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Copyright © 2021 Amanda Maia

DESASTRE PERFEITO – ATO II


SÉRIE THE RECKLESS 2
1ª Edição

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte dessa obra poderá ser


reproduzida ou transmitida por qualquer forma, meios eletrônicos ou
mecânico sem consentimento e autorização por escrito do
autor/editor.

Capa: Thais Alves


Revisão: Bianca Bonoto
Diagramação: April Kroes

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e


acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor(a).
Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.

TEXTO REVISADO SEGUNDO O ACORDO ORTOGRÁFICO


DA LÍNGUA PORTUGUESA.
Sumário
Playlist
Aviso
Prólogo
PARTE I
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
PARTE 2
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
PARTE 3
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Epílogo
Biografia
SPOTIFY
Para os leitores que esperaram pacientemente

pelo desfecho de Aidan e Delilah.

Este livro é para vocês e por vocês.

Obrigada por tudo!


Este livro contém gatilhos emocionais e suicídio;

violência, abuso verbal, uso de álcool e drogas.

Se você é sensível a este conteúdo, não recomendo a leitura.


3 ANOS ANTES…

Bêbado. Acho que estou bêbado e chapado.

— Aidan, abre os olhos! — Sinto tapas em meu rosto, tentando


ser acordado, mas o mínimo esforço de abrir as pálpebras me causa
dor.

A voz de Angie não é nem um pouco delicada ou saudosa.

Está perdendo a paciência. Ela sempre está perdendo a

paciência, não é nenhuma novidade.

— Chegamos na sua casa — informa e escuto o som dela


desafivelando o cinto.

Porra. Até o som do cinto de segurança está ferrando minha


cabeça.

— Na próxima vez, te entrego pro seu avô!

Angie sai do carro. Só sei disso porque escuto a porta abrir e

fechar num ruído distante.

Forço o ar para os meus pulmões.


O hálito do álcool está impregnado em mim.

O sol já está rachando agora.

Isso lá são horas de chegar em casa, Aidan Lynch? Escuto a

voz da minha mãe me penalizando.

Passei literalmente a noite inteira bebendo com Kurt e Angie.

Fumando maconha e me afundando nessa merda.

— Sai de uma vez, Aidan. Preciso voltar para Kurt.

Arregalo os olhos para ela, examinando sua expressão


distorcida. Pestanejo tentando realçá-la diante de mim, mas o corpo

silhueta de Angie continua saindo de foco.

Que merda.

— Oi. Você é linda. — Rio e Angie me agarra pelos ombros,

forçando-me para fora do carro.

— Não acredito que estou fazendo uma coisa dessas. Aquele


filho da puta do Kurt me paga! — grunhe e passa um dos meus

braços por cima dos seus ombros. — Me ajuda, Aidan. Se esforça,

caralho. Não consigo te carregar sozinha!

Ela me arrasta em direção ao portão da mansão Lynch. Seus

resmungos são abafados pela mescla da minha cantoria


embriagada e risos exagerados.
Meu pai nunca tranca o portão da mansão, então Angie não
tem nenhuma dificuldade em abri-lo e continuar me levando para

dentro da propriedade Lynch.

O Audi vermelho da minha mãe está estacionado na entrada,

quando o vejo, consigo atenuar a visão embaçada e noto que ela

parou o carro de um jeito totalmente desleixado de novo.

Ela detesta dirigir, faz mais pela independência.

O Cadillac do meu, entretanto, está parado logo ao lado,

próximo à fonte no centro do jardim.

— Riquinhos de merda. — Angie me larga no primeiro degrau

da escada, apoia as mãos no quadril e me encara. — Você


consegue terminar o caminho, né? Não quero que a sua família veja

a gente junto.

— Quando vamos sair de novo?

— Quando você vai apostar de novo?

— Amanhã? — Arrisco, gargalhando.

— Te vejo amanhã, então.

Angie dá as costas, jogando os cabelos por cima dos ombros e

me forço a ficar de pé.


Grunho um palavrão quando sinto a vertigem e obrigo minhas

pernas a criarem estabilidade.

Respiro algumas vezes, inflando meu peito e enviando

oxigênio para o meu cérebro.

Caralho.

Vou parar de beber.

Hoje foi a última vez.

— Eu devia voltar para Grev Willow. Passo mais tempo lá do


que aqui. Tenho certeza que meu avô adoraria — converso comigo
enquanto me arrasto para dentro de casa.

Posiciono o polegar no leitor digital da porta e a escuto

destravar.

Assim que cruzo a entrada da mansão Lynch, ouço um


estrondo, como se algo pesado tivesse despencado.

Cambaleio para o centro do hall, onde consigo enxergar os


outros andares da casa e vejo que meus pais estão no terceiro

andar.

Minha mãe está gesticulando.

Com certeza, estão brigando .


Escuto outro barulho, um estrépito difícil de ignorar e vejo uma

mala grande de rodinha despencar do terceiro piso no hall.

Subo meus olhos, forçando minha visão a ficar endireitada.

— Eline, para com isso.

— Me deixa ir, Darnell.

— Nós temos dois filhos, cacete!

— Eles vão entender quando souberem que não estou feliz

aqui.

— Você não está feliz? — Ele ri, amargo. — Durante os

últimos anos, você quem acabou com esse casamento! Então não
venha me falar de infelicidade.

— Nós teríamos nos separado. Eu quis.

— Não. Você quis continuar vivendo uma mentira. Você sabe o


que vai acontecer, não sabe? Se sair por aquela porta, você não me

terá mais! Os nossos filhos, tudo que construímos juntos! Você está
abrindo mão, porra!

— Estou cansada de viver essa mentira, Darnell! Você não? —

minha mãe grita e o barulho cessa.

Uma quietude atroz recai sobre a mansão.


No entanto, o silêncio dura pouco e os barulhos voltam, dessa
vez, minha mãe está descendo as escadas e meu pai atrás dela.

Não acredito que ele vá alcançá-la. Minha mãe é mais rápida e


leve, como uma pluma, então espero na beira da escada, com a

intenção de refreá-la quando estiver aqui e poder pelo menos tentar


acalmá-la.

O álcool deve estar atenuando o choque.

Divórcio? Mentira?

Meu palpite está errado, porque meu pai a alcança e a segura


pelo cotovelo.

Assisto tudo.

Minha mãe tenta atacá-lo, avançando para cima dele com os


punhos cerrados e munidos com raiva.

Nunca vi seus olhos tão furiosos com meu pai como agora.

Ele tenta pará-la, cochicha um “se acalme”, tentando controlá-


la.

— Pensa melhor sobre isso, Eline! Por favor!

Quando finalmente ele a solta, depois de Eline puxar o braço

em um solavanco, ela pisa em falso.


Os pés se enredam no caminho e se desequilibra. Seus olhos
se encontram com os meus, uma fração de segundo antes do seu
corpo começar a rolar pela escada.

Um estampido rompe.

Ouço o som da queda, o estalar de cada membro do seu corpo

se partindo em impacto com a escadaria.

Perco o meu ar.

O meu chão.

Meu mundo está em ruínas.

— Aidan?

Meu pai me chama, mas não consigo responder.

Piscar lentamente.

Respirar devagar.

Piscar lentamente.

Respirar devagar.

Por que a imagem não está saindo? Por que tem tanto sangue

em volta dela?

Perco minhas forças e cambaleio para trás à medida em que o

vermelho em volta dela se expande.


— Meu Deus! — Darnell arregalo os olhos. — Eline! — ele

grita. — Aidan, chama a ambulância! Aidan! Porra, Aidan, a


ambulância, agora!

Não sei quantas vezes meu pai grita meu nome.

Ou quantas vezes me pede para ligar para a emergência.

Talvez umas dez.

Mas não consigo. Estou paralisado. Fora de mim.

Meus músculos. Todo o meu corpo parece a porra de uma

estátua, como se, lentamente, minha alma estivesse me

abandonando.

Minhas tentativas de impor ordem aos meus membros são

inúteis.

Sou inútil.

Não consigo falar.

Não consigo respirar.

Não consigo me mover.

Tento de novo piscar para afastar a imagem da minha mãe

caída aos meus pés, usando seu jeans favorito e o cardigan cor-de-

rosa que tanto gosta.


O sangue está estragando tudo, manchando suas roupas

favoritas.

Só paro de cair quando o chão frio entra em contato com meu


corpo e minha mente se apaga.

Como um interruptor, eu desligo.


21 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 8H31MIN.

— Oi, aqui é a Delilah, no momento eu não posso atender,


mas você pode me deixar um recado! Então depois do sinal, você

sabe o que precisa fazer…

— Oi. — Faço uma pausa, esperando. Sei que não existe

nenhuma chance de eu ouvir um “alô” do outro lado da linha,


mesmo assim, continuo ligando para ela. — Só precisava ouvir a
sua voz. Ou quem sabe, dizer que sinto tanto a sua falta que, às

vezes, é impossível respirar. Eu acho que… — Uma risada


constrangida espreme minha garganta, é a risada mais sem emoção

que já dei. — Estou te ligando todos os dias para ouvir sua voz e

mesmo que pudesse atender, acho que não faria. Você deve ter
tirado tantas conclusões… Sem ter ideia de como me sinto e o que

é verdade, o que é mentira. Delilah eu… só queria ter tido a


oportunidade de dizer o quanto… — minha voz cessa no meio da

frase, meus dedos rumam em direção aos olhos e aperto-os com as


pontas. — O quanto eu amo você. E o meu único arrependimento é

não ter percebido antes.

Encerro a ligação.

Encaro o celular, os minutos da gravação me provocam na


tela.

Nos últimos vinte três dias, liguei por três ou quatro vezes ao
dia, sabendo que nunca ouviria sua voz animada do outro lado da

linha.

Apaixonei-me por Delilah devagar, os últimos meses com ela


foram como ter um pedaço do paraíso sob a ponta dos dedos.

Meu mundo inteiro resumiu-se a ela, não de um momento para


outro, mas pouco a pouco ela passou a ser meu primeiro e último

pensamento do dia.

Você nunca sabe onde toda a história muda o percurso, mas

acho que Delilah nunca foi só a estrada que eu percorri, ela era o
meu destino.

A última vez que a olhei nos olhos, sabia que não tinha nada

que pudesse falar ou fazer que a convenceria a ficar.

É o impacto da realidade, você se dá conta de que nunca

estará no controle de tudo, por mais que pareça.


Delilah não queria me ver, ela não precisava ouvir meu pedido
de desculpas ou minhas explicações. Ela queria ficar longe de mim.

Eu vi tudo. O instante em que seu coração parou de me amar.

Acho que nunca nada doeu tanto quanto aquele momento onde

seus olhos me imploraram para deixá-la ir. E eu a deixei, porque

faria qualquer coisa para que ela me perdoasse, mas agora me

arrependo de não a ter impedido.

As coisas estariam melhores se o acidente não tivesse

acontecido.

O buquê de rosas em frente à lápide é singelo, mas não posso

mais fugir. Perdi minha mãe há quase três anos e, às vezes, não

consigo visitá-la no túmulo porque é difícil imaginar que uma pessoa


que fazia parte da sua vida, não está mais lá. Por um motivo ou

outro, deixa de ser essencial e você precisa reaprender a viver sem

ela.

O nome Eline Lynch manchado pela exposição ao tempo atrai

minha atenção e não consigo fixar os olhos em outro lugar. Quero


ter forças para contar a ela, mas ao mesmo tempo, vou parecer

ridículo por conversar com uma lápide.


Meus joelhos se dobram diante da grama úmida e a neve

cobre a parte superior ondulada da lápide.

Minhas botas impermeáveis afundam no manto fofo de neve e

quando expiro, uma nuvem densa de vapor escapa da minha boca.

O ruído da máquina de neve passando nas ruas e a agitação


de Humperville numa segunda-feira de manhã não penetram minha

bolha.

E sinceramente?

Nos últimos dias só quero que algo aconteça e me faça sair


dessa paralisia. Mas tudo que aconteceu, até agora, foi que Delilah
está em coma há vinte e três dias após uma pancada na região do

sistema ativador reticular.

Eu estagnei. Toda a minha vida parou.

E não sei se consigo sem ela.


29 DE NOVEMBRO DE 2020, ÀS 01H32MIN.

Eu odeio hospitais. Acho que a maioria das pessoas que


precisaram visitar parentes com frequência tem o mesmo

sentimento.

Toda essa energia sobrecarregada que circula o ar.

Os rostos são imparciais, a preocupação e desespero não são

expressões constantes neles. E, cacete, eu entendo. Mas ainda


assim, nós precisamos de uma resposta.

Eu preciso entender o que está acontecendo na sala de


cirurgia. Quero ter notícias e saber se ela está bem.

Estar aqui de novo, a culpa me corroendo por dentro, não é

nem de perto o que planejei. Não depois de ter sentido tudo isso há
pouco mais de um ano com meu pai.

Toda a merda está voltando com mais força que antes.

Minha cabeça está inclinada entre as pernas e a sola dos

meus sapatos estão cheirando à gasolina.


Não consigo me lembrar direito como aconteceu, mas eu vi

tudo.

O momento em que o carro de Delilah derrapou na pista, sobre

uma camada de gelo e capotou para fugir de uma colisão com a


caminhonete de um casal.

Os dois passageiros da caminhonete estão hospitalizados

também, porque, assim como Delilah, eles tentaram fugir e


acabaram saindo da pista e colidindo com um poste de luz.

Soube que eles não têm familiares em Humperville, porém,


não houve ferimentos graves. Escutei o médico responsável por

eles conversando com as enfermeiras e transferindo informações

para o próximo médico de plantão.

E nada sobre Delilah foi dito para mim porque, segundo as

normas do hospital, só um familiar pode receber notícias dela.

É um daqueles momentos onde me lembro como fiquei

impotente se tratando do meu pai; não havia nada que pudesse


fazer para impedir que ele fosse baleado, mas tomei todas as

decisões erradas para mantê-lo seguro depois disso.

E de novo, me sinto impotente sobre Delilah, quero fazer tudo

que puder por ela, mas não sei por onde começar e como ajudar.
Não tinha o intuito de segui-la e fazê-la me escutar. Estava
claro para mim que Delilah não tinha pretensão de ouvir minhas

desculpas, só queria ter certeza de que ela chegaria em segurança.

Entrei no carro, embora o para-brisa estivesse destruído

depois de ter recebido uma pancada atrás da outra, queria escoltá-

la até em casa.

Fui atrás dela.

Garanti a distância entre nossos carros para não causar

nenhum outro confronto entre nós e testemunhei o momento em que

a caminhonete apareceu.

Vi o momento em que ela girou o volante para fugir da colisão.


Ela rodopiou duas vezes antes de as rodas perderem a aderência

com o asfalto e capotasse.

O carro girou uma, duas, três e quatro vezes até que

estagnasse de cabeça para baixo, o barulho estrondoso como um

trovão cortando o céu reverberou pela estrada escura até que o

silêncio eclodisse no meio da pista.

Assisti tudo à distância, parei no acostamento como se

pudesse salvá-la e desejei ser Deus. Poderoso o suficiente para

controlar o tempo e impedi-la de entrar naquele carro.


Faz algumas horas, mas a ardência na garganta toda vez que

abro a boca para falar me lembra de como tudo pareceu um filme de


terror.

Essa cena está passando na minha cabeça em looping; a cada


minuto volto para o instante que me ajoelhei perto do carro e vi o

sangue escorrendo em seu rosto.

Parece que estou sempre me colocando nessa posição onde


preciso me desculpar com as pessoas que amo. Por minha causa,

Delilah está aqui e é quando penso nisso que sinto a garganta


fechar e não consigo mais respirar.

