Você está na página 1de 72

33

ISBN 85-7
20,

Ila 111,019119
9 788571 10590411
Ellen Meiksins Wood

A Origem do Capitalismo

Traduçao:
Vera Ribeiro
Apresentaçao:
Emir Sader

SISBIN - IJFOP

1000133294

Jorge Zahar Editor


Rio de Janeiro
I Q1
r

) , Sumário

Titulo original;
The Origin of Capitalism

: ) Traduçao autorizada da primeira ediçao forte-americana


publicada em 1999 por Monthly Review Press, ..............7
Apresentaçao a ediçao brasileira
Li li' Nova York. Pctdc llnidnc
Introdução.........................11
Copyright © 1999, Monthly Review Press
Copyright © 2001 da ediçao brasileira:
Jorge Zahar Editor Ltda. PARTE I. Versöes históricas da transiçao
ma Mexico 31 sobreloja
1.0 modelo mercantile seu legado ..............21
) 20031-144 Rio de Janeiro, RJ
tel.: (21) 240-0226/ fax: (21) 262-5123 2. Debates marxistas ........................... 36
e-mail: jze@zahar.com.br
3. Alternativas marxistas ........................ 50
site: www.zahar.com.br

Todos os direitos reservados.


PARTE II. A origem do capitalismo
A reproduçao não-autorizada desta publicaçao, no todo
ou em parte, constitui violaçao do copyright. (Lei 9.610) 4. A origem agrária do capitalismo ............... 75
Capa: Carol Sá e Sérgio Campante 5. Do capitalismo agrário ao capitalismo industrial:
esboço sucinto .............................. 101
6. Modernidade e pOs-modernidade .............. 113

Conclusão ........................ 125


CIP-Brasil. Catalogaçao-na-Fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Notas .......................... 131
Wood, Ellen Meiksins
W853o
Agradecimentos ..................... 137
A origem do capitalismo / Ellen Meiksins Wood; tradu-
çao, Vera Ribeiro; apresentaçSo, Emir Sader. - Rio de Janei- Indice remissivo ..................... 139
ro: Jorge Zahar Ed., 2001

Traduçao de: The origin of capitalism


ISBN 85-7110-590-1

1. Capitalismo - História. I. Titulo.

CDD 330.12209
01-0095 CDU 330.342.14(09)
Apresentaçao a ediçao brasileira

Emir Sader

Para Ellen Meiksins Wood, "pensar sobre as alternativas futuras ao


capitalismo requer que explorernos concepçOes alternativas sobre
seu passado". Este, portanto, näo e urn livro sobre o passado, mas
sobre a natureza histórica do capitalismo e sobre seu passado e seu
futuro.
Se ate os anos 70 a discussao era sobre quando e como o capita-
listho seria substituldo pelo socialismo, as transforrnaçOes históricas
das décadas posteriores, ao contrário, representaram a mais abran-
gente tentativa de naturalizar o capitalismo. A autora retoma neste
livro as condiçoes de surgimento do capitalismo, Para repassar as
principais concepçOes sobre sua natureza. Conforme as caracterIsti-
cas consideradas como inerentes a esse tipo de sociedade, teremos
urn diagnóstico sobre sua natureza atual.
Ellen Meiksins Wood é uma das principals intelectuais socialis-
tas conternporâneas. Professora de ciência polItica da Universidade
York, em Toronto, ela é autora de Mind and Politics, Class Ideology
and Ancient Political Theory (corn Neal Wood), mas começou a ficar
internacionalmente conhecida quando publicou A Retreat from
Class —A New "True Socialism", que recebeu o Prêrnio do Memorial
Isaac Deutscher em 1986.
Neste livro ela desenvolve urna visão cr'itica das influências na
chamada teoria "pós-marxista". Enfrentando a dissociaçao da poiltica
de seus fundamentos de classe, Meiksins Wood elabora urna concep-
çao original e complexa das relaçOes entre classe, ideologia e poiltica,

7
A origem do capitalismo Apresentação a ediçao brasileira 9
8
)
explorando os vInculos entre socialismo e democracia e reinterpre- tentativa de alcançar a prosperidade material de acordo corn os princi
tando as relaçöes entre democracia socialista e democracia liberal. p105 capitahstas tende cada vez mais a trazer em seu boo apenas o lado
Em sua obra posterior, Peasant-citizen and Slave: The Foundati- negativo da contradiçao capitalista, sua desapropriacão e destruicao em
seus benefIcios materiais - para a vasta maioria, corn certeza.
ons ofAthenian Democracy, articulando sua sólida formaçao histOri-
ca corn sua formaçao econômico-social, ela desenvolve a surpreen- 0 objetivo essencial dos intelectuais anticapitalistas e recolocar o so-
dente tese segundo a qual, apesar da importância do escravismo na cialismo na agenda histórica do presente. Condiçao prévia é a corn-
sociedade grega, o caráter mais marcante da democracia ateniense preensäo atualizada do capitalismo realmente existente, de que faz
era a proeminência sem precedentes que ela deu ao trabaiho Iivre. parte o acerto de contas corn as diversas concepçOes que - dentro e
Meiksins Wood argumenta que a emergência do carnponés como ci- fora do rnarxismo - buscam dar conta desse tipo de sociedade. Nao
dadão, jurIdica e politicamente independente e corn liberaçao das = corno ponto natural de chegada da história, mas como realidade
tradicionais relaçOes tributárias, acaba sendo determinante nas ins- construida pelos homens - isto e, histórica - e que, portanto, como
tituiçOes politicas atenienses, bern como em seus valores sociais e em teve corneço e meio, poderá ter fim, na dependência da capacidade
sua cultura. de cornpreensao e açao organizada e consciente dos hornens. Este
Posteriormente sua densa obra teórica inclui The Pristine Cultu- prirneiro livro de Ellen Meiksins Wood publicado no Brasil é instru-
re of Capitalism e Democracy Against Capitalism: Renewing Historical mento indispensável para quern se arrisca a essa ernpreitada.
Materialism. Neste, Meiksins Wood argumenta que, corn o colapso
da URSS, o projeto teórico do marxismo e sua crItica do capitalismo
se tornam mais urgentes e irnportantes do que nunca. 0 destaque
dado, a partir dal, a "fragrnentaçao pós-moderna", a "diferença", a
"contingencia" e as "polIticas de identidade" deslocam o tema cen-
tral da crItica ao capitalismo. Ela desenvolve os conceitos antigo e
moderno de democracia, colocando em evidéncia as contradiçOes
entre a democracia e um tipo de sociedade fundado na busca cons-
tante e multiplicada do lucro.
Como editora da revista rnarxista forte-americana Monthly Re-
view, organizou e publicou livros de coletâneas de nUmeros especiais
dessa revista - entre os quais Em defesa da história (corn John Bel-
lamy Foster), publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor, Capita-
lism and the Information Age e Risingfrom the Ashes? Labor in the Age
of "Global" Capitalism.
A origem do capitalismo situa-se na continuidade desse empre-
endimento teórico, que conclui de forma clara:

Corn as pressOes da cornpetição, da acumulaçao e da exploraçao impos-


tas pelas economias capitalistas mais desenvolvidas, e corn as crises me-
vitáveis de capacidade excedente geradas pela cornpetição capitalista, a -
0 colapso do cornunismo, no firn da década de 1980 e inIcio da de
1990, pareceu confirmar aquilo em que muitas pessoas acreditamha
tempos que o capitalismo e a condiçao natural da humanidade, que
ele se harmoniza corn as leis da natureza e as inchnaçoes humanas
fundamentais e que qualquer desvio dessas leis naturais e inchna-
çoes so pode ocasionar mau resultado
Existem hoje, e claro, muitas razOes para se questionar o triunfa-
lismo capitalista que veio na esteira desse colapso No momento em
que escrevo esta intro duçao, meu )ornal matutmo fala do que e "talvez
o mais grave colapso da era capitalista moderna", e adverte para uma
possivel depressao rnunthal, na escalada dos anos 30, e de ambito ain-
da maior. 0 mundo ainda esta zonzo corn a crise asiatica, e nmguem
duvida de que ainda estamos muito longe de seu fun e de que seu efei-
to cornpleto na economia global ainda esta por vir. Entrementes, o
mais orguthoso feito da vitoria capitalista - o fim da Urnao Sovietica
- levou ao colapso quase total da economia sovietica, corn efeitos de
ampla repercussao em todo o mundo capitalista avançado - efeitos
mais nocivos, disseram alguns editoriais da imprensa ocidental, do
que a Uniao Soviética jamais infligiu ao capitalismo.
No passado, o capitalismo sempre saiu de suas reiteradas crises,
mas nunca sem lançar as bases para crises novas e ainda piores Não
ha düvida de que também desta vez o sistema será salvo do naufrá-
gio. Mas, sejarn quais forem os rneios encontrados para restringir ou
reparar os danos, e certo que muitos milhoes de pessoas sofrerao
tanto da cura quanto da doenca.
As fraquezas e contradiçoes do sistema capitalista, cada vez mais
transparentes, poderao acabar convencendo ate mesrno alguns de

11
12 A origem do capitalismo Introduçao 13

seus defensores mais acrIticos da necessidade de se encontrar uma cio da era moderna e, ainda assirn, apenas na Europa Ocidental. Tais
alternativa. Porém a convicção de que não existe nem pode existir pessoas podem ver indIcios dele ern épocas anteriores, ou detectar
nenhuma alternativa está muito profundarnente arraigada, sob retu- seus primórdios na Idade Media - como uma ameaça que pairava
do na cultura ocidental. Essa convicção e respaldada não somente sobre o feudalismo em declInio, embora ainda fosse cerceado pelas
pelas expressoes mais flagrantes da ideologia capitalista como tarn- limitaçOes feudais - ou dizer que ele se iniciou corn a expansão do
bern por algumas de nossas crenças mais diletas e menos questiona- comércio ou corn as viagens de descobrimento, especialmente a de
das a respeito da histOria. t como se o capitalismo sempre tivesse Colombo, no firn do século XV. Mas poucos afirmariam que ele exis-
sido o destino do movimento histórico, e, mais ainda, como se o tiu de verdade antes dos séculos XVI ou XVII, e alguns situariam sua
prOprio movimento da histOria tivesse sido guiado desde oinIcio pe- chegada já no fim do século xviii - ou talvez ate no século XIX,
las "leis de movimento" capitalistas. quando ele amadureceu em sua forma industrial.
No entanto, os relatos históricos de como esse sistema passou a
exiistir tern-no tratado tipicamente como a realização natural de ten-
Fugindo da questao
dências que sempre estiveram presentes. Desde que os historiadores
o capitalismo é urn sistema em que os bens e serviços, inclusive as começararn a explicar o surgimento do capitalismo, quase não hou-
necessidades mais básicas da vida, são produzidos para fins de troca ye explicação que nao corneçasse por presumir a própria coisa que
lucrativa; em que ate a capacidade humana de trabaiho e uma mer- precisava ser explicada. Quase sem exceção, os relatos sobre a on-
cadoria a venda no mercado; e em que, como todos os agentes eco- gem do capitalismo são fundarnentalmente circulares: presumem a
nômicos dependem do mercado, os requisitos da competição e da existência prévia do capitalismo para explicar seu aparecimento. No
maxirnizaçao do lucro são as regras fundarnentais da vida. Por causa intiiiito de explicar o impulso de rnaximização do lucro que e carac-
dessas regras, ele e urn sistema singularmente voltado para o desen- teristico do capitalismo, pressupöern a existéncia de uma racionali-
volvimento das forças produtivas e o aumento da produtividade do dade universal maximizadora do lucro; para explicar o impulso
trabaiho através de recursos técnicos. Acima de tudo, e urn sistema capitalista de aumentar a produtividade do trabalho através de re-
em que o grosso do trabaiho da sociedade e feito por trãbalhadores cursos técnicos, pressupOem urn progresso continuo e quase natural
sem posses, obrigados a vender sua mão-de-obra por urn salário, a do aprirnoramento tecnologico na produtividade do trabaiho.
fim de obter acesso aos rneios de subsistência. No processo de aten- Essas explicaçoes paralogIsticas tern sua onigem na econornia
der as necessidades e desejos da sociedade, os trabaihadores também poiltica clássica e nas concepçOes iluministas do progresso. Juntas,
gerarn lucros para os que comprarn sua força de trabaiho. Na verda- elas fazem urn relato do desenvolvimento histórico em que o des-
de, a produção de bens e serviços está subordinada a produção do pontar e o arnadurecirnento do capitalismo ja estariam prefigurados
capital e do lucro capitalista. 0 objetivo básico do sistema capitalis- nas mais antigas manifestaçOes da racionalidade humana, nos avan-
ta, em outras palavras, e a produçao e a auto-expansão do capital. cos tecnologicos iniciados quando o horno sapiens pela primeira vez
Essa forma caracterIstica de suprir as necessidades materiais dos rnanejou uma ferramenta, e nos atos de troca que os seres hurnanos
seres humanos, rnuito diferente de todas as mâneiras anteriores de praticararn desde tempos imernoriais. A trajetória da história para a
organizar a vida material e a reprodução social, existe ha pouquIssi- "sociedade rnercantil", ou capitalismo, foi longa e árdua, admitern
mo tempo - uma mera fraçao da vida da humanidade na Terra. eles, e houve muitos obstáculos em seu caminho. Mas, apesar disso,
Nem mesmo os que insistem mais enfaticamente em que o sistema seu progresso foi natural e jnevjtável. Assirn, para explicar a "ascen-
tern raIzes na natureza humana afirmarn que ele existiu antes do mi - são do capitalismo", não 6 preciso nada alérn de explicar como os
14 A origem do capitalismo
Introduçao 15

)
muitos obstáculos a esse movimento de avanço foram superados -
Ha uma lógica semeihante em certas versOes marxistas dessa his-
alguns de modo paulatino, outros subitamente, corn uma violéncia tória, ainda que a narrativa, em versöes mais recentes, desloque-se
revolucionária.
frequenternente da cidade para o carnpo, e rnesmo que os mercado-
Na maioria das descriçoes do capitalismo e de sua origem, na F res sejarn substituldos por produtores rurais, pequenos ou "médios"
) verdade não ha origem. 0 capitalismo parece estar sempre lá, em al-
fazendeiros aparentemente a espera da oportunidade de desabro-
gum lugar, precisando apenas ser libertado de suas correntes - dos charem em sua forma de capitalistas plenamente desenvolvidos.
grilhOes do feudalismo, por exemplo - para poder crescer e amadu- Nesse tipo de narrativa, a pequena produção mercantil, livre do jugo
)
recer. Caracteristicarnente, esses grilhoes são politicos: os poderes do feudalismo, evolui mais ou menos naturalmente para o capitalis-
) senhoriais parasitários ou as restriçoes de urn Estado autocrático. As
mo, e os pequenos produtores rnercantis, tendo uma oportunidade,
) vezes, são culturais ou ideolOgicos - a religião errada, quern sabe.
tomam o rumo capitalista.
) Essas restriçoes limitam a livre movimentaçao dos agentes econômi- Nessas descriçoes convencionais da história, são centrais alguns
cos, a livre expressao da racionalidade econômica. Nessas formula-
pressupostos explIcitos ou implicitos sobre a natureza hurnana e so-
çOes, o "econôrnico" e identificado corn o intercâmbio ou corn os bre o modo como os seres humanos se portam, se tiverem uma
mercados, e é nisso que podemos detectar o pressuposto de que as oportunidade. Nessas versOes, eles sempre aproveitam a chance de
) sementes do capitalismo estariam contidas nos mais simples atos de maximizar os lucros através de atos de troca e, para concretizar essa
) troca, em qualquer forma de cornércio ou de atividade de mercado. inclinaçao natural, sempre encontrarn rneios de aprirnorar a organi-
Esse pressuposto costurna ser tipicamente associado a urn outro: o zação e os instrumentos de trabaiho, a fim de aumentar a produtivi-
de que a história é urn processo quase natural de desenvolvimento dade do trabalho.
tecnológico. De urn modo ou de outro, o capitalismo aparece, mais
ou menos naturalmente, onde e quando os mercados em expansão e
) o desenvolvirnento tecnológico atingem o nIvel certo. Muitas expli- Oportunidade ou imperativo?
caçoes marxistas são fundamentalmente iguais - acrescidas das re-
No modelo clássico, portanto, o capitalismo é uma oportunidade a ser
voluçoes burguesas para ajudar a romper os grilhoes.
aproveitada, onde e sempre que possIvel. Essa idéia de oportunidade é
0 efeito dessas explicaçöes e enfatizar a continuidade entre as so-
absolutamente crucial para a cornpreensão convencional do sistema
ciedades nao-capitalistas e capitalistas, e negar ou disfarçar a especifi-
capitalista, estando presente ate mesmo em nossa linguagem cotidia-
) cidade do capitalismo. A troca existiu praticamente desde sempre, e
na. Consideremos o uso corriqueiro da palavra que está no cerne do
o mercado capitalista fica corn jeito de ser apenas uma dose major da
capitalismo: mercado. Quase todas as definiçoes de "mercado" nos
) rnesma coisa. Nesse tipo de argumentação a industrializaçao tor-
dicionários conotam uma oportunidade: como local ou instituição
na-se o resultado inevitável das inclinaçoes mais fundamentais da
concreta, o mercado e o lugar onde ha oportunidades de comprar e
humanidade - dado que a necessidade especIfica e singular do capi-
vender; como abstraçao, o mercado é a possibiidade de venda. As
talismo de revolucionar constantemente as forças de produçao é
mercadorias "encontram mercado", e dizemos que "existe urn merca-
) uma rnera extensão e aceleração de tendéncias universais, transistó-
do" para urn serviço ou urn produto quando ha uma demanda dele, o
) ricas e quase naturais. Assirn, a linhagern do capitalismo evolui,
que significa que ele pode e será vendido. Os mercados ficam "aber-
turairnente, do mais antigo mercador babilônio ou romano para o
) tos" para quem quer vender. 0 mercado representa "as condiçoes re-
habitante dos burgos medievais, para o prirneiro burgues moderno
ferentes a compra e venda, a oportunidade de comprar e vender" (The
e, finalmente, para o capitalista industrial.'
Concise Oxford Dictionary). Mercado irnplica oferta e escoiha.
)
)
) 16 Aorigem do capitalismo Introduçro 17

) 0 que são, portanto, asforcas de mercado? Por acaso força não dade, tendern a se perder ate mesmo nas explicaçoes históricas
) implica coaçao? Na ideologia capitalista, o mercado não implica marxistas do capitalismo. 0 mercado capitalista, como forma social
compulsao, mas liberdade. Ao mesmo tempo, essa liberdade é garan- especIfica, perde-se quando a transiçao das sociedades pré-capitalistas
)
tida por alguns mecaflismos que assegurarn uma economia racional, para as sociedades capitalistas e apresentada como uma extensão ou
na qual a oferta se equipara a demanda, colocando a disposiçao mer- rnaturação mais ou menos natural, ainda que muitas vezes distorcida,
) cadorias e serviços que as pessoas escoihem livremente. Esses meca- de formas socials) a existentes: como uma transformacao mais quanti-
) nismos são as forças impessoais do mercado e, se de algum modo são tativa do que qualitativa.
coercitivos, e simplesmente no sentido de que obrigam Os agentes Este livrinho é sobre a origem do capitalismo e as controvérsias
) econôrnicos a agirem "racionalmente", a firn de maximizarern a es- que ela despertou, tanto históricas quanto teóricas. A Parte 16 urn le-
coiha e a oportunidade. Nesse raciocInio, o capitalismo, suprerna vantamento dos relatos históricos mais importantes e dos debates que
) "sociedade de mercado", é a situaçäo ótima de oportunidade e esco- os cercaram. Tratará, em particular, do modelo mais comum do de-
) iha: ha mais bens e serviços a oferecer, mais pessoas tern major liber- senvolvimento capitalista, o chamado modelo mercantil, em diversas
dade de vedder e obter lucro corn sua venda, e mais pessoas tern de suas variaçOes, e tambérn de alguns de seus principais questiona-
)
major liberdade de escolher entre esses bens e serviços e comprá-los. mentos. A Parte II esboça uma história alternativa, que, segundo espe-
Então, o que ha de errado nessa concepção? t provável que urn ro, evita algumas das armadilhas mais comuns das explicaçoes
socialista diga que os grandes ingredientes omitidos são a transforma- padronizadas no estio paralogIstico. Esse esboço tern uma profunda
) ção do trabaiho em mercadoria e a exploração das classes. Ate aI, tudo dIvida para corn os textos históricos sobre o capitalismo, discutidos na
) bern. Mas o que talvez nem sempre fique muito claro, nem mesmo Parte I, que questionararn algumas das convençOes históricas prepon-
nas descriçOes socialistas do mercado, é que a caracteristica distintiva derantes. t minha intenção, acima de tudo, questionar a colocação do
dorninante do mercado capitalista não é a oportunidade nem a esco- capitalismo como algo natural e destacar suas maneiras particulares
iha, mas, ao contrário, a cornpulsão. Isso se observa em dois sentidos: de representar uma forma social historicarnente especIfica, bern como
prirneiro, a vida material e a reprodução social no capitalismo são urna ruptura corn formas sociais anteriores.
) universalmente mediadas pelo mercado, de forma que, de urn rnodo 0 objetivo deste exercIcio e académico e politico. Explicar o capi-
ou de outro, todos os indivIduos tern que entrar nas relaçOes de rner- talismo como natural, corn isso negando sua especificidade e os ion-
cado para obter acesso aos meios de subsistncia; e segundo, os dita- gos e dolorosos processos históricos que o originaram, restringe nossa
rnes do mercado capitalista - seus imperativos de competição, cornpreensao do passado. Ao mesmo tempo, limita nossas esperanças
acumulaçao, maximização dos lucros e crescente produtividade do e expectativas de futuro, pois, se o capitalismo é a culminância natural
) trabaiho -regem nao apenas todas as transaçOes econômicas, mas as da história, superá-lo e inimaginavel. A questão da origem do capita-
) relaçOes sociais em geraL Como as relaçoes entre os seres hurnanos são lisrno pode parecer esotérica, mas atinge o ârnago de pressupostos
mediadas pelo processo da troca de mercadorias, as relaçoes sociais profundarnente enraizados em nossa cultura -as ilusoes difundidas
entre as pessoas assernelharnse a relaçoes entre coisas -o "fetichis- e perigosas sobre o charnado mercado livre e seus benefIcios para a
mo da rnercadoria", na célebre expressão de Marx. hurnanidade. Pensar em alternativas futuras ao capitalismo exige que
) E provavel que alguns leitores objetem, neste ponto, que isso e exploremos concepçöes alternativas de seu passado.
) algo que todo socialista, ou pelo menos todo marxista, sabe. Mas os
traços especIficos do capitalismo, como o fato de o mercado capitalis-
ta funcionar mais como urn imperativo do que como uma oportuni- '
)
V V

V
PARTE I

Versöes históricas da transiçdo


)
)
) CapItulo 1

) 0 modelo mercantil
e seu legado
)
)
)
)
) - A maneira mais comum de explicar a origem do capitalismo é pressu-
) por que seu desenvolvirnento foi o resultado natural de práticas hu-
manas quase tao antigas quanto a própria espécie, e que requereu
) apenas a eliminaçao de obstáculos externos que impediam sua mate-
rializaçao. Essa modalidade de explicaçao — ou nao-explicaçao -,
) embora exista em muitas variaçoes, constitui o que se tern chamado
) de "modelo mercantil" do desenvolvimento econômico, podendo-se
argumentar que ele ainda é o modelo dominante. E isso se observa ate
)
msmo entre seus crIticos mais severos. Ele não está inteiramente au-
sente das explicaçoes demográficas que afirmam té-lo substituldo,
) nem tampouco da maioria das explicaçoes marxistas.
)
) 0 modelo mercantil
)
Longe de reconhecer que o mercado se tornou capitalista ao se tor-
) nar compulsório, a maioria das narrativas históricas sugere que o ca-
pitalismo surgiu quando o mercado foi libertado de antiquIssimas
) restriçOes e quando, por uma ou outra razão, expandiram-se as
) oportunidades de comércio. Nessas argumentaçOes, o capitalismo
) - representa menos urn rompimento qualitativo corn formas anterio-
res do que urn maciço aumento quantitativo: uma expansão dos
mercados e uma crescente mercantilizaçao da vida econôrnica.
) A explicaçao tradicional -que aparece na economia polItica
) clássica, nas concepçOes iluministas do progresso e em muitos textos
I modernos de história — é a seguinte: corn ou scm uma inclinaçao
natural para "comerciar, perrnutar e trocar" (na célebre formulaçao
)
) 21
).
22 A origem do capitalismo - 0 modelo mercantil e seu legado 23

de Adam Smith), individuos racionalmente voltados para seus pro- começo, as cidades foram urn capitalismo embrionario Na Europa,
prios interesses tern-se ernpenhado em atos de troca desde o alvore- diz a tese, surgiram cidades corn uma autonomia singular e sem pre-
cer da historia Esses atos tornaram se cada vez mais especializados cedentes, cidades dedicadas ao comercio e dominadas por uma clas-
corn a evoluçao da divisao do trabaiho, que também foi acompanha- se autônoma de habitantes de burgos (ou burgueses), que viria a se
da de aperfeiçoamentos técnicos nos instrumentos da produçao. Em I libertar de uma vez por todas dos grilhOes das antigas restriçöes cul-
muitas dessas explicaçoes, na verdade, os aurnentos da produtivida- turais e do parasitismo politico. Esta libertaçao da economia urbana,
de podem ter sido o objetivo primordial dessa divisão do trabaiho da atividade cornercial e da racionalidade mercantil, acompanhada
cada vez mais especializada, donde a tendência a haver uma estreita I pelos inevitáveis aperfeiçoamentos das técnicas de produçao que de-
ligaço entre essas explicaçoes do desenvolvimento mercantil e uma correm, evidentemente, da emancipação do comércio, aparente-
espécie de determinismo tecnológico. 0 capitalismo, portanto, ou mente bastou para explicar a ascensão do capitalismo moderno.
CC
sociedade mercantil", estdgio mais elevado do progresso, represen-
Todas essas explicaçoes tern em cornurn alguns pressupostos so-
ta o arnadurecimento de praticas comerciais antiquissirnas (junta- 1
bre a continuidade do comercio e dos rnercaaos, desde suas mani-
mente corn avanços tecnicos) e sua hbertaçao das restrlçOes polIticas .
festaçOes- mais prirnitivas de troca ate sua maturiaae ci no mouerno
C culturais.
capitalismo industrial. A antiqtiIssima pratica de auferir lucros
Mas somente no Ocidente, segundo consta, essas restriçöes fo- " -
comerciais sob a forma de cornprar barato e vender caro nao e,
ram eliminadas de rnaneira abrangente e decisiva. No antigo Medi-
nessas exphcaçOes, fiindarnentalmente diferente da troca e da acurnu-
terraneo, a sociedade mercantil ja estava bern estabelecida, mas sua
lacao capitalistas atraves da apropriaçao da mais-va ha.
evoluçao posterior foi interrornpida por uma ruptura antinatural -
o hiato do feudalismo e dos vários séculos obscuros durante os quais Ha tarnbém outro terna que tende a ser cornurn nessas versOes
a vida economica tornou a ser aprisionada pela irracionahdade e I historicas do capitalismo 0 burgues como agente do progresso
pelo parasitisrno politico do poder senhorial Estamos tao habituados a identificaçao de burgues corn capitalista
A explicaçao clássica dessa interrupçao invoca as invasOes do - que os pressupostos ocultos nessa fusao tornaram-se invisIveis a
Império Romano pelos bárbaros, mas uma versão posterior e muito nossos olhos. 0 cidadao do burgo ou burgues e, por definiçao, um
influente desse modelo foi elaborada pelo historiador belga Henri morador da cidade. Afora isso especificarnente em sua forma fran-
Pirenne Ele situou a ruptura da civilizacao mercantil mediterranea cesa, a palavra não costumava significar outra coisa senäo alguem
muito depois -na invasão rnuçulrnana, a qual, segundo sua tese, sem status de nobreza que, ernbora trabaihasse para viver, em geral
eliminou o antigo sistema de comércio ao fechar as rotas comerciais não sujava as mãos e usava mais a cabeça do que o corpo no traba-
do Mediterraneo entre o Oriente e o Ocidente Urna crescente "eco- iho Esse antigo uso nada nos diz sobre o capitalismo, e tern tanta
nomia de troca", liderada por uma classe profissional de mercado- probabilidade de se referir a urn profissional liberal, urn servidor pd
res, foi substituida por uma "economia de consumo" -a economia blico ou urn intelectual quanto a um cornerciante No deslizarnento
rentista [rentier] da aristocracia feudal.' - - semântico de morador urbano para capitalista, passando pelo co-
Mas, corn o tempo, de acordo corn Pirenne e seus predecessores, merciante, deslizamento este que veio a ocorrer nos usos posteriores
o comércjo ressuscitou corn o crescimento das cidades e a libertaçao de burguês, podemos acompanhar a logica do modelo mercantil: o
dos cornerciantes. Nesse ponto, depararnos corn urn dos pressupos- - antigo morador da cidade deu lugar ao habitante do burgo medieval,
tos mais cornurnente ligados ao modelo mercantil: a associaçao do que, por sua vez, evoluiu irnperceptivelmente para o capitalista mo-
capitalisrno corn as cidades -a rigor, a suposiçao de que, desde o demo Nas palavras corn que urn farnoso historiador descreveu sar-
24 A origem do capitalismo 0 modelo mercantil e seu legaclo -

casticamente esse processo, a história é a perene ascensão da classe sempre que surgia essa oportunidade. Em termos mais particulares,
media. ela implicou uma divisao do trabaiho e uma especialização cada vez
Isso nao quer dizer que todos os historiadores que subscrevem rnaiores, que exigiram redes cada vez mais complexas de comércio e,
esses modelos tenham deixado de reconhecer que o capitalismo re- acima de tudo, técnicas de produçao sempre mais apnimoradas, para
presentou uma ruptura ou uma transformaçao histórica deste ou reduzir custos e aumentar os lucros comerciais. Essa logica podia ser
daquele tipo. E verdade que alguns tenderam a encontrar näo apenas prejudicada de vánias maneiras. Podia ate ser supnimida em caráter
o comércio, mas urn pouco do prOprio capitalismo, em quase toda mais ou menos completo - de tal sorte que, por exemplo, os senho-
parte, especialmente na Antiguidade greco-romana, sempre apenas res feudais puderam eliminá-la, fazendo sua apropniação não pelo
a espera de ser libertado dos empecilhos externos. Mas ate esses au- engajamento no intercâmbio lucrativo ou pelo incentivo ao aperfei-
tores insistiram, em geral, numa grande rnudança dos princIpios çoamento das técnicas produtivas, mas pela exploraçao do trabaiho
econômicos do feudalismo para a nova racionalidade da sociedade forçado, arrancando o trabaiho excedente dos camponeses por meio
mercantil, ou capitalismo. Fala-se corn freqUencia, por exemplo, na de urn poder superior. Em princIpio, no entanto, a logica do merca-
transiçao de uma economia "natural" para uma economia monetá- do tenia permanecido a mesma: sempre uma oportunidade a ser
na, ou ate na transiçao entre produçao para uso e produçao para tro- aproveitada em todas as ocasiOes possIveis, sempre conducente ao
Ca. No entanto, se ha uma grande transformaçao nessas explicaçOes crescimento econômico e ao aperfeiçoamento das forças produtivas,
históricas, nao e na natureza do comércio e dos mercados em si. A sempre fadada a acabar produzindo o capitalismo industrial, se ihe
rnudança se dá, antes, no que acontece corn as forças e instituiçoes fosse dada liberdade para pôr em prática sua logica natural.
- polIticas, jurIdicas, culturais e ideologicas, bern como tecnológi- Em outras palavras, o modelo mercantil nao demonstrou ne-
cas - que impediram a evoluçao natural do comércio e o arnadure- nhum reconhecimento de imperativos que são especIficos do capita-
cimento dos mercados. lismo, dos modos especIficos de funcionamento do mercado no
Nesses modelos, quando muito, é o feudalismo que representa a capitalismo e de suas leis de rnovimento especIficas, as quais, de
verdadeira ruptura histOrica. A retornada do desenvolvimento co- modo singular, obrigam as pessoas a entrarem no mercado e obni-
mercial, iniciada nos interstIcios do feudalismo e rompendo suas garn os produtores a produzirem "corn eficiência", aumentando a
restriçoes, e tratada como uma grande mudança na história da Euro- produtividade do trabaiho —as leis da competiçao, da maximização
pa, mas aparece como a retomada de urn processo histórico que so- do lucro e da acumulaçao de capital. Decorre daI que os adeptos des-
frera urn desvio temporánio - ainda que drástico e por urn perIodo se modelo nao viram necessidade de explicar as relaçoes sociais de
bastante longo. Esses pressupostos tendem a apresentar urn outro propriedade especIficas e o modo especIfico de exploraçao que de-
corolário importante, qual seja, o de que as cidades e o comércio terminarn essas leis de movimento especIficas.
eram, por natureza, antitéticos ao feudalismo, de modo que seu Segundo o modelo mercantil, na verdade, nao havia nenhuma
crescimento, como quer que tenha ocorrido, solapou as bases do sis- necessidade de explicar o surgimento do capitalismo. Ele presurniu
tema feudal. que o capitalismo existiu, pelo rnenos sob forma embrionánia, desde
Mas, se o feudalismo trouxe o descarrilamento do progresso da o alvorecer da história, se não no próprio cerne da natureza humana
sociedade mercantil, a logica intrInseca do mercado, de acordo corn e da racionalidade hurnana. Dada essa oportunidade, presumiu o
essas explicaçoes, nunca se modificou significativarnente. Desde o modelo, as pessoas sempre se portaram de acordo corn as regras da
começo, ela implicou indivIduos racionalmente egoIstas, que maxi- racionalidade capitalista, visando o lucro e, nessa busca, procurando
rnizavarn sua utjljdade vendendo mercadonias em troca de lucro, meios de meihonar a produtividade do trabaiho. Assim, a histónia,
) 26 A origem do capitalismo 0 modelo mercantil e seu legado 27

