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Psicologia Social

Apontamentos de: Clara Palma e Elisabete Barroso


E-mail: maclarap@netvisao.pt (Clara Palma)
Data: 2001/2002

Bibliografia: Neto, Félix (1998). Psicologia Social I. Lisboa: Universidade Aberta.

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PSICOLOGIA SOCIAL

Definição de Psicologia Social


Para Allport a Psicologia Social é a disciplina que tenta “compreender e explicar como
os pensamentos, sentimentos e comportamento dos indivíduos são influenciados pela
presença actual, imaginada ou implicada de outros”.
Sendo assim pode considerar-se a Psicologia Social como uma relação de entrada/saída
(inputs/outputs). A Psicologia Social aborda de modo científico as causas do compor-
tamento da pessoa em contexto social.
A Psicologia Social é muito vasta e para ter essa percepção basta verificar a quantidade
de tópicos que pode abranger (agressão, ajuda, atitudes, atribuição, comparação social,
interacção social, locus de controlo, papeis e diferenças sexuais, processos cognitivos,
processos de grupo, personalidade, etc, etc,) Os psicólogos sociais abordam pois uma
ampla gama de comportamentos humanos e a tendência é para que essa lista aumente
cada vez mais.
No entanto, apesar da vastidão de tópicos, as áreas do comportamento humano podem
ser divididas em três grupos: fisiológico, cognitivo-atitudinal e de realização.
A Psicologia Social está estritamente ligada com a Sociologia e com a Psicologia. No
entanto, ela é diferente de ambas.
A Sociologia faz o estudo científico da sociedade humana. A Psicologia ocupa-se de
estudar cientificamente o indivíduo e o seu comportamento individual. A Psicologia
Social estuda o indivíduo e o seu comportamento enquanto membro de uma sociedade
que o influencia e que por ele é influenciada.
A Psicologia Social divide-se em dois grandes blocos: a Psicologia Social Psicológica e
a Psicologia Social Sociológica. As duas complementam-se, uma vez que fornecem
informação válida acerca dos mesmos problemas.
Psicologia Social Psicológica Psicologia Social Sociológica
!Focalização no indivíduo !Focalização no grupo, na sociedade
!Investigadores tentam compreender o !Investigadores tentam compreender o
comportamento social mediante a aná- comportamento social mediante a aná-
lise de estímulos imediatos, estados lise do estatuto social, papeis sociais,
psicológicos, traços de personalidade. normas sociais
!Objectivo principal: prever o compor- !Objectivo principal: descrever o com-
tamento. portamento
!Experimentação – método de investi- !Inquéritos e observação participante –
gação. principais métodos de investigação.
Principais nomes ligados à PSS: Mead, Goffman, French, Homans e Bales.
Principais nomes ligados à PSP: Lewin, Festinger, Schacter, Asch, Campbell e Allport
Níveis de Análise em Psicologia Social
1. Intra-Individual – modo como o indivíduo organiza a sua experiência do mundo
social.
2. Inter-Individuais – tem em conta a dinâmica de processos que ocorrem entre indiví-
duos.
3. Posições ou Estatutos Sociais – dá conta de interacções e influências situacionais.
4. Crenças Ideológicas Universalistas – induzem representações e condutas diferencia-
doras ou até discriminatórias.

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PSICOLOGIA SOCIAL

História da Psicologia Social


Os finais do século XIX, princípios do século XX marcam o início do esboço da Psico-
logia Social. No entanto muito antes disso já ela existia, se bem que de forma informal,
já que diversos estudiosos e filósofos, se ocupavam de tentar explicar a relação entre o
indivíduo e a sociedade.
Sobre a Psicologia em geral, dizia Ebbinghaus ter um “longo passado, mas só uma bre-
ve história”. Afirmação que os psicólogos sociais subscrevem.
Platão (a.C.) defendia que os Estados se formam porque o indivíduo não é auto-
suficiente e necessita da ajuda de outros. Se os homens formam grupos sociais é porque
precisam deles.
Aristóteles (a.C.) vê as pessoas como “animais políticos”. Ele pensa que a interacção
social é necessária para o desenvolvimento normal dos seres humanos.

Definição de Método Científico


Organização de conhecimentos com base na observação objectiva e testagem sistemáti-
ca.
Após as observações há que desenvolver teorias que as expliquem (refutando ou con-
firmando teorias já existentes, ou criando novas teorias).
Qualidades que uma teoria deve reunir:
1. deve estar em concordância com dados conhecidos sobre o comportamento hu-
mano;
2. deve ser compreensiva, tentando compreender e explicar comportamentos;
3. deve ser parcimoniosa, não contendo mais que os elementos necessários para
explicar o assunto em questão;
4. deve ser testável, por forma a que as hipóteses levantadas possam ser avaliadas;
5. deve ter valor heurístico, estimular o pensamento e futuras investigações;
6. deve ter valor aplicado, ou seja, a sua construção deve permitir contribuir para a
sociedade de forma válida.

Objectivos Científicos da Psicologia Social


1. Descrever os fenómenos que se observam;
2. Explicar as relações causais que produzem comportamentos particulares;
3. Fazer predições certas (teorizar correctamente);
4. Controlar se ocorrem e/ou quando ocorrem fenómenos comportamentais.

Processo de Investigação Psicologia Social


1ª. Etapa – seleccionar um tópico de investigação.
2ª. Etapa – pesquisa de documentação em estudos anteriores sobre o tópico.
3ª. Etapa – formulação de hipóteses.
4ª. Etapa – escolha de um método de investigação. Os mais utilizados em Psicologia
Social são o correlacional (em contexto natural, no campo) e o experimental (em meio
controlado, em laboratório).
5ª. Etapa – recolha de dados (auto-avaliações, observações directas, informação de ar-
quivo).
6ª. Etapa – análise de dados.
7ª. Etapa – apresentação dos resultados.

