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ÉTICA E DEONTOLOGIA DOS PROFESSORES:

PENSAMENTO E PRÁTICAS

ALINE BERNARDES SEIÇA


Escola Secundária D. Pedro V
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RESUMO
Apresentam-se neste artigo alguns aspectos de uma investigação sobre
pensamento ético e deontológico dos professores. Partindo do conceito de natureza ética
da educação, procura-se saber que princípios e valores presidem às práticas docentes,
como é que os professores concebem os seus deveres profissionais, que tipo de relação
estabelecem entre deveres e princípios e como encaram a possível criação de um código
deontológico da profissão. Discute-se ainda a possível influência da situação do
professor na carreira no modo de conceber estas questões.

RESUMÉ
Dans cet article on presente quelques aspects d’une recherche sur la pensée
éthique et déontologique des enseignants. Le point de départ est le concept de nature
éthique de l’éducation et on cherche à savoir quels principes et valeurs président aux
pratiques enseignantes, comment les professeurs pensent-ils leurs devoires
professionnels, quels rapports voient- ils entre les devoirs et les principes et comment
envisagent-ils la possible création d’un code de devoirs pour la profession. On discute
aussi la possible influence de la situation de l’enseignant dans la carrière sur la
conception de ces questions.

ABSTRACT
This paper reports part of a research study on teacher’s ethical and deontological
thinking. Having as a standing-point the concept of education’s ethical nature, we
search for what kinds of principles and values guide teaching activities, how teachers do
conceive of their professional duties, what kind of relationship they set up between
duties and principles and what they think of the possibility of having a written code of
duties. We also discuss if the teacher’s position on the career influences his or her’s
thinking of this questions.
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INTRODUÇÃO
É já lugar-comum, nos dias de hoje, proclamar a crise da educação como um
dos sintomas da generalizada crise dos valores nas sociedades contemporâneas. A crise
da educação não se reflecte apenas nas atitudes e comportamentos dos alunos perante o
ensino e a aprendizagem; reflecte-se ainda na imagem da escola e no estatuto social dos
professores, de que são indicadores, entre outros, os níveis salariais em vigor para a
carreira docente. Tem repercussões, também, nas representações que os professores
criam da sua própria profissão, no modo como concebem a natureza, os fundamentos e
os objectivos da educação.
Se é certo que se encontram, neste domínio, opiniões muito díspares entre os
professores, não deixa também de ser verdade que algumas linhas de pensamento, das
quais sublinharei duas, sobressaem como mais fortes: a primeira afirma que, na sua
essência, toda a educação, por ser teleológica, traz consigo um compromisso ético. A
segunda, ao considerar que os actos ensinam mais do que as palavras, atribui ao
professor a enorme responsabilidade de ser exemplar para os seus alunos.
Mas naturalmente que se levantam, a este propósito, algumas dificuldades:
dadas a diversidade de perspectivas coexistentes na sociedade contemporânea e a
tendência tão difundida para tomar como equivalentes e indiferentes todas as formas de
pensar, se não de agir, que valores vamos ensinar ou estimular? Que ideais de cidadão -
de pessoa - constituirão o nosso telos educativo? Que princípios presidirão aos actos do
professor?
Estas questões conduzem-nos pela mão ao centro do paradoxo que afecta
realmente a educação nos nossos dias e que é, provavelmente, uma das razões da sua
crise: se seguimos a tendência geral da sociedade, então são o relativismo e o
subjectivismo que prevalecem e não há, consequentemente, uma finalidade educativa
comum; educamos em nome da diversidade e para a diversidade, com todas as
consequências práticas daí decorrentes, nomeadamente a efectiva desigualdade na
concorrência ao mercado de trabalho. Pela mesma ordem de ideias, também não será
significativo falar de princípios normativos.
Se educarmos ao arrepio das tendências sociais, em nome de valores e
finalidades mais gerais e objectivos, conseguiremos salvaguardar as diferenças
individuais? E teremos forças e meios para concorrer com - ou usar em proveito da
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educação - as novas tecnologias e todas as seduções que as acompanham, isto é,


conseguiremos ainda educar?
O meu interesse por esta área problemática decorre de duas circunstâncias
concomitantes: a primeira é ser professora e estar directamente envolvida na prática
docente; a outra é ter estado ligada, durante algum tempo, à formação de professores
como orientadora pedagógica. A conjugação de ambas as tarefas, obrigando-me a uma
reflexão mais sistemática sobre a natureza da práxis docente, permitiu reorientar as
minhas preocupações neste domínio, até então quase exclusivamente intuitivas e
vivenciais.
O trabalho realizado com professores em formação contribuiu, por sua vez, para
delimitar uma outra questão estreitamente ligada às anteriores: será possível - e
desejável - estimular, se não a formação, pelo menos a reflexão dos formandos sobre
temas éticos de modo a (1) tomarem consciência dos valores que estão em jogo na
relação pedagógica e da responsabilidade moral que lhes cabe pelo facto de serem
professores e (2) proporcionar-lhes o conhecimento dos fundamentos que lhes permitam
deliberar em casos de conflito?
Conhecer as opiniões dos professores neste domínio a partir das quais seja
possível inferir a pertinência ou não de um código deontológico para a docência e o
interesse numa formação ética dos futuros professores são os objectivos deste estudo.1

NATUREZA ÉTICA DA PROFISSÃO DOCENTE


Várias ciências, nas últimas décadas, têm procurado identificar e caracterizar as
especificidades da profissão docente e daqueles que a exercem, nas suas múltiplas
facetas. No entanto, muitos aspectos permanecem obscuros. É o caso do pensamento e
do comportamento moral do professor, cuja importância é inegável se se tiver em conta
a função eminentemente ética que a profissão desempenha, por força da sua própria
natureza.
Na obra intitulada “Os Usos da Filosofia”, Mary Warnock afirma a sua
convicção de que a educação deve ser orientada para a incrementação da liberdade das
pessoas, entendendo isto como uma espécie de elevação a partir de uma dada situação
sobre a qual, geralmente, se não reflecte. Tratar-se-ia, então, de possibilitar o
conhecimento da história e do desenvolvimento das instituições e da sociedade em que
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se vive, bem como dos instrumentos conceptuais utilizados, como meios de


proporcionar essa elevação. E como a liberdade é um valor, continua a autora, então a
educação é intrinsecamente valorativa.
Salvas as devidas distâncias, não será difícil encontrar aqui ecos da metáfora
platónica da educação como libertação da ignorância - da ilusão - por meio de uma
dialéctica ascensional que é também um processo de crescimento intelectual, moral,
humano, em suma, que conduz da “caverna” para a luz; e do pedagogo como aquele
que, propriamente falando, nada ensina, a não ser o esforço da ascensão e a sua
simbólica libertadora (Platão, República, 514a- 517c).
No seu sentido mais amplo, Ética designa um conjunto de preocupações teóricas
concernentes à intencionalidade da vida humana e às razões pelas quais se age. Daí que
no seu contexto se fale de princípios e de valores com um alcance geral e que estes
princípios encontrem o seu fundamento no plano da racionalidade.
Embora seja corrente tomar os termos ética e moral como sinónimos e usá-los
indiferenciadamente, no campo filosófico a distinção faz-se e justifica-se pelas
diferentes áreas semânticas que os dois termos cobrem: ética significa a teoria do certo
e do errado na conduta e reporta-se aos valores que a ela presidem; moral tem que ver
com a prática, isto é, com os comportamentos efectivos das pessoas em articulação com
os valores (Billingdon, 1988). Assim, a ética refere-se aos princípios, ao que deve ser
em geral - que Kant, por exemplo, designou por imperativo categórico,
aprioristicamente concebido - enquanto a moral remete para as máximas da acção, isto
é, para o modo como cada indivíduo interpreta o dever geral em função da situação
particular (Kant, 1960).
Mantendo embora a distinção entre ética e moral, Ricoeur (1990, p. 5) recorre a
um outro critério e considera os seguintes princípios: o do que é “considerado bom” e o
do que “se impõe como obrigatório”; a ética reporta-se ao primeiro e a moral ao
segundo. E acrescenta que não será difícil reconhecer “na distinção entre o objectivo de
uma vida boa e a obediência às normas a oposição entre duas heranças, a herança
aristotélica, onde a ética se realiza pela sua perspectiva teleológica, e a herança
kantiana, onde a moral é definida pelo carácter de obrigação da norma, logo numa
perspectiva deontológica.”
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Compreende-se, então, que a educação se encontra na encruzilhada destas duas


“heranças”: ao formar os jovens com vista à autonomia e à cidadania, são os fins que
determinam os processos educativos e há, consequentemente, um ideal orientador; ao
mesmo tempo, a boa consecução dos objectivos educacionais exige normas e o respeito
por elas da parte de todos os intervenientes, com especial ênfase para os professores.
Sejam quais forem as origens dos princípios éticos, problema que não cabe no
âmbito deste trabalho discutir, é pertinente, no entanto, questionar até que ponto devem
eles ter expressão no processo educativo, já que é mediante este processo que o ser
humano se torna apto a agir de forma simultaneamente autónoma e integrada.
Semelhante perspectiva pode encontrar-se já no pensamento de Platão, quando
considera que só a educação permite formar o cidadão virtuoso, isto é, o cidadão
moral, estabelecendo uma estreita vinculação entre ética e pedagogia. Não se trata, por
certo de uma pedagogia qualquer nem, muito menos, da pedagogia relativista e
pragmática do sofista Protágoras, para quem cada indivíduo é medida e critério das suas
próprias verdades, que o mesmo é dizer das suas próprias acções. Platão exemplifica
este ponto de vista com as palavras que põe na boca do personagem Cálicles: “(...)
aquele que quiser viver bem deverá deixar crescer à vontade as suas paixões, sem as
reprimir e por maiores que elas sejam, deverá ser capaz de as satisfazer graças à sua
coragem e inteligência, dando-lhes tudo aquilo que elas desejarem. ” (Górgias, 491e -
492a); a este, contrapõe a sua própria concepção de vida, representada pela dramatis
personae Sócrates: “Tal é, parece-me, o objectivo que cada um deve visar durante a
vida. Todos os seus esforços, todos os seus actos, devem ser dirigidos no sentido de
adquirir a justiça e a temperança como condições de felicidade, sem consentir nunca
que as paixões campeiem (...) ” (idem, 509d-e), acrescentando que só pelo cultivo da
filosofia este objectivo de autonomia e autodeterminação pode ser atingido e que cabe
precisamente ao filósofo, mestre pela palavra e pelo exemplo, orientar os alunos neste
caminho que cada um tem de fazer por si mesmo.
Também Aristóteles concebe a educação como formação para a cidadania
(Política, livro oitavo, I), mediante o desenvolvimento de certas actividades e poderes
característicos do ser humano, nomeadamente a capacidade de orientar racionalmente as
suas acções. Esta função prática da razão, diz Williams (1993, p. 55) “é suposto
produzir coerência e reduzir os conflitos entre os desejos do indivíduo que vive (como o
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homem deve viver) em sociedade”. Portanto, a aprendizagem da cidadania é,


simultaneamente, a aprendizagem do autocontrolo e dos justos princípios em função
dos quais se deve viver para viver bem o que, na perspectiva de Aristóteles, é o mesmo
que ser feliz; indivíduo e sociedade interpenetram-se e implicam-se mutuamente.
Assim, é a própria concepção de humanidade do homem que está em jogo
quando se educa, que é o bastante para compreender a dimensão ética da tarefa
educativa e a responsabilidade dos que nela se comprometem, tanto mais que o alcance
da educação não é individual, mas social: cada novo indivíduo formado vai integrar-se
no tecido social que ajuda a construir e a renovar; da sua (boa) formação ética
dependerá, pois, a de toda a sociedade (Cordero, 1986). O mesmo autor insiste, aliás, na
necessidade de tornar conscientes os professores da inevitável orientação teleológica do
processo educativo. É que não são indiferentes os fins que se pretende atingir e que
determinam, consequentemente, o tipo de educação que se vai realizar. Portanto, na raiz
de qualquer projecto educativo está uma intencionalidade ética que o orienta e legitima.
Do mesmo modo, o professor nunca é neutro quando escolhe os caminhos pedagógicos
que vai percorrer e é a sua própria pessoa que está em jogo quer quando escolhe quer
quando actua em função das escolhas feitas.
Vão neste mesmo sentido as reflexões de Billington (1988), quando analisa a
etimologia da palavra educação a partir das duas palavras latinas educare e educere.
Diz ele que, embora as palavras possam parecer semelhantes, há entre elas “um hiato de
sentido tão largo que é difícil imaginar que possam ambas coabitar no contexto
curricular de uma escola” (p. 259) e justifica o seu ponto de vista através da
explicitação do respectivo sentido.
Assim, educare significa treinar, equipar alguém com determinadas habilidades
(skills) físicas ou intelectuais, em articulação com o desempenho de uma ocupação ou
profissão. Desta interpretação decorrem duas importantes consequências educativas: a
primeira é que a valoração dos temas incluídos no currículo escolar é determinada pelas
necessidades económicas e sociais da comunidade ou do estado. A motivação para
aprender - e ensinar - um assunto será a da qualificação que esse assunto confere ao
aprendente para a obtenção de determinado emprego.
A segunda consequência faz depender a apreciação das prioridades curriculares
de um critério de utilidade, pelo que será dada primazia às competências para as quais
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há mais oportunidades de trabalho, e não é de estranhar, neste caso, um certo desprezo


relativamente às chamadas humanidades, cuja aplicação prática imediata não é visível.
Aqui, pois, os alunos são preparados para se integrarem em sistemas já constituídos e
reproduzirem as suas rotinas e os professores são vistos como servidores do estado.
Por sua vez, o valor semântico de educere - encaminhar para fora, exteriorizar -
conduz a um outro olhar sobre a educação, vista agora como o meio de preparar os
estudantes para o conhecimento do mundo e de si mesmos; não por qualquer razão
pragmática, mas pelo valor intrínseco da própria educação e das competências que ela
proporciona. Aqui, a motivação para aprender não é dada de fora, mas é interior, o que
significa que será o aluno a construir os sentidos das suas aprendizagens que, aliás,
estarão sempre em construção; a aprendizagem é um processo permanente. O grande
objectivo da educação entendida segundo esta perspectiva é o formar seres humanos
capazes de tomar decisões fundamentadas, apreciar os valores sustentados pelos outros
e julgar de forma autónoma.
Sem que tome explicitamente partido por qualquer destas orientações, antes as
reconhecendo, a ambas, como necessárias no sistema educativo, não deixa o autor,
porém, de chamar a atenção para as dificuldades que se levantam a todos os que
pretendem conciliá-las num mesmo projecto educativo; daí que questione se educere
não será apenas um ideal no espírito de algumas pessoas ...
Efectivamente, a questão está longe de ser pacífica e de recolher a unanimidade
de todos os que se interessam por temas de educação. Como nota Starratt (1994), muitas
pessoas, embora reconhecendo a importância de uma educação ética dos jovens, pensam
que não é à escola que deve caber essa função, mas à família ou às igrejas; as escolas
devem ter em vista, apenas, a formação científica, para a qual todo o tempo disponível
deve ser aproveitado. Outros, de forma mais radicalmente pragmática, estão convictos
de que a formação ética é simplesmente dispensável, devendo a escola promover o
sucesso e a competitividade, antecipando o mundo do trabalho que os alunos irão
posteriormente encontrar. A perspectiva valorizada é, então, a do educare.
Cordero (1986), por seu turno, parece privilegiar a raiz educere de educação, ao
considerar que a profissão do educador consiste em trabalhar na formação do homem,
fazendo desabrochar a personalidade humana. Nesta perspectiva, a personalidade é
conquista de cada um e supõe um esforço pessoal de autoconstrução em função das
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normas sociais e culturais vigentes. Mas cabe ao educador “(...) desenhar o tipo de
sujeito humano e de sociedade que se pretende conseguir através do trabalho educativo
para, em seguida, escolher os meios necessários à realização desse objectivo. ” (p.
471). Assim sendo, a responsabilidade que recai sobre o educador é incontestável,
acentuando mais uma vez a dimensão ética da sua acção; e para levar a cabo esta acção,
o professor precisa de estar imbuído de determinadas características que, permitindo-lhe
respeitar a personalidade dos outros, lhe garantam a possibilidade de efectivamente
ensinar e que são geralmente referidas como “autoridade moral”.
Billington (1988), igualmente, fala de autoridade do professor neste mesmo
contexto. Começa por analisar o campo semântico da palavra remetendo-a para o étimo
latino auctoritas e o seu correlato auctor que designa o que é pioneiro ou iniciador de
ideias, imagens ou caracterizações. Após referir que o professor é geralmente
considerado detentor de autoridade ou, pelo menos, como devendo possuí-la, interroga-
se sobre as bases em que tal autoridade assenta e o modo como se relaciona com a
educação no seu duplo sentido etimológico.
Quanto à autoridade moral, pensa que é pela atitude do professor face à tarefa
educativa que ela se revela e que apresenta duas características distintivas: a primeira
consiste no facto de o professor indicar, pelo modo como se relaciona com o seu
trabalho, que a tarefa educativa, comum a professores e alunos, possui valor intrínseco;
aprender é um valor em si, sem precisar de motivações extrínsecas. Este professor
compromete-se com o sentido educere da educação, seja qual for o objecto do seu
ensino. A segunda característica, intimamente ligada à anterior, é a da capacidade do
professor para motivar o estudo, sem recorrer ao “fantasma” dos exames finais, o que
requer entusiasmo e empatia com os alunos, sem perder de vista os direitos de ambos os
participantes no processo educativo.
Também na mesma linha se pode ler Gusdorf (1978), apesar das diferenças de
discurso, ao caracterizar a exemplaridade e a autoridade do mestre nos seguintes
termos: “(...) é um exemplo em que nos podemos inspirar, (...) a sua influência reveste a
significação de um apelo de ser, que exorta à edificação da personalidade. (...) a
autoridade do mestre exerce uma acção que a um tempo constrange e suscita a
aspiração.” ( p. 255).
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É precisamente nesta referência ao ser - ao mesmo tempo princípio orientador e


fim a atingir - que se encontra a especificidade da tarefa educativa, aquela que lhe
confere a dimensão ética e, nessa medida, formativa.

