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Título: Só por uma Noite.

Autor: Jessica Steele


Título original: "Intimate Enemies"
Dados da Edição: Livros Abril, 1985 São Paulo
Género: romance.
Digitalização e correcção: Dores Cunha.
Numeração de página: rodapé.
Estado da obra: corrigida.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à
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LIVROS ABRIL
Romances com Coração
Caixa Postal 2372 - São Paulo
Copyright: jessica Steele
Publicado originalmente em 1983 pela Mills & Boon, Ltd. Londres,
Inglaterra
Tradução: Lúcia de Barros
Copyright para a língua portuguesa: 1985 Abril S. A. Cultural - São Paulo
Esta obra foi integralmente composta e impressa na Divisão Gráfica da
Editora Abril S. A.

CAPÍTULO I
Anne abriu os olhos, ainda entorpecida pelos remédios, e não se assustou
ao ver a enfermeira em pé, a seu lado. Isso acontecia tanto que já estava
ficando monótono.
- Como está se sentindo?
- Bem.
A resposta era sempre a mesma. O que importava aquela dor terrível nas
costas, perto do sofrimento que lhe consumia o coração? Por que ela
também não tinha morrido com os pais naquele acidente pavoroso?
Fazia tão pouco tempo! Tinham ido passar os feriados no País de Gales.
Nunca poderia imaginar que naquele cenário magnífico, os pais muito
felizes subindo a montanha, sorrindo como crianças, fossem de repente
atingidos por uma avalanche de pedras. Foram envolvidos por aquela
cascata de rochas e. ..
- Vou buscar alguma coisa para aliviar a dor. - A enfermeira saiu.
Há quanto tempo estava deitada ali? Anne não fazia ideia mas também não
fazia questão de saber. Só sabia que não estava progredindo como o
esperado. E que tinha sido transferida do hospital próximo ao local do
acidente para esse outro, em Exeter.
A mudança de hospital não resolvia nada. O que adiantava estar num lugar
onde os amigos pudessem visitá-la? Ela não queria estar com eles nem com
ninguém. Só precisava de sua mãe e de seu pai, e se eles tinham morrido,
também queria morrer!
Provavelmente tio James, que era médico, tinha conseguido a
transferência para Exeter. Sem ser parente direto, era muito amigo da
família e sabia que Anne tinha nascido e se criado em Exeter. A
enfermeira voltou seguida da irmã superiora.
- Como se sente? - a freira indagou.
Iam começar tudo de novo, pensou Anne. Será que esperavam que ela
respondesse de forma diferente?
- Bem.
- Não posso lhe dar outra injeção sem que o médico receite, mas logo ele
está aqui.
Anne virou-se para a freira e respondeu num fio de voz:
- Não tem importância.
Todos estavam sendo gentis e delicados, fazendo tudo para ela ficar boa
outra vez. Mas. para quê? Tinham vivido sempre tão unidos, o pai, a mãe e
ela, que não ia conseguir enfrentar a vida sem eles. Iam juntos a todos
os lugares, nunca se separavam. Anne nem tinha amigas de sua própria
idade, pois preferia a companhia dos pais.
O amor que dedicava a eles era plenamente retribuído, com a mesma ou
talvez maior intensidade. E agora, como faria para continuar vivendo, se
não estavam mais ali?
Contorceu o rosto numa expressão de dor. Suas costas doíam e por mais que
se ajeitasse na cama a dor não passava, arrancando-a de seus pensamentos.
Quando o médico chegou, Anne sentia tanta dor que cerrava os dentes para
não gritar. Assim que ele se aproximou do leito percebeu o que se passava
e ordenou à enfermeira que aplicasse um sedativo na paciente.
Anne nem ouvia o que o dr. Phillips lhe perguntava, tão concentrada que
estava em reprimir um grito de dor. Felizmente a enfermeira chegou com a
bendita injeção e logo a aplicou.
O alívio foi quase imediato, como passar do inferno para o paraíso. O dr.
Phillips ainda ficou mais alguns minutos com ela, examinando-a, e fazendo
as perguntas de praxe. Agora ela não sentia dor, e percebia o toque das
mãos do médico contra a comprida cicatriz que acompanhava sua coluna,
desde pouco acima da cintura até o fim da espinha.
- Amanhã vamos tirar esses pontos e vai se sentir melhor - o médico
avisou.
- Está bem, doutor, obrigada. - Já começava a sentir as pálpebras pesadas
e sabia que logo mais estaria dormindo. Ainda tinha os olhos abertos
quando viu o trio se retirar, colocando biombos à sua volta.
Não podia compreender por que a fechavam entre aqueles biombos, se ela
era a única paciente naquela enfermaria de três leitos. Devia ser ordem
do dr. Phillips, que segundo tio James era um excelente especialista.
Fechou os olhos, já quase dormindo.
- Ela está em más condições. - A voz do dr. Phillips chegava até Anne
através do biombo. Ficou atenta, prestando atenção.
Não conseguiu ouvir o que a enfermeira dizia, mas a voz do médico chegava
claramente a seus ouvidos e espantava o sono que já tinha praticamente se
apossado dela.
- Mantenha-a deste lado da enfermaria, irmã, embora ache que não vai
ficar conosco muito tempo. Se conseguir sobreviver, tenho a impressão de
que não vai durar mais que seis meses.
O Dr. Phillips estava se referindo a ela. Não havia mais ninguém ali. Ao
se dar conta das palavras do médico, se conscientizou do quanto queria
viver. Não pensava mais em morrer, e sentiu-se dominada por uma vontade
nova, como um impulso de vida. Queria aproveitar a vida, sim, já que em
seus vinte e dois anos quase nada fizera.
Quero viver, disse a si mesma. Quero viver, muito, intensamente! Não vou
morrer! Preciso ficar viva.
Antes de se retirar da enfermaria, a enfermeira ainda deu uma olhada em
Anne Newman, a moça gravemente ferida que eles estavam tentando salvar.
Ela dormia.
Ao abrir os olhos, sem saber quanto tempo depois, Anne notou que os
biombos tinham sido retirados. As palavras fatídicas do médico ainda
ressoavam em sua cabeça. Olhando a seu redor, viu as duas camas vazias,
como sempre. Então estava confirmado. Era dela mesma que tinham falado!
Ficou apavorada. Pela primeira vez, desde que estava no hospital, tocou a
campainha chamando a enfermeira. Não queria ficar sozinha. já estava
banhada em lágrimas quando a moça apareceu, mas os
soluços a impediram de dizer por que chamara. No entanto queria gritar a
plenos pulmões que não queria morrer, que só tinha vinte e dois anos!
- Está doendo muito? - A enfermeira tirou uma caixa de lenços de papel do
criado-mudo e enxugou o rosto de Anne. - Ainda é muito cedo para lhe dar
outra injeção, mas vou ver o que posso fazer.
- Não é isso - conseguiu balbuciar.
- O que é, então? - A enfermeira, srta. Jones, segurou sua mão com
carinho. - Pode me dizer que vou tentar ajudá-la. É por causa de seus
pais que está tão desesperada? - Ela continuou a falar com palavras
suaves, mostrando ternura.
Nas semanas seguintes a srta. Jones fez o possível para estar bastante
tempo com Anne, encorajando e ajudando-a a voltar a andar. Para Anne a
lembrança desse tempo era principalmente de muita dor física, mas pouco a
pouco ela foi melhorando. Ainda acordava com pesadelos em que revivia a
morte dos pais, mas começou a se ajustar à situação.
O mais difícil era conviver com a idéia de só ter seis meses de vida.
Ficava apavorada cada vez que pensava nisso, mas não conseguia se abrir
com ninguém.
Depois de três semanas no hospital, o dr. Phillips lhe deu alta. O médico
veio conversar com ela antes de mandá-la para casa.
- Você se recuperou muito bem, felizmente. Mas não esqueça que nos deu um
trabalho louco para a deixar em forma novamente. Portanto, não faça
nenhuma bobagem que possa comprometer sua recuperação.
- Prometo fazer tudo que mandarem - concordou, embora intimamente
soubesse que recebia alta para poder morrer em sua casa.
- Durante seis meses não pode fazer esforço nenhum. Sua coluna ficou
muito machucada quando a avalanche a atingiu e a situação piorou quando
você começou a se movimentar procurando seus pais. Mas tudo está bem
agora, e a não ser pela cicatriz, que logo vai ficar bem menor, nada mais
merece preocupação.
- Obrigada por tudo, dr. Phillips. - O que mais ela podia dizer?
- A melhor maneira de me agradecer é seguir meus conselhos. Não levante
nem carregue nada pesado. Não fique muito tempo em pé, principalmente
parada. Trate bem seu corpo, nos próximos seis meses, e daí para a frente
vai ficar nova outra vez sem lembrar que um dia esteve tão ferida. - O
médico sorriu.
Anne agradeceu mais uma vez, pensando que dali a seis meses não ia
lembrar de nada mesmo, porque estaria morta! Antes de sair do hospital
fez questão de agradecer pessoalmente a todos que tinham trabalhado tanto
para que ela ficasse bem.
Tio James foi buscá-la.
- Não gostaria que ficasse sozinha em seu apartamento, Anne. Por que não
ficar um tempo na minha casa? Tenho lugar de sobra e a sra. Paget, a
governanta, adoraria poder cuidar de você.
- Obrigada, tio James, mas sei que tenho de me acostumar a viver sem
mamãe e papai e é melhor começar imediatamente. - Anne achava que
deveriam ter contado a verdade sobre sua saúde a tio James, mas já que
ele não tinha tocado no assunto, era melhor ficar quieta. E a sra. Paget
já devia ter serviço de sobra, tomando conta da casa do médico, atendendo
seus telefonemas e marcando suas consultas. Não ia dar trabalho a mais
ninguém. Precisava aprender a viver independente.
Tio James carregou a mala para cima.
- Lembre-se do conselho de seu médico, Anne. Não carregue nada.
- Ele ainda tomou uma xícara de café antes de se despedir. - Vou lhe
deixar uma receita de comprimidos contra dor. Mas cuidado: não dirija nem
beba álcool enquanto estiver tomando o remédio.
- Sabe que não dirijo, e que bebo só em ocasiões muito especiais, tio
James. - Ela sorriu.
- Virei vê-la de vez em quando, mas venha até o consultório sempre que
tiver vontade, seja para me ver ou conversar. Está bem?
- Combinado. Não se preocupe comigo, tio James. Estou bem agora; vá
sossegado.
Mas ela não estava bem. Além de não se sentir completamente boa, a casa
vazia parecia insuportável. Tinha ido ao quarto dos pais e sentado na
cama. Ao compreender que nunca mais os veria, começou a chorar até que
não tivesse mais lágrimas.
Já fazia uma semana que deixara o hospital e ainda tinha crises horríveis
de pânico e angústia. Precisava fazer alguma coisa, senão ia acabar num
asilo de loucos. Mas o que podia fazer com um tempo de vida tão curto?
Tinha vinte e dois anos e um bom emprego como secretária numa
imobiliária. No entanto, não podia voltar a trabalhar imediatamente. Oito
horas sentada, batendo à máquina, eram mais do que sua coluna poderia
agüentar.
O que ia fazer? Tinha vivido sempre tão abrigada junto dos pais que não
conhecia nada sobre a vida. Tivera alguns namorados mas nada mais sério,
além de beijos e alguns abraços apertados. E agora... em seis meses
estaria morta. Morta, sem nunca ter experimentado o que era viver! E não
adiantava ficar sentada, deixando os dias passarem, à espera.
Ergueu a cabeça numa atitude de desafio. Estava pronta para lutar contra
o destino. Não sabia o que ia fazer, mas não se entregaria de braços
cruzados, sem lutar. Ia tirar da vida o máximo que conseguisse nesses
poucos meses. Pegou o casaco e saiu de casa quase correndo. Não sabia por
onde começar, mas só estar na rua já era alguma coisa.
O ônibus a deixou perto do centro de Exeter. Em vez de ir para a
catedral, como fazia antes, se dirigiu para uma lanchonete onde o pessoal
jovem costumava se reunir.
Anne já tinha tomado duas xícaras de café, sem encontrar ninguém
conhecido. Devia ter se lembrado de que a essa hora todos estavam
trabalhando. Estava quase saindo quando uma moça, que conhecia
ligeiramente, passou pela porta e entrou.
Sally Smith logo a reconheceu e veio na sua direção.
- Não está trabalhando, Anne?
- Estou de licença, por causa do acidente.
- É verdade. Sinto muito por seus pais. Está melhor agora?
- Bem melhor, obrigada. E você, está trabalhando, Sally?
- Estou procurando emprego.
- É horrível não ter nada para fazer, não é?
- Depende do que se faz no tempo livre. Não posso dizer que fico à toa.
Sempre faço alguma coisa, em algum lugar. Há gente muito animada por
aqui, Anne. É só saber procurar.
Anne não tinha muita intimidade com Sally, mas como a moça
parecia saber onde se vivia intensamente, não queria mais perdê-la de
vista. Onde é que se acha... essa vida. esse movimento que você falou,
Sally?
Está querendo agitar sua vida? - Sally parecia espantada;
conhecia as idéias antiquadas de Anne.
- Muito, mas não sei por onde começar.
- Bem. não tenho programa nenhum para hoje à noite, mas venha para a
cidade às oito horas e poderemos ir a um barzinho, onde trataremos de
arranjar o que fazer... e com quem! - Sally deu uma gargalhada gostosa.
Em casa, enquanto se arrumava para sair, Anne se perguntava como seria o
tal barzinho. Nunca tinha ido a um e estava curiosa. Fosse o que fosse,
qualquer coisa era melhor que ficar em casa.
No centro da cidade, procurou o hotel cujo nome Sally havia dado. Era uma
nova experiência entrar num lugar desses. O salão já estava ficando cheio
e não via sinal de Sally. Havia um banco vazio no balcão do bar e foi
para lá.
O garçom a olhava com curiosidade e Anne se sentiu sem graça, com sua
maquilagem pesada. Tinha tentado parecer uma mulher experiente e vivida.
- Um uísque por favor - pediu, sabendo que odiava a bebida.
- com água?
- Não, só com gelo. - Pensou em sentar no banco mas notou que ele não
tinha encosto e ia ficar com a coluna desprotegida. Mas não se importava.
Tinha tomado um comprimido contra dor, e se ela voltasse, tomaria outro.
Anne tentou sentar mas não conseguiu se ajeitar, o banco era bastante
alto.
- Precisa de ajuda? - Uma voz quente e bonita se fez ouvir bem perto.
Anne virou-se e viu um rapaz moreno, alto e forte. Ele se aproximou e com
a maior sem-cerimônia levantou-a pela cintura e a pôs sentada no
banquinho.
- Obrigada.
O garçom trouxe o uísque que ela tinha pedido e o rapaz voltou
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sua atenção para o copo que tinha à sua frente. Anne deu um gole, achando
a bebida horrível, mas resolveu tomar. Tinha tomado remédios muito piores
no hospital e não ia desistir por causa de um gosto ruim.
Onde estava Sally? Já deveria ter chegado. Não gostava de ficar ali
sozinha; tinha a impressão de que todos a estavam olhando. Concentrou-se
na bebida, fazendo votos para que Sally chegasse logo.
O velho sentimento de pânico começou a tomar conta dela outra vez.
Precisava falar com alguém. Olhou para o homem sentado a seu lado e
resolveu puxar conversa. Já que ele a tinha ajudado a subir no banco não
era mais um ilustre desconhecido. O rapaz tinha os olhos baixos e um
aspecto sombrio, como se estivesse preocupado ou aborrecido. Mesmo que
estivesse, o problema dele não podia ser maior que o dela, que ia morrer
tão cedo. Falaria com ele.
- Trate de se animar, nada pode ser tão ruim assim. - Anne procurou falar
num tom leve, de quem não tem com que se preocupar. O rapaz olhou-a
surpreso para logo em seguida baixar de novo os olhos para o copo. - Não
deve se amolar assim. Vai ver, amanhã tudo vai ficar melhor do que está -
completou, forçando um sorriso bonito.
- Acha que sim? - O rapaz olhou-a por um longo tempo antes de responder.
- É sempre assim. - Ainda bem que ele tinha resolvido falar com ela.
Precisava manter a conversa pelo menos até que Sally chegasse. - Acho que
nunca o vi aqui antes. - Era uma conversa estúpida, ela sabia, porque nem
imaginava o que fazer ali sozinha num lugar estranho.
O rapaz não deu continuidade ao que ela começou a dizer. Examinou-a com
mais atenção e Anne teve certeza de que ele a achava horrível com tanta
maquilagem.
- Quer tomar outra bebida? - ele ofereceu.
- Não obrigada, ainda tenho bastante. - Virou o rosto para que ele não
percebesse como se odiava pelo papel que estava fazendo. Afinal de
contas, estava sozinha num bar e tinha começado a conversa, o que dava a
ele o direito de pensar coisas horríveis a seu respeito. Mas... ele não
tinha tomado a iniciativa, quando a tinha ajudado a subir no banco?
Olhou-o pelo canto dos olhos e viu que o rapaz tinha voltado à posição
anterior, concentrado em sua bebida. Virou-se para a porta para ver se
via sinal de Sally, mas. nada!
- Talvez aceite a bebida que me ofereceu... se for um pouco mais tarde. -
A que ponto de desespero ela tinha chegado! Estava sendo oferecida só
para ter alguém com quem falar!
O rapaz a olhou com um certo desprezo.
- Quem sabe eu lhe dou outro mais tarde? Quantos anos você tem?
- Sou maior de idade. - Ela assumiu um ar independente.
- É bom que seja, mesmo. Você parece se expor com muita facilidade.
- E acha que isso é motivo para queixas? - Meu Deus, o que ela estava
dizendo? Tinha ficado louca?
- Não estou me queixando. Garotas como você são bem úteis, às vezes.
Anne não tinha muita certeza sobre o que estavam falando. Uma dor fina e
aguda a estava perseguindo e ela compreendeu que não ia agüentar muito
tempo sem um apoio para as costas.
- E tem usado esse tipo de garotas? - Não queria continuar nesse jogo de
palavras, mas a dor, sempre constante, a fazia lembrar de seus problemas.
Então, por que não viver uma experiência diferente?
- Nunca paguei por. por esse tipo de prazer - ele respondeu com frieza.
- Quem está lhe pedindo que pague? - Sentiu o rosto arder, mas mantinha a
cabeça ereta. Sabia que essa conversa era sórdida e horrorosa, mas pelo
menos estava falando com outro ser humano e não chorando em casa.
- Está se oferecendo para mim. de graça? - O rapaz parecia não acreditar
no que ouvia.
- Não estou me oferecendo. - Arrependeu-se no mesmo instante. Assim o
rapaz ia perder o pouco interesse que tinha conseguido despertar e ela
teria que ficar sozinha de novo.
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- Então está apenas querendo me deixar excitado, como brincadeira?
Escolheu a pessoa errada para isso, garotinha. - Ele colocou o copo vazio
sobre o balcão.
Agora ele vai embora e eu vou ficar aqui sozinha, pensou desesperada.
- Não vá! - ela pediu. Alguma coisa em sua súplica atingiu o alvo, porque
em vez dele levantar e ir embora permaneceu onde estava.
- Pode me dar uma boa razão para que eu não vá?
- Não posso. Acontece que estou cheia de mim mesma, e pensei. pensei que.
- A voz dela sumiu.
- Já tenho problemas de sobra e não estou disposto a ficar ouvindo os
seus, mas posso lhe dizer que também eu estou cheio. de tudo. - Ele a
olhou direto nos olhos. - Já está pronta para a bebida que lhe ofereci?
- Ainda não. - Anne sorriu, feliz por ele ter resolvido ficar.
- Mora aqui por perto? - Ela começou outro assunto, sem saber exatamente
o que dizer. Já tinha desistido de ver Sally entrar. A moça devia ter
desistido de vir.
- Não moro longe - foi a resposta evasiva. Ela compreendeu que não
importava o que falassem, não deveria manter a conversa em termos
pessoais.
Sabia que o rapaz não queria fazer confidências a um tipo de moça como
ele julgava que ela fosse. Tomou mais um gole de bebida, procurando força
e determinação para continuar conversando. Por um longo instante, longo
demais para seus nervos, o silêncio foi a única coisa ali presente. Por
mais que procurasse o que dizer, não achava nada. Depois, resolveu
perguntar banalidades.
- Se mora perto, não está hospedado no hotel, não é?
- Por coincidência, essa noite sou hóspede do hotel.
Anne começou a imaginar o motivo. Se ele morava perto, deveria ter tido
problemas em casa. com a esposa? Seus olhos procuraram ver se ele usava
aliança, mas não a encontrou. Também, isso não significava nada, pois
muitos homens eram casados e não usavam aliança. Por que ele ia passar a
noite no hotel? Não conseguia encontrar uma resposta razoável.
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- Seu copo está quase vazio e você não está bem acomodada nesse banco.
Que tal tomarmos a outra bebida no conforto do meu apartamento?
Entendia perfeitamente bem o que ele estava querendo. Se fosse com ele
sabia que tudo terminaria aPenas de uma maneira- mas por que não? devia
ir com ele para o quarto? Não bastava aquela dor constante nas costas,
para adverti-la que cada vez tinha menos tempo de vida? Se não o seguisse
agora, ele iria embora, e ficaria sozinha de novo.
Teria coragem de se meter nessa aventura? Tudo isso era contráriu a seus
princípios. Que princípios, que nada! Não teria tempo para estabelecer
regras de conduta. Estava com vinte e dois anos e não conhecia nenhum dos
prazeres que a vida pode oferecer- Então, por que não acompanhar o rapaz
atraente? Ou preferia voltar para casa e chorar suas mágoas sozinha, até
o desespero?
Vocè é casado? - perguntou a queima-roupa.
O rapaz pareceu espantado, como se achasse esquisito que ela tivesse
escrúpulos.
Não. Não sou casado.
Anne compreendeu que a decisão seria só sua. Ele não Pretendia
pressioná-la. Acho que tem razão. Vamos ficar muito melhor acomodados em
seu quarto. - Deixou que o rapaz a ajudasse a descer do banco. Teve a
sensação de que todos os olhares a acompanhavam, sabendo
exatamente o que ela ia fazer.
CAPÍTULO II
Annee sentiu-se apavorada enquanto o elevador subia. O que fazia ali?
Como tivera coragem de aceitar o convite?
- Por aqui - o rapaz indicou quando pararam no andar do seu quarto.
Ela o seguira silenciosa, lembrando a imagem dos pais e o carinho que os
mantinha unidos. Desejava ardentemente uma união cheia de amor e no
entanto estava se encaminhando para uma situação bem diferente.
O homem abriu a porta do quarto e convidou-a para entrar. Anne hesitou,
mas sabia que já não podia recuar. Esperava apenas que ele fosse delicado
e gentil. Essa situação podia ser comum para outras garotas, mas não para
ela. Seu único consolo era que não estaria sozinha em casa, vivendo os
terríveis pesadelos que a assaltavam. Dessa vez iria acordar com alguém
ao seu lado.
Engoliu em seco e entrou. O quarto parecia grande, mas a peça mais em
evidência era a cama de casal. Estava ficando louca; pensou e desviou o
olhar.
- Preciso ir ao banheiro - avisou.
- É ali, atrás daquela porta.
Anne correu para a direção indicada e fechou a porta, não sentia só dor
nas costas: a cabeça também estava estourando. Teria sido o uísque que
tinha tomado, por não estar acostumada? Abriu a bolsa e pegou dois dos
comprimidos contra dor. Não deveria tomar nenhum, pelo menos durante as
próximas três horas, mas engoliu-os de uma só vez.
Já ia voltar para o quarto, quando pensou que seu companheiro não ia
ficar satisfeito se começasse a se queixar de dor na hora de ir para a
cama. Abriu novamente o vidro e tomou mais dois comprimidos. Sentindo-se
protegida, abriu a porta e entrou no quarto.
A cama enorme parecia dominar o ambiente. Foi com satisfação que Anne
ouviu o rapaz convidá-la para sentar à mesa perto da janela.
Ainda bem que ele não é o tipo que agarra logo, pensou um pouco aliviada.
Sentou numa das cadeiras, enquanto ele ocupava a outra.
- Esqueci de perguntar seu nome.
- É. é Bunny - ela mentiu, desejando permanecer no anonimato. Percebeu
logo que ele não acreditou, mas não ligou para isso.
Pela primeira vez notou que um sorriso começava a aparecer nos lábios do
rapaz. Ele não parecia tão amedrontador, depois que sorria. Parecia até
mais moço do que os trinta e cinco anos que tinha lhe dado.
- Também não sei seu nome.
- Bem, Bunny. que tal, Wolf? - Como vai, Wolf? - Ela tentou sorrir mas
logo se assustou quando o viu levantar e se aproximar de sua cadeira.
- Só tenho uísque aqui - ele explicou -, mas se quiser posso pedir outra
bebida.
- Uísque está ótimo. - Ela preferia água gelada, porque estava com sede,
mas resolveu manter a imagem de mulher experiente.
Ele foi até um móvel e tirou uma garrafa, servindo dois copos. Trouxe um
para ela e brindou:
- Para nós, Bunny.
- Para nós - ela repetiu, não sentindo a menor alegria. O rapaz tomou um
gole sem tirar os olhos dela.
- Você parecia diferente lá embaixo, Bunny.
- Como assim?
- Não me pareceu tão dura como quando estava no bar. Faz isso com muita
freqüência?
- Você se refere a tomar uma bebida com um homem, num quarto de hotel? -
Sem querer Anne olhou para a cama e esse movimento não passou
desapercebido ao rapaz. Sentia-se tensa e
tratou de beber um pouco mais para conseguir relaxar. - Não é a primeira
vez - mentiu. Era estúpido não falar a verdade, pois ele entenderia tudo
quando se vissem juntos na cama. Mas não queria que ele a mandasse
embora. Se o rapaz soubesse que estava levando para a cama uma mulher
inexperiente e virgem, era bem capaz de expulsá-la dali.
- Venha até aqui - ele falou de repente.
- Ainda não terminei minha bebida, nem imaginei que fosse do tipo
apressado. - Ela quis parecer segura.
- Não tenho pressa. Pode terminar de beber com calma.
Anne tentou sorrir. De repente notou que a imagem dele parecia fora de
foco. Passou a mão pelos olhos e fixou o olhar, mas o efeito foi ainda
pior. Agora a enorme cama dançava na sua frente. Estava bêbada? Não era
possível... Será que tinha chegado o momento de morrer? Assim, sem mais
nem menos? Levantou e o quarto todo pareceu rodar.
- O que há com você?
Anne percebeu que o rapaz tinha levantado e chegado mais perto. Sentia
necessidade de proteção e encostou-se nele, colocando a cabeça contra seu
peito.
- O que está havendo? - ele insistiu.
- Nada... - Ela mal conseguia falar. - Apenas me segure bem perto de
você. Me abrace. me ame.
- Já tinha pensado em fazer isso, mas acho que vou gostar mais se estiver
sóbria.
Anne não tinha se referido a essa espécie de amor, mas como ele podia
saber, se a conhecia há tão pouco? Como podia saber que ela precisava do
carinho e da proteção que havia perdido? - Não estou bêbada. - Pensou
depressa numa desculpa. - Fui ao dentista hoje à tarde e juntando a
anestesia com o uísque acabei ficando um pouco zonza, mas já passou.
- Nesse caso. - O rapaz abaixou a cabeça, pronto para beijá-la.
- Você se incomoda se eu for ao banheiro outra vez? - Ela sentiu o medo
crescer. - Minha boca está amarga por causa da anestesia. Posso usar sua
pasta de dente?
Tinha a cabeça confusa, os pensamentos num caos completo. Estava numa
enrascada e não via como sair dela. Preocupava-se menos com o fato de ir
para a cama com ele do que com o que ele diria quando soubesse que era
sua primeira experiência em sexo. Olhou-se no espelho e viu a imagem
borrada. Tudo continuava girando. Era melhor voltar para o quarto antes
que desmaiasse ali dentro.
Abriu a porta e viu que Wolf se aproximava. Ao pensar no nome dele, Wolf,
teve vontade de rir.
- Estou aqui, Wolf. - Sua voz não parecia pertencer a ela.
- Sua pequena Bunny está prontinha e esperando por você.
O quarto começou a girar mais rápido e ela pensou que ia cair direto no
chão, quando dois braços fortes a envolveram. Ouviu a voz do rapaz, que
parecia vir de longe, de outra galáxia.
- Sei que está aqui, minha Bunny, e acho que é mais que hora de usar a
cama.
Anne acordou devagar, sem saber que lugar era aquele, e o que fazia ali.
Por um segundo achou que estava no hospital. Depois seus olhos passearam
pelo quarto, e ela reconheceu o vestido usado na véspera, cuidadosamente
pendurado do lado de fora do armário.
