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Sociedade Portuguesa

Contemporânea

Apontamentos de: Célia Silva


E-mail: celiamrgsilva@gmail.com
Data: 2012/2013

Bibliografia: Manual adoptado: Joaquim Torres COSTA, Sociedade Portuguesa Contemporânea,


Lisboa, Universidade Aberta.

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Sociedade Portuguesa Contemporânea
Introdução
· A abordagem da sociedade portuguesa, desenvolve-se sequencialmente em torno de 3 grandes
perspetivas temáticas
Tendências demográficas e organização social do território
ª Desenha-se uma perspetiva global da população portuguesa, projetada a partir das
variáveis mais relevantes da observação demográfica e da geografia humana
Desenvolvimento económico e social
ª Concentra-se nos modelos, nas opções e nos constrangimentos que, em matéria de
afetação e distribuição social daqueles recursos, contribuem para determinar o nível e
a qualidade de vida atuais dos portugueses
Morfologia e dinâmicas da estrutura social
ª Visa proporcionar um panorama das principais diversidades que moldam a
composição e as dinâmicas sociais da população portuguesa
· Há o recurso frequente ao longo da exposição, a séries estatísticas que recobrem a evolução dos
indicadores selecionados ao longo de períodos temporais, mais ou menos alargados. Existem 3
ordens de razões:
Perspetivas escalares
ª Comparação de dados recolhidos em momentos diferentes da sequência histórica
(“melhor” ou”pior” do estado presente)
Captação de regularidades
ª Sequências temporais de informação sobre um campo ou processos sociais,
identificando tendências, traduzindo opções históricas e projetando probabilidades
futuras.
Ritmos de evolução
ª Análise sequencial de indicadores que exprimem os graus de continuidade ou de
aceleração, de inércia ou de rutura, inerentes aos processos e às mudanças sociais

Marcos fundamentais do mais re cente percurso histórico do país


· Relevantes pelas consequências profundas que esses acontecimentos tiveram sobre:
As condições objetivas da organização e do desenvolvimento da sociedade portuguesa
As formas de perceção e de apreciação da realidade social
· A revolução de 25 de Abril de 1974
Ato fundador do regime democrático. Imprimiu uma marca de aceleração e de
descontinuidade históricas (expressa na demarcação recorrente entre um "antes" e um
"depois") cujos efeitos reais e simbólicos se continuam a fazer sentir poderosamente sobre as
vivências, as lutas e as representações sociais dos portugueses no início do séc. XXI
· A descolonização (1975-1976)
Correspondeu a uma incontornável tendência mundial da 2ª metade do séc. XX
No caso português decorreu, especialmente nas principais colónias africanas, sob o signo de
um dramatismo que foi como que o contraponto crepuscular de uma guerra traumatizante
que se prolongava há mais de uma década.
Para além das suas consequências políticas e sociais mais imediatas (como o súbito retorno de
mais de 1 milhão de portugueses que residiam nas até então províncias ultramarinas), a
dissolução do império colonial determinou uma alteração profunda da situação económica,
social e cultural no mundo dum país abruptamente confinado ao seu território europeu original;
· A adesão à C.E.E. (1985):
Opção de fundo do regime democrático, não deixou, todavia, de se inscrever na linha duma
progressiva integração da economia portuguesa no espaço económico europeu já iniciada nos
anos 60.
Com o fim do império (e da economia) coloniais, a entrada no grupo de países que formavam
então a Comunidade Económica Europeia e formam hoje a União Europeia, traduziu-se num
verdadeiro "recentramento" da posição de Portugal à escala internacional.
Como já acontecera com a revolução de 1974, a integração europeia associou, assim, num
mesmo processo, a transformação da realidade social objetiva e das categorias sociais de
apreensão dessa realidade.

1 Célia Silva
TENDÊNCIAS DEMOGRÁFICAS E ORGANIZAÇÃO SOCIAL DO TERRITÓRIO

· Enquanto nos países europeus, em 1960, se acentuavam já os efeitos mais marcantes da chamada
"modernização demográfica" associada ao desenvolvimento das condições económicas, sociais e
culturais (o declínio do crescimento natural e o envelhecimento da estrutura etária), a população
portuguesa caracterizava-se ainda por uma taxa de crescimento natural positiva e por uma estrutura
etária jovem (mas também por uma esperança média de vida muito inferior e um índice muitíssimo
mais elevado de mortalidade infantil do que o dos países desenvolvidos).
· No início do séc. XXI aquela situação encontra-se radicalmente alterada.
Este facto traduz a ocorrência de uma inversão do perfil e dinâmicas fundamentais da
população: o abrandamento constante do ritmo de crescimento natural e envelhecimento
da estrutura etária são hoje, não apenas traços momentâneos, mas tendências consolidadas
da demografia portuguesa.
Para a alteração destas tendências contribuiram:
ò As alterações profundas que afetaram os fatores estruturais da dinâmica demográfica
natural: natalidade, fecundidade, mortalidade, longevidade média da população;
ò A dinâmica migratória que tem contribuído, ora para agravar, ora para atenuar as
consequências efetivas das alterações estruturais da dinâmica natural.

1.1. As dinâmicas demográficas


· O séc. XX caracterizou-se, em Portugal, por um crescimento constante da população.
· Contudo, dentro dessa tendência global, as 4 décadas posteriores a 1960 revelaram contrastes
muito significativos no ritmo de crescimento:
Década de 60
ò Diminuição da população
Década de 70
ò Incremento muito acentuado dos residentes;
Década de 80
ò Quase estagnação da população
Década de 90
ò Aumento populacional significativo, embora distante do que ocorreu nos anos 70

Estas acelerações e desacelerações traduziram, em diferentes momentos e conjunturas históricas,


dinâmicas diferenciadas dos fatores que determinam o volume e ritmo de crescimento demográfico.
· O crescimento ou o decréscimo do número de efetivos da população residente, podem ocorrer por
efeito de 2 "movimentos":
O crescimento natural, cujo indicador é o saldo natural ð Diferença entre o nº de
nascimentos e de mortes num determinado período;
O crescimento migratório, cujo indicador é o saldo migratório ð Diferença entre a saída e a
entrada de residentes nesse intervalo de tempo.

1.1.1. A dinâmica natural


· A dinâmica natural da população portuguesa obedece, desde 1960, a uma mesma tendência estrutural:
a diminuição constante do ritmo de crescimento natural (de que é indicador a diminuição regular e
acentuadíssima do saldo natural ð Diferença entre os nascimentos e os óbitos).
· A explicação desta tendência para a redução do crescimento natural encontra-se no modo como tem
evoluído o comportamento das seguintes varáveis fundamentais:
Mortalidade
ò Esta taxa manteve-se dentro de valores relativamente estáveis.
ò Verificou-se uma redução acentuada da taxa de mortalidade infantil
ü Os pequenos incrementos do nº total de óbitos refletem o aumento de população
nos escalões etários mais elevados.
Natalidade
ò Esta taxa evoluiu de forma acentuadamente negativa ð na década de 90 nasceram
em média menos de metade das crianças que nasciam em 1960.
ò Após 1994 verifica-se uma ligeira inversão dessa tendência, embora o incremento do
nº de nascimentos estivesse longe de apontar para o restabelecimento dos padrões
tradicionais de natalidade.

2 Célia Silva
Fecundidade
ò O decréscimo da natalidade articulou-se com o declínio da taxa de fecundidade.
ò A partir da década de 80, o índice sintético de fecundidade passou a situar-se abaixo
de 2,1 filhos por mulher, que é o valor mínimo necessário para assegurar a
substituição de gerações.

NOTAS:
· Índice de envelhecimento
Relação entre a população idosa (=/+65 anos) e a população jovem (0 a 14 anos) por cada 100
indivíduos.
· Taxa de natalidade
Quociente entre o nº de nados-vivos ocorrido num determinado ano e a população média desse
ano, por cada 1.000 habitantes.
· Taxa de mortalidade
Quociente entre o nº de óbitos ocorrido num determinado ano e a população média desse ano,
por cada 1.000 habitantes.
· Taxa de mortalidade infantil
Quociente entre o nº de óbitos de indivíduos com menos de 1 ano de idade num determinado
ano e o nº de nados-vivos no mesmo ano, por cada 1.000 nados-vivos.
· Índice sintético de fecundidade
Nº médio de nados-vivos que cada mulher em idade de procriar (15 a 49 anos) teria, caso se
mantivessem as taxas de fecundidade do ano observado. O nível mínimo necessário para a
substituição de gerações é 2,1.
· Esperança média de vida
Nº médio de anos que restam para viver a um indivíduo no momento do nascimento, caso se
mantenham as taxas de mortalidade observadas nesse mesmo momento.

1.1.2. A dinâmica migratória


· Depois de 1960, a dinâmica migratória (que resulta dos movimentos de entradas e de saídas de
população) conheceu grandes variações conjunturais, com efeitos contrastantes nos números globais do
crescimento demográfico.
· Emigração e retorno
A emigração constituiu-se historicamente como uma constante estrutural da sociedade
portuguesa.
No período que mediou entre os últimos anos do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX,
uma poderosa corrente emigratória em direção ao Brasil tinha já tido reflexo significativo no
ritmo do crescimento demográfico.
No início de 1960, assistiu-se ao encerramento do grande ciclo migratório transatlântico
e à sua substituição por novos destinos preferenciais da emigração portuguesa:
ò 1960-1973: A explosão da emigração para a Europa
ü Período marcado pela emergência de um movimento massivo de emigração
dirigido preferencialmente para o continente europeu (França, Alemanha,
Luxemburgo, Suíça em particular)
ü Houveram, também, embora em menor volume, partidas para outros países,
nomeadamente do continente americano (Estados Unidos, Venezuela, Canadá).
ü Este êxodo distribuiu-se por todas as regiões do país (com exceção do Alentejo,
onde a saída de população se fez sobretudo na direção da Grande Lisboa) mas o
seu peso relativo foi especialmente forte nas regiões do Norte e Centro
Interiores.
ü A esse fluxo de "emigração internacional" acresceu a continuidade duma
corrente mais antiga dirigida para a fixação nos territórios ultramarinos
(especialmente Angola e Moçambique) ð "emigração colonial"
ò 1974-1985: Os grandes movimentos de retorno
ü Circunstâncias históricas que determinaram, neste período, um declínio
substancial do nº de saídas e o regresso às fronteiras europeias de Portugal
dum grande nº de portugueses anteriormente emigrados:
§ Processo de descolonização (1974-1975)
v Derivado da independência dos novos Estados africanos de
expressão oficial portuguesa
3 Célia Silva
v Regressaram à antiga Metrópole, num curtíssimo intervalo de 2 ou
3 anos, cerca de 600.000 residentes das ex-colónias portuguesas em
África
§ Políticas restritivas da imigração e de estímulo ao retorno dos
imigrantes
v Postas em prática, depois de 1973, pelos principais países europeus
recetores de mão de obra portuguesa (na sequência da crise que,
nos anos 70, terminou com uma época de grande expansão
económica encetada no pós-guerra).
v Calcula-se que essa circunstância tenha determinado o regresso de
aproximadamente 500.000 portugueses
v Contudo, este fenómeno não assumiu o caráter e impacto de vaga
populacional que caracterizou o retorno dos residentes das antigas
colónias, já que se diluiu ao longo do tempo.
v Como este retorno se deu, predominantemente, para as regiões
litorais, os mesmos não foram suficientes para travar o declínio
demográfico das regiões interiores
ò A partir da década de 80: emigração menos intensa, mas constante e mais
diversificada
ü Menor disponibilidade dos países tradicionalmente recetores para o acolhimento
permanente de emigrantes
ü Atenuação progressiva das condições repulsivas do próprio pais

