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UNIVERSIDADE CESUMAR - UNICESUMAR

CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS TECNOLÓGICAS E AGRÁRIAS


CURSO DE GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO

NEUROARQUITETURA, COGNIÇÃO E O EDIFÍCIO ESCOLAR.

LARA GABRIELA LUCIO DOS SANTOS SILVA

MARINGÁ – PR
2021
Lara Gabriela Lucio dos Santos Silva

NEUROARQUITETURA, COGNIÇÃO E O EDIFÍCIO ESCOLAR

Artigo apresentado ao Curso de Graduação em


Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Cesumar – UNICESUMAR como requisito
parcial para a obtenção do título de
Bacharel(a) em Arquitetura e Urbanismo, sob
a orientação da Prof. Me. Norma Eliane Jung.

MARINGÁ – PR
2021
FOLHA DE APROVAÇÃO
LARA GABRIELA LUCIO DOS SANTOS SILVA

NEUROARQUITETURA, COGNIÇÃO E O EDIFÍCIO ESCOLAR

Artigo apresentado ao Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade


Cesumar –UNICESUMAR como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel(a)
em Arquitetura e Urbanismo, sob a orientação do Prof. Me. Norma Eliane Jung.

Aprovado em: 16 de Novembro de 2021.

BANCA EXAMINADORA

Prof . Arq. Amanda M. Danielski.


Nome do professor – (Titulação, nome e Instituição)

Arquiteta e Urbanista. Mariana R. Martinez.


Nome do professor - (Titulação, nome e Instituição)
NEUROARQUITETURA, COGNIÇÃO E O EDIFÍCIO ESCOLAR

Lara Gabriela Lucio dos Santos Silva.1


Norma Eliane Jung.2

RESUMO
A neuroarquitetura desponta como uma área recente, a qual se constitui pela junção de
estudos da neurociência, da ciência cognitiva e da psicologia à Arquitetura e Urbanismo, para
criar possibilidades e dar compreensão à forma, pela qual o ambiente físico interfere no
comportamento humano e, em seu desenvolvimento cognitivo e motor, a curto e a longo
prazo. O objetivo central do trabalho, perpassa a revisão bibliográfica, a fim de analisar o que
é, e como a neuroarquitetura, pode ser aliada ao projeto do edifício escolar, de modo a
influenciar positivamente na melhoria da aprendizagem na Educação Infantil. A pesquisa se
propõe a relatar os processos cognitivos, pelos quais o cérebro passa durante o seu
desenvolvimento, na realização e na construção do conhecimento. Destacando que ambientes
de longa permanência, como a escola por exemplo, podem estar diretamente ligados ao
processo cognitivo. A arquitetura lida com a concepção de espaços físicos humanizados e
funcionais, para isso, toda arquitetura pode ser pensada de modo multissensorial,
especialmente os espaços voltados ao desenvolvimento infantil, principalmente para criar
memórias afetivas nas crianças em idade escolar, as quais serão ativadas em vários momentos
da vida adulta. De tal modo, em virtude dos aspectos investigados, há de se levar em conta
que existem elementos da neuroarquitetura os quais podem ser utilizados, nos edifícios
escolares, para criarem espaços tanto acolhedores, quanto estimulantes para o
desenvolvimento infantil.

Palavras-chave: Educação Infantil. Neurociência. Processos Cognitivos.

1
Graduanda em Arquitetura e Urbanismo pelo Unicesumar, Maringá, Paraná.

2
Arquiteta, mestre, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo do Unicesumar, Maringá, Paraná.
NEUROARCHITECTURE, COGNITION AND THE SCHOOL BUILDING

ABSTRACT

Neuroarchitecture is emerging as a recent area, which is constituted by the joining of


studies from neuroscience, cognitive science and psychology to architecture and urbanism, to
create possibilities and give understanding to the way in which the physical environment
interferes with human behavior and, in their short and long term cognitive and motor
development. The main objective of the work permeates the literature review, in order to
analyze what it is, and how neuroarchitecture can be combined with the school building
project, in order to positively influence the improvement of child Education. The research
aims to report. the cognitive processes the brain goes through during its development, in the
realization and construction of knowledge. Emphasizing that long-term environments, such as
school for example, can be directly linked to the cognitive process. Architecture deals with
the conception of humanized and functional physical spaces, for this, all architecture can be
thought of in a multisensory way, especially spaces aimed at child development, mainly to
create affective memories in school-age children, which will be activated in several moments
of adult life. Therefore, due to the aspects investigated, it must be taken into account that there
are elements of neuroarchitecture which can be used, in school buildings, to create spaces that
are both welcoming and stimulating for child development.

Keywords: Child Education. Neuroscience. Cognitive Processes.


1. INTRODUÇÃO

A educação infantil pode ser muito bem planejada, estruturada e organizada


pedagogicamente por profissionais especializados da área educacional, principalmente se
considerar o fato de que a fase inicial de aprendizagem das crianças, conhecida como primeira
infância; a qual se refere ao tempo de recebimento de estímulos positivos ou negativos sobre
os sentimentos e a capacidade cognitiva para assimilar e compreender as informações,
principalmente as utilizadas no futuro. Pesquisas recentes apontam para o aumento de casos
dos distúrbios de aprendizagem e dificuldade de concentração nas escolas, fatores que
induzem ao desânimo e a consequente evasão escolar; fato relevante, pois tem sido observado
no nível educacional de alunos quando avaliados em mudanças de série, ou ao ingressarem no
mercado de trabalho.
Os estudos na área da neurociência têm sido base para pesquisas sobre o cérebro
humano, no que se refere a plasticidade cerebral nas áreas de desenvolvimento cognitivo,
afetivo e motor. Da neurociência derivam os estudos de neuromarketing, o qual se dedica ao
entendimento das estratégias de persuasão do cliente, e entre estes a neuroarquitetura vai
descrever os elementos e as condições favoráveis à integração entre espaço e usuário, com o
propósito de estimular positivamente a reação cognitiva das pessoas.
O desenvolvimento cognitivo das crianças vem sendo cada vez mais estudado pela
neurociência a fim de melhorar as relações interpessoais e profissionais do ser humano,
despontando como motivo de extrema importância, a fim de se conhecer as necessidades do
público infantil, estimulando a autonomia no pensar e agir na vida adulta.
Dessa forma, a pesquisa buscou embasamento teórico a respeito dos princípios
utilizados pela neuroarquitetura, no tocante ao desenvolvimento de edifícios escolares, os
quais possam proporcionar o melhor desenvolvimento cognitivo infantil. O artigo foi
estruturado em quatro tópicos, inicialmente apresenta a definição de neurociência, bem como
o modo que são realizados os estudos a respeito das reações do cérebro humano ao ambiente
e, relacionado a estudos sobre neuromarketing e neuroarquitetura. O segundo tópico se refere
às fases do desenvolvimento cognitivo infantil, na sequência, o estudo descreve o modelo
atual de edifícios escolares, bem como alternativas em que os princípios da neuroarquitetura
podem ser utilizados para a melhoria dos edifícios. Por fim será exemplificado os princípios
utilizados em três escolas da Educação Infantil, para que dessa forma seja possível chegar a
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um modo de projetar edifícios escolares os quais possibilitem a melhoria da aprendizagem


infantil.

