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CASO PRÁTICO 25 

A Câmara Municipal de Teresina realizou licitação para a contratação de empresa de prestação de


serviços de limpeza e conservação. A vencedora foi a SERVIÇOS LTDA, que celebrou, em 01/06/2011,
o contrato com a entidade municipal. A partir de 05/09/2011, a contratada deixou de fornecer os
serviços sob o argumento de que a Câmara Municipal atrasou o pagamento da contraprestação
correspondente aos meses de julho e agosto, além de alterar, unilateralmente, o objeto contratual, o
que resultou numa diminuição no valor do contrato de 15%, causando prejuízo financeiro à
organização empresarial. Tomando conhecimento da interrupção dos serviços, o Presidente da
Câmara determinou a abertura de processo administrativo para apuração dos fatos. O processo
culminou com a rescisão unilateral do contrato e a aplicação de penalidade disciplinar à contratada,
que foi suspensa de licitar e contratar com a Câmara Municipal pelo prazo de 2 (dois) anos, por
decisão publicada no órgão oficial em 03/10/2011, e, na mesma data, dado ciência à empresa
contratada. A Câmara Municipal, ato contínuo, procedeu à contratação emergencial de empresa do
ramo de serviços de limpeza, até a finalização de novo processo de licitação.  Contra o ato do
Presidente da Câmara, a SERVIÇOS LTDA impetrou, em 26/03/2012, mandado de segurança para
anular a rescisão e a penalidade, além de tentar impedir a nova contratação realizada pela Câmara.
Em sua pretensão de manter o contrato, a empresa argumentou na petição: A Câmara Municipal não
poderia rescindir unilateralmente o contrato, uma vez que restava presente a justa causa para a
interrupção de sua execução; A recusa na continuidade do contrato teria respaldo na regra
da exceptio non adimpleti contractus (exceção do contrato não cumprido);  A mudança de
quantitativo do objeto contratual somente seria legítima com a concordância das partes
contratantes, não podendo ser imposta de forma unilateral, pelo que, sendo ilícita a imposição do
poder público, ilícita também seria a decisão de rescisão;  A decisão da Câmara Municipal de alterar o
contrato teria violado o princípio do equilíbrio econômico-financeiro, que deve sempre existir no
contrato administrativo;  A realização de nova contratação, sem licitação, representa uma afronta ao
princípio da isonomia e da competitividade.  Por fim, requereu a condenação da Câmara Municipal
ao pagamento dos valores não quitados, referentes aos meses de julho e agosto.  Com base na
situação hipotética descrita acima, elabore as informações ao Mandado de Segurança, que serão
prestadas pela autoridade coatora, rebatendo, de forma fundamentada, os itens apontados pela
Impetrante.  Atenção: atenha-se aos fundamentos jurídicos, dispensando o endereçamento.
Endereçamento dispensado pelo enunciado.

Processo nº

Câmara Municipal de Teresina, órgão legislativo integrante de pessoa jurídica de direito público
interno, CNPJ, domicílio, endereço eletrônico, neste ato representada pelo procurador abaixo
assinado (mandato “ex lege”), vem respeitosamente perante Vossa Excelência prestar

INFORMAÇÕES

no mandado de segurança proposto pela pessoa jurídica SERVIÇOS LTDA, parte devidamente
qualificada e representada nos autos, pelos fatos e fundamentos a seguir deduzidos.

I. FATOS

Cuida-se mandado de segurança...

II. PRELIMINARES DE MÉRITO


a. DECADÊNCIA

No dia 03/10/2011, a impetrante tomou ciência da decisão administrativa de rescisão contratual e


aplicação de penalidade, tendo ajuizado o presente mandado de segurança no dia 26/03/2012, ou
seja, após transcorrido o prazo decadencial de 120 dias, contado da ciência do ato impugnado,
conforme previsto na lei de regência. Logo, o processo deve ser extinto, com resolução de mérito,
ante a perda do direito ao manejo do “writ” constitucional.

b. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA – AUSÊNCIA DE INTERESSE – MANDADO DE SEGURANÇA NÃO


SUBSTITUI A AÇÃO DE COBRANÇA

Para postular em juízo é necessário ter legitimidade e interesse, ambas condições da ação. O
interesse processual é informado pelo binômio necessidade-adequação.

No presente caso, nota-se que o impetrante tenta utilizar a via estreita do mandado de segurança
para obter o recebimento de valores não quitados decorrentes do contrato, referentes aos meses de
julho e agosto. Ocorre que o mandado de segurança não pode servir de substituto da ação de
cobrança, conforme súmula do STF. Inclusive, a própria lei de regência determina que o mandado de
segurança não é mecanismo processual idôneo para a obtenção de ressarcimento de valores
pretéritos, os quais devem ser buscados na via adequada, qual seja a do procedimento ordinário.
Portanto, carece a demanda de interesse processual para ser julgada no mérito no tocante à
condenação da Câmara ao pagamento dos valores contratuais referentes aos meses de julho e
agosto, devendo o processo, neste ponto, ser parcialmente julgado extinto, sem resolução de mérito.

III. MÉRITO – INEXISTÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO

a. DESCABIMENTO DA EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO – NECESSIDADE DE


INADIMPLEMENTO DE 90 DIAS – IMPOSSIBILIDADE DE ARGUIR A EXCEÇÃO NOS CONTRATOS QUE
ENVOLVAM A PRESTAÇÃO DE SERVIÇO PÚBLICO
Conforme consta dos autos, a partir de 05/09/2011, a impetrante deixou de fornecer os serviços sob
o argumento de que a Câmara Municipal atrasou o pagamento da contraprestação correspondente
aos meses de julho e agosto.

