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lingüistica funcional:

teoria e pratica
Maria Angélica Furtado da Cunha
Mariangela Rios de Oliveira
Mario Eduardo Martelotta (orgs.)

Este livro apresenta-se com quatro palavras


pesadas: IingüÎstica, funcional, teoria e
pratica. Os pesos sac ponderados nas duas
primeiras, com complicaçao para 0
intérprete habituado a lidar cam as ciências
humanas, pois a funcional da lingüistica é
distinto do funcional da antropologia. Aqui
se trata de um tipo de abordagem que
privilegia 0 contato empfrico com os dados,
sem comprometer-se com os pressupostos
do funcionalismo c1assico.

o terceiro termo, teoria, dissipa parte das


duvidas do profissional da linguagem e
das pessoas interessadas na tematica
da ecologia da linguagem. A teoria
abordada e elaborada neste livra origina-se
de uma reaçao à Iingüfstica formalista,
desencadeada na Costa Geste dos Estados
Unidos nos anos 1970, tendo camo figuras
de praa Talmy Giv6n, Sandra Thompson e,
mais recentemente, Joan Bybee. A teoria
construiu-se e constr6i-se mais em termos
reativos do que proativos, pois os
squisadores avançam num constante
rcfcio de ensaio-e-erro, a partir dos
tulados formulados por Giv6n em 1979,
sua monumental On understanding
mar. Figura/fundo, transitividade,
icidade e gramaticalizaçao apresentam-
como pedras de toque do movimento.

termo pratica é mais ambicioso e,


portanto, mais prablematico. Em sua
., primeïra acepçao, pratica aponta para as
analises empfricas de fenômenos sintaticos
Lingüistica funcional: teoria e pratica
Lingüistica funcional: teoria e prâtica
Maria Angélica Furtado da Cunha
Mariangela Rios de Oliveira
Mario Eduardo Martelotta (orgs.)

Revisao de provas
Daniel Seidl

Projeta grâfico, diagramaçao e capa


Carolina Falcâo

Gerência de produçiio
Maria Gabriela Delgado

CIP-BRASIL. Catalogaçao-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livras, RJ

Lingüistica funcional: teoria e pratica / Maria Angélica


Furtado da Cunha, Mariangela Rios de Oliveira e Mario
Eduardo Martelotta (orgs.) Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

144p., 14 x 21 cm
Inclui bibliografia
ISBN 85-7490-240-3

1. Lingüistica 2. Comunicaçâo 1. Titulo.


Maria Angélica Furtado da Cunha
Mariangela Rios de Oliveira
Mario Eduardo Martelotta (orgs.)

Lingüistica funcional: teoria e pratica

Eduar Kenedy Areas


Lucia aria Alves Ferreira
arcos Antonio Costa
Maria Maura Cezario
Victoria Wilson Coelho

~APER.I
•~~"'ChII!I-R""'''''
Poo.qu.... __
RIo .... - - . . .
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DP&A..
edi1::ora..
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Impresso no Brasil
2003
j
/

Para Sebastiiio Votre,


criador do grupo de estudos Discurso & Gramâtica,
amigo e mestre de todos nos
Sumario

Prefacio
Anthony Nara 9

Introduçâo 11

A visâo funcionalista da linguagem


no século XX
Mârio Eduardo Martelotta
Eduardo Kenedy Areas 17

Pressupostos teôricos f1. ndamentais


Maria Angélica Furtado da Cunha
Marcos Antonio Costa
Maria Maura Cezario ) 29
A mudança lingüistic
Mârio Eduardo rtelotta 57

Estabilidade e continuidade
semântica e sintatica
Lucia Maria Alves Ferrei ra 73

Lingüistica funcional aplicada


ao ensino de português
Mariangela Rios de Oliveira
Victoria Wilson Coelho 89

Rumos da lingüistica funcional


Maria Angélica Furtado da Cunha
Mariangela Rios de Oliveira
Mârio Eduardo Martelotta 123

Bibliografia comentada 129


Referências bibliograficas 131

Sobre os autores 139


Prefacio

Ao final da década de 1970 surgiu no Rio de Janeiro uma nova


corrente de pesquisa lingüîstica orientada sobretudo para 0 estudo
do uso da lîngua em situaçoes diversas no mundo real. No inicio, as
pesquisas concentravam-se principalmente na ârea de
sociolingüistica e varia - 0, corn um certo direcionamento para
questoes relacionadas a s reflexos da diacronia na sincronia. A
principal fonte intelectual era a obra de William Labov. Ja na década
seguinte, 0 espectro de estudo ampliou-se corn a inclusao da
orientaçao teôrica funci nalista norte-americana e, mais tarde, corn
um interesse especia ara 0 fenômeno da gramaticalizaçao.
o grupo ori . al, comprometido corn essas pesquisas, hoje é
conhecido coma Programa de Estudo sobre 0 U50 da Lîngua (Peul).
Na década de 1990, um de seus fundadores, 0 professor Sebastiao
Josué Votre, estimulado pela professora canadense Dianne Vincent,
criou outro grupo mais especific31nente voltado para investigaçoes
funcionalistas sobre 0 relacionamento entre Discurso e Gramâtica
(D&G), nome que adotou para 0 novo projeto. Esse nova grupo
inspirou-se principqlmente nas idéias de Sandra Thompson, Wallace
Chafe e Talmy Givôn.
o grupo D&G, em 1996, publicou um considerâvel toma de
pesquisas intitulado Gramaticalizaçiio no português do Brasil: uma
abordagem funciona1. Essa obra era dirigida aos niveis de graduaçao
e pâs-graduaçao das universidades e apresentava uma sintese das
pesquisas originais do grupo. 0 presente livro, por sua vez, constitui
uma tentativa de dialogo corn os professores de lîngua materna
interessados nas recentes contribuiç6es da lingüîstica à sua pratica

DP&A editora
10 LingüÎstica funcional: teoria e pratica

pedagôgica. Além dissa, oferece um resumo de suas principais


descobertas e conclus6es sobre 0 funcionamento do português do
Brasil em situaçao de comunicaçao. Trata-se de uma abordagem de
cunha didâtico, corn introduç6es te6ricas a cada subârea de estudo
e aplïcaç6es ao português do Brasil. Tenho certeza de que a livra
possibilitarâ a introduçaa de orientaç6es p6s-gerativistas à
camunidade acadêmica mais ampla.

Anthony Nara
Professar titular de Lingüîstica
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Introduçâo

Lingüîstica funcional: teoria e prtitica, como


titulo informa,
0

contempla duas faces ia


investigaçao do uso da Hngua: 0
"tratamento introdut6rio de prindpios e pressupostos do
funci~.r:!alisI!l9....:D-Q!te-am~~icano
~a$-IP-panhados de consideravel
cxemplificaçao, e a exerdC~',O de aplicaçao desse aparato ao ensino-
é.1prendizagem de lîngua m terna no Brasil. A produçao desta obra
teve coma ponto de parti a um relat6rio, com 0 mesmo titulo,
produzido par Sebastiao Josué Votre em 1992, e que até hoje tem
sida muito utilizado em squisas voltadas para a anâlise fundonal.
~

~.
A relevânciadest 'vro configura-se, prindpalmente, devido à
é~~~~de
.,
'-', ....
- rial correspondente ou afim em circulaçâo no
_... ~,~._"~~., ...,

mercado editorial nacional. Via de regya, a referência bibliogyafica


de orientaçâo funcionalista encontra-se em lîngua estrangeira,
circula fundamentalmente em alguns cursos de p6s-graduaçâo stricto
sensu e os resultados de pesquisa nao sao considerados em termos
de sua aplicabilidade mais sistematica nas salas de aula de lîngua
portuguesa e mesmo de lingilistica. Evidencia-se, pois, a importância
de uma publicaçâo coma a que ora apresentamos à comunidade
acadêmica,
Lingüîstica juncional: teoria e prtitica é um empreendimento dos
'--------,--,;------:=----:-":
, membros do grupo de estudos Discurso & Gramatica (D&G), que
congyega pesquisadores da UFRJ, UFRN, UFE Uerj e UniRi~rata­
se do resultado da fase atual de nossos estudos, mais modalizada e
reflexiva, preocupada também cam as quest6es que cercam a
realidade educaciànal em nosso paîs em seusdiversos nîveis.
o gyupo D&G, que se dedica à pesquisa funcionalista, corn ênfase

DP&A editora
12 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

nos fgDÔ.l}1~_!19~s,de continuidade, variabilidade e mudança do


portuguès, telYL n~s qu~~t6~~·c~~rfossintâticâs~~~ foco de inve~tigaçao.
Nessa tarefa, privilegiam-se nao so as estratégias de codificaçao mais
sistemâticas e regulares do usa lingüîstico, como também san
consideradas estruturas menos convencionadas, à margem da
gramâtica, principalmente em relaçao ao que é proposto pela
descriçao narmativa.
Além da orientaçao teorica, é marca do grupo 0 tratamento de
mesma fonte empîrica de pesquisa - os textos constituintes do Corpus
Discurso & Gramatica: a Zingua jalada eescrita no Brasil, que consiste
em um banco de dados da comu;Yd estudantil de cinco cidades
" brasileiras: Rio de Janeiro (RJ),/Natal (RN), uiz de Fora (MG), Rio
'.' r:. ~,: !-,.----.~- .---~--,--- ..-.

Grande (RS) e Niter6i (RI). Esses textos, co~~.tados e or9~nizados nos


anos 1990, distribuem-se em cinco tipologias: narrativa de experiència
pessoal, narrativa recontada, relata de procedimento, descriçâo de
local e relata de opiniâo. Os informantes, divididos igualmente
entre sexos masculino e feminino, distribuîdos em todos os nîveis
de ensino, nas faixas etârias respectivas, foram convidados a produzir
~"t"l textos orais e, a partir dessa primeira etapa, redigiram 0 material .
. ).' Tl.' .
--;::,\ escnto correspondente. Trata-se, portanto, de um corpus relevante
l' para a tratamento da interface fq!a.__ x escrita, ârea privilegiada naf!)
atual fase da pesquisa sobre a funcionamento da lîngua em situaçao
de comunicaçâo, além de perspectiva bastante contemplada nos
recentes documentos legais sobre 0 ensino-aprendizagem de lîngua
portuguesa no Brasil.
Nos parâgrafos a segllir, apresentamas uma sîntese do conteûdo
de cada capîtulo. Yale ressaltar que, embara sob a responsabilidade
de distintos autores, todos membros do grupo D&G, os capitulos
compôem um so projeta, um todo orgânico, que se inicia na clâssica
distinçâo entre os polos formalista e funcionalista dos estudos
lingüisticos, passa pela apresentaçâo dos pressupostos teoricos do
ûltimo pâlo na vertente norte-americana, discute e exemplifica a
mudança e seu contraponto, a continuidade, de acordo corn essa

il q ~~~~~Ç;~~?j;,s;!:~~n~~;7~a~~J~,ce:,;;~Jâ~(;n~~~~~e~ta~âZ kb
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e 1 S~J ({liC, tC>~. \ >,·..i,l
Introduçao 13

te6rica funcionalista e sua aplicaçâo à resoluçao de quest6es


atinentes ao ensino-aprendizagem de lîngua materna no Brasil, e,
por fim, apresenta e discute os rumos dessa corrente, as pr6ximas
tarefas a serem cumpridas na investigaçao lingüistica de carater
funcional. Esses capîtulos obedecem, pois, a uma seqüência, que se
orienta do menas para 0 mais especîfico, do global para 0 pontual,
da teoria para a prâtica e as novas tendências.
o primeiro capîtulo, sob a responsabilidade de Mârio Eduardo
Martelotta e Eduardo Kenedy Areas, traça uma breve historia dos
----
estudos lingüisticos na Europa e nos Estados Dnidos, demonstrando
que, a partir de Saussure, as pesquisas nessa ârea caracterizaram-se
pela alternância de duas grandes tendências te6ricas: uma atribuia
à funçao comunicativa das 1nguas 0 papel predominante; a outra
dava ênfase à forma lingüist ca, ficando suas funç6es em segundo
pIano. Esse capitulo for ece material para que se possam
compreender melhor as te dências funcionalistas da atualidade e
as opç6es te6ricas e met ol6gicas que as distanciam dos estudos
formalistas.
No segun capitulo, elaborado por Maria Angélica Furtado
da Cunha, Marcos Antonio Costa e Maria Maura Cezario, sao
introduzidos os pr~_!"!<:Jp~~~!~~~cos do funcionalismo, tais coma ,
iconicidade, marcaçao, transitividade, pIanos discursivos, /'/A--'~~,,'J,-
informatividade, gramaticalizaçâo, discursivizaçâo, cielo funcional f<J (1'
e unidirecionalidade. Esses princîpios sao apresentados, /le
primeiramente, em sua formulaçao original e, em seguida, em sua
versâo refarmulada, praposta pela grupo D&G a partir da aplicaçâo
dos mesmos nas pesquisas desenvolvidas. Cada um dos canc~itas é
exemplificado corn dadas dos trabalhos jâ realizados pelos membras
dogrupa.
o terceiro capîtulo, redigida por Mârio Eduardo Martelotta, C3,
apresenta uma proposta de a~~!i_~~_~~J!d~~alingüistica corn /'
base em prindpios funcionalistas, demanstrando que, no que se
refere à trajet6ria hist6rica das lînguas, determinadas estruturas
modificam-se, enquanto outras se mantêm intactas. 0 capîtulo
14 LingüÎstica funcional: teoria e pnHica

prop6e que 0 fenômeno da mudança lingü:istica nao pode ser


entendido segundo uma diacronia linear, ja que existem tendências
de natureza cognitiva e conversacional, que agem regularrnente sobre
os elementos lingilisticos, levando-os a ter seus valores modificados.
No quarto capitulo, Lucia Maria Alves Ferreira reune evidências
de estabilidade sintatica e semântica na lingua portuguesa, a partir
da analise contrastiva de enunciados representativos de diferentes
sincronias, e na üngua latina. Nos exemplos, observa-se a natureza
sistematica e estavel das relaç6es polissêmicas, dos usos e das
construç6es em que se encontram os itens focalizados. A analise
problematiza 0 prindpio da unidirecionalidade concreto > abstrato
na derivaçâo, no curso do tempo, de novos sentidos e usas para os
itens lingü:isticos.
o capitulo quinto, dedicado à apli~~ao do funcionalismo ao
e~~~Il5?=.~J?!~~.dizagemdo português, elaborado par Mariangela Rios
de Oliveira e Victoria Wilson Coelho, tem camo um dos objetivos
predpuos farnecer aos professores de Hngua portuguesa e aos
estudantes de graduaçâo e pôs-graduaçao uma releitura de alguns
fenômenos e categorias lingüisticas tematizados ao longo dos
capitulas anteriores. Sao abordados alguns objetivos do ensino de
Hngua partuguesa de acordo corn os prindpios postulados pelos
Parâmetros Curriculares Nacionais, que, ao privilegiarem uma
perspectiva gramatical de natureza interativa e produtiva, vêm ao
encontro da orientaçao funcionalista que concebe a gramâticae a
l:ingua em funçâo do usa, ou seja, numa perspectiva pragmatica.
Dessa forma, propôem-se algumas sugest6es de atividades que
envalvem 0 binômio fa la x escrita, além daquelas que tratam dos
gêneros discursivos, a fim de proporcionar ao leitor uma
possibilidade de allar a teorizaçâo lingü:istica à prâtica pedag6gica
em sala de aula.
1:
,~. ~~E fiIE, Maria Angéllca Furtado da Cunha, Mariangela Rios de
Oliveira e Mario Eduardo Martelotta apresentam e discutem os
ru~9.~ da pesquisa lingüistica de orientaçâo funcionalista no Brasil.
Apôs apontar para as tendências atuais da referida area de
lntroduçao 15

i Ilvestigaçâo, os autores destacam os desafios a serem enfrentados


neste nova milênio, fundamentalmente os relativos ao viés multi- e
1ransdisciplinar que deverâ marcar os estudos da linguagem, em
termos tanto internos, coma a interface corn a sociolingüistica e os
l'studos de pidgins e crioulos, quanta externos, par intermédio do
diâlogo corn a filosofia, a antropologia e a educaçâo.
1
A visâo funcionalista da linguagem
no séculoXX

Mario Eduardo Martelotta


Eduardo Kenedy Areas

A lingüîstica do século XIX, em suas pesquisas de ordem


eminentemente hist6rico-c mparativa, deixou um importante
legado teôrico, sobretudo po intermédio dos neogramâticos e de
lingüistas comoHumboldt, oreen e Svedelius (MALMBERG,1974).
Entretanto,o surgimento lingüîstica moderna é normalmente
identificado corn 0 apa, imento do Cours de linguist_ique générale ct (
de Saussure, em ~ partir de entâo, conforme prop6em Dirven
c Fried (1987), très noçoes bâsicas passaram a caracterizar a evoluçâo
da lingüîstica no século XX: sistema,
'00 _o, _o o estrutura
_ o .,.L e junçtio.
.0._._. .

A noçao de sistema deve-se a Saussure. De acordo corn


Benveniste (1976), a novidade da doutrina saussu~na reside
L'xatamente na visâo de lîngua como sistema, que (prevê uma
prioridade do todo em relaçao aos elementos que 0 comp6em.
o terma sistema mais tarde foi substituîdo pelo termo estrutura:
Illna vez aceita a visan de que a Zingua constitui um sistema - um
conjunto cujos elementos agrupam-se num todo organizado -,
('umpre analisar-lhe a estrutura. Foi a tendència que se desenvolveu
!la lingüîstica a partir da publicaçao do Cours, tendo sua primeira
t 'xpressao nos trabalhos do Circulo Lingüistico de Praga, a partir de

1028. 0 estruturalismo foi, entâo, adquirindo novos adeptos, como


()s que fundaram a Escolaode Copenhague. Hjelmslev (ap. BENVENISTE,
J976) define novamente 0 dominio da lingüistica estrutural:

DP&A eclitoril
18 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

Compreende-se por lingüistica estrutural um conjunto de pesquisas


que se apôiam numa hipotese segundo a quaI é cientificamente
Iegitimo descrever a linguagem coma sendo essencialmente uma
entidade autônoma de dependências internas ou, numa palavra,
uma, estrutura.
;
"
,-, r}: . ,
L. .. s?;!
.r
c·e. +., î
Î'" / Svl-M
~ 1 1

A anâlise lingüîstica estava, entao, restrita à rede de


dependências internas em que se estruturam os elementos da lîngua.
No que se refere ao Cîrculo Lingüistico de Praga, Fontaine (1978)
indica outras influências, além das provenientes de Saussure, que
levaram os lingüistas a se dedicar ao estudo da lôgica interna do
sistema da lingua. Essas outras influências provinham do filôsofo
Husserl e, principalmente, da teoria da Gestalt (KoFFKA, 1935), que se
deu par meio de seu freqüente contato corn a psicôlogo alemao
Karl Bühler.
A estreita relaçâo corn Bühler parece ter dada à lingüîstica de
Praga uma feiçao diferente das outras escolas estruturalistas
européias. Nas palavras de Fontaine (1978, p. 40), ele foi 0" avalista
filosôfico do aspecta funcionalista do estruturalismo praguense",
ja que via a funçâo corna um elemento essencial à linguagem. Essa
concepçao nao pode ser atribuîda a Saussure, que deixou de fora
dos estudos lingüîsticas os aspectos relacionados à funçao, a partir
do momenta em que propôs a distinçao entre langue e parole, fazendo
da primeira 0 objeta de estudo da lingüîstica. Essa estratégia teôrica
retirou da âmbito dos estudos lingüîsticos 0 interesse por passîveis
influências sofridas pela estrutura gramatical das lînguas,
provenientes de aspectas pragmatico-discursivos.
A noçâo de funçiio é um pouco mais problematica, na medida
em que varios autares a utilizam para caracterizar suas analises, que
nem sempre apresentam caracteristicas semelhantes. Segundo
NichaIs (1984),funçiio é um termo polissêmico e nao uma coleçao de
homônimos. Todos os sentidos do termo de certa forma se
relacionam, par um lado, à dependência de um elemento estrutural
corn elementas de outra ordem ou dOffiinio (estrutural ou nao-
estrutural) e, par outro lado, ao papel desempenhado por um
J\ visao funcionalista da linguagem no século XX 19

~ 'Iemento estrutural no processo comunicativo, -ou seja, a funçao


~ '( Hllunicativa do elemento.

Os te6ricos de Praga utilizaram a noçao de funçao nesses dois


~;l'ntidos. De acordo corn Nichols (1984), a Escola de Praga praticou
lima variante do que ela chama fJlnçiio/!!!J!zçfio, na medida em que
f( lCalizou a relaçao do elemento cam 0 sistema lingüistico coma um
lodo. A noçao de funçao como relaçao, tal coma proposta por
Nichols (1984), prevê a relaçao de um elemento estrutural corn ou
(lentro de uma unidade estrutural maior. 0 status de funçâo/relaçao Çc 1

(lp6e-se ao status categorial, nao fazendo este ûltimo referência a y 1


lIIua ordem maior, mas simplesmente caracterizando a entidade l
('omo um portador de propriedades. !:v,! tI U Ir, Y l'co. fl'J ( N'
Nao é essa, entretanto, marca do funcionalismo dos lingiiistas
de Praga. 0 que caracteriz u suas analises foi a adoçao de uma
Iloçao ~~ de funça (para eles, a lingua deve ser entendida
('omo um sistema funcion , no sentido de que é utilizada para um;
determinado fimjNas pa vras de Fontaine (1978, p. 22), referindo-
st' ao Cîrculo Lingiils· de Praga, a intençao do locutor apresenta-
li

se coma a expli çao mais natural' em analise lingüistica: essa


1

i ntençao do locutor é que fundamenta 0 discurso".


Dessas informaç6es, pode-se concluir que 0 estruturalismo nao
foi um movimento unificado, apresentandol ao contrariol aspectos
distintos de acordo corn diferentes autores. Dirven e Fried (1987)
prop6em que as varias abordagens da lingüistica estruturat
herdeiras da concepçao saussuriana da linguageml variavap-\
lambém de acordo corn a ênfase dada à significância da funçfio em
seus modelos te6ricos l podendo dividir-se em dois grandes p6los:
il) pâlo formalista, no quaI a analise ressalta a forma lingüîstical ) (Y\
ficando sua funçao num pIano secundârio; (cR9
b) p6lo funcionalistal no quaI a funçâo que a forma lingüfstica
desempenha no ato comunicativo tem papel predominante.
Essa visao bipartida das tendências dalingüistica atual, embora
desconsidere algumas divergências, é compartilhada por outros
'lUtores, como Schiffrin (1994) e Kato (1998).
20 Lingü[stica funcional: teoria e prMica

o polo formalista
o pâlo formalista caracteriza-se/ em termos gerais/ pela tendência
a analisar a Hngua coma um objeto autônomo/ cuja estrutura
independe de seu usa em situaç6es comunicativas reais. Segundo
Dirven e Fried (1987)/ a tendência para a pâlo formalista pode ser
vista entre os lingiiistas da Escala de Copenhague. ADinamarca tem
forte tradiçâo nos estudos da linguagem/ cam lingiiistas coma Rask/
Madvig/ Noreen e Jespersen/ mas foi cam Hjelmslev/ Uldall e,
anteriormente, Br0ndal que a lingüîstica tornou-se mais formaI e
abstrata. Nota-se nos trabalhos desses lingüistas "um marcante
interesse filosâfico e, em particular, lâgico" (LEPSCHY, 1971/ p. 61).
Hjelmslev (1975, p. 3) prop6e que a lîngua nao deve ser
interpretada coma a reflexo de um conjunto de fatos nâo-
lingiiîsticos/ mas coma uma "unidade encerrada em si mesma, camo
uma estrutura sui generis". Assim considerada, a lîngua apresenta
um carater abstrato e estatico, ja que é dissociada do ato
comunicativo.
o pâlo formalista teve sua mais forte expressâo no descritivismo
americano (Bloomfield/ Trager/ Bloch, Harris, Fries)/ mas foi aplicado
mais rigorosamente nos sucessivos modelas de gerativismo. Embora
os estudos lingüîsticos tenhmn sida dominados pela gerativismo,
que mantém uma forte tradiçâo até os dias de hoje/ a polo
funcionalista permaneceu vigoroso. Abordagens gerativas
alternativas/ coma a semântica gerativa, ou a gramatica dos casas
padem ser vistas coma um esforço/ no paradigma formalista/ de
questianar algumas das propastas desse paradigma, par UID ângula
semântica-funcionalista (DIRVEN e FRIED, 1987).

o polo funcionalista
o pâla funcionalista caracteriza-se pela concepçâo da lîngua
camo um instrumenta de camunicaçao, quel coma tal, nao pode ser
analisada coma um objeto autônomo/ mas coma uma estrutura
maleavel, sujeita a press6es ariundas das diferentes situaç6es
comunicativas, que ajudam a determinar sua estrutura gyamatical.
A visao funcionalista da linguagem no século XX 21

o p6lo funcionalista também pode ser visto em algumas escolas


lingüisticas p6s-saussurianas da Europa no século XX. Saussure
influenciou mais de perto a Escola de Genebra, cujas principais
representantes sao Charles BaUy, Albert Sechehaye e Henri Frei.
Enquanto Sechehaye limitou-se basicamente a discutir as idéias de
Saussure, BaUy, nas palavras de Leroy (1982, p. 94),

atacando 0 dificil problema da relaçao entre 0 pensamento e sua


expressâo lingüîstica, renovou a estilîstica, definindo-a como 0
estudo dos elementos afetivos da linguagem e dedicando sua
atençao aos desvios que 0 usa individual (a fala) é levado a impor 'j 0l
j

ao sistema (a lîngua).

Essa proposta baseia-se no fato de que nao ha separaçao


intransponivel entre esses dois aspectos da linguagem, posiçao
te6rica por definiçao funcionalista. Por sua vez, Frei notabilizou-se
par sua analise referente aos desvios da gramatica normativa, que,
segundo sua proposta, nao sao fortuitos, mas constituem tendências
conseqüentes da necessidade de comunicaçâo, constituindo,
portanto, uma rica fonte de estudos lingüisticos. Frei se fez 0
promotor da lingüistica de base funcionat que associa os fatos
lingüisticos a determinadas funç6es a eles relacionadas.
Essa influência chegou até Mar'tinet, que, de acordo corn
Mounin (1973), manteve freqüente contato corn os principais
lingüistas de Praga, sobretudo corn ITubetzkoy, par quem foi bastante
influenciado. Para Lepschy (1971, p. 101), Martinet e Jakobson sao
"os dois herdeiros mais importantes, no pensamento lingüistico
internacional, da Escola de Praga".
A herança funcionalista deixa também suas marcas nas escolas
de Londres, em que, por meio de Halliday, desenvolveu-se uma
tendência a estudar as linguas de um ponto de vista funcionaI.
Mathiessen (ap. NEVES, 1997, p. 58) afirma que a gramatica funcional
de Halliday esta baseada no "funcionalismo etnogrâfico e [no]
contextualismo desenvolvido por Malinowski nos anos 1920
[MACEDO, 1998], além da lingüistica firthiana da tradiçao etnognifica
de Boas-Sapir-Whorf e do funcionalismo da Escola de Praga".
22 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

A propensâo a analisar a lingua de um ponto de vista funcional


também estâ presente no grupo holandês. Reichling adotou a
postura funcionalista, influenciando a gramâtica de Dik (NEVES,
1997), que trabalha corn uma concepçâo tele?16gic~?~ linguagem.
Para Dik, 0 principal interesse de uma lingüîst1ca funcionalista estâ
nos processos relacionados ao êxito dos falantes ao se comunicarem
por meio de expressôes lingüîsticas.

o funcionalismo nos Estados Unidos


Como visto anteriormente, a lingüîstica norte-americana foi
dominada por uma tendência formalista, que se enraizou corn
Leonard Bloomfield e se mantém até hoje corn a lingüîstica gerativa.
Entretanto, houve paralelamente uma inclinaçâo para 0 pâlo
funcionalista. Franz Boas nao influenciou apenas 0 descritivismo,
principal vertente lingüîstica dos EVA, mas também a tradiçâo
etnolingüîstica de Sapir e Whorf, assim como os trabalhos de
Bolinger, Kuno, Del Himes, Labov e muitos outros etno- e
sociolingüistas. Certamente, os ûltimos passos dados por antigos
gerativistas, como Langacker e Lakoff, que aderiram à gramâtica
cognitiva,l devem ser vistos como uma franca caminhada em direçâo
l
~ ••, j ao pâlo funcional (DIRVEN e FRIED, 1987).
A lingüîstica cognitiva caracteriza-se por adotar alguns
pressupostos contrârios à tradiçâo formalista. Entre esses
pressupostos estâ, por exemplo, a idéia de que a signi~ se
------=
baseia numa relaçâo entre sîmbolos e dados de um mundo real de
vida independente, mas no fato de que as palavras e as frases
assumem seus significados no contexto, 0 que implica a noçâo de
que ;SConceitos decorrem de padr6es criados culturalmente.

1 Salomao (1999) admite que a ênfase na acessibilidade da linguagem a seu uso


aproximaria 0 enfoque cognitivista à tradiçao funcionalista, mas acrescenta
que as analîses funcionalîstas da Costa Oeste americana e dos grupos
centralizados par Halliday e Dik na Europa estao ainda influenciadas pela
tradiçâo estruturalista, apresentando as seguintes caraeterîsticas: a) mantêm
o foco no significante; b) nao desenvolvem a importância do contexto,
reduzindo-o a um conjunto de variaveis inorgânicas; c) prop6em, de um
modo geral, uma abordagem estatica do significado.
r.........--------------------
A visâo funcionalista da linguagem no século XX 23

Os cognitivistas propôem também que 0 pensamento provém da


canstituiçao corporal humana, apresentando caracteristicas
derivadas da estrutura e do movimento do corpo e da experiência
ffsica e social que os humanos vivenciam por meio dele. Além dissa,
o pensamento é imaginativo, 0 que significa dizer que, para
compreender conceitos que nao sao diretamente associados à
experiência fîsica, emprega metaforas e metonîmias que levam a
mente humana para além do que se pode ver ou sentir. Senda assim,
a sintaxe nao é autônoma, mas subordinada a mecanismos
semânticos que nossa mente processa durante a produçao lingilistica
em determinados contextos de usa.
ct-
Por outro lado, determinadas areas de pesquisa, coma a
mudança lingüîstica e crioulîstica,2 pareciam indicar as 1~:t!litgç6.et?
teorl~i~.fj~~~~âtica
....
,-.-,.,., ~"._
gerativa. Portanto,lingüistas de formaçao
.. -

gerativista foram buscando alternativas teôricas que abordassem


melhor os fenômenos por eles estudados. É 0 casa de Elizabeth
Closs Traugott, que, devido ao seu interesse por fenômenos
relacionados à mudança lingüîstica, passou a adatar a teoria da
gramaticalizaçao, focalizando os aspectos semântico-pragmaticos
da mudança. Segundo essa teoria, as formas lingüîsticas têm seus
usos estendidos por p~~._!1nidirecionais~_ml;Lq.l!.nça,
motivados pelo uso e por fatores de ordem cognitiva.
o termo juncionalismo ganhou força nos Estados Unidos a partir
da década de 1970, passando a servir de rôtulo para 0 trabalho de
lingüistas como Sandra Thompson, Paul Hopper e Talmy Givôn,
que passaram a advogar uma lingüistica baseada no uso, cuja
tendência principal é observar a lingua do ponto de vista do contexto
lingüistico e da situaçâo extralingüîstica. De acordo corn essa
concepçao, a sintaxe é uma estrutura em constante mutaçâo em
conseqüência das vicissitudes do discurso. Ou seja, a sintaxe tem a

2 Ârea de investigaçao de crioulos,linguas que se desenvolveram historicamente


de um pidgin. Em poucas palavras, 0 pidgin é uma forma relativamente
simplificada de falar que se desenvolveu pelo contato de grupos lingüisticos
heterogêneos, como 0 tok pisin (lingua de Papua-Nova Guiné, ilha ao norte
da Australia).
24 Lingüistica funcional: teoria e pratica

fonna que tem em razao das estratégias de organizaçao da informaçao


empregadas pelos falantes no momento da interaçao discursiva.
Dessa maneira, para compreender 0 fenômeno sintatîco, seria preciso
estudar a lingua em usa, em seus contextos discursivos espedficos,
pois é nesse espaço que a gramatica é constituîda.
o texto considerado pioneiro no desenvolvimento das idéias
da escola funcionalista norte-americana foi flThe origins of syntax
in discourse: a case study of Tok Pisin relatives", pliblicado par
Gillian Sankoff e Penelope Brown em 1976. Nesse traballio, as autoras
fornecem evidências das motivaç6es discursivas geradoras das
estruturas sintaticas de relativizaçao do tok pisin, lîngua de origem
pidgin de Papua-Nova Guiné, ilha ao norte da Austrâlia.
Em 1979, Talmy Givon, influenciado pelas descobertas de
Sankoff, publica "From cliscourse ta syntax: grammar as a processing
strategy", texto programatico da lingüîstica funcional, explicitamente
antigerativista, que afirma que a sintaxe existe para desempenhar
uma certa funçao, e é esta funçâo que determina sua maneira de ser.

