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Anais

do Seminário

Rio de Janeiro:

abitaapitalidaaee

de 23 a 26 de outubro

de 2000

Organizador André Nunes de Azevedo

Rio de Janeil'o

Departamento

Cultural

NAPE/DEPEXT/SR-3/UERJ

2002

.\)C)«">O"'W

\k. \"(-

l

I~f J ~\O

Edouard.

et ftls editeurs, si J

MANET,

Lettresdejeunesse-1848-1849.

V0'agea

Nota

Rio. Paris: Louis R<lIlólll

NABUCO,

Joaquim.

Um

estadista

do Império.

4' ed. Rio de Janeiro: Aguilar,

I()I:',

p. 76

SAlNT-ApOLPHE

].CR.

Milliet de. Dicionário

geogr4ftco) histórico e de.rcritivo do JII//!/'II/I

do Brasil

2 ed. Paris, 1863, p.429

EWBANK, Thomas. Vida no Brasil Rio de Janeiro: Conquista, 1976, p. 32?

para toda esta parte, d. MATTOS , Umar Rohloff de Janeiro: ACCESS Ed., 1999, pp. 73-76 d. MATTOS, limar Rohloff de. Op. Cit., pp. 28-42. NABUCO,Joaqim. Op. cit., p. 145.

cE. MATTOS, Selma Rinaldi de.

de. O tempo

.raquarema.

4

ec!. \{H

O Bra.ril em lições. A

hi.rtória como disciplina

escolc,,' /'11.

Joaquim

Manuel

de Macedo.

Rio de Janeiro: ACCESS Ed., 2000.

I

"O H.io de Janeiro Imperial e suas Áfricas Visíveis"

Marilene Rosa Nogueira

da Silva1

Eu

também

imaginei

um

modelo

de cidade

do

qual

extraio

todas

as outra.r

-

respondeu

Marco

Polo

- é uma

cidade feita

só de impedimentos,

contradições,

incongmên-

cias) contra senso. Se

uma cidade assim e o que há de JIlais iJllprováve~ diminuindo

o

ntÍmero do.r e!emertto.r anormais aumenta a probabilidade de que a cidade realmente exista

JJ

2

Articular os diferentes saberes, desenvolver a capacidade de ir e vir do tem- po dos mortos para o tempo dos vivos, sem comprometê-Ios, são alguns dos desafios que enfrentam os historiadores de ofício .Como discutir sem paixão os 11roblemasque nos rondam como espectros gerados pela complexa relação cida- llc e modernidade; quando a pressa do cotidiano impõe o ritmo pelo tempo da produção, massificando as pessoas dissolvendo a capacidade de compreensão do Indivíduo, fazendo com que percam a capacidade do "o/har atenção'~ vencidos pela óll1gústiada pressa. A atenção mora e demora no tempo sendo 'um olhar profun- (10 e despojado, porém um olhar que age e une uma consciência a uma ação dicaz. Enfim o olhar atenção se exerce no tempo, captando por isso as mudanças llue sofrem os homens e as coisas. Só a visão diacrônica revela o processo, tantas vezes conflituoso que formou a aparência .

3

Desta

11l:ll\t'ir:l, propol\ho

o tkslol':II\ll'lllo

tio

1,111.11

,III'IH"IOdo

It'IlIlO

di,

poder nos sobrados, nos palácios, no Senado dn <::1111:11,1,VIIIIIIIIHlSdiSCllrso~ t1J

elite condutora do processo de construção

a considerada"

produzindo desprezo, necessidade e medo. Desprezo sa de negro e medo da rebeldia de uma população

maioria em algumas freguesias. Essa exposição enfoca as contradições

tações delas decorrentes - des e necessidades de uma do século XIX foi marcada

I

do Estado

N:ll'I<)Ilal Monárlluico,

a cidade

e seus

pelo trabalho

escrava

P,II

( I'I

SVI I

canalha,

arraia

miúda'~

que carregava

moradoll

a

manual

que chegava

frente

e - as ali:,! 1

do sistema

cidade

por

como

escravista

tradicional

as especificl< 1,1

ao

]01\1'.1 I

O Rio de Janeiro,

eminentemente

cuja expansão

comercial.

sua função

 

A questão

do cotidiano

sintetiza

que

desenvolvo.

Cotidiano

retomado

e define

os procedimentos

no

século

XX

valorizando

4

da discuss:II'

o "HOIIII'

ordinário,

no

dizer

de Freud

"Homem

sem qualidades"da

em

peça

tura

ordinária,

começa

quando

seu

teatral

"Mal

estar

de Musil

da civilização"

5

.0

enfoque

,

ou

dado

então,

a uma

esse

homem

ordinário

se torna

narrador,

1\1'

cul

dv

finindo

o lugar

( comum)

do discurso

e o espaço

(anônimo)

de seu desenvol

vimento.

O estudo

do cotidiano

obriga

o historiador

a ampliar

sobremancir:\

a

concepção

de fontes,

modificando

também

o tratamento

metodológico

uli

lizado.

Exercício

que

representa

ajustar

a capacidade

de observação,

focali

zando

numa

micro

história

como

uma

espécie

de reação,

com

todos

os riscos

que

ele pode

conter,

contra

o estudo

das

tendências

sociais

formalizadoras

de uma

História

sem

a face

humana.

 

No

cotidiano

se explicita

o poder,

estabelecendo

tanto

as estratégias

da do

minação, quanto as táticas da resistência dos "homens ordinários". Poder qm:

numa perspectiva foucaultiana, não apareceria somente como um instrumento de repressão, porém, em sua competência de ramificar-se em nosso dia -a dia: "0

que faz

diZ6não} mas de jàto ele permeicl, prodllZ coÚas, induz ao prazer, jórma saber,7Prod1lZ discur-

so" . Por outro lado, Certeau na celebração tática da "Arte de Fazer" , faz o inven-

tário das ações do cotidiano, numa determinada

nega a microfísica do poder, as possibilidades encontradas pela população para

não

com que opoder se mantenha

e seja aceito é simplesll/ente qNe ele não pesa comojórça qUI!

realidade

histórica.

O autor

burlar

enfrentar,

ou

mesmo,

transformar

os mecanismos

do

poder.

Conforme

suas

palavras,

haveria,

portanto,

uma espécie de microfísica da resistência nas

táticas

cotidianas.