De repente se deu conta de como tinha chegado ali... e mais nada. Sua
memória era um vazio total. Não conseguia se lembrar de como deitara na
cama, do que tinha acontecido nela. Ficou alarmada. Teria sido uma
experiência tão revoltante que se defendera com a perda da memória?
Virou-se para o lado e viu que o rapaz dormia de costas para ela. Reparou
nos ombros largos e nus e deduziu que por baixo das cobertas, o resto
daquele corpo deveria estar nu também.
Um medo sem limite a dominou. Ela também estaria nua? Levantando as
cobertas, viu que estava usando a anágua. Teria tirado a roupa e tornado
a pôr, ou não havia tirado? Não lembrava nada. Como Wolf teria agido?
Tinha lhe tirado a roupa para fazer amor e depois tornado a vesti-la?
Como podia saber?
Escorreu para fora da cama. Sairia dali imediatamente, antes que ele
acordasse. Tinha que fugir, antes de precisar encará-lo.
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Sentia-se envergonhada pelo que tinha acontecido e não tinha coragem de
enfrentar a si mesma, que diria encontrar os olhos cheios de desprezo do
rapaz.
Aproximou-se do cabide onde estava o vestido. Quem o tinha pendurado com
tanto cuidado? Ela mesma. ou ele? Que vergonha?
Ao pegar o vestido, o cabide fez barulho e Anne voltou-se para a cama,
preocupada. Wolf se espreguiçou mas continuou dormindo. Engraçado como
suas feições já não pareciam tão sérias e pesadas como na noite anterior,
pensou. Ela teria conseguido, com seu corpo, eliminar a dureza e
preocupação daquele rosto?
Desviou os olhos. Tinha deixado que a idéia de morrer logo valesse mais
do que tudo o que aprendera com os pais, que uma moça só devia se
entregar ao homem amado depois das formalidades do casamento. Seu rosto
estava em fogo e, mais que depressa, tratou de se vestir para sair dali o
quanto antes.
Mal pôde se lembrar como conseguiu chegar em casa. Tinha chamado um táxi
e foi com um suspiro de alívio que se viu no apartamento. Foi direto para
o banheiro, com a intenção de tomar um longo banho de imersão. Queria se
ensaboar, se esfregar, limpar qualquer vestígio da noite alucinada.
Ao passar pelo quarto, se viu no espelho e quase morreu de susto. Estava
ainda com a maquilagem pesada da véspera, toda borrada. Lágrimas brotaram
de seus olhos e se misturaram com o rimel, deixando-a ainda pior.
Correu para o banheiro, encheu a banheira com água bem quente e ficou lá
dentro bastante tempo lavando o rosto e o corpo várias vezes. A água
estava quase fria quando ouviu o telefone tocar.
Saiu depressa da banheira, o que lhe valeu umas pontadas mais fortes na
coluna. Enfiou-se num roupão e foi atender.
- Anne? - Uma voz feminina perguntou. - Estou falando com Anne Newman?
- Sim, sou eu mesma.
- Aqui é Sally. Demorou para atender, estava no banho?
- Estava sim - respondeu aborrecida. Se Sally tivesse ido ao encontro,
como combinaram.
20
Desculpe por não ter aparecido ontem à noite; espero que não
tenha ficado esperando por mim durante muito tempo.
Tudo bem, Saly. - Anne tinha a voz fria. Ninguém precisava
saber no que ela tinha se metido. - Obrigada por ter telefonado.
Não foi só por isso que liguei, Anne. Tenho notícias maravilhosas e
queria contá-las para alguém. Pensei logo em você, porque ontem mesmo
estivemos juntas.
Não se interessava pelas novidades de Sally, mas, para ser educada,
perguntou:
- Quais são as boas novas?
- vou me casar - Sally gritou, toda entusiasmada. - Não e maravilhoso?
Ray chegou quando eu estava me arrumando para ir encontrar com você. Aos
poucos Sally contou que ela e Ray tinham tido uma briga feia um mês
atrás, mas ele tinha voltado e descobriram que se adoravam. Por isso, iam
casar.
- Estou feliz por você, Sally.
- Estou radiante! Mas não sei se Ray teria me proposto casamento, se não
soubesse que eu estava grávida.
- Grávida?! - Anne estava surpresa. Sally parecia o tipo da moça esperta,
que sabia tudo sobre a vida, e não ia cair na asneira de ficar grávida.
Ela sempre tinha achado que eram as moças ingênuas e bobinhas que se
deixavam envolver por um homem a esse ponto.
- Não é maravilhoso? Estou felicíssima. Bem, agora vou desligar porque
tenho milhões de coisas para fazer.
Anne colocou o fone no gancho, achando uma pena ela não levar a vida da
maneira simples como Sally a encarava. Mas era inútil. Sua cabeça era
outra e jamais iria agir como a amiga. Desejava que a moça fosse feliz,
mas jamais poderia seguir seus passos. Ela era muito mais tímida.
Precisava da proteção de um marido e jamais se permitiria ficar grávida.
Grávida!
A palavra ficou martelando em seus ouvidos e Anne foi recuando até cair
sobre uma cadeira, Existia a possibilidade de ter ficado grávida?! Deus!
O que eu fiz! Agora podia ser tarde demais, ela devia estar grávida! A
idéia era apavorante, insuportável.
Tentou recordar tudo que tinha acontecido. Será que o tal Wolf
tinha tomado alguma precaução? Mas se não conseguia lembrar de nada, nem
ao menos de como fora para a cama.
Claro que ele não devia ter feito nada a respeito. Se tinha parecido do
tipo que se oferece a um homem, ele deveria ter achado que estava tomando
a pílula e então... E mesmo que tentasse procurá-lo no hotel, o que sabia
a respeito dele? Apenas que não era casado, não morava longe e tinha se
dado o nome de Wolf.
Voltou para o quarto e se vestiu. A dor nas costas continuava a perturbá-
la e ela resolveu tomar um comprimido contra dor. Já tinha aberto o
frasco, quando um pensamento lhe passou pela mente. Será que aquele
comprimido não faria mal ao bebê?
Em pânico, já estava convencida que estava esperando um filho e que
precisava de ajuda, ou... ia acabar com tudo naquele instante mesmo. Mas
como podie dar um fim à vida justamente agora que queria vivê-la
intensamente?
Precisando desesperadamente de uma palavra amiga, ligou para o tio.
- Por favor, queria falar com o dr. James Cresswell.
- Agora ele está ocupado numa cirurgia - foi a resposta impessoal da
telefonista do hospital.
- Aqui é Anne Newman e preciso vê-lo com urgência! - Colocou o fone no
gancho, engolindo as lágrimas que a ameaçavam. Sentou numa poltrona,
aguardando que o tio telefonasse.
Quando uma hora mais tarde viu o carro dele parando à sua porta, foi até
a frente do prédio e o esperou com um sorriso agradecido.
James Cresswell a abraçou, notando o rosto abatido e marcado pelas
lágrimas.
- Minha querida, o que aconteceu?
- Oh, tio James. - Anne soluçou e procurou conforto e amparo naqueles
braços.
- Está com muita dor? - Ele se preocupou.
- Era de se esperar que eu sentisse essas dores, não é, tio James?
- Claro, minha querida, mas não vai ser por muito tempo. Lembre-se que
sua coluna foi judiada e você não pode querer que sare
22
de uma hora para outra. Tenha um pouco da paciência e logo nem vai se
lembrar que um dia teve problemas com ela.
Nunca mais vou ficar boa, não é, tio James? - Ela foi franca.
embora achasse que o tio não lhe contaria toda a verdade. - Sei que não
vou ficar boa, nunca mais. - Sentia-se aliviada de desabafar o que tanto
lhe pesava.
- Claro que vai ficar, e vai ficar completamente boa. - James olhava Anne
percebendo que ela estava na iminência de ter um colapso nervoso.
- Não minta para mim, tio James!
- Não estou mentindo, Anne. Posso lhe assegurar que daqui a um ano,
talvez até antes, nem vai se lembrar que tem coluna. Basta que siga as
instruções do médico.
Anne quis interrompê-lo para dizer que conhecia a verdade, mas James não
permitiu que ela falasse.
- Você passou por uma experiência traumatizante, minha querida, não só
física como emocionalmente. Não gostei da idéia de você ficar aqui
sozinha, preferia que tivesse ido para minha casa, pelo menos por algum
tempo. Sei que está sentindo falta de seus pais, porque eles eram pessoas
excelentes. Além de ter que conviver com a idéia de estar sozinha no
mundo, ainda tem que agüentar a dor na coluna, que os comprimidos não
podem apagar completamente. Tudo isso deixou você abalada e fez com que
sua imaginação criasse fantasias horríveis.
Anne respeitava o tio e ficou ouvindo-o, tentando raciocinar com calma.
- vou lhe dar uma injeção que vai aliviar. Não pôde deixar que ele
continuasse.
- Sei que vou morrer, tio James. Ouvi o dr. Phillips dizer isso no
hospital. Ele disse que eu não tinha mais do que seis meses de vida.
Por um momento, o silêncio foi completo, pesado. Então ouviu a voz do
tio:
- Quero que me ouça com atenção, Anne. Desde que seus pais morreram,
estou no lugar deles e se alguém tivesse que saber más notícias a seu
respeito, eu seria o primeiro a recebê-las. Os ferimentos
23
que sofreu no acidente não são fatais e você vai viver. Juro por seus
pais que essa é a verdade. Você não está gravemente ferida e vai viver,
vai ficar completamente boa, compreendeu bem?
Anne acreditava cegamente no tio e não tinha razões para duvidar dele,
mas a idéia estava tão enraizada em sua mente que era difícil se livrar
dela.
- Mas ouvi o dr. Phillips dizer.
- Não importa o que você ouviu, Anne. Tenho o laudo dele sobre você lá no
escritório e posso mostrar se quiser ver. O laudo diz que a paciente se
recuperará completamente, se tomar as devidas precauções. Agora, quero
que me diga quando ouviu o dr. Phillips falar o que me parece impossível.
Acabou contando tudo que se passara no hospital e foi então que
compreendeu o terrível engano. Tio James ligou para o hospital e falou
com a irmã encarregada da enfermaria, pedindo que ela contasse à sobrinha
exatamente o que tinha acontecido. Quando Anne desligou o telefone, tinha
lágrimas nos olhos, mas dessa vez de alegria e felicidade.
- Ela me disse que quando eu ainda estava sob o efeito de sedativos, uma
senhora mais velha foi trazida para a enfermaria, em péssimas condições.
Eu devo ter ouvido o dr. Phillips falar a respeito dessa paciente. Quando
a família soube que ela estava tão mal, insistiu para que ficasse num
quarto particular. A família queria ficar com ela o tempo todo, e
imediatamente a transferiram. Tudo isso aconteceu quando eu estava sob a
ação dos sedativos. Tio James, me sinto como uma perfeita idiota! - Anne
se lembrou de um detalhe. - Foi por isso que colocaram aqueles biombos à
minha volta! Eles não iriam colocá-los se eu fosse a única paciente
naquela enfermaria, não é?
- Até que enfim está raciocinando, Anne. - Ele sorria e ela se atirou em
seus braços, feliz.
James Cresswell ainda falou mais um pouco e depois foi embora, certo de
que a recuperação dela seria rápida daí para a frente.
Esse tipo de experiência muda a gente, Anne dizia a si mesma, uma semana
mais tarde. De certo modo, sentia que tinha crescido e
24
amadurecido com ela. Achava que. estava grávida, mas isso não importava,
agora que sabia que tinha uma vida pela frente.
Não havia tocado nesse assunto com o tio, mas como pretendia ter o bebê e
queria uma criança sadia, teria que procurá-lo e seguir suas instruções.
Reconhecia que o facto de perder os pais havia contribuído para ela se
tornar adulta. Nunca antes tinha precisado enfrentar a vida. Agora estava
consciente de sua própria personalidade e nunca mais passaria pelo que
não era. Tinha agido como uma criança desorientada na noite em que
concordara em acompanhar Wolf ao quarto de hotel. -Mas valeu a pena
passar por toda essa experiência. Saiu dela mais forte, mais desinibida e
consciente.
Ainda não estava em condições de trabalhar, e usava todo seu tempo para
pensar e resolver a própria vida. Quando chegasse o momento de reassumir
sua posição, telefonaria para o chefe e agradeceria por ter segurado a
vaga durante todo esse tempo, mas não ia mais trabalhar lá. Conhecia o
chefe para saber que ele não veria com bons olhos uma mãe solteira, e ela
não queria sofrer mais nenhum desgaste.
Viveria de suas economias, e quando o bebê nascesse já teria resolvido o
inventário dos pais. Eles não eram pessoas ricas, mas haviam deixado o
suficiente para ela levar uma vida decente. Talvez fosse possível ficar
tomando conta do bebê, sem trabalhar, até ele ter uns três anos...
Mais duas semanas se passaram, e Anne descobriu que, afinal de contas,
não estava grávida. Ficou um pouco decepcionada. Tinha feito tantos
planos para a chegada do filho que levou algum tempo para compreender que
tinha sido melhor assim.
com o passar dos dias, notou que a dor na coluna melhorava; passava às
vezes dias sem sentir nada. Começou a dormir bem, achando que o pior
tinha passado e que ela havia vencido uma batalha dura. Tinha feito
várias bobagens mas agora se sentia capaz de enfrentar a vida sem medo.
Ia começar a procurar emprego, dessa vez numa coisa que não lhe forçasse
a coluna. Viu num jornal um anúncio que pedia uma auxiliar por meio
período. Isso poderia servir. A firma era de embalagens de papelão e
precisavam de alguém para um serviço temporário.
Ane achou ótimo, porque poderia trabalhar menos e, quando o serviço
terminasse, talvez estivesse apta para um trabalho como o que fazia antes
do acidente.
Marcou uma entrevista e o homem que fazia as perguntas ficou
impressionado quando ela disse de sua experiência como secretária
executiva.
- Não precisamos de alguém tão capacitado, nem estamos preparados para
pagar um salário muito alto.
- Não espero que me paguem muito. - Anne tinha achado a firma pequena
demais. Quem seriam esses Brewster? - Estive doente por alguns meses e
não quero mesmo um emprego de tanta responsabilidade, por enquanto. O que
me oferecem é suficiente.
- Sei que muitas vezes esse trabalho de secretária é desgastante e até
deixa a pessoa esgotada emocionalmente. Mas tenha paciência, que em breve
estará completamente boa e pronta para assumir as responsabilidades para
as quais foi treinada. Enquanto isso, trabalhe conosco... - Anne deixou
que o homem falasse. Queria conseguir aquele emprego. - Então, se
possível, a senhorita pode começar na próxima segunda-feira?
Anne agradeceu e sentiu-se aliviada por sair daquele escritório pequeno e
abafado. Pegou o ônibus e foi para casa. Olhou-se no vidro da janela, que
refletia sua imagem, e se perguntou se tudo pelo que tinha passado
deixara marcas em seu rosto.
Não tinha chegado a sofrer um esgotamento nervoso, mas sabia que estivera
perto de um. Felizmente foi bastante forte para resistir e pôde contar
com o carinho e a amizade de tio James.
O vidro refletia a imagem de uma moça bonita de cabelos castanhos
naturalmente ondulados, sorrindo, os dentes muito brancos e perfeitos,
iluminando o rosto oval. Ela agora ia olhar somente para o futuro. e o
primeiro passo já estava dado.
26
CAPITULO iii
Logo que chegou à firma, na segunda-feira, Anne foi apresentada a uma
moça de cabelo claro, mais ou menos de sua idade, que ficou encarregada
de lhe mostrar o serviço.
Helen Kempsey levou-a até uma mesa, que seria sua daí por diante. Ensinou
como lidar com uma antiga máquina de calcular, e lhe deixou várias listas
de valores para somar.
Anne rapidamente se acostumou à nova rotina. Apesar de ter bastante
trabalho, o serviço permitia travar conhecimento com as outras moças
sentadas em escrivaninhas iguais à sua. De vez em quando precisava levar
folhas de papel para o grupo de datilógrafas, e assim podia se movimentar
um pouco, não forçar a coluna a permanecer sempre na mesma posição.
Depois da primeira semana já se dava bem com todas as moças, mas como
tinha mais contato com Helen, acabaram ficando amigas. Eram as duas
únicas solteiras do grupo, e isso também facilitou a aproximação. As
outras pareciam só interessadas no preço da carne ou no quanto
conseguiriam economizar até o Natal, dali a três meses.
No começo Anne ficou intrigada com Helen. A moça estava sempre muito bem
vestida e Anne sabia que não dava para gastar tanto com roupa só com o
salário que recebia na Brewster.
- Trabalha aqui há muito tempo? - resolveu perguntar um dia.
- Não. Comecei só um mês antes de você. - Diante do olhar surpreso de
Anne, ela continuou: - Sou a chefe da seção porque apareci aqui antes que
qualquer outra.
- Que engraçado. Mas se saiu muito bem, Helen, e tudo está correndo
otimamente sob sua orientação.
- Acha mesmo, Anne?
- Não diria, se não achasse.
- Fico muito contente em saber, porque, vou lhe contar um segredo, este é
meu primeiro emprego. Por favor, não diga nada a ninguém.
- Claro que não.
Anne gostaria muito de continuar a conversar e saber por que Helen nunca
tinha trabalhado antes, se já estava com vinte e dois anos. Mas cada uma
tinha seus próprios segredos e era melhor que fossem revelados
espontaneamente. Também ela não tinha contado a ninguém que era uma
experiente secretária executiva, pois aí teria que contar o caso do
acidente, da perda dos pais. e não pretendia mais pensar no passado, pois
não tinha se prometido que só olharia para o futuro e para a vida diante
de si?
À medida que as semanas passavam ficavam mais amigas. Helen acabou
sabendo que Anne morava sozinha porque tinha perdido os pais, e contou
que também era órfã.
- Tem irmãos, Anne?
- Não, sou filha única.
- Tenho mais sorte que você, minha amiga, porque ainda me restam dois
irmãos. Não que eles me ajudem muito, mas de qualquer modo são minha
família.
Anne imaginou que deveria haver brigas entre os irmãos, mas mesmo assim
se lastimou não ter mais ninguém em quem pudesse confiar.
O Natal se aproximava, e muitas vezes elas ficavam na cidade depois do
trabalho. Jantavam juntas, olhavam as vitrines, faziam compras e depois
Helen deixava Anne em casa.
Muitas vezes Anne se perguntava como a amiga conseguia manter as despesas
do carro, mas não quis ser intrometida.
Na semana antes do Natal, Helen estava levando-a para casa quando surgiu
o assunto do que fazer nas festas.
- Onde vai passar os feriados? - Helen indagou interessada.
- Tem muitos programas?
28
Na verdade não tenho onde ir, Meu tio me convidou para
passar o Natal em sua casa, mas ainda não está resolvido. Ele é médico,
não é?
- Isso. Ele tem sido um amor comigo.
Por que não vem passar o Natal comigo, lá em casa?
Imagine... - Achava incrível que a moça a convidasse. A
família não iria gostar que uma estranha participasse de uma festa tão
íntima.
- Por que não? Tenho certeza de que todos adorariam. Já pensou se você
for passar o Natal com seu tio e ele for chamado para uma cirurgia de
urgência? Ia ficar completamente sozinha!
Isso era verdade, e de alguma forma já acontecera antes, quando o tio
passava o Natal na casa dela. na época em que os pais ainda eram vivos.
- Sim, Helen, mas.
- Vamos fazer uma coisa, Anne. Vamos parar para tomar um café e
conversarmos sobre o assunto. Que tal?
Pouco depois as duas estavam sentadas numa mesa, tendo xícaras de café
fumegante à sua frente. Estava frio e a bebida quente era confortante.
Helen estava determinada a levar a amiga para passar o Natal com ela e
com os irmãos em sua casa, em Eldridge. Por mais obstáculos que Anne
colocasse, ela sempre arranjava uma saída, mostrando que realmente não
havia empecilhos.
- Helen, seja sensata. Seus irmãos não vão querer uma estranha no meio
deles na noite de Natal. Eles não sabem nada a meu respeito e pode ser
até que não gostem de mim. E aí?
- Não se preocupe com isso. Conheço bem meus irmãos e sei que Simon
simpatizará logo com você. Ele não resiste a um rostinho bonito. Imagino
que vai ficar fascinado por sua beleza!
- Muito bem, resolveu o problema de um irmão. E o outro? Ele também vai
ficar encantado por mim? - Ria gostosamente.
Houve uma pausa antes de Helen responder.
- Dyson é completamente diferente de Simon - ela começou. Depois, notando
que o receio voltava aos olhos da amiga, continuou:
29
- Na verdade, ele não é meu irmão verdadeiro. É um irmão de criação, e
muito mais velho do que eu e Simon, que somos gêmeos.
- Gêmeos? São muito parecidos, então!
- Nada disso. Somos até bem diferentes, mas sei que ele vai gostar de
você. Agora, Dyson tem trinta e quatro anos e é do tipo sério.
A maneira como Helen se referia a Dyson desanimou Ane. Provavelmente não
iria gostar dele.
- Sabe, Helen, acho que vou recusar seu convite, porque.
- Por favor, aceite. Não estou fazendo um convite de última hora. Faz
tempo que estou pensando em falar com você mas tinha medo de convidá-la,
sei lá, poderia ter alguma coisa melhor para fazer. Sabe, não vamos ter
nada especial, e talvez até ache tudo um pouco monótono, mas gostaria que
viesse.
Anne ainda tinha dúvidas, embora acreditasse na amiga. Sabia também que
tio James seria o primeiro a insistir para aceitar o convite, porque
teria a oportunidade de conviver com pessoas de sua própria idade. Mas
alguma coisa a prevenia de que era melhor não ir.
- Anne, por favor, vamos! - Depois de um momento de hesitação, Helen
acrescentou: - Não ia dizer nada, mas saiba que vai me fazer um favor se
for comigo.
- Favor?!
- É. Acho melhor lhe contar alguma coisa sobre meus irmãos. Sei que
brigas de família devem ficar nos limites da casa, mas confio em você. A
última vez que Simon esteve em casa, vindo da universidade, ele e Dyson
tiveram uma briga horrível. Cheguei até a pensar que Dyson ia matar meu
irmão. A casa inteira tremia com a discussão e eu acabei por intervir,
tomando o lado de Simon. mesmo sabendo que ele estava errado. Sabe, é meu
irmão gêmeo, e acho que o sangue falou mais alto. - Helen sorriu como se
desculpando. - E se você acha que foi injusto ficarmos os dois contra um,
está enganada. Dyson é homem capaz de enfrentar não dois, mas meia dúzia
de irmãos, e ainda assim sair vencedor. O caso se virou contra mim e
Dyson disse que só perderia tempo ouvindo minha opinião quando eu tivesse
provado que era capaz de trabalhar e me sustentar.
Foi por isso que resolveu procurar um emprego?
Exatamente. Disse que ele ia ter uma surpresa e comecei a
procurar emprego. Mas não estava preparada para nada! O máximo que sabia
fazer era servir chá com elegância. Tive que contar uma série de mentiras
para nosso chefe concordar em me dar o emprego.
Então resolveu enfrentar o irmão mais velho e mostrar que
ele não podia dizer o que queria? - Ainda não entendia o motivo da briga,
mas admirava a atitude corajosa da amiga.
- Isso mesmo. Agora compreende por que me faz um favor se aceitar meu
convite para passar o Natal lá em casa?
Não tinha certeza. Pelo que Helen contava, a família parecia meio
estourada. Além disso não sabia onde Eldridge ficava, parecia ser longe
de Exeter. Se a coisa começasse a ficar violenta como iria escapar?
Helen percebeu sua hesitação.
- Depois daquela briga feia, Dyson e Simon não se viram mais. Dyson saiu
de casa batendo a porta e não voltou para dormir. Simon achou que o
melhor que tinha a fazer era dar o fora, antes que ele voltasse. De
repente, Dyson podia não ter encontrado alguém para se acalmar durante a
noite e poderia querer brigar de novo. Talvez meu irmão mais velho ainda
esteja contra Simon, mas ele é educado e controlado demais para explodir
na frente de um hóspede.
Ficou pensando sobre o convite de Helen, que lhe parecia cada vez mais
complicado. Não acreditava que sua presença apenas pudesse ser
responsável pela paz na casa.
- Aceite, Anne, por favor. Prometo que Dyson vai se comportar como um
cavalheiro enquanto você estiver lá e que não vai levantar a voz nem uma
vez.
- Como pode estar tão certa disso?
- vou lhe contar uma coisa. Papai morreu um ano antes que mamãe. Eu
estava atravessando uma fase difícil. Tinha quinze anos e escolhia as
pessoas mais estranhas para serem meus amigos. Um dia Dyson me pegou
combinando uma viagem sozinha com eles. Ele me disse que levasse meus
amigos para casa porque queria conhecê-los. Dyson foi maravilhoso com
todos, mas pouco a pouco eu fui percebendo, por mim mesma, que estava
envolvida com pessoas que não
31
valiam nada. Foi ele quem me ajudou a descobrir isso. - Helen tinha o
olhar distante.
- Dyson conversou com você, mostrando por que eles eram más companhias?
- Não. Não sei que método meu irmão usou, mas os piores do grupo não se
sentiam à vontade lá em casa, e foram sumindo. Os amigos, mesmo, cada dia
gostavam mais de estar conosco. O que estou tentando explicar é que,
embora eu não tenha mais idade para permitir que Dyson interfira em minha
vida, sei que assim que ele conhecer você vai achar que é a companhia
ideal para mim. Ele vai fazer o possível para você se sentir à vontade.
Anne começou a adquirir confiança. Dyson já não parecia o monstro
disposto a cortar cabeças. Não era mau, ao contrário. Não tinha o que
temer. Reconhecia que uma vez na vida tinha feito uma bobagem, quando
fora ao quarto do hotel com Wolf, mas por causa disso não era uma
perdida!
- Está bem. Aceito! - Riu feliz.
- Que bom, Anne! Estou tão contente!
Na mesma hora começaram a fazer planos para a viagem. Anne ficou sabendo
que Eldridge era uma cidade pequena, a quarenta quilômetros de Exeter.
Ficou resolvido que Helen pegaria a mala de Anne em casa, na terça-feira,
dia em que começavam os feriados. As duas se despediram contentes e
animadas.
Anne ficou em dúvida se devia comprar presentes para Simon e Dyson. Ela
não os conhecia e não sabia se eles lhe dariam presentes. Em todo caso
era melhor ter alguns de reserva, pois morreria de vergonha se eles a
presenteassem e ela não tivesse nada para retribuir. Resolveu comprar uma
gravata discreta para Dyson e outra, um pouco mais jovem, para Simon. Não
esqueceu de levar para Helen seu perfume favorito. Era bastante caro, mas
seria uma maneira de agradecer o convite.
Na véspera da viagem foi até a casa de tio James, levando presentes para
ele e para a sra. Paget. A governanta, muito feliz com a lembrança,
levou-a até a sala onde James Cresswell estava lendo. Entregou o presente
dando um abraço carinhoso no tio.
32
- Já é Natal? - Ele deu uma risada.
Vim aqui hoje porque acho que não vou passar o Natal com
você. Não vai ficar triste, não é?
Não vou deixar que passe essa data sozinha em casa, Anne.
fui convidada para ficar uns dias com uma amiga, em Eldridge.
- Por que não disse antes? Acho a idéia excelente! Quem é essa
moça?
Ela trabalha comigo, na Brewster. Ainda não conheci a família
dela, mas sei que tem dois irmãos, Simon e Dyson, e é órfã também.
- Dyson? Em Eldridge? - James ficou pensativo por uns segundos. - O nome
é Dyson Silver?
- Não sei, tio James. Helen se chama Kempsey, mas Dyson não é seu irmão
de verdade, portanto. Não perguntei a ela. Por quê? Acha que o conhece?
- Esse nome, Dyson, não é muito comum, talvez seja o mesmo. Sei que ele é
um industrial, com fábricas em vários lugares.
Anne lembrou que Helen não precisava trabalhar para viver e ficou um
pouco apreensiva por ter aceito o convite. Já tinha reparado que as
roupas da amiga eram da melhor qualidade e que a despesa com o carro não
pesava em seu orçamento. Será que ia se dar bem num ambiente sofisticado
e elegante?
- Acha que não devo ir, tio James? E se for ele mesmo? Não sabia que a
família de Helen estava tão bem assim.
- Bobagem, querida. Você é tão fina como qualquer um deles. Tem boa
educação e sabe se portar muito bem.
Preparou a mala na segunda-feira à noite. Levou seus dois vestidos
longos, porque não sabia qual seria o ideal para a noite de Natal. Ia
usar seu melhor conjunto para ir trabalhar no dia seguinte, pois assim
viajaria com ele e chegaria elegante na casa de Helen. Queria causar uma
boa impressão. E deixando tudo pronto, não perderiam tempo, quando fossem
pegar a mala.
