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O TRABALHO OFF SHORE

INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E QUALIFICAÇÃO DO OPERADOR DE PRODUÇÃO NA BACIA DE CAMPOS, RJ

O TRABALHO OFF SHORE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E QUALIFICAÇÃO DO OPERADOR DE PRODUÇÃO NA

ROBERTO MORAES PESSANHA COPPE / UFRJ

DEZEMBRO DE 1994

O TRABALHO OFF SHORE - INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E QUALIFICAÇÃO DO OPERADOR DE PRODUÇÃO NA BACIA DE CAMPOS, RJ

ROBERTO MORAES PESSANHA

TESE SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS ( M.Sc. ) EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO.

Aprovada por:

_________________________________

Prof.

Mário César Vidal, D.Sc.

( Presidente ) __________________________________ Profa. Lídia Micaela Segre, D.Sc.

_________________________________ Prof. Ubirajara A. O. Mattos, D. Sc.

RIO DE JANEIRO, RJ - BRASIL DEZEMBRO DE 1994

2

PESSANHA, ROBERTO MORAES O Trabalho Off Shore - Inovação Tecnológica, Organização do

Trabalho e Qualificação do Operador de Produção na Bacia de Campos, RJ ( Rio de Janeiro ) 1994.

 

XXII,

p. 29,7 cm ( COPPE/UFRJ, M. Sc., Engenharia de

Produção,

1994 )

Tese - Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE

  • 1. Exploração de Petróleo Off Shore

  • 2. Trabalho Off Shore

  • 3. Inovação Tecnológica

  • 4. Organização do Trabalho

  • 5. Qualifificação

I. COPPE/UFRJ

II. Título ( série )

3

Resumo da Tese apresentada à COPPE/UFRJ como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de de Mestre em Ciências ( M. Sc. )

O TRABALHO OFF SHORE - INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E QUALIFICAÇÃO DO OPERADOR DE PRODUÇÃO NA BACIA DE CAMPOS, RJ

Roberto Moraes Pessanha

Novembro de 1994

Orientador: Prof. Mário César Vidal Programa: Engenharia de Produção

Co-orientadora: Profa. Lídia Micaela Segre Programa: Engenharia de Sistemas e Computação

O Trabalho Off Shore possui características extremamente peculiares em função de ser uma atividade desenvolvida em ambiente restrito, confinado, distante da sociedade e por sofrer, ao mesmo tempo, sob o ponto de vista, tanto técnico como social, as mesmas influências que outra atividade industrial, em regime contínuo. Desse modo, neste estudo, é feita uma descrição das características desse tipo de trabalho, tendo como referencial o Operador de Produção. Em seguida, são analisadas, a partir de sua contextualização, as Inovações Tecnológicas, as Mudanças Organizacionais e o Movimento de Qualificação vividos nesse tipo de atividade. Por fim, é feita uma análise dos reflexos dessas mudanças sobre o conteúdo do trabalho do objeto da pesquisa: o Operador de Produção Off Shore.

4

Abstract of Thesis presented at COPPE/UFRJ as partial fulfillment of the requirements for the degree of Master of Science ( M. Sc. ).

THE OFF SHORE WORK – TECHNOLOGICAL INNOVATION, WORK ORGANIZATION AND QUALIFICATIONS OF THE PRODUCTION OPERATOR IN CAMPOS,RJ BASIN.

Roberto Moraes Pessanha

November, 1994

Thesis Supervisors: Mário César Vidal

Department: Engineering of Produccion

Thesis Co-supervisors: Lídia Micaela Segre Department: Engineering Sistemms and Computacion

The Off Shore Work has extremely peculiar characteristics because it is an activity developed in restrict and confined environment, distant from society. At the same time, under technical and social viewpoint such an activity presents the same influences common to anyother industrial activity exercised in continuous system. Thus, in this study it is made a descripition of the characteristics of this kind of work, taking as a reference the Operator of Production. Next, from their contextualization, there comes an analysis of the Technological Innovations, Organizational Changes and Qualification Movement experienced in this kind of activity . Lastly, there comes an analysis of the reflectons such changes upon the work’s content of the object of the research: the Off Shore Production Operator.

5

 

à

Ildinha,

ao

Caio,

à

Nina

pela

cessão

do

tempo

e

pela

paciência,

 

aos

meus

pais

Joemio

e

Eliete,

pelo

estímulo

constante

à

capacitação,

aos bravos trabalhadores off shore da Bacia de Campos, pela resistência e dedicação à luta da empresa pela auto-suficiência em petróleo, nesse tipo de trabalho tão diferente, tão exigente de coragem e disposição e de um necessário reconhecimento.

6

minha gratidão

à Escola Técnica Federal de Campos, por ter permitido, através de seu projeto de capacitação, o meu afastamento para a realização do Curso e para a elaboração desta tese;

à turma de 92 do Produto, colegas, professores e funcionários pela cooperação;

aos diversos amigos de turma da época da Escola Técnica Federal, aos alunos, vizinhos, parentes, petroleiros, amigos em geral, pela colaboração e pela paciência no atendimento aos questionamentos mais esdrúxulos e insistentes;

ao

Sindicato

de

Petroleiros-RJ,

pelas

informações e meu

reconhecimento à seriedade e à preocupação com as causas mais amplas do trabalhadores off shore, que extrapolam às questões financeiras;

ao amigo-parceiro de tese, Bagueira, pela companhia nos sacrifícios das viagens ao Rio de Janeiro, do embarque compartilhado, às discussões metodológicas e à contribuição na identificação da ênfase de cada uma de nossas teses, que bem poderiam ser uma, se a academia fosse mais flexível;

7

à colega de trabalho, professora Darcy Amorim C. de Almeida, pelo duro trabalho de revisão de texto;

à empresa Petrobrás, pelo espírito democrático, profissional e público que gerou a permissão a realização deste trabalho;

aos trabalhadores das plataformas que visitadas junto com o Bagueira, que de uma forma tão cooperativa permitiram, através de gestos, de palavras, de sentimentos e até da ausência destes, entrar fundo nos meandros ainda não conhecidos de um trabalho que não se vê, mas com certeza se sente.

8

Í n d i c e

Capítulo 1 - Introdução.........................................12

  • 1.1 Os Antecedentes

..

.......................................................................

12

  • 1.2 O que é a Tese ?

15

1.3

Justificativa ..................................................................................

18

  • 1.4 Metodologia

21

Capítulo 2 Os Novos Paradigmas da Produção e seus Desdobramentos...29

  • 2.1 O que é Qualificação

30

2.2 As Inovações Tecnológicas

33

  • 2.3 A

Organização do Trabalho

38

  • 2.4 O que é Polivalência

44

2.5 O Tecnocentrismo e o Antropocentrismo

48

2.6 A Polivalência e a Politecnia

52

9

Capítulo 3 - A Empresa

  • 3.1 Breve Histórico

56

3.2 A Bacia de Campos

.........................................................................

59

  • 3.3 O que é a Plataforma ?

65

3.3.1 Características de uma Planta de Processos de uma Plataforma

....

71

3.4 O Processo de Produção de Petróleo nas Plataformas

..........................

74

3.5 Inovações Tecnológicas na Bacia de Campos

.....................................

77

3.5.1 Águas Profundas

....................................................................

79

  • 3.5.2 O Caminho da Automação nas Plataformas

................................

84

Capítulo 4 - Como se Vive e Trabalha na Plataforma

...

90

4.1 O Descanso e o Lazer nas Plataformas

..............................................

97

  • 4.2 Síndrome Off Shore

.......................................................................

100

  • 4.2.1 (

) Com 14 x 14 nem eu estava me entendendo

......................

112

4.2.2 (

) O Problema é só um: o medo de ser corno. O problema

trabalhar aqui é o chifre

116

4.2.3 (

118

10

Capítulo 5 - O Operador de Produção

5.1 Quem é o Operador de Produção Off Shore ? ( Do Praticante de

Produção ao Operador Polivalente ) 5.2 A Implantação da Polivalência

125

129

149

............................................

.............................................. 5.3 Quantos são os Operadores Off Shore

...................................

5.4

Sua

Formação

......................................................................

152

5.5

Seu

Trabalho

......................................................................

154

  • 5.5.1 Trabalho

Relações de

....................................................

164

5.6 Sua Qualificação

.................................................................

170

  • 5.6.1 O Curso de Operador Polivalente

...................................

173

5.7 O Operador de Produção Frente às Inovações Tecnológicas, às

Mudanças Organizacionais e ao Movimento de Qualificação:

.........

179

5.7.1 Posição do Sindicato sobre as Inovações Tecnológicas 184 .....

5.7.2 Impacto Sobre os Operadores

188

Capítulo 6 - Conclusões e

194

Bibliografia ....................................................................201

Anexos

11

Capítulo

1

I N T R O D U Ç Ã O

1.1 - Os Antecedentes:

A atividade de exploração de petróleo off shore vem, desde o seu início no Brasil, por volta de 1968, ganhando importância na medida em que vem aumentando sua participação na produção nacional de petróleo. Hoje, só a Bacia de Campos responde por cerca de 66% da produção nacional.

Nesse sentido, a Região de Produção Sudeste, órgão da empresa estatal PETROBRÁS, monopolista na exploração ( perfuração e produção ) e refino do petróleo no Brasil, vem sendo acompanhada, cada vez com mais cuidado, com o objetivo de fazer crescer a produção na área considerada a mais promissora do país. Suas reservas permitem traçar um prognóstico de, pelo menos, mais 50 anos de atividades exploratórias e tentar alcançar a tão sonhada auto-suficiência em petróleo para o país.

Para fazer isto acontecer, vem sendo produzidas, nos últimos anos, algumas dissertações acerca do tipo de atividade de exploração de petróleo off shore. Mas, quase todas elas seguem uma linha de pesquisa no campo das aplicações de tecnologias específicas para esse tipo de atividade.

Assim tem sido o caso das pesquisas envolvendo a Engenharia

Oceânica

e

a

Engenharia

Eletrônica

no

desenvolvimento de robôs

13

submarinos que permitem a exploração de poços de petróleo em Águas Profundas 1 , através de parcerias entre a própria COPPE/UFRJ e a PETROBRÁS, através do seu Centro de Pesquisas - CENPES. Essa parceria, na realidade, nasceu no início das atividades off shore na Bacia de Campos, com os primeiros projetos em que o Programa de Engenharia Civil da COPPE, também junto do CENPES, estudou as formas e executou os cálculos das estruturas das primeiras grandes plataformas. Além dessas pesquisas, que contaram com a contribuição de algumas teses, existiram outras relativas sempre aos sistemas técnicos e às instalações do processo de exploração.

Em

1991, a primeira tese que tratou, de alguma forma da

questão do trabalho foi elaborada e defendida por JÚNIOR, Nelson Choueri, na Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP, em Dezembro de 1991 e se intitula, "Equipes de Perfuração Marítima - Uma Análise das Relações Sociais, das Condições de Trabalho e de Produtividade".

Essa tese se fixa nas atividades de perfuração marítima com características muito específicas em relação à produção, que são as duas atividades que compõem o que se chama exploração de petróleo. Na área de Perfuração, o autor descreve o trabalho de perfuração marítima, como atuam as equipes e classifica as tarefas exigidas na perfuração. O principal objetivo da tese é analisar a produtividade a partir do estudo dos dados sobre

¹ Águas Profundas são profundidades maiores do que determinada profundidade, a partir da qual a tecnologia difere grandemente da que tem sido usada. O valor pode variar em função da atividade e do tempo. Em perfuração tem sido considerado como águas profundas as lâminas d'água maiores que 500 metros. ( Chita e Cordeiro, maio 1988, cit. in JÚNIOR, Nelson Choeri, Dissertação de Mestrado, UNICAMP, 1991 ).

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satisfação e insatisfação existentes em um questionário, que leva em conta as particularidades deste tipo de trabalho no mar, como o confinamento, o regime de trabalho, o transporte, as relações sociais no Trabalho e fora dele, os Riscos da Atividade, a Restrição aos Hábitos e a Avaliação do Emprego.

Ainda dentro desta temática, existe uma pesquisa chamada O Perfil do Homem Off Shore, realizada pela empresa, através do Departamento de Relações Industriais, da Região de Produção Sudeste em Macaé. Na Coordenação desses trabalhos atuou a Administradora, e então Chefe do DIRIN/RPSE, ALBUQUERQUE, Marlene de Moura Cavalcanti e, como autores, a Assistente Social, PEREIRA, Sandra Marin, o médico, DIAS, Sérgio Terço e a médica SOARES, Sônia. Ainda como consultores externos à Petrobrás, FISCHER, Frida Marina, Doutora em Saúde Pública da USP, SENA, Marisa Alves de Oliveira, Doutora e Professora da Escola de Serviço Social da UFRJ e MACIEL, Salvador Ferreira, Professor Assistente de Método Quantitativo-Estatística, do Departamento de Matemática e Doutorando em estatística no Instituto de Matemática Pura e Aplicada ( IMPA ).

Os resultados desse estudo não foram divulgados externamente pela Petrobrás. Porém, sabe-se que o mesmo se baseou em questionários passados em 1988/1989 aos petroleiros embarcados. Os resultados foram levantados após discussões metodológicas e estatísticas em dezembro de 1991. Esse estudo tratou das relações de trabalho, das relações familiares, relações com grupos e organização da sociedade, condições gerais de vida, aspectos motivacionais, adaptação ao trabalho, fatores limitadores da permanência no regime Off shore, perspectivas pessoais e profissionais,

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organização do trabalho e relações entre sintomatologia, aspectos sociais, organização do trabalho e processo de trabalho.

Pelo que foi levantado bibliograficamente, o que existe hoje, no Brasil, em termos de trabalho Off shore são basicamente estas duas pesquisas: uma interna e, a outra, a dissertação de mestrado já referida.

1. 2 - O que é esta Tese ?

Esta dissertação nasce da vontade de ver contada, para além da região, de forma mais ampla, um pouco da história do trabalho off shore nas plataformas marítimas da Bacia de Campos, RJ.

Pela importância que a Bacia de Campos exerce dentro da matriz energética nacional, e até em termos internacionais, se for comparado o tamanho da Bacia e a sua produção, o trabalho humano aí desenvolvido já deveria ter sido motivo de maiores estudos.

Se

o

Estado do Rio de Janeiro fosse um país, certamente este

país poderia ser comparado aos grandes produtores internacionais de

petróleo, em termos de produção per capita.

A importância da região acaba sendo realçada pelas próprias administrações da empresa, na medida em que diretores de produção e até presidentes da empresa, em nível nacional, têm saído desta Região de Produção.

16

Por tudo isso, esta tese se propõe a ser uma contribuição a mais nessa caminhada. Ela visa a começar, não só a contar a história de um trabalho num tipo de atividade extremamente diferente dos normalmente conhecidos, como também a apontar outros caminhos a serem pesquisados, no futuro, por outras dissertações que tenham como base científica outras áreas do conhecimento humano que não são do domínio deste pesquisador.

Ao falar do trabalho, a tese pretende situar, também, em que contexto ele se coloca no presente momento em que ocorrem profundas reformulações nos processos de trabalho. Elas decorrem das inovações tecnológicas, de mudanças na sua organização e, também, do surgimento de diferentes demandas de qualificação que acontecem a partir dessa reformulação.

Assim, a primeira parte da tese faz um breve relato acerca das teorias e das pesquisas dos novos paradigmas da produção. Procura entender o contexto do surgimento da polivalência neste novo ambiente do trabalho. Busca, também, situar a preocupação teórica do determinismo tecnológico que tem gerado uma forma de ver a modernização e a produtividade do trabalho como algo que prescinda da força de trabalho humano.

Na segunda parte, faz-se uma descrição do que é a Bacia de Campos, do que é uma plataforma, sob o ponto de vista do tipo, das características, etc. e como funciona o processo de produção de petróleo off shore nas plataformas da região. Ainda nessa parte mostra-se a trajetória das novas descobertas e das instalações que permitem, à empresa, a exploração do petróleo em águas cada vez mais profundas. Por último, relata-se o reflexo das inovações tecnológicas sobre as instalações da planta de processo e, principalmente sobre a supervisão e sobre o controle dos processos.

17

A

terceira

parte,

descreve

mais

profundamente o trabalho

propriamente desenvolvido nas plataformas. Aliás, não só o trabalho, mas também o período de não trabalho, ou seja o descanso e o lazer nas plataformas. Essa descrição partiu principalmente, de um documento elaborado há 11 anos por um Engenheiro da Petrobrás, chamado Leonel França e da fala de diversos trabalhadores desse tipo de atividade off shore.

Na quarta parte, centra-se a análise no objeto do estudo de caso, o operador de produção, procurando-se caracterizar quem é esse operador, sua trajetória até a implantação da polivalência, o número de operadores de produção embarcados, a análise do seu trabalho, sua formação, sua qualificação. Por último, o impacto de todas essas transformações de base técnica e organizacional sobre o seu trabalho.

Terminando, procura-se levantar questões relativas à gestão da força de trabalho, em especial dos operadores de produção, frente aos inúmeros problemas que esta atividade peculiar apresenta. Acrescenta-se a esses problemas, as transformações tecnológicas que acabam modificando, por completo, a forma de organizar o trabalho, dentro do mesmo ambiente, que é de confinamento e de distância da sociedade por 14 dias.

18

1.3 - Justificativa:

A justificativa para a escolha do tema deste estudo não se pauta exclusivamente na ausência, ou melhor, na escassez de pesquisas sobre essa particular atividade desenvolvida em alto mar e distante da sociedade. Em consequência, as pessoas envolvidas nessa atividade, passam, por exemplo, os últimos 10 anos de suas vidas, em torno de 4 anos, lá, na plataforma, num ambiente confinado. Neste ambiente, envolvido em regras, predomina a disciplina, o barulho e, principalmente, os sentimentos de medo, solidão, ansiedade e saudade. Tudo isso vivido em nome da sobrevivência desse trabalhador. Trabalhador ainda novo, na média, no caso dos operadores, em torno de 35 anos, que troca este sacrifício por um posto de trabalho. Isso faz com que toda uma comunidade que precisa sobretudo desses postos de trabalho, tenha presente, em seu cotidiano, um pouco de cada um dos sentimentos acima citados.