Aconteceu duas vezes na última hora, contando com essa, é a


terceira.

O ar não chega aos meus pulmões e é como se eu estivesse

me afogando. Tudo que é externo some e não sei mais onde estou
ou o que estou fazendo. Todo o meu corpo treme, dói, e não tenho
mais o controle sobre ele. Suo frio e aperto os dedos uns nos

outros, os entrelaçando em um nó.

— Com licença. — Ergo a cabeça. A mulher diante de mim me


estuda. — Você está bem? — Foco no bordado do bolso direito do

seu jaleco: Hospital San Rosé. Pisco para alinhar a visão e tento
outra vez inspirar o ar. — É a terceira vez que te vejo suar tanto.

Você é o rapaz que está esperando notícias da garota do acidente,


não é?

Escuto todas as perguntas, filtro cada uma delas e, embora

queira responder, minha língua parece mortificada. Caralho.

Abre a porra da boca, Aidan!

— Vou chamar um médico — ela alerta, e instintivamente, levo

uma das mãos para impedi-la.

— É só um…

— Ataque de pânico.

Faço que sim com a cabeça.

— São frequentes?

— Costumavam ser.

Acostumei-me com eles até que comecei a visitar o Dr. Skinner


e ele me ajudou. Não imaginei que meus fantasmas do passado

fossem voltar justo agora que preciso ficar são.

— Posso pedir ao médico para receitar um remédio, se quiser.

— Só quero saber da Delilah.

Esfrego a testa suada e volto a olhar para a enfermeira.


É compaixão o que vejo passar pelos olhos escuros e um leve
tremelicar no lábio inferior. Ela olha para os lados, vasculhando as
pessoas que estão ao nosso redor.

Sinto que estou prestes a ouvir notícias de Delilah, no entanto,

a enfermeira aperta os lábios novamente em uma linha rígida.

— Sinto muito. Nós só podemos fornecer informações aos


familiares. Você já entrou em contato com eles?

Aceno, concordando.

— Ótimo. Quando eles chegarem, nós poderemos dar todas as


informações sobre a paciente. Por que você não vai até a cafeteria

aqui em frente e toma um chá?

Fecho os dedos, afundando as unhas na palma da mão.

Eu não quero a porra de um chá!

É isso que quero gritar para ela, o que o meu cérebro está

exigindo para dizer. Mas faço o oposto.

Me levanto num ímpeto e me afasto da enfermeira. Por um

mísero segundo achei que ela teria sensibilidade.

Já entrei em contato com Maya e os outros, mas, o que eu


poderia dizer?
Oi, Maya. Sua filha está hospitalizada e a culpa é toda minha.

Me lamentar pelo que aconteceu não vai consertar as coisas.

Sentar e ter ataques de pânico não vai fazer com que Delilah

saia desse hospital intacta.

Preciso me mover. Lidar com as consequências, afinal, eu


escolhi esconder dela a verdade.

Ashton é o mais explosivo do grupo. Sempre foi assim. Nós

estamos acostumados com sua falta de paciência e detesta ser


contrariado – algumas pessoas diriam que ele é mimado por ser

filho de um homem rico e herdeiro de um legado –, mas nós o

conhecemos há tempo o suficiente para acreditar que são


características da sua personalidade intensa.

Ele ama a minha namorada tanto quanto eu, e acredito que a

amizade de Delilah para Ashton o salvou de inúmeras maneiras.

No começo me sentia incomodado com o relacionamento

deles, mas agora entendo e respeito.


Delilah é como uma irmã mais nova para Ashton, aquela que

ele está determinado a proteger nem que para isso precise passar
por cima de mim.

Quando volto para a sala de espera, ele está gritando com


uma das enfermeiras.

Finnick, usando calça de moletom e camiseta de algodão

amassada, está com Bree – sua namorada – ancorada no seu


braço.

Bryan tenta conter Ashton, Finn tem a expressão imparcial de


sempre, enquanto Chase mantém o tom de voz ameno,

conversando com as enfermeiras no balcão de atendimento.

Me sinto estranho. Sugado para dentro de uma bolha onde a


dor me entorpece.

Não consigo gritar, mesmo que seja o que mais quero fazer.

Não consigo chorar, embora sinta dor na garganta porque o

soluço está travado nela.

Meus olhos ardem; de cansaço ou pelo acúmulo de lágrimas,

que seja, estou nesse estado de espírito e me sentindo exausto

demais para lidar com Ashton e seu temperamento.


Me sento em uma das poltronas da sala de espera. Bree é a

primeira a notar e cutuca Finn na costela, gesticula o queixo para

mim e eles parecem recobrar a consciência de que estão num


hospital.

Ashton marcha em minha direção. Estou pronto para receber

um soco dele quando descobrir o que aconteceu, mas só espero


que não esteja planejando fazer isso agora, porque com certeza vou

revidar.

— Por que você não estava com ela?

Mantenho os olhos longe dele, porque no instante em que

houver contato visual, vou ter que dizer a verdade.

Prometi a mim mesmo que não deixaria que mentiras e

segredos ficassem entre nós e estava planejando contar sobre a


investigação para eles, só não tive tempo. Thomas o roubou de

mim.

— Nós brigamos — conto, e a voz arrastada e cabisbaixa não


comove Ashton.

Não estou tentando amenizar me fazendo de vítima, mas estou


sofrendo tanto quanto ele.
— Vocês brigaram? Por quê? — Bryan pergunta, confuso. — E

mesmo que vocês tivessem tido uma briga séria pra valer, Delilah
não iria embora desse jeito, sem conversar. Que porra aconteceu

lá?

— O que você fez? — Ashton vocifera, como se estivesse

prestes a me estrangular. — É melhor você contar, Aidan. Nós

vamos descobrir pela sua boca ou pela dela, então é melhor que

você assuma a merda fez! — exclama, me agarra pela manga da


camisa. — Olha pra mim quando estou falando com você, cara! O

que foi que aconteceu?

Finalmente cruzo meu olhar com o dele. As narinas infladas

indicam impaciência.

Com um safanão, solto minha camisa.

Ele respira pesado e os outros olham para mim como se eu já

não me culpasse e me sentisse um merda pelo que está


acontecendo.

— É melhor você contar para os seus amigos, Aidan.

A voz não veio da porta do corredor que Delilah entrou, muito

menos do balcão de atendimento. Escutei-a nas últimas horas mais

vezes do que realmente consigo tolerar.


Todos nós voltamos nossa atenção para o outro lado do

corredor.

Thomas Linderman está cercado por quatro homens


grandalhões e prepotentes, com vestimenta formal. Ele está usando

a mesma roupa de quando saí de sua casa; a gravata alinhada e a

expressão nem um pouco comovida.

— Contar o quê? — Ashton indaga.

— Não escuta esse filho da puta. — Bryan entra em defensiva.


— Aidan, o que foi que aconteceu nessa festa?

Encaro Bryan do outro lado da sala, paralisado entre Chase e


Finnick.

De todos, ele é o que menos tem motivos para confiar em mim,

mas ainda assim, Bryan está me dando um voto de confiança.

— Contar que, durante os últimos meses, estava usando

minha filha para tentar descobrir se eu estava envolvido no que


aconteceu com Darnell ano passado. — Ele ajeita a lapela do

paletó, com arrogância. — Se algo grave acontecer com ela, quero

que saiba Aidan, a culpa é sua.

— Cala a boca — digo.


Tudo dentro de mim parece ter se movido. Estou enjoado e

com a raiva pulsando pelas minhas têmporas, se aliando ao restante


do corpo e injetando adrenalina.

A forma como Delilah olhou para mim depois de ouvir a

gravação foi como se não existisse nenhuma verdade em tudo que


passamos juntos.

Não posso dizer que aquela conversa não aconteceu, porque


aconteceu, mas não vou admitir que a usei, porque isso não fiz.

No minuto em que os lábios de Delilah tocaram os meus pela

primeira vez na cozinha da mansão Lynch, os objetivos mudaram.


Tucker e Bullock passaram semanas insistindo, e, confesso, fiz

algumas perguntas tentando descobrir algo dela, mas isso não

durou mais que cinco minutos. É um tempo pequeno perto de tudo


que eu passei de corpo e alma com ela.

Esse filho da puta tem essa gravação há meses e deixou para

usá-la no momento em que Delilah se aproximasse da verdade; que


Jasper Duncan é pai dele.

— É verdade? — Finn me questiona.

— Não.

— Você quer que eu mostre a gravação pra eles?


— Você não merece ser prefeito dessa cidade, Thomas —
digo, mordo o lábio inferior com raiva e o sorriso no rosto dele

cresce.

— Não vim até aqui para discutir com você. Estou aqui para

saber da minha filha.

Ele dá um passo em direção ao balcão, dando as costas para

nós.

Passa suas informações pessoais para as enfermeiras do


plantão e, em seguida, ele é guiado para outra sala.

Calculo quais as chances de eu acertar um soco nele e ser


preso depois.

— Se controla — Bryan me alerta a distância.

— Estou me controlando. — Volto a me sentar, assistindo

aquele desgraçado sumir da minha frente. — Você não tem ideia do


quanto.

Ashton não é do tipo que deixaria quieto, mas acredito que


entende que não é o momento para entrar em uma briga comigo.

Se Thomas Linderman está de um lado, todos nós estamos do

lado oposto.
Sinto que é o que acontece agora. A mandíbula trincada de
irritação suaviza, mas os punhos cerrados não. O que prova que “ter
deixado para lá por enquanto” não torna o assunto inacabado.

Vou concordar com Ashton, que, no lugar dele, se fosse

Mackenzie em um quarto nesse hospital por causa de Bryan,


também iria exigir explicações e provavelmente nós brigaríamos.

Mas não acho que Ashton tenha acreditado por completo em


Thomas, muito menos Bryan.

Todos se sentam em silêncio. Ashton do meu lado direito,


Chase ao seu lado, Finnick, Brianna e Bryan do esquerdo.

Mantenho os lábios apertados, os ouvidos limpos e atentos. O


anseio por respostas continua me fazendo suar frio e de ora em ora
ter a sensação de uma taquicardia.

Apesar de não estar mais sozinho, é como se paredes se


fechassem à minha volta. Tudo é lento, o ar rarefaço e a energia
externa do hospital me deixa inquieto.

Quase uma hora depois Mackenzie aparece com Gravity, Effy


e Willa

Sigo meus olhos para a entrada da sala de espera. Mackenzie


se aproxima para se sentar ao lado de Bryan, e as outras se
acomodam nos sofás em frente.

Inclino-me, cedendo ao peso do corpo. Amparo os cotovelos


nas coxas e a cada rajada de ar que esvai da minha boca, surge um

som agonizante do meu peito.

São quase quatro da manhã de acordo com o relógio atrás das


enfermeiras e tem mais de cinco horas que Delilah deu entrada no

hospital. Nenhuma notícia saiu de lá. Nada aconteceu.

E Maya me pediu para ligar assim que soubesse de alguma


coisa, que ela viria com Casey e não chegaria antes das sete da

manhã.

Quando liguei, a mãe de Delilah suspirou, como se já


soubesse que receberia uma notícia ruim no início da madrugada.
Estava esperando que gritasse comigo – talvez ainda faça quando

descobrir o motivo de Delilah estar internada –, mas ela foi


impassível.

Enviei uma mensagem de texto para o meu pai, mas não estou

esperando que ele apareça para prestar apoio a família Linderman,


muito menos para mim.

M
Oi. Mais algumas horas estarei aí. Alguma notícia?

Infelizmente não. Eles não quiseram me dizer nada. Só para a


família. Thomas chegou faz um tempo.

É a mesma coisa que nada. Obrigada. Me fale se houver alguma


notícia.

— Quem é? — Bryan estreita os olhos para olhar a tela do


meu celular.

— Maya. Ela e seu pai estão vindo.

— Ele me ligou quando estava saindo de lá.

Aceno fazendo que sim.

— Ei, cara. — Ele me cutuca com o cotovelo e movo a cabeça

alguns centímetros para olhá-lo. — Se quiser conversar…

— Você não está mais me achando um filho da puta por ter


beijado sua namorada?
Pela expressão de Mackenzie ao lado dele, ela reprova minha

rispidez e principalmente retomar um assunto que já foi enterrado.

— Não seja um babaca completo — Bryan contesta, a testa


vincada em reprovação. — Já superamos isso, não é? — Concordo

com ele.

Por trás de todo o tom bruto e a rispidez, só estou tentando dar


uma folga para o sentimento de culpa. Estou enlouquecendo um

pouco mais a cada minuto que passo sem notícias dela.

— Não é? — ele repete.

— Superamos.

— O que o Thomas disse… — Bryan pressiona os lábios. — É

verdade?

— Não completamente.

Enxugo a ponta do nariz com a manga da camisa e posso


sentir os olhares de julgamento dos meus melhores amigos. Não

estou culpando-os, até que entendam como tudo aconteceu, preciso


lidar com isso.

— Eu… realmente estava investigando o pai dela e pensei que

poderia…
— Usá-la? — Ashton intervém. Desvio os olhos para encará-lo.
— Seu filho da… — Ele está prestes a se levantar quando as portas
do corredor da sala se abrem e Thomas sai de lá.

Os seguranças à sua cola, expressões vazias e indiferentes,


exceto por Thomas. Acho que nunca vi um cara com a
personalidade ruim como a dele ficar… abatido? Não sei dizer, mas

ele não saiu de lá como entrou.

Como se fôssemos um grupo ordenado, estamos de pé.


Minhas mãos ansiosas correm pelo tecido da calça, estou suando

entre os dedos e as palmas da mão. E ele não diz porra nenhuma,


estendendo a angústia.

Thomas recosta no pilar perto do balcão da recepção, aperta


os dedos nas pálpebras e suspira.

Um soluço vem em seguida e troco olhares com Bryan e


Ashton. Um homem com uma postura autoritária e imbatível como
Thomas Linderman se desfazendo de toda a sua muralha de

arrogância?

Olho para os seguranças, buscando por respostas, todos eles


permanecem intactos como os guardas reais da rainha.
Meu peito sobe e desce, a respiração fica irregular, porque
testemunhá-lo escorregar pelo pilar até o traseiro tocar o chão é

como ver uma estrutura inabalável ruir. E Thomas não está


preocupado em esconder que algo muito, muito ruim aconteceu com
Delilah.

— Vocês devem ser amigos da Delilah — a voz doce e suave

nos atrai. Nossa atenção desvia de Thomas para a figura feminina


com uma prancheta no braço dobrado. — Sou a Dra. Aylin, sou a

médica da Delilah e vou tratá-la no período em que estiver aqui no


San Rosé. — O sorriso mélico desenhando as curvas da boca da
Dra. Aylin é para trazer conforto e alívio, mas não tenho um bom

pressentimento. — O senhor Linderman me deu autorização para


lhes dar notícia, então… Podemos nos sentar? — Nós nos
sentamos e, apesar de ter dito nós, ela não faz. Fica de pé na nossa

frente. Pares de olhos ansiosos aguardam por uma boa notícia. —


Delilah é uma garota forte, tenho certeza de que tem chances de
sair dessa sem nenhuma sequela ou problemas maiores, portanto,

quero que sejamos esperançosos e acreditemos nela, tudo bem?

— Doutora — Ashton sibila, passando os dedos nos cabelos e


os desalinhando. — Vai logo ao ponto.

Ela suspira.
— Delilah sofreu uma pancada intensa na cabeça, levando-a a
um traumatismo craniano. É do tipo moderado, mas precisamos

entender que se Delilah permanecer inconsciente por mais tempo


que o esperado, pode ser que se torne uma situação grave.