2. NEUROCIÊNCIA

De acordo com Nascimento (2011, p.24), a neurociência é o estudo do sistema


nervoso, suas funções e estrutura, no qual o principal objetivo é o desenvolvimento ao longo
da vida, por meio de atividades intelectuais (e.g. linguagem, reconhecimento das formas,
resolução de problemas e planificação das ações). Os estudos a respeito do cérebro humano
apontam para uma divisão desse sistema, composto por três partes, sendo elas: o cérebro, os
nervos periféricos e a medula espinhal, sendo cada parte responsável por coordenar as
atividades voluntárias e involuntárias do ser humano.
Por se tratar de uma ciência extremamente complexa, está dividida em cinco campos
específicos, os quais em conjunto formam o sistema nervoso por completo, sendo eles:
neurofisiologia, neuroanatomia, neuropsicologia, neurocomportamental e neurociência
cognitiva. Cada um destes campos, são responsáveis pelo estudo de uma área cerebral, tais
como as suas relações com o corpo (i.e. permitem descobrir as causas e apontar soluções para
diversas doenças como Parkinson, Alzheimer e epilepsia). Para esse estudo é importante
ressaltar que os campos da neurociência comportamental e cognitiva estão respectivamente
ligados aos pensamentos, emoções e ao raciocínio, relacionando esses processos mentais
diretamente a neuroarquitetura.
Segundo Paiva (2020) a neuroarquitetura pode ser definida como a junção dos estudos
da neurociência, da ciência cognitiva e da psicologia à Arquitetura e Urbanismo, buscando
compreender de forma ampla como o ambiente afeta e interfere no comportamento humano a
curto e a longo prazo. O termo “neuroarquitetura” foi utilizado primeiramente pelo Dr. Fred
Gage, pesquisador do Instituto Salk e Estudos Biológicos em La Jolla, em 2003 em um
discurso de abertura para AIA (convenção nacional do Instituto Americano de Arquitetos),
oficializando o reconhecimento da ANFA (Academia de Neurociência para Arquitetura)
criada em 2002 se tornando a instituição responsável pelos avanços das pesquisas na área da
neuroarquitetura.
Segundo indicam as pesquisas sobre o tema, os elementos que compõem os espaços
construídos, exercem influências positivas e negativas sobre os usuários, maximizando,
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minimizando ou neutralizando sensações, emoções e comportamentos, a partir das condições


de escala e proporção, incidência e intensidade de iluminação natural e artificial, presença de
ventilação natural e renovação do ar e os efeitos psicodinâmicos causados pelas cores e
texturas.
Ao ter contato com esses elementos, o cérebro humano realiza uma leitura espacial e o
organismo reage com a liberação de hormônios, os quais podem ser medidos de diversas
formas (e.g. através dos sinais vitais, do batimento cardíaco, da sudorese da pele e da pressão
sanguínea). Dessa forma, ao projetar um espaço de acordo com as necessidades funcionais
que uma atividade exige, pode-se observar com a mesma importância esses fatores e as suas
relações com os usuários e suas ações.
Estudos recentes na área da Epigenética, sugerem que o ambiente pode interferir no
funcionamento do gene humano. Modificações genéticas são consideradas naturais, porém
algumas alterações podem fugir do padrão e levar ao desenvolvimento de doenças psíquicas,
como por exemplo a esquizofrenia. Por se tratar de um estudo recente, ainda há debates, se
realmente existe esta interação genoma-ambiente, ou seja, inexistem respostas claras, porém
os arquitetos e urbanistas podem considerar os atuais estudos, sem deixar passarem
despercebidos, até que sejam realmente comprovados. É preciso destacar, a epigenética não
sugere que haja uma mudança no DNA das pessoas e, sim, havendo uma pré-disposição
genética à essas doenças, o ambiente pode ativá-la dependendo da forma a qual for
estimulada. (PAIVA, 2020).
Em consonância com os estudos sobre a neuroarquitetura, cabe também avaliar
àqueles relacionados ao neuromarketing, os quais estão interessados em prever o
comportamento do consumidor, tomando como base o processamento da informação captada
pelo cérebro, identificando o impacto emocional de um produto. O neuromarketing busca
alternativas as quais afetam diretamente o sistema límbico do cérebro, o responsável pelas
respostas a respeito da emoção, comportamento e memória, aspectos os quais também são do
interesse da neuroarquitetura, estando o primeiro focado nos efeitos impulsivos relacionados
ao desejo de consumir e o segundo, interessado em proporcionar condições de bem estar
(MARTINSON, 2019).
O pesquisador de Harvard, Gerald Zaltman utilizou equipamentos de ressonância
magnética com o intuito de mapear a atividade do cérebro humano, ao ser estimulado por
ações de marketing, para poder saber como eram as reações, as quais levariam alguém a
decidir por uma marca A ou B. Com o estudo foi concluído, símbolos, cores, textos e
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mensagens subliminares funcionam como gatilhos mentais, os quais provocam o cérebro ao


desejo por algo, ou seja, realizar a compra do produto que chama atenção.
Sendo assim, diversas empresas colocaram em prática a teoria do neuromarketing, a
fim de realizarem maiores vendas, como por exemplo a marca de sopas Campbell (Fig. 1), a
qual decidiu modificar a embalagem do seu produto utilizando estratégias como a adição de
fumaça, pois a mesma passa a sensação do calor da sopa, a exclusão da colher que
antigamente existia, pois era indiferente na embalagem, a mudança de recipiente e a adição de
cores mais vibrantes, as quais chamam a atenção.
Figura 1

Fig. 1. Antiga embalagem da marca “Campbell” (a esquerda) e nova embalagem utilizando neuromarketing (a
direita). Fonte: Google imagens.

