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POESIA (IM)POPULAR BRASILEIRA

Organização de Julio Mendonça

1ª edição

São Bernardo do Campo


Lamparina Luminosa
2012
P798
Poesias (im)popular brasileira / Julio Mendonça (organizador). - 1. ed.,
São Bernardo do Campo: Lamparina Luminosa, 2012. 304p.

ISBN 978-85-64107-03-8

1.Poesia brasileira. I. Título.


CDD 869.915

Ficha catalográfica: Sandra Ap. de M. G. A. Moura CRB-8 5980

POESIA (IM)POPULAR BRASILEIRA


Organização de Julio Mendonça

Coordenação editorial: Christian Piana


Organização: Julio Mendonça
Consultoria: Reynaldo Damazio, Tarso de Melo 1ª edição
Projeto gráfico: Christian Piana
Na capa: Sem Titulo, 2012, Dumas (Antonio Carlos Dumas Seixas)

As licenças deste livro permitem copiar, distribuir, exibir, executar e fazer trabalhos
derivados somente dos textos de apresentação dos poetas, conquanto que sejam
para fins não comerciais, que dêem créditos devidos aos autores de cada texto de
apresentação e a editora Lamparina Luminosa, e que as obras derivadas sejam
distribuídas somente sob uma licença idêntica à que governa esta.
Introdução 9

Apresentação 13

ALDO FORTES
Um poeta ocasional full-time 19
por Omar Khouri

EDGARD BRAGA
O duplo salto de Edgard Braga 33
por Reynaldo Damazio

GREGÓRIO DE MATOS
O boca de qual inferno? 55
por Carlos Felipe Moisés

SUMÁRIO JOAQUIM CARDOZO


A arquitetura oscilante da poesia de Joaquim Cardozo 75
por Manoel Ricardo de Lima

MAX MARTINS
Flor e pedrarias 95
por Tarso de Melo

OMAR KHOURI
As ficções obscenas de Omar Khouri 111
por Julio Mendonça

PAGU
A mulher do povo 129
por Carolina Serra Azul
QORPO-SANTO
O poeta que escreveu o contrário do que pensava 137
por Julio Mendonça

SAPATEIRO SILVA
Joaquim José da Silva: a desordem da sapataria 161
por Júlia Studart

SEBASTIÃO NUNES
Um poeta contra a infinita suruba capitalista 177
por Fabrício Marques

SEBASTIÃO UCHOA LEITE


O poeta cria corvos 199
por Renan Nuernberger

SOUSÂNDRADE
Uma sismografia para Sousândrade 219
por Guilherme Gontijo Flores

STELA DO PATROCÍNIO
Uma aparição de não ser, uma invenção 243
por Carlos Augusto Lima

TORQUATO NETO
A poesia como vidência 259
por Paulo Ferraz

Sobre os autores 283

Sugestões de leitura 289


POESIA (IM)POPULAR BRASILEIRA
por Julio Mendonça

qual uma faca íntima


ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
(...)
e tudo o que era vago,
toda frouxa matéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.

de Uma Faca só Lâmina


(ou: serventia das idéias fixas)
João Cabral de Melo Neto

INTRODUÇÃO Toda literatura – de qualquer país ou comunidade linguística do mundo


– tem seus autores deslocados, não-canônicos (como se diz no jargão lite-
rário). Deslocamento autoconsciente (programático), decorrente de opções
estéticas, temáticas, ou por razões geopolíticas. O primeiro caso é o do po-
eta que assume conscientemente uma poética singular e inconformada com
padrões vigentes. No segundo, suas opções estéticas e/ou temáticas – ainda
que de modo não consciente das consequências – acabam por conduzi-lo a
algum tipo de desajuste ou dificuldade de recepção. No terceiro caso, poetas
que produzem obras criativas e importantes encontram poucos leitores e par-
ca fortuna crítica por viverem e produzirem fora dos centros culturalmente
mais influentes.
É claro que esta é uma tipologia esquemática e, portanto, relativamente
arbitrária como toda tipologia; mas, acredito que contribui para compreen-
dermos parcela considerável das mazelas extraliterárias que prejudicam a re-
cepção da obra poética de alguns autores. A maior ou menor impropriedade
desses autores para o status quo literário muitas vezes resulta na sua exclusão
dos espaços de recepção crítica de maior reputação e os restringe à publicação
por meios alternativos em tiragens pequenas e de distribuição local e precária.