)
na verdade, teria avançado de acordo corn as leis do desenvolvimen- crescimento natural e nao obstaculizado das cidades e do comércio e
to capitalista, nurn processo de crescimento econôrnico sustentado a libertaçao das classes urbanas e burguesas significassem, por defi-
por forças produtivas em desenvolvimento, ainda que corn algumas niçao, o capitalismo. Convém acrescentar que Weber tarnbérn
) grandes interrupçOes. Se o surgimento da econornia capitalista ma- cornpartilhou corn rnuitos outros o pressuposto de que o desenvolvi-
) dura requeria alguma explicaçao, era para identificar as barreiras mento do capitalismo foi urn processo transeuropeu (ou europeu
) que se ergueram no caminho de sell desenvolvimento natural e o ocidental) -não apenas que algumas circunstâncias gerais européi-
processo pelo qual essas barreiras foram superadas. as foram condiçoes necessárias do capitalismo, mas que toda a
)
Ha nisso, e claro, urn grande paradoxo. Supôs-se que o mercado Europa, a despeito de todas as suas variaçoes internas, seguiu essenci-
seria o campo da escoiha e que a "sociedade mercantil" seria a liber- almente urna mesrna via histórica.
) dade em sua perfeiçao. Mas essa concepçäo do mercado parece ex- Mais recenternente, houve alguns ataques frontais ao modelo
cluir a liberdade humana. Tende a se associar a urna teoria da mercantil em geral e a tese de Pirenne em particular, a qual é hoje ge-
história na qual o capitalismo moderno e o resultado de urn pro- rairnente desprestigiada. Entre os mais recentes e influentes desses
cesso quase natural e inevitável, que segue certas leis universais, ataques está o modelo demografico, que atribui o desenvolvimento
transistóricas e imutáveis. A operaçao dessas leis pode ser prejudi- econômico europeu a certos ciclos autônomos de crescimento e de-
) cada, ao menos temporariamente, mas nao sem urn grande onus. E clInio populacional. Mas, por major que tenha sido a veemência
) sell produto final, o mercado "livre", é urn mecanismo impessoal corn que se questionou o antigo modelo, não fica realmente claro
) que, ate certo ponto, pode ser controlado e regulado, mas que, em que os pressupostos básicos da explicaçao demografica estejam tao
ültima instância, não pode ser irnpedido sern todos os riscos -e a distantes do modelo mercantil quanto afirmam seus expoentes.
inutiidade acarretados por qualquer tentativa de violar as leis 'A premissa subjacente ao modelo dernografico, afinal, é que a
da natureza. transiçao para o capitalismo foi determinada pelas leis da oferta e da
procura.3 Essas leis seriarn determinadas de modos mais complexos
) Depois do modelo mercantil clássico do que o modelo mercantil seria capaz de explicar. Teriam menos a
) ver corn os processos sociais de urbanizaçao e comércio crescente do
Houve vários aprimorarnentos do modelo mercantil básico, desde que corn complexos padroes cIclicos de crescimento e declInio po-
j
Max Weber ate Fernand Braudel.2 Weber por certo näo deixou de pulacional, oubarreiras maithusianas. Mas a transiçao para o capita-
) perceber que o capitalismo plenarnente desenvolvido sO surgiu em lismo continua a ser uma resposta as leis universais e transistóricas do
) condiçoes históricas muito especIficas, e não em outras. Mostrou-se mercado -as leis da oferta e da procura. A natureza do mercado e
) mais do que disposto a vislumbrar algum tipo de capitalismo ern de suas leis nunca e realmente questionada.
épocas anteriores, inclusive na Antiguidade clássica. Mas, afinal, sua j 0 modelo demografico certamente questiona algumas teses
intençao era distinguir a Europa de outras partes do mundo e, evi- convencionais sobre a prirnazia da expansao do comércio como de-
dentemente, ele enfatizou a singularidade da cidade ocidental e da terminante do desenvolvimento econômico europeu. Talvez nem
) religiao européia, especialmente para explicar o desenvolvimento chegue a negar, ao menos explicitamente, que o mercado capitalista
) Impar do capitalismo ocidental. Mas o fato e que sempre tendeu a fa- e qualitativamente diferente dos mercados das sociedades não capi-
lar dos fatores que impediram o desenvolvimento do capitalismo talistas, e não apenas quantitativamente major e mais abrangente do
noutros lugares -as formas de parentesco, as formas de dornina- que eles. Mas tampouco representa urn questionarnento frontal des-
çao, as tradiçoes religiosas que prevaleciam neles etc. -, como se 0 sa convençao e, a rigor, torna-a como certa.
LO A origein uo capitausmo 0 modelo mercantil e seu legado 29

Numa variaçao do antigo tema da mercantiizaçao, alguns histo- complexidades, situa a força impulsionadora do desenvolvimento
riadores sugeriram que o capitalismo resultou de urn processo cu- europeu na "aceleração das forças intensivas da praxis econômica" e
mulativo em que, a medida que o centro de gravidade comercial no "extenso crescirnento dos circuitos da mercadoria" - em outras
foi-se deslocando de urn ponto da Europa para outro - das cida- palavras, no progresso tecnológico e na expansão rnercantil.7 E essa
des-estados italianas para a Holanda ou para as cidades da Liga Han- explicação, mais uma vez, decorre da ausência de cerceamentos: o
seática, e da expansao colonial espanhola para outros imperialismos capitalismo teve liberdade para se desenvolver na Europa porque
-, cada urn deles baseou-se nas realizaçoes do anterior, nao so am- uma organização social essencialmente acéfala (a ordem poiltica
pliando o alcance do comércio europeu, mas também aprimorando descentralizada e fragmentada do feudalismo) concedeu a vários
seus instrurnentos, desde as técnicas de contabiidade por partidas agentes (sobretudo aos comerciantes) um grau substancial de auto-
dobradas da Itália ate os aperfeiçoamentos das tecnologias de pro- nornia (corn a ajuda do racionalismo e da ordem normativa propor-
duçao, culminando na Revoluçao Industrial inglesa. 0 resultado fi- cionados pelo cristianismo). Além disso, a propriedade privada
nal desse "processo baseado na agregação de valor" (talvez corn a pôde evoluir para a propriedade capitalista porque nenhuma cornu-
ajuda das revoluçoes burguesas) foi o capitalismo moderno.4 nidade ou organizaçäo de classe detinha poderes de monopólio. Em
De urn modo ou de outro, portanto, seja por processos de urba- suma, não so o surgimento do capitalismo, como também sua matu-
nizaçao e de comércjo crescente, seja pelos padrOes cIclicos do cres- raçao eventual e aparenternente inevitável para sua forma industrial,
cimento demografico, a transiçao para o capitalismo, em todas essas são explicados, sobretudo, por uma série de auséncias. Portanto,
explicaçoes, foi uma resposta as leis universais e transistOricas do nem que seja por falta de outra indicaçao, o tradicional modelo mer-
mercado. E desnecessário dizer que a economia neoclássica nada fez cantil continua a prevalecer, quer na superfIcie, quer sob forma mais
para desarticular esses pressupostos - ate porque, em geral, näo subtèrrânea.
tern o menor interesse na histOria. Quanto aos historiadores de hoje,
os que se interessarn pela longue durée tendern a pertencer a escola
Uma exceçao digna de nota: Karl Polanyi
demografica, a menos que estejam mais interessados nas men talités
ou no discurso do que nos processos econômicos. Outros, especial- Em seu classicoAgrande transformaçao (1944), assim como noutros
mente no rnundo de lingua inglesa, costumarn desconfiar muito dos trabalhos, o historiador econôrnico e antropólogo Karl Polanyi afir-
processos de longo prazo e se interessam mais por histórias rnuito mou que a motivação do lucro individual, associada as trocas no
localizadas ou episódicas e pelas causas imediatas. Na verdade, näo mercado, nunca foi, ate a era moderna, o principio dominante da
chegam propriamente a questionar as teorias existentes do desen- vida econ6mica.8 Mesmo nos casos em que havia mercados bem de-
volvimento a longo prazo, mas meramente as descartam ou evitam.5 senvolvidos, disse ele, e preciso fazer uma clara distinçao entre as so-
A nova onda da sociologia histórica é diferente. Interessa-se pri- ciedades corn rnercados, como as que existirarn em toda a história
rnordialrnente, e claro, pelos processos de mudança social a longo escrita, e a "sociedade de mercado". Em todas as sociedades anterio-
prazo. Mas, mesmo nesse caso, ha uma tendência a fugir da questao res, as relaçoes e práticas econômicas estavam inseridas ou imersas
de várias rnaneiras. Por exemplo, em uma das mais importantes em relaçOes não econômicas - de parentesco, comunais, religiosas
obras recentes nesse gênero, Michael Mann adota explicitamente o e polIticas. Havia outras motivaçöes impulsionando a atividade eco-
que charna de "vies teleologico", segundo o qual o capitalismo in- nômica, além das motivaçöes puramente econOmicas do lucro e do
dustrial ja estava prefigurado nos arranjos sociais da Europa medie- ganho material, tais como a conquista de status e prestIgio ou a ma-
vaL6 Como não 6 de surpreender, essa tese, apesar de todas as suas nutençao da solidariedade comunitária. Havia outras maneiras de
0 modelo mercantil e seu iegaao
) 30 A origem do capitalismo

)
acordo corn princIpios competitivos. Mas, durante algurn tempo,
organizar a vida econômica que fläO os mecanismos das trocas de
W os mercados internos dos estados nacionais europeus do inIcio
mercado, em particular a "reciprocidade" e a "redistribuiçao" -
) da era moderna foram simplesmente uma coletânea frouxa de mer-
complexas obrigaçOes recIprocas que eram determinadas, por
cados municipais separados, unidos por urn comércio transporta-
exemplo, pelo parentesco, ou a apropriaçao autorizada dos exceden-
dor que mal diferia, em principio, do cornércio ultramarino de
) tes por algurn tipo de poder politico ou religioso e sua redistribuiçao
longo curso. E o mercado interno integrado tampouco foi urn des-
) a partir desse centro.
cendente direto ou uma evoluçao natural do comércio local ou de
- Polanyi contestou diretamente os pressupostos de Adam Smith
longa distância que o antecederarn. Foi produto, argumentou Po-
sobre o "homern econôrnico" e sua "propensao [natural] a comerci-
lanyi, da intervenção do Estado - e, mesmo nesses casos, nurna
ar, permutar e trocar", afirmando que, antes da época do próprio
economia que ainda era grandernente baseada na produçao de famI-
Smith, essa propensao nunca havia desempenhado o papel prepon-
has auto-suficientes de camponeses que trabalhavam pela subsistén-
) derante que ele lhe atribula, e so veio a regular a economia urn século
cia, a regulaçao estatal continuou a preponderar sobre os princIpios
) depois. Quando existiam mercados nas sociedades pré-mercado, e
da concorrência.
mesmo nos casos em que estes eram extensos e irnportantes, eles se
Somente na rnoderna sociedade de mercado, segundo Polanyi, e
mantinham como urn aspecto subalterno da vida econômica, domi-
que ha uma motivaçao econôrnica distinta, instituiçOes econômicas
nada por outros princIpios de comportamento econômico. E no
) distintas e relaçOes separadas das relaçoes não econômicas. Visto
apenas isso: tais mercados, mesmo nos sistemas cornerciais mais
que os seres humanos e a natureza - sob a forma do trabaiho e da
) vastos e cornplexos, funcionavam de acordo corn uma logica rnuito
terra - são tratados, ainda que da maneira mais fictIcia, como mer-
distinta da do mercado capitalista rnoderno.
cadorias, num sistema de mercados auto-regulados e movidos pelo
Em particular, nem os mercados locais nem o cornércio de longa
mecanismo dos preços, a própria sociedade torna-se urn apêndice
distância que caracterizou as econornias pré-capitalistas eram essen-
do mercado. A economia de mercado so pode existir numa sociedade
cialmente competitivos (e rnuito rnenos, como ele poderia ter acres-
) centado, movidos pela cornpetiçao). Essas forrnas de comércio - de mercado, isto e, numa sociedade em que, em vez de uma econo-
mia inserida nas relaçoes sociais, as relaçoes sociais é que se inserem
) entre a cidade e o campo, num dos casos, e as zonas clirnáticas, no
na economia.
outro - eram, sugeriu Polanyi, mais "complernentares" do que
Polanyi nao foi o ünico, é claro, a assinalar o papel secundário do
competitivas (mesmo, evidentemente, quando a complernentarida-
mercado nas sociedades pré-capitahistas. Qualquer historiador eco-
de era distorcida por relaçoes de poder desiguais). 0 cornércio exte-
nômico ou antropólogo cornpetente está fadado a reconhecer os va-
rior consistia simplesmente em "transportar". Nele, a tarefa do
rios princIpios não mercadológicos de comportamento econômico
cornerciante era deslocar as mercadorias de urn mercado para outro,
que funcionavam nessas sociedades, desde as mais "primitivas" e
enquanto, no comércio local, no dizer de Polanyi, a atividade mer-
) iguahitarias ate as altas civiizaçOes mais complexas, estratificadas e
cantil era estritamente regulada e exciudente. Ern geral, a competi-
exploradoras. E outros historiadores econômicos (ernbora, talvez,
çao era deliberadamente elirninada, porque tendia a desorganizar o
) não tantos quantos se poderia imaginar) assinalararn algurnas mu-
cornércio.
danças nos princIpios do comércio. Mas a descrição de Polanyi é
) Polanyi assinalou que somente os mercados internos nacionais
particularmente notável por sua clara demarcação da ruptura entre
- urn fenômeno rnuito tardio e que deparou corn grande resistén-
a sociedade de mercado e as sociedades não mercadologicas que a
cia dos cornerciantes locais e das cidades autônornas nos centros co-
precederam, inclusive as sociedades corn mercados - não apenas as
rnerciais mais avançados da Europa - viriarn a ser conduzidos de

)
)
- 0 modelo mercantil e seu legado 33

diferenças entre suas respectivas lOgicas econômicas, mas também des quantidades de mercadorias", escreveu ele; e, para atingir a esca-
as mudanças sociais que essa transformaçao acarretou. 0 sistema la de produçao necessária, a produçao tern que ser ininterrupta, o
dos mercados auto -reguladores, insiste Polanyi, foi tao perturbador que equivale a dizer que, para o comerciante, "todos os fatores im-
nao apenas para as relaçoes sociais, mas também para a psique hu- plicados devem estar àvenda".1 ' 0 ültimo e mais desastroso passo na
mana, e tao terrIveis foram seus efeitos sobre a vida humana, que a criação das condiçoes necessárias - isto e, na criação da sociedade
história de sua implantaçao teve que ser, ao mesmo tempo, a história de mercado originalmente requerida pela producao mecânica corn-
da proteçao contra suas devastaçoes. Scm "contramovimentos pro- plexa - é a transformação do trabaiho num "fator" da produçao
tetores", particularmente por meio da intervençao estatal, "a socie- mercantil.
dade humana teria sido aniquilada".9 A seqüéncia da causação é significativa nesse ponto. A Revolu-
Essa argumentaço representa, sob muitos aspectos, urn drásti- çao Industrial foi "meramente o corneço" de uma revoluçao "extre-
co afastamento das explicaçöes do desenvolvimento econômico que ma e radical", que transformou profundamente a sociedade, ao
enfatizam as continuidades (mais ou menos benignas) entre o anti- converter a humanidade e a natureza em mercadorias.'2 Essa trans-
go cornércio e a economia capitalista moderna, mesmo quando elas
formaçäo, portanto, foi o esforço do progresso tecnologico. Em seu
observam o antagonismo entre os principios mercantis ou capitalis-
cerne estava "urn aperfeiçoamento quase milagroso dos instrurnen-
tas e a logica econômica (ou antieconôrnica) do feudalismo. Mas,
tos da produçao";'3 e, conquanto tenha acarretado uma transforma-
sob alguns aspectos importantes, a descriçao de Polanyi preserva afi-
çao da sociedade, cia foi, em si mesma, o auge dos aperfeiçoamentos
nidades significativas corn os textos de história econômica mais con-
anteriores da produtividade, tanto nas técnicas quanto na organiza-
vencionais. Os problemas principais dizem respeito a explicaçao que
ção do uso da terra, sobretudo no cerco de grandes propriedades
ele fornece sobre as condiçoes em que surgiu a sociedade de merca-
do, ao processo histórico que a originou, e ao que isso implica em particulares na Inglaterra.
termos de sua compreensão do mercado como forma social. Aqui Embora discorde da crença no "progresso espontâneo", nem
nao e o lugar para entrarmos num debate pormenorizado sobre a por urn momento Polanyi parece duvidar da inevitabiidade desses
natureza da posse da terra na Inglaterra medieval, o mercantjljsmo, avanços, pelo menos no contexto da-sociedade mercantil ocidental,
o sistema de Speenhamland, ou outras questOes históricas especifi- corn suas instituiçOes livres, sobretudo suas cornunas urbanas livres,
cas sobre as quais os especialistas de hoje teriam razão para discordar e corn a expansão do comércio - o que dc chama de "tendéncia de
de Polanyi. A questao aqui e o alcance mais amplo da narrativa his- progresso econômico da Europa Ocidental".'4 Seu argumento con-
tórica de Polanyi e suas conseqüências para nossa compreensao do tra as visöes convencionais do progresso espontâneo é, simplesrnen-
capitalismo moderno. te, que elas não consideram o papel que o Estado exerce ao afetar -
Em primeiro lugar, ha mais do que uma pequena dose de deter- e, mais particularmente, reduzir - a velocidade da mudança (tal
minismo tecnolOgico em sua argumentação. 0 tema principal da como o reinado dos Tudor e o inIcio do dos Stuart reduziram o nt-
narrativa histórica de Polanyi é a maneira como a Revoluçao Indus- mo do enclosure [cercarnento de terras]). Scm intervençöes desse
trial deu origem a uma sociedade de mercado - a maneira como, tipo, "a velocidade desse progresso poderia ter sido desastrosa e
numa sociedade mercantil, a invençao de máquinas complexas tor- transformado o próprio processo num acontecimento degenerativo,
nou necessárjo converter (Ca substâncja natural e humana da socie- em vez de construtivo", do mesmo rnodo que a própria Revoluçao
dade em mercadoria".1° "Dado que as máquinas complexas são Industrial precisou da intervenção do Estado para preservar o tecido
dispendiosas, elas nao compensam, a menos que se produzam gran- social.
34 A origem do capitalismo U modelo mercanul e seu legaclo jj

Sob a1gns aspectos, portanto, os contornos principais da narra- sultado de aperfeiçoamentos tecnologicos que parecem mais ou
tiva histórica de Polanyi não são inteirarnente diferentes do antigo menos inevitáveis, pelo menos na Europa.
) modelo mercantil: a expansão dos mercados caminha de mãos da- Persiste o fato de que A grande transformacao foi urn desvio sig-
das corn o progresso tecnológico na produçao do capitalismo indus- niuicativo da historiografia convencional sobre a "transiçao". Con-
trial- moderno. E, embora esse processo culmine na Inglaterra, tudo, é impressionante ver quao pouco esse importante iivro afetou
) trata-se de urn processo europeu geral. A propósito, parece que o modelo dominante, ainda que agora pareça estar havendo urn res-
processo que levou da mercantilizaçao a industrializaçao e a "socie- surgimento do interesse em Polanyi. Em geral, continuamos onde
dade de mercado" pode ter sido, afinal, urn fenômeno mais ou me- estávamos. Ou a questao do capitalismo e suas origens não surge, Cu,
nos natural num mundo cada vez mais mercantiizado, urn mesmo quando se levantam questoes sobre como e por que ele sur-
) fenômeno que so se cornpletou na Europa pelo simples fato de au giu nurn caso ou casos especiais, elas tendem a ser dorninadas por
) nao ter tido seu caminho barrado por certos obstáculos nao econô- outra pergunta: por que 0 capitalismo nãO emergiu noutras situa-
micos. Como explicou urn estudioso de Polanyi, numa descriçao das çoes? Alguns leitores talvez estejam familiarizados, por exemplo,
aulas deste sobre a "História Econômica Geral", Polanyi afirmava corn a idéia das "transiçOes faihas" como maneirade descrever o que
que, ern contraste corn urn Oriente igualmente mercantiizado, o aconteceu - Cu deixou de acontecer - nas cidades-estados mer-
) feudalismo da Europa Ocidental não se caracterizara por laços fortes cantis do norte da ltália, ou na Holanda. Essa expressão, "transição
) de parentesco, cia e tribo, de modo que, "quando Os laços feudais se faiha", ja diz tudo.
) enfraquecerarn e desapareceram, restou pouca coisa para barrar a A maneira como entendemos a história do capitalismo tern rnui-
dorninaçao pelas forças de mercado". E, embora a intervençao go- to a ver corn a maneira como entendernos esse fenômeno em si. Os
)
- vernamental tenha sido necessária para criar "rnercados de fatores", antigós modelos do desenvolvimento capitalista foram uma mescia
) paradoxal de determinismo transistórico e voluntarismo do "livre"
"a economia de mercado então em desenvolvimento ajudou a des-
truir as instituiçOes econôrnicas e polIticas feudais".'6 mercado, na qual o mercado capitalista era uma lei natural imutável
e o supra-surno da escoiha e da liberdade humanas. A antItese desses
0 que não emerge disso tudo e uma apreciação das maneiras pe-
rnodelos seria uma concepção do mercado capitalista que reconhe-
las quais uma transformaçao radical das relaçoes sociais precedeu a
cesse plenamente seus imperativos e compuisoes, ao mesmo tempo
) industrializaçao. 0 revolucionamento das forças produtivas pressu- reconhecendo que esses próprios imperativos radicarn-se nao numa
pos uma transforrnaçao das relaçoes de propriedade e uma rnudança
lei natural transistórica, rnas em relaçoes sociais historicarnente es-
na forma de exploraçao que criaram uma necessidade historicamen- pecIficas, constituldas pela açao hurnana e sujeitas a mudanças. Esse
te ünica de aumentar a produtividade do trabaiho. Ele pressupôs a é o tipo de concepção que esperarIamos encontrar no rnarxisrno,
1
emergência dos imperativos capitalistas: cornpetição, acurnulaçao e rnas os historiadores rnarxistas nao tern oferecido sistematicamente
) maximizaçao dos lucros. Dizer isto nao equivale rnerarnente a acu- esse tipo de alternativa.
) sar Polanyi de pôr a carroça adiante dos bois. 0 ponto mais funda-
mental e que sua ordem de causaçao sugere uma impossibiidade de
tratar o mercado capitalista em si como uma forma social especIfica.
Os imperativos especificos do mercado capitalista - as pressoes da
) acumulaçao e da produtividade crescente do trabalho - são trata-
1) dos nao como produto de relaçoes sociais especIficas, mas como re-
)

\ )
) Debates marxistas 3/

Cap ttulo 2 Os mais importantes textos histOricos marxistas desde então tern-se
apoiado nesses alicerces.
I Debates marxistas
) 0 debate sobre a transiçao
) Em vez de explorarmos detidamente as idéias do próprio Marx, exa-
minemos as visOes históricas marxistas mais recentes. Podemos des-
) considerar por completo aqueles tipos mais toscos de determinismo
tecnologico que, corn demasiada frequencia, tern-se feito passar por
)
teorias marxistas da história, para nos concentrarmos, em vez disso,
) Nesses debates históricos, houve tanta discordâncja entre os marxis- nas narrativas marxistas mais sérias e questionadoras.
tas quanto entre historiadores marxistas e nao marxistas. Muitos Em 1950, houve uma divergência entre o economista Paul Swee-
marxistas mostraram-se näo menos apegados do que qualquer outra zy e o historiador econômico Maurice Dobb, cujos Estudos sobre o
pessoa ao antigo modelo mercantil, amiUde, talvez, corn uma dose desenvolvimento do capitalismo (1946) Sweezy havia criticado. Essa
) ainda mais acentuada de determinismo tecnolOgico. Outros critica- divergencia ampliou-se em urn grande debate entre uma vasta gama
) ram muito esse modelo, embora, mesmo nesses casos, persistam al- de historiadores ilustres, principalmente marxistas, na revista Science
guns resIduos. Corn o debate ainda em andarnento, resta muito and Society, debate este que depois foi compilado e publicado em
trabaiho por fazer.
forma de livro.2 Ele ficou conhecido como o "debate sobre a transi-
0 fato de haver duas narrativas diferentes na obra do próprio çao" e, desde essa época, tornou-se urn ponto de referência central
- - Marx não fadiita a questao. Uma delas é muito serneihante ao mo- Para as discussOes do assunto entre os marxistas - e entre outros.
delo convencional, no qual a história e uma sucessão de etapas na 0 livro de Dobb representou urn grande avanço na compreensao
) diviso do trabalho, corn urn processo transistOrico de avanço tecno- da transiçao. Representou urn poderoso questionamento do antigo
lógico e corn o papel principal atribuldo as classes burguesas, que te- modelo mercantil, na medida em que situou as origens do capitalismo
riam dado origem ao capitalismo pelo simples fato de serem libertas no campo, nas relaçoes feudais primárias entre proprietários e cam-
do jugo feudal. Na verdade, o capitalismo ja existiria no feudalismo, poneses. Como outros trabaihos dentro dessa tradiçao, muito especi-
) de certo modo - nos "intersticjos do feudalismo", para usar as pa- almente os escritos de R.H. Hilton, historiador da Europa medieval,
) lavras de Marx -, e entraria na corrente principal da história ao essa análise abalou Os alicerces do antigo modelo, contestando algu-
) "romper" os grilhoes desse sistema. t essa, basicamente, a narratjva mas de suas premissas básicas, em particular o pressuposto de que a
de alguns de seus primeiros textos, como A ideologia alerna e 0 ma- antItese do feudalismo, que o teria dissolvido e dado origem ao capita-
nifesto corn unista. E e ela a narrativa que está ao menos implIcita nas
) lismo, se encontraria nas cidades e no comércio.
idéias marxistas tradicionajs da "revoluçao burguesa". Mas ha uma A questao central em debate entre Sweezy e Dobb era onde situar
outra versão, ou pelo menos seus fundamentos, nos Element-os de o "motor primordial" da transição do feudalismo para o capitalis-
crItica a econornia polItica e no Capital,
que tern mais aver corn a mu- mo. Deverià a causa prirnária da transiçao ser buscada nas relaçoes
dança das relaçoes de propriedade, especialmente na zona rural in- constitutivas básicas do feudalismo, nas relaçOes entre senhores e
glesa: a expropriaçao dos produtores diretos que deu origem a uma camponeses? Ou teria o motor primordial sido externo a essas rela-
nova forma de exploraçao e a novas "leis de movimento" sistêmicas. çoes, situando-se particularmente na expansao do comércio?

) 36
)
A origem do capitalismo i,euais iiiaiias .17
)

2
Dobb e Hilton, no debate que se seguiu, enunciaram argumen- poneses a essas pressOes foi de importância crucial para o processo
tos de proffinda importância para demonstrar que não foio corner- de transiçao para o capitalismo, para "a libertaçao das economias rural e
) cio em si que dissolveu o feudalismo. Na verdade, o com&cjo e as artesanal para o desenvolvimento da produçao mercantil e, eventual-
) cidades não eram intrinsecamente antagonicos ao regime feudal. Ao mente, para o surgimento do empresário capitalista".4
) contrário, este foi dissolvido e o capitalismo se materializou por fa- Em seu contra-argumento, Sweezy insistiu em que o feudalismo,
tores intrInsecos as relaçoes primárias do próprio feudalismo, nas apesar de todos os seus traços de ineficiência e instabiidade, era in-
lutas de classe entre senhores e camponeses Hilton, em particular, trinsecarnente tenaz e resistente a mudança, e em que a principal
)
ass inalou que se havia demonstrado ser empiricamente faiha a tese força propulsora de sua dissoluçao tinha que vir de fora. 0 sistema
) de Pirenne, e explicjtou como o dinheiro, o comércio, as cidades e feudal podia tolerar e, a rigor, precisava de uma certa dose de corner-
) ate a chamada "revoluçao mercantil" não eram estranhos ao sistema cio; mas, corn a criação de centros de comércio e transbordo urba-
feudal, mas, ao contrário, tinham sido parte integrante dele. Isso sig- nos localizados, baseados no comercio de longa distância (a
) nificou que, embora houvesse, indubitavelmente, urn processo propósito dos quais Sweezy citou a autoridade de Henri Pirenne),
complexo Segundo o qual esses fatores contribuIram para a transi- desencadeou-se urn processo que estimulou o crescimento da pro-
) çao, eles nao podiam ser encarados como o que havia desarticulado duçao para troca, que se opunha ao princIpio feudal da produçao
) o feudaljsmo.
para uso.
) De várias maneiras, Dobb e Hilton sugeriram que a dissoluço No entanto, argumentou Sweezy, o capitalismo nao foi o resul-
do feudal ismo e a ascensäo do capitalismo haviam resultado da ii- tado imediato desse processo. A expansão do cornércio foi suficiente
bertaçao da pequena produçao mercantil, de sua liberaçao do jugo
) para dissolver o feudalismo e introduzir uma fase transicional de
do feudalismo, sobretudo por meio da luta de classes entre senho- "prddução mercantil pré-capitalista", que em si mesma era instável,
res e-camponeses Dobb, por exemplo, afirmou que, embora a luta preparando o terreno para o capitalismo nos séculos xvii e xvm;
de classes nao tivesse dado origem ao capitalismo "de maneira sim- mas houve uma fase posterior distinta no desenvolvimento do capi-
ples e direta", ela servira para "modificar a dependêncja em que es- talismo. A esse respeito, Sweezy fez a importante observaçao de que
tava o pequeno modo de produçao em relaçao aos senhores "[c]ostumamos pensar na transiçao de urn sistema social para outro
feudais e para acabar libertando o pequeno produtor da explora- como urn processo em que os dois sisternas se enfrentam diretarnen-
çao feudal. Foi do pequeno
modo de produçao, portanto (na me- te e lutam pela supremacia", mas seria urn "grave erro" pensar na
) dida em que ele assegurou a independêncja de açao e em que, por transiçao do feudalismo para o capitalismo nesses termos.5
sua vez, a diferenciaçao social desenvolveuse em seu bojo), que Sweezy nao se propôs explicar a segunda fase do processo, mas
nasceu o capitalismo".'
) levantou algurnas questoes cruciais sobre as explicaçOes oferecidas
Similarmente Hilton, cujos estudos sobre os camponeses me- por outros. Duas delas se destacam, em particular. Primeiro, ele ex-
)
dievajs e suas lutas representam alguns dos trabaihos mais im- pressou ceticismo quanto a plausibiidade da idéia - decorrente da
-) portantes sobre a historiografia de qualquerperIodo,
ligou essa transi- interpretação convencional da teoria marxista da "via realmente re-
) çao as lutas entre senhores e camponeses. As pressoes impostas pelos volucionária" para o capitalismo industrial - de que os capitalistas
senhores aos camponeses para que estes transferissem o trabaiho ex- industriais teriam surgido das fileiras dos pequenos produtores. Ao
cedente foram, segundo ele sugeriu, a causa prilnária do aperfei- contrário, propôs que entendéssemos a "via realmente revolucioná-
)
coamento das técnicas de produçao e a base do crescimento da pro- na" como urn processo em que o produtor, em vez de passar de pe-
j
duçao mercantil simples. Ao mesmo tempo, a resistêncja dos cam- queno produtor a comerciante e a capitalista, "come çou como

)
41) A origem do capitalismo Debates marxistas 41
)

)
comerciante e empregador de mao-de-obra assalariada", e em que em que Sweezy parte da tese de Pirenne, em particular, e sugere, em
as empresas capitalistas já foram lançadas em plena maturidade, e linhas mais gerais, urn antagonismo fundamental entre o sistema
näo nurn processo gradativo que houvesse brotado do sistema de crescente de comércio a longa distância e os princIpios básicos do
) produçao doméstica artesanal por encornenda.6 feudalismo, ou, vez por outra, atribui aos agentes econômicos
) 0 segundo ponto ressaltado por Sweezy foi que a generalizaçao pré-capitalistas uma racionalidade especIfica do capitalismo, ja deve
) da produçao mercantil nao poderia explicar a ascensão do capitalis- estar claro para os leitores que a tese deste livro difere da dele. A ar-
mo, e que a produçao mercantil altamente desenvolvida - como, gumentaçao aqui exposta, especialmente na Parte II, é compatIvel
por exemplo, na Itália ou na Flandres medievais - nao necessaria- corn Dobb e Hilton - a rigor, influenciada por eles - em diversos
) mente o produziu.7 Em sua argumentaçäo, dc frisou outro aspecto aspectos irnportantes: os de que as cidades e o comércio não cram
) sugestivo. Em oposiçao a teoria de Maurice Dobb de que o declInio necessariamente antagonicos por natureza ao feudalismo, de que o
) do feudalismo resultou da exploraçao excessiva dos camponeses e ccrnOtOr primordial" encontra-se nas relaçOes prirnárias de proprie-
dos conflitos de classe gerados por ela, Sweezy propôs que seria dade do feudalismo, e de que a luta de classes entre os senhores e Os
"rnais exato dizer que o declInio do feudalismo europeu ocidental camponeses foi central nesse processo.
deveu-se a impossibilidade de a classe dominante manter o controle Porém havia mais do que isso em discussao. Sweezy frisou urn
) sobre a capacidade de trabaiho da sociedade e, portanto, explo- aspecto que tende a se perder nas consideraçOes do debate sobre a
) rá-Ia".8 transiçao. Decerto atribuiu a dissoluçao do feudalismo aos efeitos da
Este resurno, é claro, constitui uma abreviaçao e simplificaçao expansäo comercial e ao crescirnento das cidades. Mas insistiu em
grosseiras dos argurnentos complexos fornecidos pelos participan- que tal dissoluçao nao seria suficiente para explicar a ascensão do ca-
)
tes do debate, mas deve ser suficiente para levantar algumas questoes pitalismo e em que, na verdade, esses foram dois processos distintos.
cruciais sobre Os pressupostos em que se pautou cada urn dos lados. Al encontrarnos urn contraste interessante entre Sweezy e Dobb:
) A primeira vista, a coisa parece muito clara: Dobb estava atacando o Dobb parece mais inclinado do que Sweezy a tratar a dissoluçao do
) modelo mercantil, enquanto Sweezy o defendia. De fato, algum feudalismo como tendo sido, essencialmente, o mesrno processo da
tempo depois, o historiador marxista Robert Brenner acusou Swee- ascensão do capitalismo.
zy, juntamente corn outros, tais como Andre Gunder Frank e Imma- For que isso é importante? Consideremos as implicaçoes dessa
nuel Wailerstein, de serem neo-smithianos, precisarnente por argumentaçao: se a dissoluçao do feudalismo é suficiente para expli-
) aderirern a algo serneihante ao modelo mercantil clássico, tal como car a ascensão do capitalismo, nao estarnos de novo muito próxirnos
) originalmente delineado por Adam Smith! Brenner desenvolveu dos pressupostos do modelo mercantil? Pode ser que estejamos no
) uma sólida argumentaçao sobre o modo como alguns marxistas, campo, e não na cidade, e talvez nos estejamos concentrando na luta
corn efeito, engoliram os pressupostos do antigo modelo, a tend6n- de classes entre senhores e camponeses, e não na expansäo do co-
1
cia a tratar a dinâmica especIfica do capitalismo - e sua necessidade mércio. Mas urn pressuposto crucial permanece o mesmo: o capita-
de aumentar a produtividade da mao-de-obra - como urn desfecho lismo surgiu quando os grilhOes do feudalismo foram retirados. Dc
) inevitável da expansao mercantil. Mas havia algo mais complexo algum modo, o capitalismo ja estaria presente nos interstIcios do
) acontecendo no debate entre Sweezy e Dobb. feudalismo, simplesmente a esperade ser libertado.
A tese de Sweezy, a primeira vista e em seus contornos princi- Dobb e Hilton, portanto, não parecem questionar todos os pres-
pais, e completarnente compatIvel corn o modelo mercantil, en- supostos básicos do modelo mercantil, e algumas das questOes le-
quanto a explicaçao de Dobb é urn ataque frontal a ele. Na medida vantadas por Sweezy väo ao cerne dos problemas que des deixaram
42 A origem do capitalismo Debates marxistas 43