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PSICOLOGIA SOCIAL

O que é a Meta-Análise
Técnica estatística que permite aos investigadores combinar informação de muitos estu-
dos empíricos sobre um tópico e avaliar objectivamente a fidelidade e o tamanho global
do efeito.

Teorias da Aprendizagem Social


!Teoria da Associação ou Condicionamento Clássico – (Pavlov) determinadas condi-
ções ou situações despoletam determinadas reacções ou atitudes. (reflexo condicio-
nado).
!Teoria do Reforço – as pessoas aprendem através de recompensas ou castigos.
!Teoria da Aprendizagem Observacional ou Imitação – as pessoas aprendem muitas
atitudes sociais através da observação de atitudes e comportamentos de modelos.

Teorias Cognitivas
Enquanto as teorias da aprendizagem se preocupam com os estímulos e as respostas aos
mesmos, as teorias cognitivas dão grande importância às emoções e cognições. Além
dos estímulos as teorias cognitivas dão especial relevo ao modo como eles são percep-
cionados. As pessoas tendem a agrupar ou categorizar objectos. Percepcionam-se como
sendo salientes (figura) ou como estando atrás (fundo). Os primeiros são os estímulos
coloridos, movimento, barulho, próximos. Os segundos são os estímulos suaves, monó-
tonos, estacionários, longínquos. O mundo social também pode ser percepcionado desta
forma.
A investigação sobre a cognição social divide-se em três áreas: percepção social, memó-
ria social e julgamentos sociais. Primeiro a pessoa percepciona o estímulo, memoriza-o
e mais tarde utiliza-o para fazer julgamentos sociais.
O estudo das atribuições causais é uma das áreas das teorias cognitivas.

Teoria dos Papéis (George Herbert Mead)


A teoria dos papéis presta pouca atenção aos determinantes individuais do comporta-
mento, raramente recorre a conceitos de personalidade, atitudes, motivação. O indivíduo
é visto como um produto da sociedade em que vive e como um indivíduo que contribui
para essa sociedade (as funções ou papeis que desempenha). Cada papel é guiado por
um conjunto de normas de comportamento esperado.
É vulgar acontecerem conflitos de papeis. Ocorrem quando uma pessoa ocupa posições
com exigências incompatíveis (conflito interpapel – ex: ter um trabalho para fazer até tarde no
serviço e ter de ficar com o filho doente) ou quando um só papel tem expectativas incompatí-
veis (conflito intrapapel – ex: os dois filhos têm festas na escola, sendo difícil a opção).

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PSICOLOGIA SOCIAL

Pontos de Comparação entre as Teorias


Teorias da Aprendizagem Teorias Cognitivas Teoria do Papel
CONCEITOS CENTRAIS
Estímulo-resposta, reforço, Cognições, estrutura cogni- Papel
castigo. tiva.
COMPORTAMENTOS PRIMÁRIOS
Aprendizagem de novas Formação e mudança de Comportamento no papel.
respostas; processos de tro- crenças e de atitudes.
ca.
SUPOSIÇÕES ACERCA DA NATUREZA HUMANA
As pessoas são hedonistas, As pessoas são seres cogni- As pessoas são conformistas
os seus actos são determi- tivos que agem com base e comportam-se de acordo
nados por padrões de refor- nas suas cognições. com expectativas de papeis.
ço.
FACTORES QUE PRODUZEM MUDANÇA NO COMPORTAMENTO
Mudança na quantidade, Estado de inconsistência Mudança nas expectativas
tipo ou frequência de refor- cognitiva. dos papeis.
ço.

O Self
O Self é composto pelos nossos pensamentos e crenças acerca de nós próprios. Engloba
as características que uma pessoa reclama como sendo suas e às quais dá um valor afec-
tivo.
Enquanto filósofos, poetas e estudiosos da personalidade apresentam o self como sendo
estável, os psicólogos sociais acham que este pode mudar consoante as situações.
Acima de tudo o self é uma construção social que se forma mediante a interacção com
outras pessoas. Constitui a base das interacções e afecta os comportamentos. O modo
como nos vemos a nós próprios influencia os julgamentos que fazemos dos outros e a
maneira como comunicamos.
O Self desenvolve-se a partir de avaliações reflectidas (aquilo que os outros pensam que
eu sou, pode levar-me a pensar o mesmo); comparação social (as nossas qualidades,
defeitos, pensamentos, sentimentos, são comparados com os dos outros, criando uma
imagem de nós próprios); comparação temporal (é frequente a comparação com aquilo
que fomos ou fizemos no passado e aquilo que somos e fazemos no presente); autoper-
cepção (conclusões a que se chega – inferências – a partir da observação do nosso pró-
prio comportamento).
Em psicologia social são considerados três aspectos do Self: o autoconceito cognitivo, a
auto-estima e a auto-apresentação.

Autoconceito
Pode definir-se como o reflexo de nós próprios tal qual nos percepcionamos. O auto-
conceito armazena informação referente às nossas experiências e relações sociais, sendo
dado particular destaque às qualidades que nos diferenciam dos outros. A teoria da iden-
tidade social sublinha que a pertença a um grupo, a uma comunidade, é muito importan-
te para o autoconceito de uma pessoa.
Componentes do Autoconceito
Auto-Esquemas – conjunto organizado de informações acerca de nós próprios, da nossa

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PSICOLOGIA SOCIAL

vida, das nossas experiências (esquemas verbais, esquemas visuais, etc.)


