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M343m Mariz, Ricardo.

O mundo dentro de casa [recurso eletrônico] :


aprendizagens possíveis em um tempo inusitado / Ricardo
Mariz. – [Brasília] : Esquina do Pensamento, [2020].

Disponível em: www.esquinadopensamento.com.br


ISBN 978-65-991408-0-8 

1. Pandemia. 2. Sociedade. 3. Comportamento social. 4.


Aprendizado. I. Título.

CDU 316.62

Ficha elaborada pela Bibliotecária Sara Mesquita Ribeiro CRB1/2814


Sumário

Prefácio.................................................................................................................... 4

Introdução.............................................................................................................. 7

1. A simultaneidade dos nossos mundos................................................. 10

2. Perdemos o controle que não tínhamos............................................ 15

3. O papel libertador do limite..................................................................... 19

4. Entre o físico e o virtual.............................................................................. 22

5. Pós-pandemia: aprendizagens possíveis........................................... 26

6. O que pensamos e como pensamos: lições da crise................... 32

7. O antes e o depois: o que a história contará de nós..................... 35

8. Conclusões de uma história sem fim................................................... 39


Prefácio
Tenho a maior satisfação em prefaciar um texto primoroso de
Ricardo Mariz, analisando a quarentena imposta pelo coronavírus e
que nos levou a repensar a vida. Trata-se de uma análise de corpo
presente, just-in-time, com qualidade sofisticada epistemológica e
reflexiva, na qual pondera o que estamos vivenciando e o que po-
deria vir depois. Em linguagem coloquial e de enorme capacidade
de comunicação, Ricardo reflete a perda do controle que nunca ti-
vemos. Os avanços tecnológicos facilmente inflam nossa soberba
supremacista no planeta, ecoando o relato do gênesis: os primei-
ros humanos, alegorizados em Adão e Eva, se revoltaram contra o
Criador, cometendo um pecado capital, não de luxúria, mas do co-
nhecimento: queriam ser como deuses, conhecendo o bem e o mal.
Queriam deixar a condição de controlados, para controlar tudo. A
pandemia, que não foi a primeira, nem será a última, lembra nossa
extrema fragilidade, em face de um ser minúsculo, microscópico (um
vírus) que nos ataca de maneira sorrateira, misteriosa, causando es-
tragos contundentes, deixando à mostra que não temos controle de
nada. Fica a pergunta sobre como será depois, o assim dito “novo
normal”. A tendência mais ouvida é que muita coisa vai mudar, ou
mesmo nada será como antes. Essa expectativa é excessiva, já que
os humanos sobreviveram a muitas crises agudas e delas ressurgi-
ram em parte diferentes, em parte os mesmos de sempre. Imagi-
no que nossos políticos vão logo esquecer a pandemia e voltarão
a fazer as mesmas politicagens costumeiras. Se a pandemia não foi
suficiente para reverem seus privilégios grotescos – qual pandemia
seria necessária para movê-los a reinventar-se como servidores da

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

população? – passada a pandemia continua a gandaia. Qual pande-


mia seria capaz de levar o Judiciário – que vive no mundo da lua do
funcionalismo mais privilegiado – a refazer sua instituição como ser-
viço público que exige o abate de todos os privilégios, em especial,
de quem é profissional da Lei? Olhemos o passado recente. Depois
de duas guerras mundiais, caímos de joelhos e repensamos a vida,
embora logo polarizada entre o sovietismo e o liberalismo, reforça-
mos as juras à democracia, movimentamos mecanismos de redistri-
buição de renda, surgiram alguns welfare states, mas isto durou até
aos 1980. E hoje a democracia é achincalhada, nacionalismos voltam
com força, endurecimento dos regimes parece inevitável, fundamen-
talismos políticos dominam o cenário. Esquecemos rápido as lições
da história. E olhe que foram veementes: duas Guerras Mundiais. As-
sim como toda tecnologia nova é seguida por outra ainda mais nova,
sendo a ruptura também modo de continuar, depois de uma pande-
mia o mais provável é que venha outra, talvez pior.
Podemos sempre aprender das crises – é o mínimo que se es-
pera do homo sapiens – mas aprendizagem não depende tanto de
fatores externos, quanto de internos, porque é uma dinâmica auto-
ral. Ricardo acentua que sofrimento pode instigar a aprender, como
pode apenas doer. Para mudar a visão de mundo – por exemplo,
cuidar do planeta como casa comum – é preciso mais do que uma
pandemia. É preciso nos reinventar a partir de dentro, de uma au-
toria radicalmente diversa que redefina nossos valores e sentidos
da vida. Ricardo trabalha argutamente o quanto a quarentena mexe
com nosso ego fragilizado, nossas certezas pífias, nossos controles
ineptos, nossas crenças e expectativas infladas. Todos os mundos
estão dentro de casa agora, misturados e mal compostos, aprisiona-
dos. Muitos farão desse caldeirão um prato novo; outros aguardam

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a hora para voltar ao “normal”, mesmo que seja, em algum sentido,
“outro”. Esta dissintonia está escancarada no modo como o governo
conduz a reação à pandemia: é uma zorra total, um disparate de alto
a baixo, como se os malefícios dela (em especial as mortes aos mi-
lhares) contassem menos que disputas politiqueiras absolutamente
mesquinhas e facilmente antidemocráticas. Dizem alguns que crises
não podem ser desperdiçadas; é estupidez. Mas estamos, gritante-
mente, desperdiçando esta crise para sairmos dela, provavelmente,
como um dos países mais inconsequentes do mundo, digno de cha-
cota global.
Temos neste texto uma análise de rara elegância e perspicá-
cia, de elaboração primorosa, muito bem tramada discursivamente,
que nos auxilia a destrinchar alguns arcanos desse momento com-
plexo e desafiador que estamos vivendo. É uma maneira sábia de
digerir a crise para fazermos dela alguma coisa pertinente para nos
reconstruirmos no planeta. Moralismos afoitos não cabem, como
apelos à solidariedade, ao igualitarismo social, à compaixão, porque
ignoramos que, podendo os humanos ser solidários, não deixam de
ser competitivos. Na complexidade da vida, solidariedade e compe-
titividade não são antípodas; são complementares. Ambiguidade é
nossa condição mais profunda. A pandemia poderia nos fazer rever
tudo na sociedade, porque o vírus nos grita que tudo que é sólido se
desmancha no ar, mas tamanha sabedoria não cabe numa história
concreta de exclusão das maiorias, sistematicamente. O vírus mata o
rico e o pobre; na morte todos são iguais, mesmo que o enterro seja
chique. Mas esta lição vai ficar para depois. Para a próxima pande-
mia!
Pedro Demo
Professor Emérito de Sociologia da UnB

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

Introdução
Brasil, meados de março de 2020. Passamos o carnaval e o ano
parecia ganhar o seu ritmo acelerado como de costume. O mundo
agitado, o Brasil agitado e a nossa vida também agitada. Tudo pare-
cia normalmente agitado. Não significa que estávamos caminhando
bem e muito menos que tínhamos clareza para onde estávamos indo,
mas seguíamos em nosso ritmo da melhor maneira possível. Eis que
encontramos uma pandemia no meio do caminho e o ano de 2020
mudou seu ritmo e seu rumo.
No dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) de-
clara que estamos diante de uma pandemia. Naquele momento, já
tínhamos uma disseminação mundial do novo coronavírus – que cau-
sa a COVID-19. Primeiro a Ásia, depois a Europa, a América do Norte
e América do Sul. Inicialmente parecia uma notícia distante, mas foi
ficando cada vez mais próxima. O que antes poderia ser um roteiro de
filme dramático, se transformou numa realidade.
Aqui no Brasil a pandemia chegou como ondas, com tempos
e intensidades diferentes, atingindo primeiro o centro das grandes
cidades, depois suas periferias e, finalmente, o interior do país. Os
Estados, em ritmos distintos, foram determinando níveis variados de
isolamento social.
Após alguns dias de isolamento, para quem foi possível fazê-lo,
passamos a enfrentar um duplo desafio: ver se aproximar o “olho do
furacão” num país com ações desarticuladas e organizar uma nova
rotina em nossas casas. O primeiro desafio ampliava em nós um esta-
do de ansiedade que já enfrentávamos antes da pandemia. O segun-
do desafio trouxe uma sensação nova: nossa casa parecia diminuir a