"l)igilâllcia)~

mais urgenle ainda é dest'Obrir como é qm uma sociedade inteira não se reduz a ela: que

procedimentos popnlares ( larJ/bémll/imísculos e colidicmos jogam com os mecanismo da

disciplina e não se conftrma com ela (/ não serpara alterá-Ios; enfim) que (~lJaneira de

fazer jOrlJIam a conlrapartida, do lado dos conswllidores( 01/ dominados) , dos processos

(~ Se é verdade que por

loda pade

se estende

e se preà.sa

(/ rede de

B

mudos que organizam a ordenação sócio politica"

 

"(I'IHIl\ho

I\t'SSl' II\SI:\l1tt·,tr:\l\srorlll:lr

lHll11el1Se Illulheres

escnlVizados,

em

1111

l,itlmL's, rclidll1indo

o lugar

comum

do seu discurso

e o espaço-anônimo

de

I 11 t1l'st'llvolvimenlO.

A escolha

desse

caminho

tem suas dificuldades,

pois

quan-

,I"

,1':1\ 1:1I1dona a explicação

dos

fenômenos

sociais

através

de uma

metodologia

'1"'

em '-_t 1\ IIunl5 locais

IIS

tece

redes gigantescas de saber, significa

de

trocar

causas

uma

e efeitos,

tentando

série de dificuldades

analisa-los

em

bem

mapea-

.\,1",

por

outras

dificuldades

quase

desconhecidas.

Acompanho

a rotina

dos

escravoS

pelas ruas da cidade,

articulando

as estra-

1I1',i:ISelaboradas

pela Câmara

Municipal

em seu processo

de burocratização

dos

, I vi~'os necessários

a cidade

que crescia,

às táticas

desenvolvidas

pelos

escravos

i' li:;' driblar '"

.lI 11 1H::Stico,de aluguel ou de ganho. Era o negro alforriado, ou mesmo o fugitivo

e subverter

de maneira

consciente

ou não

esse poder.

quer

Era

o negro na

escravo

, era

o negro

na casa, era o negro

nas manufaturas,

fosse como

'lI lI' buscava as possibilidades do anonimato oferecido pelo espaço urbano. En-

IlIn era o negro

para tudo,

carregador

das riquezas,

das pessoas,

dos dejetos.-

da

\ll( lpria cidade.

 
 

Não

é de estranhar,

em

uma

sociedade

dominada

pela

ideologia

escra-

\'lsla de menosprezo

ao trabalho

manual,

ter

escravos

representava

o dese-

jl

I

de

toda

a população

que,

dentro

de

suas

possibilidades

econômicas,

Inia

investimentos

nesse

sentido.

Não

possuí-los

era

prova

de mendicida-

de. Todos

os

artesãos

sem

exceção

tinham

pelo

menos

um

escravo.

Padres

IniEtares, taverneiros,

funcionários,

pequenos,

médios

e grandes

negocian-

le5 e alugadores

de

escravos,

todos

investiam

no

escravisrno.

Escravos

e

mesmo ex-escravos

tornavam-se

vítimas

e algozes

do

sistema

- na

contra-

dição extrema

de

escravo-senhor.

O caso

de

Estevão

Jesus,

liberto,

ilustra

essa

situação

ao

requerer

que

seu

antigo

senhor

lhe

reembolsasse

173$400

réis

pelo

valor

de

um

escravo

que

possuía

no

tempo

do

cativeiro.

Exigia

além

do

preço

do

escravo,

a quantia

referente

aos

jornais

de que

o senhor

havia

usufruído.

 

10

Ao

analisar

os proprietários

dos

escravos

de ganho

 

observei

que,

em-

bora

predominassem

os

homens,

muitas

mulheres

viúvas solicitam licenças

para colocar

ao ganho

seus

escravos.

Além

de

ricas

proprietárias,

encontra-

mos

àquelas

que

viviam

apenas

da exploração

de um

único

escravo,

confor-

me

citação

abaixo:

 

da RIJa do Sabão,

el/a ter deitado

circuJ, riO Largo

suppte pagar a J'IIultapor ser pobre por isso recorre a V5. para entregar a refttida

escrava dispensando de pagar a multa"

"DiZ Agostinha,

viÚva, moradora

slla tÍnica

da Cadeia

que lendo sido presa por

Cabinda

ignorar

por a.r.rim o fes,

ordem do

não pode

a

}iscal

de Semtana

escrava

Nova,

que pomti,

Maria

lugar este que por

<)()

Debret

na imagem

abaixo,

consegue

captar

a situação

descrita:

Viúva pobre no interior de sua casa

ama

Fonte: Debret.

Op. Cit. P.304

AfIrma o artista: "ter escolhido o momento do regresso da negra, que entregava à Sf/fI

o lucro do dia,

do qual

retirou

o necessário para

11

a aquisição

de uma penca

de bananfl

destinada

a ceiafrugal

de todos os habitantes

da casa"

Na

documentação

consultada

encontrei

vários

pedidos

de licenças

para

cs

cravos exercerem

as mais variadas

atividades.

JustifIcavam-se

esses pedidos

pC!;1

difIculdade

de se encontrarem

homens

livres que se dignassem

a exerce-Ias.

" Pelo Regimento do Cirurgião Mor dói reino, não se acha aconselhadaa prohibição rh'

exame de escravos, para

dentes.Por isso admitti a exame opreto Vicente escravodeAnacleto José Coelho. Nrill

achei nova razãopara pelo meujuizo deixar de assim o obrar, quando considerando1/1/'

vivendonumpaiv onde os homens

de modo que não há sufficiente nume!'o Ih'

sugeitosmelhorperitos para ocorrera necessidadepublica

que possão sangrar, lançar ventosas e sanguessugas e fim!'

ingênuos,

livres e libertos

(grifos meus)"

se negar:;11

ao exercício

de muitas

occupações,

12

 

Esses

escravos

na cidade

são, como

os viu Ewbank

, carpinteiros,

calcl'll·j

ros"

impressores,

vendedores,

espalhados

de maneira

geral C 111 todas as atividadl'~

mecânicas, surgindo mesmo dl'signa<,'()l's locais qlll' Sl' nlraCll'ri",:lv:l1l1pdo agrup:I

Illl'lllo dl' l'scr:1VOSqut' <l1'SI'IlVlllvi:llll:1i11111;1<11'11'1111111;1<1;1I'spn

h'rl;l1llln'~ (.1111.11111,1<1.11\11.111<111;.1),1'1,11.1dtl" :-;,I\1;llt111l~,(1'1,11.1.1111'111111111;11)

l:dHI:1111:1I~II:Idllh

91

É importante

ressaltar,

que tanto

o escravo

de ganho,

quanto

o escravo

de

aluguel continuavam a pertencer

a alguém

que ditava

qual deveria

ser a sua sorte.

