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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

Faculdade de Ciências e Letras

Campus de Araraquara – SP

Docente: Antonio Donizeti Pires

Discente: Milena Cristina de Moraes.

Trabalho Individual: Análise de Poema Contemporâneo

Antes que chova – Lívia Natália

Araraquara

2022
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...............................................................................................................3

BIOGRAFIA DA AUTORA............................................................................................3

LIVRO DIA BONITO PRA CHOVER – LÍVIA NATÁLIA..........................................3

ANÁLISE DO POEMA...................................................................................................4

ESCANSÃO DO POEMA..............................................................................................8

CONCLUSÃO..................................................................................................................9

REFERÊNCIAS.............................................................................................................10
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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta uma análise do poema Antes que chova, de Lívia
Maria Natália de Souza Santos, mais conhecida como Lívia Natália, tendo como principal
foco de análise as características acerca de sua obra no que tange a poesia amorosa.

2 BIOGRAFIA DA AUTORA

Lívia Maria Natália de Souza Santos é baiana, nascida em Salvador (1979). É


Poeta, Doutora em Literatura e também Professora Adjunta de Teoria da Literatura na
Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Lívia Natália discorre, em alguns de seus livros, sobre as águas, sendo elas seu
grande tema. A autora criou-se nas dunas do Abaeté e tem raízes no Candomblé de
fundamento Ketu, suas vivências na religião também são temas fortes e frequentes em
sua escrita.

A poeta também aborda as temáticas relacionadas à vivência da mulher negra no


que tange seu corpo e seu cabelo, além de abordar questões étnico raciais a fim de
reinventar a escrita da poesia contemporânea.

3 LIVRO DIA BONITO PRA CHOVER – LÍVIA NATÁLIA

O poema Antes que chova foi retirado do livro Dia bonito pra chover, da poeta
Lívia Natália, o livro foi premiado com um dos mais importantes prêmios literários do
Brasil: Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Dia bonito pra chover é um livro que aborda diferentes vivências amorosas,
ademais, possui forte cunho militante, uma vez que o mesmo trata da afetividade negra
de uma maneira lírica e profunda, colocando a mulher negra como um ser pleno, perfeito
e completo em suas vivências, trazendo à tona o grande peso que os escritores negros têm
na contemporaneidade.

A obra, no geral, apresenta alusões às escolas literárias de cunho neoclássicos,


como por exemplo o arcadismo e o parnasianismo, que são mais frequentes no decorrer
da obra, além disso, a autora utiliza gêneros literários fixos para permitir diversas
perspectivas de interpretação, do ponto de vista ético, a obra conduz o leitor a uma crítica
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sobre a interpretação da escrita negra, elevando a mesma a um nível mais estrutural


devido as amplas abordagens de cunho sociais presentes em Dia bonito pra chover.

O livro apresenta também um erotismo requintado, que perpassa com afinco por
todos os poemas publicados em Dia bonito pra chover, trazendo à atualidade toda
tradição presente na poesia amorosa de maneira renovada, fazendo uso da
representatividade a fim de colocar-se no mundo como mulher e escritora negra.

O poeta Salgado Maranhão compartilhou no blog da editora Malê – responsável


pela publicação de Dia bonito pra chover – suas impressões sobre a leitura do livro,
segundo Maranhão (2017), Lívia Natália apresenta um livro onde o amadurecimento das
formas e o domínio do discurso poético como instrumento estético são surpreendentes.

4 ANÁLISE DE POEMA

Antes que chova

(Último poema)

Antes que ele venha eu já sou feliz.

Se ele vem às três da tarde,

eu já amanheço iluminada

pelo por vir do tempo,

e as horas caminham lânguidas enquanto eu me banho,

perfumo e me preparo

para sua chegada.

Ainda antes que ele chegue

meu corpo está calmo e prenhe de sua presença.

E quando ele chega, eu já estou

luminosa pelo fim da espera.

Antes que ele chegue eu já sou mulher,


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sou inteira e nada me aparta de mim.

Ele a mim se acrescenta,

onde nada falta.

E este excesso de aço e negrume,

estes brancos que se desenham

em barbas no seu rosto

esta boca de libélula nas minhas madrugadas

a mim se somam.

E apenas por que sou inteira

ele vem completar-me ali,

onde nada falta.

E o afeto que tange nossas almas

nos emancipa e dilata

como se o amor pudesse

ser todo feito de asas.

Antes que chova, apresenta, em sua estrutura, quatro estrofes e vinte e sete versos
dispostos em estrofes curtas e longas, contribuindo com o estrato visual e sonoro do texto.
Além disso, no que tange o estrato ótico do poema, verifica-se um aproveitamento de
espaço em sua estrutura, conceito muito caro à poesia contemporânea.

O poema não apresenta refrão, ou seja, não há uma repetição regular de versos, os
mesmos são dispostos de maneira grave/feminina, pois, na maioria dos versos, a tônica
recai sobre a penúltima sílaba do verso, desprezando, consequentemente, a última sílaba.