Outro estudo importante para exemplificar o neuromarketing, foi o denominado:


“Coca-cola x Pepsi”, utilizando equipamento de ressonância magnética e, realizado em duas
etapas. A primeira realizada às cegas, na qual as pessoas experimentaram ambas as bebidas,
notou-se preferências bem equilibradas, na segunda etapa, cada consumidor experimentava
dois copos com a mesma bebida, porém apenas um dos copos era identificado com a marca da
bebida, o experimento se repetiu com ambas as bebidas. O resultado da segunda etapa,
registrou que o cérebro foi mais ativado quando as pessoas ingeriram a bebida do copo
identificado com o nome da bebida, por exemplo: Coca-Cola, sendo essas atividades cerebrais
localizadas principalmente na região da memória. Com isso, o estudo pode concluir que a
preferência pela bebida, estava diretamente ligada a reativação de uma memória afetiva
existente, ligada a sensação de felicidade a qual a marca transparece em suas propagandas.
Dessa forma, levando em consideração esses efeitos causados pelo neuromarketing, a área
da neuroarquitetura também pode propor estratégias, as quais recuperem a memória afetiva
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dos usuários em um determinado espaço construído. Diante do exposto, cabe refletir sobre
como a configuração e as características físicas de uma edificação podem interferir em um
processo de desenvolvimento intelectual e cognitivo, como aquele que ocorre em edificações
escolares para crianças, sendo o estímulo, a interação fatores indispensáveis para o
aprendizado e o fortalecimento emocional. Para tanto, se faz necessário fundamentar-se sobre
a cognição infantil e como ela se manifesta.

3. COGNIÇÃO INFANTIL

Segundo Nascimento (2011), o termo “cognição” pode ser definido, como a maneira
que o cérebro humano percebe, pensa, aprende e recorda uma informação (i.e. habilidades
mentais básicas para a construção do conhecimento). Estes processos cognitivos estão
relacionados ao desenvolvimento do pensamento, raciocínio, imaginação, memória e outras
características importantes para a compreensão de determinados assuntos, como para realizar
a solução de problemas por meio do raciocínio, além da interação com outras pessoas e o
ambiente no qual se vive.

“Aprendizagem, nada mais é do que esse maravilhoso e complexo processo pelo qual o
cérebro reage aos estímulos do ambiente, ativa essas sinapses (ligações entre os neurônios
por onde passam os estímulos), tornando-as mais intensas” (NASCIMENTO, 2011 p. 28).

As crianças constroem seu conhecimento a partir da realidade vivenciada e através do


relacionamento com os outros. Esse processo de aprendizagem acontece de forma lenta e
através de estágios, iniciando no ventre da mãe e recebendo as principais influências durante a
primeira infância. Jean Piaget, importante psicólogo suíço, desenvolveu a teoria do
desenvolvimento cognitivo da criança explicada através de fases de aprendizagem.
Para Piaget (1987) o desenvolvimento intelectual age da mesma forma do
desenvolvimento biológico, sempre buscando a adaptação ao meio ambiente, não podendo ser
separado do funcionamento do organismo. Segundo o psicólogo, são definidos quatro
estágios, chamados de fases de transição, as quais as crianças passam a desenvolver
determinadas habilidades, sendo: a sensório- motor (0 – 2 anos), pré-operatório (2 – 7 ou 8
anos), operatório- concreto (8 – 11 anos) e operatório- formal (8 – 14 anos).
Na primeira fase, a inteligência da criança é prática e realiza principalmente ações de
reflexo para o reconhecimento do espaço, como por exemplo atividades como tocar, agarrar,
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chorar e levar objetos a boca. Na fase do pré-operatório, estágio também conhecido como
Inteligência Simbólica, a criança se encontra em uma fase mais egocêntrica, em que não
consegue se colocar no lugar do outro, e para tudo é necessária uma explicação concreta.
Durante a terceira fase, a criança passa a desenvolver noções de tempo, espaço e velocidade,
porém dependente de situações concretas para assimilar as informações. Por fim, na fase
operatório-formal as estruturas cognitivas das crianças atingem o nível mais elevado de seu
desenvolvimento, a partir deste momento a criança se torna capaz de pensar logicamente,
formular hipóteses e buscar soluções.
Por fim, as considerações finais em seus estudos, Piaget considerou dois fatores que
influenciam no processo de desenvolvimento cognitivo, chamados de fatores invariantes e
variantes. Primeiramente, os fatores invariantes são aqueles herdados biologicamente dos pais
e, permanecem constantes ao longo de toda a vida, em contrapartida, os fatores variantes
tratam de características desenvolvidas de acordo com o meio no qual a criança está inserida
em seus primeiros anos de vida, principalmente ambientes de longa permanência como a casa
e a escola.
Segundo Varela (2020), as escolas tradicionais ignoravam a individualidade das crianças
fazendo com que se sentissem desamparadas, excluídas e impossibilitadas de aprender. Dessa
forma, em consonância com as ideias de Piaget, a pedagogia montessoriana de ensinar, criada
pela médica e pedagoga Maria Montessori, a mesma dedicou-se a estudos voltados para o
desenvolvimento humano, relacionados a educação e aprendizagem infantil. Ciente de tal fato
e atenta a melhoria do desenvolvimento infantil, Maria Montessori se esmerou na aplicação
de um método novo, centrado no modo de ensinar, o qual valoriza a individualidade,
autonomia e a responsabilidade de cada criança.
Segundo a pedagoga, “A criança cria a própria ‘carne mental’, usando as coisas que se
encontram no seu ambiente”, pois apresenta um tipo de mente denominada de “mente
absorvente” (MONTESSORI, ‘Mente Absorvente’- 1949, p.36). O método foi estruturado em
seis pilares, a fim de explicitar e entender a forma de aprendizagem, de acordo com a nova
concepção de educação, levando em conta principalmente a autonomia das crianças e o
espaço no qual estão inseridas.
De acordo com Varela (2020) o primeiro pilar é o ambiente organizado para incentivar o
desenvolvimento físico e psicológico da criança, podendo ser realizado por meio de móveis
baixos e fáceis de serem acessados, estimulando o cuidado e a organização dos objetos
utilizados nas brincadeiras. O segundo pilar se refere a autoeducação, pois a pesquisadora
observa o fato de o ato de aprender das crianças ser algo natural, sendo assim, o convívio com
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crianças de outras idades é importante, porque as crianças mais velhas servem de exemplo
para as mais novas, e as crianças mais novas servem para criar o senso de empatia e cuidado
para com as mais velhas. O terceiro pilar é denominado educação como ciência, por estimular
o aluno a desenvolver seus conhecimentos em conjunto com os colegas e auxílio do professor.
O quarto pilar é denominado educação cósmica, na qual o educador mostra caminhos lógicos
para a assimilação das informações recebidas, sendo responsável por estimular a criatividade.
O quinto pilar é o adulto preparado, o adulto pode fornecer à criança um ambiente preparado e
a assistência necessária, a fim de realizar o que necessita, porém, interferindo o mínimo
possível na autonomia da criança. Por fim, em último, está o pilar da criança equilibrada;
Montessori acredita que ao desenvolver todos os pilares anteriores e com um ambiente
adequado a criança estará preparada para desenvolver-se de forma empática e calma, com
habilidade de concentração, responsabilidade e autonomia.
Os apontamentos acima, embasam a ação de podermos utilizar os estudos realizados por
Piaget e por Montessori a fim de criar espaços escolares devidamente preparados para ensinar
as crianças de forma eficiente e, com o cuidado necessário, sem perderem a fase principal de
sua vida, a infância. A decisão em propor uma forma de melhorar os espaços escolares, parte
do necessário, isto é, entender a maneira de pensar os edifícios escolares atualmente e analisar
a forma como a arquitetura pode ser inserida, no intuito de realizar essas melhorias.