Desta forma, o tipo de trabalho destinado ao escravo oscilava de acordo com a

demanda de mão de obra. A qualquer momento, atendendo

mercado, os senhores podiam retira-Ios do ganho, vendê-Ios para o campo ou aluga-Ios para fIns domésticos ou industriais. Essa situação gerava grande insegu- rança nos negros de ganho, os quais procuravam de qualquer maneira garantir a sua atividade através da lucratividade que poderiam oferecer aos seus senhores. Sendo assim, bastante compreensível a concorrência que existia entre eles, tor- nando-os inimigos entre si. Os casos dos delitos que ocorriam na cidade em, sua grande maioria eram cometidos contra escravos pelos próprios escravos. O que caracterizariam esses delitos eram os pequenos furtos, as brigas violentas, as pan- cadarias e arruaças ocasionadas por bebedeiras. Logo qualquer pessoa que amea- <,'asseo trabalho do escravo de ganho era alvo de ódios e vinganças. É bem escla- rl'cedor o relato de Luccock

aos interesses do

" No momento em que retirava as minhas bagagens de bordo, entendi de carregarnas minhas próprias mãos um bacamarte de baioneta envolvido numa capa de lã. Não

tinha ido longe, quando um senhor inteiramente desconhecidopara mim fez-me parar, pedindo que entregasseo que eu estava carregandoa um dos servos, acrescentando que não era direitoprivar ospretos do seu ganha pão e que issofazendo eu incorreria em

assegurando que até contra as oftnsas imaginá-

grave risco.Mais tarde eleme explicou

13

rias a gente das classesmais baixas as vezes exercia vingançasmais sérias"

O

1ll'sconhece,

111.lraMunicipal no dia a dia da cidade.VerifIca-se assim a existência de dois níveis

pela Câ-

escravo

urbano

que

o modelo

nos

de

Estado

Liberal

em

sua

Constituição

torna-se

visível

mecanismos

de controle

desenvolvido

I 1II11plementares de intervenções - o nacional e local.

O primeiro

manifesta-se

1ir:lvés da constituição,

mais geral, ou seja, um projeto

segundo é possível perceber os

e tensões relativo as adaptações e aplicações das leis no cotidiano da

referendando

uma política

111H'ral de Estado que se pretendia implantar. Já no

I III,nitos

, Hbde

 

No caso

específIco

da Cidade

do Rio de Janeiro,

por

sua situação

política

,li

~('(Ic administrativa

nacional,

fIcavam

ainda

mais

evidenciados

esses

con-

11111lS.Cosmopolitismos

e clivagens

internas

aparecem,

portanto

como

pon-

111', Iwrceptíveis da identidade

cultural

e política

da "Mui

Leal e Heróica

cida-

,li

di' Sam

Sebastiam

do

Rio

de Janeiro.

Cidade

onde

a ingerência

do

poder

'l'lllt;t1l'

,I"'l 1:11110as qlll'StflO do mando, quanto às questões orçamentárias da arreca-

"\11;;10I' :lpliclI<,':1odos imposlos. Por eXl'mplo, basta remontar ao decreto de

local

definia

as articulações

e conflitos

administrativos,

relaciona-

111~H '111('11'lil:1 tI:1 1:1111:11;1SII:I~1'I('l'mg:ltiv:lH

IvgiHI:llivlIs, illicillndo

() procl'S

" ,k 11.lr,i1i~:II::'ill1111111111p,1II: I 011~'(''111(Illl:ll\('llll .1 1:l:llll;t1IZ;II:~Cldll I'lldl'l

')

central.

O

ato

adicional

de 1834,

ao separar

o Município

da Corte

da provín-

 

cia do

Rio

de Janeiro,

garante

o controle

administrativo

desta,

que

passa

a

ser

responsabilidade

do Ministério

do Império

As posturas

municipais

procuravam

organizar

e fiscalizar

a presença

amea-

çadora dos escravos no espaço urbano. Em nome do considerado

bem

público,

elas enquadravam senhores e escravos pois, estes ao transporem

os limites

da

casa, passavam a ser uma preocupação do Estado:

'54 Câmara

desta mui

Leal

e Heróica

Cidade

de S am

Sebastiam

do Rio

de;tlneiro,

desejando promover

quanto

couber em sua alçada

o bem público promovendo

e mantendo

a

tranqiiilidade

, segurança

e

comodidade

de seus concidadãos

 

Art.l

° - Em

todos os Juízes

de Paz

do Império

haverá

hum

livro

de matrícula

todos o.'

escrams existentes, ou d 'ora em diante nascerem, com declaração dos nomes, naturali

dade, idades, estados, ocupações e signaes característicos e bem assim dos nomes e residêll cias dos senhores

Art.2°

posturas

Esta

.

matricula

devera ficar

feita

e concluída

60 dias depois

de publicada

111

Art

30_ Ninguem

poderá

ter escra1JOSao ganho

chapa de metal

sem tirar licença da Camara

numerada

a qual devera andar

a ganhar

sem a chapa,

Municipltl,

sempre

sofrera 8 dilll

recebendo com a licença uma

o ganhador

de calabouço

((illl

em lugar vi.ríveL O que Jór encontrado

sendo escravo e sendo livre 8 dias de cadeia

Art 6° Todo escravo que Jór encontrado das 7 horas em diante sem escripto de seu setllJIJ/,

datado do mesmo dia, no qual declara ofim a que vae, soffrera 8 dias deprisão, e Sl'llrl"

livre, 8 dias de cadeia.

 

Art.

r -]Cozca prohibido

aos senhores de escravos o consentires

que el/es morem

sobn' II ,

a pretexto

a 15 dias de prisão

açoites

reincidências.

de qui/andarem,

e multa

e trarão por

ou por qualquer

outro; os transgressores

os senhores,

estas,

que

serão punidos

e os escravos castigados ((111

mlll r,

hrll){'/IrI"

de 10 a 30 $para

anos ferro

ao pescoço, penas

serão dobradas

Art

31°_ Sobre

a Praça

do Mercado.