Iconicidade, fala e pancronia


Uma maneira interessante de compreender 0 espîrito da
,
",
"

lingüistica funcional norte-americana é observar a refutaçâo,


proposta par Givon (1995), em relaçâo ao que ele caracteriza cama
t \'~J(;\' o~~s~~i~ da lingüîstica estrutural: a arbitrariedade do
\1'\ signa lingüistico, a-idealizaçâo
-- relacionada à distinçao entre langue
e parole, e a rigida divisâo entre diacronia e sincronia.
A dautrina da arbitrariedade separa, no signa lingüistica, a
significante do seu correlata mental, 0 sigtÜficada, deixando apenas
os dois termas observaveis da equaçaa: 0 signa e seu referente, a
que Givon caracteriza coma uma triste caricatura da visâa pasitivista
e behaviorista do significado coma referência externa. Essa posiçâo
parece dever-se ao fato de os estruturalistas (sabretudo os narte-
americanos) tenderem a naa trabalhar corn entidades mentais vagas
e pouco acessiveis à anâlise empirica, cheganda mesmo a negar a
A visao funcionalista da Iinguagem no século XX 25

existência de pensamento, ou qualquer estrutura mental organizada,


preexistente à linguagem.
Par outra lado, a pr6pria noçâo de arbitrariedade do signa, ao
menas em sua farmulaçâo mais radical, é questionâvel, de acordo
corn Bolinger (1975), para quem as lînguas saa em parte arbitrârias,
em parte icônicas - ou nao-arbitrârias. Saussure reconheceu que
havia exceç6es ao seu principio da arbitrariedlllie do signo lingüistico,
mas, s~~ann (1977, p. 169)," desprezou-as por serem pouca
importantes", assumindo uma postura diferente, nesse aspecta, de
lingiiistas camo Schuchardt e J e s p e r s e n . /
c' f
De fato, se c~ E~~'.l~~.~.~f9.E.~1!~E?9:~a.__ !.~~.I_~~.~.~~.~t.~~_?!! seja, à \
maneira formalista de obs ar a lingua fora de seu contexto de usa, i.
a que inevitavelmente merge diante da visâo do analista é uma
relaçao nâo-necessâ ·a - arbitrâria ou nâo-natural- entre uma
estrutura sa e um si·g~ifi~~ë.îo---(ouu~-ôbjetoreferente).
Entretanto, quando se muda a foco de anâlise para uma abordagem
voltada ao uso da lingua, observa-se a existência de mecanismos
recorrentes, que refletem um pracesso mais funcional de criar r6tulos
novos para novos referentes.
Ocone que, para c~iar novos rôtulos, 0 falante naa inventa
arbitrariamente séqfrências novas de sons, mas tende fortemente a
utilizar material jâ existente na Hngua, estendendo 0 sentido de
palavras, no que Ullmann (1977) chama motivaçiio semântica ('pé da
mesa", "coraçiio da cidade"), ou criando palavras novas, pelos
processos de derivaçâo ("apagadar", "leiteiro") ou camposiçâo
CU aguardente", "pâra-quedas"), utilizando um mecanismo que
Ullmann (1977) chama de motivaçiio morfol6gica. A esses dois junta-
se um terceiro mecanismo, chamado motivaçiiofonética, caracterizada
pelas anomatapéias (' cacoracô" ,"tilintar"), em que 0 sam da palavra
c1aramente imita a caisa designada.
Esses très mecanismas têm em comum 0 fato de serem motivadas
na sentido bâsico do termo: a palavra assume uma forma especîfica
por um motivo determinado. Assim, a palavra pé, par exemplo,
apresenta uma relaçao semântica corn as partes da mesa, destinadas
26 Lingüfstica funcional: teoria e prÉltica

à sua sustentaçâo, ou 0 tenno apagador deve-se ao fato de tratar-se de


um instrumenta utilizado para apagar 0 quadro, normalmente em
uma sala de aula. Esses mecanismos sao mais comuns porque
funcionam bem do ponto de vista comunicativo e cognitivo, no
sentido de que um processo baseado em decis6es puramente
arbitnirias seria mais custoso para 0 falante e, sobretudo, para 0
ouvinte. Em muitos casos, essa motivaçâo se perde quando a
mudança semântica faz a palavra afastar-se de suas origens.
No campo da sintaxe, os funcionalistas consideram mais
aceitavel a idéia da nâo-arbitrariedade. Para citar um exemplo,
quando narramos seqüências de aç6es coma "Cheguei em casa,
tomei um banho e fui dormir", nâo ordenamos as clausulas
arbitrariamente, mas de acordo corn a ordem em que elas ocorreram
na realidade. A essas tendências, que se manifestam paralelamente
à arbitrariedade, refletindo algum tipo de motivaçâo, os
funcionalistas chamam iconicidade. Também sao explicados pelo
prindpio da iconicidade aspectos relacionados à extensâo da
sentença, assim coma à ordenaçâo e à proximidade dos elementos
lingüisticos que a comp6em, dependendo de fatores como
complexidade semântica, grau de informatividade dos referentes
no contexto e proximidade semântica entre conceitos.
Outro dogma estruturalista refere-se à idealizaçâo associada à
distinçâo entre langue e parole. Corn essa dicotomia, Saussure
1
V"
estabeleceu uma diferença entre 0 que é geral e 0 que é individual e,
conseqüentemente, entre 0 que é essencial e 0 que é acidental, ou
entre 0 que é regular e 0 que é fortuito. Para 0 trabalho do lingüista,
importavam somente os fatas relativas à langue, senda dispensada
atençâo diminuta à fala individual. TaI perspectiva difere muite
pauca da lingüistica gerativista no que se refere à distinçâa entre
competência e performance. Ambas as concepç6es priorizam a lingua
em detrimento da fala, considerando esta nao mais que mera
manifestaçâo das possibilidades de um sistema independente.
o pasicionamento funcianalista em relaçâo a esse aspecto
consiste em dar nova relevo ao discurso individual, passando a
A visao funcionalista da linguagem no século XX 27

compreendê-Io coma nîvel gerador do sistema hngüîstico. Este,


por sua vez, é definido à maneira de um corpo moldâvel e em
constante transformaçao. Nesse sentido, nao hâ coma separar a
langue da parole: 0 acidentaI ou casuaI que caracteriza 0 discurso
passa a ser a gênese do sistema, que, por sua vez, alimenta 0 discurso.
A proposta de Lichtenberk (1991), segundo a quaI existe uma relaçâo
simbi6tica entre discurso e gramâtica, é um 6timo exemplo dessa r~;
concepçao de linguagem. ...\ ' .
A dicotomia sincronia x diacronia, compreendida coma dois'" ~
eixos separados e nao-intercambiâveis, é a terceiro dogma àc:
estruturalista a ser revisto pelo funcionalismo. Para Saussure, os
princîpios e as consideraç es da anâlise sincrânica e da anâlise
diacrânica nao se confu em e devem restringir-se a seu domînio
espedfico de aplicaç- . Ou seja, 0 trabalho sincrânico lida com
fenômenos do' ma que nao têm relaçao necessâria, sendo, por
vezes, incompativel com 0 trabalho diacrônico.
Entretanto, pesquisas em gyamaticalizaçao têm demonstrado
que, ao lado de fenômenos que mudam corn 0 tempo, existem
determinados aspectos que parecem manter-se ao longo da trajet6ria
das lînguas. Em outras palavras, hâ um conjunto de processof de
mudança que atuam corn relativa regularidade sobre os eleme~tos
lingüisticos, estendendo-Ihes 0 sentido. De uma perspec'tiva
hist6rica, esses processos podem dar a impressao de uma seqüência
de mudanças ocorridas no tempo; de uma perspectiva sincrônica,
a que se observa é UID conjunto de polissemias coexistindo.
A tendência que se percebe do funcionalismo norte-americano
a partir dos trabalhos sobre gramaticalizaçâo (HEINE, CLAUD! e
HüNNEMEYER, 1991; TRAUGOTI e HEINE, 1991; HOPPER e TRAUGOTI,1993)
é focalizar os mecanismos que geram a mudança camo senda
alicerçados emfatores comunicativos e cognitivas. Nesse sentido,
pode-se dizer que 0 funcionalismo tende a adotar uma cancepçâa
pancrônica de mudança (SAUSSURE, 1916/1973), observando naa as
relaç6es sincrônicas entre seùs elementos ou as mudanças percebidas
nesses elementos e nas suas relaç6es ao longo do tempo, mas as
28 LingüÎstica funcional: teoria e pratica

forças cognitivas e comunicativas que atuam no indivîduo no


momento concreto da comunicaçao e que se manifestam de modo
universal, jâ que refietem os poderes e as limitaç6es da mente
humana para armazenar e transmitir informaç6es.
Para resumir a visao funcionalista da linguagem, é interessante
o grupo de premissas com que Givôn (1995) caracteriza essa
concepçao:
• a linguagem é uma atividade sociocultural;
• a estrutura serve a funç6es cognitivas e comunicativas;
• a estrutura é nao-arbitrâria, motivada, icônica;
• mudança e variaçâo estâo sempre presentes;
• 0 sentido é contextualmente dependente e nâo-atômico;

• as categorias nao sao discretas;


• a estrutura é maleâvel e nao-rigida;
• as gramâticas sao emergentes;
• as regras de gramâtica permitem algumas exceç6es.

1
Pressupostos te6ricos fundamentais

Maria Angélica Furtado da Cunha


Marcos Antonio Costa
Maria Maura Cezario

o funcionalismo r güistico contemporâneo difere das


abordagens formalista - estruturalismo e gerativismo - primeiro
par conceber a lin~ em coma um instrumento de interaçao social
e segundo par seu interesse de investigaçao lingüistica vai além
da estrutura gramatical, buscando no contexto discursivo a
motivaçâo para os fatos da lîngua. A abordagem funcionalista
procura explicar as regularidades observadas nouso interativo da
lingua analisando as condiç6es discursivas em que se verifica esse
usa. Os dominios da sintaxe, da semântica e da pragm~ica sao
relacionados e interdependentes. Ao lado da descriçâo sit\ltâtica,
1

cabe investigar as circunstâncias discursivas que envolvem as


estruturas lingüisticas e seus contextos espedficos de uso. Segundo
a hip6tese funcionalista, a estrutura gramatical depende do uso
que se faz da lingua, ou seja, a estrutura é motivada pela situaçâo
comunicativa. Nesse sentido, a estrutura é uma variâvel dependente,
pois os usas da lingua, ao longo do tempo, é que dao forma ao
sistema. A necessidade de investigar a sintaxe nos termos da
semântica e da pragmâtica é comum a todas as abordagens
funcionalistas atuais.

Iconicidade e marcaçâo
Em lingüistica, iconicidade é definida coma a correlaçao natural
entre forma e funçâo, entre a c6digo lingüistico (expressâo) e seu

DP&A editora
30 Lingüistica funcional: teoria e pratica

designatum (conteudo). Os lingüistas funcionais defendem a idéia


de que a estrutura da lingua reflete, de algum modo, a estrutura da
experiência. Como a linguagem é uma faculdade humana, a
suposiçâo geral é que a estrutura lingüîstica revela as propriedades
da conceitualizaçâo humana do mundo ou as propriedades da
mente humana.
As discuss6es em toma da motivaçâo entre expressâo e conteudo
na lîngua remontam à Antigiiidade clâssica, corn a famosa polêmica
que dividiu os filôsofos gyegos em convencionalistas e naturalistas.
Enquanto os primeiros defendiam que tudo na lîngua era
convencional, mer a resultado do costume e da tradiçâo, os
naturalistas afirmavam que as palavras eram, de fata, apropriadas
por natureza às coisas que elas significavam. Essas especulaç6es
filos6ficas têm seus desdobramentas no debate posterior entre
anamalistas e analogistas acerca da (ir)regularidade da estrutura
lingüîstica.
No inîcio do sécula XX, essa controvérsia foi retomada por
Saussure, que adotau pasiçâo favorâvel à concepçâo
convencionalista, reafirmando 0 carâter arbitrârio da lîngua: nâo
existe relaçâo natural entre a "imagem acûstica" do signo lingüîstico
(0 significante) e aquilo que ele evoca conceptualmente (0
significado) .1
o fil6sofo Peirce (1940) discorda parcialmente da idéia de total
arbitrariedade, recuperando, em certa medida, a posiçâo adotada
pelos antigos naturalistas e conjugando-a à postura dos
canvencionalistas. Segundo ele, a sintaxe das linguas naturais nao

1 Nao parece haver uma correspondência estrita entre naturalistas x


convencionalistas, por um lado, e analogistas x anomalistas, par outro. Apesar
de aigumas afinidades, eles tinham preocupaç6es distintas e, de certa forma,
independentes. Enquanto naturalistas e convencionalistas discutiam a
relaçào entre as coisas do mundo" e suas designaç6es, anaiogistas e
U

anomalistas discutiam as regularidades do sistema lingüistico. Tomemos


Saussure camo exempio. Em reIaçao à conexâo entre significado e
significante, ele se alinha aos convencionalistas (arbitrariedade do signo
lingüistico); quanta ao carater regular e sistematico da lingua, ele se posiciona
junto aos analogistas (a lingua é um sistema).
Pressupostos te6ricos fundamentais 31

é totalmente arbitrâria, e sim isomârfica ao seu designatum mental.


No entanto, esse isomorfismo da sintaxe, ou correlaçâo transparente
entre fonna e funçao, nao é absoluto, e sim moderado. Na codificaçâo
sintâtica, principios icônicos (cognitivamente motivados) interagem
corn prindpios mais simbâlicos (cognitivamente arbitrârios), que
respondem pelas regras convencionais.
Peirce estabeleceu dois tipos de iconicidade: a imagética e a
diagramâtica. A primeira diz respeito à estreita relaçao entre um f
ri.
item e seu referente, no sentido de um espelhar a imagem do outro 1

(p. ex., pinturas, estâtuas); jâ a segunda refere-se a um arranjo icônico


de signos, sem necessâria intersemelhança. Ambos os tipos de relaçâo
icônica têm interessado a pe quisadores de orientaçâo funcionalista.
É corn Bolinger (1977 que a isomorfismo lingüîstico revela sua
face radical, quando R stula que a condiçao natural da lîngua é
preservar uma for para um sentido, e vice-versa. Estudos sobre
os proœ variaçao e mudança lingüîsticas, ao constatar a
existência de duas ou mais formas alternativas de dizer"a mesma
coisa", levaram à reformulaçâo dessa versao forte. Na lîngua que
usamos diariamente, especialmente na lîngua escrita, existem por
certo muitos casos em que nao hâ uma relaçâo clara, transparente,
entre forma e conteûdo. Ha contextos comunicativos emque a
codificaçao morfossintâtica é opaca em sua funçâo. Tom~das
sincronicamente, determinadas estruturas exibem acentuado grau
de opacidade em relaçâo aos papéis que desempenham. Assim,
encontramos correlaçâo entre uma forma e vârias funçoes, ou entre
uma funçâo e vârias formas. 0 uso do sufixo -inho ilustra 0 primeiro
caso. Essa forma, que originalmente indica tamanho diminuto, coma
em criancinha, desenvolveu-se para marcar afetividade, camo em
paizinho, pejoratividade, como em gentinha, ou ainda um valor
de superlativo, como em devagarzinho (R.J. SILVA, 2000). A funçâo de
impessoalizaçao do agente da açao verbal pode ser codificada, em
português, por vârios recursos: verbo na terceira pessoa do plural
(Construîram uma ponte na cidade"); particula se apassivadora
CConstruiu-se uma ponte na cidade"); voz passiva (Uma ponte·foi
construîda na cidade"); pronome indefinido ('i\lguém construiu uma
32 Ungüistica funcional: teoria e pratica

fl
ponte na cidade pronome de terceira pessoa do plural sem referente
);

fl
explicita ("Eles construiram uma ponte na cidade entre outros. ),

Em sua versâo mais branda, 0 prindpio de iconicidade


manifesta-se em três subprincîpios, que se relacionam à quantidade
de informaçâo, ao grau de integraçâo dos constituintes da expressâo
e do conteûdo e à ordenaçâo linear dos segmentos.
Segundo a subprincipio da quantidade, quanta maior a quantidade
de informaçâo, maior a quantidade de forma, de tal modo que a
estrutura de uma construçâo gramatical indica a estrutura do
conceito que ela expressa. Isso significa que a complexidade de
pensamento tende a refletîr-se na complexidade de expressâo (SLüBIN,
1980): aquilo que é mais simples e esperado expressa-se corn 0
mecanismo morfol6gico e gramatical menos complexo.
\ o subprincfpio da integraçiio prevê que os conteudos que estâo
mais pr6ximos cognitivamente também estarao mais integrados no
nivel da codificaçâo - 0 que esta mentalmente junto coloca-se
sintaticamente junto.
o subprincfpio da ordenaçiio linear diz que a informaçâo mais
importante tende a ocupar a primeiro lugar da cadeia sintatica, de
modo que a ordem dos elementos no enunciado revela a sua ordem
de importância para 0 falante.
Vejamos aIgumas aplïcaç6es da versâo branda do principio de
iconiddade. No estudo danegaçâo (FURTAOO DA CUNHA, 1996), a negativa
dupla fomece evidência favoravel ao principio icônico da quantidade:
1) ... ummotorista dele... nesse tempo ele... num era... num era um
motorista dele nao... era do hote!... porque ele fkau sem motorista...
(corpus D&G;Natal, p. 244).2

2 Na transcriçâo desse exempla, e nos demais de modalidade falada, foram


utilizados os seguintes critérios: a) ... - qualquer pausa; b) ( ) - incompreensâo
de palavra ou segmenta; c) / - truncamento; d) :: - alongamento; e) « )) -
comentarios descritivos do transcritar; f) [ ] ~ inforrnaçâo elucidativa
cornplernentar; g) (...) - trecho saltado; h) eh - fâtico; i) l}) - sintagrna ellptico.
É importante observar que na transcriçâo de falas adota-se 0 usa de
minûsculas, ao passo que na reproduçâo de textos escritos usam-se
normalmente as maitisculas quando necessario.
l'n~ssupostos te6ricos fundamentais 33

No discurso falado, a pronuncia do niio tônico que precede 0


vl'rbo freqüentemente se reduz ao num atono, ou mesmo a uma
si mples nasalizaçâo. Para reforçar a idéia de negaçâo, 0 falante utiliza
Il III segundo nao no fim da oraçâo, como uma estratégia para suprir

() cnfraquecimento fonético do niio pré-verbal e 0 conseqüente


l'svaziamento do seu conteûdo semântico. Assim, 0 acréscimo do
segundo niio tem motivaçâo icônica: quanta mais imprevislvel se
1orna a informaçao l mais codificaçâo ela recebe.
Em seu trabalho sobre os procedimentos de manifestaçâo do
sujeito, Costa (2000) utiliza 0 prindpio icônico da proximidade para
l'xplicar a ausência de concordância verbal em oraç6es em que sujeito
(' verbo encontram-se estrutur ente distanciados. A introduçâo de
material de apoio entre 0 suj . 0 e 0 verbol como 0 aposto do exemplo
<lbaixo, enfraquece a int açâo entre sujeito e predicado no pIano
do con 0 resulta na falta de concordância verbal:

2) Hâ pouco tempo atrâs, dois Mrbaros assassinatos, 0 da atriz Daniela


Perez e 0 da menina que foi queimada pelos sequestradores
ressuscitou a polêmica da Pena de Morte (corpus D&G/Natal, p. ~1).3
\

Em relaçâo ao principio da ordenaçâo linear, a dâssico exem~lo


citado é "Vim vi, vend"l cuja distribuiçâo das palavras na ora~âo
l

corresponde à seqüência cronolôgica das aç6es descritas. Ainda


outro exemplo: 0 trecho a seguir foi retirado de uma narrativa
recontada, em que 0 falante reproduz 0 filme Cemitério maldito.
Note-se que a apresentaçâo dos eventos narrados obedece à ordem
cronol6gica e 16gica em que ocorreram na trama:

3) ...0pai dele tava... tava tomando banho... 0 gato apareceu na... na


janela lâ do... do... do banheiro ele tava tomando banho na banheira .
ele pulou dentro e rasgou 0 ... 0 0 pai dele todinho num matou nao .
56 fez arranhar né?... depois ele pegou um cabo de vassoura... meteu
no gato e 0 gato foi embora... (corpus D&GINatal, p. 28).

1 Na exemplificaçâo da modalidade escrita, os textos sao apresentados


exatamente coma produzidos par seus autores.
34 Lingüfstica funcional: teoria e prética

Do que foi exposto, conclui-seque a lingua nao é um


mapeamento arbitrârio de idéias para enunciados: raz6es
estritamente humanas de importância e complexidade refletem-se
nos traços estruturais das lînguas. As estruturas sintâticas nao devem
ser muito diferentes, na forma e na organizaçao, das estruturas
semântico-cognitivas subjacentes. Como opçâo teôrica, 0 principio
da iconicidade, em sua formulaçao atenuada, permite uma
investigaçâo detalhada das condiç6es que governam 0 uso dos
recursos de codificaçâo morfossintâtica da lîngua.
o principio de marcaçiio, herdado da lingüîstica estrutural
desenvolvida pela Escala de Praga, estabelece três critérios principais
para a distinçâo entre categorias marcadas e categorias nao-marcadas,
em um contraste gramatical binârio:
a) complexidade estrutural: a estrutura marcada tende a ser mais
complexa (ou maïor) que a estrutura nao-marcada correspondente;
b) distribuiçao de freqüência: a estrutura marcada tende a ser menas
freqüente do que a estrutura nao-marcada correspondente;
c) complexidade cognitiva: a estrutura marcada tende a ser
cognitivamente mais complexa do que a estrutura nao-marcada
correspondente. Incluem-se, aqui, fatores coma esforço mental,
demanda de atençao e tempo de processamento.
Hâ uma tendência geral, nas lînguas, para que esses três critérios
de marcaçâo coincidam. Admite-se que a correlaçâo entre marcaçao
estrutural, marcaçâo cognitiva e baixa freqüência de ocorrência é 0
reflexa mais geral da iconicidade na gyamâtica, dada que representa
o isamorfismo entre correlatos substantivos (de natureza
comunicativa e cognitivaj"·~· ~~;~~ï~t~~f~;~~i~·d~~a;câçao:Assim,
• ,_.U'" .•_ .. ~ _ _ '""~""''-+'. ''W. ' - ••..,.".".......... ~ • • _.,.....,., ...., '"'-

as categorias que sao estrutura1mente mais marcadas tendem também


a ser substantivamente mais marcadas.
Givôn (1995) adrnite que Ulla mesma estrutura pode ser marcada
num contexto e nâo-marcada em outro, e acrescenta que, desse
modo, a marcaçao é um fenômeno dependente do contexto,
devendo, portanto, ser explicada corn base em fatores comunicativos,
l 'ressu postas teôricos fundamentais 35

socioculturais, cognitivos oubiolôgicos. Cita, C011'\O exemplo, que a


lendência para a ~erçao do agente como sujeito e tôpico da oraçao \rc
l ransitiva, que representa 0 caso n~cado, provavelmente reflete !,,~:
r
c

Lima norma cultural de falar egocentricamente mais acerca de seres \~


humanos volitivos do que sobre objetos inanimados.
Outra observaçao importante feita por Givôn é que a marcaçao
nao se restringe apenas às categorïas lingilisticas, mas pode estender-
se a outros fenômenos, como a distinçao entre 0 discurso formal e a '~:\,
conversaçao espontânea. Por tratar de assuntos mais abstratos e
complexos, 0 discurso formaI é mais marcado em relaçao à
conversaçâo informaI, que é cognitivamente processada corn mais
rapidez e facilidade, por se referir, em geraI, a assuntos comuns e
fisicamente perceptiveis do tidiano social.
A titulo de exemplo, 0 ntraste entre afirmaçao e negaçao ilustra 6
bem a atuaçao dos c . érios de marcaçao. Como afirmar algo é
cognitiv mais simples e esperado, portanto mais frequente
li
na interaçâo verbal, isso se reflete também na estrutura lingüistica, l
representando a (orma nao-marcada. A negaçao, ao contrario, por
ser mais complexa em termos cognitivos e menos esperada, é também
menos freqüente e estruturalmente maior (tem, no minimo, um
morfema a mais que a afirmativa), constituindo 0 casa marcado.
Entretanto, essa marcaçâo sera relativizada se considerarmos as
diferentes estruturas negativas em português (FURTADü DA CUNHA,
2000), tais coma:

4) nova regente... ela naD tava sabendo reger direito a regente do


... a
coral... tava errando lâ um monte de coisas... né? (corpus D&G/
Natal, p. 278).
5) ••• e
teve uma pessoa que chegou pra mim e perguntou... l'Gerson .
fl
você aceita fkar no cargo e tudo num sei que... eu disse... nao .
num aceito naD (corpus D&G/Natal, p. 178).
6) •.. tudo eu faço sabe? tem isso comigo naD... (corpus D&G/Natal, p. 264).

Essas três estruturas negativas nao se op6em binariamente, mas


se distribuem num contî:fiuo, exibindo diferentes graus de marcaçao
quanto à freqüência d'e uso, à complexidade estrutural ou à
l' ,1

i (1 ../ l'
/CO pi .~; (; ,:,,9· /)"( C:,'
\" .c' 1 ~
36 Lingüfstica funcional: teoria e pratlca

complexidade cognitiva. Considerando esses très critérios de


distinçâo entre estruturas marcadas e nao-marcadas podemos l

estabelecer a seguinte hierarquia que ordena as oraç6es negativas


de acordo corn 0 seu grau de marcaçao: negativa-padriio (ex. 4) >
negativa dupla (ex. 5) > negativafinal (ex. 6). Apesar de a negativa-
padrao ser marcada em relaçao à afirmativa esta clara quel das très l l

ela é a menas marcada sob todos os aspectos: a) quanta à freqüência


l l

é a que registra maior ocorrència; b) quanto à complexidade


estrutural é a morfologicamente mais simples; c) quanta ao contexto
l

de USOI é a menos marcada pragmaticamente pois pode ocor~r nos l

contextos que favorecem tanto a negativa dupla quanta a final Dado


\ 0 carater fluido e criativo da lingual é necessario adotar parâmetros

~r' de gradualidade na analise da marcaçao em vez de considerar as l

\ categor~as lingüîsticas em termos discretos ou binarios. j


A necessidade de superar a dicotomia marcado x niio-marcado l

redefinindo 0 prindpio de marcaçao também é questionada por l

Oliveira (2000)1 em seu trabalho sobre as oraç6es adjetivas. Exemplos


camo 7 e 8 em que se combinam informatividade do nûcleo SN4
1

(menor integraçao) e definiçao da adjetiva (maior integraçao)1 sao


os de maior freqüència nos corpora pesquisados:
7) As pessoas que 0 acusam confundem 0 ato de governar com
disposiçao e honradez (carta de leitor, Jornal do Brasil).
8) ... meuprimo estava dirigino uma camionete que estava sem Jreio...
(lîngua escrita, quarta série, corpus D&GlNiterôi).
"
'Z:
..
Os resultados preliminares a que Oliveira chegou na pesquisa
(; sobre a clausula adjetiva levaram-na a um impasse assim expresso
\,,~ ,
l

por ela: se a freqüència é 0 parâmetro de maior visibilidade e saliència


_\:: perceptual para a aferiçao da marcaçao entao teremos de admitir que l

. . . as adjetivas restritivas que sao mais integradas configuram-se coma


l l
"'-,
~ as nao-marcadas. Por outro lado seu maior vînculo semântico- l

sintatico é traço caracterizadorde complexidade estrutural e cognitiva l

o que as classificaria como formas marcadas face às explicativas.

SN = sintagma nominal.
" d
4

r\
j 1
'. . ,,,\_,e(-
1
c
t i~
'(
l l ,r
/:-.l
f..,A.\ ; ' ", _ !t: G\: \..
l 'IüSSUPOStos te6ricos fundamentais 37

Transitividade e pianos discursivos


Para a gramatica tradicional, transitividade refere-se à
1l'a nsferência de uma atividade de um agente para um paciente.
J':, portanto, uma propriedade dos verbos, classificados camo
1ransitivos, quando acompanhados de objeto direto ou indireto, ou
Î Il transitivos, quando nao ha complemento. Segundo a formulaçao

t Il' Hopper e Thompson (1980), a transitividade é concebida camo

lima noçao continua, escalar. Trata-se de um complexo de dez C!


IllHâmetros sintatico-semânticos
,.,-,.---~,----------~ ........,
independentes, que focalizan1
(1i ferentes ângulos aa transferência da açâo em uma porçâo diferente
da sentença. Sao eles: 1
<: _ .. v~
~ . . . ------...--.. '""-.,------ . . ----".,.:;:s> <II

Transitividade alta Transitividade baixa

1. Participantes
~'~_~'~._------~
/ dois ou mais
_~.~~
um

2. Cin ese
.-.~ ... " ~_--- ------- -- .- / - "._ ..•...•.. ,
açao
... .-'---"-"--
" ,._,_.~ ----- --_. '-'~_-
nao-açao

3. Asp ecto do ver perfectivo nao-perfectivo


.= .-._'------ " .-
4. Pun ctualidade do verbo punctual nao-punctual
.u_ _ _ _ _ _

5.lnte ncionalidade do sujeito intencional nao-intencional


-----,.• '.-'-.-" "' ._--------------------_. ------_._-,---,-- .....__._-_._... _..
~
.
~
_
6. Pol aridade da oraçâo afirmativa negativa
_~~ ___ ~ · ~ ~ ___.o.o_ f---.- -_....._.. ._-
7. Modalidade da oraçâo modo reafis modo irrealis
-_._~ __ ~_----~-~_-
-------_.
S.Age ntividade do sujeito agentivo nao-agentivo
_"_0 _________ -----,-- ___0-.___- --_.
"
'
~
9. Afetamento do objeto afetado nao-afetado ......:;,;,,,,
..
10. In dividuaçâo do objeto individuado nao-individuado
fJ ...-----t=.}' / uM 1".
rCit At!'> ,..? I/r!·{· ri.
·;CC:
r l.-.Y...!
"
Cada um desses parâmetros contribui para a ordenaçao de
()raç6es numa escala de transitividade. Assim, é toda a sentença que
(; classificada com9 transitiva, e nao apenas 0 verbo. A tîtulo de
ilustraçao, vejamos alguns exemplos, extraidos de uma narrativa
(lue reconta a filme Batman:
'Id) Batman derrubou 0 Pingüim com um soco.
'!h) A Mulher Gato nao gostava do Batman.
'JI} Esse rio tem uma forte correnteza.
38 Lingüistica funcional: teoria e pratica

Pela classificaçao da gramatica tradicional, as trés primeiras


sentenças sao transitivas, pois apresentam nm objeto coma
complemento do verbo. Segundo a formulaçao de Hopper e
Thompson, 9a é a que ocupa lugar mais alto na escala de
transitividade, uma vez que contém todos os dez traças do complexa:
dois participantes (Batman e Pingüim); verbo de açao (derrubou);
aspecto perfectivo (verbo no passado); verbo punctual (açao
completa); sujeito intencional; oraçao afirmativa; oraçaorealis (modo
indicativo); sujeito agente (Batman); objeto afetada e individuado
(Pingüim - referencial, humano, pr6prio, singular).
Ocupando 0 segundo lugar na escala de transitividade, temos
9d, clàssificada coma intransitiva pela gramâtica tradicional. Essa
oraçao contém sete traços: cinese; aspecto perfectivo; verbo
punctual; sujeito intencional; polaridade afirmativa; modalidade
realis; sujeito agente.
A oraçao 9b esta mais abaixo na escala, pois apresenta quatro
traços positivos: dois participantes (Mulher Gato e Batman), objeto
individuado (Batman), perfectividade do verbo e modalidade realis.
Por ultimo, a oraçao corn menor grau de transitividade é 9c, que s6
apresenta os traços modalidade (realis) e polaridade (afirmativa).
Hopper e Thompson associam a transitividade a uma funçao
( discursivo-comunicativa: 0 maior ou menor grau de transitividade
de uma sentença reflete a maneira coma 0 falante estrutura 0 sen
discurso para atingir sens prop6sitos comunicativos. A
universalidade do complexo de transitividade parece residir no
fato de que os parâmetros que 0 comp6em estao relacionados ao
J.. .event()5~~sa.1 pfototlpico, qu~_ ~..~~.~!l.i.g..2.E??:10 um evento em que
~. um agente animado intencionalmente causa uma mudança nsica e
, perceptivel de estado ou locaçao em um objeto. Sao esses os eventos
que a criança percebe e codifica gramaticalmente mais cedo. Ha,
portanto, nma correlaçao entre os traços que caracterizam 0 evento
causal prototipico e os parâmetros que identificam a oraçao transitiva
canônica. Desse modo, por refletirem elementos cognitivamente
salientes, ligados ao modo pela quaI a experiência humana é

',~ 1
Pressupostos te6ricos fundamentais 39

apreendida, os parâmetros da transitividade assinalam elementos


salientes no discurso.
A transitividade oracional esta relacionada a uma funçâo
~-------- --.,
pragmâtica. 0 modo como 0 falante organiza seu texto'é
.. .....
,.'" '~ ...... _--~

determinado, em parte, pelos seus objetivos comunicativos e, em


parte, pela sua percepçâo das necessidades do seu interlocutor.·
Nesse sentido, a texto apresenta uma distinçâo entre 0 que é central
e a que é periférico. Para que a comunicaçâo se processe
satisfatoriamente, ou seja, para que os interlocutores possam
partilhar a mesma perspectiva, 0 emissor orienta a receptor a respeito ,.
. "",\.~

do grau de centralidade e de perifericidade dos enunciados que C' \1


constituem seu discurso. Em termos de estrutura de texto, ou de
plan~s,a divisâo entre centr~l?..~lj.cocorresponde à y},!f
distinçâo entre figura e fundo. 0 grau de transitividade de uma rR/2-;
oraçâo reflete sua funçâo discursiva caracterfstica, de modo que
oraç6es cam alta transiti~dade assinalam porç6es centrais do texto,
correspondentes à fi,gufa, enquanto oraç6es com baixa transitividade
marcam as porç6es periféricas, correspondentes ao fundo. Hâ,
portanto, uma correlaçâo forte entre a marcaçâo gramatical dos
parâmetros da transitividade e a distinçâo entre figura e fundo.
Por figura entende-se aquela porçâo do texto narrativo que
àpresenta a seqüência temporal de eventos concluidos, pontuais,
afinnativos, realis, sob a responsabilidade de um agente, que constitui
a comunicaçâo central. Jâ fundo corresponde à descriçâo de aç6es e
eventos simultâneos à cadeia da figura, além da descriçâo de estados, /;,
da localizaçâo dos participantes da narrativa e dos comentârios
avaliativos. Vejamos a seguinte fragmenta, extraido de uma narrativa
falada de um informante do ensino médio:' . \
10) .•• al quando vinha aH no rio Tietê... num sei se você conhece... jâ
ouviu falar... lâ de Sâo Paulo... quando vinha lâ do rio Tietê... tava
chovendo muito..: a pista escorregadia né? ai 0 carro perdeu 0
controle... 0 motorista perdeu 0 controle né?... aî quando ele viu
que 0 carro ia cair dentro do rio... ai eIe... colocou 0 carro num... pra
cima de outro carro... que tava um casaI de namorado assim ...
namorando... (corpus D&G/Natal, p. 222).
40 Lingüistica funcional: teoria e pratica

Figura Fundo

...al quando vinha ali no rio Tietê...


num sei se você conhece... ja ouviu
falar... la de Sao Paulo... quando
vinha la do rio Tietè... tava chovendo
muito... a pista escorregadia... né?
ai 0 carro perdeu 0 controle...
o motorista perdeu 0 controle... né? ..
ai quando ele viu que 0 carro ia cair
dentro do rio...
.. ~--_._---

ai ele... colocou 0 carro num...


pra cima de outra carro...
-
que tava um casal de namorado
assim... namorando...
- --~-----

o texto acima mostra oposlçao de tempo, aspecto e


dinamicidade: as sentenças da coluna da figura contêm perdeu
e colocou, verbos punctuais no tempo perfeito, enquanto no fundo
apresentam-se oraç6es que contextualizam 0 evento narrado, corn
comentarios descritivos e avaliativos do narrador.
o fundamento cognitivo para plana discursivo, corn suas
'fimens6es originais de figura e fundo, provém da psicologia
;gestaltista: identifican10s mais prontamente as entidades que se
! apresentam em primeiro pIano, coma figuras bem-recortadas e
fi
1 focalizadas, em oposiçao a tudo 0 mais, que passa a ser percebido
contrastivamente como em plana de fundo.
Tipologicamente, a lingua portuguesa é classificada como
sendo de ordenaçao SVO (sujeito-verbo-objeto), ou seja, a posiçao
tipica, nao-marcada, do sujeito é anterior à do verbo. As construç6es
oracionais em que 0 sujeito é deslocado, ocupando posiçao posterior
à do verbo, parecem limitar-se a certos contextos discursivos. Par
exemplo, a estrutura VS corresponde, normalmente, às circunstâncias
que estao fora da seqüência narrativa propriamente dita (fundo),
conforme a seguinte exemplo:
Pressupostos te6ricos fundamentais 41

Il) 0 drama começa quando a secretaria de um empresario descobre


que 0 seu patrao quer construir uma usinanuc1ear, nao para gerar
energia, e sim para sugar energia da cidade. 0 patrao chega
repentinamente no escrit6rio e flagra a secretaria mexendo em seus
documentos. Temendo ele que a secretaria resolvesse contar a todos,
ele tratou de mata-la empurrando-a pela janela do escrit6rio que
ficava no andar muito alto de um edificio (corpus D&G;Natal, p. 317).

