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NÚCLEO DE PÓS GRADUAÇÃO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO

Coordenação Pedagógica – IBRA

DISCIPLINA

DIREITOS E DEVERES
DOS CIDADÃOS
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 03
Direitos humanos ...................................................................................................... 04
A sociedade brasileira e os direitos humanos .......................................................... 07
A educação em direitos humanos ............................................................................ 09
Nomenclatura dos direitos humanos ........................................................................12
Dignidade humana ................................................................................................... 13
O conhecimento filosófico ........................................................................................ 15
Ética – definição ....................................................................................................... 19
A realidade da moralidade........................................................................................ 22
Objeto e objetivo da ética ..........................................................................................26
A importância da ética .............................................................................................. 33
Cidadania ................................................................................................................. 34
Direitos e deveres dos cidadãos .............................................................................. 35
As instituições sociais .............................................................................................. 39
BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 48
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INTRODUÇÃO
O processo histórico de afirmação dos direitos das crianças e dos
adolescentes na América Latina está intrinsecamente vinculado aos valores de
respeitabilidade de direitos humanos, da democracia e da condição de Estado de
Direito dos países do referido continente.
Entendemos que não é possível fazer uma análise da situação infanto-juvenil,
sem percebermos no cenário latino americano como se está consolidando os
direitos humanos de uma maneira geral.
Da mesma forma, a democracia, mais do que uma simples orientação deve
ser considerada acima de tudo como um valor político de validação do Estado de
Direito, sob pena de pautarmos verticalmente as reflexões sobre a cidadania infantil,
caso este vetor não seja respeitado.
Por isso, essa apostila vem retratar sobre os direitos e deveres dos seres
humanos, lembrando que, quem quer o respeito deve respeitar primeiramente a si
mesmo e a seu próximo.
É com imenso prazer que oferecemos esse material didático para você, que
irá discutir sobre o papel da escola e seus caminhos de intervenção nos diversos
tipos de problemas que encontramos hoje em nossa sociedade.
Este foi escrito com muito carinho e dedicação, sendo realizadas várias
pesquisas em autores renomados para a construção do mesmo. Esperamos que
esta seja útil para a construção do conhecimento científico de todos vocês.
Por isso, escolham o melhor momento de estudar, visto que, na educação à
distância o aluno é gerenciador de suas atividades e do seu tempo empregado aos
estudos.
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DIREITOS HUMANOS

Primeiramente, ao se iniciar uma reflexão sobre o papel dos direitos humanos


em nossa sociedade, é importante considerar sua dimensão histórica e social, ou
seja, o modo como tais direitos evoluíram ao longo do tempo e os contextos onde se
inseriam. De acordo com Norberto Bobbio (1992), declarar que os homens nascem
livres e iguais em direitos, como fizeram as primeiras declarações de direitos
humanos modernas, é uma exigência da razão, mas não um dado histórico ou uma
constatação da realidade. De fato, os homens não são livres nem iguais. A efetiva
garantia de direitos implica um processo muito mais lento e incerto, permeado por
disputas de poder e projetos de sociedade. Um exemplo disso é a própria evolução
do que se entende por direitos humanos, ao longo dos séculos, até a formulação da
noção contemporânea de direitos humanos que hoje nos serve de referência.
As declarações de direitos humanos do mundo moderno surgiram a partir de
correntes filosóficas influenciadas pelo racionalismo e jusnaturalismo, nas quais os
intelectuais europeus do século XVIII estiveram imersos. Esse período foi
caracterizado como o do apogeu do Iluminismo ou Ilustração. Sustentava-se,
basicamente, que o homem, enquanto tal, teria direitos naturais. Contudo,
historicamente, a idéia de direito natural não surge com o jus naturalismo moderno;
remonta, antes, ao pensamento cristão e clássico, aos grandes moralistas, poetas e
escritores da Antigüidade, especialmente a Sófocles. Antígona, uma de suas
melhores tragédias, trouxe como questão central o confronto entre o direito natural e
o direito positivo do Estado e serviu de inspiração e reflexão para pensadores como
Hegel, Kant, Rousseau. Nesse sentido, a novidade trazida pelo Iluminismo foi à
tradução do direito natural em lei escrita e positiva, por meio das declarações de
direito, como a Declaração Americana de Direitos, de 1776, e a Declaração
Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789.
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De acordo com Marilena Chauí,

“A prática de declarar direitos significa, em primeiro lugar, que não é um fato óbvio
para todos os homens que eles são portadores de direitos e, por outro lado, significa
que não é um fato óbvio que tais direitos devam ser reconhecidos por todos. A
declaração de direitos inscreve os direitos no social e no político, afirma sua origem
social e política e se apresenta como objeto que pede o reconhecimento de todos,
exigindo o consentimento social e político” (1989, p. 20).

Nesse momento, predominava, enquanto noção de direitos humanos, uma


concepção individualista e liberal de sociedade, em que o indivíduo, dotado de um
valor em si, era o seu fundamento, consagrando-se o direito de liberdade como
forma de limitar o poder de atuação do Estado em relação à ação do indivíduo.
Contudo, no século XIX, definido por Eric Hobsbawn como a “era das revoluções”, a
luta por direitos buscou incorporar aos direitos civis e políticos também os direitos
sociais. O movimento operário, principal protagonista das transformações ocorridas
no período, exigia mais do que a igualdade civil reconhecida pelas declarações de
direito até então. Na Declaração Russa dos Direitos do Povo Trabalhador e
Explorado, de 1918, por exemplo, garantia-se o direito ao trabalho, à educação, à
saúde, à moradia. Altera-se, desse modo, a relação estabelecida entre indivíduo e
Estado. De uma idéia de não interferência nos direitos individuais, ou seja, de uma
postura negativa do Estado, passa-se a exigir deste uma ação positiva e ativa na
garantia dos direitos sociais.
A questão dos direitos humanos assumiu novas dimensões diante dos
horrores decorrentes da II Guerra Mundial em meados do século XX, com a
emergência do fenômeno do totalitarismo nazista e fascista. Ao final do conflito, a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), aprovada em 1948, assume
nesse momento pretensões globais e procura articular os direitos civis e políticos
aos direitos econômicos, sociais e culturais, estabelecendo sua universalidade,
indivisibilidade e interdependência. Ou seja, incorporou-se na DUDH não apenas
aquilo que se convencionou chamar de primeira geração de direitos humanos, que
consiste no direito às liberdades fundamentais – de locomoção, religião,
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pensamento, opinião, aprendizado, voto –, mas também os direitos de segunda


geração, que abrangem os direitos econômicos, sociais e cultuais como educação,
saúde, oportunidades de trabalho, moradia, transporte, previdência social,
participação na vida cultural da comunidade, das artes, manifestações artísticas.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos traz ainda, como objetivo
comum a ser atingido por todos os povos e nações, que o Estado, cada indivíduo e
cada órgão da sociedade se esforcem, por meio do ensino e da educação em geral,
por promover o respeito aos direitos humanos proclamados e pela adoção de
medidas progressivas de caráter nacional e internacional, para assegurar sua
observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-
membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.
A educação, na DUDH, assume papel especial na promoção dos direitos
humanos; ela é, ao mesmo tempo, um direito humano em si e condição para a
garantia dos demais direitos. Em seu artigo 26 , a Declaração especifica algumas
características do direito à educação:

§1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos
graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A
instrução técnico profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior,
baseada no mérito.
§2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da
personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e
pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância
e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as
atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.

Nos anos seguintes, a DUDH e também vários pactos, acordos e convenções


foram ampliando a abrangência de tais direitos e fortalecendo sua apropriação por
meio dos Estados signatários, valendo ressaltar, dentre eles:
- Convenção relativa à Luta contra a Discriminação no Campo do Ensino (1960);
- Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966);
- Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966);
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- Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação


Racial (1966);
- Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a
Mulher (1979);
- Convenção sobre os Direitos da Criança (1989);
- Convenção para proteção e promoção da diversidade de expressões culturais
(2005).
Recentemente, foi acrescida à noção de direitos humanos também uma
terceira geração de direitos, que abrange o direito a um meio ambiente equilibrado e
não poluído, uma qualidade de vida saudável, o direito à autodeterminação dos
povos, direito ao progresso, direito à paz, bem como a outros direitos difusos e
coletivos, não mais restritos a indivíduos ou a grupos específicos, mas a toda a
coletividade.
No início do século XXI, a noção contemporânea de direitos humanos com a
qual se trabalha vem abarcar todas as gerações de direitos, consideradas
igualmente fundamentais, sem hierarquizações, prevalecendo sua universalidade,
indivisibilidade e interdependência, a partir de uma postura ativa do Estado como
garantidor desses direitos.

