MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO PROCURADORIA GERAL DE JUSTIÇA CENTRO DE APOIO OPERACIONAL CRIMINAL ___________________________________________________________________

O USUÁRIO E O TRAFICANTE À LUZ DA NOVA LEI DE DROGAS.

2009 BELÉM

br/caocriminal .PROCURADORIA GERAL DE JUSTIÇA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ GERALDO DE MENDONÇA ROCHA Procurador Geral de Justiça CORREGEDORIA GERAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ UBIRAGILDA SILVA PIMENTEL Corregedora Geral do Ministério Público MANUAL DE PLANTÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ CENTRO DE APOIO OPERACIONAL CRIMINAL COORDENADOR ALDIR JORGE VIANA DA SILVA Promotor de Justiça SERVIDORA JAEL LOPES DE SOUZA OLIVEIRA ASSESSORA TÉCNICA ESPECIALIZADA JANE FERRAZ DE SOUZA MONTEIRO ESTAGIÁRIAS DE DIREITO FLÁVIA DANIELLE CORRÊA SALDANHA ALEXANDRA BERNARDES GALDEZ REVISOR ORTOGRÁFICO THALES BRANCHE PAES DE MENDONÇA CAPA CENTRO DE APOIO OPERACIONAL CRIMINAL Fone: (91) 4006-3505 Sítio: http://www.mp.gov.pa.

368. também. imediatamente. multa. Ressalte-se que. que foram expressamente revogadas. em último caso. priorizou a lei o “juízo competente”. de 11 de janeiro de 2002. prestação de serviço à comunidade. em detrimento da autoridade policial. no ordenamento jurídico brasileiro a política criminal da justiça terapêutica em relação ao tratamento conferido ao usuário e dependente de drogas. e nº 10. medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo e. quando concretizada a captura do agente (e feita a apreensão da droga ou da planta tóxica) cabe ao condutor (pessoa que efetuou a prisão em flagrante) levar o autor do fato. determinará o laudo de constatação. tendo em vista que a nova lei revelou-se muito mais benéfica que a anterior e. pois. Destarte. (que lavrará TCO .343/06 houve a unificação das matérias tratadas nas Leis nº 6.343/2006 descriminalizado a posse de droga para consumo pessoal? 3 .A DIFERENÇA ENTRE USUÁRIO E TRAFICANTE DE DROGAS 1. ocorreu uma novatio legis in pejus. ocorreu uma novatio legis in melius. adotou-se.409. o usuário pode ser submetido às seguintes medidas: advertência verbal. de 21 de outubro de 1976. gerou-se a seguinte polêmica: teria a Lei nº 11. ao juízo competente. Considerações Gerais: Com o advento da Lei nº 11. Atualmente. abrangendo desde o condenado até aquele que está sendo investigado em inquérito policial. Quanto ao tráfico de drogas. ou seja.. Todavia. Como visto no intróito. a lógica da nova lei de drogas pressupõe juizados (ou juízes) de plantão. A referida lei acabou com a pena de prisão para o usuário de drogas. na falta ou ausência do juiz. Em virtude das sanções previstas. vinte e quatro horas. portanto.). constituindo-se em uma das principais inovações da novel legislação.Termo Circunstanciado de Ocorrência.. o usuário recebeu tratamento diferenciado. No tocante ao traficante de drogas o tratamento penal mostrou-se mais gravoso. tem caráter retroativo pleno. requisitará exames e perícias. o fato será levado ao conhecimento da autoridade policial. etc.

