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Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso

PJe - Processo Judicial Eletrônico

10/07/2022

Número: 1000976-51.2022.8.11.0029
Classe: AÇÃO POPULAR
Órgão julgador: 2ª VARA DE CANARANA
Última distribuição : 06/06/2022
Valor da causa: R$ 9.500,00
Assuntos: Anulação
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
RAFAEL COSTA ROCHA (AUTOR(A)) RAFAEL COSTA ROCHA (ADVOGADO(A))
PREFEITO MUNICIPAL DE CANARANA (REU)
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
(CUSTOS LEGIS)
CRIATIVE MUSIC LTDA (TERCEIRO INTERESSADO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
88687 29/06/2022 17:23 Parecer Parecer
361
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
PROMOTORIA DE JUSTIÇA DA COMARCA DE CANARANA-MT

PJE nº 1000976-51.2022.8.11.0029
2ª Vara

MM. Juíza,

Trata-se de ação popular ajuizada por Rafael Costa Rocha contra Fábio Marcos
Pereira de Faria, Prefeito Municipal de Canarana/MT, com pedido de tutela de urgência vi-
sando suspender o contrato firmado com a empresa Criative Music Ltda, obstando o paga-
mento da importância de R$ 95.000,00 (noventa e cinco mil reais) para a realização de
show com o cantor gospel Anderson Freire.

Em razão da formulação do pedido de concessão de tutela de urgência na ação


popular, e notadamente em razão do interesse público trazido em seu bojo, os autos vie-
ram ao Ministério Público para manifestação.

É o relato do necessário.

A ação popular é um relevante instrumento processual de participação política


do cidadão, destinada eminentemente à defesa do patrimônio público, da moralidade ad-
ministrativa, do meio-ambiente e do patrimônio histórico, artístico, estético e turístico das
entidades mencionadas no art. 1º da Lei Federal nº 4.717/65.

A interpretação literal do art. 5º, LXXIII, da CF, dá a entender que só pode ser
objeto de ação popular atos já praticados, pertencentes ao passado, veiculando-se sempre
pedido de tutela reparatória pelos danos suportados em razão de tal conduta. Como a me-
lhor doutrina já teve oportunidade de afirmar, esse entendimento não seria compatível
com o atual estágio processual, no qual o princípio da inafastabilidade da jurisdição, con-
sagrado no art. 5º, XXXV, da CF, é concretizado no ideal de um acesso a ordem jurídica
justa, sendo para isso indispensável pela existência de mecanismos processais aptos não só
a repara a lesão de atos já praticados, com também para evitar que atos ilícitos sejam prati-
cados.
A ratificar o exposto acima, o autor Daniel Amorim Assumpção Neves ensina:

“Significa dizer que limitar a ação popular a pretensões reparatórias volta-


das à tutela de um direito lesionado, não se coaduna com o atual estágio
da ciência processual e indevidamente apequena tão importante ação

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constitucional. Na busca de se evitar a pratica de uma ato ilícito a ser pra-


ticado pelo agente público, atentatório aos valores protegidos pela ação
popular, é inegável a viabilidade de uma ação coletiva preventiva, por
meio da qual se busque a obtenção de tutela inibitória.”

Como o objeto de tutela na ação popular são direitos indisponíveis, de titulari-


dade da coletividade, necessário se faz a manifestação do Ministério Público nos termos
do art. 178, I, do CPC e art. 7º, I, “a” da Lei Federal nº 4.717/65 (LAP) na forma delineada
abaixo.
Consta do id. 86880059 (pág.2) que o contrato administrativo nº 008/2022 tem
como objeto a contratação da empresa Criative Music Ltda para a realização de show com
o cantor gospel “Anderson Freire” para a comemoração do “Dia do Evangélico” a ser reali-
zado no dia 20/8/2022, vejamos:

O dia do evangélico foi criado pela Lei Municipal nº 705 de 2 de junho de 2005,
segundo se infere do art. 1º, caput, e documento anexado:

Art.1º- Fica instituído o DIA DO EVANGÉLICO em Canarana, a ser come-


morado em todo o território do Município, todos os anos no 3º Sábado do
mês de Agosto.

