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Teorias da Cultura | Mestrado em Sociologia

Docente: Ana Pina | Aluna: Lorena T. Anderáos


26 de Abril de 2022, Lisboa, Portugal

Comentário crítico sobre o ensaio: "No castelo do Barba Azul: algumas


notas para a redefinição de cultura" de George Steiner

É comum a utilização do termo "cultura" como próximo a uma essência enrijecida e imutável, porém,
a cultura como algo inevitavelmente flexível e diretamente relacionada com seu contexto histórico é
de extrema importância. É a partir desta lógica fundamental que se baseia o ensaio "No castelo do
Barba Azul: algumas notas para a redefinição de cultura", escrito por George Steiner em 1971, objeto
de estudo deste comentário crítico. O ensaio organiza-se em quatro momentos:
1 - Ennui
2 - Uma temporada no inferno
3 - Em uma pós-cultura
4 - Amanhã

A insatisfação humana com o silêncio dos tempos de paz


O ensaio inicia-se com o apontamento do padrão de "idealização" do passado histórico, exemplificado
pela comum sensação de que houve uma prévia "época dourada" que foi, de alguma maneira, perdida
no presente. Tal conceito, nomeado pelo autor como o "mito do século XIX" ou "jardim imaginado da
cultura liberal" (Steiner, 1971, p.15), diz respeito ao momento entre 1820 e 1915, especificamente, na
Europa ocidental. À primeira vista, é compreensível que tal época histórica seja vista como
especialmente privilegiada, por conta da ausência de guerras, da consolidação de uma organização
econômica e do grande reconhecimento das artes, ciências e tecnologias como ferramentas
civilizatórias fundamentais. Porém, de acordo com a tese que Steiner desenvolve neste ensaio, é
necessário que se observe também o outro lado da moeda.

A história humana acaba por ser, inevitavelmente, um conto, como qualquer outro. E como qualquer
narrativa, ela necessita de escolher seus pontos de vista, protagonistas e coadjuvantes. Ao acompanhar
a classe rica europeia, podemos classificar o século em questão como inigualavelmente reluzente, mas
não se pode esquecer que isto só foi possível por meio da dominação europeia de países no chamado
"Terceiro Mundo", podendo ser afirmado que caso tal narrativa se interessasse por protagonistas
latinos, africanos ou asiáticos, a história seria no mínimo, diferente. Pode-se traçar aqui um claro
paralelo com o contexto atual da guerra da Ucrânia, e a desequilibrada ênfase midiática dada a um
conflito militar europeu se comparado aos diversos outros conflitos e guerras ocorrendo no mesmo
momento, porém em outros continentes.

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O autor desenvolve a primeira parte do ensaio a partir da busca por migalhas escondidas neste século
de paz europeia que pudessem sinalizar o terror que estaria por vir, em 1917, com a Primeira Guerra
Mundial. Teoriza-se que entre os principais fatores motivadores para a barbárie do século XX estaria o
que Steiner nomeia de "Ennui", ou o "grande tédio". O silêncio, ou a ausência de grandes
acontecimentos, seria algo dificilmente absorvido pelas sociedades humanas, o que fez com que este
século de paz pudesse ser visto tanto como maldição quanto como benção. "A loucura e a morte são
preferíveis ao interminável domingo e ranço de uma forma de vida burguesa." (Steiner, 1971, p. 28).
Tal estado de espírito letárgico precisa ser somado aos gigantes índices de crescimento econômico e
industrial deste momento. As transformações modernas da economia, apesar de gerarem um
indiscutível conforto financeiro, acabam por apresentar também consequências desastrosas, como por
exemplo, aquilo o que Emile Durkheim se empenhou em compreender: com os altos níveis de
produtividade advindos da consolidação capitalista, surge também uma crescente desmoralização e
desmotivação social, algo comprovado pelo aumento das taxas de suicídio nos países industrializados
no século XIX (Durkheim, 1897).

Um exemplo dado por Steiner em seu ensaio, para apontar a insatisfação urbana característica na
industrialização capitalista, é o chamado "pastoralismo romântico", uma ânsia pelo abandono das
cidades e do conceito de civilização e a preferência pela vida rural, em contato direto com a natureza.
Todo o movimento artístico característico deste momento, o Romantismo, carrega sinais desta
insatisfação tanto com o "inferno urbano" da idade moderna, quanto com o grande tédio dos anos
dourados, sendo exemplo disso a ênfase em sentimentos melancólicos, a busca por uma autoafirmação
individualista e a exaltação da natureza sobre a existência urbanizada. Pode-se afirmar, portanto, que a
conjuntura entre esses dois aspectos (Grande Tédio + Industrialização) é a grande culpada pelos
acontecimentos que se seguem, no sangrento século XX.

