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LINGUÍSTICA FORMAL E TEXTUAL: ANÁLISE DOS FATORES DE TEXTUALIDADE

INTRODUÇÃO

DIAS-FERREIRA, Ademilson 1

O presente trabalho é fruto das reflexões sobre gêneros e fatores de

textualidade estudados na disciplina Linguística Formal e Textual, e pretende analisar um cartum como forma de cristalizar os conceitos estudados; praticar

descrições e análises sobre os fatores de textualidade; e ainda explicar o(s) gênero(s) encontrado(s) no texto, com provas do próprio texto. Para a realização do trabalho foi escolhido um cartum que apresenta, tantos quantos, fatores de textualidade possíveis bem como literaturas que contribuíram para elucidação dos objetivos propostos. Contando assim com uma bibliografia simples, porém rica, que contribuiu como arcabouço teórico.

O texto é um esforço para apresentar os fatores de textualidades

discutidos nas aulas da referida disciplina, porém vale ressaltar que não se

intenciona neste trabalho simplista esgotar as discussões sobre tal tema, uma vez consciente da impossibilidade humana e temporal para fazê-lo.

O que se segue é, então, a análise do cartum de Ricardo Ferraz,

ancorado nos objetivos supramencionados.

1 Professor e Intérprete de LIBRAS – MEC – PROLIBRAS/UFSC; Graduando em LETRAS-LIBRAS – UFES/UFSC; Graduando em LETRAS: Licenciatura de Língua Portuguesa e suas Respectivas Literaturas; Vice- presidente da Associação de Profissionais Tradutores-Intérpretes de LIBRAS do Espírito Santo – APILES.

A ANÁLISES

Em tempos que se prega a inclusão sócioeducacional de pessoas deficientes, percebe-se uma displicência (prefiro me enganar pensando assim) muito saliente em algumas pessoas, as quais humorísticas e inteligentemente Ricardo Ferraz lança sua crítica, conforme o cartum, retirado do site cadetudo.com.br, apresentada abaixo.

retirado do site cadetudo.com.br, apresentada abaixo. Tratemos então de analisar, pura e tão somente, os fatores

Tratemos então de analisar, pura e tão somente, os fatores de textualidades, sem entrar na discussão sócioeducacional proposta na mesma, uma vez que é um assunto que não cabe neste trabalho, bem como já o disse, em outros termos, em outra situação, nos artigos intitulados “Pedagogia Surda X Pedagogia Revolucionária” 2 , destacando a questão educativa do sujeito surdo traçando um paralelo com a educação proposta por Demerval Saviani (DIAS-FERREIRA, 2009), e “Escola Polo Bilíngue: as Múltifacetas da Educação de Surdos no Município de Linhares” 3 , bem como em outros trabalhos deste mesmo teor. Dentre os fatores de textualidade encontra-se a coerência que, segundo Silveira (2008, apud SARTORELLI et al., 2008, p. 142) “é responsável pelo sentido do texto”. Em relação a este fator, Oliveira (2008) afirma que “é o resultado

2 DIAS-FERREIRA, Ademilson. PEDAGOGIA SURDA X PEDAGOGIA REVOLUCIONÁRIA. Disponível em: <http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1662565 > ou <http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1662565 > - ultimo acesso em 27 de abril de 2010.

3 DIAS-FERREIRA, Ademilson. Escola Polo Bilíngue: as Múltifacetas da Educação de Surdos no Município de Linhares. disponível em <http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1925571> - ultimo acesso em 27 de abril de

2010.

dos processos cognitivos operantes entre os usuários e não um mero traço dos textos” e ainda que “caracteriza-se como nível de conexão conceitual e estruturação dos sentidos”, ou seja, para que o texto tenha sentido se faz necessário, além dos elementos textuais, o conhecimento de mundo do leitor. Tal fator se mostra explicitamente no cartum, objeto desta análise, uma vez que, seguindo os elementos textuais, imagéticos e conhecimento de mundo, pode-se abstrair, por exemplo, o descaso do professor, representado pela figura que escreve na lousa, em relação aos alunos deficientes, representados pela figura que porta óculos escuros (um cego ou deficiente visual) e o que tem um x na

orelha (um surdo), quando aquele diz “veja bem

descrever tais personagens é exatamente o conhecimento de mundo que possuo. O que gera os pontos de exclamação e interrogação sobre a cabeça do suposto surdo e tais pontos acrescidos à ira do suposto cego é exatamente a fala do professor, que pede para que eles vejam e ouçam o que é impossível para um cego e um surdo,

respectivamente. Seguindo, então, ao conhecimento de mundo, entende-se que ele não deveria ter empregado tais termos, bem como ter pronunciado o que escreveu e ainda olhado para o surdo, pois se supõe que o mesmo faça leitura labial (um mito quando se trata da comunidade surda brasileira, uma vez que a mesma apropria-se de conhecimentos através da Língua Brasileira de Sinais-LIBRAS). Outro fator importante é a coesão, que, segundo Silveira (2008, apud SARTORELLI et al., 2008, p. 144), “dá conta da estruturação da sequência superficial do texto”, sendo “o modo como os elementos se interligam, por meio de recursos linguísticos para formar um tecido, uma unidade de nível superior”. De maneira mais simplória Oliveira (2008) define-a como sendo o “modo como as palavras estão ligadas entre si dentro de uma sequência”. Desta forma pode-se afirmar que tal fator está presente no cartum apresentado uma vez que a mesma apresenta uma sequência de palavras estruturadas gramaticalmente ligadas às expressões dos personagens que impulsiona a outro fator: a intencionalidade. A intencionalidade diz respeito à intenção do autor, que neste caso, conforme o próprio autor garante, é de “combater o preconceito”, com a proposta de não “generalizar nem dramatizar, mas fazer cócegas na sensibilidade” (FERRAZ) 4 .

