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SEMINÁRIO PRESBITERIANO DO SUL


TEOLOGIA

VICTOR HERMÓGENES DE OLIVEIRA

EXEGESE DO ANTIGO TESTAMENTO


JOEL 3.1-5 (BHS)

CAMPINAS, SP
2017
2

VICTOR HERMÓGENES DE OLIVEIRA

EXEGESE DO ANTIGO TESTAMENTO


JOEL 3.1-5 (BHS)

Trabalho de exegese bíblica


apresentado ao Presbitério Pontal do
Rio Grande – PPRG – em virtude da
conclusão do curso de Teologia no
Seminário Presbiteriano do Sul.

CAMPINAS, SP
2017
3

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

A.T.: Antigo Testamento


BDB: Dicionário adotado - BROWN. F, DRIVER.S.R &BRIGGS, C.A (editores).
The BDB Genesius Hebrew and English Lexicon – BDB. Peabody,
Massachussets: Hendrickson, 1979
BHS: Bíblia Hebraica Stuttgartensia
cap.: Capítulo
CFW: Confissão de Fé de Westminster
ed.: edição
N.T.: Novo Testamento
p.: página
séc., sécs.: século, séculos
trad.: tradução.
Todas as abreviaturas de livros bíblicos seguem o modelo e a tradução da
Bíblia Sagrada Revista e Atualizada.
4

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................... 6
2. TEXTO HEBRAICO ........................................................................................ 7
3. ANÁLISE TEXTUAL ....................................................................................... 8
3.1. DELIMITAÇÃO DA PERÍCOPE ............................................................... 8
3.1.1 Critérios de abertura ........................................................................... 9
3.1.1.1 Critérios Retóricos/Literários: ....................................................... 9
3.1.1.2 Critérios Editoriais ...................................................................... 10
3.1.1.3 Critérios Gramaticais: ................................................................. 10
3.1.2 Critérios de fechamento .................................................................... 11
3.1.2.1 Critérios Retóricos/Literários: ..................................................... 11
3.1.2.2 Critérios Editoriais: ..................................................................... 11
3.1.2.3. Critérios Gramaticais: ................................................................ 11
4. CRÍTICA TEXTUAL ...................................................................................... 12
4.1. A CRÍTICA TEXTUAL ............................................................................ 12
4.2. APRESENTAÇÃO DAS VARIANTES TEXTUAIS.................................. 12
4.2.1. Variante 1 ........................................................................................ 13
4.2.2. Variante 2 ........................................................................................ 13
5. TRADUÇÃO ................................................................................................. 14
6. NOTAS DE TRADUÇÃO .............................................................................. 15
7. ANÁLISE GRAMÁTICO-SINTÁTICA ............................................................ 18
8. DELIMITAÇÃO DAS ORAÇÕES .................................................................. 19
8.1 CLASSIFICAÇÃO DAS ORAÇÕES ........................................................ 20
8.2 ESTRUTURA SINTÁTICA ...................................................................... 23
9. ANÁLISE LITERÁRIA ................................................................................... 24
9.1 ANÁLISE DO GÊNERO LITERÁRIO GERAL ......................................... 24
9.2 ANÁLISE DO GÊNERO LITERÁRIO ESPECÍFICO ................................ 25
9.3 SITZ-IM-LEBEN ...................................................................................... 27
10. ANÁLISE RETÓRICA ................................................................................. 29
10.1 LINHAS POÉTICAS .............................................................................. 30
10.2 PARALELISMOS .................................................................................. 32
10.3 FIGURAS DE LINGUAGEM .................................................................. 35
5

10.3.1 Repetição ........................................................................................ 35


10.3.2 Zeugma ........................................................................................... 36
10.3.3 Sinédoque ....................................................................................... 36
10.4 PALAVRAS OU EXPRESSÕES CHAVES ............................................ 37
11. EXTRAÇÃO DA MENSAGEM .................................................................... 38
12. ANÁLISE CONTEXTUAL ........................................................................... 42
12.1 CONTEXTO PRÓXIMO ........................................................................ 42
12.2 CONTEXTO REMOTO ......................................................................... 43
12.3 CONTEXTO DO LIVRO ........................................................................ 44
12.4 CONTEXTO CANÔNICO ...................................................................... 45
13. ATUALIZAÇÃO DA MENSAGEM ............................................................... 47
14. ESBOÇO HOMILÉTICO ............................................................................. 53
REFERÊNCIAS ................................................................................................ 54
6

1. INTRODUÇÃO

O texto bíblico que temos em mãos é uma tradução para a nossa língua de
cópias dos originais escritos em Hebraico, Grego e eventualmente em Aramaico.
Segundo Cássio Murilo. D. Silva:

[...] tudo o que temos em mãos são resultados de cópias, que por vezes são
defeituosas, incompletas ou muito tardias. Por isso, para que tenhamos uma
melhor compreensão do universo de um texto bíblico, é necessário o uso de
ferramentas de estudo e aprofundamento neste, como a exegese 1.

A exegese é um estudo minucioso e completo de uma passagem bíblica.


Com ela, aprofundamos o estudo do texto em sua língua original de tal forma
que somos conduzidos a uma interpretação aproveitável. Segundo D. Stuart e
Gordon. D. Fee:

[...] a exegese é uma tarefa teológica com algumas regras que precisam ser
seguidas e um padrão básico, porém seus resultados podem variar em
aparência, haja vista, que as próprias passagens bíblicas variam bastante
entre si2.

Neste trabalho, nos propomos a uma exegese do texto profético do livro de


Joel 2.28-32. Onde nos esforçaremos para extrair deste texto bíblico através
desta metodologia de estudo, uma mensagem relevante para os nossos dias.
É preciso explicar que o texto proposto tem uma divisão diferente na Bíblia
Hebraica Stuttgartensia, a qual usaremos ao longo do nosso trabalho. Ela propõe
uma divisão do texto como um novo capítulo no livro. Ao invés de uma
continuidade do capítulo 2. Leremos o texto como Joel 3.1-5.
Usaremos a divisão proposta pela Bíblia Hebraica. Sendo assim, os
versículos 28 a 32 do capítulo 2 de nossa Bíblia são equivalentes aos versículos
1 a 5 do capítulo 3 de Joel, na Bíblia Hebraica.

1 SILVA, Cássio Murilo. D. Metodologia de exegese bíblica. 3. Ed. São Paulo: Paulinas,
2009. p.38.
2 STUART, D; FEE, G. D. Manual de exegese bíblica. Trad. Estevan Kirchner e Daniel de

Oliveira. 1. Ed. São Paulo: Vida Nova, 2008. p. 23.


‫‪7‬‬

‫‪2. TEXTO HEBRAICO‬‬

‫‪ 1‬וְ הָ יָ ָ֣ה ַֽאח ֲֵרי־ ֵֵ֗כן אֶ ְש ּ֤פֹוְך אֶ ת־רּוחִ י֙ על־כָל־בָ שָָׂ֔ ר וְ נִ בְ ֖אּו בְ נֵיכֶ ָ֣ם‬
‫ֲֹלמּון ב ָ֣ח ֵּורי ֶָׂ֔כם חֶ זְיֹ נ֖ ֹות יִ ְר ַֽאּו׃‬
‫ֲֹלמֹות יח ָׂ֔‬
‫ּובְ נַֽ ֹותֵ יכֶ ֶ֑ם זִקְ נֵיכֶם֙ ח ָ֣‬
‫ל־העֲבָ ִ ֖דים וְ על־ה ְשפ ֶָ֑חֹות בי ִ ָָ֣מים הָ הֵָׂ֔ מָ ה אֶ ְשפ֖ ֹוְך אֶ ת־‬
‫֙‪ 2‬וְ גַ֥ם ע ָ ַֽ‬
‫רּוחי׃‬
‫ִ ַֽ‬
‫֙‪ 3‬וְ ָנַֽת ִתי֙ ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים בשָ ֖מיִ ם ּובָ ָ ֶ֑א ֶרץ ָ ָ֣דם ו ָׂ֔ ֵָאש וְ ִ ַֽתימ ֲ֖רֹות ע ָ ַָֽשן׃‬
‫֙‪ 4‬השֶֶּׁ֨ מֶ ש֙ יֵהָ פֵ ְָ֣ך לְ חָֹׂ֔ שֶ ְך וְ הי ֵ ָ֖ר ֙ח לְ ָ ֶ֑דם לִ פְ ֵֵ֗ני ּ֚בֹוא יָ֣ ֹום יְ ה ָׂ֔ ָוה הג ָ֖דֹול‬
‫ּנֹורא׃‬
‫וְ ה ָ ַֽ‬
‫֙‪ 5‬וְ הָ ֵָ֗יה ֹּ֧ ֹכל אֲשֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה יִ מָ לֵ ֶ֑ט כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון‬
‫ֲשר‬
‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים א ֶ ַ֥‬
‫ֵיטה ַֽכאֲשֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה ֶּׁ֨‬
‫ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה פְ ל ֵ֗ ָ‬
‫‪3‬‬
‫יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא׃‬

‫‪3‬‬‫‪BÍBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft & Sociedade‬‬


‫‪Bíblica do Brasil, 1997. Adotamos a divisão proposta pela Bíblia Hebraica Stuttgartensia, a qual‬‬
‫‪divide a perícope de Joel 2.28-32 em Joel 3.1-5.‬‬
8

3. ANÁLISE TEXTUAL

O texto bíblico escolhido para o nosso estudo exegético é composto por


cinco versículos. Frequentemente reconhecido como uma unidade literária
completa, a qual chamamos de perícope.
Estas unidades, sendo trechos menores que possuem sentido dentro de
um contexto amplo, não foram rigidamente apresentadas pelos autores originais,
embora tenham deixado indícios de início e fim de sessões.
Neste trabalho, após a verificação das evidências de abertura e fechamento
de perícope, chamados de delimitação da perícope, serão analisadas as
variantes textuais apresentadas pelo aparato crítico da Bíblia Hebraica
Stuttgartensia (BHS), para definir o texto mais próximo do original e sua melhor
tradução.

3.1. DELIMITAÇÃO DA PERÍCOPE

As divisões tradicionais de capítulos e versículos não fazem parte do texto


original e, em muitos casos, estão equivocados. Portanto, nas divisões
tradicionais, devido ao trabalho editorial, podem ocorrer dois fenômenos. No
primeiro, pode ser quebrar uma unidade textual, isto é, pode haver uma má
delimitação das perícopes, e em consequência, isolam-se versículos de seu
contexto. O segundo fenômeno é oposto ao primeiro: “perícopes que claramente
deveriam ter sido separadas encontram-se agrupadas sob o mesmo o título”.4
Os autores bíblicos não dividiram explicitamente as suas obras, mas deixaram
alguns indícios, a fim de evidenciar onde começa (abertura) e onde termina
(fechamento) uma perícope.
Precisamos nos certificar de que a passagem que escolhemos para fazer
a exegese é, de fato, uma unidade completa e independente. O texto precisa ter
começo, meio e fim. Em exegese, busca-se nesse processo, encontrar e
entender a lógica textual que pretendia o autor, explicando o porquê ela é
confiável. Para o exegeta Cassio Murilo da Silva, referência para os critérios aqui

4 SILVA, C.M. Metodologia da Exegese Bíblica. 3ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p.68.
9

utilizados, delimitar um texto “significa estabelecer os limites para cima e para


baixo, ou seja, onde ele começa e onde ele termina”5.
Neste processo de delimitação, leva-se em consideração o gênero no qual
o texto foi escrito pois, os diferentes gêneros contidos na Bíblia – poesia,
profecia, lei, dissertação, narrativa, entre outros – são divididos com parâmetros
diferentes, por serem escritos com parâmetros e intenções diferentes.
Defende-se neste trabalho que o texto de Joel 3.1-5 consiste de uma só
perícope. Seguem-se as características que evidenciam a abertura e o
fechamento da mesma.

3.1.1 Critérios de abertura

3.1.1.1 Critérios Retóricos/Literários:

Ação ou função terminal: Terminais são aquelas ações ou funções que


indicam o fim algum episódio anterior ao texto. No versículo 27, do segundo

capítulo, encontramos a expressão ‫עֹולם‬


ַֽ ָ ְ‫ל ֹא־יֵבַֹ֥ שּו ע ִ ֖מי ל‬, traduzida como “e
o meu povo jamais será envergonhado”6, que conclui o assunto apresentado
anteriormente. Assim, o versículo 1, dá início a uma nova perícope.