por resolver. Urn aspecto se destaca nas teses de Dobb e Hilton: a Elas tampouco oferecem uma resposta inteirarnente convincen-
transição para o capitalismo teria sido uma questao de libertar ou te para a pergunta formulada por Sweezy a respeito da "faiha" de al-
"soltar" uma logica econOmica ja presente na pequena produçao guns centros cornerciais avançados, como os da Itália e de Flandres.
mercantil. Fica-nos a esmagadora impressao de que, havendo opor- Também nesse ponto, ha uma tendência a se presumir o capitalis-
tunidade, o camponês (e o artesão) que era produtor mercantil se mo, através da simples explicaçao dos obstáculos que impediram es-
transformaria em capitalista. 0 centro de gravidade dessa argumen- sas cidades mercantis de chegar a maturidade. A questão levantada
taçao deslocou-se da cidade para o campo e a luta de classes recebeu sobre Flandres e a Itália não e tanto por que e em que circunstâncias
Os imperativos capitalistas se irnpuseram aos agentes econômicos,
urn novo papel, mas, ate que ponto os pressupostos subjacentes a ela
como aconteceu na Inglaterra, mas, antes, por que e de que maneiras
diferem de algumas das premissas principais do modelo mercantil?
os agentes econômicos das transiçOes "faihas" mostraram-se sem
Quao longe estarnos da prernissa de que o mercado capitalista é mais
disposiçao ou incapazes - ate por razöes ideologicas ou culturais -
uma oportunidade do que urn imperativo, e de que o que requer ex-
de romperem corn seu apego ao feudalismo, a fim de criarern uma
plicaçao na descrição da ascensão do capitalismo e a eliminaçao dos
nova forma social.'°
obstáculos, o rompirnento dos grilhoes, e não a criaçao de uma lógi-
Quanto as düvidas de Sweezy sobre a "via realmente revolucio-
ca econôrnica inteiramente nova? A luta de classes é central nesse
nária", e fato que, numa fase posterior do debate, ele retirou algumas
processo, mas o e, acima de tudo, como urn meio para remover obs-
de suas objeçoes a interpretação convencional do que Marx tinha em
táculos a algo que já seria imanente.
mente, mas não necessariarnente suas objeçOes a idéia em si. Embora
Neste ponto, os problemas que incomodaram Sweezy em seu nunca tenha explicado plenarnente as razöes de seu mal-estar corn a
confronto corn os argumentos de Dobb são muito pertinentes. Pri- idia de que o capitalismo teria surgido quando os pequenos produ-
-meiro, o hábito de tratar as transiçOes como urn confronto entre tores rnercantis transformararn-se em capitalistas, ele parece haver
dois modos de produçao antitéticos tern servido, corn demasiada considerado isso intrinsecarnente implausIvel. E, corn efeito, havia
frequência, como desculpa para se evitar a questão. Como sugeriu bons rnotivos para seu ceticismo.
Sweezy, embora esse pressuposto possa aplicar-se a transiçao do ca- Enquanto Sweezy estava predominanternente interessado, nesse
pitalismo para o socialismo, ele é problemático ao lidarmos corn a ponto, na ascensão do capitalismo industrial, a "via realmente revo-
transiçao do feudalismo para o capitalismo. Como virnos, o modelo lucionária" aparece em Dobb, mais particularmente (embora não
mercantil e outras explicaçoes correlatas presurnem, na verdade, a ern terrnos exciusivos) sob a forma dos fazendeiros capitalistas que
existéncia do capitalismo, ou de uma racionalidade capitalista, para teriarn saIdo das fileiras dos proprietários rurais que trabaihavam a
explicar seu surgimento. 0 feudalismo ter-se-ia confrontado corn própria terra. 0 problerna não está em dar crédito a esses fazendei-
urn capitalismo já existente, ou, pelo menos, corn uma logica pro- ros em ascensão como criadores do capitalismo, porém, mais parti-
cessual capitalista ja presente, cujo aparecimento nunca e explicado. cularmente, em que eles tendem a ser retratados como escoihendo
Embora, sob muitos aspectos, as explicaçOes fornecidas por rnarxis- mais ou menos livrernente a via capitalista, uma vez libertos dos em-
tas como Hilton e Dobb sejam devastadoras para o modelo mercan- pedilhos feudais, ao passo que o capitalismo é tratado como uma ra-
til e para seus pressupostos sobre a antItese entre feudalismo e mificação mais ou menos orgânica da pequena produçao mercantil
cornércio, elas nao escaparam por completo dessa armadilha, pois, - mesmo que as revoluçOes burguesas tenham sido necessárias para
em alguns aspectos importantes, ainda pressupöem exatamente elirninar os ültirnos obstáculos. 0 que quer que Sweezy tenha tido
aquilo que precisa ser explicado. em mente em sua objeçao a "via realmente revolucionária", decerto
44 A origem do capitalismo Debates marxistas 45
)
)
seria sensato dizer que é preciso algo mais, para explicar a disposiçao tributos feudais pela renda monetária e, mais particularmente, pelo
dos produtores a se portarem como capitalistas, do que sua simples crescimento de uma economia mercantil. "Corn a transformação
libertaçao das restriçOes ou sua passagem de médios a grandes pro- generalizada dos tributos em renda rnonetária", argumentou
) prietários. Em outras palavras, ha uma diferença qualitativa, e não Anderson, "a unidade celular da opressao politica e económica do
) apenas quantitativa, entre a pequena produçao mercantil e o capita- campesinato foi gravernente enfraquecida e ameaçou desintegrar-se.
lismo, diferença esta que continua a requerer uma explicaçao. 0 resultado foi urn deslocamento da coerçäo politico-jurIdica para
uma cüpula centralizada e militarizada - o Estado absolutista".'2
Em outras palavras, para reforçar sua dominaçäo enfraquecida do
Perry Anderson sobre o absolutismo e o capitalismo
campesinato, os senhores feudais concentraram seus antigos pode-
Na década de 1970, quando era editor da New Left Review, outro res coercitivos fragrnentados ou fracionados numa nova espécie de
) marxista influente, Perry Anderson, publicou dois volumes magis- monarquia centralizada.
) trais do que pretendia que viesse a ser uma triogia, começando por Entrementes, nos interstIcios do sistema feudal fragmentado,
urn estudo da transiçao da Antiguidade greco-romana para o feuda- nas cidades, emergiu uma esfera econômica que não era controlada
lismo europeu (Passages from Antiquity to Feudalism), continuando pela aristocracia. Ao mesmo tempo, essas cidades tornaram-se sede
) corn uma análise do absolutismo europeu (Lineages of the Absolutist de inovaçOes técnicas. Anderson concluiu que, embora "a ordem
) State) e culminando num estudo sobre as revoluçoes burguesas e o poiltica permanecesse feudal..., a sociedade tornou-se cada vez mais
) desenvolvimento do capitalismo. Ernbora esse terceiro volume, que burguesa"
deveria completar sua exposiçao sobre a transiço para o capitalis- 0 surgimento do absolutismo representa uma etapa crucial na
mo, ainda não tenha sido lançado, ha muito que aprender corn os tese de Anderson sobre a ascensão do capitalismo. 0 absolutismo
dois primeiros, especialmente Lineages, e corn vários fragmentos en- em si não era urn Estado capitalista ou protocapitalista. Se tanto, era
) contrados aqui e au. essencialmente feudal em sua estrutura básica, "urn aparato de domi-
) Para nossos fins, podemos começar pela definiçao andersoniana nação feudal remanejado e recarregado, destinado a reaprisionar as
de feudalismo como urn modo de produçao definido por "uma uni- massas camponesas em sua posição social tradicional".'4 Mas foi urn
dade orgânica da economia e da sociedade", que assumiu a forma de momento axial no desenvolvirnento do capitalismo.
uma "cadeia de soberanias fracionadas", juntamente corn uma ca- Ironicamente, o efeito desse deslocamento do poder coercitivo
deja hierarquica de posse condicional. 0 poder do Estado era frag- feudal para cirna - pelo menos, sua contribuiçao principal para a
) mentado entre os senhores feudais, e o domInio senhorial evoluçao do capitalismo, segundo Anderson foi romper a união
) representava uma unjão do poder politico corn o econômico. 0 entreeconomia e polItica que havia caracterizado o feudalismo. Por
fragrnento de poder estatal que cabia aos senhores feudais - seu p0- urn lado, o poder politico ficou concentrado no Estado monárquico.
)
der politico, juridico e miitar - constjtuIa, ao mesmo tempo, seu Por outro, a economia começou a adquirir uma certa autonomia. A
poder econômico de apropriaço do trabaiho excedente dos campo- medida que a coerçao politico-jurIdica foi "deslocada para cima", a
) neses dependentes. A dominaçao senhorial era acompanhada por economia mercantil e a sociedade burguesa que haviam crescido nos
) "urn mecanismo de extorsäo do excedente" - a servidao —no qual interstIcios do feudalismo ficaram livres e puderarn desenvolver-se
"Se fundiarn a exploraçao econôrnjca e a coerçao politico-jurIdica"." em seus próprios termos.
Mas aconteceu algo que tornou instável essa formaçao feudal. essa, portanto, em linhas gerais, a concepção de Anderson so-
- Os antigos laços feudais foram enfraquecidos pela substituiçao dos bre o absolutismo. E grande parte dela é também muito esciarecedo-

)
) / jI
ti ougem (10 capiiaiismo Debates marxistas 47

ra. Sua caracterizaçao do Estado absolutista como essencialmente tismo parece ser urn dos meios, se não o meio essencial pelo qual os
I)
feudal é de particular utiidade, embora exija urn exame mais detido. grilhOes do feudalismo foram retirados da economia. Assim,
) Convérn guardar ern mente o que Anderson quer dizer. 0 Estado dir-se-ia que o absolutismo foi urn ponto transicional necessário en-
) absolutista era essencialmente feudal, insiste ele, porque represen- tre o feudalismo e o capitalismo. Pelo menos, livre da servidão poll-
touo deslocamento para cima e a centralizaçao dos poderes coerciti tica direta, a produçao mercantil teria podido crescer e a economia
vos politico-juridicos dos senhores feudais, separando-os da teria podido seguir suas prOprias inclinaçOes. 0 capitalismo teria
I
exploraçao econôrnica. Dito de outra maneira, o Estado absolutista sido o resultado da libertaçao da economia, da retirada da mao mor-
-) separou os dois momentos da exploraçao - o processo de extorsao ta do feudalismo e do desatrelarnento dos portadores naturais da ra-
) do excedente, de urn lado, e o poder coercitivo que o sustentava, de cionalidade econômica - os habitantes dos burgos, ou burgueses.
outro. A partir daI, os dois prosseguiram em esferas separadas. A fu- Ha alguns problemas empIricos sérios nessa abordagem do ab-
so feudal da economia corn a polItica começou a dar lugar a separa- solutismo como fase aparenternente essencial da transição do feu-
ção que e caracterIstica do capitalismo, deixando a economia evoluir dalismo para o capitalismo. Dentre eles, urn problema nada insignifi-
) de acordo corn sua prOpria logica interna. cante e o fato de que o capitalismo ingles nao desfrutou do beneflcio
) Pois bern, ha outra maneira de ver o absolutismo, que consiste do absolutismo, enquanto o absolutismo frances não deu origem ao
) em considerar que ele representou uma centralizaçao do poder feu- capitalismo (tema de que falarernos mais na Parte II) Se e assirn, tal-
dal nurn sentido diferente, qual seja, que o próprio Estado rnonár- vez seja mais plausivel argurnentar que o absolutismo nao foi uma
quico tornou-se uma forma de propriedade, urn instrurnento de fase transicional entre o feudalismo e o capitalismo, mas, ao contra-
apropriaçao, de maneiras análogas a dominaço senhorial feudal. rio, uma rota alternativa do feudalismo Seja como for, convem ao
) Os poderes econôrnico e politico continuaram fundidos, mas 0 se- menos deixar claro que, sob muitos aspectos fundamentals, a descri-
) nhor feudal passou a se apropriar de rendas, enquanto o Estadoe Os çao de Anderson, como outras exphcaçOes anteriores da transição
) ocupantes de seus cargos apropriavam-se dos excedentes dos cam- para o capitalismo, pauta-se sobretudo na retirada dos grilhOes de
) poneses sob a forma de impostos. Em alguns mornentos, Anderson uma forma social que ja existiria - mais ou menos sern exphcaçao
- parece pensar no absolutismo nesses termos, como sendo ainda uma - nos intersticios do feudalismo
união das esferas econômica e poiltica. Mas toda a sua tese de que 0 Apesar de toda a sofisticada complexidade da tese de Anderson,
) absolutismo desernpenhou urn papel axial na transiçao para o capi- ela e urn aprimoramento - fascinante e esclarecedor, sob muitos
talismo decorre de uma funçao essencial do Estado absolutista: a de aspectos, mas mesmo assim urn aprimoramento - do modelo mer-
separar as esferas polltica e econôrnica. Ele se empenha rnuito em cantil Os ecos dessa antiga exphcaçao fazern-se ainda mais audiveis
- enfatizar que o que foi "centralizado para cima" no Estado absolutis- na forrnulaçao mais recente que Anderson deu a essa tese, numa re-
ta não foi afusao feudal das esferas polItica e econômica, mas a faceta senha que fez do hvro de Robert Brenner intitulado Merchants and
) politico-jurfdica ou coercitiva do feudalismo, em contraste corn a Revolution Eis 0 que cornentou Anderson a proposito da explicaçao
) faceta da exploraçao econômica. 0 Estado absolutista representa brenneriana do capitalismo como sendo, antes de mais nada, urn fe-
para Anderson, simplesmente, o poder poiltico-juridico que impoe norneno especificamente ingles
a exploracao econOmjca, a qual se dá em urn piano diferente.
Corn efeito, o deslocamento ascendente do poder politico feudal A ideia de capitalismo em urn pals, tomada hteralmente, e apenas urn
) desempenha, na tese de Anderson, o mesmo papel da retirada dos pouco mais plausivel que a de sociahsmo Para Marx, os diferentes mo
- grilhoes em outras versöes do antigo modelo. Na verdade, o absolu- mentos da biografia moderna do capital foram distribuidos numa se
)

)
48 A origem do capitalismo iieDates maixisas

qüência cumulativa, desde as cidades italianas ate as cidades de mento industrial mesmo num contexto de declinio dos mercados de
Flandres e da Holanda, os impérios de Portugal ou da Espanha e os al6m-mar.17 Em outras palavras, tratou-se defato de capitalismo de
portos da Franca, antes de eles serem "sistematicarnente combinados urn pals, ainda que dentro de uma rede de comércio internacional.
na Inglaterra, no firn do século XVII". Historicamente, faz mais sentido Mas, nao ha por que nos deixarmos desvirtuar por especulaçOes
ver o surgimento do capitalismo como urn processo baseado na agre- sobre as idéias de Marx a respeito da relaçao entre o capitalismo
gaçao de valor, que foi ganhando complexidade a medida que se mo-
agrário e o industrial (ou sobre as questOes que ele deixou sem res-
veu por uma cadeia de locais inter-relacionados. Nessa história, o
posta e, a rigor, sobre as incoeréncias que deixou por resolver). Po-
papel das cidades sempre foi central. Os proprietários de terras ingleses
derIamos sirnplesmente observar que, nesse aspecto, as observaçOes
nunca poderiam ter corneçado sua conversão para a agricultura co-
mercial sem o mercado de Id das cidades flamengas - assim como a de Anderson fogem a questão. Uma coisa e dizer, por exemplo, que a
agricultura holandesa, na época dos Stuart, estava a frente da inglesa, agricultura mercantil inglesa pressupunha o mercado de lã flamen-
W porque se vinculava a uma sociedade urbana mais rica.' 5 go. Outra, rnuito diferente, e explicar como a "agricultura mercan-
til" transformou-se em agricultura capitalista, como a possibilidade
Cabe assinalar, primeiramente, que Marx, na passagem citada de comércio converteu-se não na realidade, mas na exigência da pro-
por Anderson, está explicando a "gênese do capitalista industrial", e duçao competitiva, como as oportunidades de mercado tornaram-se
nao as origens do capitalismo - o surgimento de "leis de movimen- imperativos de mercado, e como esse tipo especIfico de agricultura
to" especificamente capitalistas, de relaçOes sociais especificamente acionou o desenvolvimento de um sistema capitalista. Decerto po-
capitalistas, de uma forma de exploração especificamente capitalis- demos dizer que o sistema de comércio europeu e o imperialismo
ta, ou dos imperativos do crescimento auto -sustentado.'6 Marx tenta europeu foram condiçoes necessárias do capitalismo, mas nao pode-
explicar como a acumulaçao da riqueza converteu-se, em condiçOes mos simplesmente presumir que o comércio e o capitalismo são
apropriadas - isto e, nas condiçoes sociais ja capitalistas (da Ingla- uma mesma coisa, ou que urn se transforrnou no outro por urn sim-
terra) -, em capital industrial, deixando de ser simplesmente o lu- ples processo de crescimento. Anderson presumiu exatamente aqui-
cro improdutivo da usura e do cornércio. Quanto as origens do lo que precisa ser dernonstrado, ou seja, que o comércio, ou, a rigor,
sistema capitalista, da "chamada acumulaçao primitiva" - isto é, na a produçao para o mercado (prática muito difundida durante a
expressao de Marx, da expropriaçäo dos produtores diretos, parti- maior parte da história escrita), transforrnou-se em capitalismo
cularmente os camponeses - que deu origem a relaçoes de proprie- atraves da mera expansão, a qual, em algum ponto, teria atingido
dade social especificamente capitalistas e a dinâmjca a elas associada, uma rnassa critica Sua tese, em outras palavras, sofre da rnesrna cir-
Marx as situou firmemente na Inglaterra e no campo. Também nes- cularidade que sempre atormentou o modelo mercantil.
se caso, surgirarn condiçoes para o tipo de mercado interno sem pre-
cedentes que Marx encarou como a condiçao sine qua non do
capitalismo industrial. Como fez Brenner depois dele, Marx reco-
nheceu a necessidade de explicar o caráter singular do desenvolvi-
mento da Inglaterra. Urna das especificidades nada insignificantes
da Inglaterra, como assinalou Brenner, é que, enquanto outros cen-
tros de produçao, mesmo no perlodo medieval, experirnentaram
surtos de crescimento das exportaçoes, a Inglaterra moderna, em
seus primórdios, teve a caracterIstica singular de manter o cresci-
) juerriauvas 11t4IM,Ld

)
) Cap Itulo 3 a distribuiçao da renda entre as classes, mas também para o cresci-
mento econômico a longo prazo e para o desenvolvimento das for-
Alternatjyas marxistas ças produtivas. Esses efeitos divergentes de causas aparentemente
sirnilares - padroes demográficos semelhantes, num modelo, e in-
serção na mesma rede de comércio crescente, no outro - seriam o
suficiente para questionar o status dessas causas como variáveis in-
dependentes e enfraqueciam seriamente o poder explicativo dos
modelos dominantes. Em lugar deles, Brenner ofereceu uma pode-
rosa explicaçao alternativa para o processo sem precedentes de cres-
cimento econômico auto-sustentado que se instaurou na Inglaterra
) 0 que o debate sobre a transiçao deixou sem explicar e sem abordar do inicio da era moderna. Sua explicaçao concentrou-se nas confi-
foi como e em que circunstâncias Os produtores passaram a ficar su- guraçoes variáveis das relaçoes sociais de propriedade que determi-
jeitos aos imperativos
do mercado. Sempre se pareceupressupor que naram, em contextos diferentes, os efeitos divergentes de outros
)
o capitalismo surgiu quando foram retirados os obstáculos a realiza- fatores (cuja importância ele não descartou), tais como os ciclos de-
) çao das oportunidades do mercado. Porém,
urn outro episódio no mográficos ou a expansäo do comércio.
) debate permanente entre os rnarxjstas aceitou o desaflo do debate Brenner foi claramente influenciado por Maurice Dobb e, em
sobre a transiço, no esforço de explicar a passagem do feudalismo termos do debate original sobre a transição, ficou claramente mais
) para o capitalismo sem identjficar princIpios capitalistas, retrospec- ao lado de Dobb que de Sweezy. Ao mesmo tempo, pode-se argu-
tivamente, nas socjedades pré-capjtaljstas - bu seja, sem presumir mentàr que ele partiu de algumas das mesmas questOes que haviarn
-) exatamente aquilo que precisava ser explicado. incomodado Sweezy. Como este, Brenner obviamente acreditava
) que urn modelo de transiçäo em que dois modos de produçao anta-
) 0 debate sobre Brenner gônicos se confrontarn era impróprio para lidar corn a transiçao do
feudalismo para o capitalismo. Não havia capitalismo, nem mesmo
0 historjador Robert Brenner desencadeou urn debate, em 1976, em forma embrionária, para desafiar o feudalismo - e isso se apli-
através de urn irnportante artigo, "Estrutura agrária de classes e de- cava nao apenas as formas pré-capitalistas de comércio, mas tam-
senvolvimento econômico na Europa pré-industrial", publicado na bern a pequena produção mercantil, tratada, a maneira de Dobb e
) revista Past and Present.' Hilton, corno urna espécie de protocapitalismo. Brenner tambérn
Esse artigo tomou por alvo dois modelos
) influentes de explicaçao histórica. 0 prirneiro foi o modelo demo- tomou como ponto de partida a tenacidade do feudalismo, critican-
grafico, cada vez mais domjnante, segundo o qual o desenvolvimen- do outras descriçOes da transiço por negligenciarem "a logica e a
to econômjco da Europa medieval acompanhou os ciclos de longo solidez internas" das econornias pre-capitalistas, e por funcionarem
prazo do desenvolvimento populacional - o que ele denominou de como se os agentes econômicos viessem a adotar estratégias capita-
) malthusjanjsmo secular. 0 segundo foi o modelo mercantil. listas toda vez que Ihes fosse dada essa oportunidade - crItica que se
Brenner atacou as próprias bases desses modelos rivais. Em par- aplica nao apenas ao modelo mercantil, mas, sob certos aspectos, ate
ticular, enfatizou sua incapacidade de explicar o fato de fatores idên- A teoria da ascensäo da pequena producao mercantil.
-' ticos hayerem produzjdo efeitos muito diferentes, opostos, a rigor, Mas Brenner nao procedeu, corno Sweezy, buscando algum im-
em diferentes paIses, corn consequencias variáveis não somente para pulso externo para a dissolução do feudalismo (no contexto de cer-

) 50
)
52 A origem do capitalismo Alternativas marxistas 111

tas relaçoes de propriedade, por exemplo, o comércio podia levar e rendamentos pagos em dinheiro, cujos valores não eram fixados
levou, segundo ele, a urn major rigor das formas de propriedade
) pela lei ou pelos costumes, mas respondiam as condiçoes do merca-
pré-capitalistas, em vez de seu afrouxamento). Ao contrário, como do. Poder-se-ia dizer ate que existia urn mercado de arrendamentos.
) Dobb e Hilton, Brenner procurou uma dinâmica interna do feuda- As condiçoes de posse eram tais que um nttmero crescente de arren-
) lismo. Nesse ponto, porém, chegamos a uma diferença fundamental datários ficou sujeito aos imperativos do mercado - não a oportuni-
) entre sua abordagem e a deles: o que ele estava buscando, explicita- dade de produzirern para o mercado e passarem de pequenos
mente, era uma dinâmica interna que não pressupusesse uma lógica produtores a capitalistas, mas a necessidade de se especializarern Para
capitalista já existente.
) o mercado e produzirem de forma competitiva - simplesmente
A luta de classes figura corn destaque em sua argumentaçao, Para garantirem o acesso aos meios de subsistência.
) corno fizera nas de Dobb e Hilton; corn Brenner, no entanto, não se Ao mesmo tempo, os grandes proprietários da Inglaterra tam-
) trata de libertar urn impulso Para o capitalismo. Antes, trata-se de os
bern ficaram numa situaçäo especial. Embora controlassem uma
senhores e os camp oneses, em algumas condiçoes especIficas que fo- parcela singularmente grande das meihores terras, nao desfrutavam
ram peculiares da Inglaterra, dispararem involuntariamente uma - e, na verdade, não precisavam - dos tipos de poderes ex-
dinâmica capitalista, enquanto, no conflito de classe uns corn os ou- tra-econômicos de que dependia, digamos, a aristocracia francesa,
) tros, agiam no sentido de se reproduzirem como eram. A conseqUên- Para obter grande parte de sua fortuna. A classe dominante inglesa
) cia não pretendida foi uma situaçao em que os produtores ficaram distinguia-se por sua dependência crescente da produtividade de
) sujeitos aos imperativos do mercado. Portanto, Brenner realmente seus arrendatários, e nao por exercer urn poder coercitivo para ar-
/ se afastou do antigo modelo e de sua tendéncia a presumir justa- rancar deles urn excedente major.
mente aquio que precisa ser explicado. En outras palavras, as relaçOes de propriedade inglesas tinham o
)
A explicaçao de Brenner tern a ver corn as condiçoes muito par- que Brenner chamou de suas "regras de reproduçao" caracterIsticas.
) ticulares das relaçoes de propriedade inglesas, e ele enfatiza não ape- Tanto os produtores diretos quanto os grandes proprietários passa-
) nas a especificidade da Europa em re1aço a outros casos, mas ram a depender do mercado de um modo que nao tinha precedentes
também as diferenças entre diversos Estados europeus. Para Bren- histOricos, simplesmente Para garantir as condiçOes de sua própria
ner, em outras palavras, as condiçoes singulares que Michael Mann, auto -reproduçäo. Essas regras gerararn suas prOprias leis de movi-
por exemplo, atribuju a Europa em geral na Idade Media não bastam
mento singulares. 0 resultado foi o acionarnento de uma nova dma-
) Para explicar o desenvolvirnento do capitalismo, nem tampouco a mica histórica: uma ruptura sem precedentes com os antigos ciclos
) especificidade do processo de crescimento econômico auto-susten- maithusianos, urn processo de crescimento auto-sustentado, novas
tado que surgiu na Inglaterra. De fato, sua argumentaçao deixa claro pressOes competitivas, que exerciarn seu próprio efeito na necessida-
• que a dissoluçao do feudalismo teve mais de urn resultado na Europa de de aumentar a produtividade, reconfigurando e concentrando
em particular, o capitalismo na Inglaterra e o absolutismo na ainda mais a posse da terra, e assirn por diante. Essa nova dinâmica
Franca, urn absolutismo que não foi, como Para Perry Anderson, foi o capitalismo agrário (que será discutido corn maiores detaihes
) uma simples fase transicional numa trajetória mais ou menos unii- na Parte II) e foi especIfica da Inglaterra.
) near Para o capitalismo.
Embora Brenner tenha sido visivelmente influenciado por Dobb
Na Inglaterra, uma proporção excepcionalrnente grande da ter- e Hilton, a diferença entre sua tese e a deles já deve estar Clara. 0
ra pertencia a latifundjárjos e era trabaihada por arrendatários cujas princIpio atuante em sua argumentaço é a compulsão ou imperati-
condiçoes de posse da terra assumiram, cada vez mais, a forma de ar- vo, e näo a oportunidade. Se, por exemplo, o pequeno produtor

)
)
54
) A origem do capitalismo I Alternativas marxistas

)
rnercantil ou fazendeiro desempenha nisso urn papel fundamental,
nao e como agente de uma oportunidade, mas como sujeito de urn
I
Iq cio, juntamente corn quaisquer trabaihadores assalariados que des
empregassern, aos imperativos do mercado. A argumentação de
imperativo. Tipicarnente, os fazendeiros eram justarnente a espécie I Brenner também dá uma certa corroboraçao a afirmaçao de Sweezy
) de ocupantes que estava sujeita as pressöes cornpetitivas, e ate os pe-
de que a transiço do feudalismo para 0 capitalismo foi alimentada
) quenos proprietários ficaram submetidos a essas pressOes, depois não pelo poder de superexploração exercido pelos senhores feudais,
que a produtividade cornpetitiva do capitalismo agrário fixou os ter- mas pelas deficiências de sua capacidade de praticar a extorsão de
I
mos da sobrevivência econômica. Grandes proprietários e arrenda- seus camponeses: embora o Estado inglês, singularmente centraliza-
tarios passaram a depender do sucesso no mercado, ja que a renda do e unitário, garantisse a posiçao e a propriedade dos latifundiários
' daqueles dependia dos lucros destes. Ambos tinham interesse no ingleses, quando seus poderes feudais revelavam-se insuficientes, es-
) meihoramento" agrIcola, no aumento da produtividade por meio sas mesmas condiçOes -que implicavarn uma separação incornu-
do uso e de técnicas inovadoras da terra, que frequenternente irnpli- mente clara entre o Estado e a sociedade civil, ou entre as esferas
cavam, entre outras coisas, 0 cercamento -para näo falar na cres- poiltica e econôrnica - privavam-no de poderes coercitivos CX-
cente exploraçao do trabaiho assalariado. tra-econôrnicos de extorsão do excedente e o tornavam cada vez
Em certo sentido, Brenner também respondeu a pergunta de mais dependente de meios de exploraço puramente econômicos.
) Sweezy sobre a "via realmente revolucionária". 0 arrendatário capi- Houve diversas crIticas a Brenner e, sem düvida, algumas das
) talista da Inglaterra não era apenas urn pequeno produtor transfor- discordâncias localizadas quanto a aspectos históricos especIficos
) mado em capitalista. Sua re1aço especIfica corn os rneios de são pertinentes. Mas, permitarn-me apenas fazer urn breve esboço
produçao e suas condiçoes de acesso a própria terra fizeram dele, em de algurnas das crIticas mais gerais que tern imphcaçOes para as
certo sentido, urn capitalista desde o iniczo -ou se)a, ele nao se tor- questoes maiores no debate sobre a transição
nava capitalista apenas por ter crescido e alcançado urn nIvel apro- A crItica de Brenner as expicaçOes anteriores foi que, acima de
priado de prosperidade, nem tarnpouco apenas porque sua relativa tudo, elas consideravam como dados precisamente os traços do capi-
) riqueza ihe permitisse empregar mao-de-obra assalariada (mesmo taiismo que precisavarn de explicaçao, invocando circularmente al
) no mundo antigo, é sabido que fazendeiros não-capitalistas empre- gum tipo de capitalismo preexistente para explicar o surgimento do
gararn mão-de-obra assalariada), mas porque suas relaçoes corn os capitalismo. As crIticas forrnuladas contra ele em 0 debate sobre Bren-
meios de sua propria auto-reproduçao su)eitavarn-no, desde o mi- ner tenderam a repetir esse erro, nao propriamente defendendo, mas
simplesmente reproduzindo os pressupostos que ele havia contesta-
J do Seus criticos, que incluiram historiadores dernograficos e alguns
) *0 verbo to improve, tern as diversas acepçOes de meihorar, aprirnorar, aperfeiçoar,
I marxistas, puseram-se contra ele a partir de uma visão que presumla
) desenvolver; utilizar, prosperar, aproveitar; introduzjr ou realizar meihoramentos
ou benfeitorias (em terras ou Imoveis) valorizar, beneficiar, tirar partido de
I Os proprios aspectos do capitalismo que ele havia procurado explicar.
Assim, por exemplo, o decano dos historiadores demograficos,
) aperfeiçoar-se, desenvolver-se, progredir etc. Tern também, sobretudo nos Le Roy Ladurie, atacou Brenner por fundir fatores econômicos e po-
) Estados Unidos, o sentido de cultivar (terras). 0 "melhoramento" a que a autora ilticos, ao falar das classes "que extorquiarn o excedente" e das clas-
) Se refere poderia traduzjr-se, corn mais exatidao, por "beneficjamento" ou
11
ses "dominantes" como se elas fossern uma so. De modo similar, urn
) aproveltarnento (da terra) Esse termo foi preterido em favor de meihoramento historiador marxista, Guy Bois, discordou do "voluntansmo" do
para facilitar a compreensão das demais articulaçoes de ordem linguistica social e "marxismo politico" de Brenner, que, segundo afirmou, havia des-
economic feitas no text (N.T.)
econ6mica " prezado por completo os fatores economicos. Esta u tima escriçao -
)
)
)
NJ A origem do capitalismo Alternativas marxistas 57
-j

da tese de Brenner parece ter sido reforçada na introduçao do livro I contrário, estava explorando as conseqttências da fusão do econô-
de R.H. Hilton, que (numa discordância diplomática e mais ou me- rnico corn o politico, a união das classes "que extorquiarn o exceden-
nos velada de Brenner) apresentou a divergencia entre as variedades te" corn as classes dominantes, que era precisamente urn aspecto
de marxismo representadas par Bois e Brenner, respectivarnente, constitutivo do modo de produçao feudal.
como ligada ao peso relativo dado as forças de produçao, em con- Tampouco se tratou de desprezar as forças técnicas de produçao.
traste corn as relaçoes de produçao, a ctodo o modo de produçao", Brenner simplesmente pautou-se na diferença fundamental entre o
em contraste apenas corn o conflito de classes, e aos fatores econô- modo de apropriação capitalista, que depende do aumento da pro-
micos, em contraste corn as simples fatores politicos. Hilton, apesar dutividade do trabaiho, par causa dos imperativos da competiçao e
de sua tremenda contribuiço para a história da luta de classes, pare- da maximização do lucro - e que, portanto, incentiva o aperfeiçoa-
ceu insinuar que Brenner se inclinara demais para a via politicista. rnento das forças produtivas -, e as rnodos de apropriação
As crIticas feitas par Bois e Le Roy Ladurie foram substancial- pré-capitalistas. Esses modos anteriores não eram movidos pela
mente desprovidas de pertinéncia, pois ambos criticararn Brenner rnesma necessidade de aumentar a produtividade do trabaiho, par-
de uma perspectiva que presumia a separaçao entre 0 politico e 0 que a apropriaçäo do excedente pelas classes domiñantes não depen-
econômico, que e especIfica do capitalismo. Toda a argumentaçao dia do aumento da produtividade dos produtores diretos, mas do
de Brenner pautou-se na importante observaçao, originalmente fortalecimento do poder coercitivo do apropriador para arrancar
proposta par Marx, de que as sociedades pré-capitalistas caracteri- mais trabaiho excedente dos produtores. As perguntas principais de
zavam-se par formas extra-econômicas de extorsäo do excedente, Brenner, portanto, foram: de que modo as antigas formas de "pro-
instauradas par meio do poder politico, jurIdico e miitar, ou pelo priedade politicamente constituida" foram substituidas, na Ingla-
que Brenner hoje denornina de "propriedade politicamente consti- terra, par uma forma puramente econômica, e como foi que isso
tuida". Nesses casos, as produtores diretos - em especial as campo- acionou urn padrao caracterIstico de crescimento econômico au-
neses, que permaneciam de posse dos meios de produçao - eram to-sustentado?
obrigados pela força superior de seus senhores a abrir mao de parte 0 debate sobre Brenner, outras crIticas vieram a tona. Pri-
Desde
de seu trabaiho excedente, sob a forma de alugueis ou impostos. No meiro, ha uma crItica generalizada a própria idéia de que as relaçoes
caso do feudalismo europeu, em particular, o domInio senhorial agrárias inglesas tenham sido suficientemente distintivas - no s6-
feudal (Como virnos na discussão sabre Anderson) representava culo XVII, ou mesmo no século XVIII - para que seja ilcito cha-
uma união dos poderes politico e econômico. Isso contrasta acentu- ma-las de capitalismo agrarto Ha dois tipos de argumentos
adamente corn o capitalismo, no qual a extorsão do excedente 6 pu- diferentes contra a ideia do capitalismo agrario Uma objeçao con-
ramente econômjca, conseguida par mejo da troca de mercadorias, cerne a saber se o crescimento economico ingles foi realmente dis-
posto que as trabalhadores sem propriedade, reagindo a coerçöes tintivo, se a agricultura inglesa, em particular, mesmo no seculo
puramente econômicas, vendem sua força de trabaiho par urn salá- XVIII, foi singular, especialmente em seu impulso de aumentar a
rio, a fim de obterem acesso aos meios de produçao. Seguindo essa jprodutividade Par que, par exernplo, corno indagaram alguns criti-
percepçao ate sua conclusao lógica, Brenner não estava, como recla- cos, a produtividade agricola francesa do sécubo XVIII foi aproxima-
mou Le Roy Ladurie, nem amalgamando simplisticamente as fato- darnente equivalente a da agricultura inglesa'2 A segunda objeçao
res econ6micos e politicos, nern tampouco, como afirmou Bois, refere-se ao trabalho assalariado visto que o capitalismo se define,
"privilegiando" as fatores politicos no cotejo corn as econômicos, acirna de tudo, pela expboraçao da mão-de-obra assalariada, alguns
em sua explicaçao da transiçao do feudalismo para o capitalismo. Ao criticos questionam se porventura nao seria decisivo contra o con-

