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24/03/2022 06:43 Educação Física no Brasil: apontamentos sobre as tendências constituídas até a década de 80

pensamento e a construir ações que se identificam predominantemente com as idéias produzidas pela classe
burguesa, fazendo com que os trabalhadores assumissem uma subjetividade inautêntica (ANTUNES, 2004).

As tendências e perspectivas ligadas à Educação Física (EF) expressaram as necessidades relacionadas ao corpo em
alguns momentos históricos. Essas tendências partiram da elaboração de um específico modelo corporal e de uma
formação ideológica que correspondessem às expectativas da sociedade capitalista. Uma tendência é também uma
pedagogia, que é a teoria e o método que constrói os discursos e as explicações sobre a prática social e sobre a ação
dos homens na sociedade. Quando uma tendência não corresponde aos interesses das diferentes classes ou ela
mesma já não funciona como deveria, ela acaba por dar espaço para o surgimento de uma nova tendência.

Buscamos então, contextualizar a função das tendências ideológicas na história da Educação Física, no período que
compreende a ascensão do capitalismo no Brasil até a década de 80. Escolhemos abordar este período, porque este
foi um momento de construção da base dessa prática pedagógica, embasada no viés positivista que direcionou a EF
por uma visão acrítica.

A metodologia utilizada para a construção deste trabalho é de uma pesquisa do tipo bibliográfica segundo Minayo
(2003), tendo como matriz teórica o materialismo histórico de Karl Marx e Friedrich Engels. Para mapear o caminho
percorrido pela Educação Física consideramos o desenvolvimento da Educação Física brasileira nos baseando em
Castelhani Filho (1988); Ghiraldelli Junior (1994) e Soares (2001) e classificamos as tendências em quatro: higienista,
militarista, pegagogicista e competitivista.

a. Higienista

Perto do fim do séc. XVIII e início do séc. XIX dá-se inicio a construção e consolidação de uma nova
sociedade, a capitalista. Imediatamente com o surgimento da nova sociedade se viu necessária a
construção de um novo homem, que fosse apto a esta sociedade, homem este que deveria ser mais
ágil, mais forte, mais empreendedor.

Com isto, para construir este estereótipo de homem é que se consolidou a gênese1 da Educação

Física em nosso país,2 ligada às instituições médicas e militares. Essas instituições contribuíram para a
consolidação e reconhecimento da Educação Física, inicialmente entendida como Ginástica, que em um
primeiro momento, segundo Vitor Marinho (2004) foi evidente a identificação com a medicina que deu
status a educação física. Dessa maneira, a prática pedagógica foi pensada e posta em ação, uma vez
que correspondia aos interesses da classe social hegemônica daquele período histórico.

A partir de conhecimentos e teorias gestadas no mundo europeu, os médicos


desenharam um outro modelo para a sociedade brasileira e contribuíram para a construção
de uma nova ordem econômica,política e social. Nesta nova ordem, na qual os médicos
higienistas iram ocupar lugar destacado, também colocava-se a necessidade de construir,
para o Brasil, um novo homem, sem o qual a nova sociedade idealizada não se tornaria
realidade [...] a medicina social, em sua vertente higienista, vai influenciar e direcionar de
modo decisivo a educação física, a educação escolar em geral e toda a sociedade brasileira
(SOARES, 2001, p.70-71).

Tendo suas origens marcadas pela influência das instituições militares, condicionadas pelos princípios
positivistas, a educação física no Brasil, foi entendida como uma atividade de extrema importância para
forjar o individuo forte e saudável, que era necessário para a implementação do processo de
desenvolvimento do país (CASTELHANI FILHO, 1988; CHAUÍ, 1982).

O médico se torna o grande personagem desta história, tendo em seu papel o dever de corrigir e
melhorar o corpo social e mantê-lo em constante estado de saúde, respondendo a sua função higienista
e impondo sobre as famílias uma mudança direcionada os hábitos saudáveis, dando um fim nos velhos
hábitos coloniais. Deste modo, para dar conta de suas atribuições, os higienistas passaram para a
educação física um papel de moldar o corpo saudável, robusto e harmonioso em oposição ao corpo
flácido e doentio do individuo colonial (SOARES, 2001).