Anúncio de um tema: Alguns textos, ao término de uma parte da


argumentação, introduzem os assuntos que serão abordados logo em seguida7.

O termo ְ ‫אֶ ְש ּ֤פֹוְך‬, traduzido por derramarei8, no primeiro versículo e sua

repetição no segundo versículo indicam que este tema será abordado ao longo
do texto.

5 SILVA, C.M. Metodologia da Exegese Bíblica. 3ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p.68.
6 BÍBLIA SAGRADA, Almeida Revista e Atualizada, com números de Strong, São Paulo:
Sociedade Bíblica do Brasil, 2003, Joel 2.27.
7 SILVA, C.M. Metodologia da Exegese Bíblica. 3ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p.71.
8 BROWN. F, DRIVER.S.R &BRIGGS, C.A (editores). The BDB Genesius Hebrew and

English Lexicon – BDB. Peabody, Massachussets: Hendrickson, 1979. p. 1050.


10

3.1.1.2 Critérios Editoriais:

Todos os livros da Bíblia Hebraica, exceto os Salmos, são divididos em


parágrafos. Estes são assinalados no texto bíblico por meio de espaços. As
alíneas dos parágrafos hebraicos são de dois tipos: Petuhá (aberto, ou seja, sem
nenhuma ligação com o parágrafo seguinte) e Setumá (fechado, ou seja, uma
ligeira quebra da perícope anterior). Antes do início de cada parágrafo, é
colocada uma letra hebraica em tamanho menor para designar se o mesmo é

aberto ou fechado. A letra ‫( ְפ‬pê) para o aberto e a letra ‫( ס‬samekh) para o


fechado9.
Há a presença da “setumá” (‫ )ס‬na porção anterior ao nosso texto,
indicando um leve intervalo entre as perícopes e, portanto, assinalando o início
de uma nova perícope.

3.1.1.3 Critérios Gramaticais:

O Hebraico apresenta a peculiaridade do que chamamos “sequenciais


narrativas”; estas envolvem o uso complementar de duas conjugações verbais,

o perfeito e o imperfeito. A conjunção, ‫( ו‬waw), é usada para dar início as


sequências narrativas, fazendo a função do “e” no português. Assim, temos um

novo critério para abertura de perícope presente no primeiro verbo ‫וְ הָ יָ ָ֣ה‬
traduzido por “e acontecerá. ”

9FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica: Introdução ao Texto


Massorético: Guia Introdutório para Bíblia Hebraica Stuttgartensia. 3ª ed. São Paulo: Vida
Nova, 2011, p. 176.
11

3.1.2 Critérios de fechamento

3.1.2.1 Critérios Retóricos/Literários:

O critério de fechamento literário deste texto é uma alteração no discurso.

O versículo 1 inicia o discurso na primeira pessoa do singular ‫אֶ ְש ּ֤פֹוְך‬


(derramarei). Já o versículo 5 altera o discurso para a terceira pessoa do singular

com os seguintes termos: ‫( ַֽכאֲשֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬como o Senhor falou10); ‫ֲשר יְ הוָ ֖ה‬
ַ֥ ֶ ‫א‬
‫( קֹ ֵ ַֽרא‬que o Senhor chama11). Uma alteração no discurso encerra uma perícope.
Outra garantia desta mudança encontra-se no primeiro versículo do
próximo capítulo, onde o autor volta o discurso para a primeira pessoa do

singular, ‫אָ שּוב‬ ‫ֲשר‬


ַ֥ ֶ ‫( א‬quando eu mudar12).

3.1.2.2 Critérios Editoriais:

Há um critério editorial por parte dos editores da BHS que encerra esta
perícope. Eles colocam o primeiro versículo do capítulo quatro na linha abaixo

do versículo 32. Como mencionado anteriormente, eles não usam os sinais ‫ְפ‬
(pê) e ‫( ס‬samekh), os quais indicam novo parágrafos, todavia iniciam uma nova
linha, dando origem a uma nova perícope.

3.1.2.3. Critérios Gramaticais:

Encontramos este critério no início do versículo 1, capítulo seguinte. A

presença do termo ‫ הִ ּנֵ ָ֛ה‬tradicionalmente traduzida como “eis que”13, que é

10 LAMBDIN, Thomas. O. Gramática do Hebraico Bíblico [trad. Walter Eduardo Lisboa] – São
Paulo: Paulus, 2003. §43.
11 Ibid. §26,
12 Ibid. §90.
13 Ibid. § 135
12

comum em oráculos. Essa expressão pode indicar o início de uma nova perícope
e, portanto, o fechamento da anterior.

4. CRÍTICA TEXTUAL

4.1. A CRÍTICA TEXTUAL

A crítica textual é um passo muito importante da exegese. Segundo


Wegner:

[...] essa tarefa consiste em constatar as diferenças entre os diversos


manuscritos que contêm cópias do texto proposto pela exegese e avaliar qual
das variantes poderia corresponder como maior probabilidade ao texto
originalmente escrito pelo autor bíblico.14

Para essa etapa do trabalho exegético, critérios foram estabelecidos pelos


críticos textuais ao se chegar a uma conclusão entre duas ou mais variantes.
Diante disto, nos baseamos nos cânones da crítica textual, propostos por
Gleason L. Acher Junior.15 O aparato crítico que se encontra na BHS16 aponta
para o texto de Joel 3.1-5 duas variantes, as quais serão abordadas a seguir.

4.2. APRESENTAÇÃO DAS VARIANTES TEXTUAIS

¹‫ּובירּושָׁ ִַ֜לִ ם‬
ִ ‫וְ הָ ֵָ֗יה ֹּ֧ ֹכל אֲשֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה יִ מָ לֵ ֶ֑ט כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון‬
‫ֲשר יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא‬
ַ֥ ֶ ‫ א‬²‫ידים‬
ִִ֔ ‫ּוב ְּׂש ִר‬
ַ֨ ‫ֵיטה ַֽכאֲשֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬
ָ ֵ֗ ‫ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה פְ ל‬

14 WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento: manual e metodologia. 5. ed. São Paulo:
Paulus, 1998.
15 ARCHER JUNIOR, G. L. Merece confiança o Antigo Testamento? 2ª Ed. São Paulo: Vida

Nova, 1979.
16 BÍBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft & Sociedade

Bíblica do Brasil, 1997.


13

4.2.1. Variante 1

O aparato crítico da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) apresenta uma

variante no último versículo da perícope. Para o termo ‫ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם‬ (e em

Jerusalém17), o aparato coloca a seguinte indicação: “Tr ad bγ? cf b”. Ao traduzir


esta indicação temos a seguinte recomendação: “Transposição deste termo para
parte ‘b’ do versículo, comprando-o com a segunda variante do mesmo)18. O
objetivo desta indicação é enfatizar que os sobreviventes são de Jerusalém. Esta
indicação não é apoiada por testemunhas textuais, portanto, não podemos
utilizar os cânones da crítica textual neste caso. Logo, a melhor leitura escolhida
foi a do Texto Massorético.

4.2.2. Variante 2

Esta variante também se encontra no ultimo versículo, agora na expressão

‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים‬
ֶּׁ֨ (entre19 os sobreviventes20). “Os editores da BHS propõem a

expressão ‫ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ְש ִר ִָׂ֔ידים‬ (e em Jerusalém [há] sobreviventes21),

podendo conferir a primeira variante no mesmo versículo” 22. Como afirmarmos


na variante anterior, essa transposição indicada pelos escritores da BHS tem o
objetivo de enfatizar que os sobreviventes são de Jerusalém. Mas, como dito,
não há nenhuma testemunha textual que concorde com os editores da BHS, logo
sua alternativa de leitura não foi considerada. Sendo assim, apoiamos o Texto
Massorético.

17 BROWN. F, DRIVER.S.R &BRIGGS, C.A (editores). The BDB Genesius Hebrew and English
Lexicon – BDB. Peabody, Massachussets: Hendrickson, 1979, p.437
18 FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica. 3. ed. São Paulo: Editora Vida

Nova, 2008, p. 60,22, 66, 67 e 27.


19 LAMBDIN, Thomas. O. Gramática do Hebraico Bíblico Trad. Walter Eduardo Lisboa. São

Paulo: Paulus, 2003. §38


20 BDB, 1979, p.975
21 BDB, 1979. p. 437;975
22 FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica. 3. ed. São Paulo: Editora Vida

Nova, 2008. p.52 e 27


14

5. TRADUÇÃO

1. E depois, Eu derramarei o meu espírito sobre toda carne. E vossos filhos


e vossas filhas profetizarão; vossos velhos terão sonhos; vossos jovens terão
visões.
2. Até sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, eu derramarei meu
Espírito.
3. E eu darei sinais nos céus e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça.
4. O sol se tornará em trevas e a lua, em sangue, antes que venha o grande
e terrível dia do Senhor.
5. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Pois no monte
Sião e em Jerusalém haverá libertação, como o Senhor disse, e entre os
salvos aqueles que o Senhor chamar.
15

6. NOTAS DE TRADUÇÃO

Alguns termos merecem maior destaque quanto a sua tradução no texto


bíblico. Abaixo relacionamos os mais importantes com notas que justificam a
tradução escolhida.

VERBETE MORFOLOGIA TRADUÇÃO NOTA


O termo está funcionando como
o início de uma frase temporal
dentro de uma sequência
Verbo Qal em narrativa. Quando isso acontece
3ª pessoa Não foi a narrativa deve ser colocada no
‫וְ הָ יָ ָ֣ה‬ masculino traduzido futuro, mesmo que o verbo Qal
singular perfeito, normalmente seja
traduzido no passado. E o termo
em si, não precisa ser
traduzido.23
O tempo imperfeito hebraico é
Verbo Qal comumente traduzido pelo
imperfeito em tempo futuro no português,
‫אֶ ְש ּ֤פֹוְך‬ 1ª pessoa do “derramarei” assim o verbo fica coerente com
singular a proposta da sequência
narrativa.24
Optamos por traduzir a
preposição por “sobre”25, por
‫על‬ Preposição “sobre”
entender que esta é mais
coerente dentro do texto.

23 LAMBDIN, 2012, §110


24 Ibid. §90 e 91
25 James Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains : Hebrew (Old

Testament) (Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc., 1997).


16

Esta palavra corresponde de


Substantivo, diversas maneiras a expressão
comum, “cada”, “toda” em português.26
‫כָל‬ masculino,
“toda”
Como ela vem seguida de um
construto. singular, deve ser entendido
coletivamente.
O verbo Nifal deve ser traduzido
como o sujeito sofrendo a ação.
Verbo Nifal
Porém, não usamos a tradução
perfeito em 3ª
‫וְ נִ בְ ֖אּו‬ pessoa do
“profetizarão” comum, visto que este verbo
não existe na forma Qal
plural.
correspondente.27

A tradução do futuro e não no


passado, como é comum no Qal
Verbo Qal
perfeito, se dá porque o termo
perfeito em 1ª
‫וְ ָנַֽת ִתי‬ pessoa do
“darei”28 está inserido em uma sequência
narrativa, imperfeito+perfeito,
singular.
que se inicia logo no primeiro
versículo.
Como vimo acima, o verbo Nifal
deve ser traduzido como o
Verbo Nifal
sujeito sofrendo a ação, logo
imperfeito em
este verbo foi traduzido na voz
‫יֵהָ פֵ ְָ֣ך‬ 3ª pessoa “se tornará”
passiva29. O fato de estar no
masculino
futuro se explica por estar
singular.
inserida em uma sequência
narrativa.

26 LAMBDIN, §66
27 Ibid. §140
28 James Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains : Hebrew (Old

Testament) (Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc., 1997).


29 LAMBDIN, §140.
17

Entendemos que tal tradução


Verbo Qal expressa melhor à ideia do que
‫ּ֚בֹוא‬ Infinitivo “que venha o” infinitivo construto, o qual
Construto corresponde a um substantivo
verbal.30
Como dito acima, o verbo Nifal
tem significado passivo31. Assim
Nifal Imperfeito está forma é mais a adequada e
‫יִ מָ לֵ ֶ֑ט‬ em 3ª pessoa “será salvo” o verbo no futuro, explica-se
do singular pela sequência narrativa que o
mesmo está inserido.

