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Alfredo Bosi

Coleção Espírito Crítico


CÉU, INFERNO
Conselho editorial: Ensaios de crítica literária e ideológica
Alfredo Bosi
Antonio Candido
Augusto Massi
Davi Arrigucci J r.
Flora Süssekind
Gilda de Mello e Souza
Roberto Schwarz

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[I\] Duas Cidades
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Copyright © Duas Cidades/Editora 34, 2003


Céu, inferno © Alfredo Bosi, 1988,2003
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Apresentação . 13
Edição conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

L Énsaios brasileiros
Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica:
1. Céu, inferno . 19
Bracher & Malta Produção Gráfica
2. O Ateneu, opacidade e destruição . 51
Revisão:
3. Uma trilogia da libertação . 87
Cide Piquet, Alexandre Barbosa de Souza
4. ''A máquina do mundo" entre o símbolo
1" Edição - 1988 (Editora Ática, São Paulo), e a alegoria . 99
2 Edição - 2003, 3 Edição - 2010
a a 5. Em torno da poesia de Cecília Meireles . 123
6. O Auto do frade: as vozes e a geometria . 145
Catalogação na Fonte do Departamento Nacional do Livro
7. O livro do alquimista . 155
(Fundação Biblioteca Nacional, R], Brasil)
8. Roteiro do poeta Ferreira Gullar . 171
Bosi, Alfredo, 1936-
B217 c Céu, inferno: ensaios de crítica literária e
9. Situação de Macunaíma . 187
ideológica / Alfredo Bosi. - São Paulo: Duas Cidades; 10. Moderno e modernista na literatura brasileira .. 209
Ed. 34, 2003.
496 p. (Coleção Espíriro Crítico)
11. Mário de Andrade crítico do Modernismo . 227
ISBN 85-7326-264-8
12. Arguição a Paulo Emilio . 243
1. Literatura - História e crítica. 1. Título.
13. Homenagem a Sérgio Buarque de Holanda . 255
m. Série. 14. Aventuras e desventuras de uma ideologia . 267
CDD- 809 15. Carpeaux e a dignidade das Letras . 279
lI. Intermezzo italiano
16. Verga vivo, . 285
17. Uma cultura doente? . 293
18. o outro Pirandello . 303
19. Um conceito de humorismo . 311
20 . "AI'guem esta,.nn do" . 317
21. As razões de Moravia . 329
22. Quer pasticciaccio brutto . 337
23. A lição de Ungaretti . 343
24. Encontro com Ungaretti . 351
25. Travessia . 363
26. Paixão e ideologia . 371
27. Um "novissimo" lê Dante . 377
28. Eco: a estrutura e o nada . 383
29. A Estética de Benedetto Croce:
um pensamento de distinções e mediações .. 389
30. O trabalho dos intelectuais,
segundo Gramsci . 409
31. Gramsci na prática . 423
32. Cartas de Gramsci . 429

III. Exercícios de teoria


33. Acaso, necessidade . 449
34. A interpretação da obra literária . 461

~eferências bibliográficas . 481


1n dizce onornasttco
, . . 484
Sobre o autor . 490
Céu, inferno

*
Os óbices tapados pelo campeador no encalço da rês,
ou as lides do corpo feminino dobrado sobre o polvilho o Ateneu, opacidade
balizam os caminhos da necessidade. Tomados em si mes- e destruição*
mos, são acidentes estranhos à vontade do vaqueiro ou da
menina enjeitada. Significam a resistência que o mundo
impõe, de fora, ao sujeito. Chega-se a um ponto em que o
obstáculo se torna superior às forças do homem; então, até
o ar parece absurdo. No entanto, aquilo que em Gracilia-
no Ramos se firmava como um antagonismo pétreo entre
o sertão hostil e o sertanejo hostilizado, recebe das mãos de o Ateneu: não sei de outro romance em nossa língua
Guimarães Rosa um tratamento animista pelo qual a pró- em que se haja intuído com tanta agudeza e ressentido com
pria fisionomia da necessidade exterior (a travessia empa- tanta força o trauma da socialização que representa a en-
tosa, a árdua tarefa) vira meio de cumprir a necessidade trada de uma criança para o mundo fechado da escola.
interior, que é o desejo de felicidade. Entre o peso da ma- Nesse texto ábsolutamente singular pela sustentada
téria, natural ou social, e a graça da comunhão enfim al- coesão de tons (na expressão feliz do seu primeiro crítico,
cançada, não haveria, a bem dizer, um salto mágico, mas Araripe Jr.), as imagens alcançam mais de um estrato de sig-
um movimento que sai das entranhas da criatura queren- nificação, abrindo portas a uma leitura irisada, pedra de
çosa, padecente ou compadecida: Nhinhinha, Soroco, as toque da obra de arte.
duas loucas, a vaquinha pitanga, Maria Exita. O narrado r é o adulto que evoca, em ritmo de febre,
É também verdade que esse impulso para o Céu pode o primeiro momento da sua adolescência ("Eu tinha onze
frustrar-se, o que acontece, como pão cotidiano, na obra anos"), os seus tempos de internato. Raul Pompeia, in-
de Graciliano Ramos, que aprendeu da sua gente antes os ventor plástico, modelou as sequências da obra não como
desenganos certos da vida que as incertas esperanças na simples elos de uma cadeia temporal, mas como se cada
fortuna. episódio abrigasse em si um viveiro de figuras em plena
Perspectivas: Graciliano Ramos, do céu desejado para
o inferno real; Guimarães Rosa, o caminho inverso. Céu * As passagens de O Ateneu citadas neste ensaio, bem como os
inferno céu inferno céu inferno ... a cantiga de roda sabe o desenhos de autoria de Raul Pompeia (1863-1895), foram extraídos
que o povo sofre e o que o povo espera. da edição de 1905 (Rio de Janeiro, Francisco Alves), chamada" edi-
ção definitiva - conforme os originais e os desenhos deixados pelo
autor".

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arborescência. Daí vem uma saturação estilística, quase pal- e ao mesmo tempo vibrante até as fronteiras do delírio sela
pável, no esforço .de dar vida aos ambientes onde se mo- o estilo dessa contradição.
vem Sérgio, Aristarco, Ema, os meninos. Os nomes de ob- Como o regime do texto é o da evocação, cabe às ima-
jetos e de aspectos naturais, que se atulham em parágrafos gens traduzir o sentimento profundo de ~da ho~a. Só resta
densos, fazem mais do que transpor um cenário entre par- afinal o que tem significado para aquela biografia ideal que o
nasiano efin-de-siecle a decorar os espaços da trama; parti- narrado r vai produzindo como a sua verdade mais autêntica.
cipam dessa mesma trama, pois jorram da memória em mo- E o que escolhe a memória do adulto quando se põe
to perpétuo de Sérgio adulto tão arroubadamente quanto in- a contar o adeus à placenta familiar? Aparecem, em primei-
vadiram, um dia, a fantasia de Sérgio menino. O que foi ro lugar, os velhos soldadinhos de chumbo, expressão in-
imaginação, agora é lembrança que se retém, se compõe gênua da onipotência infantil que faz e desfaz a guerra e a
com outras e se julga com o travo acerbo da crítica, isto é, paz entre as nações, e tudo destrói num átimo, par~ em
da infelicidade: seguida tudo recriar com um simples gesto de mão. E um
reino de graça onde a fantasia brinca em liberdade. Não há
"- Vais encontrar o mundo -, disse-me meu
estorvos entre o desejo e o real que se chamam um ao ou-
pai, à porta do Ateneu."
tro em um diálogo amoroso de imediatez e transparência,
A este mundo, de que o colégio é imagem e semelhan- "uma facilidade de Providência Divina, intervindo sabia-
ça, opõe-se a casa materna, a estufa de carinho, de onde a mente, resolvendo as pendências pela concórdia promíscua
criança é arrancada pelas mãos do pai, a quem é dado cum- das caixas de pau".
prir o ingrato papel de induzir o segundo nascimento, a nova A palavra-chave está dita: transparência. Pois não é só
ruptura com o "conchego placentário". dos jogos da puerícia que Sérgio se despede; é também das
"Coragem para a luta", são as suas únicas palavras, exor- águas claras, do lago no jardim, em cuja "transparência ada-
tação breve e dura ao princípio da realidade. Contar a his- mantina" nadavam tantos peixinhos "rubros, dourados, ar-
tória dessa luta é o objeto principal do romance. E dizer que gentados, pensativos à sombra dos rinhorões" ...
ela é cruel, embora necessária, é a suma da sua mensagem Compare-se a limpidez diáfana desse tanque domés-
ideológica. Nesta, a rebeldia de um individualismo moder- tico habitado de formas gráceis e luminosas com a piscina
no (posto que ainda romântico) se enlaça e se imanta com do Ateneu onde adolescentes de várias idades nadavam pro-
ofatum pesado que a geração do escritor teve de carregar sob miscuamente. Através das águas do lago passava a luz, aque-
o nome de ciência determinista. A contradição, a que vol- le "ouro da manhã" que brilha na página de abertura como
tarei adiante, se instala no cerne do ponto de vista: o pres- a eterna metáfora da infância. Mas na piscina da escola o
tígio das leis férreas do darwinismo coabita com um anar- meio é opaco, de uma espessura pegajosa, "aquela água sa-
quismo sem peias, ressentido, incendiário. Algo de inapelável lobra da transpiração lavada das turmas precedentes".

