Olha o filho – Só dez minutos, hein? E não de porta e janela, passam pelo campinho, passam pela fachada branca do
esqueça: sal de frutas e piano. O sal de frutas uma colherinha, o piano meia Armazém Gaúcho, passam pelo casebre de madeira, rumam à rua dos bondes,
hora. Quero ver quando eu voltar... Elvira gorda, de ancas fartas, busto enorme, de chapéu sem graça no alto dos
A doutora abana a mão, no cumprimento másculo: cabelos lisos e duros, Serapião franzino, e, todavia, carregando, arrastando,
com ardor, com orgulho, a esposa imensa e pesada.
– Chiau, seu Luís! Vou tratar do meu consultório...
Luís se abaixa, para dar mais este beijo em Mariazinha. Interrompe-se, ao
– Té logo, doutora Elvira. notar este chamado, vindo da porta da casa:
Ao dar os primeiros passos, a doutora estaca, ouvindo o chamado gritado: – Seu Luís, a dona Mira mandô dizê que o café tá na mesa. Pro sinhô não
demorá, que tá na hora da repartição.
– Elvira! Elvira! Espera! Já vou indo!
Luís torna a se baixar. Dá o último beijo na boca espichada de Mariazinha.
O homem sai do primeiro bangalô, apressa-se, a grande satisfação estampada
Bate-lhe o tapa amigo no rosto afogueado:
nos olhos sem brilho, no rosto claro, de pouca barba, no rosto que tem o mesmo


228 |ESTRADA PERDIDA 229
– Vá brincar como o Zequinha. – Etelvina, seu Luís.
Mariazinha não espera segunda ordem. Abre, com dificuldade, o portãozinho Mira intervém:
de ferro, dependurando-se ao trinco. Vai correr pela calçada sem laje, quando
Zequinha protesta: – Tu és de Palmares, não é?

– Não, não quero brincá de pegá! Vamo brincá de comidinha... O novo sorriso torna a revelar a falta de dentes:

A menina aceita logo. Sentam ambos no cordão da calçada sem lajes. Os – Sou, sim, sinhora. Morei sempre lá. Agora é a premera veiz que venho
dedos apinhados enchem as bocas de comida imaginária. trabaiá na cidade...

Mariazinha estala a língua, acha muito gostosa a comida de mentira, sorri, Luís termina o último gole do café quente e gostoso. Acende o cigarro. Mira
o rostinho ainda afogueado, os olhinhos miúdos e negros brilhando de prazer. convida:
Zequinha tem o vago ar de nojo na boca arqueada, no rosto apalermado, não – Não queres outra xícara?
estala a língua, mas enche sempre a boca arqueada.
Luís solta a grande, a interminável baforada:
O vento frio, que tornou a varrer a ruazinha quieta, fustiga o rosto afogueado
de Mariazinha, envolve o vulto pequeno e rechonchudo de Mariazinha, fustiga – Com leite a mil réis o litro? Não quero, não. Não gosto de duas xícaras... E
o rosto apalermado de Zequinha, envolve o vulto muito maior de Zequinha. tu, Etelvina, és casada?

*** A criada, que está sempre colada à porta da cozinha e agora se torce, tem
movimentos de parafuso, diz, encabulada, o sorriso sempre revelando a falta
Luís toma o primeiro gole quente do café com leite. Fala a Mira, que está de dentes:
envolta na manhanita de lã, na manhanita que lhe revela os ombros cheios e
lustrosos, entrevistos no emaranhado das falhas do tecido: – Sô viúva, seu Luís. E não tenho filho. (Vastíssimo sorriso desdentado,
grande maneio de parafuso no corpo magro e alto) Sô sozinha no mundo...
– Já não te disse que não me mandes ordens pelas criadas? Acabam não me
tendo respeito, como aquela negrinha passada... Os olhos de Luís percorrem rápidos a modesta sala de jantar, o bifê antiquado
e escuro, cheio de xícaras grosseiras, as cadeiras com a estrela de furos no
Luís sorve o segundo gole, mastiga a fatia de pão. Mira vai dar a resposta, que assento, as cortinas baratas pregadas à única janela. Os olhos de Luís batem
o brilho dos olhos anuncia ser sem cordialidade. Porém a criada a interrompe, no despertador, que está colocado no alto do bifê escuro e marca oito horas em
aparecendo na porta que liga a cozinha à própria sala de jantar: ponto.
– Voceis não precisa de nada? – Ah, Mira, hoje não esqueceste de trazer o despertador para a varanda
Luís franze as sobrancelhas. Olha a criada, magra, muito alta, sem seios, (Sorriso amargo...) O nosso finíssimo relógio de carrilhão...
de vestido preto, de cabelos pretos, riscados de gris e amontoados no coque Levanta-se:
repuxado, de pés magros descalços e sujos:
– São oito horas. Está na hora da repartição. Vou indo.
– Não!
A criada pergunta, com o sorriso sem dentes e o meneio de parafuso no
Luís prossegue, olhando sempre o vulto magro e alto da criada, os pés sujos corpo longo e magro:
e magros da criada:
– Seu Luís, o sinhô me discurpe. Mas aqui na rua não passa biêtero?
– Como é teu nome?
O vulto magro e alto, o vulto sem seios, de vestido preto, de cabelos pretos,
riscados de gris – faz o sorriso cordial, revelando a falta de dentes:


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Luís estranha: Luís, sem se despedir, sai da sala de jantar, entra no hall pequeno e escuro,
enfia o chapéu, não escuta a alegria de Mariazinha, que pula, que grita, na sala
– Bilheteiro? Parece que passa, sim. Não é, Mira? de jantar:
Mira também se ergue: – O papai vai mi dá o otomovelziho! O papai vai mi dá!
– Me parece que passa. Por que, Etelvina? O desespero contrai o rosto de Luís, que mergulha no ventinho frio, afronta
Torcidissimo meneio de corpo magro. Grande sorriso desdentado: a passos largos o ventinho frio, o ventinho que ergue o novo penacho de
pó vermelho, corre pela rua poenta e quieta, invade o jardinzinho dos dois
– É que eu não posso passá sem comprá biete... (Última torcida do corpo) bangalôs, fustiga a fachada branca do Armazém Gaúcho, a fachada escura das
É uma mania qu’eu tenho... Despois que pararo com o jogo do bicho, compro casas de porta e janela, sacode as tábuas do casebre miserável, agita a grama do
pedacinho de biete... campinho, corre, foge, perde-se na lonjura.
Mira pergunta:
– E já tiraste alguma coisa?
Outro sorriso desdentado:
– Inda não. Mas um dia tiro...
O barulho dos pezinhos batendo no soalho anunciou, neste momento,
a chegada de Mariazinha, que estendeu os braços gorduchos, que se atirou
contra Luís, que abraçou a perna de Luís:
– Tu já vai, pai?
Luís se acocora. Abraça Mariazinha. Beija-a na boca:
– Já vou, sim. Papai tem que trabalhar, pra ganhar dinheiro...
Os olhinhos miúdos e negros, contrastando com a testa claríssima, com os
imponderáveis cabelos dourados – suplicam:
– Quando tu tivé bastante dim tu compa o otomovelzinho?
Luís relaxa os braços, desfaz o abraço:
– Automovelzinho é pra menino, Mariazinha...
O jeito de choro contrai a boquinha de lábios discretos, a voz é triste:
– Mais tu disse, pai, ti quando tu tivé bastante dim tu compa o autinho...
Luís se ergue, fala de fisionomia escura:
– Está bem, minha filha. O pai prometeu. Quando ele tiver “dim” bastante,
ele compra o autinho...


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24. naquela casa, ninguém! Inté o macaco veio do meu pai deu agora pra andá
falando sozinho e chorá pelos canto...
Luís contém a respiração, à nova e mais intensa baforada da cachaça barata.
– B’a noite, Dona Mira! Respira com vagar. Pergunta:
A baforada de cachaça barata sai da boca frouxa e cansada, que está oculta – O Peleu vai bem, Marciano?
pelo bigode grisalho, pelo bigode que desce intenso nas guias mal cuidadas,
pelo vasto bigode que deixa ainda mais magro o rosto descarnado e mulato. Marciano cambaleia vagamente, parece um pêndulo ao inverso, quase
parado. A mão cerrada limpa, brusca, o bigode grisalho. A voz arrastada quase
A baforada de cachaça barata impregna a saleta, invade as narinas de Luís e grita:
de Mira, que senta na outra cadeira e tem um jeito de nojo no rosto atento.
– Bem vai, seu Luís! O macaco veio nunca tem nada! Interra os otro e vai
Marciano não se dá conta e fala sempre: sempre ficando... O macaco veio nunca teve nada qu’eu me alembre... Nem na
– Eu tava dizendo pro seu Luís, dona Mira, que foi um achado, o serviço no Espanhola... Mais tá caduco, o macaco veio... Deu pra chorá pelos canto, seu
Sanatório! Luís, que nem criança... Diz que se alembra da Bahia, se alembra dos morto,
se alembra do seu avô, se alembra do seu doto Rodrigue, se alembra de tudo
Uma das mãos mulatas, de dedos magros e de unhas sujas, aperta o chapéu – e começa a chorá... Tá de miolo mole, o veio... (Riso arrastado) Só regula pra
de aba-larga, amarfanha o chapéu de gaúcho. A outra mão, também magra e recebê o dinhêro da aposentadoria. Queria que o sinhô visse cumo ele conversa
de unhas sujas, desaperta o nó do lenço suado e cheio de manchas, que abriga cum o home...
o pescoço mulato e serve de gravata.
Mira fala desta vez:
– Foi um achado, memo, seu Luís! Eu não sei adonde é que a minha vida
ia pará! Eu não sei o que ia sê da vida do mulato canaia! Imagine o sinhô – Então a Elmira vai casar pro ano, Marciano?
que inté fome nóis andava passando! E o noivado da mulatinha... O Nego da Mais um muchocho desdenhoso, escondido pelo bigode amarelado e
Elmira diz que qué se casá pro ano... Mais o noivado da mulatinha dá despesa, grisalho, mais um dar dos ombros franzinos e caídos:
seu Luís! (Risada lenta) Noivado da mulatinha... Tem serviço com a minha
fia... (Os olhos raiados de sangue e sem vida brilham um instante) Ninguém – O Nego diz que vai... Mais eu não topo munto, não, dona Mira... Fia de
tem juízo naquela casa!... A Isaltina com a mania dos Fio do Sul, essa bestera mulato canaia quaji nunca tem a sorte de se casá... Quaji sempre os nego qué é
de sociedade de carnavá, deu pra ficá assanhada depois de veia... E tombem fingi de noivo pra meió tirá os tampo das mulatinha besta...
anda com as história de espritismo... (Os olhos raiados de sangue readquirem
a opacidade). Inté fome nóis andava passando... O riso, o riso vagamente histérico sacode o corpo magro de Marciano, as
costas curvas de Marciano, cujos bigodes grisalhos e amarelados, de longas
A mão que, há pouco, desapertara um tanto o nó do lenço sujo, agora enxuga guias intensas – se molham de gotículas de saliva. O brilho líquido dá vida aos
o suor da testa lustrosa e mulata. Depois retorce a ponta do bigode grisalho e olhos raiados de sangue. E o riso, o riso enervante, o riso que tem qualquer
amarelado, enquanto a outra amassa sempre o chapéu de aba-larga. Prossegue coisa de pranto cresce, cresce, empestando a seleta do cheiro de cachaça barata.
a fala arrastada, prosseguem as baforadas de cachaça barata:
Luís quer desviar a atenção de Marciano:
– Acho que o mulato canaia ia acabá se matando... Foi achado memo o serviço
no Sanatório... De servente, mais em todo causo dá... (Tom amargo) Dá pros – Mas então vais sábado pro Sanatório? Vais ter trabalho pra muito tempo,
gasto da Isaltina com os baile dos Fio do Sul... (Sacudir dos ombros caídos e não? Parece que as obras estão muito atrasadas ainda, não?
franzinos, muchocho desdenhoso na boca cansada) Diz que no carnavá pro Porém Marciano ainda repete:
ano a Elmira vai saí de aia da rainha... (De novo o brilho nos olhos raiados
de sangue) O pai vai trabaiá no Sanatoro... Ninguém tem juízo, não, seu Luís, – O Nego qué é tirá os tampo da mulatinha besta... Vai acontecê igual que à
mãe...


234 |ESTRADA PERDIDA 235
Depois, o riso cessa e vem a fala arrastada: As mãos crispadas batem, surrem o peito cavo e frágil:
– Vô sábo, sim, seu Luís. Trabaio toda a semana. Só venho nos domingo na – Foi aquela furada, foi aquele resto de branco, foi aquela desgraçada que
cidade. Drumo lá memo. Moro lá. Mais... mais... feiz eu não sê jóqui! Jóqui de prado, jóqui de camiseta de cô!
De novo o acesso de riso, do riso vagamente histérico, do riso que tem Luís torna a bater no ombro de Marciano. Marciano não atende. As mãos
qualquer coisa de pranto, que traz lágrimas aos olhos raiados de sangue. A voz continuam a surrar o peito frágil:
arrastada fala, atrapalhada pelo riso:
– Se eu quisesse, eu era jóqui! Eu já ia embarcá pro Rio, o vapô já tinha
– Que im-por-tan-te, seu Luís! Que im-por-tan-te, dona Mira! Os nego finge apitado e me joguei pra terra pra mode daquela furada! Mulato canaia!
de noivo e as besta vão no embruio! Mulato burro!!
Luís levanta, bate no ombro de Marciano. Grita-lhe quase: Luís ergue do soalho o chapéu de aba-larga, o chapéu de gaúcho.
– Está ficando tarde, Marciano... – Está ficando tarde, Marciano...
Marciano não compreende. Continua a rir o riso histérico e que parece Marciano toma o chapéu na mão crispada. Readquire a calma:
pranto, o riso que dá o brilho líquido aos olhos raiados de sangue. Aos
poucos o riso vai cessando. Mas o tom de pranto, o tom de lamento passou – Tá bem, seu Luís. Eu já vô. Eu vim aqui pra dizê pro sinhô que vô trabaiá
para a voz arrastada, que fala triste e sem vigor: no Sanatóro, eu vim me despedi do sinhô e de dona Mira... (Os olhos baixam
tímidos) Eu gosto munto do sinhô. Des que o sinhô era pequeninho, des
– Lá tudo é maluco, seu Luís... A Isaltina com os baile e o espritismo, a do tempo que o sinhô brincava na casa do seu avô, cum o seu Roberto e
mulatinha com as mania de noivado branco, o meu pai com as mania de a falecida dona Lígia... Eu gosto munto do sinhô. Antão eu disse “Eu não
chorá, os meu ermão sempre brigando, a Marica sempre se exclamando da posso í pro Sanatóro trabaiá nas obra sem í dizê pro seu Luís”. Eu gosto
vida. Tudo é maluco, seu Luís... Só quem se sarva é o João, o meu mulatinho... munto do sinhô, seu Luís... Eu vou indo, seu Luís... Inté outro dia, dona
Mira... O mulato canaia já vai indo...
A súbita calma vem ao rosto magro e mulato. A voz adquire o tom de
carícia: Marciano sai. Luís fecha a porta da rua. Escuta os passos lentos de
Marciano, amassando o areão do jardinzinho. Escuta a batida do portão se
– O João... O meu mulatinho... O sinhô nem sabe cumo eu gosto do meu fechando. Escuta os gritos, furando o silêncio da noite quieta:
mulatinho... Ele não há de sê canaia e bebo como o pai! (Os olhos raiados de
sangue fuzilam) Juro que não há de sê! – Si eu quisesse eu era jóqui, cambada! Foi aquele resto de branco que não
dexô! Si eu quisesse, eu era jóqui! Jóqui de prado! Jóqui de camiseta de cô!
Parece que neste instante Marciano acaba de ver alguma coisa horrível.
Porque os olhos baços fitam o teto da saleta, arregalam-se. E o tom de pranto ***
volta à fala arrastada, mas um tom de pranto misturado a ódio e vigor:
Quando os gritos de Marciano se perderam na distância, o silêncio denso,
– Ele há de sê jóqui! E jóqui dos bão! Jóqui de cancha redonda, jóqui do riscado pelos arranhões estrídulos e finos dos grilos e pelo coaxar do sapo
prado, jóqui de camiseta de cô! Não há de sê cumo o pai, não há de sê cumo próximo – o silêncio denso voltou àrua quieta, voltou à treva espessa. O
o mulato canaia que não foi jóqui porque não quis... silêncio invadiu a saleta, pelas frinchas da única janela.
O chapéu de aba-larga cai no assoalho. Os braços magros se erguem. As Mira falou:
mãos de unhas sujas se levantam, crispadas:
– Coitado!
– Se eu quisesse eu era jóqui, cambada! Eu não fui jóqui porque não quis...
Luís concordou, com o meneio de cabeça.


236 |ESTRADA PERDIDA 237
Tornou o silêncio, o silêncio perfurado pelos grilos, rasgados pelo coaxar 25.
do sapo próximo.
Depois, ouviu-se o som do piano, do piano vagamente desafinado,
tocando as notas inseguras. Os maricás estendem os galhos espinhudos por sobre o cimento da subida.

Dó, mi-mi. Dó, mi-mi. Ré, mi, ré, dó (rapidez demasiada) mi-sol. Luís está revendo os maricás daquele tempo, bem como estes. Daquele
tempo? Não serão os mesmos? Sim, são os mesmos, sim. Com os mesmos
Outra vez: galhos traiçoeiros, com as mesmas folhinhas miúdas e frágeis. Sim, são os
mesmos maricás daquele tempo, subindo a lomba. Mas a lomba, naquele
Dó, mi-mi. Dó, mi-mi. Ré, mi, ré, dó, mi-sol. tempo, era coberta de terra vermelha. Agora está coberta pela faixa de
Luís fala para Mira: cimento.

– Já começou o idiota do filho da doutora... Por entre as falhas do emaranhado ralo dos galhos espinhudos, os maricás
deixam ver a paisagem conhecida. O verde-claro do morro. A terra cor-de-
Desta vez é Mira quem meneia a cabeça, concordando. sangue da pedreira. O verde mais carregado da orla das árvores do mato.
O telhado, velhíssimo e escuro, apontando sobre a orla do mato, como a
Novo silêncio quebrado pelo piano, que faz contraponto com o coaxar do
quilha de um barco virado.
sapo e com o rascar dos grilos.
Como faíscam, como cintilam as pedras da pedreira! A pedreira... O
Luís torna a falar:
fio de umidade, parecendo veias da terra, correndo por entre as pedras
– A Mariazinha dormiu logo? incrustadas. Os arbustos nascendo na terra vermelha da encosta. A grama
verde, os treme-treme, agitados pelo vento, no alto da pedreira. Luís está lá
Mira sorri: bem perto, ao pé da pedreira, sobre o chão úmido, debaixo do qual – sim,
– Custou um pouco. Estava perguntando quem era que estava aí... Não sim! – está enterrado o lobuno, o coitado do cavalo cego... Vovô dizendo ao
conheceu a voz do Marciano. Marciano, ao Marciano que acabara de descer da pedreira, onde mostrava
os sulcos deixados pelos cascos do lobuno: “Enterra ele aí mesmo, Marciano.
Novamente o silêncio, novamente o piano, o sapo e os grilos. Não quero que os urubus comam o coitado. Faz uma cova bem grande”. Luís
vê o avô, o jeito elegante, o cavanhaque grisalho, o quê tristonho. A cabeça
Luís: do lobuno, esfacelada contra a pedra. Um pedaço de osso branco, saindo da
– Sábado, vou visitar a prima Sinhá... paleta. Pobre lobuno! A pedreira... O morro, a clasura dos capuchinhos, lá no
alto... O capuchinho gordo, moço e careca, aquele dia, assobiando satisfeito,
Mira: com a vassoura empunhada. Roberto assobiou também, fingindo cobra. O
capuchinho assustou-se. Ah! Assustou-se... Como Luís se lembra da cara
– Han, han.
do capuchinho... Gordo, moço, careca, os dedos graúdos aparecendo na
Novamente o sapo, os grilos, o piano, que desta vez começou o exercício sandália. O mato. O jardim. O casarão. Como estará agora o casarão? Desde
mais rápido e desenvolto, mas ainda de notas hesitantes. que governo comprou e instalou o colégio, Luís não entrou mais lá. Faz
quase dez anos, sim. Como estará o casarão? Sem pintura, de certo, cheio de
Dó, ré, mi, fá, sol, mi-dó, sol, fá-ré sol, mi-dó. goteiras, o peitoril das janelas carunchando, os dragões das abas do telhado
As narinas de Mira se inflam, fremem. Comentário: podres, perdendo pedaços...