- Nem acredito que só teremos que voltar a trabalhar na segundafeira -
Helen comentou quando já estavam na estrada.
- Nem fale. Vai ser até esquisito ficarmos longe de Brewster por
33
seis dias. - As duas moças deram uma risada. - Seu irmão já chegou da
universidade?
- Já, sim. Não precisa ficar com esse olhar preocupado, pois tudo está
bem lá em casa.
A casa, que tinha o nome de Moor View, era bem maior do que esperava.
Parecia grandiosa e imponente. Anne começou a se perguntar se teria feito
bem em vir para um ambiente tão diferente do seu, mas logo foi
interrompida pela voz alegre de Helen.
- Venha, vamos entrar. Não vejo a hora que meus irmãos a conheçam. Vão
ficar encantados!
Subiram os degraus de pedra e logo a pesada porta de madeira entalhada
foi aberta e elas entraram no hall.
- Espere um pouco aqui, Anne, enquanto vou ver onde está o pessoal.
O hall era espaçoso, com várias portas à esquerda e à direita, as escadas
de mármore branco, em grande evidência. Helen entrou numa das salas e
Anne mal tinha olhado em volta quando uma porta se abriu e um homem alto,
de cabelos escuros, apareceu.
Ele a viu imediatamente, mas antes que estivesse mais próximo, Anne o
reconheceu e teve vontade de sumir, de morrer. Era o mesmo homem com quem
estivera naquele hotel em Exeter, o tal Wolf.
O rapaz se aproximou lentamente, o olhar duro e frio. Ela sentiu que
tremia, que o sangue ficava gelado em suas veias. Se pudesse teria saído
dali correndo, para nunca mais pensar que aquele momento poderia ter
existido.
Por alguns segundos ficaram frente a frente, quietos, ele sério, e ela
com o rosto pálido, os lábios trêmulos. Foi então que Helen voltou ao
hall.
- Até que enfim encontrei você, Dyson. Fui até a sala de estar achando
que você e Simon estavam lá.
- Simon saiu - Dyson explicou, sorrindo para a irmã. Helen ia apresentar
a amiga quando notou sua aparência transtornada.
- Está se sentindo bem, Anne? Parece um fantasma!
- Estou bem.
- Deve ser a mudança de temperatura - Dyson interveio. -Lá
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fora está frio e eu quis que a casa ficasse quente e agradável para
recebê-las. Posso mandar diminuir a temperatura. Não havia nada nas
palavras de Dyson que demonstrasse que ele a tinha reconhecido. Sentiu-se
mais relaxada, pensando que quatro meses já tinham passado desde aquela
noite. Pela aparência atraente de Dyson, ele já devia ter tido uma porção
de outras noites iguais e sua imagem podia estar esfumaçada na memória
dele. Mesmo assim se sentia insegura, ao pensar que teria que ficar sob o
mesmo teto com ele durante quase uma semana.
- Deve ter sido isso mesmo - Helen concordou. Depois deu uma risada
gostosa. - Pensei que estivesse com medo de conhecer minha família!
- Nada disso, Helen - Dyson falava com a irmã, mas não tirava os olhos de
Anne. - Tenho certeza de que sua amiga não é um coelhinho assustado.
Teve novo choque. A afirmação deixava claro que ele a tinha reconhecido.
- Quer tomar alguma coisa ou prefere ir primeiro até o quarto?
- Helen perguntou.
- Prefiro ir ao quarto. - Que ótima oportunidade de escapar do olhar
penetrante de Dyson!
- Então vamos subir. - Helen a ajudou com a mala. - vou lhe dar um tempo
para guardar suas coisas. Até lá Simon já deve ter chegado e poderemos
começar a arrumar a árvore de Natal.
Anne chegou ao pé da escada, e encontrou sua passagem bloqueada pelo
corpo forte de Dyson. O que ele queria? Ia dizer ali mesmo que a
companhia dela não era adequada para a irmã? Dyson, no entanto, se
limitou a lhe dar um olhar sarcástico e depois se afastou. Anne seguiu
Helen, pensando em inventar uma história plausível que lhe permitisse
voltar para Exeter naquela mesma noite.
- Aqui é seu quarto. - Helen mostrou o aposento. - Já que é tão bonita
precisa de um lugar à altura.
Ficou maravilhada com o que viu. Era um quarto em tons suaves, creme e
rosa, e a cama estava coberta por uma linda colcha de renda, que
combinava com o tecido das cortinas. Sobre a penteadeira havia um vaso
com rosas no mesmo tom do carpete de lã natural.
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- É... é... como se eu estivesse vivendo um conto de fadas! Nem sei como
lhe agradecer.
- Sabia que ia gostar. Gosto muito de você, lembre disso. - Helen deixou-
a sozinha.
Deliciou-se admirando aquele quarto magnífico, mas logo depois se
entristeceu. Sabia que a amiga tinha feito o possível para que ela se
sentisse à vontade e, no entanto. tinha que dizer que precisava ir
embora. Ia parecer ingrata, mas não podia ficar convivendo com Wolf! Não
ia ficar por ali. fingindo que não se tinham reconhecido, pois ele
poderia, de uma hora para outra, expulsá-la da casa.
Precisava pensar depressa numa desculpa para poder ir embora. Nesse
momento, ouviu que a maçaneta da porta girava. Ficou paralisada, vendo
Dyson entrar.
Sabia que ele não ia demorar muito para reagir. Por isso é que deveria
ter ido embora no mesmo instante. Mas agora. Agora precisava enfrentá-lo.
- Devia ter batido à porta, antes de entrar. - Achou que a melhor forma
de defesa era o ataque.
- Desculpe. - Dyson usava seu tom mais sarcástico. - Esqueci que os
homens sempre batem à sua porta antes de entrar.
Anne, paralisada, percebeu a insinuação. Ele pensava que seu quarto era
constantemente visitado por homens. Mal sabia que os únicos que tinham
entrado nele eram o pai, o médico, e. ele mesmo! Mas não adiantava tentar
se defender, Dyson não ia acreditar.
Dyson Silver fechou a porta e se aproximou dela.
- Ainda nem tirou as roupas da mala.
- Nem vou tirar. Seria um trabalho inútil, porque não pretendo ficar
aqui.
- Suas resoluções são bem rápidas!
- Embora conheça pouca coisa a respeito de sua família, sei o suficiente
para entender que não me julga boa companhia para sua irmã.
- Parece ler meus pensamentos. Não há mais nada que eu possa dizer que já
não tenha pensado, não é?
Estava chocada com tanto atrevimento. Nunca tinha conhecido uma pessoa
tão fria, tão insolente! Afinal, ela não era a única culpada
pelo que tinha acontecido aquela noite. Ele também tinha participado. Por
que punha o peso da responsabilidade apenas nas suas costas? Começou a
ficar furiosa com aquele tratamento.
Vocês homens são muito engraçados. Acham que podem fazer
tudo que querem, sem se importar com as conseqüências. Para vocês é
permitido farras, mulheres, bebedeiras, tudo, ao passo que para nós.
- Mas não houve nenhuma conseqüência, não é?
- Não, não houve nada. Mas não foi por mérito seu! - gritou e notou que
Dyson tinha ficado surpreso. Será que ele tinha tomado precauções? Como
era horrível não lembrar de nada! Ela havia ficado tão apavorada com a
experiência que sua mente ainda se recusava a lembrar dos detalhes. E
ele, que tinha conseguido plena satisfação, estava ali, com aquele
sorriso irônico, despejando seu desprezo em cima dela! Queria feri-lo
também. - Aliás, tive muitos outros amantes melhores que você, depois.
- Não duvido disso. - Agora, em vez de ironia ele só demonstrava
desprezo. - Em todo caso não podemos dizer que fomos amantes, não é?
- Sei disso. O amor nem passou perto de nós. - Já não agüentava mais
aquele tipo de conversa. - Não precisava ter vindo aqui para me mandar
embora. Eu já estou indo. vou apenas conversar com Helen e, se não se
incomoda, preferia que o que se passou entre nós permanecesse em segredo.
Dyson examinou seu rosto pálido, os cabelos caindo sobre os ombros, os
olhos grandes e expressivos parecendo magoados. Foi abrir a porta e já
estava quase saindo, quando se virou.
- vou dizer a Helen que venha até aqui. Deve preferir contar suas
mentiras sem que ninguém esteja presente.
Logo depois Helen apareceu.
- O que aconteceu, Anne? Dyson me disse que você não vai mais ficar
conosco!
- Estou tão chateada, Helen! Você foi tão maravilhosa, me convidando para
ficar aqui, me dando um quarto tão encantador, mas. infelizmente, não vou
poder ficar.
- Por que não? Você prometeu que viria, como um favor muito especial. Por
que quer abandonar tudo agora?
Anne não tinha tido tempo de pensar no que dizer. Não ia contar a verdade
mas também não tinha uma história convincente para dizer.
- Acho que seu irmão não gosta de mim. - Foi a primeira coisa que lhe
passou pela cabeça, porque dessa maneira, não estava mentindo. Realmente
Dyson não a suportava.
- Ora! não se deixe levar pela primeira impressão. Você não é a única
pessoa que acha que Dyson é frio ou que não demonstra carinho com as
pessoas. Esqueça esse contato inicial. Convivo com meu irmão e sei que
ele é capaz de muita ternura e afeto. Precisa apenas dar tempo ao tempo
para conhecê-lo um pouco melhor.
- Helen, não é isso...
- Olhe, Anne, já sei o que vou fazer. vou pedir a Dyson que venha
conversar com você. Tenho certeza de que depois desse papo, você vai se
sentir à vontade.
- Não, Helen! - Mas viu que falava com as paredes. A amiga tinha corrido
para fora, e já chamava pelo irmão.
CAPITULO IV
Anne sentou numa cadeira, desanimada. Na conversa com Helen, deveria ter
sido firme e insistido que ia embora, mesmo que não tivesse uma razão
clara para agir assim. E agora? O que estariam falando? Ele ia contar
como haviam se conhecido?
Não queria perder o respeito que a amiga tinha por ela. Se Dyson contasse
o que tinha acontecido naquela noite. Helen não ia compreender. Como
podia continuar a trabalhar com ela, se a consideração e a amizade que
havia se tornassem nulas?
O som de passos no corredor a tirou dos devaneios. Pegou depressa a bolsa
e o casaco, e se preparou para ir, antes que Helen lhe comunicasse que
sua presença não era desejada naquela casa. A porta se abriu, e. Dyson a
encarou.
- Bancando a esperta, não é, Bunny? Ou vai me dizer que não sabe sobre o
que estou falando?
- Era isso exatamente o que eu ia lhe perguntar. E não me chame de Bunny!
- Ora, deixe de bancar a garota inocente! Pois não foi você mesma que me
disse que seu nome era esse?
- Agora já sabe que não é. Sou Anne Newman, e tenho orgulho do que sou e
faço. Pode me dizer como pego um ônibus para Exeter?
- Pegou a alça da mala.
- Não vai para casa, não, srta. Newman. Pelo menos enquanto durar essa
festiva época de Natal. - ele ironizou.
- vou, sim senhor. Não passo nem uma noite sob o mesmo teto que você! -
Levantou a cabeça, desafiando o olhar de aço de Dyson.
Ele deu uma gargalhada irônica.
- Essa é muito boa. Não quer ficar sob meu teto, mas não se incomodou em
ficar na minha cama!
- A situação era diferente.
- Sem dúvida que era. - Dyson mudou o tom da voz. Agora ele parecia
enfurecido e autoritário. - O que acontece é que deixei minha irmã lá
embaixo, chorando, achando que sou um vilão porque maltratei a querida
amiga que ela trouxe para casa!
- Não vou ficar aqui. E nada vai me fazer mudar de idéia.
- Vai, sim. O que acontece, srta. Newman, é que minha irmã não a vê como
realmente é, uma vagabunda que sai por aí à cata de homens. Pelo
contrário, ela considera você uma garota pura e sensível, que precisa
ficar com nossa família nessa época de Natal, para não ficar em casa,
sozinha... Claro, ela me contou que existe o tio James, um senhor que ela
não sabe exatamente quem é, mas que não deve passar de um velho que
contribui para seu sustento, em troca de um pouco de carinho.
- Tio James não é nada disso. - Anne foi interrompida pelas mãos fortes
de Dyson que a seguravam pelos ombros.
- Quero deixar claro, Anne Newman, que não vou passar esse Natal com uma
irmã chorosa me acusando de ter sido estúpido com sua melhor amiga, a
ponto de fazê-la ir embora. Você vai ficar, compreendeu bem?
- Não lhe contou nada sobre... - Não conseguiu terminar a frase.
- Sobre sua pressa em ir para a cama comigo? Pode ficar certa de que não
vou demorar a contar o que aconteceu, se não concordar com minhas
condições.
- Se falar, vai estragar a imagem que sua irmã tem de você.
- Nada disso, srta. Newman. Helen sabe que não tenho nada de santo,
quando se trata de mulheres. Apesar de nunca ter trazido nenhuma para
casa...
- Então, está vendo? Agora trouxe... - Ela não resistiu a agredi-lo.
Por um instante, Dyson a observou, sem acreditar que tinha ouvido
direito.
40
- Não está pensando que eu queira repetir aqui o que aconteceu naquela
noite em Exeter, não é?
Anne ficou furiosa, os olhos lançando faíscas de ódio.
- Como se atreve a pensar nessa possibilidade?
- Conheço bem seu tipo, srta. Newman. Não resiste a nada que use calças,
não é? Só a previno do seguinte: fique afastada de meu irmão. Simon é
muito jovem e se impressiona por rostinhos bonitos. A última coisa que
quero ver acontecer é ele se apaixonar por você!
- Não gostaria que eu fosse sua cunhada? - respondeu com o maior
sarcasmo, indignada porque aquele homem a colocava a um passo da sargeta.
- Acho melhor guardar seus truques e armadilhas para homens de sua
própria espécie.
Não agüentava mais. Por que ficava ali ouvindo tantos desaforos? Ela não
era nada disso que Dyson estava dizendo, e no entanto, não tinha como
provar!
- Não vê que é impossível eu ficar? Por favor, me deixe ir, sr. Silver.
- Foi Helen quem lhe disse que meu nome é Silver? Lembrou-se de repente
que não tinham sido apresentados, portanto
ela não poderia saber seu sobrenome.
- Não. Helen fala muito pouco sobre a família. Mas esse é seu nome, não
é?
- É. Mas se Helen não lhe contou, assim como não falou muita coisa sobre
nós, o que mais conseguiu descobrir?
Anne notou que o rapaz não usava mais o tom irônico do início e se sentiu
encorajada a dar explicações.
- Tio James achou que você devia ser Dyson Silver. Quando lhe disse que
vinha para cá, a convite de Helen, e lhe contei sobre os irmãos e que
todos moravam em Eldridge, ele achou que já tinha ouvido falar em você.
Contou até que eram muito ricos e que.
- Ricos? O que esse tio James quis dizer com isso?
- Ora, ricos, com muito dinheiro.
- E o que ele achou de sua vinda para Moor View, para ficar uns dias
conosco?
- Tio James achou que era uma ótima idéia.
Não estava preparada para a reação do rapaz. Ele a sacudiu pelos ombros,
até que ela se sentisse um pouco zonza.
- Claro que é uma excelente idéia!
Na sua ingenuidade, não entendia por que ele estava tão furioso. Seus
olhos até brilhavam de raiva. O que tinha dito para transformar o rapaz
daquele jeito?
- Não sei por que.
- Não, não sabe, não é? Pobre violetinha do brejo! Você é esperta e pensa
que me engana com esse olhar inocente? Mas sou mais esperto que você!
Então não sabe por que Helen nunca fala na própria família?
- Ela é de natureza reservada e...
- Continua bancando a inocente, não é? Ou ainda vai afirmar que não sabe
que eu, Helen e Simon somos herdeiros de uma grande fortuna? Já sou dono
de minha parte e os dois só estão esperando completar vinte e cinco anos.
Compreende agora por que somos o alvo predileto de gente que quer dar o
golpe do baú?
- Pensa que sou o quê? - Nunca se sentira tão furiosa na vida. Seu sangue
ferveu e seu temperamento rebelde falou mais alto. Num gesto de revolta,
deu um forte pontapé na canela de Dyson.
Ouviu o gemido de dor enquanto Dyson a soltava. Mais que depressa agarrou
a mala para sair. Não ficaria nem mais um minuto naquela casa. O que
aquele louco estava pensando? Que só porque tinham passado uma noite
juntos, ele tinha o direito de falar o que queria? Que fosse para o
inferno!
Tinha alcançado a escada quando sentiu que braços poderosos a carregavam.
Suas pernas balançavam no ar, ela lutava para se soltar, mas tudo era
inútil. Foi levadae volta para o quarto, a mala ainda presa em sua mão.
Dyson a atirou na cama com toda a força. Anne sentiu as costas doendo
como há muito tempo não acontecia, mas ficou quieta ao ouvir a torrente
de palavrões que ele lhe dirigia. As últimas palavras dele foram de
ameaça.
- Se não fosse pelo Natal, em que devemos ser generosos, caridosos e
perdoar nossos inimigos - ele ironizou -, tiraria meu cinto e você ia
receber Umas boas lambadas!
42
Foi uma pena que não tenha quebrado suas pernas! - falou.
Não estava amedrontada. Ele que tentasse bater nela!
Ficaram se olhando, sem esconder a raiva que sentiam, mantendo um ar de
desafio na expressão. De repente Dyson começou a rir. Por mais que Anne o
odiasse, o som daquela gargalhada era agradável.
Acho que tenho que admitir que esse Natal vai ser um dos mais
interessantes de minha vida. - Dyson tinha parado de rir, mas sua boca
ainda mostrava traços de humor.
- Não está querendo dizer que ainda quer que eu fique, não é?
- Você é um mistério para mim, Anne Newman. Parece ser um livro aberto, e
no entanto, é cheia de mistérios. Uma coisa é certa; é vagabunda, sem
dúvida nenhuma. Caçadora de ouro? Talvez. Mas de qualquer modo, vai
tornar as coisas aqui muito animadas.
Como ele se enganava. Anne o olhava com curiosidade. Tão vivido e
experiente e, no entanto, tão errado em relação a ela!
Não adiantava mais tentar lutar. A única maneira de sair dali seria por
seus próprios meios. Sabia que a casa era retirada e que não podia ir a
pé até o ponto de ônibus mais próximo, a quilômetros de distância.
Não tinha outra opção senão ficar. Tinha certeza de que aquele homem não
ia deixá-la em paz um minuto, verificando cada palavra que dissesse, cada
passo que desse, para evitar que ela fugisse com um dos futuros
herdeiros.
Dyson ainda olhou longamente aquele corpo estendido na cama. Depois,
batendo a porta com força, saiu do quarto.
Anne levantou devagar. Como odiava aquele brutamontes! Tinha estado tão
ansiosa por fazer parte da família de Helen nesse Natal e aquele estúpido
tinha estragado tudo! Por que não tinha ficado com tio James, onde sua
presença era desejada?
Alguém bateu à porta. Não podia ser Dyson, pois ele nunca teria a
educação de avisar que estava lá.
Uma empregada, muito bem uniformizada, entrou no quarto, carregando uma
bandeja e colocando-a sobre a mesinha.
- A srta. Kempsey achou que poderia estar com sede e me pediu que a
ajudasse arrumar suas roupas.
Então, Dyson não tinha perdido tempo em informar a irmã de que ela ia
ficar. Como ele era insuportável!
- Obrigada, eu mesma me arranjo com a mala. É muito pouca coisa e não
preciso de auxílio. Mas o chá veio a calhar, obrigada.
Tomou o líquido, que lhe devolveu a calma. Começou a guardar o que tinha
trazido e, embora tivesse carregado quase todas as roupas que tinha,
pareciam nada nos armários espaçosos. Tirou o conjunto que estava
vestindo e trocou-o por uma calça jeans e camiseta. Já que ia ajudar
Helen a montar a árvore, estaria mais confortável assim.
Ao descer, levou a bandeja para deixá-la na cozinha. Ao atingir o hall
ouviu som de risadas vindas da sala. O que deveria fazer? Levar primeiro
a bandeja na cozinha ou ir direto para a sala?
A decisão ficou por conta de Helen, que saiu da sala ainda rindo,
enquanto dizia:
- Não consigo parar de rir quando você está em casa, Simon. Ao ver Anne,
foi ao seu encontro.
- Não precisava ter trazido a bandeja, pois Maureen a pegaria depois. Em
todo caso, já que está aqui, vamos até a cozinha para conhecer a sra.
Randle, nossa governanta.
A sra. Randle era pequena, gordinha e muito simpática. Maureen também
estava lá e mais outra empregada, chamada Jean.
- Na véspera de Natal sempre fazemos uma refeição ligeira para que nossos
empregados também possam comemorá-lo com seus familiares. Esse é um
hábito que Dyson insiste em manter - Helen explicou enquanto voltavam
para a sala.
A sala era enorme, com um carpete grosso, sofá e poltronas muito
confortáveis. Antes de entrar, Helen acrescentou, segurando a amiga pelas
mãos:
- Estou muito feliz que tenha ficado. Você vai ver que Dyson fará o
possível para lhe provar como ele também aprecia sua companhia.
Tinha tido uma pequena amostra do quanto ele a apreciava, mas. talvez
para não desgostar a irmã, ele procurasse não ser tão insolente. Em todo
caso, ia procurar não ficar sozinha com ele.
Simon estava encostado à janela, um sorriso bonito brincando em sua boca.
Dyson também estava lá, a expressão séria, acompanhando Anne em cada
movimento.
- Minha nossa! Onde descobriu essa fada, Helen? Ela parece saída de meus
sonhos! - Simon se aproximou, os braços estendidos.
Sorriu, pensando que Simon era tudo aquilo que Helen havia descrito. Ao
contrário do irmão, era simples, alegre e descontraído.
- Não preciso dizer que esse é meu irmão Simon, não é, Anne? Não se
assuste que cada vez ele vai ficar mais exibido!
O rapaz pegou a mão de Anne e levou-a para mais perto da árvore.
- Anne... até seu nome é lindo! - Simon não largava a mão dela. - Você
deve fazer os corações rolarem a seus pés!
- Pare com isso, Simon. - Helen puxou a amiga para um lado.
- Está deixando Anne vermelha!
- Desculpe, cheguei a pensar que moças que coravam não existissem mais! -
Simon levou-a para ver a árvore de perto.
Era uma árvore enorme, mas uma menor ficaria perdida na sala tão grande.
Quando foram jantar, já estava com uma boa parte decorada.
- Vamos dar um intervalo de meia hora para conversar, e depois voltaremos
à nossa tarefa - Simon propôs, quando voltaram.
Dyson se portava de maneira muito formal, como se houvesse uma hóspede de
honra em sua casa. Ele podia enganar os outros, Anne pensou, mas não ela.
Precisava evitá-lo o máximo possível até que os dias passassem e ela
voltasse para Exeter.
Por volta das dez horas Simon colocou o último enfeite no topo da árvore.
- Pronto. Que tal ela ficou? - Simon fez uma pergunta geral, mas seus
olhos estavam pousados em Anne.
- Maravilhosa. - Sentia os olhos úmidos, relembrando que, em sua casa,
antes dos pais morrerem, era ela quem sempre dava a opinião final sobre a
árvore. - Quer que segure a escada para você descer?
- É bom, porque meus irmãos não ligariam a mínima se eu caísse daqui!
- Tem que ir à igreja e pedir perdão por ter dito uma mentira
- Helen comentou rindo.
45
- Há alguma igreja aqui por perto?
- Há uma a cerca de oitocentos metros daqui, saindo da estrada principal.
O marido da sra. Randle canta no coro e ensaia uma vez por semana, já que
eles moram na vila.
Anne não tinha visto vilarejo algum quando chegara, portanto ele devia
ficar do lado oposto ao que tinha vindo. Sempre tinha ido à igreja na
véspera de Natal, com os pais, e agora, que sabia que havia uma igreja
por perto, queria manter a tradição. Mas não ia dizer nada até que Dyson
saísse da sala. Não ia permitir que ele risse desse seu hábito.
Pouco depois Helen bocejou, cansada.
- Se não se incomodam, vou deitar. Estou com sono.
- Também vou subir - Anne se apressou a dizer.
- Se você vai subir, Anne, não vejo porque permanecer aqui por mais tempo
- Simon falou com sinceridade mas ao encontrar o olhar crítico do irmão,
acrescentou: - Sei que estou sendo óbvio demais, Dyson, mas vou levar
muito tempo até adquirir sua experiência.
Não ouviu o resto da conversa porque saiu da sala com Helen.
- É uma pena que Simon não tome mais cuidado com o que diz. Numa batalha
verbal, não há quem vença Dyson. Ainda bem que você está aqui, senão acho
que amanhã os dois já se pegariam a tapas.
- Mas se eu não estivesse aqui, Simon não teria dito nada.
- Sei, mas ele arranjaria outro motivo para irritar Dyson e a situação
seria a mesma. Pensei que eles não fossem mais brigar, depois do que
aconteceu a última vez, mas vejo que me enganei. Pelo menos sua presença
aqui vai segurá-los durante esses feriados.
Foi para o quarto pensando como tinha se metido numa encrenca como
aquela. Será que só eles eram assim, ou todos os ricos eram complicados?
Pouco depois ouviu passos no corredor. Deduziu que devia ser Simon indo
deitar. Só ia esperar Dyson também entrar em seu quarto, para sair para a
igreja. Helen tinha explicado bem onde ficava e ela não ia errar. Já que
o marido da governanta cantava no coro.
poderia até voltar com ele. Pouco depois, ouviu novos passos no corredor.
Agora podia sair. Pôs uma saia no lugar do jeans e colocou um casaco
pesado por cima. Estava muito frio e tinha que se agasalhar bem. Chegou
até a porta e procurou se certificar se todos estavam dormindo. O
silêncio era total.
Abriu a porta devagar e notou que as luzes do hall ainda estavam acesas.
Será que as deixavam sempre assim? Pé ante pé desceu a escada e chegou ao
hall, verificando que a porta da frente não estava trancada. Não
precisava fazer barulho para sair.
Só começou a respirar normalmente quando se viu lá fora. Pegou o caminho
de saída, andando depressa para se esquentar. Não tinha ainda dado muitos
passos, quando ouviu uma voz que fez seu sangue gelar nas veias.
- Vai fugir sem a mala? - Dyson Silver apareceu diante dela.
- Você...
- Eu mesmo. Não conseguia dormir, srta. Newman? Não me diga que sua
consciência pesada a impede de descansar? Ou quem sabe veio encontrar seu
cúmplice?
- Cúmplice? - Estava tão espantada que não conseguia dizer nada
inteligente.
- Não adianta ficar me olhando com essa expressão inocente, srta. Newman.
Está muito escuro para que sua armadilha funcione.
- Não vou me encontrar com ninguém, sr. Silver. O que imaginou? Que eu
tivesse vindo avisar meu sócio onde vocês guardam as jóias da família?
- Por que não? - Nesse momento Dyson acendeu a lanterna, dirigindo o
facho de luz diretamente sobre ela. - Está pronta para enfrentar o frio,
srta. Newman. Não acha que me deve uma explicação?
Sabia que não importava o que ela dissesse, ele não ia acreditar. Dyson
tinha apagado a lanterna, mas fora o suficiente para que ela visse que
ele também usava casaco pesado.
- Sei que não pensa nada de bom a meu respeito, sr. Silver, mas minha
intenção era apenas sair sem incomodar ninguém.
47
- Foi o que acabei de dizer. Por que estava saindo assim, na surdina?
Não queria começar uma discussão, senão não chegaria em tempo na igreja.
Era mais fácil ficar quieta, até que ele a deixasse ir.
- Como é? Vai ficar aí parada sem dizer nada até que fiquemos congelados?
Se veio encontrar alguém já é tempo que saibam que seus planos goraram.
- Pensei que tivesse sido clara, sr. Silver. Não vim encontrar ninguém.
Estava indo à igreja. - Por um segundo, pensou que ele fosse estourar
numa gargalhada. No entanto ele permaneceu quieto, apenas mostrando que
não acreditava no que ela dizia. - com licença. Se não for agora, vou
acabar chegando tarde.
- Sabe onde fica?
- Helen disse que fica a cerca de oitocentos metros daqui saindo da
estrada principal.
- Por que essa súbita inclinação religiosa?
- Sempre fui à igreja na véspera do Natal. É uma tradição de minha
família que pretendo conservar. - Estava ficando aflita. Queria assistir
à cerimônia religiosa para se sentir um pouco mais próxima dos pais. -
Por favor, Dyson. Me deixe ir.
Dyson olhou-a profundamente nos olhos, como se estivesse à procura da
verdade.