Fica prohibido

nadarem

as pretas

de ganho

rlmll ,I

das praças

e os escravos

que aI/i Jórem

mandados

por

seus senhores fazer

comprll.\", 11,1"

deverão

se demorar

além

do tempo

necessário para

ifftctua-Ias

e o fisC(/1 II/(///(/'/(II

14

dispensar"

.

Com

relação

ao rigor

do

artigo

r das

posturas

por

exemplo,

de11l111l11

o quanto era comum essa prática

com o processo de urbani:>.ação os cortiços,

que atendiam aos inll'fl'SSl'S de proprielftrios e escravos, gar:\l1lidn :1 pmxlllll d:\dv dns «'nlrns (nlll('1'( I:II~" ViiI<-apII's('III:1I 11111:1d,ls 111l11I1l'1':I~11'(1:1111.1<,'11' til ',~,.IJllóllil':I:

No centro da Cidade crescia, juntanH'lIl1 ,

verdadeiras

tlJ1'/lZIt/rlJ

IIrllllIIi/l"

" Secretaria

de Policia

da Corte

19\3\ 1860

Existe

n"esta cidade um grande numero de casa alugadas diretamente

vos, ou à pessoas livres que parcialmente as sublocão a escravos.

a escra-

Os males

casas ale de serem valha-collto de escravos jitgido e malfeitores

resultantes

de um tal procedimento

tão notórios,

ninguém

e mesmo

ignorando

que essas

livres,

de ratoeiros

93

tornão-se

verdadeiras

espeluncas,

onde predominão

o vicio e a imoralidade

de baixo

de

mil formas

dif!erentes.

A cidade

Urgente

car qualquer casa, ou parte della a escravos ainda mesmo munidos de autorização dos

seria pois

reprimir

,15

severamente

semelhante

abuso, prohindo

se alugar ous sublo-

senhores para essefim. '

sentia-se

ameaçada.

As noticias

de rebeliões de escravos refletiam-

11' nas medidas rigorosas criadas na legislação provincial. Como podemos citar a

'"Ida de pavor que após as insurreições baianas e particularmente

, 1111826, 1828 e 1830 e dos Malês

1,Idos suspeitos e por decisão da justiça em 18 de março de 1835, é exigida folha , •Inida que orientasse da suspeita de serem envolvidos na última insurreição .I,l<lucla cidade. Mesmo escravos acompanhados dos senhores só podiam desem-

I,"car no Rio de Janeiro apresentando

16

a dos

Nagôs

. Os escravos

ladinos

da Bahia

eram conside-

esse folha. Um mês mais tarde

a medida

é

II,r:lndada, limitando

a exigência"

aOJ africanoJ

maioreJ

) principalmente

mina)

que

Je vêm

dos escravos da cidade pelas idéias

,li ',ses escravos rebeldes. Para o contemporâneo, o escravo urbano, deixado a maior

I"/llkr na Corte.

Tentava-se

evitar a contaminação

I11I1('do tempo

a si mesmo,

vendendo

livremente

nas ruas ou alugando

ou sublo-

I

independentes,

era considerado

um

perigo

que a imprevidência

de

IIIt10 quartos I. 11 LI população

urbana, que vivia

às suas custas, estava

fomentando.

 

Apesar

do

grande

medo

urbano

de uma

rebelião

negra, não encontrei

na

"1111I111Cntaçãoqualquer

I'

jll

referência

da

a movimentos

cidade

coletivos

de Janeiro.

e organizados

contra

ser

Haussá,

,I',lema

feito

IIIÚ'ado, por

pelos

escravos

do

Rio

étnica(

O que poderia

Aboum

um lado pela heterogeneidade

Ijexa, Ebá,

!lIllhil1llas,

Oyó,

Nagô

entre

outros)

denominados

"boçais",

quando

desconhe-

I 11111,I lín~a

e os costumes

da terra

e "ladinos"aos

que nasciam

aqui

ou eram

11I Id.)s (após o fim do tráfico em1850) de outras provincial do Império, especi-

.11111Ille do nordeste.

Por outro

lado a concorrência

no trabalho gerando o receio

111Illl'!" as vantagens I[ li. 11I11:1I1IenlOenlre 1111,'111rl' UIll escravo

I,

i

I

relativas

o escravo

adquiridas e o senhor

e um liberto.

o

que

muitas

mais

ameno

vezes do que entre

transformava

dois

o

escra-

1\11'~IIHI:lssiI11, para

conlrolar

seus

passos

na cidade,

foram

criadas

restri-

II",.II~ "

111111111,1gll:tI

01

idl·n\ngiras,

qlll'

:llingial11 l1:ío :qx'nas

o escravo,

mas

o negro

de

1.llV,O,.1'>Illl·IH,.I~ "':11110 (.llllIldHllvg:d

p:lr:\ o g:ln!1o, alivid:ld<.:

1111,

11',1,1,1111110'11111.1<!",tI'l"lI,

p.II".1I11l1l1'l.lC.lh.II,1, () \11'1\1111'1:1110jllll'I('S~:\(lo

')~

encaminhava à Câmara um pedido formal, onde constava sua própria identifica-

ção e endereço, lado a lado

os escravos que seriam colocados nessa atividade. Estes, sob pena de prisão, por- tavam nas ruas uma chapa de identificação com o número do alvará concedido

com

os dados

básicos

( origem,

sexo, idade)

de todos

Com efeito, a população enquadrada nessas posturas incluía, além dos escra-

vos de ganho, de aluguel e domésticos, os negros e mulatos libertos. Era também

uma forma

vam burlar a fiscalização. Todo negro era suspeito, atitude que, como sabemos, até

hoje permanece vigente na mentalidade brasileira. Quem duvidar preste atenção em qualquer batida policial: sempre o negro-bem ou mal vestido - é suspeito.

de controlar a presença, na cidade de "negros fujões " que aqui tenta-

Os escravos desenvolveram no cotidiano da cidade imperial táticas de sobre

vivência que, a longo prazo acabam subvertendo as relações escravistas tradicio nais. Os anúncios de jornais e os pedidos de licenças feitos a Câmara Municipal, revelaram a existência de escravos de vários níveis de especializações Encontra mos na cidade o escravo de aluguel e o de ganho. Enquanto o escravo de aluguel tinha seus serviços oferecidos pelo proprietário que estabelecia o tipo de trabalho

e as condições

ofício, aumentando a jornada recebida pelo seu aluguel. O sistema de aluguel n?i<)

era específico da cidade já o encontramos nos primórdios da escravidão coloni:d

nas pequenas

o emprego

de pagamento.