— Como assim inconsciente? — inquiro, não consigo disfarçar

o desespero.

— Ela teve um inchaço no cérebro e a colocamos em coma


induzido até que desinche. Estamos torcendo para que quando

tirarmos os sedativos, ela recobre a consciência gradativamente.

— Quanto tempo?

— Vamos esperar por algumas horas, acredito que assim que


desinchar poderemos suspender o uso dos sedativos e ver como ela

responde depois disso. Como eu disse, precisamos acreditar em


Delilah. Tenham fé nela. — Nos dá uma boa olhada antes de

continuar: — Se puder dar uma sugestão, diria para irem para casa
e descansarem. Não há nada que possamos fazer agora a não ser
esperar.

— Posso vê-la? — minha voz sai entrecortada, mas posso

sentir o olhar melancólico da médica sobre mim. — Por favor?


— Ela está sendo transferida para uma ala privativa a pedido

do senhor Linderman. Se quiser vê-la, pode esperar até que a


transferência seja concluída.

— Nós também podemos entrar? — Bryan quer saber.

— Um por vez, sim. Com a autorização dos familiares.

Nós olhamos para Thomas. Ele parou de chorar, mas o olhar


permanece perdido.

— Se precisarem de alguma coisa, podem falar com as

enfermeiras ou pedir para me chamarem diretamente.

Dra. Aylin se afasta.

Fico por um tempo assimilando tudo que a médica disse e, por


um segundo, o pensamento de não poder ver Delilah mais começa

a me invadir como uma bactéria e estou prestes a desmoronar como


Thomas.

Sinto uma mão suave em minhas costas, quando olho para o

lado, vejo Mackenzie. Seu sorriso afetuoso diz para confiar que
Delilah é capaz de sair dessa.

— Vocês sabem o que acontece se ela não acordar? — Ash

solta a pergunta. Nós ficamos em silêncio, então escutamos a voz


de Chase.
— Eles vão mantê-la em coma induzido por vinte e quatro
horas. Depois, eles tiram o sedativo. Se ela permanecer em coma
mesmo sem ser induzido, por mais de quatro semanas, pode ser

que as chances de melhora diminuam e ela entre em estado


vegetativo — Chase termina.

— Nós podemos perdê-la — Gravity sussurra e segura a mão

de Mackenzie.

Em menos de cinco segundos, formamos uma corrente.


Estamos de mãos dadas, os dedos enredados uns nos outros como

um forte.

A situação para quem vê de fora pode não ser tão grave, mas
para nós existe a possibilidade de nunca mais ouvirmos a risada de

Delilah.

E para mim, não poder vê-la e nem tocá-la mais é o mesmo


que morrer e queimar no inferno.

Todos os aparelhos ligados a ela: a frequência cardíaca


aparecendo em uma tela plana de TV ao lado, um acesso no braço
esquerdo e a máscara de oxigênio me deixam com medo e me sinto
sufocado.

Tem hematomas na pele do seu rosto, indicações nítidas do

acidente.

Em volta do olho direito, um arroxeado profundo, um corte no


supercílio esquerdo e outro no centro do queixo. Seu braço direito

está engessado e a perna esquerda imobilizada.

Me sento na poltrona ao seu lado, encarando sua mão.


Pergunto-me se tenho direito de segurá-la.

O som do beep emitido pelo monitor faz minha respiração


travar. Se não fosse por minha causa…

E por mais que tente pensar o contrário, não consigo. É um


massacre interno tentar fugir da culpa.

Delilah não estaria aqui se não tivéssemos brigado, se eu não


tivesse sido um completo idiota por todo esse tempo. Poderia ter
dito a verdade antes, explicado quando tive a oportunidade. As

coisas teriam acontecido diferente, talvez ela pudesse me escutar e


entender de outra maneira.

Eu sei que tudo que ela ouviu na gravação pode ter feito

parecer que aconteceu da forma como Thomas disse, mas


definitivamente não foi. Estou pensando numa maneira de consertar

isso, mas mesmo que encontre a solução, Delilah não está


acordada para me ver lutar por ela.

Seu peito sobe e desce num fluxo lento, irregular. As pálpebras


fechadas de maneira branda, sem nenhum esforço.

Cedo a vontade, mesmo que sinta que não mereço segurá-la,


acredito que possa ao menos me arriscar.

A ponta dos seus dedos estão frios em contato com a palma

da minha mão. As unhas pintadas em um tom de bege claro e a do


indicador, polegar e anelar acabaram quebrando no acidente. Não
sei dizer o que estou esperando, acho que quero que aperte a

minha mão de volta, mas nada acontece. Não sinto nada além da
sua pulsação branda.

Seguro-a levemente, como se seu braço esquerdo fosse uma

porcelana e a estendo em direção a boca. Beijo a ligadura sensível


de seus dedos, um a um, e devolvo sua mão para a cama.

Inclino-me, apoiando a testa em seu tronco. O choro que

apertava minha garganta escapa num ruído comprimido, e aos


poucos, não tento mais abafar o choro.
Quando levanto a cabeça e pisco para alinhar a visão, penso

no que a médica disse, sobre acreditar nela e arrisco um palpite, de


que posso conversar com ela e tentar trazê-la de volta.

Sei que esse efeito só pode acontecer depois que tirarem os

sedativos, mas, mesmo assim, quero ter certeza de que Delilah


saberá que estou aqui com ela.

Porra, que eu sempre vou estar aqui. Mesmo que ao acordar,

ela me odeie.

— Baby, você pode me ouvir? — cochicho, e aprumo a postura


para conseguir tocar seu cabelo. Ele está meio úmido, como se

tivessem o lavado. — Nem sei se tenho o direito de pedir que você


seja forte porque você é tão determinada, tão… melhor do que
qualquer pessoa que eu já tenha conhecido antes. — Faço silêncio,

escuto o beep e o som do oxigênio chegando a Delilah. — Você


nunca desistiu de mim, então não vou desistir de você.

Uso as mangas da camisa para secar o rosto e beijo mais uma

vez as costas de sua mão.

É bom poder tocá-la assim. Espero que Delilah queira voltar à


consciência, que esteja lutando por isso, porque preciso dela.
Passo mais algum tempo no quarto. Não sei dizer quanto, mas
o suficiente para adormecer e ser acordado pela enfermeira me
pedindo para sair porque Maya está aqui.

Sou egoísta ao ponto de não querer deixá-la, mas consciente


para entender que numa escala de importância, Maya é a que tem o
maior direito de estar aqui.

Despeço-me dela dando um beijo em sua testa e saio do


quarto.

Na sala de espera, encontro meus amigos e Maya chorando,


sendo amparada por Casey. Ele tem uma filha de poucos meses
com Daily, tia de Delilah, então entendo a ausência dela.

Thomas não está mais na sala de espera nem tem sinal de um


dos seguranças, mas a presença de uma pessoa em específico
chama minha atenção.

Meu pai está de pé, com o ombro recostado em uma das


colunas. Nossos olhares se cruzam e meu coração reprime dentro
do peito, a garganta arde outra vez.

Seu olhar para mim é de compreensão, como se dissesse que


sabe como me sinto.
Tudo se encaixa na minha cabeça conforme entendo o que
aconteceu nas últimas horas, como Thomas agiu comigo e Delilah.

Antes de Delilah e eu estarmos num relacionamento, ele


entrou em contato com meu pai e contou tudo. Disse que sabia o
que eu estava fazendo. Provavelmente já tinha acesso à gravação e
estava se preparando para usá-la contra mim. Ele nunca quis que
Delilah e eu estivéssemos juntos.

Tem alguma coisa entre Thomas e Darnell. Delilah e eu fomos


arrastados para esse problema entre eles, ficamos no meio do fogo
cruzado.

Por mais que eu queira saber mais o porquê, acho que já


paguei pelo meu pecado de ter interferido antes. Não quero mais me
envolver.

Eles que se fodam.

Passo pelo meu pai, sem olhar para o lado. Sua presença ali
mexe comigo, mostra que se importa, mas ainda preciso de um
tempo só para mim.

Preciso ficar sozinho.


Chuto o pneu da Diamond. O para-brisa está todo arrebentado
e, por alguma razão, estou com raiva de novo. Deve ser o clima frio,

a neve e todo o estresse das últimas horas.

Está amanhecendo, o sol aponta seus primeiros raios de luz


cortando o céu.

Minhas mãos estão protegidas dentro dos bolsos do sobretudo


e acho que preciso de alguma distração para não pensar tanto no
que eu poderia ou não ter feito.

Quando a merda já aconteceu e você está ferrado, a solução


parece óbvia.

— Sou eu o famoso pelo temperamento explosivo.

A voz de Ashton me faz fechar os olhos e suspirar.

Desde que ele chegou, não tivemos tempo de conversar, mas


Delilah é a melhor amiga dele, portanto estou pronto para ouvi-lo me
dar uma bronca ou até levar um soco na cara.

— Tá certo que você é cuzão e faz merda tanto quanto eu,


mas você é o controlado.

— Não hoje. Não agora. Não com toda essa situação.


Saí do quarto de Delilah há mais de uma hora. Quanto mais
penso nela, no acidente e em nós, mais acho que eu quem deveria

estar lá, não ela.

Maya não quis falar comigo. Disse que precisa de um tempo


para digerir o que está acontecendo com a filha.

— Beleza. — Ashton tira um maço de cigarros do bolso da


jaqueta de couro e o isqueiro.

Ele não costuma fumar muito. Acho que é como Finn, que
fuma quando o estresse chega ao ápice e não tem outra
escapatória.

Às vezes, o álcool e o cigarro quando juntos, fazem o trabalho


de um terapeuta. É autodestrutivo, mas em último caso serve.

— Sabia que ia precisar quando Bryan me ligou. — Ele sopra a


fumaça tóxica. — Você quer?

— Não, valeu.

Nós ficamos parados, um ao lado do outro, olhando para a


noite dando espaço ao dia.

— Confesso, estou inclinado a te dar um soco e quebrar seu


nariz. — Olho para sua mandíbula travada, o cabelo preto
desarrumado e os olhos levemente inchados. — Mas se Delilah
acordar daqui algumas horas e descobrir, vou deixá-la de coração
partido por ter partido você.

Não consigo evitar um sorriso. Até em um momento assim,


onde Ashton não está tentando ser esperto e brincalhão, ele
consegue suavizar um clima tenso.

— Vou guardar a minha raiva pra mim.

— Estava esperando por um soco ou coisa do tipo.

— Quer saber? Já teve brigas demais entre nós esse ano e


você é uma orquídea.

— Como é? — Franzo a testa, confuso.

— Uma orquídea. É sensível e precisa de cuidado


diferenciado. Você não faz mal pra ninguém de propósito.

— Nossa, obrigado.

— De nada, seu desgraçado. — Ele dá mais uma tragada no


cigarro. Recebo a ofensa sem retrucar e minha boca se retorce num
sorriso. — O que aconteceu de verdade? Não é porque não
pretendo te dar um soco que não quero saber da história.

— Foi uma idiotice.


— Você faz muitas idiotices. Beija a namorada do seu melhor
amigo, mente pra sua namorada…

— Acho que prefiro o soco. — Viro-me, ficando de frente para


ele. — Manda ver.

— Não. Me conta o que aconteceu. Se você não me contar,


Delilah provavelmente vai e eu prefiro escutar de você. Ela é minha
melhor amiga, mas nós nos conhecemos há mais tempo e cara, eu

quero confiar em você.

Respiro fundo, sugando uma quantidade generosa de ar, o


máximo que consigo.

— Estava investigando Thomas Linderman, mas Delilah sabia


disso.

— O que ela não sabia era que você a estava usando atrás de
informações?

Coço a testa e continuo:

— No dia em que ela se mudou para a mansão Lynch. Foi


quando os investigadores sugeriram que eu… tentasse falar com ela

sobre Thomas, me aproximasse. Não era pra eu me envolver. Era


só para fazer perguntas.
— Daí você resolveu aproveitar da situação? — Ashton joga a
bituca de cigarro no chão e com a ponta do sapato, termina de

apagá-lo. — Quanto mais escuto, com mais raiva fico de você.

— Eles me pediram pra me aproximar, ficar amigo dela e tentar


descobrir quem era o contato que meu pai e o dela tinham em
comum, no fim, não era nada. Era só o cara que estava em parceria

com meu pai ao abrir o Lost Paradise. Fuller Adams — digo o nome
em voz alta.

— O pai do Jev? O cara que tentou matar a gente colocando

fogo no Anarchy?

— É.

— Puta merda, por que o seu pai está fazendo negócios com
ele?

— Segundo meu pai, porque acredita no potencial de


administração de Fuller e que ele investiu muita grana no negócio. E
eu acredito Ashton, que o tiro no meu pai ano passado foi uma briga
entre eles. Thomas. Fuller. Darnell. Todos eles estão em uma guerra
para ver quem consegue assumir o controle da cidade.

— Humperville é um campo de batalha — ele constata,


sussurrando. — Onde Delilah entra nessa história?
— Pensei que ela pudesse ter escutado sobre A. A. F. Antes,
nós conversamos sobre, mas ela não sabia de nada. Não tinha a
intenção de usá-la, Ashton. — Minha voz sai enfraquecida e Ashton
devolve meu olhar. — Nunca passou pela cabeça dormir com ela ou

entrar num relacionamento pensando nisso. Sim, ela ficou na minha


casa e apesar de eu ter aberto as portas pra ela, não tinha nada a
ver com isso. Foi conveniente que Tucker e Bullock tivessem me
sugerido no mesmo dia, e sim, eu tentei. Aproveitei a oportunidade e
me aproximei dela, baixei a guarda e fiz algumas perguntas, mas
mudei de ideia pouco depois, quando Thomas apareceu no Anarchy

e a maltratou na minha frente. Eu vi que não tinha como Delilah


saber de nada. Thomas aproveitou que tinha uma gravação da
minha conversa com os investigadores e usou contra mim. Talvez
para se vingar. E puta merda, me sinto culpado! Eu pretendia contar
pra ela!

A cabeça de Ashton cai para trás e ele solta um suspiro lento.

— Merda. Ela não vai ver dessa forma.

— Como você sabe?

— Mesmo que você não tenha a usado, você teve a intenção.


Mesmo que tenha mudado de ideia, você ainda se abriu pra ela
querendo algo em troca. Você sabe como foi difícil pra ela acreditar

que realmente existia alguma coisa acontecendo entre vocês? Ou


como na cabeça dela, não é digna do amor que recebe? E que no
dia em que você fez o pedido de namoro, ela pensou que tudo não
passava de brincadeira? Lilah viveu uma vida sem amor e
reciprocidade. Entendo a maneira como ela agiu quando soube,
devido a todas as decepções que já passou.

— Porra — murmuro, esfregando o rosto.

Passei as últimas horas pensando que, quando Delilah


acordasse e conversássemos, talvez ela conseguisse entender que
tudo que ela escutou, estava além do que realmente tinha
acontecido.

No momento em que nos beijamos na cozinha da mansão


Lynch, qualquer ideia que eu tivesse ou qualquer intenção errada,
tinha acabado ali, porque nunca seria capaz de brincar com o
coração de alguém ou feri-la de propósito. Cada segundo que

dediquei a ela nos últimos meses foram sinceros.

— É. Porra — Ashton repete, pensativo.

Nós ficamos em silêncio em seguida.


Ele agiu melhor do que pensei. Foi compreensivo. Porém,
acredito que nenhum de nós está a fim de entrar em um novo drama
onde tento reconquistar a confiança da banda.