O relativo ‫ אֲשֶ ר‬mais o prefixo


‫ ַֽ֙כ‬, que expressa a ideia de um
Pronome
‫ַֽכאֲשֶ ר‬ Relativo
“conforme" adjunto adverbial, foi traduzido
por “conforme”, pois expressa a
ideia de subordinação da
oração.
O particípio é, em quase todos
os aspectos, um adjetivo. Neste
Verbo Qal caso, devemos procurar uma
‫קֹ ֵ ַֽרא‬ particípio ativo.
“chamar”
locução que expresse a ideia de
progressão.32

30 LAMBDIN, §114.
31 Ibid. §140.
32 Ibid. § 26
18

7. ANÁLISE GRAMÁTICO-SINTÁTICA

Nesta etapa do nosso trabalho nos dedicaremos a uma análise gramática


e sintática de Joel 3.1-5. Segundo Fee e Stuart “a correta compreensão da
gramática é essencial à interpretação adequada da passagem” 33. A partir disso,
podemos observar se períodos, orações ou frases poderiam ser lidos de forma
diferente quando analisamos a sintaxe do texto.
Pequenas variações na sintaxe podem ocultar alterações significativas no
sentido. Esta análise contribui para que todas as estruturas do texto sejam
claramente compreendidas, verifica se existem ambiguidades genuínas que
impedem a interpretação definitiva de alguma parte da passagem, além de,
detalhar as nuanças da gramática hebraica tornando-as compreensíveis para a
nossa língua. Ao observar as sutilezas da língua original podemos nos aproximar
da compreensão exata do que foi dito e do que não foi dito pelo seu autor.
Esta análise abordará a delimitação das orações, que expõe as orações
do texto de maneira clara, sua classificação, ou seja, o que cada oração significa
na construção do texto e logo em seguida, sua estrutura sintática, que demonstra
como cada oração está conectada a outra.

33STUART, D; FEE, G. D. Manual de exegese bíblica. Trad. Estevan Kirchner e Daniel de


Oliveira. 1. Ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.
‫‪19‬‬

‫‪8. DELIMITAÇÃO DAS ORAÇÕES‬‬

‫וְ הָ יָ ָ֣ה אחריכן֙אשפוְך אֶ ת־רּוחִ י֙ על־כָל־בָ שָָׂ֔ ר‬ ‫‪1a‬‬

‫וְ נִ בְ ֖אּו בְ נֵיכֶ ָ֣ם ּובְ נַֽ ֹותֵ יכֶ ֶ֑ם‬ ‫‪1b‬‬

‫ֲֹלמּון‬
‫ֲֹלמֹות יח ָׂ֔‬
‫זִקְ נֵיכֶם֙ ח ָ֣‬ ‫‪1c‬‬

‫ב ָ֣ח ֵּורי ֶָׂ֔כם חֶ זְיֹ נ֖ ֹות ְיִר ַֽאּו׃‬ ‫‪1d‬‬

‫ת־רּוחי׃‬
‫ִ ַֽ‬ ‫ל־העֲבָ ִ ֖דים וְ על־ה ְשפ ֶָ֑חֹות בי ִ ָָ֣מים הָ הֵָׂ֔ מָ ה אֶ ְשפ֖ ֹוְך אֶ‬
‫וְ גַ֥ם ע ָ ַֽ‬ ‫‪2a‬‬

‫ָשן׃‬
‫וְ ָנַֽת ִתי֙ ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים בשָ ֖מיִ ם ּובָ ָ ֶ֑א ֶרץ ָ ָ֣דם ו ָׂ֔ ֵָאש וְ ִ ַֽתימ ֲ֖רֹות ע ָ ַֽ‬ ‫‪3a‬‬

‫השֶֶּׁ֨ מֶ ש֙ יֵהָ פֵ ְָ֣ך לְ חָֹׂ֔ שֶ ְך‬ ‫‪4a‬‬

‫וְ הי ֵ ָ֖רח֙ לְ ָ ֶ֑דם‬ ‫‪4b‬‬

‫ּנֹורא׃‬
‫לִ פְ ֵֵ֗ני ּ֚בֹוא יָ֣ ֹום יְ ה ָׂ֔ ָוה הג ָ֖דֹול וְ ה ָ ַֽ‬ ‫‪4c‬‬

‫ה֙כל אֲשֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה‬


‫וְ הָ ֵָ֗י ֹּ֧ ֹ‬ ‫‪5a‬‬

‫‪ 5b‬מלט‬
‫כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה֙פְ לֵיטָ ה‬ ‫‪5c1‬‬

‫ַֽכאֲשֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬ ‫‪5d‬‬

‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים‬
‫‪ֶּׁ֨ 5c2‬‬
‫ֲשר יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא׃‬
‫א ֶ ַ֥‬ ‫‪5e‬‬
20

8.1 CLASSIFICAÇÃO DAS ORAÇÕES34

‫וְ הָ יָ ָ֣ה אחריכן֙אשפוְך אֶ ת־רּוחִ י֙ על־כָל־בָ שָָׂ֔ ר‬ Oração Verbal


1a Coordenada
E depois eu derramarei o meu Espírito sobre toda carne
Assindética de 1b.

‫וְ נִ בְ ֖אּו בְ נֵיכֶ ָ֣ם ּובְ נַֽ ֹותֵ יכֶ ֶ֑ם‬ Oração Verbal
1b Coordenada sindética
e vossos filhos e vossas filhas profetizarão
aditiva de 1a.

‫ֲֹלמּון‬
ָׂ֔ ‫ֲֹלמֹות יח‬
ָ֣ ‫זִקְ נֵיכֶם֙ ח‬ Oração Verbal
1c Coordenada
vossos velhos terão sonhos
assindética

‫ב ָ֣ח ֵּורי ֶָׂ֔כם חֶ זְיֹ נ֖ ֹות יִ ְר ַֽאּו׃‬ Oração Verbal


1d vossos jovens terão visões Coordenada
assindética de 2a

‫פָחֹות בי ִ ָָ֣מים הָ הֵָׂ֔ מָ ה‬


ֶ֑ ‫ל־העֲבָ ִ ֖דים וְ על־ה ְש‬
ַֽ ָ ‫וְ גַ֥ם ע‬
‫ת־רּוחי׃‬
ַֽ ִ ֶ‫אֶ ְש ֖פֹוְך א‬ Oração Verbal
2a Até sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, eu
sindética aditiva de 1d
derramarei meu Espírito e coordenada a 3a.

‫וְ ָנַֽת ִתי֙ ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים בשָ ֖מיִם ּובָ ָ ֶ֑א ֶרץ ָ ָ֣דם ו ָׂ֔ ֵָאש וְ ִ ַֽתימ ֲ֖רֹות‬
‫עָ ָ ַֽשן׃‬ Oração Verbal
3a E eu mostrarei sinais nos céus e na terra, sangue, fogo e
coordenada sindética
colunas de fumaça aditiva de 2a.

34CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48. ed.


Revisada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. 1ª reimpressão 2010.
21

Oração Verbal
‫השֶֶּׁ֨ מֶ ש֙ יֵהָ פֵ ְָ֣ך לְ חָֹׂ֔ שֶ ְך‬ coordenada
4a O sol se tornará em trevas assindética de 4b e
oração principal de 4c.

Oração Coordenada
‫וְ הי ֵ ָ֖רח֙ לְ ָ ֶ֑דם‬ sindética aditiva de
4b e a lua em sangue 4a.35 E oração
principal de 4c.

Oração Subordinada

‫ּנֹורא׃‬
ַֽ ָ ‫פְ ֵֵ֗ני ּ֚בֹוא יָ֣ ֹום יְ ה ָׂ֔ ָוה הג ָ֖דֹול וְ ה‬ Adverbial Temporal de
4c 4b e 4a. E oração
Antes que venha o grande e terrível dia do Senhor
coordenada de 5a.

Oração Verbal
‫וְ הָ ֵָ֗יה֙ ֹּ֧ ֹכל אֲ שֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה‬ coordenada sindética
E todo aquele que invocar o nome do Senhor aditiva de 4c. E oração
5a
subordinada adjetiva
restritiva de 5b.

‫מלט‬
Oração Nominal
5b Será salvo
principal de 5a e 5c.

Oração Verbal
subordinada adverbial
‫כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה֙פְ לֵיטָ ה‬
causal de 5b. E oração
5c Pois no monte Sião e em Jerusalém haverá libertação
principal de 5d.

35 O verbo nesta oração foi elipsado.


22

‫ַֽכאֲ שֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬ Oração Verbal


Como o Senhor disse Subordinada adverbial
5d
conformativa de 5c.

‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים‬
ֶּׁ֨
Oração Nominal
5e E entre os salvos
principal de 5f.

‫אֲ ֶ ַ֥שר יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא׃‬ Oração Verbal


aqueles que o Senhor chamar. Subordinada adjetiva
5f
restritiva de 5e.
‫‪23‬‬

‫‪8.2 ESTRUTURA SINTÁTICA‬‬

‫וְ הָ יָ ָ֣ה אחריכן֙אשפוְך אֶ ת־רּוחִ י֙ על־כָל־בָ שָָׂ֔ ר‬ ‫‪1a‬‬

‫וְ נִ בְ ֖אּו בְ נֵיכֶ ָ֣ם ּובְ נַֽ ֹותֵ יכֶ ֶ֑ם‬ ‫‪1b‬‬

‫ֲֹלמּון‬
‫ֲֹלמֹות יח ָׂ֔‬
‫זִקְ נֵיכֶם֙ ח ָ֣‬ ‫‪1c‬‬

‫ב ָ֣ח ֵּורי ֶָׂ֔כם חֶ זְיֹ נ֖ ֹות יִ ְר ַֽאּו׃‬ ‫‪1d‬‬


‫פָחֹות בי ִ ָָ֣מים הָ הֵָׂ֔ מָ ה אֶ ְש ֖פֹוְך‬ ‫ל־העֲבָ ִ ֖דים וְ על־ה ְש ֶ֑‬ ‫וְ גַ֥ם ע ָ ַֽ‬
‫ת־רּוחי׃‬
‫ִ ַֽ‬ ‫אֶ‬ ‫‪2a‬‬

‫וְ ָנַֽת ִתי֙ ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים בשָ ֖מיִם ּובָ ָ ֶ֑א ֶרץ ָ ָ֣דם ו ָׂ֔ ֵָאש וְ ִ ַֽתימ ֲ֖רֹות עָ ָ ַֽשן׃‬ ‫‪3a‬‬

‫השֶֶּׁ֨ מֶ ש֙ יֵהָ פֵ ְָ֣ך לְ חָֹׂ֔ שֶ ְך‬ ‫‪4a‬‬


‫וְ הי ֵ ָ֖רח֙ לְ ָ ֶ֑דם‬ ‫‪4b‬‬

‫ּנֹורא׃‬
‫פְ ֵֵ֗ני ּ֚בֹוא יָ֣ ֹום יְ ה ָׂ֔ ָוה הג ָ֖דֹול וְ ה ָ ַֽ‬ ‫‪4c‬‬

‫וְ הָ ֵָ֗יה֙ ֹּ֧ ֹכל אֲ שֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה‬


‫‪5a‬‬

‫מלט‬ ‫‪5b‬‬

‫כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה֙פְ לֵיטָ ה‬ ‫‪5c‬‬

‫ַֽכאֲ שֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬ ‫‪5d‬‬

‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים‬
‫ֶּׁ֨‬ ‫‪5e‬‬

‫אֲ ֶ ַ֥שר יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא׃‬


‫‪5f‬‬
24

9. ANÁLISE LITERÁRIA

A observação dos textos a partir das suas formas de escritas é conhecida


como Análise Literária. O objetivo é conseguir uma melhor interpretação,
aplicação e uso do texto estudado. Sendo assim, podemos trabalhar com o texto
de acordo com o gênero que lhe é devido.
Segundo Cássio Murilo:

A análise Literária se divide em três partes: Análise do Gênero Literário Geral;


Análise do Gênero Literário específico; e Análise do Sitz-im-Leben, que é uma
expressão alemã que significa a situação vivencial, ou seja, quando
analisamos Sitz-im-Leben de um gênero literário, estamos buscando
descobrir em que ocasião ele era utilizado36.

