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Análise do filme “Bacurau” sob a perspectiva da Análise das Instituições

Concretas de Guilhon de Albuquerque

Guilherme Trachtenberg
Michel Rasche Brandão
Vinícius Rech Arcari

O filme Bacurau (2019) de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles se passa em


um pequeno povoado do interior do Pernambuco onde, após a morte da matriarca Carmelita,
fenômenos estranhos começam ocorrer, com um grupo de estrangeiros chegando à cidade
com o objetivo de exterminar a população local, tendo como o único propósito a própria
diversão. Ao perceberem o que se passa, os habitantes precisam unir-se para criar uma
resistência contra esta ameaça. A obra, que recebeu prêmios em diversos festivais ao redor do
mundo, promove uma crítica aberta ao atual cenário sócio-político brasileiro, bem como uma
reflexão sobre temas como racismo, xenofobia e desigualdade.

Em sua obra, Guilhon de Albuquerque (como citado em Guirado, 2004) sistematiza os


elementos que estruturam a prática institucional. São estes: o objeto institucional, o âmbito da
ação das instituições, os atores institucionais e as práticas institucionais. Partindo destes
quatro elementos formulados e da noção de que, segundo Guilhon, toda análise é apenas um
recorte da realidade, é possível formular uma análise a respeito das questões raciais
apresentadas no filme Bacurau.

No primeiro ato do filme é possível observar uma Bacurau em seu estado ordinário de
funcionamento. Sendo uma comunidade marginalizada e esquecida pelo poder público,
Bacurau adota um modo próprio de funcionamento, organizando um funcionamento social
própria, com cada membro da comunidade exercendo um determinado papel no
funcionamento da organização, a qual regida por um sistema de cooperação entre seus
membros, os quais demonstram grande senso de comunidade e solidariedade com os demais.

Apesar de não haver uma relação explícita de hierarquia entre os habitantes de


Bacurau, os habitantes mais velhos parecem exercer um papel de liderança, não tomando
diretamente as decisões, mas agindo como conselheiros, tendo sua sabedoria como objeto
institucional para legitimar suas posições, como fica evidente nos casos das personagens
Plínio e Domingas. Este papel de conselheiros se expressa especialmente em determinada
cena em que estes ambos personagens organizam a divisão dos alimentos e medicamentos
recebidos em uma doação, sem definirem de forma direta o que deveria ser feito, mas
aconselhando os outros membros da comunidade a agirem com bom senso e
responsabilidade.

Já no segundo ato, as estruturas da comunidade são abaladas quando um grupo de


forasteiros chega a Bacurau com o objetivo de exterminar a comunidade. Os estrangeiros
utilizam da violência e de um discurso marcado pelo racismo e xenofobia como objeto para
legitimar sua dominação sobre a comunidade, inferiorizando os membros da comunidade de
forma, como se estes fossem menos humanos por sua etnia e situação sócio-econômica. Esta
situação fica evidenciada quando dois forasteiros do grupo, também brasileiros, são
confrontados pelos membros americanos, quando estes primeiros dizem ser diferentes dos
moradores de Bacurau por serem de uma região mais rica do país, com imigrantes europeus
bem como os estrangeiros, ao passo de que estes respondem com zombarias, já que, segundo
estes, os brasileiros, apesar de parecerem, nunca seriam como eles.

Nesta situação, coube a população de Bacurau agir de maneira subversiva, tomando


para si este objeto, a violência, antes monopolizada pelos agressores estrangeiros para
mostrar resistência ante esta ameaça. Desta maneira, ocorre uma disputa entre a comunidade
e os forasteiros, onde ambas as partes reivindicam a legitimidade sobre este objeto. Neste
sentido, pode ser identificado o âmbito institucional no qual este objeto é sustentado, a partir
das relações entre ambas as partes, em que, de um lado é mantida pelo cinismo e preconceito
por parte dos estrangeiros, enquanto do outros lado é proveniente do movimento de
resistência e do espírito de comunidade dos habitantes de Bacurau.