Nesta região, sempre o sentimento de ausência está presente nas

datas marcantes. Sempre há alguém da família ou das relações de amizade trabalhando embarcado no Natal, no Ano Novo, nos aniversários, nos

casamentos, etc

Nesses momentos de festa, em que o convívio entre a

.. família e os amigos é muito forte, o petroleiro acaba sendo aquela "falta"

sentida por todos. Os próprios petroleiros se sentem um pouco isolado da

sociedade: " nos tornamos um ser anti-social, quando desembarcamos, ficamos meio

perdidos,

não

somos

chamados

para

casamentos,

festas,

etc,

porque

não

sabem

se

estamos embarcados ou em terra" (Entr. N° 16 ).

19

Os petroleiros acabam sendo atingidos por estes sentimentos e,

essas "faltas" marcam suas vidas: "no Natal é a data mais difícil, tem que chorar,

fazer a ceia, papai noel, etc

...

é pior faz a gente lembrar de tudo (

...

)

(

...

)ou

você não

pensa no problema, finge que não existe, se programa

...

senão entra em parafuso(

...

)

(

...

)

se tivesse uma

ponte para sair do trabalho

ir para

a terra, conversar com as

pessoas e voltar no dia seguinte, seria ótimo".

Esse quadro de sofrimento psíquico acaba sendo vivido, de alguma forma, por grande parte da comunidade, como, por exemplo, por este pesquisador, nas seguintes situações:

  • - quando viu grande parte dos seus colegas de Curso Técnico serem absorvidos por esse tipo de emprego;

    • - posteriormente, como docente, na Escola Técnica Federal de

Campos, depararou-se com uma série de alunos egressos contratados pela empresa;

  • - com a implantação do Curso de Técnico de Segurança do

Trabalho, também na ETFC, exercendo o cargo de Coordenador. Nesse caso, questões relativas às condições e organização do trabalho passaram a ser diárias. Como a população estudantil era ligada, de alguma forma, a esse tipo de trabalho, que era e continua sendo a grande expectativa de emprego do jovem da região, fica fácil compreender que as questões ligadas ao confinamento, à jornada de trabalho, ao turno de revezamento e ao trabalho noturno, assumissem importância na condição de docente e Coordenador do Curso.

A

discussão

sobre

o

alcance da Ergonomia para discutir e

explicar tais fatos acabou sendo o motivo final para a decisão de Cursar o

20

Mestrado em Engenharia de Produção e ter, como tema de Dissertação, o trabalho off shore. Os outros assuntos ligados ao tema, como o entendimento do impacto das inovações tecnológicas sobre a organização do trabalho e a qualificação dos trabalhadores, acabaram surgindo depois, à medida que se estabeleceu, no Curso, a discussão que os novos paradigmas da produção traziam também para este tipo de trabalho.

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1.4 - Metodologia:

A pesquisa para este trabalho, se realizou num contexto em que a fala do trabalhador, no caso o operador, foi considerada a peça chave para o entendimento da realidade que cercava o seu trabalho. Considerando o Operador como um informante privilegiado 2 , a metodologia utilizada para se alcançar os objetivos propostos acima se baseou em:

1. Antes de mais nada, é preciso dizer que o convívio com o objeto da pesquisa, em família, ou na sociedade em que este pesquisador vive, foi fundamental não só no estímulo à realização da mesma, como, de certa forma, pela motivação para seu momento inicial, pelas conversas e mais conversas com os alunos-petroleiros da Escola Técnica Federal de Campos, com os parentes-petroleiros, com os amigos-petroleiros, com os

vizinhos-petroleiros, etc

Um exemplo da importância dessa convivência

.. com o objeto da pesquisa é a existência no mesmo prédio em que reside este

mestrando, de dez petroleiros. No início desta pesquisa, os dez trabalhavam embarcados. Atualmente, apenas 4 estão trabalhando off shore. Essa

2 MINAYO, Maria Cecília em Os homens de Ferro, ao contextualizar sua pesquisa com os trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira, diz que os operários são escolhidos como informantes privilegiados da sua história, além de serem considerados importantes atores sociais. Ela diz ainda que tal concepção se apoia na tradição da Antropologia Social que tem feito, dentro das Ciências Sociais, a "revolução" da relativização das culturas. Continua dizendo: "a posição que aqui se assume apoiada em outros autores ( Verret:1972; Leite Lopes:1976 e 1978; Barbosa Alvim: 1978; Hoggart: 1973 ) é a de que a classe trabalhadora é portadora de uma contribuição específica para a sociedade. Ela se afirma no ato de transformar a natureza e produzir, na marca que deixa nos objetos produzidos, no seu estilo de resistir e se subordinar ao capital, de viver e se reproduzir e nos bens simbólicos que são a expressão do seu modo de pensar o mundo em que vive. Pretende-se portanto, ler a história dos "mineiros de Itabira"através do seu próprio viés e em oposição à história institucional que elege como protagonistas principais, os dirigentes e presidentes".

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observação reforçou a hipótese de que a redução dos efetivos embarcados é grande. Foi fundamental, também, para a compreensão do comportamento desse tipo de trabalhador, que se constitui num elemento com características próprias, dentro da sociedade. Ele só é visto, por esta mesma sociedade, unicamente em seu momento de lazer ou de descanso, e nunca exercendo o trabalho propriamente dito, que para a sociedade é algo distante e abstrato. As conversas de corredor, de elevador, foram, sem sombra de dúvida, elementos de profunda significação para o transcurso da pesquisa. Constituíram o marco inicial da pesquisa de campo, propriamente dita.

  • 2. Um outro passo assim como o anterior iniciado antes do

Curso que se prolonga até o presente momento de término da pesquisa, e serve de conclusão a esse Curso de Mestrado, é a análise de reportagens de jornais da região em Campos: Folha da Manhã, A Cidade e o Monitor Campista; em Macaé: O Debate e no Rio de Janeiro: Jornal do Brasil e O Globo. As reportagens sobre assuntos relacionados ao trabalho off shore mostram os acidentes nos transportes e no trabalho na plataforma, passando pelas brigas sindicais, e tudo que diz respeito a esse tipo de trabalho. Um exemplo marcante que coincide com a pesquisa, é a reportagem da revista de Domingo N° 811, de 17 de Novembro de 1991, intitulada "Em Cima de um Vulcão - O cotidiano de perigo e solidão dos homens que extraem petróleo das entranhas do mar".

  • 3. Antes da negociação com a empresa para a realização da

pesquisa de campo, foi realizado um amplo estudo teórico do processo de

Inovações Tecnológicas, da Organização do Trabalho, do movimento de desqualificação e requalificação da força de trabalho, a partir das mudanças tecnológicas e organizacionais, das novas formas de gestão, incluindo-se aí

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as propostas participativas e o Controle Total de Qualidade ( TQC ), da Ergonomia, principalmente no aspecto da negociação da demanda e da análise das tarefas. A bibliografia é citada no texto e no final do trabalho.

4.

Ainda

antes

da negociação foi feita uma entrevista em

Macaé, com o JÚNIOR, Nelson Choueri, que havia defendido sua tese referenciada anteriormente, sobre o trabalho em perfuração nas plataformas. O objetivo era a obtenção de dados sobre sua dissertação defendida e aprovada junto à UNICAMP, mas ainda não liberada pela Petrobrás para divulgação externa.

5. O próximo passo foi a negociação da demanda ( Vidal, M.1993 ) com a empresa. Aqui, é importante dizer, que desde a etapa inicial a pesquisa foi conduzida como um trabalho em equipe, envolvendo o também mestrando da COPPE/UFRJ - Engenharia de Produção, turma de 1992, PIMENTEL, Nelson, C. P., em função da área de pesquisa ser a mesma, ou seja, a influência do complexo da Petrobrás, na Bacia de Campos, RJ, sobre o trabalho e a vida das pessoas depois de sua instalação. Em sua pesquisa PIMENTEL, Nelson, pretende observar como a comunidade da cidade de Campos reage com à presença da Petrobrás, que fisicamente está instalada, através da RPSE ( Região de Produção Sudeste ) em Macaé. Desde o início, da negociação da demanda, este estudo se realizou através de um trabalho conjunto dos dois mestrandos. O primeiro contato com a empresa ocorreu numa viagem à Macaé, para a formalização de uma proposta dos dois pesquisadores ao Departamento de Relações Industriais, no sentido de se criar uma demanda para o estudo que estava sendo proposto à empresa. Dois contatos com o Setor de Recursos Humanos, na sede da empresa no Rio de Janeiro e a apresentação, em Setembro de 1992, de uma proposta conjunta

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dos dois pesquisadores ( vide anexo ), ao Departamento de Produção ( DEPRO ), permitiu que a pesquisa de campo fosse iniciada.

6. A sexta etapa foi a realização de uma pesquisa entre os Operadores de Produção que atuam embarcados, entre os meses de Novembro de 1992 e Março de 1993. Visava-se a um primeiro diagnóstico do perfil desses operadores a respeito de questões sobre Escolaridade, tempo de emprego, treinamento, do trabalho, repouso, sono, refeição, relações de trabalho com pessoal da própria Petrobrás e das Empreiteiras, avaliação funcional, adaptação ao trabalho, trabalho em turnos, ambiente de trabalho, acidentes de trabalho, assistência dada pela empresa, lazer, saúde, relacionamento social, familiar e sexual, perspectivas futuras pessoais e ascensão funcional. Esta pesquisa intitulada "Perfil do Operador de Produção Off Shore", cujo questionário e relatório com os resultados se encontram nos anexos, foi respondido por 82 Operadores, perfaz uma amostra de aproximadamente 8% do total de operadores e mais de 10% dos operadores atualmente embarcados. O objetivo dessa pesquisa foi levantar questões a serem priorizadas na observação participante 3 ( durante o embarque ), que é a parte qualitativa da pesquisa, considerada elemento essencial no delineamento desta dissertação. Alguns de seus dados foram incorporados ao texto para ajudar na contextualização de alguns pontos, mas o relatório completo desta pesquisa está inserido nos anexos, ao final desta.

3 Termos como observação participante, entrevista, trabalho de campo, e outros relativos a uma pesquisa qualitativa podem ser melhor compreendidos em MINAYO, Maria Cecília, em "O Desafio do Conhecimento - Pesquisa Qualitativa em Saúde" e também em BECKER, Howard, S. através do livro "Métodos de Pesquisa em Ciência Sociais".

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7. Após mais duas viagens à Macaé, para obter dados sobre a pesquisa e acertar a metodologia de trabalho proposta no documento entregue ao DEPRO, foi fechado, no dia 17-03-93, um roteiro de visitas às plataformas, em seus diversos tipos: 1) uma plataforma fixa de grande porte e de uma família tecnológica mais antiga: "Namorado-1"; 2) uma plataforma fixa de grande porte pertencente a uma tecnologia mais avançada: "Pargo"; 3) uma plataforma semi-submersível, pequena e contratada, que presta serviços à Petrobrás; nela todo setor de utilidades é operado pelos "gringos", só a operação é feita por pessoal da Petrobrás ): "SS-08 no campo de Bonito"; 4) uma semi-submersível, que possuísse também trabalho de perfuração: "SS-18 - Piraúna" ; 5) uma plataforma semi-submersível com a idade tecnológica da planta de processo mais avançada à época: "SS-33 - Marlim". A viagem de helicóptero dos dois pesquisadores para as plataformas ocorreu entre os dias 22 e 30 de Março de 1993, e obedeceu a seguinte ordem:

Dia 22-03-93 - Segunda feira: 11:00 h - Aeroporto; Saída: 12:30 h; Chegada à SS-08: 13:25 h; Dia 23-03-93 - Terça feira: Transbordo - Saída da SS-08: 14:15 h; Chegada a SS-18: 14:20 h; Dia 24-03-93 - Quarta feira: Transbordo - Saída da SS-18: 14:50 h; Chegada a PNA-1: 15:00 h.; Dia 26-03-93 - Sexta feira: Transbordo - Saída de PNA-1: 15:30 h; Chegada a SS-33 Marlim: 15:45 h; Dia 29-03-93 - Segunda feira: Transbordo - Saída de SS-33: 08:55 h; Chegada a Pargo: 09:50 h. ( Obs.: O grande tempo de viagem se deveu à parada de transbordo em 5 plataformas entre a SS-33 e a plataforma de Pargo ).

26

Dia 30-03-93 - Terça feira: Volta - Saída de Pargo: 16:45 h; Chegada ao Aeroporto de Macaé 18:00 horas, depois de 5 paradas em plataformas para transbordo. Essa viagem, sem sombra de dúvida, é o elemento principal da pesquisa de campo desta dissertação. Foram computadas em torno de 114 horas trabalhadas durante esse embarque, por cada um dos pesquisadores 4 . Foram entrevistadas aproximadamente 55 pessoas 5 ; Algumas entrevistas foram gravadas, outras não, num total 8 horas de entrevistas. Filmadas 4 horas em fita VHS. Tiradas 72 fotos e montados 52 slides durante o embarque. Além deste material obtido no embarque, foram analisadas mais 4 fitas de vídeo VHS, sobre o trabalho off shore, obtido junto a petroleiros. Foram gravadas em entrevistas, em terra, mais 6 horas de áudio. Foi feito um Relatório do Embarque, para uso dos pesquisadores, sem levar em conta as entrevistas gravadas. Nesse relatório se descreveu, em ordem cronológica, todos os acontecimentos ( lembrados e/ou anotados ) ocorridos durante o

4 Aqui vai ser descrita uma observação feita no final do documento intitulado por esses dois pesquisadores de "Relatório do Embarque": Na realidade, as horas trabalhadas foram todas aquelas, ou talvez até aquelas dormidas na plataforma, porque tudo era motivo de curiosidade e de atenção para nós. Uma simples conversa no refeitório, na sala de TV, ou no corredor, ou até mesmo uma não conversa em qualquer um dos lugares acima. É impossível imaginar um trabalho desse tipo sem conviver com ele, por pelo menos uns 5 dias. A sensação de ter sentido um pouco do que esses trabalhadores sentem, ficou marcada na memória. É importante voltar a dizer da nossa descrença em qualquer metodologia que tente quantificar os sentimentos presentes nessa atividade tão peculiar. Tão peculiar que me fazia sentir estar na Ásia ou África, quando telefonava para casa ou mesmo quando pensava em casa. Não acreditava que, em linha reta, estava em torno de uns 120 Km de casa. O sentimento não era este.

5 No final da dissertação é feita uma referência através de um número dado de forma totalmente aleatória e que visa apenas a dar alguma indicação que ajude a compreender a posição do entrevistado em relaçào à empresa ou em relação à sua formação, sem revelar a sua identidade. Pode-se observar a grande diferença entre o número de entrevistados e o número de referências. Este fato se deve à não indicação formal de cada um dos entrevistados, em função de que nem toda entrevista foi gravada. Ao ser citada a entrevista, ela terá indicada, entre parênteses, o número do entrevistado para obtenção da referência no final da dissertação.

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embarque. Algumas transcrições de conversas, que não foram gravadas, só foram descritas quando se tinha absoluta certeza do seu conteúdo, podendo ter, portanto, pequenas alterações na forma, somente.

8. A etapa seguinte foi a elaboração de um relatório de pesquisa, intitulado "Documento N° 2 - Embarque às Plataformas; Propostas de Tese e Intercâmbio Pesquisadores / Petrobrás ( vide anexo ) em Julho de 1993, que serviu de base para duas reuniões ( workshops ), com representantes de diversos setores da RPSE ( Relações Industriais, Novos Projetos, Automação Industrial e Treinamento ). Nessas reuniões havia troca de informações, dentro do intercâmbio proposto pelos pesquisadores à empresa, objetivando resultados a serem conseguidos por ambas às partes, independente da apresentação formal para a Universidade, da Dissertação de Mestrado. Essa etapa proporcionou importantes fontes de análises e de consultas para o andamento da tese deste pesquisador.

9. A nona etapa consistiu em levantamento e coleta de dados de arquivo, na seção do Sindicato dos Petroleiros de Campos, na entrevista a um dos diretores atuantes em Campos. Houve, também, uma entrevista realizada com um diretor do Sindipetro no Rio de Janeiro, que era o Secretário Geral do Sindicato e que passou inúmeros dados disponíveis. Esse diretor já havia sido o responsável, no Sindicato, pelo Departamento de Saúde, Tecnologia e Meio Ambiente e realizou, inclusive, um Seminário sobre Novas Tecnologias, Organização do Trabalho e Saúde do Trabalhador.

10. A décima etapa constou da descrição fiel do conjunto de entrevistas gravadas e na classificação e organização de todo o material recolhido na fase de pesquisa. Esse material compreende desde os recortes de jornais, transcrição das fitas de entrevistas, relatório do embarque,

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material de divulgação institucional da empresa, material de divulgação do Sindipetro-RJ, ao material conseguido junto a uma série de operadores- petroleiros, que, sabedores da pesquisa, procuravam este pesquisador para dar a sua contribuição. Foi a partir daí que se percebeu a relação existente entre os pontos tratados nesta dissertação.

11. Por fim, procedeu-se à elaboração do texto desta dissertação em que se procura descrever com fidelidade o que foi visto, ouvido e vivenciado. Assim ele pode servir tanto para a academia, que busca compreender a realidade vivida nos mais diferentes setores de trabalho, dando-lhe uma visão contextualizada, quanto para esses trabalhadores. Deseja-se que a partir da leitura do que é o seu trabalho, eles possam, também, dentro de uma visão mais contextualizada ter mais elementos para uma transformação da realidade desse "peculiaríssimo" tipo de trabalho.

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Capítulo

2

Os Novos Paradigmas da Produção e Seus Desdobramentos:

Neste final de século constata-se alterações profundas em todos os processos de trabalho. A revolução tecnológica caracterizada pela introdução da automação microeletrônica e as novas formas de Organização do Trabalho nos sistemas produtivos tem provocado grandes mudanças nas formas de gestão da produção e da força de trabalho, com consequências significativas para as empresas e para a sociedade.

