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SUMÁRI
© 2003 by José Carlos Lib:mco
Joáo ferreira ele Oliveira
Mirza Seabra Toschi

© Dirciros ele publicaÇio


CORTEZ EDITORA
r Aos PROFESSORES ..................................................... 11

APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO .................................................... 13


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APRESENTAÇÃO DO LIVRO ..................................................... 23
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INTRODUÇÃO
Direção ····················································· 29
José X1wicr Cortez 1. Novas realidades sociais, as reformas
Editor educativas, a organização
Amir l'iedrzde e a gestão das escolas ............................. 33
Preparação 2. Breve história dos estudos disciplinares
Alexa11clre Soares Sa!ltana relacionados à estrutura e à
Revisão organização do ensino .......................... 38
Oneide Espinosa 2.1. Legislação, objetivos e conteúdos básicos . 40
Papéis da capa 2.2. A evolução da disciplina
A1elier Luiz Femando lvlach11do (a transformação do objeto de estudo) .. 44
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Bibliografia ............................................. 46
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
IA PARTE A EDUCAÇÃO ESCOLAR NO CONTEXTO DAS
Libirneo. José Carlos
TRANSFORMAÇÕES DA SOCIEDADE
Educação escolar: políticas. estrutura e organização/ .José
Carlos Libônco. João Ferreira de Oliveira. Mirza Seabra Toschi CONTEMPORÂNEA ....................................... 49
1O. cd .. São Paulo: Cortez, 2011. - (Coleção Docência em
Formac;ão I coordcnaçüo António Joaquim Severino, Sclma
Garrido Pimenta) CAPÍTULO I As TRANSFORMAÇÕES TÉCNICO-CIENTÍFICAS,
Bibliografia
ECONÕMICAS E POLÍTICAS .............................. 57
ISBN 978-85-249-0944-3
1. Revolução tecnológica: impactos e
1. Educação - Brasil 2. Educação e Estado Brasil
3. Escolas·- Administração e Organização 4. Escolas perspectivas ...................................... 59
públicas - Brasil 5. Professores Formação 2. Globalização e exclusão social ............... 70
Profissional !. OI inira. João Ferreira de. 11. Toschi,
Mirza Seabra. Jll Severino. António Joaquim. IV. Pimenta, 3. Neoliberalismo: o mercado como
Selma Garrido. V. Título. VI. Série. princípio fundador, unificador e
auto-regulador da sociedade ................ 84
03-2083 CDD-371.00981

Índices para catálogo sistemático: CAPÍTULO II A EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA E


1. Brasil: Eclucaçiio escolar 3 71.00981 DEMOCRÁTICA NO CONTEXTO ATUAL:
2. Educação escolar: Brasil 371.00981
Impresso no Brasil·- abril ele 2011
UM DESAFIO FUNDAMENTAL .......................... 107
a

arte

Or anização e gestão
da escola: os rofessores
e a construção coletiva
do ambiente de trabalho
Organização e gestão da
escola: os professores e a
construção coletiva do
ambiente de trabalho

Nas partes anteriores, foram apresentados a estrutura e a


organização do ensino, a legislação, as políticas e os
planos educacionais, no intuito de buscar a compreensão
do funcionamento do sistema escolar no País no contexto
das transformações e dos desafios gerados pelas novas
realidades sociais. A discussão dessas questões teve o
propósito de oferecer aos alunos e futuros professores
urna visão de conjunto do contexto institucional e
sociopolítico da educação e de suas relações com a escola
e com o exercício da profissão de professor.

Esta última parte aborda a escola como unidade bási-


ca do sistema escolar, ou seja, como ponto de encontro
entre as políticas e as diretrizes do sistema e o trabalho
direto na sala de aula. A nosso ver, o exercício da profis-
são ganha mais qualidade se o professor conhece bem o
funcionamento do sistema escolar (as políticas educa-
cionais, as diretrizes legais, as relações entre escola e
sociedade, etc.) e das escolas (sua organização interna,
as formas de gestão, o currículo, os métodos de ensino, o
relacionamento professor-aluno, a participação da co-
munidade, etc.) e aprende a estabelecer relações entre es-
sas duas instâncias.
Os professores têm várias responsabilidades pro-
fissionais: conhecer bem a matéria, saber ensiná-la, ligar
o ensino à realidade do aluno e a seu contexto social, ter
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

uma prática de investigação sobre seu próprio trabalho.


Há, todavia, outra importante tarefa, nem sempre valo-
rizada: a de participar de forma consciente e eficaz nas
Capítulo 1
práticas de organização e de gestão da escola. Os profes-
sores, além da responsabilidade de dirigir uma classe,
são membros de uma equipe de trabalho em que dis-
cutem, tomam decisões e definem formas de ação, de
modo que a estrutura e os procedimentos da organiza-
ção e da gestão sejam construídos conjuntamente pelos
que nela atuam (professores, diretores, coordenadores,
funcionários, alunos).
Em razão disso, o propósito desta última parte do li-
vro é o de ajudar os professores a: estabelecer relações
entre as decisões do sistema escolar e as decisões tomadas
,,.,
na escola; desenvolver conhecimentos, habilidades, ati-
tudes e valores em relação à organização e à gestão da RGANIZAÇAO E GESTAO,
escola; identificar necessidades e problemas na própria
situação de trabalho e buscar, conjuntamente, soluções
e práticas inovadoras; pesquisar e pôr em prática idéias,
BJETIVOS DO ENSINO E
saberes, experiências e modos de agir, para o aprimora-
mento das condições de aprendizagem dos alunos. TRABALH DOS PROFESSORES

290
Organização e gestão,
objetivos do ensino e
trabalho dos professores

A organização e a gestão constituem o conjunto


das condições e dos meios utilizados para assegurar o
bom funcionamento da instituição escolar, de modo que
alcance os objetivos educacionais esperados. Os termos
organização e gestão são, freqüentemente, associados à
idéia de administração, de governo, de provisão de
condições de funcionamento de determinada instituição
social -família, empresa, escola, órgão público,
entidades sindicais, culturais, científicas, etc. -para a
realização de seus objetivos.

No caso da escola, a organização e a gestão referem-se


ao conjunto de normas, diretrizes, estrutura organizacio-
nal, ações e procedimentos que asseguram a racionaliza-
ção do uso de recursos humanos, materiais, financeiros
e intelectuais assim como a coordenação e o acompa-
nhamento do trabalho das pessoas. Por racionalização
do uso de recursos compreende-se a escolha racional de
meios compatíveis com os fins visados e a adequada uti-
lização desses recursos, que assegure a melhor realização
possível desses fins. Por coordenação e acompanhamento
compreendem-se as ações e os procedimentos destina-
dos a reunir, a articular e a integrar as atividades das
pessoas que atuam na escola, para alcançar objetivos
comuns. Para que essas duas características mais gerais
de uma instituição se efetivem, são postas em ação as
funções específicas de planejar, organizar, dirigir e avaliar.
A condução dessas funções, mediante várias ações e
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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

procedimentos, é o que se designa gestão, a atividade que do sistema escolar. A idéia de ter as escolas como refe-
põe em ação um sistema organizacional. rência para a formulação e gestão das políticas educa-
Dessa definição geral, são extraídas duas conse- cionais não é nova, mas adquire importância crescente no
qüências importantes. A primeira é que as formas de planejamento das reformas educacionais exigidas pelas
organização e de gestão são sempre meios, nunca fins, recentes transformações do mundo contemporâneo. Por
embora, muitas vezes, erradamente, se tratem meios essa razão, as propostas curriculares, as leis e as resolu-
como fins: os meios existem para se alcançarem de- ções referem-se atualmente a práticas organizacionais co-
terminados fins e lhes são subordinados. A segunda é mo autonomia, descentralização, projeto pedagógico-cur-
que, conceitualmente, a gestão faz parte da organiza- ricular, gestão centrada na escola e avaliação institucional.
ção, mas aparece junto com ela por duas razões: a) a Há, pelo menos, duas maneiras de ver a gestão edu-
escola é uma organização em que tanto seus objetivos cacional centrada na escola. Na perspectiva neolibe-
e resultados quanto seus processos e meios são relacio- ral, pôr a escola como centro das políticas significa
nados com a formação humana, ganhando relevân- liberar boa parte das responsabilidades do Estado, dei-
cia, portanto, o fortalecimento das relações sociais, xando às comunidades e às escolas a iniciativa de plane-
culturais e afetivas que nela têm lugar; b) as instituições jar, organizar e avaliar os serviços educacionais. Já na
escolares, por prevalecer nelas o elemento humano, perspectiva sociocrítica, a decisão significa valorizar as
precisam ser democraticamente administradas, de mo- ações concretas dos profissionais na escola que sejam
do que todos os seus integrantes canalizem esforços para decorrentes de sua iniciativa, de seus interesses, de suas
a realização de objetivos educacionais, acentuando-se a interações (autonomia e participação), em razão do
necessidade da gestão participativa e da gestão da interesse público dos serviços educacionais prestados,
participação. sem, com isso, desobrigar o Estado de suas responsabi-
A organização e gestão da escola correspondem, lidades.
portanto, à necessidade de a instituição escolar dispor Nessa segunda perspectiva, a escola e seu modo de
das condições e dos meios para a realização de seus se organizar constituem um ambiente educativo, isto
objetivos específicos. Elas visam: é, um espaço de formação e de aprendizagem construí-
a) prover as condições, os meios e todos os recursos do por seus componentes, um lugar em que os profis-
necessários ao ótimo funcionamento da escola e do sionais podem decidir sobre seu trabalho e aprender
trabalho em sala de aula; mais sobre sua profissão. Acredita-se que não são ape-
nas os professores que educam. Todas as pessoas que
b) promover o envolvimento das pessoas no trabalho,
trabalham na escola realizam ações educativas, embora
por meio da participação, e fazer a avaliação e o acom-
não tenham as mesmas responsabilidades nem atuem
panhamento dessa participação;
de forma igual. Por exemplo, o atendimento aos pais,
c) garantir a realização da aprendizagem para todos os efetuado pela secretaria escolar, pode ser respeitoso
alunos. ou desrespeitoso, inclusivo ou excludente, grosseiro
Os estudos atuais sobre o sistema escolar e sobre as ou atencioso; a distribuição da merenda envolve atitu-
políticas educacionais têm-se centrado na escola como des e modos de agir das funcionárias da escola que in-
unidade básica e como espaço de realização das metas fluenciam a educação das crianças de maneira positiva

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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

ou negativa; as reuniões pedagógicas podem tornar-se Com efeito, a escola é instância integrante do todo
espaço de participação das pessoas ou de manifestação social, sendo afetada pela estrutura econômica e so-
do poder pessoal do diretor. cial, pelas decisões políticas e pelas relações de poder
Esses exemplos mostram que todas as ações e ocor- em vigor na sociedade. Assim, as políticas, as diretrizes
rências de uma escola têm caráter eminentemente pe- curriculares, as formas de organização do sistema de
dagógico. As escolas são, pois, ambientes formativos, ensino estão carregadas de significados sociais e políti-
o que significa que as práticas de organização e de ges- cos que influenciam fortemente as idéias, as atitudes,
tão educam, isto é, podem criar ou modificar os modos os modos de agir e os comportamentos de professores
de pensar e agir das pessoas. Por outro lado, também e alunos, bem como as práticas pedagógicas, curricu-
a organização escolar aprende com as pessoas, uma vez lares e organizacionais. Isso mostra que há uma re-
que sua estrutura e seus processos de gestão podem ser lação de influência mútua entre a sociedade, o sistema
construídos pelos próprios membros que a compõem. de ensino, a instituição escolar e os sujeitos - ou se-
Ou seja, as pessoas mudam com as práticas organiza- ja, as políticas e as diretrizes do sistema de ensino po-
tivas, as organizações mudam com as pessoas. "Os in- dem exercer forte influência e controle na formação
divíduos e os grupos mudam mudando o próprio contex- das subjetividades de professores e alunos.
to em que trabalham", assinalam Amiguinho e Caná- Essa relação entre decisões do sistema de ensino e
rio (1994). sua efetivação nas escolas revela claramente que as
formas de organização e de gestão desempenham um
papel educativo, já que dão certa conformação às ati-
1. A escola entre o sistema tudes, às idéias e aos modos de agir tanto de profes-
de ensino e a sala de aula sores como de alunos. Decorre daí a necessidade de que
os futuros professores reconheçam e compreendam
A organização do sistema de ensino de um país as relações entre o espaço escolar, o sistema de ensino
pode ser considerada em três grandes instâncias: o e o sistema social mais amplo. Precisam, assim, saber
sistema de ensino como tal, as escolas, as salas de aula. como e por que são tomadas certas decisões no âm-
As escolas situam-se entre as políticas educacionais, bito do sistema de ensino, como a direção da escola
as diretrizes curriculares, as formas organizativas do lhes transmite tais decisões e como estas expressam
sistema e as ações pedagógico-didáticas na sala de aula. relações de poder, idéias sobre o tipo de aluno a ser
A escola é, assim, o espaço de realização tanto dos educado, formas de avaliação e de controle do trabalho
objetivos do sistema de ensino quanto dos objetivos escolar. Como responsáveis pela formação intelectual,
de aprendizagem. Na prática, significa que as análises afetiva e ética dos alunos, os professores necessitam
críticas sobre o sistema de ensino e sobre as políticas ter consciência das determinações sociais e políticas,
educacionais perdem a força analítica, se não tiverem das relações de poder implícitas nas decisões admi-
como referência a escola e as salas de aula, do mesmo nistrativas e pedagógicas do sistema e de como elas
modo que os profissionais de determinado estabeleci- afetam as decisões e as ações levadas a efeito na esco-
mento escolar podem ter a eficácia de seu trabalho la e nas salas de aula.
reduzida, se não tiverem uma visão de conjunto do Todavia, a constatação da influência do sistema de
sistema de ensino nacional e estadual. ensino sobre as escolas não pode levar os professores

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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

a recusar toda e qualquer decisão vinda de cima, só controle, transforma-a num campo de reprodução, con-
porque provém de uma autoridade superior. É impor- denando os atores e despojando-os das suas margens de
tante que as escolas e os professores tenham autono- autonomia e liberdade e das suas capacidades estratégi-
mia em suas decisões, mas essa será sempre relativa. cas. (... ) [Por outro lado] a escola não será apenas uma
Por exemplo, as Secretarias de Educação têm o dever e instância hetero-organizada para a reprodução, mas será
a responsabilidade de fazer as escolas funcionarem e, também uma instância auto-organizada para a pro-
para isso, precisam que os professores tomem conhe- dução de regras e a tomada de decisões, expressão possí-
cimento de certas normas e diretrizes, se convençam vel de atualização de estratégias e de usos de margens de
de sua legitimidade e passem a agir de acordo com as autonomia dos atores (Lima, 1996, p. 31).
expectativas dos dirigentes. A direção da escola, por
sua vez, deve reunir o corpo docente para comunicar Portanto, não convém às escolas ignorar o papel do
novas normas legais, diretrizes pedagógicas e mudan- Estado, das Secretarias da Educação e das normas do
ças de rotinas de trabalho. Ou seja, o vínculo das esco- sistema nem simplesmente subjugar-se a suas deter-
las com o sistema de ensino (Ministério da Educação, minações. Também é salutar precaver-se contra algu-
Secretarias de Educação, Conselhos de Educação, etc.) mas atitudes demasiado sonhadoras de professores
decorre de necessária unidade política e administra- que acham possível uma autonomia total das escolas,
tiva de gestão de um sistema. como se elas pudessem prescindir inteiramente de ins-
Então, qual é o problema? Ele diz respeito às for- trumentos normativos e operativos das instâncias su-
mas pelas quais os órgãos de gestão do sistema tomam periores. A autonomia das escolas em face das várias
decisões, ao processo de elaboração das leis e, muitas instâncias sociais será sempre relativa. É preciso saber
vezes, aos conteúdos da legislação, os quais nem sempre compatibilizar as decisões do sistema e as decisões toma-
expressam interesses da comunidade escolar. Reuniões das no âmbito das escolas, sem desconhecer as tensões
que se destinam apenas à comunicação de decisões im- entre umas e outras, entendendo que "nos terrenos da
pedem os professores de participar no processo decisó- ação em contexto escolar, nenhuma das partes [pode]
rio ou de fazer leitura crítica das medidas ou textos
exercer hegemonicamente o controle total sobre a outra"
legais. Queremos assinalar a necessidade de atitude
(Lima, 1996, p. 32).
crítica ante as determinações oficiais, para avaliar o
Será, portanto, muito útil aos objetivos da gestão
grau em que as políticas e as diretrizes são democráti-
cas, justas, inclusivas, respeitadoras das diferenças rela- participativa que os professores compreendam os pro-
tivas ao direito de todos à escolarização. cessos de tomada de decisões do Estado e do sistema
Segundo o pesquisador português Licínio C. Lima educativo, entendendo que a escola não está isolada
(1996), as escolas têm uma relação de dependência do sistema social, político e cultural. Ao contrário, não
com o sistema de ensino, não funcionam isoladamente. só ela depende das estruturas sociais, como também
Todavia, essa dependência é relativa, já que podem as- as práticas de imposição normativa podem estar reti-
sumir sua margem de autonomia. Ele escreve: rando dos professores a autonomia e a liberdade de
assumir suas próprias decisões. Por outro lado, os ins-
A subjugação total da escola à imposição normativa, trumentos normativos e as diretrizes curriculares e or-
levada a cabo pelo Estado e pelos sistemas globais de ganizativas não podem ser uma camisa-de-força para
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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

as escolas. Podem, sim, ser objeto de interpretação, interdependência entre os objetivos e as funções da
ser rediscutidos, ser apenas parcialmente acatados e escola e a organização e a gestão do trabalho escolar.
até propiciar as decisões mais apropriadas ao contex- A organização e a gestão são meios para atingir as
to das escolas. finalidades do ensino. É preciso ter clareza de que o
A compreensão dos nexos entre o sistema de ensino eixo da instituição escolar é a qualidade dos processos
e as escolas, bem como do papel delas e dos profes- de ensino e aprendizagem que, mediante procedimen-
sores ante as decisões emanadas do sistema, implica tos pedagógico-didáticos, propiciam melhores resul-
que a organização e a gestão escolares ocorram medi- tados de aprendizagem. São de pouca valia inovações
ante formas participativas, concebendo a escola como como gestão democrática, eleições para diretor, intro-
uma comunidade democrática de aprendizagem. dução de modernos equipamentos e outras, se os alu-
Em síntese, para ser um ativo participante no pro- nos continuam apresentando baixo rendimento escolar
cesso de tomadas de decisão na escola, o professor preci- e aprendizagens não consolidadas.
sa conhecer bem a estrutura e a organização do ensino,
as políticas educacionais e as normas legais, os meca-
nismos de sua elaboração e divulgação, bem como de- 3, Funcionar bem para
senvolver habilidades de participação e de atuação em melhorar a aprendizagem
colaboração com os colegas de equipe. Essas são condi-
ções indispensáveis para que os sujeitos-professores O que as famílias, a comunidade e os próprios alu-
não sejam tutelados pelas decisões externas. Ao contrá- nos esperam de uma escola? Que características dela
rio, se as aceitarem ou negarem, que o façam cons- fazem diferença no que diz respeito ao nível da quali-
cientemente, admitindo também a possibilidade de dade de ensino e de reputação na comunidade? Muito
diálogo com as instâncias superiores. provavelmente, os pais desejam que seus filhos apren-
dam bem, que não aprendam coisas erradas, que os
conhecimentos, as habilidades, os valores tenham ser-
2, Os objetivos da escola e as práticas ventia para a vida - ou seja, desejam uma escola em
de organização e de gestão que os alunos estejam motivados para estar nas aulas
e se envolvam com afinco nas atividades da classe.
A escola é uma instituição social com objetivo ex- Essas expectativas podem ser sintetizadas em uma
plícito: o desenvolvimento das potencialidades físicas, idéia muito simples: os estabelecimentos escolares se
cognitivas e afetivas dos alunos, por meio da apren- diferenciam entre si pelo grau em que conseguem pro-
dizagem dos conteúdos (conhecimentos, habilidades, mover a aprendizagem de seus alunos. É razoável, pois,
procedimentos, atitudes, valores), para tornarem-se ci- concluir que as escolas precisam ser mais bem organi-
dadãos participativos na sociedade em que vivem. O zadas e bem administradas para melhorar a qualidade
objetivo primordial da escola é, portanto, o ensino e a da aprendizagem escolar dos alunos. Uma escola bem
aprendizagem dos alunos, tarefa a cargo da atividade organizada e gerida é aquela que cria e assegura condi-
docente. A organização escolar necessária é aquela que ções organizacionais, operacionais e pedagógico-didáti-
melhor favorece o trabalho do professor, existindo uma cas que permitam o bom desempenho dos professores em
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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

sala de aula, de modo que todos os seus alunos sejam d) estrutura organizacional e boa organização do pro-
bem-sucedidos em suas aprendizagens. cesso de ensino e aprendizagem, que consigam motivar
Em vários países vêm sendo realizadas pesquisas a a maioria dos alunos a aprender;
respeito dos elementos da organização escolar que in- e) papel significativo da direção e da coordenação pedagó-
terferem no desempenho dos alunos (Nóvoa, 1995; gica, que articulem o trabalho conjunto de todos os profes-
Good e Wenstein, 1995; Laderrierie, 1996; Van Velzen, sores e os ajudem a ter bom desempenho em suas aulas;
1997; Valerian e Dias, 1997). Tais estudos mostram
f) disponibilidade de condições físicas e materiais, de
que o modo de funcionamento de uma escola faz di-
ferença nos resultados escolares dos alunos. Embora recursos didáticos, de biblioteca e outros, que propi-
as escolas não sejam iguais, não sendo possível estabe- ciem aos alunos oportunidades concretas para aprender;
lecer regras e procedimentos organizacionais de vali- g) estrutura curricular e modalidades de organização do
dade geral, as pesquisas contribuem para a indicação currículo com conteúdos bem selecionados, bem como
de características organizacionais que podem ser úteis critérios adequados de distribuição de alunos por sala;
para a compreensão do funcionamento delas, consi- h) disponibilidade da equipe para aceitar inovações,
derados os contextos e as situações escolares específi- observando o critério de mudar sem perder a identi-
cas. Algumas dessas características são as seguintes: dade. Considerar, também, que elas não podem ser ins-
a) professores preparados, que tenham clareza de seus tauradas de modo abrupto, rígido, imposto, mas os
objetivos e conteúdos, que façam planos de aula, que professores devem captá-las de forma crítico-reflexiva.
consigam cativar os alunos, que utilizem metodologia É preciso que eles discutam as inovações com base
e procedimentos adequados à matéria e às condições nos conhecimentos e nas experiências que já carregam
de aprendizagem dos alunos, que façam avaliação con- consigo, para compreenderem os objetivos daquelas
tínua, prestando muita atenção nas dificuldades de que possam afetar seu trabalho.
cada aluno; Outras pesquisas mostram que, entre os fatores
b) existência de projeto pedagógico-curricular com um propiciadores de melhor qualidade das aprendizagens
plano de trabalho bem definido, que assegure consenso dos alunos, estão as características organizacionais, que
mínimo entre a direção da escola e o corpo docente acer- representam cerca de 30% desses fatores, com destaque
ca dos objetivos a alcançar, dos métodos de ensino, da para a capacidade de liderança dos dirigentes, especial-
sistemática de avaliação, das formas de agrupamento de mente do diretor, as práticas de gestão participativa, o
alunos, das normas compartilhadas sobre faltas de pro- ambiente da escola, a criação das condições necessárias
fessores, do cumprimento do horário, das atitudes com para o ensino e a aprendizagem, a cultura organizacional
relação a alunos e funcionários; instituinte, o relacionamento entre os membros da es-
c) um bom clima de trabalho, em que a direção con- cola, as oportunidades de reflexão conjunta e as trocas
tribua para conseguir o empenho de todos, em que os de experiências entre os professores (Luck et al., 1998).
professores aceitem aprender com a experiência dos Outro fator considerado relevante é a autonomia
colegas, trocando as qualidades entre si, de modo que escolar, implicando uma gestão descentralizada em
tenham uma opinião comum sobre critérios de ensino que a escola executa um planejamento compatível
de qualidade na escola; com as realidades locais, aplica processos de tomada