A SOCIEDADE BRASILEIRA E OS
DIREITOS HUMANOS

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 representa o principal marco


jurídico do processo de transição democrática e de institucionalização dos direitos
humanos. Ao instituir o Estado Democrático de Direito, define como seus
fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores
do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Vale ainda ressaltar que a
República Federativa no Brasil, regendo-se em suas relações nacionais e
internacionais pelo respeito aos direitos humanos, traz como seus objetivos
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fundamentais, dentre outros, a erradicação da pobreza e da marginalização e a


redução das desigualdades sociais e regionais. Indica, desse modo, sua
consonância com a concepção contemporânea de direitos humanos, que abrange a
garantia não apenas de direitos políticos e civis, mas também de direitos
econômicos, sociais e culturais.
Associados no regime militar à defesa dos direitos de presos políticos, diante
da violência institucional praticada pelo Estado, os direitos humanos no Brasil se
estenderam aos presos comuns e acabaram por ser identificados na sociedade
como “direitos de bandidos”. Apesar de essa visão ainda predominar em alguns
setores, inclusive como um legado histórico do autoritarismo que marca nossa
sociedade, os trabalhos atuais de direitos humanos vêm enfatizando quão reduzida
é esta perspectiva diante do que se entende hoje por direitos humanos. Essa é a
concepção de direitos humanos presente, por exemplo, no Plano Nacional de
Direitos Humanos (PNDH) aprovado pelo Governo Federal em 1996 e,
especialmente, no Plano revisado em 2002.
No entanto, apesar dos avanços nas declarações de direitos, na elaboração
do PNDH e na ampliação do conceito de direitos humanos, ainda são necessários
esforços no sentido de sua materialização na sociedade brasileira, promovendo o
fortalecimento de uma cultura de direitos humanos no país nas várias esferas
sociais. Um aspecto a ser enfrentado para que se alcance esse objetivo relaciona-se
com o reconhecimento de todo cidadão brasileiro enquanto sujeito de direitos, capaz
de participar das decisões do país. Para tanto, é fundamental que se passe de uma
cidadania passiva – aquela que é outorgada pelo Estado, com a idéia moral da tutela
e do favor – para uma cidadania ativa – aquela que institui o cidadão como portador
de direitos e deveres, mas essencialmente criador de direitos para abrir espaços de
participação e possibilitar a emergência de novos sujeitos políticos (cf. Benevides,
1998, p.150).
Há que se atentar também em nosso país para a hierarquização entre tipos
diferentes de cidadãos de acordo com a classe social à qual pertencem, sendo ainda
comum a criminalização da pobreza e a associação generalizada das classes
populares ao banditismo e à violência:
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“As classes populares são geralmente vistas como „classes perigosas‟, ameaçadoras
pela feiúra da miséria, ameaçadoras pelo grande número, ameaçadoras pelo
possível desespero de quem nada tem a perder, e, assim, consolida-se o „medo
atávico das massas famintas‟. (...)
Esta é uma maneira de circunscrever a violência, que existe em toda a sociedade,
apenas aos „desclassificados‟, que, portanto, mereceriam todo o rigor da polícia, da
suspeita permanente, da indiferença diante de seus legítimos anseios” (Benevides,
2004, p. 50).

A construção e a consolidação de uma cultura em direitos humanos no Brasil


implicam, desse modo, enfrentar essa série de desafios e contradições, ainda
presente em nossa sociedade, que afeta todos os brasileiros em termos da sua
qualidade de vida e das possibilidades de seu pleno desenvolvimento enquanto
pessoa humana. A educação, nesse contexto, aparece como um espaço privilegiado
para a promoção dessa cultura de direitos humanos, contribuindo para a difusão de
atitudes, valores e práticas coerentes com esses princípios, seja por meio da
educação escolar, no nível básico ou superior, seja pela educação não-formal, por
meio da atuação de organizações da sociedade civil, pela mídia e os sistemas de
justiça e segurança.

A EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

A preocupação e o interesse com a promoção de uma educação orientada


para os direitos humanos ganham maior projeção em meados dos anos 90 com a
definição, em 1995, da década da educação em direitos humanos, encerrada, em
2004, com a aprovação, no ano seguinte, do Programa Mundial de Educação em
Direitos Humanos (PMEDH) e seu Plano de Ação. Esse debate repercute no Brasil
no mesmo período, especialmente no âmbito das organizações da sociedade civil e,
em 2003, ganha maior institucionalidade, com a criação do Comitê Nacional de
Educação em Direitos Humanos e o início da elaboração de uma primeira versão do
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Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) no país, finalmente


aprovado em sua forma final em 2006.
Considera-se o PNEDH um instrumento orientador e fomentador das ações
de educação em direitos humanos, especialmente por parte das políticas públicas
nas áreas da educação básica, superior, educação não-formal, dos sistemas de
justiça e segurança e da mídia. O Plano visa, sobretudo, promover e difundir uma
cultura de direitos humanos no país. A educação, por sua vez, é entendida como um
meio privilegiado para atuar nessa direção (cf. PNEDH, 2006).
No entanto, o que significa educar em direitos humanos? É possível ensinar
direitos humanos? De acordo com o PNEDH, a educação em direitos humanos deve
ser promovida em três dimensões:
“a) conhecimentos e habilidade: compreender os direitos humanos e os mecanismos
existentes para a sua proteção, assim como incentivar o exercício de habilidades na
vida cotidiana;
b) valores, atitudes e comportamentos: desenvolver valores e fortalecer atitudes e
comportamentos que respeitem os direitos humanos;
c) ações: desencadear atividades para a promoção, defesa e reparação das
violações aos direitos humanos” (2006, p. 23).
Considera-se, segundo essa definição, a educação em direitos humanos
como uma educação permanente e global, que não trabalha apenas com a
dimensão da razão e da aprendizagem cognitiva, mas envolve também aspectos
afetivos e valorativos que precisam ser sentidos, vivenciados. É preciso
experimentar os direitos à liberdade, à igualdade, à justiça e à dignidade para
entender o que significam e, principalmente, para que se consiga difundi-los
(Benevides, 2001). Desse modo, “de nada adiantará levar programas de direitos
humanos para a escola se a própria escola não é democrática na sua relação de
respeito com os alunos com os pais, com os professores, com os funcionários e com
a comunidade que a cerca” (Benevides, 2001, p. 40). Por outro lado, a introdução
dessa discussão na escola pode servir para questionar suas próprias contradições e
conflitos cotidianos, propiciando a busca de formas para enfrentá-los.
A proposta é que a educação em direitos humanos seja um eixo central do
trabalho desenvolvido nas escolas e permeie o currículo como um todo, a formação
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inicial e continuada dos profissionais da educação, o projeto político-pedagógico da


instituição, os materiais didático-pedagógicos, o modelo de gestão e de avaliação e
as metodologias e práticas desenvolvidas no conjunto do espaço escolar. Como
observa Vera Candau (2003), é essencial enfatizar processos que utilizem
metodologias participativas e de construção coletiva, superando estratégias
pedagógicas meramente expositivas, e que empreguem uma pluralidade de
linguagens e materiais de apoio, orientados para mudanças de mentalidade, atitudes
e práticas individuais e coletivas.
A educação em direitos humanos vai além de uma aprendizagem de
conteúdos; inclui o desenvolvimento social e emocional de todos os envolvidos no
processo de ensinoaprendizagem.
Seu objetivo é desenvolver uma cultura em direitos humanos, em que os
direitos humanos são praticados e vividos na comunidade escolar e demais
instituições públicas, em interação com a comunidade local. Para tanto, é essencial
garantir que o ensino e a aprendizagem da educação em direitos humanos ocorram
em um ambiente direcionado para os direitos humanos. É fundamental assegurar
que os objetivos, práticas e organização das instituições sejam consistentes com os
seus valores e princípios. Uma escola assim orientada caracteriza-se pelo
entendimento mútuo, pelo respeito e pela responsabilidade; almeja a igualdade de
oportunidades, o sentido de pertencimento, a autonomia, a dignidade e a autoestima
de todos os membros da comunidade escolar (PMEDH, 2005).
Considera-se, por fim, que a defesa, a proteção e a promoção da educação
em direitos humanos, como práticas a serem difundidas pelas várias esferas da
sociedade, exigem que as escolas e demais instituições públicas assumam um
compromisso permanente com o fortalecimento de uma cultura de direitos humanos
no país, consolidando o Estado Democrático de direito e contribuindo para a
melhoria da qualidade de vida da população brasileira.
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NOMENCLATURA DOS DIREITOS


HUMANOS

Encontramos na literatura diversas nomenclaturas para o conjunto de direitos


essenciais ao ser humano: Direito das gentes, direitos humanos, liberdades
públicas, direitos fundamentais etc.. O constituinte originário utilizou a
denominação direitos fundamentais para aqueles que estão positivados em nossa
Carta de 1988.
“Em suma, a expressão direitos fundamentais é a mais precisa. Primeiro,
pela sua abrangência. O vocábulo direito serve para indicar tanto a situação em que
se pretende a defesa do cidadão perante o Estado como os interesses jurídicos de
caráter social, político ou difuso protegidos pela Constituição. De outro lado, o termo
fundamental destaca a imprescindibilidade desses direitos à condição humana.”