Memória Autobiográfica – as nossas lembranças da sequência de acontecimentos que
tocaram a nossa vida. Sem memória autobiográfica não teríamos auto-representações

Auto-Estima
Depende do modo como avaliamos as nossas diferentes identidades ou papeis específi-
cos. Avaliamos cada um deles como sendo mais ou menos positivos ou negativos. Basi-
camente a auto-estima resulta de uma avaliação. Se determinados papeis que para nós
são considerados importantes, são avaliados de forma negativa, pode resultar numa bai-
xa auto-estima, mesmo que muitos outros sejam avaliados de forma positiva, mas aos
quais não damos tão grande importância.
A escala de Rosenberg é a mais popular medida de auto-estima.
A auto-estima começa logo a desenvolver-se na infância, de acordo com Allport. As
crianças com maior auto-estima provêm de famílias com estilos educativos “indulgen-
tes” ou “autoritário/democrático”. Os pais indulgentes enfrentam as dificuldades com os
filhos, mas permitem-lhes fazer as suas próprias escolhas. Os pais autoritá-
rios/democráticos impõem regras, explicam-nas e permitem que a criança questione as
restrições. Por outro lado crianças com auto-estima mais baixa são provenientes de fa-
mílias “autoritárias” ou “negligentes”. Os pais autoritários exigem submissão inquestio-
nárel e não se envolvem com os filhos. Os pais negligentes não exigem uma disciplina
estrita nem se envolvem com os filhos.
O comportamento das pessoas na vida quotidiana também é muito afectado pela sua
auto-estima.
Técnicas para Manter a Auto-Estima
Manipulação da Avaliação – associação com pessoas que partilham a nossa perspectiva
do Self, evitando fazê-lo com pessoas que a não partilham. Ao manipular-se a avaliação
tende-se a interpretar as avaliações dos outros como sendo mais favoráveis ou menos
favoráveis do que são.
Processamento Selectivo de Informação – prestar mais atenção aos factos que são mais
consistentes com a nossa avaliação.
Comparação Social Selectiva – quando os nossos próprios padrões de avaliação não são
muito objectivos recorremos à comparação social. Fazemos uma escolha cuidadosa das
pessoas com que nos comparamos, para assim protegermos a nossa auto-estima.
Compromisso Selectivo com Identidades – aqui a auto-estima global é protegida porque
temos o cuidados de escolher as nossas identidades que consideramos mais importantes.

Auto-Apresentação
A auto-apresentação é um conjunto de processos através dos quais se tenta controlar as
impressões que os outros formam, actuando de acordo com cada situação. São dois os
componentes: impressão motivação e impressão construção. A impressão motivação
refere-se até que ponto se está motivado para controlar o modo como os outros nos vê-
em, para criar uma impressão particular nos outros. A impressão construção implica a
escolha de uma imagem que se quer criar, ou alterar o comportamento de outra.
Todos nós, uns mais outros menos, recorremos a estratégias de auto-representação. No
entanto há pessoas mais preparadas para escolher o estilo certo para o momento certo.
As pessoas autovigilantes estão conscientes das impressões que suscitam nos outros e
são sensíveis às pistas sociais que lhes ditam como devem comportar-se em determina-

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PSICOLOGIA SOCIAL

da situação. As pessoas com baixa autovigilância tendem a ter falta de habilidade e mo-
tivação para regular as suas auto-apresentações. Não conseguem exercer um grande
controlo sobre as suas reacções. Os seus comportamentos espelham o seu estado de es-
pírito, logo actuam de acordo com a sua auto-imagem e não como pensam que a situa-
ção exigiria.
As pessoas com uma alta autovigilância estão mais atentas às acções e reacções dos
outros, enquanto os que têm baixa autovigilância se centram mais em si próprios.
Tácticas de Auto-Apresentação
Insinuação – o objectivo principal do insinuador é ser visto como uma pessoa simpática
(cumprimentar os outros, ser um bom ouvinte, ser amigável, fazer favores). O insinua-
dor sabe que há tendência em gostar das pessoas semelhantes nos gostos e atitudes.
Intimidação – a imagem que o intimidador pretende fazer passar é a da pessoa forte e
perigosa. Tenta induzir medo nos outros.
Autopromoção – aqui pretende-se fazer passar a imagem da pessoa inteligente e compe-
tente. Tal como os insinuadores, os autopromotores querem ser reconhecidos e aprecia-
dos, mas neste último caso pretendem conseguir respeito por as suas capacidades.
Exemplificação – o objectivo do exemplificador é modificar o comportamento dos ou-
tros, através do seu exemplo (ao nível da moralidade, integridade e dignidade). Tendo
uma actuação admirável, o exemplificador consegue influenciar o comportamento dos
outros.
Súplica – esta táctica baseia-se em passar uma imagem de fraco e dependente. Só é uti-
lizada quando não se consegue aplicar nenhuma das anteriores por falta de recursos
(simpatia, poder, competência aparente, valor moral aparente). Esta técnica resulta por-
que, culturalmente, sabemos que as pessoas necessitadas devem ser apoiadas e ajudadas.

Os Três Viés de Greenwald


Greenwald refere que o Self processa a informação de modo enviesado:
Viés da Egocentração – tendência para o julgamento e a memória se focalizarem no
Self, o que faz com que os acontecimentos que o afectam sejam melhor lembrados do
que aqueles que não o afectam.
Viés da Beneficiação – é sinónimo de autocomplacência, preserva o sentido de compe-
tência. Para que o conceito do Self seja positivo, chamamos a nós o sucesso e negamos
a responsabilidade do fracasso.
Viés do Conservadorismo Cognitivo – os nossos autoconceitos tendem a resistir à mu-
dança.