Figura Fundo

o drama começa quando


1 - - - - - - '- - - - ,
a secretâria de um empresârio
descobre que a seu patrao quer
construir uma usina nuc1ear,
nao para gerar energia, e sim para
sugar energia da cidade.
-

o patr"o chegn rcpentinan~,


no escrit6rio e flagra a secre' ria
mexendo em seus docum tos.

/ Temendo cie que a secretâria


resolvesse contar a todos,
.-~--~

eie tratou de mata-la empurrando-a


pela janela do escrit6rio
i
--1--------------------
1
que ficava no andar muito alto
1
de um edifîcio.
1 --_._-- --,---- ...... , .....--,--" -._--,-_._----,---,.,--_." .. , ---, ,-- -_ ..... , ____________ - _ •• 0_ _ _ -
. ". .._-,_ ....
-_.~~_ ,."._~._ ... ,._--'"--".-

Extrapalanda a daminio da narrativa, Martelatta (1998) testa a(


possibilidade de aplicaçâo dos parâmetros da transitividade a outras
lipos de gênero textual, demonstrando que as noç6es de figura e
fundo também podern ser extremamente uteis na analise de desoiç6es, C
relatas de procedimento ou relatas de opiniâa. Mostra que um tipo 6
de texto pode servir de fundo a outro tipo textual. Dm trecha narrativo, \~
por exemplo, em um contexto maior nào-narrativo, pode servir de \
fundo, pois, neste caso, esta em posiçao secundaria em relaçaa ao
foco central do texto. Em situaç6es como essas, a seqüência narrativa
('In segundo plana pode apresentar-se, ao mesmo tempo, camo figura

l'm relaçâo a outra nao-narrativa de nîvel inferior. Para ilu~trar esse

1)( mta, tomemos 0 segtiinte fragmenta de um relata de opiniào falado,

dl' um aluno da oitava série do ensino fundamental: ~


42 Lingüfstica funciona/: teoria e prâtica

12) E: Emerson... quaI é... a sua opiniâo acerca da pena de morte? você
acha que é um... uma forma correta de... de... punir por um crime?
você acha que se a pessoa comete um crime barbaro até hediondo
coma a gente... coma a gente vern... tem ouvido falar você acredita
que a pena de morte é... é uma soluçâo?
1: eu acho que nao... ha pouco tempo... ha pouca tempo atras houve
dois casos que... fez corn que ressuscitasse a polêmica da pena de
morte no Brasil... foi 0 assassinato da Dan! da atriz Daniela Perez e
de uma menina que foi seqüestrada e depois queimada... as pessoas...
pela emoçao... achavam que deveria ser implantado a pena de
morte ... mas cada casa é um caso... (corpus D&G/Natai, p. 313).

Respondendo à pergunta do entrevistador, 0 informante da


sua opiniao sobre a pena de morte. Nesse caso, a seqüência narrativa
encontra-se num pIano de fundo em relaçao ao foco principal do
texto. Contudo, essa mesma seqüência sobressai como figura quando
comparada ao trecho em que ele faz 0 esc1arecimento quanta à
opiniao das pessoas acerca dos acontecimentos narrados.
Atualmente nao se trabalha mais corn a concepçao dicotômica
de figura e fundo. AIgumas pesquisas (TOMLIN, 1987; SILVElRA, 1991)
mostraram a necessidade de redefinir a categoria pIano discursivo,
nao mais em termos binarios, e sim como um continuum, cujos pâlos
seriam a superfigura, do lado mais :?aliente oUJelevante,
< ·_.c. _____
'-.. ~-
e
··--'--"'C"_' .-",-, ~- .....

\
superfundo, do lado mais difuso ou vago. Observe-se nesse sentido
nm fragmenta do corpus de Silveira (1991), sobre a mae que acorda a
filha para a escola:
13) Ai... ela acordou... ela tava dormindo... aî ela levantou... penteou 0
cabelo... aî fol foi la onde tava a filha dela aî €la acordou a filha
dela... aî vestiu ela... pôs a mesa para 0 café elas tomaram café...

Figura Fundo

Ai... ela acordou...


ai ela levantou...
ela tava dormindo...
penteou 0 cabelo...
al fol foi la

onde tava a filha dela...


..---"
ai ela acordou a filha dela...
al vestiu ela...
pôs a mesa para 0 café...
elas tomaram café...
----
Pressupostos teôricos fundamentais 43

fÎ ~A A }~f J
/"? ..,/"" S

Na coluna da figura, a clâusula aî ela acordo1faftlh~ dela tem um


nîvel mais proeminente do que aî ela acordoû~ Podemos perceber
também que as duas clâusulas em fundo têm graus distintos de
fundidade, jâ que uma apenas localiza a filha, enquanto a outra dâ T
conta de uma caracteristiça a mais, ao identificar 0 estado progressivo
de dormir.

1nformatividade _.'. <'1


l,
A informatividade manifesta-se em todos os rnveis da codificaçâc,
lingiiistica e diz respeito ao que os interlocutores compartilham, ou
supoem que compartilham, na interaçâo. Do ponto de vista
cognitivo, uma pessoa comunica-se para informar 0 interlocutor
sobre alguma coisa, que pode ser algo do mundo externo, do seu
prôprio mundo interior, u algum tipo de manipulaçâo que
pretende exercer sobre e e interlocutor. .J
Tradicionalment parte da clâusula que apresenta a informaçâo
velha-é-El-e
.... -
Inada tema,
<-
enquanto a parte que apresenta a
informaçâo ~a é denominada ~e!!!a. Alguns exemplos presentes (
cm l.lari e Geral3i (1985) s.erâo retoma~os.a.qui: . . )
l,/à qu~J;.;u~~~ ~~~~e:,J:ca~:1r~? ·~ ~{ '1 " , '} r 'I
Desta vez, 0 carteiro trouxof'uma encomenda.J Gkt7 (à-f"(QA" C Vl/ Ci l)
Isla que fez, desta vez})' ~~;~?
I-Oesta vez, 0 carteiroC~rouxe uma encomenda.J ç...;;c...o f'·'--(ij:1>!/t C L~' [ I~
rQueri\1trouxe a encomenda?
1li)
~ carteiroJtrouxe a encomenda.

No exemplo 14,0 tema é a carteiro trouxe e 0 rema é uma encomenda;


no exemplo 15, 0 tema é 0 sujeito e 0 rema é todo 0 predicado; no
t 'xemplo 16 verifica-se 0 contrârio: 0 tema é 0 predicado e 0 rema é 0

~';II jeito. Na lîngua oral, a ênfase é 0 recurso mais usado para delimitar
1) status informacional da clâusula. Aqui a anâlise foi feita mediante

t 'xcmplos descontextualizados, mas, num texto real, 0 que se verifica

('t lin freqüência é a informaçâo velha estar contida no sujeito (tema)

,'il nova,nop.redicadoou p~rte. dopre~~ç~do (ren~a?·i. ). 1/"1'\' . \.. r


/\î dll.,
0 t\'(YVv1Çf.l ~t\çv'v:~ ((V l") A VOOf!C1
[ . ,..{I. '-1'" - 1 .. L l',.
(i'dlAl1ffî) '
(' C f C.<l
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! ;"...
/l';"
r.'-. \1 (\ li} ., li -fl
. /'
C( 1/; '1 ' ~ v
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Il·t,(""-ï
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Cf. )
if""
....,
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(,
r
.... r,·
'.
r t'
;i .. ' l"
\èV\) r~l'\''/vv
y
f\ "" r ' l
1
44 LingüÎstica funcional: teoria e pratica

-
o primeiro esforço para formular um rnodelQ~cie._. Qiêcurso em
que 0 grau de co~~~igH~!}tQ_çQmpélrtilhadod esempenha um papel
.

essencial deve-se a :ertDs:e (1981).0 domînio que tem registrado mais


avanço refere-se à coclificaçâo da informaçâo nos referentes nominais.
Mesmo aquÎ, as tipologias de status inforrnadonal sâo ainda muito
incompletas, e as escalas propostas como refinamento da dicotomia
c1assica entre informaçâo velha e informaçâo nova nâo cobrem todos
os casos e concentram-se exclusivamente nos nomes.
A partir do trabalho de Prince, muitas pesquisas foram realizadas
para a descriçâo do status informacional dos nomes em varias
lînguas, entre as quais 0 português. Dm dos trabalhos em que 0
tema é tratado com profundidade é a obra de G6rski (1985)/ da quaI
é retirada a maioria dos exemplos desta seçâo.
A questâo da informatividade é abordada na lingüfstica
funcionalista principalmente a partir da cIassificaçao semântica e
da codificaçâo de referentes no discurso, demonstrando que a forma
f como um referente é apresentado no discurso é determinada por
. ,.:{J \ fatores de ordem semântico-pragmâtica. Segundo Lyons (1981)/
le a referência é a relaçâo que se estabelece entre expressôes lingüfsticas
\,
'--------
e 0 que elas representam no mundo ou no universo discursivo.
Muitos lingüistas utilizam a noçâo de referência. No entanto, 0
conceito é de diffcil formulaçâo, porque a relaçâo entre referente e
;denominaçâo envolve questôes de diferentes ordens coma quest6es
/ de ordem psicolôgica e social. Quando, por exemplo, uma criança
1 chama gato e cachorro de au-au, ela esta tomando como parâmetro
( para a denominaçâo 0 traço Il quadrû pede'l; ou, quando a criança
I;;J
. usa um sô nome para se referir a frutas camo maçâ e laranja, ela
) tem camo parâmetro os traços 11forma" (drculo) e IItamanho".
A categorizaçâo dos objetos ou dos eventos nâo depende apenas da
percepçâo, mas também da interpretaçâo e do desenvolvimento
cognitivo. 0 adulto, devido às suas experiências, utiliza outros traços
para dar nomes a diferentes seres.
Chafe (1977) postula que, antes da produçâo discursiva, a falante
tem em mente apenas uma idéia geral acerca do evento. À medida
Pressupostos teôricos fundamentais 45

que produz 0 discurso, esse falante organiza e detalha 0 conteûdo


ao mesmo tempo que situa os seres no evento e assinala os papéis
que eles desempenham por meio de uma categorizaçao adequada
(CHAFE, 1977; GbRSKI, 1985). Chafe enfatiza 0 processo criativo da
verbalizaçao, uma vez que a estruturaçao da idéia dâ-se no momento
da enunciaçâo. 0 estudo da codificaçao de referentes é importante
para entender a estruturaçao discursiva.
o trecho da narrativa oral a seguir apresenta alguns recursos
morfol6gicos para a codificaçao de referentes. Entre eles, destacam-
se os sintagmas nominais:·
17) foi uma situaçao dificil... né? eu nao sei... eu nao sei onde que engloba
isso mas eu fui a Petrôpolis corn uma amiga que nunca tinha subido a
serra estava dirigindo ha poueo tempo (...) quando a gente esta
voltando eomeça a chovelJ assim... torrencialmente... e fura 0 pneu do
carro dela e a gente nunc 'nha trocado pneu... nenhuma das duas...
e aquela serra totalmen deserta... né? aî a gente encostou 0 carro
assim do lado... 0 carro" oi puxando (...) meu eoraçao assim disparado...
a gente desespera ... (...) desatarraxando tudo (...) a gente... demorou
umpouqu-i 0 ... né? aî a gente entrou no carro... estava tudo molhado
(...) paramos num posto... pra ver se estava tudo bem atarraxado e
tal... ai a mecânico falou que... (<p) nao sabia quaI 0 homem que tinha
apertado aquilo ((tiso)) (corpus D&GlRio de Janeiro).

A partir desses elementos destacados, algumas questoes sao


levantadas:
a) que levaria um informante a produzir uma anâfora zero ao
0
invés de um SN pleno ou Ulll pronome em que ~ nao sabia quaI 0
homem que tinha feito aquilo? (0 sîmbolo q> representa urn sintagma
elîptico);
b) por que 0 informante apresenta um SN longo corn uma clâusula
adjetiva em uma amiga que nunca tinha subido a serra?
c) por que a expressâo 0 mecânico é apresentada coma uma ~
informaçao definida, se é a primeira vez que aparece no texto?
d) por que a segunda mençao da expressao a carro, em ai a gente
encostou 0 carro assim do lado... 0 carro ja foi puxando é codificada
por meio de um SN pleno mesmo quando a sua ûltima mençao
estâ muito prôxima.(a informaçao é previsivel)?
c) por que hâ tantos recursos gramaticais para codificar referentes?
46 LingüÎstica funcional: teoria e prâtica

Essas e outras questôes saD tratadas pelos lingüistas


funcionalistas no estudo do tema injarmatividade. .
l', Prince (1981, p. 235) classifica os referentes (ou entidades) do
1 (') ~ discurso a partir da noçâo de conhecimento compartilhado, que é assim
" descrito: "0 falante assume que 0 ouvinte conhece, admite ou pode
. y inferir aIgo particular (sem estar necessariamente pensando nisso)".
Organiza as entidades em três grupos: novas, evocadas e infenveis.
\ "~ Dm referente é nova quando é introduzido pela primeira vez
1
no discurso (camo no exemplo 18). Quando 0 referente é
{"}l inteiramente novo, é chamado novo-em-jolha. Se ja esta na mente do
...- .'! '\

ouvinte, por ser geralmente um referente ûnico (num dado


X:-~ contexto), é chamado disponîvel. Sao exemplos de referentes
disponiveis termos como a lua, 0 sol, Pelé ou Petrôpolis (como no
'x< exemplo 19). Os referentes novos-em-folha podem vir ancorados a
outras entidades, como é mostrado no exemplo 20, em que 0 referente
um rapaz é novo, mas apresenta uma clausula adjetiva que ancora" Il

esse referente a um referente conhecido, que é a pessoa que fala (eu).

18) Comprei um carro semana passada.


19) ... mas eu fui a Petrôpolis.
20) Um rapaz com quem trabalho foi assaltado ontem.

Dm referente pode ser evocado ou velho se jâ tiver ocorrido no


texto (referente textualmente evocado) ou se estiver disponivel na
situaçao de fala (referente situacionalmente evocado), camo os
prôprios participantes do discurso:
21) al 0 mecânico falou que... (p) nao sabia quaI 0 homem que tinha
apertado aquilo ((riso)) (corpus D&G/Rio de Janeiro).
22) Você poderia me dizer as horas?

Para Chafe (1976), a distinçâo entre novo e evocado (ou velho) é


determinada pelo falante e esta relacionada ao conhecimento que
! ele presume que 0 ouvinte tenha. Assim, numa frase coma seu IIVi

J,\ ~::~:~~;:0~:~:::~::~~~:i~~~i;f,~;~~:;i~}~~~:t:~~,
L" l ' C' A / " ' T\-r'i'
"
.
VV"\ 1''(
(l'
ut "t-u (1/'\) 0\-4./) C /i1
1 .•
\,'" ~ If-; a. /~() )' I.J~"{
..' "
C\ ': [, itq p.' I..J r ~.
"~ c;. 1 +\]'\ ~ 1 ~V;1 n!l( >1\j Pt 1., i ~.
Pressupostos te6ricos fundamentais 47

Dm referente denomina-se inferivel quando é identificado por


meio de um processo de inferência (exemplos 23 e 24) a partir de
outras informaçoes dadas. As entidades inferiveis padern estar
contidas em outras que jâ fazem parte do modela de discurso,
camo evocadas ou mesmo inferiveis, coma nos exemplos 25 e 26.
Os referentes inferiveis geralmente sao codificados corn um artigo
definido:
23) 0 ônibus parou e 0 motorista desceu.
24) .•. paramos num posto... pra ver se estava tudo bem atarraxado e
ta!... ai 0 mecânico falou que... nao sabia quaI 0 homem que tinha
apertado aquilo ((riso») (corpus D&G/Rio de Janeiro).
25) A beirada da mesa esta suja.
26) ... e fura 0 pneu do carro de a...

o referente codifica
a como 0 motorista é inferivel porque foi
mencionado 0 refere e 0 ônibus: hâ um consenso de que ônibus
têm motoristas. exemplo 24, a informante toma coma consenso
que nuJU-' osto hâ mecânico e apresenta 0 referente coma inferîve1.
No exemplo 25, hâ também um conhecimento compartilhado de
que mesas têm beiradas. Nesse caso, 0 sintagma nominal a beirada
estâ contido em outra expressâo referendal, amesa. No exemplo 26,
o referente a pneu (contido em outra expressao referencial) é inferiveI,
uma vez que no discurso precedente a informante diz que subiu a
serra de Petr6polis com uma amiga que estava dirigindo hâ pouco tempo.
Gbrski (1985) utiliza a taxonomia de Prince e prop6e aigumas
<llteraç6es para dar conta de detenninadas formas de codificaçao de
referentes nao previstas no modela de Prince. Aqui seran destacados
os seus principais resultados.
Os SNs que representam referentes novos sao geraimente
in troduzidos par meio de SNs indefinidos, morfologicamente 4 1

Illarcados (corn artigo indefinido) ou naD:


:Q) Quando eu vinha de Turiaçu pra ca, vinha um caminhâo, entrou numa
curva, entao ele acabou de entrar na curva ele pegou um ônibus.
:',H) Eu tinha levado comida.
48 Lingüfstica funcionaJ: teoria e pratica

Os SNs novos no discurso, porém disponiveis no universo


espacial ou cultural do ouvinte, sao represelitados por SNs
definidos:

29) Passei um més no Souza Aguiar [hospital de pronto-socorro no Rio


de Janeiro].

Os referentes evocados sao codificados por anâfora zero, por


pronome, por advérbio ou por SN definido, coma, respectivamente,
é ilustrado a seguir:

30) Eu tinha levado comida (CP) tinha levado frango, (CP) tinha feito
arroz de forno.
31) Ele botou uma moça pra morar lâ em casa comigo ai eu fui confiar
nela.
32) Eu fui num baile a fantasia né (...) foi em Paquetâ (...) chegamos lâ
(... )
33) Eu vi uma velha cair, coitada, segurei a velha.

Gbrski concluiu que, numa narrativa, os personagens principais


geralmente sao codificados par meio de pronomes ou de anâfora
zero, enquanto os secundârios sao identificados par SN pleno, como
no exemplo 34, em que 0 personagem principal é 0 amigo do marido
e 0 personagem secundârio é a médico. Os referentes humanos, na
funçao de sujeito, sao geralmente codificados por anâfora zero
(exemplos 21 e 30), enquanto os referentes nao-humanos sao
freqüentemente representados por SNs plenos, mesmo quando
evocados (exemplo 35):

34) Meu marido tem um amigo que ép era campeao de nataçao, cp tinha
vârias medalhas, cI> era um atleta. Dm dia surgiu um caroço, ou
qualquer coisa parecida, nas suas costas, ele foi ao médico. 0 caso
era simples porque 0 caroço ainda estava pequeno, mas nao existia
ainda tecnologia para este tipo de cirurgia no Brasil. 0 médica estava
sendo treinado par uma equipe francesa para realizar este tipo de
cirurgia. EZe foi à França com a médico e 0 caso foi analisado pelos
médicos de lâ (corpus D&GlRio de Janeiro).
35) ai a gente encostou 0 carro assim do lado... a carro jâ foi puxando.
Pressupostos te6ricos fundamentais 49

Givon (1990) explica a codificaçao dos referentes conforme 0


subprindpio daquantidade (cf. seçao "Iconicidade e marcaçao").
No que diz respeito à referência, esse prindpio funciona da seguinte
forma: "Quanto mais previsîveVacessîvel for uma informaçao para
o interlocutor, menor quantidade de forma serâ utilizada".
Votre (1992) exemplifica 0 funcionamento desse subprindpio
corn 0 seguinte trecho de uma narrativa oral:

36) quando eu tinha uns dois ou três anos... meu pai chegou em casa
do trabalho à noite e falou pra mim que tinha uma surpresa... aL.
ele me deu um pacote... eu abri... e era um cachorrinho de borracha,
desses que a gente aperta e faz barulho.

Na clâusula efalou pra mim, por exemplo, 0 referente sujeito


(meu pai) foi codificado or meio de anâfora zero, porque é um
referente bastante pre isîvel, uma vez que foi mencionado na _
clâusula anterior. N lâusula era um cachorrinho de borracha, desses
que agente aperta az barulho, a expressao referencial destacada é {.'
codificad muita forma (grande quantidade de massa fônica),
porque 0 referente é imprevisîvel, isto é, nao estâ acessîvel à mente
do interlocutor, havendo necessidade de mais especificaçoes.
Os recursos gramaticais usados para representar ou codificar
referentes sao apresentados de forma escalar, dos mais previsîveis
aos menos previsîveis: anâfora zero, pronome, SN definido e SN
indefinido. Camo foi mostrado, esses recursos estao disponîveis
nas lînguas para codificar a informatividade de um referente
nominal a partir do conhecimento compartilhado entre os
.
interlocutores. C'.
.
4 /t
A).....-:.
JVO;' (/'\1 qA., 1"1
v
'~
1.' ,~,/Y'k"
(' J f \-l;
j\ /'
1 ( ;-../1 rI-(
L..•

Gramaticalizaçâo e discursivizaçâo PC1/l/~ ~. ;


Entre os lingüistas, 0 debate sobre a origem e 0 desenvolvimento
das categorias gramaticais nao é recente. No século XIX, por exemplo,
acompanhando a orientaçao diacrônica e comparada do perîodo,
cncontramos importantes estudos nessa ârea. No quadro da
Iingüîstica funcional, a gramaticalizaçiio e a discursivizaçfio sao
fenômenos associados aos processos de regularizaçao do ~o da
t1 ,--- ---ri
, i
J
CD Ji lhC'i'V) 0 ~Vl h '-,l,' l'Cf 1i~';~Ï:tt4l} ~7r,\lt/; (::=
50 LingüÎstica funcional: teoria e pratica

lfngua. Ou seja, relacionam-se à variaçâo e à mudança lingüîsticas.


Esses processos manifestam 0 aspecto nâo-eshitico da gramâtica,
demonstrando que as lfnguas estâo em consfante mudança em
conseqüência da incessante criaçâo de novas express6es e de novos
arranjos na ordenaçâo vocabulaA A compreensâo é a de que, do
ponto de vista de sua evoluçâ0t! gramâtica estâ num contînuo
l!J i fazer-se, 0 que nos permite falar de uma relativa instabilidade da
Q estrutura lingüistica. Ésob esse aspeet:o que se deve a Hopper (1987)
a noçâo de "gramâtica emergente", no sentido de que a gramâtica
de uma lîngua natural nunca esta completa. Do ponto de vista
sincrônico, entende-se por gramatica 0 conjunto de regularidades
decorrentes de press6es cognitivas e, sobretudo, de press6es de uso.J
\ 0 termo' discurso esta relacionado às estratégias criativas
<'r" utilizadas pelo falante para organizar funcionalmente seu texto para
um determinado ouvinte em uma determinada situaçâo
comunicativa. Por um lado, 0 discurso é tomado como 0 ponto de
GC! partida para a gramatica; por outro, é também seu ponto de chegada.
CÀ. Quando algum fenômeno discursivo, em decorrência da freqüência
de uso, passa a ocorrer de forma previsîvel e estavel, sai do discurso
para entrar na gramâtica. No mesmo sentido, quando determinado
_fenômeno que estava na gramâtica passa a ter comportamentos nâo-

I previsfveis, em termos de regras selecionais, podemos dizer que sai


da gramatica e retorna ao discurso.
Assim, na trajetôria dos processos de regularizaçao do uso da
lingua, tudo começa sem regularidade, exatamente por estar no seu
começo, mas se regulariza corn 0 usa, corn a repetiçâo, que passa a
exercer uma pressâo tal que faz corn que a que no começo era
casuîstico se fixe e se converta em norma, entrando na gramatica
(gramaticalizaçâo). No momento de estabilizaçâo, verifica-se 0 nîvel
de iconicidade maior, isto é, relaçâo transparente entre expressâo e
conteudo, 0 que resulta no mâximo de economia comunicativa e no
maxima de rentabilidade sistematica. Essa estabilidade, entretanto,
é relativa e aparente. 0 que foi sistematizado entra em processo
de desgaste, corn liberdade progressiva da expressâo em termos de
restriçâo de ocorrência, e corn liberdade progressiva do conteudo
Pressupostos te6ricos fundamentais 51

em termos de desbotamento e esvaziamento semântico. Assim, as


unidades migram para um mvel nao-gramatiCal, no sentido de que
elas deixam de obedecer às restriç6es de seleçao e literalmente
retornam ao discurso (discursivizaçao).
o processo de gramaticalizaçao privilegia:
a) a trajet6ria dos elementos lingüîsticos do léxico à gramâtica (ex.:
verbo pleno > verbo auxiliar);
b) a trajet6ria de categorias menos gramaticais para categorias mais
gramaticais, coma 0 de categorias invariâveis para categorias
flexionais (ex.: menas> menas).
o termo gramaticaLizaçiio, portanto, é tomado em dois sentidos (
relacionados: a gramatie lizaçao stricto sensu oeupa-se da mudança \
que atinge as formas q e migram do léxico para a gramâtica; a
gramatiealizaçâo Lata s su busca explicar as mudanças que se dao
no interior da pr6pri gramâtica, compreendendo aî os processos
sintâticos e/ou di rsivos de fixaçao da ordem vocabular.
Co emplo de gramaticalizaçâo stricto sensu, podemos citar
a pesquisa de Maria Aparecida Silva (2000) sobre a trajet6ria de
mudança de iy, que acumula as funç6es de verho pleno e auxiliar,
conforme signifique deslocamento espadal ou deslocamento
temporal, coma nos exemplos 37 e 38, respectivamente:

37) •.. quando ele vai atrâs ele vê apenas um gato... ele pega 0 gato...
entra no carro e vai embora... (corpus D&G/Natal, p. 308).
38) bem, a minha opiniao sobre 0 namoro é que estâ muito avançado,
porque esses rapazes de hoje nao pensa do amanha que vai ser
(corpus D&G/Natal, p. 363).

o estudo de Oliveira (2000) exemplifica a gramaticalizaçao Lata


sensu. A autora investiga 0 deslizamento de sentido do item onde, cuja
mudançadâ-se na pr6pria gramâtica. De pronome relativo, corn
sentido de espaço fîsico (ex. 39), onde passa a designar também espaço
de tempo (ex. 40), evoluindo até a categoria de marcador discursivo,
desprovido de significado lexical e utilizado como um recurso coesivo
para organizar e planejar intemamente 0 tumo (ex. 41):
52 Lingüfstica funcional: teoria e pràtica

banheiro nôs vamos encontrar... uma prateleira... onde fica os


39) ... no
utensîlios pessoais... (corpus D&G/Natal, p. 309),
depois disso... teve a noite onde foi escolhido 0 grupo de cinco
40) ...
pessoas mais ou menos... (corpus D&G/Natal, p. 304).
41) ... eu
acho que ao invés das pessoas sair na rua... pedindo para... ser
implantado a pena de morte no Brasil... deveria estar lutando par
outras ... par outros métodos ... outros objetivos... de melhores
condiç6es de vida... de melhor educaçao para os seus filhos... onde
as pessoas poderiam viver num paîs bom... certo? (corpus D&G/
Natal, p. 314).

No ponto extremo do contînuo de mudança, localiza-se 0


processo de discursivizaçao, que focaliza a trajetôria de retarno dos
elementos da gramatica ao discurso. Estudando a trajetôria de
mudança semântica que caracteriza os usos da partîcula né? (nâo é
verdade? > nâoé? > né?), Martelotta e Alcântara (1996) observam que
essa partîcula, ap6s perder os traças semânticos basicos de seus
componentes e, concomitantemente, sofrer reduçao fonética,
distancia-se de seu sentido original como pergunta referencial ou
pergunta nao-ret6rica e passa a desempenhar 0 papel de preenchedor
de pausa causada pela perda da linearidade do discurso. No exemplo
42, abaixo, 0 informante parece perder, por um momento, a linha de
raciodnio e usa a né? (corn outros elementos: poxa... eu sei lâ... sahel)
para preencher 0 vazio causado por essa perda, enquanto tenta
solucionar seu problema comunicativo:
mas que adianta um casamento tao Hndo... gastam tanta... pra no
42) ...
final eh... vivi fka dois... três dias... depois se separam... entendeu?
eu acho issa aî um absurdo porque... poxa... eu sei lâ... sabe?
num... né? a vida::/ tudo bem tâ tudo difîcil... mas a pessoa... eu
acho que a pessoa tem que saber... diretamente aquilo que quer....
(corpus D&G/Rio de Janeiro).

