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ara Daniela, minha irmã amada, aquela que me tomou pela mão e me levou
às portas da leitura, e como Musa inspiradora fez nascer o melhor dos versos em mim,
ponte intermediadora para mundos aquém das nossas possibilidades, mas com uma
virada de páginas os tornou tão palpáveis quanto a nossa realidade.
Obrigada!

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Sumário
Prólogo....................................................................................................................................................... 5
Poema em Linha Reta .................................................................................................................................. 6
O amor bate na Aorta .................................................................................................................................... 8
Ausência ................................................................................................................................................... 10
Amar ...................................................................................................................................................... 11
O navio negreiro .......................................................................................................................................... 13
A arte de perder...........................................................................................................................25
O necrológico dos desiludidos do amor.........................................................................27
Autopsiografia...............................................................................................................29
Amo-te..........................................................................................................................30
O que restará de ti.........................................................................................................31
Canção do exílio.............................................................................................................33
A rosa de Hiroshima.......................................................................................................35
O bicho...........................................................................................................................36
Vou-me embora pra Parsagada.......................................................................................37
A dúvida..........................................................................................................................39
O bem e o Mal do país da luz...........................................................................................40
Livro e as flores................................................................................................................41
E assim é tudo nela..........................................................................................................42
Amor...............................................................................................................................43
Pequei Senhor.................................................................................................................44
Venha para mim em Sonhos............................................................................................45
Augúrios da inocência......................................................................................................46
Só....................................................................................................................................47
Meu desejo......................................................................................................................48
Alma atribulada...............................................................................................................50
O tempo..........................................................................................................................51
Campos de honra.............................................................................................................52
Livre.................................................................................................................................53
Retrato.............................................................................................................................54
Salmo 42..........................................................................................................................55
Perdão.............................................................................................................................57
Cântico I...........................................................................................................................58
Saber viver.......................................................................................................................59
O tempo...........................................................................................................................60
Relógio do coração...........................................................................................................61
Considerações finais............................................................................................................63
Bibliografia.......................................................................................................................65

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Prólogo
Quando se fala em poemas e poesias, para a maioria das pessoas, logo se pensa
em algo monótono e pouco atraente. Mas para aqueles, cuja mente está sempre
sedenta pelo inexplicável, que vagueiam pelo mundo imaginário, que passam pela
porta que só a leitura abre; para estes raros espécimes, poemas e poesias são mais
que palavras digitadas e impressas, ou manualmente escritas. Esse gênero
literário, é a manifestação da arte na linguagem humana, que é capaz de
comunicar o indizível, é o nascimento das palavras da alma, a arte que ensina e
manifesta a vida, que eficazmente consegue poetizar e exprimir, os monstros, os
dessabores, as perdas, as alegrias, os amores, as inquietações, as frustrações, e as
conquistas que há dentro de nós.
Por isso em um dia corriqueiro, com uma breve leitura do poema Necrológico
dos desiludidos do amor, surgiu a ideia de concentrar nesse pequeno livro, o
melhor da minha memória de leitora, as poesias e os poemas que fizeram parte
da minha história, assim como fizeram parte da vida de tantas outras pessoas,
reunir os mestres das palavras em um só, o melhor dos melhores, almas elevadas,
que com simples palavras são capazes de nos fascinar, trazendo à nossa memória
momentos que nos marcaram, e agora sempre que voltarmos à esses momentos,
de alguma forma esses versos e estrofes estarão lá, escritos e logados à essas
lembranças, nos fascinando sempre e sempre.

Boa Leitura!

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Poema em Linha reta.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita
Indesculpavelmente sujo
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante
Que tenho sofrido enxovalhos e calado
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar
Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Pra fora da possibilidade do soco
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia
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Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil
Ó príncipes, meus irmãos
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado
Poderão ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza
Argh! Estou farto de semideuses
Argh! Onde é que há gente? Onde é que há gente no mundo?