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Em vez de peixinhos cor de prata, em vez da Nature-


za casta e recolhida entre verdes folhagens, o que Sérgio
recorda é o .

"turbulento debate de corpos nus, estreitamente cin-


gidos no calção de malha rajada a cores, enleando-se
os rapazes como lampreias, uns imergindo, reapare-
cendo outros, olhos injetados, cabelos a escorrer pela
cara, vergões na pele de involuntárias unhadas dos
companheiros. "

Nesse embate travado no fundo das águas, os instintos


recérn-ernersos de um longo período de latência combi-
nam-se com os jogos de força muscular e com a hierarquia
das idades. "Coragem para a luta!" - advertira-lhe o pai.
E os cardumes inocentes são mudados em lampreias,
símbolo móvel e agressivo que provoca medo nos meno-
res: gritos de susto, gritos de terror seguem-se aos primei-
ros e lúdicos gritos de alegria. O seguimento da narrativa porá a nu os perigos desse
No lago do 'jardim, puro espelho, líquido diamante, espaço de iniciação ao "mundo" . O menino vê-se, de repente,
tudo se podia contemplar serenamente. Mas na piscina suja arremessado ao meio da piscina, corre sério risco de afogar-
o chão de ladrilho era invisível. E, a qualquer momento, -se, mas será a tempo "salvo" por um colega mais velho, San-
sinais de um clima de ameaça: ches, que intentará com ele um processo de sedução, uma
descida pelo barro víscido de uma intimidade suspeita.
"[ ...] os menores, agrupados no raso, dando-se as mãos
No capítulo seguinte, aquela mesma água opaca se
em cacho, espavoridos, se algum mais forte chegava.
transformaria no lugar sangrento de um plano criminoso.
Dos maiores, alguns havia que faziam medo real-
Narra-se o episódio de Franco, o maldito do colégio, que,
mente [... ] pranchando sem ver a quem."
para vingar-se de afrontas recebidas, semeia de cacos de
O quadro ainda recebe uma última pincelada com a vidro o fundo do tanque. Agora, a massa turva da água,
sombra clandestina de Ângela, a criada canarina, que Sér- que já propiciara formas perversas de contato, oculta ins-
gio entrevê embaixo da moita, mandando beijos aos rapa- trumentos de morte. Cumpre-se o ciclo de violência que
zes do banho. é a vida adulta aos olhos do narrador-memorialista.

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. A calada cumplicidade de Sérgio, o remorso impotente guescimento sofre, no mesmo ato, o sujeito do aprendiza-
que o rói durante uma noite de febre, as preces veleitárias do ao qual se furta o direito de exercer a luta da inteligên-
na capela, tudo configura o seu itinerário por aquele cír- cia com as arestas do real. O que se lhe dá em troca da ver-
culo de angústia e transgressão a que o internato o lançara. dade nua é um mosaico de excitações visuais que cativa o
desejo do prazer imediato. A pletora de materiais seduz bem
depressa, mas, em igual ritmo, enfada e exige novos estí-
Educação como propaganda mulos. Deste ciclo vicioso vive a propaganda.
Sanches, o primeiro da classe, o vigilante premiado por
. A natação é apenas um dos tempos administrados pelo Aristarco, aplica, uma a uma, as receitas dessa pedagogia
diretor do Ateneu, o tempo do esporte saudável que a nova viscosa, tomando a imagem como isca, atraente em si e por
pedagogia, chamada então "intuitiva", se propunha ofere- si, e privando-a da intencionalidade que a remeteria aos
cer aos ricos estudantes do mais moderno estabelecimen- seres em carne e osso da Natureza e da História.
to secundário do Segundo Império. De novo, mas em esfera maior, a opacidade do ambiente
Depois da parte, o todo. Raul Pompeia desenha _ (ali, as águas turvas; aqui, a linguagem do método que tudo
com requintes de calígrafo e repelões de caricaturista _ empana) traz no fundo baço apelos à barbárie e à impostu-
cada traço e cada peça da maquinaria didática concebida ra, tanto mais difíceis de resistir quanto mais gozosos são os
pelo zelo de Aristarco. O discurso satírico do narrado r an- amavios com que se oferta ao aluno, consumidor inerme.
tecipa de quase um século a crítica dialética a toda a edu- Nenhuma das disciplinas do curso escapa ao processo
cação que se resume em "motivar" o aluno pelo aliciamento de falseamento que se abre, mal finda o episódio de Sér-
dos sentidos a ponto de embotar na sua alma o critério da gio retirado ín extremís da piscina salobra. Neste romance
v~rdade. O discernimento vai sendo amolentado pelas téc- pedagógico, ou de terror, cada momento narrado esconde
rucas prazerosas da propaganda e do marketíng. um risco iminente ou recorrente.
~o re:relar, pelo expressionismo do verbo ou do epíte- Começando pelo ensino da Geografia, Sanches faz os
to,. ~ Iden~Idade de um caráter e a natureza da estratégia, o continentes lixarem as saliências mais agudas; os rios per-
estilisra Vaipontuando as manhas todas de Sanches inventa- derem os meandros; as cordilheiras encurvarem ou supri-
das no seu plano de atrair a Sérgio indefeso; e, dizendo-as, mirem os picos. E as cidades vêem os seus números decres-
denu?cia o espírito dos métodos postos à prova no Ateneu. cer, até sumirem-se no chão "para que eu não tivesse de
A medida que se rebaixa o limiar de acesso ao conhe- decorar tanto nome". Os mapas, os dados de fato, irregu-
cimento, à medida que se poupa ao adolescente o uso da lares e múltiplos como os acidentes que representam, são
atenção, confeitando-lhe a pílula do saber, o objeto perde talhados e reduzidos ao gosto caprichoso da criança mima-
os seus contornos e se esvazia de substância. Desse enlan- da tal qual a forja a vontade arbitrária do adulto.