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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

de decisões sobre problemas específicos, introduz mu- organizacionais que atuam na escola e na sala de aula,
danças nos currículos e nas práticas de avaliação, de- o que é precisamente o foco da organização e da ges-
cide sobre utilização e controle de recursos financeiros. tão da escola.
Nóvoa (1995) apresenta outras características determi-
nantes da eficácia das escolas, como liderança organiza-
cional, articulação curricular, estabilidade profissional 4. A organização da escola:
do corpo docente, programas de formação continua- os meios em função dos objetivos
da, participação dos pais, boa imagem da escola na co-
munidade e apoio das autoridades. A organização e a gestão da escola, ao mesmo tem-
As características apontadas reforçam a idéia de que po em que se põem a serviço dos objetivos educacio-
a qualidade do ensino depende de mudanças no âm- nais e das práticas formativas dos alunos, são meios
bito da organização escolar, envolvendo a estrutura imprescindíveis para atingir esses objetivos. O esque-
física e as condições de funcionamento, a estrutura e a ma abaixo mostra como se articulam, na escola, os
cultura organizacionais e as relações entre alunos, meios e os objetivos.
professores e funcionários. É a escola como um todo
que deve responsabilizar-se pela aprendizagem dos alu-
nos, especialmente em face dos problemas sociais, EXIGÊNCIAS ECONÔMICAS, POLÍTICAS, SOCIAIS, CULTURAIS
culturais e econômicos que afetam atualmente os es-
tabelecimentos de ensino.
Finalmente, é preciso estar claro que a melhora das
t
PLANEJAMENTO OBJETIVOS
práticas de gestão, a participação dos professores e os
processos democráticos somente têm sentido se es- PROJETO
tiverem diretamente associados à melhoria das meto- PEDAGÓGICO
dologias do ensino e aprendizagem. Deve-se apostar

~
nisso, pois é esse o fator de maior relevância e eficácia PLANOS DE
na produção de maior qualidade de ensino. A inter- ENSINO CURRÍCULO QUALIDADE
~
relação entre a organização e gestão da escola e a sala COGNITIVA E
CONTEÚDOS ~
de aula conduz ao estabelecimento de estreita conexão OPERATIVA DAS
com a Didática, disciplina que opera a mediação entre ORGANIZAÇÃO APRENDIZAGENS
ENSINO

~
a teoria pedagógica e a prática de ensino. Sua razão de E GESTÃO
ser é o processo de conhecimento vivenciado pelos
alunos, realizado sob condições didáticas e organi- PRÁTICAS DE
zacionais específicas, motivo pelo qual estuda as par-
ticularidades desse processo, mormente as conexões
GESTÃO
t
entre ensino e aprendizagem e as condições concretas
AVALIAÇÃO
em que se manifestam. O processo de ensino, portanto,
pode-se realizar apenas sob determinadas condições

304 305
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

A definição dos objetivos educacionais decorre de trabalho com os alunos na sala de aula), planos de en-
demandas e de exigências econômicas, políticas, so- sino, práticas de gestão e formas de ajuda pedagógica
ciais e culturais que a sociedade apresenta às escolas, ao professor por parte da coordenação pedagógica.
do desenvolvimento da pesquisa científica em questões Embora a integração e a articulação entre meios e
educacionais e do ensino, das necessidades sociais e objetivos sejam da responsabilidade de todos os mem-
pessoais dos alunos relativas a conhecimentos, práti- bros da equipe escolar, cabe maior responsabilidade,
cas culturais, mercado de trabalho, exercício da cidada- especificamente, à direção e à coordenação pedagógi-
nia, etc. Os objetivos expressam, portanto, projetos ca, as quais, no âmbito da escola, respondem mais di-
sociais e culturais da sociedade e da comunidade, de retamente pelas condições e pelos meios de realização
acordo com os interesses em jogo. Concretizam-se no do trabalho dos professores na sala de aula.
currículo da escola, o qual, por sua vez, é efetivado por
meio das atividades de ensino, para atingir resultados
em termos de qualidade cognitiva, operativa e social 5. A escola, lugar de aprendizagem
das aprendizagens. da profissão. A comunidade
O conjunto currículo-ensino constitui os meios democrática de aprendizagem
mais diretos para atingir o que é nuclear na escola - a
aprendizagem dos alunos-, com base nos objetivos. A escola é o local do trabalho docente, e a organi-
Precisamente para tornar esse núcleo mais eficaz, existe zação escolar é espaço de aprendizagem da profissão,
outro conjunto de meios: as atividades de planejamen- no qual o professor põe em prática suas convicções,
to (incluindo o projeto pedagógico-curricular e os pla- seu conhecimento da realidade, suas competências pes-
nos de ensino), de organização e gestão e de avaliação. soais e profissionais, trocando experiências com os cole-
O projeto pedagógico-curricular é um documento que gas e aprendendo mais sobre seu trabalho. O professor
expressa as intenções, os objetivos, as aspirações de participa ativamente da organização do trabalho es-
um processo de escolarização e inclui a proposta cur- colar, formando com os demais colegas uma equipe
ricular. As práticas de organização e de gestão põem de trabalho, aprendendo novos saberes e competên-
em prática o que foi planejado. cias, assim como um modo de agir coletivo, em favor da
A realização bem-sucedida do trabalho escolar - formação dos alunos. A organização escolar funciona
sintetizado no trabalho docente, para assegurar o pro- com base em dois movimentos inter-relacionados: de
cesso de ensino e aprendizagem - depende de inte- um lado, a estrutura e a dinâmica organizacional atuam
gração e articulação bem-sucedida entre os meios e os na produção das idéias, dos modos de agir, das práti-
objetivos. Por exemplo, a elaboração do projeto peda- cas profissionais dos professores; de outro, estes são
gógico supõe práticas de gestão participativa, ações participantes ativos da organização, contribuindo com
de formação continuada, formas de avaliação da escola a definição de objetivos, com a formulação do projeto
e do desenvolvimento do projeto. O projeto pedagógi- pedagógico-curricular, com a atuação nos processos de
co, por sua vez, concretiza-se no currículo e nas me- gestão e de tomadas de decisão. Há, portanto, uma con -
todologias de ensino, requerendo, também, ações de comitância entre o desenvolvimento profissional e o
formação continuada (para aprimorar a qualidade do desenvolvimento organizacional.
307

,..
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA _ _ _ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

Na maior parte das vezes, a realidade das escolas acompanhamento do projeto e das atividades da es-
ainda é de isolamento do professor. Sua responsabili- cola e da sala de aula. É preciso, ainda, que estabeleça
dade começa e termina na sala de aula. A mudança ações de formação continuada, para o desenvolvimento
dessa situação pode ocorrer pela adoção de práticas profissional dos professores e seu aprimoramento. Mais
participativas em que os professores aprendam nas adiante essa questão será abordada mais detidamente.
situações de trabalho, compartilhem com os colegas Se tanto a escola quanto a sala de aula são comuni-
conhecimentos, metodologias e dificuldades, discu- dades de aprendizagem, pode-se deduzir que valores e
tam e tomem decisões sobre o projeto pedagógico- práticas compartilhados no âmbito da organização esco-
curricular, sobre o currículo, sobre as relações sociais lar exercem efeitos diretos na sala de aula e o que ocor-
internas, sobre as práticas de avaliação. Esse modo de re na sala de aula tem efeitos na organização escolar.
funcionamento da organização e da gestão considera A adoção da gestão participativa, para a comunidade
a escola uma comunidade de aprendizagem, ou seja, de aprendizagem e para o compartilhamento de signifi-
uma comunidade democrática, aberta, de aprendiza- cados e de culturas, introduz um modelo alternativo
gem, de ação e de reflexão. de vida em sociedade que repercute em outras esferas
Essa concepção equivale a transpor para a organiza- da vida social. Todavia, a idéia de que todos devem es-
ção escolar os mesmos referenciais que a Didática atual tar envolvidos com os objetivos e os processos da gestão
utiliza para compreender a sala de aula. Segundo Pérez não pode ser confundida com um falso igualitarismo
Gómez (2000), toda aprendizagem relevante é um pro- entre funções e papéis dos membros da equipe esco-
cesso de diálogo com a realidade natural e social, o qual lar. A ênfase na natureza e nas características da gestão
supõe participação, interação, debate, trocas de signifi- visa assinalar que as escolas precisam funcionar bem,
cados e representações e envolve professores e alunos estando a serviço dos objetivos de aprendizagem, o que
e alunos entre si. Nesse sentido, a sala de aula é um lu- implica funções e papéis diferenciados para pedago-
gar de construção, de reconstrução e de compartilha- gos, docentes, funcionários e estudantes.
mento de culturas.
Também a organização escolar é um espaço de com-
partilhamento de significados, de conhecimento e de 6. Os professores na organização
ações entre as pessoas. A organização escolar entendi- e na gestão escolar.
da como comunidade democrática de aprendizagem Competências do professor
transforma a escola em lugar de compartilhamento de
valores e de práticas, por meio do trabalho e da reflexão Segundo nosso entendimento, já exposto anterior-
conjunta sobre planos de trabalho, problemas e soluções mente, o grande objetivo das escolas é a aprendizagem
relacionados à aprendizagem dos alunos e ao funciona- dos alunos, e a organização escolar necessária é aquele-
mento da instituição. Para tanto, esta precisa introduzir va a melhorar a qualidade dessa aprendizagem. Portanto,
formas de participação real de seus membros nas deci- o trabalho na sala de aula é a razão de ser da organiza-
sões, como reuniões, elaboração do projeto pedagógico- ção e da gestão. No entanto, como temos demonstrado,
curricular, atribuição de responsabilidades, definição os professores são também responsáveis pelas formas
de modos de agir coletivos e de formas de avaliação, de organização e de gestão. Ou seja, as salas de aula fa-
308 309
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ORGANIZAÇÃO E GESTÃO, OBJETIVOS DO ENSINO E TRABALHO DOS PROFESSORES

zem parte de um todo maior que é a escola, de modo que nos de ensino, formas de organização curricular, crité-
tudo aí está muito articulado, em uma relação de de- rios de formação das classes, etc.
pendência recíproca. Podem-se citar alguns exemplos: Como membro da equipe escolar, o professor deve
a) a direção precisa prover as condições para que a ad- dominar conhecimentos relacionados à organização e
à gestão, desenvolver capacidades e habilidades práti-
ministração e as salas de aula realizem seu trabalho;
cas para participar dos processos de tomada de decisões
b) o que os alunos aprendem em uma série influenciará em várias situações (reuniões, conselhos de classe, con-
sua aprendizagem na série seguinte; sel~o d.e escola), bem como atitudes de cooperação, de
c) as normas disciplinares não podem valer apenas para sohdanedade, de responsabilidade, de respeito mútuo e
uma classe, mas são necessárias normas comuns para de diálogo.
toda a escola; Como profissional que produz conhecimento sobre
d) os professores não podem ter diferentes condutas para seu trabalho, precisa desenvolver competências de ela-
controlar a disciplina, para tomar decisões de ordem boração e de desenvolvimento de projetos de investi-
moral ou para desenvolver práticas de cidadania. Os obje- gação.
tivos de formação devem ser definidos cooperativamente, Essas características profissionais formam um per-
havendo necessidade de certo consenso acerca de princí- fil que, todavia, não se pode tornar uma camisa-de-
pios e de práticas de cunho moral. força, porque as pessoas são diferentes, as situações são
diversas e as ações dos professores nas salas de aula
Vê-se que os professores precisam fazer sua parte, de
são imprevisíveis. Por outro lado, o perfil é útil para que
modo que contribuam para o funcionamento da escola.
Cabe-lhes entender que trabalham em parceria com seus se possa planejar a formação profissional inicial e con-
colegas, que participam de um sistema de organização e tinuada e, também, para que as escolas tenham um
de gestão, que há necessidade de definir práticas comuns mínimo de expectativas quanto a critérios para acom-
com relação aos alunos, à conduta docente na sala de aula, panhar e avaliar o trabalho docente.
às formas de relacionamento com alunos, funcionários e Os capítulos seguintes indicam conhecimentos e
pais. práticas que podem auxiliar os professores na partici-
O exercício profissional do professor compreende, pação ativa em processos e práticas da organização e
ao menos, três atribuições: a docência, a atuação na da gestão da escola.
organização e na gestão da escola e a produção de co-
nhecimento pedagógico.
Como docente, necessita de preparo profissional
específico para ensinar conteúdos, dar acompanha-
mento individual aos alunos e proceder à avaliação da
aprendizagem, gerir a sala de aula, ensinar valores,
atitudes e normas de convivência social e coletiva. Ne-
cessita, também, desenvolver conhecimentos e pontos
de vista sobre questões pedagógicas relevantes, como
elaboração do projeto pedagógico-curricular e de pla-
310 311
Capítulo JI

SISTE A DE ORGANIZAÇA -
-
E DE GESTA DA ESCOLA:
TEORIA E PRÁTICA
O sistema de·
organização e de gestão da
escola: teoria e prática

As instituições sociais existem para realizar objetivos.


Os objetivos da instituição escolar contemplam a
aprendizagem escolar, a formação da cidadania e a de
valores e atitudes. O sistema de organização e de gestão
da escola é o conjunto de ações, recursos, meios e
procedimentos que propiciam as condições para alcançar Parte das idéias
esses objetivos. desenvolvidas neste capítulo
foi aproveitada da obra
Organização e gestão da
Certos princípios e métodos da organização esco- escola: teoria e prática, Ed.
lar originam-se de experiência administrativa em geral Alternativa, Goiânia, 2001,
de José Carlos Libâneo, co-
estas e muitos são aplicáveis às escolas. Todavia, têm autor do presente livro.
características muito diferentes das empresas industriais,
comerciais e de serviços. Por exemplo: seus objetivos
dirigem-se para a educação e a formação de pessoas; seu
processo de trabalho tem uma natureza eminentemente
interativa, com forte presença das relações interpes-
soais; o desempenho das práticas educativas implica uma
ação coletiva de profissionais; o grupo de profissionais
tem níveis muito semelhantes de qualificação, perdendo
relevância as relações hierárquicas; os resultados do pro-
cesso educativo são de natureza muito mais qualitativa
que quantitativa; os alunos são, ao mesmo tempo, usuá-
rios de um serviço e membros da organização escolar.
Essas características determinam formas muito
peculiares de conceber as práticas de organização e de
gestão escolares, ainda mais quando se considera que
tais práticas se revestem de caráter genuinamente peda-
gógico. Faz-se, pois, necessário explicitar alguns con-
ceitos básicos dos processos organizacionais no enfoque
das instituições educativas.
315
Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

alcançar objetivos educacionais. Vitor Paro (1996) pre--


1. Os conceitos de organização, gestão, fere denominar esse conjunto de características de admi-
direção e cultura organizacional nistração escolar. Sua definição também é útil por sinteti-
zar a tarefa de administrar em dois conceitos bem claros,
Organizar significa dispor de forma ordenada, dar a racionalização dos recursos e a coordenação do esforço
uma estrutura, planejar uma ação e prover as condições coletivo em função dos objetivos. Ele assinala:
necessárias para realizá-la. Assim, a organização escolar
refere-se aos princípios e procedimentos relacionados à
em seu sentido geral, podemos afirmar que a adminis-
ação de planejar o trabalho da escola, racionalizar o uso
tração é a utilização racional de recursos para a realiza-
de recursos (materiais, financeiros, intelectuais) e coor-
ção de fins determinados. (... ) Os recursos (... ) envolvem,
denar e avaliar o trabalho das pessoas, tendo em vista
por um lado, os elementos materiais e conceptuais que o
a consecução de objetivos.
Chiavenato (1989) distingue dois significados de orga- homem coloca entre si e a natureza para dominá-la em
nização: unidade social e função administrativa. Como seu proveito; por outro, os esforços despendidos pelos
unidade social, a organização identifica um empreendi- homens e que precisam ser coordenados com vistas a um
mento humano destinado a atingir determinados obje- propósito comum. (... )A administração pode ser vista,
tivos. Como função administrativa, refere-se ao ato de assim, tanto na teoria como na prática, como dois amplos
organizar, estruturar e integrar recursos e órgãos. Ainda campos que se interpenetram: a "racionalização do traba-
segundo esse autor: lho" e a "coordenação do esforço humano coletivo" (Paro,
1996, p. 18 e 20).
As organizações são unidades sociais (e, portanto, cons-
tituídas de pessoas que trabalham juntas) que existem A efetivação desses dois princípios dá-sé por meio de
para alcançar determinados objetivos. Os objetivos po- estruturas e de processos organizacionais, os quais po-
dem ser o lucro, as transações comerciais, o ensino, a dem ser designados, também, como funções: planeja-
prestação de serviços públicos, a caridade, o lazer, etc. mento, organização, direção e controle. Na escola, essas
Nossas vidas estão intimamente ligadas às organizações, funções aplicam-se tanto aos aspectos pedagógicos
porque tudo o que fazemos é feito dentro de organizações (atividades-fim) quanto aos técnico-administrativos (ati-
(Chiavenato, 1989, p. 3). vidades-meio), ambos impregnados do caráter educati-
vo, formativo, próprio das instituições educacionais.
As escolas são, pois, organizações, e nelas sobressai a Alguns autores afirmam que o centro da organização
interação entre as pessoas, para a promoção da formação e do processo administrativo é a tomada de decisão. To-
humana. De fato, a instituição escolar caracteriza-se por das as demais funções da organização (o planejamento,
ser um sistema de relações humanas e sociais com fortes a estrutura organizacional, a direção, a avaliação) estão
características interativas, que a diferenciam das empre-
referidas aos processos intencionais e sistemáticos de
sas convencionais. Assim, a organização escolar define-se
tomada de decisões (Griffiths, 1974). Esses processos de
como unidade social que reúne pessoas que interagem
chegar a uma decisão e de fazer a decisão funcionar ca-
entre si, intencionalmente, operando por meio de estru-
racterizam a ação designada como gestão.
turas e de processos organizativos próprios, a fim de
317

.
316
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

A gestão é, pois, a atividade pela qual são mobiliza- Destacar a cultura organizacional como um conceito
dos meios e procedimentos para atingir os objetivos central na análise da organização das escolas significa
da organização, envolvendo, basicamente, os aspectos buscar a relação das práticas culturais dos indivíduos e
gerenciais e técnico-administrativos. Há várias concep- sua subjetividade com sua influência nas formas de orga-
ções e modalidades de gestão: centralizada, colegiada, nização e de gestão escolar. Se determinada organização
participativa, co-gestão. Mais adiante detalharemos a mo- tem como uma de suas características básicas a relação
dalidade de gestão participativa, que corresponde melhor interpessoal, tendo em vista a realização de objetivos
à perspectiva sociocrítica adotada neste livro. comuns, torna-se relevante considerar a subjetividade
Consideremos, ainda, o conceito de direção. A direção dos indivíduos e o papel da cultura em determiná-la.
é princípio e atributo da gestão, por meio da qual é A cultura é um conjunto de conhecimentos, valores,
canalizado o trabalho conjunto das pessoas, orientando- crenças, costumes, modos de agir e de se comportar ad-
as e integrando-as no rumo dos objetivos. Basicamente, quiridos pelos seres humanos como membros de uma
a direção põe em ação o processo de tomada de decisões sociedade. Esse conjunto constitui o contexto simbólico
na organização e coordena os trabalhos, de modo que que nos rodeia e vai formando nosso modo de pensar e
sejam realizados da melhor maneira possível. de agir, isto é, nossa subjetividade. As práticas culturais
Com base no entendimento de que as organizações em que estamos inseridos manifestam-se em nossos
escolares se caracterizam como unidades sociais em que comportamentos, no significado que damos às coisas,
se destacam a interação entre pessoas e sua participação em nosso modo de agir, em nossos valores. Em outras
ativa na formulação de objetivos e de modos de fun- palavras, o modo como nos comportamos está assenta-
cionamento da comunidade escolar, é oportuno ressaltar
do em nossas crenças, valores, significados, modos de
os aspectos informais da organização escolar, introdu-
pensar e de agir que vamos formando ao longo da vida,
zindo o conceito de cultura organizacional.
tanto em nossa família, o lugar em que nascemos e
A organização informal: a cultura organizacional crescemos, como no mundo de vivências que foi dando
contorno a nosso modo de ser e naquilo que fomos
Até aqui se considerou a organização formal, isto é,
aprendendo em nossa formação escolar.
a organização planejada, a estrutura organizacional, os
A bagagem cultural dos indivíduos contribui para
papéis desempenhados. As organizações, todavia, sofrem
definir a cultura organizacional da organização de que
forte impacto dos elementos informais - a organiza-
fazem parte. Isso significa que as organizações - a esco-
ção informal, que diz respeito aos comportamentos, às
la, a família, a empresa, o hospital, a prisão, etc. - vão
opiniões, às ações e às formas de relacionamento que
surgem espontaneamente entre os membros do grupo. formando uma cultura própria, de modo que os valo-
Esses aspectos da organização informal têm sido deno- res, as crenças, os modos de agir dos indivíduos e sua
minados de cultura organizacional. A expressão corres- subjetividade são elementos essenciais para compreen-
ponde, de certa forma, a clima organizacional, ambiente, der a dinâmica interna delas.
clima da escola, termos já utilizados em textos de admi- A cultura organizacional de uma escola explica, por
nistração. Todavia, o termo cultura indica uma aborda- exemplo, o assentimento ou a resistência ante as ino-
gem antropológica, ao passo que clima organizacional vações, certos modos de tratar os alunos, as formas de
tem enfoque mais psicológico. enfrentamento de problemas de disciplina, a aceitação