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cada dia. Na verdade, nós colocamos para dentro de casa todos os
“nossos mundos”: o mundo do trabalho, o mundo da escola dos filhos,
o mundo da nossa experiência religiosa, o mundo que era próprio da
casa.
Uma mãe e professora relatou essa constatação utilizando a se-
guinte imagem: aquilo que antes estava organizado em cada gaveta
–a gaveta do trabalho, da escola, do relacionamento com o marido, da
conversa com as amigas, das tarefas de casa, neste momento ficaram
todas misturadas. Todas as gavetas jogadas na cama. As gavetas es-
tão abertas e tudo se passa ao mesmo tempo num mesmo espaço. O
mundo entrou dentro de nossas casas e passamos a conviver com a
ansiedade de uma pandemia crescente e com a pressão da simulta-
neidade de atividades num mesmo espaço: a nossa casa.
O que podemos aprender com tudo isso? Precisamos passar
pela crise e lutar pela vida. Essa é uma condição inicial de uma pan-
demia. Lutar pela nossa vida e pela vida de todos. Uma consequ-
ência dessa experiência é nos perguntar sobre os aprendizados, a
pós-pandemia ou o “novo normal”, como alguns dizem. Precisamos,
então, passar pela crise e, na medida do possível, observar como a
crise está passando por nós. Que experiência estamos construindo
de tudo isso?
Esse é o propósito desse pequeno trabalho. Refletir com você
sobre os aprendizados possíveis em tempo de pandemia. É evidente
que o primeiro desafio de uma pandemia como essa é a garantia da
vida. Sem a vida não podemos nos recuperar, buscar novamente o
que eventualmente foi perdido e não podemos aprender com o acon-
tecido.
Reforço essa dimensão para deixar bem evidente que uma pan-
demia, que possui sua origem num fator biológico – um vírus–, possui

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

uma concretização social num país desigual como o nosso. A mesma


pandemia possui faces desiguais. Ela não acontece da mesma forma
para todo mundo.
É importante ressaltar, também, antes de conversarmos um pou-
co sobre as aprendizagens possíveis com tudo isso que passamos e
estamos passando, que não existe uma relação direta entre o sofri-
mento e a aprendizagem. Nós sairemos melhores do que entramos
nessa crise? Seremos um país melhor? Seremos pais e mães melho-
res? Nossos filhos estarão mais amadurecidos? É possível, mas não é
garantido.
O sofrimento não é condição para a aprendizagem, ou seja, eu
não preciso sofrer, necessariamente, para aprender e, especialmente,
o sofrimento não é garantia para a aprendizagem. Em todo sofri-
mento existe uma possibilidade de aprendizagem, mas sofrimento é
sofrimento. Aprendizagem é aprendizagem. Nós somos o que apren-
demos ser e os sofrimentos que experimentamos na vida podem fa-
zer parte das nossas aprendizagens, mas isso não acontece de uma
forma automática.
Nós podemos encontrar um sentido para tudo isso que passa-
mos e estamos passando, mas o vírus não possui uma mensagem
para a humanidade em seu código genético. Nós, que somos seres de
aprendizagem, podemos nos esforçar para aprender e crescer com
tudo isso. Esse não é um potencial do vírus, mas um potencial huma-
no que podemos ou não fazer uso.
Que lições podemos tirar de tudo isso? Um caminho possível é
entender melhor tudo o que aconteceu e está acontecendo em nos-
sas casas, já que o mundo resolveu alugar a nossa sala, a cozinha e os
quartos para passar uma temporada.

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1. A simultaneidade dos
nossos mundos1
A partir do início do isolamento social, nós abrimos as portas
das nossas casas para outras dimensões das nossas vidas, que antes
aconteciam fora de casa: nosso trabalho, a escola dos filhos, as aulas
de inglês, os exercícios da fisioterapia e os encontros virtuais com
familiares e amigos.
Com o tempo, abrimos as nossas casas também para os shows
online, em formato de lives, as aulas de ginásticas, as celebrações de
vários formatos, os cursos diversos e tantas outras coisas mais. Tudo
o que foi possível “digitalizar”, nós trouxemos para dentro de casa.
A partir de um determinado momento a casa foi ficando muito
cheia, mesmo que vazia de visitantes físicos. O interessante é que
essa “invasão” não foi de um mundo estranho a nós. Nossa casa foi
“invadida” pelos nossos diversos mundos, que antes estavam sepa-
rados em tempo e espaços diferentes.
Com a pandemia e a prática do isolamento social, nós acelera-
mos um processo que já estava em curso no mundo – a compressão
do espaço físico e do tempo. Fazer tudo ao mesmo tempo e no mes-
mo lugar. Interessante perceber que o isolamento social promoveu
um encontro. Isso mesmo! Um encontro dos nossos vários mundos.
Fomos, de certa forma, pressionados por esse encontro. Nos
causou estranheza ter que lidar com tudo isso ao mesmo tempo. O
isolamento social rompeu um isolamento que nós construímos no
cotidiano entre as várias atividades que tínhamos diariamente. Esse
rompimento altera a estrutura básica do nosso cotidiano: nossas ati-

1
Os autores de referência deste capítulo são: Hartmut Rosa, Karel Kosik e Vicent
10 Gaulejac.
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

vidades, que acontecem num determinado tempo e em um determi-


nado espaço físico.
Imagine a seguinte imagem: uma rodovia muito larga e com vá-
rias faixas. Com o tempo, fomos nos acostumando a transitar de uma
faixa para outra: acordamos na faixa da casa, ajeitamos as crianças
para a escola, trocamos de faixa para o trabalho, no almoço, corre-
mos para a faixa da academia ou voltamos para a faixa da escola das
crianças e assim seguimos no restante do dia: manhã, tarde e noite
trocando, cada vez mais, freneticamente de faixas.
De repente essa rodovia de grandes faixas, em função de um
acidente, é bifurcada para uma faixa só: a faixa da nossa casa. Resul-
tado: engarrafamos o mundo em nossa casa. Esse engarrafamento
é revelador de um ritmo que já estávamos vivendo antes da pande-
mia, mas que, de certa forma, estávamos acostumados ou nos es-
forçando para acostumar-se. Transitávamos de uma faixa para outra
reclamando dos riscos de colisão, do estresse pelo vai e vem, mas,
de certa maneira, íamos tocando a vida, até tudo ficar literalmente
engarrafado.
Nós fomos, por uma série de contingências da vida, nos acostu-
mando a transitar em várias vias simultâneas. Você deve se lembrar
daquele personagem do circo que passa a vida equilibrando pratos
em varetas e circulando as varetas cada vez mais freneticamente
para manter todos os pratos equilibrados. Esse somos nós – equi-
libradores de pratos. E cada vez mais e mais pratos para equilibrar.
São tantos pratos que nos sentimos absorvidos na tarefa de mantê-
-los em movimento.
O cotidiano possui essa força paradoxal. Quanto mais você se
envolve menos percebe o seu envolvimento. Nós somos o nosso co-

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tidiano, apesar de não o perceber durante parte da nossa vida. Nós
não somos resultados de grandes sonhos, grandes projetos ou deci-
sões estratégicas. Somos resultados de ações cotidianas, que vamos
tomando em cada faixa que transitamos, em cada prato que equili-
bramos.
Esse engarrafamento que provocamos em nossas casas é re-
velador dos “pratos que equilibramos” em nosso dia a dia. O mal-
-estar provocado pelo engarrafamento pode ser uma oportunidade
de aprendizagem. De imediato, precisamos reorganizar a casa para
tudo isso. Criar infovias dentro de casa para separar minimamente
esses mundos. Segundo, e mais importante, podemos nos perguntar
sobre o que o nosso cotidiano revela da vida que estamos levando.
O que nos agrada? O que nos assusta?
A dinâmica do cotidiano possui um potencial de ofuscar a nos-
sa capacidade de autocrítica daquilo que fazemos de forma acelera-
da e repetidas vezes. Quanto mais íntimos somos das nossas ações
mais chances temos de não as perceber. Essa é a força paradoxal do
cotidiano. Deixamos de ser autores e autoras das nossas ações co-
tidianas. Seguimos freneticamente trocando de faixas durante dias,
semanas, meses, anos e uma vida inteira.
Temos vivido num estado de pressa e ter pressa nos ajudou
em muita coisa. Nossas invenções permitiram diminuir o tempo dos
nossos deslocamentos, aumentar o volume de nossas produções,
ampliar a quantidade de coisas que conseguimos fazer em um dia
de trabalho. A sociedade da pressa é embalada por um mantra que
parte de nós já ouviu possivelmente em nosso trabalho – “fazer as
coisas cada vez melhores, em menos tempo e com menos custo”.
Desse mantra resulta a ampliação da nossa capacidade de ge-