– Parece mentira! Ainda tem o cheiro da cachaça do Marciano! Os maricás terminaram logo. E deram lugar aos chalés de madeira,
de telhado vermelho, pintados a óleo, de todas as cores, com o pequeno
avarandado na frente de sarrafos pintados de branco. Todos com o mesmo


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feitio. Do lado oposto, do outro lado da faixa de cimento, as casas antigas, os Sempre com o sorriso tímido nos lábios finos, nos lábios mal revelados,
casarões cinzentos e frios, de altas, de largas janelas, galgando pesadamente Luís continua a subir a faixa de cimento, beirando os novos casarões cor de
a lomba acentuada. Depois os chalés terminaram por sua vez. E vieram os cinza e pesados.
três bangalôs, de um só andar, novos, bonitos, de jardinzinho bem cuidado
à frente. Súbito, apontando bem no centro da faixa de cimento, no fim da faixa de
cimento, no lugar em que a faixa de cimento parece ligar-se ao céu limpo,
Como está diferente, a lomba! Ainda no ano passado, quando Luís veio a torre clara da igreja, a torre quadrada e alta, que sobe, sobe, parece um
visitar prima Sinhá, parece que aqueles dois últimos chalés de madeira não grande, um incomensurável obelisco, nascendo do cimento da faixa, furando
existiam. Eram maricás. Hoje os maricás desapareceram, deram lugar aos o céu.
chalés, floriram em chalés de madeira, chalés de operários, de eletricistas
talvez, de eletricistas que voltam cansados, à tarde, empunhando a bolsa Como está diferente, a igreja, como é diferente da igreja daquele tempo! A
das ferramentas. Aquele primeiro bangalô parece que também não existia igrejinha branca e pequena, com a cruzinha de ferro no topo – desapareceu.
no ano passado. Também é um ex-maricá. Os chalés e os bangalôs obstruem Floriu na igreja imponente, floriu na igreja colossal, cuja torre quadrada e
a vista conhecida, roubam a Luís a paisagem evocadora. Sim, os malditos alta, se ergue, majestosa, cheia de orgulho. É outra, a igreja!... E a igrejinha
chalés, os malditos maricás estão roubando a Luís a paisagem evocadora, branca, de cruzinha no topo? E... e... – mas que nitidez, meu Deus! – e Luís
a... a... sim, a estrada perdida! “Femúr não, herr proféssor! Que horror! correndo atrás de Roberto, e Lígia, inatingível, agilíssima, fugindo de Luís!...
Fêmur é que se diz!” O esqueleto no livro aberto, os dedos magros de vovô E, depois, o cansaço, o descanso nos degraus de laje da igreja, com a paisagem
apontando no livro. “Sem se estudar, o máximo que se pode ser na vida é esfumaçada da cidade distante, com as torres erguidas da Igreja das Dores,
motorneiro, her proféssor!” Sim, sim! Luís não é motorneiro mas é quarto com o rio serpenteando por entre o recorte verde das ilhas fronteiras... Lígia.
escriturário. Coisa parecida, vovô, coisa parecida... O senhor tinha muita Os cabelos longos e negros de Lígia, os cabelos bem diferentes dos cabelos
razão, vovô. Luís não estudou, Luís abandonou o Ginásio no terceiro ano. louros de Mariazinha... Os grandes olhos negros de Lígia... O riso de Lígia...
Vagabundeou até ficar maior, até o tio Antônio entregar o dinheiro ao Mas... mas como era bem o rosto de Lígia, com todos os detalhes? Moreno
tutelado vagabundo... Luís não soube andar na estrada perdida. O senhor era. Mas como era, no todo? Como era? Será possível que Luís não se lembre
não se sentia feliz notando que a vida irremediavelmente se escoava, a sua do rosto de Lígia? Como era o rosto de Lígia?
vida que, no entanto, foi feliz e digna. E Luís, cuja vida está estragada, está Os olhos de Luís se agrandam, com expressão angustiada. Porém brilham
definitivamente, insanavelmente, perdida? Herr proféssor, herr proféssor... contentes, quando Luís avista o casarão de prima Sinhá, o casarão de um
Luís não mais olha os chalés e os bangalôs. Sobe a passos largos, olhando amarelo sujo e descascado, de telhas negras e velhas, o casarão que se ergue
sempre o lado direito da faixa de cimento, o lado onde os casarões de altas no alto da barranca vermelha.
janelas sem venezianas – ascendem lentos e pesados. Com um suspiro de Luís apressa os passos lentos, aproxima-se da barranca vermelha, entra
desafogo, Luís nota, que, depois deste casarão, surge o grande jardim, de no corte da barranca, sobe os degraus de laje, cavados na barranca, chega
vastos taboleiros verdes, de enormes canteiros verdes, transbordando da ao jardinzinho abandonado, de estradinhas cobertas de inço. Galga, de dois
barranca vermelha. A mancha negra do padre, regando o jardim com o fio em dois, os poucos degraus da escadinha. Chega ao patamar, apoia-se ao
forte de água, de água que jorra veloz da mangueira estendida. corrimão de madeira carunchada, que cobre o ferro da escadinha. Aí, Luís
Como é bonita a água da mangueira, jorrando contra o sol, irizando- olha a paisagem distante, consegue avistar, por sobre os telhados novos dos
se, tomando todas as tonalidades, todas as cores possíveis! O padre, sem chalés de madeira, a orla do mato, o verde mais claro do morro, as pedras
o saber, está aguando a relva com a água de cor. As paredes brancas do faiscantes da pedreira.
Colégio, apontando por entre as últimas árvores da alameda dos plátanos. Aquele dia, Lígia também subiu assim, correndo, os degraus desta
Esse colégio é novo. Outrora, aqui, eram dois casarões frios e escuros. De escadinha. Olhou, com Roberto e Luís, a paisagem conhecida, a paisagem
quem? Luís não se lembra. Porém por que este casarão dá esta alegria a amada, onde havia a mancha cinzenta de lobuno. Depois, erguendo-se na
Luís, esta alegria mansinha, fraca, mas que, não obstante, é grata, é amável, ponta dos pés, Lígia apertou no botão da campainha. Primo Rodrigues
é boa? Que bonito, a água da mangueira jorrando contra o sol!


240 |ESTRADA PERDIDA 241
apareceu, a barba dura e amarelada. “Não é preciso tocar tanto! Pensam As mãos de múmia tornam a apertar, a magoar as mãos de Luís:
que a gente não ouve?”
– E como vais, Luís? Como vai a tua família? A tua filhinha está crescida,
E o dedo trêmulo de Luís aperta a campainha no toque tímido e breve, não? A Isaltina esteve aqui, um dia destes, e me disse que a tua filhinha é
como se o dr. Rodrigues fosse surgir, ralhando. muito bonitinha, muito engraçadinha...
*** Luís sorri:
As mãos pequenas, as mãos velhíssimas, as mãos que parecem mãos de – É bonitinha, mesmo, prima Sinhá... E muito inteligente, também... Não
múmia – apalpam, acariciam o rosto de Luís. saiu ao pai...
– O Antônio, a Ana, o Roberto, ninguém vem me ver... E tu há quanto As mãos da múmia erguem-se, tremem, protestam:
tempo não aparecias, Luís... Há quanto tempo não vinhas ver esta velha
coitada... – Não, não! Saiu ao pai, sim. Tu és inteligente, meu filho. Eu sempre achei.
O que te faltou, sempre, meu filho, foi força de vontade... A tua prima cega
Luís murmura: sabe ver as coisas que os outros não enxergam... És bem inteligente, sim,
Luís. Só o que falta é força de vontade... Te falta coragem... E é preciso muita
– Quase não tenho tempo, prima Sinhá... coragem, como diria o coitado do mano... Ele tinha razão o Mano, com as
As mãos velhíssimas, as mãos de múmia, agora, tomam as mãos de Luís, suas manias de coragem...
apertam-nas, com absurda força, magoam-nas: Nova pausa. Luís não diz nada. Prima Sinhá torna a apalpar o rosto de
– Eu sei... eu sei... Luís com as suas mãos de múmia. O rosto enrugado, cortado de rugas, com
pelancas flácidas caindo e tremendo, o rosto se aproximou aflito de Luís.
Pausa. Silêncio no quartinho escuro, no quartinho sem janelas, onde entra Também com aflição, os olhos mortos fitaram Luís. O olho em que ainda há
apenas a vaga claridade do corredor penetrando pela única porta, onde um pedaço de vida fitou, fitou o rosto de Luís.
apenas se escuta o murmúrio da boca chupada de prima Sinhá, mastigando
coisas. – Tu estás triste, Luís! Tu não és feliz, meu filho! Tu não és feliz...

Os olhos de prima Sinhá, embaciados, sem vida, fitam o rosto de Luís. As mãos de múmia, mais esta vez, apertam as mãos de Luís:
Só o olho direito possui um pouco de vida, um pedaço de vida. O outro é – Não ligues importância ao que diz esta velha caduca... Tu até tens muita
morto, inteiramente morto (Luís pensa: “Os olhos do lobuno eram assim”). coragem, Luís... Tu não gastaste o dinheiro todo do primo Ferreira em três
Do corpo frágil, do corpinho minúsculo de prima Sinhá, aconchegado à anos? Pois então! Foi coragem, meu filho, muita coragem... Não ligues
cadeira de embalo, envolto no vestido negro, de gola fechada e rendada de importância ao que diz esta velha caduca. Não ligues...
branco – do corpo frágil de prima Sinhá brota a voz doente:
Uma das mãos de múmia abandona a de Luís. Dá-lhe no rosto a pancadinha
– Tu sabes, Luís, estes olhos não veem nada... Estou quase cega... A catarata carinhosa. Torna a apertar as mãos de Luís. O risinho escorre da boca cavada,
está tomando conta também do outro olho... A tua prima velha está ficando mostrando as gengivas, muito vermelhas, sem dente nenhum:
cega... Não vejo o teu rosto direito... Só o vulto...
– Luísinho! Gurizinho medroso...
As mãos velhíssimas, as mãos de múmia de novo apalpam, acariciam o
rosto de Luís: Mas a expressão gaiata do rosto enrugado, do rosto de pelancas pendentes,
sucedeu a expressão de pavor, de pavor crescente, que os olhos mortos se
– Só o vulto... agrandar e bolir inquietos, que fez as mãos de múmia apertar com o máximo
de vigor as mãos de Luís, as mãos de múmia pedir socorro às mãos de Luís:
– Eu tenho medo, Luís! Tenho medo, meu filho!


242 |ESTRADA PERDIDA 243
Luís estranha: 26.
– Medo de quê, prima Sinhá?
A voz tímida, a voz de pavor, fala, baixinho: Os olhinhos redondos e negros, os olhinhos que contrastam intensamente
com o rosto claro e afogueado, fitam, atentos, o trabalho de Etelvina.
– Às vezes, de noite, eu tenho medo, Luís, muito medo!
Etelvina, alta, magra, sem seios, mexe com os braços compridos, os braços
Luís torna a perguntar: que parecem tenazes, que parecem guindastes e que erguem tampas de
– De quê, prima? panelas, erguem tampas do fogão, seguram a alça da chaleira.

Prima Sinhá não ouviu a nova pergunta de Luís. Fala, fala, sempre no tom Agora o guindaste duro e seco se dobra, ajoelha-se. As tenazes abriram
de pavor e de timidez, sempre magoando as mãos de Luís: a portinhola do fogão. E o sopro saiu da boca desdentada, avivou a
labareda, a labareda que quis fugir pela portinhola, mas voltou logo ao bojo
– Eu tenho medo, de noite... Custo a pegar no sono, de noite... E começo incandescente.
a ver o papai, a mamãe, o Mano... O Mário, também... Aparecem todos aqui
no quarto... Tenho medo... O papai fala do meu noivado, diz que não de Os olhinhos negros e redondos, que contrastam, intensamente, com
deixa casar com um boêmio, com um bêbado... E eu digo para ele que se o branco da tez e com o louro dos cabelos imponderáveis – brilharam na
não casar com o Mário não caso com mais ninguém... Depois o papai diz descoberta.
que o Mário morreu bêbado na sarjeta e como eu estaria arranjada se tivesse Mariazinha, no canto vazio da parede, que fica entre a mesa de superfície
casado com o Mário... Eu então digo: “Não me arrependeria!”. E o papai rústica e o armário de tela – Mariazinha construiu o seu fogão de mentira.
então fica furioso... O coitado do Mário aparece, também, com uma cara
de muito sofrimento, uma cara muito triste... O Mano diz que nada tem Os bracinhos redondos e gordos estenderam-se duros, imitando os gestos
importância, que não vale a pena casar, que se eu tivesse casado eu seria do guindaste. Ergueram os tampos das panelas imaginárias, seguraram a
medrosa, eu passaria a minha vida a chorar de medo... Todos vêm de noite, alça da chaleira de mentira.
aqui, Luís, todos vêm... E eu tenho muito medo, meu filho... Às vezes o
papai, o Mano e o Mário estão conversando muito amigos, e de repente me Depois, com a pose dura e hierática, mas com o sorrisozinho estampado
dizem: “Vem, Sinhá!” Eles me chamam, meu filho! Eu... eu... eu vou morrer! nos lábios finos, Mariazinha se ajoelhou, dobrou-se, foi também o guindaste,
Eu estou com noventa e dois anos e tenho um grande medo de morrer... Eles o guindaste que se partiu, que estendeu as tenazezinhas claras e gordas,
dizem: “Vem, Sinhá!”. Não me deixes morrer, Luís!... abriu a portinhola do fogão de mentira. Dos lábios finos saiu também o
sopro fortíssimo, o sopro que não quer parar mais. Todavia, da portinhola
Neste momento, o rosto enrugado, o rosto de pelancas pendentes e aberta do fogão imaginário não quer sair a labareda vermelha e bonita.
balouçantes – parece que vai se encostar no de Luís. Parece que a boca
chupada vai beijar a de Luís, enquanto as mãos de múmia apertam, sempre Mariazinha reclama para Etelvina:
com vigor extremo, as mãos de Luís. – A lenha não pesta...
As mãos de Luís tentam desvencilhar-se das mãos de múmia. Mas as A tenaz dura, a tenaz seca para de bolir na chaleira. Etelvina não
mãos de múmia não permitem. Agarram-se, colam-se às mãos de Luís. compreendeu:
E o apelo triste, cheio de pavor, descerra a boca chupada, a boca que – Como que a lenha não presta, menina?! Inté que tá um fogo bão...
mostra as gengivas muito vermelhas e sem dente nenhum:
O narizinho se franze, a cabecinha meneia contrariada, agitando os cabelos
– Não me deixes morrer, Luís! louros:
– Não é a tua lenha... É a minha...


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Etelvina ainda não compreendeu: Etelvina teima:
– A sua lenha?! – Han, han...
O narizinho de novo se franze. Os cabelos louros e imponderáveis de Mariazinha, desta feita, não liga. Os olhinhos redondos e negros
novo se agitam, no meneio contrariado: prescrutam a cozinha. Brilham.
– Ô, bula! Eu tô dizendo a minha lenha, lenha do meu fugão! – Ah, Etelvina! O papai mi contô onti uma histólia tão ingaçada...
Só então Etelvina compreende. Escancara a boca desdentada, no riso O guindaste prossegue na sua tarefa. E Mariazinha conta, o jeitinho
grosso, que destoa com a magreza, com a dureza do corpo comprido e sem trêfego no rosto afogueado:
seios, com a magreza dos braços longos e descarnados:
– Oia, Etelvina, uma veiz a minina feiz arte. O pai dela disse pá ela pá
– Tu tem tempo, menina! O teu fogão... Tu tem tempo, menina! não fazê arte. A minina feiz e foi bincá no tanque de lopa...Taíu e se moiô
todinha...
O guindastezinho continua dobrado, continua fazendo bico nos lábios
finos, e soprando, soprando. A grande alegria chega ao rostinho afogueado: Pausa. As sobrancelhas fininhas e louras contraem-se. Mariazinha pensa,
pensa. Descontraem-se as sobrancelhas finas e louras. Grande brilho, nos
– Pegô! Pegô! Oia, Etelvina, que fogo munito! olhinhos negros:
Etelvina não olha. Está atenta ao fogão de verdade, as tenazes descansando – Ah, Etelvina! Dipois, a minina saiu do tanque e veio os óio-regalado e
ao longo do guindaste duro e rijo. Porém Mariazinha não se dá conta. Nem mordeu a minina...
precisa do apoio admirativo de Etelvina, para continuar a trabalhar no
fogão de mentira, os olhinhos redondos e negros atentíssimos, o quê de Etelvina repete a risada grossa, mostrando os poucos dentes da boca
severidade na boquinha fresca. escancarada:
Resmungo da boquinha fresca: – Você tá mintindo, menina... Eu vi quando o seu pai lhe contou a história.
Não tinha cachorro dos olho arregalado nenhum!
– Uça, fezão dulo!
Os lábios finos descerram-se. O risinho sai, cantante:
A ira vem vindo ao rostinho afogueado, aos olhinhos redondos e negros.
As mãozinhas gordas e claras contraem-se de ódio. – Tinha, Etelvina! Tinha os óio-regalado... O pai não sabe...
Mariazinha abandona o fogão imaginário, rápida, com raiva. Aproxima- Sempre rindo o risinho cantante, Mariazinha sai pela porta aberta da
se de Etelvina. Diz, narizinho franzido: cozinha, desce ao pátio pequeno, de cerca de zinco. Aproxima-se da cerca
de zinco. Senta no chão duro.
– Não télo mais o fugão. O fezão não pesta!
Os olhinhos negros e redondos fitam o céu, fitam o telhado da casa, tornam
O guindaste comprido e duro, o guindaste longo e anguloso, de magra a fitar o céu. Depois, olham o chão.
tenaz empunhando a chaleira – não dá muita atenção à raiva de Mariazinha.
Limita-se a fazer: A terra dura, a terra feia do chão, é a comidinha, a comidinha gostosa, o
arroz gostoso, o caldo de feijão saborosíssimo.
– Han, han...
As mãozinhas gordas e curtas enterram-se na terra suja, debruando de
Porém, Mariazinha não se conforma. Puxa com a mãozinha gorda e clara negro as unhas curtas. As mãos porém param logo, quando Mariazinha
a saia escura, suja e molhada do guindaste: escuta o rascar leve, o rascar quase imperceptível na folha do zinco da cerca.
– O fezão não pesta, Etelvina!


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Mariazinha escuta, os olhos atentíssimos, a respiração suspensa. Continua 27.
o rascar leve, quase imperceptível, no zinco da cerca.
Os olhos atentíssimos se agrandam. O pavor chega ao rostinho afogueado.
As mãozinhas gordas e claras, sujas de terra, estendem-se, espalmadas, A luz da tarde, entrando pela meia-folha da janela, brilha nos ombros
como que afastando o grande perigo. cheios, nos ombros redondos e parados de Mira, escorre ao longo dos braços
quietos de Mira.
Continua o rascar leve, quase imperceptível, no zinco da cerca.
Agora os ombros parados começaram a bolir, lentos, fazendo a luz da
Sim! É ele, sim! É “os óio-regalado”, o cachorro feio, que anda sempre tarde também bolir calma. Os braços claros permanecem quietos.
ali na rua e que aquele dia arreganhou os dentes para Mariazinha. É “os
óio-regalado”, sim. Ele não gostou de entrar na história da menina arteira e Luís fala, ríspido:
veio mesmo, veio de verdade, está arranhando o zinco da cerca, quer pular – Por que esse choro, Mira?
a cerca, quer morder a Mariazinha.
Os ombros redondos, os ombros cheios bolem com mais intensidade. Os
Com o grande pavor no rostinho afogueado, nos olhinhos que contrastam braços claros também boliram.
intensamente com o branco da tez e com o louro dos cabelos – Mariazinha
se ergue, corre espavorida, entra na cozinha, agarra-se à saia escura e suja Luís repete:
de Etelvinha.
– Mas, Mira, que choro bobo é esse? Olha que a janela está aberta e vão
– Os óio-regalado, Etelvina! Os óio-regalado qué pulá pro quintal! Qué ouvir da rua...
mordê a Mariazinha...
Os ombros redondos, os ombros cheios agitam-se infrenes, a luz da tarde
E as lágrimas fáceis e rápidas rolam dos olhinhos negros, molham e dança na superfície clara. O pranto explode, convulso. As lágrimas rolam
rostinho afogueado. dos olhos esverdeados, dos olhos esverdeados que se desviam de Luís e
fitam obstinadamente o soalho. A voz dorida fala, entrecortada pelo pranto:
– Que ouçam! Não tenho vergonha... Sou uma infeliz! Sou uma desgraçada!
Que ouçam!
Luís se aproxima de Mira. Acaricia o ombro cheio com a mão espalmada.
Diz, reprimindo a impaciência:
– Infeliz, por quê, Mira?
O ombro cheio e redondo repele, brusco, a carícia da mão espalmada:
– Sou uma infeliz, sim! Tu... tu não gostas mais de mim... Tu... tu não
gostaste nunca de mim...
De novo a mão espalmada quer acariciar o ombro cheio, o ombro onde a
luz da tarde continua a dançar, a traçar arabescos de claridade. De novo a
carícia é repelida:
– Sou uma infeliz! Não tenho ninguém que goste de mim... A tia Marfisa
morreu... Mãe e pai nunca vi, foi mesmo que não ter... Não tenho ninguém
que goste de mim...


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Luís fala, sempre reprimindo a impaciência: uma pobretona, com uma infelizinha sem pai nem mãe, com uma criadinha
da tia maluca e solteirona... Egoísta... Egoísta eu, que casei contigo de pena
– E eu? E a Mariazinha? É verdade que a tua tia gostava muito de ti, que desta tua cara de infelizinha... Eu devia te bater, pobretona!
era mesmo que uma mãe... Mas não tens a mim? Não tens a Mariazinha?...
O punho erguido baixa com lentidão. A mão se abre, espalma-se ao longo
Prossegue o pranto, prossegue a dança da luz no ombro cheio e claro: do corpo de Luís, que olha Mira, Mira que está ali na cadeira, os olhos
– A Mariazinha é uma criança, é filha. Não se conta. Mas tu... Tu não esverdeados, avermelhando-se, congestionando-se pelo choro intensíssimo,
gostas mais de mim... Pensas qu’eu não sinto, qu’eu não vejo? Passas horas os ombros bonitos e cheios, com a claridade da tarde traçando-lhes arabescos
e horas sem falar comigo... Não me beijas há não sei quanto tempo... Ficas – na superfície clara, agitando-se convulsos.
pensas qu’eu não vejo? – ficas nervoso, ficas sem paciência, quando eu estou Luís corre, abandona a saleta, sai pela porta da rua, chega ao jardinzinho,
muito tempo perto de ti... Tu não me beijas mais... Isso com quatro anos de batido pelo sol já fraco, que quase se esconde por detrás do último dos
casados, só... Que fará quando fizer dez anos? Luís, tu... tu nunca, nem no bangalôs da ruazinha silenciosa.
princípio, gostaste de mim... Tu não gostas de ninguém...
***
A mão espalmada de Luís quer tentar a nova carícia no ombro cheio, no
ombro que sacode sempre no choro convulso. Desiste a meio. Lá no princípio da rua, surgindo de um lado do Armazém Gaúcho e
aparecendo na rua vermelha e poenta – o filho da doutora Elvira, montado
Os grandes olhos esverdeados de Mira, molhados de lágrimas, conseguem na bicicleta. Parece que vai cair. A bicicleta parece que cambaleia. A roda
fitar Luís. Chegam a brilhar de ira, chegam a ser enérgicos. O pranto cessa e da frente busca, ansiosa, o equilíbrio, vira-se para um lado e outro. O guri
dá lugar à voz agressiva: readquire estabilidade.
– A não ser da Mariazinha, tu não gostas de ninguém... E gostas da Surge, também, do mesmo lado do Armazém Gaúcho, o vultinho claro de
Mariazinha, só porque ela é parecida contigo... Tu és um grande egoísta, Mariazinha, correndo empós a bicicleta, as perninhas curtas não conseguindo
Luís... Tu não gostas de ninguém... Nem da tua mãe! Tu nem visitas a tua vencer a distância.
mãe...
E o guri vem vindo, na marcha balbuciante, a roda da frente sempre
Os olhos de Luís também brilham de ira. As suas mãos se contraem: insegura, guiando para um lado e outro.
– Já te disse que não visito a mamãe é por causa do meu padrasto!... Mariazinha agora alcança a bicicleta. Põe a mão gorda e curta no para-
Mira teima, agressiva: lama traseiro. A cara apalermada fita, com aflição, o rosto afogueado de
Mariazinha:
– Qual nada! Se tu gostasses dela tu ias na casa dela! Egoísta! Egoísta!
– Não bota a mão, guria, não bota a mão...
Luís grita, erguendo o punho cerrado:
O equilíbrio falhou de todo. O pé se estendeu, evitando a queda.
– Cala a boca! Cala a boca!
Mariazinha ri muito, bate palmas:
Os grandes olhos esverdeados de Mira perdem a expressão agressiva. O
pranto chega ao auge. A voz é dorida e pungente: – Tu não sabe, Zetinha! Tu não sabe!