Costa (1995) trabalha corn a hip6tese de 0 português estar


sofrendo um processo de discursivizaçao no sentido de que a
categoria sintatica sujeito estaria retarnando da gramatica ao
1 discurso, na forma de tôpico. Essa hip6tese fundamenta-se no
) pressuposto de que a categoria sujeito emerge a partir da categoria
i
Pressupostos teoricos fundamentais 53

tâpico. Para Giv6n (1979b), a linguagem humana teria evoluido do


modo pragmâtico para 0 sintâtico e, par issa mesmo, a sintaxe teria
evolufdo a partir do discurso. A trajet6ria t6pico > sujeito > t6pico
remete-nos ao carater ciclico da trajet6ria lingüfstica sugerida par
Giv6n (1979b), que toma camo marco de partida 0 discurso, passa
pela sintaxe, pela morfologia e pela morfofonologia, até retornar ao
discurso, completando 0 circulo.
A hip6tese da trajet6ria sujeito > t6pico tem como base a
observaçâo de que a estrutura t6pico-comentririo pode ser vista coma
o resultado do enfraquecimento progressivo das relaç6es entre
sujeito e verba, em termas tanta morfossintaticas quanta semânticos,
que faz corn que 0 sujeito deixe de ter uma funçâa intra-oracional e
se deslaque para fora d oraçâo, passando a exercer a papel de topico.
Para Costa (1995)~ qualquer classificaçâa sintatica tanto para a
SN esse acampament (ex. 43) coma para 0 SN acasa de minha avo (ex.
44) parece um ta forçada. 0 autorobserva que esses SNs mostram-
se relativam e independentes da oraçâo-cOlnentaria que os segue,
sem esempenharem nela qualquer funçao sintâtica. Antes, sao
tomados coma ponto de partida da porçâo do discurso que os
seguira. 0 informante os seleciona como 0 elementa central a partir
do quaI a informaçao sera transmitida. Trata-se, portanto, de SNs
marcadameilte discursivas que recebem a rotulo de tôpico.
acampamento todos os meus amigos foram ... (corpus D&G/
43) ... esse
Natal, p. 303).
44) ... a casa de minha avo... ela é grande, sabe? (corpus D&G/Natal, p. 347).

Cielo funcional e unidirecionalidade


o desenvolvimento de novas estruturas gramaticais é mativado
quer par necessidades comunicativas nao satisfeitas, quer pela
ausência de designaç6es lingüfsticas para determinados conteudos
cognitivos. Dessa forma, a gramaticalizaçâo é interpretada como
um processo diàcrânico e um continuo sincrânico que atingem
tanto as formas que vao do léxico para a gramâtica como as formas
que mudam no interior da gramatica.
54 LingüÎstica funcional: teoria e prâtica

' a carater dclico da evoluçâo lingüistica é postulado por Giv6n


(1979b), que formula a seguinte esquema processual para representar
os pracessos diacrônicos de regularizaçâo do uso da lingua, desde

r
\"
o ponta mais imprevisivel até a fase terminal: discurso > sintaxe >
morfologia> morfofonologia > zero. De acordo corn essa trajet6ria
unidirecional de gramaticalizaçao, alguns itens lexicais passam a
ser utilizados em contextos nos quais desempenham certa funçao
gramatical, ainda nao totalmente fixada. Progressivamente, via
repetiçao, seu usa torna-se mais previsîvel e regular, resultando
numa nova construçâo sintatica corn caracteristicas morfol6gicas
especiais, podendo, posteriormente, desenvolver-se para uma forma
ainda mais dependente, camo um clitico ou um afixo, corn eventuais
adaptaç6es fonol6gicas. Corn 0 aumento da freqüência de usa, essa
construçao tende a sofrer desgaste formaI e funcional que podera
causar seu desaparecimento, dando inîcio a um nova cielo.
Alguns te6ricos funcionalistas prop6em que, semanticamente,
a trajetoria. d...e. gramaticalizaçâo manifesta-se na passagem do
\ concreto E~!a a abstrato. Entidades abstratas emergem da
..:;;....-.~~

experiência humana corn 0 mundo concreto. Traugott e Heine (1991),


por exemplo, prop6em a seguinte escala para representar 0 processo
de abstratizaçiio gradativa no percurso de gramaticalizaçâo dos
elementos lingilisticos: espaço > (tempo) > texto. Essa escala apresenta
. dois desdobramentos possîveis. Num dos casos, descreve a
) emergência de categorias gramaticais, que têm sua origem em itens
!lexicais de sentido concreto. Serve de exemplo, aqui, a processo de
! gramaticalizaçâo de ir, conforme ilustrado nos fragmentas 37 e 38
transcritos acima e repetidos abaixo:

37) ... quando ele vai atnis ele vê apenas um gato... ele pega 0 gato...
entra no carro e vai embora... (corpus D&G/Natal, p. 308).
38) bem, a rninha opiniao sobre 0 namoro é que esta muito avançado,
porque esses rapazes de hoje nao pensa do amanha que vai ser
(corpus D&G/Natal, p. 363).

No exemplo 37, ir é usado camo verbo principal, corn a seu


sentido primario de movilnento ffsico. Ja no 38, comporta-se coma
Pressupostos te6ricos fundamentais 55

um verba auxiliar marcador de tempo futuro, a que é enfatizado


pela uso do advérbio amanhii. Constata-se, portanto, que a trajet6ria
de mudança de ir evolui do sentido mais concreto para 0 mais
abstrato, representada pelo estâgio espaça > tempo na escala de
Traugott e Heine (1991).
o segundo desdobramento dessa escala diz respeito à
abstratizaçao progressiva de significado de um dado elemento
lingüîstico sem que haja, necessariamente, mudança de categoria
gramatical. Para esse caso, servem de exemplo os fragmentos em 39-
41, retomados abaixo:

banheiro nôs vamos encontrar... uma prateleira... onde fka os


39) .•• no
utensilios pessoais... (corpus D&G;Natal, p. 309).
disso... teve a oite onde foi escolhido 0 grupo de cinco
40) ... depois
pessoas mais ou menos .. (corpus D&G;Natal, p. 304).
41) ... eu
acho que ao invé das pessoas sair na rua... pedindo para... ser
implantado a pena e morte no Brasil... deveria estar lutando por
outras... por 0 os métodos... outros objetivos... de melhores
condi~ vida... de melhor educaçào para os seus filhos... onde
as pessoas poderiam viver num pais bom... certo? (corpus D&G/
Natal, p. 314).

No exemplo 39, onde desempenha sua funçao-padrâo de


pronome relativo, corn sentido de espaço fîsico, remetendo a
prateleira. No exemplo 40,0 referente de onde é a noite, que nao é
espaço fîsico, mas espaça de tempo, ou melhor, é 0 tempo
representado coma se fosse espaça. Onde, entao, por se referir a
a noite, funciona como uma metâfora, representando, assim, um
conceito mais abstrato a partir de um mais cancreto. No 41, onde
funciona como um mera marcador de pausas, ou seja, como meio
de arganizar e planejar internamente 0 turno. Por nao ter referente
recuperavel, apresenta-se como um conector vazio de significado,
podendo, portanto, ser omitido, sem prejuîzo semântico para 0
enunciado.
A mudança lingüistica

Mârio Eduardo Martelotta

Dm dos aspectas relacionados às Hnguas humanas que mais


têm intrigado os lingüistas é sua fluidez, ou seja, sua capacidade de
assumir formas diferentes em individuos diferentes e em situaç6es
ou épocas diferentes. As linguas sao sensiveis às nuanças culturais
associadas ao estilo de vida dos humanos, apresentando, de um
lado, variaç6es de natureza individual, social, regional, sexual, entre
outras, que convivem em um mesmo momento do tempo, e, de
outra lado, mudanças que se manifestam corn 0 passar do tempo.
Embora 0 fenômeno da variaçao esteja diretamente associado ao
tema em questao, este capîtulo focaliza a mudança lingüistica,
apresentando algumas reflex6es sobre suas motivaç6es, sua
direcionalidade, os aspectos estruturais, comunicativos e cognitivos
a ela associados, os mecanismos que a veiculam, assim coma a
regularidade ou nao da atuaçao desses mecanismos.
Para que se perceba de modo mais clara a aspecta da mudança
lingüîstica que este capîtulo focaliza, é importante lembrar dois dos
cinco princîpios de gramaticalizaçao1 propostos por Hopper (1991):
camadas e divergência. Trata-se de dois fenômenos estreitamente
associados ao processo da mudança. 0 princîpia de camadas refere-
se ao fata de que as linguas freqüentemente possuem mais de uma
forma para desempenhar funç6es idênticas, sendo, nesse caso,

1 Hopper utiliza a termo grammaticization (gramaticizaçâo). Conforme se vê


em Campbell e Janda (2001), 0 termo grammaticalization convive, na literatura,
corn os termos grammaticization e grammatization, que se referem ao mesmo
fenômeno, sem diferença de sentido.

DP&A editora
58 LingüÎstica funcional: teoria e pratica

importante registrar que a forma nova nao implica 0


desaparecimento da forma ja existente. No casa da divergência, tem-
se um conjunto de fonnas corn a mesma etimologia, desempenhando
funç6es diferentes, e, novamente, a existência do nova usa nao
implica 0 desaparecimento do uso original.
A expressao da categoria de futura em português fornece um
bom exemplo para os dois princîpios de Hopper. As formas falarei e
vou falar, porserem possibilidades dispornveis para a expressao do
futuro que coexistem na lingua, constituem camadas. Entretanto,
quando observamos a relaçao entre essas formas e as construç6es
que as originaram, estamos focalizandoum fenômeno relacionado
à divergência. a morfema de futuro em falarei é proveniente da forma
verbal hei (falar + hei), e a construçao vou falar, em que a verbo ir é
empregado como auxiliar indicando idéia de futuro, resulta de um
processo, generalizado na lingua portuguesa, que implica uma
extensao do usa original, em que 0 verbo ir expressa movimento no
espaço.
a foco deste capitulo nao esta na relaçao entre duas ou mais
formas ja prontas e submetidas à disposiçao do falante, que s6 têm
em comum a expressao semântica e a convivênda temporal, mas no
conjunto de fenômenos que fazem corn que uma mesma forma tenha
seu usa ampliado para novas funç6es, constituindo 0 que Hopper
(1991) chama divergência e outros autores chamam polissemia.

Funcionalismo e mudança
As pesquisas sobre mudança lingüistica em funcionalismo estâo
estreitamente associadas à teoria da gramaticalizaçao, conforme 0
exposto no primeiro capitulo deste livro. A emergência do paradigma
da gramaticalizaçâo no contexto da lingüîstica funcionalista
americana deu-se a partir dos anos 1970/ quando houve um resgate
do papel das transformaçoes diacrônicas nas explicaçôes da sintaxe.
a texto motivador foi The origins ofsyntax in discourse (SANKOFF e BROWN,
1976)/ que teve eco no cielo funcional proposto par Giv6n (1979a),
discurso> sintaxe > morfossintaxe > morfofonêmica > zero, apoiado
A mudança lingüfstica 59

em evidências oriundas da aquisiçao da linguagem, da passagem


de pidgins para crioulos e dos estudos diacrônicos. 2
Desenvolveu-se a partir de entao a idéia de que 0 uso da lîngua na~-)
situaçôes reais de comunicaçao motiva as transformaç6es que sofrem Cl nit
os elementos lingüisticos ao longo do tempo e que essas transformaç6es
apresentam unidirecionalidade: caminham do discurso para a
grarnâtica.3 Os elementos, com 0 processo de gramaticalizaçâo, perdem
a liberdade tipica da criatividade contextua1mente motivada do discurso
e tornam-se mais fixos e mais regulares. Assim, a~ios de lugar
assumem funçâo de conjunçao, e nao vice-versa; vocabulos
'-~-
_
transformam-se em afixos, êÎlao Vice-versa.
- ... ....
A noçao de unidirecionalidade, tal coma proposta pela teoria
da gramaticalizaçao,leva à hi ôtese de que existem fatores de ordem (~,-,
cognitiva, sociocultural e c municativa que norteiam a mudança.
Nesse sentido, pode-se ensar, corn Saussure, que existe uma
pancronia, ou um con' nto de leis gerais, que se fundamenta em
bases nao-:estrutur .s; pode-se também admitir, corn Furtado da
Cunha,O]bleÏ e Votre (1999), que hâ transformaç6es que ocorrem~)

2 0 conceito de gramaticalizaçâo nâo é uma descoberta recente da lingüîstica.


Sua origem remete às propostas gramaticais dos gregos (HARRIS e CAMPBELL,
1995; CAMPBELL e JANDA, 2001) e, sobretudo, foi muito utilizada pelos
comparatistas do século XIX em suas anâlises. Aiguns lingüistas atuais
revisitaram 0 conceito, relacionando-o aos aspectos cognitivos e
conversacionais desenvolvidos nas iiltimas décadas. Sua motivaçao estâ na
necessidade constante de criar r6tulos novos para expressar as idéias em
situaç6es novas de comunicaçâo.
3 Se de um lado os estudos diacrônicos apresentam evidências da
unidirecionalidade da mudança, também levam à canstataçâo antagônica de
que 0 conjunto dos usas atuais de determinados elementos lingüîsticos tarnbém
se encontra em estâgios anteriores da lîngua. A segunda constataçâo leva-nos
irremediavehnente à noçâo de uniformitarismo ou, em termos saussurianos, ao
conceito de pancronia. A regularidade que caracteriza 0 conjunto de usos de
alguns elementos lingüîsticos em diferentes sincronias imp6e que se repense 0
prindpio da unidirecionalidade e 0 papel do tempo no processo de mudança
lingüîstica. Nossa tendência, no momento, tem sido aceitar a unidirecionalidade,
relacionando-a nâo às mudanças sucessivas que uma forma lingüistica pode
assumir ao longo do tempo, mas aos critérios e rumos dos processos cognitivos
relacionados à produçâo e à transferência de informaçâo entre diferentes
dominios conceptuais que os falantes praticam no uso da lîngua.
60 Lingüfstica funcional: teoria e prâtica

em todos os tempos e lugares, ja que ha evidências de que 0 meslUO


tipo de transformaçao pode processar-se repetidamente,
enfraquecendo a visao tradicional de que a mudança esta
relacionada apenas à sucessao temporal. A lingüîstica funcional
tende, portanto, a adotar, juntamente corn Labov (1994), uma
formulaçao mais refinada da hipôtese neogyamatica de mudança,
segundo a quaI os mesmos tipos de mudança ocorreram em todas as
fases da hist6ria das lînguas e tenderao a continuar ocorrendo.
o que importa saber, nesse caso, é a natureza dessas caractensticas e
peculiaridades pancrônicas, que nao se enquadram na oposiçao
sincronia x diacronia do modelo estruturalista.
Mal: advérbia > prefixa
Tomando como base ocorrências do elemento lingüîstico mal
no corpus D&GiRio de Janeiro (VOTRE e OUVEIRA,1995) e em textos
representativos de estagîos antigos da lîngua portugues3, assim
coma 'as informaç6es referentes à origem desse elemento,
provenientes dos fil610gos tradicionais, Martelotta e Silva (1997)
apresentam um esquema que constitui uma possîvel representaçao
da trajet6ria diacrônica de mudança, segundo a quaI os novos usos
de mal vao surgîndo progyessivamente de usos anteriores:

adj. port. mau

malus - a - um <: adv. lat. male


"" subst. malum-I .... subst. port. mal
-+ prefixa lat. male -+ prefixa port. mal
...... adv. port. mal -+ conJ. tempo port. mal
,

Existem evidências de que a processo de mudança desenvolve-


se no tempo, de modo que usas antigos passam a assumir, de forma
sucessiva, valores novos, coma demonstra a esquema. 0 fator tempo,
portanto, nao deve ser descartado das analises referentes ao
fenômeno da mudança lingüîstica.
Entretanto, ainda segundo Martelotta e Silva (1997), os
fenômenos parecem nao ocorrer exatamente do modo coma 0
esquema prop6e. Embora se possa admitiruma relaçao de sucessao
A mudança lingülstica 61

temporal que vai, por exemplo, do prefixo latino male para 0 prefixo
português mal, naoocorre, na maioria dos casos, uma transformaçao
temporallinear entre esses dois usos.
Existem usos desse elemento corn valor de prefixo no português
que sao provenientes de usos latinos: maledicência e malevolência,
por exemplo, provêm respectivamente do latim maledicentia e
malevolentia, vocâbulos em que male jâ funcionava como prefixa.
Mas casos coma os de malcontente, malfadado e malcriado, par
exemplo, sao diferentes porque representam formaç6es portuguesas
envolvendo a advêrbio mal, e nao evoluç6es de vocâbulos latinos
que jâ apresentavam a prefixa male, camo ocorre nos exemplos
anteriores.
Se os prefixos portugue es sao, na verdade, formaç6es recentes
envolvenda itens lexicais ovos, e naa transformaç6es progressivas
de formaç6es jâ exist tes em latim, a questao jâ nao ê mais
puramente diacrôn' a, na medida em que casas coma esses nao
refletem a evolu 0 de uma formaçao na base da proposta da
trajetôria unidir. cional. Deve haver tendências comunicativas,
cagnitivas e at estruturais que incentivam essas formaç6es,
tornando esses lementos - hoje ou ontem, em português ou em
latim - patencialmente perfeitas para assumir funçao de prefixo
em contextos espedficos.
É clara que, em algum ponta, pode ocorrer algo diferente ou
inesperado. No casa de mal, conforme atesta Sequeira (1943, p. 183),
a advêrbia passau a desempenhar a papel de conjunçao (Mal saiu
de casa, cameçou a chover"), a que nao ocarria em latim. Mas, ainda
nesse casa, pode-se observar uma regularidade, desde que se olhe 0
fenômeno por outra ângulo. 0 português, ao se ver privado de
conjunç6es latinas, preencheu as lacunas corn a utilizaçâo de
advêrbios (ou express6es adverbiais), de prepasiç6es e até de verbos,
que passaram a ligar clâusulas. Nessa êpoca, portanto, foi comum a
passagem de deterrtrinados tipos de advérbio para conjunçao. Além
de mal, sao exemplos de passagem de advérbios de modo para
62 Lingüfstica funcional: teoria e prâtica

conjunçao apenas 4 (" Apenas saiu de casa, começou a chover") e bem


(em construçoes do tipo se bem que). Além disso, foram muitos os
elementos adverbiais de valor espacial que se tornaramconjunçôes.

Advérbio de lugar > conjunçao


Como os dados acima mencionados sugerem, existem fatores
que levam os elementos lingüîsticos a cumprir trajet6rias
unidirecionais relativamente espedficas, que tendem a se repetir
corn elementos diferentes, mas de natureza semelhante. É 0 que
levou Heine, Claudi e Hünnemeyer (1991) a propor um processo
anal6gico chamado espaço > discurso, para caracterizar um tipo de
mudança muito comum nas lînguas humanas, que leva elementos
de valor espacial a assumir funç6es tîpicas de conjunçao. Na base
clesse processo esta 0 fato de que a expressâo de dados espaciais é
mais elementar e concreta do que a indicaçâo das relaç6es textuais. 5
Essa extensao anal6gica serve de fundamento para a organizaçao
do universo textual em termos de referentes espaciais externos e se
manifesta basicamente por meio da anafora e da catafora, em que
elementos originalmente dêiticos espaciais sao utilizados para fazer
alusao a dados ja mencionados ou por mencionar:
1) Eu nâo sei matematïca. 18so vai me atrapalhar no exame.
2) Eu digo isso: nâo sei matematica.

Em casos como esses, a organizaçao espaciotemporal do mundo


ffsico é usada analogicamente para caracterizar 0 universo mais
abstrato do texto. Esse procedimento revela-se mais produtivo
quando se percebe a regularidade da utilizaçao de elementos
alusivos a pontos no espaço ou no tempo para designar pontos no

4 0 termo apenas, segundo Machado (1977), resulta da formaçâo a + penas}


sendo este proveniente do latim poena (expiaçâo, castigo). Originalmente,
apenas funcionava coma advérbio de modo, que equivalia à atual expressâo
a duras penas.
5 Trabalhos como os de Sankoff (1980), Greenberg (1985), Marmaridou (2000),
entre outras, apontam para uma forte correlaçâo entre dêixis espacial,
temporal e discursiva. Em termos experienciais, essa relaçâo pode ser
considerada em termos de mapeamentos através de dominios.
A mudança lingüfstica 63

texto: "como foi dito anteriormente"; "como sera desenvolvido


adiante"; "ver 0 exemplo abaixo"; entre outras possibilidades.
A partir desses usos alusivos a trechos do texto, 0 elemento
pode desenvolver funçâo de conjunçao. 6 É a que ocorre com isso,
que também pode ser usado coma conjunçâo conclusiva, associado
à preposiçao por:
3) Caiu, par iSBa se machucou.

Como, em muitos casos de desenvolvimento de conjunçôes, a


polissemia do elemento envolvido no processo apresenta também
um valor temporal, Heine, Claudi e Hünnemeyer (1991) propuseram
uma trajet6ria de mudança semântica que um elemento lingiiistico
tenderia a cumprir até atingir 0 stalus de conectivo:

/ Tempo

~!
Texto
Esse esquema representa uma trajet6ria unidiredonal de
mudança, muito comum nas linguas humanas, que leva advérbios
de Iugar a assumir funçôes tipicas de conjunçao, tendo ou nao
apresentado intermediariamente valor temporal. 0 argumento
bâsico é semelhante ao que esta subjacente à idéia da metâfora
espaço > discurso: a expressâo de dados espaciais é mais bâsica e
concreta do que a expressao de dados temporais, que, por sua vez,
é mais bâsica e concreta do que a indicaçâo das relaçôes textuais.
A metâfora, nesse caso, ocorre em funçao da extensao anal6gica do
uso espadal do termo para valores temporais e textuais.
o termo logo constitui um bom exemplo de coma essa trajet6ria
da-se em português. Atualmente, encontramos apenas os valores
textual (conjunçâo concIusiva) e temporal, exemplificados
respectivamente em 4 e 5:

6 Além da construçao par issa, conjunçôes portuguesas camo porém e partanto,


entre outras, originam-se de construç6es anaf6ricas.
64 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

4) Pensa, logo exista.


5) Ele vai chegar logo.

De acordo com Machado (1977), a origem esta no latim loco,


ablativo locu-, que significa no lugar, no sîtio, no momento,logo. 0 valor
espacial do termo pode ser encontrado no português arcaico, na
forma de dois usos distintos, que jâ nao oconem em português:

6) Lançados som fora do miido e descenderô aos jnfernos e outras se


leuatar6 e seu logo (Orto do esposo).
7) A primeira natureza da poonba he que en logo de cantar geme
(Livra das aves).

Esses usos, registrados em dois textos arcaicos portugueses,


apresentam valor espacial. No exemplo 6, 0 termo assume valor de
substantivo, indicando especificamente lugar ("leuataro ë seu logo");
no exemplo 7, apresenta valor correspondente ao da expressao atual
em lugar de (em vez de> ao invés de).
Essa visao de que os usos do elemento adquiriram, de maneîra
sucessiva e unidirecional, os valores espacia!, temporal e textual,
entretanto, deve sel' analisada com cuidado. Quando se observa 0
verbete referente ao termo logo em Machado (1977), nota-se que,
com exceçao do valor espadal, hoje em desuso, 0 elemento
apresentava polissemia semelhante à que caracteriza seus usos atuais,
ou seja, exibia valores temporais e textuais. É 0 que revela também a
verbete do substantivo latino locus,-i, apresentado em Faria (1975),
que demonstra jâ haver, em latim, os très sentidos - espacial,
temporal e textual. Isso, sem duvida, enfraquece a visao tradicional
de que os elementos mudam de valor com 0 tempo. TaI constataçâo,
de que existe uma certa regularidade no conjunto de usas de um
elemento em sincronias diferentes, nao é incomum e pode sel'
encontrada em trabalhos camo os de Votre (1999) e Ferreira (2000).
Votre (1999) demonstra que os verbos achar, pensar, saber e ver
apresentam, nos diferentes estagîos de evoluçâo do português,
configuraç6es sintatico-semânticas muito pr6ximas às dos termos
latinos correspondentes. 0 autor prop6e, inclusive, um princîpio de
A mudança lingüÎstica 65

extensiio imagética instantânea, segundo quaI a faculdade da


0

metâfora opera de modo instantâneo, disponibilizando todas as


possibilidades e potencialidades na mente das pessoas que
interagem na comunidade discursiva, ancoradas no contexto
situacional de cada interaçâo. Ferreira (2000) chegou a resultados
semelhantes em sua analise do modal poder. 7
Entretanto, estudos recentes em gramaticalizaçâo têm
apresentado resultados diferentes. É 0 que se vê no trabalho de
Silva e Silva (2001) sobre os usos do advérbio mal. Segundo a autora,
a polissemia que caracteriza esse elemento lingiiistico apresenta, de
fato, uma grande regularidade: desde 0 latim, verificam-se seus usos
coma substantivo (0 mal), camo adjetivo (mau), camo advérbio
(cantar mal) e como prefixo ( alcheiroso). Entretanto, é provavel
que, somente a partir do sée 10 XVIII, tenham começado a surgir,
no português, novos usa gramaticalizados, que até entâo nâo
apareciam nos textos. al como conjunçao temporal é um desses
novos usos. Eis exemplo:

8) Mal saî de casa, começou a chover.

Isso significa que, embora a polissemia do elemento mal apresente,


desde 0 latim, uma regularidade ilnpressionante, dados histôricos
demonstram que essa polissemia mudou, uma vez que surgiram usos
novas. E, 0 que é mais importante, esses novos usos têm valoT mais
gramatical, 0 que ratifiea a hipôtese da unidiredonalidade.
Pode-se associar ao camentario anterior 0 fato de que, na
polissemia de alguns elementos, desapareceram usos caracteristicos
de inîcio de trajetôria, ou seja, hipoteticamente os mais antigos.
Esse fenômeno, que ocorreu corn logo, coma foi vista, e perdeu seu
valor espacial, pode ser também constatado em elementos coma
entao,Jd, ainda/ agora, entre outras/ em que a origem espadal também
se perdeu (MARTELüTIA, 1994).

7 Mais detalhes referentes à anâlise de Vatre (1999) e Ferreira (2000) padern ser
encantradas no proxima capitula deste livra.
66 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

Os dados até aqui apresentados apontam para uma situaçao de


certa forma contradit6ria. Por um lado, tem-se a noçao de extensao
imagética instantânea, segundo a qual os sentidos do elemento estao,
de algum modo, previstos uns nos outros, de maneira que nao
apresentam uma trajet6ria linear. Por outro lado, tem-se a noçâo,
associada às propostas sobre gramaticalizaçao do inicio da década
de 1990, de que a mudança é unidirecional e sucessiva,
caracterizando-se par uma evoluçao linear, segundo a quaI 0 valor
nova implica sempre a existência de um valor anterior.
Decidir como lidar corn essas perspectivas aparentemente
contradit6rias é um problema que 0 estudioso da mudança
lingüistica tem de resolver. Uma possivel saida para 0 impasse é
observar a natureza da polissemia e constatar se ela implica um
conjunto de manifestaç6es simultâneas de um unico sentido ou
uma relaçao de sentidos diferentes que evoluem uns dos outros.
TaI procedimento significa focalizar os aspectos cognitivos e
conversacionais que estao na base dos fenômenos da referência e da
extensao de sentidos, fazendo corn que a fatar tempo deixe de
constituir exclusiva perspectiva de observaçaa.
Tomando coma base, por exemplo, a mudança espaço > (tempo) >
texto, determinados mavimentos cognitivos de base metaforica,
como ja mencionado, parecem ter sido ativadas para que a evoluçao
semântica se efetivasse dessa maneira. E sao varias os advérbios
espaciais que, em diferentes fases da nossa lingua, cumpriram essa
trajetoria.

r
Traugott e Konig (1991, p. 190) argumentam que, paralelamente
a esses processos de base metaforica, pode ocorrer, em deter11Ùnadas
mudanças por gramaticalizaçao, outro mecanismo, chamado pressiio
de injormatividade. Trata-se de um processo em que, por
convencianalizaçao de implicaturas conversacionais, 0 elemento
lingüistico passa a assumir um valor novo, que emerge de
deter11Ùnados contextos em que esse sentido novo pode ser inferido
do sentido primeiro, independentemente do valor textual das
sentenças envolvidas no processo. Os autores demonstram a atuaçao
A mudança lingüÎstica 67

desse mecanismo de mudança em casos de elementos indicadores


de concomitância ou coocorrência entre fatos, que passam a assumir ~)
valar contrastiva (adversativo ou concessivo). Eles ilustram 0
processo, entre outros exemplos, corn a passagem, em lîngua inglesa,
de while (concomitância temporal) para while (concessivo).
Em lingua portuguesa, algo semelhante ocorreu, por exemplo,
corn 0 termo entretanto, que, atualmente, na norma brasileira, é usado
como conjunçâo adversativa. A origem desse uso estâ na antiga
expressâo e.ntre tanto, que, segundo Said Ali (1971), desempenhava
funçâo de circunstanciador temporal corn valor de entrementes,
enquanto isso sucede. Mais uma vez, vislumbra-se a motivaçâo espadal
que irnplica a utilizaçâo da preposiçâo entre e 0 desaparecimento
do valor temporal da expressâo, 0 que alterou, corn 0 tempo, a
configuraçâo da polissemi~que a caracterizava.
Outros exemplos de defenvolvimento de valores contrastivos a
partir da concomitância te poral podern ser apontados ern português.
Dm deles é 0 elemento to avia, que, segundo Machado (1977, vol. ~
p. 311), vern do Iati tuta via,s que prirneirarnente significou
constanteme7Jlf,.se pre, acada passo; depois, nao obstante ainda.
A passagem a seguir também ilustra a mecanismo de pressâo de
informatividade. Said Ali (1971, p. 223) apresenta 0 contexto do quaI
surge 0 novo usa contrastivo, ao demonstrar que se pode encontrar
todavia ernpregado como correlato enfâtico de conjunç6es
conceSSlvas:

9) E ainda que alguns sejam de obscura geraçao, todavia sao venerados


e acatados.

Nesse caso, 0 valor de tempo indetermillado do elemento todavia


(=sempre) apresenta-se como simultâneo à idéia concessiva
expressada pela sentença anteriar. Esse é 0 contexto que gera, par
pressâo de informatividade, 0 usa contrastivo atual de todavia.

8 Na expressao tuta via, a palavra via, que significa estrada, caminho, remete a uma
origem espadal da expressao que, em português arcaico, passou a assumir
valor temporal, significando, de acordo corn Machado (1977), constantemente,
sempre, passando depois a assumir funçao de conjunçao adversativa.
68 Lingürstica funcional: teoria e pratica

É importante nao perder de vista 0 fato de que os mecanismos


referentes à metâfora e à pressao de informatividade nao sao
incompatîveis. Ao contrario, tendem a ocorrer paralelamente no
processo de mudança. Os processos metafôricos parecem ocorrer
em situaç6es que os estimulam, 0 que relaciona aspectos cognitivos
corn aspectos comunicativos.
Nao se deve esquecer ainda que esses processos apresentam
grande regularidade no que diz respeito ao modo como atuam e à
natureza dos elementos lingüîsticos sobre os quais atuam. Essa
regularidade manifesta-se nao apenas em lînguas diferentes, mas
também em momentos diferentes da evoluçao hist6rica de uma
mesma lîngua. A atuaçao pancrônica regular desses processos
manifesta-se nao s6 na tendência à estabilidade que caracteriza a
polissemia de alguns elementos em sincronias diferentes, mas
também no fato de que trajet6rias de mudança de elementos antigos
espelham as mesmas trajet6rias de elementos atuais. Isso pode ser
observado, por exempl0, no arcaico ende, cujos usos refletem
gramaticalizaçao espaço > (tempo) > texto (MARTELOTTA, VOTRE e
CEZARIO, 1996).

A natureza da mudança
Longe de constituîrem casos isolados, os exemplos aqui
apresentados nao sao processos de mudança fortuitos. Refletem
tendências gerais que parecem estar constantemente na base das
transformaç6es sofridas pelos elementos lingüîsticos. Os exemplos
de gramaticalizaçao advêrbio > conjunçiio refletem a regularidade
corn que atuam os processos motivadores das transformaç6es
ocorridas com elementos diferentes (embora de natureza
semelhante). Essa regularidade evidencia-se ainda mais quando se
percebe que os mesmos processos vaa caracterizar a polissemia desses
elementas em estâgios diferentes da trajet6ria das lînguas.
Tais fatas levam à conclusaa de que a mudança lingüîstica naa
pode ser entendida em termas de uma diacronia linear, caracterizada
por transfOlmaç6es decorrentes da evoluçao temporal. Na abordagem

~-
A mudança lingü[stica 69

funcionalista, 0 fator tempo, embora ajude, em alguns casos, na


avaliaçao objetiva da hipôtese da unidirecionalidade, nao é
primordial para a compreensâo da mudança lingüistica,
constituindo a anaIise diacrônica apenas uma das estratégias
possiveis para atestar as tendências pancrônicas (SAUSSURE, 1916/
1973), que parecem estar mais associadas à capacidade humana de
interpretar 0 mundo e expressâ-Io a outros individuos. Como afirma
Lyons (1979, p. 49), que jâ chamava atençao para a ingenuidade da
distinçao sinCl;,onia/diacronia:

A transformaçao da lîngua nao é nunca uma funçao do tempo,


nesse sentido. Hâ muitos fatores diferentes que, tanto interna i ~
quanta externamente, podem determinar a sua transformaçao de
um estado sincrânico para outro; 0 passar do tempo apenas
possibilita a interaçao desses vârios fatores.