Ocorre que, nos termos da Lei 8.666/93, apenas o inadimplemento por mais de 90 dias justifica a
interrupção da prestação dos serviços, o que de imediato retira a juridicidade da exceção de contrato
não cumprido, uma vez que a administração pública atrasou o pagamento durante apenas 2 meses.

E mais, como a atividade de limpeza e conservação caracteriza um serviço público, sujeito à Lei
8.987/95, a interrupção de sua prestação somente poderia ser promovida pela via judicial, não tendo
o impetrante autorização legal para exercer a autotutela.

Na realidade, a rescisão pelo contratado deve ser feita por meio judicial também. A lei de concessões
adiciona que a paralisação ou interrupção só pode ocorrer após decisão judicial transitada em
julgado.

b. PODER DE ALTERAÇÃO UNILATERAL DO CONTRATO


Superada a tese da impetrante no tocante à exceção do contrato não cumprido, deve-se refutar o
segundo argumento contido na inicial, segundo o qual a interrupção da prestação do serviço também
decorreu da alteração unilateral do objeto contratual promovida pela Câmara, o que acarretou
diminuição de 15% do valor do contrato.

Conforme preconiza a Lei 8.666/93, a administração pública goza de determinadas prerrogativas,


efetivadas pelas chamadas cláusulas exorbitantes, que decorrem diretamente do regime de direito
público que rege os contratos administrativos, especialmente o princípio da supremacia do interesse
público sobre o interesse privado.

Entre tais prerrogativas, encontra-se o poder de alteração unilateral do contrato para efetuar a
modificação quantitativa do objeto contratual, desde que respeitado o percentual de 25% do valor
do contrato para acréscimos e supressões, ou de 50% de acréscimo para reforma de edifício ou
equipamento.

Considerando que a alteração do contrato apenas reduziu 15% do valor do contrato, a modificação
unilateral promovida pela administração pública é plenamente legítima, razão pela qual o impetrante
não poderia ter suspendido a prestação dos serviços.

Não violou o equilíbrio econômico, pois quando reduz o objeto reduz proporcionalmente o valor, o
pagamento.
c. LEGITIMIDADE DA RESCISÃO UNILATERAL DO CONTRATO
O impetrante, sob a falsa impressão de que a administração pública teria agido ilicitamente, alega
que não seria possível a rescisão unilateral do contrato. No entanto, a impetrada não praticou
qualquer ilícito, consoante demonstrado nos tópicos anteriores.

Na verdade, a impetrante é que descumpriu o contrato e a lei ao suspender, sem motivo legalmente
justificável, a prestação do serviço de limpeza e conservação, o que gerou para a administração, com
fulcro no poder de autotutela, a possibilidade de rescisão unilateral, prerrogativa também prevista
na Lei 8.666/93 como uma das cláusulas exorbitantes.

d. POSSIBILIDADE DE DISPENSA DE LICITAÇÃO – SITUAÇÃO EMERGENCIAL – RESCISÃO DO


CONTRATO
O impetrante, ainda, alega que a Câmara agiu ilegalmente ao proceder à contratação sem licitação
de empresa do ramo de serviços de limpeza. Ocorre que referida contratação ocorreu de forma
emergencial, até a finalização de novo processo de licitação.

Nestas circunstâncias, a contratação direta, mediante dispensa de licitação, é faculdade outorgada à


administração pública pela Lei 8.666/93, a fim de que não seja ocasionado prejuízo ao interesse
público, desde que o contrato seja celebrado pelo prazo de até 180 dias.

Não ofende a isonomia ou a competitividade. Só foi obrigada a contratar por causa do autor.

e. CONDENAÇÃO – POSSIBILIDADE DE A CÂMARA RETER O PAGAMENTO PARA COMPENSAR OS


PREJUÍZOS – MANDADO DE SEGURANÇA NÃO É SUBSTITUTIVA DE AÇÃO DE COBRANÇA
O impetrante também pede a condenação da Câmara ao pagamento dos valores contratuais
referentes aos meses de julho e agosto.

A despeito de o mandado de segurança não ser a via adequada para formular demandas ordinárias
de cobrança, pode-se concluir que, também no mérito, a pretensão não deve prosperar, uma vez que
o impetrante deu causa à rescisão unilateral do contrato, de modo que a administração pública ainda
pode reter o pagamento para fins de compensar os prejuízos causados ao interesse público, os quais
deverão ser apurados mediante processo administrativo próprio.

Via de regra, colocar interesse processual como mérito também.

IV. PEDIDOS
Ante o exposto, requer-se:

a) o recebimento das presentes contestaçãoinformações;


b) preliminarmente, seja reconhecida a decadência, ante o decurso do prazo de 120 dias,
extinguindo-se o processo sem com resolução de mérito;
c) preliminarmente, acaso não acatada a decadência, que seja o processo parcialmente extinto
sem resolução de mérito, ante a inadequação da via eleita e a falta de interesse processual, uma vez
que o mandado de segurança não pode substituir a ação de cobrança, conforme súmula do STF;
d) no mérito, a total improcedência dos pedidos autoraisa não concessão da segurança, eis que
a impetrante, ao suspender a prestação dos serviços de forma ilegal (a falta de pagamento pelo
poder público não ultrapassou o prazo legal de 90 dias e a alteração unilateral do contrato respeitou
os limites percentuais), deu causa à rescisão unilateral do contrato promovida pela administração
pública, que possui a faculdade de realizar a contratação direta, mediante dispensa, para atender à
situação emergencial e suprir rapidamente a necessidade de prestar os serviços de limpeza e
conservação;
e) a condenação do impetrante às custas, dispensando-se o pagamento de honorários de
sucumbência, conforme lei de regência;
f) a produção de provas, especialmente documental.

Nestes termos, pede deferimento.

Data e local.

Nome e assinatura.

Procurador

OABab

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