observando-se o devido processo legal (no caso. ao maior enquadramento dos usuários como traficantes. os operadores do Direito. 28 desta 1 GOMES.. alternativa ou cumulativamente. o usuário de drogas assemelha-se ao “doente mental”. BIANCHINI. Guilherme de Souza. art. 1º.Luiz Flávio Gomes1 defende o ponto de vista de que se trata de infração sui generis inserida no âmbito do Direito Judicial Sancionador. Não seria norma administrativa. 48. A despeito disso. p. só é crime. pois. São Paulo. com o beneplácito da sociedade. conforme expressa determinação legal do art. se houver rejeição à idéia lançada pelo legislador. parte da doutrina defende o ponto de vista de que não houve a descriminalização da conduta.. doente mental) pode levar. as sanções só podem ser aplicadas por juiz criminal e não por autoridade administrativa. que é viciado. Alice. CUNHA. Essa medida pode desvirtuar as finalidades do novo art. 11. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. optando por outras formas de sanção extremamente brandas”. o que não ocorreria na hipótese do art. o legislador preferiu eliminar a pena privativa de liberdade. assevera: “parece que. Para o autor. na medida em que a própria Lei o inseriu no capítulo relativo aos crimes e as penas (Capítulo III). 4 . o procedimento criminal do Juizado Especial Criminal. Luiz Flávio. 2006. Nessa linha de raciocínio. A Lei de Introdução ao Código Penal está ultrapassada nesse aspecto e não pode ditar os parâmetros para a nova tipificação legal do século XXI. nem penal. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. da nova Lei). E conclui: [. 28 da Lei n. William Terra de. se for prevista a pena privativa de liberdade.] A falta de efetiva punição ao usuário de drogas (não estamos falando do dependente. Editora Revista dos Tribunais. além do que.108/113. OLIVEIRA. pela “brandura da punição com resultado imponderável”. Isso porque de acordo com a Lei de Introdução ao Código Penal. § 1º. logo. 2. Rogério Sanches da.343/2006. 2006. temendo a reação social à eventual descriminalização da conduta do consumidor de drogas. 2 NUCCI. Nova Lei de Drogas Comentada. o fato continua a ter a natureza de crime. p.756. A Doutrina e o Usuário de Drogas: Nucci2 critica o novo tratamento conferido ao usuário.

Na visão de Carlos Bacila e Paulo Rangel3 “assim como ninguém conceberia punir criminalmente um dependente de álcool. 3 BACILA. que não se confunde nem com o crime nem com a contravenção penal). enormemente. porém. por uma questão humanitária.43. o âmbito da punição justa em matéria de crime envolvendo o uso de drogas ilícitas. que precisa ser punido custe o que custar.. de natureza sui generis.Op. Luiz Flávio... Nesse diapasão Luiz Flávio Gomes4 preleciona: [. cit. a posse de droga não foi legalizada. p. os autores acima referidos defendem que a melhor maneira de lidar com a questão é tratar o usuário com responsabilidade. Constitui um fato ilícito.118 e 119. gera problemas para a família. vendo-o como um dependente químico e não como um criminoso. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. consequentemente. não se pode esquecer que a autolesão que pratica afeta a todos de um jeito ou de outro”.Lei. 2007. Carlos Roberto. Contudo. convém salientar que o fato não perdeu o caráter de ilícito. Nova Lei . 5 .] Se as penas cominadas para a posse de droga para consumo pessoal são exclusivamente alternativas. 4 GOMES. de certo modo... prejudicando. parece errôneo tipificar a conduta do dependente de drogas ou daqueles que as usam eventualmente. o art. RANGEL. Comentários Penais e Processuais Penais à Lei de Drogas. Nesse sentido. Não obstante a acalorada discussão doutrinária sobre a nova situação jurídica do usuário. Paulo.como visto linhas atrás. p. não há que se falar em “crime” ou em “contravenção penal”. 28 contempla uma infração sui generis (uma terceira categoria. pois. para a sociedade e. não se pode também deixar de compreender que o usuário de droga sustenta o tráfico.