Estabelecida estas considerações iniciais, sem neste momento adentrar no valor


da contratação no montante de R$ 95.000,00 (noventa e cinco mil reais), não há dúvida de
que o aludido evento possui caráter religioso, o que é facilmente identificado no próprio
objeto da contratação administrativa que instrui a inicial (pág. 2 do id. 86880059).

Vale destacar que se trata de contratação da empresa Criative Music Ltda para a
promoção de show com cantor gospel para exclusivamente comemorar o dia do evangéli-
co, celebrado todos 3º sábado do mês de agosto em território do Município (art. 1º, da Lei
Municipal 705/2005), excluído as demais crenças ou religiões, sendo assim, tais elementos
configuram afronta ao disposto no art. 19, inciso I, da Constituição Federal, que diz:

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Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o fun-


cionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou
aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

Segundo leciona o Ilustre Ministro do E. Supremo Tribunal Federal Roberto


Barroso, conforme se vê do voto por ele proferido nos autos da ADI 4439/DF da qual foi
Relator, ‘o princípio constitucional da laicidade, Constituição Federal, art. 19, inciso I,
apresenta-se com três conteúdos: separação formal entre Estado e Igreja, neutralidade esta-
tal em matéria religiosa e garantia da liberdade religiosa’.

Em razão do seu conteúdo didático, colaciono a ementa proferida no julgamen-


to da ADI 4439/DF pelo E. Supremo Tribunal Federal, acerca do princípio constitucional
da laicidade:
ENSINO RELIGIOSO NAS ESCOLAS PÚBLICAS. CONTEÚDO CONFES-
SIONAL E MATRÍCULA FACULTATIVA. RESPEITO AO BINÔMIO LAICI-
DADE DO ESTADO/LIBERDADE RELIGIOSA. IGUALDADE DE ACESSO
E TRATAMENTO A TODAS AS CONFISSÕES RELIGIOSAS. CONFORMI-
DADE COM ART. 210, §1°, DO TEXTO CONSTITUCIONAL. CONSTITU-
CIONALIDADE DO ARTIGO 33, CAPUT E §§ 1º E 2º, DA LEI DE DIRE-
TRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL E DO ESTATUTO JURÍDI-
CO DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL PROMULGADO PELO DECRETO
7.107/2010. AÇÃO DIRETA JULGADA IMPROCEDENTE. 1. A relação entre
o Estado e as religiões, histórica, jurídica e culturalmente, é um dos mais impor-
tantes temas estruturais do Estado. A interpretação da Carta Magna brasileira,
que, mantendo a nossa tradição republicana de ampla liberdade religiosa, consa-
grou a inviolabilidade de crença e cultos religiosos, deve ser realizada em sua du-
pla acepção: (a) proteger o indivíduo e as diversas confissões religiosas de quais-
quer intervenções ou mandamentos estatais; (b) assegurar a laicidade do Estado,
prevendo total liberdade de atuação estatal em relação aos dogmas e princípios re-
ligiosos. 2. A interdependência e complementariedade das noções de Estado Laico e
Liberdade de Crença e de Culto são premissas básicas para a interpretação do ensi-
no religioso de matrícula facultativa previsto na Constituição Federal, pois a ma-
téria alcança a própria liberdade de expressão de pensamento sob a luz da tolerân-
cia e diversidade de opiniões. 3. A liberdade de expressão constitui um dos funda-
mentos essenciais de uma sociedade democrática e compreende não somente as in-
formações consideradas como inofensivas, indiferentes ou favoráveis, mas também