O Controlo
A vida é uma permanente busca de controlo. Desde a mais tenra idade e até ao fim da
vida o ser humano defronta-se com situações em que as questões de controlo estão pre-
sentes. Aí surgem a agressão e o conflito, dominação e submissão, negociação e coope-
ração.
O que é então o controlo? Adler fala em “vontade de poder”, “procura de superiorida-
de”. Outros autores falam de vontade de se sentir causa ou protagonista. Heider e Kelley
(teóricos da atribuição causal) explicam a busca de causalidade como sendo a necessi-
dade de controlo e de poder.

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PSICOLOGIA SOCIAL

A Ilusão de Controlo
Conforta-nos a ideia de que conseguimos controlar o nosso destino. Muitas vezes as
pessoas enganam-se a si próprias, surgindo assim a ilusão de controlo. A tendência para
acreditar que os acontecimentos são controláveis é tão forte que bastarão alguns resulta-
dos positivos para provocar a ilusão de controlo. O sucesso numa tarefa pode criar uma
ilusão de controlo.

Locus de Controlo
Locus – Lugar (locus de controlo – lugar de controlo)
Trata-se aqui de distinguir se a pessoa crê que o controlo das situações são externas ou
internas.
Controlo Externo – quando há crença que um acontecimento é consequência da sorte,
do acaso, do destino, de outras pessoas.
Controlo Interno – quando há crença que um acontecimento é consequência do próprio
comportamento do indivíduo.
Rotter criou uma escala que permite, de algum modo, medir a internalidade-
externalidade (Escala I-E), que é considerada o protótipo das escalas de LOC.
A Influência do Locus de Controlo no Comportamento
Em situações competitivas, as pessoas com um locus de controlo externo têm mais ten-
dência para desistir. Os internos excedem-se mais. Já em situações cooperação, os com-
portamentos são semelhantes.
Relativamente à resistência à influência, os internos são menos influenciáveis por terem
maior confiança em si próprios.
Nas interacções sociais os internos tentam controlar os resultados e as situações. São
também os internos que denotam condutas de liderança e mais comportamentos de aju-
da aos outros.
Em contexto laboral, são também os internos que se sentem mais motivados e envol-
vem-se mais com o trabalho.

Desejo de Controlo
Enquanto o locus de controlo se refere ao controlo pessoal que as pessoas percepcionam
ter, o desejo de controlo refere aquele que gostariam ou aquele que preferem ter.
São diferentes e podem revestir-se de diversas nuances. Por exemplo, uma pessoa pode
preferir ter um alto grau de controlo sobre a sua vida, mas acredita que actualmente tem
pouco.
As pessoas com desejo de controlo têm maior tendência para controlar uma conversa,
para se envolver com a comunidade, são também mais susceptíveis de sobressair na
realização das tarefas.

Reacções à Perda de Controlo


Teoria da Reactância – Esta teoria basicamente diz que o fruto proibido é o mais apete-
cido, ou seja, temos tendência para contrariar tentativas de limitação da nossa liberdade.
Desânimo Aprendido – esta teoria defende que a depressão se associa à falta de controlo
devido a factores internos (falta de capacidade), estáveis (traço de personalidade) e glo-
bais (inteligência geral), do que devido a factores externos, instáveis ou específicos.
Dependência Auto-Induzida – uma ilusão de incompetência pode levar a que as pessoas

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PSICOLOGIA SOCIAL

se tornem realmente incompetentes. A teoria baseia-se em que a pessoa convence-se a si


própria que não é capaz, mesmo que tenha capacidade. Esta teoria demonstra que quan-
do se está acostumado a estar dependente de alguém, das suas decisões, das suas acções,
cria-se um sentimento de dependência que não lhe permite ir mais além. Veja-se o facto
de se rotularem os idosos de dependentes ... esse rótulo pode efectivamente criar depen-
dência.

Atribuições
A atribuição é a dedução (inferência) que pretende explicar porque é que um determina-
do acontecimento ocorreu ou pode ainda tentar determinar as disposições, reacções de
uma pessoa. A atribuição ajuda-nos a prever e controlar a nossa experiência social. Se
acreditarmos que compreendemos as causas de determinado comportamento, reagire-
mos com certos pensamentos, sentimentos e respostas. A atribuição acerca de aconteci-
mentos do passado têm influência nas nossas expectativas de futuro.
Existem quatro princípios gerais sobre a atribuição:
!A atribuição de causalidade é uma actividade comum na vida quotidiana;
!As atribuições estão sujeitas a erros;
!O comportamento das pessoas depende da maneira como percebem e interpre-
tam os factos;
!A actividade atribucional desempenha uma função adaptativa.

Tipos de Atribuições
Atribuições Causais – são efectuadas a propósito de causas de um acontecimento.
Atribuições Disposicionais – procuram determinar até que ponto uma acção levada a
cabo por uma pessoa, permite retirar ilações sobre as suas características, a sua persona-
lidade.
Atribuições de Responsabilidade – podem revestir-se de três tipos: responsabilidade
relativa a um efeito produzido, responsabilidade legal (pode-se cometer um delito sem
se ser responsável – autodefesa, loucura) e a responsabilidade moral.

Avaliação das Atribuições


Relativamente às atribuições causais, os métodos de medida mais utilizados são: ques-
tionários de resposta aberta ou não estruturada onde as pessoas explicam o que pensam
ter sido a causa de determinado acontecimento; medidas de percentagem das causas em
que os indivíduos indicam a contribuição de cada causa para o resultado obtido (o
somatório deve ser 100%); escalas de Likert, onde os sujeitos indicam o grau de impor-
tância de cada causa como determinantes de um dado acontecimento.
As atribuições disposicionais e de responsabilidade são também medidas através de
questionários e codificação de conteúdos.