Queremos que Delilah acorde e fique bem de novo. Este é


nosso objetivo em comum a partir de agora.

Quarenta e oito horas se passaram desde que pararam de


injetar sedativos no organismo de Delilah e ela ainda não acordou.

Dra. Aylin disse que existia uma possibilidade de acontecer,


Chase explicou para nós que quatro semanas é o tempo que a
medicina dita para uma pessoa em coma devido a lesão no sistema
ativador reticular, que é responsável por controlar a consciência,
depois desse período, a família começa a perder as esperanças de

melhora.

Quarenta e oito horas ficaram intensas porque estamos


coexistindo no mesmo ambiente; a sala de espera. Ninguém sai de

lá e quando saímos, vamos de forma alternada. Nunca deixamos


Delilah sozinha, seja na sala de espera ou no quarto, estamos com
ela.

Casey precisou voltar hoje de manhã para Dashdown. Daily e

Aurora precisam dele, além disso, Emory – que ajuda na


administração da sua loja de carros – não conseguiria ficar por
conta de tudo sozinha.

Tive algumas conversas com a enfermeira de antes, a que


falou comigo no meio de um ataque de pânico. O nome dela é
Olivia.

Nós temos conversado em intervalos de tempo. Tento roubar


informações dela sobre Delilah, coisas que Thomas nem Maya
compartilham com todo mundo.

Falando neles, sinto a tensão entre os dois. Eles dividem o


espaço, mas não conversam.

Percebi que Maya evita os horários que Thomas aparece para

visitar Delilah e ele tenta descobrir os horários em que Maya vai


para o hospital. Nenhum de nós dá essa informação e acho que ele
está começando a ficar incomodado com nossa presença constante.

— Aidan. — Escuto meu nome ser chamado, mas não percebo

o momento em que a porta de correr da sala do Dr. Willian Skinner


abre. — Quanto tempo. — Ele sorri e como sempre, é amigável.

Fui convencido a voltar para cá. Ao menos para ter uma única
conversa com meu antigo terapeuta.

Quando Bryan voltou para Dashdown, nossas reuniões em


grupo com ele acabaram e não retomamos. Não achamos que fosse
necessário, mas ao menos para mim, agora é.

— Sente-se. — Ele indica o sofá confortável.

Seu espaço continua aconchegante. Luzes baixas, no inverno


sempre tem uma caneca de chocolate quente com marshmallow

esperando por mim.

Com um único movimento sutil do queixo para a caneca


fumegante sobre a mesa de centro, ele faz menção para que fique à

vontade, como nos velhos tempos.

— O que eu posso fazer por você, Aidan? — a pergunta soa


muito assertiva. Esse tom condescendente. Ele sabe que se estou

aqui, é porque preciso de ajuda. — Me esqueci, você odeia quando


falo assim. — Sorri. — Então me diga como você tem passado.

— Ataques de pânico. Pensamentos autodestrutivos. E a

minha namorada está em coma por minha causa.


— Certo. Vamos por partes. — Ele relaxa as pernas, as
descruzando. Inclina o tronco como se isso fosse nos aproximar. —
Me conte tudo que aconteceu, é o seu momento. — De novo, esse

tom. É profissional demais e me sinto patético quando ele fala dessa


maneira. — Sinto muito, só me conte tudo.

Então conto.

Ele escuta com atenção, meneia a cabeça em alguns


comentários que faço.

Seus olhos estão vidrados em mim, até consigo sentir que ele
realmente se importa e sentiu falta das nossas conversas, mas
quando sair por aquela porta, vou perceber que Willian só fez o
trabalho dele.

— Você se sente culpado pelo que aconteceu com Delilah e te


entendo, mas, espero que compreenda que se culpar pelo acidente
não fará com que ela acorde ou que mude o que aconteceu.

Ele une os dedos em cima do colo. O suéter e o colete de lã


são características do Dr. Skinner no inverno.

— Que tal se nós começarmos com o método de antigamente?


Costumava te ajudar, não é?

— O quê?
— Escrever.

— Você quer que eu escreva — concluo, sempre detestei esse


método.

— Posso fazer uma sugestão que acho que te ajudará, Aidan.

Ele se levanta em direção a sua mesa de mogno.

Sempre houveram muitas gavetas e itens nelas que o


ajudavam com sua abordagem.

Ele acredita que pôr para fora é o único jeito de entendermos o


que sentimos.

— Durante o tempo em que sua namorada estiver dormindo,


que tal escrever para ela?

Ele volta. O caderno moleskine de capa preta preso entre os


dedos da mão direita.

— Ou para si mesmo, não sei. O que te faz sentir mais

confortável. Acredito que você sabe que não é sua culpa, mas se
arrepende de ter dito que se aproximaria dela para descobrir sobre
Thomas, então se culpar pelo acidente é a forma que encontrou
para se punir. Foi um erro e você desistiu quando percebeu o que
estava fazendo. Reconhecer o erro Aidan, é o primeiro passo para a
redenção e não é possível apagá-lo, que é o que você tem tentado
fazer, mas é possível aprender com ele e — dá de ombros, com um
sorriso — começar daí o seu plano de recuperar a garota que você

ama. Escreva. Não tem nada melhor do que verbalizar os


sentimentos. Um dia, quem sabe, talvez Delilah queira ler tudo o
que você pensou nos dias em que ela estava dormindo.

04 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 08H52MIN.

Tenho algum tipo de bloqueio quando se fala em escrever. Não


sou como Bryan.

Lembro que assim que Dr. Skinner sugeriu que começássemos


a escrever sobre nossos sentimentos, Bryan já tinha preenchido
grande parte das páginas em branco do seu moleskine. Ele escreve
músicas, tem facilidade para se expressar, mas eu travo. E estou
travado em uma carta que comecei para tentar encontrar o jeito

certo de contar a Delilah como me sinto.

Estendo os olhos para Delilah. Minha mão esquerda segura a


sua, a direita está com a caneta apoiada na primeira página do
caderno.

O iPod que era de Sebastian, por alguma razão, estava no

meu carro e tomei a liberdade de escutar as músicas que ele


escutava, consequentemente, as que Delilah mais estava ouvindo
antes de tudo acontecer.

Um dos fones está no meu ouvido e outro no dela.

Conversar com ela pode resolver, mas acho que a música é o


caminho mais rápido para chegar ao coração de alguém. A

consciência pode estar desligada do mundo externo, mas seu


coração ainda pulsa fortemente.

Acaricio a ponta de seus dedos no refrão da música Iris de The

Go Go Dolls. Faz tanto tempo que não escuto essa música, mas ela
diz tanto sobre como me sinto, que escrevi algumas linhas apenas
com a letra dela no caderno.

— Delilah — sussurro, inútilmente, acreditando que ela pode


me ouvir. — Você é o mais perto que cheguei de tocar o paraíso. E
eu nem posso ir para casa porque você não estará lá. Você pode,
por favor, abrir os olhos e dizer pra mim que vamos ficar bem
quando tudo isso passar?
Aperto sua mão. Me agarro à esperança de senti-la pressionar
os dedos ou mover as pálpebras, mas nada acontece.

— Eu te proíbo de me deixar sozinho. Por favor, não consigo


sem você. Eu amo você, baby. Não me deixe ir pra casa sozinho

hoje outra vez!


12 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 06H16MIN.

Ouço a voz de Conan Gray ao fazer uma curva fechada. Tenho


preferido correr sozinho aos sábados, embora seja um ritual que

estava acostumado a fazer com Mackenzie.

Continuo me maltratando escutando músicas que me lembram

Delilah a cada maldito segundo do meu dia.

Heather foi a canção que marcou nosso relacionamento, uma


parte da minha vida que faria com que eu movesse montanhas por
ela.

A cada verso da música me aproximo do colapso. Cada dia

sem ela, é uma batalha que venço.

Confesso que as conversas com o Dr. Skinner, os shows da


The Reckless que não pararam e os ensaios, têm me mantido perto

da sanidade. Mas tudo evapora quando estou sozinho e tenho me


esforçado pra caralho para ficar só.

— Você não me esperou de novo.


Sinto um puxão no meu fone de ouvido, seguido pela voz doce

de Mackenzie.

Era para ser um sermão, acho. Ela está correndo ao meu lado,

falando e conseguindo controlar a respiração, coisa que eu não


consigo mesmo tendo tentado muito desde que comecei a praticar

atletismo.

— E recusou todas as ligações do Bryan ontem depois do


show no Purple Ride.

— Estava bêbado — conto, e sou sincero, não tenho intenção


de mentir para ela sobre as coisas que tenho feito quando fico

sozinho. Eu bebo. Durmo. Escuto música. Toco bateria até rachar as

baquetas ao meio. Nada de novo. — E cansado.

Diminuo as passadas até parar.

— Desculpa. Não estou a fim de correr com ninguém.

Recupero o fôlego com uma inspiração profunda. Mackenzie


estuda meu corpo. A profundidade do seu olhar diz que está

tentando entender o que estou fazendo.

— Ou de me socializar — acrescento.

— O que a falta de uma Delilah faz na vida de um Aidan — ela

murmura, a suavidade dos meus lábios vai embora. — Olha eu sei


que…

— Você não sabe. Não tem como saber.

— Eu sei sim. Você se esqueceu?

Retomo minha caminhada.

Apesar de não querer ouvi-la, não pretendo deixá-la para trás.


Mackenzie acompanha minhas passadas. Reparo no suor cobrindo

seu colo e rosto, na vermelhidão corando suas bochechas e na

garrafa de água na mão direita.

— Me esqueci do quê?

— Bryan e eu. Nós nos separamos várias vezes.

— Mas nenhum de vocês correu o risco de morrer na cama de

um hospital, Mackenzie! — exclamo, irritado.

Tenho estado irritado em noventa por cento do tempo e é por

isso que o plano de reforma do parque de diversões está sendo

comandado por Math e não por mim.

Mackenzie enrijece a postura, comprimindo os lábios numa

linha inflexível enquanto me encara.

Posso ver meu reflexo nos seus olhos verde-escuros, no modo

como reprova como tenho agido. Nós nunca conversamos sobre o


que ouviu de Thomas no hospital. Além de Bryan, Ashton e meu

terapeuta, não falei com ninguém. Em qualquer outra ocasião, acho


que também teria falado com Mack.

— Ei. — Ela segura meu pulso quando dou um passo para me


afastar. — Para de nos afastar de você! Está me ouvindo? Para de

querer se isolar!

Eles estão comigo.

Eu estou com eles.

Mas o que eu posso fazer se acho que só posso voltar a


respirar quando Delilah abrir os olhos?

— Você fez isso não tem muito tempo e se não fosse por
Delilah, você teria ficado sozinho.

— Finn se afasta o tempo todo e ninguém enche o saco dele!

— Você não é como o Finn. Você não gosta de ficar sozinho!


— Ela me cala com esse argumento porque está certa. Tentar

justificar minha solidão usando Finn como escudo é idiotice. Nunca


gostei de estar só, diferente de Finnick que escolhe e gosta ficar

sozinho. — Você precisa de um abraço. — Mackenzie abre os


braços para mim, usa os dedos para me chamar e reparo no
contorcer dos seus lábios, formando sorriso compreensível. — Anda

logo!

Arquejo o ar, mas não evito. Vou até ela.

Mackenzie precisa ficar na ponta dos pés para conseguir


alcançar meu pescoço. A abraço e fecho os olhos ao encaixar meu
queixo na curva do seu ombro. Ela tem razão. Adoro como sua

personalidade é capaz de me fazer enxergar o que preciso, mesmo


quando eu mesmo não sei.

— Tudo vai ficar bem, Aidan. Ela vai acordar, vocês vão

conversar e ela vai entender o que aconteceu. Delilah não é do tipo


que não perdoa ou que guarda rancor. — Seus dedos curtos
acariciam meu cabelo e ela sorri. — Ainda não acredito que você

tingiu seu cabelo de novo. Está mais platinado que antes, quando te
conheci.

Foi alguns dias atrás quando Effy e Mackenzie apareceram no

meu apartamento depois de eu recusar pelo menos umas dez


ligações de cada uma delas. Effy apareceu com água oxigenada e
tonalizante.

O plano era que mexesse no cabelo de Mackenzie, mas

acabei pedindo que fizesse no meu. Nunca tive cabelo realmente


preto, estava mais puxado para o castanho, mas quando minha mãe
faleceu, comecei a platiná-lo e até o acidente com meu pai, gostava
do estilo. Depois achei que precisava adotar uma imagem adulta e

comprometida. Voltei ao bom e velho tom escuro de cabelo, mas


agora estou loiro outra vez.

— Ela vai me reprovar tanto quanto quando voltei a usar anéis.


— Reparo, a voz saindo um pouco mais baixa e rouca que o

planejado.

— Delilah vai amar. Ela definitivamente ama tudo que esteja


relacionado a você.

Adoro como Mackenzie coloca fé em mim e Delilah. Apesar de


Ashton não ter quebrado o meu nariz, como era seu plano inicial,

acho que ele torce para Delilah me dar um pé na bunda quando


acordar.

Os caras da banda estão sendo maduros, concentrados em

fazer música como sempre, não estão me julgando ou me olhando


torto, então está sendo fácil minha convivência com eles.

Tudo que aconteceu entre Bryan e eu serviu para nos ensinar


que os problemas externos não devem perfurar nossa bolha; a The
Reckless é o nosso sonho e vamos fazer de tudo para nos apoiar
para fazê-lo acontecer.

— Se ela detestar, vou colocar a culpa em você — brinco, me


forçando a sorrir.

— Sem problema, posso fazer isso por você. — Ela esbarra

em mim com o ombro e continuamos caminhando. — Estive


pensando…

Mack faz uma pausa, morde o lábio inferior indecisa. Ergo as

sobrancelhas para incentivá-la a terminar.

— Nós devíamos nos preparar pra quando ela acordar, não


acha?

— Como assim?

— Bom, vamos entrar em recesso das aulas em breve, mas

Delilah continua desempregada e lembro que esse era um dos

problemas. Sei que o seu pai estava dando uma força com a
faculdade pra ela conseguir um estágio na biblioteca, mas não tinha

dado certo ainda, não é?

— Acho que não.

— Devíamos resolver esse assunto.


Nós nem sabemos quando Delilah vai acordar, mas estou

gostando da ideia de não deixar que a vida dela pare.

— E ela pode acordar a qualquer momento. A Dra. Aylin disse

para sermos esperançosos e acreditar nela, então estou confiante


que Delilah vai acordar antes do Natal. — Mackenzie une as mãos

na frente do colo, em forma de oração e sorri. — Quero que

estejamos no hospital quando acontecer.

Hoje faz catorze dias que Delilah foi hospitalizada, mas para

nós o tempo tem passado depressa e é como se fossem meses.

A energia dela contagiava as pessoas que a rodeavam e até

aqueles que não eram tão próximos como Chase, Finn e Gravity

estão sentindo falta dela.

Delilah não é o tipo de pessoa que você conhece e esquece

fácil. Ela fica marcada, como uma tatuagem. O tempo pode ofuscar

alguns momentos, mas sua vida deixa um rastro e quando colide


com o mundo de outra pessoa ela se eterniza.

— Você é tão boa em ser esperançosa. — Enrolo o fio do fone

de ouvido e coloco no bolso do moletom – a temperatura em


Humperville está caindo cada dia mais. — E eu tenho fé em Delilah.
— Isso é bom. Imagine a decepção dela ao acordar e perceber

que você não acreditava que ela conseguiria. Decepcionante! —

Mackenzie ri e seguimos o percurso até o apartamento.