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

renciarmos a nossa produção em nossos espaços de trabalho. Quem


de nós não deseja fazer o que faz de modo cada vez melhor? Isso
é muito bom. Se for possível fazer melhor, em menos tempo e com
menos custo, por que não? Essa possibilidade nos parece tão atra-
ente que fomos deslocando essa mesma lógica, essa mesma crença
para as outras dimensões da nossa vida.
Se eu posso avançar, em velocidade, na faixa do meu trabalho,
por que não posso fazer o mesmo com os resultados da academia
e com as minhas relações familiares? Por que não posso acelerar
minhas aprendizagens, ampliar de forma otimizada o meu capital
cultural?
O que temos feito, geralmente, em todas as faixas da nossa au-
toestrada, é acelerar o ritmo, otimizar processos e ganhar tempo. O
interessante disso tudo é que não nos encontramos com esse tem-
po livre que conseguimos economizar. Quanto mais nos apressamos
mais nos sentimos atrasados, angustiados e sem tempo para fazer o
que julgamos ser o necessário.
O engarrafamento que presenciamos dentro de nossas casas
é revelador de muita coisa. Muita gente conheceu traços dos filhos
que não tinha notado, as angústias ou os projetos dos companheiros
e companheiras que ainda não sabia. O engarrafamento é também
revelador dos efeitos colaterais da nossa sociedade da pressa.
Só vivemos tudo o que vivemos, hoje, porque conseguimos
apressar os processos de produção, de comunicação, de conheci-
mento e dos nossos deslocamentos. O mundo, para quem teve con-
dições, diminuiu de tamanho, o que também virou um desafio no
caso dos processos de contaminação por novos vírus como o que
estamos vivendo agora.

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Se todo esse apressamento da vida serviu como uma espécie
de remédio para os males que assolavam a sociedade antes de toda
a modernização que vivemos, ele também possui seus efeitos adver-
sos e, num momento de isolamento social, durante o engarrafamen-
to, nos percebemos numa overdose de atribuições, como se fossem
várias vidas numa vida só.
Nossa relação com o tempo mudou dramaticamente nas últi-
mas décadas, mas o tempo não costuma “deixar barato” as mudan-
ças que fazemos sem acordar com ele. Como diz uma frase da tra-
dição afro-brasileira, “o tempo não gosta que as coisas aconteçam
sem ele”. Esse talvez seja mais um aprendizado possível para esse
tempo de pandemia que estamos vivendo. Construir uma nova rela-
ção com tempo.

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

2. Perdemos o controle
que não tínhamos2
Existe um dito oriental que afirma que “uma erva daninha é um
tesouro e um tesouro é uma erva daninha”. Essa é uma afirmação
que, possivelmente, envolve um mundo de possibilidades de refle-
xões, mas quero tomar emprestado aqui uma dessas possibilidades
para a nossa reflexão. Por que um tesouro seria uma erva daninha?
Temos avançado, imensamente, na capacidade de mensuração
de várias dinâmicas da vida. Vamos pensar, por exemplo, no próprio
tempo. Dividimos o tempo por estações do ano e pelo dia e noite,
depois na divisão dos calendários, das horas, minutos e segundos.
Podemos imaginar que controlamos cada vez mais o tempo.
Avançamos, também, no controle de muitas outras coisas. Hoje,
com o uso intenso de tecnologia e análise de dados, podemos predi-
zer o comportamento das pessoas. É possível prever o consumo de
determinada mercadoria e aumentar a sua produção. Avançamos
muito em nossa capacidade de controlar muitas coisas.
Não precisamos mais acreditar que uma chuva forte é a ira dos
deuses ou algo do tipo. Nós superamos esses mitos, mas transfor-
mamos o controle num novo mito. O nosso tesouro, o controle das
nossas vidas, se transformou também em nossa erva daninha.
Quero partilhar com você uma aprendizagem que tenho me
esforçado para fazer e que envolve esse tema das vitórias e dos
avanços que temos na vida. Avanços em todos sentidos: econômi-
cos, acadêmicos, tecnológicos, nas relações pessoais, profissionais,
e na sociedade. Tudo o que a gente faz tem um efeito. Em síntese,

2
Os autores de referência deste capítulo são: José Tolentino Mendonça e Nilton
Bonder.
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todo feito tem seu efeito e, às vezes, o efeito é pior do que o feito.
Precisamos pensar, com certa calma, sobre os efeitos dos nos-
sos grandes feitos. Nas ervas daninhas que moram ou que nascem
nos tesouros que construímos ou conquistamos. Nós avançamos
muito na compreensão da vida, crescemos na compreensão de gran-
des dilemas, descortinamos muitos mitos, mas convém nos pergun-
tar se deixamos de construir novos altares para novos mitos, mitos
contemporâneos que continuamos, de um jeito moderno, construin-
do ritos e prestando louvores.
Um mito contemporâneo, que foi colocado em xeque durante
a pandemia, é o mito do controle. Todos nós, em maior ou menor
medida, já tínhamos o ano bem planejado em meados de março.
As empresas com os seus planejamentos estratégicos seguiam da
mesma forma. Os prefeitos e vereadores com as suas campanhas
desenhadas para as eleições de outubro de 2020.
De repente, nos damos conta de que não temos controle sobre
tudo. Que parte da vida escorre pelos dedos. Podemos perceber, se
quisermos aprender com tudo isso, que somos coautores da nossa
própria vida e não autores como uma determinada perspectiva ar-
rogante nos faz crer.
Podemos perceber, se quisermos aprender com tudo isso, que
dependemos mais dos outros do que pensávamos. Somos um nó de
relações e o que acontece com os outros me afeta, me toca de uma
forma ou de outra.
O controle tem um lugar importante na sociedade e na nossa
vida pessoal, mas não pode ficar no altar incensado pela nossa ca-
pacidade de planejamento e predição da realidade. O mito do con-
trole diminui a nossa capacidade de lidar com o inusitado. Sofremos

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

mais com o inusitado porque alimentamos a ilusão de controlar tudo


ou quase tudo.
A pandemia que estamos vivendo nos ajuda a perceber o que
podemos e o que não podemos controlar. Aqui é importante fixar
um ponto – é irresponsabilidade não controlar o que é possível con-
trolar, não planejar o que é possível planejar. Por outro lado, é ilusão
pensar que controlamos tudo na vida.
Conviver com o inusitado pode ser um dos grandes aprendi-
zados desse momento. Com o mundo cada vez mais em conexão e
com a velocidade das mudanças que estamos vivendo, um conteúdo
estruturante de novos aprendizados será a capacidade de conviver
e de aprender com o inusitado. Esse “conteúdo” precisa ser assumi-
do também pelas escolas e famílias.
Viver numa sociedade da pressa possui um efeito colateral
que é a convivência constante com o inusitado. Nos acostumamos a
compreender bem a realidade para depois atuar sobre ela, construir
os nossos projetos e estratégias. Seria como acender uma luz, reco-
nhecer o ambiente e depois transitar nele. Pois bem, não parece que
será assim de agora em diante.
Precisamos aprender a caminhar num claro-escuro. Aprender a
caminhar como nos corredores de grandes hotéis, onde os sensores
só acedem a luz depois do nosso movimento. Precisamos nos acos-
tumar a conviver um pouco mais com as incertezas e as mudanças.
Isso não significa uma posição passiva diante das mudanças.
Aprender a conviver com o inusitado inclusive ampliará nossa capa-
cidade de intervenção na realidade e de construção das transforma-
ções que tanto precisamos na sociedade.
Como não temos e não teremos um caminho nítido pela fren-

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te, podemos aprender a caminhar no claro-escuro ou, como, infeliz-
mente, parece ser uma tendência de parte da sociedade, engrossar o
caldo cultural do negacionismo e da idealização de um passado que
nunca existiu. O passado parece mais tranquilo do que o presente
por um motivo: porque ele está distante.
Não sei se você conhece uma benção muito tradicional em al-
gumas experiências religiosas. Ela diz o seguinte: “Que Deus te aben-
çoe e te guarde”. Essa é uma benção ainda presente em algumas
famílias em nosso país. Confesso a você que eu tinha uma impressão
de que essa benção continha um exagero – se Deus está me aben-
çoando, por que ele precisa também me guardar?
Li de um Rabino uma explicação muito interessante e que pode
ajudar na nossa reflexão. O Rabino, Nilton Bonder, estava refletindo
sobre a prosperidade e fazia a seguinte ponderação – que Deus te
abençoe com a prosperidade, mas que te guarde dos problemas que
vêm junto com essa mesma prosperidade.
Aqui voltamos para a nossa questão central, que é a relação
entre os nossos feitos e os seus efeitos. Parte da nossa arrogância foi
alimentada pelo nosso sucesso, parte dos nossos problemas foram
criados pela nossa forma de prosperidade, parte dos nossos novos
problemas nasceram juntos com as soluções que criamos.
Compreender essa dinâmica paradoxal é fundamental para os
nossos próximos passos e para as aprendizagens que podemos fa-
zer a partir de tudo que vivemos e estamos vivendo. Compreender
essa dinâmica passa pelo reconhecimento do lugar libertador que o
limite pode ocupar em nossas vidas. Podemos conversar um pouco
sobre isso?