Com o desenvolver da sociedade, a riqueza produzida pertencia à minoria e a miséria, pelo contrário,
pertencia a muitos, pois os que produziam a riqueza eram aqueles que exauriam as forças de seu
próprio corpo, energia humana e intelectual (força de trabalho), que era vendida como mercadoria por

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ser a única coisa que o trabalhador tinha a oferecer (SOARES, 2001). Devemos considerar que muitas
doenças estavam surgindo, o que ameaçava o crescimento da sociedade devido às péssimas condições
de trabalho, as excessivas jornadas, a falta de estrutura nas cidades e muitos outros fatores. Assim,
Mello (2009) evidencia que para livrar a burguesia das graves condições trazidas pelos péssimos hábitos
morais e higiênicos era necessário educar a classe trabalhadora.

Desse modo, temos então uma tendência tida como “higienista”, a qual foi um movimento baseado
principalmente no conhecimento científico e biológico, que buscava melhorar as condições de vida da
população por meio do controle do comportamento com vistas à saúde pública.

A primeira educação corporal, então, deveria ser realizada no lar para reforçar de modo intelectual,
moral e sexual as atitudes consideradas masculinas e femininas. O conhecimento e a utilização do corpo,
para meninos e meninas, deveria ser diferente cada qual obedecendo ao seu lugar na sociedade
(GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

Ainda no séc. XVIII iniciou a preocupação com a inclusão dos exercícios físicos nos currículos
escolares. Surgem aí, necessidades de elaborar adaptações e até novas propostas. Logo são criadas as
primeiras sistematizações sobre os exercícios físicos, denominados Métodos Ginásticos que em âmbito
escolar surgem (na forma cultural de jogos, ginástica, dança, equitação, etc.) na Europa, em um
momento que se instaurava os sistemas nacionais de ensino da sociedade burguesa (SOARES, et al,
2009). O professor de educação física na escola assumiu o papel de educador do físico. O profissional
deste período ficou marcado por hábitos militares, passando a ser responsável pelo treinamento de
ordem unida para desfiles e comemorações, tornando-se um disciplinador (GHIRALDELLI JUNIOR,
1994).

Assim a educação física, enquanto ginástica, passou a ser vista na escola como importante
instrumento de aprimoramento físico dos indivíduos, que fortalecidos pelo exercício físico estariam mais
aptos para contribuir com a grandeza da sociedade crescente e com o exército, se tornando “a própria
expressão física da sociedade do capital” (SOARES, 2001, p.6). Com isto, a Educação Física, partiu de
uma visão positivista, que forneceu conceitos para se manter a burguesia no poder, a partir de uma
veiculação da visão de mundo desta classe, fornecendo então, justificativas para o seu modo de viver.

Desenvolver e fortalecer física e moralmente os indivíduos era uma das funções a serem

desempenhadas pela educação física no desenvolvimento do conteúdo escolar,3 em um momento em


que a educação ganhou patamar de ser meio mais eficaz de promover a adequação e a homogeneização
das mentes e dos corpos, possibilitando a transmissão de certos valores sobre a população (SOARES,
2001).

A escola, e em especial a Educação Física passaram a contribuir para que essa sociedade se
consolidasse em dois sentidos: para a composição da força de trabalho e para os cuidados
higienistas e sanitaristas, devido aos grandes problemas relacionados a saúde pública que
estavam surgindo.

O higienismo, como é direcionado quase que exclusivamente a disciplinar por meio do corpo instalou-
se fundamentalmente na Educação Física, por meio de uma intervenção sobre os alunos e seus
comportamentos. A disciplina responsável pelo corpo na escola era a Educação Física. Deste modo,
passou a desenvolver as práticas higienistas através da ginástica, dos jogos, dos esportes, da recreação,
etc., sempre fiscalizada e, muitas vezes, ministrada pelos próprios médicos (GHIRALDELLI JUNIOR,
1994).