9.1 ANÁLISE DO GÊNERO LITERÁRIO GERAL

Esta análise visa definir os gêneros literários presentes nos livros


proféticos. Há uma grande quantidade de textos proféticos que variam seus
escritos entre a prosa e a poesia. O gênero literário difere muito de uma
passagem para outra, há diversas características presentes nestes textos, tais
como “apelo ao jejum, ou luto, motivações, evocação do juízo, lamentação,
chamada ao arrependimento, oráculo de salvação”37.
A nomenclatura dada às palavras de Deus aos profetas, ficou conhecida
como “oráculo profético”. O oráculo “transmite uma visão dos atos de Deus”38,
num futuro próximo ou mais distante na vida dos ouvintes.
O livro de Joel faz parte dos textos proféticos do Antigo Testamento. O
livro é inteiramente dominado pela proclamação da iminência do dia do Senhor.
“As evocações catastróficas desse acontecimento culminam em diversos apelos

36 SILVA, Cássio Murilo Dias de. Metodologia da exegese bíblica. São Paulo: Paulinas,2000,
p.230
37 AMSLER, S.; ASURMEDI, J.; AUNEAU, J; MARTIN-ACHARD, R. Os profetas e os livros

proféticos. [Trad. Bênoni Lemos] São Paulo: Edições Paulinas, 1992. p. 405
38 BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 1968 v.1. p.213
25

feitos pelo profeta tanto ao povo que o ouvia, quanto a todas as nações futuras,
numa perspectiva escatológica”39.
Assim, concordamos com Schökel, quando ele afirma que:

O livro de Joel pode ser considerado como uma obra de um grande profeta
que usa da poesia para construir com rigor uma transposição imaginativa,
que renova com breves imagens a tradição literária bem como os motivos
poéticos comuns40.

9.2 ANÁLISE DO GÊNERO LITERÁRIO ESPECÍFICO

Constatou-se que o gênero deste texto pode ser denominado por “oráculo
de admoestação coletivo combinado com oráculo de felicidade”. Ou seja, ele
pode ser considerado “oráculo de admoestação porque desperta o povo, a fim
de anunciar o juízo divino e também oráculo de felicidade pois anuncia condições
para a salvação”41.
A admoestação combinada com oráculos de juízo é vista nos versículos
3 e 4. A admoestação combinada com oráculos de felicidade pode ser vista nos
versículos 1 e 2 e o anúncio de salvação que fecha o oráculo está presente no
versículo 5. Logo, o texto expressa, notavelmente, admoestações tanto de juízo
como de salvação. O castigo de Deus é observado no juízo e a salvação de Deus
é oferecida àqueles que invocarem o Seu Nome. Conforme a tabela a seguir:

39 AMSLER, S.; ASURMEDI, J.; AUNEAU, J; MARTIN-ACHARD, R. Os profetas e os livros


proféticos. [Trad. Bênoni Lemos] São Paulo: Edições Paulinas, 1992. p. 404
40 SCHÖKEL, Luís Alonso [Trad. Anacleto Alvarez]. Profetas II. São Paulo: Paulus, 2002, p.

957.
41 BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 1968 v.1. p.217
26

Versículos Estrutura Texto

1e2 Anúncio E depois, Eu derramarei o meu espírito sobre


toda carne. E vossos filhos e vossas filhas
de
profetizarão; vossos velhos terão sonhos;
felicidade
vossos jovens terão visões.

Até sobre os servos e sobre as servas,


naqueles dias, eu derramarei meu Espírito.

3e4 Anúncio E eu darei sinais nos céus e na terra, sangue,


fogo e colunas de fumaça.
de Juízo
O sol se tornará em trevas e a lua em
sangue, antes que venha o grande e terrível
dia do Senhor.

5 Anúncio E todo aquele que invocar o nome do Senhor


será salvo. Pois no monte Sião e em
de
Jerusalém haverá libertação, como o Senhor
Salvação
disse, e entre os salvos aqueles que o
Senhor chamar.

Nota-se pelo quadro acima que o oráculo de Joel 3.1-5 contém três anúncios.
O primeiro anúncio refere-se ao anúncio de felicidade. É característica do livro
de Joel, anúncios da vinda do Senhor usando imagens catastróficas, como por
exemplo a invasão de gafanhotos que devoram a vegetação (Jl 1.4-10), uma
grande seca (Jl 1.11,16), um exército invencível (Jl 2.1-11). Os dois primeiros
versículos contrastam essas visões catastróficas e anunciam felicidade.
A presença do Espírito era algo restrito a certos ofícios, mas a promessa de
Deus pode ser vista como um anúncio de felicidade, pois é estendida como sinal
de regozijo para todos. O caráter dessa proclamação é algo maravilhoso, é um
sinal de libertação e restauração da parte de Deus com seu povo.
27

O segundo anúncio revela imagens terríveis do dia do Senhor. Mesmo diante


de um anúncio de felicidade, o profeta Joel volta a falar sobre terríveis sinais do
grande dia do Senhor. Este anúncio revela o caráter misto de juízo e salvação
presente neste texto.
Os versículos 3 e 4 são denominados anúncios de juízo, pois apresentam
como característica principal a presença de imagens desastrosas e terríveis
vindas do próprio Deus.
Por fim, o profeta faz um anúncio de salvação. Mesmo o povo sendo infiel ao
Senhor e este trazendo a destruição sobre eles, o próprio Senhor promete salvar
aqueles que invocarem seu Nome. Os profetas, diante da desobediência do povo
de Israel, continuaram a falar sobre o plano de Deus para seu povo.

9.3 SITZ-IM-LEBEN

O Sitz-im-Leben é uma expressão alemã usada para descrever às


situações típicas onde eram usados os Gêneros Literários no mundo Bíblico. Ele
não é o ambiente histórico, político, social ou econômico no qual o texto foi
composto, mas sim uma situação padrão ou regular que motiva o surgimento
dos Gêneros Literários. Em outras palavras, as situações típicas (Sitz-im-Leben)
da vida da comunidade, acabam forjando formas esquematizadas de discursos
(Gêneros Literários), segundo Cássio Murilo:

O Sitz-im-leben não é o acidente, mas a situação na qual se fará uma


descrição do acidente; e os Gêneros Literários, por sua vez, têm a finalidade
de cumprir uma função na vida da comunidade na qual eles se originam, bem
como conduzir a comunidade e os seus membros a uma tomada de
consciência ou a uma opção que produz um efeito.42

Vários estudiosos consideravam impossível saber em que época foi


escrito o texto do profeta Joel. Calvino mostrava esse mesmo ceticismo 43.
Estudiosos posteriores buscaram encontrar uma data para a composição do

42SILVA, Cassio Murilo. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 2009. p.230
43SCHÖKEL, Luís Alonso. Trad. Anacleto Alvarez. Profetas II. São Paulo: Paulus, 2002, p.
954.
28

texto de Joel, baseando-se na situação interna de Judá e nas situações


internacionais referidas pelo próprio profeta.
Alguns estudiosos atribuem o livro ao período de menoridade de Joás
(835-796 a.C.), outros situam o profeta bem após o retorno do exílio, por volta
dos anos 500 a.C. ou até mais tarde. Levantaram-se argumentos em favor de
uma data imediatamente anterior ou imediatamente posterior ao exílio. Em geral
esses argumentos baseiam-se na ausência da menção de um rei, paralelos aos
escritos de Sofonias, Jeremias, Ezequiel e Obadias, proeminência do “Dia do
Senhor” e quadros da atividade do templo, cuja reconstrução foi completada em
515 a.C.44
É impossível datar o livro com certeza plena como pré-exílico ou pós-
exílico. O que se observa nos primeiros capítulos deste livro é a descrição da
aflição do povo por causa da invasão, seca e desolação causada em Jerusalém,
por algum povo que está diante de Joel. Segundo Hubbard:

A profecia de Joel se coloca como mais otimista e consoladora, esperando


uma grande mudança definitiva, pois o povo espera recuperar a liberdade,
que os inimigos sejam punidos e que ocorra o derramamento do Espírito 45.

Também não se sabe ao certo se o livro foi usado liturgicamente durante


os séculos seguintes a sua composição. Os primeiros dois capítulos podem ter
sido empregados liturgicamente, pois os apelos para que se dê testemunho dos
eventos registrados (1.3), as convocações para lamentos ou queixas (1.5, 8, 11,
13), a queixa individual (1. 19), o convite ao arrependimento (2.12-14), a
convocação para que se reúnam no templo (1.15-17), um fragmento de uma
reclamação coletiva (1.17) e uma resposta coletiva prometendo salvação
sugerem um possível uso litúrgico.46
A redação de Joel como um todo e “sua cuidadosa atenção dispensada à
adoração pública e ao seu eminente colapso, graças às nuvens de gafanhotos,

44 LASOR, William Sanford; HUBBARD, David. A, BUSH, Frederic. W; [trad. Lucy Yamakami]
Introdução ao Antigo Testamento – São Paulo: Vida Nova, 1999. p.407
45 HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário [organizador geral Donald

J. Wiseman; trad. Márcio Loureiro Redondo]. – São Paulo: Vida Nova, 1996. v. 22.
46 LASOR, William Sanford; HUBBARD, David. A, BUSH, Frederic. W; [trad. Lucy Yamakami]

Introdução ao Antigo Testamento – São Paulo: Vida Nova, 1999. p.407


29

pode bem indicar que a própria adoração pública estava corrompida”. 47, indicam
que o Joel esteja conclamando o povo, diante da invasão de Jerusalém, a uma
renovação e purificação que só podem ser encontradas numa volta completa
para o Senhor.
Assim, todo juízo descrito em Joel era o meio divino ao corrigir, purificar o
culto e, além disso, preparar o caminho para as bênçãos plenas do Senhor sobre
seu povo pela dádiva de Seu Espírito.
“Felizmente, a mensagem de Joel não depende da data. As palavras do
profeta se destacam apesar de nossa incapacidade de reconstruir seu contexto
histórico com exatidão”48.
A finalidade deste texto era a de chamar o povo à restabelecer a adoração
pública, a invocação ao nome do Senhor, mesmo diante da presente invasão, a
fim de que as bênçãos e a salvação do Senhor alcancem seu povo.

10. ANÁLISE RETÓRICA

O objetivo da análise retórica é apontar no texto a dinâmica da comunicação.


Esta análise envolve um estudo detalhado de sua poesia, incluindo suas linhas
poéticas, paralelismos e figuras de linguagem existentes e as palavras chaves
da perícope.
Convém que façamos uma análise sem, porém, forçar o esquema retórico
sobre o texto, pois estas constatações são importantes para a base da extração
da mensagem desta perícope.