Pode-se observar que as pessoas da comunidade são os atores institucionais, por


estarem em diferentes situações e posições. Esses atores concretos são os responsáveis pela
existência das instituições, pois são eles os praticantes dessa instituição (Guirado, 2004), o
elemento estruturador. Tendem a ser os mesmos e a constituir um grupo social relativamente
estável. Em geral, também pertencem a uma categoria social definida na população.

Em Bacurau, há uma autogestão pelos moradores que fazem o seu papel de ator
institucional. Cada qual tem sua importância e papel relevante dentro da comunidade,
funcionando como uma das engrenagens de uma máquina maior. No decorrer da trama, os
atores desenvolvem um senso maior de ação com o objetivo de transformar a realidade
momentânea (o ataque).

Podemos classificar esses atores em 4 classes e com algumas subclasses. Na primeira


há os “Agentes institucionais”, sendo dividido em 3 subclasses: Agentes privilegiados,
agentes subordinados(subprivilegiados) e pessoal institucional. Os agentes privilegiados
constituem uma categoria profissional detentora de um saber/poder que é reconhecido
institucionalmente. Eles estão ligados à “atividade fim” da instituição. Nesse aspecto
podemos relacionar a médica da comunidade e o professor, filho de Dona Carmelita, como
agentes privilegiados. Em alguns momentos, o professor, aparenta ser o “líder” da
comunidade, tomando a frente em diversas vezes e sendo responsável pelo direcionamento
das ações através de decisões racionais com o intuito do bem geral. No grupo dos
“atiradores” também há os agentes institucionais, como o prefeito (que no final veio a tona
que teria contratado os assassinos) e o alemão Michael, lider dos demais.

Na segunda subclasse, há os agentes subordinados (subprivilegiado) seriam aqueles


que possuem menos autonomia em relação ao objeto institucional, mas são autônomos
quando se considera a prática institucional efetiva. Nesse prisma, a maioria das pessoas da
comunidade de Bacurau se encaixariam nessa definição, sendo os trabalhadores, padre,
locutor, estudantes, entregador de água etc. E por fim, o “pessoal institucional” que seriam os
“peões” da instituição, os funcionários e empregados que prestam serviços indispensáveis à
instituição. Em Bacurau não há uma divisão bem definida dentre esses atores, a maioria das
pessoas assume mais de uma posição, podendo ser uma, duas ou as 3 definições ao mesmo
tempo.

Na segunda classe há os Mandantes, que por definição é um ator individual ou


coletivo para quem a instituição responde. No geral, essa instituição é o Estado (poder
público). Não necessariamente o mandante é que manda, mas é o proprietário ou legitima a
propriedade do objeto institucional. Assim, na trama fica evidente que quem desempenha
esse papel é o prefeito da cidade, que é visto com maus olhos pelos moradores e por mais que
acredite ter esse papel, não é validado pela comunidade de Bacurau que sabem da ineficiência
do Estado e adotam um papel de autogestão para compensar a situação.

Na terceira classe há a “clientela” que por definição é “Atores concretos, individuais


ou coletivos, visados pela ação institucional. É quem “recebe a prestação de serviço” da
instituição”. Nesse caso a clientela é a própria comunidade, porque tudo o que é feito é
visando os moradores e o bem comum entre todos (desde serviços, produtos, lojas, eventos
etc). O que é produzido é para própria comunidade, até porque não há estrangeiros por lá.

E por fim, na quarta classe, o “Público” são aqueles que “podem participar
esporadicamente ou potencialmente, podem integrar a clientela mas não significa que irão
sempre. Em Bacurau não há um “público” bem definido porque praticamente não há pessoas
estrangeiras, com exceção da parte em que os dois motoqueiros chegam na comunidade e
todos ficam surpresos porque há “estrangeiros”, fato que quase nunca acontece.