A morte de Deus como motivação para barbárie


Em um segundo momento, o ensaio propõe uma análise das guerras que marcaram o século XX, com
foco nas transformações culturais que ocorreram neste momento, principalmente no que diz respeito à
influência de componentes religiosos no desenvolvimento da cultura. A própria utilização de
conceitos como o "Paraíso" do século XIX e o "Inferno" do século XX já direcionam o imaginário do
leitor para o principal debate desenvolvido por Steiner em seu ensaio: não é possível falar sobre as
grandes transformações culturais deste momento sem falar sobre o cristianismo, em especial seu
declínio e o que este significou para a cultura ocidental.

Pode parecer estranho imaginar que vivemos agora um declínio religioso, afinal é estimado que 2.3
bilhões da população mundial seja cristã, e 1.8 bilhão seja muçulmana (Pew Research Center, 2015),
Mas as transformações entre a dinâmica religião X cultura acaba por ser muito mais estrutural do que

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quantitativa. A religião ainda ocupa enorme espaço na vida de grande parte dos indivíduos, porém,
este espaço destina-se cada vez mais somente à esfera da espiritualidade individual, e não nos
aspectos de organização social e política como era anteriormente. Assim como a migração do modo
de produção feudalista para o capitalista significou uma extrema transformação na economia
ocidental, a passagem da compreensão do mundo baseado na religião para uma compreensão através
da ciência causou profundas mudanças nas dinâmicas sócio-culturais. A ciência, apesar de prover
explicações imensamente mais racionais do que a religiosidade, deixa por abrir um buraco na psique
humana, por não poder ser responsabilizada pela sustentação da moralidade humana.

Teoriza-se, portanto, que esta ênfase moderna na ciência acabou por causar a "Morte de Deus"
(Nietzsche, 1882), gerando um desmoronamento moral que poderia explicar a barbárie das guerras
mundiais. Esta secularização cultural teve início a partir da revolução científica do século XVI. No
momento em que a compreensão dos fenômenos naturais começa a se dar de maneira científica, a
lógica religiosa de que a natureza estaria vinculada com um ser superior divino perde sua força. Já
com o Iluminismo, no século XVIII, consolidou-se a ideia de que a razão, e não a tradição, deve
basear as crenças humanas. Combinam-se, por fim, estes ideais, à industrialização do século XIX,
onde o crescente poder tecnológico desencadeado pela ciência gerou a sensação de um maior controle
sobre a natureza. Assim, sentindo-se menos submissos às forças incompreensíveis de um ser divinal, a
humanidade entra em um processo de desmantelamento da fé religiosa e com isso, consequentemente,
de um poder sobrehumano. O poder recai sobre os indivíduos, permitindo uma maior flexibilização de
conceitos morais do que é "certo" e "errado".

Este assassinato de Deus, de acordo com Nietsche e sustentado no ensaio de Steiner, mostra-se
concretizado por meio do Holocausto e da perseguição antissemita. "Matando os judeus, a cultura
ocidental podia erradicar aqueles que tinham inventado Deus" (Steiner, 1971). A barbárie das guerras
mundiais pode ser compreendida, portanto, como um movimento de extirpação da moralidade
religiosa arcaica - simbolizada pelo judaísmo - realizado pela comunidade materialista, secular e
europeia. Foi, inclusive, o imenso poder industrial europeu que permitiu que as guerras tomassem
proporções tão avassaladoras, por institucionalizar a utilização das ciências e tecnologias para o
desenvolvimento de armamento exponencialmente assassino.

A ideia de que religião e moralidade são sinônimos, porém, é equivocada. Como aponta Voltaire, foi
em nome de Deus que algumas das maiores barbáries anteriores ao século XX haviam existido, como
a queima de milhares de mulheres por bruxaria. De acordo com o pensamento iluminista defendido
por Voltaire, o abandono da religião significaria uma evolução cultural que caminharia cada vez mais
para além dos massacres do passado (Appelgate, 1974). Pode-se dizer que, em certa medida, foi por
conta do assassinato de Deus que todo o crescimento economico, tecnológico e cultural advindos da

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Revolução Industrial foi possível, porém, com o abandono da religião, a humanidade precisou encarar
o fato de que talvez a barbárie e a selvageria vista em sua história fosse, também, parte de sua cultura.
A Revolução Industrial também deve ser responsabilizada por um processo de desumanização, capaz
de facilitar a polarização entre grupos humanos. Com o aumento gigantesco das populações humanas
e sua densidade urbana extrema, torna-se difícil a consolidação de uma identidade individual. Ao
viver como somente mais um no meio da multidão, um individuo pode encontrar dificuldades em
pensar por sí próprio, ou ainda estar tão ansioso por determinar qualquer tipo de identidade que acaba
por levar a discriminação entre "si" e o "outro" a uma esfera agressiva, onde a única maneira de
definir quem é se dá por meio da destruição daqueles diferentes de si.