– Me dá! Me bate! Era só o que faltava!... Com um grande esforço, fungando muito, apalermando ainda mais a
cara apalermada – Zequinha torna a impulsionar os pedais, torna a fazer a
O punho de Luís continua erguido. As suas palavras ainda estão repletas bicicleta rodar na marcha insegura. Aproxima-se de Luís, que está dobrado
de ira: sobre o gradil de tela. O rosto apalermado passa, enorme, rente a Luís, os
cabelos louros e melados grudados à testa, os olhos de poucas pestanas
– Eu devia te bater, mesmo! Egoísta... Egoísta... Egoísta eu, que casei com


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quase cerrados de atenção, os lábios da boca arqueada mordendo-se de Nos passos largos, de cabeça dobrada para o peito, coberta pelo chapéu sem
nervosismo, o grande, o inefável gozo estampado no rosto sem vida. feitio, pelo chapéu que deixa ver a carapinha branca, de mãos entrelaçadas
nas costas, de casaco larguíssimo, frouxo e esfarrapado, de grandes pés
Mariazinha, vendo o pai, para. Diz, rindo: silenciosos, envoltos nos sapatos de tênis sujos e pardos – Peleu vem vindo.
– O Zetinha danhô da mãe dele... Biciteta munita, não é, pai? Sempre nos passos largos, sempre de mãos entrelaçadas nas costas, sempre
Luís passa a mão por sobre o gradil de tela e segura o bracinho da filha. de olhos fitando o chão – Peleu se aproxima. Só quando Peleu está junto ao
Depois de uma pausa, os olhinhos negros e redondos, os olhinhos que gradil de tela, os olhos embaciados, os olhos incompreensíveis se erguem
contrastam intensamente com a cabeleira loura – fitam súplices os olhos de do chão. Enxergam Luís. Enchem-se de lágrimas. A voz grossa, fraca, sem
Luís: vigor, está embebida de tristeza:

– Tu vai mi dá o meu otomovezinho, pai? – B’a tarde, seu Luís!

Luís afirma com a cabeça. Mariazinha prossegue: Luís corresponde:

– Quando tu tive dim tu tá, não é, pai? – Boa-tarde, Peleu!

Luís não faz gesto nenhum. Leve tom de choro, na vozinha fresca, E notando as lágrimas de Peleu, que rolam no breu enrugado do rosto de
enquanto os olhinhos negros se inquietam: bugio velho e cansado:

– Tu não vai mi dá o otomovezinho, pai?... – O que é isso, Peleu? Que que tu tens?

Luís responde, sem calor: A mão enorme, pretíssima, cheia de sulcos fundos, que dão a impressão de
que a pele do negro é a superfície do terreno escuro, gretado, rachado pelo
– No dia que eu tiver bastante “dim” eu dou, sim, filha. Igualzinho àquele terremoto – a mão enorme enxuga o bigode branco, molhado de lágrimas,
que tu viste na cidade... Com buzina, sabes? de baba e de ranho:
De novo a alegria nos olhinhos negros e redondos, de novo a grande – A minha casinha, seu Luís, a minha casinha...
satisfação nas palmas batidas com frenesi pelas mãozinhas gordas:
Luís estranha:
– O pai vai mi dá o meu otomovezinho! O pai vai mi dá...
– A tua casinha? Que que tem com a tua casinha?
Zequinha passa de volta, rente a Luís, os olhos cerrados de atenção, os
lábios se mordendo, o grande gozo na cara apalermada. Mais lágrimas rolam dos olhos embaciados, molham a cara retinta e
cortada de rugas, misturam-se à baba e ao ranho do bigode. A voz grossa
Mariazinha sai correndo atrás da bicicleta, da bicicleta que caminha na diz, com esforço:
marcha hesitante, a roda da frente sempre procurando o rumo incerto.
– A Prefeitura qué me tirá, seu Luís! O home foi lá hoje e me disse que, se
Os olhos de Luís acompanham os dois vultos, que passam pelo casebre eu não pagá os imposto atrasado, a Prefeitura me tira a casinha, me leva a
de madeira, passam pelas casas cinzentas de porta e janela, passam pelo casinha...
campinho, passam pela fachada branca do Armazém Gaúcho, dobram
desaparecem na esquina da fachada branca do Armazém Gaúcho. Luís exclama:

As mãos de Luís se crispam, as unhas lhe magoam a carne da palma. – Não pode ser, Peleu!
Estão ainda cravadas na carne das mãos contraídas, quando Luís nota o A mão retinta e enorme torna a enxugar o bigode molhado:
vulto estranho, o vulto preto e desengonçado, que vem vindo já próximo
do Armazém Gaúcho, destacando-se preto contra a fachada branca do – O home disse, seu Luís! Que tem uma semana pra eu pagá... E eu nunca
armazém.

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paguei imposto, seu Luís... E não tenho dinhero, seu Luís... O dinhero da Outra risada grossa, enchendo as lágrimas felizes os olhos embaciados,
posentadoria não sobra... Eles vai me levá a casinha, seu Luís! ecoando no silêncio da rua quieta, misturando-se ao pregão do bilheteiro,
que se aproxima, capenga, arrastando a perna dura, o bilhete colorido
Luís faz o sorriso encorajador: esvoaçando na mão erguida:
– Não levam, coisa nenhuma! E vem cá pra dentro, Peleu. Entra. – Olha o quatro mil duzentos e quatorze! Olha a Sorte Grande! Olha o
Peleu não escuta o convite de Luís. Fala sempre, os olhos embaciados quatro mil duzentos e quatorze! Quem quer ganhar a Sorte Grande? Quem
fitando com desespero os olhos de Luís: quer a Bruta?

– Eu não posso ficá sem a minha casinha, seu Luís... Faiz tantos ano qu’eu Peleu continua a rir da risada grossa, as lágrimas felizes rolando sempre ao
tenho ela... Des que o seu avô veio de São Leopordo pra Porto Alegre... Ele longo do breu gretado do rosto de bugio velhíssimo. Não nota a aproximação
me deu o terreno e eu comprei umas tábua e fui fazendo... O falecido me do bilheteiro capenga, não nota a Etelvina aparecendo no jardinzinho:
deu o terreno... Eu não posso ficá sem a minha casinha... A falecida Tomásia – Quero um pedacinho, fregueis... O outro tava branco...
me ajudo a pregá as tábua...
Peleu, sempre rindo, não nota que a criada pagou ao bilheteiro, voltou
Luís tenta interromper, dizendo: para dentro de casa, não nota que o bilheteiro prosseguiu, capengueando e
– Eles não tiram nada! Vai falar com o Roberto que ele faz um requerimento gritando:
pro Prefeito, pedindo cancelamento... Tu és pobre, Peleu, e o Prefeito perdoa... – Olha a Sorte Grande! Corre pra semana! Olha a Bruta! Quem quer tirar
Mas Peleu não escuta. Inopinadamente, o ar doloroso, que escurecia a Bruta?
ainda mais o rosto de breu, que embaciava ainda mais os olhos embaciados Peleu cansa de rir. O peito negro, abrigado pela camisa suja e rasgada,
– inopinadamente, o ar doloroso desapareceu. Veio a beatitude, a profunda aparecendo nos rasgões da camisa – o peito negro ofega, dando a impressão
calma ao rosto do bugio velho, do bugio cansado, de carapinha branquíssima, de que o bugio velhíssimo, o bugio de carapinha branca e cansado, estivesse
de bigode babado e molhado das lágrimas e do ranho. A voz grossa e fraca ferido, de pulmões atravessados pela azagaia do zulu malvado.
falou calma, enquanto o sorriso feliz revelou as gengivas desdentadas e
roxas: – O mist Charle... “Pileu, mi trais o isque!”. Morreu o coitado do Mist
Charle... Que o Sinhô do Bom Fim proteja o coitado...
– O mist Charle me disse: “Tá bem, Pileu. Tu estar dono teu vida. Tá bem
Pileu”. Aí eu me casei com a Tomásia e vim cá pra cidade. Puxa que era frio Último pedaço de gargalhada grossa. Os olhos embaciados, súbito, fitam
na Terra do Fogo!... Quando nóis veio pra Rosaro de Santa Fé o home disse vagos qualquer coisa distante, qualquer coisa que parece vir lá do último
pro otro (a voz fraca e feliz fala em espanhol): “Che, amigo, que barbaridad! bangalô, onde o sol já se esconde por detrás do telhado vermelho e novo.
Llegó un gringo tan rico que tiene un velo negro em la cara!” “Mist Charle
gritava: “Pileu, mi trais o isque!” E dele isque, dele isque... – Seu Luís, eu às veiz fico pensando... pensando... E não intendo... Macaco
veio burro não compreende... Pru que que tudo morre, seu Luís? Pru quê
A risada grossa encheu o silêncio da rua quieta, encheu de lágrimas felizes que a gente morre?
os olhos embaciados:
Luís esboça o gesto vago. Porém, mesmo que falasse, Peleu não escutaria.
– Puxa, ingreiz bão, menino! Me troxe do Esprito Santo... De Punta Arena Porque os olhos embaciados continuam a fitar a coisa distante e invisível:
nóis fumo pra Rosaro de Santa Fé... (De novo a pronúncia em espanhol).
“Che, amigo! Que barbaridad! Llegó un gringo tan rico que tiene un velo – Nego veio burro não compreende... Pru que que o Sinhô do Bom Fim
negro em la cara”... Ôla “paisano” burro, menino! E o outro “paisano” burro dexa a gente morrê?... O seu dotô Ferrera, o mist Charle, o seu dotô Rodrigue,
que moiô o dedo no guspe e me passó na mão pra vê se saía o carvão... Ô a dona Ritoca... Eu tô assentado no mochinho e pego a me alembrá dos que
paisanada burra, menino! morrero... Inté da falecida Bilina me alembro... O seu dotô Ferrera, tão bão!
O seu dotô Rodrigue, o mist Charle, a dona Ritoca, a dona Lígia – tudo tão


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bão... Pru que que morre? Eu fico pensando, assentado no meu mochinho... A bocarra desdentada se descerra, admirada. Aos olhos embaciados
Eu... chegam aos poucos as lágrimas grossas, as lágrimas de grande, de intensa
felicidade:
As novas lágrimas, rolando grossas pela cara gretada e retinta – não
deixam Peleu falar. – Antão, o seu dotô Roberto pede pros home e eles não leva a casa?...
Mariazinha surgiu, outra vez, da fachada branca do Armazém Gaúcho, Luís torna a rir:
correndo empós a bicicleta, a bicicleta que vem vindo na marcha indecisa, a
roda dianteira hesitando sempre para um lado e outro. Outra vez Mariazinha – Claro! Vai falar com o Roberto agora mesmo...
conseguiu alcançar a bicicleta, colocou a mãozinha gorda no para-lama, Peleu se atrapalha, transforma-se no bugio velho e tonto, que estende
reluzente, outra vez a cara apalermada virou-se protestando: os grandes braços negros, que quer agarrar não sabe o quê, que procura
– Não bota a mão, guria, não bota a mão! qualquer coisa, que, por fim, consegue dizer:

Outra vez, já perto de Luís e de Peleu, o equilíbrio faltou a Zequinha, – Munto brigado, seu Luís! Vô no seu dotô Roberto amenhã cedo, que já
foi preciso que o pé se apoiasse na terra vermelha da rua. Outra vez as tá ficando tarde e a Marica vai ficá furiosa d’eu tá na rua... Té outro dia, seu
mãozinhas gordas de Mariazinha bateram palmas contentes: Luís. O sinhô do Bom Fim que lhe proteja... Munto brigado, seu Luís!

– Tu não sabe, Zetinha! Tu não sabe! Última atrapalhação do bugio velho cansado, de carapinha branca e
longos gestos, do bugio que, afinal, se afasta, de mãos cruzadas nas costas, de
Peleu não se apercebeu da passagem da bicicleta, pedalada pelo guri de chapéu sem feitio, de casaco comprido e frouxo, de largos passos decididos,
cara palerma, não se apercebeu da fugurinha loura de Mariazinha, correndo de cabeça sempre fitando o chão vermelho da rua quieta.
atrás da bicicleta, gritando para Luís, felicíssima:
– Papai!
***
Peleu conseguiu reprimir as lágrimas:
Em sentido contrário ao vulto preto e alto de Peleu, vem o vulto gordo da
– O sinhô não arrepare, seu Luís... Mais é por isso qu’eu choro... O seu doutora Elvira e o vulto franzino de seu Serapião.
dotô Ferrera, o seu dotô Rodrigue, o mist Charle, a dona Ritoca, a dona
Lígia, a sem-vergonha da Bilina... Eu me alembro... Zequinha avistou os pais. Pedalou, rápido, a bicicleta, pedalou resoluto,
afastando-se de Mariazinha.
A boca desdentada que, quando fala, mostra as gengivas roxas, com a
grande beiçarra superior escondida pelo bigode branco e molhado – a boca Mas, depois de passar o casebre de madeira, de passar as casas cinzentas
desdentada calou. Tornou a abrir-se logo, falando com pavor: de porta e janela, de passar o campinho, ao aproximar-se da fachada branca
do Armazem Gaúcho, a roda dianteira da bicicleta virou num rumo e
– Mais e a minha casinha, seu Luís?! A minha casinha?! Eu me alembrei de noutro, aflita. A bicicleta zigue-zagueou, zaranza. Caiu, de chofre, erguendo
falá com o sinhô que é tão amigo da gente... E a minha casinha? A Prefeitura a polvadeira vermelha.
vai tomá conta...
A doutora Elvira, de fartos seios, de amplíssimas ancas, correu, sacudindo
Luís ri: a tonelada gelatinosa de carne. Seu Serapião, franzino e leve, chegou
primeiro, ergueu o filho, ergueu a bicicleta.
– Não há perigo, Peleu... Eles não tomam conta, não! Tu és pobre e eles
te perdoam a dívida... Fale com o Roberto, que é advogado. Ele te faz um Zequinha veio pelo braço da mãe, joelho sangrando, mãos esfoladas,
requerimento, pedindo o cancelamento da dívida. acompanhado de Mariazinha. Seu Serapião veio atrás, trazendo a bicicleta
vazia, para-lama dianteiro retorcido e descascado.


256 |ESTRADA PERDIDA 257
Depois que o guri passou, chorando, a boca arqueada mais arqueada 28.
ainda, o jeito palerma mais pronunciado pelo choro – depois passou seu
Serapião.
Não obstante tudo, a grande alegria lhe canta no rosto parecido com o do Na escuridão, na treva impenetrável, o rosto do pai de prima Sinhá se
filho, no rosto branquíssimo e sem expressão. Fala para Luís: aproxima, colarinho alto roçando-lhe as orelhas, gravata preta enrolada em
torno do pescoço, suíças cheias e grisalhas tomando-lhe conta de quase toda
– Arte dá nisso... a fisionomia.
Para. Faz o risinho. O rosto grande, o rosto enorme chega bem próximo dos olhos mortos de
prima Sinhá, dos olhos que estão vendo na treva, através do único pedaço
– O senhor já está em casa há tempo, não, seu Luís? Esses funcionários lúcido. A boca se mexe com energia, falando a fala que só prima Sinhá escuta:
públicos são uns felizardos... Cinco horas, casa... Eu a minha querida
mulherzinha só largamos às seis e meia, ela com o consultório, eu com o – Com ele você não casará!
emprego... O senhor é um felizardo, seu Luís...
Prima Sinhá, hirta na treva, se escuta retorquir:
Luís reprime a irritação. Seu Serapião prossegue, sorrindo, parecendo
que vai dizer a coisa inefável: – Pois, meu pai, não caso com ele, mas não caso com ninguém!

– O senhor já sabe, não? Os bambas vão se encontrar em Munich... Meu O rosto enorme se apaga na treva. Torna a aparecer, afastado, lá num
bisavô era de lá, sabe? Vão se encontrar em Munich... Mussolini, Hitler, canto do quarto transbordante de negrume. Ao lado da cabeça do pai de
Chamberlain e Deladier... prima Sinhá surgem também a cabeça do mano e a do noivo.

Novo risinho no rosto sem expressão: O Mano diz qualquer coisa que prima Sinhá não compreende, mas que por
certo é muito engraçada, pois que o mano ri, ri, sacudindo a barba espinhuda
– Mas eu não faço fé, sabe? O Hiltler come a Tchecoslováquia, mesmo! e amarelada, apequenando os olhinhos duros e cinzentos, fazendo as outras
Não fosse ele o fuhrer, sabe? Tenho uma grande admiração por Hitler, sabe? cabeças também rir, rir o riso que prima Sinhá não ouve.
Bamba velho!
Súbito, as três cabeças calam, assumem um ar grave. Aproximam-se,
Notando a falta de receptividade de Luís, seu Serapião vai andar. Porém deslizando na treva, a do pai mais perto, a do mano e a do noivo mais
não resiste. Faz o novo risinho: distantes.
– Sabia? Daqui a dois meses temos os exames... (Grande sorriso na cara O rosto grande, o rosto enorme, quase coberto pelas suíças espessas e
sem expressão) Pro ano estou no Pré... Doutor Serapião, sabe? grisalhas, de pescoço envolto na gravata escura, de colarinho roçando as
orelhas – o rosto enorme torna a falar a fala que só prima Sinhá escuta:
A falta absoluta de receptividade de Luís, faz seu Serapião caminhar.
– O que que eu te dizia? O que que eu te dizia? Morreu bêbado, caído na
– Bom, até logo, seu Luís. Deixe ver como está o joelho do Zequinha... sarjeta... O que que eu te dizia?! Imagina se tivesses casado com ele...
– Até logo, seu Serapião. Não há de ser nada... Prima Sinhá, de lábios cerrados, outra vez escuta a própria voz ecoando
O vulto franzino, de cabelos melados e louros apontando sob o chapéu de na treva:
feltro, vai empurrando a bicicleta vazia, rumo ao bangalô, por trás do qual – Eu não me arrependeria!
o sol já se sumiu de todo.
As três cabeças explodem na nova gargalhada afônica, a do Mano
sacudindo a barba amarelada e espinhuda, apequenando os olhinhos
cinzentos. As três cabeças, rindo sempre, esvoaçam na treva, a princípio


258 |ESTRADA PERDIDA 259
lentas, no movimento de onda, depois rápidas, mais rápidas, formando a Novamente, prima Sinhá escuta o grito horrorizado, o grito que de fato
farândula louca de cabeças que riem, que esvoaçam, que pulam, que dançam ecoa no silêncio e na treva impenetrável do quarto:
na treva impenetrável, que parecem três balões de São João, agitando a luz
branca na noite sem estrelas, os três balões que vagueiam desnorteados, – Não! Não!
corridos, levados pelo ciclone intensíssimo. As três cabeças se aproximam, crescem, parece que vão entrar, que vão
Inopinadamente, os balões cansam, acalmam-se. E as três cabeças tornam penetrar pela parte lúcida do olho sem vida de prima Sinhá:
a reunir-se na escuridão do canto do quarto silencioso. – Vem! Vem conosco! Vem! É tão bom aqui...
As três cabeças conferenciam, cochicham-se frases ao ouvido. Terceiro grito apavorado:
De repente a cabeça do pai de prima Sinhá, a cabeça cujo pescoço está – Não! Não quero! Não vou!
envolto pela gravata escura, pelo colarinho que sobe até as orelhas, a cabeça
enorme, cujo rosto está quase todo tomado pelas suíças cheias e grisalhas As mãos de múmia tateiam, na treva, afastam o filó levíssimo do
– volta a se aproximar dos olhos mortos de prima Sinhá, que enxergam mosquiteiro, tateiam no gelo do mármore do bidê. Acham a caixa de fósforos.
através do único pedaço lúcido. As outras cabeças mantêm-se distantes. A
Trêmula, apavorada, uma das mãos de múmia risca o fósforo, faz a
primeira volta a falar, terna, insinuante:
chamazinha amarelada nascer na treva.
– Vem conosco, Sinhá!
A chama amarelada lambe o filó do mosquiteiro, transforma rapidamente
Prima Sinhá se escuta mais uma vez: o mosquiteiro em um enorme, em uma intensa, em uma cheia, em uma
invencível labareda rubra, que envolve os gritos guturais horríveis,
– Não! Não quero, pai! horrendos de prima Sinhá, que queima, que mata, que destrói as cabeças
A cabeça grande insiste: decapitadas.

– Anda! Vem conosco! É tão bom aqui...


Prima Sinhá torna a se escutar:
– Não! Não! Não quero, pai!
As outras cabeças se aproximam, enfileiram-se ao lado da cabeça de
suíças grossas. Gritam num tom de ordem e ao mesmo tempo de ironia, de
debique:
– Vem! Vem conosco! Vem!
Neste instante, prima Sinhá escuta o seu grito apavorado, o seu grito cheio
de horror, na verdade ecoando no silêncio do quarto:
– Não! Não vou! Não quero! Não quero!
Porém, as três cabeças insistem impiedosas, na voz afônica que ordena e,
ao mesmo tempo, debica:
–Vem! Vem conosco! Vem!