DEONTOLOGIA DA PROFISSÃO DOCENTE


Dada, então, a natureza ética da profissão docente, atestada por vários
pensadores desde a antiguidade até à contemporaneidade, é legítimo que se pergunte de
que modo - ou modos - será possível passar do nível da normatividade ideal para o da
conduta prática; isto é: como passar dos princípios éticos, válidos para a acção em geral,
para uma deontologia específica da profissão que encontre neles o seu fundamento.
No momento presente, parece justificar-se plenamente o crescente interesse da
investigação educacional pelos assuntos de natureza deontológica. Estrela (1993)
justifica este interesse não só pelas perspectivas teóricas que tal reflexão abre, mas
também pelas aplicações práticas que pode vir a ter. E dada a multiplicação e
complexificação dos problemas que afectam as sociedades contemporâneas, cuja
repercussão a escola não pode deixar de sentir, a reflexão deontológica não só se
justifica como se mostra realmente necessária. Ao mesmo tempo, determinados
conflitos gerados na escola, relacionados com práticas menos correctas por parte de
alguns professores, parecem exigir que algo seja feito para minorar, se não prevenir, os
seus efeitos.
Lembra ainda a autora que entre os vários aspectos que permitem caracterizar o
profissionalismo se conta o “ (...) exercício correcto e autónomo de uma função
socialmente reconhecida como altruísta, de que o código ético constitui uma
expressão”, como se fosse uma espécie de “imagem de marca da profissão.” (p. 188) As
principais vantagens de um código adviriam da incrementação de uma identidade
profissional, que se reflectiria na imagem interna e externa da profissão e na afirmação
de autonomia relativamente à heteronomia dos regulamentos provenientes das
instâncias governamentais.

MODELOS DE CÓDIGOS DEONTOLÓGICOS


Em vários países, associações profissionais de professores tomaram a iniciativa
de elaborar códigos de deveres; em Portugal, contudo, nunca as associações de
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professores deram corpo a qualquer código deontológico que fosse expressão de luta
pela autonomia ou de um ideal de profissionalismo.
Reflectindo sobre este tema, D’Orey da Cunha (1996) começa por comparar o
estado da reflexão deontológica em vários grupos profissionais, colocando de um lado
médicos, juristas e jornalistas e, do outro, professores. Enquanto os primeiros terão
desenvolvido reflexões sistemáticas em torno da deontologia e, na sequência desse
processo, elaborado códigos deontológicos, os segundos, reconhecendo embora a
natureza ética da profissão docente, não consubstanciaram os princípios éticos numa
deontologia codificada.
O autor justifica esta diferença recorrendo aos paradigmas que, no seu entender,
suportam os respectivos procedimentos: o paradigma deontológico de médicos e
juristas, dada a natureza liberal de ambas as profissões que estabelecem com o cliente
uma relação directa, é um “paradigma de responsabilidade”; aqui, são as necessidades
do cliente que determinam os deveres tornando-se estes, por sua vez, critérios de
controlo da qualidade profissional. Os professores, em contrapartida, dada a sua
situação de empregados por conta de outrem, seja o empregador o estado ou uma
entidade privada, tomam como referência um “paradigma deontológico de direitos” e
os deveres, de origem administrativa, são-lhes impostos ou, em certos casos,
negociados, sistematizados sob a forma de estatutos ou de contratos; é o caso do
Estatuto da Carreira Docente que consigna os direitos e os deveres dos professores, na
sequência de um processo negocial.
D’Orey da Cunha considera, todavia, que os referidos paradigmas não têm
necessariamente de ser vistos como contraditórios e que, no caso dos professores, por
serem simultaneamente profissionais e empregados, seria pertinente “conciliar dois
paradigmas numa integração criativa” (p. 114). Para esse fim apresenta três sugestões:
que, em todos os actos educativos, o professor coloque sempre o bem dos alunos à
frente do seu próprio “interesse pessoal ou corporativo” (p.114); que, com vista ao bem
educativo do aluno, reivindique empenhadamente as condições óptimas para a
realização do seu trabalho e que, sempre dando a primazia ao bem educativo do aluno,
este possa ter precedência sobre normas emanadas dos empregadores.
Alargando o âmbito do seu estudo, Cunha (1996) dá conta de um projecto de
código deontológico, integrado num seminário da Universidade Católica sobre
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Deontologia da Profissão Docente, cujas natureza e estrutura se propõe analisar nos


seus aspectos “mais sensíveis ou mais controversos” (p. 116). Quanto à natureza, depois
de referir que um código não é “uma escritura que narre uma história de salvação e
inspire a acção moral dos fiéis”, nem “um regulamento até ao pormenor daquilo que as
pessoas devem fazer”, apresenta o seu ponto de vista sobre o que ele deve ser: “
cristalização da experiência ética dos educadores e professores”, tradução de um
consenso sobre as soluções consideradas mais equilibradas e justas face a algumas
situações dilemáticas, “para consideração de todos os profissionais” (p.118). E
admitindo que mesmo esta cristalização possa ser contestada por quem defenda a
liberdade de decidir em função dos seus próprios valores, conclui que o código não
deve ser mais do que “um instrumento de consulta à tradição antes de uma deliberação
que tenha em conta todas as exigências da situação” (p. 119).
Quanto à estrutura, propõe cinco pontos organizadores: (1) Preâmbulo; (2)
Deveres para com os alunos: na ordem do seu desenvolvimento integral, do saber, da
relação pedagógica e da isenção; (3) Deveres recíprocos dos docentes; (4) Deveres dos
docentes para com a comunidade educativa e (5) Deveres para com a sociedade.
Também Estrela (1993), depois de ter analisado alguns códigos provenientes de
vários países, pensa ser possível inferir aspectos caracterizadores e distintivos que
poderiam ser resumidos no seguinte quadro:

Quadro 1 - Tipos de Códigos Deontológicos

Origem  Associações sindicais


 Escolas de formação de professores

Estrutura  Com ou sem Preâmbulo


 Com ou sem fórmula de juramento
 Enunciação das normas reguladoras, em blocos ou em capítulos,
seguida ou não da explicitação das condutas incorrectas

Extensão  10 ou 12 normas
 Várias dezenas de normas

Orientação  Relativas aos alunos, pais e colegas


das normas  Relativas à escola, ao público em geral, à profissão, às práticas de
emprego, à associação profissional
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 Salvaguarda dos direitos fundamentais do Homem e do cidadão


 Salvaguarda dos valores cuja universalidade se pretende assegurar

A autora não deixa, contudo, de chamar a atenção para as fraquezas dos códigos
elaborados pelas associações de docentes, e que são sobretudo de três tipos: (1)
vinculam apenas os seus membros; (2) possibilitam a coexistência de códigos diferentes
numa mesma escola, o que pode ter efeitos contraproducentes na união da classe
justificando, assim, as intenções de muitos professores de se constituírem como ordem;
(3) não possuem força legal, mas apenas força moral, com todas as limitações daí
decorrentes. Em todo o caso, parece ser convicção de M. T. Estrela que as sanções
aplicáveis pelas associações aos seus membros, embora “de carácter moral e
psicológico (...) atingem o infractor no seu bom nome profissional (...) concorrendo
para que o exercício profissional se processe dentro dos limites circunscritos pelas
normas veiculadoras de um determinado conceito de profissionalismo.” (1993, p. 190).
Outra grande vantagem dos códigos deontológicos, explicitamente reconhecida
por muitos investigadores da deontologia docente (Strike e Soltis, 1985; Soltis, 1986;
Blázquez, 1986; Watras, 1986; Nash, 1991; Estrela, 1991, 1993; Cunha, 1996) reside
no facto de proporcionarem um ponto de partida e um pretexto para a reflexão e o
debate em torno dos valores e dos deveres inerentes ao exercício da profissão docente.
Cunha (1996), por exemplo, pensa que o código “pode constituir um instrumento de
formação, tanto de formação contínua de professores já formados, como de formação
inicial daqueles que se prepararam para serem professores”. Blázquez (1986) acentua
outro aspecto, o da “ chamada constante a um sentido mais profundo de
responsabilidade por parte de todas as pessoas implicadas no trabalho educacional.”
(p. 495)

FORMAÇÃO ÉTICA DOS PROFESSORES: ESTRATÉGIAS E


PERSPECTIVAS
Dada a responsabilidade moral e social inerente ao trabalho educativo, não seria
desejável dotar os professores de competências que os habilitassem a resolver
fundamentada e eficazmente os dilemas e conflitos profissionais que, certamente,
encontram? “Todos os dias, nas nossas escolas, há professores que cometem actos
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deontologicamente discutíveis (...). Todos os dias, nas salas de aula, há professores que
revelam princípios morais diferentes conforme se trate de avaliar a sua conduta ou a
conduta dos alunos.” - são afirmações de Estrela (1991: 585) que justificam plenamente
a necessidade de uma cuidada formação ética dos professores, se não de formação
moral, sobretudo se se atender à transformação dos valores sociais no sentido de uma
crescente indiferenciação.
Este ponto de vista está longe de ser pacífico e a autora recorda, a propósito, as
posições tradicionais da Psicologia, que parecem corroborar o senso comum, segundo
as quais as aprendizagens se fazem num tempo próprio, o sujeito estabiliza e torna-se
cada vez mais difícil mudar comportamentos e hábitos. Porém, as novas correntes
desenvolvimentistas da Psicologia desafiam este conceito de estabilidade e mostram que
o adulto também é um aprendente e também se desenvolve como pessoa, abrindo as
portas à possibilidade da formação contínua dos professores, nela incluindo a formação
ética.
Sejam quais forem as estratégias2 adoptadas com vista à formação moral e ética
dos professores, o respectivo valor só pode ser realmente apreciado quando essas
estratégias são integradas num programa global de formação e no modelo que o
enforma. Mas é de admitir que as estratégias mistas sejam as mais frutuosas, por
abarcarem as múltiplas dimensões do comportamento moral e permitirem articular “a
ética da intenção e da acção”. Ao mesmo tempo, qualquer programa de formação
moral ou ética deveria pressupor investigação acerca do pensamento moral dos
professores, de modo a compreender que princípios norteiam as suas condutas
profissionais, que regras se auto-impõem, como solucionam os conflitos de valores que
caracterizam qualquer situação profissional e, ainda, que valores pretendem transmitir
ou promover.
De tudo o que ficou dito, tanto pela natureza polémica do tema como pelo seu
manifesto interesse e pertinência, pretendeu-se conhecer, ainda que de forma
inevitavelmente parcial e contingente, o que pensam os professores sobre princípios
éticos e deontologia prática, sobre códigos deontológicos e formação profissional no
campo da ética. Ao mesmo tempo, procurou-se encontrar resposta para a seguinte
questão: estarão os professores conscientes da essência ética da sua profissão e das
implicações daí decorrentes?
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INVESTIGAÇÃO
Foi a questão acima formulada que presidiu à realização deste estudo e para cuja
resposta se recolheram, analisaram e interpretaram opiniões de alguns professores;
resultou, então um trabalho de natureza empírica e exploratória que pretende fornecer
um contributo para a caracterização do pensamento dos mesmos no campo da Ética e
Deontologia da Profissão Docente.

PROBLEMA E OBJECTIVOS
Este estudo tem como objectivos compreender quais os fundamentos das regras
de conduta adoptadas no exercício da profissão, conhecer a opinião dos professores
sobre a eventual necessidade de um código deontológico e o possível conteúdo do
mesmo e saber o que pensam sobre a pertinência do treino de competências éticas no
âmbito da formação profissional.
A investigação teve como ponto de partida o seguinte problema: haverá
diferenças, quanto à concepção da prática docente e dos deveres profissionais, entre
professores em fases distintas da carreira (início e meio /fim)?
Pensou-se que, a haver tais diferenças, elas seriam reveladas, no discurso dos
docentes, pela discrepância da frequência dos indicadores, principalmente nas áreas da
concepção dos deveres e da dimensão axiológica da prática docente e foi esta a hipótese
orientadora do trabalho, objecto da verificação empírica para a qual foi criado um
instrumento de recolha de opiniões.

METODOLOGIA
Atendendo às características e aos objectivos do trabalho, a adopção de uma
metodologia qualitativa impôs-se como a mais acertada. Uma vez que aquilo que se
pretende é compreender e interpretar os diferentes pontos de vista dos sujeitos
inquiridos, reduzir estes dados a números não fará muito sentido, ainda que o recurso
aos números (como, por exemplo, na contagem de unidades de enumeração e
respectivas frequências) possa ser um auxiliar precioso para a interpretação. Mas o
procedimento consiste em “analisar os dados em toda a sua riqueza, respeitando, tanto
quanto o possível, a forma em que estes foram registados ou transcritos ” (Bogdan e
Biklen, 1994, p.48).
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OS SUJEITOS
Os sujeitos cujas opiniões se recolheram são professores do ensino oficial, níveis
básico e secundário, de vários grupos disciplinares, com percursos académicos e
profissionais diferentes e pertencentes a duas escolas do concelho de Lisboa, a uma
escola do concelho de Loures e a outra do concelho da Amadora.
Dado que se pretende comparar opiniões de professores em duas fases distintas da
carreira, foi este o critério de selecção utilizado. Assim, no campo relativamente restrito
dos contactos pessoais e profissionais do investigador, entre os professores que
manifestaram a sua disponibilidade para colaborar nesta investigação foram escolhidos
4 em fase inicial - pré-carreira, em formação ou recém-formados - com um tempo de
serviço não superior a 5 anos e outros 4 com tempo de serviço igual ou superior a 15
anos.

RECOLHA DE DADOS
O instrumento utilizado na recolha de opiniões foi a entrevista. Optou-se, neste
caso, pela entrevista semidirectiva. As entrevistas foram realizadas de acordo com uma
grelha de temas e perguntas - guia, cuja ordem de apresentação e de resposta não foi
rígida, mas variável e ditada pela dinâmica discursiva do entrevistado.
Algumas das áreas temáticas propostas foram as seguintes: Valores norteadores
das práticas pedagógicas; Práticas pedagógicas e transmissão de valores; Código
deontológico. A própria formulação das questões, cujas clareza e pertinência foram
testadas previamente por meio de uma entrevista de controlo, não foi sempre igual e foi
pedido aos entrevistados que discorressem livremente, pela ordem que entendessem,
com as palavras que desejassem usar e aprofundando e estendendo a resposta tanto
quanto o tema ou a questão lhes sugerissem.
Todas as entrevistas foram feitas individualmente, em locais e ambientes
considerados adequados pelo entrevistador e pelos entrevistados e antecedidas das
respectivas motivação e legitimação. Foram gravadas e posteriormente transcritas.

1
Monografia realizada no âmbito de uma Especialização em Ciências da Educação na área de
Supervisão Pedagógica
15

TRATAMENTO DOS DADOS


Os dados assim recolhidos, pela sua variedade e riqueza informativa, exigiram o
recurso a um processo de tratamento sistemático que foi a análise de conteúdo. O
primeiro passo da análise foi a codificação, enquadrada pelos objectivos traçados para a
investigação. Tornou-se, pois, necessário construir um sistema de categorias que veio a
constituir a grelha de análise dos dados recolhidos.
Na presente investigação, as categorias foram concebidas, por um lado, a partir
de um pano de fundo teórico resultante da consulta de bibliografia sobre o tema em
análise e pelas reflexões dela decorrentes (que deram lugar à formulação do problema e
à definição dos objectivos da investigação, bem como ao guião das entrevistas); por
outro lado, a partir dos próprios discursos dos entrevistados, dos quais se fez uma
primeira leitura essencialmente exploratória. Foi também assim que se procedeu para a
construção das subcategorias, isto é, dos vários aspectos pelos quais cada categoria pode
ser compreendida (Bardin, 1994; Estrela, 1994; Ghiglione e Matalon, 1993; Nahoum,
1975; Quivy e Campenhoudt, 1992; Vala, 1986).