318 319
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

ou não de mudanças na rotina de trabalho, etc. Essa pode ser modificada pelas pessoas, pode ser discutida, ava-
cultura organizacional, também designada como cul- liada, planejada, num rumo que responda mais de perto
tura da escola (pode-se falar, também, da cultura da aos interesses e às aspirações da equipe escolar, o que jus-
família, da cultura da prisão, da cultura da fábrica), diz tifica a formulação conjunta do projeto pedagógico-
respeito às características culturais não apenas de pro- curricular, a gestão participativa, a construção de uma
fessores, mas também de alunos, funcionários e pais. A comunidade de aprendizagem.
esse respeito, escreve o sociólogo francês Forquin ( 1993, A figura a seguir mostra a cultura organizacional
p. 167): "A escola é, também, um mundo social, que tem como ponto de ligação com as áreas de atuação da orga-
suas características de vida próprias, seus ritmos e seus ritos, nização e da gestão da escola.
sua linguagem, seu imaginário, seus modos próprios de re-
gulação e de transgressão, seu regime próprio de produção
e de gestão de símbolos". PROJETO
Cultura organizacional pode, então, ser definida como PEDAGÓGICO CURRICULAR
o conjunto ele fatores sociais, culturais e psicológicos
que influenciam os modos ele agir da organização como
um todo e o comportamento elas pessoas em particular. GESTÃO
Isso significa que, além daquelas diretrizes, normas,
procedimentos operacionais e rotinas administrativas
que identificam as escolas, há aspectos de natureza cul-
tural que as diferenciam umas das outras, não sendo a CULTURA
maior parte deles nem claramente perceptíveis nem ex- ORGANIZACIONAL
plícitos. Esses aspectos têm sido denominados freqüen-
temente de currículo oculto, o qual, embora recôndito,
atua ele forma poderosa nos modos de funcionar das es-
colas e na prática dos professores. Tanto isso é verdade
que os mesmos professores tendem a agir de forma dife-
rente em cada escola em que trabalham. DESENVOLVIMENTO
AVALIAÇÃO
É importante considerar que a cultura organizacional PROFISSIONAL
aparece de duas formas: como cultura instituída e como
cultura instituinte. A cultura instituída refere-se às nor-
mas legais, à estrutura organizacional definida pelos ór- Levar em conta a cultura organizacional da escola é,
gãos oficiais, às rotinas, à grade curricular, aos horários, portanto, exigência prévia à formulação, ao desenvolvi-
às normas disciplinares, etc. A cultura instituinte é aque- mento e à avaliação do projeto pedagógico-curricular e,
la que os membros da escola criam, recriam, em suas também, às atividades que envolvem tomadas de decisão:
relações e na vivência cotidiana. Cada escola tem, pois, o currículo, a estrutura organizacional, as relações hu-
uma cultura própria que possibilita entender muitos manas, as ações de formação continuada, as práticas de
acontecimentos de seu cotidiano. Essa cultura, porém, avaliação.
320 321
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA 0 SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

Entretanto, essa maneira de ver a organização esco- internos do processo organizacional - o planejamento, a
lar precisa considerar o contexto concreto e real das inte- organização, a gestão, a direção, a avaliação, as respon-
rações sociais - marcado, também, por conflitos, por sabilidades individuais dos membros da equipe e a ação
relações de poder externas e internas, por interesses pes- organizacional coordenada e supervisionada, já que esta
soais e políticos - assim como os próprios objetivos precisa atender a objetivos sociais e políticos muito cla-
sociais e culturais definidos pela sociedade e pelo Estado. ros, relativos à escolarização da população.
A esse respeito, escrevem Escudem e González: Constituem, pois, desafios à competência de diretores,
coordenadores pedagógicos e professores: saber gerir e,
A concepção crítica da cultura escolar se articula sobre a freqüentemente, conciliar interesses pessoais e coletivos,
idéia de que a escola é um lugar de luta entre interesses peculiaridades culturais e exigências universais da con-
em competição onde se negocia continuamente a reali- vivência humana; preocupar-se com as relações humanas
dade, significados e valores da vida escolar. (... )As políti- e com os objetivos pedagógicos e sociais a atingir; esta-
cas culturais das escolas costumam ser muito complexas, belecer formas participativas e a eficiência nos procedi-
entre outras coisas, porque distintos grupos podem levar mentos administrativos.
à organização bagagens culturais distintas que podem
originar sérios conflitos sobre ideologia e tecnologia; neste
sentido, a prática educativa de uma escola, sua definição 2. As concepções de organização
de pedagogia e currículo, avaliação e disciplina, é resul- e de gestão escolar
tado das políticas culturais que caracterizam cada esco-
la em particular. Essas culturas internas à escola, resul- A organização e os processos de gestão assumem dife-
tado de suas políticas culturais, não são independentes rentes modalidades, conforme a concepção que se tenha
do contexto sociopolítico em que se situam mas derivam e das finalidades sociais e políticas da educação em relação
contribuem à divisão de classe, gênero, raça, idade, pró- à sociedade e à formação dos alunos. Se situássemos as
prios da sociedade mais ampla. As culturas internas das concepções em uma linha contínua, teríamos em um
escolas se relacionam com as da sociedade mais ampla extremo a concepção técnico-científica (também chama-
(Escudero e González, 1994, p. 91). da de científico-racional) e, no outro, a sociocrítica.
Na concepção técnico-científica, prevalece uma vi-
Uma visão sociocrítica propõe compreender dois as- são burocrática e tecnicista de escola. A direção é centrali-
pectos interligados: de um lado, a organização como uma zada em uma pessoa, as decisões vêm de cima para
construção social envolvendo a experiência subjetiva e baixo e basta cumprir um plano previamente elaborado,
cultural das pessoas; de outro, essa construção não como sem a participação de professores, especialistas, alunos
um processo livre e voluntário, mas mediatizado pela e funcionários. A organização escolar é tomada como
realidade sociocultural e política mais ampla, incluindo uma realidade objetiva, neutra, técnica, que funciona
a influência de forças externas e internas marcadas por racionalmente e, por isso, pode ser planejada, organi-
interesses de grupos sociais sempre contraditórios e, às zada e controlada, a fim de alcançar maiores índices
vezes, conflituosos. Tal visão busca relações solidárias, for- de eficácia e eficiência. As escolas que operam com es-
mas participativas, mas também valoriza os elementos se modelo dão muito peso à estrutura organizacional:
322 323
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

organograma de cargos e funções, hierarquia de fun- A concepção autogestionária baseia-se na responsa-


ções, normas e regulamentos, centralização das decisões, bilidade coletiva, na ausência de direção centralizada e
baixo grau de participação das pessoas, planos de ação na acentuação da participação direta e por igual de todos
feitos de cima para baixo. Este é o modelo mais comum os membros da instituição. Tende a recusar o exercício
de organização escolar que encontramos na realidade edu- d~ autoridade e as formas mais sistematizadas de orga-

cacional brasileira, embora já existam experiências bem- mzação e gestão. Na organização escolar, em contra-
posição aos elementos instituídos (normas, regulamen-
sucedidas de adoção de modelos alternativos, em uma pers-
tos, procedimentos já definidos), valoriza especialmente
pectiva progressista. ?s e~en:entos instituintes (capacidade do grupo de criar,
Na concepção sociocrítica, a organização escolar é mstltmr, suas próprias normas e procedimentos).
concebida como um sistema que agrega pessoas, consi- A concepção interpretativa considera como elemen-
derando o caráter intencional de suas ações e as intera- to prioritário na análise dos processos de organização e
ções sociais que estabelecem entre si e com o contex- gestão os significados subjetivos, as intenções e a inte-
to sociopolítico, nas formas democráticas de tomada de
r~ção das pessoas. Opondo-se fortemente à concepção
decisões. A organização escolar não é' algo objetivo, ele-
científico-racional, por sua rigidez normativa e por con-
mento neutro a ser observado, mas construção social
siderar as organizações corno realidades objetivas, o enfo-
levada a efeito pelos professores, pelos alunos, pelos pais e
que interpretativo vê as práticas organizativas como urna
até por integrantes da comunidade próxima. O proces-
construção social com base nas experiências subjetivas
so de tomada de decisões dá-se coletivamente, possibi-
e nas interações sociais. No extremo, essa concepção
litando aos membros do grupo discutir e deliberar, em
também recusa a possibilidade de conhecimento mais
uma relação de colaboração. A abordagem sociocrítica
preciso dos modos de funcionamento de determinada
da escola desdobra-se em diferentes formas de gestão
organização e, em conseqüência, de haver certas nor-
democrática, conforme veremos em seguida.
mas, estratégias e procedimentos organizativos (Escu-
Alguns estudos sobre organização e gestão escolar (por
dero e González, 1994).
exemplo, Paro, Escudero e González, Luck) e a obser-
A concepção democrático-participativa baseia-se na
vação de experiências levadas a efeito nos últimos anos
relação orgânica entre a direção e a participação dos
contribuem para ampliar o leque de estilos de gestão e
membros da equipe. Acentua a importância da busca de
para apresentar, de forma esquemática, quatro concep-
ções: a técnico-científica, a autogestionária, a interpre- objetivos comuns assumidos por todos. Defende uma
tativa e a democrático-participativa. As três últimas cor- forma coletiva de tornada de decisões. Entretanto, urna
respondem à denominação anteriormente mencionada vez tomadas as decisões coletivamente, advoga que cada
de concepção sociocrítica. membro da equipe assuma sua parte no trabalho, admi-
A concepção técnico-científica, como já assinalamos, tindo a coordenação e a avaliação sistemática da opera-
baseia-se na hierarquia de cargos e de funções, nas regras cionalização das deliberações.
e nos procedimentos administrativos, para a racionaliza- As concepções de gestão escolar refletem diferentes
ção do trabalho e a eficiência dos serviços escolares. A posições políticas e pareceres acerca do papel das pessoas
versão mais conservadora dessa concepção é denomi- na sociedade. Portanto, o modo pelo qual urna escola se
nada de administração clássica ou burocrática. A ver- organiza e se estrutura tem dimensão pedagógica, pois
são i:nais recente é conhecida como modelo de gestão da tem que ver com os objetivos mais amplos da institui-
qualidade total, com utilização mais forte de métodos e ção relacionados a seu compromisso com a conserva-
de práticas de gestão da administração empresarial. ção ou com a transformação social.
324 325
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA
Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

A concepção técnico-científica, por exemplo, valoriza


o poder e a autoridade, exercidos unilateralmente. Enfa- CONCEPÇÕES DE ORGANIZAÇÃO E GESTÃO ESCOLAR
tizando relações de subordinação, rígidas determinações
de funções, e supervalorizando a racionalização do tra- TÉCNICO- DEMOCRÁTICO-
balho, tende a retirar das pessoas ou, ao menos, diminuir CIENTÍFICA AUTOGESTIONÁRIA INTERPRETATIVA PARTICIPATIVA
nelas a faculdade de pensar e decidir sobre seu trabalho.
0 Prescrição detalha- 0 Vínculo das formas 0 A escola é uma rea- 0 Definição explícita,
Com isso, o grau de autonomia e de envolvimento pro-
da de funções e tare- de gestão interna com lidade social subjetiva- por parte da equipe es-
fissional fica enfraquecido.
fas, acentuando a diví- as formas de autoges- mente construída, não colar, de objetivos so-
Por sua vez, as outras três concepções têm, em co- são técnica do traba- tão social (poder cole- ciopolíticos e pedagó-
dada nem objetiva.
mum, uma visão de gestão que se opõe a formas de domi- lho escolar. tivo na escola para pre- gicos da escola.
nação e de subordinação dos indivíduos. Elas conside- parar formas de auto- 0 Privilegia menos o ato

ram essencial levar em conta o contexto social e político, 0 Poder centralizado gestão no plano políti- de organizar e mais a e Articulação da ativi-
a construção de relações sociais mais humanas e justas no diretor, destacando- co). "ação organizadora", dade de direção com
e a valorização do trabalho coletivo e participativo, ainda se as relações de su- com valores e práticas a iniciativa e a partici-
0 Decisões coletivas (as-
que divirjam sobre as formas mais concretas de organi- bordinação, em que uns compartilhados. poção das pessoas da
sembléias, reuniões), escola e das que se re-
zação e de gestão. têm mais autoridade do
eliminação de todas as
que outros. 0 A ação organizado- !acionam com ela.
A concepção democrático-participativa, proposta nes- formas de exercício de
ra valoriza muito as
te livro, acentua a necessidade de combinar a ênfase sobre autoridade e de poder.
e Ênfase na adminis- interpretações, os valo- 0 Qualificação e com-
as relações humanas e sobre a participação das decisões tração regulada (rígi- 0 Ênfase na auto-orga- res, as percepções e os petência profissional.
com as ações efetivas para atingir com êxito os objetivos do sistema de normas, nização do grupo de significados subjetivos,
específicos da escola. Para isso, valoriza os elementos regras, procedimentos pessoas da instituição, destacando o caráter
e Busca de objetivida-

internos do processo organizacional - o planejamento, a de no trato das ques-


burocráticos de contro- por meio de eleições e humano e preterindo o
organização, a direção, a avaliação - , uma vez que não Iões da organização e
ledas atividades), des- de alternância no exer- caráter formal, estrutu-
da gestão, mediante
basta a tomada de decisões, mas é preciso que elas sejam cuidando-se, às vezes, cício de funções. ral, normativo.
coleta de informações
postas em prática para prover as melhores condições de dos objetivos específí-
reais.
viabilização do processo de ensino/aprendizagem. Advo- cos da instituição esco- 0 Recusa a normas e a
lar. sistemas de controles,
ga, pois, que a gestão participativa, além de ser a forma 0 Acompanhamento e
acentuando a respon-
de exercício democrático da gestão e um direito de cida- avaliação sistemáticos
., Comunicação linear sabilidade coletiva .
dania, implica deveres e responsabilidades - portanto, com finalidade peda-
(de cima para baixo),
a gestão da participação. Ou seja, a gestão democrática, gógica: diagnóstico,
baseada em normas e 0 Crença no poder ins-
por um lado, é atividade coletiva que implica a partici- tituinte da instituição e acompanhamento dos
regras. trabalhos, reorientação
pação e objetivos comuns; por outro, depende também recusa de todo poder
instituído. O caráter ins- de rumos e ações, to-
de capacidades e responsabilidades individuais e de uma 0 Mais ênfase nas ta-
tituinte dá-se pela pró- moda de decisões.
ação coordenada e controlada. Nas seções seguintes, com refas do que nas pes-
tica da participação e
base nessa abordagem, buscaremos identificar as caracterís- soas.
da autogestão, modos ., Todos dirigem e são
ticas da participação na gestão e da gestão da participação. pelos quais se contesta dirigidos, todos ava-
O quadro a seguir auxilia na distinção das principais o poder instituído. liam e são avaliados.
características de cada concepção de organização e gestão
escolar. ., Ênfase nas inter-re- ., Ênfase tanto nas ta ..
lações, mais do que refas quanto nas rela-
326 nas tarefas. ções.
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

Essas concepções possibilitam a análise da estrutura rimentação de formas não autoritárias de exercício do
e da dinâmica organizativas de uma escola, mas raramen- poder, de oportunidade ao grupo de profissionais para
te se apresentam de forma pura em situações concretas. intervir nas decisões da organização e definir coletiva-
Características de determinada concepção podem ser mente o rumo dos trabalhos.
encontradas em outra, embora seja possível identificar O conceito de participação fundamenta-se no princí-
um estilo mais dominante. Pode ocorrer, também, que pio da autonomia, que significa a capacidade das pes-
a direção ou a equipe escolar optem por uma concepção soas e dos grupos para a livre determinação de si pró-
progressista, mas na prática acabem sendo reproduzi- prios, isto é, para a condução da própria vida. Como a
das formas de organização e de gestão mais convencio- autonomia opõe-se às formas autoritárias de tomada de
nais, geralmente de tipo técnico-científico (burocrático). decisão, sua realização concreta nas instituições dá-se pela
participação na livre escolha de objetivos e processos de tra-
balho e na construção conjunta do ambiente de trabalho.
3. A gestão participativa A participação significa, portanto, a intervenção dos
profissionais da educação e dos usuários (alunos e pais)
Considerando os objetivos sociopolíticos da ação dos na gestão da escola. Há dois sentidos de participação
educadores voltados para as lutas pela transformação articulados entre si: a) a de caráter mais interno, como
social e da ação da própria escola de promover a apro- meio de conquista da autonomia da escola, dos profes-
priação do saber para a instrumentação científica e cul- sores, dos alunos, constituindo prática formativa, isto é,
tural da população, é possível não só resistir às formas elemento pedagógico, curricular, organizacional; b) a de
conservadoras de organização e gestão escolar, como caráter mais externo, em que os profissionais da escola,
também adotar formas alternativas, criativas, que con- alunos e pais compartilham, institucionalmente, certos
tribuam para uma escola democrática a serviço da for- processos de tomada de decisão.
mação de cidadãos críticos e participativos e da trans- No primeiro sentido, a participação é ingrediente
formação das relações sociais presentes. dos próprios objetivos da escola e da educação. A institui-
A participação é o principal meio de assegurar a gestão ção escolar é lugar de aprendizado de conhecimentos,
democrática, possibilitando o envolvimento de todos os de desenvolvimento de capacidades intelectuais, sociais,
integrantes da escola no processo de tomada de decisões afetivas, éticas e estéticas e também de formação de com-
e no funcionamento da organização escolar. A partici- petências para a participação na vida social, econômica e
pação proporciona melhor conhecimento dos objetivos cultural. Esse entendimento mais restrito de participa-
e das metas da escola, de sua estrutura organizacional e ção identifica-se com a idéia de escola como espaço de
de sua dinâmica, de suas relações com a éomunidade, e aprendizagem, isto é, como comunidade democrática de
propicia um clima de trabalho favorável a maior aproxi- aprendizagem, conforme veremos adiante.
mação entre professores, alunos e pais. Nas empresas, a No segundo sentido, por meio de canais de partici-
participação nas decisões é quase sempre estratégia que pação da comunidade, a escola deixa de ser uma redo-
visa à busca de aumento de produtividade. Nas escolas, ma, um lugar fechado e separado da realidade, para
. também se buscam bons resultados, mas há nelas um conquistar o status de comunidade educativa que inte-
sentido mais forte de prática da democracia, de expe- rage com a sociedade civil. Vivendo a participação nos

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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

órgãos deliberativos da escola, os pais, os professores e escolar, difere de outros processos direcionais, especial-
os alunos vão aprendendo a sentir-se responsáveis pelas mente os empresariais. Ele vai além da mobilização das
decisões que os afetam em um âmbito mais amplo da pessoas para a realização eficaz das atividades, pois
sociedade. A participação da comunidade possibilita à implica intencionalidade, definição de um rumo educa-
população o conhecimento e a avaliação dos serviços tivo, tomada de posição ante objetivos escolares sociais
oferecidos e a intervenção organizada na vida escolar. e políticos, em uma sociedade concreta. A escola, ao
De acordo com Gadotti e Romão (1997, p. 16), a parti- cumprir sua função social de mediação, influi significa-
cipação influi na democratização da gestão e na melhoria tivamente na formação da personalidade humana; por
da qualidade de ensino: "Todos os segmentos da comu- essa razão, são imprescindíveis os objetivos políticos e
nidade podem compreender melhor o funcionamento da pedagógicos.
escola, conhecer com mais profundidade os que nela estu- Essa peculiaridade das instituições escolares decorre
dam e trabalham, intensificar seu envolvimento com ela e, do caráter de intencionalidade presente nas ações educati-
assim, acompanhar melhor a educação ali oferecida". vas. Intencionalidade significa a resolução de fazer algo,
Entre as modalidades mais conhecidas de participa- de dirigir o comportamento para aquilo que tem sig-
ção, estão os conselhos de classe - bastante difundidos nificado para nós. Ela projeta-se nos objetivos que, por
no Brasil - e os conselhos de escola, colegiados ou sua vez, orientam a atividade humana, dando o rumo, a
comissões que surgiram no início da década de 80, fun- direção da ação. Na escola, leva a equipe escolar à busca
cionando em vários estados. deliberada, consciente, planejada, de integração e unida-
Convém ressaltar que o princípio participativo não de de objetivos e ações, além de consenso sobre normas
esgota as ações necessárias para assegurar a qualidade e atitudes comuns. O caráter pedagógico da ação educa-
de ensino. Tanto quanto o processo organizacional, e tiva consiste precisamente na formulação de objetivos
como um de seus elementos, a participação é apenas sociopolíticos e educativos e na criação de formas de
um meio de alcançar melhor e mais democraticamente viabilização organizativa e metodológica da educação
os objetivos da escola, os quais se localizam na qualida- (tais como a seleção e a organização dos conteúdos e
de dos processos de ensino e aprendizagem. Em razão métodos, a organização do ensino, a organização do tra-
disso, a participação necessita do contraponto da dire- balho escolar), tendo em vista dar uma direção cons-
ção, outro conceito importante da gestão democrática, ciente e planejada ao processo educacional. O processo
que visa promover a gestão da participação. educativo, portanto, por sua natureza, inclui o conceito
de direção. Sua adequada estruturação e seu ótimo fun-
cionamento constituem fatores essenciais para atingir
4. A direção como princípio eficazmente os objetivos de formação. Ou seja, o traba-
e atributo da gestão democrática: lho escolar implica uma direção.
a gestão da participação Com base nesse princípio mais geral, há que destacar
o papel significativo do diretor da escola na gestão da
A direção da escola, além de uma das funções do organização do trabalho escolar. A participação, o diá-
processo organizacional, é um imperativo social e pe- logo, a discussão coletiva, a autonomia são práticas indis-
dagógico. O significado do termo direção, no contexto pensáveis da gestão democrática, mas o exercício da

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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

democracia não significa ausência de responsabilida- seus objetivos (sociopolíticos e pedagógicos) e interde-
des. Uma vez tomadas as decisões coletivamente, par- pendência entre a necessária racionalidade no uso dos
ticipativamente, é preciso pô-las em prática. Para isso, a recursos (materiais e conceituais) e a coordenação do
escola deve estar bem coordenada e administrada. esforço humano coletivo. Qualquer modificação em sua
Não se quer dizer com isso que o sucesso da escola estrutura ou nas funções do processo organizacional se
reside unicamente na pessoa do diretor ou em uma projeta como influência benéfica ou prejudicial nos
estrutura administrativa autocrática - na qual ele cen- demais. Por ser um trabalho complexo, a organização e
traliza todas as decisões. Ao contrário, trata-se de enten- a gestão escolar requerem o conhecimento e a adoção
der o papel do diretor como o de um líder cooperativo, de alguns princípios básicos, cuja aplicação deve se su-
o de alguém que consegue aglutinar as aspirações, os bordinar às condições concretas de cada escola.
desejos, as expectativas da comunidade escolar e articu- São propostos os seguintes princípios da concepção
la a adesão e a participação de todos os segmentos da de gestão democrático-participativa: autonomia da esco-
escola na gestão em um projeto comum. O diretor não la e da comunidade educativa; relação orgânica entre a
pode ater-se apenas às questões administrativas. Como direção e a participação dos membros da equipe esco-
dirigente, cabe-lhe ter uma visão de conjunto e uma atua- lar; envolvimento da comunidade no processo escolar;
ção que apreenda a escola em seus aspectos pedagógi- planejamento de atividades; formação continuada para
cos, administrativos, financeiros e culturais. o desenvolvimento pessoal e profissional dos integrantes da
Em razão dessas considerações, a escolha do diretor comunidade escolar; utilização de informações concretas e
de escola requer muita responsabilidade do sistema de análise de cada problema em seus múltiplos aspectos,
ensino e da comunidade escolar. Infelizmente, predomina com ampla democratização das informações; avaliação
ainda no sistema escolar público brasileiro a nomeação compartilhada; relações humanas produtivas e criativas,
arbitrária de diretores pelo governador ou pelo prefeito, assentadas em uma busca de objetivos comuns.
geralmente para atender a conveniências e a interesses
político-partidários. Essa prática toma o diretor o repre- Autonomia da escola e da comunidade educativa
sentante do Poder Executivo na escola. Entretanto, há A autonomia é o fundamento da concepção demo-
outras formas de escolha, como o concurso público e a crático-participativa de gestão escolar, razão de ser do
eleição pelo voto direto ou representativo. Nesta última projeto pedagógico. É definida como a faculdade das
forma, é desejável que os candidatos à eleição tenham pessoas de autogovemar-se, de decidir sobre o próprio
formação profissional específica e competência técnica, destino. Instituição autônoma é a que tem poder de
incluindo liderança, capacidade de gestão e conhecimen- decisão sobre seus objetivos e sobre suas formas de orga-
to de questões pedagógico-didáticas. nização, que se mantém relativamente independente do
poder central e administra livremente recursos finan-
ceiros. Assim, as escolas podem traçar o próprio cami-
5. Prindpios e características nho, envolvendo professores, alunos, funcionários, pais
da gestão escolar participativa e comunidade próxima, que se tomam co-responsáveis
pelo êxito da instituição. Dessa forma, a organização
Conforme assinalamos nas seções anteriores, a es- escolar transforma-se em instância educadora, espaço
cola é uma instituição social que apresenta unidade em de trabalho coletivo e de aprendizagem.
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

