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Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso

PJe - Processo Judicial Eletrônico

10/07/2022

Número: 1000976-51.2022.8.11.0029
Classe: AÇÃO POPULAR
Órgão julgador: 2ª VARA DE CANARANA
Última distribuição : 06/06/2022
Valor da causa: R$ 9.500,00
Assuntos: Anulação
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
RAFAEL COSTA ROCHA (AUTOR(A)) RAFAEL COSTA ROCHA (ADVOGADO(A))
PREFEITO MUNICIPAL DE CANARANA (REU)
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
(CUSTOS LEGIS)
CRIATIVE MUSIC LTDA (TERCEIRO INTERESSADO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
86880 06/06/2022 23:30 Petição Inicial Petição Inicial
054
EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA COMARCA
DE CANARANA – ESTADO DE MATO GROSSO

URGENTE – PEDIDO DE LIMINAR

RAFAEL COSTA ROCHA, brasileiro, solteiro, portador do RG 1538754-2 SSP-MT,


inscrito no CPF 002.997.941-21, portador do título de eleitor 0252 9670 1813 Zona
001, Seção 0881, emitido pela Justiça Eleitoral de Mato Grosso, advogado
devidamente inscrito na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Mato Grosso sob
o nº 25.880, com endereço profissional localizado na Avenida São Sebastião, nº
4210, Bairro: Santa Helena, Município: Cuiabá, UF: MT, CEP: 78045-000, endereço
eletrônico: rcrafaeladvocacia@gmail.com, com fundamento no artigo 5º, LXXIII da
Constituição Federal ajuizar:

AÇÃO POPULAR COM PEDIDO DE LIMINAR

Em face de ato administrativo do prefeito de Canarana Fábio Marcos Pereira de


Faria, com endereço para citação/intimação na Rua Miraguaí, 228 Centro -
Canarana - MT - CEP 78640-000 - Fone (66) 3478 - 1810 Ramal 222

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1 – DOS FATOS

Em meio à polêmica envolvendo o pagamento de cantores sertanejos com


cachês milionários advindo dos cofres públicos, veículos de comunicação da
imprensa de Mato Grosso vieram a descobrir que o município de Canarana contratou
pelo valor de R$ 950 mil o cantor e compositor gospel Anderson Freire para uma
apresentação a ser realizada no dia 20 de agosto.
O contrato sem processo licitatório foi assinado no dia 1º de junho com
dispensa de licitação e autorizado pelo prefeito Fábio Pereira de Faria.
Chamou a atenção o fato de município localizado no Vale do Araguaia ter 22
mil habitantes, conforme censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), e realizar um investimento considerado vultuoso para realização de um
show artístico.

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A notícia produzida pela imprensa se deu com base em inexigibilidade de
licitação divulgada no Diário Oficial dos Municípios no dia 1º de junho, o contrato foi
firmado com a empresa Criative LTDA, pessoa jurídica de direito privado, sediada
em Vila Velha – Espírito Santo.

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Ocorre Excelência, que o gasto de R$ 950 mil se mostra desarrazoado ao
perceber que a população do município é de apenas 22 mil habitantes.

Além disso, conforme publicação oficial (documento em anexo), a Prefeitura


Municipal, em decreto assinado pelo prefeito Fábio Marcos Pereira de Faria, editou
o decreto municipal 3300/2022 que declarou situação de emergência por conta dos
altos índices de doenças contagiosas, em especial dengue, zika e arboviroses.
O decreto entrou em vigor no dia 20 de maio com validade de 60 dias, ou
seja, ainda está em pleno vigor.

Portanto, diante dos investimentos necessários a saúde pública, não é


razoável que o município proceda com a contratação de um artista pelo valor de R$
950 mil, o que exige a intervenção do poder Judiciário.

É a síntese necessária.

2 – DO DIREITO

Como se sabe, a Ação Popular é uma ação constitucional que possui como
finalidade a defesa dos interesses da coletividade por meio da anulação ou
declaração de nulidade de atos apontados como lesivos ao erário público ou à
entidade em que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente
e ao patrimônio histórico e cultural, nos termos do art. 5º, LXXIII, da CF/88.