260 |ESTRADA PERDIDA 261
29. Luís, primeiro, olha o vulto alquebrado de Peleu, desaparecendo, engolido
pelo corredor sombrio. Depois, olha o corpo da prima Sinhá, iluminado pela
luz amarelada e tremida dos círios, as mãos queimadas entrelaçadas sobre
As mãos de múmia não são mais as mãos encarquilhadas, velhíssimas, o peito magro, sobre a mantilha rendada. Depois, olha a cruz dourada,
secas. Pousadas, entrelaçadas sobre o peito pela mantilha rendada – as mãos bordada no pano preto, brilhando um brilho vago. Depois, olha os vultos
de múmia agora são dois pedaços de carvão negríssimo e duro. sentados nas cadeiras da sala, no sofá de palhinha, perfilados em torno do
caixão, em torno do grande pedaço de carvão. Um deles fala, no silêncio:
Peleu se aproxima, lento, nos passos pausados e hesitantes. Bugio cansado,
bugio alquebrado e de carapinha branca, Peleu se dobra sobre o corpo morto – Eu sempre dizia que a dona Sinhá tava virando criança... Chegava de
de prima Sinhá. As lágrimas rolam fáceis dos olhos embaciados, riscam o noite dizia que tava vendo o pai, o irmão e o noivo... E ficava com medo... E
breu da cara preta, molham a mantilha rendada de prima Sinhá. me gritava pra acender a vela... Eu sempre acendia... Mas esta noite (suspiro
profundo) não me chamou... Quando vi, foram aqueles gritos e já o fogo
A mão grande, a mão trêmula, a mão gretada, a mão fendida de Peleu queimando o mosquiteiro... Coitada!
ergue com leveza o lenço branco.
Luís, com esforço, consegue ver o vulto gordo e baixo da dama de
O rosto horrendo, o rosto queimado, cujas sobrancelhas desapareceram companhia de prima Sinhá, os braços curtos, as mãos de lavrador refletindo
levadas pelo fogo, o rosto inteiramente negro, mas guardando na boca a chama tremida e amarelada dos círios. Luís se lembra que prima Sinhá
chupada o ríctus de profundo, de inenarrável pavor – o rosto de prima chamava a dama de companhia de pata-choca. O vago sorriso se estampa
Sinhá aparece. E prima Sinhá, pequena, franzina, dentro do caixão escuro, nos lábios finos de Luís.
de mãos queimadas postas sobre o peito – é toda ela um pedaço de árvore
incendiada, um tronco queimado de árvore, um grande pedaço de carvão. A pata-choca suspira, novamente, o suspiro profundíssimo e cheio de
mágoa:
Bugio cansado, bugio alquebrado e de carapinha branca, Peleu soluça.
Fala, as lágrimas fáceis misturando-se à baba e ao ranho do bigode sempre – Ai, ai! (Pausa), descansou, a coitadinha...
úmido: Aquelas mãos fortes, aquelas mãos de lavrador beliscavam prima Sinhá...
– Ela era tão boa pros pobre! Quando o Marciano era piqueno, ela levava Prima Sinhá, na noite, apavorada, pedia socorro, pedia luz... E as mãos
ropinha pra ele... A Tomásia gostava munto dela... Ele era tão boa pros pobre! de lavrador não atendiam. Pelo contrário, beliscavam prima Sinhá... Pata-
choca! Pata-choca malvada!
A mão grande, a mão gretada e trêmula torna a cobrir com o lenço branco
o rosto de prima Sinhá. E de quem será esse choro, esse choro que cresce, que se torna um pranto
histérico, convulso? De quem será?
Depois, a mão grande e negra mergulha no bolso fundo do casaco
larguíssimo. Retira a rosa vermelha, quase murcha, intensamente vermelha. Luís porém não quer ver de quem seja o choro, o choro convulso, que vem,
por certo, de algum daqueles vultos encolhidos nas cadeiras de palhinha e
Desajeitados, duros, os dedos da mão grande e gretada desfazem a rosa, mal iluminados pela claridade amarelada e tremida dos círios. Não, Luís
espargem as pétalas vermelhas sobre o pedaço negro de carvão. não quer ver.
Mais um soluço. Mais estas palavras da voz grossa e fraca: Sente ódio. Ódio da pata-choca cínica, ódio do choro absurdo. Quem
poderá chorar assim a morte de prima Sinhá, da pobre velhinha abandonada?
– Ela levava ropinha pro Marciano...
Choro absurdo, choro absurdo! Pata-choca malvada, pata-choca cínica!
Lento, nos passos pausados e hesitantes, cabeça branca tombada para
O ódio crispa as mãos de Luís, que sai da saleta escura e abafada, acotovela-
o peito, soluçando, ainda com as lágrimas fáceis rolando pela cara preta
se com os outros vultos do corredor sombrio.
e enrugada, misturando-se à baba e ao ranho do bigode úmido – Peleu
abandona a sala, desaparece no corredor sombrio, acotovelando-se com os
vultos silenciosos.

262 |ESTRADA PERDIDA 263
Um deles toma o braço de Luís. Fala baixo: Silêncio. Antônio quebra-o, com o suspiro discreto:
– Olá, Luís! Como vais? – Coitada da nossa prima Sinhá! Que morte horrível...
Luís vê o rosto alegre de Roberto, o porte hercúleo e nutrido, o jeito Roberto concorda:
satisfeito:
– Horrível...
– Olá, Roberto!
Luís cala. O novo silêncio é quebrado ainda por Antônio:
Roberto insiste:
– A que horas sai o enterro? Já são quase quatro horas...
– Como vais?
Roberto informa:
Luís responde, sem calor:
– Está marcado pras quatro...
– Vou indo.
O novo silêncio chega, traz a impaciência a Luís, que começa a sentir a
Roberto estende o braço para o outro vulto que vai passando no corredor angústia que sobe, sobe, resseca-lhe a garganta. Luís quer ir:
escuro.
– Vou lá fora fumar um cigarro...
– Papai, olha o Luís!
Roberto faz o riso abafado:
Antônio, gordo, forte, grisalho, abraça Luís, aperta-o, cordial:
– Te lembras , Luís, do cigarro “Para-Todos”?
– Então, seu desaparecido? Por que que não aparece lá em casa? Até
ando pensando que você desconfiou alguma coisa... Você foi sempre tão Luís não responde. Insiste:
desconfiado... – Vou lá fora...
Luís faz o sorriso tímido: Porém, quando vai caminhar, seguram-no novamente pelo braço. Luís se
– Que qu’eu ia desconfiar com o senhor, tio Antônio? Não, não tenho volta e vê o rosto magro, o vultinho minúsculo e grisalho do padrasto, que
aparecido porque não tenho tido tempo... Eu devo tanta obrigação ao fala, ríspido, sem cordialidade:
senhor... Por que que ia desconfiar? – Olhe, a sua mãe está ali na sala e quer falar como senhor...
Antônio nega com o gesto abundante dos braços fortíssimos: Luís desvencilha-se brusco da mão do padrasto.
– Qual obrigações, nada! Você não deve coisa nenhuma... E como vai a E sem responder-lhe, calado, foge, acotovela-se com os outros vultos
família? Como vai a mulher, como vai a filhinha? que estão perfilados ao longo das paredes do corredor sombrio, passa na
Ainda com o sorriso tímido, Luís informa: varanda iluminada (sobre a mesa estão duas xícaras vazias de cafezinho),
roça a grande avenca, que se debruça para fora do vaso, ali na coluna, chega
– Bem, tio Antônio. à porta, entra na luz da tarde claríssima.
Roberto intervém, de novo segurando Luís pelo braço: ***
– Vais no cemitério comigo, no meu auto... Depois te levo em casa. Exijo. O verde-claro do morro, o vermelho da pedreira faiscando nas pedras
Ouviste? prateadas, o verde-carregado da orla do mato, o telhado velho, de telhas
escuras, emergindo da orla verde-escura, como a quilha do barco virado.


264 |ESTRADA PERDIDA 265
Luís baixa os olhos, pousa-os nos telhados vermelhos dos bangalôs, na Peleu se afasta para dar passagem aos homens. Ainda pergunta:
fachada colorida dos bangalôs, nos jardinzinhos floridos dos bangalôs.
Baixa-os, ainda mais, e vê o toldo dos três automóveis, apontando na – Pru que, seu Luís?
superfície da barranca, o toldo negro, enfeitado de ornatos dourados, do Luís não responde. Fita, com ânsia, com sofreguidão, a mangueira, que
carro fúnebre, mais alto que os automóveis. Escuta os pedaços de frases dos o padre empunha no jardim do colégio vizinho, a mangueira que ergue
choferes, as frases que sobem a escadinha cavada na barranca, passam pelo sempre, contra o sol, o penacho líquido e colorido, a mangueira que é a
jardim coberto de inço, sobem a escada maior, chegam, incompreensíveis, grande ave-do-paraíso, pavoneando-se no tabuleiro verde-claro do jardim.
aos ouvidos de Luís. Agora a gargalhada veio rápida, subiu a escadinha da
barranca, correu pelo jardim abandonado, invadiu o cérebro de Luís. De olhos no jato veloz da mangueira, Luís não escuta o rumor da porta
se abrindo de todo às suas costas, não vê que o caixão vai saindo, carregado
Luís, irritado, desviou os olhos do toldo dos autos, voltou-os para por Antônio, Roberto, seu José e outro homem, o caixão levíssimo, que leva
a esquerda, viu o padre, no colégio vizinho, aguando, com a mangueira no bojo o pedaço de árvore incendiada.
longa, os tabuleiros verdes do jardim caprichado. Da mangueira longa sai
o jato veloz da água, da água que sobe para o sol, desce colorida, parece o
penacho da grande, da imensa ave-do-paraíso.
***
Luís torna a buscar outro rumo para os olhos displicentes. Torna a fitá-
los na paisagem conhecida, que aponta por sobre os telhados vermelhos
dos dois bangalôs. Torna a ver o verde-claro do morro, o vermelho da A descarga possante e estrepitosa dos dois motores conjugados enche de
pedreira faiscante, o verde-carregado do mato, o telhado antigo do casarão. rumor a descida pronunciada, leva veloz o auto luzente, afasta o auto lustroso
Lá, contra o verde-claro do morro, aparecia a mancha cinzenta do lobuno, da cidade morta e branca, que está lá em cima do morro, terrivelmente
do cavalo cego. Os olhos de prima Sinhá, aquele dia, quando prima Sinhá silenciosa.
apertava com as mãos de múmia as mãos de Luís – os olhos de prima Sinhá
pareciam os olhos do lobuno cego... Luís sente o calafrio percorrer-lhe a Roberto ri:
espinha. Torna a procurar novo alvo para os olhos displicentes. – Estás vendo que embalada rápida? Se ponho o pé no fundo assim na
Vê Peleu, surgindo do lado do casarão, passando pelos caminhos cobertos descida, somos capazes de levantar voo... V-8 é uma coisa muito séria...
de inço do jardim abandonado, chegando no primeiro degrau da escada. Na janela aberta do auto veloz, a paisagem passa rápida. Árvores, árvores,
Peleu vê Luís. Fala, lá de baixo mesmo, sem subir, os olhos embaciados casas, casas, guri na porta da casa, mulher gorda caminhando de chinelos,
fitando interrogadoramente os olhos e Luís, o bigode grisalho sempre árvores, casas, árvores, casas, auto vindo em sentido contrário.
molhado de baba e de ranho: Roberto torna:
– Seu Luís, é a mode qu’eu pergunto: pru que as pessoa morre? Pru quê? – No tempo que tinhas auto não havia V-8, não?
As lágrimas fáceis tornam a apontar nos olhos embaciados, tornam a rolar Casas, casas, esquina, guarda dando passagem com o braço estendido,
pelo breu da cara enrugada, tornam a molhar o bigode babado e ranhento: bonde, casas,casas, namorados na porta, arvorezinhas, arvorezinhas, auto
– Pru que a coitada da dona Sinhá morreu? Que que serviu sê boa? E pra em sentido contrário. Luís responde:
que morrê desse jeito, queimada que nem um toco de lenha? É a mode qu’eu – Havia o primeiro tipo. Muito feio. Não tinha a velocidade deste.
pergunto... Pru que ela morreu?
Roberto ri:
Luís ia responder, quando a meia-folha da porta, às suas costas, se abriu
e deu passagem aos homens, que carregam as coroas, as coroas de folhas – Foste trouxa, hein, Luís?
frescas, de flores novíssimas, as coroas tilintantes de biscuí, todas com as
fitas azuladas pendentes, estampando as letras cor-de-ouro.

266 |ESTRADA PERDIDA 267
Casarão maior, casas menores, arvorezinhas, bonde, auto em sentido Outra risada de Roberto:
contrário, trilhos paralelos e cintilantes indo, outro guarda mandando
parar. Em pouco, o guarda abre a passagem e o V-8 ronca na arrancada – Tu não tens sorte nenhuma, Luís!
velocíssima. A risada atrapalha. Prossegue:
– Estás vendo que embalada? Ah! O Peleu um dia destes foi lá em – Não tens sorte. Mesmo! A coitada da velhinha morreu e é nossa prima
casa assustado, que iam-lhe tirar a casinha. Fiz um requerimento e fui na longe... Imagina se fosse parenta chegada... Entrarias num bom bolo, hein?
Prefeitura e consegui o cancelamento. Sou muito cotado na Prefeitura... Mas não tens sorte. O bolo todo vai pros sobrinhos-netos dela, lá de Bagé...
Casas, arvorezinhas, outra casa maior, mais casas menores, automóvel Não tens sorte, Luís!
parado defronte a uma, mais trilhos paralelos e cintilantes que vão, vão, Autos em sentido contrário, trilhos paralelos, arvorezinhas, casas. Roberto
vão. prossegue, mas no tom de piedade:
– Foste trouxa mesmo, Luís... – Também. Luís, pra que foste te meter em casamentos, quando o dinheiro
Casas, casas, esquina, casas, auto em sentido contrário. já tinha se acabado... E casar com uma moça pobre... Olha, eu sou rico, mas,
se algum dia cometer a asneira de me casar, casarei com uma moça mais rica
– Por quê, Roberto? do que eu... Ah, se casarei! Tem paciência, Luís, tu foste trouxa...
Nova risada: Luís diz com energia:
– Te casaste... Pra quê? – Para aqui, Roberto!
Resmungo de Luís. Arvorezinhas, casas, gente na calçada, casas. Torna Uma, duas, três casas. Esquina.
Roberto:
– Mas eu vou te levar em casa...
– Eu não quis saber de me casar. Já estou com trinta e três anos e nem
penso nisso. Gozar a vida, viste? Gozar sempre. Ganho dinheiro como o Mais energia na voz de Luís:
diabo, com a minha advocacia! Pra quê? Pra guardar? Uma ova! Gozar, – Não, não quero. Obrigado. Vou descer aqui na esquina e pegar o bonde.
gozar. Agora ando com uma moreninha daqui... Uruguaia... Carmencita... Gosto mais de andar de bonde...
Que corpo, seu Luís! E que beijos! De chupar a alma da gente, de deixar a
gente completamente besta... Que uruguaia, seu Luís! Roberto insiste:

Mais casas, outra esquina, outro guarda dando passagem de braço – Mas Luís...
estendido, auto em sentido contrário, arvorezinhas, trilhos, trilhos paralelos
Luís já abriu a porta do auto. Roberto aperta os pedais, freia.
e cintilantes. Homem atravessando a rua.
– Estás brabo comigo, Luís? Eu estava brincando...
Roberto:
Luís desce do auto e fala já sem energia:
– Sai da frente, desgraçado! Esse pessoal parece que não tem amor à vida...
Querem que o auto se desvie... Mas, Luís, por falar em vida, como vai a tua? – Não, não estou. É que quero ir de bonde...
Casa, arvorezinha, casas. Outro resmungo de Luís: A porta torna a se fechar com o empurrão violento. Roberto ainda grita:
– Vai indo. Sem miséria, sem fome, mas também sem nenhum conforto... – Aparece lá em casa... Eu te...
A descarga estrepitosa dos dois motores conjugados abafa o resto da frase.


268 |ESTRADA PERDIDA 269
30.
***
Os cabelos louros e imponderáveis esvoaçam, na corrida das perninhas Os olhinhos negros e redondos semicerram-se. A boquinha sopra no
curtas. Os olhinhos redondos e negros, contrastando com o louro dos buraco do ferro de engomar minúsculo, sopra as brasas de mentira, faz as
cabelos – fitam com alegria o vulto de Luís, que se curva, que interrompe centelhas invisíveis sair, voar pelo bico aberto e arreganhado.
a corrida da filha, que lhe suspende no ar o corpinho rechonchudo, que
lhe abraça, que lhe aperta o corpinho rechonchudo. Os bracinhos curtos e Depois a língua se espicha, molhando o dedinho gordo que bate, rápido
gordos retribuem o abraço, apertam, apertam sem força o pescoço do pai. e cauteloso, na base do ferro minúsculo.

Os olhinhos redondos e negros examinam atentos o rosto de Luís. Pergunta Satisfação plena, no sorriso da boquinha de lábios finos, da boquinha que
admirada: se descerra e exclama:

– Tu tá çolando, pai? – Tá quente!

Luís faz que não com a cabeça. Mas Mariazinha insiste, molha o dedinho O avental velho e rasgado, o pedaço de macacão, com elefantes estampados,
gordo na lágrima que está rolando pelo rosto do pai: o farrapo de fralda, a meinha furada – tudo está amontoado, ali no único
degrau, que leva à porta da casa.
– Tu tá, sim. Oia aqui, ó!
Mariazinha se ajoelha e depõe o ferro com cuidado sobre a laje do degrau.
Luís aperta, aperta o corpinho rechonchudo, parece que vai matar, que
vai aniquilar, esmigalhar o corpinho rechonchudo. De olhinhos severos, de jeito compenetrado, de lábios finos premidos na
atenção intensa – Mariazinha toma o avental velho e rasgado, estira-o sobre
Através da névoa das lágrimas, vê o filho da doutora Elvira, saindo do a mesa de mentira.
bangalô, montado na bicicleta, caminhando pelo centro da rua poenta, na
marcha menos hesitante. De olhinhos severos, de jeito compenetrado, de lábios finos premidos na
atenção intensa – Mariazinha faz o ferro deslizar, lentamente, para um lado
De voz comovida, Luís promete: e outro.
– Quando o pai tiver “dim”, minha filha, ele te dá o automovelzinho. Novo sorriso satisfeito. O avental velho e cheio de rasgões é dobrado com
Com buzina, sabes Assim, o pií-pií... cautela, é deixado no outro extremo da mesa de mentira.
O beijo estalado lambusa o rosto molhado de Luís. Novo sorriso satisfeito. Novamente o jeito compenetrado, os olhinhos
severos, os lábios premidos. Novamente o ferro começa a deslizar, para
um lado e outro, desta vez alisando o pedaço de macacão, os elefantes
estampados, de tromba erguida e grossa.
É verdade que o pedaço de macacão continua amassado, amarfanhado,
cortado de rugas e dobras, é verdade que os elefantes de tromba erguida e
grossa continuam vincados e dobrados, como se fossem elefantes mortos,
pisados, caídos em armadilhas traiçoeiras. Não obstante, o ferro continua a
deslizar, pra lá, pra cá. Não obstante, os olhinhos negros e redondos veem o
pedaço de macacão se alisar, veem as rugas desaparecerem, veem os elefantes
se enrijarem, ressuscitarem, se empinarem eretos e fortes. O trabalho desta
vez foi feito com tanta perfeição, os olhinhos negros e redondos viram o


270 |ESTRADA PERDIDA 271
pano tão impecável e liso – que Mariazinha se ergueu, recuou dois passos, Trepa no gradil de tela, ajoelhando-se no reboco duro de areão saliente,
olhou de longe a sua obra, como o jardineiro que recua para melhor gozar dobrando-se sobre o ferro que emoldura o emaranhado do arame trançado.
o canteiro bonito.
Os olhinhos negros e redondos, os olhinhos que contrastam intensamente
Como o jardineiro que recua, Mariazinha falou: com o louro dos cabelos imponderáveis – dão na fachada do Armazém
Gaúcho, no verde do campinho, nas fachadas cinzentas das casas de porta
– Matatãozinho munitinho... e janela, nos bangalôs coloridos, na madeira do casebre. Tornam à fachada
Neste momento, pela porta aberta chegou a voz de Mira: colorida do primeiro bangalô.

– Mariazinha! Ruguinha vaga, ruguinha leve entre as sobrancelhas finas e ralas.