47 HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário [organizador geral Donald
J. Wiseman; trad. Márcio Loureiro Redondo]. – São Paulo: Vida Nova, 1996. v. 22. p 33
48 LASOR, William Sanford; HUBBARD, David. A, BUSH, Frederic. W; [trad. Lucy Yamakami]

Introdução ao Antigo Testamento – São Paulo: Vida Nova, 1999. p.407


30

10.1 LINHAS POÉTICAS

O verso hebraico é composto de linhas, chamadas também de estíquios


ou cola49 (colon, no singular) agrupadas em uma, duas ou mais para formar um
paralelismo. A este agrupamento é dado o nome de colon, bicola, tricola,
dependendo do número de linhas.
Para esta divisão é necessário levar em conta a temática de cada linha e
sua correspondência com a linha anterior. Via de regra, uma linha expressa um
pensamento completo e a outra inicia um pensamento de algum modo
relacionado com a primeira.
Seguindo estes critérios, o texto de Joel 3.1-5 consiste da seguinte
divisão:

Vs. Classificação Texto

‫( וְ הָ יָ ָ֣ה ַֽאח ֲֵרי־ ֵֵ֗כן‬a


E depois
Bicola
‫( אֶ ְש ּ֤פֹוְך אֶ ת־רּוחִ י֙ על־כָל־בָ שָָׂ֔ ר‬b
Eu derramarei o meu espírito sobre toda carne

v.1 ‫( וְ נִ בְ ֖אּו בְ נֵיכֶ ָ֣ם ּובְ נַֽ ֹותֵ יכֶ ֶ֑ם‬c


vossos filhos e vossas filhas profetizarão

Tricola ‫ֲֹלמּון‬
ָׂ֔ ‫ֲֹלמֹות יח‬
ָ֣ ‫( זִקְ נֵיכֶם֙ ח‬d
Vossos velhos terão sonhos

‫( ב ָ֣ח ֵּורי ֶָׂ֔כם חֶ זְיֹ נ֖ ֹות ְיִר ַֽאּו׃‬e


Vossos jovens terão visões

49 Para melhor entendimento deste trabalho, propomos denomina-las de cola.


31

‫ל־העֲבָ ִ ֖דים וְ על־ה ְשפ ֶָ֑חֹות‬


ַֽ ָ ‫( וְ גַ֥ם ע‬a
Até sobre os servos e sobre as servas,
v.2 Bicola

‫ת־רּוחי׃‬
ַֽ ִ ֶ‫( בי ִ ָָ֣מים הָ הֵָׂ֔ מָ ה אֶ ְש ֖פֹוְך א‬b
naqueles dias, eu derramarei meu Espírito

‫( ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים בשָ ֖מיִ ם ּובָ ָ ֶ֑א ֶרץ‬a ֙‫וְ ָנַֽת ִתי‬
E eu mostrarei sinais nos céus e na terra,

v.3 Bicola
‫( ָ ָ֣דם ו ָׂ֔ ֵָאש וְ ִ ַֽתימ ֲ֖רֹות ע ָ ַָֽשן׃‬b
sangue, fogo e colunas de fumaça

‫( השֶֶּׁ֨ מֶ ש֙ יֵהָ פֵ ְָ֣ך לְ חָֹׂ֔ שֶ ְך‬a


O sol se tornará em trevas

v.4 Tricola ‫( וְ הי ֵ ָ֖ר ֙ח לְ ָ ֶ֑דם‬b


e a lua em sangue

‫ּנֹורא׃‬
ַֽ ָ ‫( לִ פְ ֵֵ֗ני ּ֚בֹוא יָ֣ ֹום יְ ה ָׂ֔ ָוה הג ָ֖דֹול וְ ה‬c
Antes que venha o grande e terrível dia do Senhor

‫( וְ הָ ֵָ֗יה֙ ֹּ֧ ֹכל אֲשֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה֙מלט‬a


E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo

‫( כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה֙פְ לֵיטָ ה‬b
Pois no monte Sião e em Jerusalém haverá libertação
v.5 Tetracola
‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים‬
ֶּׁ֨ ֙‫( ַֽכאֲשֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬c
Como o Senhor disse e entre os salvos

‫ֲשר יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא׃‬


ַ֥ ֶ ‫א‬ (d
aqueles que o Senhor chamar.
32

10.2 PARALELISMOS

O paralelismo está presente em várias partes da poesia hebraica50. O


paralelismo desempenha uma função importantíssima na composição da dos
textos hebraicos e “é necessário compreender um pouco sobre a forma e função
deles para obtermos coerência”51.
O paralelismo consiste, basicamente, na justaposição de palavras ou
frases que se equivalem sintática ou semanticamente. Existem muitas
classificações de paralelismos, no nosso texto destacamos a presença de alguns
deles:

Paralelismo Sintético: Este paralelismo, segundo Ballarini é o menos


fácil de se descrever e identificar. Conforme o bispo anglicano R. Lowth,
“geralmente se denomina sintético, quando este une as partes de um
pensamento que se desenvolve”52. E conforme Zuleica Silvano, este paralelismo
se dá quando uma frase resume ou completa o sentido da outra e pode ser
chamado também de “Progressivo ou Complementar”53. Segundo Osborne, ele
se refere “a um desenvolvimento do pensamento no qual o segundo verso
acrescenta ideias ao primeiro verso”.54 O paralelismo sintético em nosso texto
aparece nas relações do versículo 1a e 1b; entre 2a e 2b; entre 3a e 3b; entre
4a; 4b e 4c e entre 4b e 4c, conforme o quadro explicativo abaixo.

Paralelismo Sinonímico: Aparece quando a mesma ideia é expressa de


duas formas semelhantes ou equivalentes. Ou seja, uma frase repete o sentido
da outra, com palavras sinônimas ou até mesmo iguais. “A finalidade deste

50 SILVA, Cassio Murilo. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 2009. p. 155.
51 OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica.
Tradução: Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes, Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida
Nova, 2009. p. 287.
52 ibid. p. 24
53 SILVANO, Zuleica. Introdução à análise poética de textos bíblicos. São Paulo: Paulinas,

2014. p. 65
54 OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica.

Tradução: Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes, Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida
Nova, 2009. p.290
33

paralelismo é enfatizar determinada ideia ou conceito”.55 No texto proposto para


estudo, o paralelismo sinonímico aparece no primeiro versículo nas interligações
entre 1c; 1d e 1e.

Paralelismo Antitético: Este tipo de paralelismo “tende a ilustrar uma


realidade ou qualidade mediante a evocação do seu contrário”56. Em nosso texto
esse paralelismo ocorre no versículo 5a e 5d quando o profeta diz: “E todo aquele
que invocar o nome do Senhor será salvo” e depois contrasta dizendo que serão
salvos “aqueles que o Senhor chamar”

Para melhor compreensão e interligação dos paralelismos compomos um


quadro explicativo da ligação entre eles:

Paralelismo Texto

‫( וְ הָ יָ ָ֣ה ַֽאח ֲֵרי־ ֵֵ֗כן‬1.a


E depois
Sintético entre

1a e 1b ‫( אֶ ְש ּ֤פֹוְך אֶ ת־רּוחִ י֙ על־כָל־בָ שָָׂ֔ ר‬1.b


Eu derramarei o meu espírito sobre toda carne

‫( וְ נִ בְ ֖אּו בְ נֵיכֶ ָ֣ם ּובְ נַֽ ֹותֵ יכֶ ֶ֑ם‬1.c


vossos filhos e vossas filhas profetizarão
Sinonímico

entre 1c; 1d e
‫ֲֹלמּון‬
ָׂ֔ ‫ֲֹלמֹות יח‬
ָ֣ ‫( זִקְ נֵיכֶם֙ ח‬1.d
Vossos velhos terão sonhos
1e.
‫( ב ָ֣ח ֵּורי ֶָׂ֔כם חֶ זְיֹ נ֖ ֹות ְיִר ַֽאּו׃‬1.e
Vossos jovens terão visões

55 SILVANO, Zuleica. Introdução à análise poética de textos bíblicos. São Paulo: Paulinas,
2014. p. 64.
56 BALLARINI, Teodorico A poesia Hebraica e os Salmos. Petrópolis – Rio de Janeiro: Editora

Vozes, 1985. p.23.


34

‫ל־העֲבָ ִ ֖דים וְ על־ה ְשפ ֶָ֑חֹות‬


ַֽ ָ ‫( וְ גַ֥ם ע‬2.a
Até sobre os servos e sobre as servas,
Sintético entre
‫ת־רּוחי׃‬
ַֽ ִ ֶ‫( בי ִ ָָ֣מים הָ הֵָׂ֔ מָ ה אֶ ְש ֖פֹוְך א‬2.b
2a e 2b naqueles dias, eu derramarei meu Espírito

‫ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים בשָ ֖מיִ ם ּובָ ָ ֶ֑א ֶרץ‬ (3.a ֙‫וְ ָנַֽת ִתי‬
E eu mostrarei sinais nos céus e na terra,
Sintético entre

3a e 3b ‫ָשן׃‬
ַֽ ָ ‫( ָ ָ֣דם ו ָׂ֔ ֵָאש וְ ִ ַֽתימ ֲ֖רֹות ע‬3.b
sangue, fogo e colunas de fumaça

‫( השֶֶּׁ֨ מֶ ש֙ יֵהָ פֵ ְָ֣ך לְ חָֹׂ֔ שֶ ְך‬4.a


O sol se tornará em trevas

Sintético entre
‫( וְ הי ֵ ָ֖ר ֙ח לְ ָ ֶ֑דם‬4.b
4a; 4b e 4c. e a lua em sangue

‫ּנֹורא׃‬
ַֽ ָ ‫( לִ פְ ֵֵ֗ני ּ֚בֹוא יָ֣ ֹום יְ ה ָׂ֔ ָוה הג ָ֖דֹול וְ ה‬4.c
Antes que venha o grande e terrível dia do Senhor

‫( וְ הָ ֵָ֗יה֙ ֹּ֧ ֹכל אֲשֶ ר־יִ קְ ָ ָ֛רא בְ ֵ ַ֥שם יְ הוָ ֖ה֙מלט‬5.a


Antitético entre E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo

5a e 5d ‫( כִִּ֠ י בְ הר־צִ יֶּׁ֨ ֹון ּובִ ירּושָ ִַ֜לִ ם ִ ַֽתהְ יֶ ָ֣ה֙פְ לֵיטָ ה‬5.b
Pois no monte Sião e em Jerusalém haverá libertação
Sintético entre

5b e 5c
‫ּוב ְש ִר ִָׂ֔ידים‬
ֶּׁ֨ ֙‫( ַֽכאֲשֶ ר֙ אָ ָ֣מר יְ ה ָׂ֔ ָוה‬5.c
Como o Senhor disse e entre os salvos

‫ֲשר יְ הוָ ֖ה קֹ ֵ ַֽרא׃‬


ַ֥ ֶ ‫א‬ (5.d
aqueles que o Senhor chamar.
35

10.3 FIGURAS DE LINGUAGEM

Figuras de linguagem “são recursos especiais de que se vale quem fala


ou escreve, para comunicar à expressão mais força e colorido, intensidade e
beleza”.57 Elas têm a função de “realçar, ornamentar, embelezar, dar maior
ênfase ou expressividade numa palavra, som, frase ou mensagem”.58
As expressões figuradas associam um conceito a uma representação
análoga do seu significado, a fim de enriquecer o enunciado. “A Bíblia faz
emprego constante de imagens vívidas extraídas de uma grande variedade de
experiências”59.
Em nosso texto destacamos algumas figuras de linguagem:

10.3.1 Repetição

Esta figura “consiste em reiterar, repetir palavras ou orações para


enfatizar a afirmação ou sugerir insistência e progressão”.60
Nas três últimas linhas poéticas do versículo 1 é observada tal repetição
proposital por parte do autor ao destacar os termos “vossos e vossas”. A ideia
desta repetição é dar ênfase e coesão, possibilitando uma melhor harmonia entre
os elementos das linhas poéticas 1c, 1d e 1e.

57 CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48. ed.


Revisada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. 1ª reimpressão 2010. p. 614
58 SILVANO, Zuleica. Introdução à análise poética de textos bíblicos. São Paulo: Paulinas,

2014. p. 56.
59 OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação

bíblica. Tradução: Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes, Sueli da Silva Saraiva. São
Paulo: Vida Nova, 2009. p. 150.
60 CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48. ed.

Revisada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. 1ª reimpressão 2010. p. 622.
36

10.3.2 Zeugma

Esta figura de linguagem consiste numa forma de elipse que corre quando
é feita a omissão de um termo já mencionado anteriormente. Na segunda linha

poética do versículo 4 há a ausência do verbo ‫( יֵהָ פֵ ְָ֣ך‬se tornará).


A sentença o “o sol se tornará em trevas e a lua, em sangue...” evidencia
claramente que a presença da vírgula após o termo “lua” substitui a construção
verbal “se tornará”.

10.3.3 Sinédoque

Esta figura consiste na substituição de um termo por outro, dando a ideia


de redução ou ampliação no sentido do termo. Em nosso texto essa figura
aparece no primeiro versículo, “quando o profeta usa o termo ‘carne’, para
ampliar a ideia do derramamento do Espírito sobre toda classe de pessoas,
espalhadas em todas as nações do mundo”61.

10.3.4 Metáfora

É o “desvio da significação própria de uma palavra, nascido de uma


comparação mental ou característica comum entre dois seres ou fatos”62. Em
nosso texto podemos perceber esta figura no versículo 4. Quando o profeta
escreve: “O sol se tornará em trevas e a lua em sangue”, expressando uma
comparação não usual para os termos.
Esta comparação metafórica parece apontar para uma teofania. Assunto
que abordaremos adiante na atualização.