RESULTADOS
Os dados recolhidos foram analisados de acordo com um quadro de categorias e
subcategorias (Quadro 2). É a interpretação de alguns dados que seguidamente se
apresenta.
Quadro 2 - Dimensões da Análise de Conteúdo

Categoria Subcategorias

Fundamentação das Práticas Docentes: 1. Princípios orientadores das práticas dos


onde e como encontra o professor as professores com os alunos
razões das suas acções pedagógicas e 2. Princípios orientadores das práticas dos
institucionais; a natureza dessas razões e as professores com os colegas e com a
consequências práticas da ausência de instituição
fundamentos 3. Dimensão axiológica da prática docente
4. Ofensas aos princípios que devem
orientar os professores

2
M. T. Estrela (1991) refere e analisa algumas dessas estratégias: tradicionais de base
intelectualista; de tipo pragmático; inspiradas directamente em correntes cognitivas de desenvolvimento
moral; ligadas ao movimento de clarificação de valores; inspiradas numa concepção mais ampla de
formação moral que ultrapassa o campo restrito do raciocínio e da deliberação moral e estratégias
mistas.
16

Deveres dos Professores: consciência 1. Deveres relativos aos alunos


deontológica do professor; os domínios 2. Deveres relativos aos colegas e à
abrangidos pela deontologia; as violações instituição
mais frequentes da deontologia e seus 3. Deveres relativos aos encarregados de
motivos educação
4. Motivos de incumprimento dos deveres

O Código Deontológico: como concebe o 1. Conteúdo e estrutura do código


professor um possível código em termos de 2. Autoria e proveniência do código
pertinência, efeitos, conteúdo e 3. Efeitos do código
proveniência 4. Utilidade do código

Situações de Conflito: o que entende o 1. Conflitos com alunos


professor por situações conflituosas, onde 2. Conflitos com colegas ou com a
as radica e como as soluciona instituição
3. Critérios de resolução de situações
conflituosas

FUNDAMENTAÇÃO DAS PRÁTICAS DOCENTES


São quatro os tópicos de análise desta categoria: (1) Princípios orientadores das práticas
dos professores com os alunos; (2) Princípios orientadores das práticas dos professores
com os colegas e a instituição; (3) Ofensas aos princípios que devem orientar os
professores e (4) Dimensão axiológica da prática docente

PRINCÍPIOS ORIENTADORES DAS PRÁTICAS DOS PROFESSORES COM OS


ALUNOS
No trabalho diário com os alunos e nas relações extra-aulas que com eles
mantêm, o que é que regula os comportamentos dos docentes? Como é que eles
próprios concebem essa regulação? No tema que lhes foi proposto, a totalidade dos
inquiridos salientou o temperamento, o pensamento e a mundividência do professor
como o que, em primeiro lugar, orienta os seus comportamentos e as suas práticas.
A maioria refere também a consciência do dever e valores como razoabilidade e
equilíbrio; as regras básicas de convivência; as reacções dos alunos como feed-back; as
directrizes da política educativa e respectiva legislação.
A especificidade e os interesses dos alunos, o currículo da disciplina e os
conhecimentos especializados de pedagogia e didáctica são ainda mencionados por,
respectivamente, metade, 1/3 e 1/4 dos professores entrevistados. Estas fracções são
constituídas exclusivamente por docentes na fase inicial da carreira.
17

É possível organizar os referidos princípios orientadores em três classes,


consoante a sua origem ou fonte:
1) Os que provêm do próprio sujeito, na medida em que resultaram de um
processo de interiorização/formação mais ou menos consciente e raciocinado:
temperamento, mundividência, consciência moral, valores, regras de
convivência;
18

2) Os que decorrem daqueles a quem o sujeito se dirige: especificidade,


interesses e reacções dos alunos;
3) Os que dependem de normas explícitas: currículos disciplinares, directrizes
da política educativa, conhecimentos específicos de pedagogia e didáctica.
Comparando a frequência das ocorrências - 115 relativas à primeira classe de
princípios, 39 relativas à segunda e 35 relativas à terceira, parece legítimo inferir uma
tendência prioritária dos professores para a autodeterminação no que concerne às suas
3
As entrevistas são citadas, a partir daqui, deste modo: (e1), (e 2) ... até (e 8)

CONCEPÇÕES ÉTICAS E DEONTOLÓGICAS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES:


REFLEXÕES SOBRE CORRUPÇÃO
Publicado em 21 de maio de 2013 por Antonio Domingos Cossa

I. INTRODUÇÃO
A humanidade desde os seus primórdios sempre se manteve numa interacção entre as pessoas
que a configuram. Somente uma vivência e convivência sã pode assegurar uma compreensão, espírito
de ajuda e cooperação entre as pessoas. Isto significa que o homem pela sua natureza deve viver em
comunidade onde poderá fazer a troca de pontos de vista e manifestar a sua forma de viver.

Para esta vivência e convivência exige-se ao homem o cumprimento de determinadas normas,


princípios e regras. Estes procedimentos resumem-se nas normas de conduta que cada ser vivo deve
respeitar pois as mesmas estão estabelecidas pela própria sociedade na qual se encontra inserido.

O homem que por qualquer razão não cumpre com os princípios de boa conduta, estaria
naturalmente a violar os pressupostos sociais, sob pena de assumir comportamentos incorrectos que
possam merecer um sancionamento social e judicial.

De algum modo, com maior ou menor incidência, todos sentimos os efeitos maus ou bons do
exercício de qualquer profissão, no zelo e respeito durante tal exercício, e podemos avaliar bem ou mal
o profissional que nos atende na prestação de serviços, nas diferentes dimensões e categorias. E isto tem
a ver com a ética e a deontologia profissionais.

Abordar, por assim dizer, a questão de ética e deontologia profissionais no sector da Educação
em Moçambique e no contexto de formação de professores constitui-se um desafio. Um desafio maior
ainda se se considerar que se trata de um sector chave para a vida sã e regulada do servidor público e
dos cidadãos. Por ser também um sector atravessado por um conjunto de práticas de corrupção nas suas
variadas formas, as quais minam as possibiliades de alcance do sempre almejado ensino de qualidade.
Com salários baixos, sem incentivos nem motivação, vários profissionais da educação empurram-se
para a busca de ganhos ilícitos através do comércio de notas e de vagas, da extorsão sexual e do
absentismo, etc.

Aliás, o próprio governo, tendo se apercebido e consciência da existência de práticas de


comportamentos desviantes, tomou providência, como avança o PEE[1]2012-2016 (2012:126),

Ao nível do Governo foi elaborada uma Estratégia Global Anticorrupção para o período 2006-
2010, com o objectivo principal de melhorar a prestação de serviços públicos ao cidadão e desenvolver
um ambiente favorável ao crescimento do sector privado. Neste contexto, o sector da Educação
elaborou o seu plano de acção com enfoque nas áreas problemáticas, em termos de risco de corrupção,
como sendo a área de avaliação (exames, testes, e venda de notas pelos professores), certificação,
19

acções docentes; que esta autodeterminação admite, também, uma heterodeterminação -


filtrada, porém, pela consciência do dever e pela mundividência do sujeito agente, como
se pode depreender das seguintes afirmações de um dos inquiridos (e 6) 3: “ Pode haver
leis, e há, com certeza, e eu procuro saber: por exemplo, a legislação sobre avaliação
(...) tenho de saber e quero estar dentro (...) todas essas práticas, digamos, com os
alunos, são institucionais, eu estou numa instituição; mas aquilo que me orienta não é
isso ... É (...) a minha consciência é aquilo que eu acho que devo fazer.”

matrículas, a distribuição gratuita do livro escolar, a gestão financeira e aquisições. Ao mesmo tempo
será dada a tenção à melhoria da gestão de reclamações.

É nesta perspectiva que com o presente trabalho intitulado Concepções éticas e deontológicas
na Formação de Professores: Reflexões sobre Corrupção pretendemos trazer ilações em torno deste
assunto actual , cruzando várias ideias de autores interessados nesta matéria.

Pretendemos também, analisar algumas manifestações do fenómeno corrupção entre os


professores de diferentes níveis e instiuições de formação em moçambique.

A questão que se coloca à volta deste fenómeno é : A manifesta corrupção praticada pelo
servidor público na educação, particularmente nas instituições de formação de professores, será
originada pela inexistência ou desconhecimento da ética e deontologia profissionais?

Como prévia resposta a questão acima, julgamos que, por um lado, há um défice senão mesmo
falta de integração objectiva de conteúdos disciplinares sobre ética e deontologia profissionais nos
currícula de formação, por outro, há um declarado mar de impunidade de comportamentos desviantes à
conduta correcta e cumplicidade na prática destes por parte dos oficiais destas instituições,
comprometendo assim o desempenho das instituições e a tão almejada qualidade.

A importância deste tema justifica-se na medida em que sendo este um problema actual e
preocupante no seio da sociedade que vê os professores como guardiões não só do saber mas também
dos valores sociais. Julgamos também que com estas reflexões se possa entender melhor este fenómeno
e contribuir para a redução e abandono do mesmo.

Para a efectivação deste trabalho privilegiamos o método bibliográfico, recolhendo e


convocando as percepções de vários autores.

II. REVISÃO DA LITERATURA


2.1. Definição de Conceitos

Na ética académica, e tendo em consideração o desenvolvimento do pensamento humano, não


se afigura normal tratar um assunto de forma abstracta. Isto é, falar de um fenómeno ou uma questão
sem no entanto apresentar a sua conceptualização, de modo a permitir uma melhor compenetração e
compreensão da parte de quem tem acesso a este trabalho, por um lado, e por outro lado, ao documento
que descreve o fenómeno. Assim sendo, apresentamos de seguida os diferentes pontos de vista de
alguns pensadores, sobre determinados conceitos integrantes deste trabalho, cuja transversalidade
assegura uma apropriação da sua essência e tratamento posterior por parte do leitor da forma que
melhor lhe convier.

2.2. Ética
20

PRINCÍPIOS ORIENTADORES DAS PRÁTICAS DOS PROFESSORES COM OS


COLEGAS E A INSTITUIÇÃO
75% dos entrevistados afirmaram orientar-se por princípios de honestidade,
imparcialidade e transparência nas relações com os colegas e com a instituição; são
também estes os princípios cuja frequência de ocorrências é mais elevada e são os
docentes da fase avançada da carreira quem mais se lhes refere.
Por ordem decrescente de número de ocorrências são mencionados ainda: as
regras comuns de convivência social e as consensualmente estabelecidas por cada
grupo; a disponibilidade total; a abertura às perspectivas dos outros e o temperamento
pessoal; os valores de competência e excelência; a empatia e as afinidades pessoais.
Não são notórias, relativamente aos princípios referidos, discrepâncias entre os
dois grupos de professores e o fundamento das acções parece situar-se no plano mais ou
menos imediato das normas sociais e da personalidade individual. Onde essas
discrepâncias ressaltam é na frequência das ocorrências, que é superior no grupo da fase
avançada da carreira.

OFENSAS AOS PRINCÍPIOS QUE DEVEM ORIENTAR OS PROFESSORES


É inegável a contradição entre os princípios postulados e os comportamentos
práticos de alguns (muitos? poucos?) professores. As ofensas mais frequentemente
referidas pela maioria dos inquiridos são o excesso de individualismo e a consequente
recusa do diálogo, por um lado; por outro, a displicência na realização das tarefas
escolares. Outros, embora em menor número, mencionam casos de discriminação racial,
nomeadamente anti-semitismo, e de boicote ao trabalho do grupo pela rejeição das
regras mais elementares do seu funcionamento.

DIMENSÃO AXIOLÓGICA DA PRÁTICA DOCENTE


A questão que, neste âmbito, foi proposta aos entrevistados incidiu sobre a
relação entre pedagogia e valores, tal como eles a perspectivavam. Os discursos foram
unânimes: o acto pedagógico é intrinsecamente valorativo. Trata-se de uma afirmação
carregada de sentido. O que parece poder inferir-se a partir dos contextos que a
sustentam é que, por um lado, não há ensino neutro do ponto de vista axiológico, isto é,
toda a palavra e todo o acto, pelo simples facto de serem esses e não outros, já traduzem
uma escolha e, por isso mesmo, uma valoração - com as quais a pessoa do professor se
compromete inteiramente; por outro lado, “se - como diz Gusdorf (1978: 86) - a
21

educação, no sentido mais amplo do termo, tem por fim promover a instauração da
humanidade no homem”, então o acto pedagógico deve ser necessariamente sustentado
por valores, cuja dimensão ética é visível, uma vez que é a formação do ser humano que
está em jogo e que não é indiferente o sentido dessa formação. Nas palavras de um dos
inquiridos, “Pedagogia e valores ... eu acho que se dizem um ao outro, que as duas
coisas são uma.” (e 6); outro afirma: “(...) não há ninguém que possa ser pedagogo sem
ter valores, os seus valores em jogo. ” (e 2) Curiosamente, embora todos os inquiridos se
lhe refiram sem excepção, são os professores na fase inicial da carreira quem alude com
maior frequência ao carácter valorativo do acto pedagógico. Mas são os da fase
avançada que apresentam discursos mais consistentes e reveladores de um nível
profundo de reflexão sobre o tema.
Relativamente ao modo, ou modos, da formação axiológica, todos os
professores consideraram que o exemplo quotidiano é o instrumento privilegiado mas,
da frequência das ocorrências, infere-se que são os da fase avançada da carreira que lhe
atribuem maior importância.
Os professores admitiram também a possibilidade de abordar os valores a
propósito dos conteúdos programáticos e pela discussão dos fundamentos de atitudes e
acções concretas. Diz um dos inquiridos: “É normal e quotidiano trazer casos para a
aula. Depois, também surgem entre nós situações concretas e eu gosto de os expor e de
os confrontar com elas. E, no meio disto, debatê-las e tentar averiguar como é que nos
devemos um pouco nortear; obrigá-los a meditar sobre isso.” (e 4)
Os valores e atitudes que principalmente os professores na fase inicial da
carreira afirmaram pretender transmitir são liberdade e responsabilidade, persistência e
esforço de aperfeiçoamento e, genericamente, os implicados na Constituição e na
Declaração dos Direitos do Homem. Esta intencionalidade vem ao encontro do ponto de
vista de Cordero (1986), quando define o propósito do professor como “O de conseguir
a formação de sujeitos responsáveis por si mesmos, sujeitos dotados de estrutura ética,
senhores de si e dos seus actos e capazes de assumir as suas responsabilidades ” (p.
473).

DEVERES DOS PROFESSORES


A abordagem do tema dos deveres procura dar conta do modo como os
professores se posicionam relativamente às tarefas e aos comportamentos que julgam
22

próprios do bom desempenho profissional e às respectivas regras orientadoras.


Pretende-se, igualmente, compreender a articulação entre estas regras - práticas,
empíricas - e os princípios fundamentadores que os mesmos professores enunciam.
Todos os inquiridos enfatizaram a existência de deveres: uns como uma
necessidade inquestionável - “Claro que têm deveres, então não têm que ter deveres?”
(e 4); outros, como exigências um tanto escamoteadas - “Às vezes esquecemo-nos disso,
mas temos muitos deveres.” (e 7); outros ainda, como uma presença constante e
premente - “ (...) têm montes de deveres! Acima de tudo, têm deveres! Têm deveres, pois
têm.” (e 5).
Esta categoria foi dividida em subcategorias, correspondentes a áreas temáticas:
(1) Deveres relativos aos alunos e (2) Deveres relativos aos colegas e à instituição

DEVERES RELATIVOS AOS ALUNOS


Esta foi a área que mais referências suscitou aos entrevistados, tanto os da fase
inicial como os da fase avançada da carreira, mas a frequência das ocorrências é
ligeiramente superior nos primeiros.
Os deveres mais vezes referidos são, por ordem decrescente: promover o
desenvolvimento pessoal e a autonomia dos alunos, educando-os ou formando-os no
respeito pelos valores fundamentais; respeitar-lhes a individualidade enquanto pessoas e
estabelecer com eles uma boa relação, assente sobre critérios de transparência,
imparcialidade e objectividade; ser cientificamente competente, actualizar-se e adaptar
o ensino às características dos alunos; ser bom profissional independentemente das
condições de trabalho.

DEVERES RELATIVOS AOS COLEGAS E À INSTITUIÇÃO


A grande maioria dos docentes considera que tem deveres a cumprir no seu
relacionamento com a escola como instituição e, mais particularmente, com os colegas;
não há aqui diferenças significativas entre os dois grupos inquiridos. Onde as diferenças
se acentuam é na frequência das ocorrências, que é substancialmente superior no grupo
da fase inicial da carreira.
O dever mais vezes referido é o de dignificar a profissão, corrigindo o que nela
está mal, o que vem na mesma linha do dever de ser bom profissional em quaisquer
circunstâncias, indicado no ponto anterior. Seguem-se os deveres de auto e hetero-
23

avaliação, e troca e partilha de experiências com os colegas, de os alertar sobre


possíveis erros que tenham cometido, de lhes prestar atenção e apoio em caso de
dificuldades, de os respeitar como pessoas e como profissionais.
Parece, contudo, que estes deveres não possuem todos o mesmo alcance;
enquanto os dois primeiros incidem sobre o professor entendido como sujeito individual
duma prática cujos efeitos se repercutem na instituição, afectando a sua imagem
exterior, os restantes supõem-no membro da comunidade escolar e visam a coesão do
grupo profissional pela manutenção ou pelo reforço dos laços de solidariedade interna.