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

3. O papel libertador
do limite3
Foi preciso condensar todos os nossos mundos dentro da nos-
sa casa para percebermos, em alguns casos, que estávamos passan-
do da medida, que perdemos a noção de limite. O limite não é um
problema ou uma solução em si. Primeiro é importante considerar
que o limite faz parte da nossa existência. Está presente na dinâmi-
ca da vida, mas é também uma construção social. Sem limites, por
exemplo, não viveríamos em sociedade. Sem alguns limites bem de-
finidos não é possível nem conviver com outras pessoas dentro de
uma casa.
Porém o limite, em suas polaridades extremas, é carregado de
problemas e patologias. O excesso de limites ou o exercício dos limi-
tes sem sentido, aqueles que são exercidos somente para uma afir-
mação do autoritarismo, é cerceador da nossa capacidade de auto-
nomia de decisão coletiva sobre os rumos que desejamos construir.
Mas a falta de limites também é um grande e crescente pro-
blema. Nosso excesso de atividades e de atribuições, por exemplo,
criam a ilusão de que o dia não tem limites ou que nós mesmos não
temos limites. Não são raras as vezes que o nosso corpo nos alerta
que passamos dos limites.
Passar dos limites, nesse sentido, é perder o contorno que nos
dá a singularidade. Por exemplo, para construir um sonho, um proje-
to de vida ou de sociedade é preciso um exercício do limite. Querer
tudo ou fazer de tudo um pouco é próximo de nada querer efetiva-
mente.
3
Os autores de referência deste capítulo são: Byung-Chul Han, Vicent Gaulejac e
Anselm Grün.
19
Vivemos um momento de ampliação das possibilidades, ao
menos para aqueles que possuem os recursos necessários. As pos-
sibilidades, num determinado momento, foram se transformando de
soluções para os nossos novos problemas. Experimentamos, como
alguns autores já sinalizaram, uma “ditadura das possibilidades”.
Sentimo-nos, por várias vezes, obrigados a fazer alguma coisa
porque ela é possível. Nós podemos muito, mas devemos fazer tudo
o que podemos? Podemos ampliar mais faixas em nossas rodovias e
ampliar as nossas atribuições – não nos faltam oportunidades, mas
devemos nos ocupar de todas elas?
O excesso de limite é opressor, mas a falta dele também é gera-
dora de opressão. Uma opressão do excesso de possibilidades. Para
aqueles que, na nossa sociedade desigual, vivem esse excesso de
possibilidades, é preciso reconhecer o caráter libertador dos limites.
Os limites também nos situam na existência de maneira dife-
renciada. Experimentamos, possivelmente, com a pandemia um sen-
timento de que não controlamos toda a nossa vida, os nossos planos
e a nossa agenda. Aqui, encontramos uma outra possibilidade de
aprendizagem: o reconhecimento dos nossos limites.
Esse reconhecimento pode reforçar uma perspectiva mais ade-
quada para nossa vida e para os nossos projetos. Uma perspectiva
de coautoria de tudo aquilo que, de forma ilusória, acreditamos que
depende somente de nós.
Quem sabe poderemos superar uma ilusão maldosa que cons-
truímos nos últimos anos: a ilusão do voo solo, a ilusão do “fazer a
diferença”, uma interpretação equivocada de protagonismo.
Ninguém faz nada sozinho e o individualismo, que no início fez
uma recuperação necessária da singularidade de cada pessoa, no

20
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

seu extremo, nos isola na solidão. Na solidão do “você S/A”, do em-


preendedor de si mesmo, da ilusão de não precisar e não depender
dos outros.
Faça um exercício como teste – retire os outros da sua vida: sua
família, seus antepassados, suas relações, a cultura das outras pesso-
as, seus afetos e desafetos. O que resta?
Imaginamos, de forma equivocada, que quanto mais indepen-
dentes dos outros mais livres nós estaríamos. A experiência da pan-
demia nos sinaliza que estávamos duplamente equivocados: na in-
dependência dos outros nós não existimos ou, quando muito, nós
sucumbimos no peso da solidão.
O outro é problemático em nossa vida, inclusive porque ele
funciona com uma espécie de “espelho” da história da branca de
neve que sinaliza para nós mesmos os traços que não desejamos
reconhecer. Mas o outro nos ajuda na constituição dos contornos
que tanto precisamos. Não existe singularidade sem a presença do
outro. Sem ele resta-nos a ilusão prepotente e infantil de que somos
o “umbigo do mundo”.

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4. Entre o físico e
o virtual4
Parece-me um falso dilema esse que coloca de um lado a expe-
riência virtual e do outro a experiência física. Nós temos vivido uma
intensificação da digitalização do social nos últimos anos, em espe-
cial, nos centros urbanos. De maneira crescente, parte das atividades
que outrora aconteciam somente no espaço físico, agora, passaram
a contar, também, com a alternativa do espaço virtual. Esse processo
foi intensificado de maneira marcante durante esses meses de isola-
mento social.
Cada vez mais o virtual e o físico são componentes daquilo
que costumamos chamar de realidade. Não podemos pensar o físico
como o verdadeiro e o virtual como aquilo que não existe ou que é
falso. As relações físicas e virtuais produzem e reproduzem a reali-
dade, mas é importante considerar que são qualidades distintas de
uma mesma realidade em pleno processo de fusão.
A ideia de fusão do físico com o virtual foi o que experimenta-
mos intensamente durante o isolamento social: aulas, reuniões, cur-
sos, shows, conversas com os pais e avós. Trocamos, quase que de
“uma noite para o dia”, um conjunto de atividades que antes eram,
marcadamente, realizadas no espaço físico pelo espaço virtual.
O contrário, em parte, também parece verdadeiro: intensifica-
mos a convivência física com aqueles mais íntimos que, no dia a dia,
estávamos relegando aos momentos pontuais de idas e vindas do
colégio e nos momentos de final de dia.
A ideia de fusão, do ponto de vista da ciência, sinaliza para

4
Os autores de referência deste capítulo são: Martin Hilbert e Zigmunt Bauman.
22
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

uma mudança de estado físico, como por exemplo, do sólido para o


líquido. A fusão vivida em nossas casas modificou nossas reuniões e
encontros, antes em estado sólido (físico) para o estado líquido (vir-
tual). Esse processo de liquidez das relações, das atividades e das
instituições já estava em curso.
Ele foi bem percebido e enfrentado nos trabalhos do Zigmunt
Bauman sobre a modernidade líquida, amor líquido, vigilância líquida
e tanto outros aspectos do social pensado por ele. Bauman, em seus
estudos, nos últimos anos, foi percebendo essa mudança presente
nas relações afetivas, relações de trabalho, enfim, uma mudança na
dinâmica de construção dos nossos elos em sociedade, com um im-
pacto significativo nas Instituições.
A minha compreensão da física é muito primária, mas penso
que o Bauman utilizou a ideia da fusão para construir uma metá-
fora do que estamos vivendo nos últimos anos e para descrever a
passagem de uma sociedade com estruturas mais sólidas para uma
sociedade com relações mais líquidas.
A pandemia e o isolamento social aceleraram e intensificaram
os processos que já estavam em curso, tal como os negócios digi-
tais, os empreendimentos estruturados em plataformas, enfim, uma
digitalização do social que já estava em curso nos últimos anos.
Essa intensificação vivida recentemente sugere a possibilidade
de mais uma mudança no “estado das coisas” e no “estado das re-
lações”. Se antes passamos, no dizer de Bauman, de uma sociedade
sólida para uma sociedade líquida. Podemos agora, em alguns seto-
res e relações, estar iniciando a passagem de uma sociedade líquida
para uma sociedade gasosa?
Antes de tentar aprofundar as questões dessa pergunta, que-