61 BULLINGER, Ethelbert. W. Dicionario de Figura de Dicción usadas em la Biblia. Editora Clie,


1985, p.536
62 CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48. ed.

Revisada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. 1ª reimpressão 2010, p.614
37

10.4 PALAVRAS OU EXPRESSÕES CHAVES

Trata-se de uma questão de julgamento, não tanto de estatística


(frequência com que a palavra aparece no texto). Pode ser uma palavra
dominante, uma palavra repetida ou um tema.
Julgamos as seguintes palavras como chaves:

Derramarei meu espírito ( ֙‫)אֶ ְש ּ֤פֹוְך אֶ ת־רּוחִ י‬: Esta expressão aparece
duas vezes no texto de Joel 3.1-5. Essas duas palavras hebraicas podem ser
consideradas como chaves, pois tal repetição demostra a ênfase do autor em
destacar a ação que Deus demonstrar ao longo da perícope. A expressão
“derramar meu Espírito” é uma figura de linguagem, como dito acima e expressa
uma ideia de ampliação na ação de Deus em conceder Seu Espírito sobre toda
classe de pessoas em todo mundo.

Dia do SENHOR ( ‫)יָ֣ ֹום ֙יְ הוָ ֖ה‬: Esta expressão indica a “intervenção
decisiva de Deus na história para julgamento”63. A descrição de Joel sobre o dia
do Senhor se funde com eventos sobrenaturais e cósmicos e o julgamento final.
Diante desse anúncio sobre o Grande Dia do Senhor é dada a promessa de que
“todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” e Deus derramará seu
Espírito “sobre toda carne”.

Sinais ( ‫) ַֽמֹופְ ָׂ֔ ִתים‬: Pode ser traduzida também por maravilhas ou

prodígios. Geralmente esta palavra aponta para algo extraordinário cujo


propósito é a mediação de certa mensagem. Essa palavra pode também
prefigurar o que os profetas proclamaram ao longo da história bíblica, a execução

63VANGEMEREM, Willem A. Enciclopédia da Bíblia. Trad. Equipe de colaborados da Editora


Cultura Cristã. Vol. 2. Cultura Cristã, 2008.p. 149-150.
38

dessa palavra dramatiza e anuncia o que está a acontecer no futuro 64. No texto
de Joel, a expressão evidencia catástrofes terríveis, que funcionarão como um
“sinal” sobre o povo de algo que Deus fará.

Será salvo ( ‫)יִ מָ לֵ ֶ֑ט‬: Expressão que pode ser traduzida por chegar em

segurança, escapar, deixar sem perturbar. Por trás da maior parte do uso deste
verbo está seu sentido básico concreto: “escapar com segurança de uma
situação perigosa”65. No antigo testamento esta expressão “se refere à
libertação”66, e em nosso texto remonta a ideia de salvação concedida pelo
próprio Deus aos seus escolhidos que clamarão pelo seu Nome.

11. EXTRAÇÃO DA MENSAGEM

Após os estudos gramaticais, sintáticos, estruturais, dos gêneros literários


do texto, agora buscaremos extrair a mensagem desta perícope aos seus
primeiros ouvintes e como os aspectos deste texto foram cumpridos, quer
integralmente, quer parcialmente nos dias do profeta Joel e ainda aqueles que
serão cumpridos totalmente em épocas posteriores.
O povo de Israel havia rompido sua aliança com o Senhor e passou a
sofrer arduamente as consequências do seu pecado, lemos isso nos capítulos
anteriores a nossa perícope. Contudo, Deus, teve misericórdia do seu povo. Ele
mesmo ofereceu-lhes uma chance de arrependimento. Eles deveriam rasgar
seus corações e não apenas, suas vestes e converter-se ao senhor. E foi isso
que eles fizeram com choro, jejum coletivo e arrependimento diante do senhor
dos exércitos.
O Senhor se mostrou zeloso da sua terra e compadeceu-se de seu povo
arrependido. Quando o povo se voltou para Deus, ele derramou as chuvas

64 HARRIS, Laris. R. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo


Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz Alberto T. Sayão, Carlos Osvaldo C. Pinto.
Vol 2. – São Paulo: Vida Nova, 1998. p. 879-880.
65 Ibid. p. 949.
66
YOUNGBLOOD, Ronald. F.; F.F. Bruce; R.K. Harrison. Dicionário Ilustrado da Bíblia. Trad.
Lucília Marques Pereira da Silva. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 1288.
39

restauradoras, a terra voltou a florescer e frutificar e os celeiros encheram-se


novamente de cereal, vinho e óleo.
Mas, este texto marca algo fundamental na história do livro de Joel. Até
aqui Deus proveu a restauração dos danos antigos e a partir daqui, Deus
promete “um novo padrão de relacionamento entre ele e seu povo”67. Joel agora
afirma que “o próprio Deus toma a Palavra, sublinhando com inclusão sua
promessa68”.
Há aqui a promessa de algo extraordinário, o derramamento do Espírito
Santo do Senhor sobre o povo. O Espírito que seria derramado abundantemente
sobre toda carne como sinal de renovação, de libertação e de restauração do
povo pela presença do Espírito.
Não era comum naquela época as pessoas ficarem cheias do Espírito,
esse dom era dado apenas que exerciam o ofício profético e em outros casos
específicos (Ex 35.31; Jz 14.6).
O que está sendo prometido neste texto era o derramar deste dom num
alcance universal. O verbo derramarei (‫)אֶ ְׁש ּ֤פֹוְך‬, “diz respeito, originalmente a um
líquido, que lembra imagens de extensas chuvas que caem sobre todos, que os
empapa e os transforma69”.
A promessa do derramamento do Espírito é real. As chuvas anunciadas
que regaram a terra, fizeram as pastagens ficarem verdes, restauraram o povo
da seca e encheu seus celeiros de frutos, suas eiras de trigo e seus tonéis de
vinho, mas isso foi uma demonstração do que Deus ainda estava para fazer.
É preciso recordar o episódio de Moisés (Nm 11), “quando se de queixa
de Deus do peso do seu governo e Deus lhe responde repartindo a quota do
Espírito de Moisés entre setenta anciãos escolhidos e designados70”. Tal
episódio demonstra o que Deus faria a partir de sua promessa a Joel.
A restrição do derramamento do Espírito, revelada ao longo do Antigo
Testamento, receberia agora um rico abastecimento, como uma chuva copiosa

67 HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário [organizador geral Donald
J. Wiseman; trad. Márcio Loureiro Redondo]. – São Paulo: Vida Nova, 1996. v. 22. p. 78.
68SCHÖKEL, Luís Alonso. Trad. Anacleto Alvarez. Profetas II. São Paulo: Paulus, 2002, p.974.
69 Ibid. p.975.
70 Ibid. p. 974.
40

e a distribuição do Espírito se daria sobre “toda carne”, ou seja, sobre toda a


humanidade, não no sentido que todos receberiam o Espírito, mas que Ele seria
derramado sem levar em consideração sexo, idade ou posição social.
Com o derramar do Espírito, o profeta afirma que “vossos jovens terão
visões, vossos velhos poderão sonhar, vossos filhos e filhas profetizarão”. O
pronome possessivo “vosso”, nos chama a atenção para o fato dos primeiros
ouvintes entenderem que esta seria uma promessa exclusiva ao povo de Israel.
E de fato era. Mas, o que o Joel queria enfatizar é “o conhecimento
verdadeiro de Deus e o poder de partilhar esse conhecimento 71”. O dom do
Espírito não seria concedido mais somente a algumas pessoas e a determinados
ofícios, mas chegaria o dia em que “o remanescente de Israel receberá a bênção
prometida e a canalizará para todo o mundo72”.
Não há nenhuma referência veterotestamentária quanto ao derramar do
Espírito como este, tão abundante que afeta toda humanidade, fazendo os filhos
de Israel profetizarem. O cumprimento de tal profecia, portando não se deu nos
dias de Joel.
Mas este texto coloca entre o anúncio de felicidade (v.1-2) e o anúncio de
salvação (v.5), um forte juízo (v,3-4). Após uma dispensação de misericórdia
segue uma dispensação da Ira do Senhor.
As figuras metafóricas usadas, tais como sangue, fogo, colunas de
fumaça, sol e lua se transformando em sangue, anunciam a vinda do julgamento
do Senhor sobre seu povo.
Tais imagens lembra-nos dos feitos de Deus no Êxodo, em que o
julgamento do Egito significou libertação para Israel, como o Rio Nilo
transformando-se em sangue ou a chuva de granizo com fogo. E também a
imagem da coluna de fumaça que ilustra os acontecimentos no deserto e no
Sinai, quando o Senhor desceu sobre o monte.
Transmite também imagens de batalha, enquanto o Senhor faz guerra
com seus inimigos para livrar os seus, julgando assim as nações inimigas. Logo,

71 HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário [organizador geral Donald
J. Wiseman; trad. Márcio Loureiro Redondo]. – São Paulo: Vida Nova, 1996. v. 22, p.81.
72 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento:

estruturas e mensagens dos livros no Antigo Testamento. – São Paulo: Hagnos, 2006, p.711.
41

esses sinais podem ter relação direta com os acontecimentos da libertação do


povo do cativeiro da Mesopotâmia, Assíria ou Babilônia.
Assim, o poema de Joel 3.1-5 se transforma num apelo ao arrependimento
e à conversão para salvação. O termo O dia do Senhor está próximo está,
segundo Rad:

[...] fortemente enraizado na tradição dos profetas e isso nos leva a perguntar
se não este teria sido uma forma estereotipada de outrora convocar a tropa
para formar o exército ou, então um grito que se lançava ao acompanhar o
Senhor numa batalha73.

Portanto, a ideia do Dia do Senhor não seria apenas escatológico.


Abordaremos os aspectos futuros adiante, mas esta expressão também se
refere a eventos próximos. Assim, este dia para Joel, provavelmente se deu em
parte pela libertação de Jerusalém. Pois foi o dia em que Deus visita seu povo e
age com ira diretamente na história do povo inimigo para livrar os seus.
O dia do Senhor, contudo, não se refere apenas ao juízo, mas também a
salvação, conforme o versículo 5, onde o profeta afirma que todo o que o invocar
o nome do Senhor será salvo, aqueles que Ele mesmo chamar.
Dado a inclinação de Israel para desobediência e rebelião, havia pouca
esperança para o futuro imediato. Mas, não foi neste ponto que a função dos
profetas cessou. O plano de Deus não pode terminar pelo fracasso dos
mortais; ele tem de prosseguir em triunfo74”.
Diante de tanto juízo e destruição restava apenas uma cidade de refúgio
para Israel: Jerusalém. A condição para escapar da destruição era entrar nesta
cidade e invocar o nome do Senhor.
Há uma salvação escatológica aqui, pois o próprio Deus promete salvar
seu povo, providenciando o seu remanescente para libertar seu povo. Isso não
se dá pela invocação imperfeita do homem ao Seu Senhor, mas pela soberania
de Deus em chamar aqueles que serão salvos. No monte do Senhor haverá
libertação e entre os salvos aqueles que Ele chamar!

73 RAD, Von. Teologia do Antigo Testamento Trad. Francisco Catão. 2ª ed. São Paulo: Aste,
2006, p.556.
74 KAISER, Documentos do Antigo Testamento. Trad. Neuza Batista da Silva. São Paulo:

Cultura cristã, 1997 p.186-187.


42

12. ANÁLISE CONTEXTUAL

Na metodologia exegética, a Análise Contextual tem como objetivo


evidenciar as relações entre o texto estudado e as demais perícopes do mesmo
livro. Assim, procura examinar a perícope escolhida dentro do contexto próximo,
remoto, do livro e canônico, procurando responder como a perícope escolhida
funciona dentro de cada contexto e como o contexto altera o entendimento desta
perícope.