No que tange o sistema de versificação do poema, Antes que chova apresenta


versos livres, típico do Modernismo, ou seja, não obedecem a uma regra estabelecida em
relação ao metro, à posição das sílabas tônicas e à regularidade de rimas.

Ademais, o poema conta com a presença de aliterações, características do gênero


lírico, dispersas por todos os versos do poema com a repetição de sons como “s”, “z” e
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“ç”, colaborando com o aspecto sonoro da poesia, além das aliterações, a cesura presente
no texto fortalece a pausa natural na pronúncia, especialmente nos versos com mais de
dez sílabas poéticas, servindo como apoio rítmico do verso.

No poema, cada verso tem um tamanho diferente e as sílabas acentuadas não são
fixas, podendo variar conforme a leitura, isso reflete diretamente no ritmo do poema, que
é solto e irregular, e, além disso, de acordo com as definições propostas por Guelfi (1995,
p. 9), pode-se depreender que o ritmo do poema também é decrescente, pois é
caracterizado pelo lirismo, mansidão e paz, trazendo uma imagem leve, feliz e romântica.

Bosi (2000, p. 39) designa por imagem “não só os nomes concretos que figurem
no texto (casa, mar, sol, pinheiro...), mas todos os procedimentos que contribuam para
evocar aspectos sensíveis do referente, e que vão da onomatopeia à comparação”. Assim
sendo, depreende-se que a imagem poética não se baseia em concepções evidentes, mas
sim nas semelhanças que recordam conteúdos anteriormente vividos, como no caso do
poema selecionado.

Em suma, a imagem, quando regulada pela estética, leva o leitor a enxergar o que
não era possível antes, aproximando realidades opostas e relacionando-se com processos
da memória e criação, algo muito trabalhado no poema Antes que chova, onde, durante a
leitura, o leitor evoca em sua mente conceitos eróticos e amorosos para compor a imagem
do poema, onde, segundo Paz (2015), produz a pluralidade da realidade.

A poesia contemporânea apresenta um diálogo crítico e é preocupada com


questões atuais, não priorizando com fervor a estética do texto, por não possuir um eixo
central, a poesia pode percorrer diferentes abordagens éticas ou estéticas.

O poema escolhido de Lívia Natália não apresenta uma preocupação estética


muito grande, porém, se utiliza da ética como forma de ressaltar, em sua literatura, a
preocupação com a transmissão dos valores presentes no texto, de maneira especial, o
corpo da mulher negra, tema recorrente no poema analisado.

Conforme Natália (2019), “a literatura precisa falar sobre as demandas que nos
tocam”, em Antes que chova, depreende-se que a autora trabalha o conceito de afetividade
negra de maneira marcante, uma vez que a autora diz que ao pensar em seus textos,
procura elencar o trabalho estético da palavra junto de uma discussão ética, a fim de
colocar-se no mundo enquanto cidadã.
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O poema eleito trata-se de uma poesia que percorre uma trilha bastante diversa e
entrelaça uma profunda reelaboração, fazendo a construção de um discurso poético que
revisita aspectos líricos em torno do temário amoroso, remontando a tradição da poesia
amorosa de maneira original.

O poema, além de elencar elementos da poesia lírica, apresenta grande diálogo


com o livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, com mais afinco nos três
primeiros versos do poema, onde o eu-lírico demonstra ansiedade e felicidade durante sua
espera, tal como é feito no livro anteriormente citado, “Se tu vens, por exemplo, às quatro
da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.” (SAINT-EXUPÉRY, 1943, p. 67).

Lívia Natália possui uma escrita experimental na qual possibilita diversas


interpretações de seu texto, visto que o mesmo possui uma polissemia muito forte.
Segundo Nunes, Freitas e Prado (2018), a autora possui marcadores na escrita que fazem
alusão às escolas literárias com estéticas neoclássicas, ou seja, a mesma utiliza desses
recursos para construir uma lírica amorosa contemporânea.

Antes que chova nos brinda com uma impressão de continuidade, onde é possível
acompanhar o percurso feito pelo eu lírico enquanto se prepara para receber o seu amado
até o momento da chegada do mesmo, a autora faz uso do erotismo presente na poesia
parnasiana para, de certa maneira, priorizar o afeto que o eu lírico e o amado sentem entre
si.

O texto transmite o lado positivo do amor tal qual a poesia amorosa, elaborada
com delicadeza, demonstrando ansiedade em relação aos assuntos afetivos através de uma
linguagem intimista feminina. A autora trabalha com as concepções da completude do
feminino e também se utiliza de uma figura de linguagem como recurso estilístico para
expressar uma ideia contrastante à da completude feminina.

A totalidade feminina gera uma ideia de que o eu lírico é completo sem o amado,
que o mesmo apenas se acrescenta em sua vida, não há uma relação de dependência apesar
de haver afeto entre ambos, diferente desse ser querido, que precisa se acrescentar ao eu
lírico para tornar-se completo.