Ao longo do caminho conversamos sobre a possibilidade de

Delilah acordar hoje e o que eu estaria vestindo para recebê-la ou o

que levaria para dar boas-vindas.

Nós fazemos planos de dar uma festa e apresentar um

contrato de estágio com a biblioteca da universidade como presente.

Faço tantos planos com Mackenzie sobre Delilah que, por um

segundo, me esqueço que o coma não é uma escolha consciente.

Se não fosse pela minha gargalhada estrangulada no corredor,

o silêncio seria atípico perto do apartamento de Effy e Gravity –


Mackenzie agora mora com Bryan.

Não é comum que a passarela estreita até a porta delas fique


tão silenciosa nas manhãs de sábado, principalmente porque todo

mundo se reúne aqui há muito tempo, mesmo depois da mudança


de Mackenzie, ela e Bryan ainda fazem o mesmo circuito de corrida

e acabam aqui.

São reuniões matinais, onde tomamos café juntos e curtimos a

companhia uns dos outros. Por mais que toda a ocasião tenha
transformado nosso ritual um pouco soturno, tentamos manter a

tradição e não mudamos nada.

Só que hoje o apartamento está assustadoramente inerte. Não


sei por que, mas meu estômago embrulha como se fosse um

auspício. Não estou nem um pouco a fim de receber más notícias e

muito menos descobrir que estão relacionadas a Delilah.

Mackenzie leva a mão à maçaneta. Fico de lado, retraído,

como se assim que a porta abrir, uma onda de água fria será

despejada em mim.

Ela precisa empurrar a porta velha e emperrada com o ombro

para abri-la. Sinto o cheiro de café e ovos mexidos, o som da tevê


ecoa através do corredor.

Mack trava na entrada.

Arrisco espiar lá dentro, o suficiente para perceber que todos

estão cautelosos, com os olhos vidrados na tevê e paralisados.


Estreito o olhar, capturando o instante onde uma cena nada

agradável ocorreu quinze dias atrás, na casa do prefeito Thomas

Linderman. O rosto de Delilah na tela está em uma mistura dolorosa

de pavor e agonia.

Não consigo desviar a atenção, por mais que queira evitar

repetir o momento em que percebi que era tarde demais para tentar
me explicar.

Tudo volta rápido e todo o meu corpo responde, trépido.

Meu coração dispara.

Uma luta interna se inicia. Fico dividido entre a fuga e a raiva,


porque o rosto da garota que amo está estampado na tela das

televisões.

Não importa o quanto você tente esquecer um erro, ele volta. A


noite de 28 de novembro está aí para provar.

O silêncio no apartamento é meu inferno pessoal, como se,


internamente, todos eles estivessem me julgando sem de fato

entender o que aconteceu em seguida. Como lutei para ir atrás dela,

como quis que Delilah entendesse.

Ao mesmo tempo em que compreendi que escutar todas

aquelas coisas não foi fácil. Para ela, que estava acostumada a ser
usada pelo pai, para ser exibida na mídia, imagino que deve ter sido

a gota d’água me ouvir dizendo que estava me aproximando por


interesse.

— Delilah Dakota Linderman, passou os últimos meses deste

ano escondida sob o manto protetor do seu pai, Thomas Linderman.

Quero rir da repórter ao falar isso.

Só percebo que terminei de entrar no apartamento quando

busco o apoio da parede para me manter de pé.

Nenhum dos caras notam minha presença.

— A filha do prefeito de Humperville se manteve longe dos

holofotes nos últimos cinco anos, diferente de quando tinha catorze


e seu rosto estava estampado em todos os lugares por ser a filha de

um dos políticos mais relevantes da nossa cidade.

Uma foto antiga de Delilah é exibida na tela, como se fosse


uma atriz mirim e precisasse de toda a exposição.

Mas eu sei, todos nós aqui sabemos, que Thomas gosta de


estar na mídia. É o jeito de se manter nas próximas candidaturas.

Ter sua presença forte. Ser mencionado nos jornais locais. Aparecer

nas revistas. É uma tática presunçosa, porém, eficiente. Preciso

admitir que tem funcionado. Ser lembrado mesmo que manche a


reputação da sua família, é melhor do que não ser um dos assuntos
mais comentados.

A reportagem continua e a cada nova imagem de Delilah no


evento de Thomas, fica pior. Não bastou terem filmado e fotografado

o momento em que ela ouviu a gravação, precisaram continuar.

Filmaram também o instante onde discutimos do lado de fora e


Delilah terminava comigo.

Toda essa exposição que Thomas causou da própria filha me

deixa puto e enjoado.

— O evento do prefeito Thomas Linderman terminou em

tragédia. Após ser revelado que Aidan, filho de Darnell Lynch,


também muito conhecido em nossa cidade por ser o proprietário dos

clubes famosos como Purple Ride e Anarchy, esteve em um


relacionamento sério com Delilah Linderman porque estava

investigando Thomas, com o único intuito de manchar sua


reputação. Thomas comentou sobre o assunto e compartilhou

conosco que no jantar onde conheceu Aidan, meses atrás, ele


revelou o interesse de Darnell em se candidatar para as eleições.

Minhas mãos cerram. Afundo as unhas e posso sentir minha


carne rasgar.
— O escândalo deixou Delilah em pânico e temos imagens
onde a vemos sair atordoada do estacionamento da casa de seu
pai, vejam:

E eles mostram. Era íntimo, pessoal. Um problema nosso, que

deveria permanecer assim.

Assisto em silêncio as imagens na tevê:

Delilah segura meu pulso sem dizer uma palavra sequer, com

um olhar de súplica, consegue me afastar, porque entendi, naquele


momento, que não havia nada que eu pudesse fazer para impedi-la
de me deixar.

Ela entra no carro, tento mais uma vez, sendo movido pelo
desespero. A dor de perdê-la por não me imaginar num
relacionamento com mais ninguém.

Acho que é assim que acontece quando sua experiência com

outra pessoa é profunda demais para esquecer. Não me vejo


desistindo dela.

Quando a deixei ir, não era uma desistência, era uma distância

essencial para que pudéssemos colocar a cabeça no lugar.

Mas porra, estão usando contra mim!


Estão colocando a mim e ao meu pai como vilões da história.
Como se tivéssemos nos unido para usar Delilah, como se meu pai
tivesse interesse em participar de verdade do governo corrupto de

Humperville. E eu sei que não é o caso, mas a cidade inteira


desconfia que somos uns merdas.

O negócio do meu pai vai decair.

Eu vou parecer um cretino insensível.

Thomas será visto como inocente, que caiu numa armadilha e


sua filha foi arrastada para ela.

— Delilah encontra-se internada no hospital San Rosé de

Humperville. A família pede solidariedade e orações por sua


recuperação. Quero expressar meu total apoio ao prefeito de nossa
cidade e dizer que estamos torcendo pela recuperação de sua filha.

Morgan Forbes, direto de Humperville.

A tela fica preta e sei que alguém desligou a televisão.

Estou paralisado. Sinto que os membros do meu corpo

entraram em torpor, as palavras de Morgan sendo injetadas no meu


consciente.

Penso em ligar para o meu pai, mas em seguida me lembro

que, em partes, é culpa dele. Não teria me envolvido nessa furada


se ele soubesse ser honesto. Não teria contratado Bullock ou Tucker
para investigar Thomas se Darnell conseguisse falar comigo.

Quando finalmente me movo, é porque meu celular está


tocando no bolso da calça de moletom.

Retiro-o num movimento debilitado e verifico a tela. É Willa.

— Alô?

— Você viu? O jornal? Papai acabou de me ligar.

— Vi.

— Você está bem?

— O que você acha?

Ela suspira.

— Não precisa ser grosseiro, Aidan. Papai vai tentar resolver


essa situação. Nós fomos expostos. Delilah. Nossa família.

Fecho os olhos, pressionando as pálpebras com os dedos. Só

quero fugir dessa loucura.

Se Delilah estivesse aqui, ela saberia contornar a porra da

situação sem perder a cabeça.

— Tá.
— Você acha que pode prejudicar os negócios? Acha que

papai talvez tenha que levar os clubes para outro lugar?

— Eu… não sei.

Me sinto um merda e culpado.

Outro suspiro.

— Vou te manter informado. Tenta não entrar em confusão, por


favor! — diz, não sei se é um conselho ou uma ordem, acho que
uma mistura dos dois.

— Sim, eu entendi.

Encerro a ligação.

Fico alguns segundos parado, pressiono a quina do celular na


têmpora e minha respiração pesada é o único som que se ouve na

sala.

Quero erguer a cabeça, encarar meus amigos, talvez ter


certeza de que eles estão me apoiando depois de eu ter sido

exposto para a cidade toda como um babaca sem coração.

— Aidan. — Ouço o tom amável de Mackenzie do meu lado. —


Nós sabemos que não é verdade. Nós vamos dar um jeito nisso.
Quero perguntar para ela como. Como podemos dar um jeito
nisso quando Thomas está fazendo de tudo para fechar o cerco à
nossa volta?

— Só quero que esse pesadelo acabe — lanço, abatido.

— Tudo bem, cara — a voz de Bryan sobressai, e enfim


levanto a cabeça.

Eles me encaram. Não com raiva ou repulsa. É só um olhar

melhor do que esperava conhecendo a personalidade de cada um.

Até mesmo Gravity que tem motivos para me odiar, parece


menos interessada em expelir como sou desprezível.

— Viu? A gente sempre se apoia — Mackenzie continua

genuinamente agradável, mas quanto mais compreensível eles são,


mais acho que não mereço.

Thomas pode ser egoísta e usa de todos os recursos possíveis

para conseguir o que quer, mas ele não estava errado quando me
culpou pelo acidente.

Acho que tudo se resume ao maldito acidente. Quando paro e

penso sobre isso, mais acredito que tudo começa e termina nele.

— Para agora mesmo com isso — Effy refuta da mesa.

Viramos ao mesmo tempo para encará-la.


— Essa cara que você está fazendo. Nós nos conhecemos
muito bem e sei o que você está pensando, Aidan. Não é sua culpa.

Não importa que vocês tenham brigado e terminado naquela noite,


se coubesse a você escolher, tenho certeza de que a teria
protegido. Se Delilah estivesse aqui, mandaria você calar esses

pensamentos autodestrutivos. Não é hora para se invalidar. Nós


precisamos nos manter fortes e unidos porque é o que nossa amiga
precisa. Todos concordam, não é?

Seu olhar hostil mira Ashton. Ele poderia acabar comigo se


quisesse.

Ashton nem precisaria usar a força bruta. Ele sabe que no


estado em que me encontro, uma palavra me destruiria.

As vozes se unem, concordando. Mackenzie me segura pelos


ombros e me guia para a mesa.

Não estou com fome e não paro de pensar no que acabou de

ser transmitido na tevê, mas rapidamente o lugar de Effy é


substituído por Finn.

Dou uma olhada neles, por um segundo, estudando toda a

situação. Não parecem ter voltado a se falar, mas estão menos


agressivos um com o outro.
Em seguida, Bryan, Ashton e Chase se unem a nós.

Ashton e Chase usam bancos de plástico montáveis, se

acomodando em cada ponta da mesa.

Effy coloca uma playlist para tocar, o desconforto, aos poucos,


é substituído pela música Loved Us, de Munn.

Ashton faz uma piada, jogando uma migalha de pão rumo à

Chase, que gargalha e desvia.

Finn é silencioso como sempre, ora ou outra, crava os olhos


verdes em cima de mim, mas não expõe o que anda pensando.

Bryan puxa assunto comigo sobre a faculdade, como tem sido


um pé no saco ter ficado popular.

Por fim, estamos conversando e rindo como se os últimos

minutos não tivessem acontecido. Mas no fundo, a dor é incômoda


no meu peito.

14 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 16H55MIN.


— Oi, aqui é a Delilah, no momento eu não posso atender,

mas você pode me deixar um recado! Então depois do sinal, você


sabe o que precisa fazer…

— Oi, hum… estava escutando uma música e me lembrei de

você. Mas não é nenhuma novidade, toda música que escuto é para
me sentir perto de você. Nem sei se um dia vai escutar todas essas
mensagens de voz, mas de qualquer forma, também estou

escrevendo sobre você. Porque tudo é sobre você de uns tempos


pra cá.

Dou risada.

Se Delilah estivesse do outro lado da linha, me diria para não


ser tão cafona, mesmo me achando fofo ser romântico.

— A música diz: eu prefiro ver o oceano uma vez na vida e


sentir falta pelo resto da vida, do que nunca sentir a areia sob meus

pés descalços e nunca ouvir o som das ondas quebrando. Acho que
associei o mar a você e a areia ao seu sorriso. — Rio outra vez. —

Você me transformou nesse cara, sabia? E é uma droga que você


não esteja aqui para ver. Mas quer saber? Eu me arrependeria pra
caralho pro resto da vida se não tivesse entregado meu coração pra

você.
Não preciso me despedir ao finalizar a ligação. Nas primeiras
vezes, eu dizia: tchau, amo você e estava esperando que ela
respondesse.

Isso não vai acontecer.

Dou uma olhada na minha listagem de chamadas perdidas.


Duas de Mackenzie. Quatro de Bryan. Três de Ashton. Milhares de

Willa, que não consigo contabilizar.

Tenho pelo menos duas ligações de todos os caras. E outras


seis do meu pai. Ele está tentando falar comigo desde que meu
nome virou assunto nos tabloides de Humperville e sei que Darnell

está tentando limpar a merda que Thomas jogou no ventilador.

Acabei de sair de uma loja de celulares. Comprei um aparelho


novo para Delilah, mas só ela pode recuperar seu número antigo.

Pedi para a vendedora embrulhar e colocar um laço vermelho.


Pretendo escrever um bilhete, num Post-it, como nos velhos
tempos. Estou esperando que ela esteja aqui para receber seu

presente de Natal.

Enviei uma mensagem para meu pai ontem à noite. Disse que
ele devia a mim e a Delilah que conseguisse aquele estágio para ela

na biblioteca da Universidade de Humperville.


Também aproveitei minha folga e dei uma passada na obra do
parque de diversões e aderi à ideia de Bryan sobre o karaokê. Vai

ser algo diferente.

Paro ao ver que o sinal abriu e os carros estão se


locomovendo.

Meu celular toca no bolso da jaqueta jeans e troco a sacola de

mão, para conseguir pegar o aparelho.

“Pai” resplandece na tela. Aspiro o ar para conseguir pescar


minha voz natural.

— Alô?

— Te liguei.

— Eu vi. Seis vezes, sete, contando com essa.

Ele bufa.

— Quando foi que nós chegamos a esse ponto, Aidan?

— Que foi? Conseguiu falar com o reitor Callum?

— Consegui, mas não consigo fazer muita coisa por ela,


Aidan. Delilah não…

— Não — digo, estrangulando o resto da sua frase. — Nem


termina.
— Você precisa parar.

— Não preciso dos seus conselhos.

— Você não sabe quando ela vai acordar ou se…

— Já te pedi pra não falar assim. Nós estamos esperando por


ela.

— Você não está esperando por ela. Você parou a sua vida

inteira por essa garota! Você está se sacrificando, talvez ela não
acorde nunca!

— Os médicos disseram quatro semanas.

— Os médicos podem errar!

— Eu resolvi acreditar neles e em Delilah, sinto muito que a


sua fé nas pessoas seja tão mesquinha!

— Só não quero que você desperdice a sua vida se for uma

causa perdida!

— Vou desligar — anuncio, porque sei que se nos falarmos


agora, esse é o único resultado: mais mágoa, mais dor.