As transformações também têm acontecido de forma acentuada na estruturação e na organização do trabalho. As empresas estão sendo obrigadas a mudar a sua cultura organizacional e a adquirir novos padrões gerenciais. Velhos paradigmas têm sido substituídos objetivando eficiência e produtividade do trabalho.

As combinações de pessoas, máquinas e informações têm gerado processos de trabalho com características quase individuais. Chega-se a afirmar que a introdução de novas tecnologias tem caráter social sempre distinto, ou seja, não existe uma relação causal obrigatória entre o uso de determinadas tecnologias ( base técnica ou organizacional ) e a obtenção de determinados resultados.

30

Aqui, neste capítulo, será feita uma breve análise dessa mudança de paradigmas, procurando entender a Qualificação, as Inovações Tecnológicas e as Mudanças Organizacionais observando suas relações com as estratégias adotadas pelo setor produtivo para se adaptar a este novo momento, que tem sido chamado de modernização industrial.

2.1 - O que é Qualificação?

A Qualificação é um conceito extremamente relativo. Nunca poderá ser entendido como algo absoluto, definitivo, ou seja, não pode ser visto como definidor de nada. A qualificação, desta forma, estará sempre relacionada a alguma coisa teórica ( princípio ) ou prática ( tecnologia ). Além disso, é preciso ter clareza que a Qualificação é um "atributo do trabalhador" e não do processo. Nesse aspecto, pode-se entender que tanto no período artesanal como na época atual, em que se utilizou sistemas altamente automatizados, este atributo do trabalhador ( qualificação ) está presente.

Se há concordância de que a intervenção humana é essencial em qualquer processo de trabalho, é necessário compreender que a Qualificação vem acompanhando o trabalhador nas mais variadas formas de intervenção.

MACHADO, L. reforça a tese de que a Qualificação é um atributo do trabalhador. Afirma, porém, existir uma qualificação coletiva que é dada pelas próprias condições da organização da produção social, da qual a

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qualificação individual não só é pressuposto mas também resultado. Machado, L. cita ROLLE, para dizer que Qualificação não é um modo de reconhecimento e de codificação social das qualidades de trabalho, mas uma

maneira de mobilizar, de reproduzir e de adicionar as diversas formas de trabalho.

ZAMBERLAN, F. L. ( 1987 ), de certa forma, contesta a posição do Roller quando questiona a qualificação como codificação social das qualidades de trabalho, ao dizer que a mão-de-obra, mesmo antes da Revolução Industrial, era classificada por uma determinada escala hierárquica. Nessa escala, o que era feito ( e permanece até hoje ), nada mais era do que uma atribuição de qualidades aos trabalhadores, com posterior ordenação hierárquica. Essa classificação da mão-de-obra, da qual resulta a noção de Qualificação, vai aos poucos sendo extrapolada para outros setores da economia, até fazer parte da linguagem cotidiana.

Ao se reconhecer a Qualificação como atributo do trabalhador e de vê-la dentro do conceito de Marx, que diz ser a Qualificação um conjunto de condições físicas e mentais que compõe a capacidade de trabalho ou a força de trabalho despendida em atividades voltadas para a produção de valores de uso em geral, pode-se entender a visão histórica citada por Zamberlan. Ele reconhece esse atributo como mercadoria a ser negociada, cujo valor passa a ser estipulado por uma tabela que vem a ser a escala hierárquica ( Plano de Cargos e Salários ), apresentada pelo comprador da força de trabalho em função da oferta do mercado. É regulada pela demanda desse "atributo", por parte de quem dispõe das instalações e máquinas, e da quantidade de trabalhadores existentes dentro de uma determinada região ou da sociedade como um todo.

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Demonstra-se assim, que reconhecer a Qualificação como atributo, não é uma experiência recente. É natural que seu conceito venha se transformando, que tenha níveis diferentes e acompanhe as transformações do processo de trabalho, sem que se veja nisso um determinismo tecnológico.

É fundamental ter este entendimento, porque só recentemente, a partir das inovações tecnológicas, é que a discussão a respeito da Qualificação volta a ganhar importância. E fica muito claro porque assim ocorre.

Com as Inovações Tecnológicas, a discussão que se retoma é se esse atributo continua a todo tempo, hora e circunstância a ser do trabalhador, ou se ele ( o atributo, a qualificação ) pode estar sendo transferido para o sistema técnico que passa a ser inteligente, tomando decisões, escolhendo prioridades, etc., enquanto o operador passa a ser um elemento passivo, frente a um sistema ativo, que o supervisiona. O sistema automatizado, na sua função de supervisão, apenas aguarda a ocorrência de anormalidades para seguir rotinas que garantam a não interrupção do processo de trabalho.

O ponto de vista contrário ao citado é o de que as habilidades e o conhecimento, que antes garantiam a produção, continuarão sendo indispensáveis. Primeiro na projetação, segundo na instalação e, por último, na manutenção do novo sistema. Para alguns, ainda, até mesmo a operação demandará um trabalhador com conhecimentos que lhe permitam uma intervenção segura, sem problemas, não só no sistema, como no próprio processo que o sistema controla e supervisiona. Assim, a produtividade deste novo sistema, estará garantida e, em última instância, será medida não só

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pela redução das interrupções, como da redução do tempo delas, dos tempos mortos, do retrabalho, etc ..

2.2 - As Inovações Tecnológicas

Os procedimentos tomados a partir do desenvolvimento tecnológico em termos de inovação de processos e procedimentos seguem trajetórias determinadas, segundo CORIAT, B. 6 embora, como diz SOARES, R.M.S.deM. 7 , o caráter social da introdução de novas tecnologias é sempre distinto, ou seja, sem uma relação causal obrigatória entre o uso de determinada mudança tecnológica e a obtenção de determinados resultados.

Segundo

Coriat,

são

dois

os fenômenos que determinam os

rumos dos novos Paradigmas da Produção: 1 - O esgotamento relativo das técnicas tayloristas e fordistas de Organização do Trabalho como suporte para obtenção de ganhos de produtividade; 2 - O novo caráter que reveste a exigência das empresas em épocas de crise: demanda por produtos estandardizados são substituídos por produtos com séries limitadas e características cada vez mais específicas.

6 Revista El Movimento Obrero Ante La Reconversión Productiva - México, Janeiro -

1988.

7 Reflexões sobre o Seminário Internacional Mudança Tecnológica, Organização do

Trabalho e Formas de Gestão - IPEA/ IPLAN/CENDEC - 1988.

34

Isso fez surgir a necessidade da Integração e da Flexibilidade

da Cadeia Produtiva. A Integração consiste em obter maior compactividade da cadeia e diminuir o tempo de trabalho e de operação. De maneira mais geral, consiste em converter os tempos mortos em tempos

efetivamentes

produtivos.

A

Flexibilidade,

na

prática,

significa

ter

mobilidade para mudar o "modus

operandi" (

as formas operatórias

),

de

maneira

a

atender

à

demanda

por

produtos

diferenciados

em

curtíssimo

espaço de tempo. De preferência isso deve ser feito através da reprogramação das máquinas ou da planta, em caso de ser um modo de produção por processo. 8

Resumindo, alguns objetivos:

a

Flexibilidade

e

a

Integração

se

traduzem

em

1- Reduzir o tempo de resposta às variações do mercado;

novos diferenciar-se frente à concorrência;

2-

Estabelecer

critérios

de

qualidade

como

forma

de

3- Reduzir estoques e custos financeiros;

8 O modo de Produção por Processo se caracteriza pela unicidade entre processo e

produto. O processo e o produto representam uma única coisa. Se caracteriza ainda, por

ser um Sistema Integrado onde não há fases, nem peças, só o processo que vai determinar

o produto. Este modo tem ainda a cracterística de só produzir produtos para os quais o

sistema tenha sido projetado, ou seja tem a flexibilidade relativizada à reprogramação do

sistema, só permissível a partir da inserção no mercado dos Controladores Lógicos

Programáveis ( CLPs ).

35

4- Aumentar a taxa de ocupação do equipamento, para que um investimento em máquinas possa produzir um volume maior de produtos;

5- Aumentar o controle sobre a produção

e

o

trabalho como

forma de procurar manter, relativamente sob vigilância, o conflito social

dentro das empresas.

Conseguem-se esses objetivos através da utilização conjunta da informática, da automação flexível e de mudanças organizacionais. 9

Serão comentados, primeiramente, a informática e a automação, neste item das Inovações Tecnológicas. Depois, será abordado o aspecto da Organização do Trabalho e suas relações com a Qualificação e com as Inovações Tecnológicas.

Sem sombras de dúvida, a grande inovação tecnológica vivida nas fábricas, já há algum tempo, foi a inserção da automação microeletrônica através dos equipamentos programáveis, que permitiu incluir instruções para série alternativas e diferentes de operações.

Equipamentos programáveis são os controladores lógicos programáveis ( PLCs ou CLPs ) usados em equipamentos isolados ou diretamente nos processos, operando através de informações que lhe são fornecidas pelos sensores. Eles são capazes de ativar automaticamente o programa de operação correspondente a uma peça, em caso de ser uma

9 CORIAT, B. chama de automação

o

processo

que

abrange

as

máquinas

e

os

procedimentos de execução das operações, e de informatização a gestão automática das

informações necessárias à execução das operações.

36

máquina isolada, ou alterar variáveis de um processo, realizando seu aprimoramento de controle.

A

instalação

de

diversos

desses

controladores

combinados

permite

uma instalação automatizada, com maior ou menor complexidade.

Neste capítulo, procurar-se-á analisar melhor as alterações provocadas em instalações de plantas industriais que trabalham com processos contínuos, como é o caso do modo de produção das plataformas, na qual se inserem mais especificamente os Operadores de Produção, objeto final desta dissertação.

CASTRO,

N.

A

&

GUIMARÃES,

A.

S.,

ao

estudarem

a

inovação tecnológica e sua relação com a organização do trabalho na petroquímica brasileira, já haviam identificado a escassez de pesquisas, no Brasil, sobre os impactos de novas tecnologias nas atividades fabris caracterizadas pelo fluxo contínuo do processo, como é o caso do petróleo e petroquímica, siderurgia, cimento e outros.

No setor de petroquímica, as transformações tecnológicas de maior repercussão estão ligadas ao aperfeiçoamento do controle de processo. Os autores afirmam que isto se dá porque, neste tipo de atividade, o ritmo de produção não depende do ritmo de trabalho. A produtividade resulta do rendimento global das instalações e da exata performance dos equipamentos.

Como se dá então a mudança nesta área? No modo de produção por processo contínuo, a implantação dos controladores representa o primeiro passo em direção a automação eletrônica. Os controladores, com a presença ou não de computadores, realizam a supervisão e o controle através

37

da recepção e do processamento de informações no fluxo de produção. Neste caso, por exemplo, os sensores avaliam permanentemente a temperatura, ou a pressão, ou a vazão e transmitem suas informações aos controladores individualmente, ou diretamente aos computadores, quando estes centralizam unificadamente o controle e a supervisão de todo ou de parte do sistema.

Dependendo

do

software

deste

sistema,

através

dos

computadores se verifica, por exemplo, se a curva de evolução da

temperatura está dentro do previsto pelo programa teórico. Em caso de anormalidade, o computador envia instruções ao maquinário automatizado para realizar a abertura de válvulas, por exemplo, para restabelecer as condições para um retorno à evolução de temperaturas conforme o previsto originalmente. ( ibidem Coriat, B.)

Segundo

Coriat,

B.,

os

dois

tipos

de

equipamentos

-

os

computadores provêem-se de informações e as tratam e os meios de controle programável são utilizados, freqüentemente, de forma simultânea. No caso da produção por processo contínuo, essa utilização se dá promovendo a intervenção sobre a matéria-prima, não mais através de operações de manipulação e sim através da supervisão do desenrolar correto das reações físico-químicas.

Continuando com Coriat, B., ele diz que a engenharia produtiva consiste no processo de utilizar e otimizar, conjuntamente:

 

-

os

recursos

disponíveis

para

a

automação

da

produção,

visando

otimizar

a

gestão

dos

complexos

de

micro-tempo

de

operação/

circulação;

38

- a informatização de tarefas e funções de gestão da produção - a gestão da produção diz respeito, não à atividade material de fabricação e transformação da matéria, mas aos intercâmbios de informação entre diferentes meios de trabalho utilizados simultaneamente com instrumentos de operação necessários à fabricação.

Em resumo, a informática da produção junta-se à automação para absorver, na prática, as tarefas. Sendo assim, todo um conjunto de atividades de regulação - outrora atribuídas ao trabalho vivo e cuja execução constitui o coração das técnicas de organização do trabalho - passou a ser desempenhado pela máquina. Dito de uma forma mais clara: a Informática assegura - parcial ou totalmente - o desempenho de um papel antes atribuído à Organização do Trabalho.

2.3 - A Organização do Trabalho

O novo papel atribuído à organização do trabalho, a partir das inovações tecnológicas, não significa dizer que "todas" as recentes mudanças decorrentes da forma de organizar o trabalho sejam originárias do desenvolvimento tecnológico. Mas não há como negar que a decisão gerencial de realizar transformações de base técnica, obriga, num segundo momento, que se altere a maneira de combinar pessoas, máquinas e informações para fazer um produto.

39

Isso não significa concordância com a visão do determinismo da tecnologia, até porque tem sido comum, principalmente no Brasil, a realização de mudanças organizacionais anteriores à mudança tecnológica, como forma de se obter ganhos de produtividade 10 .

Por

outro

lado,

a

mudança organizacional que as novas

tecnologias passam a exigir, não se pauta em uma só alternativa. Continuarão existindo diversas maneiras de se realizar este "novo trabalho". As relações sociais e de poder continuarão presentes, não sendo, na maioria das vezes, alteradas pelo novo ambiente tecnológico.

As mesmas condições que determinaram a mudança tecnológica através da informática e da automação flexível estão presentes na mudança organizacional. Estas procuram integrar e flexibilizar os sistemas produtivos. Alguns exemplos: as células de produção, as mini fábricas, o sistema just in time/kanban e a criação de operários polivalentes.

ZARIFIAN, P., ao questionar as limitações da antiga abordagem taylorista da produtividade, em que o fundamental era que o trabalhador aceitasse cumprir os trabalhos prescritos guiado pelas normas impostas pela empresa, diz que, nos processos técnicos integrados e informatizados, o conceito de posto de trabalho é alterado pela evolução técnica que produzirá novas formas de trabalho.

10 Segundo FERRAZ, J.C.: "o fato das novas técnicas organizacionais não requererem, em

geral, grandes investimentos em equipamentos e serem aplicáveis, em muitos casos, a

pequenas escalas de produção torna-as muito apropriadas para a maioria dos setores da

indústria brasileira, onde prevalecem a descapitalização e a produção em pequenos lotes.

40

O posto de trabalho vai sendo substituído pela noção de zona ou célula. Com isso ocorre o distanciamento entre o sistema técnico e o sistema de trabalho que passam a ser ligados por um novo sistema chamado por Zarifian, de "informacional". E mais: ele diz que isto não significa que as intervenções manuais tenham desaparecido, mas que foram deslocadas para as tarefas de regulagem, de correção de disfuncionamento e de reparação de panes no sistema técnico. Prossegue afirmando que o ganho maior não consiste em abreviar o tempo de reparação de panes, mas sim em prevenir essas panes e as paralisações de máquinas e/ou de processos. É a nova lógica da produtividade, é uma lógica de velocidade de ação do sistema técnico em si. (grifo do autor)

A regra básica de trabalho, neste novo sistema, para garantir a produtividade, passa a ser: não deixar a máquina/ ou o processo parar. Na indústria de processo, isso é mais claro. Mesmo antes das inovações tecnológicas, o ritmo da produção, não dependia do ritmo do trabalho e sim do rendimento global das instalações. Desta forma, impedir a parada do processo significa "tender a zero a porosidade" do processo produtivo, permitindo assim, um resultado próximo da capacidade máxima da instalação industrial.

Dentro desse contexto, Zarifian, defende que o taylorismo apenas mudou de roupa. Segundo ele, no taylorismo clássico, os tempos mortos são aqueles em que o operário não trabalha, não executa as operações produtivas. Na nova abordagem, ou "o novo taylorismo", tempos mortos são aqueles em que a máquina não funciona, as operações param. O controle sobre o trabalho vivo deixa de ser feito diretamente pelo supervisor ou capataz, e passa a ser realizado indiretamente sobre a equipe de produção,

41

numa intensidade muitas vezes superior, sobre o "tempo morto" da máquina ou processo, que por sua vez vai determinar a produtividade.

Essa nova condição exige da empresa duas mudanças:

1

- serem fabricados;

a mudança do enfoque sobre a qualidade dos produtos a

2

-

a

mudança

sobre

o

conceito

do

papel

dos

operadores,

reconhecendo a sua subjetividade e a sua capacidade de cooperação.

A primeira mudança leva à tentativa de aumentar a integração e à certeza de que a qualidade não será conseguida no final do processo e sim durante o mesmo. A atividade que determina o valor do produto não é a inspeção, mas a produção. Para isso, torna-se indispensável a ruptura da rígida concepção, que prevê a divisão entre o operador de produção e a inspeção da qualidade.

A segunda mudança leva à tentativa de fazer com que os operadores sejam capazes de reconhecer as variabilidades do novo sistema e que intervenham rápido e eficazmente para reduzir o tempo de produção e evitar paradas e panes. Para isso, torna-se necessário reconhecer o saber operário que, na abordagem clássica do taylorismo, é menosprezado. Esta abordagem afirmava que a análise científica do trabalho é que determinaria as normas e os procedimentos a serem seguidos pelos operários, cujo trabalho deveria ser supervisionado e controlado.

A nova abordagem parte da premissa de que existe um saber operário e que é mais importante usá-lo, para atender aos novos objetivos da empresa, do que continuar a retirá-lo e análisá-lo, usando a racionalidade

42

técnica, para depois devolvê-lo sob a forma de rotina, com definições de novos padrões e estabelecimento de novas regras de controle.