- vou fazer mais que isso. Eu mesmo vou levá-la.
- Não precisa. Posso ir sozinha.
- Pensa que não sei onde fica a igreja? Espere aqui um momento, enquanto
vou pegar o carro.
Ficou feliz porque Dyson resolveu levá-la, jamais teria encontrado a
igreja sozinha. Ele saiu pela estrada principal, depois pegou outra
secundária, deu várias voltas até chegar à igreja, no centro da vila,
escondida nas montanhas.
- Obrigada por ter me trazido, Dyson. Jamais teria encontrado o caminho.
- Foi o que pensei.
Os dois entraram na igreja já bastante cheia e encontraram um banco vazio
onde sentaram. Anne se concentrou na cerimônia cantando os hinos com
sentimento, depois fechando os olhos para rezar por seus queridos pais,
ausentes há tão pouco tempo.
Ao terminar, notou que Dyson cumprimentava várias pessoas, embora não
parasse para conversar. Foram até o carro e ele lhe abriu a porta.
- Sente e me espere um instante.
Ele não demorou muito e em breve se acomodava ao lado dela.
- Desculpe por fazê-la esperar.
Olhou surpresa para seu companheiro. Será que o espírito de Natal tinha
mudado as maneiras de Dyson, fazendo-o delicado e gentil?
- Fui ajudar Artur a arrumar o carro. com esse frio, o motor sempre custa
a pegar - Dyson explicou, deixando-a novamente surpresa.
- Artur é marido da sra. Randle?
- Exatamente.
Estava começando a descobrir boas qualidades naquele homem bruto e
insensível. Ele era bondoso com os empregados e se preocupava com o bem-
estar deles. Será que só conseguia ser estúpido com ela?
A voz da consciência fez com que pensasse melhor. Dyson tinha sido
amável. Se não a levasse de carro até a igreja, ela ainda estaria andando
por ali, talvez até estivesse perdida! Já que Dyson tinha tornado
possível que ela assistisse ao serviço religioso porque ela também não
procurava esquecer os ataques dele para se concentrar somente no que ele
tinha feito de bom?
Quando chegaram a Moo View, ele parou o carro em frente à porta
principal.
- Vá entrando que vou levar o carro até a garagem.
- Obrigada por ter me levado, Dyson.
- Não precisa me agradecer.
Anne abriu a porta do carro e desceu.
49
CAPITULO V
No dia de Natal Anne acordou com Helen sentada em sua cama, uma bandeja
nas mãos, com chá.
- Encontrei Maureen trazendo o chá, disse que eu mesma traria, pois assim
podemos tomar juntas.
Anne sentou na cama e cumprimentou a amiga.
- Não consigo dormir até tarde no Natal - Helen falou. Sou como criança.
Não agüento de ansiedade e pulo da cama para abrir meus presentes. Já vi
tudo que ganhei. - Colocou a mão no bolso do robe e tirou um embrulho que
colocou no colo de Anne. - De mim, para você.
- Obrigada, minha querida. Também tenho um para você. Anne foi até o
armário, de onde tirou o presente para Helen. Ainda não tinha decidido o
que fazer dos que eram para Simon e Dyson e por isso os tinha deixado na
mala.
- Helen, é maravilhoso! - Anne tinha nas mãos uma corrente de ouro, fina
e delicada. Achou a lembrança boa demais, fazendo com que seu presente
para a amiga ficasse insignificante.
- Adorei! - Helen viu o perfume e deu um abraço de agradecimento na
amiga.
Anne tentou abrir o fecho da corrente para colocá-la no pescoço, mas
encontrou dificuldade. Helen ajudou-a e estavam as duas entretidas com o
fecho, quando Dyson apareceu na porta.
- Pelo jeito, Papai Noel chegou. - Ele entrou no quarto e Anne corou por
estar apenas de camisola fina e leve. Sabia que suai aparência era
feminina, mas não se sentia à vontade por estar 50
em frente a um homem, usando tão pouca roupa. Dyson a olhou
significativamente, vendo a corrente de ouro em seu pescoço.
Dyson, você foi um amor! Adorei seu presente! - Helen
correu para o irmão e lhe deu um beijo carinhoso.
Anne aproveitou a oportunidade para vestir o robe. Não tinha gostado do
olhar de Dyson, como se ela tivesse ficado feliz apenas por ter recebido
um presente valioso.
- Você ainda não viu, querida, mas Dyson me deu um casaco sensacional! Há
meses que eu vinha dando dicas sobre o que queria mas ele nem tomou
conhecimento. E agora me deu a coisa mais linda que você possa imaginar.
Dyson se aproximou mais, estendendo um pacote muito bem feito para Anne.
- Feliz Natal! - Não havia sarcasmo em sua voz. Devia ser a presença de
Helen, ou o espírito de Natal que tinham tornado Dyson um pouco mais
humano.
- Abra depressa! - Helen estava animada, o rosto corado, curiosa de ver o
que estava dentro do pacote.
Anne desfez o embrulho devagar, com medo que Dyson lhe desse alguma coisa
em que pudesse demonstrar seu cinismo.
- Ah, obrigada! - Anne tinha nas mãos um volume de Jane Eyre, uma
história de amor. Como ele tinha adivinhado tão bem seu gosto? Embora
fosse um presente barato em relação ao que Helen tinha lhe dado, era tudo
que queria!
- Helen me disse que você era romântica e achei que essa história de amor
iria deixá-la contente.
- Não pode imaginar como gostei de seu presente. Obrigada, Dyson. - Ela
foi em direção da mala para pegar o presente dele, quando Helen a puxou.
- Não vai dar um beijo em Dyson para agradecer o presente? Afinal,
estamos no Natal!
Anne ficou sem jeito. Sabia que Dyson não queria um beijo dela, do mesmo
modo que ela não pretendia beijá-lo. No entanto, ele continuava a
observá-la, sem se afastar. Por sorte, foi salva da situação com a
chegada de Simon.
- Parece que ouvi falar que haverá farta distribuição de beijos. Também
estou aqui, não se esqueçam.
- Dyson acabou de entregar o presente de Anne e eu sugeri que ela lhe
desse um beijo - Helen explicou ao irmão, que ainda tinha os cabelos
revoltos da cama.
- Puxa! Que falha idiota. Anne. Não lhe comprei um presente!
- Está triste por quê, Simon? - Dyson falava com um sorriso brincalhão. -
Por ter esquecido o presente de Anne, ou por que não vai receber o beijo?
Todos riram e Dyson se retirou. Anne perdeu a oportunidade de entregar o
presente dele. Agora, sabendo que Simon não tinha nada para ela, não
queria entregar o que comprara, pois isso ainda deixaria o rapaz mais sem
graça.
Depois do café, Helen levou a amiga para conhecer os arredores da casa. O
lugar era maravilhoso, a vista se estendendo por montes arredondados,
agora todos cobertos de neve. A casa ficava no alto de uma dessas
elevações e a paisagem era magnífica.
- Vamos ver as cachoeiras? - Helen convidou.
Anne gostaria de ter ficado mais algum tempo ali, gozando aquela paisagem
de sonho, mas acompanhou a amiga sem dizer nada. Helen já devia estar
acostumada com tanta beleza, porém, para quem estava ali pela primeira
vez, a vontade era deixar-se envolver ao máximo pelo ambiente.
Admirou-se com a beleza dos cavalos. Ela não sabia montar muito bem, mas
podia reconhecer a qualidade de um bom animal. Um deles, de um marrom
brilhante, chamou especialmente sua atenção. Morreu de vontade de
cavalgá-lo, andando por aqueles montes tão bonitos e gozando a beleza e a
tranqüilidade do lugar.
- Ele é lindo, não é? - Helen notou o interesse da amiga. Starlight é um
de nossos melhores cavalos. Sabe montar?
- Faz anos que não experimento.
- Que tal tentar amanhã? Hoje já é um pouco tarde, mas podemos sair
amanhã. Simon vai se oferecer para vir conosco, antes mesmo de ser
convidado.
- Helen... importa-se muito se eu não participar? - Tinha medo que o
balanço do cavalo lhe machucasse as costas. Além disso,
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quando Dyson a atirara na cama, sentira um pouco de dor e não queria
abusar.
Vamos esperar até amanhã para ver o que decide. Que tal?
Helen não ficou triste. - Sei que quando faz tempo que não se
anda a cavalo, eles parecem mais altos que um prédio!
Voltaram para casa e a refeição foi digna do dia de Natal. Tudo estava
perfeito. O peru, servido com purê, arroz com nozes e castanhas, além de
suflê de batatas e uma travessa muito bem decorada com legumes de todos
os tipos. Foi até difícil guardar um lugarzinho para a sobremesa, um
delicioso pudim, especialidade da sra. Randle.
O almoço todo foi regado com vinho e embora Anne tivesse tomado apenas
dois copos, sentia o rosto em fogo. Dyson estava sendo amável com ela e
sentia-se feliz por poder relaxar, falar e agir naturalmente, sem estar
preocupada com o olhar crítico do dono da casa.
A conversa se generalizou, até que Helen e Simon começaram a discutir,
por causa de emprego.
- Você tem um empreguinho à toa porque sabe que na hora que quiser é só
largar que não vai lhe fazer diferença. Comigo é diferente, Helen - Simon
explicava.
- O seu também não é grande coisa. com a desculpa da faculdade, você não
trabalha nada, portanto não venha falar do que estou fazendo. - Helen
estava ficando brava.
Anne intuiu que iam ter uma briga em família. Dyson, no entanto, sem
dizer uma palavra, olhou significativamente para o irmão, como a lembrá-
lo que se comportasse e que não esquecesse que tinham uma hóspede em
casa.
Simon percebeu, a mensagem do irmão. Virando-se para Anne, se desculpou.
- Acho que ando tenso demais por causa da tese que estou preparando.
Sinto muito.
Anne sabia que o momento de tensão havia passado. Aproveitou para
conversar com ele.
- Ainda falta muito para terminar a tese?
- Está praticamente no fim; só falta uma pequena revisão e depois preciso
mandar datilografar.
- Se quiser posso fazer isso para você. Sei bater bem à máquina e.
- Não sabia dessa sua habilidade - Dyson interrompeu.
De repente sentiu uma vontade imensa de mostrar como estava preparada
para ganhar a vida, e não resistiu:
- Sou secretária executiva. Posso datilografar, tomar notas em
taquigrafia, conheço espanhol e sei fazer todos os serviços de uma
secretária bem treinada.
- Nossa Senhora! - Simon deu um assobio de aprovação. - O que está
fazendo na Brewster, com esse conhecimento todo?
Por um momento Anne se arrependeu do que tinha deixado escapar. Sabia que
não tinha deixado seu emprego por causa do acidente, porque seu antigo
chefe tinha reservado seu lugar pelo tempo que fosse necessário. Tinha
desistido da vaga quando, na ocasião, achava que estava grávida.
Olhou para Simon e para Dyson, os dois interessadíssimos em sua resposta,
e sentiu um calor estranho lhe percorrer o corpo. Desviou o olhar,
imaginando o que Dyson diria se soubesse que ela tinha largado o emprego
porque julgava estar esperando o filho dele!
- Achei que seria bom mudar um pouco, para variar.
- Onde trabalhava, antes de começar na Brewster? - Simon perguntou.
- No departamento jurídico de uma imobiliária.
- Então lhe dou toda razão por ter mudado. Não vejo nada pior e mais
monótono do que trabalhar numa imobiliária, ainda mais no departamento
jurídico.
- A não ser, talvez, trabalhar na Brewster - Dyson falou baixinho,
enquanto Helen e Simon afastavam a cadeira para levantar.
- Vamos dar um passeio a pé? Se ficar por aqui, vou acabar cochilando.
Quem quer vir? - Simon sugeriu.
Helen levantou, animada, não esquecendo da amiga.
- Vem também, Anne? - Levantou e foi pegar o casaco. Quando voltou,
perguntou ao irmão mais velho: - E você, Dyson, não quer vir?
- Preciso verificar uns papéis.
- No dia de Natal? Não é possível, Dyson!
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- Conhece meu lema, Helen. Primeiro a obrigação e depois.
já sei - Helen completou. - Depois a devoção. Está bem.
Os três saíram para aproveitar o dia maravilhoso, cheio de sol, embora
estivesse bastante frio. A princípio Anne tinha ficado contente porque
Dyson não ia com eles; isso a deixava mais à vontade. No entanto, por
mais estranho que fosse, sentia falta de sua companhia.
Deram um longo passeio, aproveitando o ar claro e puro e o exercício lhes
fez bem. Deram boas risadas e logo Anne esqueceu Dyson.
Ao voltarem para casa, horas mais tarde, Helen propôs:
- vou preparar um chá bem quente para nós. - E foi para a cozinha.
Anne já ia subir, quando Simon a fez virar-se de repente, forçando-a a
encará-lo. No momento seguinte, o rapaz a estava beijando. Anne sentiu
muita dor nas costas pelo movimento inesperado. Colocou as mãos no peito
do rapaz, para empurrá-lo para mais longe. No entanto, assim que ele
afastou os lábios dos dela, sentiu outra pontada de dor que a fez
segurar-se no rapaz e fechar os olhos, tentando controlar um grito.
Ao abri-los novamente, deu de cara com Dyson, que tinha saído do
escritório e estava em pé no hall, olhando-a com uma expressão gelada.
Ele se limitou a balançar a cabeça e entrou novamente na sala onde
estava.
- Quer mais um beijo? - Simon perguntou baixinho, sentindo que Anne não
se afastava dele.
- Não. não Simon. - Só então notou que ele ainda a abraçava.
- Esse foi o bastante. - Ela se soltou, embora Simon quisesse conservá-la
nos braços.
- Está bem. por enquanto. - Simon a olhou com carinho.
- Mas não vai ser o último.
Subiu o mais depressa que a dor o permitia. Chegando no quarto, foi
direto para a mala, onde tinha guardado os comprimidos. Tomou um, embora
achasse que aquelas pontadas deviam ser passageiras, por terem sido
provocadas por um mau jeito. Tratou de lavar as mãos e o rosto e penteou
o cabelo, que estava revolto por causa do vento. Precisava descer para
tomar chá com eles. Se não fosse, Helen ficaria
preocupada e subiria para ver o que havia acontecido. Só esperava que
Dyson não estivesse presente, pois sabia que a boa vontade que ele estava
demonstrando, tinha sumido depois da cena que vira. Dyson tinha sido bem
claro quando a prevenira que ficasse longe do irmão. Não tinha tido
culpa, mas Dyson jamais acreditaria nela.
Começou a descer a escada e já estava quase chegando ao hall. quando
Dyson se aproximou, o mesmo brilho frio no olhar.
- Gostou do passeio, caçadora de homens?
Queria se defender, mas sabia que não havia o que dizer, pois, para
Dyson, ela não passava de uma moça que ia a bares para conseguir a
companhia de um homem. Gostaria de subir de novo e se trancar no quarto,
mas isso também não ia resolver. Não podia ficar trancada o resto dos
dias que tinha para ficar ali. Precisava enfrentá-lo, de igual para
igual.
Desceu os últimos degraus, a cabeça erguida, sem responder o insulto.
Dyson estava em seu caminho e não se afastou para que ela passasse.
- Já lhe disse que ficasse longe de Simon. - Dyson falava com voz dura,
segurando o braço dela, para impedi-la de prosseguir.
- Não foi bem isso que me disse, Dyson. Recomendou apenas que eu ficasse
longe da cama dele, não está lembrado? - Enfrentou o rapaz com calma. Se
ele podia ser sarcástico e insuportável, ela podia usar a mesma técnica.
Se ele a acusava de ser o que não era, ia fazê-lo temer sua presença
perigosa. Já que está tão preocupado com a moral de seu irmão, saiba que
não cheguei nem ao quarto dele. ainda.
Assim que acabou de falar percebeu que tinha ido longe demais. O olhar
frio se transformou em ódio e Dyson agarrou-a com as duas mãos.
Mais uma pontada de dor fez com que fechasse os olhos. Dyson achou que
ela agia assim por puro medo e apertou-a mais contra o corpo musculoso.
Nunca tinha estado assim tão perto dele e por um segundo sentiu medo da
força física que sabia existir nele.
- Não adianta ficar assustada agora, sua vagabunda. Preste atenção no que
lhe digo: mantenha-se longe de Simon, ou vou fazer sua vida ficar tão
difícil que jamais conseguirá entrar num lar decente outra vez.
De onde ele pensava que ela havia vindo? Não havia lar mais decente que o
seu nem companhias melhores do que a sua. Seu lar tinha sido muito bem
formado e ela era uma moça direita! O que ele dizia era um insulto para
seus pais! Uma onda de fúria incontrolada tomou conta de sua mente e num
gesto de revolta contra tantos desaforos, Anne levantou o pé e tornou a
acertá-lo na canela, que ainda devia estar dolorida.
Dyson soltou um grito mas não a largou. Pelo contrário, cada vez a
apertava mais, como se quisesse esmagá-la, como se ela fosse um verme
nojento.
- Você está me machucando! - ela gritou, sentindo muita dor.
- É isso mesmo que quero, mocinha à toa! - Dyson a apertava cada vez
mais, o rosto muito próximo do dela.
Anne entrou em pânico. O que ele queria? Matá-la? Depois, como um jato de
luz, a idéia penetrou em sua mente. Não, ele não queria acabar com ela,
queria beijá-la! Desesperada, levantou uma das mãos e colocou-a sobre a
boca de Dyson.
- Não! Não quero que me beije! Dyson afastou a cabeça surpreso.
- Essa é muito boa! Você é tão pródiga na distribuição de seus. favores e
no entanto, fica apavorada com a idéia de que eu possa querer beijá-la?
- Não. não quero relembrar velhas histórias.
- Relembrar o quê? Responda, srta. ninfomaníaca.
Ficou em dúvida. Será que ele não a tinha beijado naquela noite? Será que
tinha partido direto para a cama sem maiores carinhos? Por que não
conseguia lembrar de nada? Ou seria melhor que sua mente continuasse no
escuro, para não lembrar de momentos terríveis?
- Por favor. por favor, não me beije! - implorou.
- Acha que vou deixar esses dois pontapés sem resposta? Acha que pode me
deixar aleijado sem que eu reaja? Você fica apavorada com a idéia de que
eu a beije, não é? Bem, acho que já é hora de sentir medo de alguma
coisa. Quem sabe, depois de um beijo meu, até desista de ser promíscua?
Dyson aproximou mais o rosto. Ela estava hipnotizada, incapaz de se
defender, o medo crescendo até deixá-la sem ação, os olhos pregados
naquela boca. cada vez mais perto... sensual... exigente... até que os
lábios entreabertos cobriram os seus.
Só esperava o momento desagradável em que aquele beijo a fizesse recobrar
a memória, mas nada aconteceu. Sentia os lábios de Dyson contra os seus,
não rudes e cruéis, mas gentis, persuasivos, fazendo-a ansiar pelo
contato que a tinha deixado apavorada pouco antes.
Contudo recebeu o beijo parada, dura, sem corresponder. Dyson levantou a
cabeça, surpreso. Olhou-a profundamente, tentando adivinhar o que se
passava. Depois, abraçando-a mais, ele tornou a beijá-la, dessa vez sem
ternura ou gentileza, mas com selvageria e exigência, forçando-a abrir os
lábios para recebê-lo.
Dyson comprimia o corpo contra o dela, para que ela pudesse senti-lo,
enquanto suas mãos lhe agradavam as costas, em movimentos suaves e
ondulantes. Ele baixou a mão até pousá-la nos quadris de Anne, tornando o
contato mais íntimo.
Se permitisse que ele continuasse assim, ele apenas iria comprovar o que
já pensava dela, isto é, que era uma conquista fácil. Baixou a própria
mão e colocando-a sobre as dele, trouxe-a de volta para a cintura. Para
sua surpresa, ele não insistiu.
Seus rostos se afastaram e por um longo instante eles se olharam
profundamente.
- Você beija como uma virgem intocada.
O som da voz de Dyson trouxe Anne de volta ao mundo. Foi só então que se
deu conta de que tinha correspondido ao beijo dele e de que não fizera
esforço algum para se livrar de seus braços. Estava confusa. Como tinha
consentido no beijo e, pior ainda, como tinha correspondido e. até
gostado?
- Bobagem sua, porque melhor do que ninguém, você sabe que não sou mais
virgem, não é?
- Tem razão. - Dyson soltou os braços, deixando-a livre.
Os dois estavam quietos, um diante do outro, quando a voz de Helen
quebrou o silêncio.
- Finalmente encontro vocês. O que estavam fazendo aqui? O chá já está
pronto e vai esfriar. - Helen estava contente por ver
58
que o irmão e a amiga estavam bastante próximos, embora não estivessem
conversando. Julgava que estavam começando a se entender melhor e tinha
esperanças que em pouco tempo seriam amigos.
Tenho que terminar umas coisas. Não vou tomar chá. - Dyson
foi para o escritório.
Eles se encontraram de novo no jantar. Anne esperava que ele não
estivesse presente, mas a família costumava se reunir à hora das
refeições. Não conseguia comer, sentindo-se pouco à vontade. Notava que
Dyson estava sempre olhando para ela, examinando-a, muitas vezes com o
olhar cheio de superioridade.
Por que ele não tinha ficado no escritório? Por que tinha que ficar
observando-a daquele jeito? O que esperava que ela fizesse? Que tirasse a
roupa e perseguisse Simon para conseguir dormir com ele?
A voz de Simon chegou aos seus ouvidos, embora ela estivesse tão
distraída que perdeu o início da frase.
- Desculpe, Simon. Estava com o pensamento longe e não ouvi o que disse.
- Estava dizendo que tenho uma festa para ir hoje à noite. Gostaria de ir
comigo?
Qualquer coisa era melhor do que ficar ali, agüentando Dyson! Já estava
pronta para aceitar o convite, quando seus olhos encontraram os de Dyson.
Havia tanta ameaça neles que Anne se apavorou com as conseqüências que
teria de enfrentar, se fosse com Simon.
- Gostaria muito Simon, mas. estou um pouco cansada. Acordamos cedo e,
sabe, tudo aqui é novo para mim e a gente também se cansa por ver tanta
beleza de uma vez só. Prefiro deitar mais cedo.
- Já conheço bastante esse lugar - Helen disse -, mas também estou
cansada e também vou deitar cedo para aproveitar o dia amanhã.
Simon ficou desapontado mas se conformou. Pouco depois, saiu.
Helen e Anne foram para a sala ver um pouco de televisão, enquanto Dyson
se refugiou no escritório. Anne estava feliz por não ter que ficar junto
dele. Sentia as costas bastante doloridas e assim que o relógio bateu dez
horas, levantou, dizendo boa noite para Helen.
- Daqui a pouco também vou subir. - Helen beijou-a.
Já estava quase na porta quando Dyson entrou na sala. Que azar! Resolveu
não se importar com a chegada do dono da casa. Afinal de contas, ela
havia decidido subir antes de ele chegar, portanto não estava fugindo de
nada.
Passou por ele e já estava no hall quando ouviu que Dyson a chamava.
- Anne, conseguiu lembrar?
- Lembrar de quê?!
- Daquilo que estava tentando esquecer e que só meu beijo parecia capaz
de trazer de volta.
Dyson era esperto e via longe. Além disso, tinha tido tempo de sobra para
pensar sobre o assunto, calcular suas reações e tirar algumas conclusões.
- É muito normal que a gente tente esquecer alguma coisa desagradável,
não concorda comigo?
- Concordo, e também posso lhe dizer que você aprende a lição
rapidamente.
O que ele queria dizer com isso? Como era horrível não se lembrar de nada
que havia acontecido naquela noite fatídica!
- Como assim!
- Você recusou depressa o convite de Simon. Acho que aprendeu o que não
deve fazer.
- Simon é homem feito e não vai poder vigiá-lo vinte e quatro horas por
dia. - Achou que esta resposta era o suficiente para deixar Dyson em
dúvida. Era bom que ele não pensasse que podia mandar nela. Se o deixasse
perceber o pavor que tinha das lembranças que só ele podia fazer reviver.
estava perdida! Então era bom que conseguisse dizer a última palavra.
Sua alegria durou pouco, porém. E, no final das contas, não ficou senhora
da situação, como tinha achado, pois Dyson lhe respondeu, com o máximo de
frieza e dureza na voz:
- Está muito enganada, srta. Newman. Não estou tomando conta de Simon.
Estou de olho em você.
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CAPÍTULO VI
Anne chegou no quarto e se atirou na cama. Os pensamentos estavam
confusos e não conseguia encontrar uma saída. Era difícil ficar na mesma
casa com Dyson, vendo-o todos os dias, enfrentando seu jogo de palavras,
seu cinismo, sua vigilância incessante.
Por outro lado, como podia escapar dali? Mesmo que arranjasse uma maneira
de fugir e conseguisse transporte para Exeter, como ficaria sua amizade
com Helen? Não podia explicar o que tinha acontecido entre o irmão e ela.
Aliás, jamais poderia contar o caso para alguém. Bastava ela mesma ter
que conviver com esse segredo que a fizera até esquecer os momentos mais
terríveis. Ainda por cima, Helen fora muito clara ao lhe agradecer a
presença, achando que só ela. é que impedia que os irmãos tivessem uma
briga feia.
Não adiantava nada ficar ali se martirizando, procurando encontrar uma
saída para a situação, porque não havia. O jeito era tratar de descansar
pois talvez visse as coisas mais claras depois de uma noite de sono.
Eram duas horas da manhã quando acordou, o corpo banhado de suor. Mais
que depressa acendeu a luz, e, para seu alívio, viu que estava no mesmo
quarto em que deitara. O pesadelo tinha sido tão real! Tinha voltado ao
local do acidente e se vira novamente tentando conseguir arrancar seus
pais daquele monte de terra e pedras... Não era a primeira vez que tinha
esse sonho, mas há muito tempo ele não se repetia. Talvez estivesse
preocupada com a dor que sentira na coluna, à tarde. Felizmente estava
bem agora e não sentia mais dor nenhuma. Apagou a luz e se preparou para
dormir de novo.
Poucos minutos depois, tornou a acendê-la e sentou na cama. Não queria
ficar no escuro. O pesadelo tinha sido real demais e ela ainda estava
assustada. Ia deixar a luz acesa. Se notassem isso na manhã seguinte,
diria que estava lendo e que tinha acabado adormecendo sem apagar a luz.
Tornou a deitar mais confiante agora que o quarto estava claro.
Ainda estava bem acordada quando ouviu leves batidas à porta e logo
depois Simon entrou. Ele estava um pouco embriagado, notava-se que a
festa tinha sido animada.
- Vi que ainda tinha luz em seu quarto e resolvi entrar. Deixou-a ligada
para servir de guia para mim? - Simon deu uma risada leve, embora ela não
encontrasse motivos para rir.
- Quantos uísques tomou? - Estava aborrecida por ver Simon em seu quarto,
depois de ter bebido tanto.
- Alguns... somente isso... alguns. Por que não foi à festa comigo? Não
tinha uma moça que lhe chegasse aos pés!
- Já lhe disse, Simon, estava cansada.
- Mas ainda continua acordada.
- Estava dormindo - mentiu. - Acordei quando você entrou.
- Dormindo? De luz acesa?
- Fiquei lendo e devo ter dormido sem apagar a luz. Simon olhou-a sem
parecer acreditar no que ela dizia.
- Sabe, vou lhe contar um segredo. - Simon tentou se aproximar mas estava
tão tonto que caiu pesadamente no chão.
- Fique quieto, Simon, vai acabar acordando todo mundo! Não via a hora de
se livrar dele.
- Antes vou lhe contar meu segredo. Sabe, gosto de você!
- Também gosto de você, Simon. Mas vou parar de gostar se não for embora
para seu quarto. Quero voltar a dormir. Vá deitar por favor, Simon.
- Não quer. que eu deite com você?
- Não. Quero que vá embora.
Simon levantou e foi para a porta, andando em ziguezague. Ele ainda
ergueu os ombros, tentando mostrar que não estava bêbado, mas mesmo assim
balançava o corpo. Da porta, jogou-lhe um beijo e depois saiu.
62
Sentiu-se aliviada quando ele foi embora e ao mesmo tempo teve vontade de
rir com a figura ridícula do rapaz. Não tinha ficado ofendida por ele ter
tentado ir para a cama com ela, pois sabia que, nesse momento, ele não
estava sóbrio. De qualquer modo, tinha aliviado a tensão que o pesadelo
provocara e agora, quem sabe, ia conseguir dormir. Apagou a luz, virou-se
de lado, e esperou que o sono chegasse.
Na manhã seguinte, Anne se sentiu descansada, mas um pouco mais
aborrecida que na véspera. Será que os dois irmãos não iam deixá-la em
paz? Agora tinha que se defender de dois ao mesmo tempo. Enquanto se
vestia, ficou fazendo planos.