. O direito penal não se ocupa de bagatelas. Comungando dessa opinião Luiz Flávio Gomes5 ensina: [. pp. para a consumação da infração. cit. a insignificância da ofensa ao bem jurídico afasta a tipicidade. Em outras palavras. Nesse contexto alguns doutrinadores defendem ser viável a aplicação do princípio da insignificância (causa de exclusão da tipicidade material do fato) quando. Assim. constatar a idoneidade ofensiva (periculosidade) do próprio objeto material da conduta. a conduta de portar pequena quantidade de substância entorpecente. Na esteira da mesma linha de raciocínio Zaffaroni6 explica: [...] A tipicidade penal é formada pela tipicidade legal (descrição do tipo prevista na lei) acrescentada da tipicidade conglobante (que analisa em conjunto com a ordem normativa. Eugenio Raul. em razão da sua quantidade ínfima. alcançando 5 6 GOMES. Nova Lei .127.. seja penal ou não. ZAFFARONI. não existe na situação em comento. Mister se faz. Destarte. não há que se falar em infração.] A posse de droga para consumo pessoal configura uma das modalidades do chamado delito de posse (“delitos de posesión”).Op... Luiz Flávio.. conduta a ser punida. p. não apresenta nenhuma relevância material. embora formalmente se amolde ao tipo penal. entretanto. De minimus non curat pretor. Princípio da Insignificância: Outra questão que emerge da nova situação jurídica do usuário de drogas é a possibilidade de aplicação ou não. 6 . afasta-se liminarmente a tipicidade penal porque em verdade o bem jurídico não chegou a ser lesado. Manual de Derecho Penal. Sendo assim. do princípio da insignificância. a posse de drogas para consumo pessoal for ínfima. 1999. Enfim. que retrata uma categoria penal muito singular no Direito Penal. depreende-se que se a droga apreendida não reúne nenhuma potencialidade ofensiva.3. 463-476. Buenos Aires: Ediar.

(STF . Nesse passo nossos Tribunais tem pontificado: Ementa PENAL. atipicidade penal.as condutas determinadas pelo Direito . o fato não tem repercussão na seara penal.Sendo ínfima a pequena quantidade de droga encontrada em poder do réu. Logo. PEQUENA QUANTIDADE. consequentemente. .Habeas Corpus concedido. POSSE DE SUBSTÂNCIA ENTORPECENTE. Até mesmo o Pretório Excelso já reconheceu o princípio da insignificância com base na ínfima quantidade de droga apreendida. (STJ . APLICAÇÃO. ORDEM CONCEDIDA. ENTORPECENTES. Ementa HABEAS CORPUS. à míngua de efetiva lesão do bem jurídico tutelado. em atenção ao princípio da insignificância. Não constitui crime militar trazer consigo quantidade ínfima de substância entorpecente (4.HABEAS CORPUS: HC 17956 SP 2001/0096779-7). . Ementa 7 .7 gramas de maconha).estrito cumprimento de dever legal – ou as condutas estimuladas pelo Direito – lesões no exercício da medicina ou do esporte – e as condutas insignificantes).HABEAS CORPUS: HC 91074 SP). PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. condutas insignificantes que não afetem de forma sequer grave o bem jurídico seriam casos de atipicidade conglobante e. enquadrando-se a hipótese no princípio da insignificância. Ordem concedida para absolver o paciente.

óbice à aplicação da nova Lei de Drogas.343/2006. em lugar de apenar --. em alterar a visão que se tem em relação aos usuários de drogas.possibilita a recuperação do civil que praticou a mesma conduta.nova Lei de Drogas --. militar. PENAL MILITAR. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. condenado pela prática do delito tipificado no art. USO DE SUBSTÂNCIA ENTORPECENTE. APLICAÇÃO NO ÂMBITO DA JUSTIÇA MILITAR. Não obstante. O Superior Tribunal Militar não cogitou da aplicação da Lei n. 7. incumbindo-lhe confrontar o princípio da especialidade da lei penal militar. de 8 . Paciente jovem. Não-aplicação do princípio da insignificância. no interior da unidade militar. vigoroso. 5. sem antecedentes criminais. não alcançando os usuários. 1º. contra ele. 11. III). A Lei n. em prol da saúde. arrolado na Constituição do Brasil de modo destacado. 343/2006 --. do Estado. PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. com o princípio da dignidade humana. 1º. Preocupação. 290 do Código Penal Militar (portava. 1. Paciente. apenas a lavratura de termo circunstanciado. seja porque presentes seus requisitos. A estes devem ser oferecidas políticas sociais eficientes para recuperá-los do vício. como princípio fundamental (art.343/2006 --. No caso se impõe a aplicação do princípio da insignificância. a ausência de periculosidade social da ação. com futuro comprometido por condenação penal militar quando há lei que. 4. 11. 3. Punição severa e exemplar deve ser reservada aos traficantes. Prevê.Lei n.veda a prisão do usuário. o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica constituem os requisitos de ordem objetiva autorizadores da aplicação do princípio da insignificância. 6. Condenação por posse e uso de entorpecentes. A mínima ofensividade da conduta. incisivo. 8. III DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL.HABEAS CORPUS. disciplina e hierarquia militares. cabe a esta Corte fazê-lo. pequena quantidade de maconha). ART. 2. 11.