Zarifian diz que, no taylorismo clássico, se excluía, da atividade operária, a definição de produtividade e o papel desempenhado por todos os saberes sociais adquiridos no trabalho ou fora dele, bem como a importantíssima questão da combinação desses saberes. Isto acontecia porque Taylor reconhecia o Saivoir-faire do operário, mas considerava que seu conhecimento era muito empírico e aproximado para permitir um incremento da produtividade. Este foi o motivo que fez com que se retirasse dos operários o poder e a definição das suas rotinas de trabalho, e se partisse para a análise científica do trabalho e se criasse a racionalidade técnica que, naquele momento, segundo Taylor, era a forma de garantir o aumento da produtividade.

O rompimento com esta visão exigirá novas formas de relações de trabalho. Relações que passem a ver o trabalhador como parceiro indispensável para o aumento da produtividade do sistema.

As diversas formas de gestão participativa se encaixam nessa

perspectiva. Como diz Storch, S.,: "a escola gerencial passa a atribuir maior importância à participação à medida que os administradores se dão conta do potencial criativo dos trabalhadores".

São diversas as formas, as dimensões, o grau de influência e os níveis de participação. De todos os "modelos" que estão sendo implementados, sem sombra de dúvida, os que se baseiam na Teoria do TQC ( Controle de Qualidade Total ), com as diferentes nuances na aplicação, são os que têm tido maior divulgação.

43

É importante aqui, ressaltar que a Gestão Participativa tem significado não apenas para a reorganização do trabalho, mas também na reformulação deste novo ambiente de trabalho em que as Inovações Tecnológicas necessariamente estão presentes, visando uma melhoria qualitativa e quantitativa da produção.

O modelo participativo desta forma, prevê uma utilização mais racional da mão de obra, considerando seu "savoir-faire", otimizando desta forma a utilização das novas tecnologias instrumentalizadas nas instalações automatizadas e informatizadas.

Neste cenário, percebe-se a necessidade da participação ter um amplo escopo, que inclua o pessoal do "chão de fábrica", desde a fase de projetação destes novos sistemas automatizados, por dois motivos principais. Primeiro, porque o "saber fazer" operário precisa ser levado em conta e permitir intervenções desde a fase anterior à instalação destes novos sistemas, para que efetivamente se tenha um ganho de produtividade. Segundo, tem-se necessidade que as negociações que surgirão a partir da adaptação ao novo ambiente de trabalho se dê de uma forma ampla, que permita o estabelecimento de novas relações de trabalho, que por, sua vez, poderão levar o trabalhador a melhores condições de trabalho e a uma participação nos ganhos de produtividade. Esta nova relação quebrará a resistência dos trabalhadores a estes novos sistemas, por falta de conhecimento e de participação dos mesmos na elaboração das novas estratégias.

Se as premissas acima não ocorrem, estará se promovendo uma grande contradição. Especialmente dentro do modelo do TQC, que prevê a necessidade de um novo perfil de profissional, adaptável e flexível e com

44

autonomia para agir, para fazer face a um novo paradigma de produção. Para isso, é preciso organizar máquinas e pessoas de tal forma que se otimize a produção. A contradição se coloca na visão de se ver a técnica como algo que preveja a eliminação da intervenção humana.

Dentro deste novo contexto dos sistemas técnicos, que prevê um rearranjo organizacional é que surge a noção de trabalho polivalente.

2.4 - O

QUE É POLIVALÊNCIA ?

Como já foi dito, é num ambiente de inovações tecnológicas e

organizacionais, com a integração e a flexibilidade de homens e máquinas,

que

a polivalência aparece no cenário da reestruturação e/ou modernização

industrial.

A polivalência objetiva trazer mobilidade à força de trabalho cuja atividade deixa de ser específica sobre uma tarefa; visa à redução dos tempos mortos de determinada máquina ou parte do processo e passa a ser mais abrangente em função do novo conjunto de atividades que um sistema informatizado traz à tona. Essa atividade deixa de ser de execução e passa a ser mais de supervisão e de controle de informações, no fluxo de produção.

Aqui, é preciso fazer uma distinção entre o trabalho polivalente, implantado em fábricas de produção discreta, cujas atividades de produção representam em seu final, peças em estruturas que podem ser rígidas ( antigas ) ou flexíveis ( novas ) e a indústria de processo contínuo, que é o adotado, por exemplo, em uma refinaria.

45

Neste estudo, faz-se uma analogia entre o trabalho realizado pelo operador, na plataforma, e o trabalho executado em uma indústria de processo contínuo do tipo de uma refinaria. No caso da plataforma, a matéria prima é o petróleo bruto extraído dos poços e os produtos finais são o óleo e o gás separados um do outro, da água e de outras impurezas. No caso da refinaria, a matéria prima é o óleo, cujo tratamento ou beneficiamento primário ( separação da água, gás e principais impurezas ), já foi feito na plataforma e, como produto final, diferentes derivados ( gasolina, querosene, nafta, óleo diesel, etc. ), de acordo com os objetivos da planta de processos montada.

O primeiro tipo de Polivalência implantado é aquele em que o operador passa a controlar duas ou mais máquinas iguais dentro de uma cadeia de produção. O segundo tipo é o que ocorre quando o operador, além de operar uma ou duas máquinas, passa também a fazer o controle de qualidade do seu trabalho. Tanto no primeiro quanto no segundo tipo, a polivalência quase sempre é vista como uma possibilidade de intensificação do trabalho, com a ampliação das tarefas que Friedmann, G., chamava de "job enlargement".

O segundo tipo de Polivalência quase sempre é exercido por operadores especialistas em determinados setores. Por exemplo, na tornearia, ocorre a polivalência quando o operador passa a desempenhar também outras funções de execução como a fresagem, soldagem, prensagem, furação, etc., numa organização quase sempre com características de uma célula de fabricação. As células de fabricação, normalmente, têm a característica de possuir um pequeno espaço físico com as máquinas bem agrupadas para facilitar o transporte da peça, reduzir o deslocamento dos operadores e

46

permitir que eles se ajudem mutuamente ( como um trabalho em equipe ) e, finalmente, que os operadores operem mais de uma máquina.

A Polivalência, nesse caso, está no trabalho em diferentes máquinas. Também, nesse tipo de estrutura de produção, em um caso mais avançado, num torno de comando numérico, em que o controle é efetuado pelo computador. O operador apenas alimenta, aciona e monitora ( supervisiona ) a máquina. Aí a polivalência acaba sendo exercida através da supervisão do trabalho da máquina que executa uma gama mais variada de operações.

A

polivalência,

na

indústria

de

processo

contínuo,

é

determinada por um rodízio de funções e/ou pelo controle e supervisão de

todo o processo, ou de parte dele.

Essas novas atividades no modo de produção por processo, mesmo no que tange à supervisão, tendem a se reduzir à medida que a informatização das linhas ou plantas vai aumentando. A redução acontece porque a regulação das variabilidades, que são feitas pelos operadores, tendem também a diminuir, à proporção que o sistema incorpora cada vez mais e mais informações e seu tratamento, através da programação, permite- lhe ter uma atuação mais confiável.

A polivalência, a partir da informatização / automação dos processos de produção, conforme seja realizada esta automação, pode exigir maior ou menor qualificação dos operadores. Se a automação leva a uma integração do controle das diferentes etapas de um processo, certamente o nível de qualificação sobe, porque o operador, que antes conhecia apenas uma parte do processo, precisa conhecer todas as partes que o controle

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automático integrou. Por outro lado, se a automação levar apenas a um diagnóstico dos problemas gerados no processo, com a correção automática do mesmo, a partir do software que incorporou o saber antes presente nos operadores, o trabalho realizado pelos mesmos pode estar sendo reduzido a um cumprimento de rotinas.

Certamente

a

Polivalência aliada ao processo de

informatização/ automação leva a uma redução de pessoal. Esta redução, em alguns casos, é desejada pois tarefas pesadas, insalubres e perigosas passam a ser executadas mecanicamente sem a necessidade da presença do operador. Em outros casos, a redução pode ser questionada, pois a polivalência, está levando a uma intensificação do trabalho, que pode gerar, por outro lado, a uma diminuição da confiabilidade do sistema.

No caso das plataformas, o operador antes especialista e executor de funções na parte do processamento apenas do óleo, passa a ficar responsável também pelo gás e vice-versa. Ou na área de utilidades. O especialista na elétrica assume também a responsabilidade na utilidade de sistema e vice-versa. Num grau mais avançado se o sistema técnico de supervisão e controle integrasse, além do controle do óleo e do gás, também a utilidade de sistema e elétricas, seria exigida uma Polivalência mais ampla. No caso das plataformas Semi-submersíveis, embarcação onde é indispensável controle de navegação e lastro, se esse controle e essa supervisão também se integrassem ao sistema anterior, a polivalência do operador teria ainda maior abrangência.

Prosseguindo na análise, como o objetivo é integrar o controle e a supervisão num único ponto, é certo que esses sistemas caminham para gerar a figura do operador mantenedor. Este seria, pelo que se percebe em

48

termos de estratégia, o objetivo a atingir. Ou seja, um operador que além de supervisionar e controlar as variabilidades do sistema na operação, também interceda na manutenção do sistema, parcial ou totalmente, a partir da indicação dos pontos de defeitos acusados pelo sistema.

Tem-se agora toda uma discussão da implantação e de suas conseqüências para o trabalho do operador, à medida que, gradativamente, se implantam estas mudanças.

2.5 - O Tecnocentrismo e o Antropocentrismo:

Partindo do pressuposto de que não é o avanço tecnológico, por si só, o detonador de todo o processo de transformações pelo qual passa o mundo da produção e do trabalho, é preciso ver, de forma mais clara, o que determina essas mudanças e as relações daí decorrentes.

A maioria dos planejadores dos sistemas produtivos tem seguido a estratégia de eliminar o trabalho humano, considerando-o fonte de perturbações e custos. Brodner, P., aponta que: "o caminho baseado na técnica mantém intacta a estrutura básica do processo produtivo e busca os mesmos objetivos básicos que até agora têm sido empregados: reduzir custo de pessoal e lograr um melhor controle do processo de produção".

Cada vez mais o sistema técnico se transforma em um meio que impõe ao trabalho humano formas e normas determinadas.

49

Reforça-se assim, a divisão do trabalho entre os que pensam e os que operam o sistema. Cada vez mais se projetam sistemas que prevêem na sua operação pessoas mais desqualificadas.

Essa é a abordagem tecnocêntrica, segundo GARIBALDO, F., que tende a tornar o ser humano passivo e o sistema ativo. Dentro dessa característica se reforça a busca pela integração, principalmente das informações sobre a produção, de forma a se criar um modelo que pudesse reconhecer e parametrizar todos os imprevistos e todas as variabilidades da produção, incorporando-os à base técnica do sistema a caminho de um controle total do processo.

O outro caminho é o antropocêntrico que, ao definir o homem como sujeito e não como objeto, reconhece nos recursos humanos e na sua interação com a máquina a forma de superar os pontos débeis e fortes de um e de outro. Para se fazer isso é preciso partir de uma imagem adequada de homem. É conceituar o homem como sujeito pensante e atuante.( Brodner, P., 1990 )

O Projeto Fast ( explicar ) ao definir a conceituação do sistema antropocêntrico de produção diz: "o conceito denota aqueles sistemas de produção cujo princípio inspirador, desde a projetação, se fundamenta não sobre a substituição da capacidade humana pela tecnologia e sim sobre as definições de tecnologias e sistemas produtivos que exaltem esta capacidade". ( Garibaldo, F., 1990 )

Ao se referir a uma forma social de automação atualmente dominante, FREYSSENET, M., diz que essa automação tem como objetivo básico a redução de mão de obra como fator de aumento da produtividade, ou

50

seja, deve-se automatizar o máximo para economizar mão de obra e

amortizar custos. E diz

ainda, que isto

se

dá tanto

pela cultura técnico-

científica do meio em que se desenvolvem os engenheiros projetistas, que

vêem sempre a solução técnica como a de maior eficiência e a mais

definitiva, quanto operários.

pela

representação

que

eles,

os

projetistas,

fazem

dos

Essa é a grande contradição dos tempos atuais, quando se fala em Qualidade Total, motivação do trabalhador e necessidade de um novo perfil profissional. Do operário ao gerente, a palavra de ordem é ter um recurso humano que seja adaptável e flexível. Como disse a diretora do Sloan Fellows Program do Massachusetts Institute of Technology ( MIT )

dos EUA: "Se eu tivesse que usar duas palavras para descrever o executivo que as empresas buscarão cada vez mais daqui em diante, eu diria que essa

pessoa terá que ser muito adaptável e muito flexível" 11 . Por outro lado, grande parte dos projetos, prevêem instalações cada vez mais automatizadas que descartam a participação dos recursos humanos flexíveis.

FREYSSENET, M., ao falar dos novos projetos, insiste: "há uma grande contradição neste ponto, pois hoje, enquanto os chefes de oficina e os gerentes de produção, dentro do novo paradigma, intentam fomentar as formas de organização do trabalho que permitam mobilizar a inteligência e a competência dos trabalhadores, os projetistas continuam a projetar máquinas ou sistemas em que sua operação se dê por pessoas

11 Esta afirmação foi feita em uma entrevista ao Jornal Folha de São Paulo de 22 de Maio

de 1994, no caderno de Empregos.

51

desqualificadas. (

) A substituição da ação humana por um automatismo

... adequado, se dá não só pela crença de que haverá redução do tempo de

trabalho e sim também pelo aumento da confiabilidade do conjunto ao eliminar a incertitude que constituiria o operário".

Essa concepção reafirma a visão tecnocêntrica que vê sempre a técnica como um fator de aumento da produtividade ao contrário do trabalho humano que acaba sendo considerado fonte de perturbações e custos. Ao contrário desta concepção e de certa forma defendendo a visão antropocêntrica, Freyssenet, M. cita, não com um caráter ideológico, mas como fator determinante para um aumento de produtividade dos sistemas produtivos: "o operário pode ser fator do aumento da confiabilidade do sistema técnico, graças a sua capacidade de síntese, interpretação e de percepção multisensorial".

Esta confiabilidade pode ser a chave mestra que garanta, mesmo num sistema com maior nível de automação, a produtividade a partir da nova concepção do taylorismo colocada por Zarifian, quando afirma que a produtividade está diretamente relacionada a não paralisação da máquina ou do processo.

52

2.6 - A Polivalência e a Politecnia:

Como já foi falado, a polivalência pode se apresentar sob duas formas: agregando novas funções para cada trabalhador, ou através da rotação por diferentes tarefas, dentro de um processo que privilegia o trabalho por equipes que se responsabilizam por toda uma etapa de fabricação ou de um processo.

Não resta dúvida: o trabalhador que desempenhar uma dessas duas formas tenderá a se aproximar mais da concepção anteriormente colocada, do antropocentrismo, que vê nesse trabalhador um fator essencial, alicerçado nas novas atribuições exigidas de adaptação e flexibilidade. Porém, ainda se insere numa concepção que, segundo MACHADO, L., se apoia no uso cientificista da ciência, sujeitando o trabalhador à mera instrumentação utilitarista e a processos de adaptação definidos por regras prescritas com anterioridade.

Essa visão da Polivalência se traduz, na prática, como um avanço à profunda especialização e segmentação das atividades de trabalho que o taylorismo clássico apresentava. Em função disso, ele acaba sendo

apresentado como a grande novidade e a principal alternativa de qualificação que se molda aos requisitos do novo paradigma. Porém, ele ainda se situa ao nível da dimensão operacional, que é como REZENDE PINTO, A.M., vê o novo trabalhador polivalente: "o trabalhador portador de boa formação geral, atento, leal, responsável, com capacidade de perceber um fenômeno em processo, não dominando, porém, os fundamentos científicos-intelectuais subjacentes às diferentes técnicas produtivas modernas".

53

A Polivalência é útil e se forja diretamente no trabalho a partir da demanda que é provocada por mudanças tecnológicas e organizacionais do ambiente de trabalho. A sua implantação quase sempre cumpre uma trajetória que se inicia através de um curso em que novas informações são passadas ao trabalhador polivalente, seja o operador, ou um técnico. Este detém conhecimentos em determinadas especialidades e a polivalência vem possibilitar a inserção, muitas vezes de forma insegura em outras áreas do conhecimento próxima da atuação do operador ou do técnico.

O segundo passo é o treinamento "on job", ou seja, no próprio local de trabalho. Para a Polivalência, que tem um caráter mais de informação e algumas vezes de absorção de rotinas, esta parte tem uma importância fundamental. Os próprios trabalhadores requerem e valorizam esta etapa, porque a partir da decisão gerencial da implantação da polivalência, o trabalhador sabe que a responsabilidade de assumir novas atribuições vai exigir dele, na prática, habilidades e tomadas de decisão que não permitirão uma elaboração teórica maior. É como se dissesse: vamos resolver o problema mais urgente, os outros ficam para depois. Muitas vezes este treinamento "on job" ocorre antes mesmo do treinamento formal de sala de aula.

Segundo

Machado,

L.,

o

tipo

de

habilidades

e

hábitos

requeridos numa atividade prática de caráter polivalente, possui certas características específicas, básicas para uma qualificação politécnica, ainda que insuficientes, tais como: saber transferir e usar de forma versátil conhecimentos e experiências em diferentes oportunidades e situações; saber manipular instrumentos básicos úteis a um leque amplo de tarefas ( cuja expressão cada vez mais banal é a familiaridade com as operações em

54

computadores ) e saber trabalhar em equipes, o que pressupõe hábitos de organização pessoal e habilidades de comunicação diferenciada. Essas condições representam um avanço se comparadas com as atividades taylorizadas e fordistas, pois possuem um caráter mais criativo que reprodutivo, mais geral que específico, mais mental que físico e mais teórico que prático. Mas, deixam a desejar, se o objetivo tiver maior amplitude.