— Espera. — O escuto suspirar do outro lado da linha. — Você

quer jantar comigo?


— É sério? Você acabou de me pedir para desistir da minha

namorada que está internada no hospital, em coma e quer que eu


vá jantar com você?

— É importante.

— Você está tendo problemas sérios?

— Não.

— Então o jantar pode esperar. Tchau, pai.

— Aidan.

Não espero que termine de falar.

Sigo para a Diamond estacionada do outro lado. Coloco a


sacola com o celular no banco de trás e assumo o volante.

Pressiono o botão para ligar o carro e arranco em direção ao

hospital.

Todos os dias vou antes das aulas e volto no final do dia, fico
até que Maya venha para dormir com Delilah.

Talvez meu pai esteja certo e eu tenha parado minha vida por

ela.

Odeio essa minha versão. Essa que descobri ano passado,


quando as coisas fogem do controle.
Confesso, perco a minha essência e é difícil voltar ao Aidan
normal. Fico fora de mim e, às vezes, as pessoas ao meu redor
sofrem as consequências. Já fiz Mackenzie passar por isso e Delilah

também. Agora estou fazendo o mesmo com minha família e meus


amigos.

Frequento os ensaios da The Reckless e sou pontual nos

shows, mas quando acaba, volto para a realidade. Então me


entorpeço com álcool.

A voz de Delilah no fundo do meu consciente me penaliza por


me embriagar, mas esse é o único jeito que encontrei de fazer a dor
parar.

Estaciono na vaga de visitantes do hospital. Aciono o alarme e


noto a SUV preta estacionada ao lado.

Ótimo, para finalizar meu dia, Thomas Linderman está no

hospital.

Não é todos os dias que ele vem e, de verdade, sua


encenação dias atrás quase me fez acreditar que estivesse sofrendo

pela filha, mas não passou de armação para atrair a pena da mídia.

As portas de vidro se separaram para que eu entre. Noto na


recepção Mackenzie, Bryan e Gravity. Estão sentados, as
expressões atribuladas se voltam para mim.

Tem mais de dois seguranças dessa vez, capto dois homens


vestindo terno preto ao lado do balcão da recepção e outros dois no
corredor que liga aos quartos. Se Thomas estiver lá dentro, presumo
que tenha mais dois deles na cola do prefeito.

Alterno as olhadelas entre os seguranças e as enfermeiras na


recepção.

— Ele não nos deixou entrar — Gravity confidencia, o olhar


colérico foca nos seguranças.

— Como assim? — sibilo, contorcendo os dedos até que


minhas mãos se fechem.

Espero que Thomas não esteja pensando em me proibir de vê-


la, porque tudo que estive controlando nos últimos dias virá à tona e
não vou me segurar.

— Ele praticamente nos proibiu de vê-la — Mackenzie


continua e Bryan balança uma das pernas, mostrando sua irritação.

— Falaram com Maya? — Controlo minha voz para não soar


agressivo.

— Nós ligamos — diz Gravity, enrolando os cabelos pretos


num coque alto. — Ela está ficando num hotel há quarenta minutos
daqui. Disse que vai resolver a situação quando chegar, mas acho
que Maya tem evitado Thomas o máximo que pode.

— E com razão. Esse cara é um completo babaca! — Bryan

explode.

Mackenzie entrelaça os dedos nos de Bryan ao mesmo tempo


em que Thomas sai pelo corredor, cruzando a passagem da porta

de correr.

Como tinha imaginado, dois seguranças caminham atrás dele.


Ao todo, são seis. Não sei quem ele pensa que é, e não acho que

nós representamos tanto perigo ao ponto de que precise de seis


seguranças para acompanhá-lo.

— Ei. — Me aproximo e uma parede impenetrável com os


homens corpulentos se forma.

Escuto Bryan se levantando, pronto para me parar. Levanto a


mão por cima do ombro, para que não se intrometa.

— O que está acontecendo? — exijo.

Thomas me estuda. Os olhos azuis mortificados escrutinam

meus coturnos, meu jeans rasgado no joelho e o sobretudo pesado.


Ele não para quando levo a mão direita para os cabelos, jogando-os
para trás.
Aposto que está analisando os anéis em meus dedos. Toda a
sua expressão é de desgosto. Não sou o homem que ele quer para

a filha, mas duvido que Thomas idealize qualquer cara para Delilah.
Acho que quer prendê-la de todas as formas possíveis.

Ele me ignora e vai até a recepção. Escuto quando diz para a

enfermeira que não quer que Delilah receba a visita de ninguém


além dele e Maya.

— Que porra você está fazendo? — grito para ele, querendo

chamar sua atenção.

Fora as enfermeiras, Thomas não move um músculo para


demonstrar que tem intenção de falar comigo.

— Está isolando ela?

Thomas não responde.

As enfermeiras entregam um papel para ele, que assina e em


seguida saca um cheque para entregar às enfermeiras.

A pressão dos meus dentes no lábio inferior faz com que uma
lesão se forme.

— Thomas, estou falando com você! — Sinto as mãos de


Bryan nos meus ombros, querendo me distanciar. — Cacete, olha
pra mim seu merda! — grito, e, finalmente, ele se vira.
— Estou garantindo que se minha filha acordar, você não será
a primeira pessoa que ela vai ver.

— Seu…

Tento atravessar a barreira de homens.

Bryan me segura, mas sacudo os ombros até que me solte e


consigo romper a muralha de seguranças ao redor de Thomas.

Na verdade, eles nem se esforçam para me parar. Meu punho


erguido o acerta no queixo, um grito agudo ressoa através da
recepção.

Não tenho a intenção de dar mais que um soco, mas sua


guarda está baixada e aproveito para expelir minha raiva.

Minhas têmporas quase explodem quando o derrubo no chão,

agarrando-o pelo colarinho.

Thomas parece pesar uma pluma, como se quisesse que toda


a minha frustração dos últimos dias seja depositada nele.

Agressão física.

Ao prefeito da cidade.

Mas não me importo.


Ergo o punho cerrado, pegando impulso e impondo força,
desço a mão em um soco.

Escuto o som do osso do seu nariz sendo trincado, o impacto


do meu punho com seu rosto sarcástico não me faz parar.

Escuto Mackenzie me pedindo para sair de cima dele e Bryan


se esforçando para me afastar.

Com tudo isso, consigo me desvencilhar de Bryan.

Gravity puxa o colarinho do sobretudo, mas é inútil. Só


consegue fazê-lo descer alguns centímetros do meu ombro.

Agarro Thomas pela lapela do paletó, suspendo seu corpo, a


raiva duplica minha força e o solto contra o chão sólido.

Consigo impingir mais dois socos nele antes que os


seguranças me arremessem para longe de Thomas.

Quero me soltar das mãos de Bryan, que me segura pelo


cotovelo.

Mackenzie se coloca diante de mim com Gravity, como se


fossem capazes de me parar.

Thomas está com o rosto sangrando e o nariz torto.


Luto contra Bryan, querendo avançar para o prefeito outra vez.
Seus seguranças o ajudam a ficar de pé.

Ele me encara, como se me prometesse que o que acabou de


acontecer não ficará impune.

— Chamem a polícia — diz, com a voz entrecortada e os


dentes manchados de sangue. — Agora!

As enfermeiras começam a discar no telefone e não me


importo. Não me importo com porra nenhuma.
A cela da delegacia de Humperville é úmida.

Deitado com o torso para cima, posso ver as teias de aranha


se formando nas arestas das paredes. Além disso, é escuro e

abafado.

Estou de olhos fechados porque assim fico bem longe do


abismo e não me entrego ao pânico.

Porra, eu fui preso. E me lembro de Bryan ter repetido sua


experiência na prisão várias vezes na terapia em grupo e em nossos
ensaios da The Reckless, mas nada se compara a realmente estar

aqui.

Não acredito que caí na de Thomas, que cedi às suas


provocações e parti para cima dele. Fui como um imbecil querendo

fazer justiça com as próprias mãos e acabei aqui.

Solto um grande suspiro, levo o braço por cima do rosto

apertando as pálpebras rígidas.

Os nós dos meus dedos estão manchados com o sangue dele

e feridos. Na hora em que o ataquei não senti nada, a adrenalina


absorveu qualquer prenúncio de dor física, mas a mão que usei para

socá-lo lateja.

Fecho e abro a mão para tentar amenizar o desconforto entre

os dedos.

Agora que estou mais calmo percebo o que aconteceu.

Thomas sabia que eu estava com a raiva me dilacerando


desde o dia da reportagem e sofrendo com as consequências; meu

pai enfrentando problemas com os negócios e Delilah em coma. Ele

previu minha vulnerabilidade e não deu tempo para que me


recuperasse.

Os seguranças teriam me parado se realmente quisessem,

mas o plano era me fazer perder o controle, assim teria mais


munição para usar contra mim.

Thomas Linderman é a porra de um manipulador e está

usando minhas fraquezas contra mim, como o grande covarde que

sempre soube que ele é.

Ele está tentando me destruir e está conseguindo.

— Aidan Lynch.

Escuto o som de uma chave em atrito com a fechadura.


Endireito o corpo, ficando sentado na cama dura no fundo da
cela.

Esfrego os olhos, querendo acentuar a visão.

Não sei há quanto tempo estou aqui, talvez mais de um dia.

Me recusei a ligar para o meu pai.

Me forço a caminhar para perto da grade de ferro, percebo que

a porta está entreaberta, a jovem e bonita investigadora que cuidou

do caso do meu pai antes está sorrindo para mim.

Abernathy Williams.

O distintivo da investigadora pende no seu pescoço, mas ouvi


os policiais a chamando de delegada.

Ao menos, até onde sei, Abe não foi comprada por nenhum

político de Humperville. Então acredito que se ela está me soltando,

é porque está dentro da lei. Caso contrário, passaria muito mais

tempo aqui.

— Para a sua sorte, o prefeito retirou a queixa — diz, o sorriso

de Abe é de alívio.

— Thomas retirou a queixa? — Franzo o cenho, em confusão.

— Com muita persuasão, ele deve ter concordado.


— Persuasão?

— Seu pai está te esperando lá fora — informa, e fecha a cela

atrás de mim, ignorando minha pergunta. — Vê se não se mete em

confusão outra vez. Não é bom pro seu futuro ser preso!

Gostaria de dizer a Abe que não dou a mínima para o


currículo, mas estaria mentindo. Acrescentar prisão por agressão no

meu histórico de vida, é sim vergonhoso. Sempre que situações


como essas acontecem me pergunto o que minha mãe diria, como

reagiria e tenho certeza que brigaria comigo.

Meu pai está sentado na recepção, conversando descontraído

com um dos policiais.

Ele sorri. Nem parece que o filho ficou enclausurado, mas


quando Abe anuncia nossa chegada saudando-o, seu sorriso leve

desaparece e a expressão de decepção assume. Estou acostumado


com ela, não tenho orgulho de ter sido preso, só que Thomas
mereceu cada soco que dei.

Darnell agradece a Abe por ter cuidado de mim, embora não

tenha visto ela nenhuma vez desde que os policiais me jogaram


naquele cubículo.
Não falo muito ao sair, não sinto que preciso, mas me deparo

com uma noite fria e com muita, muita neve.

Sigo com meu pai para o seu Cadillac, estacionado rente ao


passeio da delegacia.

Uma fumaça de vapor sai da minha boca e encolho. Ainda


estou usando apenas o sobretudo de caimento leve – nada

recomendado para andar na neve – e as calças rasgadas nos


joelhos.

Darnell não diz nada até estarmos dentro do carro. Passo o

cinto de segurança por cima do ombro e ele liga o aquecedor.

Nós não saímos do lugar e olho para frente.

Com sorte, vou me livrar do sermão se não abrir a boca. Na

verdade, estou envergonhado de ter sido preso e sei que as coisas


não estão fáceis. Apesar de odiar como meu pai lida com os

problemas, não quero ser o motivo de levá-lo à falência.

Ele coloca em uma estação de rádio e escuto o locutor. Olho

de esguelha para a tela do aparelho, por tempo o suficiente para


saber que é uma rádio local.

— O prefeito Thomas Linderman foi atacado na noite de ontem

pelo filho de Darnell Lynch. Há especulações de que Aidan Lynch


tem problemas de controle de raiva e que a briga começou porque o
prefeito está tentando manter a filha afastada de problemas quando
acordar.

Fecho os olhos, suspirando.

— Thomas deu uma declaração e disse que, tudo que quer, é

que sua filha se recupere sem a interferência de um ex-namorado


que não entende que o relacionamento acabou.

Soco o painel. Meus dedos já machucados doem ainda mais e


grunho. Um palavrão baixo sai da minha boca em forma de protesto.

— O que você está querendo?

— Acabei de te soltar da cadeia, estou te mostrando que


perder a cabeça com Thomas é um caminho sem volta, porra! —

meu pai grita, o carro parece minúsculo para dois homens movidos
à raiva.

— Abe disse que Thomas retirou a queixa.

— Por que você acha que ele concordou em retirar? Porque eu


tive que ir até lá e implorar pra ele fazer isso.

Viro a cabeça para o lado. Darnell está de olhos fechados e

abatido. Dá para perceber que ele não dormiu na última noite.

— Ele não pediu nada em troca?


— Mas é claro que ele pediu! É o Thomas, Aidan. E eu te disse
pra ficar longe daquela família! — ele exclama, a raiva fica mais
aparente a cada segundo. — Ele quer você longe da Delilah.

— Nem fodendo que vou me afastar dela.

— Aidan, acho que você não está entendendo a gravidade da

situação. Você. Não. Tem. Escolha! — brada, arregalando os olhos


azuis para mim. — Não existe a opção: eu não quero. A partir de

hoje, você está proibido de visitá-la no hospital. E quer saber mais?


Thomas cercou aquele lugar com repórteres e o quarto dela está

sendo vigiado por seguranças. Você não entra mais, nem que

quisesse.

Minha garganta fecha. É involuntário, mas estou com uma

vontade absurda de chorar, porra.

Você cresce ouvindo que precisa engolir o choro e ser forte

para quem olha de fora, mas é difícil ser resistente quando seu

mundo inteiro está desabando.

Thomas está me destruindo e começou me atingindo no ponto

fraco.

— Vou te deixar em casa.


Ele liga o carro e durante os primeiros minutos, não consigo

dizer nada.

Meu rosto deve estar vermelho e meus olhos ardem, me

esforço pra cacete para não desmoronar.

Um erro. Um maldito erro e passei de ter a vida perfeita, para

um filme de terror.

Meu pai desliga o motor do carro em frente ao prédio onde

estou morando. É perto da universidade, a poucas quadras de

distância. Ele é imponente, com vidros escuros na fachada e pintura


em grafite. Todos os apartamentos têm uma sacada grande e

janelas imperiosas. Dou uma boa olhada nele antes de tentar abrir a

porta do carro para sair.

Sou impedido quando meu pai segura meu pulso.

— Não estou dizendo que você precisa desistir dela. Só por


enquanto, até as coisas normalizarem. Quando Delilah acordar, a

decisão não cabe mais à Thomas. — Encaro meu pai. Sua feição

mudou de estoica para compreensiva.

— Eu escutei sua conversa com Delilah meses atrás, sobre

você e Thomas serem amigos na faculdade. Aconteceu alguma


coisa naquela época que fez de vocês inimigos? Thomas ser

competitivo e arrogante não são motivos para entrarem em guerra.