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Entretanto, é fato que são condições incontornáveis da poesia moderna
sua impopularidade ou a ressonância em públicos pouco numerosos, seu des-
locamento em relação às maiores possibilidades comerciais das outras artes e
sua constante sensibilidade para o mal-estar da civilização. Um autor sério,
portanto, escreve sem preocupação de ser aceito. A grande poesia sempre se
escreve contra seu tempo e lugar. Poesia indigesta, como escreveu Augusto
de Campos.
Isto não significa que ela esteja condenada à impopularidade ou ao os-
tracismo. Assim, também, na poesia brasileira. Este livro reúne uma seleção
de poemas importantes de alguns poetas brasileiros do passado e do presente
que tiveram ou têm sua poesia marcada por algum dos modos de desloca-
mento apontados acima. Produções poéticas singulares, insubmissas, difíceis
de classificar e pouco afeitas aos padrões vigentes na época de sua criação.
A forma de organização deste livro é de modo a selecionar quatorze po-
etas e apresentar cada um deles por meio de um texto escrito por um autor
convidado, o qual também providenciou uma pequena antologia do poeta
selecionado. Um esclarecimento necessário diz respeito à inclusão de Gregó-
rio de Matos num elenco de poetas “deslocados”, já que o “boca do inferno”
foi admitido (com rubores e resistências, aqui e ali) no sétimo céu da poesia
nacional. Mas, temos que lembrar que a obra de Gregório só foi publicada
sem censura três séculos após ter sido escrita; por esta razão, o poeta está
aqui, como uma espécie de patrono dos demais indigestos (como sugeriu
Reynaldo Damázio).
Outros poderiam estar nesta antologia. Não pretendi ser exaustivo nas
escolhas; busquei ser exemplar. A escolha levou em conta, entretanto – e
paradoxalmente – o fato de que são poetas que, cada um à sua maneira, pro-
duziram ou produzem obras que dialogam com a cultura e a fala populares.
Nutridos da irreverência da cultura popular, desafiam o crivo da academia
e o gosto do público. Pela (im)pertinência, pela (des)esperança, não pela vã
glória.
Para a realização deste livro foi fundamental a participação – sintonizada
com a proposta – dos autores dos textos de apresentação dos poetas e das
respectivas antologias. Devo muito, ainda, a Tarso de Melo e Reynaldo Da-
mázio pelas sugestões, pelo diálogo esclarecedor e pelo apoio incondicional.
Também estou agradecido a Christian Piana, Omar Khouri, Amálio Pinhei-
ro e Nádia Costa. Por último, mas não menos importante, quero agradecer
ao artista plástico Dumas pela obra que criou para a capa deste livro: con-
tundente e crua.