olhe”. O que me leva a

ouça

4 Extraído do site http://www.cadetudo.com.br/ricardoferraz/historia.html.

Outro fator presente no texto em análise é a aceitabilidade, que tem que ver com o modo como o leitor recebe e aceita a proposta do autor. O que é explicitado na compreensão e na corroboração com a idéia central através prenuncia de sentimentos de repugna ao preconceito, conforme propõe o autor. Há, ainda, informatividade, outro fator presente no texto, que, conforme Silveira (2008, apud SARTORELLI et al., 2008, p. 145), “designa em que medida as informações apresentadas no texto são previstas, conhecidas por parte do leitor”, desta forma os materiais linguísticos apresentados no texto são conhecidos ou não da parte do leitor, ou seja, há equilíbrio nas informações já conhecidas e nas novas, implícitas, a luta contra o preconceito, que se evidencia através das expressões das personagens vítimas do descaso e a percepção de apenas um personagem, que está mais ao centro do cartum que olha sem entender

a movimentação dos dois deficientes, o que caracteriza, segundo Oliveira (2008),

uma das ordens da informatividade, a informação do óbvio e ainda a quebra da expectativa, uma vez que as frases utilizadas pelo personagem professor são comuns e pronunciadas corriqueiramente. A situacionalidade é outro fator que não está ausente, ao contrário tem seu lugar cativo nesse cartum, pois como afirma Silveira (2008, apud SARTORELLI et al., 2008, p. 146), ela “refere-se aos fatores que tornam um texto relevante para a situação em que ele ocorre”, o que é, por sua vez, evidenciado pela representação do ambiente, sala de aula, onde ocorre diversos tipos de distorções de discursos e práticas inclusivas. Por ultimo, porém não menos importante, a intertextualidade. Silveira (2008, apud SARTORELLI et al., 2008, p. 146) afirma que a “intertextualidade diz respeito aos fatores que tornam a construção ou recepção de um texto dependente de um outro”, para Oliveira (2008) este fator “compreende as diversas maneiras pelas quais a produção e a recepção de um texto dependem do conhecimento de outros textos anteriormente produzidos”, grosso modo, é a ligação e a interdependência de um texto a outro. No cartum apresentado tal fator de

textualidade se aplica no conhecimento da lei de acessibilidade 5 e da lei da LIBRAS

e do decreto que a regulamenta 6 , pois deixa explicito que as pessoas deficientes, representadas pelos personagens, ficam à margem, excluídas, uma vez que seus

5 Lei 10.098/2000.

6 Lei 10.436/02 e Decreto 5.626/05.

direitos são desrespeitados, isso porque nota-se a displicência e discrepância do professor em usar termos que degradam a pessoa que apresenta tais limitações (auditivas e/ou visuais), limitações estas inventadas e atribuídas pela sociedade preconceituosa e hegemônica, diga-se de passagem. E ainda a ausência do intérprete de LIBRAS, uma vez que é direito da pessoa surda, não um favor do sistema (social e educacional) e a transcrição das informações em braile para que o deficiente visual, ali representado, pudesse ter acesso às informações, o que preconiza as legislações supramencionadas. Quanto ao gênero, tal texto relaciona-se, a meu ver, com os da ordem de argumentar, pois a intenção do autor é de refutar o preconceito e propiciar a reflexão em relação à tomada de decisão sobre este assunto, o que é perfeitamente apresentado no cartum ora analisado, exemplificado pela expressão do personagem que se localiza no centro do cartum que percebe a movimentação dos deficientes. E ainda aos da ordem de relatar, visto que apresenta uma situação verossimilhante (uma sala de aula com alunos deficientes inseridos, porém não incluídos como se vê no cartum).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho iniciou-se com o objetivo de analisar um cartum como forma de cristalizar os conceitos estudados; praticar descrições e análises sobre os fatores de textualidade; e ainda explicar o(s) gênero(s) encontrado(s) no texto, com provas do próprio texto. Sendo escolhido para a realização do trabalho um cartum que apresenta tantos quantos fatores de textualidade possíveis, bem como literaturas que contribuíram para elucidação dos objetivos propostos. Através de muito esforço para apresentar os fatores de textualidades discutidos nas aulas da disciplina Linguística Formal e Textual, embora consciente de trabalho simplista, foi possível elencar cada um dos fatores e os localizar no Cartum, e ainda descrever quais os possíveis gêneros nele apresentados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Lei 10.098/2000. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L10098.htm> - ultimo acesso em 28 de abril de 2010.

Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Disponível em:

<http://www.leidireto.com.br/lei-10436.html> ultimo acesso em: 15/11/08.

Decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/> ultimo acesso em: 15/11/08.

DIAS-FERREIRA, Ademilson. Pedagogia Surda X Pedagogia Revolucionária. Disponível em: <http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1662565 > - ultimo acesso em 27 de abril de 2010.

OLIVEIRA, Ana Paula de. Textos e Fatores de Textualidade. Reduto das Letras. Disponível em: < http://redutodasletras.blogspot.com/2008/06/texto-e-fatores-de- textualidade.html> - ultimo acesso em 29 de abril de 2010.

SILVEIRA. Ana Paula. Linguística Formal e Textual, apud SARTORELLI. Soraya Rozana. et al. Ed. UNOPAR, 2008.