No presente caso concreto, é evidente a violação aos princípios


constitucionais da moralidade e da eficiência administrativa, pois, ao mesmo tempo
que admite enfrentar uma crise sanitária com aumento dos casos de dengue e zika,
e não podemos esquecer aqui a contaminação gerada pela Covid-19, o município
de Canarana planeja gastar R$ 950 mil na contratação de um único artista.

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Lembremos, na ocasião, a conhecida e sempre atual lição de Celso Antônio
Bandeira de Mello, segundo a qual “(...) violar um princípio é muito mais grave
que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao princípio implica
ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório mas a todo
sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou
inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque
representa insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores
fundamentais, contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de
sua estrutura mestra. Isto porque, com ofendê-lo, abatem-se as vigas que o
sustêm e alui-se toda estrutura nelas esforçada”.

(MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 25 ed.


São Paulo: Malheiros, 2008. p. 943)

O Código de Processo Civil é categórico em assegurar a concessão da tutela


de urgência quando evidente o risco de dano.

Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos


que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao
resultado útil do processo.

No presente caso concreto, o município planeja gastar R$ 950 mil de seu


orçamento com a contratação de um único artista . Porém, conforme reconhecido
em decreto, enfrenta crise sanitária;
É evidente que é notadamente desproporcional que um município com
população estimada em 22 mil habitantes arque com uma despesa milionária para
um único show, sacrificando os cofres públicos em um momento de recessão da
economia brasileira que leva, notadamente, a queda de arrecadação pelos entes
federados.

3.1 – DA LEGITIMIDADE DA PARTE AUTORA PARA AJUIZAMENTO DA


AÇÃO POPULAR

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O autor é morador de Cuiabá, Capital de Mato Grosso, o que não é impeditivo
para o ajuizamento da ação popular, pois, conforme documento em anexo, está
quitado com a Justiça Eleitoral, única exigência legal para propor a ação perante o
poder Judiciário. A respeito disso, segue ementa do Superior Tribunal de Justiça.

PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO POPULAR. ELEITOR COM DOMICÍLIO


ELEITORAL EM MUNICÍPIO ESTRANHO ÀQUELE EM QUE OCORRERAM OS
FATOS CONTROVERSOS. IRRELEVÂNCIA. LEGITIMIDADE ATIVA. CIDADÃO.
TÍTULO DE ELEITOR. MERO MEIO DE PROVA.
1. Tem-se, no início, ação popular ajuizada por cidadão residente e eleitor em
Itaquaíra/MS em razão de fatos ocorridos em Eldorado/MS.
O magistrado de primeiro grau entendeu que esta circunstância seria
irrelevante para fins de caracterização da legitimidade ativa ad causam, posição esta
mantida pelo acórdão recorrido - proferido em agravo de instrumento.
2. Nas razões recursais, sustenta a parte recorrente ter havido violação aos
arts. 1º, caput e § 3°, da Lei n. 4.717/65 e 42, p.
único, do Código Eleitoral, ao argumento de que a ação popular foi movida
por eleitor de Município outro que não aquele onde se processaram as alegadas
ilegalidades.
3. A Constituição da República vigente, em seu art. 5º, inc. LXXIII, inserindo
no âmbito de uma democracia de cunho representativo eminentemente indireto um
instituto próprio de democracias representativas diretas, prevê que "qualquer
cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao
patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade
administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor,
salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência"
(destaque acrescentado).
4. Note-se que a legitimidade ativa é deferida a cidadão. A afirmativa é
importante porque, ao contrário do que pretende o recorrente, a legitimidade ativa
não é do eleitor, mas do cidadão.
5. O que ocorre é que a Lei n. 4717/65, por seu art. 1º, § 3º, define que a
cidadania será provada por título de eleitor.