Lyons (1979, p. 50) mencio a também 0 fato de que a evoluçao l


diacrônica sô tem utilidade ando aplicada macroscopicamente, \
jâ que seria errôneo sup que as lînguas sao completamente
uniformes em uro dete inado momento de sua evoluçao.
o casa jâ cionado da passagem de mal de advérbio para
prefixo parece acrescentar mais Ulll dado a essa questao: 0 valor
prefixal do elemento renova-se em novas utilizaç6es,
independentemente da sua existência rustôrica em outros contextos
em que se combina corn outros elementos lexicais. Isso indica a
possibilidade de as tendências de mudança atuarem repetidamente
no desenvolvimento de novos usos. TaI atuaçâo, nesse sentido,
independe do fator tempo, sublinhando a importância do contexto
atualizado de uso coma elemento gerador de novas significaç6es.
-r C • ~

Assim, a mudança lingüistica deve ser entendida coma um


fenômeno tridimensional, ou seja, a trajetôria de mudança de
um elemento lingüistico é um reflexo de, pelo menos, três aspectos
diferentes: tempo e, sobretudo, cogniçào e uso. Se tempo é fator
necessârio para que osprocessos de mudança se façam sentir, cogniçàa
l'usa SaD de fundamental importância para uma teoria que interpreta
as linguas humanas coma 0 reflexo do comportamento, no ato
-J
70 Lingüfstica funcional: teoria e pré'ltica

concreto da comunicaçâo, das restriç6es cognitivas associadas à


captaçâo de dadas da experiência, à sua compreensào e ao seu
armazenamento na memôria, assim coma à capacidade de
organizaçâo, acesso, utilizaçào e transmissâo adequada desses dadas.
Nesse sentido, a mudança ocorre pela necessidade diferenciada da
atuaçâo desses fatores cognitivos, que é ditada no contexto de cada
distinta situaçào de cOlTIunicaçâo.
Aceitar essa visâo da mudança lingüistica implica levar em
consideraçâo 0 que Salomào (1999) caracteriza coma usuârio
~ voluntarioso da Zingua. A situaçâo comunicativa real é 0 pa1co, no quaI
a atuaçâo inovadora do falante cria novas significados que sao ratificados
no curso dainteraçào. É também fundamental, nesse caso, compreender
a significaçào coma algo que depende bastante do contexto, 0 que
significa admitir que os elementos lingüîsticos nâo têm uma total
autonomia semântica ou um sentido apenas didonarizado, relacionado
à sua estrutura coma elemento autônomo.9
Deve-se, portanto, deixar de lado a proposta tradicional da
semântica da referência, segundo a quaI uma expressào lingüîstica
é convencional e idiomatizada, semanticamente autônoma e capaz

9 Essa posiçao te6rica pode ser vista em Lakoff e Turner (1989). Entretanto,
esses autores, embora neguem a teoria do sentido literaI, defendem a existência
de aiguns conceitos autônomos: cachorro, por exemplo, é um conceito
autônomo, mas a noçao de lealdade do cachorro s6 pode ser compreendida por
meio de uma metMora, que relaciona 0 comportamento do animal corn
uma caracteristica humana. Essa concepçao estâ muito associada a uma
visâo sincrônica da linguagem. Pode-se argumentar que os chamados conceitos
autânomos sao, na realidade, elementos automatizados ou idiomatizados, no
sentido de que sua origem perdeu-se corn 0 tempo e que seu valor atual,
livre da presença de seu uso motivador, deixa de constituir, conforme
Bloomfield (ap. McMAHON, 1996) um sentido marginal (estendido de um
sentido central anterior), para assumir 0 status de sentido central, a partir dos
quais passam a se desenvolver outros sentidos marginais. A idéia da existência
de conceitos autônomos se enfraquece quando pensamos que conceitos
hoje aceitos coma convencionais sao, na verdade, resultado de mudanças
semânticas, cujas origens perderam-se corn 0 tempo. É 0 casa, por exemplo,
de estar, proveniente de stiire, que, segundo Machado (1977), significava
Uestar de pé; agüentar-se (falando de tIopas)", sentido diferente do que
apresenta hoje. Ou 0 casa de convite, que, de acordo corn Said Ali (1970),
provém do italiano convito, significando originariamente banquete.
A mudança lingüfstica 71

de fazer referência à realidade objetiva. Nessa perspectiva, a realidade


possui existência independente da compreensao humana, tendo coma
conseqüência 0 fato de as afirmaç6es poderem ser objetivamente
verdadeiras ou falsas. A significaçao, ao contrmo, parece ter um carater
elâstico, pois se estende, adaptando-se a diferentes contextos, em funçâo
de necessidades comunicativas localizadas. Nos termos de Marcuschi
(2000), a significaçao é negociada pelos interlocutores em situaç6es
contextuais espedficas, 0 que torna possîvel que os elementos
lingüîsticos se adaptem às diferentes intenç6es comunicativas,
r
apresentando flutuaç6es de sentido.
Entretanto, tais flutuaç6es de sentido, coma jâ visto, nao se dao
de modo aleat6rio. Estudos hist6ricos indicam uma forte
regularidade nos processos e mudança, no que diz respeito aos
mecanismos que os atualizam e à natureza do elemento envolvido.
Essescomentârios leva à conclusao de que as mudanças de
uma lîngua devem ser co reendidas como movimentos que se
iniciam no instante em ue um indivîduo produz seu discurso
para um interlocuto spedfico, em uma situaçâo comunicativa
determinada. e par um lado a produçao discursiva é limitada pelas
restriç6es jâ consagradas na gramâtica da lingua, por OUITO constitui
um processo criativo no quaI 0 falante recria formas e estende
sentidos de acordo corn suas limitaç6es cognitivas e as necessidades
comunicativas impostas contextualmente. Quando essas recriaç6es
sao, nas palavras de Bolinger (1975, p. 389), percebidas, apreciadas e
adotadas, elas permanecem, podendo vir a gerar situaç6es efetivas
demudança.
Estabilidade e continuidade
semântica e sintatica

Lucia Maria Alves Ferreira

A comparaçâo de enunciados representativos de diferentes


sincronias do português e do latim indica que, ao lado de mudanças
de ordem fonologica, morfologic / sintatica e semântica, que muitas
vezes padern ser diacronicame te atestadas, a lingua apresenta
também uma estabilidade que e manifesta em todos os nîveis da
sua estrutura. Diferenteme e do fenômeno da mudança, no
entanta, a estabilidade nâpltem recebido atençao por parte dos
lingüistas. Confor~fonta Votre (2000/ p. 86), estamos tao
acostumados à traaIÇao histôrico-comparativa e neogramâtica, que
privilegia a mudança, que"quase perdemos a capacidade de examinar
a estâvel, a permanente, 0 duradouro".
Neste capitulo serâo apresentadas evidências de estabilidade
sintatica e semântica na lingua a partir da analîse contrastiva
de enunciados representativos de diferentes sincronias do português
e do latim. As analîses privilegiam uma abordagem pancrônica dos
fenômenos lingüisticos, isto é, simu1taneamente sincrânica e
diacrânica, na medida em que nem a abordagem sincrânica,
essencialmente estatica, nelTI a diacrânica, demasiadamente
comprometida coma mudança, pennitiriam que se observasse corn
Inaior transparência a natureza sistemâtica e estavel das relaçôes
polissêmicas, dos usos e das construçôes em que se encontram os
i tens focalizados.
o olhar pancrônico pressupôe a adoçâo explîcita do principio
(I() uniformitarismo camo hip6tese de trabalho. Tomado emprestado

DP&A editora
74 Lingüistica funcional: tearia e pratica

da geologia do século XVIII 0 uniformitarismo tornou-se uma das


I

bases do pensamento neogramatico. Em formulaçao de Brugman


(ap. LABOV 19941p. 22)1 /los fatores que produziram mudanças na fala
I

humana cinco ou dez mil anos atras nao podem ter sida
essencialmente diferentes daqueles que estao operando ou
transformando as linguas vivas/!. No âmbito dos trabalhos aqui
relatados l a estabilidade semântico-sintâtica dos itens examinados
em diferentes sincronias esta relacionadal assim como a mudançal
a principios gerais l de carâter atemporall que refletem processos
contînuosl regulares e estaveis na mente dos falantes l que os
atualizam a cada enunciadol ha muitos séculos.!
Outra ponta em comum entre as analises é a problematizaçao
do principio da unidirecionalidade cancreto > abstrato na derivaçaol
no curso do tempol de novas sentidos e usos para os itens
lingüisticos. Na medida em que a maioria das formas e dos sentidos
examinados, mesmo os mais abstratos, jâ estava disponîvel nas
sincronias mais distantes do português e do latim l nao foram
encontradas evidências de que os sentidos mais abstratos e genéricos
sao derivados dos mais concretos e especificos no curso do tempo.
Mesmo nos casos em que nao foram identificados usos mais abstratos
em uma sincronia mais distantel nao se pode ter certeza de que nao
circulavam na lîngua OUI como prefere Votre (1999 / 2000)1 Il se estavam
disponiveis, potenciais, e nao aparecem nos dados porque nao
houve ai contexto que os aninhasse".
No que se segue serao abordados trés trabalhos de orientaçao
pancrônica que comparam enunciados de diferentes sincronias da
lîngua. Nos trés casos, visando à cooperaçâo corn 0 leitor e a uma
maior inteligibilidade dos exemplos, a sincronia mais recente sera
examinada em primeiro lugar. Oliveira (1997) enfoca a trajetôria de
gramaticalizaçâo de onde examinando dadas de lingua em uso
no português contemporâneo, no português do século XVI, no

1 Ver a capitula anteriar deste livra sobre 0 princfpia do unifarmitarismo


aplicado à mudança lingüîstica.
Estabilidade e continuidade semântica e sintatica 75

português do século XIII e no latim. Além de indicios de mudança,


a autora observa instâncias de continuidade e estabilidade.
Ferreira (2000) focaliza 0 modal poder observando que,
diferentemente do que aconteceu corn os modais can e may do inglês,
cujo processo de gramaticalizaçao e abstratizaçao é amplamente
documentado na literatura, a maioria dos usos do verbo poder
apresenta uma estahilidade semântico-sintâtica que se manifesta
em enunciados representativos de três sincronias situadas em um
periodo de 22 séculos.
Votre (2000) examina construç6es sintaticas complexas que
contêm os verbos achar, pensar, saber e ver em que 0 obj eto direto é
uma oraçao, desenvolvida ou reduzida. Buscando fontes de
referência sobre a semântica e as' taxe das construçôes no português
oral contemporâneo, no portu ês arcaico e no teatro latino, 0 autor
enfraquece 0 principio der' acionista, que prevê caminho
unidirecional do concreto pa a 0 abstrato. Em vez de falarmos em
derivaçao de sentido, propÇ>é 0 autor, devemos enfatizar as relaç6es
entre sentid6s, sem g~ir quaI teria sido a sentido fundante.
----..---~---

Os usas de onde
Examinando a trajetôria do elemento onde, seus diversos
significados e usos, Oliveira (1997) examina 0 carater multicategorial
e multifuncional de onde nao apenas nas varias sincronias do
português, mas também no latim.
No português contemporâneo, onde tende a atualizar outros
sentidos diferentes do sentido de lugar comumente usado. Assume
valor anaf6rico-discursivo de espaço dentro do prôprio texto, de
tempo, chegando/ em alguns contextos, a perder totalmente 0 sentido
()riginal de espaço fisico, passando a ser utilizado como um marcador
discursivo, vazio de significado, funcionando coma um recurso
1)(Jra manter a continuidade do discurso. Nos exemplos a seguir, do
{'()j'pus D&G/Natal (FURTADüDA CUNHA, 1998),ilustram-se alguns dos
Ilsas mais abstratos e nao-canânicos de onde no português
1'( ll1 temporâneo.
76 Lingüfstica funcional: teoria e prâtica

1) 0 meu forte mesmo é ampliar desenhos. Onde eu acho um desafio.


Pois eu tenho de chegar à perfeiçao. 0 meu objetivo é fazer um
desenho mais parecido e possîvel daquele outro (lîngua escrita,
oitava série).
2) ... quandochegou no acampamento ... ele pegou a comida que tava
tudo junto e dividiu... sendo que... cada pessoa comia de cada coisa
uma... ou seja... 0 que eu levei. .. eu nao comi sozinho... eu tive que
dividir corn todos os amigos... depois disso... teve a noite onde foi
escolhido 0 gyupo de cinco pessoas mais ou menos ... (lîngua falada,
oitava série).
3) .•. às
vezes pessoas que roubam... um sacQ de feijao ... um relôgio... tâ
na cadeia enquanto que outros que deu prejuîzo à sociedade... milh6es
e milh6es bilh6es até... de dinheiro que foi tirado da populaçao e tâ aî
à solta... por quê? porque tem dinheiro... onde a justiça do Brasil sô é
vâlida para os pobres... (lîngua falada, oitava série).

No exemplo l, Oliveira observa que 0 elemento onde refere-se


nao a um espaço fisico (cf. '/\ casa onde morei"), seu sentido canânico,
mas a um espaço no discurso. Retomando 0 enunciado precedente,
onde funciona como um elemento anaf6rico equivalente a isto,
aparecendo inclusive depois de uma grande pausa pros6dica. Passa
a expressar no texto um outro lugar: 0 discursivo, conservando
assim seu conteûdo semântico original de Iugar, embora, ao mesmo
tempo, assuma outros sentidos diferentes de lugar fîsico. Ja no
exemplo 2, onde refere-se a anoite, que nao é nem espaço ffsico nem
discursivo, e sim espaço de tempo. No exemplo 3, por outro lado,
onde parece exercer uma funçao textuaI, organizadora do discurso,
semelhante à de um conector causal. Nesse caso, jâ perdeu muito
de seu sentido original de espaço ffsico, e, mais vazio de significado,
funciona como um elemento de ligaçâo, organizador das idéias.
Esses exemplos seriam evidências sincrânicas da trajet6ria de
gramaticalizaçâo do elemento onde, que teria obedecido ao esquema
espaça> tempo> texto, desenvolvido no curso do tempo.
A analise da ocorrência de diferentes sincronias do português
realizada por Oliveira revela que onde ja expressava, em outros
perîodos evolutivos da lîngua, alguns dos sentidos mais abstratos
encontrados no português contemporâneo. Esse fato contraria a
Estabilidade e continuidade semântica e sintatica 77

expectativa de que na analise das sincronias mais distantes seriam


encontradas apenas evidências dos estagiosconcernentes aos
sentidos mais concretos. No exelnplo 4, a seguir, do século XVI,
honde nao se refere a um espaça fîsico, mas a tudo que foi
argumentado antes, funcionando, portanto, coma um elemento
anafôrico-discursivo, corn sentido de conclusao:

4) Imprimatur à Gramâtica de José de Anchieta (DÉSIRÉ, s/d)


"Licença"
Vi por mandado de Sua Alteza eftes liuros de Grammatica & Dialogos
compostos pelo Padre Ioseph de Anchieta Provincial, que foy da
Companhia de letra noffa Sagrada Religiao, nem bos custumes,
antes muytas que feruirao muyto pera melhor inftruiçao dos
Cathecumenos & augmento da nova Chrinftadade daquellas partes
& pera corn mais facilidade & fuauidade fe plantar & dilatal' nellas
noffa Sancta Fee. Alem da f tisfaçao & edificaçao que ha por toda
aquela costa de grande vil' de, l'eligiao & exemplo do Autor de
que sempte darey testemu ho. Por honde me parece que fedeuem
de imprimir estas suas ras. Em Lisboa, a vinte & cinco de
Septembro, de mil & quO hentos & noventa & quatro.
Augustinho Ribeyro

Oliveira ofefêêe-nos ainda um exemplo do século XIII, em


galego, encontrado na Crestomatia Arcaica, no capitulo II das
Ordenaç6es de D.MonsoII (NuNEs, 1943). No exernplo 5,ondeparece
referir-se a tudo que foi dito antes, funcionando como um conector
discursivo, corn valor conclusivo, sem significado necessariamente
locativo.

5) Dos Dezemos Que An A Dar Os Cristiaos A Sancta Igreia


Abraam fuy 0 primeyro dos proffetas e fuy muy sancto orne e ta
amigo de Deus que disso por el que enD seu linnage seeria beeytas
todalas gentes e este connosçendo que era pouco aquello que daua
os que foron ante que el a Deus, segundo os bees que deI rreçebia,
comezou el a dar 0 dezemo de mays das primiçias e das offerendas
que elles daua e dou-Io primeyramete a Me1chisedec, que era
sacerdote, e sennaladamete dou 0 que gaannou dos rreys que
uencio, quando les tollio a Loth, sou sobrino, que leuaua catiuo.
Onde, enas duas maneyras de siruiçio de primiçias e de offerendas
que 56 ditas enD titulo ante deste e en esta terceyra, que é dos
dezemos, husar6 os ornees de siruir a Deus...
78 Lingüfstica funcional: teoria e prÉttica

Corn referência ao latim, Oliveira observa, a partir de exemplos


encontrados em gramâticas hist6ricas e latinas, que a forma ubi,
que, juntamente corn unde, teria sida precursora do onde português,
além do sentido canânico de lugar, era usada também cam valores
temporal e conc1usivo.
Oliveira conc1ui que, em seu percurso hist6rico, onde mantém
seu sentido original e que outras sentidos surgem sem que a
primeiro desapareça. Coma nem sempre os mesmos valores e usas
sao encontrados em todas as sincronias, a autora postula que alguns
sentidos seguem uma espécie de onda dc1ica, realizando um
Il

movimento de emergiy e submergiy". A essa interpretaçao dos dadas


acrescentamos outra: é possivel que os valores e usas mais abstratos
tenham estado sempre disponiveis na lingua, mas que a analise das
evidências hist6ricas realizadas pela autora simplesmente nao os
tenha flagrado.

o modal poder
Grande parte das hip6teses acerca do desenvolvimento dos
itens que expressam a noçao de modalidade propostas na ultima
década prevê trajet6rias diacronicamente estaveis de abstratizaçâo
do sentido. Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), par exemplo, postulam
que itens lingüisticos que se referelll à capacidade fisica, uma
modalidade exc1usivamente orientada para a agente, padern, corn
a tempo, vir a expressar noç6es coma a possibilidade epistêmica,
uma modalidade mais abstrata e orientada para 0 falante. Esta parece
ter sido a trajet6ria de desenvolvimento de may.2
Também Traugott (1989) postula que os modais, originalmente
verbos plenos, com sentidos concretos, seguindo tendências universais
de mudança semântica, tomam-se progressivamente mais abstratos e
orientados pela atitude subjetiva do falante em relaçâo à proposiçâo.

2 Segundo Bybee (1988), may era usado em referência a habilidade fîsica ou


poder e, gradualmente, por um processo de generalizaçâo, no final do
perioda denorninado Middle English (1125-1500), passau a indicar a
possibilidade de raiz, a perrnissâo e a possibilidade epistêmica.
Estabilidade e continuidade semântica e sintâtica 79

Em relaçao aos verbos modais do português, também se


baseando no prindpio da unidirecionalidade concreto > abstrato
na mudança semântica e na gramaticalizaçao, Rigoni Costa (1995)
identifica, no portuguès contemporâneo, evidências de um processo
diacrônieo de desenvolvimento dos verbos.
As postulaç6es de mudança lingüfstica acima prevêem nao
apenas estagios em que os sentidos fundantes e os novos convivem,
mas também 0 desaparecimento de tais sentidos. A polissemia das
formas em uma mesma sincronia revelaria os diversos estâgios da
traj etôria concreto > abstrato de um processo de mudança
diacronicamente atestâve1. Nas palavras de Tabor e Traugott (1998),
tais pos ulaç6es prevêem isomorfismo entre 0 desenvolvimento
historieo e relaç6es sincrônicas entre itens polissêmicos.
Em relaça ao verbo poder, entretanto, pode-se verificar que as
noç6es contextu . adas por esse verbo no portuguès contemporâneo
jâ estavam disp nfveis no verbo posse, que deu origem a potere e
posteriormente poder, desde a fase arcaica da lingua latina (FERREIRA,
2000). Isso si . .. a dizer que 0 possîvel desenvolvimento dos sentidos
mais abstrato do modal a partir dos sentidos mais concretos nao
poderâ ser atestado diacronicamente a partir do latim, ao menos com
base nos dados coletados até 0 momento.
Os très exemplos a seguir, do portuguès contemporâneo,3 do
portuguès do século XVI e do latim arcaico do século II a.C.,
respectivamente, ilustram 0 usa do modal para codificar a
possibilidade epistêmica, ou seja, uma noçao mais abstrata do que
outras mais concretas, camo a capacidade atribuîda ao sujeito, ou
mesmo uma possibilidade mais factual, também codificadas pela
verbo nas très sincronias.

:\ Na tese de doutorado de Maria Lucia Alves Ferreira (2000) sâo examinadas


amostras representativas de três sincronias do português: a) 0 corpus D&G/Rio
de Janeiro (VOTRE e OLIVEIRA, 1995), para 0 português contemporâneo; b) os Autos
da Barca do Inferno, Barca do Purgatôrio e Inès Pereira, de Cil Vicente, e 0 Auto das
Regateiras, de Antonio Ribeiro Chiado, para 0 português do século XVI;
c) 0 Amphitrvo, de Plauto, para 0 latim arcaico. No presente trabalho, é também
analisado um enunciado da peça Asinaria, de Plauto, do século II a.c.
80 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

6) 1: nunca... pra falar a verdade... nunca digo que eu sei fazer alguma
coisa... eu sempre parto do princîpio que aIguém sabe fazer melhor
do que eu... passa nao conhecer, mas... alguém algum dia vai aparecer
sabendo fazer melhor do que eu...
= É possîvel [eu naD conhecer]

7) Pero: E esta de qu'anos serâ? [referindo-se à idade da escrava] (...)


VeIha: Nao queira Deos que vos menta:
houve-a no tremos da terra;
pode agora ser essa perra - Auto das Regateiras 806
môça d'alguns cincoenta,
salvante s'a conta erra.
= Pode ser [que ela tenha uns cinqüenta anos] É possîvel [que tenha...]

8) Demaenetvs: Non esse seruus peior hoc quisquam potest -Asinaria 118
Nec magis uersutus nec quo ab caueas aegrius.
Ninguém pode ser um escravo pior do que esse
Nem tao astuto nem tao difîcil de quem você tenha que se precaver
= NaD é possîvel [que alguém seja um escravo pior... ]

A anéilise indica, portanto, que, no casa de poder, a


direcionalidade concreto > abstrato na mudança lingüistica nao é
cronologicamente verificavel, na medida em que tanto a noçao mais
concreta (a capacidade) quanta a mais abstrata (a epistêmica,
exemplificada acima) coexistem ha muitos séculos.
A estabilidade dos usos de poder/posse manifesta-se nao apenas
no fato de que nas três sincronias ilustradas 0 modal coocorre corn
verbo no infinitivo e que 0 sentido codificado é 0 da possibilidade
epistêmica. Observe-se que nos três exemplos as parafrases indicam
que a modalidade incide sobre toda a proposiçao. A possibilidade
epistêmica envolve 0 falante em um processo inferencial no quaI
ele expressa seu comprometimento em relaçao à possibilidade de
atualizaçao da proposiçao e tem, portanto, tada a proposiçao coma
escopo. Em outras palavras, 0 modal epistêmico veicula um
julgamento subjetivo do falante acerca do conteudo propasicional,
e esse fato é iconicamente representado na gramatica pela escopo
mais amplo, coma indicam as parafrases nos exemplas 6, 7 e 84 e a

4 Observe-se que 0 exemplo 8 admite também a seguinte leitura: Ninguém é


capaz de ser escravo pior do que este. Nesse casa, a modalidade estaria incidindo
sobre 0 sujeito, e nao sobre a proposiçao. A identificaçao do escopo da
modalidade é problemâtica em muitos casos.
Estabilidade e continuidade semântica e sintatica 81

incidência da negativa sobre a predicaçâo principal, e nao sobre 0


modal no exemplo 6.
A estabilidade dos usos mais abstratos de poder e passe em
diferentes sincronias do português e do latim manifesta-se também
em usos mais voltados para a interaçao, na ocorrência do modal em
atos de fala manipulativos, isto é, atos verbais por intermédio dos
quais 0 falante tenta levar seu interlocutor a agir (GIVÔN, 1993).
Na maioria das vezes, trata-se de permiss6es, pedidos e ordens, atos
que envolvem 0 falante em uma relaçao de maior ou menor tensao
quanto a seu interlocutor e que estao associados a fatares coma
distanciamento social e tipo de imposiçao, entre outros. As
ocorrên . sa seguir, do português do século XVI e do latim arcaico,
ilustram ato de fala que podem ser indiretamente interpretados
coma pedidos ou até Inesmo ordens, dependendo da relaçao de
poder entre os ir terlocutores:

9) Velha: E dar- os-ei ua escrava


que trabalha coma zeina: [égua]
amassa e e rega e lava.
Pero: E es a nao se pode ver? - Auto das Regateiras 787
Velha: Sim, Jesu, logo ness'hora.
Cadela, aî ca fora!
[Pero Vaz pedindo para ver a escrava, parte do dote de Beatriz]
10) Mercvrivs: Possum seire, quo profectus, cuius sis, aut quid ueneris?
- Amphitrvo 346
Sosia: Huc eo, eri sum seruus.
Mercûrio: Passa saber onde vais, a quem pertences ou par que vieste?
Sôsia: Vou para Li. Sou servo de meu amo.
[Mercurio pede informaçao a Sôsia fingindo naD conhecê-lo]
11) Ivppiter: Nimis iracunda es.
Alcvmena: Potin 5 ut abstineas manum? - Amphitrvo 903
Jûpiter: Estas muito irritada.
Alcmena: Podes tirar a mao de mim?
[Alcmena pede/ordena ao marido que se afaste dela]

Segundo Ernout e Thomas (1953), a construçao potin ut... ? é formada a


partir de pote est (" é possivel").
82 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

Observe-se que a interpretaçao dos enunciados 9,10 e Il camo


atos de fala manipulativos é pragmaticamente motivada, na medida
em que construç6es semelhantes corn poder SaD freqüentemente
associadas à noçao de possibilidade. Os enunciados sâo, portanto,
ambiguos e sua interpretaçâo depende fundamentalmente de
parâmetros externos, pragmaticos. Uma vez que nao sao entendidos
pelos interlocutores coma perguntas acerca da possibilidade de
realizaçâo das aç6es, sua interpretaçao como pedidos ou ordens é
acionada por um mecanismo inferencial associado a uma
implicatura conversacional (CRIeE, 1975; LEVINSON, 1983).
A analïse desses exemplos, que encontram sua contrapartida
em ocorrências do português contemporâneo, evidencia que
basicamente as mesmas estratégias comunicativas e as mesmas
inferências relacionadas ao uso de poder e passe vêm sendo usadas
pelos falantes ha mais de 22 séculos, a que significa que as press6es
funcianais e comunicativas que motivam sua ocorrência e
cristalizaçao sao continuas e regulares, e, tudo indica, permanecem
inalteradas.
É verdade que alguns usas de passe do latim desapareceram da
lingua,6 mas a analise de ocorrências em sincronias tao distantes
entre si aponta mais para a estabilidade dos mecanismos inferenciais
que prapiciam as extens6es de sentido do que para a mudança. 0 fato
de que sentidos tanto mais concretos, orientados para 0 agente, quanta
mais subjetivos, centrados no falante, estavam disponiveis na
sincronia mais distante sugere que, no caso do modal poder, as relaç6es
entre os sentidos mais concretos e os mais abstratos têm a ver corn leis
gerais, de carMer pancrônico, atemporais. Em outras palavras, 0 fato
de que relacionamos a noçâa de capacidade à de possibilidade e esta
à de permissâo nao tem carMer linem; temporal, nem reflete tendências
estruturais. Ao contrario, esta relacionado ao carMer imaginativo do
pensamento humano e a press6es de ordem cognitiva e comunicativa

6 Ferreira (2000) identifica na amostra latina um usa de posse nao registrado


nas duas amostras do português. Trata-se de uma ocorrência em que a
verbal na forma passiva, significa tomar posse.
Estabilidade e continuidade semântica e sintatica 83

que fazem corn que estejamos continuamente atualizando nossa


capacidade imagética e aplicando-a a situaç6es que percebernos cmuo
anâlogas às que jâ vivenciamos.

Os verbos de cogniçâo
Contrastando usas dos verbos ver, achar, pensar e saber ern duas
diferentes sincronias da lîngua portuguesa e no latim, Votre (1999)
prop6e uma revisao das hip6teses clâssicas de unidirecionalidade na
mudança semântica e sintâtica nos processos de gramaticalizaçâo.
Segundo essas hip6teses, os sentidos tornam-se gradativamente mais
genéricos e abstratos, e, no que diz respeito à mudança sintatica,
as constru 6es podern tornar-se, corn a tempo, sintaticarnente mais
integradas.
A partir de dos que indicam que os usos mais abstratos desses
verbos jâ estava cristalizados no latim, 0 autor prop6e que é mais
adequada falar da laçâo entre as noç6es expressadas pelos verbos
do que de derivaçâo de processos diacrônicos de mudança. No que
diz respeito àmudan a semântica, as evidências indicam que cada
camada de sentido isponivel no português contemporâneo
coexistiu corn senti os de fases precedentes, representando
processos estâveis, coma indicam os exemplos de usos do verbo ver
a seguir, examinados pela autor:

a. Corpus D&G/Rio de Janeiro, 1995


12) Deixa eu ver 0 que que tem mais no meu quarto... [lernbrar, pensar]
13) Ble diz que vê você passando todos os dias aqui na rua. [ver com os
olhos]
14) Com 0 tempo fui venda que nao era nada disto. [perceber, conduir]
15) Aî eu fa1ei até corn meu namorado pra ver se ele se mancava. [testar,
verificar, julgar]

b. Gil Vicente, Auto das Barcas e Inês Pereira, século XVI


16) Fidalgo: Parece-me isso cortiço!
Diabo: Porque a vedes lâ de fora! [ver com os 01h08]
17) Diabo: Ora entrai nos negros fados, / ireis ao lago dos caes, / e vereis
os escrivaes 1 como estao prosperado8! [perceber]
84 Lingü[stica funcional: teoria e pr<3tica

18) Anjo: Veremos se vern alguém / merecedor de tanto bem / que deva
de entrar aqui. [verificar, checar]
19) Diabo: Tomareis um par de remos, / veremos como rernais! [avaliar]

c. Plauto, Amphitrvo, latim arcaico, século II a.c.


20) Alcmena: Atque me nunc proinde appellas, quase muIto post videris?
Como fala assim comigo, apôs teres me visto hâ pouco?
Amphitrvo: Immo equidem te nisi nunc hodie nusquam vidi gentiurn.
De fato, naD vi vocè esta manha, estou segura disso! [ver,literalmente]
21) Blepharo: Vos inter vos partite: ego abeo, mihi negotium est, neque
ego unquam usquarn tanta mira me vidisse, censeo.
Vocès, dèem 0 fora! Estou fora disso. Até hoje, nunca vi tanta coisa
fantastica, certamente. [experimentar, perceber]
22) Amphitrvo: Sequere hac igitur me; nam mihi istuc primum exquisito
est opus. Sed vide ex navi efferantur ut quae imperes compareant.
Por favor, fiquem comigo. Primeiro, cabe resolver este mistério.
Mas vejam tudo 0 que sair dos navios, para que venham para ca.
[verificar, checar]
23) Mercurius: Hinc enim dextravox auris, ut videtur, verberat.
De fato, vejo que alguma coisa soa, no ouvido direito. [perceber
corn os ouvidos, ouvir]

As evidências oferecidas pelas enunciados corn ver indicam,


segundo Votre, a necessidade de enfraquecer a hip6tese de
unidirecionalidade cancreta > abstrata camo trajet6ria atestavel
diacronicamente. Na perspectiva proposta pela autor, nada
desaparece ou é inteiramente novo. Tudo esta em processo de
adaptaçao às novas situaçoes, sendo reformatado, mas sem
evidências de que um uso precede 0 outra no curso do tempo.
No que diz respeito à hip6tese de que as construç6es tendem a
tornar-se mais integradas no curso do tempo, 0 estudo indica que,
no caso do verbo ver, nao ha evidência de movimento para maÏor
integraçào no perîodo de 22 séculos examinado.
o verbo achar/do latim adflare > aflare, oferece-nos outra ordem
de evidências. No latim, 0 verbo tinha significados relacionados
aos atos de soprar, inspirar, farejar, coma em Canis afflat venatum
ff
("0 cachorro fareja a presa que podia ser metaforicanlente
),

interpretado coma '10 cachorro acha a presa". Essa extensào de


Estabîlidade e continuidade semântica e sintatica 85

sentido é um indicio da abstratizaçâo de adflare jâ no latim. A forma


achar do português sofreu alteraç6es fonéticas em sua evoluçâo do
latim, mas 0 verbo aflar ainda estâ disponîvel no português
contemporâneo e significa soprar ("Leques aflavam de leve sobre os
colas orvalhados de pedrarias" -Coelho Neto, A tormenta).
Em relaçao à integraçâo sintâtica de construç6es cam 0 verbo
achar, a autor mostra-nos que no português arcaico, como no
contemporâneo, 0 verbo achar podia ser seguido de sintagma
nominal ou de complemento oracional corn verbo finito.
Contrariamente às expectativas, no entanto, uma construçâo corn
maior nivel de integraçâo sintâtica é encontrada no português
areaico: x + complemento oracional infinitivo, exemplificada a seguir:

24) E madou "nr c6migo hua muy honrada dona diaconyssa, per
nome chama Romana, a quaI, quando ueo, achou iazer aos pees
do sancto bispo ono Pelagia corn gran planto e doo.

