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TABELA DE CONTEÚDOS

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EPÍLOGO
EPILOGO EXTENDIDO
SINOPSE

Rowan
Faço parte do ramo da criação de contos de fadas.
Parques temáticos. Produtoras. Hotéis cinco estrelas.
Se eu renovasse a Dreamland, tudo poderia ser meu.
Minha ideia inicial de contratar Zahra era boa em teoria, mas depois eu a beijei.
As coisas ficaram fora de controle quando lhe enviei uma mensagem usando um
pseudônimo.
Quando percebi onde errei, já era tarde demais.
Pessoas como eu não têm finais felizes.
Não quando estamos destinados a arruiná-los.

Zahra
Após enviar uma proposta bêbada criticando a atração mais cara da Dreamland, eu
deveria ter sido despedida.
Ao invés disso, Rowan Kane me ofereceu o emprego dos sonhos.
A pegadinha? Eu tinha que trabalhar para o chefe mais difícil que eu já tinha
conhecido.
Rowan era rude e completamente fora dos limites, mas meu coração não se
importou.
Pelo menos não até descobrir seu segredo.
Estava na hora de ensinar ao bilionário que o dinheiro não podia resolver tudo.
Especialmente nós.
PLAYLIST

Ain’t No Rest for the Wicked – Cage the Elephant


Oh, What a World – Kacey Musgraves
My Own Monster – X Ambassadors
Cloudy Day – Tones And I Flaws –
Bastille Rare Bird – Caitlyn Smith Lasso
Phoenix - Bubbly – Colbie Caillat Believe
Mumford & Sons Take a Chance On Me – ABBA From Eden
Hozier - Could Be Good – Kat Cunning R U Mine?
Artic Monkeys 34+35 – Ariana Grande
Ho Hey – The Lumineers
Can’t Help Falling in Love – Haley Reinhart Wildfire
Cautious Clay White Horse (Taylor’s Version) – Taylor Swift
Need the Sun to Break – James Bay Landslide (Remastered)
Fleetwood Mac Missing Piece – Vance Joy Dreams – The Cranberries
As garotas que sonham em conhecer um príncipe
mas acabam se apaixonando pelo vilão mal compreendido.
1
ROWAN

A última vez que fui a um funeral, acabei com um braço quebrado. A história ganhou
as manchetes depois que me joguei na cova aberta da minha mãe. Já se passaram mais de
duas décadas desde aquele dia, e embora eu tenha mudado completamente como pessoa,
minha aversão ao luto não mudou. Mas, devido às minhas responsabilidades como
parente mais novo de meu falecido avô, espera-se que eu permaneça ereto e
despreocupado durante seu velório. É quase impossível, com minha pele coçando como
se eu estivesse usando um terno de poliéster barato.
A minha paciência diminui com o passar das horas, com centenas de funcionários e
parceiros de negócios da Kane oferecendo suas condolências. Se há algo que odeio mais
do que funerais, é falar com as pessoas. Existem apenas alguns indivíduos que eu tolero,
e meu avô era um deles.
E agora ele se foi.
A sensação de queimação no meu peito se intensifica. Não sei por que isso me
incomoda tanto. Tive tempo para me preparar enquanto ele estava em coma, mas a
estranha sensação acima de minhas costelas retorna com força total sempre que penso
nele.
Corro a mão pelo meu cabelo escuro para me dar algo para fazer.
— Sinto muito por sua perda, filho. — Um participante sem nome interrompe meus
pensamentos.
— Filho? — A única palavra sai da minha boca com veneno suficiente para fazer o
homem estremecer.
O cavalheiro centraliza a gravata sobre o peito com as mãos desajeitadas. — Eu
sou...bem...uh.
— Desculpe meu irmão. Ele está lutando com sua dor. — Cal coloca a mão no meu
ombro e aperta. Seu hálito coberto de vodca e menta atinge meu rosto, causando-me uma
carranca. Meu irmão do meio pode parecer vestido com esmero em um terno bem
passado e cabelo loiro perfeitamente penteado, mas seus olhos vermelhos contam uma
história completamente diferente.
O homem murmura algumas palavras que não me incomodo em ouvir antes de se
dirigir para a saída mais próxima.
— Lutando com minha dor? — Embora não goste da ideia do meu avô falecer, não
estou lutando contra nada além de uma azia desconfortável hoje.
— Relaxe. Esse é o tipo de coisa que as pessoas dizem em funerais. — Duas
sobrancelhas loiras se juntam enquanto Cal me encara.
— Não preciso de desculpa para o meu comportamento.
— Não, mas você precisa de um motivo para não assustar nosso maior investidor
hoteleiro de Xangai.
— Porra. — Há uma razão pela qual prefiro a solidão. A conversa fiada exige muito
esforço e diplomacia para o meu gosto.
— Você pode tentar ser mais legal por mais uma hora? Pelo menos até que todas as
pessoas importantes saiam?
— Isso sou eu tentando. — Meu olho esquerdo se contrai quando pressiono meus
lábios.
— Bem, faça melhor. Por ele. — Cal inclina a cabeça em direção à imagem acima da
lareira.
Solto um suspiro trêmulo. A fotografia foi tirada durante uma viagem em família à
Dreamland, quando meus irmãos e eu éramos crianças. Vovô sorri para a lente, apesar
dos meus braços minúsculos em volta do seu pescoço em um estrangulamento. Declan
está ao lado do vovô, pego no meio de um revirar de olhos enquanto Cal levanta dois
dedos atrás da cabeça dele. Meu pai mostra um raro sorriso sóbrio enquanto passa o
braço em volta do ombro do vovô. Se eu tentar com força suficiente, posso imaginar a
risada da mamãe enquanto ela tirava a foto. Embora a memória de seu rosto seja confusa,
posso ver seu sorriso se refletir bem.
Uma coceira estranha na minha garganta torna difícil de engolir.
Alergias residuais da primavera na cidade. Isso é tudo.
Limpo minha garganta irritada. — Ele teria odiado esse tipo de show. — Embora o
vovô estivesse no ramo do entretenimento, ele não gostava de ser o centro das atenções. A
ideia de todas essas pessoas dirigindo até a orla de Chicago por ele teria feito seus olhos
rolarem se ele ainda estivesse aqui.
Cal dá de ombros. — Ele, mais do que ninguém, sabia o que se esperava dele.
— Um evento de networking disfarçado de funeral?
O lado dos lábios de Cal se transforma em um pequeno sorriso antes de voltar para
uma linha reta. — Você tem razão. Vovô ficaria horrorizado porque ele sempre disse que
domingo era um dia de descanso.
— Não há descanso para os ímpios.
— E menos ainda para os ricos. — Declan para do meu outro lado. Ele encara a
multidão de pessoas com uma carranca implacável. Meu irmão mais velho intimida as
pessoas com perfeição, todos evitando seu olhar negro como breu. Seu terno combina
com seu cabelo escuro, o que só contribui para sua aparência de manto e punhal.
Tenho um pouco de ciúme de Declan, já que as pessoas normalmente falam comigo
primeiro, me confundindo como o filho mais legal porque sou o mais novo. Posso ter
nascido por último, mas com certeza não nasci ontem. A única razão pela qual os
convidados reservam um tempo para falar conosco é porque eles desejam permanecer
dentro de nossas boas graças. Esse tipo de tratamento falso é esperado. Especialmente
quando todas as pessoas com quem nos associamos têm uma bússola moral apontada
permanentemente para o inferno.
Um casal desconhecido se aproxima de nós três. Uma mulher tira um lenço de papel
de sua bolsa para enxugar os olhos secos enquanto seu acompanhante nos oferece a mão
para apertar. Eu olho para baixo como se ele pudesse transmitir uma doença.
Suas bochechas coram quando ele enfia a mão de volta no bolso. — Queria apresentar
as minhas condolências. Sinto muito por sua perda. Seu avô...
Eu o ignoro com um aceno de cabeça. Esta vai ser uma noite muito longa.
Esta é para você, vovô.
***
Fico olhando para o envelope branco. Meu nome está escrito na frente com a elegante
letra cursiva do meu avô. Eu o viro, encontrando-o intocado com seu selo de cera do
Castelo da Princesa Cara do Dreamland.
O advogado termina de distribuir as outras cartas aos meus dois irmãos. — Vocês são
obrigados a lerem suas cartas individuais antes de eu revisar o desejo e o testamento final
do Sr. Kane.
Minha garganta aperta quando quebro o selo e retiro minha carta. Está datada
exatamente uma semana antes do acidente do vovô, três anos atrás, que o levou ao coma.
Para meu doce pequeno Rowan,
Engasgo com uma risada. Doce e pequeno são as últimas palavras que eu usaria para
me descrever, já que sou tão alto quanto um jogador da NBA e com o alcance emocional
de uma rocha, mas meu avô era felizmente ignorante. Era a melhor coisa sobre ele e a
pior absoluta dependendo da situação.
Embora você seja um homem agora, você sempre será o mesmo garotinho aos meus olhos. Ainda me lembro do dia em que sua mãe

deu à luz você como se fosse ontem. Você era o maior dos três, com aquelas bochechas gordas e uma cabeça cheia de cabelos escuros dos

quais eu tinha muita inveja. Você com certeza tinha um par de pulmões em você e não parava de chorar até que eles o entregassem para sua

mãe. Era como se tudo estivesse bem no mundo quando você estava nos braços dela.
Reli o parágrafo duas vezes. É estranho ouvir meu avô falar sobre minha mãe de
maneira tão casual. O assunto se tornou tabu em minha família até que eu mal conseguia
me lembrar de seu rosto ou sua voz.
Sei que tenho estado ocupado com o trabalho e que não passei tanto tempo quanto deveria com todos vocês. Foi fácil culpar a empresa

pela distância física e emocional em meus relacionamentos. Quando sua mãe morreu, eu não sabia o que fazer ou como ajudar. Com seu

pai me afastando, me dediquei ao meu trabalho até ficar insensível a todo o resto. Funcionou quando minha esposa morreu e funcionou
quando sua mãe encontrou uma morte parecida, mas sei que isso levou seu pai ao fracasso. E, ao fazer isso, falhei com todos vocês

também. Em vez de ensinar Seth a viver uma vida após uma grande perda, mostrei a ele como manter a aflição, e isso só machucou você e

seus irmãos no final. Seu pai foi pai da única maneira que sabia, e eu sou o único culpado.
Claro que o vovô justifica as ações do meu pai. O vovô estava muito ocupado para
prestar atenção o suficiente no verdadeiro monstro que seu filho era.
Enquanto escrevo isso, estou morando em Dreamland, tentando me reconectar comigo mesmo. Algo tem me incomodado nos últimos

anos e não fez sentido até que eu vim aqui para reavaliar minha vida. Conheci alguém que abriu meus olhos para meus erros. À medida

que a empresa cresceu, perdi o contato com o motivo de ter começado tudo isso. Percebi que estive cercado por tantas pessoas felizes, mas

nunca me senti tão sozinho em minha vida. E embora meu nome seja sinônimo da palavra “felicidade,” sinto tudo menos isso.
Uma sensação desagradável agarra meu peito, implorando para ser liberada. Houve
um período sombrio em minha vida em que pude me identificar com seu
comentário. Mas desliguei essa parte do meu cérebro quando percebi que ninguém
poderia me salvar, exceto eu mesmo.
Balanço minha cabeça e focalizo minha atenção.
Envelhecer é uma coisa peculiar porque coloca tudo em perspectiva. Este testamento atualizado é minha maneira de fazer as pazes

após minha morte e consertar meus erros antes que seja tarde demais. Não quero essa vida para vocês três. Inferno, eu também não quero

isso para o seu pai. Então o vovô está aqui para salvar o dia, no verdadeiro estilo do príncipe da Dreamland (ou vilão, mas isso vai depender

da sua perspectiva, não da minha).

Cada um de vocês recebeu uma tarefa para cumprir para receber sua porcentagem da empresa após minha morte. Você espera menos

do homem que ganha a vida escrevendo contos de fadas? Eu não posso simplesmente DAR a você a companhia. Então, para você, Rowan,

o sonhador que parou de sonhar, eu te peço uma coisa...

Torne-se Diretor da Dreamland e traga a magia de volta.

Para receber seus 18% da empresa, espera-se que você se torne o Diretor e encabece um projeto único para mim por seis meses. Quero

que você identifique os pontos fracos da Dreamland e desenvolva um plano de renovação digno de meu legado. Eu sei que você é o homem

certo para este trabalho porque não há ninguém em quem eu confie que ame mais criar do que você, mesmo que você tenha perdido contato

com esse lado seu ao longo dos anos.

Eu amei a criar. Ênfase no pretérito porque não há como eu desenhar de novo, muito
menos trabalhar de boa vontade na Dreamland.
Um grupo independente será contratado e solicitado a votar nas suas alterações. Se não forem aprovadas, seu percentual da empresa

será dado ao seu pai permanentemente. Nenhuma segunda tentativa. Nada de comprá-lo. É assim que o biscoito vira migalha1,

garotinho. Tive de trabalhar para tornar o nome Kane o que é hoje, e cabe a seus irmãos e a você garantir que ele durará para sempre.

Te amo para sempre,

Vovô
Fico olhando para a tinta até que as palavras se misturem. É difícil se concentrar no
advogado quando ele discute a divisão de bens. Nada disso importa agora. Essas cartas
colocam todos os planos em espera.
Declan acompanha o advogado até a saída antes de voltar para a sala.
— Isso é uma besteira completa. — Pego a garrafa de uísque da mesa de centro e encho
meu copo até o topo.
— O que você tem que fazer? — Declan se senta.
Explico minha tarefa iminente.
— Ele não pode exigir isso de nós. — Cal se levanta da cadeira e começa a andar.
Declan passa a mão pela barba por fazer. — Você ouviu o advogado. Ou concordamos
com isso, ou minha possibilidade de me tornar CEO é nula e sem efeito.
Os olhos de Cal ficam mais selvagens com cada respiração irregular. — Porra! Eu não
posso fazer isso.
— O que poderia ser pior do que perder sua porcentagem da empresa? — Declan alisa
seu paletó.
— Perder minha dignidade?
Dou uma olhada nele. — Isso ainda existe?
Cal me mostra o dedo do meio.
Declan se inclina para trás em sua cadeira enquanto toma um gole de seu copo. — Se
há alguém que tem o direito de estar chateado, sou eu. Sou eu que preciso casar com
alguém e engravidá-la para me tornar CEO.
— Você sabe que bebês são criados por meio do sexo, certo? Isso é algo que seu
software interno é capaz de aprender? — Cal está pressionando uma discussão que nunca
pode vencer. Declan se orgulha de sua reputação como o solteiro mais intocável da
América por um motivo que vai além de dormir por aí.
Declan pega a carta de Cal do chão e dá uma olhada entediado. —
Alana? Interessante. Eu me pergunto por que o vovô achou que seria uma boa ideia vocês
dois se reunirem novamente.
Alana? Não ouço esse nome há anos. O que o vovô quer que Cal faça com ela?
Estendo a mão para pegar a carta de Declan, mas Cal a arranca de sua mão antes que
eu tenha a chance.

1 Dito para significar que se deve aceitar a forma como as coisas acontecem, mesmo que seja de forma negativa.
— Foda-se. E não fale sobre ela de novo, — Cal ferve.
— Se você quiser brincar com fogo, prepare-se para ser cremado. — Declan vira seu
copo para Cal. Seu olhar oscila entre nós dois. — Independentemente de nossos
pensamentos pessoais sobre o assunto, não temos escolha a não ser prosseguir com os
termos do vovô. Há muito em jogo.
Jamais permitirei que nosso pai obtenha nossas ações da empresa. Esperei minha vida
inteira pela capacidade de controlar a The Kane Company com meus irmãos e não
pretendo perder para meu pai. Não quando somos movidos por algo muito mais forte do
que a necessidade de dinheiro. Porque se há uma lição que aprendemos com Seth Kane,
é que o amor pode ir e vir, mas o ódio dura para sempre.
2
ROWAN

Minha nova assistente, Martha, é uma veterana da Dreamland que trabalhou para
todos os diretores do parque temático, incluindo meu avô. Ela lidou com minha transição
com facilidade. O jeito que ela sabe tudo sobre todos tem sido um bônus, fazendo-me
respirar mais facilmente, considerando minha mudança para a Flórida.
Por causa das informações essenciais da Martha, sei como encontrar a maioria dos
funcionários da Dreamland em um só lugar para me apresentar formalmente. Posso
garantir minha escolha de assento porque fiz questão de ser o primeiro a chegar para a
reunião da manhã. Escolho o local perfeito na parte de trás do auditório, onde as luzes
fluorescentes não atingem, me envolvendo na tão desejada escuridão. Ficar longe de
olhares curiosos me permitirá observar como a equipe interage e como os gerentes
resolvem os problemas.
Dez minutos antes da reunião, todos entram no espaço e ocupam as incontáveis filas
de assentos. Qualquer energia que eu liberto faz com que os funcionários evitem a fila de
trás para os assentos preferidos na frente e no meio. Há apenas uma pessoa que enfrenta
o assento na minha frente. O cavalheiro mais velho me encara como se eu o estivesse
incomodando por sentar em seu território, mas eu o ignoro.
Os holofotes na frente da sala se concentram em Joyce, a gerente da equipe diurna e
mãezona da Dreamland. Ela tem um capacete de cabelos brancos e olhos azuis que
examinam toda a sala como um sargento. Não tenho certeza de como ela sabe minha
localização, mas seus olhos pousam nos meus e ela acena com os lábios pressionados.
Joyce bate em sua prancheta. — Certo, pessoal. Vamos começar. Temos muito o que
cobrir e pouco tempo antes que os primeiros convidados cheguem. — Ela define a agenda
da reunião e passa por inúmeras perguntas com confiança. Ela mal respira enquanto
discute a programação de desfiles de julho, festivais e celebridades que visitam o parque.
A porta atrás de mim se abre. Viro minha cadeira e olho por cima do ombro. Uma
jovem morena desliza pela pequena fenda antes de fechá-la suavemente atrás dela.
Olho para o meu relógio. Quem é ela e por que está vinte minutos atrasada?
Ela se agarra a um skate Penny2 rosa neon com um braço marrom dourado enquanto
examina a sala lotada. Aproveito sua distração para avaliá-la. Ela é linda de um jeito que
torna difícil voltar a focar minha atenção na conversa na frente da sala.
Odeio isso, mas não consigo desviar o olhar. Meus olhos traçam as curvas de seu
corpo, traçando um caminho de sua garganta delicada até suas coxas grossas. A
velocidade do meu coração acelera.
Aperto minhas mãos em dois punhos, não gostando da falta de controle que tenho
sobre meu corpo.
Controle-se.
Eu respiro fundo algumas vezes para diminuir minha frequência cardíaca.
Uma mecha de cabelo escuro cai na frente de seus olhos. Ela o enfia atrás de uma
orelha adornada com piercings de ouro. Como se ela sentisse meu olhar, seus olhos
pousaram em mim - ou mais ainda, no assento vazio ao meu lado.
A mulher sai da entrada iluminada em direção ao corredor envolto em escuridão. Ela
verifica a disposição dos assentos como se quisesse descobrir como se sentar na cadeira
ao meu lado com o mínimo de contato possível.
— Oi. Desculpe. — Sua voz é suave com um toque de sotaque. Ela respira fundo
enquanto se move centímetro a centímetro em meu espaço pessoal.
Não digo absolutamente nada enquanto agarro os apoios de braço. Eu tenho uma
visão próxima e pessoal da sua bunda, mal restringida por seu traje não regulamentado
de jeans e uma camiseta.
Há um motivo pelo qual os uniformes são obrigatórios nas propriedades da empresa
e estou olhando diretamente para isso. Minha nuca aquece e os apoios de braço rangem
sob a pressão das minhas mãos. Seu perfume atinge meu nariz. Meus olhos se fecham
com o cheiro inebriante - uma mistura de flores, frutas cítricas e algo que não consigo
identificar.
Ela se atrapalha com minhas longas pernas com a graciosidade de uma girafa recém-
nascida.
Querendo acabar com isso, dou a ela algum espaço sentando-me. Meu movimento
repentino a fez tropeçar nos meus pés. Uma de suas mãos bate no meu colo para se
equilibrar, errando meu pau por apenas alguns centímetros. Eletricidade sobe pela minha
perna direto na minha virilha.
Merda. Desde quando o toque de alguém me dá esse tipo de reação?
Seus olhos arregalados olham nos meus, mostrando cílios grossos e olhos castanhos
amendoados. Ela pisca algumas vezes, provando que possui alguma forma de
funcionamento cognitivo. — Eu sinto muito. — Seus lábios se abrem enquanto ela olha

2 Penny Skateboards é uma marca mundialmente conhecida por seus skates do tipo cruiser, feitos de plástico, mas tão
resistentes quanto os convencionais.
para sua mão no meu colo. Ela engasga e arranca a mão da minha coxa, levando seu calor
e a sensação estranha com ela.
Algum membro mais velho da equipe olha por cima do ombro. — Você se importa de
se sentar já? Mal consigo ouvir Joyce com sua barulheira habitual.
Barulheira habitual? É bom saber que este é um padrão.
— Certo. Sim, — ela gagueja.
Avalio sua habilidade de deslizar na cadeira ao meu lado sem outro acidente como
um milagre. Ela deixa cair sua mochila barulhenta no chão, causando mais uma
distração. O metal faz barulho quando ela se inclina e abre o zíper da bolsa.
Fecho meus olhos e respiro pelo nariz para acalmar a dor surda que lateja em minhas
têmporas. Exceto que eu absorvo mais seu perfume a cada respiração profunda, tornando
impossível esquecê-la.
Seu braço roça minha perna durante sua busca. A mesma faísca dispara pela minha
espinha com o contato, como uma onda de calor implorando para ir a algum lugar.
Em qualquer lugar, menos lá, pelo amor de Deus.
— Você se importa? — Digo.
— Desculpe! — Ela estremece quando finalmente pega seu caderno e se senta
novamente. Seu skate Penny escorrega de seu colo e bate nos meus sapatos de dois mil
dólares.
Há uma razão para essas malditas coisas terem sido banidas do parque décadas
atrás. Eu chuto o item contrabandeado para longe de mim e bem nos tornozelos do
mesmo homem que a repreendeu antes.
— Vamos, Zahra. — O homem vira a cabeça e lhe lança um olhar fulminante.
Zahra. O nome dela se encaixa na selvageria da qual eu só provei um pouquinho.
— Desculpe, Ralph, — ela murmura.
— Pare de se arrepender e comece a chegar cedo pela primeira vez.
Luto contra a vontade de sorrir. Não há nada que eu goste mais do que pessoas sendo
criticadas por suas estupidezes.
Ela se inclina e coloca a mão delicada no ombro do homem. — Posso compensar com
pão fresco que Claire e eu fizemos ontem à noite?
Pão? Ela está realmente oferecendo comida a este homem depois que ele se irritou
com ela?
Ralph encolhe os ombros. — Jogue mais alguns biscoitos e não vou reclamar com
Joyce sobre você estar atrasada de novo.
Pestanejo para o rabugento grisalho na minha frente.
— Eu sabia que você tinha um fraquinho por mim. As pessoas dizem que você é mau,
mas eu não acredito em uma palavra disso. — Ela empurra seu ombro de uma forma
familiar.
Eu vejo o que ela está fazendo aqui. De alguma forma, ela envolveu o velho Ralph em
volta do dedo com nada além de um sorriso e uma promessa de produtos de panificação.
Esta mulher é perigosa - como uma mina terrestre que ninguém vê até que seja tarde
demais. Zahra pega um pacote de sua mochila e o joga nas mãos de Ralph.
Ralph abre um sorriso, revelando um dente da frente lascado. — Não deixe ninguém
saber do nosso segredo. Eu não conseguiria lidar com a discussão.
— Claro. Eu não ousaria. — Ela solta uma risada suave que reverbera pelo meu peito
como se alguém tivesse esmagado um maldito gongo com uma marreta ali. Calor se
espalha pelo meu corpo, me assustando ‘pra’ caralho.
Seus dentes brancos se destacam no escuro enquanto ela lança um sorriso radiante
para Ralph. Há algo sobre o olhar em seu rosto que faz meu coração disparar mais rápido
no meu peito. Belo. Despreocupado. Inocente.
Como se ela estivesse realmente feliz com sua vida, em vez de fingir como o resto de
nós.
Meus dentes batem juntos quando solto um suspiro agitado. — Você
terminou? Alguns de nós estamos tentando prestar atenção.
O branco dos olhos de Ralph fica maior antes que ele se vire na cadeira, deixando
Zahra sozinha.
— Sinto muito. — ela sussurra baixinho.
Ignoro seu pedido de desculpas e concentro minha atenção em Joyce.
— Algumas grandes mudanças estão acontecendo no Corporativo que iremos revisar
na próxima semana. Eles vão ficar de olho em nós neste trimestre.
— Excelente. Exatamente o que precisamos. — Zahra murmura baixinho enquanto
rabisca em seu caderno.
— Você tem um problema com o Corporativo? — Não tenho certeza do que espero
ouvir ou por que me importo.
Ela ri para si mesma, e sou atingido por outra sensação estranha nas minhas
costelas. — A verdadeira questão é quem não tem problemas com o Corporativo.
— Por que?
— Porque a Diretoria da Kane Company está cheia de um bando de velhos que
conversam sobre quanto dinheiro eles ganharam, sem realmente discutir os assuntos
importantes em questão.
— E de repente você é uma especialista em reuniões de diretoria?
— Não é preciso ser um gênio para tirar conclusões com base em como eles nos tratam
aqui.
— E como é?
— Como se não tivéssemos importância, desde que lhes façamos ganhar bilhões de
dólares por ano.
Se ela percebe minha encarada, ela parece não se incomodar com isso. — Os
funcionários não são pagos para não reclamar?
Ela direciona seu sorriso para mim. — Desculpe, isso vai custar mais à empresa e,
visto que a maioria de nós ganha um salário mínimo, o silêncio não faz parte do negócio.
— A voz dela é leve e arejada, o que só me irrita mais.
— Deveria ser, nem que seja apenas para evitar que você vomite mais declarações
ignorantes.
Ela respira fundo e volta a se concentrar em seu caderno, finalmente me dando o
silêncio que eu queria.
— Este próximo trimestre será diferente do anterior. — Os olhos de Joyce brilham.
Alguns membros da equipe resmungam baixinho.
— Oh, vamos lá. É a verdade.
Zahra faz um barulho no fundo da garganta. Ela rabisca algumas anotações em seu
caderno, mas não consigo distinguir as palavras no escuro.
— Você não acredita nela? — O que diabos você está fazendo, cara? Ela finalmente calou a
boca e agora você está fazendo perguntas a ela?
Sua cabeça se vira na minha direção, mas não consigo distinguir sua expressão. —
Porque nada de bom pode acontecer agora que Brady realmente se foi. — Sua voz falha.
Meus molares se chocam. Quem ela pensa que é para chamar de meu avô de Brady? É
um insulto. — O parque teve um desempenho melhor do que nunca só no ano passado,
então acho sua declaração infundada.
Seu joelho salta de uma forma irritante. — Nem tudo tem a ver com resultados
financeiros. Claro, o parque teve um desempenho melhor, mas a que custo? Salários
pequenos? Benefícios de seguro saúde mais baratos para funcionários e dias de férias não
pagos?
Se ela está tentando apelar para minha humanidade, ela pode morrer tentando. As
pessoas na minha posição não lideram com o coração, porque nunca ficaríamos satisfeitos
com algo tão ridículo.
Não buscamos tornar o mundo melhor.
Buscamos torná-lo nosso.
Reajusto minha posição na minha cadeira para olhar para ela. — Falou como alguém
que não sabe nada sobre como dirigir uma indústria multibilionária. Não que eu esteja
surpreso. Afinal, você trabalha aqui.
Ela estende a mão e belisca meu braço. Seus pequenos dedos não têm força para
causar qualquer dano real.
— O que diabos foi isso? — Digo.
— Eu estava tentando ver se isso era um pesadelo. Acontece que toda essa tragédia
de conversa é muito real.
— Toque-me novamente e você será despedida imediatamente.
Ela congela. — De qual departamento você disse que era?
— Eu não disse.
Ela bate na testa com a mão enquanto alterna entre o inglês e uma língua estrangeira
com a qual não estou familiarizado.
— Em que departamento você trabalha? — Contra-ataco.
Ela se senta mais ereta com um sorriso, como se eu não tivesse ameaçado demiti-la
um segundo atrás. Bizarro. — Sou esteticista no Magic Wand Salon.
— Excelente. Então, pelo menos você não faz nada importante o suficiente para
sentirem sua falta.
Sua cadeira range debaixo dela enquanto ela recua. — Deus, você é um idiota.
Joyce não poderia ter planejado minha entrada melhor do que isso. Ela chama meu
nome e as cabeças de todos se voltam na direção do nosso canto escuro.
Levanto-me da cadeira e olho para Zahra com uma sobrancelha levantada. Sua cabeça
está baixa e seu peito treme. Das risadas?
Que diabos? Ela deveria estar se desculpando e implorando por seu trabalho.
Joyce chama meu nome e minha cabeça vira na direção do palco.
Viro-me para a multidão e me afasto de Zahra. Só preciso me concentrar em uma
coisa, e meu objetivo não tem nada a ver com uma mulher que ousou me chamar de idiota
e rir disso.
3
ZAHRA

Bato a porta do meu armário.


— O que está deixando você chateada? — Claire se senta no banco em frente a mim e
coloca suas sapatilhas. Suas cortinas de cabelo escuro na altura dos ombros cobrem seu
rosto, e ela o empurra para fora do caminho.
— Eu conheci o maior idiota esta manhã durante a reunião. E você não vai acreditar
quem era.
— Quem?!
— Rowan Kane.
— Cai fora, porra! — Os olhos castanhos da minha colega de quarto se arregalam.
Algumas cabeças voam em nossa direção. A Sra. Jeffries se atrapalha com seu colar
de cruz enquanto nos encara.
— Claire. — Gemo.
— Ele é a realeza da Dreamland. Desculpe meu choque.
— Confie em mim. Algumas coisas são melhores deixadas para a imaginação.
Quaisquer que sejam as histórias doces que Brady compartilhou sobre seu neto mais
novo, não passavam de uma fantasia. Os rumores que circulavam Dreamland estavam
certos. Rowan ganhou a reputação de um empresário implacável conhecido por
despertar o mesmo nível de felicidade que a eutanásia animal. Ele ganhou atenção pela
primeira vez depois de ser o voto de desempate contra o aumento do salário mínimo para
os funcionários. Por causa dele, The Kane Company continuou a pagar centavos a seus
funcionários por seu trabalho árduo. Seu reinado de terror foi solidificado ao longo dos
anos. Ele reduziu os dias de férias pagas dos funcionários, trocou nosso plano de seguro
saúde por um que mais machuca do que ajuda e demitiu milhares de funcionários.
Rowan pode ter a aparência de um anjo, mas o resto dele é puro pecado.
Claire puxa meu vestido. — Bem, diga me! Ele cheira tão bem quanto parece?
— Não. — Sim. Mas não vou contar isso a Claire.
Rowan não só cheirava bem, mas a foto da empresa não lhe fazia justiça. Rowan é
lindo de uma maneira inacreditável. Como uma estátua de mármore cercada por uma
corda de veludo vermelho, tentando-me a cruzar o território proibido com um único
toque. Suas maçãs do rosto parecem afiadas o suficiente para cortar, enquanto seus lábios
parecem suaves o suficiente para beijar. E com base na parte que belisquei e na coxa que
toquei, ele está cheio de músculos magros. Ele parece perfeito, parecendo um menino
bonito com seu cabelo castanho perfeitamente estilizado, terno bem passado e olhos
profundos cor de caramelo.
Isso até ele abrir a boca.
— Ok, vamos ignorar o fato de que ele é um idiota e conversar mais sobre se ele é
solteiro ou não. — Ela bate os cílios.
— Da última vez que verifiquei, ele não é o seu tipo. — Empurro seu ombro, sabendo
que ela não dá a mínima para meninos. Ela se declarou gay durante o colégio e nunca
mais piscou para os homens.
— Vadia, estou perguntando por você, não por mim.
Passo a mão pelo meu traje renascentista roxo. — Visto que ele me disse que meu
trabalho não era importante o suficiente para sentirem minha falta, não estou
interessada. Sem falar que ele é nosso chefe. — Mesmo que Dreamland não tenha
nenhuma regra contra a confraternização, eu oficialmente rotulei Rowan fora dos
limites. Estive lá, fiz isso e comprei uma lembrancinha. Meu ex-namorado preencheu
minha cota de babacas para a eternidade.
— Homens. Que idiota.
— Conte-me sobre isso. Eu não posso acreditar que ele é nosso novo diretor. Foi tão
repentino...
— Chamada! — Regina, a gerente do salão, grita do andar principal.
Claire e eu pisamos no chão do salão e nos alinhamos com o resto da equipe. Estamos
cercados por um mar de cadeiras vazias e coloridas e penteadeiras iluminadas esperando
para abrigar crianças que sonham em se vestir como princesas e príncipes durante seu
tempo na Dreamland.
Todos os funcionários percorrem suas atribuições antes de configurar nossas estações.
— Preparada? — Claire me olha de sua penteadeira.
Pego minha varinha de enrolamento desconectada e a empunho como uma espada. —
Eu nasci pronta.
Henry, o atendente do andar de hoje, abre as portas e deixa entrar uma multidão de
crianças e seus pais. Meu coração se aquece com as crianças de olhos brilhantes e
sorridentes que avaliam todos os trajes que revestem as paredes.
Henry leva uma menina em uma cadeira de rodas em direção à minha estação. — Oi,
Zahra. Essa é a Lily. Ela está animada para que você a faça parecer com a Princesa Cara
hoje.
Curvo-me e dou minha mão a Lily. — Tem certeza que precisa de uma transformação?
Ela acena com a cabeça e sorri.
— Tem certeza de que ainda não é uma princesa?
Lily abafa sua risada com a outra mão. Seu cabelo loiro liso cai em seu rosto,
protegendo seus olhos verdes de mim.
Toco seu nariz franzido. — Você vai tornar meu trabalho tão fácil que meu chefe pode
pensar que eu tenho superpoderes.
Lily ri. O som é tão doce, não posso deixar de me juntar a ela.
— Eu gosto do seu broche. — Ela aponta para o broche esmaltado de hoje que fica
acima do meu crachá.
— Obrigada. — Eu sorrio para a escrita seja feliz cobrindo uma abelha de desenho
animado. Minha pequena rebelião contra o código uniforme faz sucesso com os
pequenos.
Inicio o trabalho, começando pelo cabelo de Lily. Seu cabelo liso luta obstinadamente
para segurar os cachos clássicos da Princesa Cara, mas não desisto até que ela esteja
perfeita.
Uma sensação estranha de formigamento desce pela minha espinha. Viro-me para a
penteadeira sem olhar minhas mãos e passo, na bochecha de Lily, uma sombra roxa.
— Ei! — Ela ri.
— Oh, Deus.
— O que?
Rowan está ao lado da recepção. Seu olhar ponderado no espelho faz minha pele
esquentar e meus olhos ameaçam pular das órbitas. Um rubor se espalha por minhas
bochechas, e eu me afasto da estação de maquiagem para esconder minha reação.
— Ohh, você está ficando vermelha. A mamãe faz isso com o papai. — Os olhos de
Lily se iluminam.
— Hmm. — O que ele está fazendo aqui? Eu vou ser despedida?
Lily me pega olhando para o reflexo de Rowan no espelho. — Você gosta dele?
— Shh! Não! — Limpo a maquiagem de sua bochecha.
— É um segredo? — ela sussurra.
— Sim! — Vou dizer qualquer coisa para fazê-la calar a boca.
Dou outra olhada por cima do ombro. Os olhos do idiota de Armani permanecem
focados em mim, aumentando a minha ansiedade com nada além de uma carranca.
Henry caminha até minha penteadeira sob o pretexto de oferecer a Lily uma caixa de
suco. — Então, gostaria de compartilhar por que o Sr. Kane está perguntando sobre você?
— Porque eu posso tê-lo deixado com raiva antes?
Os olhos de Henry se enrugam de preocupação. — Eu queria vir e avisar que ele está
fazendo a Regina todos os tipos de perguntas sobre você.
Espero que Regina mantenha sua antipatia pessoal por mim para si mesma. Enquanto
ela adoraria nada mais do que reclamar de mim, meu desempenho fala por si. As gorjetas
de minhas clientes são quase o dobro das de todo mundo, o que só alimenta sua vingança
pessoal contra mim. Eu não entendo o problema dela. Sua filha é a única que teve um
caso com meu, agora muito, ex-namorado enquanto ainda estávamos namorando. Não
estou nem perto de ser uma ameaça porque não tocaria em Lance mesmo com uma roupa
anti-radiação, muito menos voltaria com ele.
Endireito minha espinha. Pensar em Lance e Tammy só diminui meu humor. Isso me
coloca de volta naquele estado mental ruim, e recuso-me a me reduzir a ser aquela garota
que pensou que se casaria com seu namorado da faculdade. Esse futuro caiu e queimou
depois de descobrir sobre a vida dupla de Lance com Tammy.
Deixa para lá. Mostre a eles que eles não quebraram você, não importa o quão perto você tenha
chegado disso.
— Ele é seu príncipe? — Lily sorri.
Volto para a conversa.
Henry balança os ombros. — Teremos que esperar para ver se ele a leva para seu
reino.
O único reino em que o homem reside é o inferno e não estou interessada em
visitar. Ele é um demônio em um terno de grife com uma personalidade que combina.
— Boa sorte! Você vai precisar. — Henry vai embora depois de me dar um tapinha na
cabeça como uma criança.
Cada vez que me olho no espelho, os olhos castanhos e sem emoção de Rowan
encontram os meus. Eu tremo sob seu olhar, apesar das luzes quentes da penteadeira.
Durante toda a transformação, de alguma forma mantenho o rosto sério, apesar do
meu coração batendo forte contra as minhas costelas. Coloco toda a minha energia para
ignorar meu novo chefe, enquanto faço de Lily a princesa mais bonita de todo o parque.
À medida que me aproximo do resultado final, viro sua cadeira em direção ao centro
da sala e para longe do espelho. Termino os toques finais antes de fazer um show girando
sua cadeira para trás na frente do espelho para a grande revelação. Seus olhos lacrimejam
quando ela verifica seu reflexo.
— Você está linda. — Curvo-me e dou um pequeno abraço nela.
— Obrigada. — Ela franze a testa em sua cadeira.
Meu coração aperta no meu peito, me fazendo desejar poder fazer mais por crianças
como Lily. Elas sempre parecem ser esquecidas.
Envolvo meu braço em volta do ombro de Lily e sorrio para o espelho. — Você é uma
garota muito bonita. Aposto que alguém vai confundir você com a verdadeira Princesa
Cara no momento em que você sair daqui.
— Sério? — Todo o rosto dela se ilumina novamente.
Toco seu nariz. — Pode apostar. E eu sei que as crianças vão ter ciúmes de suas rodas
legais quando seus pés estiverem doendo e doloridos.
Ela ri. — Você é engraçada.
— Se alguém pedir uma carona grátis, certifique-se de cobrar. Promete?
— Promessa de mindinho. — Ela levanta seu dedinho para mim. Nós enganchamos
os dedos e chacoalhamos.
Viro-me para chamar os pais de Lily. Meus olhos se fixam nos de Rowan. O calor
floresce no meu estômago, espalhando-se como fogo na minha pele com um olhar.
Estou ficando com febre? Eu sabia que aquela criança fungando na minha estação ontem não
tinha alergia.
Os pais de Lily vêm e elogiam tudo sobre sua transformação. Enquanto seu pai se
ajoelha para falar com Lily, sua mãe se vira e segura minha mão com sua mão trêmula. —
Muito obrigada por cuidar da minha filha. Ela estava com medo de não se encaixar aqui
como as outras garotas, mas você se esforçou para tornar o dia dela especial. — Ela joga
os braços em volta de mim.
Retribuo seu abraço. — O prazer é meu. Mas Lily tornou isso mais fácil porque vocês
dois têm uma filha linda, por dentro e por fora.
O pai de Lily fica vermelho enquanto sua mãe sorri. Com uma última olhada no
espelho, seus pais rolam Lily para longe.
Viro-me em direção à área onde Rowan e Regina estavam conversando, apenas para
encontrá-la vazia. Meu estômago afunda.
Fico permanentemente nauseada pelo resto do dia. Não importa quantas crianças
sorridentes saiam da minha cadeira, eu não consigo afastar essa sensação estranha no
meu intestino. Não tenho certeza do que Rowan está fazendo, mas preciso ficar de
olho. Houve um tempo em que ignorei minha intuição e me recuso a cometer esse erro
novamente.
4
ROWAN

Dreamland pode fazer parte do ramo de vender contos de fadas, mas isso não me traz
nada além de pesadelos e flashbacks amargos. A energia que cerca este lugar me sufoca
tanto quanto a umidade da Flórida. Apesar do forte sol de verão, um arrepio percorre
minha espinha enquanto olho para o castelo da Princesa Cara. A monstruosidade
arquitetônica que colocou o parque do meu avô no mapa há quase cinco décadas me
lembra de uma vida passada que há muito esqueci.
Supere isso, seu pedaço de merda inútil. Concentre-se no que é importante.
Não sei por que meu avô me incumbiu de consertar um parque temático que funciona
perfeitamente há 48 anos. Os ingressos estão sempre esgotados e atingimos a capacidade
máxima todos os dias. Com o desempenho do parque se superando a cada trimestre,
questiono como posso fazer melhorias.
Para simplificar, este lugar é perfeito. Quase perfeito demais. Lidei com mais
problemas em um dia como presidente de nossa subsidiária de serviço de streaming do
que este parque gerencia em um ano inteiro. Mas, com minhas ações de 25 bilhões de
dólares em jogo, revirarei cada pedra em todo este lugar se isso significar expor os pontos
fracos e construir sobre isso os pontos fortes da Dreamland. Não há outra opção. Meus
irmãos contam comigo para fazer minha parte para garantir nosso futuro, e não pretendo
decepcioná-los.
Abandono meu lugar na ponte levadiça de madeira. Minha respiração fica mais fácil
conforme adiciono alguma distância entre o castelo e eu.
Pense em como a vida será muito melhor quando você der o fora desta cidade.
Esse é o pensamento que me mantém são em um mundo construído em nada além de
memórias assombradas e sonhos desfeitos.
***
Minha paciência está diminuindo a cada obstáculo que eu bato. Depois de reuniões
consecutivas sem sentido com a equipe da Dreamland, estou desesperado por notícias
sobre onde o parque está apresentando baixo desempenho. Não aprendi nada digno de
nota desde que cheguei, quarenta e oito horas atrás.
No papel, Dreamland está atingindo novas metas a cada trimestre financeiro. A
demanda por mais é o único tema comum que ouvi dos funcionários. Mais passeios. Mais
terras. Mais hotéis. Mais espaço.
Só há uma equipe que pode me ajudar nesse tipo de expansão em grande escala. Os
Criadores da Dreamland são mundialmente conhecidos no setor de parques temáticos. Se
houver uma atração, um local, um souvenir ou experiência do consumidor na
Dreamland, os Criadores ajudaram a projetá-la. Então, eles são as pessoas com quem
pretendo trabalhar lado a lado nos próximos seis meses. Minha abordagem de
microgerenciamento será uma mudança significativa em relação à atitude descontraída
com a qual estavam acostumados do Diretor anterior, mas, francamente, não me
importo. Isso me ajudou a transformar uma empresa iniciante de streaming em um
império de bilhões de dólares e vai me ajudar aqui.
Entro em meu escritório e fecho a porta atrás de mim. Os dois Criadores principais
pularam em seus assentos antes de recuperar a compostura. Sam, o homem que tem o
bom senso de misturar uma camisa xadrez e uma gravata de bolinhas, mal consegue me
olhar nos olhos. O topo de seu cabelo castanho cacheado é a única imagem que consigo
enquanto ele rabisca em seu caderno. Jenny, a morena co-gerente, se senta mais reta do
que uma agulha ao lado dele, como se uma torção em sua postura fosse me irritar.
Sento-me. — Vamos começar.
Eles acenam em uníssono.
— Espera-se que eu faça um novo plano para o parque que identifique nossos pontos
fracos. Juntos, avaliaremos o desempenho das atrações da Dreamland e determinaremos
como podemos atender melhor aos nossos hóspedes. Isso inclui a renovação dos passeios
atuais, a criação de novos terrenos, a atualização de esquetes e desfiles de carros
alegóricos que aumentarão o ROI3 da Dreamland em cinco por cento, no mínimo.
Os olhos de Sam de alguma forma dobram de tamanho, enquanto o rosto de Jenny
permanece impassível.
— Com base em minha análise preliminar, nossos concorrentes têm se tornado mais
ferozes ao longo dos anos. E embora Dreamland tenha um desempenho acima da média
a cada trimestre, estou tentando obliterar nossa competição e roubar suas margens de
lucro.
A garganta de Sam balança enquanto Jenny rabisca em seu caderno. Agradeço seu
silêncio, dado meu tempo limitado entre as reuniões com cada departamento.
— Projetos como esse levam anos para ir de plantas a atrações reais. Dito isso, espero
que suas duas equipes desenvolvam os planos iniciais que irei apresentar diante de um
conselho em seis meses.

3 Sigla para Return on Investment: Retorno Sobre o Investimento é uma métrica usada para saber quanto a empresa ganhou

com investimentos, principalmente na área de Marketing. Para calcular o ROI, é preciso levantar a receita total, subtrair dela os
custos e dividir esse resultado também pelos custos.
Foi ideia de Declan manter minha verdadeira razão de estar aqui em segredo. Ele acha
que, se eu revelar minhas intenções menos que altruístas para um projeto dessa
magnitude, as pessoas podem me sabotar pelo preço certo. Portanto, ninguém ficará
sabendo sobre minha posição temporária aqui pelos próximos seis meses. Aos olhos
deles, serei o Diretor com que sempre sonharam. Na verdade, mal posso esperar para sair
desse buraco do inferno e voltar para Chicago para substituir Declan como CFO4.
— Seis meses? — Jenny resmunga. Suas bochechas perdem toda a cor.
— Presumo que isso não seja um problema.
Ela balança a cabeça, mas a mão que segura a caneta treme.
— Estou procurando empacotar toda essa ideia como uma celebração do
cinquentenário e gerar um burburinho que toque o coração das pessoas. O projeto deve
atrair as novas e velhas gerações que cresceram com personagens da Dreamland. Quero
que ele imite tudo o que meu avô amava neste parque, ao mesmo tempo que nos leva em
direção a um futuro mais brilhante - e mais moderno.
Sam e Jenny não são nada além de duas cabeças balançando, agarrando-se a cada
palavra enquanto rabiscam em seus blocos de notas.
— Então, tudo o que precisa ser feito, faça. O tempo não é nosso amigo.
— Qual é o nosso orçamento? — Os olhos de Sam brilham.
— Mantenha-o razoável - cerca de dez bilhões para todo o parque. Se precisar de mais,
meus contadores revisarão os números.
Sam quase engasga com a língua.
— Espero resultados. Se não, então é melhor vocês se candidatarem para a feira
ambulante.
Jenny me encara enquanto os olhos de Sam caem para o tapete.
— Senhor, posso falar livremente? — Jenny bate a caneta contra o bloco de notas da
maneira mais irritante.
Verifico meu relógio. — Se você achar que é absolutamente necessário.
— Com base em seu cronograma rápido, gostaria de saber se poderíamos abrir as
inscrições anuais de funcionários no início deste ano. Dessa forma, os Criadores podem
trabalhar com novas ideias, em vez de começar do zero.
Eu pisco para ela. As inscrições anuais não passam de uma dor de cabeça para elevar
a moral dos funcionários. Temos muitos Criadores que já trabalharam na Dreamland por
décadas. Eles não precisam da contribuição inútil de funcionários mal pagos que não
sabem nada sobre como projetar um parque.
Mas e se alguém enviar algo que os criadores atuais não tenham considerado?
Analiso os prós e os contras antes de determinar que não tenho muito a perder. —
Abra as inscrições por apenas duas semanas. Quero que você analise pessoalmente as
candidaturas e entregue apenas as melhores para minha mesa.

4 Sigla para ‘chief financial officer’: diretor financeiro.


Jenny acena com a cabeça. — Claro. Tenho certeza de que temos uma boa ideia sobre
o que você está procurando.
Duvido, mas não me incomodo em perder palavras para corrigi-la. — Ao trabalho.
Jenny e Sam saem com pressa, deixando-me para trás para responder aos e-mails e
me preparar para a próxima reunião do meu dia.
***
— Filho.
Eu imediatamente me arrependo de ter atendido a ligação pessoal incomum de meu
pai. Uma curiosidade estúpida levou a melhor sobre mim porque ele tem estado muito
quieto sobre todo o assunto Dreamland. Algo em seu silêncio me faz pensar o que ele está
planejando nos bastidores.
Acomodo-me em um sofá de couro em frente à minha mesa. — Pai. — Nossos títulos
nada mais são do que uma fachada desenvolvida ao longo dos anos para aparições
públicas.
— Como está tudo em Dreamland? Suponho que você participará de nossa reunião
de diretoria na segunda-feira, independentemente de seus planos. — Seu tom permanece
leve e indicativo da fachada calma que ele aperfeiçoou ao longo de décadas.
Meus molares rangem juntos. — Por quê você se importa?
— Porque estou intrigado com o seu repentino interesse em se tornar o Diretor após
a morte de seu avô.
Ele pensa tão pouco da minha inteligência?
Claro que sim. Ele não fez nada além de zombar de você por toda a sua existência.
— Existe um propósito para este telefonema? — Pergunto com uma falsa indiferença.
— Fiquei curioso sobre o seu progresso depois de revisar o pedido de financiamento
que você fez. Dez bilhões de dólares não é uma questão de brincadeira.
Cada músculo fica rígido em meu corpo. — Eu não preciso do seu conselho.
— Bom. Eu não estava oferecendo.
— Deus me livre de ter agido como um pai pela primeira vez em sua vida patética.
— Escolha de palavras interessante do meu filho mais fraco.
Meu punho aperta em torno do meu celular. Foi estupidez minha atender ao
telefonema do meu pai por causa de uma curiosidade nascente. Eu deveria ter esperado
que nada mudasse, mesmo depois da morte do meu avô. A única coisa em que meu pai
está interessado é em me lembrar de como ele pensa que sou inepto.
Ele está tentando ferrar com sua cabeça. Isso é tudo.
— Eu tenho que ir. Tenho uma reunião para a qual não posso me atrasar. — Desligo
o telefone.
Respiro fundo para baixar minha pressão arterial. Não sou mais aquele garoto sem
esperança que anseia por um relacionamento real com meu pai. Por causa dele,
transformei minha mente em uma arma ao invés de uma fraqueza. Não importa o quanto
ele tente me cutucar, sempre sairei por cima, porque a criança que ele conheceu não existe
mais. Eu me certifiquei disso.
5
ZAHRA

Claire se joga em nosso sofá e joga seu laptop no meu colo. — Esta é a sua chance!
— O que é?
Ela pausa a TV, interrompendo minha maratona The Duke Who Seduced Me5.
Eu li o e-mail antes de colocar seu laptop na mesa de centro. — De jeito nenhum. Não
vai acontecer.
— Me ouça...
— Não.
— Sim! Você vai ouvir meu argumento sem me interromper. Você me deve isso como
sua melhor amiga e chef pessoal. — Ela balança o dedo da mesma forma que minha mãe
faz.
— Meu estômago pode te amar, mas minhas coxas certamente não.
Ela apenas me encara.
Cruzo meus braços. — Tudo bem. Vou te dar uma chance.
Ela reajusta seu pequeno coque. — Ok, então eu entendo porque você está
hesitante. Eu também estaria se alguém me traísse como Lance fez.
— Nós realmente precisamos citar Lance? — Uma sensação de frio se infiltra em meu
peito, gelando minhas veias. Uma traição como essa é difícil de reviver.
O sorriso de Claire vacila. — A única razão pela qual estou mencionando-o é porque
esta é a etapa final no processo de deixá-lo ir. — Ela acena para seu laptop como se fosse
resolver os problemas do mundo.
— Eu já segui em frente.
— Eu sei que sim, mas ainda há uma pequena parte de você que tem medo de
perseguir os sonhos que ele roubou de suas mãos. — Ele roubou muito mais do que meus
sonhos.
Meus olhos ardem. — Não sonho mais em inventar.
— A besteira que ele disse sobre suas habilidades foi apenas uma distração para
impedir que você apresentasse a mesma ideia que ele. Você sabe disso, certo?
— Mas...

5 O Duque que me Seduziu, série fictícia criada pela autora Lauren Asher para o livro.
— Mas nada. Lance mentiu porque queria segurá-la por tempo suficiente para roubar
sua ideia.
Faz sentido em teoria, mas ainda não tenho certeza.
Claire agarra minha mão e a segura. — Esta é a sua chance de provar a si mesma que
nada que alguém diga define quem você é. Apenas suas ações fazem.
Meu peito aperta. — Não tenho certeza…
Ela aperta minha mão. — Vamos. Basta enviar um pequeno projeto. Isso é tudo. O que
de pior pode acontecer?
— Bem, por onde devo começar? Quero dizer...
Claire cobre minha boca com a palma da mão. — Foi uma pergunta retórica!
Levanto uma sobrancelha. — Por que você está me pressionando tanto para me
inscrever?
— Porque é para isso que servem as amigas. Nós precisamos nos empurrar para fora
de nossa zona de conforto. Porque se você não tem medo...
— Então você não está crescendo. — Sorrio de volta para ela.
— Então, o que você diz?
Pego meu telefone do bolso e abro um e-mail que recebi na semana passada. —
Falando em zonas de conforto... Eu queria falar disso com você, e agora parece o
momento perfeito. Porque se você não está com medo... — provoco.
— Ah, não.
Meu sorriso se alarga. — Se vou enviar uma proposta, você vai se inscrever para a
posição de aprendiz no The Royal Chateau. Eles têm uma abertura na cozinha que tem
seu nome escrito.
O sorriso de Claire diminui. — Não era para ser sobre mim.
— Somos uma dupla. Se estou me empurrando ao meu limite, então você vem
comigo.
Esta é minha chance de ajudar Claire. Ela nunca quis ficar permanentemente no The
Magic Wand Salon, mas nunca teve coragem de se candidatar ao cargo do qual foi
inicialmente rejeitada.
— Eu não posso me inscrever lá. Eles têm uma estrela Michelin!
— Mais uma razão para se candidatar aos melhores.
— Mas eu não tenho um diploma de culinária em alguma escola francesa chique! —
Ela pula de seu lugar no sofá.
— Não, mas você tem um diploma e muita experiência trabalhando em restaurantes
durante o ensino médio e a faculdade.
Ela joga os braços no ar. — Na semana passada queimei uma fornada de biscoitos.
— Só porque me esqueci de acertar o cronômetro. — Rio.
— Todo o prédio teve que evacuar por causa do alarme de incêndio. Não há como
alguém confiar em mim em uma cozinha depois disso.
Eu rio. — Não seja tão dramática.
Ela se joga no sofá e deita a cabeça no meu colo. — Você não deveria me chantagear.
— Para que servem as amigas?
— Oh, eu não sei, tudo menos crimes?
Eu sorrio. — Vamos. O que você disse?
— Eu digo que você é irritantemente alegre para alguém que foi contra essa ideia
apenas cinco minutos atrás.
— Estou aproveitando uma oportunidade.
— Só para você saber, só estou concordando porque estou bem em ser rejeitada se isso
significar vê-la perseguir seus sonhos novamente.
Meu sorriso vacila. — Coisa certa. Assim como eu só concordarei com seu plano
porque prefiro que você tente novamente. Do contrário, você vai acabar como a Sra.
Jeffries, trabalhando no salão até se aposentar, aos noventa.
Seus lábios se apertam. — Agora você está apenas sendo intencionalmente cruel.
Juntas, rimos muito antes de selarmos nosso acordo.
***
Vasculhar as páginas desgastadas do meu caderno de ideias me atinge com
lembranças agridoces. Rastreio a caligrafia cursiva de Brady cobrindo as páginas onde
fizemos um brainstorming6 de como a Nebula Land seria caso se tornasse um novo
território dentro do parque.
Ele e eu passamos semanas nisso depois que ele rejeitou minha apresentação inicial e
me disse que eu poderia fazer melhor. A pegada? Ele seria o único a me guiar. Juntos,
formulamos uma proposta enquanto desenvolvíamos uma breve orientação.
Nebula Land era para ser o projeto que me transformaria em um Criador. Mas depois
do acidente de Brady, parecia errado submetê-lo, então eu me detive. Fiquei surpresa ao
ler sobre minha ideia no boletim informativo da empresa depois de saber que Lance
roubou as partes principais que compartilhei com ele em particular.
O que Brady pensaria de Lance manipulando nossa ideia? O passeio não se parece em nada
com o nosso plano original. Os meus pulmões ardem com a respiração pesada que deixo
sair, e os meus olhos ficam marejados quando corro o dedo em um esboço que Brady fez.
Criticar a ideia de Lance não vai levá-la mais perto de enviar a sua.
Ligo meu laptop, entro na minha conta de funcionário e abro o portal anual de
inscrições da Dreamland. O cursor piscando na caixa de texto vazia zomba de mim, mas
me recuso a desistir. Claire acredita em mim, e talvez seja realmente hora de eu parar de
deixar Lance atrapalhar minha crença em mim mesma.
***
Esta foi uma ideia muito ruim. Depois do meu primeiro rascunho fracassado, decidi que
vinho e um coração partido eram uma boa combinação para minha segunda tentativa.

6 A técnica de brainstorming propõe que um grupo de pessoas se reúna e utilizem seus pensamentos e ideias para que possam
chegar a um denominador comum, a fim de gerar ideias inovadoras que levem um determinado projeto adiante .
Atualização: não foi.
Ainda não estou nem perto de ter uma finalização pronta. Tudo o que escrevo parece
muito desanimador e carece da minha paixão habitual. Tomo outro gole de vinho direto
da garrafa de uma forma que horrorizaria minha mãe.
E se trabalhar seus sentimentos negativos sobre o passeio da Nebula Land ajudasse a abrir sua
mente para ideias mais criativas?
Sim! Talvez seja isso que estou deixando passar. Excluo tudo da caixa de texto e
reinicio. No topo, escrevo A real Nebula Land que deixaria Brady Kane orgulhoso. Meus dedos
voam pelas teclas enquanto deixo escapar cada pensamento que tenho em relação ao
projeto. Eu cansei de ficar em silêncio e fingir que o passeio não me incomoda.
Quando estava com Lance, esse era o tipo de pessoa que me senti confortável sendo. O
tipo silencioso e recatado que não queria causar nenhum problema porque eu priorizava
sua felicidade. No final das contas, foi tudo por nada. Desisti da pessoa que eu era por
um homem que não conseguia lidar com a mulher que eu deveria ser.
Todos os meus dedos têm cãibras de digitação. É uma sensação fortalecedora destruir
algo que me quebrou primeiro. Quando termino, minha visão está um pouco embaçada
e minha coordenação poderia estar melhor.
Já que beber e digitar não tem lugar na minha vida, decido clicar no botão salvar
rascunho na parte inferior e fechar meu laptop durante a noite.
***
— Ah, não! — Oh, não, não, não. — Porra! Porra! Droga!
Claire corre para o meu quarto. — O que é?
Fico olhando para o portal do aplicativo.
Isso não pode ser real. Aperto meu braço com tanta força que estremeço. As letras verdes
brilhantes zombam de mim de uma forma que faz meu estômago ameaçar se revoltar.
Sua inscrição foi submetida.
Claire olha por cima do meu ombro para a tela. — Você enviou sem me pedir para
verificar se há erros de digitação? Quem é você e o que fez com a verdadeira Zahra?
— Foi um acidente! — Caio na minha cama, cubro meu rosto com um travesseiro e
grito.
Claire esfrega meu braço trêmulo. — E se você enviar um e-mail para o Sr. Kane e os
Criadores explicando o erro? Tenho certeza que eles entenderiam.
Puxo o travesseiro do meu rosto. — Você está brincando comigo?! O que eu devo
falar? 'Desculpe, eu fiquei um pouco bêbada e enviei uma inscrição destruindo seu
passeio mais caro'?
Ela tira meu cabelo do rosto. — Talvez não seja tão ruim quanto você pensa.
— Eu chamei o passeio de Lance de uma grande pilha de metal de merda que faria
Brady Kane rolar em seu túmulo.
Ela estremece. — Oh, ok. Tudo bem. Sim. Você sempre teve talento com as
palavras. Pelo menos você está fazendo um bom uso desse diploma de inglês.
Gemo. — Não acredito que apertei o botão errado. Eu nunca deveria ter bebido e
trabalhado. O que eu estava pensando?
A cama afunda sob seu peso quando ela se senta ao meu lado. Seus braços me
envolvem no melhor abraço. — Bem, este foi o primeiro grande passo para deixar o
passado para trás. Talvez isso precisasse acontecer assim.
— Ontem você disse que o destino era uma maneira tola de evitar planos.
Seu peito treme com uma risada silenciosa. — Só porque você adora elogiar demais
sua tara pelo destino para que todos possam ouvir. E daí, você só acredita no destino
quando as coisas acontecem do seu jeito? Isso soa como uma lógica idiota para mim.
Franzo meus lábios. — Sim, mas e se eu for despedida? Já cometi alguns erros.
Primeiro, chamei Rowan de idiota e zombei de seu conselho administrativo, e agora
isso? Terei sorte se puder recolher o lixo no final de tudo isso.
Claire dá um tapinha na minha mão. — É tarde demais agora. Você está
profundamente envolvida. — Ela aponta para a fonte verde na tela.
Suspiro. — Vamos esperar pelo melhor?
O que está feito está feito. Não posso mudar a proposta que enviei e havia algo
catártico em expressar todos os meus sentimentos.
Talvez seja realmente destino.
6
ZAHRA

A última semana foi um inferno. Precisei de toda a minha força de vontade para
passar pelos meus turnos no salão porque estou cansada de me preocupar. Estive
esperando o outro sapato cair porque é apenas uma questão de tempo antes que os
Criadores me convoquem sobre minha proposta.
Meu pior pesadelo veio no momento mais inesperado, quando recebi uma
convocação infeliz de Rowan Kane. Seu e-mail de linha única não revelou muito.
Sua presença é requisitada em meu escritório amanhã às 8h em ponto. RGK
Não tenho certeza do que é mais chocante. O fato de ele ter me enviado um e-mail
exigindo minha presença em uma manhã de sábado ou a maneira como ele assinou um e-
mail tão casualmente com três iniciais.
Ligo para Regina para explicar as circunstâncias de porque vou chegar atrasada para
o trabalho. Ela me disse, antes de desligar, que já sabia da minha reunião.
Droga. Estou totalmente encrencada.
Corro com minha rotina matinal e ando de skate pelas Catacumbas para chegar à
reunião a tempo.
Meus tênis rangem quando corro para o saguão do escritório particular de
Rowan. Está escondido atrás de janelas espelhadas que dão para a Story Street e o Castelo
da Princesa Cara.
A porta do escritório de Rowan permanece fechada. Sua secretária, Martha, aponta
para uma cadeira vazia ao lado de sua mesa. Eu a reconheço de minhas visitas com Brady.
Meu vestido com estampa de morango balança ao meu redor quando me jogo no
assento. Decidi usar um look que diz inocente até que se prove o contrário.
Martha me oferece um copinho d'água. — Devo agradecer a você por seu bom humor
esta manhã?
Suspiro em choque simulado. — Não me diga que você está se referindo ao Sr.
Kane. Ele não reconheceria um bom humor se estivesse tomando uma overdose de
Valium. — Tomo um gole de água para refrescar minha garganta seca.
Seus olhos brilham. — Você é um problema.
— E está atrasada. — Rowan grita.
Viro-me em meu assento, fazendo a água em meu copo espirrar. Estou prestes a
corrigi-lo sobre o fato de que é ele quem está atrasado, mas de alguma forma esqueço toda
a língua inglesa quando olho para ele.
Rowan em um terno é meu tipo de criptonita corporativa. Hoje, o tecido azul royal
personalizado abraça seu corpo como se alguém tivesse costurado o tecido nele. Seu
cabelo castanho escuro está penteado sem um único fio de cabelo fora da linha e sua barba
por fazer é inexistente durante esta hora da manhã. O material azul destaca as depressões
e curvas de cada músculo, como ondas de água nas quais quero me afogar.
Solto o menor suspiro que fez sua secretária sorrir para a tela do computador.
Toda a atração é sugada para fora de mim, uma vez que seu olhar endurecido colide
com o meu. As sombras em seus olhos apagam a pequena chama em meu peito.
Pego meu telefone do bolso do vestido. — Eu cheguei na hora certa. Não é? — Olho
para Martha em busca de aprovação.
Ela permanece em silêncio enquanto concentra toda sua atenção em limpar sua caixa
de entrada de lixo eletrônico. A traição.
— Me siga. — Rowan se afasta da porta para me dar espaço para entrar.
Levanto-me da cadeira e pego minha mochila do chão. Seu olhar permanece em
minhas mangas de tule bufantes antes de olhar o resto do meu vestido como se quisesse
queimar o tecido. Sua carranca só se aprofunda quando seus olhos pousam nos meus
tênis vermelho cereja.
Eu bato nos calcanhares duas vezes com um sorriso.
Seus olhos se voltam para os meus. Minhas bochechas esquentam com a expressão
em seu rosto.
Isso é desejo em seu olhar ou aversão intensa?
Vamos ter esperança pelo primeiro enquanto esperamos o último.
O que quer que permaneça em seus olhos desaparece quando ele pisca e remove
qualquer traço de emoção. Ele se vira bufando, dando-me uma visão privilegiada de sua
bunda firme. Eu paro e olho porque sou um humano de sangue quente, afinal.
Nenhum homem no poder deve possuir um corpo como aquele. Deve ser considerado
um crime corporativo ter uma aparência tão boa enquanto se usa um terno.
Balanço minha cabeça e o sigo em seu domínio. O escritório de Rowan é um contraste
completo de sua personalidade. O espaço vintage reflete o charme romântico da
Dreamland com sancas e paredes em amarelo claro. Isso me lembra de algo que eu
encontraria em um de meus romances regenciais7, com lambris brancos e móveis de
madeira elaborados esculpidos com um toque de artista.

7 Romances de Regência é um subgênero de romances românticos ambientados durante o período da Regência Britânica
(1811-1820) ou início do século XIX.
Rowan franze a testa, projetando-se como uma nuvem de tempestade em um dia claro
de verão. Ele fica ao lado de sua mesa e pressiona os punhos cerrados contra o topo. —
Sente-se. — Ele se senta em sua poltrona de couro.
O domínio que emana dele torna difícil respirar fundo. Acomodo-me na cadeira em
frente a sua mesa, cruzando e descruzando minhas pernas enquanto ele pega papéis de
uma gaveta de arquivo.
— Você precisa usar o banheiro? — Seu rosto permanece em branco.
— O que?
— Banheiro? — Ele grunhe, apontando para uma porta no canto do escritório. — Você
continua se movendo.
— Ah, não! — Minhas bochechas esquentam. — Só estou tentando ficar confortável.
— Não se deixe definir por um fracasso como esse.
Uma risada me escapa antes que eu tenha a chance de detê-la. O lado de sua boca
levanta um quarto de centímetro inteiro antes de cair novamente.
Honestamente, o que é preciso para alguém como ele sorrir? Roubar doces de
bebês? Sacrifícios de sangue? Assistir a transmissões ao vivo de famílias que tiveram suas
casas hipotecadas? Eu preciso saber.
Ele desliza o arquivo para mim. — Aqui está o seu novo contrato. É muito semelhante
ao anterior com o The Magic Wand Salon.
Minha boca se abre. — Eu sinto muito. Um contrato?!
Quando as pessoas são demitidas da Dreamland, elas recebem um contrato para
nunca mais voltarem? Como exatamente tudo isso funciona?
Ele suspira como se eu estivesse incomodando ele. — Você se juntará à equipe de
Criadores imediatamente.
A sala gira em torno de mim. Coloco a mão contra sua mesa para estabilidade. — Eu
vou o que?! Juntar-me a equipe de Criadores?
Ele pisca para mim. — Esse hábito irritante de repetir tudo para mim é uma perda de
tempo e oxigênio.
— Desculpe? — Recuo. — Em primeiro lugar, tenho todo o direito de estar
confusa. Achei que você fosse me despedir!
Desta vez, seu rosto muda de um olhar neutro para algo que se traduz em você é a
pessoa mais idiota que já tive o desagrado de estar por perto. — Você está conseguindo uma
promoção no emprego.
Como eu fui de destruir todo o passeio de Nebula Land para conseguir uma oferta de
trabalho com os funcionários mais elitistas de toda Dreamland? Isso deve ser uma espécie
de retribuição por desperdiçar o tempo de todos com a minha apresentação.
— Como?
A veia em sua testa aparece. — Você sempre sente necessidade de fazer tantas
perguntas?
— Você sempre sente a necessidade de ser evasivo e sucinto em tudo o que faz?
Ele prova meu ponto permanecendo em silêncio. Estou tentada a bater em sua cabeça
como uma máquina de vendas quebrada até obter algumas respostas.
Ele bate no topo do arquivo. — Sua inscrição falando sobre Nebula Land foi bastante
ousada. Poucas pessoas ousam criticar um investimento de bilhões de dólares.
— Eu enviei enquanto estava bêbada! — Deixo escapar.
Ele pisca para mim. O único barulho que ouço é o sangue latejando em meus ouvidos.
Oh, Deus. Por que eu admiti isso?! Esfrego a palma da mão suada no rosto.
Seus lábios se curvam. A expressão em seu rosto me dá vontade de me enrolar em
posição fetal. — Isso será um hábito enquanto você estiver a serviço?
Balanço minha cabeça tão rápido que sou atingida por uma onda de tontura. — Ah,
não! Eu raramente bebo. Foi uma ideia estúpida para me ajudar a relaxar...
Ele levanta a mão. — Salve-me do monólogo. Eu não me importo.
Agora é minha vez de piscar. Rowan pode ser um homem de poucas palavras, mas
elas servem ao propósito de me fazer sentir como uma idiota, sem realmente me chamar
de idiota. Deve ser seu superpoder.
Sorrio para aliviar a tensão entre nós. — Mas acho que você gostou da minha ideia,
senão não estaria me oferecendo um emprego.
— Meus sentimentos gerais sobre o assunto são irrelevantes. Eu tomo decisões com
base em fatos e anos de experiência aprimorada.
O ar escapa dos meus pulmões como um balão murcho. Sério, este homem não foi
segurado o suficiente quando era um bebê? Não há outra explicação para sua frieza.
Isso não é justo. Você já ouviu as histórias sobre a mãe dele...
Engasgo com a sensação estranha de aperto em meu pescoço. — Você quer que eu
trabalhe como Criador permanentemente?
— Nada aqui é permanente. Seu trabalho depende do seu desempenho, então, desde
que atenda aos meus padrões, você pode se considerar empregada.
Oh meu Deus. Isso definitivamente não fazia parte do plano de Claire. A dúvida se
instala, apagando minha felicidade. Eu deveria enviar uma proposta e ganhar um pouco
de coragem, não ser contratada como um Criador em tempo integral. Posso ser criativa,
mas não sou assim tão criativa.
Os Criadores da Dreamland são lendários. Eles fizeram história com suas invenções e
até foram convidados para a Casa Branca alguns anos atrás. Não ganhei o direito de fazer
parte da equipe. Além disso, não me encaixo na fórmula típica de Criador. São pessoas
que se formaram em universidades caras e participaram de estágios especializados em
todo o mundo - uma mistura de arquitetos, artistas, engenheiros, escritores e muito
mais. Sou uma mulher com diploma de faculdade comunitária que trabalha em um salão
infantil. Não poderia trabalhar em uma equipe com os melhores talentos do mundo.
Não há como eu fazer isso. — Eu sinto muito. Não posso aceitar sua oferta.
Seus olhos se estreitam. — Eu não fiz uma pergunta sim ou não.
Meu queixo cai.
Ele desliza o contrato para o meu lado da mesa. — Você pode demorar e revisar a
papelada, mas não vai sair deste escritório sem assinar o contrato.
Fico olhando para minhas mãos, me perguntando se elas caberiam em torno do tronco
da árvore de Rowan que ele chama de pescoço. — Este é o século XXI. Você pode ser meu
chefe, mas não vou deixar você me dizer o que fazer.
— Isso em si é uma contradição.
Aperto o tecido do meu vestido para evitar fazer algo estúpido como socar seu rosto
bonito. — Você é sempre assim tanto frio?
Rowan me encara em silêncio. Ele esfrega sua mandíbula afiada de uma forma que
envia meu estômago em uma onda de borboletas. Chama minha atenção para seus lábios
carnudos.
Olá! Terra para Zahra!
Olho para o contrato. Rowan tem todo o direito de me despedir depois de minha
zombaria de uma proposta. Mas, em vez disso, ele me ofereceu o emprego mais cobiçado
de toda a Dreamland. Eu seria estúpida em recusar.
Não que você tenha uma opção de qualquer maneira.
Tiro o contrato da mesa em derrota.
Ele tira uma caneta do suporte de vidro. — Assine na linha pontilhada.
Pego a caneta. Nossos dedos se roçam e o calor sobe pelo meu braço como chamas
lambendo minha pele. Afasto-me e deixo cair a caneta.
Rowan olha para sua mão como se ela o ofendesse. Excelente. Fico feliz em saber que
extraí esse tipo de expressão facial dele.
Não deveria importar de qualquer maneira. Ele é seu chefe.
Pego a caneta da mesa e concentro minha atenção no contrato. Meu coração bate
contra minha caixa torácica enquanto releio os números em negrito no topo até que eles
se misturem.
Viro a página em sua direção e aponto para o salário. — Isso é um erro de digitação?
— Eu pareço um homem que comete erros de digitação?
— Mas há um aumento de dez mil dólares.
— Pelo menos sua visão não é tão prejudicada quanto seu julgamento.
Eu deveria estar com raiva de seu insulto, mas tudo que posso fazer é rir. O tipo de
coisa que ele diz com uma cara séria me impressiona profundamente, e não posso deixar
de me sentir estranhamente atraída por sua natureza rude. Culpo minha exposição
a Orgulho e Preconceito8 em uma idade jovem e impressionável.
Ele me encara com os olhos arregalados. Sua expressão me faz entrar em outro ataque
de riso. Há algo sobre romper o exterior gelado de Rowan que acho divertido. Não tenho
certeza do que diabos há de errado comigo, mas acho seus comentários práticos mais

8 Orgulho e Preconceito é um romance da escritora britânica Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1813.
engraçados do que desagradáveis. Eles são estranhos e afetados como se ele não se
sentisse confortável fazendo nada além de latir ordens.
Sim. Há definitivamente algo de errado comigo.
7
ROWAN

Aproveito para observar Zahra enquanto ela se distrai lendo o contrato. Essa sensação
estranha no meu peito não parou desde que ela entrou no meu espaço, e a maneira como
ela olha para mim me faz sentir alerta.
Seus pés balançam alguns centímetros acima do tapete, com as pontas dos sapatos
roçando irritantemente o chão. Do tecido de morango ofensivamente alegre de seu
vestido ao jeito que ela ri, estou um pouco desarmado com sua presença.
Odeio isso. Não há nada que eu queira mais do que que ela saia da minha visão e
campo olfativo.
Puxo a gravata enrolada em volta do meu colarinho para aliviar um pouco da tensão
no meu pescoço. Meus olhos caem para o broche idiota localizado acima da curva de seu
seio.
Floresça mesmo quando o sol não brilhar.
Ela é um ponto brilhante desconfortável em meu escritório, e estou tentado a enxotá-
la porta afora.
Ela franze a testa ao virar a página. O gesto chama minha atenção para a coloração
vermelha em seus lábios. Ele se destaca contra sua pele marrom-dourada, e eu me
encontro estranhamente focado na maneira como sua língua se lança para traçar o arco
de cupido9. Calor escorre pela minha espinha enquanto imagino aqueles lábios fazendo
outra coisa.
Que porra é essa? Não. Solto um bufo, ignorando o calor se espalhando por todo o meu
corpo.
Seu nariz torce para tudo o que ela lê.
— Problema? — Aperto os dentes cerrados.
Ela nem mesmo recua. — Não.
— Você já revisou a mesma página duas vezes.
Ela inclina a cabeça e me olha de um jeito que faz o cabelo da minha nuca se
arrepiar. — Estou lisonjeada por você estar prestando tanta atenção em mim.

9 é a pequena área em formato de V localizada no centro do lábio superior.