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6. Vê-se, portanto, que a condição de eleitor não é condição de legitimidade
ativa, mas apenas e tão-só meio de prova documental da cidadania, daí porque
pouco importa qual o domicílio eleitoral do autor da ação popular. Aliás, trata-se de
uma exceção à regra da liberdade probatória (sob a lógica tanto da atipicidade como
da não-taxatividade dos meios de provas) previsto no art. 332, CPC.
7. O art. 42, p. único, do Código Eleitoral estipula um requisito para o exercício
da cidadania ativa em determinada circunscrição eleitoral, nada tendo a ver com
prova da cidadania. Aliás, a redação é clara no sentido de que aquela disposição é
apenas para efeitos de inscrição eleitoral, de alistamento eleitoral, e nada mais.
8. Aquele que não é eleitor em certa circunscrição eleitoral não
necessariamente deixa de ser eleitor, podendo apenas exercer sua cidadania
em outra circunscrição. Se for eleitor, é cidadão para fins de ajuizamento de
ação popular.
9. O indivíduo não é cidadão de tal ou qual Município, é "apenas" cidadão,
bastando, para tanto, ser eleitor.
10. Não custa mesmo asseverar que o instituto do "domicílio eleitoral" não
guarda tanta sintonia com o exercício da cidadania, e sim com a necessidade de
organização e fiscalização eleitorais.
11. É que é entendimento pacífico em doutrina e jurisprudência que a fixação
inicial do domicílio eleitoral não exige qualquer vínculo especialmente qualificado do
indivíduo com a circunscrição eleitoral em que pretende se alistar (o art. 42, p. único,
da Lei n. 4.737/65 exige tão-só ou o domicílio ou a simples residência, mas a
jurisprudência eleitoral é mais abrangente na interpretação desta cláusula legal,
conforme abaixo demonstrado) - aqui, portanto, dando-se ênfase à organização
eleitoral.
12. Ainda de acordo com lições doutrinárias e jurisprudenciais, somente no
que tange a eventuais transferências de domicílio é que a lei eleitoral exige algum
tipo de procedimento mais pormenorizado, com demonstração de algum tipo de
vínculo qualificado do eleitor que pretende a transferência com o novo local de
alistamento (v. art. 55 da Lei n. 4.737/65) - aqui, portanto, dando-se ênfase à
fiscalização para evitação de fraude eleitoral.
13. Conjugando estas premissas, nota-se que, mesmo que determinado
indivíduo mude de domicílio/residência, pode ele manter seu alistamento eleitoral no
local de seu domicílio/residência original.

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14. Neste sentido, é esclarecedor o Resp 15.241/GO, Rel. Min.Eduardo
Alckmin, DJU 11.6.1999.
15. Se é assim - vale dizer, se não é possível obrigar que à transferência de
domicílio/residência siga a transferência de domicílio eleitoral -, é fácil concluir que,
inclusive para fins eleitorais, o domicílio/residência de um indivíduo não é critério
suficiente para determinar sua condição de eleitor de certa circunscrição.
16. Então, se até para fins eleitorais esta relação domicílio-alistamento é
tênue, quanto mais para fins processuais de prova da cidadania, pois, onde o
constituinte e o legislador não distinguiram, não cabe ao Judiciário fazê-lo -
mormente para restringir legitimidade ativa de ação popular, instituto dos mais caros
à participação social e ao controle efetivos dos indivíduos no controle da
Administração Pública.
17. Recurso especial não provido. (REsp 1242800/MS, Rel. Ministro MAURO
CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/06/2011, DJe
14/06/2011

4 – DOS PEDIDOS

Diante do exposto, requer-se

a) A concessão da tutela de urgência para suspender imediatamente o


contrato firmado pela Prefeitura Municipal de Canarana com a empresa
CRIATIVE MUSIC LTDA, inscrita no CNPJ Nº 08.648. 622/0001-32, com
sede na cidade de Vila Velha-ES, a Rua Sete de Junho nº 33 – Sala 101
e 114 – Edificio Canal Office Tow, Bairro Coqueiral de Itaparica.

b) No mérito, que seja julgado procedente o pedido para a invalidade do


contrato acima citado diante do evidente prejuízo aos cofres públicos pela
evidente desproporcionalidade do valor pago a título de cachê artístico
com o tamanho da população municipal de 22 mil habitantes, somado
ainda a crise sanitária enfrentada pelo município e reconhecida em
decreto.

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c) A citação dos réus no endereço acima indicados para apresentação de
defesa

d) A intimação do representante do Ministério Público

e) A condenação do réu em custas em honorários advocatícios em


percentual a ser fixado por este eminente julgador.

Dá-se a causa o valor de R$ 9.500,00 (Nove mil quinhentos reais e zero centavos)

Nestes termos,

Pede deferimento,

Cuiabá-MT, 6 de junho de 2022

ADVOGADO RAFAEL COSTA ROCHA


OAB-MT 25.880

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