A Politecnia em contraposição à Polivalência, pressupõe segundo FRIGOTTO, G., basicamente 3 elementos: a concepção do homem omnilateral; o trabalho produtivo e a articulação entre trabalho manual e intelectual; as bases científico-técnicas, comuns na produção industrial. Machado, L., reforça essa tese quando diz que a Politecnia representa o domínio da técnica em nível intelectual e a possibilidade de um trabalho flexível com a recomposição das tarefas em nível criativo. Pressupõe ainda, a ultrapassagem de um conhecimento meramente empírico, ao exigir formas de pensamento mais abstratas. Vai além de uma formação simplesmente técnica ao requerer um perfil amplo de trabalhador, consciente e capaz de atuar criticamente em atividades de caráter criador e de buscar com autonomia os conhecimentos necessários ao seu progressivo aperfeiçoamento.

Esta concepção, de certa forma, vem ao encontro de uma visão antropocêntrica que reconhece que o trabalhador apresenta limitações, mas que a partir da divisão de funções entre o ser humano e a máquina, pode-se valorizar as capacidades específicas de ambos. A conjugação de atividades complementares entre o homem e a máquina leva a uma verdadeira flexibilidade e adaptação aos sistemas produtivos, como diz SEGRE, L.M.:

55

"a automação sem a intervenção do homem não funciona. A flexibilidade dos sistemas é dada muito mais pelo homem que pelas máquinas".

A possibilidade de uma formação mais integral do trabalhador, a caminho da politecnia, pode ser algo que atenda não só a ele, que terá visão mais crítica da realidade e uma atuação mais ativa na sociedade através do exercício da cidadania, mas também atenderá aos novos paradigmas da produção que exigem um trabalhador mais criativo, integrado e participante.

Os interesses de classe daí surgidos exigirão negociações. Essa é a palavra que talvez operacionalize, na prática, os desafios que os novos paradigmas demandam. De um lado, os detentores dos processos produtivos, que não conseguem alcançar maior produtividade sem a participação direta e intensa dos trabalhadores. De outro lado, os trabalhadores que a partir desta realidade, têm o desafio de avançar nas conquistas que garantam à sua classe uma participação mais efetiva na tomada de decisões, para além das rotinas de trabalho. Nesse caminho, os trabalhadores têm condições de exigir a participação, não só das definições estratégicas de toda a empresa, mas também numa interferência ainda maior, ampliando o escopo de sua participação, visando, enquanto classe, interferir nos destinos da sociedade como um todo.

56

Capítulo 3

A

EMPRESA

3.1 - Breve Histórico:

Principais Dados da Situação da Petrobrás:

A

Empresa

PETROBRÁS

surgiu

em

3

de

Outubro

de

1953,

através da Lei N° 2.004 e iniciou suas atividades em 10 de Maio de 1954. É uma Companhia de capital aberto ( Sociedade de Economia Mista ), cujo maior acionista é o Governo Federal, que a controla, detendo 81% de seu capital votante e 51% de seu capital integralizado.

A PETROBRÁS

é ligada ao Governo Federal

através de um

rígido controle e ampla fiscalização do Governo como:

1 - Aprovação, pelo Congresso Nacional, da programação anual e plurianual, incluindo-se os orçamentos de investimentos e operações;

2

-

Administração,

pelo

Departamento

Nacional

de

Combustíveis

e Ministério

das

Minas e Energia, dos

preços

de

venda de

todos os produtos e sua prévia ratificação pelos Ministérios da Fazenda e do Planejamento;

3 - Coordenação das atividades, pelo Comitê de Coordenação das Estatais, e exame das contas, pelo Tribunal de Contas da União e pelos

57

Ministérios de Minas e Energia e da Fazenda, sujeita a auditoria externa independente e a Lei das S/A.

O Brasil depende do petróleo para fornecer 33% da energia que

necessita.

A

PETROBRÁS

é

a

15ª

maior

companhia

de

petróleo

do

mundo, segundo

a

publicação

"Petroleum

Intelligente

Weekly".

É

considerada como a de

maior índice de crescimento desde 1987. Ocupa a

liderança mundial na produção em

Águas

Profundas

e

o

10°

lugar

em

capacidade instalada de refino. Sua produção média de 1992 foi de 653.000

barris por dia ( em Outubro/93, a média foi de 710.000 b/d e em

Fevereiro/94

720.000

b/d

)

de óleo,

e

de

19

milhões

de

por

dia de

gás

natural. Suas reservas provadas de petróleo somam 10 bilhões de barris.

Possui aproximadamente 50.000 empregados. Seu faturamento médio anual é de 14 bilhões de dólares. O total de impostos, taxas e contribuições gerados em 1992, correspondem a 4,3 bilhões de dólares. Seus custos de pessoal, assim considerados os salários, vantagens e encargos sociais, corresponderam em 1992 a 12,4% do faturamento bruto. Seu custo médio de produção de US$ 3,05 é inferior à média calculada para as 20 companhias mais representativas do setor no mundo, de US$ 4,17 por barril, não obstante seus poços operados situarem-se, em sua maior parte, no mar e em lâminas d'água que atingem a 910 metros de profundidade, atual recorde mundial.

 

Como

todas

as

grandes

corporações

petrolíferas,

a

PETROBRÁS

opera

em

todas

as

atividades

do

setor

petróleo,

naquelas

monopolizadas

(

exploração,

perfuração,

produção,

refino,

transporte,

58

importação e comercialização ) e nas que não estão monopolizadas, como a distribuição.

Hoje, mais

de 70% da produção

de petróleo

se

no

mar. A

Bacia de Campos, objeto deste estudo detinha, em 1993, em torno de 63% da

Produção de Petróleo no Brasil, conforme quadro abaixo:

PRODUÇÃO DE PETRÓLEO NO BRASIL (%)

RIO DE JANEIRO

63,0

RIO GRANDE DO NORTE

12,5

BAHIA

11.0

SERGIPE

7.0

CEARÁ

3.0

ESPÍRITO SANTO

2.0

ALAGOAS

1.0

PARANÁ

0.5

59

3.2 - A BACIA DE CAMPOS:

Em 1968, a Petrobrás deu início aos levantamentos geofísicos na Bacia de Campos. Nesse ano foi perfurado o primeiro poço submarino, que conduziu à perfuração de mais oito deles e à descoberta do Campo de Garoupa em 1974, que coincidiu com um momento de crise no mercado internacional. Naquela época, o Brasil tinha uma produção que atendia a apenas 20% de seu consumo. A produção de hidrocarbonetos no Brasil, até então estava restrita a duas áreas terrestres: a do Recôncavo Baiano e a dos Estados de Sergipe e Alagoas.

O segundo poço descoberto foi o de Enchova, que começou a produzir em 1977 em lâmina d'água de 120 metros. Em 1979, o Distrito de Produção do Sudeste, que tinha sede em Vitória, ES, foi definitivamente transferido para a cidade de Macaé, RJ e se transformou em Distritos de Exploração, de Perfuração e de Produção do Sudeste. Em 1982, a Bacia de Campos já produzia 145.000 barris por dia. Este expressivo volume elevou o Distrito de Produção do Sudeste à categoria de Região.

As instalações da Petrobrás em Macaé, RJ, na ponta da praia de Imbetiba, conta com duas áreas básicas: 1- o Distrito de Perfuração do Sudeste ( DPSE ) que responde ainda pela perfuração nas bacias do Espírito Santo ( terra e mar ), Paraná e Santos; 2- Região de Produção do Sudeste ( RPSE ). Existem trabalhando nestas áreas básicas, em torno de 7.800

60

trabalhadores, sendo aproximadamente 2.300 off shore e 5.500 on shore.

Destes, 1.800

são

de

nível

superior

e

6.000

são

de

nível

técnicos e

elementar. Dos engenheiros.

1.800

de

nível

superior,

aproximadamente

1.000

são

Segundo Ribeiro, M.M.P., em Macaé está instalado o maior complexo operacional da Petrobrás em todo o Brasil. A Petrobrás já investiu o equivalente a US$ 12 bilhões na Bacia de Campos e obteve como receita cerca de US$ 30 bilhões, referentes ao petróleo e gás produzidos.

A

Bacia

de

Campos

ocupa

cerca

de

100

mil

Km²,

que

se

estendem da costa até uma lâmina d'água de 3.000 metros. Nesse imenso arco, numa área de 5.600 Km², erguem-se plataformas marítimas que distam de 80 a 100 quilômetros do litoral.

 

A

Bacia

de

Campos

tem

3

pólos,

cada

qual

abrangendo

determinado

número

de

campos

produtores

onde

estão

instaladas

as

plataformas:

  • - Pólo Nordeste, que abrange os campos de Pargo, Carapeba e Vermelho, com um total de 7 Plataformas;

-

Pólo

Norte,

campos

de

Garoupa

e

Garoupinha

com

1

Plataforma, Cherne cuja 2 Plataformas atendem também aos poços de Bagre, Parati e Anequim; o Campo de Namorado é atendido por 2 Plataformas e os Campos de Viola, Corvina, Moréia, Marlim e Albacora, cada qual dotado de um Sistema de Produção Flutuante ( Plataforma Semi-submersível ).

-

Pólo

Sul,

composto

pelos

campos

de

Pampo,

com

1

plataforma, Enchova com também 1 Plataforma, e um Sistema de Produção

61

Flutuante; Bicudo, Linguado, Badejo, Trilha, Piraúna e Marimbá cada qual com uma SS ( Vide no Anexo 4 - Planta da Bacia de Campos ).

Em

13 de Agosto de 1992, a Bacia de Campos comemorou 15

anos de

produção. O poço pioneiro foi o EN-1-RJS situado no Campo de

Enchova. Este poço, até esta data, já produziu 33 milhões de barris de óleo e

520 milhões

de

de

gás

natural, com receita estimada em US$ 750

milhões.

Nas comemorações dos 15 anos, uma reportagem publicada no

Jornal

Folha

da

Manhã,

do

dia

14

de

Agosto

de

1992,

conta detalhes

interessantes

vividos

pelo

Engenheiro

de

Produção,

José

Everaldo

dos

Santos, que participou das comemorações. Havia trabalhado na Região de

Produção do Nordeste ( RPNE ) e estava embarcado na plataforma SS-6,

quando

o

óleo

acontecimento:

de Enchova começou a jorrar. Ele descreve esse

"o poço pioneiro deveria ter entrado em operação no início de agosto de

77, mas um acidente não deixou lançarmos o mangote flutuante para o navio-tanque. À

noite um rebocador passou na área e cortou o mangote que felizmente, não tinha óleo.

Foi preciso comprar outros 500 metros de comprimento no Japão e fretar um avião

para trazê-lo, daí o atraso.

Mais problemas:

na véspera do histórico dia, os técnicos resolveram

testar

todo

o

sistema

e

a

bóia

de

nível

dos

separadores

de

água

alugados

de

uma

empresa

francesa,

não

funcionou.

Tivemos

que

improvisar

uma

bóia

com

madeira

pintada e recozida no forno da cozinha da plataforma.

O nervosismo era geral, pois os jornais haviam noticiado que o poço

entraria em produção no dia 13.

62

Às seis horas o EN-1-RJS começou a ser aberto, pois era prática iniciar

a operação à luz do dia - fato que hoje ocorre a qualquer hora. A equipe passou a

observar que o poço produzia muita areia e a primeira vez que encheu os tanques de um

navio, a areia decantou nos separadores e eles tiveram que ser abertos para proceder a

retirada de mais de dois metros cúbicos de material sólido".

(...)

"em

1977 ainda não havia unidade da Petrobrás em

Macaé

e

os

embarques eram feitos por Campos. As equipes cujos turnos eram de 14x14 dias de

folga, embarcavam em helicóptero em Vitória, que eram reabastecidos em Campos e

seguiam para as plataformas de perfuração e produção".

(...)

"Em agosto de 1977, trabalhavam 12 técnicos da Petrobrás, mais os

empregados da Flopetrol

...

Era tudo pioneiro. No fundo do poço instalamos um BOP (

Blow Out Prevente ) com riser de perfuração e uma árvore de teste, quando atualmente

usamos a árvore de natal molhada, feita especialmente para operar em sistemas de

produção off shore. Na planta de processo, bastante simples, havia apenas um surge-

tank e duas bombas de transferência".

Ainda nesta reportagem, o Engenheiro José Everaldo não esconde a ironia quando fala daqueles tempos: "A Petrobrás nos informou que

iria construir um conjunto habitacional para seus empregados, mas a realidade foi

outra. As firmas contratadas já estavam instaladas na cidade e o custo de vida era

altíssimo. Para piorar a situação, cortaram os 10% de adicional regional.

A adaptação dos empregados da Petrobrás não se restringia aos usos e

costumes da cidade, mas aos termos náuticos. Termos - través ( quando o vento está

perpendicular à embarcação ); estropo ( pedaço do cabo de aço com dois laços na ponta

); buzina ( nada a ver com o sinal de alerta ); garrar ( quando a âncora não agarra no

seu objetivo ) e solecar ( soltar os cabos ) passaram a ser assimilados pelos petroleiros.

63

O ambiente de trabalho era melhor. Acho que naquela época o pessoal

vibrava mais, fazia as coisas com maior comprometimento. Hoje quando abrimos um

novo poço, metade dos empregados só vai saber pela televisão. O ambiente não está

bom, os salários estão aviltados, o relacionamento empresa-empregado está pior do que

naquela época.

Uma das razões para tanta insegurança é o reflexo dos sucessivos cortes

nos investimentos da Bacia de Campos. Hoje está tudo parado no que diz respeito a

novos projetos, com exceção da fase I de Marlim e o de Marimbá. Com a série de

adiantamentos, em 95 o país não estará produzindo o que consome, quando a Bacia de

Campos poderia responder por 90% da produção nacional. A meta foi adiada para o

ano 2000".

Em Setembro de 1993, foi perfurado, no Campo de Marlim, o 1000° ( milésimo ) poço aberto na Bacia de Campos. Este marco teve a

comemoração dos grandes executivos da Companhia. A Bacia tem em produção 383 poços e é detentora de 77% das reservas nacionais de óleo, e de 63% da produção nacional de óleo. Segundo o Superintendente da RPSE,

Paulo

Roberto

Costa,

"somente

as

reservas

conhecidas

de

óleo

natural

demandarão, no mínimo mais 40 anos de atividades de produção".

Em 4 de Setembro de 1994, atingiu-se novo recorde na Bacia de Campos: a produção atingiu 501.000 mil barris, chegando a produção nacional à faixa de 751.000 barris. Essa produção já eleva o percentual de participação da Bacia de Campos na produção nacional de óleo para 66,7%. Esse recorde foi batido graças à ativação da nova plataforma Semi- submersível ( a maior do mundo ) Petrobrás XVIII. Nas comemorações desse

64

novo recorde, o diretor da área Exproper da empresa, João Carlos França de Luca falou: "se hoje a Bacia de Campos fosse um país estaria em 25° lugar em produção mundial de óleo, superando países membros da OPEP, como o Quatar" 12 .

12 Reportagem Jornal Folha da Manhã, do dia 09-09-94, com o seguinte título: "Recorde

de 500 mil barris é comemorado na Petrobrás.

65

3.3 - O QUE É A PLATAFORMA ?

 

"

...

o

que é a plataforma ? Não se

sabia

nem

o

que era uma plataforma. Nunca

ninguém

tinha

operado,

então

a

gente

botou

o

modelo

do

Mar

do

Norte,

ou

até

do

Golfo

do

México,

então

a

gente

desconhecia

tanto

que

considerou que uma plataforma era uma refinaria e

deu

poderes

para

uma

plataforma

como

se

fosse

uma

refinaria

e

nestes

poderes

do

chefe

da

plataforma, eles fizeram com que

...

como filosofia, a

maioria deles, que todos os serviços fossem feitos lá

em cima, lá no mar

...

"

( Ent. 12 )

Operam na Bacia 27 Sistemas de produção, sendo 13 ( treze )

Plataformas

Fixas

e

14

Plataformas

Semi-submersíveis, que são

responsáveis, como já foi dito, por cerca de 66 % da produção nacional de óleo. Da produção total de óleo da Bacia, 70 % são escoados via dutos e 30% via navios.

A produção na Bacia de Campos, como já foi dito, se iniciou através de uma plataforma semi-submersível, a SS-6 no Campo de Enchova. A produção estava prevista inicialmente para o Campo de Garoupa, o primeiro a ser descoberto e para o qual estava sendo preparado um sistema antecipado. Mas, o sistema apresentou problemas e mais tarde a produção do poço se viabilizou através de uma plataforma fixa.

66

Os dois tipos de plataformas, fixas e semi-submersíveis ( também chamadas de sistemas flutuantes de produção ) têm características diferentes, que dependem basicamente da lâmina d'água do poço, ou melhor, dos poços do campo que se está explorando e também da expectativa de tempo de produção do campo. É impossível ter uma plataforma fixa para exploração em grandes profundidades. 13 Outra grande vantagem do sistema flutuante é o reduzido prazo entre a descoberta de um poço economicamente viável e a extração do petróleo. Isso se dá principalmente pela grande flexibilidade e mobilidade desse sistema que independe da lâmina d'água e pode ser facilmente remanejado.

Nas bacias marítimas de uma forma geral, da descoberta de uma nova jazida até a fase de produção comercial, decorre, em média, aproximadamente seis anos, pois sua construção só pode ser iniciada após a delimitação do campo e determinação do local de sua instalação (lâmina d'água).

Normalmente as plataformas fixas são de grande porte, como a de Pargo, que é a maior, e na realidade, é composta por duas plataformas interligadas através de duas pontes.

13 Esta é a situação para o atual estágio de desenvolvimento tecnológico. Existem

informações de pesquisas sobre a utilização de amarras que permitiriam a utilização de

plataformas fixas também em águas profundas, com poços com grande capacidade de

produção As plataformas fixas teriam uma relação custo-benefício maior que as semi-

submersíveis.