A construçao 24, q\ e nâo ocorre no português contemporâneo,


parece expressar umt decisao e assemelha-se, em seu uso, à
construçâo cristaliza~a achar + de + infinitivo do português
contemporâneo: achou de beber.
o fato de a construçâo achar + infinitivo, mais integrada, oeorrer
no português arcaico e ser inexistente no português contemporâneo
desautoriza a prindpio de unidirecionalidade na integraçâo
sintâtica camo pressuposto absoluto da mudança lingüistica.
Em relaçâo ao verbo pensar, 0 termo que lhe deu origem, pendo,
pependi, pensum, pendere, significava suspender, pendurar, pesar,
especialmente os pratos da balança, pagar e, ainda, pesar
mentalmente, ponderar, considerar, estimar, julgar. Em sua
argumentaçâo a favor da hipôtese de que a faculdade metafôrica da
linguagem opera de modo instantâneo, ancorada no contexto de
cada interaçao, Votre faz uma interessante observaçâo acerca dos
usos do verbo no latim. Ao mesmo tempo que servia para a idéia de
pesar, atribuir valor ao trabalho por meio do peso da la, no periodo
romano, 0 verbo também era utilizado corn 0 sentido de pesar
86 Lingüfstica funciona/: teoria e pratica

palavras, idéias, propostas, taI camo fazemos hoje, ou seja, seu sentido
nao se tornou mais abstrato no curso do tempo.
Observaçao semelhante é feita a respeito de saber. No latim, a
configuraçao semântica de sapere, IIter 0 sabor", inclufa os sentidos
de ter senso, discernimento, conhecer, compreender, associados ao
verbo no português contemporâneo.7 Outra vez argumentando que
é mais adequado falar de uma correspondência metafôrica
instantânea do que de transferência metaforica, Votre (2000, p. 87)
pergunta-se até que ponto 0 segundo saber é distinto do primeiro,
ou dele derivado. Como provar que os dois sentidos nao coincidem
ou nao se emaranham de forma inextricâvel? 'i\té que ponto temos
em nos uma substância mental distinta da corporeidade?"
Concluindo sua anâlise de ver, achar, pensar e saber, Votre (2000)
observa que suas configuraç6es sintâtico-semânticas no português
sao intimamente relacionadas às configuraç6es correspondentes no
latim. a padrao geral que emerge da anâlise é, portanto, regular,
continuo, resultando em uma gramâtica que resistiu a mudanças
culturais, polfticas e historicas. A partir dessa constataçao, 0 autor
prop6e um prindpio de extensiio imagética instantânea, nao
desenvolvido no curso do tempo, segundo a quaI
a faculdade metaf6rica da linguagem opera de modo instantâneo,
no sentido de que todas as virtualidades e potencialidades de sentido
de um termo se tornarn disponfveis na mente das pessoas que
interagern na comunidade discursiva, ancoradas no contexto
situacional de cada interaçao (id., ib., p. 72).

Por uma interpretaçâo funcionalista da estabilidade


A perspectiva pancrônica do estudo dos fatos lingüfsticos, ao
permitir a comparaçao entre vârias sincronias da lingua, dâ maior
visibilidade aos aspectos relacionados à continuidade e à
estabilidade, e, conseqüentemente, os resultados das pesquisas

7 Observe-se que 0 sentido ter sabor é corrente no português de Portugal. No


Brasil, é freqüente no Nordeste e também na lingua literaria: "Nao sabe a
mel, sao sabe a fel, é de papeI" (Ferreira Gullar).
Estabilidade e continuidade semântica e sintatica 87

confrontam-nos corn um nova elenco de questionamentos. 8 Coma


evidenciado nos trabalhos aqui relatados, as hipôteses de trajetôrias
unidirecionais de desenvolvimento semântico-sintatico precisam
ser enfraquecidas, na medida ern que, muitas vezes, configuraçôes
semântico-sintaticas supostamente "mais jovens" (porque mais
abstratas) sao observadas na sincronia mais remota, coexistindo ao
lado de configuraçôes mais concretas, que, por sua vez, permanecem,
desafiando todas as press6es histôricas e culturais que poderiam ter
levado ao seu desaparecimento ou rnudança. Resta-nos, entao,
perguntar como e por que isso acontece.
Votre (1999) vern trabalhando corn a hipôtese de extensao
imagética instantânea, e nao desenvolvida linearmente no curso do
tempo. ~ ndo essa hipôtese de correspondência metafôrica, as
tendências pr entes em determinado momento do passado atuam
no presente e con' uarâo a atuar, da mesma forma, indefinjdamente,
sempre que 0 conte to situacional de cada interaçâo assim 0 exigir.
Aadoçao desse p . dpio ajudar-nos-ia, por exemplo, a entender
a aparente onda dclica m que sentidos parecem emergÏy e submergir,
observada por Oliveir acerca dos usos de onde. 0 princîpio também
nos permitiria entender que as inferências pragmaticamente
motivadas associadas aos usas de poder e posse em atos de fala
manipulativos estâo relacionadas a press6es cognitivas e
comunicativas que vêm atuando de forma regular e constante em
situaç6es reais de uso ha pelo menos 22 séculos e que provavelmente
eontinuarao a atuar enquanto 0 falante pereeber os eontextos
situacionais de uso como analogos. Por fim, a hipôtese de que a
produçao de extens6es metafôricas oeorre simultaneamente e nao
de forma proeessual, ao longo do tempo, também nos auxilia a
entender que, ao lado dos processos que mastram a maleabilidade e
rlexibilidade da lingua, existem aqueles que apontam para a
permanência da sintaxe e da semântica.

Il Estudos diacrônicos também permitem a comparaçâo entre vârias sincronias.


A pancronia é, no entanto, mais abrangente porque engloba as sucessividades
(' os estados.
Lingüistica funcional aplicada
ao ensino de português

Mariangela Rios de Oliveira


Victoria Wilson Coelho

Apresen dos os fundamentos basicos do funcionalismo f


acompanhados sua respectiva ilustraçâo em lingua portuguesaf
o presente capitulo Ha-se para a demonstraçâo da aplicabilidade
do aparato teârico refe ido segundo 0 ensino da lingua materna no
Brasil nos nîveis funda entale média. Nesse sentido trata-se de
f

uma mediaçâo entre te rizaçâo lingüîstica e pratica pedagôgica f

uma das concepçôes e stemolâgÏcas da lingüîstica aplicada.


o que pretendemos é f a partir dos pressupostos abordados
anteriormente, oferecer alguns subsîdios à investigaçâo do
partuguês em sala de aula em termas de instrumental de reflexâo e
de açâo pela linguagem. Acreditamos que a proposta funcionalista f

assim coma outras correntes de analïse lingüîstica possa trazer


f

aIguma cantribuiçâo aa estuda da relaçâa discurso X gyamatica seja f

na analîse de textos, seja na praduçâo de textos. Corn base nessa


crença, mostraremas como a abordagem funcianalista pode auxiliar
nas tarefas referidas.
Evidentemente nao temos a pretensâo de dar conta de forma
f

cabal e absoIuta dos pontas abordadas menas ainda a ingenuidade


f

de imaginar que estamos elaborando algum receituario para a


saluçâo de problemas educacionais alguns ja c1assicos, que vêm à
f

tona quando se aborda essa questâa em nosso pais. Sabemos que ha


grande, necessaria e prudente distância a separar os resultados de

DP&A editora
90 LingüIstica funcional: teoria e prâtica

pesquisas mais recentes da realidade das salas de aula de lîngua


portuguesa. A tarefa de ensino, por sua pr6prianatureza, precisa
lidar corn metodologias e conteûdos mais sedimentados, mais
consensuais na comunidade acadêmico-escolar. Portanto, os pontas
tratados neste capitula sao alguns dos que circulam corn relativa
unanimidade na ârea, t6picos basilares em torno dos quais hâ certa
identidade interpretativa.
Para tratar da aplicaçao do funcionalismo ao ensino de
portugués, partimos do texto legal, da Lei de Diretrizes e Bases da
Educaçao Nacional, a LDB 9.394/96, e dos documentos
governamentais a partir daî elaborados - fundamentalmente os
Parâmetros Curriculares Nacionais, os peN. Corn essa estratégia,
buscamos registrar os objetivos gerais de lingua portuguesa no
ensino fundamental e médio do Brasil, correlacionando-os à
perspediva funcionalista de tratamento lingüistico. Yale ressaltar
que as metas consubstanciadas nos referidos documentas sao
1 resultantes, em muitos aspectos, da consolidaçao e do
desenvolvimento da pesquisa lingüistica brasileira, do maior
conhecimento acumulado nessa ârea cientîfica.
No segundo momento, procedemos à anâlise de oito text9s.,
..../ -
elaborados por membros da comunidade estudantil nacionaP à
luz da associaçâo estabelecida anteriormente - objetivos de ensino/
proposta funcionalista. Nessa anâlise, tanto discutimos quest6es
relativas à produçao textual (relevância, status da informaçao,
transitividade, entre outras) quanta tratamos da categorizaçao
gramatical, corn comentârios referentes à prototipicidade, à seleçâo
.-......... ~_.-.----..

lexical, à implicaçao da correlaçao


.. ....
-,
sintaxe/morfologia,
, ... ...
. , .. , .-
por exemplo.
." _, .. , .
~.,~-'

Nosso objetivo é oferecer umaabordagE'În que trabalhe a gramâtica


no discurso; em outras palavras, que dé carater mais global e
motivado ao ensino de conteûdos de lingua portuguesa. Trata-se de
modelos de anâlise que se revestem de meras sugest6es que padern

1 Quatro textos falados e seus correspondentes escritos, componentes do Corpus


Discurso & Cramâtica: a Zingua falada e escrita no Brasil, organizado pelos
membros do grupo de estudos Discurso & Gramâtica.
Lingüistica funcional aplicada ao ensino de português 91

e devem ser aprimoradas, complementadas ou refinadas por aqueles


que, de fato, têm a responsabilidade nesse empreendimento (
acadêmico - 0 corpo docente de lîngua portuguesa.

Objetivos gerais do ensino de lingua portuguesa


...\ Comparadas genericamente as propostas da antiga LDB (5.692/
\
71))com as da atual, em termos de ensino de lingua materna no
, Brasil, 0 que se destaca n~!l0va orientaçao govemamental sao duas
. , / vertentes, em torno das quais d~ve fundamentar-se e inspirar-se a
./ (:

atividade docente nessa ârea: a transdisciplinaridade e 0 carâter /


,
social do usa lingüistico.
Na LDB/71, ainda persistia a ori,entaçao dicoto?1izada, que
destacava, p . cipalmente no ensino médio, conteudos de literatura
e conteudos de " a, às vezes ainda corn uma terceira segmentaçâo \ jJ

- a produçao tex al. Verificava-se a ênfase na fixaçâo da:


nomenclatura grama al, freqüentemente dissociada de anâlise do
usa das categorias a p tir de sua ocorrência no discurso. Favorecia-
se a repetiçâo do estud de conteudos, via de regra nao aprendidos,
ao longo dos ensinos f ndamental e médio, 0 que concorria para 0
awnento da sensaçâo de fracasso escolar. Todo esse quadro contribuia
para a configuraçâo de uma situaçâo meio paradoxal - lima {
comunidade de usuârios corn 0 sentimento de que nao sabia falar /
f
sua pr6pria lingua, de que ela seria muito dificil, de que se perseguia (
\
um ideal quase inatingivel- a norma cuIta escrita. .
Com a L~ sobretudo a partir das proposiçôes contidas nos
PCN, marca-se ôinicio da mudança no rumo da antiga orientaçâo
pedag6gica oficial. Se a realidade do ensino em nosso pais, em termos
gerais, ainda estâ longe das aspiraç6es consubstanciadas nos PCN,
é fato que essa reorientaçâo nos objetivos da atividade docente de
lîngua portuguesa começa jâ a provocar, no âmbito das secretarias
estaduais e municipais de educaçao e da categoria do magistério
em geral, a preocupaçâo corn a adoçao de novos procedimentos
metodol6gicos, no sentido do alcance dos atuais objetivos
cducacionais. Toda essa guinada sup6e, como ponto de partida,
92 Lingüfstica funcional: teoria e pratîca

a alteraçâo da perspectiva em reIaçâo ao tratamento e à abordagem


das atividades corn a linguagem, entre as quais se destaca 0 ensino
de lingua materna, area para a quaI os pressupostos teoricos
funcionalistas padern trazer alguma contribuiçâo. Essa contribuiçâo
assume maior reIevância diante da constataçâo da ainda pouco
expressiva produçao de material didatico para ensino de lîngua
materna orientada pela recente perspectiva.
Para 0 nîvel fundamentaI, correspondente ao antigo primeiro
grau, os peN destacam a utilizaçao competente do português nao
so coma instrumental de acesso e apropriaçâo de bens cuIturais e
participaçâo ativa no mundo letrado, coma também, e de forma
acentuada, sua utilizaçâo na resoluçâo e superaçâo de situaç6es e
problemas do cotidiano. Em outras palavras, trata-se de uma
proposta de ensino numa vertente que podemos chamar de
funcionalista, em que 0 aluna trabalha as quest6es lingüîsticas para
propositos pragmaticos e comunicativos de maior evidência,
vinculados a seu ambiente histôrico-social. Essa prâtica sintetiza-se
na atividade de"anâlise e reflexâo sobre a linguaf/ (peN,20aO, p. 78),
por meio da quaI é aprimorada a capacidade de compreensâo e
expressâo dos alunos, em contextos de comunicaçao oral ou escrita.
o trabalho analîtico e reflexivo sobre a lîngua tem camo ponto
bâsico e inicial a observaçâo das estruturas mais regulares verificadas
no desempenho discursivo. Ora~ 'oC~quê-~'~"estKpropondo é, na
verdade, a investigaçâo dos usos Iingüîsticos coma um contînuo;
,'~
~ . é a concepçâo male~~el e relativamente instâvel da gramâtica, tal
camo 0 faz a abordagem funcionalista aqui"àpresentada. Ao tomar
como objeto de ensino para as séries iniciais as estruturas mais
sistemâticas do português, os peN apontam a escalaridade, a
ri
1
prototipicidade das categorias lingiiîsticas, aIém de confirmar serem
as regularidades pontas de maior visibilidade e saliência perceptual,
mais acessîveis, portanto, aos alunas iniciantes.
... 1 Para chegarem à investigaçao das estratégjas recorrentes na
,
i "
\, •

expressâo lingüfstica, devem as atividades concentrar-se na prâtica


Lingü(stica funcional aplicada ao ensino de português 93

d~ revisào textual, contexto privilegiado para a anâlise mais acurada


desses usas. 0 trabalho de reescritura de textos, realizado
preferencialmente em grupo, nao visa apenas à detecçao de
problemas, de estratégias inadequadas que devem ser substituidas,
mas sim à procura de altemativas, de outras recursos de organizaçâo
textual articuladores de distintos efeitos discursivos. Novamente se
pode fazer aqui paralelo entre tal concepçâo e a proposta
funcionalista, no sentido de que esta se fundamenta na relaçâo
unidirecional funçâo > forma, relaçâo em que alteraçao de
configuraçào implica alteraçâo de conteûdo, em que dizer de outra
maneira passa a significar de outra maneira.
A proposta de reescritura abre espaça para 0 llidico, para a jogo
no ensino den a portuguesa. Ao acrescentar, retirar,deslocar ou
transfonnar porço ou termos da seqüência textual, os alunas estâo
aprendendo a manip ar nao sô a estrutura discursiva, mas também
os sentidos, os conteûdos or ela veiculados, desenvolvendo individual
e coletivamente sua capadpade de percepçâo dos artilicios ou recursos
de linguagem a que tod~s estâo submetidos numa comunidade
1
lingüistica. 0 conhecinfento par parte dos docentes de lingua
portuguesa de questoes relativas à informatividade, à transitividade,
à relevânda e à iconicidade, entre outras, poderâ contribuir para a
eficâcia da prâtica de reescritura textual, instrumentalizando-os para '
a anâlise da macrossintaxe, das relaçoes discursivas, nivel de
investigaçâo situado além do foco e d9?prop()~it9s d9:"gIélmiltica
tradicional. Nessa tarefa, os co~pê~dios es~olares p-~~co ou nada (
podem contribuir, uma vez que se esgotam na anâlise do chamado ,
perfodo composta.
Em relaçào aos pontas clâssicos do ensino de lingua portuguesa,
os peN também apresentàm irlOvaçoes. Uma delas reside no
tratamento da pont.~~s.ào, questào vista freqüentemente coma
autêntico obstâculo à apropriaçâo da norma culta escrita. Da proposta
de ensino da pontuaçâo coma receituârio, do tipo x serve pa~(1 y, \ )
em que cada sinal, témlado isoladamente, descontextualizado, é visto \\\,,1
camo referência a um tipo espedfico de estruturaçâo lingüîstica, "\
",

1.
" ,; ,
~ ""
l' ( r ("J
!.
,Jc, l , \>'1,( I l
. t
(1 r l\(~iJ
.
â,! k':>'P >
94 Lingüfstica funcional: teoria e prâtica

passa-se à observaçao da pontuaçao nas diversas produç6es textuais,


em que se enfatiza e prioriza a discussâo dasalternativas, das
possibilidades de uso dos sinais e dos efeitos de sentido a partir dai
articulados. Ao invés de partir dos contextos que devem ser
pontua~ps, a proposta dos peN, inversamente a tal perspectiva,
destacail
)
ûnica e verdadeira regra orientadora dessa questâo, aquela
1 • que trata das margens que nao padern receber pontuaçâo: entre
sujeito e verbo, e entre verbo e seu complemento; tuda 0 mais fica
no âmbito das possibilidades, das motivaç6es] Essa reorientaçâo no
ensino de pontuaçâo pode ser trabalhada na perspectiva do
fundonalismo, a partir do tratamento da adjacência e da ordenaçâo
linear coma variâveis senslveis à articulaçâo de sentido. Ao se
pontua~ atenua-se ou quebra-se a vînculo semântico-sintâtico entre
os constituintes textuais, a separaçâo espacia! toma-se indicativo de
separaçao nocional; quanta mais os termos estiverem afastados na
linearidade, mais seu canteudo estarâ dissociado também. A unica
regra referida abre interessante espaça para a discussâa da integraçao
SVeVO, em termos de sintaxe canânica do partuguês, e, a partir
dal, para todo um trabalho em torna de usas alternativos - de
intercalaç6es, de invers6es, de rupturas - em que se supera a atitude
prescritiva em pral da abordagem reflexiva no ensino de português.
Os pontos gramaticais, canteûdos em que a atividade docente
de lingua portuguesa tem se pautado prioritariamente, passam a
ser tratados nas situaç6es de produçâo, revisâo e reescritura de textas.
As quest6es relativas à marfalogia e à sintaxe deixam de representar
um fim em si mesmas para se constituirem em pontas cuja anâlise
serâ necessâria ao alcance do competente e eficiente desempenho
lingüistico. Trata-se da proposta da gramâtica no discurso, do
reconhecimento dos recursos gyamaticais coma componentes e
concorrentes da tessitura textua1.
Nesse sentido, segundo a LDB/96, os aspectas da gramâtica
trabalhados em sala de aula devem ser aqueles de relevância e
pertinência para a resoluçâo de prablemas acerca da legibilidade
LingüfstÎca funcional aplicada ao ensino de português 95

ou da adequaçao de textos, observando-se ainda a faixa etaria dos


alunos, em termos de maturidade para a reflexâo sobre essas quest6e~.
Como a orientaçâo funcionalista assume a prototipicidade categorial, ir)
if,J V',) \."
dimensâo em que as classes dos distintos niveis de analise lingüîstica l'

, "!
1

sao entendidas como feixes de traços mais ou menos presentes, 0


que permite 0 tratamento escalar das mesmas, essa perspectiva nâo-
linear e discreta, de que passa a se revestir 0 tratamento dos aspectos
gramaticais, pode ser abordada pela referida orientaçao. De acordo
corn a categorizaçao prototîpica, é possîvel interpretar a definiçao
das classes morfolôgicas ou funç6es sintaticas na gramatica
tradicional como 0 eixo central, composto pelos traços mais " ,,..-~~_ ..-.-,, -.

recorrentes de ue se costuma revestir a categoria.rO-que s~


acrescenta à visa tradicional nos peN é a perspectiva escalar, a
admissâo de marg s categoriais, a proposta de contînuo no
tratamento dos pontos amaticais corn vistas à facilitaçâo das tarefas
de produçao e de reescri ura de textos. Trata-se de municiar 0 aluna
do aparato necessario ao monitoramento progressivo da prôpria
atividade de analïse e refl ao sobre a lîngua. Assim, quest6es camo
o que' ensinar e como en inar, em termos de conteudo gramatical,
serao respondidas face às exigências oriundas da adequaçao e da
pertinência desse conteudo corn vistas ao aprimoramento do
desempenho lingüfstico do aluno.
Para 0 ensino médio, a LDB/96 prop6e 0 aprofundamento dos
conhecimentos de lîngua portuguesa, corn enfoque no ('
desenvolvimento da capacidade cognitiva do aluna e da marca ,:,
interativa <::la linguagem.'·Valori~~:~~ ~os PCN 0 ca!~t.!:?x hi?t6rico-
social da expressao lingüîstica, corn a integraçao dos estudos de
lîngua e de literatura. Mantém-se a foco na atividade de PE?duçao
L' revisao textual, no entendimento de que 0 aluno, coma ser hist6rico

l' espacialmentemarcado, revela-se e manifesta-se pelos textosque

1){'oduz, par aquilo que faz corn e pela linguagem.


Esta mantida e reforçada, portanto, a importância da produçao
h'xtual jâ destacada para a ensino fundamental. Trata-se agora de
,II )rofundar a reflexao, corn atividades cujo enfoque resida em pontas
96 Lingüfstica funcional: teoria e prética

coma atribuiçao de sentido, marcas de intertextualidade, recursos


de pressuposiçao, efeitos de inversao de ordem, enfim, na exploraçao
da fundonalidade dos mûltiplos recursos lingiiîsticos à disposiçao
dos usuarios. Nos objetivos de lingua portuguesa estabelecidos para
o ensino médio, portanto, também é possivel confirmar um paralelo
corn a perspectiva te6rica funcionalista.
Essa çgrrespondênda pode ser encontrada em varios pontos
dos PCr{?la esta na correlaçao estabelecida entre 0 domînio dos
recursos lingüisticos e a eficaz e competente açao comunicativa.
Reside ainda na associaçao entre os gêneros discursivos e sua
interface corn as quest6es sodais que permeiam a atividade
lingüistica. Encontra-se ainda na afirmaçao de que somente em
situaçao de usa, em funcionamento, levando-se em conta a
diversidade das interferências intra- e extratextuais, é possivel
a atividade de analise lingiiistica. A dedaraçao de que a lîngua em
uso é a representaçao e 0 reflexo da experiência humana, permeada
de emoç6es, crenças, atitudes e necessidades, sintetiza a relaçao
{ basica da orientaçao funcionalista, 0 binômio funçiio > forma.

Uma proposta de aplicaçâo


Nesta seçao, trazemos sugest6es para tratamento de pontos
relativos à anrilise e reflexiio sobre a Zingua em uma perspectiva
funcional. No primeiro momento, apresentamos a coletânea
utilizada - quatro textos orais e seus correspondentes escritos,
produzidos por estudantes de quatro cidades brasileiras na década
de 1990. (Vale ressaltar que 0 material escrito apresenta-se tal como
elaborado pelos alunos.) A seguir, tratamos esses textos corn base no
binômio jala X escrita. Por Hm, sugerimos alternativas de abordagem
de pontos gyamaticais a partir dos materiais em analise. A ausência
de indicaçao do nivel ou série a que se aplicariam esses
procedimentos justifica-se pela possibilidade de maior
aprofundamento ou nao dos itens, 0 que flexibiliza a presente
proposta.

7J·
t:..
Lingüistica funcional aplicada ao ensino de portuguès 97

Textos em antilise
a) Narrativa experiencial de Elisângela, aluna da quarta série - Niter6i:

Fala:
1: quando eu era pequena... eu ficava brincando cam aqueles
disquinho que era... ai eu amarrei... fiquei rodando... rodando .
rodando... aî fiquei tonta... ai tinha um... um negocinho assim .
assim no redor das paredes... na minha casa... ai eu rodei rodei .
caL. bati cam a testa... ai ficou! sa! saiu muito sangue... ai llinha
mâe botou guardanapo desesperada... que ela estava pintando...
[minha mâe 1estava pintando a casa aî ela botou:: ele botou! tomou
banho... rapidinho... botou "a roupa botou urn guardanapo aqui
na rninha testa porque estava muito sangue... ai ( ) ela teve que me
levaI' pro An ~nio Pedro... ai foi... correu tudo bem...

Escrita:
o que aconteceu c m migo
Eu, quando era peq ena, peguei um disquinho e amarrei numa
corda. Rodei e fiquei tonta. Tinha Ull batentinho ao redor das
paredes e 0 disquinho oou e eu bati corn a testa no batentinho e
saiu muito sangue. Min a mae me levou para a hospital.

b) Relata de pracedimenta e Flâvia, aluna da aitava série - Rio Grande

Fala:
1: barn... a gente pega uma panela... vou te falar corn rnedida... tâ?
pega uma panela... meia grande assim... aî pra quatro pessoas acho
que sao... duas xicaras de arroz... é... duas xicaras de arroz... al...
lava 0 arroz... aî bota na panela duas xîcaras... bota três de âgua...
nao bota a arroz... bota 0 6Ieo... e bota um pouquinho de saI... ai
bota três xîcaras d'âgua... ai mexe... deixa refogar... acho que é
cin/ nao sei... quanta tempo... dez minutos... ah:: ... deve sel' dez
minutas... ai... deixa secar... esta pronto...

Escrita:
Para se fazer um arroz para 4 pessoas é necessârio uma panela
meia grande, 2 xîcaras de arros, 6leo. um pouco de saI, coloca-se 3
xîcaras de àgua, mexe-se tudo depois coloca-se no fogo por uns 10
minutos e pronto.
98 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

c) Descriçao de local de Andréa, aluna do ensino médio - Juiz de


Fora (Podemos usar apenas uma seqüência do texto falado.)

Fala:
1: ah... teve uma casa... que eu fiquei em Bûzios... que era assim...
maravilhosa... ficava num condomlnio assim no alto... dava pra
você ver assim a praia de Jeribâ toda... entendeu? e a pral e a
casa... era assim toda de vidro... eh:: corn madeirinha... sabe?
toda enverniza: :da etaI... ai tinha um deque na casa... al que você
chegava que dava pra ver 0 maior visual... né? 0 mar:: etaI::... ai
você ficava vendo aquele pôr-do-sol::... estrelinhas ((riso» e mais
alguma coisa... né? e a casa... ela eral tinham dois andares... era
superaconchegante corn aquelas poltroninhas fofinhas ((riso» e:: a
geladeira... acho que era a que que eu mais gostava ((riso» porque .
a gente comia 0 dia inteiro... né? comia e bebia 0 dia inteiro... e .
estaval nesses dias estava chol nos primeiros dias choveu bastante .
entao a gente ficou ... quase 0 tempo todo dentro de casa mesmo ..
e:: eh::/
E: quaI 0 lugar na casa que você gostava mais?
1: 0 quarto ((riso»
E: 0 quarto? como era 0 quarto?
1: 0 quarto era enorme... sabe aquelas coisas assim de filme... corn
as cortininhas se abrem assim... al 0 ventinho vern e as cortininhas
ficam assim esvoaçantes «riso» assim? aî tinha um tapete... assim
de::/ parece aqueles tapetes assim de corda... sabe? [de praia] corn...
aquele piso de tabua corrida... 0 chao etaI... a cama... era enorme a
cama... muito grande mesmo «riso»
E: (muito alta)
1: e... tinha uma coisa até engraçada... porque tinha uma goteira
((tiso» em cima da cama... entendeu? ((riso» que direcionava
exatamente no meu pé ((riso» e nesses dias estava meio friozinho...
entao era terrîvel... né? mas:: ... assim... a... a arquitetura da casa
assim era moderna... né? mas ao mesmo tempo... eh:: elal 0 teto
dela eral parecia corn aquelas construç6es de casas mais antigas...
porque era bem alto... sahel e:: e a goteirinha conseguia chegar no
meu pé ((riso»
E: mas no quarto... 0 que que tinha mais no quarto?
1: tinha estantes... eh:: tinha um armârio... eh:: corn cabides la... mas
nao tinha nada dentro do armârio ((riso» porque eu nao tinha
paClenC13 '1 e::... 0::1 d elxa
. ~ . d e guar d ar na d a... ne. . eu ver... tm
. ha a
sacadinha... né? dentro do quarto ... taI... tinha uns quadros bonitos
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 99

dentro do quar eh:: dentro do quarto assim eh:: a maioria eram eh::
mari de mar:: né? e tal... paisa::gens... e:: tinha uma cadeira urna
cadeirinha de balança... dentro do quarto eh:: ((riso)) mais 0 quê?

Escrita:
Certa vez fui corn meu namorado para Buzios. Ficamos numa casa
maravilhosa, corn uma arquitetura moderna e ao mesmo tempo
rustica, 0 lugar que mais me chamou atençao foi 0 quarto.
Ele era bastante espaçoso e aconchegante. Havia uma cama grande
corn lençôis brancos. Perto do armârio havia uma cadeira de balanço
de palha sob um tapete de cordas. Havia uma varanda que dava de
vista para 0 mar. 0 venta era constante, as cortinas pareciam
dançar...

d) Relato de oplnlao de Valéria, aluna do ultimo perîodo


universit .0 - Rio de Janeiro

Fala:
1: eh... 56 sel poHtic ... eu estou achando que agora esta tendo uma
abertura maiar... é? a gente estâ... esta ven do 0 que esta
acontecendo corn 0 p îs... estai tudo a que esta acontecenda a gente
esta vendo... nao é a que era antigamente... onde... a gente nao...
sabia de nada... fka a tudo escondido... achava quel naD tinha
informaçao... né? a verdade é isso... a imprensa tem/ eu estou
achando que [esta Hum] papel fundamentaL.. na divulgaçao das
coisas... né? que... pô... fulano roubou... a gente estâ sabendo... eh::
naD sei quem foi preso... a gente esta sabendo... esta tudo às claras...
eu acho que 0 pessoal também estâ corn meda dissa... aî eu acho
que estao andanda mais na linha naa é que antigamente nao
roubava... 16gica que roubava mas hoje em dia a gente estâ
vendo que... quem rouba mesmo e::... quando rouba a gente sabe...
e antigamente nao acontecia isso naa podia se falar:: ... nao podial
tudo... tudo proibi::do... nao podia ter uma opiniâo de na::da...
fkava todo mundo mais alienado... hoje em dia eu acho que esta
melhorando... um dia a gente chega la... eu tenho esperança ((riso))

Escrita:·
A respeito da situaçaa polîtica do Paîs, acho que as pessoas estâo se
conscientizando de que cada um, é, de algum modo, responsâvel
pela "vida" do Paîs. Os meios de comunicaçâo perceberam a arma
que tem nas maos e corn a dita demacrada ficou mais fadl deles
desempenharem a funçao de informantes, que infarmam a que as
]

100 Lingüfstica funcional: teoria e pré3tica

pessoas estao interessadas em ser informadas e nao aquela "incheçao


de linguiça" que nao nego ainda existi, mas que a cada dia que
passa vern sendo mais criticada, acho que as pèssoas estao mais
acordadas, principalmente os jovens, que foram às ruas e tiveram
a sensaçao de tirar um Presidente do governo.
Hoje, a sujeira estâ mais as claras, todos ficam sabendo. Antes
quando tudo era mais censurado, as coisas aconteciam mas ninguém
ficava sabendo.Tenho esperança de que um dia as coisas entrem
nos eixos, que esta tao falada moralizaçao, definitivamente impere
e tenho certeza de que se todos fizessem sua parte seria bem mais
fâcil, faço a minha, mas sei que posso fazer mais. Acho que é por aL

Interface fala x escrita


Na discussâo atuai acerca do ensino-aprendizagem de lingua
portuguesa, muito se enfatiza a interferência da variavel modalidade
nesse processo. Como forma primaria e basica da comunicaçâo
humana, a fala, principalmente nas fases iniciais de escolarizaçâo,
deve influenciar mais diretamente a produçâo escrita, 0 que significa
que muitas ou aIgumas das marcas pragmaticas caracteristicas da
oralidade podern estar presentes nos textos escritos dos alunas do
ensino fundamentat mais especificamente, e do ensino médio,
atingjndo, inclusive, 0 nîvel universitario.
Além da interferência referida, ao se incorporarem aos objetos
de ensino de lingua portuguesa, as produç6es orais ganham outra
dimensâo, passando a ser vistas coma processos passîveis de
investigaçâo, de analise, tais como os produtos da classica e
consagyada modalidade escrita. Nesse sentido, as contribuiç6es da
lingüistica, em suas diversas orientaç6es teâricas, têm sida
fundamentais para essa nova area em que transita a atividade
pedagâgjca de lingua portuguesa.
Essa reorientaçâo articula de imediato algumas quest6es em
discussâo: quaI 0 modo organizacional da oralidade? Que simetrias
e assirnetrias ela estabelece corn a escrita? Estara 0 corpo docente de
lîngua portuguesa preparado para abordar esse nova objeto ern
sala de aula, face à ausência de uma pedagogja do oral?
Na tentativa de contribuir para a resposta a essas quest6es,
a presente seçâo aborda os textos aqui apresentados sob a ôtica da
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de portuguès 101

interface jala x escrita, destacando 0 que separa e une as duas


. " . J

modalidades. Os materiais utilizados favorecem a anâlise, na medida


em que os informantes, ap6s produzirem seus textos falados,
elaboram os materiais escritos correspondentes, 0 que pennite maior
comparabilidade entre ambos.
Dm râpido e genérico alhar sobre essas produç6es jâ salienta
.certas tendências. Uma delas diz respeito à m~ior comeactaçao das /.
produç6es esêritas. Elas sao mais enxutas, mais sintéticas. A questao
. . . ~~.A

dos pIanos discursivos, da relevância textual, apresentada na seçaa


"Transitividade e pIanos discursivos", do capîtulo "Pressupostos
te6ricos fundamentais", pode auxiliar na anâlise interpretativa desse ,
fenômeno.
Tomemo elato de procedimento de Flâvia, aluna do segundo
segmenta do ensin fundamental, coma exemplo. Seu texto falado
é permeado por marc que registram os passos de sua elaboraçao,
coma se verifica nos des aques:

1) bom ... a gente pega UDJ a pane1a... vou te falar corn medida... ta? pega
uma panela... meia grande assim... aî pra quatro pessaas acho que
sao... duas xîcaras dl arraz... é... duas xîcaras de arroz... ai lava a
arroz... ai bota na panela duas xîcaras... bata três de âgua nao .
bata 0 arraz... bata a ôlea... e bata um pauquinha de saI... aî bata .
três xîcaras d'âgua... ai mexe... deixa refagar... acho que é cin/ nao sei .
quanto tempo... dez minutos... ah:: ... deve ser dez minutos... aL. deixa
secar... estâ pranto...