Essa escrita carrega consigo um forte cunho feminista, característica marcante de


Lívia Natália, onde não é a mulher negra que necessita de um homem para completar-se,
mas sim, apenas para ser um acréscimo em sua vida, diferentemente do homem que
necessita dela para ser completo, uma vez que ela é a fonte inesgotável de plenitude.
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Em contrapartida, a ideia contrastante a completude feminina, surge na última


estrofe do poema: “E apenas porque sou inteira / ele vem completar-me ali”, onde Lívia
Natália faz uso do paradoxo para manifestar sua contradição, trazendo ao leitor uma nova
reflexão sobre o que é ser realmente completa e também sobre as diferentes interpretações
que podem ser feitas em seu texto.

Isto posto, pode-se inferir que o eu lírico apresenta traços de humildade e


reconhecimento pelo amado, e que, apesar de se reconhecer como uma mulher inteira,
admite que a presença de seu amor acrescenta êxtase em sua vida. Tal êxtase advém do
conteúdo erótico presente no poema, como visto nos versos dezenove e vinte: “esta boca
de libélula nas minhas madrugadas / a mim se somam”.

5 ESCANSÃO DO POEMA

Antes que chova

(Último poema)

1 An/ tes/ que e/le /ve/nha eu/ já/ sou/ fe/liz. – 10

2 Se e/le/ vem/ às/ três/ da/ tar/de, – 7

3 eu/ já a/ma/nhe/ço i/lu/mi/na/da – 8

4 pe/lo/ por/ vir/ do/ tem/po, – 6

5 e as/ ho/ras/ ca/mi/nham/ lân/gui/das/ en/quan/to eu/ me/ ba/nho, – 14

6 per/fu/mo e/ me/ pre/pa/ro – 6

7 pa/ra/ sua/ che/ga/da. – 5

8 A/in/da/ an/tes/ que e/le/ che/gue – 8 /

9 meu/ cor/po es/tá/ cal/mo e/ pre/nhe/ de/ sua/ pre/sen/ça. – 12

10 E/ quan/do e/le/ che/ga, eu/ já es/tou – 8

11 lu/mi/no/sa/ pe/lo/ fim/ da es/pe/ra. – 9

12 An/tes/ que e/le/ che/gue eu/ já/ sou/ mu/lher, – 10


9

13 sou/ in/tei/ra e/ na/da/ me a/par/ta/ de/ mim. – 11

14 E/le a/ mim/ se a/cres/cen/ta, – 6

15 on/de/ na/da/ fal/ta. – 5

16 E es/te ex/ces/so/ de a/ço e/ ne/gru/me, – 8

17 es/tes/ bran/cos/ que/ se/ de/se/nham – 8

18 em/ bar/bas/ no/ seu/ ros/to – 6

19 es/ta/ bo/ca/ de/ li/bé/lu/la/ nas/ mi/nhas/ ma/dru/ga/das – 15

20 a/ mim/ se/ so/mam. – 4

21 E a/pe/nas/ por/ que/ sou/ in/tei/ra – 8

22 e/le/ vem/ com/ple/tar/-me a/li, – 8

23 on/de/ na/da/ fal/ta. – 5

24 E o a/fe/to/ que/ tan/ge/ nos/sas/ al/mas – 9

25 nos/ e/man/ci/pa e/ di/la/ta – 7

26 co/mo/ se o a/mor/ pu/des/se – 6

27 ser/ to/do/ fei/to/ de a/sas. – 6

6 CONCLUSÃO

Frente ao que foi exposto, conclui-se que a autora baiana retrata a afetividade
negra de maneira lírica a fim de colocar a mulher como protagonista de suas próprias
experiências, fazendo uso de características neoclássicas e reafirmando a grande
importância que os escritores negros têm na contemporaneidade.
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REFERÊNCIAS

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. 6. Ed. São Paulo: Companhia da Letras,
2000.
FERNANDES, Mônica Luiza Socio. QUINTANA, ENTRE POEMAS E
IMAGENS. XI Congresso Internacional da ABRALIC Tessituras, Interações,
Convergências, [s. l.], 2008.
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2006. 112 p.
GUELFI, Maria Lúcia Fernandes. Introdução à análise de poemas. Viçosa - Minas
Gerais: Imprensa Universitária, 1995.
NATÁLIA, Lívia. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.
NATÁLIA, Lívia. Lívia Natália – Série Escritoras – Fligê 2018. Youtube, 17 de jul. de
2019. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uFxjh4XGU0g>. Acesso
em: 24 de maio de 2022.
NATÁLIA, Lívia. Outras Águas. In: Quem sou eu. [S. l.], 2011. Disponível em:
http://outrasaguas.blogspot.com/p/quem-sou-eu.html. Acesso em: 3 de maio de 2022.
NUNES, Davi; FREITAS, Ricardo Oliveira de; PRADO, Thiago Martins. Dia bonito
pra chover: Escrita negra e poética da interpretação em Lívia Natália. Revista Crioula,
[s. l.], p. 324-346, 2018.
PAZ, Octavio. A imagem. In: SIGNOS em rotação. 3. ed. [S. l.]: Perspectiva, 2009.
ISBN 9788527300742.

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