Um aspecto importante é que as turmas eram divididas por sexo e faixa etária. Para os meninos os
exercícios deveriam motivar e desenvolver atitudes de liderança, coragem, força, competitividade. Para
isto, na Educação Física os meninos praticavam corridas, esgrima e modalidades esportivas que estavam
nascendo, como futebol, basquete e vôlei. Para as meninas, as práticas eram voltadas para a dança, a
expressão corporal, o teatro e a poesia., visando desenvolver a docilidade, sensibilidade e a flexibilidade
(GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

Tal processo favoreceu muito e reforçou decisivamente a ideia de superioridade masculina e


submissão feminina. Estas ações correspondem ao que, segundo Chauí (1982), se baseava (e se baseia)

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na divisão social do trabalho, que começa no trabalho sexual de procriação e prossegue na divisão das
tarefas no interior da família.

A Educação Física gerou a base da visão de corpo do ser humano no começo do séc. XX,
conquistando assim seu reconhecimento social enquanto disciplina. No entanto, gerou também uma
visão mecânica e fragmentada desse mesmo corpo por causa da influência positivista, o que deixou as
pessoas estranhas em relação a sua própria concepção corporal.

B. Militarista

Até os anos 30, tínhamos uma Educação Física pautada no higienismo, preocupada com o
saneamento público, a prevenção de doenças e uma sociedade livre de vícios. Após isto, vemos durante
o Governo Vargas uma Educação Física de concepção Militarista, com o intuito de formar uma juventude
pronta para defender a Pátria.

Sobre o contexto histórico, lembremos que a década de trinta começou com o Brasil buscando sua
identidade cultural e econômica. Por identidade cultural devemos entender a revalorização de aspectos
nacionais. Esses aspectos diziam respeito aos hábitos, aos valores, à moral e à ética do povo brasileiro.
Por outro lado, houve a necessidade da reformulação do modelo econômico brasileiro, que até então
estava baseado, quase que exclusivamente, no modelo agrícola (república do café com leite). Tal
mudança é ocasionada pela grande crise de 1929, que derrubou as bolsas ao redor do mundo e obrigou
o Brasil a diversificar sua economia. De país produtor de matéria prima (agrícola e mineral), o Brasil se
obrigou a se industrializar, trazendo multinacionais como a Coca-Cola (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

Ghiraldelli Jr. caracterizou este período da Educação física brasileira de “militarista”, pois a EF era
utilizada em um projeto de eugenia e de preparação para a defesa da pátria. A educação física passou a
ter uma identidade relacionada a ordem moral e cívica, juntamente com os princípios de segurança
nacional que se relacionava a eugenia da raça e ao adestramento físico referente a defesa sobre os

perigos internos,4 e se configuraram no sentido de desestruturação da ordem política, econômica e


social daquele momento que visava assegurar o processo de industrialização em nosso país, tendo em
busca a mão de obra fisicamente adestrada e capacitada, que para isto colocava sobre a educação física
o papel de recuperação e manutenção da força de trabalho (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

A escola5, sendo um aparelho ideológico do estado, passou a sofrer os ajustes necessários para
veiculação da ideologia dominante. Os primeiros índices deste ajuste foram a ênfase sobre o ensino

cívico6 e a Educação Física, a qual passou a ter o Método Francês de ginástica como oficial para a
Educação Física brasileira (CASTELHANI FILHO, 1988). O método francês, por suas bases altamente
científicas e fisiológicas, procurava desenvolver as atividades corporais com objetivo de fortalecer o
corpo e o espírito dos militares que tinham como dever dar a vida pela pátria.

Com a lógica militar e positivista influenciando decisivamente o método francês, sua prática se

disseminou pelos colégios7, levando à população civil a aceitação de uma disciplina, valores, atitudes e
ideias típicas dos quartéis. Os mais aptos fisicamente eram dirigidos ao esporte, os menos aptos à
Educação Física secundária e as meninas à Educação Física feminina (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994). Pelo
método francês, nos primeiros ciclos ao invés de se trabalhar com jogos e atividades lúdicas, o enfoque
se dava em preparar o corpo e o pensamento das crianças para as fases seguintes. Desse modo, o
respeito às regras sociais e morais eram desenvolvidos a partir da Educação Física secundária, que
juntamente a Educação Cívica e Moral passou a ser obrigatórias para todos os estudantes com até 21
anos de idade de todo o país a partir de 08 de março de 1940 (CASTELHANI FILHO, 1988).