Ar contrariado no rostinho fresco: Daqui a pouco o Zequinha vai tocar o piano, na lição de depois do almoço.
Música sem graça... Mariazinha não gosta. Música boa é aquela que toca no
– Ti é, mãe? rádio da doutora e que mamãe canta, às vezes. Como é? Como é? Ah!
Novamente Mira: Sacodindo o corpinho rechonchudo, pisando os joelhos no areão do muro
– Mariazinha dá o compasso à música gostosa. E canta, baixinho, o sorriso
– Que que estás fazendo?
gaiato nas comissuras dos lábios finos:
Ainda ar contrariado:
O dalo, quando canta, é dia,
– Tô passando a lopa...
é dia,
A voz grave de Luís, também chegando pela porta aberta:
Malia,
– Que roupa, minha filha?
é dia,
Os olhinhos negros e redondos se agrandam, admirados:
Ma...
– Ué! A lopa do Zuão...
O canto cessa. Os olhinhos negros e redondos seguem a galinha que na
Riso de Luís: verdade acaba de surgir, vinda do campinho.
– Que João, minha filha? Grito admirado:
Ao ar admirado segue o ar displicente. Os lábios finos se espicham, – Mamãe! Mamãe! Oia o dalo quando canta... O dalo quando canta tali...
também displicentes:
Os olhinhos cintilam, divertidos, quando a galinha foge espavorida,
– O Zuão... (Pausa. Os olhinhos brilham) O muneto qui tu mi deu... atravessa a rua na corrida doida, escapando ao auto, que surgiu do lado da
fachada branca do Armazém Gaúcho e se foi, roncando, erguendo a poeira
Nova risada de Luís. Silêncio. Como o jardineiro satisfeito com o serviço, vermelha.
Mariazinha torna a se aproximar do degrau da porta. Dobra, com cuidado,
o pedaço de macacão, os elefantes estampados. Mas se desinteressa, de O risinho contentíssimo:
súbito. Fala:
– Puça, mãe! O otomove casi pedô o dalo quando canta... Coitado do dalo
– Não passo mais lopa pu Zuão!... quando canta...
Abandona a mesa de laje, abandona o pedaço de macacão, o avental velho Os olhinhos negros e redondos, de inopino, perdem o interesse pela
e rasgado, o farrapo de fralda, a meinha rasgada. galinha, que teimou e voltou ao campinho, lenta, batendo o bico na terra do


272 |ESTRADA PERDIDA 273
passeio, biscateando sujeirinhas da terra do passeio. Os olhinhos redondos – Que que o sinhô qué, fregueis?
e negros perdem o brilho satisfeito. A ruga vaga, a ruga leve torna a nascer
entre as sobrancelhas finas e ralas. O freguês sorri. Pergunta:

O auto quase pegou a galinha. O auto. O automovelzinho. Papai disse – A senhora trouxe o pedaço?
que vai dar. E com buzina. Com buzina que faz pií-pií. Mas papai só vai As tenazes duras mergulham zaranzas no decote sem seios:
dar quando tiver “dim”. (A ruga leve e vaga vinca, um pouco mais, a testa
claríssima, rente ao ouro da franja) Por que que o papai não tem “dim” pra – Taqui, fregueis!
dar o automovelzinho? Ele sempre traz, de vez em quando, uma porção
O capenga toma em u’a mão o pedaço de bilhete. Com a outra desdobra o
de “dim”, uma porção de pedaço de papel de “dim”. E mamãe dá o “dim”
papel enorme, a lista cheia de números. Sorri, novamente:
pro homem da carne, pro homem do pão. Por que que o homem do pão e
o homem da carne ganham o “dim” do papai? Por que que o pai não dá o – Quatro mil duzentos e quatorze, não? Veja aqui. (O dedo grosso, de unha
automovelzinho à Mariazinha com o “dim” que a mamãe dá pro homem da tarjada de sujeira, percorre os números alinhados, para num, de algarismos
carne e pro homem do pão? Mariazinha vai dizer pro papai. É! Mariazinha grossos e cheios) Quatro mil duzentos e quatorze. Cem contos, freguesa! A
vai dizer, agora mesmo. senhora tirou a bruta, freguesa!! A senhora tirou dez contos de réis!!
Porém, quando Mariazinha desce da base do gradil de tela (os joelhos estão O guindaste parece ter enlouquecido. As tenazes duras se agitam, com
furados nos buracos do areão de reboco), o homem capenga se aproxima, fúria. Erguem-se, baixam, erguem-se, baixam. O guindaste corre até a porta
empunhando o grande papel branco dobrado, o papel branco que parece o da casa, pisa nas fazendas amontoadas. Volta. Torna a agitar as tenazes
avental que Mariazinha acabou de passar. duras.
Mariazinha para. O capenga também para, do lado de fora do gradil. Diz – Dez conto de réis?! Dez conto de réis?! Não pode sê, fregueis! Não pode
com um jeito muito contente: sê!
– A cozinheira está, menina? O freguês bole com a perna capenga. Sorri, novamente, o sorriso que
mostra os dentes esverdeados:
Com o quê adulto e cerimonioso, Mariazinha informa:
– Sim, senhora! Quatro mil duzentos e quatorze... Dez contos de réis...
– Tá.
O guindaste olha, aflito, para a janela da casa. Corre, aproxima-se,
O capenga torna a falar, ainda mais contente:
desengonçado, da janela. Diz para Mira e Luís:
– Me chame ela. E diga pra ela que é o bilheteiro que taqui e tem uma
– Dez conto de réis...
notícia muito boa pra falar com ela...
O freguês torna a mostrar os dentes esverdeados, no sorriso largo:
Mariazinha corre, sobe o único degrau de laje, pisa nas fazendas
amontoadas, entra porta adentro, já gritando: – Eu vim lhe buscar, freguesa, pra ir na Loteria retirar a grana...
– Etevina! Etevina! O bietero taí e té fala cotigo! Etevina! Etevina! O guindaste se aflige:
Guindaste aflito, guindaste que sacode desordenadamente as tenazes – Grana?!
duras – Etelvina em pouco surge na porta da casa, seguida de Mariazinha.
Luís e Mira aparecem na única janela que dá para o jardinzinho. Novamente os dentes esverdeados:

O guindaste desengonçado, o guindaste aflito, agitando sempre as tenazes – O dinheiro. Os dez contos de réis... A senhora vai comigo buscar... E me
duras – se dobra sobre o gradil de tela: dá um presentinho, não?


274 |ESTRADA PERDIDA 275
Os olhos de guindaste assumiram um brilho duro, ficaram olhos de Os olhinhos negros brilham. A cabeça sacode, compreendendo:
guindaste. Fala desanimada.
– Ahn...
– Presentinho? Sim... Dô, sim...
Luís acaricia, com a mão espalmada, o ombro cheio, o ombro lustroso de
Os dentes esverdeados tornam a aparecer: Mira, aparecendo no vestido sem mangas. Luís sorri, amargo:
– Que que está esperando, freguesa? – Te prepara, Mira... Ninguém vai poder com a Etelvina... Não viste a
superioridade com que ela te disse que vai lavar a louça na volta? Te prepara...
O guindaste, ainda de olhos duros e contrariados, quer aparentar calma.
Dá dois passos sem pressa, na direção da porta. Olha com displicência os Mira concorda:
cabelos louros de Mariazinha. Olha com displicência Luís e Mira, dobrados
à janela. Mas o descontrole vem, a alegria chega incontrolável, agita as – Hum, hum...
tenazes duras do guindaste, que grita, emocionado: O ombro de Mira gosta da carícia da mão espalmada de Luís. Aproxima-
– Já venho, fregueis! Um momentinho!... se, encosta-se todo no peito de Luís, o grande brilho de felicidade no rosto
bonito, nos olhos esverdeados.
O guindaste galga o único degrau da porta, na passada de pernas duras e
finas. Pisa nas fazendas amontoadas. Some-se. Mariazinha, ainda debaixo da janela, torna a erguer os olhinhos negros:

Incrivelmente veloz, Etelvina, em poucos minutos, está de volta, – Pai...


descabelada, no vestido negro domingueiro, cheio de pontinhos brancos, Luís baixa os olhos:
no vestido comprido e frouxo, que quase lhe tapa os sapatos brancos de
tênis. Fala, vagamente superior, para Mira, que ainda está à janela, ao lado – Que é?
de Luís:
O jeito gaiato aparece no rostinho da filha. O sorrisinho se esboça nos
– A louça eu lavo na vorta... lábios finos:

O guindaste se vai, duro, rijo, ao lado do capenga. Os gestos longos e – O home vai dá munto “dim” pra Etevina?
desordenados das tenazes contraponteiam o capenguear do bilheteiro. Vão
Luís concorda:
ambos pelo centro da rua poenta, passam pela fachada branca do Armazém
Gaúcho, pelo casebre de madeira, pelas casas cinzentas de porta e janela, – Sim, muito.
diminuem na lonjura avermelhada. Transformam-se, já na esquina da
rua dos bondes, em dois pontinhos, um negro, outro claro, um de gestos O jeito gaiato do rostinho fresco chega ao auge. A pergunta é desfechada
desordenados, outro de perna capenga e frouxa. com um tom cuidadoso:

Mariazinha aproxima-se da janela. Os olhinhos negros e redondos, – Pru que tu não pede “dim” pro homi, pai? Aí tu compra o otomovelzinho...
os olhinhos que contrastam intensamente com o louro dos cabelos Luís não responde. Afasta o peito do ombro morno, do ombro cheio, do
imponderáveis, erguem-se, fitando o pai e a mãe. A ruga vaga e leve aparece ombro lustroso de Mira. Repele, brusco, a nova tentativa do ombro cheio,
sob a franja dourada: morno e lustroso. Fala ríspido:
– Que qui a Etelvina vai buscá, pai? – Deixa de desfrutes na janela!...
Luís explica:
– Dinheiro... Muito “dim”...


276 |ESTRADA PERDIDA 277
31. De passos sempre hesitantes, procurando conter o zigue-zague, Marciano
passa pelos tijolos amontoados, entra no vasto vestíbulo silencioso. Orienta-
se. Evita o grande buraco, por onde um dia subirão os elevadores. Contorna
Após o declive do morro maior, cintado pela tira vermelha da estrada, vem a barrica vazia. Transpõe, com cuidado, a valeta de cimento, que deixa ver,
o planalto verde, que termina do abruto, quase como um despenhadeiro, no fundo, os canos vermelhos, ligados pelos anéis salientes. Resmunga:
um despenhadeiro também verde e onde agora parece que estão batendo – O buracama besta!
todos os ventos, ventos doidos e fortes que chegam de todos os rumos, que
trazem o pó vermelho da estrada, o ar líquido do rio distante, o cheiro bom Começa a subir a escada, também de cimento e ainda sem corrimão, a
da planície interminável, o cheiro agreste do morro maior. escada que dobra, à meia altura, e leva ao segundo andar.
O Sanatório, ainda sem pintura, ainda cor de cimento, com os pavilhões – Se... se – é mesmo! – se o João, o negrinho arteiro, estivesse aqui, haveria
que se irradiam em diversos sentidos – é a enorme estrela-do-mar, de de gostar. Pularia, que nem cabrito, pelos buracos de cimento, correria,
estendidos tentáculos de pedra, deixada ali pela maré inaudita. que nem cabrito pelas inúmeras, pelas infindáveis escadas de cimento...
O negrinho leviano! Saiu ao pai... Brasarisca... João... Haveria de gostar...
A enorme estrela-do-mar, perfurada pelos poros das inúmeras janelas Um dia, Marciano traz o filho aqui no Sanatório. O negrinho, a filha, o
amplas – sente todos os ventos, sente o cheiro bom da planície interminável, noivado besta, o noivado que quer ser de branco... Noivado agarrado como
sente o cheiro agreste do morro, sente o pó vermelho da estrada, fita a carrapato... Hum, hum... Marciano agora só vai aos domingos em casa e a
planície interminável e, distantes, mal delineadas, as torres brancas da Igreja Isaltina é quem cuida... Com as manias de espiritismo e baile, a Isaltina é
de Viamão. Fita, ainda, o rio afastado, coleando, beirando recortes cinzentos capaz de não cuidar direito e o negro sem-vergonha é capaz de destampar a
de morros, adentrando-se na planície interminável, coleando, deslizando, negrinha... E a negrinha é assanhada... Hum, hum... O buracama besta!
sempre afastado.
Marciano se afasta do atraente, do hiante buraco de cimento, que se
Pequeninos moluscos, pequeninos e insignificantes bichinhos de beira de abre na volta da escada sem corrimão. Prossegue na subida lenta, o balde
praia – os chalés dos operários e os galpões se agrupam em torno da estrela- empunhado acompanhando o ritmo do embalo do corpo franzino.
do-mar imóvel.
Chega ao piso do segundo andar, ao hall iluminado pela luz claríssima
De um dos galpões, chapéu de gaúcho, de grandes abas largas, sai da manhã ensolarada, que entra pelas amplas janelas sem vidro, ao hall que
Marciano, empunhando o balde vazio. Os seus passos não são muitos firmes. também escancara o buraco dos elevadores e dá saída para as diversas alas
Neste momento Marciano zigue-zagueia. Mas se apruma e ruma na direção do edifício, dá saída para os inúmeros, para os silenciosos corredores.
do grande vestíbulo do Sanatório, ainda sem porta e quase obstruído pelos
tijolos amontoados. Hirto, gingando vagamente, Marciano para no piso de cimento.
Ideia besta, a do capataz. Pra que balde novo? Aquele balde ainda está Os olhos raiados de sangue perscrutam em todos os sentidos, fitam todas
bom. Ideia besta! Se afirmem, pernas bestas! Imagina se o capataz sente as entradas dos intermináveis corredores iluminados pela claridade que
o cheiro da cachaça na boca de Marciano... Inda agora parece que ele vem através das esquadrias sem porta dos quartos vazios.
desconfiou... Na certa que vem dizendo – “Eu não lhe disse, seu mulato
sem-vergonha, que não quero saber de bêbados? Já me andou empinando Aos ouvidos de Marciano chegam as vozes distantes, as vozes que vêm
de novo, não? Outra vez, já sabe: vá pegando as suas coisas e dando o fora! lá do terceiro andar, percorrendo corredores silenciosos, chegando ao hall,
Não quero saber de bêbados aqui no Sanatório!” Eta gordalhão besta! Que caindo pelo buraco aberto dos elevadores, entrando no hall do segundo
bote o Marciano pra fora do Sanatório! Não faz mal... Do jeito que ele diz andar, chegando aos ouvidos atentos de Marciano.
“Sanatório” até parece que é dono... Gordalhão besta! Marciano bebeu, sim, Novo resmungo:
mil réis de cachaça. Foi lá em Belém e bebeu na venda da praça. Que que
tu tens com isso? Queres botar o Marciano pra fora, bota. Gordalhão besta! – Gordaião besta!
“Sanatório!” Tu pensas que és o dono...


278 |ESTRADA PERDIDA 279
A rebeldia chega, súbita. O balde é abandonado no piso de cimento. Mais Correria, ainda, que nem cabrito, que nem brasarisca, ao longo da platibanda,
um resmungo: de cimento, da platibanda estreita que beira todo o imenso edifício, sob as
vastas janelas sem vidro. Correria, sim, ao redor do Sanatório, ao longo da
– Não levo barde nenhum, gordaião besta! Vô forgá um poco. Espera, si platibanda estreita... Correria, leviano que nem o pai, ágil que nem cabrito,
quisé... veloz que nem... que nem cavalo... que nem cavalo no prado...
Os olhos raiados de sangue tornam a perscrutar em todos os sentidos, Os olhos raiados de sangue brilham de ódio. As mãos mulatas, as mãos
tornam a fitar todas as entradas dos corredores intermináveis e silenciosos, calosas e trêmulas se contraem, fecham-se.
dos corredores iluminados pela claridade que entra através das esquadrias
sem porta dos quartos vazios. Que nem cavalo de prado, cavalo correndo em torno do círculo verde de
grama fresca, correndo montado pelo jóquei de camiseta de cor... Sim, João
Se o negrinho estivesse aqui, se o João estivesse aqui no Sanatório... Como correria ao longo da platibanda de cimento, ágil, veloz, que nem cavalo de
brincaria, mesmo... Como pularia, como correria... Cabrito! Brasarisca! prado, cavalo de sangue, cavalo macanudo... Cavalo montado por jóquei
Os olhos raiados de sangue miram, agora, a grande porta, ainda de armação bichão, montado por... por... Marciano, o formidável, o inigualável, o
sem vidros, que se abre para a esplanada de cimento, para a paisagem verde vitoriadíssimo jóquei, ex-corredor de cancha reta nas corridas do Passo da
e interminável. Cavalhada...

Se... se – é mesmo! – se o João estivesse aqui, neste momento, por certo que Os olhos raiados de sangue continuam brilhando de ódio, as mãos
não se limitaria a brincar dentro do Sanatório, a correr pelas escadas sem mulatas, calosas e trêmulas, continuam contraídas e fechadas. Os passos
corrimão, a saltar sobre os buracos dos elevadores e dos encanamentos... lentos, os passos, os passos vagamente gingantes, vão levando Marciano
Quereria, também, brincar ali fora, no parapeito de cimento, que dá para a para o ponto onde a esplanada de cimento se liga à platibanda estreita.
vista tão bonita... Correria, correria no parapeito de cimento... Novo resmungo pastoso:
As mãos mulatas, as mãos calosas e trêmulas abrem a grande porta de – Furada... Resto de branco...
armação sem vidros. E Marciano entra no parapeito de cimento, sente a
rajada fortíssima do vento de primavera, do vento que traz o ar líquido do Foi Isaltina, foi aquela furada que não deixou Marciano ser jóquei de
rio distante, o cheiro bom da planície, o cheiro agreste do morro maior, o pó prado, jóquei de camiseta de cor, jóquei no Rio de Janeiro, jóquei ganhador
vermelho da estrada. dos melhores, dos mais gordos prêmios... Aquela furada, aquele resto de
branco... Marciano besta casou com aquela furada, com aquele resto de
O chapéu de abas largas, o chapéu de gaúcho voa, levado pela rajada carteiro – e não pôde ser jóquei, jóquei de prado, jóquei de camiseta de cor...
fortíssima, desaparece debaixo da esplanada de cimento. Marciano não se Marciano besta, mulato burro...
importa. Ri o riso de maus dentes. Exclama:
Os passos lentos, os passos vagamente gingantes , já levam Marciano ao
– Oigale vento maula! longo da platibada estreita, Marciano, cujos olhos raiados de sangue fitam
Sempre com o sorriso de maus dentes apontando no bigode vasto, onde a paisagem verde e longa, cujo rosto mulato sente o vento fortíssimo, cuja
há fios grisalhos – Marciano se aproxima do fim da esplanada de cimento. camisa rasgada vai roçando o cimento da parede sem pintura.
Encara a paisagem, a planície interminável, as torres distantes e quase Se quisesse, Marciano era jóquei. Ora se era! Com os seus cinquenta e três
imperceptíveis da igreja de Viamão, o rio coleando por entre recortes quilos, com todas aquelas vitórias na cancha reta, na cancha do Passo da
azulados de morros, a terra vermelha e próxima do chão do Sanatório, os Cavalhada. O homem quis levá-lo pro Rio de Janeiro. Pagou-lhe a passagem
chalés de madeira dos operários, os galpões cobertos de zinco. de terceira. Marciano, quando o vapor apitou, saltou, fugiu rumo à mulata
Se, se João estivesse aqui, haveria de correr em redor desta esplanada, furada, à mulata bonita, de corpo cheio e morno... Mulato burro, mulato
fitando a vista bonita. E não haveria de se contentar com a esplanada. besta... As corridas do Passo da Cavalhada, a glória que cercava o mulato
moço e leviano... Os cascos dos dois cavalos, batendo na terra dura. Tarará-


280 |ESTRADA PERDIDA 281
tarará-tarará-tarará... E os gritos do povaréu... Sim, sim, a terra vermelha da A terra dura do chão do Sanatório recebe o corpo frágil do jóquei Marciano,
cancha, os capins da margem da cancha, ficando pra trás, na velocidade do que se desprendeu da estrela-do-mar colossal e inerte.
cavalo... O calor do pescoço do cavalo, quase colado à boca de Marciano...
As brigas, os tiros, as facas relampejando ao sol, o lept-lept dos planchaços
das espadas dos “ratos brancos”, no brigão teimoso... Ah! E aquele dia da
vitória maior, aquela frase que Marciano ouviu não sabe de quem, vinda da
multidão que o cercava: “Esse mulatinho vai longe”... Longe! Qual longe,
homem besta que fizeste essa previsão besta! Longe... Que lambeu!
Os passos lentos, os passos vagamente gingantes aproximam Marciano,
neste momento, da volta da platibanda, onde o pavilhão de cimento faz
esquina e onde a platibanda embica e mostra aos olhos raiados de sangue a
paisagem total.
Marciano para, segurando-se à janela sem vidro. Olha a paisagem verde,
a planície interminável, com as torres quase imperceptíveis da igreja de
Viamão, apontando por sobre o verde-escuro dos matos, o rio colendo
sempre por entre recortes esfumados de morros.
Os olhos raiados de sangue demoram-se na planície interminável, que
comporta todos os matizes do verde, que se alonga, faz a reentrância leve do
vale, se alonga, se alonga, sempre verde, pontilhada de manchas de casas,
dos quadrados de terra vermelha, dos quadrados dourados das roças de
milho. Os olhos raiados de sangue fitam, fitam, intensamente, a planície
interminável, os olhos raiados de sangue e batidos pelo vento fortíssimo,
pelo vento que traz o ar líquido do morro, traz o cheiro agreste do maior,
traz o pó vermelho da estrada, traz o cheiro bom da planície.
A planície alongando-se, estendendo-se, é... é...é o prado imenso! As
manchas brancas das casas são cavalos tordilhos, correndo, correndo no
prado verde, no prado sem fim... Aquela casa mais adiante é o tordilho que
vai na frente de todos, o tordilho inatingível, velocíssimo, o tordilho que é
montado pelo grande, pelo incomparável jóquei Marciano...
A mão mulata, a mão calosa e trêmula abandona o apoio da ampla janela
sem vidros. Os passos lentos, os passos vagamente gingantes aproximam
Marciano da paisagem amável. Os olhos raiados de sangue fitam, fitam
o imenso, o interminável prado verde, onde os tordilhos correm, correm,
imóveis de tão distantes.
Os passos vagarosos e levemente gingantes aproximam Marciano, ainda
mais, do prado interminável. Os passos vagarosos e levemente gingantes
pisam o vazio, pisam o nada.