Resultaram numa menor intensidade da emigração, quando comparada


com a grande corrente dos anos 60. No entanto, esta redução não se traduz
em cessação: o nº de saídas anuais apresenta uma regularidade e constância
significativas.
ü A "tradição" do recurso à emigração por parte de alguns setores da população
portuguesa permanece viva, o que se traduz na maior diversificação de destinos
e, na preferência cada vez mais acentuada por formas de emigração temporária
e sazonal.
· Imigração
1960 ð O nº de residentes estrangeiros em Portugal não ultrapassava cerca de 0,2% da
população total, traduzindo o fraco poder atrativo do país no contexto das migrações
internacionais.
2ª metade dos anos 70 e no início da década de 80 ð O nº de estrangeiros que entram no
nosso país com estatuto de imigrantes começa a crescer de forma contínua e acentuada.
ò Esta corrente imigratória, foi liderada inicialmente pela entrada de cidadãos
originários dos novos países africanos de expressão portuguesa e reforçada, depois,
por fluxos sucessivos de cidadãos provenientes, nomeadamente, do Brasil, da Europa
comunitária, e mais recentemente da Europa de leste.
ò Os principais pólos de atração de cidadãos estrangeiros situam-se na Área
Metropolitana de Lisboa e ainda em Setúbal, no Porto e no Algarve.
ò Nos anos 2000 e 2001, os processos de regularização extraordinária de imigrantes
(com vista à legalização das situações de clandestinidade) permitem estimar em
aproximadamente 300.000 o nº de estrangeiros em Portugal (ou seja, cerca de 3% da
população total).

1.2. Ciclos e ritmos do crescimento populacional


· A evolução conjugada das dinâmicas demográficas natural e migratória permite-nos compreender as
fases por que passou o crescimento efetivos da população ao longo das 4 décadas finais do séc. XX:
Entre 1960 e 1970
ò Apesar de um saldo natural positivo, os saldos migratórios extremamente negativos
provocados pelo grande volume de emigração refletiram-se numa diminuição efetiva
da população

4 Célia Silva
Nos anos 70
ò Apesar do declínio acentuado do crescimento natural, os movimentos de regresso
de emigrantes e de residentes das ex-colónias portuguesas na 2ª metade da década
deram origem a um saldo migratório positivo e a um acentuado crescimento
efetivo da população
Na década de 80
ò A redução do volume dos movimentos migratórios, conjugada com a redução
constante do crescimento natural conduziu a uma estagnação em torno de um
crescimento médio quase nulo;
Na última década do séc. XX
ò Assistiu-se a uma retoma do crescimento efetivo, com a pop. residente a aumentar
em aproximadamente 450.000 indivíduos em relação a 1991.
ò Com o saldo natural da década bastante inferior a esse acréscimo (seguindo o
declínio iniciado nas décadas anteriores), um saldo migratório positivo de cerca de
360.000 pessoas desempenhou, por isso, papel fundamental nesta nova fase de
crescimento demográfico.

1.3. O envelhecimento da estrutura etária


· Nos últimos 40 anos, a estrutura etária da população portuguesa alterou-se profundamente.
Esta alteração traduziu-se num envelhecimento demográfico que se caracteriza por:
ò Um peso cada vez maior de indivíduos nas idades mais avançadas
ò Um peso cada vez menor dos indivíduos com idades mais jovens ð Duplo
envelhecimento:
ü Na base da chamada "pirâmide etária" ð Menos jovens
ü No topo ð Mais idosos
ò No início do séc. XXI esta configuração aproxima-se rapidamente de uma pirâmide
etária invertida ð Mais indivíduos acima dos 64 anos do que indivíduos com
menos de 15 anos
ü Indicador desta realidade é o crescimento constante do índice de
envelhecimento da população
· O envelhecimento demográfico é o resultado da evolução estrutural das variáveis fundamentais
da dinâmica natural:
O declínio da natalidade e da fecundidade ð Reduz progressivamente o nº de indivíduos
com menos de 15 anos;
O aumento da esperança média de vida ð Traduz-se na longevidade crescente da
população ð Tem por consequência o crescimento no nº de indivíduos entre as gerações mais
idosas.
· Esta evolução repercute-se, por sua vez, na evolução de outros indicadores sócio-demográficos
relevantes, nomeadamente:
No crescimento da relação de dependência ð Aumenta a percentagem de inativos idosos
em relação à população adulta em idade ativa
Na estrutura do estado civil da população ð Diminui o nº de solteiros (em resultado de um
menor nº de indivíduos em idade de casar) e aumenta o nº de viúvos (em resultado do
incremento da população idosa)
Na morfologia dos agregados familiares ð Diminui a dimensão média da família,
acentuam-se as situações de isolamento familiar (com o aumento relativo dos indivíduos
idosos nas famílias com uma só pessoa) e decresce o peso relativo das famílias mais
numerosas

1.4. Diferenciação territorial das dinâmicas demográficas


· Tanto a dinâmica natural como a dinâmica migratória conheceram, em diferentes regiões, ritmos e
orientações diversas.
· Deste facto, resultam padrões diferenciados do crescimento e do envelhecimento populacionais e
importantes contrastes territoriais da estrutura e do dinamismo demográficos da população

5 Célia Silva
1.4.1.Diferenciações regionais do crescimento populacional
· Predominou em certas regiões a tendência para perder população (mesmo em momentos de
crescimento global positivo), enquanto outras conheceram ganhos populacionais constantes (mesmo
em momentos de crescimento global negativo):
No conjunto dos últimos 40 anos do séc. XX, as regiões do Norte e Centro interiores, o
Alentejo (e também o interior algarvio), caracterizaram-se por decréscimos constantes e
acentuados do nº de habitantes
No sentido inverso, as regiões do litoral continental (com as exceções das regiões Minho-
Lima e do litoral alentejano) conheceram sempre crescimentos populacionais ð Maiores na
região de Lisboa, e menores nas regiões do Porto e do Algarve.
· Dentro dessa marcada assimetria territorial do crescimento demográfico, afirmaram-se
entretanto (especialmente na década de 90) 2 tendências particulares:
O crescimento populacional dos concelhos e freguesias urbanos centrais das regiões
interiores (capitais de distrito ð Viseu, Guarda ou Évora), em contraste com as perdas
acentuadas dos concelhos ou freguesias envolventes;
A perda substancial de populações das cidades de Lisboa e do Porto, em sentido
rigorosamente inverso ao que ocorre nos concelhos periféricos das respetivas áreas
metropolitanas.

1.4.2.Diferenciações regionais do crescimento natural


· As variáveis da dinâmica natural obedeciam, na década de 60, a uma significativa oposição entre
Norte, por um lado, e o Centro e o Sul, por outro
Os concelhos do Norte apresentavam, em geral, índices de natalidade, de fecundidade e taxas
de saldo natural significativamente superiores aos das outras regiões.
· O declínio geral da fecundidade e da natalidade nas décadas subsequentes foi acompanhado por
uma aproximação dos respetivos valores em todos os pontos do país e por um abrandamento geral da
dinâmica natural
Globalmente, as grandes assimetrias regionais do crescimento demográfico que se afirmaram
nesse período, se ficaram a dever principalmente ao comportamento migratório da população
· No Noroeste do continente (espaço territorial cuja população cresceu sempre e uma das mais
povoadas do país) é o crescimento natural que tem assegurado a maior percentagem do
crescimento populacional local ð Notório contraste sócio-demográfico com o resto do país.
· Situação peculiar é também a da Região Autónoma dos Açores, cujas taxas de fecundidade se situam
acima da média nacional.

1.4.3. Contrastes regionais da dinâmica migratória


· Num contexto de abrandamento da dinâmica natural, a parte mais significativa das assimetrias do
crescimento demográfico e das assimetrias de povoamento que delas derivaram, resultou:
Das movimentações geográficas da população
Da diferença entre os saldos migratórios das diferentes regiões do país
· De tal diferença resultou um contraste estrutural entre:
Áreas predominantemente repulsivas de população
ò Norte e Centro Interiores
ü A dinâmica repulsiva concretizou-se tanto através da saída para o estrangeiro
(emigração) como através da deslocação para as regiões mais atrativas do país
(migração interna);
ò Alentejo
ü Onde a emigração foi em geral pouco significativa
ü O intenso êxodo populacional ocorrido concretizou-se sobretudo através da
migração interna para a região de Lisboa;
Áreas predominantemente atrativas de população
ò Litoral, com especial relevo para a Grande Lisboa, o Grande Porto e o Algarve.
ò Os respetivos saldos migratórios positivos começaram por ser, nos anos 60 e 70,
resultado do acolhimento de indivíduos provenientes de outras regiões do país através
da migração interna.
ò Esta dinâmica atrativa foi depois reforçada pela orientação dos principais
movimentos migratórios de origem externa:
ü 2ª metade da década de 70
§ O retorno dos residentes das antigas colónias africanas, fez-se
6 Célia Silva
preferencialmente para o litoral continental, e especialmente para a região
de Lisboa;
ü Imigração
§ Os seus destinos preferenciais (Lisboa, Setúbal, Porto, Aveiro, Algarve)
vieram a ser aqueles que já do ponto de vista interno apresentavam
maiores taxas de crescimento migratório.
· Entretanto, na década de 90, consolidou-se, no interior do país, a capacidade atrativa dos concelhos
centrais e cidades de pequena e média dimensões, especialmente em relação aos migrantes das
regiões rurais envolventes.

1.4.4. Assimetrias regionais da estrutura etária


· Também o envelhecimento demográfico revela disparidades regionais importantes no que se refere
aos seus níveis e ritmos.
· As regiões do interior continental (onde tanto a dinâmica natural como a dinâmica migratória foram
negativas) são as que apresentam os mais elevados índices de envelhecimento.
· No Norte e Centro interiores e no Alentejo concentra-se o maior nº de concelhos em que a % de
população idosa é superior à % de população jovem
· O declínio dos grupos etários mais jovens - envelhecimento na "base" da pirâmide etária - é, em geral,
mais acentuado no Sul por efeito das menores taxas de natalidade e fecundidade.
· No Norte continental e nas regiões insulares, que se caracterizam por uma natalidade mais
elevada, concentra-se a maioria dos concelhos com maiores proporções de população jovem
· Quanto ao aumento do peso dos grupos etários mais idosos - envelhecimento no "topo" da pirâmide
etária - ele é mais acentuado no interior do continente do que no litoral ð Açores (peso de jovens
tem permanecido superior à média do país)
· Situações particulares, que correspondem a importantes diferenciações locais da dinâmica
demográfica:
Em concelhos e cidades centrais do interior que crescem demograficamente (Viseu ou
Évora), ocorrem em geral índices de envelhecimento significativamente inferiores ao das
regiões em que esses concelhos e cidades se incluem;
As cidades de Lisboa e do Porto caracterizam-se por uma estrutura etária muito
envelhecida E índices de envelhecimento superiores aos dos concelhos e cidades
envolventes das respetivas áreas metropolitanas.
ò Facto indissociável da dinâmica negativa que caracteriza a evolução demográfica
dessas duas cidades em relação às suas periferias suburbanas.