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Ao estilizar a tática de Sanches, o escritor sensualiza, cido, pois são cegos em relação a este, e auto-ostensivos em
em tom deescãrnio, as analogias entre o teor do ensino e face do sujeito.
os objetos de uma libido polimorfa sempre à cata de sen- Ora, a imagem corporal saturada de si própria, oferecida
sações voluptuosas. A fase oral é a mais contemplada: em regime de descarada exibição e, ao mesmo tempo, avessa
a partilhar da corrente viva da História e da subjetividade,
"A seu turno a gramática abria-se como um cofre
tem um triste nome: obscenidade. Obsceno: o que se colo-
de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. ca a si mesmo e se mostra à frente (ob) do espetáculo (scena).
Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas Do aliciamento à teatral idade, Sanches, ansioso de ga-
adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agra-
nhar o consentimento de Sérgio, volta-se para o aberto as-
dável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me
sédio aos conteúdos sexuais latentes n' Os lusíadas ("Guiou-
à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de
-me ao canto nono, como a uma rua suspeita") e... no dicio-
alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a
nário da língua portuguesa:
ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação.
Quando muito, as exceçõese os verbos irregulares des- "Penetrou comigo até os últimos albergues da
gostavam-me a princípio; como esses feios confeitos metrópole, até à cloaca máxima dos termos chulos.
crespos de chocolate: levados à boca, saborosíssimos." Descamou-me em caricatura de esqueleto a circuns-
pecção magistral do Léxicon, como poluíra a elevação
Para a História pátria vale igual propedêutica. Os des-
parnasiana do poema."
tinos contrastantes nivelam-se à luz de uma retórica falaz.
Os reis não mandam nem punem, os heróis não sofrem na Lembro, a propósito, um dado de contexto. Na edição
pele, aureolados já em vida pelos raios da fama. A Histó- escolar do poema camoniano feita por Abílio César Borges,
ria se organiza como tema e forma de uma epopeia infan- barão de Macahubas, e provável modelo de Pompeia na
to-juvenil, em que a tuba da glória dispensa os incômodos criação de Aristarco, foram expurgadas várias estâncias em
da ação. que o poeta canta a beleza física da mulher e o desejo que
Quanto às Escrituras, o mentor arruma de jeito os gran- ela acende. Ao transcrever o Canto IX, o editor Abílio sal-
des lances, do Gênesis aos mártires, como quem compõe tou a passagem inteira da Ilha dos Amores, que vai da oi-
uma ópera que, à força de ser extensa, semelha uma sono- tava 71 à 84.1
ra liturgia wagneriana: "E eu bebi a embriaguez musical dos
capítulos como o canto profundo das catedrais". 1 Ver Os lusíadas; poema épico de Luís de Camões. Edição pu-
Toda essa parafernália de truques elude a percepção blicada pelo dr. Abílio César Borges para uso das escolas brasile~ras;
justa dos significados e ilude o educando. Os meios, assim na qual se acham supressas todas as estâncias que não devem ser lidas
concertados, não clareiam os perfis do objeto a ser conhe- pelos meninos (Bruxelas, Guyot, 1879). Censura assumida.

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De qualquer modo, Sanches é apenas um monitor, perceber que os louros iriam cingir o monumento, mas nã.o
um aprendiz que aplica o método. Aristarco, o mestre por a sua própria testa, desespera-se contra o busto, aquele n-
excelência, reserva-se o direito exclusivo de conduzir os me- val de bronze imperecível, que o transcenderá. "Que vale
ninos à contemplação mais alta. Aristarco é o professor de a estátua se não somos nós?"
Astronomia do colégio. Nas suas aulas, porém, quer o céu O narrador sublinha: "O monumento prescinde do
esteja claro, quer se embrume, nada se vê. Ele aponta o herói, não o conhece, demite-o por substituição, sopeia-o,
Cruzeiro do Sul no hemisfério norte e, caindo em si do anu 1a-o."
engano, prefere não desdizer-se em público para não aba- Os objetos. que copiam os seres podem mentir à rela-
lar a própria autoridade. Quando a noite se cobre de né- ção que se deveria instaurar entre estes e os homens: eis o
voas, então fica mais fácil de ensinar aquela sua ciência de processo movido por Sérgio adulto contra a pedagogia do
mistifório: são cartões lustrados ou de vidro girados a ma- Ateneu.
nivela que substituem as esferas terrestre e celeste. E sobre Por outro lado, a efígie da vaidade aniquila a comu-
a mesa, "um atravancamento indescritível... de estrelas e ara- nhão do homem com o outro e consigo mesmo: para esse
mes torcidos, rodas dentadas de latão, lâmpadas frouxas de extremo tende a propaganda como auto-ostensão.
nafta parodiando o sol". A es~ola desvia o olhar que desejaria conhecer o mun-
As engenhocas didáticas contrafazem os astros e os do, talvez amá-lo. A criança, engodada, tudo recebe sem
eclipsam. defesa; o adulto, que lembra e conta, nada perdoará.
Os manejos de sedução não são apenas internos. Co-
mo empresa, o Ateneu precisa envolver a sociedade e, mais
precisamente, o mercado escolar constituído pelos futuros Uma fenomenologia do olhar
alunos. O trabalho de propaganda é intenso, e Sérgio o
acentua logo nas primeiras páginas com detalhes de cronis- Se o conhecimento dado é enganador, nem por isso a
ta. O Ateneu crescia a golpes de uma "nutrida reclame". escola deixa de ser o lugar onde se vive a aventura bem real
Toda uma psicologia do anúncio é desenvolvida pelo nar- da intersubjetividade. É desse ângulo que O Ateneu pode ser
rador em termos obsessivos. lido como um atento exercício de fenomenologia do olhar.
A projeção de Aristarco na estátua de si mesmo logra Olhar e ser olhado, percepções fundantes do sujeito,
um dos efeitos críticos mais felizes do romance: "O anúncio recebem no romance um tratamento incisivo e sutil.
confundia-se com ele, suprimia-o, e ele gozava como um O olhar encantado do menino pouco durou, só o tem-
cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser vermelho". po de maravilhar-se com uma fachada de luzes que, em uma
Da identificação do homem com a sua estátua é bem noite de espetáculo feérico, o internato ofereceu aos visitan-
curto o passo que leva ao fetiche; por isso, Aristarco, ao tes boquiabertos.

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Ao entrar para o ginásio, já como aluno, conta Sérgio: dor e, em geral, degradante, cujo modelo prestigioso foi,
"Eu via tudo curiosamente sem perder os olhares dos cole- para a nossa língua, a prosa de. Eça de Queirós. Mas par~r
gas desconhecidos, que me fitavam muito ancho na digni- r aí seria alcançar apenas mera verdade. Porque essascart-
po
caturas têm olhos; e e, o ncochete
. lh S'
dos seus o ares que ~r-
dade do uniforme em folhà' [grifos nossos].
O movimento psíquico de ver e ser visto, observar e gio teme, quando, chamado à frente pelo mestre, preCIsa
ser observado, dentro de uma relação de mútua curiosida- expor-se à vista de toda a classe:
de, trazia no bojo um pathos hostil que o primeiro encon- "De pé, vexadíssimo, senti brumar-se-rne a vista,
tro do novo aluno com os colegas de aula iria desvelar crua- numa fumaça de vertigem. Adivinhei sobre mim o
mente. É antológica a descrição dos tipos do Ateneu, que olhar visguento do Sanches, o olhar odioso e timorato
se lê no meio do segundo capítulo: "Os companheiros de do Cruz, os óculos azuis do Rabelo, o nariz do Nas-
classe eram cerca de vinte ... ". cimento, virando devagar como um leme; esperei a seta
A galeria, que o narrado r considera divertida, monta- do Carlos, o quinau do Maurílio, ameaçador, fazen-
-se pelo processo descarnante da redução metonímica. Ao do cócegas ao teto, com o dedo feroz; respirei no am-
leitor dão-se apenas traços, partes do corpo em lugar do ros- biente ad-versoda maldita hora, perfumado pela ema-
to, e quando este aparece no conjunto, a qualificação é to- nação acre das resinas do arvoredo próximo, uma cons-
mada ao bestiãrio.é piração contra mim da aula inteira, desd~ as bajulações
Sérgio via do Gualtério as costas arredondadas, os cabe- do N egrão até à maldade violenta do Alvares. Cam-
los revoltos, os gestos bruscos, mas a cara era de símio. Do baleei até à pedra. O professor interrogou-me; não sei
Nascimento via o narigão ou bicanca, que lhe valia o apeli- se respondi. Apossou-se-me do espírito um pavor es-
do e a semelhança com o pelicano. O olhar vai apontando tranho. Acovardou-me o terror supremo das exibições,
sem simpatia o cenho carregado do Álvares, o andar lânguido imaginando em roda a ironia má de todos aqueles ros-
e efeminado do Almeidinha, a pinta na testa do Maurílio, tos desconhecidos. Amparei-me à tábua negra, para
as ventas acesas e a "fisionomia agreste de cabra" do Negrão, não cair; fugia-me o solo aos pés, com a noção do mo-
a coceira do Batista, "raça de bugre", a orelha em pé do Cruz mento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergo-
e "a meiguice viscosa de crápula antigo" do Sanches. nha eterna! liquidando-se a última energia ... pela me-
O texto, visto apenas na superfície dos seus efeitos de lhor das maneiras piores de liquidar-se uma energia.
linguagem, parece uma variante do estilo "realista" tipifica- Do que se passou depois, não tenho ideia. A per-
turbação levou-me a consciência das cousas."
2 No estudo "Pompeia e a Natureza", Eugênio Gomes chamou
O sátiro, desarmado, recebe nos olhos as flechas todas
a atenção para as analogias zoomórficas d' O Ateneu (em Visões e revi-
sões, Rio de Janeiro, INL, 1958). que disparara contra o outro. Quem exerce as artes de vul-