“Direitos humanos é expressão preferida nos documentos internacionais.


Contra ela, assim, contra a terminologia direitos do homem, objeta-se que não há
direito que não seja humano ou do homem, afirmando-se que só o ser humano pode
ser titular de direitos. Talvez já não mais assim, porque, aos poucos, se vai
transformando um direito especial de proteção dos animais.” Grifos no original.

“Direitos fundamentais do homem constitui a expressão mais adequada a este


estudo, porque, além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo
e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico, é reservada para
designar, no nível do direito positivo, aquelas prerrogativas e instituições que ele
concretiza em garantias de uma convivência digna, livre e igual de todas as
pessoas.”

OBS.: A Constituição utiliza a nomenclatura direitos fundamentais e os tratados


internacionais utilizam a nomenclatura direitos humanos.
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É preciso enfatizar, que a dignidade da pessoa humana – alçada a princípio


fundamental pela Constituição Brasileira (CF/88, art. 1º, III) é vetor para a
identificação material dos direitos fundamentais – apenas estará assegurada quando
for possível ao homem uma existência que permita a plena fruição de todos os
direitos fundamentais.

DIGNIDADE HUMANA

A dignidade da pessoa humana não é vista pela maioria dos autores como um
direito, pois ela não é conferida pelo ordenamento jurídico. Trata-se de um atributo
que todo ser humano possui independentemente de qualquer requisito ou condição,
seja ele de nacionalidade, sexo, religião, posição social etc. É considerada como o
nosso valor constitucional supremo, o núcleo axiológico da constituição.
Considerada o núcleo em torno do qual gravitam os direitos fundamentais.
Para que possa ser protegida e concedida, a Dignidade da Pessoa Humana (DPH) é
protegida pela CF/88 através dos direitos fundamentais, confere caráter sistêmico e
unitário a esses direitos.
Existem direitos fundamentais que estão mais próximos (derivações de
primeiro grau: liberdade e igualdade) e outros que estão mais afastados (derivações
de segundo grau).
A dignidade da pessoa humana é uma qualidade intrínseca, inseparável de
todo e qualquer ser humano, é característica que o define como tal. Concepção de
que em razão, tão somente, de sua condição humana e independentemente de
qualquer outra particularidade, o ser humano é titular de direitos que devem ser
respeitados pelo Estado e por seus semelhantes. É, pois, um predicado tido como
inerente a todos os seres humanos1 e configura-se como um valor próprio que o
identifica. Pode-se trazer à baila a visão antropológica de Leonardo Boff, quando do
ultraje da dignidade: Nada mais violento que impedir o ser humano de se relacionar
com a natureza, com seus semelhantes, com os mais próximos e queridos, consigo
mesmo e com Deus. Significa reduzi-lo a um objeto inanimado e morto. Pela
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participação, ele se torna responsável pelo outro e cria contiinuamente o mundo,


como um jogo de relações, como permanente dialogação.
Carmem Lúcia Antunes Rocha, ao comentar o Art. 1º da Declaração dos
Direitos Humanos, o festejado dispositivo que decreta a igualdade de todos os seres
humanos em dignidade e direitos, faz as seguintes considerações: Gente é tudo
igual. Tudo igual. Mesmo tendo cada um a sua diferença. Gente não muda. Muda o
invólucro. O miolo, igual. Gente quer ser feliz, tem medos, esperanças e esperas.
Que cada qual vive a seu modo. Lida com as agonias de um jeito único, só seu. Mas
o sofrimento é sofrido igual. A alegria, sente-se igual.
A ausência de dignidade possibilita a identificação do ser humano como
instrumento, coisa – pois viola uma característica própria e delineadora da própria
natureza humana. Todo ato que promova o aviltamento da dignidade atinge o cerne
da condição humana, promove a desqualificação do ser humano e fere também o
princípio da igualdade, posto que é inconcebível a existência de maior dignidade em
uns do que em outros. Pode-se valer da explicação de José Afonso da Silva acerca
do conceito de dignidade da pessoa humana, a fim de se entender o significado para
além de qualquer conceituação jurídica, posto que a dignidade é, como dito,
condição inerente ao ser humano, atributo que o caracteriza como tal: A dignidade
da pessoa humana não é uma criação constitucional, pois ela é um desses
conceitos a priori, um dado preexistente a toda experiência especulativa, tal como a
própria pessoa humana.
A explicação de José Afonso da Silva se adere ao entendimento de Ingo
Wolfgang Sarlet ao informar sobre as dificuldades de uma definição precisa e
satisfatória de dignidade da pessoa humana. E como relembra este autor, foi Kant
quem definiu o entendimento de que o homem, por ser pessoa, constitui um fim em
si mesmo e, então, não pode ser considerado como simples meio, de modo que a
instrumentalização do ser humano é vedada. Tal definição tem inspirado os
pensamentos filosófico e jurídico na modernidade. A dignidade não pode ser
renunciada ou alienada, de tal sorte que não se pode falar na pretensão de uma
pessoa de que lhe seja concedida dignidade, posto que o atributo lhe é inerente
dada a própria condição humana.
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O CONHECIMENTO FILOSÓFICO

O conhecimento filosófico vai ser resultado do exercício e do processo de


filosofar, buscando a verdade sem querer possuí-la. O ser humano busca um
sentido para sua existência e um sentido mais amplo da realidade. A questão central
da filosofia: quem é o ser humano e qual é o sentido da vida, da realidade.
Preocupa-se em conhecer a si próprio e com o destino da humanidade. As
conclusões filosóficas são sempre parciais e as respostas levam sempre a novas
perguntas.

O pensar

Há diferença entre pensar e ter pensamentos. O pensar é uma atividade: “O


pensamento é o passeio da alma”, diz um filósofo grego desconhecido. Pensar é um
movimento, uma atividade, uma ação. É uma atividade pela qual a inteligência
coloca algo diante de si para atentamente considerar, avaliar, pesar, equilibrar,
entender.
Por meio do pensamento manifestamos nossa capacidade de elaborar regras,
normas, leis e princípios. Nós pensamos e sabemos que pensamos. Essa
capacidade de refletir sobre o nosso próprio pensamento nos permite encadear
processos de abstração. São esses processos de abstração que nos levam a
conhecer a realidade e atribuir significados a essa realidade.
Isso é possível por que o homem é dotado de razão, da capacidade de
raciocinar. O pensamento conta com seu mais poderoso invento: a palavra. É a
palavra que confere ao homem essa capacidade de pensar. O pensamento nos
familiariza com o mundo e nos leva a compreender o significado dos objetos, das
pessoas e das relações entre uns e outros.
Nem todos os pensamentos levam à verdade, ou seja, resultam de uma forma
lógica correta. Para chegar ao conhecimento verdadeiro, o pensar deve ser movido
pelo raciocínio, com uma lógica e argumentos válidos. O processo de pensar pode
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levar a uma realidade cada vez mais aprimorada. A abstração filosófica nos permite
sair da aparência para a essência.
Segundo diversas teorias, só é considerado livre o ser humano que é
autônomo, capaz de pensar por si mesmo e dar respostas originais a si próprio e ao
mundo. E acredita-se que isso é um aprendizado, ou seja, fruto de educação – é
possível por meio da educação oferecer as condições de aprimorar sua capacidade
de pensar.
O mundo é feito de ideias. As ideias são frutos do pensamento. Um pensar
pobre não produz ideias, gera um mundo pobre.
Perguntas que devemos fazer:
_ Minhas crenças correspondem a um saber verdadeiro a um conhecimento?
A minha fala é coerente? _ O que orienta minha atitude? Qual o sentido de minha
ação?