Certamente, trata-se de autonomia relativa. As esco- a responsabilidade individual de cada membro da equipe
las públicas não são organismos isolados, mas integram escolar. Sob supervisão e responsabilidade do diretor, a
um sistema escolar e dependem das políticas e da gestão equipe escolar formula o plano ou projeto pedagógico,
públicas. Os recursos que asseguram os salários, as toma decisões por meio da discussão com a comunidade
condições de trabalho e a formação continuada não são escolar mais ampla, aprova um documento orientador.
originados na própria instituição. Portanto, o controle Em seguida, entram em ação as funções, os procedimen-
local e comunitário não pode prescindir das responsa- tos e os instrumentos do processo organizacional, em
bilidades e da atuação dos órgãos centrais e intermediá- que o diretor coordena, mobiliza, motiva, lidera, delega
rios do sistema escolar. Isso significa que a direção de aos membros da equipe escolar, conforme suas atribui-
uma escola deve ser exercida tendo em conta, de um lado, ções específicas, as responsabilidades decorrentes das
o planejamento, a organização, a orientação e o contro- decisões, acompanha o desenvolvimento das ações, pres-
le de suas atividades internas, conforme suas caracterís- ta contas e submete à avaliação da equipe o desenvolvi-
ticas particulares e sua realidade, e, de outro, a adequação mento das decisões tomadas coletivamente.
e a aplicação criadora das diretrizes gerais que recebe Nesse princípio, está presente a exigência da partici-
dos níveis superiores da administração do ensino. pação de professores, pais, alunos, funcionários e outros
Essa articulação nem sempre se dá sem problemas. O representantes da comunidade, bem como a forma de via-
sistema de ensino pode estar desprovido de uma políti- bilização dessa participação: a interação comunicativa,
ca global, estar mal organizado e mal administrado. As
a busca do consenso em pautas básicas, o diálogo inter-
autoridades podem atribuir autonomia às escolas para,
subjetivo. Por outro lado, a participação implica os pro-
com isso, desobrigar o poder público de suas responsa-
bilidades. Se, por sua vez, as instituições escolares se orga- cessos de gestão, os modos de fazer, a coordenação e a
nizam segundo critérios e diretrizes restritas aos limites cobrança dos trabalhos e, decididamente, o cumprimen-
estreitos de cada uma, perdem de vista diretrizes gerais to de responsabilidades compartilhadas, conforme uma
do sistema e sua articulação com a sociedade. Ou ainda, mínima divisão de tarefas e um alto grau de profissio-
subordinando-se às diretrizes dos órgãos superiores, po- nalismo de todos. Portanto, a organização escolar demo-
de acontecer que as escolas as apliquem mecanicamente, crática implica não só a participação na gestão, mas a ges-
sem levar em conta as condições reais de seu funciona- tão da participação.
mento. Por isso mesmo, a autonomia precisa ser gerida, Conforme temos ressaltado neste texto, a gestão demo-
implicando co-responsabilidade consciente, partilhada crática não pode ficar restrita ao discurso da participação
e solidária de todos os membros da equipe escolar, de e a suas formas externas - as eleições, as assembléias e
modo que alcancem, eficazmente, os resultados de sua as reuniões. Ela está a serviço dos objetivos do ensino,
atividade, isto é, a formação cultural e científica dos especialmente da qualidade cognitiva dos processos de
alunos e o desenvolvimento neles de potencialidades cog- ensino e aprendizagem. Além disso, a adoção de práticas
nitivas e operativas. participativas não está livre de servir à manipulação das
Relação orgânica entre a direção e a pessoas, as quais podem ser induzidas a pensar que estão
participação dos membros da equipe escolar participando. De fato, freqüentemente, são manipu-
Este princípio conjuga o exercício responsável e com- ladas por movimentos, partidos e lideranças políticas,
partilhado da direção, a forma participativa da gestão e em defesa dos próprios interesses. A participação não

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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA
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pode servir para respaldar decisões previamente defini- devidamente discutido e analisado pela equipe escolar,
das, mas deve ser forma de levar a equipe escolar a solu- torna-se o instrumento unificador das atividades ali
ções inovadoras e criativas. desenvolvidas, convergindo em sua execução o interes-
Envolvimento da comunidade no processo escolar se e o esforço coletivo dos membros da escola.
O princípio da autonomia requer vínculos mais es- Formação continuada para
treitos com a comunidade educativa, constituída basi- o desenvolvimento pessoal e profissional
camente pelos pais, pelas entidades e pelas organizações dos integrantes da comunidade escolar
paralelas à escola. A presença da comunidade na escola, A concepção democrático-participativa de gestão va-
especialmente dos pais, tem várias implicações. Priori- loriza o desenvolvimento pessoal, a qualificação profis-
tariamente, eles e os outros representantes participam sional e a competência técnica. A escola é um espaço
do conselho de escola, da Associação de Pais e Mestres (ou educativo, lugar de aprendizagem em que todos apren-
organizações correlatas), para preparar o projeto peda- dem a participar dos processos decisórios, mas constitui
gógico e acompanhar e avaliar a qualidade dos serviços também o local em que os profissionais desenvolvem seu
prestados. Adicionalmente, usufruem da vivência das profissionalismo.
práticas democráticas de gestão, desenvolvendo atitudes e A organização e a gestão do trabalho escolar requerem
habilidades para participarem de outras instâncias de- o constante aperfeiçoamento profissional - político,
cisórias no âmbito da sociedade civil (organizações de científico, pedagógico - de toda a equipe. Dirigir uma
bairro, movimentos de mulheres, de minorias étnicas e escola implica conhecer bem seu estado real, observar e
culturais, movimentos de educação ambiental e outros) avaliar constantemente o desenvolvimento do processo
e contribuindo para o aumento da capacidade de fisca- de ensino, analisar com objetividade os resultados, fazer
lização da sociedade civil sobre a execução da política compartilhar as experiências docentes bem-sucedidas.
educacional (Romão e Padilha, 1997). Além disso, a par-
Utilização de informações concretas e análise
ticipação das comunidades escolares em processos deci-
de cada problema em seus múltiplos aspectos,
sórios dá respaldo a governos estaduais e municipais para
com ampla democratização das informações
encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei que aten-
dam melhor às necessidades educacionais da população Esse princípio implica procedimentos de gestão basea-
(Ciseski e Romão, 1997). dos na coleta de dados e de informações reais e seguras,
bem como na análise global dos problemas (buscar sua
Planejamento das atividades
essência, suas causas, seus aspectos mais fundamentais,
O princípio do planejamento justifica-se porque as para além das aparências). Analisar os problemas em
escolas buscam resultados mediante ações pedagógicas seus múltiplos aspectos significa verificar a qualidade das
e administrativas. Há necessidade, pois, de uma ação ra- aulas, o cumprimento dos programas, a qualificação e a
cional, estruturada e coordenada de proposição de obje- experiência dos professores, as características socioeco-
tivos, de estratégias de ação, de provimento e ordenação nômicas e culturais dos alunos, os resultados do traba-
dos recursos disponíveis, de cronogramas e formas de lho que a equipe propôs atingir, a saúde dos alunos, a
controle e de avaliação. O plano de ação ou o projeto adequação entre métodos e procedimentos didáticos,
pedagógico de determinado estabelecimento de ensino, etc. A democratização da informação envolve o acesso
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

de todos às informações, canais de comunicação que agi- de determinada escola diz respeito, em geral, à existên-
lizem o conhecimento das decisões e de sua execução. cia de uma autoridade legal, com base na qual se estabe-
Avaliação compartilhada lecem outros níveis hierárquicos (diretor, vice-diretor,
assistente administrativo, coordenador, etc.). Há regras
Todas as decisões e procedimentos organizativos de- e regulamentos impessoais definidos tanto para a seleção
vem ser acompanhados e avaliados, com base no princí- de funcionários, carreira e remuneração quanto para o
pio da relação orgânica entre a direção e a participação funcionamento da instituição. A despeito disso, as esco-
dos membros da equipe escolar. Além disso, é preciso in-
las podem (e devem) flexibilizar essa rigidez, por meio
sistir que o conjunto das ações de organização do trabalho
de outros arranjos organizacionais, entre os quais a
na escola está voltado para as ações pedagógico-didáticas,
direção colegiada, a escolha de dirigentes por eleições, a
em razão dos objetivos básicos da instituição. O controle
gestão participativa, a gestão mediante conselhos, etc.
implica urna avaliação mútua entre direção, professores
Para melhor compreender esses diferentes arranjos, con-
e comunidade.
sideremos os elementos da estrutura organizacional de
Relações humanas produtivas e criativas, uma escola.
assentadas na busca de objetivos comuns Toda instituição escolar possui uma estrutura de orga-
Este princípio indica a importância do sistema de nização interna, geralmente prevista no regimento esco-
relações interpessoais para a qualidade do trabalho de lar ou em legislação específica estadual ou municipal. O
cada educador, para a valorização da experiência indi- termo estrutura tem aqui o sentido de ordenamento e
vidual, para o clima amistoso de trabalho. A equipe es- de disposição de setores e funções que asseguram o
colar precisa investir sistematicamente na mudança das funcionamento de um todo - no caso, a escola. Essa es-
relações autoritárias para aquelas baseadas no diálogo e trutura é comumente representada graficamente em um
no consenso. As relações mútuas entre direção e profes- organograma - desenho que mostra as inter-relações
sores, entre estes e seus alunos, entre direção e funcio- entre os vários setores e funções de uma organização ou
nários técnicos e administrativos devem combinar exi- serviço. Evidentemente, a forma do desenho reflete a
gência e respeito, severidade e tato humano. concepção de organização e gestão, com base na legisla-
ção dos estados e dos municípios ou na própria con-
cepção dos integrantes da escola, quando contam com As informações sobre a
6. A estrutura organizacional de o poder de formular suas próprias formas de gestão. No estrutura organizacional das
escolas foram retiradas, em
uma escola com gestão participativa modelo técnico-racional, o organograma é sempre um boa parte, do livro de PARO,
desenho geométrico que expõe, em detalhes, a hierar- Vítor H. Por dentro da
escola pública. São Paulo:
Para atingir suas finalidades, as instituições deter- quia entre as funções. Nos modelos autogestionário e Xamã, 1996.
minam papéis e responsabilidades. A maneira pela qual democrático-participativo, é mais comum um desenho
se compreendem a divisão de tarefas e de responsabilida- circular que exibe a integração entre as várias partes (ou
des e o relacionamento entre os vários setores determi- funções) da estrutura organizacional.
na a estrutura organizacional. Esta dificilmente escapa A seguir, apresentamos os elementos de composição
de certa burocracia, até porque as escolas públicas inte- da estrutura organizacional básica, com os setores e as
gram um sistema educacional. O aspecto burocrático funções típicas de uma escola.
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0 SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

Direção
ORGANOGRAMA BÁSICO DA ESCOLA O diretor coordena, organiza e gerencia todas as
atividades da escola, auxiliado pelos demais elementos
do corpo técnico-administrativo e do corpo de espe-
cialistas. Atende às leis, aos regulamentos e às determi-
Conselho de Escola nações dos órgãos superiores do sistema de ensino e às
decisões no âmbito da escola assumidas pela equipe
escolar e pela comunidade. O assistente de diretor desem-
penha as mesmas funções, na condição de substituto
direto.
Setor técnico-administrativo
Setor técnico-administrativo
O setor técnico-administrativo responde pelos meios
- Secretaria Escolar Setor pedagógico
- Serviço de zeladoria - Conselho de Classe de trabalho que asseguram o atendimento dos objetivos
limpeza, vigilância - Coordenação Pedagógica e das funções da escola. Responde, também, pelos ser-
- Multimeios (biblioteca, - Orientação Educacional viços auxiliares (zeladoria, vigilância e atendimento ao
laboratório, videoteca, público) e pelo setor de multimeios (biblioteca, labo-
ratórios, videoteca, etc.).
Professores - Alunos
A secretaria escolar cuida da documentação, da escri-
turação e da correspondência da escola, dos docentes e
demais funcionários e dos alunos. Dedica-se, também,
Pais e Comunidade ao atendimento à comunidade. Para a realização desses
-·APM-
serviços, a escola conta com um secretário e com escri-
turários ou auxiliares de secretaria.
A zeladoria, a cargo dos serventes, cuida da manuten-
Conselho de escola ção, da conservação e da limpeza do prédio; da guarda
O conselho de escola tem atribuições consultivas, das dependências, das instalações e dos equipamentos;
deliberativas e fiscais em questões definidas na legisla- da cozinha e da organização e distribuição da merenda
ção estadual ou municipal e no regimento escolar. Essas escolar; da execução de pequenos consertos e de outros
questões, geralmente, envolvem aspectos pedagógicos, serviços rotineiros da escola.
administrativos e financeiros. Em vários estados, o con- A vigilância cuida do acompanhamento dos alunos
selho é eleito no início do ano letivo. Sua composição em todas as dependências do edifício, exceto na sala de
tem certa proporcionalidade de participação dos docen- aula, orientando-os sobre normas disciplinares e aten-
tes, dos especialistas em educação, dos funcionários, dendo-os em caso de acidente ou de enfermidade. Atenta
dos alunos e de seus pais, observando, em princípio, a também às solicitações, por parte dos professores, de ma-
paridade entre integrantes da escola (50%) e comunidade terial escolar, de assistência e de encaminhamento de
(50%). Em alguns lugares, o conselho escolar é chama- alunos à direção, quando necessário.
do de colegiado e sua função básica é democratizar as O serviço de multimeios compreende a biblioteca, os
relações de poder (Paro, 1996; Ciseski e Romão, 1997). laboratórios, os equipamentos audiovisuais, a videoteca
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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

e outros recursos didáticos. Em alguns lugares, são os nentes à melhoria da qualidade da oferta dos serviços edu-
professores que cuidam dos multirneios, organizando os cacionais e ao melhor desempenho escolar do alunato.
equipamentos e auxiliando os colegas em sua utilização. Instituições auxiliares
Setor pedagógico Paralelamente à estrutura organizacional, muitas esco-
O setor pedagógico compreende as atividades de coor- las mantêm instituições auxiliares, corno a Associação de
Pais e Mestres (APM) e o Grêmio Estudantil, além de
denação pedagógica e de orientação educacional. As fun-
outras corno a Caixa Escolar, vinculadas ao conselho de
ções dos especialistas na área variam conforme a legis-
escola (quando existe) ou ao diretor.
lação estadual e municipal, e, em muitos lugares, suas
A APM reúne os pais de alunos, o pessoal docente e
atribuições são unificadas em apenas urna pessoa ou são
técnico-administrativo e os alunos maiores de 18 anos.
desempenhadas por professores. Corno constituem fun-
Costuma funcionar por meio de urna diretoria executi-
ções especializadas, que envolvem habilidades bastante
va e de um conselho deliberativo. O Grêmio Estudantil
especiais, recomenda-se que seus ocupantes sejam for-
é urna entidade representativa dos alunos criada pela
mados em cursos específicos de Pedagogia.
Lei federal 7.398/85, que lhes confere autonomia para se
O coordenador pedagógico ou professor-coordenador
organizarem em torno de seus interesses, com finalidades
coordena, acompanha, assessora, apóia e avalia as ativi-
educacionais, culturais, cívicas e sociais. Ambas as insti-
dades pedagógico-curriculares. Sua atribuição prioritária
tuições costumam ser regulamentadas no regimento esco-
é prestar assistência pedagógico-didática aos professores
lar, variando sua composição e estrutura organizacional.
em suas respectivas disciplinas, no que diz respeito ao tra-
Todavia, é recomendável que tenham autonomia de or-
balho interativo com os alunos. Há lugares onde a coor-
ganização e de funcionamento, evitando qualquer tutela-
denação se restringe à disciplina em que o coordenador
gem da Secretaria da Educação ou da direção da escola.
é especialista; em outros, a coordenação atende a todas
Em algumas escolas, existe a Caixa Escolar, com a
as disciplinas. Outra atribuição do coordenador pedagó-
finalidade de organização da assistência social, econômi-
gico é o relacionamento com os pais e com a comunidade,
ca, alimentar, médica e odontológica aos alunos caren-
especialmente no que se refere ao funcionamento peda-
tes ou de acompanhamento e de controle da utilização
gógico-curricular e didático da escola, à comunicação
de recursos financeiros recebidos pela instituição.
das avaliações dos alunos e à interpretação feita delas.
O orientador educacional, em escolas que mantêm essa Corpo docente e alunos
função, cuida do atendimento e do acompanhamento O corpo docente é o conjunto dos professores em
individual dos alunos em suas dificuldades pessoais e exercício na escola, cuja função básica consiste em con-
escolares, do relacionamento escola-pais e de outras tribuir para o objetivo prioritário da instituição, o proces-
atividades compatíveis com sua formação profissional. so de ensino e aprendizagem. Os professores de todas as
O conselho de classe ou de série é órgão de natureza disciplinas formam, com a direção e os especialistas, a
deliberativa acerca da avaliação discente, resolvendo equipe escolar. Além de seu papel específico de docência,
quanto a ações preventivas e corretivas sobre o rendi- também têm a responsabilidade de participar da elabora-
mento dos alunos, sobre o comportamento deles, sobre ção do plano escolar ou projeto pedagógico, da realização
promoções e reprovações e sobre outras medidas concer- das atividades escolares, das decisões do conselho de

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escola, de classe ou de série, das reuniões com pais (espe- b) organização: racionalização de recursos humanos, físi-
cialmente na comunicação e na interpretação da avalia- cos, materiais, financeiros, criando e viabilizando as con-
ção), da APM e das demais atividades cívicas, culturais dições e modos para realizar o que foi planejado;
e recreativas da comunidade. c) direção/ coordenação: coordenação do esforço
O corpo discente inclui os alunos e, eventualmente, humano coletivo do pessoal da escola;
suas instâncias de representatividade.
d) avaliação: comprovação e avaliação do funciona-
mento da escola.
7. As funções constitutivas do sistema A seguir, procuraremos detalhar cada uma dessas
funções.
de organização e de gestão da escola
7.1. Ü PLANEJAMENTO ESCOLAR E O
A gestão democrático-participativa valoriza a parti- PROJETO PEDAGÓGICO-CURRICULAR
cipação da comunidade escolar no processo de tomada O planejamento consiste em ações e procedimentos
de decisão, concebe a docência como trabalho interati- para tomada de decisões a respeito de objetivos e d~
vo e aposta na construção coletiva dos objetivos e do atividades a ser realizadas em razão desses objetivos. E
funcionamento da escola, por meio da dinâmica inter- um processo de conhecimento e de análise da realidade
subjetiva, do diálogo, do consenso. As seções anteriores escolar em suas condições concretas, tendo em vista a
mostraram que o processo deliberativo inclui tanto a de- elaboração de um plano ou projeto para a instituição. O
cisão (por meio de reuniões, discussões, estudo de docu- planejamento do trabalho possibilita uma previsão de
mentos, consultas, etc.) quanto as ações necessárias para tudo o que se fará com relação aos vários aspectos da
pô-la em prática. Em razão disso, faz-se necessário o em- organização escolar e prioriza as atividades que necessi-
prego de funções do processo organizacional. tam de maior atenção no ano a que ele se refere. Assim,
De fato, como toda instituição, as escolas buscam podem ser distribuídas as responsabilidades a cada
resultados, o que implica uma atividade racional, estru- setor da escola e aos membros da equipe. Neste livro, adota-se a
turada e coordenada. Ao mesmo tempo, sendo de caráter Toda organização precisa de um plano de trabalho
.expressão projeto
pedagógico-curricular.
coletivo, essa atividade não depende apenas das capaci- que indique os objetivos e os meios de sua execução, su- Entretanto, o produto do
dades e das responsabilidades individuais, mas também perando a improvisação e a falta de rumo. A atividade de processo de planejamento
tem recebido outras
de objetivos comuns e compartilhados, de meios e ações planejamento resulta, portanto, naquilo que aqui deno- denominações: projeto
coordenadas e controladas dos agentes do processo. minamos de projeto pedagógico-curricular. O projeto é político-pedagógico, projeto
O processo de organização escolar dispõe, portanto, pedagógico, projeto
um documento que propõe uma direção política e peda- educativo, projeto da escola,
de funções, propriedades comuns ao sistema organiza- gógica para o trabalho escolar, formula metas, prevê as plano escolar, plano
cional de uma instituição, com base nas quais se definem curricular, todas se referindo
ações, institui procedimentos e instrumentos de ação. ao mesmo objeto.
ações e operações necessárias ao funcionamento institu- É pedagógico porque formula objetivos sociais e políti-
cional. São quatro as funções constitutivas desse sistema: cos e meios formativos para dar uma direção ao proces-
a) planejamento: explicitação de objetivos e antecipa- so educativo, indicando por que e como se ensina e,
ção de decisões para orientar a instituição, prevendo o sobretudo, orientando o trabalho educativo para as finali-
que se deve fazer para atingi-los; dades sociais e políticas almejadas pelo grupo de edu-
344 345
Ü SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

cadores. O projeto expressa, pois, uma atitude pedagógi- contemplados na organização geral de escola, ao longo
ca, que consiste em dar um sentido, um rumo, às práticas de todo o ano letivo. A organização geral diz respeito a:
educativas, onde quer que sejam realizadas, e firmar as condições físicas, materiais, financeiras; sistema de assis-
condições organizativas e metodológicas para a viabili- tência pedagógico-didática ao professor; serviços admi-
zação da atividade educativa (Libâneo, 1998). nistrativos, de limpeza e de conservação; horário escolar,
É curricular porque propõe,, também, o currículo, o matrícula, distribuição de alunos por classes; normas
referencial concreto da proposta pedagógica. O currículo disciplinares; contatos com pais, etc.
é o desdobramento do projeto pedagógico, ou seja, a Essas várias atividades podem ser agrupadas em qua-
projeção dos objetivos, das orientações e das diretrizes tro aspectos: organização da vida escolar, organização dos
operacionais previstas nele. Mas, ao pôr em prática esse processos de ensino e aprendizagem, organização das
atividades de apoio técnico-administrativo, organização
projeto, o currículo também o realimenta e o modifica.
das atividades que asseguram as relações entre escola e
Supõe-se, portanto, estreita articulação entre o projeto comunidade.
pedagógico e a proposta curricular, a fim de promover
Organização da vida escolar
um entrecruzamento dos objetivos e das estratégias para
o ensino - formulados com base na identificação de Trata-se da organização do trabalho escolar em função
necessidades e de exigências da sociedade e do aluno, me- da especificidade e dos objetivos da escola. É o estabele-
diante critérios filosóficos, políticos, culturais e pedagógi- cimento de condições ótimas de organização do espaço
físico, de relações humanas satisfatórias, de adequada
cos - com as experiências educacionais a ser propor-
distribuição de tarefas, de sistema participativo de toma-
cionadas aos alunos por meio do currículo.
da de decisões, de condições apropriadas de higiene e lim-
Deve-se salientar que o projeto pedagógico-curricular peza, bem como de outras que concorram para o desen-
é um documento que reproduz as intenções e o modus volvimento e para o alto rendimento escolar dos alunos, e
operandi da equipe escolar, cuja viabilização necessita de utilização eficaz dos recursos e meios de trabalho.
das formas de organização e de gestão. Não basta ter o A estrutura organizacional e o cumprimento das atri-
projeto, é preciso que seja levado a efeito. As práticas de buições de cada membro da equipe constituem elemen-
organização e de gestão executam o processo organiza- tos indispensáveis para o funcionamento da escola. Um
cional para atender ao projeto. mínimo de divisão de funções faz parte da lógica da orga-
nização educativa, sem comprometer a gestão partici-
7.2. A ORGANIZAÇÃO GERAL DO TRABALHO
pativa. Contudo, deve-se evitar a redução da estrutura
A segunda função do processo organizacional é a orga- organizacional a uma concepção estritamente funcional e
nização propriamente dita. Refere-se à racionalização do hierarquizada de gestão, subordinando o pedagógico ao
uso de recursos humanos, materiais, físicos, financeiros e administrativo, impedindo a participação e a discussão
informacionais e à eficácia na utilização desses recursos e não levando em conta as idéias, os valores e a expe-
e dos meios de trabalho. A organização incide diretamen- riência dos professores.
te na efetividade do processo de ensino e aprendizagem, Importante aspecto a ser mencionado ainda é a or-
à medida que garante as condições de funcionamento ganização do tempo escolar, de modo que as atividades
da escola. Sua presença ou ausência interferem na qua- de aprendizagem sejam distribuídas racionalmente pelos
lidade das atividades de ensino. É necessário, portanto, dias da semana, observados os critérios pedagógicos e
que todos os aspectos da vida escolar sejam devidamente curriculares.