282 |ESTRADA PERDIDA 283
32. muito serviço ultimamente, hein?” Seu Nunes de bonezinho. Seu Nunes
esfregando, esfregando as mãos... Ah! Aquele dia, Luís, Lígia e Roberto foram
visitar o Peleu e, na volta, seu Nunes perguntou: “Que que o Peleu contou
O luar claríssimo derrama a luz abundante sobre a rua poenta e esburacada, de novo, hein?”. Lígia, então, apesar da censura de Roberto, desfechou
a luz que escorre ao longo do declive fraco da rua poenta e esburacada. para seu Nunes: “Choriço!”. Seu Nunes ficou de boca aberta e Lígia se foi,
correndo, gargalhando uma gargalhada gostosa e interminável... Lígia,
Luís caminha vagaroso, sem pressa. A sombra de Luís, comprida e fina, correndo, Lígia morena, Lígia gargalhando...
bate de esguelha na relva que beira a sanga barrenta, em cujo fundo o riozinho
sem importância corre lento, prateado de luar. A sombra comprida e fina A sombra da cabeça de Luís, neste momento, roça a amurada branca da
de Luís se alonga, se alonga, quase, roça os pés de tuna, grandes, verdes, ponte. Luís para, fica imóvel, de olhos pousados na amurada branca, batida
tomados de espinhos, os pés de tuna que fogem da sombra de Luís, fogem, de cheio pelo luar claríssimo.
passam pela ponte mais branca que o luar, transformam-se em coisas vagas A ponte... O arroio, em baixo, correndo cantante, molhando as pedras
e distantes, em gordos bichos espinhudos. Os gordos bichos espinhudos longas e lisas... Este murmúrio, este murmúrio baixinho e suave, este
cercam os casebres da Baixada, parece que vão assaltar os casebres da murmúrio que está minando Luís de melancolia... Meu Deus! Por que essa
Baixada, parece que vão assaltar os casebres guenzos da Baixada, de telhados melancolia? Por quê?
de zinco cintilando ao luar.
Lento, de passos arrastados, Luís entra na ponte, no leito de pedra da
– É incrível! Nestes – quantos? Vinte? Sim, vinte! – nestes vinte anos parece ponte. As suas mãos espalmam trêmulas na amurada branca. Os seus olhos
que nada mudou aqui na rua da Baixada. A não ser o palacete da esquina, fitam a água do arroio. A princípio não veem coisa nenhuma. Veem apenas
o palacete de dois andares, de grande jardim, o palacete que se ergue onde a massa preta, a lava escura que desliza vaga e indistinta na sombra da
existia a loja do seu Nunes – a não ser o palacete da esquina, parece que amurada. Porém, aos poucos, os olhos de Luís veem, compreendem o arroio,
nada mudou. A mesma relva beirando a sanga, o mesmo fiozinho d’água que, lá ao longe, é o fio branco e de leite, o fio que coleia, serpenteia, desliza,
correndo no fundo vermelho da sanga, os mesmos, os intermináveis pés desliza, perfurando túneis de árvores curvas, beirando pedras prateadas,
de tuna, se alongando, se alongando, a mesma amurada branca da ponte, passando por sobre pedras prateadas, e, aqui, desaparece na sombra da
o mesmo arroio correndo sobre pedras longas e lisas, o mesmo banhado amurada. Os olhos de Luís enxergam na sombra da amurada, veem a água
sempre úmido, os mesmos casebres de madeira e zinco, cercados, assediados límpida, enxergam o fundo do arroio, o leito de areia branca e limpa. Os
pelos pés de tuna. olhos de Luís veem a pedra grande, que avança na sombra, adentra-se pela
A sombra longa e fina de Luís continua batendo de esguelha na relva da água límpida. As mãos de Luís, pousadas na amurada branca, tremem ainda.
margem da rua poenta. Agora se aproxima em demasia dos pés de tuna, Esta pedra grande, aqui em baixo, esta pedra grande... Meu Deus! Que
enreda-se, espeta-se em um dos bichos gordos e espinhudos. será que esta pedra grande quer dizer para Luís? E este murmúrio do arroio,
A não ser o palacete, parece mesmo que nada mudou. Apenas há mais este murmúrio de água saindo aos borbotões do gargalo de uma garrafa?
luzinhas tremeluzindo na cidade distante, na cidade que se ergue na noite, Meu Deus!
mais alta que a Baixada. O palacete da esquina se levanta onde era a loja do As mãos de Luís se contraem. Depois tornam a se espalmar na amurada
seu Nunes. O seu Nunes, indagador, dizendo sempre: “Hein? Hein?”. branca, na amurada batida pelo luar, na amurada cuja sombra escurece o
Termina aqui o declive da rua poenta e esburacada, da rua banhada, arroio cantante. O coração de Luís bate, acelerado, na descoberta.
caiada pelo luar. A sombra longa e magra de Luís diminui de tamanho. Mas, Ah! Luís se lembra! Naquele mesmo dia que Roberto, Luís e Lígia foram
mesmo assim, continua a bater, de esguelha, nos pés de tuna enfileirados, visitar o Peleu, na volta sentaram aqui nesta pedra do arroio. Lígia brincava
continua a se espetar, a se enredar nos gordos bichos espinhudos. com um graveto na água do arroio. Brincava mesmo? Parece que sim,
Seu Nunes, de bonezinho, pequeno, magro, indagando sempre, seu Luís não se recorda bem. Mas disto Luís se lembra: Lígia, de repente, riu,
Nunes dizendo: “Hein? Hein?” “Como vai o seu avô, hein? Ele tem tido quando Roberto e Luís comentavam a faca com que Marciano ameaçara


284 |ESTRADA PERDIDA 285
matar Isaltina. Lígia riu e disse para Luís, mais ou menos assim: “Quando A sombra comprida e magra de Luís abandona as pedras do leito da
nóis dois casá tu não vai querê mi matá, não, Luís? Tu não qué sê jóqui, ponte, torna a se estender na terra vermelha da rua esburacada, torna a
não é?” Depois Lígia riu, riu a gargalhada barulhenta e interminável, a se enredar nas tunas espinhudas, nos gordos bichos espinhudos, beira o
gargalhada que parecia não findar, igualzinha àquela que desfechou na banhado lodoso, aproxima-se dos casebres da Baixada, cujos telhados de
cara boquiaberta de seu Nunes... Lígia... Lígia contente... Lígia morena... zinco cintilam ao luar.
Lígia... Coitadinha! Os gritos que dava, quando estava morrendo... Lígia...
Morena... Olhos negros... Mas... mas... mas como era mesmo o rosto de Lígia, ***
com detalhes, completo? Luís não recorda bem o rosto de Lígia... Só os olhos Sobre o caixão de querosene, posto de pé, ergue-se a vela de sebo, que
negros, profundos, grandes... E a gargalhada estrepitosa... E os pulos ágeis, espalhou lagoinhas brancas e moles na madeira clara e que está iluminando
a graça, a frescura... Lígia morena... Lígia rindo... Lígia correndo... “Quando o quartinho espremido com a luzinha amarelada e trêmula.
nóis se casá...”. Engraçado... Se Lígia não houvesse morrido, talvez estivesse
casada com Luís... Lígia morena, Lígia correndo... Como seria Lígia agora? A luzinha trêmula mal chega às extremidades do quartinho sufocante,
Alta? Sim, alta e bonita. Trinta? Sim, trinta anos... Alta. Morena. Bonita. De mal ilumina os cantos escuros do quartinho espremido, bate indecisa na
olhos negros, grandes e profundos... cama de ferro de criança, enferrujada, sem o menor vestígio de esmalte nas
grades avermelhadas de ferrugem.
O ruído de tamancos veio chegando, vindo da Baixada. O ruído é
descompassado. Agora se acelera. Agora cessa. Continua, decompassado. Às vezes, a chama trêmula e amarelada baixa, baixa, parece que vai
Bate duro nas pedras do leito da ponte. apagar. E então o quarto fica iluminado apenas pelo luar claríssimo, que
caia a noite, lá fora, e entra pela fresta larga da madeira do casebre.
Luís se volta. Vê o negro, lustroso ao luar, o negro que cambaleia, caminha,
batendo com os tamancos duros, para, torna a caminhar, torna a cambalear, Outras vezes, a chama amarelada e trêmula se levanta, aumenta de
cumprimenta Luís com a voz grossa, mostrando os dentes branquíssimos: intensidade, parece querer transformar-se em labareda viva e erguida.
Então o rosto magríssimo de Marciano, o rosto chupado, de olhos cavados,
– B’a noite! de fundas olheiras, o rosto mulato e fulo se aclara, adquire brilho e vida.
Luís corresponde: Mas a labareda torna a ser a chamazinha vaga e fraca de vela de sebo. O
rosto magríssimo, de olheiras fundas, de olhos sumidos, o rosto mulato e
– Boa-noite! fulo perde o brilho, perde a vida, torna a ser um rosto angustiado, cujos
olhos fundos inquirem, inquirem, querem pedir qualquer coisa necessária.
O negro prossegue, os tamancos deixam de bater duros nas pedras do
leito da ponte, batem fofos na terra poenta da rua esburacada, da rua batida As mãos mulatas e sem carnes, pousadas na colcha branca e remendada,
de luar. Cambaleando, parando, tornando a cambalear, o negro prossegue. são grandes demais, destoam com a fragilidade dos punhos caquéticos.
Inicia a subida, a sua sombra seguindo-o, também bêbada, também
cambaleando. Uma delas, neste momento, se ergue, enquanto a voz arrastada sai de
entre os fios matizados de gris do bigode mal cuidado.
Luís ainda olha o trecho escuro da água do arroio, precedida pelo trecho
iluminado de luar, pela água que coleia, que serpenteia, que desliza, que – O sinhô não arrepare, seu Luís, a gente lhe arrecebê de vela de sebo...
beira pedras prateadas, passa sob túneis de árvores curvas, passa por sobre É que a gente só tem um lampeão e ele tá lá na sala com a neguinha... Não
pedras prateadas, chega à zona escura da sombra da amurada. Luís sorri, dá certo namoro de neguinha cum vela de sebo... Percisa luiz de lampeão...
contente. Inda mais cum o meu pai catacega e pensando nos morto... Que qu’ele vai
cuidá? Si não tivé lá a Marica cum a fia, garanto que a neguinha tá pegada
Mas o sorriso estanca logo, dá lugar ao ar preocupado. de bejo cum o sem-vergonha do noivo...
Aquele negro está bêbado... Bêbado... O Marciano... O coitado... É preciso A risada sem força provocou o acesso de tosse, que sacudiu o peito magro
que Luís vá vê-lo duma vez... Coitado! e adentrado, o peito dolorido. A tosse só passou, quando o escarro profundo,


286 |ESTRADA PERDIDA 287
o escarro pastoso bateu, bulhento, no chão do casebre. Uma das mãos sem – Burro! Burro! Sempre fui munto burro, seu Luís! Eu errei a minha vida,
carne apertou, apertou o peito dolorido. A outra limpou os beiços molhados. de burro que fui! Essa hora eu podia tá rico, cheio dos dinheiro, posentado
de tanto ganhá corrida de prado, de prado de verdade, lá no Rio de Janero...
Isaltina disse: Eu errei a minha vida, de burro! (Tom de choro na voz arrastada, na voz que
– Tu sabe que tu não pode ri, Marciano... Prevoca a tosse... Não é, seu flui mole do bigode mal cuidado, riscado de gris) E o pió é que o mulato é
Luís? canaia, memo, é sem-vergonha a mais não podê... O mulato sem-vegonha tá
morrendo e tá com pena de dexá a vida errada, a vida miserave, seu Luís,
Luís meneia a cabeça, concordando. Marciano trona, com a voz arrastada: tá com pena...
– Esses meus pormão tá em pedaço... Onte botei uma porção de sangue Lágrimas, lágrimas rápidas rolam dos olhos cavos, riscando o rosto fulo,
pela boca... (Sorriso tímido no bigode mal cuidado, riscado de gris) Mal de molhando o bigode mal cuidado, perolam os fios grisalhos. Os olhos fuzilam
peito não tem quem escape... Os pormão do mulato canaia tá se acabando... debaixo das lágrimas. O grito ordena a Isaltina:
Isaltina intervém: – Vai timbora pra sala, arrepará a tua fia, antes que o nego passado tira
os tampo dela... Vai cuidá aquela assanhada! E me manda o João praqui um
– Não té agora, Marciano... Pode não sê nada...
poco...
Os olhos fundos, os olhos sumidos brilham no rosto mulato. As mãos
Isaltina obedece. Sai, silenciosa, do quartinho espremido, onde o luar
sem carne se crispam na colcha branca e rasgada. A voz arrastada vem com
entra pela fresta aberta da madeira, nos momentos em que a chama trêmula
energia:
e amarelada da vela de sebo diminui, parece querer apagar-se.
– Agora o quê! Tô aqui tô interrado... Botei sangue pela boca... Onde é que
Em pouco, João entra no quartinho espremido. Magrinho, de pernas
tu viu o vivente escapá despois que bota sangue pela boca? (Sorriso mau no
finíssimas, de olhos vivíssimos, de braços de graveto, o mulatinho de calças
bigode mal cuidado, no bigode riscado de gris) E tu bem sabe qu’eu tô com
curtas, o mulatinho raquítico, possui, não obstante, uma grande vida no
a tísica... Pensa que o mulato canaia não vê o medo que tu tem de dormi com
jeito agitado, nos trejeitos agilíssimos. É o Saci, é o Negrinho do Pastoreio,
ele? Inté de chegá perto de mim tu tem medo... Tu não qué morre pra podê
que entrou agora no quarto espremido, e pula e grita e salta.
caí nos baile de carnavá, que nem cadelinha nova assanhada, pra ti metê nas
sessão do espritismo... Pensa qu’eu não vejo?... O rosto de Marciano se acalma. A fala arrastada é cheia de ternura:
Isaltina esboça frases. Cala-se, não achando o que responder. Luís tenta – Vem cá, brasarisca...
mudar o rumo do assunto:
O mico agilíssimo se aproxima da cama de Marciano. Marciano segura
– Mas, então, Marciano como foi isso? Como é que foste cair do andaime? nas mãos grandes, nas mãos que destoam com a caquexia dos punhos, o
punho ainda mais fino, o punho de graveto do filho. Solta-o. Ordena, ainda
Os olhos fundos, os olhos sumidos brilham ainda. Ainda com vigor, a voz
com ternura:
arrastada faz-se ouvir:
– Vai dá b’a noite pro seu Luís...
– Não foi do andame, não, seu Luís! Eu caí da pratibanba do Sanatoro,
que nem guri besta e artero... O mulato canaia sempre foi burro... Caí de O Negrinho do Pastoreio sorri gaiato:
burro, seu Luís!
– Eu já dei, pai...
Depois de uma pausa, em que a luz trêmula e amarelada cresce,
assumindo uma intensidade de labareda vivíssima, iluminando de cheio o – Antão pode í brinca na sala...
rosto magríssimo, os olhos fundos, as mãos desproporcionadas, os pulsos Os olhos sumidos acompanham o mulatinho ágil, que pula em redor do
caquéticos – depois de uma pausa, Marciano prossegue, com vigor crescente, quarto espremido, que movimenta as perninhas de graveto, que sai correndo
com frenesi: do quartinho espremido, a boca imitando o zunido de bonde veloz.


288 |ESTRADA PERDIDA 289
Torna o sorriso feliz de Marciano: – O que me dexa mais triste, seu Luís, é qu’eu sei que não dexo sodade...
O mulato burro morre e não dexa sodade... Ninguém vai se alembrá do
– Esse brasarisca... Esse brasarisca, seu Luís... Só esse mulatinho é que não mulato burro, do mulato errado... A Isaltina vai cuidá do espritismo e dos
tem medo da doença do pai... (Amargura na voz arrastada e mole) Doença baile, a mulatinha vai cuidá do neguinho dela, o João, o brasarisca, é creança,
desgranida, doença excomungada, seu Luís... Tudo foge do vivente... E cumo esquece logo... O meu pai tá caducando... Ninguém vai tê sodade do mulato
ela vem ligero, seu Luís... Não faiz nem um meis que o burro veio caiu do burro, seu Luís! E o mulato é tão burro que de cinco fio perdeu treis... E os
Sanatoro... (Sorriso incolor no bigode mal cuidado) Os home tá mi pagando dois que sobrô não vai se alembrá do pai...
o dotô... Mais não dianta nada... Os pormão do burro veio tá saindo pela
boca, cum dotô e tudo... Luís quer consolar Marciano, quer dizer-lhe uma frase amiga, que o
reconforte, que lhe afirme a sua perpetuidade na memória dos outros. Não
Luís fala: acha nada para dizer. Ergue-se:
– Mas, Marciano, pode ser que te cures... Tanta gente cai assim e não – Já vou indo, Marciano. Está ficando tarde...
morre...
Fica imóvel no meio do quarto, do quarto espremido e baixo, cujo telhado
Novo sorriso amargo no bigode riscado de gris. Mais amargura na voz de zinco quase lhe roça a cabeça. Insiste em achar uma frase de consolo, mas
arrastada, nos olhos fundos, iluminados pela luz trêmula e amarelada: de novo não consegue. Ocorre-lhe apenas mergulhar a mão no bolso externo
– Quar nada, seu Luís! O mulato canaia taqui, tá morto... E inté uma ferida do casaco, retirar três cigarros do maço e entrega-los às mãos sem carne,
fedorenta tá saindo na minha perna, oie... às mãos trêmulas de Marciano, às mãos iluminadas pela luz amarelada e
bruxuleante da vela de sebo.
As mãos sem carne, as mãos grandes, que destoam com a caquexia dos
punhos, erguem a colcha branca e esfarrapada. Mostram a perna fina, onde A voz arrastada de Marciano, a voz mole e já calma agradece:
a ferida se ostenta, grande e redonda, exalando mau cheiro. Luís desvia os – Munto brigado, seu Luís...
olhos. Sente a náusea.
Luís sente a inutilidade, o ridículo mesmo do presente de cigarros a um
Marciano torna a cobrir a perna e prossegue, outra vez de lágrimas nos tuberculoso incurável. Por isso balbucia, de voz hesitante:
olhos:
– Boa-noite, Marciano. Precisando alguma coisa é só me avisar... Boa-
– Ferida braba, seu Luís... Tô aqui, tô interrado na cidade-dos-pé-junto... noite.
Risinho. Breve acesso de tosse. Novo escarro pastoso e fundo, estalando Sai do quartinho espremido, o rosto queimando de vergonha.
no chão do quartinho espremido:
– Nem sei cumo é que inda não botei sangue pela boca hoje... É anssim
que vem... ***
Pausa. A respiração está se tornando difícil e ofegante, faz a colcha branca No sofá de palhinha, cujo assento é de madeira grossa e escura, sentam
e rasgada levantar e baixar com rapidez. Não obstante, Marciano, levantando Elmira, de braços mulatos e torneados, de grossos lábios polpudos, de rosto
as mãos sem carne brada: bonito, de corpo carnudo e moreno cintado pelo braço do noivo retinto, de
mãos entrelaçadas às mãos do noivo retinto.
– Eu estraguei a minha vida, seu Luís! Eu sô burro, mais sei que não sô o
que podia sê... Tudo anda errado no mundo... Tudo tem vontade de sê outra Sobre o prato de veludo rasgado do gramofone velho e sem fone, o
coisa... E não dianta se queixá... lampeão de querosene ergue a chama reta e parada, que está presa no
canudo de vidro, mistura-se à luzinha hesitante da lamparina e aclara sem
Os olhos fundos brilham sob a luz da vela de sebo, que cresceu, que quis força o rosto escuro e também fatigado de Marica, o rosto menos escuro da
fingir labareda: filha de Marica, o rosto pretíssimo, riscado de rugas fundas, de Peleu.


290 |ESTRADA PERDIDA 291
Isaltina se ergue e se admira: – B’a noite, seu Luís!
– Já vai, seu Luís? Inda é cedo... Não qué sentá um poco aqui na sala? Dirigiu-se a Peleu:
Luís não aceita: – A bênção, pai.
– Não, Isaltina, obrigado. Tenho de ir indo, que amanhã tenho de acordar Beija a mão magra, a mão riscada de rugas fundas. Peleu fala:
cedo pro emprego...
– Deus te abençoe, meu fio... que dê teu ermão?
Marica sorri:
O negro alto e moço, parecidíssimo com Peleu, torna a falar de jeito
– Em casa de pobre, não se pode demorá munto... Dá farta de ar... encabulado:
Luís recorda: aquela vez, Lígia fez ironia com Marica sobre a sua mancebia – Foi vê a namorada, despois do serão...
com Peleu, quando Marica disse uma dessas suas frases revoltadas. Como
foi mesmo que Lígia disse? Não, Luís não se lembra. Comentário de Marica:

Luís retribui o sorriso a Marica: – Neguinho maluco... Se arrebenta com o serão na fábrica e, inveiz de
vi pra casa descansá o corpo, vai cuidá de namoro... Acaba estragando os
– Não, não é por falta de ar qu’eu vou embora. É que está ficando tarde, pormão, que nem o maluco do Marciano...
mesmo...
Peleu continua não dando conta das frases de Marica. Prossegue, de quê
Os noivos, ela mulata clara, ele negro retinto – os noivos agarradíssimos, estático na cara negra:
abraçadíssimos, de mãos entrelaçadíssimas, parece que não notaram a
presença de Luís. Peleu, o rosto gretado, batido pela luz do lampeão e pela – O mist Charle... “Tá bem, Pileu... Tu estar dono do teu vida... Tá bem,
claridade vaga da lamparina acesa sob a imagem do Senhor do Bom Fim, Pileu.”
Peleu, sentado no mochinho perneta e guenzo, só agora notou a presença de As lágrimas rolam fáceis no breu da cara enrugada, misturam-se à baba e
Luís. Levantou-se com esforço, chegou a cara enrugada, o bigode babado, ao ranho do bigode branco e sujo. Luís se resolve:
bem perto do rosto de Luís:
– Bom, vou indo. Boa-noite pra todos.
– Ah! O sinhô já vai, seu Luís? (Sorriso sem dentes) Eu tava me alembrando...
Estas hora,assentado aqui no mochinho, eu pego a me alembrá... (Novo Sai da saleta, mergulha na noite, no luar, que enche de sombras fantasmais
sorriso sem dentes) O seu dotô Ferrera, o seu dotô Rodrigue, o mist Charle... o quintal de Peleu, que desenha no terreiro duro a sombra dos moirões do
Eu vejo eles dereitinho... (Risada grossa) O mist Charle!... jasmineiro, que estende no terreiro duro a sombra retorcida dos galhos
grossos do jasmineiro.
Marica intervém:
Peleu vem seguindo-o, acompanha-o até o portão, até os dois grandes pés
– O tio veio tá caduco, seu Luís... de tuna da entrada.
Peleu não dá conta. Prossegue, o jeito de êxtase no rosto enrugado, mais Silêncio, quebrado pela voz de Marciano, lá dentro, chamando com pavor:
aprumo no vulto ereto de bugio que se cansou.
– Isaltina! O diaba! Eu tô botando sangue! Vem cá!
– “Traiz o isque, Pileu!” Meu Deus do Céo! Que ingreis que metia! Dele
isque, dele isque...” O novo silêncio é quebrado pela risada grossa de Peleu:

O negro moço e alto, parecidíssimo com Peleu, surgiu da noite enluarada, – Ola ingreis que metia isque... Em Punta Arena fazia um frio de tirá
entrando pela porta aberta da saleta. Cumprimentou Luís, com jeito o chapéu... A gente tava sempre c’os dedo encarangado... “Traiz o isque,
encabulado: Pileu!”