O CÓDIGO DEONTOLÓGICO
Caberá agora perguntar se, do reconhecimento da omnipresença de deveres nas
práticas docentes e da função orientadora que possuem, os professores inferem a
necessidade de proceder à organização formal dos mesmos num código que vincule as
acções às regras estabelecidas.
A grande maioria dos docentes inquiridos manifesta-se a favor da criação de um
código deontológico da profissão e a razão que todos consideram, mais ou menos
explicitamente, é a vantagem de ficar na posse de um critério uniforme que permita
aferir a correcção dos actos dos professores.
Procedeu-se à análise da categoria segundo quatro dimensões: (1)Conteúdo e
estrutura do código; (2) Autoria e proveniência do código; (3) Efeitos do código; (4)
Utilidade do código

CONTEÚDO E ESTRUTURA DO CÓDIGO


Maioritariamente, os professores entrevistados consideram que um código
deontológico, a ser criado, deveria estruturar-se em torno de princípios muito gerais,
sem entrar na enunciação de deveres específicos. Quando solicitados no sentido de
explicitarem esses princípios, referem os direitos humanos fundamentais, os
consignados na Constituição e as regras comuns de convivência. 50% dos inquiridos, no
entanto, pensam que o código deveria estabelecer claramente quais as práticas docentes
julgadas correctas e quais as incorrectas - consequentemente condenáveis; 25%, ainda,
julgam que o código deveria organizar-se segundo áreas deontológicas distintas: alunos,
colegas e instituição, encarregados de educação.
24

A primeira opinião é manifestada igualmente pelos dois grupos de professores;


os que pertencem ao grupo de início da carreira são os principais defensores das duas
últimas, o que vem ao encontro das diferenças já encontradas na área da enunciação dos
deveres.

AUTORIA E PROVENIÊNCIA DO CÓDIGO


Supondo que a criação de um código deontológico era não só pertinente, mas
mesmo necessária para a profissão docente, caberá agora discutir a questão da sua
autoria e das suas fontes. A este propósito, o ponto de vista de todos os inquiridos é o
de que ele deve ser a expressão de um consenso entre os professores e a manifestação
de uma vontade colectiva, embora alguns se mostrem cépticos relativamente à
possibilidade de tal consenso, atitude que não será injustificada, se se atender à natureza
do assunto, por um lado, e à heterogeneidade do próprio corpus profissional, por outro.
Ainda no que concerne à autoria e à proveniência do código, outras sugestões
são apresentadas, embora por um número menor de entrevistados: o código deve
resultar de um “núcleo duro” de deveres já respeitados, isto é, deve nascer das práticas
já existentes; deve ter em conta o que a sociedade espera dos professores e deve
beneficiar de experiências já realizadas, nomeadamente em códigos de outras
profissões.

EFEITOS E UTILIDADE DO CÓDIGO


Ao exporem os seus pontos de vista sobre a possível pertinência de um código
deontológico, os professores entrevistados, na sua quase totalidade, consideraram que
um código seria não só pertinente, mas útil e, segundo alguns, indispensável.
Simultaneamente, abordaram a questão dos efeitos benéficos que dele poderiam
decorrer. De acordo com a frequência das ocorrências, a maior vantagem do código
seria a de alertar, prevenir contra o erro e salvaguardar o professor em caso de conflito,
seguindo-se-lhe outras, como a de promover a competência profissional e,
consequentemente, a credibilidade dos professores enquanto grupo; reforçar-lhes a
unidade, conferindo-lhes, assim, maior força; melhorar a qualidade do ensino. Na
perspectiva de um dos professores (e 1)“(...) esse código também já seria mais uma
aliança, qualquer coisa que todos comungavam, que todos partilhavam, e de alguma
25

forma podia conferir não só maior credibilidade, mas maior unidade aos seus
profissionais.”
Alguns dos entrevistados, no entanto, manifestaram dúvidas quanto a uma real
utilidade do código. Em primeiro lugar porque, só por si, o código não tem qualquer
eficácia prática garantida: é sempre necessária a vontade dos sujeitos para dele fazerem
decorrer as acções. Logo, concluem, é toda a formação axiológica do professor, já
profundamente interiorizada, que determina os comportamentos docentes, de forma
bem mais directa do que qualquer código de deveres. Em segundo lugar porque, mesmo
possuindo uma deontologia informal, “em todas as escolas há sempre alguém que não
cumpre coisíssima nenhuma” (e 7).

SITUAÇÕES DE CONFLITO
Num meio dominado por complexas teias de relações interpessoais, como é o
das escolas, é natural que ocorram por vezes situações conflituosas entre os vários
interlocutores em presença. Procurou-se compreender que tipos de situações são
consideradas portadoras de conflitualidade e se existe alguma espécie de nexo entre
estas e o modo como os professores encaram as regras da sua profissão. Os
entrevistados distinguiram dois grupos de conflitos: com os alunos e com os colegas e a
instituição; e relataram casos em que eles próprios estiveram envolvidos ou casos de
que tiveram conhecimento, mas sem envolvimento pessoal.

CONFLITOS COM ALUNOS


As situações narradas permitem ordenar, por ordem decrescente, os seguintes
conflitos com alunos: Agressão verbal mútua e indisciplina em geral (da parte do
aluno); Autoritarismo, rispidez e inflexibilidade; Assédio sexual Discriminação (sexual,
racial) e favorecimento.
Os dois primeiros tipos de casos podem ser compreendidos à luz das teses sobre
o ciclo de vida dos professores (Huberman, 1989, por exemplo); os dois últimos
remetem para o plano dos fundamentos das condutas, isto é, para o plano ético. Ora se é
de esperar que, mais tarde ou mais cedo, à medida que as atitudes e perspectivas dos
professores sobre a relação de ensino - aprendizagem se vão modificando, os dois
primeiros tipos de conflitos tendam a diminuir, talvez já não se possa esperar o mesmo
26

dos dois últimos, que não parecem dependentes de idênticos factores, mas antes da
formação ética do professor enquanto pessoa.

CONFLITOS COM OS COLEGAS E COM A INSTITUIÇÃO


Os maiores conflitos nesta área são provocados por intrigas, falta de
transparência nas relações interpessoais e acusações infundadas de que, por vezes,
alguns professores são vítimas. Há ainda referências a casos de discriminação e
prepotência, tanto por parte de colegas como dos órgãos directivos das escolas.
Torna-se claro, em situações desta natureza ou da natureza das apresentadas no
ponto anterior, que os regulamentos internos das escolas não são suficientes para lhes
fazer face; é na sequência desta convicção que se começa a pensar nas possíveis
vantagens de um conjunto de normas sistematizadas que viessem a funcionar como
princípios de acção e julgamento para todos os implicados no processo educativo, em
especial os professores (Blázquez, 1986).

CRITÉRIOS DE RESOLUÇÃO DE SITUAÇÕES CONFLITUOSAS


Quando descrevem situações de conflito, os inquiridos formulam
simultaneamente juízos de valor sobre as soluções encontradas. Assim, consideram que
situações com mais probabilidades de serem bem resolvidas são aquelas cujos
mediadores se pautam por critérios de objectividade, imparcialidade e flexibilidade ou,
de acordo com os casos, proporcionam ajuda ou intervenção terapêutica aos sujeitos
envolvidos.
Pelo contrário, marginalizar colegas ou alunos na sequência de qualquer conflito
ou não intervir ao nível das suas causas significa não só que se enfrentou a situação do
modo menos correcto mas também que o conflito não foi resolvido, apenas foi
camuflado ou adiado. Ora, como sugerem dois dos professores entrevistados, “(...)
talvez um código deontológico fosse mais normativo nessas situações. ” (e 4) e “Um
código seria como que uma autoridade a que se recorre nesses casos... ” (e 8).
Esta perspectiva está em sintonia com o que ficou escrito acima a propósito dos
efeitos e da utilidade de um possível código deontológico. No entanto, no contexto
agora em análise e com excepção das entrevistas citadas, as potencialidades do mesmo
não se tornam evidentes para a maioria dos professores.
27

CONCLUSÃO
Os dados recolhidos por meio de entrevistas semidirectivas revelaram-se
bastante ricos e permitiram, uma vez submetidos a análise, obter uma perspectiva
multifacetada das concepções dos professores inquiridos acerca do tema em
investigação. Assim, em cada categoria destacam-se as seguintes conclusões:
Fundamentação das práticas docentes
 As referências aos valores e à consciência do dever são feitas pelos dois grupos de
professores, mas são mais numerosas entre os que estão em fase avançada da
carreira; os que estão em fase inicial parecem mais preocupados com os programas
das disciplinas e os conhecimentos teóricos de pedagogia e didáctica específica, o
que poderá justificar-se pela proximidade temporal da formação profissional e do
que nela habitualmente se valoriza.
 As prioridades dos docentes parecem ter sofrido um deslocamento e ao longo da
carreira, acompanhado de uma crescente consciência da natureza ética da profissão,
consciência essa que não deixa nunca de estar presente, mesmo no início, quando
parece submetida ao peso da heteronomia.
 Uma maior experiência profissional, provavelmente acompanhada de reflexão,
parece ter conduzido à convicção de que um bom exemplo vale mais do que muitas
palavras, como se pode depreender das afirmações de um dos entrevistados (e 6): “
Ser educador é ser exemplar (...) não vale a pena eu dizer isto, dizer aquilo...não
tenho que dizer coisa nenhuma; eu tenho que fazer, tenho que ter atitudes. (...) eu
posso estar a defender teoricamente muitas coisas mas, de facto, os miúdos têm uma
grande percepção disto: «Ah, está bem, dizes isso mas não é o que tu fazes!»”.
 Delineia-se um ideal de comportamento profissional pautado por valores
essencialmente éticos (honestidade, solidariedade, tolerância...), exigindo
profissionais dotados de “competência” e “excelência” e capazes de “disponibilidade
total”; no entanto, é notória a discrepância entre realidade e idealidade da profissão:
os princípios são elevados mas o mesmo não acontece, necessariamente, com os
actos.
 Os professores na fase inicial da carreira mostram-se menos sensíveis ao tema das
ofensas aos princípios: embora se lhe refiram, fazem-no de modo mais abreviado e
menos veemente, excepto no que respeita à realização displicente das tarefas
28

escolares. É certo que a posse ou o conhecimento de bons princípios não é garantia


da bondade da acção, isto é: deles não se deduz necessária e automaticamente uma
acção correcta, nem do ponto de vista moral, nem do profissional. Contudo, é ainda
mais certo que nenhuma acção educativa consistente se pode realizar sem
fundamentos que a sustentem e que a aprendizagem desses fundamentos deveria ser
preocupação prioritária de todos os professores.
 Todos os professores inquiridos, independentemente dos anos de prática, estão
conscientes da natureza intrinsecamente formativa da profissão, embora nem todos
abarquem, com a mesma amplitude, o sentido teleológico da educação e as
dificuldades daí decorrentes. Ora, é o compromisso do professor com os seus valores
e com o projecto educativo que constitui o seu telos que confere eticidade à profissão
docente.

Deveres dos Professores


 O professor regula-se por deveres consentâneos com os princípios de
responsabilidade e autonomia e tem como objectivo último a formação de pessoas,
sem esquecer que a formação também passa pela informação, já que não parece
viável transmitir valores - éticos ou outros - sem mobilizar, para esse fim,
conhecimentos relativos ao mundo em que se vive e à sua história, ou a si mesmo na
sua condição de ser vivo de determinada espécie e num dado contexto; do mesmo
modo, transmitir conhecimentos científicos (ou estéticos, ou filosóficos ...) é, só por
si, revelador do respeito que merecem valores como verdade, saber, ou cooperação
(Savater, 1997). É, pois, esta unidade do acto educativo que lhe confere a capacidade
formativa.
 O professor deve esforçar-se por conseguir boas condições de trabalho, mas a
ausência delas não pode ser pretexto para o mau desempenho. Mais uma vez, a
tónica é colocada nos princípios e na finalidade, não nos meios. Mais uma vez,
ainda, a distância entre representação e realidade é considerável.
 Uma análise atenta dos discursos dos inquiridos permite destacar dois aspectos
interessantes do conceito de avaliação dos professores: trata-se de uma avaliação a
que se poderia chamar “endógena”, como se infere das palavras de um dos docentes
29

entrevistados (e 6): “(...) só os meus próprios pares é que me podem julgar; o que eu
sou como professora, só na minha escola os meus colegas, sobretudo os de grupo, é
que poderão dizer alguma coisa ... ”. Em segundo lugar, será uma avaliação em
sentido alargado, não apenas das competências científicas, mas também das
capacidades psicológicas do professor e que visa mais a formação e menos a
classificação.
 Consequentemente, o dever de avaliação revelar-se-ia de duplo efeito: no interior do
“corpo” docente, ao permitir reforçar-lhe a “saúde” e a unidade; no exterior, no
contexto social, pela renovação da imagem profissional, tornada mais credível mercê
desse esforço interno de controlo e correcção.
 Comparando a posição dos dois grupos de professores na área dos deveres e na área
dos princípios reguladores da relação professor/colegas e instituição, constata-se uma
curiosa inversão: o grupo que mais referências faz aos princípios é o que menos se
refere aos deveres (o dos professores da fase avançada da carreira); o que manifesta
menor interesse pelos princípios privilegia depois os deveres (professores na fase
inicial).
 Há aqui como que uma alternância de interesses cuja regularidade levanta
dificuldades de interpretação. Se se considerassem os princípios não só como
declarações de intenções, mas também como realmente vinculativos, ou seja, como
fundamentos das regras práticas - os deveres - que deles decorreriam naturalmente,
então poderia compreender-se a escassez das referências a estes últimos. Seria como
se os deveres estivessem contidos nos princípios; e quem conhece os princípios sabe,
por inerência, quais são os deveres. (Se os realiza ou não, já é de outra ordem ...)
Pelo contrário, uma maior insistência nos deveres, isto é, nas regras práticas
significaria, possivelmente, um entendimento diferente dos princípios ou da relação
entre estes e aqueles, que já não seria, então, percebida como vinculativa. Além
disso, dada a natureza abstracta dos princípios, são os deveres que se intuem em
primeiro lugar, como aquilo que está mais próximo das práticas e com elas se liga.
 O lugar que o tema dos deveres ocupa na organização dos vários discursos sugere a
posse de uma deontologia que, embora tácita, se apresenta como um corpo de regras
unificador das diversas praxis docentes.
O Código Deontológico
30

 Os professores que iniciam a actividade profissional parecem sentir, mais do que os


outros, a premência de deveres específicos que, por não terem sido ainda
interiorizados, carecem de organização formal, com carácter normativo, a que se
apele sempre que necessário. Ainda que o conhecimento das regras não seja garantia
da sua aplicação.
 Os professores falam em consenso e em vontade colectiva a propósito da autoria do
código, o que significa que as práticas consideradas correctas são não só conhecidas
como assumidas espontaneamente pela maioria dos professores e que aqueles que as
violam se colocam, de certo modo, nas margens do corpo profissional.
 O grupo dos professores principiantes nunca menciona uma deontologia fundamental
e tácita ( o núcleo duro) como ponto de partida e fio condutor de um código
deontológico; o escasso tempo de permanência na profissão não será alheio a este
facto, condicionando o modo como o professor compreende e aplica os deveres.
 Por seu turno, o grupo dos professores instalados na profissão nunca se refere à
necessidade de ter em conta as expectativas sociais aquando da eventual criação do
código, o que não só reforça a ideia do consenso, mas também aponta para um
processo exclusivamente interno de criação que confirma - e ilustra - a capacidade de
autodeterminação dos professores.
 Relativamente à utilidade do código, é notória uma situação paradoxal: o código é
visto como útil e vantajoso por quem já possui uma deontologia - o que, em última
análise, o torna dispensável. Para aqueles que a não possuem, também não é certo
que o código tenha algum valor prático, uma vez que só o querer do sujeito é
determinante da orientação das suas práticas. A não ser que o código se fizesse
acompanhar de algum sistema de sanções a aplicar aos que o não cumprissem, o que
não levanta menores dificuldades.
 Todavia, há um aspecto em torno do qual se nota consenso: o código teria a
vantagem de defender os professores, enquanto membros de uma classe profissional,
de possíveis conflitos com o exterior e da degradação da sua imagem perante o
público; é que, aceitando submeter-se a deveres que seriam consensuais para a classe
e a julgamento ou a avaliação por parte dos seus pares, os professores estariam a
precaver-se contra qualquer suspeição de que pudessem vir a ser alvos, ao mesmo
tempo que reforçavam a sua unidade e o seu poder de intervenção social. Além disto,
31

um código deontológico é mais um passo na afirmação do profissionalismo docente,


cujo estatuto permanece ambíguo tanto aos olhos da entidade empregadora como aos
dos próprios profissionais.