O pensamento, a linguagem e o
conhecimento

O pensamento é a fala internalizada,


enquanto a linguagem é a expressão do
pensamento. A linguagem permite a
comunicação com o mundo, com os outros. O
fazer humano deve ser resultado do conhecimento. E o conhecimento é resultado
de um pensar correto. O fazer humano deve modificar a realidade exterior, formar
os homens, aproximá-los entre si e enriquecer o mundo de valores.
Existem várias formas de conhecer e interpretar a realidade, com diferentes
enfoques e metodologias:
_ O mito – imagens, símbolos e significados. História e narrativa.
_ O senso comum – herança, tradição, experiências
_ A ciência – estrutura seu saber pelo método científico
_ A Filosofia – reflexão rigorosa, sistemática
_ A religião – fé, transcendência da vida humana
_ A arte - intuição e sensibilidade
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Senso comum

É o conhecimento recebido por tradição e que ajuda a nos situarmos no


cotidiano, para compreendê-lo e agir sobre ele. É um conjunto de crenças, baseadas
no conhecimento espontâneas e não-crítico, mas que revelam o esforço de buscar
soluções para a nossa vida cotidiana. Essas noções podem esconder ideias falsas e
preconceituosas. No entanto, não podemos desprezar o senso-comum, pois essa
forma de conhecimento tão universal contém muita sabedoria essencial para o
desenvolvimento e organização da humanidade (ex: a roda e o fogo).
O que caracteriza o senso comum não é sua verdade ou falsidade, é a
ausência de crítica, fundamentação e coerência dessas concepções. O senso
comum é transmitido no cotidiano, por meio da cultura e hábitos, de pende de
julgamento e de valores. Muitas vezes essas concepções do senso comum se
transformam em ditados populares. O senso comum lida com opiniões e pré-
conceitos, noções parciais e com julgamentos da realidade.
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Ciência

A ciência produz um conhecimento sistemático e empiricamente


fundamentado, a partir de um método racional. A partir da observação rigorosa, a
ciência busca conhecer explicar a realidade forma objetiva, sem interferência de
valores e julgamentos. A ciência trabalha com conceitos, que são as noções
elaboradas, testadas rigorosamente, comprovadas. Busca descobrir leis gerais que
sejam válidas para várias situações particulares.

Dogmatismo

Dogmas são conhecimentos inquestionáveis, são noções estabelecidas sem


contestação e crítica. O dogmatismo é a nossa crença de que o mundo existe e é
exatamente igual ao que percebemos, por isso não é necessário criticar e refletir
sobre a realidade.
A atitude dogmática é a aceitação natural e espontânea diante das coisas do
mundo: acreditamos e percebemos o mundo pronto e conhecido. É uma atitude
conservadora, ou seja, queremos conservar o mundo e as coisas como já são
naturalmente. Criamos idéias preconcebidas e rígidas em defesa desse mundo.
A Atitude filosófica é o oposto da atitude dogmática - A atitude filosófica
pressupõe a dúvida e a crítica, não aceitar como naturais as coisas, os fatos, as
ideias os comportamentos, os valores da nossa vida cotidiana. É preciso desconfiar
das opiniões e crenças estabelecidas pela sociedade e cultura, e, também,
desconfiar das próprias opiniões e crenças. É a atitude que nos leva a analise,
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reflexão e critica. Ir além da aparência e buscar a essência das coisas, dos fatos,
dos valores, opiniões.
Procurar saber o que é (significado), como é (estrutura) e por que é (causa)
de algo.

ÉTICA – DEFINIÇÃO

O termo ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa).
Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana
na sociedade. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social,
possibilitando que ninguém saia prejudicado. Neste sentido, a ética, embora não
possa ser confundida com as leis, está relacionada com o sentimento de justiça
social.
A ética é construída por uma sociedade com base nos valores históricos e
culturais. Do ponto de vista da Filosofia, a Ética é uma ciência que estuda os valores
e princípios morais de uma sociedade e seus grupos.
Cada sociedade e cada grupo possuem seus próprios códigos de ética. Num
país, por exemplo, sacrificar animais para pesquisa científica pode ser ético. Em
outro país, esta atitude pode desrespeitar os princípios éticos estabelecidos.
Aproveitando o exemplo, a ética na área de
pesquisas biológicas é denominada bioética.
Além dos princípios gerais que norteiam
o bom funcionamento social, existe também a
ética de determinados grupos ou locais
específicos. Neste sentido, podemos citar: ética
médica, ética de trabalho, ética empresarial,
ética educacional, ética nos esportes, ética
jornalística, ética na política, etc.
Uma pessoa que não segue a ética da
sociedade a qual pertence é chamado de antiético, assim como o ato praticado. A
ética pode ser interpretada como um termo genérico que designa aquilo que é
20

frequentemente descrito como a "ciência da moralidade", seu significado derivado do


grego, quer dizer 'Casa da Alma', isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista
do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo
absoluto.
Em Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e,
sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom
à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um
dilema ético típico. Portanto, de investigação filosófica, e devidas subjetividades
típicas em si, ao lado da metafísica e da lógica, não pode ser descrita de forma
simplista. Desta forma, o objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom,
tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos
adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as
prioridades em conflito dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos
princípios éticos versus a "ética de situação". Nesta, o que está certo depende das
circunstâncias e não de qualquer lei geral. E sobre se a bondade é determinada
pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados.

O homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabe-


lhe pensar e responder à seguinte pergunta: “Como devo agir perante os outros?”.
Trata-se de uma pergunta fácil de ser
formulada, mas difícil de ser respondida.
Ora, esta é a questão central da Moral e da
Ética. Enfim, a ética é julgamento do caráter
moral de uma determinada pessoa. Como
Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente
especulativa e, a não ser quanto ao seu
método analítico, jamais será normativa,
característica esta, exclusiva do seu objeto
de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra
o que era moralmente aceito na Grécia
Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente aceito hoje na
Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças no
21

comportamento humano e nas regras sociais e suas consequências, podendo daí,


detectar problemas e/ou indicar caminhos.

DOUTRINA

Como Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser


quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva
do seu objeto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra o que era moralmente
aceito na Grécia Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente
aceito hoje na Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças
no comportamento humano e nas regras sociais e suas consequências, podendo
daí, detectar problemas e/ou indicar caminhos. Além de tudo ser Ético é fazer algo
que te beneficie e, no mínimo, não prejudique o "outro".
Eugênio Bucci, em seu livro Sobre Ética e Imprensa, descreve a ética como
um saber escolher entre "o bem" e "o bem" (ou entre "o mal" e o mal"), levando em
conta o interesse da maioria da sociedade. Ao contrário da moral, que delimita o que
é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência
civilizada, a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos injusto diante de
possíveis escolhas que afetam terceiros.

VISÃO

A ética tem sido aplicada na


economia, política e ciência política,
conduzindo a muitos distintos e
não-relacionados campos de ética
aplicada, incluindo: ética nos
negócios e Marxismo.
Também tem sido aplicada à
estrutura da família, à sexualidade,
e como a sociedade vê o papel dos
indivíduos, conduzindo a campos da ética muito distintos e não-relacionados, como
22

o feminismo e a guerra, por exemplo. A visão descritiva da ética é moderna e, de


muitas maneiras, mais empírica sob a filosofia Grega clássica, especialmente
Aristóteles.
Inicialmente, é necessário definir uma sentença ética, também conhecido
como uma afirmativa normativa. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em
termos morais) de alguma coisa. Sentenças éticas são frases que usam palavras
como bom, mau, certo, errado, moral, imoral, etc.
Aqui vão alguns exemplos:
• “Salomão é uma boa pessoa”
• “As pessoas não devem roubar”
• “A honestidade é uma virtude”
Em contraste, uma frase não ética precisa ser uma sentença que não serve
para uma avaliação moral. Alguns exemplos são:
• “Salomão é uma pessoa alta”
• “As pessoas se deslocam nas ruas”
"João é o chefe".