Abstenho-me de soltar um gemido. Qualquer que seja o olhar que ela registre em meu
rosto, ela está sorrindo para si mesma.
Ela bate no papel com a caneta. — Contratos como esses exigem minha atenção total
e exclusiva. Não vou assinar nada antes de ter a chance de ler as letras miúdas.
— Você não é especial o suficiente para quaisquer letras miúdas.
Ela não parece nem um pouco ofendida com o meu comentário, o que só me irrita
mais. O que há com essa mulher, e por que ela não pode entrar na linha como todo
mundo? É como se ela cagasse, borrifasse e consumisse arco-íris para se sustentar. Não
tenho certeza em que tipo de floresta de conto de fadas ela foi criada, mas ninguém pode
ser tão otimista sobre tudo.
— Você não é nada como seu avô descreveu.
Os apoios de braço de madeira gemem sob meu aperto forte. — O que você disse? —
A única razão pela qual minha voz sai monótona e desinteressada é por causa de anos de
prática.
Ela encara meus punhos com nós dos dedos brancos. — Esqueça o que eu disse. Saiu.
Simplesmente não se pode esquecer algo assim. Estou preso entre pressioná-la por
respostas e parecer despreocupada com seu comentário. — Tudo o que meu avô disse a
um estranho de passagem é nada menos que uma conversa casual.
Ela ri para si mesma, mas não diz mais nada. Minha pele coça por mais informações,
mas ela permanece calada enquanto volta sua atenção para o contrato.
É isso? — Como você se encontrou em uma conversa com meu avô? — Deixo escapar.
Ela encolhe os ombros com a minha expressão de olhos arregalados. — Destino. E
eram conversas. Plural.
Excelente. Estou apostando toda a minha fortuna em alguém que acredita no
destino. — E o que aconteceu durante essas conversas?
— Isso é entre Brady e eu.
Brady? Esta é a segunda vez que a ouço chamá-lo assim.
Ela interrompe meus pensamentos com um sorriso conhecedor. — Ele tinha muito a
dizer sobre você.
O aperto no meu peito se intensifica. — Parte de mim não quer saber.
Seu sorriso se alarga. — Mas parte de você não consegue evitar a curiosidade.
Reviro meus olhos, o que só faz todo o seu rosto se iluminar como um maldito fogo
de artifício da Dreamland. Nunca vi alguém me olhar assim antes. É estranho. Como se
ela estivesse genuinamente interessada na minha companhia, em vez da ideia de arrancar
algo de mim.
Minha pele coça sob sua avaliação.
— Não se preocupe. Ele não falou muito sobre você, exceto que você era o sonhador
dos três netos. E ele estava muito animado para você assumir o cargo de Diretor um
dia. Disse que era sua vocação, então tenho certeza que ele ficaria feliz em vê-lo em seu
escritório, destruindo sua cadeira favorita. — Ela aponta para os apoios de braço que
seguro como um salva-vidas. Solto meu aperto e estalo meus dedos.
— Isso é tudo?
— Em geral. Desculpe desapontar. Estávamos muito ocupados trabalhando em
outras coisas, mas me lembro de como ele falava muito bem de seus netos.
A queimação em meu peito aumenta dez vezes. Respiro fundo algumas vezes para
aliviar a tensão em meus músculos.
Zahra rabisca sua assinatura na parte inferior da página e a devolve para mim. Eu
propositalmente passo meus dedos nos dela enquanto agarro o contrato. A mesma
sensação estranha anterior faísca entre nós, me fazendo parar. Zahra respira fundo e se
afasta, colocando a mão sob o comprimento do vestido.
Interessante. Parece que nossa conexão não foi de via única.
— Quando eu começo? — Ela se levanta da cadeira e passa a mão pelo comprimento
do vestido.
Arrasto meus olhos para longe da curva de sua cintura em direção ao seu rosto. —
Segunda-feira. Esteja aqui às 9h em ponto.
— Obrigada pela oportunidade. Mesmo. Eu posso ter ficado chocada antes quando
disse não, mas realmente aprecio isso. Não pretendo decepcionar você. — Um rubor de
cor surge na superfície de suas bochechas morenas.
Acho interessantes as reações dela às coisas mais simples. O que mais a faria
corar? Uma imagem de seus lábios pintados de vermelho em torno de algo incrivelmente
inapropriado passa pela minha mente.
Ela está na sua folha de pagamento. Controle-se, porra. Franzo a testa com a reação
incontrolável se espalhando pelo meu corpo como uma fileira de dominós caindo. Nunca
fui o tipo que se sente atraído por aqueles que trabalham comigo.
O que há de diferente nela e como posso impedir isso?
Solto uma respiração tensa. — Acompanho você até a porta. — Pego o contrato dela
e coloco na pilha de papéis para Martha cuidar.
Zahra pega sua mochila do chão. Ela se levanta e gira sobre os calcanhares, dando-me
uma visão de pelo menos cinquenta broches diferentes espalhados pelo bolso.
Qual é a história dos broches e por que ela os carrega aonde quer que vá?
Paro de respirar enquanto me concentro em um broche em particular. Chama a minha
atenção não porque é ousado, mas porque é muito diferente de todos os outros. Nenhuma
pessoa normal notaria aquele broche entre os incontáveis, mas estou muito familiarizado
com o símbolo e o que ele representa.
Talvez haja mais na Pequena Senhorita Bubbly10 do que aparenta, e algo me diz que
tem a ver com o discreto broche de ponto-e-vírgula preto.
***

10 Miss Bubbly: Senhorita Animada/Borbulhante


— Como tá indo? — Declan se inclina para a câmera.
— Minha agenda está lotada com reuniões das nove às nove, mas finalmente acho que
tenho uma ideia do que preciso fazer. — Tudo graças a Zahra.
— Pelo menos eu tenho um irmão levando isso a sério. — Declan dá um golpe em Cal.
Sua mandíbula trava. — Estou esperando por um momento específico.
— Parece uma desculpa. — Encolho os ombros.
Ele esfrega a sobrancelha com o dedo médio.
Declan suspira. — Rowan, vamos nos concentrar em seu plano primeiro. Vou lidar
com Cal depois.
— Eu não preciso de você tentando me microgerenciar. Tenha um pouco de confiança
no meu processo e deixe-me seguir o meu caminho. Eu já provei o meu valor.
Declan esfrega a mão em sua barba por fazer. — Há muito mais apostas neste
projeto. Se algum de nós falhar...
Meus molares se chocam. — Então todos nós falhamos. Percebi nas primeiras cinco
vezes que você mencionou. Dê-me espaço para arranjar tudo isso. Você não me vê
perseguindo você, verificando se você encontrou ou não uma esposa que atenda aos seus
padrões irracionais.
— Não há normas nesse processo porque é uma obrigação contratual. Tudo que me
importa é encontrar alguém que seja prática, fértil e tenha um rosto considerado
proporcional o suficiente para ser considerado atraente.
Cal sorri. — Com esse tipo de charme, aposto que você estará caminhando pelo
corredor em pouco tempo.
Declan lança um olhar fulminante para a câmera.
— Serei seu padrinho? Antes de decidir, pense nisso. Rowan não saberia nada sobre
o planejamento de uma despedida de solteiro. Ele considera divertido fumar charutos em
sua casa.
— Isso é porque é divertido.
— Pense nisso. Estou falando de Vegas. Buffets. Clubes de strip. Cassinos. — Cal
marca cada um de seus dedos.
— Se você está tentando me convencer disso, você me perdeu em Vegas.
Eu rio. — Acontece que o lugar feliz de Declan são as quatro paredes de sua casa.
Cal esfrega o queixo mal barbeado. — OK. Vou me comprometer e trazer Vegas para
você.
— Nenhum de vocês será meu padrinho porque vou me casar em segredo.
Cal zomba. — Você e Rowan são tão chatos que não é de admirar que se deem tão
bem. Só você deixaria passar uma grande festa para casar em segredo.
Declan mostra o pequeno sorriso que ele guarda para nós. — Você parece com ciúme.
— Sr. Kane. O Sr. Johnson está esperando na linha um. Um aviso justo - ele está de
mau humor. — O microfone de Declan toca na voz de Iris.
— O velho Johnson ainda está dificultando a vida de Iris? — Cal se inclina para frente.
— Ele ameaçou você de novo? — Ele silencia o microfone. O que quer que Iris diga
faz a veia do pescoço de Declan pulsar.
Declan balança a cabeça e ativa o microfone após um minuto.
Cal franze a testa. — Um dia, você vai se arrepender de fazer Iris trabalhar nos fins de
semana. Os melhores anos da vida dela estão passando cuidando da sua bunda velha e
rabugenta.
A mandíbula de Declan aperta. — Semana que vem. Mesmo horário. — Ele encerra a
chamada da reunião, deixando-me sem nada para olhar além de uma tela preta.
Em vez de ir para casa e fazer o jantar para mim, abro o arquivo eletrônico dos
funcionários e foco no de Zahra. Algo na maneira como ela falou sobre meu avô me
incomodou desde que ela saiu do meu escritório. Eu seria estúpido em confiar em tudo o
que ela disse sobre o vovô.
Nada em minha pesquisa preliminar revela muito além do fato de que ela tem sido
uma trabalhadora de salão dedicada desde os dias de estágio na faculdade.
Frustrado com minha falta de descobertas, mergulho mais fundo em seu arquivo,
revendo tudo, desde sua primeira entrevista na Dreamland para suas transcrições da
faculdade. De alguma forma, me pego clicando em um documento de um antigo
funcionário de mais de três anos atrás e rolando até a parte inferior. Há um bilhete virtual,
assinado e datado por meu avô dois meses antes de seu acidente.
Agende uma reunião com a Sra. Gulian para discutir rejeições e melhorias.
Reviso a papelada novamente. Zahra apresentou uma proposta sobre Nebula Land? Isso é
estranho, dado o tipo de proposta que ela entregou e que destruiu o passeio.
Seleciono a proposta da Nebula Land que foi aceita pelos Criadores há dois anos e
comparo a de Zahra com esta versão. Alguém chamado Lance Baker apresentou a ideia
com mais alguns acréscimos em comparação com a proposta mais básica de Zahra. Como
os dois tiveram ideias semelhantes? Eles foram parceiros criativos que tiveram uma
disputa?
Minhas perguntas continuam crescendo sem nenhuma resposta real para apaziguar
minha curiosidade. Procuro no arquivo de Zahra por mais propostas, mas não
encontro. Ela não enviou nenhuma após a que meu avô revisou até este ano.
O que a fez parar em primeiro lugar? E quem diabos é Lance Baker?
8
ZAHRA

— Deixe-me ver se entendi. Você vai ser uma Criadora? Como você escondeu isso de
mim o dia todo? — O garfo de Claire cai contra seu prato.
Evitei contar a notícia porque queria compartilhá-la com toda a minha família durante
nosso jantar semanal de sábado. Meus pais são a razão de todos trabalharmos juntos na
Dreamland, então eu queria comemorar com eles também.
Ani pula da cadeira, fazendo seus cachos morenos voarem ao redor de sua cabeça. Ela
joga os braços em volta de mim. — Yay! Você fez isso!
Abraço minha irmã de volta, apreciando seu calor. Significa muito para mim mostrar
a ela que nada pode atrapalhar, independentemente de seu diagnóstico de síndrome de
Down. E de outras maneiras, ela me empurra para ser a melhor que posso todos os dias
com sua felicidade contagiante.
— Precisamos comemorar! — Os olhos castanhos da minha mãe brilham quando ela
corre para a cozinha.
A pele morena ao redor dos olhos de papai se enruga quando ele sorri. — Estou tão
orgulhoso de você! Eu sabia que, uma vez que a pessoa certa percebesse o quão talentosa
você é, ela não seria capaz de resistir.
Meu peito aperta. Papai sempre me apoiou, desde que eu era criança, e disse que
queria ser uma Criadora quando crescesse. Ele nunca parou de sonhar o suficiente por
nós dois, mesmo quando eu desisti de mim mesma.
Mamãe sai da cozinha com uma garrafa de champanhe e algumas taças de plástico.
— Você tem garrafas de champanhe por aí agora?
— Sua mãe estava planejando abri-la para o nosso aniversário na próxima semana,
mas as notícias de hoje pedem isso. — Papai bate palmas.
Mamãe coloca a mão no meu ombro e aperta. — Esqueça o nosso aniversário. Temos
muitos deles.
Vinte e oito, para ser exato. Eles têm sido sólidos desde que papai conquistou mamãe
com suas histórias sobre a Armênia e sua tenacidade em levá-la a um encontro, apesar de
suas rejeições semanais.
Mamãe envolve seus braços em volta de mim. — Nossa filha vai ser uma
Criadora! Você ouviu isso, Hayk?
— Difícil de perder, já que eu estava sentado aqui. — Papai pisca para ela.
Eu suspiro. Esses são meus pais. Eleitos os mais capazes de me deixar enjoada com seu
amor desde o dia em que nasci.
Mamãe se senta ao lado de papai. — Eu não posso acreditar que o Sr. Kane ofereceu-
lhe um emprego depois que você disse a ele como seu passeio era decepcionante. Essa é
nossa filha. — Ela lança a papai um olhar astuto.
Faço uma careta. — Bem, eu não disse a ele exatamente...
— Ela está mentindo. Ela disse a ele que representava tudo o que Brady Kane odiaria
se ainda estivesse vivo. — Claire vira seu copo de água na minha direção antes de tomar
um gole.
As sobrancelhas castanhas de Ani se erguem. — Você não fez isso.
— Eu posso ter exagerado um pouco, mas é verdade. O projeto que Lance apresentou
foi apenas uma fração da ideia que criei com Brady.
O sorriso de papai diminui. Ele estende a mão e aperta minha mão. — Bem, Lance
está fazendo papel de bobo. Agora você tem um novo emprego e tem a chance de
consertá-lo até que seja exatamente o que você sonhou.
— Não tenho certeza se é isso que Rowan quer.
Já estou indo para um trabalho totalmente despreparada e subqualificada. A última
coisa que quero fazer é criar caso com os Criadores, especialmente depois da minha
proposta acidental.
— Se ele contratou você, então tem uma boa ideia do que está fazendo, — diz papai.
Gostaria de me sentir tão confiante quanto ele em minhas habilidades. Desde que saí
do escritório de Rowan, os pensamentos preocupantes se multiplicaram até se tornarem
opressores.
E se eu só tive apenas uma boa ideia que Brady Kane ajudou a levar de mediana a incrível? E
se eu fosse uma pessoa de um sucesso só que vai falhar na frente das mesmas pessoas que admirei
em toda a minha vida?
Odeio estar caindo nessas velhas armadilhas de pensamento. Estou deixando Lance
vencer cada vez que dou espaço para suas críticas na minha cabeça, e isso só me irrita
mais.
Se você não acreditar em si mesma, ninguém acreditará.
Minha família me tira dos meus pensamentos. Estalo a garrafa de champanhe e a
levanto em direção ao teto.
Saúde, Brady.
***
Cheguei dez minutos mais cedo hoje para impressionar Rowan com minha
pontualidade recém-descoberta, mas meus esforços foram em vão. A porta dele continua
fechada, então eu falo com Martha. Não demoramos muito para nos tornarmos amigas
que se relacionam através do nosso autor de romance favorito e nosso desejo eterno de
Chick-fil-A11 aos domingos.
Conversar com ela ajuda a passar o tempo.
Até mesmo Martha tem que trabalhar, então mexo com o tecido do meu vestido de
bolinhas e mexo no meu telefone.
A porta do escritório de Rowan se abre com um estrondo. Pulo na minha cadeira e
pressiono a mão no meu coração acelerado. Qualquer café que Rowan beba de manhã
claramente não está funcionando para ele. Ele sai de seu escritório sem dar uma segunda
olhada em mim e em sua secretária.
Ela praticamente me empurra da cadeira. — Vai!
Saio rapidamente do saguão para alcançá-lo. Demoro o dobro de passos para
acompanhar seus passos largos, porque o homem é alto. Como ele passa pelo batente de
uma porta sem abaixar a cabeça?
À medida que continuamos caminhando, o silêncio me corrói até eu explodir.
— Estou começando a achar que você não é uma pessoa matinal. — De alguma forma,
encontro-me igualando seus passos.
Rowan grunhe baixinho. Ele nos leva em direção à entrada das catacumbas da Story
Street.
— Tempo maravilhoso, não é verdade?
Da para ouvir os grilos. — Sim, Zahra, estava me perguntando de que adianta tomar
banho de manhã se a umidade faz o trabalho para mim? — Tento imitar sua voz em um
tom baixo, mas falho quando minha voz racha.
O canto de seu lábio levanta um pouquinho e eu mentalmente dou um soco no ar.
Faço outra tentativa de resgatar essa conversa. — O que você gosta na Dreamland até
agora?
— Eu não gosto. — ele murmura baixinho.
Tropeço na ponta do meu tênis. — Oh. — Bem, merda. Eu não esperava que ele dissesse
isso. — Você tem um passeio favorito?
— Não.
Todas as minhas células cerebrais torcem por sua resposta. Estamos chegando a algum
lugar, pessoal. — Nem eu! Existem tantos bons.
Isso me rende outro grunhido.
— Qual é a sua parte favorita em ser o Diretor?
— O silêncio no final da jornada de trabalho.
Eu perco o controle. Meus pulmões queimam de tanto rir com sua resposta. Ele para
de andar e me encara por um segundo antes de se recuperar.
Ele nos conduz pelos túneis como se fizesse isso o tempo todo. Juntos, subimos um
par de escadas e passamos por uma porta marcada The Creators' Workspace. Minha

11 Chick-fil-A é uma das maiores redes de fast-food americanas e a maior em sua especialidade, os sanduíches de frango.
respiração fica presa quando entramos em um armazém enorme, dividido em quatro
seções com divisórias altas. Um determinado cheiro flutua no ar, me lembrando de uma
aula de arte do ensino fundamental.
Rowan me arrasta por cada cômodo, ficando em silêncio enquanto eu aprecio a beleza
de tudo isso. O primeiro espaço está repleto de animatrônicos e robôs para passeios,
desfiles e shows. Corro a mão em um braço de metal frio de um animatrônico. Ele se
move e eu salto para trás e direto no peito de Rowan. Sua mão agarra meu braço para me
estabilizar. Cada célula dispara em uníssono dentro de mim, ganhando vida com a
suavidade de seu toque.
Meu corpo se torna um inferno com o contato. A pele esquenta onde sua mão
pressiona, e me encontro inclinada para ele. Ele me solta e sai da sala como se seus sapatos
pudessem pegar fogo.
Acompanho seu ritmo apressado, seguindo-o até o paraíso de um designer, onde as
paredes são cobertas com storyboards e as mesas estão repletas de todos os tipos de
materiais de arte.
A próxima sala apresenta muitas mesas cobertas por mini modelos 3D da Dreamland,
e estou impressionada com a atenção aos detalhes. Inclino-me sobre um, encontrando
uma réplica exata da Fairy Tale Land e do Castelo da Princesa Cara. Não consigo evitar
passar o dedo indicador por uma das torres.
Meu pescoço formiga e olho por cima do ombro para encontrar Rowan olhando para
minha bunda.
Oh meu Deus. Ele está atraído por mim? Como se ele tivesse o mesmo pensamento, seus
lábios pressionam em uma linha fina. Minha zombaria se torna uma gargalhada completa
enquanto eu me curvo. Ele pisca algumas vezes, apagando a escuridão de seus olhos.
— Está pronta para conhecer todos ou ainda está interessada em perder tempo da
empresa com o seu tour? — ele diz antes de se mover em direção à porta.
Eu não me incomodo em corrigi-lo sobre quem começou este tour. Não tenho certeza
de quem ele está tentando enganar aqui, porque vejo através dele. Mas a verdadeira
questão é por quê? Por que se dar ao trabalho de me dar um momento para observar o
ambiente como este? Por que me conduzir pessoalmente pelo depósito em vez de atribuir
a tarefa a alguém mais disposto e disponível?
Lembro-me de Brady mencionando como Rowan adorava visitar o armazém quando
era criança. Ele está gostando desse tour tanto quanto eu? Se sim, por que ele está tão
zangado agora?
Rowan é como um código secreto que quero decifrar - um forte Knox humano que
estou interessado em invadir, pelo menos para descobrir um coração abobadado cheio de
ouro. Ou talvez seja apenas a parte esperançosa de mim que se pergunta se Rowan é
realmente tão doce quanto Brady o descreveu ser.
Eu o sigo até a sala final cheia de Criadores, e a sala principal parece ser um espaço
de reunião cercado por fileiras de cubículos. A sala é um paraíso, com pufes, paredes
brancas e estações de simulação 3D.
Bem-vinda à sua nova casa. Não posso acreditar que finalmente estou aqui. Brady estava
certo. Era apenas uma questão de tempo antes que eu me pegasse oficialmente trocando
meu antigo crachá de trabalho por um de Criadora.
O que ele pensaria de mim agora?
Ele poderia ter lhe dito para largar o vinho e escrever algo enquanto sóbria, mas mendigos não
podem escolher.
Pisco para afastar a névoa em meus olhos.
Rowan me apresenta aos Criadores, a quem ele se refere como as equipes Alfa e
Beta. Membros diferentes me dão as boas-vindas ao armazém. Meu coração aperta no
meu peito com a ansiedade e a ideia de trabalhar ao lado deles.
Jenny, uma mulher morena que é a chefe da equipe Beta, afirma que eu sou um
membro de seu grupo assim que Rowan se afasta de mim. Olho para ele para verificar se
isso faz parte do plano.
Rowan me lança um olhar entediado. — Continue. — Ele olha ao redor da sala. —
Voltem ao trabalho, todos.
Todos seguem seu decreto real como os fiéis soldados de infantaria que somos para a
marca Kane.
Jenny dedica um tempo para me mostrar meu novo espaço de trabalho. Meu queixo
cai quando dou uma olhada dentro do meu cubículo. Eu nunca tive meu próprio
escritório, e estou pasma com a mesa em forma de L no canto com duas telas de monitor
ocupando um pedaço de espaço. Há até um laptop novinho em folha em um canto,
apenas esperando para ser aberto.
Eu caio na luxuosa cadeira de rodinhas e passo a mão sobre o teclado ergonômico.
Olhe para mim, tendo coisas de adulto como uma escrivaninha e meu próprio
grampeador. Pisco duas vezes para ter certeza de que não estou sonhando.
Jenny reajusta seu rabo de cavalo já imaculado. — Estamos entusiasmados por ter
você como parte de nossa equipe, Zahra. Estou feliz que Sam desistiu muito rápido
durante nossa luta por você.
— Uma luta por mim? — As palavras parecem ridículas saindo da minha boca.
Ela sorri. — Não se preocupe. Eu peguei leve com ele. Eu coloquei as lágrimas falsas
e ele quebrou mais rápido do que uma máquina de sorvete do McDonald's.
Nós rimos. Comparada com Regina, Jenny é uma lufada de ar fresco.
— Fui eu quem pensou que o Sr. Kane precisava ler pessoalmente sua inscrição. Sam
estava um pouco hesitante, dada a natureza do conteúdo.
Estremeço. — Eu sinto muito.
Ela acena com a mão no ar. — Por favor. Não há necessidade de desculpas. Estamos
em uma crise de tempo e não há razão para se desculpar por declarar como você se
sente. Você é o tipo de Criador de que precisamos em nossa equipe.
— Uau. Quero dizer, obrigada. — Isso foi muito melhor do que eu pensava.
— Deixe-me dar um rápido resumo de como as coisas funcionam por aqui. Às sextas-
feiras, cada Criador é responsável por apresentar uma nova proposta. Há um processo
de várias etapas de seis meses estabelecido para dar ao Sr. Kane tantas opções quanto
possível para escolher.
— Escolher para quê?
Jenny sorri. — Ele está planejando uma atualização para o quinquagésimo
aniversário. Muito depende de um projeto dessa escala, então ele espera que todos nós
estejamos no nosso melhor.
— Entendido! Eu não vou te decepcionar.
— Vou deixar você se instalar. Espero que goste de comida italiana porque os Betas
planejaram um almoço de boas-vindas para você.
— Só os monstros odeiam comida italiana.
Ela ri. — Eu sabia que você se encaixaria perfeitamente. Vejo você ao meio-dia. — Ela
sai do cubículo, deixando-me com todos os meus brinquedos novos e brilhantes.
Posso desmaiar de como todos são bons aqui. É uma vibração muito diferente do que
eu esperava com base nas histórias que ouvi sobre os Criadores. Minhas preocupações
de antes parecem meio bobas agora.
Deslizo minha mochila debaixo da minha mesa antes de girar minha cadeira de
rodinhas. Depois que minha tontura passa, pego o grampeador e o pressiono várias
vezes. Grampos chovem ao meu redor como confetes comemorativos.
Sinto Rowan antes de vê-lo. Meu pescoço formiga e eu olho por cima do ombro para
encontrar seus olhos perfurando minhas costas como se ele quisesse esfaquear.
— Sim? — Sorrio largamente porque gosto da maneira como isso faz seu olho direito
se contorcer.
— Você se importa em guardar sua arma antes de eu começar a falar? — Seus olhos
se estreitam para o grampeador.
— O grande e mau Sr. Kane tem medo de um grampeador pequeno? — Clico algumas
vezes em sua direção. Os grampos voam no ar antes de pousar a alguns centímetros de
minhas sapatilhas.
— Eu não confiaria em você com plástico-bolha, muito menos um grampeador.
— Você tem razão. Esse aviso de perigo de asfixia deve ser levado mais a sério.
Um ruído estranho entre um escárnio e um gemido escapa de sua garganta, e classifico
como uma risada. Afinal, parece que ele tem personalidade.
Coloco o grampeador de volta na minha mesa, onde ele pertence.
— Alguma outra arma que eu deva saber?
Reviro meus olhos enquanto finjo pegar uma arma invisível debaixo da minha
mesa. Tenho certeza de que vou fazer um show ao remover a revista falsa e colocá-la
sobre a mesa.
Se eu apertar os olhos, posso classificar o pequeno sorriso no rosto de Rowan como
um sorriso. Ele solta um suspiro exagerado e entra no cubículo.
Uau. Foi essa sua tentativa de piada?
Eu o recompenso com um sorriso que não tem retorno. O espaço instantaneamente
parece menor, com seu tamanho ocupando um quarto da metragem quadrada.
Quebro o silêncio. — Posso te ajudar com algo em particular?
Ele abre a boca, apenas para fechá-la um segundo depois.
Ele ao menos sabe por que está aqui? O pensamento faz meu peito formigar.
Zahra terrível. — O que você acha das minhas novas instalações?
— Deixa algo a desejar. — Seus olhos deslizam do meu rosto para as paredes cinzentas
do cubículo.
Eu pisco para ele. O mataria ser legal?
Provavelmente. Concentro minha atenção de volta na minha mesa. Estou empenhada
em ignorá-lo até que ele vá embora, porque não quero que ele estrague minha festa.
Pressiono cada botão duas vezes no computador, mas a maldita coisa não liga, não
importa o que eu faça.
— Mova-se. — Ele caminha até minha mesa, trazendo sua colônia viciante com ele.
— Por que? — Digo.
— Por alguma razão desconhecida, sinto vontade de ajudá-la.
— Por quê? — Mantenho meu sorriso escondido atrás de uma cortina do meu cabelo.
— Porque você não deve ser confiável em torno de tomadas elétricas.
Eu rio e puxo minha cadeira para dar a ele algum espaço.
Ele se ajoelha em suas calças perfeitamente passadas. Eu não deveria achar isso tão
sexy quanto eu acho, mas o cubículo esquenta quando ele olha para mim de seu lugar no
chão. Seu olhar escurece enquanto seus olhos examinam minhas pernas cruzadas. Meu
coração bate no meu peito no ritmo de uma britadeira, e estou surpresa que ele mesmo
não possa ouvir as batidas erráticas.
O que quer que se passe entre nós desaparece enquanto ele rasteja para debaixo da
mesa, dando-me uma visão perfeita dele de quatro.
Agora quem está olhando?
Ignoro a voz na minha cabeça e escolho aproveitar o show. O corpo de Rowan não é
nada como o do meu ex. Cada centímetro de seu corpo magro está repleto de músculos
como se ele corresse para se divertir. Suas panturrilhas musculosas sobressaem debaixo
da mesa e sua bunda firme se move enquanto ele reajusta os cabos lá embaixo. É preciso
cada grama de autocontrole do meu corpo para não estender a mão e tocá-lo. Demoro
um pouco para adivinhar o tamanho do sapato. A única conclusão a que chego é que sou
irremediavelmente imatura e estou desesperadamente excitada.
Claro que me sinto atraída pelo meu chefe arrogante, que não tem nenhum tipo de
habilidade com as pessoas. Deve ser uma piada cruel para mim depois de tudo que
passei. Talvez haja algum tipo de desequilíbrio químico em meu corpo ou atração
gravitacional para idiotas como Rowan.
E se idiotas forem minha tara?
Bem, pelo menos explica sua obsessão doentia pelo Sr. Darcy.
Eu mal consigo controlar minha respiração antes que ele se ponha de pé.
Algo na maneira como ele me olha fez meu sangue atingir uma nova
temperatura. Arrepios se espalham pela minha pele, apesar do inferno furioso se
espalhando pelo meu peito. Conforta-me saber que meu corpo é tão contraditório quanto
meu cérebro.
Por que ele? Por que eu? Meu sorriso desaparece. Sua mão se flexiona ao lado do corpo
antes que ele a coloque no bolso.
Jane Austen, você é meu anjo da guarda agora? Olho para o teto alto em busca de
respostas, mas não vejo nada.
— Sobre o que, em nome de Deus, você está sussurrando?
Ah, merda. Eu disse isso em voz alta? — O computador está todo consertado agora? —
Parece perto o suficiente do que eu murmurei antes.
— Sim.
— Excelente. Obrigada! Você pode sair por conta própria. — Jogo suas palavras de
volta para ele, meio esperando por qualquer tipo de reação. Ele me oferece nada além de
uma carranca e uma expressão comprimida no rosto.
Bem, é um começo.
Ele caminha em direção à entrada do cubículo, levando seu fascínio com ele. Talvez
eu possa finalmente pensar de novo quando ele sair da minha vista. Há algo sobre ele
que me deixa fora de forma, como se eu não soubesse mais o que dizer ou fazer.
Ele sai do meu cubículo, deixando-me para trás com todos os pensamentos saltando
na minha cabeça. Respiro profundamente para limpar apenas para ser atingida por outra
inalação de sua colônia.
Por que ele tem que cheirar tão bem? Minha cabeça cai em minhas mãos, abafando meu
gemido de frustração.
Recupero-me e, hesitante, pressiono o botão liga / desliga no meu computador.
Vamos ao trabalho.
9
ZAHRA

Dou uma última olhada em minha inscrição. Depois das palavras gentis de Jenny,
pensei ter vencido a insegurança, mas isso decidiu voltar com uma vingança.
Gemo ao reavaliar o desenho que criei de Nebula Land. Embora o PowerPoint reflita
tudo o que Brady e eu criamos juntos, meu esboço prova porque sou formada em
inglês. Se eu fosse uma artista, me mudaria para Nova York com todos os outros talentos
famintos e comeria ramen todos os dias da semana até ter minha grande chance.
Posso realmente apresentar isso ao grupo? Minhas habilidades parecem iguais às de uma
criança de dois anos que está aprendendo a segurar um giz de cera pela primeira vez. Não
é como se Rowan esperasse que sejamos perfeitos em tudo, mas meus desenhos estão
longe disso. E visto que não tenho nenhuma habilidade em nada relacionado à Adobe,
estou presa dependendo das minhas próprias mãos, que são extremamente deficientes.
Suspiro enquanto adiciono uma foto do meu desenho ao último slide da minha
apresentação. Talvez se eu ultrapassar o meu intervalo de tempo designado, posso não
mostrar essa tragédia.
Essa é uma boa ideia. Limpo minha testa úmida antes de arrumar todos os meus
suprimentos. — Aqui vou eu.
Entro na sala de conferências com minha cabeça erguida. Todo mundo sorri para mim
antes de retomar suas tarefas, e sento-me na parte de trás. Apesar dos almoços em grupo
e das sessões de brainstorming, ainda me sinto uma estranha. Minha adição à equipe foi
tudo menos tradicional, e temo que as pessoas pensem que estou sendo favorecido
porque me arrastei rapidamente para um trabalho de Criador.
Jenny entra na sala e liga o projetor. — Então, quem quer ir primeiro?
Um monte de mãos disparam para o ar. Não me incomodo em levantar meu braço
porque a preocupação pesa sobre o meu como uma bigorna.
Jenny chama os Criadores mais próximos dela. Eles ficam na frente da sala e arrasam
uma apresentação sobre uma atualização do Castelo da Princesa Cara. Embora a ideia
deles seja legal em teoria, é apenas isso. Legal. Não é fascinante ou cativante, e até mesmo
Jenny não consegue reprimir seu bocejo no meio da discussão.
A porta da sala de conferências se abre e as cabeças de todos se voltam para o som. O
apresentador para no meio da frase.
Não! Como se este dia não pudesse ficar pior. Rowan valsa no espaço sem se importar
com o mundo. Hoje ele usa um terno cinza que me deixa com água na boca e minhas
coxas pressionadas uma contra a outra. A cor do carvão realça a severidade em seu
olhar. Seus músculos mudam sob o tecido luxuoso enquanto ele se acomoda na cadeira
na frente da sala.
— Continue como de costume.
Seu ar de autoridade não deveria ser considerado um traço atraente por mim, mas há
algo sobre a maneira como ele comanda uma sala que me faz querer mais.
O resto da equipe se senta ereto em suas cadeiras enquanto o apresentador termina
seu discurso. Um por um, os Criadores sobem ao palco. Todas as séries de ideias seguem
um padrão semelhante - algumas atualizações aqui, algumas frases de experiências
imersivas ali. Começo a questionar se minha apresentação é muito ousada para este tipo
de ambiente, especialmente com Rowan ali.
A cada apresentação, a carranca de Rowan se torna mais pronunciada. Suas reações
aumentam meus nervos já em frangalhos. Sofro de medo do palco desde que era criança,
mas não me lembro de ser tão intenso assim. Minhas mãos permanecem
permanentemente úmidas e minha respiração fica mais pesada a cada apresentação.
— Zahra. É a sua vez. — Jenny grita.
Levanto-me com as pernas bambas. Se a pressão que coloquei em mim já não era
suficiente, agora atingiu um novo nível de angústia com o olhar de Rowan colado no
meu.
— Prossiga com isso. Tenho outra reunião em vinte minutos. — Rowan bate no
mostrador de seu relógio com firmeza.
Estou tentada a sair correndo porta afora, mas controlo o desejo e preparo minha
apresentação. Respirando fundo, aprofundo-me para explicar minha ideia. Alimento-me
das expressões não verbais da equipe, deixando que os acenos e sorrisos aumentem a
minha confiança. Minha autoestima cresce e faço minha explicação inteira sem
desmaiar. Eu considero tudo uma grande vitória.
Quando chego ao temido slide final com o desenho, clico nele tão rápido que a tela
preta aparece um segundo depois. O cronômetro de Jenny toca simultaneamente e
agradeço ao homenzarrão lá em cima por me salvar. — Parece que estou sem tempo.
As pessoas aplaudem e Jenny olha para mim com um sorriso enorme e um polegar
para cima.
— Volte para o último slide. — A voz de Rowan me atinge como um balde de água
gelada.
— Oh, não é nada importante. Apenas uma maquete. E você tem uma reunião agora
de qualquer maneira.
Suas narinas dilatam. — Eu não estava perguntando.
Claro que não. Isso requer o tipo de educação que você não tem.
Sua mandíbula aperta. — Agora, Srta. Gulian.
Eu o amaldiçoo mentalmente em inglês, espanhol e armênio para completar. — Não
é nada mesmo. — Escondo minhas mãos trêmulas atrás do púlpito.
— Eu serei aquele que decidirá isso.
Meus dentes batem juntos quando volto para o desenho. Eu não o teria incluído se
não fossemos obrigados a ter algum tipo de auxílio visual de nossa proposta. E claro, se
eu não precisasse de outro motivo para não me encaixar, sou um dos únicos Criadores
que não sabem desenhar nem para salvar minha vida.
A insegurança volta novamente, afetando a confiança recém-adquirida que construí
ao longo da minha apresentação.
Rowan passa a mão pelo queixo. — Seus desenhos precisam de algum trabalho.
— Eu vou ter certeza de acertar isso. — Minha voz está cheia de sarcasmo.
A sala inteira fica em silêncio. Gostaria de poder tapar minha boca com a mão e me
desculpar.
Rowan parece despreocupado. — É melhor todos voltarem com ideias melhores na
próxima sexta-feira. Fiquei desapontado, para dizer o mínimo.
Merda. Os rostos de toda a equipe refletem meu próprio choque. Ninguém se atreve a
se mover, provavelmente com muito medo de fazer qualquer coisa, exceto olhar para
Rowan.
Ele inclina a cabeça em direção ao projetor. — Use a apresentação da Srta. Gulian
como um guia para o que espero daqui em diante. Menos o último slide.
Minhas bochechas esquentam.
— Todos estão dispensados, exceto a Srta. Gulian.
Algo voa em meu estômago com a maneira como ele diz meu nome. É rapidamente
apagado pela realidade da minha situação. Ele quer que eu fique sozinha com ele. Aqui?
Os membros da equipe afunilam-se para fora da sala como se o chão fosse
lava. Rowan não se move de seu assento até que o último membro feche a porta atrás
dele. Ele ronda em direção ao palco, não me dando espaço para escapar de seu olhar frio.
Minhas costas batem na moldura de madeira enquanto tento colocar distância entre
nós. Não quero testar meu autocontrole perto dele porque sinto que é uma batalha
perdida. Depois que ele me envergonhou na frente de todos, a tentação de envolver
minhas mãos em seu pescoço e dar um aperto é muito forte para ser ignorada.
— Se você falar assim comigo na frente de alguém de novo...
— Deixe-me adivinhar. Você vai me despedir. É um pouco previsível para o meu
gosto, mas eu respeito, já que você é o homem no comando.
Ele me encara como se não pudesse acreditar que falei com ele do jeito que
falei. Sinceramente, eu também não. E não posso culpar exatamente uma garrafa de
vinho por esse nível de bravura e estupidez. Há algo nele que me faz querer apertar todos
os seus botões. Estou interessada em ver quem é o verdadeiro Rowan sob todas aquelas
camadas de gelo e indiferença.
Suas sobrancelhas franzem. — Existem coisas piores de que sou capaz.
Um arrepio desce pela minha espinha. — Como?
— Eu não acho que você queira descobrir.
Finjo que estou despreocupada com sua ameaça, apesar do meu coração disparado. —
É melhor você ter um pau enorme para apoiar essa atitude ou as pessoas ficarão muito
desapontadas.
— Importa-se de trazer uma régua e testar sua teoria?
— Eu deixei minha lupa em casa, então talvez amanhã. — Tenho quase certeza de que
o anjo em meu ombro saiu do prédio.
Algo muda entre nós. Seus olhos escurecem enquanto me avaliam. Não tenho certeza
se ele quer me sufocar, me despedir ou me foder até a submissão. — Você é sempre tão
impossível?
— Não sei. Você é sempre tão idiota?
Um segundo ele está carrancudo para mim e no próximo seus lábios estão batendo
nos meus.
Espere, o que?!
Meu cérebro fica confuso e meus olhos se fecham enquanto Rowan devora minha
boca. Suas duas mãos agarram o púlpito atrás de mim, prendendo meu corpo entre seus
antebraços grossos.
Ele beija da mesma maneira que faz tudo o mais - com precisão praticada e poder
contido. Estou tentada a deixá-lo louco porque toda essa raiva reprimida deve ir
para algum lugar. Ficarei feliz como voluntária.
Sou uma causa perdida para minhas inibições enquanto o beijo de volta. Minhas mãos
agarram a frente de seu terno e seguro como se pudesse cair se eu o soltasse.
Isto é tão errado. Ele é o seu CHEFE!
Rowan afasta cada pensamento com um beijo. Nossas línguas se atacam em uma
batalha silenciosa. Beijar Rowan é uma experiência completamente nova. Tóxico ao ponto
de uma overdose e erótico o suficiente para me deixar doendo por mais. Um beijo cheio
de tanta paixão que parece que ele pode morrer se parar. Inferno, posso cair morta se ele
continuar.
Mas que maneira de morrer.
Rowan pressiona seu corpo contra o meu. Sou atingida com uma adrenalina na minha
espinha enquanto ele balança sua ereção em mim. Não preciso de nenhum tipo de
ferramenta para determinar se ele é grande. Gemo e ele suga o som. Ele empurra com mais
força e eu o sinto em todos os lugares.
As rodas do púlpito rolam e tudo se move. Eu perco o equilíbrio. Rowan se agarra ao
meu braço antes que minha bunda tenha a chance de atingir o tapete.
Arranco meu braço de seu alcance. Ele me olha com as pupilas dilatadas e os lábios
inchados. Meus olhos caem para a protuberância que eu estava muito interessada apenas
alguns segundos atrás. Quase tropeço com o tamanho do que quer que ele tenha
escondido sob as calças.
Não acredito que fiz isso com meu chefe. O que eu estava pensando?!
Limpo minha boca com a mão como se isso pudesse apagar a memória de seus lábios,
mas é uma causa perdida. Ele poderia muito bem ter marcado meus lábios com suas
iniciais.
— Merda. — A luxúria desaparece de seu olhar, em um piscar de olhos. Seu peito
sobe com cada respiração irregular.
Eu saio de seu transe. Estou em uma missão de fuga enquanto corro para pegar minha
bolsa e saio correndo da sala, deixando um Rowan silencioso para trás.
Não tenho certeza do que diabos aconteceu, mas bloqueio nosso beijo para nunca
pensar novamente se eu valorizo meu dossiê de vida, localizado no canto mais escuro do meu
cérebro. Ao lado da merda estúpida que eu fiz enquanto bêbada e categorias de fotos de pau.
10
ROWAN

Porra. Isso é tudo que posso dizer a mim mesmo enquanto caminho de volta ao meu
escritório. Cada vez que penso que tenho meus impulsos sob controle, a memória dos lábios de
Zahra contra os meus faz meu corpo reagir novamente.
Não foi uma boa ideia pedir a Zahra que ficasse depois da reunião. As coisas pioraram
quando ela me respondeu de uma forma que nunca experimentei antes. Deveria ter sido
muito broxante. Nunca fui atraído por ninguém que desrespeita a autoridade, então não
tenho certeza do que me atrai em Zahra. Em vez de ouvir a voz racional em minha cabeça
antes, corri de cara na maior bandeira vermelha sem piscar.
Não sei o que há nela que me impede de pensar. Ameaças ricocheteiam nela e meus
olhares só a fazem rir ainda mais. E depois da maneira como ela me tratou na reunião, eu
não tinha certeza se queria expulsá-la da Dreamland ou transar com ela, até que ela se
desculpasse sobre como falou comigo.
E os ruídos que ela fez quando minha língua deslizou pela dela... Foda-se. Eu gemo
quando o sangue corre para o meu pau novamente.
Coloco minhas mãos no meu cabelo e puxo. Porra. Porra. Porra!
Declan me amarraria pelas bolas no mastro da bandeira do castelo se descobrisse que
beijei uma funcionária. Considero todas as minhas opções sobre como eu poderia superar
essa tempestade iminente de RH, mas não há maneira de contornar isso. No final das
contas, eu mereço qualquer ação judicial que Zahra mover contra mim. Fui eu quem a
beijei. Não importa como ela reagiu ao meu toque, é minha responsabilidade permanecer
profissional e seguir um padrão mais elevado.
Em vez de voltar para o meu escritório, vou em direção à minha casa no canto dos
fundos da Dreamland. Pego meu telefone e ligo para o meu piloto, querendo dar o fora
daqui por um tempo antes de fazer outra coisa que possa comprometer a melhor chance
que tenho de ter sucesso com este projeto.
O beijo que compartilhei com Zahra revelou o quão perigosa é nossa atração, e preciso
ficar o mais longe dela humanamente possível. Ela não é nada além de perigosa. Para o
meu plano. Para o meu futuro. E para a voz na minha cabeça se perguntando o quão
explosivo tudo o mais seria entre nós se não tivéssemos parado.
***
Minhas primeiras vinte e quatro horas de volta a Chicago não foram nada
agradáveis. Desde o meu motorista me atrasando depois de lutar para trocar um pneu
furado a algum funcionário aleatório derramando café na minha camisa, tudo foi uma
merda.
As reuniões de segunda-feira só aumentam minha irritação crescente. Sinto como se
estivesse perdendo tempo sentado em reuniões processuais, quando meu tempo poderia
ser mais bem gasto na Dreamland.
Giro minha abotoadura, torcendo o metal frio entre os dedos. Declan assume o
comando depois da participação rápida usual do meu pai. Meu irmão fala sobre nossos
números enquanto Iris cuida da apresentação do PowerPoint. A assistente de Declan é
bonita de uma forma discreta. Seu cabelo escuro ondulado está preso para trás com uma
faixa de cor brilhante, realçando os tons quentes de sua pele morena.
Ela e Declan trabalham juntos perfeitamente. Apesar de sua idade mais jovem, ela é
muito boa no que faz. Ele até deixa que ela responda a algumas perguntas, o que é uma
raridade para ele.
Olho para Cal, me perguntando se ele percebe como eles funcionam juntos, mas ele
está focado em uma folha de papel na frente dele. Isso não é novidade. Cal sempre lutou
com sua impulsividade e problemas de atenção, apesar de quão inteligente ele é. Assistir
a reuniões de uma hora de duração o suga de qualquer controle que ele tem sobre si
mesmo.
Hoje ele decidiu ficar acordado jogando um jogo da velha com ele mesmo.
Pego minha caneta e estrago o jogo dele.
— Filho da puta. — ele murmura baixinho.
Escrevo PRESTE ATENÇÃO na parte superior do papel. Ele desenha o dedo médio
mais estranho e eu rabisco abaixo dele.
Esse é um pequeno pau. É seu?
Ele solta uma risada baixa.
Declan limpa a garganta e nós dois olhamos para ele.
— Alguma atualização sobre o progresso da Dreamland, Rowan? — meu pai
pergunta. Seu tom é tão neutro que me deixa nervoso. Se ele não zombar, franzir a testa
ou olhar furioso, estou automaticamente procurando por uma armadilha que ele queira
colocar na minha frente.
Eu tiro um pouco de poeira invisível da minha jaqueta. — As equipes de Criadores já
foram montadas e estão progredindo rapidamente no desenvolvimento de algumas
ideias.
Pai acena com a cabeça. — Bom. Acho que seria benéfico tê-lo presente durante nossa
próxima reunião sobre as conclusões preliminares. Seu orçamento de dez bilhões de
dólares é drástico e tenho certeza de que o resto do conselho está interessado em aprender
mais sobre a alocação dos fundos.
Filho da puta. Cerro meus dentes a ponto de doer. — Claro que posso apresentar o meu
orçamento. Há algo em particular que você gostaria de ver?
Ele balança a cabeça. — Tenho certeza de que todos estão igualmente interessados em
aprender mais sobre o processo de design criativo por trás de uma operação tão
grande. Não houve uma renovação nesta escala desde a marca dos 25 anos.
Besteira. Avalio seus olhos, em busca de algum tipo de sinalização, apenas para
descobrir que eles não têm a vermelhidão usual. Isso é bizarro. Pensando bem, não tenho
certeza se alguma vez vi meu pai parecer tão sóbrio. Ele é o pior tipo de alcoólatra
funcional, com a única diferença sendo seus olhos vermelhos no dia seguinte.
Considero uma estranha coincidência. Talvez ele tenha ficado sem álcool na noite
passada e estava com preguiça de ir à loja. — Ficaria mais do que feliz em compartilhar
tudo em que tenho trabalhado até agora.
Meu pai acendeu um inferno debaixo da minha bunda hoje12. Já é hora de eu começar
a empurrar todo mundo até o limite, porque o melhor deles simplesmente não é bom o
suficiente para mim. Não com meu pai respirando em meu pescoço, esperando que eu
falhe.
Farei o que for preciso para garantir que os Criadores tenham tudo de que precisam
para ter sucesso, especialmente Zahra. Ela é minha melhor chance de alcançar meu
objetivo e dar o fora da Dreamland.

12 Fazer alguém se apressar.


11
ZAHRA

— Alguma notícia de Rowan desde que ele beijou você? — Claire toma um gole de
seu vinho.
Estou grata que Ani teve que faltar à nossa noite semanal de garotas porque ela tinha
um encontro com o namorado. Eu não suportaria ter essa conversa na frente dela.
Inclino-me para trás nas almofadas do sofá. — Não. E você prometeu não me
incomodar mais com isso. — Depois que contei a notícia sobre o beijomagedom13, Claire
jurou não tocar no assunto.
Tanto por isso.
— Eu sei. Eu sei. Mas há uma questão que está me incomodando.
— O que?
Ela sorri. — Foi melhor do que Lance?
Zombo. — É como comparar um furacão a uma garoa.
Claire assobia. — Droga. Em que mais você acha que a boca dele é boa?
O calor sobe pelo meu pescoço. — Nada.
Ela sorri. — Ohh, você está ficando vermelha! Admite. Você tem pensado totalmente
nele.
— Não. — A vermelhidão se espalha do meu pescoço até a linha do cabelo.
— Precisamos trabalhar em sua habilidade de mentir. O rubor é uma revelação
mortal.
É uma maldição desde que eu era criança.
Levanto meu queixo. — Eu realmente não pensei sobre ele. Na verdade, estou grata
por ele ter partido esta semana. — Sua viagem me deu tempo para solidificar meu lugar
com os outros Criadores enquanto fortalecia minhas barreiras mentais contra ele.
Embora sua ausência tenha sido bem-vinda, estou preocupada que ele tenha
desaparecido porque acha que eu poderia fazer algo maluco como denunciá-lo ao
RH. Considerei isso por dois segundos antes de decidir que era injusto. Ele pode ter
começado o beijo, mas fui uma participante disposta. Muito disposta, para ser honesta.
— Qual é o seu plano para gerenciar sua atração por ele?

13 Brincadeira com a palavra ´´armagedom`` e ´´beijo``


Suspiro. — Não há nenhum plano.
— Assim como não houve beijo? — Ela sorri.
Eu pisco. — Exatamente.
Claire revira os olhos. — Se você tivesse que imaginar, quão grande era o pau dele?
Lentamente separo minhas duas mãos para indicar o tamanho. Um travesseiro acerta
meu rosto, me parando.
— Odeio contar isso para você, mas se você ainda se lembra do tamanho do pau dele,
você ainda está totalmente pensando nele.
Tudo o que faço é gemer.
***
— Você só pode estar brincando comigo.
Rowan está sentado no canto da minha mesa como se ele tivesse todo o direito ao
espaço. Depois dele me deixar sozinha por uma semana, fiquei muito confortável em sua
ausência. Achei que tinha tudo sob controle. Mas no momento em que ele olha para mim,
minhas pernas tremem e minha temperatura corporal aumenta.
A memória do nosso beijo inunda meu cérebro. A maneira como sua língua
dominava. A sensação de seu peito, firme e forte sob minhas palmas. A onda de calor
percorrendo meu corpo em direção à minha metade inferior.
Sim. Estou ferrada. — O que você está fazendo aqui? — Sento-me para esconder a
forma como meus joelhos batem um no outro.
— Estou checando todo mundo.
Faço um show pressionando a mão no meu ouvido. Nem um único ruído ricocheteou
nos tetos altos, já que todos já saíram do armazém para almoçar. Minha intenção era pôr
o trabalho em dia, já que estou atrasada em comparação com os outros criadores, mas
parece que Rowan quer arruinar esse plano.
— E você decidiu que meu escritório é um bom lugar para começar?
— Estou começando com a pessoa que me dá mais problemas e farei meu caminho a
partir daqui.
— Estou lisonjeada por ter conquistado tal reputação.
Ele abre um sorriso tão pequeno que preciso apertar os olhos para ver. Meu peito
aperta, e não posso evitar o pânico correndo por mim com a onda de atração.
Ele é o Diabo, Zahra.
Bem, isso explica porque Eva caiu em seus truques. Se o diabo tivesse tão boa aparência
quanto Rowan, eu comeria a maldita maçã também. Danem-se as consequências.
Seu olhar pesado bate em mim, tirando o ar dos meus pulmões. O calor dispara em
minhas veias e envia um novo tipo de calor direto para a parte inferior do meu abdômen.
— Quando você fica vermelha, suas sardas se destacam. — Ele traça a ponte do meu
nariz com a ponta de uma caneta vermelha. Seus olhos se movem do meu rosto para sua
mão como se ele não pudesse acreditar que fez isso. Nem eu.
Passo a mão no meu nariz, ainda sentindo a queimadura de seu toque fantasma.
Controle-se.
Ele abre a boca para falar, mas eu aceno, desesperada para encerrar essa conversa. —
Tenho trabalho a fazer.
Suas sobrancelhas franzem como se ele não pudesse acreditar que está sendo
dispensado. Ele ignora meu comentário enquanto caminha até a parede do cubículo que
eu cobri com desenhos de ideias pela metade.
Todo o meu rosto fica vermelho quando ele passa a mão pelo meu desenho da
Princesa Nyra.
— E o que é isso?
— Uma nova ideia que eu tive.
Ele me lança um olhar fulminante. — Eu poderia adivinhar isso com base no
modelo. Mas o que eles deveriam estar comemorando?
— Você está tirando sarro dos meus desenhos de novo?
— Não. Agora responda minha pergunta.
— Mataria você dizer por favor às vezes?
Ele pisca para mim.
Solto uma respiração tensa. — É um casamento hindu clássico.
Ele esfrega o queixo e o encara. — Interessante. E quando você vai apresentar isso
para a equipe?
— Sexta-feira.
— Hmm. — Ele traça o mandap14 mal desenhado. Minha tentativa terrível no dossel
floral zomba de mim enquanto suas mãos pairam sobre um boneco que deveria ser o
príncipe da Princesa Nyra. Pelo menos minha apresentação compensa o visual pobre. Eu
até incluí fotos reais desta vez de casamentos indianos, já que o desenho é tudo menos
profissional.
Algo sobre o olhar de Rowan me deixa nervosa. — O que? Se for uma má ideia, diga
logo. Prefiro não passar constrangimento na frente dos meus colegas de trabalho
novamente.
Ele balança a cabeça, removendo qualquer expressão de desejo de seu rosto. — A ideia
é boa.
Boa. A palavra se repete na minha cabeça, atingindo meu crânio como balas. Lance
sempre disse que estava tudo bem. Nossa vida sexual. Nossa relação. Nosso futuro. Bem.
Bem. Bem.
Bom já não é bom o suficiente para mim e com certeza não é bom o suficiente para o
time. Levanto-me e vou remover o desenho da parede.

14 O mandap ou 'manavarai', como é conhecido no Sul da Índia, é uma estrutura temporária de quatro pilares com um dossel
que forma o espaço sagrado para os casamentos tradicionais hindus.
A mão enorme de Rowan cobre a minha, me impedindo de remover a tacha. A
corrente de energia da semana passada voltou com força total. Respiro quando seu
polegar acaricia minhas juntas.
Sua mão desaparece muito cedo, levando minha onda de atração com ele. — Eu sinto
muito. Isso foi inapropriado.
Rio para mim mesma. — Acho que tocar minha mão pode ser considerado inofensivo
em comparação com outras coisas.
Seu corpo inteiro congela. — Qual é sua jogada aqui?
— Jogada? O que você está falando?
— Você está tentando tirar dinheiro de mim?
— O que?! Dinheiro? — Deus. É isso que ele realmente pensa de mim? Posso não ter
as finanças mais equilibradas, mas nunca faria algo desse tipo. Especialmente quando eu
o encorajei.
— Não seria a primeira vez que algo assim aconteceria, — ele resmunga.
Oh meu deus. Ele anda por aí tendo esse problema com outras pessoas? — Beijar seus
funcionários é uma ocorrência recorrente para você? — A pergunta sai de meus lábios
em um sussurro.
— O que? Não. — Ele pisca duas vezes, revelando sua surpresa.
Meus músculos relaxam.
Huh. Então, talvez eu seja especial, afinal. O pensamento me faz sorrir para mim mesma.
— Mas eu prefiro que você diga seu preço para mim em particular do que ir ao RH
com uma reclamação, mas não posso impedi-la. Eu não vou te impedir, — ele altera.
Não tenho certeza se estou respirando no momento. — Não vou para o RH.
A maneira como ele me encara me faz sentir como se estivesse sentada no banco dos
réus, com um advogado me avaliando para qualquer tipo de fraqueza.
— OK. — Ele volta a concentrar sua atenção no desenho. — A ideia é boa. Ótima
mesmo.
Ok, estamos entrando em uma conversa totalmente diferente. Meu cérebro dói com a
chicotada emocional.
Ele me lança uma expressão entediada. — Respire. Não estou com vontade de chamar
uma ambulância quando você desmaiar e abrir a cabeça.
— Como ouso pensar por um segundo que você me pegaria antes que isso
acontecesse.
— Isso requer atenção e estou sem paciência de merda para isso.
Solto uma risada pesada, e nosso ciclo usual se repete, ele olhando para mim com a
expressão mais estranha. — É melhor eu começar a trabalhar.
Ele arranca meu desenho da parede e deixa a tachinha no canto da minha mesa. — Eu
vou levar isso.
— O quê? Por que? — Sento-me porque não tenho certeza se minhas pernas podem
me sustentar mais.
— Porque este desenho não vai se consertar.
— E você vai consertar isso?
Algo pisca em seus olhos. Raiva? Tristeza? Medo? Não consigo identificar o que quer
que seja o olhar assustador em seu rosto, porque nenhum desses rótulos faz sentido.
Ele agarra o papel com o punho fechado. — Não. Eu não desenho, mas conheço
alguém que faz.
— Mesmo? Você tem amigos?!
Ele dá uma longa piscada. — Não considero os que trabalham para mim como
amigos, — ele cospe.
Está bem então. Continuando... — Você acha que eles vão me ajudar?
Seus olhos se arrastam dos meus lábios de volta aos meus olhos. — Só para me poupar
de testemunhar seu constrangimento de segunda mão novamente.
Minha risada assume, fazendo todo o meu peito tremer. — Sou totalmente a favor
disso. — Mas... — Você confia que eles não compartilharão a ideia com ninguém?
Sua cabeça se inclina. — Por que?
Meus olhos caem. — Eu quero ter certeza de que isso permanecerá um segredo até
que eu apresente isso. Isso é tudo.
— Eu confio neles. — Ele parece querer me perguntar algo totalmente diferente.
Pressiono meus pés no chão para me impedir de pular para cima e para baixo. —
Obrigada! — Meu sorriso faz minhas bochechas doerem.
Rowan me encara, fazendo minha pele enrubescer sob seu escrutínio. Ele se vira,
levando meu desenho e minha sanidade com ele.
12
ROWAN

Não hesitei quando peguei o desenho, pela metade, do cubículo de Zahra. Nem
mesmo vacilei quando comprei um pacote de cem lápis de cor e papel de desenho na loja
de artesanato local. Na verdade, a parte mais difícil de tudo foi forçar Martha a tirar o
resto do dia de folga para que eu pudesse ter um pouco de privacidade.
Minha mão agarrada a um lápis número dois treme. Com um braço rígido, pressiono
a ponta contra o papel. A ponta se quebra e rola para longe de mim, deixando-me com
nada além de um pedaço de madeira inútil.
— O que você está fazendo, cara? — Resmungo enquanto deixo cair o lápis e jogo
minhas mãos no meu cabelo.
— Sendo um idiota estúpido por algum motivo desconhecido.
Os desenhos dela são uma merda e você sabe disso. Ela quase chorou durante a apresentação
quando você a questionou, e foi doloroso ver como ela estava nervosa com isso.
E você se importa porque...
Porque uma Zahra feliz significa uma Zahra criativa e uma Zahra criativa significa que eu
dou o fora daqui o mais rápido possível.
Minhas células cerebrais malignas e estúpidas demais para viver travam uma guerra
umas contra as outras. Pego o desenho de Zahra de baixo da página em branco e olho
para ele. A ideia dela é bem pensada. Ela opta por destacar nossos personagens mais
diversos que muitas vezes são deixados para trás em favor de nossas princesas mais
populares.
É esse pensamento que me ajuda a pegar o apontador de lápis e tentar
novamente. Isso me mantém com os pés no chão, apesar da batida rápida do meu coração
enquanto reconstruo a ideia que Zahra teve.
Não demora muito para minhas palmas ficarem úmidas. Minhas emoções são
turbulentas e quase voláteis. Removo meu paletó e arregaço as mangas da minha camisa
de botão, desesperado por algum alívio do aumento da temperatura do meu corpo. É
como se eu estivesse suando meus demônios, uma pincelada de lápis de cada vez.
Desenhar é um hobby inútil. Homens de verdade não desenham, sussurra a voz de meu
pai. Aperto o lápis com mais força com a memória dele rasgando um dos meus esboços
da aula de arte.
Madeira amarela se estilhaça quando o lápis se parte ao meio.
— Merda. — Jogo os pedaços quebrados na lixeira e limpo o pó restante do papel.
O que diabos eu estava pensando ao fingir que conhecia alguém que poderia ajudar Zahra? Não
há como eu fazer isso.
Minha cadeira rola enquanto pulo e limpo minha testa com a mão trêmula. Pego o
papel e o rasgo em pedaços. Pedaços brancos voam para a lata de lixo à espera como
flocos de neve do meu fracasso, caindo em cima do lápis quebrado.
Espero sentir algum alívio, mas tudo que me resta é uma sensação de enjoo no
estômago e um coração acelerado que ainda não diminuiu a velocidade. Meus olhos
deslizam dos meus punhos cerrados para a lata cheia com os restos esfarrapados do meu
desenho.
Não há ninguém aqui para gritar comigo ou fazer com que eu me sinta inútil. Sou um
homem adulto que pode lidar com qualquer coisa pendurada no meu caminho, incluindo
um desenho estúpido e inofensivo.
Eu posso fazer isso. Se não por mim, então pelo futuro com que meus irmãos
sonharam. Em vez de me concentrar no passado, lembro-me do futuro. Aquele em que
Declan se torna CEO comigo servindo como seu CFO. De Cal finalmente encontrando
seu lugar na empresa assim que assumirmos o controle.
Sento-me, pego um novo pedaço de papel e um lápis e começo a trabalhar.
***
Paro na entrada do cubículo de Zahra e aproveito para observá-la. Ela balança a
cabeça para o que quer que esteja tocando nos fones de ouvido brancos enquanto ela
digita em seu teclado. Seu broche do dia pisca sob a luz do teto. A escolha de hoje inclui
um saleiro e pimenteiro com a frase Boas Festas escrita abaixo.
Quem poderia se odiar o suficiente para vestir algo tão atroz?
Meu olhar oscila em seu corpo antes de pousar na curva de seu pescoço. A pele macia
tem o objetivo de seduzir. Para beijar e marcar enquanto ela é fodida até o
esquecimento. Há muitas coisas que eu gostaria de fazer com aquele pescoço lindo se
tivesse uma chance.
Exceto, isso não é possível.
Meu momento de fraqueza não acontecerá novamente. Ela pode alegar que não vai
me denunciar ao RH, mas não cheguei tão longe na vida confiando em ninguém além de
mim mesmo. Suas opções são infinitas e ela tem todas as oportunidades de arrancar
dinheiro de mim como um pano molhado. A mídia sozinha poderia pagar para que ela
se aposentasse em sua colossal idade de vinte e três anos. O pensamento deixa um gosto
amargo na minha boca, deixando minha língua seca e minha garganta apertada.
Vou em direção a sua mesa e bato o desenho na superfície.
Ela salta da cadeira antes de cair de volta no assento. — Olá! Você pode anunciar sua
presença como uma pessoa normal?
Não respondo porque tenho medo de respirar enquanto estou perto dela. Tudo o que
preciso é um cheiro de seu perfume para o meu sangue redirecionar seu caminho do meu
cérebro para o meu pau.
Felizmente, tenho controle suficiente sobre meus impulsos para parar e dar um passo
para trás.
Ela inclina a cabeça para mim. — O que você tem?
Reajusto minha gravata já perfeita. — Nada.
— Certo. — Ela se vira em direção ao desenho e o encara.
Ela gostou?
Claro que ela gosta, seu filho da puta autoconsciente. Quem não gostaria?
Seus olhos se abrem enquanto ela traça o desenho. — Isso é incrível.
Solto um suspiro que não percebi que estava segurando. Pelo menos ainda tenho um
pouco do meu talento para o desenho, como o vovô disse. Vou dar o crédito para o
velho. Afinal, ele estava certo quando disse que o talento não desaparece - a paixão, sim.
Minha garganta se contrai. Concentre-se na tarefa em mãos.
Embora o desenho tenha levado várias tentativas e mais de 24 horas para ser
finalizado, o processo de recriação do projeto de Zahra foi fácil. Muito fácil. Quando
percebi que havia terminado o produto final uma hora atrás, um vazio estranho tomou
conta de mim. Meus dedos coçavam para continuar e perseguir aquela sensação
consumidora de onde o mundo se fechava ao meu redor.
Odeio querer mais disso. Isso me faz sentir fraco e como se estivesse oscilando à beira
de perder o controle.
— É melhor eu ir. — Dou um passo em direção à entrada de seu cubículo.
— Espera! — Ela salta da cadeira.
— O que? — Ela sabe que eu desenhei?
Porra. Como ela pôde?
Ela acena com a mão. — Está faltando uma assinatura.
— Em que?
— No desenho.
Congelo e considero minhas palavras tão cuidadosamente quanto posso durante esse
tipo de circunstância. — E? — Suave.
— E quem o desenhou merece crédito pelo seu trabalho. É a coisa certa a fazer. —
Seus olhos caem para o chão.
Interessante. Esta é a segunda vez que seus problemas de confiança vêm à tona. Isso é
porque Lance Baker publicou uma proposta semelhante à dela? Ou há algo mais que afeta
sua capacidade de confiar em outra pessoa?
Em vez de ficar satisfeito com a minha avaliação, um sentimento sombrio desliza pelo
meu peito. Posso ser muitas coisas, mas não sou um ladrão.
Deixo isso para lá. — O artista é um contato que tenho no Departamento de
Animação. É um trabalho meio apressado, então não se preocupe em dar crédito a.
— Você pode compartilhar o número dele comigo para que eu possa agradecer a ele?
Franzo a testa. — Ele quer permanecer anônimo.
— Ok, que tal você dar a eles meu número então. Se eles não quiserem me enviar
mensagens de texto, não precisam. Sem ressentimentos. — Ela solta um suspiro.
Uma mecha de cabelo escuro cai na frente de seus olhos. Ela a enfia atrás da orelha,
que está coberta por uma fileira de brincos singulares. Dou um passo à frente para dar
uma olhada nos designs, apenas para recuar quando ela respira fundo.
Felizmente, meu gemido fica preso na minha garganta. — E o que você espera dessa
conversa?
Ela me olha com as sobrancelhas franzidas. — Você é sempre tão cínico sobre as
intenções das pessoas?
— Sim.
Seus olhos reviram. — Expressar gratidão não é exatamente um programa de
intercâmbio.
— Não vou acreditar na sua palavra.
Ela ri enquanto se inclina sobre a mesa, dando-me uma visão privilegiada de seu
traseiro firme enquanto ela rabisca algo em uma nota adesiva. O calor se espalha do meu
peito para lugares que não devem ser ligados no momento.
Por algum motivo esquecido por Deus, estou sofrendo de algum tipo de doença física
na presença dela que me faz agir como um lunático privado de sexo. Meus dedos batem
contra minha coxa para manter minhas mãos para mim.
Você deveria ficar de olho nos motivos dela, não no corpo dela.
Há algo de errado com ela. Talvez sua gentileza seja uma fachada para o que
realmente está sob a superfície. Não acredito por um segundo que ela não tenha pensado
em me explorar por causa da minha posição depois que a beijei. Qualquer pessoa em seu
tipo de posição financeira faria.
Ela se vira e me passa a nota adesiva rosa-choque. — Aqui.
Não pegue. Diga não a ela e vá embora antes que cometa um grande erro.
Minha mão se lança e arranca a nota adesiva da mão dela antes que eu pense duas
vezes.
13
ROWAN

Eu paro em uma lixeira perto da entrada do armazém. Aceitar o bilhete estúpido de


Zahra só tinha o objetivo de acalmá-la e me poupar do constrangimento de negar.
Certo. Porque você se preocupa muito em fazer os outros felizes de repente.
Permaneço perto da lixeira, olhando para a nota rosa-choque como se ela segurasse
meu destino. Olha quem está acreditando no destino agora, seu idiota taciturno e hipócrita.
A caligrafia cursiva delicada de Zahra se destaca para mim.
Eu adoraria dizer obrigada se você estiver disposto a me enviar uma mensagem (isto é, se
Rowan não foi chato o suficiente para jogar isso fora antes de você receber). - Zahra Gulian. A
nota pegajosa se enruga sob meu punho. O que há de tão difícil em jogar isto fora? Ela
nunca iria descobrir. Cobri meus pontos e fiz com que ela entendesse que o Animador
valoriza sua privacidade e que está ocupado, o que é verdade.
Você poderia encontrar alguém para trabalhar com ela com um estalar de dedos. Uma boa
solução como qualquer outra, mas a ideia deixa um gosto amargo na minha boca por
algum motivo desconhecido.
Coloco a nota adesiva no bolso e me afasto da lata de lixo. A caminhada pelas
Catacumbas é uma caminhada decente. Cada vez menos funcionários passam por mim
quando me aproximo da entrada do túnel subterrâneo fechado para a antiga casa do
vovô. Quando eu era criança, achava a coisa mais legal explorar os túneis com meus
irmãos à noite. Nosso pai transformava isso em um jogo, com mamãe e ele fazendo ruídos
assustadores. Era sua tentativa fracassada de nos assustar para nunca mais fazermos isso,
mas só funcionava até a próxima vez que visitássemos a Dreamland.
Solto um suspiro trêmulo, tentando aliviar o peso que pressiona contra meus
pulmões. Relembrar só leva a uma coisa e não estou interessado.
Digito o código do portão, subo as escadas e em direção à casa. É uma antiga casa de
estilo colonial com uma varanda em volta. Desvio meus olhos do balanço da varanda
para evitar a sensação de aperto no peito. Não importa quantos fins de semana eu disse
a mim mesmo que vou pegar uma furadeira e derrubar a maldita coisa, sempre encontro
um motivo para deixá-lo assim. Quer seja uma nova pilha de papéis para examinar ou
uma reunião de última hora com um gerente, nunca sou capaz de enfrentar o balanço.
De todas as memórias da Dreamland, eu odeio essa mais.
Você é tão fraco. A voz arrastada de meu pai explode em minha cabeça.
Enfio minha chave na fechadura e abro a porta. Ela bate contra a parede com um
estrondo antes que eu a feche. Meus passos pesados ecoam pela casa enquanto subo as
escadas em direção a um dos quartos principais que assumi como meu. Jogo minha
carteira na minha mesa de cabeceira antes de despejar a nota amassada ao lado
dela. Antes de pensar em me impedir, pego meu telefone e adiciono o número de Zahra
aos meus contatos antes de fazer algo idiota como rasgar o bilhete.
Meu cérebro batalha, passando pelos pontos positivos e negativos de contatá-la.
Qual é o problema com uma mensagem de texto?
Sobre o que você planeja falar? O clima?
Não é como se eu não tivesse prática em falar com mulheres. Estou mais cauteloso
sobre o desejo ardente que sinto por Zahra em comparação com meus encontros sem
brilho ao longo dos anos. Eles eram simples e fáceis, com poucas expectativas. Mas com
Zahra, a ideia de enviar mensagens de texto parece mais. Mais o quê, ainda não tenho
certeza. Mas sei que é algo de que devo ser cauteloso.
Talvez Declan tenha me influenciado de mais de uma maneira. Meu irmão nos
mantém no mais alto padrão, garantindo que nunca pareçamos estúpidos para o
público. Ele enraizou em nós desde tenra idade que nosso nome carrega poder e com
poder vem a responsabilidade de não estragar tudo.
Mesmo assim, você beijou sua empregada porque o calor da Flórida matou todas as células
cerebrais que funcionavam.
Se Zahra planejasse me denunciar, ela já o teria feito.
Bem... a menos que ela esteja ganhando tempo para extorquir dinheiro de você.
O pensamento me faz parar. Pode ser este o caso? Ou talvez ela queira que eu cometa
um erro ainda maior para que ela possa obter um pagamento maior no final.
Você é sempre tão cínico quanto às intenções das pessoas? Sua voz suave entra em meus
pensamentos como se pertencesse a esse lugar.
Em comparação com meus irmãos, sempre fui o mais reservado e desconfiado, desde
pequeno. Situações em minha vida amplificaram o sentimento, transformando uma
criança esperançosa em um adulto amargo.
Buracos nos preservativos. Tentativas fracassadas de extorsão. Pessoas que querem
ser meu amigo com o único propósito de colher os benefícios associados ao meu
sobrenome.
A lista é interminável com uma lição universal. Não acredite em ninguém.
Jogo meu telefone na cama. Ao esperar por um momento para reunir meus
pensamentos e solidificar meu raciocínio contra entrar em contato com Zahra, saio para
uma corrida noturna.
Minha pele fica úmida depois de alguns minutos graças ao ar úmido do
verão. Estabeleço um ritmo uniforme e me concentro no som dos meus tênis batendo no
chão. Apesar de meus melhores esforços para desligar meu cérebro, ele não recebe o
memorando. Quando termino minha corrida, desenvolvo uma lista mental de prós e
contras sobre enviar mensagens de texto para Zahra que me ajuda a chegar a uma
conclusão razoável.
Eu deveria mandar uma mensagem para ela e descobrir quais são suas verdadeiras
intenções. Não há absolutamente nenhuma maneira de ela estar apenas interessada em
me enviar uma mensagem para expressar sua gratidão. Ninguém é tão puro - nem
mesmo a Pequena Miss Bubbly. Posso usar nossas conversas como uma oportunidade
para sondar e descobrir o que ela realmente sente por mim.
Volto para casa, tomo banho e me jogo na cama. Abro o aplicativo de voz do Google
no meu telefone porque quero usar um número falso que ela não consegue rastrear para
mim.
Eu: Ei. Rowan me deu seu número.
OK. Não é tão ruim. É simples e direto ao ponto.
Meu telefone apita um segundo depois. Como diabos ela digita tão rápido?
Zahra: Oi! Eu não vou mentir para você. Eu não esperava que Rowan realmente fizesse isso.
Reviro meus olhos.
Eu: Bem, ele fez.
Não brinca. Você está mandando mensagem para ela. Passo a mão pelo meu rosto.
Zahra: Bem, que bom que você me enviou uma mensagem!!!
Quem em nome de Deus usa tantos pontos de exclamação? Deveria ser considerado
ilegal.
Zahra: Eu só queria dizer... 1. Obrigada por me ajudar porque não posso desenhar nem em caso de vida ou morte. 2.

Existe alguma maneira de retribuir?


Ela quer me retribuir? Essa não pode ser a verdadeira razão pela qual ela estava
interessada em me enviar mensagens de texto.
Zahra: Estou sem dinheiro em relação a dinheiro de verdade, então não tenho certeza se você aceita notas do Banco

Imobiliário como moeda?


Eu oficialmente preciso descobrir que tipo de fadas da floresta criaram essa mulher, porque ela
não é um produto do mundo real.
Zahra: Ou posso te levar para jantar? Por minha conta?

Eu: Vou passar. Não estou interessado em adquirir intoxicação alimentar em um lugar que aceita notas do Banco

Imobiliário como moeda.


Oh, Deus. Releio a piada e estremeço.
Ela segue com três emojis risonhos porque lhe falta sutileza.
Zahra: Não se preocupe.

Zahra: Eu poderia fazer o jantar para nós como um gesto de gratidão.


Minha resposta leva dois segundos.
Eu: Sem encontro.

Zahra: Ok, então. Você é tímido. Entendi.


Não sou chamada de tímido desde criança.
Zahra: Tudo bem. Talvez um dia.

Eu: Você é tão esperançosa em relação a tudo?

Zahra: Claro. Por que não?

Eu: Porque a vida nem sempre é arco-íris e luz do sol.

Zahra: Claro que não. Mas como podemos apreciar o sol todas as manhãs se não vivermos no escuro?
Que tipo de drogas ela usa?
Meu telefone vibra novamente como se o silêncio a assustasse.
Zahra: Qual é o seu nome? Você sabe, então eu posso colocar um nome em um rosto.
Estou experimentando meu inferno pessoal. Acontece que Zahra é uma remetente de
SMS em série.
Eu: Exceto que você não tem um rosto.
Bom trabalho afirmando o óbvio. Minha pobre tentativa de fazer uma piada fracassa, e
me lembro mais uma vez por que não me preocupo com elas, para começar.
Zahra: Dã. Mas, por enquanto, vou apenas imaginá-lo como um jovem James Dean.
James porra Dean? Que tipo de merda da velha escola Zahra assiste? James Dean era
alguém de quem meu avô costumava falar.
Meus dedos voam pela tela antes de considerar as repercussões de ter uma conversa
que não tem nada a ver com trabalho.
Eu: Sinto muito. Quantos anos você tem?

Zahra: HAHA.
Estou cheio de algum tipo de calor com a ideia de fazê-la rir. Franzo a testa com a
sensação.
Zahra: Para ser justo, meus pais gostam de coisas americanas retrô e icônicas. O sonho deles era se mudar para cá quando

eram crianças, então temo que James Dean seja apenas a ponta do iceberg. Não me fale sobre o meu amor por lojas de roupas

vintage e Elvis Presley.


Isso é algo com o qual posso me identificar. Meu avô era assim com a cultura pop
americana. Ele sempre foi obcecado desde que imigrou da Irlanda para cá com nada além
de uma mala e um sonho para desenhar.
Meu peito aperta e eu empurro a memória para fora da minha mente.
Zahra: Até aprendi sozinha a tocar ukulele15 para impressionar meus pais.

Zahra: Mas sou péssima, para grande decepção do meu pai.

15 Ukulele é um instrumento de cordas usado pra tocar músicas de ritmos como jazz, pop, indie e a música típica havaiana.
Chego à conclusão de que estou confiando meu sustento nas mãos de alguém que por
acaso é a pessoa mais bizarra que já conheci. Zahra é um risco tanto quanto um
investimento. Como colocar um milhão de dólares em penny stocks16 e torcer para não
ser fodido no final.
Zahra:... então você planeja me dizer seu nome agora ou quer que eu adivinhe?

Zahra: Posso abrir um site de nomes de bebês e começar. Podemos até transformar isso em um jogo.
Deus, não. Quem sabe a que tipo de mensagens eu ficaria exposto?
Eu: Você pode me chamar de Scott.
Scott? Que porra você está fazendo?
Saio da conversa antes de ter a chance de dizer mais alguma coisa. Isso foi bastante
louco para mim. Não sou o tipo de pessoa que faz algo tão espontâneo e estúpido como
criar um alter ego para falar com alguém. Fale sobre patético.
Mas isso é tudo que você sempre foi. Uma decepção quem não merece o nome Kane em primeiro
lugar.
Eu rolo e coloco um travesseiro no meu ouvido como se isso pudesse apagar a voz do
meu passado.
Já faz anos. Você não é mais aquele garoto rejeitado.
Mas não importa quantas vezes eu diga isso a mim mesmo, nada é bom o suficiente
aos meus olhos. Cada vez que realizo uma tarefa difícil, já procuro o próximo obstáculo
a ser superado. Para mostrar a meu pai e a todos que duvidaram de mim que transformei
minhas fraquezas em forças.
Tímido? Eu escolho minhas palavras com sabedoria, transformando-as em uma arma
temida.
Fraco? Eu deixei milhares de funcionários inúteis melhorarem nossos resultados
financeiros.
Patético? Construí minha própria reputação no mundo corporativo que não tem nada
a ver com meu sobrenome. Pode não ser bonito, mas é exclusivamente meu, e nada que
meu pai diga ou faça pode tirar isso de mim.
Não sou mais uma decepção. Não hoje e certamente nunca mais.
Só há uma ponta solta no meu caminho para garantir que meu tempo na Dreamland
seja tranquilo e sem escândalos. E pretendo ficar de olho nela.
***
Verifico minhas mensagens pela manhã. Esperava talvez uma ou duas mensagens de
Zahra, mas ela me surpreendeu novamente com um total de cinco.
Zahra: Scott. OK. Um pouco básico, mas eu gosto.
A próxima mensagem foi enviada dez minutos após a anterior.
Zahra: Vejo que posso ter assustado você. Tudo bem. Minha mãe me ensinou que se você colocar
comida para gatos de rua, eles continuarão voltando.

16 As penny stocks são as ações de empresas que são negociadas a valores muito baixos, na casa dos centavos.
Zahra: Não que eu ache que você é um gato de rua!
Em seguida, ela inclui um emoji com a palma da mão.
Zahra: De qualquer forma, eu praticamente solidifiquei o quão estranha eu sou e porque eu falho
em aplicativos de namoro online! Portanto, não te culpo por fugir. O único ponto positivo de toda
essa conversa é que não tenho ideia de como você é. Se por acaso você encontrar alguém com meu
nome, finja por mim que não tem ideia de quem eu sou. K17 obrigada!
Acho seu constrangimento estranhamente divertido.
Sua última mensagem veio quatorze minutos após a outra. É como se ela quisesse
terminar tudo com uma nota positiva, porque ela é um raio de sol arruinando meu dia
perfeitamente sombrio.
Zahra: Tenha uma boa vida!
Considero minha situação. A opção fácil seria ignorar todas as suas mensagens e
rotulá-la como a pessoa mais estranha com quem já contatei. Ela é repulsivamente
amigável e confiante com alguém que ela nunca conheceu antes.
Quem é você para chamá-la de estranha? Você conta dez palavras ou menos como uma conversa
bem-sucedida.
Só porque sou o cara que prefere ficar nas sombras, deixando meu trabalho falar por
si.
Minha curiosidade sobre o lado oculto de Zahra vence meu raciocínio sensato. Digito
uma resposta antes de desistir e fazer algo digno de meu tempo.
Eu: Você sempre fala sozinha?
As bolinhas aparecem e desaparecem duas vezes antes que uma nova mensagem
apareça no meu telefone. Não que eu estivesse esperando e olhando para o meu telefone
ou algo assim.
Zahra: Bem, vamos fingir que nada disso aconteceu. OK? OK.
Pela primeira vez em muito tempo, um sorriso se espalha pelo meu rosto antes que
eu tenha a oportunidade de matá-lo.