Situações de Conflito
 Os professores que se encontram no início da carreira referem, muito mais do que os
outros, conflitos com alunos; a isto não será alheia, provavelmente, uma maior
centração sobre si próprios, nesta fase inicial a que Huberman (1992) chama entrada,
tacteamento e na qual o professor se esforça por marcar a sua autoridade, nem
sempre do modo mais eficaz. Alguns autores consideram mesmo que uma situação
escolar problemática, na qual se inclui a indisciplina na aula, é uma das causas do
“Shock da realidade” (Veenman, 1988), isto é, do processo durante o qual se
confrontam os ideais e a realidade.
 Os professores mais experientes apontam, sobretudo, conflitos com colegas ou com a
instituição. Ultrapassadas as dificuldades iniciais relativas à gestão do binómio
autoridade / flexibilidade na relação pedagógica, é o tempo de o professor alargar e
consolidar as suas relações de trabalho e será este um campo potencialmente
conflituoso.
 A maior parte dos professores avalia como não solucionados os conflitos que narra,
geralmente por não terem sido tomadas as medidas que, de acordo com os seus
critérios, seriam adequadas.
No que concerne ao problema que serviu de ponto de partida para a
investigação, a resposta sintética que emerge da análise feita é que os deveres
profissionais, o conceito de professor, os princípios orientadores das práticas docentes,
entre outros aspectos, são formulados em termos muito semelhantes e valorados de
forma idêntica pelos professores, quer estejam a iniciar quer estejam a meio ou perto do
fim da carreira; mesmo tendo em conta os diferentes pesos que alguns aspectos
específicos destes temas possam ter na economia dos respectivos discursos e de que as
diferenças de frequência das ocorrências são indiciadoras.
Neste medida, pensa-se que os objectivos do trabalho terão sido alcançados e
espera-se ter conseguido lançar alguma luz sobre o pensamento dos professores
relativamente aos aspectos éticos - ou a parte deles, pelo menos - que envolvem as
32

práticas profissionais docentes; isto sem perder de vista, no entanto, que toda a
investigação qualitativa, dado o seu pendor marcadamente interpretativo, se deverá
sempre considerar incompleta e em aberto.
Do mesmo modo, a complexidade do objecto de investigação e o número
restrito de sujeitos sobre o qual incidiu permitem antever as vantagens de um ou vários
estudos mais profundos que incidam sobre cada uma das áreas cujas pistas se abriram
aqui: o pensamento moral dos professores; as suas concepções de deontologia prática
em relação com um eventual código deontológico e a formação ética dos professores,
para a qual se poderia construir um projecto devidamente fundamentado ao nível dos
paradigmas éticos.
Em todo o caso, o que parece realmente importante e, consequentemente,
merecedor de investimento é todo o trabalho de tomada de consciência e de reflexão,
por parte dos professores, da natureza ética da profissão docente e os resultados que daí
possam advir em termos de enriquecimento pessoal e profissional e de melhoria da
qualidade das nossas escolas, tendo em vista a educação que nelas se realiza.

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35

NOTAS
36

Ética, igualmente com raízes na civilização grega, é uma palavra proveniente de “ethos”, que
em grego significa - Modo de Ser.

DOMINGOS (2001:703) Entende Ética, conceito com profundo sentido filosófico, como sendo
“disciplina que pretende determinar a finalidade da vida humana e os meios de a alcançar,
preconizando juízo de valor que pretendem destinguir entre o bem e o mal; princípios morais por que
um indivíduo rege a sua conduta pessoal ou profissional”; “moral”; “ciência da moral.”

Quando aceitamos a ética, como sendo um conjunto de regras a orientar o


relacionamento humano no seio de uma determinada comunidade social, podemos admitir a
conceptualização de uma ética deontológica, uma ética voltada para a orientação de uma actividade
profissional.

A ética não envolve apenas um juízo de valor sobre o comportamento humano, mas
determina em si, uma escolha, uma direcção, a obrigatoriedade de agir num determinado sentido em
sociedade.

Ética - elabora os princípios morais, subjacentes a todo o comportamento humano em


sociedade.

Ngoenha (1994:191) afirma que o problema fundamental da filosofia clássica foi o


problema do ser e o da filosofia moderna, o do conhecer, o problema fundamental da filosofia
contemporânea é, sem dúvida, o problema do agir.

Embora ainda exista a preocupação em saber melhor quem é o homem e como é que se
pode conhecer o que mais os angustia hoje e saber quais são os critérios da nossa acção, saber como
devemos agir, qual a melhor maneira de agir enquanto homem são questões de importância capital no
contexto deontológico e moral hoje entre os moçambicanos.

2.2.1. Ética vs Moral

Neste prisma, propomos a seguinte reflexão: Será, então, que o défice moral e
deontológico vivido no seio dos professores em Moçambique é motivado pelo seu défice
epistemológico? Em outras palavras, poderíamos reflectir sobre até que ponto é que a ignorância do
homem em relação a sua própria identidade concorre para o elevado défice deontológico e moral.

Ngoenha(ibid,192) refere que “Todos vivemos de experiências da consciência moral.


Temos uma sensibilidade moral que nos faz avaliar se nossas acções se são boas ou más”

O autor está aqui claramente a sugerir que não é o conhecimento dos valores morais que
está na base dos procedimentos deontológicos do indivíduo, mas sim a sensibilidade moral que um
elemento que distingue o bem do mal que está presente no homem como fruto de uma experiência
37

social e não de um processo formal de educação.

Entende-se aqui que os princípios morais não são explicitamente ensinados por um programa
de educação moral e cívica como muitas instituições de ensino procuram fazer, quer em Moçambique
quer noutros países, mas sim transmitidos por meio de experiências que o homem vai adquirindo no seu
meio social dai que as sociedades mais escolarizadas não são de maneira nenhuma consideradas
sociedades mais morais e deontológicas.

Segundo Severino (1992:195) moral é “o conjunto de prescrições vigentes numa


determinada sociedade e consideradas como critérios válidos para a orientação do agir de todos os
membros dessa sociedade”.

Nesta definição, a moral é tida como um conceito sociocultural e não universal baseado
nos princípios de diferentes sociedades. A título de exemplo, a prática do lobolo é moralmente aceite
numa sociedade mas não em outras. A prática de homicídio e pena capital é moralmente condenável em
algumas sociedades mas encorajadas em sociedades onde se pratica a lei de Sharia.

Para o propósito do nosso trabalho distinguiremos o conceito moral do conceito ético.


Enquanto a moral é o valor de julgamento das práticas e comportamentos humanos ou do indivíduo a
ética é o conjunto de critérios e sistemas que regem a adopção desses valores e regem a convivência de
um determinado grupo social.

Severino (1992:196) define a Ética como sendo “ a área da filosofia que investiga os
problemas colocados pelo agir humano enquanto relacionado com valores morais. A ética busca assim
discutir e fundamentar os juízos de valor a que se referem as acções quando neles fundam-se os
objectivos, critérios e fins”.

A filosofia também define a ética no contexto normativo social, em outras palavras, a


filosofia considera a ética como a disciplina que reflecte nos princípios de convivência moral numa
determinada sociedade. A ética é tida como uma disciplina que reflecte nas normas que os homens
devem adoptar para poderem viver em harmonia entre eles e em harmonia com os seus antepassados.

Para Almeida et al (2009:105) a ética é “a disciplina tradicional da filosofia, também


conhecida por filosofia moral que se centra no problema como devemos viver”.

A área da ética que lida com este problema da forma mais directa é a ética normativa. Esta
ocupa-se em grande medida de dois problemas mais específicos:

O que é agir de uma forma moralmente certa?

O que torna boa e valiosa a vida de uma pessoa?


38

Ao tentar responder a estas perguntas os filósofos propõem respectivamente teorias de


obrigação e teorias de valor. Há dois tipos fundamentais de teorias de obrigação:

Ética consequencialista segundo a qual se pensa que para se determinar o que devemos
ou podemos precisa-se apenas de avaliar as consequências dos nossos actos: a melhor opção ética é
sempre aquela que dará origem aos melhores resultados. Na ética consequencialista um acto é
moralmente aceitável apenas se entre os actos alternativos nenhum tiver consequências mais valiosas.
Devemos então agir de forma que resulte nas melhores consequências. Uma boa regra moral é aquela
que se for aceite na sociedade por todos ou quase todos os seus membros resultará nas melhores
consequências.

Embora existam sociedades diferentes com naturalmente culturas distintas, é importante reter
que o mundo ou a humanidade definiu um conjunto de princípios e normas que são comuns para todos
os povos. Por exemplo o princípio de respeito pela vida humana é universal.

Ética deontológica em que se julga que a nossa prioridade enquanto agentes morais é evitar
realizar actos de certos tipos, ou respeitar certos direitos. A ética deontológica opõe-se a ética
consequencialista pois nela agir moralmente não é apenas uma questão de produzir bons resultados e
evitar maus resultados. Na ética deontológica temos deveres que nos obrigam a não realizar actos de
determinados tipos de tal maneira que não podemos realizá-los mesmo quando a sua realização
permitiria evitar um mal maior.

2.3. Deontologia

Este é um termo que aparece da aglutinação de 2 palavras gregas: “déon” e “logos”.

Para os gregos “déon” significa DEVER, enquanto “logos” se traduzia por Discurso ou Tratado

Neste caso, Deontologia seria o tratado do dever, ou o conjunto de deveres , princípios ou


normas adaptadas com um fim determinado (regular ou orientar determinado grupo de indivíduos no
âmbito de uma actividade laboral, para o exercício de uma profissão).

Deontologia – dimensão ética de uma profissão ou de uma actividade profissional

A par desta ideia de tratado, associado à regulamentação de uma profissão estava implícito
uma certa Ética, aquilo a que posteriormente viria a ser entendido como a ciência do comportamento
moral dos homens em sociedade

Na pespectiva de DOMINGOS, João(2001:485) Deontologia é o “estudo dos deveres especiais


de uma situação, particularmente dos deveres das diversas profissões”

Este conceito, também mereceu um tratamento interessante por parte de MBAMBI,


Carlos(2003:2) citando Doran e Parot(2001), “... este termo designa a teoria dos deveres,
39

particularmente os diferentes deveres profissionais”.

Como se pode verificar, a teorização deste conceito é antiga e actual. O mesmo chama a
atenção para o estrito cumprimento dos deveres pessoais e colectivos, fundamentalmente os
profissionais.

2.4. Corrupção

Um outro conceito que julgamos importante convocar paras este trabalho é Corrupção que, na
nossa opinião resulta do desvio da conduta normal do servidor público.

O conceito clássico de Colin Nye define a corrupção como “um comportamento desviante dos
deveres formais de um papel público (eleito ou nomeado) motivado por ganhos privados (pessoais,
familiares, etc.) de riqueza ou status” Nye (1967) apud Mosse e Cortez (2006:8). Uma versão mais
recente mas contendo os mesmos elementos foi proposta por Mushtaq Khan, que diz que a corrupção é
“um comportamento desviante das regras formais de conduta, de alguém com posição de autoridade
pública, por causa de motivos privados como riqueza, poder, status” (Khan, 1997).

O conceito de corrupção de Nye é, como se vê, um conceito centrado na função pública.


Heywood refere que o facto de o conceito se concentrar apenas na esfera pública permite que ele
apenas cubra as práticas de corrupção que ocorrem dentro dessa esfera ou na interface entre a esfera
pública e privada; o que faz com que outras práticas que ocorram apenas dentro da esfera privada
fiquem de fora, como por exemplo algumas práticas de corrupção financeira (Heywood, 1997, in
Williams, 2000, pp. 417:435).

Na perspectiva de Amartya , apud Mazula (2005:57) a corrupção é “a violação para lucro e


proveito próprio das regras estabelecidas”.

Neste caso, tais combranças feitas pelos docentes a diferentes níveis de ensino e de formação,
todos os esquemas montados que violam o regulamentado com objectivos lucrativos fazem parte do
suborno. são questões deontológicas a serem revistas para a construção de uma sociedade educacional
mais ética e deontológica.

Cp(2012) Guebuza, no seu discurso, sustenta que a corrupção “é um dos obstáculos ao


desenvolvimento, na medida em que causa danos à economia e à credibilidade das instituições e, em
última instância ao Partido FRELIMO, ao mesmo tempo que constitui uma ameaça, a determinação de
acabar com a pobreza em Moçambique.”

Numa outra perspectiva a corrupção é servir-se de cargo público para extrair vantagens ilícitas,
como por exemplo, a exigência do suborno aos cidadãos que demandam serviços das instituições, e não
actuar ao infractor da Lei mediante o pagamento indevido.

Em suma, é corrupção toda a nossa atitude ilegal condicionada pelo pagamento indevido, sobre
proposta de quem procura os serviços da repartição pública ou sob exigência do funcionário dessa
repartição.
40

Merton apud Mazula (2005) enquadra a corrupção na teoria de desvio. Nesta teoria, ele
identifica dois tipos de desvio: comportamento do agente e o comportamento de não conformidade.
Para este autor a pessoa “divergente” conhece e aceita as normas mas tenta violá-las para atingir os seus
objectivos. Esse comportamento é irresponsável em relação à sociedade. A pessoa não interioriza as
normas da sociedade embora as conheça.

A corrupção inclui o suborno ou qualquer outro comportamento em relação às pessoas


confiadas com responsabilidade no sector público que violem as suas obrigações como funcionários
públicos, trabalhadores privados, agentes independentes ou outro relacionamento de género com o
objectivo.

No contexto de educação estas práticas têm implicações muito mais graves visto que os
agentes educacionais, referimo-nos aos professores, estes têm a responsabilidade não só de ensinar ou
transmitir estes conhecimentos éticos deontológicos mas também de os transmitir por experiências
próprias. O seu envolvimento nestas práticas destorça todo o objectivo de formação deontológica dos
estudantes que reparam os docentes como agentes de transmissão de valores éticos deontológicos.

Para Felício Zacarias apud Mazula (2005), a corrupção resulta da ganância de um


enriquecimento fácil e rápido e, da vulnerabilidade indutiva da situação de pobreza.

De entre as várias formas de corrupção importa destacar neste trabalho os subornos aos
professores, venda de notas ou provas de exames nas escolas que caracterizam um grande número de
docentes em Moçambique e a prática parece estar a cristalizar-se e a espalhar-se para outras áreas
socias. Se seguirmos a lógica do discurso do então presidente da Republica de Moçambique Samora
Machel “Fazer da Escola uma base para o povo tomar o poder” com uma escola caraterizada por altos
níveis de corrupção, não é poder que o povo vai tomando mais o poder de suborno, e o poder de
corrupção que o povo vai tomando.

A generalização e até a apropriação do fenómeno corrupção e suborno na sociedade


moçambicana torna-se cada vez mais alarmante que até atingiu níveis preocupantes.

Já nos referimos anteriormente que Moçambique é dos países com índice de corrupção mais
elevado a nível da região.

Neste trabalho também nos propomos a reflectir sobre as suas possíveis causas no contexto da
educação mais particularmente a escola uma vez que a educação e a escola são a base de sustentação
normativa de uma sociedade quer a nível formal ou informal.
41

III. ÉTICA E DEONTOLOGIA PROFISSIONAIS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

A profissão tem uma dimensão social de serviço à comunidade, tendo como finalidade o bem
comum e o interesse público, antecipando-se sempre ao benefício particular e individual que se retira
do exercício da mesma. Dai que, qualquer profissão tem uma ética implícita, dado que se relaciona
sempre com os seres humanos.

A responsabilidade da formação de quadros nos mais variados níveis de ensino, é sem dúvida
do professor. O futuro de um país depende primordialmente da quantidade e qualidade de quadros que
formar, numa estreita relação entre as necessidades do país e as do indivíduo enquanto sujeito das
transformações endógenas e exógenas. É nesta esfera que o Governo toma a dianteira na definição de
normas e metas para o seu cumprimento.

Por consequência, os objectivos do Governo de Moçambique na área da Educação estão em


consonância com os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (MDGs) e da iniciativa Educação Para
Todos (EFA) que definem que, até 2015, todas as crianças, em particular as raparigas, tenham acesso
completo à escolarização primária gratuita, obrigatória e de boa qualidade. (Mosse e Cortez, 2006:6).

Ao longo do processo de ensino-aprendizagem, os professores vão atribuindo notas à tangente


de modo a que, no final do ano, possam elevar a fasquia da renda. Quando estão perante um bom aluno,
a fasquia situa-se nos 13 valores – pois com mais 0,5 valores o aluno têm a dispensa de exame – e,
quando se trata de maus alunos, a fasquia fica nos 9 valores – pois assim, no final do ano, o professor
tem maior espaço de manobra para levá-los ao exame, no caso de se tratar de uma classe com exame. E
os alunos raramente denunciam estas práticas pois eles pensam que saiem sempre beneficiados. Por
exemplo, há casos de professores ou formadores que nas disciplinas que leccionam não permitem a
obteção de notas positivas, isto é, numa turma de cerca de 60 alunos nenhum tira positiva. Esta situação
repete-se ao ponto de o aluno até final do semestre não saber se admite, dispensa ou exclui, ficando ao
critério, muitas vezes pouco claro, do professor.

Regra geral, quem inicia o envolvimento dos alunos na malha é o professor, urdindo
várias formas de chantagem. Para além das formas já nomeadas, são também referidos casos de mau
ensino premeditado, de modo a que, no final do semestre/trimestre, os alunos se vejam na contigência
de “namorarem” os professores. Em muitos casos, quando se vêm aflitos (seja porque caíram na
chantagem do professor ou porque se sabe que não se é aplicado) os alunos abordam os professores mas
depois é o pai ou encarregado de educacão que vai ter com o docente para fechar o negócio. Estes são
aqueles casos em que o professor cobrou um valor considerado alto. (ibid, 2006:9).

3.1. Impunidade vs Cumplicidade

As práticas de corrupção na Educação em Moçambique são conhecidas há muito tempo. O


suborno e a extorsão, seja a monetária ou a sexual, estão registados. Mas como é que estamos em
termos de sanção e punição dos prevaricadores? Que desincentivos as autoridades viabilizam?

O sentimento geral que captamos é o de que a sanção e punição dos quadros envolvidos nessas
práticas não é frequente, acontecendo apenas esporadicamente e, em alguns casos sob o olhar passivo
42

do superior hierárquico. A ausência de punição podia ser explicada se não houvesse denúncias, mas não
é o que a realidade espelha.