I
58 A origem do capitalismo Alternativas marxistas

. 3 )
) ceito de capitalismo agrário - ou, pelo menos, contra sua existência Brenner não presume que uma divisão preexistente entre cam-
no século xvii - o argumento de que a Inglaterra ainda não era, poneses ricos e pobres, como a que existiu noutras épocas e lugares,
nessa época, uma sociedade predominanternente assalariada, e de levaria inevitavelmente a polarizaçao em fazendeiros ricos e lavrado-
1
que os assalariados permanentes e regulares ainda eram realmente res não proprietários. Por exemplo, tanto a Inglaterra quanto a
) minoria? E que dizer dos processos de expropriaçao e proletariza- Franca, no final do século XV, tinham urn campesinato médio corn
) çao, da diferenciaçao do campesinato inglês entre fazendeiros pros- propriedades relativamente grandes. (PoderIamos acrescentar que,
) peros, de urn lado, e uma classe não proprietária, de outro? Não mesmo no século XVI, a produtividade agricola nos dois casos tam-
pertencem esses processos a pré-história do capitalismo? bern ainda não era claramente diferente.) No entanto, desde esse
) ponto de partida comum, elas se bifurcaram em direçOes históricas
Essas objeçoes são reveladoras, mas talvez revelem mais sobre os
crIticos do que sobre Brenner ou o conceito de capitalismo agrário. substancialmente diferentes: os franceses rumando para uma cres-
A primeira objeçao - sobre a produtividade agrIcola na Franca - cente fragmentaçao dos dominios dos camponeses, Os ingleses para
) nao tern pertinéncia. Constata-se que o que esses crIticos querem di- a triade agrária formada por grandes proprietários, arrendatários ca-
zer e que a produçao agrIcola francesa no século XVIII era aproxima- pitalistas e trabaihadores assalariados; os ingleses rumando para o
)
damente equivalente a agricultura inglesa em sua produçao total. meihoramento agrIcola, os franceses para a estagnaçao agrIcola.
Mas considere-se que, na Inglaterra, precisava-se de uma populaçao Brenner foi acusado de negligenciar o papel dos pequenos e me-
rural muito menor e de urn niimero muito menor de pessoas traba- dios fazendeiros na ascensão do capitalismo e de escrever uma histó-
ihando na agricultura do que na Franca para gerar essa produçao. na do capitalismo "de cima para baixo".4 Em sua tese, no entanto,
) não é a ação dos grandes proprietários nem a dos médios fazendei-
Isso significa que, longe de questionar a singularidade das relaçoes
ros, nm tampouco, a rigor, a de nenhuma outra classe isolada, que
-) de propriedade e do capitalismo agrário ingleses, a chamada equiva-
explica a ascensão do capitalismo. Trata-se, antes, de urn sistema
) lência entre a produtividade francesa e a inglesa - mais vale cha-
particular de relaçoes de classe, no qual os participantes agiarn para
ma-las de produçao - na verdade a confirma. Essas mesmas
se reproduzir tais como eram, acarretando a conseqüência não inten-
condiçoes singulares criaram uma força de trabaiho nao agrIcola p0-
cional de disparar urn processo de desenvolvimento que deu origem
tencial e urn mercado potencial de massa para bens de consumo ba-
ao capitalismo.
) ratos, como alimentos e produtos têxteis, os quais foram condiçoes
Decerto e verdade, como afirmaram alguns historiadores mar-
) necessárias para o desenvolvimento do capitalismo industrial.
xistas, que o desenvolvimento do capitalismo ingles precisou do de-
Assim, de que modo a tese de Brenner é afetada peta outra ques- senvolvimento de fazendeiros "médios" bastante prósperos, e que os
tao, referente a extensão do trabaiho assalariado? Nesse caso, o pro- produtores rurais mercantis desempenharam urn papel preponde-
blerna nao e apenas empIrico. Podernos concordar em que a extensão rante na história do capitalismo. Outra coisa, porém, e sugerir que,
do trabaiho assalariado era limitada nos primórdios da Inglaterra mo- depois de os pequenos produtores mercantis se livrarem dos gri-
) derna, especialmente o trabaiho assalariado regular e permanente - lhOes feudais que os irnpediam de evoluir para a condiçao de produ
) em contraste corn o ocasional ou sazonal. E podernos concordar em mão-de-obra assalariada, o advento do capitalismo ficou mais ou
) que o processo de expropriaçao e proletarizaçao foi, por definiçao, ab- menos assegurado. IR nisso que Brenner se afasta de seus predecesso-
)
solutamente central na histOria do capitalismo. Entretanto, também res. 0 primeiro aspecto que vem a mente de imediato e que existi-
nesse caso foge-se da questao e, mais uma vez, Brenner se dispoe a ex- ram camponeses mais ricos em muitas épocas e muitos lugares -
plicar o que os outros presumiram como certo. sem que se tornassem capitalistas. Portanto, cabe perguntar por que

)
3)
60 A origem do capitalismo Alternativas marxistas 61
)

)
Os camponeses mais ricos da Inglaterra começaram a se comportar bilitados a agir em resposta aos imperativos da competição; como as
)
de maneiras substancialmente diferentes das de qualquer outro novas formas de apropriação criaram novas compulsoes; e como es-
camponés próspero em toda a histOria escrita, por que os fazendei- sas compulsoes condicionaram a diferenciaçao - e, em grande me-
ros ingleses nao se assemeiharam aos kulaks russos ou, a rigor, aos dida, a desapropriaçao - do campesinato. Isso aconteceu tanto
) grandes arrendatários rurais da Franca na mesma época. Essa dife- pelas pressoes puramente econômicas da cornpetição quanto pela
) rença e as razOes dela foram precisamente o que Brenner procurou coerção mais direta, por parte de grandes proprietários que tinham
explicar. urn novo tipo de interesse econômico em posses amplas e concen-
Brenner não pressupOe que a classe dominante inglesa poderia tradas. 0 proletariado de massa foi ofim e não o corneço desse pro-
) simplesmente ter expropriado os pequenos fazendeiros pela força cesso. Nao e demais ressaltar o quanto, para Brenner, a dependência
) bruta, nem que o teria feito, mesmo que pudesse, na ausência das con- dos agentes econôrnicos em relaçao ao mercado foi uma causa e nao
) diçoes econômicas sumamente especIficas que tornaram a desapro- urn resultado da proletarizaçao.
priaçao dos pequenos produtores nao apenas possIvel, mas lucrativa. 0 ponto forte da tese de Brenner e que ela enfatiza a especificida-
A explicaçao de Brenner sobre a diferenciaçao do campesinato inglés de do processo histórico que deu vida ao capitalismo, corn sua nova
(a "ascensão do pequeno produtor mercantil"), que acabou levando a logica econômica historicamente especIfica, em urn esforço convin-
) polarizaçao entre fazendeiros capitalistas e trabaihadores não pro- cente de explicar como ele surgiu. Muitos historiadores afirmaram
) prietários, relaciona-se também corn a nova lógica econômica que estar explicando a transição do feudalismo Para o capitalismo. Mas,
) submeteu os fazendeiros ingleses aos imperativos da competiçao, em sob suas diversas formas, a maioria das tentativas de explicar esse
urna escala e de maneiras sem precedentes. Essa Iogica foi imp osta aos processo de transiçao tende a generalizar leis de movimento que são
fazendeiros, quer eles empregassem ou não trabaiho assalariado. Apli- especIftcas do capitalismo e a transformá-las em princIpios univer-
) cou-se ate mesmo nos casos em que o arrendatário, por si mesmo ou sais do movimento histórico. Mesmo quando tais tentativas reco-
) corn sua famiia, era o produtor direto. nhecem a particularidade do capitalismo como forma histórica
) Este é urn aspecto particularmente importante: Brenner deixa especIfica, o surgimento dessa forma histOrica ocorre por meio de
claro que os produtores diretos podiam ser privados do acesso não processos essencialmente capitalistas. Brenner é urn dos pouquIssi-
mercadologico aos meios de sua auto-reproduçao, mesmo quando mos autores que realmente discorrem sobre urn processo de transi-
permaneciam de posse dos meios de produção, e que essa situaçao çao, sobre a transformaçao de urn tipo de sociedade em outro, de urn
OS sujeitou as exigências do mercado. Para reiterar o contraste indis- conj unto de normas de reproduçao em outro, e ate de urna dinâmica
) pensável que vimos traçando aqui, os camponeses de outros lugares histórica em outra.
e épocas valeram-se das oportunidades do mercado, mas os fazendei-
ros ingleses distinguiram.-se por seu grau de sujeição aos imperativos
' Brenner e a "revoluçao burguesa"
do mercado.
) Brenner dispos-se a explicar como e por que isso se deu; como os Urna ültima crItica a Brenner e especialmente reveladora. Alguns
) produtores foram privados do acesso nao-mercadologico aos meios anos depois do debate original em torno de suas teses, Brenner pu-
de sua auto-reproduçao e ate a própria terra; como as formas senho- blicou Merchants and Revolution (1993), urn grande estudo dos pri-
riais de exploraçao foram transformadas, passando da extorsão mórdios da Jnglaterra moderna que levou em conta o papel dos
extra-econômica do excedente Para a apropriaçao de rendas capitalis- cornerciantes na Revoluçao Inglesa. Diversos crIticos agarraram-se
tas; como os latifundiários e os arrendatários foram obrigados e ha- prontarnente ao fato de Brenner ter atribuIdo urn importante papel

)
1)
- oz
I)
A origem do capitalismo E-uLelIlaLlvas I11UI2LISLS

)
revolucionárjo aos cornerciantes. Depois de haver insistido em que o tória e prejudicial a si mesma, uma vez que, por seus próprios pres-
)
capitalismo tinha nascido no campo, disseram eles, Brenner tivera supostos, "torna a revoluçao duplamente desnecessária":
•) que reconhecer a bhrguesia e a revoluçao burguesa, afinal.
) Entre os mais destacados expoentes dessa visão estava Perry Primeiro, nao ha realmente urna transiçao a ser feita: visto que o mode-
) Anderson. Havia, afirmou ele nurna resenha do livro, urn "profundo lo parte da sociedade burguesa das cidades, prevê sua evoluçao através
paradoxo" no trabaiho de Brenner, uma contradiçao fundamental de mecanismos burgueses e faz o feudalismo transcender a si mesmo
) em consequência de sua exposiçao ao comércio, o problema de como
entre sua tese original sobre a origem do capitalismo e seu trabaiho
) posterior sobre os comerciantes: urn tipo de sociedade se transformou no outro é simplesmente presu-
mido e nunca enunciado. Segundo, ja que a sociedade burguesa se de-
senvolve sozinha e dissolve o feudalismo, dificilmente a revoluçao
La estavam, enfim, os burgueses revolucjonárjos A espécje que fora burguesa poderia reivindicar urn papel necessário.7
declarada uma ficçao na Franca era bel et bien uma
realidade na Ingla-
terra, cern anos antes da Convençao. Ha uma bela ironia em que tenha Depois de afirmar que a tese da revoluçao burguesa, corno o an-
sido a comprovaçao histórica maciça, contrarjando - e não corrobo- tigo modelo mercantil, presumia justamente aquio que precisava
rando uma convicçao teórica, que levou urn estudioso rnarxista a ser explicado, ao atribuir a burguesia uma racionalidade capitalista
essa conclusão. 0 detrator da importâncja
do capital mercantil como que so precisava ser libertada do jugo do feudalismo, Brenner abriu
princIpio foi o primeiro a estabelecer, corn detaihes convincentes, seu
papel de demiurgo na prática.5 caminho para uma reavaliaçao completa da burguesia e de seu papel
na ascensão do capitalismo. São esses os antecedentes de sua descri-
ção dos cornerciantes londrinos e, especialmente, do longo
) Brenner, convém dizer antes de mais nada, não adrnitju nada pOs-d'scrito do livro. A acusaçao de que ele solapou sua própria tese
) que se assemeihe a isso. Mas, para compreender a importâncja de original simplesmente reproduz a logica circular e paralogIstica que
sua argurnentaçao, precisamos situá-la no contexto de suas idéias essa tese se destinou a corrigir.
sobre a "revoluçao burguesa". Não ha düvida de que ele lançou urn Em parte alguma isso encontra meihor ilustraçao do que no
desaflo a
historiografia rnandsta convencional nesse aspecto, ao fa- "profundo paradoxo" apontado por Perry Anderson. Sua crItica,
) zer uma vigorosa sugestao de que a concepção de revoluçao burgue- podemos argumentar, incorre exatamente no mesmo paralogismo
sa dessa historiografia tinha rnuita coisa em comum corn o modelo do antigo modelo mercantil e nos chama a atençao para uma conse-
mercantil.
) • quência importantIssima desse modelo: a tendência permanente a
A concepçao tradicional da revoluçao burguesa, sustentou ele, fazer de "burgues" urn sinônimo de "capitalista".
pertence a uma fase do trabaiho de Marx que ainda decorria maciça- Podemos ter profunda convicção de que, digamos, a Revoluçao
mente do material ismo mecanjcjsta do Iluminjsrno do século Francesa foi inteirarnente burguesa, muito mais do que a inglesa,
XVIII,
) e contrasta nitidarnente corn a critica madura que Marx fez a
econo- alias, sem por isso chegarmos urn milImetro mais perto de determi-
) mia polItica.6 Na teoria inicial, as forças produtivas desenvolvemse
nar se ela tambérn foi capitalista. Desde que aceitemos que não ha
quase naturalmente através da divisão do trabaiho, que, por sua vez, uma identificaçao necessária entre burguês (ou habitante dos bur-
evolui em resposta aos mercados em expansao, de sorte que a pree- gos, ou cidade) e capitalista, o burguês revolucionário pode ficar
xistência do capitalismo é invocada para explicar seu surgimento. A longe de ser uma ficçao, mesmo - ou especialmente - na Franca,
) concepçao tradicional da revoluçao burguesa como explicaçao da onde o revolucionário burguês modelo não era capitalista nern tam-
—) transicao para o capitalismo e,
portanto, intrjnsecarnente contradj- pouco cornerciante a moda antiga, mas advogado ou funcionário
)
)
J
64 A origem do capitalismo

)
publico. Ao mesmo tempo, se o burgues revolucionário da Inglater- das cidades e mercados no desenvolvimento do capitalismo, explica
ra esteve inexoravelmente ligado ao capitalismo, foi precisamente o contexto em que a própria natureza do comércio e dos mercados
) porquejá se haviam estabelecido relaçoes sociais capitalistas de pro- foi transformada, adquirindo urn papel econômico inteiramente
) priedade no interior do pals. novo e uma nova lógica sistêmica. Isso aconteceu muito antes da in-
) Existe, e ciaro, muita coisa que Brenner não faz. Urn aspecto de dustrializaçao e foi uma precondicao dela. Os imperativos de merca-
particular importância que exige investigaçao é que, embora o mode- do, em outras palavras, impuserarn-se aos produtores diretos antes
lo mercantil possa apresentar faihas fatais, isso nao altera o fato de que da proletarizacäo em massa da força de trabaiho. Foram urn fator
o capitalismo surgiu numa rede de comércio internacional e nao po- decisivo na criaçao de urn proletariado de rnassa, ja que as forças de
) deria ter despontado sem cia. Portanto, ainda resta muito a dizer so- mercado, respaldadas peia coerçao direta, sob a forma da interven-
) bre como a inserção particular da Inglaterra no sistema internacional ção politica e jurIdica, criaram uma maioria não proprietária.
de comércio determinou o desenvolvimento do capitalismo inglês. 0 rnodo como se estabeleceram os imperativos do mercado, no
Pode-se argumentar que a Inglaterra transformou a natureza do co- perlodo que conduziu a industrializaçao, foi descrito de maneira su-
'
rnércio, ao criar urn mercado nacional caracteristico - a rigor, o pri- mamente vIvida por E.P. Thompson. Em sua obra, o desenvolvi-
) meiro mercado nacional (centrado em Londres) e, talvez, o prirneiro mento do capitalismo ganha vida não apenas como urn processo de
) mercado realmente competitivo. Ainda resta muito a aprender sobre proletarizaçao, particularmente em sen clássico Aformacao da classe
) a rnaneira como isso afetou a natureza do cornércio internacional. trabaihadora inglesa (1963), mas também como urn confronto vivo
Outra grande questao é o sistema estatal europeu e sua contri- entre os princlpios do mercado e as práticas e valores alternativos. A
buiçao para o desenvolvimento do capitalismo ingles. Juntos, o sis- implantaçao da "sociedade de mercado" surge como uma confron-
tema de comércio e o sistema estatal funcionaram como o conduto taçao efltre as classes, entre aqueles cujos interesses expressavarn-se
) peio qual a Inglaterra acabou conseguindo transmitir suas pressoës na nova econornia poiltica do mercado e aqueles que a contestavarn,
) competitivas para outros Estados e economias, de modo que naçOes colocando o direito a subsistência acima dos imperativos do lucro.
não capitalistas puderarn tornar-se motores do desenvolvimento ca- Na parte central de Aformaçao da classe trabaihadora inglesa, in-
)
pitalista, ern resposta a essas pressoes externas.8 Ainda mal começa- titulada "Exploração", Thompson resume o que sao, para dc, os
mos a investigar os mecanismos pelos quais o capitalismo impôs momentos axiais do surgimento do capitalismo industrial. Dois as-
) seus imperativos a outros palses europeus e, eventualmente, ao pectos correlatos destacarn-se em sua análise. 0 primeiro é a época
) rnundo inteiro. Isso também desempenharia importante papel na do impuiso transforrnador, a formação de uma nova classe trabaiha-
) explicaçao de como o capitalismo transformou as formas tradicio- dora. Thompson situa a experiência transformadora da classe traba-
nais de colonialismo numa nova forma capitalista de imperialismo. ihadora inglesa, o processo ern que foram forjados urn novo
Entre outras coisas, a explicaçao sistemática dessas questoes históri- proletariado e uma nova cultura da classe trabaihadora, no perlodo
cas poderia ser de grande ajuda para lidarmos corn o chamado pro- de 1790-1832. Sua análise, portanto, termina muito antes de a trans-
cesso de globalizaçao atual. formaçao industrial da produçao estar conclulda, ou sequer muito
avançada. 0 segundo aspecto, correlato a esse, e que dc discerne
) E.P. Thompson uma transforrnaçao no que parece ser uma continuidade fundamen-
tal: ate os trabaihadores que, a primeira vista, rnal parecem diferir de
A tese de Brenner, ao mostrar como os produtores diretos ficaram seus predecessores artesanais, e cuja cultura de oposição ainda tern
I sujeitos aos imperativos do mercado, ainda que não explique o papel raizes profundas nas antigas tradiçoes pré-industriais populares e

)
)
66 A origem do capitalismo -v
)
radicais, sao, para Thompson, uma "nova raça de seres", urn novo nao. 0 impulso sistemático de revolucionar as forças de produçao
tipo de proletariado. foi mais resultado do que causa.
Alguns crIticos marxistas de Thompson interpretaram esses tra- A explicaçao thompsoniana da industrialização fundamenta-se
ços marcantes como uma prova da preocupaçao desse autor corn os na mesma percepção. Seu propósito e investigar as consequências
) fatores culturais '<subjetivos", em detrirnento das mudanças "objeti- dos modos de exploraçao especificamente capitalistas. Entre essas
) vas" no modo de produçao em si, particularmente os efeitos trans- consequências, no periodo de transiçao para o capitalismo indus-
formadores da mudança tecnologica na organizaçao da produçao e trial, estiveram a intensificaçao da mão-de-obra e da disciplina do
)
na natureza da força de trabalho.9 Contudo, tambérn nesse caso, os trabaiho. 0 que criou o impulso de intensificar a exploraçao não foi
crIticosmarxistas talvez estejam fazendo concessöes em demasia as o surgimento das máquinas a vapor ou do sistema fabril, mas a ne-
versöes históricas padronizadas do desenvolvimento capitalista. - cessidade intrInseca das relaçOes de propriedade capitalistas de au-
) Entre historiadores de diversas convicçöes ideologicas, tem havido mentar a produtividade e o lucro. Esses imperativos capitalistas
) uma tendência a atribuir as causas da "Revoluçao Industrial" - impuseram-se tanto as formas tradicionais de trabatho quanto a
quando chegam a aceitar a idéia de uma revoluçao industrial -a suas novas formas, tanto aos artesãos ainda engajados na produçao
) pré-industrial quanto aos operários das fábricas. "0 trabalho braçal
inovaçOes ou avanços técnicos no comércio e nas relaçOes de merca-
do. Thompson, em contraste, assim como Brenner depois dele, faz suado, em larga escala", afirmou Thompson, "foi tao inerente a essa
algo muito mais sutil e complexo -seguindo, como podemos argu- revoluçao quanto a produçao fabril e as máquinas a vapor."0 A ex-
) mentar, os princIpios (ainda que nem sempre a prática) do próprio perléncia comum dos imperativos capitalistas e da exploraçao capi-
talista foi o que permitlu a diversos tipos de trabalhadores unirem-se
) Marx. Apesar de todas as muitas diferenças de estio e temática entre
em organizaçoes de classe e criarem urn novo tipo de cultura da clas-
Brenner e Thompson, e possivel imaginar uma explicaçao da indus-
se trabalhadora. Sem dUvida, esses imperativos estavam fadados a
triazaçao
h pautada na contestaçao brenneriana das ideias conven-
transformar a organizaçao da produçao e a natureza da classe traba-
cionais sobre o desenvolvimento capitasta, h que teria muito mais
) Ihadora, mas o sistema fabril fat mais resultado do que causa.
em comum com a versao historica de Thompson do que corn qual-
Nesse ponto, Thompson adota a distinçao estabelecida por
Marx entre a subordinaçao "formal" e a subordinaçao "real" do tra-
) Brenner, como os leitores estaräo lembrados, procurou explicar
baiho pelo capital. No primeiro caso, o capital apropriou-se do tra-
) o surgimento de novas "regras de reproduçao". Mostrou que a dma- baiho excedente de trabaihadores ainda comprometidos corn as
mica do crescirnento auto-sustentado e a necessidade constante de formas tradicionais de produçao Essa forma de exploração fat mo-
aumento da produtividade do trabaiho pressupuseram transforma- vida por imperativos capitalistas, os imperativos da competiçao e da
çOes das relaçoes de propriedade que criaram a necessidade desse acumulaçao, mas, a principlo, esses imperativos não transformaram
aumento, simplesmente para permitir que Os principais agentes eco- o processo tecnico de produçao Talvez prefiramos dizer que o cap!-
) nômicos -os grandes proprietários e os camponeses -se reprodu- :- talismo so atingiu a maturidade depois que o capital transformou
) zissem As diferenças entre a Inglaterra e a Franca, por exemplo, especificamente o proprio processo de trabaiho para atender as ne-
tiverarn pouco a ver, em primeiro lugar, corn quaisquer diferenças cessidades do capital -isto e, depois que o capitalismo assumiu sua
em suas respectivas capacidades tecnologicas Esses paises se distin- forma industrial Ainda assim, entretanto, podernos reconhecer que
guiram pela natureza das relaçoes entre latifundiarios e camp oneses o capitalismo industrial foi resultado e não causa das leis de movi-
urn caso exigiu urn aumento da produtividade do trabaiho, o outro, mento capitalistas

)
-
Ilk urigciii uo capitaiisino Alternativas marxistas 69

)
Portanto, a resposta Para aqueles que, como Perry Anderson, in- ye!". 0 mercado corn que as pessoas estavam mais famiiarizadas era
dagaram-se por que Thompson, depois de Aformaçao da classe traba- urn lugar fIsico, onde elas punham em oferta mercadorias a serem
ihadora inglesa, recuou Para o século XVI11 -em vez de ir para diante, compradas por outras pessoas, de acordo corn princIpios que, ate
) Para alérn da década de 1830, a fim de dar uma explicaçao mais corn- certo ponto, cram regidos pelos costumes, pela regulaçao comunitá-
) pleta da industrializaçao -e que dc estava tentando exphcar a cria- na c pelas expectativas referentes ao direito a subsistencia Nesse
) çao do capitalismo como forma social, e não urn processo técnico ] momento, dc estava se transforrnando em urn rnecanisrno que esca
neutro charnado industrializaçao. Thompson estava particularrnente pava ao controle cornunal, a rnedida que a transparência das transa-
interessado no século xviii, como o momento em que a transforma- çoes de mercado ia sendo superada pelos misténios de urn mercado
çao capitalista das relaçoes de propniedade vinha se consolidando e se "auto-regulado", do rnecanismo de preços e da subordinaçao de to-
) desdobrando na articulaçao de uma nova ideologia capitalista, mais dos os valores cornunitários aos irnperativos do lucro.
) consciente e explIcita do que em qualquer época anterior. Esse foi Thompson também rnostra como a nova ideologia da economia
tarnbém o momento em que os novos priricIpios econômicos ainda polItica, que inclula as novas concepçOes de propriedade e a ética do
não haviam assumido plena forma conic, uma ideologia hegernonica lucro, foi cada vez mais imposta pela repressão estatal. Os tribunais
-a economia polItica do mercado -que logo se infiltraria ate em -1 punham o direito de o proprietánio lucrar corn o aumento da produ-
) parte da oposiçao mais radical ao capitalismo tividade acirna dos outros tipos de direito, tais como o direito con-
Thompson sugeriu que, na Inglaterra setecentista, o mercado suetudinário de uso de que os não proprietánios haviarn desfrutado
foi, na verdade, o principal carnpo de bataiha. E o foi por razöes muito I durante muito tempo, ou o direito a subsistência. E as autoridades
especIficas desse momento transitório da histónia inglesa. Por urn páblicas reagiam corn mais violência, especialmente na esteira da
) lado, tratou-se de urn momento de rnao-de-obra livre, no sujeita a Revolüçao Francesa, aos protestos contra os preços injustos e as prá-
) formas de dominaçao extra-econôrnicas pré-capitalistas, e ainda ticas de mercado. A coerção do estado, em outras palavras, foi neces-
) nao sujeita, em geral, as novas disciphnas da fabrica, de modo que, saria Para impor a cocrção do mercado
) por urn breve periodo, as pessoas continuararn a controlar ICsuas re-
laçOes e modalidades de trabaiho imediatas". Por outro lado, "elas Resumindo
detinham pouquIssimo controle do mercado Para seus produtos ou
) dos preços.da maténia-prima ou dos alimentos". Por essa razão os Ate aqui, a tese deste livro tern sido que o principal problema das
protestos sociais cram frequenternente dirigidos contra o mercado. versoes histónicas mais padronizadas do capitalismo começam -ou
) As pessoas -amiude as muiheres -opunham.-se não apenas ao terminam -em conceitos que obscurecem a especificidade do capi-
que encaravam como preços injustos, mas como praticas de mci-ca- talismo Precisarnos de uma forma de histonia que de rntido relevo a
do ilegItimas e irnorais: práticas destinadas a aurnentar os lucros, as - essa especificidade, que reconheça a diferença entre a aufcniçao co-
quals, do ponto de vista da sociedade de mercado e da racionalidade I mercial do lucro e a acurnulaçäo capitalista, entre o mercado como
-) capitalista, parecern perfeitamente normais hoje em dia, rnas que I- opontunidade e o mercado como imperativo, e entre os processos
) violavam algurnas expectativas costumeiras sobre os direitos de I transistonicos de desenvolvimento tecnologico e o impulso capitalis-
) accsso aos meios de subsistencia" J ta especifico Para aumentar a produtividade do trabalho Precisa-
mos fazer essas especificidades do capitalismo rernontarem a suas
- Em alguns desses protestos, podemos ver também a oposiçao a
uma transformaçao do mercado que o estava fazendo passar de ins- raIzes nas forrnas de propniedade e nas relaçoes de classes. Scm duvi-
tituiçao visivel e mais ou menos transparente Para uma "mao invisi- da, a maior parte dos marxistas dma estar fazendo todas essas coisas,

)
A origem do capitalismo Alternativas marxistas 71
70

)
ou a maioria delas, mas procurei demonstrar que, corn pouquIssi- A prirneira vista, muita coisa aconteceu no saber histórico desde
rnas exceçOes, suas versOes da história não procedem coerentemente que surgiu o modelo mercantil. Algurnas das convençöes mais soli-
/ corn base nisso, e a conseqUência é que a especificidade do capitalis- damente estabelecidas da historiografia ocidental foram contestadas
mo continua mascarada. e, aparenternente, subvertidas em suas bases - não apenas pelos
) Vale a pena acrescentar que os pressupostos do antigo modelo rnarxistas, rnas por urn ou outro tipo de historiador "revisionista",
mercantil, corn seu caráter paralogIstico, podern aparecer nos lugares pós-modernista e outros iconoclastas. No entanto, uma rnedida de
)
mais improváveis. Por exemplo, os criticos que acusam os historiado- quao profundamente arraigadas são as antigas explicaçOes paralo-
res - e, corn frequência, os rnarxistas ocidentais, em particular - de gIsticas do capitalismo e o fato de elas ainda continuarem presentes
serem "eurocêntricos" podem, paradoxairnente, estar reproduzindo nos estudos mais correntes - por exemplo, nas atuais concepçoes
o próprio pressuposto que faz do modelo mercantil o mais eurocên- da modernidade e da pós-modernidade - e em nossa linguagem
trico de todos. Esse modelo, ademais, baseou-se na premissa de que a cotidiana convencional, que continua a identificar capitalista corn
)
Europa merece crédito por haver derrubado as barreiras ao desenvol- burguês e a identificar arnbos corn a modernidacie.
vimento natural do capitalismo, permitindo-ihe desenvolver-se ate
sua maturidade, a partir de suas origens na sociedade urbana e no co-
) rnércio. Pelo rnenos algurnas teses antieurocêntricas agern contestan-
) do a primazia européia dessa realizaçao. Mas e dificil perceber a
vantagem de afirrnar que algumas sociedades nao-européias, corn ci-
viizaçOes urbanas e sisternas de comércio mais altamente desenvolvi-
dos, tinham avançado mais na trajetória do desenvolvimento
capitalista do que e admitido pelas versOes eurocêntricas do modelo.
) Essa parece ser uma contestaçao peculiarmente ineficaz do antigo
) modelo e de sua forma de conferir ao capitalismo urn caráter natural,
) aceitando a própria premissa básica desse modelo. Mais particular-
rnente, esses argurnentos tendem a reforçar a visão profundamente
eurocéntrica de que a ausência do capitalismo é, de algurn rnodo, uma
faiha histórica (linha de pensamento que é especialmente contrapro-
) ducente para os crIticos do capitalismo).
) Uma crItica antieurocêntrica mais provocadora diz respeito ao
desprezo, por parte de muitos historiadores ocidentais, do papel de-
) sempenhado pelo imperialismo europeu no desenvolvimento do ca-
pitalismo. Mas esse argumento so pode ser realrnente eficaz se levar
) ern conta as condiçOes muito especIficas em que as formas tradicio-
) nais de colonialismo foram transformadas em irnperialismo capita-
lista. E isso significa reconhecer as condiçOes muito especIficas em
que, em primeiro lugar, as relaçoes sociais de propriedade assumi-
ram uma forma capitalista.
PARTE II

A origem do capitalismo
CcipItulo 4

A origem agrária do capitalismo

A emergéncia do capitalismo certamente pressupôs o feudalismo


ocidental, para no falar do desenvolvimento de algumas formas de
propriedade da Antiguidade greco-romana.' Mas, uma coisa é dizer
que o feudalismo europeu foi urna condiçao necessária do surgimen-
to do capitalismo (o que, alias, outros fatores também forarn) como
a existência de urna rede de cornércio que incluIa urn mundo muito
além da Europa Ocidental), e outra bern diversa é dizer que ele foi
suficiente. 0 feudalismo na Europa, mesmo na Europa Ocidental,
era internamente variado e produziu diversos resultados diferentes,
apenas urn dos quais foi o capitalismo. Não se trata apenas de Indices
diferentes de "desenvolvimento conjunto e desigual", ou mesmo de
fases transicionais diferentes. As cidades-estados autônomas que
emergiram na Itália renascentista, por exemplo, ou o Estado absolu-
tista na Franca, foram forrnaçOes distintas, cada qua] corn sua logica
interna de funcionamento, que nao precisariam ter dado origem ao
capitalismo. Nos casos em que elas desembocaram no capitalismo,
isso se deu somente ao entrarem na órbita de urn sistema capitalista
já existente e das pressOes competitivas que ele conseguiu impor a
seus rwais politicos, rnthtares ou cornerciais Depois desse mornen-
to, nenhurna entrada na economia capitalista pode ser igual as ante-
riores, ja que todas ficaram sujeitas a urn sistema capitalista rnaior e
2
cada vez rnais internacional
A tendencia a presurnir que o capitalismo foi urn produto inevi-
tavel do feudalismo europeu, ainda que antagornco a ele, enraiza-se,
como vimos, na convicção de que as cidades autonornas que cresce-
ram nos intersticios das "soberanias fracionadas" do feudalismo fo-

75
) 76 A origem do capitalismo A origem agrária do capitalismo 1/

)
ram não apenas o inirnigo natural que viria a destruir o sistema vimos, costuma ser acompanhada por uma inclinaçäo a faze-lo pa-
feudal, mas a semente dentro dde que dana vida ao capitalismo. recer uma conseqftência mais ou menos autornática de práticas tao
Desligarmo-nos dessa pressuposiçao implica, em primeiro lugar, Se- antigas quanto a história humana, ou ate conseqUência de uma inch-
) pararmos cap italista de burgues e capitalismo de cidade. naçao "natural", nas palavras de Adam Smith, a "cornerciar, permu-
tar e trocar".
Capitalismo agrário Talvez o corretivo mais salutar desses pressupostos e de suas im-
plicaçOes ideologicas seja o reconhecimento de que o capitalismo,
A associaçao do capitalismo corn as cidades e uma das convençoes corn todos os SUS impulsos surnamente especIficos de acurnulaçao e
mais firmernente estabelecidas na cultura ocidental. Süpöe-se que o maximizaçao do lucro, näo nasceu na cidade, mas no campo, num
) capitalismo tenha nascido e se criado na cidade. Mais do que isso, en- lugar muito especIfico e em épOca muito recente da história huma-
) tretanto, a implicaçao é que qualquer cidade - corn suas práticas ca- na. Näo precisou de uma simples extensão ou expansão do escambo
) racterIstjcas de intercâmbjo e comércio - era, por sua própria e da troca, mas de uma transformaçao completa das relaçoes e práti-
natureza, capitalista desde sempre, e que somente obstáculos externos cas humanas mais fundamentais, de urn rompimento corn antiquIs-
impediram que qualquer civiizaçao urbana desse origem ao capitalis- sirnos padroes de interação humana corn a natureza.
mo. SO a religiao errada, o tipo errado de Estado ou outros grilhoes Durante milênios, os seres humanos proveram suas necessida-
) ideologicos, politicos ou culturais, que atavam as mãos das classes ur- des materiais trabaihando a terra. E, provavelmente por quase tanto
) banas, e que impediram o capitalismo de emergir em todo e qualquer tempo quanto se dedicaram a agricultura, dividiram-se em classes,
lugar, desde tempos irnemorjajs - ou, pelo menos, desde que a tec- entre os que trabaihavam a terra e os que se apropriavam do trabaiho
nologia permitiu a produçao de excedentes suficientes. alheio.'Essa divisão entre apropriadores e produtores assumiu mui-
Segundo essa visão, o que explica o desenvolvimento do capitalis- tas formas, porém uma caracteristica comum foi que, tipicamente,
mono Ocidente é a autonomia singular de suas cidades e de sua classe os produtores diretos eram camponeses. Esses camponeses produ-
) quintessencial - os burgueses. Em outras palavras, o capitalismo sur- tores permaneciam de posse dos meios de produçao, particularmen-
) giu no Ocidente menos pelo que estava presente do que pelo que esta- te da terra. Como em todas as sociedades pré-capitahistas, esses
va ausente: o cerceamento das práticas econOmicas urbanas. Nessas produtores tinham acesso direto aos meios de sua reproduçao. Sig-
condiçoes, foi preciso apenas que houvesse uma expansao mais ou nifica que, quando seu trabaiho excedente era apropriado por explo-
menos natural do comércio para desencadear o desenvolvimento do radores, isso era feito através do que Marx chamou de meios
) capitalismo ate sua plena maturidade. So se precisou de urn cresci- "extra-econômicos" - ou seja, através da coerção direta, exercida
) mento quantitativo, que ocorreu, como seria quase inevitável, corn o por grandes propnietários ou Estados que empregavam sua força su-
passar do tempo (em algumas versOes, é claro, ajudado, mas nao on- perior, seu acesso privilegiado ao poder mihitar, juridico e politico.
ginalmente causado, pela "ética protestante"). Essa e, portanto, a diferença basica entre todas as sociedades
Ha muitas coisas questionaveis nessas suposiçoes sobre a ligaçao pré-capitalistas e o capitalismo. Ela nada tern a ver corn o fato de a
.) natural entre as cidades e o capitalismo, porém a que mais se destaca produçao ser urbana ou rural, e tern tudo aver corn as relaçoes parti-
) entre elas deve ser a tendência a dar ao capitalismo uma feiço natu- culares de propriedade entre produtores e apropriadores, seja na in-
ral, a disfarçar sua singularidade como forma social historicamente düstnia, seja na agricultuna. Sornente no capitalismo e que o modo
especifica, que teve urn corneço e tern potencialmente urn fim. A de apropnlaçao dornrnante baseia-se na desapropriaçao dos produ-
ten&ncia a identificá-Jo corn as cidades e o cornércjo urbano, como tores diretos legalmente hivres, cujo trabalho excedente é apropniado