17 Um jeito informal de escrever okay/ok.


14
ZAHRA

Minha mãe sempre me alertou sobre o perigo de estranhos. Mas ela também me
ensinou a ser gentil com todos, então estou lidando com conselhos conflitantes no
momento.
Rowan realmente daria meu número para alguém perigoso? Sem chance.
Ok, bem, talvez. Mas eu realmente espero que ele não tenha feito.
Tomo uma decisão consciente de continuar mandando mensagens de texto para Scott
e ver onde nossa conversa vai. Não é como se fosse uma tarefa árdua. E depois de tudo
que mandei para ele ontem à noite, esperava que ele corresse para as colinas. E isso é algo
grande porque a Flórida é um dos estados mais planos de todos os Estados Unidos.
Pelo menos ele voltou.
Até eu fiquei surpresa com isso. Segundo minha mãe, tenho a sutileza de um raio e a
personalidade de um fogo de artifício. Ela me disse que seria necessário um homem
igualmente forte para apreciar esse tipo de força da natureza.
Ainda estou esperando, mãe. Não tenho certeza de onde devo encontrar esse homem
forte, mas não tive sorte nos aplicativos de namoro que Claire me inscreveu. É minha
culpa. Sou excessivamente sonhadora que ainda acredita em contos de fadas e na
possibilidade de um duque aparecer e se casar comigo.
Coloco minha cabeça em minhas mãos e suspiro.
— Estou explorando demais você?
Engasgo com minha inspiração. Rowan está parado na entrada do meu cubículo. Ele
parece... bem, droga. Sexta-feira casual fica bem ‘pra’ caralho nele. Ele tem aquela áurea de
clube de campo com uma polo de grife e calças cáqui. Eu me pergunto como é ter tanto
dinheiro que eu poderia ter uma camiseta de gola lavada a seco em vez de carregar uma
caneta corretora de manchas em cada bolsa que possuo. É assim que vive a outra metade?
Solto outro suspiro. — Não. Não dormi muito na noite passada.
— Algo está mantendo você acordada? — O lado de sua boca se levanta.
— Não comece a me fazer perguntas pessoais. Eu posso fazer algo louco como
presumir que você se preocupa comigo.
— Guarde os contos de fadas para suas propostas.
Eu sorrio. — Você fala sobre alguma coisa além do trabalho?
— Por que eu deveria? Trabalho é minha vida. — Ele me olha como um cientista com
um microscópio.
— Isso é triste, Rowan. Até para você.
— Não vejo como.
— O que você gosta de fazer por diversão?
— As pessoas ainda fazem coisas para se divertir?
Isso foi... uma piada? Se for assim, seu tom precisa ser trabalhado.
Eu rio para encorajar mais delas. — Você precisa encontrar um hobby que não inclua
observar o mercado de ações.
— Não se observa simplesmente 'o mercado de ações'.
Reviro meus olhos. — Eu não posso acreditar que você disse isso com uma cara
séria. Com a maneira como você age, você vai acabar em uma cova rasa antes de ter seu
primeiro cabelo grisalho, porque você é viciado em trabalho.
Seu brilho penetra minha falsa confiança. — Não pedi sua opinião.
— Não. Mas não é como se você pudesse me despedir por declarar uma observação.
— Pelo menos não enquanto você for meu bilhete dourado.
Bilhete dourado? Acho que nunca fui referenciada como algo tão... especial.
Meus ombros cedem. Quão patético é isso? Defini meus padrões tão baixos depois de
Lance que estou obcecada por elogios casuais do meu chefe.
Um chefe que te beijou como você nunca foi beijada antes.
Mas meu chefe mesmo assim.
Limpo qualquer olhar que está em meu rosto. — Existe uma razão para você ter vindo
ao meu escritório?
— É assim que estamos chamando os cubículos do tamanho do meu chuveiro hoje em
dia?
Mostro o dedo debaixo da minha mesa.
— Esconder sua mão anula o propósito pretendido de tal gesto.
Por que ele fala como se tivesse nascido bebendo leite materno em uma xícara de chá
de porcelana? E ainda mais estranho, por que eu gosto disso?
— Meu pai me ensinou que, se não tenho nada de bom para dizer, não devo dizer
nada.
— Essa regra não deveria se estender a gestos ofensivos?
Levanto uma sobrancelha em sua direção. — Porque você é o tipo de pessoa que fica
ofendida agora?
Sua careta não combina com seus olhos iluminados. — Seu arquivo nunca mencionou
um problema a respeito de conversas com figuras de autoridade.
Eu me animo. — Você andou lendo sobre mim.
— Costumo pesquisar meus investimentos.
Eu sei que sua intenção não era me fazer sentir quente e confusa por dentro, mas meu
coração salta no meu peito de qualquer maneira.
Não somos um investimento, clama meu cérebro feminista.
Mas o grande homem mal-humorado passa seu tempo me pesquisando, a romântica
desesperada grita em uma réplica.
Sorrio para mim mesma. Quando olho para cima, encontro Rowan olhando para mim
com uma expressão comprimida. — O que?
Ele balança a cabeça. — Nada. — Ele se vira e sai do meu cubículo do tamanho de um
chuveiro, deixando-me com uma sensação estranha que fica comigo pelo resto do dia.
***
Acrescento o desenho que Rowan entregou ontem ao último slide da minha
apresentação. Ele capturou tudo que eu sonhava em mostrar, mas não tinha talento para
executar.
Hoje me sinto muito mais nervosa em apresentar. Apesar do incrível desenho de
mandap que Scott fez, ainda estou insegura sobre mostrar minha primeira ideia que não
tem a aprovação de Brady Kane. Eu poderia ter escolhido uma das ideias que fizemos
juntos, mas queria me testar.
Agora não tenho certeza se foi a melhor ideia. E se as pessoas odiarem?
Mas Rowan disse que era ótima.
Rolo meus ombros para trás enquanto fecho meu laptop. Há uma razão para Rowan
me ver como um investimento, então talvez seja hora de eu começar a agir como um. A
pior coisa que pode acontecer é Jenny me dizendo não ou Rowan decidir que a ideia não
é tão boa quanto ele pensava originalmente.
Então eu entro na sala de conferências com minha cabeça erguida.
A cadeira de Rowan permanece vazia, apesar da sala se encher de Criadores. Sento-
me em meu lugar habitual na parte ao fundo da mesa, onde escrevo notas longe de
qualquer olhar curioso.
Jenny dá início à reunião, apesar de Rowan estar ausente. Fico verificando as horas
no meu telefone enquanto os apresentadores vão um por um para discutir sua ideia da
semana. Quando Jenny chama meu nome, levanto-me e subo ao palco.
Abro meu PowerPoint e ignoro a sensação estranha em meu peito quando meus olhos
pousam na cadeira vazia de Rowan. Por que ele não está aqui? Não é como se ele tivesse
mencionado alguma coisa quando parou no meu cubículo.
Balanço minha cabeça e ligo meu modo de apresentadora. A energia excitada na sala
equilibra os nervos dentro de mim e minha confiança cresce em algo mais forte. Estou
sem fôlego quando termino. Minha pele está vermelha e o ritmo irregular do meu coração
ainda não diminuiu.
Uma pessoa batendo palmas se transforma em toda a sala sorrindo e me
parabenizando pelo trabalho bem feito.
Tudo o que posso fazer é sorrir. Se essa é a sensação de acreditar em mim mesma,
gostaria de ter feito isso um pouco antes. Antes de minhas ideias serem roubadas e meu
espírito ser esmagado.
Cansei de ser aquela mulher. De agora em diante, me recuso a deixar a dúvida ficar
no meu caminho. Agora sou Zahra 2.0. A mulher que não pensa muito no passado
porque só estou encarando o meu futuro.
Lance pode ter roubado minha primeira ideia, mas certamente não é a última, e a
resposta de todos me diz que a única pessoa para quem preciso provar algo é eu mesma.
***
Claire bate em mim no momento em que abro a porta do nosso apartamento. —
Zahra! — Seus braços me envolvem e ela começa a pular para cima e para baixo.
— O que?!
— Eu consegui um emprego!
— Verdade?! No Royal Chateau? — Puta merda. Eu sei que Claire é talentosa, mas
uau.
Suas sobrancelhas pretas se juntam. — Bem, não.
— Estou tão confusa.
— Deixe-me explicar. — Claire me leva até o sofá, onde ela já tem uma garrafa de
vinho barato esperando por nós. — Então, eu fui um desastre completo durante toda a
minha entrevista.
Meu sorriso desaparece. — Ah, não.
Ela me dispensa. — Tudo que poderia dar errado deu. Eu cozinhei demais o frango e
cozinhei mal o peixe. Então meu suflê esvaziou antes que eu tivesse a chance de colocá-
lo em um prato e queimei minha mão em uma panela quente. — Ela mostra sua
bandagem.
Eu me encolho.
— Foi tão constrangedor. A subchefe me dispensou no meio da entrevista depois de
gritar comigo por estar perdendo seu tempo. Ela me fez sentir dessa altura. — Claire me
mostra um centímetro de espaço entre o indicador e o polegar.
Todos os músculos do meu corpo se contraem. — Eu sinto muito, Claire. Eu me sinto
responsável por empurrá-la para isso antes de você estar pronta. Eu pensei...
— Não! Graças a você, acabei conseguindo algo ainda melhor.
— Como?
Ela pega uma taça cheia de vinho e passa para mim. — Encontrei o chef do lado de
fora do restaurante.
— Como você sabia que ele era o chef?
— É uma história engraçada. Veja, eu não sabia quem ele era na época. Ele pensou
que eu era um animal ferido.
— De jeito nenhum. — Coloco a mão na boca para impedir que minha risada escape.
Ela acena com a cabeça. — Sim. Eu não acho que ele estava preparado para a caixa de
Pandora que ele desencadeou quando perguntou se eu estava bem. Todas as emoções
explodiram para fora de mim. Eu tenho que dar crédito a ele. Ele ficou parado em silêncio
enquanto eu contava como perdi a entrevista mais importante da minha carreira.
— E?
— E então ele me fez algumas perguntas sobre minhas coisas favoritas para cozinhar
antes de me dizer para fazer sua refeição favorita!
Meu queixo cai. — Cai fora.
— Era como um filme! Então preparei para ele a melhor sopa de queijo grelhado e
tomate que o homem já provou. Palavras dele, não minhas.
— A refeição favorita de um chef é queijo grelhado? Isso não parece um pouco...
básico?
— Não há espaço para cadelas básicas aqui. — Claire pega minha mão e me leva para
a cozinha. Podemos não ter uma cozinha tamanho gourmet nem nada, mas Claire faz
nosso pequeno espaço trabalhar a seu favor. Ela pega todos os seus suprimentos e começa
a preparar tudo na mini península.
Meu estômago ronca na hora. O pequeno almoço de hoje mal me segurou,
especialmente porque eu trabalhei até mais tarde do que o normal, já que estava em uma
maré de sorte e não queria parar.
Claire aponta para a banqueta do bar e eu sento.
— Então o que aconteceu? — Tiro minha bandana vintage e faço uma massagem nas
laterais da minha cabeça.
— Ele me ofereceu uma segunda entrevista depois de quase ter um orgasmo no local
por causa da minha comida.
Eu rio. — Cale-se.
— Ok, isso foi dramático, mesmo para mim. Mas seus olhos reviraram um pouquinho.
— Ela sorri.
— Então, qual é o seu novo trabalho?
— O chef principal está sendo transferido para um novo projeto de restaurante com o
Sr. Kane, então ele não estará mais trabalhando no Royal Chateau. E vou fazer parte da
equipe do chef! Ainda não tem nome nem nada, mas tenho lugar garantido na cozinha.
— Claire! Isso é enorme!
Todo o seu rosto se ilumina com o sorriso que ela abre. — Não é?!
— Precisamos de vinho! — Volto para a sala e pego nossos copos cheios. Nós os
brindamos e dizemos um rápido grito de saudação.
— Sem você me pressionando para tentar, eu nunca teria estragado a entrevista. E
sem chorar em cima de uma lixeira, então eu não teria topado com uma oportunidade
melhor ainda! Portanto, agora acredito no destino. Você estava certa todos esses anos. —
Ela volta sua atenção para a frigideira no fogão.
— Então, nosso encontro não te convenceu de que o destino existe?
Claire revira os olhos. — Não. Achei que você fosse apenas uma pessoa irritante que
bateu em mim porque queria roubar a vaga de estacionamento.
— O acidente de um homem é o destino de outro.
— Diga isso à minha seguradora.
Nós duas rimos a ponto de chorar antes de ligar para meus pais e contar a eles as boas
novas.
Claire nos serve o queijo grelhado mais incrível que já comi, não porque suas
habilidades não sejam incríveis, mas por causa de tudo que um simples sanduíche
representa.
15
ROWAN

Já tinha planejado voar de volta a Chicago no sábado para minha reunião de diretoria
na segunda-feira. Mas depois do meu momento de fraqueza perto de Zahra, liguei para
meu piloto e pedi que se preparasse para a decolagem assim que eu deixasse o cubículo
de Zahra. Nunca deveria ter parado para visitá-la. Não era como se eu precisasse de nada
dela, mas não consegui me conter depois de me encontrar com Jenny e Sam. Era como
uma sirene chamando por mim, levando-me em direção à minha morte.
Ela é uma anomalia que ainda não posso categorizar, o que só alimenta meu
interesse. Tudo nela é estranho. De seu traje vintage aos broches, ela não se encaixa na
categoria normal de profissionais de negócios a que estou acostumado.
Odeio que ela me interesse tanto quanto não gosto de como continuo agindo como
um idiota impensado perto dela. Entre meu pseudônimo e Zahra ficando sob minha pele,
preciso de alguma distância do que diabos está atrapalhando meu pensamento objetivo.
Uma sensação de alívio me atinge instantaneamente no momento em que entro em
meu apartamento de cobertura com vista para o Chicago River18. É o meu mundo
silencioso aqui, longe das mulheres que distraem com broches esmaltados e funcionários
que não entendem o sinal universal não verbal para se foder. As pessoas dizem que o lar
é onde está o coração, mas eu não poderia discordar mais. O lar é onde quer que eu esteja
sem ser incomodado. Essa é a verdadeira paz para mim.
Tomo banho, como uma comida para viagem e abro uma cerveja enquanto sintonizo
um jogo de futebol na sexta à noite.
Meu telefone vibra e eu o pego da mesa de centro.
Zahra: Eu sei que você não gosta de nenhum tipo de gratidão porque é tímido e tudo, mas aquele desenho é

INCRÍVEL. Acabei de sair da minha reunião após receber uma ovação de pé.

18 O Chicago River é um rio estadunidense que atravessa o centro da cidade de Chicago. Chicago River é incomum porque

flui ao contrário. Engenheiros reverteram sua direção há mais de um século porque os habitantes da cidade o utilizavam como
despejo e tudo convergia para o rio que desemboca no Lago Michigan. Como o lago era fonte de água potável para a cidade,
milhares ficaram doentes e morreram antes que as autoridades decidissem redirecionar o rio para fluir ao contrário e não desembocar
no lago.
Lá se vai meu plano de evitar pensar em Dreamland por alguns dias. Vou colocar meu
telefone de volta na mesa, mas outra mensagem aparece antes que eu tenha a chance.
Zahra: Ok, isso foi um exagero. Mas todos aplaudiram.
Mordo minha bochecha como se isso pudesse apagar a necessidade de sorrir.
Eu: Alguém te disse que você é ridícula?

Zahra: Claro. Ridiculamente incrível é meu nome do meio.

Eu: Estou meio convencido de que você é louca.


A próxima mensagem aparece antes que eu tenha a chance de respirar.
Zahra: Meio convencido? Eu preciso melhorar meu jogo porque eu não faço nada meia-boca.
Não consigo parar a risada que me escapa. É um som áspero que não estou
acostumado a ouvir.
Eu: Eu vejo por que Rowan contratou você.
Eu realmente vou fingir que sou outra pessoa assim?
Zahra: E eu vejo por que ele contratou você.
Sim, eu também.
Zahra: Eu não sou nada além de suave, modéstia parte.
Eu sorrio. Isso é o que eu estava esperando porque sabia que ela era boa demais para
ser verdade.
Zahra: Caso você tenha perdido a dica sutil, este é o momento que eu proponho a você.

Eu: Eu não acho que você considerou como isso soou.


Meu texto me rendeu um GIF de alguém rindo em sua caneca de café. Estou tão
acostumado com as pessoas rindo na hora combinada que esqueci como é entreter
alguém genuinamente.
Meu telefone chacoalha na minha mão.
Zahra: Então, o que você acha de estabelecermos uma espécie de parceria?
Minha resposta é instantânea.
Eu: Não.

Zahra: Qual é. Você nem ouviu minha proposta ainda.

Eu: Desculpe. Meu banco não aceita dinheiro do Banco Imobiliário .


Aperto a ponta do meu nariz. Quão patético é isso?
De alguma forma, meu comentário me rendeu um trio de emojis risonhos.
Zahra: Você é engraçado.

Eu: Eu não acho que fui chamado de engraçado na minha vida.


Gemo ao ler o texto pela segunda vez. Estou transformando meu alter ego em um
perdedor completo, muito parecido com meu eu normal.
Zahra: Isso é estranho, Scott. Talvez você precise encontrar novos amigos que apreciem seu tipo de humor.
Amigos? Que amigos? Quanto mais alto alguém sobe na escada do sucesso, mais difícil
é se relacionar com alguém abaixo. Talvez seja por isso que gosto de conversar com
Zahra. Não é por causa dela especificamente, mas sim pela ideia de me libertar e ser eu
mesmo.
Zahra: Então, elimine a ideia de dinheiro do Banco Imobiliário. Eu vou fazer melhor. Estou disposta a pagar com comida,

bebida ou o que você quiser.


Antes que eu tenha a chance de pensar em outra resposta, sua próxima mensagem
ilumina meu telefone.
Zahra: Os lápis de cor de alta qualidade são considerados moeda valiosa no seu departamento? Eu tenho um cupom

para nossa loja de artesanato local que peguei emprestado de minha mãe.
Algo em meu peito aperta e, embora não seja exatamente desconfortável, dá um
alarme. No entanto, não dou atenção ao aviso ao enviar outra mensagem.
Eu: Como se pede um cupom emprestado?

Zahra: Bem, quando você coloca dessa forma... considere isso uma doação .
Ela é mesmo real? E o mais importante, por que estou sorrindo para o meu
telefone? Limpo o sorriso do rosto e aperto meus molares juntos.
Eu: Não posso te ajudar. Estou ocupado com o trabalho.
Bom. Saia dessa antes que seja tarde demais.
Zahra: Oh. Certo. Eu entendo. Rowan mencionou como os Animadores estão trabalhando duro em alguns novos

filmes. Você faz parte disso?


Há uma sensação estranha no meu estômago que não tem nada a ver com o que
comi. Não sei por que isso acontece, mas tudo me diz para evitá-la.
Eu: Tenho que desligar. Peça a Rowan a ajuda de outra pessoa.
Há um sentido de finalidade em minhas palavras que espero que se traduza no
texto. Aumento o volume da TV para abafar os pensamentos na minha cabeça.
Meu telefone vibra na minha coxa alguns minutos depois.
Zahra: Volto com uma oferta melhor amanhã assim que resolver tudo.

Eu: Não vá vender seu rim.


Foda-me. É como se eu não tivesse controle sobre mim perto dela.
Zahra: Claro que não. Esse é o plano E. Ainda tenho três opções melhores para ganhar.
Amaldiçoo até o teto, me perguntando como diabos acabei aqui, brincando com
alguém que nem sabe quem diabos eu realmente sou.
E pior, por que estou começando a gostar?
***
Minha apresentação com a diretoria ocorre perfeitamente. Até mesmo meu pai não
tem nada a comentar além de questões básicas de logística sobre meu cronograma. Eu
esperava mais dele, então sua fachada calma só me prepara para o pior.
Ele está tramando algo. Eu só não sei o quê.
— Algo está errado com nosso pai. — Declan se senta em sua mesa.
— Eu notei a mesma coisa. Hoje foi diferente do que vim preparado. — Sento na
diagonal dele. Estou preso na reunião com Declan sozinho porque Cal fugiu mais uma
vez.
— Ele está muito quieto sobre o testamento, o que apenas me diz que ele está
escondendo algo de nós. Não tenho certeza do que fazer com isso, mas estou de olho
nele. É apenas uma questão de tempo antes que ele revele suas cartas. — Declan esfrega
o lábio inferior.
Iris abre a porta com um cotovelo enquanto faz malabarismos com nossos dois cafés
e uma sacola de comida cheia com nosso café da manhã. — Você deve comer tanto, Sr.
Kane? Seu médico disse para cuidar do seu colesterol, já que você está envelhecendo.
Declan pode estar chegando aos 36, mas não tem nada de velho.
Seus olhos se estreitam. — O que eu disse a você sobre a leitura do meu arquivo
pessoal?
Iris me passa meu café e meu sanduíche. — Bem, de que outra forma eu vou reunir
um pacote de informações para todas as suas potenciais pretendentes sem nenhuma
informação pessoal?
— Fácil. Você não reúne. — ele responde secamente.
— Como vai a busca por esposa? — Pergunto.
Iris sorri enquanto prepara o café da manhã de Declan na frente dele. Apesar dos
melhores esforços do meu irmão para permanecer profissional, seus olhos deslizam de
mim para a saia de Iris.
Iris nem percebe. — Posso te dizer que estive em mais encontros com mulheres no
último mês do que seu irmão durante todo o tempo em que trabalho para ele.
Os olhos de Declan permanecem focados em sua secretária enquanto ela coloca seus
utensílios embrulhados em plástico na frente dele. E aqui estava eu, me sentindo mal por
beijar Zahra.
Tusso e Declan sai de qualquer transe em que foi pego. — Iris está examinando as
mulheres antes de eu me encontrar com elas.
— E as pessoas dizem que o romance está morto.
— O quê você espera que eu faça? Apaixonar-me à moda antiga? — Declan zomba.
A ideia é risível. Depois de tudo que passamos com nosso pai após a morte de nossa
mãe, nenhum de nós tem intenção de se apaixonar. Porque se aprendemos alguma coisa,
é que a emoção inútil torna as pessoas fracas e impotentes. Isso anuvia o julgamento e
tem a oportunidade de arruinar tudo.
Meu pai apaixonado era o melhor tipo de homem. Mas meu pai cuidando de um
coração partido? Repulsivo. Patético. Tão perdido em sua miséria que arruinou seus
próprios filhos porque não suportava vê-los mais felizes do que ele.
Não, obrigado. Vou me arriscar em continuar casado com meu trabalho. A taxa de
divórcio é muito mais indulgente.
Iris cai na cadeira ao meu lado. — Sr. Kane não tem tempo a perder, então sou a
segunda melhor coisa.
— Você o conhece melhor depois de todos esses anos. — Encolho os ombros.
Declan pega o saco de papel do meio da mesa e remove a caixa de comida de Iris. Ele
a coloca na frente dela.
De todas as coisas estranhas que vi hoje, essa deve ser a coisa mais estranha até agora.
— Então corte a merda e me diga o que realmente está acontecendo na Dreamland, —
Declan diz.
Viro meu foco de Iris de volta para meu irmão, encontrando seus ombros tensos sob
seu terno. O que tem na Dreamland o perturba tanto?
Provavelmente a mesma coisa que você.
Eu disparo, compartilhando meu relatório real da semana passada, sem minha
atração crescente por minha funcionária.
16
ROWAN
Meu telefone vibra no canto da minha mesa. Eu o pego e abro a mensagem sem
verificar de quem é. Só há uma pessoa que me envia mensagens durante o horário de
trabalho e com certeza não são meus irmãos.
Estou surpreso que Zahra seja capaz de terminar seu trabalho com tantas
interrupções. Eu questionaria sua ética de trabalho, mas com base em alguns dos registros
de tempo de suas mensagens, ela está acordada depois da hora que vou para a cama.
Zahra: SOS!!!
Zahra: Tenho outra reunião nesta sexta-feira e meus esboços parecem algo saído de uma vitrine do
jardim de infância.
Eu: Dê um pouco mais de crédito aos alunos do jardim de infância. Os desenhos deles não são tão
ruins.
Inclino-me para trás na minha cadeira e espero, lutando contra um sorriso
presunçoso.
Zahra: Lembra quando você disse que nunca foi chamado de engraçado na vida?
Eu: Sim.
Zahra: Acontece que todo mundo está certo. Você é horrível.
Eu: É assim que você faz uma oferta para aqueles de quem quer favores?
Zahra: Fico feliz que você tenha perguntado porque estou pronta com minha próxima oferta.
Claro que ela está. Eu não esperaria nada menos dela.
Zahra: Compro pizza e um pacote de seis da sua cerveja favorita se você me ajudar. Estou
IMPLORANDO a você.
Ela não pergunta antes de enviar uma foto. Ela está certa. Qualquer maquete que ela
criou é absolutamente horrível. Eu mal consigo entender a ideia que ela teve
originalmente.
Eu: Isso é um gato morrendo? Isso é um pouco mórbido para um parque temático infantil, não acha?
Zahra: Ha. Ha. Ha. É suposto ser um dragão ameaçador para sua informação artística.
Eu: Pelo menos você acertou em cheio na parte assustadora.
Ela segue minha mensagem com um único emoji de faca.
Eu: Você está ameaçando minha vida? Isso é algo que o RH desaprovaria.
Agora estou brincando ameaçando-a com o RH? Estou fodido. Tão definitivamente
fodido.
Zahra: Meu dedo deslizou. Eu pretendia enviar isso.
Ela segue com uma série de mãos em oração. Esfrego meu sorriso com o polegar.
Eu: Mentirosa.
Zahra: Tudo bem, você está jogando duro, então aqui está o plano C.
Eu: Faltam apenas dois para vender seu rim.
Zahra: Você realmente presta atenção!!
Zahra: Mas acho que você não conseguirá resistir a isso, então meu órgão vital pode estar são e
salvo se você apenas concordar.
Zahra: Que tal pizza, cerveja e um ano de acesso ilimitado às minhas contas de streaming de
TV. Não vou nem mudar a senha em alguns meses para irritar você.
Um sussurro de uma risada me escapa. A oferta dela é ridícula, especialmente porque
fui eu que adquiri qualquer serviço de streaming pelo qual vale a pena pagar uma
assinatura. É meu orgulho e alegria.
Apesar de tudo, estou impressionado com sua perseverança, apesar de todas as
minhas rejeições.
Zahra: Você aceita o desafio?
Eu: Conte-me mais sobre sua ideia e eu pensarei a respeito.
Cada sirene na minha cabeça soa em uníssono, alertando-me para longe dela. Mesmo
assim, não consigo encontrar o desejo de enviar uma mensagem em sequencia revogando
minha oferta.
Ela envia uma enxurrada de mensagens explicando sua ideia para o novo passeio de
montanha-russa com a Princesa Cara. Seus textos estão cheios de uma paixão intrigante,
e encontro-me me perdendo em seu mundo por um tempo.
Zahra tem um jeito de sonhar que acho inebriante. Isso me faz querer criar junto com
ela e projetar algo que dê vida a sua visão. E só isso é assustador.
Eu deveria afastá-la para sempre, mas gosto de como ela pensa que sou apenas um
cara que gosta de desenhar merdas aleatórias. Meu pseudônimo está se tornando um
vício, apesar dos riscos de me aproximar dela. Mas não consigo encontrar forças para
designar um Animador para trabalhar com ela, não importa o quanto eu deva. Há algo
sobre como ela fala comigo que me faz esquecer meu sobrenome por um tempo.
Porque ela não tem ideia de que você é o chefe dela.
Uma sensação amarga toma conta do meu estômago, mas não consigo encontrar
forças para mudar as circunstâncias e admitir quem eu sou. Eu não me sinto tão culpado.
***
Profissionalismo voa pela janela quando eu entrego o desenho do Scott. Há apenas
uma razão para a perda de controle e a bunda curva de Zahra é a culpada por tudo isso.
Eu deveria limpar minha garganta e chamar sua atenção. Inferno, eu deveria me virar
e voltar mais tarde quando ela não estiver esparramada no chão, digitando em seu laptop
com a bunda voltada para o teto como se precisasse ser abençoada pelo próprio Deus.
O calor se espalha do meu peito para a área abaixo da fivela do meu cinto. Reajusto
meu paletó para garantir que nada de alarmante seja perceptível, mas isso não resolve a
sensação estranha que se espalha pelo meu corpo.
Eu chamo seu nome, mas sua cabeça continua a balançar para o que quer que seja
tocado por aqueles fones de ouvido de plástico.
Agacho-me como se não estivesse usando calças que valem o aluguel de um mês
inteiro. Os olhos de Zahra permanecem fechados enquanto seus lábios se movem
silenciosamente ao som de qualquer música. Não tenho certeza o que me deu para
arrancar um dos fones e colocá-lo no ouvido. ABBA toca pelo minúsculo alto-falante.
Huh. Não era isso que eu esperava.
Seus olhos se abrem e meus olhos caem para seus lábios entreabertos. Sou atraído por
ela como uma mariposa por uma chama. É apropriado, dado como eu ajo como um
completo idiota perto dela que está disposto a arriscar tudo por um momento de sua luz.
O jeito que ela me olha me tenta a beijá-la novamente. Qual é o problema de testar se
nosso primeiro beijo ardente foi por acaso? Talvez fosse algum produto da adrenalina
acumulada e um desejo ardente de testar algo proibido.
Inclino-me para frente. É apenas um centímetro, mas parece que estou atravessando
o cimento para chegar perto dela.
Desde quando você se preocupa com algo proibido? Meus olhos caem para seus lábios.
Estou encarando minha razão agora.
— Rowan? — Ela fecha o laptop, matando meu momento.
Afasto a luxúria enquanto me levanto e ofereço minha mão a Zahra. Ela se agarra a
ela e a mesma energia estala entre nós. Sua inspiração preenche o pequeno espaço e
minha mão aperta a dela antes de soltar.
Ela espia o portfólio de couro em minhas mãos. — O que é isso?
Abro e pego o desenho. — Aqui. Disseram-me para dar isto a você.
Ela o puxa para fora do meu alcance com dedos gananciosos. Seu rosto inteiro se
transforma em outra coisa enquanto ela avalia o desenho. O sorriso que ela abre me faz
sentir como se estivesse olhando diretamente para o sol - lindo, mas ofuscante. Uma
queimadura se espalha pelo meu corpo, começando no meu pescoço antes de se espalhar
para o meu pau.
Como é que um olhar dela me faz sentir tudo isso?
Eu fecho a cara. A ideia de perder o controle sobre mim mesmo novamente me faz me
afastar ainda mais de Zahra.
Ela pega o telefone da mesa e toca na tela.
— Tudo bom? — Digo.
Seu sorriso de antes diminui. — Sim. Você é amigo do Scott ou algo assim?
Minhas costas ficam rígidas. — Por que?
— Porque você não parece o tipo de homem que tem tempo para entregar papéis que
não têm nada a ver com você. Você não deveria estar ocupado ou algo assim?
— Ou algo assim. — Zombo.
Ela revira os olhos com um sorriso. — Tão sensível.
O insulto fez meus punhos cerrarem ao meu lado. — Você tem razão. Tenho coisas
melhores a fazer do que servir como seu mensageiro pessoal. Se Scott não tem coragem
de enfrentá-la pessoalmente, isso é problema dele, não meu. — A mentira desliza pelos
meus lábios com facilidade.
— Ah, com certeza. Sem problemas. Vou mandar uma mensagem para ele eu mesma.
— Embora seu sorriso seja uma versão mais turva do anterior, ainda faz meu peito
apertar.
Eu realmente preciso dar o fora daqui. Meus olhos permanecem focados na saída
enquanto deixo Zahra para trás com nada além de uma série de mentiras para me fazer
companhia.
17
ZAHRA

Scott não respondeu minha mensagem de agradecimento ainda e já se passou uma hora
desde que Rowan passou por aqui e quase me beijou.
E você quase o deixou. Talvez seja a maneira como seus olhos se fixam em meus
lábios. Ou como todo o meu corpo se aquece de forma inadequada sempre que ele chega
perto demais.
Tento me distrair trabalhando em minha apresentação, mas encontro minha mente
vagando. É estranho não ter falado com Scott por um dia inteiro, e não tenho certeza do
que fazer com isso. Ele está rapidamente se tornando a primeira pessoa com quem eu
troco mensagens de manhã e a última pessoa com quem falo antes de adormecer.
Posso não ter ideia de como ele se parece, mas sei que ele tem um bom coração. Confio
nos meus sentimentos e há algo em Scott que me diz para continuar tentando,
independentemente de quão tímido ele possa ser.
Mando uma mensagem de texto para ele com meus logins e senhas de streaming, na
esperança de chamar sua atenção.
Eu: Se você comentar sobre meus programas assistidos recentemente, eu juro que vou te matar enquanto você dorme.

Eu: Assim que descobrir seu endereço de HP, é claro.


Conto os segundos que passam com base na batida do meu coração.
Nada.
Coloco no silencioso e jogo meu telefone em uma das gavetas da minha mesa,
esperando que os cantos escuros engulam tudo.
Durante minha pausa para o almoço, pego meu telefone para encontrar algumas
mensagens de Scott.
Scott: Se você está tentando descobrir minha localização, sugiro começar com um endereço IP.

Scott: E não vou julgar muito.


Sorrio como uma idiota para o meu telefone.
Eu: Você está totalmente julgando.

Scott: Eu? Nunca.

Scott: Mas você recomenda The Duke Who Seduced Me?

Eu: Cale a boca.


Scott: Isso não é legal.

Eu: É para fins de pesquisa.


Entre outras coisas. Não vou revelar minha obsessão por Juliana De La Rosa e as
adaptações de seus livros para a TV.
Meu telefone vibra.
Scott: Claro. Você parece uma empregada diligente da Dreamland.
Algo sobre o texto fez minhas bochechas queimarem.
Scott: Importa-se de compartilhar por que você tem dezessete versões de Orgulho e Preconceito salvas em sua lista de

Assistidos Recentemente?

Eu: Considere isso um cobertor de segurança virtual.

Scott: Mas quem precisa de dezessete versões desse filme?

Eu: A mesma pessoa que ficaria feliz com dezoito anos.

Scott: Você é a única.

Eu: Única passa a ser meu nome do meio.

Scott: O que aconteceu com Ridiculamente Incrível?


Meu coração aperta no meu peito enquanto Scott envolve seu punho em torno dele.
Eu: Você tem prestado atenção.

Scott: É fácil quando você é um livro aberto.

Eu: Talvez eu deva jogar mais forte.


Depois de minutos sem resposta, coloco minha cabeça contra a mesa. Eu o assustei ao
primeiro sinal de interesse.
Meu telefone vibra.
Scott: Vá em frente. Eu sofro de uma péssima raia competitiva.

Scott: Mas fique tranquilo, eu sempre ganho.


Minúsculas borboletas voam em meu estômago. Scott nunca flertou abertamente
assim antes.
Eu: Você parece extremamente confiante em suas habilidades para alguém que se esconde atrás de uma tela.
A mensagem deveria ter um tom de flerte, mas não deu certo. Os minutos passam
sem resposta e fico mais inquieta.
Eu o empurrei muito forte muito rápido? Era para ser apenas uma piada.
A resposta fica evidente com o passar do tempo. Scott não responde minha mensagem
pelo resto do dia, e fico me sentindo vazia.
Talvez eu o tenha feito sentir uma merda sobre algo que ele está envergonhado. Ele
pode ter problemas com a imagem corporal ou um caso grave de ansiedade social que só
estou piorando porque sou muito curiosa para o meu próprio bem. E a verdade é que
estou começando a gostar de nossa amizade. Eu odiaria assustá-lo, especialmente com a
forma como ele me fez sentir tonta com uma mensagem de flerte.
Desse ponto em diante, juro não incomodá-lo com sua identidade. Não importa. Além
disso, estou confiante de que ele se abrirá lentamente se eu lhe der tempo para se aquecer
comigo. Se consegui fazer Ralph, que odeia todo mundo, sorrir, então posso fazer
qualquer coisa.
***
Merda! Estou atrasada! Enfio meu laptop e telefone na bolsa antes de sair do meu
cubículo.
O armazém está vazio quando corro para a sala de conferências. Minha respiração sai
irregular e forçada quando abro a porta, interrompendo Jenny. A cabeça de todos vira
em minha direção, e todo o meu corpo fica vermelho da cabeça aos pés.
— O atraso não será tolerado. Se isso acontecer novamente, você precisará trabalhar
horas adicionais para compensar. — Rowan não se incomoda em tirar os olhos do
telefone.
A dispensa me faz sentir cinco centímetros menor.
Uma rápida avaliação da sala revela que não há assentos disponíveis, exceto aquele
ao lado de Rowan. Este é o castigo que mereço por flertar em vez de trabalhar.
Excelente. Fabuloso. Hoje não poderia ser melhor.
— Sente-se ou saia. — Seu tom autoritário me irrita.
Mantenho minha cabeça erguida enquanto pego a cadeira desocupada ao lado de
Rowan. O cheiro dele me atinge primeiro, como uma brisa do oceano que eu esperaria
enquanto estava de férias em algum lugar como Fiji. Afasto meu assento o mais longe
possível dele, sem perturbar o Criador ao meu lado.
— Agora que todos estão finalmente aqui, prossiga. — Rowan faz um gesto para
Jenny continuar.
Meu estômago afunda.
Jenny me lança um sorriso suave antes de voltar sua atenção para o resto da sala. —
Quem quer ir primeiro?
O grupo permanece em silêncio. Ninguém se levanta da cadeira enquanto Jenny olha
ao redor da sala de conferências. É um grande contraste em comparação com nossa
última reunião de sexta-feira e acho que tem tudo a ver com o homem carrancudo ao meu
lado.
— Venham todos. — Ela solta uma risada nervosa. — Eu preciso tirar nomes de um
chapéu?
Grilos. Ninguém se move um centímetro.
— Eu irei. — Levanto-me com as pernas bambas que podem ceder a qualquer
segundo. Rowan olha para mim com seu olhar vazio de costume antes de assentir. Seus
olhos escuros me lembram do espaço - infinito, perigoso e algo em que posso me perder.
Configurei meu PowerPoint com as mãos trêmulas. Meu medo do palco melhorou
um pouco desde a minha primeira apresentação, mas o nervosismo ainda me atinge,
especialmente no início. O olhar de Rowan envia pequenas picadas de algo pela minha
espinha. Acabo clicando duas vezes no arquivo errado antes de conseguir me
controlar. Demoro algumas respirações profundas para finalmente estabilizar minha
frequência cardíaca.
Durante todo o tempo que apresento, ignoro Rowan. Isso é o que ele ganha por me
tratar da maneira que ele tratou na frente de todos.
Os Criadores aplaudem quando termino minha última frase, e me sinto um pouco
melhor com tudo o que aconteceu antes.
— Poderia ser melhor, — diz Rowan.
— Como assim? — Cerro meus punhos contra meu vestido.
— Que tal se mudássemos todo o layout do passeio.
— Todo o layout? — Respire fundo, Zahra.
— Em vez de ter os carrinhos da montanha-russa criados para representar o dragão
voando, vamos fazer com que o dragão faça parte do passeio. Manteremos sua ideia de
montanha, mas quero que a montanha-russa mergulhe nas cavernas escuras como se os
cavaleiros estivessem fugindo do dragão. Eu quero fogo, efeitos especiais, animatrônicos
e trilhos que andam para trás.
Não tenho certeza do que me confunde mais. O fato de que a ideia de Rowan faz a
minha empalidecer em comparação ou a explosão de paixão em sua voz que eu não tinha
ouvido antes. É como se alguém o conectasse e ligasse sua consciência. Sua carranca
anterior se foi, substituída pelo menor sorriso em seu rosto enquanto ele olha para o
projetor. O brilho em seus olhos traz um belo tom de marrom mel que eu ainda não vi.
— Para trás? Nunca tivemos um passeio como esse antes.
— Obviamente. — Ele afirma em um tom neutro que me faz sentir como se tivesse o
QI de uma ervilha. — Sua ideia é um bom ponto de partida, mas precisamos aumentar
as apostas. Próximo. — Ele me dispensa com nada além de um aceno de mão.
Quero ficar com raiva de Rowan por hackear completamente minha ideia até que ela
se torne um conceito completamente diferente, mas não consigo encontrar em mim nada
além de animação. Eu nunca havia considerado um passeio como esse antes.
Ele quer que eu aumente as apostas? Tudo bem. Mas ele pode precisar de uma escada
para alcançar os níveis que estou disposta a subir.
Levanto meu queixo e volto a sentar ao lado de Rowan. Estou presa sentada mais
perto dele do que antes e só posso culpar o Criador ao meu lado por empurrar minha
cadeira o mais longe possível dele. Não é como se o meu fracasso na apresentação fosse
contagioso.
Agarro minha caneta com força durante toda a reunião. Cada vez que Rowan reajusta
sua perna, faíscas sobem pelo meu corpo direto para o meu coração. Estou tentada a
pegar o assento de outra pessoa durante nossa pausa para o banheiro, mas isso seria
ridiculamente imaturo da minha parte. Afinal, é apenas a perna dele.
Então por que você fica vermelha toda vez que o corpo dele roça o seu?
Minha caneta esfaqueia várias páginas do meu caderno.
Os outros apresentadores sobem um por um, discutindo uma ampla gama de tópicos,
desde alguns novos passeios a um novo hotel baseado em um filme da Dreamland. Estou
grata por ter ido primeiro, porque a cada apresentação, a carranca de Rowan se
aprofunda. Ele furiosamente escreve anotações e trata cada apresentador como se eles
estivessem no banco de réus na sua linha de questionamento. O feedback que ele me deu
empalidece em comparação com seus outros comentários severos.
Há um suspiro coletivo de alívio quando a última pessoa termina sua declaração final.
— As apresentações foram abaixo da média, na melhor das hipóteses. — A voz de
Rowan carrega mais dentada do que o normal. Ele se levanta e abotoa a frente de seu
terno. — Quero que todos vocês parem de perder meu tempo e venham preparados com
ideias inovadoras que me deixam maravilhado. Se eu continuar a achar que suas
propostas carentes, serei forçado a encontrar pessoas dispostas a fazer o trabalho direito
da primeira vez. Considere este seu primeiro e último aviso.
O Criador ao meu lado engole ruidosamente. Olho para ele para encontrar um brilho
de suor escorrendo por sua testa. Estou um pouco grata por estar sentada mais longe dele
com base no cheiro que sai dele.
— Até novo aviso, os funcionários deverão trabalhar 12 horas por dia para aumentar
a produtividade e a criatividade.
— Receberemos um aumento salarial? — alguém na parte de trás dispara.
O olhar vazio de Rowan envia um arrepio pela minha espinha. — Devo recompensar
todos vocês por serem medianos?
Oh meu maldito Deus. Ele realmente disse isso?
A frustração de Rowan, embora ligeiramente compreensível, não se justifica. Os
Criadores não estão acostumados a ter ideias em um ritmo tão rápido. Apresentar um
novo conceito a cada sexta-feira é difícil. Estou até lutando, não que vou admitir para
ninguém.
— Aumentos são ganhos, não dados. — Rowan sai da sala de conferências sem se
despedir.
Todos nós afundamos em nossas cadeiras.
Jenny pigarreia. — Então isso foi muito para desembrulhar. Há alguma pergunta?
Uma pessoa geme e eu levanto o punho mental em solidariedade.
18
ROWAN

Depois de arruinar a reunião de equipe da Zahra, fiz o mesmo com a equipe Alpha
do Sam. Não tenho o luxo de perder tempo com ideias abaixo da média e oportunidades
perdidas.
No entanto, você tem tempo a perder desenhando.
Desenhar me revigora de uma maneira que nunca experimentei antes - como se eu
pudesse desligar o mundo e as demandas colocadas sobre mim por uma hora. Não sou
estúpido o suficiente para acreditar que isso poderia ser uma atividade de longo prazo
para mim. É apenas um meio para um fim.
Caio na minha cama e pego meu telefone da minha mesa de cabeceira. Tenho evitado
Zahra desde que ela mandou uma mensagem sobre eu me esconder atrás de uma
tela. Isso me irritou mais do que eu gostaria de admitir antes. Não me escondo atrás de
nada, muito menos de um estúpido pedaço de vidro. Estou apenas observando.
Eu: Não estou me escondendo atrás de uma tela porque estou com medo.
Ela não responde imediatamente como de costume. Adiciono a conta de streaming de
Zahra à minha smart TV. Se ela soubesse quem ajudou a produzir seu programa favorito do
duque.
Escolho um programa aleatório para passar o tempo. Um episódio se transforma em
três e, antes que eu perceba, Zahra ainda não me respondeu.
Eu: Rowan está mantendo você acordada a noite toda?
Estremeço ao reler minha mensagem, percebendo como ela soa.
Espero algum constrangimento da parte dela, mas meu comentário me rendeu um
GIF risonho.
Zahra: Não. Mas eu estava ocupada trabalhando em uma nova ideia!
Excelente. Isso é exatamente o que preciso dela. Só talvez não à meia-noite, quando
ela deveria estar dormindo.
Não é isso que você esperava? Foi você quem acrescentou quatro horas a um dia de trabalho de
oito horas porque estava puto.
Zahra: Por quê? Você está com saudades de mim?
Minha resposta é instantânea.
Eu: Não.

Zahra: Droga.

Zahra: Você ainda tem um coração?

Eu: Eu não sofro desse tipo de aflição.

Zahra: Quem te machucou?


A pergunta dela pretende ser uma piada, mas manda uma onda de lembranças ruins
à tona. Agarro meu telefone em um estrangulamento. Demoro cinco minutos inteiros
para me recuperar e pensar em uma resposta suficientemente vaga para ser suficiente.
Eu: Alguém?

Zahra: Uma ex-namorada horrível?

Eu: Falando por experiência própria?


A pergunta deixa uma sensação amarga no meu estômago. Nunca pensei que Zahra
tivesse um namorado antes, mas a ideia me faz querer jogar meu telefone pela sala.
A ideia de ela estar com outra pessoa... é inquietante. Como a maneira como alguém
se sente bem antes de uma montanha-russa cair.
Zahra: Não há palavras suficientes no dicionário humano para explicar essa história.

Eu: Tão ruim assim?


Por quê você se importa?
Zahra: Tudo o que posso dizer é que quando uma porta se fecha, geralmente é porque alguém bate na sua cara.

Eu: Eu não acho que é assim que diz o ditado.

Zahra: Gosto de colocar minha própria interpretação nas coisas.

Eu: Eu percebi.
Assim como percebi muitas coisas sobre ela que provavelmente não deveria.
Isso me impede de continuar nossa conversa? Deveria, mas não.
Isso me força a desligar meu telefone e adormecer? Nem um pouco.
Em vez disso, faço companhia a Zahra enquanto ela desenvolve uma ideia por
mensagem de texto, como o idiota estúpido em que ela me transformou.

— Você tem um pacote. — Martha abre a porta do meu escritório com um braço. A
outra treme enquanto segura a caixa. Levanto-me e pego a caixa dela, com medo de seu
tornozelo vacilante ceder e quebrar o conteúdo antes que eu tenha a chance de usá-lo.
Martha sai sem prestar muita atenção em mim. Eu a aprecio mais e mais a cada dia,
porque ela faz seu trabalho enquanto garante que apenas as pessoas com hora marcada
me incomodem.
Coloco a caixa na minha mesa antes de cortá-la com uma tesoura. Demora alguns
segundos para retirar a caixa menor do oceano de espuma.
Passo minha mão sobre a imagem do table de desenho Wacom na frente da caixa. Se
meu avô me visse usando um desses, me criticaria por desistir dos clássicos. Meu motivo
inicial para comprar o tablet foi enviar cópias digitais para Zahra sem parar em seu
cubículo.
O tablet chamou minha atenção durante as compras online. Ele tem todos os gadgets19
e recursos que os designers gráficos adoram ter. Abro a caixa como uma criança na
manhã de Natal, rasgando o papelão na pressa de tirar o tablet.
Meu coração dispara no peito enquanto pressiono o botão liga / desliga. Sorrio para
mim mesmo quando a tela se ilumina e o logotipo da empresa pisca.
Pego a papelada que estava revisando antes e pego os textos que Zahra me enviou na
noite passada.
Este é um meio para um fim.
Você continua dizendo isso a si mesmo. Talvez você finalmente acredite.
***
Passo a mão na minha barba por fazer depois de criar um e-mail com pseudônimo e
enviar a Zahra uma cópia de seu design mais recente. Meus olhos ardem de passar horas
assistindo a tutoriais do YouTube sobre como usar um pedaço de plástico. Quase desisti
no meio do caminho e designei um Animador para ajudar Zahra, mas a ideia me deixou
desanimado. Não sou o tipo de pessoa que desiste e não estava disposto a deixar um
tablet me vencer.
Verifico sua resposta duas horas depois, depois de passar por outra série de reuniões
com nossos Diretores estrangeiros da Dreamland.
Zahra: Vejo que você intensificou seu jogo!

Zahra: É incrível. Sério.

Eu: Você gostou da alteração do design original?


Deveria ter perguntado a ela antes de ajustar seu plano original. Ela queria apresentar
um novo castelo para uma das princesas originais, mas gostei da ideia de abandonar o
antigo castelo para a princesa Marianna. Mudei o design clássico para algo que combina
com a cultura mexicana.
Zahra: Eu adoro! Isso pode impressionar Rowan.

Zahra: Ok, vamos ser realistas. Nada do que eu fizer vai impressioná-lo, mas é bom dizer isso.
Normalmente, fico feliz em levar as pessoas ao limite, mas a maneira como Zahra fala
sobre si mesma me detém. Ela realmente pensa isso?
Ela não me dá muito tempo para pensar em mais nada.
Zahra: Espere!!!

Zahra: OMG. Acho que você me deu a melhor ideia. Pare tudo e me ajude!
Corro a mão pelo sorriso que só aparece por causa de Zahra.

19 Gadgets referem-se a miniaplicativos desenvolvidos para tornar mais simples a vida dos usuários.
Zahra: O que você acha de um passeio que leva os visitantes pela vida após a morte no Día de los Muertos?

Zahra: Sinta-se à vontade para mentir e me diga que é incrível, mesmo que você não ache isso.
Claro que acho uma ideia decente. Nunca me ocorreu que um castelo poderia levar a
um passeio totalmente novo sobre uma princesa que pode falar com os mortos.
Passo os próximos trinta minutos entretendo-a porque estou interessado em ver
aonde sua criatividade à leva. Não tem nada a ver com a forma como sua paixão desperta
algo quente em meu peito. Assim como falar com ela não tem correlação com a súbita
explosão de energia que sinto quando retiro o estúpido tablet que não me deu nada além
de problemas durante toda a tarde.
Absolutamente nada.
19
ROWAN

Como o gato de rua que Zahra descreveu, passo pelo cubículo dela depois de minhas
reuniões com Jenny e Sam. Se Zahra está desconfiando do meu interesse crescente, ela
não deixou transparecer.
Paro na parede do lado de fora de seu cubículo. Um papel branco com letras em
negrito se destaca no pano de fundo de tecido cinza, com tiras de papel meio recortadas
balançando no ar. Elas estão todos ali, exceto uma.
Junte-se à nossa equipe de Buddies20 e seja um mentor hoje! Se você tiver alguma dúvida, sinta-
se à vontade para me ligar. Adoraríamos ter você.
O resto do artigo é vago, mencionando apenas uma oportunidade de participar de um
programa de mentoria para adultos para funcionários da Dreamland. Acho que ouvi
Martha falar sobre isso durante nossa agenda matinal, mas só ouvi pela metade quando
ela mencionou a palavra voluntário. Tenho pouco tempo em um dia e discutir alguma
reunião aleatória de funcionários sobre serviço comunitário não está no meu radar.
Cada tira inclui um endereço para a reunião e um número de contato com o qual estou
bastante familiarizado. Há algo em todo mundo ter acesso às informações de Zahra que
me deixa quente.
Há uma faixa faltando entre dez. Eu poderia verificar as fitas de vigilância e descobrir
quem a roubou, mas isso é um passo longe demais, mesmo para mim.
Quem poderia ter pegado o número? Não há muitos jovens Criadores por aqui que
possam se interessar em sair com Zahra. Notei um membro loiro da equipe Beta olhando
para a bunda de Zahra uma ou duas vezes. Quando ele viu que eu o peguei olhando, ele
realmente me lançou um sorriso presunçoso que fez meus punhos cerrarem. Acabei o
destruindo durante sua apresentação.
Meus punhos se fecham ao lado do corpo. Olho ao redor do corredor antes de rasgar
o resto dos números. Coloco no bolso da minha calça antes que eu tenha a chance de me
repreender por algo tão ridículo.
Estou agindo como um maldito maníaco.
Quem se importa com quem manda mensagens para ela?

20 Buddy: amigo/companheiro
Eu. Eu me importo.
Mas por que?
Esfrego a mão no rosto e gemo.
Zahra põe a cabeça para fora do cubículo. Seu sorriso cai quando seus olhos pousam
em mim. — Oh. É você.
— Esperando por outra pessoa? — Não me diga que ela está esperando por Chad. Ou
é o Brad? Qualquer um se encaixa no loiro estúpido.
Você parece um idiota ciumento.
Suas sobrancelhas se juntam. — Huh? Não. Apenas checando se alguém tinha alguma
dúvida sobre... — Seus olhos se arregalaram para o papel na minha frente. — Uau! Não
pensei que tantas pessoas estivessem interessadas! — Seu rosto inteiro se ilumina como
uma explosão solar. Ela brilha tanto que todo o resto empalidece em comparação. Eu me
sinto uma impotente presa em seu campo magnético, tão perto do sol que posso explodir
em chamas.
Uma maneira adequada de morrer com base na mentira que derrama de mim. —
Havia apenas uma sobrando quando eu cheguei aqui. — Deveria me sentir culpado por
mentir, mas não consigo achar que me importe tanto.
O sorriso de Zahra atinge seus olhos. — Isso significa que você pegou a última?
Porra. Por que ela tem que ser tão inteligente o tempo todo?
— Sim, — murmuro baixinho. Meu estômago se revira e minha garganta parece ter
uma mão invisível em volta dela.
— Excelente! Esteja lá hoje à noite às 20h em ponto. — Seus olhos brilham como se ela
se divertisse com a ideia de zombar do meu pedido de pontualidade.
Franzo a testa. — Você não deveria estar trabalhando essa hora?
— E se eu dissesse que isso é parte de uma ideia na qual estou trabalhando?
Tiro o papel da tachinha e releio o título. — Duvido. Não consigo me imaginar
aprovando nada que envolva cupcakes e charadas. Não sei de quem você está tentando
ser mentora aqui, mas não estamos interessados em contratar crianças.
Seu sorriso desaparece. — Esqueça que você já leu sobre isso e perca meu número. —
Ela pega o papel da minha mão e volta para seu cubículo sem me lançar outro olhar.
Nunca vi Zahra tão chateada antes. O que sobre esta reunião especificamente a
irritou?
Quem se importa? Agora você tem um motivo para evitar ir.
Mas o que ela está escondendo?
Deixo o depósito e paro na lixeira mais próxima, onde jogo fora todos os pedaços de
papel, exceto um.
***
Os olhos de Zahra se conectam aos meus quando passo pela porta da pequena sala de
reuniões. O espaço alugado que Zahra escolheu está localizado na parte de trás do
parque, dentro do complexo de apartamentos dos funcionários. Nunca visitei esta área
para nada além de dar uma olhada rápida em minha lista de verificação.
Seu sorriso vacila quando desabotoo meu terno e sento como se eu pertencesse a este
lugar. Meu pescoço esquenta com a maneira como ela rastreia meus movimentos, com os
olhos seguindo minha mão enquanto pego um cupcake da bandeja.
Suas pequenas mãos se enrolam ao lado do corpo. Eu nem amo doces, mas finjo que
é o melhor cupcake.
Vamos. Mostre-me o que você realmente está escondendo sob aqueles sorrisos falsos e broches
inocentes. Falando nisso, a dose ofensiva de hoje de serotonina é um fantasma ridículo
usando um sombrero com o ditado Ami-Ghos21t. Onde ela encontra essas coisas e por que
as usa?
Os olhos de Zahra se contraem. — O que você está fazendo aqui?
Olho ao redor da sala quase vazia como se a resposta fosse óbvia. A falta de
comparecimento me enche de uma sensação de realização. — Estou aqui para uma
reunião. Continue.
Ela se inclina para frente na mesa, tentando intimidar, mas falhando. — Você não me
diz o que fazer. Você não é meu chefe depois do horário de trabalho.
— Se você estiver em propriedade da empresa, então ainda é considerada minha
funcionária.
— Tudo aqui é propriedade da empresa.
— Perceptiva como sempre.
Os olhos de Zahra se estreitam enquanto suas bochechas ficam em um tom
interessante de vermelho que eu não tinha visto antes. Estou um tanto interessado em
aprender mais sobre esta versão de Zahra. É exatamente o contraste de sua personalidade
feliz e amante de broches que ela compartilha com o mundo.
Uma jovem morena entra na sala carregando uma garrafa de refrigerante, seguida por
um homem loiro. Ambos têm traços faciais suaves, o que é uma indicação inabalável de
seus diagnósticos de síndrome de Down.
Merda. Não é preciso muito esforço para tirar conclusões sobre exatamente que tipo
de programa de mentoria é esse.
Pela primeira vez em Deus sabe quanto tempo, sinto um arrependimento
intenso. Não admira que Zahra tenha ficado tão irritada com meu comentário. Foi
totalmente merecido com base no tipo de programa que ela está tentando criar aqui.
Porra. Você é um idiota às vezes.
Zahra dá um sorriso afetado. — Agora é sua chance de sair antes que seja tarde
demais.
— Acho que gostaria de ver isso até o fim. — Eu quis dizer o que disse sobre
desafios. Quanto mais Zahra quiser me afastar, mais forte vou empurrar de volta.

21 Fantasma amigo.
A morena mais baixa dá uma cotovelada nas costelas de Zahra. — Seja legal. Ele é
fofo. — Seus olhos castanhos amendoados brilham e realçam a suavidade de seu rosto.
Ela se tornou oficialmente minha nova pessoa favorita.
Zahra a encara. — Eu sou legal.
Levanto uma sobrancelha.
— Por que você está realmente aqui? — Zahra olha ao redor da sala que está vazia,
além de nós quatro.
Eu poderia comentar sobre a falta de comparecimento, mas a culpa é minha.
— Estou interessado no programa de mentoria.
Ela zomba. — O que aconteceu com não estar interessado em contratar crianças?
— Eu estava errado.
Ambas as sobrancelhas dela se erguem. — Você… bem. Uau. OK. Pensei que não
tinha em si o hábito de admitir quando comete um erro.
— Não prenda a respiração esperando pela próxima vez. — Meu comentário me rende
um pequeno sorriso.
— Então, você vai começar a reunião ou planeja ficar olhando para mim a noite toda?
A morena ao lado de Zahra dá uma risadinha.
Os olhos de Zahra se movem da mulher mais baixa para mim. — Sabe de uma coisa,
Rowan? Eu tenho o buddy22 perfeito para você.
Buddy? Nunca concordei em me tornar um buddy. Estou aqui apenas para assistir de
longe, não para me tornar um mentor. Acho que não fui mentor de ninguém na minha
vida. Exige muita fala e pouco trabalho, e mesmo assim acabo refazendo o trabalho deles.
O jeito como Zahra sorri para mim faz minha pele coçar. — Ani, você é parceira de
Rowan.
A morena ao lado de Zahra gargalha. — Sim!
Bem, merda. Essa risada deve me preocupar.
***
— Então, minha irmã me contou tudo sobre você. — Ani e eu nos sentamos em um
banco perto do complexo de apartamentos. Zahra se separou com o homem, dando-nos
tempo e privacidade para nosso primeiro encontro oficial de mentoria.
— Quem é sua irmã?
Ela me olha como se eu fosse o homem mais idiota da Terra. — Zahra.
Minha cabeça se inclina. — Eu não sabia que ela tinha uma irmã.
— Surpresa! — Ela sorri.
— Bem, é tarde demais para revogar o cartão de irmã dela?
Ani me olha com as sobrancelhas franzidas. — Por que?
— Porque nenhuma irmã que te amasse nos colocaria juntos em parceria .
— Oh, por favor. Duvido que você seja tão ruim.

22 Significa algo como companheiro, mas nesse sentido é de mentoria.


— E você decidiu isso nos dois segundos em que me conheceu?
Ani balança a cabeça. — Porque muitos caras não viriam para uma reunião como
esta. Lance nunca quis.
— Quem é Lance?
— Ex de Zahra.
— Ele parece um idiota.
Ela me dá uma cotovelada. — Sem palavrões.
Levanto minhas mãos em sinal de rendição.
Ela brinca com o laço de cabelo no pulso. — Eu nunca gostei dele.
— Por que?
— Porque ele me olhava engraçado. E às vezes eu o ouvia dizer coisas ao telefone
quando eu não deveria ouvir. — Ela desvia o olhar. A expressão em seu rosto me fez
pensar que tipo de coisas horríveis ela poderia ter ouvido.
— Tipo?
Ela balança a cabeça agressivamente. — Nada.
— Por que você o está protegendo?
— Eu não estou. É notícia velha e não quero deixar Zahra triste de novo. — Seu lábio
inferior balança.
Uau. Ani realmente se preocupa com sua irmã. Embora meus irmãos me amem, eu
duvido que eles deixariam qualquer coisa os destruir para me proteger.
Ani bate o ombro no meu. — Então, por que você veio hoje à noite?
— Eu estava curioso.
— Sobre minha irmã? — Seu sorriso se alarga.
— Sobre a reunião. Eu não tinha certeza se ela estava planejando um golpe de Estado
contra mim.
Ani ri. — Não se preocupe. Seu segredo está seguro comigo.
— Que segredo?
— Você queria ver minha irmã. — Ela diz isso cantando.
Roubo o cupcake dela. — Vou aceitar isso como pagamento. — Esqueci como é
saborear açúcar, mas seja lá o que Zahra colocou nesses cupcakes me deixou com vontade
de mais.
— Ei! Pagamento de quê?! — Ela tenta roubar o cupcake da minha mão.
— Pela turbulência emocional que você está fadada a me fazer passar quando
terminarmos aqui.
— É apenas o primeiro dia. Você ainda tem meses.
— Então é melhor você trazer muitos cupcakes.
Me solidifico como buddy de Ani. Não porque Zahra me disse, mas porque eu meio
que gosto dela.
Talvez Ani possa lhe dar uma compreensão melhor de quem Zahra realmente é.
Eu cerro meus dentes.
Ou se Zahra realmente for uma pessoa legal e você for muito amargo para aceitar isso?
Algo sobre esse pensamento me preocupa. Porque se Zahra realmente fosse uma
pessoa legal, isso iria confundir toda a minha mentalidade.
Balanço minha cabeça. Eu seria estúpido em confiar em alguém com base em nada
além de algumas interações.
20
ZAHRA

Scott e eu caímos em um padrão confortável com o passar das semanas. Ele é


constante em enviar desenhos todas as semanas, e sou igualmente confiável para enviar
mensagens de texto para ele primeiro quase todos os dias.
Mas nas raras ocasiões em que Scott me manda mensagens primeiro, sou atingida por
uma onda de tontura. E hoje, ele quebra meu medidor de felicidade com uma única
mensagem.
Scott: Eu vi isso e pensei em você.
Meu coração dispara no peito, traindo exatamente o que sinto por Scott pensar em
mim. Abro o link que ele enviou de um teste do Buzzfeed.
Um questionário sobre Com Qual Personagem de Orgulho e Preconceito Você Mais se
Parece.
Juro que quase caio da cadeira por ter desmaiado com tanta força. Não tem como ele
ter se deparado com isso sozinho. Ele deve ter procurado um ponto de partida para uma
conversa e achou que essa era uma boa opção.
Sorrio enquanto digito uma resposta.
Eu: Você fez?
Scott: Talvez.
Eu: QUEM VOCÊ RECEBEU?
Scott: Você quer a verdade ou uma mentira?
Eu: Sempre a verdade.
Seu texto leva dez minutos inteiros. Receio tê-lo assustado com a minha resposta, mas
ele voltou com uma mensagem que eu não esperava.
Scott: Elizabeth Bennet.
Curvo-me e rio até minha voz ficar rouca.
Eu: Honestamente, ela é a melhor personagem.
Scott: Ela é uma mulher.
Eu: Ela é mais do que APENAS uma mulher.
Scott: Obviamente, do contrário não haveria dezessete versões de sua história.
Scott: Embora eu tenho um fraquinho pela de 2005, Lizzy.
Minhas bochechas doem de tanto sorrir.
Eu: Você está assistindo os filmes?!
Scott: Sim.
Scott: Mas diga a uma única pessoa e eu encontrarei seu endereço HP.
Sorrio com sua tentativa de fazer uma piada.
Eu: Isso foi uma piada?
Scott: Se você precisa perguntar, eu falhei.
Solto uma risada pesada.
Eu: Estou apenas brincando.
Quero extrair mais informações dele. Nenhum homem normal assiste Orgulho e
Preconceito sem alguns motivos ocultos, e tenho um pressentimento do por que.
Eu: Por que você assistiu ao filme?
Os pontos vêm e vão continuamente antes que sua próxima mensagem apareça.
Scott: Eu estava interessado em dissecá-lo de um ponto de vista puramente científico.
Eu: Você é um nerd.
Sério, com base nos poucos fatos que Scott compartilhou, passei a imaginá-lo como
um. Quero dizer, o homem ainda tem uma assinatura da revista National Geographic e
assiste Jeopardy religiosamente antes de dormir. Se ele não largasse algumas referências à
cultura pop e tivesse o mesmo gosto musical que eu, teria pensado que estava sendo
enganada por um cidadão idoso. Estou bem ciente de que ainda é uma opção em jogo,
mas estou esperando o momento certo para pressionar Scott a me encontrar. E a conversa
de hoje é o começo perfeito.
Eu: Você chegou a alguma conclusão?
Sua resposta é instantânea.
Scott: Sim. Você é tão louca quanto eu pensava.
Scott: Mas é quase cativante.
Em outras palavras, isso é praticamente um elogio vindo dele. O calor em meu peito
se espalha pelo meu corpo como um incêndio.
Passo o resto do dia pensando em minha conversa com Scott. É difícil não tirar
conclusões precipitadas sobre tudo isso, mas por qual outro motivo ele assistiria aos meus
filmes favoritos? Todas as dezessete versões deles?
Acho que Scott pode gostar de mim. Se ao menos ele tivesse coragem suficiente como
Lizzy para me enfrentar.
Talvez um dia.
***
Se há uma coisa que ninguém deveria ficar bem usando, são os tênis de boliche. Mas
é claro que o homem que usa ternos de mil dólares pode fazer sapatos de palhaço
parecerem de grife. Quando Ani sugeriu o boliche como nossa primeira atividade de
mentoria em grupo, concordei de todo o coração. Achei que uma pista de boliche deixaria
Rowan desconfortável o suficiente para ela sair do programa.
Minhas suposições se provaram erradas no momento em que Rowan apareceu, uma
hora atrás, com uma bola e sapatos personalizados. Tenho noventa por cento de certeza
de que ele provavelmente os comprou na loja da pista de boliche porque não suportava
a ideia de compartilhar nada com a população em geral.
Passei uma hora esperando que ele escorregasse para que eu pudesse ter a
oportunidade de provar que minhas outras suposições estavam corretas. Não há como
ele estar genuinamente interessado em participar do meu programa experimental. Não é?
Errado. Cento e dez por cento errado.
Rowan é completamente diferente do que eu esperava. Embora ele ainda possa ser o
aluno de colégio preparatório que veste camisa polo da Burberry, ele é bom para minha
irmã e o namorado dela. E isso me faz sentir todo tipo de coisa.
Ani se joga no assento de plástico ao meu lado. — Então, Rowan é fofo.
Atiro nela um olhar fulminante. — Pare.
Uma sensação estranha se instala na boca do estômago com a ideia de achar Rowan
uma gracinha. Parece errado estar interessado nele e ao mesmo tempo sentir uma atração
por Scott - como se eu estivesse enrolando os dois. Isso aumenta a náusea cada vez que
me vejo perto de Rowan esta noite.
É errado sentir-se atraída pelo meu chefe, mas é desprezível se interessar por dois
caras ao mesmo tempo. Nunca iria querer machucar ninguém intencionalmente assim
depois de tudo que passei.
— Mas olhe para ele ensinando o JP a jogar boliche. — Ela aponta para os dois homens
lado a lado.
Confie em mim, Ani. Isso é tudo o que venho fazendo ultimamente.
Rowan demonstra como lançar uma bola de boliche corretamente e JP copia o
movimento. Ainda não estou entediada depois de assisti-los pela última hora.
Balanço minha cabeça. — Não está acontecendo, então o que quer que você esteja
planejando, pare com isso.
— Não estou planejando nada.
— Você o menciona durante todas as conversas que temos.
Ela sorri. — Eu gosto dele.
— Não significa que eu preciso.
— Mas você gosta de todos!
Estremeço. — Esse não.
— Okay, certo. Você fica vermelha toda vez que ele olha para você.
— Não, eu não fico!
Ela empurra meu ombro. — Fica sim!
— Por que você fica me olhando como uma esquisita, afinal?
— Por que isso é engraçado. Rowan também fica nervoso.
— Oh, sério? — Culpo minha mãe por ensinar Ani a acreditar em pó de fadas e contos
de fadas desde jovem.
Ela te ensinou o mesmo.
— O que mais você percebe?
— Eu pensei que você não gostasse dele? — Ela levanta uma sobrancelha atrevida
para mim.
Acabo rindo da expressão em seu rosto. Os olhos de Rowan se conectam com os meus,
enviando arrepios pela minha pele. Ele reorienta sua atenção para JP logo antes de quase
deixar a bola cair no pé de Rowan. Juntos, com a ajuda de Rowan, JP lança a bola de
boliche pela pista.
Pinos caem na nossa frente. Ani pula e bate palmas enquanto JP dança no lugar. Uma
sugestão de sorriso aparece nos lábios de Rowan antes de desaparecer. JP puxa Ani para
seus braços e lhe dá um beijo na bochecha. Isso faz meu coração derreter no piso de
linóleo pegajoso.
A parte de trás do meu pescoço formiga e olho para encontrar Rowan olhando para
mim. — O que?
Suas sobrancelhas se juntam. — Nada.
— Sua vez, Zahra! — Ani chama. — Se apresse. Nós só temos trinta minutos antes
que nosso tempo acabe.
Pego minha bola de boliche rosa da prateleira e a jogo. Ele rola para frente antes de
desviar direto para a sarjeta, resultando em nenhum pino caído.
— Seu pulso está torcendo antes de você lançar. — Rowan fala atrás de mim.
Giro em meu calcanhar. — E você é um especialista em boliche de repente?
Ele encolhe os ombros. — Eu joguei no time da universidade.
A seriedade de sua voz me faz curvar e rir. Quando paro, encontro o rosto de Rowan
cauteloso como sempre.
— O que? — Franzo a testa.
— Esqueça que me ofereci para ajudar. — Ele se vira e se senta ao lado de JP.
Oh Deus. Ele estava falando sério? Eu nem sabia que havia times de boliche. Meu
estômago mergulha em território perigoso e minhas bochechas ficam quentes com a ideia
de constrangê-lo.
E se ele realmente estivesse tentando me ajudar?
Nesse caso, você simplesmente agarrou seu ramo de oliveira e partiu-o ao meio bem na frente
de seu rosto.
Tento consertar meu pulso como Rowan sugeriu, mas minha bola acaba na sarjeta
novamente. Ani ri enquanto se levanta para sua vez. JP a segue como sempre, me
deixando sozinha com Rowan.
— Então, time da universidade, hein? — Tento quebrar o gelo enquanto me sento ao
lado dele.
Seus braços cruzados flexionam. — Posso garantir que suas piadas não serão
nenhuma novidade para mim.
O empurro de brincadeira com meu ombro, mas seu corpo não se move. — Eu sinto
muito. Era uma coisa de merda de se rir.
— Era.
— Eu não estava rindo de você.
Ele me encara e eu rio para mim mesma novamente. O som só o torna mais
carrancudo.
Levanto as duas mãos em submissão. — Ok, eu estava rindo da situação, mas para ser
justa, eu nem sabia que existia algo como o boliche universitário.
— Não se culpe muito por isso. Já lidei com coisas piores.
Como o quê?! Quero aprender tudo sobre o cara mal-humorado que jogou boliche e se
juntou a um programa de mentoria para pessoas com deficiência, apesar de estar
incrivelmente ocupado. Há mais em Rowan do que aparenta, e estou morrendo de
vontade de aprender tudo sobre esse novo lado dele que eu nunca soube que existia.
Há uma parte estranha, embora microscópica, de mim que quer protegê-lo de lidar
com coisas piores, seja lá o que isso signifique.
Uau. De onde veio esse pensamento?
Abortar. — É bem legal. As mulheres adoram jaquetas letterman23.
— Eu valorizava muito minha reputação para usar aquela jaqueta na faculdade.
— Por que?
— Porque eu só entrei para a equipe para irritar meu pai. Ele nunca especificou a qual
time eu deveria entrar, então gostei de vencê-lo em seu próprio jogo.
Pisco com sua admissão pessoal.
Ele continua no mesmo fôlego, como se fosse desistir de falar se demorasse um
segundo a mais. — Ele ficou puto por eu nunca ter passado de nenhuma das eliminatórias
de times de 'esportes reais' como meus irmãos. Enquanto Declan era o quarterback da
escola e Cal era o capitão de seu time de hóquei, eu estava... em falta. — Ele limpa a
garganta. — De acordo com meu pai, claro.
Meu coração se aperta em meu peito pelo menino que lutou para corresponder às
expectativas de seu pai. Rowan pode ser rico, mas ele luta com o mesmo tipo de
problemas que o resto de nós. Expectativas dos pais. Falhas pessoais.
Quero aliviar a tensão de seus ombros. — Você está me dizendo que não poderia
comprar sua ida ao banco de reservas? — Finjo arfar.
— Você está entendendo como as coisas funcionam. — O canto de seu lábio
levanta. — Pelo contrário. Eu paguei os treinadores para me manter fora dessas equipes.
— Por que? Nunca ouvi falar de ninguém tentando fazer isso.
— Eu não tinha interesse em ser rotulado como aquecedor de banco.
— Você era tão ruim assim?
— Sim. — O tom mais claro de rosa inunda suas bochechas e acho meio fofo.
Fofo? Argh, Zahra. Não.
— Estou meio que amando o fato de que você não é o melhor em tudo.
Ele balança a cabeça. — Uma coisa, Zahra. Uma.
— Então, você ganhou um campeonato de boliche? — Sorrio.