— Se conhecesse Thomas como eu, saberia que ser


competitivo e arrogante é mais do que suficiente para ele travar uma

guerra comigo. Mas ele sabe que não vou cair nesses joguinhos e

você deveria ser mais esperto também, Aidan. Delilah é seu ponto
fraco, você é o meu. Se ele te atingir, então me atingirá também.

Meu pai e eu tivemos vários desentendimentos nos últimos


meses. Ele mente para mim e não entendo o porquê.

Sinto seu apelo no tom de voz baixo e nos ombros caídos.

Darnell está me pedindo claramente para desistir dela porque


Thomas não vai parar até que nos destrua. Estou entendendo que,

talvez, o alvo em si não seja Delilah e eu, e sim meu pai. É um

truque baixo, mas eles se conhecem e Thomas sabe onde é o


calcanhar de Aquiles de Darnell.

Finalmente consigo abrir a porta do carro.

— Vou pedir para Rowan vir amanhã. Willa e eu estivemos

aqui — Por que foi mesmo que dei uma cópia da chave pra minha

irmã? — e seu apartamento precisa de uma faxina.


Faço que sim e subo os degraus em direção à entrada. O

porteiro me reconhece e libera a porta.

Passo de cabeça baixa porque parece que Benedict reconhece

meu rosto da televisão. Não existe um cidadão de Humperville que


não assista aos jornais locais. É como um orgulho para nós.

Assim que abro a porta quase sou arremessado de volta para

o corredor.

Meu tronco é cercado por dois braços. São pequenos, porém

fortes o suficiente para me fazer cambalear.

Olho para o tufo de cabelos pretos de Willa e como

choraminga baixo contra meu peito. Sua voz sai distorcida pelo

aperto na garganta. Sorrio e brinco com a ponta enrolada de seu


cabelo.

Quando subo os olhos para dentro do apartamento, vejo que


todos os meus amigos estão lá também.

Sinto uma onda de conforto me cobrir. O aperto no peito e o

estômago embrulhado desaparecem só de vê-los ali.

Meu plano era chegar, tomar um banho e cair na cama, mas

vejo um cooler aos pés de Ashton e uma long neck de cerveja em


sua mão direita.
— Você acabou de ser solto, nós pensamos que você deveria

querer encher a cara até passar mal — Willa diz, sorrindo.

— Eu não sabia que queria isso até ver vocês.

Seguro a mão dela e a puxo para dentro do apartamento.

Estão todos lá. Mackenzie e Bryan sentados no sofá assistindo

aos vídeos que publicamos da The Reckless no YouTube – Bryan é

o tipo orgulhoso e adora ver como o sucesso da banda está

atingindo aos poucos todos os cantos do país –, Finn e Chase estão


jogando xadrez no balcão do bar que foi o que me convenceu a

escolher esse apartamento.

Gravity e Effy estão na cozinha. Sinto cheiro de pizza e,

imediatamente, sou levado para o dia em que fui até Dashdown

atrás de Delilah e acabei fazendo pizza com sua família. Foi

divertido e eu daria qualquer coisa para repetir aquele momento.

Brooks também está com Ashton. Não é como se fôssemos

melhores amigos. Ainda existe aquele lance de ex e atual entre nós,


mas soube que ele tem visitado Delilah no hospital. Nossos horários

não batem, então é difícil vê-lo. Sei que faz parte da vida de Delilah

e talvez isso nunca mude, mas estou disposto a superá-lo se for

fazê-la feliz.
— Cara, você desceu o braço em Thomas Linderman! —

Ashton se aproxima com uma long neck suada para mim. —


Sinônimo de coragem. — Bato com a minha garrafa na dele. — Se

estava com raiva de você antes, garanto que estou superando

depois disso.

— Cala a boca, Ashton. Não é algo pra se orgulhar. De jeito

nenhum — Willa repreende, sem ter a intenção de me soltar. — E

você precisa de um banho! — Minha irmã faz uma análise


minuciosa das minhas roupas e as mãos sujas, de quem acabou de

voltar de uma guerra.

Olhando para ela assim nem parece a garotinha que se


encolhia em mim quando éramos pequenos e ficava com medo de

dormir sozinha.

O telefone da portaria toca e finalmente Willa me solta.

— Deve ser Faith, Bailey, Maeve, Nate e Trycia! — ela grita,

existe três degraus que separam a sala de tevê e jantar da cozinha,


onde fica o telefone. Ela os salta como se não existissem. — Sim,

pode deixar subir — responde, indo para a porta recebê-los.

— Por que nós nunca viemos no seu apartamento mesmo? —

Chase se distrai do xadrez por um minuto.


— Não tivemos tempo — explico, sorrindo. — E depois
aconteceu todo o problema…

— É. Do qual nós decidimos não falar hoje — Finn me corta,


olhando por cima do ombro com desdém. — É uma droga que

Delilah esteja em coma e que você tenha perdido a cabeça com

Thomas, mas todos nós estamos precisando de uma noite de folga.

Olho para Ashton, esperando sua reprovação, mas ele está

virando a garrafa de cerveja de uma única vez com os olhos

fechados e Brooks o acompanha.

Todo mundo aqui está cansado de sofrer. E eu também.

Acompanho meus amigos e bebo com eles.

Minha garganta fica seca. Bebi uma quantidade razoável de


cerveja depois do banho e fugi para o estúdio improvisado que criei
no apartamento para fumar maconha.

É, sou um péssimo exemplo de equilíbrio.

E para encerrar a noite com o coração mais fodido o possível,


entro no Instagram de Delilah. Ela tinha criado um destaque com
fotos nossas e até mudou sua foto de perfil para uma de nós dois.

A última publicada no feed foi eu que tirei, na festa de


halloween com sua fantasia.

Estou deitado de maneira relaxada no sofá, com as pernas

jogadas para frente.

A mão esquerda ocupada pela cerveja e a direita apoio o


celular. Uso o polegar para ir de foto em foto no perfil dela.

Até entro nas mensagens. Nunca conversamos muito pelo

Instagram, mas Delilah adora me enviar memes e eu respondia


alguns stories que costumava postar enquanto lia um de seus livros.

Ver isso, de alguma forma, me faz sentir perto dela. Minha

visão enevoada não atrapalha meu objetivo de olhar para ela. O


sorriso. A boca. Puta merda, como sinto falta dela.

Me aproximei de Delilah com o objetivo de tentar descobrir

sobre A. A. F., não tinha a intenção de ir para a cama com ela, muito
menos me envolver emocionalmente. E acabei me apaixonando.

Como se a playlist que Mackenzie colocou estivesse

acompanhando meu melodrama, escuto I Found de Amber Run.

É uma versão diferente da original, parece mais lenta e com


certeza foi modificada; a voz está mais rouca e grossa ou talvez seja
a maconha fazendo efeito.

— Aidan, oi. — Subo os olhos rumo à voz de Trycia. Ela está


de pé, sorrindo ao meu lado.

Realmente, ela é muito bonita. O piercing no nariz brilha sob a


luz fraca do abajur da sala.

Estou escutando as vozes dos meus amigos na cozinha. Estou

feliz que eles tenham conseguido esquecer da dor por algum tempo,
até mesmo eu, enquanto jogávamos beer pong consegui manter a
mente afastada de tudo.

— E aí — digo, depois de sustentar seu olhar por dois

segundos, volto para as mensagens antigas minhas e de Delilah no


Instagram.

— Sinto muito.

— Obrigado, acho.

O assento ao meu lado afunda.

Movo a cabeça alguns centímetros para olhá-la.

— Ela terminou tudo? Você sabe... — Trycia dá de ombros e a

estudo por mais tempo. — Antes do acidente.


— É, terminou. — Fecho os olhos e derrubo a cabeça para
trás, cubro a testa com o braço.

— Sinto muito que isso tenha acontecido com vocês, Aidan.


De verdade.

Ergo o braço para poder enxergá-la pela fresta e esboço um

sorriso de agradecimento.

— Está tudo bem com sua mãe?

— Você sabe, ela tem dias bons e dias ruins. — Sacode os


ombros, mas na expressão de Trycia está estampado que não está

expondo tudo que gostaria.

— Eu sei que nós conversamos e que você já me perdoou,


mas sempre que te olho, sinto que te devo mais desculpas —

revelo, fixando no marrom acobreado de seus olhos.

— Ah Aidan, que isso. — Sorri, tento encontrar qualquer


pedaço de sua expressão que indique que está ressentida, mas não

vejo nada. — Todo mundo passa por isso em algum momento, não
é? Você não se lembra de como Faith era apaixonada por Bryan? E
hoje os dois são bons amigos. — Trycia se inclina para enxergar por

cima dos ombros, onde Faith, Bailey, Bryan e Mackenzie


conversam.
Essa é uma cena que nunca imaginei que fosse presenciar.

Faith e Bryan tinham uma relação um tanto quanto conturbada; no


começo ambos concordaram que seria tudo o mais casual possível,
depois, ela começou a ter sentimentos por Bryan.

Acredito que ele poderia ter um relacionamento com Faith se


estivesse disposto a colocar seu coração em jogo, mas naquela
época, ele não estava em condições de ter um namoro sério. E

olhando por este ângulo, não é que Trycia não fosse importante
para mim, só estava cegado demais pelo que sentia por Mackenzie.

— Se precisar de alguma coisa, pode falar comigo.

— Você está sendo fofo, como sempre, Aidan. Delilah tem

sorte de ter um cara como você do lado. — Trycia afaga meu ombro
com palmadinhas suaves, me desejando forças para passar por

isso. — E você também, se precisar de uma amiga para conversar,


conte comigo.

E, um mísero segundo depois, Trycia está de pé, em direção à


roda onde Faith, Bailey, Bryan e Mackenzie estão.

Me levanto, indo em direção ao cooler. Pego outra cerveja e


dou uma olhada na Trycia. Odeio tê-la magoado no passado.
Estou sentindo um peso sob os ombros e a dor corporal por ter
passado a última noite na cela da prisão, dormindo em um
colchonete fino, me faz desejar uma longa noite de sono na minha

cama.

— Pessoal, a noite pra mim acabou — digo a eles, acenando


por cima do ombro.

— Já? Cara! Você já foi mais festeiro! — Ashton brinca.

— Vocês podem continuar. Vou terminar essa cerveja no meu


quarto.

Faço uma reverência de brincadeira para eles e sigo pelo

corredor em direção ao quarto principal do apartamento.

Fecho a porta e tranco. Não quero ser incomodado.

Vou até a mesa de cabeceira, abro a primeira gaveta e dentro


dela encontro o caderno que Skinner me deu.

Tenho escrito sobre ela, todos os dias. É fácil falar com Delilah
escrevendo. Antes não conseguia seguir esse método, mas é fácil
agora, as palavras simplesmente vêm. Preguei alguns Post-its

vermelhos nas páginas, alguns dos quais ela me mandou.

Passo a ponta dos dedos pela letra alinhada no papel.


Não se esqueça de se hidratar. Sorrio para o bilhete que
encontrei colado em uma garrafa de água na minha sala do

Anarchy.

E se ela nunca acordar? E se o meu final feliz não estiver


destinado a ser com ela?

Fecho a capa do caderno porque não quero que minha mente

vá por esse caminho.

Faço que não com a cabeça, rejeitando a hipótese de que


Delilah pode não ser a protagonista da minha história.

18 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 13H01MIN.

Não fui mais vê-la. Há quatro dias não visito Delilah no

hospital, mas continuo ligando para ela e deixando mensagens.


Mesmo que eu não seja a primeira pessoa que ela verá ao acordar,
precisa saber que não teve um dia que não pensei nela. Mas

precisei ocupar o meu tempo. Os shows no auditório da faculdade


voltaram e fizemos um ontem.
Estar concentrado na banda e no projeto do parque de
diversões estão me distraindo positivamente.

Sinto que todos se esforçam para voltar à rotina, já que não fui
o único a ser banido de visitá-la.

Maya não quis brigar com Thomas e entendo. Ela passa todas

as informações para Bryan e Bryan repassa para nós.

Delilah continua estável. Nenhum sinal de melhora. Nada.

— Você ouviu? — Mackenzie chama minha atenção.

Mastigo uma batata frita e olho para Bryan, Ashton e Finn do

outro lado da mesa.

Effy e Gravity estão sentadas ao meu lado. De alguma forma,


nós acontecemos.

Antes eu almoçava com Bryan e outros colegas da turma de

Administração, e Delilah com as meninas, mas, de repente, estamos


todos juntos.

Gravity parece ter superado seu problema comigo e Ashton, ou

talvez esteja se esforçando para não surtar. Pela Delilah.

Até Finn, que é o mais isolado, está se enturmando mais. Não


há nenhum sinal de estranhamento entre ele e Effy.
Delilah estar em coma aproximou esse grupo improvável e

somos até próximos demais.

Finn e Ashton cruzam a cidade para nos encontrar no intervalo


do almoço, Willa vem com a gente ás vezes, mas ela pertence ao

grupo de Paxton e Faith, na maioria do tempo está com eles.

— Ouvi o quê? — devolvo para Mackenzie, engolindo a batata


com a ajuda do refrigerante.

— Amanhã. Dia 19 de dezembro.

— É uma data importante?

— Você anda visitando a lua, Aidan? — Gravity me escrutina,


as sobrancelhas arqueadas.

— Não. Ele só entrou numa linha melodramática que ninguém

consegue acompanhar — Ashton zomba, lançando uma batata em


mim.

— Que implicância, hein? — Effy pega a batata do meu colo e

a devolve para a cestinha.

Finn ri, sacudindo a cabeça.

— Que foi? — Ela inclina o queixo para ele, como se o

desafiasse a desaprová-la.
— Nada — Finn responde, no seu tom apático.

— Enfim, o que tem amanhã, Vity?

— Festa.

— Festa? — nós respondemos em uníssono.

— Pelo amor de Deus, todos vocês estavam boiando quando


mencionei a festa?

— Amanhã nós tocamos no Anarchy — lembro a ela.

— Vocês podem ir para a festa da minha turma depois que

tocarem no Anarchy.

— Eba, festa dos estudantes de moda! — Ashton forja alegria


e recebe um olhar enviesado de Gravity. — Não sei se percebeu,

mas a nossa orquídea não está em clima para festas! — Gesticula


para mim com o queixo. É a minha vez de jogar uma batata nele.

— Vocês podem parar de ficar jogando comida uns nos

outros? — Effy se estica na mesa para alcançar a porção de batata.


— É ridículo, infantil e um desperdício! Sem contar que todo mundo
fica olhando… — Ela entorta o nariz em reprovação.

— Foi mal — digo a ela, que faz careta para mim.

Dou risada.
Eu gosto dessa versão que nos transformamos. Apesar de
termos problemas uns com os outros, estamos deixando de lado

para ficarmos juntos.

— Enfim. Festa. Amanhã. Vou enviar o endereço para vocês


no nosso grupo. Agora preciso ir. — Ela pega sua bolsa e deposita

um beijo na bochecha corada de Effy. — Tenho aula de história da


moda em quinze minutos. Vejo vocês mais tarde! — Gravity some
pela porta, acenando por cima do ombro.

Continuamos comendo e conversando. Evitamos falar de

Delilah porque acabamos cabisbaixo e nós estamos tentando ser


positivos. Acreditar que Delilah pode sair dessa.

Quando Ashton, Finn, Mackenzie e Effy também vão embora,

ficamos só Bryan e eu na mesa.

Terminamos de comer nossos hambúrgueres em silêncio.

Na maioria do tempo estamos forjando sorrisos, mas é mais

difícil fingir quando você está na frente de uma das pessoas em que
mais confia. O que aconteceu entre Bryan e eu é pequeno perto de
tudo que está acontecendo agora e por isso é fácil conversar com

ele.

