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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES

HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE - GYÖRG LUKÁCS

O QUE É MARXISMO ORTODOXO?

Breno Araújo1

Neste breve trabalho, objetiva-se compreender minimamente a importância da


consciência de classe do proletariado para a compreensão do materialismo
histórico e dialético, investigando, como a consciência teórica se relaciona e se
baseia na consciência de classe? de que modo as concepções deterministas e
reformistas adentraram a luta socialista, engendrando novas concepções
marxistas? A partir dessas questões, analisaremos a relação da concepção
científica burguesa, com o revisionismo da dialética marxiana e as organizações
operárias.

É importante considerar, numa investigação marxista de determinado período


histórico ou da análise conceitual de determinadas organizações, a relação entre
suas concepções e as condições materiais da época. Assim, é possível ter uma
aproximação do conceito predominante que condizia tais organizações, bem como
sua formação teórica, sua consciência de classe, e como se efetivam em seus
programas políticos e em sua práxis.

Györg Lukács, trabalhou a relação entre consciência teórica e consciência de


classe como método de compreensão e fundamentação do materialismo histórico
e dialético. Além disso, procurou expressar o caráter revolucionário da dialética
materialista, a partir da relação de unidade que é estabelecida entre sujeito e
objeto, entre teoria e práxis.

1
Graduando em Filosofia-Licenciatura. UECE, 2022.
Partindo desse pressuposto, Lukács demonstra, a partir de Marx, como se
estabelece a relação entre consciência e realidade, explicando assim, a unidade
entre teoria e práxis, e como a realidade é a expressão teórica da dialética
materialista:

(...) quando for dada uma situação histórica, na qual o conhecimento exato da
sociedade tornar-se, para uma classe, a condição imediata de sua auto-
afirmação na luta; quando, para essa classe, seu conhecimento significar, ao
mesmo tempo, o conhecimento correto de toda a sociedade; quando, por
consequência, para tal conhecimento, essa classe for, ao mesmo tempo, sujeito
e objeto do conhecimento e, portanto, a teoria interferir de modo imediato e
adequado no processo de revolução social, somente então a unidade da teoria
e da prática, enquanto condição prévia da função revolucionária da teoria, será
possível.2

Portanto, as condições materiais de existência e suas relações de produção,


permitem o proletariado reconhecer-se como classe. Haverá a possibilidade de se
autoconhecer como sujeito histórico, como potência interventora e capacitada a
transformar a realidade como classe revolucionária.

Nota-se que o materialismo histórico e dialético permite, a partir da consciência


de classe, o conhecimento da própria luta entre as classes, por conseguinte, o
conhecimento da totalidade das relações sociais e seu reconhecimento enquanto
classe explorada, permite seu autoconhecimento como classe revolucionária.

O trabalho da dialética materialista exercido pelos marxistas, especialmente


durante o período da Segunda Internacional, foi alvo de diversas críticas e revisões
a partir de determinadas tendências que conduziram a influência das lutas
socialistas daquele período.

Dentre as tendências do marxismo ‘’ortodoxo’’, revisionismo e reformismo


político, ocorreram grandes influências do pensamento dos economistas
burgueses da época, sobretudo aquelas concepções que procuravam vincular a
concepção científica da época, ao progresso da ordem de produção moderna em
ascensão.

2
LUKÁCS, György. História e Consciência de Classe, Estudo sobre a dialética marxista – O que é
marxismo ortodoxo? p 66.
Contudo, o grande embate entre os socialistas e a burguesia, não se resumia a
luta política, mas suas concepções históricas e científicas. Além de conflitos entre
os próprios marxistas, seja da corrente dos marxistas ‘’vulgares’’, seja entre as
correntes ‘’ortodoxa’’ e revisionista. Com efeito, a fundamentação de suas
estratégias políticas, partiam da base de sua compreensão da realidade, e essa
compreensão era analisada a partir de determinado método teórico e político.