4. EDIFÍCIOS ESCOLARES

Segundo Gamboias (2013) o processo de manifestação da percepção do espaço, ocorre


de forma diferente para cada pessoa, porém por meio dos sentidos o corpo recebe estímulos,
os quais são absorvidos e interpretados para a percepção das informações presentes no espaço,
em consonância com este ponto de vista, afirma Pallasma (2011)

“Toda experiência comovente com a arquitetura é multissensorial; as características de


espaço, matéria e escala são medidas igualmente por nossos olhos, nariz, pele, língua,
esqueleto e músculos”. (PALLASMA 2011 p. )

Ao analisar os modos de percepção do espaço, pode-se compreender como o corpo e a


mente notoriamente funcionam como um só, na ação de um complementar o outro, ou seja, o
corpo (sensorial) absorve os estímulos e a mente os interpreta de acordo com a memória e as
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emoções individuais, e para Gamboias (2013), é durante a infância que se inicia o processo de
armazenar as memórias para criar sensações.
Segundo Pallasma (2011), os seres humanos tendem a levar mais em consideração o
primeiro impacto resultante da visão, porém a visão deve ser considerada uma extensão do
tato, uma vez que todas as interações com o espaço estão relacionadas a pele, e a visão é um
sentido imediatista, sendo que os outros sentidos podem trazer experiências mais profundas,
ao usuário do espaço.

“Os olhos querem colaborar com os outros sentidos. Todos os sentidos, inclusive a
visão, podem ser considerados como extensões do tato” (PALLASMA 2011 p.39)

A acústica cria uma experiência de interioridade com o ouvinte, pois quando se é


abordado por um som, ocorre a busca pela memória afetiva relacionada ao sentimento que a
música, ou a natureza, transmite a quem escuta. O mesmo pode ocorrer com o olfato e o
paladar, uma vez acessada a memória, estes dois sentidos podem transmitir sensações
esquecidas pela visão, e assim convidar a sonhar acordado. (PALLASMA 2011 p. 51).
A partir da análise dos aspectos anteriormente citados aplicados, a espaços edificados,
e em especial de edifícios escolares infantis, observa-se o desinteresse ou a desinformação dos
arquitetos sobre a importância das memórias afetivas para as acrianças. De acordo com
Kowaltowski (2011) as escolas públicas brasileiras são divididas em três níveis: infantil (de 0
a 6 anos), fundamental e médio, ressaltando a importante ação de passagem de nível para o
ensino fundamental, pois acontece aos seis anos, num momento no qual a criança se encontra
no desenvolvimento motor e cognitivo, e iniciando a aprendizagem do pensamento lógico.
Segundo a autora, o aspecto físico do ambiente escolar, contribui para a produtividade dos
alunos e professores, e por isso cabe ao arquiteto buscar formas de relacionar o ser humano ao
ambiente propondo experiências de convivência, as quais tragam a sensação de acolhimento e
segurança, levando em conta os fatores de fatores como luz, cores, texturas e simbologias.
Segundo Migliani (2020), ao projetar espaços de acordo com os princípios da
Neuroarquitetura, deve-se lembrar que cada um percebe e reage ao ambiente de uma forma
diferente, sendo assim, não existem regras absolutas a serem seguidas durante o processo de
projeto, porém é preciso cuidar para que o usuário se sinta pertencente ao local, possibilitando
criar memórias afetivas ao longo de sua vida. No caso das crianças é necessário um cuidado
redobrado, uma vez que os primeiros anos de vida de uma pessoa são determinantes para a
formação da sua personalidade, caráter e autoestima.
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As crianças absorvem estímulos do ambiente de forma inconsciente, principalmente


por meio das sensações, e por isso, certos fatores devem ser considerados ao projetar um
ambiente de longa permanência, para que influenciem positivamente os quatro principais
sentidos da criança (visão, olfato, audição e tato). Reis (2019) explica os principais recursos
arquitetônicos usados para estimular a aprendizagem infantil, são: a cor, a luz natural e
artificial, a textura, o som, o layout, o mobiliário e o paisagismo.
A cor é um elemento e ao ser utilizado pode trazer sensação de estímulo ou relaxamento.
Ao utilizar cores quentes (e.g. amarelo ou vermelho) há o aumento da atividade cerebral
levando a uma sensação de agitação e ao usar cores frias (azul ou verde), proporciona a
sensação de relaxamento e calma. Sendo assim, deve-se balancear o uso dos dois tipos de
cores em ambientes os quais precisem de concentração ou de relaxamento.

“A luz natural é um fator muito importante na hora de projetar qualquer tipo de


ambiente, no caso do ambiente de estudo, uma boa iluminação natural possui
efeito revigorante em diferentes horários do dia, da mesma forma, a luz artificial
também é importante, pois com a mudança da posição do sol durante o dia pode
ocorrer a existência de sombras e um ambiente bem iluminado mantém a criança
ativa e concentrada” (REIS, 2019 p. 23).

Para despertar o tato podem ser utilizadas diferentes texturas possíveis de serem tocadas,
como por exemplo granito e metal, para sensações lisas e frias, madeira para a sensação do
calor e acolhimento, o vidro tem a capacidade de mudar a sensação de acordo com a
exposição ao sol e, revestimentos em 3D de diversos tipos de materiais. Essas texturas podem
estar relacionadas ao som, por apresentarem diferentes sons, ao toque e, à passagem
(materiais diferentes no piso, por exemplo), locais de silêncio também são importantes e para
isso materiais com isolamento acústico podem ser utilizados.
O layout é um elemento arquitetônico importante a ser pensado, principalmente no design
de interiores de um ambiente escolar. O layout tradicional não permite a troca de informações
entre os alunos, por estar centralizado no professor, ao contrário do método Montessori o qual
propõe que a criança precisa se desenvolver de forma autônoma, com o mínimo de influência
do adulto. Sendo assim, o mobiliário, bem como o layout, pode ser proposto em atenção a
autonomia da criança e com a ergonomia necessária, para um bom desenvolvimento físico e
psicológico.
Por fim, a presença do paisagismo se liga à forma com que o contato com a natureza
influencia na saúde das crianças, além disso, os ambientes com mais vegetação, têm melhores
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condições de conforto térmico, e desenvolvem o sentido do olfato nas crianças, por meio do
cultivo de plantas aromáticas.