Teorias Sobre a Atribuição


Causalidade e Psicologia Ingénua – Heider defende que a maior parte das pessoas são
psicólogos ingénuos que tentam compreender os outros, por forma a tornar o mundo
mais previsível. As pessoas ao observarem uma determinada acção de um sujeito, ten-
tam verificar se a mesma se pode atribuir a factores internos a ele, e/ou a factores do
meio.
Inferências Correspondentes – Jones e Davis sugerem que o comportamento reflecte os

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PSICOLOGIA SOCIAL

traços estáveis de um indivíduo (podemos fazer inferências correspondentes) se as suas


acções dependerem de escolha livre; se as acções produzem efeitos não comuns (um
aluna numa aula levanta-se, fecha a janela e veste uma camisola. Poderíamos pensar que o ruído exterior
a incomodava, mas o efeito não comum de vestir a camisola leva-nos a inferir que efectivamente a aluna
tinha frio); se acções forem baixas em desejabilidade social (se acção de uma pessoa não vai de
acordo com o socialmente aceite, torna-se mais facilmente característica de uma pessoa, do que se efecti-
vamente as suas acções vão de acordo com a sociedade).
Covariação e Esquema Causal – o princípio da covariação diz que um efeito pode ser
atribuído a uma das possíveis causas com que ao longo do tempo varia. Segundo Kelley
as inferências causa-efeito são feitas a partir de um padrão sistemático de relações. Kel-
ley refere que temos várias oportunidades de observar a mesma pessoa e suas reacções
face a um mesmo problema e observar diversas pessoas relativamente a um mesmo pro-
blema. O autor diz que existem três tipos de componentes no comportamento de al-
guém: actor (pessoa envolvida no comportamento em questão); entidade (pessoa alvo
com quem o actor está interagindo); circunstâncias (contexto particular em que o com-
portamento ocorre).
A atribuição a um destes componentes depende de três aspectos do comportamento:
!Distintividade – um comportamento pode ser atribuído com exactidão a uma
causa e só ocorre quando essa causa está presente.
!Consistência – sempre que a causa está presente o comportamento é o mesmo ou
muito semelhante.
!Consenso – os outros comportam-se do mesmo modo em relação à mesma enti-
dade.
As atribuições feitas a factores internos (actor) ou externos (entidade, circunstâncias)
dependem do nível atribuído a cada um destes aspectos.
Exemplos:
! Queremos saber porque é que uma colega Judite se comportou de modo simpático com outra pessoa,
Antónia.
De acordo com o modelo de covariação para se definir se a atribuição é interna ou externa devemos
avaliar um conjunto de factores: a Judite é simpática com quase todas as pessoas (baixa distintivida-
de); a Judite é quase sempre simpática com a Antónia (alta consistência); não há muitas pessoas que
sejam simpáticas com a Antónia (baixo consenso).
Neste caso, a teoria de Kelley indica que provavelmente se atribui o comportamento a causas internas
(a Judite é uma pessoa simpática).
! Agora combinam-se outros factores: a Judite raramente é simpática com outras pessoas (alta distinti-
vidade); a Judite é quase sempre simpática com a Antónia (alta consistência); a maior parte das pes-
soas são simpáticas com a Antónia (alto consenso).
Agora atribuímos o comportamento a causas externas (a Antónia faz com que as outras pessoas se-
jam simpáticas com ela).
Em resumo, os acontecimentos podem ser atribuídos ao actor, à entidade ou às circuns-
tâncias consoante a combinação particular de informação de que dispomos acerca das
pessoas envolvidas.
Atribuições de Sucesso e de Fracasso – Weiner avança com um modelo de atribuição
referente a uma área específica do comportamento: explicações para o sucesso ou fra-
casso das pessoas no desempenho das suas tarefas. Weiner também pressupõe que as
nossas avaliações dependem de causas internas ou externas. No entanto acrescenta uma
segunda dimensão: causas estáveis e causas instáveis. Acrescenta ainda uma terceira:
causas controláveis e causas incontroláveis.
Exemplo: a capacidade é um factor interno, estável e incontrolável; a sorte é um factor
externo, instável e incontrolável.

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PSICOLOGIA SOCIAL

Aplicações das Teorias da Atribuição


Recordemos agora o que dizia Kurt Lewin (um dos fundadores da moderna Psicologia
Social): “Nada é tão prático como uma boa teoria”.
Queria o autor dizer que uma vez que o investigador esteja na posse de um conhecimen-
to sólido e científico de algum aspecto do comportamento social, pode utilizar este co-
nhecimento de modo prático.
No que toca à atribuição estas palavras de Lewin aplicam-se na perfeição. São inúmeros
os campos da vida social em que as teorias da atribuição têm sido aplicadas: realização
escolar, realização profissional, satisfação no trabalho, crime, delinquência, alcoolismo,
divórcio, etc.