A REALIDADE DA MORALIDADE

O estudo de conceitos éticos – certo e


errado, bom e mau – e de sentenças que
usam esses conceitos é chamado metaética.
Na metaética, os filósofos debatem se há
verdades morais universais, ou se a
moralidade é simplesmente uma expressão
de emoções ou costumes culturais.
O “realismo moral” afirma que bom e
mau são propriedades de situações e
pessoas, e certo e errado são propriedades
de ações. Assim como podem ser altas ou
velozes, as pessoas podem ser boas ou más.
23

Assim como podem ser praticadas em dez minutos ou por cobiça, as ações podem
ser certas ou erradas. Essas propriedades morais são uma parte real do mundo.
Declarações como “Assassinato é errado” são expressões de crenças que podem
ser verdadeiras ou falsas, dependendo de como o mudo é – das propriedades que
uma ação, pessoa ou situação realmente têm.
O realismo moral é, para muitos, a posição de “senso comum” em ética.
Muitos acreditam que as coisas são realmente certas ou erradas; não são nossas
ideias que as tornam assim. Nossa experiência da moralidade também sugere o
realismo moral. Primeiro, podemos cometer erros. As crianças fazem com
frequência; precisamos ensinar-lhes o que é certo e errado. Se certo e errado na
moral não envolvessem fatos, não seria possível cometer erros.
Segundo, a moralidade parece uma exigência feita a partir de “fora”.
Sentimonos responsáveis por um padrão de comportamento que independe do que
queremos. A moralidade não é determinada pelo que pensamos a seu respeito.
Terceiro, muitos acreditam em progresso moral. Mas como isso é possível, a
menos que algumas ideias sobre moralidade sejam melhores que outras? E como
isso é possível, a menos que haja fatos sobre a moralidade? Mais que um
sentimento?
Por outro lado, sabemos que há diferenças culturais em crenças morais, o
que pode levar alguns a abandonar o realismo moral pelo relativismo. Mas a
tolerância das diferenças culturais tende a ser muito limitada. P. ex., poucos
parecem pensar que, pelo fato de o assassinato de membros de outras tribos ou a
circuncisão feminina serem moralmente permissíveis em algumas sociedades, isto
os tornam certos, até mesmo nessas sociedades. Mas sabemos que, diferentemente
de outras crenças, a moralidade desperta fortes emoções e é difícil resolver disputas
morais. Se tendermos a pensar que isso ocorre porque não há fatos morais,
podemos ser levado ao emotivismo.
24

Fatos e Valores

Eis a questão: se há fatos sobre certo e


errado, de que tipo são? Como pode um valor
(um “fato” moral) ser algum tipo de fato?
Valores relacionam-se com avaliações. Se
ninguém avaliasse nada, haveria valores?
Fatos são parte do mundo. O fato de que
dinossauros vagaram pela Terra há milhões
de anos seria verdade, mesmo se nunca
tivéssemos descoberto isso. Mas é mais difícil
acreditar que valores “existam” independentemente de nós e de nosso discurso
sobre eles.
Essa comparação é injusta. Há muitos fatos – relativos p.ex. a estar
enamorado, ou à música – que “dependem” de seres humanos e de suas atividades
(não haveria amor se ninguém amasse). Mas continuam sendo fatos, porque
independem de nossos juízos e são tornados fatos pelo modo como o mundo –
nesse caso o mundo humano – é. Podemos nos enganar quanto a alguém estar
apaixonado, ou quanto a uma música ser de estilo barroco ou clássico.
A teoria da virtude propõe uma explicação possível para a relação entre fatos
morais e fatos naturais. Afirma que julgar um ato como certo depende de ser ele
algo que uma pessoa virtuosa faria. Uma pessoa virtuosa é alguém que tem
virtudes: traços de caráter que lhe permitem viver uma boa vida. O que é uma boa
vida depende da natureza humana, e esta é uma questão de fato objetiva. Assim,
fatos morais sobre boa vida e sobre ações certas estão estreitamente relacionados
com a natureza humana, nossos desejos universais, necessidades e capacidades
de raciocinar.
25

A moralidade é relativa?

Como explicar que a moralidade


varie de cultura para cultura?
Poderíamos alegar que diferentes
culturas, com suas diferentes práticas
éticas, tentam todas chegar à verdade
sobre a ética, tal como cientistas tentam encontrar a verdade sobre o mundo. Ou
podemos dizer que práticas éticas são apenas parte do modo de vida de uma
cultura. Isto é o que dirá o relativista. Segundo ele, duas culturas que discordem
sobre uma prática moral estão de fato fazendo afirmações que são “verdadeiras
para cada uma delas”.
Não tendemos a dizer o mesmo sobre afirmações científicas (p.ex., segundo
algumas culturas as estrelas eram alfinetadas no tecido do céus –mas elas estavam
erradas). Por que não? Porque temos uma ideia diferente de como discordâncias
científicas podem ser resolvidas. No caso da ciência, a melhor explicação é que as
teorias científicas acerca das quais concordamos representam como o mundo é ou
seja, o mundo guia nossas investigações, e confirmamos ou refutamos hipóteses
através de experimentos, até chegarmos a certo entendimento sobre como é o
mundo. A ciência investiga o mundo físico. Examinando a história da cultura e o
desenvolvimento das práticas áticas, é difícil ver como diferentes culturas poderiam
descobrir “a verdade” sobre moralidade e conduta ética para um único mundo ético.
Segundo relativismo, as práticas éticas se desenvolveram para ajudar as
pessoas a se orientarem no mundo social. Mas há muitos mundos sociais e muitas
culturas, e ao longo do tempo as pessoas desenvolveram diferentes maneiras de
fazer as coisas.
Assim, não há um único mundo social que possa guiar práticas éticas pra
uma concordância geral. Isto não significa que todas as práticas sócias sejam
aceitáveis – que nenhum indivíduo ou prática possa ser condenado moralmente. As
pessoas erram o tempo todo, e o relativismo não o nega. Mas afirma que, para
26

condenar uma ação ou prática, deveríamos usar recursos da cultura à qual ela
pertence. Não podemos julgar uma prática de fora de suas culturas.

OBJETO E OBJETIVO DA ÉTICA

A Ética, enquanto ramo do


conhecimento tem por objeto o
comportamento humano do interior
de cada sociedade. O estudo desse
comportamento, com o fim de
estabelecer os níveis aceitáveis que
garantam a convivência pacífica
dentro das sociedades e entre elas,
constitui o objetivo da ética.
Lisboa (1997, p.22) diz que, o
objeto da ética é o comportamento
humano no interior de cada sociedade e o estudo desse comportamento, com o fim
de estabelecer os níveis aceitáveis que garantam a convivência pacifica dentro das
sociedades e entre elas, constitui o objetivo da ética. Tudo o que está envolvido na
sociedade para uma boa convivência com referência às regras morais e ao
comportamento humano, faz parte do objeto e objetivo da Ética.
Para Srour (2000, p.29), os costumes das coletividades e as morais formam
os objetos da ética. O objetivo é a melhor maneira de agir coletivamente,
qualificando o bem e o mal, o permitido e o proibido, o certo e o errado, a virtude e o
vício. Então, o que é realmente estudado pela Ética? As morais históricas, as
relações e as condutas dos agentes sociais. E o que é a moral? Conjunto de regras
consideradas válidas, de modo absoluto, para qualquer tempo ou lugar, grupo ou
pessoa determinada; discursos que servem de trilhos para as relações sociais e aos
comportamentos dos agentes.
27

Segundo Stoner (1995, p.77), são os objetos da ética: os direitos e deveres


das pessoas, as regras morais. E o objetivo é a melhor maneira de tomar decisões
referentes ao convívio com as pessoas.

FUNÇAO DA ETICA

Em qualquer sociedade que


se observe, será sempre notada a
existência de dilemas morais em seu
interior. Os dilemas morais são um
reflexo das ações das pessoas, e
surgem a partir do momento em que,
diante de uma situação qualquer, a
ação de um indivíduo ou de um
grupo de indivíduos, contraria aquilo
que genericamente a sociedade
estabeleceu como padrão de comportamento para aquela situação.
O comportamento das pessoas, enquanto fruto dos valores nos quais cada
um acredita, sofre alterações ao longo da história. Tal fato significa que aquilo que
sempre foi considerado como um comportamento amoral pode, a partir de
determinado momento, passar a ser visto como um comportamento adequado à luz
da moral. Quando, por exemplo, um país se envolve em uma guerra, os habitantes
desse país (ou pelo menos grande parte deles) estão assumindo um comportamento
que normalmente condenam em tempo de paz, qual seja, matar seus semelhantes.
Os problemas relacionados com o comportamento do ser humano encontram-
se inseridos no campo de preocupações da Ética. Ainda que não torne os indivíduos
“moralmente perfeitos”, a Ética tem por função investigar e explicar o comportamento
das pessoas ao longo das várias fases da história. Essa função apresenta-se como
de grande relevância, tanto no sentido de se entender o passado, quanto de servir
28

como parâmetro para fixação de comportamentos “padrões”, aceitos pela maioria,


visando a diminuir o nível de conflitos de interesses dentro da sociedade.