“A influência que uma área verde possui em um ambiente não está limitada unicamente à
contemplação do usuário em sua beleza, mas sim ao processo de interação do corpo com
o meio que existe no simples ato de observar e até mesmo cuidar das plantas e flores”.
(REIS 2019 p.33).

Sendo assim, ao englobar os principais sentidos do ser humano, ao modo de projetar


edifícios, principalmente os escolares, se torna possível forjar espaços os quais interajam com
as pessoas proporcionando a criação de boas memórias, levando para o seu futuro pontos
positivos para ajudarem na evolução das novas gerações, tanto cognitiva quanto motora.
Dessa forma, para elucidar melhor os princípios da neuroarquitetura, os quais podem ser
empregados no ambiente escolar, é necessário utilizar exemplos de edifícios existentes na
sociedade e levar em consideração as inúmeras pesquisas desenvolvidas na área da
neurociência, cujas quais podem ser aplicadas na neuroarquitetura.

5. EVIDÊNCIAS DA NEUROARQUITETURA EM ESCOLAS

Como exposto anteriormente, de acordo com a neuroarquitetura, existem características


em um edifício, as quais devem ser pensados num ambiente de longa permanência, a fim de
transmitir influências positivas ao longo da vida de uma pessoa, principalmente quando se
pensa em edifícios para a educação infantil, em especial as crianças que se encontram em um
estágio de mente absorvente, como explica Montessori. Levando em consideração luz (natural
e artificial), ventilação, cor, mobiliário, layout, texturas e paisagismo, pode-se realizar uma
análise do ambiente escolar e propor melhorias, com o intuito de que o ambiente influencie o
mais positivamente possível na aprendizagem infantil.
Para essa demonstração, foram escolhidas três escolas de ensino primário, as quais estão
localizadas em países distintos. A primeira, a ser citada, é a Escola Primária Wilkes,
localizada na ilha Bainbridge nos Estados Unidos, possui 5.987 m² de área e foi projetada
pelos arquitetos do escritório Mahlum em 2012 (Fig. 2).
De acordo com os princípios de neuroarquitetura, um dos principais atrativos dessa escola
é a iluminação natural, o destaque está nos grandes planos de vidro, possibilitando a
conectividade visual entre os espaços, transformando todos os ambientes em locais de
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aprendizagem, existe na escola a iluminação artificial de ambientes, sendo discreta, porém


eficiente.
O paisagismo é amplamente evidenciado do lado externo, onde ocorre a interação das
crianças com o espaço, não se encontram grandes árvores, as quais necessitam de maior
exposição solar, e, por se tratar de um país com clima frio rigoroso.
Pode-se perceber o uso de diversas cores no interior do projeto, porém ainda se faz
necessária melhorias para trazer a influência específica de cada tipo de cor, além disso, o
layout e o mobiliário poderiam ser modificados, criando um ambiente que gere maior
autonomia das crianças.
Figura 2.

Fig. 2 -Escola primária Wilkes.A) e B) paisagismo externo da escola. C) e D) design interior. Fonte: Archdaily

A Escola Primária Nía, localizada na Cidade do México, possui 605 m² de área e foi
projetada pelo escritório Sulkin Askenazi em 2019 (Fig. 3).
O destaque fica por conta de possuir ambientes interativos para as crianças, estimulando
o lado criativo de forma a ser bem desenvolvido, podendo perceber que o layout e o
mobiliário são pensados para que as crianças desenvolvam liberdade de decisões, seguindo o
sugerido pelo método montessoriano.
No espaço escolar é explorado o uso de diversas texturas como madeira, metais e carpete,
os quais desenvolvem efetivamente o tato. O paisagismo externo permite que as crianças
explorem diversas sensações.
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Em contrapartida, o único elemento pouco explorado é o uso das cores, pois o autor do
projeto utiliza predominantemente os materiais naturais.

Figura 3.

Fig. 3. Escola primária Nía. A) e B) Layout e mobiliário interno. C) Paisagismo externo e a interação com as
crianças. Fonte: Archdaily.

A Escola MMG, localizada no Vietnã, possui 600 m² de área e foi projetada pelo
escritório HGAA em 2020 (Fig. 4). Por se tratar de uma escola com princípios
montessorianos, a autonomia das crianças é muito considerada, sendo assim os princípios de
layout e mobiliários são pensados, a fim de que as crianças tenham a liberdade de realizar
qualquer necessidade sozinha.
Um ponto diferencial desse projeto é o uso da vegetação em todo o ambiente escolar,
com a presença de plantas de diversas espécies e de horta, permitindo o acesso das crianças,
sendo, desta forma um princípio importante para estimular a integração das mesmas à
natureza e desenvolver principalmente o aumento da imunidade.
Além disso, a iluminação e ventilação natural foram levadas em consideração durante a
realização do projeto, e também pode-se notar o uso dos materiais em sua textura natural,
como a madeira por exemplo.
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Figura 4.

Fig. 4. Escola MMG. A) Paisagismo externo. B) Interação das crianças com a horta. C) e D) Layout internos. E)
Corte esquemático ilustrando iluminação e ventilação natural. Fonte: Archdaily.

Por fim, as três escolas demonstradas são bons exemplos de como utilizar os princípios
da neuroarquitetura na construção de edifícios escolares, ressaltando o uso de elementos na
escola MMG proporcionando um melhor atendimento aos princípios neuroarquitetônicos.
Cada vez mais os arquitetos têm demonstrado interesse em projetar espaços humanizados, e a
arquitetura escolar pode receber modificações, em todo o mundo, pois as crianças estão no
momento apropriado de contato com o ambiente de longa permanência, possibilitando
modificar todo o futuro das pessoas, e apesar de se tratar de uma mudança consideravelmente
lenta, em nada a torna menos importante.
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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de desenvolvimento cognitivo infantil é considerado lento e gradual,


promovido por meio de estágios conforme estudado por Jean Piaget, sendo que os principais
estímulos são realizados durante a primeira infância. A capacidade cognitiva da criança reage
a estímulos do ambiente, na qual se encontra, de forma inconsciente, sendo assim, se torna
importante realizar a criação de espaços, os quais permitam maior autonomia para que a
criança vivencie o processo de ensino-aprendizagem de forma natural.