Durante o Estado Novo, os desportos coletivos que faziam parte da proposta do Método Francês
ganharam papel de destaque no cenário nacional. Começava-se então, toda uma campanha de
valorização da prática desportiva, que acarretou na realização de vários eventos neste sentido. Podemos
destacar, por exemplo, o I Campeonato Intercolegial de Educação Física realizado na cidade de Santos,
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em agosto de 1941, com a participação de 32 estabelecimentos de ensino de 29 cidades paulistas


somando 1.690 estudantes-atleta ( CASTELHANI, 1988).

A partir de 1942, a educação física se tornou obrigatória no ensino industrial, tendo em sua ação a
responsabilidade de contribuir com o controle do trabalhador, ou seja, além do tempo de trabalho já
administrado, é incorporado o tempo de não-trabalho, que era entendido como o tempo de recuperação
da força de trabalho, como também o seu tempo livre.

O propósito de tal ação, vincula-se à intenção de orientar a ocupação do tempo de


não-trabalho do trabalhador, no sentido de relaciona-lo, ainda que indiretamente, ao
aumento de sua produtividade. Pretendia-se mesmo, de forma articulada à preocupação
com a produção, estabelecer um processo de educação da classe trabalhadora, pautada
nos valores burgueses dominantes, de forma a descaracterizá-la enquanto classe social
(CASTELHANI FILHO, 1988, p. 95, grifo nosso).

Compensar o desgaste da força de trabalho mediante a prática de exercícios constituiu a função da


educação física dentro das fabricas. Este revigoramento era dado por meio de jogos ao ar livre, natação,
lutas, ciclismo, dentre outros.

Preocupado com a profissionalização do povo, com vistas ao projeto de industrialização nacional, o


governo cria o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) em Janeiro de 1942, subordinado à
Confederação Nacional da Indústria e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC). Estes
dois serviços tinham como objetivo formar uma classe trabalhadora com mão de obra especializada por
meio do ensino profissionalizante (CASTELHANI FILHO, 1988). Em seguida, o governo cria a Comissão
Técnica de organização Sindical e o Serviço de Recreação Operária em 1943, que tinha um norte
político-ideológico voltado aos interesses dos donos dos meios de produção, visando buscar a melhoria
da capacidade produtiva da classe trabalhadora (CASTELHANI, 1988). Na verdade, as reformas deste
período tratam de reafirmar e naturalizar as diferenças sociais ao destinar o ensino secundário às elites e
o ensino profissional às massas.

Com a derrota das nações do eixo na 2º guerra mundial e com o fim do estado novo, em 1945, a
ideologia nazi-facista mascarada sobre o manto do nacionalismo defendido por Vargas perde sua força.
Com isto, o método francês perde também o seu espaço.

Este período representou, segundo Castelhani filho (1988), um período de militarização do corpo
pelo exercício físico, aprimoramento da raça, melhoria na força de trabalho, como também militarização
da mente (espiritual), relacionada a segurança e defesa da pátria com a colaboração civil por meio do
esporte, senso de superioridade, obediência, consciência.

C. Pedagogicista

Após a II Guerra Mundial (1939-1945), a ginástica perdeu espaço para o esporte que passou a ser
hegemônico no Brasil. O contexto político, social, econômico e histórico do país nas décadas posteriores
a guerra conduziram a uma tendência chamada de Educação Física Pedagogicista (GHIRALDELLI
JUNIOR, 1994). Esta foi a concepção que reclamou na sociedade a necessidade de encarar a Educação
Física não somente como uma prática capaz de promover saúde ou de disciplinar a juventude, mas de
encarar a Educação Física como uma prática eminentemente educativa.

A Educação Física Pedagogicista trouxe marcadas as influências da Pedagogia Nova e da


Fenomenologia, que mesmo sustentando o pensamento liberal burguês, foi o primeiro movimento na
área que buscou a valorização da Educação Física (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

No processo de implantação da Educação Física na grade curricular das escolas, buscava-se


habilidades consideradas fundamentais para a saúde física e mental, por meio de competições gincanas,
desfiles entre outras que visassem o lazer com o intuito de suscitar o controle emocional, o
aproveitamento das horas livres e a formação do caráter dos alunos.