Não ia andar a cavalo com Helen porque não queria se arriscar a sentir
dor de novo. Preferia ficar em casa, lendo, ou dando um longo passeio a
pé, para ver todas as paisagens lindas que havia por ali. Mas. não podia
ficar em casa sozinha com Dyson. Precisava evitar a todo custo que isso
acontecesse. Aliás, também não pretendia se ver sozinha de novo com
Simon. Que situação! Até parecia que ela era uma dessas mulheres
irresistíveis e destruidoras de corações! O que tinha acontecido de
repente, que todos se julgavam no direito de levá-la para a cama?
Ao descer, encontrou Helen e as duas foram alegremente tomar café. Ao
entrar na sala, o sorriso feliz de Anne se congelou nos lábios, ao
encontrar Dyson já sentado à mesa, o rosto mais sério que nunca, o olhar
mais gelado que antes.
Helen não percebeu a atitude fria do irmão e começou a se servir,
conversando sobre os planos do dia.
- Vai andar a cavalo conosco, Anne? Já estou pronta, mas Simon ainda está
dormindo. Em todo caso, vou acordá-lo.
- Ele deve ter se esgotado ontem à noite - Dyson comentou com azedume.
Anne achou que ele devia estar insinuando alguma coisa de novo, pois
Dyson não desviava o olhar dela.
- Ele deve ter chegado de madrugada - Helen respondeu como se Dyson
tivesse falado com ela. - Não. se esqueça de que a festa era de Kitty
Lancaster. - Virando-se para Anne, explicou: - E
comum, nas festas de Kitty, que o pessoal fique até de manhã e acab
tomando o café da manhã lá mesmo.
Anne gostaria de dizer que sabia que Simon tinha voltado para casa às
duas da manhã, mas achou que Helen poderia ficar escandalizada de saber
que o irmão tinha parado no quarto dela em vez de ir direto dormir. O
melhor era ficar quieta.
- Então, vem conosco?
- Acho melhor não ir. Faz muito tempo que não monto e tenho medo de cair
e me machucar. Lembre-se de que temos que trabalhar daqui a uns dias!
Nesse momento Simon entrou na sala e sem dizer bom dia a ninguém começou
a se servir.
- bom dia, Simon - Dyson falou em tom sério, como para lembrar o irmão
que precisava conservar seus bons modos.
- bom dia - Simon falou de modo geral, fixando o olhar em Anne.
Ela não queria falar com Simon, principalmente com Dyson vigiando-a tão
atentamente. Baixou os olhos, evitando assim que Simon se sentisse
encorajado a conversar.
- Parece que teve uma noite cheia - Helen comentou, vendo o irmão tão
quieto.
- Claro que ele teve. - Dyson levantou, jogando o guardanapo sobre a
mesa. - Simon, quero conversar com você. Venha até meu escritório assim
que tiver acabado o café. - Ele deu mais um olhar gelado para Anne e saiu
da sala.
- Que bicho mordeu nosso querido irmão? - Simon comentou olhando para
Helen.
- Não faço a menor idéia. O que você andou aprontando, Simon? Será que
vendeu mais algumas...
- Claro que não, Helen. Pensa que sou bobo, ou qualquer coisa assim?
Ainda não esqueci da última... - Simon se interrompeu, lembrando que não
estavam sozinhos.
Um silêncio tenso tomou conta dos três. Anne ficou imaginando se deveria
sair e deixar que os dois irmãos conversassem em particular, até que
esclarecessem a situação.
Foi então que Simon quebrou o silêncio.
64
- Vem passear a cavalo conosco, não é. Anne? Por favor, diga que sim.
- Não, não vou, Simon. Já expliquei a Helen o porquê. Prefiro dar um
passeio a pé.
Simon ainda tentou convencê-la a mudar de idéia, mas quando viu que não
ia conseguir, mudou de assunto e os três terminaram o café numa prosa
animada.
Anne levantou para subir e pôr mais uma malha. Lá fora fazia muito frio.
- Está pronta? - Simon se dirigiu à irmã.
- Estou. mas não vai ver Dyson primeiro?
- vou nada. Preciso estar com a cabeça fria para depois enfrentar o que
ele tem a dizer. Se formos bastante rápidos, ele nem vai nos ver sair e
estaremos longe, antes que ele se dê conta de que saímos.
- Simon, acha que essa é a melhor maneira de agir?
- Por que não, Helen? Ele não pode nos matar. Em todo caso, Anne, não
quer ficar aqui na sala, até que veja que eu e Helen fomos embora? Se
Dyson a vir aqui vai pensar que estamos todos.
Anne se sentia como uma verdadeira conspiradora, mas concordou. Viu que
os dois saíam da sala, passavam pelo hall e sumiam pela porta, para
depois passarem diante da janela e lhe darem adeus. Resolveu ficar lá por
mais alguns minutos para dar uma vantagem maior aos fugitivos.
Foi só depois de cinco minutos que saiu da sala e foi para o hall,
querendo ir a seu quarto pegar um agasalho. Estava no primeiro degrau da
escada, quando Dyson se dirigiu a ela.
- Quero falar com você.
Que ousadia! Se ele queria brigar com o irmão, ela não tinha nada com
isso. Mas incluí-la na discussão já era demais! - Pensei que fosse falar
com Simon.
- Já vi há muito tempo que ele e Helen saíram. Venha a meu escritório,
srta. Newman.
Ela não ia receber ordens de ninguém. Ia simplesmente fingir que não
tinha ouvido. Subiu mais dois degraus.
- Muito bem, srta. Newman. Então falaremos em seu quarto.
com os olhos bem abertos de pavor. Anne viu que ele começava a subir a
escada atrás dela. Ficou parada, sem querer dar mais um passo.
- Compreendo que se sinta mais à vontade em seu quarto. Falaremos lá. -
Dyson se aproximou e colocando a mão em seu cotovelo convidava-a a subir.
Ela arrancou o braço e com incrível rapidez deu meia volta e foi para o
escritório. Nunca tinha estado ali, e notou que a sala era grande e
decorada com simplicidade e elegância.
- Sente, srta. Newman.
- Posso ficar de pé mesmo. Não vou demorar muito.
- Sente! - Ele falou num tom que não admitia recusas. Obedeceu, embora
não tivesse intenção nenhuma de ficar ali.
- Quero que saiba, srta. Newman, que agradeço a oportunidade que tive de
conhecê-la bem, naquela noite em setembro, em que nossos caminhos se
cruzaram. Fiquei sabendo a facilidade com que concede seus favores a
qualquer homem e o tipo de mulher que realmente é. Confesso que se não
conhecesse a verdade, poderia até ser enganado pela atitude angelical que
adotou desde que chegou aqui como amiga de Helen.
- Não tentei enganar ninguém, sr. Silver. Dyson ignorou a interrupção.
- Naturalmente pensou que tinha ganho na loteria, quando Helen a convidou
para vir passar o Natal conosco. Não só ficou sabendo que ela tinha dois
irmãos disponíveis, como também tio James se encarregou de lhe contar que
a família estava bem de vida. Quais são seus planos? Pescar pelo menos um
de nós, ou, quem sabe, os dois?
- Pescar?!
- Exatamente, senhorita. Pescar, fisgar, pegar na armadilha, como quiser.
Estou falando de casamento, srta. Newman.
- Está ficando louco? Jamais me casaria com qualquer um dos dois. nem que
fossem os últimos homens sobre a face da terra! Tentou levantar, apenas
para ver que Dyson não saía de seu caminho.
- Mesmo que tentasse, srta. Newman, não teria a menor chance.
66
Não se esqueça de que, se quiséssemos, obteríamos de você tudo que
queremos, tudo mesmo, sem a necessidade de um padre para abençoar a
união.
Sentia náuseas ao ouvir tamanho absurdo. Mas não ia se deixar dominar por
aquele insolente, nem sair dali de cabeça baixa. Ia enfrentá-lo, com as
mesmas armas que ele usava.
- Acha que vocês dois teriam uma chance tão grande comigo?
- Nós dois. Não foi esperta e queimou sua oportunidade de êxito ao deixar
que Simon entrasse em seu quarto, ontem à noite. Se, em algum momento,
ele pensou em casar com você, já não pensa mais, uma vez que pode tê-la
sem que precise se envolver. Se ele a teve de graça, por que deveria
pagar para isso?
Dyson tinha tomado conhecimento da ida de Simon a seu quarto. O problema
era que ele jamais acreditaria no que realmente tinha acontecido lá
dentro. Era inútil tentar contar-lhe ou explicar com detalhes como tinha
sido, pois jamais iria acreditar nela. O jeito era continuar usando o
mesmo sarcasmo que ele usava com ela.
- Está com ciúme? Gostaria que eu tivesse estado com você e não com ele?
Dyson soltou um palavrão e a fúria se estampou em seus olhos de uma tal
maneira, que ela se arrependeu de desafiá-lo. Como um animal enjaulado
que de repente se vê livre, Dyson avançou para ela com uma tal violência
que Anne sentiu medo.
- Ordinária! Eu poderia tê-la possuído no dia e na hora que desejasse, e
você sabe disso!
- Não poderia! Não! - Ainda conseguiu gritar, sentindo-se apavorada. Não
sabia como se livrar dele e não queria que nada a fizesse lembrar daquela
noite. Devia ter sido tão horrível que até agora sua memória se recusava
a voltar!
Dyson percebeu o pânico que se apoderou dela. Sentando no braço da
poltrona, segurou-lhe o queixo entre as mãos, virando o rosto de Anne
para encará-lo.
- Devia ter levado meu ultimato a sério. Disse-lhe que se afastasse de
Simon, ou jamais entraria num lar decente de novo, não foi? Já vi que
minha ameaça foi inútil, mas acabou de me dar uma
idéia melhor para puni-la por não ter levado em consideração minhas
recomendações.
- Não vai fazer nada! Me largue!
- vou sim! Para ser bem franco, não me entusiasmo com a idéia de me sujar
tocando-a, mas sei que tem pavor de pensar em estar em contato íntimo
comigo.
- Me deixe em paz! - Anne percebeu que Dyson estava furioso demais para
se impressionar com suas súplicas.
- Sabe o que vou fazer com você, srta. Newman? vou fazer amor com você.
Ou melhor, não vou usar a palavra amor que é sem cabimento no caso. vou
ter uma relação sexual com você, só isso. Um ato puramente físico, sem
nenhuma emoção envolvida.
- Não pode fazer isso! - A voz de Anne estava sumindo de tanto medo.
- Não mesmo? - Uma risada sarcástica acompanhou essas palavras. - Você,
mais do que ninguém, deve saber que um homem consegue ficar excitado
apenas ao ver uma mulher nua.
Estava desesperada. As palavras dele se repetiam em sua cabeça e ela
tentou escapar daqueles braços de ferro, aterrorizada demais só de pensar
no que podia acontecer. Olhou para a porta, vendo se descobria uma
maneira de fugir.
- Não adianta tentar escapar, srta. Newman. Não viu que tranquei a porta?
Ninguém vai nos incomodar e, se conheço bem meus irmãos, eles vão ficar
fora durante horas.
- Me deixe ir embora! Pelo amor de Deus, me deixe ir! vou embora
imediatamente, faço o que me mandar, mas... por favor não...
- Agora é tarde. Eu a preveni com antecedência.
- Mas eu e Simon. não. - Ela sentiu que Dyson a puxava para mais perto.
- Fique quieta porque não vai sair daqui até. - Ele deixou a ameaça no ar
e Anne compreendeu que não adiantava nada continuar a implorar.
- Venha para cá que vamos começar seu castigo. - com um gesto súbito,
Dyson deitou-a no sofá e já se aproximava, tentando colocar o corpo sobre
o dela.
68
Ela lutava como um gato selvagem, mas sua força não era nada diante
daqueles músculos poderosos que a mantinham cativa. Sentindo que Dyson
pressionava sua boca, ela tentou mordê-lo, mas com isso só conseguiu que
ele a mantivesse de lábios abertos, recebendo os dele num beijo
alucinado.
Dyson passou a beijar-lhe não só o rosto, como os lugares sensíveis do
pescoço e orelhas para depois voltar aos lábios novamente, usando
movimentos rítmicos e sensuais que a deixavam aturdida. Não conseguia
respirar, achava que ia desmaiar, contorcia-se tentando fugir.
- Continue assim, Anne, já estou ficando excitado - Dyson falou baixinho.
Estava desnorteada. Não era isso o que pretendia! Se pelo menos ficasse
quieta e passiva ainda poderia derrotá-lo, pois ninguém fica animado com
um corpo inerte. Mas... como ficar imóvel, quando estava morrendo de medo
e lutando como uma leoa para conseguir fugir?
Dyson levou a mão à blusa de Anne e começou a abrir o primeiro botão. Ele
não a estava beijando mas ela podia sentir o contato firme das coxas
fortes pressionando as suas, o desejo crescendo naquele corpo viril.
Tentou arranhar aquele rosto tão próximo do seu, mas Dyson parecia ter
muito mais mãos do que ela, porque conseguia segurá-la e ao mesmo tempo
abrir sua blusa.
- Vamos ver os encantos que você traz escondidos. - A voz de Dyson era
fria, em contraste com seus gestos.
Ela se contorcia, tentando escapar do peso do corpo maciço que a mantinha
presa.
- Continue se mexendo assim.
Anne já não tinha dúvidas de que ele ia cumprir o que tinha prometido.
Ainda não havia tocado seu corpo mas tinha aberto os botões da blusa e
ela se sentia vulnerável, os seios aparecendo sob o tênue tecido do
sutiã.
- Dyson, por favor. por favor. não faça assim! Você está me matando! -
Por um breve segundo, Dyson pareceu ouvi-la. Não estava sendo dramática
porque sabia que algo muito importante morreria nela, se Dyson insistisse
no que pretendia. Tinha que contar a ele que não houvera nada entre Simon
e ela na noite anterior. Então, ele saberia que não havia motivos para
castigos - Simon.
Ela não conseguiu dizer mais nada. A menção do nome do irmão provocou
outro acesso de fúria em Dyson, que lhe arrancou a blusa e rasgou o sutiã
como se ele fosse feito de papel. Ela morria de vergonha ao se ver
exposta daquela maneira, os seios subindo e descendo, devido a sua
respiração forçada, os olhos dele brilhando de desejo.
Dyson mudou de posição para apreciar melhor o corpo despido. Olhava-o
como se fosse um artista apreciando uma obra de arte.
- Tem os seios lindos, talvez os mais bonitos que já vi. - com muito
respeito, como se estivesse prestando uma homenagem ao belo, Dyson
colocou os lábios sobre um dos mamilos róseos que palpitavam.
Foi só então que Anne parou de lutar. Tinha sentido algo indefinível
quando os lábios de Dyson alcançaram seus seios, alguma coisa que não
sabia explicar, mas que era superior à sensação de se sentir exposta e
vulnerável.
- Me deixe ir, Dyson - falou num fio de voz, sabendo-se derrotada. Já não
pedia ou suplicava porque sabia que ele não ia atendê-la. Estava
entregue, vencida, sem ação.
- Quero tocar, abraçar você, sentir você junto. - Dyson tinha desviado o
olhar, fixando-o no rosto de Anne. Pela primeira vez, ela descobriu que
ele não era insensível como parecia.
- No entanto, está me machucando, Dyson, e a você também. Não falo de
nossos corpos, mas de nossas almas.
Muito lentamente, Dyson colocou a mão sobre a pele de Anne, percorrendo o
pescoço elegante, a curva suave dos seios, descendo com delicadeza até
chegar à cintura fina e delicada, para subir novamente até os seios.
Então parou de tocá-la e olhou-a de novo.
Se, em algum momento, ela havia percebido traços de sensibilidade em
Dyson, isso já não existia mais.
- Você é uma vagabundinha cheia de feitiços. - Dyson apertou os dedos na
garganta da moça, enquanto lágrimas quentes brotavam dos olhos dela. -
Vista-se e suma de minha frente!
70
Ele levantou e foi até a janela, conservando as costas viradas para ela.
Anne ainda ficou deitada, sem compreender nada, até que deu um salto,
antes que ele mudasse de idéia. Arrumou a roupa e já estava virando a
chave da fechadura, quando ouviu:
- Mantenha-se longe de Simon, ou não a deixarei escapar da próxima vez.
Sabe o que vai acontecer se não se portar como deve.
Ela balançou a cabeça e tratou de ir embora, correndo pelo hall e saindo
pela porta da frente. Precisava ficar longe da casa até que Helen e Simon
voltassem. Não ia se arriscar a ficar lá dentro com Dyson pronto a
agarrá-la.
O dia estava frio. Não tinha tido tempo de pegar um agasalho, mas não ia
voltar lá para dentro. Precisava fugir de Dyson o mais depressa possível.
Sem pensar para onde ia, começou a correr até que se viu em frente às
cocheiras.
O rapaz encarregado dos cavalos não podia acreditar que aquela moça
pálida e nervosa quisesse montar e sair a passeio apenas de jeans e
camisa, mas era o que ela queria. Ia ficar gelada e provavelmente pegaria
uma pneumonia! Mas ela parecia não escutar nem ouvir conselhos de
ninguém.
- Poderia selar um cavalo para mim?
- Prefere Bluebell ou High Noon?
- Não sei. Por que não aquele preto?
- Aquele é Thunderbolt, o cavalo do patrão. - Não foi preciso o rapaz
avisar que aquele cavalo só seria montado com ordens expressas de Dyson
Silver. - Está acostumada a montar?
- Há muito tempo não tento. Qual deles acha que seria o melhor para mim?
- É melhor sair com Bluebell. É uma égua já velha e costuma se comportar
muito bem com pessoas inexperientes.
O rapaz levou algum tempo para preparar a montaria mas finalmente ajudou
Anne a subir.
Saiu da cocheira, aliviada por poder ficar longe de seu odiado anfitrião.
Estava tremendo de frio. Ao percorrer os campos mais próximos da casa,
suas emoções eram tão fortes que ainda sentia
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o sangue ferver nas veias ao pensar na cena que tinha vivido momentos
antes.
Dyson era um homem sem coração, que não teria hesitado em deixá-la nua,
talvez até violentá-la, sem ligar a mínima para o terror que ela estava
sentindo. Não ia perdoá-lo jamais! Dyson tinha agido como um animal.
Apenas porque acreditava que ela seduzira Simon, isso não era motivo
bastante forte para ele agir daquela maneira. Mesmo que ela fosse uma
vagabunda, isso não lhe dava o direito de apavorá-la.
Anne deixou que Bluebell começasse um trote suave e depois galopasse à
vontade. Subitamente, uma dor insuportável a atingiu nas costas. Soltou
um grito agudo. Sofria demais para saber o que fazer. Depois, puxou as
rédeas e a égua obedeceu, parando. Respirou fundo, o corpo muito ereto na
sela, e para sua alegria viu que a dor desaparecia. Abaixou-se para
agradar Bluebell, que a obedecera tão prontamente. A dor voltou, mais
lancinante ainda.
Compreendeu que estava com um grave problema. Quando ficava parada, não
sentia dor nenhuma, mas ao menor movimento, sentia dores insuportáveis.
Como ia conseguir voltar? Olhou para Moor View e, embora a casa não
estivesse tão distante, parecia que ficava num outro mundo. De qualquer
modo teria que tentar voltar.
com muito sacrifício, virou a égua na direção da casa. A cada movimento
do cavalo, sentia como se estivesse enfiando uma faca em sua coluna. Por
inúmeras vezes, fez a égua parar para se refazer da dor intensa que
sentia.
com muitas paradas e gemidos de dor, conseguiu voltar às cocheiras. Teria
que pedir ao rapaz que a tirasse da sela, pois não ia conseguir descer
sozinha. Onde estava ele?
Ouviu passos fora, no caminho de pedregulhos. Ele estava voltando e logo
a tiraria daquela posição incômoda. Ainda não podia vê-lo, mas ouvia os
passos cada vez mais próximos.
Assim que pôde ver a figura de homem que se aproximava, um sorriso tímido
aflorou em seus lábios. O rapaz ia tirá-la dali. Para sua surpresa, foi
Dyson quem chegou, o rosto ainda fechado, os olhos brilhando de ódio.
Ele estava com roupa de montaria, tendo na mão um pequeno
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chicote que batia nas botas, como a descarregar sua energia. Anne teve a
nítida impressão de que o desejo dele era usar o chicote nela, para
mostrar a raiva que sentia.
- Idiota, cabeça de vento! - Ele gritou, sem se incomodar por vê-la quase
azul de tanto frio. - Você é estúpida! Não tem juízo nessa cabeça? Como
pode pensar em sair a cavalo, vestida apenas com essa roupa?
CAPÍTULO VII
- Prefiro morrer congelada do que ficar na mesma casa com você.
Dyson ignorou essa resposta e pegou as rédeas de Bluebell.
- Desça daí e trate de entrar para tomar um banho bem quente.
- Estou esperando pelo rapaz que cuida dos cavalos.
- Nem ele escapou de sua perseguição? É o que já disse antes: você não
consegue deixar homem nenhum em paz! - Ela desviou o rosto indignada com
o sarcasmo de Dyson. - Vai descer ou está esperando que eu a tire daí?
Como quer que a ajude, se não suporta que chegue perto de você? - Mais
uma vez Anne tomou uma atitude superior como se nem tivesse escutado o
que ele dizia. Dyson perdeu a paciência. - Desça!
- Estou esperando que saia daqui - disse. Dyson pegou no braço dela,
pronto a arrancá-la da sela. -. Não me toque! - gritou, antes que ele
conseguisse agarrá-la. Nesse movimento sentiu outra pontada aguda e seu
rosto, que já estava pálido, tornou-se completamente branco.
- Não é possível! Você não suporta o mais ligeiro toque de minhas mãos!
Será que a transtorno tanto assim?
- Não é isso - ela confessou, embora não fizesse questão que ele tivesse
a consciência pesada.
- Não minta, Anne. Você fica quase histérica, cada vez que chego perto de
você!
Ela olhou em volta à procura do rapaz para ajudá-la. Por que
Ele não vinha? Não ia conseguir descer sozinha do cavalo é Dyson devia
estar achando estranho que ela permanecesse montada.
- Já lhe disse que desça daí e vá tomar um banho quente. É melhor seguir
minhas instruções, ou terá uma pneumonia.
- Não posso. Estou com as costas machucadas.
- Levou um tombo do cavalo? - Dyson não parecia acreditar que fosse
possível Bluebell ter derrubado alguém.
- Não, ela se comportou muito bem. Trata-se. de um ferimento antigo.
Achei que não ia mais sentir nada e...
- Foi por isso que não quis sair com Helen e Simon, não foi? No entanto,
tentou ir o mais longe possível de mim, mesmo que fosse preciso se
arriscar.
Anne não falou nada mas intimamente concordou com ele. Tinha sido
estúpida em se arriscar tanto, sabendo que o movimento poderia lhe causar
dor. Mas. tinha ficado tão apavorada que não pensou nas conseqüências.
Dyson a olhou por mais um instante e resolveu que não era hora de
discussões.
- vou ajudá-la a descer.
- Por favor, não me puxe! Se me segurar para que eu fique com o corpo
ereto, sei que vou conseguir desmontar sem sentir dor.
Dyson a segurou, amparando seu peso e mantendo a moça o máximo possível
como ela tinha pedido.
- Não se apresse. Desça com calma que estou aqui para impedi-la de cair.
Anne começou a se mexer, com muito sacrifício, procurando não demonstrar
quanta dor estava sentindo. Foi escorregando pela sela, apoiando-se nos
ombros de Dyson, e descendo o próprio corpo contra o dele. Quando foi
possível, pôs as mãos no pescoço de Dyson e foi descendo lentamente até
alcançar o chão.
- Está doendo muito, não é, Anne? - Havia tanta preocupação nessa
pergunta que, apesar das pontadas que sentia, ela se surpreendeu.
Continuava segurando-se em Dyson, apesar de já ter os pés no chão.
- Não consegue se mexer?
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- Acho que não agüento o peso do corpo sobre a coluna. Cada vez que tento
forçar, sinto que a dor volta.
Dyson a pegou no colo e a levou para casa, como se ela não pesasse mais
que uma pluma. Levou-a escada acima e entrando no quarto, colocou-a sobre
uma cadeira, com cuidado. Em seguida, sem dizer nada, foi encher a
banheira com água quente.
- vou chamar a sra. Randle para ajudá-la, enquanto chamo o médico.
- Não é necessário, Dyson. Verdade mesmo. Já me sinto como uma idiota por
ter agido sem pensar e não gostaria de atrapalhar mais ninguém.
- Você não é a única culpada, Anne. Reconheço que também tenho uma boa
parte de culpa.
Ela baixou os olhos, não querendo encontrar os dele.
- Não se preocupe comigo, Dyson. vou ficar melhor assim que descansar um
pouco. Já tive essas crises antes e logo mais estarei bem.
Dyson parecia prestes a perguntar mais, mas depois desistiu.
- Está bem, você é quem sabe. Se acha que não precisa da sra. Randle, não
vou chamá-la, mas insisto em que me deixe chamar o médico.
- Meu médico mora em Exeter e não quero que ele se incomode de vir até
aqui - respondeu com teimosia.
- Então não vamos incomodar seu médico. vou telefonar ao meu e pedir-lhe
que dê um pulo aqui. Já que diz que essa dor é proveniente de um
ferimento antigo, me dê o número do telefone de seu médico e o doutor
Farley poderá falar com ele antes de vir para cá.
Anne não queria essa confusão toda. Gostaria apenas de ficar quietinha,
até que a dor tivesse sumido e ela se sentisse normal de novo. Dyson, no
entanto, estava sendo tão delicado e gentil que não ia criar caso.
- Ele se chama dr. Cresswell.
Dyson anotou o nome e o número do telefone. Depois, carregou-a novamente
para o banheiro, onde a colocou sentada no banquinho. Seus movimentos
eram lentos, para que sentisse menos dor.
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vou me sentir como nova depois desse banho quente, Dyson,
você Vai ver. - Ela estava tensa, uma vez que Dyson não ia embora, para
que ela pudesse tirar a roupa e entrar na água.
- Espero que sim. - Sem cerimônia, Dyson começou a querer despi-la.
- Não! Pode deixar que me ajeito sozinha.
- Não creio que vá conseguir.
- vou sim. Pode deixar.
- Não suporta que eu a toque não é?
- É verdade. - Anne sabia que não havia nada de sensual na maneira como
ele a tocava agora; sabia que ele estava tentando ajudá-la, tratando-a
como se ela fosse uma enferma num hospital. No entanto. somente o pessoal
que tinha cuidado dela tinha visto aquela cicatriz grande em suas costas.
Já que ele achava seus seios bonitos, não queria que essa boa impressão
fosse modificada pelo ferimento das costas.
- É uma pena que Simon não esteja aqui. Não teria objeção nenhuma se ele
fosse colocá-la no banho, não é?
Dyson ficou parado, esperando que ela mudasse de opinião, mas Anne baixou
os olhos.
- Posso fazer tudo sozinha.
Dyson saiu, batendo a porta com tanta força que ela sentiu o chão
estremecer. Tirou a roupa procurando não forçar a coluna e com muito
jeito e paciência escorregou para dentro da água. Foi maravilhoso sentir
o contato da água quente em seu corpo dolorido. Recostou-se, sentindo um
alívio enorme. Enquanto a temperatura estava agradável, ela se deixou
ficar, sem vontade de se mexer. A água já estava quase fria quando
resolveu sair.
Descobriu então que não conseguia. Escorregava pela porcelana da banheira
pois não conseguia se firmar sem que sentisse dor. Resolveu esvaziar a
banheira para ver se ajudava, mas o resultado foi o mesmo. com muito
custo, conseguiu agarrar uma toalha de rosto e colocou-a sobre a beirada
para ver se podia escorregar sobre ela e conseguir sair.
Depois de várias tentativas, teve que admitir que não ia adiantar nada.
Não podia sair dali! E agora? Se pelo menos tivesse aceitado
a ajuda da sra. Randle! Era capaz de ter que ficar ali a noite toda sem
que se lembrassem de vir socorrê-la. Estava sentada no molhado, sentindo-
se infeliz e desprotegida, começando a ficar gelada de novo.
Seu coração pulou de contentamento quando ouviu que a porta do quarto se
abria. Que bom! Dyson tinha mandado a sra. Randle para verificar se tudo
estava bem. Agora teria ajuda e num instante podia estar na cama,
quentinha e relaxada. No entanto, a voz que a chamou do outro lado da
porta fechada não era feminina. Era profunda e séria e parecia muito
preocupada. Era Dyson.
- Anne, está tudo bem com você?
Mais que depressa, ela pegou a toalha e colocou-a sobre o corpo.
- Estou aqui. Não consigo sair da banheira.