) I{LI0
tJPOP
) 78 A origem do capitalismo A origem agraria ao capitaiisrno 17

) por meios puramente "econôrnicos". Como os produtores diretos, temente seus imperativos a novos territórios e novas esferas da vida, a
no capitalismo plenarnente desenvolvido, são desprovidos de pro- todos os seres humanos e ao meio arnbiente natural.
- priedade, e como seu ünico acesso aos meios de produçao, aos re- Quando reconhecemos quao distintivas são essas relaçoes e pro-
quisitos de sua própria reproduçao e ate aos meios de seu próprio cessos sociais, quao diferentes são das formas sociais que domina-
) trabaiho é a venda de sua cap acidade de trabaiho em troca de urn sa- ram a maior parte da história humana, torna-se claro que e preciso
) lário, os capitalistas podem apropriar-se do trabaiho excedente dos mais, para explicar o surgimento dessa forma social caracterIstica,
) trabaihadores sem uma coaçao direta. do que o pressuposto paralogIstico de que ela sempre existiu sob for-
Essa relação singular entre produtores eapropriadores é media- ma embrionária, precisando apenas ser libertada dos cerceamentos
da, obviamente, pelo "mercado". Houve vários tipos de mercado ao não naturais. A questão de sua origern pode ser assim formulada:
-) longo de toda a história escrita da humanidade, e sem düvida antes dado que os produtores foram explorados pelos apropriadores du-
dela, ja que as pessoas trocam e vendem seus excedentes de muitas rante milênios, de maneiras nao capitalistas, antes do advento do ca-
maneiras diferentes e para vários fins diferentes. No capitalismo, en- pitalismo, e dado que os rnercados também existirarn "desde tempos
tretanto, o mercado tern uma funçao distintiva e sem precedentes. imemoriais" e em quase toda parte, como foi que produtores e apro-
Praticamente tudo, nurna sociedade capitalista, e mercadoria pro- priadores, assirn como as relaçOes entre eles, passaram a ser tao de-
duzida para o mercado. E, o que e ainda mais fundamental, o capital pendentes do mercado?
) e o trabaiho são profundamente dependentes do mercado para ob- Ora, e óbvio que os longos e complexos processos históricos que
) ter as condiçoes mais elementares de sua reproduçao. Assim como acabaram levando a essa situação de dependência do mercado pode-
)
Os trabaihadores dependern do mercado para vender sua mão-de- riam ser indefinidamente recuados no tempo ate suas origens. Mas
obra como mercadoria, os capitalistas dependem dele para comprar podeihos tornar a questão mais fdcil de manejar, identificando a pri-
a força de trabaiho e os meios de produçao, bern como para realizar meira época e lugar em que uma nova dinâmica social de dependén-
seus lucros, vendendo os produtos ou serviços produzidos pelos tra- cia do mercado foi claramente discernIvel.
) baihadores. Essa dependéncia do mercado confere a este urn papel Mesmo depois do século XVII, a major parte do mundo, inclusi-
sem precedentes nas sociedades capitalistas, não apenas como urn ve a Europa, estava livre dos imperativos de mercado que aqui resu-
simples mecanismo de troca ou distribuição, rnas como o determi- mimos. Por certo existia urn vasto sistema de cornércio, que se
nante e regulador principal da reprodução social. A emergência do estendia por todo o globo. Mas em parte alguma, nern nos grandes
mercado como determinante da reprodução social pressupôs sua centros de cornércio da Europa nem nas vastas redes comerciais do
penetração na produçao da necessidade mais básica da vida: o au- mundo islâmico ou da Asia, a atividade econômica e a produção, em
mento. particular, exam guiadas pelos imperativos da competição e da acu-
Esse sisterna singular de dependência do mercado acarreta requi- mulação. 0 princIpio dominante do comércio, em toda parte, era
cc
sitos e compulsoes sistmicos especIficos, que não são compartilhados comprar barato e vender caro".
-, por nenhurn outro modo de produção: os imperativos da competi- 0 cornércio internacional era, essencialmente, urn comércio de
) ção, da acurnulação e da rnaximizaçao do lucro. E esses imperativos, transporte, no qual os mercadores compravam produtos num local
) por sua vez, significam que o capitalismo pode e tern que se expandir para vendê-los corn lucro em outro. Contudo, mesmo num iinico rei-
) constanternente, de maneiras e em graus que não se parecem corn Os no europeu poderoso e relativamente unificado, como a Franca,
de nenhuma outra forma social. Ele pode e tern que acumular cons- prevaleciam basicamente os mesmos princIpios do cornércio não-ca-
tanternente, buscar constantemente novos mercados, impor constan- pitalista. Não havia um mercado ünico e unificado, urn mercado em

)
CU n u115c111 uU A origem agrária do capitalismo 31
)

)
que as pessoas auferissem lucros não por comprarem barato e vende- comercial, como Florença, desenvolvia uma produçao interna, so-
rem caro, não por transportarem mercadorias de urn mercado para mada a seu papel de servir a atividade mercantil externa, a lógica bá-
outro, mas por produzirern por urn custo mais eficiente, ern concor- sica das transaçOes econôrnicas nao era essencialmente diferente.
) rência direta corn outras pessoas no mesmo rnercado. Continuava a se tratar de uma produçao restrita para urn mercado
) 0 cornércio ainda tendia a ser de mercadorias de luxo, ou, pelo suntuário e de uma reciclagern da riqueza, ou "lucro sobre a aliena-
menos, de mercadorias destinadas as farnulias mais prOsperas, ou ção", no processo de circulaçao, e näo na criaçao de valor na produ-
que atendessern as necessidades e aos padrOes de consurno das clas- çao e de apropriação da mais-valia, a maneira capitalista.
ses dominantes. Não havia urn mercado de massa para produtos de Esses princIpios nao-capitalistas de comércio coexistiarn corn
) consumo baratos e cotidianos. Tipicamente, os produtores campo- formas de exploraçao nao-capitalistas. Por exemplo, na Europa Oci-
neses produziam não apenas seus alimentos, mas outros produtos dental, mesmo nos lugares em que a servidão feudal havia de fato
do cotidiano, como o vestuário. Podiam levar seu excedente para os desaparecido, outras formas de exploraçao "extra-econômica" conti-
mercados locais, onde a renda obtida era trocada por outras merca- nuavam a prevalecer. Na Franca do século xviii, por exemplo, onde
)
dorias. Os produtos agrIcolas podiarn ate ser vendidos em mercados os camponeses ainda constituIam a vasta maioria da populaçao e
mais distantes. Mas, tarnbém nesse caso, os princIpios do comércio continuavam a deter a posse da major parte da terra, os cargos no
eram basicamente idênticos aos dos produtos manufaturados. Estado central serviam de recurso econômico para muitos membros
) Neste ponto, os leitores poderao recordar a esciarecedora argu- das classes dominantes, como meio de extrair o trabalho excedente
mentaço de Karl Polanyi sobre o cornércio antes do advento da "so- dos produtores camponeses sob a forma de impostos. Ate os grandes
ciedade de mercado", sobre seu caráter fundamentalmente nao proprietários que se apropriavam da renda da terra dependiam, tipi-
competitivo. Mas, permitam-me esciarecer alguns pontos que talvez carrrente, de vários poderes e privilégios extra-econômicos para au-
nao fiquem inteiramente claros na exposiçao de Polanyi. Tomemos mentar sua riqueza.
) o exemplo do comércio de longa distância, a forma particular de ati- Portanto, os camponeses tinham acesso aos meios de produçao,
) vidade econômica que definiu os grandes centros comerciais que, a terra, sem terem que oferecer sua força de trabalho no mercado
segundo todas as versOes do modelo mercantil, teriarn sido os pre- como mercadoria. Os latifundiários e os detentores de cargos pübli-
cursores do capitalismo. Esse tipo de comércio assumia a forma de cos, corn a ajuda de vários poderes e privilégios "extra-econômicos",
uma "arbitragem comercial entre mercados separados".3 Cornprar extorquiam diretarnente o trabalho excedente dos camponeses sob a
) barato nurn mercado e vender caro em outro era o princIpio opera- forma de rendas ou impostos. Embora todo tipo de pessoas pudes-
) cional, e não a competiçao num ünico mercado integrado. Se havia sem comprar e vender toda sorte de coisas no mercado, nem os pro-
competiçao, ela não assumia a forma de uma produçao competitiva prietários camponeses que produziam, nem os latifundiários e os
)
e eficiente em termos de custos. Certas condiçoes essencialmente funcionários püblicos que se apropriavam da produçao alheia de-
" extra -econômicas", como a dominaçao dos mares e outras vias de pendiam diretamente do mercado para conseguir as condiçOes de
) transporte, ou instituiçOes financeiras e instrumentos de arbitragem sua auto-reproduçao, e as relaçoes entre eles não eram intermedia-
) altamente desenvolvidos, eram a chave da vantagem comercial. Esse das pelo mercado.
• tipo de comércio, predominantemente de artigOs de luxo para urn Mas houve uma grande exceção a essa regra geral. A Inglaterra,
mercado bastante restrito, não trazia em si mesmo o impulso de au- no século XVI, vinha se desenvolvendo em direçOes inteiramente no-
mentar a produtividade. A vocaçao principal do grande mercador vas. Embora houvesse outros Estados monárquicos relativamente
era a circulação, não a produçao. Mesmo quando urn grande centro fortes na Europa, mais ou menos unificados nurna monarquia,

)
75.11
- A origem agrátia do capitalismo
82 A origem do capitalismo

constitulda" no mesmo grau que seus equivalentes no continente


como a Espanha e a Franca, nenhum era tao efetivamente unificado
quanto a Inglaterra (e a ênfase aqui recai sobre a Inglaterra, e nao so- europeU.
bre outras partes das lihas Britânicas). No século XI, quando a classe Por
Por outro lado, havia o que se poderia chamar de uma troca en-
dominante normanda estabeleceu-se na ilha como uma entidade a centralização do poder estatal e o controle da terra pela aris-
miitar e polItica bastante coesa, a Inglaterra ja ficou mais unificada tocracia. Na Inglaterra, fazia muito tempo que a terra era incomu-
do que a maioria dos paIses. No século Xvi, ela avançou muito rumo mente concentrada, cabendo aos grandes proprietárioS uma parcela
a eliminaçao da fragmentaçao do Estado, da "soberania fracionada" também incomumente grande dela. Essa concentracãO da proprie-
herdada do feudalismo. Os poderes autOnomos detidos pelos senho- dade significava que os Iatifundiários ingleses podiam usar sua
res, pelas assembléias municipais e por outras entidades corporati- propriedade de novas maneiras. 0 que ihes faltava em poderes "ex-
vas de outras naçöes européias eram, na Inglaterra, cada vez mais tra-econômicOs" de extorsão do excedente era mais do que compen-
concentrados no Estado central. Isso contrastava corn outros paIses sado por seus crescentes poderes econômicOs.
europeus nos quais, durante muito tempo, monarquias poderosas Essa combinaçäo singular teve consequénCias significativas. Por
mantiverarn-se num convIvio incômodo corn outros poderes mii- urn lado, a concentracaO da propriedade inglesa dá terra significou
tares, sistemas jurIdicos fragmentados e privilegios corporativos que uma imensa extenso dela não era trabaihada por proprietáriOS
pós-feudais cujos detentores insistiam em sua autonomia contra o carnponeses, mas poarrendatári05 (alias, a palavra fazendeiro [far-
poder centralizador do Estado. mer] significa, literalmente, rendeiro - uso que é sugerido por ex-
Isso se deu
pressOes hoje conhecidas, como arrendar [farming out]).
A centralizaçao polItica singular do Estado ingles tinha bases e
corolários materiais. Já no século xvi, a Inglaterra dispunha de uma antes mesmo das ondas de desapropriacaO, especialmente dos sécu-
rede impressionante de estradas e transporte de água, que unificou a los xvi e xvii, convencionaimente assocjadas corn o cercamento, e
naçao nurn grau incomum na época. Londres, que se tornou despro- contrastou, por exemplo, corn a Franca, onde uma proporcaO major
porcionalmente grande em relaçao a outras cidades inglesas e a po- da terra permaneceu e permaneceria por muito tempo nas mãos dos
pulaçao total do pals (e, eventualmente, a major cidade da Europa), camponeSes.
também vinha se transformando no eixo de urn mercado nacional Por outro lado, os poderes extra- econômic05 relativamente re-
em desenvolvimento. duzidos dos grandes proprietáriOs significavam que eles dependiam
menos de sua capacidade de arrancar uma renda major de seus ar-
A base material ern que se fundamentava essa economia nacio-
rendatários, através de rneios coercitivos diretos, do que da produti-
nal ernergente era a agricultura inglesa, que se singularizava de di-
vidade destes. Nesse arranjo, os latifundiários tinharn urn forte
versas maneiras. Prirnejro, a classe dominante inglesa distinguia-se
incentivo para estimular - e, sempre que possIvel, obrigar - seus
por dois aspectos correlatos.4 Por urn lado, havendo-se desmilitari-
arrendatários a descobrirern meios de aumentar a produção. Nesse
zado antes de qualquer outra aristocracia da Europa, ela fazia parte
ndamentalmente diferentes dos aristocratas rentjs-
de urn Estado cada vez mais centralizado, em aliança corn uma mo- aspecto, eram fu
tas cuja riqueza, ao longo da história, dependeu da extorsãO do exce-
narquia centralizadora, sem a fragmentaçao da soberania que era ca-
dente dos camponeses por meio da simples coação, e que ampliavam
racterIstica do feudalismo e seus Estados sucessores. Embora o
seu poder de extorsäo do excedente não pelo aumento da produtivi-
Estado servisse a classe dominante como instrurnento da ordern e
dade dos produtores diretos, mas aprimorando seus próprios pode-
protetor da propriedade, a aristocracja nao detinha poderes "ex-
tra-econômjcos" autônomos nem uma "propriedade politicamente res coercitivos - miitares, juridicos e politicos.
A origem do capitalismo
A origem agrária do capitalismo 85

Quanto aos arrendatárjos eles ficaram cada vez mais sujeitos netárias variaram muito, de acordo corn as relaçoes de propriedade
näo so as
pressoes diretas dos grandes proprietárjos mas a imperati- entre os camponeses que produziam essas rendas e os latifundiários
vos de mercado que os obrigavam a aumentar a produtividade. Na que se apropriavam delas. Quando os poderes extra-econômicos
) Inglaterra, Os
arrendamentos assumjram várias formas e houve mui- dos senhores feudais continuavam sOlidos, os camponeses podiam
tas variacoes regionajs mas urn nürnero crescente ficou sujeito a ficar sujeitos as mesmas preSsoes coercitivas de antes, exercidas por
aluguejs pagos em dinheiro - alugueis fixados näo por padroes le- grandes proprietários que procuravam extorquir deles mais traba-
-) gais ou COflsuetudjnárjos mas pelas condiçoes do mercado. Havia, iho excedente, mesmo que este ja então assumisse a forma de renda
de fato, urn mercado de arrendamentos Os arrendatários eram monetária, em vez de serviços prestados sob a forma de trabalho. Em
) obrigados a competir nao
so no mercado de consumidores, mas
) tamb6rn num mercado de acesso a terra. Quando lugares como a Franca, onde o controle da propriedade pelo campe-
a segurança do ar- sinato era suficientemente forte para resistir a essas pressOes cres-
rendamento dependja da capacidade de pagar o aluguel vigente, a
produçao flo centes dos grandes proprietáros, a renda era comumente fixada por
) competitiva podia significar a perda direta da terra. uma taxa nominal. Sern di'ivida, seria precisamente num caso como
Para fazer frente aos pagamentos rnonetários, numa situaçao em esse - em que os camponeses gozavam de direitos seguros de pro-
)
que outros arrendatárjos potencjajs competiam pelos mesmos
) priedade e estavam sujeitos näo apenas ao pagarnento de uma renda
rendamentos, os arrendatárjos eram obrigados a produzir por urn
fixa, mas modesta - que poderiamos esperar, com base nos pressu-
custo eficiente, sob pena de serem desapropriados. 0 efeito do siste-
postos de Merrington, encontrar urn estImulo a produçao mercantil
ma de relacoes de propriedade foi que muitos produtores agrIcolas
(inclusive Os que acabasse dando origem ao capitalismo. Mas o efeito foi exata-
) prósperos "fazendeiros") tornaram-se dependentes do rnenteo inverso. Os dados resumidos por Brenner sugerem que näo
Mercado Para obter acesso a
própria terra, aos meios de produçao. foi esse tipo de pagamento de uma renda fixa que estirnulou o cresci-
0 desenvolvimento dessas rendas monetárias ilustra a diferença
) mento da produçao mercantil. Ao contrário, foi a renda nao fixa e
entre omercado como oportunjdade e o mercado como imperativo.
variável, que atendia aos imperativos do mercado, que estirnulou, na
Expoe também as deficjêncjas das descriçoes do desenvolvimento Inglaterra, o desenvolvimento da produçao mercantil, o aurnento da
) capjtaljsta baseadas nos pressupostos cOflVeflCionais. A maneira
produtividade e o crescimento econômico auto-sustentado. Na
come esses pressupostos determinaram as percepçoes dos fatos é
) Franca, precisamente porque era tIpico os camponeses gozarem da
bern ilustrada num importante artigo do debate sobre a transiçao,
) posse da terra por uma renda fixa e nominal, esse estImulo näo exis-
referente ao papel estrutural das cidades no feudalismo. John Mer-
tiu. Em outras palavras, não foram as oportunidades proporcionadas
rington sugeriu que, embora a transformaçao do trabalho excedente
pelo mercado, mas os imperativos deste que levaram os pequenos
feudal em rendas monetárias n5o tenha alterado, por si so, a nature-
produtores mercantis a acurnulaçao.
za fundamental das relaçoes feudais, ela teve uma conseqQencia im-
No inIcio da era moderna, na Inglaterra, rnuitos arrendamentos
portant ao ajudar a fixar o trabalho excedente numa magnitude
) consuetudinários haviam-se transforrnado, efetivamente, nesse tipo
constant "eStjmulou o crescimento da produçao mercantil inde-
) pendente" de pagarnento monetário. Mas, mesrno os arrendatários que goza-
yam de urn tipo de posse consuetudinária que lhes dava major segu-
Mas essa proposiçao parece basear-se menos em provas ernpIri- rança, mas que, ainda assim, podiarn ser obrigados a vender suas
) cas do que no modelo do mercado como oportunidade, corn seu
safras nos rnesmos mercados, podiam ir a falência, numa situaçao
pressuposto de que os pequenos produtores optariam por flincionar em que os padrOes competitivos de produtividade eram estipulados
--)
como capjtaljstas se tivessem essa chance. Os efeitos das rendas mo-
) por fazendeiros que respondiarn de maneira mais direta e urgente as
)
ts i
86 A origem do capitalismo A origem agrária do capitalismo

)
pressoes do mercado. 0 mesmo se aplicaria, cada vez mais, ate aos lismo agrário: na meihor das hipóteses, a auto-exploracão intensa, e
)
proprietários que cultivavam sua própria terra. Nesse ambiente na pior, a perda da terra e a substituição por empresas maiores e
)
competitivo, os fazendeiros produtivos prosperavam e suas posses mais produtivas.
tendiam a crescer, enquanto os produtores menos competitivos 0 contraste corn a Franca e esclarecedor. A crise do feudalismo
) eram imprensados na parede e acabavam por se juntar as classes nao frances foi resolvida por urn tipo diferente de forrnaçäo estatal. Au, a
) proprietárias. aristocracia conservou por muito tempo seu controle sobre a pro-
As forças competitivas de mercado, portanto, foram urn fator priedade politicamente constituIda, mas, quando o feudalismo foi
fundamental na expropriaçao dos produtores diretos. Mas essas for- substituldo pelo absolutismo, a propriedade politicamente consti-
ças econômicas foram auxiiadas, sern düvida, pela intervençao tuIda não foi substitulda pela exploracão purarnente econôrnica ou
coercitiva direta para expulsar os ocupantes da terra ou extinguir pela producao capitalista. Em vez disso, a classe dorninante francesa
) seus direitos consuetudinários. P, possIvel que alguns historiadores ganhou novos poderes extra-econOmiCoS, a medida que o Estado
) tenham exagerado a decadência do campesinato ingles, que talvez absolutista foi criando urn vasto aparato de cargos por meio dos
tenha levado muito mais tempo para desaparecer por completo do quais uma parte da classe proprietária podia apropriar-se do traba-
que sugerem algumas narrativas. Mas não ha düvida de que, compa- lho excedente dos camponeses sob a forma de impostos. Mesmo as-
rada a outros campesinatos europeus, a variedade inglesa foi uma es- sim, no auge do absolutismo, a Franca continuou a ser uma mistura
) pécie rara e em extinçao, e os imperativos de mercado certamente confusa de jurisdiçOes rivais, enquanto a nobreza e as autoridades
) aceleraram a polarizaçao da sociedade rural inglesa em proprietários municipais agarravam-se aos remanescenteS de seus poderes feudais
de latifUndios ainda maiores e numa multidão crescente de nao- autônomos, resIduos da "soberania fracionada" feudal. Nessas con-
proprietários. 0 resultado foi a famosa trIade composta por latifun- diçOes, 'a estratégia econômica favorita foi extorquir os camponeses
diários, arrendatários capitalistas e trabaihadores assalariados, e, por meios extra-econômicOS, em vez de estimular a produçao e o
) corn o crescimento do trabaiho assalariado, as pressoes para aumen- meihoramento competitivos. Nao houve urn impulso de desenvol-
) tar a produtividade da rnão-de-obra também se intensificaram. Esse vimento capitalista comparável ao da Inglaterra, ate esta conseguir
mesrno processo criou uma agricultura altamente produtiva, capaz impor suas pressOeS competitivaS nurna economia internaciOflal.
de sustentar uma grande populaçao não dedicada a produçao agrI- Também vale a pena assinalar que o mercado nacional integra-
cola, mas criou também uma massa crescente de não-proprietários, do, que Polanyi descreveu como o primeiro tipo de mercado a fun-
que viria a constituir uma grande força de trabaiho assalariada e urn cionar de acordo corn princIpios competitivos, desenvolveu-se na
) mercado interno para bens de consumo baratos — urn tipo de mer- Inglaterra muito antes de surgir em qualquer outro lugar, ao passo
cado que nao tinha precedentes históricos. Foram esses os antece- que a Franca teve que esperar pela era napoleônica para eliminar as
dentes da forrnaçao do capitalismo industrial inglês. barreiras internas ao comércio. 0 importante é que o desenvolVi-
0 efeito dos imperativos de mercado foi intensificar a explora- mento de urn mercado nacional competitivo foi urn corolário, e não
-' çao para aumentar a produtividade — tanto a exploraçao do traba- uma causa, do capitalismo e da sociedade de mercado. AevolucaO de
) iho alheio quanto a auto-exploraçao praticada pelo fazendeiro e sua urn mercado nacional competitivo unificado refletiu as mudanças
) famIlia. Esse padrao viria a ser reproduzido nas colônjas britânicas e, no modo de exploraçào e na riatureza do Estado.
a rigor, nos primórdios da America nacional, onde os pequenos fa- Assim, na Franca, por exemplo, a persistência da propriedade
zendeiros independentes que deveriam ser a espinha dorsal de uma politicamente coristituIda, ou das formas de exploração "ex-
repüblica livre enfrentararn, desde o inIcio, a dura escoiha do capita- tra-econômiCaS", fez corn que nern oEstado nern a econornia fossem

H)
88 A origem do capitalismo

realmente integrados. Os poderes de exp1oraço, que eram sirnulta- ou tornando cultiváveis as terras abandonadas. 0 melhoramento
nearnente politicos e econôrnicos, sob a forma de cargos püblicos e agrIcola, a essa altura, era uma prática bern estabelecida e, no século
dos rernanescentes das antigas jurisdiçOes aristocráticas e munici- XVIII, fase áurea do capitalismo agrário, o "meihorarnento" em pala-
pais, tenderarn a fragmentar o Estado e a economia, mesmo no regi- vras e atos ja tinha sua vigência plenamente reconhecida.
me absolutista. Na Inglaterra, houve uma separação mais clara entre Ao mesmo tempo, essa palavra foi adquirindo urn significado
os poderes politicos e coercitivos do Estado e os poderes de explora- mais geral, no sentido como a conhecernos hoje (e seria interessante
çao das classes proprietárias, que derivavam sua riqueza de formas pensar nas irnplicaçOes de uma cultura em que a palavra correspon-
purarnente econômicas de exploraçao. Assim, os poderes econôrni- dente a "tornar meihor" enraIza-se no termo que corresponde a lu-
cos privados da classe dominante nao prejudicararn a unidade poll- cro monetário). Mesmo em sua associaço corn a agricultura, ela
tica do Estado, e tanto houve urn Estado realmente centralizado acabou perdendo parte de sua antiga especificidade - de tal modo
quanto uma econornia nacional integrada. que, por exemplo, alguns pensadores radicais do século XIX pude-
ram acoiher o meihoramento no sentido de cultivo cientifico da ter-
A ascensão da propriedade cap italista ra, sern sua conotaçao de lucro cornercial. Mas, no inIcio da era
e a ética do "meihoramento" moderna, a produtividade e o lucro estavam inextricavelmente liga-
dos no conceito de meihoramento, que resume bern a ideologia de
) Ja no século xvi, portanto, a agricultura inglesa era marcada por urn capitalismo agrário em ascensão.
uma combinaçao singular de circunstâncias, pelo menos em algu- No século xvii surgiu todo urn novo corpus bibliografico, que
mas regiOes, que aos poucos viriam a fixar a direçao econômica de explicitou corn detaihes sern precedentes as técnicas e benefIcios do
toda a econornia. 0 resultado foi urn setor agrário mais produtivo meihoramento. Este iiltimo foi também uma grande preocupacão
do que qualquer outro na história. Latifundiários e arrendatários fi- da Royal Society, que reunia alguns dos cientistas mais destacados da
) caram preocupados corn o que chamaram de meihoramento - o Inglaterra (Isaac Newton e Robert Boyle exam membros dela) corn
aurnento da produtividade da terra corn vistas ao lucro. alguns dos membros mais progressistas das classes dorninantes do
Vale a pena nos determos por urn momento nesse conceito de pals - como o primeiro conde de Shaftesbury, mentor do filósofo
meihoramento, porque ele nos diz muito sobre a agricultura inglesa John Locke, e o próprio Locke, ambos profundamente interessados
) e o desenvolvimento do capitalismo. A própria palavra "meihorar" no meihoramento agricola.
) [improve], em sua acepçao original, não significava apenas "tornar 0 meihoramento nao decorreu, a principio, de inovaçOes tedno-
rnelhor", num sentido geral, mas sim, literalmente, fazer alguma iogicas significativas - embora se usassern novos equipamentos,
coisa com vistas ao lucro monetário, especialmente cultivar a terra como o arado de rodas. Em geral, tratou-se mais de novos avancos
Para fins lucrativos (corn base nas antigas formas francesas corres- nas tédnicas de cultivo, ou ate de simples refinarnentos e aperfeiçoa-
) pondentes a "Para", en, e "lucro" [ou "proveito"], pros - ou seu mentos dos antigos: cultura mutável ou itinerante, alternando pe-
) caso oblIquo, preu). No século XVII, a palavra "meihorador" [impro- rIodos de cultivo corn perlodos de alqueive; rotaçäo de culturas;
ver] estava solidarnente estabelecida na lingua, Para se referir àquele drenagem de pântanos e terras aráveis etc.
que tornava a terra produtiva e lucrativa, especialmente cercando-a Todavia, o meihoramento significava urn pouco mais do que
métodos e técnicas novos ou meihores de cultivo. Significava, em
)
termos ainda mais fundarnentais, novas formas e concepçOes da
* Ver nota a p.54 (N.T.) propriedade. Para o latifundiário empreendedor e seu próspero ar-
j
)
90 A origern do capitalismo A l uiigeiii jigIdIld uu apILiLiItIU 1.

rendatário capitalista, o cultivo "meihorado" significava, idealmen- nada semeihantes), extinguindo-se o direito consuetudinário de uso
te, ainda que não necessariamente, propriedades rurais maiores e e assirn por diante.6
mais concentradas. Certamente significou a elirninaçao de antigos
) costumes e práticas que interferiam no uso mais produtivo da terra.
)
0 cercamento
Desde tempos imernoriais, os camponeses empregararn vários
modos de regular o uso da terra a bern da comunidade aldea. Res- Isso nos traz a mais farnosa redefiniçao dos direitos de propriedade:
tringirarn certas práticas e concederam certos direitos, nao para au- o cercamento. B comurn pensar-se no cercamento como a simples
mentar a riqueza dos latifundiários ou dos Estados, mas a firn de colocaçao de cercas em volta das terras comunais ou dos "campos ii-
) preservar a própria comunidade camponesa, talvez para preservar a vres" que caracterizavam algumas partes do interior da Inglaterra.
) terra e distribuir seus frutos de maneira mais eqUitativa e, muitas ye- Mas ele significou a extinção, corn ou sern a dernarcaçao fIsica das
zes, para sustentar os membros menos afortunados da comunidade. terras, dos direitos comunais e consuetudinários de uso dos quais
Ate a posse ou propriedade privada era tipicamente condicionada dependia a sobrevivéncia de muitas pessoas.
-' por essas práticas consuetudinárias, conferindo aos não-proprie- A prirneira grande onda de cercarnentos ocorreu no século XVI,
tários certos direitos de uso da propriedade de terceiros. Na Inglater- quando os grandes latifundiários procuraram expulsar os plebeus
ra, havia muitas dessas práticas e costumes. Existiam as terras das terras que pudessem ser lucrativarnente usadas como pasto na
) comunais, nas quais os membros da comunidade podiam ter o di- criaçao de oveihas, cada vez mais lucrativa. Os comentaristas da épo-
reito de pastagem ou o direito de apanhar lenha, e havia vários ou- ca responsabilizararn os cercamentos, mais do que qualquer outro
tros tipos de direito de uso das terras particulares, como o de coiher fator isolado, pela praga crescente dos vadios - "hornens sern pa-
as sobras da lavoura em perlodos especIficos do ano. trão", despejados de suas terras, que vagavam pelo interior e amea-
) Do ponto de vista dos latifundiários e dos fazendeiros capitalis- çavam a ordem social! 0 mais farnoso desses cornentaristas,
) tas adeptos do meihoramento, a terra tinha que ficar livre de qua!- Thomas More, embora fosse, ele mesrno, responsável por cerca-
) quer dessas obstruçoes, para que eles tivessem urn uso produtivo e mentos, descreveu essa prática como "a devoraço dos homens pelas
lucrativo das propriedades. Entre os séculos XVI e XVIII, houve uma oveihas". Esses crIticos sociais, como muitos historiadores que os
pressao crescente pela eliminaçao dos direitos consuetudinários que sucederam, talvez tenham superestimado os efeitos do cercamento,
) interferiam na acumulaçao capitalista. Isso podia significar várias em detrimento de outros fatores que levaram a transformacao das
) coisas: contestar o direito comunjtárjo as terras comunais, reivindi- relaçöes de propriedade inglesas. Mas ele continua a ser a expressao
) cando a posse particular exciusiva, eliminar vários direitos de uso mais vIvida do processo irnplacável que estava modificando não
das terras particulares, ou contestar os arrendamentos consuetudi- apenas a zona rural da Inglaterra, mas o rnundo: o nascirnento do
nários que davam a muitos pequenos lavradores o direito de posse,
capitalisrno.
sem a concessão de urn tftulo legal inequlvoco de propriedade. Em 0 cercamento continuou a ser uma grande fonte de conflito na
) todos esses casos, as concepçOes tradicionais de propriedade tiveram Inglaterra do inIcio da era moderna, quer servisse a criaço de ove-
) que ser substituIdas por novas concepçOes capitalistas de proprieda- ihas, quer ao cultivo de terras aráveis, cada vez mais lucrativo. As re-
de - nao apenas como "privada", mas como exciusiva. Os outros voltas contra ele pontuaram os séculos XVI e XVII e 0 cercamento
individuos e a comunidade tinham que ser excluIdos, eliminando-se despontou como uma grande fonte de ressentirnento na Guerra Ci-
a regulaçao e as restriçoes ao uso da terra ditadas pelas aldeias (coisa vil Inglesa. Em suas fases iniciais, essa prática deparou, ate certo
H
que na Franca, por exemplo, nao aconteceu sob formas e em graus ponto, corn a resistência do Estado monárquico, nem que fosse pela

).
)
A orgciiL "-b""'