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as que possam causar transtornos, resistência, inquietar pessoas, pois a Democra-


cia somente existe baseada na consagração do pluralismo de ideias e pensamentos
políticos, filosóficos, religiosos e da tolerância de opiniões e do espírito aberto ao
diálogo. 4. A singularidade da previsão constitucional de ensino religioso, de ma-
trícula facultativa, observado o binômio Laicidade do Estado (CF, art. 19, I)/Con-
sagração da Liberdade religiosa (CF, art. 5º, VI), implica regulamentação integral
do cumprimento do preceito constitucional previsto no artigo 210, §1º, autorizan-
do à rede pública o oferecimento, em igualdade de condições (CF, art. 5º, caput),
de ensino confessional das diversas crenças. 5. A Constituição Federal garante aos
alunos, que expressa e voluntariamente se matriculem, o pleno exercício de seu di-
reito subjetivo ao ensino religioso como disciplina dos horários normais das esco-
las públicas de ensino fundamental, ministrada de acordo com os princípios de sua
confissão religiosa e baseada nos dogmas da fé, inconfundível com outros ramos do
conhecimento científico, como história, filosofia ou ciência das religiões. 6. O binô-
mio Laicidade do Estado/Consagração da Liberdade religiosa está presente na me-
dida em que o texto constitucional (a) expressamente garante a voluntariedade da
matrícula para o ensino religioso, consagrando, inclusive o dever do Estado de ab-
soluto respeito aos agnósticos e ateus; (b) implicitamente impede que o Poder Pú-
blico crie de modo artificial seu próprio ensino religioso, com um determinado
conteúdo estatal para a disciplina; bem como proíbe o favorecimento ou hierarqui-
zação de interpretações bíblicas e religiosas de um ou mais grupos em detrimento
dos demais. 7. Ação direta julgada improcedente, declarando-se a constitucionali-
dade dos artigos 33, caput e §§ 1º e 2º, da Lei 9.394/1996, e do art. 11, § 1º, do
Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé, relativo
ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, e afirmando-se a constitucionali-
dade do ensino religioso confessional como disciplina facultativa dos horários nor-
mais das escolas públicas de ensino fundamental.
(STF, ADI 4439, Relator(a): ROBERTO BARROSO, Relator(a) p/ Acórdão:
ALEXANDRE DE MORAES, Tribunal Pleno, julgado em 27/09/2017, PRO-
CESSO ELETRÔNICO DJe-123 DIVULG 20-06-2018 PUBLIC 21-06-2018)

Não há dúvida de que a inserção, promovida pelo Governo do Município, de


show de música gospel, gênero ligado a religiões de origem cristã, e somente desta con-
cepção religiosa, em detrimento das inúmeras outras existentes, inclusive das posições não
religiosas, vai de encontro à laicidade estatal e à garantia da liberdade religiosa.

Não há notícia de outros shows de diferentes gêneros musicais, multiculturais e


sem qualquer cunho religioso, a serem realizados no território desta municipalidade.

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A indevida utilização da estrutura do Poder Executivo e do dinheiro público,


que pertence a toda a coletividade, a fim de privilegiar uma ou algumas crenças, corrompe
a necessária neutralidade por parte do Estado nessa matéria e afeta a garantia de liberdade
religiosa dos que professam as crenças ali não representadas e também daqueles que não
professam qualquer uma.

Não pode o Estado laico favorecer uma determinada crença ou religião, seja ela
qual for, ainda que majoritária. Não pode ser realizado show religioso com subvenção es-
tatal, de uma ou algumas crenças, ainda que com músicas que sejam as mais tocadas ou
ouvidas nas rádios, sob pena de inadmissível criação de preferência ou discriminação en -
tre confissões religiosas ou posições não religiosas.