Com o intuito de melhorar o modo de projetar edifícios, a arquitetura buscou aliar-se a


estudos da neurociência para entender a forma como o cérebro humano reage a estímulos do
ambiente, no qual estão inseridos e como esses ambientes interferem no pensamento, emoções
e no comportamento em curto e longo prazo. Esses espaços interferem principalmente durante
a infância, espaço de tempo no qual o cérebro ainda em desenvolvimento e age como uma
esponja, absorvendo todas as emoções que o espaço transmite, gerando consequências a longo
prazo.

A arquitetura pode ser pensada de modo multissensorial, uma vez comprovado que os
órgãos sensoriais são responsáveis por ativar memórias, criadas durante a infância, “Uma obra
de arquitetura não é experimentada como uma série de imagens isoladas na retina, e sim em
sua essência material, corpórea e espiritual totalmente integrada” (PALLASMA, 2011 p. 11),
sendo assim, existem princípios da neuroarquitetura, os quais podem ser explorados para criar
ambientes, proporcionando a ativação cerebral de forma positiva.

Os principais elementos, a serem considerados importantes para ativar o modo


multissensorial, são: iluminação, ventilação, layout, mobiliário, paisagismo e cores, os quais
ao serem utilizados da forma apropriada, podem colaborar na construção de edifícios
escolares, com intuito de melhorarem os níveis de aprendizagem infantil, a fim de serem bem
estimulados na infância, pois a escola é considerada um local de longa permanência, e se
torna espaço adequado para receber as contribuições da neuroarquitetura, criando espaços
tanto acolhedores, quanto estimulantes para o desenvolvimento infantil. ou seja, a
neuroarquitetura pode possibilitar a melhoria nas relações interpessoais e profissionais dos
adultos.
19

REFERÊNCIAS

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https://www.archdaily.com.br/br/930897/escola-nia-sulkin-
askenazi?ad_source=search&ad_medium=search_result_all. Acesso em: 30 abr. 2021.

ARCHDAILY, Escola primária Wilkes/ Mahlum. Disponível em:


https://www.archdaily.com.br/br/765252/escola-primaria-wilkes-
mahlum?ad_source=search&ad_medium=search_result_all. Acesso em 30 abr. 2021.

ARCHDAILY. MMG escola infantil montessoriana/ HGAA. Disponível em:


https://www.archdaily.com.br/br/941924/mmg-escola-infatil-montessoriana-
hgaa?ad_source=search&ad_medium=search_result_all. Acesso em: 30 abr. 2021.

GAMBOIAS, Hugo Filipe. D. Arquitetura com sentido (s): Os sentidos como modo de
viver a arquitetura. Departamento de Arquitetura da FCTUC, 2013.
KOWALTOWSKI, Doris C.C.K. Arquitetura escolar: o projeto do ambiente de ensino.
São Paulo. Editora Oficina de textos. 2011.
MARTINSON, Júlia. Neuromarketing: entenda o que é e veja como ele funciona na
prática. 2019. Disponível em: https://resultadosdigitais.com.br/agencias/o-que-e-
neuromarketing. Acesso em: 03 abr. 2021.
MIGLIANI, Audrey. Neuroarquitetura aplicada a projetos para crianças. 2020.
Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/941959/neuroarquitetura-aplicada-a-
arquiteturas-para-criancas. Acesso em: 04 abr. 2021
MONTESSORI, Maria. Mente absorvente. 1949. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1987
(tradução de Wilma Freitas Ronald de Carvalho).

NASCIMENTO, Maria José Soares do. O papel da neurociência no processo de


aprendizagem. Universidade Candido Meneses. Rio de Janeiro, 2011.

PAIVA, Andréa. Epigenética e Neuroarquitetura: até onde o meio pode nos impactar?
2020. Disponível em: https://www.neuroau.com/post/epigen%C3%A9tica-e-
neuroarquitetura-at%C3%A9-onde-o-meio-pode-nos-impactar. Acesso em: 20 abr. 2021.

PAIVA, Andréa. NeuroArquitetura: o que é isso? 2020. Disponível em:


https://www.neuroau.com/post/neuroarquitetura-o-que-%C3%A9-isso. Acesso em: 03 abr.
2021.
PALLASMA, Juhani. Os olhos da pele: A arquitetura dos sentidos. tradução técnica:
Alexandre Salvaterra, dados eletrônicos, Porto Alegre, Bookman 2011.
PIAGET, J. A construção do conhecimento. São Paulo: Secretaria de Estado da Educação.
Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, 1987.
REIS, Maiara Fonseca. Neurociência aplicada à arquitetura no espaço do ensino escolar
primário. Universidade Federal de Ouro Preto. Ouro Preto – MG. 2019
20

VARELA, Leandro. Método Montessoriano: quando surgiu? Em que consiste? 2020.


Disponível em: https://blog.casatema.com.br/metodo-montessoriano-quando-surgiu-em-que-
consiste/. Acesso em: 10 abr. 2021.
TEMA TERRENO

O terreno está localizado no bairro Jardim Aclimação, na esquina da Avenida


De acordo com as pesquisas realizadas a respeito da neuroarquitetura voltada
Senador Petrônio Portela, Rua Paraguai e Rua José Moreno Junior. Possui testada
para a educação, pode-se chegar a conclusão de que existem estratégias que
de 96m para Av. Petronio Portela e R. José Moreno Junior e 65m de testada para
podem melhorar efetivamente a qualidade do ensino de diversas idades. O
R. Paraguai e possui topografia sem desníveis consideráveis, uma vez que o
conhecimento dos métodos da neuroarquitetura já vem sendo muito buscado,
terreno já foi planificado. Levando em consideração a legislação existente para o
porém ainda não é muito aplicado com eficiência, principalmente no Brasil, e
terreno, é possível construir térreo + 7 pavimentos, com coeficiente máximo de
além disso, a aplicação desses conceitos tem como prioridade os alunos da
aproveitamento de 2,5, sendo assim, a área máxima permitida é de 15.600 m².
primeira infância. Como pode-se concluir no artigo, as fases de aprendizagem de
uma criança se dão até pelo menos os 14 anos, sendo assim, é necessário Vento predominante Manhã

estender os conceitos da neuroarquitetura para crianças de ensino fundamental


e médio também.
Dessa forma, será realizado o projeto de uma escola de ensino fundamental e
médio, o qual utilize os conceitos da neuroarquitetura educacional para

l
so
do
melhorar o nível de aprendizagem dos alunos. A escola poderá funcionar nos

ia
ór
turnos matutino e vespertino, com capacidade para 480 alunos, podendo ser

et
aj
ajustados em 24 turmas de 20 alunos.