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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA 0 SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

Organização do processo de ensino e aprendizagem peração e de apoio, oferecidas pelas diferentes institui-
Este aspecto refere-se ao suprimento dos suportes pe- ções, que contribuam para o aprimoramento do traba-
dagógico-didáticos necessários à organização do trabalho lho da escola, isto é, para as atividades de ensino e de
escolar. Compreende o currículo, a organização pedagógi- educação dos alunos. Espera-se, especialmente, que os
co-didática (planos, metodologias, organização dos níveis pais atuem na gestão escolar, mediante canais de parti-
escolares, horários, distribuição de alunos por classes), as- cipação bem definidos.
sistência pedagógica sistemática aos professores, avaliação,
ações de formação continuada, conselhos de classe, etc. 7.3. DIREÇÃO E COORDENAÇÃO
Além de prover as condições físicas, materiais e didáti- A direção e a coordenação correspondem a tarefas
cas mencionadas, é preciso organizar e acompanhar as agrupadas sob o termo gestão. A gestão refere-se a todas
atividades de elaboração do plano de ensino e prestar as atividades de coordenação e de acompanhamento do
assistência pedagógico-didática aos professores na sala trabalho das pessoas, envolvendo o cumprimento das
de aula. A organização do trabalho na sala de aula não atribuições de cada membro da equipe, a realização do
visa apenas ao cumprimento dos programas, mas tam- trabalho em equipe, a manutenção do clima de traba-·
bém ao envolvimento dos alunos, à sua participação lho, a avaliação de desempenho. Essa definição aplica-se
ativa, ao desenvolvimento de habilidades e capacidades
aos dirigentes escolares, mas é igualmente aplicável aos
intelectuais, ao trabalho independente, o que requer a im-
professores, seja em seu trabalho na sala de aula, seja
prescindível colaboração da coordenação pedagógica.
quando são investidos de responsabilidades no âmbito
Organização das atividades de
da organização escolar.
apoio técnico-administrativo
Dirigir e coordenar significa assumir, no grupo, a
As tarefas administrativas têm a função de fornecer responsabilidade por fazer a escola funcionar mediante
o apoio necessário ao trabalho docente. Abrangem as
o trabalho conjunto. Para isso, compete a quem dirige
atividades de secretaria (prontuário de alunos e profes-
assegurar:
sores, registro escolar, arquivos, livros de registro, atendi-
mento de pessoas, etc.), serviços gerais (inspetores de a) a execução coordenada e integral de atividades dos
alunos, serventes, merendeira, porteiros e vigias, etc.), setores e dos indivíduos da escola, conforme decisões
atividades de limpeza e de conservação do prédio, provi- coletivas anteriormente tomadas;
mento e conservação dos recursos materiais (equipamen- b) o processo participativo de tomada de decisões,
tos, mobiliário escolar, material didático), administração
cuidando, ao mesmo tempo, que estas se convertam em
do espaço físico e das dependências. Incluem também a
gestão de recursos financeiros. medidas concretas efetivamente cumpridas pelo setor ou
pelas pessoas em cujo trabalho são aplicadas;
Organização de atividades que asseguram
a relação entre escola e comunidade c) a articulação das relações interpessoais na escola e no
âmbito em que o dirigente desempenha suas funções.
Implica ações que envolvem a escola e suas relações
externas, tais como os níveis superiores de gestão do sis- Uma das qualidades da introdução, na escola, do
tema escolar, os pais, as organizações políticas e comu- projeto pedagógico-curricular é a discussão pública de
nitárias, a cidade e os equipamentos urbanos. O objeti- objetivos, atividades e normas de funcionamento. A falta
vo dessas atividades é buscar as possibilidades de coo- de unidade da ação educativa escolar pode resultar em

348 349

......
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA 0 SISTEMA DE ORGANIZAÇÃO E DE GESTÃO DA ESCOLA: TEORIA E PRÁTICA

efeitos prejudiciais aos objetivos de aprendizagem. Por trabalho. Visa ao melhoramento do trabalho escolar, pois,
exemplo, torna-se necessário haver um mínimo de nor- conhecendo a tempo as dificuldades, pode-se analisar
mas, sempre decididas conjuntamente, sobre condutas suas causas e encontrar meios de sua superação.
dos professores com relação a cuidados com o mobiliário O controle e a avaliação dependem de informações
da escola, à sistemática de tarefas de casa, ao cumprimen- concretas e objetivas sobre o andamento dos trabalhos,
to dos horários de saída e de entrada, a interrupções de tendo como base o projeto pedagógico-curricular e as
aulas para merenda, a avisos administrativos. ações efetivas praticadas pelos vários elementos da equipe
Todos os profissionais da escola precisam estar aptos escolar. Para a coleta de informações, o diretor pode
a dirigir e a participar das formas de gestão. Todavia, em servir-se de observação, de acompanhamento das salas
razão de necessária divisão de funções, correspondente de aula e do recreio, de entrevistas pessoais com profes-
à lógica da administração, deve-se ressaltar que algumas sores e com outros servidores, de reuniões sistemáticas
pessoas têm atribuições específicas de direção e coorde- ou extraordinárias, de encontros informais com o pes-
nação, o que implica especialização profissional. Assim, soal docente, técnico e administrativo.
o diretor e o coordenador pedagógico assumem o papel O acompanhamento e o controle comprovam os resul-
de coordenadores de ações voltadas para objetivos cole- tados do trabalho, evidenciam os erros, as dificuldades,
tivamente estabelecidos. Na nova perspectiva de gestão, os êxitos e os fracassos relativos ao que foi planejado. A
esses dois profissionais recebem a delegação de coor- avaliação das atividades implica a análise coletiva dos re-
denar o trabalho coletivo, assegurando as condições de sultados alcançados e a tomada de decisões sobre as
sua realização e, especialmente, as do ambiente formati- medidas necessárias para solucionar as deficiências en-
vo, para o desenvolvimento pessoal e profissional. Para contradas.
isso, precisam reconhecer que sua ocupação tem uma
característica genuinamente interativa, ou seja, está a ser-
viço das pessoas e da organização, delas requerendo uma
formação específica a fim de buscar soluções para os
problemas, saber coordenar o trabalho conjunto, discutir
e avaliar a prática, assessorar os professores e prestar-lhes
apoio logístico na sala de aula.
7.4. A AVALIAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO DA ESCOLA
A avaliação é função primordial do sistema de or-
ganização e de gestão. Ela supõe acompanhamento e con-
trole das ações decididas coletivamente, sendo este últi-
mo a observação e a comprovação dos objetivos e das
tarefas, a fim de verificar o estado real do trabalho desen-
volvido. A avaliação permite pôr em evidência as difi-
culdades surgidas na prática diária, mediante a confron-
tação entre o planejamento e o funcionamento real do

350 351


Capítulo Ili

S ÁREAS DE ATUAÇÃO DA
-
ORGANIZAÇA E DA GESTA -
ESCOLAR PARA MELHOR
APRENDIZAGEM D S ALON S
As áreas de atuação da
organização e da gestão
escolar para melhor
aprendizagem dos alunos

Entendemos por áreas de atuação as atividades básicas


que identificam uma instituição escolar e asseguram seu
funcionamento, tendo em vista a melhor aprendizagem
dos alunos. Conforme temos assinalado, as atividades e
as formas de organização e de gestão da escola podem
favorecer ou prejudicar o alcance dos objetivos
pedagógicos. Por essa razão, as áreas de ação ou de
atividades são organizadas e geridas para dar apoio
pedagógico ao trabalho escolar, especialmente naquilo
que auxilia os professores em seu exercício profissional
na escola e na sala de aula.

Sugerimos seis áreas de atuação da organização e da


gestão da escola:
a) o planejamento e o projeto pedagógico-curricular;
b) a organização e o desenvolvimento do currículo;
c) a organização e o desenvolvimento do ensino;
d) as práticas de gestão técnico-administrativas e pe-
dagógico-curriculares;
e) o desenvolvimento profissional;
f) a avaliação institucional e da aprendizagem.

Essas áreas de atuação estão articuladas entre si, for-


mando três blocos: o primeiro, de áreas vinculadas às
355
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _A_s_A~·
REAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

finalidades da escola (projeto, currículo, ensino); o segun- 1. O planejamento e o


do, daquelas relacionadas aos meios (práticas de gestão e projeto pedagógico~curricular
desenvolvimento profissional); o último, o da avaliação,
envolvendo todas as demais áreas, incluindo os obje- A gestão da escola requer planejamento, cuja impor-
tivos e os resultados. Permeando os três blocos, a cul- tância já destacamos em outro momento desta 4ª Parte.
tura organizacional (ou comunidade de aprendizagem) A idéia do planejamento nas escolas não é nova, mas já
constitui o espaço físico, psicológico e social em que todas aparece no início dos anos 60 e se desenvolve na década
essas áreas se realizam, mediante o papel agregador que de 70, quando se difunde a prática do planejamento
podem ter o diretor da escola e a coordenação pedagógi- curricular. Posteriormente, consolidou-se a expressão pro-
ca (atuando pelas práticas de gestão). A figura abaixo jeto pedagógico, que confere maior amplitude à idéia de
mostra a inter-relação entre as seis áreas. um planejamento abrangente de todo o conjunto das
atividades escolares, e não apenas do currículo. Com
a disseminação das práticas de gestão participativa,
SEIS ÁREAS DE ATUAÇÃO foi-se consolidando o entendimento de que o projeto
DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO DA ESCOLA pedagógico deveria ser pensado, discutido e formulado
coletivamente, também como forma de construção da
autonomia da escola, por meio da qual toda a equipe é
envolvida nos processos de tomada de decisões sobre as-
exigências sociais, pectos da organização escolar e pedagógico-curriculares.
econômicas,
políticas, A efetivação da prática de formulação coletiva do pro-
tecnológicas, ~ qualidade jeto pedagógico ainda é, na maior parte dos casos, bas-
culturais, etc. ~ cognitiva e tante precária. Vigora mais como um princípio educa-
~ operativa das
resultados aprendizagens tivo do que como instrumento concreto de mudanças
de estudos e
institucionais e do comportamento e das práticas dos
pesquisas
educacionais
+ professores. Em boa parte das escolas, predomina o mo-
delo burocrático de gestão: decisões centralizadas, falta
necessidades e
demandas do de espírito de equipe, docentes ocupados apenas com
sistema de suas atividades de aula, relações entre professores e alunos
ensino, escola,
sala de aula, PRÁTICAS DE DESENVOLVIMENTO ainda formais e regidas por regras disciplinares.
comunidade GESTÃO O projeto pedàgógico-curricular é um documento
que reflete as intenções, os objetivos, as aspirações e os
ideais da equipe escolar, tendo em vista um processo de
escolarização que atenda a todos os alunos. Seguem-se
quatro razões que justificam a importância desse projeto.
Tais áreas de atuação são, a nosso ver, fatores deter- a) Na escola, a direção, os especialistas, os professores,
minantes da eficácia escolar e da melhoria dos proces- os funcionários e os alunos estão envolvidos em uma
sos de ensino e aprendizagem. atividade conjunta, para a formação humana destes

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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

últimos. Se essa formação implica valores, convicções e significa conseguir que o grupo de educadores chegue a
práticas educativas muito concretas, orientadas para certa pontos de partida (princípios) e de chegada (objetivos)
direção, é desejável que a escola tenha certos padrões comuns, envolve sistema e práticas de gestão negocia-
comuns de conduta, certa unidade de pensamento e de das, unidade teórico-metodológica no trabalho docente,
ação. Surge, então, a necessidade de explicitação de obje- sistema explícito e transparente de acompanhamento e
tivos e práticas comuns. Por isso, o projeto pedagógico- avaliação.
curricular é a expressão das aspirações e dos interesses A pergunta mais importante a ser respondida pela
do grupo de especialistas e professores. equipe escolar no momento de elaboração do projeto
b) O projeto resulta de práticas participativas. O traba- pedagógico-curricular é: o que se pode fazer, que medi-
lho coletivo, a gestão participativa, é exigência ligada à das devem ser tomadas, para que a escola melhore, para
própria natureza da ação pedagógica; propicia a realiza- que favoreça uma aprendizagem mais eficaz e duradoura
17ão dos objetivos e o bom funcionamento da escola, para dos alunos?
o que se requer unidade de ação e processos e procedi- O projeto pedagógico-curricular concretiza o proces-
mentos de tomada de decisões. Nasce, então, a necessi- so de planejamento, de modo que as fases deste acabam
d1.íle da elaboração, do desenvolvimento e da avaliação se confundindo com as fases daquele. É bastante conve-
da proposta educacional ou do projeto pedagógico-cur- niente que as fases de elaboração do projeto sejam
ricular da escola. desenvolvidas com base em esboço prévio formulado
c) A formulação do projeto pedagógico-curricular é, tam- por uma comissão escolhida pela equipe escolar. Esse
bém, prática educativa, manifestação do caráter forma- esboço permite destacar os tópicos do projeto e dis-
tivo do ambiente de trabalho. Ou seja, a organização tribuir responsabilidades para a coleta de dados, para a
escolar, o sistema de gestão e de tomada de decisões carre- análise e a interpretação, para o estabelecimento de metas
ga uma dimensão educativa, constitui espaço de formação. e de atividades. Os documentos prévios precisam ser dis-
O projeto pedagógico, assim entendido, é ingrediente cutidos e aprovados, preferencialmente mediante con-
do potencial formativo das situações de trabalho. Os pro- senso em torno de pontos comuns. É indispensável que
fissionais (direção, coordenação pedagógica, professores, a discussão sobre o documento final seja concluída com
funcionários) aprendem por meio da organização, do a determinação de tarefas, de prazos, de formas de acom-
ambiente em que exercem sua ocupação. Por sua vez, as panhamento e de avaliação (o que se fará, quem fará,
organizações também aprendem, mudando junto com quais são os critérios de avaliação).
seus profissionais. Todos podem aprender a fazer do Sugere-se que as decisões a ser tomadas em razão do
exercício do trabalho um objeto de reflexão e de pesquisa. projeto pedagógico considerem, ao menos, os seguintes
Os indivíduos e os grupos mudam mudando o próprio pontos:
contexto em que atuam. a) Princípios (pontos de partida comuns): é desejável que
d) O projeto expressa o grau de autonomia da equipe os professores e os especialistas formem um consenso
escolar. Essa autonomia passa pelo trabalho coletivo e mínimo em torno de opções sociais, políticas e pedagó-
pelo projeto pedagógico. Realizar um trabalho coletivo gicas, do papel social e cultural da escola na sociedade.

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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA
As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

b) Objetivos (pontos de chegada comuns): expressam instrumentos, modos de agir, formas de ação, estruturas,
intenções bem concretas, com base em um diagnóstico hábitos, valores. Significa, também, que a cada período
prévio. Este propicia um retrato realista da situação, dos do ano letivo é avaliado para que se tomem novas deci-
problemas, das necessidades pessoais e sociais dos alu- sões, se retome o rumo, se corrijam desvios. Todo projeto
nos relativas à escolarização. é, portanto, inconcluso, porque as escolas são instituições
marcadas pela interação entre pessoas, por sua inten-
c) Sistema e práticas de gestão negociadas: a participação
cionalidade, pela interligação com o que acontece em seu
na gestão democrática implica decisões sobre as formas
exterior (na comunidade, no país, no mundo), o que leva
de organização e de gestão. É preciso que a direção e os
professores entrem em acordo sobre as práticas de gestão. a concluir que elas não são iguais. As organizações são,
Por exemplo, define-se que as decisões sejam tomadas pois, construídas e reconstruídas socialmente.
coletivamente, que todos entrem em acordo sobre elas Sugerimos aqui um roteiro para a formulação do
com base em um consenso mínimo. Entretanto, uma projeto pedagógico-curricular:
vez tomadas as decisões, atribuem-se responsabilidades 1. Contextualização e caracterização da escola:
e faz-se o acompanhamento e a avaliação do trabalho.
• aspectos sociais, econômicos, culturais, geográficos;
d) Unidade teórico-metodológica no trabalho pedagógico-·
• condições físicas e materiais;
didático: começa pela definição de objetivos comuns e é
assegurada pela coordenação pedagógica. É desejável que •caracterização dos elementos humanos;
a escola tenha unidade na concepção de currículo e linha : breve história da escola (como surgiu, corno vem fun-
pedagógico-didática da qual todos possam compartilhar, cionando, administração, gestão, participação dos profes-
como requisitos para trabalhar com a interdisciplinari- sores, visão que os alunos têm dela, pais, escola e comu-
dade.
nidade).
e) Sistema explícito e transparente de acompanhamento e
2. Concepção de educação e de práticas escolares:
de avaliação do projeto e das atividades da escola: o acom-
panhamento e a avaliação põem em evidência as difi- • concepção de escola e de perfil de formação dos alunos;
culdades surgidas na implementação e na execução do • princípios norteadores da ação pedagógico-didática.
projeto e dos planos de ensino, confrontando o que foi
3. Diagnóstico da situação atual:
decidido e o que está sendo feito. A avaliação depende
de informações concretas e objetivas, o que supõe o • levantamento e identificação de problemas e de neces-
acompanhamento. sidades a atender;
O projeto pedagógico-curricular considera o já insti- • definição de prioridades.
tuído (legislação, currículos, conteúdos, métodos, formas 4. Objetivos gerais.
organizativas da escola e outros), mas tem também algo
de instituinte. O grupo de profissionais da escola pode 5. Estrutura de organização e gestão:
criar, reinventar a instituição, os objetivos e as metas mais • aspectos organizacionais;
compatíveis com os interesses dela e da comunidade.
• aspectos administrativos;
A característica instituinte do projeto significa que
ele institui, estabelece, cria objetivos, procedimentos, • aspectos financeiros.