Em suma, um Estado Laico não nega a existência de diversas religiões, sem pro-
fessar nenhuma delas, nem obsta a verificação de eventuais relações pontuais com qual-
quer uma, visando à colaboração de interesse público, entretanto, tal desiderato não ocor-
reu na hipótese em apreço, vez que contratação da empresa Criative Music Ltda se deu
para a promoção exclusiva de show com cantor gospel para comemorar o dia do evangéli-
co, celebrado todo 3º sábado do mês de agosto em território do Município (art. 1º, da Lei
Municipal 705/2005), excluído as demais crenças ou religiões, em razão da literal afronta
ao princípio constitucional da laicidade prevista no art.19, I, da CF.

Adentramos agora na questão referente ao valor da contratação pelo Município


de Canarana da empresa Creative Music Ltda no montante de R$ 95.000,00 (noventa e cin-
co mil reais) para a promoção de show com cantor gospel em razão da comemoração do
dia do evangélico, celebrado todo 3º sábado do mês de agosto em território do Município
(art. 1º, da Lei Municipal 705/2005).

No id. 86880058 (págs. 1-2), foi anexado o Decreto Municipal nº 3300 de 20 de


maio de 2002, pelo requerido, que dispõe sobre a declaração da situação de emergência
municipal para arboviroses, decorrente do aumento de casos de dengue e zika. Observe:

D E C R E T A:
Art. 1º Fica declarada Situação de Emergência Municipal para
Arboviroses nas áreas do território do Município de Canarana-MT
como consta nos indicadores epidemiológicos semanais relativos aos
casos de dengue e zika.
Art. 2° Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, com vigên-
cia de 60(sessenta) dias, podendo ser prorrogado por igual período.

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Pois bem, na relação das considerações para a edição do decreto municipal de


emergência, estão, dentre outros, o que reputo mais importante no caso em tela, qual seja:
Considerando que as ações desenvolvidas pelas equipes não estão
conseguindo conter o aumento dos casos;
Considerando ainda, o grau de infestação e risco de complicações
decorrentes das arboviroses;
Considerando que o monitoramento de casos notificados para dengue, e zika vem
observando um aumento exponencial por semanas consecutivas;
Considerando que as epidemias de dengue determinam uma importante carga
aos serviços de saúde e à economia do município, implicando em agravamentos a
saúde de idosos, crianças e pacientes imunodeprimidos, possibilitando um aumen-
to das formas graves e o risco de aumento de óbitos e da letalidade;

Pois bem, se o Município, por meio do seu Prefeito, declara no dia 20/5/2022,
situação de emergência municipal para arboviroses em razão do aumento exponencial por
semanas consecutivas de casos de dengue e zika ocasionando uma sobrecarregando aos
serviços de saúde e afetando negativamente a economia dos cofres municipais, podendo
levar ao aumento de óbitos dos cidadãos canaranenses, obviamente, todo e qualquer
recurso público, inclusive o decorrente do contrato administrativo nº 008/2022 (id.
86880059- pág.2) deve ser remanejado e aplicado na preservação da saúde destes mesmos
cidadãos, pois é dever do Município (art. 196 da CF) garanti-lo mediante políticas
econômicas que vise à redução do risco das doenças (dengue e zika) e ações de proteção e
recuperação do enfermos.

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Não bastando o aumento exponencial dos casos de dengue e zika no Município,


ocasionando uma sobrecarregando aos serviços de saúde, temos ainda o aumento dos
casos de COVID-19, sendo no dia 14/6/2022, um total de 73 casos ativos, segundo
informações colhidas no portal
https://www.facebook.com/canaranacontracovid/photos/a.104124431410024/517808730041
590/?type=3

Em consulta ao portal http://canarana.mt.gov.br/covid-19/despesas.html verifi-


camos que no ano de 2021, o Município, por meio do seu Prefeito Municipal, o ora requeri-
do, adquiriu 2 (dois) respiradores pulmonares de transporte para o combate ao corona ví-
rus (COVID-19), mediante dispensa de licitação nº 031/2021, em razão da situação de
emergência enfrentada pelo Município, pelo valor de R$ 76.000,00 (setenta e seis mil reais),
e neste ano de 2022, contrata a empresa Creative Music Ltda pelo valor de R$ 95.000,00
(noventa e cinco mil reais) para a promoção de show com cantor gospel “Anderson Freire”
para comemorar o dia do evangélico, celebrado todo 3º sábado do mês de agosto em terri-
tório do Município (art. 1º, da Lei Municipal 705/2005).