1.5. Ocupação e organ ização social do território


· 2 principais vetores estruturantes da ocupação e ordenamento social do território português:
Litoralização do povoamento
ò Reconfiguração da distribuição espacial da população no conjunto do território
Urbanização da população
ò Reconfiguração das formas predominantes de ocupação e de organização do espaço

1.5.1. As assimetrias territoriais do povoamento


· Uma das consequências mais marcantes da conjugação das dinâmicas populacionais regionalmente
diferenciadas foi, nas últimas 4 décadas do séc. XX, o dramático decréscimo da população.
residente nas regiões do interior.
Este declínio populacional traduz-se, em espaços cada vez mais alargados do território, numa
efetiva desertificação demográfica.
· No sentido inverso, acentuou-se a litoralização do povoamento.
Cerca de 80% da população do país concentra-se, no início do séc. XXI, numa estreita faixa
litoral do continente
Dessa população concentrada no litoral, cerca de metade, por sua vez, reside nas áreas
Metropolitanas de Lisboa e do Porto, o que acentua ainda mais a tendência para a
concentração populacional em espaços muito limitados do território.
· Nos anos 90, esta tendência reforçou-se com a consolidação da capacidade de atração e de fixação de
população por parte das cidades e dos concelhos centrais do interior ð desertificação ainda mais
acentuada das áreas rurais envolventes

7 Célia Silva
1.5.2. Concentração pipulacional e urbanização
· 1960
Apenas 1/3 dos portugueses vivia em localidades com mais de 2.000 habitantes;
· 1991
Essa proporção era de 2/3.
· Os maiores aumentos populacionais verificaram-se nos aglomerados com mais de 10.000 habitantes
· Os maiores decréscimos verificaram-se na população isolada e nos aglomerados com menos de 100
habitantes.

a) Estrutura e tendências do sistema urbano


· O sistema urbano português é caracterizado pela bipolarização (Norte/Sul; Litoral/Interior;
Grande/Pequeno) e macrocefalia (fenómeno que consiste na existência de uma rede de centros
urbanos muito desequilibrada em quantidade de população, num pais, estado ou região, ou seja,
uma rede onde há grandes cidades e faltam cidades de média dimensão) em torno de:
2 núcleos de grande dimensão ð Definidos pelas aglomerações urbanas de Lisboa e Porto;
Um pequeno nº de cidades de média dimensão ð 100.000 habitantes (Braga, Funchal e
Coimbra)
Um grande nº de aglomerações urbanas de pequena dimensão ð Com mais de 10.000
habitantes.
· Como tendências estruturantes dos processos e intensidade de urbanização nas últimas décadas
do séc. XX, destacam-se:
A acentuada concentração da rede urbana no litoral do continente ð Aprofundando a
assimetria entre litoral e interior
O crescimento dos centros urbanos de pequena e média dimensão situados nas regiões
predominantemente rurais do interior
O abrandamento progressivo do ritmo de crescimento das Áreas Metropolitanas de Lisboa e
Porto (após o crescimento explosivo nos anos 60/70)

b) Processos e formas da urbanização


· Os processos que conduziram à expansão e estruturação da rede urbana, após 1960, têm sido
fundamentalmente de 2 tipos:
Urbanização por concentração
ò Crescimento de aglomerações urbanas já existentes à custa do esvaziamento de
áreas ou regiões envolventes
ü Anos 60/70 ð Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto
ü Após os anos 80 ð Pequenas e médias cidades do interior (sedes de distrito e
de concelho que progressivamente absorvem a pop. resultante do esvaziamento
das zonas rurais próximas)
Urbanização difusa
ò Crescimento espacialmente contínuo de aglomerações confinantes ð É a forma
atualmente predominante de expansão da rede urbana nas regiões do Norte e Centro
litorais, no Algarve e em algumas zonas do interior.
· O incremento da concentração urbana tem sido acompanhado pela agudização de problemas na
ordenação física e humana do espaço urbano, com reflexos negativos na qualidade de vida das
populações (Lisboa e Porto). Esses problemas podem ser enquadrados em 3 categorias
fundamentais:
Declínio da função residencial dos centros históricos das cidades (desertificação e
envelhecimento demográficos), bem como de degradação do parque habitacional e dos
equipamentos sociais;
Crescimento e expansão pouco ordenada e equilibrada das concentrações suburbanas,
nem sempre providas de suficientes infraestruturas técnicas e sociais e com deficientes
condições de vivência coletiva;
Crescente congestionamento do trânsito, associado ao crescimento do parque automóvel,
aos movimentos pendulares habitação/emprego ou ainda à concentração de grandes centros
de comércio e de lazer em torno de eixos principais de circulação.

8 Célia Silva
1.5.3. Assimetrias recentes do ordenamento social do território
· Durante séculos, por razões históricas e geográficas, a principal clivagem territorial em Portugal foi a
que opôs, num país predominantemente rural, o Norte Atlântico ao Sul Mediterrânico, grandes
pólos territoriais demarcados por:
Diferenças da paisagem
Formas de exploração agrícola
Tradições culturais
Dinâmica demográfica
Formas de povoamento.
· Os processos de modernização demográfica e social, encetados na década de 60, impuseram como
novo contraste determinante aquele que opõe o litoral ao interior, espaços contíguos e transversais
demarcados entre si por graus opostos de:
Dinamismo
Concentração populacional
Acessibilidade
Desenvolvimento humano.
· À entrada do séc. XXI os seguintes fenómenos apontam para a emergência de uma nova
estrutura, mais fragmentada, de assimetria territorial:
Estagnação da capacidade de atração das áreas de Lisboa e Porto
Crescimento de pólos urbanos de média dimensão (que, no interior, tendem cada vez mais a
absorver a população dos espaços rurais envolventes)
Atravessamento do país por redes de comunicação rápida
· A principal oposição parece, cada vez mais, confrontar:
Pólos urbanos de extensão e densidade variável disseminados por todo o território do país
(associados entre si pelos grandes eixos de transporte, de comunicação e de informação)
Vastos espaços intersticiais de muito baixa densidade demográfica

Esta topologia emergente, caracterizada por uma "configuração em arquipélago", tende a


traduzir-se numa recomposição territorial das fronteiras de inclusão e de
marginalização das populações (Exemplos: encerramentos de escolas, postos de saúde, em
áreas de baixa densidade domográfica)

9 Célia Silva
DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO E SOCIAL

2.1. Crescimento e estrutura da economia


· 1960
Correspondiam uma situação de subdesenvolvimento caracterizada por:
ª Elevada taxa de ocupação na agricultura
ª Tecido industrial limitado e fundado em grandes unidades com baixo grau de
modernização tecnológica
ª Rendimento por habitante equivalente a 1/3 do que então se verificava nos países
europeus mais desenvolvidos
ª Baixo nível médio de vida da população
No plano da política económica ð Orientações fundamentais da doutrina
"corporativista" do Estado Novo:
ª Controlo estatal da economia
ª Protecionismo e limitação das trocas com o estrangeiro
ª Condicionamento da industrialização
ª Limitações da concorrência
ª Favorecimento de situações de monopólio e de oligopólio nos setores dominantes da
atividade.
· Décadas subsequentes
A economia portuguesa conheceu uma significativa dinâmica de:
ª Modernização e de crescimento económicos
ª Reorganização profunda da estrutura das atividades económicas e do emprego.
Contudo, continuam a persistir algumas vulnerabilidades estruturais (especialmente as
que respeitam à estrutura de emprego, à produtividade e à qualificação dos recursos humanos)
que, cumulativamente, contribuem para a posição ainda desfavorável e semiperiférica do
país no contexto do espaço económico europeu em que se integra.

2.1.1. Tendências e fatores do crescimento económico


· Década de 60
Crescimento económico que permitiu até ao presente a quase quadruplicação do PIB per
capita (indicador do valor médio, por habitante, do total do rendimento produzido num
determinado país ou numa determinada região) e uma aproximação deste aos níveis médios
das economias europeias.
ª Para esta evolução contribuíram transformações substanciais nas condições e na
organização da atividade económica:
Abertura ao exterior da economia portuguesa
ª Liberalização nas relações económicas externas de que foram expressão:
ü O crescimento do investimento estrangeiro
ü O desenvolvimento do turismo
ü A integração da mão de obra portuguesa no novo mercado internacional do
trabalho através da emigração.
ª Esta abertura conduziu uma progressiva integração no espaço económico europeu:
ü Foi intensificada pelo encerramento do ciclo colonial na sequência do 25 de
Abril de 1974
ü Culminou, na década de 80, com a adesão à Comunidade Económica Europeia
(CEE).
Alterações na estrutura de produção e do emprego
ª Cujo perfil se tornou progressivamente mais próximo daquele que é característico das
economias mais desenvolvidas:
ü Diminuição do nº de ativos na agricultura e da participação no setor primário do
PIB
ü Maior peso relativo do setor secundário
ü Crescimento acentuado do setor terciário
· À parte deste crescimento, Portugal tem-se mantido, juntamente com a Grécia, entre os países da
União Europeia com o mais baixo produto per capita.
Todavia, entre os chamados "países da coesão" (conjunto de países menos desenvolvidos da
UE, beneficiários de transferências financeiras de ajuda ao desenvolvimento designados