67

Uma

das

plataformas

de

Pargo

tem

instalada a planta de

processo e a outra contém:

o setor de utilidades

elétricas e de sistemas, o

setor de acomodações ( refeitório, sala de TV, sala de projeções, quadra de

esportes,

sala

de

ginástica

e

os

camarotes

para

repouso

)

e

o

setor

administrativo. A geração de Energia Elétrica é de grande porte ( dá para

atender uma cidade maior que Macaé ) e atende, além de Pargo, as demais

plataformas do Polo Nordeste ( Vermelho I,II, e III e Carapeba I e II),

que

também são fixas, mas de pequeno

porte, por não

precisar de geração de

energia e por ter uma planta de processo bem simples.

Existe plataforma SS de grande porte, como é o caso da SS-33, no Campo de Marlim, que é uma plataforma adaptada para produção. Antes era um flotel. Ela possui uma grande planta de processo, com produção de 51.000 b/d de óleo. Tem 5 Andares e as seguintes instalações ( cinema, sala de TV, sauna, piscina ).

Outra plataforma, a Petrobrás VIII ( SS-29 ), iniciou no dia 23 de Junho de 1992. Sua produção tem a previsão de obter 46.000 b/dia de óleo e 1 milhão, 440 mil m³ de gás natural oriundos dos 13 poços do Campo de Marimbá e de 12 do Campo de Piraúna. Como a SS-33, funcionava como um flotel ( hotel flutuante ), em diversas partes do mundo e, ultimamente, dava apoio aos trabalhadores de outras plataformas da Bacia de Campos. Nessa plataforma construída em Oslo, na Noruega, em 1976, foi adaptada, no Estaleiro Mauá, RJ, uma planta de processo para atuar na produção. Ela tem a altura de um edifício de 13 andares, pesa 22 mil toneladas. Possui 8 âncoras e está instalada a 90 quilômetros da costa. Possui ainda acomodação para 120 pessoas.

68

No

dia

01

de

Março

de

1994,

foi

entregue

à

Petrobrás

a

Plataforma Petrobrás XVIII ( SS-44 ) atuando no Campo de Marlim. A plataforma, cuja estrutura foi construída em Cingapura, terminou sua montagem ( interligação de cabos e tubos e testes de equipamentos ), no canteiro de obras da empresa brasileira Tenenge, no Porto de Paranaguá. Está ancorada em uma área, cuja profundidade é de 910 metros de lâmina d'água, que representou a quebra de novo recorde mundial de produção em águas profundas. Esse sistema flutuante é o maior em capacidade de produção já construído até hoje. São 100 mil barris diários de óleo de capacidade instalada. A Plataforma mede 85,5 m de boca ( largura ), 98 metros de comprimento, 43,9 metros de pontal ( altura do nível d'água ao topo ), 23,1 metros de calado, possui 5320 m² de convés principal e comporta 130 tripulantes. Custou 272 milhões de dólares financiados pela companhia japonesa Nisso Iwai e sua construção ficou a cargo do consórcio Tobege-Fels 14 .

As plataformas fixas têm uma estrutura que é fixada no fundo do mar. Nesta estrutura se apoia uma jaqueta e sobre ela, a plataforma propriamente dita, com todos os equipamentos e instalações de apoio.

14 O empréstimo da Petrobrás será amortizado com os recursos gerados pelo petróleo que

a plataforma produzir. Está prevista para dentro de três anos, uma nova plataforma, a P

XIX, que será ligada a 31 poços, também no Campo gigante de Marlim. O Projeto está

sendo finalizado e no momento está se decidindo o formato da licitação para escolher a

firma responsável pela construção. ( Folha da Manhã 25 de Maio de 1994 ).

69

As plataformas semi-submersíveis são ancoradas da mesma forma que um navio de grande porte. Possuem mecanismo de navegação e têm um sistema de controle de lastro para compensar a movimentação do mar e das marés, quando a mesma está ancorada. Nas plataformas mais novas o controle do lastro é feito automaticamente.

A Bacia de Campos, já contou com um Navio, trabalhando na Produção, o Prudente de Morais. Em Março de 1993 ( quando do nosso embarque ), a Petrobrás substituiu definitivamente esse navio, que por um bom tempo atuou na Bacia, com uma planta de processo garantindo o

aumento de produção na área. Era o único e foi substituído no Campo de Albacora pela Plataforma Petrobrás XXIV, SS-10. Essa plataforma foi construída em 1975, já tendo atuado no início da produção da Bacia, no Campo de Enchova. Ela recebeu uma nova planta de processo com

capacidade de tratar até 60 mil m³/dia de gás natural.

barris diários de petróleo e um

milhão de

Na

entrevista

(

14

)

com

um Engenheiro que atua

praticamente desde o início das operações na Bacia, percebe-se, mais uma vez, que no início das operações off shore existia muito improviso e também uma diretriz para a implantação do sistema muito diferente da situação atual.

O Engenheiro dizia: "pela minha experiência na Bacia de Campos, eu

embarcava no início em 80 para fazer serviços esporádicos, mas levava bastante tempo,

uma semana, dez dias e nós tínhamos um efetivo no início na Bacia de Campos, eu me

lembro bem ...

o que é a plataforma? Não se sabia nem o que era uma plataforma.

Nunca ninguém tinha operado, então a gente botou o modelo lá do Mar do Norte, ou

até do Golfo do México, então a gente desconhecia tanto que considerou que uma

plataforma era uma refinaria e deu poderes para uma plataforma como se fosse uma

70

refinaria e nestes poderes do chefe da plataforma, eles fizeram com que

...

como

filosofia a maioria deles, que todos os serviços fossem feitos lá em cima, lá no mar, é

como se desconsiderasse a

terra

e fizesse no

mar, isto resultou em

200 pessoas de

efetivos.

A

gente

ia

para

uma

plataforma

destas,

o

desconforto,

porque

você

estar

confinado com conforto é uma coisa, agora você estar confinado, quase batendo cabeça

um com outro, quase com cama quente e com muitas pessoas em lugar fechado é

horrível, você tinha que dizer às 11 horas é a primeira turma de almoço, outra às onze

e meia, porque senão não dava. Era horrível. Então hoje, quando eu vou numa

plataforma, posso falar em qualquer plataforma é um conforto imenso em relação a

situação que eu vivi anteriormente. Isto é uma análise

...

se chega se sente bem

...

então

eu não vejo por aí, o confinamento existe, mas você tem que dar um conforto máximo

para

que aquelas pessoas durante o

período

que elas estão

ali.

Você dá

comida

da

melhor qualidade, você tem tudo do melhor, mas o cara com 10 ou 12 dias, o cara já

está

essa

comida

aqui

...

eu

estou de saco cheio com isso aqui

isso aqui não

presta

...

ele não come nem da qualidade do que ele come em casa, mas é só da situação,

do momento em que ele está ali em cima. ( Ent. 14 )

Uma plataforma de petróleo, instalada em alto mar, é como se fosse uma fábrica e uma pequena vila ao mesmo tempo, com a peculiaridade de não se poder sair de lá por um período de 14 dias. O trabalho invade e toma conta da vida dos seres que lá são obrigados a conviver num misto de relação de trabalho e relações interpessoais. As relações de trabalho impõem a hierarquia e a organização deste trabalho estabelece os limites da relação. As relações interpessoais, também chamadas de humanas, se confundem com as relações de trabalho no meio de uma complexa convivência de pessoas com diferentes culturas, ideologias, religiões, sentimentos, etc ..

71

3.3.1

Características

de

uma

Planta

de

Processo

de

Plataforma:

As plantas de processo diferem de uma para outra plataforma em função das características dos poços, onde as mesmas estão instaladas, mas via de regra as mesmas possuem as etapas que serão descritas a seguir.

Nesta descrição das instalações de uma planta de processo será usada, como referencial, a Plataforma de Namorado-1- PNA-1, uma Plataforma Fixa e Central, responsável pela exportação da produção de óleo e gás das plataformas de PCH-1, PCH-2, PNA-2, Poços Satélites e a sua própria, para Garoupa, que através de oleoduto e gasoduto remete ao Continente. PNA - 1 também fornece energia elétrica e gás para "gás lift" ( para fazer a surgência de poços, que não o tem, naturalmente ) para PNA-2. ( Vide Anexo - 4 - Planta da Bacia de Campos ).

PNA-1 está localizada a uma distância de 85 Km do litoral. Sua superfície total é de aproximadamente 12.000 m², distribuídos entre os seguintes pisos: níveis superiores, "upper deck mezanine", "upper deck", "main deck mezanine", "main deck" e "cellar deck". A altura entre os pisos é de 6 m. O "cellar deck" está a uma altura de 15 metros da lâmina d‘agua.

O Sistema de Produção da plataforma é dividido nas seguintes áreas de operação:

72

ÁREAS DE OPERAÇÃO DO SISTEMA DE PRODUÇÃO DE UMA PLATAFORMA

PRODUÇÃO DE

PRODUÇÃO DE

UTILIDADES

UTILIDADES DE

ÓLEO

GÁS

ELÉTRICAS

SISTEMAS

Sala de Controle

Sala de Controle

Sala de Controle dos Turbo Geradores

Sala de Controle

Cabeça dos Poços

Sala de Controle

Área Externa dos

Sistema de

dos Turbo

Turbo Geradores

Combate a

Geradores

Incêndio

Separadores A,B e

Turbo

Subestações

Bombas de

Teste

Compressores

AT/BT

Incêndio

Bombas de

Sistema

Motogerador

Sistema de Ar

Transferência

Alternativo

Comprimido

Sistema

Água

Unidade de

 

Sistema de

Oleosa

Desisdratação e Regeneração de Glicol

Captação de Água do Mar

Caisson

EPs

 

Sistema de Diesel

 

Flare

   

Slop Poços Submarinos

   

Água Potável Ar Condicionado e Frigorífico

73

PRODUÇÃO DE

PRODUÇÃO DE

UTILIDADES

UTILIDADES DE

ÓLEO

GÁS

ELEÉTRICAS

SISTEMAS

Manifold

   

Geração de

Submarino de

Hipoclorito

Produção

Sistema de Injeção de Gás Lift

   

Abastecimento de Produtos Químicos

     

Sistema de Água de Injeção

     

Sistema de Água de Refrigeração

74

3.4 - O PROCESSO DE PRODUÇÃO DE PETRÓLEO NAS PLATAFORMAS:

A produção de petróleo no mar, sob o ponto de vista técnico, guarda muita semelhança com a produção em terra, com uma diferença básica. No mar, a cabeça de produção está localizada ou na Plataforma ( Árvore de Natal Seca ), ou submersa ( Árvore de Natal Molhada ). Árvore de Natal é um conjunto de válvulas de segurança que controla a vazão do poço ( Vide foto no Anexo 6 ). Essas árvores, secas ou molhadas são controladas por painéis que, através de instrumentos, permitem a leitura de níveis de pressão, temperatura, vazão, etc ..

Existem dois tipos de poços: o

surgente ( ou insurgente ) que

produz naturalmente a partir da perfuração do poço e o poço de injeção que necessita de fluidos para pressionar a saída do óleo. Um poço, em final de produção, pode passar de poço insurgente a poço de injeção, até deixar de ser economicamente viável.

O Petróleo, em seu estado natural, passa por linhas de produção chamadas de "header". Destas vai aos separadores, onde é feita a separação óleo, gás e água. Ou seja, o separador irá fazer a separação das fases líquida e gasosa do petróleo produzido. Aqui, nesse ponto, é onde se deixa a fase de exploração do poço para se entrar na fase de processamento do Petróleo extraído.

Existem dois tipos de separadores, os separadores de produção e o separador de teste, sendo que este último flui apenas em um poço, a fim de testá-lo, enquanto os separadores de produção são vasos de produção

75

coletiva, isto é flui mais de um poço por vaso ( separador ). O gás, que é separado, vai para os "scrubbers" ( depurador de gás ) onde são retiradas as gotículas de óleo que foram arrastadas por ele na saída dos separadores. É então dirigido para a sucção do compressor, sendo logo após refrigerado e purificado para ser exportado para a terra, podendo também, parte desse gás ser utilizado para alimentação das turbinas a fim de gerar energia elétrica a ser utilizada na plataforma.

O óleo que sai dos separadores é dirigido ao "surge-tank"

(

tanque pulmão ), onde o restante do gás dissolvido é retirado a uma pressão próxima da atmosfera, indo para um "scrubber" de baixa pressão. Dali é enviado para a linha de gás de baixa do queimador ( flare ) existente em todas as plataformas.

O óleo obtido é exportado pelas bombas de transferência para a terra, através de oleodutos, diretamente, ou através de outra plataforma, que centraliza a produção de um conjunto delas, como é o caso de Garoupa e Enchova, por exemplo. Dependendo do tipo de poço existente na região da plataforma, parte do óleo produzido poderá também ser utilizado para fazer a injeção dos mesmos.

A água sofre vários processos. No primeiro estágio, vai para o

separador água/óleo

( "flash

drum" )

.

Feita a

separação o óleo retorna ao

separador ( principal

)

e

a

água

vai

para tratamento de água oleosa

( "skimmer" ). Nesse tratamento, o óleo volta ao separador

principal e a

água vai

para o

Caisson, onde o óleo existente é bombeado para o "slop"

( tanque ) de reciclagem de óleo, sendo novamente bombeado para os

separadores.

 

76

Nesse processamento do petróleo, uma série de rotinas são observadas pelos operadores no sentido de controlar o processo. Além das atividades de leituras de temperatura, pressão e vazão em pontos diferentes do processo, novas substâncias são injetadas em determinados pontos do processo, como a "mistura anti espumante" ( silicone, querosene e diesel ). Elas têm a função de evitar a formação de espuma que surgiria especialmente no "surge-tank", e carrearia grande quantidade de óleo para o "scrubber" de baixa. Outro produto químico injetado é o desemulsificante que tem o objetivo de quebrar a emulsão óleo-água, permitindo maior eficiência na separação óleo-água.

O processamento do petróleo sofre algumas diferenças de uma para outra Plataforma, em função do tipo de poço, do tipo de petróleo e do tipo de plataforma, que por sua vez obedece a um Planejamento Estratégico em termos de definição do campo a ser explorado. Essas definições vão estabelecer o tipo de Plataforma ( Fixa ou Semi-submersível - SS ) e o estabelecimento de Plataformas centrais como as de Garoupa, Namorado, Pargo e Enchova. Estas recebem o óleo e o gás exportado de outras Plataformas satélites, exportando daí para o Continente através de Oleodutos e Gasodutos. É comum a interligação entre as Plataformas, de forma que uma complete o processo da outra, como por exemplo, a separação da água do óleo, quase sempre feita pelas Plataformas Centrais. Outro exemplo, é a geração de Energia Elétrica que é realizada em uma Plataforma e distribuída com outras, por exemplo, a Plataforma de Pargo que distribui energia para alimentar as 5 Plataformas Satélites do Polo Nordeste - Carapeba 1 e 2 e Vermelho 1, 2 e 3.

77

 

3.5

-

INOVAÇÕES

TECNOLÓGICAS

NA

BACIA

DE

CAMPOS:

 

As Inovações Tecnológicas no Sistema Off Shore têm

basicamente

3

direções:

a

primeira

visa

a

desenvolver

tecnologias

que

permitam a extração de petróleo em águas profundas. A segunda é sobre a

automação industrial, para supervisionar e controlar o processo de produção,

desde a exploração do óleo bruto até à remessa, já em separado, do óleo e do

gás para a terra. A automação já atinge também o setor de utilidades produção de água potável, geração de energia elétrica, refrigeração, etc. ) de

(

segurança, de lastro, etc., ou seja a produção e o Plataforma.

apoio deste tipo de

A terceira via das Inovações Tecnológicas se dá na difusão da informática como ferramenta de integração das informações e de otimização dos trabalhos de escritório como elemento de tomada de decisão.

Antes de se entrar na explicação de cada uma delas, deve-se fazer parênteses para dizer que existem estudos, de longo prazo, que de certa forma vislumbram a possibilidade de tornar desnecessária a instalação de Plataformas em alto mar, ou, pelo menos, reduzi-la a um pequeno número, para viabilizar a exploração do petróleo aí existente.

Basicamente esses estudos caminham no sentido de transferir o petróleo diretamente para a terra através do que se chama "bombeamento multifásico" e/ ou da "separação submarina". O primeiro visa à instalação de bombas multifásicas no fundo do mar, junto com a ANM ( Árvore de Natal Molhada ). Isso permitiria a remessa para a terra do petróleo bruto extraído,

78

sem a necessidade da separação do óleo, do gás, da água e de outros resíduos que hoje é feita na plataforma, demandando a montagem de toda uma planta de processos com grande quantidade de equipamentos ( bombas, válvulas, vasos, tanques, compressores, etc.), que, desta maneira, poderiam ser transferidos para a terra, logicamente reduzindo violentamente os custos de produção.

A outra opção, a "Separação Submarina", é pesquisada como uma alternativa à primeira. Ou seja, se não se consegue fazer essa remessa direta até à terra, pode-se pensar em fazer um processamento primário de separação no fundo do mar, eliminando também a necessidade de se possuir uma plataforma para instalar essa planta de processo, tendo-se a mesma instalada no fundo do mar.

Numa

entrevista

com

um

Engenheiro

da

empresa

que

acompanha o desenvolvimento dessas novas tecnologias ( Entr. N° 14 ), indagou-se ao mesmo a opinião sobre estas novas perspectivas:

( P ) Naquele outro caso da pesquisa das bombas multifásicas, que você

não

teria

as

plataformas,

neste

caso

aí,

você

teria

a

possibilidade

de

mandar

a

produção, óleo, gás e água tudo misturado para ter o processo em terra.

(

E

)

Em

terra.

( P ) Esta seria a pesquisa que poderia redundar na desabitação?

( E ) Aí sim.

Aí já é uma outra coisa.

(

P

)

Parece que

...

existe alguma coisa a nível de RPSE?

( E

) De que? De bombeio multifásico?

( P ) É.

( E ) Existe. ( P ) O pessoal da DIVAP é

que pensa isto? ( E ) É DIVAP. Isso é um projeto no mundo todo, todo mundo está

pensando nisto. ( P ) Parece que tem um consórcio

...

(

E

)

não

seria nem

desabitação, seria desplataformização

...