Erros de Atribuição
Embora os modelos de atribuição pretendessem ver as pessoas fazendo atribuições lógi-
ca e racionalmente, o que é certo é que nem sempre a racionalidade impera. Assim, sur-
gem enviesamentos na atribuição. É importante conhecê-los porque muitas vezes são
eles que se encontram por detrás dos conflitos.
Diferenças entre actor e observador – existem diferenças nas atribuições feitas pelos
actores implicados num determinado comportamento e as feitas por quem observa esse
comportamento. Na focalização da percepção reside a diferença. Enquanto actores cen-
tramo-nos nos acontecimentos circundantes; enquanto observadores centramo-nos nas
pessoas implicadas na acção. A informação disponível para uns e outros também é dife-
rente. Resumindo, diferentes perspectivas e diferentes informações podem servir para
enviesar as nossa atribuições num ou noutro sentido.
Erro Fundamental – Normalmente dá-se mais importância a factores disposicionais do
que situacionais. Actores e observadores dão maior relevo a disposições do que a situa-
ções quando tentam explicar determinado comportamento. A este exagero de importân-
cia dado aos factores pessoais chama-se erro fundamental. Daí resultam atribuições er-
radas porque os determinantes situacionais são ignorados. Diz-se que é um erro funda-
mental, porque fundamental é a divisão de causas do comportamento em inter-
nas/externas. Quando se observa o comportamento de outra pessoa centramo-nos nas
suas acções e temos tendência para retirar importância ao contexto social em que elas
ocorrem; o contexto não é considerado como sendo importante, quando realmente é
muito importante.
Complacência na Atribuição da Causalidade – este erro refere-se ao facto das pessoas
tenderem a chamar a si a causa dos seus sucessos e a atribuir os seus fracassos a factores
externos.
Efeitos Temporais da Atribuição – Um dado acontecimento pode ser atribuído a uma
determinada causa, no momento em que ocorre, mas passado algum tempo essa atribui-
ção pode ser feita a outra causa completamente diferente. Com o passar do tempo as
atribuições tendem a deixar de se focar nas pessoas para passar para as situações, para o
contexto. Uma explicação para este efeito é o facto de a nossa necessidade de prever e
controlar não ser tão acentuada quando se reflecte sobre o passado, do que quando se
reflecte sobre o presente.

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PSICOLOGIA SOCIAL

Atribuições e Relações Interpessoais


A tendência na atribuição relativamente a grupos reflecte basicamente o que acontece
com cada pessoa em particular, ou seja, a tendência é a chamar a si as razões do sucesso
e de acções socialmente desejáveis e de apontar factores externos como razões para o
insucesso e para acções socialmente indesejáveis. Quando há comparação de grupos,
defende-se o endogrupo e atribuem-se as causas das coisas negativas ao exogrupo.

Norma de Internalidade
Normalmente a tendência é para atribuir a si o que é de bom, o que é socialmente dese-
jável ... daí que a norma da internalidade esteja ligada à desejabilidade social.
A norma da internalidade diz-nos que as explicações internas são socialmente desejá-
veis. As explicações internas das condutas e reforços são mais escolhidas pelos indiví-
duos que pertencem a grupos favorecidos. A norma da internalidade é objecto de uma
aprendizagem social.

Estilo Atribucional
Estilo Explicativo Depressivo – para as pessoas com este estilo atribucional, um aconte-
cimento infeliz tem uma causa interna (é por minha culpa), uma causa estável (será
sempre assim), e uma causa global (isto acontece-me em muitas situações). Pelo contrá-
rio quando lhes acontece algo de bom tende a atribuir esse facto a causas externas, ins-
táveis e específicas.
Estilo Explicativo Optimista – os optimistas, pelo contrário, explicam os acontecimento
negativos como sendo uma causa externa (é culpa de alguém), uma causa instável (não
me acontecerá de novo) e uma causa específica (é só nesta área). Por outro lado, as atri-
buições de acontecimento positivos são feitas através de causas internas, estáveis e glo-
bais.

Atitude
A atitude está relacionada com um estado mental. Apesar de ser um termo bastante co-
mum na vida quotidiana não é fácil encontrar uma definição clara para Atitude. Gordon
Allpport argumentou mesmo que é mais fácil medir as atitudes do que defini-las.
Características da Atitude
!Direcção – designa o nível positivo ou negativo do objecto de atitude. (Atrac-
ção/Repulsa; Concordância/Discordância)
!Intensidade – designa a força da atracção ou da repulsa relativamente ao objecto.
(neutralmente, moderadamente, totalmente).
!Dimensão – permite-nos apreender se se trata de um objecto complexo ou bem defi-
nido.
!Acessibilidade – mede-se num continuum “não atitude/atitude”. O conhecimento, o
contacto com o objecto de atitude torna essa atitude mais acessível, mais fácil de se
chegar a ela. Não tendo conhecimento nem contacto será muito difícil ter uma de-
terminada atitude, ou seja a mesma não está acessível.

Modelos de Atitudes
Modelo Tripartido Clássico – Modelo proposto por Rosenberg e Hovland. A atitude é
resultado da organização de três componentes: afectivo, cognitivo e comportamental. O
componente afectivo refere-se aos sentimentos; o componente cognitivo diz respeito às

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PSICOLOGIA SOCIAL

crenças e opiniões; o componente comportamental diz respeito às acções propriamente


ditas.
Modelo Unidimensional Clássico – Os defensores deste modelo consideram a atitude
como sendo unidimensional. É a resposta avaliativa (afecto), favorável ou desfavorável,
em relação ao objecto de atitude. Thurstone define a atitude como a intensidade de afec-
to a favor ou contra um objecto psicológico.
Modelo Tripartido Revisto – Este modelo de Zanna e Rempel integra os dois anteriores.
Consideram a dimensão avaliativa da atitude, considerando ainda que esta avaliação
pode basear-se em três tipos de informação: cognitiva, afectiva, comportamental.

Funções Psicológicas das Atitudes


1. Ajudar a definir grupos sociais – uma atitude partilhada pode servir de elo de li-
gação entre várias pessoas.
2. Ajudar a estabelecer as nossas identidades – as atitudes são elementos fulcrais
nas representações que as pessoas têm delas próprias. Se assumem determinados
papeis, assumem atitudes que lhe estão inerentes.
3. Ajudar o nosso pensamento e comportamento – guiam o modo como se pensa,
sente e age