Tendo em vista que as concepções científicas da época (especialmente aquelas


trabalhadas por Spencer e Darwin) partiam de uma compreensão empírica e
evolucionista na investigação da realidade, a associação de Marx com essa
metodologia de compreensão da realidade, terminava por fornecer consistência
teórica para a autonomia de determinadas organizações políticas na elaboração de
concepções próprias, que assumiam e identificavam como marxistas, embora a
utilizasse como mecanismo de propaganda política, ou separasse a unidade entre
teoria e prática.

O determinismo filosófico, tanto com o trabalho teórico de Kautsky quanto de


Bernstein, assumiram a postura evolucionista da história. Sua forma de
compreender o contexto histórico separando a contribuição da crítica da economia
política da dialética, ou seja, o método de compreensão da totalidade dos fatos de
sua relação econômica, levava ao ecletismo da teoria, a contribuição científica de
Marx como teoria da evolução social, não exteriorizando a unidade dessa
contribuição com a práxis revolucionária.

Lukács aponta a distinção entre o método dialético e o metafísico,


demonstrando que a primeiro abrange a totalidade, o movimento do real e
relaciona sujeito e objeto, enquanto o segundo parte da análise do objeto de forma
contemplativa, considerando-o imutável, não permitindo de modo algum haver
contradição ou relação recíproca entre sujeito e objeto. Por isso, Lukács explicava
e advertia acerca do conhecimento do aspecto essencial da transformação da
realidade no método dialético:

(...) para o método dialético a transformação da realidade constitui o problema


central. Se negligenciarmos essa função central da teoria, a vantagem da
conceitualização ''fluida'' torna-se bastante problemática ou, por assim dizer,
um assunto puramente ''científico (...) (LUKÁCS, György, 2003, p 68).
Lukács desenvolveu este argumento como uma crítica as concepções
cientificistas que deturpavam a concepção concreta do materialismo histórico e
dialético. Afirmava que as correntes que criticavam o marxismo ''ortodoxo'',
partiam do princípio de que a crítica ao método marxiano, isto é, da dialética
materialista, era o verdadeiro caminho científico para a desconstrução teórica da
sociedade burguesa e da construção da práxis proletária.

Entretanto, contrapunha essa visão ''científica'' demonstrando seu aspecto


abstrato pois, caiam no método contemplativo da ''(...) separação entre método e
realidade, entre pensamento e ser. (...)''3 Neste sentido, o intuito ''científico'' era a
influência do pensamento burguês, que associava o método dialético ao método
científico das ciências naturais, levando a uma compreensão mais voltada ao
aspecto formal diante dos fatos.

Por conseguinte, destacava a formulação do revisionismo de Bernstein, como


um dos principais marxistas que influenciaram essa fundamentação abstrata da
dialética materialista. Denunciando seu caráter evolucionista do materialismo
histórico, que em sua certeza absoluta da chegada ao socialismo através da luta
parlamentar, terminava por conciliar as classes e exercitar o oportunismo através
da estratégia do reformismo político.4

Lukács aponta que o revisionismo parte da influência do método empírico das


ciências da natureza, partindo da análise quantitativa dos fatos, considerando as
estatísticas, a observação e a experimentação, suficientes para não apenas criticar
o método dialético como limitado, mas aplicar o empirismo científico como
pressuposto para a efetivação da luta política do proletariado.

Por isso, a grande facilidade de aceitação das massas diante do método


cientificista, ou melhor, do revisionismo e sua influência do reformismo na luta
política, reside, em grande medida, no fato do desenvolvimento do capitalismo
está relacionado ao aprimoramento do trabalho científico e tecnológico das
ciências naturais.

A ideologia da classe dominante, possuía grande respaldo material e político


para desencadear uma relação entre sua concepção de mundo e sua prática

3
Ibidem, p 69.
4
Ibidem, p 70.
política, representada até certo ponto, pelo positivismo. Em contrapartida, Lukács
comenta sobre o método científico que fazia ''revisão'' da dialética materialista:

A natureza não-científica desse método aparentemente científico reside,


portanto, na sua incapacidade de perceber o caráter histórico dos fatos que lhe
servem de base e de levá-lo em conta (...) existe algo muito problemático no
fato de a estrutura da sociedade capitalista mostrar-se disponível em relação ao
método das ciências naturais, pois nisso reside a condição social prévia da sua
exatidão. (...) (LUKÁCS, György, 2003, p 73).