Era

comum

senhores

ensinarem

alguma

arte

011

do aluguel

de escravo

colheitas.

o sistema

de ganho,

apresenta-se

como

uma

especificidade

do

espa~'()

urbano

- uma

nova

face

da escravidão.

O ganhador

ou

ganhadeira

tornam

SI

figuras imprescindíveis

de aluguel,

numa

o negro

de ganho

época

oferecia

em que a cidade

diretamente

do escrav\ I

seu serviço no mercado. ESSI

crescia.Diferente

escravo

deveria

com seu trabalho

prover

o próprio

sustento

e ainda

levar

ao

pn

I

prietário

parte

do rendimento.

O escravo

de ganho

não

era um grupo

homogl

neo. Existia

entre

esses escravos

uma hierarquia

que estava relacionada

ao tipo

dI

trabalho,

Os negros de ganho aparecem nas funções de carregadores, estivadores dI' porto, remadores e vendedores ambulantes, barbeiros. Os negros carregadml' diferenciavam-se pelos produtos que transportassem, possuindo frente ao gnq li' maior ou menor status. Assim sendo, o negro carregador de lixo e excrel11t"IIIi,

ocupava o lugar mais baixo, sendo considerado

des Ii1I~I

dos a prisioneiro ou negros boçais. Esse tipo de carregador era imprescindívd 11.1 cidade que não possuía um sistema de esgotos que suportasse o seu creSCil11t"lIl11

ao ganho

recebido,

além das diferenças

étnicas.

o mais

vil dos

serviços,

(~.Aguas

servidas,

matéria

ftcai.r,

i?lIIl11dices de loda

a cas/rl, /)I'mlalll'l'eIll,

mlllll,1

'/1'1111"

/al'es.

Não

existem

,(ossas, plidlll

brl/'li.!',

I (('llr1

IIIJ/~/.!' 1'1I1'1"11(11,"/'Iilll

/11/11'1/1'1/'/0,

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111I1'1'.1/11

( ••• )

ItI

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I

11I'1't'."

II/:wm,

/011/1

Esses negros "tigres" que percorriam grotescamente as ruas da cidade semi- nus, atrelados a correntes carregando os dejetos da cidade seriam, juntamente com os aguadeiros a própria representação ambulante da caótica estrutura, ou melhor dizen- do, da falta de estrutura urbana da corte. A água distribuída em grandes pipas ao preço de 30 a 40 réis no período das chuvas, tornava-se durante o verão um artigo de luxo, chegando a custar de 200 300 reis.Nas principais fontes os negros de ganho

llisputavam violentamente a possibilidade de encher seus tonéis, necessitando da in-

Invenção da polícia para organizar as filas e reprimir

as brigas constantes

viajanjantes e aos homens da

hurocracia municipal as imagens produzidas pelos pioneiros fotógrafos da corte A rotografia associada a cartofilia, expressando a necessidade de visibilidade indi- Vidual ou coletiva, dando status,comprovando viagens, enviando lembranças A IlIdustria da cartofilia, aproveitando-se da curiosidade despertada pelos escravos

IIrhanos, reproduzia-os

'llI1denada, por alguns intelectuais da época, por reforçar a imagem do Brasil IOlnO uma terra de selvagens. Na cidade do Rio de Janeiro, vamos encontrá-la IIslrita aos primeiros "daguerreotipistas", que trabalhavam no país nos decênios til' 40 a 50 do século XIX. A partir da década de 60, a imagem única produzida Ili 10 daguerreótipo, começava a ser colocada de lado em virtude das novas técni- I IH.•( multiplicadoras das cópias feitas do negativo).

Associo agora aos modos de ver dos cronistas,

como objeto de propaganda do exotismo do país. Prática

O

desejo

de

ser

fotografado

apossa-se

de todos.

Os

grandes

proprietários

1.llografavam sua família e seus escravos trajados, especialmente para a ocasião. \ pose e a montagem de estúdio representavam formas de exibição de poder.

\ Il':lvés do punctus barthiano,

ou seja, os pontos deixando-me atingir pelos

18

95

I'IIIIIOS sensíveis que saem da foto tal como uma seta, aguçando a sensibilidade

tI,l

Ilistoriadora

para

deter-

1IIIIIados aspectos captados

~ I ,\plicitados

'"lldiano, transportadas

nas cenas do

11.1L 1 o es túdio

fotográfico.

 

No jogo

entre

o pas-

1IIIII' o presente,

as ima-

,,"'

documentos

nos

'1"I.:";"lltam as Áfricas

ca-

li' ,r ,I, I 11:lIn:lndo a atenção

ILI 1';1 ( II arrt:gador

de cadei

i iidl,111

1:1ll sua

atividadt:,

11I\lIIl/.illdo

ul1la rila

St"

jlli

1111 11:. SOII!'d:ld,

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'\d"l',nllll

1,1111',1'

'lIlIll.l',(I!U

M:1H'1l1l

til'

1111.1

tral já apresentado na pose, exibe dois escravos refinadamente vestidos; o primei- ro plenamente incorporado ao seu papel coloca-se numa atitude cerimoniosa frente

a dama. Esta é o foco da objetiva nem tão objetiva do fotógrafo,

sua expressão

:ontraída

contrasta-se

com

a maneira

displicente

do

segundo

carregador.

São

inÚmeras as imagens de carregadores de cadeirinhas da cidade do Rio de Janeiro,

a selecionada retrata uma cena de Salvador, entretanto 'ela poderia perfeitamente

rcpresentar o que constantemente

acontecia

nas ruas

do Rio de Janeiro.

 

Nas

fotos

abaixo

o que

se vê são homens

negros

descalços-

como

todos

os

cscravos deveriam

andar,

teatralizando

seu ofício.

Embora

não olhem

para

o fo-

tografo

ele está

presente

na

expressão

tensa

dos

modelos.

Além

dos

homens,

outro

aspecto

que

me

toca

nessa

foto

é

o

cesto.