Tal espaço foi sendo construído muito lentamente, e começou a se constituir de fato quando foram
acrescentadas disciplinas como “prática de ensino”, “recreação e lazer”, didática”, etc. aos currículos das
faculdades. Estas disciplinas visavam formar, no futuro profissional, um olhar mais direcionado ao ato

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educativo, levando o professor a pensar a atividade física não só como meio de desenvolver a eficiência
e o rendimento (CASTELHANI FILHO, 1988).

O aspecto não crítico da Educação Física Pedagogicista elencava alguns fins para os quais a
Educação Física deveria ser dirigida: 1. saúde: a Educação Física deveria contribuir para a saúde física e
mental; 2. caráter e qualidades mínimas de um bom membro de família e bom cidadão, no
qual a Educação Física serviria para o desenvolvimento do caráter; 3. preparação vocacional, no qual
certos tipos de atividades físicas, especialmente as competições desportivas, desenvolveriam controle
emocional e liderança; 4. uso contínuo das horas livres ou de folga: A EF estaria relacionada com o
intuito de ir contra o mau aproveitamento do tempo livre, pois isto poderia destruir a saúde, reduzir a
eficiência e quebrar o caráter, além de degradar a vida (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

A educação física pedagogicista seguiu então, a forma da educação liberal, a qual buscava a
formação de um cidadão voltado aos valores da sociedade vigente. E que em um primeiro momento,
discutiu uma nova concepção de Educação Física, mas que apesar de sua contribuição, não fugiu a
reprodução dos ideais conservadores.

D. Competitivista

A chegada de grandes indústrias promoveu uma separação ainda mais intensa entre ricos e pobres no
país, a desigualdade social ficou maior e, por consequência, os conflitos de classe se tornaram cada vez
mais intensos e violentos, culminando no golpe de 1964, quando os militares, que tinham bom respaldo
social e apoio das elites econômicas, assumiram definitivamente o controle do país, calando com tortura
e morte todos aqueles que se opusessem ao seu regime.

Neste cenário, coube à educação física o papel de colaborar, por meio de seu caráter lúdico esportivo,
com o esvaziamento de qualquer tentativa de rearticulação política do movimento estudantil no contexto
universitário (CASTELHANI FILHO, 1988).

A influência do esporte na educação física passou a ter tal magnitude que ela se tornou submissa ao
esporte, colocando outras praticas corporais em segundo plano, caracterizando as aulas em âmbito
escolar como um prolongamento da instituição esportiva com intenção de rendimento atlético. O esporte
passou a determinar o conteúdo da educação física, no qual a relação entre professor e aluno passaram
a ser um professor “treinador” e aluno “atleta” (SOARES, et al 2009).

O gosto pelas competições e rivalidades desportivas coincide com o momento político em que o
patriotismo e a competitividade no mercado de trabalho também ganham corpo dentro do nosso país.

Tamanha era a ênfase ao desporto8 nesse período, que a própria Educação Física era voltada ao
treinamento esportivo, sendo trabalhada como uma uma preparação e um complemento ao treinamento
(GHIRALDELLI JUNIOR, 1994).

Desta maneira, o desporto torno-se uma paradigma na Educação Física brasileira, constituindo a base
de todo o processo de formação profissional na área. É nessa época que se desenvolve a idéia do
professor atleta, ou seja, o bom profissional de Educação Física deveria ser aquele que já tivesse
praticado a modalidade que ensina e quanto melhor o atleta tivesse sido, melhor professor seria
considerado (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994). O extremo absoluto dessa ideia de profissional fica expresso
nos pré – testes físicos a que os candidatos a cursar uma faculdade deveriam se submeter. Eram provas
para testar a condição física e atlética do candidato como: corridas, natação, modalidades esportivas.
Aqueles que não obtivessem índices desejáveis eram excluídos do processo de seleção.

O próprio contexto social explica, em grande parte, o desenvolvimento e a predominância da


Educação Física Competitivista no Brasil, no qual, o esporte de competição passa a ser visto como um
modelo de propaganda política, além de amortecer a consciência das pessoas em relação à repressão e
à ditadura que estava instalada no país (CASTELHANI FILHO).