Fernando Pessoa com seu pseudônimo ( Álvaro de Campos)


1914 e 1935

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O amor bate na aorta
Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,


hoje tem filme do Carlito.

O amor bate na porta


o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,


meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
8
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro


o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar, ah ah ah!
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca,
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor


irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…

Carlos Drummond de Andrade -1934.


9
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são
doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente
exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande
íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono
desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinícius de Moraes
Rio de Janeiro, 1935.
10
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,


sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o amar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,


o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,


distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,

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e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade-1951

12
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

13
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,


Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

14
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II

Que importa do nauta o berço,


Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

15
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,

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Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!


Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho


Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

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Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas


Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

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No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

Senhor Deus dos desgraçados!


Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
19
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,


Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

20
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.

21
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .

22
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
VI

Existe um povo que a bandeira empresta


P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
23
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!


Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Castro Alves- Poesia Abolicionista de 1869.

24
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:


Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero


Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império


Que era meu, dois rios, e mais um continente.

25
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo


que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Elizabeth Bishop-1982 data da 1ª publicação.

26
Os desiludidos do amor
Estão desfechando tiros no peito
Do meu quarto ouço a fuzilaria
As amadas torcem-se de gozo
Oh quanta matéria para os jornais

Desiludidos, mas fotografados


Escreveram cartas explicativas
Tomaram todas as providências
Para o remorso das amadas

Pum pum pum adeus, enjoada


Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
Seja no claro céu ou turvo inferno

Os médicos estão fazendo a autópsia


Dos desiludidos que se mataram
Que grandes corações eles possuíam
Vísceras imensas, tripas sentimentais
E um estômago cheio de poesia

27
Agora vamos para o cemitério
Levar os corpos dos desiludidos
Encaixotados competentemente
(Paixões de primeira e de segunda classe)

Os desiludidos seguem iludidos


Sem coração, sem tripas, sem amor
Única fortuna, os seus dentes de ouro
Não servirão de lastro financeiro
E cobertos de terra perderão o brilho
Enquanto as amadas dançarão um samba
Bravo, violento, sobre a tumba deles.

Carlos Drummond de Andrade-1934.

28
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa- 1 de abril de 1931.

29
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
sente, alongando os olhos deste mundo,
os fins do ser, a graça entresonhada.

Amo-te a cada dia, hora e segundo


A luz do sol, na noite sossegada
e é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com a dor, das velhas penas


com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé de minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas,


por toda vida, e assim Deus o quiser
Ainda mais te amarei depois da morte.
Elizabeth Barrett Browning- 1861.

30
O que restará de ti
É tudo aquilo que deste
E não o que guardaste
Nos cofres enferrujados
O que restará de ti
E de teu jardim secreto
É uma flor esquecida
Jamais fenecida
E tudo que deste
Nos outros, florescerá
Pois aquele que perde a vida
Um dia encontrará
O que restará de ti
É tudo que ofereceste
De braços abertos
Numa manhã ensolarada
E tudo que perdeste
Ao longo da jornada
E tudo que sofreste

31
Nos outros reviverá
Pois aquele que perde a vida
Um dia a encontrará!
O que restará de ti
Uma lágrima caída
Um sorriso brotado
Nos olhos do coração
É verdade, o que restará de ti
É o que semeaste, dividiste
Com os que buscam a felicidade
E tudo que semeaste
Nos outros germinará
Pois, aquele que perde a vida
Um dia a encontrará!

Tradução Livre de Miguel Falabella-2017.

32
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;

33
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Gonçalves Dias- 1846.

34
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Vinícius de Moraes-Rio de Janeiro1954.

35
Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem!

Manoel Bandeira-Rio de Janeiro, 27 de Dezembro de 1947.

36
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
37
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manoel Bandeira-1930.