23
ro partilhar com você uma ponderação: a nossa sociedade é muito
diversificada e desigual. Dessa forma, os processos, por exemplo, de
digitalização do social também acontecem desigualmente.
Os nossos feitos e seus efeitos também se dão de forma de-
siguais, isso acontece de tal maneira que convivemos numa mesma
sociedade com situações extremante tecnológicas e situações arcai-
cas.
Situações sólidas e líquidas já coexistiam. O que parece agora,
ao menos como possibilidade, que a intensificação dos processos de
digitalização das relações, pode inaugurar um novo grupo de situa-
ções que podemos chamar não mais de sólidas ou líquidas, mas de
gasosas.
Tomando como uma referência simplista das mudanças dos
estados físicos, vamos perceber que três processos acontecem na
passagem do sólido para o líquido e do líquido para o gasoso: uma
menor interação entre as moléculas, o aumento de temperatura e o
aumento da agitação molecular. São esses três processos que, de
forma simplificada, resultam na passagem de um estado para o ou-
tro.
Vamos tomar esse processo físico para nos ajudar a pensar o
que estamos vivendo nas nossas casas e na sociedade nesse tempo
de pandemia e de intensificação da digitalização em parte da vida
social.
Vamos considerar, neste esforço de comparação, que a inte-
ração das moléculas no campo físico seria a nossa coesão social.
Vamos considerar, também, que a temperatura representa as nossas
emoções e que a agitação molecular retrata o nosso ritmo cotidiano.
A passagem de um estado para o outro no campo físico acon-

24
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

tece pela redução da interação entre as moléculas, o aumento de


temperatura e o aumento da agitação entre as moléculas. A nossa
experiência social, vivida nesse período de pandemia, gerou e tem
gerado uma mudança importante na nossa coesão social (interação
entre as moléculas), um aumento exponencial das nossas emoções
em função de uma situação inesperada que passamos a conviver
(aumento da temperatura) e uma fusão dos nossos vários mundos
no mesmo espaço da nossa casa, criando uma sensação de simulta-
neidade (agitação molecular).
É evidente que todas as comparações entre processos físicos
e processos sociais possuem limites, mas uma metáfora pode nos
ajudar a compreender a possibilidade de um novo estado de coi-
sas. O que vai permanecer dessa nova experiência? O quanto vamos
aprender disso tudo? O que será sólido, líquido e gasoso na socieda-
de da pós-pandemia?

25
5. Pós-pandemia:
aprendizagens possíveis5
Nós humanos somos seres de aprendizagem. Na verdade, nós
somos os homens e a mulheres que aprendemos ser. Como seres
de aprendizagem, somos eternamente um projeto em aberto, um
sonho a ser realizado, uma potencialidade a ser desenvolvida. Nesse
eterno aberto de possibilidades, um primeiro desafio é encontrar a
justa medida do projeto que queremos ser.
Geralmente, na busca dessa justa medida, transitamos de ma-
neira pendular em dois extremos, como aprendi com uma professo-
ra e amiga Christiane Girard, a polaridade da prepotência, em que
imaginamos que podemos tudo e faremos tudo. Nessa polaridade
imaginamos, por exemplo, um novo mundo depois da pandemia,
com mudanças excepcionais e aprendizados que até ontem não tí-
nhamos conseguido fazer. Nessa polaridade esticamos ao máximo a
corda das nossas possibilidades.
Numa outra polaridade, que é o extremo oposto da prepotên-
cia, encontraremos a impotência. A impotência é resultado de um
olhar decepcionado ou desiludido das experiências de aprendiza-
gem do humano. A partir dessa perspectiva, sairemos bem piores
do que entramos em todo esse processo da pandemia. O isolamento
social e tudo que vivemos serviram para nos mostrar o pior de nós
mesmos.
Entre esses dois extremos, a prepotência e a impotência, pode-
mos encontrar a justa medida. Uma compreensão madura da nossa
capacidade de aprendizagem que enfrente com a realismo e espe-

5
Os autores de referência deste capítulo são: Christiane Girard, Padma Samtem e
26 Gaston Bachelard.
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

rança a pergunta sobre a nossa capacidade de aprender com tudo


o que vivemos, até o momento, e que ainda vamos viver desse pro-
cesso desencadeado pela pandemia.
Sairemos melhores ou piores disso tudo? Não sei. Esse é um
jogo a ser jogado e como todo jogo ele não acontece nas pranche-
tas de planejamento e muito menos nas arquibancadas. A torcida, as
análises e as predições fazem parte do enredo do jogo, mas em nada
são definitivos dos resultados que alcançaremos.
Esse também é um jogo que não acontece antes da hora. Não
se aprende sem o tempo. É importante, então, evitarmos o pensa-
mento ansioso que deseja ver nascer o novo antes da hora, e acabar
tirando conclusões apressadas. Num momento de crise, as conclu-
sões apressadas podem gerar um duplo problema.
Um primeiro problema é quando abrimos mão de viver o pre-
sente buscando antecipar o futuro que ainda não chegou. Na ante-
cipação ansiosa do futuro, nós acabamos por não reconhecer que o
futuro desejado depende da nossa postura de inteireza nos dramas
e das possibilidades do presente.
Isso não significa desprezar o futuro. Nós somos seres de pro-
jetos e projeções. Acordamos pela manhã e projetamos nosso dia.
Aqui, novamente, estamos diante de uma posição equilibrada. Aban-
donar o futuro seria abrir mão da nossa capacidade de transcen-
dência, capacidade que nos faz humanos, porém, dar uma atenção
demasiada ao futuro nos leva a desprezar o que realmente temos
nas mãos: o presente.
Se o futuro, o presente e o passado fossem personagens, penso
que seriam personagens discretos. Personagens que possuem seus
devidos espaços, mas não gostam de holofotes excessivos. Presen-

27
te, passado e futuro – todos possuem seu lugar no enredo da nossa
história e na dinâmica da vida humana.
Todo o tempo, em todo momento histórico, nós possuímos mo-
tivos para nos encantar e motivos para nos assustar. Vamos fazendo
nossa história nos equilibrando entre os encantos e os espantos do
nosso tempo. Por isso é preciso viver de forma inteira o tempo atual
para que, a partir dessa experiência, possamos arrancar a aprendiza-
gem possível.
Um segundo problema está relacionado com uma forma meio
torta de pensar a realidade. Uma forma que coloca a realidade a ser-
viço das nossas crenças. Aqui é um jeito aproveitador e nada ético
de passar por uma crise. É quando se busca na crise as janelas, as
oportunidades de emplacar minhas crenças e “deixar a conta” ou
“colocar a conta” na crise. São os aproveitadores de plantão que
sempre existiram e para os quais ainda não conseguimos inventar
uma vacina efetiva.
De toda forma, com todos os riscos e possibilidades, o desafio
de aprender é intensificado em situações como a pandemia que en-
frentamos. De alguma forma, o processo de crise coloca uma lente
de aumento naquilo que já existia de forma incipiente, amadurece o
que ainda não estava pronto e pode, também, abandonar aquilo que
já estava “passando do ponto”.
É na compreensão sobre esse processo de intensificação do
que já existia, mas que não tínhamos uma percepção clara, é que
podemos recolher ou retirar a nossa aprendizagem possível. A crise
como lente de aumento pode ser reveladora das nossas contradi-
ções e das nossas possibilidades. Para tanto, é preciso querer e dar
conta de enxergar.