No nosso entender, muitos destes casos de más práticas nas instituições de ensino e de
formação de professores, ganham valor e alicerces na protecção do dirigente máximo desse organismo.
Esta protecção não acontece por acaso. O que se verifica é que na instituição existe uma cumplicidade
ilícita dos dirigentes e seus subordinados imediatos “bajuladores” que são os chefes e não chefes da sua
confiança. Por exemplo, se um director de escola estiver envolvido e ou o seu cúmplice e a queixa for
deixada nessa escola, então é pouco provável que o caso tenha o seu devido prosseguimento.

A não tomada de medidas de sanção a quem venda uma nota ou cobra favores sexuais a alunas
ou qualquer outra forma de desvio da conduta não pode ser atribuída a qualquer vazio legal.

A punição pelas mais variadas transgressões pode ser viabilizada pelos números 29 e 31 do
artigo 99 do Estatuto Geral do Funcionário do Estado, do artigo 11 da Resolução 4/90 (Estatuto do
Professor), do número 10 da Resolução nº 10/97 (Normas Éticas e Deontológicas para o Funcionário
Público) e do artigo 40 do novo Regulamento do Ensino Primário. Entre as sanções previstas incluem-
se a despromoção e a expulsão dos professores que violem as normas. A Lei Anti-Corrupção (6/2004),
aprovada em Junho de 2004 ja contém uma definição penal de corrupção que possibilita o
procedimento judicial contra os envolvidos. (ibid, 2006:26).

Porém, nos dias que correm, constata-se um aumento significativo de comportamentos


contrários a ética administrativa praticados pelo servidor público, consubstanciados em práticas como a
corrupção, o nepotismo, conflitos de interesses, etc., que tendem a perpetuar-se.

Há uma ausência total de regras de conduta e boa postura moral; os profissionais não se sentem
desconfortáveis quando tomam atitudes que, em princípio, afectariam a sua credibilidade e
personalidade. Isso revela um desmoronamento ético no sector. Os curricula de formação de professores
contemplam ou não matérias relacionadas com ética e deontologia mas, durante o exercício de funções,
os princípios podem não ser aplicados pois não existe uma entidade de supervisão. E, pior ainda, a ONP
não possui nenhum código de conduta que sirva de referência aos professores.

III. CONCLUSÃO E SUGESTÕES


4.0. Conclusão

A manifestação de um comportamento desviante à conduta formal do servidor público e de


Professores nas instituições de formação é notória.

A corrupção no sector da Educação em Moçambique é marcada por várias formas e elementos.


O suborno e a extorsão sexual e monetária são formas presentes: o suborno pago pelos parentes aos
professores para a obtenção de notas e passagens em exames; o suborno pago pelos professores aos
oficiais públicos para serem preferidos nas promoções; o desvio de fundos alocados para a compra de
materiais e construção de escolas; a exploração sexual dos estudantes pelos professores, etc.
43

Em Moçambique, no contexto de ensino, esta prática é evidente em alguns professores que


acabam manchando a classe docente e criam obstáculos no processo de ensino uma vez que os
aprendentes envolvidos, quer voluntaria quer forçosamente nestas práticas perdem a confiança na
missão do professor e passam a desacreditar todo o esforço executado pelos educadores.

Se queremos construir uma instituição de formação séria, responsável e transformadora,


devemos travar um combate acérrimo às tendências de introduzir o “vírus” da corrupção, do
individualismo exacerbado, do egoísmo, do egocentrismo, da bajulação, da violação do sigilo
profissional e da simples luta pela distribuição do canudo na nossa instituição. Porque estes males
interferem na ética e deontologia profissionais de todos os servidores públicos nas nossas instituições,
particularmente na nossa UP.

4.1. Sugestões

Sendo a Universidade Pedagógica (UP) vocacionada á formação de professores para os


diversos sistemas e níveis de ensino em Moçambique é urgente concepção de uma disciplina/cadeira de
Ética e Deontologia profissionais nos cursos de graduação.

Os programas de Moral e Cívica nos Institutos de Formação de Professores englobe aspectos


de deontologia Profissional relevantes a profissão docente;

Se criem nas escolas um departamento para assuntos deontológicos;

As direcções das ZIPs, Distritais assim como provinciais elaborem programas de


acompanhamento ético e deontológico às escolas;

E preciso melhorar a qualidade da formação dos professores, contemplando nos currícula


matérias de cunho moral, ético e deontológico; Melhorar os mecanismos de recrutamento e de selecção
dos professores à entrada nos centros de formação dando atenção, sobretudo, ao elemento vocação, pois
professores com boa formação e motivados são essenciais para uma boa qualidade de educação. Com
este procedimento o homem está a cultivar-se e a cultivar novas consciências, novas mentalidades e
finalmente novos homens livres de corrupção e de comportamentos indecorosos.

Bibliografia

AFRIMAP, Moçambique, A Prestação Efectiva de Serviços no Sector da Educação,


Johanesburg:Open Society Foundations, 2012

ALMEIDA, Aires, et al. Dicionário Escolar de Filosofia, Plátano Editora, Lisboa,2009.

CEPE, Ética e Deontologia Profissional como tema transversal, 12ªed.Maputo: Boletim


Informativo, 2010.
44

DOMINGOS, João. O papel da Universidade hoje em Angola ou uma Universidade que


Angola precisa. Orações de Sapiência, ISCED-Luanda, Edições Kulonga, 2001.

MAZULA, Brazão. Ética, Educação e Criação de Riqueza: Uma Reflexão Epistemológica,


Maputo, 2ª ed., Imprensa Universitária, 2005.

MBAMBI, Carlos Maria Capita. As mutações Culturais numa Sociedade em Crise. Primeiras
Jornadas Filosóficas do Seminário Maior de Filosofia de Cabinda, Agosto, 2003.

MEC Plano Estratégico de Educação e Cultura–11 (PEEC2), Maputo: República de


Moçambique. 2006

ME, Plano Estratégico da Educação, 2012-2016, Maputo, 2012

MOSSE e CORTEZ, A Pequena Corrupção no Sector da Educação em Moçambique,


Maputo:CIP, 2006

NGOENHA, Severino, Estatuto e Axiologia Da Educação, Livraria Universitária, Maputo


2000.

SEIÇA, A. A docência como praxis ética e deontológica. Lisboa: Ministério da


Educação/DEB. 2003

SEVERINO, Joaquim António. Filosofia, 2ª Ed., Cortez Editora, S. Paulo,1992.

http://www.up.ac.mz/boletimcepe9,

[1] PEE – Plano Estratégico de Educação

IMPORTÂNCIA DA OBSERVÂNCIA DA ÉTICA E DEONTOLOGIA PROFISSIONAL


Publicado em 07 de setembro de 2020 por Mafuamau Álvaro

IMPORTÂNCIA DA OBSERVÂNCIA DA ÉTICA E DEONTOLOGIA PROFISSIONAL

IMPORTANCE OF OBSERVING PROFESSIONAL ETHICS AND DEONTOLOGY

1--Mafuamau Álvaro

2- Afonso Mavova João Dombaxé

1-- Licenciado em Ciências de Educação especificamente na área de Psicologia, Mestre


em Gestão e organização escolar; - Docente Universitário no Instituto Superior de Ciências de
Educação. (ISCED-UIGE/ ANGOLA); mafuamaualvaro@gmail.com; mafuamau@gmail.com
45

2—Licenciado em Ciências de Educação, na opção de História e pós-graduado em Sociologia


e docente Universitário.

RESUMO

Esta pesquisa está caracterizada como descritiva, baseada numa observação ou seja
investigação empírica sobre a importância da observância da Ética e Deontologia Profissional. Nisto,
constatamos que muitas instituições não valorizam esta dualidade que permite interacção e criação de
condições para troca de experiência e agudiza as relações humanas, assim como o conhecimento do
individuo. A investigação presente tem o objectivo analítico de descrever a importância que a ética e a
deontologia têm na profissionalização do individuo, com uma metodologia quali – quantitativa que dum
lado visa compreender o fenómeno e do outro recolher dados para apresentar propostas da solução do
problema, onde foram utilizado métodos de observação, pesquisa de arquivos, bibliográfico, pesquisa
de campo, questionário, indução e dedução. Na investigação presente foi necessário a recolha de alguns
dados para aceitação ou não da hipótese sobre a importância da observância da ética e deontologia
profissional, onde inquerimos 30 professores e entre eles 64,25% mostraram uma satisfação sobre o
problema e 35,75% sentiram se insatisfeito com a situação. Solicitamos também 15 sujeitos
trabalhadores administrativos sobre a situação, dos quais 65% responderam sim é importante a ética e
deontologia profissional e 35% sentiram - se insatisfeitos com a proposta apresentada para a pesquisa.
Logo, percebemos que é importante a observância de alguns elementos como a língua, a cultura, o
regime político, a cidadania e a estratificação social, assim como os (6) seis princípios que permitem a
observância de Ética e Deontologia Profissional.

Palavras-chave: observância, ética, Deontologia e Profissão.

INTRODUÇÃO
A pesquisa realizada, tem o epicentro na importância da observância da ética e deontologia
profissional, onde concebemos a situação baseando nas observações empíricas da conduta ou atitude de
alguns funcionários de uma determinada empresa (escola), que não respeitam os direitos dos outros
sem ter em conta o cumprimento dos seus deveres na instituição. A investigação está limitada a um
grupo de sujeitos entre eles professores e funcionários administrativos de uma escola primária, Uige-
Angola. Pois que, á estes está dada a responsabilidade de cooperação ou seja inter ajuda para
observância da ética e deontologia profissional facto que contribui no desenvolvimento humano. O
estudo está estruturado em seis (06) secções, depois do resumo partimos com a primeira que é a
introdução; sequencialmente a revisão da literatura, a metodologia, os resultados, as considerações
finais e a bibliografia.

«A revisão da literatura envolve quatro partes: descrição : das teorias e trabalhos empíricos
relevantes ao tema; avaliação: destas teorias e trabalhos empíricos; comparação: das teorias e trabalhos
empíricos; dedução da Hipótese a partir da avaliação e da comparação» (HILL e HILL, 2016).
46

Elaboramos na segunda secção do trabalho a revisão da literatura (importância da observância


da ética e deontologia profissional), onde consultamos alguns autores com maior experiencia na
temática. Nisto, abordamos a situação no contexto da ética e deontologia nos processos sociais e
educacionais, a ética e deontologia no desenvolvimento intelectual, alguns elementos que influenciam
neste processo, alguns princípios essenciais para ética e deontologia, o clima escolar e o impacto da
ética e deontologia na profissionalização do individuo.

Apresentamos a metodologia utilizada partindo do tipo de pesquisa descritiva, baseado no


modelo qualitativo e quantitativos. Neste caso, utilizamos alguns métodos utilizados como questionário,
bibliográfico, observação, e apresentamos algumas questões colocadas aos professores e administrativos
para recolha de dados. Nos resultados apresentamos alguns elementos essenciais e os seis princípios
indispensáveis como condições necessárias de observância da ética e deontologia da profissionalização.
Na quinta secção que são as considerações finais apresentados algumas conclusões e na ultima secção a
bibliografia que são algumas obras consultadas. Tudo isto fez perceber que é importante a observância
da ética e deontologia profissional nas empresas (escolas).

2.REVISÃO DA LITERATURA

2.1-IMPORTANCIA DA OBSERVÂNCIA DA ÉTICA E DEONTOLOGIA PROFISSIONAL

No contexto universal, os conceitos fundamentam o princípio da compreensão. Nesta base,


apresentamos os conceitos do binómio Ética e Deontologia. O termo Ética é do étimo grego, com um
significado relacional que é maneira ou forma de ser, estar de uma pessoa em relação ao ambiente que
o circunda.

«A Ética, é construída por uma sociedade com bases nos valores históricos e culturais»
(KUNDONGENDE, 2013).

A revisão da literatura reflecte, algumas ideias ou teorias apresentadas para uma análise e
comparação da ideia inicial ou da concepção do problema em estudo. Permite esclarecer a
confiabilidade dos conteúdos apresentados assim como a sua sustentabilidade.

«A Deontologia é como ramo da Ética, é uma disciplina normativa ou seja carrega princípios
da conduta humana directrizes no exercícios de uma profissão e estipula os deveres a seguir no
desempenho de uma actividade profissional. Persegue o dever, o correcto ou o exigível, esta presente
com a força da lei em grande parte de casos de todas as profissões…Ética deontológica cuja ênfase que
esta na busca, na fundamentação e instituição do que é concreto e adequado» (MONTEIRO e
FERREIRA, 2014).

2.1.1-Ética e Deontologia nos processos educacionais

A abordagem apresentada neste artigo enquadra se no contexto da educação, se observarmos as


fracas relações que tem existido nestas instituição, já que cada individuo quer apenas manifestar o seu
47

ponto forte, mas não respeita o ponto forte do outro.

«Se o professor resgatar o valor perdido e saber que ele faz parte de uma profissão onde não é
assistente em extinção mas sim de que é protagonista de uma acção educativa na qual a sua mediação é
fundamental ele(a) retorna a sua posição no estado actual da situação e possibilitará que o mesmo se
modifique» (BARBOSA, 2002).

A ética no processo educativo deve obedecer os quatro pilares do mesmo processo sendo:
Aprender a conhecer;

Aprender a fazer;

Aprender a ser;

Aprender a conviver

«aprender a ser, está ligada as competências pessoais, significa que a educação deve contribuir
para o desenvolvimento no contexto espiritual, e corporal, incluindo a inteligência a sensibilização,
sentido estético e responsabilidade social» (DELORS, 1996).

Estes processos, ajudam o sujeito a tomar consciência sobre a integração e o bem estar do
sujeito. Ter competências e habilidades, possuir conhecimento, adequar se ao comportamento de outros
e tornar se sociável, porém adequar – se aos objectivos do grupo.

A educação é um processo que tem a sua base nos grupos sociais entre eles a família, a escola,
a igreja, os grupos de pares, …Para que haja sucesso na formação desenvolvimento destes grupos, torna
essencial que se verifique ou sejam seguidos alguns princípios éticos e deontológicos que visam a
criação de relações saudáveis entre os membros pertencentes dos grupos.

2.1.2-A Ética e Deontologia nos processos sociais

O binómio ética – deontologia considera – se conjunto de normas para o funcionamento eficaz


nas relações humanas e de profissão. Este processo ocorre não só na educação,também em outros
sectores sociais como a medicina, a industria, no comércio, na defesa, etc…logo percebemos que a
ética e deontologia é sempre presente nos locais onde se proporciona a interacção entre os homens.

A referência ética e deontológica, tem a sua base na interacção dos indivíduos no meio social.
Existem várias concepções sobre a problemática, mas entre todas ideias sejam modernas como
tradicionais, as suas literaturas demonstram que a ética apresenta variações em função do lugar, da
cultura e do individuo.

«Não existe uma teoria ética sobre a qual, todas as pessoas ou filósofos estejam de acordo,
prevalecendo porém duas abordagens principais. Uma delas teleológica, (ou consequencialista) que
48

toma como base as consequências de uma acção para que as pessoas possam observar o certo ou o
errado. O utilitarismo, é uma forma de ética teleológica, estando fortemente na sociedade actual. A
outra abordagem designada deontológica (não consequencialista), defende que o dever constitui a
categoria moral básica o qual é independente das consequências» (GEORGE, apud ANTÓNIO, 2012).

A situação ligada a ética e a deontologia no bom funcionamento da profissão de cada sujeito


respeitando os limites de trabalho, não há uma ideia ou regra geral sobre a situação. Pois que, cada
grupo social tem a sua ética e sua deontologia, ou cada grupo cria as condições a seguir para aplicação
dos métodos de trabalho, então não existe uma ética e deontologia única para todas profissões. As
regras criadas no grupo devem pautar com os princípios de humanismo e de profissionalismo para o
desenvolvimento do grupo e posteriormente a evolução singular do sujeito.

2.2- A Ética e deontologia no desenvolvimento intelectual do individuo

O desenvolvimento significa mudança, progresso ou quando o sujeito recebe algum


conhecimento essencial que ainda não possuía. Isto permite perceber que o respeito pelas diferenças
também ajuda o outro a reflectir sobre o seu modo de ser, de agir e de estar.

«A deontologia constitui conjunto de regras que regem uma profissão, a deontologia remete
simultaneamente para uma ética (concepção) do trabalho. A confidencialidade, o respeito do segredo
profissional a ausência de avaliação moral…São alguns dos grandes princípios que constituem o
código deontológico dos psicólogos» (CHARRON, 2013)

A questão fundamental seria: como poderá, a ética e deontologia profissional ajudar o


desenvolvimento intelectual do sujeito? Grosso modo, podemos dizer que as respostas são várias,
partindo dos princípios de convivência, a humildade, a cooperação, a aprendizagem por imitação e
outros factores que são explicitados nesta secção do artigo.