HISTÓRICO

Historicamente, a ideia de Ética


surgiu na antiga Grécia, por volta de 500
– 300 a.C, através das observações de
Sócrates e seus Discípulos.

Ética Grega

A ética surge na Grécia, quando os filósofos de cultura ocidental apontam


suas teorias aos “contemporâneos dos mistérios do universo e das forças cósmicas
(cosmogonia), para a essência moral e o caráter dos indivíduos” (GALVÃO, 2002, p.
4), então o homem passa a ser objeto de pesquisa, iniciando a temática do discurso
moral e político como forma de enquadramento social, e essa tendência movimenta
o mundo das ideias, que, percorre em diversos períodos na visão de filósofos até os
dias atuais.
Sócrates (470-399 a.C.) considerou o problema ético individual como o
problema filosófico central e a ética como sendo a disciplina em torno da qual
deveriam girar todas as reflexões filosóficas. Para ele ninguém pratica
voluntariamente o mal. Somente o ignorante não é virtuoso, ou seja, só age mal,
quem desconhece o bem, pois todo homem quando fica sabendo o que é bem,
reconhece-o racionalmente como tal e necessariamente passa a praticá-lo. Ao
praticar o bem, o homem sente-se dono de si e consequentemente é feliz. A virtude
seria o conhecimento das causas e dos fins das ações fundadas em valores morais
identificados pela inteligência e que impelem o homem a agir virtuosamente em
direção ao bem.
29

Platão (427-347 a.C.) ao examinar a ideia do Bem a luz da sua teoria das
ideias, subordinou sua ética à metafísica. Sua metafísica era a do dualismo entre o
mundo sensível e o mundo das ideias permanentes, eternas, perfeitas e imutáveis,
que constituíam a verdadeira realidade e tendo como cume a ideia do Bem,
divindade, artífice ou demiurgo do mundo.
Aristóteles (384-322 a.C.), não só organizou a ética como disciplina
filosófica, mas além disso, formulou a maior parte dos problemas que mais tarde
iriam se ocupar os filósofos morais: relação entre as normas e os bens, entre a ética
individual e a social, relações entre a vida teórica e prática, classificação das
virtudes, etc. Sua concepção ética privilegia as virtudes (justiça, caridade e
generosidade), tidas como propensas tanto a provocar um sentimento de realização
pessoal àquele que age quanto simultaneamente beneficiar a sociedade em que
vive. A ética aristotélica busca valorizar a harmonia entre a moralidade e a natureza
humana, concebendo a humanidade como parte da ordem natural do mundo sendo,
portanto uma ética conhecida como naturalista.

Ética Medieval

Na idade média, os valores éticos são marcados pela influência da religião


católica e suas doutrinas. O cristianismo que se tornou a religião oficial de Roma a
partir do século IV, sobreviveu ao fim do império e ganhou força sobre as ruínas da
sociedade antiga imperou seu domínio por dez séculos. Neste período a igreja
enriqueceu e manteve um forte domínio sobre o modo de pensar fazendo com que o
teocentrismo passasse a definir as formas de ver e sentir, contribuindo para a
formação ética medieval. Para a ética cristã medieval a igualdade só podia ser
espiritual ou no futuro para um mundo sobrenatural e a mensagem cristã tinha um
conteúdo moral, não havendo proposta por uma igualdade real dos seres
humanos.Com isto, a ética cristã procura regular o comportamento dos humanos
com vistas ao outro mundo, sendo o valor supremo encontrado em Deus.
30

Teorias Éticas Fundamentais

Santo Agostinho (354-430). Fundamentou a moral cristã, com elementos


filosóficos da filosofia clássica. O objetivo da moral é ajudar os seres humanos a
serem felizes, mas a felicidade suprema consiste num encontro amoroso do homem
com Deus. Só através pela graça de Deus podemos ser verdadeiramente felizes.
St. Tomás Aquino (1225-1274). No essencial concorda com Santo
Agostinho, mas procura fundamentar a ética tendo em conta as questões colocadas
na antiguidade clássica por Aristóteles.
Ética Moderna (Séc. XV-XVII)

A filosofia moderna reduz o


homem à Razão. A ética doutrinante
deste século é a ética moderna. Aqui
neste período, a ética se caracteriza
pelo contraste à ética Teocêntrica e
Teológica da Idade Média. A ética
moderna surge com a sociedade que
sucede a sociedade feudal da Idade
Média, moldada pelas consequências da Reforma Protestante que provoca um
retorno aos princípios básicos da tradição cristã, porém o individuo passa a ter
responsabilidades, tomadas como mais importantes que obediências aos ditames
religiosos e a autoridades e costumes, assim, com essa transformação, em varias
ordens, leva o surgimento da ética moderna.
Neste período ocorrem mudanças na Ciência, na Política, na Economia, na
Arte e principalmente na Religião, onde se transfere o centro de Deus para o homem
que passa a adquirir um valor pessoal, que “[...] acabará por apresentar-se como o
absoluto, ou como o criador ou legislador em diferentes domínios, incluindo nestes a
moral” (VASQUEZ, 1978, p. 248).
31

Teorias éticas fundamentais da idade moderna

Descartes (1596-1650). Este filósofo simboliza toda a fé que a Idade


Moderna deposita na razão humana. Só ela nos permitiria construir um
conhecimento absoluto. Em termos morais mostrou-se, todavia muito cauteloso.
Neste caso reconheceu que seria impossível estabelecer princípios seguros para a
ação humana. Limitou-se a recomendar uma moral provisória de tendência estóica:
O seu único princípio ético consistia em seguir as normas e os costumes morais que
visse a maioria seguir, evitando deste modo rupturas ou conflitos.
John Locke (1632-1704). Este filósofo parte do princípio que todos os
homens nascem com os mesmos direitos (Direito á Liberdade, à Propriedade, à
Vida). A sociedade foi constituída, através de um contrato social, que visava garantir
e reforçar estes mesmos direitos. Neste sentido, as relações entre os homens
devem ser pautadas pelo seu escrupuloso respeito.
David Hume (1711-1778). Defende que as nossas ações são em geral
motivadas pelas paixões. Os dois princípios éticos fundamentais são a utilidade e a
simpatia.

Ética contemporânea (Séc. XIX-XX)

O Utilitarismo ou Universalismo
Ético. Este é formulado por Jeremy
Bentham (1748-1832). A maior felicidade
para o maior número de pessoas. Esta
ética é chamada “moral do bem estar”, o
bem é útil para o individuo e o coletivo.
A ética contemporânea também
surge numa época de progressos em
varias ordens, e exercem seus influxos
32

até os dias de hoje. “No plano filosófico, a ética contemporânea se apresenta em


suas origens como uma reação contra o formalismo e o racionalismo abstrato
kantiano” (VASQUEZ, 1978, p. 251), e também no racionalismo de Hegel.