) pria pessoa e, por conseguinte, o trabaiho que fazem corn as mãos e o


ameaça que representava para a ordem püblica. Mas, depois que as sua propriedade. Assim, odireito natural de proprie-
classes proprietárias conseguiram moldar o Estado de acordo corn corpo também e
dade se estabelece quando umhomem "mistura seu trabaiho" corn al-
seus próprios requisitos mutáveis - sucesso este que foi consolida- quando, por meib de seu trabaiho, ele a retira de
do, em caráter mais ou menos definitivo, em 1688, na chamada Re- guma coisa, isto e,
seu estado natural ou modifica sua condicão natural.
) voluçao Gloriosa -, não houve mais intervençao estatal, e surgiu
Toda a tese de Locke sobre a propriedade gira em tomb da idéia
urn novo tipo de movimento de demarcaçao no século XVIII: os cha-
do meihoramentb. 0 tema que perpassa todo o capItulo é que a terra
mados cercamentos parlamentares. Nesse tipo de cercarnento, a cx-
existe para se tomnar produtiva e lucrativa, e é por isso que a proprie-
tinçao dos direitos de propriedade problemáticos, que interferiam
dade privada, que emana do trabaiho, suplanta a posse comum.
) na capacidade de acumulaçao de alguns grandes proprietários, pas-
Locke insiste repetidamente em que a major parte do valor inerente
sou a ocorrer através de decretos do Parlamento. Nada atesta de ma-
terra provém nab da natureza, mas do trabaiho e do meihoramen-
neira mais clara a vitória do cap italismo agrário. a instaura a diferenca de valor em tudo
to: "é o trabaiho, de fato, que
quanto existe" (11.40). Ele chega ate a oferecer cálculoS especificoS do
A teoria da propriedade de Locke valor corn que o trabaiho contribui, em contraste corn a natureza.
"Creio", sugere ele, por exempib, "que nab será mais do que urn cdl-
) As pressoes para transformar a natureza da propriedade manifesta- da terra que são iiteis a
ram-se de diversas maneiras, na teoria e na.prática. Vieram a tona culo muito modesto dizer que, dos produtos e, logo em Se-
)
em casos levados aos tribunais, em conflitos em torno de direitos es- vida do homern, nove décimos são efeitos do trabaiho";
guida, corrige-Se seria mais correto dizer que 99/100 são mais atri-
pecIficos de propriedade, em tomb de terras cornunais ou de terras natureza (11.40). Urn acre de terra na
particulares sobre as quais pessoas diferentes tinham direitos de uso buIveisab trabaiho do que a
America nab cultivada, que pode scm tao fértil em termos naturais
parcialmente coincidentes. Era comum, nesses casos, as práticas e
quanto urn acre na Ing1aterra não vale urn milesimb do acre ingles,
) reivindicaçoes consuetudinárias entrarern em confronto direto corn aufere dde" (11.43). 0 que
os princIpios do meihoramento - e, muitas vezes, os juIzes reco- se calcularmos "todo o lucro que o Indio
) Locke pretende dizer, e que, não por coincidência, está impregnado
nheciam as razOes do meihoramento como alegaçOes legItimas con- que a terra nab melhorada é urn deser-
tra direitos consuetudinários tao antigos quanto a mernOria era de urn desdém colonialiSta, e
to, donde qualquer homern que a tire da posse comum e se aproprie
) capaz de lembrar.8 As novas concepçOes da propriedade também fo-
dela - que retire terras da area comunal e as cerque - para melho-
ram teorizadas de maneira mais sistemática, sendo sua versão mais
human jdade, e nab retirando.
) célebre o capItulo 5 do Segundo tratado sobre o governo, de John rá-la, está dando algo a claro, na idéia lockiana de que otrabalho é
Locke, escrito no fim do século Xvii.9 Vale a pena examinar sua tese Ha algo de atraente, e
a fonte do valor e a base da propriedade mas logo fica claro que ha
mais de perto, pois nenhurn outro trabaiho é mais emblemático do
também algo de estranho nela. Para comecar, ye-se que nab ha uma
capitalisrno agrário em ascensão.
orrespondéncia direta entre trabaiho e propriedade porque urn
) Locke começa pela proposiçao de que Deus "concedeu a terra em c
homem pode apropriarse do trabaiho de outro. Pode adquirir urn
) comum a todos os homens" (11.26), mas passa então a mostrar comb,
direito de propriedade sobre algo, ao "misturá-lb" nab corn o seu
) apesar disso, os indivIduos vieram a deter a propriedade de coisas par-
trabalho, mas corn o de alguma outra pessba a quem empregue. Para
ticulares. Na verdade, escreve ele, essa propriedade individual privada Locke, parece que a questãO tern menoS aver corn a atividade do tra-
e um direito natural, concedido por Deus. Os homens (e, em sua ar-
balho comb tab do que corn seu uso lucratiVb. Ao calcular o valor do
gumentaçao, trata-se sempre de homens) são possuidores de sua prO-
)
)
i orige" '----
J urigciii uu apiiaiisino

tipo de apropriacão que se pode chamar de "produtor" e caracteris-


acre na America, por exemplo, ele nao fala do gasto de esforço e tra- e usada ativamente,
baiho do Indio, mas de sua incapacidade de gerar lucros. A questão, ticamente capitalista. Implica que a propriedade
em outras palavras, nao é o trabaiho de urn ser humano, mas a pro- não para urn COnSUmO ostensivO, mas para investimento e para a ex-
e adquirida pelo simples
dutividade da propriedade e sua aplicaçao ao lucro comercial. traçäo de lucros crescentes. A riqueZa não
uso da força coercitiva para extrair mais trabaiho excedente dos pro-
Numa passagem famosa e muito debatida, Locke escreve que "a maneira dos aristocratas rentistas, nern pelo ato de
que o meu cavalo pastou, a turfa que meu criado cortou, dutores diretos, a
minério que extral em qualquer lugar onde a ele tenho direito em comprar barato e vender caro, como faziam os comercianteS
comum corn outros, tornam se minhapropriedade "(II 28) Muita pre capitalistas, mas pelo aumento da produtividade do trabaiho
trnta foi derramada a respeito desse trecho e do que ele nos diz, por (producäo por unidade de trabaiho).
- Ao flindir o trabaiho corn a geração do lucro, Locke talvez te
exemplo, sobre a visão lockiana do trabaiho assalariado (o trabaiho
nha-se tornado o primeiro pensador a construir uma teoria sisterna-
do criado que corta as turfas). Mas o que impressiona realmente a esses principiOs
tica da propriedade a se basear em algo semeihante
nessa passagem e que Locke trata "as turfas que meu criado cortou" ha duvida de que ele ndo foi urn teorico do capita-
como equivalentes ao "rninerio que extrai" Isso significa nao apenas capitalistas Nao
lismo industrial rnaduro. Mas suavisão da propriedadecorn sua
que eu, o senhor, apropriei-me do trabaiho de meu criado, mas que
yá o distingulu de seus predecesSOres. Sua
essa apropriaçao, em principlo, não difere da própria atividade de fase na produtividade
ideia de que o valor e ativamente criado na producão ja e irnensa-
trabaiho do criado Minha extraço do minerio, para todos os fins e
mente diferente das concepcoes tradicionais, que se concentram
efeitos, e idêntica a rninha apropriaçäo dos frutos da poda feita por So-
meu criado Mas Locke não esta interessado na simples apropriaçao simplesmente no processo de troca, na "esfera da circulacão" So-
charnado de flindador da econo-
passiva. Trata-se, antes, de que o latifundiário que confere a sua terra mente William Petty, muitas vezes
algo sernelhante a essa "teoria trabaihista do
urn uso produtivo, que a meihora, mesmo que seja atraves do traba- mia politica, sugerlu
valor" no seculo XVII, e, mesmo assirn, no contexto do capitalismo
iho de terceiros, esta sendo diligente, nao menos -e talvez mais - como agente imperialista
do que o criado que labuta agrarlo -uma teoria que ele p6s a prova
Irlanda, do mesmo modo que Locke e seu mentor, o primeiro
Esse e urn aspecto em que vale a Pena nos determos Urn dos mo- na
conde de Shaftesbury, encaravam as colonias norteamericaflas
dos de entender aonde Locke pretende chegar e considerar o uso co 10

mum da lingua nos dias atuais Quando as pagmas financeiras dos corno urn laboratorlo do melhorameflto
obras de econornia, Locke critica os aristocratas rUrais
ornais diarios falam de produtores, em geral nao pretendem refe- Em suas
rir-se aos trabaihadores. Na verdade, é provável que falem de confli- que descansam e recebern renda, sem fazerem meihorias na terra, e
como sirnpleS
igualmente crItico qua aos cornercianteS que agem
tos, por exemplo, entre produtores de automóveis e trabaihadores
intermediarios, comprando barato num rnercado e vendendo por
da industria automobilistica ou seus sindicatos Os empregadores de mercadorias para elevar seu
mao-de-obra, em outras palavras, recebern o crédito pela produçäo preço mais alto em outro, ou estocando
ou mOnop01i0 urn mercado para aumentar os lucros da
Estarnos tao acosturnados a esse uso que nao percebemos suas impli- preço,
Esses dois tipos de propr1etarios na visäo dele, são parasitas
caçoes, mas e importante ter em mente que algumas condiçoes his- venda
os nao deve ser erroflearnente
toricas muito especificas foram necessarias para possibilita-lo Contudo, seu ataque a tais proprietarl
interpretado como uma defesa dos trabalhadores contra as classes
As classes dominantes tradicionais das sociedades pre-capitalis- diz coisas positivas sobre os artesãos e
tas, que se apropriavarn passivamente da renda dos camponeses de- - dominantes E certo que ele
pendentes, jamais pensariam em 51 mesmas como "produtoras" 0 comerciantes industriosos, mas seu ideal parece ser o grande latthin-
96 A origem do capitalismo

diário que introduz benfeitorias, a quem ele considera a fonte su- nários dos plebeus, expulsá-los das terras comunais e transformar a
prema da riqueza da comunidade, ou a quem chama, significativa- terra comum numa propriedade privada exclusiva, por meio do cer-
) mente, de "produtor primário" - urn homem como Shaftesbury, camento? Que argumento poderia ser melhor do que afirrnar que o
) grande proprietário capitalista e investidor do comércio colonial, cercamento, a exclusão e o melhoramento aumentavam a riqueza da
) urn homem que é não apenas "industrjoso" mas cuja vasta proprie- comunidade, e mais faziam contribuir para o "quinhao comum" do
dade contribui enormemente para a riqueza da comunidade. que subtrair algo dele? B, de fato, ja no século XVII houve exemplos de
A visão lockiana da propriedade harmoniza-se muito bern corn a decisoes judiciais, em conflitos em tomb da terra, nas quais os juIzes
situaçao da Inglaterra nos primórdios do capitalismo agrário. Reflete invocaram princIpios muito semelhantes aos enunciados por Locke,
) claramente uma situação em que a posse sumamente concentrada da para conceder precedência a propriedade exciusiva em detrimento
) terra e as grandes propriedades eram associadas a uma agricultura sin- dos direitos comunais e consuetudinários. No século XVIII, quando Os
) gularmente produtiva (produtiva, mais uma vez, não apenas no senti- cercamentos tiveram uma rápida aceleraçao, corn o envolvimento ati-
do da produçao total, mas no da produçao por unidade de trabalho). vo do Parlamento, as alegaçoes de melhoramento eram sistematica-
Seu discurso sobre o melhoramento faz eco a literatura cientIfica de- mente citadas como base do direito a propriedade e fundamento para
) dicada as técnicas agrIcolas que floresceram singularmente na Ingla- a extinçao dos direitos tradicionais.
terra dessa época - especialmente a que provinha da Royal Society e Essa no foi a ünica maneira pela qual a teoria da propriedade de
dos grupos de eruditos corn quem Locke e Shaftesbury mantinham Locke respaldou os interesses de latifundiários como Shaftesbury.
estreitas relaçoes. Mais particularmente, suas referências constantes as Tendo por pano de ftmndo sua enfática declaraçao de que todos os
terras comunais como urn deserto e seu enaltecjmento da retirada de horn ens cram livres e iguais no estado natural, dc encontrou manei-
terra das areas comunais, e, a rigor, do cercamento, tiveram repercus- ras engenhosas de justificar a escravidão. B era fácil invocar suas
soes muito poderosas naquela época e lugar. idéias sobre o melhoramento para justificar a expansão colonialista e
) E preciso recordarmos que a definiçao de propriedade, na época a expropriação dos povos indIgenas, como deixa dolorosamente pa-
de Locke, não era apenas uma questão filosófica, mas uma questão tente sua observacao sobre o Indio americano. Se as terras
prática muito imediata. Como vimos, uma nova definiçao capitalis- não-beneficiadas das Americas não representavam nada além de urn
/
ta da propriedade estava em vias de se estabelecer, contestando as deserto, era urn dever dos europeus, por ordenaçao divina, cercá-las
) formas tradicjonajs nao so na teoria, mas também na prática. A idéia e melhorá-las, tal como os homens "industriosos" e "racionais" ti-
) de direitos de uso coin cidentes sobre urn mesmo lote de terra estava nham feito no estado natural original. "No começo, o mundo intei-
) dando lugar, na Inglaterra, a propriedade exciusiva. Do seculo XVI ao ro era como a America" (11.49), scm dinheiro, scm comércio e scm
XVIII, houve disputas constantes em torno dos direitos comunais rnelhorarnentos. Se o mundo - ou parte dde - tinha sido retirado
consuetudinários. 0 princIpio do melhoramento para fins de troca desse estado natural por ordem de Deus, por certo tudo o que per-
lucrativa ganhava cada vez mais precedência sobre outros princIpios manecia nesse estado primitivo deveria seguir o rnesmo caminho.
) e outras reivindicaçoes de propriedade, quer estas se baseassem nos
) costumes, quer em algum direito fundamental de subsistência. 0
Luta de classes
aumento em si da produtividade tornou-se uma razo para a elimi-
naçào de outros direitos. Já deve estar claro, a esta altura, que o desenvolvirnento de formas
Que argumento poderia ser meihor que o de Locke para respaldar caracterIsticas de propriedade na agricultura inglesa acarretou novas
o grande proprietárjo que almejava extinguir os direitos consuetudi- formas de lutas de classes. Também nesse caso, podemos destacar a
)
)
)
98 A origem do capitalismo Pt hi 15C111 a51 anna UhJ - -
)

)
) especificidade do capitalismo agrário, contrastando a situaçao ingle.- pelo Terceiro Estado e quando a burguesia, em particular, reagiu
sa corn a francesa. As diferenças nas formas de propriedade e nos contra a arneaça de the ser vedado o acesso aos cargos püblicos."
modos de exploraçao que caracterizaram essas duas grandes potén- Para as classes produtoras, e para os camponeses em particular, a
) cias européias, como vimos, refletiram-se em questOes e campos di- major questao isolada durante todo o ancien regime foi, sem sombra
) ferentes da luta de classes, bern como em diferentes relaçoes entre a de d'ivida, o Onus da tributaçao, e havia uma probabiidade de que a
classe e o Estado. resistência popular se concentrasse, acima de tudo, na exploraçäo
Na Franca, os modos extra-econOmjcos de extorso do exceden- pelo Estado, sob a forma de impostos cada vez rnais altos.
te ou a propriedade politicamente constitulda, fosse sob a forma de 0 panorama foi muito diferente na Inglaterra do começo da era
cargos estatais, fosse sob a dos vários poderes e privilégios ligados ao moderna. Nela, a propriedade politicamente constituIda não era uma
) status nobiiarquico (como a isençäo de impostos), explicitaram os questo central. A classe latifundiária, corn sua confiança crescente
) termos da luta de classes. 0 Estado, por exemplo, servia de fonte de em formas puramente econômicas de exploraçao, nunca dependeu
renda para urn segmento substancial das classes dominantes. Ao tanto do Estado como recurso material direto, e a tributaçao pela
mesmo tempo, como forma de propriedade politicamente consti- Coroa nunca desempenhou, para as classes proprietárias inglesas, o
tuIda, o Estado competia corn as classes latifundiárias pelos mesmos mesmo papel que teve para as francesas. Enquanto os grandes pro-
excedentes produzidos pelos camponeses. Assim, partes da aristo- prietários ingleses dependeram do Estado para impor seus interesses
) cracia podiam lutar contra os esforços da monarquia de elirninar de classe - e entraram em conflito corn ele quando sua proprieda-
) seus poderes autônomos e apropriar-se deles num Estado absolutis- de, ou os poderes do Parlamento como comitê de proprietários, fo-
ta centralizado, enquanto outras partes detinham ou procuravam ram questionados pela monarquia -, seus interesses materiais
adquirir propriedades nesse mesmo Estado. Urn burgues podia diretOs recaIram menos sobre a aquisição de urn pedaco do Estado
opor-se ao Onus tributário excessivo que incidia sobre o desprivile- do que sobre o aumento de sua capacidade econômica de apropria-
) giado Terceiro Estado e as isençOes de que desfrutavam os Estados çao, capacidade esta que estava diretamente enraizada em seu con-
) privilegiados, a nobreza e o clero, rnas, ao mesmo tempo, podia bus- trole da terra e de seus usos produtivos. Enquanto o aristocrata
car cargos estatais (que eram passIveis de ser comprados) como frances podia preocupar-se corn a preservação de seu acesso a cargos
rneio de se apropriar do trabaiho excedente através da tributaçao. Os elevados, ou corn sua isençao dos impostos e seus vários privilegios
camponeses, e ciaro, constitulam a fonte primária desse trabaiho ex- nobiliarquicos, o direito de cercamento figurava corn mais destaque
) cedente, o que significava que, a medida que o Estado e seu aparato nos projetos de classe dos latifundiários ingleses.
) de cargos püblicos cresciam, e que os camponeses ficavarn sujeitos a Para as classes subalternas inglesas, isso significava que os confli-
urn Onus tributário cada vez major, a monarquia tinha que preservar tos em tomb do direito de propriedade, do próprio significado da pro-
o campesinato da destruiçao por latifundiários ávidos de renda, a priedade, tinham maior vulto do que as lutas contra a exploraçao
fim de que ele pudesse ser extorquido por urn Estado ávido de im- extra-econômica. Assim, por exemplo, para o plebeu inglês, a resis-
postos. tência aos cercamentos, ou a protecao dos direitos consuetudinários
) As classes apropriadoras, portanto, tinham urn interesse mate- de uso, ocupavarn, na luta contra a exploraçao, a posiçao proeminen-
rial em preservar ou ganhar acesso a propriedade politicamente te que tinha para o camponês da Franca a resistência a tributaçao.
constjtufda, quer sob a forma de privilegios, quer diretamente em Isso tambm levanta algurnas questOes importantes sobre o pa-
cargos estatais. Isso viria a se revelar uma grande questão na Revolu- pel da luta de classes no desenvolvirnento do capitalismo. Que p ode-
ção de 1789, quando os privilégios da aristocracia foram contestados mos dizer, por exemplo, sobre a tese de que a luta de classes dos
)
)
100 A origem do capitalismo
)
)
camponeses contra os grandes proprietários promoveu o capitalis- CapItulo 5
)
mo na Inglaterra, ao romper os grilhoes do feudalismo e libertar a
produçao mercantil? Embora a configuraçao das relaçOes de classe Do capitalismo agrário ao capitalismo
fosse complexa demais para ser reduzida a qualquer formula sim-
ples, seria mais próximo da verdade, se quiséssemos resumir numa industrial: esboço sucinto
) itnica frase as maneiras como a luta de classes entre latifundiários e
camponeses "libertou" o capitalismo, dizer que o capitalismo foi
promovido pela afirmaçao dos poderes dos grandes proprietários
contra as reivindicaçOes de uso consuetudinário dos camponeses.
Mais uma vez, isso no significa descartar o papel dos "médios" fa-
zendeiros, ou produtores mercantis ingleses, no desenvolvimento Na Inglaterra, onde a riqueza ainda derivava predominantemente da
do capitalismo. Esses fazendeiros, como arrendatários capitalistas produçao agrIcola, todos os grandes agentes econôrnicos do setor agrá-
da terra, foram a espinha dorsal da trIade agrária. Mas decerto é en- rio - tanto os produtores diretos quanto os apropriadores de seus
ganoso tratar as lutas populares como a grande força na promoçao excedentes - ficaram, do século xvi em diante, cada vez mais depen-
do desenvolvimento do capitalismo, em detrimento das lutas popu- dentes do que correspondia a práticas capitalistas: a rnaximização do
lares mais subversivas e democráticas que contestaram as formas de valor de troca por meio da reduçao de custos e do aumento da produti-
propriedade conducentes ao desenvolvimento capitalista. Essas for- vidade, através da especialização, da acumulaçao e da inovaço.
ças populares podem ter perdido a bataiha contra os grandes pro- Essa forma de prover as necessidades materiais básicas da socie-
prietários capitalistas, mas deixaram urn imenso legado de idéias dade inglesa trouxe consigo toda uma nova dinâmica de crescimen-
radicais, bern diferente dos impulsos "progressistas" do capitalismo, to auto-sustentado, urn processo de acumulaçao e expansão muito
legado este que continua vivo ate hoje em vários movirnentos demo- diferente dos antiqUIssimos padroes cIclicos que dominavarn a vida
cráticos e anticapitalistas.'2 material em outras sociedades. Ela também foi acompanhada pelos
processos capitalistas tIpicos de expropriacão e criaçao de uma mas-
A situaçao e ainda mais complicada quando se trata da "revolu-
sa de nao-proprietários. P, nesse sentido que podemos falar de "capi-
çao burguesa". A Revoluçao Francesa de 1789 enquadra-se muito
talismo agrário" na Inglaterra do inIcio da era moderna, uma forma
meihor nessa descricao do que a Revoluçao Inglesa da década de
) social corn "leis de movimento" caracterIsticas, que acabariam dan-
1640 - se o que estamos buscando é uma grande luta entre a bur-
guesia e a aristocracia. Mas, como vimos, ha questoes de enorme do origem ao capitalismo em sua forma industrial madura. Não e o
objetivo deste livro explorar toda a histOria do desenvolvimento ca-
peso a respeito do que a luta na Franca teve a ver corn o capitalismo.
pitalista, mas podemos pelo menos esboçar algumas das IigaçOes
A Revoluçao Inglesa, em contraste, por certo näo foi urn conflito en-
entre o capitalismo em sua forma agrária original e seu desenvolvi-
tre a burguesia e a aristocracia. Contudo, ao ampliar o poder das
classes proprietárias no Parlamento e ao promover os interesses dos mento industrial posterior.
grandes latiftindiários, em detrimento dos interesses dos pequenos
proprietârios, e ao promover o meihoramento contra os direitos 0 capitalismo agrário era realmente capitalista?
consuetudinários das classes subalternas, ela se relacionou mais de
perto e de maneira mais direta corn a promoçao do capitalisrno e da Devemos fazer uma pausa, neste ponto, para enfatizar dois aspectos
definiçao capitalista de propriedade do que a Revoluçao Francesa. importantes. Primeiro, não foram Os comerciantes nem os fabrican-

101
102 A origem do capitalismo vo capualislilo agiaiiu
)

)
tes que dirigiram o processo que impulsionou o desenvolvimento breviver, e nao apenas como urn suplemento sazonal (o tipo de tra-
)
inicial do capitalismo. A transforrnaçao das relaçoes sociais de pro- baiho assalariado sazonal e complementar que existiu desde a
)
priedade enraizou-se firmemente no campo, e a transformaçao do Antiguidade nas sociedades rurais), continuaram a ser rninoria na
comércio e da indüstria ingleses foi mais resultado do que causa da Inglaterra do século XVII.
transiçao da Inglaterra para o capitalismo. Os comerciantes podiam Ademais, essas pressöes competitivaS não afetaram sornente os
) funcionar perfeitamente bern dentro de sistemas nao capitalistas. arrendatários que empregavam trabalhadores assalariados, mas
) Prosperaram, por exemplo, no contexto do feudalismo europeu, também os fazendeiros que - tipicamente corn suas famiias -
onde se beneficiaram não so da autonomia das cidades, mas também erarn, eles mesrnos, produtores diretos, trabaihando sem mao-de-
da fragmentaçao dos mercados e da oportunidade de realizar transa- obra contratada. As pessoas podiam ser dependentes do mercado -
çOes entre urn mercado e outro. depender dele para as condiçOes básicas de sua auto-reproducao -
) Segundo, e talvez mais fundamental, o termo "capitalismo agrá- sem serem completamente desprovidas de propriedades. Ser depen-
) rio" tern sido usado, ate aqui, sem que o trabaiho assalariado seja co- dente do mercado exigia apenas a perda do acesso direto näo merca-
locado em seu cerne, embora, por qualquer definiçao, o trabaiho dológico aos rneios de auto-reproduçao. Na verdade, urna vez
assalariado seja central no capitalismo. Isso requer uma certa expli- firmemente estabelecidos os imperativos do mercado, nem mesmo a
) cacao. propriedade direta era proteção contra eles. E a dependência do
) Convém dizer que muitos arrendatários empregavam o trabaiho mercado foi causa e näo resultado da proletarizacão das massas.
) assalariado, tanto assim que a trIade identificada por Marx e outros Em outras palavras, a dinâmica especIfica do capitalismo já esta-
) latifundiários que viviam da renda capitalistada terra, arrendatá- va instaurada na agricultura inglesa antes da proletarizaçao da forca
rios capitalistas que viviam do lucro e trabalhadores que viviam do de trabaiho. Alias, essa dinâmica foi urn fator preponderante na pro-
salário - tern sido vista por muitos como a caracterIstica definidora moção da proletarizacao do trabaiho na Inglaterra. 0 fator crucial
das relaçoes agrárias na Inglaterra. E assim foi, pelo menos nas partes foi a dependéncia dos produtores e também dos apropriadores em
) do pals - particularmente o leste e o sudeste - que mais se destaca- relaçao ao mercado, além dos novos imperativos sociais criados por
) ram por sua produtividade agrIcola. Na verdade, as novas pressOes
essa dependência.
) econômicas, as pressOes competitivas que levaram os fazendeiros
Algumas pessoas talvez relutem em descrever essa forrnaçao So-
improdutivos a faléncia, foram urn fator fundamental na polariza-
cial como capitalista, sob a alegação de que o capitalismo, por defini-
ção da populaçao agrária em grandes latifundiários e trabalhadores
assalariados nao-proprietários, promovendo a triade agrária. E, e çao, baseia-se na exploração do trabaiho assalariado. Essa relutància
) claro, as próprias pressOes pelo aumento da produtividade se fize- e legItima - desde que reconheçamos que, como quer que a chame-
mos, a economia inglesa do inicio da era moderna, movida pela logi-
) ram sentir na exploraçao mais intensa da mão-de-obra assalariada.
ca de seu setor produtivo basico, que era a agricultura, ja estava
Assim, não seria absurdo definir o capitalismo agrário inglés em
) funcionando segundo principios e "leis de movimento" diferentes
termos dessa trIade. Mas e importante ter em mente que as pressoes
dos que haviam prevalecido em qualquer outra sociedade, desde o
cornpetitivas, assim como as novas "leis de movimento" que as
) acompanharam, dependiam, em primeiro lugar, não da existência alvorecer da história. Essas leis de movimento foram as precondicoes
de urn proletariado de massa, mas da existéncia de arrendatários- - que nao existiram em nenhum outro lugar - do desenvolvimen-
)
produtores dependentes do mercado. Os trabalhadores assalariados, to de urn capitalismo maduro, que de fato se basearia na exploraçao
1 em massa do trabaiho assalariado.
especialmente os que dependiam inteiramente do salário para so-
)

)
A origem do capitalismo
-
) 104

)
E qual foi o resultado de tudo isso? Prirneiro, a agricultura ingle- que distinguiu-se em urn aspecto fundamental: a percentagem de
)
sua população urbana mais do que dobrou nesse perlodo (alguns
sa tinha uma produtividade Impar. No fim do século XVII, por exem-
plo, a produçao de grãos e cereais tivera uma alta tao drástica, que a historiadores situam a percentagem urbana pouco abaixo de 1/4 da
Inglaterra tornou-se lider na exportaçao desses produtos. Esses populaçao total já no firn do século XVII). 0 contraste corn a Franca é
avanços na producao foram conseguidos corn uma força de trabaiho marcante. Nesta, a populacão rural continuou bastante estável, am-
) agricola relativamente pequena. a isso que nos referimos ao falar da compondo 85% a 90% do total na época da Revolução Francesa
da produtividade Impar da agricultura inglesa. de 1789, e depois dela. Em 1850, quando a populacao urbana da
)
Alguns historiadores, como vimos, tentaram contes tar a própria Inglaterra e do Pals de Gales estava em cerca de 40,8%, a da Franca
idéia do capitalismo agrário, sugerindo que a produtividade da agri- ainda correspondia a apenas 14,4% (e a da Alemanha, a 10,8%).'
cultura francesa no século XVIII era mais ou menos igual a da Ingla- Portanto, já no inlcio do perlodo moderno, a agricultura britâ-
terra. 0 que eles realmente querem dizer é que a produçao agricola nica era suficientemente produtiva Para sustentar urn nümero inusi-
) total dos dois palses era mais ou menos idêntica. Num deles, entre- tadamente grande de pessoas que nao mais se dedicavam a produção
) tanto, esse nIvel de produçao era conseguido por uma populaçao agrIcola. Esse fato atesta, é claro, mais do que apenas técnicas de cul-
cuja vasta maioria ainda se compunha de produtores camponeses, tivo particularmente eficientes. Ele também aponta Para uma revo-
enquanto, no outro, a mesma produçao total era conseguida por luçao nas relaçoes sociais de propriedade. Enquanto a Franca
uma força de trabaiho muito menor, numa populaçao rural em de- continuava a ser urn pals de proprietárioS camponeseS, a terra ingle-
) clInio. Mais uma vez, portanto, a questao nao é a produçao total, sa concentrava-se num nümero muito menor de mãos e a massa de
) mas a produtividade, a produçao por unidade de trabaiho. nao-proprietáriOs crescia a passos largos. A questão central, no en-
Os simples dados demograficos podem render volumes inteiros. tanto, não e o tamanho das propriedades. Enquanto a producao
)
Nao é incomum reconhecer-se que a produtividade agricola da agricola da Franca ainda seguia as práticas rurais tradicionais (lá nao
Inglaterra teve uma capacidade singular de sustentar a explosäo po- havia nada que se assemelhasse ao corpus da literatura inglesa sobre o
pulacional que ajudou a alimentar a industrializaçao. Mas, quando a meihoramento, e a comunidade aldeã ainda impunha suas normas e
) densidade populacional inglesa começou a ofuscar a de outros pal-
restricOes a producao, afetando inclusive os maiores Iatifundiários),
) ses da Europa Ocidental, depois que o crescimento populacional a agricultura inglesa atendia aos imperativOS da competicao e do
destes havia-se estabiizado, se é que nao estava em declInio, o pa-
melhorarnentO.2
drao do desenvolvimento econômico ingles jd era distinto. 0 au- Vale a pena acrescentar mais urn dado sobre opadrao demográ-
mento demografico pode ajudar a explicar o desenvolvimento do fico singular da Inglaterra. 0 crescimento inusitado da populacao
) capitalismo industrial, mas não consegue explicar o surgirnento do
urbana nao se distribuiu u niformemente pelas cidades inglesas.
) capitalismo em si. Quando muito, essa explosão populacional foi
Noutros lugares da Europa, o padrao tipico era uma populacào ur-
mais efeito do que causa. Todavia, antes mesmo de um padrao sin-
bana dispersa entre várias cidades importanteS - de tal modo que
gular de aumento populacional tornar-se manifesto na Inglaterra,
Lyon, por exemplo, não era apequenada por Paris. Na Inglaterra,
sua composiçao demograficajá se distinguia sob outros aspectos sig-
) nificativos, que nos dizem muito sobre o desenvolvimento econô- Londres tornon-se desproporcionalmente grande, sub indo de cerca
de 60 milhabitarites por volta de 1530 para 575 mil em 1700 e se tor-
) mico ingles.
nando a major cidade da Europa, enquanto outras cidades inglesas
Entre 1500 e 1700, a Inglaterra passou por urn crescimento subs-
tancial da populaçao - semelhante ao de outros paIses europeus - exam muito menoreS.

)
106 A origem do capitalismo i/U LUFILOIl/IIIU aIaIIU ---

Esse padrao significa mais do que se evidencia a primeira vista. to-reproduçao para urn mercado de massa cada vez major, e não de
Testernunha, entre outras coisas, a transformaçao das relaçoes soci- bens suntuários para urn mercado restrito.3 A natureza crescente-
ais de propriedade no coraçao do capitalismo agrário - o sul e o su- mente nacional e integrada desse mercado significou que, de rnodo
deste - e a desapropriaçao dos pequenos produtores, cujo destino, sempre mais acentuado, ele funcionava nao apenas corn base nos
como migrantes desalojados, era tipicamente Londres. 0 cresci- princIpios do "lucro e da alienaçao", mas corn base na produçao
mento de Londres também representou a unificaçao crescente não competitiva.
apenas do Estado inglês, mas de urn mercado nacional. Essa imensa A Inglaterra chegou ate a desenvolver seu próprio sistema ban-
cidade era o eixo do comércio inglês. Era, a urn tempo, urn grande cário caracterIstico. Outros grandes centros de cornércio europeus
ponto de trânsito do comércio nacional e internacional e urna vasta tinham sistemas bancários que se haviam desenvolvido em tempos
consurnidora dos produtos ingleses, inclusive de sua produçao agrI- antigos e medievais: operaçOes de cârnbio, bancos püblicos que lida-
cola. Em outras palavras, o crescirnento de Londres, de toda sorte de yam corn as finanças do Estado e a regulaçao da rnoeda, e mecanis-
maneiras, simbolizou o capitalismo emergente da Inglaterra: seu mos para financiar o comércio exterior e de longa distância. A
mercado cada vez mais linico, unificado, integrado e competitivo; Inglaterra era relativamente fraca nesse tipo de atividade bancária
sua agricultura produtiva e sua populaçao desapropriada. clássica, mas criou urn novo sistema bancário que se originou, em
contraste corn o resto da Europa, no comércio interno, sobretudo de
Comércio, imperialismo e indistria produtos nacionais. Esse sistema nao tinha raIzes no comércio exte-
rior, "nao na arbitragem comercial entre mercados separados", mas
A lógica singular e sem precedentes do capitalismo agrário fez-se ern urn "mercado metropolitano" centrado em Londres, para fadii-
sentir em todas as esferas da vida econômica. Decerto é verdade que tar uina rede de distribuiçao de Londres para todo o pals, através de
o capitalismo ingles surgiu no contexto de urn sistema de comércio representantes ou agentes que funcionavarn recebendo cornissOes e
mais vasto, e nao teria surgido sem ele. Mas, contrariando as con- cr6ditos.4 Nao e difIcil perceber que esse sistema financeiro e comer-
vençOes que identificam a força propulsora do desenvolvimento cial singular tinha suas raIzes no capitalismo agrário, nas relaçOes so-
econômico na atividade comercial, as "leis de movimento" econO- ciais mutáveis que produziram a necessidade desse mercado, para
micas nascidas na Inglaterra rural transformaram as antigas regras sustentar urna crescente populaçao nao agrária, e a capacidade de
do cornércio e criaram urn tipo inteiramente novo de sistema mer- atender a essa necessidade.
cantil. Esse sistema dependia não apenas do comércio exterior, do A dinârnica do mercado interno inglés expandiu-se para o co-
tipo de comércio transportador descrito por Polanyi, mas de urn mércio internacional. A economia nacional em desenvolvimento
mercado interno altamente desenvolvido, corn uma populaçao cres- também estava se transformando no centro de urn sistema de co-
cente que ja não se dedicava a produço de bens do cotidiano - rnércio internacional que diferia de qualquer outro sistema de co-
como alirnentos e produtos têxteis - para consumo próprio e de mércio anterior. Assirn como a antiga rede de mercados locais e o
seus familiares. Londres em si era urn mercado maciço de bens de comércio "transportador" entre eles estavarn dando lugar a urn mer-
consumo primários e era o eixo desse mercado interno crescente, cado integrado, vinha surgindo urn sistema de cornércio mundial
urn mercado que diferia dos outros no tamanho, na substância e nas originário da Gra-Bretanha, e especialrnente de Londres, que depois
"leis de movimento". viria a substituir "a infinita sucessão de operaçOes de arbitragem en-
Esse foi o primeiro sistema comercial - e o ünico, durante mui- tre mercados separados, diferentes e distintos que constitufra ate
to tempo - a se basear no cornércio de meios de sobrevivência e au- então o comércio exterior"! Os instrumentos caracterIsticos produzi-
VO capitaiis1- .-.----- -
)
) Os historiadoreS rnarxistaS tern mostrado convincenternente,
dos pelo sistema cornercial interno ingles - letras de câmbio e, es-
opondo-se a muitos argumentoS em contráriO, que o major crime
pecialmente, as "letras de Londres" - tornaram-se tambérn os
) do imperialismo europeu, a escravidão, deu uma grande contribui-
instrumentos do comércio internacional. Quando a Inglaterra con-
çao para o desenvolvimeflto do capitalismo industrial.' Mas, tam-
quistou uma ascendéncia inequlvoca no comércio internacional, no
bern nesse caso, devernos ter em mente que a Gra-Bretaflha não foi a
) que é as vezes chamado de "capitalismo mercantil" do século XVIII,
ünica a explorar a escravidão colonial, e que esta teve efeitos diferen-
seu sucesso ergueu-se sobre os alicerces do sistema cornercial inter-
tes ern outros lugares. Outras grandes potênciaS européias - a Fran-
no anterior - e ate o poderio miitar, o poderio naval rnaciço que
ça, a Espanha e Portugal - acumularam uma grande riqueza corn a
garantiu a preeminência britânica, enraizou-se claramente na rique-
escravidäo e corn otráfico de produtos viciadoreS, como o tabaco, os
za criada pelo capitalismo agrário.
quais, segundo se argurnenta alimentaram o comércio de seres hu-
) A nova dinâmica desse sistema capitalista crescente produziu
Mais uma vez, porérn, somente na Grã-Bretaflha essa
uma nova forma de imperialismo colonial. Tinha havido outras na- rnanos vivos.7
riqueza se converteu em capital industrial - e a diferenca, também
çoes coloniais, ate maiores e mais poderosas. Mas a Gra-Bretanha
nesse caso, esteve na nova dinârnica capitalista que já havia transfor-
criou urn novo tipo de impulso imperialista: não apenas a antiga avi-
mado a logica da economia britânica, desencadeafldo os imperativos
dez pré-capitalista de terras e pihagem (embora cia não desapare-
da competicão cornpetitiVa da acumulacäo de capital e do cresci-
) cesse, e claro), mas uma expansao, para o exterior, dos mesmos
) imperativos capitalistas que estavarn impulsionando o mercado in- mento autosustentado. fatores essencials
terno: os imperativos da produçao competitiva e do aurnento do 0 comercio e o imperialismo, portanto foram
consumo. no desenvolvimeflto do capitalismo industrial, mas näo podem ser
1 tratados como causas primarlas Dito de outra maneira, seu efeito
Ja no século xvii, ou talvez mesmo no xvi, as atitudes e o corn-
) especifico foi rnuito variado, de acordo corn seu contextO Temos
portarnento singulares dos imperialistas ingleses eram visIveis na
que nos voltar para o mercado interno ingles e para o capitalismo
) maior colônia da Inglaterra, a Irlanda. Servidores pi.iblicos progres- differentui specifica
) sistas, como o economista politico William Petty, viam a Irlanda agrarlo em que dc cresceu, a firn de descobrir a
que atrelou o comerciO e o imperialismo a industria capitalista
como urn campo de prova do capitalismo agrário, urn laboratório
A longo prazo, as consequencias do capitalismo agrarlo ingles
Para se testar os efeitos da transformaçao das relaçoes de proprieda-
econômicO posterior devern ser bastante
de, fossem quais fossem as consequências para as multidOes de des- Para o des
) possuIdos. obvias Ernbora este não se;a o lugar para explorarmos ern detalhes
smo agrarlo e o desenvQlvimeflto da Ingla-
claro que o imperialismo britânico também contribuiu para o as hgaçOes entre o capital
) terra que a transforrnou na pnrneira economia industrializada, al-
desenvolvimento do primeiro capitalismo industrial do mundo.
) guns pontos so evidentes Scm urn setor agricola produtivo capaz
Mas, conquanto a industrialização tenha-se aiirnentado dos recur-
1 de sustentar uma grande força de trabaiho no-agrICola, seria im-
SOS do imperialismo, e importante ter em rnente que a Iogica deste,
por Si S, nao acarretou o capitalismo industrial. 0 poder imperial provavel que o prirneiro capitalismo industrial do mundo viesse a
ernergir. Scm o capitalismo agrano da Inglaterra nao haveria mas
) de outras naçoes européias não Surtiu os mesmos efeitos e, as véspe-
de desposSuidO5 obrigados a vender sua força de trabaiho por
ras da Revoluçao Industrial, o mercado interno ainda era mais
urn salario Scm essa força de trabaiho nao-agraria de despossuidOS
importante para a economia britânica do que o cornércio internacio-
nal. 0 capitalismo agrário foi a raiz do desenvolvirnento econOmico näo haveria urn mercado de consumO de rnassa para os bens cotidia-
rodutoS têxteis - que irnpulsio-
britânico. nos baratos - como alimentoS e p
iiu it oiigeiii uo capitalISMO
Do capitalismo agrario ao cap1iuI111'-'