360 361
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

6. Proposta curricular: O currículo formal ou oficial é aquele estabelecido pe-


• fundamentos sociológicos, psicológicos, culturais, epis- los sistemas de ensino, expresso em diretrizes curricula-
temológicos, pedagógicos; res, nos objetivos e nos conteúdos das áreas ou disciplinas
• organização curricular (da escola, das séries ou dos ciclos, de estudo. Podemos citar como exemplo os Parâmetros
plano de ensino da disciplina): objetivos, conteúdos, de- Curriculares Nacionais e as propostas curriculares dos
senvolvimento metodológico, avaliação da aprendizagem. estados e dos municípios.
O currículo real é aquele que, de fato, acontece na
7. Proposta de formação continuada de professores.
sala de aula, em decorrência de um projeto pedagógico
8. Proposta de trabalho com pais, com a comunidade e e dos planos de ensino. É tanto o que sai das idéias e da
com outras escolas de uma mesma área geográfica. prática dos professores, da percepção e do uso que eles
9. Formas de avaliação do projeto. fazem do currículo formal, como o que fica na percepção
dos alunos. Alguns autores chamam de experienciado o
currículo tal qual é internalizado pelos alunos. É impor-
2. A organização e o tante ter clareza de que, muitas vezes, o que é realmente
desenvolvimento do currículo aprendido, compreendido e retido pelos alunos não
corresponde ao que os professores ensinam ou crêem
O currículo é a concretização, a viabilização das inten- estar ensinando.
ções e das orientações expressas no projeto pedagógico. O currículo oculto refere-se àquelas influências que
Há muitas definições de currículo: conjunto de discipli- afetam a aprendizagem dos alunos e o trabalho dos pro-
nas, resultados de aprendizagem pretendidos, experiên- fessores e são provenientes da experiência cultural, dos
cias que devem ser proporcionadas aos estudantes, prin- valores e dos significados trazidos de seu meio social de
cípios orientadores da prática, seleção e organização da origem e vivenciados no ambiente escolar - ou seja,
cultura. No geral, compreende-se o currículo como um das práticas e das experiências compartilhadas na esco-
modo de seleção da cultura produzida pela sociedade, la e na sala de aula. É chamado de oculto porque não se
para a formação dos alunos; é tudo o que se espera seja manifesta claramente, não é prescrito, não aparece no
aprendido e ensinado na escola. A definição seguinte planejamento, embora constitua importante fator de
sintetiza bem a noção que nos parece adequada: aprendizagem.
A distinção entre esses vários níveis de currículo
[Currículo é} o conjunto dos conteúdos cognitivos e sim- serve para mostrar que aquilo que os alunos aprendem
bólicos (saberes, competências, representações, tendências, na escola ou deixam de aprender depende de muitos
valores) transmitidos (de modo explícito ou implícito) nas fatores, e não apenas das disciplinas previstas na grade
práticas pedagógicas e nas situações de escolarização, isto curricular.
é, tudo aquilo a que poderíamos chamar de dimensão cog- Embora as escolas trabalhem quase sempre com o
nitiva e cultural da educação escolar (Forquin, 1993). currículo oficial, na realidade são os professores, o corpo
técnico e os pais que acabam por definir o currículo
Há, pelo menos, três tipos de manifestações: cur- real. Se entendemos que currículo é o que fica, o. inter-
rículo formal, currículo real e currículo oculto. nalizado, independentemente do prescrito oficialmente,
362 363
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

então, com efeito, o que influi na vida escolar dos alunos a) Um currículo precisa ser democrático, isto é, garan-
é o currículo real. A consideração deste currículo, ao lado tir a todos uma base cultural e científica comum e uma
do oficial, no planejamento pedagógico-curricular, leva base comum de formação moral e de práticas decida-
a escola e os professores a confrontar a cultura elaborada dania (relativa a critérios de solidariedade e justiça, à
do currículo formal e as sítuações de fato vividas no alteridade, à descoberta e respeito do outro, ao apren-
ambiente escolar e nas salas de aula. Por essa razão, é der a viver junto, etc.).
importante insistir no entendimento da cultura da escola b) O currículo escolar representa o cruzamento de cul-
- a cultura organizacional - como importante ele- turas, constituindo espaço de síntese, uma vez que a
mento curricular. No âmbito dessa cultura, aparecem a cultura elaborada se articula com os conhecimentos e
linguagem dos professores, as atitudes que tomam com as experiências concretas dos alunos em seu meio social
relação às diferenças individuais dos alunos, o modo pelo e com a cultura dos meios de comunicação, da cidade e
qual estes se relacionam entre si, as atitudes nas brinca- de suas práticas sociais. Isso significa propiciar aos alunos
deiras e nos jogos, a higiene e a limpeza nas dependên- conhecimentos e experiências diversificadas, integran-
cias da escola e outros fatores que criam o currículo real. do no currículo a variedade de culturas que perpassa a
Isso significa que tão importantes quanto as apren- escola: a científica, a acadêmica, expressa no currículo,
dizagens formais são as aprendizagens não formais, infor- a social, a dos alunos, a das mídias, a escolar (organiza-
mais e espontâneas, isto é, o currículo oculto, resultante cional). Trata-se de compreender a escola como lugar
das relações vividas na família, na comunidade, nas mí- de síntese entre a cultura formal, sistematizada, e a cul-
dias. Esse currículo representa tudo o que os alunos tura experienciada na família, na rua, na cidade, nas
aprendem pela convivência espontânea com as várias mídias e em outros contextos culturais, o que implica
práticas, atitudes, comportamentos, gestos e percepções formular coletivamente formas pedagógico-didáticas
em vigor no meio social e escolar. Portanto, a constru- de assegurar essa articulação.
ção e a elaboração da proposta curricular implicam a c) O provimento da cultura escolar aos alunos e a cons-
compreensão de que o currículo, mais do que os con- tituição de um espaço democrático na organização
teúdos escolares inscritos nas disciplinas, é o conjunto escolar devem incluir a interculturalidade: o respeito e
dos vários tipos de aprendizagens: aquelas exigidas pelo a valorização da diversidade cultural e das diferentes
origens sociais dos alunos, o combate ao racismo e a ou-
processo de escolarização, mas também os valores, os
tros tipos de discriminação e preconceito. O currículo
comportamentos, as atitudes adquiridas nas vivências
intercultural é o que, com uma base comum de cultura
cotidianas na comunidade, na interação entre profes- geral para todos, acolhe a diversidade e a experiência
sores, alunos e funcionários, nos jogos e no recreio e em particular dos diferentes grupos de alunos e propicia,
outras atividades concretas que acontecem na escola, as na escola e nas salas de aula, um espaço de diálogo e de
quais denominamos ora de currículo real, ora de cur- comunicação entre grupos sociais diversos. Um dos mais
rículo oculto. relevantes objetivos democráticos do ensino consiste
Ao planejar o currículo da escola, valendo-se do cur- em fazer da instituição escolar um lugar em que todos
rículo oficial, é necessário considerar alguns princípios possam experimentar sua própria forma de realização e
práticos. de sucesso.
364 365

....
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

d) Por outro lado, trata-se não apenas de atender às ne- lidade cognitiva e operativa das aprendizagens, propicia-
cessidades e às expectativas da comunidade, de modo que da a todos os alunos em condições iguais. Na sala de au-
se respeite a cultura local, mas também pensar sobre valo- la, podemos realizar, como professores, a justiça social
res, modos de vida e hábitos que precisam ser modifi- em matéria de educação. Por meio da formação cultural
cados, para a construção de um projeto civilizatório. - de sólidos conhecimentos e de capacidades cogniti-
vas fortemente desenvolvidas-, os filhos das camadas
e) Currículo tem que ver com a organização espacial da
médias e pobres da população podem tomar posse de
cidade e com o modo pelo qual as pessoas de todos os
uma vida mais digna e mais completa, com maior capaci-
segmentos sociais se movem nela. Trata, portanto, da
dade operativa (saber fazer, saber agir) e maior partici-
qualidade de vida possível, mediante a análise dos ele-
pação democrática.
mentos que demarcam a dinâmica da cidade: produção,
Há razoável consenso acerca de proposições socio-
circulação, moradia.
interacionistas: o papel ativo do sujeito na aprendizagem
f) Um bom currículo ajuda a fortalecer a identidade escolar, a aprendizagem interdisciplinar, o desenvolvimen-
pessoal, a subjetividade dos alunos. Trata não só de aten- to de competências do pensar, a interligação das várias
der e de favorecer a diversidade entre o alunado, mas culturas que perpassam a escola, etc. Atualmente, a meto-
também de promover em cada aluno competências dis- dologia de ensino está assentada em quatro referências
tintas que os tornem mais plenos. e autônomos em seu básicas:
desenvolvimento pessoal, o que, sem dúvida, pode faci-
a) ligação entre a cultura elaborada e a cultura experien-
litar igualmente seu êxito profissional. ciada dos alunos;
g) A organização curricular precisa prever tentativas de b) uma pedagogia do pensar, que promova o aprender
enriquecimento do currículo, pela interdisciplinaridade, a pensar e o aprender a aprender;
e de coordenação de disciplinas, por meio de projetos
c) uma pedagogia diferenciada;
comuns.
d) ensino e prática de valores e de atitudes na escola e
na sala de aula.
3. A organização e o A organização do ensino depende de algumas con-
desenvolvimento do ensino dições imprescindíveis a ser propiciadas pela escola. Por
exemplo: projeto pedagógico-curricular e plano de tra-
Temos reiterado o entendimento de que a razão de balho bem definidos, coerentes, com os quais os profes-
buscar um melhor funcionamento das escolas se deve sores se sintam identificados; orientação metodológica
ao fato de a instituição escolar estar a serviço da apren- segura por parte da coordenação pedagógica, implican-
dizagem dos alunos e, portanto, precisar investir nas do assistência permanente aos professores; formas de
condições que favoreçam um bom ensino. agrupamento de alunos, materiais de estudo e bons
O êxito da escola, especialmente da escola pública, livros didáticos; sistema de avaliação da aprendizagem
depende não apenas do exercício da democracia no assumido por todos os professores e formas de acom-
espaço escolar, da gestão participativa, da introdução de panhamento dos alunos com dificuldades; práticas de
inovações técnicas, mas também, basicamente, da qua- gestão participativa.

366 367


ORGANIZAÇÃO E GESTÃ?_D_A_E_·s_co_LA
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR
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São requeridas, também, disposições e condições da das salas, o recreio, o atendimento na secretaria, o ser-
parte dos professores, tais como: domínio dos conteú- viço de merenda, as práticas esportivas, as relações entre
dos e adequação destes aos conhecimentos que o aluno serventes e alunos, a higiene e asseio dos banheiros, etc.
já possui, a seu desenvolvimento mental, a suas caracte- As práticas de gestão dizem respeito a ações de na-
rísticas socioculturais e suas diferenças; domínio das tureza técnico-administrativa e de natureza pedagó-
metodologias de ensino correspondentes aos conteú- gico-curricular.
dos; clareza dos objetivos propostos, acentuando o desen-
volvimento de capacidades cognitivas e de habilidades de 4.1. AÇÕES DE NATUREZA TÉCNICO-ADMINISTRATIVA

pensar e aprender; planos de ensino e de aula; uma classe Estas ações são: a legislação escolar e as normas
organizada, alunos motivados e sem tensão; levar em con- administrativas; os recursos físicos, materiais, didáticos
ta a prática do aluno, saber planejar atividades em que e financeiros; a direção e a administração, incluindo as
ele desenvolva sua atividade mental; dominar procedi- rotinas administrativas; a secretaria escolar.
mentos e instrumentos de avaliação da aprendizagem. A legislação escolar e as normas administrativas
As leis e os regulamentos oficiais constituem matéria
de conhecimento que a escola e sua equipe não podem
4. As práticas de gestão ignorar. Os profissionais da instituição precisam ter à
sua disposição a legislação escolar, as normas e as dis-
Conforme temos insistido ao longo deste livro, todos
posições administrativas que vêm das instâncias do sis-
os setores administrativos e pedagógicos e todas as pes-
tema escolar. Tais documentos devem ser informados sis-
soas que atuam na organização escolar desempenham
tematicamente à equipe da escola.
papéis educativos, porque o que acontece na escola diz
Essa questão é relevante, uma vez que tanto a vida
respeito tanto aos aspectos intelectuais como aos aspec-
pessoal e profissional dos professores como as rotinas
tos físicos, sociais, afetivos, morais e estéticos. As crian-
administrativas e pedagógicas são, em boa parte, decor-
ças não aprendem conhecimentos, habilidades, atitudes
rentes de expedientes legislativos e administrativos. Seria
e valores apenas na sala de aula; aprendem também na
útil que a escola dispusesse de síntese atualizada das
vivência cotidiana com a família, nas relações com cole-
informações jurídicas e administrativas referentes aos
gas, no ambiente escolar. Verifica-se, portanto, que o
assuntos principais e mais problemáticos da gestão esco-
ambiente escolar, suas formas de organização e de ges-
lar, como: vida funcional de funcionários e professores;
tão, as relações sociais que nele vigoram, têm forte com-
regimento interno; diretrizes e normas pedagógicas para
ponente educativo. Ou seja, muitos aspectos do desen-
questões específicas relacionadas com currículo, planos de
volvimento moral e social dos alunos dependem da
trabalho, controles financeiros; etc. Para isso, a escola pode
interiorização de normas e de princípios - aprendidos
ter um setor específico de informação e documentação.
socialmente, em contextos de interação social - sobre
o que é, por exemplo, bom e mau, justo e injusto. Os recursos físicos, materiais, didáticos e financeiros
Importa, pois, considerar como instâncias educati- Esses aspectos, também chamados de infra-estrutu-
vas não apenas as salas de aula, os laboratórios, mas tam- ra, envolvem o edifício escolar, as instalações, as salas de
bém os estilos e as práticas de gestão, a entrada e a saída direção e de coordenação, os laboratórios, a biblioteca,
368 369
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

materiais, mobiliário e equipamentos necessários, mate- e de formas democráticas e eficazes de gestão do traba-
riais didáticos (mapas, vídeos, projetores, etc.). lho escolar. É preciso estar claro que a direção e a admi-
O edifício e suas instalações são fatores sumamente nistração da escola são meios para garantir os objetivos
importantes para o êxito do trabalho escolar. Espera-se educacionais. Dessa forma, uma escola bem organizada
que a construção seja adequada aos objetivos escolares: administra com eficiência seus recursos materiais e
pátio de circulação e recreação, bebedouros, ajardina- financeiros, assim como o trabalho de seu pessoal, e
mento, área coberta, salas para a secretaria, para a direção emprega processos e procedimentos de gestão, propi-
e para a coordenação pedagógica, sala de reuniões, sala ciando as condições favoráveis às atividades de ensino e
de professores, salas de aula com boa iluminação e are- aprendizagem.
jamento e com tamanho proporcional ao número de A secretaria escolar e os serviços gerais
alunos (12 m 2 por aluno), banheiros limpos, biblioteca,
Os serviços de secretaria referem-se a várias atividades:
laboratórios, quadras de esporte, cozinha, etc. O mobi-
liário e o material didático devem ser adequados e sufi- • recepção de pais, alunos, professores, visitantes;
cientes, para assegurar aos alunos, aos serviços admi- • assistência administrativa à direção e à coordenação
nistrativos e pedagógicos e aos professores as condições pedagógica;
necessárias de desenvolvimento do trabalho e para garan- • comunicações e informações a alunos e professores;
tir a qualidade do ensino. • atendimento de rotinas administrativas referentes ao
Em relação aos recursos financeiros, revela-se cada funcionamento pedagógico da escola (cadastros, listas de
vez mais importante diretores, coordenadores e professo- alunos, controle de freqüência, expedição de documen-
res terem conhecimento básico do assunto. Atualmente, tos, etc.);
as escolas vêm gerindo recursos financeiros, em decor-
• gestão do patrimônio e das finanças;
rência da política de descentralização promovida em al-
guns estados do País. • registro, guarda e expedição de documentação escolar
Os planos financeiros envolvem o orçamento, o qual dos alunos;
prevê as receitas e as despesas. A previsão das despesas • serviços de impressão e cópias;
da escola, em muitos casos, pode ser discutida pela equipe • controles funcionais do pessoal docente e dos fun-
escolar por ocasião da formulação do projeto pedagógi- cionários;
co-curricular. As Secretarias de Educação geralmente
• controle de correspondência e comunicações por tele-
dispõem de orientações específicas sobre o orçamento,
fone e internet.
sobre as despesas, sobre a escrituração e sobre as formas
de avaliação e de controle dos recursos recebidos e dos Essa breve lista mostra que há funções de recepção e de
gastos efetuados. Na 2~ Parte deste livro são encontradas contato com as pessoas e atribuições administrativas pro-
mais informações sobre essas questões. priamente ditas, sempre a serviço da atividade educativa
da escola. A secretaria costuma ser o lugar procurado, em
A direção e a administração, as rotinas primeiro lugar, para pedir informação, para falar com o
organizacionais e administrativas diretor, para resolver problemas, para contatar a família,
O funcionamento da escola e, sobretudo, a qualidade para tratar de questões administrativas, etc. Por isso, a
da aprendizagem dos alunos dependem de boa direção atividade de recepção e de relações públicas requer do
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA
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As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

pessoal que aí trabalha atitudes de atenção, de respeito e sistema de normas e de diretrizes regido por autoridades
de sensibilidade, criando um clima favorável para a reso- do Estado, as quais têm a incumbência de indicar obje-
lução dos problemas que motivaram a presença da pes- tivos mais amplos de qualidade de ensino a ser atingida,
soa na secretaria ou na sala do diretor. fornecer os meios concretos para alcançá-los, acompa-
Os serviços gerais incluem as atividades desenvolvidas nhar a aplicação de normas ou de ações e efetuar a avalia-
por serventes, inspetores de alunos, me~·endeiras, P?rtei- ção das escolas. Todavia, o diretor pode pôr em discussão
ros e vigias. Em algu~s lug~res, há serviços ~e ca,ntn~a: A tais formas de intervenção, a fim de reavaliar o impacto
direção da escola preosa cmdar ~esse se~or, ~ao so exigm- dessas orientações externas nos objetivos e nas práticas
do serviços de qualidade, mas amda d1s.cutmdo sobre o da comunidade escolar. Trata-se de postura crítico-cons-
trabalho a ser feito e introduzindo modalidades de forma- trutiva da equipe escolar.
ção continuada, para que os funcionários se conscien- Há que levar em conta, também, as relações da escola
tizem de que são integrantes da equipe escolar e que seu com os pais, com a comunidade, com os sindicatos, com
trabalho também contribui para a formação dos alunos. as associações civis e com os partidos políticos. Tais rela-
ções são necessárias e desejáveis, mas precisam ser bem
4.2. AÇÕES DE NATUREZA PEDAGÓGICO-CURRICULAR
conduzidas e avaliadas. Na verdade, essas entidades sem-
Essas ações dizem respeito à gestão do projeto peda- pre representam interesses que precisam ser compatíveis
gógico-curricular, do currículo, do ensino, do desen- com os da escola, dos professores e dos alunos. Elas po-
volvimento profissional e da avaliação, ou seja, à gestão dem provocar influências políticas, culturais e partidárias
dos próprios elementos que constituem a natureza da no funcionamento interno da escola em grau bem maior
atividade escolar. Todos os membros da equipe escolar es- do que o desejado ou do que é sentido como correto, ao
tão envolvidos nessas ações, mas a responsabilidade direta serem considerados os objetivos que a instituição busca.
sobre elas pertence à direção e à coordenação pedagógica. Em um contexto de intensas mudanças na sociedade e
Em tópicos anteriores, essas questões foram ba~tante nas escolas, é conveniente que a direção esteja aberta a
desenvolvidas, sendo suficiente tecer algumas considera- inovações e tenha alta capacidade de liderança, para mo-
ções sobre o papel dos profissionais que desempenham tivar os docentes a envolver-se nas iniciativas destinadas
essas funções. a melhorar o funcionamento da escola e das salas de aula.
O diretor de escola tem atribuições pedagógicas e ad- A coordenação pedagógica, desempenhada pelo pe-
ministrativas próprias, e uma das mais importantes é a dagogo escolar, responde pela viabilização do trabalho
de gerir o processo de tomada de decisões por meio de pedagógico-didático e por sua integração e articulação
práticas participativas. Em geral, ele atua mais diretamen- com os professores, em função da qualidade do ensino.
te nos aspectos administrativos, delegando os aspectos A coordenação pedagógica tem como principal atribui-
pedagógico-curriculares a uma coordenação pedagógica ção a assistência pedagógico-didática aos professores,
(ou outra designação equivalente ao trabalho de peda- para que cheguem a uma situação ideal de qualidade de
gogo escolar). ensino (considerando o ideal e o possível), ajudando-os a
Outro aspecto importante do trabalho de diretor é seu conceber, construir e administrar situações de aprendiza-
papel de intermediário entre a escola e as instâncias supe- gem adequadas às necessidades educacionais dos alunos.
riores do sistema escolar (autoridades ligadas à supervisão De acordo com estudos recentes sobre formação conti-
do ensino). Tais instâncias desempenham importante pa- nuada de professores, o papel do coordenador pedagógi-
pel no sistema escolar. As escolas estão vinculadas a um co é o de monitoração sistemática da prática pedagógica
372 373
As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

docente, sobretudo mediante procedimentos de refle- 5. O desenvolvimento profissional


xão e de investigação. Registramos, a seguir, uma lista de (formação continuada)
atribuições da coordenação pedagógica. Esta área de atuação refere-se ao aprimoramento pro-
Cabe-lhe, entre outras atribuições, o acompanhamen- fissional do pessoal docente, técnico e administrativo
to das atividades de sala de aula, em atitude de colabora- no próprio contexto de trabalho. Atualmente, o desen-
ção com o professor da classe; a supervisão da elaboração volvimento profissional não se restringe mais ao mero
de diagnósticos, para o projeto pedagógico-curricular da treinamento. A idéia é que a própria escola é lugar de for-
escola e para outros planos e projetos; a orientação da mação profissional, por ser sobretudo nela, no contexto
organização curricular e o desenvolvimento do currículo, de trabalho, que os professores e demais funcionários po-
incluindo a assistência direta aos professores na elabora- dem reconstruir suas práticas, o que resulta em mudan-
ção dos planos de ensino, na escolha de livros didáticos, ças pessoais e profissionais.
nas práticas de avaliação da aprendizagem; a coordenação O desenvolvimento profissional, como eixo da for-
de reuniões pedagógicas e de entrevistas com professores, mação docente, precisa articular-se, ao mesmo tempo,
para promover relação horizontal e vertical entre discipli- com o desenvolvimento pessoal e com o desenvolvi-
nas, estimular a realização de projetos conjuntos entre os mento organizacional. O desenvolvimento pessoal diz
professores, diagnosticar problemas de ensino e apren- respeito aos investimentos pessoais dos professores em
dizagem, adotando medidas pedagógicas preventivas, e seu próprio processo de formação, por meio do traba-
adequar conteúdos, metodologias e práticas avaliatórias; lho crítico-reflexivo sobre sua práxis e da reconstrução de
a proposição e a coordenação de atividades de formação sua identidade pessoal, resultando nos saberes da expe-
continuada e de desenvolvimento profissional dos pro- riência. O desenvolvimento organizacional refere-se às
fessores. formas de organização e de gestão da escola como um
Há divergências significativas sobre a diferenciação todo, especialmente aquelas referentes ao trabalho cole-
tivo. A articulação d,esses três níveis de formação
entre atividades administrativas e atividades pedagógi-
docente ressalta a importância das decisões que ocor-
cas e a respeito de a direção administrativa e a direção
rem no âmbito da escola, dos projetos de trabalho com-
pedagógica deverem ser exercidas necessariamente por partilhados (Nóvoa, 1992).
alguém com formação docente. No Brasil, difundiu-se As ações de desenvolvimento profissional estão muito
bastante a idéia de que a direção e a coordenação peda- ligadas à cultura organizacional, a dimensão informal
gógica são formas diferenciadas de uma única função, a da organização que afeta o desenvolvimento desta, con-
docente. Defendemos a posição de que tanto o diretor forme já discutimos. Com efeito, a atividade profissio-
de escola quanto o coordenador pedagógico desempe- nal dos professores está inserida em uma organização,
nham, cada um, funções específicas, que requerem for- em seus modos de agir e de ser, cujas regras são apren-
mação profissional também específica, distinta daquela didas e ao mesmo tempo produzidas por seus membros
proporcionada na formação inicial de professores. Nesse (direção, coordenação pedagógica, professores, funcio-
caso, o diretor não precisa exercer nem ter exercido a nários, alunos, pais). Como se trata de uma organização
docência, embora deva receber formação para lidar com educativa, em que tudo educa - o edifício escolar, as con-
questões de ensino e aprendizagem. Em outras palavras, dições materiais, a conduta de professores e funcionários
da secretaria, o nível de limpeza e outros elementos - ,
as funções de direção, de coordenação pedagógica e
as ações de desenvolvimento profissional não podem estar
docente não precisam coincidir necessariamente.
374 375
~··
{

ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA


As ÁREAS DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO ESCOLAR

separadas das práticas de gestão e da cultura organiza- agentes escolares podem construir a cultura organizacio-
cional. Nesse sentido, pode-se afirmar: nal da instituição. Cabe, nesse sentido, destacar o papel da
• a escola, como organização e contexto da ação dos pro- direção e da coordenação pedagógica da escola relativo ao
fessores, pode ajudar na vida pessoal e profissional do apoio e à sustentação desses espaços de reflexão, de investiga-
professor; ção e de tomada de decisões, a fim de instaurar uma cultu-
• uma vez que a organização escolar como um todo ra de colaboração, como ingrediente da gestão participativa.
constitui espaço de aprendizagem, os professores apren- Os dilemas que se apresentam atualmente à formação
dem sua profissão com a escola e a escola aprende com continuada dizem respeito a como promover mudanças
seus professores; nas idéias e nas práticas profissionais e pessoais docentes.
• os professores podem influenciar a organização da Não se pode esquecer que certas dificuldades dos pro-
escola na definição de diferentes objetivos, na criação fessores para se tornarem melhores profissionais decor-
de uma cultura organizacional, na introdução de inova- rem de fatores já conhecidos, de modo que as formas de
ções e mudanças. desenvolvimento profissional precisam recair, inicial-
Fátima Abdalla (1999), em um estudo sobre o desen- mente, nos fatores indicados a seguir.
volvimento profissional do professor, analisa as relações a) Os professores são portadores de percepções, de sig-
entre trabalho docente e organização escolar e aponta nificados, de esquemas de ação já consolidados, em de-
quatro elementos nelas interferentes: a gestão, o projeto corrência de sua formação, da cultura profissional, dos
político-pedagógico, a organização e articulação do cur- colegas. Nesse âmbito: podem estar também diante de
rículo e o investimento no desenvolvimento profissional estereótipos consolidados em relação a diferenças psi-
dos professores. Esses quatro elementos interferem no cológicas e sociais entre os alunos. Faz-se necessário con-
desenvolvimento profissional do professor. A mesma au- siderar esses modos de pensar e de agir para a introdução
tora escreve que a cultura é um processo de produção e de de mudanças que promovam a ampliação e o aprofun-
acumulação de experiências e de realizações, no decurso damento da cultura geral dos professores.
do qual o ser humano se produz a si próprio, à medida b) Algumas características sociais e culturais dos alunos
que vai construindo um modo social de convivência. Isso que freqüentam a escola atualmente decorrem, em boa
significa que também a organização escolar constitui cul-
parte, de fatores externos e podem levar à deslegitimação
tura, ou seja, é uma construção social dos que atuam na
da autoridade do professor, à sua baixa auto-estima, à
escola, com seus objetivos, formas de organização, percep-
insegurança para exercer sua liderança na classe, ao des-
ções, crenças, rituais, etc. É claro que há uma estrutura
preparo profissional em face desses novos problemas.
escolar visível formada pelos aspectos administrativos e
Surgem, assim, novas necessidades a ser atendidas na
pedagógicos, há os regulamentos, as formalidades. Existe,
formação continuada no próprio contexto de trabalho.
porém, também interações sociais não oficiais, não for-
malizadas, que influenciam as maneiras de ser e de agir c) O despreparo profissional pode estar associado, tam-
dos profissionais que ali trabalham (professores, pes- bém, a uma frágil formação inicial, de modo que se faz
soal técnico-administrativo, direção). necessário investir nas situações de trabalho, em maior
O aspecto relevante dessa análise é que tanto a cultura conhecimento teórico, envolvendo tanto os saberes peda-
influi no desenvolvimento profissional do professor (posi- gógicos como os específicos.
tiva ou negativamente) como os professores podem produ- Programas de desenvolvimento profissional precisam
zir o espaço cultural da escola - ou seja, os próprios começar por lidar do modo possível com esses fatores,
376
377
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

como requisito para pôr em prática ações de desenvol-


vimento pessoal pela auto-reflexividade crítica.