ªT. (STF . DJU 12. Pequena quantidade apreendida. 27. por menor que seja a quantidade de tóxico. 1. com isso. 9 .. o crescimento da atividade do agente. p.. tanto que as penas são brandas.] O delito de porte de drogas para consumo próprio adquiriu caráter de infração de ínfimo potencial ofensivo. Nesse diapasão é válido salientar as seguintes decisões jurisprudenciais: Ementa Pequena quantidade de substância tóxica. mesmo quando classificada como „leve‟ (maconha)..09. José Guilherme de Souza.2006..HABEAS CORPUS: HC 90125 RS).natureza objetiva. mera advertência. podendo tornar-se traficante ou viciado. seja por imposição da dignidade da pessoa humana..757. não implica necessariamente que o juízo deva acatar o chamado „princípio da insignificância‟ em favor do acusado. Contrário ao entendimento adotado pelo STF e STJ Guilherme de Souza Nucci7 adverte: [. Leis Penais . cit.2005. a aplicação de sanção amena. Evita-se. Prisão em 7 NUCCI. pelo menos. porque todo delito associado a entorpecentes.. o ideal é haver.143). Op. Ordem concedida. Por isso. inclusive.. comportando. Guilherme de Souza. rel. v. Ementa Tráfico de entorpecentes. Fato que não impede a caracterização do delito. independentes de sua gravidade. 20050110008830. p.05. constitui um risco potencial para a sociedade (Turma Recursal JECRIM-DF: Ap.u.

PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE.flagrante no ato da venda. pois a droga apreendida.2008). HABEAS CORPUS INDEFERIDO. Prova muito mais satisfatória do que a simples quantidade. Condenação mantida. PACIENTE DENUNCIADO PELA INFRAÇÃO DO ART. não é bastante a demonstrar como legítima sua pretensão. PRECEDENTES DO SUPREMO TRIBUNAL FAVORÁVEIS À TESE DA IMPETRAÇÃO: NÃO APLICAÇÃO À ESPÉCIE VERTENTE. seria suficiente para o consumo de duas pessoas. 10 . ALEGAÇÃO DE INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.HABEAS CORPUS: HC 91759. sem a submissão à legislação penal comum do crime militar devidamente caracterizado. DJ 21. 2. 92. 4. PENAL E PROCESSUAL PENAL MILITAR.2. tendo o STF e o STJ decidido em ambos os sentidos: Ementa HABEAS CORPUS. inclusive admitindo a incidência do princípio da insignificância à justiça castrense. Recurso não provido (TJSP .Apelação Criminal com Revisão: ACR 990080605291 SP). 1. Ressalte-se que o assunto abordado é bastante polêmico.961. 290 DO CÓDIGO PENAL MILITAR. A jurisprudência predominante do Supremo Tribunal Federal é no sentido de reverenciar a especialidade da legislação penal militar e da justiça castrense. CONSTITUCIONAL. 3. o fato não é penalmente irrelevante. o que configuraria. „a despeito do princípio da especialidade e em consideração ao princípio maior da dignidade humana‟ (Habeas Corpus n. Nas circunstâncias do caso. além de ter sido encomendada por outra pessoa. A existência de decisão neste Supremo Tribunal no sentido pretendido pela Impetrante. Ministro Eros Grau. Ministro Menezes Direito). minimamente. a periculosidade social da ação do Paciente. Rel. Habeas corpus indeferido (STF . Rel.