23
Os ombros tensos de Rowan caem um centímetro. — Eu não perco. Nunca.
— Sua arrogância não conhece limites.
Rowan não diz nada, mas o sorriso em seu rosto fala muito. Está rígido, como se ele
não praticasse o movimento há algum tempo. Estou tentada a tocá-lo para ter certeza de
que não estou tendo alucinações, mas mantenho minhas mãos ao lado do corpo.
Eu não deveria achar isso tão cativante quanto acho. E definitivamente não deveria
desejar mais daquele sorriso estúpido e tímido.
Durante minha próxima rodada, chamo o nome de Rowan. — Você pode me ajudar,
por favor? Um especialista me disse que eu torço meu pulso.
Seu pequeno sorriso reaparece. Quero fazer tudo ao meu alcance para fazê-lo sorrir
daquele jeito novamente. Agora que sei um pouco sobre o tipo de cara que se esconde
atrás de trajes feitos de armadura, estou interessada em descobrir mais sobre
ele. Consequências que se danem.
Ele anda com uma autoconfiança que grita que eu tenho um pau grande e sei como usá-
lo.
Não pense em seu pau.
Rowan pega sua bola do rack e mantém espaço suficiente para Jesus entre nós. Estou
desapontada que não seja como nos filmes.
— Então, é assim que você está lançando a bola. — Ele ergue o braço para trás,
fazendo-o girar em um ângulo diagonal estranho. — O que faz com que siga através da
curva para o lado e se dirija diretamente para a sarjeta. — Ele demonstra como meu braço
balança como um pêndulo na direção oposta. Tento o meu melhor para não me
concentrar em suas veias enquanto ele me mostra o posicionamento correto, mas sou uma
causa perdida para a maneira como seu corpo se move.
— Tente. — Ele me afasta dos meus pensamentos.
Tento qualquer movimento que ele fez e falho baseada em como seus olhos brilham.
— Não. Deixe-me ajudá-la. — Ele coloca a bola no chão e fica atrás de mim. O calor
do corpo vindo dele aquece toda a minha espinha.
Agora é disso que estou falando.
Sua mão roça meu braço antes de circundar meu pulso como uma algema. Ele o
segura com o toque mais suave que faz meu coração bater forte no peito e minha
respiração ficar irregular.
Sério, ele está segurando seu pulso. Vamos lá!
Sua voz rouca não é nada além de um sussurro em meu ouvido, mas sinto isso direto
no meu âmago. — Tente novamente.
Movo meu braço para trás. Os dedos de Rowan permanecem travados em volta do
meu pulso, me guiando através do curso correto. Ele repete o movimento algumas vezes.
— Agora tente você mesmo. — Ele arrasta os dedos pelo meu braço novamente antes
que desapareçam.
Faço beicinho com a perda deles, já que ele não pode me ver, e bagunço meu balanço
de propósito porque sou mesquinha.
— Não, mas você foi melhor desta vez. — Ele balança a cabeça e solta uma risada
baixa.
Sou recompensada com o retorno de sua mão segurando meu pulso enquanto ele me
mostra mais uma vez. Naquela hora em que ele me solta, tento de verdade. Meu esforço
é recompensado com um de seus pequenos sorrisos.
— Perfeito. Bem desse jeito. Ok, agora você tenta mais uma vez. — Ele aponta em
direção à pista.
Dou alguns passos para frente e replico o movimento que ele me ensinou. A bola de
boliche sai da minha mão e rola direto pelo chão encerado, seguindo o caminho das
flechas minúsculas.
Respiro fundo quando minha bola colide com os pinos frontais, fazendo alguns voar
enquanto outros rolam em direções opostas. Cada pino cai e um X vermelho acende
acima da área vazia.
Grito e corro de volta para Rowan, que encara meus pinos derrubados. — Eu
consegui! Eu consegui!
Ele congela enquanto envolvo meus braços em volta de sua cintura. A batida rápida
de seu coração é difícil de perder, apesar da música alta e dos pinos caindo.
Seus braços permanecem colados ao lado do corpo como se ele não soubesse como
retribuir o abraço. Isso só me faz rir em seu peito.
— Vamos, vocês dois! Já estamos quase sem tempo! — minha irmã chama.
Saio do momento e me afasto de Rowan. Seu rosto permanece em branco, mas sei
como seu corpo reage quando o toco.
E é muito bom deixar alguém como ele nervoso.
21
ROWAN

— Então, o que você gosta de fazer nos finais de semana? — Ani rouba um pedaço de
algodão doce direto do meu cone antes de se retirar para o lado dela no banco.
Este banco aleatório na esquina da Dreamland se tornou nosso ponto de encontro
semanal. Embora minha intenção original de ingressar no programa de mentoria não
fosse altruísta, passei a aproveitar o intervalo de uma hora da minha agenda lotada
porque Ani é uma companhia decente. Durante o tempo que comecei a conhecê-la,
percebi que ela compartilha alguns dos melhores traços de Zahra. Ela preenche a maior
parte da conversa, me dando a chance de sentar e ouvir. Graças a ela, posso passar uma
hora sem pensar na Dreamland ou nas demandas dos funcionários.
— Eu não faço muito além do trabalho.
Ela finge roncar. — Entediante.
— O que você faz nos finais de semana?
Ela sorri. — Eu saio com o JP. Assisto filmes. Vou ao shopping e faço compras!
— Parece divertido, — digo com uma voz monótona.
Ela ri. — Você não gosta dessas coisas?
— Não. A ideia de ir ao shopping me dá arrepios.
— Zahra também odeia o shopping. — Ani sorri.
— Não me diga. — Pressiono meus lábios para conter meu sorriso. Ani sempre
encontra uma maneira de trazer Zahra à tona durante todas as nossas conversas. A
princípio, pensei que fosse porque Ani idolatrava sua irmã mais velha, o que ela faz, mas
suas verdadeiras intenções ficaram claras depois de alguns encontros. Estou sendo
arranjado. Ani tenta ser esperta sobre isso, mas apenas um cego deixaria de ver o jeito
como os olhos de Ani brilham sempre que eu faço uma pergunta ou duas sobre Zahra em
resposta. Ela alimenta minha curiosidade enquanto eu entretenho sua pequena missão.
Ela se anima. — Na verdade, você e Zahra têm muito em comum.
Improvável. Zahra é meu oposto em todos os aspectos importantes. Não posso me
comparar a uma mulher que pode iluminar uma sala apenas com seu sorriso. Ela é como
o sol, com todos orbitando ao seu redor para se aquecer. Ao contrário de mim, que
mantém as pessoas longe com nada além de uma carranca.
— Você sempre encontra uma maneira de mencionar sua irmã.
Ani enfia um cacho castanho atrás da orelha. — Porque vocês gostam um do outro.
— E como você sabe disso? — Minha voz mantém um tom neutro, apesar do meu
interesse crescente.
— Ela olha para você como se quisesse ter seus filhos.
Engasgo com a minha entrada repentina de ar. Meu punho bate contra o meu peito
enquanto inspiro profundamente. — Eu definitivamente não acho que isso seja verdade.
— Você tem razão. Eu queria ver sua reação. — Ela encolhe os ombros.
Inacreditável.
— Você é uma mulher cruel. — Roubo um pedaço de seu pretzel em retribuição.
— Mas minha irmã sorri para você. — Ela diz isso da maneira mais doce e inocente.
— Ela sorri para todos, — resmungo baixinho.
— Como você saberia?
Merda. A pergunta de Ani parece inocente, mas esclarece o quanto presto atenção em
Zahra. O sorriso no rosto de Ani me diz que ela provavelmente percebeu também.
— É difícil não perceber.
— Que fofo! — ela grita. — Eu sabia!
— Sabia o quê?
— Você realmente gosta da minha irmã.
— Eu não disse isso.
— Não, mas você sorriu.
Bem, merda. Não percebi isso. Controle-se. — As pessoas sorriem.
Ani apenas ri e balança a cabeça. — Você não.
— Vamos fingir que essa conversa nunca aconteceu.
— Claro, Rowan. Certo. — Ela rouba outro punhado de algodão doce de mim como
pagamento por seu sigilo.
Mas algo em seu sorriso me diz que estou tudo menos seguro.
***
Apago a luz do meu escritório e pego meu telefone.
Eu: Ei. Terminei seu desenho. Vou mandar amanhã.
Não há necessidade de mandar uma mensagem para Zahra, mas é estranho deixar
um dia inteiro passar sem falar. Entre minha agenda lotada e sua falta de mensagens de
texto, fiquei inquieto com o passar das horas. É um aviso de que estou ficando
dependente da companhia dela. No entanto, não consigo parar.
Meu telefone vibra na minha mão. Zahra me enviou uma foto de seu cubículo, onde
ela tem cem post-its espalhados pela parede.
Eu: Você ainda está trabalhando? São 10 da noite
Zahra: Sim, vovô. Tive uma ideia divertida que queria terminar antes de ir para casa.
Eu: O que poderia ser melhor do que dormir?
Zahra: Jantar.
Franzo a testa enquanto digito minha próxima mensagem.
Eu: Você não comeu nada?
Zahra: Não. Comi todos os meus lanches horas atrás.
Eu: Tenho pena de você.
Eu: Sua ética de trabalho me lembra Rowan.
Sou um pedaço de merda por me referenciar, mas estou um pouco interessado na
opinião não filtrada dela sobre mim.
Zahra: Sim, certo! Eu desejo.
Zahra: Acho que o homem funciona com energia solar porque ele não é humano de jeito nenhum.
Rio baixinho. Isso seria conveniente e muito mais eficiente em termos de tempo do
que dormir.
Eu: Parece plausível. Isso explicaria sua necessidade de dar um passeio durante a hora do almoço.
Zahra: Como você sabe dessas coisas?!
Merda. Sim, Scott, como você sabe dessas coisas?
Eu: Todo mundo sabe que deve evitar o pátio dos fundos ao meio-dia.
Zahra envia alguns emojis risonhos e outra mensagem.
Zahra: Oh. Eu não sabia disso!
Eu: Isso é porque você mora dentro de um depósito. Vá para casa.
Zahra: Eu vou. Eu vou. Talvez em uma hora.
Balanço minha cabeça e coloco meu telefone no bolso. Embora esteja satisfeito que
alguns Criadores estejam levando seus trabalhos a sério como Zahra, não me deixa feliz
saber que ela está acordada até tarde com o estômago vazio.
A caminhada até a entrada das Catacumbas não fica longe do meu
escritório. Enquanto caminho pelo túnel, encontro-me diminuindo a velocidade perto da
entrada do armazém dos Criadores.
Você poderia entrar e forçar Zahra a ir para casa e voltar amanhã com o estômago cheio e uma
boa noite de sono.
Subo os degraus e abro a porta sem pensar em nada. O caminho para o cubículo de
Zahra é um que já memorizei e me pego parando na entrada para vê-la trabalhar. É o
meu tipo de entretenimento, com ela puxando o lábio inferior enquanto pega um post-it
e o dobra em um pequeno quadrado bonito. Ela se vira e tenta jogá-lo em um pote. Seu
lançamento é muito curto e o papel cai no chão.
— Boa tentativa.
Zahra pula no lugar. — Você me assustou! — Ela se vira e me olha de cima a baixo. —
O que você está fazendo aqui?
Estou sem palavras. O que estou fazendo aqui?
— Queria verificar se alguém ainda estava trabalhando. — Isso é verdade.
— Por quê? — Ela levanta uma sobrancelha.
— Eu queria a opinião de alguém sobre algo. — Pelo amor de Deus. Vá para casa enquanto
ainda tem uma chance.
— OK. Pode mandar. — Ela sorri enquanto se inclina contra a mesa.
Sobre o que eu poderia pedir a opinião dela?
— Rowan, o que é?
— Eu não tinha certeza se valia a pena manter nosso passeio mais antigo.
Todo o rosto dela se ilumina. — Ah não! Não se livre disso. Eu amo o... — Seu
estômago roncando a interrompe, mudando o tom de seu rosto de marrom para
vermelho brilhante.
Faço uma carranca. — Você pulou o jantar.
— Umm... como você sabia disso? — A cor de suas bochechas de alguma forma se
intensifica.
Sim, Rowan. Como você sabia? Porra. Continuo bagunçando esta noite. Quem diria que
manter duas personalidades seria tão difícil?
— Você ainda está aqui trabalhando.
— Certo. Estou prestes a terminar logo, então vou... — Seu estômago ronca ainda mais
alto, e meu sangue se transforma em lava, bombeando furiosamente no ritmo do meu
coração.
Pego meu telefone. — O que você acha de comida chinesa?
Sua boca se abre. — Umm... está bom?
Ligo para um lugar que salvei o contato depois de muitas noites de trabalho. Não
tenho certeza do que Zahra gosta, então peço um pouco de tudo. Provavelmente é um
exagero, mas prefiro que ela coma algo que goste.
Desligo e encontro Zahra ainda me olhando boquiaberta. — O que?
Ela balança a cabeça. — Eu não esperava que você me pagasse o jantar.
— Eu estou com fome. Você pode ficar com as sobras, — respondo como se isso
resolvesse tudo.
— Mas tenho quase certeza de que você pediu o restaurante inteiro.
Permaneço em silêncio.
Suas sobrancelhas se juntam antes que ela enxugue qualquer expressão em seu
rosto. — Tudo bem. Então, por que você está pensando em se livrar de nosso passeio mais
antigo? — Ela cai no chão, onde tem toda uma série de post-its, pedaços de papel,
marcadores e muito mais.
Certo. A opinião que eu queria.
Sigo o exemplo e me inclino contra a partição de trás do cubículo.
Zahra ri para si mesma enquanto removo meu paletó e o jogo ao lado das minhas
pernas.
— O que é tão engraçado?
Ela acena para o meu corpo como se isso resolvesse a minha pergunta. — Você está
sentado no chão.
Olho para mim mesmo. — E?
— É estranho. — Ela cruza as pernas.
Eu a ignoro. — É um passeio antigo. Não tenho certeza se vale a pena manter.
Ela respira fundo. — Você tem que estar brincando! Vale a pena manter?!
Aceno, sabendo que esse tipo de pergunta poderia despertar uma conversa de uma
hora. E faz exatamente isso. Enquanto esperamos pela entrega, Zahra passa o tempo
explicando a história do primeiro passeio do meu avô, como se eu não soubesse. Ela entra
em muitos detalhes, mencionando todas as razões pelas quais não devemos ousar mudar
nada. Me pego sorrindo mais do que o normal porque seu entusiasmo e paixão são
contagiantes.
Fico um tanto desapontado quando a comida chega, porque isso a interrompe.
— Você realmente precisava pedir o menu inteiro?
Encolho os ombros. — Não tinha certeza do que você gostava.
Ela me olha com uma expressão tensa. — E por que você não me perguntou? — Ela
pega duas caixas de papelão da sacola e as pressiona contra o peito com um suspiro.
Fico em silêncio e tiro uma caixa de arroz frito da sacola. Zahra me passa um garfo
embrulhado em plástico e nós dois comemos.
Ela solta um leve gemido enquanto dá uma mordida em sua comida. Sinto o som
direto no meu pau, e o sangue começa a correr para um lugar que não pertence.
Respiro fundo. — Por que você estava aqui tão tarde? Sinceramente?
Ela aponta por cima do ombro para o frasco de vidro cheio de post-its. — Eu estava
trabalhando em uma nova ideia.
— E?
— E eu perdi a noção do tempo.
— Isso acontece com frequência?
Ela encolhe os ombros. — Eu não tenho muito mais acontecendo.
— O que você gosta de fazer por diversão? — A pergunta parece natural, como se eu
me importasse com outras atividades além do trabalho. Talvez Ani esteja me contagiando
com suas perguntas pessoais.
Zahra sorri. — Eu gosto de ler.
— Para se divertir?
Ela acaba jogando a cabeça para trás e rindo. Meu peito inteiro aquece com a ideia de
fazê-la rir daquele jeito, e um pequeno núcleo de orgulho cresce dentro de mim.
— Sim. Algumas pessoas leem por algo diferente do trabalho. — Ela fala sem
fôlego. — O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?
Mandar mensagens para você. — Eu corro.
— Figuras. — Ela revira os olhos.
Os cabelos da minha nuca ficam em pé. — O que isso significa?
Ela limpa a garganta como se isso pudesse esconder a forma como suas bochechas
ficam rosadas. — Nada. Você tem um corpo de corredor. — Seus olhos estão em todos os
lugares, menos no meu rosto.
Hmm. Ela está me examinando.
— Não que eu verifique você ou algo assim, — ela gagueja, e suas bochechas ficam
ainda mais vermelhas.
Sento-me mais ereto, satisfeito com este novo desenvolvimento. — Certo.
— Só um masoquista corre para se divertir.
— Isso limpa minha cabeça.
— Vou acreditar na sua palavra.
Uma risada borbulha de dentro de mim, fazendo meus pulmões queimarem com o
fluxo de oxigênio.
Zahra sorri. — É uma pena que você não ria com mais frequência.
Porque eu não tenho muitas coisas para rir. Puxo minha gravata, afrouxando seu aperto
em volta do meu pescoço. — Não se acostume com isso.
— Eu não ousaria. Eu meio que gosto do fato de que é uma raridade porque o torna
ainda mais especial. — Seu sorriso é contagiante, fazendo com que os cantos dos meus
lábios se curvem em resposta.
Ninguém chamou minha risada de especial. Inferno, não acho que fui rotulado de
especial de qualquer outra forma que não fosse depreciativa. Isso me faz
sentir... bem. Estimado. Valorizado de uma forma que não tem nada a ver com quanto
dinheiro ganho ou com o tipo de trabalho que tenho.
Quero me ver como ela me vê. Porque aos olhos dela, não me sinto um homem
carregando uma montanha inteira de expectativas em meus ombros. Sou apenas Rowan,
o tipo de cara que se senta no chão com calças caras, comendo comida de uma caixa e
adorando cada segundo.
Percebo, enquanto Zahra sorri para mim, que quero mais disso com ela. Preciso
encontrar uma maneira de fazer isso acontecer sem chamar atenção para o fato de que
sou duas pessoas diferentes na vida dela.
Se eu soubesse como.
22
ZAHRA

Minha irmã está tramando algo. Essa é a única razão por trás de seu evento
improvisado de mentoria para nós quatro. Rowan pode estar ocupado, mas tenho certeza
de que minha irmã o tem enrolado em seu dedo. Ani acha que ela é inteligente, mas estou
na cola dela.
Mas como eu poderia dizer não a ela? O objetivo deste projeto é ajudar os buddies a
se tornarem mais independentes, então eu seria a maior hipócrita se dissesse à minha
irmã que não preciso da ajuda dela.
Parecia uma aposta segura, mas estou me arrependendo muito hoje. Desde que ela
entrou no meu apartamento com apenas duas abóboras e um sorriso tortuoso — Não é
grande coisa. As pessoas se esquecem das coisas o tempo todo. — Ela sorri, revelando o
menor brilho em seus olhos que me faz inclinar a cabeça. Só vi esse olhar na minha irmã
duas vezes e geralmente nos leva a ser castigadas.
— Como você esqueceu duas das quatro abóboras? — Aceno minhas mãos sobre as
abóboras enormes que fazem minha cozinha parecer ainda menor do que é.
Ela encolhe os ombros. — O canteiro de abóboras se esgotou.
— Esta mentira está se desenvolvendo rapidamente. — Coloco minhas mãos em meus
quadris como minha mãe.
— Eu não estou mentindo. — Seus olhos percorrem toda a cozinha para evitar olhar
nos meus olhos.
— As abóboras acabaram no início de outubro? — Pergunto na voz mais seca.
— Que estranho! Deve ser uma escassez.
Essa pequena mentirosa. Nunca pensei que veria o dia em que minha irmã tentaria
bancar a minha casamenteira.
Olho para Rowan, me perguntando o que ele pensa. Ele não se incomoda em olhar
para nós porque está muito imerso em seu telefone.
Excelente. Que ajuda ele é.
Ani pega uma das abóboras do balcão. — JP e eu queremos fazer uma juntos.
— Não me diga? — Respondo secamente. Minha irmã apaixonada geralmente é
adorável e cativante. Mas agora? É estranhamente inconveniente para mim.
JP escolhe aquele momento exato para envolver um braço em volta da minha irmã e
dar-lhe um beijo na testa.
Argh. Quem estou enganando? Eles ainda são fofos.
— Vamos fazer isso! — JP pega a abóbora dos braços de Ani e leva para a sala de
jantar onde eu deveria trabalhar com ele.
Suspiro e viro-me.
Reajusto todos os suprimentos em uma fileira. — Você não precisa fazer isso se tiver
algo melhor para fazer.
Ele levanta os olhos do telefone com as sobrancelhas franzidas. — Eu não teria
aparecido se não quisesse fazer isso.
— Por quê você está aqui? — Fico olhando para ele.
Seu rosto permanece em branco. — Porque sua irmã me pediu para estar.
Meu estômago dá um mergulho, junto com meu humor. Garota estúpida, pensando que
ele veio passar um tempo com você. Claro que ele está aqui por Ani. Ele é o mentor dela.
— Você não deveria ainda estar trabalhando? — Sondo. Talvez se eu lembrá-lo de
todas as suas responsabilidades, ele saia correndo depois de se lembrar de algum tipo de
e-mail que se esqueceu de enviar.
— É um sábado.
Tudo o que posso fazer é olhar para ele. — Achei que você trabalhasse todos os dias.
— Eu trabalho.
— Nós realmente precisamos conversar sobre o seu equilíbrio entre vida pessoal e
profissional.
— É fácil quando minha vida é meu trabalho. Não há necessidade de balança.
Agarro-me ao balcão enquanto rio. — Essa é a coisa mais triste que já ouvi você dizer.
Ele me olha com as sobrancelhas levantadas. — Por que?
— Porque de que adianta ter tanto dinheiro quando você nunca terá a chance de
aproveitá-lo.
Ele pisca para mim. Ele nunca considerou isso antes? Rowan pode ser um cara astuto,
mas poderia usar algum tipo de intervenção sobre seu vício em trabalhar.
Ele balança a cabeça como se precisasse apagar o que quer que estivesse pensando de
sua mente. — Se dinheiro não fosse problema, o que você faria?
Sorrio. — As opções são infinitas.
Ele levanta uma sobrancelha. — Esse é um sentimento terrível vindo de você.
— Bem, para começar, eu retribuiria à caridade.
Ele franze a testa. — Apoiamos instituições de caridade.
— Só porque é considerada uma baixa de impostos. Você já participou de um evento
de caridade que não incluía champanhe e caviar?
— Não seja ridícula. Caviar é nojento. — Seu nariz se contrai e eu acho adorável.
Adorável? Gemo internamente.
— Bem, talvez você devesse passar um dia trabalhando em um abrigo para sem-
teto. Talvez você pense duas vezes antes de andar por aí com sapatos que valem mais do
que o aluguel de alguém.
— Não achei que minha pergunta se transformasse em uma inquisição.
Encolho os ombros. — Você perguntou. Eu respondi.
— Isso é tudo que você faria com sua quantidade infinita de fundos? Doar?
Rio para mim mesma. — Não tudo. Eu guardaria um pouco para mim e compraria
cópias da primeira edição de todos os meus livros favoritos.
— Livros. — Ele olha para o teto como se Deus pudesse intervir. — E quanto aos seus
broches? Você não gostaria de comprar mais desses?
Congelo. — O que você quer dizer?
Suas sobrancelhas se juntam. — Você não compraria mais broches?
— Não.
— Por que não?
— Porque não é assim que funciona.
— Então, como funciona?
Suspiro. — É uma longa história.
Ele olha ao redor da cozinha vazia. — E? Tudo o que temos é tempo.
Meus músculos se contraem. — E isso não é algo que eu quero compartilhar com você,
— digo.
Merda. Meus olhos se arregalam e minha boca se abre, mas impeço-me de me
desculpar.
Sua testa inteira se contrai. — Não sabia que era um assunto delicado.
Não tenho certeza se sou eu ou minha imaginação, mas o ar entre nós fica pesado até
que olho para longe primeiro. — É... apenas não é algo sobre o qual falo com muitas
pessoas. — Ou qualquer um além da minha família e Claire.
— Entendi.
Não. Ele realmente não entende, mas não vou desencadear essa história. Não há como
alguém como ele entender alguém como eu. Ele estava em pé, e eu - estava... quebrada.
Mas não mais. Você está melhor agora. Mais forte.
Destampo um marcador permanente e me movo em direção ao caule da abóbora.
— Abaixe a arma. — A mão de Rowan se estende e interrompe meu movimento,
enviando uma onda de eletricidade pelo meu braço.
Sua piada quebra a tensão entre nós.
— Dentre tudo no balcão, isso é uma arma? — Aponto para a faca a apenas alguns
centímetros dele.
— É, quando você não sabe o que está fazendo.
— Desculpe? Ganhei nosso concurso de escultura de abóbora do prédio no ano
passado.
Ele levanta uma sobrancelha.
— Ok, isso é um exagero, mas recebi uma menção honrosa. Eles me deram uma fita e
tudo.
Ele joga a cabeça para trás e ri. É o melhor tipo de risada - áspera com uma sugestão
de chiado. Como se ele não pudesse respirar oxigênio suficiente para suportar um evento
tão raro. Deixo o som passar por mim, e tudo que consigo pensar é como posso fazer com
que ele faça isso de novo.
Seus olhos se abrem e ele se assusta. — O que?
— Quem é você e o que fez com o verdadeiro Rowan?
Suas sobrancelhas se juntam. — O que você está falando?
Procuro meu telefone. — Você poderia fazer aquela coisa de novo?
— Rir?
— Sim. Preciso gravar na câmera desta vez.
Ele perde a batalha para esconder seu sorriso. — Por que?
— Porque isso é um evento histórico.
— Você é ridícula. — Ele vira a abóbora de cabeça para baixo.
— Ridiculamente incrível, — termino por ele.
Seu sorriso se evapora como se nunca tivesse existido.
Foi algo que eu disse?
Talvez ele seja sensível a respeito das pessoas se elogiarem.
Olho para o seu círculo completamente simétrico. — O que você está fazendo?
Ele pega a faca e corta o fundo da abóbora. — Não faça perguntas estúpidas.
— Ei! O que aconteceu com 'Não existem perguntas estúpidas'?
— Quer adivinhar quem inventou essa frase? — ele responde secamente.
Mostro o dedo para ele pelas minhas costas.
Seu sorriso reaparece e considero isso uma pequena vitória.
— Vou reformular minha pergunta. Por que você está escolhendo abrir a tampa do
fundo?
Ele corta o último pedaço de abóbora antes de pousar a faca. — Porque os especialistas
dizem.
— Especialistas?
— Sim. Todos os artigos que analisei afirmam que fazer um buraco no fundo evita
que a abóbora desmorone por si mesma.
— Bem, uau. Eu não sabia disso. — Que tipo de pessoa pesquisa como esculpir
abóboras?
Rowan Não-Sei-O-Que-O-G-Significa-Ainda Kane é esse tipo de pessoa. O homem é
bastante meticuloso em tudo o que faz.
— Sua irmã me enviou uma foto sua com sua abóbora digna de menção
honrosa. Achei que estava prestando um péssimo serviço a todos se não viesse
preparado.
— Como você sabia que seríamos parceiros juntos?
Suas sobrancelhas se juntam. — Ela me disse antes.
— E você decidiu vir mesmo assim? — Seguro no balcão para me manter firme.
Ele encolhe os ombros. Como ele pode jogar tão bem em um momento como este?
— Por que você veio?
— Porque eu queria.
Inclino minha cabeça para ele. Não tenho certeza do que fazer com esse tipo de
revelação. Por alguma razão estranha, Rowan quer ficar perto de mim. Ele está até
disposto a tirar uma folga.
Mas por que? O que mudou? Embora possamos ter essa estranha reação química um
com o outro, não houve muita diferença entre nós além do jantar no armazém.
Mesmo assim, ele veio aqui para passar um tempo com você.
— Sua vez. — Ele empurra a abóbora recheada para mim.
— Nojento. Ani faz essa parte. — Torço meu nariz para os miolos de abóbora.
Ele suspira e pega a abóbora de volta.
— Você é o melhor! — Sorrio quando passo para ele um saco de lixo.
Ele tenta esconder seu sorriso olhando para baixo, mas vejo assim mesmo. Outra onda
de calor passa por mim.
Juntos, Rowan e eu trabalhamos na abóbora. Quando terminamos, concluo que
realmente gosto de sua companhia.
23
ROWAN

Envio a mensagem antes que possa me conter.


Eu: O que você está fazendo?
Coloco os travesseiros atrás da minha cabeça enquanto me sento na minha cama para
passar a noite. Esta é a rotina normal agora, comigo chegando em casa tarde e mandando
mensagens de texto para Zahra depois de comer e tomar banho. Só estou na Dreamland
há alguns meses e já entrei em um ritual confortável que só pode levar a uma coisa:
dependência.
Uma foto do dever de casa de uma criança aparece na tela.
Eu: Você finalmente está aprendendo o alfabeto? Legal.
Zahra: Não. Estou dando aulas particulares para crianças.
Eu: Às 10 da noite? Eles não têm hora de dormir?
Zahra: Sim, mas não consigo atender meus clientes nos horários habituais com minha nova
programação.
Clientes? Eu nem sabia que ela ensinava além de tudo o que ela faz. Quando ela
encontra tempo para cuidar de si mesma se está tão ocupada ajudando todo mundo?
Algo parecido com uma pedra cai em meu estômago. Culpa?
Não. Talvez indigestão.
Eu: Eles não lhe pagam o suficiente como Criador?
Zahra: Eu faço isso como um favor para uma mãe solteira com quem eu trabalhava no salão. É apenas
uma vez por semana, então não é grande coisa.
Eu: Por quê?
Zahra: Porque ela trabalha em um segundo emprego e não pode pagar um tutor, então me ofereci para
ajudar.
Eu: De graça?
O conceito não faz sentido para mim. Quem trabalha tarde da noite além de um
emprego de tempo integral para ajudar outra pessoa?
Zahra: Claro. Ela precisa de seu dinheiro mais do que eu e gosto de ajudar.
Eu: Mas por que ela precisa ter dois empregos? Eles nos dão almoço grátis e nos oferecem moradia
barata.
Achei que esse tipo de medida foi implementada para ajudar a diminuir o custo de
vida.
Zahra: Nem todo mundo pode sobreviver com os salários sombrios da Dreamland.
Há aquela azia drástica de novo, escorrendo pelo meu peito.
Isso sou eu começando a me importar? Engulo de volta meu desconforto.
Zahra: Mas nos contentamo-nos.
Digito uma resposta antes de perder a coragem.
Eu: As pessoas não desistiriam se estivessem insatisfeitas com o pagamento?
Zahra: Elas podem. Eu não as culparia.
Huh. Sério? Nossas pesquisas anuais sempre relatam altos índices de satisfação dos
funcionários.
Zahra: Mas muitas pessoas adoram seu trabalho. Alguns são até multigeracionais.
Eu: Como você.
Zahra: Exatamente!
Ela alinha a mensagem com o coração, o que é novo para ela. Isso me faz sorrir.
Você parece ridículo obcecado por algo tão pequeno como isso.
Eu: É difícil esquecer a família amante de Elvis, que toca ukulele e que por acaso trabalha aqui.
Zahra: É bom que você preste atenção nas pequenas coisas.
Eu: Não defina seus padrões tão baixos.
Zahra: Confie em mim. Meus padrões foram destruídos há algum tempo.
A queimação no meu peito aumenta a intensidade. Quero fazer algo, mas não sei o
quê, então me contento com a única coisa que pode torná-la melhor.
Eu: Quem te machucou? Precisamos encontrar o endereço de HP?
Zahra: Haha, tão engraçado. Você está expandindo seus talentos para o negócio de hacking de
computadores?

Eu: Para você, eu consideraria.


E quero dizer cada palavra.
***
Sempre me orgulhei de poder remover minhas emoções de qualquer tipo de decisão
de negócios. Demorou muito para desenvolver a habilidade, mas eu a aperfeiçoei ao
longo dos anos. Fui o primeiro a sugerir demitir dez por cento dos funcionários da The
Kane Company quando nossa empresa perdeu milhões depois de dois filmes ruins
consecutivos. Sou conhecido por ser exigente e clínico, desde forçar funcionários a
trabalhar na véspera de Natal até trocar apólices de seguro saúde para reduzir nossos
resultados financeiros. Nenhuma quantidade de choro, gemido ou grito de nossos
funcionários poderia me convencer do contrário.
Apesar dessa preparação, Zahra de alguma forma me irritou. Sua conversa calma e
controlada sobre as finanças dos funcionários realmente me afetou. O pensamento
permanece em minha cabeça durante cada encontro que tenho com os funcionários da
Dreamland.
Martha é a gota d'água.
Franzo a testa para ela. — Por que você precisa trabalhar no bar? Não pagamos o
suficiente?
Seu sorriso vacila ao mesmo tempo que seu tornozelo de má qualidade, que precisa
desesperadamente de atenção cirúrgica. — Claro.
— Não minta para mim, Martha. Achei que tivéssemos uma conexão. — Eu até deixei-
a ir para casa no início da semana passada, pelo amor de Deus.
— Senhor, nossa conexão é mais fraca do que a Internet discada na biblioteca local.
Jesus. A Internet discada ainda existe? Isso é quase tão triste quanto os tênis surrados
que ela troca por suas sapatilhas de trabalho.
Estou enojado com o dedão do pé aparecendo pelo buraco na frente do tênis. — Por
que você tem um segundo emprego?
Ela morde o lábio frágil.
— Não me faça repetir minha pergunta.
— Porque meu marido tem um problema cardíaco e seus medicamentos custam mais
do que uma hipoteca mensal. — Os lábios de Martha se apertam novamente.
— Por que o seu seguro de saúde não cobre isso?
O brilho que ela envia em minha direção me arrepia até os ossos. Ela nunca foi nada
além de respeitosa e mansa na minha presença, mas o fogo em seus olhos poderia
arrancar a pele de um homem mais fraco. — Com a apólice de seguro saúde da empresa,
os copagamentos estão severamente fora do orçamento.
— E você descobre que o seu salário não é suficiente.
Ela acena com a cabeça. — Alguns meses são mais difíceis do que outros. Com as
férias chegando e tudo... — Sua voz some.
Imagino o pequeno picador de gelo de Zahra batendo em meu coração frio com a
força de uma britadeira. Com minha mão, esfrego o local ardente em meu peito. — Siga-
me.
Volto para o meu escritório com Martha arrastando os pés atrás de mim por causa de
seu mancar habitual. — Sente-se. — Caminho ao redor da minha mesa e caio na minha
cadeira.
Ela se senta à minha frente. Seus olhos vão e voltam de mim para o relógio de pêndulo
no canto da sala. — Não quero ser rude, mas não posso me atrasar para o trabalho. Cada
hora conta para alguém como eu porque não ganho tanto quanto os outros jovens.
Tenho certeza de que esse comentário a envelheceu mais dez anos.
A respiração alta que solto faz Martha estremecer. — Dê-me um momento de seu
tempo. Há quanto tempo o seu marido tem esse problema de coração?
— Ele foi diagnosticado aos quarenta e cinco anos, depois que nosso neto faleceu
repentinamente.
Jesus fodido Cristo. Um neto?
Ela continua tagarelando. — O estresse acabou com ele. Em vez de ir ao funeral do
nosso neto, ele estava se recuperando no hospital. Ele não superou isso até hoje. — Seus
olhos lacrimejam, mas nenhuma lágrima cai.
Aperto a ponta do meu nariz. Algo sobre Martha trabalhar até tarde da noite com uma
merda no tornozelo porque não pago o suficiente para ela não se encaixa bem comigo. É
minha culpa que ela não pode pagar essas coisas.
Não parece muito bom fazer cortes para o resultado financeiro agora, hein?
Minha pele fica avermelhada sob meu terno, com minha temperatura corporal
subindo. No momento, só consigo pensar em uma solução temporária.
Digito um e-mail para o chefe de finanças da Dreamland solicitando um bônus.
— O que você está fazendo? — Sua voz sai em um sussurro.
Viro o monitor para que ela possa ler o e-mail. — Considere este o seu bônus de Natal.
— Mas é outubro. — Ela coloca os óculos de leitura e engasga. Seus olhos rolam para
a parte de trás de sua cabeça enquanto ela desmaia.
Foda-se. É por isso que não faço coisas boas.
***
Algo sobre meus encontros com Zahra e Martha me deixou ansioso para aprender
mais sobre as questões ocultas do parque. Algo está me assombrando, roubando meu
sono enquanto considero a luta diária dos funcionários. Seguro médico. Fundos de
aposentadoria. Contas de poupança. Tudo isso me golpeia como ondas fortes, e sinto que
estou lutando para me manter à tona em meio à minha culpa crescente.
Parece algo que meu avô consideraria importante e que valeria a pena explorar. Ele
se preocupava com seus funcionários como se fossem uma família e, embora eu não possa
me identificar com isso, posso fingir pela maioria.
Portanto, nesta manhã decidi seguir meu instinto e falar com Zahra. É hora de falar
sobre suas preocupações como Rowan, o homem que pode fazer a merda, ao invés de
Scott, o idiota solitário que não tem influência ou participação na Dreamland. Se há
alguém que vai ser honesto comigo sobre os assuntos dos funcionários, é ela.
Encontro o cubículo de Zahra vazio e uma respiração pesada escapa da minha
garganta. Demoro apenas alguns passos para parar no escritório de Jenny.
— Onde está Zahra?
Jenny levanta os olhos do computador. — Ela está fazendo algum trabalho de
reconhecimento. Você sabe, toda aquela mentalidade de 'soldados no terreno'.
— Nós nos inscrevemos para uma guerra que eu não conhecia?
Ela abre um sorriso raro. — Ela me pediu um tipo especial de dia de trabalho e estou
intrigada para ver o que acontece depois disso.
— O que você quer dizer?
— Ela quer explorar o parque como convidada e fazer anotações.
— Uma convidada. — repito.
Suas bochechas coram enquanto seus olhos vagam pelo meu rosto como se ela
quisesse avaliar minha reação. — Acho a ideia genial e pretendo fazer o mesmo para toda
a equipe. Alguns hesitam em desistir de um de seus dias de férias não remuneradas.
Interessante... Por que não pensei nisso? Talvez uma nova visão da Dreamland aumente
a criatividade.
Limpo minha garganta. — Considere como um dia de férias pagas por conta da casa.
Seus olhos se arregalam. — Mesmo? Não temos um desses há anos.
Você realmente é um pedaço de merda sem coração. Outra coisa que é sua culpa.
Saio do escritório de Jenny e mando uma mensagem de texto para Zahra com minhas
mensagens pessoais desta vez. Digo a mim mesmo que são apenas negócios. Que só estou
tentando me encontrar com ela porque quero discutir a semântica, os salários, os
benefícios do seguro saúde e os problemas dos funcionários que não fiz senão exacerbar
ao longo dos anos.
Exceto que a vozinha na minha cabeça me chama a atenção para minhas besteiras,
sussurrando como tudo o que eu faço é mentir.
24
ZAHRA

Dou um passo à frente enquanto a fila se move alguns metros à frente. Meu telefone
vibra na minha mochila e eu o retiro.
Número desconhecido: onde você está?
Examino o tópico para verificar se há mensagens anteriores, mas não vejo nada. O
telefone vibra novamente antes que eu tenha a chance de guardá-lo na minha mochila.
Número desconhecido: é Rowan.
Realmente? O que ele quer?
Tenho mantido distância dele nas últimas semanas, desde a pequena tarefa de Ani
para nos juntar. Tenho medo de acabar fazendo algo de que me arrependerei. Entre o
jantar que ele não precisava me comprar e a escultura da abóbora, estou perdendo a
batalha contra ficar longe dele. Além disso, sinto-me culpada por enganar Scott enquanto
fico mais interessada em Rowan.
Você terá que escolher um eventualmente.
O pensamento faz meu estômago azedar. Cerro meus dentes enquanto digito minha
resposta.
Eu: O que você precisa?
Atualizo suas informações de contato enquanto espero sua resposta.
Lúcifer: Onde você está?
Reviro meus olhos para ele, ignorando minha pergunta.
Eu: Passeando pelo parque.
Lúcifer: Tente ser um pouco mais específica.
Alguém tosse atrás de mim e aponta para a enorme lacuna de espaço que deixei
aberta. Peço desculpas e passo rápido pela fila.
Lúcifer: Estou perdendo minha paciência.
Eu: Então vá comprar mais.
Lúcifer: Engraçada.
Rio para mim mesma. Ele admitindo que sou engraçada faz meu coração bater nas
minhas costelas em um ritmo desigual.
Lúcifer: Por favor, me diga onde você está.
Eu: Olhe para você usando as palavras ´´por favor``. E as pessoas dizem que cachorros velhos não
podem aprender novos truques.
Ótimo, Zahra. Lembre-o de sua diferença de idade. Isso deve afastá-lo, dado o fato de que ele é
sete anos mais velho que você.
Lúcifer: Este velho cachorro tem muitos truques para lhe ensinar.
Ele fez uma piada sexual? Meu corpo todo queima com sua resposta, e não consigo
lidar com sua mudança de personalidade.
Rowan responde novamente antes que eu tenha a chance de superar meu choque.
Lúcifer: Isso foi altamente inapropriado.
Eu: Acho que seu telefone foi hackeado.
Lúcifer: Posso garantir que não, mas não posso dizer o mesmo sobre meu cérebro. Tenho tendência a
fazer coisas estúpidas perto de você.
Rio alto, sentindo-me muito tonta com sua admissão. Dada a sua franqueza, atiro-lhe
um osso.
Eu: Estou esperando na fila para o passeio no Castelo Spooky.
Lúcifer: Uma fila?
Eu: Permita-me educá-lo. Uma fila é algo em que as pessoas pacientes esperam quando não podem
pagar os passes rápidos que sua empresa vende pelo preço de um fígado.
Um olhar na direção da fila vazia de passe rápido me diz que outros hóspedes do
parque concordam comigo.
Lúcifer: Se alguém lhe oferecer um fígado por duzentos dólares, corra.
Rio enquanto jogo meu telefone na minha mochila. Um casal à frente puxa conversa
comigo. Eles são um doce casal do Kansas que viajou todo esse caminho para celebrar
sua lua de mel. Faço algumas perguntas a eles, incluindo suas partes favoritas e menos
favoritas do parque. Eles compartilham seus pensamentos e eu os anoto no meu mini
bloco de notas.
— Ei. Você não pode furar fila! — um visitante grita atrás de mim.
Viro-me para encontrar Rowan se movendo pela fila sem prestar atenção aos gritos
dos visitantes.
Como ele chegou aqui tão rápido?
Ele para ao meu lado, nem um pouco sem fôlego.
— Umm. O que você está fazendo aqui? — Fico olhando para ele, percebendo como
seu terno e seus mocassins Gucci parecem ridículos em comparação com todos nós,
humanos vestidos casualmente.
— Você não estava no armazém.
— Sim, tirei o dia de folga.
— Jenny disse.
— Por que você estava procurando por mim? — Tento manter minha voz neutra, mas
falho.
Rowan sorri para mim.
O homem atrás de nós bate em seu ombro. — Desculpe. Você não pode furar a fila. Já
estamos esperando aqui há quarenta minutos.
Ele lança um olhar fulminante por cima do ombro. — Eu sou o dono do lugar.
— Okay, certo. E eu sou o Papai Noel. — O homem puxa sua barba branca.
— Pesquise no Google o nome Rowan Kane. Eu vou esperar. — Rowan bate seu
sapato contra o chão.
Há algo na voz de Rowan que faz com que todos sigam suas ordens. É estranhamente
fascinante ver o homem pegar seu celular e tocar na tela.
A carranca do homem diminui enquanto a cor se esvai de seu rosto. — Sinto muito,
Sr. Kane. Eu não queria gritar com você. Nós apenas nos preocupamos muito com quem
fura fila.
— Tenho certeza de que esse é o caso de qualquer pessoa que não pode pagar um
passe rápido. — ele responde com a voz mais seca.
Meu queixo cai. — Você não deve falar com pessoas assim. — Viro-me, dando minhas
costas para Rowan. Não admira que todos o evitem. Ele tem a maturidade emocional de
um robô e o encanto do tráfego da hora do rush.
O casal do Kansas começa nossa conversa novamente e concentro-me neles. O
mocassim de Rowan bate contra o chão enquanto ele encara minhas costas. Não me
importo se ele tiver um ataque de raiva. Ele pode esperar na fila em silêncio por tudo que
me importa.
Rowan suspira tão alto que estremece meus ossos. Qualquer que seja o olhar que ele
lança para o casal, eles ficam calados. Eles se viram e começam a conversar um com o
outro, me ignorando completamente.
Olho por cima do ombro para encontrá-lo olhando para mim. — Sim?
— Você vai finalmente explicar por que estamos esperando na fila quando podemos
ir em frente e pular todo mundo?
— Estou vivenciando o parque da perspectiva de um visitante, então posso ter ideias
para as pessoas que você está tentando atrair.
— Quão nobre da sua parte. — Seu nariz torce. Juro que ele tentou ao máximo não
dizer algo insultuoso desta vez.
— Se você odeia tanto a ideia, volte para o seu escritório chique. Ninguém te pediu
para vir aqui. Na verdade, espere. Por que você está aqui?
— Eu... — Ele faz uma pausa. — Não sei. — Suas sobrancelhas se juntam.
O que quer que esteja acontecendo em seu cérebro o cala. Nós dois permanecemos em
silêncio enquanto esperamos na fila, ambos perdidos em nossos pensamentos.
Por que ele está realmente aqui e por que me deixa tonta saber que ele decidiu esperar na fila
comigo, apesar de odiar a ideia?
Finalmente chegamos à frente da fila depois de dez minutos. O passeio no Castelo
Spooky é uma das atrações clássicas da Dreamland, baseado em um castelo assombrado
em algum lugar da Inglaterra de um dos filmes da The Kane Company. Cada carrinho
tem o formato de meia-lua, com um assento preto grande o suficiente para caber três
pessoas.
Um homem, vestido com um terno de três peças à moda antiga, chama por nós. —
Quantos em seu grupo?
— Um, — respondo ao mesmo tempo em que Rowan diz: — Dois.
O atendente muda seu peso de um pé para o outro. — Hmm, por favor, se apresse. O
carrinho está saindo.
Corro e entro no pequeno assento preto. Minha têmpora lateja quando Rowan desliza
para dentro e puxa a alavanca para baixo, prendendo-nos no carrinho juntos.
— Por que você não pode me deixar em paz? — Resmungo.
— Eu gostaria de saber. — Ele diz as palavras tão baixo que me pergunto se as
inventei.
Mesmo assim, sorrio com a ideia de Rowan querer passar mais tempo comigo, mesmo
que ele não saiba por quê.
Rowan abre as pernas para ficar confortável. Uma coxa musculosa roça a minha e eu
respiro fundo. Não tenho certeza do que é mais assustador. Nosso carrinho se movendo
pela escuridão assustadora ou a explosão de calor em minha barriga com a proximidade
de Rowan.
Definitivamente Rowan. Movo-me, aproximando-me do final do assento.
— Se você chegar mais perto da borda, vai cair do carrinho e se machucar. — Ele fala
sobre os sons assombrados.
— Eu pensei que você não se importasse?
— Hmm. Talvez eu me importe com alguma merda, afinal.
Meu peito aperta enquanto luto contra meu sorriso.
O carrinho nos lança para um corredor escuro como breu, com gargalhadas malignas
e gemidos de fantasmas ecoando nas paredes. Maçanetas sacodem enquanto outras
portas se abrem enquanto avançamos lentamente.
Os olhos de Rowan saltam por toda parte enquanto somos levados pelas várias salas
do castelo. Seus olhos se arregalam enquanto ele avalia o espaço do sótão, onde uma
noiva gótica canta sobre um caixão. — Isso é mais assustador do que eu me lembrava.
Levanto uma sobrancelha. — Aw, você está com medo? Quer que eu segure sua mão?
Ele revira os olhos. Acho o movimento tão estranhamente humano que acabo rindo
de mim mesma. O lado de sua boca se contrai novamente enquanto ele luta contra um
sorriso, e eu mentalmente danço em comemoração.
— Quando foi a última vez que você andou neste? — Pergunto.
Suas mãos apertam o guidão à nossa frente. — Quando eu tinha dez anos.
— Dez?! Isso foi há muito tempo.
— Que maneira de me fazer sentir velho.
Meu corpo inteiro treme de tanto rir. — Desculpe.
— Ainda me lembro de como Cal costumava chorar todas as vezes. A reação dele
sempre fazia minha mãe rir, então nós o intimidávamos para fazer isso conosco
repetidamente.
Respiro fundo. Eu nunca o ouvi falar sobre sua mãe antes assim. — Que bom que você
fez isso com sua mãe.
Ele tosse. — Duvido que Cal concorde.
— Qual era o passeio favorito dela?
— Todos eles. — Ele sorri, mas não atinge seus olhos. Estendo a mão e agarro seu
punho apertado. Não tenho certeza do que pensei em conseguir. Acalmá-lo? Fornecer
conforto? Que ideia ridícula. Ele não precisa disso. Removo minha mão, mas Rowan a
trava e a mantém presa contra a barra. O toque de seu polegar em meus dedos envia uma
faísca pelo meu braço.
Eu suspiro. Ele recua e solta minha mão.
Nosso carrinho continua sua lenta descida até o cemitério mórbido. Estátuas falantes
e fantasmas voam por aí. Um fantasma surge de uma lápide e Rowan pula em seu
assento, batendo o peito contra a barra de segurança à nossa frente. Ele geme com seu
peso, mas permanece no lugar.
Uma gargalhada explode de mim. Lágrimas se formam em meus olhos e não consigo
piscar para afastá-las rápido o suficiente. — Oh meu Deus. Essa reação fez valer a pena
vir no passeio com você.
Ele se vira em seu assento. Seus olhos são iluminados pelos fantasmas do projetor
flutuando acima de nós. — Você é malvada.
Uma enorme aranha cai na frente de nosso carrinho e Rowan recua. — Porra!
Outra risada irrompe da minha garganta. Nunca o ouvi xingar antes, provavelmente
porque isso revelaria muito sobre seu humor.
Seus lábios formam uma linha tensa, mas seus olhos permanecem brilhantes.
— Você deveria ter visto seu rosto. Impagável.
Ele balança a cabeça.
— Acho que devo ter feito um pouco de xixi de tanto rir.
— Encantadora como sempre, Zahra.
Algo na maneira como ele diz a frase me faz sorrir como uma idiota.
— Eu nunca vi um adulto reagir assim em um passeio de criança. — Limpo
discretamente os cantos dos olhos novamente.
— Você não é tão doce quanto todos pensam que você é. Só uma mulher perversa
acharia graça de um homem por ter tanto medo.
— Você acha que eles gravaram isso na câmera? Vou comprar aquela foto
absurdamente cara em um piscar de olhos. — Meu rosto parece que vai rachar ao meio
pelo tamanho que estou sorrindo.
Ele me encara por alguns segundos antes de olhar para frente.
A viagem termina cedo demais. Nosso carrinho se arrasta em direção à saída e o
guidão se eleva, nos liberando. Rowan sai antes de oferecer sua mão para mim.
Fico olhando para ele, piscando para verificar se meus olhos estão me enganando. Ele
revira os olhos mais uma vez e agarra meu braço, me puxando para fora antes que o
carrinho desapareça de volta na fila. Espero que ele me solte, mas ele segura firme
enquanto o caminho nos leva a uma loja que vende mercadorias do filme Castelo Spooky.
— Espera! — Grito enquanto Rowan se dirige para as portas da frente.
Ele solta minha mão e eu caminho até o balcão de fotos. O atendente me ajuda a
encontrar a foto que procuro.
Quando ele acha a imagem e a amplia, me descontrolo. Minha voz fica rouca de tanto
rir.
— Delete isso. — Rowan fala atrás de mim. O calor de seu peito aquece minhas costas.
Jogo minha mão para parar o funcionário. — Não! Por favor, deixe-me comprar
primeiro. — Fico olhando para a foto com saudade. Eu sou uma imagem de graça
enquanto Rowan parece cerca de duas sombras mais pálido com seus olhos ameaçando
sair das órbitas. E o mais estranho de tudo, seu braço está colado ao meu estômago como
se ele estivesse me protegendo. A ideia é doce, e quero uma foto para nunca esquecer a
memória.
Corro para pegar minha carteira da bolsa. Antes que eu tenha a chance de contar meu
dinheiro, Rowan entrega ao funcionário uma nota novinha em folha por cima do meu
ombro. O trabalhador da Dreamland imprime e embrulha a foto para mim.
Viro-me e olho para o rosto sem expressão de Rowan. — Por que você pagou por isso?
— Porque eu queria.
Sua resposta tem a intenção de me confundir, mas estou de olho nele. Acho que
Rowan gosta de mim mais do que está disposto a deixar transparecer, até para si mesmo.
25
ZAHRA

Saímos da loja com meu novo presente a reboque. Sorrio para o céu e respiro o cheiro
fresco de biscoitos no ar.
Rowan tira um pacote de Tums24 do bolso. Ele coloca uma na boca e esfrega o peito.
— Azia? — Coloco meus óculos de sol de volta no meu nariz.
— Sim.
— Interessante. Sempre me perguntei se você teve seu coração removido
cirurgicamente para evitar o problema.
— Tentei. Acontece que o médico não se sentiu confortável com a baixa taxa de
sobrevivência.
— Esses covardes.
Ele solta uma de suas risadas. Do tipo que é tão baixa que é difícil ouvir por causa das
crianças gritando e rindo ao nosso redor. O som envia um calor pelo meu corpo que acho
impossível ignorar.
Realmente preciso dar o fora em Rowan antes que eu faça algo estúpido como beijá-
lo novamente. — Bem, foi bom ver você. É melhor eu ir - você sabe, lugares para ir,
passeios para ver e tudo. — Viro-me para o próximo passeio da minha lista.
Sua sombra me segue. Ele agarra meu cotovelo e me vira com uma suavidade que
alguém como ele não deveria possuir. Por que sempre que esse homem me toca, parece
que o mundo para para notar?
Ele libera meu cotovelo com a velocidade de um caracol, seus dedos traçando minha
pele enquanto ele deixa cair sua mão. — Por que você está realmente fazendo isso?
Fico olhando para os meus tênis. — Eu estou com um bloqueio criativo.
— E esta é a sua solução? — Ele olha ao redor do parque com um sorriso de escárnio.
— Por que você concordou em se tornar o Diretor se você odeia tanto este lugar?
— Eu não odeio. — Seu nariz se contrai.
— Então, explique essa expressão em seu rosto.
— Eu não lhe devo explicação.

24 É um medicamento, em forma de pastilhas coloridas, que trata os sintomas da azia.


— Se você agir como uma criança, será tratado como tal. Adeus! — Aceno por cima
do ombro enquanto caminho rapidamente para sair de sua proximidade.
Ele segue, diminuindo a distância sem respirar. — Estou indo.
— Por que? — Gemo.
— Porque eu acho você interessante.
Rowan é a única pessoa que poderia me chamar de interessante e fazer meu coração
palpitar em resposta. Aceito seu pedido porque não tenho esperanças quando se trata
dele.
Continuamos nossa jornada em direção ao passeio Kanaloa baseado em um dos
deuses havaianos. Sigo em direção ao acesso principal, mas ele me leva em direção ao
acesso rápido.
— Não temos passes rápidos para isso. — Tento parar, mas sua mão encontra a parte
inferior das minhas costas, me empurrando para frente. O calor se espalha pela área que
cobre as palmas.
Ele aponta para o rosto. — Você está olhando bem para ele.
Eu bufo. — Deus, isso foi tão brega. Não consigo nem acreditar que saiu da sua boca.
Ele permanece quieto, mas tenho certeza que a mão pressionada contra minhas costas
treme de risada silenciosa.
— Você sabe, isso derrota o ponto de eu experimentar a Dreamland como uma pessoa
normal. Gosto de falar com as pessoas e ouvir suas opiniões enquanto espero.
Ele ignora minha tagarelice enquanto caminhamos pelos corredores longos e vazios.
— Por que você quer passar um tempo comigo, afinal? — Pergunto.
Seu bolso chacoalha novamente quando ele pega o frasco de Tums e coloca outra na
boca.
— Você não deveria andar nesta montanha-russa se tiver problemas cardíacos, —
provoco.
Ele me lança um clarão que pode congelar novamente o Ártico. — Eu não tenho
problemas de coração. É indigestão.
— Ou um efeito colateral crônico por ser um idiota o tempo todo. — Pisco.
Ele grunhe algo indiscernível sob sua respiração.
Somos conduzidos direito para área de espera da montanha-russa. A pedido de
Rowan, um atendente nos leva até a frente da fila, onde ficam os primeiros assentos da
montanha-russa.
Balanço minha cabeça e aponto para trás. — É onde queremos sentar.
Rowan levanta uma sobrancelha, mas segue minha liderança. Nós nos sentamos na
parte de trás do carrinho. Nossos braços se roçam quando o cinto de segurança é puxado
para baixo, nos prendendo.
Olho para frente enquanto o carrinho se prepara para ascensão. A fachada cênica de
um vulcão havaiano nos cerca, e vapor quente goteja pelo ar, tornando propositalmente
difícil de ver.
Esta é minha parte favorita. O som de clique fica mais alto e meu coração bate mais
rápido no meu peito enquanto subimos a lateral do vulcão. Com um último empurrão, o
carrinho passa pela borda, caindo direto na lava falsa.
Grito, meu estômago disparando direto na minha garganta enquanto o carrinho dá
voltas e reviravoltas. O exterior áspero de Rowan racha quando ele ri, seus olhos focados
mais em mim do que no passeio. Não tenho certeza do que fazer com isso. Com base na
sensação do meu peito, talvez eu precise de uma pastilha Tums também.
A próxima queda rouba minha atenção, e eu grito enquanto somos jogados de cabeça
para baixo em um movimento espiralado. Este é um dos melhores passeios da
Dreamland.
Meu coração não para de disparar até que o carrinho da montanha-russa para do lado
de fora da estação de desembarque.
Viro-me para encarar Rowan, me perguntando o que ele achou do passeio. — O que
você acha?
— Acho que você estourou meus tímpanos. — Seus olhos estão presos em mim,
escurecendo enquanto ele lambe o lábio inferior. Sua mão se estende e roça minhas ondas
loucas para baixo.
Meu coração, uma vez estável, acelera novamente, batendo mais forte no meu peito
do que um minuto antes. — Eu poderia andar nisso uma e outra vez e nunca me cansar
disso.
Ele levanta uma sobrancelha. — Repetidamente?
— Sim! Não faz você se sentir vivo?
Nosso assento chega no desembarque. Rowan faz um movimento extravagante de
girar com a mão, e nossos cintos de segurança permanecem travados no lugar.
— Umm. O que está acontecendo? — Todos os passageiros descem do carrinho, mas
nós permanecemos sentados. Rowan faz outro sinal com a mão, e o carrinho decola
novamente, vazio, exceto por nós.
— Por que estamos fazendo isso de novo? — Falo mais alto sobre as engrenagens de
acionamento.
Ele olha para mim, seu rosto plano. — Você disse que queria fazer de novo.
— Sim, mas eu não esperava exatamente que fizéssemos.
— Bem, aqui estamos.
O carrinho avança, subindo para o vulcão novamente.
— Por que você está realmente passando tanto tempo comigo? Você não tem outras
coisas para fazer e pessoas para atormentar?
Ele encolhe os ombros evasivamente. — Talvez eu goste de ouvir seus gritos.
— Louco.
Estou surpresa que Rowan não me cause uma parada cardíaca quando ele pisca. Meu
coração bate forte no meu peito e minha pele formiga em resposta.
26
ROWAN

Não tenho certeza do que diabos estava planejando fazer depois de encontrar Zahra
no parque, mas me juntar a ela neste dia bizarro foi a última ideia em minha mente. No
entanto, aqui estou, um espectador indefeso, desesperado para fazer parte de sua órbita
de qualquer maneira que eu puder.
Hoje, eu estava mais do que disposto a esperar em algumas longas filas com Zahra
porque ela disse que eu precisava experimentar como o resto do mundo vive. Abandonei
toda a minha dieta comendo metade da Dreamland com ela. Até concordei em caminhar
pela Casa dos Presidentes, também conhecida como a atração mais chata do mundo da
Dreamland, tudo porque Zahra queria.
Tudo o que faço hoje é pelos sorrisos doces e risadas suaves de Zahra. Ela tem o
magnetismo do Triângulo das Bermudas, e eu sou um avião perdido desesperado para
pousar.
Com o sol se pondo, nosso dia está lentamente chegando ao fim. A ideia de voltar
para o meu escritório me enche de pavor.
— Se apresse! — Zahra grita comigo. Ela parte em direção à vila natalina de inspiração
alemã, montada em um canto do parque para as festas de fim de ano. Dreamland
aproveita os entusiastas do Natal assim que termina o Halloween. Pode ser apenas o
primeiro dia de novembro, mas o parque não perde a oportunidade de lucrar com o
espírito natalino.
Com enormes árvores de Natal ao redor da praça, é como se os hóspedes fossem
transportados para um país diferente.
— Vamos! — Ela verifica a hora em seu telefone. — Vamos perder se não
aumentarmos o ritmo. — Ela nos leva em direção à praça da vila. Pego duas xícaras de
chocolate quente de uma das estações e passo uma para Zahra.
Ela sorri para os minúsculos marshmallows nadando no topo do copo. — Como você
sabia que eu gosto de chocolate quente?
— Porque todo mundo gosta de chocolate quente.
— Eu não deveria. Basicamente, comemos tudo o que eles vendem na Dreamland.
— Se você reclamar do seu peso, vou arrancar meus olhos com esta colher. — Meus
olhos percorrem seu corpo, observando a forma como suas roupas se agarram a ela da
melhor maneira. Ela tem curvas que eu adoraria memorizar com a ponta da minha língua
e o toque dos meus lábios. O sangue se desloca para o meu pau com a imagem mental de
Zahra na minha cama, coberta por nada além de um lençol de seda.
Suas bochechas coram quando ela me pega olhando. — Meu ex costumava me chamar
de gorda.
Minha mandíbula aperta a ponto de doer. Esta é a primeira vez que Zahra menciona
algo sobre seu ex para mim, e gostaria de não ter ouvido nada sobre ele. — Acho que é
por isso que ele é um ex.
— Não. Infelizmente, não. Embora, eu devesse ter interpretado isso como um sinal.
— Que ele estava perdendo a visão?
Ela dá uma triste risada, e percebo que nunca mais quero ouvir essa versão dela de
novo. Uma sensação estranha sobe em meu peito para fazê-la se sentir melhor.
— Sério, que tipo de idiota reclama de uma mulher ter curvas? Extraoficialmente, seu
corpo é sexy ‘pra’ caralho.
Suas bochechas se transformam em duas manchas vermelhas. — Por favor, finja que
eu não disse nada.
— Por que?
— Porque não deveríamos ter essa conversa. Você é meu chefe, — ela sussurra as
palavras como se alguém pudesse nos ouvir.
Meus molares pressionam. — Eu não sou tecnicamente seu chefe.
— Meu contrato implora para discordar.
— Você se reporta a Jenny, que então se reporta a mim.
— Bem, você é o chefe do meu chefe, o que significa que
eu definitivamente não devo mencionar meu ex para você. Portanto, seja um cavalheiro e
cale a boca. Kay, obrigada!
Rio baixinho enquanto me inclino e falo em seu ouvido. — Gentil é a última coisa que
quero ser perto de você.
Sua pele fica arrepiada. — O que você está fazendo?
— Divertindo-me.
— Eu perdi o início do apocalipse ou algo assim?
Solto um pequeno sorriso. Seus olhos se expandem enquanto ela verifica meu rosto.
Ela limpa a garganta, agarra meu chocolate quente pela metade e joga os copos
fora. Quando ela volta, suas bochechas perderam o rubor. Sinto falta.
— Você é fofa quando fica toda confusa. Se fosse... — Minha resposta é interrompida
por uma multidão cantando em contagem regressiva de dez. — Para que eles estão
contando?
Ela sorri enquanto olha para mim. — Você vai ver!
A multidão grita um e o caos explode. Crianças gritam ao nosso redor enquanto flocos
de neve de espuma caem em nosso entorno. Os cilindros escondidos em todo o pátio nos
borrifam e cobrem o cabelo e as roupas de todos com neve falsa. Música de Natal explode
nos alto-falantes, aquecendo toda a área com a alegria do feriado.
Zahra ri enquanto golpeio meu ombro e levo a espuma até meus olhos.
— O que diabos é isso? Eu não me lembro disso estar aqui quando eu era criança. —
Meus pais nos levavam para esta mesma vila todos os anos, mas não me lembro de neve
fazer parte do programa.
— Eles adicionaram no ano passado!
— É melhor não manchar. — Um protótipo lamentável de floco de neve cai no meu
nariz.
Seu sorriso se alarga quando ela pisa na ponta dos pés e o afasta. — Não seja um
desmancha-prazeres.
Espuma chove ao nosso redor, caindo em seus cabelos e roupas escuras. Crianças
gritam e correm enquanto fazem anjos de espuma na grama.
— Essas pessoas agem como se nunca tivessem visto neve antes.
— Isso é porque alguns de nós nunca viram! — Ela ri para o céu.
— Sério?
— Sim. Talvez um dia. — Ela estende a mão para coletar mais espuma.
Uma criança corre direto para Zahra, prejudicando seu equilíbrio. Estendo a mão e
agarro seus braços antes que ela caia no chão. Outro pequeno demônio veloz corre direto
para ela, mas eu a puxo para mim antes que ele a atropele. Suas mãos batem contra meu
peito e seus olhos me prendem como reféns. Ela fica perfeita em meus braços, e estou
tentado a mantê-la escondida ao meu lado, onde posso protegê-la de toda a escuridão do
mundo, incluindo eu mesmo.
Não tenho certeza do que está acontecendo comigo, mas tudo que sei é que estou
cativado por Zahra.
Uma mecha de seu cabelo esvoaça ao vento, arrastando por seu rosto. Sem pensar,
agarro a mecha e coloco atrás de sua orelha. Minha pele vibra com o contato, e seguro
sua bochecha para reter o momento. Seus olhos castanhos brilham apesar do sol poente.
Tudo ao nosso redor fica mais lento enquanto abaixo minha cabeça. Ela me encontra
no meio do caminho, e nossos lábios se chocam. Tenho desejado isso desde o nosso
primeiro beijo. Nossos corpos se moldam como se fossem duas peças faltando em um
quebra-cabeça.
A energia estala onde nossos lábios se tocam e eu me alimento dela como um viciado
desesperado. Zahra respira fundo. Aproveito a oportunidade para traçar seu lábio
inferior com minha língua. Seu corpo estremece quando seus dedos agarram o tecido do
meu terno.
Minha cabeça fica turva e o barulho ao nosso redor diminui enquanto Zahra
aprofunda o beijo. Sua língua provoca a minha enquanto ela envolve seus braços em volta
do meu pescoço. Ela tem gosto de chocolate com menta, e estou desesperado por mais. É
como se todos os meus sentidos tivessem sido sobrecarregados com hiperatividade, com
minha espinha formigando e meus lábios zumbindo por mais. Mais disso. Mais
dela. Mais de nós.
Beijar Zahra é como chegar ao céu após uma eternidade passada no purgatório. Como
se eu tivesse passado a maior parte da minha vida vagando desesperadamente por aí,
esperando que ela me mostrasse o caminho de volta para a luz. Ela é divina com maldade
suficiente para fazer um pecador como eu querer orar com devoção.
Gemo quando ela pressiona em mim. Minha ereção crescente é mal contida por
minhas calças, e Zahra engasga.
Outra criança grita ao nos atingir e nos separar. Zahra cambaleia, mas desta vez
recupera o equilíbrio sozinha.
Ela sai do meu alcance enquanto olha para mim com os lábios abertos e inchados. —
Então…
— Vá a um encontro comigo. — Dou um passo em sua direção.
— O que?! — Ela pressiona a mão contra a boca como se o gesto pudesse me impedir
de beijá-la novamente.
Sou o único afetado por nossa conexão? Não pode ser. — Devo me repetir?
— Não! Para ambas as perguntas.
— Por que? — Aproximo-me dela, sentindo seu cheiro fresco de frutas cítricas
misturado com o cheiro de sabão dos flocos de neve de espuma.
— Você precisa de um motivo maior além do fato de que você é meu chefe?
— Isso nunca a impediu de fazer o que queria antes.
Seus olhos caem para o chão. — Não importa. Você é a última pessoa que eu deveria
querer.
Suas palavras me jogam de volta ao passado - do menino que foi rejeitado até que
aprendeu a parar de se importar.
A veia em minha testa lateja. — Sim, bem, eu não deveria ser atraído por uma mulher
insuportável que me leva à beira da insanidade, mas aqui estamos nós. Você representa
tudo que eu não gosto em alguém.
Ela estremece. — É assim que você realmente se sente em relação a mim?
Porra. Isso saiu tudo errado. De alguma forma, assisti o Sr. Darcy foder dezessete vezes,
mas ainda assim consegui cair na mesma armadilha.
Seus olhos brilham, instantaneamente me fazendo sentir mais miserável.
— Merda. Eu não quis dizer isso. — Seguro seu cotovelo, mas ela arranca o braço.
— Você sabe o que? Esqueça isso. Tudo o que fiz foi dar desculpas pelo seu
comportamento, porque esperava que houvesse um cara decente por trás de toda aquela
raiva. Mas, na realidade, você não é nada além de um idiota que começa a fazer todo
mundo tão infeliz quanto você. — Seu lábio inferior balança.
Não. Isso não pode ser verdade. Isso é algo que meu pai faz, não eu. Sou prático e
direto. Há uma diferença entre isso e ser um filho da puta miserável como meu pai.
Mas a maneira como ela olha para mim me faz considerar isso por um segundo.
Meu peito aperta. — Zahra, sinto muito. Me ouça...
— Eu não quero suas desculpas. Não significa nada vindo de alguém que não saberia
nada sobre sentir remorso.
Sinto-me tão tolo quanto o filho da puta do Sr. Darcy.
Você está se comparando aos personagens fictícios que ela ama agora?
Você está fodido. Absolutamente fodido.
Meu estômago rola. Estou tentado a dizer algo rápido de volta, mas me contenho. Eu
não quero mais ser aquele cara. Aquele que perde a garota antes mesmo de ter uma
chance. O mesmo que se esconde atrás de um pseudônimo e espera suas mensagens
porque odeio a solidão paralisante que me atinge cada vez que entro em minha casa
vazia.
Não. De agora em diante, estou escolhendo ser melhor com ela. Mesmo que eu tenha
cometido esse erro, ainda posso continuar tentando de qualquer maneira.
— Esqueça que esse beijo aconteceu. Deus sabe que vou. — Ela se vira e vai embora
sem uma segunda olhada.
Algo sobre sua partida fez meu peito apertar a ponto de dificultar a respiração. Vou
pegar meu frasco de Tums do bolso interno do meu paletó, apenas para encontrar a
maldita coisa vazia. É uma representação perfeita de como me sinto agora que Zahra se
foi.
Nada além de vazio.
***
Convidar Zahra para sair em um encontro como aquele foi descuido. Fiquei preso no
momento e foi a primeira coisa que pensei. Foi estúpido, especialmente quando ela me
vê de uma maneira enquanto eu a vejo sob outra luz.
Achei que poderia voltar a fingir ser Scott, mas depois de beijar Zahra, não consigo
mais. Parece... errado. Como se eu não me encaixasse mais nessa pessoa porque meu
interesse por Zahra evoluiu. Não quero fingir que sou um perdedor que não tem contato
com as pessoas. Não quero mais fingir. Ponto final.
Então, começo uma nova conversa como Rowan. De agora em diante, é tudo o que ela
receberá de mim.
Eu: Eu preciso que você me encontre no meu escritório amanhã às 20h
Solto uma respiração reprimida quando ela finalmente responde uma hora depois.
Zahra: Tudo bem.
Sua resposta simples me deixa nervoso pelo resto da noite. Ela não é o tipo de pessoa
que faz nada simples, e não gosto de receber uma mensagem de uma palavra dela. Ela
nunca faria isso com Scott, mas comigo, ela nem mesmo tenta.
Você parece estar com ciúme de si mesmo.
Considero cancelar a reunião duas vezes antes de enfiar meu telefone na gaveta e
ignorar quaisquer mensagens que Scott recebeu de Zahra. Isso precisa ser feito. Ela vai
aceitar meu raciocínio por trás de fingimento. Não é como se eu pudesse admitir quem
eu era para ela quando é difícil confiar em alguém além de mim e meus irmãos.
E se ela não te perdoar?
Ela vai. Não há nada de errado com o que fiz. Não tenho dúvidas de que se ela foi
criada da mesma maneira que eu, faria a mesma coisa sem piscar.
Certo.
27
ZAHRA

Empurro meus ombros para trás e bato na porta do escritório de Rowan. Estou pronta
para o que quer que ele jogue em mim depois de nossa pequena briga, embora meu
coração pareça que ficou permanentemente preso na minha garganta depois de sua
mensagem de texto ontem.
— Entre.
Abro a porta e encontro Rowan sentado no lado oposto de sua mesa. Sua camisa de
botões está amassada e as mangas arregaçadas, revelando seus fortes antebraços. O
melhor tipo de veia pornografia me dá água na boca, e fico tentada a rastreá-la com meus
lábios.
Paro de me mover assim que olho para o rosto dele.
Rowan usa óculos. Óculos grossos de aro preto que pertencem a algum super-herói
trabalhando como repórter. Sou pega de surpresa pelo olhar. É... Deus... uau. Eles fazem
seu rosto parecer mais severo, destacando todos os ângulos agudos. Quero estender a
mão e tocar a sombra escura cobrindo sua mandíbula.
Isso adiciona à sua aparência mais robusta, depois do expediente. Embora um Rowan
limpinho seja atraente, essa versão desgrenhada faz meu sangue bombear com a batida
de meu coração errático.
— Sente-se. — Ele aponta para a cadeira vazia em frente a sua mesa.
Sigo sua ordem, caindo na cadeira. É difícil permanecer graciosa quando estou
propensa a babar.
Rowan pega um arquivo e o joga na mesa na frente dele. Seus olhos permanecem
focados em seus punhos cerrados em cada lado do arquivo, e tenho certeza que meu
coração pode explodir com o silêncio irritante.
— O que é isso? — Aponto para o arquivo. — Por favor, diga que não é um AND25 ou
algo nefasto.
Ele arranca os óculos. Lamento a perda enquanto eles deslizam pela mesa. —
Não. Nada como isso.
— Está bem então…

25 Acordo de não-divulgação.
Ele nem me olha nos olhos. — Eu trouxe você aqui sob falsos pretextos.
— Não entendi. O que?
— Ouça-me antes de fazer qualquer coisa. — Ele olha para mim com olhos cautelosos.
— Umm... ok?
Ele agarra o arquivo, fazendo-o dobrar. — Tomei uma decisão há alguns meses que
teve um impacto mais duradouro do que pretendia. Embora não tenha sido feito com a
intenção mais favorável na época, rapidamente se tornou algo de que gostei.
— Eu não estou entendendo.
Ele aperta a ponte do nariz. — Eu não sei como dizer isso sem te deixar chateada.
Uma sensação de frio percorre minhas veias. Se Rowan tem medo de me perturbar,
não pode ser bom.
— Bem, tente. — Meus dentes rangem. O sangue correndo em meus ouvidos torna a
concentração uma tarefa quase impossível.
Ele solta a pasta e a desliza na minha direção. — Abra.
Abro o arquivo com um dedo trêmulo. A primeira página é uma ilustração do meu
mandap do casamento hindu. Estou presa em um transe enquanto folheio páginas de
desenhos que pedi a Scott para desenhar para mim. Existem até alguns desenhos que
nunca fizeram parte das minhas apresentações porque Scott e eu decidimos não usar.
— Scott mandou isso para você? — Minha voz treme. De que outra forma Rowan teria
acesso a todas essas imagens?
Ele balança a cabeça.
— Estou em apuros? Achei que não havia problema em trabalhar com ele.
— Não. Você não está com problemas.
— Mas como você tem isso?
Ele solta um suspiro pesado. — Porque Scott não existe.
Meu peito aperta a ponto de doer. — O que você quer dizer?
Sua mandíbula trava. — Sou eu que estou falando com você o tempo todo.
Depois de todas as horas que passei me sentindo culpada por meus sentimentos
crescentes por Rowan e Scott, eles eram a mesma pessoa?
— Você está brincando comigo? — Balanço minha cabeça como se isso pudesse apagar
a verdade.
— Não.
O ácido sobe pela minha garganta. Eu engulo, tentando aliviar o caroço, mas nada
ajuda.
Como Rowan pôde mentir para mim assim? Achei que ele fosse seguro de uma
maneira estranha. Que sua sagacidade afiada e palavras propositadas significavam que
ele era franco com pouco tempo para besteiras.
Oh Deus. O timing impecável de Rowan faz todo o sentido agora. Como quando ele
apareceu no meu cubículo, se oferecendo para me comprar comida para viagem depois
que eu disse a Scott que pulei o jantar. Levaria horas para vasculhar todas as minhas
memórias para conectar os pontos, mas não preciso me preocupar. Só existe uma
conclusão.
Eu estava errada sobre Rowan. Ele é o pior tipo de mentiroso e o tipo de homem que
me fez acreditar em uma mentira por meses por causa de qualquer jogo doentio que ele
queria jogar comigo.
A umidade se apega aos meus olhos, mas pisco para longe. Não tenho o direito de
ficar chateada com ninguém além de mim mesma. É minha culpa ter mandado uma
mensagem para um estranho, pensando que poderia sair dessa ilesa. Confiava em Scott,
apesar dos sinais de alerta que eu fui muito estúpida para ignorar.
Divirta-se, Claire me disse uma e outra vez.
Seja corajosa, Ani entoou como um grito de guerra.
E para quê? Essa sensação no peito com a ideia de perder algo que nunca tive? Dane-
se isso.
Fecho os olhos como se isso pudesse bloquear tudo que se desenrola diante de
mim. — Por que?
Por que você faria isso?
Por que mentir para mim por meses?
Por que fingir que se preocupa comigo?
Tantas perguntas batem em meu cérebro, mas não consigo encontrar as palavras para
atacá-lo.
Seus olhos caem para os punhos. — No começo, eu não tinha certeza sobre seus
motivos. Enviar mensagens de texto deveria ser uma forma de ter certeza de que você
não estava conspirando secretamente contra mim depois do nosso primeiro beijo.
Ele está falando sério?! — Você queria me espionar?
— Não. Não espionar. Eu estava verificando para ter certeza de que você era genuína.
Estou chocada com a conversa. Não posso acreditar que ele só falou comigo porque
não tinha certeza se eu faria um escândalo sobre nós. O pensamento dói.
Ele continua. — Mas eu percebi que fui um tolo porque você realmente é essa pessoa
de bom coração que queria entreter um cara solitário que você nunca conheceu.
— Uma pessoa que nem existe, — digo.
— Eu sou ele. Juro que nunca menti para você como Scott, além do óbvio. E assim que
percebi o erro que cometi, não consegui parar. Comecei a ansiar por nossas conversas e
sabia que você ficaria chateada...
Levanto minha mão e fecho meus olhos. — Pare.
Ele não se incomoda em ouvir. — Eu nunca quis que tudo ficasse tão... fora de
controle. Muitas vezes pensei em admitir a verdade porque queria que você me olhasse
da mesma forma que olhou para o seu maldito telefone.
Não sei o que isso significa, mas não vou perguntar. — Considere a sensação há muito
desaparecida.
Suas sobrancelhas se juntam. — Você não pode estar falando sério.
— Mesmo? O que exatamente você sente por mim?
Ele esfrega o lábio inferior com o polegar. — Quero passar mais tempo com você.
Empurro o arquivo para ele. — Seus sentimentos são irrelevantes. Não me importo
com o que você quer, porque não estou aberta a nada disso. Isso tudo foi um erro.
Seu corpo inteiro trava sob a camisa, fazendo com que as veias de seus braços se
destaquem. — Eu tinha toda a intenção de parar de enviar mensagens para você, mas não
consegui encontrar coragem para parar. — Sua declaração rasga minha decisão contra
ele.
Respiro fundo algumas vezes e considero seu nível de traição.
Não. Ele é bom em mentir e dizer qualquer coisa para me manter fisgada. Não mais.
— Não posso confiar em você quando tudo o que você faz é mentir. — Minha voz
falha.
Seus olhos suavizam nas bordas. — Eu prometo que todas as conversas que tivemos
foram reais. A pessoa que sou com você... é quem eu sou. Você provavelmente me
conhece melhor do que ninguém. — Ele tropeça em suas palavras.
— Eu não me importo. — Balanço minha cabeça. Como ele pode esperar que eu
acredite em uma única palavra que sai de sua boca?
— Eu juro que queria te contar.
— Mas deixe-me adivinhar - nunca havia um momento certo.
Ele concorda.
Solto uma risada estridente. — Vocês, mentirosos, são todos iguais. É incrível como,
não importa a circunstância, pessoas como você encontram uma maneira de justificar
suas ações com o mesmo motivo clichê. — Lance me deu um discurso semelhante depois
que eu o peguei em flagrante com Tammy, e agora Rowan está fazendo o mesmo. A
verdade é que nunca haverá um momento certo para partir o coração de alguém.
Ele pisca para mim. — Eu entendo que você está chateada...
Um barulho estranho escapa da minha garganta. — Chateada nem começa a cobrir o
que sinto.
Achei que tinha uma chance com Rowan. Pode parecer estúpido agora, mas
parecíamos... conectados. E com Scott - passei muitas horas me sentindo culpada por
beijar Rowan enquanto mandava uma mensagem de texto para ele.
Pelo menos você sabe a verdade agora. Antes de investir seu coração em uma batalha perdida.
Levanto com as pernas trêmulas e pego minha mochila do chão.
— O que você está fazendo? — Ele se eleva acima de mim.
— Estou indo embora. Terminamos aqui.
— É isso? Eu mereço uma oportunidade de me explicar e fazer as pazes com você.
Balanço minha cabeça. — Você está falando sério? Você não merece nada além de um
alô de cortesia sempre que nos cruzamos em um corredor.
— Você vai jogar meses de amizade fora por causa disso? Estou confessando tudo
agora, quando não precisava. Isso não conta para alguma coisa?
Ele realmente acredita que ser honesto é algum tipo de conquista? Fico olhando para
ele, sem saber como diabos ele poderia esperar algo perto de apreciação.
Ele é um homem que consegue tudo o que deseja. Você provavelmente é a primeira pessoa que
se atreve a dizer não a ele.
— Para começar, nunca fomos amigos. Você se certificou disso quando decidiu mentir
para mim como Scott enquanto manipulava minha atração por Rowan. — Solto uma
risada amarga. — Talvez a razão de você não ter amigos não tenha nada a ver com ser
estranho ou querer se proteger de outras pessoas. É porque você é tão cínico sobre tudo
e todos. Quem gostaria de se abrir para alguém assim? Eu com certeza não quero.
Ele recua e imediatamente me sinto uma merda. Esta não sou eu. Não sou o tipo de
pessoa que magoa os outros de propósito.
Suspiro, tentando ganhar controle sobre meu temperamento. — Talvez um dia você
esteja aberto à ideia de mostrar ao mundo quem você é de verdade, em vez de se esconder
atrás de sua máscara de indiferença. A vida é muito curta para esconder quem você é
porque tem medo de se machucar. Assim como a vida é muito curta para eu dar a alguém
como você outra chance.
Nunca vi Rowan estremecer antes, e me deixa mal do estômago perturbá-lo
assim. Não quero machucá-lo, apesar de tudo que ele fez, mas não serei mais
silenciada. Passei muito tempo me segurando porque tinha medo de me defender. Fiz
isso quando Lance roubou minha ideia, e permiti quando Regina me tratou mal porque
tinha vontade.
Não mais.
Eu saio sem lhe dar uma segunda olhada.
***
Bato a porta do meu quarto e caio na cama bufando.
Claire enfia a cabeça para dentro. Um lado de sua cabeça ainda está encaracolado,
enquanto o outro lado é reto como um alfinete. — O que aconteceu?
Sento-me — Lembra do Scott?
— Como alguém pode esquecer Scott? — Ela diz o nome dele de uma maneira meio
cantada.
— Bem, eu planejo isso. Quero fingir que ele nunca existiu, visto que ele nunca existiu.
— Minha voz falha.
— Sobre o que é mesmo que você está falando? Afinal, ele era um avô? Tive um
pressentimento depois que ele citou Casablanca aquela vez.
— Não. Eu gostaria que esse fosse o meu problema. Isso seria muito mais fácil do que
a alternativa.
Ela pula na minha cama e cruza as pernas. — O que aconteceu?
Meu lábio inferior balança. — Acontece que Scott é na verdade Rowan.
Sua boca se abre antes de fechar novamente. — Oh. Uau. Eu não esperava isso.
Coloco minha cabeça em minhas mãos. — Você e eu.
— Como você descobriu?
Revelo todos os detalhes que sei até este ponto. Claire escuta cada palavra, apenas
interrompendo para pedir esclarecimentos quando está confusa.
Ela junta as mãos. — Bem, esta não é a pior notícia.
— Como você pode dizer isso? Ele mentiu! — Pego um travesseiro e seguro contra o
peito.
— Certo. Eu não estou desculpando isso. Mas pelo menos agora você não precisa se
sentir culpada por estar interessada nos dois.
— Isso é porque não estou mais interessado em nenhum deles.
— Bem, merda. Claro que não. Ele realmente estragou tudo.
— Eu pensei... Ele parecia... quero dizer... — Não consigo encontrar palavras para
descrever como me sinto. Outro dia, perguntei-me se Rowan poderia ser alguém por
quem eu poderia me ver apaixonada. Mas depois disso, não sei como ele espera que eu o
perdoe. Porque se ele conseguiu mentir na minha cara por meses, quem garante que ele
não vai mentir para mim sempre que for conveniente? Fui burra o suficiente para não
questioná-lo para começar.
Um mentiroso é um mentiroso, não importa a desculpa que ele tenha. E,
honestamente, não consigo imaginar nada que valha a pena me enganar por tanto tempo
quanto ele me enganou.
28
ROWAN

Eu sou cínico? Sim.