Ele

é colocado

em

destaque,

~~

primeiro como simples palha, depois na plenitude

conta das múltiplas atividades para o qual ganho confundem-se, sendo apresentados

da cidade. Outro

como

de sua forma,

O cesto

pronto

para

dar

de

na vida

se destinava.

e o escravo

mercadorias

essências

caricata

da cordialidade da cultura dominante.

i"undamentais na cena. Ora na cabeça, ora nas mãos ou então, numa exibição

paradoxal da elegância dos negros, fazendo parte do jogo ritualístico l\lento no encontro improvisado.

são peças

aspecto

que se destaca

é a gestualidade

O chapéu,

assim

da representação

como

o cesto

do cumpri-

Os escravos

que trabalhavam

na alfândega

- eram

os que

recebiam

os

maio-

n's jornais

ou seja, ganhos.

Negros

jovens

e robustos

alugando

seu serviço

entre

II armazém

e

o porto

e carregando

navios,

transportavam

todas

as mercadorias

II"C chegavam

a cidade

e saíam.

Finalmente

temos

os

negros

que

trabalhavam

'O!TIO vendedores

ambulantes.

Vendia-se

de

tudo

na

cidade-

era

o

:Illlburá,carvão,café

torrado,

capim,

leite, cestos

e outros

utensílios

de palha.

Os

111l'gões dos

vendedores,

com

seus ritmos

culturais

ecoavam

nas

ruas

da cidade

1II.Ircando o espaço

de cada um.

 

O circular

pela cidade,

a escolha

das ruas, os lugares

de parada,

os encontros

I

I onflitos

dimi-

1I11111doos conflitos, surge entre esses escravos uma espécie de instituição sem

I .11:ller legal, porém de aceitação de fato, como uma regra interna de convivência

definiam

as táticas

de sobrevivência.

Para regular

essas vendas,

( ls Cantos que reuniam

trabalhadores

libertos

e escravos

por

etnias

ou ocupa-

I

Possuíam , II~ membros,

,

11

,~.

lI!

de

função

da nação

111111:1,que detinham o monopólio desse serviço e que, através de uma organiza-

dos

pesquisada sobre

" IIIIHionamento interno dessa instituição no Rio de Janeiro, a não ser algumas I 1I11,Ol'S.Em seu trabalho, Reis ,traça algumas características do funcionamento

di" I :llltoS em Salvador, que acredito 1I'.",I:I,volvidos pelos negros de ganho

o autor:

também

como

importante

exemplo

no

auxílio

de

mútuo

café,

para

para

a alforria

de

por

dos

carregadores

escravo

alforria

Fonte: Christiano Junior

. s.,,,

título-1864-1866

empréstimo

semanais,

adiantavam

dinheiro

um

-11111Is.lnfelizmente pouco consegui levantar na documentação

19

possa ter alguma similitude com os cantos

nas ruas do Rio de Janeiro.

Afirma

se chamava

Capitão do Canto Intermediava a relação do ganhador com o contratador: acertava

.rerviços, estabelecia preços. Não .rabemo.r aos certo se pegava peso como os outros. Tam-

bétt/ desconhecemos que era exigido de.rse.rhomen.r(

mj>i/r/o, /1/ais {~noramo.r as regra.r

"cada

um

canto

tinha

um

líder

que

caPital

do Canto(

)

Na

Bahia

,

o

)

Havia

eleição para

o cargo

de

))

I

111111

111111111

I HI,·I

{1l11~11.1I111

~1'lil

IHI,I,

11111111

\~Sllll C0l110 variava a função do negro de ganho, variava também a cota

11IIIOS seus proprieuhios

de acordo

com a ocupação,

idade, sexo, saúde, Criou-

11111I I, 11',11:\qUl' pudl'sse vi:lhiliz:tr o SiSIl'I11:t.UI11carregador de cadeiras pagav:l

(:lrrl'g:tt!o1"('S l' l'stiv:tc!orl'S '111l'p:lg:1

\lii!ILI, 11111dl.1 ('111IH,I,?, S1I',llldo dI' Olllms

.111 \/U

111", I ',I;III\':\'; 1.1\.111111;1"~·I()II'I" (l',

(~( I,I\II~,

1':11':1(11I1~I'gllll \1,1/,-.11"

97

I1I

li

devido ao seu proprietário e viver um pouco melhor, exerciam dupla função. Era comum, nas imagens dos contemporâneos, o registro de negros carregadores

aguardando fregueses enquanto teciam palha, preparavam rosários, enfeites, fa- bricando correntes de arame para prender papagaio, esteira, e chapéus de palha.

Sobreviver

na cidade

e desfrutar

de uma

certa

liberdade

no cativeiro

impu-

nha

ao negro

de ganho

uma

verdadeira

luta

contra

as doenças

freqüentes

em

decorrência

das más condições

de vida,

alimentação

inadequada,

habitações

pre-

cárias. Os anúncios

estado

. Era

bexiga,

chos de péDados

epidemias que dizimaram, principalmente,

por

cÓlera -morbo

de varíola

dos jornais

consultados

da cidade,

o vírus

da Diretoria

febre

amarela

em

fazem

uma

denúncia

contaminações

involuntária

do

do

de saúde

dos escravos

das constantes

a erisipela,

da popu-

a

bi

algumas

como

a

de

1865, a

lação e da sua grande mortalidade

o escorbuto,

os furúnculos,

do Relatório

exemplo,

em

1850,

a

de

os efeitos

a sarna,

escrava

raquitismo,

os

venéreo,

de Saúde Pública

a elefantiase,

apontavam

da cidade,

m 1855,

em

a população

que 1857 e 1860,

o cólera

fez 4.160

vítimas,

com 4828 vítimas;

a de febre

morbo

amarela;

e em 1867 e 1868, novamente

Estamos analisando a escravidão as freguesias Urbanas ou Comerciais qur

20

segundo Noronha Santos seriam as seguintes: Candelária( 1634), São José(

I.:ngenho Novo(1873), Espírito Santo (1856), Gávea( 1873), Gloria(1834), Sacra l11ento(1826), Santana (1814), Santa Rita( 1721), São Cristóvão ( 1856), Santo Al1tonio ( 1854) , São João Baptista da Lagoa ( 1809). Nestes locais, mesmo soh ('()l1lrolc, as convivências efetivavam-se, denunciando uma espécie de tolerância,

\1111kchar

I ~l 1:lvaria em festas como

(11I1I11:llla,é possível observar outras formas de convivências, denunciando UI1LI 1',\11 tI(' til' tolerância de práticas condenadas pelas posturas municipais, como !lIli I .t·lllplo:l existência nas freguesias urbanas, de cirurgiões negros que curavalll .111.IV('Sde belneduras, talismãs, ervas, e principalmente, da aplicação de ventos:l'

A 11I't'sença desses curandeiros, de origem africana e indí~ena, rivalizava-se COIII ()s poucos e desacreditados médicos de cultura européia.