Por fim, não se pode ignorar um componente metafórico de materialização do inferno presente na
guerra, principalmente nos campos de concentração e extermínio. No momento em que inicia-se um
declínio religioso, perde-se o espaço no qual o "inimigo" vai para sofrer. A punição do mal, antes
responsabilidade de Deus, recai agora sobre direção humana, que trata logo de desenvolver seu
próprio inferno na terra para castigar aqueles que são diferentes de si ou que, em sua opinião,
merecem sofrer.

Reconstrução de uma cultura pós-guerra


Como renasce uma civilização após experienciar todo o terror que foi capaz de infligir? É nesta
questão que o autor mergulha, no terceiro momento do ensaio em questão. É natural, embora não
necessariamente saudável, a busca por processos de apagamento, esquecimento e superação histórica,
além da busca por outro ponto focal no que diz respeito à construção cultural. Pode-se afirmar que
após a Segunda Guerra Mundial a Europa começa, pouco a pouco, a abrir espaço para protagonismos
além de suas fronteiras, permitindo que os Estados Unidos da América, por exemplo, se tornasse o
principal eixo referencial do mundo ocidental.

A cicatriz fascista de hierarquização social extrema incentivou uma busca pela igualdade em
diferentes esferas, como no interesse pela produção cultural existente além do circuito eurocêntrico.
Inicia-se um consumo cultural globalizado, que propõe, mesmo que nem sempre com sucesso, uma
valorização cultural diversificada e inclusiva. Diversas esferas de desigualdades (entre nações, entre
raças, entre gêneros, etc.) começam a ser questionadas, e movimentos pelos direitos humanos ganham
força. É plausível dizer que o fantasma da barbárie acaba por incentivar uma luta contra este sombrio
lugar humano recém descoberto, do qual todos procuram fugir.

A própria tecnologia, antes uma ferramenta milagrosa de cura e evolução, havia demonstrado que
poderia também ser utilizada para massacres terríveis, bombas nucleares e armamento desolador. A
humanidade toma consciência de que a ciência, como qualquer forma de poder, deve ser utilizada com

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responsabilidade, e surgem os primeiros movimentos de proteção ambiental e conscientização da
capacidade de destruição material não somente da humanidade, mas também da natureza.

A cultura humana como um todo vira objeto de questionamento. Se antes a barbárie era antônima à
civilização, sendo comum a crença de que uma sociedade com educação, afastada da religião e
culturalmente desenvolvida nunca seria capaz de tamanha violência, agora torna-se claro que existe
algo de profundamente violento na humanidade moderna civilizada, e que isto não tem relação com
níveis de educação, afinal, como aponta o autor, "em um mesmo indivíduo, qualidades óbvias de
sensibilidade letrada e estética podem coexistir com um comportamento bárbaro e politicamente
sádico." (Steiner, 1971, p. 88) Tal percepção reforça o olhar para dentro de si, inclusive das classes
burguesas e intelectuais, que podem a qualquer momento caírem no buraco violento comum à
natureza humana, perpetuando a histeria coletiva, a selvageria e o massacre cruel. Tal maturidade,
apesar de inerentemente pessimista por apagar certa parte do futuro da evolução humana, é crucial
para nos afastarmos do passado violento, comprovando a tamanha fragilidade da cultura, que vai de
encontro imediato à imortalidade utópica característica da sociedade pré-guerra.

E o que será de nós?


Neste momento final, Steiner direciona seu ensaio na busca pelo "Amanhã". Curiosamente, por ter
sido publicado em 1971 (mais de 50 anos atrás), tal amanhã posiciona-se próximo ao momento em
que escrevo este comentário crítico, o que permite uma comparação entre as previsões do autor e o
momento contemporâneo em que vivemos.