Mas com medo? Absolutamente não.
Vou provar para Zahra. Estou disposto a me colocar lá fora e ser rejeitado se isso
mostrar a ela que não preciso me esconder atrás de uma máscara. A pessoa que eu era
perto dela é o mesmo cara que sou hoje, e vou garantir que ela não tenha motivos para
duvidar de mim. Ela é a primeira pessoa por quem abandono algumas das minhas
paredes. Nem mesmo meus irmãos me conhecem como ela, então não vou desistir
porque ela me desafiou.
Eu suspiro. Esta noite não chegou nem perto do planejado. A forma como Zahra
reagiu à minha identidade oculta não foi nada ideal. Posso ter sido muito otimista sobre
o resultado potencial, esperando que ela me perdoasse porque ela entendeu meu ponto
de partida. Mas não tive uma chance real de explicar meu passado e por que hesitaria
para começar. E, honestamente, há uma parte de mim que se pergunta se vale a pena me
expor assim, sob o risco de Zahra não me perdoar.
Preciso me reagrupar e planejar o que fazer a seguir. Em vez de trabalhar até tarde,
termino a jornada e vou para casa malhar, tomo um banho e como um jantar
rápido. Quando caio na cama, é meia-noite e quinze.
Pego meu telefone e verifico meus e-mails. O padrão típico em que caí esta noite
parece mais vazio do que o normal. Eu me acostumei com as mensagens incessantes de
Zahra e nossas conversas na hora de dormir sobre tudo que existe sob o sol.
Coloco meu telefone na mesa de cabeceira e ligo o noticiário, na esperança de me
entediar para dormir.
Meu telefone vibra, fazendo meu coração bater mais rápido no meu peito em
resposta. Zahra se arrependeu do que disse em meu escritório?
Pego meu telefone da minha mesa de cabeceira. Um peso pesado pressiona contra
meu peito com a mensagem do bate-papo em grupo que compartilho com meus irmãos.
Declan: Nosso pai recebeu sua própria carta. É oficial.
Cal segue com um monte de palavrões.
Merda. Pressenti que ele recebeu algo, então a notícia não me surpreendeu tanto
quanto deveria. Estou mais curioso para saber o que a carta dizia porque o
relacionamento do meu pai com o vovô estava tenso desde a morte da mamãe. O único
motivo pelo qual papai assumiu o cargo de CEO após o acidente do vovô foi porque
Declan ainda era muito jovem, de acordo com o testamento do vovô.
Eu: Você descobriu o que dizia?
Declan: Nada a relatar ainda. Devemos ficar de olho em tudo o que ele faz e que consideramos
estranho para ele.
Cal: Você quer a lista curta ou longa?
Declan: Vocês dois se falaram?
Cal: Ele me ligou na semana passada do nada.
Eu: O que ele disse?
Cal: Ele perguntou se eu precisava de ajuda. EU.
Cal: A quem devo agradecer por essa conversa estranha? Jim, Jack ou Johnnie26?

Declan: Eu te avisei o que aconteceria se você ficasse fora de controle novamente.


Isso de novo não. Declan já forçou Cal para a reabilitação durante a faculdade. É o ponto
de gatilho que empurrou seu relacionamento já enfraquecido ao seu ponto de
ruptura. Declan pode ter feito isso por amor ao nosso irmão, mas Cal nunca superou.
Eu: Ele perguntou alguma coisa sobre sua carta?
Talvez ele estivesse tentando atacar Cal porque achava que poderia obter as melhores
respostas dele. Eles sempre tiveram o melhor relacionamento entre nós três.
Cal: Não. Acho que ele não sabe sobre as nossas.
Declan: Vamos manter assim.
Bom. Um obstáculo a menos no meu caminho. A ideia de voltar para Chicago
geralmente alivia meu desconforto, mas só aumenta meu estômago já embrulhado. Pela
primeira vez, não parece mais uma escolha fácil, e não tenho certeza do que fazer com
isso.
***
Minha primeira ideia para chamar a atenção de Zahra é por meio de seu amor pela
comida. Já funcionou no passado, então posso muito bem fazer bom uso da minha teoria.
Encontro-a exatamente onde eu a quero - em seu cubículo, sem nenhum Criador ao
nosso redor.
Ela encara o computador antes de digitar um documento em branco.
Largo o saco de papel em sua mesa. — Venho com um jantar de desculpas.
Ela desliza o saco para o canto da mesa sem se preocupar em desviar o olhar da tela. —
Não estou interessada.
Ela continua clicando em seu computador. Cerro os dentes, sem saber como chamar
sua atenção se ela nem mesmo olha para mim. A comida deveria ter tido algum efeito
sobre ela, especialmente se ela está com fome. No entanto, parece funcionar apenas se ela
realmente quiser minha companhia.

26 Marcas de uísques famosas.


— Que tal alguns cupcakes de desculpas que eu mesmo fiz? Ani me deu sua receita.
— Pego o recipiente de plástico da sacola e coloco mais perto dela.
OK, tudo bem. Ani os assou sob minha supervisão, mas tanto faz.
Ela olha para mim. Seus olhos permanecem colados no meu rosto. — Você está aqui
por motivos relacionados ao trabalho?
Franzo a testa com a frieza de seu tom. — Não.
— Então saia. Eu não quero falar com você.
Merda. Esta versão da Zahra é nova. Acho que é pior do que a forma como ela reagiu
depois que fiz meus comentários estúpidos sobre seu programa de mentoria.
— Pelo menos me dê uma chance de explicar. Não fiz as coisas da maneira certa da
primeira vez, mas tenho um motivo.
— Não há razão no mundo que seja boa o suficiente. — Ela se levanta, pega a sacola
de comida e a coloca em meus braços. Ela coloca o recipiente de cupcakes em cima da
comida chinesa, observando para se certificar de que não estragará a cobertura. Eu não
mereço essa gentileza, mas ela me dá de qualquer maneira, porque ela é simplesmente
muito boa.
Eu não sou nada além de uma bagunça - tanto em minhas ações quanto em minha
maneira de pensar.
Odeio o olhar que ela me lança. Estou mais interessado em fazê-la sorrir e me sinto
extremamente mal por ser a razão por trás de sua raiva.
Se você tivesse confessado antes...
— Zahra, eu não deveria ter mentido sobre Scott. Eu o usei como uma forma de...
Minha voz é cortada por ela arrumando sua mochila e desligando seu computador. —
Onde você está indo?
Ela não se preocupa em olhar para mim. — Eu estou indo para casa. Talvez você deva
fazer o mesmo.
Quero dizer a ela que minha casa é apenas mais um lugar vazio que me deixa
infeliz. Mas não tenho a chance de dizer uma única palavra quando ela sai do cubículo,
deixando-me ali com uma sacola cheia de comida para viagem intocada e uma sensação
de vazio em meu peito.
***
— Então, digamos que alguém hipoteticamente machucou sua irmã.
— Ah, não. — Ani pressiona a mão contra a cabeça.
Reajusto minha posição no banco para que eu possa dar uma boa olhada nela. — O
que?
— Foi você quem machucou minha irmã?
— Não. — Sim. Mas como ela sabe disso?
— Eu sabia que ela estava chateada! — Ani pula do banco e começa a andar.
Eu me arrepio. — O que você quer dizer?
— Porque ela cancelou nosso jantar. Ela só perde o tempo com a família quando está
triste ou doente.
Porra. Essa é a última coisa que quero. — Eu estraguei.
Ani revira os olhos. — Eu vejo.
— Como posso consertar?
— Depende do que você fez.
Vou mesmo confessar meus problemas a Ani para entender melhor a irmã dela?
Sim, acho que vou. — Bem, começou com uma má ideia. — Disparo, explicando cada
decisão que tomei até este ponto sobre Zahra. Quanto mais me refiro, pior me sinto a
respeito. As expressões faciais de Ani não ajudam.
— O que? Diga algo.
Ela encolhe os ombros. — Ela realmente gostou do Scott. Eu a ouvi falar sobre ele para
Claire.
Estremeço. — Ajude-me a ter uma ideia sobre como recuperá-la e eu ficarei em dívida
com você.
— Qualquer coisa?
Eu concordo.
Ani enfia o cabelo atrás da orelha. — Não sei. Se ela pensa que você é como Lance, ela
pode nunca lhe dar outra chance.
Não vou nem considerar essa opção. — OK. Isso é justo. Mas se você fosse eu, o que
faria?
— Fácil. Dê a ela um motivo para confiar em você. Um motivo muito bom. — Ani me
responde como se fosse a ideia mais simples do mundo.
Exceto que não tenho ideia de como fazer alguém confiar em mim. Nunca tive um
motivo para fazer isso.
— Como faço isso? Ela não acredita em nada do que eu digo.
— Você é um cara inteligente. Vai descobrir.
***
Espio dentro do cubículo de Zahra. Se ela sente meu olhar sobre ela, o ignora. A única
maneira de saber que minha presença a incomoda é baseada em sua minúscula carranca.
Entro na zona proibida e sento no canto de sua mesa. Seus olhos se estreitam para o
papel. O broche de hoje faz parecer que os anos setenta foram vomitados, com o texto
descolado flower power cercado por flores. Combina com sua camiseta vintage de
inspiração retro e jeans boca de sino. Não vi Zahra combinar sua roupa com o broche
antes, mas é fofo.
— Nós precisamos conversar.
Sua única resposta é o enrugamento das páginas sob seus dedos tensos. O silêncio
cresce entre nós a um nível desconfortável.
— É considerado rude ignorar seu chefe.
Sua mandíbula aperta.
Olho para o papel que ela tem nas mãos e leio o título. Sem chance.
Arranco o formulário de suas mãos.
Ela gira em sua cadeira e me encara. — Devolva.
— Não.
Suas narinas dilatam. — Você está agindo como uma criança.
Eu estou? Estou longe demais para me importar enquanto rasgo o papel em quatro
partes. Ela pisca para mim como se eu tivesse enlouquecido. E, honestamente, talvez eu
tenha, mas ela não pode estar considerando seriamente essa alternativa. Não vou
permitir.
— Você não vai desistir. — Despejo o pedido de demissão do emprego na lixeira
debaixo de sua mesa. Porque sou um bastardo, certifico-me de que meus dedos roçam
seu corpo. Apesar de sua pele estar bloqueada por um par de jeans, sua respiração suave
me diz tudo.
Não importa a hora, lugar ou circunstância, Zahra se sente atraída por mim. Nada que
ela diga ou faça vai me dizer o contrário. Embora eu possa ter estragado tudo, cansei de
dar a ela tempo para pensar sobre as coisas.
Ela cruza os braços. — Você não pode me forçar a ficar aqui.
— Eu poderia.
Ela fica boquiaberta para mim. — Não. As coisas estão ficando muito complicadas.
— Então descomplique.
— Não posso simplesmente desligar meus sentimentos e seguir em frente com a vida
como se nada disso tivesse acontecido. — Ela gesticula entre nós com uma ligeira
carranca.
— Eu não queria te machucar. — O pensamento fez meu coração apertar
desconfortavelmente no meu peito.
— Você mentiu sobre quem você era por meses. Eu me senti culpada por estar
interessada em dois caras diferentes enquanto você sabia o tempo todo quem eu era. Isso
é cruel. — Sua voz falha.
Meu corpo inteiro responde ao jeito como seus olhos brilham com as lágrimas não
derramadas. A reação dela não é nada perto de algo com o qual estou preparado para
lidar. Não sei nada sobre como lidar com as emoções de outra pessoa, muito menos
quando sou a causa de toda a dor.
Alcanço sua mão, querendo quebrar seu exterior frio. Ela respira fundo enquanto rola
a cadeira o mais longe que pode.
Sua rejeição dói mais do que gostaria de admitir. Odeio a distância entre nós. Não
passamos meses nos conhecendo para ela se afastar assim.
— Dê-me uma chance de me explicar. Se você não estiver convencida de que sinto
muito — minha voz sai do habitual — então não vou incomodá-lo novamente. Vou
deixar você desistir.
— Mesmo? — Todo o rosto dela se ilumina.
Sua empolgação só me encoraja a provar que ela está errada. — Com indenização e
tudo.
Ela acena com a cabeça. — OK. Uma tentativa. Falo sério.
Seu entusiasmo está beirando o insulto. Quando disse a ela que tinha uma tendência
competitiva, eu quis dizer isso. Ela não vai fugir. Só preciso descobrir como mantê-la.
— Perfeito. — Estendo minha mão para apertar.
Zahra agarra minha mão estendida. Minha pele faísca com a mesma sensação sempre
que ela me toca. Traço seus dedos delicados com meu polegar antes de soltar. Ela tenta
esconder seu estremecimento e falha.
— Vou vê-la hoje a noite. — Não posso deixá-la construir suas paredes mais altas. Dar
a ela mais tempo só aumentará seu ceticismo sobre minhas intenções. Posso gostar de um
desafio, mas não sou bobo.
— Esta noite?! — ela chia.
Coloco minhas mãos nos bolsos para evitar fazer algo louco como tocá-la. — Primeira
regra de negócios - sempre discuta os termos antes de concordar.
29
ZAHRA

A casa é exatamente algo que eu esperava que Brady Kane construísse para si
mesmo. A linda varanda em volta parece vazia, mas bem-amada, com um balanço de
banco e uma série de cadeiras de balanço que se movem suavemente com o vento. É uma
casa construída para uma família, e posso imaginar que ele passou muitos anos aqui com
a sua.
Subo os degraus. Minha mão paira sobre a campainha, mas estou hesitante em apertar
o botão.
Melhor se apressar e acabar logo com esta noite. Aperto a campainha e espero. A porta de
madeira se abre menos de um minuto depois, e sou atingida por uma versão de Rowan
que ainda não vi. Pisco duas vezes para confirmar que ele está vestindo calça de moletom
e uma camiseta. Ele tem um novo par de óculos, desta vez com um padrão de casco de
tartaruga27.
Meus olhos percorrem os contornos de seu corpo antes de pousar em seus pés
descalços. Toda a sua roupa parece uma tática de guerra completamente injusta contra
meu coração acelerado. É... Ele é... Argh!
Franzo a testa. — Oi.
Ele finge que está me observando. De alguma forma, ele faz meus jeans boca de sino
e minha camiseta vintage parecerem inadequados.
Ele abre mais a porta, me dando espaço para entrar. Mas não o suficiente, porque seu
corpo permanece no meio do batente da porta, forçando nossa pele a roçar uma na outra.
Sou levada em direção a uma sala mal iluminada adequada para uma família de
cinquenta anos. O sofá enorme me lembra de uma nuvem na qual quero mergulhar
enquanto o tapete é macio o suficiente para tirar uma soneca.
Ele me aponta para uma almofada no chão.
— Isso parece muito com um encontro, — murmuro baixinho.
— Não seja difícil. Eu sei que você está com fome.

27 Padrão casco de tartaruga ou estampa casco de tartaruga é uma estampa feita nas cores marrons e amarelas, divididas em
flocos ou manchas que tentam reproduzir o padrão encontrado em cascos de tartaruga.
Olho para ele, odiando que ele esteja certo. Caio na almofada e cruzo as pernas. Ele
pega a sacola, remove as caixas e me serve um prato do meu Pad Thai 28 favorito. Meu
coração estúpido me trai, apertando ao menor sinal da atenção de Rowan aos detalhes.
Recomponha-se. É só um jantar.
Endireito minha espinha. — Bem. Vamos ouvir suas desculpas.
— Coma primeiro.
Reviro meus olhos ao seu comando e mantenho minhas mãos no meu colo.
Ele suspira. — Por favor, coma? Eu não quero que esfrie.
O fantasma de um sorriso cruza meus lábios a seu pedido. Só obedeço porque estou
morrendo de fome. Rowan dá uma mordida em sua comida com toda a elegância
esperada da realeza americana. Se ao menos eu parecesse tão boa enquanto como.
Nós dois comemos em silêncio. Odeio o suficiente para falar porque eu não aguento
mais.
— Então você gosta de desenhar?
Seu garfo bate no prato.
Bem, eu não sou a rainha das conversas casuais? Sorrio para o meu prato porque deixar
Rowan desconfortável se tornou meu novo jogo favorito esta noite.
Ele pega seu garfo e gira um pouco de macarrão. — Eu adorava desenhar.
— Por que você parou?
Os ombros de Rowan ficam tensos antes que ele solte um suspiro trêmulo. — Por que
a maioria das pessoas para de fazer as coisas que amam?
Identifico-me com essa questão. Depois de tudo que Lance fez, parei de querer criar
qualquer coisa. Parei meus sonhos porque parecia mais fácil do que enfrentar a dor de
sua traição. O caminho de menor resistência incluía suspender coisas que eu amava
porque estava com muito medo da repercussão.
Pelo menos até que Rowan me expulsou da minha zona de conforto. E por isso, estou
em dívida com ele. Isso não torna suas escolhas corretas, mas me torna um pouco mais
indulgente. Porque sem ele se arriscar com a minha proposta bêbada, eu não teria
finalmente deixado de lado a última gota de dor que estava me segurando.
A única pessoa que tem poder sobre mim sou eu mesma. Não Lance. Não meus erros
do passado. E definitivamente não o medo.
Puxo um fio solto da minha calça jeans. — Não estou perguntando sobre as
pessoas. Estou perguntando sobre você.
— Você não vai tornar isso fácil para mim, vai?
— Se pedir desculpas fosse fácil, todos o fariam.

28 Pad Thai é um prato de macarrão de arroz frito comumente servido como comida de rua e na maioria dos restaurantes da
Tailândia como parte da culinária do país. Geralmente é feito com macarrão de arroz, frango, carne ou tofu, amendoim, ovo mexido
e broto de feijão, entre outros vegetais.
Ele reajusta seus óculos de uma forma que faz minhas coxas pressionarem para parar
o latejar surdo. Juro que ele só os usa para me desgastar.
— Meu avô me ensinou a desenhar desde muito jovem.
Fico em silêncio e esperando, não querendo assustá-lo.
— Ele sempre teve algo especial comigo e com meus irmãos, e desenhar passou a ser
a nossa praia. Eu era o único artista da minha família além dele, então acho que ele
gostava de ter esse tipo de conexão.
— Isso é fofo.
Seus lábios se apertam em uma linha fina. — O vínculo que eu tinha com meu avô era
diferente daquele que eu compartilhava com meu pai. E acho que isso frustrou meu
pai. Ele nunca foi um artista e isso era tudo que eu queria fazer quando criança. Era como
se ele não soubesse como se conectar comigo de uma forma que não envolvesse jogar
uma bola. — Seus olhos parecem distantes, como se ele estivesse imaginando sua vida
em outro momento. — Não me lembro de meus pais discutindo muito, mas quando o
faziam, geralmente era sobre mim. — Ele estremece. — Papai ficava zangado porque não
sabia como se relacionar comigo, então mamãe chorava. Piorou ainda mais quando
minha mãe ficou doente. Acho que ela estava preocupada que meu pai e eu nunca
seríamos próximos, e ela não estaria lá para nos ajudar.
Todo o meu peito dói ao olhar no rosto de Rowan. — Câncer, certo?
Sua garganta balança quando ele acena com a cabeça.
— Eu sinto muito. — Pego sua mão e dou um aperto reconfortante.
Ele limpa a garganta e olha para o prato. — Esse foi o início de meu relacionamento
difícil com meu pai. Eventualmente, desisti de desenhar e passei para atividades mais
adequadas que eram esperadas de mim.
Quero implorar a ele que me conte todas as histórias porque estou desesperada para
aprender mais sobre o homem sentado à minha frente. Rowan provavelmente passou
anos com emoções reprimidas. A maneira como ele fala de sua mãe, misturado com a dor
rompendo sua fachada sem emoção, faz meu coração quebrar.
— O que fez você querer parar?
— É... complexo.
Acho que ele pode se conter, mas continua. — Ele pode não ter me dito
intencionalmente para parar, mas ele fez questão de tirar a alegria disso. Sempre que eu
tinha uma exposição, ele não aparecia, então eu tinha que assistir todos os pais das outras
crianças comemorando enquanto eu ficava lá sozinho. Chegou ao ponto que me recusei
a participar, apesar das tentativas do meu avô. Então teve um dia que ele encontrou todos
os cartões antigos que eu desenhei para minha mãe enquanto ela estava no hospital... —
Sua voz treme. — Ele os arruinou porque tinha vontade. Essas eram algumas das últimas
memórias que eu tinha dela, e elas se foram após um tumulto de embriaguez.
— Tumulto de embriaguez?
Uma veia em sua mandíbula lateja. — Esqueça o que eu disse sobre isso.
Mas não consigo. Eu quero voltar no tempo e proteger Rowan.
— Tudo bem se você não puder falar sobre isso. — Estendo a mão e coloco minha
palma em seu punho cerrado.
— Eu devo a você depois de tudo. — Ele abra a mão, me dando espaço para entrelaçar
nossos dedos.
Dou outro aperto em sua mão antes de me afastar. — Não vou usar um pedido de
desculpas como forma de arrancar informações de você. É sua escolha compartilhar seu
passado.
Ele olha para mim. Como se seus olhos estivessem medindo minha alma, avaliando-
me por falsidade. — Você está falando sério?
— Claro. Mas você vai me dizer o que te fez querer começar a desenhar de novo? Se
estiver tudo bem.
Ele concorda. — Porque seus desenhos eram terríveis e eu tinha esse desejo ardente
de ajudá-la.
— Você começou a desenhar de novo por minha causa?
— Sim, — ele murmura baixinho.
Sorrio e aceno. — Oh, uau. Por que?
— Você quase chorou durante a sua primeira apresentação.
— E? — Este é o mesmo homem que me disse que não tinha paciência de merda. O
fato de ele querer me ajudar sem nem mesmo me conhecer de verdade... não faz sentido.
— No começo, eu só queria te ajudar porque achava que era benéfico para mim. Você
tem o tipo de talento que eu procurava para renovar o parque e ter certeza... — Ele pisca
duas vezes, se segurando no meio da frase.
— Ter certeza de quê?
— Ter certeza de fazer meu avô feliz. — Ele franze a testa novamente. Ele odeia a ideia
de precisar se apoiar em alguém?
— Eu entendo. Você tem muita pressão neste projeto.
— Você não tem ideia, — ele resmunga baixinho.
— Por que você não contratou outra pessoa para me ajudar?
— Eu pensei nisso, mas não queria.
— Por que?
— Porque meu bom senso escapou.
— Ou você gostou de mim. — Tento ao máximo não sorrir, mas falho miseravelmente.
— Definitivamente não. Achei você estranhamente irritante e legal demais ao mesmo
tempo.
Inclino-me sobre a mesa de centro e dou um empurrão em seu ombro. — Ei! Não
existe isso de ser legal demais.
— Existe de onde eu venho.
— E isso é?
Seus olhos refletem nojo o suficiente para me enjoar. — Um lugar onde as pessoas
sorriem muito brilhantemente ou falam muito docemente porque têm toda a intenção de
usar isso contra mim. É toda a maldita razão de eu ser cínico em primeiro lugar.
— Isso parece horrível.
— Tenho certeza de que você ficaria horrorizada em saber que tipo de pessoa está se
escondendo além dos portões de pérolas do parque. Dreamland é realmente uma
fantasia. É como se todo este maldito lugar não tivesse sido tocado pelo mundo real.
— Conte-me sobre o que você teve que lidar, então. Ajude-me a entender por que você
é do jeito que é.
Seus punhos se apertam contra a mesa de centro. — Você realmente quer saber?
Concordo.
— Tudo bem. Mas não é bonito.
— A verdade geralmente não é.
Ele pisca para mim. Seus olhos se arrastam do meu rosto para seus punhos cerrados,
onde ele os abre e fecha repetidamente.
Ele suspira depois do que parece ser um minuto de silêncio. — Minha primeira
experiência real da escória da Terra começou na faculdade, quando uma garota aleatória
me convidou para voltar ao dormitório dela depois de uma festa.
Meu apetite muda para náusea com a menção de ele estar com outra pessoa.
— Antes, eu só tinha lidado com as coisas típicas de adolescentes estúpidos - como
pessoas me usando para um jato particular ou uma viagem para o Cabo.
— Oh sim, as coisas típicas.
Ele abre o sorriso mais triste antes que desapareça. — Bem, de onde eu vim, as pessoas
me usaram ao longo da minha vida, mas nunca havia mudado para nada ilegal até que
eu me tornei adulto. A faculdade abriu meus olhos. Perdi minha virgindade, sem saber,
sendo filmado com uma câmera escondida. Custou muito dinheiro para meu pai varrer
essa questão para debaixo do tapete antes que ela fosse para a mídia com a gravação.
A comida que comi não cai bem com a sua admissão. — Você está falando sério? Isso
é nojento! Por que você pagaria a ela? Ela é que está errada.
— Porque eu não ia arriscar. Uma gravação como essa poderia ser devastadora se
vazasse, então pagamos a ela para ficar quieta e entregar.
Não posso fazer nada além de olhar para ele.
Ele solta uma risada amarga. Nunca ouvi isso antes e espero não ouvir de novo,
porque faz meu corpo inteiro gelar até os ossos. — Essa foi apenas a minha primeira
experiência. A faculdade estava cheia de merda, mas mesmo isso era manso em
comparação com a idade adulta.
— Oh Deus. Existem coisas piores do que chantagem? — Sério, achava que dinheiro
significava segurança, mas, realisticamente, só complica ainda mais a vida.
Ele concorda. — Eu lidei com tudo. Mulheres apunhalando preservativos lacrados
com alfinetes quando pensavam que eu não estava olhando. Alguém tentando drogar
minha bebida em um bar. Houve essa...
Aceno minha mão. — Como você pode falar sobre isso como se não te incomodasse?
Ele franze a testa. — Porque cheguei a um ponto em que aprendi a esperar isso das
outras pessoas. Você não pode ser incomodado por algo que você já antecipou que
aconteceria.
— Achei que esse tipo de coisa só acontecia em filmes. — Não sei o que me deixa mais
doente - a ideia de Rowan com outra mulher ou uma mulher tentando propositadamente
prendê-lo com um bebê.
— Estou apenas arranhando a superfície. Cada situação foi uma lição de aprendizado
para mim - uma maneira de provar que meus irmãos estavam certos sobre como as
pessoas são uma merda.
Meus lábios se abrem. — Como você sobreviveu crescendo em um lugar como
aquele?
— Porque ou você se curva à vontade dos monstros ou facilmente se torna a presa.
Pisco duas vezes, esperando o fim da piada, mas a mandíbula de Rowan continua
cerrada.
— É por isso que você mentiu? Porque você está tão acostumado com as pessoas
fazendo a mesma coisa com você?
Aí está. A verdade estava bem na nossa frente, esperando por sua confirmação.
— Fiz porque pensei que tinha razão. Eu não tinha nenhuma razão para confiar em
você, e nunca imaginei que sentiria tudo isso.
— Sentir o quê?
Ele levanta os óculos e esfrega os olhos. — Eu vou foder com tudo isso.
Solto uma respiração instável. — Ok, bem, tente o seu melhor para não fazer isso.
Ele empurra o prato para longe dele. — Meu motivo inicial para falar com você foi
egoísta e cruel. Eu estava interessado em descobrir o tipo de pessoa que você
era. Sinceramente, pensei que você era uma fraude e queria provar que estava certo.
Suas palavras doem. Achei que suas intenções poderiam ter sido equivocadas, mas
amáveis, mas essa alternativa é o pior cenário possível.
— Sinto pena de alguém como você, que cresceu cercado por tantas pessoas cruéis. Eu
realmente sinto.
Seu lábio superior se curva. — Há uma razão pela qual vivemos segundo o lema
dinheiro acima da moral.
— Existem duas maneiras de ser rico na vida, e uma delas não tem nada a ver com
uma conta bancária.
— Eu vejo isso agora. Eu vejo isso em você.
Meu batimento cardíaco acelera, batendo mais forte contra meu esterno como se
quisesse dizer a Rowan que está ouvindo também.
Seus olhos permanecem fixos nos meus. — Achei que você fosse me extorquir por
dinheiro depois daquele beijo. Parte de mim antecipou isso, apenas para provar que você
era tão egoísta quanto o resto de nós. Porque como você poderia não querer me extorquir
se eu a assediei como fiz. Houve momentos em que até me perguntei se você tentaria
outra coisa para apenas agravar o problema.
— Isso é triste, Rowan. Eu disse que não faria isso.
— Não tenho um bom histórico de confiança.
— Sim, entendo. — E isso me deixa muito triste.
Entrei aqui esperando não cair em nada que Rowan dissesse porque na minha cabeça,
pensei que nada seria bom o suficiente. Mas essa realidade... é trágica. O tipo de vida que
ele viveu até este ponto provoca ansiedade. Prefiro ser pobre e feliz do que rica e
miserável em qualquer dia do ano.
— Você provou que eu estava errado toda vez que falava comigo. Você nem sabia
quem eu era e estava disposta a me fazer sentir que era importante para alguém.
Toda a minha determinação desmorona na minha frente como um castelo de cartas.
— Tive orgulho de fazer seus desenhos. Fiquei feliz em te fazer feliz. — Sua voz falha
e sinto o som direto no meu coração.
Seus olhos encontram os meus. — À medida que passei um tempo conhecendo você,
confirmei minha suspeita mais profunda de uma maneira completamente diferente. Você
é muito mais do que demonstra, mas de uma forma que a torna inestimável.
Inestimável? Não se atreva a chorar, Zahra.
— Você é altruísta, atenciosa e disposta a ir além para ajudar as pessoas ao seu
redor. Você ensina crianças de graça e traz pão e biscoitos para um velho rabugento. E a
parte egoísta de mim queria roubar um pedaço de você para mim. Você me lembrou de
como era não me sentir tão sozinho o tempo todo, e eu não queria perder isso.
Como posso responder a isso? Não tenho chance porque Rowan continua falando.
— Eu não dei valor à sua bondade e abusei da sua confiança. Então, por isso, sinto
muito.
Pisco para afastar minhas lágrimas. — O que fez você querer confessar?
— Eu não podia continuar fingindo depois do nosso dia na Dreamland. Fiquei viciado
na maneira como você me fazia sentir, a tal ponto que não conseguia encontrar uma
maneira de dizer quem eu realmente era. Eu estava com medo e não queria que
acabasse. Então, em vez de me entregar, encontrei maneiras de passar mais tempo com
você como Rowan enquanto propositalmente roubava o resto de sua atenção como
Scott. Foi uma ideia estúpida. Foi injusto da minha parte, mas não me arrependo de nada,
exceto de magoar você.
A umidade surge, enchendo meus dutos lacrimais. Nunca ouvi Rowan falar tanto, e
percebo que é uma pena. O jeito que ele fala... é lindo. Ele me faz sentir bonita. Também
não é do tipo superficial, mas de uma forma que me deixa orgulhosa de quem eu sou. De
uma forma que me faz pensar que ele se preocupa acima de tudo com a minha alma.
Ele pode ter mentido, mas suas intenções por trás de continuar a fantasia são tão
tristes que quero chorar por ele. Que tipo de pessoa é tão solitária que enviaria uma
mensagem de boa vontade para alguém com um pseudônimo?
Aquele desesperado para ser amado de volta.
Minha garganta aperta. — E o programa de buddies?
Ele geme. — Deus. Vou parecer louco.
Os cantos dos meus lábios se contraem. — Talvez eu goste do seu tipo de louco.
E realmente quero dizer isso. Qualquer coisa é melhor do que o exterior gelado que
Rowan retrata para o mundo.
— Fui eu quem roubou todos os papéis, exceto um, porque não queria que ninguém
tivesse o seu número.
Meu queixo cai. — Você o que? — Puta merda. Até onde vai tudo isso?
Ele tira os óculos e passa a mão pelo rosto. — Quando você me pegou, fiquei com
raiva de mim mesmo por me sentir tão estúpido, e descontei em você. Mas então, quando
apareci na reunião, percebi o que você estava tentando fazer por pessoas como sua
irmã. Fui primeiramente por motivos puramente egoístas, mas fiquei porque gosto da
Ani. Ela me faz rir e ela é doce, assim como você.
Meus cílios ficam úmidos com as lágrimas não derramadas. Nenhum homem normal
roubaria todos os papéis com o meu número, a menos que se importasse. E a maneira
como ele fala sobre Ani... É tão simples, mas significa muito para mim. É tudo que eu
queria com Lance, mas foi negado.
Meu coração disparado parece que pode escapar pela minha garganta.
Rowan gosta de mim.
E ele odeia isso.
Meu pequeno sorriso se torna um sorriso largo.
— Por que você está sorrindo? Você não ouviu nada do que eu disse?
— Você gosta de mim, — deixo escapar.
— Não. Eu tolero você mais do que a maioria das pessoas. É por isso que eu quero
você.
A risada que explode em mim faz Rowan recuar.
— Você acha isso engraçado?
— Um pouco. Mas é fofo.
Ele suspira.
As coisas se encaixam. — Você não gosta da ideia de gostar de mim.
— Não posso prometer que não vou estragar as coisas de novo. Estou aprendendo à
medida que sigo, mas há algo em você que me faz feliz de uma maneira que nunca senti
antes. Então, se você quiser pedir demissão, eu entendo, mas vá sabendo que eu nunca
quis te machucar ou fazer você se sentir uma idiota. — Ele me encara, fazendo-me sentir
exposta de uma maneira totalmente nova.
Ele se importa com você. Realmente, realmente se importa.
— Acho que parte de mim quer não gostar de você por ser desconfiada, mas parte de
mim não consegue evitar se relacionar.
Ele não se move nem respira. — O que você quer dizer? Você é a pessoa mais confiante
de todas.
Solto uma risada triste. Depois de tudo o que ele confessou, é justo compartilhar
minha história. — Meu namorado na época quebrou meu coração e minha confiança no
dia em que o encontrei com outra mulher. Ela... Deus. É algo que nunca poderei deixar
de ver. — Tentei limpar a memória deles do meu cérebro, mas algumas partes ainda se
infiltram. — E porque um golpe na minha vida não foi suficiente, Lance, meu ex, destruiu
uma parte do meu coração que eu nunca vou conseguir de volta.
— O que ele fez? — Sua voz é baixa, carregando o mesmo tipo de letalidade de seu
olhar.
Olho para longe, incapaz de segurar seu olhar. — Ele roubou minha apresentação
sobre Nebula Land, impressionou os Criadores e usou o bônus para comprar um anel de
noivado para sua amante. — As palavras saem da minha boca rapidamente, soando
desajeitadas e não ensaiadas.
Ele se inclina sobre a mesa, gentilmente segura meu queixo, vira minha cabeça para
encará-lo. — Embora eu sinta por ele ter te machucado, não sinto muito por ele ter
deixado você ir.
Atiro para ele um sorriso vacilante. — Você é sempre tão egoísta?
Seus olhos brilham. — Com você, sim.
Balanço minha cabeça.
Ele enfia meu cabelo atrás da orelha antes de traçar meus brincos com o dedo. Tremo
e arrepios explodem em minha pele.
— Posso ser muitas coisas, mas não sou infiel. E embora eu tenha mentido para você
sobre tudo antes, não vou mais fazer isso. Isso eu posso garantir a você.
Engulo, lutando contra o aperto na minha garganta. — Então é isso? Devo acreditar
na sua palavra e esperar pelo melhor?
— Não, eu sei em primeira mão como as palavras não significam nada.
— Então o que?
Ele se inclina e pressiona um beijo leve contra meus lábios. — Eu vou provar para
você.
— Como assim?
Seus olhos brilham de uma maneira que nunca vi antes. — Você prefere que eu mostre
ou diga a você? — Seu tom rouco faz minha pele se romper em uma onda de arrepios.
E o sorriso em seu rosto? Absolutamente, positivamente tortuoso.
Mas a maneira como ele rasteja até mim de joelhos?
Eu concordaria com qualquer coisa, apenas com essa única ação.
30
ROWAN

O perfume de Zahra me envolve como um afrodisíaco. Sento-me na frente dela antes


de puxá-la para o meu colo. O lado de seu corpo permanece encostado contra meu peito,
dando-lhe espaço para sair, se quiser.
— O que vai ser? — Coloco seu cabelo atrás da orelha antes de me inclinar para
sussurrar. — Mostrar ou contar?
Estou tendo uma experiência fora do corpo em que quero fazer algo por mim mesmo
que desafie minha lógica usual. Isso não requer uma lista, análise de risco ou pensamento
excessivo. Eu quero ser livre, mesmo que apenas por alguns meses, enquanto ainda estou
aqui.
Minha língua sai disparada, provando sua pele antes de se afastar.
Ela respira fundo e se inclina para mim. — Mostrar. Sempre mostrar.
Eu rio baixinho. Volto meus lábios para seu pescoço para esconder a forma como
minhas bochechas queimam. — Não há volta depois disso.
— Eu digo que não há tempo como o presente. — Ela se vira para mim e pressiona
um beijo suave contra meus lábios. Sua língua se lança para fora, traçando a costura dos
meus lábios. Algo dentro de mim estala. Meses de acúmulo se desencadearam e deixo
tudo sair. Nossos lábios se fundem enquanto nos beijamos como nunca antes.
Minha cabeça trava uma guerra com todo o meu corpo, alertando-me para longe da
onda de sentimentos disparando dentro de mim. Beijar Zahra é como provar o mais doce
veneno.
Zahra torce e envolve suas pernas em volta de mim, empurrando seu centro coberto
de jeans contra meu pau crescendo. A fricção de seu corpo contra minha calça de
moletom me faz ofegar em sua boca.
O mundo inteiro desaparece enquanto nós provocamos, beliscamos, beijamos. Duas
línguas duelando uma contra a outra pelo domínio. Zahra puxa meu cabelo pela nuca,
adicionando um toque de dor. Entendo isso como permissão para envolver minhas mãos
em torno dos globos de sua bunda e apertar, fazendo-a ofegar contra minha boca. Ela
força meu pescoço para o lado, dando-lhe o ângulo perfeito para beijar a coluna do meu
pescoço.
Meu toque se torna exploratório quando ela ganha coragem para fazer o que quiser
com meu corpo. Sua língua se lança e prova minha pele sensível. Minha cabeça cai para
trás e eu gemo, o que só incentiva sua ousadia. Zahra se esfrega contra meu pau
duro. Não consigo evitar que meus olhos revirem para a parte de trás da minha cabeça.
Zahra beija com uma selvageria que eu quero igualar. Como se ela sentisse o tipo de
homem que mantive preso por anos e quisesse soltá-lo. Em vez de ceder ao medo e
recuar, trago seus lábios de volta aos meus e destranco a parte de mim mesmo que
escondi do mundo.
Calor explode na minha espinha enquanto ela esfrega contra meu pau no melhor tipo
de ritmo. Gemo em sua boca, e ela suga o som como se nunca tivesse existido.
Afasto-me com uma respiração irregular. — Se você quiser parar, agora é a hora.
Ela pisca em confusão. — O que?
— Se você não quiser continuar...
Seus lábios batem contra os meus, removendo quaisquer outras dúvidas. Com suas
pernas em volta de mim, levanto-me com as pernas trêmulas. Ela ri e segura com mais
força, fazendo meu pau latejar enquanto subo os degraus para o meu quarto. Cada passo
para o meu quarto é uma luta enquanto seus lábios fazem todos os tipos de coisas no meu
pescoço.
Largo Zahra na minha cama. Ela solta uma respiração audível que se transforma em
um gemido quando caio de joelhos e faço um trabalho rápido em seu jeans.
Seu olhar queima enquanto ela se apoia nos cotovelos.
Coloco um beijo suave na parte interna de sua coxa antes de deslizar sua calcinha por
suas pernas. — Está gostando do show?
— Gosto de como você fica ao implorar de joelhos.
— Eu não imploro.
— A prática leva à perfeição.
Aceito o desafio exatamente pelo que é. Empurro suas pernas e trilho beijos por suas
coxas antes de devorá-la como um homem faminto. Sua excitação cobre minha língua e
meus olhos reviram para a parte de trás da minha cabeça. Seu gemido corresponde ao
meu. Corro a ponta da minha língua em uma linha reta de sua boceta até seu clitóris. Sou
recompensado com um grito silencioso e suas costas se arqueando para fora da cama.
Não deixo nenhuma parte de Zahra intocada ou desfocada. Minha língua marca sua
boceta, mostrando a ela exatamente quem a possui. Suas pernas tremem contra meus
ombros. Eu a levo ao limite apenas para afastar seu orgasmo antes que ela tenha a chance
de explodir. Ela geme e agarra meu cabelo com força. Apenas sorrio antes de arrastar
minha língua de sua entrada para seu clitóris, dando uma boa chupada.
Achei que as risadas de Zahra eram viciantes, mas os gemidos sem fôlego que ela solta
são inebriantes. É algo que eu poderia ouvir pelo resto da minha vida e nunca ficar
entediado ou cansado. Insiro um dedo e gemo, encontrando-a encharcada para mim. Ela
arqueia as costas para fora da cama e eu paro e fico olhando. Ela fica mais inquieta sob o
meu olhar, e recompenso seu palavrão murmurado com um segundo dedo.
Isso me enche de profunda satisfação saber que esta versão de Zahra é toda
minha. Nenhuma quantia de dinheiro, fama ou poder poderia roubá-la de mim. Sou
aquele que ela está desesperada para ter entre as pernas. É o meu nome que ela grita para
o teto quando insiro um terceiro dedo nela.
Ela é toda minha.
Por enquanto.
Afasto o sentimento e mudo meu ritmo, bombeando meus dedos dentro dela mais
rápido enquanto meus lábios envolvem seu clitóris e sugam.
O calor desce pela minha espinha enquanto Zahra desmorona na minha frente. Não
paro meu tormento até que seus gemidos se transformem em respirações
rápidas. Pressiono um beijo suave contra sua coxa antes de me levantar com as pernas
trêmulas.
— Eu atendi às suas expectativas?
— Eu não conseguiria soletrar a palavra expectativas, muito menos defini-la agora.
Rio enquanto me inclino sobre ela e me apoio nos cotovelos.
— Você tem a melhor risada. — Ela passa a mão na minha espinha, enviando outro
arrepio pelo meu corpo. Seus lábios pressionam contra os meus. Estremeço quando ela
passa a língua em meus lábios, saboreando sua excitação.
Pego a bainha de sua camisa e a removo. Seu sutiã não dura muito depois de ficar no
caminho da minha língua e de seus seios. Meus lábios beijam um caminho de um para o
outro, sugando o suficiente para deixar uma marca depois. Ela me transforma na porra
de um animal.
Tudo que eu quero fazer é dar prazer a ela. Para tê-la agarrando os lençóis porque ela
não se farta.
Seus dedos se estendem e traçam o contorno do meu pau. Agarro seus dois pulsos e
os prendo perto de sua cabeça. — Não é sobre mim esta noite.
Falo sério. Eu não a convidei para sexo, mas ela na minha cama é um bônus.
Ela faz beicinho. — Você não quer que eu te ajude com esse problema?
— Leve um homem para jantar primeiro.
— Minha boceta conta?
— Porra.
Suas pernas me envolvem novamente, e ela puxa meus quadris para frente para que
minha ereção protegida pressione contra seu calor. Ela se aproveita do meu choque e
arranca as mãos do meu alcance.
— Pare de ser nobre. Não combina com você. — Sua palma traça a bainha da minha
calça de moletom. Ela a puxa para baixo, junto com minha cueca boxer. Minha camisa
encontra um novo lar semelhante no chão.
— Não posso oferecer nada mais do que algo casual.
Ela faz uma pausa, inclinando a cabeça para mim. — Isso é bom.
Sério? Eu esperava que ela hesitasse no mínimo. — É sério.
Ela revira os olhos. — Tenho certeza que sim. Agora pare de ser um clichê e continue
com o show.
Minha expressão se torna predatória.
As mãos de Zahra se arrastam pelo meu peito, traçando as saliências dos músculos. —
Isso é injusto.
— Você não vai reclamar em alguns minutos. — Alcanço minha mesa de cabeceira e
pego um preservativo de um pacote de emergência que peguei do jato particular da
família na semana passada. Ela arranca o pacote dourado das minhas mãos antes de
traçar a veia na parte inferior do meu pau com o dedo indicador. Minhas unhas cravam
em minhas palmas.
Ela me provoca um pouco mais antes de rolar o preservativo pelo meu eixo. De
alguma forma, tudo que ela faz é sensual, e estou desesperado para experimentar mais.
— Só para ficar claro, devo gritar o seu nome ou o de Scott quando você me foder?
Empurro-a contra a cama e ela ri quando o ar sai dela. — Atreva-se.
Seus dedos do pé enrolam na minha frente. Diabinha.
— Aviso de spoiler: se o fizer, pode não conseguir voltar a pé para casa amanhã. —
Trilho sua boceta com a ponta do meu polegar. Afundo dois dedos dentro dela e os retiro
para encontrá-la ainda encharcada.
— Caminhar é superestimado de qualquer maneira. — Seus olhos travam em meus
dedos brilhantes enquanto trago-os até minha boca e lambo o brilho deles.
Sua respiração engata e seus olhos se arregalam. Eu quero recriar aquele olhar quando
estiver fodendo o oxigênio direto para fora de seus pulmões.
Os olhos de Zahra permanecem extasiados enquanto alinho meu pau e lentamente
empurro para dentro dela. Suas pernas envolvem meus quadris, me mantendo travado
no lugar.
Como se eu fosse deixar o paraíso agora que o encontrei.
Ela estremece enquanto eu lentamente me retiro para pressioná-la um pouco
mais. Suas costas se arqueiam enquanto repito o movimento, só que desta vez ganhando
mais um centímetro. Sua boceta agarra meu pau. Cada impulso me deixa um centímetro
mais perto de estar encaixado dentro dela. Os calcanhares de seus pés pressionam as
bochechas da minha bunda, puxando-me contra ela.
— Foda-me como se você já quisesse isso, — ela murmura.
Um arrepio desce pela minha espinha ao seu comando e empurro para frente uma
última vez ao máximo. Suas costas se arqueiam, revelando seus seios fartos para
mim. Curvo-me e passo minha língua sobre seu mamilo.
O gemido de Zahra é uma doce harmonia para meus ouvidos.
Sorrio contra sua pele. — Eu tenho uma última pergunta.
Ela rosna para mim, e acho isso sexy ‘pra’ caralho.
Eu me levanto, traçando a curva de seu corpo antes de dar um aperto em sua
bunda. Retiro meu eixo alguns centímetros antes de bater de volta nela. A lufada de ar
que a deixa me faz sorrir. — Você ainda quer aquela fita métrica? Posso encontrar uma
agora e resolver o debate.
— Tudo bem. Tenho quase certeza de que posso sentir você na minha garganta.
O fogo se espalha pela minha pele enquanto sigo meu ritmo. O suor gruda em nossos
corpos enquanto encontramos um ritmo constante. Somos duas pessoas perdidas na
harmonia de nossas respirações profundas, escravas dos toques eróticos um do outro.
Bato nela uma e outra vez. Ela treme com cada impulso, e tenho prazer em assistir
seus seios saltando todas às vezes. Nunca vi nada tão bonito quanto ela no auge da
paixão. A sensação de aperto que só parece acontecer quando ela está por perto aumenta
a ponto de doer. Empurro para dentro e para fora dela como se tivesse perdido minha
maldita mente, o que não está longe da verdade. Mergulho na sensação dela e me agarro
a cada som que ela faz.
Nenhuma área da minha pele fica intacta. Suas unhas se cravam nas minhas costas e
ela morde o lugar mais sensível de todo o meu pescoço. Ela é mais selvagem do que eu
jamais poderia imaginar e quero testar seus limites.
Acontece que eu estava certo. A pequena Senhorita Bubbly tem um lado oculto
nela. Nunca esperei que fosse assim... A mulher que ela é no quarto é tudo que eu poderia
querer e muito mais.
Se for assim que é estar perto de alguém que é puro sol, aceitarei de bom grado a
queimadura. Toda. Maldita. Vez.
Seu segundo orgasmo me empurra para o limite, e a próxima coisa que sei é que estou
em queda livre com ela direto para a escuridão.
31
ZAHRA

Passei oficialmente do ponto sem volta.


Ok, bem, passei no momento em que Rowan me fez gozar pela primeira vez esta
noite. Mas isso realmente me atinge quando Rowan retira seu pau amolecido de mim e
se livra da camisinha.
Sou absolutamente inútil depois que Rowan me fodeu quase até a inconsciência. O
que quer que eu tenha pensado que Rowan manteve preso sob seu exterior frio não se
compara a esta noite.
Não. Rowan poderia muito bem ter incendiado meu corpo com
querosene. Foi... uau. Acho que perdi algumas células cerebrais valiosas por falta de
oxigênio.
Eu fico? Eu vou? Estou completamente numa encruzilhada sobre o que fazer a seguir.
Vá. Mantenha isso casual como você prometeu.
Levanto-me da cama com um gemido e pego minha camisa do chão. Agora onde está
meu sutiã?
— O que você está fazendo? — sua voz estala.
— Me vestindo? — digo, protegendo meu corpo dele como se ele ainda não tivesse
visto tudo.
Minhas bochechas esquentam enquanto seus olhos deslizam do meu rosto para as
pontas das minhas unhas rosadas.
Com a luz fraca do banheiro, posso avaliar as curvas e contornos da melhor obra de
Deus. Acho que solto um pequeno gemido, mas não posso ter certeza. Rowan limpa a
garganta, claramente encobrindo uma risada baixa.
— Então…
Não seja pegajosa. Aja com calma.
Como alguém age com calma quando não tem ideia do que está acontecendo? Volto à minha
missão de procurar minhas roupas perdidas. Meu sutiã está pendurado ao acaso no
abajur e aproximo-me para pegá-lo.
— Você está indo? — Suas sobrancelhas se juntam. De alguma forma, ele se apoderou
da minha calcinha. Estou disposta a me separar dela se ele gostar desse tipo de
coisa. Honestamente, estou aberta a qualquer coisa que me livre desse constrangimento.
— Umm. Não é isso que você quer?
— O que te deu essa ideia?
— Bem - umm. Você vê... — Minha ideia brilhante afunda quando sua mandíbula
aperta.
— Você quer ir. — Uma afirmação em vez de uma pergunta.
Isso é... mágoa em sua voz?
Não. Isso não pode ser verdade.
Ou é?
Argh. Acho que Rowan fodeu meu bom senso fora de mim esta noite.
— Você quer que eu fique? — Deixo escapar.
Ele leva vinte segundos inteiros para responder. Sim. Eu contei. Era isso ou derreter
em uma poça sob o olhar cauteloso de Rowan.
— Eu não gostaria que você não ficasse.
Rio. — Oh Deus. Você usa negativos duplos. Isso estava condenado desde o início.
O sorriso que ele abre é meu sorriso favorito do Rowan - o tipo que é tão pequeno que
não quero piscar e perder. — Eu fiz isso de propósito.
— Claro que sim. — Reviro meus olhos.
Ele arranca minha camisa de minhas mãos e joga meu sutiã por cima do ombro.
Bem, então. Acho que o debate está resolvido.
Ele me joga de volta na cama antes de puxar o edredom sobre nossos corpos nus. Já
aconcheguei antes, mas com Rowan, parece mais íntimo. Especialmente quando ele
envolve um braço em volta de mim, porque ele é um agarrador total.
Os choques continuam chegando esta noite. Não tenho certeza se meu coração
aguenta o esforço.
Rowan pega um controle remoto e escolhe o aplicativo de streaming. — Qual versão
de Orgulho e Preconceito você quer esta noite?
— Talvez eu esteja com vontade de algum filme de terror.
— O romance não é considerado um subgênero?
Belisco seu lado, fazendo-o rir. — Agora você está apenas tentando ser engraçado.
— Tentando? Parece que me lembro de você pensar que eu sou muito engraçado. —
Ele se anima como um exibicionista total, exibindo seus dentes brancos que ameaçam me
cegar.
— Eu descobri o segredo para te fazer sorrir!
— O que?
— Orgasmos! Por que não pensei nisso antes?!
A risada que ele solta é diferente de tudo que já ouvi antes. Sua cabeça cai para trás
contra o travesseiro e todo o seu peito treme com o som.
Eu realmente, realmente gosto.
E sei que isso é muito, muito ruim.
Mas acabo pensando em todas as maneiras de fazer isso acontecer novamente.
Ele balança o controle remoto na minha frente. — Escolha ou eu escolho para você.
Decido que agora é um bom teste para ver se Scott realmente quis dizer algumas das
coisas que disse. Afinal, talvez ele tenha mentido sobre assistir todas as dezessete versões
de Orgulho e Preconceito para fins científicos. — Estou com um humor do tipo Matthew
MacFadyen esta noite.
No típico estilo Rowan, ele escolhe o certo, provando que realmente era louco o
suficiente para assistir todos os filmes. A única coisa sobre a qual não tenho certeza é o
motivo dele.
Há uma voz pequena e irracional na minha cabeça que quer ler mais sobre a situação,
mas perde para a voz mais forte que diz para aproveitar o momento e largar todas as
expectativas.
***
Minha caminhada da vergonha é prolongada devido à casa dos Kane estar a dez
minutos a pé do meu apartamento. Rowan se ofereceu para me levar, mas apenas revirei
meus olhos e disse adeus a ele com um beijo profundo.
Eu poderia ter deixado. Havia uma parte de mim honesta com Deus que ansiava por
esse tipo de atenção. Mas precisava de alguma distância e uma caminhada para limpar
minha cabeça depois de uma noite de sexo alucinante e, pior, uma boa conversa. Odeio
admitir, mas ainda estou hesitante sobre as intenções de Rowan. Relacionar-se assim
parece um jogo perigoso com alguém como ele.
Afinal, assistimos ao filme inteiro antes de entrar em um debate acalorado sobre o
classicismo e a divisão entre quem tem e quem não tem. Rowan tentou me dar um sermão
sobre os problemas da classe alta e eu tentei apresentar seu rosto ao meu punho.
Ok, estou apenas brincando. Violência nunca é a resposta. Embora tenha ameaçado ferir
fisicamente na forma de negar sexo, o que só me trouxe um orgasmo contido até que eu
me desculpasse.
Rowan joga sujo. É a única coisa que aprendi junto com o tamanho do seu pau.
Então, basicamente, não tenho ideia do que estou fazendo com Rowan, mas talvez
isso seja uma coisa boa. Sempre fui o tipo de garota dos rótulos e não funcionou
exatamente a meu favor.
Durante minha caminhada de dez minutos para casa, solidifico minha mentalidade
positiva. Sou totalmente a favor de manter as coisas casuais por enquanto. Depois de
estar em um relacionamento de longo prazo que foi de zero a cem, estou disposta a ir
devagar e deixar o relacionamento crescer por conta própria. Embora seja arriscado, sei
que Rowan se importa, então não há necessidade de se preocupar.
Uso minha chave e destranco a porta da frente. — Claire?
O apartamento está silencioso, exceto por alguns ruídos vindos do quarto de
Claire. Sou inteligente o suficiente para não abrir a porta dela sempre que ouço John
Legend cantando através das portas. Valorizo minha visão demais para alvejar meus
olhos.
Entro no meu quarto, tomo um banho e me jogo na cama com um sorriso. A doce voz
de John Legend desaparece no fundo enquanto adormeço.
***
Acordo com o cheiro de bacon escaldante e Claire cantando fora do tom de
Journey. Meu estômago ronca, exigindo ser alimentado após minha longa noite.
Encontro Claire na cozinha, cozinhando e cantando em sua espátula. — Quem te
deixou de tão bom humor?
Claire pula no lugar. Ela abaixa o volume do pequeno alto-falante. — Zahra! Você está
em casa! Eu não ouvi você entrar.
— Isso é porque você estava um pouco ocupada.
Claire fica vermelha. — Eu tenho algo para compartilhar.
— Eu também. — Sorrio.
— Você primeiro, — nós duas dizemos ao mesmo tempo antes de rir.
Seu sorriso é contagiante. — Eu conheci alguém!
— Me diga mais.
— Bem, lembra daquela sous chef do The Royal Chateau?
— Como alguém poderia esquecer Sua Irritabilidade Real?
Ela bufa enquanto prepara dois pratos de café da manhã. — Bem, ela se desculpou.
— O que?! Como?
— Nós nos encontramos no supermercado. Era como um filme.
— Como?
— Bem, eu a vi e entrei em pânico. Eu acidentalmente bati com meu carrinho em uma
barraca cheia de laranjas, e elas tombaram na minha pressa. Foi sem dúvida a coisa mais
embaraçosa que já me aconteceu em público.
— Isso não pode ser verdade. Lembre-se daquela vez que estávamos no jogo de
futebol...
Claire estremece. — Pior ainda. Ela acabou escorregando em uma laranja e caindo.
— E depois?
— Ela riu depois que eu fiz uma terrível piada 'Laranja, você está feliz em me ver'.
Jogo minha cabeça para trás e rio. Claire deslancha, contando o resto de sua história
que envolveu um gerente de loja irritado, uma van paramédica desnecessária e um
encontro.
Honestamente, não tenho ideia de como ela ainda está de pé depois das últimas vinte
e quatro horas.
Ofereço-me para lavar a louça enquanto Claire se senta no balcão.
— Conte-me tudo!
Decolo com minha história, explicando tudo que Rowan divulgou na noite passada e
como acabamos na cama juntos.
— Então, por favor, me diga que a aparência de Rowan não é apenas para exibição.
— Ele é mais um cara de ação. — Sorrio para mim mesma com a piada interna.
Claire gargalha. — Excelente. Estou feliz que agora sabemos que ele pode usar sua
língua para o bem e não para o mal. É um passo na direção certa.
Apenas rio para mim mesma.
— Então vocês são o quê? Amigos de foda?
Estremeço com sua escolha de palavras.
— OK. Não. — Ela faz uma pausa. — Que tal amigos com benefícios?
Balanço minha cabeça. — Não discutimos rótulos.
— Tolice a minha. Como você poderia com o pau dele alojado em sua garganta.
Minha esponja espirra na água com sabão depois que eu solto. — Claire!
Ela levanta as mãos. — O que?! Você se meteu nisso.
— Não definimos o que somos porque não há nós. Pelo menos não nesse sentido da
palavra. Somos apenas Zahra e Rowan. Duas pessoas se divertindo.
Suas sobrancelhas se juntam e seu rosto assume um tom sério que raramente vejo. —
Eu não quero que você se machuque. Relacionamentos casuais não são sua praia.
— Talvez esse seja o meu problema. Com Lance, mergulhamos de cabeça em um
relacionamento. Estou tentando levar as coisas devagar.
— Bem, odeio ter que confessar, mas você passou por um semáforo vermelho a
trezentos quilômetros por hora.
Uma risada borbulha de mim. — É apenas sexo.
— Sim, e ele é apenas o cara para quem você tem mandado mensagens de texto todas
as noites antes de ir para a cama.
Suspiro. — É errado seguir o fluxo e não nos colocar em uma caixa tão cedo?
Ela balança a cabeça. — Claro que não. Eu só quero que você seja cuidadosa e não
quero que você invista seu coração em alguém que não planeja retribuir.
— Vamos manter casual por enquanto.
O plano parece sólido e infalível - a maneira perfeita de proteger meu coração
enquanto me divirto.
Ou assim espero.
32
ZAHRA

Entro para o trabalho na segunda-feira meio esperando que alguém me denuncie por
ter feito sexo com Rowan. É ridículo como estou agindo como se tivesse um adesivo
amarelo na testa proclamando que cometi o crime com meu chefe. Nem faria diferença
se eles soubessem. Dreamland nem mesmo tem uma política de não
confraternização. Embora seja desencorajado para as pessoas que trabalham no mesmo
espaço de trabalho, não é proibido.
Sem mencionar que Rowan nunca deixaria algo como dormir juntos atrapalhar suas
decisões. E a ideia de ele me mostrar um tratamento preferencial me faz querer trabalhar
mais para mostrar a ele do que sou capaz. Para mostrar a mim mesma e aos outros que
não importa quem eu sou quando minhas ideias falam por si mesmas. Pelo menos espero
que sim.
No entanto, mesmo depois de criar uma estratégia, segunda-feira é uma bomba
completa devido aos meus nervos à flor da pele. Rowan nem mesmo agraciou o armazém
com sua presença ainda e já estou desmoronando. Esta manhã, quebrei nossa cafeteira
comunitária depois que alguém me perguntou como foi meu fim de semana. E então,
quando alguém mencionou o nome de Rowan no banheiro, acabei deixando cair meu
telefone no vaso sanitário.
Isso não é exatamente minha culpa. Dois membros da equipe Alpha estavam falando
sobre Rowan de uma forma muito inadequada enquanto lavavam as mãos. Meu telefone
escorregou direto do meu alcance e encontrou sua sepultura aquosa.
É seguro dizer que, no momento em que Rowan entra em meu cubículo parecendo
fresco como uma margarida no final da tarde, estou frita. Absolutamente positivamente
consumada por hoje.
— Você não tem respondido minhas mensagens.
— Olá para você também. — Olho para cima da tela do meu computador.
— Você não respondeu às minhas mensagens. — Sua voz está mais nervosa e estou
tentada a dançar com a ideia de ele se preocupar por eu não respondê-lo.
— Você está com saudades de mim? — Bato meus cílios.
— Não. — Ele responde muito rápido.
Sorrio. — Está tudo bem admitir seus sentimentos. Eu vou esperar. — Viro minha
cadeira e o encaro.
— Assim como você me fez esperar o dia todo por uma confirmação?
Huh? — Uma confirmação?
— Sim. Vou sair com você amanhã à noite para um encontro.
Rio baixinho. — Você não acha que deveria me perguntar primeiro?
— Não faço perguntas para as quais sei as respostas.
— Precisamos melhorar suas maneiras. Elas estão gravemente em falta.
Ele entra no meu espaço e se abaixa para sussurrar em meu ouvido. — Você não
estava reclamando sobre boas maneiras na outra noite.
— Claro que não. Toda mulher quer um cavalheiro nas ruas e uma besta nos lençóis,
— sussurro baixo o suficiente para que meus companheiros de cubículo não me ouçam.
Seus olhos brilham quando ele faz uma pequena reverência. — Perdoe meu erro
então. Você me daria a honra de me agraciar com sua presença amanhã à noite para jantar
e coquetéis?
— Ênfase no pau29? — Levanto uma sobrancelha.
Rowan joga a cabeça para trás e ri até eu me juntar a ele. Aquece-me da cabeça aos
pés ao ver seus olhos brilharem e seus lábios permanecerem permanentemente voltados
para cima.
O que torna meu próximo comentário muito mais difícil.
— Não posso sair com você amanhã. Vamos ter uma reunião de equipe tardia para
discutir algumas pontas soltas em propostas anteriores amanhã.
— Que bom que você está com seu chefe.
— De jeito nenhum! Isso é um abuso de poder.
— De que adianta ter todo esse poder se eu não o uso?
Pisco para ele. — Vou fingir que você não acabou de dizer isso.
— Finja o quanto quiser. Isso não muda o resultado.
— Mas...
Ele levanta uma sobrancelha. — Ou você manda uma mensagem para Jenny ou eu
mandarei.
Olho para ele. — Seu jeito mandão está perdendo o encanto.
Ele se inclina, colocando o beijo mais suave na minha bochecha. — Teremos que testar
a teoria em algumas circunstâncias então. Só pra ter certeza.
— Você é sempre tão meticuloso em tudo que faz.
Ele sorri. — Vejo você amanhã à noite. — Ele se afasta, levando sua colônia e
feromônios viciantes com ele. — E responda minhas mensagens de agora em diante.

29 Coquetéis em inglês é cocktails. A palavra pau em inglês é cock. As duas palavras se iniciam da mesma forma, por isso a
personagem faz esse trocadilho.
— Posso assim que conseguir um telefone substituto. — Aponto para uma tigela cheia
de arroz.
— Eu quero saber?
Sorrio. — Provavelmente não.
Mesmo depois que Rowan vai embora, não consigo parar de sorrir para mim mesma.
Porque vou ter um encontro amanhã com Rowan Não-Sei-O-Que-O-G-Significa-
Ainda Kane.
***
O poder tem muitas faces. Hoje à noite, o meu é traçado a partir da expressão no rosto
de Rowan quando saio do meu apartamento.
— Você parece... uma princesa. — Ele esfrega o queixo.
Sorrio enquanto passo a mão pela metade inferior do meu vestido amarelo,
pressionando o tule fofo. Minha mãe fez isso para mim depois que delirei sobre um
vestido semelhante de uma celebridade. Contra minha pele morena, o material me
lembra dos raios de sol da manhã.
O olhar de Rowan se torna letal. Seus olhos passam do meu espartilho para a minha
saia fofa.
Enquanto ele está olhando para mim, eu o encaro. De todos os seus ternos, este é de
longe o meu favorito. Não tenho certeza se ele sabe disso. A maneira como o material
azul royal adere contra sua pele me faz querer convidá-lo para o meu apartamento e
esquecer tudo sobre nossos planos para o jantar.
Nossos olhos se conectam. Ele amaldiçoa qualquer olhar que estampei em meu
rosto. Em vez de ouvir minha sugestão, ele agarra minha mão e me puxa para longe,
murmurando baixinho o tempo todo.
***
— Garfield.
A mão de Rowan na minha coxa flexiona. — Deus, não. — Ele não parou de me tocar
desde que entrei em seu Rolls Royce. Aparentemente, pessoas como os Kanes atingem
um nível de riqueza em que não precisam mais dirigir seus próprios carros. No começo,
achei isso ridículo. Mas então, a liberdade dá a Rowan a capacidade de correr as mãos
para cima e para baixo na minha coxa. Apesar da quantidade obscena de camadas, seus
dedos enviam chamas de calor pela minha coxa com cada golpe sedutor.
Espio a lista de nomes que salvei depois de me perguntar qual diabos era o nome do
meio de Rowan. Depois de pesquisar em toda a Internet e em alguns sites suspeitos que
pediam muito dinheiro para uma investigação, resolvi fazer uma lista de nomes de bebês
em um site.
Exceto que tenho vinte nomes e tive azar com cada um.
— Gary.
Seu peito treme com uma risada silenciosa. — Não.
— Gertrude.
— Esse é o nome de uma mulher.
Encolho os ombros. — Sua mãe poderia ter sido progressista.
Droga. Eu não tinha a intenção de trazê-la à tona. Os Kanes são como um cofre quando
se trata de qualquer coisa relacionada à mãe de Rowan. A única coisa que o público em
geral sabe é que ela morreu após uma longa e terrível batalha contra o câncer.
Ele aperta minha coxa como se quisesse me tranquilizar. — Minha mãe era muitas
coisas ótimas, mas mesmo ela não era tão progressista. Graças a Deus.
— Hmm. OK! E quanto a Glen?
— Você nunca vai adivinhar, então é melhor desistir agora.
Faço contato visual com ele e projeto meu lábio inferior. — Não desisto.
Ele esfrega meu lábio com o polegar, fazendo o calor escorrer pela minha espinha em
resposta. — É por isso que vou recompensá-la com a história de como consegui meu
nome do meio. Mas deve jurar segredo.
Estendo meu dedo mindinho para ele.
Ele bate para longe antes de se inclinar para frente, segurando minha bochecha com a
mão calejada. — Um beijo por um segredo.
— Nunca ouvi falar desse jogo. — Sorrio.
— Isso é porque é exclusivamente nosso.
Calor dispara em meu peito com a ideia de termos algo para nós mesmos. — Já gosto
deste jogo.
Sua mão envolve minha nuca e me puxa para frente. Seus lábios pressionam contra
os meus, suaves a princípio antes de dar lugar a uma fome ardente. O calor se espalha
pela minha pele enquanto Rowan marca meus lábios com sua língua, traçando um
padrão que sinto até meu coração.
Ele me beija até eu ficar sem fôlego e ofegante. Seus olhos perdem o brilho enquanto
deslizam do meu rosto para a janela atrás de mim.
Odeio vê-lo assim. — Eu posso parar de adivinhar. Você não precisa me dizer.
Ele balança a cabeça. — Fizemos um acordo. — O suspiro resignado que ele libera faz
pouco para aliviar a tensão de seu corpo. — Eu não falo muito sobre minha mãe.
Estendo a mão e agarro sua mão na minha. Ele a segura como uma tábua de salvação,
mal escondendo o tremor em sua mão enquanto espreme o sangue de meus dedos. —
Algumas das minhas memórias são confusas desde que eu era tão jovem, mas a única
coisa que mais me lembro sobre minha mãe é que ela amava o Rei Arthur.
— De jeito nenhum! Ela era uma fã de história?
Ele me olha com conhecimento de causa. Suspiro e dou a ele um beijo suave por seu
próximo segredo. Afasto-me, mas ele me puxa de volta para seu peito e aprofunda o
beijo. Como se ele precisasse de coragem extra para falar sobre qualquer coisa
relacionada à sua mãe.
Ele pode não estar procurando pelo amor, mas talvez esteja procurando se curar.
Posso ajudar com isso. Eu estive lá.
Ele me solta antes de respirar fundo algumas vezes. — Minha mãe era obcecada por
história e histórias que beiravam a fantasia. Foi assim que ela e meu pai se conheceram.
Ele faz uma pausa como se não tivesse certeza se deveria continuar.
— Me diga mais. Por favor? — Beijo sua bochecha.
— Ela trabalhava no centro de tutoria da universidade que ambos frequentaram. Meu
pai entrou no prédio para pegar seu amigo cujo carro estava na oficina. Minha mãe estava
trabalhando no balcão e perguntou se ele precisava de ajuda.
— E?
— Meu pai era um aluno nota A que frequentou um semestre inteiro de sessões de
tutoria para uma aula que ele nem estava assistindo.
— Não! — Rio até ficar rouca. A história dos pais dele pode ser melhor do que a minha
- não que eu fosse admitir isso para eles.
— É verdade. Mamãe até revisou seus ensaios e trabalhos de casa falsos sobre o Rei
Arthur e seus cavaleiros.
— Vejo que mentir é uma característica da família Kane por aqui.
Ele sorri. — Fazemos qualquer coisa para conseguir o que queremos.
— Impiedoso. Todos vocês, — provoco.
Ele ri baixinho.
— O que seu pai disse sobre tudo isso? E como ele conseguiu que ela concordasse com
um encontro depois de fingir por tanto tempo? — Preciso ouvir mais, pelo menos para
alimentar a romântica desesperada em mim.
— Eu não me lembro. — Os lábios de Rowan pressionam em uma linha fina, e sua
mão segura a minha.
A temperatura no carro cai, combinando com a energia que sai de Rowan. Todo o meu
peito dói pelo pai de Rowan. Apesar de ouvir tudo sobre suas decisões de negócios
questionáveis, posso ter empatia com qualquer pessoa que perdeu a
esposa. Especialmente um homem que estava disposto a assistir às aulas de tutoria sem
nenhum motivo, a não ser para passar um tempo com a mulher de quem gostava.
E posso sentir ainda mais empatia pelas crianças que sofreram de luto semelhante.
Aperto sua mão. — Então, qual é a conexão entre essa história e seu nome do meio?
— Minha mãe chamou meus irmãos e eu em homenagem aos Cavaleiros da Távola
Redonda do Rei Arthur.
— Isso é uma grande responsabilidade. Eles não encontraram o Santo Graal ou algo
assim?
— Ou algo assim. — O canto de sua boca se levanta novamente e a tensão o deixa
como uma rajada de ar. — Eu fiquei com o fácil. Declan é quem tem que se apresentar
como Declan Lancelot Kane para o resto de sua vida.
Uma risadinha ímpia me escapa com a ideia do irmão mais velho de Rowan tendo
que carregar aquele tipo de cruz pelo resto de sua vida. Lancelot? Sério?
— E você? Sr. R.G Kane?
— Galahad, — ele resmunga baixinho, trazendo minha atenção para o tom mais claro
de rosa em suas bochechas.
— Aw. Que bonitinho.
— Só há espaço para um mentiroso aqui, e não é você.
Empurro seu ombro. — Falo sério! A história por trás disso o torna muito mais
especial.
Seu corpo se aperta. — Se você contar a alguém, terei que...
— Sim, sim. Demitir-me. Já entendi.
— Vou ter que te foder. Mas se você estiver interessada em interpretar o outro cenário,
estou mais do que feliz em ajudá-la.
— Você fez uma piada de sexo?! Estou absolutamente escandalizada. — Falo com
sotaque sulista enquanto abano o rosto.
Ele balança a cabeça como se eu fosse a pessoa mais louca que ele já conheceu. Ok,
estou apenas supondo, mas parece um palpite plausível.
Estendo minha mão. — Você tem um acordo.
33
ROWAN