10 Célia Silva
"fundos de coesão"), é também o que, logo a seguir à Irlanda, tem apresentado maior ritmo de
crescimento.

2.1.2. A ”terciarização” da estrutura sectorial da economia


· A partir de 1960 assistiu-se a uma transformação na estrutura das atividades económicas tanto no
que diz respeito à participação dos diferentes setores no produto nacional como no emprego por eles
absorvido.
· Esta transformação correspondeu ao padrão típico de evolução estrutural associada aos
processos de desenvolvimento económico, caracterizado por:
Uma queda da importância proporcional da agricultura e pescas (setor primário)
Um incremento da indústria e transportes (setor secundário)
Uma expansão acentuada dos serviços e do comércio (setor terciário)
· Numa análise da estrutura e da dinâmica mais recentes de cada um dos setores, podem reter-se
os seguintes aspetos relevantes:
Setor primário
ª Diminuição constante e acentuada da população empregada neste setor
ü Esta proporção de emprego continua a ser superior à média dos países da União
Europeia.
ª Predominância de pequenas e muito pequenas explorações ð Explorações
baseadas em modos de produção tradicionais e explorações utilizadas como fonte
de complemento dos rendimentos.
ü Algumas análises sociológicas da sociedade portuguesa contemporânea têm
ressaltado o importante papel dos rendimentos das pequenas explorações
agrícolas familiares numa sociedade "semiperiférica", como a portuguesa,
onde parte significativa do desenvolvimento industrial se articulou com baixos
custos e baixa qualificação de mão de obra.
ª Produtividade
ü Situam-se, consequentemente, entre os mais baixos da U.E., e os rendimentos
médios são muito inferiores aos dos outros setores.
ª Emprego
ü Significativamente influenciado pela presença de mulheres e de reformados
§ A redução da população ativa na agricultura tem-se feito à custa dos
indivíduos mais jovens e qualificados ð Produtores individuais
familiares, com estrutura etária envelhecida e de baixo nível de
instrução
Setor secundário
ª 1960-1973
ü Fase de grande expansão industrial associada ao crescimento do mercado
interno e à expansão da procura internacional num quadro de abertura ao
exterior.
ª A partir da década de 70
ü Predomínio de setores tradicionais (têxteis,calçado) baseados em pequenas e
muito pequenas empresas (muitas vezes de caráter familiar) fez com que a
competitividade da indústria portuguesa assentasse mais no
aproveitamento de oportunidades de exportação dependentes das
conjunturas externas do que na modernização tecnológica e organizativa.
ª A seguir a 1974 e anos 80
ü Uma conjuntura económica internacional muito desfavorável (com efeitos
negativos tanto na procura interna como externa) e os impactos da integração
europeia fizeram emergir as dificuldades de adaptação duma estrutura
industrial caracterizada por um declínio de produtividade ð População
empregada pouco qualificada e insuficiente inovação tecnológica
ª Emprego
ü Tem diminuído proporcionalmente em relação ao emprego no setor dos serviços
Setor terciário
ª Conheceu o crescimento mais significativo nas décadas posteriores a 1960
(população empregada e sua contribuição para a riqueza nacional):
ü Os ativos neste setor ultrapassam hoje os 50% da população ativa total e a
respetiva contribuição para o produto nacional supera a contribuição conjunta
11 Célia Silva
dos setores primário e secundário.
ü O maior crescimento ocorreu nos subsetores mais dinamizados pela expansão
económica global (serviços financeiros, transportes e comunicações, hotelaria,
serviços prestados às empresas e serviços comercializáveis);
ü Declinaram os serviços associados a estádios de menor desenvolvimento
económico e social (serviços domésticos).
ª Emprego
ü O crescimento mais acentuado registou-se nos serviços públicos
§ Resultado da expansão das competências e das responsabilidades sociais
que foram assumidas pelo Estado central e local (educação, saúde, etc).
· Verifica-se assim que a alteração da estrutura sectorial da economia portuguesa se inclina para
uma acentuada terciarização
Fenómeno dominante nas sociedades economicamente mais desenvolvidas.
· No entanto, certas características deste processo no caso português fazem com que ele não
traduza por si só uma real convergência com as economias avançadas:
O peso do setor terciário está ainda significativamente abaixo do que se encontra nos países
mais prósperos;
O peso do emprego no setor primário continua a ser relativamente elevado e o declínio
verificado não é acompanhado por aumentos muito acentuados da produtividade agrícola;
Uma industrialização tardia e com predominância em setores insuficientemente modernizados,
não proporciona condições para uma maior diversificação e modernização dos setores dos
serviços, como aconteceu nas economias fortemente industrializadas.

2.1.3. Implantação e diferenciação regionais da atividade económica


· A evolução da estrutura e do crescimento económicos não ocorreu de forma homogénea no conjunto
do território do país.
Essa evolução foi acompanhada pela acentuação de contrastes significativos entre as diferentes
regiões, tanto no que respeita à estrutura das atividades económicas nelas implantadas como
ao seu contributo relativo para o produto nacional.
· Quanto à repartição territorial dos grandes setores da atividade económica, ela tem-se
caracterizado pelas seguintes orientações:
Setor primário
ª A sua contribuição para o emprego e para a riqueza nacional tem tendência para se
reduzir em todas as regiões.
ª Areas onde o seu papel económico é mais significativo
ü Aquelas onde a maior dimensão das explorações e/ou a modernização das
formas de produção favorecem as empresas agrícolas e agroalimentares
orientadas para o mercado ð Áreas do Douro, Centro Litoral, Lezíria do Tejo
ª Nas regiões do Norte, Centro interiores e Açores predominam as pequenas
explorações baseadas em formas antigas de produção e orientadas sobretudo para o
autoconsumo e/ou para o complemento dos rendimentos.
Setor secundário
ª A região Norte (especialmente no litoral) é aquela onde a atividade industrial tem o
maior contributo económico em termos nacionais, bem como onde o seu peso
relativo supera o dos outros setores.
ü Quase 80% do rendimento produzido por este setor tem a sua origem nas sub-
regiões litorais entre o Minho e a Península de Setúbal (Grande Lisboa, Grande
Porto, Vale do Ave e Setúbal, representam, por si sós, 50%).
Setor terciário
ª A região de Lisboa e Vale do Tejo é aquela que lidera os valores de emprego
(próximo dos 50%) e de riqueza (próxima dos 40%) produzidos pelo setor dos
serviços e a única em que o peso económico deste supera o das outras atividades.
ü Grande Lisboa, seguida de Grande Porto, Península de Setúbal, Algarve e
Madeira são as sub-regiões onde é mais significativo o peso económico deste
setor (o que no caso das 2 últimas sub-regiões se articula com o peso que nelas
tem a atividade turística).
ü Nas cidades do interior, o setor dos serviços predomina também, mais à custa
das atividades associadas aos setores da administração pública, da saúde,

12 Célia Silva
dos serviços sociais e do ensino (funções de responsabilidade) e menos das
funções de enriquecimento (setor financeiro, comércio, turismo, etc), criação
e transmissão (investigação, transportes, telecomunicações).
ª Quanto à repartição do dinamismo económico e do produto gerado, as
disparidades regionais são igualmente apreciáveis e caracterizam-se pelas
seguintes tendências:
ü Apenas as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Algarve têm apresentado um
nível de PIB per capita superior ao da média nacional
ü Perspetiva territorial mais discriminada
§ 2 sub-regiões - Grande Lisboa e Grande Porto, que concentram 35% da
população portuguesa - representam, por si sós, quase 50% da atividade
económica, e absorvem, em conjunto, aproximadamente 40% do
emprego nacional;
ü Perspetiva global do território
§ Verifica-se uma concentração da produção e do emprego na faixa litoral
entre Viana do Castelo e Setúbal, com prolongamento num segmento
estreito do litoral algarvio

2.1.4. Estrutura e caraterísticas do sistema de emprego


· Principais debilidades da economia portuguesa
Baixa qualificação média da população ativa
Forte intensidade de mão de obra
Baixos salários médios.

Qualificação da população ativa


· Em comparação com os países da U.E., Portugal é ainda o país com:
A proporção mais elevada de emprego com nível educativo baixo (escolaridade mínima);
Proporção mais baixa de emprego com nível educativo intermédio (ensino secundário e
médio);
Uma das menores proporções de trabalhadores detentores de formação superior.

Emprego masculino e feminino


· Acentuado crescimento da taxa de atividade feminina
· Mulheres ocupam em média uma posição mais desfavorável na estrutura do emprego
· A população ativa feminina caracteriza-se por:
Maior concentração em atividades tradicionais menos remuneradas (nomeadamente na
agricultura) e menor peso que o dos homens nos empregos mais qualificados;
Maior vulnerabilidade ao desemprego
Menores salários médios que os dos homens.

Desemprego
· A partir da década de 80
O desemprego em Portugal acompanhou a evolução nos países da U.E., mas sempre a níveis
mais baixos.
Razões para esse nível mais baixo de desemprego podem ser encontradas:
ª Baixa modernização tecnológica do tecido produtivo (que assim assenta num maior
recurso à mão de obra disponível);
ª Maior limitação legal aos despedimentos em Portugal (razão pela qual os ajustamentos
em tempo de crise se terão feito menos pelo aumento do desemprego e mais pelo
abaixamento dos salários reais).
· Na atualidade
As principais tendências estruturais do desemprego em Portugal são:
ª Elevada taxa de desemprego jovem
ª Elevada taxa e peso proporcional do desemprego das mulheres
ª Crescimento do desemprego de longa duração e do desemprego nos grupos etários
mais idosos.

13 Célia Silva
Mutações e tendências recentes do sistema de emprego
· As transformações mais recentes da economia têm, entretanto, induzido transformações
estruturais dos sistema de emprego com significativo impacto social, nomeadamente:
Desajustamentos qualitativos entre a oferta e a procura de trabalho, com especial relevância
no caso dos jovens (aumento de diplomados desempregados ou empregados em atividades
com requisitos abaixo das suas habilitações)
Acréscimo de formas "atípicas" e precárias de trabalho (aumento do trabalho por conta
própria, aumento dos trabalhadores contratados a termo)
Alterações na duração média do trabalho, nomeadamente com o acréscimo de
trabalhadores a tempo parcial
Taxas de desemprego mais elevadas entre os detentores de níveis de qualificação intermédia
como o 2º e 3º Ciclos (com as menores taxas de desemprego entre os trabalhadores com níveis
de qualificação mais baixos (1º Ciclo) refletindo, afinal, o também menor grau de qualificação
média exigida pela economia portuguesa).

2.2. Desenvolvimento humano e social


· 1960
Todos os indicadores básicos de desenvolvimento humano (Esperança média de vida, nível
educacional e nível de rendimento da população) em Portugal denotavam profundos atrasos
em relação ao nível médio europeu.
ª Organização social acentuadamente dualista, marcada pelo fosso entre um limitado e
concentrado setor urbano (praticamente confinado a Lisboa e, em muito menor grau,
ao Porto, com padrões de vida e de escolarização mais elevados, mas
demograficamente minoritário)
ª Uma vasta componente rural (demograficamente dominante e com acentuados
défices na qualidade de vida e qualificação da população)
O desenvolvimento humano distingue e articula 2 faces:
ª Formação de capacidades tais como a saúde e o conhecimento
ª Uso que as pessoas fazem das suas capacidades tanto no trabalho como no lazer.
· Últimas 4 décadas do séc. 20:
Caraterizaram-se por:
ª Evolução positiva dos indicadores de desenvolvimento social e humano
ª Melhoria da posição relativa do país no contexto internacional.
ª Redução das assimetrias internas, nomeadamente entre as diversas regiões do país.
ª Emergência de novas formas e fronteiras de desigualdade social associadas às tensões
e desequilíbrios da evolução económica, profissional, demográfica e urbana.
Os Relatórios do Desenvolvimento Humano (1990) têm situado Portugal no grupo dos países
com “desenvolvimento humano elevado” (embora ainda atrás de muitos países europeus)
Continuam, no entanto, a verificar-se disparidades importantes nas condições de vida de que
podem dispor cidadãos portugueses que vivam em diferentes áreas do território nacional.