Portanto, o caráter científico do método empírico, torna-se para o revisionismo,


sua sustentação teórica, que serve de base para sua concepção social e política
oportunista. De fato, não apreendia, como enfatizava Lukács, os fatos ‘’puros’'
como acreditavam compreender, pois, eram interpretações e concepções
engendrados por um processo histórico, pela estrutura de uma determinada ordem
político-econômica: o capitalismo.5

O aspecto ''científico'' e ''crítico'' de determinadas tendências e seu método de


apreensão imediata dos fatos, não iam além da sociedade capitalista, pois sua
consciência de classe não havia ocorrido concretamente, apenas abstratamente
pela noção científica que predominava. Com efeito, a especulação da realidade
resultava na reprodução do estado de coisas vigente e não de sua transformação
real. Para esclarecer a distorção da realidade concreta pela abstração do
determinismo filosófico, Lukács ressalta:

(...) Quando, portanto, os fatos devem ser compreendidos corretamente,


convém de início esclarecer com precisão essa diferença entre sua existência
real e seu núcleo interior, entre as representações que formamos a seu respeito
e seus conceitos. (...) (LUKÁCS, György, 2003, p 75).

Daí a necessidade de investigar os fenômenos para além da forma que se


apresentam, de procurar suas mediações, como afirma Marx, pelas quais se
relacionam e se apresentam de tal maneira. A relação entre a consciência do ser e
a realidade, permite a constituição do ser e de sua consciência a partir dessa
realidade. Por meio dessa relação, compreende-se a dialética materialista,
trabalhando o método distintamente da metafísica e do revisionismo cientificista.

5
Ibidem, p 74.
Sem abranger a totalidade dos fatos, o método de investigação científica,
utilizado pelo determinismo filosófico e pela crítica da dialética, compreendem a
sociedade a partir dos conceitos e não da realidade histórica e social, resultando
no idealismo. Acredita seguir um método autenticamente científico, quando na
verdade, especula sua compreensão do real, e o define a partir de sua representação
ideal.

A respeito dessa compreensão e seus efeitos, Lukács destaca a compreensão da


noção totalidade dos fatos. O idealismo, não concebia a relação e a formação da
consciência pela realidade, abstraindo o que era fruto da realidade, e afirmando
como fruto da consciência:

(...) O idealismo cai então na ilusão que consiste em confundir essa reprodução
da realidade com o processo de construção da própria realidade. (...) O
materialismo vulgar, ao contrário - mesmo quando adquire, em Bernstein e em
outros, um aspecto mais moderno -, contenta-se em reproduzir as
determinações imediatas e simples da vida social. (...) sem as reportar á
totalidade concreta, abandonando-as ao seu isolamento abstrato e tentando
explicá-las por leis científicas abstratas, não ligadas a uma totalidade concreta.
(...). (LUKÁCS, György, 2003, p 77).

É a partir destas formulações abstraídas da realidade, que ganha também, forte


destaque o positivismo, como categoria de conformação com as condições sociais
do capitalismo, como sistema natural, que se desenvolve e se aprimora a cada
vitória de uma luta contra a crise econômica.

Com efeito, o método do materialismo histórico e dialético foi perdendo


destaque e seriedade de determinadas tendências. Passou a ser considerado como
método não científico da realidade. A investigação da totalidade não foi concebida
em seu aspecto metodológico, em sua consideração científica da história da
humanidade como história da luta de classes.

Por essa razão, Lukács trabalhou na enfatização do que Marx e Engels


objetivaram com o trabalho do materialismo histórico, bem como de sua
importância para a crítica da economia política, ou a crítica das correntes de
pensamento burguesa, que se identificam com as tendências citadas
anteriormente.
Por isso, a dialética materialista é um método científico não apenas para
compreender a realidade, mas por ser um produto teórico da própria realidade.
Sua formulação teórica e aplicabilidade científica ocorrem a partir de sua relação
com o real, onde suas contradições são um produto das contradições reais.
Portanto, sua compreensão e seu método, se aplicam por meio do movimento e do
aspecto fluido da realidade, e não de abstrações imutáveis e absolutas.