12.1 CONTEXTO PRÓXIMO

O Contexto Próximo analisa a perícope anterior e posterior ao texto que


está sendo trabalhado exegeticamente, ou seja, como este texto se relaciona
com outros textos que o rodeiam. Neste caso, analisaremos a relação da nossa
perícope com o texto anterior de Joel 2.18-27 e o texto posterior de Joel 4.1-8.
A perícope anterior nos remete a ação misericordiosa de Deus, a qual
“culmina no oráculo com o qual Deus responde ao povo75”. Providenciando para
seu povo o livramento dos povos inimigos, além de providenciar a fartura dos
alimentos frente à escassez e abundância da chuva em tempos de seca. Os
anos que foram atingidos pelos devoradores da terra, seriam agora restituídos,
segundo a promessa do Senhor.
O cerne desta perícope se relaciona diretamente com o quinto versículo
do nosso texto. Pois, ao afirmar no capítulo 2. 18: “Então, o Senhor se mostrou
zeloso da sua terra, compadeceu-se do seu povo”, o profeta indica aos seus
leitores a livre e amorosa iniciativa do próprio Deus em providenciar livramento
para seu povo.
O quinto versículo, também evidencia isto, quando lemos que o próprio
Deus é quem chama àqueles que serão salvos. Tais textos indicam a salvação,

75SCHÖKEL, Luís Alonso. Trad. Anacleto Alvarez. Profetas II. São Paulo: Paulus, 2002, p.
957.
43

a partir da iniciativa de Deus em direção ao seu povo, não ocasionada por


alguma atitude ou esforço humano, mas livremente da ação soberana de Deus.
O versículo 27, do segundo capítulo indica a promessa da presença de
Deus, no meio do povo e a certeza que seu povo jamais seria envergonhado, se
confessasse o Senhor como seu único Deus. Isso tem relação com a condição
colocada ao povo, também do quinto versículo do capítulo 3, quando o Senhor
promete salvar todos aqueles que invocarem Seu Nome.
A perícope posterior de Joel 4.1-876, fala do juízo final, onde O Senhor
reunirá todas as nações no “vale de Josafá” e proferirá seu julgamento diante
das acusações de deportações, expropriações e abusos sexuais cometidos
pelos povos inimigos. O conteúdo deste juízo está intimamente ligado ao juízo
mencionado no capítulo 3.3-4, o qual revela claramente do castigo de Deus às
nações pagãs e o livramento de Israel, que tem “o futuro de gloriosa felicidade
quando Deus punir seus inimigos e restaurar seus bens espirituais e materiais
além de quaisquer expectativas77”, exatamente como foi prometido no primeiro
versículo da perícope posterior.
Logo, a perícope anterior de nosso texto anuncia a salvação do povo de
Deus, através da livre iniciativa divina e a perícope posterior anuncia o juízo do
Senhor as nações inimigas.

12.2 CONTEXTO REMOTO

O Contexto Remoto analisa qual é a relação da perícope que estamos


trabalhando dentro do capítulo onde ela se encontra.
Entretanto, nosso texto segundo a Bíblia Hebraica é por si só um capítulo
individual. E tal perícope funciona como um resumo entre duas perícopes,
apontando os anúncios de salvação e juízo, como um sumário dos eventos
anunciados por Deus ao profeta Joel.

76 Esta divisão é proposta pela Bíblia Hebraica e adotada em nosso trabalho. Na versão em
português, tal perícope corresponde a Joel 3.1-8.
77 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento:

estruturas e mensagens dos livros no Antigo Testamento. – São Paulo: Hagnos, 2006, p. 713.
44

12.3 CONTEXTO DO LIVRO

O livro de Joel “é atribuído a um misterioso desconhecido, Joel, o filho de


Petuel”78. Joel, cujo nome é uma genuína profissão de fé israelita que significa
“O Senhor é Deus”79.
A maioria pode concordar que o livro foi escrito após a invasão de uma
praga de gafanhotos, conforme nos fala o primeiro capítulo. O livro ainda supõe
uma situação na qual a liderança da comunidade está nas mãos de anciãos e
sacerdotes (Jl 1.2, 13; 2.16) e não existe menção aos reis. Isso pode sugerir um
período sem uma monarquia, talvez pós-exílico, ou no qual a monarquia tenha
um papel limitado, como nos dias de Joás. “Torna-se difícil decidir por qual
proposta data com precisão a profecia de Joel e tal datação não é conclusiva”80.
Os estudiosos dividem o livro de Joel em duas partes: a praga dos
gafanhotos e o dia do Senhor (Jl 1.1-2.17) e a vitória futura do Senhor (2.18-
4.21). Na primeira seção é o profeta quem fala e na segunda quem fala é Deus.
Na primeira divisão “a severidade do julgamento divino é intensificada por
sua destruição dos meios pelos quais seu povo teria acesso a ele81” (1.1-13).
Diante desta situação de juízo divino o povo se reúne para clamar ao Senhor (1-
14) e o profeta anuncia o dia do Senhor, como sendo o ajuste final de contas
entre Deus e seu povo e as nações (1.15-2.11). No dia do Senhor “a terrível
praga dos gafanhotos transforma-se num forte exército pronto para uma violenta
invasão militar da Palestina (2.1-11)”82.
Diante desta terrível catástrofe, o povo é conclamado ao arrependimento
e, enquanto o Senhor castiga as nações gentílicas opressoras, também abençoa
o seu remanescente espiritual e materialmente (2.12-17), seguindo a promessa
divina de restauração em reposta ao arrependimento do seu povo (2.18-27).

78 DILLARD, Raymond. B; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento [trad.


Sueli da Silva Saraiva]. – São Paulo: Vida Nova 2006. p. 349.
79 ARCHER Jr, Gleason L. Panorama do Antigo Testamento. Trad. Gordon Chown. 4ª ed. –

São Paulo: Vida Nova, 2012. p. 380.


80 DILLARD, Raymond. B; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento Trad.

Sueli da Silva Saraiva. – São Paulo: Vida Nova 2006, p. 127.


81 HUBBARD, p. 85.
82 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento:

estruturas e mensagens dos livros no Antigo Testamento. – São Paulo: Hagnos, 2006. p. 710.
45

“Israel então recebe a promessa de um futuro glorioso que inclui sua renovação
espiritual (3.1-5), vingança dos inimigos (4.1-8)”83, livramento sobrenatural do
ataque escatológico (4.9-17) e paz sob a presença do próprio Deus com seu
povo. (4.18-21)
Assim sendo, a nossa perícope está intimamente ligada a todo livro do
profeta Joel, pois anuncia a salvação perfeita de Deus, mesmo diante de uma
invocação imperfeita do povo. A perícope em estudo, aborda o conteúdo de todo
o livro de forma condensada, anunciando o juízo de Deus, mas revelando sua
salvação ao seu povo.

12.4 CONTEXTO CANÔNICO

Neste momento procuramos relacionar o tema central da perícope de Joel


3.1-5 com o contexto das escrituras em sua mensagem, revelando assim, a
concordância que este texto possui com o livro sagrado como um todo.
O Antigo Testamento da Bíblia Hebraica é divido em três partes, a saber:
Lei (Pentateuco), Profetas e Escritos. Para entendermos a função do texto de
Joel 3.1-5 dentro do Antigo Testamento ligaremos seu conteúdo as três partes
que compõe o cânon.
O bloco da Lei, abrange os relatos da criação de Deus até o limiar da terra
prometida. Nosso texto “está ligado a Números 11.29”84, quando Moisés, o
representante da Lei, deseja que todo o povo profetizasse em Nome do Senhor.
Logo no primeiro versículo do capítulo 3 de Joel, há a promessa que Deus
derramaria seu Espírito um dia sobre todos, independentemente do sexo, idade
ou classe social e estes profetizarão.
O segundo bloco é o dos profetas. Profeta é o mensageiro de Deus que
anuncia a Palavra do Senhor ao povo. Praticamente todos os profetas abordam
a temática do texto de Joel 3.1-5, sobre os conteúdos de juízo e salvação.

83 Optamos pela divisão da Bíblia Hebraica, onde lê-se capítulo 4, leia capítulo 3, na versão
brasileira.
84 DILLARD, Raymond. B; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento Trad.

Sueli da Silva Saraiva. – São Paulo: Vida Nova 2006, p.356.


46

O conteúdo de Joel 3.1-5 está vinculado a textos como o do profeta Isaías


24, 27, 32, 17, 34 e 35, Ezequiel 28 e 29 e Zacarias 12.10.
Outros textos descrevem cenas idênticas, ou muito parecidas, àquelas
que Joel elenca em 3.3-4, são eles: “Contenderei com ele por meio da peste e
do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair
sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele”.
(Ez 38.22). “Porque as estrelas e constelações dos céus não darão a sua luz; o
sol, logo ao nascer, se escurecerá, e a lua não fará resplandecer a sua luz” (Is
13.10).
Outro texto é o de Isaías 4.3 “Será que os restantes de Sião e os que
ficarem em Jerusalém serão chamados santos; todos os que estão inscritos em
Jerusalém, para a vida” e está intimamente ligado a Joel 3.5, quando os dois
afirmam que permanecem em Jerusalém, aqueles que serão chamados santos
e serão chamados para vida.
O último bloco da Bíblia Hebraica é chamado de “Escritos” composto pelos
livros de Salmos, Provérbios, Jó, Eclesiastes, Cantares, Rute, Lamentações,
Ester, I e II Crônicas, Esdras, Neemias e Daniel.
Podemos ligar nosso texto dentro da doutrina de Deus nos Salmos, onde
o Senhor é apresentado como criador, rei, juiz e salvador de todo universo. Sl
33.5 (Ele ama a justiça e o direito; a terra está cheia da bondade do Senhor.) e
99.4 (És rei poderoso que ama a justiça; tu firmas a equidade, executas o juízo
e a justiça em Jacó). Tais salmos, expressam o juízo de Deus e demonstram o
caráter do Senhor, como o texto de Joel 3.1-5, que aponta o juízo do Reto Juiz,
apontando para seu santo e perfeito caráter.
Mas também podemos relacionar a passagem de Joel 3.1-5, com textos
neotestamentários. Tais como: Lc 24. 29: “Eis que envio sobre vós a promessa
de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de
poder”. Jo 14.16,17: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim
de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não
pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele
habita convosco e estará em vós”. Jo 15.26: “Quando, porém, vier o Consolador,
47

que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede,
esse dará testemunho de mim; Jo 16.7,8: Mas eu vos digo a verdade: convém-
vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se,
porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do
pecado, da justiça e do juízo, At 1.8: mas recebereis poder, ao descer sobre vós
o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em
toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra e ainda intrinsicamente ligado
à descida do Espírito Santo em Atos 2.

13. ATUALIZAÇÃO DA MENSAGEM

Esta é a última parte de nosso trabalho, nela usaremos o princípio


hermenêutico para analisar qual o significado do texto de Joel 3.1-5 para o povo
de Deus hoje. Para isso, relacionaremos o ensino do texto com os ensinos do
mesmo no Novo Testamento. Afinal, a leitura do Antigo Testamento feita por um
cristão reformado deve ser Cristocêntrica. Assim os ensinos e a relevância da
mensagem de Joel serão vinculados à Igreja nos dias de hoje.
A mensagem que Deus enviou a Israel através da vida de Joel continua
sendo verdade hoje. Calvino nos afirma que:

[...] o dom do Espírito, era desfrutado pelos antigos, mas o Profeta promete
algo maior: e tal pode ser facilmente compreendido pelo uso da palavra
“derramar”; que não significa gotejar, mas despejar em grande abundância; e
Deus não derramou seu Espírito Santo tão farta e largamente sob a lei como
quando depois da manifestação de Cristo. O dom do Espírito foi
copiosamente dado à Igreja após o advento de Cristo 85.