Formação das Atitudes


Fontes de Aprendizagem – as nossas atitudes são formadas por influência das pessoas
que desempenham papeis significativos nas nossas vidas (pais, companheiros, grupos de
referência). Os meios de comunicação de massas também influenciam as atitudes.
Condicionamento Clássico – Stats define a atitude como uma resposta avaliativa condi-
conada por algum objecto do meio. Quando não se tem muito conhecimento sobre de-
terminada coisa e sobre ela só se conhecem referências desagradáveis, somos condicio-
nados a ter uma atitude negativa em relação a essa coisa. (ex: normalmente as anedotas
dos alentejanos retratam-nos como sendo lentos e preguiçosos; quem não tem contacto
com o povo alentejano pode ser levado a considerar esses dados como correctos e daí
formar uma atitude negativa).
Condicionamento Operante – o condicionamento operante baseia-se essencialmente no
reforço. Assim, as atitudes consideradas negativas não são reforçadas, com vista a levar
a pessoa a mudá-las; as atitudes consideradas positivas são reforçadas, no sentido da
pessoa as manter.
Aprendizagem Social – a atitude pode formar-se por um processo de imitação dos ou-
tros.
Aprendizagem por Experiência Directa – a experiência directa com o objecto de atitude
contribui para a aprendizagem de muitas das nossas atitudes.
Observação do Próprio Comportamento – ao observarmos o nosso próprio comporta-
mento podemos ser levados a modificar as nossas atitudes. Se dermos connosco tendo
um comportamento cordial e simpático relativamente a alguém com quem julgávamos
antipatizar, podemos modificar a nossa atitude negativa face a essa pessoa.

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PSICOLOGIA SOCIAL

Medidas das Atitudes


As atitudes podem ser medidas directa ou indirectamente.
Medidas Directas
Escala de Distância Social – proposta por Bogardus esta escala apresenta-se como um
quadro de dupla entrada, que tem como abcissa o nome de diferentes grupos humanos e
como ordenada dispõe-se sete preposições que caracterizam o tipo de relações que o
sujeito gostaria de ter com pessoas pertencendo a esse grupo. Os números colocados à
direita indicam o grau de distância social representado por cada proposição. Quanto
maior for o número, maior é a distância social.
Escala de Likert
Consiste na apresentação de uma série de proposições, devendo o inquirido, em relação
a cada uma delas, indicar uma de cinco posições (por ex: concordo totalmente, concor-
do, sem opinião, discordo, discordo totalmente).
Escala dos Diferenciais Semânticos (Osgood, Suci e Tannenbaum)
Apresentam-se diversos pares de adjectivos bipolares (antónimos) separados por uma
linha dividida em 7 ou 5 partes. O inquirido deverá colocar uma cruz no intervalo cor-
respondente à sua atitude. (por ex: útil _ _ _ _ _ inútil)
Existem ainda outras escalas, para medir as atitudes directamente: Thurstone, Guttman.
Medidas Indirectas
Fisiológicas – Assentam no pressuposto de que certos objectos ou certos acontecimen-
tos levam a determinado comportamento físico (arrepio, dilatação da pupila, contracção
muscular), o que pode indicar uma certa atitude.
Comportamentais – Assentam na suposição de que o comportamento é consistente com
as atitudes.
Projectivas – Aos sujeitos é pedido que descrevam uma figura, contem uma história,
completem uma frase ou indiquem como é que alguém reagiria a determinada situação.
Normalmente as pessoas projectam nos outros as suas próprias atitudes.

Atitudes e Comportamento
Durante décadas os psicólogos sociais estiveram muito interessados no estudo das atitu-
des por acreditarem que a partir delas podiam prever o comportamento. No entanto,
prever o comportamento a partir das atitudes não é tão simples como se pode pensar à
partida. A utilidade das atitudes para prever os comportamentos depende de vários fac-
tores pessoais e sociais.

Modelos Teóricos de Predição do Comportamento


Teoria da Acção Reflectida - esta teoria descreve a relação entre crenças, atitude e
comportamento. Partindo da crença, esta influencia as atitudes em relação a um compor-
tamento em particular e a normas subjectivas. Estes dois últimos componentes influen-
ciam as intenções comportamentais e por sua vez, influenciam o comportamento.
Teoria do Comportamento Planificado – sendo basicamente idêntica à anterior, acres-
centa-lhe um factor que deve ser considerado na previsão do comportamento: o controlo
comportamental percepcionado (até que ponto será fácil ou difícil realizar determinado
comportamento)
Exemplo: um fumador que pense em deixar de fumar (revela uma atitude positiva em
relação ao deixar de fumar). O médico aconselha vivamente este comportamento (nor-

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PSICOLOGIA SOCIAL

ma subjectiva). No entanto, apesar das duas primeiras condições preverem o comporta-


mento de deixar de fumar, o fumador depara-se com a grande dificuldade de abandonar
este vício, o que poderá fazer prever que a sua falta de controlo o leve a abandonar a
primeira intenção.
Embora os investigadores afirmem que ambas as teorias podem prever o comportamen-
to, as comparações dos dois modelos mostram que é mais vantajosa a teoria do compor-
tamento planificado

Representação Social
Jodelet define representação social como a forma de conhecimento socialmente elabo-
rado e partilhado, com uma orientação prática e contribuindo para a construção de uma
realidade comum a um conjunto social. Designa uma forma de pensamento social.
Para Piaget a representação é uma evocação dos objectos na sua ausência.
Moscovici diz que é um sistema de valores, de noções e de práticas relativas a objectos,
aspectos ou dimensões do meio social, que permite não só a estabilização do quadro de
vida dos indivíduos e dos grupos, mas que constitui igualmente um instrumento de ori-
entação da percepção das situações e de elaboração de respostas.
Herzlich diz que a representação é um processo de construção do real.
Aspectos a ter em conta na noção de Representação Social
!Há sempre a referência a um objecto. A representação, para ser social, é sempre
uma representação de algo.
!Existe uma relação de simbolização e interpretação com os objectos. As repre-
sentações resultam de uma actividade construtora da realidade e de uma activi-
dade expressiva.
! Adquirem a forma de modelos e implicam elementos linguísticos, comporta-
mentais ou materiais.
!São uma forma de conhecimento prático que nos levam a colocar interrogações
sobre os determinantes sociais e da sua função.
Como forma de conhecimento, a representação social implica a actividade de reprodu-
ção das características de um objecto. Esta representação não é o reflexo puro e fiel do
objecto, mas uma verdadeira construção mental.