28
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

Refletir sobre as possibilidades de aprendizagem da crise pode


nos colocar numa posição delicada de elogio da própria crise, como
se nela não existisse sofrimentos ou rupturas. Crise é crise. Sofri-
mento é sofrimento. Diante desse fato que precisa ser experienciado
como tal, nós podemos, também, aprender.
Essa me parece ser uma questão fundamental, caso contrá-
rio, vamos criar uma visão romântica e inadequada da crise e ofus-
car dela todo o sofrimento. Isso seria, inclusive, desrespeitoso com
aqueles e aquelas que, em função dessa crise atual, perderam a vida.
Não obstante a tudo isso e em função de tudo isso, nós pode-
mos e devemos nos esforçar para aprender. Esse aprendizado surge
como possibilidade dos estranhamentos gerados pela crise, como,
por exemplo, o engarrafamento de todos os nossos mundos dentro
da nossa casa. O que ele revela? O quanto nos agrada? O quanto nos
assusta ou nos envergonha? O que podemos aprender com esse
desconforto?
O estranhamento gerado pela crise nos coloca diante de nós
mesmos. Na verdade, nos coloca como um estranho em nosso coti-
diano já muito familiarizado. Assim, podemos perceber, por exemplo,
aquilo que já estava superado, mas que mantínhamos no piloto au-
tomático.
Um exemplo concreto dessa possibilidade está no campo do
trabalho. Nós buscamos nos afirmar profissionalmente construindo
excelência naquilo que fazemos, porém, quanto melhores ficamos
numa determinada prática mais dificuldade encontraremos de per-
ceber, eventualmente, que ela está ficando superada. Durante a crise
cada um de nós pode ter encontrado essa percepção de necessida-
de de superação, que nas relações cotidianas não tínhamos condi-

29
ções de enxergar.
Conheci uma história, contada pelo Lama Padma Samten, que
pode nos ajudar a compreender esse processo de intensificação de
mudanças que já está em curso, mas que nossa familiaridade coti-
diana não nos deixa perceber. Ele faz uma alegoria de uma pessoa
que aprendeu como ninguém a tirar os frutos de uma determinada
árvore, mas o que ele não percebia é que a árvore estava prestes a
morrer, apesar de continuar dando frutos.
A questão é que ficamos tão envolvidos na arte de tirar os fru-
tos daquela árvore que deixamos de enxergar o todo e o futuro que
se desenha da própria árvore. Não podemos garantir que aquilo que
funcionou bem ontem e funciona bem hoje, irá continuar funcionan-
do. A crise, como essa que enfrentamos, acelera esse processo de
mudanças possíveis, de mudanças em curso.
A aprendizagem, a partir disso tudo, é um processo imbricado
que se dá com e, ao mesmo tempo, contra o que já vivemos e apren-
demos previamente. É um processo conflitivo de encontro entre o
velho e o novo. Os dois são fundamentais para a aprendizagem. O
velho sozinho não gera movimento e o novo sozinho é mais agitação
do que atividade real. O encontro entre os dois, mesmo que confliti-
vo, é o que gera o potencial da aprendizagem.
Como seres de aprendizagem que somos, nos cabe em tudo e
em todos os momentos “farejar” essas oportunidades para aprender,
inclusive nos momentos de crise. A crise, como já sinalizei anterior-
mente, não é garantia e nem condição para aprendizagem, mas po-
demos aprender com ela.
A aprendizagem é um processo cognitivo e emocional. Ela é
resultado do conflito entre o que já sabemos, o que pensamos saber

30
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

e o espanto da realidade, ou seja, aquilo que ainda não conseguimos


compreender. É nessa tensão pedagógica entre o sabido e o não
sabido que acontece a aprendizagem.
Enfrentar essa tensão pedagógica dá trabalho, exige disposi-
ção para assumir o que não se sabe e para reconhecer as lacunas,
além de exigir disciplina para se manter nos trilhos das novas apren-
dizagens e não se acomodar nas estações de nossas crenças, que
podem tanto nos ajudar como nos imobilizar nessa caminhada.
A relação entre as nossas crenças e as novas aprendizagens é
fundamental. As crenças que outrora foram frutos da aprendizagem,
em um determinado momento, podem dificultar o nascimento de
novos frutos e, com isso, diminuir as nossas possibilidades de apren-
dizagem com a experiência da crise. Somos estruturados por nossas
crenças e isso parece ser fundamental, mas colocá-las de vez en-
quanto sob a lupa da incerteza, apesar de exigente, pode nos ajudar
em muito para avançarmos nas aprendizagens que a realidade nos
oferece.

31
6. O que pensamos e como
pensamos: lições da crise6
Somos seres de pensamento e nos orgulhamos dessa capaci-
dade da nossa espécie, mas, em alguns momentos, temos atitudes
que parecem ser impensadas. Como país, por exemplo, tínhamos a
vantagem de estar longe do epicentro da epidemia na sua origem.
Essa vantagem era traduzida num tempo de observação dos outros
países, de aprendizado sobre o que deu certo e errado, de prepara-
ção e de organização melhor da nossa casa. Tempo que não usamos
de forma adequada.
Em alguns momentos dessa crise, lembrei-me de uma expres-
são que era muito utilizada por um grande amigo, o João Negreiros.
Quando estávamos diante de uma situação inusitada, difícil de expli-
car, o João soltava a seguinte pérola num tom de reprimenda: “vocês
seres humanos”. Penso que, avaliando o que fizemos e deixamos de
fazer durante a atual crise, em alguns momentos, mereceríamos o
puxão de orelhas do João.
Nós temos motivos para nos orgulhar da nossa capacidade de
pensar. Como seres humanos já construímos muitas coisas, supera-
mos várias barreiras consideradas impossíveis e seguiremos avan-
çando, provavelmente, utilizando esse recurso excepcional: o pensar.
Mas a questão é que o pensamento é algo tinhoso, porque o
exercício de pensar cabe tudo. Apesar de todo o seu poder, ele pos-
sui uma fragilidade originária: o que valida o pensamento é o próprio
pensamento. Somos nós que pensando afirmamos que o nosso pen-
samento é algo importante.
O nosso pensamento é fruto do exercício de tentar compreen-
6
O autor de referência deste capítulo é o Pedro Demo.
32
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

der a realidade, compreender o que nos passa e as circunstâncias.


Esse exercício de apreensão da realidade acontece através de uma
janela. Uma janela que possui como moldura as nossas emoções e
as nossas crenças.
Ninguém pensa “livremente”, sem condicionamentos. Pensar
sem condicionamentos é como nadar numa piscina sem água. Com-
preender esses condicionamentos também pode ser exercício do
próprio pensamento. Como as nossas crenças e emoções condicio-
nam e participam dos nossos pensamentos?
Nós não somos somente seres de pensamento, somos seres
de emoções, de crenças, de fantasias, de sonhos e de medos. Todos
esses ingredientes fervilhando na panela do cotidiano geram o que
servimos no prato do nosso pensamento e das nossas ações.
Nós pensamos o que damos conta de pensar e, então, seria de
bom tom desconfiar do que pensamos. Esse poderia ser um cami-
nho para cada vez pensar melhor. Desconfiar do pensamento é fazer
o exercício de ser crítico, mas, em especial, de ser autocrítico. Ação
que parece cada vez mais rarefeita nos ares de certezas em que es-
tamos todos envolvidos.
O exercício da dúvida como parceira do pensamento carrega
consigo seus incômodos, mas parece o jeito mais seguro de cami-
nhar. Uma lição possível desse período de pandemia é que as nossas
certezas podem diminuir a nossa capacidade de pensar.
Pensar só para confirmar o que já pensamos é um jeito pre-
guiçoso de pensar. Um jeito displicente e, quando se trata de um
problema de saúde pública, um jeito criminoso. Precisamos enfren-
tar nossas perguntas com coragem. Isso nos ajuda como pessoas
e como país. O professor Pedro Demo costuma afirmar que “uma

33
pergunta que logo tem a resposta não pergunta nada”.
Vivemos num certo reino das certezas. Temos certezas de nos-
sas opiniões, e desconsideramos que a natureza de uma opinião não
permite ter certeza. Essa situação é agravada pela nossa pressa co-
tidiana e sobre a necessidade de ter uma posição sobre todos os
assuntos e, de preferência, em tempo real.
A pressa é um bom atalho quando temos decisões simples pela
frente, mas diante de uma situação delicada, complexa ou com ce-
nários indefinidos, a pressa é um atalho que nos leva para o caminho
errado.
Pensando bem, responder sempre em “tempo real” e ter uma
opinião sobre tudo são atitudes que condicionam nossa forma de
pensar somente pelos atalhos. Um caminho cercado de imprecisões
e preconceitos.
Dessa forma, passamos a reproduzir preconceitos e ideias sem
sustentação com a arrogância de seres que pensam. Para sair dessa
armadilha em que nos encontramos, é preciso inverter um dito po-
pular que afirma que “a primeira impressão é a que fica”.
Nossas primeiras impressões são importantes como forma de
aproximação daquilo que ainda não conhecemos bem, mas, como
já alertava Gaston Bachelard, se paramos no reino das impressões,
deixamos de seguir no caminho dos novos conhecimentos.
É fundamental olhar a janela que utilizamos para conhecer,
composta pela moldura das nossas emoções e crenças, sob vários
ângulos. É preciso desconfiar daquilo que se apresenta como óbvio
ou natural. Para superar os limites do próprio pensamento é preciso
ter ousadia nas perguntas e ponderação com as respostas. Talvez
seja necessário concluir menos para concluir melhor. Pense nisso!