38
Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu
passado;
Este é o cadáver.
Se a certa altura eu tivesse me voltado para a esquerda, ao invés que
para direita;
Se em certo momento eu tivesse dito não, ao invés que sim;
Se em certas conversas eu tivesse dito as frases que só hoje elaboro; Seria
outro hoje, e talvez o universo inteiro seria insensivelmente levado a ser
outro também."

-Fernando Pessoa- 1935-

39
“ O diamante, se tivesse vida e pudesse,
fugiria ao sacrifício da lapidação.
Nisso estaria o seu bem, pelo seu sossego.

Entretanto, continuaria a ser pouco mais


do que um seixo vulgar de ribeira areenta;
enquanto que, depois da lapidação dolorosa,
passa a ser um pedaço de luz materializada,
como que um fragmento de estrela,
de preço inestimável.

Qual era o bem ? Qual era o mal ?


Ora, aqui fica uma incógnita
de que eu gostaria de conhecer a definição,
dada pelos sábios da Terra,
onde também tive pretensões
de saber alguma coisa !... ”

Eça de Queiroz

40
Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.


Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

-Machado de Assis-

41
“E assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada
instante, sua
existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação dessa
alma, como no
seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz;
uma forma
desvanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos de si própria.”

-José de Alencar-

42
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;


é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;


é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor


nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor.

-Soneto de Luís Vaz de Camões -1598-

43
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,


A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada


Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada


Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vosso ovelha a vossa glória.

-Gregório de Mattos-(Soneto)

44
Oh venha para mim em sonhos, meu amor;
Não pedirei uma felicidade mais almejada;
venha com raios estrelados, meu amor,
e com seu beijo acaricie minhas pálpebras.
E assim foi, como dizem as velhas fábulas,
que o amor visitou uma donzela grega,
até que ela perturbou o feitiço sagrado,
e acordou para encontrar suas esperanças traídas.
Mas o sono tranquilo vai encobrir minha visão,
e a lâmpada psique vai escurecer,
quando nas visões da noite
renove seus votos por mim.
Então venha até mim em sonhos, meu amor,
Não pedirei uma felicidade mais almejada;
Venha com raios estrelados, meu amor.
e com seu beijo acaricie minhas pálpebras fechadas.

-Mary Shelley-

45
[...]Se tal crença do céu for enviada,
Se tal for o plano sagrado da natureza,
Não tenho eu razão de lamentar
O que o homem fez do homem? [...]

- Willian Blake-Tradução livre-1863.

46
Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi
as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas
paixões na fonte comum.
Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos.
Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para doces
alegrias,
E quando eu amei o fiz sempre sozinho.
Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de
todo o bem o todo o mal.
O mistério que envolve, ainda e sempre,
Por todos os lados, o meu cruel destino...

-Edgar Allan Poe-

47
Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta:
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta....

Meu desejo? era ser o sapatinho


Que teu mimoso pé no baile encerra....
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra....

Meu desejo? era ser o cortinado


Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? era ser o teu espelho


Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? era ser desse teu leito


De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro....

48
Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de languor!

-Álvares de Azevedo-1848.

49
O' alma atribulada, corta o laço
da torva angústia que te cinge à vida!
Vai, foge para Deus, ou para o espaço...
Ou nada ou Deus, que importa? eis-te remida.

Não tiveste na vida um dia escasso


de paz e de alegria! Escurecida
te foi sempre a existência, desvalida,
e cortada de abismos, passo a passo.

Vai! Não leves saudades do que deixas.


Se a fé em melhor mundo te preluz,
alma gemente, por que assim te queixas?

Desprende-te, a sorrir, da horrenda cruz


em que tanto penaste! Os olhos fechas?
Abre os d'alma, e verás que infinda luz.

-Camilo Castelo Branco-

50
A grande causa de esquecimento, a responsável pela pouca contrição da
gente e a pouca constância no arrependimento, é o tempo, é o tempo não
ser, como o espaço, uma coisa onde se possa ir e vir, sair e voltar... O
que se passa no tempo, some-se, anda para longe e não volta nunca, pior
do que se estivesse do outro lado de terra e mar.