— Não é tarde demais para ir para casa. — Zahra usa seu menu como escudo para
bloquear todo o lado esquerdo do rosto.
Quando fiz uma reserva no melhor restaurante de Orlando, não esperava que ela
protestasse no momento em que nos sentamos. Desde que a recepcionista nos mostrou
nossa mesa nos fundos do restaurante, dez minutos atrás, Zahra ficou vermelha e incapaz
de ficar parada. Achei que vinho ajudaria com os nervos do primeiro encontro, mas ela
já bebeu um copo cheio.
Ela tem medo de sair em público comigo? Duvido que qualquer paparazzi que se preze
estaria rondando as ruas do centro da Flórida esperando por uma celebridade.
Franzo a testa, puxando para baixo seu menu. — É muito chique?
— Não, quero dizer sim! Quero dizer, olhe para este menu. — Ela o puxa de volta,
exibindo-o para mim enquanto protege nossos rostos agora. — Qualquer lugar sem
preços e muitas palavras em francês é uma bandeira vermelha para minha conta bancária.
— Você não está pagando, — falo em um tom seco.
— Sim, bem, seria presunçoso da minha parte assumir que não dividiríamos meio a
meio.
— Meio a meio. — Engasgo. — O que deu em você?
— Nada. — Ela morde o lábio. Sua pele vai do rosa ao vermelho, revelando sua
incapacidade de mentir sobre qualquer coisa.
— Você está sempre tão nervosa no primeiro encontro?
Ela franze a testa. — Não estou nervosa.
— Você bebeu uma taça de vinho de duzentos dólares em dez minutos.
Seu rosto inteiro empalidece. — Duas. Centenas. De. Dólares?! — ela sussurra-
grita. — Por que você gastaria tanto com um cacho de uvas velhas?
Não consigo segurar minha risada. É quase inaudível sobre as pessoas que nos
cercam.
Seus olhos deslizam de mim para outra mesa em frente a nós, onde um homem loiro
e uma mulher estão sentados.
— Você conhece essas pessoas?
Ela pula em sua cadeira. — Quem?
Pisco para ela.
Seus ombros caem enquanto ela desliza alguns centímetros mais para baixo da
cadeira. — Sim.
— Quem são eles?
— O cara loiro com mãos minúsculas e uma testa enorme é Lance.
Você deve estar brincando comigo. De todos os lugares? Aqui? Isso nunca aconteceria em
Chicago. Existem muitas pessoas malditas para encontrar alguém que odeio.
Culpo a falta de restaurantes aqui que frequento em casa.
Talvez eu possa construir um na propriedade da Dreamland para evitar que isso aconteça
novamente.
Novamente? Você não vai ficar aqui depois da votação.
Pego minha taça de vinho e tomo um longo gole para aplacar a sensação de mal estar
no estômago.
Seus olhos voam de mim de volta para aquela mesa maldita no centro da sala.
Franzo a testa. — Você o quer de volta?
De onde diabos saiu isso?
— O que?! — Sua voz chama a atenção de alguns vizinhos. — Deus, não.
— Então se esqueça dele.
— Mais fácil falar do que fazer. Ele está ali com ela. Eu odeio vê-los porque isso me
lembra... — Sua voz some.
De como ele partiu seu coração, termino na minha cabeça.
Odeio ver Zahra tão chateada. Ela geralmente tem mais positividade em um dedo do
que uma maldita equipe de líderes de torcida do Super Bowl. Sua angústia me deixa
inquieto. Tipo, quero consertar, mas não tenho ideia de como, especialmente quando não
sei nada sobre como lidar com um ex.
— Vamos jogar um jogo.
Que porra você está fazendo?
Ela se anima, finalmente deixando cair o menu e me dando sua atenção. — Hoje a
noite você está apaixonado por jogos.
— Você prefere mergulhar nua no meio do oceano ou correr pelada pela Dreamland
no meio da noite?
— Eu odeio correr, mas odeio mais tubarões, então definitivamente correr pelada pela
Dreamland.
Sorrio. — Garota safada. Você pode ser pega.
— Que bom que eu conheço o chefe, — ela provoca.
O jeito que ela sorri para mim faz meu coração parar. É estranho - como se meu corpo
inteiro não pudesse evitar, mas enlouquecer sempre que estou perto dela. Quer seja a
coceira na pele, um aperto no peito ou um desejo bizarro de beijá-la, estou lutando contra
uma tonelada de sensações. Às vezes, tudo de uma vez.
— Sua vez. — Pego sua mão, traçando seus nós dos dedos com meu polegar. Sua
respiração sempre falha quando faço isso, então está facilmente se tornando minha
maneira favorita de continuar a tocá-la em público.
— Você prefere nunca mais ler um livro ou nunca poder verificar o mercado de ações?
— Me acertando onde dói. — Esfrego meu coração com a mão livre.
Ela sorri. — O fato de você ter que pensar sobre isso parte meu coração.
Ofereço a ela um sorriso conhecedor. — Eu teria que desistir de ler livros. Desculpe.
— Bem, isso foi divertido enquanto durou. — Ela puxa a mão provocativamente antes
que eu a segure novamente.
— Você disse que eu nunca poderia ler um livro novamente. Os audiolivros não
contam.
Sua boca cai aberta. — Você.... isso é... Você não pode trapacear assim!
— A vida é toda sobre semântica.
— Sair com um empresário é uma merda.
Quero beijar o beicinho dela. — Acho que é uma pequena mudança em relação à
companhia maravilhosa que você escolheu nos aplicativos de namoro. E o eletricista com
a mãe?
Ela aponta o dedo para mim. — Para que você saiba, Chip era um homem muito bom.
— Que trouxe a mãe no encontro.
— Eu achei que era fofo.
— Ela perguntou se você tinha um rastreador de fertilidade. — Tomo um gole do meu
vinho.
Zahra joga a cabeça para trás e ri. Fazê-la rir me enche de um profundo sentimento de
orgulho, sabendo que eu poderia tornar seu dia mais brilhante de alguma forma.
Uma nova percepção me atinge com força. Pela primeira vez em um encontro, estou
me divertindo. Não há uma agenda predestinada ou conversas frias sobre trabalho e
negócios. Estou genuinamente interessado em ouvir qualquer coisa que saia da boca de
Zahra, e tudo só se amplifica quando a faço rir.
Parte de mim deseja ser como ela, onde pudesse viver sem abandono e seguir em
frente com as questões do passado que parecem surgir no pior momento. Não é possível
para alguém como eu. Fiquei cansado da vida, então estar perto de Zahra é revigorante.
Estou ciente de que estou jogando um jogo perigoso com Zahra, mudando a linha
entre namorar e muito mais. Não posso querer muito com meu prazo e meus objetivos
finais. Pelo menos não com o meu futuro em Chicago e o dela cimentado na própria
fundação da Dreamland.
Mas podemos aproveitar o presente e viver o hoje. Isso eu posso prometer.
Zahra acena com a mão na frente do meu rosto. — Sua vez.
Balanço minha cabeça e volto para a conversa. Zahra e eu mudamos de um lado para
outro, com ela escolhendo as perguntas mais ultrajantes para eu responder. Não tenho
certeza de onde ela vem com ideias como esquiar com uma boxer ou andar de jet ski por
todo o oceano, mas sua imaginação é infinita.
É por isso que você a contratou.
Passamos o jantar inteiro em nosso joguinho, ramificando-se em diferentes conversas,
dependendo do tipo de resposta que dermos.
Zahra considera seu próximo conjunto de opções malucas quando Lance se aproxima
de nós. Ele fica boquiaberto, seus olhos alternando entre mim e Zahra. Ela nem o notou
ainda, muito imersa em sua cabeça.
Mantenho meus olhos grudados nos dele enquanto puxo a mão de Zahra até meus
lábios e dou um beijo em seus dedos. Ela respira fundo e suas bochechas ficam no tom
mais bonito de rosa para mim. A mandíbula de Lance se fecha, fazendo-o parecer um
tomate amassado com uma mecha de cabelo loiro. Ele é absolutamente mediano em todos
os sentidos da palavra - desde a camisa de botões Brooks Brothers até a calça cáqui mal
passada. Tenho certeza de que poderia encontrar uma dúzia como ele no shopping local.
Coloco a mão de Zahra de volta na mesa e fico de pé em toda minha altura. Lance tem
que inclinar a cabeça para trás para olhar para mim.
Abotoo meu paletó antes de dizer: — Lance Baker. Já ouvi falar de você.
Ele fica mais alto como um pavão. — Sr. Kane. Queria passar por aqui e dizer
olá. Zahra e eu temos história.
Meu sangue fica vermelho quente, pulsando a cada respiração. Lance estende a mão
e eu simplesmente fico olhando para ela com cada gota de nojo que sinto por ele.
— Ela me contou a respeito da sua apresentação sobre Nebula Land.
Ele deixa cair a mão ao lado do corpo como um vira-lata rejeitado. — Ah, sim. Fiquei
chocado porque minha proposta foi aceita.
Meu punho coça para se familiarizar com seu rosto. Esse merda acha que pode se safar
roubando a ideia de Zahra? Percebo que ele acredita que Zahra ficou quieta sobre a coisa
toda. Que merda. Ele provavelmente acha que ela é boa demais para dedurá-lo e, como
ele nunca foi pego, não havia motivo para se preocupar.
Foda-se ele. Vou buscar vingança em nome de Zahra.
— Oh, Lance. Oi. É estranho ver você aqui. — A voz de Zahra é dura.
— Estou comemorando meu aniversário.
Mantenho meu rosto em branco, apesar da vontade de dizer a ele para se foder.
Todo o corpo de Zahra fica tenso. — Não é considerado mau gosto comemorar a época
em que você começou um caso?
Os olhos de Lance saltam. Suas bochechas já vermelhas assumem um tom arroxeado.
O calor se infiltra em meu peito ao ver a coluna ereta de Zahra e seu olhar de aço. Isso
me deixa... orgulhoso. Da maneira como ela pode enfrentar os outros como fez comigo.
Eu a puxo para o meu lado. Estou tentado a escondê-la pelo resto da vida, protegendo-
a de idiotas como Lance, que abusaram do tipo de dádiva que ela é.
A onda de possessividade me atinge do nada. Deveria estar surpreso, mas não estou
chocado. Sempre fui territorial sobre tudo. Brinquedos. Dinheiro. Empreendimentos. E
agora... uma mulher. Embora a ideia seja nova, o sentimento não é.
Lance volta sua atenção para mim.
— Sr. Kane. Desculpe interromper. Não sabia que você e Zahra estavam no meio de
uma reunião de negócios esta noite.
— Nós não estamos. — ofereço em uma voz seca.
Zahra estremece quando traço seu braço com o dedo. Os olhos de Lance rastreiam o
movimento antes de terminar na minha mão pressionada contra sua cintura em um gesto
íntimo.
— Bem, sinto muito por me intrometer neste... encontro.
— Por que você fez então? — Rebato, mantendo minha voz plana.
Sua boca abre e fecha novamente. Não me preocupo em esperar que suas células
cerebrais limitadas inventem alguma desculpa patética.
Aceno para a anfitriã. Ela se aproxima e se coloca entre Lance e eu.
— Sr. Kane. Eu posso te ajudar com alguma coisa? — Ela mantém seu tom leve e
profissional.
— Eu gostaria de enviar à mesa deste homem uma garrafa de Dom Perignon na minha
conta.
Ela sorri. — Claro. Que ocasião estamos comemorando?
— Sua promoção no emprego.
A anfitriã desaparece com um sorriso enorme no rosto.
O corpo de Zahra fica rígido ao meu lado. Acaricio seu quadril, brincando com a tira
de renda através do tecido de seu vestido. Seu corpo derrete no meu, apesar de Lance nos
olhar abertamente.
— Promoção de emprego? — ele grita.
— Chegou ao meu conhecimento que você tem sido um funcionário dedicado da
Dreamland por anos.
Ele acena com um sorriso. Seus olhos se movem de mim para Zahra, e estou tentado
a protegê-la de seu olhar. O jeito que ele olha para ela me faz pensar que ele acredita que
ela falou bem dele para mim.
Ele é um desperdício de bom oxigênio.
Estou absolutamente enojado com ele. — Você está oficialmente sendo transferido
para Dreamland Shanghai para trabalhar com os Criadores de lá. Efetivado
imediatamente.
Todo o sangue é drenado de seu rosto. — Xangai? China?
— Parece que você tem dois motivos para comemorar esta noite. Parabéns.
Ele gagueja um pouco mais. Seu desconforto me dá vontade de sorrir, mas me
contenho. Só há uma pessoa que merece meu suprimento limitado e definitivamente não
é tão degenerado.
Olho para Zahra, apenas para encontrá-la já olhando para mim. O menor sorriso
aparece em seus lábios, mas seus olhos me dizem tudo. Ela fica na ponta dos pés e dá um
beijo suave na minha bochecha.
Seus lábios seguem em direção ao meu ouvido. — Você vai transar muito esta noite.
— Seu hálito quente faz minha nuca esquentar e, de repente, estou muito interessado em
dar o fora daqui.
Foda-se encontros em restaurantes. Eles são superestimados e altamente
restritivos. Não tenho certeza do que estava pensando ao trazer Zahra para um desses
quando ela é o tipo de pessoa que gosta de sentar no chão e comer comida para viagem.
Aperto o quadril de Zahra em reconhecimento.
— Parabéns por Xangai. Você deve estar tão orgulhoso de suas realizações, Lance. —
Ela dá a Lance um último aceno por cima do ombro antes de voltar para sua cadeira.
Uma pequena parte de mim se alegra com o fato de ela não lhe oferecer um
sorriso. Esses são todos meus, foda-se muito ele.
Lance a encara com a boca aberta. A maneira como ele olha para ela me faz querer
acertá-lo bem na cara do nariz torto.
Coloco a mão no ombro tenso de Lance e me inclino, o gesto parecendo amigável para
qualquer outra pessoa. — Há uma razão para homens como você machucarem mulheres
como Zahra. Não tem nada a ver com ela e tudo a ver com o que te falta gravemente. —
Levo um momento para olhar para ele, sem me preocupar em esconder o nojo em meus
olhos.
Todo o sangue é drenado de seu rosto e seu corpo se encolhe. Isso me traz uma
sensação de satisfação completamente diferente por afetá-lo assim. Tenho certeza de que
é apenas uma fração do desconforto que Zahra provavelmente sente em sua presença,
mas estou feliz em dizer isso.
Dou-lhe um último tapinha no ombro antes de me virar.
Zahra já está sentada em sua cadeira. Seus olhos arregalados saltam entre a forma
recuada de Lance e eu. — Você está realmente mandando ele para Xangai?
— Isso é com ele. — Puxo minha cadeira e me sento.
— Como assim?
— Ele pode ir para Xangai ou pedir demissão. Não importa para mim, desde que ele
saia da minha propriedade.
Ela agarra minha mão. — Por que você faria isso?
Encolho os ombros.
— Você realmente gosta de mim. — Ela bate seus longos cílios.
— Eu já te disse isso antes. — Atiro para ela um sorriso suave, o que só a faz brilhar
como o raio do sol em troca.
Ela pega o cardápio de sobremesas do centro da mesa. — Ações falam mais alto que
palavras.
— E o que minhas ações dizem? — Inclino-me e agarro a ponta de seu cabelo,
puxando-a para mim, de modo que nossas bocas fiquem a apenas alguns centímetros de
distância.
— Que você se importa mais do que está deixando transparecer.
Fecho a distância entre nós e a beijo. — Não vá desejando coisas que não podem
acontecer.
Os cantos de seus olhos suavizam, refletindo uma emoção que ainda não vi nela. —
Tudo bem. Vou sonhar grande o suficiente para nós dois.
O estranho calor surgindo em minhas veias é rapidamente apagado por um frio. Essa
é minha maior preocupação, tudo em uma única frase.
34
ZAHRA

Lance está se mudando para a China. Tudo porque Rowan queria me fazer feliz e me
ajudar a seguir em frente. Embora ele possa não ter dito isso com tantas palavras, suas
ações tornam isso extremamente óbvio.
Se Rowan está tentando manter as coisas casuais, ele está fazendo um péssimo
trabalho nisso. Sério, o homem está tentando fazer com que eu me apaixone por
ele? Porque se ele continuar com esse tipo de demonstração de afeto, não vou
sobreviver. Já estou entrando em um território perigoso.
No momento em que o motorista fecha a porta traseira do carro, estou em cima de
Rowan. Com a partição fechada, sinto-me ousada. Imprudente. Um pouco embriagada
pela ideia de Rowan enfrentando Lance.
Está quente. Ele é gostoso. A maldita situação é sexy.
Levanto meu vestido e deslizo para o colo de Rowan. Suas mãos encontram meus
quadris, esfregando minha metade inferior contra seu zíper. Ele rouba meu suspiro com
seus lábios.
Beijá-lo parece uma sensação da qual não quero voltar. Como se o mundo parecesse
mais brilhante com ele nele, e quero perseguir esse sentimento até o fim dos
tempos. Nossas línguas colidem, acariciando, testando, empurrando.
— Isso não é seguro, — ele murmura entre beijos.
Pego seu cinto de segurança e o coloco, o que me faz rir. — Ai está.
Ele me puxa com mais força contra ele. — Eu não estava reclamando de mim.
— Você está pensando demais nas coisas. — Traço a linha de seu zíper, sentindo-o
enrijecer sob meu toque. Seu aperto em meus quadris aumenta.
Ele solta o cinto de segurança com um resmungo antes de mexer rapidamente no cinto
e nas calças. Achei que Rowan no quarto era sexy, mas ele sentado com as calças na
metade das coxas, o pau rígido em exibição no banco de trás de um carro é
devastador. Porque por baixo desses ternos caros está um homem
com essa aparência. Para mim.
Meus joelhos batem no chão. O olhar de Rowan me segue enquanto traço a veia
espessa em seu eixo. Sua respiração fica mais pesada enquanto substituo minha mão pela
minha língua. Estou hesitante no início, sentindo o menor indício de sua excitação
misturada com algum tipo de sabonete viciante.
Seguro suas bolas com minha mão livre e aperto-as. Seus quadris avançam. A
excitação cobre minha língua e eu gosto disso, alternando entre chupadas profundas e
longos golpes de minha língua.
As mãos de Rowan cavam em meu cabelo, seu desespero crescendo conforme meu
ritmo muda. Estou viciada no homem que Rowan se torna comigo em particular, tão
diferente de seu ser quieto e retraído de costume. Porque quando as paredes caem, ele é
voraz. Ambicioso. Tão egoísta durante o sexo quanto em uma sala de reuniões.
Não deveria me excitar tanto, mas sou uma causa perdida para o nosso desejo quando
se trata dele.
Rowan está rapidamente se tornando minha droga preferida. Sua respiração
pesada. Nossa batalha pelo controle. A maneira como ele geme meu nome como se fosse
uma bênção e uma maldição.
Seu corpo inteiro estremece quando dou a ele um último puxão com minha boca. Ele
solta um silvo quando eu o solto e rastejo de volta para seu colo.
Ele pisca para o teto com um olhar nebuloso. — Isso é altamente inapropriado para
um carro.
— Ainda não chegamos à melhor parte.
O menor sorriso enfeita seus lábios. — Você vai me mostrar ou me dizer?
— Mostrar. Sempre mostrar. — Trago alguns beijos de seus lábios até seu pescoço.
Suas mãos deslizam pelo meu vestido, desaparecendo sob as camadas de tecido.
— Você é tão impressionante que dói ficar olhando para você por longos períodos de
tempo. — Ele se inclina e beija o ponto no meu pescoço que me rouba o fôlego.
Meu corpo inteiro aquece com sua confissão. Talvez porque eu sei que Rowan não é
o tipo de homem que oferece elogios sem sentido ou palavras floreadas. Tudo o que ele
diz tem um significado e ele me chamou de impressionante.
Meus olhos coçam com as emoções girando em meu peito. Rowan faz os pensamentos
desaparecerem enquanto ele puxa minha calcinha pelas minhas coxas. Tudo com ele
parece intensificado, desde o arrastar de seus dedos calejados em minha pele até seu
hálito quente provocando arrepios.
Fico de joelhos, dando a ele espaço para puxar minha calcinha pelas minhas
pernas. Ele a joga no assento enquanto puxa para baixo a taça do meu espartilho,
liberando meu seio. Seus lábios se fecham e eu jogo minha cabeça para trás com a
sensação. A maneira como sua língua me provoca me deixa selvagem.
Ele geme enquanto deslizo meu centro exposto em seu eixo duro e nu. Meu corpo
inteiro pulsa de necessidade e o calor enche minha barriga com a sensação aveludada
dele contra mim. Deslizo para frente e para trás mais uma vez, provocando outro gemido
de Rowan. Ele chama meu nome, mas não é nada mais do que um sussurro rouco sob sua
respiração tensa.
Transformei um deus rico em um mendigo. Uma onda de poder espirala por mim,
levando-me à beira da insanidade. Provoco sua ponta e ganho uma respiração
sufocada. Seus dedos apertam meus quadris com força suficiente para machucar.
Nossos olhos se conectam. A escuridão em seu olhar alimenta o calor que se espalha
pela minha metade inferior, transformando uma faísca em fogo.
— Sua linda boceta não mereceu meu pau ainda. — Ele me levanta o suficiente para
deslizar sua mão entre nós.
Meu rosto inteiro está em chamas. Sua mão mergulha dentro de mim, removendo
todo o meu controle da situação. Meu corpo aperta em torno de seu único dedo, e pulo
quando ele adiciona outro. Sua mão livre envolve meu cabelo e puxa, deixando meu
pescoço exposto aos seus lábios e meu corpo arqueado para ser tomado.
— Eu estava certo o tempo todo. — Sua risada profunda envia outra onda de energia
pela minha espinha. — Você, Zahra Gulian, realmente não passa de uma fraude. Uma
sedutora que se esconde atrás de sorrisos doces e palavras gentis enquanto esconde esse
monstro dentro de você. — Sua voz áspera faz algo desonesto na minha metade
inferior. Ele arrasta sua língua do meu pescoço para o meu mamilo antes de roçar os
dentes na pele sensível.
Um tremor se espalha pelo meu corpo, deixando arrepios em seu rastro.
— Mas eu vejo você. — Seu toque é punitivo. Como se ele cruzasse a linha tênue entre
a raiva e a luxúria. É viciante saber que o deixo selvagem o suficiente para perder toda a
aparência de controle sobre si mesmo. Ninguém sabe que tipo de animal ronda sob sua
pele, exceto eu, e acho o segredo bastante inebriante.
Meu corpo treme enquanto sou consumida pela luxúria.
Ele chupa meu pescoço, deixando para trás a pele machucada em seu rastro. Sua
língua traça a curva e grito.
— E eu quero você. — Dois dedos se transformam em três, mergulhando
profundamente enquanto seus lábios possuem cada centímetro de pele exposta. A
pressão em meu corpo aumenta até se tornar insuportável. Arranho sua camisa, incapaz
de empalar sua pele com minhas marcas.
— Você me deixa louco, — ele murmura contra os arrepios no meu pescoço. Ele retira
os dedos antes de colocá-los dentro de mim novamente. — Selvagem. — Suspiro. — Fora
de controle. — Outro ataque punitivo de seus dedos. — Imprudente o suficiente para
foder você no banco de trás com meu motorista a apenas um metro de distância, separado
por uma divisória de plástico que não é feita para bloquear seus gritos.
A necessidade desesperada de gozar me inunda. Giro meus quadris e monto seus
dedos, perseguindo o incêndio que está crescendo na base da minha espinha.
— Eu acho que você gosta da ideia de outras pessoas me ouvirem te foder até que sua
voz fique rouca. — Ele retira a mão.
Lamento a perda, e o zumbido em meu corpo se transforma em nada além de um
barulho surdo. — Talvez eu goste que me ouçam foder com você.
Ele sorri de uma forma que o faz parecer dez anos mais jovem. Toco seu sorriso para
confirmar que não estou imaginando coisas.
Ele pega sua carteira e tira um preservativo. Eu o chamaria de clichê, mas imagino
que seja importante para ele se sentir no controle das pequenas coisas depois de tudo que
passou. O enrugamento de uma embalagem de papel alumínio equilibra nossa respiração
pesada. Seus movimentos bruscos sacodem meu corpo flácido, me fazendo virar massa
em suas mãos.
Ele me levanta, revelando seu pau embainhado. Uma mão segura em mim enquanto
ele usa a outra para traçar minha fenda. O movimento é gentil e reverente antes que ele
me jogue contra seu pau. Suspiro com a repentina sensação de plenitude. Meu corpo
inteiro congela com a queimadura e jogo minha cabeça para trás. Ele beija suavemente
meu pescoço em um pedido de desculpas silencioso. Seu polegar encontra meu clitóris,
fazendo meu corpo tenso relaxado.
— Mostre-me o quanto você quer. — Ele bate na minha bunda uma vez antes de se
afastar. Ele esfrega o lábio inferior, traçando aquela sugestão de um sorriso.
Esse bastardo. Ele vai me fazer trabalhar para isso.
Eu uso seus ombros como apoio enquanto me levanto, levando minha saia
comigo. Ele olha para nossos corpos unidos, onde seu pau ainda está no meio de
mim. Seus olhos não se desviam enquanto ele lambe os lábios e o encara.
Empurro de volta para baixo, fazendo-o estremecer enquanto meu corpo se agarra ao
seu pau. — Posso ser uma fraude, mas você não passa de um belo mentiroso. Um homem
disposto a fazer qualquer coisa para conseguir o que deseja. Egoísta. — Levanto-me para
bater novamente, construindo um ritmo que combina com nossas respirações pesadas. —
Controlador. — Giro meus quadris, o que faz seus olhos revirarem para trás. — Um
homem raivoso com sorrisos secretos e risadas suaves e um coração de ouro que ele
mantém escondido do mundo. — Meus lábios encontram seu pescoço e beliscam sua
pele.
Ele é minha nuvem negra de tempestade no meio de uma seca - uma beleza
subestimada que me faz sentir tão viva quanto o sol ou as estrelas.
Seus dedos tremem contra meus quadris enquanto ele libera outro gemido.
— Eu acho que você odeia o quanto você me quer. Porque se preocupar comigo
significa que você tem que admitir que tem um coração. — Coloco um beijo suave contra
seus lábios. — Portanto, continue contando a si mesmo essas pequenas mentiras. Seu
segredo está seguro comigo.
Eu o monto, ganhando cada gemido de seus lábios. Estou obcecada em provocá-
lo. Cada vez que me levanto, recuo direto para sua ponta, fazendo-o respirar antes de
voltar a cair.
Os olhos de Rowan ficam completamente escuros enquanto suas mãos segurando
meus quadris apertam com mais força. Algo dentro dele estala. Ele assume o controle,
seus braços esticando-se sob o tecido de sua camisa enquanto ele me levanta antes de me
puxar de volta para baixo.
A respiração é arrancada de mim com cada golpe de punição. O prazer sobe pela
minha espinha. Minha pele queima com cada toque da pele de Rowan contra a
minha. Como se alguém segurasse uma chama na minha pele a cada carícia.
Os movimentos de Rowan tornam-se mais desleixados à medida que o controle
escapa de suas mãos. Pontos negros preenchem minha visão antes que as estrelas
explodam, ganhando vida por trás dos meus olhos fechados. Meu corpo treme enquanto
o prazer passa por mim.
Todo o corpo de Rowan treme quando ele goza. Não paro de mover meus quadris até
que estejamos sem fôlego e sem ossos. Minha cabeça cai em seu ombro, e a exaustão corrói
a adrenalina restante em meu sistema.
Rowan passa a mão para cima e para baixo na minha espinha. Meus olhos se fecham
enquanto tento regular minha respiração e frequência cardíaca. A calmaria de sua mão
me deixou inconsciente, apesar de seu pau amolecer ainda dentro de mim.
Devo estar meia delirando do meu orgasmo porque Rowan sussurra algo para si
mesmo que devo ter sonhado em minha cabeça. — Se eu tivesse um coração para dar,
seria todo seu. Gratuito.
Minha espinha formiga, e não tem nada a ver com a mão dele correndo pelas minhas
costas. Eu quero dizer a ele que ele tem um coração, mas as palavras ficam presas na
minha garganta. Então, em vez disso, mergulho em qualquer tipo de afeto que Rowan
está disposto a compartilhar.
35
ZAHRA

Rowan aparece após nossa reunião semanal de sexta-feira, com o sorriso mais
irritantemente presunçoso no rosto.
— Você pode voltar a não sorrir? Isso não é justo. — Desligo meu computador de
mesa.
Seu sorriso se alarga. — Mas eu gosto da maneira como você se contorce.
Enfio meu laptop na minha mochila. — Idiota.
Ele se inclina contra a parede do cubículo e enfia as mãos nos bolsos. — Se você está
tentando me afastar, você está agindo da maneira errada.
Penso em nosso primeiro beijo e o quanto ele gostou da palavra naquela época.
— O que você está fazendo aqui? — Digo.
— Eu queria que você soubesse que vamos ter um encontro amanhã.
— Ok... — Jogo com calma, mas por dentro estou desmaiando. Rowan está
definitivamente deixando suas intenções óbvias, e estou aqui para isso. É revigorante não
persegui-lo para um encontro.
— Depois de jantarmos com sua família. — ele fala com firmeza.
— Volte novamente?!
— Talvez mais tarde. — Ele pisca.
Agarro-me ao lado da minha mesa para me impedir de cair da cadeira. — Não pisque.
— Por que?
— Porque meus ovários podem implodir e isso seria muito lamentável.
Ele ri para si mesmo. — Ani me convidou após nosso último encontro.
— Aquela pequena conspiradora... — Não estou pronta para apresentar Rowan à
minha família.
— É fofo o quanto ela fala bem sobre você.
Argh. Como posso ficar irritada com Ani por isso?
Suspiro. — Não tenho certeza se você está pronto para minha família.
— Por favor. Eu preciso ouvir tudo sobre seus pais se casando em Vegas. Seu amor
por Elvis é profundo.
— Não os encoraje. Eles vão pegar um álbum antigo e inundá-lo com histórias.
— Ani mencionou que eles têm um vídeo seu tocando seu ukulele na sala de
estar. Você pode me considerar bastante interessado em ver aquele filme de família.
Gemo enquanto coloco minha cabeça na minha mesa e levanto meu dedo médio bem
alto no ar.
***
— Você não é a coisa mais doce? — minha mãe se emociona com Rowan no momento
em que ele entra pela porta com uma garrafa de vinho de aparência chique.
Seu corpo inteiro permanece congelado na porta.
— Bem-vindo. — Meu pai oferece sua mão.
Rowan sacode e cumprimenta todos os outros, incluindo Claire, que o encara de cima
a baixo antes de encolher os ombros como se ela não estivesse impressionada.
— Você veio! — Ani quase agarra Rowan, dando-lhe um grande abraço.
Todo mundo olha para eles. Os olhos da minha mãe brilham quando ela aperta as
mãos contra o peito.
Meu pai vira a cabeça em minha direção e me dá um aceno de aprovação. — Já gosto
dele mais do que de Lance.
— Pai! — Gemo.
Se Rowan o ouviu, ele finge que não.
— Vamos comer! — Mamãe canta. Claire se oferece para ajudar a servir a comida
favorita do meu pai para todos.
Rowan se senta ao meu lado e, instantaneamente, a mesa de jantar dos meus pais
parece ter sido feita para uma casa de bonecas.
— Você já experimentou comida armênia antes?
Ele balança a cabeça.
— Você é um comedor exigente?
Ele revira os olhos. — Vou comer qualquer coisa, menos caviar.
Rio para mim mesma. — Excelente! Então prepare-se para ficar maravilhado. Minha
mãe pode ser da Europa, mas ela aprendeu todas as receitas armênias favoritas do meu
pai.
Pego um talher e escavo na comida da minha mãe. Claire faz a receita de vez em
quando, mas nada se compara à comida da minha mãe.
— Então, Sr. Kane, você está gostando da Dreamland até agora? — Meu pai toma um
gole do vinho que Rowan trouxe.
Ele olha para mim. — Está crescendo em mim.
Meu rosto inteiro fica derretido sob o olhar de Rowan.
Ele aperta minha coxa antes de olhar para meu pai. — E, por favor, me chame de
Rowan.
Mamãe sorri. — Zahra nos contou tudo sobre o projeto em que você está
trabalhando. É tão bom que você queira comemorar o aniversário do parque.
A mão de Rowan se fecha em seu colo. — É o que meu avô queria.
— Ele era um grande homem. — diz meu pai.
Rowan acena com a cabeça. — Estou feliz que as pessoas aqui o tenham apreciado. —
Há uma ligeira hesitação em sua voz.
Agarro seu punho e abro seus dedos antes de travar os nossos juntos. — Você não
precisa ficar nervoso. — sussurro baixinho.
— Eu sou péssimo em conversa fiada. — ele sussurra de volta.
Eu só posso rir e curtir o show. Rowan ser tímido é uma mudança muito bem-vinda
em comparação com a maneira como ele é perto de todos no escritório.
— O que você acha da Flórida em comparação com Chicago? — Mamãe pergunta.
— É... quente.
Todos na mesa riem e a tensão se dissipa do corpo de Rowan.
— Deve ser uma mudança em relação a Chicago. Sempre quisemos visitar. — Papai
acena com a cabeça.
— Mas não tiramos férias há anos, — diz Ani, finalmente.
— Por que não? — Rowan olha para minha irmã com as sobrancelhas franzidas.
— Oh. — Seu sorriso desaparece.
Bem, merda. Ninguém quer ser o único a contar para ele.
A temperatura da sala cai significativamente. A mão de Rowan agarra a minha com
mais força, como se ele tivesse medo de me soltar.
— Porque não podemos bancar as férias, mesmo se quisermos. — Claire oferece em
um tom neutro.
— Certo. — A voz de Rowan soa tensa para meus ouvidos.
Mãe, abençoe sua alma, muda de assunto e de alguma forma salva o jantar. Rowan
parece mais retraído do que o normal, o que diz algo. Não acho que meus pais percebam,
já que só ouviram histórias sobre Rowan, mas eu sim. Fico com náuseas pelo resto do
jantar, tornando difícil comer minha comida favorita.
Rowan faz uma careta para mim, empurrando minha comida em volta do meu prato
como uma criança. Ao contrário de mim, ele devora tudo e pede por mais, o que só deixa
minha mãe mais feliz.
Meu pai dá um tapinha no ombro de Rowan antes de abraçá-lo. Eu riria se já não
estivesse no limite, visto que Rowan permanece rígido como uma tábua durante toda a
troca.
Rowan destranca seu carro e abre minha porta para mim. Congelo, incapaz de entrar
antes de limpar o ar.
— Me desculpe por mais cedo. — deixo escapar.
Sua mão segurando a porta aberta. — Por que você se desculparia?
— Porque você já estava nervoso para falar e então aquela conversa aconteceu.
Sua mandíbula aperta. — Não é sua culpa que eu seja um idiota, Zahra.
Estremeço. — Não fale sobre você dessa maneira.
— Eu pensei que você valorizava a verdade.
Fico boquiaberta com ele.
— É a realidade da situação. Eu tomo decisões de negócios que afetam a vida das
pessoas para melhor ou para pior. É o que é. — Ele olha para o céu escuro e sem estrelas.
— Mas você poderia mudar. Ninguém o está forçando a escolher um lado sob outro.
Ele solta uma risada amarga. — Administrar uma empresa é difícil.
— Ser humano também é.
Ele suspira e agarra minha mão novamente, entrelaçando nossos dedos mais uma
vez. — Eu não sei nada sobre ser humano.
— Tudo bem. Vou te ensinar tudo que sei. — Sorrio enquanto caio no banco do
passageiro.
— É exatamente disso que tenho medo, — ele murmura baixinho.
Desafio aceito.
36
ZAHRA

A aldrava da porta do nosso apartamento bate três vezes.


— Ele está aqui! — Ani não se preocupa em pausar nosso programa de TV enquanto
pega minha bolsa e a joga em meus braços.
— Quem?
— Rowan!
Meu coração acelera, passando de um ritmo constante para irregular. — Oh, me
desculpe. Você sabe disso como?
— Ele queria fazer uma surpresa para o seu encontro. — Ani entra no meu quarto.
Encontro?! Estou usando uma calça Levi's velha e respingada de tinta e um suéter dos
Chicago Bulls dos anos noventa. Minha escolha de moda quase não combina com o
supermercado local, muito menos para um encontro.
— O que você quer dizer com encontro? — Digo.
— O tipo em que Rowan leva você embora para mostrar sua surpresa. — O grito de
Ani é abafado pela distância.
Bem... uau, ok. Eu adoro surpresas agora.
— Se apresse. Você é tão lenta. — Ani sai do meu quarto com a maior mala que tenho.
— Estou me mudando para algum lugar?
Ela ri. — Não, boba. Rowan me pediu para embalar para você algumas roupas.
— Roupas? Para que?
Ela sorri. — Estou sob contrato para não dizer mais nada.
— Como você entrou no meu apartamento e arrumou uma mala?
— Claire. — Seu sorriso é contagiante.
— Até onde vai essa surpresa? — Assopro uma mecha de cabelo do meu rosto
enquanto agarro a alça da minha mala.
Ani ri. — Vale a pena.
Minhas mãos ficam escorregadias enquanto tento segurar a bagagem. Não tenho
certeza do que Rowan planejou, mas uma mala desse tamanho parece um exagero.
— Não se preocupe com nada. Eu até coloquei suas roupas sexys. — Ani pisca.
Minhas bochechas ficam vermelhas. — Oh meu Deus. Você não fez isso! Como você
as encontrou?
— Uma irmã nunca revela seus segredos. Divirta-se! — Ani corre para o meu banheiro
e se tranca lá dentro.
— Claire estará em casa logo para fazer o jantar.
— Tchau mãe! Pare de se preocupar comigo!
Abro a porta e encontro Rowan encostado no batente com as mãos enfiadas nos
bolsos. — Bom ver você aqui.
— Olá. — Ele me lança um pequeno sorriso.
Quase derreto no tapete de boas-vindas quando ele se inclina e dá um beijo suave na
minha testa. Um zumbido começa na minha cabeça e desce até os dedos dos pés.
Ele se afasta, levando seu cheiro viciante com ele. Sua mão trava na alça da minha
bagagem. — É melhor nós irmos. Temos um voo para pegar.
— Voo? — Ah, merda.
***
Minha vida tornou-se de uma princesa da Dreamland em menos de uma hora. Mas,
em vez de um príncipe a cavalo, acabei com Rowan - o tipo perfeito de herói moralmente
sombrio sobre o qual adoro ler.
— Aqui estamos. — Ele aperta minha coxa com sua mão enorme.
— Vamos parar em algum lugar antes do nosso voo? — Olho pela janela, verificando
a área que definitivamente não é o aeroporto de Orlando.
Uma sugestão de sorriso cruza os lábios de Rowan como se eu tivesse dito algo
fofo. Alguém abre um portão e o motorista dirige o Ghost para a pista.
Pisco para o jato preto lustroso estacionado no asfalto como se fosse um passeio casual
de sexta-feira. — Você está brincando comigo?
— Eu não brinco.
— Mentiroso.
Sou recompensada com outro pequeno sorriso.
Aceno para o avião. — Quando você disse que tínhamos um voo para pegar, achei
que quisesse dizer comercial.
— Deus, não.
— Ah, sim. Porque mini pretzels e bebês chorando são tão aversivos.
Ele balança a cabeça e dá outro aperto reconfortante na minha coxa. — Bom. Você
entendeu.
Quanto mais tempo passo perto de Rowan, mais percebo que ele não está apenas fora
do meu alcance - ele está fora da minha atmosfera. — Estamos indo seriamente em um
avião particular?
— Sim.
Murmuro um agradecimento baixinho enquanto seu motorista abre a porta. Estou
presa olhando para o tapete vermelho abaixo de mim.
Rowan desliza para fora de seu assento e dá a volta no carro. — Tem medo de ficar
viciada nesse tipo de estilo de vida?
— Esse é o último pensamento em minha mente. — Dou um passo hesitante em
direção ao tapete vermelho. Acho que não vi nenhum em outro lugar, a não ser na
TV. Meus tênis parecem fora do lugar enquanto pressionam o tecido felpudo e meus jeans
respingados de tinta parecem absolutamente ridículos.
Ele abotoa o paletó enquanto olha por cima do ombro. Suas sobrancelhas baixam
enquanto ele me avalia. — O que há de errado?
Aponto para frente e para trás entre nós. — Parece que você saiu de um catálogo de
Tom Ford enquanto eu me pareço com alguém que vasculhou a caixa BOGO30 na
Goodwill31. — Aponto para meu moletom desbotado. — Isso nem é um moletom do
Michael Jordan, porque não era uma opção nos brechós.
O canto de seu lábio se contrai. — Eu gosto do seu estilo. — Seus olhos arrastam pelo
meu corpo. Suas mãos agarram os bolsos de trás da minha calça jeans e me puxam em
direção a ele.
— Também gosto do meu estilo, mas não é exatamente relevante para jatos
particulares.
— Quem disse?
— Eu!
— Como você saberia se nunca esteve em um jato particular antes?
Amaldiçoo para o céu. Droga. Por que ele sempre tem um bom argumento? — Você pode
ser tão irritante às vezes!
Rowan beija minha testa como se eu devesse ser recompensada por ser adorável
enquanto sinto raiva.
— Devemos ir, porque não queremos chegar atrasados. — Ele tira as mãos dos meus
bolsos antes de colocar uma na parte inferior das minhas costas. Com uma suavidade que
aprendi a apreciar, ele nos direciona escada acima até a cabine particular do jato.
O que eu pensava que os jatos particulares pareciam por dentro, não era isto. A ponta
do meu tênis fica presa no carpete preto e grito ao perder o equilíbrio. O braço de Rowan
dispara e agarra meu braço oscilante, endireitando-me antes que eu caia de cara.
— Graciosa como sempre, Zahra. — Ele ri baixinho.
Ele deposita meu corpo em um assento enorme que poderia caber três de mim em um
voo normal. Acaricio o couro bege para confirmar que não é um sonho.
Ele se senta na minha frente. — Por que essa cara?
— Nada.
— Você está desconfortável.
Minhas bochechas queimam. Deveria estar grata por estar viajando em vez de
enlouquecer com as coisas menores. — Não. Estou bem.

30 “Buy one, get one free” – compre um, leve outro de graça.
31 Uma loja estilo brechó, que recebe doações e revende as peças por preços muito baixos.
Ele traça o lábio inferior com o polegar. — Acho que você pode ser a única pessoa que
conheci que se intimida com meu dinheiro e não quer ter nada a ver com ele.
— Deve ser um grande contraste em comparação com a maioria que se sente
intimidada principalmente por sua personalidade. — Meu comentário mal-humorado é
recompensado por uma risada baixa de Rowan. O som aquece todo o meu peito.
Seus olhos brilham quando lanço um sorriso para ele. — Gosto da maneira como você
me faz sentir.
— E isso é?
— Como se eu fosse uma pessoa real.
Reviro meus olhos. — Se esses são seus padrões, não há para onde ir, a não ser subir.
Ele ri de novo e, desta vez, eu me junto a ele.
***
Ok, não vou admitir isso para Rowan, mas namorar um bilionário tem suas
vantagens.
Vantagem um: Pegar um voo aleatório para a cidade de Nova York porque ele acha que
seria um bom local para um encontro.
Vantagem dois: visitar a maldita cidade de Nova York!
Estou explodindo de emoção quando o jato pousa na pista. No momento em que
Rowan me contou sobre nosso destino, eu o importunei com muitas perguntas sobre a
cidade e quantas vezes ele vem aqui.
— Nunca vi alguém tão animado por estar em Nova York antes.
— Você está brincando comigo? Este é um sonho que se tornou realidade!
— Segure essa declaração até que você saia do avião. Tenho certeza de que só o cheiro
vai convencê-la do contrário.
— Que tipo de pessoa odeia Nova York?
— O mesmo tipo que ama Chicago.
— Retire isso! — Inclino-me e bato em seu ombro.
Ele sorri. — Não. Não até que você venha comigo para Chicago e confirme o que eu
já sei.
Tenho certeza de que meu coração pode explodir com a ideia de Rowan. Planejar com
antecedência parece adicionar outra camada ao nosso casual, mas não parece ser casual
relacionamento.
— As pessoas não podem decolar e voar para longe sempre que sentirem vontade.
Sua cabeça se inclina. — Por que não?
— Porque temos empregos e responsabilidades.
— Deixe lidar com seu chefe para mim.
Balanço minha cabeça, fingindo estar enojada, mas meu coração acelera no meu peito.
Nossa conversa é interrompida muito cedo pelo piloto anunciando que é seguro tirar
os cintos de segurança.
A aeromoça abre a porta da cabine e tudo que vejo é branco.
— Neve! Neve de verdade! — Desço dois degraus de cada vez e pego um punhado
de neve cintilante.
Rowan para ao meu lado. — Tivemos sorte.
— Sorte? Como?
Seus olhos ficam grudados no meu sorriso. — Normalmente não há neve neste início
de temporada, mas eles acabaram de ter uma tempestade outro dia.
— Se isso não é destino, não sei o que é. — Jogo a neve para o alto e vejo tudo cair em
volta de mim como pó.
Fecho meus olhos e rio, apenas para abri-los e encontrar Rowan olhando para mim.
A equipe cuida da nossa bagagem rapidamente e, antes que eu possa piscar, Rowan
nos acomoda na parte de trás de um carro. Ele agarra minha mão e desenha círculos
ociosos com o polegar. Cada rotação envia um choque de energia subindo pelo meu
braço.
Fico olhando pela janela o tempo todo, observando as luzes brilhantes e uma
quantidade infinita de pessoas. Isso me lembra das multidões da Dreamland, mas mais
agressivo. Como se as pessoas tivessem lugares para ir e pessoas para ver, todos precisam
dar o fora do caminho.
Eu absolutamente amo isso.
Estacionamos no manobrista de um prédio alto coberto de vidro e aço.
— Você mora aqui? — Estico o pescoço para trás, observando como o arranha-céu toca
uma nuvem. Uma nuvem assustadora!
Ele encolhe os ombros. — Às vezes. É uma das minhas casas.
— Uma?!
Ele encolhe os ombros.
— Como é ter mais dinheiro do que Deus?
— Solitário. — Sua palavra carrega peso suficiente para contaminar o ar ao nosso
redor.
Estou tentada a envolvê-lo em meus braços para apertá-lo. Não posso começar a
imaginar como é isolante estar cercado de tanta riqueza a ponto de as pessoas pararem
de tratá-lo como uma pessoa real. Após a confissão de Rowan, faço uma promessa a mim
mesma de parar de ficar boquiaberta com tudo, como se pudesse desaparecer a qualquer
segundo.
— OK. Vou agir com calma de agora em diante e fingir que nada disso me abala.
— Não faça isso. Eu... É divertido ver as coisas da sua perspectiva.
Divertido?! Quem diria que o homem poderia sentir tanta alegria. Estou tão presa
nessa admissão que levo um segundo para perceber o resto de sua declaração.
Ele gosta de ver as coisas da minha perspectiva. Meu peito aperta, me traindo. Droga. Eu
deveria ter ouvido Claire. Não há como as coisas ficarem casuais entre nós sem
desenvolver sentimentos mais intensos além de gostarmos um do outro. Mas por que ele
iria me perseguir como Scott e Rowan se ele não estava interessado em levar as coisas
adiante?
Não acho que ele está me usando para sexo. Não haveria razão para me transportar
para Nova York se fosse esse o caso.
A mão de Rowan encontra a parte inferior das minhas costas novamente enquanto ele
nos conduz por um saguão ultrajante com milhares de preciosidades penduradas no
teto. Ele não precisa apertar um único botão nos elevadores. Como ele mesmo desejasse,
as portas se abriram, revelando um elevador brilhante de espelhos.
Entramos e as portas se fecham atrás de nós.
Sua mão permanece colocada contra minhas costas. Estou tentada a me afastar e
recuperar o fôlego, mas ele cheira muito bem. O ar fica mais espesso ao nosso redor
enquanto ele me encara.
— Este é um baita encontro.
— Por favor. Ainda nem chegamos a essa parte da noite.
— Só quero que você saiba que está estabelecendo um padrão inatingível para futuros
homens. Eu nunca vou aceitar encontros no cinema depois disso.
Ótimo, Zahra. Mencione futuros homens para despistá-lo.
— Isso é porque você é mais do tipo de garota drive-in, de qualquer maneira. — Ele
agarra minha mão e me puxa para mais perto. Sua cabeça inclina para baixo e seus olhos
fecham quando ele se inclina. Meus olhos se fecham enquanto seus lábios pressionam
contra os meus. Eu o seguro enquanto sua língua traça meu lábio inferior, me pedindo
gentilmente para abrir. Minha cabeça fica pesada enquanto meu corpo treme sob sua
atenção.
O ping e o barulho da abertura das portas nos puxa do nosso beijo. A mão de Rowan
trava na minha. Ele não desiste enquanto nos leva até uma cobertura que poderia fazer
um arquiteto salivar por todo o piso de madeira.
— Espero que você saiba que talvez eu nunca saia deste lugar. — Caminho até a
enorme janela de dois andares que mostra uma vista panorâmica de toda a cidade.
Um de seus braços envolve em torno de mim, provocando a bainha do meu suéter
enquanto o outro inclina minha cabeça para olhar por cima do ombro. — Você desistiria
de Dreamland pela cidade?
Solto uma risada suave. — Não. Eu amo a Dreamland. Eu poderia passar o resto da
minha vida lá e nunca ficar entediada.
Ele me olha com uma expressão estranha que não consigo identificar. — Mesmo? Por
que?
— Minha família inteira mora lá. Eu seria louca se desistisse disso por alguma cidade
qualquer.
— Hmm. — Sua mão acaricia a fatia de pele exposta em meu estômago.
— Você está feliz desistindo da cidade pela Dreamland? — Não deveria investigar,
mas estou muito curiosa.
— Nunca pensei que poderia me sentir feliz na Dreamland novamente, mas agora não
tenho tanta certeza.
Sorrio. — Mesmo?
— Eu posso ter conhecido a única pessoa que torna o lugar suportável. — Seu olhar
permanece exclusivamente focado no meu rosto.
Sua resposta deixou minha respiração toda trêmula e minhas pernas
bambas. Pequenas borboletas esperançosas voam em meu estômago, provando o quão
longe estou caindo.
37
ZAHRA

Eu deveria saber que era o fim do jogo no momento em que Rowan me disse para
desempacotar minha mala.
Ajoelho-me no chão de madeira, puxo o zíper da minha bagagem e a abro. — Bem,
isso explica a mala enorme.
Metade dela está repleta de minhas roupas normais, enquanto a outra parte está
repleta de todos os meus romances de regência escritos por Juliana De La Rosa. The Duke
Who Seduced Me está preso com segurança no topo, com tiras de proteção que impedem
que todos os livros deslizem.
Corro para fora do quarto para encontrar Rowan, apenas para bater de cabeça em seu
peito.
Ele ri enquanto me reajusta.
— Por que minha bolsa está cheia de todos os meus livros De La Rosa? — Pressiono
a mão contra o meu coração batendo.
— Porque a famosa estripadora de corpetes está assinando livros em Nova York esta
noite, e acontece que temos ingressos para o evento dela. — Ele puxa dois ingressos do
bolso de trás e os balança na minha frente.
Meu queixo cai. Pulo e agarro os ingressos. — De jeito nenhum! — Jogo meus braços
em volta do seu pescoço. O movimento repentino o desequilibra e ele alcança uma parede
antes que ambos tombemos.
— Você gosta disso. — Ele ri no meu ouvido. Seu hálito quente faz minha pele
arrepiar.
Desembaraço-me de seu pescoço e volto meus membros para minha bolha pessoal. —
Gosto disso? Eu amo isso! Como você conseguiu ingressos como estes no último minuto?
Ele limpa a garganta. — Eu tenho conexões.
— Ok, agora estou impressionada com a sua riqueza.
***
A maldita Juliana De La Rosa está parada a apenas dez metros de mim. As luzes
douradas da livraria brilham sobre ela como um halo, e fico tentada a correr direto para
seus braços. Em vez disso, jogo com calma, só porque Rowan segura minha mão como se
tivesse medo de que eu desapareça ou seja presa por perseguição.
Surpreendentemente, Rowan não reclama quando entramos em contato com todos os
outros amantes de livros. É uma volta, quase que completa, de nós dois esperando nas
filas da Dreamland. Desta vez, ele sorri enquanto observo meu entorno. Ele segura meus
livros como se fossem um tesouro nacional, e tenho quase certeza de que poderia beijá-lo
como uma idiota se não fosse pelas pessoas que nos cercam.
Comento a bolsa da mulher na minha frente e acabamos nos tornando amigas na
hora. Katie e eu comparamos nossa lista de namorados de livros uma com a outra e
discutimos o que esperamos que aconteça no final da temporada de The Duke Who Seduced
Me. Rowan ainda oferece sua análise da série, o que faz Katie quase desmaiar.
Quando Rowan usa o banheiro, ela me pergunta se ele tem algum irmão solteiro que
ela possa conhecer. Meu estado de alerta aumenta, mas Katie ri e parece não perceber
quem está ao lado dela.
A fila se move a passo de caracol. Quando chegamos à frente, Katie e eu nos tornamos
amigas da vizinha dela e da minha, transformando nossa dupla em um quarteto. Rowan
é um bom esportista sobre tudo isso, e sinto-me meio culpado por passar nosso encontro
sendo uma tiete com outros nerds de livros.
— Sua vez. — Ele me cutuca com a palma da mão direto para o espaço pessoal de
Juliana.
— Oi! Eu sou uma grande fã. — Estendo minha mão trêmula.
As rugas ao redor dos olhos castanhos de Juliana se contraem quando ela olha para
mim de sua mesa. Ela está com a roupa mais ridícula que parece algo saído de um
catálogo de pin-ups, e imediatamente me apaixono por ela. Seu cabelo grisalho está preso
em um rabo de cavalo perfeito, e sua franja lateral se inclina sobre sua testa envelhecida. É
exatamente algo que eu esperava dos programas que minha mãe adora assistir.
— Ora, ora. Como você é bonita! — Juliana se levanta e aperta minhas bochechas entre
as mãos no gesto mais maternal.
Ai meu Deus, Juliana tá me tocando!
Seria estranho se eu pedisse a Rowan para tirar uma foto?
Sim, Provavelmente. Contenho a vontade e respiro fundo algumas vezes o perfume
forte de Juliana.
O sorriso de Juliana se destaca em seus lábios vermelhos. — Rowan, você não me disse
que sua namorada é tão fofa quanto uma flor.
Rowan? Ela conhece Rowan?! Por que ele não disse nada?
E espere… NAMORADA?!
Ele limpa a garganta. — Zahra não é minha namorada.
Meu estômago dá um mergulho de um penhasco muito grande.
Seus olhos voltam para os meus. — Bem, minha querida, você precisa prender este
homem imediatamente.
Eu a ignoro porque, olá, ela conhece Rowan. — Eu não tinha ideia de que você
conhecia Rowan!
Estou sonhando?
Rowan deve ler meu rosto ou algo assim porque ele belisca meu braço para mim.
— Ei!
Ele encolhe os ombros. Sorrio como uma idiota porque me lembra do nosso primeiro
encontro. Ele realmente se lembra de tudo.
Juliana dá um tapinha na bochecha de Rowan como uma mãe faria. — Ele programou
todo o evento para você porque disse que você é minha maior fã.
Acho que a sala se desloca. — Você está falando sério?! — Viro-me e olho para ele. —
Como?
— Ah, você não contou a ela. — Juliana fala.
— Você planejou tudo isso? — Fico boquiaberta com o homem que planejou um
evento de livro inteiro para mim.
— Não. Eu tive ajuda.
Juliana dá uma gargalhada. — Querida, sem ele minha bunda estaria colada a uma
cadeira de jardim em algum lugar do Havaí agora, comemorando o lançamento do meu
novo livro.
— Mas você está aqui? Por mim?
— Vale a pena ter amigos em posições importantes, não é? — Ela pisca. — A empresa
dele transformou meus livros no programa que você adora.
— A empresa dele?! — Não tenho certeza de como estou permanecendo em pé com a
quantidade de carpete que ela está puxando debaixo de mim.
Como pude ser tão estúpida? Rowan mencionou sua empresa de streaming no
passado, mas não fiz a conexão até agora. — Scott nunca precisou da minha senha para
assistir TV. Ele precisou?
Ele tem a audácia de encolher os ombros. — Não.
— Então por que usar?
— Por que mais, querida. O amor nos faz fazer bobagens, — intervém Juliana.
— Ah, não. Nós estamos…
— Aproveitando o dia, — ele termina por mim.
Digo. — Certo! Um dia de cada vez. — Aceno para Juliana como se isso explicasse
cada segundo complicado do meu relacionamento com Rowan.
Juliana aponta o dedo para nós. — Diga-me primeiro quem deixou de acreditar na
mentira.
Reviro meus olhos. Afinal, ela é autora de romances. Claro que ela vai acreditar que
todo casal está destinado a ser felizes para sempre. Não sou contra um, mas também não
sou a favor de criar esperanças muito cedo. Embora esta sessão de autógrafos tenha me
feito pensar que próximo passo poderemos dar juntos.
Rowan deposita meus livros na mesa.
— Por que você usou minha conta se você literalmente criou toda a plataforma?
— Eu queria ver no que você estava interessada.
Estou tentada a chorar de como isso é doce. Por meses eu pensei que ele mal gostava
de mim, e aqui estava ele assistindo TV pela minha conta para se sentir mais conectado.
Envolvo meus braços em volta dele e dou-lhe o melhor abraço. Ele beija o topo da
minha cabeça.
— Bem, vamos lá agora. Tenho mais cerca de cem pessoas para ver depois de vocês
dois. — Juliana acena para mim. Ela assina cada um dos meus livros com seu nome e uma
mensagem curta. As pessoas atrás de nós reclamam sobre quanto tempo ela leva comigo,
mas ela é tão cheia de vida e não para de falar. Eu não posso deixar de querer absorver
tudo.
Rowan quase me arrasta em direção à entrada da livraria como uma criança quando
Juliana precisa seguir em frente.
Atravessamos as portas da frente e nos deparamos com flocos de neve de verdade.
— Está nevando!
— Devemos obter mais alguns centímetros esta noite. Fale sobre o clima estranho. —
Ele franze a testa.
Rio enquanto corro para a calçada coberta de neve e giro em um círculo, tentando
pegar os pedaços com minha língua como uma criança.
— Vá devagar antes de beijar a calçada.
As palavras saem de seus lábios um segundo tarde demais. Meus tênis prendem em
um remendo escorregadio e jogo meus braços, mas não há nada em que me segurar.
Rowan corre e me pega com uma velocidade sobre-humana, mas suas botas têm o
mesmo destino da calçada gelada. Nós dois caímos em um emaranhado de membros e
um saco plástico cheio de todos os meus livros autografados. Rowan se vira para me
proteger e acaba caindo de costas. Eu sigo, batendo bem em seu peito. Ele solta um
suspiro audível. Sua outra mão ainda agarra a bolsa, protegendo todos os livros de cair e
cair na calçada molhada.
— Ai. — Esfrego minha testa que não sobreviveu à luta com seus músculos. — Você
está bem?
— Pergunte-me amanhã, quando meus pulmões começarem a funcionar novamente.
Abaixo minha testa contra seu peito e rio até que o ar frio queima meus pulmões. Ele
envolve seus braços em volta de mim e, juntos, rimos em uma calçada suja coberta de
neve.
Melhor encontro de todos.
38
ROWAN

Acho que não me saí muito mal. Zahra tinha um sorriso permanente estampado no
rosto desde que ela descobriu sobre a assinatura do livro. Meu único erro foi não deixar
Juliana em segredo sobre o motivo do acontecimento.
Não quero que Zahra se preocupe muito com as coisas. Mas parte de mim se pergunta
se é tarde demais para isso com base no jeito que ela sorri para mim como se eu a fizesse
genuinamente feliz.
Meu motorista nos deixa na cobertura.
Este passeio de elevador é diferente do anterior, com Zahra abrindo seus livros como
se quisesse verificar se houve danos causados pela água após nossa queda. Ela já fez isso
duas vezes, mas não a culpo por ser protetora com seus novos bens valiosos.
Entramos no apartamento e Zahra sai correndo para colocar os livros de volta na
bagagem e tomar um banho. Faço o mesmo, vestindo uma calça jeans e uma camiseta
com o logotipo desbotado da Dreamland.
— Então, qual é o plano? — Ela desce as escadas em um conjunto de corrida
combinando. O tecido delineia cada curva de seu corpo, e acho difícil ser um homem
decente e desviar o olhar. Exceto que não sou nada decente quando se trata de Zahra,
então aproveito para dar uma olhada nela.
Ela dá a volta no balcão e olha para mim. — Você vai fazer um buraco nas minhas
roupas se continuar me olhando assim.
— Tire suas roupas então. Problema resolvido. — Agarro seus quadris e puxo-a para
mais perto.
Ela coloca a mão no meu peito, logo acima do meu coração. Ele corre mais rápido no
meu peito com o registro de seu toque.
Seu estômago solta o protesto mais alto de todos os tempos. Ela bate a mão sobre
ele. — Que constrangedor.
Encolho-me com a minha falta de planejamento. Não comemos nada desde o almoço
rápido no avião.
Eu a solto e caminho até a gaveta cheia de menus de comida para viagem. — Faça sua
escolha.
Ela folheia os folhetos e mini-menus antes de pegar um para comer pizza. — Qual em
Nova York? — Ela levanta um ombro.
— Você escolhe isso quando poderia escolher Ruth's Chris32?
— Quem é Ruth Chris?
Gemo. — Pizza então.
O jantar chega uma hora depois e eu o coloco na mesa de centro. Nós dois nos
acomodamos no tapete em frente à enorme lareira no meio da sala de estar. Nunca gostei
de comer em uma mesa de jantar. Isso me lembra da época em que minha mãe estava
viva, quando meu pai chegava em casa sóbrio o suficiente para comermos em família.
— Então você disse que esta era uma de suas propriedades. Quantas você tem
exatamente? — Ela dá uma grande mordida em sua pizza.
Faço a matemática mental. — Vinte e oito.
— Você está falando sério?
— Sim.
Suas bochechas perdem um pouco da cor. — OK. Uau. Qual delas é a sua favorita?
Dou uma mordida na minha pizza para me dar tempo suficiente para considerar sua
pergunta. — Honestamente, eu não tenho uma.
Sua boca se abre. — Nenhuma delas te faz sentir em casa?
— Casa é onde quer que eu seja necessário para trabalhar.
Ela fica boquiaberta para mim.
— Há alguns climas que prefiro mais a outros. Como Chicago é ótimo no verão, mas
meu pau está sujeito a congelar durante o inverno.
— E a Dreamland?
Analiso sua pergunta com cuidado. — Dreamland é diferente.
— Como assim?
— Havia muitas lembranças ruins lá para mim.
Suas sobrancelhas se juntam. — Oh. É surpreendente que você queria se tornar o
Diretor então.
— Eu estava interessado em levar o parque para o próximo nível. Era do meu interesse
superar as questões que me impediam.
Não é tecnicamente uma mentira. No entanto, seu sorriso ainda parece um soco no
estômago.
Você não tem escolha a não ser esconder toda a verdade dela. Você está muito perto de terminar
para comprometer tudo agora.
Ela sorri. — Você se sente melhor por estar lá agora?
— Eu conheci alguém que torna meu tempo lá tolerável.
O rubor espalhando-se por suas bochechas faz meu estômago rolar. É difícil comer
qualquer coisa. — Tolerável? Eu tenho que intensificar.

32 Ruth’s Chris Steak House é uma cadeia de mais de 100 churrascarias nos Estados Unidos, Canadá e México.
Ela fez mais do que o suficiente. Limpo minha garganta. — Chega de perguntas sobre
mim. Estou curioso sobre uma coisa.
— O que?
— Conte-me sobre seus broches.
Toda a linguagem corporal dela muda a partir de uma pergunta. — Não é uma
história fofa. — Ela olha para a vista atrás de mim.
— Eu não pedi uma. — Pego a mão dela como se ela faz por mim toda vez que preciso
falar sobre algo difícil.
Seu corpo relaxa e ela respira fundo. — O primeiro dia em que participei da terapia
foi no mesmo dia em que recebi meu primeiro broche.
Nunca poderia imaginar alguém como Zahra fazendo terapia. Meu pai me disse que
era para pessoas fracas que eram tão patéticas que precisavam de outra pessoa para
resolver seus problemas.
— Você foi para a terapia? Por que?
— Porque percebi que não poderia me consertar sem trabalhar duro.
— Mas você está... — Fico preso em encontrar as palavras certas.
Sua risada parece triste. — O que? Eu estou bem? Feliz? Sorridente?
— Bem, sim. — Não é assim que funciona? Por que alguém feliz iria para a terapia?
Seus olhos caem para o colo. — Todo mundo tem momentos ruins. E para mim, eu...
havia ... — Ela solta um suspiro pesado.
Zahra se sentindo perturbada? Essa é nova.
— Há cerca de dois anos, entrei em profunda depressão. — Ela olha para as próprias
mãos.
Eu pisco — O que?
Suas bochechas ficam vermelhas. — É verdade. Eu não sabia na época, mas Claire foi
quem oficialmente me disse que eu precisava de ajuda. Ela até me ajudou a procurar um
terapeuta e me disse para tentar conversar com alguém sobre como eu me sentia.
— Eu... eu não sei o que dizer.
Ela funga. — Eu nem sei por que estou chorando agora. — Ela enxuga furiosamente
as bochechas úmidas.
Limpo uma lágrima que ela perdeu.
— Eu sei que estou em um lugar melhor. Mas... Deus. Quando Lance partiu meu
coração, mal consegui sair da cama. Usei todos os meus dias de férias durante o ano
porque não estava dormindo muito e parecia uma tarefa árdua até mesmo acordar. Era
como se eu estivesse seguindo os movimentos da vida, mas não realmente
vivendo. Quase nem comendo. E os pensamentos... — Sua voz falha, e juro que sinto
como um soco no coração. — Eu me odiava muito. Por meses, eu me culpei. Por que que
tipo de mulher estúpida não perceberia que um homem a estava traindo? Eu me senti
patética e usada.
— Você é muita coisa incrível, e patética não é uma delas. — Meu sangue esquenta
com a ideia de ela pensar algo ruim sobre si mesma.
Ela funga novamente. — Eu sei disso agora. Mas, na época, me senti muito fraca
porque nada do que fizesse poderia impedir esse sentimento de desesperança que
assumiu o controle. Tentei. Deus, eu realmente queria, porque nunca soube o que era ser
nada além de feliz. Mas quanto mais eu tentava, pior as coisas ficavam. Eu finalmente
cheguei a um ponto assustador em que me perguntei se a vida valia a pena. — Ela olha
para suas mãos trêmulas. — Eu - eu nunca pensei que seria o tipo de pessoa que pensaria
que seria melhor se eu estivesse morta. Tenho vergonha de ter sequer considerado isso.
Estou tentado a encontrar Lance e esmurrar seu rosto para corresponder a uma fração
da dor pela qual Zahra passou, porque alguém tão doce como ela não precisaria de um
broche de ponto-e-vírgula se não fosse por ele.
— Esta sou eu agora. Mas quem eu era antes, quando tudo aconteceu - eu era uma
casca quebrada. Eu esqueci de acreditar em mim mesma quando mais importava.
A dor em sua voz me sufoca, tornando cada respiração difícil. Seus olhos, sempre
expressivos, mostram cada grama de dor que ela sentiu por causa daquele idiota.
Rastejo para o lado dela da mesa e a puxo para o meu colo. Ela enterra o rosto na
minha camisa, agarrando o tecido como se ela precisasse se segurar.
Já senti muitas coisas diferentes em minha vida, mas Zahra, ao buscar conforto em
mim, traz à tona algo que não consigo definir. Isso me faz sentir
necessário. Protetor. Vingativo para qualquer um que a machuque.
Eu realmente gosto dela. Nosso relacionamento está evoluindo lentamente de algo
casual para algo mais, e não sou totalmente contra isso.
Eu a puxo com força contra meu peito.
— Claire foi quem começou minha coleção de broches depois da minha primeira
sessão de terapia. Ela comprou para mim um Iggy the Alien33 que encontrou no Etsy34,
mas em vez de ele levantar os três dedos em paz, ele estava mostrando o dedo do
meio. Foi um foda-se simbólico para Lance.
Balanço minha cabeça com um sorriso. — Isso é violação ilegal de marca registrada.
— Processe-me. — Ela sorri.
Sorrio de volta. — Como você passou de um broche para uma mochila inteira coberta
por eles?
— Claire fez de sua missão encontrar os broches mais ultrajantes a cada semana. Cada
vez que eu voltava da minha sessão semanal, ela revelava um. Agora ela me dá dois por
ano, um no meu aniversário e um no Natal.
— Ela é uma boa amiga.

33 Personagem fictício criado pela autora para o parque Dreamland.


34 Etsy é um site de comércio eletrônico aberto que tem como foco itens feitos a mão, produtos usados e material para
artesanato.
— O melhor tipo. Tenho sorte de tê-la em minha vida. Como colega de quarto e
melhor amiga.
Eu a aperto mais perto como se pudesse aliviar um pouco a dor. — Mas agora você
está melhor? — Tento esconder a preocupação em minha voz, mas parte dela transparece.
Ela acena com a cabeça. — Definitivamente.
— Pelo que vale a pena, ele nunca mereceu você.
E você merece?
— Obrigada. — Sua voz é um sussurro, soando tão pequena e insegura.
— Se você não se importa que eu pergunte, por que você usa os broches todos os dias?
— Como um lembrete e uma promessa a mim mesma de que não importa o quão
difícil a vida fique, eu continuarei insistindo. — Seu sorriso aguado faz todo o meu peito
apertar a ponto de ficar difícil respirar.
Pego uma mecha de seu cabelo e coloco atrás da orelha. — Você é ridiculamente
incrível.
— Porque eu uso broches incríveis?
— Porque você é você.
Pressiono meus lábios contra os dela. É um beijo suave, não tem a intenção de
provocar ou incitar. Não tenho certeza para que serve, mas sei que parece certo.
Ela suspira e isso faz algo estranho acontecer no meu peito. Como se eu pudesse fazê-
la contente.
Pressiono minha testa contra a dela. — Um dia espero poder ser forte como você. Para
talvez conversar sobre algumas coisas que estão pesando sobre mim.
Ela suga uma respiração afiada. — Forte como eu?
Concordo. Minha garganta fica mais apertada como se quisesse me impedir de contar
segredos.
Não faça isso. Você abre esse tipo de ferida e pede que ela mexa em seus pontos fracos.
Mas e se ela não for como ele. Zahra é gentil, amorosa e tudo de bom no mundo. Ela
não é nada como meu pai. Ela não me julgaria. Não. Porque ela realmente gosta de mim -
o completo oposto dele.
Um babaca que não se importa em fazer os outros chorarem, implorarem ou ficarem
pobres. Alguém que escolheu a si mesmo uma e outra vez porque se eu não me
protegesse, ninguém o faria.
— Eu... eu fiquei muito afetado com a morte da minha mãe.
Todo o rosto de Zahra muda. Seu sorriso cai e seus olhos suavizam nas bordas. Estou
tentado a parar. Para apagar aquele olhar e nunca mais tocar no assunto.
Mas ela me surpreende. — Um beijo por segredo?
Eu aceno, incapaz de dizer qualquer palavra. Ela pressiona seus lábios nos meus. A
sensação de seu corpo contra o meu me impele para frente. Para pegar. Para possuir. Para
fazê-la lembrar quem eu sou, independentemente das minhas fraquezas ocultas
disfarçadas de segredos.
Domino seus lábios, marcando-a com minha língua. Mostrando a ela que ainda sou o
homem de que ela gosta, não importa o que eu diga que me faça parecer menos que isso.
Não seja estúpido. Ela não pensaria assim.
Ela se afasta e segura minha bochecha. — Meu segredo.
Suspiro. Realmente vou contar a ela sobre isso? Posso mesmo fazer isso? Essa parte do
meu passado está trancada a sete chaves, submersa em algum lugar nas profundezas das
minhas memórias mais sombrias.
Ela envolve suas pernas e braços em volta de mim. Seu calor escorre pela minha pele,
trazendo de volta algum tipo de calor às minhas veias geladas.
Solto uma respiração tensa. — Meu pai era um garoto chaveiro35 que tinha acesso a
tudo que o dinheiro pudesse comprar. Jatos particulares. Barcos. Uma equipe de garçons
em tempo integral. Mas nada disso importou depois que minha mãe entrou em sua
vida. Eles são - eram a coisa mais próxima do amor verdadeiro. Pelo menos foi o que me
disseram, porque eu era muito jovem para lembrar muito sobre eles juntos. Mas Declan
sempre disse que tudo o que minha mãe queria, meu pai concedia.
Zahra se afasta. — Isso é tão triste.
Merda. — Não sinta pena do meu pai. Ele é um idiota.
— Eu sinto muito por todos vocês.
Limpo minha garganta arranhada. — Meus pais amavam a Dreamland tanto quanto
meu avô... até que tudo mudou.
— Quando sua mãe ficou doente?
Concordo.
— Eu sinto muito. Nenhuma criança deve perder a mãe tão jovem como você. — Sua
mão se estende e agarra a minha. Abro meu punho, deixando nossos dedos se
travarem. O simples gesto não deve significar muito, mas segurar Zahra é como se
agarrar a uma corda de salvamento. Como se eu pudesse segurá-la ou ser lançado nos
cantos mais sombrios da minha mente.
— Uma das últimas memórias que tenho com ela foi na Dreamland.
Zahra acena com a cabeça, seus olhos refletindo algum tipo de compreensão.
— Minha mãe era tudo para nós. E as poucas boas lembranças que tenho de meus pais
juntos incluem meu pai à disposição da minha mãe. Se minha mãe sorria por alguma
coisa, meu pai encontrava uma maneira de ter mais disso. Se ela chorava por alguma
coisa, meu pai estava decidido a demolir isso.
Zahra me lança um sorriso vacilante. — Ele parece um homem apaixonado.
— Amor. Uma palavra tão simples para algo tão devastador.