Dyson entrou e a viu, pálida, coberta por uma toalha completamente
molhada, as pernas para fora, os ombros descobertos e já tremendo de
frio. Foi até o porta-toalhas e pegou uma grande que estava encostada ao
aquecedor.
- Há quanto tempo está aí, sem poder sair?
- Para mim parece que já faz anos.
Dyson colocou a toalha quente sobre seus ombros. Ela sentiu o calor
reconfortante e obedeceu imediatamente quando ele mandou que ela
colocasse o braço para cima. Dyson enrolou a toalha em redor do corpo de
Anne, que, sentindo-se bem coberta, colocou de lado a toalha pequena e
molhada.
- Agora, ponha os braços em redor de meu pescoço e se segure firme que
vou tirá-la daí. Mesmo que sinta dor, segure-se bem que logo estará
deitada.
Ela apertou os dentes para não gritar, pois a dor chegou forte, apesar
dos movimentos lentos de Dyson. Ele a segurava firme, um sorriso
encorajador brincando em seus lábios.
Dyson levou-a para o quarto e em frente da cama perguntou:
- Não vai doer mais se eu a colocar de bruços?
- Não.
com muita suavidade Dyson a colocou na cama. Depois voltou até o banheiro
e pegou uma outra daquelas toalhas grandes e quentes. Foi para junto da
cama e começou a fazer massagens ligeiras
nas suas pernas, cobrindo-as depois com uma das toalhas. Aos poucos, Anne
foi sentindo um calor gostoso tomar o lugar daquela sensação desagradável
de umidade. Dyson começou então a tirar a toalha que a cobria.
- Não, por favor. Estou bem agora e só quero dormir.
- Quero que saiba que apenas estou fazendo sua circulação ficar mais
rápida porque assim podemos evitar que fique doente. Seja uma menina boa
e comportada e facilite meu trabalho. Prometo que não vou machucar suas
costas.
Anne concordou e ficou quieta. Dyson tinha razão. A sensação de calor nas
pernas a tinha aliviado muito. Além disso, notava pelo tom de voz de
Dyson que ele estava agindo apenas no interesse dela, sem nada de pessoal
no que fazia. Estava apenas aborrecida por que Dyson ia ver sua cicatriz,
tão grande e tão recente.
Sentindo que ela desistira de lutar, Dyson massageou primeiro os braços
até que eles adquirissem um tom rosado para depois se concentrar nas
costas. Quando ele puxou a toalha, Anne ainda tentou agarrá-la para se
proteger, mas não conseguiu. Estava apavorada pois sabia que assim que
ele começasse a massagear, perceberia a cicatriz em forma de cruz que
acompanhava sua coluna e se espalhava para os lados, acompanhando o alto
das nádegas.
- Anne... - foi o único comentário de Dyson, que passou a massagear o
resto do corpo dela. Seus movimentos eram infinitamente mais leves e
delicados, as mãos suavemente pousadas sobre sua pele. - Agora vou ajudá-
la a se virar. - Dyson mantinha a voz natural, como se não tivesse ficado
impressionado com o que vira.
- Não vou deixar!
Anne sabia que a situação entre eles estava íntima até demais e não
queria permitir que ele a visse nua, estendida na cama. Preferia morrer
de pneumonia do que deixar que a visse nessa situação. Já bastava poucas
horas atrás ele ter visto seus seios e não ia deixar que ele visse o
resto. Embora esperasse que Dyson ordenasse que ela virasse ou até mesmo
a fizesse girar contra a vontade, ele falou em tom suave e calmo.
- Onde está a camisola? Debaixo do travesseiro?
- Isso mesmo. - Estava feliz, porque Dyson continuava gentil.
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Dyson se inclinou e pegou a camisola, estendendo-a sobre a cabeça de
Anne. Depois foi para o outro lado da cama e se ocupou puxando os lençóis
enquanto ela descia a camisola por seu corpo. Aí ele voltou para junto
dela e carregando-a estendeu-a na cama, puxando os lençóis até bem junto
de seu pescoço.
Dyson pegou as toalhas, levou-as para o banheiro e voltou de lá com um
copo de água na mão e um vidro de comprimidos.
- Tome dois desses e sentirá alívio.
- Tenho uns comprimidos próprios para isso, que meu médico me deu.
Desculpe ter-lhe dado tanto trabalho.
- Onde eles estão?
- Na mala, dentro do armário.
- Você os toma regularmente?
- Agora não, só quando faço algum esforço e sinto dor. Há muito tempo não
tinha nada mas achei melhor trazê-los, como medida de precaução.
Dyson foi até o armário e encontrou os comprimidos sem maiores
dificuldades. Anne se lembrou então de que junto com os vidros estava
também o presente que tinha trazido para Dyson.
- Olhe o que encontrei. Não é para mim? Tem meu nome, deve ser. Por que
não me deu? Achou que eu não merecia? - Dyson falava em tom de
brincadeira e, colocando o pacote sobre a cama. tratou de entregar o
remédio para Anne.
Depois que tomou o medicamento ela deitou de lado, numa posição mais
confortável.
- Desculpe por não ter entregue seu presente antes, mas sou um pouco
tímida e fiquei sem jeito.
- Compreendo muito bem. Não é fácil se dar coisas para pessoas que mal se
conhece, especialmente no dia em que as encontramos.
De repente já não achava que Dyson era um monstro sem coração. Ele era
bondoso e prestativo, capaz de muita sensibilidade.
Dyson puxou uma cadeira e a colocou ao lado da cama, disposto a ficar ali
algum tempo. Para sua surpresa, Anne descobriu que o medo e o embaraço
que sentia na companhia dele foram dando lugar ao sentimento de segurança
e proteção.
- Está melhor?
Bem melhor. Claro que não me sinto completamente bem. mas
só tenho dor quando me mexo.
- ótimo!
Estava chateada por ter dado tanto trabalho a um estranho, mas apesar
disso se sentia bem à vontade, quente e aconchegante. Em breve os
comprimidos fariam efeito e ela poderia finalmente relaxar.
- Como machucou as costas, Anne? - Dyson perguntou de repente.
Ela sabia que mais cedo ou mais tarde ele ia fazer essa pergunta, mas
agora não lhe pareceu difícil contar a respeito do acidente. Sofreu
apenas quando contou que seus pais não tinham tido a mesma sorte que ela.
Seus olhos ficaram úmidos ao se lembrar da tragédia.
- Sinto muita falta deles; éramos muito unidos.
- Há quanto tempo aconteceu o acidente? Sua cicatriz me pareceu bem
recente.
Ela preferia não entrar em detalhes, pois Dyson faria as contas e ia
notar que ela o tinha encontrado naquele hotel em Exeter não muito tempo
depois do acidente. Ia ficar quieta, mas o olhar de Dyson, direto e
penetrante, não permitia que ela mentisse.
- Foi em julho.
- Dois meses antes de nos vermos pela primeira vez. Há quanto tempo tinha
saído do hospital?
- Uma semana.
- Então ainda estava convalescendo quando a encontrei sentada naquele
banquinho do bar?
- Isso mesmo. Sabe. eu estava muito deprimida aquela noite.
- Sentia necessidade de se defender, de mostrar que não era uma mulher
vulgar à procura de aventuras. Tinha se portado como uma... tinha que
admitir, mas...
- Ficou muito tempo fora de circulação e resolveu compensar pelo tempo
perdido, não foi?
Teve um choque. Não pensou que ele fosse reagir com cinismo. Ela estava
sendo sincera, embora não fosse fácil falar sobre um acidente que tinha
mudado sua vida toda. Esperava que depois que
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Dyson se mostrara tão compreensivo e amigo, ele pudesse entender as
razões que a levaram a agir daquela forma. No entanto, depois dessa
pergunta sarcástica, ela já não tinha tanta certeza.
- Ainda devia estar sentindo dores.
- Naquela época a dor era constante e eu precisava tomar comprimidos
regularmente para poder agüentar. Mesmo assim, tomei alguns extras,
quando chegamos em seu quarto.
Dyson olhou-a com curiosidade.
- Foi uma pena que antes disso você não mostrasse a aversão que sente por
mim. Não teríamos chegado tão longe.
- Mas... mas... - Ela mal conseguia falar. Por que ele a fazia sentir-se
culpada pelo que tinha acontecido? Ela é que devia ter ficado furiosa e,
no entanto, ele procurava fazer com que a culpa só recaísse sobre ela! -
Não sinto aversão por você, Dyson.
- Mentirosa!
- É verdade, pode acreditar. Pelo menos, não sinto da maneira como você
pensa.
- Você demonstra essa repulsa tão claramente, Anne. Como pode dizer que
ela não existe?
Ela sentiu uma necessidade extrema de que Dyson soubesse o que tinha
acontecido naquela noite. Não sabia explicar por que, mas fazia questão
que ele acreditasse nela e conhecesse toda a verdade.
- Naquela noite, lembro bem de ter ido a seu quarto, e até de ter ido ao
banheiro. No entanto, acredite, não consigo me lembrar sobre o que
falamos ou... nem mesmo se falamos!
- Quer dizer que é como se tivesse uma falha na memória? Um branco? -
Dyson não parecia surpreso com o que ouvia.
- Não. não consigo me lembrar de nada além de ter estado naquele quarto
com você. Lembro também que fui ao banheiro e tomei alguns comprimidos
contra dor porque eu... - A voz falhou e ela se viu impedida de
continuar.
- Porque. - Dyson incentivou-a e prosseguiu. Colocou as mãos sobre as
dela. Ela estremeceu com o contato e ergueu o olhar para ele. - Continue,
você tomou mais alguns comprimidos porque...
- Você sabe por que. não preciso explicar.
- O que é que eu sei, Anne?
- Um homem sempre sabe... isto é... sabe, não é? - Um vermelho intenso se
espalhou pelo rosto de Anne.
- Um homem sempre sabe, o quê? - ele insistiu.
Tentou explicar mas sua boca se recusava a proferir as palavras, enquanto
ficava cada vez mais vermelha. Por várias vezes começou a falar, sem
conseguir. Finalmente, numa golfada só, conseguiu dizer o que queria.
- Um homem sempre sabe quando leva uma virgem para a cama. - Agora que
tinha começado, não ia mais parar. - Sabia que você acabaria por
descobrir que era a primeira vez que eu ia para a cama com um homem. Não
queria fazer um escândalo por causa disso. Por isso, tomei os comprimidos
contra dor, de modo que... que se me machucasse eu não ia gritar.
Sentiu seus dedos doendo, sendo esmagados pela força das mãos de Dyson.
- Você está me machucando!
- Minha nossa, Anne! - Dyson aliviou a pressão nas mãos dela, sem soltá-
la.
- Preciso acabar de lhe contar tudo, para ficar aliviada. Na manhã
seguinte, quando acordei, eu o vi dormindo a meu lado e me senti
estranha, como se estivesse doente. Tomei um táxi e fui para casa. Nunca
até hoje consegui me lembrar do que houve entre o momento em que tomei os
comprimidos contra dor e aquele em que acordei, de manhã. Sei que, às
vezes, esse tipo de amnésia é uma defesa contra algo doloroso que se
deseja apagar da memória.
- vou lhe dizer o que aconteceu...
- Não! Por favor! Não quero jamais saber o que houve naquela. cama.
- Não acha que seria melhor ficar sabendo?
Não, nunca, ela respondeu intimamente. Deveria ter feito uma cena, talvez
gritado e esperneado, sem falar no medo que a devia ter invadido.
- Prefiro não tomar conhecimento do que aconteceu e lhe imploro que não
me diga nada. Por não lembrar de nada, fiquei com medo quando tentou me
beijar. Pensei que esse contato me fizesse recordar um momento que tento
esquecer.
- E não relembrou de tudo, com o beijo?
- Absolutamente nada.
- É por isso que não suporta a idéia de que eu possa tocá-la?
- Esse é o motivo principal, mas também tinha vergonha que visse a
cicatriz horrível que tenho nas costas.
- Ela ainda está muito recente e por isso parece pior do que é. com o
tempo vai ficar fininha e até pode acabar sumindo. Quanto ao despertar de
sua memória, acho que essa parte de sua vida vai continuar em branco.
Depois do contato que tivemos hoje de manhã, se não lembrou de nada. não
creio que vá conseguir.
Anne concordou com a cabeça, achando que ele tinha razão.
- Não se preocupe mais com isso, Anne. Acho que está atravessando uma
fase ruim mas que em breve estará bem de novo. Lembro como Helen ficou
abalada quando a mãe morreu, O mesmo deve estar acontecendo com você.
Ela estava impressionada com a mudança brusca de Dyson. Ele começava a
pensar nela como uma jovem que precisava de apoio e compreensão. No
entanto, sabia que tinha errado e não podia se perdoar. Ia sempre se
considerar culpada. Sonhara em casar virgem e justamente o homem à sua
frente tinha tirado sua virgindade sem se preocupar com isso. Mas não ia
deixar que ele se vangloriasse por ter seduzido uma virgem.
- Você não foi o único, claro.
- Não mesmo? Houve outros homens depois de mim?
- Claro.
- Me diga, Anne. sentiu alguma dor com alguns de seus outros amantes?
- Dor. nas costas?
- Não, Anne. Não me refiro à dor nas costas.
Sabia o que ele queria dizer com isso, mas não ia cair tão facilmente na
armadilha.
- Lógico que não. - Ela deu um olhar de lado para perceber a expressão
dele, mas ele estava sério e implacável.
- Agora que esclarecemos muita coisa, acho que já é tempo de
se acomodar para dormir um pouco. Logo mais o almoço estará pronto. -
Dyson levantou. - Bem, como já não sente medo de meus beijos e me parece
adorável assim acomodada. - Ele não concluiu mas se inclinou sobre ela,
beijando-lhe os lábios de leve. Ao sair, pegou o presente que ela devia
ter-lhe entregue no dia de Natal.
Estava confusa demais para conseguir descansar. Desde cedo tantas coisas
tinham acontecido que chegava a pensar que esse dia tinha mais de vinte e
quatro horas. No entanto, seu corpo exausto conseguiu dormir e quando
acordou viu que Maureen lhe trazia a bandeja do almoço.
- Sinto muito lhe dar tanto trabalho, Maureen.
- Nem diga isso, senhorita. Nós é que ficamos tristes ao saber que
machucou as costas.
Anne apreciou a comida, estava deliciosa, e ia terminar quando Helen
entrou no quarto, dizendo que tinham almoçado há muito tempo.
- Quis lhe trazer a bandeja, mas Dyson recomendou que a deixássemos
descansar e dormir.
- Fico sem jeito por estar dando tanto trabalho, Helen.
- Que bobagem. Há muito tempo não se tem ninguém aqui para paparicar.
Você veio na hora certa! - Helen riu e Anne acompanhou a amiga.
- Então já vou começar a abusar. Pode me ajudar a ir até o banheiro?
A moça ajudou-a com muito carinho, levando-a bem devagar e trazendo-a de
volta.
- Espero estar de pé amanhã. - Não gostava de ser um peso naquela casa.
- Se eu fosse você, ficaria de cama por mais uns dias - Helen falava
baixinho. - Nesse momento Dyson e Simon estão fechados no escritório
conversando. Acho que a coisa vai ficar preta por aqui, durante os
próximos dias.
As duas ainda conversaram bastante e depois Helen foi embora, sendo logo
substituída por Dyson. Ele não parecia preocupado ou tenso, depois da
conversa com o irmão. Vai ver que tinham se entendido.
- Dormiu bem? Está se sentindo bem agora?
- Estou melhor, obrigada.
- Ainda bem. Vamos ver o que o médico diz.
- Não era necessário chamar o médico. Sei que vou ficar boa logo: é só
uma questão de descansar para que tudo volte ao normal.
- Insisto em que ele a veja. Aliás, vejo que já está aqui, pois estou
ouvindo um carro chegar. com licença, vou descer e fazê-lo entrar.
Anne estava triste. Na verdade, não via motivo para tirar o médico de
casa pois já estava melhor e, com um pouco mais de repouso, estaria
pronta para uma vida normal.
A porta se abriu e Dyson deixou entrar uma figura muito conhecida e
querida de Anne. Talvez por isso, os olhos da moça se encheram de
lágrimas.
- O doutor insistiu em vir vê-la pessoalmente.
Anne não queria que Dyson a visse chorar naquele momento, mas não
conseguia se reprimir. - Tio James! Que bom que veio, tio James! - Ela
começou a chorar aos soluços.
- Anne! O que houve com você, minha querida? - James Cresswell se
aproximou da cama, preocupado. O dono da casa tinha lhe explicado que
Anne começara a sentir dores fortes depois
de andar a cavalo. Que falta de juízo! Essa era a última coisa que
deveria ter feito!
- Tio James! - Anne chorava copiosamente.
James Cresswell compreendia seu desespero. Procurou mostrar-lhe que
estava errada.
- Não seja bobinha, você não vai morrer! Pensei que tivesse ficado livre
dessa idéia depois da nossa conversa. Mas se ainda tem dúvidas vou levá-
la ao dr. Phillips para que ele mesmo mostre seu laudo, prova de que você
não tem nada fatal. Você está cada vez melhor, Anne, e sua condição não é
grave entendeu bem?
Aos poucos ela foi se acalmando, as lágrimas diminuindo. Não pensava
mais que ia morrer e não era justo deixar que tio james acreditasse que
era por isso que chorava. Tinha sido a emoção de vê-lo, a dor forte que
tinha sentido. A cena alucinada daquela manhã. Tudo isso junto é que a
tinha feito chorar. Olhou para o pé da cama e viu Dyson, a expressão
séria, as mãos apertadas uma contra
a outra.
- Anne. você precisa acreditar em mim. - Tio James insistia com carinho.
- Acredito, tio James. Sei que não mentiria para mim. Fiquei muito
impressionada com o que dr. Phillips disse, mas depois que me explicou
tudo. vi que não tinha motivos para achar que ia morrer.
- Ainda bem, minha querida. Então vamos ver agora o que aconteceu com
você. vou examinar essas costas para ver se as machucou de novo.
Dyson, de pé e muito quieto, compreendeu que era melhor sair do quarto
para que o médico pudesse examinar a paciente com mais liberdade.
- com licença. Se precisarem de alguma coisa, é só pedir. Dyson saiu do
quarto.
James Cresswell examinou a cicatriz, fazendo pressão sobre a coluna,
tocando os pontos sensíveis. Depois, um sorriso de satisfação alegrou seu
rosto.
- Ótimo, Anne. Não está nada mal. Foi só um esforço demasiado que causou
essa pequena regressão, no processo de restabelecimento. Em pouco tempo
poderá esquecer o que sofreu. Apenas não tente montar durante bastante
tempo. Fique de cama até amanhã inclusive e dê a seus músculos uma chance
de descansarem.
- Mas tio James, não posso ficar aqui...
- Quem é o médico, você ou eu?
Ela viu que seria inútil pedir ao tio que a levasse de volta a Exeter.
Acabaria tendo que ir para a casa dele. Ele não a deixaria em casa
sozinha, tendo as costas naquelas condições.
Ficaram conversando por mais algum tempo e ela agradeceu por ele ter
atendido tão depressa o chamado.
- Você é minha paciente favorita. Vim com muito prazer. Estava preocupado
com você. Agora siga meus conselhos e fique de cama ainda amanhã.
Despediram-se e tio James foi embora. Logo depois, Anne ouviu passos
ligeiros no corredor e a cabeça de Helen apareceu na porta.
- Que bom que está acordada. Estava lá embaixo esperando o médico para
perguntar como você ia. mas ele e Dyson se fecharam no escritório e não
há meios de saírem de lá. Então, achei melhor vir saber de você mesma
qual foi o diagnóstico.
- Não é nada de grave. - Anne imaginava o que tio James e Dyson teriam
para falar que levasse tanto tempo assim. Poderiam, talvez, estar tomando
uma bebida, já que era dia de Natal. - Não sinto dor nenhuma quando estou
deitada e tio James disse que ficarei boa. Posso levantar depois de
amanhã, no sábado.
- Que bom. Anne. Fico muito contente. Só hoje percebi que não somos de
fazer confidências. Não sabia que tinha sofrido um acidente e que
precisava tomar cuidado. Bem, mas talvez seja por respeitarmos nosso
temperamento reservado que nos tornamos tão boas amigas, não é?
Elas ficaram conversando, até que a porta se abriu. Anne pensou que fosse
Dyson e sentiu um estremecimento de felicidade. Mas era Simon.
- Como vai nossa paciente? - Simon chegou mais perto e sentou na cama.
- Não fique aí Simon - Helen logo advertiu. - Anne está com problemas na
coluna e qualquer movimento pode provocar muita dor.
- Desculpe. - Obediente, Simon pegou o banco da penteadeira e colocou-o
junto da cama.
Os três ficaram conversando, dando risadas e se divertindo juntos. Depois
de um longo papo. Simon disse:
- Agora gostaria de falar a sós com Anne.
- Segredo? Não sabia que tinha segredinhos com minha melhor amiga. vou
sair, mas depois volto para você me contar o que conversaram, Anne. -
Helen saiu do quarto.
Anne viu que Simon estava embaraçado, as faces vermelhas, e que ele
evitava olhar diretamente para ela. Teve pena dele, que não passava de um
meninão atrapalhado. Resolveu ajudá-lo.
- Não precisa ficar chateado, Simon. Posso compreender. você tinha bebido
um pouco demais naquela festa, mas agora está tudo bem.
- Não está bem, não! Sei que me comportei mal ontem à noite, invadindo o
quarto da amiga de minha irmã. Quando levantei hoje fiquei deprimido pelo
que fiz. Sei que não mereço, mas... pode me desculpar?
- Claro que sim, Simon. Todos nós erramos às vezes. Procure apenas não
repetir seus erros.
- Não vou deixar que outra besteira igual aconteça. - Simon estava muito
contente e contou como tinha sido a festa de Kitty Lancaster. - O mal foi
que Dyson me viu saindo de seu quarto.
Ela compreendeu por que Dyson a tratara com tanta frieza de manhã, a
ponto de querer lhe dar um castigo. Tinha visto Simon saindo de seu
quarto de madrugada e tirara as próprias conclusões.
- Pode avaliar como me senti quando Dyson disse que queria conversar
comigo hoje de manhã? - Simon insistia no assunto.
- Ele estava furioso e não me deixou falar, por mais que eu quisesse
explicar que não tinha havido nada entre nós dois. Como se isso não
bastasse, ainda me fez um longo sermão, explicando que você tinha
machucado as costas há algum tempo e que não podia ficar por aí andando a
cavalo. Só ele falou como um possesso. Não tive a chance de explicar que
você é uma moça tão fina e educada que simplesmente me mandou passear
quando eu fiz uma sugestão indesejável Mas não vou deixar a situação
assim. Na primeira ocasião em que ele não estiver tão nervoso vou pôr
tudo em pratos limpos e.
- Não faça isso, Simon.
- Por que não? Preciso. Anne. Não posso permitir que Dyson tenha a
impressão de que você encorajou minha vinda a seu quarto! Não vou deixar
que ele pense mal de você!
Anne já tinha dado a entender a Dyson que ela e Simon tinham estado
juntos e. sem pensar muito a esse respeito, achou melhor que as coisas
continuassem como estavam.
- Já tive uma conversa com Dyson e. e expliquei o que aconteceu. Não
creio que seja uma boa idéia remexer nesse assunto.
- Tudo bem, então. Se você já contou a verdade, é o suficiente. Aliás,
Dyson está melhor; não anda tão bravo comigo ultimamente. Da última vez
em que estive aqui. foi um verdadeiro inferno!
Ela sabia do caso, embora não conhecesse detalhes. Tinha sido por esse
motivo que Helen insistira tanto para que ela passasse o Natal com eles.
No entanto, não sabia o porquê da briga e não esperava que lhe contassem.
Mas Simon parecia desinibido e pronto para revelar segredos.
- A briga toda começou porque bati o carro numa árvore. A
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culpa foi toda minha e da grande quantidade de vinho que tinha tomado
naquela noite. Mas o fato é que queria um outro carro, bem moderno e do
tipo esporte. Queria um que custava uma verdadeira fortuna. Dyson não
deixou que o comprasse, porque achava que eu ia acabar me matando com um
veículo muito possante. Como só tenho uma mesada razoável até fazer vinte
e cinco anos e herdar o dinheiro todo, precisava da aprovação de Dyson.
Então, pode avaliar como fiquei furioso quando ele se recusou a me dar o
que queria.
- Não acha que, em parte, ele tinha razão?
- Hoje chego a acreditar que sim, mas na ocasião estava bravo demais para
pesar os prós e os contras. Queria o carro e ponto final.
- Mas, sem dinheiro...
- Tinha um pouco. Quando completei vinte e um anos, Dyson passou algumas
ações para meu nome, com a promessa solene de que não iria tocar nelas.
Mas fiquei tão louco da vida por não ter o carro que queria, que vendi a
maior parte delas.
- Minha nossa! - Não sabia o que dizer. Os dois irmãos eram muito
teimosos e Simon, ainda por cima. tinha o temperamento explosivo.
- Você ainda não sabe do pior. Dyson contava com a participação dessas
ações na reunião dos acionistas para uma resolução importante. Claro que
eu tinha dito que podia contar comigo e quando chegou a hora H, eu já
tinha vendido. Foi aí que ele descobriu tudo.
- Que situação horrível!
- É verdade. Foi só mais tarde, pensando a respeito do que aconteceu, que
entendi que Dyson tinha ficado aborrecido porque ele confiou em mim e eu
não correspondi à altura. Fiquei deprimido por ter falhado.
- E Dyson conseguiu o que precisava, sem contar com suas ações?
- Ainda não conhece Dyson. - Simon falava com muito orgulho. - Ele não ia
se dar por vencido por causa de uma bobagem dessas. Não sei como fez, mas
o fato é que conseguiu que o negócio terminasse exatamente como queria.
Aliás, ele conseguiu também
que eu adquirisse um pouco de juízo e responsabilidade, porque não
comprei o tal carro esporte que me havia encantado.
Helen entrou no quarto de novo, com a desculpa de ver se Anne precisava
de alguma coisa.
- Acha que ela precisa, Helen, quando estou aqui?
- Mas agora chega. Quero ajeitar a cama e você precisa sair. Resmungando
um pouco, Simon acabou obedecendo.
À noite, quando se preparou para dormir, Anne não pôde deixar de
reconhecer que todos tinham sido bons com ela, procurando não deixá-la
sozinha. Helen tinha estado no quarto a maior parte do tempo, Simon tinha
voltado depois do jantar, e a sra. Randle e Maureen tinham ido vê-la
quando levaram e foram buscar a bandeja do jantar. Sentia-se no meio de
uma família carinhosa, que a deixava à vontade. Só lamentava não ter
visto mais Dyson desde que ele saíra do quarto para que tio James a
examinasse.
Surpreendia-se por sentir tanta falta dele. Mas Dyson tinha sido
maravilhoso ao cuidar dela, quando chegara do passeio, as costas doendo e
completamente desamparada... Só a maneira carinhosa como agiu apagava
todas as outras lembranças desagradáveis.
Virou-se na cama. Agora se movimentava sentindo menos dor. Encontrou uma
posição confortável para dormir. No entanto, seus pensamentos a mantinham
acordada. Quando menos esperava, a porta se abriu.
- Ainda está acordada, não é? - A voz de Dyson era suave, tinha um tom
bem diferente da animosidade ou cinismo que ele sempre usava. Anne sabia
que ele ainda a julgava mal e que estava apenas sendo amável com uma
hóspede que estava doente.
- Estou sem sono agora; dormi bastante depois do almoço.
- Tomou os comprimidos? - Sorria para ela, o rosto iluminado por uma
expressão de alegria.
- Achei melhor não tomar mais. Já não dói tanto assim. Dyson olhava-a
profundamente, para procurar sinais de que ela
estava bem, sem dores. Anne tinha a mesma sensação indefinível e
inexplicável de prazer pela companhia dele e de uma ligeira pontada de
medo do que ele pudesse fazer. Essa tensão cresceu quando ele aproximou a
cadeira da cama.
- Sinto muito atrapalhar o andamento da casa, tendo que ficar
de cama ainda amanhã. Mas no sábado estarei de pé.
- Só se estiver completamente boa.
- vou estar. Se não fosse tão estúpida hoje de manhã.
- Nós dois temos o que lastimar sobre os acontecimentos desta manhã.
Ela percebeu que Dyson estava sendo sincero. Sabia que ela havia fugido,
andado a cavalo sem poder, apenas para ficar o mais longe possível dele.
A ligeira sensação de medo que ainda persistia nela, acabou por se diluir
até desaparecer.
- Não se preocupe com isso, Dyson. Não tem importância e.
- Tem sim e muita. Não poderia jamais tê-la tratado como a tratei,
principalmente quando era uma hóspede em minha casa.
- Você achou que tinha motivos para isso e eu ainda compliquei mais as
coisas mentindo e dizendo que Simon e eu. - Ela se interrompeu,
percebendo que havia falado além da conta.