34
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

7. O antes e o depois: o que


a história contará de nós7
Quando estudamos outras crises da humanidade, percebemos
as mudanças produzidas, os aprendizados e a permanência de al-
guns erros. Se não somos completamente responsáveis por todas
as crises, somos responsáveis pelo que fazemos com elas e, em es-
pecial, a partir delas. O que fazer, modificar, melhorar para enfrentar
de maneira diferenciada uma nova crise? O que podemos aprender
com tudo o que vivemos? O que todo esse processo revelou e re-
vela de nós mesmos? Essas questões fazem parte do aprendizado
essencial que podemos fazer como sociedade e, também, na esfera
pessoal.
Primeiro é importante reafirmar que crise é crise. Nela pode-
mos encontrar uma oportunidade de aprendizagem, mas isso não
retira dela a sua dimensão dramática. No caso da crise gerada pela
pandemia, estamos falando de um drama que levou a vida de milha-
res de pessoas e que transformou profundamente a vida de milhares
de famílias.
Mas a crise, além da sua dramaticidade e do seu potencial de
aprendizagem, é, também, um duplo convite: um convite ao que te-
mos de melhor e ao que temos de pior dentro de nós e como socie-
dade. É na pressão gerada pela crise que, em parte, nos revelamos.
Várias características antes adormecidas ou incipientes crescem
com muita força numa crise. Como cada um de nós, as nossas orga-
nizações e a sociedade sairão da crise?
O momento pós-pandemia não acontecerá como um passe

7
Os autores de referência deste capítulo são: Hanna Arendt e Paulo Freire.
35
de mágica. Como se numa determinada manhã saíssemos todos de
nossas casas para viver uma nova sociedade. O que seremos depois
de toda essa experiência possui uma relação estreita e condicionada
com o que estamos vivendo antes e durante a pandemia.
Os ganhos e as perdas que teremos ainda estão em jogo no
tabuleiro. Um jogo em que os nossos movimentos provocam sempre
um duplo resultado – o resultado da jogada na mudança ou manu-
tenção da realidade e o resultado no próprio jogador que se modifi-
ca na medida que elabora seus movimentos nesse tabuleiro da vida.
Aqui vai um alerta importante para os jogos no tabuleiro das
crises: cuidado com a naturalização das jogadas de exceção. Algu-
mas exceções são factíveis durante uma pandemia, mas a sua natu-
ralização no pós-crise pode ser fruto do oportunismo. Uma maldade
revestida no discurso do “novo normal”.
As possibilidades de “banalização do mal”, tema cunhado por
Hanna Arendt, também estão presentes em toda e qualquer crise e
se transformam em elementos de disputa naquilo que consideramos
pós-crise. Algo que sabemos que existirá depois da crise, mas que
ainda não possui uma forma bem desenhada.
Esse debate sobre o pós-crise é um risco que devemos evitar:
naturalizar aquilo que hoje experimentamos como regime de exce-
ção. Isso se dá quando passamos a tratar tendências como realidade
ou como destino inevitável. A ideia de inevitável é irresponsavelmen-
te confortante, pois retira a responsabilidade da nossa decisão, já
que determinada tendência é inevitável e acontecerá de qualquer
forma.
Na inevitabilidade das coisas nos transformamos em passagei-
ros do trem, por vezes aproveitando do percurso, por vezes sofren-

36
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

do com as dificuldades com o destino em curso, mas nunca como


responsáveis pelos rumos da vida. Compreender as tendências que
agora se apresentam é fundamental, porém, para tanto, é preciso
tratá-las como o que de fato elas são: tendências.
É importante lembrar, também, a força paradoxal que o cotidia-
no possui em nossas vidas. Nós buscamos a segurança daquilo que
nos é familiar, mas a familiaridade, como apontam vários estudiosos
sobre o tema do cotidiano, é o tempo da nossa falta de atenção. O
“novo normal” tende, com o tempo, a se transformar em simples-
mente normal e deixar de ser percebido pelo nosso olhar ocupado e
desatendo no cotidiano.
A quarentena gerou uma suspensão da normalidade. Aqui, te-
mos uma oportunidade singular de estranhar a nossa prática coti-
diana e transformá-la. Esse estranhamento pode nos ajudar a per-
ceber o que era e é indevido, mas que estava sendo alimentado em
nossa prática pessoal e coletiva. O cotidiano possui essa força de
nos constituir de uma forma silenciosa, tão pequena e diária que não
percebemos com facilidade.
Nós precisamos de regularidade para viver, projetar minima-
mente o nosso futuro e construir os nossos projetos. Tanto preci-
samos de regularidade que aqueles que tiveram condições criaram
um normal para o período da quarentena – uma rotina provisória.
É como se tivéssemos uma rotina antes da pandemia e um normal
transitório durante o período da quarentena, enquanto aguardamos
o que estamos chamando de “novo normal”.
Toda normalidade, seja ela anterior, transitória ou pós-pande-
mia, possui duas forças paradoxais: a força de construir realidades
e a força de não ser percebida enquanto constrói essas mesmas

37
realidades. Destaco essa dimensão para, quem sabe, recolocar a per-
gunta sobre as qualidades do “novo normal” que teremos pela fren-
te. Essas qualidades dependem menos das tendências e estão mais
vinculadas a nossa capacidade de se fazer presentes e conscientes
dos rumos que estamos construindo. Conscientes dos nossos feitos
e de seus efeitos.
Como gostava de afirmar Paulo Freire, “O mundo não é. O mun-
do está sendo”. Pode-se dizer o mesmo sobre o momento presente
e as cenas dos próximos capítulos. Esse é um drama em constante
construção. Um drama em que todos somos, ao mesmo tempo, pro-
tagonistas e expectadores.

38
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

8. Conclusões de uma
história sem fim8
Quando estava pensando em como concluir esse pequeno tra-
balho, me veio à mente a imagem de uma embarcação numa tempes-
tade em mar aberto. Guardando as devidas proporções, parece-me
que é isso que estamos enfrentando nesse momento de sobreposi-
ção de crises: crise sanitária com a COVID-19, crise econômica que já
estava instalada e se agravou e a crise política que enfrentamos.
Fiquei pensando nessa imagem da tempestade e da embar-
cação e resolvi fazer contato com o César Callegari, um amigo e
histórico militante da área de educação que conhece bem das crises
políticas e sobre navegação, ou seja, conhece sobre o mar e seus
mistérios. Fiz a pergunta para o César, se estivéssemos numa embar-
cação durante uma tempestade em mar aberto, o que deveríamos
considerar como essencial? Contei para ele o meu propósito e ele
sinalizou quatro medidas essenciais.
A primeira medida seria colocar todos os mecanismos de se-
gurança à disposição: boias, botes, sinalizadores, amarras, gps etc.
Diante de uma tempestade, é importante se preparar para o pior,
afirmou ele. Uma segunda medida é reduzir as velas. Elas devem fun-
cionar, mas com o mínimo de resistência para que não virem o barco
e não rasguem. Elas serão necessárias para depois da tempestade.
As outras duas ações propostas por ele estão ligadas a uma
postura. A postura de tentar compreender a tempestade. “Temos
que compreendê-la e ondular com ela para superá-la. Ondulando
nossa própria vida com a vida do vento e das águas”. Por fim, é im-

8
Os autores de referências deste capítulo são: Cesar Callegari e Renato Janine
Ribeiro. 39
portante também ter um pouco de medo. Medo aqui é sinal de res-
peito, de admitir a força da tempestade. Não estamos diante de uma
chuva qualquer.
A primeira medida apontada por ele, em nossa alegoria da
tempestade, nos sinaliza para ações concretas que precisamos fazer
para passar pela pandemia. São cuidados imediatos que precisamos
ter e ajudar que todos tenham em mãos esses mesmos equipamen-
tos de segurança.
A segunda medida é muito concreta: baixar as velas para di-
minuir a resistência, não virar o barco e preservá-las para depois da
tempestade. Dessa medida, podemos retirar uma postura de res-
peito diante da força da tempestade. Reduzir a tempestade a uma
pequena chuva e manter as velas erguidas, pode virar o barco ou
rasgar as velas, o que será um grande problema depois da tempes-
tade.
Reconhecer a força das circunstâncias não é se submeter a
elas. O contrário também é verdadeiro, não as reconhecer não resul-
ta na sua inexistência. Ela permanece com ou sem o nosso reconhe-
cimento. A nossa postura não diminui a intensidade da tempestade,
não reduz sua força, mas pode impactar na profundidade dos seus
estragos.
Lembro-me quando viajei pela primeira vez para o interior do
Amazonas, num trabalho do Movimento de Educação de Base. Per-
cebi que, nos dias de chuvas fortes, as atividades que dependiam de
navegação dos pequenos barcos eram remarcadas automaticamen-
te. Não caberia manter o planejamento e ignorar a força da chuva
para as pequenas embarcações dos ribeirinhos. Ignorar a força da
chuva não iria garantir o que estava planejado.