Associadas às estratégias destacadas, observarn-se repetiç6es


(pega uma panela, duas xîcaras de arroz, bota) e hesitaç6es (ntio sei...
quanto tempo... dez minutos... ah::... deve ser dez minutos), além de repara
(toda a série inicial do procedirnento é substituida apôs a particula
ntio) e truncarnento (acho que é cin/ nâo sei).
Essas marcas, reveladoras do processamento on-Zine da r
oralida,de, resultantes, portanto, das interferências pragmâtico-
comunicativas do modo de elaboraçao espedfico do texto falado,
situarn-se em pIano de fundo, concorrendo para a configuraçaa
periférica do fluxa inforrnacional. Tais fenômenos, situados fora da
" ( ,r

~
,l'"~
('
102 Lingüistica funcional: teoria e pratica

cadeia tapica, do eixo central da informaçao, podern levar à impressao


de que a aluna, ao se expressar oralmente, informarnais do que por
escrito. a que ocorre é que, nessa ultirna rnodalidade, apagam-se as
pistas do processamento, jâ que as correç6es e reescrituras, pr6prias
do canal escrito, resultam numa produçao mais concisa. As
informaçoes de fundo, nesse contexto, passam a ser de outra natureza,
como se verifica no trecho:

2) Para sefazer um arroz para 4 pessoas é necessârio uma panela meia grande,
2 xîcaras de arros, 6leo. um pouco de sal, coloca-se 3 xîcaras de àgua,
mexe-se tudo depois coloca-se no fogo por uns 10 minutos e pronto.
,e--..,..
l No fragmento acima, os informes mais subsidiârios ficam por
conta da finalidade do procedimento (para se fazer um arroz para 4
pessoas é necesstirio) e do resultado da tarefa (e pronto). rrata-se de um
novo arranjo sintâtico-discursivo em relaçao ao texto oral da mesma
informante. Numa seqüência mais curta e objetiva em relaçao a sua
produçao oral, embora nao menos eficiente, Flavia relata coma se faz
arroz. Para tanto, pouco utiliza informaçoes de fundo, estruturando
seu relato basicamente por intermédio do pIano da figura.
L~ Se 0 fundo se mostra muito distintamente articulado em relaçâo
,\. ao binômio fala x escrita, 0 rnesmo nao se pode afirmar do nîvel de
\' maior saliência perceptual - a figura. Nas duas produçoes da
informante, hâ similaridade nesse pIano, 0 que yale dizer que,
independentemente da modalidade e de sua interferência na
organizaçao textual, 0 conteudo nuclear, 0 eixo central em torno do
quaI se articula a informaçao, apresenta grande correspondência,
seja em canal falado, seja em canal escrito.
Em termos de ensino-aprendizagem de lîngua portuguesa, essa
observaçâo da complexidade da relevância discursiva, da atuaçâo
dos distintos nîveis ou planas informacionais, deve ser considerada
/.-..,

'\ na tarefa de reescritura de textos. A constataçâo da funcionalidade e


da importância do que é periférico e do que é central, além da
discussâo sobre como, pela acréscimo de informes subsidiârios,
consegue-se fundamentar, detaihar ou pormenorizar um
acontecimento, um procedimento, uma descriçao ou mesmo uma
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 103

opiniao, pode constituir interessantes e eficazes estratégias para a ja


referida tarefa de ancilise ereflexiio sobre a Zingua.
Essa maior elaboraçao em termos de trabalho corn informaçôes
de fundo pode ser observada nas produçôes textuais de alunos de
nîvel mais avançado de ensino. Na descriçâo escrita de Andréa, sao
utilizados eficientes recursos de articulaçâo de pIano de fundo.
Para tratar do quarto em que ficou numa viagem corn seu namorado,
a estudante do ensino Inédio faz uma longa introduçâo desse tema.
Para tanto concorre todo a primeiro paragrafo de seu texto, que
funciona coma um grande enquadramento do cenario a ser descrito:

3) Certa vez fui corn meu namorado para Bûzios. Ficamos numa casa
maravilhosa, corn uma arquitetura moderna e a9 mesmo tempo
rûstica, ar que mais me chamou atençao foi 0 quarto.
Ele era bastan espaçoso e aconchegante. Havia uma cama grande
corn lenç6is branc s. Perto do armârio havia uma cadeira de balanço
de palha sob um ta te de cordas. Havia uma varanda que dava de
vista para 0 mar. a nta era constante, as cartinas pareciam dançar...

Coma fechamento de' ua produçao escrita, Andréa volta a recorrer


ao plana de fundo. 0 ve1to e cortinas dançantes dao 0 toque final ao
espaça descrito. rrata-se de comentanos avaliativos, distintos da tîpica
estruturaçâo descritiva, que, coma conteudos periféricos, moldam,
destacam e valorizam 0 local escolhido camo tema.
Mas é no conjunto dos alunos universitarios, via de regra, que
sao encontrados os textos mais ricos em detalhes, em informaçôes
de plana de fundo. Dos textos escritos aqui selecionados, 0 de Valéria
é 0 mais completo e complexo nesse aspecto:

4) A respeito da situaçâo politica do Paîs, acho que as pessaas estiio se


conscientizando de que cada um, é, de algum modal respansdvel pela
//vida da Paîs. Os meios de comunicaçao perceberam a arma que
1/

tem nas maos e corn a dita democracia ficou mais fâcil deles
desempenharem a funçâo de informantes, que informam 0 que as
pessoas estâo interessadas em ser informadas e naD aquela /Iincheçao
de linguiça/l que nao nego ainda existi, mas que a cada dia que
passa vern sendo mais criticada acho que as pessoas estao mais
l

acordadas, principalmente os jovens, que foram às ruas e tiveram


a sensaçao de tirar um Presidente do governo.
104 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

Hoje, a sujeira estâ mais as claras, tados ficam sabenda. Antes quando
tudo era mais censurado, as coisas aconteciam mas ninguém fkava
sabendo. Tenha esperança de que um dia as coisas entrem nos eixas, que
esta tao falada moralizaçâo, definitivamente impere e tenho certeza
de que se todos fizessem sua parte seria bem mais fadl, faço a
minha, mas sei que posso fazer mais. Acho que é por al.

Corn 0 propôsito de emitir sua opiniâo sobre a politica nacional,


a aluna, a partir de três declaraçoes basilares, em pIano de figura,
destacadas no texto, articula uma série de outras, subsidiarias a essas,
em que fundamenta e consubstancia seu parecer. No primeiro
paragrafo, apas a tese inicial, é comentada a importância e 0 poder
dos meios de comunicaçâo e da força dos jovens para a conduçâo
do destino politico do pais. No segundo paragrafo, Valéria trabalha
corn a questâo temporal- 0 Brasil antes e depois da ditadura militar.
Ja na terceira e ûltima seqüência, a aluna fala da esperança, do futuro
e da responsabilidade de cada brasileiro nessa construçâo.
Além das questoes concernentes à distinçâo dos pIanos
discursivos, outro fenômeno que concorre para a compactaçâo
escrita é a maior vinculaçâo semântico-sintatica dos constituintes
oracionais ai verificada. Esse maior nivel de integraçâo contrasta
corn a aparente fré1;glTI~~ltaçâodas unidades da fala, em geral de
menor extensâo e em maior numero, conforme observa Chafe (1986).
A
4,- \ aparente fragmentaçâo dos arranjos oracionais assim organizados
..:;) t é superada pelos fatares contextuais espedficos da oralidade, que
r C contribuem para canferir organicidade e unidade a esse tipo de

_" \\ produçâo.
Se a oralida~~ é pontuada par ~arca~o.r.es,muitos dos quais
cumpridOres de trajetôria rumo à discursivizaçâo, conforme se exp6e
na seçâo "Gramaticalizaçâo e discursivizaçâo", do capitula
"Pressupostos te6ricos fundamentais", a escrita articula-se por
canectores
- -,~_.
mais-----eX}2licitos
~- -.-.-
.... .... ..
~
e_categôricos,
,~__ ...
_~-"
a funcio~~'èomo-efementos
,." .. .. __ . _"".-----'-~._-

l' de maiar vinculaçâo oradonal. Mesmo na produçâo de usuârios


mais jovens, camo Elisângela,aluna do primeiro segmenta do ensino
fundamental, observa-se esse ·contrastesintatico. Em sua narrativa
oral, a partîcula aî concorre para a seqüenciaçâo oracional:
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 105

5) quando eu era pequena... eu ficava brincando corn aqueles


disquinho que era... aî eu amarrei... fiquei rodando... rodando .
rodando... ai fiquei tonta... ai tinha um... um negocinho assim .
assim no redor das paredes... na minha casa... ai eu rodei rodei .
caL. bati corn a testa... ai ficou/ sa! saiu muito sangue... aî illinha
mâe botou guardanapo desesperada... que ela estava pintando...
[minha mâe] estava pintando a casa ai ela botou:: ele botou/ tomou
banho... rapidinho... botou a roupa botou um guardanapo aqui
na minha testa porque estava muito sangue... ai ( ) ela teve que me
levar pro Antônio Pedro... aî foi... correu tudo bem...

Par intermédio da articulaçao de uma série de estruturas de


pequena extensao, justapostas ou coordenadas, muitas pontuadas
por aî, a aluna narra um acidente ocorrido corn ela. Esse processo
de reduçâ .ntagmatica tem na seqüência aîfoi... um de seus pontos
mâxirnos; em co textos como esse, 0 preenchimento conteudistico
é feito por meio de tores pragmâtica-comunicativos. Note-se que
a sintagma quando eu apequena, que inaugura a relato, parece ser,
na verdade, um circun tanciador macrotextual, a delimitar toda 0
acidente, tema da narra ·va.
l'
Jâ 0 texto escrito d<fElisângela organiza-se em tarno de outra
conector:
6) Eu, quando era requena, peguei um disquinho e amarrei numa
corda. Rodei e fiquei tonta. Tinha um batentinho ao redor das
paredes e 0 disquinho voou e eu bati corn a testa no batentinho e
saiu muito sangue. Minha mae me levou para 0 hospital.

Em vez de aî, a aluna utiliza e coma elo bâsico de sua produçaa


escrita. Embora ainda utilizanda poucas apç6es para 0
estabelecimento de relaç6es oracionais, ela jâ distingue em que
canais articular ai e e. Suas unidades sintâticas sao agora mais
extensas; nao hâ lugar para estruturas do tipa aî foi. A temporal
quando em pequena surge intercalada, numa localizaçao mais marcada.
Os textos de Elisângela poderiam constituir interessante
lnaterial para a ensino-aprendizagern de conectores ern lingua
portuguesa, seja pela comparaçâo entre as duas modalidades e seus
distintos usas, seja pela discussâo de alternativas para a canexâo
106 Lingüistica funcional: teoria e prÉltica

oracional da escrita. A polissemia de aî e sua relaçâo corn outros


processos semelhantes pelos quais vêm passando outras particulas
em português, coma jâ, câ ou onde, e as partfculas que poderiam
substituir e na produçâo escrita, por exemplo, seriam pontos de
pertinência e de interesse nessa questâo.

Amilise gramatical
Toda educaçâo verdadeiramente cornprometida corn. 0 exerdcio
da cidadania precisa criar condiçôes para 0 desenvolvirnento da
capacidade de uso eficaz da linguagern que satisfaça necessidades
pessoais - que podern estar relacionadas às aç6es efetivas do
cotidiano, à transmissâo e busca de inforrnaçâo, ao exerdcio da
reflexâo (peN, 2000, p. 30).

Vma mudança de perspectiva dessa natureza para a concepçao


da lîngua/linguagem deve, certamente, afetar uma nova ou outra
concepçâo do ensino da lîngua portuguesa. Se a hipôtese
funcionalista reside no fato de a estrutura gramatical depender do
uso que se faz da lingua, determinada pela situaçao comunicativa,
pensar a lingua e conseqüentemente a gramâtica implica
compreendê-Ias motivadas pelas circunstâncias e pelos contextos
especîficos de uso.
Os avanços nos âmbitos teôrico e acadêmico devem estender-se
às salas de aula. Como justificar tantas dificuldades dos alunos no
terreno da aprendizagem da lingua materna? Por que nao entender
tais dificuldades coma fruto da concepçao prescritiva da gramâtica
tradicional que nao contempla a maleabilidade da lingua? Por que
nao olhar a gramâtica tradicional como uma grande obra de
referência e apoio? Afinal é sempre dela que partimos coma primeiro
paracligma para as reflexôes a respeito da lingua.
Resta, pois, ao teôrico investigar, pesquisa:ç. oferecer a1ternativas,
apresentar propostas; ao professor cabe a tarefa de testar tais
propostas, repensar as investigaçôes, buscar soluçôes a partir de
uma atitude dial6gica, sempre. Portanto, ousar é uma palavra-chave.
A mudança de perspectiva prevê novas possibilidades de trabalho
corn a lingua sem medo.
LingüÎstica funcional aplicada ao ensino de português 107

Pesquisa realizada por Neves (1991, p. 45-48) aponta algumas


~ ~ ~""'-'~-'~"-~"""""---"'-'~~"~"'-

c,~~~~?s6_~s com base na discussao sobre 0 ensirto da gramâtica na


escola, a saber:
'r :\
• os professores em geral acreditam que a funçao do ensino de
gramatica é levar a escrever melhor;
• os professores foram despertados por uma critica dos valores da
gramatica tradicional;
• os professores têm procurado dar aulas de gramâtica nao- .
normativa;
• os professores verificam que essa gramâtica "nao estâ servindo:
para nada";
• apesar disso, os professores mantêm as aulas sistemâticas de
gramâtica co um ritual imprescindîvel à legitimaçao de seu
papel.
Vma vez que a esc a, ou melhor, os professores, apesar de
reconhecerem que a gra âtica normativa nrio serve para nada ou é
inadequada para dar cont'jl de outra variedade da lîngua que nao
1

seja a variedade cuita em sha modalidade escrita, ainda é a ela que


/
os mesmos recorrem, seja para legitimarem sua funçao, conforme as
palavras da autora, seja para se sentirem mais seguros no
desempenho de seu exerdcio, seja inclusive pela falta de material
didâtico apropriado e disponîvel, institucionalmente legitimado.
Apesar dos esforços de varios estudiosos em prol da reflexao,
da analîse e das propostas de remodelaçao do ensino da Hngua,
apesar dos avanços apresentados nos PCN, 0 que falta para, de fato,
fazermos acontecer as mudanças necessarïas e esperadas?
Vma vez que os PCN orientam no sentido da necessidade de
tornar 0 estudo da lîngua portuguesa mais dinâmico e adaptado às
diferentes situaç6es de comunicaçâo, as funç6es pragmâtico-
discursivas assumem papel relevante no tocante ao ensino da lingua.
Pretende-se, segundo 0 referido documento, que 0 aluno "nao s6
evolua como usuârio, mas que possa assumir, progressivamente,
o monitoramento da pr6pria atividade lingiiistica".
108 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

Ern relaçao à interface jala x escrita, é importante destacar as


peculiaridades referentes a cada uma dessas modalidades. Em
termos de aplicaçao, 0 professor deve considerar a noçao de
adequaçéio ao gênera e ao registro, reconhecendo os diferentes usos
da lingua, as interferências pragmaticas correlacionando à questao
da norma cuita, uma vez que 0 que esta em jogo nao é a correçao das
formas lingüîsticas, mas sua adequaçao às condiç6es do contexto
comunicativo.
Conforme foi demonstrado na seçao anterior, sao evidentes as
diferenças que caracterizarn uma e outra modalidade. Repetiç6es,
hesitaç6es, reparos, truncamentos, conectores do tipo aî, marcadores
discursivos como assim sao eliminados no registro escrito, que requer
um outro tipo de arranjo sintatico-discursivo. Que tipos de arranjos
e associaç6es sao previstos tendo em vista 0 gênero discursivo e a
modalidade escolhida? Que fatores externos e internos estao
envolvidos nesses processos de elaboraçao? Como, de fato, podernos
substituir as noç6es de correto/incorreto, restritas aos paradigmas
da gramatica tradicional, pelas de adequaçao/inadequaçao,
consideradas pelas teorias da variaçâo lingüistica?
Vamos procurar, por meio de exemplos do corpus, desenvolver
algumas propostas ou estratégias de trabalho corn a lîngua que
contemplern um estudo critico de texto e gramatica, numa
perspectiva funcional, integrada e "produtiva" da lingua.
Se a nossa orientaçao reside na reorientaçao real dos paradigrnas
da gramatica tradicional, precisamos, até mesmo por uma questao
de coerência te6rica e de procedimentos, ater-nos à questâo dos
gêneras ou estruturas discursivas. Como dar conta das variantes de
registro e rnodalidade sem compreenderrnas os tipos de eventos
comunicativos que estao envolvidos? Para issa, é precisa aliar à
competência lingüîstica a campetência camunicativa, associada
e/ou estimulada pelo canhecimento cultural. Segundo Paredes Silva
(1996a, p. 2), niveis de estruturas discursivas saa madas de
1/

organizaçâo que representam as passibilidades da lingua, as ratinas


ret6ricas ou formas convencianais que 0 falante tem à sua disposiçâ.o
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 109

na lîngua". Para cada uma dessas estruturas, havera um conjunto


de traços lingüisticos tipicos, espedficos.
Considerando que a primeira praposta de atividade concentra-
se na descriçiio de local realizada por uma informante da ensino médio
de Juiz de Fora, Minas Gerais, vale registrar as caracteristicas
apresentadas por Paredes Silva para as chamadas estruturas
descritivas: verbo numa forma naa-perfectiva; predicada estativo
em torna de entidades (terceira pessoa), sintaticamente centradas
em estmturas nominais.
A estruturaçao em torna de uma organizaçao espacial e nao-
temporal, cujo tempo é 0 da simultaneidade, e a recorrência a
aspectas figurativos sao as caracteristicas bâsicas da descriçao, cuja
funcionalida eside na fixaçao de caracteres, na qualificaçao de
personagens, de 10 e tempo. Os fatores reunidos, ao mesmo tempa
que estruturam a des içao, sao responsâveis por apresentar uma
determinada visao de und a, 0 ponto de vista filtrada pelo texto.
Tamanda por base tais conceitos, vamos observar camo a
descriçaa é realizada em ,!uas diferentes modalidades - fala e escrita
-, verificanda inclusive Je tais conceitos aplicam-se igualmente em
ambos os procedimentos.
De acorda corn a prindpia de icanicidade, verificamos, na
descriçao de Andréa, a ocorrência sistematica do sufixo -inho em
sua funçâo afetiva, dadas as caracteristicas do local descrito e do
modo como a informante 0 descreve, refletindo uma interaçao
pasitiva corn 0 meio.
Segundo Camara Jr. (1976, p. 72-73), 0 sistema flexional é
obrigatôrio, sistematico e regular, imposta pela natureza da prôpria
frase, isto é, assaciado aos aspectas gramaticais, ao passo que 0
pracesso derivacional estabelece um tipa de relaçiio aberta, mais
sujeito, entâa, conforme a perspectiva funcionalista, às influências
e às caracterîsticas do discurso. Nesse sentido, 0 grau nao pode ser
considerado um processo flexional em partuguês, "porque naa é
um mecanismo obrigatôrio e coerente e nao estabelece paradigmas
exaustivos e de termos exclusivos entre sr'. Para Mattoso, a sua
110 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

inclusao na flexao nominal decorreu da transposiçao pouco


inteligente de um aspecto da gramâtica latina para anossa gramâtic~
sobretudo no que diz respeito aos graus comparativo e superlativo.
A gramâtica tradicional inclui a grau no âmbito da flexao,
conforme podemos observar:
• A rigor, a flexao de grau é pertinente ao adjetivo. Admitimos,
porém, a existência de três graus para a substantiva - a normal, a
aumentativo e 0 diminutivo - em consonância corn a Nomenclatura
Gramatical Brasileira e a Nomenclatura Gramatical Portuguesa
(...) (CUNHAe CINTRA, 1985, p.193).
• Coma os substantivas, os adjetivos podem flexionar-se em numero,
gênera e grau (id., ib., p. 243).
• Flexôes do adjetivo: coma 0 substantiva, a adjetivo pode variar
emnumero, gênera e grau (BECHARA, 1987, p. 89).
No entanto, na Gramatica da lîngua portuguesa (1975, p. 107),
Celso Cunha aprésenta no capîtulo sobre derivaçâo os sufixos
nominais (aumentativos e diminutivos), tratando-os, portanto, como
processos derivacionais. Exceto essa questâo, yale ressaltar 0 aspecto
nao-obrigatôrio, tipico da derivaçao: "É a rigor uma questao de
estilo ou de preferência pessoal" (CAMARAJR., 1976, p. 72).
Portanto, trataremos, é lôgico, 0 grau coma parte do sistema de
derivaçao do português, sujeito às leis do discurso, aos gêneros
discursivos, às modalidades e aos diferentes contextos comunicativos.
Acrescentamos também que a prôpria gramâtica tradicional
entende os sufixos diminutivos em seu aspecta afetivo e estilistico,
nem sempre se referindo, no caso, à diminuiçâo de tamanho, esta
expressa, em geral, pelas formas analiticas correspondentes.
A descriçao de local realizada por Andréa (cf. "Textos em anâlise",
neste capîtulo), a começar pela qualificaçao inicial atribuîda à casa
coma um espaço agradâvel, ideal, maravilhoso - teve uma casa... que
era assim... maravilhosa -, corresponde a um tipo de descriçao cuja
visao de mundo esta comprometida corn valores afetivos positivos,
tais como alegria, satisfaçâo, entusiasmo e aconchego.
Lingüfstica funcional aplicada aD ensino de português 111

o traço genérico que caracteriza a casa como maravilhosa é


desdobrado sucessivamente por meio de especificaç6es e descriç6es
minuciosas sobre as partes da casa. Tais desdobramentos fixam e
sustentam os caracteres positivos (subjetivos, afetivos) apresentados
de modo que 0 texto aparece figurativamente estruturado corn uma
codificaçao morfossintatica correspondente à realidade descrita,
conforme podemos verificar:

7) teve uma casa... que era assim... maravilhosa


7.1. ficava num condomînio no alto

7.2. clava pra você ver assim... a praia de Jeribâ

7.3. a casa era assim...

7.3.1. co madeirinha...
7.3.2. toda env iza::da
7.3.3. tinha um de e... que clava pra ver a maior visual
7.3.3.1. você ficava endo aquele pôr-do-sol... estrelinhas ((Tiso))
e mais algum coisa... né?
7.4. tinham dois andares

7.5. era superaconcheganre com aquelas poltroninhas fofinhas...


j
A atmosfera envolvente, romântica, de sonho (assim de filme)
propicia e desencadeia 0 usa de recursos morfossintaticos que
refietem a estrutura da experiência, conseqüentemente a estrutura de
mundo. Podemos observar como a preferência pelo sufixo -inho na
caracterizaçâo da casa, da natureza ou do pr6prio ambiente contribui
para reforçar 0 tom de afetividade presente no texto de Andréa.
Termos como estrelinhas e poltroninhas fofinhas intensificam 0 clima
romântico e aconchegante do espaço descrito.
o clima de envolvimento intensifica-se ainda mais quando a
informante é solicitada pela entrevistadora a descrever 0 local
preferido da casa, no caso, 0 quarto: "0 quarto era enorme... sabe
aquelas coisasassim de filme...".
A figuratividade soma-se à ou é resultante da afetividade
imprimida na descriçao e da relevo à atmosfera onirica criada por
meio do emprego de substantivos pertinentes ao contexto,
pragmatica e discursivamente motivados:
112 Lingüfstica funcional: teoria e prâtica

8) ... com as cortininhas se abrem assirn...


.. .a1 0 ventinho vern e as cortininhas ficam assim esvoaçantes
...tinha a sacadinha né?
...tinha uma cadeira uma cadeirinha de balança...

Até mesmo 0 incâmodo de uma goteira e da temperatura do


ambiente (estava frio) nao recebem tratamento distante ou negativo;
ao contrârio, expressam-se de modo a se inserir no clima vivido
pela informante:

9) e nesses dias estava meio friozinho ... entâo era terrîvel... né?
mas... (...) e a goteirinha conseguia chegar no meu pé

Portanto, de acordo corn a principio de iconicidade, a sufixo


-inJui2 é iconicamente motivado: a) pela natureza discursiva (gênera:
descriçao de local); b) pela qualidade (propriedade, peculiaridade)
do local descrito; c) pelo tipo de interaçao que a informante estabelece
corn 0 ambiente (natureza que envolve sentimentos positivos). Sao
esses fatores responsâveis pela correspondência entre a motivaçao
icânica e as funçoes pragmâticas que desencadeiam mudanças
morfossintâticas produtivas na Hngua.
Notamos também que a descriçâo de Andréa assemelha-se à
estrutura descritiva apresentada por Paredes Silva: predominância
de predieados estativos centrados em entidades (observa-se a
quantidade de predicados do tipo nominal para a descriçâo do
ambiente e dos elementos que 0 comp6em) e verbos nao-perfectivos
(preferência por ter, tîpico da oralidade, no imperfeito do
indicativo).
No tocante, porém, ao procedimento escrito, observamos que
hâ uma mudança significativa. Adescriçâo é mais econômica quanta
à extensâo do texto e ao conteûdo informaciona1. Além disso, outros
arranjos sintaticossâo utilizados. 0 carâter sugestivo, mais do que
informativo, atribuido às opinioes oferecidas pela informante, se
ganha relevo na modalidade oral, é, na escrita, substituido par outro

;0 A respeito da funcionalidade desse sufixo no português do Brasil, ver seçâo


"1conicidade e marcaçâo", do capitulo "Pressupostos teâricos fundamentais".
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 113

tipo de desempenho lingüîstico, isto é, a competência discursiva


ou pragmatica ajusta-se às peculiaridades das situaç6es
comunicativas.
Coma a interaçâo face a face cede lugar, na escrita, a outra tipo
de interaçâo, exigern-se outras condiç6es de adaptaçâo a essa
modalidade. Cabe ao professor procurar, corn os alunos,leva-los a
perceber e a refletir sobre as mudanças ocorridas de um registro
para 0 outro, a começar, par exemplo, pela eliminaçâo das formas
dêiticas e indefinidas encontradas na fala; pela presença de
conectores lôgicos e sintaticos no lugar de marcadores
conversacionais e das hesitaç6es caracterîsticas da fala (a respeito de,
de algum modo, mas, antes...quando); pelo enriquecimento do
vocabulario, justamente para dar conta dos vazios mais facilment
preenchidos na oralidade que precisam ser ocupados corn ais
informaç6es que visem aO maior esc1arecimento do leit ; pela
preocupaçâo corn 0 registro formaI que atende às exig"ncias da
norma cuita; pelaformataçâo do texto, dividido em par/grafos em
atençâo às partes do texto como introduçâo, desenvol imento e
conc1usâo; pela preocupaçâo, enfim, corn a maior le 'bilidade,
consistência, relevância e aceitabilidade do texto, tendo e vista 0
contexto comunicativo.
o texto escrito requer melhor elaboraçâo quanto ao
planejamento por parte do produtor, ao passo que 0 texto falado,
salvo espedficas situaç6es de comunicaçâo (palestras, telejornais,
entrevistas, entre outras), seria, nessa perspectiva, mais espontâneo.
Par outra lado, a maior densidade lexical encontrada na passagem
de uma a outra modalidade no relato de Andréa também é fruto de
uma necessidade pragmatica e do contexto em questâo.
Na descriçâo escrita, em geral, e na da informante, em particular,
enfraquece-se 0 grau de subjetividade e afetividade encontrado no
registro falado (por meio da utilizaçâo de mecanismos
morfossintaticos como a economia de atributos e qualificaç6es
referentes à casa e a eliminaçâo da presença do sufixo derivacional
-inho, responsavel pela intensificaçâo da afetividade e pela interaçâo
114 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

corn 0 interlocutor). Também se observa coma a informante substitui


o verbo ter, freqüente no registro oral, pelo seu correspondente haver,
na escrita, 0 que confere maior grau de formalidade, atendendo e
ajustando-se às press6es normativas. rrata-se, pois, de procedimentos
utilizados pela inforrnante que representam os modos de organizaçiio
da informaçiia eas ratinas ret6ricas disponfveis na lfngua peculiares a
cada estrutura discursiva e propâsito comunicativo. Compete ao
professor, em suas aulas de português, dar relevo a tais estratégias
ou procedirnentos e ativar a competência pragmâtico-discursiva
em consonância corn a cornpetênda gramatical para que 0 aluno
trabalhe corn a correspondência entre ambas.
Como a modalidade escrita submete-se mais às normas
gramaticais, em funçâo do propâsito comunicativo, a descriçâo de
Andréa corresponde, fundonal e gramaticalmente, a essas exigências.
Podemos afirmar corn isso que a atitude prescritiva é motivada por
raz6es narmativo-pragmaticas em atençâo ao tipo de evento e propâsito
comunicativo cuja funçâo reguladora favorece a padronizaçao de
procedirnentos relacionados à utilizaçâo de um registro que atenda
às convenç6es estabelecidas pela norrna cuita da lfngua.
Portanto" corn base na regulaçao e na padronizaçao, 0 professor
pode demonstrar coma cada contexto" cada gênero e cada
modalidade: a) requerem diferentes procedimentos e articulaç6es
sintaticas, semânticas, morfol6gicas; b) adaptam-se às situaç6es;
c) modificam-se em funçâo das press6es de uso e press6es gramaticais.
No entanto, yale a pena charnar a atençâo para os seguintes
aspectos:
• Par que 0 aluno parece ser estimulado a conter-seN em seu texto
fi

escrito?
• Por que somente a liberdade/autonornia em relaçao à linguagem
e aos procedimentos gramaticais é concedida para os textos orais
de cunho informaI e para os literarios?
• Até que ponto, por exemplo, 0 sufixo -inho, as repetiç6es e a maior
quantidade de atributos iriam comprometer a descriçao escrita
de Andréa?
LingüÎstica funcional aplicada ao ensino de português 115

• A par das rotinas ret6ricas pertinentes a cada situaçâo


comunicativa, nao valeria uma tentativa - por meio de exerdcios
de produçâo de textos - de desenvolver corn os alunos outras
rotinas lingüisticas; testar novos procedimentos?
Trabalhar a descriçâo oral de Andréa, chamando a atençâo para
os recursos utilizados, e confronta-los corn sua interface escrita é
um caminho para a reflexao sobre a lingua. Sugerir outros
procedimentos, propor outras elaboraç6es dos textos estimula no
aluno sua capacidade criativa, por exemplo. Conscientiza-lo das
regularidades e ao mesmo tempo capacita-lo para a exploraçâo
de novas possibilidades por meio da reflexao, da comparaçao de
diferentes situaç6es comunicativas e da atribuiçao de novos sentidos,
ampliaçôes e alteraç6es de textos contribui para a apropriaçâo
progressiva dos diferentes registros, meta que esta no bojo da anâlise
e da reflexao propostas nos PCN.
Nesse sentido, podemos verificar como, na descriçâo escrita,
a informante, ao optar pela parataxe, eliminando basicamente todos
os conectores corn exceçâo do e, conferiu ao texto uma progressâo
seqüencial em termos de espaço. Nesse caso, ela se aproximamais
da definiçâo prototîpica da descriçâo, ao passo que se afasta da
mesma em sua descriçâo oral.
. \~ Portanto, sugerimos que 0 professor adote, junto aos alunos,
~~m tipo de definiçâo que se ajuste às caracteristicas do registro em
questâo, demonstrando haver maior maleabilidade nos textos orais,
interpretando-os e avaliando-os corn base na eficacia, na adequaçâo
e na pertinência dos usos lingüîsticos.
Em relaçâo aos usos da lingua, coma explicar a presença de
/ enunciados intercalados na descriçâo oral de Andréa? 0 que dizer
a respeito do item assim, tâo recorrente nessa descriçâo? Assim é
classificado como advérbio de modo na gramatica tradicional, mas
a abordagem funcionalista admite outras funç6es que nao se
restringem a essa classificaçâo, nem par ela estao previstas, e que
sâo tipicas da modalidade oral. Segundo Martelotta e outros (1996,
p. 262), a trajet6ria de assim compreende tanto 0 processo de
116 Lingüistica funcional: teoria e prética

gramaticalizaçâo quanto 0 de discursivizaçào, assumindo,


respectivamente, novas funç6es gramaticais coma anaf6rico e
cataf6rico, além de exercer uma funçâo de marcador discursivo na
qualidade de preenchedor de causa.
Caracteriza-se a oralidade, diferentemente da escrita, pelo uso
de formas mais dêiticas que gramaticais, com referências ao espaço
ou alusâo a gestos, coma revelam os exemplos a seguir:

JO) teve uma casa... que eu fiquei em Bûzios... que era assim ...
ficava num condomînio assim no alto...
corn as cortininhas se abrem assim...