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nerador se sabe vulnerável; e a consciência da reversibili- de aula, viperino, o olhar de Aristarco, que paira em toda
dade muda.o teor e o horizonte do realismo. parte, mesmo quando materialmente ausente, é mola de
O olhar que reifica também se atinge a si próprio, e um terror coletivo. As suas aparições eram súbitas, escan-
aqui o pensamento de Sartre conhece ilustração perfeita: carando portas que se acreditavam para sempre emper-
"Pelo olhar (do outro) eu me vi como que coagulado, no radas: "Assim é que um simples olhar do diretor imobili-
meio do mundo, como em perigo, como irrernediãvel't.f zava o colégio fulminantemente como se levasse no brilho
Ao invés de companheiros de classe, o que Sérgio des- ameaças de despotismo cruento". O próprio filho, que,
crevera eram recortes, objetos mutilados, visagens grotes- movido de paixão republicana, se recusara a beijar a mão
cas, aspectos de uma percepção ferina nos quais se proje- da princesa Isabel, é encarado silenciosamente por Aristar-
tava o seu modo de pôr-se em relação com o próximo. Ele co: tanto lhe bastou para sumir-se, "cremado ao fogo da-
mesmo o dirá: "todos aqueles rostos desconhecidos". quele olhar".
Sartre: "O olhar do outro é, antes de mais nada, um O olhar do pedagogo-mor, "a fúria tonante de júpiter-
mediador que me devolve a mim mesmo. É isto que signi- -diretor", vem multiplicado pelo dos bedéis de quem Sér-
fica, para o sujeito, ser visto".4 . '----'gioespia a espionagem solerte, a começar pelo Sanches,
Não está ao alcance do leitor identificar com certeza que, frustrado nos seus desígnios, o rondava "temperando
qual o motor primeiro desse processo existencial cujas ma- o olhar com um brilho de facadas".
nifestações se dão em cadeia circular. A pergunta se perde A certa altura, o narrado r inventa uma metáfora po-
na especulação: sujeito ou sociedade? O narrado r nos dá derosa que exprime, em síntese, o sentimento do mundo
episódios, eventos que a memória escolheu para guardar, do menino posto em situação adversa: "O meio, filosofemos,
e que a sua palavra estiliza com singular intensidade. O que é um ouriço invertido".
se colhe semelha a errância de um instinto de morte pelo A vertigem que se segue à "ex-posição" de Sérgio, ro-
qual o eu e o outro se agridem alternada e mutuamente. A deado de fantasmas que o espreitam, rebate em outros pas-
questão das origens sem dúvida fascina, mas não acha no sos, o que dá a medida da sua importância na economia
texto uma resposta única. Na hora da interpretação recla- interna da obra. A sensação de "nudez à nuca" foi a primeira
mam seus direitos a leitura intimista e a social. Resta-nos, que o aluno experimentou, embora os colegas divisados
ao menos, continuar atentos aos fenômenos. brincassem à distância. Antes mesmo da entrada oficial no
Se o olhar de Sérgio se mostra, desde o primeiro dia Ateneu, no dia do grande show, o seu entusiasmo gelava
quando se percebia fixado: "gritos escapavam-me, de que
me arrependia quando alguém olhava". Mas, depois do ve-
3 Em L 'être et le néant, Paris, Gallimard, 1943, p. 327. xame, o temor de desmaiar em público assombra-lhe a alma
4 Ibidem, p. 316. e o habita em pleno sonho. E de novo, no coração da an-

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

gústia, a figura do ouriço, agora em dimensões maiores, que "A aparição do outro no mundo corresponde a um
abarcam, além da classe, o colégio inteiro, mil colégios ... deslizamento condensado [glissementfigé] de todo o
universo, a uma descentração do mundo que mina por
"Pela noite adentro, comparsas de pesadelo, per- baixo a centralização que eu opero no mesmo tempo.P
seguiam-me as imagens várias do atribulado dia; a pe-
gajosa ternura do Sanches, a cara amarela do Barbalho, Voltando à narração da vertigem: o que ressalta, em
a expressão de tortura do Franco, os frades descom- termos de sintaxe, é precisamente a mudança de centro. O
postos do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era sujeito se encolhe e se apassiva, torna-se objeto de uma cons-
o Franco. A minha aula, o colégio inteiro, mil colé- trução em que o agente não é mais a sua pessoa, mas o olhar
gios, arrebatados, num pé de vento, voavam léguas do outro, causa de uma ação interna que tudo avassala:
afora por uma planície sem termo. Gritavam todos,
"senti brumar-se-rne a vista";
urravam a sabatina de tabuadas com um entusiasmo
"apossou-se-me do espírito um pavor estranho";
de turbilhão. O pó crescia em nuvens do solo; a mas-
"acovardou-me o terror";
sa confusa ouriçava-se de gestos, gestos de galho sem
"fugia-me o solo aos pés";
folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a flo-
"envolveu-me a escuridão".
resta dos braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão
magra do Maurílio, crescida, enorme, preta, torcen- Em Aristarco, o terrorismo calculado do olhar serve
do, destorcendo os dedos sôfregos, convulsionados da de arma pronta ao disparo. Do outro lado, a submissão
histeria do quinau ... E eu caía, único vencido! E o tro- obrigada, a necessária passividade dos meninos:
pel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! so- "Vejam esta cara", dizia o diretor aos alunos reuni-
peavam-me, calcavam-me, pesados, carregando prê- dos para ouvir o boletim; e a criança, alanceada pelo olhar
mios, prêmios aos cestos!" de todos, "lívida, fechava os olhos". É o primeiro passo do
esvaecimento.
A análise sartriana detém-se no esvaziamento que o su-
Quando chega a vez de Sérgio receber a sua punição
jeito prova quando acossado pelo olhar coisificante do ou-
moral por causa de uma nota má (as penas corporais esta-
tro. A solidificação de mim pelo outro - tal como a faz a
vam proibidas pelo diretor como indignas das luzes do sé-
mente rotuladora e tipológica - supõe a coagulação do meu
culo), a descrição interpessoal ganha em profundidade:
existir sob as minhas formas aparentes. A outra face da moe-
da é "a alienação das minhas próprias possibilidades". "O diretor olhou-me sombrio.
Junto com esta sangria ontológica vem a sensação de
perda de um centro vivo a partir do qual a consciência possa
unificar a percepção do seu mundo: 5 Ibidem, p. 313.