O desenvolvimento intelectual é o aumento do nível da capacidade de interpretar e explicar os


fenómenos que os rodeiam. Ou seja é o processo evolutivo em que o sujeito adquire conhecimento
necessário para obter uma compreensão como os objectos são realizados como funcionam e como se
relacionam. Em todos processos observam – sesituações em que um sujeito deve tomar decisõesperante
um problema, isto contribui no desenvolvimento intelectual do sujeito. O desenvolvimento intelectual
está sempre ligado ao desenvolvimento humano. Quando um individuo um determinado nível
intelectual, é necessário que a sua aplicação esteja dependente a ética e deontologia profissional, diz –
se que o desenvolvimento intelectual é um processo que a sua conquista é designada conhecimento
intelectual, ou seja, faculdade cognitiva do individuo para dar resposta credível de acordo os problemas
que ele vive. Uma solução baseado no uso da lógica ou do raciocínio lógico com o funcionamento dos
fenómenos psíquicos do sujeito.
49

2.2.1- Factores que influenciam na inteligência

Na vida nada é fácil, e nada é singular que se desenvolve, na evolução do homem, existem
vários processos psíquicos, á estes completam se os fenómenos psíquicos se forem adicionados aos
estados e as propriedades psicológicas que interactuam – se para o bem estar do sujeito. A capacidade
de improvisar, lutar e vencer são traduzidos como faculdade de inteligência onde o foco principal
concebe a inteligência como a capacidade do organismo para dar respostas a uma situação
problemática do ambiente tendo em conta a sua originalidade ou a génese do mesmo.

A forma como as respostas são apresentadas aos problemas sociais, económicos, culturais,
etc… pode variar em três posições de forma concreta, de forma subjectiva, e de forma social.

Torna importante o referencial sobre o teste de Binet sobre a inteligência que tomou o nome de
quociente de inteligência segundo Stern,que vai corresponder a divisão da idade mental (I.M), pela
idade cronológica (I.C) multiplicando pela percentagem de cem (100), para obter a solução ou seja o
nível médio da inteligência do sujeito.

Existem vários elementos que influenciam ou considerados como factores essenciais na


aquisição da inteligência, sem se esquecer que a inteligência é uma faculdade mental relativo á
situação. Pois que, ela pode resolver um problema e o outros não. Para esta pesquisa nomeamos alguns
como: a ética e a deontologia (ajudam no respeito e valor humano, reconhecer a nossa posição perante a
situação, isto é, os pontos fracos e fortes ajuda nos a desenvolver ou a aprender com os outros), A idade
(pois que a curva de inteligência é uma parábola ela sobe na tenra idade e depois na velhice vai tomar
um declive descendente), o meio (a inteligência depende também dos factores do que o meio tem
disponível), a hereditariedade ( tem também a influencia dos factores genéticos, em alguns casos é
comparado ao carácter pela sua forma de ser adquirido dos progenitores aos descendentes), económico
(referimos aos materiaisque podem ser arrecadado para a formação assim como as condições de
alimentação) e a vontade (a inteligência depende também do próprio homem que quer aprender).

Entre os processos ou os factores aqui discernidos não existe aquele que supera os outros, mais
sim todos combinam para uma única causa que é a aquisição da capacidade de resolução de problemas.

2.2.2- A Ética e a atitude

A ética e a atitude são elementos ligados, em que o segundo écondicionado pelo primeiro, para
resultar uma atitude positiva ou negativa depende basicamente da ética aplicada para apresentação da
mesma atitude. Por este motivo dissemos que a afirmação vem de que são elementos recíprocos.

«A atitude dos conteúdos de juízo que um individuo faz, o propósito de um determinado


objecto. A atitude remete para aquilo que resulta quando temos de dizer o que pensamos, relativamente
50

a um objecto qualquer: sendo que este objecto pode ser ideia, uma pessoa, um acontecimento, um
aspecto na sociedade, um comportamento do outro» (HARRON, 2013).

Quanto a esta problemática ligada a atitude do sujeito perante um objecto, sempre apresenta
três dimensões: cognitiva (representa o conhecimento pela causa, partindo das raízes até as deduções
finais); Afectiva (ligado ao amor, prazer e aproximação, emoções/sentimentos); comportamental (a
forma que o individuo vai reagir: agressivo, generoso, teimoso…) estas componentes estão sempre
ligados quer isto dizer que cada sujeito age perante uma situação na interacção destas três dimensões.

«A ética profissional: actuar de forma que as atitudes e acções sejam sempre consideradas
correctas, ser avaliados com independências, pela generalidade dos colegas da profissão» (TEIXEIRA,
2013).

A atitude caracteriza a forma de manifestaçãodo comportamento do sujeito, do carácter do


individuo, por isto são elementos estreitamente ligados. A atitude é a manifestação do carácter através
de acções ou perante uma situação. A ética surge como um regulador da atitude, a sua acção é lenta
mas ela incidesobre o interior do sujeito.

2.2.3- A Ética e o carácter

O termo carácter é confundido com o comportamento, ou ainda com a atitude e talvez coma
personalidade, pois que, expressam aquilo que o sujeito é. O termo carácter vem do étimo grego
“Kaharakter”, o que significa modo de ser, forma de actuar de um sujeito. Mesmo ainda que a última
situação seja comparada com a atitude. A reacção do organismo perante uma situação específica que
caracteriza no referido instante, o carácter do sujeito.

O carácter é observado como uma personalidade, porém, a personalidade é suportada por


vários elementos que associados ao carácter, o temperamento, aptidões, e tendências assim teremos a
personalidade. O termo carácter pode ser usado para manifestar os traços morais, éticos, culturais e
sociais da personalidade em momentos diferentes.

A ética é manifestada através do carácter do individuo, então na instituição o sujeito deve


observar as normas e princípios que norteiam a actividade educativa, dai a observânciada ética e
deontologia profissional.Para que se determine o estado do carácter (bom ou mau), deve se negociar
com outro elemento da personalidade que é o temperamento (seja melancólico, fleumático, colérico e
sanguíneo) que é a manifestação ou a forma de actuação. O carácter é um elemento que se desenvolve
no meio social, pois que, ele adapta – se a realidade em que o individuo esta inserido, este elemento
não depende da genética, mas sim das condições que o individuo se encontra na sua vida sócio –
profissional.

2.2.4-A Ética e aprendizagem social


51

A aprendizagem social, foi desenvolvida pelo psicólogo Albert Bandura, que estudou nos
Estados Unidos, se interessou sobre a aprendizagem durante os processos de interacção.

«A teoria de aprendizagem social, mantem alguns dos aspectos essenciais das teorias clássicas
d aprendizagem, como por exemplo: A ideia de que os comportamentos são aprendidos e não tanto
desenvolvidos espontaneamente; a ideia de que o comportamento é adquirido, mantido e modificado
por mecanismos básicos da aprendizagem, como reforço positivo ou negativo; a decomposição dos
comportamentos complexos em unidades de análise mais simples e o interesse pelo rigor metodológico
na definição dos conceitos e planos experimentais» (BANDURA, 1977).

Para que se percebaa forma como ocorre a aprendizagem social, a priori devemos compreender
os seus termos: aprendizagem: é caracterizado como uma situação ou o momento em que as
habilidades, capacidades, inteligência ou ainda os valores éticos, morais, culturais se manifestam de
forma adicional e social:o espaço ou o meio em que vários indivíduos interactuam – seem momentos
diferentes e em constante mudanças da situação e da posição perante o objecto. Tal como a
aprendizagem é a manifestação como modificação do organismo, então a aprendizagem social ocorre
em várias esferas sociais, por isto, é comparada ou ligada a aprendizagem por imitação ou por
modelagem na qual a criança tem o adulto como uma imagem perfeita. Logo, o funcionário de base tem
o seu líder como imagem perfeita a ser seguida, por esta situação, deve ser observada a ética e
deontologia profissional para que cada individuo adquira experiencia em função da interacção com os
outros.

2.3- Alguns elementos influentes na ética e deontologia profissional

«A Deontologia (…) conjunto de regras de que uma profissão, ou uma parte dela se dote de
uma organização profissional que se torna instancia de elaboração de uma prática de vigilância e de
aplicação destas regras» (ISAAC, 1996 apud MERCIER, 2003).

A ética e deontologia profissional constitui uma faceta que tem dependência de alguns
elementos que devem ser observados para este propósito. Entre eles referenciamos: a língua, a cultura,
o regime político, a cidadania e estratificação social.

«Diferencia – se a Ética da Moral, pois que, enquanto que esta fundamenta – se na obediência,
á normas, tabus, costumes, mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebida, a ética busca
fundamentar o bom modo de viver pelo pensamento humano (…) A ética é a ciência que estuda a
conduta humana e a moral a qualidade desta conduta» (KUNDONGENDE, 2013). Em seguida
apresentamos alguns elementos essenciais que podem contribuir na observância de ética e deontologia
profissional.

2.3.1- A Língua
52

A língua designa um elemento de comunicação ou transmissão de informações de carácter


cultural, social, histórico e científico assim como tomada de conhecimento de si mesmo.

«A linguagem no uso científico, designa a capacidade de que é dotado todo ser humano,
normalmente constituído de aprender e de utilizar um ou vários sistema de signos verbais para
comunicar com os seus semelhantes e para se apresentar no mundo» (DORON e PAROT,2001).

O processo a ser utilizado para a comunicação ou para que uma situação seja percebida pelo
outro será a linguagem. Caracterizado como conjunto de signos (sinais ou códigos) organizados que são
emitidos (pelo emissor) para que sejam interpretados pelo receptor. Para que haja comunicação é
necessário que o receptor saiba interpretar ou compreender os códigos provenientes do emissor. Este
código pode ser (palavra: pela grafia ou som é verbal) e (se for sinais e outros signos diferentes da
grafia e som então ela será não verbal.) A cultura, a ética, os valores, a deontologia, as habilidades e
todos outros elementos do conhecimento humano e não só manifestam se através da linguagem.

«Qualquer comunicação constitui acima de tudo, uma influência sobre o interlocutor, esta
influência pode ser direita ou indirecta consoante o objectivo da transmissão. Tendo em conta o
comportamento e a actividade de cada individuo determina a expectativa direita de outra pessoas
podemos afirmar que a linguagem desempenha maior função que é a comunicação… a linguagem é um
sistema de signos ou sinais que se manifesta de diversas formas como: escrita e verbal; gestual e de
sons e externa e interna» (ALEXANDRE, 2000).

A linguagem pode ser de carácter endógeno como exógeno, pois que permite a manifestação
das competências sejam éticas, deontológicas e outros nas actividades e no desenvolvimento da
empresa (escola) seja ela de carácter público ou privado.

2.3.2-A cultura

«O termo cultura (colere, cultivar ou instruir, cultus, cultivo, instrução), não se restringe ao
campo da antropologia. Várias áreas do saber humano interessam se do assunto (…) muitas vezes, a
palavra cultura é empregado para indicar o desenvolvimento do individuo por meio da educação
institucional. Neste caso uma pessoa culta, seria aquele que adquiriu domínio no campo intelectual ou
artístico. Seria “inculta” a que não obteve instrução…A cultura é aquele todo complexo que inclui o
conhecimento, as crenças, as artes, a moral, a lei, os costumes e todos outros hábitos e aptidões
adquiridos pelo homem como membro da sociedade» (LAKATOS e MARCONI, 2013).

A cultura determina um pressuposto normativo de um povo, de uma religião, de um partido


político, de uma família, etc…pois que será todo complexo que inclui as crenças, arte, costumes,
moral, hábitos, aptidões adquiridos em qualquer grupo em que ajuda manter a ordem e respeito no seio
dos indivíduos, será necessário uma civilização do sujeito enquanto membro do mesmo grupo.
53

Os valores culturais, variam de geração á outra, se partirmos da concepção de que a cultura é


identificada por meio de línguas, valores, artes, mitologia, vestuário, alimentação, etc…

«A cultura é o conjunto de condutas, crenças, costumes, conhecimentos, hábitos, práticas, leis,


símbolos e tradições que organizam e dão sentido a significação, as formas de pensar, agir e sentir de
certos grupos sociais» (PALMA, 2011).

Compreende se que no local do serviço ou na empresa (escola), admite – se a sociabilidade de


vários indivíduos com símbolos culturais diferentes, mais que estes devem cumprir com a cultura da
escola, (regulamento ou direitos e deveres), esta mantem a unificação de todos intervenientes da
educação. Neste documento estão plasmadas as regras, normas e princípios que norteiam a actividade
lucrativa da empresa (escola).

«A cultura organizacional se constitui num grupo ou conjunto de normas informais, não


escritas, mas que orientam o comportamento dos membros de uma determinada organização no
desempenho de suas actividades quotidianas » (IBDEM).

Partindo desta opinião vê – se que, cada grupo tem a sua cultura ou a chamada cultura
organizacional, o conjunto de pressupostos que servirão como documento ou condição necessário para
manter um clima cultural e funcional saudável.

2.3.3- Regime político

«A política é praticamente o conceito tomado como actividade mais preferida, pela maioria
das pessoas nos países onde o jogo rotativo do poder, não permite ainda a união dos espíritos e o
funcionamento satisfatório de grande maioria dos cidadãos nas sociedades onde os sentimentos de
relegação dos que não são “nossos” imperam com intensidade notável» (ALEXANDRE, 2000).

A política constitui o conjunto de padrões que um grupo (partido), adopta para o


funcionamento da sua estrutura e para determinar as actividades a serem realizadas pelos seus liderados.
Existe a política do partido da esquerda e a política do partido da direita. Em que este último, nos países
com o modelo presidencialista o governo com uma maioria absoluta logo a sua democracia ´e
considerada média. Estamos cientes de que, não existe um modelo únicoe perfeito da democracia, o
partido político da esquerda tem sido aquele que refuta as decisões e apresentam uma proposta
democrática aparentemente perfeita.

Para a observação dos pressupostos teóricos ou seja éticos e deontológicos na


profissionalização, deve se optar pelas ideias politicas que visam o interesse da maioria. Implica com
isto dizer que, não se deve criar grupos antológicos na instituição pela filhação partidária, mas sim
cumprir com as politicas educativas dependentes do sistema político, com o principio humanista para o
bem estar da sociedade em que a empresa está associada.
54

2.3.4- A cidadania.

A palavra cidadania, caracteriza o individuo no gozo dos seus direitos e deveres civics. O
cidadão é aquele que tem o dever de respeitar os símbolos nacionais. Então para que a escola se
desenvolve é necessário que seja aplicada a força pelo cidadão no respeito aos valores éticos e
pressupostos científico – social da empresa. Este sujeito deve contribuir para o bem estar maioria e
consequentemente o seu bem estar pessoal.

Cidadão vem de cidade ou seja um individuo pertencente e responsável nos direitos e deveres
que visam o desenvolvimento de um determinado povo em que eles esta inserido.Existem alguns
princípios, algumas imagens e alguns símbolos que identificam um povo assim como: a bandeira, a
insígnia da república, o hino nacional… deve haver alguma ética e deontologia de tudo que são valores,
morais, culturais, sociais, intelectuais… para o bem estar de si próprio e da cidade sendo ele (cidadão)
sendo ele a representação da maioria.

2.3.5- A estratificação social

A estratificação social refere – se ao nível social que cada individuo ostenta os estratos tem
haver com as funções que o sujeito possui na empresa, que devem ser colocados limites na execução
das tarefas para que, alguns sujeitos não se sintam desocupados, para que isto ocorra deve se observar
os princípios éticos e deontológicos do trabalho ou do profissionalismo.

«O postulado de base da teoria sobre a comparação social de Ferstinger funda se na hipótese de


qualquer um é levado a verificar se as suas opiniões são correctas, testadas, da mesma maneira obter
uma avaliação real e exaustiva das suas capacidades» (OCCHINI e GOCCI, 1995).

No contexto do desenvolvimento funcional das actividades a realizar, exige sempre um líder


com acções orientadores, aquele individuo que orienta , dirigem, e sugere os modos gerais beneficiados
pela maioria dos membros do grupo. Na visão da Psicologia da interacções, quer dizer social, os
indivíduos que ocupam cargos são os líderes, mais pode se registar o caso de que ocupem duas funções
no mesmo grupo e que estas funções não sejam compatível, logo esta situação é caracterizada como
conflito de papéis (o individuo tem algum cargo de património da empresa, mas realiza em grande
escala actividades financeiras/contabilísticos).

«Os enfoque de status e papel diferem – se, o primeiro tende para análise da estrutura em
elevado nível de abstracção e o segundo para o comportamento do individuo, analisando situações
concretas. O status salienta a posição da pessoas no grupo (…) se o status salienta o facto de que nos
grupos sociais relevantes existem espectativas do tipo normativo o papel enfatiza o elemento que
compõe o comportamento esperado» (LAKATOS e MARCONI, 2013).
55

2.4- Os seis (06) princípios que orientam a observância da ética e deontologia profissional

Os princípios são normas ou regras necessárias para a realização de algumas actividades sejam
de carácter pessoal como colectivo. Um principio é obtido como uma condição indispensável para
realizar uma actividade com perfeição em relação ao grupo em que o sujeito está inserido. Neste artigo
apresentou – se os seis princípios como regras indispensáveis na observância de ética e deontologia
profissional.

2.4.1- Princípio normativo

Norma são regras, princípios, condições indispensáveis para cumprimento de uma actividade.
Cada grupo deve estabelecer regras, normas de convivência. Este principio chama atenção sobre o
documento metódico e orientador, estratégico (estatuto ou regulamento), que a empresa deve apresentar
a todos funcionários (colaboradores), para que estes cumpram e proporcione boa colaboração na
produtividade ou rendimento sócio histórico, educativo e científico – tecnológico da comunidade. Por
esta e outras razões deve se cumprir com a ética e deontologia profissional baseando se neste principio.