- Jà sabia disso, embora tivesse certeza de que Simon não sairia de seu
quarto sem antes tentar alguma coisa. Ele é muito danado!
- Conversou com Simon?
- Tive uma conversa com ele depois do almoço, mas não tocamos em suas
aventuras noturnas.
Anne sentiu uma alegria imensa. Mesmo não perguntando para ninguém mais.
Dyson confiava no que ela dizia. Mesmo tendo visto Simon saindo de seu
quarto de madrugada, ainda acreditava que ela estava dizendo a verdade.
Isso era maravilhoso.
- Não aconteceu nada entre nós, Dyson. Simon viu que a luz do quarto
ainda estava acesa e entrou apenas para conversar. - Quis dar
explicações, embora Dyson não as tivesse pedido nem exigido.
- Dorme sempre com a luz acesa?
- Não. tive um pesadelo e. e.
- E estava com medo de voltar a dormir.
- Isso mesmo - ela admitiu, baixando os olhos, por se sentir vulnerável
por um sonho.
- Já teve esse mesmo pesadelo antes?
Anne estava impressionada com o carinho com que Dyson a tratava,
interessado em seus problemas, tentando ajudá-la sempre que
possível. Parecia incrível que aquele homem, que ela a princípio achara
feito de pedra, pudesse ter o coração sensível.
- Logo depois que melhorei ele também sumiu. Pensei que fosse a sensação
de dor que me fazia revivê-lo.
- Estava sentindo dor ontem à noite?
- Não muito, mas já tinha sentido um pouco antes.
- Qual a causa da dor. quando há tanto tempo não sentia nada? Ela
preferia mudar de assunto, mas sabia que Dyson era teimoso
e iria ficar a noite toda ali até obter uma resposta. Não ia mais mentir,
pois agora Dyson estava sendo razoável e merecia sua confiança.
- Quando estava subindo a escada, Simon tentou me abraçar e tive que
fazer um movimento rápido demais. Foi aí que você apareceu e deve ter
achado que eu estava abraçada a ele, quando na verdade estava só me
segurando para agüentar a dor. - Achou que devia dar todas as explicações
para que não sobrasse a menor dúvida entre eles. mas não queria que
surgissem causas de atrito entre os irmãos. - A culpa foi toda minha.
Simon não sabia do meu acidente e tenho certeza de que será mais
cuidadoso no futuro.
Dyson não comentou. Mudou de assunto, perguntando como era esse sonho tão
horrível que a deixara apavorada. Ela começou a contar com alguma
hesitação mas depois foi falando tudo e, quando chegou ao fim. não se
admirou por ver que Dyson estava segurando suas mãos, tentando lhe dar
coragem e proteção.
- Os médicos me disseram que meus pais morreram instantaneamente e que
não sofreram nada. No entanto, o que mais me apavora é quando sonho que
mamãe está pedindo socorro e não posso ajudá-la porque estou soterrada
sob a lama e as pedras. É então que acordo desesperada.
Dyson ouviu-a com atenção. Quando terminou, levou a mão dela aos lábios e
beijou-a. Anne sentiu a maciez e o calor daquela boca e no mesmo instante
a verdade apareceu por inteira. Eu o amo - ela afirmou para si mesma, e a
descoberta não lhe pareceu descabida.
- Então é por isso que ainda está acordada? Tem medo de dormir e reviver
seus pesadelos?
- Não estou com sono. só isso.
Dyson levantou e ela achou que ia embora. Seu coração se encheu de
tristeza. Era tão bom ficar perto dele.
- Eu também não estou com sono. Tudo bem se eu ficar conversando um
pouquinho mais?
- Pode ficar?
- Claro que sim. Mas antes você vai tomar um desses comprimidos que o dr.
Cresswell recomendou. - Dyson abriu o vidro e retirou um comprimido. -
Vai tomar só porque estou lhe pedindo, está bem?
- Como quiser, Dyson.
Ele foi até o banheiro e trouxe um copo de água.
- Já não tem muitos comprimidos no vidro. Quando foi que o dr. Cresswell
os deu?
- Foi em setembro, no dia seguinte que... - Ela parou, sem conseguir
expressar o pensamento.
Dyson segurou-lhe as costas para que ela tomasse o remédio. Embora muito
rápido, o contato com os braços fortes e carinhosos foi maravilhoso.
Depois ele a recostou novamente e tornou a sentar
ao lado da cama. - Então esteve no consultório do dr. Cresswell em
setembro?
- Dyson voltou ao assunto.
- Não estive lá. Foi ele quem veio até em casa.
- Você não conseguiu ir até o consultório?
- Não. Eu estava bem, mas... muito aborrecida e preocupada.
- Porque acreditava que só ia viver seis meses, não é?
- Tio James não devia ter lhe contado essas coisas!
- Para ser sincero, Anne, ele pensou que eu já soubesse e conversou muito
naturalmente sobre o assunto.
Ela procurou relembrar a visita do tio nesse mesmo dia e imediatamente
recordou que foi então que soube que não iria morrer. Não ia permitir que
nem tio James nem Dyson ficassem sabendo o verdadeiro motivo porque tinha
ficado tão desesperada aquele dia.
- Pobrezinha... - Dyson falava com carinho. - Tinha motivos de sobra para
estar nervosa. Ainda bem que resolveu contar ao dr. Cresswell o que ouviu
no hospital. Devia estar vivendo atormentada!
estava mesmo, Dyson. Não gosto nem de lembrar.
- Você disse que o dr. Cresswell foi vê-la no dia seguinte. Dia seguinte
ao quê, Anne?
Procurou uma desculpa que pudesse dizer mas não conseguia encontrar nada.
Sabia que por mais que tentasse ser convincente, Dyson saberia que ela
estava mentindo. Para que continuar nesse jogo de meias verdades? Era
melhor conversar abertamente.
- Sabe muito bem depois do quê, Dyson. Ou prefere que eu diga?
- Foi depois que passou a noite comigo, não foi?
- Foi.
- Ficou doente depois daquilo?
Não queria que ele sentisse remorsos pelo que tinha feito. Na ocasião,
como Dyson podia adivinhar que ela agia daquele modo por que estava
desesperada?
- Já lhe disse que não me lembro de nada que aconteceu aquela noite. Para
mim, ela continua sendo um mistério. - Tinha o rosto em fogo. - Não
fiquei doente, estava apenas muito nervosa.
- Você ouviu a conversa no hospital, dizendo que tinha pouco tempo de
vida, muito antes de resolver confiar suas apreensões ao dr. Cresswell,
não foi? Conseguiu conviver com essa idéia sem contar a ninguém. O que
foi, então, que desencadeou essa necessidade de se expandir com alguém?
Por que não falou com ele antes? Teria evitado tanto sofrimento. Por que
é tão fechada, Anne?
Bem que Helen e Simon tinham razão. Quando o irmão mais velho metia uma
coisa na cabeça só sossegava depois de alcançar seu objetivo. Anne queria
encerrar o assunto mas ele continuava insistindo.
- Responda. O que aconteceu que lhe deu coragem para contar ao dr.
Cresswell o que a estava preocupando? Não é alguma coisa relacionada com
a noite que passou comigo?
- Por favor, pare, Dyson. - No entanto, em seu íntimo sabia que ele ia
continuar. Ele tinha percebido que devia existir alguma coisa que a
deixara ainda mais apavorada e que isso podia estar ligado a ele de
alguma maneira.
Dyson observava todas as reações dela. A respiração ofegante, o
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embaraço do rosto, os olhos que se desviavam não querendo encontrar os
dele.
Meu Deus! O que vou fazer?, ela se perguntou. O melhor era acabar com
essa agonia de uma vez. Enquanto estava ali. de cama.
Dyson era muito bom e delicado, mas será que continuaria assim depois que
voltasse à vida normal? E agora que sabia que o amava, não ia suportar
agressões. Era melhor conversarem tudo de uma vez, por que assim, quando
fosse embora dali. nunca mais o veria ou saberia dele!
- Estou só querendo conhecer a verdade, Anne.
Um silêncio pesado os envolveu: o único som era o da respiração forçada
de Anne. Ela não achava justo que tivesse que confessar uma coisa que
pretendia manter em segredo. Mas, se tinha que confessar, ia fazê-lo de
uma vez e ficar livre desse interrogatório.
- Pensei que estivesse grávida.
Dyson pareceu ter sido atingido por um raio. Respirava mais depressa, sem
tirar os olhos de Anne, tentando ler fundo em seu coração.
- Grávida?
- Isso mesmo. Mas você não ia ligar a mínima, não é? Mas eu, sim! Pensei
que estivesse esperando um filho seu e... - suas palavras foram
interrompidas por soluços - e sabia que o bebê não teria chance de
sobreviver, assim como a mãe dele. - Lágrimas grossas desciam pelo seu
rosto mas ela nem lembrou de enxugá-las.
- Acho que não faz idéia do desespero que me atingiu, ao pensar que
estava esperando um filho e que não tinha possibilidade nenhuma de tê-lo.
- Fechou os olhos, lembrando aqueles momentos de desespero e angústia.
Depois tornou a abri-los, as lágrimas brotando sem cessar. - Queria
aquela criança! Queria meu bebê!
CAPÍTULO IX
Anne fechou os olhos e encostou a cabeça no travesseiro. Pronto. Tinha
falado tudo! Não queria contar, nem havia uma necessidade real de
desabafar, mas estava aliviada por ter deixado a situação em pratos
limpos.
Claro, Dyson não ia acreditar, e talvez acrescentasse alguns nomes
pesados à longa lista que já tinha dito, mas não fazia mal. Estava
tranqüila. Só queria que ele fosse embora e a deixasse em paz. Nunca mais
queria saber dele.
Dyson devia estar chocadíssimo com o que ouvira. Ela percebera um brilho
de desconfiança no olhar dele. Devia estar duvidando de tudo. Mas não
fazia diferença, porque ela sabia que a verdade era aquela. Só queria
parar de chorar.
Sentiu que o colchão se abaixava ao receber o peso de Dyson. Não queria
que ele chegasse perto e procurou empurrá-lo, sem abrir os olhos.
Percebeu, então, que Dyson segurava suas mãos.
- Anne, Anne. - A voz de Dyson estava rouca, como se ele estivesse
tentando se controlar. - Minha querida, deve ter passado por um inferno!
- Dyson puxou-a para mais perto, com muito carinho, aninhando sua cabeça
contra o peito largo. - Não vai me perdoar nunca por tê-la feito passar
por tudo isso!
- Não foi culpa sua. Fui eu que provoquei.
Dyson sorriu, mas não havia cinismo em sua atitude. Ele continuava a
abraçá-la, olhando-a bem de perto.
- Acho que vou concordar que foi você quem me provocou. Em primeiro
lugar, me conte o que fazia naquele hotel.
Contou como tudo tinha acontecido, não omitindo nenhum detalhe. Queria
que Dyson soubesse que não costumava procurar a companhia de
desconhecidos, muito menos ir para a cama com um deles.
- Ao pensar que ia morrer logo, fiquei desesperada por ter só vinte e
dois anos e nunca ter experimentado o que a vida podia me oferecer - ela
terminou.
- Estava mesmo disposta a ir para a cama com o primeiro homem que
convidasse você?
- Nunca pensei que fosse capaz de chegar tão longe, Dyson. Minha idéia
era ir a lugares onde nunca tinha estado antes, como um barzinho. Não
agüentava mais ficar sozinha em casa com meus pensamentos tétricos. Tinha
medo de ficar louca!
Dyson acariciou os cabelos de Anne e a recostou em seu ombro. Ela sentiu
confiança para prosseguir.
- Sally não apareceu e comecei a ficar em pânico de novo. Tinha que falar
com alguém. Não queria me sentir isolada no meio de uma multidão. Então
fiz uma coisa que nunca tinha feito antes e que jamais faria, se as
circunstâncias fossem diferentes. Comecei a falar com um estranho, você.
Não fazia a menor questão sobre o rumo que a conversa tomasse, desde que
pudesse continuar a conversar.
Ia me sentir como uma pessoa normal, que tem amigos e planos para viver.
Dyson a ouvia com muita atenção, reparando em cada expressão daquele
rosto sofrido, ainda molhado pelas lágrimas.
- Quando me convidou para ir a seu quarto e tomar uma bebida, adivinhei o
que ia acontecer e... mesmo assim. quis ir. Não podia suportar a idéia de
ir para casa, ter o mesmo pesadelo e acordar angustiada. Qualquer coisa
era melhor do que isso. Precisava acordar e sentir um ser humano ao meu
lado.
- Teve o mesmo pesadelo naquela noite?
- Não, mas em compensação, quando acordei e o vi deitado ao meu lado.
quase morri de vergonha.
- Daí para a frente, achou que estava grávida?
- Não, não foi imediatamente. Depois que fui para casa Sally me ligou e
foi por algo que ela disse que pus essa idéia na cabeça.
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- Aí resolveu ligar para o dr. Cresswell?
- Foi, mas antes contei a ele o que me atormentava. Sabe, não é, a
conversa que ouvi no hospital, dizendo que não tinha muito tempo de vida.
Quando ele me garantiu que eu estava errada e que em breve ficaria boa.
não achei necessário lhe falar sobre a gravidez, pois meus planos eram
outros. Mais tarde, naturalmente, contaria tudo.
- Por quê? Pretendia ter o bebê?
- Claro! - Anne fixou o olhar em Dyson para ver como ele aceitava o fato.
- Sei que agora parece um fato ridículo mas, naquela ocasião, fiquei
entusiasmadíssima achando que ia ter um filho só meu, para amar e cuidar.
- Continuou contando todos os planos que tinha feito na ocasião, todos
eles incluindo o bebê.
- Você é uma moça muito corajosa, Anne. - Havia tanta ternura na
expressão e nos gestos de Dyson que ela não resistiu e deu um beijo leve
no rosto dele.
- Por favor, não se martirize pelo que aconteceu. Não foi sua culpa, nem
você podia adivinhar que eu era inexperiente.
- Muito corajosa, Anne, muito mesmo. - Dyson retribuiu o beijo, não no
rosto como ela tinha feito, mas nos lábios entreabertos.
Anne sentiu calor e frio ao mesmo tempo, e uma alegria intensa com aquela
proximidade. Sem pensar, passou os braços pelo pescoço de Dyson e quando
o beijo terminou, ela queria mais, muito mais.
- Não, Anne. Vamos parar por aqui. A situação é muito delicada e nós dois
estamos emocionalmente perturbados. - Dyson afastou-a, mas ela chegou
mais perto e ele tornou a envolvê-la. - Você é demais para mim... - Ele
não terminou a frase, logo em seguida pôs os lábios sobre os dela de
leve, e sentindo-se correspondido, demonstrou o carinho que depositava
naquele beijo.
Dyson ainda a segurava quando escorregou a mão por seus ombros, abaixando
a alça da camisola e acariciando a pele delicada do pescoço. Sua boca
seguiu os contornos delicados do rosto, das orelhas, para descer às
partes sensíveis do pescoço e depois voltar aos lábios entreabertos. Era
um beijo cheio de ternura e carinho, muito diferente da paixão rude que
ele demonstrara de manhã.
Anne deu vasão a seus sentimentos, abraçando o pescoço de Dyson,
100
puxando-o para mais perto. Nesse movimento, a outra alça desceu do seu
ombro e a camisola caiu, até ficar presa somente na cintura.
- Anne... - Dyson sentia o corpo dela perto do seu mas procurava não
encostar o peito nos seios nus.
- Quero que me beije. Dyson! - Ela notou que o fogo do desejo se acendia
naqueles olhos expressivos. Mais uma vez Dyson pressionou os lábios
contra os de Anne, numa paixão alucinante. Ela esqueceu tudo que tinha
aprendido sobre como se proteger e se entregou àquele contato com ardor e
emoção. Dyson lhe acariciava as costas, subindo e descendo as mãos, numa
carícia devastadora.
De repente, como se só então se desse conta de que ela estava sem roupa.
Dyson suspirou fundo e com um gemido se afastou dela, deixando porém os
olhos fixos nos seios jovens que palpitavam com paixão.
Anne ficou embaraçada e num gesto rápido ergueu a camisola. mas Dyson a
interrompeu.
- Não se cubra. Você é tão bonita!
com toques leves como asas de borboletas, Dyson sentiu a elevação dos
seios, até chegar aos mamilos róseos e rijos. Ela tremia ao mesmo tempo
que uma sensação de êxtase tomava conta de si, deixando-a mole, pronta
para o ato maior do amor. Fechou os olhos feliz.
Já antecipava o momento supremo em que seria dele, quando sentiu que
Dyson se afastava. Abriu os olhos não mais para ver um homem dominado
pela paixão, mas sim lutando contra ela e tentando se dominar.
- Um de nós tem que ter juízo. Sua beleza quase me faz perder a cabeça,
mas temos que lembrar que qualquer movimento pode ser perigoso e doloroso
para você.
"A dor que vá para o inferno! ", era o que ela queria gritar, mas viu que
o momento de enlevo já tinha passado. Dyson" tinha se controlado e seria
inútil pedir que ele a beijasse de novo.
Dyson ajudou-a a vestir a camisola e a se ajeitar na cama, aconchegando
as cobertas junto dela. Anne mal o olhava, embaraçada pela intimidade a
que haviam chegado.
- Tente dormir, Anne. - com um beijo leve em sua testa, Dyson saiu do
quarto.
Anne dormiu profundamente, durante muitas horas. Acordou na manhã
seguinte, mal acreditando em tudo que tinha acontecido na véspera e
desejando estar de volta à sua casa, em Exeter, para nunca mais ter que
olhar para Dyson.
Ela não podia amá-lo tanto. Afinal, tudo começou errado entre eles. E se
chegaram a viver momentos de paixão foi por causa das circunstâncias, das
mútuas descobertas. Ele era um homem sensível, carinhoso e deixou-se
envolver pelo drama pelo qual ela havia passado. Sim, só poderia ser
isso. Mas ela, apesar de ser tão contida, entregou-se completamente ao
prazer.
Que vergonha! Mesmo que Dyson tivesse mudado de opinião a seu respeito,
ela agiu de maneira a reforçar as desconfianças dele. Agora ela sabia que
o amava, no entanto mal se conheciam. Talvez ele continuasse achando
ainda que ela era a moça inconseqüente que conheceu no barzinho.
Dyson reagiu como qualquer homem normal e viril. Correspondeu ao ardor
que ela demonstrou da mesma maneira que sentiu desejo quando estavam
juntos no hotel, em setembro. Aquilo não significava amor, mas somente a
necessidade natural de sexo.
E ela facilitou tudo. querendo se entregar a ele, sem ao menos saber que
ele a amava! Onde estava com a cabeça? Será que o amor a tinha
transformado tanto que ela já nem pensava antes de se envolver com os
carinhos desse homem?
Não tinha coragem de enfrentá-lo de novo. Tinha medo de sentir
O mesmo cinismo e sarcasmo com que ele sempre a tratou. Queria ir para
casa. Não queria esperar até segunda-feira de manhã, quando ela e Helen
deveriam voltar. Era muito tempo para ficar na mesma casa com Dyson,
existindo sempre a possibilidade de ficar sozinha com ele. O que ia
fazer?
O orgulho. Era seu orgulho que ia salvá-la. Não podia deixar transparecer
por palavras, ações, ou olhares, o que ela sentia por ele. Não iria
jamais permitir que Dyson soubesse que ela o amava como nunca amara
ninguém na vida. Sua decisão estava tomada.
Virou-se na cama para ver as horas. Ficou feliz por não sentir
1 02
dor nenhuma. Fizera bobagem ao andar a cavalo, mas um dia de repouso a
tinha deixado nova. Achava até que já podia levantar, mas talvez fosse
melhor ficar mais um pouco de cama porque assim podia evitar a companhia
de Dyson.
Quando acordou no dia seguinte viu que eram sete horas. Ainda levaria um
bom tempo até que Maureen lhe trouxesse o chá. Teria que esperar com
calma.
A porta abriu de mansinho e ela viu que Dyson entrava. O coração parecia
querer saltar de seu peito, batendo descompassado. O que ele estava
fazendo ali tão cedo? Talvez tivesse vindo cobrar o que ela tinha
oferecido com tanta pressa na véspera. Ao pensar como tinha deixado se
levar pelas emoções sentiu-se enrijecer e foi com voz fria que o
cumprimentou.
- bom dia. A que devo o prazer da visita inesperada? - Para sua alegria,
viu que Dyson apertava os lábios. Não querendo que ele tivesse a
oportunidade de ser sarcástico, continuou. - Se veio tão cedo esperando
fazer um acordo sobre troca de carinhos, perdeu a viagem. Não estou à
venda, Dyson.
A mudança nele foi evidente. Seus olhos fuzilavam de raiva, as
sobrancelhas se uniram numa expressão de desagrado.
- Ao contrário do que pensa, não vim aqui para receber seus favores, que
até agora foram oferecidos de graça. - Ele era cruel e Anne sentia como
se uma faca a atingisse no coração a cada palavra que ele dizia. - O que
acontece é que os médicos começam a trabalhar cedo e, se for necessário
recorrer a eles, preciso pegá-los em casa, antes que saiam para o
trabalho. Vim apenas para ver se consegue ficar em pé.
Não havia mais delicadeza ou sensibilidade em Dyson. Aquelas mãos, que na
véspera estavam prontas a acariciá-la, agora tinham perdido a suavidade.
- Estou melhor, não se preocupe.
- Ótimo. Então, fique em pé.
Anne permaneceu deitada. Não tinha a menor intenção de levantar e se
expor a ele.
- Precisa de ajuda?
Ainda estava indecisa. Não tinha medo de sentir dor, porque já
estava bem. Seu medo era o de levantar e se ver perto dele, esquecendo
suas resoluções e se derretendo como manteiga perto do fogo. Dyson não
esperou mais e vendo que ela não tomava uma atitude, chegou mais perto da
cama. Isso foi o suficiente para que Anne começasse a se movimentar.
- Não precisa me ajudar. - Tirou as cobertas e sentou-se na beira da
cama.
- Fique em pé agora.
Anne começou a levantar, e para seu completo embaraço, viu que a alça da
camisola tinha se arrebentado, deixando seu seio à mostra. Olhando para
Dyson, viu que ele não tirava os olhos de seu peito descoberto. Ia pedir
que ele pegasse seu robe no armário mas achou que assim chamaria ainda
mais a atenção dele. Era melhor se agüentar daquele jeito por um instante
e voltar correndo para a cama, logo que tivesse provado que podia ficar
em pé.
- Pronto - ela disse ao levantar. - Está satisfeito?
Dyson não respondeu e virou as costas. Anne achou que ia embora, mas ele
foi para perto da penteadeira e depois voltou-se para ela.
- Agora vamos ver se pode andar. Venha até aqui.
- Que bobagem!
- Mesmo que seja, venha até aqui.
Achou melhor obedecer para ficar logo livre. Começou a andar devagar, as
costas bem eretas e para sua completa alegria, viu que a dor desapareceu.
Parou quando estava a dois passos de Dyson.
- Posso voltar para a cama agora? - Não esperou pela resposta e deu meia-
volta num movimento rápido. talvez rápido demais, pois perdeu o
equilíbrio. Tudo aconteceu tão depressa que teve a nítida impressão de
que ia cair aos pés de Dyson. Antes que isso acontecesse, dois braços
fortes a seguraram, impedindo que chegasse ao chão.
Assim que sentiu o contato com o corpo quente e forte de Dyson, esqueceu
sua força de vontade, e se encostou a ele, achando delicioso contar com a
proteção daquele peito. Mas, bem diferente do que ela sentia, Dyson logo
a afastou, embora a ajudasse a ficar em pé.
- Não foi tão esperta como pensava, não é?
104
- Perdi o equilíbrio, mas posso andar muito bem. Agora, se me soltar, vou
voltar para a cama.
- Isso mesmo, e não saia dela.
Compreendeu que as ordens do médico iam ser seguidas à risca. Voltou para
a cama e Dyson apenas esperou até que estivesse acomodada. Depois, sem
nem mais uma palavra, saiu do quarto.
Pouco depois começou o movimento da casa. Primeiro com Maureen lhe
trazendo o café da manhã e depois com Helen, que lhe fez companhia. Mesmo
assim, teve bastante tempo para pensar.
Deduziu que tio James devia ter recomendado a Dyson que verificasse se
ela podia andar. Mesmo assim, Helen não podia ter feito isso? Ou não
podiam ter confiado na própria palavra dela?
Tinha que dar um jeito de ir embora antes de segunda-feira. Não ia
suportar ficar na mesma casa com Dyson mais três dias. Precisava pensar
numa saída.
Helen entrou no quarto, os braços carregados de revistas.
- Dyson comprou essas revistas, achando que assim você não vai ficar
entediada de passar o dia na cama.
- Obrigada. - com voz bem normal, continuou: - Helen, você se incomodaria
se eu fosse para casa amanhã?
- Não pode fazer isso! - a amiga protestou imediatamente. Depois, mudando
de tom - Não se sente feliz conosco?
- Não é isso, Helen. - Sentia-se mal de estar retribuindo o carinho da
amiga com ingratidão. - É que. que.
- Não vá achar que está nos dando trabalho demais, porque isso não é
verdade. Ficaria muito aborrecida se pensasse assim.
Não sabia o que dizer. Não podia contar à amiga que queria fugir de
Dyson. Aí teria que explicar todos os pormenores e não tinha coragem para
tanto.
- Fique, por favor. Dyson e Simon estão se dando tão bem, depois que você
chegou.
- Está bem, Helen. vou ficar. Na verdade, tenho adorado os dias que
passei aqui.
- A não ser por ontem e hoje, não é? - Helen sorriu demonstrando carinho.
- Mas amanhã já estará lá embaixo e tudo vai voltar ao normal.
Passou o resto do dia muito bem e, por mais que dissesse que nunca mais
queria ver Dyson, sentia sua falta, morria de vontade de vê-lo, de ouvi-
lo, de estar com ele.
Na manhã de sábado acordou bem disposta. Deu uns passos pelo quarto e
notou que se movimentava com desenvoltura. Graças a Deus, estava boa de
novo!
Vestiu-se e desceu. Encontrou todos lá embaixo. Dyson foi amável com ela,
mas se manteve distante, falando apenas o necessário. Depois saiu e só
voltou para o jantar.
Os quatro estavam reunidos à mesa, e por sorte Helen e Simon estavam
muito alegres e envolvidos numa conversa animada, porque assim ninguém
iria notar que ela quase não dizia nada.
Mas num certo momento Simon começou a falar de sua volta à universidade e
de sua tese. Foi quando lembrou do oferecimento de Anne.
- Você disse que escreve bem à máquina, lembra? Acha que poderia
datilografar o trabalho para mim?
- Claro que sim, Simon. com todo prazer. - Ficou satisfeita de encontrar
alguma coisa para fazer, em retribuição à maneira maravilhosa com que a
família a tinha recebido. Além disso, teria uma ocupação para as longas
noites em que ficava sozinha em casa, tentando fugir da solidão.
- Não acho que seja uma boa idéia pedir a Anne que datilografe sua tese,
Simon - Dyson interferiu.
Ela o olhou surpresa. Ele não queria que ela mantivesse contato com
Simon? Ele a julgava tão péssima companhia?
- Por que não? - Simon não encontrava motivos para a objeção do irmão.
Ficou tensa. Sabia que Dyson tinha que dar uma explicação, mas se ele
ousasse dizer ali, na frente de todos, o que ele achava dela, tinha
certeza que morreria de vergonha. Sentiu que o sangue subia para seu
rosto, ficando vermelha como um pimentão.
- Não ouviu Anne dizer que desistiu de seu trabalho como secretária
apenas para não passar horas sentada diante de uma máquina de escrever?
106
Anne olhou para Dyson. Ele sabia qual o verdadeiro motivo que a afastara
do emprego, mas ainda bem que não ousara dizê-lo ali.
- Tinha esquecido completamente. - Simon notou o rosto vermelho da moça.
- Ora, não precisa ficar assim, Anne, Não é por sua culpa que não vai me
ajudar.
Sentiu um pouco de raiva. Os dois irmãos a tratavam como se ela fosse uma
inválida que ia passar o resto da vida numa inutilidade total. Sabia que
dentro de poucos meses estaria tão bem como qualquer um deles, pronta a
reiniciar sua vida de trabalho intenso. - vou mandar que uma de minhas
datilógrafas prepare seu trabalho, Simon. - Dyson parecia ter encerrado O
assunto. Já não estava mais interessada na conversa. Sabia muito bem que
Dyson não queria que ela tratasse da tese para não ficar em contato com
Simon, pois ela representava um perigo para o jovem, pois bem, que
pensasse o que quisesse. Para ela, tanto fazia. Ia tratar de agüentar os
poucos dias que faltavam para ficar ali e depois iria para casa e jamais
pensaria nos dois de novo! O tempo foi passando e Anne mal viu Dyson,
nunca tendo a oportunidade de ficar sozinha com ele. Não sabia se as
longas ausências dele eram propositais, mas estava convencida de que ele
a evitava.