naram o processo de industrializaçao da Inglaterra. Vale a pena Se o capitalismo agrário tornou o capitalismo industrial näo ape-
enfatizar que esse grande mercado derivou seu caráter especial não nas possIvel, mas necessário ou jnevitável, é uma outra pergünta, mas
apenas de suas dimensöes incomuns, mas também de suas limita- houve urn vigoroso impulso histOrico nessa direçao. Urn mercado in-
çoes, da relativa pobreza dos consumiddres, que exigiam produtos tegrado, suprindo as necessidades baratas da vida Para uma massa
baratos Para uso cotidiano. Ele tinha mais coisas em comum corn os cresceflte de consurnidores e respondendo a pressöes competitivas ja
mercados posteriores de consumo de massa do que corn os de arti- bern estabelecidas, constituiu uma logica processual novae espec'tfica,
gos de luxo do comércio clássico. cujo resultado foi o capitalismo industrial. Esse mercado e as relaçoes
Sem a riqueza criada pelo capitalismo agrário, ao lado de motiva- sociais de propriedade em que ele estava enraizado fornecerarn não so
çOes inteiramente novas de expansao colonial - motivaçOes diferen- os meios, mas tambérn a necessidade de produzir bens de consumo
tes das de antigas formas de aquisiçao territorial -, o imperialismo numa nova escala, e tambérn de produzi-los corn eficiência de custos,
britânico teria sido algo muito diferente do motor do capitalismo in- de maneiras determinadas pelos imperativos da cornpetiçäo, da acu-
dustrial em que veio a se transformar. Finalmente (e este e, sern dilvi- mulaçao e da rnaxirnizacão dos lucros, juntamente corn seus requisi-
da, urn ponto mais controvertido), sem o capitalismo inglês, tos de aumento da produtividade do trabalho.
provavelmente nao haveria nenhum tipo de sistema capitalista: foram Em outras palavras, em contraste corn a sugestão de Polanyi de
as pressoes competitivas provenientes da Inglaterra, especialmente de que a "sociedade de mercado" foi uma resposta a certos avanços tec-
uma Inglaterra industrializada, que compeliram outros paIses, antes nologicos numa sociedade mercantil, a conclusão que podernos ex-
de mais nada, a prornoverem seu próprio desenvolvimento econômi- trair da história do capitalismo agrário é que uma dinâmica
co em direçoes capitalistas. Naçoes que ainda agiam corn base em capitalista, enraizada numa nova forma de relaçOes sociais de pro-
princIpios pré-capitalistas de comércio, ou numa rivalidade geopoliti- priectade, precedeu a industrialização, tanto em termos cronológi-
ca e miitar que mal diferia, em princIpio, dos antigos conflitos feudais cos quanto causais. Na verdade, urn certo tipo de sociedade de
pelo território e pela pilhagem, foram guiadas pelas novas vantagens mercado - uma sociedade em que os produtores dependiarn do
competitivas da Inglaterra a promover seu próprio desenvolvimento mercado Para ter acesso aos meios de subsistência, ao trabalho e a
econômico em moldes semelhantes.8 auto -repro ducão e estavam sujeitos aos imperativos do mercado -
No mInimo, o capitalismo agrário possibiitou a industrializa- foi não o resultado da industrializaçäo, mas sua causa primária. So-
çao. 0 simples dizer isso já e dizer muito. As condiçoes de possibii- rnente uma transformacão das relaçoes sociais de propriedade que
obrigou as pessoas a produzirem competitivamente (e não apenas a
dade criadas pelo capitalismo agrário - as transformaçoes das
relaçOes de propriedade, do tarnanho e da natureza do mercado in- comprarern barato e venderem caro), uma transformacao que fez
terno, da composição da população e da natureza e extenso do co- corn que o acesso aos meios de a uto-reproducao passassern a depen-
mércio e do imperialismo britânicos - foram mais substanciais e der do mercado, e capaz de explicar a drástica revoluçao das forças
tiveram major alcance do que qualquer avanço puramente tecnolO- produtivas que foi singularmente caracterIstica do capitalismo mo-
gico exigido pela industrializaçao. Isso é verdadeiro em dois senti- demo.
dos: primeiro, os avanços purarnente tecnologicos não foram A industrializacäo, portanto, foi o resultado e não a causa da so-
responsáveis pela chamada revoluçao agrIcola que lançou as bases ciedade de mercado, e as leis de movimento capitalistas foram a cau-
da industrializaçao; e segundo, as mudanças tecnológicas que cons- sa e não o resultado da prdletarizacao das rnassas. Mas isso, é claro,
tituIram a primeira Revoluçao Industrial foram modestas, de qual- näo foi o urn do desenvolvimento capitalista. A proletarizacão que
quer modo.9 representou a transformacão completa da força de trabalho em mer-
112 A origem do capitalismo

cadoria, viria a conferir poderes coercitivos novos e mais extensos ao Cap Itulo 6
mercado, criando uma classe trabaihadora completarnente depen-
) dente dele e completamente vulnerável a disciplina do mercado, scm Modernidade e pósmodernidade
) nenhurna mediaçao e sern recursos alternativos. Embora, em seus
) diversos aspectos, o capital e o trabalho estivessem sujeitos as forças
irnpessoais do mercado, o mercado em si veio a se transformar, cada
)
vez mais, nurn grande eixo da divisão de classes entre exploradores e
explorados, entre compradores e vendedores de capacidade de tra-
) baiho. Nesse sentido, ele foi urn novo instrumento coercitivo do ca-
pital, a disciplina maxima no controle da mão-dc-obra e urn novo
A atribuicão de urn caráter natural ao capitalismo implIcita na iden-
terreno da luta de classes. corn o ccipitalista e de ambos corn
E desnecessário dizer que o sistema capita!ista está em constante tificacão convencioflal do burguês
que ainda persiste ate nas teorias mais iconoclastas
estado de desenvolvirnento e fluxo. Mas no compreenderemos seus a modernidade,
de hoje, tern o efeito de disfarcar a especificidade do capitalismo,
) processos atuais de mudança e contradiçao se não soubermos ras-
quando nao de afastar por completo sua conccituacäo. Volterno-nos
) treá-los ate suas bases. A ascensão do capitalismo näo pode ser expli- agora, por urn mornento, para o outro lado da moeda. Näo se trata
) cada como resultado de aperfeiçoamentos técnicos, da "tendência apenas de o capitalismo ser historicarnente especIfico. Trata-se de
de progresso econôrnico da Europa Ocidental" ou de qua!quer outro
que, se alguns aspectos essenciais da modernidade tern pouco a ver
mecanisrno transistórico. A transformaçao especIfica das rclaçOes so- a identificacão do capitalismo corn a modernidade pode
ciais de propriedade que acionou urn "progresso" historicamente sin- corn dc, nao-capita-
gular das forças produtivas nao pode ser presumida corno urn dado. disfarcar também a especificidade de uma modernidade
) Reconhecer isso é crucial para a compreensão do capitalismo - lista.
) para nao falar na compreensao das condiçOes de sua aboliçao e sua
substituiçao por uma forma social diferente. Devernos reconhecer Modernidade versus capitalismo: Franca e Inglaterra
não apenas a plena força dos imperativos capitalistas, as compu!söes
dependentemente do que mais pretendarn dizer corn modernida-
da acumulaçao, da rnaximizaçao do lucro e da produtividade cres- In
) cente do trabaiho, mas também suas raizes sistêmicas, para saber- de, e quer a considerern boa, ruim, ou arnbas as coisas, em geral as
mos exatamente por que elas funcionarn corno funcionarn. pessoas acreditarn que cia tern algo a ver corn o que o sociologo Max
) a racionalizacão do
Weber chamoU de procesSo de racionaliZacão
acionaliZacão da economia no
Estado na organizacão burocrática, a r
acionaiiZacäo da cultura na disserninacao
capitalismo industrial, a r
da educaco, no dechnio da supersticaO e no progresso da clencla e
associar-Se o processo de
da tecnologia, e assirn por diante. E tIpico
cionaliZacão a certos padrOes intelectuaiS ou culturais que rernon-
ra
cionalismo e a obsessão corn o planejamen-
tarn ao IlurninismO o ra
racional, o gosto pelas visöes totalizantes do mundo, a
universaliSrno (a crença em verdades e Va
-
pa r onização do saber, o

113
114 A origem ao capnaiismo Modernidade e pós-modernidade 115

lores universais) e a crença no progresso linear, especialmente da ra- da classe dominante. Nesse sentido, ele representou nao apenas o
zão e da liberdade. contexto politico, mas também o contexto econômico ou material
Tipicamente, o Iluminismo é concebido como um - se nao o - do Iluminismo. 0 Estado absolutista era urn instrumento centrali-
momento decisivo no avanço da modernidade, e a fusão da moder- zado de extorsäo extra-econômjca da mais-valia, e os cargos estatais
nidade corn o capitalismo torna-se prontamente visIvel na rnaneira eram uma forma de propriedade que dava aos que os possularn aces-
como as teorias da modernidade ligam o Iluminismo ao capitalis- so aos excedentes produzidos pelos camponeses. Também havia ou-
mo. Presume-se que os traços caracterIsticos do Iluminismo estejam tras formas descentralizadas de apropriaçao extra-econômica: os
associados ao desenvolvimento do capitalismo, quer porque o capi- resIduos do feudalisrno e suas chamadas soberanias fracionadas.
talismo inicial, em seu processo de desdobramento, os teria criado, Essas forrnas de apropriaçao extra-econômica eram, em outras pala-
quer porque o avanço da racionalizaçao que produziu o Iluminismo vras, diretamente antitéticas a forma puramente econômica da ex-
também teria trazido consigo o capitalismo. Weber, por exemplo, é ploraçao capitalista.
famoso por distinguir vários sentidos da racionalidade (formal ou Consideremos agora o fato de que a pátria principal do chamado
instrumental versus substantiva, e assim por diante), mas sua tese projeto da modernidade, a Franca do século XVIII, era uma socieda-
sobre o processo histórico de racionalizaçao depende, e claro, de as- de maciçamente rural, corn um mercado interno restrito e fragmen-
semeiharmos os vários significados da razão e da racionalidade, de tado. Seu mercado ainda funcionava corn base em principios
tal modo que a racionalidade instrumental do capitalismo se relacio- nao-capitalistas: nao na apropriação da mais-valia da força de traba-
ne, por definiçao, corn a razão em seu sentido iluminista. Para o bern
iho transformada em mercadoria, não na criaçao do valor na produ-
ou Para o mal, o processo que nos trouxe o que ha de meihor 1105
cap, mas nas antigas práticas da extraçao comercial do lucro - o
principios iluministas - a resistência a qualquer poder arbitrário, o
lucro na alienaçao, o comprar barato e vender caro, e o comércio, ti-
compromisso corn a emancipaçao humana universal e a postura cr1-
picamente, de artigos de luxo ou suprirnentos Para o Estado. A po-
tica diante de qualquer tipo de autoridade, seja ela intelectual, reli-
pulaçao esrnagadoramente rural era a antItese de urn mercado de
giosa ou politica - é, segundo essa visa-o, o mesmo processo que nos
consumo de massa. Quanto a burguesia, que teria sido, por assim di-
trouxe a organizaçao capitalista da produçao.
zer, a principal fonte material do Iluminismo, ela não era urna classe
Para desarticular a fusao do capitalismo corn a modernidade,
capitalista. Na verdade, em sua major parte, não era sequer uma
poderIarnos começar por situar o Iluminismo em seu contexto his-
tOrico. Boa parte do projeto iluminista pertence a uma sociedade ni- classe comercial tradicional. Os principais agentes burgueses do Ilu-
tidamente nao-capitalista - não somente pré-capitalista, porém minismo e, mais tarde, da Revoluçao Francesa eram profissionais ii-
nao-capitalista. Muitos aspectos do Iluminismo, em out.ras palavras, berais, detentores de cargos püblicos e intelectuais. Sua briga corn a
enraIzam-se em relaçOes sociais de propriedade nao-capitalistas. aristocracia pouco tinha a ver corn libertar o capitalismo dos gri-
Pertencem a uma forma social que não é apenas urn ponto de transi- ihOes do feudalisrno.
çao no caminho Para o capitalismo, mas uma rota alternativa de sal- De onde vieram, portanto, os principios da chamada moderni-
da do feudalismo. Em particular, o Iluminismo frances pertence ao dade? Terão vindo de urn capitalismo novo, mas crescente? Terão
Estado absolutista na Franca. representado a luta de uma classe capitalista aspirante contra uma
0 Estado absolutista na Franca do século XVIII, como vimos na aristocracia feudal? Podemos ao rnenos dizer que o capitalismo foi a
discussão de Anderson, funcionava näo so como uma forma polIti- consequéncia não-intencional do projeto da modernidade burgue-
ca, mas como urn recurso econôrnico Para uma parcela substancial sa? Ou terá esse projeto representado algo diferente?
it origein uu capiLausillo : Modernidade e pós-modernidade 117

Consideremos os interesses de classe da burguesia francesa. Urn carreiras estatais lucrativas, o Estado monárquico ihe conveio, e,
rnodo de exarniná-los é nos voltarmos Para a Revoluçao Francesa, rnesmo posteriormente, a charnada revoluçao burguesa concluiu o
auge do projeto iluminista. Quais eram os principais objetivos revo- projeto centralizador do absolutismo. Sob certos aspectos, na verda-
lucionários da burguesia? No cerne de seu projeto estavam a igual- de, a contestaçao burguesa da ordem tradicional, longe de repudiar
dade civil, o ataque aos privilégios e a demanda de "carreiras os principios absolutistas, sirnplesmente os arnpliou.
acessIveis ao talento". Isso significava, por exemplo, igualdade de Tomemos novamente o princfpio da universalidade. 0 Estado
acesso aos cargos mais altos do Estado, que a aristocracia tendia a rnonárquico, ja no século XVI, havia contestado as reivindicaçoes
monopolizar e cujo acesso arneaçava fechar por completo. Significa- feudais da nobreza - muitas vezes, corn o apoio do Terceiro Estado
va tambérn urn sistema tributário mais eqUitativo, Para que o fardo e da burguesia, em particular -, alegando rep resentar a universali-
nao mais fosse desproporcionalmente carregado pelo Terceiro Esta- dade contra a particularidade da nobreza e de outras jurisdiçOes ri-
do em benefIcio das camadas privilegiadas, entre cujos privilegios vais. A burguesia também herdou e ampliou outros princIpios
mais valorizados estava a isençao de impostos. Os alvos principais absolutistas: a preocupaçao corn o planejamento racional e a padro-
dessas queixas eram a aristocracia e, secundariarnente, a Igreja. nizaçao, por exemplo, na qual foram pioneiros o Estado absolutista
Como se expressaram ideologicamente esses interesses burgue- e suas principais autoridades, como Richelieu e Colbert. Afinal, ate a
ses? Tomemos o exemplo do universalismo, a crença em certos prin- padronizaçaio da lingua francesa fez parte do projeto centralizador
cIpios aplicáveis a humanidade em geral, em todas as épocas e lugares. do Estado absolutista, um projeto de racionalizaçao que teve sua ex-
0 universalismo tinha uma longa histOria no Ocidente, mas teve urn pressao cultural clássica nos jardins formais de Versalhes.'
sentido e urn destaque muito especiais para a burguesia francesa. Dito
Estudiosos como Marshall Berman e David Harvey, que nos de-
em termos sucintos, a contestaçao burguesa do privilegio e dos esta-
ram algumas das abordagens mais importantes da modernidade (e
dosprivilegiados, a nobreza e o clero, expressou-se na afirrnaçao do
da pós-modernidade), gostarn de enfatizar a dualidade da consciên-
universalismo contra o particularismo aristocrático. A burguesia
cia moderna, que remonta ao Iluminismo. Essa sensibiidade dualis-
questionou a aristocracia mediante a invocaçao dos princIpios uni-
versais da cidadania, da igualdade civil e da "naçao" - uma identida- ta, dizem eles, combina a universalidade e a imutabiidade corn uma
de universalista que transcendia as identidades mais particulares do sensibiidade ao eférnero, ao contingente e ao fragmentado. A tese
parentesco, da tribo, da aldeia, do status, do estado ou da classe. parece consistir em que a preocupação corn a universalidade e a ver-
Em outras palavras, a universalidade opunha-se ao privilegio em seu dade absoluta foi, desde o começo, uma tentativa de dar sentido a
sentido literal, como uma lei especial ou privada. A universalidade er- experiéncia fugaz, efêmera e constantemente móvel e mutável da
guia-se contra o privilégio diferencial e o direito por prescrição. Era urn vida moderna, que eles associam ao capitalismo.
passo bastante fdcil passar do ataqde aos privilégios tradicionais Para o Berman citou alguns trechos de urn romance de Rousseau, Jtflia
ataque aos princIpios dos costumes e das tradiçOes em geral. E esse tipo ou a nova HeloIsa (1761), como uma das primeiras expressoes dessa
de contestação transformou-se facilmente numa teoria da histOria, na sensibiidade (ele chamou Rousseau de "a voz moderna arquetIpica
qual se atribuiu a burguesia e a seus intelectuais orgânicos urn papel na fase inicial da modernidade").2 0 trecho mais marcante provém
preponderante, como agentes históricos do rompimento corn o passa- de uma carta em que St. Preux, personagem de Rousseau, registra
do, encarnaçoes da razão e da liberdade, vanguarda do progresso. —ss reaçOes ao chegar a Paris. 0 que Berman ye nisso é o sentimento
Quanto a atitude burguesa perante o Estado absolutista, ela foi moderno das novas possibiidades, combinado corn o mal-estar e a
bern mais ambIgua. Enquanto a burguesia teve urn acesso razoável a incerteza provenientes da movimentaçäo, da mudança e da diversi-
A origem do capitalismo iviuuct,uuuc C pu-i11uucii11uaue 11
118

dade constantes. t uma experiência que Berman associa a uma fase auge do capitalismo agrário, tinha uma populaçao urbana crescente,
)
inicial do capitalismo. que compunha uma parcela muito maior da populaçao total do que
Mas, talvez possamos ver algo bern diferente nas palavras de St. na Franca. Os pequenos proprietários estavam sendo desapropria-
Preux, ou mesmo na própria descriço que Berman faz do "torvelinho" dos não apenas pela coerçao direta, mas tarnbérn por pressOes eco-
) da vida moderna. Podemos ver não tanto a experiência do capitalismo nôrnicas. Londres era a major cidade da Europa. Havia urn mercado
) moderno, mas do antigo medo e fascinio despertados pela cidade. Muito interno muito mais integrado - e competitivo -, o prirneiro mer-
do que oSt. Preux de Rousseau e o próprio Marshall Berman tern a di- cado nacional do mundo. Ja existiarn os primórdios de urn rnercado
zer sobre a experiência da vida moderna poderia ser dito por urn cam- de consumo de massa de artigos baratos do cotidiano, especialmente
ponês italiano que chegasse a antiga cidade de Roma. Talvez seja alimentos e produtos têxteis, e uma força de trabalho cada vez mais
) significativo que o filósofo romano Seneca seja urn pensador corn proletarizada. A base produtiva que a Inglaterra tinha na agricultura
) quem o próprio Rousseau expressa uma afinidade especial, citando-o ja estava funcionando segundo princIpios basicamente capitalistas,
) na página de rosto de Emilio (1762), num tema que é central em A nova corn uma aristocracia profundamente envolvida no capitalismo
Helolsa e na obra de Rousseau em geral: a necessidade de restabelecer a agrário e nas novas formas de comércio. E a Inglaterra estava em
saüde da humanidade, através de urn retorno aos princIpios naturais. meio ao processo de criar urn capitalismo industrial.
Apesar de todo o chamado romantismo de Rousseau, a sensibilidade de
Quais erarn as expressoes culturais e ideologicas caracterIsticas
) A nova Helolsa talvez tenha realmente mais coisas em comum corn o do capitalismo ingles no mesmo perIodo?3 Nao o racionalismo car-
) antigo estoicismo do que corn a "experiência da modernidade [capita-
tesiano e o planejamento racional, mas a "mao invisIvel" da ecOno-
lista]". De qualquer modo, talvez nao seja por acaso que os tropos lite-
mia polItica clássica e a filosofia do ernpirismo britânico. Nao os
rários associados a essa "experi6ndada modernidade" - os de
jardins formais de Versaihes, mas os jardins de paisagismo "natu-
Rousseau e os de outros escritores europeus - provenharn, tipicamen-
ral", aparentemente não planejado. Ate o Estado ingles que promo-
) te, näo de uma sociedade altamente urbanizada, mas de sociedades corn
veu a ascensão inicial do capitalismo era muito menos "racional",
) uma população ainda esmagadoramente rural.
em terrnos weberianos, do que o Estado burocrático do ancien regi-
Seja corno for, a ideologia da burguesia francesa do século xviii
me frances, e ate hoje o sistema jurIdico ingles, baseado no direito
teve pouco a ver corn 0 capitalismo e muito mais corn as lutas em
torno das formas nao-capitalistas de apropriaçao, os conflitos em consuetudinário, e menos racional do que o codigo napoleônico que
- tomb dos poderes extra-econôrnicos de exploraçao. Nao e preciso se seguiu a Revoluçao Francesa, ou do que outros sistemas da Euro-
reduzir o Iluminismo a uma crua ideologia de classes. Antes, a ques- pa continental baseados no direito romano. Certarnente houve, na
)
tao é que, nessa conjuntura histórica particular, em condiçoes niti- Inglaterra, urn interesse pela ciencia e tecnologia, cornpartilhado
)
damente não-capitalistas, ate a ideologia de classe burguesa assurniu corn seus vizinhos europeus. E, afinal, o Iluminismo frances deveu
) a forma de uma visao mais ampla da emancipação humana geral, e muito a Bacon, Locke e Newton Mas a ideologia caracteristica que
não apenas da emancipação da burguesia. Apesar de todas as suas ii- distinguiu a Inglaterra das outras culturas europeias foi, acima de
mitaçOes, tratava-se de urn universalismo emancipatório - razão tudo, a ideologia do "melhoramento" não a ideia ilumirnsta do
por que, é claro, pôde ser retornado por forças muito mais democrá- aperfeiçoarnento da humanidade, mas o rnelhoramento da proprie-
-)
ticas e revolucionárias. dade, a etica - e, a rigor, a ciencia - do lucro, o cornpromisso corn
)
Para perceber as complexidades disso, basta compararmos a O umento da produtividade do trabaiho e a pratica do cercamento e

Franca corn a Inglaterra. Reiterando, a Inglaterra do século XVIII, no da desapropriaçao.


izu It origern uo capiiaiismo Modernidade e pós-modernidade 121

)
Essa ideologia, especialmente a idéia do meihoramento agrIcola e fundir o burguês corn o capitalista, ele faz parte da visão padronizada
a literatura correlata que se produziu na Inglaterra, nao foi igualmente da história que pressupoe o capitalismo como resultado de tendên-
caracterIstica da Franca do século XVIII, onde os camponeses dornina- cias ja existentes, ate de leis naturais, quando e onde ihes é dada essa
) yarn a produçao e os grandes proprietários conservavam sua mentali- oportunidade. No processo evolutivo que vai das formas prirnitivas
) dade rentista -como fez, alias, a burguesia em geral. (A exceçao, a de troca ao capitalismo industrial moderno, a modernidade aparece
) propósito, confirma a regra: os fisiocratas, economistas politicos fran- quando essas forças econômicas agrilhoadas e a racionalidade eco-
ceses para quem a agricultura inglesa era urn modelo a ser irnitado.) nOmica burguesa são libertadas das restriçOes tradicionais. Corn
Pois bern, se quisermos procurar as raIzes de uma "modernida- isso, modernidade equivale a sociedade burguesa, que equivale a capi-
) de" destrutiva -digamos, a ideologia do tecnocentrismo e da de- talismo.
) gradaçao ecologica -, podemos começar por buscá-las no projeto I Recenternente, esse conceito de modernidade foi complernenta-
) do "meihoramento", na subordinaçao de todos os valores hurnanos do pela idéia de pis-modernidade. A era pós-moderna tern sido des-
r
) a produtividade e ao lucro, e não no Iluminismo. Seria possIvel di- crita de maneiras variadas, mas sempre em relaçao a modernidade.
zermos que não foi por acaso que o escândalo da doença da vaca lou- Em geral, a pós-modernidade representa uma fase do capitalismo
) ca aconteceu na Gra-Bretanha, terra natal do "meihoramento"? marcada por algurnas caracterIsticas econômicas e ideologicas dis-
) Como todos sabernos, tornou-se o auge da moda atacar o cha- tintas (a "era da informaçao", a produçao enxuta, a "acumulação
mado projeto iluminista. Supöe-se que os valores iluministas anteri- flexIvel", o "capitalismo desorganizado", o consumismo etc.). Mais
) ormente enumerados -e esta e uma das acusaçoes mais brandas - particularmente, porém, ela e marcada por certas formaçoes cultu-
estejam "na raiz dos desastres que abalaram a humanidade ao longo rais resumidas na formulaçao "pós-modernismo", cujo traço isolado
) de todo este século", em tudo, desde as guerras mundiais e do impe- 'de major destaque é o questionamento do "projeto iluminista".
rialismo ate a destruição ecol6gica.4 Este não é o lugar para exami- Diz-se que o pós-modernismo substituiu a cultura do moder-
) narmos todos os disparates recentes, que agora ultrapassam em nismo e os padrOes intelectuais associados ao "projeto da moderni-
) muito as percepçOes sensatas que podem ter estado contidas, urn dade". 0 projeto da modernidade, de acordo corn essas exposiçOes,
dia, nas crIticas ao Iluminismo. 0 importante e que estamos sendo parece ter-se iniciado no século XVIII, ou, pelo menos, seu momento
solicitados a jogar fora tudo o que ha de meihor no projeto iluminis- definidor teria sido o Iluminismo, embora ele tenha chegado a frui-
ta -especialmente seu compromisso corn a emancipação humana çao no século xix. 0 chamado projeto do Iluminismo é também tido
) universal -e a responsabiizar esses valores pelos efeitos destrutivos como representando o racionalismo, o tecnocentrismo, a padroni-
) que deverIamos atribuir ao capitalismo. Ha, pois, muitas razOes, zacão do saber e da produção, e a crença no progresso linear e em
tanto intelectuais quanto polIticas, para distinguirmos o projeto flu- verdades universais absolutas. 0 pós-modernismo e entendido
minista dos aspectos de nossa situação atual que pertencem maciça- como uma reaçao a esse projeto -embora também possa ser visto
-' mente não ao "projeto da modernidade", mas ao capitalismo. como enraizado no modernismo, no ceticismo e na sensibiidade a
mudança e a contingência que são associados a certas formas cultu-
Pós-modernidade / rais do século XX, mas que ja estavam presentes no Iluminismo. 0
) ( pós-modernismo ye o mundo como essencialmente fragmentado e
Tal como e comurnente usado, o conceito de modernidade desarti- indeterminado, rejeita qualquer discurso totalizante, qualquer "me-
cula algumas distinçoes essenciais entre as formas sociais e culturais tanarrativa" e quaisquer teorias abrangentes e universalistas sobre o
que pertencem e não pertencem ao capitalismo. Em sua tendéncia a mundo e a história. Rejeita também qualquer projeto politico uni-

)
I
122 A origem do capitalismo Modernidade e pós-modernidade 123

versalista, inclusive os projetOS universalistas emancipatórios - em encontramos algo estreitamente aparentado corn a ambivaléncia
outras palavras, os projetos de emancipação humana geral, em vez pós-rnodernista em relaçao ao capitalismo, na qual o lamento nunca
das lutas particularIssirnas contra opressoes muito variadas e parti- está muito longe da celebraçao.
culares. Portanto, a pós-modernidade acompanha uma modernidade em
Algumas teorias da pós-modernidade foram sumamente escia- que burguês e idêntico a cap italista e em que o racionalismo iluminis-
recedoras, dizendo-nos muito sobre o capitalismo do fim do século ta é indistinguIvel da racionalidade econôrnica do capitalismo. Essas
xx e, especialmente, sobre suas formas culturais.5 Mas o conceito em equaçOes acarretam, inevitavelmente, alguns pressupostos conheci-
si, em essência, e uma inversão da modernidade em sua acepçao dos sobre a origem do capitalismo, especialmente o de que o capita-
convencional e traz em seu bojo muitos dos mesmos pressupostos lismo já se acha presente na racionalidade burguesa, simplesmente a
problemáticos. Essa modernidade faz parte de uma visão da histOria espera do momento de se libertar. A idéia de pós-modernidade cer-
que abrevia o grande divisor entre as sociedades capitalistas e tamente concentra nossa atençao nas transformaçoes históricas
nao-capitalistas, visao esta que trata as leis de movimento especifica- havidas dentro do capitalismo, rnas o faz disfarçando as transforma-
mente capitalistas como se fossem leis universais da história, e que çOes entre as sociedades capitalistas e não-capitalistas. Mais uma vez,
junta num mesmo saco várias ocorrências históricas muito diferen- a especificidade do capitalismo perde-se nas continuidades da histó-
tes, capitalistas e não-capitalistas. A idéia de pós-modernidade den- na e o sistema capitalista e tido como natural, no progresso inevitá-
va de uma concepçäo da modernidade que, no que tern de pior, vel da burguesia em eterna ascensão.
torna o capitalismo historicamente invisIvel, ou, para dizer o mIni-
mo, torna-o natural.
Também e importante assinalar que ate a crItica da modernida-
de pode surtir o mesmo efeito de tornar o capitalismo natural. Esse
efeito já era visIvel muito antes dos modismos pós-modernistas atu-
ais por exemplo, nas teorias sociologicas de Weber, especifica-
mente em sua teoria da racionalizaçao. 0 processo de racionalizaçao
- o progresso da razão e da liberdade associado ao Iluminismo -
havia, segundo Weber, libertado a humanidade das restriçOes tradi-
cionais. Ao mesmo tempo, entretanto, a racionalizaçao havia pro-
duzido e disfarçado uma nova opressao, a "jaula de ferro" das
formas organizacionais modernas. Ha muito de recomendável, é
claro, no reconhecirnento dos dois lados da modernidade: não ape-
nas dos avanços que ela supostamente representa, mas também das
possibilidades destrutivas inerentes a suas capacidades produtivas,
suas tecnologias e suas formas organizacionais - e ate a seus valores
universalistas. Mas, em uma argumentaçao como a de Weber, acon-
tece mais alguma coisa. 0 capitalismo, como a dominaçao burocrá-
tica, torna-se apenas uma extensão natural do progresso da razão e
da liberdade a longo prazo. Vale também assinalar que, em Weber,
Conclusão

Este livro disse respeito a origem do capitalismo. Que nos diz essa
origem sobre a natureza do sistema capitalista em si?
Primeiro, ela nos lembra que o capitalismo näo é uma conse-
qUência natural e inevitável da natureza humana, ou sequer da anti-
quIssima tendéncia social a "comerciar, permutar e trocar". Ele é urn
produto tardio e localizado de condiçoes históricas muito especIfi-
cas. 0 impulso expansionista do capitalismo, que hoje atingiu o
ponto de uma universalidade virtual, não e consequência de sua
conformidade a natureza hurnana ou de alguma lei transistórica,
rns produto de suas próprias leis internas de movimento, historica-
mente especIfIcas. E essas leis de movimentO precisaram de vastas
transformaçoes e sublevaçoes sociais para ser acionadas. Precisaram
de uma transforrnaçao do metabolismo humano corn a natureza, no
suprimento das necessidades básicas da vida.
Segundo, o capitalismo foi, desde o inIcio, uma força profunda-
mente contraditória. Basta considerarmos os efeitos mais patentes
do capitalismo agrário ingles: as condiçoes de prosperidade material
existiram na Inglaterra do inIcio da era rnoderna como em nenhum
outro lugar, mas foram conseguidas a custa de uma vasta desapro-
priaçao e de uma exploraçao intensa. Essas novas condiçoes tambérn
lançaram as bases e as sementes de formas novas e mais eficazes de
expansao e imperialismo coloniais, na busca de novos rnercados,
/ forças de trabaiho e recursos.
( Ha também os corolários do "meihoramento": a produtividade
e a capacidade de alimentar uma vasta populaçao, contrastadas corn
a subordinaçao de todas as outras consideraçOes aos irnperativos do
lucro. Isso significa, entre outras coisas, que, muitas vezes, pessoas