Éticas Fundamentais Contemporâneas

Kant (1724-1804). Partindo de uma concepção universalista do homem,


afirma que este só age moralmente quando, pela sua livre vontade, determina as
suas ações com a intenção de respeitar os princípios que reconheceu como bons. O
que o motiva, neste caso, é o puro dever de cumprir aquilo que racionalmente
estabeleceu sem considerar as suas consequências. A moral assume assim, um
conteúdo puramente formal, isto é, não nos diz o que devemos fazer (conteúdo da
ação), mas apenas o princípio (forma) que devemos seguir para que a ação seja
considerada boa.
Sartre. A moral é uma criação do próprio homem que se faz a si próprio
através das suas escolhas em cada situação. O relativismo é total. Mas este fato
não o desculpa de nada. A sua responsabilidade é total dado que ele é livre de agir
como bem entender. A escolha é sempre sua.
Habermas (1929). Após a 2ª Guerra Mundial, Habermas surge a defender
uma ética baseada no diálogo entre indivíduos em situação de equidade e
igualdade. A validade das normas morais depende de acordos livremente discutidos
e aceites entre todos os implicados na ação.
Hans Jonas (1903-1993). Perante a barbárie quotidiana e a ameaça da
destruição do planeta, Hans Jonas, defende uma moral baseada na
responsabilidade que todos temos em preservar e transmitir às gerações futuras
uma terra onde a vida possa ser vivida com autenticidade. Daí o seu princípio
fundamental: "Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a
permanência da uma vida humana autêntica na terra".
Crítica. Ao longo de todo o século XIX e XX sucederam-se as teorias que
denunciaram o caráter repressivo da moral, estando muitas vezes ao serviço das
classes dominantes (Karl Marx, 1818-1883) ou dos fracos (Nietzsche,1844-
33

1900).Outros demonstram a falta de sentido dos conceitos éticos, como "Dever",


"Bom" e outros (Alfred J.Ayer), postulando o seu abandono por se revelarem pouco
científicos. Sigmund Freud (1856-1939) demonstrou o caráter inconsciente de
muitas das motivações morais. Um das correntes que maior expressão teve no
século XX, foi a que procurou demonstrar que as raízes biológicas da moral,
comparando o comportamento dos homens e de outros animais.
Aquilo que denominamos por "ética" é apresentado como uma forma
camuflada ou racionalizada de instintos básicos da nossa natureza animal idênticos
a outros animais.
Novas Problemáticas. As profundas transformações sociais, culturais e
científicas das nossas sociedades colocaram novos problemas éticos,
nomeadamente em domínios como a tecnociência (clonagem, manipulação
genética, eutanásia, etc), ecologia, comunicação de massas, etc.

IMPORTÂNCIA DA ÉTICA

A importância da ética hoje


se dá pela necessidade, por uma
questão de sobrevivência;
considerando que a humanidade
passa por um momento de anseio
por uma vida melhor e acima de
tudo digna e feliz. Podemos dizer
que o tema mais ecumênico que
existe atualmente é o da dignidade humana, vida com qualidade e por fim, a
felicidade. No entanto percebemos que o mundo se tornou um caos, e o homem
como um todo se encontra perdido em meio a tanta confusão; é o verdadeiro “jogo
dos interesses”. O comportamento ético não consiste exclusivamente em fazer o
bem a outrem, mas em exemplificar em si mesmo o aprendizado recebido. É o
exercício da paciência em todos os momentos da vida, a tolerância para com as
34

faltas alheias, a obediência aos superiores em uma hierarquia, o silêncio ante uma
ofensa recebida.

CIDADANIA

É muito importante entender bem o que é cidadania. Trata-se de uma palavra


usada todos os dias, com vários sentidos. Mas hoje significa, em essência, o direito
de viver decentemente.
Cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la. É poder votar em
quem quiser sem constrangimento. É poder processar um médico que age de
negligencia. É devolver um produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o
direito de ser negro, índio, homossexual, mulher sem ser descriminado. De praticar
uma religião sem se perseguido.
Há detalhes que parecem insignificantes, mas revelam estágios de cidadania:
respeitar o sinal vermelho no transito, não jogar papel na rua, não destruir telefones
públicos. Por trás desse comportamento está o respeito ao outro.

Conceito:

No sentido etimológico da palavra, cidadão deriva da palavra civita, que em


latim significa cidade, e que tem seu correlato grego na palavra politikos – aquele
que habita na cidade.
Segundo o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, “cidadania é a
qualidade ou estado do cidadão”, entende-se por cidadão “o indivíduo no gozo dos
direitos civis e políticos de um estado, ou no desempenho de seus deveres para com
este”. Cidadania é a pertença passiva e ativa de indivíduos em um estado - nação
com certos direitos e obrigações universais em um específico nível de igualdade
(JANOSKI, 1998).
No sentido ateniense do termo, cidadania é o direito da pessoa em participar
das decisões nos destinos da Cidade através da Ekklesia (reunião dos chamados de
dentro para fora) na Ágora (praça pública, onde se agonizava para deliberar sobre
35

decisões de comum acordo). Dentro desta concepção surge a democracia grega,


onde somente 10% da população determinavam os destinos de toda a Cidade (eram
excluídos os escravos, mulheres e artesãos).

O que é ser cidadão?

Ser cidadão é respeitar e participar das


decisões da sociedade para melhorar suas vidas e
a de outras pessoas. Ser cidadão é nunca se
esquecer das pessoas que mais necessitam. A
cidadania deve ser divulgada através de
instituições de ensino e meios de comunicação
para o bem estar e desenvolvimento da nação.
A cidadania consiste desde o gesto de não jogar papel na rua, não pichar os
muros, respeitar os sinais e placas, respeitar os mais velhos (assim como todas às
outras pessoas), não destruir telefones públicos, saber dizer obrigado, desculpe, por
favor, e bom dia quando necessário... até saber lidar com o abandono e a exclusão
das pessoas necessitadas, o direito das crianças carentes e outros grandes
problemas que enfrentamos em nosso mundo.

DIREITOS E DEVERES
DO CIDADÃO

Na constituição brasileira os artigos


referentes a esse assunto podem ser
encontrados no Capítulo I, Artigo 5º que trata
dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos.
Cada um de nós tem o direito de viver, de ser
livre, de ter sua casa, de ser respeitado como
36

pessoa, de não ter medo, de não ser pisado por causa de seu sexo, de sua cor, de
sua idade, de seu trabalho, da cidade de onde veio da situação em que está, ou por
causa de qualquer outra coisa.
Qualquer ser humano é nosso companheiro porque tem os mesmos direitos
que nós temos. Esses direitos são sagrados e não podem ser tirados de nós; se
forem desrespeitados, continuamos a ser gente e podemos e devemos lutar para
que eles sejam reconhecidos. Às vezes cidadãos se veem privados de usufruírem
de seus direitos por que vivem cercados de preconceito e racismo é incrível, mas
ainda nos dias de hoje encontramos pessoas que se sentem no direito de impedir os
outros de viverem uma vida normal só porque não pertencem a mesma classe
social, raça ou religião que a sua. Nós cidadãos brasileiros temos direitos e devemos
fazer valer o mesmo independente do que temos ou somos, ainda bem que a cada
dia que passa muitas pessoas estão se conscientizando e acabando com o
preconceito e aquelas que acabam sofrendo por isso estão correndo atrás de seus
direitos.
Mas como cidadãos brasileiros não têm apenas direitos, mas deveres para
com a nação, além de lutar pelos direitos iguais para todos, de defender a pátria, de
preservar a natureza, de fazer cumprir as leis e muito mais. Ser cidadão é fazer valer
seus direitos e deveres civis e políticos, é exercer a sua cidadania. Com o não
cumprimento do dever o cidadão brasileiro pode ser processado juridicamente pelo
país e até mesmo privado de sua liberdade. Seguem abaixo alguns trechos da
declaração dos direitos humanos e do cidadão.

Declaração dos direitos humanos e do


cidadão (alguns artigos)

I - Os homens nascem e permanecem livres e


iguais em direitos; as distinções sociais não
podem ser fundadas senão sobre a utilidade
comum.
37

II - O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e


imprescritíveis do homem; esses direitos são, à liberdade, à propriedade, à
segurança e a resistência à opressão.
III - O princípio de toda a soberania reside essencialmente na razão; nenhum corpo,
nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane diretamente.
IV - A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outrem. Assim, o
exercício dos direitos naturais do homem não tem limites senão aqueles que
asseguram aos outros membros da sociedade o gozo desses mesmos direitos; seus
limites não podem ser determinados senão pela lei.
V - A lei não tem o direito de impedir senão as ações nocivas à sociedade. Tudo o
que não é negado pela lei não pode ser impedido e ninguém pode ser constrangido
a fazer o que ela não ordenar.
VI - A lei é a expressão da vontade geral; todos os cidadãos têm o direito de
concorrer, pessoalmente ou por seus representantes, à sua formação; ela deve ser a
mesma para todos, seja protegendo, seja punindo. Todos os cidadãos, sendo iguais
a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e
empregos públicos, segundo sua capacidade e sem outras distinções que as de
suas virtudes e de seus talentos.
VII - Nenhum homem pode ser acusado, detido ou preso, senão em caso
determinado por lei, e segundo as formas por ela prescritas. Aqueles que solicitam,
expedem ou fazem executar ordens arbitrárias, devem ser punidos; mas todo
cidadão, chamado ou preso em virtude de lei, deve obedecer em seguida; torna-se
culpado se resistir.
VIII - A lei não deve estabelecer senão penas estritamente necessárias, e ninguém
pode ser punido senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada ao delito e
legalmente aplicada.
IX - Todo homem é tido como inocente até o momento em que seja declarado
culpado; se for julgado indispensável para a segurança de sua pessoa, deve ser
severamente reprimido pela lei. X - Ninguém pode ser inquietado por suas opiniões,
mesmo religiosas, contanto que suas manifestações não perturbem a ordem pública
estabelecida em lei.
38