Além da funçâo dêitica, a elemento assim acumula, nos exemplos


destacadas acima, uma funçào adverbial modal, conforme a
classificaçâo gramatical atesta. Par outra lado, também atua: a) camo
cataf6rico ("dava pra você ver assim... a praia de Jeribâ"), assumindo
um valor de"anunciadar de complemento": assim = praia de Jeribâ;
b) coma predicativo: "teve uma casa... que era assim maravilhasa";
"a casa era assim... toda de vidro, corn madeirinha , envernizada";
c) corn valar comparativo: "sabe aquelas caisas assim de filme";
"corn as cortininhas se abrem assim"; "e as cortininhas ficam assim
esvoaçantes"; "ai tinha um tapete assim de... parece aqueles tapetes
assim de corda" (acumulaçâo de usos anaf6rico e cataf6rico
simultaneamente, bem como a alusâo a gesto).
Observando esses empregos de assim e estudando as propostas
das PCN, podemas analisar corn 0 aluno a variedade de empregos
possfveis desse termo, nas funç6es em que ele se manifesta na
descriçao, seja coma dêitico e marcador discursivo (na manutençao
da seqüência lôgica do raciodnio), seja no preenchimento de
funç6es mais gramaticais, que nao correspondem, no entanta, àquela
testemunhada na gramâtica. Ao invés de desconsiderar esses usos
ou de classifica-los como corrupçiio da linguagem, a perspectiva
funcionalista nao invalida a gramâtica; ao contrârio, liberta-a de
definiç6es rigidamente categ6ricas, que muitas vezes cerceiam as
diferentes e dinâmicas manifestaçôes lingüisticas, e prop6e uma
anâlise mais contînua das categorias gramaticais.

.~
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 117

Sugerimos, a titulo de reflexâo e proposta de aplicaçâo, que


a professor observe os diferentes usos de assim na descriçâo oral;
que busque outras textos (diferentes registros e modalidades) em que
o termo apareça corn distintas ou idênticas ocorrências e ainda
que estimule a elaboraçâo de textos pelas alunas: a) que preencham
as funç6es de assim em outra modalidade, por exemplo; b) que
substituam 0 termo por outros, se possIvel, de sentido semelhante
(no discurso oral); c) que reproduzam situaç6es em que assim possa
ser empregado na modalidade escrita, observando, em todos esses
casas, a adequaçâo às circunstâncias em que é empregado. Enfim,
a etapa referente à produçâo pela aluno pode ser enriquecida e
ampliada se 0 professor contemplar as vârias possibilidades aqui
sugeridas, que ultrapassam os limites tâo categ6ricos postulados
pela gramâtica tradicional.
Quanto ao relato de opiniâo de Valéria, aluna do ûltimo penodo
universitârio, do Rio de Janeiro (cf. "Textos em anâlise" l neste
capitulo), sao uhlizadas estruturas do tipo expositivo-
argumentativas. De acordo corn Paredes Silva (1996a), tais estruturas
repousam em unidades semânticas referentes à proposiçâo,
sintaticamente subordinadas l apresentando preferencialmente
verbos nao-perfectivos e construç6es hipotéticas e dial6gicas.
~~, Estruturas expressivas, ao contrârio, apresentam verbos
"~dominantementeno presente e na primeira pessoa, corn
predicados de opiniâo, avaliativos ou subjetivos. Segundo a autora
(1996b)1 estruturas expressivas ou avaliativas representam a
reconstruçâo de uma experiência, par isso requerem recursos de
expressividade e avaliaçôes.
/
o relato de opiniâo de Valéria, em sua modalidade oral, conjuga
aspectos pertinentes à estrutura expositiva e também à expressiva.
Quanto ao primeiro tipo de estrutura, pode-se verificar a
predominância de verbos nâo-perfectivos: "eu estou achando";
"a gente estâ vendo a que estâ acontecendo"; "0 que era (...) a gente nao
sahia (...),jicava tudo escondido"; "achava que tinha informaçâo";
"('u estou achando"; "a gente estâ sabendo"; eu acho que estâo
Il
118 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

andando"; "nao roubava (...) lôgico que roubava"; "a gente estâ vendo";
Ilnao acontecia"; Ilnâo podia se falar /'; Ilnao podia tér"; "ficava todo
mundo"; "eu acho que estâ melhorando".
Embora os verbos exprimanl a nâo-perfectividade, os predicados
que os acompanham vêm introduzidos por sujeito em primeira
pessoa ou pela expressâo agente, numa clara manifestaçao expressiva
e avaliativa que corresponde ao tipo de gênera proposto (relato
de opiniâo). A expressividade corn caracterîstica de expressao de
julgamento é confirmada, nesse relato, em casos de clâusulas serem
introduzidas pelo verbo achar, considerado um verbo duplo do
tipo proposicional e emotivo. Verbos proposicianais "sao aqueles que
exprimem, de uma maneira geral, julgamento de ordem intelectual
sobre algum fato"; verbos emotivos, por sua vez, "exprimem um
julgamento de ordem pessoal ou cujos sujeitos exercem (ou tentam
exercer) uma manipulaçao sobre 0 sujeito da clâusula subordinada,
coma quere~ deixar e desejar" (CEZARIO et al., 1996, p. 79-82).
o relato d~()E~!:li.~c:'.apresenta, assim, uma caracterîstica dupla,
porque propicia a manifestaçao simultânea de um julgamento de
ordem intelectual e pessoa!. Esse carâter dual de natureza sugestiva
mais do que informativa, conferida pela emprego do verbo achar,
é fortalecido, na modalidade oral nesse exemplo do corpus, pelas
hesitaç6es e pelas indetenninaç6es semânticas e ideol6gicas do ponto
de vista do sujeito que enuncia (oraeu, oraagente). Do ponta de vista
gramatical, a escolha de substantivos, advérbios e pronomes de
natureza indefinida e demonstrativa pressup6e um conhecimento
partilhado, um interlocutor capaz de preencher as informaç6es
subjacentes às escolhas indeterminadas: "eu estou achando que
agora"; Ilnâo é 0 que eraantigamente"; lia gente nao... sabia de nada";
llficava tudo escondido";"a verdade é issa"; "na divulgaçao das coisas
"fuIana roub
(... ) que... po... " es t a/ tud"
ou; Il 0 as c1aras;
"" eu ach 0 que 0
pessoal também estâ... com medo disso"; "mas hoje em dia"; Ile antigamente
nao acontecia isso"; "tudo... tudo proibido; "ficava todo munda mais
alienado"; Ilum dia a gente chega lâ".
Lingüistica funcionalaplicada ao ensino de português 119

Todos os termos e express6es destacados 3 distinguem-se pela


escassez lexical e carência infonnacional que requerem do interlocutor
a recuperaçâo dessas informaç6es, que faça inferências, utilizando
seu conhecimento de mundo: a informaçâo central do texto gira em
torno da abertura polîtica do pais e do papel da imprensa para a
ratificaçao dessa abertura e divulgaçao dos fatos (coisas).
A julgar pelo tipo de construçao elaborada pela informante,
o professor desavisado tenderia a c1assificar esse texto como
desprovido de coesao e coerência textuais, além de comprometido
pelas intimeras incorreç6es gramaticais. No entanto, deve-se levar
em conta que a 16gica da oralidade tem seus pr6prios mecanismos
responsâveis pela garantia da coerência e da coesao textuais.
Coma nao se trata de um espaço de interlocuçao entre a
entrevistador e a informante, pois nâo é uma situaçâo de
conversaçâo, fica a cargo daquele e de possiveis leitores uma
interpretaçâo mais sujeita a fatores de ordem pessoal, dada a
indefiniçâo do contexto exterior ao texto. 0 grau de informalidade,
natural nos discursos orais em relaçâo aos escritos, prevê, entâo,
certos arranjos sintâtico-semânticos que exigem do outro uma
participaçâo mais intima corn 0 texto, parecendo, à primeira vista,
que 0 texto seja prejudicado em termos de legibilidade e
~ credibilidade das informaç6es. Cabe ao professor, nesse momento,
'~alhar corn critérios definidos previamente para nao incorrer
em equîvocos desastrosos para a interpretaçao de textos e a
compreensâo dos sistemas lingüisticos em jogo, ressaltando
sempre a importância da situaçao comunicativa estabelecida.
Esse é a momento propicio, considerando-se ainda a relato por
/
base, para 0 professor promover e estabelecer a reflexâo de todos os
aspectos envolvidos nas diversas situaç6es lingüisticas que se
apresentam. É 0 momento de levar 0 aluno a perceber como ele
pode substituir uma linguagem de carâter pessoal (em que
predomine a opiniao) por outras em que haja reflexâo sobre a

3 A respeito da informatividade, ver a seçâo referente ao assunto no capitulo


"Pressupostos teéricos fundamentais".
120 Lingü[stica fUhcional: teoria e pratica

assunto corn defesa de idéias e pontos de vista, de acordo corn os


prop6sitos comunicativos definidos. Que tal sugerir aos alunos,
sempre que possîvel, que:
"
1
r. • substituam os elementos genéricos por outros mais precisos,
devidamente contextualizados: situar 0 tempo e 0 espaço (agora,
hoje em dia, antigamente, quando); situar os sujeitos e suas falas (eu,
agente, fulano, quem, todo mundo);
• esclareçam os subentendidos (tudo às claras, tudo proibido);
• explicitem os complementos verbais e nominais que se inferem
(fulano roubou; nao é que antigamente nao roubava... lôgico que
roubava; hoje em dia eu acho que estâ melhorando... um dia a gente
chega la... eu tenho esperança: quem roubou? 0 que nao se roubava
antigamente? coma 0 verbo roubar pode ser entendido em sua
transitividade nesses casos? 0 que estâ melhorando hoje em dia?
esperança de quê?);
• expliquem as raz6es dos fatos expostos: agente esta vendo 0 que esta
acontecendo cam 0 paîs; lôgico que roubava: por que se roubava?;
antigamente nao acontecia isso: 0 que (nao) acontecia e por que nao
acontece mais?
Como podemos verificar, abre-se um leque de possibilidades
para a interpretaçâo do texto. Ao mesmo tempo que 0 professor
direciona 0 trabalho para os aspectos gramaticais, ele desenvolve
no aluno a capacidade de inferência, compreensao e interpretaçao.
Aquestao da legibilidade do texto pode tomar-se nma tarefa criativa,
produtiva, critica e também prazerosa,levando 0 aluno a perceber
que nao hâ uma separaçao entre texto e gramâtica; ao contrârio, nao
hâ nm sem 0 outro, e vice-versa. Esse aspecta dinâmico e funcianal
da lîngua, acreditamos, é 0 que pode ser extraîdo para 0 seu estudo
em sala de aula.
A partir das quest6es apresentadas, 0 professor pode aproveitar
a oportunidade para chamar a atençao do aluno para a funcionalidade
e a produtividade dos usos indefinidos e dêiticos de pronomes e
advérbios no texto oral. Por exemplo, se os termos ou express6es
representados pelas classes de palavras mencionadas sao anaf6ricos
ou cataf6ricos (solicitando ao aluno fazer as relaç6es no texto);
Lingüfstica funcional aplicada ao ensino de português 121

se fazem referências endof6ricas ou exof6ricas (explicando a


pertinência dessas referências pela analogia com 0 texto oral); se a
motivaçâo desses empregos esta adequada à obtençâo dos efeitos
desejados (ou seja, a comunicaçao faz-se eficiente/eficaz? haveria
outra forma mais adequada, que pudesse substitul-Ia, em se tratando
de texto oral?); se os referidos termos e express6es enquadram-se
numa classificaçao formaI prototipica ou ultrapassam a classificaçâo
proposta pela tradiçao, ocupando outras funç6es e assim assumindo
diferentes possibiIidades morfol6gicas na oralidade; se atendem ao
requisito consistência, isto é, quando todos os enunciados do texto
podem ser considerados verdadeiros, nâo-contradit6rios, em um
mesmo mundo ou nos mundos representados no texto.
rodos os fatores tao fartamente estudados e desenvolvidos pela
lingüfstica textual encontram terreno fértil na abordagem
funcionalista da lingua, uma vez que ambas as perspectivas
contemplam os diversos aspectas da funcionamenta lingüîstico em
cada situaçâo de comunicaçao.
Esta, pois, apresentada uma proposta pratica de trabalho corn a
lfngua de modo produtivo desprovida de certos precanceitos,
procurando levar adiante os requisitos expostos nos PCN, entre os
quais aquele de que é preciso livrar-se do mita que ainda predomina
entre os professores, "0 de que existe uma unica forma 'certa' de
xx .....,
falar - a que se parece corn a escrita - e 0 de que a escrita é 0 espelho
'~clêiala - e, sendo assim, seria precisa 1 cansertar' a fala do aluna para
evitar que ele escreva errada" (PCN, 2000, p. 31).
Essa visâa precanceituosa da fala (descontfnua, pouca organizada, : ()
rudimentar, sem qualquer planejamenta), estabeledda corn base no
ideal da escrita, certamente compramete 0 ensino da lîngua, pois
/
elitnina a possibilidade de trabalhar corn os diferentes registros, além
de empobrecer as aulas de português. Pretendemos, partanto,
demonstrar como cada modalidade apresenta uma estruturaçâo
pr6pria, motivada pelas circunstâncias pragmatico-discursivas e
sociacognitivas, e coma a Iingüistica funcional pode ser um caminho
viavel para a produçâo, interpretaçâo, anaIise e reflexâo de variados
textos que 0 professor deve pôr à disposiçâo de seus alunos,
Rumos da lingüistica funcional

Maria Angélica Furtado da Cunha


Mariangela Rios de Oliveira
Mârio Eduardo Martelotta

Antes de fechar este livro sobre os prindpios basicos do


funcionalismo norte-americano, fazemos aqui alguns comentârios
.acerca das novas tendências que se verificam no âmbito dos estudos
sobre 0 uso da linguagem e sua relaçâo corn 0 desenvolvimento de
futuras pesquisas no contexto da lingüistica funcional. Este capîtulo,
portanto, trata dos caminhos que a pesquisa em funcionalismo, tal
como por nos é praticada, tende a trilhar, apontando ainda para
duvidas e preocupaç6es futuras.

Aigumas constataçôes
.~ Vma consulta à produçâo recente dos programas de pôs-
"··~duaçâo em estudos da linguagem no Brasil permite identificar
um-conjunto de tendências que apontam para a progressiva
valorizaçâo dos estudos do uso da lingua em situaçâo de interaçâo,
em tempo real, em espaços geogrâficos delimitados e com dados
coletados segundo metodologias plurais. Nesses estudos
/
contemplam-se manifestaç6es tanto da fala quanto da escrita, desta
e de outras sincronias. A listagem preliminar destas tendências
mostra:
1) a expansâo da pesquisa sobre 0 uso da lîngua no Brasil, traduzida
pela aumento do numero de dissertaç6es e teses em varios
programas de pos-graduaçâo e pela proliferaçâo de grupos
voltados para essa ârea de investigaçâo;

DP&A editora
124 Lingüfstica funcional: teoria e prâtica

2) a énfase na investigaçâo de outras sincronias do portugués,


resgatando os estudos histôricos, bem coma a atençâo para
quest6es da escrita, revisitando os projetas de fiIoIogia e de
normativizaçâo da lingua;
3) a postuIaçâo da pancronia coma uma perspectiva para a estudo
das novas tendências de regularizaçâo e de renovaçao do uso,
complementando 0 fenômeno da variabilidade, quer em termos
de variaçao eStélveI, quer em termos de variaçâo que prefigura
e anuncia mudança;
4) a busca de um aprofundamento dos aspectas interacionais e
cognitivos envolvidos na configuraçâo dos fenômenos
lingüîsticos;
5) a abordagem da esfera discursiva na anâlise do uso: a ênfase nas
metodologias qualitativas; a observaçâo das condiç6es
pragmâtico-comunicativas: ° foco na interaçâo, na situaçâo
concreta de comunicaçâo;
6) a carMer abrangente da frente de estudos do uso da lîngua, em
que a pesquisa caminha par vârios rumos (aquisiçâo,
aprendizagem, ensino) assumindo distintos vieses.
Esses sao alguns pontos que consideramos interessantes nao
para a fechamento, e sim para a abertura de novas perspectivas de
pesquisa dos tôpicos que resultaram neste livra.

Novas tendências
Apostura inicial de trabalho consiste em resgatar parte do refrao
segundo 0 quaI nao hâ teorias superadas, assim coma 0 prindpio
de que também nao hâ teorias corretas, dado que 0 produzir humano
é, par definiçâo, mais ou menas adequado, representa aproximaç6es.
Nao ha coma garantir a quâo prôximo se esta da abordagem ideal,
pois nao ha padrao de referéncia para compararmos graus de
adequaçao. 0 critério de escolha passa a ser 0 nîvel de satisfaçao
que cada proposta provoca na comunidade discursiva em que a
mesma se produz.
No quadro em que se verificam os desmontes das propostas
paradigmaticas fechadas, parece nao fazer sentido porfiar par uma
Rumos da lingü[stica funcional 125

formulaçâo exata, estrita e restritiva de uma s6 abordagem te6rica.


Convivemos corn tendências de fusâo dos opostos e dos
camplementares, em que as disciplinas unem-se ou reûnem-se em
tendências inter-, multi- e transdisciplinares.
As atividades interdisciplinares sup6em a interface corn a
socialingüistica quantitativa correlacional, em que se destacam
a pastulaçâo e a anâlise de categorias decomponiveis em variantes
discretas, mensurâveis, normalmente avaliadas corn auxîlio de
aplicativos probabilîsticos, destinados a prever tendências,
verossimilhança e possibilidade de co-atuaçâo de fatores, bem coma
de discriminaçâo do efeito relativo de cada fator na configuraçâo
de fenômenos lingüîsticos. TaI parceria implica uma revisao do
carMer discreto das categorias, dada a tendência dos estudos do uso
a postular categorias maleâveis, continuas, escalares ou corn limites
imprecisos. Embasa essa postura a idéia, defendida por autores como
Labove Sankoff, de que a mente trabalha estatisticamente. A mesma
perspectiva estâ presente na clâssica afirmaçâo de Du Bois: ''As
gramâticas codificam melhor 0 que os falantes fazem mais". Hâ,
portanto, uma relaçâo, a investigar, entre cogniçâo e estatistica,
pressupondo-se que 0 procedimento psicol6gico individual e
localizado é a base das tendências de organizaçâo social da
linguagem.
Outra interface relativamente promissora é a que se verifica
corn estudos de pidgins e crioulos, e que se pode ilustrar pela anâlise
de feixes de traças associados aos processos de despidginizaçao e
descrioulizaçiio no português no Brasil. De fato, 0 nascimento da
lîngua que se dâ no pidgin é 0 contexto ideal para encontrar as
/
motivaç6es funcionais das formas lingüîsticas, que 0 desgaste pela
usa faz desaparecer apas sucessivos processos de gramaticalizaçaa,
dos quais vao derivar as lînguas jâ formadas.
Podem-se, também, citar os esforços em criar interface corn
estudos de psicologia, de orientaçâo cognitiva, a exemplo das
propostas referentes à relaçâo entre categarizaçâo e formas de
percepçao, bem como entre processos de metaforizaçâo e
126 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

transferência de informaç6es entre domînios conceptuais. Esses


esforços demonstram que nao faz sentido estabelecer uma barreira
entre as ciências psicolôgicas e as ciências sodais, tal coma prop6em
Chomskye seus seguidores.
Nesse sentido, outra parceria produtiva verifica-se corn a
antropologia cultural e corn a etnometodologia, que resulta, entre
outros aspectos, na reposiçao do indivîduo coma centro de interesse
do estudo, pelo que ele diz e, em especial, pelas intuiç6es que tem
sobre a linguagem e sobre si mesmo, coma ser de linguagem. TaI
parceria também se manifesta na analise dos papéis sociais, na
abordagem da linguagem coma elemento operador da
conceptualizaçao sociaimente localizada, segundo a quaI 0 sujeito,
em situaçao concreta de comunicaçao, produz significados como
objetos do discurso, e nao realidades independentes, em um processo
engendrado pelos participantes da interaçao. Por fim, pode-se falar
do crescimento de uma tendência aplicada, comprometida com a
ideologia e corn a pedagogia lingüîstica.

Questôes a investigar
ou em processo de investigaçâo
Corn base no que foi aqui exposto, enumeramos um conjunto
de questoes que refietem as preocupaçoes dos pesquisadores em
lingüîstica funcional e que deverao transformar-se em objetivos
gerais de investigaçoes futuras:
• É possîvel estudar 0 usa da lingua focalizando aspectos
estruturais, relacionados à gramaticalizaçao dos fatos lingüîsticos,
sem observar aspectas semânticos mais gerais?
• Corn que evidência pode-se propor uma interpretaçao daquilo
que a teoria considera sistematizaçao, ou gramaticalizaçao, de
fatos da linguagem?
• Até que ponto a freqüência das formas lingüisticas deve ser
utilizada como um critério caracterizador da estrutura da lingual
• Até que ponto os côdigos e os ritos de linguagem que utilizamos
resultam, do que aprendemos corn os outros, na interaçâo?
Rumos da lingüÎstica funcional 127

• Como distinguir entre contribuiçôes do indivîduo ou do grupo


no processo de socializaçao de usos da lingua que resulta em
gramâtica?
• Como relacionar os dados empîricos que apontam para mudança
nas linguas corn a atuaçâo pancrônica e regular de determinadas
tendências, que se manifesta nao s6 na estabilidade que caracteriza
a polissemia de alguns elementos em sincronias diferentes, mas
também no fato de que trajet6rias de mudança de elementos
antigos espelham as mesmas trajet6rias de elementos atuais?
• QuaI a importância da situaçao sociocognitiva na produçâo da
linguagem? Seria possîvel relacionar as questôes associadas à
cogniçâo e à interaçâo aos mecanismos de desenvolvimento das
lînguas através do tempo? Até que ponto ta1 relaçao pode conferir
validade, verificabilidade, verossimilhança e testabilidade ao que
propomos?
Abusca de respostas a essas questôes constitui 0 objetivo bâsico
e atual do grupo de estudos Discurso & Gramâtica.

/
Bibliografia comentada

FURTADO DA CUNHA, Maria Angélica (org.) Procedimentos discursivos na fala


de Natal. Uma abordagem funcionalista. Natal: Ed. UFRN, 2000.
Coletânea que reune trabalhos desenvolvidos pelo grùpo de estudos
Discurso & Gramâtica, seçâo UFRN, sobre a interface entre discurso,
morfossintaxe e ensino-aprendizagem de lîngua materna, corn base no
português em uso na cidade de Natal (RN). Os temas investigados
compreendem: estratégias de negaçâo, manifestaçâo do sujeito
oracional, usos e funçoes do onde, processos de superlativaçâo e
expressâo da subjetividade, descritos sob a perspectiva da lingüfstica
funcional americana. A relevância dessa obra consiste ainda no valor
documentaI que representa ao contemplar como objeto de investigaçâo
a variedade lingüîstica do português do Nordeste do Brasil.

GIVÔN, Talmy. Functionalism and grammar. AmsterdâlFiladélfia: John


Benjamins Publishing Company, 1995.
Dm dos maiores méritos da obra de Givôn é 0 de oferecer à
munidade acadêmica uma reflexâo teorica mais densa e modalizada

.. Aa proposta funcionalista em relaçâo a sua fase inicial, acompanhada da


revisâo das propostas empfricas dessa abordagem. Partindo do
pressuposto de que padroes estruturais devem e precisarn ser
considerados no trato da lingua em uso, de que hâ uma parte da
gramâtica em que a arbitrariedade e a opacidade evidenciam-se, 0 autor
arnplia e aprofunda a discussâo desse paradigma: faz 0 historieo e a
autocrîtica do funcionalisrno, inclui a dimensâo discursiva no trato da
marcaçâo, aborda a gramâtica e a coerência no texto e na mente; enfim,
/
rediscute os postulados te6rieos e redefine as metas empfrieas dessa
ainda nova vertente dos estudos lingüîsticos.

LAKOFF, George. Women, ftre and dangerous things. What categories reveal
about mind. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1987.
Trata-se de um livro sobre categorizaçâo e sua relaçâo corn nossos
pensamentos, nossas açoes e nossa cornunieaçâo. 0 autor apresenta as
bases cognitivas do fenômeno da categorizaçâo, estabelecendo uma
oposiçâo às tendências que as propostas objetivas atribuern ao fenômeno.

DP&A editora
130 LingüÎstica funcional: teoria e pratica

MARTELoTTA, Mârio; VOTRE, Sebastiao; CEZARIO, Maria Maura.


Gramaticalizaçiio no português do Bras il. Uma abordagem funcional. Rio
de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996.
Representa uma obra bâsica sobre 0 processo de gramaticalizaçao,
que aborda essencialmente 0 desenvolvimento de conjunç6es a partir
de advérbios espaciais e ternporais. 0 livro apresenta ainda anâlises
acerca de outros fenômenos, como a negaçao, a repetiçao, a ordenaçao
de constituintes e a integraçâo de clâusulas, à Juz da teoria da
gramaticalizaçâo. A obra prop6e tarnbém 0 processo de discursivizaçâo
para dar conta do desenvolvirnento dos elernentos chamados marcadores
discursivos.
NEVES, Maria Helena de Moura. A gramatica funcional. Sao Paulo: Martins
Fontes, 1997.
Introduçâo à visâo funcionalista da linguagem, focalizando os
diferentes modelos de anâlise que se enquadram nessa linha de pesquisa,
a partir da Escola de Praga, passando pelo funcionalismo europeu de
M. A. K. Halliday e Simon Dik, pela corrente americana de Talmy Givôn,
Sandra Thompson e Paul Hopper, até a interface mais recente entre
gramâtica funcional e cognitivismo. Aborda, ainda, os conceitos-chave
desse quadro teôrÎCo, como motivaçâo, iconicidade e gramaticalizaçao.
o ûltimo capîtulo destaca a aplicaçâo dos princîpios funcionalistas nas
diversas âreas de investigaçâo lingüîstica.

OLIVEIRA, Mariangela Rios. Repetiçiio em diâlogos. Anâlise funcional da


conversaçiio. Niterôi: Eduft 1998.
Abordagem das estratégias de repetiçâo lexical em diâlogos entre
dois informantes do corpus Nurc/RJ, corn evidência da forte iconicidade
caraeterizadora desses fenômenos. A autora, fundamentando-se no
aparato teôrico do funcionalismo de orientaçao norte-americana,
levando em conta as dimens6es cognitiva e pragmâtica associadas à
articulaçâo dessas estruturas, e nas contribuiç6es da anâlise da conversaçao,
estabelece nîveis hierârquicos e inter-relacionais da organizaçâo da
repetiçâo atuantes na constituiçao do texto conversacional como um
todo. Trata-se de um estudo que focaliza a interface discurso x gyamâtica
em perspectiva funcional.
Referências bibliograficas

BECHARA, Evanildo. Maderna gramâtiea portuguesa. 31. ed. Sao Paulo:


Companhia Editora Nacional, 1987.
BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüistica geral. Sao Paulo: Editora
Nacional/Edusp, 1976.
BOLINGER, Dwight. Aspects of language. Nova York: Harcourt Brace
Janovich, 1975
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BYBEE, Joan. Semantic substance vs. contrast in the development of
grammatical meaning. Berkeley Linguistics Society, 14: 247-264, 1988.
BYBEE, Joan; PERKINS, Revere; PAGLIUCA, William. The evolution ofgrammar.
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CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da lîngua portuguesa. Petrôpolis:
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CAMPBELL, Lyle; JANDA, Richard. Introduction: conceptions of
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CEZARIO, Maria Maura et al. Integraçao entre c1âusulas e gramaticalizaçao.
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Maria Maura (orgs.) Gramaticalizaçiio no português do Brasil. Rio de
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/
Sobre os autores

Eduardo Kenedy Areas, doutorando em Lingüîstica pela


Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Lucia Maria Alves Ferreira, doutora em Lingüîstica pela


Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora da
Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), uma das organizadoras
de Linguagem, identidade e mem6ria social: novas fronteiras, novas
articulaçoes (DP&A, 2002).
Marcos Antonio Costa, doutorando em Lingüîstica pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Maria Angélica Furtado da Cunha, doutora em Lingüîstica pela


Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), corn pâs-doutorado
na Universidade da Calif6rnia (Santa Bârbara), professora da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
coordenadora do grupo D&G/UFRN, e organizadora de
Procedimentos discursivos nafala de Natal e Corpus Discursa & Gramatica:
a lfngua falada eescrita na cidade de Natal.
Maria Maura Cezario, doutora em Lingüîstica pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - onde também é professora-,
/
coordenadora do grupo D&G/UFRJ e uma das organizadoras de
Gramaticalizaçiio na português do Brasil: uma abordagem funcianal.
Mariangela Rios de Oliveira, doutora em Letras Vernâculas pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora da
Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenadora do grupo
D&G/UFF e autora de Repetiçao em diâlogas: anâlise funcional da
conversaçao.

DP&A editora
140 Lingüfstica funcional: teoria e pratica

Mârio Eduardo Martelotta, doutor em Lingüistica pela


Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) -,- onde também é
professor -, coordenador geral do grupo D&G e um dos
organizadores de Gramaticalizaçiio no português do Brasil: uma
abordagem funcional.
Victoria Wilson Coelho, doutora em Lingüistica pela Pontiffcia
Universidade Catôlica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), professora da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e uma das autoras
da série Entre textos: leitura e produçiio de textos no ensino da lîngua
portuguesa.
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Rua Sao Sebasüao, 199 - Pett6polis - RJ
Tel.: (24) 2237-3769
e léxico-semânticos do português,
desenvolvidas pelos membros do grupo de
estudos Discurso & Gramatica, com
competência, seriedade e alto rendimento.
É a acepçao de diagnostico, descriçao,
analise da sintaxe no discurso. Ja 0
segundo sentido do termo pratica
transporta-nos para uma esfera menos
consensual, em cuja orbita gravitam
problemas de distinta natureza, porque em
interface com a intervençao. Pedra de
escolho no caminho dos lingüistas,
formados para a pesquisa, guiados pelas
perguntas e orientados para um fazer em
que a verdade final naD existe, a
intervençao sup6e a certeza da
superioridade das propostas interventivas
face às que vigem no mercado, a garantia
de que vale a pena mudar os habitos
Iingüfsticos dos membros da comunidade
discursiva e, sobretudo, a apresentaçao e
discussao das estratégias para assim
proceder.

A produçao do conhecimento na area da


linguagem convive com uma séria crise de
esvaziamento na repetiçao de propostas de
intervençao e no amalgama de alternativas
de analise, provocada em parte pelo afa de
mostrar resultados, a todo custo, para
atender à demanda de controle acadêmico
sobre 0 aumento de produtividade dos
6rgaos governamentais. A expectativa é que
este livro sobreviva, sereno, às
perturbaç6es e aos conflitos na area,
resultantes da exacerbaçao do modismo.

Sebastiâo Votre
Professor adjunto de Ungua Portuguesa
da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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