Tr
A: 6.240 m²
LOCALIZAÇÃO

Tarde

Maringá é uma cidade ótima para se viver, possui uma boa infraestrutura de
educação, segurança e saúde. Sendo assim o local escolhido para o projeto foi LEGISLAÇÃO
próximo a região que será implantado o novo loteamento Eurogarden, uma vez
que com o aumento populacional na região, será necessário o aumento de vagas
para educação, e as escolas existentes na região não serão capazes de oferecer
as vagas necessárias.

ESCOLA
JEAN
PIAGET

1/15
Esquina Av Petronio Portela / R Paraguai Esquina R José Moreno Junior / R Paraguai
Imagem Google Maps. Imagem Google Maps.
CORRELATOS

COLÉGIO POSITIVO FUNDAÇÃO ZERRENNER


O colégio foi implantado dentro do campus da Universidade Positivo,
FICHA TÉCNICA
aproveitando toda a infraestrutura esportiva, cultural e de laboratórios
Local: Sete Lagoas MG, Brasil
disponível. O programa se organiza através de um monobloco linear, com
Escritório: Gustavo Penna
estrutura em concreto, onde estão alocados as “funções tipo” - salas de aula e
Arquiteto e Associados
laboratórios e um volume irregular, em estrutura metálica, que abriga as
Início do projeto: 2011
“funções singulares” - como biblioteca e administração. O pátio coberto, é o
Conclusão da obra: 2016
elemento principal, articulador dos setores e o grande espaço de convívio dos
Área do terreno: 36.067 m²
alunos.
Área construída: 25.808 m²
A permeabilidade visual é explorada sempre que possível, integrando o
Capacidade: 2.500 alunos
colégio ao conjunto da universidade, através das peles de vidro e principalmente
dos painéis de vedação em telhas metálicas perfuradas. Os painéis permitem a
conexão visual com os espaços externos, ao mesmo tempo que maximizam a
ventilação e iluminação natural, reforçada também pelo zenital do jardim
interno. O uso de cores quentes, em tons de amarelo, laranja e vermelho,
conferem identidade ao edifício e estimula as percepções sensoriais das
crianças.
Alinhado à filosofia ambiental da instituição e buscando inspirar os seus
alunos, o partido adota várias estratégias sustentáveis: aproveitamento dos O complexo educacional da fundação Zerrenner (Ambev), é definido por um
platôs existentes para implantação do edifício minimizando o impacto e grande pórtico curvo, que catalisa as saudações de boas-vindas, este elemento
movimento de terra no local, gestão de resíduos na obra, correta orientação da fachada indica o acesso e articula internamente os principais volumes
solar com salas voltadas para o norte, ventilação cruzada, aproveitamento da luz compostos por 3 blocos: Escola primária e secundária para o sul, Escola Técnica
natural através de zenital, proteção solar com brises, seleção de materiais, para o norte. No centro está o bloco do auditório e ginásio, permitindo funções
consumo sustentável de água, reaproveitamento de águas pluviais, eficiência externas e internas. A distribuição dos volumes respeitou a orientação norte-sul,
energética, luminárias inteligentes, conforto térmico, visual e acústico, favorável para o uso educacional. Além disto, suas formas vazadas são
paisagismo com espécies nativas, entre outros. O colégio foi o primeiro edifício permeáveis aos ventos da região, beneficiando o conforto térmico.
de ensino no Brasil a receber a certificação ambiental LEED - nível Ouro. No centro do terreno uma grande praça une os três blocos. Nela coexistem
diversos usos: de um lado, a área institucional, do outro, a área esportiva. Uma
FICHA TÉCNICA grande torre d´água, com um relógio, coroa o espaço, gerando um elemento de
Local: Curitiba PR, Brasil imagem forte: referência para escola e para a cidade.
Escritório: MCA Manoel Coelho O bloco do Ensino Fundamental e médio compõe-se de dois pavimentos,
arquitetura e design utilizando de amplos planos de vidro para dar continuidade ao paisagismo, além
Início do projeto: 2012 dos pilotis que são núcleos de circulação vertical e no centro, o restaurante gera
Conclusão da obra: 2013 um núcleo de vivência e atende toda a unidade educacional.
Área do terreno: 428.822 m² O bloco do Ensino técnico possui configuração funcional e formal semelhante
Área construída: 4.933 m² ao bloco do Ensino Fundamental. O térreo abriga a biblioteca e todo o setor
administrativo. O primeiro andar abriga 10 salas, com 35 alunos por sala, e áreas
de apoio.
O terceiro bloco, central, abriga o auditório e o ginásio. De forma mais solene
ESCOLA
e monumental, abre a escola a um público mais amplo, com seu acesso
JEAN
podendo ser realizado de maneira independente da escola.
PIAGET

2/15
ANÁLISE DE
ENTORNO

Ao realizar uma análise de entorno do lote, com um raio de abrangência de 800 m, pode-se notar ainda existem uma grande quantidade de lotes vazios na região, os quais a
partir da construção do Eurogarden já começarão a obter novo imóveis. A região da avenida Gastão Vidigal, e Av Guedner, possuem a maior parte dos imóveis verticalizados,
porém o restante da região é predominante imóveis de 1 ou 2 pavimentos apenas. Com a análise da mobilidade urbana, conclui-se que na região existem 5 vias que tráfego
rápido, 2 de velocidade máxima 60km/hr e 3 de velocidade máxima 50km/hr, sendo que a avenida Gastão Vidigal, a avenida José Alves Nendo e avenida Senador Petronio
Portela (localizadas próximo ao terreno de estudo) possuem fluxo intenso de veículos, principalmente durante os horários de pico. Por mais que a região seja de grande
movimento, fora dos horários de pico se trata de uma região tranquila, uma vez que é predominantemente residencial.
Em relação ao transporte público, a região está bem amparada em relação a pontos de ônibus, porém alguns pontos de ônibus ainda não possuem as estruturas de
cobertura que a cidade está implantando, um exemplo é o ponto localizado em frente ao terreno de estudo, que possui apenas uma placa, sem banco e sem cobertura. Por fim,
em relação a ciclovias, a única existente na região é a da Av. Gastão Vidigal, sendo assim é importante a implantação de novas ciclovias na região, principalmente nas avenidas
principais.