é

o

seguinte, é viabilizar a retirada de

óleo, porque você tem muito lugar que você não consegue

...

mas não

é

por causa do

número de pessoas é porque você não consegue fazer nem que o óleo saia de lá. Mas

79

aí não tem nada a ver com automação, aí você já está falando de processos, aí já são

problemas operacionais. Por exemplo você tem um reservatório que não tem uma

vazão suficiente para jogar o óleo cá em cima, tá botando

...

existe um outro projeto

que é a separação no fundo do mar, em vez de pegar aqueles vasos todos, botar o vaso

no fundo do mar, simplesmente para poder viabilizar, então aí não entra nada de

automação.

3.5.1 - Águas Profundas:

Sobre as pesquisas da Tecnologia da produção em águas profundas, pode-se dizer que a empresa ocupa a liderança mundial neste tipo de produção. A Petrobrás, inclusive, recebeu, em 1992, o Prêmio DISTINGUISHED ACHIEVEMENT AWARD' 92 oferecido pela Offshore Technology Conference, que é patrocinada por 13 associações americanas ligadas à indústria do petróleo e realizada anualmente em Houston, no Texas, sendo considerado o maior evento nesse tipo de segmento. Esse prêmio foi considerado um reconhecimento internacional às importantes conquistas obtidas no desenvolvimento da tecnologia de produção em águas profundas. Muitos o consideram equivalente ao "Nobel" da indústria do petróleo.

Afirmou o Superintendente da RPSE, Paulo Roberto Costa, ao Jornal "O Fluminense", de 20-05-92, ao ser questionado sobre as atividades da estatal durante a abertura dos trabalhos no 1° Encontro Ambiental da Bacia de Campos realizado na Plataforma de Cherne-1: "A Petrobrás não

tinha outra alternativa senão explorar óleo e gás natural em águas cada vez

mais profundas

...

somente outras duas áreas no mundo possuem pólos em

80

águas mais profundas: o Mar do Norte e o Golfo do México, sendo a primeira em lâminas d'água nunca superiores a 300 metros e no Golfo do México um projeto em profundidade de 625 metros que fracassou pelo fato do reservatório ser antieconômico".

Não resta dúvida: a exploração em águas profundas exige esforço próprio da empresa e de Centros de Pesquisas nacionais no desenvolvimento da Tecnologia que vai permitir ao país poder se utilizar das imensas reservas de petróleo situadas a grande profundidade. O complexo de Marlim está localizado em lâmina d'água de 400 a 2.000 metros e cobre uma área de aproximadamente 300 km², com um volume original de óleo estimado em 13,5 bilhões de barris, que corresponde a 30 % do volume original de óleo do país.

O sistema Pré-Piloto do Campo de Marlim entrou em produção

no

dia 16

de Março de 1991, seis

meses após a sua descoberta. Já o sistema

Piloto entrou em produção em Julho de 1992, através da Plataforma Petrobrás XX, que era um Flotel e foi transformada em unidade estacionária

de produção. Esse sistema teve investimento total da ordem de US$ 260 milhões, sendo que 65% desse total foi utilizado somente na parte submarina.

As

pesquisas

são sempre no sentido

de

se obter materiais e

equipamentos ( robôs ) que permitam o trabalho de instalação de equipamentos na boca dos poços a estas profundidades. Para se ter uma idéia do que se tem conseguido em termos de aperfeiçoamento tecnológico nessa área, podem-se observar os registros de recordes da empresa obtidos nas operações do Campo de Marlim:

81

"

-

Operação

de

uma

SS

ancorada a 625 metros

de lâmina

d'água ( Plataforma Petrobrás XIII );

Instalação da primeira Árvore de Natal Molhada, sewn

) em Lâmina d'água de 721 metros, com navio sonda de

- cabos guias ( GLL

posicionamento dinâmico;

- Instalação e Operação de monobóia a 405 metros de lâmina

d'água;

 

-

Lançamento

de

duto

rígido

de

8"

em

620

metros

de

profundidade;

- Instalação de Árvore de Natal Molhada sem cabos guias ( GLL ) e lançamento de linhas flexíveis a 781 metros de profundidade, no poço 7 MRL- 9- RJS ". ( * FM 10 -01-93 )

Uma

reportagem

do

Jornal

do

Brasil

de

8-3-92,

destacava:

"Petrobrás investe em pesquisas- Cenpes pode ganhar programa para aprimorar a prospecção de petróleo. O Cenpes ( Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobrás ) está propondo a criação de um Programa de Inovação Tecnológica, com duração de cinco anos e investimentos estimados em US$ 60 milhões destinados a viabilizar novos avanços na produção e industrialização de petróleo. Estamos capacitados para atuar até 1.000 metros de lâmina d'água ( distância da superfície ao fundo ). Agora temos que dar um novo salto, da invenção, explicou o superintendente do Cenpes, Guilherme Estrela".

(

...

)

"Mas o estudo considerado de maior importância dentro do

Cenpes, hoje é a definição das especificações básicas para a produção do Campo de Albacora, na Bacia de Campos, que deve gerar 200 mil barris/dia até 1995. O

82

departamento de Engenharia Básica responde pelas características técnicas das duas plataformas semi-submersíveis que ficarão a 900 metros de lâmina d'água, 100 metros a mais do que o recorde atual. Albacora produz hoje cerca de 40 mil barris/dia, mas nos próximos três anos deverá fornecer junto com o Campo de Marlim 40 % da produção nacional, cuja meta é chegar a 1 milhão de barris/dia. No esforço de reduzir custos e aumentar a eficiência nos processos de exploração de petróleo, o Cenpes também quer mais produtividade no aproveitamento do óleo. Do petróleo localizado nos poços e no interior das formações rochosas, aproveita-se atualmente apenas de 30% a 40%, taxa conhecida como fator de recuperação.

Um

grande desafio tem sido ampliar em pelo menos 10 % este

padrão. A reserva do Campo de Marlim soma, por exemplo, dois bilhões de

barris. Com um aproveitamento 10% superior, o país agregaria às suas reservas estratégicas 200 milhões de barris" 15

.

15 No dia 2 de Setembro de 1994, o Jornal Folha da Manhã, anunciou em manchete:

"Petrobrás lança a 1ª Bomba Centrífuga Submarina do Mundo". Segundo a mesma

reportagem, este equipamento desenvolvido com o apoio de sete empresas privadas tem

como finalidade ajudar a produção de poços de petróleo, onde o atual sistema de elevação

do óleo - ogás lift - não esteja mais dando os mesmos resultados. Esse equipamento ainda

está em fase de testes. Uma de suas maiores vantagens é que o petróleo vai poder ser

retirado mesmo longe da plataforma. A capacidade é de bombear o óleo a uma distância

de até 25 quilômetros. Isso poderá economizar uma plataforma inteira: o poço vai

produzir sozinho. O percentual de aproveitamento do potencial energético dos poços que

hoje é de 60%, poderá passar para 70% em função do bombeamento de parte do óleo que

ficava no poço, a partir do fim da reserva de gás que permitia a sua extração".

83

O diretor da área Exproper da Petrobrás, João Carlos França de

Lucas, ao comentar sobre o milésimo poço aberto na Bacia de Campos, falou ao Jornal Folha da Manhã, de 05/ 10/ 93: " O país tem reservas comprovadas para produzir 1 milhão de barris/ dia de óleo e projeções quase garantidas para 1,5 milhão b/d, dependendo de novas descobertas que virão do programa exploratório. Trata-se de uma meta viável e previsível de investimentos e da vontade política que está relacionada ao avanço da tecnologia em águas profundas. Nosso limite hoje vai até 1.000 metros, mas temos certeza de que dentro de três a quatro anos estaremos com o nosso Procap 2000 pronto e com resultados tão bons quanto o Procap 1000".

Existe

na

empresa

uma

divisão

que

participa

do

desenvolvimento

dessa

tecnologia,

assim

como

 

coordena

as

diversas

operações que é a DIVAP

(

Divisão

Técnica

em

Instalação

em

Águas

Profundas ) ligada ao Departamento de Produção ( DEPRO ). A execução das atividades em alto mar fica a cargo da Divisão de Engenharia ( DIREN ) no órgão operacional, neste caso, a Região de Produção Sudeste ( RPSE ).

Os trabalhos em Águas Profundas dependem sempre dos robôs submarinos como ferramenta indispensável à instalação e manutenção de equipamentos, já que o trabalho dos mergulhadores fica limitado a uma profundidade próxima de 300 metros e, mesmo assim, a um alto custo, e pode-se dizer também, a um alto risco. O CENPES e a COPPE / UFRJ, através do Programa de Engenharia Oceânica e Engenharia Elétrica há tempo, vêm pesquisando e desenvolvendo tecnologias que permitam a utilização cada vez mais precisa dos robôs. Recentemente foi desenvolvido um sistema que torna viável o posicionamento dinâmico dos ROVs ou VORs ( Veículo submarino de Operação Remota ). Um dos objetivos desse sistema

84

é o de manter o robô submerso praticamente parado diante de um alvo determinado, minimizando os efeitos das correntes marinhas, através do acionamento automático de seus propulsores ( posicionamento dinâmico ) 16 .

As Inovações Tecnológicas nessa área são as que possibilitam ampliar as reservas e a produção de petróleo no país. O desenvolvimento tecnológico nessa área não traz questionamentos sobre os impactos sociais e nem de segurança, pois a prospecção de poços em tais profundidades só se viabilizam através do desenvolvimeto das pesquisas que garantam a instalação, operação e manutenção de equipamentos em águas profundas.

3.5.2 - O Caminho da Automação nas Plataformas:

A segunda direção das Inovações Tecnológicas, a Automação Industrial se verifica através da instalação de sistemas de Supervisão e Controle nas plataformas e tem obedecido a um plano estratégico da empresa. A decisão de incentivar cada vez mais sua instalação consta do Plano Estratégico do Sistema Petrobrás, Plano Decenal 1992 - 2001, que prevê como Objetivos Permanentes relativos ao desempenho do Sistema:

"- Desenvolver a capacitação tecnológica em articulação com a comunidade científica e tecnológica;

  • 16 Jornal Momento Coppe N° 12, Março de 1994 - pag. 2.

85

  • - Formar, desenvolver, valorizar seus empregados e integrá-los ao Sistema Petrobrás;

  • - Assegurar padrões de saúde ocupacional e de segurança do pessoal e do patrimônio do sistema".

Ainda no Plano, os chamados Projetos Estratégicos - "que visam a transformação das orientações estratégicas em ações e resultados"

definem 14 temas a serem implementados, dentre eles a Automação Industrial. Nesse caso, estão incluídas não só as atividades off shore, mas todos os tipos de atividades do Sistema Petrobrás.

O processo de Inovação Tecnológica na exploração de Petróleo off shore na Bacia de Campos, de uma forma geral se inclui em semelhante trajetória das demais atividades produtivas, principalmente no que diz respeito à automação de processos, visando à supervisão e ao controle do mesmo.

Segundo entrevista ao Jornal "Folha da Manhã" de Campos, RJ,

em 18 de Setembro de 1992, o Superintendente da Região de Produção Sudeste da empresa, Paulo Roberto Costa declara que: "o constante avanço tecnológico ocorrido nos últimos quinze anos resultou na instalação de plataformas com diferentes níveis de automação.

Esta falta de padronização das instalações e a necessidade de reduzir os custos operacionais, forçaram a RPSE a promover um reestudo dos sistemas instalados, tentando adequá-los e otimizá-los para o atual momento".

Esses diferentes níveis de automação são assim classificados:

86

1ª Família de Plataformas ( São 7 Plataformas Fixas: Garoupa, Enchova, Pampo, Cherne 1 e 2, Namorado 1 e 2 ):

As plataformas classificadas nessa primeira família constituem-

se

de

sistemas

baseados

em

painéis de lógica fixa ou relés, controle

pneumático das malhas de entrada e supervisão através de painéis semigráficos.

Segundo a empresa, esses sistemas apresentam pouca flexibilidade e nenhuma possibilidade de integração dentro de um ambiente de produção de grandes transformações, de acordo com a evolução do campo petrolífero.

Família

de

Plataformas

(

Carapeba

1 e 2 e Vermelho 1, 2 e 3 ):

Pargo

e

o

Polo

Nordeste:

Essas Plataformas se caracterizam por possuírem sistemas que contemplam a lógica programável e controladores eletrônicos que deram início à utilização de microcomputadores para supervisão de toda a plataforma. Nelas o controle continua sendo feito, ou diretamente no processo ou nos painéis de CLP's. O Computador serve apenas para supervisão da produção.

Família

de Plataformas

( Plataformas

Semi-submersíveis

Marlim, Marimbá e Albacora ):

Essa é composta pelos sistemas mais novos, onde se utiliza a tecnologia dos Controladores Lógicos Programáveis em conjunto com estações gráficas para supervisão, integrando todas as informações referentes

87

à produção em bancos de dados que permitem confeccionar relatórios e alimentar os "computadores corporativos" da base terrestre, cujos principais aplicativos usados são Bancos de Dados de Material, Transporte, Equipamentos e Informações à Produção.

Há um sistema que faz a integração de Software e Hardware com a finalidade de ser interface entre o operador e os sistemas de operação, monitorização e segurança da Plataforma que opera o Projeto Piloto do Campo de Marlim ( SS-33 ). Esse sistema é chamado de ECOS ( Estação Central de Operação e Supervisão ).

Segundo a empresa, a implantação desse Sistema vem substituir o que antes era feito por grandes painéis sinóticos de processo e de utilidades, constituído por relés e controladores analógicos existentes ainda nas Plataformas da 1ª Família e também na Plataforma de Pargo da 2ª Família. Esta possui também um Painel com os CLPs e ainda um microcomputador que tem a função apenas de Supervisão. Embora já se conte com esses novos recursos, ainda existe instalado, nesta plataforma, um grande painel sinótico.

No sistema ECOS, através dos terminais, ligam-se e desligam- se motores, abrem-se e fecham-se válvulas e também atua-se nas variáveis de processo ( pressão, nível, temperatura ), alterando-se "set-points" ou característica de controle ( ganho ou resposta ), fazendo-se intertravamento de segurança, anunciação de alarmes, detecção de fogo e gás, operação e controle de turbomáquinas, controle de lastro e amarração da plataforma ( nas SSs ). As telas são divididas entre os diversos sistemas ( processo, utilidades, segurança, ventilação, lastro, etc. ). Os símbolos dos equipamentos ( bombas, válvulas, vasos, tanques, etc. ) estão dispostos na

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forma de fluxogramas e possuem dinâmicas que alertam o operador, através de mudança de cor e de alarmes, sobre a necessidade de intervenção, para correção de anormalidades.

São consideradas como vantagens a economia de espaço, peso, fiação e a facilidade sobretudo da instalação, manutenção, bem como das expansões e alterações no sistema, pois as telas de computador podem ser feitas em terra e levadas prontas para atualização imediata na Plataforma.

A Estação Central de Operação e Supervisão está hoje instalada em Marlim ( SS-33 ), na SS-29 - Campo de Marimbá, na SS-10 Albacora, na Plataforma de Enchova e na Plataforma que foi ancorada em Abril de 1994, na Bacia, a SS-44 ( PXVIII ). Praticamente são cinco operando na Bacia de Campos. Esse sistema é considerado "um estado da arte em automação de plataformas no Brasil " 17 . A ECOS é constituída por um minicomputador VAX e quatro estações de trabalho ( com quatro terminais coloridos com dupla CPU - uma operadora e outra em "stand by" - quatro estações gráficas que permitem a interface entre o operador e a máquina, três estações de impressão ) instaladas por plataforma e interligados entre si e à RPSE através de rede.

A filosofia do Sistema ECOS é a de que o operador, a partir do mesmo ponto ( Sala de Controle ), " tenha acesso, de forma centralizada, às informações vitais da plataforma de maneira clara e rápida que permita

17

Jornal da Bacia de Campos - Janeiro/ Fevereiro 1993, pag. 7.

89

uma intervenção rápida e correta" 18 . Também permite a emissão de uma série de relatórios, que propiciam ao operador observar o comportamento das variáveis. A partir desses dados é que são emitidos os relatórios gerenciais da plataforma. 19 No Capítulo 5 serão descritos e analisados os Impactos das Inovações Tecnológicas sobre o trabalho de operação das plataformas.

18 Jornal da Bacia de Campos - Petrobrás, Julho de 1993, pág. 6.

19 BDP- Boletim Diário de Produção (Óleo) e BDG - Boletim Diário de Gás.

90

Capítulo 4

COMO SE VIVE E TRABALHA NA PLATAFORMA ?

As

plataformas

se

dividem

quanto

ao

aspecto

da

funcionalidade, ou melhor, dos seus objetivos em 3 tipos:

As Plataformas de Perfuração, de Produção e as Plataformas que são tanto de Perfuração quanto de Produção.

É importante registrar esta explicação técnica, pois ela irá determinar o funcionamento da plataforma, ou melhor, o seu dia a dia. As plataformas que são de perfuração e de produção, são maiores em termos de espaço físico, porque possuem, além da planta de processo da área de produção, a sonda de perfuração. As acomodações também deverão ser maiores para poder alojar todo esse pessoal, da Produção, da Perfuração e da Manutenção de ambos os setores. Existe ainda o pessoal de apoio operacional. É o chamado pessoal da hotelaria, responsável tanto pela preparação dos alimentos, quanto pela limpeza e arrumação dos camarotes, da área administrativa, do setor de recreação e o de repouso. Esse setor é todo terceirizado.

O trabalho na plataforma ocorre em 3 tipos diferentes de regime

de trabalho:

Administrativo ( 7h às 11h30min e 13h às 17h 30min ) - para o pessoal de escritório ou de serviço burocrático;

91

Sobreaviso - para o pessoal de manutenção e para as chefias;

Turno ( normalmente de 12 horas em revezamento ) - pessoal de produção e perfuração.

Pode-se chegar à plataforma somente de duas formas: pelo ar, de helicóptero, e pelo mar, normalmente de lanchas. O pessoal da empresa normalmente viaja de helicóptero. Essa rotina só é alterada em caso de impossibilidade absoluta de vôo ou quando o petroleiro prefere o embarque marítimo, por detestar viajar de helicóptero.