Dito sito, segundo entendimento pacificado na doutrina e na jurisprudência,


tanto os atos vinculados como os discricionários podem ser objeto de ação popular, sendo
possível se valer por analogia da ideia de ilegalidade e abuso de poder constante do art. 5,
LXIX, da CF, que regulamento o mandado de segurança.

Significa dizer que não somente se fará o controle do desvio de padrão legal,
mas também da razoabilidade no exercício do poder discricionário estatal, que não pode
ser exercido sem qualquer espécie de controle pelo Poder Judiciário.

Além da exigência de motivação na prática de tais atos, o próprio mérito do ato


pode ser objeto de análise em sede de ação popular, já que a discricionariedade não permi-
te a contrariedade ao ordenamento jurídico, tampouco o desatendimento ao interesse pú-
blico específico do ato praticado.

A lição que extraímos deste episódio é que, embora a definição da destinação


dos recursos públicos seja do Prefeito, com a anuência da Câmara Municipal, em certas
circunstâncias, destacadamente nos casos de despesas não essenciais de grande vulto, o
dispêndio poderá ser questionado no Poder Judiciário, especialmente quando a Comuna
não estiver prestando os serviços públicos fundamentais. Logo, não se trata necessaria-
mente de interferência na competência do Poder Executivo, mas, ocasionalmente, assegu-

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rar que os direitos básicos previstos na Constituição Federal, em especial o direito à saúde
(art. 196 da CF) sejam, minimamente, priorizados.

As atividades do Ministério Público na ação popular, de fato, são múltiplas e di-


ferenciadas, como se colhe à leitura dos dispositivos da Lei 4.717/65: § 4º do art. 6º; § 1º do
art. 7º; arts. 9º e 16; § 2º do art. 19. A interpretação sistemática conduz a este rol de atribui-
ções do Ministério Público nessa ação: a) oficiante necessário, enquanto fiscal da lei (custos
legis); b) órgão ativador e agilizador da prova; c) sucessor processual do autor.

Verdade que José Afonso da Silva acrescenta ser o Ministério Público, ainda,
“parte principal” e “titular da ação popular, também”. Todavia, parece-nos que essas duas
últimas não são exatamente funções  do Ministério Público nessa ação porque: (i) ele será
parte principal na ação penal, que resultar da constatação, nos autos, de eventual infração
penal (LAP, art. 15); (ii) ele será, eventualmente, autor popular, mas isso enquanto cidadão
no gozo dos direitos políticos, e não enquanto promotor de justiça.

Dentre essas funções interessa-nos, agora, a concernente à do Ministério Público


enquanto órgão ativador e agilizador da prova. Diz a alínea b  do art. 7.º, I, da Lei 4.717/65
que o juiz requisitará das entidades-rés os documentos “necessários ao esclarecimento dos
fatos”; e o § 1.º do art. 7.º dispõe: “O representante do Ministério Público providenciará
para que as requisições, a que se refere o inciso anterior, sejam atendidas dentro dos pra-
zos fixados pelo juiz”.

Naturalmente, essa função ativadora e agilizadora  na colheita das provas não se


reduzirá ao conteúdo singelo desse dispositivo, mas, a partir das provas juntadas à inicial,
a par daquelas que o autor protesta produzir, cuidará o promotor de zelar para que as pro-
vas efetivamente pertinentes sejam produzidas da maneira mais rápida e eficaz.