A prática de alguma modalidade esportiva se tornou tão importante sob esse prisma político que
justificou a criação, na década de 70, de um programa federal chamado “Esporte Para Todos” (EPT),
cujas bases ideológicas assentavam-se justamente na popularização da prática esportiva
como uma espécie de analgésico para a consciência das pessoas (CATELHANI FILHO, 1988).

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O esporte de alto nível passou a ser usado como espetáculo, distração e orgulho nacional. A imagem

do herói atleta é dominante como nunca e o sucesso brasileiro nas disputas9 internacionais encheram o
povo de orgulho. Paralelamente, buscava-se desviar a atenção da população acerca dos acontecimentos
importantes, como os momentos em que o governo militar caçava, espancava, torturava e matava
inúmeras pessoas, cuja única transgressão era pensar diferente daquilo que os militares consideravam
correto.

A Educação Física Competitivista nas escolas revelou o seu objetivo de desenvolvimento do gesto
técnico nos estudos biomecânicos. As séries primárias eram direcionadas a grandes jogos, com ênfase
na competição, ou seja, de 1a a 4a séries, as crianças deveriam participar de jogos e brincadeiras que
atuassem sobre todo esquema corporal, visando desenvolver as habilidades básicas para a futura prática
de algum desporto (GHIRALDELLI JUNIOR, 1994). Já de 5a a 8a séries, as aulas deveriam ser dirigidas
aos fundamentos de alguma modalidade esportiva, além de horários exclusivos para o treinamento das

“seleções colegiais”. No segundo grau,10 deve-se desenvolver mais noções técnicas e táticas, para
competir contra outros colégios e/ou cidades (CASTELHANI FILHO, 1988). A ideologia do esporte e a
construção do corpo eficiente e dócil permanecem na atuação de inúmeros profissionais, bem como
permanece o desporto de alto nível como modelo de atividade física, de espetáculo e de anestésico à
consciência social.

A crescente prática do esporte, desenvolvida em lugares específicos, como nos clubes, nas escolas e
nas universidades, ajudou para que essa expressão da cultura fosse sendo regulamentada sob a
intervenção do Estado que, por sua vez, passou a assumir a organização esportiva com a criação de
políticas. É importante ressaltar também que o crescimento do esporte não teve um caráter de
neutralidade, mas de sentidos e significados políticos e ideológicos, de uma determinada estrutura social
que produz uma visão de mundo e de sociedade sob a lógica da manutenção e perpetuação das
relações capitalistas (CASTELHANI FILHO).

Assim como no estado novo, a Educação Física, agora como disciplina acadêmica e como
política social voltada as demandas de lazer/tempo livre dos universitários, teve uma
função ideológica clara, a qual coube à educação física o papel de colaborar, por meio de seu caráter
lúdico esportivo, com o esvaziamento de qualquer tentativa de rearticulação política do movimento
estudantil no contexto universitário. Desse modo, surgiram neste período os Jogos escolares, jogos
municipais, jogos abertos, jogos da juventude e todas as demais competições em nível “amador”.

Considerações finais

As tendências que contemplam a Educação Física até a década de 80 partiram de planos elaborados para tipos
específicos de formação ideológica e corporal que correspondiam as expectativas da sociedade capitalista. Entretanto,
ambas são concepções não críticas por fazerem da Educação Física um simples instrumento na reprodução da
sociedade em que ela se insere.

O aspecto não crítico da Educação Física neste período elencava alguns fins para os quais a Educação Física deveria
ser dirigida, fins estes que tinham seus pressupostos na da sociedade capitalista, condicionadas pelos princípios
positivistas. A Educação Física no decorrer de seu processo histórico assumiu diversas tendências. Porém, todas elas
objetivavam dois pontos em comum: 1) a dominação do corpo (pelo exercício físico, eugenia da raça, identidade
relacionada a ordem moral e cívica, melhoria na força de trabalho, controle do comportamento com vistas à saúde
pública, preparação de mão de obra fisicamente adestrada e capacitada, recuperação e manutenção da força de
trabalho); 2) manipulação ideológica (relacionada a segurança e defesa da pátria com a colaboração civil por meio
do esporte, senso de superioridade, obediência, consciência, homogeneização das mentes, transmissão de certos
valores sobre a população, caráter e qualidades mínimas de um bom membro de família e bom cidadão, preparação
vocacional).