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

No fundo do silêncio comum do refeitório, ca- Ao contrário de Aluísio Azevedo que, n' O cortiço, trata
vou-se um silêncio mais fundo, como um poço depois como fisiológicos lances da acumulação capitalista, Raul
de um abismo. Senti-me devorado por estesilênciohian- Pompeia apreende o momento em que as paixões se socia-
te. A congregação justiceira dos colegas voltou-se para lizam. Atando o sonho noturno à consciência diurna, o narra-
mim, contra mim. Os vizinhos de lugar à mesa afasta- dor permeia de historicidade os afetos do seu protagonista.
ram-se dos dois lados para que eu melhor fosse visto." Franco é execrado no dia a dia do internato e descrito
com minúcias de um realismo que se pretende "objetivo";
E nesse pesadelo de olhos abertos o ruído inocente das
no entanto, é com ele, e só com ele, que Sérgio se identifi-
colheres, som argentino que chegava da copa, aparece como
ca ao contar o sonho durante o qual a turba se ouriça con-
"horrível". Em um sonho negro, disse Moravia, até as flo-
tra a sua vítima em gestos de punição: "Eu era o Franco".
res oprImem.
O foco da escrita conhece, a fundo e por dentro, o
A experiência-limite do olhar que ao mesmo tempo
caráter mutante e intercambiável da relação entre sujeito e
reifica e anula, é o próprio Sérgio quem a faz quando cum-
objeto; o nexo assume, no discurso evocativo, a forma ori-
pre o seu desejo de ver um cadáver de perto. A narração é
ginária de eu-oufTo. Não há pretensão de naturalismo im-
a de um voyeur cruíssimo e não por acaso segue-se ao elen-
pessoal que resista a esse tratamento de choque.
co dos materiais que enchiam o laboratório do Ateneu para
~ A dialetização do ponto de vista éo movimento inter-
o ensino visual de anatomia. O que faziam as técnicas de
no à narrativa que permite ao leitor ver o olhar cruel ser
vivissecção, introduzidas nas escolas médicas àquela altu-
olhado cruelmente, duplicando-se, na mimese do espelho
ra, senão operar com o vivo como se fosse morto? E o que
social, a potência da reificação.
deseja o menino senão, confessadamente, ver "a morte ao
O núcleo dos juízos de valor (a consciência acusadora
vivo"? O homem tornado absolutamente coisa, eis o obje-
de Sérgio) se vê transmutado no outro, alvo do desprezo
to da curiosidade do experimentado r e do aluno perverso.
universal, a personagem Franco. O paradoxo está apenas na
Mas, como as caricaturas dos colegas, também o morto é
superfície; no fundo, trabalha a percepção da reversibilida-
capaz de olhar: "Os olhos estavam-lhe inteiramente aber-
de: eu posso ser você; você pode ser eu. Quem fere é feri-
tos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer".
do, quem espia é espiado, o sujeito de agora torna-se obje-
to no momento seguinte.
o impasse e o fogo A crise do modelo naturalista não ocorre, nesta obra
surpreendente, apenas do lado do olho introspectivo. O
O que se admira n'OAteneu, escrito em 1888, é a su- romance é também um exercício de interpretação históri-
peração precoce do naturalismo que nele se opera enquanto ca, na medida em que mostra como a violência compacta
narrativa, estilo e ideologia. da escola é tecida com os mesmos fios que sustêm a trama

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

social do Segundo Império. A opressão que vige dentro Se apenas os mais fortes e os mais aptos devem cingir-
"vem de fora", a vida nacional a penetra e a enforma. -se com os louros da vitória, o que autoriza, "cientificamen-
As conferências do Dr. Cláudio sobre grandes temas te", a contestar o seu poder? O impulso anárquico parece,
são excursos ideológicos nos quais o jovem Raul Pompeia portanto, o contrário das leis darwinianas; na verdade, é o
buscava articular a sua visão de mundo. Não me parecem seu outro simétrico e indefectível. Se a lógica do sistema é
exteriores à matéria narrada. Ao contrário, rimam com epi- inapelável, a reação da consciência insubmissa deverá pra-
sódios que dizem, em registro diverso, as mesmas intuições ticar as táticas de uma guerrilha que começa na mente. Foi
da existência e da sociedade.
Na fala inaugural, "o orador representava a nação co-
mo um charco de vinte províncias estagnadas na modorra lismo. A começar pela sua militância nos tempos de acadêmico em São
Paulo, ao lado de Luís Gama, Antônio Bento e os seus "caifazes", que
paludosa da mais desgraçada indiferença", No discurso, o
aceitavam como justo o assassínio dos senhores pelos escravos (no jor-
caso do Brasil monárquico figura-se pela matriz imagística nal Ça Ira, de agosto de 1882), até os últimos anos, de exaltado jacobi-
da água parada e suja, contida em expressões como "char- nismo. Os fatos estão documentados em A vida inquieta de Raul Pom-
co", "estagnadà', "paludosa", "vasa profunda", "coágulos de peia, de Eloy Rontes (Rio de Janeiro, José Olympio, 1935), que con-
.... ""1 ama,"" on da grossa," "pantano
putreraçao,
L 1\ das al mas " ... servou durante anos o arquivo do escritor. Recentemente, publicaram-
Sobre a massa limosa, que lembra a piscina enturvada, rei- -se as Crônicas e os Escritos políticos de Pompeia, organizados por Afrâ-
nio Coutinho (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982), que teste-
na "um tirano de sebo". Pedro II está para a nação como
munham a sua fogosa participação na imprensa abolicionista, repu-
Aristarco para o colégio. Não entro aqui na questão de sa- blicana e florianista. Para uma interpretação do contexto jacobino, é
ber se Aristarco foi inspirado na pessoa de Pedro II ou do útil ler Os radicais da República, de Suely Robles Reis de Queiroz (São
barão de Macahubas, ou se é um composto livre de ambos, Paulo, Brasiliense, 1986).
ou ainda se é arquétipo da autoridade repelida. O que im- O republicanismo de Pompeia tem razões que o opõem ao da
oligarquia cafeeira, cujos interesses escravistas ele denunciou no come-
porta é descobrir na metaforização do poder uma crítica ra-
ço da década de 1880, e cujas tendências pró-imperialistas combateu
dical e uma pulsão de revolta que tem ganas de incendiar, desde o advento do novo regime. A luta acabou empurrando-o para a
pela virulência da palavra, a pólis insofrível. apologia do nacionalismo sob um Executivo forte, encarnado no ma-
A semântica do terror, que a biografia política de Raul rechal Floriano Peixoto. Foram oscilantes e sofridas as suas aprecia-
Pompeia confirma por inteiro, casa-se, paradoxalmente, ções do militarismo, que aparecia então como o fiel da República.
com o reconhecimento do [atum a que tendem as razões Valeria a pena examinar esse convívio dilacerante de anarquis-
mo e crença em uma ditadura de salvação nacional que marcou a sua
naturalistas.6
trajetória de homem público. A figura da Autoridade exerce, n' O Ate-
neu, uma função de locus central e irradiado r que, me parece, não deve
ser alheia à dinâmica existencial de Raul Pompeia militante. É um
6 O roteiro ideológico de Raul Pompeia foi marcado pelo radica- trabalho que foge aos limites deste ensaio, mas não ao seu horizonte.

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

nesse espírito que o memorialista Sérgio escreveu a histó- safando sobre o struggle for lifl, o mestre usa, no mesmo
ria crítica da-sua meninice no internato. discurso, termos deterministas, pelos quais a força aparece
Na última palestra, o assunto é nada menos que a evo- como necessária, e expressões de julgamento ético, pelas
. lução do cosmos. A visada é épica. Começa pelos conflitos quais é tida por má. Necessária e má. A junção dos pre-
geológicos onde sintomaticamente as origens de fogo e pe- dicados resulta brutal, antidialética, sem saída. As leis da
dra se traduzem mediante signos do inferno: Vida e da História seriam então perversas? O Ser, que a
metafísica dos gregos e a teologia cristã identificaram com
"As festas plutonianas do movimento, da ignição;
o próprio Bem, é agora trocado por um impulso cego, in-
a gênese das rochas, fecundidade infernal do incêndio
diferente ao homem, que à ciência positiva cabe apenas re-
primitivo, do granito, do pórfiro, primogênitos do
conhecer e acatar? A inteligência da geração de Pompeia e
fogo; o grande sono milenário dos sedimentos, per-
da que imediatamente a seguiu precisou viver esse impas-
turbado de convulsões titânicas."
se, que se entremostra no subsolo da prosa agônica de Eu-
Em uma das Canções sem metro, Raul Pompeia já fa- clides e na poesia trágica de Augusto dos Anjos.
lara em "cruenta gênese da aurora" ("Veritas"). Quanto à. teoria da educação, se coerente com aque-
A sina da violência, que só atua e constrói à força de las leis universais, deveria secundar os fortes e considerar
atritos e explosões, preside às etapas sucessivas. Até mesmo .corno natural o esmagamento dos fracos e dos inaptos.
a criação do ser vivo cumpre-se em meio a "dramas do egoís- Aquém e além dos muros da escola, "os deserdados abatem-
mo na selva, do egoísmo rude da força que pode, cego, -se". E pouco adiante: "Os débeis sacrificam-se; não pre-
formidável, sagrado como a fatalidade". valecem". Até aqui, puro Darwin. É o princípio da seleção
É bivalente a sentença que define a mônada, a unida- natural proposto na Origem das espécies havia trinta anos.
de microbiana: "solidária para a morte e para as constru- Mas, "durante a conferência pensei no Franco".
ções imperecíveis da Terra". Trava-se, por obra dessa con- Assim, abrupto, sem rodeios, levanta o narrado r a pon-
cordia discors, analogia da mônada com o indivíduo, tam- te entre uma leitura cerrada do universo (sua ideologia ex-
bém nascido para morrer, anel perecível, cujo sentido se plícita) e a matéria vertente, o fluxo das ações e reações que
encontra e se esgota em prender-se à cadeia da espécie, que envolvem Sérgio e os meninos do Ateneu.
lhe sobrevive. A ciência, musa do novo século, canta im- Sim, Franco era o exemplo cabal das doutrinas prega-
passível a marcha da Humanidade às expensas de cada via- das pelo mestre: "Cada uma das opiniões do professor, eu
jor solitário. aplicava onerosamente ao pobre eleito da desdita".
Um ar abafado pesa sobre as palavras que o Dr. Cláu- No entanto, e essa não é das menores riquezas do livro,
dio profere sobre o sistema da educação. O internato é o o sentido das personagens se produz no circuito da inter-
espelho da luta social e a sua melhor iniciação. Mas, filo- subjetividade. Pensei no Franco/Eu era o Franco. Como Sér-