125
126 A origem do capitalismo Conclusao 127
)
)
que poderiam ser alirnentadas passam fome. Em geral, ha uma gran- imperativos capitalistas alterou constantemente as condiçOes do de-
)
de disparidade entre as capacidades produtivas do capitalismo e a senvolvirnento econômico.
qualidade de vida que ele proporciona. A ética do "meihoramento", Ha também uma liçao mais geral a extrair da experiência do ca-
em seu sentido original, no qual a produção é inseparável do lucro, e pitalismo agrário inglés. Depois que os imperativos de mercado es-
) tambérn a ética da exploraçao, da pobreza e da falta de teto. tabeleceram os termos da reproduçao social, todos os agentes
) 0 uso irresponsável da terra e a destruiçao ambiental são igual- econOmicos -apropriadores e produtores, mesmo quando estes
mente conseqüências da ética da produtividade em norne do lucro. permanecem de posse dos meios de produçao ou detém sua proprie-
-) dade direta -ficaram sujeitos as exigéncias da cornpetiçao, da pro-
0 capitalismo nasceu bern no cerne da vida humana, na interaçao
dutividade crescente, da acumulaçao de capital e da exploraçao
corn a natureza da qual depende a própria vida, e a transformaçao
intensa da rnäo-de-obra.
dessa interaçao pelo capitalismo agrário revelou os impulsos intrin-
) Quanto a isso, alias, nern mesmo a inexistência de uma separa-
secarnente destrutivos de urn sistema em que os prOprios funda-
çao entre apropriadores e produtores constitui uma garantia de
) mentos elementares da vida ficam sujeitos aos requisitos do lucro.
irnunidade. Depois que o mercado se estabelece como uma "disci-
Em outras paavras, a origem do capitalismo revelou o segredo es-
plina" ou urn "regulador" econômico, depois que os agentes econO-
sencial do capitalismo.
micos passam a depender do mercado para obter as condiçoes de sua
A expansao dos imperativos capitalistas pelo mundo afora re-
própria reproduçao, ate os trabaihadores que são donos dos rneios
produziu, sisternaticamente, os efeitos que teve no corneço, em seu de produçao, individual ou coletivamente, ficarn obrigados a res-
prOprio pals de origem: desapropriaçao, extinçao dos direitos con- ponder aos imperativos do mercado -a competir e a acumular, a
suetudinários de propriedade, imposiçao de imperativos de merca- dixar que as empresas nao-competitivas e seus trabaihadores vao a
) do e destruiçao ambiental. Esses processos ampliaram seu alcance, falência, e a se tornarem exploradores, eles mesmos. A história do
saindo das relaçoes entre as classes exploradoras e exploradas para as capitalismo agráriO e de tudo que decorreu dele deve deixar claro
relaçOes entre palses imperialistas e subordinados. Mais recente- que, sempre que os imperativos de mercado regulam a econornia e
mente, por exemplo, num novo tipo de imperialisrno, a dissemina- regern a reproduçao social, nao ha como escapar a exploraçao. Não
çao dos imperativos de mercado (corn a ajuda de órgaos capitalistas existe, em outras palavras, nada que se possa chamar de mercado
internacionais como o Banco Mundial e o FMI), obrigou os fazendei- realmente social ou democrático, e muito menos urn "socialisrno de
) ros do Terceiro Mundo a substituIrern a auto-suficiência agrIcola mercado".
pela especializaçao em culturas voltadas para o mercado mundial. Lembro-me vividamente -embora os dias históricos do colap-
Mas, se os efeitos destrutivos do capitalismo tern-se reproduzido so comunista pareçam agora muito distantes -de como os demo-
constantemente, seus efeitos positivos não tern sido nern de longe cratas idealistas da antiga União Soviética e do Leste Europeu
igualmente sistemáticos desde o momento em que o sisterna se on- reagiam as advertências sobre o mercado que vinham da esquerda
) ginou. Uma vez estabelecido o capitalismo num dado pals, a partir ocidental (numa época em que ainda parecia haver uma esquerda
) do rnomento em que ele começou a impor seus imperativos ao resto / antimercado no Ocidente, e em que ainda havia alguma chance de
) da Europa e, por tim, ao mundo inteiro, seu desenvolvimento em ( dialogs entre essa esquerda e as forças mais progressistas dos antigos
outros lugares nunca pôde seguir o mesmo curso que ele tivera em palses comunistas). Quando as pessoas alertavam para o fato de que
seu lugar de origem. A partir de então, a existência de uma sociedade o mercado nao significava apenas supermercados repletos de vastas
capitalista transformou todas as demais, e a expansão posterior dos quantidades e variedades de bens de consumo, mas também o de-
j

I ---- --
LonciUsaO
A origem do capitailSillo 129
128

tos destrutivos do capitalismo estão suplantando seus ganhos


semprego em massa e a pobreza, a resposta era: "Sim, é claro, mas
materiais. Nenhum pals do atual Terceiro Mundo, por exemplo,
nao é isso que querernos dizer corn mercado." A idéia era que seria
pode ter esperança de conquistar sequer o desenvolvimento contra-
possivel separar e escolher o que se quisesse do mercado au-
ditório por que passou a Inglaterra. Corn as pressoes da competiçao,
to-regulador. 0 mercado poderia agir como urn regulador da eco-
da acumulaçao e da exploraçao impostas pelas economias capita]js-
nomia, o bastante para garantir uma certa racionalidade, uma certa
tas mais desenvolvidas, e corn as crises inevitáveis de capacidade ex-
correspondência entre o que as pessoas queriarn e o que era produzi-
cedente geradas pela competiçao capitalista, a tentativa de alcançar a
do. 0 mercado poderia agir como urn sinai, uma fonte de informa-
prosperidade material de acordo corn os princIpios capitalistas ten-
çOes, uma forma de comunicação entre consumidores e produtores,
de cada vez mais a trazer em seu bojo apenas o lado flegativo da con-
e poderia garantir que as empresas inñteis ou ineficientes se aprirno-
tradiçao capitalista, sua desapropriação e destruiçao, sem seus
rassem ou fossem a falência. Mas seria possIvel prescindir de seu
benefIcios materiais - para a vasta maioria, corn certeza.
lado mais desagradavel.
A medida que o capitalismo se espraia por regioes mais vastas e
Tudo isso, sern düvida, parece hoje tao ingenuo a muitos rUSSOS
penetra mais fundo em todos os aspectos da vida social e do meio
- e europeus orientais quanto parecia, na época, a alguns marxistas
ambiente natural, suas contradiçoes vão escapando mais e mais a
ocidentais, mas a ironia e que muita gente, na esquerda ocidental de
nossos esforços de controlá-las. A esperança de atingir urn capitalis-
hoje, inclina-se a pensar que o mercado, como regulador econômi-
mo humano, verdadeiramente democrático e ecologicamente
co, e passIvel de escoiha entre sua disciplina benéfica e suas conse-
sustentável vai-se tornando transparentemente irrealista. Mas, con-
quências mais destrutivas. t difIcil explicar de outra maneira a idéia
quanto essa alternativa nao esteja disponlvel, resta ainda a alternati-
do "socialismo de mercado", essa contradicao de termos, ou ate a
va verdadeira do socialismo.
concepção menos utOpica do "mercado social", no qual as devasta-
çOes do mercado poderiam ser controladas pela regulacao do Estado
e pela meihoria dos direitos sociais.
Isso nao quer dizer que urn mercado social näo seja melhor do
que o capitalismo irrestrito de livre mercado. Tampouco significa
que algumas instituiçoes e práticas associadas ao mercado não pos-
sam ser adaptadas a uma economia socialista. Mas nao podernos re-
cusar-nos a enfrentar as implicaçoes da condiçao irredutIvel sern a
qual o mercado não pode funcionar como disciplina econOmiCa a
dependência dos produtores diretos em relaçao ao mercado e, espe-
cificamente, sua forma mais extremada, a transformaçäo da força de
trabaiho em mercadoria - condiçao que impOe Os mais rigorosos
limites a "socializaçao" do mercado e a sua possibilidade de assurnir
feiçOes hurnanas.'
Atualmente, está mais claro do que nunca que os imperatiVOS do
mercado nao perrnitirão que o capital prospere sem deprimir as
condiçoes de imensas multidOes de pessoas e degradar o meio ambi-
ente no mundo inteiro. Chegamos agora a urn ponto em que Os efei-
Notas

Introduçao

1. Em meu Iivro The Pristine Culture of Capitalism: A Historical Essay on Old


Regimes and Modern States (Londres, Verso, 1991), dei a esse modelo da história o
riome de "paradigma burguês".

CapItulo 1. 0 modelo mercantil e seu legado

1.0 trabaiho mais famoso de Henri Pirenne foi Mohammed and Charlemagne
(Londres, Allen & Unwin, 1956), mas urn resumo geral de sua tese completa pode
ser encontrado numa série de palestras suas, intitulada Medieval Cities: The Origins
and the Revival of Trade (Princeton, Princeton University Press, 1969).
2. Discuti corn certa minücia 0 modo como Weber adere ao modelo mercantil
m Democracy Against Capitalism: Renewing Historical Materialism (Cambridge,
Cambridge University Press, 1995), cap.5.
3. Robert Brenner frisa isso em "Agrarian Class Structure and Economic Devel-
opment in Pre-Industrial Europe", in T.H. Aston e C.H.E. Philpin (orgs.), The
Brenner Debate: Agrarian Class Structure and Economic Development in
Pre-Industrial Europe (Cambridge, Cambridge University Press, 1985), p.10.
4. Perry Anderson, "Maurice Thomson's War", London Review of Books, 4 de
novembro de 1993, p.17.
5. Entre os historiadores "revisionistas" mais destacados da Inglaterra estão
Conrad Russell e John Morrill.
6. Michael Mann, The Sources of Social Power, vol.1 (Cambridge, Cambridge
University Press, 1986), p.373.
7. Ibid., p.374.
8.Karl Polanyi, The Great Transformation (Boston, Beacon Press, 1957), e Geor-
ge Dalton (org.), Primitive, Archaic, and Modern Economies: Essays of Karl Polanyi
(Boston, Beacon Press, 1971). Todas as citaçoes que se seguern foram extraIdas do
( primeiro.
9. Polanyi, p.76.
\\ 10. Ibid., p.42.
11.Ibid., p.41.
12.Ibid., p.40.
13.Ibid., p.33.

131
152 A origem do capitalismo
) Notas 133

14. Ibid., p.37.


) versity Press, 1985). Os outros trabaihos mais importantes de Brenner so "The
15.Idem.
Origins of Capitalist Development: A Critique of Neo-Smithian Marxism", New
) 16. Daniel R. Fusfield, "The Market in History", Monthly Review, 45 (maio de LeftReview, 104 (julho-agosto de 1977), p.25-92; "The Social Basis of Economic De-
1993), p.6.
velopment", in John Roemer (org.), Analytical Marxism (Cambridge, Cambridge
University Press, 1985); "Bourgeois Revolution and Transition to Capitalism", in
A.L. Beier et al. (orgs.), The First Modern Society (Cambridge, Cambridge Univer-
Cap Itulo 2. Debates marxistas sity Press, 1989); e Merchants and Revolution: Commercial Change, Political Conflict,
and London's Overseas Traders, 1550-1653 (Princeton, Princeton University Press,
) 1. Sobre as duas teorias da história em Marx, ver George Comninel, Rethinking
1993).
the French Revolution: Marxism and the Revisionist Challenge ( Londres, Verso,
) 2. Ver, por exemplo, Robert Albritton, "Did Agrarian Capitalism Exist?", Jour-
1987). Ver também Robert Brenner, "Bourgeois Revolution and Transition to
nal of Peasant Studies, 20 (abril de 1993, p.419-41).
) Capitalism", in A.L. Beier et al. (orgs.), The First Modern Society (Cambridge, Cam-
3. Por exemplo, a resenha de Brian Marining sobre Brenner, Merchants and
bridge University Press, 1989).
) Revolution: "The English Revolution and the transition from feudalism to capita-
2. R.H. Hilton (org.), The Transition from Feudalism to Capitalism (Londres,
lism", International Socialism, 63 (verao de 1994), p.84.
) Verso, 1976).
4. Ibid., p.82.
3. Maurice Dobb in ibid., p.59.
) 5. Perry Anderson, "Maurice Thomson's War", London Review of Books, 4 de
4. Hilton in ibid., p.27.
novembro de 1993, p.17.
) 5. Paul Sweezy in ibid., p.49.
6. Brenner, "Bourgeois Revolution and Transition to Capitalism". Para uma
6. Ibid., p.54.
) exposicao anterior de uma tese sernelhante, ver George Comninel, Rethinking the
7. Ibid., p.106-7.
French Revolution: Marxism and the Revisionist Challenge (Londres, Verso, 1987).
) 8.ldem.
7. Brenner, "Bourgeois Revolution", p.280.
9. Brenner, "The Origins of Capitalist Development: A Critique of
-' 8. Discuti mais detidamente esse ponto em The Pristine Culture of Capitalism
Neo-Srnjthian Marxism", New Left Review, 104 (julho-agosto de 1977), p.25-92.
(Londres, Verso, 1991).
) 10. Vet, por exemplo, Hilton em Transition, p.157-9.
9. Ver, por exemplo, G.A. Cohen, Karl Marx's Theory of History: A Defence
11. Perry Anderson, Lineages of the Absolutist State (Londres, Verso, 1974),
J (Princeton, Princeton University Press, 1978), p.75; e Perry Anderson, Arguments
p.19. Within English Marxism (Londres, Verso, 1980), p.40.
) 12. Idem.
10. E.P. Thompson, The Making of the English Working Class (Harmonds-
13.Ibid., p.23.
worth, Penguin, 1963), p. 288-9. Ver também p.222-3.
14.Ibid., p.18.
11.Thompson, Customs in Common (Londres, Merlin, 1991), p.38-42.
) 15. Anderson, "Maurice Thomson's War", London Review of Books, 4 de no-
vembro de 1993, p.17.
16. Vet, por exemplo, Karl Marx, 0 capital, vol.1 (Moscou, s/d), p.699-70 1.
CapItulo 4. A origem agrária do capitalismo
) 17. Brenner, "The Origins of Capitalist Development", p.76-7.
1. Resumi essa tese sobre a trajetória que foi da Antiguidade greco-romana
Para o feudalismo ocidental e, depois dele, Para o capitalismo, no primeiro capItulo
) CapItulo 3. Alternativas marxistas de meu livro DemocracyA gainst Capitalism: Renewing Historical Materialism (Cam-
bridge, Cambridge University Press, 1995), especialmente nas p.31-9. Também de-
1. 0 artigo original de Brenner foi publicado pela primeira vez em Past and
lineei a singularidade das antigas formas de propriedade romanas e suas
) Present, 70 (fevereiro de 1976). As respostas de M.M. Postan e John Hatcher, Patri-
implicaçoes Para os fenômenos posteriores na Europa Ocidental, p.250-2. Ha algu-
cia Croot e David Parker, Heide Wunder, Emmanuel Le Roy Ladurie, Guy Bois,
) mas especulaçoes muito provisórias sobre a origem grega das formas de proprieda-
R.H. Hilton, J.P. Cooper e Arnost Klima apareceram nas ediçoes seguintes, corn
de ocidentais em meu livro Peasant-Citizen and Slave: The Foundations ofAthenian
) uma resposta abrangente de Brenner no final. 0 debate completo foi reeditado em
Democracy (Londres, Verso, 1988), especialmente p.91-2. Quanto a especificidade
T.H. Aston e C.H.E. Philpin (orgs.), The Brenner Debate: Agrarian Class Structure
} das relaçoes de propriedade na Antiguidade grega e romana, ver também Demo-
and Economic Development in Pre-Industrial Europe (Cambridge, Cambridge Uni-
cracy Against Capitalism, p.187-90.
)
)
) L
134 A origem do capitalismo INotas

)
2. Desenvolvi partes dessa argumentaçao sobre os diferentes resultados do feu- "Obstacles to Agricultural Growth in Eighteenth-Century France", American
)
dalismo europeu, especialmente corn respeito ao capitalismo inglês e ao absolutis- Historical Review, 75 (1970), p.1610.
) mo frances, em The Pristine Culture of Capitalism (Londres, Verso, 1991). 3. 0 caso mais comurnente citado como rival da Inglaterra na corrida Para o
3. Eric Kerridge, Trade and Banking in Early Modern England (Manchester, capitalismo, pelo menos em suas fases iniciais (embora figure como uma "transiçao
)
Manchester University Press, 1988), p. 6. faiha" no desenvolvimento do capitalismo industrial) - a Repüblica da Holanda
4. Essa discussao das particularidades das relacoes de propriedade inglesas tern, do inIcio da era moderna -, representa aqui urn contraste interessante. Sendo uma
é claro, uma profunda dIvida Para corn Robert Brenner, especialmente em seus dois importante poténcia mercantil, com uma agricultura comercial bern desenvolvida e
)
artigos in T.H. Aston e C.H.E. Philpin (orgs.), The Brenner Debate (Cambridge, uma rica sociedade urbana, seus camponeses prósperos, em contraste corn os de
} Cambridge University Press, 1985). outros lugares, de fato constituIram um mercado Para alguns artigos de luxo, mas a
5. John Merrington, "Town and Country in the Transition to Capitalism", in republica nunca produziu o tipo de mercado de massa de artigos baratos Para uso
)
R.H. Hilton (org.), The Transition from Feudalism to Capitalism (Londres, Verso, cotidiano que se desenvolveu na Inglaterra. Seria interessante especular a respeito
) 1976), p.179. do que isso nos diz sobre as relaçOes de propriedade na Holanda. Seja como for,
6. Sobre a regulaçao da produçao pela comunidade campesina na Franca, ver a houve quem argurnentasse que as próprias caracterIsticas que o rnodelo mercantil
-)
conclusão de George Comninel, Rethinking the French Revolution: Marxism and the trata como os motores do desenvolvimento econômico - as cidades florescentes e
' Revisionist Challenge (Londres, Verso, 1987). o comércio internacional - revelararn-se, no caso holandês, fatores preponderan-
) 7. A respeito desses primeiros criticos sociais, ver Neal Wood, The Foundations tes a bloquear o desenvolvimento adicional. Ver, por exemplo, Jan de Vries, The
of Political Economy: Some Early Tudor Views on State and Society (Berkeley e Los Dutch Rural Economy in the Golden Age, 1500-1700 (New Haven, Yale University
Angeles, University of California Press, 1994). Press, 1974). Segundo essa tese, as cidades poderosas da repüblica acabararn estran-
gulando a produtividade holandesa, ao lhe imporem um parasitismo de tipo rentis-
) 8. Ver E.P. Thompson, "Custom, Law and Common Right", in Customs in
ta, que funcionou como urn dreno em sua agricultura florescente. Ao rnesmo
Common (Londres, Merlin, 1991).
tempo, a dependéncia do sistema tradicional de comércio internacional sujeitou a
9. A discussao que se segue a respeito de Locke baseou-se no capItulo sobre
Holanda, no século XVII, a uma crise econôrnica européia a qual somente a Inglater-
) Locke in Ellen Meiksins Wood e Neal Wood, A Trumpet of Sedition: Political Theory
rficou imune - ate por causa do mercado interno ingles e de seu "capitalismo de
and the Rise of Capitalism, 1509-1688 (Londres e Nova York, New York University
urn pals".
Press, 1997). Para uma discussao detalhada sobre Locke e a literatura referente ao
"melhoramento" no século XVII, ver Neal Wood, John Locke and Agrarian Capita- 4. Eric Kerridge, Trade and Banking in Early Modern England (Manchester,
lism (Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1984). Manchester University Press, 1988), P.4-6.
10.Agradeço essa observacao sobre Petty a uma dissertaçao doutoral da auto- 5. Ibid., p.6.
na de Cathy Livingstone, da Universidade York, em Toronto, Canada. 6. Os clássicos marxistas nessa rnatéria são os livros de Eric Williams, Capital-
11. Quanto a Revolucao Francesa e ao Estado como grande fonte material, ver ism and Slavery (Nova York, Russell and Russell, 1961), e de C.L.R. James, The Black
) Jacobins (Nova York, Vintage, 1989). A mais recente e fundamental contribuiçao
Comninel, Rethinking the French Revolution, especialmente o capItulo final.
Para esse debate é o livro de Robin Blackburn, The Making of New World Slavery
12. Ver Wood e Wood, Trumpet of Sedition, especialmente o capItulo 4, a pro-
pósito desse legado radical. (Londres, Verso, 1997).
)
7. Blackburn defende essa tese.
8. Discuti o desenvolvimento de outras formas de capitalismo européias, em
resposta as pressoes competitivas provenientes da Inglaterra, em The Pristine Cul-
CapItulo 5. Do capitalismo agrário ao capitalismo industrial ture of Capitalism (Londres, Verso, 1991), especialmente p.103-6.
9. Ver Eric Hobsbawm, Industry and Empire (Nova York, Pantheon, 1968).
1. Ver E.J. Hobsbawm, The Age of Empire (Londres, Weidenfeld and Nichol-
son, 1987), p.343.
) 2. Sobre a falta de "melhoramento" na agricultura francesa do século XVII e
grande parte do XVIII, ver Hugues Neveux, Jean Jacquart e Emmanuel Le Roy Ladu- CapItulo 6. Modernidade e pós-modernidade
ne, L'Age classique des paysans, 1340-1789 (Paris, Editions du Seuil, 1975), especial-
mente p.214-5. Vale acrescentar que os grandes proprietários franceses nao viam 1. Discuti essas expressoes culturais e intelectuais do absolutismo frances em
seus arrendatários como empresários ou ineihoradores. Ver Robert Forster, The Pristine Culture of Capitalism (Londres, Verso, 1991).

j
U
136 A origem do capitalismo

2. Marshall Berman, All That Is Solid Melts into Air: The Experience of Moder-
nity (Nova York, Simon and Schuster, 1982), p.18. Agradecimentos
3.Ver Wood, Pristine Culture, Para maiores detaihes sobre esse contraste entre
a cultura do capitalismo inglês e a do absolutismo frances.
4. Roger Burbach, "For a Zapatista Style Postmodernist Perspective", Monthly
Review, 47 (marco de 1996), p.37.
5.Ver, por exemplo, David Harvey, The Condition of Postmodernity (Oxford e
Cambridge, Mass., Blackwell, 1989), e Fredric Jameson, Postmodernism, or, The
Cultural Logic of Late Capitalism (Londres, Verso, 1991). Algumas partes deste livro já foram publicadas antes em diversos lo-
cais: "From Opportunity to Imperative: The History of the Market",
Conclusão Monthly Review 46 (jul-ago 1994); "Capitalism, Merchants and
Bourgeois Revolution: Reflections on the Brenner Debate and its Se
1. Para uma crItica do mercado e de sua dependéncia da transformacao da for- quel, International Review of Social History 41(1996); "Modernity,
ça de trabalho em mercadoria, ver David McNally, Against the Market (Londres,
Postmodernity, or Capitalism?", Monthly Review 48 (jul-ago 1996),
Verso, 1993), especialmente o capItulo 6.
publicado em versOes substancialmente revistas e ampliadas em Re-
view of International Political Economy 41 (outono de 1997) e em
Robert McChesney, John Bellamy Foster e Ellen Meiksins Wood
(orgs.), Capitalism and the Information Age (Nova York, Monthly
Review Press, 1997); "The Non-History of Capitalism", Historical
Materialism 1 (1997); Ellen Meiksins Wood e Neal Wood, A Trum-
pet of Sedition - Political Theory and the Rise of Capitalism,
1509-1688 (Nova York, New York UP, 1997); e "The Agrarian Ori-
gins of Capitalism", Monthly Review 50 (julho-agosto de 1998).
Quero agradecer a Neal Wood por seus comentários e seu incen-
tivo e, em especial, a Chris Phelps, diretor editorial da Monthly Re-
view Press, que nao aenas me convenceu a produzir este livro, mas
foi muito além dos aprimoramentos editoriais de rotina, corn suas
crIticas e sugestoes extremamente üteis e perspicazes.
Por fim, meu agradecimento a maravilhosa equipe da Monthly
/ Review Press por tudo o que seus membros fizeram e continuam fa-
zendo para promover este livro.

137 Lye )p
\
Indice remissivo

absolutismo, 52-3, 87, 114-5, 116-7; e fe- desenvolvimento industrial, 101-2,


udalismo,44-8 108-11; a Irlanda como labora-
agricultura: mercantil inglesa, 47-8, tOrio Para o, 108-9; e o meihora-
49-50; produtividade da, 54, 58-9, mento da terra, 88-91; origens
88-90, 104, 105; ver também capita- do, 81-6; e trabaiho assalariado,
lismo agrário 101-4
America colonial, 86-7, 97 capitalismo mercantil, 49, 107-8; ver
Anderson, Perry, 44-9, 62, 63, 68; sobre tambérn comércio internacional
o absolutismo, 44-8, 52-3 capitalismo: e absolutismo, 44-8; e
apropriaçao extra- econômica, 76-7, luta de classes, 99-100; mercan-
94-5, 114-5, 118-9; ver tarnbérn ex- til, 49, 107-8; crises do, 7-8; efei-
torsão do excedente tos destrutivos do, 128-9;
aristocracia, 82-3, 96, 98, 100-1; senho- surgimento do, 9-10, 47-8; tran-
res feudais, 24-5, 44-5, 46-7; classe siçoes falhas Para o, 35, 43; pro-
dominante, 82, 94-5 cesso histórico do, 7-8, 61;
arrendamentos pagos em dinheiro, 53 industrial, 58, 108-11; leis de
arrendatários ingleses, 52-3, 54, 60-1, movimento do, 8, 24-5, 125;
82-3, 84-6, 103 atribuicao de caráter natural ao,
bens suntuários ver comércio de artigos 13-4, 77, 122; objetivos do, 8, 9;
de luxo racionalizaçao, 113-4; cresci-
Berman, Marshall, 117-8 mento urbano, 22-3, 76-7; ver
Bois, Guy, 55, 56 tambérn capitalismo agrário;
Braudel, Fernand, 26 mercado
Brenner, Robert, 40, 50, 66, 85; e a revo- cidades, 22-3, 75-7; ver tambérn urba-
luçao burguesa, 61-4; sobre o capi- nizaçao
talismo inglés, 47-9 cidades, expansao das, 41, 45; ver
burguesia, 23-4, 44, 45-6; interesses da tarn bern cidades; urbanizacao
burguesia francesa, 114-7, 118-9 classe dominante, 53, 82, 94-5; ver
tambérn aristocracia; senhores
campesinato ver camponeses
feudais; grandes proprietários
camponeses, 86, 90, 98-9; desapropria-
classe trabalhadora, 65-6, 67
çao dos, 58-9, 60; extorsão do exce-
dente dos, 56, 77, 81-2 colapso econômico russo, 7
Capital, 0 (Marx), 36 comércio de artigos de luxo, 79-80,81
capitalismo agrário inglês,53, 57, 58, comércio internacional, 64, 79-81,
77-8, 126; e luta de classes, 97-100; e 107-8, 135n.3

139
140 A origem do capitalismo Indice rernissivo 141

comércio, 30-1, 37-8, 39; iriternacional, exploracao, formas de, 80-1, 85-8 homem econômico, 30 longue durée, 28
64, 79-81, 107-8, 135n.3 extorsão do excedente, 55; e trabaiho, luta de classes, 52, 56, 59-61, 97-100,
competiçlo, 30-1, 64, 79-81 25, 77-8, 81, 83-5, 98 Ideologia alema, A (Marx e Engels), 36 112; e feudalismo, 37-9,40,41
crescimento populacional, 27, 104-6 Iluminisrno,21-2, 119-20, 121-2
fazendeiros ingleses, 59-61; arrenda- imperativos de mercado, 11-3, 24-5, rnalthusianismo, 27, 50-1, 52-3
debate sobre a transiçao, 37-44; e mode- tários, 54, 82-3, 84, 102-3; pe- 34-5, 111; globalizaçao dos, 126-7, Manifesto cornunista, 0 (Marx e
lo mercantil, 39-41, 42-3; e produ- quenos produtores mercantis, 128-9; e relacOes sociais, 53, 60, 79; Engels), 36
çao mercantil, 37-9, 42-4 43-4, 53-4, 59, 100; ver também sociedade de mercado, 29-33, 64-9; Mann, Michael, 28, 52
debate sobre Brenner, 50, 62; sobre a trIade agrária; agricultura e industrializaçao, 67-8, 111-2; e mao-de-obra ver trabalho
produtividade agrIcola, 58-9; sobre fazendeiros/produtores mercantis in- proletarizaçao, 65-6; ver também Marx, Karl, 12,36-7,47-9,62, 67;teo-
as relacoes de classe, 59-61; sobre as gleses, 43-4, 53-4, 59, 100 competiçao; produtividade; lucro na da "via realmente revolucio-
relacoes de propriedade inglesas, feudalismo, 33-4,36, 51,52; e absolu- imperialismo, 70, 126-7; colonial inglês, nária" de, 39, 43
50-1,52-5 tismo, 44-8, 87; luta de classes 107-8, 109-10 marxistas, 12, 35, 69-70
debates marxistas ver absolutismo; de- no, 38-9, 40-1, 42; e modelo Indios americanos, 92-3, 94, 97 mercado de bens de consumo, 106-7,
bate sobre Brenner; Thompson, mercantil, 22-3, 24-5; dissoluçao industrializacao: e capitalismo agrário, 109-10,111
E.P.; debate sobre a transiçao do, 37-8, 39-40, 51-2; origens do 58, 108-11; imperialismo britânico mercado de massa, 107, 109-10,
desenvolvimento econômico, 126-7; e capitalismo no, 37, 75-6 e, 107-9; sociedade de mercado e, 135n.3
crescimento populacional, 27,104-5 Formação da classe trabaihadora in- 66, 67-8, 111-2 mercado interno ingles, 106-7, 111
desenvolvimento tecnológico, 10, 32-3, glesa, A (Thompson), 65, 68 Inglaterra: produtividade agrIcola da, mercado nacional inglês, 30-1, 64,
66; ver tanibém industrializacao Franca: produtividade agricola da, 53-43 58-9, 88-9, 104-5; revoluçao 81-2, 87-8, 106
destruiçao ambiental, 126 58-9, 104-5; luta de classes na, burguesa na, 61-4; centralizaçao na, mercado social, 128
Dobb, Maurice, 37-8, 40,41-3, 51, 53 97-9; comércio na, 79-80; mo- 82-3; luta de classes na, 98-100; e Mercado: dependência do, 78-9,
dernidade - e capitalismo na, cornparaçao corn a Repiiblica da 102-3;interno, 106-7, 111; como
economia global, 7,126-7 114-7; relaçOes de propriedade Holanda, 135n.3; surgimento do regulador econômico, 127-8; de
economia mercantil, 44-5,46 na, 81, 84-5, 87, 105; e riqueza capitalismo na, 47-9; capitalismo massa, 106-7, 109-10, 135n.3;
emancipaçao, 118-9,120-2 proveniente da escravidao, 109 industrial na, 118'; uso da terra nacional, 30-1, 64, 82, 87-8, 106;
erudiçao histórica, 70-1 Frank, Andre Gunder, 40 na, 90-2; transformaç merca- como oportunidade, 11-2, 60;
escravidao, 97, 109 do na, 68-9; relaçOes de proprieda- regulaçao do, 31-2, 33-4, 69
Grande transformaçao, A (Polanyi),
Espanha, 109 de na, 51, 52-5, 63-4; ver também mercadores/comerciantes, 23-4, 61-2,
29,35
"Estrutura agrária de classes e desenvol- capitalismo agrário ingles 101-2
grandes proprietários, 53, 92, 96; e re-
vimento econômico na Europa invasão muculmana, 22 Merchants and Revolution ( Brenner),
laçoes de propriedade, 53, 55,
pré-industrial" (Brenner), 50-1 Irlanda como colônia inglesa, 108-9 47,61
77-8; e produtividade dos arren-
Estudos sobre o desenvolvimento do capi- Merrington, John, 84
datários, 66, 83-4 Jdlia, ouA nova Helolsa ( Rousseau), 117
talismo (Dobb), 37 modelo demografico, 26-7, 50-1
Grundrisse [ Elementos de crItica a
ética do meihoramento, 93, 97, 126; na latifundiários ver grandes proprietários modelo mercantil, 13, 21-9, 36, 70,
economia political (Marx), 36
agricultura, 54, 88-91, 119-20 Le Roy Ladurie, Emmanuel, 55-6 135n.3; progresso burgués no,
Guerra Civil (Inglaterra), 91-2
eurocentrismo, 70 leis de movimento, 8, 25, 125; ver tam- 22-4, 63; e feudalismo, 23, 24-5;
Europa Oriental, 127 habitantes dos burgos, 23; ver tam- bern imperativos de mercado aprimoramentos do, 26-9; e de-
Europa: escravidao colonial e, 109; Ori- bern burguesia Leste Europeu, ver Europa Oriental bates sobre a transiçao, 39-41,
ental, 127; modelos de desenvolvi- Harvey, David, 117 liberdade, forças de mercado e, 12 42-3
mento econômico da, 26-9; raIzes Hilton, R.H., 37-8,56 Lineages of the Absolutist State (Ander- Modernidade: dualidade da, 117-8,
do capitalismo na, 8-9, 75-6; frag- história, 8, 10, 61 son), 44 122-3; e emancipaçao, 118-9,
rnentaçao do Estado na, 81-2; ver "HistOria econômica geral" (Polanyi), Locke, John, 89, 92-7 120-1; e Iluminismo, 113-8, 120.
também paIses especIficos 34 Londres, 82, 105, 106, 107 121
142 A origem do capitalismo mndice remissivo 143

More, Thomas, 91 regulador econômico, mercado como, Thompson, E.P., 64-9; sobre a industri- troca, 9-11,12-3; ver também mercado
motivaçao do lucro, 8-9, 29-30; e me- 127-8 alizaçao, 66, 67-8 troca de mercadorias, 12-3
Ihoramento da terra, 88-9, 94 relaçoes de propriedade, 77-8; trans- 'trabalho: transformaçao do, em merca-
movimento de cercamento, 91-2, 97, 99 formaçoes das, inglesas, 52-5,84, doria, 33, 128-9; livre, 68; e indus- Uniao Soviética, antiga, 127
85, 89-91, 104-5; ver também re- trializaçao, 67-8; capacidade de, 40, universalidade, 116-7,. 121-2
oferta e procura, leis da, 27-8 urbanizaçao, 23, 76-7; na Inglaterra e
laçoes sociais de propriedade 56, 77-8, 111-2; produtividade do,
organizaçao social e capitalismo, 29 na Franca, comparadas, 104-5,
relaçOes soclais de propriedade, 51, 9, 22, 40-1, 57, 66-7; proletarizacao
102, 114-5; e capitalismo, 47-9; e do, 58, 61, 65-6, 102-3, 111-2; e 106; e feudalismo, 41, 44-5
padrao demografico ingles, 104-6
o mercado, 11-3, 29-30, 77-8; propriedade, 92-5; excedente, 25, uso da terra, 12; e movimento de cer-
pequenos produtores mercantis, 10-1,
transformaçao das, 34-5, 105-6, 56, 77-8, 81, 83-5, 98; ver também camento, 91-2; e ética do melho-
54, 59, 84-5
111-2; ver também relaçoes de trabalho assalariado ramento, 88-91; ver também
Petty, William, 95, 108
propriedade trabalho assalariado, 8, 54, 56, 58, 94; e relaçOes de propriedade
Pirenne, Henri, 22
poder estatal, 44-5, 64, 82-3 renda econômica, 53, 84-6 capitalismo agrário, 86, 94, 101-4 "via realmente revolucionária", 39-40,
poder politico-econômico, 46-7 renda monetária [da terra], 53, 84-6 trIade agrária inglesa, 59, 86, 100, 102-3; 43
Polanyi, Karl, 29-35, 80; conceito de so- reproduçao social, 53, 66, 78-9 ver tam bern grandes proprietários;
ciedade de mercado de, 29-34 Repüblica da Holanda, 135n.3 fazendeiros; trabalho assalariado Wallerstein, Immanuel, 40
Portugal, 109 revoluçao burguesa, 37, 61-4, 100, tributaçao francesa, 98-9, 116 Weber, Max, 26-7,113-4,122
pós-modernidade, 120-3 116-7
posse da terra na Inglaterra, 83, 96 Revoluçao Francesa (1789), 63-4, 69,
privilegio, 116-7 99, 100, 114-6
produçao mercantil, 32-3, 39-40, 41-2; Revoluçao Gloriosa (1688), 92
modalidade da pequena, 37-9, Revoluçao Industrial, 32-3, 34, 66,
42-3, 44, 50-2 110-_i
produçao, escala da, 33; ver também pro- Rousseau, Jean-Jacques, 117-8
duçao mercantil - Royal Society (Inglaterra), 89, 96
produtividade, 54; e capitalismo agrário,
83-4, 85, 86, 104; do trabalho, 8-9, Segundo tratado sabre o governo (Loc-
22, 40-1, 57, 66-7, 95; e meihora- ke), 92
mento da terra, 54, 88-9 Seneca, 118
produtores, 77-8, 94-5, 96; pequenos senhores feudais, 24-5, 44-5, 46-7
produtores mercantis, 11,53-4, 59 servidao, 44-5
progresso, 22, 33-4 Shaftesbury, primeiro conde de, 89,
proletarizaçao, 58,61,65-6,102-3,111-2 95,96
propriedade exclusiva, 90, 96 sistemas bancários, 107
propriedade privada, 29 sistemas comerciais/mercantis, 105-6;
propriedade: antigas formas de, 133n.1; ver também mercado
e luta de classes na Inglaterra, 99, Smith, Adam, 30
100; teoria de Locke sobre a, 92-7; sociedade mercantil do Mediterrâ-
privada, 29 neo, 22
sociologia histórica, 28-9
racionalizaçao, 25-6, 122; e modernida- St. Preux (A nova HeloIsa), 117
de, 113-5, 117, 119-20 Sweezy, Paul, 37, 39-44, 51
reciprocidade/redistribuiçao, 30
regulaçao estatal, 30-1, 33-4,69 terras comunais, 90, 91, 96, 97

Você também pode gostar