No domingo à noite, Dyson avisou que ia sair muito cedo no dia seguinte,
pois tinha um compromisso na cidade. - Então não vai mais ver Anne -
Helen comentou.
- É verdade. Por isso vou me despedir agora.
- Obrigada pela estada, foi muito agradável. - Ela esticou o braço e por
um segundo achou que ele não ia corresponder ao aperto de mãos. Mas Dyson
lhe apertou a mão com formalidade.
- O prazer foi todo meu - falou em tom tão gelado que Anne saiu logo da
sala, mesmo se arriscando a que Helen a achasse mal-educada.
Na manhã seguinte tudo estava pronto para as duas partirem. Helen
insistiu em carregar as malas apesar dos protestos de Anne.
- Precisa tomar cuidado, Anne. Dyson me recomendou muito que não a
deixasse carregar peso. E mesmo que ele não tivesse dito nada, eu não ia
deixar.
Então Dyson tinha feito recomendações! Ele devia estar apavorado
107
com a idéia de ela ter outra recaída e assim permanecesse em MUr View.
Todas as precauções não significavam interesse verdadeiro pela saúde
dela, mas sim uma maneira de se certificar de que ela saíria logo dali!
Foram direto para o trabalho e tiveram muito o que fazer o dia todo. Como
se quisesse compensar os dias de descanso, o chefe não parou de lhes dar
serviço constantemente. Mal puderam conversar porque passaram as horas
intensamente envolvidas com problemas a resolver.
Foi com alívio que olharam o relógio e viram que eram cinco horas.
- vou com você até o carro para pegar minha mala - Anne avisou.
- vou lhe dar uma carona até sua casa e a ajudo a levar a mala
- Helen propôs alegremente.
Dyson também teria dado ordens à irmã para que cumprisse esse ritual?
Fosse como fosse, gostava da companhia da amiga.
Helen ajudou-a a entrar, levou a mala até o quarto e depois se despediu.
Quando se viu sozinha em casa, foi até a cozinha para fazer um chá.
Um soluço profundo e dolorido escapou de seus lábios ao lembrar dos
últimos dias. Amava Dyson com desespero. No entanto, ele a achava uma
oportunista, interesseira, que dava o próprio corpo com a maior
facilidade, uma inconseqüente em busca de aventuras fáceis.
Seu amor não podia se realizar por causa de uma noite de loucura, uma
noite em que estava tão desesperada que agira sem pensar.
Dyson tinha sido bastante amável como anfitrião recebendo em casa a amiga
da irmã. Mas tinha deixado claro que não queria vê-la ali de novo!
108
Anne estava deprimida ao pegar o ônibus no fim de mais um dia de
trabalho. Teria dois dias de folga para comemorar o Ano Novo e seu plano
era. nenhum!
Helen tinha perguntado o que ela pretendia fazer. Depois de pensar bem,
respondeu que ia passar os dias com tio James. Na verdade, não ia a lugar
nenhum e provavelmente ficaria em casa, dormiria cedo e ficaria contente
que o pior ano de sua vida tivesse terminado.
- Tio James achou ótimo eu passar o Natal com vocês, mas ficaria triste
se eu ficasse longe dele também no Ano Novo.
- Que pena, Anne. Contava com sua companhia, porém, acho que tem razão.
Chegando em casa, trocou de roupa e foi para a cozinha preparar alguma
coisa para comer. Não tinha fome: era uma maneira de se distrair.
Preferia não ter mentido para Helen, mas essa era a única maneira de
ficar distante de Dyson. Não ia conseguir enfrentá-lo de novo, perceber
seu sarcasmo, notar o olhar de desprezo, amando-o tanto!
Depois de se forçar a tomar um lanche começou a lavar a louça. Enquanto
fazia o serviço mecanicamente, seus pensamentos voavam. Ainda bem que o
ano estava terminando! Um ano novo era sinal de vida nova e alguma coisa
boa precisava lhe acontecer, para compensar o drama que tinha vivido.
Quem sabe um rapaz inteligente e maravilhoso ia aparecer e eles se
apaixonariam? Mas por mais que fizesse votos para que isso
109
acontecesse. sabia que ia ser difícil amar outra pessoa tão cedo pois
Dyson era senhor absoluto de seu coração.
E se chegasse a amar outro homem, teria coragem de contar os detalhes
daquela noite alucinada?
Ainda preencheu o tempo lendo e vendo televisão, mas nada adiantava para
melhorar seu estado de espírito. O melhor era ir dormir e não sentir o
ano acabando e dando início a um outro, que, se Deus quisesse, seria bem
melhor.
Fechou a casa toda e já estava começando a apagar as luzes quando ouviu a
campainha tocar. Não esperava visita de ninguém, mas provavelmente tio
James não quis deixá-la sozinha e tinha dado um pulo para vê-la.
- Tio James, como vai? Vamos entrar.
- Pensei que estivesse pronta para ir a alguma festa, KArine. Tio James
notou que ela estava de jeans e malha. - Sarou bem das costas?
- Estou completamente boa. É incrível, tio James, mas depois daquele dia
que fiquei de cama, não tive mais dor nenhuma.
- Foi o que pensei. - Mudando de tom, ele prosseguiu: - Por que não vai
comemorar a passagem do ano? Passei por aqui e esperava encontrar a casa
escura.
Por um triz isso não tinha acontecido, ela pensou. Se ele tivesse passado
quinze minutos mais tarde, encontraria tudo fechado.
- Não tive vontade de sair hoje à noite, tio James.
- Tenho uma boa idéia. Por que não vem para minha casa? Ainda tenho que
atender a um paciente, mas a sra. Paget está lá e, assim que eu ficar
livre, podemos tomar uma taça de champanhe juntos.
- Agradeço seu convite, mas...
- Mas. quê?
- Acho que não vou ser boa companhia hoje.
- Seja sincera. Anne. Está sentindo dor?
- Não. De maneira nenhuma. Já lhe disse que depois daquele dia não senti
mais nada.
- Ainda tem comprimidos se precisar?
110
- Tenho, mas não preciso deles. Realmente não sinto dor nenhuma, tio
James.
Como ela ia explicar que o que sentia era dor no coração? Como podia
dizer que entregara sua vida a alguém que não a queria? Haveria alguma
coisa que fizesse passar aquela saudade doída que
a consumia? Haveria alguma coisa que pudesse substituir a sensação de
segurança e paz que só os braços de Dyson podiam lhe dar? Jamais
conseguiria explicar tudo isso ao tio.
- Em todo caso, vou lhe deixar uma outra receita. Aqueles comprimidos
eram fortes demais e agora já não precisa deles, e sim esses outros aqui.
- Tio James preparou a receita. - Não sabia que andei tomando remédios
tão fortes, tio James. - Foi necessário. Estava sofrendo dores atrozes e
tinha que lhe dar alívio. Era só tomar dois desses comprimidos para
apagar como uma vela. Agora estou substituindo-os porque já não são
necessários. "Tomar dois desses comprimidos para apagar como uma vela. "
As palavras ficaram se repetindo. Naquela noite fatídica ela havia tomado
quatro deles!
- Está brincando sobre isso, não é, tio James? Eles não são tão fortes
assim. - Ela queria se convencer de que não era verdade.
- Falei a verdade, minha querida. Além de um poderoso analgésico, eles
ainda têm um relaxante que faz dormir. Se tomar dois, o efeito é quase
instantâneo. Por quê? Nunca tomou mais do que isso, não é?
- N... Não.
- Ainda bem, senão ficaria dormindo profundamente, quase como se
estivesse dopada. - Tio James levantou. - vou ver meu cliente. Feliz Ano
Novo, Anne!
- Até logo, tio James. Feliz Ano Novo para você também. Fechou a porta e
voltou para a sala. Começou a andar de um
lado para outro, procurando puxar pela memória e recordar com detalhes
tudo que tinha acontecido naquela noite que ela preferia esquecer.
O que tinha feito? Lembrava perfeitamente bem de ter ido ao banheiro e
ter engolido dois comprimidos. Depois tinha voltado para o quarto, mas
ficara tão apavorada que de novo tinha ido para o
banheiro e engolido mais dois. Ainda por cima, tinha tomado uma bebida no
bar, e. lembrava que tio James tinha recomendado que não bebesse ou
dirigisse quando tomasse o remédio. Meu Deus! Tinha feito tudo errado.
Tinha bebido e tomado comprimidos além da conta.
Então ela devia ter dormido quase que imediatamente! O que tinha
acontecido depois que se dopara? Não havia meios de saber, a não ser. que
perguntasse para a única pessoa que tinha vivido a experiência com ela.
Talvez não houvesse acontecido nada! Ela ainda não conhecia Dyson muito
bem. mas acreditava em sua sensibilidade. Mesmo que Dyson tivesse bebido
um pouco não devia ter se aproveitado de uma pessoa que estava dormindo
sob o efeito de remédios.
Agora compreendia tudo e colocava as peças do quebra-cabeça no devido
lugar. Dyson deveria estar muito aborrecido naquela noite pela briga que
tinha tido com Simon por causa da venda das ações. Ele devia ter saído de
casa, procurando esquecer a briga. Mesmo com a cabeça cheia de bebida,
Anne não acreditava que ele a tivesse possuído, vendo-a naquele estado.
Ou... ele tinha conseguido acordá-la o suficiente para obter uma resposta
a seus beijos e carinhos? Por que não conseguia lembrar de nada? Queria
saber o que tinha acontecido. Tinha que saber!
Poderia telefonar para Moor View. Mas, mesmo que reunisse coragem para
tanto, o que ia dizer? Não podia simplesmente dizer alô e depois
perguntar se ele a possuíra naquela noite. Não. Precisava pensar em
alguma coisa que acabasse levando a esse assunto, para depois poder
perguntar.
Procurou a agenda em que tinha marcado o número de Helen. Estava tão
nervosa que por mais que mexesse na bolsa não encontrava o livrinho. Foi
até a cozinha, bebeu um copo d'água, respirou fundo e, voltando para a
sala, recomeçou sua busca. Foi tirando tudo de dentro da bolsa e aí, com
mais cuidado, acabou encontrando o que queria.
Sem pensar se estava agindo certo ou errado, discou o número. Teve a
impressão de ficar horas pendurada no telefone, enquanto
ele tocava sem ninguém atender. Já estava quase desistindo, quando ouviu
a voz de Helen.
- Alô. Helen. Sou eu. Anne.
- Como vai? Que surpresa agradável! Onde você está? Na casa do dr.
Cresswell?
- Não. Estou em casa, porque tio James precisou ver alguns pacientes e...
Helen percebeu que havia alguma coisa errada com a amiga, que parecia
nervosa e agitada.
- O que há com você, Anne?
- Nada. estou bem... e...
- Tem certeza? Acho você um pouco preocupada.
- Estou bem, Helen. não há nada demais comigo.
- Você é quem sabe. O telefone tocou muito tempo? Imagine que estamos com
uma porção de amigos de Simon e eles estão fazendo tanto barulho que mal
se ouve outra coisa que não as risadas e o falatório.
Anne se perguntava se Dyson estaria tomando parte nessa confusão.
Provavelmente não, pois não era de seu feitio esse tipo de reunião. Ele
devia ter saído para passar o reveiüon com alguma garota sofisticada num
lugar fino e tranqüilo. Sentiu ciúme só de pensar que isso pudesse estar
acontecendo. No entanto, tinha que acabar de falar com Helen, que
continuava à espera do outro lado da linha.
- Por que não vem para cá? - Helen insistiu, vendo que a amiga tinha
ficado quieta. - Vai se divertir muito!
- Não, Helen, obrigada. Na verdade, queria dar só uma palavrinha com
Dyson.
- Ele está no escritório. Espere um pouco que vou ligar a extensão. -
Havia surpresa na voz de Helen.
- Não! - Anne respondeu depressa. - Não é preciso, Helen. Não quero
perturbá-lo nesse dia de festa. Qualquer outro dia torno a ligar. Feliz
Ano Novo para você e para todos aí.
- Para você também. Mas, sinceramente, gostaria muito que estivesse aqui
conosco.
- Sei disso, obrigada. Eu a vejo no escritório, depois de amanhã. Até
logo, Helen.
Desligou o telefone. Tinha sido estúpida em ligar para Moor View num dia
de festa. Jamais iria ligar outra vez. Se tinha que conviver com sua
dúvida, por que não fizera isso desde o início, em vez de dar esse
telefonema inútil?
Ficou andando de um lado para o outro, agitada demais para descansar. Se
pelo menos tivesse tido a coragem de falar com Dyson, estaria agora
sabendo a verdade e ficaria tranqüila. Tinha que continuar na mesma
dúvida e esperar. Quem sabe tivesse uma oportunidade de perguntar a Dyson
sem estar junto dele, para não ver o cinismo naquele olhar frio.
Cerca de uma hora depois a campainha tocou de novo. Tio James teria
voltado? Foi atender, procurando forçar um sorriso para que ele não
notasse sua angústia.
Abriu a porta e seu sorriso se transformou numa expressão de surpresa.
- Helen me disse que você queria falar comigo. - Dyson estava lá, uma
expressão séria e impenetrável no rosto bonito.
- Veio até aqui só porque. Não tinha tanta pressa. Podia falar com você
qualquer outro dia.
- Helen disse que a achou muito nervosa.
A noite estava gelada e Anne tremia de frio, exposta ao vento. Mesmo
protegido pelo casaco, Dyson também devia estar gelado.
- Quer entrar um pouco?
Dyson entrou e foi para a sala, onde a lareira ainda estava acesa. Muito
à vontade, ele reavivou o fogo, colocando mais um pedaço de lenha para
queimar.
Seguiu-o, observando seus movimentos. Por que não tinha conversado por
telefone? Teria sido muito mais fácil. Como ia lhe dizer que não queria
saber de nada? Afinal, ele tinha percorrido quarenta quilômetros para
chegar até ali.
- Tem alguma coisa para beber? - Dyson perguntou, esfregando as mãos para
conservá-las quentes.
- Acho que só tenho uma garrafa de licor. Sinto muito, mas é tão raro eu
tomar alguma coisa.
- É para você mesma. Está tão pálida que acho que um pouco de álcool vai
ajudar a lhe devolver a cor.
- Oh, não quero beber nada. - Achou melhor sentar porque suas pernas
tremiam tanto que mal conseguia se manter em pé.
Parecia incrível que o homem que amava estava ali, em sua casa, e no
entanto tinha medo de ver nele desprezo e cinismo, quando desejaria
encontrar somente amor. Como Dyson iria reagir ao que ia perguntar?.
Dyson foi sentar junto dela. esperando ouvir o que ela ia dizer. Não
sabia como começar. E se ele tivesse esquecido os detalhes daquela noite?
Dyson tinha a aparência tão viril, que deveria ter tido várias outras
aventuras nesses quatro meses. Então, como esperar que ele lembrasse tudo
que tinha acontecido?
- Dyson eu. queria. eu. - Era tão pouca coisa o que queria saber e não
conseguia formular a pergunta!
Dyson chegou mais perto e segurou suas mãos, tentando lhe dar coragem. Se
soubesse que isso a deixava mais agitada.
- Não fique tão nervosa, Anne. O que é que a está preocupando?
- Dyson - ela começou. - Aquela noite... - sabe qual é,
não?
Ele se limitou a balançar a cabeça afirmativamente. Ao mesmo tempo,
apertou mais as mãos dela para lhe dar coragem para
prosseguir.
- Sabe Dyson. tio James esteve aqui hoje à noite para me ver.
- Por quê? Você não está bem? - Dyson se mostrava interessado.
- Não é isso. Ele só passou porque estava a caminho da casa de um cliente
e aproveitou para me dizer alô. - Respirou fundo. Acabamos falando sobre
os comprimidos contra dor e... ele me disse que eles são muito fortes. -
Ela sabia que estava dando longas voltas para chegar onde queria, mas
talvez fosse mais fácil assim.
- Falaram dos comprimidos e. - Dyson animou-a a continuar.
- Bem. ele me disse que além de analgésicos, ainda tinham um relaxante
que ajudava a dormir. Disse que se eu tomasse dois deles dormiria,
acordando sem lembrar o que tivesse acontecido durante o sono.
- Compreendo.
- Aquela noite. quando nos conhecemos. - Procurava ver a reação de Dyson,
mas ele continuava pacientemente esperando que ela falasse. Preferia
poder andar e não olhar para ele, mas Dyson a mantinha presa.
- Continue, Anne.
- Naquela noite, quando fui ao banheiro, tomei quatro comprimidos de uma
vez só. - Finalmente, tinha posto para fora tudo que precisava.
- E então?
Como? Ele ainda insistia em que ela falasse mais? Já não bastava o
embaraço de ter que se explicar? Por que ele ficava ali, calmo e
paciente, fazendo com que só ela falasse? Ele já, desconfiava o que ela
queria saber, então, por que não respondia de uma vez?
- Então, se eu dormi como tio James disse que iria acontecer. o que foi
que houve? Por favor, Dyson, me diga, o que aconteceu? Preciso saber!
- Responda sinceramente, Anne Newman, você acha que sou o tipo de homem
que se aproveitaria de uma moça inconsciente?
- Você não fez nada comigo? - Foi mais uma afirmação do que uma pergunta
e Anne notou que ele tinha ficado zangado com a desconfiança.
- Não, não fiz nada. E você pode levantar as mãos para o céu por ter
estado comigo. Quando penso que poderia ter escolhido qualquer outro
homem, fico gelado!
- Sinto muito, Dyson. - Não sabia se devia ter-se desculpado porque Dyson
pareceu ainda mais zangado.
- Teria sido bem feito, se tivesse pegado um homem com menos escrúpulos
que eu. Como pôde imaginar que eu ia me aproveitar da situação, quando
você não estava consciente para se defender?
Não entendia a razão para tanta fúria. Resolveu acabar com os mal-
entendidos.
- Você não sabia que eu tinha tomado as pílulas, podia até pensar que eu
estivesse bêbada, como acho que você também estava.
- Tem razão, tinha mesmo bebido demais. No entanto, fosse pelo efeito da
bebida ou dos comprimidos, você parecia tão apática que não me atraiu.
116
Como não? Você logo falou de me levar para o quarto.
Sabe, se você tivesse permanecido mais acordada, comu estava
no bar, provavelmente eu me teria forçado a. fazer alguma coisa. mas
quando se aproximou, gingando o corpo, e senti seu hálito de uísque,
desisti imediatamente de tudo.
- Então por que me levou para a cama?
apenas a coloquei na cama, Anne. Tirei seu vestido para
que você pudesse usá-lo na manhã seguinte e em seguida tirei seus
sapatos. A não ser por isso. não a toquei. Baixou os olhos, incapaz de
fitar Dyson novamente. Lágrimas sentidas brotaram de seus olhos,
inundando-os e escorrendo por seu rosto.
Sabia que tinha que ser assim. você não podia ter. eu
sabia, mas queria ter certeza. Precisava saber. Desculpe se o ofendi,
Dyson. mas precisava ter certeza. - Não tentava esconder as lágrimas e a
voz começava a lhe faltar. - Foi uma pena que não tivesse me contado
antes.
Você chegou quase a me implorar que não dissesse nada.
No entanto, Dyson, você deve ter percebido que... foi por
que pensei que tivesse acontecido que.
Ficou furiosa. Ele devia saber tudo que ela sofrera apenas por imaginar
que eles tinham tido uma relação mais íntima. Por que ele não tinha
contado a verdade? Por que tinha agido como se ela fosse uma vagabunda,
pronta a se deitar com qualquer homem? Ela sentiu uma vontade enorme de
machucá-lo, dar-lhe um tapa, um ponta pé, gritar, pelo menos para
demonstrar a raiva que sentia.
Deveria ter dito. não é, Anne? Muitas vezes tive vontade de
lhe dizer a verdade, mas...
Mas deve ter adorado deixar que eu me maldissesse por alguma
coisa que não tinha acontecido! Como deve ter se divertido às minhas
custas!
Nada disso. Não sou esse diabo que está imaginando. Pode
acreditar quando disse que queria lhe contar tudo. Sabia que para você
era muito importante saber que continuava intocada, que não tinha havido
absolutamente nada entre nós naquela noite, mas por razões só minhas e
muito egoístas, deixei que continuasse na dúvida.
Não tinha entendido. Que razões ele poderia ter? Dizia que eram egoístas,
mas por quê?
- Não acha que, pelo menos, eu mereço saber quais são essas razões
egoístas que mencionou?
Dyson levantou, obrigando-a a ficar em pé também. O que Anne ouviu a
deixou tão surpresa, que abriu bem os olhos para se certificar de que não
estava sonhando.
- Diz o velho ditado que quem ri por último ri melhor, Anne. Chegou sua
vez de rir, porque aconteceu o inesperado. Eu. acabei me apaixonando por
você.
- Por mim? - Ainda não podia acreditar no que ouvia.
- É a pura verdade. Fiquei apaixonado por você. Sei que não acredita,
como eu mesmo custei a acreditar, mas precisava descobrir por que é que
tive vontade de matar meu irmão quando o vi segurando-a nos braços,
aquele dia, na escada de casa.
Não duvidava da sinceridade de Dyson, mas era felicidade demais para
poder ser verdade.
- Sentiu ciúme de Simon? - perguntou apenas para ganhar tempo e para se
acostumar com a idéia de que Dyson a amava. Era um sonho dourado que se
tornava realidade!
- Ciúme é uma palaVra muito delicada para o que senti quando vi Simon
saindo de seu quarto de madrugada. Passei o resto da noite num inferno e
foi por isso que judiei tanto de você quando a levei a meu escritório.
Depois me culpei muito, porque a deixei muito assustada. Mas na hora
estava tão desesperado de ciúme que não via nem pensava em nada.
- Dyson... Sinto tanto que tudo isso tenha acontecido! Anne queria se
referir ao tempo precioso que tinham perdido com desentendimentos e
desencontros, mas Dyson achou que ela lamentava o fato dele amá-la.
- Não precisa ficar triste, Anne. - Dyson baixou os braços, parecendo
completamente derrotado. - Não mereço mesmo que me ame, depois de tê-la
maltratado tanto. É natural que me odeie. embora tivesse esperança que
fosse diferente.
- Tivesse esperanças Dyson? Por que fala no passado, como se a esperança
não pudesse mais existir?
118
- Sabe, Anne, aquela noite em que conversamos muito em seu quarto e me
contou tudo que tinha passado, desde o acidente, a morte de seus pais, o
pesadelo e depois. a idéia de estar grávida.
- Ele parou, mostrando que partilhava do sofrimento dela. Quando a tive
nos braços, vi que perdia um pouco o controle de minha vontade, mas nem
liguei porque era uma delícia abraçá-la e sentir que você correspondia à
minha paixão. Queria você, mas não podia acrescentar mais dor à que você
já sentia.
- Meu querido, eu não imaginava...
- Mal dormi aquela noite, Anne. Pedia a Deus que você retribuísse o amor
que eu sentia. Não via a hora de ser dia novamente para que eu pudesse ir
a seu quarto e verificar se ainda demonstrava o amor que eu achava que
existia em seu coração. Quando deu sete horas, não agüentei mais e fui
vê-la. Queria apenas olhá-la e, se estivesse dormindo, teria ido embora.
Mas, como estava acordada, entrei.
- E eu não o recebi como esperava, não é, Dyson?
- Você me demonstrou claramente que o que tinha acontecido na noite
anterior tinha sido apenas o fruto de muita tensão emocional. Nunca me
senti tão vazio e desesperado.
- Dyson. - Ela queria lhe dizer como tinha se sentido, por que tinha
agido daquela forma, mas as palavras se recusavam a sair de seus lábios.
As lágrimas, no entanto, soltas, umedeciam seus olhos. Dyson confiava
nela, a ponto de pôr a alma a descoberto e contar o que se passava em seu
íntimo.
Dyson notou as lágrimas e num gesto repleto de carinho, passou os dedos
em seu rosto.
- Não pretendia fazê-la chorar, Anne. - Dyson levantou. É melhor eu ir
embora agora.
Anne segurou-o pelo braço, erguendo os olhos para o homem que amava.
- Fique, Dyson. por favor.
- Tenho que ir. Anne, enquanto ainda me restam forças para resistir. Por
mim gostaria de abraçá-la, beijá-la, fazê-la minha. Mas
se fizesse isso iria me odiar e não suporto sequer pensar que possa ter
ressentimentos contra mim.
- Jamais poderia odiá-lo. Não quero que vá, Dyson.
- Não precisa sentir pena de mim, Anne. - Ele se soltou e foi para a
porta.
- Amo você, Dyson.
Ele se voltou, uma expressão de descrença ainda amargurando seu rosto.
Olhou-a profundamente, como se quisesse adivinhar o que o coração de Anne
sentia.
- É verdade?
- Há muito tempo que sei disso, Dyson. Não posso lhe dizer quando
descobri que o amava porque nem eu sei, mas o fato é que o amo. Só não
demonstrei o que sentia porque não queria que me julgasse uma garota
fácil demais. Quando correspondi a seus agrados estava sendo sincera,
pois nunca na vida alguém me fez provar o amor, como você fez!
Por um momento Dyson apenas a olhou. Em seguida correu para ela. tomando-
a nos braços.
- Meu amor, você me deixou tão feliz! - Ele inclinou a cabeça beijando os
lábios ardentes que se abriam para recebê-lo.
Foi um beijo longo, carinhoso, repleto de amor.
- É incrível que tenha se apaixonado por mím, quando agi tão mal com
você! - Novamente ele a beijou não só nos lábios, mas nos olhos e no
rosto. - Querida, precisa me responder. Quer casar comigo?
- É a coisa que mais quero no mundo!
Dyson a carregou nos braços, dando voltas com ela, feliz demais para se
controlar. Ele a apertava contra o peito, como se pudesse imprimir sua
marca naquela mulher que amava tanto.
- Jurei a mim mesmo que se conseguisse tê-la nos braços de novo. nada
iria me impedir de torná-la minha.
Dyson a beijou de novo, demonstrando todo o amor que enchia seu coração
de alegria. Anne se encostava a ele, deixando que a satisfação plena de
amar e ser amada tomasse conta de seu ser.
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- Dyson, depois que descobriu que eu não era quem julgava a princípio,
por que não me disse nada?.
- Quando descobri sua verdadeira personalidade, e o quanto a amava,
desejei ardentemente que você também me amasse. Foi então que percebi que
não havia feito nada para fazer você gostar de mim.
Não quis interrompê-lo, mas sabia que ele não estava sendo justo consigo
mesmo. Ela não podia esquecer o carinho e a atenção com que Dyson havia
cuidado dela quando estava montada em Bluebell. Ela já o amava então, só
não tinha tido coragem para admitir.
- Quando você partiu de Moor View. já tinha resolvido que ia deixar
passar um pouco de tempo para depois começar a conquistá-la. Tinha até
pensado em lhe telefonar e convidá-la para jantar, para
começar tudo de novo, como se não tivessem havido problemas
entre nós.
- Então com meu telefonema estraguei os seus planos? - ela
falou com um sorriso carinhoso.
- Seu telefonema foi o melhor presente que poderia ter recebido. Teria
levado mais tempo para lhe confessar meu amor, mas iria, ser paciente e
perseverante, até que você ficasse irremediavelmente perdida de paixão -
ele brincou.
- Estou quase arrependida de ter ligado. Não gostaria de perder esse
tempo de namoro.
- Vai ter muito mais que isso, prometo.
- Por que resolveu vir até aqui hoje mesmo, Dyson?
- Helen me disse que você parecia muito perturbada no telefone. Fiquei
louco para vê-la e acho até que exagerei na velocidade. Não via a hora de
estar frente a frente com você, contar-lhe toda a verdade e sentir que a
tinha aliviado de qualquer medo ou angústia. Mesmo que depois disso nunca
mais quisesse me ver, estava disposto a livrá-la de seus pesadelos.
- Amo você. Dyson, por tudo que você é.
Eles se abraçaram, unindo os lábios num beijo carinhoso, em que puseram
todo o amor que sentiam.
Nesse momento, o barulho de sinos romperam os ares, enquanto buzinas
tocavam e o mundo parecia se iluminar. Dyson e Anne olharam para o grande
relógio que estava na sala de jantar e viram os
dois ponteiros unidos no doze, indicando que o novo ano estava prestes a
começar.
- Terminamos um ano difícil, Anne, mas o próximo vai ser o mais feliz de
nossas vidas.
- Ele vai ser o primeiro de uma série de anos muito felizes, Dyson. Tenho
certeza disso. Feliz Ano Novo, amor.
- Para nós dois.
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Fim

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