Por este motivo, o método das ciências da natureza, não podem ser aplicados de
forma dialética na realidade social, pois, tais ciências não admitem o movimento
das contradições em seu trabalho, e nem percebem os antagonismos na realidade
política que as submetem.

Destarte, a compreensão cientificista e o revisionismo, criticam a dialética


materialista exatamente neste aspecto metodológico, na admissão das
contradições da realidade, mas Lukács, ao contrário, argumenta que a abstração
dessa crítica, se dá pela não compreensão do próprio método dialético por tais
tendências.

(...) no caso da realidade social, essas contradições não são indícios de uma
imperfeita compreensão científica da realidade, mas pertencem, de maneira
indissolúvel, á essência da própria realidade, á essência da sociedade
capitalista. Sua superação no conhecimento da totalidade não faz com que
deixem de ser contradições. Pelo contrário, elas são compreendidas como
contradições necessárias, como fundamento antagônico dessa ordem de
produção. (...) (LUKÁCS, György, 2003, p 79-80)

A análise e a crítica da realidade são feitas a partir da própria realidade, e não


de uma abstração filosófica ou de uma ''revisão'' especulativa do método dialético.
Por conseguinte, partindo do argumento anterior, o método das ciências da
natureza, se aplica a realidade social, mas relacionando-se aos interesses da classe
dominante. Em contrapartida, sua concretude dialética em prol do bem comum e
do desenvolvimento da humanidade, está fora de execução. Portanto:

(...) Quando o ideal de conhecimento das ciências naturais é aplicado á


natureza, ele serve somente ao progresso da ciência. Porém, quando é aplicado
á evolução da sociedade, revela-se um instrumento de combate ideológico da
burguesia. (...). (LUKÁCS, György, 2003, p 80).
Essa forma de conceber a ciência e a dialética materialista, tem como base a
formulação ideológica que se expressa na luta de classes, sob o domínio da classe
burguesa. Ora, a concepção positivista de progresso, por exemplo, é um forte teor
ideológico evolucionista da sociedade, que se agarra as bases do sistema
capitalista como estrutura natural e condicionante do desenvolvimento científico
e tecnológico da sociedade, que a cada derrota renasce mais forte.6

Para reverter essa compreensão ideológica da realidade e do método dialético,


Lukács apresenta tal método a partir da compreensão da história como processo
unitário. Este processo, parte da relação de totalidade da dialética, onde
determinados acontecimentos históricos, se relacionam e se constituem pela
dinâmica do seu movimento antagônico e sintético dos fenômenos reais.

As distintas situações e contextos históricos, possuem em comum, o seu


processo de desenvolvimento material, que se expressam concretamente pelo
antagonismo entre as classes sociais. Todos os fatores, apesar de suas
características próprias, possuem uma relação de unidade histórica em sua
totalidade.

A dialética materialista, por conseguinte, é a reprodução teórica e metodológica


do real, a relação das partes com o todo, abrangendo suas contradições e sua
unidade como processo de desenvolvimento histórico da realidade como devir
social. Onde a síntese de suas contradições são a síntese da unidade das partes, ou
melhor, dos fatos que constituem a história. Sobre essa dinâmica dialética da
realidade, Marx explica a partir dos exemplos das relações de produção e consumo
no capitalismo:

''Chegamos á conclusão, (...) que produção, distribuição, troca e consumo não


são idênticos, mas que juntos constituem membros de uma totalidade,
diferenças no seio de uma unidade [...] Uma forma determinada de produção
determina, portanto, as formas determinadas do consumo, da distribuição, da
troca, bem como determinadas relações desses diferentes momentos entre si
[...] Há uma relação recíproca entre esses diferentes momentos; é assim em
todo conjunto orgânico''. (Zur Kritik der politischen Ökonomie, MEW 13, p,
630, apud LUKÁCS, György, 2003, p 84)

6
Ibidem, p 82.
Essa concepção da relação dinâmica e recíproca do todo com as partes é uma
relação dialética para compreender o processo dinâmico da própria economia
política, das formas com que ganha autonomia a mercadoria, nos modos de
produção capitalista. Por essa razão, Lukács afirma que o caráter
''pseudocientífico''7 do método da ciência econômica e do positivismo, distorcem
a materialidade do método dialético, da unidade das partes, da concepção de
totalidade.