6. Avaliação institucional da escola


Capítulo J
e da aprendizagem
Como área de atuação da organização e da gestão da
escola, há a avaliação institucional (que diz respeito ao
sistema e à organização escolares) e a avaliação da apren-
dizagem dos alunos feita pelo professor. A avaliação é
requisito para a melhoria das condições que afetam di-
retamente a qualidade do ensino.
Em uma visão progressista, as práticas de avaliação
podem propiciar maior auto-regulação institucional,
em razão da exigência de prestação de contas de um ESENVOLVEND - E
ACOES.;)

serviço público à comunidade. A avaliação externa, em


conexão com a dos professores, pode representar uma
ajuda à organização do trabalho na escola e nas salas de
COMPETÊNCIAS PR FISSI NAIS
aula, gerando uma cultura da responsabilização na equipe
escolar. Os professores, em razão da organização escolar PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO
e do projeto pedagógico da instituição, podem analisar
conjuntamente os problemas e fazer diagnósticos mais -
PARTICIPATIVA E DE GESTAO
amplos, para além do trabalho isolado em sua matéria,
reforçando o entendimento da escola como local em que
se pensa o trabalho escolar e em que professores e espe- DA PARTICIPAÇAO -
cialistas aprendem em conjunto.
Nesse sentido, uma proposta pedagógica progressista
pode assumir: a avaliação dos estabelecimentos escolares
por meio dos resultados de aprendizagem dos alunos
(embora essa aferição não deva ser utilizada para classi-
ficar as escolas, determinando quais serão beneficiadas
por recursos públicos, algo totalmente inaceitável); a
descentralização das escolas, favorecendo a identifi-
cação de necessidades locais, o envolvimento dos pro-
fessores e pais, etc. (embora isso não deva ser usado
para a redução do poder de mobilização dos sindicatos
e da participação política de professores); a ênfase no de-
senvolvimento de capacidades básicas de aprendizagem
(embora não se aceite mero treinamento de habilidades).

378
Desenvolvendo ações e
competências profissionais
para as práticas de gestão
participativa e de gestão da
participação

O exercício de práticas de gestão democráticas e


participativas a serviço de uma organização escolar que
melhor atenda à aprendizagem dos alunos requer
conhecimentos, habilidades e procedimentos práticos. O
trabalho nas escolas envolve, ao mesmo tempo, processos
de mudança nas formas de gestão e mudanças nos
modos individuais de pensar e agir. Em razão disso, a
formação docente, tanto a inicial como a continuada,
precisa incluir, com o estudo das ações de
desenvolvimento organizacional, o desenvolvimento de
competências individuais e grupais, para que os
pedagogos especialistas e os professores possam participar
de modo ativo e eficaz da organização e da gestão do
trabalho na escola.

Vimos anteriormente (4ª Parte, Capítulo II) que há


diferentes estilos de gestão adotados nas escolas. O mais
comum é o técnico-científico (também denominado de
burocrático), no qual as normas e as regras são previa-
mente definidas, com forte ênfase na determinação rígi-
da de tarefas e no controle do comportamento das pes-
soas. Os problemas que surgem precisam ser corrigidos
e evitados, não sendo utilizados como fontes de cresci-
mento e de transformação das pessoas (Luck, 1998). O
381
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

âmbito de tomada de decisões do professor fica restrito conflitos, de propiciar a participação de todos nas deci-
à sua sala de aula. sões, em discussão aberta e pública dos fatos, com con-
Já o estilo autogestionário - opção adotada em esco- fiança e respeito aos outros.
las desejosas de um posicionamento mais crítico sobre Com base nesse estilo de gestão, são sugeridas algumas
as formas de gestão - , em outro extremo, valoriza a ações concretas e algumas competências profissionais que
participação na gestão, mas pouco se preocupa com assegurem o desenvolvimento de práticas de gestão par-
práticas de gestão mais estruturadas, como o planeja- ticipativa.
mento, as estruturas e os procedimentos organizativos,
as formas de acompanhamento e de avaliação do traba-
lho. Há nele a tendência de atribuir maior importância 1. Ações a ser desenvolvidas
à vida interna do grupo do que à efetivação de meios
para atingir os objetivos, de modo que as pessoas ficam 1) Formação de uma boa equipe de trabalho. Um grupo
sem uma direção clara para sua atividade e se sentem de pessoas que trabalhe junto, de forma cooperativa e so-
pouco envolvidas com as finalidades de seu trabalho. lidária, para a formação e aprendizagem dos alunos.
Esse tipo de gestão, em que se exclui qualquer forma de O trabalho em equipe é uma forma de desenvolvi-
diretividade, pode levar à formação de subgrupos que mento da organização que, por meio da cooperação, do
amiúde se opõem entre si, gerando dificuldades para diálogo, do compartilhamento de atitudes e de modos de
atingir objetivos e práticas comuns. agir, favorece a convivência, possibilita encarar as mudan-
O estilo de organização e de gestão denominado ças necessárias, rompe com as práticas individualistas e
democrático-participativo acentua tanto a necessidade de leva os alunos a produzir melhores resultados de apren-
estabelecer objetivos e metas quanto a de prever formas dizagem. Predominam em muitas escolas e salas de aula
organizativas e procedimentos mais explícitos de gestão práticas individualistas, em que as reuniões se destinam,
e de articulação das relações humanas. A organização quase sempre, a transmitir avisos, fazer reclamações sobre
torna-se um agrupamento humano formado por intera- o comportamento dos alunos, organizar eventos extra-
ções entre pessoas com cargos diferentes, especialidades dasse, etc. Nesses casos, as reuniões não são utilizadas para
distintas e histórias de vida singulares que, entretanto, reflexão e análise das situações de trabalho, das dificulda-
compartilham objetivos comuns e decidem, de forma des encontradas pelos professores, nem visam à troca de
pública, participativa e solidária, os processos e os meios experiências e a decisões tomadas de maneira conjunta.
de conquista desses objetivos. Existem, assim, objetivos O trabalho em equipe é o oposto daquele em que ca-
e processos de decisão compartilhados, mas não há da professor resolve tudo sozinho e pouco se comunica
ausência de direção; ao contrário, admite-se a conveniên- com os colegas sobre sua atividade. Supõe objetivos e
cia de canalizar a atividade das pessoas para objetivos e metas coletivas e a responsabilidade individual de cada
executar as decisões, considerando, de um lado, a neces- membro da equipe ao pôr as decisões em prática. As
sidade de realizar com eficácia as tarefas, de cumprir os características seguintes ajudam a identificar, nas esco-
objetivos, de obter resultados, de fazer a organização las, a existência do trabalho em equipe.
funcionar e de realizar avaliações; e, de outro, a necessi- a) O grupo de profissionais assume disposições pessoais
dade de coordenar o trabalho das pessoas, de assegurar de construir conjuntamente uma equipe, de tomar deci-
um ótimo clima de trabalho, de enfrentar e superar os sões coletivamente, de pôr em prática o que foi decidido
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"T'l
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA
1
DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO PARTICIPAJNA
1

e de cada segmento fazer sua parte no conjunto da es- e) Há o entendimento da equipe acerca das formas de
trutura organizacional. gestão, admitindo que na estrutura organizacional exis-
b) O projeto pedagógico-curricular é realizado com a tam papéis diferenciados (direção, coordenação pedagó-
participação e a colaboração dos membros da equipe, gica, docência, administração), com base em diferentes
definindo a escola que desejam e o futuro que esperam especialidades, embora todos devam atuar cooperativa-
dela. Há alto grau de envolvimento nos objetivos, na mente para a consecução dos objetivos de aprendizagem
consecução das metas e, especialmente, nas ações práti- dos alunos. Nesse sentido, a coordenação pedagógica tem
cas a ser conduzidas pela equipe. a responsabilidade de promover ações de desenvolvimento
c) Os problemas e as dificuldades do trabalho docente profissional, com a finalidade de ampliar conhecimentos,
são analisados e discutidos entre os profissionais, haven- adquirir informações, aprimorar habilidades, de modo
do troca de informações e de experiências e delibera- que todos possam participar, em condições mínimas de
ções cooperativas sobre medidas e ações práticas. Há a igualdade, nas discussões para a tomada de decisões.
preocupação de cada membro da equipe com os outros, f) Na perspectiva sociocrítica, os objetivos, as condições
o questionamento das conseqüências de suas ações sobre de funcionamento organizativo, as mudanças organiza-
os alunos e sobre os colegas. O grupo de profissionais tivas e pedagógicas devem estar subordinados a princí-
reconhece que as pessoas são diferentes em suas qualida- pios e valores emancipadores, com os quais se superem
des e experiências pessoais, têm diferentes motivações e as contradições e os bloqueios que impedem os indiví-
interesses, e que varia, também, o grau de envolvimento
duos de desenvolver o próprio potencial e construir as
dos membros da equipe com o projeto da escola. Ao mes-
próprias atividades. As práticas de gestão democráticas e
mo tempo, desenvolvem um esforço comum de levar
emancipadoras são as que criam as condições promotoras
em conta essas características e obter uma base mínima
do desenvolvimento humano, da reflexão, da autonomia.
de consenso, para garantir a unidade do trabalho no
O desenvolvimento do impulso para a emancipação en-
âmbito da escola e com os alunos.
volve situar a organização no contexto social mais am-
d) Há uma busca intencional de consenso sobre os pro- plo e analisar criticamente seu papel nessa situação.
blemas e as soluções sem, todavia, esconder as diferen-
ças, os interesses pessoais, os conflitos, as divergências, A indicação dessas características sugere a adoção de
as relações de poder. A escola é um lugar de debate entre uma concepção realista de organização escolar, conside-
interesses em jogo, em que se negocia continuamente a rando, ao mesmo tempo, os valores, os significados, as
realidade, significados e valores. Ao mesmo tempo, é es- interpretações das pessoas em relação ao que precisa ser
paço de convivência de diferentes personalidades, dife- feito, bem como os objetivos e as exigências sociais im-
rentes visões de mundo, diferentes culturas; não há, pois, postas pela realidade. Ou seja, a escola pública brasileira
que esperar relações sempre harmoniosas. Por outro lado, tem compromissos com a população pobre, por isso preci-
respeitar a subjetividade e a identidade cultural não sa funcionar bem, de modo que todas as crianças e jo-
pode resultar em uma posição relativista em que tudo vens recebam ótima escolarização.
se aceita, sem definir princípios mínimos de convivên- Em síntese, a construção de uma equipe como co-
cia e de trabalho. Uma equipe madura, na verdade, esti- munidade democrática de aprendizagem considera a ne-
mula a divergência, de modo que possa ser alcançada a cessidade de explicitação de objetivos e meios e a impor-
melhor solução, cooperativamente. tância dos aspectos culturais e subjetivos, mas atribui
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROASSIONAIS PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

peso prioritário às exigências do contexto social e históri- a organização curricular, as relações sociais, os modos e
co da ação organizativa escolar. Adota, sim, uma visão os critérios de avaliação, as normas.
compreensiva da organização como uma construção so- Esse caráter de diálogo e de compartilhamento de signi-
cial, sem tomá-la como entidade objetiva e independente ficados entre as pessoas da comunidade escolar possibilita
das pessoas, mas acredita também que essa construção à escola como um todo adquirir experiência, acumular
não é um processo livre e voluntário, mas mediatizado recursos cognitivos e operacionais, construir competên-
pela realidade sociocultural e política mais ampla. cias coletivas. Ou seja, a instituição torna-se uma organi-
Há várias formas de trabalhar junto, umas mais for- zação aprendiz, um espaço de aprendizagem contínua,
mais - como as reuniões, os conselhos de classe, os em que a organização aprende com seus membros e vice-
cursos-, outras mais informais - como as trocas de versa.
informações sobre alunos ou sobre o próprio trabalho Esse modo de organizar a escola possibilita maior en-
e conversas na sala dos professores. A reflexão conjunta volvimento dos professores com sua formação, porque
com base nas vivências pessoais pode constituir ajuda podem discutir questões de seu trabalho com base em ne-
preciosa aos professores, porque possibilita que se apóiem cessidades reais. Com isso, a cultura do individualismo
uns aos outros. Com a orientação da coordenação peda- cede à da colaboração, as relações hierárquicas são substi-
gógica, e havendo um clima de colaboração, pode-se che- tuídas pelo trabalho em equipe, a coordenação peda-
gar à prática de os professores observarem as aulas uns gógica torna-se uma atividade negociada com base em
dos outros e fazerem uma reflexão conjunta para se aju- situações concretas da sala de aula (Thurler, 2001). Talvez
darem reciprocamente. o efeito mais promissor da construção da comunidade
2) Construção de uma comunidade democrática de apren- de aprendizagem seja o de ajudar os professores a atribuir
dizagem. As mudanças na escola e nas motivações e dis- sentido a seu trabalho, isto é, a incorporá-lo à sua subjeti-
posições do grupo de profissionais, a fim de instituir vidade, a suas motivações psicológicas, sociais e políticas.
uma cultura organizacional, dependem de a instituição A formação de uma comunidade de aprendizagem re-
constituir um lugar de aprendizagem ou uma comuni- quer a adoção de uma estrutura organizacional e de
dade de aprendizagem. Como temos insistido, a escola é processos de gestão que valorizem a participação, mas
o local de trabalho dos professores, no qual aprendem sua também o desenvolvimento de competências de todos
profissão. O trabalho conjunto leva a formular expectativas os membros da escola, tais como: capacidade de comu-
compartilhadas em relação a objetivos, meios de trabalho, nicação e de expressão oral; facilidade de trabalhar em
formas de relacionamento, práticas de gestão, etc. grupo; capacidade de argumentação; formas de enfrentar
A expressão comunidade de aprendizagem está asso- problemas e situações difíceis. Particularmente, requer
ciada à idéia de participação ativa de professores, peda- dos dirigentes (diretores e coordenadores pedagógicos)
gogos e alunos - por meio de reuniões, de debates, de capacidade de liderar e de gerir práticas de cooperação
aulas, de atividades extra-classe - nas decisões rela- em grandes grupos, de modo que se crie outra cultura
cionadas com a vida da escola, com os conteúdos, com organizacional, ou seja, outra mentalidade de organiza-
os processos de ensino, com as atividades escolares de ção escolar.
variada natureza, com a avaliação. A comunidade deve Convém ressalvar que essas formas de trabalho coleti-
ser o espaço público em que se discute o conhecimento, vo sintetizadas na idéia de comunidade de aprendizagem
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÃTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

precisam estar conectadas com o trabalho da sala de aula. A formação continuada é a garantia do desenvolvi-
Para pôr em prática uma comunidade de aprendizagem mento profissional permanente. Ela se faz por meio do
na sala de aula, os professores devem desenvolver as mes- estudo, da reflexão, da discussão e da confrontação das
mas competências mencionadas acima que se refletem experiências dos professores. É responsabilidade da ins-
nas maneiras de organizar a sala, de se relacionar com o tituição, mas também do próprio professor. O desen-
grupo de alunos, de ensinar, de avaliar, etc. volvimento pessoal requer que o professor tome para si
A construção de uma comunidade de aprendizagem a responsabilidade com a própria formação, no contex-
requer: to da instituição escolar.
• consenso mínimo sobre valores e objetivos; 4) Envolvimento dos alunos em processos de solução de
problemas e de tomada de decisões. Os alunos também
• estabilidade do corpo docente e tempo integral numa
têm uma presença significativa na comunidade de apren-
escola;
dizagem. Segundo Pérez Gómez (2000), toda aprendiza-
• metas pertinentes, claras e viáveis; gem relevante é um processo de diálogo com a realidade
• capacitação de docentes para o trabalho em equipe e expressa na cultura, aceitando e questionando, recusan-
em habilidades de participação; do e assumindo. Esse diálogo criador requer uma comu-
• promoção de ações sistemáticas de formação conti- nidade de aprendizagem, em que os estudantes estão ati-
nuada, para o desenvolvimento profissional. vamente envolvidos na elaboração e no desenvolvimento
das decisões que dizem respeito à sua vida na escola,
A comunidade de aprendizagem pode ser um ponto
vivenciando práticas de reflexão e de atuação, de debate
de partida para que as escolas e seus profissionais se mobi-
e de confronto de opiniões, com o respeito às diferenças
lizem para a superação de comportamentos muito comuns
individuais. "Os alunos aprendem democracia vivendo e
no ambiente escolar: o isolamento, o individualismo, a
construindo sua comunidade democrática de aprendiza-
resistência a mudanças, o conformismo, a indiferença, o
gem e de vida", aprendendo a pensar e a atuar por meio
imobilismo.
dos conteúdos escolares que lhes permitam transformar
3) Promoção de ações de desenvolvimento profissional. seu próprio pensamento e seus comportamentos (Pérez
Ações de desenvolvimento profissional são as que se des- Gómez, 2000, p. 97).
tinam à formação continuada do pessoal da escola, envol- As práticas de gestão incluem, pois, formas de parti-
vendo os professores e os funcionários administrativos. cipação dos alunos na vida da escola. Há boas razões pe-
A formação continuada refere-se a: a) ações de for- dagógicas para essa participação, mas há também razões
mação durante a jornada de trabalho - ajuda a profes- sociais e culturais. Em decorrência das novas configu-
sores iniciantes, participação no projeto pedagógico da rações da realidade social, econômica, política e cultural,
escola, reuniões de trabalho para discutir a prática com têm incidido nas escolas problemas como o desemprego,
colegas, pesquisas, minicursos de atualização, estudos a prostituição infantil, a violência entre gangues, o trá-
de caso, conselhos de classe, programas de educação a fico de drogas, o uso de armas, a liberação sexual, a
distância, etc.; b) ações de formação fora da jornada de desintegração familiar, etc. Tais fatos, além de outras
trabalho ----- cursos, encontros e palestras promovidos pe- implicações, repercutem no aumento de problemas dis-
las Secretarias de Educação ou por uma rede de escolas. ciplinares, como comportamentos sociais inadequados,
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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

agressão verbal, desrespeito e ameaças a professores. Por 5) Envolvimento dos pais na vida da escola. O envolvi-
outro lado, muitas escolas têm dificuldades para enfren- mento dos pais na escola pode ocorrer de modo informal,
tar essas questões, em razão do despreparo dos profes- no contato com os professores para acompanhamento do
sores para exercer autoridade ou para lidar com dilemas desempenho escolar dos filhos, e de modo mais formal,
morais, da existência de professores inexperientes ou com na Associação de Pais e Mestres e no conselho de escola.
formação pedagógica precária, da falta de integração com No primeiro caso, espera-se que os professores com-
a comunidade, da não-integração dos alunos na vida partilhem sua responsabilidade pedagógica com os pais.
escolar e nos processos de decisão. A comunicação entre esses dois grupos ocorre geralmente
Essas novas realidades sugerem que alguns proble- na reunião de pais, cuja participação nas instâncias de-
mas incidentes nas escolas não se resolvam apenas com cisórias da escola constitui algo de suma importância.
boas intenções, com mudanças curriculares ou com no- Todavia, deve-se definir claramente tanto as formas dessa
vas metodologias. É preciso repensar práticas de gestão, participação como as de outras instituições e organiza-
novas formas de organização do trabalho escolar, incluin- ções da comunidade, uma vez que as responsabilidades
do o envolvimento dos alunos na organização da esco- e as tarefas dos profissionais da escola (direção, profes-
la, para que possam exercer a democracia mediante a sores, funcionários) são distintas daquelas das institui-
participação, a capacitação para tomar iniciativas, o con- ções da comunidade e dos pais. Não cabe a estes, por
fronto e a discussão pública de pontos de vista, o posi- exemplo, interferir diretamente nas atividades de sala
cionamento sobre questões relacionadas à vida escolar, de aula. As formas de participação da comunidade de-
de modo que vivenciem processos democráticos de to- vem estar subordinadas aos objetivos e às tarefas da
mada de decisões. Mais concretamente, podem ser pen- escola, à observância de certas normas e diretrizes pró-
sadas algumas medidas, tais como: prias da instituição escolar.
• promoção de encontros de orientação educacional 6) Fortalecimento de formas de comunicação e de difusão
grupal para conversação dirigida sobre questões de for- de informações. As escolas continuam dando pouca im-
mação moral, sobre relacionamentos, sobre problemas portância à transparência nas decisões e ao aprimora-
típicos da juventude; mento das formas de comunicação com professores,
• envolvimento dos alunos na discussão de normas dis- alunos e pais. Referimo-nos a dois aspectos: a) a comuni-
ciplinares, incluindo formas de prevenção de violência cação como qualidade e competência dos indivíduos,
física e de agressões verbais, a fim de garantir um isto é, saber comunicar-se com os outros e ouvi-los;
ambiente democrático e solidário na escola e possibili- b) a comunicação como característica dos processos de
tar a convivência grupal; gestão, uma vez que as pessoas precisam estar infor-
madas das diretrizes do sistema de ensino, do que acon-
• promoção de ações que fortaleçam os laços com as
tece na escola, das normas e rotinas administrativas, etc.
famílias e com a comunidade;
No primeiro caso, trata-se de um investimento inten-
• investimento em ações de capacitação dos professores cional para melhorar a rede de relações na escola. Algu-
para lidar com dilemas morais e com o manejo de mas mudanças nas relações são fáceis de ser aceitas,
classe, diante das novas atitudes que os alunos exibem como a eliminação do autoritarismo, das decisões arbi-
na escola. trárias, da falta de respeito com os outros, etc. Outras
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