35 Criança chaveiro é uma criança que retorna para uma casa vazia depois da escola ou uma criança que muitas vezes é
deixada em casa sem supervisão porque seus pais estão trabalhando fora. Geralmente essa ausência é compensada com bens
materiais.
— Nada tão bom pode ser dado gratuitamente. — Sua mão aperta a minha com ainda
mais força, cortando qualquer chance de fluxo sanguíneo. Não tenho certeza por quem
ela faz isso, mas sou grato pela carícia de seu polegar roçando meus dedos.
— Meu pai nunca mais foi o mesmo depois que ela faleceu, e nem nós. — Meus olhos
se concentram na lareira ao nosso lado, e não no rosto de Zahra, porque não consigo
aguentar sua simpatia. Não quando eu não mereço. O monstro egoísta que me tornei nas
últimas duas décadas está muito longe do garoto de quem ela tem pena.
Fico olhando para as chamas dançantes. — Meu pai nos tratava como merda porque
acho que ele estava com medo. Porque cuidar de nós por conta própria significava aceitar
que minha mãe realmente se fora, e ele não estava pronto para isso. Ele nos abandonou
quando mais precisávamos dele e substituiu-se por alguém que nenhum de nós
reconhecia. E em vez de perder um dos pais, perdemos os dois. Um para o câncer e o
outro para seus vícios. — Minha voz falha.
— Nós o protegemos porque pensamos que ele iria melhorar. Olhando para trás,
éramos muito jovens para saber mais. Devíamos ter contado a alguém sobre seus
problemas. Mas ele manteve seu alcoolismo tão bem escondido. Nosso avô estava
desconfiado, claro, mas protegemos nosso pai. Não por lealdade a ele, mas talvez por
nossa mãe? Não sei.
— Vocês eram crianças.
— Mas talvez se tivéssemos conseguido a ajuda que ele precisava desde o início,
poderíamos ter parado os anos de dor que sentimos depois. — Fechei os olhos, com medo
de que Zahra pudesse perceber a umidade crescendo neles.
Os homens não choram.
Você sempre foi fraco.
Patético.
Todas as memórias inundam minha cabeça de uma vez.
— A dor nos testa de maneiras diferentes.
Concordo. — Acho que por ele, ele arruinou o que todo mundo amava porque não
suportava perder a pessoa de quem mais gostava no mundo.
— E o que você acha que ele arruinou para você?
— A única coisa em que eu era bom. Meus irmãos tinham esportes, ou revistas em
quadrinhos ou clubes especiais. Mas eu? Eu era o estranho. O artista decepcionante que
falava demais e sonhava grande.
Os lábios de Zahra permanecem pressionados, embora possa ler uma centena de
perguntas em seus olhos.
Expiro. — Cheguei a um ponto em que comecei a ficar ressentido comigo
mesmo. Tudo que eu queria fazer era deixar meu pai feliz, mas, em vez disso, provei a
ele repetidas vezes porque fracassei. Porque eu era o mais fraco de seus filhos. Por que
minha mãe estava melhor nunca me vendo tornar-se uma criança tão patética.
Uma lágrima escorre pelo rosto de Zahra. — Você não pode acreditar nisso.
Olhe para você fazendo-a chorar. Sempre a mesma decepção.
Afasto o pensamento. — Eu... eu não sei. Mas eu mudei. Houve uma mudança na
minha mentalidade depois... — Impeço-me de revelar muito. — Eu recuei. Aprendi tudo
que pude com meus irmãos e parei de me importar com qualquer coisa, exceto provar
que meu pai estava errado. Passei todos os dias provando por que não era uma decepção.
— À custa do que você amava?
— Foi um preço a pagar pela paz. Não achei que fosse desenhar de novo...
— Até você ver meus desenhos atrozes.
Aceno com um pequeno sorriso. — Porque eu não sabia na época, mas queria que
você me visse.
39
ZAHRA

Eu quero beijar Rowan até que seus lábios estejam inchados e o olhar triste em seus
olhos seja substituído por luxúria. Parte de mim quer voltar no tempo e proteger aquele
garotinho que não queria nada mais do que sonhar e desenhar e ser quem ele era sem ser
atacado por isso. Faria qualquer coisa para protegê-lo das palavras feias de seu pai - um
resultado de ele sofrer tanto quanto seus filhos.
Aperto meus braços ao redor de seu corpo. Seu cheiro de brisa do oceano toma conta
de mim enquanto sua cabeça cai para a curva do meu pescoço. Ele solta um suspiro
trêmulo.
Não tenho certeza do que é isso, mas parece certo.
Seu coração bate contra o peito em um ritmo instável. — Eu não te disse isso para você
ter pena de mim.
— Então por quê?
— Porque... — Sua voz some.
Dou o tempo de que ele claramente precisa. Nós não fazemos nada além de sentar
aqui juntos, desfrutando do conforto da companhia um do outro.
— Você...porque... — O fogo esconde a maior parte da vermelhidão em seu rosto, mas
pego o olhar de terror em seus olhos.
Roço meus lábios nos dele, deixando para trás um beijo leve. — Porque o que?
Seu coração bate mais rápido contra o meu peito, a batida se tornando
assustadoramente rápida. — Porque eu gosto de você. É assustador porque você me faz
sentir tudo. E eu sei que vou decepcionar você. Não posso prometer muito, mas às vezes
acho que talvez pudesse. Se eu tentasse o suficiente. Se eu encontrasse uma maneira de
consertar as coisas.
Todo o meu coração ameaça se desintegrar no meu peito com o calor que se espalha
pelo meu corpo. É a coisa mais próxima de uma confissão de amor que posso receber
dele. E é um sinal de esperança.
Que ele pode estar nisso por mais do que uma foda casual e uma amizade com alguém
que o trata como um cara normal. Que ele realmente poderia estar disposto a fazer as
coisas certas se se esforçasse o suficiente.
Fico de joelhos e pressiono um beijo contra os lábios de Rowan. É para ser um
conforto, mas ele não me deixa ir. Uma de suas mãos envolve meu rabo de cavalo e puxa
enquanto a outra agarra meus quadris enquanto aprofunda o beijo. Gemo, dando a ele
melhor acesso à minha boca. Nossas línguas se chocam e o sangue lateja do meu coração
errático até os ouvidos.
Os lábios de Rowan não se separam dos meus enquanto ele gentilmente me manobra
para que minhas costas pressionem o tapete exuberante. Ele me beija como se quisesse
me marcar com a língua. Como se ele precisasse ter certeza de que não o esqueci. Eu não
esqueceria. Nem em cem anos ou um milhão de beijos depois. Há algo em nossa conexão
que me faz cambalear por mais.
Minha cabeça fica tonta enquanto ele traça a forma do meu corpo com a ponta dos
dedos. Afasto-me de seus lábios e reclamo a área em seu pescoço, chupando sua pele até
marcá-lo.
Ele geme enquanto se afasta. Com olhos famintos, ele levanta a barra do meu
moletom.
— Hmm. Isso é inesperado. — Sua voz rouca interrompe minha respiração pesada.
Cada grama de sangue corre para minhas bochechas. — Ani embalou.
— Droga. Maneira de ferir meu ego. Achei que você escolheu isso só para mim. — Ele
passa o dedo pelo design dos donuts detestáveis. Tenho certeza que este sutiã não viu a
luz do dia desde que eu estava no colégio. Pro: faz meus seios parecerem
estelares. Contra: Isso me faz parecer ridícula. Só posso esperar que ele esteja
desesperado o suficiente para pular a leitura da frase “Donut, você me quer” estampada
em minhas nádegas. Não tenho certeza se conseguiria superar isso.
— Você planeja ficar olhando para mim a noite toda ou vai continuar com o show?
Seu olhar permanece focado em meu peito. — Eu gosto da vista.
— Eu gostaria mais da minha se seu rosto estivesse entre minhas pernas.
Seus lábios colidem com os meus. Ele nos rola antes que eu possa recuperar o
fôlego. Uma de suas mãos desabotoa meu sutiã enquanto a outra tira o meu moletom
rapidamente. Ele leva menos de um momento para me deixar sem camisa e esperando
por ele.
Ele se levanta, levando-me com ele. A área implorando por ele pressiona em sua
ereção, e juntos gememos. Suas mãos são gananciosas, correndo pela minha pele, criando
arrepios onde quer que permaneçam.
Minha cabeça gira enquanto minhas costas batem no tapete novamente. Não posso
evitar. Nossos lábios se separam enquanto solto uma risada.
— Se você está rindo, há um problema aqui.
— Eu não posso evitar! Onde você aprendeu a se mover assim? — Outra risada me
escapa. Calo-me enquanto seu corpo desliza pelo meu.
Não recebo um aviso. Nada mais do que um forte choque dos meus nervos quando
sua boca trava no meu seio. Sua língua gira, me provocando até que estou gemendo e me
debatendo embaixo dele. Tudo o que posso fazer para me firmar é segurar seu cabelo e
puxar.
Rowan é um homem com atenção impecável aos detalhes. Sua boca pode estar
ocupada, mas isso não impede suas mãos de traçar meu outro mamilo com o toque mais
gentil. Não é nada além de um sussurro de carícia, fazendo minha pele queimar por
ele. Meu corpo inteiro parece ter sido encharcado com fluido de isqueiro e incendiado.
Gemo de frustração, e a boca de Rowan se separa com um pop. As chamas da lareira
dançam em seu rosto, lançando-o em um brilho dourado. — Paciência é uma virtude.
— Sim, a castidade também, mas você não me vê praticando.
O canto de sua boca se levanta. — Estou tentando ser um cavalheiro. As preliminares
são importantes.
— Você me fodeu em um carro apenas algumas semanas atrás. O cartão de cavalheiro
foi revogado.
Ele ri. É rico e profundo, com um estrondo suficiente para fazer meus dedos do pé se
curvarem.
— Fique aqui. — Ele se levanta, mostrando sua protuberância impressionante
pressionando contra o zíper de sua calça jeans. Ele desfaz o botão e o zíper parcialmente
enquanto caminha em direção à cozinha. Gavetas se abrem e fecham com estrondo antes
de ele voltar e jogar alguns preservativos no tapete.
Ele puxa sua camiseta pela cabeça, e encontro minha boca aberta. Quero traçar minha
língua em seus músculos ondulantes, memorizando as curvas e bordas sólidas. Seu jeans
encontra o mesmo destino que sua camisa no chão, deixando-o com nada além de uma
cueca boxer apertada. Minha boca enche de água com o contorno de seu pau.
Rastejo até ele e traço sua protuberância com a palma da mão. Sua cabeça cai para trás
enquanto seus dedos encontram a raiz do meu cabelo ao mesmo tempo que descubro sua
ereção e traço seu comprimento com a ponta da minha língua. Ganho um gemido e uma
pontada de dor no couro cabeludo.
— Prove o quanto você me quer.
Algo sobre suas palavras soa dentro do meu peito. Depois de tudo que ele
compartilhou, suas palavras parecem importantes. Como se ele meio que esperasse que
eu pensasse nele como inferior porque passou a vida sendo desvalorizado.
Faço uma promessa mental de adorá-lo. Para mostrar a ele que nada do que disser
pode me afastar. Importo-me com o homem que ninguém mais conhece. Eu até acho que
o amo.
Minhas bochechas queimam quando o coloco em minha boca, um centímetro de cada
vez. Ele empurra seu pau mais longe em minha boca, e meu clitóris lateja em resposta. Ele
controla meu corpo como uma sala de reuniões - com absoluta confiança e uma contenção
mortal que considero inebriante.
E eu amo isso ‘pra’ caralho.
Ele empurra mais, e a ponta de suas unhas arranham meu couro cabeludo. Meu
gemido sai abafado, mas atrai sua atenção de volta para mim.
As pontas de seus dedos acariciam minha bochecha. — Eu não tenho certeza do que
eu amo mais. A maneira como você sorri para mim sem abandono ou a maneira como
você olha com seus lábios inchados enrolados em volta do meu pau.
Ele ama o jeito que eu sorrio.
Meu corpo inteiro ganha vida e retomo o controle. Uso minhas mãos para bombeá-lo
mais fundo na minha garganta, e o gemido que ele solta me faz querer devorá-lo até que
libere seu controle.
Passo os dentes pela pele lisa e seus quadris se movem para frente. Qualquer que seja
o domínio que Rowan teve sobre a situação se rompe e seu demônio é libertado. Ele me
fode como se me odiasse. Como se eu despertasse todos aqueles sentimentos que ele não
suporta.
Eu absolutamente amo isso. Na verdade, quero mais. Mais dele e mais do que quer
que seja.
As pequenas pontadas de dor mal são registradas enquanto seus dedos puxam meu
cabelo. Ele me usa, marcando minha língua com sua excitação a cada empurrão.
Nossos olhos se conectam e a ferocidade em seu olhar envia outra corrente de energia
pela minha espinha. Seguro suas bolas em resposta e todos os músculos de seu
corpo tremem.
— Não se atreva a engolir. — Ele bombeia para dentro e para fora da minha boca uma
e outra vez. Seu eixo brilha e meus olhos quase reviram para a parte de trás da minha
cabeça.
Ele geme ao mesmo tempo em que seus jatos de esperma quente atingem o fundo da
minha garganta. Há tanto, estou convencida de que vou engasgar, mas respiro fundo e
sigo seu pedido.
Ele retira seu pênis. — Abra. — Seu polegar traça meu lábio inferior, cobrindo-o com
a mistura da minha saliva e seu esperma.
Encaro-o diretamente nos olhos enquanto mostro o que ele quer.
— Porra. — Seu olhar queima. — Engula até a última gota.
Minha garganta balança enquanto sigo seu comando.
Ele cai no tapete e me empurra de costas. Seus lábios voltam aos meus, devorando-
os. Ele agarra o cós da minha calça de moletom e calcinha de uma vez, afastando-se dos
meus lábios apenas para puxá-los para baixo. O fogo me lança um brilho dourado.
— Você é perfeita. — Ele traça a carne sensível na parte interna da minha coxa,
fazendo-me sentir reverenciada. Especial. Amada. Nunca me senti tão bonita em minha
vida como agora.
Ele rasteja sobre mim. Uma de suas mãos desliza pelo meu corpo enquanto seus lábios
encontram os meus novamente. Ele me beija até eu ficar sem fôlego. Até que o sangue
retorne ao seu pau e o pré-sêmen escorra pelo meu estômago, deixando um caminho de
sua excitação.
Seguro sua ereção crescente, e ele estremece acima de mim. Rowan não deixa
nenhuma área de pele intocada ou não beijada. É como se ele quisesse memorizar minha
forma com os lábios. Sua cabeça rola para o lado quando traço meu polegar pela gota de
pré-sêmen e a uso para ajudar minha mão a deslizar mais facilmente em seu eixo.
Rowan desliza um pouco mais para baixo até que sua boca se alinhe com a área
desesperada por ele. Pulo quando ele passa a língua em mim. Faíscas se espalham como
fogos de artifício pela minha pele, e minhas mãos agarram seus grossos cabelos. Ele ri
contra mim, fazendo a melhor vibração contra meu clitóris. Tenho uma experiência fora
do corpo quando Rowan me leva à beira do prazer. Eu o agarro, tentando encontrar algo
que me prenda na Terra.
Seus lábios encontram meu clitóris e ele suga ao mesmo tempo que um de seus dedos
desliza para dentro de mim. Não recebo nenhuma trégua enquanto Rowan impele outro
para dentro. Meu mundo inteiro fica em tecnicolor. Cores explodem atrás dos meus olhos
quando explodo em torno dele. Ele persegue meu orgasmo com um beijo, abafando meus
gemidos como se ele quisesse possuí-los.
Estou tremendo quando desço do alto. Ele desliza o polegar pela minha excitação
antes de traçar meu lábio inferior. — Prove o quanto você me quer.
Minha língua se lança para fora, lambendo meu lábio antes de provocar a ponta de
seu polegar.
Seus olhos se tornam predatórios enquanto ele me vira e me levanta de joelhos,
mudando nossa direção para que eu fique de frente para o horizonte da cidade. Não
tenho certeza para onde olhar. Ele ajoelhado atrás de mim ou as luzes brilhando na minha
frente.
O rasgo revelador da embalagem preenche o silêncio. O calor se acumula na parte
inferior do meu estômago. Minhas palmas pressionam o tapete grosso e respiro fundo
algumas vezes.
O corpo de Rowan pressiona minhas costas, envolvendo-me em seu calor. O calor de
sua respiração envia meus nervos à loucura enquanto ele pressiona a ponta de seu pênis
em mim.
Ele beija a base da minha espinha. — Você não deveria me fazer sorrir ou rir. — Ele
belisca a ponta da minha orelha antes de traçar meus brincos com o dedo. — Você não
deveria trabalhar seu caminho sob a minha pele como veneno sem nenhum tipo de
antídoto. — Ele desliza apenas a ponta em mim. Empurro de volta, mas ele se move
também, me mantendo como refém.
— E você nunca deveria me fazer querer mais.
O calor floresce em meu peito. Suspiro quando ele empurra seu pau em mim com um
empurrão. Meu corpo queima com a intrusão e as lágrimas picam meus olhos.
— Mas agora é tarde demais. — Ele alisa meu cabelo antes de enrolá-lo em sua mão
como uma corda.
Ele puxa. — Você é minha.
Meus braços tremem, mal me segurando. Suas palavras batem contra meu
coração. Rowan pode geralmente não falar muito, mas esta noite ele não vai parar. Cada
palavra desce até minha alma, fundindo os pedaços quebrados que Lance deixou para
trás em seu rastro.
Sua mão aperta meu cabelo com força. — Diga. — Ele bate em mim com tanta força
que deslizo para frente no tapete, queimando os joelhos.
Eu só posso responder com um gemido enquanto ele desliza para fora de mim para
fazer a mesma coisa novamente.
— Diga que você é minha. — Ele desliza até a ponta, deixando-me com uma sensação
de vazio.
— Eu sou sua, — grito. Sou recompensada com outro impulso áspero de seus quadris,
mas desta vez ele roça meu ponto sensível.
A pressão aumenta dentro de mim. O formigamento começa no topo da minha
espinha e chega até os dedos dos pés. Uma das mãos de Rowan agarra meu quadril
enquanto a outra puxa meu cabelo, me forçando a olhar por cima do ombro para ele. A
visão à nossa frente não é nada comparada com a de Rowan se desfazendo enquanto ele
empurra em mim repetidamente. Estou em transe, agarrando o tapete quando tudo que
quero fazer é afundar meus dedos em sua pele e nunca mais soltar.
Esqueça as faíscas. Juntos, somos um inferno furioso tão devastador que estou com
medo de explodir em chamas se tocar nele. É apropriado, tendo em vista que se apaixonar
por Rowan é como brincar com fogo. Um movimento errado pode me
consumir. Arruinar-me. Transformar-me em nada além de cinzas em seu rastro.
Mas quero arriscar me apaixonar de qualquer maneira, na esperança de criarmos algo
lindo juntos. Como um diamante construído sob pressão, com falhas que nos tornam
impressionantes. Quero esse tipo de amor com Rowan. Aquele que é tão apaixonado
como um incêndio e tão duradouro como uma joia.
Uma das mãos, que segura meus quadris, se move para o meu clitóris. Seu polegar
pressiona contra a carne sensível, me empurrando para o doce esquecimento. Rowan se
agarra a mim enquanto mergulha na escuridão atrás de mim.
Ele é perfeito. Somos perfeitos. Tudo é tão perfeito, tenho medo de dizer qualquer
coisa em voz alta. Isso é mais do que luxúria, mas me recuso a ser a primeira a
admitir. Não importa o quão tentada eu esteja.
40
ROWAN

A mão de Zahra estremece contra a minha.


— Você vai me dizer para onde estamos indo?
— Se eu te contasse, não seria mais uma surpresa.
Ela arruma o cachecol sobre o rosto. Seu corpo inteiro treme apesar de eu ter
emprestado a ela meu único casaco porque Ani trouxe uma jaqueta jeans para ela.
Os dois pompons no topo de seu gorro balançam enquanto ela me segue pela rua
movimentada. — Essa surpresa inclui algo quente para beber? Eu mal posso sentir meus
dedos dos pés.
— Isso porque seus tênis não são feitos para este clima.
— Eu não acho que minha irmã tinha ideia de como fica frio aqui. — Ela esfrega as
mãos enluvadas.
Eu deveria ter comprado roupas de inverno melhores para ela enquanto estávamos
aqui. Ela está tremendo como uma folha e temo que vá voar com a próxima rajada de
vento.
— Você não está pronto para um inverno em Chicago se acha que está frio.
— Eu não sabia que esperava um inverno em Chicago.
Bato um de seus pompons. — Você é meu par para a gala da véspera de Ano Novo.
— Que tipo de pessoa egoísta dá uma festa de gala no Ano Novo? As pessoas não
gostam de passá-lo com suas famílias?
— Claro, se eles têm noventa anos e estão em uma casa de repouso. — Pego sua mão
e atravesso a rua com ela. Apesar de sua jaqueta néon, não confio nela para não ficar presa
no trânsito porque ela está maravilhada com todas as luzes e pessoas.
— Você alguma vez pergunta antes de ordenar? Primeiro, a vinda para Nova
York. Agora é a gala de ano novo. Eu tenho escolha quando se trata de você?
— Certo. Esta noite você pode decidir como quer fazer sexo primeiro. — Sorrio. Os
músculos do meu rosto parecem mais soltos desta vez, como se finalmente estivesse me
ajustando a esse tipo de gesto.
Ela bate no meu braço com a ponta do cachecol. — Como você é generoso.
— Vamos. Estamos quase lá. Só mais uma rua depois.
Chegamos ao Rockefeller Center. Uma multidão de pessoas rodeia a enorme árvore
deslumbrante com luzes multicoloridas.
Zahra estica o pescoço para trás para dar uma olhada na árvore de vinte e cinco metros
de altura. — Uau. Isso envergonha a árvore da Dreamland!
Estou tentado a fazer a próxima árvore da Dreamland tão gigantesca quanto esta para
deixá-la tão feliz.
Envolvo meu braço em torno dela e a coloco ao meu lado. — O que você acha?
— Que esta é a coisa mais próxima que temos da magia. Sério, como eles encontram
uma árvore tão grande? No polo Norte?
Engasgo com uma risada. — Mais como em algum lugar em Connecticut.
— Que jeito de arruinar o sonho. — Zahra encara as luzes enquanto olho para
ela. Nunca me importei com tradições tolas, como visitar a árvore Rockefeller, mas ver
Zahra sorrir ao experimentar coisas novas revive uma parte danificada de mim. Isso me
faz querer encontrar outras coisas que a surpreenderiam, apenas para recriar o mesmo
tipo de olhar maravilhado em seu rosto.
Estou ferrado. Absolutamente perdendo minha maldita mente.
Seus olhos se iluminam como a maldita árvore quando ela se vira e verifica a pista de
patinação no gelo atrás de nós. — Então, seria muito difícil convencê-lo a patinar no gelo
agora?
Não posso patinar no gelo nem para salvar minha vida. Onde Declan e Cal destruíram
seus times de hóquei da liga secundária, eu preferia passatempos mais criativos. Tenho
uma chance maior de quebrar um dente esta noite do que de transar, mas não me
importo.
— Dê-me seus termos.
Ela revira os olhos. — Tudo é um negócio para você.
Toco seu nariz vermelho. — Você aprende rápido.
Seu sorriso rivaliza com a estrela no topo da árvore.
Sim. Estou extremamente ferrado.
***
— Há uma última coisa que eu quero fazer. — Zahra agarra minha mão.
Flocos de neve caem ao nosso redor, cobrindo nossos casacos e gorros.
— Patinar no gelo não foi suficiente para você?
Ela balança a cabeça. — Podemos dar um passeio pelo Central Park? Por favor?
— Perdi toda a sensibilidade abaixo dos joelhos há cerca de trinta minutos. — Respiro
fundo apenas para provar meu ponto. O ar enfumaçado desaparece na noite.
— Isso é porque você passou mais tempo de joelhos do que patinando.
Meus pulmões queimam de tanto rir. O calor que se espalha pelo meu peito combate
o ar frio.
Ela puxa minha mão na direção errada. — Vamos. É apenas uma caminhada
rápida. Eu pesquisei.
— Não.
— Não seja tão chato. — Seu beicinho, embora fofo, não faz absolutamente nada
comigo.
— Considere-me impassível por sua exibição.
— Por favor? Há uma última coisinha que quero fazer. — Seu lábio inferior
balança. Seus cílios tremem, coletando flocos de neve em seu rastro.
Minha determinação derrete. Seguro sua bochecha queimada pelo vento. Seu sorriso
cresce enquanto arrasto meu polegar para frente e para trás em sua pele congelada.
Droga. Minhas bolas se tornaram oficialmente prisioneiras de guerra.
— Tudo bem. Mas apenas por quinze minutos. Seu nariz está prestes a se desprender
de seu corpo. — Bato a ponta vermelha.
Zahra sorri. Por seu sorriso, eu faria qualquer coisa.
***
Fui um idiota por pensar que quinze minutos era tempo suficiente. Não havia como
arrastar Zahra para fora do parque sem que ela chutasse e gritasse. A única coisa que ela
queria fazer se transformou em duas coisas, e depois em três. Então, antes que eu perceba,
estou fazendo um boneco de neve no meio do Central Park depois de fazer um passeio
de trenó ridículo por todo o lugar.
— Você encontrou os botões? — Zahra solta um suspiro entrecortado. Ela deixa cair
três galhos perto das minhas botas.
Coloco os três pequenos seixos que vasculhei centímetros de neve para encontrar.
— Sim! Perfeito. — Zahra olha para as rochas como se fossem diamantes.
Nunca na minha vida teria considerado construir um boneco de neve tão
divertido. Ver Zahra experimentar a neve pela primeira vez é como estar perto de uma
criança na manhã de Natal. Nunca senti tanta alegria assim antes. Pelo menos não desde
que eu mesmo era criança.
Quero roubar mais das primeiras coisas de Zahra. Qualquer coisa para
recriar aquele sorriso que ela tem enquanto olha para uma pilha de pedras e um boneco
de neve torto. Quero possuir seu sorriso tanto quanto quero possuir todas as outras
partes dela.
Ela ri enquanto rola a cabeça do boneco de neve ao redor, tornando a bola maior a
cada passe.
— Tem certeza de que tem 23 anos? — Provoco.
— Oh, vamos lá. A coisa mais próxima que eu tive de um boneco de neve era um feito
de areia. Deixe-me viver um pouco.
— Lembre-se deste momento quando você acabar presa na cama com uma tigela de
canja de galinha em alguns dias.
— Quem se importa. Estamos vivendo para hoje.
— Isso é ótimo até eu perder nove entre dez dedos congelados.
— Ah, pobre bebê. — Ela agarra minha mão enluvada e beija cada dedo.
— Eu sei de algo um pouco mais baixo que poderia usar um beijo caloroso também.
Uma risada explode dela. Inclino-me e dou um beijo suave na curva de seu pescoço,
muito tentado por sua carne exposta.
Seus olhos esquentam enquanto ela se recompõe. — Vamos, Jack Frost36. Estamos
quase terminando. — Ela passa a mão enluvada em meu zíper, trazendo meu pau à vida.
Zahra tem esse tipo de poder sobre mim. Alguns toques dela, e meu pau está
imediatamente pronto.
***
— Onde diabos você esteve? Você tem me ignorado, — Declan diz no momento em
que atendo sua chamada.
— Eu estive ocupado. — Tranco a porta do meu escritório para o caso de Zahra sair
do chuveiro mais rápido do que o previsto.
— Ocupado fazendo o que exatamente? Agendar sessões de autógrafos em Nova
York por nenhum outro motivo, exceto que você está enlouquecendo?
Meu aperto no telefone fica mais forte. — Como você descobriu isso?
— Sei de tudo o que acontece dentro da empresa, inclusive o fato de você ter tirado
férias pela primeira vez em anos. O que diabos está acontecendo com você?
— É uma longa história.
— Dê-me a versão resumida.
Caio na minha cadeira de couro. — Este é o verdadeiro motivo da sua ligação?
— Não, mas eu quero saber por que você está agindo como um idiota apenas algumas
semanas antes da votação.
— Decidi passar um fim de semana fazendo algo de que gostasse.
— Poupe-me da desculpa esfarrapada sobre Nova York.
— Eu não preciso te dar uma desculpa. Você não é meu guardião.
— Não, mas sou eu que vou colocar algum senso em você quando você claramente
perdeu a cabeça por causa de uma mulher.
Que porra é essa? Ele sabe sobre Zahra? — Quem te disse alguma coisa?
— Eu tenho olhos e ouvidos em todos os lugares, Rowan.
— Pare de mexer nos meus negócios. Se eu quisesse dizer a você o que estava fazendo,
eu contaria.
— Não, você não contaria. Você nunca conta.
Eu rio baixinho.
Ele suspira como se estivesse carregando o peso do mundo em seus ombros. — Estou
preocupado com você.
Reviro meus olhos. — Não fique. — Parece inútil até mesmo dizer isso. Declan pode
agir como um durão, mas sei que tem boas intenções. Seu instinto protetor está enraizado
nele desde jovem.

36 Jack Frost é a personificação da geada e do frio, sendo uma figura lendária élfica pertencente ao folclore do norte da Europa.
— Eu não gosto da ideia de alguma mulher manipulando você para tirar uma folga
tão perto da votação. É suspeito.
Minha mandíbula aperta. — Não vejo como isso é possível quando foi ideia minha.
— Você realmente gosta dela? — Ele ri zombeteiramente.
— Isso é tão difícil de acreditar?
— E pensar que eu considerava você meu irmão mais inteligente. Que decepção.
Meus molares rangem juntos. — Declan, estou no meio de algo, então vá direto ao
ponto da sua ligação ou vou desligar.
— As cartas foram enviadas para o comitê de votação escolhido pelo vovô.
Porra. Este é o último tipo de estresse que preciso. — Alguma palavra sobre quem ele
escolheu?
— Não, mas você precisa se recompor porque todos nós dependemos da sua
apresentação.
— Estou me preparando há meses. Não há como eu não ter esta votação selada.
— Bom. Depois de obter os votos de aprovação, você passará um mês fazendo a
transição do próximo Diretor para a função e ele assumirá o projeto a partir daí.
— Achei que enquanto você estava acertando tudo com sua parte da carta, poderia
ficar aqui e supervisionar o projeto sozinho. — A ideia escapa de mim. Se eu ficar na
Dreamland, terei tempo para trabalhar meus sentimentos por Zahra sem sacrificar nada
no processo.
Se falharmos, volto para Chicago como planejado.
E se vocês não falharem?
O silêncio vindo do lado do telefone de Declan faz minha nuca formigar.
— Achei que você estava brincando. — Ele fala depois de um minuto inteiro.
— Não. Qual é o sentido de eu voltar se você ainda não se casou?
— Você vai me acompanhar e assumir uma parte da minha função de CFO para que
eu possa me concentrar em encontrar minha futura esposa.
Meus dentes rangem. — Dê-me mais seis meses como Diretor. Será menos confuso
para os funcionários ter um Diretor por um ano inteiro.
— Desde quando você se preocupa em confundir os funcionários?
— É meu trabalho me preocupar.
A risada baixa de Declan chega até o pequeno alto-falante. — Não. É seu trabalho
terminar e voltar para Chicago após a votação.
— Vovô disse que eu tenho que ser Diretor por pelo menos seis meses. Mas ele nunca
disse quando eu tinha que sair.
— Estou bem ciente do que o vovô disse. Isso não muda o resultado para você. Já
escolhi o próximo Diretor e ele entrará em contato com sua secretária após a votação.
— Você ainda não é o CEO. Você não pode me forçar a recuar sempre que estalar os
dedos.
— Vamos ser reais. O único motivo pelo qual você está interessado em ficar é por
causa de uma mulher. Você nem gosta da Dreamland, então corte a merda.
Minhas unhas cravam na palma da minha mão. — Não. Isso não é verdade. Na
verdade, gosto deste trabalho.
Ele suspira de uma forma que me lembra de quando éramos crianças e implorei a ele
pela sobremesa antes do jantar. — Rowan, se você realmente deseja ser o Diretor, pode
voltar para a Dreamland assim que eu garantir minha posição de CEO. Até então, vamos
resolver tudo com cada uma de nossas cartas antes de você mudar os planos.
Porra. Coloco-o no viva-voz e passo minhas mãos pelo meu cabelo.
Como vou escolher entre meu irmão e Zahra? Minha angústia sobre a decisão é
ridícula depois de tudo que Declan fez por mim ao longo da minha vida.
Odeio que meu irmão tenha razão. Odeio saber que devo isso a ele, apesar de meus
sentimentos por Zahra. Declan sempre estava lá para mim quando meu pai estava
bêbado ou ausente. Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta, assim como ficava
acordado até tarde me ajudando com o dever de casa, apesar de ter o seu próprio. Inferno,
ele sacrificou uma educação da Ivy League para que pudesse ficar em Chicago para
cuidar de Cal e de mim. De certa forma, ele se tornou uma figura parental quando eu não
tinha uma.
Tudo o que sinto é uma angústia abdominal com a ideia de escolhê-lo em vez de
Zahra. Nada sobre voltar para Chicago parece fácil, especialmente agora.
Você é quem queria algo casual com Zahra. Deixe isso para trás.
Solto um suspiro pesado. — OK.
Espero algum tipo de alívio por concordar com seu plano, mas em vez disso, sinto um
peso enorme pressionando meu peito. Porque, para agradar meu irmão, estou fadado a
magoar a única pessoa que aprendi a me importar.
41
ZAHRA

— Você não pode ir trabalhar assim. — Claire usa uma pinça para jogar minha caixa
de lenços vazia no lixo.
Depois que voltei do aeroporto para casa, meu estado se deteriorou lentamente. Tudo
começou com uma sensação de cansaço até os ossos e evoluiu para passar a noite toda
embalando uma caixa de lenços de papel enquanto dormia. Fui trabalhar ontem, mas
acabei tendo que passar metade do dia trabalhando em casa porque todo mundo ficava
olhando para mim toda vez que assoava meu nariz.
Afinal, Rowan estava certo. Peguei um resfriado porque era teimosa demais para
entrar.
Cubro minha boca com o cotovelo enquanto solto outra tosse úmida. — Eu tenho que
ir. Não temos muito tempo antes do prazo do projeto.
— Um dia de folga não vai fazer muita diferença.
— Mas eu preciso...
Ela balança a cabeça. — Mas nada. Já preparei canja de galinha para você ontem à
noite, depois que ouvi você cortando seu pulmão.
Pressiono a mão contra minha cabeça latejante. — Obrigada.
— É o mínimo que posso fazer. Você se parece com a morte.
— Eu também me sinto assim. — Minha risada se transforma em uma longa série de
tosses. Cada respiração faz meus pulmões queimarem em protesto.
Claire me traz um copo d'água antes de sair para o trabalho.
Pego meu telefone e envio a Jenny um e-mail de desculpas. Ela responde em poucos
minutos, dizendo-me para ficar bem logo e não me preocupar muito com eles.
Abro minha conversa com Rowan. Ele tem estado um pouco desligado desde a nossa
última noite em Nova York. Não tenho certeza se é o estresse do trabalho o afetando ou
talvez o fato de que ele precisa de um distanciamento depois de passar tanto tempo
juntos. Realmente espero que não seja a segunda opção.
Eu: Acho que estou pegando alguma coisa.

Rowan: Eu disse a você que o Central Park não foi a melhor ideia.
Encolho-me. Provavelmente não foi a jogada mais inteligente ficar do lado de fora no
frio, mas as memórias valeram totalmente a pena.
Eu: Mas foi muito divertido.

Rowan: As drogas também. Isso não significa que as pessoas devam usá-las.

Eu: Como você saberia?

Rowan:...

Eu: Tenho a sensação de que você é do tipo engraçado quando está chapado.

Rowan: Não vou confirmar nem negar.

Eu: Tipo criativo?

Rowan: Zahra. Suficiente.


Argh. Ele não está divertido hoje.
Rowan: Você precisa de algum medicamento?

Eu: Acho que sei a cura.

Rowan: Remédio suficiente para tosse para nocautear um elefante?

Eu: Perto, mas não. Assistir ao próximo episódio daquele documentário de crime verdadeiro que começamos no fim de

semana.

Rowan: Minha casa. Esta noite. 18h

Eu: Você está saindo do trabalho mais cedo?

Rowan: Eu queria tirar uma folga de qualquer maneira. Jet lag e tudo.
Jet lag? Okay, certo! Ficamos no mesmo fuso horário e ele sabe disso.
Eu: Sinta-se à vontade para admitir que está começando a gostar de mim a qualquer momento.

Rowan: Essas são as divagações de uma pessoa que toma muito remédio para tosse.
Sorrio. Esse é o homem que conheço e amo.
Amo? Ah, merda. Posso realmente amar Rowan?
Como eu não poderia? Ele é atencioso, reservado e tão doce comigo que me esqueço
completamente de como ele odeia a população em geral. Ele me deixa selvagem da
melhor maneira e faz meu coração disparar sempre que está na mesma sala que eu.
Oh sim. Estou apaixonada por Rowan Kane.
A verdadeira questão é, ele me ama de volta?
***
— Vamos, Zahra. Você tem que comer alguma coisa. — A voz de Rowan soa distante,
como se ele estivesse em um tipo diferente de frequência de rádio.
Empurro seu braço para longe do meu ombro e afundo ainda mais em seus lençóis de
seda. Não estou contando há quanto tempo estou usando a casa dele como barraca de
enfermaria. Tudo que sei é que a cama dele é cem vezes melhor do que a minha e eu
nunca quero ir embora.
Tenho quase certeza de que meus seios nasais compõem três quartos do meu cérebro
agora, e minha narina esquerda não sente oxigênio fresco desde ontem, quando Rowan
me pegou no meu apartamento.
— Zahra. — Ele me vira em direção à borda.
— Vá embora, — murmuro.
Ele me dá um tapinha na testa. Minha cabeça lateja em resposta e estremeço. Abro os
olhos para encontrar uma versão angustiada de Rowan. Nunca o vi assim antes. Seu
cabelo está despenteado e ele tem olheiras roxas.
Rastreio sua barba incomum. — Você precisa se barbear. — Minha voz coaxa antes de
eu soltar uma tosse úmida.
Argh. Nojento.
— Você dormiu durante o café da manhã, almoço e... — Ele verifica as horas em seu
relógio. — Jantar. É hora de colocar um pouco de comida em você antes de desmaiar. —
O raro tom agudo de sua voz faz minha cabeça latejar mais forte.
— Shh. Fale mais baixo. — Coloco um dedo contra seus lábios. — Me acorde em
outra... — Minha frase é cortada pelo meu corpo tentando expelir um dos meus pulmões
pela garganta.
— Aqui. Tome um gole de água. Por favor. — Sua voz falha. Ele praticamente enfia o
canudo de metal na minha boca.
Tomo um gole. — Feliz agora?
Ele franze a testa. — Não.
— Eu sinto que estou morrendo.
Seu aperto em meu queixo aumenta. — Não seja dramática. Você tem um resfriado.
É preocupação que ouço em sua voz?
— OK. — Viro-me e dou minhas costas a ele. — Estarei de pé em uma hora. Eu
prometo. — Vou chamar um médico para ver como você está.
— Os médicos ainda atendem em casa?
— Pelo preço certo.
Tusso de novo, mas este não para. Meu peito estremece com a intensidade disso. Sinto
uma pontada aguda de dor me cutucando nos pulmões e preciso de cada grama de
energia para respirar.
Sua mão acariciando meu cabelo congela. — Merda. Eu volto já.
Rowan dá um beijo na minha testa antes de puxar o telefone do bolso e sair da
sala. Seus murmúrios chegam até a porta, mas é preciso muito esforço para ouvir sua
conversa.
Fecho os olhos e me entrego à escuridão que me puxa para baixo.
***
Acordo com alguém abrindo minhas pálpebras e apontando uma lanterna para meu
rosto. Tento colocar algum espaço entre nós, mas só acabo caindo sobre meus cotovelos
trêmulos.
— Ela já está doente há três dias seguidos.
— Três dias?! — Lamento o grito alto assim que sai da minha boca. Minha cabeça e
meus pulmões trabalham, revoltando-se contra mim uma tosse de cada vez. A pulsação
se intensifica quanto mais eu tusso.
— Na minha opinião profissional, ela precisa ser levada a um hospital.
— Hospital? — Rowan e eu falamos ao mesmo tempo. Ele praticamente cospe a
palavra.
Olho para ele. Ele parece quase tão mal quanto eu, com a barba por fazer cobrindo
seu rosto. As bolsas sob seus olhos se destacam ainda mais agora por causa de como seus
olhos estão vermelhos. Ele parece que vai desmaiar a qualquer segundo.
Meu peito dói por uma razão totalmente diferente da minha doença.
O médico se levanta e arruma sua maleta médica. — Ela está gravemente desidratada
e precisa de cuidados médicos adequados.
— Mais alguma coisa que você sugere?
— Com base nos sintomas que você descreveu e no que vejo e ouço, é provavelmente
algum tipo de pneumonia viral. Seus tecidos estão cobertos de muco verde e ela está com
febre. Se você não a levar ao hospital esta noite, ela vai acabar na parte de trás de uma
ambulância em breve.
Pneumonia? Merda. Não. Isso parece assustador. A única pessoa que conheço que
pegou pneumonia foi um amigo dos meus pais e ele não sobreviveu.
Tenho vontade de chorar, mas acho que não tenho água suficiente no corpo para
produzir lágrimas. Suei tudo no segundo dia.
Enquanto Rowan acompanha o médico, sento-me e tateio em busca do meu
telefone. Devo ligar para meus pais e informá-los sobre o quão doente estou. Exceto que
não consigo encontrar meu telefone em qualquer lugar entre os lençóis ou na mesa de
cabeceira.
Deixei no banheiro? Deslizo para fora da cama e fico com as pernas fracas. Minha
caminhada até o banheiro rouba toda a minha energia e a sala gira.
Agarro a maçaneta para estabilidade e empurro a porta aberta. Minhas pernas cedem
ao mesmo tempo e tudo o que vejo é preto.
42
ROWAN

Dispenso o médico e fecho a porta da frente.


Pneumonia? Como diabos Zahra passou de fazer anjos de neve no Central Park há
menos de uma semana para um caso desagradável de pneumonia? Ela passou das
fungadas para acamada mais rápido do que já vi alguém se deteriorar.
Algo batendo no chão faz o teto vibrar.
— Zahra? — Subo as escadas correndo e abro a porta do quarto no final do corredor. O
ponto de pulsação no meu pescoço lateja em uma batida perversamente rápida enquanto
entro no quarto vazio. Os lençóis não passam de uma bagunça aleatória, vazia da mulher
gravemente doente que deveria estar dormindo.
Meus olhos se voltam para a porta do banheiro.
— Merda! — Não penso. Não respiro. Faço nada além de correr em direção a um par
de pernas bronzeadas que espiam do batente da porta. Meus joelhos batem no mármore
ao lado de uma pequena poça de sangue.
— Zahra? Zahra! Você está bem? — Minha voz coaxa.
Arrasto seu corpo inútil em meus braços. Com a mão trêmula, tiro o cabelo de seu
rosto. Ela está pálida. Muito pálida. Como se a vida dela tivesse sido drenada de alguma
forma dentro dos cinco minutos que fui conduzir o médico até a porta. Tenho certeza que
um pedaço do meu coração congelado se parte imediatamente.
Ela não responde e seus olhos permanecem fechados. Seu peito sobe e desce com sua
respiração superficial, e eu expiro lentamente, aliviado por ela estar respirando. Um
rastro de sangue escorre de um corte feio no topo de sua testa.
Tenho cuidado para não empurrá-la enquanto procuro meu celular no bolso e ligo
para o 911. Eles fazem muitas perguntas, e estou sem respostas, exceto para dizer-lhes
para chegar aqui rápido.
— Zahra. — Pego uma toalha de mão a uma distância do braço e pressiono contra seu
ferimento na cabeça.
Ela não estremece. Não pisca. Não faz nada além de ficar ali em meus braços, ausente
de tudo o que a torna tão ela.
O sorriso dela. A risada dela. Suas bochechas coradas constantemente sempre que
estou por perto.
Meu peito aperta. — Zahra! — Aperto seu corpo contra o meu, esperando que algo a
desperte, mas encontro o silêncio. Sua exalação suave é a única coisa que me impede de
perder o controle.
— Zahra. Acorde! — Uma gota cai em sua testa. Olho para o teto, mas não encontro
nada vazando. Outra gota respinga em seu rosto, escorrendo para a trilha de sangue.
Demoro um segundo para perceber que a água está vindo de mim. Minhas lágrimas.
Sempre chorando como uma garotinha. A voz ofegante de meu pai desliza em meu
ouvido.
— Vamos, Zahra. Acorde. — Agito seu corpo.
Ela geme enquanto alcança sua cabeça, mas eu a empurro para fora do caminho.
— Graças a Deus, porra. — Não consigo entender o que quer que seja que sai de sua
boca. Há uma mistura de palavras incoerentes que só aumentam a minha preocupação
de que ela fodeu com a cabeça com a queda. Nada faz sentido, e estou preocupado em
ter agravado ainda mais o ferimento na cabeça quando a sacudi.
— Porra! — Deixo cair a toalha e aperto-a com mais força no meu peito.
Eu a machuquei? Em meu desespero, não pensei. Não considerei os prós e os contras
de mover seu corpo. Reagi e perdi o controle, mais uma vez.
O sangue dela penetra na minha camisa, pegajoso e grudento. Meu corpo inteiro
treme enquanto a seguro.
O que diabos eu estava pensando sacudindo seu corpo assim? Ela já tem um ferimento na
cabeça.
Porra. Essa é a coisa. Não estou pensando. Permiti que minhas emoções já inúteis me
atingissem.
Ela chia, transformando uma tosse em um ataque de tosse.
O som das sirenes se aproxima. Só então as lágrimas param de cair.
***
Nunca andei de ambulância, mas minha pele permanece permanentemente úmida
durante toda a viagem, enquanto os paramédicos trabalham para estabilizar a condição
de Zahra. Zahra está um tanto coerente, respondendo a algumas perguntas de olhos
fechados.
Zahra estremece quando eles colocam um curativo em sua testa. Os bipes do monitor
se tornam mais erráticos, um staccato combinando com a batida do meu coração.
Sua dor me dá vontade de ficar com raiva. Atirar merda e gritar porque sinto que tudo
isso é culpa minha. Eu não deveria tê-la deixado sozinha enquanto ela estava meio
lúcida. Inferno, se tivesse dito não para metade das merdas que fizemos em Nova York,
poderíamos nem estar nesta posição.
É assim que meu pai se sentiu quando minha mãe foi levada às pressas para o hospital
repetidas vezes? Esse desespero ardente para fazer algo, mas ainda assim a incapacidade
de consertar alguma coisa?
O pensamento é péssimo. Como pude ser tão idiota? De boa vontade, tornei-me como
meu pai, cedendo a todos os caprichos de uma mulher até que ela assumisse o controle
de todos os meus pensamentos e influenciasse minhas ações. Reorganizei minha agenda,
tirei noites de folga para participar de eventos de mentoria e saí de férias quando deveria
estar trabalhando. Porra. Estava até disposto a desistir do meu futuro como CFO para
ficar com ela na Dreamland.
O que diabos está errado comigo?
A verdade é que fiquei mole e facilmente influenciado por ela. E para quê? Para me
sujeitar de bom grado a esse sentimento de impotência?
Foda-se isso. Absolutamente desprezo o que quer que esteja causando estragos em
minha cabeça e coração. Se nunca mais sentir isso, me considerarei eternamente grato.
É por isso que eu deveria ter ouvido meu instinto quando conheci Zahra. Havia algo
sobre ela que me alertou para longe, mas não prestei atenção suficiente.
Um tremor percorre meu corpo, mas a adrenalina ainda correndo por mim não me
deixa ceder à exaustão.
As portas se abrem e sou empurrado para fora do caminho enquanto eles levam Zahra
através do compartimento do Pronto-Socorro. Sinto como se estivesse tendo uma
experiência fora do corpo ao passar pelas portas de correr. Sinto um cheiro desagradável
de limpador antisséptico.
Estou funcionando no piloto automático, perdendo completamente a enfermeira
chamando minha atenção.
— Você é da família? — Ela bate no meu ombro de novo, me puxando de qualquer
lugar para onde minha mente esteja sempre vagando.
— O que?
— Família ou amigo? — Seus lábios se apertam.
— Noivo. — Já vi programas de TV o suficiente para saber como funciona por aqui.
Ela me dá uma varredura rápida como se pudesse detectar minha mentira, mas ela
balança a cabeça de forma chocante.
— Tudo bem. Siga-me. — Ela me leva para uma sala de espera. O linóleo descascado
e a luz fluorescente piscando em um canto aumentam o aperto no meu peito. Há algumas
pessoas sentadas em cantos diferentes da sala.
Minhas mãos tremem. Não vou a um hospital desde o acidente do meu avô. E antes
disso, a morte da minha mãe. Hospitais e eu temos um histórico ruim e uma baixa taxa
de sucesso. E agora, é um lugar onde meu presente e meu passado colidiram.
A enfermeira vai embora, mas chamo por ela.
— Eu quero que minha noiva seja colocada em um quarto privado, — deixo escapar.
Ela olha para sua prancheta. — Uma vez que ela estiver estabilizada, isso depende de
sua apólice de seguro. Ela está no seu plano?
Minha mandíbula aperta. Não tenho ideia de que tipo de seguro Zahra tem, muito
menos se eles permitem quartos privados.
Conhecendo os planos de seguro de seus funcionários, você realmente espera algo mais?
Meu egoísmo sempre volta para me morder na bunda. E a pior parte é que está apenas
começando.
43
ZAHRA

— Ani, você pode desligar o alarme?


Bip. Bip. Bip.
— Ani.
O mesmo bipe incessante continua. Abro os olhos e fico cara a cara com um monitor
cardíaco. Endireito-me na cama e meu peito dói em protesto.
Fico olhando para o IV embutido sob a pele da minha mão esquerda enquanto tento
vasculhar minhas memórias. A última coisa de que me lembro é de ir à casa de Rowan
para assistir TV na cama.
Então, como vim parar aqui? Meus dedos traçam o tubo transparente que leva direto ao
meu nariz. Sigo a linha com meus olhos, pousando em um tanque de oxigênio.
— Ela está acordada. — A voz rouca de Rowan me fez virar minha cabeça em direção
ao som.
Ele desliga o telefone e o enfia no bolso. O olhar em seu rosto causa arrepios em minha
pele. Isso me lembra de como ele costumava me olhar antes de tudo mudar entre nós, e
odeio isso.
— Não se mova. — Ele se levanta e dá um passo em direção à cama.
— O que está acontecendo? — minha voz coaxa. Cada palavra exige muito esforço
que luto para produzir.
Ele enche um pequeno copo de plástico e o passa para mim. — Você está no hospital.
Tomo um gole de água antes de falar. — Eu percebi isso. Mas como vim parar aqui?
Seus lábios permanecem em uma linha reta. Ele parece esfarrapado e cansado de uma
maneira que nunca vi, com a barba por fazer e bolsas sob os olhos. Pisco para sua camiseta
enrugada da loja de presentes do hospital.
Tudo nele está errado.
Aliso o cobertor que me cobre. — Você está bem?
— Eu vou estar. — Ele diz a declaração com absoluta determinação. Quero acreditar,
mas ele não consegue nem me olhar nos olhos.
Arrepios explodem em meus braços. — Quer me dizer por que estou aqui?
Parece que passou um minuto inteiro antes que ele finalmente olhasse para mim. —
Você estava desidratada, sangrando pela cabeça e provocando o destino. Você tem sorte
de estar nesta cama, e não no necrotério.
— Necrotério? Isso é drástico para alguns pontos e um resfriado. — Minhas
sobrancelhas se juntam e sou atingida por uma dor aguda no topo da minha cabeça. Toco
no local. Meus dedos pairam sobre um Band-Aid gigante.
Sua mandíbula aperta. — Não toque. Com sua boa sorte, você vai puxar um ponto e
sangrar por todo o seu vestido novo. — Ele afasta minha mão com uma gentileza que não
combina com seu tom.
— Como eu acabei levando pontos?
Ele acaricia minha bochecha com o polegar. — Eu encontrei você desmaiada no meu
banheiro depois que bateu a cabeça no chão.
— Oh meu Deus. — Meus pulmões doem, tornando difícil respirar
normalmente. Estremeço com a sensação de queimação.
— O que doí?
— A verdadeira questão é o que não doí. — Balanço minha cabeça e me arrependo.
— Não faça isso.
Esfrego meus olhos. — Não acredito que acabei aqui.
Ele fica mais alto. — O médico disse que você vai voltar para casa no final da semana.
— Que dia é hoje?
— Sexta-feira.
— Sexta-feira?! — Acabo tossindo depois da minha explosão.
Como já é sexta-feira? O último dia de que me lembro bem é segunda-feira, quando tive
que ligar dizendo que estava doente.
— Você está entrando e saindo da consciência por causa da febre e depois por causa
do ferimento na cabeça.
— Há quantos dias estou aqui?
— Dois. Eles querem mantê-la aqui para observação antes de deixá-la ir para casa.
Esfrego meus olhos. — Isso tudo parece tão caro.
Suas narinas dilatam. — A única coisa com que você precisa se preocupar é em
melhorar.
— Isso é fácil para você dizer. Não posso pagar qualquer tipo de franquia que inclua
oxigenoterapia e pernoites no hospital. — Mexo-me na cama, mas Rowan coloca a mão
no meu ombro, me parando.
A escuridão atravessa seu rosto. — Já está pago.
Meu orgulho murcha com a ideia de ser tão insegura financeiramente que ele precisa
pagar minha conta médica. — Não sei como retribuir.
Sua mandíbula inteira aperta. — Eu não preciso do seu dinheiro.
— Está tudo bem? — Minha voz é um sussurro rouco.
Ele solta uma exalação profunda. — É bom você ser mais coerente.
Isso não foi uma resposta à minha pergunta, mas tenho medo de perguntar mais. Ele
fica tenso quando pego sua mão.
— Lamento que você tenha que passar por tudo isso. Não consigo imaginar o quão
assustador foi para você.
A veia em sua testa pulsa. — Fiquei apavorado, Zahra. Eu encontrei você mal
respirando, com muito sangue saindo da sua cabeça. E quando eu fiz você acordar, você
estava falando algo sem sentido. Achei que você tivesse um dano cerebral permanente. —
Sua voz falha. — Os poucos minutos antes da ambulância chegar à minha casa foram os
mais assustadores da minha vida e eu não pude fazer nada para consertar. — A maneira
como sua voz falha faz meu coração estilhaçar com ele.
— Eu realmente sinto muito. Eu nem me lembro de ir ao banheiro.
— Pare de se desculpar. Você parece ridícula. — Ele solta minha mão e me dá as
costas. Suas costas tremem quando ele solta um suspiro profundo.
— Menos o incrível?
Sua exalação pesada é a única resposta que recebo.
Respiro fundo para me acalmar, mas acabo ofegando. — Tem certeza de que está
bem?
— Pare de se preocupar comigo e economize energia para o que importa.
Mas você é importante, quero dizer. Mas as palavras ficam presas na minha garganta,
contidas por essa preocupação de que algo não está certo entre nós.
A máquina de monitoramento da frequência cardíaca trai meus nervos.
Rowan se vira e olha para a máquina. Sua mandíbula trava e a veia em sua têmpora
reaparece. — Falo sério, Zahra. Relaxe.
— Você vai ficar enquanto eu durmo? — Me sinto patética por perguntar.
Ele permanece em silêncio.
O ácido se agita no meu estômago e sobe pela minha garganta. O que aconteceu
enquanto eu estava descansando? É como se o homem com quem passei todo o fim de
semana em Nova York se foi, substituído por esta versão fria. Isso me lembra de como
Rowan era quando o conheci, o que me dói mais do que gostaria de admitir.
Ele aperta minha mão uma vez antes de se sentar à minha frente. — Eu vou ficar.
Ofereço-lhe um pequeno sorriso, que ele retribui com um sorriso forçado.
A máquina de bipes preenche o silêncio. Cada respiração está sobrecarregando minha
energia e perco a batalha contra a consciência. A escuridão me engole inteira, com
preocupações e tudo.
44
ZAHRA

— Uno! — Ani joga os braços para o alto, exibindo uma carta selvagem. Com base em
Rowan jogando sua pilha de cartas para baixo, ele fez o mesmo.
Por mais que eu ame Rowan passando tempo com minha irmã, sua intenção é
clara. Ele a está usando como um amortecedor para evitar falar comigo. Sempre que
minha família vem me visitar, ele mergulha em uma conversa fiada. É altamente suspeito,
mas estou cansada demais para falar com ele sempre que estamos sozinhos novamente.
O silêncio termina hoje. Nunca vou melhorar de verdade se estiver preocupada com
nosso relacionamento.
Apesar da forma como meu peito se contrai por ele me ignorando, não posso deixar
de sorrir com a forma como ele trata minha irmã. Nunca pensei que ele iria se relacionar
com ela durante seu tempo como seu mentor. O vínculo deles é realmente especial, e isso
faz meus olhos lacrimejarem ao observá-los.
Rowan é perfeito. Nunca pensei que conheceria um homem como ele. Era para ser
casual, mas evoluiu para muito mais. Desde ele saindo do trabalho para ficar ao meu lado
no hospital até ele planejando uma sessão de autógrafos só para me deixar feliz, suas
ações gritam mais.
Se pudesse descobrir o que o está incomodando, porque sua evasão só está
aumentando o meu estresse.
A enfermeira entra na sala e verifica meus sinais vitais. Ela faz algumas perguntas e
escreve informações no quadro branco em frente à minha cama.
— O médico deve passar por aqui em breve para ver como você está. Você está
respondendo bem aos antibióticos, o que significa que pode conseguir sair daqui esta
noite. — A enfermeira sorri e sai da sala.
O calor que escoa pelo meu peito é rapidamente substituído por um calafrio. A
mandíbula de Rowan aperta enquanto ele olha para a porta fechada.
O telefone de Ani toca. Ela olha para a tela antes de sorrir para mim. — Eu preciso
ir. JP está esperando no estacionamento com sua mãe. — Ela sorri para Rowan antes de
me dar um beijo no topo da minha cabeça.
— Divirta-se! — Grito antes de tossir.
Ani balança a cabeça. — Bruta.
Coloco minha língua para fora.
Ani sorri para Rowan quando ela se despede, e ele a devolve com um dos seus. Eu
não deveria sentir ciúme de quão doce ele é com ela, mas fui privada de sua bondade
desde que fui internada no hospital.
Enfio minhas mãos trêmulas sob o cobertor para esconder como me sinto. — Está tudo
bem? Mesmo?
Seu sorriso tenso não alcança seus olhos. — Vai estar.
O que isso significa? Quero mantê-lo como refém até que ele me dê uma resposta
honesta.
— Você ainda está chateado com o que aconteceu em sua casa?
Ele faz um barulho no fundo da garganta. — Não.
— Então o que está acontecendo? Diga-me algo mais do que algumas palavras
amarradas. Algo aconteceu e, a menos que você seja aberto comigo sobre isso, não posso
consertar. — Minha voz falha, revelando o quanto realmente estou empenhada.
Seus olhos suavizam. — Não há nada para consertar. Você precisa se concentrar em
melhorar, e não em nós.
— Ainda existe um nós? — Expresso a única pergunta que tenho evitado desde que
acordei neste lugar.
Sua garganta balança e seus olhos deslizam em direção à janela. — Eu... você —
Rowan tropeça em suas palavras.
Oh Deus. Ele está hesitando? Ele nunca hesita.
— Eu preciso que você me diga o que está te incomodando. Agora. — Estou sendo
firme. Já estou farta de respostas enigmáticas e meias-verdades. O que quer que Rowan
tenha a dizer, sou uma garota crescida. Posso lidar com ele e muito pior.
— Podemos conversar sobre isso quando você estiver em casa...
— Corta essa merda, Rowan. Qual é o seu problema?
Suas sobrancelhas sobem com o meu tom. — Você quer saber qual é o meu problema?
Concordo.
— Você. Toda essa maldita situação. — Ele joga os braços na minha direção.
Meus músculos travam. — O que você quer dizer?
— Nós deveríamos ser algo casual. Algo divertido. Isso não está nem perto do que eu
quero ou preciso na minha vida. Tenho uma empresa para administrar, um parque para
supervisionar e um monte de merda para resolver. As pessoas dependem de mim, e estou
preso em ter certeza de que você está bem porque me sinto responsável.
Estremeço.
Ele continua como se não estivesse batendo em meu coração com uma marreta. — Eu
nunca pedi para bancar o seu namorado zeloso. Esse não é o homem que eu sou.
Meus pulmões protestam com minha inspiração aguda. — Você... você não pode estar
falando sério.
Temos uma conexão, não importa o quanto ele tente negar. Claro, embora possamos
não ter um rótulo oficial, temos algo especial.
Ele limpa a garganta. — Nós nos encontrarmos e sairmos para um par de encontros
deveria ser uma maneira de passar um tempo na Dreamland para mim.
— Passar um tempo. — Como ele ousa minimizar o que temos assim.
Ele fecha os olhos. — Perdi a noção do que é importante.
E você não é importante. Não precisa ser dito, mas está escrito em seu rosto. Pequenas
fissuras em meu coração se espalham, rachando com cada palavra dolorosa que ele solta
como uma faca invisível.
— Nunca tiro folga do trabalho - nem mesmo no Natal. Mas me senti obrigado porque
você se machucou na minha casa. Até adiei reuniões importantes e acabei com uma
tonelada de papelada porque...
— Porque o que? — Diga que você se importa. Diga que você me quer de qualquer
maneira. Diga que você pode estar com medo, mas algumas coisas na vida valem o risco.
Diga qualquer coisa, menos nada.
Ele se levanta, olhando para mim com uma expressão semelhante às que ele tem
durante as apresentações chatas. Nunca me senti tão insignificante - nem mesmo quando
Lance me deixou. Realmente pensei que Rowan e eu tínhamos algo especial. O tipo de
conexão para sempre que esperava por toda a minha vida.
Eu estava tão errada.
Solto uma risada amarga. — Não sei o que é mais patético - o fato de você negar o
quanto se preocupa comigo ou a forma como estou realmente surpresa com tudo isso.
Nada além de máquinas zumbindo preenchem o silêncio entre nós, combinando com
a batida rápida do meu coração.
Balanço minha cabeça. — O problema não é trabalho. E definitivamente não somos
nós mudando de casual para mais, que é sua própria culpa quando você continuou
fazendo coisas que mostravam que se importava. Você me fez acreditar em uma
fantasia. Você me fez querer mais.
Seu olhar vazio envia outro arrepio pela minha espinha. — Eu sempre quis manter as
coisas casuais. Isso foi o que combinamos.
— Bem, você fez um trabalho realmente péssimo nisso. Você não
precisava desempenhar o papel de um namorado zeloso porque já estava agindo como um!
Ele dá um passo para trás com a minha explosão.
Respirar dói, mas não me importo. — Cada decisão que você tomou até este ponto foi
porque você se importa. Porque, no fundo, acho que você me ama, embora esteja com
muito medo de admitir. — Minha voz falha e solto um chiado porque meus pulmões
lutam para cooperar.
— O amor nunca foi uma opção. Se eu fiz você acreditar o contrário, peço
desculpas. Eu nunca iria sujeitar você a esse tipo de crença errônea quando estou prestes
a voltar para Chicago.
Ele poderia muito bem ter me dado um tapa.
— O que?
Ele olha pela janela idiota novamente. — Um novo diretor assumirá Dreamland no
final de janeiro.
Se eu não estivesse conectada a uma máquina de oxigênio, não tenho certeza se seria
capaz de respirar sozinha. — Você... — grito. — Você sabia disso o tempo todo em que
estivemos juntos?
Não. Ele não poderia saber. Tenho certeza que ele teria dito algo sobre isso. E o plano de
renovação do aniversário? Não entendo por que ele gastaria meses de seu tempo em um
projeto dessa escala para nada.
— Sim.
— Você considerou ficar mais tempo… — por nós?
Rowan parte meu coração de novo quando ele balança a cabeça. — Eu sempre quis
voltar.
Você é uma idiota, Zahra. Ele está escondendo tudo isso de você desde o primeiro dia. Fungo,
tentando conter as lágrimas que ameaçam estourar.
— Não foi isso que eu perguntei, e você sabe disso. Pare de brincar com seus jogos
mentais e me diga a verdade.
Sua mandíbula aperta. — Meus sentimentos pessoais sobre o assunto são irrelevantes.
Fico olhando para as minhas mãos trêmulas. — Por que você está voltando? — Por
que você está desistindo de nós porque está com medo?
— Meu futuro está em Chicago.
Parece que Rowan agarrou meu coração com seu punho frio e o arrancou do meu
peito. — Assim você diz. — Minha voz falha.
Deus. Como pude me apaixonar por Rowan, apesar de saber, no fundo, o tipo de
homem que ele era?
Os músculos de sua mandíbula se tornam mais pronunciados. — Eu me arrependo de
machucar você. Isso tudo foi um erro.
Um erro. Acho que uma faca no coração seria menos cruel do que essa conversa. Eu é
que cometi um erro. Pensei muitas coisas esperançosas, mas acima de tudo, pensei que
Rowan me amava o suficiente para enfrentar os demônios que o prendiam. Mas isso não
é um conto de fadas. A mudança não acontece por mágica porque alguém jogou pó de
fada para o alto ou fez um desejo a uma estrela cadente.
Não. Não é assim que funciona a vida real. As pessoas precisam se esforçar para se
consertar e, embora tenha feito isso, Rowan não o fez. Ele está com muito medo. Muito
egoísta. Muito consumido por sua vontade de mais, sem nem mesmo perceber o que
exatamente ele quer mais. Achei que queria mais de mim, mas apostei em algo de faz de
conta.
— Sinto muito por machucar você. — Sua voz cai para um sussurro.
O nó na garganta se torna uma coisa viva, respirando, bloqueando minha capacidade
de respirar. — E eu sinto muito por ter pensado que você era melhor do que o homem
egoísta e cruel que todos rotulam você.
Ele se encolhe. É o primeiro sinal de emoção real e crua que vejo nele hoje.
Ele desvia o olhar e acena com a cabeça. — Eu vejo.
Uma lágrima me trai, deslizando pela minha bochecha. Retiro-a. — Vou encontrar
uma maneira de retribuir tudo porque não quero mais ter nada a ver com você ou com
seu dinheiro. Mesmo que demore a vida inteira para pagar este maldito quarto, eu o farei.
Sua garganta balança. — Eu não quero...
Corto-o antes que ele possa afundar suas garras ainda mais em meu coração. — Estou
me sentindo cansada de repente.
Ele concorda. — Claro. Nunca quis te incomodar enquanto você está se sentindo
assim.
Não digo nada.
— Você quer que eu fique até seus pais voltarem? — Ele olha para a cadeira mais
próxima da minha cama.
— Não. Prefiro ficar sozinha, mas obrigada por tudo de novo. — Minha voz está fria
e retraída - uma combinação perfeita para ele.
— Mas...
É imaturo, mas viro minhas costas para ele e para a porta. Não quero mais
falar. Tenho muito medo de perder o controle na frente dele. Lágrimas escorrem pelo
meu rosto, criando uma mancha úmida no meu travesseiro.
Rowan solta um suspiro profundo. Seus passos correspondem à batida do monitor
cardíaco.
Pulo quando sua mão roça em meu cabelo.
Ele pressiona seus lábios contra o topo da minha cabeça. — Você merece o mundo e
muito mais.
A porta do meu quarto se fecha, deixando-me para trás com nada além de máquinas
que apitam e meus soluços dolorosos para me fazer companhia.
45
ROWAN

Saio do quarto de hospital de Zahra com a garganta apertada e uma sensação de


queimação no peito. Machucá-la era a última coisa que queria fazer, mas é
necessário. Amá-la não é uma opção. Tenho muito em jogo e não tenho flexibilidade
suficiente para tê-la e o estilo de vida que passei minha vida inteira perseguindo. Ganhar
minhas ações da empresa precisa estar em primeiro lugar. Se não por mim, então pelos
meus irmãos.
Zahra pode não ver do meu jeito, mas isso é tudo para o melhor. Nunca tivemos um
futuro nos últimos dois meses, e teria sido cruel para nós dois continuar perseguindo algo
que tinha uma data de término. Não percebi o quanto meus sentimentos estavam se
desenvolvendo até que a encontrei sangrando no meu banheiro. Quebrar seu coração era
inevitável. Mas achei meu timing menos cruel do que enganá-la porque queria mais
tempo antes de deixar Dreamland para sempre.
Esta foi a escolha certa, não importa o quão difícil pareça agora. Se decisões difíceis
fossem fáceis, todas as tomariam. Esses são os tipos de escolhas que me tornam bom em
meu trabalho.
Isso é o que digo a mim mesmo quando saio do hospital, apesar da sensação de peso
pressionando meus pulmões.
***
Pela quarta vez esta noite, viro meu corpo e tento encontrar uma posição
confortável. Já se passaram três dias desde o hospital e tive talvez dez horas de sono no
total.
Pego meu telefone da mesa de cabeceira e verifico a hora.
Três da porra da manhã.
Se não conseguir ter uma noite inteira de descanso, estarei exausto no final da
semana. E com a votação se aproximando rapidamente, não tenho tempo para essa
merda.
Pego um travesseiro e o puxo contra o peito. Ainda cheira a perfume de Zahra, e me
sinto um idiota pressionando-o contra meu rosto e dando outra cheirada.
O aperto no meu peito volta com maior força.
Você é quem queria isso. Pense em seu objetivo final.
Mas de que adianta uma meta final se não me sinto feliz quando tudo está decidido?
Meu sangue esquenta em minhas veias e lanço o travesseiro pelo quarto. Ele pousa
com um baque suave perto da porta. Em vez de me sentir aliviado, parece que alguém
está apertando minha garganta.
Nada faz com que a sensação de desconforto vá embora. Todas as minhas táticas de
racionalização falham e estou parado olhando para o teto, me perguntando se fiz a
escolha certa. Com certeza não parece.
Nem um pouco.
***
Achei que poderia conseguir informações de Ani sobre a recuperação de Zahra, mas
ela está me ignorando. Cada texto que enviei a Ani ficou sem resposta. Estou ficando um
pouco louco, já que Zahra tirou uma semana inteira de folga depois que teve alta do
hospital.
Só quero saber se Zahra está se sentindo melhor. Mas Ani não apareceu no nosso
ponto de encontro habitual ontem à noite, e fiquei parado comendo meu pretzel e o
dela. O efeito cascata de minhas ações está começando a me atingir como um tsunami.
Recorri a perseguir minha buddy em seu local de trabalho porque odeio o fato de que
ela está com raiva de mim. Se fosse outra pessoa, eu não me importaria. Mas Ani cresceu
em mim durante meu tempo na Dreamland.
— Ei. — Toco no ombro de Ani.
Ela fica tensa antes de se virar. — Oi. Posso ajudá-lo a escolher alguns doces, senhor?
— Vamos, Ani. — Finjo que suas palavras não me incomodam.
Sua carranca aumenta a tensão crescente em meus ombros.
— Eu não quero falar com você.
— Muito ruim. Eu sou seu chefe.
Ela faz um barulho de nojo enquanto agarro seu cotovelo levemente e a levo para a
sala vazia dos fundos da loja de doces.
— Desembucha. — Ela bate o pé.
O punho em volta do meu coração aperta quando ela me lança um olhar duro que
nunca tinha visto antes.
— Eu pensei que éramos amigos. — Ani e eu construímos um vínculo nos últimos
meses, e não quero que ela me afaste. Aprendi a gostar dela como amiga. A ideia de ela
não falar mais comigo me deixa mais triste do que gostaria de admitir.
Ela balança a cabeça. — Isso foi antes de você machucar minha irmã.
— E daí? Não somos mais amigos?
— Não.
— Você não quis dizer isso.
Ela faz uma careta. — Zahra é minha melhor amiga e você a fez chorar.
A inspiração que faço queima meus olhos. — Sua irmã e eu estamos...
— Acabados. Ela me disse. — O lábio inferior de Ani balança.
— Eu não queria te machucar também.
— Eu ajudei você a machucá-la. Com as abóboras e Nova York. — Seus olhos brilham
com as lágrimas não derramadas.
Porra. Ani se sente responsável por minhas ações? Nunca quis que ela carregasse o fardo
das minhas decisões.
— Nada disso é culpa sua. — Coloco minha mão em seu ombro e aperto.
— Não. É sua porque você é um bebê grande que não consegue admitir que gosta
dela.
Não consigo conter minha risada triste. — Se a vida fosse tão simples.
— Você me disse que desculpas são para perdedores.
Droga. Nunca pensei que ela usaria meu próprio conselho de mentor contra
mim. Disse a ela as mesmas palavras no contexto da tentativa de se mudar do
apartamento dos pais dela e se tornar independente.
Pode parecer uma desculpa para ela, mas tenho meus motivos.
Ela suspira. — Obrigada por me ajudar e me fazer sentir melhor sobre a mudança.
Ela está seriamente tentando me ignorar agora? — Ani...
— Você não é mais meu amigo ou buddy. Eu desisto. — Ela solta um suspiro pesado.
Sua rejeição dói. Realmente gostei de passar o tempo com ela. Nós nos unimos por
muitas coisas, desde sermos o irmão mais novo até nosso amor por sorvete de pistache.
O fato de que ela nem consegue mais me olhar nos olhos prejudica meu humor já
sombrio.
— Ani! — Alguém abre a porta.
— Eu tenho que ir. Feliz Natal adiantado, Rowan. — Ela me oferece um aceno mal
feito antes de escapar da sala.
Fico com uma sensação de vazio que não consigo me livrar, não importa o quanto eu
tente.
***
O silêncio me cumprimenta quando entro em minha casa. Depois de me encontrar
com Ani, meu dia foi de mal para uma merda completa. Nada poderia impedir minha
mente de pensar em Zahra. Até cedi e mandei uma mensagem para ela, apenas para ser
ignorado. Era para ser uma conversa simples para diminuir a pressão crescente dentro
de mim, mas Zahra nem se incomodou em responder minha mensagem perguntando
como ela estava se sentindo.
Coloco o uniforme de treino e saio para uma corrida violenta ao redor da
propriedade. Meus pés batendo contra o pavimento ajudam a aliviar um pouco a tensão
dos meus músculos, mas não é o suficiente para acalmar minha mente.
No momento em que corro em direção ao caminho de cascalho da minha casa, minha
respiração está irregular, quase dolorosa.
Meus olhos pousam no balanço abandonado. Aquele que nunca encontrei tempo para
derrubar porque estava muito ocupado.
Ou muito covarde.
Meus molares se chocam. Caminho pela casa em direção à garagem onde meu avô
guardava algumas ferramentas e sua velha furadeira. Estou em uma missão para
remover esse maldito balanço.
O mesmo balanço em que minha mãe lia contos de fadas para nós. Onde ela e meu
pai ficariam abraçados enquanto meus irmãos e eu corríamos pelo jardim da frente. E o
lugar onde ela deu seu último suspiro, com meu pai agarrado a seu corpo crivado de
câncer enquanto todos nós chorávamos juntos.
Odeio essa porra de balanço mais do que qualquer coisa no mundo. Não há nada que
eu queira mais do que remover os ferrolhos e transformar tudo em uma fogueira.
Ligo o cabo na parede com a mão instável. Um teste prova que a furadeira ainda
funciona, e pego uma cadeira por dentro para me dar a altura necessária para alcançar os
parafusos superiores.
Minha mão treme quando pressiono a broca no primeiro parafuso. Cada músculo do
meu braço geme em protesto quando pressiono o botão. O parafuso gira continuamente
antes de cair direto no banco de balanço.
Um já foi, faltam mais três.
Saio da cadeira e a movo para o outro lado. Retomando minha posição, alinho a broca
com o próximo parafuso. Congelo com as letras gravadas bem na madeira acima da
minha cabeça.
Minha visão fica turva enquanto traço a anotação. É irregular como se tivesse sido feia
com uma faca afiada, mas a letra é inconfundivelmente da minha mãe.
Meus pequenos cavaleiros,
Ame com todo o seu coração e mostre bondade em todas as suas ações.
Mamãe
Sigo as palavras com um dedo trêmulo. Já se passaram anos desde que ouvi essa frase,
e ela me atinge como um soco no estômago. Minha mãe viveu por suas palavras em cada
uma de suas ações. Ela falava conosco todas as manhãs antes de irmos para a escola e as
sussurrava todas as noites antes de dormir. As palavras cravam suas garras em mim,
destruindo qualquer justificativa que eu tinha para a decisão que tomei.
Minha mãe ficaria orgulhosa do homem que sou agora? Parte de mim certamente
gostaria que sim, mas outra parte sabe que fiz um monte de coisas confusas na minha
vida porque isso é tudo que sei. Não fui criado com o tipo de valores que minha mãe
pregava - pelo menos não depois que ela se foi.
Entendo que não estou no negócio de fazer todos felizes, mas há uma diferença entre
ser experiente nos negócios e ser desnecessariamente cruel. Escolhi o último uma e outra
vez sem sentir absolutamente nada porque era a escolha fácil. Cortar o seguro de saúde
melhor foi uma manobra de merda para fazer meu pai permitir que eu participasse das
reuniões do conselho. Ele queria que eu ganhasse respeito antes de ter um assento à mesa,
então decidi ir para as grandes armas. Assim como foi simples votar contra o aumento
do salário mínimo e ampliar nossa margem de lucro. Estava disposto a pensar primeiro
na empresa, enquanto provava a meu pai que tinha o necessário para desenvolver minha
própria empresa de streaming com o dinheiro Kane.
Eu me escolhi todas as vezes porque era fácil.
Mostre bondade em todas as suas ações.
É uma piada demorar-se nessas palavras. Tudo o que fiz foi à custa dos outros,
enquanto tudo o que minha mãe fez foi baseado em seu amor e compaixão. Esqueci que
ela era assim. Eu me fiz esquecer porque, acho que no fundo, não queria lembrar a mulher
que ela era. Porque sabia que ela ficaria decepcionada comigo. Minhas ações ao longo dos
anos têm sido tudo menos gentis, feitas de um lugar de ganância e raiva. Tenho mostrado
pouca misericórdia, quanto mais amor.
Qualquer filho que minha mãe criou morreu junto com ela, e não sinto nada além de
vergonha.
Uma onda de arrependimento me atinge de uma vez. Descarto a furadeira, sento na
cadeira e me permito chegar a um acordo com o monstro que me tornei com o sacrifício
dos valores mais importantes de minha mãe.
***
Paro no cubículo de Zahra, na esperança de encontrá-la no primeiro dia de volta de
sua licença médica. Entro no espaço, encontrando-a desenhando algo em um... tablet? A
marca é igual à minha. O que quer que ela esteja desenhando na tela minúscula está sendo
espelhado em seu monitor de mesa e, honestamente, não parece tão ruim.
— Isso é uma cadeira de rodas?
Ela pula na cadeira, deixando cair o lápis de plástico aos pés.
Inclino-me ao mesmo tempo que ela, e nossas cabeças se chocam. Ela sibila ao mesmo
tempo que estremeço.
Nossos olhos se encontram. Passo minha mão na dela antes de soltar o lápis. Ela
respira fundo e sorrio por dentro.
Fico feliz em ver que um pouco de sua cor voltou, embora ela pareça ter perdido peso.
Franzo a testa para o vazio de suas bochechas.
Suas sobrancelhas se juntam enquanto ela faz uma carranca. — O que você quer, Sr.
Kane?
Sr. Kane? Minha mandíbula aperta minha língua para me impedir de dizer algo
estúpido.
Ela levanta uma sobrancelha em uma provocação silenciosa.
— Eu precisava falar com você.
Ela permanece em silêncio. Vejo que ela não vai tornar isso fácil para mim.
— Eu vim para... — Para quê? Confessar como me sinto no meio de um dia agitado de
trabalho?
— Sim?
— Para perguntar se você viria hoje à noite.
Sua boca cai aberta. — Você está brincando.
Porra. Ela acha que quero dar em cima dela? É por isso que não falo sobre sentimentos.
— Não, merda. Eu não estou dizendo isso direito. Quero falar com você. Apenas falar.
— Sim, bem, eu não quero falar com você. — Ela se vira para seu pequeno tablet e
remexe em seu desenho.
Pisco para o computador. Percebo que ela está criando seu próprio projeto, em vez de
trabalhar comigo.
Porque ela não precisa mais de você. Não tenho certeza por que o pensamento faz minha
garganta apertar. Sinto que estou sendo substituído e esquecido pela única pessoa que
realmente me viu. A pessoa que acreditou em mim e me apoiou quando tinha todos os
motivos para me desprezar pelo que eu representava.
— Zahra, me escute. Eu não consigo dormir. Eu não consigo comer. Estou preso em
um estado constante de náusea e azia, não importa o que como.
— Parece que você pode sentir, afinal. — Ela faz uma careta.
— Sim. Você está feliz? Eu me sinto uma merda desde que te deixei naquele maldito
quarto de hospital, sabendo muito bem que você estava chorando por minha causa.
— Não. Não estou feliz que você esteja chateado. Pelo contrário, quero que você seja
feliz com suas escolhas, — ela fala com um tom tão neutro como se eu não tivesse
quebrado seu coração.
— Por que? — Por que você tem que ser tão altruísta o tempo todo?
— Porque quero que você analise suas escolhas e saiba que valeram a pena no final.
Exceto que muitas das minhas decisões não parecem valer a pena, apesar do quão
necessárias elas pareciam no momento. Quero dizer a ela isso e muito mais, se ela me der
uma chance.
— Dê-me uma chance de me explicar. Eu estive... pensando em tudo. E cometi um
erro. Eu não deveria ter deixado você ir porque estava com medo. Você estava certa. Mas
quero tentar novamente. Contigo. — Minha fala é afetada e estranha, mas é genuína.
Ela solta um suspiro resignado e meu coração bate com isso. — Não. Eu não vou cair
nessa de novo. Eu te dei uma chance e você estragou tudo.
— Mas...
— Sem desculpas. O que acontece se você mudar de ideia novamente? Não vou correr
esse risco. Já passei por bastante e, honestamente, mereço mais do que qualquer coisa que
você pudesse me oferecer sem muita convicção.
Estou parado de queixo caído, olhando para ela.
Suas costas ficam tensas. — Eu preciso voltar ao trabalho. Tenho um prazo.
— Eu poderia te ajudar com isso. Sem condições. — Dou outra olhada no desenho.
Diga sim e me dê uma chance.
— Acho que você já fez o suficiente. — Ela vira a cadeira, me dando as costas.
Ela está me dispensando. Nunca me senti tão... horrível. Sinto um inchaço
desconfortável no peito e um aperto na garganta que só se intensifica quanto mais olho
para as costas de Zahra.
Ela realmente terminou comigo, e é tudo minha culpa.
46
ZAHRA

Saboreio o sabor do meu copo de suco de laranja fresco. Levei uma semana inteira
depois de voltar do hospital para recuperar minhas papilas gustativas. Embora pudesse
ter ficado um pouco louca com todo o descanso de cama, fiquei grata pela pausa de
Rowan e da equipe de criadores. Não tinha certeza se teria força suficiente para estar na
mesma sala que ele sem chorar ou gritar.
Ontem foi um bom teste de força e passei com louvor. Fui capaz de permanecer forte
e olhar Rowan bem em seu rosto abatido, sem ceder ao seu pedido.
— Isso acabou na minha pilha de correspondência. — Claire deixa cair um envelope
na frente do meu prato.
— Isso é de duas semanas atrás! — Aponto para a data.
Ela encolhe os ombros. — Eu sei, e sinto muito. Prometo ser mais organizada na
próxima semana.
Rio sem nenhuma dor hoje. — Você sempre diz isso! — Grito com ela de volta.
Ela ri baixinho enquanto caminha de volta para seu quarto bagunçado.
Meus dedos roçam meu nome escrito em letra cursiva com uma caneta de tinta
velha. O endereço de retorno está listado como The Kane Company.
Isso é estranho. Pego uma faca da cozinha e corto a parte superior.
Meus dedos tremem quando retiro um pedaço de papel dobrado. Abro e minha boca
cai aberta.
Brady Kane me enviou uma carta! É anterior ao acidente dele, mais ou menos na mesma
época em que estávamos trabalhando nos retoques finais da Nebula Land.
Cara Zahra,

Peço desculpas antecipadamente se minhas palavras forem embaralhadas. É difícil resumir o meu agradecimento, mas vou tentar,

mesmo porque você merece saber o quanto você teve um impacto na minha vida. Até mesmo um velho como eu pode aprender alguns

truques novos, ou pelo menos se lembrar dos antigos que foram esquecidos há muito tempo.
Gratidão? Do maldito Brady Kane?! Sou eu quem deveria ser grata por ele ter
dedicado tempo para trabalhar comigo durante um mês inteiro.
Antes de me encontrar com você sobre sua proposta, eu estava em um lugar escuro. Senti-me perdido e inseguro sobre mim mesmo

pela primeira vez em muitos anos. Mas então você entrou no meu escritório com um sorriso enorme e toda essa imaginação reprimida
esperando para ser explorada. Fiquei imediatamente impressionado com sua mente perspicaz e coração honesto. Demorei um pouco para

entender por que me apego a você, mas percebo que é porque você me lembrou do meu eu mais jovem. De alguém ainda intocado por

dinheiro, fama e as expectativas que entorpecem até mesmo as mentes criativas mais fortes.
Meu peito dói e minha respiração fica irregular com cada frase. Não tem nada a ver
com os efeitos residuais da minha doença e tudo a ver com todos os sentimentos fervendo
por dentro com a confissão de Brady.
Eu sei que você aspira se tornar um Criador um dia. Quando você sentir que finalmente é digna (o que quer que isso signifique - eu

me saí bem com uma educação universitária comunitária e você também pode), quero ajudá-la a realizar esse sonho. Então, onde quer que

você esteja e o que quer que esteja fazendo, saiba que você sempre terá um trabalho de Criador na Dreamland, se quiser. Tudo o que você

precisa fazer é entrar em contato com minha antiga secretária, Martha, e ela lhe arranjará um contrato. Nenhuma entrevista necessária.
Lágrimas brotam dos meus olhos. Brady apoiou incessantemente meu sonho, embora
eu continuasse dizendo não a ele. Acho que ele ficaria orgulhoso de mim se soubesse dos
avanços que fiz nos últimos meses.
Tenho um pequeno favor a pedir em troca. Como parte do meu testamento, pedi ao meu neto que se tornasse o Diretor da Dreamland

por seis meses e criasse um projeto especial para melhorar o parque.


Ele o quê?! Agarro a carta com um aperto mortal.
Eu a selecionei pessoalmente para participar como membro votante do meu comitê. Você deverá aprovar ou rejeitar os planos de

Rowan.
Eu?! Oh meu Deus do caralho. Rowan sabia todo esse tempo que eu deveria estar
neste comitê? O ácido no estômago me dá vontade de vomitar no banheiro mais próximo,
mas respiro fundo algumas vezes antes de continuar lendo.
Você me lembrou porque criei Dreamland. Sua paixão pelo parque foi uma que eu perdi ao longo do caminho e suas ideias únicas

alimentaram em mim uma empolgação que há muito havia sido esquecida. Por isso, sei que você é a pessoa certa para me ajudar pela última

vez. Pode parecer um grande pedido, mas você é uma das pessoas que quero que faça parte da mudança de que a Dreamland precisa. Então,

por favor, junte-se ao meu comitê e vote pelo futuro do parque.