Assim, o método dialético seria uma forma de evidenciar as contradições dos


modos de produção capitalista, tanto a partir da luta entre as classes, quanto das
categorias econômicas, da transformação do homem em mercadoria, da submissão
da relação entre homens para a relação entre coisas.8

Portanto, a ciência e a tecnologia estão submetidas a reproduzir e a aprimorar os


mecanismos de produção e relação econômicas em desenvolvimento. As formas
de produção econômica no capital, são constituídas por uma relação dinâmica em
que a ciência participa, seja consciente, seja inconscientemente.

A ideologia da classe dominante, por conseguinte, espelha a sociedade conforme


sua concepção ''científica'' da realidade e do progresso. Por isso, o método
dialético evidenciando essas contradições, torna-se uma ameaça aos modos de
exploração econômica e da estabilidade da classe dominante. Daí o caráter
ideológico da concepção burguesa de história e ciência, que efetiva nas políticas
e tendências citadas anteriormente.

É importante destacar, que a concepção materialista da história em Marx, parte


da concepção do método dialético de Hegel de totalidade, que trabalhou a relação
dinâmica do todo, bem como o movimento dos contrários e sua unidade. Mas, o
método dialético de Hegel, permaneceu no idealismo da compreensão histórica
pois, partia da consciência para compreender o movimento real, e assim,
permanecia somente no movimento da consciência, na abstração da apreensão e
determinação do real pela consciência.

Marx, ao contrário, compreendeu que o método dialético era, na verdade, uma


expressão teórica do movimento real e da história social. A dialética, por isso,

7
Ibidem, p 86.
8
Ibidem, p 87.
ocorre no movimento material da luta entre as classes. O movimento dos
contrários que constituem a unidade, são a própria realidade das classes sociais
em conflito, e não uma forma ‘’ortodoxa’’ de compreender a sociedade e a luta
política.

Marx considerava que essa compreensão abstrata da realidade, inverte a própria


noção da relação entre sujeito e objeto, como se as condições materiais fossem
determinadas pela consciência, e não a consciência determinada pelas condições
mateiras.

É de suma importância a compreensão da realidade a partir do materialismo


histórico, pois permite que a investigação do ser parta da investigação da realidade
social, de suas condições materiais de existência, como sujeito histórico. A
dialética materialista, evidencia o caráter místico ou ideológico que turvam a
compreensão do real.

Essa concepção, enseja uma nova compreensão do ser social, como sujeito
histórico, como consciência prática, e não reduzida em si mesma. Por isso, Lukács
afirma que a partir dessa compreensão da formação do ser social a partir das
condições materiais, como ser que produz a si mesmo, o sujeito se reconhece
como ser histórico, onde ocorre a unidade entre teoria e práxis:

Pois é somente depois que o núcleo do ser se revela como devir social que o
ser pode aparecer como um produto até então inconsciente da atividade
humana, e essa atividade, por sua vez, como elemento decisivo da
transformação do ser. (...) (LUKÁCS, György, 2003, p 95)

Contudo, a partir da sociedade civil, ou seja, com a sociedade capitalista em sua


forma global, o ser humano se reconhece como ser social, como sujeito e objeto
de si mesmo, pois a produção da sua vida não se resume a sua relação com a
natureza, mas com outros homens.

O autoconhecimento do proletariado enquanto classe explorada e


revolucionária, permite o conhecimento da totalidade social, de suas condições
materiais e seu resultado histórico. Assim, o conhecimento do materialismo
histórico parte da consciência de classe, que ocorre primordialmente devido as
condições de subsistência em que o proletariado luta diariamente para sobreviver.
Suas condições permitem a inclinação a uma compreensão mais direta do
materialismo histórico e dialético, pois a sua vida é uma expressão teórica, um
exemplo concreto da concepção materialista da história, e um caminho para a
libertação de sua condição de classe explorada.