292 |ESTRADA PERDIDA 293
Luís se despede: 33.
– Boa-noite, Peleu.
E se afasta, foge da risada grossa de Peleu, mergulha rápido na noite – Sinhô do Bom Fim!
claríssima, avança pela rua esburacada e poenta, pela rua caiada de luar,
vai beirando o banhado lodoso, vai marginando os pés de tuna espinhudos, Os olhos embaciados de Peleu, os olhos velhos e sem vida, fitam o azul
os gordos bichos espinhudos – sempre seguido da sua sombra comprida e da manhã quente e clara, aparecendo, limpo, numa faixa estreita, por entre
magra. o cimo dos arranha-céus...
Quanta casa comprida!
– Sinhô do Bom Fim!
O negro alto e retinto, que vai levando Peleu pelo braço, indaga:
– Qui é, pai?
Peleu não responde. Continua fitando a faixa azul e limpa, que aparece,
estreita, delimitada pelo cimo dos arranha-céus.
Quanta casa comprida! Como a cidade mudou! E quanta gente,
acotovelando, roçando, quase derrubando, quase pisoteando Peleu!
– Sinhô do Bom Fim!
Esse zum-zum, esse vozerio, essas campainhas, esses guinchos, esses
klaxons esganiçados, esse rumor de multidão caminhando apressada... Como
a cidade mudou! Essa gente, acotovelando, roçando, quase derrubando,
quase pisoteando Peleu – essa gente é hostil... Essa gente na verdade quer
derrubar Peleu, quer matar o negro velho, quer aniquilá-lo! Esse zum-zum
tinindo nos ouvidos do negro velho, esse rumor de campainhas, de guinchos,
de metais se partindo, de klaxons esganiçados, de vozes desencontradas, de
tacões de sapatos, de tantos, de incontáveis tacões de sapatos, – esse barulho
vai arrebentar a cabeça do negro velho... Essas casas tão compridas, tão altas,
essas casas duras e rijas vão cair, vão soterrar, vão sepultar o negro velho...
– Sinhô do Bom Fim!
O negro alto e retinto, que vai segurando Peleu pelo braço, torna a indagar:
– Qui é, pai? Que qui o sinhô tá dizendo?
Peleu, também desta vez, não responde. Prossegue levado pela mão
retinta do filho, perfurando a multidão apressada.
Como a cidade mudou! O escritório da Companhia, de casinha
compreensível de dois andares, transformou-se na casa absurda, de tantos


294 |ESTRADA PERDIDA 295
andares, de tantas janelas, na casa absurda que roça, que fura o céu limpo – Meu fio, tu acha qu’eu tenho de me casá memo?
da manhã quente. E quanta gente havia na entrada! Quanta gente nos
corredores! E a portinha de vidro, do gabinete do chefe, com umas letras O negrinho alto e retinto ri:
escritas. E o chefe, americano, falando parecido com o mister Charles, – Tem, pai. O sinhô não viu o home dizê qui é perciso?
tratando Peleu com toda a deferência, fazendo-o sentar na poltrona funda
e cômoda e dizendo logo: “Peleu! O senhor é dos melhores empregados da Sim, o americano, o americano parecido com mister Charles, disse a
Companhia. Mas eu sabe não ser casado. Peleu é muito forte, mas muito Peleu que o casamento era necessário e que se deveria realizar, no máximo,
velho. Peleu pode morrer, quando menos esperar. Peleu morrendo não em vinte dias. Que pressa! Até parece – é mesmo! – até parece casamento
ficar dinheiro para a viúva. Sorry! Por isso eu me tenho lembrado seria feito pela polícia... Negro velho Peleu, com mais de noventa anos, casou na
OK. Peleu casar. Peleu deve casar. Assim, quando morrer, dinheiro ficar polícia...
para a viúva. Senão, Peleu morre e dinheiro ficar para a campainha. Peleu
A risada grossa se mistura ao zum-zum, aos guinchos, às klaxonadas, ao
muito bom empregado e companhia não precisa dinheiro dele. Peleu deve
rumor dos motores, de metais se partindo, de tacões de sapatos, de tantos,
casar imediatly!” Então veio um moço e o americano disse: “Esse é Peleu.
de incontáveis tacões de sapatos.
O senhor vão conseguir todos os papéis para o casamento. Quero que esse
casamento se realize em vinte dias no máximo”. O moço combinou que O negrinho torna a indagar:
vai conversar com o Peleu hoje de tarde. Peleu saiu do gabinete do chefe.
Peleu, sempre tonto e zaranza, percorreu com o filho os corredores cheios – Quê qui tá rindo, pai? Não ri na rua... Vão pensá qui o sinhô é maluco...
de gente, a entrada também cheia de gente, mergulhou na rua barulhenta. A risada grossa torna. A explicação vem, atrapalhada pelo riso:
Peleu vai se casar. Se casar...
– O teu pai vai si casá na poliça, meu fio!
Os olhos de Peleu enchem-se de lágrimas, de lágrimas que escorrem
velozes pelo breu da cara enrugada. Miram uma faixa estreita do céu, que A risada grossa aumenta, redobra de intensidade, quando Peleu nota,
aparece sempre entre o cimo dos altos edifícios. vindo pelo centro da rua, seguido de guris e de homens sem pressa, o
homem-boneco, de olhos imóveis e esbugalhados, de gestos duros e de
Peleu soluça: mola, com o cartaz se reclame colado às costas.
– Sinhô do Bom Fim! A mão retinta, a mão gretada e velhíssima, trêmula do riso, aponta:
O negro alto e retinto sacode o braço de Peleu: – Oia aquele boneco!
– Qui é isso, pai? Não chore na rua... Essa gente toda vai vê... O filho explica:
Peleu não liga. Repele o soluço: – Não é boneco, pai. É um arreclamista...
– Sinhô do Bom Fim! A risada grossa prossegue. A mão velhíssima e negra continua apontando
Sim, o Senhor distante, o amado, o infalível Senhor Crucificado da igreja o homem-boneco, que vai indo lento, pelo centro da rua, de olhos sempre
distante que proteja o negro velho, que venha dar um pouco de luz, um esbugalhados e imóveis, acompanhado dos guris e dos homens desocupados.
pouco de calma, à alma atormentada e cheia de confusão do negro velho! O filho nota que há pessoas paradas, admirando a hilaridade de Peleu.
Peleu vai se casar... Depois de velho... Que... que vergonha! Puxa-o pelo braço:
Os olhos embaciados, molhados de lágrimas, não se desviam do céu, que – Vamo, pai! O pessoá tá rindo do sinhô!
aparece estreito entre o cimo dos edifícios. Baixam. Olham o rosto retinto
do filho: Peleu prossegue, acotovelando-se com a multidão, levado sempre pelo
filho.


296 |ESTRADA PERDIDA 297
A risada grossa vai cessando aos poucos. Cessa de todo. Os olhos As lágrimas estacam. O grande sorriso sem dentes aclara a cara retinta e
embaciados tornam a fitar o cimo dos arranha-céus, a faixa estreita e azul enrugada.
do céu alto. Tornam a embaciar-se de lágrimas.
– Meu fio?
Peleu vai se casar... Com mais de noventa anos... Peleu vai se casar de
novo... Que que a falecida, que a Tomásia vai dizer, lá em cima, no meio dos O negrinho atende:
santos e dos anjos, lá junto do Senhor do Bom Fim? Peleu não tem culpa, – Quê,pai?
Tomásia. O americano é que quer... É pra não deixar a Marica sem dinheiro,
quando o Peleu morrer... O americano é que quer... Doutor Ferreira, doutor Peleu afirma, subitamente enérgico:
Rodrigues, dona Ritoca, dona Sinhá, mister Charles, Tomásia, dona Lígia, é
– Daqui vô na casa do seu Luís, convidá ele pro meu casamento... Despois
preciso que vocês saibam: Peleu não tem culpa, o americano é quem quer...
vô na do dotô Roberto tombém convidá ele... E quero í sozinho... Tu me bota
Peleu vai se casar... Peleu vai se casar...
no bonde do seu Luís... Vô sozinho...
Os olhos embaciados, sempre molhados pelas lágrimas fáceis, pelas
O negrinho alto e retinto discorda:
lágrimas que cortam a cara retinta e velha, que deslizam, velozes, pelos
riozinhos fundos das rugas, que se misturam à baba e ao ranho do bigode – A mãe não qué qui o sinhô anda sozinho nos bonde, pai.
branco amarelado – os olhos de Peleu fitam, com insistência, o céu azul e
limpo, o céu mais alto que os altos arranha-céus. Torna a voz grossa, com mais energia:

– Sinhô do Bom Fim! – Vô sozinho. Tu vai pra casa e conta pra Marica que o americano qué
qui nóis se casa... Diz pra ela qu’eu já fui convidá os padrinho... Pra daqui a
Peleu vai se casar... Peleu vai se casar... Mas, se Peleu vai se casar, são vinte dia... (Risada grossa) Casamento na poliça...
precisos padrinhos! Que vergonha! Como é que Peleu vai ter jeito de chegar
pra alguém e convidar: “O sinhô qué sê meu padrinho de casamento?” Depois que a risada grossa cessa, as lágrimas tornam aos olhos embaciados
Senhor do Bom Fim! Senhor Crucificado da grande igreja distante! Dê um de Peleu. As lágrimas não deixam Peleu ver o movimento da avenida
pouco de luz à alma atormentada, ao cérebro escuro do negro velho! bulhenta, os bondes que descem velozes, que sobem velozes, que param
rentes a Peleu, que continuam, sempre velozes, os autos que passam rápidos
Neste momento, a mão do filho apertou com mais vigor o braço de e lustrosos.
Peleu. Atravessaram a rua, embicaram por outra, chegaram à grande
avenida transversal, cheia de bulício e de movimento, cortada pelos bondes As lágrimas fáceis fluem, fluem sempre, cortando a cara enrugada e
bulhentos e enormes, pelos automóveis lustrosos e velozes, pela multidão retinta de Peleu, em cujos ouvidos chegam o zum-zum indistinto, o apito
que caminha, que afronta o bulício e o movimento. grosso dos bondes, o guincho fininho de curvas de trilhos, os pedaços de
frases desencontradas, o rumor de tacões, de inúmeros tacões de incontáveis
Os olhos de Peleu não notam a avenida barulhenta. Não percebem que sapatos, o tilintar estrídulo de campainhas renitentes, o sirenar afastado e
o filho estacou, junto aos outros homens, que também param rentes aos angustiante de uma assistência velocíssima.
trilhos reluzentes, rentes aos bondes, passando, passando. Os olhos de
Peleu, embaciados, molhados de lágrimas, prosseguem fitos no céu.
Peleu tem de convidar os padrinhos para o seu casamento! Que vergonha! ***
Ah! Peleu convidará, para o civil o doutor Roberto, para o religioso o seu Peleu ainda diz:
Luís. Sim, eles são amigos do Peleu e não irão rir do casamento do macaco
velho... Dr. Roberto para o civil e seu Luís para o religioso... Eles aceitarão e – O seu dotô Ferrera foi meu padrinho no religioso no meu casamento
não rirão do negro velho... E Peleu se casará na Igreja de Santo Antônio do cum a Tomásia. Daí eu me alembrei de convidá o neto pro meu casamento
Partenon... Lá em cima do morro... com a Marica...


298 |ESTRADA PERDIDA 299
Desta vez Peleu não deflagra a gargalhada grossa. Faz o riso fininho, o – Munto brigado, seu Luís. Munto brigado, dona Mira. Eu venho avisá o
riso de criança: dia. Munto brigado.
– Que vergonha, seu Luís! Que vergonha, dona Mira! O macaco véio vai O bugio cansado, o grande e curvo bugio fatigado vai indo lento, pelo
morrê de vergonha na frente do juiz... Quando o padre começá a falá, antão, centro poento da rua, vai passando pelas casas cinzentas de porta e janela,
o macaco véio se some no chão da igreja... vai passando pelo campinho verde, vai passando pelo casebre de madeira,
vai passando pela fachada branca do Armazém Gaúcho, vai diminuindo,
Ao novo risinho de criança segue a seriedade súbita, que torna ainda mais diminuindo na lonjura. Transforma-se no mico, no mico pequenino e
velho o rosto preto e gretado. Pergunta aflita: insignificante, que desaparece na lonjura avermelhada e poenta.
– Antão, o sinhô aceita memo, seu Luís? Os olhos de Mariazinha, redondos e negros, os olhos que contrastam
Luís sorri: intensamente com o louro dos cabelos imponderáveis – inquirem os de Luís
e os de Mira.
– Aceito, sim, Peleu.
– Anzinho tem aza, não tem?
Os olhos embaciados fitam Mira:
Os pais respondem:
– E a sinhora tombém qué, dona Mira?
– Tem.
Mira sorri por sua vez:
Com absoluta seriedade, Mariazinha afirma:
– Quero, sim, Peleu.
– O Peleu disse t’eu sô anzinho... Então eu posso avoá?
Continua a seriedade na cara retinta e enrugada. Peleu, já se afastando do
gradil de tela, diz: Luís e Mira riem, riem muito. Mariazinha não compreende o riso dos pais.
Sempre com absoluta seriedade fita o céu azul e limpo. Sorri, imaginando-
– Antão, eu venho avisá o dia pro sinhô, seu Luís. Munto brigado, seu se de asas, igualzinha ao anjo da imagem do quarto da mãe, voando no céu
Luís. O Sinhô do Bom Fim que lhe arrecompense... tão azul, junto com outros anjinhos, com aviões e pássaros.
Peleu já começa a caminhar: Quando para de rir, Mira fala para Luís:
– Daqui vô convidá o seu dotô Roberto. Munto brigado, seu Luís. Munto – Vou ver se o almoço está pronto...
brigado, seu Luís. Munto brigado, dona Mira.
No momento que Mira abandona o jardinzinho e entra pela porta da casa,
Peleu volta a encostar-se ao gradil de tela. A mão velhíssima e negra passa do portão do bangalô da doutora Elvira sai o filho já montado na bicicleta.
por cima do gradil, acaricia a cabeça loura de Mariazinha: Embica para o lado de cá. Vem firme, ágil, desenvolto, o ar palerma do rosto
melado destoando com a segurança e a desenvoltura do equilíbrio.
– O Sinhô do Bom Fim há de te dá uma vida munto feliz, meu anjinho...
Mariazinha sai para a calçada e quer tocar com a mãozinha gorda e clara o
As lágrimas fáceis rolam dos olhos embaciados, rolam pelos riozinhos
para-lama da bicicleta. O menino porém desvia, faz o quê displicente na boca
das rugas, misturam-se à baba e ao ranho do bigode, molham os beiços
apalermada e curva. Não se digna falar. Prossegue na marcha desenvolta.
desdobrados e roxos.
Mariazinha não se importa com a superioridade do menino. Rindo,
– O Sinhô do Bom Fim te abençoe, meu anjinho...
contente, persegue em vão a bicicleta, na corrida das perninhas grossas e
A mão calosa e negra, a mão velhíssima, que parece terreno rachado pelo curtas, vai correndo empós a bicicleta, no centro da rua poenta.
terremoto – abandona a cabeça loura de Mariazinha. Enxuga as lágrimas.


300 |ESTRADA PERDIDA 301
Do início da rua poenta, do lugar em que ela desemboca na rua dos A mão cor-de-leite, pintada de sardas, mergulha no bolso interno do
bondes – surgem o vulto gordo da doutora Elvira e o vulto franzino de seu casaco. Retira o jornal dobrado.
Serapião.
– O senhor não leu a primeira edição da Folha da Tarde, seu Luís? Felizmente
A bicicleta os alcança. Não para. Rodeia-os, na grande volta impecável, agora temos jornais na segunda-feira de manhã... Mas o senhor não leu?
sempre seguida de Mariazinha, procede-os veloz e firme.
Luís responde:
Passa por Luís, que está dobrado sobre o gradil de tela. O grande sorriso
satisfeito vai estampado na boca recurvada e palerma. Luís grita para – Não, seu Serapião. Que que há?
Mariazinha: As mãos brancas, as mãos pintadas de sarda, desdobram o jornal. O
– Para, menina! Vais ficar cansada... indicador de uma das mãos pintadas de sarda aponta o grande clichê de
três colunas, mostra-o a Luís, aponta o título do clichê , de letras grandes e
Mariazinha não ouve. Prossegue empós a bicicleta, na corrida das negras. Seu Serapião lê:
perninhas curtas e grossas.
Doutora Elvira, gorda, de ancas enormes, de imensuráveis seios, de
chapéu sem graça mal posto no alto da cabeça – é a primeira a falar, no tom O ASSASSINO DE VON RATH
satisfeito: Vemos aqui o jovem judeu Herschel Tierel Grynszpan, de 17 anos de idade, autor do
– Está vendo como o Zequinha já anda bem? Aprendeu ligeiro, não? crime da embaixada do Reich em Paris, do qual foi vítima Ernest Von Rath. A fotografia
mostra da esquerda para a...
Com o sorriso tímido, Luís retribui o sorriso de dentes de ouro de doutora
Elvira:
– Aprendeu ligeiro, sim. Ele é um menino muito inteligente... Enquanto seu Serapião lê, Luís examina a fotografia, vê o judeu adolescente,
de jeito tímido e ainda infantil, vê o homem grande e de cartola estendendo a
O sorriso de dentes de ouro alarga-se, ainda mais, na satisfação do elogio mão para tocar no ombro do assassino, vê outro homem grande e sem cartola
feito ao filho. Doutora Elvira quer dizer qualquer coisa. Embaraça-se. Diz também estendendo a mão, como se o adolescente tímido quisesse fugir.
apenas:
Seu Serapião termina a leitura. Os olhos azuis, de poucas pestanas, brilham
– Com licença, seu Luís. Vou tratar do almoço... indignados:
Último sorriso de dentes de ouro. A tonelada gelatinosa se movimenta, – Esse bandido! Esse canalha! Matar o secretário da Embaixada! Bandido!
nos passos curtos e difíceis. Facínora! Covarde!
O jeito apalermado do rosto de seu Serapião é aclarado pelo sorriso da Luís intervém, admirado:
boca encurvada, da boca igual à do filho:
– Bandido?!
– Então, seu felizardo, já em casa, descansando, esperando o almoço... Os
funcionários públicos são uns felizardos... Seis horas de trabalho por dia... Os olhos azuis, os olhos de poucas pestanas, fuzilam com mais indignação:
Que felizardos! – Sim, senhor! Bandido! E tem cara de assassino, reparou? Ban-di-do!
Luís repete o sorriso tímido. Não fala. Seu Serapião bate com a mão na As mãos brancas, as mãos pintadas de sarda, amassam, amarfanham o jornal:
testa branquíssima:
– Bem feito que estão deixando os judeus tontos na Alemanha! Judeu comigo,
– Ah! passo! Não quero saber de judeus! Uns ladrões! Bem feito! Aquele bandido!


302 |ESTRADA PERDIDA 303
Tomara que, lá na Alemanha, façam bastante pro... pro... – Os óio-regalado, pai! O Zetinha disse ti eu mexo na biciteta os-óio-
regalado mi morde... Os óio-regalado, pai!
Luís auxilia, com um sorriso:
Luís ri:
– Progroms, seu Serapião...
– Bobinha! Os óio-regalado não morde ninguém!
Tornam a fuzilar os olhos azuis e de poucas pestanas:
Beija a filha na boca, sentindo o gosto salgado das lágrimas pequeninas,
– Isso mesmo! Pro... progroms! Acabar com os judeus... Quanto menos judeu, das lágrimas que caem, caem sempre.
melhor! Ladrões! Aquele bandido! Tem cara de assassino, reparou?
Seu Serapião não esperava a resposta de Luís. Sorri, subitamente cordial,
subitamente pacífico:
– Um bichão o Hitler, sabe? Bichão! Eu tenho uma grande admiração pelo
fuhrer, sabe?
Pela segunda vez, Serapião bate na testa:
– Ah!
Sorriso felicíssimo na boca recurva, no rosto apalermado:
– Daqui a vinte dias os exames, sabe? E pro ano, pré-jurídico! Mais um
bacharel, sabe? A Elvira curando os doentes e eu acabando com os gatunos
de Porto Alegre... Daqui a vinte dias...
Terceira batida na testa:
– Ah! Amanhã é quinze de novembro, feriado. Vou aproveitar pra botar em
dia o resto da História Natural... Feriado, amanhã. (Sorrizinho) O senhor vai
gozar o dia em casa, espichado, não? Esses funcionarios, esses felizardos...
Da porta do bangalô, vem o grito de doutora Elvira, o grito forte, em
completo acordo com a tonelada gelatinosa:
– Serapião! Vem duma vez! O almoço está na mesa...
Último sorriso da cara apalermada:
– Com licença, seu Luís. Vou tratar do cadáver...
Chegado ao portão do bangalô, seu Serapião quase pecha em Mariazinha,
que vem correndo do quintal dos fundos, passa por seu Serapião, corre pela
rua poenta, abraça-se a Luís, envolvendo-lhe o pescoço com os bracinhos
curtos e grossos. Há lágrimas nos olhinhos negros e redondos, quase
cobertos pela franja dourada. Há pavor na fala apressada:


304 |ESTRADA PERDIDA 305
34. Mira fala:
– Luís! Estás ouvindo? O filho da doutora já começou com o exercício do
piano, olha!
Mira sai do quarto, pé ante pé, atravessa a sala de jantar, chega à saleta,
ainda pé ante pé, a luz fraca da lâmpada de tulipa batendo no ombro bonito Luís escuta as notas indecisas, as notas balbuciantes do piano, vindas da
e cheio. Senta defronte a Luís. janela aberta do bangalô da doutora Elvira, caminhando na noite estrelada,
invadindo o jardinzinho da casa de Luís, misturando-se ao rascar dos grilos,
Silêncio. Luís olha o vulto pequeno de Mira, os olhos esverdeados, os misturando-se aos gritos distantes e imprecisos, entrando pela janela aberta.
ombros nédios se revelando no vestido sem mangas. Indaga: Luís escuta as notas indecisas:
– Ela estava custando a dormir... Por quê? – Mi, fá, sol-sol! Dó, ré, mi-mi! Fá, mi, ré-ré! Mi, ré, dó-dó!
Mira ri: Comenta:
– Sabes por quê? Queria qu’eu viesse te dizer que quer que tu tragas o – Está mais adiantadinho, o bocó! Assim mesmo, ainda não está firme
automovelzinho no sábado... (Novo riso) Tu sabes, sábado, pra Mariazinha, nesse exercício. Há três noites, já! Puxa, guri idiota!
é como quem diz “amanhã”...
Mira sorri:
Luís não ri. Faz, entre dentes:
– Coitado!
– Ah! O automovelzinho...
Os olhos esverdeados tornam a fitar com ternura os olhos de Luís, que,
Outra vez o silêncio, arranhado pelo rascar fininho de grilos, furado como há pouco, se desviam, detém-se no bico do chinelo barato.
pelo rumor distante de bonde passando afastado, pisoteado pelos passos
apressados batendo rentes à janela aberta. Mariazinha não esqueceu o automovelzinho... O automovelzinho... O
automovelzinho que Luís nunca poderá dar... Nem um empréstimo no
Luís torna a fitar o vulto pequeno e bonito, vagamente humilde de Mira, Instituto Luís poderá fazer para atender a filha... Já não tem mais crédito,
os olhos esverdeados, os ombros nédios, os braços cheios e nus. Notando já esgotou o limite dos empréstimos!... Nunca, nunca Luís poderá dar o
que os olhos esverdeados o fitam com carinho e que o sorriso cordial aparece automovelzinho para a filha bem amada! Nunca!
nos lábios carnudos de Mira – Luís desvia o olhar. Baixa-o. Passeia-o ao
longo da calça do pijama listrado, detém-no no bico do chinelo barato. A voz antipática e fina chama a atenção de Luís, dizendo:
Mariazinha não esquece o automovelzinho, o automovelzinho da – Dona Mira, vô ali fora um pouquinho... Já guardei as louça...
loja da cidade, o automovelzinho de duzentos e vinte réis, o inatingível
automovelzinho... Mariazinha não esquece... E como se divertiria, se Mira retruca, rindo:
possuísse o automovelzinho! Afogueada, a transbordante alegria no rostinho – Já sei... Queres dizer que vais conversar com o namorado... Vai!
bonito, os cabelos louros esvoaçando, as mãozinhas gordas segurando o
guidon, apertando o fon-fon, os pezinhos queridos pedalando... Como O duro, o longo, o magro guindaste se retorce todo, de cábula. Transforma-
ela sentir-se-ia feliz! Correria, correria ao longo da calçada sem lajes... se no parafuso que se torce, que gira, que fala, no sorriso da boca desdentada,
Fon-fon! Fon-fon! Correria, correria, os cabelos cor-de-ouro esvoaçando no sorriso que tem uma mistura de timidez e faceirice:
ao vento... Mariazinha não esquece o automovelzinho, o impossível e
– Ora, dona Mira! Também, quem trabaia tem dereito de se divertí...
inatingível automovelzinho... Como haveria de correr na calçada, pra um
lado e outro, fonfonando, metendo inveja no gurizinho besta da doutora O parafuso se torce, gira ainda. Para. Torna a ser o guindaste magro,
Elvira... Gurizinho bobalhão, cara de bocó... Pensa que a bicicleta dele vai se longo e duro, que ainda mostra a boca desdentada no último sorriso faceiro
desmanchar, se Mariazinha tocar nela... Ontem assustou Mariazinha com o e abandona a saleta, abre a porta da rua, sai para o jardinzinho.
cachorro dos olhos arregalados... Palerma! Imbecil! Idiota!