1751),

de olhos

para determinadas

a da Glória.

práticas,

como

por exemplo,

a presença

(LI

da normalidadl

Fora das festas, no tempo

(\ oportuno

ressaltar

que essa política

notadamente

tolerante

da MOnan\lli.1

explicar-ser-ía pelo próprio sistema escravista que definia, rigorosamente, a po'" çao sócio-econômica de cada pessoa, de cada grupo, de suas relações de podt'1 II.

senhores

mente substituída, logo nos primeiros anos da República, por um cos1110!l0IIlI"

.1,

de

terra,

mas

principalmente

todo

de homens.

elemento

Essa

das

tolerância

práticas

foi

ratll(.tI

1110agressivo,

negando

e qualquer

popul:trt'~,

cultura.22Confor11le

explicil:t

os artigos

156,157,158

do Código

Penal dI'

IKI)(I

IrI.

I 'ilí:

/ :.'\'/·rn·r

1I1(·tlirl/l/l

('1111/lltIllfllI'l'

tio.\'

.1'1'1I1'

/fIlllfi!

/.

ri

IIIJto

tll'/IlllI1rl

Il

1;lIlllllllrl.

1"rlllr,1I

ri

/lolIIl'lif"tI/rI,

ri

rlOIIIII!'!/1,I.

O /11/1/10111I111Ifi/l

1111(1:"1'11\1111I,11I;

11'1/1"1/,11/1'';'1111''1/111t'1~/1(/'/1I,,,Idl

r' /"/:/1/'11I11'I11111/"'1/111

/'ly,,/(lII'IIII,II/'OI

1/'11,1 1,Ii

99

meses e multa

de 100$

a 500$000.Parágrafo

Único- peios

abusos

cometidos

no exercí-

cio ilegal da

forem

impostas

medicina

em gera~ aos crimes a que

os autores sofrerão,

deram

causa. I(

além das penas

estabeiecidaJ,

as que

Art-157- Praticar

o e.rpiritismo,

a magia

e seus sortilégios, UJar tali.rmãs e cartomancias

para

de.rpertar

sentimentos

de ódio

ou amor,

inculcar

curas

de moléJtias

curaveis

ou

incuraveis, enfim, para fascinar

e subjugar

a credulidade

publica. Penas de prisão ceiu-

lar por

um

a seis meses e multa

de 100$

a 500$000.

Art. 158- Mini.rtrar ou simplesmente preescrever como meio curativo para uso interno

ou externo, e sob qualquer forma preparada, substância de qualquer dos reinos da

natureza,fazendo, ou exercendo assim, o oficio denominado curandeiro: penaJ deprisão

2J

por

seis meses

e multa

de 100$

a 500$000.

Os

artigos

da

lei

enquadravam

duas

experiências

execradas

pelo

mito

da

Illodernidade: o rudimentar

barbeiro

cirurgião

do

povo

das

ruas,

cuja

origem

lI'montaria a Idade Média e, as práticas religiosas dos afra - descendentes

consi-

Ilrradas barbarismo fetichista e curandeirismo, enfim uma memória indesejável

24

11.1cidade colonial e Imperial

que ainda

resistia

na cidade

republicana

Através

dos

relatos

dos

cronistas

e apoiados

na documentação,

eu poderia

1llllIar, se tivesse tal habilidade, um dia qualquer perdido na cidade imperial, o que

I.llri agora

através

de uma

descrição.

 

A cidade

amanhece.

Aos poucos

eles vão chegando.

Usam

calções

de algo-

'-' 11)harato, estão descalços,

como

todo

escravo

deve

andar.

São

negros

e negras

,I. di f"crentes etnias, são ladinos, são crioulos. Localizam-se nas esquinas, nos

I" IIlc )S,nas portas das lojas. Atropelam-se

na disputa

de um freguês.

As ruelas

da

, 1.I.llk são muitas vezes

transformadas

em

praças

de guerra

de

todas

as lutas,

,. 1,l('sentações de ritos iniciáticos de guerreiros

em disputa

de seu troféu

maior-

I ,111)rl'vivência.

O

Calabouço

sempre

lotado

reflete

a ação

das

autoridades.

O

11tI ••tI110 é incessante,

mal dá tempo

para

comer,

mesmo

assim

"'llilc·cem.

Os encontros

no Paço, nas proximidades

do Porto,

as solidariedades no Rocio, sempre

no coti-

Illilll tI:1cidade. Mulheres escravas ou forras, que mesmo antes de qualquer pro- l ~'" Ik libertação feminina já estavam nas ruas da cidade, com seus f1lhos en-

chega

111

Illlla

dos

caldeirões

de angú

das baianas

quituteiras,

figuras

centrais

'lI<1I;II1osna cintura, , I, " S:I<)obrigados 11/111,o mais comum,

ou correndo

ao redor

ou

algum

dos

tabuleiros

Quando

a noite

seus

a se recolherem

era

ir para

dirigindo-se

quartinho

à casa

dos

ilegalmente.

senhor,

25

sublocado

111)1:11111~lnto homens

e mulheres

renomeados

que carregaram

essa cidade:

11 il' ,li lliIC;:HlCongo,

Manocl

da Nação

Benguela,

Adão,

Alberto,

Cassiano,

Bo-

il".,II",

'II~(' ':JCiI110,Irmluicl,

todos

da nação

Mina, Macário,

Pedro,

Geriacó,

Ce-

lj

~IIII,I", S:JIIIIII) '1(11)1:1~, IlIdos

tI:J 1':lt:ao N:Jg(>. I)iollíso

Moc:lmbiqlle,

Diogo

.1'11111,1,1>.1111<,1, AI.flllllll

til'

AII/'.O!.I, 10;111('OI')',Cl M;lri:Js tI:1 ll:lt;:I() 1)('11)\111'11:1,

ÁI1tII1t1ala 111111:1,.1ali 11Ia l1ago, l{o~:\1I;l,do COI1,1\Il,.I11~'(Ii dI \llgol:1. I':il'~Ii':1i'1 am, juntamente, COIl1a cruz de Cerro l11arGldo l10 (OIIHI, (lIlll:l~ "ll1:lIcas d;1ll'1'ra", ou então, marcas reinventadas pelas mãos habilidosas dos velhos "cirurgiCí('~:

negros" tatuadores, as representações simbólicas da Africa M;k, provedora c ga rantidora da humanidade tão aviltada pela coisificação da escravidão. Nos labiril1

tos da cidade África perdida

imperial

escravos

mapeavam

nos

seus corpos

os caminhos

para

:1

de cada um as cicatrizes

de uma idealizada

identidade

cultural.