2.4.2- Princípio de socialização

«A socialização designa o conjunto dos processos de aquisição pelos indivíduos, das normas,
valores e regras da vida em sociedade. A socialização é influenciada da forma diferente pelas
características macroculturais (normas societais), microculturais (cultura familiar). A socialização
permite a adaptação do individuo a vida em sociedade e levá - lo a ter um determinado papel nesta
sociedade» (CHARRON, 2013).

A abordagem sobre a socialização, leva o sujeito a remeter – se a ideia da comparação social,


onde as ideias de cada sujeito são comparados em relação ao nível social em que ele esta inserido,
adquire experiências em função da troca de conhecimentos que este realiza durante a cooperação com
outros membros do grupo.

«A socialização pode corresponder a um processo manifesto ao mesmo tempo voluntário e


sistemático de modelar a personalidade dos outros. Ela pode também derivar de processos mais
informais: falar – se – á ou então da socialização latente. A socialização manifesta se da criança
consiste na aprendizagem organizada e metódica de um certo número de atitude e comportamentos
desejados pela comunidade de adultos; aprendizagem de asseio, das regras de delicadeza, de boas
maneiras, de regularidade, etc…» (ÉTIENNE, 2004).

Sabendo que a socialização pode ser observado num carácter primário e secundário. Sabendo
que dum lado proporciona se a educação de valores, regras adquiridas na família como o núcleo
primário da formação educativa do individuo. E na escola ou na empresa (local da profissionalização),
segundo campo que proporciona uma educação secundaria do carácter científico e da aprendizagem
culturais.

2.4.3- Princípio educativo


56

O termo educação vem do étimo latino “educar” com um significado especifico que é incutir
valores ao sujeito… a educação é o processo na qual o individuo adquire conhecimento ou seja uma
formação multifacético. Pois que, adquire conhecimento em vários níveis como ético, moral,
deontológico, cultural, intelectual, social, etc…que ajudam no desenvolvimento humano.

O individuo deve apresentar uma educação de base, aquela adquirida na família, dito de outro
modo é responsabilidade dos pais passar informações de convivência aos filhos por isto os valores
educativos vão ser transmitidos de uma geração a outra. Então baseando nisto percebe se que os líderes
devem estabelecer regras que sirvam como educação para o funcionamento da empresa.

«A educação como conjunto de acções, processos, influências e estruturas que interferem no


desenvolvimento humano, no meio natural e social, nas relações entre grupos e nas relações entre
classes sociais» (PALMA, 2011).

Para uma educação completa baseada na responsabilidade, na cidadania, na moral, no respeito,


no comprometimento de todos membros da comunidade escolar com a eficácia na actividade da
empresa (actividade educativa). Para um desenvolvimento sócio histórico, e moral ou seja da ética e
deontologia profissional e boa comunicação no trabalho a realizar baseando – se nos aspectos
humanistas, cognitivistas e estudantis.

A educação é um termo que significa possibilitar com que os valores e conhecimentos sociais e
científicos de uma geração a outra, para que isto ocorra é necessário que haja abertura sobre o que é
positivo e o negativo para que o sujeito faça aos outros constatar o maior valor que ele possui e a
empresa tornar se uma instituição de sucesso no contexto cívico.

2.4.4- Princípio de respeito

«O Respeito: as crianças são educadas no respeito em todas ocasiões…incutir se as crianças o


respeitam pelos adultos e idosos (…) Quem não obedece, corre o risco de tropeçar, de actuar em
direcção perigosa para si e para os seus» (KUNDONGENDE, 2013).

Quanto a este princípio, orienta toda e qualquer acção. Quer isto explicar que o sucesso de um
individuo depende também do respeito pelos outros. A educação parte na família que é o meio de
socialização restrita e alarga se para outros grupos sociais, como por exemplo na profissão é necessário
cumprir com o regulamento que é o instrumento que direcciona a nossa acção ou a cultura profissional.
O respeito aos outros é fundamental para que tenhamos a mesma retribuição.

«A humiliação social e sofrimento, ético – político, são dois conceitos analítico da situação
social de exclusão e de desigualdade e refere – se a dimensão subjectiva que acompanha as vivências
em nossa sociedade desigual» (BOCK, 2009).
57

Este princípio está ligado aos limites que devem ser observado na aplicação de princípios
éticos e deontológico da função do sujeito, para que a nossa apresentação nos seja retribuído com a
mesma escala. “se respeitar será respeitado.”

2.4.5- Princípio do terceiro excluído

Este princípio resulta da Filosofia, com a finalidade, de promover e determinar uma lógica no
pensamento individuo. Parte do pressuposto de que não deve haver uma terceira possibilidade ou
hipótese, pois que, toda preposição é verdadeira ou falsa e nunca um terceiro caso; neste principio, uma
teoria, uma ideia é ou não é mas não pode ter as duas possibilidades simultaneamente. Está
intimamente ligada com a coerência do assunto isto é elimina a contradição na lógica do pensamento,
permite o raciocínio tomar decisão certa, através das operações do pensamento: análise, síntese,
comparação, abstracção e generalização, para o cumprimento das normas de observância da ética e
deontologia profissional.

2.4.6- Princípio de profissionalização.

Uma profissão constitui a ocupação de um individuo sobre uma actividade em que este está
especializado para construção da resposta. Uma ocupação em que o sujeito tem vontade, habilidades,
imaginação e realismo.

A profissão é um sistema de conhecimentos específicos e gerais de uma determinada área de


trabalho, logo é necessário que em cada profissão seja transmitido os valores éticos e deontológicos que
o sujeito deve cumprir para aumento do nível de relacionamento e produtividade do sujeito. Uma
formação especifica continuada, marca o respeito pela diferença de conhecimentos ou seja a
construçãode cultura profissional que sirva como identidade do individuo no trabalho ou seja um
código de trabalho. A profissão manifesta muita complexidade, no modo que requer uma identidade de
resolução de problema deve haver sigilo na abordagem e descoberta do ponto fraco do colega e na
ajuda para superação do mesmo. Isto incide na observância de valores éticos e deontológicos do
profissional.

2.5-A Ética e deontologia profissional no clima escolar

«O ambiente é provavelmente a área da responsabilidade social cuja visibilidade e discussão


pública mas tem aumentando nos últimos tempos. A consciencialização colectiva da necessidade de
preservar a Natureza associada a nítida tendência para o crescimento das actividades com elas
relacionadas ao bem estar de todos» (TEIXEIRA, 2013).
58

Para fazer uma abordagem sobre o clima escolar, há que respeitar o conhecimento dos
intervenientes do processo de ensino e aprendizagem, pois que, a estes depende em grande parte dos
resultados da aprendizagem. Logo é necessário que haja grande cooperação sobre as relações humanas
e profissionais entre os colaboradores baseados nos princípios éticos e deontológicos.

«O clima constitui se como catalisador do comportamento e de atitudes, pois que, contribui


para maior ou menor qualidade relacional no seio da organização, proporciona ou dificulta a integração
e o bem estar dos diferentes actores educativos» (REVEZ, 2004).

Com base a ideia de que a organização escolar é um conjunto de esforços dos agentes de
interacção educativa. Para uma funcionalidade que gere resultados positivos para o grupo é necessário
que antes haja esforços individuais que passam pela via de observância de ética e deontologia
profissional de forma a respeitar as opiniões individuais e proporcionar uma cooperação saudável. Na
organização de um grupo, é fundamental observar a dualidade entre administração( velo pelo interesse
da política educativa) e liderança. (que se responsabiliza no bem estar de todos intervenientes sociais
do grupo). Existem várias tipologias de clima organizacional, mas porem, o conjunto de normas de
respeito a opinião de outrem remeta nos ao clima funcional em que cada individuo tem confiança em
sugerir num clima aberto com líder que recolhe as informações e que permita a integração de todos
membros do grupo para tomada de decisão. Logo o clima nestas condições deve ser: aberto, de respeito
e integrativo. O conjunto de valores cívicos, morais constituem algumas características desta liderança
e permite o desenvolvimento humano e da empresa (escola), em que a liberdade de expressão permite o
surgimento de novos projectos.

«Os directores que exercem uma liderança transformacional que se baseia na representação de
sentimentos e necessidades dos professores exercem uma influencia positiva no ambiente do trabalho
dos seus docentes e convertem – se em chaves fundamentais para melhoria da qualidade do clima
organizacional» (PACHECO e SANCHES, 1993).

No contexto organizacional a ética é fundamental, pois que ela abre o caminho para novas e
boas relações com os outros o espírito de inter ajuda, então para que o clima escolar seja saudável é
necessário que o aluno e o professor saibam dos seus direitos e deveres para que cada um saiba das suas
responsabilidade para o bem da escola e da sociedade no ponto de vista desenvolvimentista.

2.6- O Impacto da ética e deontologia na profissionalização

A ética e deontologia profissional é o conjunto de normas morais e funcionais que orientam o


comportamento do individuo no exercício das suas funções na empresa (escola). Pois que, a ajuda nas
orientações que o sujeito deve seguir para o enquadramento na sua vida profissional.

A ética sendo um sistema de valores, atitude e carácter do sujeito seja positivo como negativo
é de extrema importância na profissionalização, pois que, permite o sujeito determinar o tipo de relação
de trabalho entre os funcionários. O exercício da sua profissão exige grande responsabilidade seja no
contexto social como individual com envolvimento dos beneficiários.
59

Sendo a ética a secção dos valores morais éticos e deontológicos, este último sendo a área dos
deveres, tem grande importância na profissionalização, logo este será um colaborador assíduo e pontual
sobre tudo dinâmico de acordo as regras da empresa onde cada um apresenta as funções distintas para o
desenvolvimento do grupo. Esta área da educação, deve ser estudado em função das situações
concretas, tendo em conta osprincípios universais de respeito pelo ser humano e pela sua liberdade.
Então a ética e a deontologia tem impacto no sucesso de uma profissão. (uma profissão é uma ocupação
de um individuo, partindo da sua preparação geral para particular, ou trabalho realizado por um sujeito
com base as competências ou habilidades adquiridas durante a aprendizagem para dar resposta de um
determinado problema).

É necessário que, um colaborador saiba as limitações que são imposta no exercício da sua
função, saber que, diante de um dilema qualquer que seja a solução constituirá situação problemático.
Estamos a nos referir da ética e a inteligência que para o sucesso do individuo é necessário que a sua
capacidade seja acompanhada pela ética e deontologia profissional.

De acordo as constatações funcionais, percebe – se que o impacto da ética e


deontologia profissional requer alguns elementos essenciais. Para que haja boa cooperação na
profissionalização é necessário responsabilidades no contexto da ética, que consiste no comportamento
ou carácter ético sobre o dever de fazer o que é aceitável com justiçae originalidade onde o nosso
beneficio não prejudique ninguém. Para isto, deve se perceber de que existe o ambiente geral e o
especifico no campo da ética de acordo a sua tarefa.

3- METODOLOGIA

A metodologia é o conjunto de elementos analíticos ou um sistema que serve como via para
chegar a um fim preconizado. Por isto, nesta pesquiza fizemos analise sobre a importância de
observância da ética e deontologia profissional, na qual foram aplicados métodos do nível qualitativo e
quantitativo que permitiram tirar algumas ilações sobre o estudo. Esta investigação baseou – se nas
constatações feitas que constituem a nossa observação empírica do problema. A metodologia constitui o
universo de métodos que se aplicam como procedimento ou caminho que permite alcançar os
resultados.

«Uma investigação empírica, é uma investigação em que se faz observações para compreender
melhor o fenómeno a estudar…As observações deste tipo de uma investigação podem ser utilizadas
para construir explicações ou teorias mais adequadas» (HILL e HILL, 2016).

Para a confirmação e sustentabilidade das teorias e as possíveis criticas, utilizamos alguns


critérios validos da ciência como a pesquisa de arquivos, com método bibliográfico, questionário,
observação, indução e dedução, assim como a pesquisa de campo este ultimo baseou – se na observação
inicial de factos reais, na qual seleccionamos um grupo de 30 professores e 15 funcionários
administrativos de ambos sexos. Na metodologia apresentada para recolha de dados utilizamos um
questionário com as respostas fechadas de sim e nãotal como abaixo estão apresentados:

Será importante, a observância da ética e deontologia profissional nos processos sociais e


educacionais?
60

Qual é a sua posição, a ética e deontologia profissional ajuda no desenvolvimento e intelectual


do individuo?
A Língua, a cultura, o regime político e o extracto social influenciam na ética e deontologia
profissional?
Acha que, existe alguns princípios que contribuam na observância da ética e deontologia
profissional?
Elaborou – se esta pesquisa para uma descrição da importância que tem a observância da ética
e deontologia profissional, na qual os sujeitos seleccionados foram submetidos a quatro questões de
investigação para garantir o nível da aceitação da preposição temática que é apresentada como situação
problemática a ser estudado como indicador que dificulta as relações humanas e a produtividade da
empresa (escola). Onde a metodologia aplicada visa recolher, analisar e apresentar os dados ou seja os
resultados para garantir a credibilidade a situação problemática explicativa que foi encontrada no
terreno, que nos permitiu elaborar os resultados e algumas considerações finais.

RESULTADOS
No mundo contemporâneo, realizar um estudo no sector da profissionalização, seja no campo
da educação como outros sectores sociais, podemos sempre observar uma incongruência na aceitação
das habilidades pessoais de outros na produtividade, se em muitos casos nos não as possuímos, devido
ao facto de osindivíduos estarem preocupados com o seu própriobem estar e não da maioria. A
preocupação desta pesquisa enquadra se nas fracas relações humanas que se observam no local da
aplicação da profissionalização, assim como o não cumprimento dos direitos e deveres nisto
asseguramos conhecimentos sobre a importância da observância da ética e deontologia profissional.

Os estudos no campo da educação demonstram que a grande preocupação no contexto das


relações humanas, ligados ao respeito, pontualidade e assiduidade, moralidade e cultura serão possíveis
com a aplicação da normas da ética e deontologia profissional, por isto, recolhemos dados em que os
resultados foram apresentados nos quadros abaixo:

Quadro nº 01- Dados qualitativos e quantitativos recolhidos aos professores da escola do Iº


ciclo do Banza Pólo.

Questão nº01

Questão nº 2

Questão nº3

Questão nº4
61

Sim

Não

Sim

Não

Sim

Não

Sim

Não

17

13

18

12

26

04

16

14

57%

43%

60%

40%

87%

13%

53%
62

47%

Foi aplicado um instrumento de recolha de dados a 30 professores de ambos sexos, no mesmo


constatamos que 64,25% dos inqueridos responderam satisfatoriamente ao inquérito. No contexto da
negatividade, 35, 75% responderam de forma insatisfatória, então a problemática em estudo tem a sua
razão de ser investigado.

Quadro nº02-Dados qualitativos e quantitativos recolhidos aos funcionários administrativos.

Questão nº01

Questão nº 2

Questão nº3

Questão nº4

Sim

Não

Sim

Não

Sim

Não

Sim

Não

10

05

12
63

03

09

06

08

07

67%

33%

80%

20%

60%

40%

53%

47%

Dos 15 trabalhadores administrativos de ambos sexos inqueridos, vimos que em geral 65%,
responderam com opiniões plausíveis e 35% contestaram a com a existência do problema. Então
constituiu uma preocupação inerente a importância que tem a ética e deontologia profissional.

Os resultados encontrados demostram que existem elementos essenciais a serem observados


para o cumprimento do mesmo como a língua, a cultura, o regime político, a cidadania e estratificação
social. Apresentamos também os seis princípios necessários para observância da ética e deontologia
profissional tais como: o principio normativo, de socialização, de respeito, educativo, do terceiro
excluído e de profissionalização. É necessário que os valores éticos, morais e culturais sejam
manifestados para determinar o bom carácter do colaborador baseado na ética e deontologia
profissional.

5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
64

Nesta secção do artigo refere-se as conclusões chegadas através do método dedutivo, partindo
com uma situação problemática de forma explicativa. Onde constatamos a fraca observância dos
valores éticos e deontológicos para uma profissionalização.

Esta investigação tem como finalidade analítica de descrever a importância de observância da


ética e deontologia profissional. Os resultados encontrados indicam que, é importante a observância da
ética e deontologia profissional nos processos sociais e educacionais, pois que, garante a boa
convivência, o respeito e a dignidade profissional. Nesta linha de pensamento percebemos que este
processo ajuda também no desenvolvimento intelectual, na medida em que os sujeitos terão as suas
limitações, então o respeito vai permitir a troca de experiencia e cooperação de competências entre os
colaboradores , existem vários elementos que devem ser observado para o cumprimento do mesmo
como a língua, a cultura, a cidadania, o regime político e estratificação social que influenciam
positivamente na observância do carácter do sujeito na profissionalização. Existem também alguns
princípios que servem como uma condição essencial neste processo. Todas situações foram deduzidas
na base dos resultados recolhidos durante um inquérito aplicado ao grupo alvo. Pois que a fraca
observância da ética e deontologia provocara um desfasamento funcional dos colaboradores, por isto, é
importante o respeito pelo outro e pela profissão.

“os agentes da educação deviam desenvolver planos da Natureza do relacionamento das


pessoas e não destruir os planos existentes.”

«A imaginação é mais importante que o conhecimento» (EINSTEIN).

6-REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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