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por Amálio Pinheiro

A leitura no presente de tão diversos quanto importantes poetas, de meio


conhecidos a quase desconhecidos, de diferentes tempos e espaços, nos obriga
a repensar a chamada “história da literatura”, já não como evolução unilinear
e sucessivamente epocal, mas como mosaico ou marchetaria em palimpsesto.
Isto tem grandes consequências, que este livro escancara.
Lezama Lima, ao prefaciar uma antologia de poesia cubana, indica que os
primeiros poetas eram “prateiros e doceiros”. E aproxima os procedimentos
destes e daqueles, em que predomina uma sintaxe que encaixa o heterogêneo:
“Esse lavor de ourivesaria foi continuado por Plácido. Por isso na sua poesia
notamos a amostragem de um estilo plateresco. Arejamento, penetração da
luz por lâminas que a refratam com delicadeza. Vemos como essa escola de
ourives de Matanzas tem seus antecedentes naquele quase desconhecido Da-
río Romano, cujo nome se conhece somente por uma ata de escrivão”1. Ou
seja, cada letra ou sílaba bem inserida carrega a voz coletiva e anônima, que
APRESENTAÇÃO constrói cada poema, de todos os profissionais, artesãos, loucos e vagabun-
dos que esculpiram os materiais (a língua falada e escrita, por exemplo) do
continente. E nada seria possível sem essa sorte de geopoética de base, feita
de pedras, metais, vegetais e bichos. A multiplicidade de autores esquecidos
arrasta a multiplicidade de coisas e falas esquecidas, que abalroa a boca e as
entranhas de quem os lê. Por isso, ficam também contemplados os não nomi-
nalmente mencionados; vale para qualquer um, quaisquer objetos e qualquer
atividade cotidiana o involuntário octossílabo de Varnhagem, transcrito na
apresentação de Sapateiro Silva: “Era sapateiro no Rio”.
Abalroa mesmo, visto que constitui (no sentido de que não pertence ao
sujeito constituído pelas categorias duais) esse movimento múltiplo a partir
do outro, entrando pelos neurônios e músculos de quem escande os versos.
Viveiros de Castro, em diálogo com a “diffèrance” de Derrida e a devoração
antropofágica do nosso Oswald, chamou, a essa tatuagem semovente de alte-
ridades, ao modo de versão literária do “perspectivismo ameríndio”, de “dife-
rOnça”: “Chamo a esse duplo e sombrio movimento, essa alteração divergen-
te, de diferOnça, fazendo assim uma homenagem antropofágica ao célebre
conceito de Derrida”2. Não por acaso todos esses outros (toda essa natureza

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enroscada nas palavras) mostram tanto a cara aqui, não como referentes de
signos (isto seria muito fácil e ocidentalizante), mas dentro, nas comissuras
dos signos. Todos esses outros em devir: índios e quase-índios, caboclos, chu-
los, loucos e quase-loucos, bichos e quase-bichos, todos deslocados, deslizan-
tes e incrustados, trocando de lugar, se dobrando e se traduzindo. Daí todas
essas variantes construtivas sem matriz ou origem dominantes (sem a invari-
ância tipificante do Uno), variantes alegres de sua diferenciação inclusiva, em
que as proliferações caboclo-barroquizantes atraem, expõem e metabolizam,
por exemplo, o clássico e o baixo calão, junto às invenções gráfico-espaciais.
Não é coincidência, portanto, que os experimentalismos mais ou menos
radicais ou vanguardistas, ativados e ressituados pela presença e memória dos
repertórios e sintaxes urbano-nativos, tenham possibilitado jogos complexos
de bricolagem poética, estruturalmente fractais e desviantes, que não cabem
nos escaninhos binários do antigo e do moderno. A ideia de marchetaria
(essas alteridades conexas embutidas, numa fachada ou no papel) repele ra-
dicalmente a de progressão. Haroldo de Campos e Antônio Cândido já o
percebiam: “Havia em nosso meio aquilo que se poderia denominar uma
congenialidade em relação aos novos experimentos, e que se explicava apenas
em parte pelo processo de industrialização em centros cosmopolitas como
São Paulo. Antônio Cândido elucida o fenômeno: “no Brasil, as culturas POESIA (IM)POPULAR BRASILEIRA
primitivas se misturam à vida cotidiana ou são reminiscências ainda vivas de
um passado recente. As terríveis ousadias de um Picasso, um Brancusi, um
Max Jacob, um Tristan Tzara, eram, no fundo, mais coerentes com a nossa
herança cultural do que com a deles”3. Os conceitos usuais herdados não são
suficientes para dar conta da intrusão co-participante de todo esse material
divergente, migrante imigrante, em vaivém, da letra aos espaços em branco
da página e aos espaços públicos das ruas.

Notas
1
José Lezama Lima. “Prólogo a una antología” em “Confluencias”, Havana, Letras
Cubanas, 1988, pg. 103.
2
Eduardo Viveiros de Castro. “Eduardo Viveiros de Castro -Encontros” (org. Renato
Sztutman), Rio de Janeiro, Azougue, 2008, pg. 128.
3
Haroldo de Campos. “Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana” em “América Latina
em sua literatura” (org. Cézar Fernández Moreno), São Paulo, Perspectiva, l979, pg. 293.

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