Bacurau é um filme que conta uma história de vingança não somente dos nordestinos
e sertanejos. A obra retrata também a vingança contra o capitalismo e o Estado (poder
público). A transformação da cidade em zona de caça para turistas, representada pela elite
local (o prefeito), nacional (os paulistas) e estrangeira (empresa). O produto disso é um
cenário violento, em que pessoas invisíveis são deixadas às margens da sociedade, sendo
vítimas de um safári humano, reproduzido como se fosse um reality show para a televisão.
Em outras palavras, a tentativa de uma nova colonização estava prestes a acontecer. Uma
invasão estrangeira pronta para dizimar uma minoria étnica/racial.

O Estado, na figura de agente mandante, assim como a empresa que promovia o


extermínio humano, eram corresponsáveis e coniventes. A abordagem de Guilhon de
Albuquerque (citado em Guirado, 2004), destaca que as práticas institucionais podem ser
conflitantes, contraditórias e também complementares. Essa última caracteriza a relação
desses dois atores, já que tal prática era autorizada deliberadamente pela figura do prefeito de
Bacurau, promovendo o culto à violência. Nesse sentido, transpondo para o contexto do
filme, as práticas predominantes das instituições representadas por esses atores são: a
violência, o extermínio e a vingança.

Além disso, é possível perceber que as práticas institucionais reproduzidas em


Bacurau também são conflitantes, representado, de um lado, pela comunidade local que se
une para sobreviver; e de outro, os detentores do poder que tenta se instaurar: a empresa
estrangeira autorizada pelo prefeito. Metaforicamente, essa situação ilustra a perda de
identidade de um país subjugado pelo imperialismo americano, tanto que Bacurau nem no
mapa digital está identificado, sendo um lugar em que não existe lei, retratado numa
sociedade distópica em um Brasil do futuro, onde as práticas sociais estabelecidas operam
numa lógica própria.

Cabe destacar que o grande personagem desse filme é justamente a comunidade local
(público), que oprimida, resiste em sobreviver a qualquer custo. Percebem que algo estranho
está acontecendo e se unem para combater um novo inimigo (mandante). Interessante que não
há polícia ou exército para garantir a segurança local, sendo um ator institucional
desconsiderado no contexto da história. Assim, a sociedade tenta se autorregular através das
armas, tornando-se em uma só identidade, em um só ator institucional. Nesse contexto, todos
são privilegiados em participar das decisões e das ações com o objetivo único de
sobrevivência e manutenção de sua população diversa, que sempre conviveu
harmoniosamente.

Nota-se que as práticas institucionais são desconstruídas e mais fluídas. Na escola, a


figura do professor Plínio é menos opressora, incentivador de uma visão crítica de seus
alunos para se tornarem o que quiserem na vida. Outro aspecto que aborda a visão crítica é
quando o professor e Domingas aparecem numa cena em uma mesa com as doações para a
cidade, orientando que cada morador poderia pegar o que for usar, mas desde que fosse com
consciência. Ainda, outra prática desconstruída é a família de prostitutos, que é retratada sem
pudor na história, bem como o relacionamento homoafetivo e aberto de Domingas. Com
relação à religião, o uso de psicotrópicos pela população representa uma espiritualidade mais
aberta a experimentações, indicando um ritual de rotina.

Por fim, o filme se torna uma grande experiência por apresentar várias críticas
político-sociais. Bacurau propõe reflexões de um Brasil profundo, esquecido, invisível,
subjugado por um sistema capitalista avassalador, que oprime e mata deliberadamente. Para
tanto, a população organiza suas práticas institucionais para um objetivo maior de
sobrevivência através da construção de uma identidade própria. Práticas essas encarnadas
pelo grande ator concreto de Bacurau: a sua valente e resistente comunidade.

Referências:

Guirado, M (2004) Psicologia Institucional. 2ª ed. Editora Pedagógica e Universitária.

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