Quanto aos pontos relevantes, em face dos quais o autor popular não disponha
de maiores elementos probatórios, cremos que poderá também o promotor auxiliar o autor
nessa parte, requerendo a diligência que se afigurar cabível.

Enfim, como diz Itamar Dias Noronha, deve o Ministério Público “apressar a
produção da prova requerida pelo suplicante, agindo à semelhança de um assistente, por-
que o direito abstrato de agir que informa a ação popular é a defesa da integridade da res
publica; e, por isso, cabe ao fiscal da lei abster-se de tomar, no início, qualquer posiciona-
mento que venha a contrariar o pleito contido na inicial”.

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Assim também pensa José Afonso da Silva, acerca da atuação do promotor na


ação popular: “É como se fosse auxiliar do autor popular. Mas é preciso entender que
este auxiliar não implica numa atividade secundária do Ministério Público. Ele auxilia,
mas no exercício de função própria.

Não é mero ajudante, mero assistente do autor. Sua atividade é inteiramente


autônoma em relação ao autor popular. Só se traduz num auxílio, porquanto sua ativi-
dade corresponde a uma atividade que deveria ser cumprida somente pelo autor”. 

Aliás, parece-nos que, dada a natureza pública dessa ação, mesmo nos casos
em que a Administração tenha optado por contestar a ação, o Ministério Público está au-
torizado a diligenciar junto ao Poder Público, no sentido de que venham aos autos mais
e melhores elementos para a cabal elucidação dos fatos.

Assim, o Ministério Público pugna pela intimação do Município de Canarana,


para, nos termos do art. 6º, § 4º; art. 7º, § 1º; art. 9º; art.16; art. 19, § 2º, da Lei nº 4.717/65
(LAP) e art. 396, art. 438, II, do CPC, junte aos autos os seguintes documentos: (i) requeri-
mento (memorando interno) encaminhado ao (a) Presidente da Comissão Permanente de
Licitação requerendo autorização para a contratação de show artístico; (ii) justificativa
apresentada pela Comissão Permanente de Licitação para a contratação na modalidade
inexigibilidade (art. 25, III, da Lei nº 8.666/93); (iii) dotação orçamentária; (iv) formação de
preços (pesquisa de preços) e orçamentos apresentados; (v) documentos, incluindo docu-
mentos de habilitação, proposta pelos participantes que foram habilitados; (vi) minuta do
contrato administrativo; (vii) parecer jurídico; (viii) autorização do gestor para a contrata-
ção; (ix) publicação do edital de inexigibilidade de licitação; (x) termo de ratificação de ine-
xigibilidade de licitação; (xi) termo de renúncia ao direito de recorrer da decisão da comis-
são de licitação; (xii) atos de adjudicação; (xiii) contrato administrativo devidamente assi-
nado pelo Município e empresa contratada; (xiv) comprovante pagamento realizado em
favor da empresa Criative Music Ltda, inscrita no CNPJ nº 08.648.622/0001-32 ou declara-
ção de que não o fez.

Por todo o acima exposto, em respeito aos princípios constitucionais da laicida-


de do Estado e da garantia da liberdade religiosa, que determinam ‘a promoção da tole-
rância e do respeito mútuo entre os adeptos de diferentes concepções religiosas e não reli -
giosas, de modo a prevenir a discriminação e assegurar o pluralismo religioso’ (ADI
4439/DF), manifesta-se o Ministério Público para concessão da tutela de urgência requeri-
da para determinar a suspensão do pagamento pelo poder público municipal do show re-
ligioso gospel do cantor Anderson Freire na festa em comemoração ao dia do evangélico,

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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
PROMOTORIA DE JUSTIÇA DA COMARCA DE CANARANA-MT

que será realizado no 3º sábado do mês de agosto (20/8/2022), promovida pela Prefeitura
de Canarana.

É a manifestação.

Canarana, 29 de junho de 2022.

CARLA MARQUES SALATI


Promotora de Justiça

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