Durante a pesquisa feita nas plataformas, alguns depoimentos colocaram esta questão, inclusive um operador de rádio. Ele voltava a trabalhar embarcado depois de 5 anos e havia sido transportado para a plataforma de helicóptero e agora rejeitava a hipótese de voltar neste mesmo meio de transporte. Ele estava programando seu desembarque.

Alguns têm resistido à troca de plataformas, por não quererem viajar mais tempo de helicóptero. As viagens de helicóptero têm como base em terra, o Aeroporto da cidade de Macaé. As plataformas mais próximas do continente se situam a um tempo de vôo até o continente, em torno de trinta minutos. As plataformas instaladas em campos mais distante da base do continente, que são as plataformas dos campos explorados mais recentemente ( Marlim e Albacora ), se situam em torno de cinqüenta minutos de vôo.

O pessoal de empreiteira normalmente viaja de lancha. Um técnico em equipamentos de empreiteira, em uma das plataformas, que ganhava em torno de 2 Salários Mínimos para trabalhar embarcado, disse que a viagem de catamarã dura em média 5 horas. Dependendo da distância das

92

plataformas e das condições do mar, a viagem leva de 4 a 6 horas. Ele dizia

ainda: "esta viagem é horrível, muitos passam mal, vomitam, caem

é o

... pessoal todo jogado no chão, sentam nas pernas do sujeito, vem cheirando limão, molhado do lado de fora, não dorme, treme de frio, parece um bando

de amotinados". Esse técnico disse, ainda, que as pessoas que se sentem muito mal usam remédios contra enjôo e preferem viajar do lado de fora, respirando o vento direto. Só que do lado de fora faz muito frio e eles ficam molhados, porque quando o mar está muito forte respinga água nas pessoas. Outra reclamação dos trabalhadores de empreiteira é com relação à revista a que são submetidos no Porto da Petrobrás. Eles têm que chegar entre 22:30 e 23:00 horas para serem revistados e devem sair de lá por volta de uma ou duas horas da manhã. Segundo ele, ainda, muitos torcem para que o mar esteja muito ruim; assim a embarcação pode não sair e a viagem ficar para o dia seguinte, de helicóptero. Acaba sendo uma contradição: se o mar estiver bravo, mas não tanto a ponto de impedir a saída, a viagem será das piores. Certamente tem-se aí um outro estudo a fazer: o trabalho das empreiteiras nas plataformas.

Seja de helicóptero ou de lancha, é impressionante a sensação que se tem quando se desce na plataforma. Após descer no heliporto, continua-se a descer as escadas em direção à recepção. Nesta é feita a identificação e logo após é realizado o "breafing" pelo Técnico de Segurança do Trabalho. Após o "breafing" e a colocação do cartão no ponto de reunião determinado para evacuação da plataforma em situação de emergência, depois de soar o alarme, o petroleiro ou o visitante, no caso de pernoitar na plataforma, é encaminhado ao camarote.

93

O "breafing" 20 , as exigências de segurança para abandono da plataforma, em caso de necessidade e o local de descanso, praticamente no mesmo local do trabalho, caracterizam a especificidade do confinamento em alto mar. A divisão da parte administrativa da parte de produção da plataforma é exatamente a mesma de qualquer empresa instalada no

continente. Aliás, é esta a sensação que se tem quando se percorre a planta de processo. O barulho dos equipamentos, as tubulações cortando todos os espaços como em qualquer indústria de processo, poucas pessoas circulando, a não ser algumas da manutenção executando pequenos reparos durante o

dia

é tudo muito parecido. Mas, na realidade é como se fosse uma fábrica

... instalada numa ilha. Sem comunidade ao redor. Uma ilha antropotecnológica? Nas grandes plataformas fixas, até as colunas que sustentam a estrutura passam a idéia de um grande galpão comum nas fábricas do continente. Ninguém olha o mar. É um outro mundo. O tempo passado neste mundo não parece ser o mesmo do mundo "real", do continente, onde todas as coisas estão acontecendo simultaneamente. As notícias deste mundo só chegam lá através da imprensa, TV, jornais, ou através dos contatos telefônicos.

A adaptação é algo extremamente subjetivo. Identifica-se, nas entrevistas, os problemas gerados por esse tipo de trabalho. Além da pesquisa qualitativa realizada a partir de entrevistas, uma pesquisa quantitativa, cujo resultado completo consta dos anexos, foi realizada entre

20 Breafing são as orientações gerais passadas sobre o comportamento necessário,

principalmente em situações de emergência, quando se está a bordo de uma plataforma.

94

os meses de Dezembro de 1992 e Março de 1993, entre os Operadores de Produção que, naquele momento, trabalhavam embarcados.

Essa pesquisa do Perfil do Operador de Produção Off Shore, com relação à adaptação ao trabalho embarcado, aponta que: apenas 19 % se sente bem adaptado; 65% se considera regularmente adaptado e, 16 % afirma não conseguir se adaptar. Entre os que não conseguem se adaptar e os que se consideram regularmente adaptados, 94% atribuíram este fato ao afastamento do convívio social e familiar, 80% ao confinamento, 45% ao trabalho em turnos e 38% ao medo e à insegurança devido ao risco da atividade. Com relação ao trabalho em regime de turnos, 63% diz que se adapta regularmente, 23% se adapta bem e 14% não consegue se adaptar.

Um operador, numa longa entrevista com este pesquisador, resumiu essa sensação falando de forma angustiada e impotente, porque ele não via como resolver a questão. Ele dizia: "O problema aqui é que a gente

não volta para casa, se tivesse uma rua aqui que levasse para casa

... pessoal de Cabiúnas do turno ganha igual a gente e está todo dia em casa.

o

O pessoal que trabalha em terra vai resolvendo seus problemas aos poucos, nós não, interrompemos com 20 dias, largamos tudo e vamos embora". ( Ent. 9 )

Outro operador, ao fazer uma análise do seu trabalho, também angustiado, falava das privações que o trabalho lhe provocava: "O vizinho

toma a mesma cerveja sua, faz as mesmas coisas e não precisa vir para cá. "

Tá saindo muita gente, eles sabem

...

( Ent. 6 )

Certamente

esse

problema

serve

como

tema

para

um

sério

estudo

que

poderá

ser

de

grande

valia

para

o

mundo

da

pesquisa

e,

95

principalmente, para os trabalhadores. Através dele, poderão ter uma posição com relação a algo que influencia tanto a sua vida. Essas pessoas devem desenvolver maneiras diferentes de ver o mundo provocadas pelos longos períodos de suas vidas, vividos longe da sociedade 21 .

Para reforçar o que foi dito acima, existe um outro exemplo:

quando acontecem eleições, durante o período de embarque dos petroleiros, eles ficam sem votar. O trabalho retira deles o direito à cidadania plena, que certamente passa pelo direito de eleger seus governantes. Na eleição de 1989, de Presidente da República, em diversos países do mundo, os brasileiros lá residentes puderam manifestar sua opção eleitoral. Já os petroleiros da Bacia de Campos que estavam no período de trabalho a 100 Km do continente, a aproximadamente 300 Km da famosa cidade do Rio de Janeiro, não puderam depois de quase 30 anos, votar no Presidente da República do seu país. Agora, em 1994, com as eleições gerais que o país viveu, esse fato se repete, gerando novas frustrações e questionamentos sobre a especificidade de um trabalho que impede o exercício de um dos direitos sagrados do cidadão, que é o de escolher livremente, através do voto, seus representantes nos poderes legislativo e executivo 22 .

21 Esse assunto merece um estudo antropológico. É possível que ele possa

identificar entre esse grupo de pessoas algumas características semelhantes ao dos povos

primitivos.

22 Reportagem do "Jornal do Brasil" de 4 de Outubro de 1994, diz: "Frustação em alto-

mar

- Trabalhadores de plataformas não podem votar. Quase quatro mil eleitores

96

As vidas dessas pessoas, devem, de alguma forma, registrar as marcas oriundas da especificidade desse trabalho. Isso certamente traz conseqüências, mesmo para aqueles que, de uma forma global, vêem seu trabalho com um sentimento de satisfação e de prazer, por verificar que, a partir dele, conseguem o sustento e, ainda, como algo que permite a sua realização profissional em função da importância estratégica desse tipo de atividade, para o país.

Esta análise permite que se reafirme o trabalho como algo que interfere diretamente sobre as vidas das pessoas. Interfere muito, para além do aspecto físico, da carga de trabalho. Acarreta, principalmente, uma sobrecarga mental, que deve, por outro lado, também influenciar a comunidade onde vivem essas pessoas que exercem esse tipo de trabalho 23 .

brasileiros não votaram nesta eleição por estarem em plataformas em alto mar.

Funcionários da Petrobrás e de empreiteiras que prestam serviços à estatal vão receber

uma carta da empresa com chancela do TRE para, posteriormente, se justificar em sua

zona eleitoral ...

Eu gostaria de ir às urnas: exercer o voto é exercer a cidadania, ensina o

Engenheiro Paulo Lourenço, chefe da plataforma ( Cheplat ). (

...

) Entre os quatro mil

homens que não irão votar, estão incluídos os prestadores de serviço do setor privado.

Para eles, situações como a falta de comparecimento às urnas são corriqueiras. Na final da

Copa, só os que estavam fora da escala assistiram à vitória nos pênaltis sobre a Itália".

23 Este é o tema principal da tese de mestrado, já citada no Capítulo 1, da Introdução, ora

em desenvolvimento, de autoria de PIMENTEL, Nelson C. P., também mestrando da

Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ.

97

4.1 - O descanso e o lazer nas Plataformas:

O trabalho na plataforma acaba por envolver o petroleiro além das suas 12 horas da escala. As horas do "não trabalho", trazem à tona, nas 12 horas restantes, a realidade do confinamento. O confinamento na plataforma, faz com que haja uma contaminação quase que total do trabalho sobre o tempo livre ( 12 horas ).

As refeições e as atividades de lazer são realizadas em espaços contíguos aos da produção. Durante esse período se descansa, se dorme e, complementarmente, realiza-se alguma atividade física ou simplesmente de lazer ( jogos, TV e vídeo, etc. ).

Na pesquisa do Perfil do Operador Off Shore, a pergunta 8.1 ( Vide Anexo -3 ) procurou identificar o uso do tempo livre na plataforma e o grau de importância que os operadores davam a cada uma deles. A formulação da pergunta não ficou adequada o que acabou gerando dúvidas no preenchimento das respostas, acabando por comprometer os resultados na tabulação desse item.

Porém, eles se manifestaram sobre a qualidade das atividades em tempo livre na plataforma: 58% consideram regular, 13% ruins, 1% péssima, 27% boas e 1% ótima.

O lazer, nas Plataformas, fica limitado às condições oferecidas

por

cada

uma delas. Em

todas existem as salas de TV; algumas possuem

ainda

uma

sala

para

vídeos,

outras chegam a possuir cinema com

98

programação diária. As plataformas fixas maiores possuem quadras esportivas no tamanho oficial. As menores e algumas Semi-submersíveis possuem pequenas quadras. Algumas possuem salas de musculação e saunas ( Vide fotos no Anexo 6 ). Quase todas têm salão de jogos, com mesa para jogo de cartas, ping-pong, sinuca e jogo de bonecos ( totó ). Em algumas plataformas esse espaço é contíguo à sala de TV.

A quadra e/ou o heliporto são utilizados por muitos para as caminhadas ou corridas, principalmente durante a noite, entre 19:00 horas e 19:45, antes dos telejornais na TV, principalmente o Jornal Nacional, da Globo que, às 20:00 horas, é visto em praticamente toda a Bacia.

Os petroleiros se revezam nas diferentes atividades durante as

12

horas

de

não trabalho. Descansam

entre

6

e

9

horas, dependendo da

pessoa e do turno de trabalho. Quando se trabalha no turno da noite, o tempo

gasto

dormindo

tende a

ser

maior do

que no diurno. Quando se trabalha

durante o dia, o lazer tende a ser mais coletivo, porque une os trabalhadores

que trabalham nos diferentes regimes de trabalho ( administrativo, sobreaviso e turno ).

Os camarotes, dependendo da plataforma, possuem banheiros próprios e acomodações para duas, quatro ou seis pessoas. O camarote possui, quase sempre, som ambiente e armários próprios para cada pessoa.

Só os camarotes dos Chefes de Plataforma - Cheplat - e os Chefes de Manutenção - Cheman ( algumas plataformas fixas de grande porte ) e os Encarregados da Plataforma ( caso das SSs - espécie de gerente

administrativo da plataforma )

possuem TV.

99

Na

pesquisa

sobre

o

Perfil

do

Operador

Off

Shore

os

Operadores se manifestam sobre as suas acomodações na Plataforma:

Quanto à Limpeza e Arrumação do Camarote: 44% consideram boa e 39% regular. Em relação à troca e Lavagem de Roupas: 51% afirmam ser regular e 36% boa. A maioria reclama da divisão do camarote com outros petroleiros que têm horário de trabalho diferente: 37% reclamou da divisão do camarote e ainda 24% disse que às vezes isso acontece; 39 % dizem que isso não ocorre. Também a maioria, 54% considera seu camarote totalmente inadequado para o descanso. Os operadores consideram a falta de privacidade e hábitos diferentes entre os ocupantes do camarote como os principais problemas enfrentados no camarote. 57% reclamam de mudanças de camarotes entre um embarque e outro.

Sobre a alimentação nas plataformas, 48% consideram regular, 41% Boa e 10% Ruim.

4.2 - Síndrome de Off-shore

Um documento elaborado pelo Engenheiro da Petrobrás Leonel França, na época Chefe do CORPREO, e entregue à Diretoria da Empresa em 1983, intitulado "SÍNDROME DE OFF-SHORE", já apontava questões importantíssimas a respeito do que ele chama de ambientação do homem ao trabalho offshore em regime contínuo.

100

Esse documento, portanto tem 11 anos. Seu autor fala, logo no início, que no momento da sua elaboração não havia nenhuma previsão de alteração de local e do regime de trabalho. Isso acabou ocorrendo em 1989, após a promulgação da Constituição de 1988. Na época a relação entre o regime de trabalho e de descanso passou de 14 x 14 para 14 x 21. ( Vide item 4.2.1 ). Diz ainda que as referências relacionadas ao pessoal no documento se prendia ao pessoal do DEPRO ( Departamento de Produção ). Essa é exatamente a área - objeto desta pesquisa.

Esse documento, sem dúvida tem grande importância para esta pesquisa e outras que poderão suceder a esta. Ele será comentado por partes, procurando-se atualizá-lo com dados obtidos a partir da pesquisa de outros documentos, do relatório do embarque e das diversas entrevistas com petroleiros, especialmente os operadores de produção.

Logo no início, ele diz que: "atualmente toda a organização do

Departamento de Produção voltada para a atividade de pré-operação cuida com

satisfatória experiência da parte técnica e do treinamento técnico do pessoal. Porém, a

preparação do pessoal para o novo ambiente de trabalho nas plataformas ainda é

tremendamente falha, para não dizer inexistente". Nesse aspecto o autor do

documento completa: "para não criar polêmica na área do Serviço de Pessoal da

Companhia, adiantamos que a preparação a que nos referimos envolve aspectos que a

"organização" da Petrobrás está longe ainda de poder realizar de imediato".

Esse comentário a respeito da "organização" da Petrobrás parece traduzir o sentimento de que, a necessidade da produção de resultados num curto prazo, impossibilitou um trabalho mais diferenciado para esta mão de obra que atua num tipo de atividade totalmente diferente de tudo que já existiu antes.

101

Neste ponto o Eng. Leonel afirma que: "considerar uma plataforma,

tecnicamente, como

um

misto de um navio ancorado em alto

mar e uma refinaria

é

um

erro até aceitável, já que os enganos daí decorrentes não chegam a comprometer os

serviços".

Essa opinião, à época, do Eng. Leonel não é hoje compartilhada pelo Engenheiro da Entrevista N° 14, que já foi citada anteriormente. O mesmo havia afirmado que, no início, não se sabia exatamente o que era uma plataforma e, desta forma, se considerou, na época, que fosse algo parecido com uma refinaria, pelo fato de ser uma planta de processos e que seu funcionamento pleno demandava grandes equipes de apoio e manutenção. A compreensão que cada plataforma fosse uma refinaria dando pleno poderes ao chefe da plataforma, para formação da sua equipe e de sua estrutura de apoio, acarretou erros estratégicos importantes.

Ele diz:

"eles fizeram com que ...

como filosofia a maioria deles, que

todos os serviços fossem feitos lá em cima, lá no mar, é como se desconsiderasse a terra

e fizesse no mar, isto resultou em 200 pessoas de efetivo. A gente ia para uma plataforma

destas, o desconforto, porque você estar confinado com conforto é uma coisa, agora você

estar confinado, quase batendo cabeça um com outro, quase com cama quente e com

muitas pessoas em lugar fechado é horrível, você tinha que dizer às 11 horas é a

primeira turma de almoço, outra às onze e meia, porque senão não dava. Era horrível".

 

Essa entrevista ( N° 12

) recente, de Agosto de 1993, dez

anos

depois do outro documento, mostra que, mesmo com relação aos serviços

técnicos,

essa

alternativa

não

era

a

melhor.

Hoje,

novas

estratégias

caminham

para resolver esse problema, através da mudança da organização

do trabalho na plataforma, com

a redução, ao essencial, das atividades a

serem nela executadas. Essa é a forma de reduzir custos e melhor

102

operacionalizar o trabalho da produção off shore. ( Aqui não se faz referência à redução do número de operadores na produção, assunto que será tratada em capítulo posterior ).

 

Em

1983,

apontava-se,

com

muita

clareza,

os

problemas

do

trabalho

na

plataforma:

"

...

sob

o

ponto

de

vista

de

ambiente

de

trabalho

e

esclarecemos

que

não

se

trata

de

saúde

ocupacional,

os

métodos

aplicados

pela

Empresa-Mãe

têm

de

ser

completamente

revisados

para

os