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

gio, O menino se sabe o "outro" da barbárie que ameaça o Mas a apoteose do Ateneu ainda não é o desfecho de
cotidiano da instituição. Sobre ele se ceva o desejo univer- tudo. Na gangorra do destino fora já contemplado o mo-
sal de um bode expiatório .. Nem sequer lhe é concedido mento positivo, "tético", da força irresistível. A destruição
sublimar em ironias e racionalizações o seu não à hostili- de Franco ("morte aos fracos!") faz um só corpo com a gló-
dade do meio. É o oprimido em estado puro. Perante a ria dos primeiros da classe coroada pela estátua de Aristarco.
verdade geral que Franco ilustra ("morte aos fracos!"), o Aristós, o melhor no poder, o poder do melhor, o que traz
narrado r ergue a sua verdade singular e viva: "Eu era o Fran- no seu nome o caris ma do hierarca, a legitimação das dou-
co". Verdade do eu contra a verdade anônima do sistema. trinas do tempo.
Primeiro, a regra geral. Franco malograra ao querer A irrupção do outro momento, antitético, o narrado r
vingar-se dos seus algozes que, naquela manhã, não se ba- guardou-a para a sequência final em que se amarram, inse-
nharam no tanque onde espalhara cacos de vidro. O seu des- paráveis, dois episódios: primeiro, a convalescença de Sérgio
tino era sucumbir escorraçado: a agonia do menino, na cafua sob as carícias de Ema, a esposa do diretor; e logo depois,
habitada de ratos e animaizinhos lôbregos, deu uma pági- o incêndio do Ateneu sob o olhar vencido de Aristarco.
na pré-expressionista. Era preciso pintar o avesso da fachada O primeiro episódio é musical, difusamente musical
de luzes e fogos de bengala que abre o romance. O efeito no tom e na medida suave até à morbidez dos períodos bem
de contraste é essencial para marcar o jogo de extremos do cadenciados. Um estado febril aquece o menino, nada mais
enredo. A doença de Franco, exposta com detalhes nausean- que uma tepidez latejante que o conduz à lassidão pela "sen-
tes, a sua morte solitária em um domingo alegre, o seu en- sualidade dissolvente dos sons". O encontro com Ema é um
terro quase às ocultas, tudo concorre para validar a filoso- acorde perfeito harmonizando os ardores da puberdade com
fia de sombras do Dr. Cláudio: "os deserdados abatem-se". a volta simbólica ao conchego placentário de que fora ex-
Depois, a fala do sujeito, indomada. Não só "eu era o pulso no início de suas memórias. A ambivalência vinca
Franco", também "o Franco era eu", pois, desmanchando- toda a passagem: nem criança nem adulto, Sérgio tampou-
-se o seu leito de morte, "caiu dos lençóis um cartão: uma co é definido como filho ou enamorado. Já não doente,
gravura, Santa Rosália! a minha padroeira desaparecida. ainda não de todo são, ele convalesce. Nesse meio fluido
Morrera talvez beijando-a, o párià'. em que vale mais um ressôo que a nota nítida, as lembran-
A devoção de Franco agonizante fora a mesma dos ar- ças são confusas, as nuvens mutáveis, as frases fugidias. A
roubos místicos de Sérgio. No sonho de Sérgio, Franco. No ordem quase mecânica do Ateneu cede à indeterminação
delírio de Franco, Sérgio. de um convívio misterioso com o feminino, que o internato
Morto Franco, o colégio entra de novo em regime de afastava ou poluía.
festa. São prêmios, são louros, é a visita da Princesa Regente, O horizonte diáfano e azul (a transparência, enfim)
são os bustos pleonásticos erigidos em honra de Aristarco. clareia os sonhos acordados do menino. A água do mar é

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cor de esmeralda, e vítrea a sua espessura. As nuvens cinti- Tudo O que se emboscara, tudo o que impedira a passa-
lam, "floresta colossal de prata". No coradouro, entre peças gem livre da luz, tudo o que fora signo de dominação ou
de roupa irisadas de sabão, as camisas brancas, luminosas, impostura, será carbonizado pelo incêndio final, chuva de
e as saias rodadas bailando. Pela janela entravam "parcelas raios que caem sobre a cabeça de um J úpiter outrora to-
ínfimas de vida pulverizadas". E a música, sempre a músi- nante, agora reduzido a "um deus caipora, triste, sobre o
ca, "forma sem matéria, turba de espíritos aéreos". Scho- desastre universal de sua obra".
penhauer é invocado nesse momento, e com quanta razão! Haverá requintes de vingança e sadismo (tese cara a
Nesse estado de graça os afetos mais puros vêm à tona, Mário de Andrade) na cena derradeira. Aristarco é ferido
e tudo o que é frágil e indefeso (a criança doente, a mulher na sua honra conjugal, pois foge-lhe a mulher, Ema, con-
em cujos olhos luzia um brilho de pranto) tem seu lugar solo de Sérgio no penúltimo instante. O Ateneu, seu or-
como as imagens em um devaneio. Suspendem-se, em bre- gulho maior, alui em ruínas; e cada um dos objetos daquela
ve parênteses, as leis cruas da ciência, aval dos poderosos. pedagogia tentadora e mendaz é calcinado sem perdão. O
Pela primeira vez a expansão livre da subjetividade se faz que enganou ao aluno desarmado não pode sobreviver. É
possível sem que se estenda uma larga cruz punidora sobre a vez do terror jacobino contra qualquer resíduo de auto-
o desenho da cabra montesa (o quadro rejeitado de Sérgio, ridade. É a hora em que até os signos (ou principalmente
sua única obra), ou sem que a amizade terna sofra a injú- os signos) devem sofrer combustão:
ria de acusações infamantes.
"Lá estava; em roda amontoavam-se figuras tor-
O olhar caricioso de Ema é o primeiro que não fere,
radas de geometria, aparelhos de cosmografia partidos,
antes cura, e ensina a arte até então impensável de ser feliz.
enormes cartas murais em tiras, queimadas e enxova-
"Eu me sentia pequeno deliciosamente naquele círculo de
conchego como em um ninho." lhadas, vísceras dispersas das lições de anatomia, gra-
vuras quebradas da história santa em quadros, cro-
A Natureza resgata as suas cores e formas, "como cou-
nologias da história pátria, ilustrações zoológicas, pre-
sas sonhadas em afastamento infinito, através de um teci-
ceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos per-
do vibrante de luz e ouro". Em vez de teorias de chumbo,
impressões, paisagens, poêmes en prose ... didos, esferas terrestres contundidas, esferas celestes
rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos
Mas o gozo da felicidade, que traz o adolescente de vol-
negros da vida, da história, da crença tradicional, da
ta ao regaço materno, exige a destruição daquele outro
vegetação de outro tempo, lascas de continentes calci-
mundo, feito para a criança tornar-se adulto. Daí ter o úl-
nados, planetas exorbitados de uma astronomia mor-
timo ato fogos de catástrofe. O Ateneu arderá em chamas.
ta, sóis de ouro destronados e incinerados ..."
Com volúpias de artista o narrado r seguirá o trabalho pa-
ciente das labaredas até a hora final das cinzas.