Afinal, quem pode manter, num espelho, uma imagem que fugiu?"

-Rachel de Queiroz-

51
Os soldados nunca morrem bem:
as cruzes marcam os lugares;
onde caíram há cruzes de madeira;
uma vara sobre seus rostos.

Soldados empurram e tossem e caem de cabeça,


todo mundo grita em vermelho e preto,
soldados sufocam em uma trincheira e
eles sufocam completamente durante o ataque.

-Ernest Hemingway-

52
Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.
Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.
Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.
Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

-Cruz e Souza-

53
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

-Cecília Meireles-

54
Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a
minha alma por ti, ó Deus!
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e
me apresentarei ante a face de Deus?
As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite,
enquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?
Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma; pois
eu havia ido com a multidão. Fui com eles à casa de Deus, com voz de
alegria e louvor, com a multidão que festejava.
Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim?
Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação da sua face.
Ó meu Deus, dentro de mim a minha alma está abatida; por isso
lembro-me de ti desde a terra do Jordão, e desde os hermonitas, desde
o pequeno monte.
Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as
tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim.
Contudo o Senhor mandará a sua misericórdia de dia, e de noite a
sua canção estará comigo, uma oração ao Deus da minha vida.
Direi a Deus, minha rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que
ando lamentando por causa da opressão do inimigo?
Com ferida mortal em meus ossos me afrontam os meus adversários,
quando todo dia me dizem: Onde está o teu Deus?
Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de
55
mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da
minha face, e o meu Deus.
-Filhos de Corá-

56
Não sei qual é a minha culpa, mas peço perdão.
A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não se puderam ver.
Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar",
ou por não ser alegre, mas coisa que se dá.
Peço perdão por não saber me dar nem a mim mesma.
Para me dar desse modo eu perderia a minha vida se fosse preciso
mas peço de novo perdão...
não sei perder minha vida.

-Clarice Lispector-

57
Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do
que o vinho.
* Suave é o aroma dos teus unguêntos; como o ungüênto derramado é o
teu nome; por isso as virgens te amam.
* Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas
câmaras; em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos
lembraremos, mais do que do vinho; os retos te amam.
* Eu sou morena, porém formosa, ó filhas de Jerusalém, como as
tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão.
* Não olheis para o eu ser morena; porque o sol resplandeceu sobre
mim; os filhos de minha mäe indignaram-se contra mim, puseram-me
por guarda das vinhas; a minha vinha, porém, näo guardei.
* Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma: Onde apascentas o teu
rebanho, onde o fazes descansar ao meio-dia; pois por que razäo seria eu
como a que anda errante junto aos rebanhos de teus companheiros?

-Rei Salomão e Sulamita-

58
Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar.

-Cora Coralina-

59
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada
e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de
tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais
voltará.

-Mario Quintana-

60
Há tempos em nossa vida que contam de forma diferente.

Há semanas que duraram anos, como há anos que não contaram um dia.

Há paixões que foram eternas, como há amigos que passaram céleres, apesar do
calendário nos mostrar que ficaram por anos em nossas agendas.

Há amores não realizados que deixaram olhares de meses, e beijos não dados
que até hoje esperam o desfecho.

Há trabalhos que nos tomaram décadas de nosso tempo na Terra, mas que
nossa memória insiste em contá-los como semanas.

E há casamentos que, ao olhar para trás, mal preenchem os feriados da


folhinha.

Há tristezas que nos paralisaram por meses, mas que hoje, passados os dias
difíceis, mal guardamos lembrança de horas.

Há eventos que marcaram, e que duram para sempre

o nascimento do filho, a morte da avó, a viagem inesquecível, o êxtase do sonho


realizado.

Estes têm a duração que nos ensina o significado da palavra “eternidade”.