2.2.1. Fatores da evolução do desenvolvimento humano e social

Crescimento económico
· O crescimento económico alarga a base de recursos materiais disponíveis para a satisfação das
necessidades humanas.
· Crescimento do PIB, devido:
Processos de modernização
Abertura económica
· O crescimento do rendimento nacional estreitou o fosso entre o nível e qualidade de vida médios dos
portugueses e os dos outros povos europeus (a persistência de disparidades importantes não deixa de
ser resultado das vulnerabilidades e dos atrasos da economia nacional em relação à dos países
economicamente mais desenvolvidos).
Políticas sociais do Estado
· O crescimento do rendimento nacional não se reflete numa evolução correspondente do
desenvolvimento social e humano.
Um dos fatores condicionantes dessa relação são as políticas do Estado, cujas opções e ações
influenciam o modelo de crescimento e a política de distribuição dos recursos que resultam
14 Célia Silva
do desenvolvimento económico
· Indicadores das opções do Estado nesta matéria são:
Rácio da Despesa Pública
ò Parte do rendimento nacional que, por via dos impostos, é afetada a despesas do
Estado;
Taxa de afetação social
ò Parte da despesa pública que é investida em setores sociais como a educação, a saúde
ou a proteção social.
· Em Portugal, a intervenção social do Estado caracteriza-se por uma política de fornecimento de bens
e de serviços públicos orientada para a cobertura de toda a população
Esta orientação consolidou-se, depois do 25 de Abril de 1974:
ò Pela consagração jurídica do princípio da universalidade e gratuitidade do acesso à
maioria dos bens e serviços públicos fundamentais (que assim passaram a ser
reconhecidos como direitos sociais);
ò Pelo crescimento constante da despesa pública com os respetivos setores.
· Instituiu-se assim em Portugal um Estado-providência a cuja ação se deve parte importante da
evolução positiva dos indicadores de desenvolvimento humano nas últimas décadas do séc. XX.
· Contudo, os atrasos de partida, o caráter semiperiférico e a inferior produtividade da economia
portuguesa tendem a traduzir-se na insuficiência dos recursos do Estado face à ampliação das suas
responsabilidades sociais e, por isso na debilidade quantitativa e qualitativa de algumas das
contribuições e serviços prestados.
Esta situação torna especialmente agudas em Portugal as dúvidas (e a consequente
controvérsia política) - também suscitadas nos países desenvolvidos em que mais cedo se
instituiu o chamado Welfare State ("Estado-providência" ou "Estado de bem- estar")
Quanto à sustentabilidade financeira desse modelo (face a uma população com um dos mais
baixos rendimentos per capita da U.E), as prestações e os gastos sociais nunca chegaram
sequer a atingir níveis quantitativos e qualitativos comparáveis aos daqueles países.

2.2.2. Indicadores de desenvolvimento social e humano

Saúde
· A evolução das condições de saúde dos portugueses pode ser avaliada pelo comportamento dos
seguintes indicadores fundamentais:
Taxa de mortalidade infantil
ò Apesar da queda generalizada neste indicador, têm persistido assimetrias regionais,
com as áreas do interior Norte e Centro e dos Açores situando-se significativamente
acima da média nacional;
Esperança média de vida
ò Apresenta um crescimento constante, mas com valores ainda inferiores à média dos
países da U.E.
· Do ponto de vista dos cuidados de saúde, esta evolução pode ser associada:
À expansão da assistência materno-infantil (nomeadamente ao crescimento do nº de partos
medicamente assistidos)
À universalização dos programas de vacinação
À expansão da oferta e da procura de serviços de saúde (crescimento do nº de profissionais e
estabelecimentos, crescimento do recurso aos estabelecimentos de saúde).
O principal agente do sistema de saúde português é o Serviço Nacional de Saúde,
implementado depois de 1979
ò Sistema público que concentra a maioria das entidades prestadoras e dos profissionais
Apesar da cobertura nacional da rede de unidades de saúde, a distribuição dos recursos
físicos e humanos apresenta significativas disparidades regionais (com vantagem para os
maiores centros urbanos do litoral).
Quanto ao financiamento das despesas com a saúde, a componente pública do
financiamento tem sido a mais baixa dos países da U.E. (sendo a taxa de participação
privada - maioritariamente das famílias - a mais elevada).
De notar porém que:
ò A percentagem da despesa pública com a saúde permanece inferior à média dos países
da OCDE
ò Em Portugal, em relação àqueles países, a política de saúde tem privilegiado as
15 Célia Silva
transferências monetárias a título de compensação dos orçamentos familiares
(especialmente na comparticipação em medicamentos) em detrimento do investimento
em serviços e equipamentos.

Proteção Social
· Em Portugal, a Segurança Social assegura a atribuição de prestações monetárias aos indivíduos e
agregados elegíveis para compensação devido à ocorrência de eventualidades adversas.
· Desde 1960
Assistiu-se a um alargamento dos mecanismos de proteção social:
ò Tanto na dimensão pessoal ð Integração constante de novos beneficiários até ao
ponto duma verdadeira universalização do sistema durante os anos 80;
ò Como na dimensão material ð traduzida na diversificação das eventualidades e
situações cobertas.
· Dois problemas interdependentes caracterizam o sistema de segurança em Portugal:
O facto das prestações serem, em média, muito baixas;
O facto do crescimento das despesas resultantes da expansão e universalização das
prestações, não ser acompanhado por um crescimento correspondente das receitas
provenientes das contribuições sociais ð desfasamento que tem sido crescentemente
compensado pelo financiamento do sistema através do Orçamento do Estado.
ò Esta situação de insuficiência pode ser imputada a vários fatores de natureza
demográfica e económica, tais como:
ü O facto de muitos pensionistas que beneficiaram da universalização do sistema
não terem tido uma carreira contributiva;
ü O aumento constante da percentagem de pensionistas reformados em relação ao
nº de contribuintes ativos (resultado do abaixamento da natalidade e do aumento
da esperança média de vida);
ü A persistência de um desemprego estrutural que se reflete tanto no aumento dos
encargos como na diminuição da base contributiva.

Educação
· Década de 60
Portugal detinha uma das mais altas taxas de analfabetismo da Europa (30%).
Só 1/3 da população frequentara a escolaridade básica e menos de 1% tinha um diploma do
ensino médio ou superior.
· Décadas seguintes
Foram marcadas pela generalização da escolaridade obrigatória
Marcadas pela expansão do acesso ao ensino secundário e superior ð Teve como
consequência o aumento do nº de cidadãos que dispõe dum grau de instrução formal.
· Contudo, continuam a persistir grandes fragilidades, comparativamente a outros países da UE:
Mais de ¾ da população tem como habilitação máxima o nível de ensino básico (% superior à
de todos os países da UE)
Baixo peso da população habilitada com o ensino secundário ou ensino superior;
Mais baixa taxa de frequência do ensino pré-escolar;
Mais elevada taxa de analfabetismo (10,3% em 1997).
· Um indicador que ganha importância com o declínio do analfabetismo é o de literacia (capacidade
para utilizar efetivamente as capacidades de leitura e de cálculo nas situações da vida quotidiana)
O perfil geral da literacia no país é bastante fraco, o que denota:
ò O grande atraso histórico da escolarização
ò O baixo nível de competências requerido por um sistema económico onde
predominam os lugares profissionais de baixa qualificação.
· Últimas décadas do séc. XX
Alteração profunda na composição da população escolar segundo os sexos, com especial
relevância no ensino superior.
ò A taxa de mulheres a frequentarem este nível de ensino é atualmente superior à dos
homens
ò Nos grupos etários mais jovens, os diplomados do ensino universitário são
maioritariamente de sexo feminino.

16 Célia Silva
Cultura
· A evolução e a situação do nível cultural dos portugueses apresentam naturais homologias com as de
nível educacional
Um constante progresso não diluiu, no final do séc. XX, o efeito dos profundos atrasos de
partida em relação aos países mais desenvolvidos da Europa.
· Os indicadores como a prática de leitura, a visita a museus, a frequência de espetáculos culturais
permanecem baixos e revelam marcadas assimetrias regionais e sociais ð concentração dos
valores mais altos em Lisboa e Porto e entre os grupos sociais de mais alto nível económico

Conforto e bem-estar
· Habitação e características dos alojamentos
A evolução do parque habitacional edificado se tem em geral caracterizado por um
rejuvenescimento (mais nítido na Região de Lisboa e Vale do Tejo. menos nítido no Alentejo)
As principais carências em termos de qualidade habitacional situam-se sobretudo em 2 tipos
de espaços:
ò Nas zonas periféricas das maiores cidades
ü Habitadas predominantemente por famílias de escassos recursos ð Condições
ambientais degradadas e alojamentos de precária qualidade material
ò Nas zonas dos centros históricos das cidades
ü Habitadas por uma população envelhecida ð Predominam as rendas muito
baixas e o mau estado de conservação dos imóveis antigos.
A atenuação daquelas situações tem resultado sobretudo da intervenção pública, através de:
ò Promoção de sistemas de crédito e de poupança para a aquisição de casa própria;
ò Incentivos à construção de novos fogos para a venda a preços acessíveis;
ò Programas de realojamento em habitação de custos controlados ou de recuperação do
parque habitacional.
· Condições básicas de conforto dos alojamentos
Evolução profundamente positiva
Disponibilidade de água canalizada e instalações de banho, acesso à rede elétrica
ò Caracterizou-se pela aproximação a taxas de cobertura próximas dos 90 ou 100%.
ò Contudo, as condições básicas de alojamento continuam a ser mais favoráveis na
região de Lisboa, e ainda nos aglomerados com 10.000 e mais habitantes.
· Disponibilidade de bens de equipamento
Acesso da maioria da população a bens de equipamento individuais associados à melhoria das
condições básicas de vida (aquecimento, frigorífico, arca congeladora, máquina de lavar
roupa, telefone, automóvel)
A disponibilidade de equipamento de introdução mais recentes (por ex, micro-ondas)
desenvolve-se rapidamente, o mesmo se passando relativamente a bens relacionados com a
cultura ou a distração (alta-fidelidade, vídeo, computador, etc)
ò Evolução mais rápida ð Região de Lisboa e Vale do Tejo (menos envelhecidas
demograficamente)
ò Evolução menos favorável ð Regiões Centro e Alentejo

Rendimento e níveis de vida


· Trabalho ð Persiste como a principal fonte de rendimento dos agregados portugueses
· Receitas resultantes de "transferências periódicas" (pensões de reforma) ð Tendem a subir (o
que se associa ao facto de aumentarem os agregados familiares cujo representante é "reformado")
· Despesas das famílias ð O decréscimo continuado da proporção da despesa com a alimentação, deve
ser tomado como indicador do desenvolvimento positivo das condições médias de vida.

2.2.3. Desigualdades e assimetrias do desenvolvimento económico -social

Disparidades sociais do rendimento


· No quadro da UE, Portugal apresenta atualmente um dos maiores graus de desigualdade na
distribuição dos rendimentos.
· Fatores potenciadores do crescimento das desigualdades no rendimento:
A diminuição do peso dos ordenados e dos salários no conjunto do rendimento nacional;
O alargamento da disparidade entre os salários dos quadros superiores e dos trabalhadores não
qualificados;
17 Célia Silva
A persistência dum desemprego estrutural;
· Abaixo da média nacional situam-se:
Receitas dos produtores e assalariados agrícolas (associados à degradação tendencial dos
rendimentos e ganhos no setor agrícola)
Receitas dos inativos (denotam as insuficiências do valor médio das prestações sociais)

Situação menos favorável relativamente aos benefícios do desenvolvimento económico e a


sua maior vulnerabilidade a situações de privação económica e social
· Muito acima da média nacional situam-se
Os rendimentos dos quadros superiores e dos profissionais liberais