40
O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

A terceira indicação está relacionada com uma postura de


aprendiz. De quem, envolvido na tempestade, se coloca em diálogo
com ela. Busca aprender sobre sua dinâmica, tendências, se adapta
dentro do necessário para passar pelo centro da tempestade com
o menor estrago possível. Faz da tempestade uma experiência, e,
se for assim, não basta passar por ela, mas compreender como ela
passa por nós. Como nos modifica, o quanto podemos crescer com
tudo isso que estamos enfrentando.
A quarta e última indicação pode parecer fora de moda, diante
de uma conjuntura tão virulenta, uma conjuntura que parece pre-
valecer quem fala mais alto, quem tenta se impor pela força, pelo
grito ou xingamentos. Podemos berrar contra a tempestade, isso
talvez crie algum alívio momentâneo, mas a tempestade não cos-
tuma diminuir sua força com os nossos berros. Respeitar a força da
tempestade, temer suas possíveis consequências, parece uma forma
mais sábia de sobrevivência, de afirmação real e concreta, ou seja,
de uma afirmação que nos mantenha vivos e prontos para retomar
os rumos, depois que a tempestade diminuir a sua força.
Três referências podem nos ajudar nesse mar de acontecimen-
tos, de informações, de apreensões e de possibilidades. A primeira
é o que fazer para passar pelo momento de crise? Como podemos
nos cuidar, cuidar dos nossos e ampliar as condições de cuidado
para aqueles que não possuem condições ideais. A primeira referên-
cia é uma ação literalmente de sobrevivência – seu objetivo é sair do
outro lado da tempestade que entramos ou que fomos colocados.
A segunda e a terceira referências estão relacionadas à forma
de passar pela tempestade. São essas duas referências que aponta-
rão se sairemos maiores ou menores disso tudo. Se sairemos mais

41
ou menos humanos dessa experiência. Elas estão relacionadas ao
como nos deslocaremos durante a tempestade para sairmos do ou-
tro lado.
Elas podem ser exemplificadas por duas perguntas: o que não
vou fazer, apesar da crise em que nos encontramos? Essa é uma per-
gunta que evolve a dimensão da ética. Ela não está relacionada às
possibilidades que temos durante o período da crise, mas ao campo
do que devemos ou não fazer. Essa pergunta nos faz o alerta que
nem todas as oportunidades, em função dos seus efeitos, devem ser
agarradas durante a tempestade.
A terceira referência também pode ser traduzida numa per-
gunta: o que não vou deixar de fazer apesar da crise? Essa pergunta
nos remete àquilo que nos parece essencial, que não pode ser dei-
xado de lado e que deve estar presente e fortalecido no futuro que
se aproxima. Envolvidos em tantas urgências e em tanta dispersão,
podemos facilmente deixar escapar aquilo que julgamos essencial.
Aquilo que é estruturante para a nossa vida pessoal e para a socie-
dade. Então, durante a tempestade, precisamos não perder as refe-
rências centrais: sobreviver à crise, não abrir mão da ética em nossas
decisões e manter no horizonte aquilo que realmente interessa e
tem valor para cada um de nós e para o nosso país.
Essa tripla ação não possui o conteúdo do “novo normal”, mas
carrega consigo o método para se chegar lá. A construção de um
inédito para além daquilo que já temos e somos e, ao mesmo tem-
po, no limite das nossas possibilidades. A nossa “área” de atuação é
literalmente no intervalo entre onde estamos e o horizonte que con-
seguimos vislumbrar. Encurtar esses dois pontos é o que nos cabe
nesse momento.

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

Quando chegarmos ao horizonte do possível, outras possibili-


dades e desafios serão percebidos e o que antes era ponto de che-
gada será transformado em um novo ponto de partida. Assim, de-
pois de cada nova esquina conquistada, um novo horizonte deve se
abrir e seguiremos nos reinventando nessa estrada que é, ao mesmo
tempo, caminho e escola para nossa humanidade.
Seguiremos nos fazendo e refazendo crise após crise. Algumas
dessas crises serão efeitos de nossas próprias ações e outras serão
resultados de uma dinâmica da vida que não controlamos. Esse pro-
cesso criativo de nós mesmos não acontece de forma extraordinária
ou num passe de mágica. Ele se dá no enfrentamento cotidiano dos
nossos condicionamentos.
Nós forjamos as mulheres e os homens que somos com e con-
tra os nossos condicionamentos. Eles são como vento na vela do
nosso barco. É nesse atrito, por vezes contraditório, que devemos
buscar os nossos novos rumos. Para isso é fundamental não perder
de vista nossos sonhos, aquilo que mobiliza o que julgamos ser es-
sencial.
De alguma forma, num primeiro momento, quase todos nós
tivemos nossos projetos e sonhos para 2020 afetados pela pande-
mia, mas, se ainda permanecemos vivos, é importante ressaltar que,
apenas no primeiro momento, os nossos sonhos foram afetados, ou
melhor, foram afetados na sua dimensão mais perceptível e não, ne-
cessariamente, na dimensão essencial. Existe uma diferença, como
nos alerta Anselm Grüm, entre o sonho e a sua concretização.
Na sociedade performática em que vivemos, criamos a ilusão
de que controlamos tudo e que a realização de nossos projetos de-
pende somente da nossa performance. Uma ilusão poderosa que,

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num primeiro momento, parece valorizar a nossa própria força de
realização, mas que não passa de uma postura arrogante diante da
vida.
A situação atual mostrou que os nossos planos e estratégias
são fundamentais, mas a dinâmica da vida é bem maior. Mas é essen-
cial perceber que foram modificadas as condições de concretização
dos sonhos, mas não o “espírito” dos nossos sonhos. Eles podem e
devem ganhar forma em qualquer realidade. Se não for assim, nós
transformaremos os condicionamentos da sociedade em determina-
ções e, diante delas, nada teremos a fazer.
As circunstâncias atingem os nossos sonhos e modificam as
condições de sua concretização, mas não afetam, necessariamente,
o espírito dos nossos sonhos. Esse espírito, quando bem alimenta-
do, vai brotar numa nova circunstância. Dessa forma, os sonhos não
foram feitos para serem realizados, literalmente, mas para direcionar
o nosso agir na vida, momento a momento, circunstância a circuns-
tância.
Cuidar é que nos resta nesse momento. Cuidar é o que nos
cabe fazer. Cuidar é o que de melhor podemos oferecer diante da
conjuntura: cuidar dos nossos sonhos, cuidar de quem é próximo,
dos mais idosos, criar condições de cuidado para quem não as têm,
cuidar de quem, neste momento, está sofrendo mais, cuidar da nos-
sa democracia, enfim, cuidar do nosso país.
Cuidar nunca é redundante porque nós somos, como socieda-
de, o resultado do cuidado e do descuido que tivemos. É na interse-
ção entre o cuidado e o descuido que nos situamos e nos cabe, nes-
se momento, ampliar, em todos os aspectos, as ações de cuidado.
Como num fim de tarde, onde o velho do dia e a novidade da

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O mundo dentro de casa
Aprendizagens possíveis em um tempo inusitado

noite se encontram, nós vivemos um momento híbrido. Um momen-


to permeado por tudo o que já fizemos e deixamos de fazer, mas
também com a potência daquilo que ainda não existe, mas já pode
existir.
É necessário aprender com tudo isso, mas é preciso reconhe-
cer que aprenderemos o que for possível aprender, porque é assim
que acontece. É dessa forma que fazemos a história e nos fazemos
na história. A vida sempre nos oferece mais lições do que a nossa
capacidade de apreensão, mas, para nossa sorte, ela tem sido uma
educadora persistente e esperançosa na nossa humanidade.

Ricardo Mariz
É Doutor em Sociologia, Mestre em Educação
e Pedagogo. Coordenador da Área de Missão e
Gestão da UMBRASIL. Coordenador do Grupo
de Pesquisa “Cartografias dos Territórios de Aprendizagem” UCB/
CNPQ. Atuou na docência e gestão da educação básica e educação
superior. Membro fundador do projeto “Esquina do Pensamento”.
Autor de artigos e livros sobre educação.

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