são mais difíceis, como o enfrentamento de conflitos e duas modalidades: a avaliação institucional (ou admi-
divergências, o tratamento igual aos alunos, preservadas nistrativa ou organizacional) e a avaliação acadêmica
as diferenças, a própria aceitação das inovações. As pro- ou científica, como as mencionadas. A avaliação institu-
postas aqui apresentadas sobre participação democráti- cional é uma função primordial do sistema de organiza-
ca, sobre debate coletivo e público, sobre comunidade ção e de gestão dos sistemas escolares, podendo abran-
de aprendizagem, sobre cultura organizacional são for- ger também as escolas, individualmente. Essa avaliação
mas concretas de produzir mudanças na mentalidade visa à obtenção de dados quantitativos e qualitativos
dos educadores e na comunicação. sobre os alunos, sobre os professores, sobre a estrutura
A par da necessidade de aprimoramento das formas organizacional, sobre os recursos físicos e materiais, sobre
de comunicação de todos os membros da equipe, trata- as práticas de gestão, sobre a produtividade dos cursos
se de instaurar práticas de gestão que sejam tornadas e dos professores, etc., com o objetivo de emitir juízos
públicas e disponibilizar informações sobre decisões ad- de valor e tomar decisões acerca do desenvolvimento da
ministrativas, orçamentos, atas de reuniões, etc. instituição. A avaliação acadêmica ou científica visa à
7) Avaliação do sistema escolar, das escolas e da aprendiza- produção de informações sobre os resultados da apren-
gem dos alunos. As ações da escola no campo da avalia- dizagem escolar em função do acompanhamento e da
ção educacional, voltadas para a formação continuada no revisão das políticas educacionais, do sistema escolar e
contexto de trabalho, são de três tipos: avaliação do siste- das escolas, com a intenção de formular indicadores de
ma escolar, avaliação da escola, avaliação da aprendiza- qualidade dos resultados do ensino.
gem dos alunos. Entre a avaliação do sistema e a avaliação da aprendi-
O conceito de avaliação educacional, atualmente, zagem dos alunos está a avaliação da escola, que abrange
abrange não apenas a aprendizagem dos alunos na sala o projeto pedagógico-curricular, a organização escolar,
de aula, mas também o sistema educacional e as escolas. os planos de ensino e o trabalho dos professores. O obje-
Na avaliação dos sistemas de ensino, embora sejam igual- tivo dessa avaliação é aferir a qualidade de ensino e da
mente aferidos os resultados obtidos pelos alunos (geral- aprendizagem dos alunos; para isso, busca-se perceber a
mente mediante testes padronizados), o objetivo é rea- relação entre a qualidade da oferta dos serviços de ensi-
lizar um diagnóstico mais amplo do sistema escolar em no e os resultados do rendimento escolar dos alunos.
âmbito nacional ou regional, a fim de reorientar a políti- Nesse sentido, a avaliação da escola precisa considerar
ca educacional, a gestão do sistema e das escolas e a os elementos determinantes da qualidade da oferta de
pesquisa. No Brasil, foram adotadas, desde o início dos serviços de ensino e do sucesso escolar dos alunos, tais
anos 90 do século passado, várias modalidades desse como: características dos alunos; rendimento escolar por
tipo de avaliação: o Sistema Nacional de Avaliação da classe; composição do corpo docente (tempo de traba-
Educação Básica (Saeb), o Exame Nacional do Ensino lho, idade, currículo profissional); condições de trabalho
Médio (Enem), o Exame Nacional de Cursos - Provão e motivação dos professores; recursos físicos e materiais;
(ENC). Alguns estados brasileiros também adotam materiais didáticos e informacionais. Tais dados já estão
modalidades de avaliação do sistema escolar. disponíveis na escola, é preciso organizá-los e analisá-
A avaliação do sistema escolar, por meio da avaliação los como prática de avaliação diagnóstica. Mas isso não é
externa e/ou interna das instituições, desdobra-se em suficiente. É preciso chegar até a sala de aula para obter

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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÃTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

conhecimentos mais precisos sobre os processos de en- pecíficos de avaliação, questionários, entrevistas e estu-
sino e aprendizagem, sobre as relações entre professores dos de caso.
e alunos, sobre a qualidade cognitiva das aprendizagens, A avaliação da aprendizagem escolar feita pelos pro-
sobre as práticas de avaliação. fessores constitui indicador efetivo do alcance dos obje-
Aspectos a ser avaliados no âmbito da organização tivos e das atividades estabelecidas no projeto pedagógi-
escolar: co-curricular e nos planos de ensino. Os critérios de
a) dados estatísticos sobre a população escolar, repro- relevância da avaliação dos alunos devem centrar-se,
vações, abandono da escola, situação socioeconômica portanto, em dimensões qualitativas e quantitativas, ou
dos pais, etc.; seja, melhor qualidade da aprendizagem para todos os
alunos, em condições iguais. Desse modo, a justa medi-
b) elaboração e desenvolvimento do projeto pedagógi- da da eficácia das escolas está no grau em que todos os
co-curricular; alunos incorporam capacidades e competências cogni-
c) aspectos da organização geral da escola, incluindo tivas, operativas, afetivas, morais, para sua inserção pro-
disponibilidade, organização, utilização dos recursos ma- dutiva, criativa e crítica na sociedade contemporânea.
teriais e didáticos, instalações e equipamentos, ativi- Compreendida nesses termos, a avaliação dos alunos
dades técnico-administrativas de apoio à sala de aula; pelos professores, em cada sala de aula, em hipótese algu-
d) clima organizacional da escola (estilo de direção, qua- ma pode ser substituída pela avaliação do sistema de ensi-
lidade das formas de organização, das relações humanas no. Ao contrário, esta é que deve buscar seus critérios de
e das práticas participativas, envolvimento da equipe relevância na avaliação feita pelos professores, ou seja,
pedagógica e dos professores com os objetivos e com as estar a serviço da melhoria da qualidade cognitiva da
ações da escola, ações de formação continuada de profes- aprendizagem.
sores, de funcionários e de pedagogos, reuniões e outros Em síntese, serão inúteis as práticas democráticas de
tipos de contatos entre professores); gestão, a descentralização, a avaliação institucional exter-
na, a participação dos pais, etc., se os alunos não apri-
e) acompanhamento do rendimento escolar dos alunos; morarem sua aprendizagem, se não aprenderem mais e
f) avaliação da execução do projeto pedagógico-curricular; melhor. Sem indicadores reais do rendimento escolar
g) avaliação de desempenho dos professores (qualidade dos alunos - isto é, se o aluno domina bem conceitos
das relações sociais e afetivas com os alunos, condições e habilidades, se demonstra competência na aplicação
profissionais atinentes ao conhecimento da disciplina e desses conceitos básicos, se desenvolveu habilidades de
dos métodos e procedimentos de ensino e de avaliação, pensamento - , pouco se saberá sobre as competências
gestão da classe em vários aspectos, como organização e profissionais dos professores. Não se trata, obviamente,
desenvolvimento das aulas, qualidade da comunicação de estabelecer diagnósticos meramente com base em re-
com os alunos); sultados de desempenho do aluno, mas de pesquisar
formas avaliatórias que contemplem conjuntamente as-
h) estratégias de relacionamento com os pais e com a co- pectos do processo e dos resultados.
munidade e as formas de comunicação e de atendimento. Admitindo que a justiça social, em termos de demo-
Entre os procedimentos desse tipo de avaliação, men- cratização do ensino, seja a qualidade cognitiva dos pro-
cionam-se reuniões pedagógicas mensais, encontros es- cessos de ensino e aprendizagem e de seus resultados, é
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ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROASSIONAIS PARA AS PRÃTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA

óbvio que as práticas de avaliação da aprendizagem pre- conhecer, também, que os professores necessariamente
cisam ser encaradas com maior seriedade. Para isso, é aprendem no contato com os alunos, e serão melhores
preciso que os educadores, além de considerarem a ava- professores quanto maior for a sua capacidade para rea-
liação importante meio de diagnóstico de seu trabalho, lizar essa aprendizagem (Canário, 1997, p. 12).
saibam mais sobre a elaboração de instrumentos mais
diretos de aferição da qualidade da oferta dos serviços de 2) Desenvolver capacidades e habilidades de liderança.
ensino, bem como da qualidade da aprendizagem do Liderança é a capacidade de influenciar, motivar, inte-
aluno que querem formar. grar e organizar pessoas e grupos, a fim de trabalharem
para a consecução de objetivos. Em uma gestão partici-
pativa, não basta haver na equipe certas pessoas que
2. Competências profissionais apenas administrem a realização das metas, dos obje-
do pessoal da escola tivos, os recursos e os meios já previstos. É preciso que
se consiga da equipe o compartilhamento de intenções,
1) Aprender a participar ativamente de um grupo de tra- de valores e de práticas, de modo que os interesses do
balho ou de discussão, a desenvolver competência intera- grupo sejam canalizados para esses objetivos e várias
tiva entre si e com os alunos. O trabalho em grupo envolve pessoas possam assumir a liderança e desenvolver essas
um conjunto de habilidades, entre as quais o bom rela- qualidades.
cionamento com os colegas, disposição para a colabora- Estudos desenvolvidos pelo psicólogo alemão Kurt
ção, saber expressar-se e argumentar com propriedade, Lewin sugerem a ocorrência de três estilos de liderança,
saber ouvir, compartilhar interesses e motivações. Uma que contribuem para compreender a dinâmica interna
das formas de trabalho em equipe recomendadas é a das instituições. Esses estilos são o autoritário, o
reflexão conjunta dos professores sobre as próprias democrático e o laisser-faire. No estilo autoritário, o
experiências profissionais, possibilitando apoio mútuo. dirigente decide, distribui tarefas, controla, sem partici- Expressão francesa que
Para isso, é preciso que estejam dispostos a comparti- pação da equipe na tomada de decisões. As relações significa "deixar fazer" e
lhar a própria experiência com os outros e ouvi-los sobre interpessoais são precárias, o envolvimento das pessoas que designa uma prática
de gestão de não-
suas experiências. é reduzido e o grau de satisfação com o trabalho é interferência no trabalho
A competência interativa diz respeito às formas de baixo. No democrático, as decisões são tomadas com a dos outros, ou seja, de
ausência total de
comunicar-se e à capacidade de relacionar-se com as participação das pessoas, discutindo-se os objetivos e as coordenação e de
pessoas. Segundo Rui Canário (1997), o professor é, em controle do trabalho e
ações propostas pelo dirigente. Há boa integração entre
primeiro lugar, uma pessoa, o que significa que sua das pessoas.
os membros e boas relações interpessoais. No laisserjaire,
atividade se define tanto por aquilo que ele sabe quan-
o papel do dirigente é quase ausente, com fraca definição
to por aquilo que ele é. Por isso, ganha importância a
de objetivos e pouco empenho na organização e na ges-
competência interativa, em que se destacam as habili-
tão das atividades. Por falta de coordenação, o grupo
dades de comunicação, de expressão e de escuta. Nas
pouco se envolve com o trabalho, e prevalece a tendência
palavras do autor:
à formação de subgrupos isolados entre si.
Ainda conforme essa teoria, uma atitude autoritária
reconhecer que a relação professor-aluno impregna a
totalidade da ação profissional do professor implica re- pode gerar comportamentos de hostilidade, expressa ora

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DESENVOLVENDO AÇÕES E COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS PARA AS PRÁTICAS DE GESTÃO PARTICIPATIVA
ÜRGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

em apatia, ora em agressividade ao dirigente; às vezes, a resistência à mudança de práticas que a pessoa acha que
apatia em presença do dirigente transforma-se, em sua estão dando certo, etc. Portanto, a introdução de inova-
ausência, em agressividade. A atitude democrática, ao con- ções precisa ser efetuada de modo planejado, cuidadoso,
trário, pode canalizar a agressividade para ações positivas, implicando ações e procedimentos muito concretos.
porque favorece a cooperação, a motivação e a autonomia. O modo de agir das pessoas está ligado a conceitos
A tendência atual é a de entender que as capacidades subjetivos, a valores, a opiniões, a convicções, a preferên-
de liderança podem ser desenvolvidas por todos os mem- cias e a interesses ancorados em uma prática de muitos
bros da equipe escolar, seja pelo conhecimento, seja pela anos, sendo, portanto, de difícil mudança. Por isso, é
prática. Uma liderança cooperativa envolve determina- necessário admitir que boa parte das inovações ou das
dos requisitos, como: capacidade de comunicação e de mudanças que o sistema ou a direção querem intro-
relacionamento com as pessoas; saber escutar; saber duzir na escola não reflete a idéia dos professores. Além
expor com clareza suas idéias; capacidade organizativa disso, muitas vezes os professores estão cobertos de
(saber definir um problema, propor soluções, atribuir razão em suas atitudes de resistência. Pode ocorrer, por
responsabilidades, coordenar o trabalho, acompanhar e exemplo, que achem a idéia boa, mas discordam do mo-
avaliar a execução); compreender as características so- mento ou do modo de decidir sobre ela, ou se lhe opõem
ciais, culturais e psicológicas do grupo. por acreditarem que ainda não existem as condições
No exercício da direção ou da coordenação, o líder necessárias para desenvolvê-la.
precisa saber articular responsabilidades individuais com Seja como for, o melhor meio de promover a gestão
a responsabilidade coletiva, como também lidar com con- participativa é instaurar a prática da participação em
flitos e diferenças, pois a busca de consenso implica o um clima de confiança, de transparência e de respeito às
debate e o enfrentamento de posições nem sempre ho- pessoas. Independentemente da importância de os mem-
mogêneas. Além disso, precisa ajudar as pessoas a sentir bros da equipe tomarem consciência da necessidade da
que aspectos importantes de seu ambiente de trabalho participação, é a prática que possibilita o alargamento
estão em suas mãos e que podem dar sua contribuição dessa consciência e o sentido da participação na cons-
para modificá-los. trução de uma nova cultura organizacional.
É necessário, para isso, que os dirigentes da escola
3) Compreender os processos envolvidos nas inovações
busquem apresentar com muita clareza o que esperam
organizativas, pedagógicas e curriculares. Pôr em prática
da inovação que querem introduzir, mediante formas
a gestão participativa implica ter consciência de que as
participativas de discussão e de tomadas de decisão. Ao
formas de organização mais comuns nas escolas são
mesmo tempo, devem considerar as inseguranças, as
centralizadoras, burocráticas e inibidoras da participação.
dificuldades, o medo de cometer erros com que as pes-
Por isso, é preciso mudar mentalidades, saber como in-
soas enfrentam a inovação, seja por causa da própria
troduzir inovações e como se instituem novas práticas.
visão que têm da inovação, seja por causa do uso que
A mudança de uma cultura organizacional instituí-
pode ser feito dela.
da ou de representações que as pessoas têm sobre o fun-
cionamento da escola é um processo complexo, no qual 4) Aprender a tomar decisões sobre problemas e dilemas
influem a história de vida, os modos de pensar e de da organização escolar, das formas de gestão, da sala de
agir já consolidados, as atitudes de acomodamento, a aula. Na prática, a gestão participativa é uma forma de
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integrar os membros da organização escolar nos proces- sala de aula são atividades que requerem capacidade e
sos e procedimentos de tomada de decisões a respeito habilidades de planejamento. O projeto pedagógico-cur-
de objetivos, de critérios de realização desses objetivos, ricular e os planos de ensino precisam apresentar com
de encaminhamento de solução para problemas. Tanto clareza as funções sociais e pedagógicas da escola, os obje-
a solução de problemas como as decisões requerem al- tivos, os meios e as atividades. Cabe aos professores de-
guns procedimentos, como o levantamento de dados e senvolver competência para realizar diagnósticos, definir
de informações sobre a situação analisada, a identificação problemas, formular objetivos, gerar soluções e estabe-
dos problemas e de suas possíveis causas, a busca de so- lecer atividades necessárias para alcançar os objetivos.
luções possíveis, a definição de atividades a ser postas em
7) Aprender métodos e procedimentos de pesquisa. A peda-
prática, a avaliação da eficácia das medidas tomadas.
gogia atual tem identificado a capacidade de pesquisar
Para boa parte das decisões a ser tomadas no cotidia-
como uma das características profissionais dos profes-
no da escola existem já normas, procedimentos e orien-
sores, pois a pesquisa é uma das formas mais eficazes de
tações aprovadas pelo grupo; trata-se simplesmente de
detectar e resolver problemas. O professor-pesquisador
assumi-las. Um diretor de escola não precisa convocar
é profissional que sabe formular questões relevantes sobre
uma reunião para saber dos professores o que fazer com
sua própria prática e tomar decisões que apresentem
uma funcionária que faltou três dias sem avisar, porque
soluções a essas questões; para isso, necessita dominar al-
essa ocorrência já está prevista nas normas. No entanto,
guns procedimentos básicos da pesquisa.
em muitos momentos do cotidiano da escola, ocorrem
A pesquisa constitui modalidade de trabalho que cola-
acontecimentos e situações imprevisíveis, havendo,
bora com a solução de problemas da escola e da sala de
então, a necessidade de discussões e de tomadas de de-
aula e tem como resultado a produção, por parte dos pro-
cisões coletivas.
fessores, de conhecimentos sobre seu trabalho. Articula
5) Conhecer, informar-se, dominar o conteúdo da discussão de maneira muito proveitosa a prática e a reflexão sobre
para ser um participante atuante e crítico. A participação a prática, ajudando o professor a incrementar sua com-
em um grupo e nas reuniões exige que os membros co- petência profissional, já que importa melhorar a quali-
nheçam o assunto e se familiarizem com a problemática dade das aulas para que a aprendizagem dos alunos seja
discutida. Há três campos de conhecimento sobre os mais efetiva.
quais os professores precisam estar muito bem infor- Os passos de uma prática de pesquisa assemelham-
mados: a legislação, os planos e as diretrizes oficiais; as se aos procedimentos mencionados para a formulação
normas e as rotinas organizacionais; as questões pedagó- de projeto ou para a solução de problemas:
gicas e curriculares. As escolas devem tornar disponí-
veis aos professores e ao pessoal técnico-administrativo • identificar um problema ou tema com base em dis-
os documentos básicos da legislação federal, estadual e cussões, observações ou em uma prática de ação-reflexão
municipal; entre eles, cópias da Lei de Diretrizes e Bases da -ação;
Educação Nacional, do Plano Nacional de Educação, dos
• definir meios e instrumentos de busca de informações
Parâmetros Curriculares Nacionais, do regimento escolar.
e de dados necessários, os quais podem ser a entrevista,
6) Saber elaborar planos e projetos de ação. Participar da os questionários ou uma pesquisa bibliográfica, a fim de
organização da escola e saber organizar seu trabalho na avaliar se as ações produziram os resultados esperados;
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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

·analisar os dados para identificar problemas, necessida- BARROSO, João (Org.). O estudo da escola. Porto: Porto
des, alimentando o processo ação-reflexão-novas ações; Editora, 1996.
• propor ações e intervenções. CANÁRIO, Rui. A escola: o lugar onde os professores
8) Familiarizar-se com modalidades e instrumentos de ava- aprendem. ln: CONGRESSO NACIONAL DE SUPER-
liação do sistema, da organização escolar e da aprendiza- VISÃO NA FORMAÇÃO, 1., 1997, Aveiro. Anais... Aveiro,
1997.
gem escolar. A avaliação caracteriza-se sempre por ser
uma visão retrospectiva do trabalho. É etapa necessária CHIAVENATO, Idalberto. Iniciação à organização e con-
de qualquer plano ou projeto, no âmbito da escola ou trole. São Paulo: McGraw-Hill, 1989.
da sala de aula. Todas as pessoas que trabalham na esco- CISESKI, Ângela A.; ROMÃO, José E. Conselhos de esco-
la e participam dos processos de gestão e de tomada de la: coletivos instituintes da escola cidadã. ln: GADOTTTI,
decisões precisam dominar conhecimentos, instrumen- Moacir; ROMÃO, José E. (Org.). Autonomia da escola:
tos e práticas de avaliação. As reuniões e os encontros princípios e proposições. São Paulo: Cortez, 1997.
específicos em que se realiza a avaliação da escola cons- ESCUDERO, Juan M.; GONZÁLEZ, María T. Profesores y
tituem espaços adequados para discutir se os objetivos escuela: hacia una reconversión de los centros y la fun-
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José Carlos Libâneo, doutor em Educação, é professor
da Universidade Católica de Goiás e pesquisador. Estu-
dioso das áreas de Teoria da Educação, Didática e Orga-
nização do Trabalho Escolar, publicou os livros Didática;
Adeus, professor, adeus, professora? e Pedagogia e pedagogos
para quê?, pela Editora Cortez, e Organização e gestão
da escola, pela Editora Alternativa.

João Ferreira de Oliveira, pedagogo, mestre em Educa-


ção Brasileira pela UFG e doutor em Educação pela USP,
é professor na Faculdade de Educação da UFG e no
Programa de Pós-Graduação em Educação dessa univer-
sidade. Atualmente, exerce ainda o cargo de diretor da
seção Goiás da Associação Nacional de Políticas e Admi-
nistração da Educação (Anpae).

Mirza Seabra Toschi, graduada em Ciências Sociais e


em Comunicação Social, mestre em Educação Brasileira
pela UFG e doutora em Educação pela Unimep, é profes-
sora da Faculdade de Educação da UFG nas áreas de
Estrutura e Funcionamento do Ensino e Organização do
Trabalho Escolar, bem como no Programa de Pós-Gradua-
ção em Educação da universidade. É ainda vice-presidente
da Anpae, região Centro-Oeste.

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