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

Subverte-se o sentido das teses fatalistas que só garan- A poética de Raul Pompeia é um dos muitos exemplos
tem o triunfo aos que já venceram na competição entre os dessa passagem que envolveu toda a arte ocidental no últi-
fortes. Aqui, ao contrário, é o desejo do inerme que arma mo quartel dos Oitocentos. Do Naturalismo ao Impres-
e comanda o lance decisivo, produz a imagem-fecho e guar- sionismo. Sempre a conversão do Naturalismo, segundo a
da para si a palavra do julgamento. fórmula incisiva que Otro Maria Carpeaux cunhou para
qualificar a viragem do romance em Dostoiévski e em Tols-
rói, e a metamorfose do drama em Strindberg e em IbsenJ
A arte de Pompeia A expressão colhe alguns signos de mudança, no espírito e
e a "conversão do Naturalismo" na forma, que se observam na literatura europeia e, em
parte, na brasileira de entresséculos.
o Dr. Cláudio reservara uma das suas conferências A "conversão", termo que implica dialetizar um estilo
para explicar o significado da arte. de pensar e dizer já esgotado, aparece hoje como emblema
No colégio, as formas eram manipuladas tão somente de modernidade. Mas como definir "modernidade", ago-
para a feitura de obras servis. Tudo para a maior glória da ra que já passou a ciranda dos ismos de vanguarda que, des-
instituição. Fogos de artifício e bandas tonitruantes nas ho- de o prindpio do século XX, vêm reclamando para si o
ras de propaganda: retórica batida na discurseira encomiás- privilégio de monopolizar o novo?
tica; gesso, bronze e mármore nos monumentos a Aristarco. A compreensão de um fenômeno de tão largo espec-
O raciocínio do expositor busca o polo oposto. Apro- tro não deveria fixar-se em datas nem rnedusar-se no culto
funda ao máximo o dissídio entre a criação imaginária e a de precursores, cujo mérito maior seria o de se constituírem
rotina da máquina social, alargando a brecha que as pon- em brasões de honra dos que alegam descender da sua estir-
tas de lança do Romantismo tinham começado a abrir. Ao pe. A modernidade estética é um longo processo que repon-
longo do século XIX a contradição entre a Lei (sustentada ta e assume traços nítidos sempre que a imaginação se pene-
pelo prestígio da ciência) e o Desejo vai conhecendo expres- tra de consciência crítica. Quando fantasia e inteligência te-
sões cada vez mais veementes. Descobre-se, afinal, que o in- cem uma linguagem nova, a força que esta irradia não vem
consciente, lugar das paixões, se rege por movimentos pró- do seu efeito de autoespelhamento (como supõe a esco-
prios que perpassam as imagens do sonho e se traduzem nas lástica do formalismo), mas da conquista de um grau mais
mil e uma figuras da arte. Este será o grande passo dado por alto e mais complexo de intuição-expressão. Constroem-se
Nietzsche e por Freud, para só lembrar os cimos. Mas en-
tre o biologismo redutor e a flexível sondagem da psique e
dos seus símbolos, quantas idas e vindas, quantas alianças 7 Em História da literatura ocidental, Rio de Janeiro, O Cruzei-
e negaças! ro, 1963, vol. 5, p. 2.447.

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então arranjos simbólicos ousados; metáforas que ilumi- contínua; assume fisionomias peculiares segundo os valo-
nam, sob estranhas luzes, a Natureza e os objetos suposta- res e os desvalores inerentes a cada processo social e a cada
mente conhecidos; e imagens que revelam o eu a si mesmo tradição cultural: lugares e tempos onde se produz, tantas
e, num relâmpago, abrem-lhe a visão do próprio destino. vezes agonisticamente, a personalidade do escritor.
, O poeta desce "au fond de l'Inconnu pour trouver du Raul Pompeia, prosador de formação predominante-
nouveau", como promete Baudelaire no último verso de "Le mente francesa, traz no seu repertório propostas de escrita
Voyage". O conhecimento mais profundo dos seres e a sua bastante matizadas.f Ao lado de ideais polêmicos de "rea-
leitura mais ardida fogem à órbita dos códigos convencio- lismo" (Flaubert, Goncourt, Zola), ouve-se, nos seus es-
nais, fazendo surtir por dentro, e não por veleidade ou pro- critos, o convite franco à imaginação (Hugo, Baudelaire,
grama, um quantum de originalidade. Verlaine) e ao culto da "forma pura" (Gautier, Banville, Le-
A essa corrente de transformação do gosto, que flui conte de l'Isle).
subterrânea sob diversos estilos de época, vincula-se a cren- Entre a última oratória romântico-libertária e o este-
ça, arraigada a partir do Romantismo, nos poderes criado- ticismo parnasiano e simbolista, quantas diferenças de tom
res do sujeito que a rotina burguesa contraditoriamente cala e de ênfase! No entanto, é fácil discernir a demanda, co-
e suscita. mum a todos, d'e uma escrita ao mesmo tempo vigorosa e
Uma tarefa instigadora desafia a história literária: re- refinada, ardente e contida, sensível às correspondências
pensar os mais belos tentos da linguagem poética e narra- mais sutis entre a figura e a sensação, os ritmos e as marés
tiva desde o começo do século XIX (Leopardi, Hoelderlin, do sentimento.
Poe ... ) sem prender-se a esquemas notoriamente sumários Trata-se de uma interiorização do trabalho da escrita,
de escolas e manifestos. A vertente maior, a libertação das que vai substituir de modo tateante, experimental, mas in-
peias retóricas do Antigo Regime, transbordou das margens tenso, as certezas das poéticas neoclássicas ainda escolar-
stricto sensu românticas e veio penetrando a consciência dos mente vivas durante o século XIX.
artistas da palavra que têm explorado o descompasso en-
tre a sua própria vida imaginária e o cotidiano adverso. No
impasse e na angústia a prática inventiva refluiu para o li- 8 Em um ensaio brilhante, LeyIa Perrone-Moisés aprofunda o
vre exercício da fantasia, sem por isso frear o andamento veio da presença francesa na elaboração do romance. Ao aproximar
Pompeia e Ducasse (caso em que não houve influência direta), a auto-
do espírito crítico, selo da modernidade e imperativo éti-
ra levanta sagazmente a hipótese de se terem dado afinidades existen-
co desde as lutas da Ilustração. ciais e literárias pelas quais tanto O Ateneu como os Chants de Maldo-
Está claro que esse movimento é ondeante, não se apre- ror seriam textos febrilmente hostis à retórica e aos valores então vi-
sentando, como se diz nos livros de Física, "uniformemente gentes em ambas as culturas. Ver "Lautréamont e Raul Pornpeia", in
acelerado". A criação simbólica é, nos seus pontos altos, des- O Ateneu: retórica e paixão, São Paulo, Brasiliense/Edusp, 1988.