circunstâncias sociais e pessoais.343/2006 estabeleceu uma série de critérios para definir se a droga destina-se ou não ao consumo pessoal. Rel. A pequena quantidade de entorpecente apreendida não descaracteriza o crime de posse de substância entorpecente. Invocação dos princípios da insignificância e da proporcionalidade. critério determinante. Consumo pessoal ou tráfico? A lei nº 11. 3.Op. p. senão todos os fixados na Lei. 290. Discorrendo de maneira clara e objetiva sobre os sistemas legais Luiz Flávio Gomes8 ensina: [. cit. por si só. 5.Ementa HABEAS CORPUS. local e condições em que se desenvolveu a ação (o desvalor da ação). Posse de substância entorpecente em local sob a Administração Militar. 4. Luiz Flávio. Art.. bem como a conduta e os antecedentes do agente (agente do fato). em regra. Nova Lei . salvo exceções (enormes quantidades de entorpecentes).] Há dois sistemas legais para se decidir sobre se o agente (que está envolvido com a posse ou porte de droga) é usuário ou 8 GOMES.. 11 .131.. 2. Habeas corpus indeferido (STJ HABEAS CORPUS: HC 81735. Em outras palavras. Não há como trancar a ação penal por falta de justa causa.. do CPM. não constitui. Daí a necessidade de se valorar não somente um critério (o quantitativo).. mister se faz saber todas as circunstâncias do caso concreto. Ministro Néri da Silveira). pois a quantidade da droga. São eles: natureza e quantidade da substância apreendida (objeto material do delito). 4.

nesse caso. Todavia. pois o legislador constituinte. O ordenamento jurídico pátrio adotou o segundo critério (sistema do reconhecimento judicial ou policial). Todo aquele que trabalha fabricando ou transportando maquinários e aparatos para o tráfico. tem a pena de reclusão um pouco inferior.200 a 2. as seguintes figuras: a) a do traficante – para ele. de qualquer modo. XLIII. um quantum diário para o consumo pessoal. com fundamento nos critérios legais objetivos. da Carta Magna. Logo.000 dias-multa. pois terá como parâmetro os critérios legais para valorar se o fato configura tráfico ou consumo pessoal de drogas. um delito hediondo. mas a multa é mais gravosa. é certo que a autoridade policial (quando o fato chega ao seu conhecimento) deve fazer a distinção entre o usuário e o traficante. até esse limite legal não há que se falar em tráfico). atribuiu tratamento mais rigoroso a determinadas infrações penais. na essência. compete ao juiz ou a autoridade policial reconhecer. note-se que o critério de avaliação é objetivo e não subjetivo. o julgamento do magistrado não pode constituir-se em apreciação meramente subjetiva. o tráfico de drogas. 5º. Destaque-se.traficante: (a) sistema da quantificação legal (fixa-se. (b) sistema do reconhecimento judicial ou policial (cabe ao juiz ou à autoridade policial analisar cada caso concreto e decidir sobre o correto enquadramento típico). O traficante de drogas à luz da lei nº 11. de maneira que a lei incide apenas nas situações novas. dentre estas. a nova lei conferiu tratamento mais rigoroso ao traficante. e a multa varia de 500 a 1.500 dias-multa. Destarte. 12 . 5. ao redigir o art. A última palavra é a judicial. ocorrendo uma novatio legis in pejus.343/2006: O crime de tráfico ilícito de drogas não deixa de ser. a pena é de reclusão de 5 a 15 anos. consideradas muito graves. pois varia de 1. No tocante ao tráfico de drogas (artigo 33). de 3 a 10 anos. se a droga encontrada destina-se ao consumo pessoal ou ao tráfico.