Pobreza e exclusão social


· Portugal caracterizava-se também, pela mais elevada taxa de pobreza face aos países da UE.
· Década de 90
Entre 20 e 25% dos agregados ou indivíduos teve rendimento inferior ao definido pelo limiar
de pobreza ð Menos de 50% do rendimento mensal médio da população
As regiões do Alentejo e Centro são as que apresentam maior incidência de pobreza.
Todavia, a região de Lisboa e Vale do Tejo, atendendo à sua dimensão populacional e ao seu
dinamismo económico, tem uma concentração de 1/3 de todas as famílias pobres do país
· Para o peso dos grupos, cujas características sociais herdadas ou adquiridas os tendem a excluir
preferencialmente dos benefícios do desenvolvimento, contribuem:
A inércia dos atrasos e das debilidades estruturais do país (baixo nível educacional médio ou o
fraco valor das prestações sociais);
Efeitos das grandes mutações sócio-demográficas dos últimos 40 anos (envelhecimento
demográfico, peso crescente dos grupos etários idosos, a concentração populacional nos
subúrbios das grandes cidades, a imigração, etc).
· Os inquéritos disponíveis mostram que a incidência da pobreza é mais acentuada entre:
As famílias de isolados e de idosos;
Os agregados que dependem de pensões como principal fonte de receita;
As famílias monoparentais representadas por mulheres;
As famílias cujo representante tem baixo nível de escolaridade;
Os indivíduos que trabalham por conta própria (em setores informais ou mal remunerados) ou
se encontram em situações de trabalho precário e clandestino;
Os indivíduos que tiveram uma entrada precoce no mercado de trabalho (menos de 14 anos);
Os indivíduos pertencentes a minorias étnico-culturais.
· Níveis elevados de pobreza e de privação nas condições básicas de vida, traduzem-se, em situações
de marginalização e de exclusão sociais (mais notória nas principais concentrações urbanas)
Esta associação é agravada pelo facto da exclusão económica interagir quase sempre com
exclusões de origem:
ò Social ð Resultante da rutura de laços familiares ou do desemprego;
ò Cultural ð Resultante duma identidade étnica minoritária ou estigmatizada;
ò Patológica ð Resultante de comportamentos autodestrutivos como o alcoolismo ou a
toxicodependência
· Consequência das grandes mutações sócio-demográficas (envelhecimento, declínio da família
alargada e o crescimento das situações de isolamento):
O declínio da "sociedade- providência"
ò Sistema de solidariedades e de apoios informais assegurados por redes densas e
alargadas de natureza familiar e comunitária que compensavam os baixos níveis de
desenvolvimento geral e a ausência dum Estado-providência vocacionado para a
regulação dos desequilíbrios e assimetrias sociais.
ò A progressiva diluição e mesmo desaparecimento (desertificação dos espaços
rurais, de concentração urbana, de atomização e isolamento familiares crescentes)
dessas redes de proteção informal e as insuficiências dum Estado- providência
tardio e incipiente, potenciam ainda mais as perspetivas de exclusão social dos
grupos económica e socialmente mais vulneráveis

18 Célia Silva
Disparidades regionais do desenvolvimento económico-social
· A evolução globalmente positiva dos diversos indicadores de desenvolvimento humano e social da
população portuguesa nas últimas 4 décadas do séc. XX, foi acompanhada por uma atenuação das
disparidades regionais relativamente às condições desse desenvolvimento (traduzida numa maior
aproximação de todas as regiões em relação á média do país).
Uma parte significativa da atenuação desses contrastes no que respeita aos níveis de
desenvolvimento humano e social, pode ser imputada às:
ò "Transferências de redistribuição" ð Processo em larga medida determinado por
políticas distributivas do Estado central, as quais (através, por ex, das prestações
sociais, das transferências de impostos para a administração local ou dos
investimentos em infraestruturas), asseguram uma canalização de parte dos recursos
públicos para as regiões menos desenvolvidas
· Década de 90
Tendência para a diminuição da dispersão dos rendimentos dos agregados familiares das
diferentes regiões em relação à média nacional.
ò Para tal tem contribuído de forma crucial o crescimento acentuado das regiões
autónomas dos Açores e da Madeira (nível de rendimento médio mais baixo)
Persistência dum desequilíbrio marcadamente favorável na região Lisboa e Vale do Tejo no
que respeita à distribuição espacial do rendimento (devido a situar-se sempre acima da média
nacional)
· Uma perspetiva mais completa e integrada da evolução comparativa do grau de desenvolvimento
humano das diferentes regiões do país é a que fornece o Índice de Desenvolvimento Económico-
Social (IDES), construído pela ponderação de 4 indicadores:
Nível de longevidade ð Definido pela esperança média de vida
Nível de educação ð Definido pela taxa de alfabetização
Nível de conforto ð Definido pela cobertura de água, eletricidade e instalações sanitárias
Nível de vida ð Definido pelo PIB.
· A nota mais marcante dessa evolução ao longo dos últimos 40 anos do séc. XX, foi, o esbatimento
das assimetrias regionais mais profundas do desenvolvimento humano em Portugal
Se se considerarem 3 grandes níveis de desenvolvimento medidos pelo IDES:
Regiões mais desenvolvidas,
Regiões de desenvolvimento intermédio
Regiões menos desenvolvidas
a análise da evolução da situação e da posição relativas das grandes regiões do país depois de
1970 mostra, ao mesmo tempo:
ò A evolução positiva de todas as grandes regiões
ò A permanência da posição especialmente privilegiada da Região de Lisboa e Vale do
Tejo, à qual se juntou, nos anos 90, a Região do Algarve.
· Entrada séc. XXI
Liderança do IDES por parte dos concelhos que integram a Grande Lisboa e, em menor grau,
o Grande Porto.
Os índices mais elevados de desenvolvimento humano (IDH) concentram-se em concelhos
do litoral, enquanto a grande maioria dos concelhos localizados no interior do Continente, no
Alentejo e na Madeira registam os níveis mais baixos.

19 Célia Silva
MORFOLOGIA E DINÂMICAS DA ESTRUTURA SOCIAL
· A modernização das estruturas sócio-demográfica e sócio-económica foi naturalmente acompanhada
por alterações importantes na composição social da população portuguesa.
· Quanto ao desenvolvimento económico e à reestruturação das atividades produtivas eles implicaram
uma reestruturação da estrutura profissional e ocupacional.
· Esta deslocação determinou uma recomposição significativa da estrutura de classes da sociedade
Portuguesa:
Declínio de categorias sociais cujas práticas e cujos valores desempenhavam papel
determinante na configuração anterior da sociedade e com o protagonismo emergente de
outras:
ò Especialmente das novas classes médias urbanas formadas pelos efeitos
convergentes da terciarização, da urbanização e da escolarização.
Reconfiguração da situação sócio-profissional das mulheres com impactos vastíssimos nos
comportamentos e nas formas de organização da vida social.
· Estas dinâmicas conduziram a uma reorganização geral das aspirações sociais (das necessidades, das
expectativas e dos projetos de vida) dos portugueses.
· Portugal do início dos anos 60
Prevaleciam ainda os valores duma sociedade tradicional pouco permeável à mobilidade,
demograficamente dominada por um campesinato pobre e pouco escolarizado:
ò Valores como o "respeito" incondicional pelas hierarquias tradicionais - familiares,
sexuais e de classe;
ò Correlativamente, prevaleciam os modelos de consumo centrados na escassez de
recursos e na valorização da poupança (valores que, expressamente assumidos pela
doutrina oficial do Estado Novo, se articulavam estreitamente com a ideologia
autoritária e tradicionalista que, sob esse regime, fundava a organização política do
país).
· As mudanças sociais ocorridas (potenciadas pela abertura ao exterior através do turismo ou da
emigração, pela escolarização crescente, pela expansão dos meios de comunicação social e pela
própria instituição da democracia política a partir de 1974), arrastaram consigo a difusão
generalizada de sistemas de preferências mais orientados para:
A relativização simbólica das distinções sociais intransponíveis,
A afirmação do direito de cada indivíduo à realização pessoal,
A adoção de modelos de consumo e de estilos de vida comuns às sociedades mais
desenvolvidas.
· Principais tendências demográficas
Declínio da fecundidade envelhecimento da estrutura etária, articularam-se com os efeitos
da modernização social e cultural e contribuíram para:
ò A emergência de novas clivagens estruturais ð como a que se exprime no peso
crescente das classes mais idosas,
ò A reconfiguração de estruturas sociais de base ð como a que afetou a estrutura e as
relações familiares.
· Alterações demográficas
Intensos fluxos migratórios internos e externos, que proporcionaram (fora e dentro do país)
o contacto entre populações de origens locais e étnicas diferentes;
ò Com eles (ao mesmo tempo que emergem situações de recombinação e de pluralismo
culturais) foram-se tornando mais complexos os elementos tradicionalmente
estruturantes da pertença e da identidade cultural portuguesas (sejam os que se
organizam em torno da unidade histórico-geográfica, linguística e religiosa do país,
sejam os que se enraízam em tradições regionais de caráter secular).

3.1. Mutações da estrutura sócio -profissional

3.1.1. Recomposição sócio-profissional da população ativa


· Os processos de modernização arrastam consigo:
Uma redistribuição global da população ativa pelos diversos setores económicos
Uma reorganização das exigências de qualificação, das características e do peso relativo das
atividades profissionais:
20 Célia Silva
ò O declínio do peso do setor primário traduziu-se na quebra da agricultura como
atividade principal (embora tenha mantido, em certas regiões, mesmo industrializadas,
um peso significativo como atividade de complemento dos rendimentos familiares);
ò O crescimento do setor secundário expressou-se num aumento do volume de
assalariados nas atividades industriais, artesanais e dos transportes (ainda que com
tendência decrescente a partir dos anos 80, em favor duma maior expansão dos setor
terciário);
ò A expansão do setor terciário, traduziu-se no incremento das profissões associadas
ao comércio, ao turismo, aos serviços especializados, às atividades administrativas,
bem como das profissões intelectuais, científicas e técnicas;
· A repercussão da evolução da estrutura e das relações económicas alarga-se ainda à evolução da
situação da população em relação à profissão.
· O crescimento da categoria dos "trabalhadores por conta de outrem" traduz a afirmação do
assalariamento como forma dominante das relações de trabalho.
· Quanto ao quase desaparecimento dos indivíduos categorizáveis como "trabalhadores familiares", ele
exprime o declínio da família como "unidade de produção" que integrava informalmente o trabalho
não remunerado dos seus membros (situação que detinha um peso significativo na organização
tradicional da atividade agrícola ou da atividade comercial).

3.1.2. Estrutura de classes e mobilidade social


· As mutações referidas repercutiram-se naturalmente na estrutura e na dinâmica das classes sociais:
A alteração mais impressionante foi o declínio do campesinato, conjunto social que entre a 2ª
metade do sec. XX e o início do sec. XXI, passou de categoria maioritária a categoria quase
residual da estrutura de classes (traduzindo o fim duma sociedade predominantemente rural e
agrícola).
Esta deslocação da estrutura social, acompanhando as dinâmicas de industrialização e de
terciarização, fez-se:
ò Em favor do crescimento do peso relativo dos assalariados industriais: trabalhadores
da indústria, da construção civil, dos transportes, cujo peso no entanto estagnou nas
últimas décadas;
ò Em favor do crescimento acentuado dos empregados do setor terciário: assalariados
dos escritórios, do comércio, dos serviços e da administração do Estado;
ò Houve, também, um incremento significativo na representação dos quadros
superiores técnicos e científicos das empresas e da administração pública.
· Cerca de 2/3 da população ativa portuguesa distribuir-se-ão hoje entre 2 categorias de
assalariados de base (sem qualificação elevada ou posição de chefia):
A dos operários industriais (onde predomina a presença masculina);
A dos empregados executantes dos serviços, do comércio e da administração pública (onde é
mais elevado o peso da presença feminina).
· 1/3 restante reparte-se:
Pelas posições sociais resultantes da pequena propriedade agrícola ou comercial e do
trabalho independente (explorados muitas vezes em regime familiar);
Pelas posições mais elevadas associadas à média e grande propriedade, ao exercício de
serviços especializados e à detenção de postos de chefia: empresários, gestores de empresas,
dirigentes dos serviços públicos;
Pela categoria dos profissionais técnicos e de enquadramento: assalariados com
qualificações escolares e profissionais elevadas (cujo crescimento acentuado tem sido também
um dos traços mais marcantes da evolução da estrutura social).
· As últimas décadas do séc. XX foram marcadas pela ocorrência duma significativa mobilidade
social, isto é, de alteração das posições sociais dos indivíduos e dos seus descendentes em relação à
sua posição social de origem.
Esta mobilidade, de caráter predominantemente ascendente, foi consequência direta:
ò Da reorganização das oportunidades e dos postos que resultou da modernização
económica (declínio da agricultura, industrialização, terciarização);
ò Da "translação" da estrutura técnico-profissional
ò Da Obtenção dum diploma escolar (especialmente superior) ð Mobilidade social
intergeracional ascendente (resulta da subida de posição social dos indivíduos em
relação à posição social dos pais) especialmente