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Nesse projeto de inventar uma linguagem nova, o ar- Repelindo a "contrafação convencional dos clássicos",
tista moderno pretende atingir um grau de autonomia que rejeita, em nome da imaginação poética, toda a retórica
só conheceram no passado as liturgias e, no presente, os dis- petrificada nos manuais: ''A imagem é um exemplo, um ar-
cursos das ciências puras. gumento; a analogia, a comparação, o puro pensamento,
Analítica, se o seu plano é desvendar o real das coisas; antes de ser ideia, é a eloquência primitiva, comovedora e
sintética, se quer intuir o curso inconsciente das paixões, a forte, rebelde perpetuamente ao contrato social dos pedantis-
linguagem da modernidade cria os seus procedimentos sem- mos de escola". 11
pre que deixa agir em liberdade a percepção e a fantasia, sem E que sentido tem a "teoria da arte" que preside à expo-
modelos prefixados. Não é por acaso que a mais cara das sição do Dr. Cláudio n' O Ateneu? A rigor, significa um es-
distinções retóricas, a que separa poesia e prosa, padece o pri- forço de justificar, em um quadro de teor evolucionista, os
meiro abalo em alguns textos pré-românticos e na experiên- valores estéticos que imantam a prosa do romance e das
cia de Baudelaire que Raul Pompeia admirava sem reservas. Canções sem metro.
"A prosa tem de ser elo quente, para ser artística, tal Nas palavras do orador, a arte deriva dos instintos pri-
qual os versos", diz Pompeia em uma das suas anotações mordiais: conservação do indivíduo e reprodução da espé-
sobre o estilo.9 E adiante, ressalta o papel do indivíduo (o cie. Fo~e e sexo. Mas este seu caráter heterônomo não per-
que chama "parênteses da personalidade") na composição manece em estado bruto, inercial. A evolução da mente
do texto vivo: humana elaborou e afinou os atos estéticos. Se a arte foi,
nas origens, uma simples efusão da libido, a sua história
"Para que a obra de arte seja completa, é preciso adensada através de milênios lhe teria conferido um esta-
que, na enumeração literária das notas de análise, exis- tuto próprio. "Sensação transformadà', potenciamento li-
tam os parênteses da personalidade do escritor, ma- vre dos impulsos genésicos, sob certos aspectos estranha aos
nifestados pelo modo especial de sentir e pelo processo mecanismos econômicos diretos e aos preceitos religiosos
original de dizer - a eloquência própria. São os pa- e morais, a arte "sobrevive" no século da Indústria e do
rênteses de personalidade, nos momentos dramáticos Estado como "poema consolador e supremo", exatamente
da narração, ou nos trechos do pitoresco descritivo, o atributo que lhe emprestara Schopenhauer.
que constituem a vida das páginas de estilo."lO Outro papel não lhe cabe exercer na engrenagem que
aperta a vida do cidadão burguês.
"Indômita, eternamente selvagem", só comparável à
9 Notas recolhidas e transcritas por Eloy Pontes em A vida in-
quieta..., cit., p. 219.
10 Idem, ibidem, p. 219. 11 Idem, ibidem, p. 220; grifas nossos.

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Céu, inferno o Ateneu, opacidade e destruição

"orgia" e ao "êxtase", expressão imperiosa das energias do faz O ponto de vista passar do caso particular à lei univer-
indivíduo, a arte parece gestar-se fora, aquém ou além das sal. "Cada um leva às costas o sobrescrito da sua fatalida-
convenções sociais de Bem e de Mal. A acusação platônica de." "O que tem de ser, é já."
movida ao poeta como suscitado r de paixões desenfreadas, Entretanto ... pulsa no espírito do narrado r um com-
logo subversivo da cidade ideal, é aqui refeita e invertida plexo ideo-afetivo de tendê.nci,as. anárquic~s .e jacobinas
em termos de juízo de valor. A arte não se submeteria ao que, aceitando embora os pnnClpIos deterrninistas (senha,
fórum comum. àquela altura, de progressismo), revolta-se co.ntra as :edes
Seria possível rotular como decadente ou irracionalista de opressão individual que essa mesma doutrina sanCIOna.
essa concepção estética, que tanto pode remontar à cons- Se o universo é um todo lógico e fechado, se cada anel
ciência aguda do estranhamento da arte que circula no pen- da cadeia dos seres se constituiu pela ação da força, sem
samento crítico de Baudelaire, quanto perder-se nas brava- exceções, então, em que instância podem irromper a rebel-
tas do artista super-hornem à Wagner e à D'Annunzio, ou dia, a negatividade?
enfim minguar-se na torre de marfim do Parnaso. Mas não Nesse mundo sem dialética, em vez de surgir como
é o caso de julgar aqui simples esboços teóricos; o que in- contradição ativa e superadora, a arte aparece como dife-
teressa é ler as ideias do autor à luz da composição d' O rença irredutível. Se fosse confinada em limites intrassu?-
Ateneu, seu contexto próximo e adequado. jetivos, o seu outro nome seria o de loucura, mas, no dIS-
Como se podem imbricar a poética do autor e a estru- curso de Pompeia- Dr, Cláudio, a arte é contemplada como
tura da obra? um universal do homo sapiens, que a torna inteligível, em-
Em primeiro lugar, observando que, se a arte é ideal- bora "indómita, eternamente selvagem".
mente livre em relação à ordem social, a pessoa pública e De qualquer modo, na mente agônica do narrado r ig-
histórica do artista evidentemente não o é, pois vive nela, nora-se a possibilidade de uma consonância de feição idea-
e dela faz parte. Daí vem o dilaceramento entre a sua ati- lista, hegeliana. Ao regime da sociedade burguesa, "onde"
vidade criadora e o seu papel na máquina do sistema. Para _ como diz soberbamente - "a razão da maior força é a
organizar e estilizar esse contraste de base exerce-se o tra- dialética geral", o artista responderá tão somente com o
balho do narrado r-personagem, Sérgio, que é memorialista grau de terrorismo que lhe é possível exercer. Em outras pa-
e crítico. Como a sua arte enfrentará a "realidade" contra lavras: n' O Ateneu a arte de narrar é entendida como pos-
a qual se insurge? sibilidade de destruir. Mors tua vita mea. Razão contra ra-
O colégio, com todo o seu peso materializado em Aris- zão, verdade contra verdade. Ou ... ou.
tarco-estátua de si mesmo, tem como correlato ideológico 'O pathos satírico investe a maior parte das passagens,
a tese da seleção dos mais fortes. Não há como fugir a esse mantém a citada coesão tonal e faz uma coisa só com o
dado; do contrário, o Ateneu não seria o microcosmos que artesanato da escrita.
I
,I

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Céu, inferno

Um olhar feroz perscruta as linhas de cada rosto, que


a mão desenhará com os traços do caricato.
A memória verbal, lesta e nervosa, acode na hora h Uma trilogia da libertação
com epítetos deformantes, hipérboles grotescas, sínteses
fulminantes.
O discurso, como que tomado de autismo, desdenha
a pontuação do diálogo. A voz de Sérgio adulto é pratica-
mente a única a fazer-se ouvir ao longo da obra inteira; e "Coisa curiosa: uma luz tão vasta, um céu
tão límpido - e essa sensação de aperto."
este solo dá a medida da onipotência a que se arroga o juiz-
Dyonelio Machado, Deuses econômicos
-narrador,
Enfim, o imaginário concebe o mal como opacidade
absoluta, e contra o pecado sem remissão dos corpos sem
luz ateia os fogos do apocalipse. Os Prodígios abrem-se com uma cena de espanto. Asca-
Resta sempre alguma coisa de inquietante e moderno lon sai do túmulo onde por quatro longos anos se refugia-
nesse julgamento da civilização pela arte, ou, mais preci- ra mal se exting~iram os fogos do incêndio que Nero ateara
samente, da educação pelo romance. à velha Roma.
Quem é esta personagem que cruza o romance como
um espectro de medo e de remorso? A resposta vai-se achar
na leitura da trilogia inteira de que Prodígios (1980) são o
último volume, Deuses econômicos (1966) o primeiro e, de
permeio, Sol subterrâneo, 1 ainda inédito, mas cujos origi-
nais tive a alegria de conhecer graças à gentileza do seu au-
tor. Ascalon é aquele triste espécime que os regimes de ter-
ror incubam, meio homem meio sombra, atraído a um só
tempo pela violência dos marginais e pela segurança, ou-
tro tanto violenta, da polícia. Corrupto e covarde, a sua pas-
sagem pelos grupos intelectuais ditos "subversivos" do Im-

1 Sol subterrâneo seria editado em 1981, pela Editora Moder-


na, no ano seguinte à publicação deste artigo.

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