VOLUMETRIA ENTORNO IMEDIATO

ESCOLA
JEAN
MAPA DE CHEIOS E VAZIOS R:400m PIAGET
MAPA DE MOBILIDADE R: 800m
3/15
DIRETRIZES
CONCEITO
PROJETUAIS

A escola pós pandemia


Após a realização de diversos estudo sobre os modos do desenvolvimento
cognitivo infantil, pode-se chegar à conclusão que essa fase é essencial na vida
de uma pessoa, sendo assim, cabe a escola contribuir para a construção da LAYOUT FLEXÍVEL
cidadania e da autonomia das crianças. Pensando nisso, o conceito principal do
projeto é criar um ambiente educacional aconchegante e estimulador, utilizando
os métodos dos estudos da neuroarquitetura para melhorar o ensino.

PARTIDO

Com a pandemia da Covid-19, a rotina das escolas teve que ser alterada VENTILAÇÃO
drasticamente, então tendo como base essa nova rotina de ensino esse projeto CRUZADA
será pensado no novo modo de ensino, para isso algumas alterações no padrão
da escola serão necessárias, como por exemplo, o uso da tecnologia para ensino
hibrido, a melhoria da ventilação cruzada para evitar o contagio de doenças
infecciosas, a possibilidade de realizar aulas ao ar livre, e a diminuição da
quantidade de alunos por turma.
Ao analisar todas as condicionantes do entorno, do terreno e do conceito
do projeto, pode-se chegar ao partido arquitetônico que tem como principio o
uso dos pontos da neuroarquitetura. Com isso, as principais diretrizes projetuais
PERMEABILIDADE
se dão através do uso de permeabilidade visual, salas de aula no sentido norte/
VISUAL
sul para um bom aproveitamento da iluminação natural, pátio central para boa
ventilação natural e uso do paisagismo como método de ampliação sensorial das
crianças, e uso de materiais em cores que estimulam o aprendizado. Levando
em consideração as áreas necessárias para cada ambiente foi pensado em
utilizar uma modulagem 3x3m para melhor aproveitamento do espaço e do
sistema estrutural.
Referência Hospital Gheskio – Mass Design group
* Estratégia de ventilação para evitar o contágio de doenças transmissíveis. ÁREAS LIVRES/
PÁTIO CENTRAL

ESCOLA
CORES E JEAN
TEXTURAS PIAGET

4/15
PROGRAMA DE
NECESSIDADES

ORGANOGRAMA

ESPORTIVO/
ADMINISTRAÇÃO ESCOLA
RECREATIVO
JEAN
ACESSO PRINCIPAL APOIO ACESSO DE SERVIÇOS PIAGET

PEDAGÓGICO ALIMENTAÇÃO 5/15


ESTUDOS DE
OCUPAÇÃO

ESTUDO 2
ESTUDO 1
Com o intuito de facilitar o deslocamento dentro da escola, e de manter a
Os estudo de volumetria foram pensados inicialmente de acordo com o organograma, e escala dos prédios do entorno, a ideia era de criar um edifício pouco
com a ideia de manter um pátio central para permitir a ventilação cruzada e a iluminação verticalizado, sendo assim foi dividido em dois blocos com uma passarela
natural. O desafio estava em encaixar o grande bloco do ginásio de modo com que não centralizada para uni-los
fosse o principal foco visual do projeto. Foi utilizado a referencia da fundação Zerrenner
em colocar as salas de aula no sentido norte/sul para evitar a incidência solar direta.

No estudo final, foi levado em consideração as


ideias obtidas no estudo 2, porém os dois blocos
criados se tornaram simétricos com 3 pavimentos
em cada um e todos com as circulações voltadas
para o pátio central.
Sendo assim, o acesso principal ficará localizado
na Av. Petronio portela por ser melhor o fluxo de
veículos, e o acesso de serviços e o setor de apoio
e estacionamento na rua José Moreno Junior,
sentido oposto do acesso principal. E por fim, o
ginásio ficou localizado na parte leste do terreno, ESCOLA
enterrado 3 m e com a sua cobertura se JEAN
estendendo para criar uma passagem coberta para PIAGET
a área comum do edifício.
6/15
ESTUDO FINAL
IMPLANTAÇÃO

IMPLANTAÇÃO E COBERTURA

TABELA DE ÁREAS
Área do terreno: 6.240 m² ESCOLA
Área construída: 5.081 m² JEAN
Taxa de ocupação: 41% PIAGET
Área permeável: 645.64 m²
Área de estacionamento: 375.5 m² 7/15
PLANTAS

PLANTA BAIXA TÉRREO

ESCOLA
JEAN
PIAGET

8/15
PLANTA BAIXA SUBSOLO (GINÁSIO)
PLANTAS

PLANTA BAIXA 2º PAVIMENTO

ESCOLA
JEAN
PIAGET

PLANTA BAIXA 3º PAVIMENTO 9/15


CORTES

CORTE AA

ESCOLA
CORTE BB JEAN
PIAGET

10/15
CORTES

CORTE CC

ESCOLA
JEAN
PIAGET
11/15
CORTE DD
FACHADAS

ACABAMENTO EM BLOCOS
BRISES METÁLICOS
CIMENTÍCIOS
CHAPA PERFURADA METÁLICA CHAPA PERFURADA METÁLICA

CHAPA PERFURADA METÁLICA

GUARDA CORPO EM VIDRO

FACHADA FRONTAL

ACABAMENTO EM BLOCOS CIMENTÍCIOS ACABAMENTO EM BLOCOS CIMENTÍCIOS

CHAPA PERFURADA METÁLICA

PINTURA CINZA PINTURA CINZA

FACHADA LATERAL DIREITA

ESCOLA
JEAN
PIAGET
12/15
FACHADAS

FACHADA FUNDOS

FACHADA LATERAL ESQUERDA

ESCOLA
JEAN
PIAGET
13/15
LAYOUT DAS
SALAS

PLANTA LAYOUT 1 PLANTA LAYOUT 2


ESCOLA
As salas de aula, ao contrário dos espaços de convívio comum da escola, precisa trazer estímulos aos alunos, sendo JEAN
assim, a ideia é utilizar cores estimulantes (cores quentes) para que haja maior aprendizagem no ambiente. Assim como as PIAGET
cores, o mobiliário permite modificações no layout para que as crianças aprendam não só com os professores como com os
14/15
colegas, por isso a ideia é trazer mesas que se encaixem em diferentes formatos para poder deixar o espaço mais flexível.
DETALHAMENTOS

BRISE FACHADA FRONTAL BRISE FACHADA FUNDOS

GUARDA CORPO DE SEGURANÇA

ESCOLA
JEAN
PIAGET
15/15
GUARDA CORPO DO COLÉGIO POSITIVO
CURITIBA. FONTE: ARCHDAILY DETALHAMENTO JANELA SALAS

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