o médico ou operador do Sistema de Saúde que erra na dosagem de drogas também tem uma pena de 6 meses a 2 anos de detenção e pagamento de 50 a 200 dias-multa (art. iniciando em um trinta avos do maior salário mínimo (art. Aqui a pena mínima é de 8 anos de reclusão. c) a do financiador – a mais preocupante figura do tráfico de drogas em geral é aquela que tem extraordinário poder econômico e custeia a logística do tráfico. cuja pena é um pouco inferior. que também pode ser majorada até o décuplo. A pena é de 6 meses a 1 ano e pagamento de 700 a 1. quando envolver ou visar a atingir criança ou adolescente.343/06 estabelece penas de 5 a 15 anos de reclusão e de multa de 500 a 1500 dias-multa. 38) porque também não é traficante. A nova lei foi bastante severa em relação ao agente que financiar ou custear a prática do crime de tráfico. caput). 36). O art. o que significa um aumento substancial. já que não há qualquer conduta que configure tráfico na hipótese em questão. chamado de grande traficante ou chefe do narcotráfico. a multa um pouco mitigada (de 300 a 700 dias-multa). 33 da Lei nº 11. não é um traficante. A terceira situação tipificada como tráfico. quando o traficante prevalecer-se para tal. enquanto que o art.Visa o legislador desestimular o aparelhamento do traficante sob o ponto de vista econômico.368/76 previa penas de reclusão de 3 a 15 anos e de multa de 50 a 360 dias-multa. de 8 a 20 anos e pagamento de multa de 1. é a daquele que colabora com o traficante. Como se observa. De maneira semelhante. no sentido geral. Será de reclusão (de 2 a 6 anos) e. ocorreram na pena mínima que era de 3 e agora foi para 5 anos e na pena de multa que inicia no patamar de 500 e vai até 1500 dias-multa. O número de dias-multa poderá ser multiplicado por cinco. para consumir com terceiro e que.500 a 4. em relação à lei nova. as alterações. 12 da Lei nº 6.500 a 4. podendo chegar a 20 anos. tendo todos os benefícios da lei.000 diasmulta (art. sem o intuito de lucro.500 dias-multa. eis que fica sujeito a uma pena de reclusão. e a multa varia de 1. b) a do incentivador – aquele que simplesmente oferece drogas. 43. da 13 . A lei também foi mais rígida quando o tráfico envolver dois ou mais países. podendo ser aumentada em caso de concurso de crimes até o décuplo.000 dias-multa. entre Estados da Federação ou entre estes e o Distrito Federal. na verdade.

visando punir gravosamente condutas típicas relevantes e reinserir socialmente o usuário. jamais atingiria o seu objetivo. Nesse sentido apresentou equilíbrio ao tratar. não bastasse a impossibilidade em face da quantidade de pena prevista (5 a 15 anos). que confere ao Juiz de Direito a faculdade de determinar ao poder público disponibilização de local adequado para o tratamento especializado e gratuito ao usuário para sua desintoxicação. quando no desempenho de missão de educação. a nova lei literalmente proíbe a substituição. recreativas. até porque a pena de prisão.343/2006. posto que o bem jurídico tutelado é a saúde pública e o traficante não se contentará em materializar o crime uma única vez. beneficentes. de sede de entidades estudantis. sociais. esportivas. a nova lei não pune o usuário ou dependente com pena privativa de liberdade. Posição do CAO Criminal Após essas considerações de índole doutrinária e jurisprudencial. a reincidência será inexorável. 14 . de locais de trabalho coletivo e outros. guarda ou vigilância. o usuário e o traficante. pode-se afirmar que o legislador ao elaborar a nova Lei de Drogas quis dar o primeiro passo em direção à moderna política criminal. conforme inovação do § 7º do artigo 28 da lei nº 11. Ademais. a pena será aumentada de um sexto a dois terços. convém lembrar que houve o reconhecimento expresso na lei de que o usuário ou dependente necessita de tratamento. No contexto do tráfico ilícito de drogas não nos parece aceitável a aplicação do princípio da insignificância.função pública. quando a infração for praticada nas dependências ou imediações de estabelecimentos prisionais. Logo. 6. De maneira acertada. se não houver a devida punição. nesses casos. Quanto à discussão em relação à possibilidade ou não da substituição da pena de prisão aplicada em caso de condenação por crime de tráfico por pena restritiva de direito por fato praticado na vigência do novo instrumento legal está prejudicada. poder familiar. focando sua preocupação na dignidade da pessoa humana. culturais. de ensino ou hospitalares. de maneira diferenciada. eis que. Nessas hipóteses. que é o da reinserção social e não da terapia clínica.

ALDIR JORGE VIANA DA SILVA Promotor de Justiça Coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal 15 . não será beneficiado pela substituição da sua reprimenda. primário. Por derradeiro. eis que o traficante eventual. em todo Estado do Pará. bem como a criação dos estabelecimentos de saúde para tratamento ambulatorial especializado. a severidade da lei destina-se aos verdadeiros traficantes. este CAO defende que o Ministério Público do Estado do Pará fomente a criação.Outrossim. porém. mesmo assim. de bons antecedentes e que não for integrante de organização criminosa poderá se beneficiar com a pena reduzida de um sexto a dois terços. implantação e funcionamento dos COMAD‟S (Conselho Municipal Anti-Drogas) como importante instrumento de prevenção ao uso indevido de drogas.

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