306 |ESTRADA PERDIDA 307
Luís fala, seco: autinho, correndo na calçada sem lajes... Mariazinha, no automivelzinho,
pra-lá pra-cá... Mariazinha no automovelzinho que Luís deve trazer sábado...
– Já se vai pro namoro com o rapazinho, essa desfrutável, essa assanhada!... Sábado, para Mariazinha, é “amanhã”, é o dia que virá... “Mãe, diz pro pai
Não compreende que o rapaz quer é o dinheiro dela, os dez contos de réis da mi tazê o otomovezinho no sábo... Tu diz, mãezinha?” Mariazinha não sabe
loteria... Te garanto que qualquer dia ele pede algum dinheiro emprestado que “sábado” não quer dizer amanhã: quer dizer “nunca”! Nunca, nunca,
pra ela... Vai explorá-la, te garanto... Desfrutável! Assanhada! Quem é que Luís poderá trazer o automovelzinho para a filha. Nunca!
vai querer um xarque magro e fedorento desses? Desfrutável! E logo um
rapaz... Garanto que já deu alguma facada nela, o gigolô... Vai tirar-lhe todo Mira de novo interrompe-lhe os pensamentos:
o dinheiro. E, quando os dez contos acabarem, ele se some, vais ver...
– A Etelvina está discutindo com o namorado, escuta!
Mira informa:
Misturadas às notas balbuciantes do piano distante, a voz grossa do rapaz
– É verdade, Luís, me esqueci de te dizer... Uma noite dessas, parece que e a voz fina e antipática de Etelvina invadem a janela aberta, penetram na
na semana passada, ela estava no namoro e entrou, foi no quarto e deixou saleta.
a porta aberta. Eu estava na cozinha, fazendo a mamadeira da Mariazinha
e vi. Ela levantou o colchão e tirou uma nota. Depois voltou pra rua... Acho Luís resmunga:
que foi pra dar pro namorado... – Desfrute!
Luís brada: Mas não é só o automovelzinho para a filha que Luís não pode comprar.
– Achas?! Garanto que foi dar pra ele, juro! Está sendo explorada, a Também uma roupa decente, de calças listradas e de casaco de mescla, para o
desfrutável! Também, uma burra que nem contar o dinheiro sabe!... Te casamento de Peleu – Luís não pode comprar... Roberto, tio Antônio, tia Ana
lembras? Veio me pedir pra contar, pra ver si estava certo... Assanhada! Bem estarão lá na igreja, assistindo ao casamento do Peleu, bem vestidos e ricos...
feito! No entanto, Luís, padrinho do casamento religioso, estará mal vestido, com
a fatiotinha cinzenta lustrosa, poída nas mangas... Luís, que, como eles o são
Mira põe o dedo entre os lábios carnudos: agora, já foi rico, ostentará uma fatiotinha miserável, de quarto escriturário
sem crédito no Instituto, uma fatiotinha poída nas mangas, lustrosa,
– Chit! Fala mais baixo que eles podem ouvir... A janela está aberta... cinzenta. Roberto, na calça listrada bem frisada, no casaco escuro de mescla,
Luís não responde. Torna a fitar o bico do chinelo barato, escutando as notas Roberto, de luvas brancas, Roberto, espadaúdo, feliz e impecável, olhará
balbuciantes do piano, que vêm da janela aberta do bangalô da doutora, que para a fatiota humilde de Luís e fará um risinho irônico... Talvez, mesmo,
deslizam na noite estrelada, que se misturam ao rascar dos grilos, ao rumor diga ao ouvido de Luís: “Fatiotinha ruinzinha, hein?” É o cúmulo! Luís, que
do outro bonde afastado, ao cochicho da criada e do namorado agarrados já teve tantas fatiotas, azuis, cinzentas, marrons, de mescla, de linho branco e
no portão, as notas que entram pela janela aberta. linho pardo, de esponja lisa e salpicada, Luís, que já teve tantas fatiotas, Luís
irá ao casamento de Peleu envergando a fatiota cinzenta, lustrosa, poída nas
– Mi, fá, sol-sol! Dó, ré, mi-mi! Fá, mi, ré-ré! Mi, ré, dó-dó! mangas, suja na gola... É o cúmulo! Luís não tem dinheiro para comprar
uma fatiota decente, com que, mais apresentável que o noivo, compareça ao
Toca, toca, idiota! Imbecil! Pensas que tens o rei na barriga, só porque
casamento do bugio velho... A fatiota de Luís está de completo acordo com a
ganhaste uma bicicleta nacional, comprada em prestações, nas prestações
fatiota do noivo... E duzentos, duzentos e cincoenta mil réis bastariam para
inventadas pelos judeus, que o pamonha do teu pai tanto odeia... Pensas que
que Luís comprasse uma fatiota de mescla feita, de confecção. É o cúmulo!
tens o rei na barriga... Uma bicicleta xubrega... Bonito, fino, raro, refinado, é
É o cúmulo! Luís não tem dinheiro nem para comprar a fatiota apresentável,
o automovelzinho da loja da cidade... Aquilo sim é que é brinquedo bonito...
nem para dar à filha o automovelzinho de brinquedo, Luís que já teve tantas
Os cabelos louros esvoaçando ao vento, o rostinho bonito afogueado de
fatiotas, Luís que já possuiu automóveis de verdade, caríssimos e velozes.
alegria, os pesinhos pedalando, pedalando, as mãozinhas gordas, postas no
Trouxa! Trouxa como disse o Roberto aquela tarde, de volta do enterro da
guidon, fonfonando, fonfonando... Como Mariazinha ficaria contente, no
prima Sinhá... Trouxa!


308 |ESTRADA PERDIDA 309
Mais esta vez, Mira corta os pensamentos de Luís: se de Luís. Os braços torneados, escorrendo nédios do vestido sem mangas,
contornaram o pescoço de Luís. Os cabelos castanhos misturaram-se aos
– Olha, Luís! Agora pararam com a discussão... Estão calados, há mais de cabelos de Luís. Os olhos esverdeados fitaram bem no fundo os olhos de
cinco minutos... Luís. O rosto bonito se aproximou, se aproximou, grande, morno. A boca
Luís presta atenção ao silêncio da ruazinha quieta, maior ainda com a fresca e carnuda procurou os lábios finos de Luís.
ausência do cochicho dos namorados, quebrado apenas pelo rascar dos Mas Luís repeliu, com um safanão brusco, o corpo de Mira, desfez o
grilos e pelas notas indecisas do piano, que repete sempre: abraço dos braços e nédios. Falou, ríspido:
– Mi, fá, sol-sol! Dó, ré, mi-mi! Fá, mi, ré-ré! Mi, ré, dó-dó! – Deixa de desfrutes! Te assanhaste com o namoro da Etelvina?
Luís murmura, entre dentes: De olhos fitos, sempre, no bico do chinelo barato, Luís não percebe que
– Garanto que essa cadela velha e desdentada está se beijando com o as lágrimas encheram os olhos esverdeados de Mira. Luís apenas percebe
rapaz. Desfrutável! as notas hesitantes do piano, vindas sempre da janela aberta do bangalô da
doutora Elvira, deslizando na noite estrelada, roçando os ouvidos da criada
Mira, a luz fraca da lâmpada de tulipa refletindo-se-lhe no ombro cheio, e do namorado, invadindo o jardinzinho, entrando pela janela aberta da
descerra a boca carnuda no sorriso vago. Torna a pousar os olhos esverdeados saleta, sempre hesitantes, sempre fazendo:
nos olhos de Luís, que, mais esta vez, se desviam rápidos, deslizam pela
calça listrada do pijama, pousam no bico do chinelo barato. – Mi, fá, sol-sol! Dó, ré, mi-mi! Fá, mi, ré-ré! Mi, ré, dó-dó!

Luís não poderá nunca dar o automovelzinho à filha, nem poderá ir


decentemente vestido ao casamento de Peleu! É o cúmulo, sim, o cúmulo! E
não o pode porque não tem dinheiro, porque jamais terá dinheiro... Trouxa!
Trouxa sem sorte! Ainda – como também disse Roberto – se Luís houvesse
herdado da prima Sinhá... Mas, qual! Todo o dinheiro da velhinha coitada
foi parar sob mãos de parentes distantes, que talvez nem se lembrassem da
existência da pobre... Trouxa sem sorte! Trouxa absolutamente sem sorte –
eis a melhor definição de Luís... No entanto – É mesmo! Como é que Luís
ainda não notara?! – no entanto, para o cúmulo do deboche, para o cúmulo
da ironia, a desdentada, a burríssima, a magríssima, a feíssima Etelvina, a
criada boçal e bronca, que absolutamente não necessita de dinheiro – tirou
dez contos de réis na loteria! Dez-contos-de-réis!! Se fosse a Luís que a sorte
houvesse favorecido, quanta coisa Luís não teria comprado com esse dez
contos de réis?! O automovelzinho para a filha, - só o automovelzinho, não,
uma bicicleta, um rema-rema, uma boneca enorme dizendo papai e mamãe!
Fatiotas caríssimas, smokings, sapatos de cento e sessenta mil réis o par,
de sola grossíssima, como aquele com que o Roberto apertava os pedais
do V-8 aquela tarde... Joias, anéis para Mira! Quanta, quanta coisa Luís
não compraria com esses dez contos de réis, que tocaram à criada boçal,
repugnante e estúpida, ao pau-de-vira-tripa desfrutável e assanhado, que
está sendo explorado pelo rapaz aproveitador... Essa boçal! Que ironia, meu
Deus! Que ironia!
O ombro lustroso, o ombro cheio e perfeito de Mira, ergueu-se, aproximou-


310 |ESTRADA PERDIDA 311
35. O sussurro da voz grave e pausada insite:
– Elas não vêm já... Vamo... Um poco, só...
O gemido, fugido da boca arroxeada, que morde em vão o bigode riscado O meneio lento de cabeça torna a negar:
de gris – o gemido atravessou as frágeis paredes de madeira, entrou na
saleta, foi de encontro à chama trêmula da lamparina, bateu no vidro do – Não. Pode os meu tio vortá da fábrica...
lampião, bateu no gramofone velho e sem fone, correu aflito em torno do sofá A voz pausada e grave não insiste. Cala. A grande mão retinta acaricia,
de palhinha e de assento de madeira, correu aflito em torno do mochinho acaricia o nascimento do seio farto.
guenzo, jogou-se pela porta aberta, enleou-se no emaranhado do jasmineiro
velho, livrou-se, passou pelos dois grandes pés de tuna, perdeu-se na noite. Os olhos cansados, os olhos moles de ternura continuam a fitar a chama
trêmula e azulada da lamparina. Mas não veem nada, absolutamente nada,
Peleu, sentado no mochinho guenzo, desviou os olhos da lamparina e fez além da chama azulada, com halo cor-de-fogo agitando-se no movimento
a boca de beiços desdobrados, apontando sob o bigode branco, amarelado e lento da labareda. Os olhos cansados, os olhos molhados de ternura, não estão
molhado de baba e ranho – resmungar: vendo coisa alguma. Semicerram-se, brilham, se amolecem, umedecem-se
– Qui é, Marciano? ao contato da mão retinta no nascimento do seio farto e morno.

Como do quarto de Marciano só vinha o silêncio e o estertor da respiração Os olhos embaciados, os olhos mortos de Peleu também continuam fitos
difícil, Peleu torna a fitar a chama trêmula e azulada da lamparina, torna a na chama trêmula e azulada. E veem além da labareda azul debruada de
fitar a imagem do Senhor do Bom Fim, crucificado, pairando sobre a igreja, fogo. Embaciados, mortos, os olhos do bugio alquebrado e de carapinha
sobre o largo enfeitado e palmeiras. branca – estão vendo coisas amáveis e inefáveis.

Peleu mexe os beiços desdobrados, resmungando coisas ininteligíveis. Então, do Espírito Santo, desceram, desceram, vieram dar em Punta
Arenas. Tierra del Fuego! Fuego? Frio como o diabo! Neve... Gelo... E
Elmira, de grossos lábios polpudos, de cabelos lisos e corridos, de rosto o danado do inglês, dele uísque, dele uísque... Ôla inglês que metia! Os
bonito, de corpo carnudo e moreno, de torneados braços morenos e nus, dormentes da estrada de ferro, colocados um a um, avançando, avançando
Elmira está colada, grudada ao noivo retinto. De olhos cansados, de olhos na neve... “Pileu! Mi traiz o isque...” E o paisano burro, lá em Rosário de
moles de ternura, Elmira também contempla a chama trêmula e azulada Santa-Fé! “Che, amigo, que barbaridad! Legô un gringo tan rico que tiene
da lamparina, enquanto as suas mãos mulatas apertam, magoam as mãos un velo negro en la cara!” Ô paisano burro! Mister Charles alto, louro, de
retintas do noivo, enquanto o seu corpo cheio e moço se aconchega ao corpo óculos, emborcando uísque no meio da neve. Quando ficava no porre,
retinto do noivo, funde-se ao corpo do noivo, cujo braço retinto lhe enlaça o começava a falar inglês. Dizia que eram versos. Aquela vez que abraçou ao
busto cheio, a mão lhe tocando o nascimento do seio farto. Peleu, chorou no ombro do Peleu, sempre falando inglês. Mister Charles...
E o outro paisano burro, molhando o dedo no cuspo e passando na mão do
Os olhos embaciados de Peleu não se desviam da lamparina azulada e Peleu, para tirar a tisna... Ôla paisanos burros!
trêmula, da imagem do Senhor Crucificado, pairando sobre o largo enfeitado
de palmeiras. Os olhos cansados, moles de ternura, de Elmira também não A risada grossa, da voz fraca e sem vida, encheu a saleta. Rindo, rindo
se desviam da chama azulada e trêmula. sempre, Peleu não percebeu o grande, o chupado beijo que o noivo acaba de
dar na boca de Elmira. Não percebeu, também, o novo gemido de Marciano,
A voz grave e pausada do negro moço, susurra ao ouvido da mulata: seguido destes gritos:
– Vamo lá pra fora um poco? O teu avô não vê... – Ai, meu Deus! Ai! Ai! Tá me doendo... Quando é que essa cadela vorta?!
O meneio lento da cabeça nega: Dexá o marido morrendo e í se metê na sessão esprita! Cadela! E inda levá
os oto junto! Não me dexô nem o neguinho! Cadela! Ai! Ai!
– Não! Pode a mãe e a Marica chegá...


312 |ESTRADA PERDIDA 313
Depois de Rosário de Santa Fé, subiram, andaram pelo Paraguai, estiveram Elmira, o guardião que não escuta este sussurro:
em Assunção. Lá foi que morreu, de febre amarela, o padrinho do Peleu, o
capital da Real Armada, doutor de medicina, Francisco Teixeira da Costa. – Vamo lá pra fora, um poco, Elmira! Tomá ar... A tua mãe e a dona Marica
Ele disse: “Não, Peleu. Tu ficas aqui na Corte, na casa do mano. Não te levo não vêm já... A sessão vai demorá... Os teus tio fica no serviço até as dez
para Assunção, não. Lá tem febre amarela e pode te pegar. Tu ficas aqui com hora... Vamo lá na rua um poco... Vamo?
o mano!” Coitado do capitão doutor de medicina! A febre amarela levou-o O meneio de cabeça torna a negar, balouçando os olhos cansados, moles
junto com os marinheiros... de ternura:
Os olhos embaciados, os olhos mortos fitam, fitam a chama azulada e – Não. O vô vai dá farta...
trêmula, enchem-se de lágrimas. A nuvem de tristeza escurece ainda mais
a cara retinta e cortada de rugas. Mas as lágrimas logo cessam e torna a O hálito da voz pausada e grossa bafeja a orelha da mulata:
alegria à cara retinta e enrugada, a alegria que não deixa Peleu ver o novo
– Ele não vê. Tá falando sozinho...
beijo fundo e chupado, que o noivo acaba de dar na boca polpuda da mulata.
O sorriso apontou nos lábios polpudos da mulata, que se aninha mais no
Mister Charles metendo, metendo uísque... “Mi traiz o isque, Pileu!” “Ola
aconchego do corpo retinto do noivo, que se remexe no sofá de palhinha,
inglês que metia! Depois de Assunção tornaram a baixar e, afinal, entraram
como se o calafrio passeasse rápido pelos braços nus e rijos. Elmira promete:
no Rio Grande do Sul... Ah! Mas e a Imperatriz, lá em Santos, no vagão do
trem, chamando Peleu de Benedito! “Benedito, ma alcança aquela maleta”. – Daqui a poco vamo, então.
Quando o trem parou na estação, no alto da serra, o homem trouxe uma
porção de galinhas de presente para a Imperatriz. A Imperatriz, então, A mão retinta aperta, aniquila o seio farto. O beijo chupado engole as
deu uma galinha para Peleu. “Pega uma pra ti, Benedito”. A Imperatriz, palavras da mulata, ruidoso, mal deixando se ouvir na saleta o novo gemido
pequenininha, boa pros negros... Parecida com dona Sinhá... Então de Marciano, os novos gritos, que atravessam a madeira frágil das paredes
entraram no Rio Grande do Sul, abriram colônias para os alemães em São e dizem:
Leopoldo. Peleu conheceu a Tomásia no portão da casa do doutor Ferreira. – Essa cadela! Tá mi doendo! Essa cadela não vem cuidá do marido qui tá
O doutor Ferreira e a dona Ritoca foram os padrinhos de casamento do largando os pormão aos pedaço... Tá mi doendo!
Peleu... E agora Peleu tem que casar de novo, depois de macaco velho...
Lá em cima do morro, na Igreja de Santo Antônio... Seu Luís e dona Mira Mister Charles, louro, alto, de óculos, morreu, morreu na estranja
serão os padrinhos no religioso... Peleu vai casar de novo... Que vergonha! distante... Mister Charles morreu, Tomásia, doutor Ferreira, dona Ritoca,
Que vergonha! Que que a Tomásia vai dizer lá no céu, no meio dos anjos, Lígia, doutor Rodrigues, dona Sinhá, Umbelina, os três filhos do Marciano
perto do Senhor do Bom Fim? Quê? Tomásia, Tomásia, perdoa o Peleu! O – todos morreram... Pulmão, coração, gripe espanhola, água de poço velho,
americano da companhia é que quer... Peleu não tem culpa... O americano mosquiteiro queimado, caimbra de sangue – tudo foi levando os homens,
quer, pra quando Peleu morrer o dinheiro ficar pra Marica... Senão a coitada as mulheres, os meninos, as meninas, os brancos e os negros, para a terra
da Marica fica na miséria... Tomásia, perdoa o Peleu! A Tomásia no portão desconhecida, de onde não se volta nunca mais... A morte leva a gente, acaba
da casa do doutor Ferreira. Peleu falou com ela. Dois meses depois casaram. com a gente, apaga a gente, como... como... como a lamparina do Senhor
Quando Peleu foi pedir licença a Mister Charles, o inglês chorou, parecia do Bom Fim, quando a Marica esquece de renovar o azeite... A morte leva
mentira! E disse: “Tá bem, Pileu! Tu estar dono teu vida! Tá bem, Pileu!”. a gente, de vez, pra sempre... A gente se apaga, como a lamparina... Mas
não devia ser assim! Está errado! Pelo menos, as pessoas boas não deviam
Os olhos embaciados, fitando sempre a chama trêmula e azulada, morrer... Ainda quando é gente ruim, como seu Nunes e a Bilina, não faz
encheram-se de lágrimas novamente, de lágrimas que cortam a cara retinta, mal. Porém gente boa, como o doutor Ferreira, a dona Ritoca, o doutor
que descem pelos canaizinhos das rugas, misturam-se à baba e ao ranho do Rodrigues, a dona Sinhá, a dona Lígia – gente boa assim, não devia morrer,
bigode. De olhos cheios de lágrimas e fitando a chama azulada e trêmula, não devia se apagar... Deviam todos viver sempre, eternamente... Senão...
Peleu continua a ser o guardião que não vê nada, o guardião que não nota que que adianta viver? Fazer bem? Ser bom pros negros, ser bom pros
que a mão retinta do negro moço aperta, agora de cheio, o seio farto de


314 |ESTRADA PERDIDA 315
pobres? Que que adianta? Pra morrer, pra se apagar, que nem os pestes, negra Marica, os quais são agora dois rapazes negros fortes e retintos, o
que nem cachorro vagabundo?! Está errado! negro velho Peleu que se aposentou e ganha os duzentos mil réis por mês,
o negro velho Peleu, que agora vai se casar de novo – o negro velho Peleu
O sussuro da voz pausada e grossa tornou a bafejar a orelha de Elmira: viveu, Senhor do Bom Fim! Viveu bem