Notas

Doutora em História Social pela USP. Professora do Departamento de História d:1 UERJ e UGE

CALVINO,

Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo:

Cia das Letras, 1991. p.23

Ver: A Educação pelo Olhar: Simone Weil e a Filosofia da Atenção apud BOSl,

Alfredo In O Olhar (vários autores) São Paulo: Cia das Letras. 1989.p.82 a 86.

FREUD,

MUSIL, Robert. L'Homme sans qtlalité. Paris: Gallimard, Folio.T.l,p.2

FOUCAULT, Michel. A CERTEAU, Michel de. A

Michel de Certeau. Op. cit.p.41.

S. O Mal estar na civilização. p. 431, 432

Mimiflsica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

Invençãodo Cotidiano-Altes

defazer. Rio de janeiro: Vozes 1994.

SILVA, Marilene Rosa Nogueira

10 Paulo: Hucitec, 1988.

da. Negro na Rlla- A

Nova

Face da eJcravidão. São

11

J?

Marilene Rosa Nogueira da Silva. O Grupo Social que explorava o escravo de ganho

In Negro Na Rua op. Cit. p. 143-156.

Debret. Op. CitoP.256.

13 EWBANK, Thomas. ,/1 vida 110 Brcwl Rio de Janeiro: Editora Conquista, 1973.

LUCCOCK,johnn

. Notas Jobre o Rio deJaneiro eparteJ meridionaÚ do Brc/JIl São Paulo:

14 ]jv. Martins, 1951.p.75.

AGCRj-códice 6.1.55
15

AGCRJ-códice 6-1.55
16

17 Ver REIS, João José. Rebeldia escrava, o levante de Males. São Paulo: Brasiliense, 1986.

RIBEYROLLES,

Charles. 13raJi!PitoreJco 1822-1860.

2° volume. Belo Horizonte:

18 Itatiaia, São Paulo, 1980.p188.

Câmara C/ara. Lisboa: Edições 70, São Paulo: Martins Fon-

tes,1980,
19

20 J.J. Reis. Op. Cit. P 202 SANTOS, Francisco Noronha. As hegllesias do Rio Antzgo. Rio de janeiro: Edições O

Cruzeiro, s\d.
21

22 Ver MONTEIRO, Paula. Da Doença a DeJordem. Rio de janeiro: Graal,1985

A complexa discussão sobre a definição de Cultura popular questionada por Pierre

BARTHES, Roland. A

Bordieu em Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectivas, 1975, que

1"11 11\111P:lll'lill'SI'So 1:11,11('1l'Olill'stadot d,\ rul1ura popubr pata ahorda Ia sob o

\"ISlll:111.1( cliISl't1':1<;:1< I, 1st() l', pcl() que l1elaexiste de

v.tI(II'l'S dominanles.

('\,101COl1l0uma oulra cultura, entretanto não dá para relegar as características de

,q1\(lpriaçao e adaptação como um fator de resistência. Tratamos a questão na pers- 11('(tiva formulada por Bakthin sobre a circularidade da cultura novamente proposta pm Carlo Ginzburgo em Os Queijos e os Vermes. São Paulo: Cia das Letras, 1987. (:c'ldigo Penal dos Estados Unidos do Brasil, promulgado pelo Decreto n° 847 de 11 !il' outubro de 1890.p.23

reprodução

e assimilação dos

Concordando

em parte com o autor pois não consideramos

Ver IJ mRUN,

IliJ/rÍlia. Lisboa: Terramar, 1991.pp.299-321. Marilene Rosa Nogueira da Silva. Negro na Rua. Op. Citop.ll1.

François. Os CirurgiõeJ -BarbeiroJ. In jacques

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UNIVERSIDADE

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DO ESTADO

DO RIO DE JANEIRO

REITORA

Nilcéa Freire

VICE-REITOR

Celso Sá

SUB-REITOR

Isac Vasconcellos

DE GRADUAçÃojSR-l

SUB-REITORA

PESQUlSAjSR-2

Maria Andréa

DE

PÓS-GRADUAÇÃO

Rios Loyola

E

SUB-REITOR

E CULTURAjSR-3

DE EXTENSÃO

André

Lázaro

DIRETOR DO DEPARTAMENTO CULTURAL

Roberto Conduru

COORDENADORA DE PROJETOS E AÇÕES CULTURAIS

Vera Beatriz Siqueira

 

Catalogação

na Ponte

 
 

Departamento

Nacional

do Livro

 

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Seminário

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capitalidade

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Anais

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Departamento

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Cultural/NAPE/DEPEXT

180p.; 23cm

ISBN: 85-86065-06-4

/SR-3/UERJ,

2002.

(Cidade) -

Usos e 'êllJstumes. 1. Azevedo, André

~\Rio

de Janeiro

História.

Nunes

de.

2. Rio de Janeiro-

CDD981.53

NAPE/D

EPEXT/SR·3/U

ERJ

Rua São Francisco Xavier, 524, Sala 1054, 13loco F

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Agradecimentos------------------

Apresentação

Artigos

Sumário

5

7

Em Algum Lugar do Passado. Cultura e história na cidade do Rio de Janeiro

Antônio

Edmilson

M. Rodrigues

A Capitalidade do Rio de Janeiro.

Um exercício de reflexão histórica

André

Nunes

de Azevedo

A História do Rio de Janeiro

da monarquia

como espelho

portuguesa

1660-1763

Rodrigo

Bentes

Monteiro

O Rio de Janeiro

e a Experiência Imperial

limar

Rohloff

de Maltos

o Rio de Janeiro

Imperial e suas Áfricas Visíveis

Marilene

Rosa Nogueira

da Silva

Rio de Janeiro:

capital de um império escravista

Maria

Emília Prado

O povo Escala o Monumento:

uma arqueologia da ex capital da República