21 Célia Silva
3.1.3. A profissionalização da população feminina
· Uma das transformações mais importantes ocorridas na estrutura sócio-profissional no período
que decorreu de 1960 até ao início do séc. XXI, foi:
Explosão da participação das mulheres na atividade profissional
ò Evoluindo, nesse intervalo de tempo, de pouco mais de 10% para cerca de 50%, a
taxa de atividade feminina é, hoje, em Portugal, superior à de muitos países
europeus.
ò Tal deveu-se à presença do sexo feminino se ter tornado dominante nos níveis mais
elevados de ensino
ò A inserção massiva das mulheres na atividade profissional implicou alterações de
vulto nas práticas e nos valores associados á divisão sexual do trabalho.
· Não se pode ignorar que, nas formas tradicionais de organização do trabalho (pequena agricultura
tradicional, pequeno comércio, atividades artesanais – 1960 e em certas área de 2001), é o próprio
grupo doméstico que se constitui habitualmente como unidade de produção, integrando quase sempre
uma decisiva componente de trabalho feminino (trabalho doméstico e não só).
· A explosão da participação das mulheres no mercado formal de trabalho corresponde:
À modernização da estrutura económica e produtiva
Sintonização progressiva da sociedade portuguesa com uma tendência própria das economias
capitalistas que é a da constituição duma esfera profissional claramente diferenciada do
espaço doméstico (fenómeno social que estará também, entre outros fatores, na base de
transformações das formas de organização familiar).
· Quando se consideram a distribuição e a incidência da participação das mulheres nos diversos
setores de atividade da economia, pode observar-se que, sob a generalização da profissionalização
formal, ocorrerão processos com significado e impacto sociais muito diferenciados, de acordo com os
contextos de trabalho e com os perfis geracionais e educacionais da população feminina.
· Setor secundário
A presença dos homens tem permanecido sempre superior à das mulheres, verificando-se o
inverso nos setores primário e terciário.
· Setor primário
O aumento da % de mulheres traduzirá, sobretudo, uma nova repartição familiar da atividade,
caracterizada pela deslocação dos homens do trabalho agrícola para outras atividades
principais, ficando para as mulheres, em geral as mais idosas e com mais baixa ou nenhuma
escolaridade, a responsabilidade pela pequena agricultura complementar de subsistência.
· Setor terciário
A predominância do trabalho feminino terá acompanhado o incremento dos níveis de
escolarização das mulheres mais jovens, população que encontra nas atividades dos Serviços
uma colocação mais ajustada às suas qualificações e expectativas (com especial incidência em
ocupações ligadas ao Ensino, à Saúde e aos Serviços Sociais).
· Outros indicadores (por ex, o facto de as mulheres serem ainda minoritárias em categorias
profissionais como as dos "Quadros superiores e dirigentes"), sugerem que a recomposição sexual da
atividade profissional se terá refletido mais acentuadamente na distribuição da população masculina e
feminina pelas ocupações disponíveis do que numa reorganização da estrutura dos poderes
profissionais, tradicionalmente mais favorável aos homens.

3.2. Efeitos sociais do envelhe cimento da estrutura etária


· A evolução da população portuguesa nas últimas 4 décadas do séc. XX, caracterizou-se por um
acentuado e acelerado ritmo de envelhecimento, processo que continuará a aprofundar-se nas
primeiras décadas do séc. XXI.
Este processo, resultado dos efeitos conjugados da queda da natalidade e do aumento da
esperança média de vida, traduz-se num perfil etário da população caracterizado pela
diminuição da % de jovens e pelo crescimento do peso das gerações mais idosas no
conjunto da população.
Entre 1960 e 2000, em contraste com o que ocorreu com o grupo com idade inferior a 15 anos,
o nº de pessoas com mais de 64 anos quase duplicou.
· O fenómeno do "duplo envelhecimento" demográfico (menos jovens, mais idosos) é um traço
marcante das sociedades. ocidentais, particularmente dos países europeus mais desenvolvidos.
No caso português, deve sublinhar-se a extrema rapidez com que se concretizou, num
intervalo histórico muito curto, a aproximação aos padrões demográficos "modernos".
22 Célia Silva
· Numa sociedade como a portuguesa, onde após 1960, o desenvolvimento económico-social não foi
certamente tão acelerado, nos seus efeitos (por ex.: a "modernização demográfica"), as gerações mais
idosas (as que em geral atingiram a idade adulta naquela década, e que hoje são genericamente
categorizadas como "reformados") aparecem como um dos grupos sociais mais vulneráveis
· Rendimento
Os agregados familiares compostos por idosos são, em média, dos mais desfavorecidos,
usufruindo receitas inferiores à média nacional e apresentando taxas de pobreza nitidamente
superiores ao conjunto da população, isto num grupo social cujo meio principal de vida são
hoje as pensões de reforma.
· Instrução
A maioria dos indivíduos deste grupo não tem qualquer nível de instrução completo ou tem
apenas o 1º Ciclo de escolaridade, sendo a agricultura a ocupação que absorve maior nº de
idosos com atividade, exercida sobretudo como atividade complementar de rendimentos.
· Estrutura de consumo
Dominada pelos bens de 1ª necessidade (alimentação, habitação) e associa-se tanto a fortes
índices de privação de bens duradouros (televisão, o telefone, o fogão ou a máquina de lavar a
roupa), como à ausência de despesas com atividades de lazer.
· Privação económica é
É, em geral, acompanhada por níveis mais intensos de privação social.
Crescimento das famílias de idosos isolados (principalmente mulheres, por efeito da
sobremortalidade masculina)
ª Isolamento cujo impacto tende certamente a ser agravado pelas transformações das
formas familiares no sentido da "nuclearização" das famílias ð afrouxamento das
formas de solidariedade e de apoio, anteriormente asseguradas pela família alargada
tradicional.

3.3. Família e estruturas familiares


· A modernização da estrutura sócio-económica e a reorganização das expectativas, das aspirações e dos
valores sociais que lhes estão associadas fez-se acompanhar de mudanças profundas no que respeita:
Aos processos de formação e estruturação da família
Às atitudes perante o contrato matrimonial e a vida familiar
· Fatores que se conjugam na criação de condições favoráveis a tais mutações e cuja ocorrência se
torna notória na evolução dos indicadores sócio-demográficos:
Urbanização e declínio da economia rural
Escolarização generalizada da população e das mulheres em particular
Reorganização da estrutura do emprego e profissionalização da população feminina.

3.3.1. Casamento e divórcio


· A proporção do nº de casamentos (taxa de nupcialidade) sofreu, desde os anos 70, uma quebra
contínua e acentuada.
· A observação demográfica e sociológica impede que esta evolução seja interpretada linearmente
como um "declínio da família", na medida em que tal evolução tem decorrido:
Do adiamento da idade média de entrada no casamento (o 1º casamento ocorre cada vez
mais tarde)
Do crescimento de situações informais de união e de co-habitação ("uniões de facto")
· A queda da nupcialidade tem sido ainda acompanhada pelo crescimento da proporção de
casamentos civis em relação aos casamentos celebrados religiosamente (no caso português
predominantemente católicos
Tendência para a laicização do contrato conjugal;
ª Esta tendência é, no entanto, muito mais elevada no Sul e Ilhas do que no Norte e
Centro de Portugal, o que confirma (tal como outros indicadores) um forte dualismo
entre Norte e Sul no que respeita à difusão social da prática religiosa.
· Outra evolução significativa ocorre com a dissolução da relação conjugal, traduzida no
crescimento da taxa de divórcio
A análise sócio-demográfica confirma a relação do crescimento do divórcio com:
ª A urbanização da sociedade,
ª A recomposição da estrutura sócio-profissional,
23 Célia Silva
ª Os níveis crescentes de escolarização de homens e mulheres
A percentagem de divórcios é significativamente superior na Grande Lisboa em relação à
média do país
Ocorrência mais significativa entre os profissionais liberais, quadros médios/superiores,
empregados dos serviços, e entre indivíduos dotados de formação escolar superior.
Existência de um contraste sócio-cultural (também observado na laicização do casamento):
ª Incidência do divórcio permanece significativamente menor no Norte do que no Sul do
país.

3.3.2. Família e fecundidade


· As últimas décadas do séc. XX foram marcadas por um acentuado declínio do nº de médio de
filhos por casal (taxa de fecundidade).
A profundidade desta evolução é acentuada pelo facto de, apesar de obedecer a alguns dos
contrastes recorrentes entre regiões rurais e urbanas e entre o Norte e Sul do país, os seus
efeitos se terem repercutido de forma aproximada em todo o país.
· Resultado direto da generalização dos métodos de contraceção eficaz, a propensão para a
diminuição de nº de filhos traduz os efeitos convergentes sobre todos os grupos sociais das
transformações materiais e culturais que a modernização sócio-económica arrasta consigo (por ex, o
declínio da incorporação do trabalho dos filhos na economia comum, as limitações que a
profissionalização das mulheres levanta à tradicional divisão das ocupações familiares ou a
prevalência cada vez mais conferida à realização pessoal de cada um dos membros da família).
· Contudo, não se verifica uma relação direta do declínio da fecundidade com o decréscimo de
casamentos ou com o aumento dos divórcios.
O facto de ter vindo a aumentar significativamente o nº de nascimentos fora do casamento
indica, com efeito, que as "uniões de facto" não são mais infecundas do que as uniões
resultantes do casamento formal.

3.3.3. Dimensão e morfologia da estrutura familiar


· A evolução da dimensão da família tem-se caracterizado por um decréscimo contínuo:
Duma média de 3,8 pessoas em 1960, passou para 3,1 em 1991, fixando-se já em 2001 em 2,8
indivíduos por família.
· Discriminando tipologicamente os agregados, verifica-se que foi no grupo das famílias com maior
dimensão (5 e mais membros) que aquela tendência se repercutiu mais acentuadamente.
· Esta evolução é concomitante da diminuição do nº de filhos por casal, mas traduz também o declínio
do modelo de família alargada tradicional (em que co-habitam em geral mais de 2 gerações) em
favor da preponderância da família nuclear moderna, caracterizada pelo modelo predominante "1
casal - 2 filhos".
· O crescente pluralismo e maior fluidez das formas de nupcialidade e de contrato conjugal tende, a
traduzir-se numa diversificação dos modelos familiares; expressão desse fenómeno é o crescimento:
Das famílias monoparentais, em que os filhos co-habitam apenas com um dos membros do
casal (predominantemente com a mãe)
Das famílias recompostas, que resultam do "recasamento" de cônjuges separados ou
divorciados.