Representação e Comunicação Social


Segundo Moscovici podem distinguir-se três grandes sistemas de comunicação:
Difusão – é o sistema de comunicação de massas mais patente na nossa sociedade. A
fonte pretende transmitir e difundir o mais amplamente possível um conteúdo, sem no
entanto ter subjacente uma intenção de reforçar ou convencer. Não se dirige a um grupo
definido mas a membros de diversos grupos sociais.
Propagação – recorre a mensagens que visam um grupo particular, com objectivos e
valores específicos. A sua finalidade é a integração de uma informação nova num siste-
ma de raciocínio e de julgamento já existente.
Propaganda – a propaganda desenvolve-se num clima social conflituoso, contribuindo
para a afirmação e reforço da identidade de um grupo. Constrói a propósito dos adversá-
rios uma representação em conformidade com os princípios inspiradores. Incita os seus
receptores a um determinado comportamento.

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PSICOLOGIA SOCIAL

Análise Psicossociológica da Representação Social


Nas investigações sobre as representações sociais distinguem-se dois objectos distintos:
os produtos e os processos.
Representação-Produto
É um universo de opiniões ou crenças organizadas em torno de uma significação central
(objecto). O produto pode ser analisado sob vários aspectos ou dimensões.
Na análise dos produtos Moscovici considera três aspectos:
Informação – é possível conhecer e ter representação do objecto através da informação
que se conhece sobre o mesmo (quer em quantidade, quer em qualidade).
Atitude – exprime a orientação global, positiva ou negativa, em relação ao objecto da
representação
Campo de Representação – é o conteúdo concreto e limitado sobre aspectos precisos do
objecto de representação. Remete-nos para aspectos imagéticos da representação, atra-
vés de uma ideia de organização ou de uma hierarquia de elementos.
Representação-Processo
Moscovici ressalta dois processos fundamentais que dizem que o social transforma o
conhecimento em representação e como esta representação transforma o social. O autor
refere existir uma interdependência entre a actividade psicológica e as condições so-
ciais, traduzida nesses dois processos: a objectivação e a ancoragem.
Objectivação – A objectivação permite concretizar algo abstracto (por exemplo os sen-
timentos não são objectos palpáveis, no entanto fazem parte integrante da vida das pes-
soas). A objectivação tem a propriedade de tornar concreto algo que é abstracto. É uma
operação imagética e estruturante.
Ancoragem – Tal como a objectivação, a ancoragem permite traduzir o que é estranho
em algo familiar. A ancoragem faz a incorporação do que é estranho numa determinada
rede de categorias com características semelhantes.

Áreas de Investigação Sobre as Representações Sociais


Apesar de haver uma grande diversidade de objectos estudados, Jodelet distingue três
grandes áreas:
!uma área que se relaciona especificamente com a difusão de conhecimentos (no
campo social e educativo)
!uma área que integra a noção de representação social como variável no
tratamento de questões clássicas de psicologia social: cognição, conflito,
negociação, relações interpessoais e inter-grupais.
!uma área mais ampla em que as representações sociais são apreendidas em con-
textos sociais reais ou grupos circunscritos na estrutura social. Os estudos abor-
dam objectos socialmente valorizados, a propósito dos quais os diferentes gru-
pos definem os seus contornos e particularidades.

Preconceito
Pode definir-se como sendo uma atitude. Geralmente mais utilizado num sentido nega-
tivo, o preconceito também pode ser positivo. Sendo uma atitude, o preconceito reveste-
se de três componentes: a componente afectiva (diz respeito aos sentimentos face a
membros ou grupos específicos); a componente cognitiva (refere-se a crenças e expecta-
tivas acerca desses grupos, e também ao modo como a informação acerca deles é pro-

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PSICOLOGIA SOCIAL

cessada); a componente comportamental (refere as tendências de acção relativamente a


esses grupos).

Discriminação
É a manifestação comportamental do preconceito. Enquanto no preconceito a compo-
nente comportamental diz respeito às tendências para a acção, aqui surge o comporta-
mento efectivo. Quando estamos perante discriminação, membros de grupos particula-
res são tratados de modo positivo ou negativo, devido à sua pertença a determinado
grupo.
O comportamento discriminatório pode assumir diferentes formas (Allport):
!Antilocução – conversa hostil e difamação verbal.
!Evitamento – manter o grupo separado do grupo dominante (gueto).
! Discriminação – o grupo minoritário é excluído de direitos civis, do emprego e
do acesso a certas formas de alojamento.
!Ataque Físico – violência contra pessoas e propriedades.
!Extermínio – violência indiscriminada contra todo um grupo de pessoas, numa
tentativa de aniquilação.

Grupo Minoritário
Se só considerássemos o número seria mais fácil descrever ou definir grupo minoritário.
No entanto, não se trata de números, mas sim de estados de espírito. Talvez fosse mais
correcto descrevê-lo ou referir-se a ele como “grupo com menos poder”, “grupo domi-
nado”.
Para Wagley e Harris as minorias são: sectores subordinados de uma sociedade; pos-
suem traços físicos ou culturais pouco apreciados pelos grupos dominantes; estão cons-
cientes do seu estatuto minoritário.

Categorias de Preconceito e Discriminação


Racismo – intolerância com base na cor da pele ou na herança étnica.
Sexismo – intolerância com base no sexo.
Heterossexismo – intolerância com base na orientação sexual.
Idadismo – intolerância com base na idade.

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