É importante ressaltar que a Educação Física não teve um caráter de neutralidade, e sim, de direcionamentos
políticos e ideológicos definidos, que visavam construir uma determinada estrutura social que produzisse uma visão de
mundo e de sociedade sob a lógica da manutenção e perpetuação das relações sociais capitalistas.

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Notas

1. Dois nomes são importantes no processo de implantação da educação física no Brasil: o primeiro é Rui Barbosa que escreveu um parecer que
serviu de referencial teórico para defender a educação física na escola, ao indagar a importância e o papel da educação física (exercício) na
idade pubertária e para a formação do homem moderno. Assim, este parecer esboçava o modelo corporal a ser buscado no período, como
também, os papéis destinados aos homens e mulheres. Ele propôs, dentre outras coisas, a ampliação da ginástica a ambos os sexos e a inserção
da educação física nas escolas primarias. Deste modo, a educação física da mulher deveria ser integral, higiênica, com base nos trabalhos
manuais com jogos infantis, ginástica educativa e esportes menos violentos e compatíveis com a delicadeza do organismo da mulher/mãe. O
segundo é Fernando de Azevedo, que seguindo os indicativos de Rui Barbosa para regeneração do povo, apoiou a necessidade de se reeducar a
mulher e destinava à educação física, nessa questão da eugenia da raça, um papel de forjar mulheres fortes e sadias para terem condições de
gerarem filhos saudáveis e aptos a servirem a pátria. Percebemos assim, um pensamento dominante a respeito de um estereótipo de mulher que
se adequasse às exigências da sociedade capitalista em ascensão (CASTELHANI FILHO, 1988).

2. O método adotado pela Educação física neste foi o sueco, que após a 1º guerra perdeu espaço para o método francês, tendo em vista a derrota
alemã e a vinda da missão francesa ao Brasil.

3. O ensino profissionalizante era ofertado ao ensino secundário da rede pública, destinado as classes populares, com o objetivo de formar mão de
obra especializada. Já a escola particular de nível secundário procurava proporcionar o acesso ao ensino superior.

4. Isto se refere a defesa da nação frente ao movimento da intentona comunista.

5. As primeiras escolas de Educação física foram em âmbito militar.

6. O ensino cívico seria ministrado em todos os graus e ramos de ensino e a educação física seria obrigatória nos cursos primário e secundário,
sendo facultativa no ensino superior.

7. A primeira escola de Educação Física do país foi a Escola de Educação Física do Exército, fundada em 1933. Depois, em 1939, foi criada a
primeira escola civil de formação de professores de educação física (CASTELHANI FILHO, 1988).

8. Foi dado um grande apoio ao esporte pelos governantes, com os jogos escolares tais como: JEP’S, JEB’S, e outras competições.

9. As vitórias de Emerson Fittipaldi na formula I e o tri-campeonato de futebol no México, são exemplos de como o esporte foi utilizado no regime
militar para mascarar as ações militares.

10. A educação no regime militar teve os rumos ditados por duas leis e um amplo conjunto de decretos. A primeira lei regulamentava a Reforma
universitária e a segunda fixava as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º grau (lei nº 5.062/71) que foi grande novidade do regime militar:
à reforma do ensino fundamental e médio. A Reforma do ensino de 1º e 2º graus pretendia atender ao maior número de alunos no que se
referia à idéia de profissionalização. Deste modo, esperava-se que os jovens em busca de qualificação profissional se contentassem com a
formação de nível médio, conseqüentemente diminuiria a pressão pelo aumento de vagas no ensino superior. Pela nova lei, o antigo curso
primário e o ginasial são substituídos pelo ensino de 1ºgrau, destinado a formação da criança e do pré-adolescente (VIEIRA; FARIAS; 2007).

Referências

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LESSA, Sergio. Lukács. Ética e Política: Observações acerca dos fundamentos ontológicos da ética e da política.
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MELLO, R. A. A necessidade histórica da Educação Física na escola: a emancipação humana como finalidade.
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SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e
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SOARES, C. L. Educação Física: Raízes Européias e Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 1994.

Outros artigos em Portugués

https://www.efdeportes.com/efd154/educacao-fisica-no-brasil-tendencias-constituidas.htm 8/9

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