O próprio Jesus antes de sua ascensão disse aos seus discípulos que
eles receberiam o Espírito Santo e seriam testemunhas tanto em Jerusalém
como em toda Judeia e Samaria e até aos confins da terra (At 1.8). “Assim, Israel
é o remanescente que está recebendo as bênçãos prometidas e tem a vocação,

85CALVINO, João. Comentário Joel – baseado na tradução inglesa de John Owen feita a
partir do original em latim. p. 64. Disponível em: http://monergismo.com/wp-
content/uploads/Joel-Comentario-livro_Joao_Calvino.pdf, acesso dia 17/06/2017.
48

a tarefa de canalizá-las para todo mundo”86. É um grande privilégio para estes


galileus receberem a dádiva do Espirito Santo, mas também é uma grande
responsabilidade.
A profecia do profeta sobre o derramamento do Espírito Santo “cumpriu-
se no dia de Pentecostes, relatado em Atos 2.1-13”87. Tal festa era conhecida
como Festa das semanas (Ex 23.16; 34.22; Lv 23.15-21; Nm 28.26; Dt 16.9-12),
no Antigo Testamento “essa festa era simplesmente a celebração da colheita de
trigo e no judaísmo do segundo século era considerado o dia em que a Lei foi
outorgada no Sinai”88.
Neste dia, Deus enviou seu Espírito aos discípulos. Segundo R. C. Sproul:

[...] neste respeito, vemos algumas correspondências entre o Antigo e o Novo


Testamento. No Antigo Testamento, a capacitação do Espírito Santo foi dada
apenas a indivíduos isolados – os profetas, os sacerdotes, os reis, os juízes,
os artistas e artesãos que foram chamados por Deus para fabricar os móveis
e a decoração do tabernáculo. A primeira vez que lemos sobre o Espírito
Santo enchendo uma pessoa foi no caso dos artesãos, os artistas que foram
singularmente capacitados pelo Espírito para realizarem sua obra (Êx 28.3).
O fato crucial é que nem todos no arraial, nem todo crente, tinha este dom.
Moisés, porém, desejou que isso mudasse, E isso foi exatamente o que
aconteceu no Pentecostes, no Novo Testamento (At 2)89.

Sob a inspiração do Espírito Santo, “Pedro encontrou no milagre do


Pentecostes o anúncio divino de que estava ocorrendo na Igreja recém-nascida
o que fora previsto por Joel (Atos 2.17-21)”90. Sem dúvidas, Joel 3.1-5 “é a base
determinante para o sermão de Pedro”91.
Segundo F.D. Bruner:

86 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento:


estruturas e mensagens dos livros no Antigo Testamento. – São Paulo: Hagnos, 2006, p. 711.
87 SCHÖKEL, Luís Alonso. Trad. Anacleto Alvarez. Profetas II. São Paulo: Paulus, 2002, p.

959.
88 BEALE, G.K; CARSON.D.A. Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo

Testamento. Trad. C.E.S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e V. Kroker – São Paulo: Vida
Nova, 2014. p. 664.
89 SPROUL, R. C. Somos todos teólogos: Uma introdução à teologia sistemática. Trad.

Francisco Wellington Ferreira. São José dos Campos, SP: Fiel 2017, p. 140.
90 LASOR, William Sanford; HUBBARD, David. A, BUSH, Frederic. W; [trad. Lucy Yamakami]

Introdução ao Antigo Testamento – São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 412.


91 BEALE, G.K; CARSON.D.A. Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo

Testamento. Trad. C.E.S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e V. Kroker. São Paulo: Vida
Nova, 2014, p. 666.
49

Pedro trata da zombaria de alguns, indicando que aquilo que acabaram de


ver e ouvir é o cumprimento da promessa de Deus, no profeta Joel, no sentido
de derramar seu Espírito sobre (epi) toda a carne, ressaltando: “E acontecerá
que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (v.21). Joel, como
Pedro, acha que a razão de ser do grande evento escatológico no Espírito é
tanto o derramamento do Espírito como tal quanto a promessa universal da
salvação em prol da qual o Espírito é derramado92.

O que aconteceu em Atos 2 foi o pleno cumprimento da profecia de Joel


e o Espírito de Deus foi derramado em abundância como chuvas torrenciais em
Jerusalém. Agora o dom do Espírito Santo não é restrito apenas a alguns, mas
foi derramado independentemente do sexo, da idade e da condição social ou da
raça daqueles que estavam reunidos em Jerusalém.
Os apóstolos também concordaram com o cumprimento da profecia.
Segundo Abraham Kuyper, em sua renomada obra “A Obra do Espírito Santo”:

[...] Eles de fato se demoraram em Jerusalém sem ao menos tentar pregar


durante os dias entre a ascensão e o Pentecostes. E eles explicam o milagre
do Pentecostes como o cumprimento das profecias de Joel e Jesus. Eles
enxergam nele alguma coisa nova e extraordinária e nos mostram
claramente, que em seus dias, um homem que tivesse ficado fora do milagre
do Pentecostes não saberia nada sobre o Espírito Santo. Essa foi a
constatação apostólica diante da resposta dos crentes em Éfeso:
“Recebesses, porventura, o Espírito Santo quando cresses?” Ao que que lhe
responderam: “Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito
Santo” (At 19.2)93.

Deus promete o Seu Espírito a todos aqueles que confessam seu Nome
como Senhor e Salvador. Deus não restringe seu Espírito apenas a líderes, ou
a um grupo restrito, mas o derrama em rica medida.
Agora, o Israel de Deus é a Igreja, que consiste no judeu e no gentio, as
barreiras étnicas caíram. Como bem escreveu Paulo: “não pode haver judeu,
nem grego; nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em
Cristo Jesus” (Gl 3.28). O Espírito Santo foi derramado sem distinção.
Ainda encontramos outra referência neotestamentária chave para
atualização deste texto. Romanos 10.13, nos diz: “Porque: Todo aquele que

92 BRUNER, Frederic Dale. Teologia do Espírito Santo. São Paulo: Sociedade Religiosa
Edições Vida Nova, 1986, p. 132.
93 KUYPER, Abraham. A obra do Espírito Santo. Trad. Neuza Batista da Silva. São Paulo:

Cultura Cristã, 2010, p. 148.


50

invocar o nome do Senhor será salvo”. Tais palavras nos remetem a Joel 3.5,
quando o profeta diz que aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Esta é a primeira parte do versículo e está intimamente ligada à última
parte do mesmo, quando o profeta diz que estão entre os salvos “aqueles que o
SENHOR chamar”. Já vimos que não basta uma declaração imperfeita do
homem para este ser salvo, mas de um chamado pleno daquele que é perfeito.
Dentro da Teologia Reformada chamamos isso de vocação eficaz, ou
seja, Deus é quem chama os que serão salvos, segundo sua perfeita vontade. A
Confissão de Fé de Westminster, no capítulo X, seção I, relata:

“Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele


servido chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, no tempo
por Ele determinado e aceito, tirando-os daquele estado de pecado e morte
em que estão por natureza para a graça da salvação, em Jesus Cristo...”94.

E isto também é enfatizado em João 15.16, quando o próprio Jesus afirma


que foi Ele mesmo que nos escolheu e não o contrário.
Logo, a profecia de Joel 3.5 foi cumprida com os primeiros cristãos e ainda
hoje se cumpre quando Deus chama aqueles a quem Ele quer chamar e
continuará assim até o dia glorioso de sua vinda. O Senhor derramou o Espírito
sobre a vida dos cristãos, a fim de serem os representantes, remanescentes do
seu reino com a missão de proclamar sua mensagem. Ele nos chamou para
anunciarmos sua obra e sua salvação, para que aqueles que Ele chamou,
invoquem o Nome do Senhor e sejam salvos por Ele.
Segundo Stott, “o batismo do Espírito Santo é idêntico à promessa ou o
dom do Espírito, e é tão parte integrante do evangelho da salvação quanto da
remissão de pecados”95.
O texto de Joel 3.15, também aponta para outro evento de grande
importância: O Dia do Senhor, na perspectiva do Novo Testamento e suas
implicações e seu cumprimento.

94 Confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. ed. 17. ASSEMBLEIA
DE WESTMINSTER. Confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. ed.
17, p. 92.
95 STOTT, John. Batismo e plenitude do Espírito Santo: O mover sobrenatural de Deus.

Trad. Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 27.
51

Os prodígios no céu, na terra; sangue, colunas de fumaça, além de sinais


como o sol se convertendo em trevas e a lias em sangue, nos remontam a alguns
textos do Antigo Testamento, nos quais Deus efetuou juízo sobre a terra.
Segundo Douglas Stuart:

Estes "sinais" (Exemplos: Deut 4:34; 34:11; Isa 8:18) não são apenas
indicadores, mas prodígios totalmente sobrenaturais associados à
intervenção de Deus em nome de seu povo, por exemplo, sangue: Êxodo 7:
17-21, fogo e fumaça: Êxodo 19:18, escuridão: Êxodo 10:21; Deut 4:11 96.

Podemos afirmar que as ações mencionadas no livro de Joel são


semelhantes a estas. Contudo, o profeta afirma que os sinais mencionados,
revelam o Dia do Senhor. Concordamos mais uma vez com Douglas Stuart,
quando ele afirma que: “essa ação dramática e catastrófica anuncia a vinda do
Senhor para entregar os justos e dispensar os ímpios, a atividade pretendida do
dia da conquista do soberano”97.
Em Apocalipse 6.12-13 lemos: “O Senhor derramou o Espírito sobre
nossa vida e é seu poder e graça que nos levam a proclamar sua mensagem.
Levantem-se servos do Senhor, pois Ele nos chamou para anunciarmos sua obra
e sua salvação, para que aqueles que Ele chamou, invoquem o Nome do Senhor
e sejam salvos por Ele! ”, há a citação de Joel 3.4. Este texto faz parte do bloco
da abertura dos selos, que são típicos desastres que acontecerão entre a
primeira e a segunda vinda de Cristo.
Segundo Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown: “Os prodígios
físicos, os massacres e os conflitos precederão vinda do Messias”98. Textos
como: Am 8: 9, Mt 24, 29; Lu 21: 25-27, anunciam como serão os sinais que
antecedem a chegada de Jesus”.

96 STUART, Douglas. Hosea–Jonah, vol. 31, Word Biblical Commentary (Dallas: Word,
Incorporated, 2002), 260–262. (tradução nossa).
97 Ibid.
98 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the

Whole Bible, vol. 1 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 666–667.
52

O cumprimento total destes acontecimentos se dará quando o Senhor


castigar todas as nações que não foram chamadas por Ele e salvar o seu povo,
o qual Ele mesmo chamou e assim, instaurar plenamente seu Reino restaurado,
conforme está escrito em Apocalipse 21 e 22.
Assim, o texto de Joel 3.1-5 é de suma importância para vida do cristão
pois revela a alegria de todo aquele que é chamado pelo Senhor e recebe a
dádiva da presença do Espírito Santo de forma abundante, sem qualquer
objeção à raça, idade ou classe social. Além disso, o texto nos conclama a
missão da Igreja, como testemunha de Deus, de compartilhar a mensagem de
salvação vinda de Deus a toda terra, certos que o Senhor chama aqueles que
serão salvos.
Este texto também nos exorta ao grande Dia do Senhor. Onde Ele
executará juízo sobre os seus inimigos, mas será também um dia seguido de
salvação para os remanescentes de Deus. Ele mesmo oferece vida na morte, e
luz no mais escuro. Isso tudo porque Jesus já sofreu o juízo de Deus na cruz e
agora, todos aqueles que invocam seu nome são salvos, através da cruz.
Nos últimos dias, segundo Douglas Stuart:

O Espírito de Deus estará disponível tanto para jovens e velhos, tanto para
homens como para mulheres, tanto para escravos como livres. Para os
cristãos, o significado dessa expectativa deve ser claro. Aqueles que vivem
na era do Espírito não podem esperar que Deus restrinja qualquer ministério
do Espírito de ninguém, simplesmente porque ele ou ela é velho ou jovem,
masculino ou feminino, ou de alto ou baixo nível social. Onde as igrejas
tentam fazer isso, correm o risco de perder a plenitude das bençãos de
Deus99.

Nós temos a tarefa de anunciar o dia do juízo de Deus contra todos os


pecadores, mas também anunciarmos a vitória de Jesus, pois quem nele crer,
do seu interior fluirão rios de água viva e será derramado sobre eles o Espírito
Santo de Deus. Então, Ele estabelecerá seu Reino para sempre e os selados
pelo Espírito da promessa desfrutarão eternamente da presença do Senhor.

99STUART, Douglas. Hosea–Jonah, vol. 31, Word Biblical Commentary (Dallas: Word,
Incorporated, 2002), 260–262. (tradução nossa).
53

14. ESBOÇO HOMILÉTICO

Texto: Joel 2.28-32/3.1-5 (BHS)

Tema: Deus estabelece um novo relacionamento com seu povo.

Frase de transição: Como Deus estabelece esse novo relacionamento?

1. Prometendo o derramamento do Espírito Santo [v.28-29/ (BHS:1-2)].


2. Prometendo o Dia do Juízo sobre os inimigos [v.30-31/ (BHS:3-4).
3. Prometendo a Salvação para todos aqueles que creem [v.32/ (BHS:5)].
54

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