XI - A livre comunicação dos pensamentos e opiniões é um dos direitos mais


preciosos do homem; todo o cidadão pode, pois, falar, escrever e imprimir
livremente; salvo a responsabilidade do abuso dessa liberdade nos casos
determinados pela lei.
XII - A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública;
essa força é então instituída para vantagem de todos e não para a utilidade
particular daqueles a quem ela for confiada.
XIII - Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração,
uma contribuição comum é indispensável; ela deve ser igualmente repartida entre
todos os cidadãos, em razão de suas faculdades.
XIV - Os cidadãos têm o direito de constatar, por si mesmos ou por seus
representantes, a necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente e
de vigiar seu emprego, de determinar sua quota, lançamento, recuperação e
duração.
XV - A sociedade tem o direito de pedir contas de sua administração a todos os
agentes do poder público.
XVI - Toda a sociedade na qual a garantia dos direitos não é assegurada, nem a
separação dos poderes determinada, não tem constituição.
XVII - A propriedade, sendo um direito inviolável, e sagrado, ninguém pode ser dela
privado senão quando a necessidade pública, legalmente constatada, o exija
evidentemente, e sob a condição de uma justa e prévia indenização.
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AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS

O que você acha de obedecer a regras, de cumprir ordens, de seguir


caminhos que já foram preestabelecidos para você? É provável que você e muitos
de seus colegas digam que não gostam de obedecer a regras, e alguns cheguem
mesmo a afirmar com uma pontinha de orgulho que só fazem aquilo que gostam ou
que têm vontade...
Pois saibam que não é bem assim que as coisas acontecem. Mesmo que
você se considere um rebelde, você está muito mais dentro da ordem que imagina,
principalmente se você é um aluno devidamente matriculado Neste curso, e está
lendo este texto na universidade ou em sua casa. Por que estamos falando disso?
Para dizer que vivemos numa sociedade totalmente institucionalizada, ou
seja, vivemos “imersos” em instituições sociais, portanto, somos continuamente
levados a realizar coisas que não escolhemos, e na maioria das vezes as realizamos
“naturalmente”, sem questionar de onde e de quem partiu aquela ideia ou aquela
ordem.
Todo o nosso pensamento e nossa ação foram aprendidos e continuam
constantemente sendo construídos no decorrer de nossa vida. Muito do que
fazemos foi pensado e estabelecido por pessoas que nem existem mais. Desde o
momento de nosso nascimento até a nossa morte estamos sempre atendendo às
várias expectativas dos vários grupos que participamos.
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Por isso, nosso objetivo com este estudo é


colocá-lo em contato com algumas instituições sociais
muito presentes e atuantes em nossa sociedade, mais
especificamente três: a escola, a religião e a família.
Colocar em contato quer dizer conhecer um
pouco das origens históricas das instituições, ou como
foram construídas pelas diversas sociedades ao longo
do tempo; perceber as transformações que foram
sofrendo e como se configuram hoje, conhecer as
diversas possibilidades de leitura oferecidas pela Sociologia, e, principalmente, nos
enxergarmos como parte integrante dessas instituições. Não como uma peça num
tabuleiro de um jogo, mas como sujeitos atuantes e com capacidade de mudar as
regras do jogo quando considerarmos necessário.
Nossa intenção ao propor este tema de estudo vai muito além da simples
informação de conteúdos da Sociologia, avalizados pelos grandes nomes dessa
ciência. Pretendemos que você, com auxílio dos instrumentais teóricos da
Sociologia, possa compreender a dinâmica da sociedade contemporânea, aprenda a
questionar as “verdades” que lhe são colocadas, e possa inserir-se de forma crítica e
criativa nas diversas instituições sociais que compõem o sistema social.

Vamos pontuar alguns aspectos destas três instituições: família, escola


e religião.

Nascemos todos em algum lugar da


sociedade: num bairro de periferia, num
edifício no centro da cidade, numa favela, num
condomínio fechado, e pertencemos quase
sempre a algum tipo de família. É dentro da
família que aprendemos os primeiros valores
do grupo e da sociedade a que pertencemos.
Os pais (ou aqueles que cumprem este papel),
criam e provêm os filhos de condições para a
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subsistência e esperam desses respeito e obediência. A sociedade espera que os


pais trabalhem e tenham uma vida honesta, às mães cabe o amor incondicional,
capaz de fazê-las abrir mão da própria vida para ver a felicidade de seus filhos. Isso
pode parecer um pouco exagerado, mas, às vezes, a caricatura de uma situação
nos permite enxergá-la melhor.
Bem, crescemos ouvindo que a família é um lugar “sagrado”, que devemos
respeitar nossos pais, que tanto sacrifícios fizeram por nós. Crescemos ouvindo que
é o bem mais importante de um homem, e quando finalmente crescemos,
“desejamos” formar outra família, porque é isto que esperam de nós. Mas se não
agirmos dessa forma esperada, se não nos transformarmos no pai trabalhador, na
“mãe santa”, no filho respeitoso? Se escolhermos outro caminho e outros valores?
Aí sofreremos o que a Sociologia chama de coerção social – significa que seremos
coagidos e pressionados pelo grupo familiar e pelas pessoas próximas desse, a
retomar os valores preestabelecidos.
É o grupo familiar que também vai nos indicar os caminhos escolares e
profissionais. Para algumas famílias, percorrer toda a carreira escolar sem
interrupção é algo indiscutível, e desviar-se deste caminho previsto pode ser
traumático. Novamente não escolhemos, mas as escolhas já estão feitas. Quase
sempre fazemos o que é esperado.
Passemos agora para a escola. Essa instituição ensina-nos novos padrões de
comportamento, ou reforça aqueles que já
trazemos de nossa classe social e tenta nos
fazer acreditar que somos todos iguais, porque
podemos nos sentar igualmente nas carteiras
escolares. Mas tão logo os alunos percebem que
para haver igualdade é necessário mais do que
um lugar na escola, começam as reações
contrárias à ordem. São as chamadas questões
disciplinares. A escola valoriza a ordem, a
disciplina, o bom rendimento. Os adolescentes
vêem neste momento de suas vidas a
oportunidade de rebelar-se contra os padrões de comportamento estabelecidos, de
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agredir tudo que representa autoridade, de desprezar o que não atende a seus
interesses imediatos.
Há uma outra instituição social com a qual você provavelmente também
convive. Caso tenha sido batizado ou iniciado em alguma religião em sua infância, e
tenha crescido seguindo os ensinamentos de sua igreja, você desenvolveu o que se
chama de pensamento sagrado. Você explica fenômenos da vida e da morte de
acordo com os preceitos de sua fé. Você conhece os rituais de sua igreja e respeita,
ou ao menos sabe o significado das principais datas religiosas. Se, em algum
momento de sua vida, você resolver se desligar de sua religião, esteja certo de que
sofrerá forte pressão de seu grupo religioso, o qual muito o indagará a respeito de
sua decisão, e mais do que isso, fará tudo para demovê-lo de sua decisão.
Com esses exemplos é possível perceber o quanto as instituições direcionam
nossas ações, às vezes de forma tão sutil que não percebemos que as situações
vivenciadas cotidianamente são em sua maioria reproduções de antigas instituições
sociais. Também será possível que um dia você chegue à conclusão de que uma ou
todas as instituições não são assim tão importantes para a sua vida. Você verá
sobre isto nos Folhas a seguir, que em diversos momentos da história, alguns
grupos sociais e alguns indivíduos negaram a necessidade da autoridade, fosse esta
política, familiar, religiosa, educacional ou qualquer outra. Acreditavam na
capacidade de auto-governo do ser humano, na liberdade e na autonomia de
pensamento. Aliás, hoje é possível encontrar em diversas partes do mundo,
inclusive no Brasil, pessoas que vivem em comunidades alternativas, que negam os
valores do pensamento dominante, e constroem suas próprias regras, com base na
visão que têm da sociedade e do planeta. Mas para chegar até isso, e quem sabe
superar este modelo de sociedade e de instituições sociais a que estamos sujeitos
hoje, é preciso muito estudo e a construção de projetos coletivos.
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BIBLIOGRAFIA

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