Minhas mãos tremem enquanto leio o resto da carta de Brady Kane discutindo
semântica e programação. Depois de relê-la duas vezes, ela escorrega dos meus dedos e
cai no chão.
Rowan sabia todo esse tempo que seu avô queria que eu votasse no projeto em que
ele passou meses trabalhando? Por que outro motivo ele me contrataria - alguém que ele
disse não ser importante o suficiente para fazer falta?
Não. Não pode ser isso. Não é? Não há como ele saber.
Mas por que outro motivo ele contrataria alguém como você, com qualificações limitadas, que
destruiu o passeio mais caro da Dreamland?
Ele tem um fluxo interminável de Criadores que poderia ter contratado para garantir
que Dreamland estivesse nas melhores mãos para ganhar esta votação. Seu motivo para
fingir ser Scott parecia razoável, mas agora estou me perguntando se foi outra manobra
para bisbilhotar e ver se eu admitiria fazer parte do comitê de votação. E se todo o
discurso de ontem no meu cubículo fosse uma forma de me acalmar para que eu não o
ferrasse?
A cada pergunta, minhas dúvidas ficam mais fortes.
E se tudo sobre nós sempre foi uma mentira?
***
Claire levanta o travesseiro do meu rosto e o abraça em seu corpo enquanto se
senta. — O que há de errado?
— O fato de que Rowan nasceu.
— Achei que tínhamos colocado o nome dele na lista negra do apartamento!
— Isso foi antes de eu receber uma carta de Brady Kane que expôs seu neto.
Os olhos de Claire podem pular das órbitas. — O QUE?!
As palavras saem de mim enquanto compartilho a história sobre a votação e todas as
teorias que tenho. Até conto a ela sobre como Rowan tentou me convidar para sua casa
depois de tudo, o que só aumenta minhas suspeitas.
Claire de alguma forma controla suas emoções até eu terminar. Ela pula do sofá e pega
o telefone do quarto. Acompanho seu ritmo enquanto ela bate na tela, com suas
bochechas vermelhas e seu cabelo caindo em todos os lugares.
— Isso não é bom, pedaço de merda... — Ela cutuca a tela de seu telefone com uma
carranca.
— O que você está fazendo?
— Estou tentando calcular quanto tempo alguém pode sobreviver à perda de sangue
depois de ser castrado.
Jogo minha cabeça para trás e rio. — A agressão física nunca é a resposta.
Claire dá um tapinha na minha mão enquanto se senta novamente, colocando o
telefone no bolso. — Oh, Zahra. É lindo como você vê o mundo inocente.
— E isso é?
— Como se você nunca tivesse ouvido falar que Papai Noel não é real.
Deixo minha boca aberta em falso choque. — O quê?! Papai Noel não é real?
Claire revira os olhos sem entusiasmo. — Idiota.
— É sério. Sua resposta para tudo é cortar, mutilar e matar. Esse não é realmente o
tipo de solução que procuro aqui.
— Só porque você não conseguiria pagar um bom advogado depois.
Nós duas acabamos rindo disso.
Eu a cutuco com meu pé. — Fala sério. Castração?
— Você sabe como diz o ditado. Aja como um idiota, perca o dito idiota.
Uma risada alta me escapa. — Ninguém diz isso!
— Então talvez seja a hora de as pessoas fazerem. Quero dizer, aquele filho da puta
pensa seriamente que pode manipular você assim? Incrivelmente inacreditável! Ele ao
menos tem consciência?
Meu corpo inteiro dói com o pensamento.
— Discutível. — Suspiro. Houve um tempo em que pensei que sim, mas quem sabe
mais. Embora ele parecesse genuíno quando parou em meu cubículo, não posso mais ter
certeza de quem é o verdadeiro Rowan.
47
ROWAN

Entro na última reunião de Criadores antes do feriado. Embora os funcionários


possam tirar uma folga, estarei trabalhando dia e noite para terminar minha apresentação
para o conselho.
Jenny está na frente da sala e todos acenam em minha direção enquanto
sento. Examino a sala, procurando pela única mulher que não consigo tirar da minha
cabeça. O assento usual de Zahra é ocupado por um Criador diferente.
Uma pressão empurra meu peito, tornando minha respiração irregular. Jenny não diz
nada sobre a ausência de Zahra.
O primeiro Criador apresenta alguma ideia decente que nunca sairá da reunião de
hoje. Já vetei na minha cabeça.
A porta se abre atrás de mim. Viro-me e encontro Zahra entrando silenciosamente,
sem sua mochila barulhenta. Isso me leva de volta ao nosso primeiro encontro. O
fantasma de um sorriso puxa meus lábios antes que eles caiam em uma linha reta.
Seus olhos examinam a sala antes de cair na única cadeira vazia, localizada bem ao
meu lado. Se ela está incomodada com a disposição dos assentos, ela não
demonstra. Puxa o assento e desliza para o espaço. Todas as células do meu corpo
disparam em uníssono enquanto inalo seu perfume fraco.
Enquanto os apresentadores sobem, Zahra permanece rígida, ignorando minha
presença. Isso me irrita mais do que gostaria de admitir.
Quando é a vez de Zahra se apresentar, estou me remexendo na cadeira e lutando
para pensar em qualquer coisa, exceto nela.
Ela se levanta e limpa a garganta.
Fico rígido em meu assento, verificando se há algum sinal de doença. Ela toma um
gole de água antes de subir ao pódio.
— Hoje, estou apresentando algo um pouco diferente. Não se trata exatamente de um
passeio, então eu entendo se não for aceito como uma opção para o projeto do Sr. Kane.
— Ela nem se incomoda em olhar na minha direção enquanto fala sobre mim, o que só
aumenta a pressão no meu peito.
— Estou interessada em tornar Dreamland mais inclusiva para nossos
hóspedes. Como trabalhadora de salão, conheci muitas crianças que passaram pelos
desafios mais difíceis da vida. Comecei a prestar atenção e anotar suas
preocupações. Após anos de trabalho, cheguei a uma conclusão. Como irmã de alguém
com desafios próprios, entendi as principais queixas dos convidados - embora ache que
minha irmã socaria meu braço se me ouvisse usar esse tipo de palavra com Q.
Alguns criadores riem. Estou fascinado por ela e pela confiança que demonstra. É
uma mudança completa da mulher que não se sentia digna de ser uma Criadora.
— Dreamland não foi feita apenas para os mais privilegiados que podem pagar passes
rápidos, ingressos de cem dólares e comidas e bebidas caras. É feita para pessoas sem
deficiência. Para aquelas crianças que nasceram com uma perna para cima - sem
trocadilhos. Então, minha ideia é mudar a base do parque e mudar a forma como vemos
nossos visitantes.
Tudo o que posso fazer é olhar em silêncio enquanto ela passa por vários slides que
cobrem diferentes ideias. De fantasias para cadeiras de rodas a horas sensoriais para
crianças com autismo, Zahra atende às demandas de crianças e adultos, que muitas vezes
são esquecidos na Dreamland. Ela entrega todo o conteúdo com o maior sorriso no
rosto. Quanto mais ela fala, mais forte o desejo cresce em meu peito.
Eu quero roubá-la de todos e dizer a ela como estou orgulhoso. E para confessar o
quanto lamento tudo o que fiz e disse.
Porque eu me importo com ela.
Porque eu quero estar com ela independentemente de quaisquer obstáculos.
E porque quero ser um homem de quem minha mãe se orgulharia, e quero fazer isso
ao lado de Zahra.
Sento-me mais ereto na cadeira, querendo chamar sua atenção. Ter ela voltando
aquele sorriso para mim para que ela possa ver o quanto estou orgulhoso de sua
ideia. Mas ela não olha para mim. Nem se incomoda em virar na minha direção geral. É
como se eu não existisse. Faço perguntas para tentar fazer com que ela olhe para mim,
mas ela responde suavemente, olhando fixamente para todos.
Se alguém percebe algo errado, eles não demonstram.
A cada oportunidade ignorada, a sensação em meu peito se intensifica. A queimadura
só aumenta quando Jenny se levanta e dá um abraço em Zahra.
— Trabalho incrível, Zahra. Você vai fazer coisas tão grandes um dia. Eu
simplesmente sei disso. É uma pena não ter você aqui após o feriado.
Pisco algumas vezes. — Repita isso.
A coluna de Jenny se endireita. — Oh, desculpe, Sr. Kane. Não achei que você quisesse
se manter atualizado sobre coisas como essas.
Eu a ignoro e olho para Zahra. Pela primeira vez, seus olhos encontram os meus, mas
eles estão desprovidos de todas as emoções.
Detesto isso com cada fibra do meu ser. — Você está pedindo demissão?
— Eu dei a Jenny meu aviso de duas semanas na terça-feira.
Faço a matemática. Se ela o enviou há alguns dias e na semana que vem é um feriado,
ela não vai voltar. A compreensão parece uma pedra no meu estômago.
Ela me encara com uma expressão vazia.
— Hoje é o seu último dia? — Estalo.
Jenny decide bancar o pacifista. — Todos vamos sentir muito a falta dela.
Ela não desistiu depois de voltar de sua licença médica, então o que mudou? Fico em silêncio,
pensando nos motivos potenciais para Zahra enviar seu aviso de duas semanas. Jenny
bate palmas e deseja a todos um feliz feriado.
Cada funcionário vai até ela, alternando entre abraços e cumprimentos enquanto cada
um se despede.
Porra. Não. Isso não deveria acontecer.
Por que você esperaria que ela ficasse depois de tudo que você fez? O que você provou para ela,
além do fato de que você é um filho da puta egoísta que escolhe a si mesmo o tempo todo?
— Todos estão dispensados, exceto a Srta. Gulian. — Dou um passo em direção ao
pódio, na esperança de prender Zahra lá.
O corpo de Zahra fica imóvel. Nossos olhares se chocam enquanto fico em sua visão
direta.
Os Criadores se movem como se eu não estivesse abrindo um buraco no rosto de
Zahra. Cada um deles me deseja um Feliz Natal antes de sair da sala, vibrando de
entusiasmo por serem liberados mais cedo.
Fico entre o pódio e a porta, não deixando outra opção a não ser passar por mim. —
Você não pode desistir.
— Eu posso e eu fiz.
Meus punhos se fecham em meus lados. — Mas nós tínhamos um acordo.
Ela encolhe os ombros. — De qualquer forma, hoje foi o último dia das nossas
apresentações. Está fora de nossas mãos agora.
— Haverá outras ideias que precisam da contribuição dos Criadores.
Ela ergue o queixo. — Isso não é mais da minha conta.
— Zahra...
Ela levanta a mão, me parando. — Por que você me contratou?
Eu não pisco. — Porque você é boa no que faz. Hoje é um exemplo perfeito de como
você é talentosa. Imagine o que mais poderíamos fazer se você...
Posso praticamente ver suas paredes caindo uma a uma. Todo o seu comportamento
muda, desde os ombros caindo até os olhos turvos.
— Por que você não pode me deixar em paz? — Sua voz falha. — Por que você teve
que manipular meus sentimentos por você?
Respiro profundamente. — O que?
Ela desvia o olhar, escondendo a névoa de seu olhar de mim. — Você me contratou
como Criadora porque queria que eu me envolvesse emocionalmente no projeto antes do
voto do seu avô?
Voto? De jeito nenhum.
— Voto?
Seus minúsculos punhos se apertam. — Fui escolhida para o comitê de Brady, mas
tenho certeza que você já sabia disso. Não é?
Zahra está no comitê? Isso tem que ser algum tipo de piada cósmica doentia. De todas
as pessoas o meu avô poderia ter escolhido, ele escolheu ela?
Todas as peças se conectam. Em minha carta, ele mencionou que conheceu alguém na
Dreamland que o ajudou a perceber seus erros. Não sei como não pensei em ser Zahra
antes. Vovô não era o tipo de pessoa que se encontrava com funcionários aleatórios, mas
discutia a Nebula Land com ela. Ele até ajudou-a a redesenhar. Sua maldita nota em seu
arquivo era a maior migalha de pão de todas, e eu a ignorei completamente.
Merda. E a maneira como ela olha para mim - é como se ela não me
reconhecesse. Perfura meu maldito coração.
Estraguei tudo. Sucesso.
— Algo disso foi real? — Sua voz falha.
— Claro que foi. — Estendo a mão para segurar sua bochecha, mas ela dá um passo
para trás.
É péssimo.
— Eu nunca soube que você foi escolhida para a votação, — digo.
— E o quê, eu devo acreditar em qualquer coisa que sai da sua boca? Tudo o que você
fez foi mentir ou contar meias verdades desde que nos conhecemos. — Sua risada soa tão
vazia e diferente dela que faz meu peito doer.
Em vez de pedir a Zahra para ficar na Dreamland e trabalhar para mim, agora tenho
que convencê-la de que nunca soube que esse era o plano dele.
Boa sorte com isso. — Você tem que acreditar em mim. Eu sabia que uma votação
aconteceria - isso é verdade - mas não tinha ideia de quem meu avô escolheria.
Ela balança a cabeça. — Não importa o que você diga. Eu não posso confiar em você.
Pego sua mão e coloco contra meu peito. O calor da palma de sua mão aumenta o
calor que se espalha pelo meu peito. — Eu juro que não estou mentindo. Eu sei que posso
ter escondido algumas verdades e mentido para você no passado... — ela estremece com
minhas palavras — ...mas eu nunca usaria você para algo como um voto. Eu sou melhor
do que isso.
Ela arranca a mão do meu alcance. — É esse o problema, Rowan. Acho que você
se acha melhor do que isso, mas, de acordo com tudo que vi, não tenho motivo para
acreditar que você seja outra coisa senão egoísta. Você opta por pensar em uma pessoa e
apenas em uma pessoa - e essa pessoa é você.
Suas palavras me cortam, tornando minha respiração difícil. Ela me olha com uma
expressão tensa, e já vi esse tipo de olhar muitas vezes nos olhos do meu pai para
classificá-lo como nojo. Dói muito mais desta vez, saber que é de Zahra.
Ela anda em volta de mim para pegar seus pertences. — Estou desistindo porque não
tenho mais interesse em trabalhar para você ou sua empresa. Quero trabalhar para um
lugar que queira fazer uma diferença real na vida das pessoas porque elas se importam,
e sua empresa não é assim.
Ela sai da sala, deixando-me com nada além do cheiro persistente de seu perfume e a
memória de seus olhos marejados olhando para mim com nada além de ódio.
48
ROWAN

Eu deveria ir para casa depois de pousar em Chicago, mas digo ao meu motorista para
me levar para a casa do meu pai. Depois de tudo o que aconteceu após a apresentação de
Zahra, algo estava me incomodando. Levei um voo inteiro para perceber que tenho
negócios pendentes para resolver antes de finalmente seguir em frente.
A pressão que coloquei sobre meus próprios ombros para cumprir um objetivo
inatingível de provar que meu pai estava errado já envenenou bastante minha
vida. Queria que ele reconhecesse meu valor durante anos, quando ele não conseguia
nem ver além de sua própria miséria. E agora estou farto. Estou deixando aquele garoto
que queria ser visto pela pessoa totalmente errada.
Pressiono a campainha com um dedo enluvado. Meu pai leva alguns minutos para
abrir a porta de sua casa nos arredores da cidade.
Seus olhos se arregalam por trás dos óculos. — Rowan. Entre. — Ele abre a porta.
Levo um momento para avaliá-lo. Seus olhos parecem claros e sóbrios, e seu hálito
carece do cheiro distinto de uísque que aprendi a combinar com suas explosões de
bêbado.
Acho que ele está sóbrio o suficiente para passar por esta conversa.
Levanto minha mão. — Isso não é necessário. Tenho algumas perguntas a lhe fazer.
Suas sobrancelhas se juntam, mas ele concorda mesmo assim. — OK.
— Você acha que mamãe ficaria orgulhosa do homem que você se tornou desde que
ela morreu?
A boca do meu pai cai aberta. Não acho que o tenha visto tão surpreso assim antes. A
cor desaparece de seu rosto já pálido, fazendo-o parecer fantasmagórico.
Uma forte rajada de vento sopra em nossa direção, tirando-o de todos os pensamentos
que ele tinha.
— Não. Eu não. — Sua cabeça se inclina.
— Por que você mudou?
— Porque eu era um homem raivoso e patético que queria afogar a todos na minha
dor para que pudessem se sentir magoados como eu.
Pisco para ele, pego completamente desprevenido por sua resposta sincera. De todas
as respostas que considerei, as palavras que ele proferiu nem mesmo entraram na lista.
Ele suspira como se essa conversa o estivesse drenando de todas as suas energias. —
Alguma outra pergunta?
— Você se arrepende de ter se apaixonado por minha mãe?
— De jeito nenhum.
Poderia jurar que ele diria sim. Como ele não poderia, depois de toda a dor que
claramente passou? — Por que não?
— Você aprenderá que as melhores recompensas têm as maiores
consequências. Porque nada tão grande é dado de graça. — Ele fecha os olhos.
Se um homem como ele faria tudo de novo, era tudo o que eu precisava ouvir. Porque
se ele está disposto a reviver décadas de luto sabendo que teria o mesmo resultado, então
há algo no amor que deve valer a pena.
Cometi um grande erro com base em uma mentira completa que disse a mim mesmo
ano após ano. Passei minha vida inteira pensando que o amor torna as pessoas
impotentes, e faz. Meu pai é a prova viva disso. O amor torna as pessoas desamparadas,
mas apenas porque elas o aceitam de boa vontade. Porque amar outra pessoa significa
confiar nela o suficiente para não abusar do poder que ela tem sobre você.
Apesar de como Zahra possa se sentir por mim, eu confio nela. Confio nela com todo
o meu maldito coração e meu futuro. Não há uma lista de prós ou contras no mundo que
poderia me manter longe dela.
Sei o que tenho que fazer. A decisão vem fácil, aliviando um pouco da tensão
pressionando contra meu peito como uma bigorna.
Concordo. — Isso é tudo que eu precisava saber. — Viro-me e deixo meu pai
boquiaberto, finalmente me livrando do peso final que me impede de seguir em frente
com minha vida.
Agora preciso dar a notícia aos meus irmãos.
***
Declan pega outra garfada de purê de batata como se eu não tivesse dito a ele que não
vou voltar para Chicago depois da votação. — Não.
Meus punhos permanecem escondidos sob sua mesa de jantar. — Eu não pedi sua
permissão.
A cabeça de Cal salta entre nós. — Será que vamos brigar mesmo no Natal?
Ignoro-o. — Eu não vou voltar.
— OK. Acho que sim. — Cal pega sua bebida e a levanta para mim em
solidariedade. — Finalmente, é a sua vez de ser a criança problema pela primeira
vez. Bem-vindo ao clube. — Ele toma um grande gole.
Declan faz uma careta para Cal antes de virar seu olhar para mim. — Já discutimos
isso profundamente.
— Não importa o que decidimos antes. As coisas mudam e não estou desistindo de
minha posição como Diretor, então encontre um novo CFO.
O músculo da mandíbula de Declan estala. — Como você poderia preferir ser o
Diretor de um parque temático a se tornar o CFO de uma das maiores empresas do mundo?
— Porque conheci alguém especial e não vou desistir dela por algum maldito trabalho
de escritório a milhares de quilômetros de distância, onde eu seria miserável sem ela.
Declan parece sem palavras.
— Puta merda, — Cal sussurra baixinho. — Você está falando sério?
Concordo.
Cal pisca duas vezes antes de falar novamente. — O que você tem escondido?
— Nada que eu queira que você cutuque com seu pau mole.
— Agora eu definitivamente preciso visitar a Dreamland. Nosso irmão mais novo tem
guardado grandes segredos de nós. — Cal dá uma cotovelada em Declan com um sorriso.
Declan empurra Cal para longe. — Só é considerado segredo se eu não tiver ideia.
Cal encara Declan. — Você sabia esse tempo todo e não me contou?!
— Ele tirou férias. Isso por si só já era motivo de alarme. Tente usar algumas das
poucas células cerebrais que você ainda tem, Callahan.
— Foda-se. — Ele olha para Declan antes de virar a cabeça em minha direção. — Eu
odeio me sentir excluído.
Declan focaliza sua irritação em mim. — Você está fazendo tudo isso por causa de
uma garota?
— Não. Estou fazendo isso porque gosto de quem me esforço para ser quando
estou com aquela garota.
— Droga. Rowan pode não falar muito, mas quando faz... — Cal dá um beijo de
chef. — Poesia.
Declan balança a cabeça, claramente não compartilhando o sentimento de Cal. —
Você perdeu completamente a cabeça.
Encolho os ombros. — Pode ser. Mas pelo menos é divertido.
Cal ri.
— Você vai me implorar pela posição de CFO em seis meses. — Declan cruza os
braços.
Balanço minha cabeça. — Eu não vou.
Cal põe a mão no ombro de Declan com um sorriso. — Anime-se, docinho. Posso dar
uma mão e ajudá-lo com seus deveres até que você encontre um novo substituto.
— O trabalho requer mais habilidades matemáticas do que somar dois mais dois.
— Eu acho que meu pequeno cérebro pode acompanhar. — Cal bate na têmpora. Ele
pode ter TDAH37, mas tem o QI mais alto de todos nós. Se ao menos ele tivesse o impulso
de se aplicar.

37 Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade.


Eu me manifesto. — Sabe, Iris poderia ajudá-lo com parte da carga de trabalho. Eu vi
o quão bem vocês trabalham juntos, e ela definitivamente poderia lidar com algumas de
suas tarefas enquanto vocês procuram uma esposa.
Declan esfrega o queixo. — Pode ser. Vou ter que pensar sobre isso.
— Rowan, devemos protestar contra Iris trabalhar mais horas. — Cal suspira. — Pobre
garota provavelmente esqueceu como o sol se parece com todas as horas que Declan a
faz trabalhar.
Não me importo com Iris ou sua agenda, desde que consiga o que quero. Embora
possa estar interessado em mudar alguns dos meus velhos hábitos, nunca vou deixar de
ser ganancioso quando se trata de Zahra. Ela sempre será a exceção a qualquer regra e a
única pessoa por quem estou disposto a ferrar o mundo todo. Porque se ela não estiver
feliz, vou arruinar o que quer que tenha roubado seu sorriso, inclusive eu.
***
Agarro a sacola plástica com um estrangulamento enquanto bato a aldrava na porta
do apartamento de Zahra. Depois que meu jato ficou preso por mais uma hora hoje
devido ao tráfego do dia de Natal, não consegui voltar tão cedo quanto esperava. Mas
estou aqui agora e pronto para falar com Zahra. Como tudo está acertado com a posição
de Diretor, posso usá-la como moeda de troca para mostrar a ela minha boa fé.
Eu não quero que ela deixe Dreamland por minha causa. Quero trabalhar com ela,
lado a lado, e fazer deste lugar tudo o que ela sempre sonhou.
Claire abre a porta com uma carranca. — O que você quer?
— Zahra está em casa?
— É Natal.
— Mas você está aqui e ela não a deixaria sozinha nas férias.
Seus olhos se estreitam em duas fendas minúsculas, e sei que a peguei. — Ela não quer
falar com você.
— Vou deixá-la decidir isso, — respondo com um tom neutro.
Ela cruza os braços. — Por que você está realmente aqui?
— Porque eu preciso falar com ela. É importante.
Ela levanta uma sobrancelha. — No Natal?
— Claire? Quem é? — Zahra vira o corredor e congela na entrada.
Dou uma boa olhada nela. Seu cabelo está jogado para cima em um coque bagunçado
que quero soltar, e seu corpo está escondido sob os mais horríveis pijamas de
Natal. Minhas mãos coçam para agarrá-la, mas continuo encostado no batente da porta.
— Zahra. — Minha voz carrega um tom rouco.
Ela me ignora. — Eu cuido disso, Claire.
— Tem certeza? — O olhar de sua amiga desliza de Zahra para mim, passando de
suave para nervoso em um segundo.
Zahra acena com a cabeça e caminha em direção à porta. Claire não se incomoda em
olhar na minha direção enquanto caminha pelo corredor de volta ao seu quarto.
— O que você quer, Rowan? — Zahra cruza os braços.
— Eu quero conversar.
— No Natal?
O que há com essas duas e o Natal? É apenas um feriado - mais um inconveniente do
que qualquer outra coisa.
Respiro fundo e balanço a bolsa em sua visão. — Trouxe uma atividade para te
convencer a me dar uma hora para conversar.
Seus olhos saltam. — Você está falando sério?
Franzo a testa. — Sim? Pesquisei as melhores estratégias para fazer casa de pão de
gengibre e pensei que poderíamos tentar enquanto você me ouve. Até comprei palitos de
picolé para funcionar como estabilizantes.
Ela não diz nada.
Vamos. Diga algo. — Achei que poderíamos fazer cobertura caseira porque a que está
na caixa parece nojenta.
Tudo o que eu disse a tira de seus pensamentos. — Oh meu Deus. Você realmente
acha que uma casa de pão de gengibre vai tornar as coisas melhores?
Merda. — Bem, não. Mas me lembro de você mencionando o quanto gostava deles, e...
Ela levanta a mão. Seu rosto está todo enrugado como se ela estivesse com dor ao falar
comigo. Meu estômago nauseado afunda em território perigoso. Estou cansado de enjoar
do estômago. Isso me faz sentir repugnantemente patético e com vontade de chafurdar,
e desprezo qualquer tipo de autopiedade.
— Rowan, você terminou as coisas comigo. Não podemos simplesmente continuar de
onde paramos e fingir que voltamos a algo casual.
— Bom, porque eu não quero mais nada casual.
Seus olhos brilham. — Você só está fazendo isso por causa do voto.
Solto um suspiro de frustração. — Eu não estou fazendo isso por um maldito voto. Se
você quiser votar contra mim, então vote contra mim. Inferno, eu encorajo você, contanto
que me dê uma chance de me explicar.
Sua boca se abre antes de fechar novamente.
Estendo a mão para colocar uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. — Falo sério. Vá
em frente e faça o que parecer certo. A votação é a última coisa em minha mente
agora. Você é mais importante.
Sua cabeça cai enquanto ela respira fundo. Ela olha de volta para mim com olhos
lacrimejantes, e isso me atinge direto no peito. — Eu gostaria de poder acreditar em
você. Eu realmente quero. Mas estou cansada de dar às pessoas todas as chances do
mundo, só para elas perceberem que não valho a pena no final das contas. Porque eu
valho, e ninguém vai me convencer mais do contrário. Nem mesmo você. Não quero ser
usada para entretenimento enquanto o tempo passa, assim como não quero ser rotulada
como um erro. — Suas palavras estão misturadas com mágoa, e isso só me fode mais por
dentro.
Lamento ter dito essas coisas a ela. Quando terminei com ela, pensei que estava
fazendo a coisa certa antes que ficasse fora de controle. A verdade é que já estava, e eu
era muito estúpido para perceber.
Prefiro me sentir fora de controle e ainda ter Zahra do que o que quer que seja sem
ela. Não posso voltar a ser como as coisas eram antes de ela entrar na minha vida.
— Feliz Natal, Rowan. — Ela não se incomoda em esperar minha resposta enquanto
fecha a porta na minha cara, deixando-me para trás com uma sensação de peso no peito.
***
Zahra me ignorando nada mais é do que um desafio. Decido que a única maneira de
chamar a atenção dela é fazendo algo ridículo. E por ridículo, quero dizer fazer eu mesmo
a maldita casa de pão de gengibre e mandar uma foto para ela. A estrutura fica danificada
depois de cair muitas vezes e o teto continua escorregando, mas estou comprometido.
Coloco a última jujuba no telhado e pego meu telefone antes que a coisa toda
desmorone sobre si mesma.
Eu sinto muito. Uma das jujubas escorrega do telhado, estragando a letra m. Sou rápido
para consertar e tirar uma foto.
Anexo a foto à minha corrente de texto com Zahra e a envio, junto com
uma mensagem de saudades.
Não sei por que espero algum reconhecimento de volta. Talvez fosse estúpido esperar
que ela ficasse com pena de mim fazendo a maldita coisa toda sozinho.
Eu estava errado. Meu texto fica sem resposta, o que só aumenta a sensação intensa
em meu peito cada vez que olho para a casa idiota.
Nenhuma das minhas estratégias está funcionando. Se Zahra realmente pensa que eu
só estava com ela por causa de um maldito voto, então provarei a ela que estou aqui para
ficar, com ou sem sua aprovação. Que mudei por causa dela e de toda a bondade que ela
me mostrou ao longo dos meses.
Só espero que ela me escolha no final.
49
ZAHRA

Hoje é o último dia que terei que ver o rosto lindo e manipulador de Rowan
novamente. Essa é a única coisa que me mantém motivada enquanto entro na sala de
reuniões localizada em sua suíte de escritório na Story Street. Tudo foi coordenado por
algum funcionário da Kane sob juramento de um NDA, incluindo a hora e o local.
Sou a primeira do júri a chegar, o que só me deixa nervosa. Pego meu caderno da
mochila e começo a rabiscar coisas sem sentido para manter minha mente ocupada.
A porta se abre e Martha entra.
— Martha! — Pulo e dou um abraço nela. — O Sr. Kane está pedindo a você para
ajudá-lo a configurar?
Ela balança a cabeça. — Não. O falecido Sr. Kane me pediu para estar aqui.
— Sério?
Ela mostra suas doces linhas de riso. — Não soe tão surpresa. Trabalhei para aquele
homem durante décadas. Eu conheço este parque melhor do que ele, e ele sabia disso.
Minha risada é interrompida pela porta se abrindo novamente. Qualquer calor
remanescente do abraço de Martha é rapidamente sugado de mim quando Seth Kane
entra na sala.
Ah, merda. Brady escolheu o pai de Rowan como parte do conselho? É preciso muito
autocontrole para não explodir no Sr. Kane depois de tudo que aprendi sobre ele. Se
olhares pudessem matar, ele teria sido eviscerado apenas pelo meu.
Ele ignora Martha e eu como se não existíssemos, provavelmente porque para ele, não
existimos. As únicas pessoas que merecem sua atenção são aquelas que compartilham
seu sangue ou compartilham seus interesses comerciais. Seu terno afiado e rosto sem
emoção escondem o homem horrível que persiste embaixo dele. Sinto-me tentada a
despedaçar o homem vil que chamaria seu próprio filho de patético e o faria se sentir mal
por ser diferente.
Meus punhos se enrolam ao lado do meu jeans.
Martha dá um tapinha na minha mão. — Ora, ora. Este não é o momento para raiva.
Suspiro e respiro fundo algumas vezes. — Eu não estou chateada.
Ela se inclina e sussurra. — Isso mostra que você ainda se preocupa com ele. Bom.
Bom? O que está acontecendo aqui?
— Não sei do que você está falando.
— Oh, querida. — Ela dá um tapinha na minha bochecha. — Eu somei dois e dois
quando o Sr. Kane me pediu para colocar Juliana De La Rosa na linha. E dada a nossa
conversa sobre os livros dela, conectei os pontos.
Martha é tão inteligente. Sentamos uma ao lado da outra enquanto o Sr. Kane se senta
do outro lado da mesa. Mais duas pessoas desconhecidas entram na sala, mas tenho
quase certeza de que uma delas é o diretor do parque de Xangai.
— Rowan sabia que você estava no conselho?
— Rowan? Deus, não. Mal posso esperar para ver sua reação mais tarde.
Fico olhando para ela.
Ela pressiona a mão contra o peito. — Espera. Você achou que Rowan sabia que você
estava no conselho?
Aceno, incapaz de falar porque meu coração está preso na minha garganta. Todo este
dia vai ser uma sobrecarga de informações.
Ela ri e me envolve em outro abraço. — Não. Essa é a metade da diversão na reunião
de hoje.
— Diversão?
— Claro. Brady tinha uma paixão pelo drama. Toda essa festa é a maneira dele de
fazer seus netos trabalharem.
— Trabalhar para quê?
Martha é interrompida por Rowan entrando na sala. Ele parece ainda mais devastador
hoje, em um terno preto elegante e uma gravata preta combinando. Seus olhos colidem
com os meus. É como se todo o ar fosse sugado para fora dos meus pulmões e minha
cabeça ficasse tonta.
Saia dessa.
Rowan olha ao redor do resto da sala. Todo mundo se levanta e aperta sua mão. Ele
diz olá a cada pessoa pelo nome, e solto um suspiro de alívio por ele, pelo menos, estar
ciente de seu público-alvo.
Por quê você se importa? Ele mentiu para você por esse voto estúpido.
Quando ele chega até mim, ele estende a mão. Eu a agarro e um zumbido semelhante
percorre meu corpo, começando pelos meus dedos antes de se espalhar até os dedos dos
pés.
— Srta. Gulian. Obrigado por estar aqui hoje. — O timbre de sua voz faz coisas ruins
na metade inferior do meu corpo. Seus olhos permanecem em minhas bochechas coradas,
e seu polegar acaricia minha mão antes de soltar.
Limpo minha garganta. — Sr. Kane. — Aceno e me sento.
Ele dá um passo em direção à frente da sala e liga o projetor. Sua apresentação já está
montada, e cutuco Martha.
— Você já viu isso?
Ela fecha os lábios e joga a chave invisível fora.
Rowan se afasta do pódio enquanto segura o clicker. Ele passa por algumas das
aberturas básicas, incluindo expressar sua gratidão por nosso tempo e outros
enfeites. Seus olhos sempre encontram os meus no final de sua frase, como se ele
realmente quisesse minha aprovação.
Ele clica no primeiro slide, mostrando uma foto em preto e branco de seu avô em
frente a um castelo incompleto. — Meu avô me pediu para determinar as fraquezas da
Dreamland e criar algo digno de seu legado. Após a primeira inspeção do parque, eu me
perguntei o que poderia fazer que não tenha sido pensado antes. Dreamland em muitos
aspectos é perfeita.
Desvio minha atenção de Rowan para seu pai. É óbvio de onde Rowan aprendeu sua
expressão plana, porque não acho que vejo qualquer reação de Seth Kane além de seus
olhos piscando.
Pelo menos ele não está carrancudo ainda.
— Passei os últimos seis meses trabalhando com os desenvolvedores do parque para
chegar a um plano de renovação que se destacasse dos demais. Os Criadores passaram
incontáveis horas desenvolvendo novas ideias de passeio, conceitos de terreno,
acréscimos de flutuadores e muito mais. Eu tinha toda a intenção de mostrar esses
designs hoje - na verdade, criei toda uma apresentação centrada na expansão da
Dreamland.
O dedo do Sr. Kane bate uma vez contra a mesa antes de se acalmar. É esse o seu
tique? Se sim, o que isso significa?
— No último mês, passei um tempo analisando as palavras do meu avô. Cheguei à
conclusão de que encontrar pontos fracos significa mais do que aumentar a receita ou
alocar melhor os fundos.
Ele segue para o próximo slide, uma foto de Brady com toda a equipe Dreamland na
frente do castelo. Se eu apertar os olhos, ainda posso-me ver usando aparelho já que meus
pais me colocaram na foto quando eu era adolescente.
— Durante o tempo de coma do meu avô, as fraquezas foram lentamente esquecidas
por causa de nossos pontos fortes. Quanto mais Dreamland crescia, mais fácil era ignorar
as questões menores, porque mais dinheiro significava mais sucesso. Meu avô escreveu
que havia uma pessoa especial que o ajudou a perceber seus erros e tive a sorte de ter
conhecido a mesma pessoa. — Ele me oferece o menor sorriso que já existiu.
Ele está falando de mim? Brady Kane fez referência a mim em sua carta? Meu peito inteiro
aquece e meu coração ameaça explodir.
— Essa pessoa me mostrou como o dinheiro perde o sentido quando ignoramos as
próprias pessoas que nos ajudam a ter lucro. Eles foram vocais sobre os problemas com
Dreamland, e eu fiquei intrigado com esses chamados pontos fracos. Comecei a
entrevistar funcionários aleatoriamente de todos os departamentos e o que descobri foi
chocante.
O próximo slide é uma imagem de Ralph. — Este é Ralph. Ele é um mecânico dedicado
na Dreamland nos últimos cinquenta anos, o que o torna nosso funcionário mais velho,
além do meu avô. Quando perguntei a ele como se sentia em relação a todas as mudanças
salariais e cortes de benefícios de seguro da Dreamland, ele me disse que não
importava. Claro, eu pensei que era uma declaração bizarra. Dos duzentos funcionários
que entrevistei, Ralph foi a única pessoa que disse que isso não importava. Então,
naturalmente, perguntei a ele por que isso acontecia. E ele me disse que descobriu
recentemente que tem câncer de pâncreas em estágio quatro e que seu seguro de saúde
não poderia cobrir o tipo de tratamento de que ele precisa.
Ralph tem câncer? Meus olhos ficam marejados de lágrimas que tento conter. Falho e
acabo fungando alto. A maneira como Rowan olha para mim me faz pensar se ele está
pedindo desculpas em silêncio.
O próximo slide é uma foto de Brady sorrindo com um braço em volta do ombro de
Ralph. Parece que Ralph está consertando um carrinho da primeira viagem de
Dreamland. — Ralph é um dos nossos funcionários mais antigos da The Kane Company,
e nossas práticas de negócios egoístas estão impedindo que ele receba o tratamento
adequado contra o câncer. — Ele clica e o próximo slide aparece, desta vez com centenas
de fotos. — Existem centenas de histórias semelhantes, desde pessoas lutando para ter
dois empregos até funcionários que não podem pagar os procedimentos de saúde
adequados devido às limitações financeiras. Nenhuma pessoa deve ter que escolher entre
apoiar sua família ou colocar suas necessidades médicas em primeiro lugar.
Ele solta um suspiro profundo. — Como diretor da Dreamland, quero proteger
pessoas como Ralph. Porque, no final das contas, nossos funcionários são nossa maior
força. Sem eles, não haveria Dreamland digna do sucesso que conquistamos. Portanto,
estou sugerindo que o salário mínimo seja aumentado para atender a padrões
consistentes com o que esperamos de nossos funcionários.
— E que salário por hora você sugere? — Seth Kane fala.
Isso faz parte do procedimento? Podemos todos gritar perguntas aleatórias sempre
que quisermos?
— Um aumento de cinquenta por cento, no mínimo.
— Esse é um aumento extremo, dado o fato de você ter votado contra a mudança
salarial anterior.
Os dois membros do conselho, que não conheço, olham um para o outro. Minhas
mãos começam a tremer, me perguntando o que diabos vai acontecer a seguir.
Martha dá um tapinha no meu joelho e me dá um sorriso tranquilizador.
Espera. Ela sabe sobre a apresentação de Rowan? Porque se Rowan não sabia que Martha
fazia parte do conselho, talvez ele fizesse uma apresentação simulada na frente dela.
Rowan não parece nem um pouco perturbado com as perguntas de seu pai. Ele muda
para o próximo slide. — Com base em pesquisas realizadas, salários mais altos estão
associados ao aumento da lucratividade. Grandes corporações já fizeram essa promessa
com base em fatos baseados em dados. Se aumentarmos os salários, aumentamos a
eficiência, melhorando assim a experiência geral da Dreamland para os nossos hóspedes.
Seu pai se inclina para frente. — Por que precisaríamos trabalhar na satisfação dos
funcionários se estamos com um desempenho além do esperado a cada trimestre?
O próximo slide de Rowan inclui uma análise de algum tipo de pesquisa de saída de
convidados. — Quando pesquisei mais de um milhão de hóspedes durante meu tempo
aqui, mais de setenta e dois por cento deles disseram que os funcionários da Dreamland
desempenharam um papel fundamental em sua experiência geral. Em uma pergunta
diferente, foram questionados o que diferenciava a experiência na Dreamland dos
parques temáticos concorrentes, sessenta e oito por cento dos convidados escolheram a
experiência do elenco. Isso significa que independentemente das viagens que oferecemos,
são os funcionários que fazem a diferença. — O slide muda para uma pesquisa de
satisfação do funcionário.
Lembro-me de ter preenchido sozinha, mas não sabia que era para a apresentação de
Rowan. Estou paralisada em minha cadeira enquanto olho para os gráficos de barras e
números, tentando dar sentido a tudo que estou vendo.
— Por outro lado, mais de cinquenta por cento de nossos funcionários disseram que
procurariam um emprego em outro lugar nos próximos cinco anos se os salários
Dreamland permanecessem os mesmos. Os motivos da saída do funcionário incluíram o
interesse em economizar para a aposentadoria, a necessidade de pagar creche, o desejo
de economizar para os fundos da faculdade de seus filhos e o interesse em receber
melhores benefícios, incluindo saúde.
O pai de Rowan bate o dedo novamente. Ou ele é um profissional em código Morse
ou está silenciosamente mostrando sua aprovação. Quer dizer, como ele não pode? Estou
tentando o meu melhor para não olhar para Rowan porque nem sabia que ele estava
trabalhando nisso tudo. Isso prova que ele me ouviu, tanto como Scott quanto como
Rowan. Que ele pegou tudo o que eu tinha a dizer sobre os funcionários e aplicou em sua
apresentação.
Meu corpo inteiro vibra de excitação.
— Ao não aumentar nossos salários nem melhorar os benefícios da nossa empresa,
estamos desistindo sozinhos de nosso melhor ativo. Nossos funcionários são a razão
oculta pela qual nos diferenciamos de nossos concorrentes, e é hora de tratá-los como
tal. Portanto, mantenho minha escolha de aumentar os salários e restabelecer os
benefícios para preservar o futuro da Dreamland.
Seu pai pisca.
Martha se senta com um sorriso. — No passado, você mencionou apenas estar
interessado em servir temporariamente como Diretor. O que acontecerá se aprovarmos
esses planos e você mudar de ideia novamente em um ano, dado o fato de que foi você
quem introduziu cortes de salários e benefícios?
Droga, Martha. Embainhe essas garras. Meus olhos saltam dela para Rowan. Espero
aborrecimento, mas estou quase tendo uma parada cardíaca com o pequeno sorriso de
Rowan.
— Outra boa pergunta. Os funcionários da Dreamland serão minha maior prioridade,
visto que pretendo permanecer aqui, servindo como Diretor enquanto eles me aceitarem.
Quase caio da cadeira. Que porra está acontecendo aqui? O olhar de Rowan queima
minha pele, atraindo meus olhos de volta aos dele.
O homem ao lado do pai de Rowan fala. — Você não está mais interessado em se
tornar o CFO?
— Não.
O mesmo cavalheiro se volta para seu companheiro e começa a sussurrar.
O pai de Rowan cruza as mãos. — Por que eu deveria votar sim e aprovar seus planos
quando posso votar não e ficar com seus vinte e cinco bilhões de dólares?
— Vinte e cinco bilhões de dólares? — Coaxo.
Acho que vou vomitar.
Martha me olha com um sorriso tímido. — Aqui. Tome um pouco de água.
Os olhos de Seth Kane vão de seu filho para mim. Ele me encara da mesma maneira
que me faz sentir como se estivesse sendo destruída.
Engulo metade do copo de uma vez. Água espirra para fora da borda, espirrando em
toda a mesa.
— O principal motivo pelo qual estou interessado em receber minhas ações é porque
quero reter poder suficiente para fazer as melhores escolhas para meus
funcionários. Dreamland representa 20% de toda a receita de nossa empresa. Posso ser o
tipo de Diretor que trabalha para nos levar a novos limites e, ao mesmo tempo, protege
nossos funcionários. Eu quero ser o único. Como eu disse antes, criei inúmeros planos
com os Criadores que incluem expandir Dreamland além de nosso único parque. — Ele
olha ao redor da sala para cada pessoa. — Eu tenho os slides prontos para apresentar se
vocês precisarem de mais evidências para apoiar sua decisão de aprovar minha
mudança. Embora eu esteja interessado em renovar o parque além de tudo que
Dreamland já viu antes, minha primeira prioridade são os funcionários.
O QUE?! É assim que as reuniões do conselho costumam ser? Quase me arrependo de
ter zombado delas quando conheci Rowan porque isso é intenso.
O pai de Rowan levanta a mão. — Isso não vai influenciar minha decisão. — Sua voz
é monótona.
Minha exaltação morre, substituída por ácido subindo pela minha garganta. O rosto
de Rowan permanece neutro, mas a minúscula veia acima de seu olho direito se torna
mais proeminente.
Seu próprio pai realmente votaria não? Depois de tudo isso? Eu sei que ele é cruel e
tudo, mas até ele deve estar um pouco impressionado com seu filho.
Se não fosse estranho, eu me levantaria e aplaudiria de pé.
Os dois homens balançam a cabeça.
Martha levanta a mão enrugada. — Eu gostaria de alguns esclarecimentos sobre algo.
O canto do lábio de Rowan se levanta. — Sim?
— Estou interessada em ouvir sobre seus planos para funcionários com deficiência.
Pela primeira vez durante toda a apresentação, o exterior frio de Rowan estala. Ele
pisca para Martha, que exibe um sorriso malicioso.
— Eu pensei que você estava do lado dele? — Inclino-me e sussurro em seu ouvido.
— Eu estou. — Ela pisca. — Há uma coisa que sobrou que ele não cobriu.
Rowan pigarreia e clica em tantos slides que fico tonta com o movimento.
Ele para em um slide que me prende a respiração. Porque, ao contrário do slide de
Ralph, este tem uma foto de Ani. Minha linda, mais do que a vida, que tem o braço em
volta do ombro de JP.
— Esta é Ani. Ela é uma de nossas funcionárias mais novas que vem de uma família
de trabalhadores da Dreamland. Acontece que eu fiz parceria com ela para um programa
piloto de mentoria. Ela rapidamente me ensinou todas as coisas da Dreamland, incluindo
nossa falta de diversidade no processo de contratação.
Não sei por que meus olhos se enchem de lágrimas, mas enchem. Uma única lágrima
escorre, e Martha, como a mente astuta que é, me dá um lenço de papel. Tenho certeza
de que ela fez essa pergunta de propósito, apenas para me ver chorar.
— Fiquei confuso porque conheço nossos procedimentos e como lutamos por um
elenco etnicamente diverso. Mas então Ani me disse que não existem pessoas como ela -
pessoas com deficiências, visíveis e invisíveis. Então, durante o tempo que eu deveria ser
mentor de Ani, parece que ela foi mentora de mim. Ela me ensinou o que significava viver
uma vida como a dela, e comecei a fazer minha própria pesquisa. Portanto, para
responder à sua pergunta, Martha, pretendo expandir nosso processo de contratação para
incluir mais pessoas com deficiência. Eu também gostaria de avançar com um programa
de mentoria completa para atender às suas demandas. Quero que Dreamland seja a
primeiro de seu tipo.
Mais lágrimas escorrem pelo meu rosto. Estou uma bagunça completa, olhando para
a foto da minha irmã com o JP. Nunca pensei que meu programa piloto levaria a uma
mudança como essa. Nunca em um milhão de anos.
— Este projeto será abordado em três grandes fases, começando com o novo programa
de mentoria. Assim que estiver concluído, avançarei com um projeto Gerador que
enfatizará a promessa de inclusão da Dreamland. Estaremos expandindo nossos trajes e
souvenirs para incluir cadeiras de rodas, muletas e acessórios protéticos para atender a
população de crianças na Dreamland que muitas vezes são ignoradas. Além disso, vamos
enfatizar uma nova promessa para as famílias, criando a primeira celebração
sensorial. Esta oportunidade dará às crianças do espectro a capacidade de desfrutar da
Dreamland.
Limpo meu rosto, tentando apagar as lágrimas. Estou chocada que Rowan pegou
minha última criação e aplicou em sua apresentação. Com tanto em jogo, significa muito
para mim que ele esteja disposto a arriscar seus vinte e cinco bilhões de dólares.
Se não é ele mostrando como se importa, não sei o que é.
— Alguma outra pergunta? — Rowan olha para mim.
Balanço minha cabeça, esperando que meus olhos gritem o quão feliz e orgulhosa
estou.
— Obrigado pelo seu tempo hoje. — Ele desliga o projetor e sai da sala.
Espera aí? Ele não fica para a deliberação ou algo assim?
Um homem aleatório entra com uma pasta. Ele passa a cada um de nós uma folha de
papel com nossos nomes e uma caneta.
Há muito jargão jurídico que tenho que ler três vezes antes de entender e uma caixa
de seleção simples perguntando se eu aprovo as revisões para Dreamland.
Não importa o quanto Rowan tenha me machucado pessoalmente, não há mais
dúvidas em minha mente de que ele é o homem certo para o trabalho. Eu seria estúpida
e mesquinha em votar contra ele.
E porque você o ama.
Não. Isso não tem nada a ver. Ele provou que merece a chance de mudar a Dreamland
para melhor, e não vou ser a única a atrapalhar.
***
Espero do lado de fora da porta principal da conferência. Todos saem um por um,
exceto a pessoa pela qual passei dez minutos esperando.
O que diabos ele poderia estar esperando?
A porta se abre e Seth Kane sai do lugar como se tivesse uma passarela pessoal em
casa. Por um segundo, considero se devo realmente levar adiante meu plano.
Sim, foda-se.
— Sr. Kane? — Bato em seu ombro.
— Sim? — Ele olha para mim com uma sobrancelha levantada. Argh. O jeito que ele
me encara tem essa estranha habilidade de me fazer sentir com cinco centímetros de
altura.
— Eu queria dizer que embora você possa ser considerado um bom homem de
negócios, você fez isso à custa de ser um pai terrível e verbalmente abusivo. E um dia
você vai olhar para trás e se arrepender da maneira como tratou seus filhos, e espero que
isso o machuque tanto quanto você os machucou. Então foda-se e cai fora.
Viro-me e pego Martha olhando para mim com um grande sorriso e um polegar para
cima. Tenho certeza de mandar um beijo para ela no meu caminho para fora da porta,
enquanto uso minha outra mão para dar a Seth Kane o dedo do meio.
Não há outra maneira de passar meu último dia de trabalho oficial na Dreamland.
50
ROWAN

Achei que, assim que deixasse a sala da diretoria, o pânico me atingiria. Mas enquanto
estou sentado em meu escritório, esperando o advogado do vovô encerrar a votação, sinto
uma estranha sensação de calma tomar conta de mim.
Aceitei meu destino, independentemente do que o conselho decidir. Se eu não receber
as ações da minha empresa, ainda posso permanecer como Diretor. Meus irmãos ficarão
chateados, especialmente Declan, por causa da confusão com meu pai. Entendo isso, mas
fiz todo o possível para ganhar a vantagem.
Em vez de seguir com minha apresentação original com as melhores ideias da equipe
Alpha e Beta, segui minha intuição. Foi uma mudança estressante, mas Martha me
ajudou a superar. E caramba, não esperava que minha secretária fosse um dos votos. Não
acredito que ela escondeu isso de mim enquanto me ajudava com a apresentação.
Pelo menos posso garantir um voto.
E talvez dois.
Zahra parecia comovida com a coisa toda, mas não iria culpá-la se ela decidisse que
eu não era digno da posição ou do poder associado às ações. Embora esteja irritado por
meu pai revelar esse segredo, acho que foi sua maneira de me informar que está ciente
do que está em jogo. De alguma forma, a carta do vovô deve ter dito mais do que eu
esperava.
Alguém bate na minha porta. Martha abre e enfia a cabeça para dentro. — Seu pai
gostaria de falar com você.
— Deixe-o entrar. — É melhor acabar com isso.
Meu pai entra em meu escritório.
— Sente-se.
Ele permanece de pé. — Não pretendo ficar muito tempo.
Levanto uma sobrancelha. — Está aqui para se regozijar?
Ele balança a cabeça. — Não. Quero dizer que estou orgulhoso de você.
Espero pela outra metade da declaração revelando onde errei. O silêncio aumenta
conforme percebo que ele realmente só queria dizer isso.
— Por que?
Ele me ignora. — Desejo-lhe boa sorte na administração deste lugar. Espero você na
próxima reunião do conselho, pronto para fazer uma apresentação mais concisa sobre o
seu plano de orçamento para tudo isso.
Realmente ganhei a aprovação dos votantes ou isso é uma piada para me enganar?
— O que você está dizendo?
— Seu avô teria orgulho do homem que você se tornou.
Outra mensagem.
Ele sai do meu escritório com um aceno de cabeça, deixando-me olhando para o local
onde ele estava, me perguntando como diabos consegui isso.

O advogado entra em meu escritório logo após meu pai e confirma o que já sei. O
comitê aprovou minhas mudanças e ele entrará em contato comigo na próxima semana
para discutir minhas finanças. Parece surreal finalmente deixar tudo isso para trás. Estou
ansioso para realmente fazer as coisas, em vez de discutir o assunto.
Mando uma mensagem para meus irmãos e digo a eles que minha parte do plano está
completa. Agora cabe a eles assegurar suas partes.
Abro minha conversa com Zahra e mando uma mensagem, esperando que ela
finalmente me dê a chance de que preciso convencê-la de que estou falando sério sobre
nós.
Eu: Você virá hoje à noite e me ouvirá?
Eu: Por favor.
Envio a segunda mensagem para ganhar pontos extras.
Sua resposta é instantânea.
Zahra: Tudo bem. Só porque você pediu com educação.
Zahra: Mas não tenha muitas esperanças.
Muito tarde. Pela primeira vez em semanas, finalmente sorrio.
***
Ando pela varanda da frente. A madeira range sob meus sapatos a cada passo. Um
galho se estala e olho para cima para encontrar Zahra subindo a garagem usando o
mesmo vestido branco de antes. As cores do pôr do sol são o cenário perfeito para ela, e
me perco em como ela é bonita.
A única coisa que falta é seu sorriso. Depois de hoje, juro que nunca vou fazê-la se
sentir nada além de feliz perto de mim. Embora possa parecer uma meta impossível, meu
objetivo é alcançar o inatingível.
Zahra sobe os degraus, mantendo o rosto neutro. Ela faz um movimento em direção
à porta da frente, mas a conduzo em direção ao banco de balanço que passei a
apreciar. Espero que isso me dê coragem para superar tudo o que estou prestes a
desencadear.
Agora é uma boa hora para me desejar sorte, mãe.
— Então... — Zahra balança para frente e para trás, fazendo o balanço se mover.
— Quando meu avô me enviou aqui como parte de seu testamento, nunca pensei que
conheceria alguém tão especial quanto você. Era para ser um projeto simples. Mas eu
deveria saber que as coisas não sairiam de acordo com o planejado no momento em que
você caiu no meu colo - literalmente. É como se a vida continuasse jogando você no meu
caminho uma e outra vez, esperando que eu recebesse o memorando. Eu era teimoso
demais para perceber que você sempre foi destinada a ser minha, Zahra. E por causa
disso, cometi erros. Menti sobre quem eu era. Recusei-me a confiar em você, embora
soubesse no fundo que podia. E, acima de tudo, eu a empurrei quando você não fez nada
além de abrir seu coração para mim sem qualquer retribuição. Aceitei o seu amor como
certo, quando deveria tê-lo apreciado. Porque ser amado por você é uma dádiva. Uma
que joguei fora porque eu era muito estúpido e egoísta para dar a você esse tipo de poder
sobre mim em troca.
Seus olhos suavizam em torno das bordas, e ela puxa minha mão em seu colo.
— Você estava certa quando disse que merecia coisa melhor. Você sempre fez e
sempre fará. Mas eu me recuso a deixar você ir. Não posso deixar você ir porque você é a
única pessoa neste mundo inteiro que me faz querer sorrir, e sou muito egoísta para
deixar a melhor coisa da minha vida fugir de mim porque estou com medo.
Seus olhos se enchem de lágrimas, mas ela pisca as lágrimas antes que caiam.
Aperto a mão dela. — A verdade é que estou com medo de me apaixonar. Mas prefiro
confiar em você com meu coração e arriscar que você o quebre do que viver outro dia
sem você em minha vida. Eu quero ser o tipo de homem que merece uma mulher tão
bonita, altruísta e gentil quanto você. Pode levar minha vida inteira para atingir esse tipo
de objetivo, mas enquanto você estiver ao meu lado, considero uma vida que vale a pena
ser vivida.
Seu lábio inferior balança e traço-o com meu polegar.
— E embora eu saiba que não mereço você, vou passar todos os dias provando a você
o quanto eu te amo.
Uma lágrima escorre e enxugo-a com a ponta do polegar.
— E sobre voltar para Chicago?
— Foda-se Chicago. Não há nada que eu queira mais do que ficar aqui com você e
construir uma vida juntos.
— Um beijo por segredo? — Sua voz falha.
Concordo.
Seus lábios pressionam contra os meus. Suspiro enquanto envolvo minha mão em
volta de seu pescoço e a puxo para perto. Despejo todos os sentimentos naquele beijo,
esperando que ela entenda o quanto me importo com ela. Como eu nunca quero deixá-la
ir.
Ela se afasta com uma respiração irregular. — Eu também te amo, Rowan. E ficaria
mais do que feliz em proteger seu coração do mundo, porque você me faz querer ser um
pouco egoísta também. — Seu sorriso rivaliza com tudo no mundo inteiro.
Zahra é tudo para mim. Eu sei disso com tudo em mim, e minha intuição nunca esteve
errada antes. Não há nada no mundo que eu ache mais bonito do que ela. Não o sol. Não
a lua. Nem mesmo a galáxia inteira se compara à luz que ela irradia por onde passa.
51
ZAHRA

Os lábios de Rowan apenas deixam os meus para me carregar escada acima sem
cair. Minhas pernas ficam enroladas em seus quadris durante toda a jornada até que ele
me joga em sua cama e arranca todas as minhas roupas.
Ele beija uma trilha dos meus lábios até o osso do meu quadril, fazendo-me sentir tão
bonita que meus olhos lacrimejam. Suas mãos arrastam pelas minhas coxas. Ele com
certeza vai me provocar enquanto se move, acariciando minha pele com o toque mais
leve que me deixa sem fôlego.
— Eu amo os barulhinhos que você faz porque são todos meus. — Seu olhar queima
em mim enquanto ele traça a curva do meu seio com o dedo indicador. Minha pele se
arrepia em seu rastro e meu clitóris lateja.
— Mas eu amo especialmente os gemidos que você faz quando faço isso. — Ele cai de
joelhos antes de sua língua se arrastar pelo meu centro. Meus quadris se contraem do
colchão e Rowan pressiona a palma da mão contra minha barriga, me segurando.
— Eu pensei que sabia o que significa ser egoísta, mas então eu conheci você. Quero
possuir você de todas as maneiras que importam. Seu tempo. Seus sorrisos. Seu coração.
— Seu sorriso tortuoso envia um arrepio pela minha espinha.
Não há outra palavra para descrever a maneira como ele me adora. Sinto-me como se
estivesse deitada em um altar, com Rowan me cobrindo com sua devoção. Ele usa sua
língua como uma arma, me transformando em nada além de massa sob suas mãos. Meu
mundo muda para preto quando fecho meus olhos e me perco na sensação de sua língua
me fodendo até o esquecimento.
Suas mãos agarram minha bunda e apertam, me fazendo ofegar. — Olhos em mim.
Meus olhos se abrem enquanto olho para ele. Ele mantém seu olhar fixo no meu
enquanto chupa meu clitóris, provando o quanto ele possui meu corpo e coração. Minha
cabeça cai sozinha enquanto meus olhos reviram para a parte de trás da minha cabeça.
Ele se afasta e pressiona o polegar contra meu clitóris. — O que foi que eu disse?
Apoio-me nos cotovelos e olho para ele me devorando. É sensual a maneira como sua
boca se move. Nossos olhares se detêm enquanto ele bombeia outro dedo em mim,
trazendo outra onda de prazer. Ele empurra no ritmo de sua língua. Estou ofegante e
agarrando os lençóis, tentando me segurar para me manter com os pés no chão.
Rowan não gosta disso. Suas ações gritam e seus movimentos são frenéticos. Ele me
quer selvagem e implorando porque cada ação posterior diz isso. Seus dedos se tornam
implacáveis, provocando meu ponto G como se ele o possuísse. Contorço-me sob ele, mas
sua mão permanece firme, pressionando-me contra os lençóis, me forçando a não fazer
nada além de sentir.
Meu orgasmo me atinge do nada, como uma enorme onda de prazer, começando na
minha cabeça e movendo-se até os dedos dos pés.
Sinto-me completamente entorpecida quando o barulho da fivela de seu cinto
preenche o silêncio. Não consigo me mover e fazer nada.
Rowan beija o caminho de volta pelo meu corpo. — Eu te amo demais, Zahra.
É incrível como três pequenas palavras podem desencadear um enxame inteiro de
borboletas no meu estômago.
— Você estaria disposto a tentar algo novo comigo?
Pensei que o alfa Rowan era sexy, mas há algo em sua voz hesitante que me faz passar
a mão em suas costas para apoiá-lo.
Ele coloca um beijo suave contra meus lábios. — Você confia em mim?
Respiro fundo. Depois de tudo que passamos, eu não deveria. Podemos ter algum
trabalho a fazer, mas sei que Rowan me ama. Ele desistiu de seu futuro em Chicago por
mim. Suas ações falam as palavras mais altas, mesmo que tenha demorado algum tempo
para chegar lá.
— Sim. Eu confio.
— Bom. Não quero usar camisinha com você.
— Eu sinto muito. O que? — Pisco. Embora ele saiba que estou no controle de
natalidade, nunca esperei que ele perguntasse algo assim. Não com seu tipo de história
com mulheres.
Ele segura minha bochecha. — Eu não quero mais nada entre nós.
Meus olhos ficam enevoados. Não deveria chorar, mas é difícil evitar com base na
onda de emoção em meu peito.
Depois de ser manipulado e abusado por muitas pessoas, ele está disposto a desistir
desse último controle que tem sobre sua vida e confiar em mim.
Aceno, sem saber se posso falar por causa do quão apertada minha garganta está.
O sorriso que ele me oferece é um que nunca esquecerei pelo resto da minha vida. Ele
se levanta e me puxa para a beira da cama com força suficiente para me fazer
gritar. Minhas pernas são jogadas sobre cada um de seus ombros. Quase derreto nos
lençóis quando ele coloca o beijo mais suave contra a parte interna da minha coxa.
Rowan alinha seu pau com o meu núcleo. — Agora que tenho você, nunca vou deixar
você ir. — Ele empurra para dentro de mim lentamente.
Agarro a cama embaixo de mim. — Eu não quero que você faça isso.
— É fofo que você pense que tem uma escolha. — Ele empurra mais, roubando meu
fôlego. Suas mãos cavam em minha pele, me segurando firme enquanto ele bate o resto
do caminho.
Desta vez, o sexo é diferente. Cada toque parece uma promessa e cada beijo um
juramento. O ritmo de Rowan está castigando de uma maneira completamente diferente
- com seus golpes lentos.
Ele não para de adorar meu corpo enquanto sussurra em meu ouvido.
— Não tenho certeza do que fiz de certo na minha vida para merecer o seu amor, mas
não vou parar por nada para protegê-lo. — Seus lábios encontram os meus e ele me beija
suavemente. — Vou trabalhar todos os dias para ter certeza de que você sempre terá um
motivo para sorrir, mesmo que isso signifique compartilhá-los com o resto do mundo. —
Ele se retira para deslizar de volta para mim, desta vez com um pouco mais de
desespero. — E eu vou arruinar qualquer um que ameace sua felicidade.
Perco a batalha com meus olhos e lágrimas escorrem pelo meu rosto. Rowan beija
cada uma das minhas lágrimas em uma promessa silenciosa.
E com mais alguns golpes, caímos juntos como deveríamos.
***
Rowan me segura com força contra seu peito. Traço um padrão estúpido através dele,
seguindo as linhas dos músculos.
— Então, eu posso ter dito algo invulgarmente maléfico para seu pai depois da sua
apresentação hoje.
— Embora meu pai seja a última pessoa sobre a qual quero falar enquanto estiver nu
na cama com você, estou curioso demais para deixar passar.
Rio enquanto bato em seu peito. — Bem, eu posso ter dito a ele para se foder.
Rowan explode. Sua risada é pesada e áspera como se ele não pudesse levar oxigênio
suficiente para seus pulmões.
Absolutamente amo isso e mal posso esperar para fazê-lo fazer isso de novo.
— Você tem que me contar toda essa história do começo ao fim. — Ele chia.
— Não há muito a dizer. Martha foi minha testemunha enquanto o repreendi por ser
um péssimo pai.
— Você disse isso em público?
— Sim? — Eu deveria dizer isso em algum corredor secreto?
— E o que ele disse?
— Nada.
Rowan pisca. — Você disse ao meu pai o quanto ele era péssimo como pai e para se
foder e ele não disse nada?
— Umm... ele deveria?
— Eu o ouvi demitir funcionários por respirar nele da maneira errada.
— Isso parece um pouco extremo.
— Você não o conhece como eu.
— Graças a Deus. São essas pequenas bênçãos que me ajudam durante o dia.
Seu peito treme com uma risada silenciosa. — Eu nem sei o que fazer com isso. Meu
pai nunca aceitaria esse tipo de conversa de ninguém.
Ele pega seu telefone e manda mensagens para seus irmãos sobre esta última
atualização.
Arrasto um dedo em seu peito. — Talvez ele já soubesse que eu me demiti.
Rowan balança a cabeça. — Eu duvido disso. Não deixei Jenny registrar sua
notificação, então você ainda é considerada uma funcionária em todos os aspectos
importantes.
— O QUE?! — Sento-me.
Rowan me puxa de volta para baixo e me segura contra ele. — Eu não poderia deixar
você ir.
— Sim, bem, você não pode manter meu aviso como refém porque você sentiu
vontade. Isso é ilegal.
Ele encolhe os ombros. — De acordo com seu contrato, posso fazer exatamente isso
até que você complete uma entrevista de despedida comigo. É por isso que você sempre
deve verificar as letras miúdas.
Meus lábios se abrem. — Achei que não era especial o suficiente para as letras miúdas.
— Você é tão especial para mim que não pretendo deixar ninguém perto de você que
não seja da família ou mulher.
Reviro meus olhos. — Você é muito possessivo para o seu próprio bem.
Ele nos vira para que possa pairar sobre o meu corpo. Seus quadris rolam nos meus,
pressionando seu pau endurecido em mim.
— Como essa conversa te excita?
Seus lábios caem para o ponto no meu pescoço que ele já está marcado e
machucado. — Porque falar sobre ser possessivo quando posso mostrar a você em vez
disso. — Rowan prova exatamente o que significa ser amada por ele, a noite toda.
Seu amor é algo em que uma garota pode ficar viciada, então é uma coisa boa que eu
tenho o resto da eternidade para amá-lo de volta.
EPÍLOGO
ZAHRA

Minha família inteira se alinha atrás da enorme fita vermelha. Os irmãos de Rowan,
que são tão injustamente bonitos quanto meu marido, estão ao lado dele.
Rowan me enfia em seu corpo e beija minha têmpora. — Você está pronta?
Uma câmera dispara, captando o momento. Há muita imprensa aqui para a
inauguração oficial da Nebula Land. Pode ter levado três anos para ser concluída, mas
valeu a pena. No momento em que os convidados entram no espaço, eles são
imediatamente jogados em um planeta completamente diferente de onde Iggy, o
alienígena, vem. O passeio que Lance enviou recebeu um upgrade e ainda continua sendo
uma das principais atrações do parque, e passei a aceitá-la. Porque sem aquele pedaço de
metal de um bilhão de dólares, eu poderia nunca ter conhecido o amor da minha vida.
Imagino que Brady está sorrindo para nós hoje.
— Eu não posso acreditar que isso está acontecendo. Você acha que as pessoas vão
gostar?
— Eles seriam loucos se não o fizessem. — Rowan me passa a tesoura de prata gigante.
— Você confia em mim com uma arma como esta?
No momento em que ele me solta, meus braços caem com o peso do metal.
— Ok, talvez não seja minha melhor ideia. — Ele coloca as mãos sobre as minhas e as
segura até a fita.
— É mais pesada do que parece nos filmes.
Ele solta uma risada suave que só eu posso ouvir. Outra câmera pisca em nossa
direção.
— Eles te pegaram sorrindo para a câmera! — Suspiro com horror fingido.
— Quanto você acha que preciso pagar a ele para excluir a imagem?
— Não tenho certeza. Tudo é salvo em uma nuvem agora...
— Vocês dois vão andar logo? Eu quero ir nos passeios! — Ani põe a cabeça para fora
das minhas costas.
— Faça o que ela disse! — Cal chama do outro lado de Rowan.
— Estamos tendo um momento, — Rowan responde bruscamente a seu irmão.
— Todos nós já tivemos que viver três anos de seus momentos. Eu ouvi alguns deles
também, — Cal diz de volta.
— Olá! Meus pais estão bem aí. — Olho para Cal.
— Eles estão com ciúmes — sussurra Rowan em meu ouvido antes de beijar minha
bochecha.
— Na verdade não. Vocês dois são nojentos. — Ani faz um barulho de ânsia de
vômito. Ela está exagerando, especialmente quando JP fica pendurado em cima dela
como um polvo.
Claire corre até nós com seu avental de cozinha meio desfeito e seu cabelo em todos
os lugares. — Eu consegui! — Ela joga seu braço suado em volta de mim antes de ocupar
um lugar ao lado de Ani.
— Finalmente, — Rowan resmunga baixinho.
— Você estava esperando que Claire chegasse?
Não chore, Zahra.
— Claro. Sem ela, você nunca teria enviado essa proposta bêbada, em primeiro lugar.
— Rowan sorri sem esforço, com cada gota de amor em seus olhos.
Maldição, Zahra. Não chore ou então você entregará tudo.
— Obrigada por sempre ser tão atencioso.
— Eu te fiz uma promessa, não fiz? — Ele gira o anel no meu dedo uma vez, como se
para me lembrar que ele ainda está lá. Como se eu pudesse esquecer. Tenho certeza de
que meu diamante pode ser visto do espaço sideral, porque é irritante.
Meus olhos lacrimejam, mas pisco para afastar as lágrimas restantes antes que elas
possam escapar. — Preparado?
Meu marido sorri de volta para mim e levanta a tesoura mais alto. — Vá em frente,
esposa. — Sua voz cai, enviando uma onda de calor pela minha espinha.
Ele não parou de me chamar assim desde que nos casamos no inverno passado na
neve. E a cada vez, isso envia uma onda de algo pelo meu corpo, fazendo-me sentir cada
pedaço dele.
Grito para a multidão. — Obrigada por se juntar a nós hoje. Nebula Land ocupa um
lugar especial em todos os nossos corações porque sabemos o quanto isso teria significado
para Brady. Embora ele não possa estar aqui hoje, tenho certeza de que está olhando para
nós, tão animado quanto. Iggy era seu personagem favorito, embora ele pudesse não ter
admitido com tantas palavras. Brady apreciou seu primeiro desenho porque o
representou, um jovem imigrante que sentiu que viajou para um mundo completamente
diferente quando veio para a América. Iggy se tornou uma forma de Brady canalizar sua
felicidade, entusiasmo e medos. Em si mesmo, Iggy é uma extensão de Brady de muitas
maneiras - dos valores que Brady deseja espalhar com seus filmes. Portanto, estamos
entusiasmados em abrir a Nebula Land para que todos na Dreamland possam visitar e
amar tanto quanto nós.
Rowan e eu cortamos a fita juntos. Todos aplaudem ao nosso redor, batendo palmas
e gritando. Algumas crianças correm em direção à entrada do terreno enquanto nossos
familiares se misturam.
Alguém pega a tesoura das mãos de Rowan. — Você fez...
Ani chama o nome de Rowan como havíamos planejado antes. Eu sabia que de todas
as pessoas, ele não resistiria em responder a ela. Seu ponto fraco por minha irmã só
cresceu com o passar dos anos, e agora uso isso a meu favor.
Minha mãe se agita, trocando meu broche esmaltado pelo novo. Ela me dá uma
piscadela antes de se voltar para meu pai.
Rowan envolve seu braço em volta de mim por trás. Ele beija a curva do meu pescoço
antes de me virar para que possamos ficar de frente um para o outro. — Estou orgulhoso
de você. Foi um discurso incrível.
— Simplesmente incrível? Eu posso fazer melhor que isso. Vamos chamar os
repórteres aqui e refazer. — Giro meu dedo como ele faz quando quer algo feito.
— Você é louca, sabia disso?
— Difícil de esquecer quando você me conta todos os dias.
Ele segura minha bochecha com uma mão. — Eu adoro ser consistente.
Finalmente, na deixa, seus olhos se arrastam pelo meu rosto antes de seguirem pelo
meu corpo. Ele inclina a cabeça e pisca duas vezes. — O que é isso?
— O que? — Pisco inocentemente.
— De quem é esse broche? — Ele aperta o broche no meu peito, fazendo-o tremer.
Eu protejo o pedacinho de metal que mostra um pãozinho dentro de um minúsculo
forno. Depois que fiz um teste de gravidez no apartamento de Claire há três semanas, ela
me surpreendeu com esta pequena joia de aniversário.
Achei que hoje era o momento perfeito para anunciá-lo a Rowan. Porque começamos
com a Nebula Land e acabamos aqui, junto com nossas famílias, anos depois.
— Meu. — Sorrio.
Ele pisca novamente como se seu cérebro precisasse processar todas essas
informações. — Você está grávida? — Sua voz é um sussurro.
Aceno minha cabeça para cima e para baixo. Rowan se esquece de todos ao nosso
redor enquanto me beija até que meus lábios incham e minha cabeça fica tonta por falta
de oxigênio.
Olho para o meu marido, encontrando suas bochechas listradas com algumas
lágrimas. Como todas as vezes que ele fez comigo, eu as afasto como se nunca tivessem
existido.
Ele envolve seus braços em volta de mim e beija minha cabeça. — Você é a melhor
coisa que já me aconteceu. Obrigado por me dar a chance de ser o pai que eu nunca tive,
mas sempre quis.
Todo o meu coração se dissolve no meu peito. Não há nada que eu queira mais na
vida do que compartilhar o amor de Rowan com nosso filho. Porque ser amada por ele é
ser valorizada e protegida incondicionalmente e, em um mundo como o nosso, é uma
dádiva. Uma que eu nunca soube que precisava, mas não poderia imaginar viver sem.
EPILOGO EXTENDIDO
ROWAN

— Este aqui, papai! — Ailey bate o livro no meu peito antes de pular em sua cama. Seu
pijama de vestido da Princesa Cara infla ao seu redor, e seu cabelo escuro voa direto para
seus olhos castanhos. Ela empurra as ondas do rosto.
Não preciso olhar para o livro para saber qual ela escolheu. É o mesmo livro que ela
escolhe todas as noites antes de dormir.
Eu a coloco na cama antes de me sentar na beirada. — Tem certeza de que não quer
escolher um diferente? — Balanço o livro que criei na frente dela.
— Não! Eu quero ouvir sobre você e a mamãe! — Ela tem o mesmo sorriso de Zahra,
e isso deixa meu peito todo quente e apertado para fazer minha filha sorrir daquele jeito.
Nunca pensei que um presente que projetei para a lua de mel de Zahra teria um
impacto tão duradouro. Ailey pede que eu leia o livro de imagens todas as semanas como
um relógio, e me enche de orgulho saber que ela ama meu trabalho tanto quanto sua mãe.
— OK. Mas apenas uma história. Você já passou da hora de dormir hoje. — Não quero
perder o show de fogos de artifício com Zahra. É nossa tradição todas as noites assistir
da varanda.
— Eu prometo!
Isso foi mais fácil do que pensava. Ela sempre me pede para ler pelo menos três
histórias antes de dormir, e desisto sempre. Eu sou um otário por sua única covinha e
grandes olhos castanhos.
Coloco um beijo suave em sua testa antes de abrir o livro na primeira página que
desenhei. — Era uma vez um homem triste que recebeu uma carta do avô.
— E depois? — Ailey sorri como se ela não soubesse toda a história do início ao fim.
Li as próximas páginas explicando quem eu era e o que precisava fazer.
Todo o rosto de Ailey se ilumina quando viro a página para um desenho de Zahra
abrindo a porta do auditório. Estou desenhado em um canto escuro, olhando para ela
como um idiota furioso.
— É a mamãe! — Ela ri. — Você está bravo com ela.
Rio para mim mesmo. — Fiquei mal-humorado quando a mamãe não seguiu as
regras.
— Boo! Eu não gosto de regras.
— Você é definitivamente filha da sua mãe. — Toco seu nariz enrugado com um
sorriso.
Continuo lendo a história. Os olhos de Ailey se fecharam lentamente muito mais cedo
do que eu esperava, provavelmente por causa do nosso longo dia no parque para o
aniversário de Ani.
Dou um beijo no topo da cabeça de Ailey antes de desligar a luminária de cabeceira e
sair do quarto.
Saio para a refrescante noite de janeiro.
— Ela já dormiu? — Minha esposa apaga a luminária do livro antes de fecha-lo.
Pego o livro do colo dela e coloco em outra cadeira. — Ela adormeceu antes que eu
chegasse à sua parte favorita. — Sento-me no balanço e a puxo contra o meu lado. Ela
avança um centímetro para que eu possa envolver meu braço em torno dela e descansar
minhas mãos em sua barriga. Se eu tiver sorte, posso sentir o garotinho chutar assim que
os fogos de artifício explodirem para o show desta noite. Ele está sempre muito ativo
durante eles.
— Talvez seja hora de você fazer uma versão atualizada para que ela possa ler sobre
si mesma e seu irmão mais novo. — Zahra dá um tapinha na minha mão.
Coloco seu cabelo atrás da orelha antes de beijar seu ombro. — Vou começar a
trabalhar nisso amanhã.
— Você a mimou.
Encolho os ombros. — Não há nada de errado com isso.
Ela olha para mim. — Mesmo? Na semana passada, você fechou o Castelo da Princesa
Cara enquanto fazia uma festa do chá com Ailey. Está ficando fora de controle.
— Foi apenas por uma hora.
— Em um sábado no meio da alta temporada! — Zahra ri, fazendo sua barriga vibrar
contra minhas mãos.
— Não vejo problema quando somos donos do parque.
Ela balança a cabeça. — Marque minhas palavras. Ela nunca vai encontrar um homem
que seja páreo para você.
Solto uma risada baixa. — É quase como se esse fosse o ponto.
Zahra ri até enxugar o canto dos olhos. — Eu deveria ter adivinhado que você seria
assim.
— Ridiculamente incrível? — Inclino seu queixo para poder beijar seus lábios.
— Não. — Ela sorri contra meus lábios.
— Ridiculamente impossível?
Ela balança a cabeça e acabo beijando sua bochecha. — Negativo. Mas perto.
— Ridiculamente apaixonado?
Ela sorri contra meus lábios. — É esse mesmo.
Beijo Zahra com todo o carinho que sinto por ela. Eu sou um bastardo sortudo que se
casou com a mulher que conhece todos os meus defeitos e me ama apesar deles. Zahra é
minha melhor amiga e meu único amor. A mulher que espero beijar todas as manhãs e a
última pessoa que quero ver antes de fechar os olhos à noite. A mãe dos meus filhos e a
pessoa com quem espero ver os fogos de artifício da Dreamland todas as noites até que
estejamos velhos e grisalhos.
Ela me deu uma segunda chance na vida, e pretendo aproveitá-la ao máximo pelo
resto dos meus dias.
FIM

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