3.4. Identidades culturais, migrações e minorias étnicas

3.4.1. Identidade nacional e culturas regionais


· A identidade nacional portuguesa não pode ser imputada a uma qualquer formação étnica original,
mas antes à força e à continuidade da ação político-administrativa do Estado desde o momento da sua
formação no séc. XII.
Ao mesmo tempo que se estruturou em torno de alguns traços aglutinadores dotados de grande
estabilidade - como as fronteiras historicamente consolidadas, a língua ou o património
artístico e literário eruditos -, esta identidade política e culturalmente centralizada conviveu
com uma significativa diversidade de tipo regional (minhota, alentejana, etc), prevalecendo,
todavia, sobre ela.
· Nenhuma das diferentes regiões culturais portuguesas assumiu papel predominante ou aglutinador
nem se singularizou por um comportamento histórico peculiar.
24 Célia Silva
· Demarcação mais operativa, mas mais alargada, é a que se estabelece entre o Norte e Sul, se
tomarmos em consideração a persistência até aos nossos dias de contrastes bem marcados
Na adesão aos valores e comportamentos religiosos (mais forte no Norte do que no Sul)
Nas atitudes e escolhas políticas (menos conservadoras no Sul do que no Norte).
· Este contraste entre Norte e Sul, ainda que manifestando-se recorrentemente operante em situações de
conflito político (revolução do 25 de Abril de 1974) ou simbólico (definição da "pronúncia" legítima
da língua comum), não tem qualquer tradução em formas socialmente estabilizadas de identificação ou
de exclusão mútua dos portugueses.
· As identidades tradicionais tendem a ser esbatidas ou tornadas caducas pela emergência de novas
polaridades associadas à modernização social.
É o que acontece em parte com as culturas regionais, que centradas primariamente nos usos e
costumes da organização social agrícola vão perdendo, com a urbanização geral da população
e das práticas sociais, o caráter de "culturas vivas".
Ocorre também com a crescente acuidade da oposição entre o Litoral e o Interior, a qual se
organiza já não em torno de quaisquer orientações culturais particulares, mas de graus
desiguais de desenvolvimento economia-social das suas populações.

3.4.2. A emigração e as suas consequências sócio-culturais


· A emigração é uma característica estrutural da sociedade portuguesa, enquanto forma de superação
do desequilíbrio entre as necessidades da população e a organização económica-social dos seus
recursos.
A saída de portugueses conheceu um dos seus mais elevados picos históricos (nos anos 60)
tendo-se depois reduzido, mas não interrompido, nas últimas 2 décadas do séc. XX.
Além das consequências demográficas, há também que considerar as repercussões sócio-
culturais dum movimento social tão expressivo.
· Por um lado, residem hoje no estrangeiro cerca de 4 milhões de portugueses, nalguns casos
formando comunidades que, além de peso significativo nos países de acolhimento, mantêm formas
variadas de relação efetiva ou proclamada com o país e com as regiões de origem:
A existência dessas "comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo" tornou-se mesmo uma
das referências mais constantemente mobilizadas na construção simbólica da identidade
nacional.
· A explosão, nos anos 60, da emigração para os destinos europeus (França, Alemanha, Luxemburgo,
Suíça, nomeadamente) em detrimento da antiga emigração transatlântica tornou mais fáceis as
deslocações entre os países de destino e Portugal.
Potenciou-se o contacto regular dos emigrados com as suas comunidades de origem,
nomeadamente através dos regressos periódicos das férias, e favoreceu-se uma presença muito
ativa e continuada daqueles na vida social e económica das localidades de partida.
· Este facto influiu poderosamente na paisagem social das regiões de maior emigração
Por efeito dos investimentos aí realizados pelos emigrados
Pela força de comportamentos que, decorrentes do contacto com os hábitos estrangeiros e do
desejo de afirmação de mudança e de mobilidade, os vieram colocar em relativa rutura com as
hierarquias sócio-culturais instituídas (como aconteceu com a construção de numerosas
habitações, dotadas de condições modernas de conforto, mas muitas vezes contrastantes com
os padrões arquitetónicos convencionais das regiões de implantação).
· Daí resultou também que a relação dos "residentes" com os "emigrantes" se passou a caracterizar
por alguma ambivalência simbólica, oscilando entre:
A admiração pela capacidade empreendedora destes (sobretudo entre as classes de origem dos
próprios emigrantes)
A rejeição dos seus comportamentos e preferências mais típicos (especialmente por parte das
categorias mais escolarizadas e urbanizadas dos residentes).
· Mais recentemente, os termos da tensão entre "residentes" e "emigrados" terão vindo a perder
vivacidade, porque:
Declinou o grande ciclo de emigração que esteve na sua origem,
Em fases mais avançadas do ciclo migratório, a integração dos emigrantes na vida social
portuguesa atenuou as divergências mais contrastantes,
As próprias trajetórias sociais ascendentes duma parte significativa dos portugueses em países
mais desenvolvidos (sobretudo dos seus filhos ð "segundas gerações"), afastam
progressivamente o perfil sócio-cultural dos emigrados dos traços que caracterizavam os
25 Célia Silva
pioneiros do poderoso êxodo das décadas de 60 e 70.

3.4.3. Imigração e minorias étnicas


· Os fluxos imigratórios eram, em 1960, muito reduzidos e era pouco relevante a presença de
estrangeiros (afora certas situações muito confinadas como, por exemplo, a existência duma
tradicional comunidade inglesa associada à produção e comercialização do Vinho do Porto).
· Esta situação conheceu uma alteração profunda, especialmente a partir da 2ª metade da década
de 70, por efeito de fatores como:
A independência das antigas colónias,
A reestruturação do mercado de trabalho português no contexto duma progressiva integração
na economia europeia
· Entre 1960 e 1981, enquanto a população portuguesa cresceu cerca de 12%, o crescimento do nº de
estrangeiros residentes ultrapassou os 300%.
O ritmo deste crescimento não voltou a abrandar, com o incremento da imigração ilegal
induzindo mesmo uma subestimação dos nºs reais;
Estimativas baseadas no processo de regularização extraordinária de imigrantes levado a cabo
em 2001, permitem concluir que esse nº rondará já 300.000 indivíduos, 3% da população
portuguesa.
· Para além de país historicamente exportador de emigrantes, Portugal transformou-se assim, em 3
décadas, num país de imigração e a sociedade portuguesa passou a contar com a presença dum
conjunto significativo de comunidades estrangeiras étnica e culturalmente diversas e caracterizadas
por situações e modalidades diferentes de integração no país de acolhimento.
· Esta presença tem-se concentrado privilegiadamente nas regiões litorais do continente e em especial
nas áreas de maior dinamismo económico (Lisboa, Setúbal, Porto ou o Algarve);
Isso explica que os efeitos da diversificação étnico-cultural com origem na imigração se
entrelacem muitas vezes com os processos e (com as tensões) associados à expansão da
economia e à concentração urbana.
· Região de proveniência ð As categorias de imigrantes cuja presença em Portugal é, no início do
séc. XXI, mais significativa, são as seguintes:
Africanos (maioritariamente Cabo-verdianos) ð Provenientes, na sua maioria, dos Estados
emergentes da independência das antigas colónias portuguesas.
ª Este grupo de cidadãos estrangeiros tem origem numa migração predominantemente
laboral dirigida para os postos menos qualificados e mais precários do mercado de
trabalho, especialmente na construção civil (pontualmente acrescida dum fluxo
menor de refugiados políticos que procuram escapar a situações de instabilidade
política ou de estudantes que vêm frequentar em Portugal o ensino secundário e
superior).
ª Estes imigrantes concentram-se em áreas mais desqualificadas das maiores cidades
e são particularmente vulneráveis a situações de exclusão social;
ü Contudo, a consolidação das redes de solidariedade étnica e dos laços
comunitários entretanto formados no país de acolhimento, traduz-se numa cada
vez maior capacidade de afirmação coletiva que tem no associativismo uma das
suas expressões cívicas mais relevantes.
Cidadãos originários de países da União Europeia ð Representam a 2ª maior parcela de
estrangeiros em Portugal.
ª Caracterizados em geral por um estatuto sócio-económico elevado, distribuem-se
tipicamente pelas atividades e categorias superiores das empresas e dos serviços
ª Entre eles encontra-se também um nº significativo de cidadãos dos países europeus
mais desenvolvidos que, em período de reforma, escolheram Portugal como
residência permanente, com especial incidência no Algarve.
Brasileiros
ª Em geral, detentores de níveis superiores de qualificação e exercendo atividades no
setor dos serviços especializados, terão sido atraídos:
ü Pela vantagem dum língua comum
ü Pelo grau comparativamente superior de segurança financeira e social de que,
num quadro de integração europeia, usufruem em Portugal as frações mais
favorecidas da classe média.

26 Célia Silva
· Constata-se assim que, até aos anos 90, o perfil das comunidades estrangeiras em Portugal traduziu
genericamente a polarização de 2 tipos de movimentos imigratórios qualitativamente
contrastantes quanto às suas características sociais e ao tipo de inserção construída na estrutura
sócio-económica do país:
1º Grupo
ª Mão de obra pouco qualificada e precária, com origem predominante nas ex-colónias
portuguesas de África, cuja inserção se fez em geral nos lugares mais desfavorecidos
da estrutura social portuguesas;
2º Grupo
ª Com origem dominante na UE e no Brasil, de indivíduos qualificados e bem
remunerados cuja inserção se realizou nas posições mais elevadas dessa estrutura.
Na viragem para o séc. XXI, a explosão duma intensa corrente imigratória com origem
em países da Europa de Leste (nomeadamente na Ucrânia, na Moldávia e na Roménia), na
sequência da crise económica e social (países antes integrados na extinta União Soviética ou
na sua esfera de influência), veio tornar ainda mais plurifacetada a realidade social e cultural
dos estrangeiros presentes em Portugal.
ª Tratando-se em geral de indivíduos com níveis relativamente elevados de instrução,
têm sido recrutados para as atividades mais desqualificadas do mercado de trabalho,
quase sempre em situações de clandestinidade que agravam a insegurança, o
isolamento e a privação social que, pelo menos nesta fase inicial do ciclo migratório,
têm caracterizado a sua presença em Portugal.
Na composição do mosaico das minorias étnico-culturais, há que assinalar a importância
da etnia cigana, cujo nº de membros se estima situado entre os 40.000 e 50.000 indivíduos
espalhados por todo o país.
ª Ainda que tratando-se de cidadãos nacionais cuja presença remontará possivelmente
ao séc. XIV, a sua forte singularidade cultural foi objeto, em Portugal como noutras
partes do mundo, duma secular tradição de discriminação social e jurídica.
ª Originalmente nómadas, os ciganos integraram-se tradicionalmente em áreas
intersticiais da vida económica. como o pequeno artesanato e o comércio itinerante,
mas essa base de subsistência tende hoje a extinguir-se com o declínio do mundo rural
e com a crescente formalização das transações económicas.;
ª Este facto que, numa comunidade marcada pela forte incidência de pobreza e de
analfabetismo, propicia, o recurso a estratégias marginais ou ilícitas de sobrevivência
ü Reforçando a estigmatização que recai sobre o conjunto da comunidade, e até
servido de pretexto - em contextos de vizinhança com populações não ciganas -
a formas ativas de animosidade e de discriminação violenta dirigidas contra os
seus membros.

27 Célia Silva

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