De maneira geral, as previsões de Steiner para o futuro foram imensamente bem direcionadas. A
crescente globalização que já havia se iniciado no século XX atingiu imensa aceleração,
especialmente com a digitalização atual. Tal aceleração faz com que a quantidade de material humano
desenvolvido em todas as áreas do conhecimento tenha sofrido uma expansão absurda, o que faz com
que, como previsto pelo autor, muito do passado se perca. Para compreender uma obra em sua
plenitude, por esta ser sido (naturalmente) baseada em muitas outras, que se basearam em outras mais,
e assim por diante, torna-se virtualmente impossível compreender algum material humano em sua
total plenitude. As fronteiras do conhecimento se expandiram de tal maneira que para qualquer
pessoa, a sensação de que quanto mais se estuda, menos se sabe, é abundante. É curioso porém
questionar se é somente o aumento populacional e o aumento de desenvolvimento que geram tal
sensação, afinal, com a globalização contemporânea, se tem conhecimento de coisas que acontecem e
aconteceram nos quatro cantos do mundo, expandindo o conhecimento para além do núcleo
eurocêntrico que costumava monopolizá-lo.

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O estudo de uma cultura clássica sofre, portanto, agressivos cortes. A escolha por determinada
perspectiva ou protagonismo acaba por atingir amplitudes nunca antes imaginadas, fazendo com que o
consumo cultural acabe por ser necessariamente o consumo do recorte, de um recorte, de um recorte.
Uma tradução, de uma tradução, de uma tradução. Uma análise de um autor, sobre a obra de outro
autor, sobre a obra de outro autor. É fácil perder-se nessa espiral eterna que se tornou o conhecimento
e a cultura humana moderna, especialmente com a digitalização, que possibilitou que qualquer pessoa
se torne um autor, mesmo que anonimamente. A ideia de imortalidade antes explorada pelo autor
perde aqui totalmente sua potência. Como se sentir eterno em um universo digital, onde tudo acontece
tão rapidamente e perde sua força em um piscar de olhos? A digitalização acaba gerando uma cultura
"líquida", que existe na modernidade líquida (Bauman, 1999), onde nada se solidifica, tudo é
consumível e, portanto, passageiro. Porém, esta liquidez acaba também por ampliar as possibilidades
de democratização cultural, possibilitando que uma obra, uma música, um filme, um quadro, possam
viajar por todo o mundo. O acesso à cultura, ao conhecimento e às infinitas possibilidades de
conexões humanas nunca estiveram tão ampliadas.

Entre as transformações previstas pelo autor está a da língua, algo curioso, pois mesmo que não tenha
sido exatamente nesta trajetória que a previsão foi feita, podemos conectá-la com a implementação
crescente da chamada "linguagem neutra", advinda dos movimentos de inclusão social e direitos
humanos iniciados principalmente na época em que Steiner escreve seu ensaio. A língua, assim como
toda forma de cultura humana, é inevitavelmente flexível, e precisa ser flexível a fim de servir seu
propósito na sociedade em que se encontra. Mesmo que pareça ser "ofensivo" para a cultura clássica
transformar algo aparente sólido como a linguagem, não podemos esquecer que para chegar até aqui
tal língua já sofreu milhares de mutações, e sofrerá, ainda, mais mulheres. Infelizmente a previsão de
conscientização ambiental do autor parece estar ocorrendo de maneira demasiada lenta para que possa
gerar repercussões verdadeiramente positivas para a sociedade. Apesar de que sim, cada vez mais tem
se lutado pela regulamentação e educação sobre as mudanças climáticas, o sistema capitalista e a
cultura de consumo permanecem demasiado estabelecidas para evitar a destruição ambiental que as
acompanha.

Por fim, falta ainda a comprovação das previsões mais distantes de Steiner, como o povoamento de
outros planetas e o contato com formas de vida alienígenas. Mas ainda assim, é seguro dizer que a
sociedade, na medida do possível, ter sido capaz de abrir a última porta do conhecimento, assim como
na obra que inspira o título do ensaio "Castelo do Barba Azul" (Bartok, 1911), apenas para descobrir
que, atrás da última porta, encontramos uma infinitude de outras aguardando por serem desbravadas.

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Bibliografia
Appelgate, K. W. (1974). Voltaire on Religion: Selected Writings.
Bartók, B. (1911) O Castelo de Barba-Azul (Opera).
Bauman, Z. (1999). Modernidade líquida.
Durkheim, E. (1897). Suicidio.
Friedrich Nietzsche. (1882). A gaia ciência.
Pew Ressearch Center (2015) The countries with the 10 largest Christian populations and the 10
largest Muslim populations
Steiner, G. (1971). No castelo do Barba Azul: algumas notas para a redefinição da cultura.

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