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Já viajei para a mesma cidade uma centena de vezes, e na maioria das vezes o
tempo transcorrido foi o mesmo.

Mas conforme meu espírito, houve viagem que não teve fim até hoje, como há
percurso que nem me lembro de ter feito, tão feliz estava eu na ocasião.

O relógio do coração hoje descubro, bate noutra frequência daquele que carrego
no pulso.

Marca um tempo diferente, de emoções que perduram e que mostram o


verdadeiro tempo da gente.

Por este relógio, velhice é coisa de quem não conseguiu esticar o tempo que temos
no mundo.

É olhar as rugas e não perceber a maturidade.

É pensar antes naquilo que não foi feito, ao invés de se alegrar e sorrir com as
lembranças do que viveu.

Pense nisso. E consulte sempre o relógio do coração: ele lhe mostrará o


verdadeiro tempo do mundo.

Mário Quintana

62
É uma grande satisfação ver esse trabalho concluído, algo que surgiu de
uma forma genuína, e ao longo dos dias tomando forma, e mostrando-
se cada vez mais prazeroso. Foi um desafio, e um grande exercício de
leitura, e pesquisa, no entanto a cada poema lido, viu-se o quanto a arte
de escrever é maravilhosa, um tesouro que deve ser escavado por todas as
gerações.
É necessário dizer como foi difícil fazer a escolha dos textos, sendo que o
critério de escolha não se deu pela estética, ou pela técnica usada nos
escritos, menos ainda a datação deles, e as escolas literárias. As escolhas
se deram pela paixão, sim, isso pode soar “piegas”, mas o fato é que foi
pela arrebatadora paixão pela leitura, pelos clássicos, e pelos grandes
nomes da literatura, cada texto escolhido encheu-me de alegria, assim
como os outros que não entraram na seleção, não por não serem
igualmente magníficos, e sim porque a estrutura do livro não me
permitiria adicionar mais.
Então aí se deu esse monstro dilema, alguém apaixonada por esses
textos, ter que escolher apenas alguns. Toda via, páginas e páginas
foram carregadas com a mais requintada inspiração de textos
esplêndidos, que com toda a certeza marcaram épocas e vidas, que se
deixaram abrasar-se pelo enlevo dessas palavras. A alegria, e o desejo
de agradar esteve presente em cada folha, até ao último ponto digitado,
sendo essa minha genuína motivação.
63
E a poesia? E os poemas? Tudo é digno de se poetizar, tudo é vivo,
tudo é arte, e a nossa escrita é a nossa forma de expressar nossas emoções,
e com uma intensa dose de criatividade, pude navegar como Colombo
por essas águas até então para mim, misteriosas. Linhas que foram
sendo escritas e desenvolvidas, surpreendendo, tal qual o Atlântico tendo
seus metros desvendados, e encantando seus navegantes.
Chego à conclusão desse trabalho, com a percepção mais aguçada, para
um mundo de possibilidades, percebendo que o meu primeiro passo não foi
em falso, mas sim um ótimo começo de caminhada com o encantamento
que só os textos poéticos nos trazem.

-Geórgia Rodrigues-

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1. PARA VIVER COM POESIA.QUINTANA MAURO.ED 1ª 2008. O
Globo.118pág.
2. OLIMPIADA DE LÍNGUA PORTUGUESA. COLETANEA POEMAS.
DOMÍNIO PÚBLICO.ED 2ª 2019. GOVERNO FEDERAL.17PÁG.
3. SITE MEU LADO POÉTICO. https://www.meuladopoetico.com/br
4. SITE O PENSADOR. https://www.pensador.com/autor/site_de_poesias/
5. SITE POEMAS DE GRNADES POETAS. A MAGIA DA POESIA.
https://poesiaspoemaseversos.com.br
6. O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA. ANDRADE DRUMMOND E
OUTROS.ED 1ª JULH 2013. JOSE OLYMPIO EDITORA.160pág.

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