O proletariado, como classe oprimida, adquire a compreensão do materialismo


histórico a partir de sua conscientização política, isto é, sua consciência enquanto
classe explorada, gerando a revolta a partir da necessidade de se libertar da
dominação burguesa.

Por essa razão, Lukács afirma que o conhecimento do método dialético


materialista, da realidade em sua totalidade e seu desenvolvimento histórico, se
dá a partir da perspectiva proletária, onde o trabalho teórico é expresso através da
realidade, onde teoria e práxis não apenas são partes constitutivas, mas uma
unidade engendrada pela concepção materialista da história e exercida pela classe
revolucionária.

(...) A essência do método do materialismo histórico não pode, portanto, ser


separada da ''atividade crítica e prática'' do proletariado: ambos são momentos
do mesmo processo de evolução da sociedade. Assim, o conhecimento da
realidade produzido pelo método dialético é igualmente inseparável da
perspectiva de classe do proletariado. (...) o método marxista e a dialética
materialista enquanto conhecimento da realidade só são possíveis do ponto de
vista de classe, do ponto de vista da luta do proletariado. Abandonar essa
perspectiva significa distanciar-se do materialismo histórico, do mesmo modo
como adotá-la implica diretamente a participação na luta do proletariado.
(LUKÁCS, György, 2003, p 98).

A partir desse argumento, Lukács refuta a concepção revisionista, na qual


afirmava que o verdadeiro aspecto científico da teoria marxiana, só era possível
ser aplicada pela sua forma ''pura'', utilizando da revisão crítica do próprio método
marxiano, oferecendo assim, a autonomia das organizações políticas na
vulgarização do marxismo. Por isso, o reformismo se opunha ao marxismo
‘’ortodoxo’’, pois este último não renunciava o método marxiano, ao contrário,
enfatizava sua necessidade para a consciência de classe e práxis política.

A sociedade capitalista permitiu a formação da sociedade civil como


conhecemos, e a formação da classe proletária como base para a estrutura dessa
sociedade. A consciência de classe do proletariado é, ao mesmo tempo, a
percepção materialista e dialética da realidade, pois a autoconsciência da classe,
permite conhecer a luta entre as classes não apenas no aspecto econômico, mas
teórico, social e ideológico.

Portanto, ao perceber-se enquanto classe reprodutora das relações de produção


e da ideologia da classe dominante, o proletariado exerce o trabalho crítico do
estado de coisas vigente, das condições e limitações de sua vida determinadas
contra a sua vontade, ou seja, adquire a compreensão do materialismo histórico e
dialético. Somente assim, a compreensão científica e social, serão trabalhadas em
toda a sua totalidade, sem submeter-se ao domínio da classe dominante em seus
aparatos político-econômicos e ideológicos.

Contudo, a perspectiva crítica da realidade social implica na práxis política


contra o sistema burguês, não somente porque discorda teoricamente de seus
modos de produção, mas especialmente porque é condição inseparável de sua
visão de mundo como classe explorada, é a condição única de sua libertação, de
buscar a sua sobrevivência e desenvolvimento enquanto ser social.

(...) A função do marxismo ortodoxo - a superação do revisionismo e do


utopismo - não é, portanto, uma liquidação definitiva de falsas tendências, mas
uma luta incessantemente renovada contra a influência perversora das formas
de pensamento burguês sobre o pensamento do proletariado. Essa ortodoxia
não é guardiã de tradições, mas a anunciadora sempre em vigília da relação
entre o instante presente e suas tarefas em relação á totalidade do processo
histórico. (...) (LUKÁCS, György, 2003 p 104).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

-LUKÁCS, György. História e Consciência de Classe, Estudo sobre a dialética


marxista – O que é marxismo ortodoxo? Editora Marins Fontes, São Paulo, 2003.

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