— Bryan.
— Hum? — Ele limpa a boca com o guardanapo de papel e me

encara. — Que foi?

— Mackenzie me contou que Maya trocou de número desde


que voltou para Humperville.

Ele acena, as pestanas semiabertas apontam desconfiança.

— Pode me passar o número novo dela?

— Quer falar com a mãe da Delilah?

— Quero.

Bryan suspira, se esticando na cadeira. Ele me encara,

pensativo, mas depois de alguns segundos acena com a cabeça


concordando.

Pega o celular do bolso e zapeia pela lista de contatos. Seguro


meu próprio celular nas mãos e anoto na minha agenda o número.

— Valeu.

— O que você quer falar com ela?

— Quero me desculpar.

— Se a culpa não foi sua, por que quer se desculpar?

— Mesmo que eu não tenha feito o que Thomas mostrou na

gravação, no começo, tive a intenção. Devo desculpas a ela.


— É, nisso você está certo. — Bebe um gole de refrigerante,

para ajudar a descer a comida. — Mas não fica se sentindo mal se


ela não quiser conversar. Ela trocou o número porque não quer que

fiquem incomodando. Depois que Thomas vazou aquelas merdas na


televisão, vários repórteres começaram a ligar pra ela.

— Não vou ficar magoado se ela não quiser conversar,


entendo o que está acontecendo.

Bryan expele o ar com uma lufada.

— Boa sorte, cara.

— Obrigado.

21 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 19H43MIN.

Estou nervoso. É como se fosse a primeira vez que vou


encontrar a mãe da minha namorada. Meus dedos estão

enroscados uns nos outros e o suor entre eles faz minha pele ficar
melada.
Total Eclipse Of The Heart está tocando baixinho no Lost
Paradise.

De todos os estabelecimentos do meu pai, esse é o mais

tranquilo para conversar e comer. É um bar rústico e muitas pessoas


da idade de Maya gostam daqui.

Maya atravessa a porta usando luvas, touca e casaco de


inverno. Fico de pé, querendo ajudá-la a se livrar de toda a
bagagem pesada para se proteger do frio, por fim desisto ao ver que

a hostess já se propôs a fazer isso.

— Bonnie Tyler. Seu pai sabe como agradar os fãs dos anos
oitenta. — Maya ri, se sentando na cadeira de frente para mim. —

Como você tem estado? Bryan me disse que sua experiência com a
prisão foi…

— Nada bom — digo com sinceridade.

Maya meneia a cabeça e ri.

— Imagino que sim. E lamento. Thomas deve ter te provocado


muito para ter chegado a esse ponto. Quisera eu ter força o
suficiente para derrubá-lo — ela brinca.

Não conheço Maya o suficiente para desvendar as facetas do


seu sorriso, mas ela não parece tão chateada como nos outros dias
que a vi no hospital.

— Fiquei me perguntando porque você não falou comigo


antes.

Não quero ser invasivo, acho que a mãe de Delilah está no

direito de me ignorar, mas falando comigo nesse momento, ela não


parece estar chateada ao ponto de me tratar como um estranho.

— Claro. É normal que se pergunte. — Uma das atendentes

vem para pegar nosso pedido.

— Nachos? — sugiro a ela.

— Delilah ama nachos. — Maya observa, sorrindo. — Preciso


me lembrar de trazê-la aqui. Por mim, tudo bem. Nachos — decide.

— Ela ama mesmo. Duas Cocas? — pergunto para Maya.

— Sim, por favor. Taylor. — Maya semicerra os olhos para


entender as letras minúsculas no uniforme da atendente. —

Obrigada.

Maya é educada e adorável. Entendo porque Thomas se


casou com ela. Naturalmente, ela é mesmo como a primeira-dama.
Não precisa nem mesmo se esforçar para ser gentil e paciente, são

características natas dela.

Taylor anota nosso pedido e desaparece para a cozinha.


Um silêncio sufocante permeia por mim e Maya. Se não fosse
pela playlist com músicas antigas ao fundo, estaríamos
desconfortáveis.

— Te convidei porque queria me desculpar — solto de repente,


consigo capturar sua atenção para mim de novo. Ela me encara, a
apreensão nubla seu rosto tranquilo de segundos atrás. — Por tudo.

— Está se desculpando pelo quê? — Maya se inclina na mesa,


usa os braços para se apoiar.

— Thomas deve ter te contado.

— Ah, por favor, Aidan! Fui casada com Thomas há vinte anos.
Conheço meu ex-marido. Ele mudaria toda a história se fosse para
se beneficiar. Ele abriria mão da felicidade da própria filha pela sua
reputação e carreira política. Não precisa falar comigo como se eu

não soubesse do que ele é capaz!

— Mas ele não mentiu. Não completamente. — Maya vinca a


testa, confusa.

— Você usou Delilah?

— Não! — brado, arregalando os olhos. — Quer dizer, sim,


existiu essa possibilidade, mas eu não me envolvi com ela com
segundas intenções, eu juro. Nunca quis machucá-la!
— Então eu tenho a resposta que preciso. Vi como você olha
para ela, Aidan. — Maya relaxa, se encostando na cadeira e

entrelaça os dedos em cima do colo.

— Mas, me sinto tão culpado por tudo!

— Você está magoado com como a história acabou. Ela sofreu


o acidente acreditando que você é um traidor, mentiroso e só a
usou. O que você está sentindo é um assunto não resolvido.

— Você não me odeia por isso? — murmuro, e aperto as mãos


em cima da mesa.

— Se eu te odeio? — Ela ri. — Não, não odeio você. Mas —


meu corpo endurece. — Delilah é tudo o que me resta de mais
precioso, entende? E isso não significa que não vou tentar protegê-
la a todo custo.

Fico em silêncio por um tempo, refletindo.

— A gravação é dolorosa, não vou mentir. Precisei de alguns

dias para assimilar: Acho que posso fazer isso. Posso me aproximar
e tentar descobrir alguma coisa que ajude vocês. Toda informação
que eu descobrir dela, repasso pra vocês — ela repete o que falei
na gravação. — Foi difícil, mas prefiro acreditar no que está me
contando: que houve essa conversa, mas você não concretizou.
Você errou em concordar com seus investigadores? Sim. Mas estou
disposta a te perdoar, assim como sei que Delilah estará quando
chegar a hora. Nós dizemos coisas que não vamos cumprir, por
exemplo… — Maya começa a rir. — Delilah disse naquele fim de

semana que jamais se entregaria para um cara como você. Mimado.


Arrogante. — Ela encena, fazendo caretas e rindo. — E que
provavelmente estava apaixonado pela melhor amiga dela. E jurou
para mim que não se apaixonaria por um cara como Aidan Lynch.

Taylor interrompe nossa conversa para colocar o pedido no


centro da mesa. Serve a Coca-Cola e aproveito para tomar um gole.
Minha garganta ficou seca com essa conversa.

— No fim, foi exatamente o que aconteceu. Não fiquei


surpresa quando soube que vocês estavam namorando.

— Espero que ela acorde logo e eu tenha a oportunidade de


me explicar direito.

— Também é por isso que estou aqui. — Maya se inclina para


pegar um nacho.

Mastigo um salgadinho também, esperando que ela termine.

— Ela acordou.
Estou com a mão em direção a porção de nachos, prestes a
pegar mais um na travessa, mas a recolho. Abaixo a mão,
colocando-a sobre o colo.

Minha respiração que estava tranquila, fica irregular e

entrecortada, posso sentir meus batimentos cardíacos nos pontos


sensíveis do meu corpo; têmpora, pulso, até mesmo na ponta dos
pés.

Consigo ouvir a risada de Delilah e a voz doce vibrando minha


alma. Quero questionar Maya porque estamos sentados aqui,
comendo nachos quando Delilah acordou e entender porque diabo
ela demorou tanto para me contar!

Estou pronto para me levantar, pegando o meu sobretudo no


encosto da cadeira.

Minha mão se enrosca no tecido e só então percebo como


estou tremendo.

— Mas nós temos um problema.

Travo, me agarrando à mesa.

— Que problema, Maya? Ela acordou! Não existe nenhum


problema!

— Melhor você se sentar, Aidan.


— É tão ruim assim? — A encaro, boquiaberto, e devolvo o
sobretudo para as costas da cadeira.

Meu coração não me dá trégua e só quero fugir dessa


conversa e ir para o hospital, nem que eu precise passar por cima
de cada segurança que Thomas colocou para me afastar dela.

— Maya? O que aconteceu?

— Queria que você tivesse uma noite agradável antes de ter a


notícia. E que não ficasse ressentido comigo pelo que estou prestes
a te pedir!

— Fala. — Meu tom é agressivo, embora não esteja tentando

ser um babaca. A necessidade de saber é mais forte que eu.

Eu fui excluído da vida da pessoa mais importante para mim e


nem foi escolha minha. Não estava lá quando Delilah acordou e

parece que Maya está adorando me torturar com o suspense.

— Fica calmo, Aidan.

— Porra, eu estou calmo! — vocifero. — Estou esperando há


vinte e três dias para vê-la, falar com ela e tocá-la! Foi quase uma
eternidade para mim, Maya! Faz quanto tempo?

— Faz algumas horas!

— Todo mundo sabe?


— Sim, avisei a Bryan assim que Delilah abriu os olhos.

— Então qual é o problema?

Maya respira fundo.

Ela começa a falar e quando escuto, todo o esforço para não


desabar, é inútil.
23 DE DEZEMBRO DE 2020, 9H11MIN.

Minha mãe está com aquele olhar sombrio de novo.

Na maioria do tempo, ela tenta sorrir e me tranquilizar porque,

bem, eu voltei dos mortos. E a onda grotesca que fora despejada


sobre mim ainda tento assimilar.

É sério, estou trabalhando duro para conseguir encaixar na


minha mente os últimos cinco anos que perdi e estou vivendo e

revivendo trocentas mil vezes tudo que minha mãe contou.

De repente, dormi com catorze anos e acordei com dezenove.


Bryan não é mais o meu namorado e Sebastian…

Seb se foi. Acho que estão tentando me poupar, escondendo


algumas coisas, mas outras é impossível manter fora do meu

alcance.

Outras não podem ser ignoradas, como por exemplo, meu

namorado que não é mais meu namorado e que, na verdade, está

num relacionamento com uma das minhas melhores amigas.


Bryan não pode agir como se ainda estivéssemos juntos

porque estive em coma nos últimos vinte e três dias e acordei sem
as memórias mais importantes dos últimos anos.

E tem Sebastian. Eles não poderiam dizer que meu irmão está
vindo me salvar desse pesadelo, porque ele não faz mais parte de

nossas vidas há muito tempo.

Tudo que eu conhecia não é mais como antes. O que eu mais


amava não é mais parte de mim e a primeira pessoa que gostaria de

abraçar está confortando o coração de outra. É uma realidade onde

eu não consigo me encaixar.

Noite passada quando meus pais me deixaram sozinha pela

primeira vez desde que acordei, olhei à minha volta para tentar
fisgar qualquer semelhança com o passado, mas percebi que é

inútil. Essa é a minha vida. Bem diante dos meus olhos.

Minha mãe está com raiva do meu pai, embora esteja

acostumada com eles brigando, sinto que Maya está fazendo


esforço para manter a cabeça no lugar e não explodir com Thomas

na minha frente. Ela não quer mais uma carga para mim, e também

não quero que ela se sobrecarregue.


Gemo baixo. É satisfatório porque consigo chamar a atenção
deles. Estava me controlando para não denunciar a enxaqueca.

Acordar do coma é isso. Me sinto enjoada, tenho vertigem e na

maioria do tempo estou queixando de dor de cabeça. É lancinante

até que fisicamente eu não suporte mais. Além disso, minha perna

esquerda está encapada por uma bota ortopédica e o braço direito

imobilizado pela tala cirúrgica.

— Que foi, Lilah? — meu pai resmunga, é visível sua irritação

por eu ter interrompido.

— Ela acabou de acordar, Thomas! — minha mãe repudia,

grunhindo enquanto caminha para mim. — Você pode não ser tão

desprezível?

Ela está diferente. Em outra ocasião, não trataria Thomas

assim.

Olho para ela, assustada. Tudo está diferente, mas sua

imposição não é uma coisa ruim.

O divórcio deve ter feito bem pra ela.

Nós tivemos uma longa conversa de atualização durante

algumas horas ontem. Ela esperou exatamente vinte e quatro horas


para me contar tudo, acho que estava com medo que houvesse um

colapso.

— Está doendo onde, querida? — me pergunta, contorcendo

os lábios como se a dor tivesse sido transferida para ela.

— Estou com dor de cabeça — informo, sem muito ânimo.

É uma piada. As últimas vinte e quatro horas não podem ter


acontecido. Minha última lembrança é de que ontem, Bryan,

Mackenzie, Seb, Effy…

Nós estávamos no karaokê. Como posso ter sido transportada


para o futuro?

Outra pontada na minha têmpora me faz refrear o pensamento


e estremecer. Meus ombros caem, frágeis como meu corpo.

— Vou chamar a enfermeira — Thomas diz, me encarando

enviesado como se eu estivesse forjando a dor para afastá-lo.

Talvez devesse.

Assim que ele sai, me contorço na cama. Um suspiro de

agonia escapa da minha garganta, impossível de ser reprimido.

Uso a mão esquerda como apoio, tento erguer o corpo com


meu pé bom, mas o trabalho é um martírio.
Solto a respiração aliviada quando a mão da mamãe vai até o

meu braço esquerdo e com pouco esforço, consegue me colocar


sentada.

A encaro. Ela parece bem: jovem e reluzente. Não é como se

tivesse perdido Sebastian, daí preciso ficar me lembrando que a


notícia para mim é de um dia, mas para Maya, são cinco anos.

Estou me esforçando para não chorar na frente dela. A


questão é que apesar de sua aparência bonita e a expressão

tranquila, conheço minha mãe. Ela estava sofrendo por minha causa
e me sinto culpada por tê-la feito chorar nos últimos dias. Então se

eu desmoronar, se me permitir passar pelo luto, talvez ela não tenha


forças para me ver sofrendo uma segunda vez.

Mas às vezes é só o que eu quero. Um tempo para entender


tudo que aconteceu.

— Delilah, o que foi? — Sinto-a acariciando meu braço

esquerdo para chamar minha atenção.

— Nada. Só estava pensando no Seb. Como ele morreu? —

Me encara, soltando um suspiro dramático. — Mãe. Eu preciso


saber.
— Você precisa garantir sua recuperação. — Leva a mão
quente à minha bochecha, usando o polegar para acariciar a maçã
corada. — Eu não sei se aguento perder você, então, por favor,

independentemente do que aconteça, você precisa me prometer


que só vai seguir em frente de agora em diante. Ter esquecido o

passado, por um lado, foi bom pra você!

Quero gritar com ela. Dizer que está errada. É como se

houvesse um grande vazio na minha alma desde que acordei. Me


seguro por ela. Controlo minhas emoções porque quero ser forte,

mas só preciso de uma oportunidade para não ter que ser assim.

— Mãe.

— Delilah. Por favor — suplica, agarrando minha mão. — Só

tentei atualizar o necessário pra você, pra te fazer entender em que


ponto sua vida está. Nós nem devíamos ter essa conversa tão cedo.

Faz só dois dias que você acordou. Devíamos ter esperado até
que…

— Eu saísse daqui e descobrisse que meu namorado está


namorando minha melhor amiga? Ou que não vou encontrar

Sebastian quando chegar em casa? O que mais, mãe?

Seu silêncio é um flagelo para mim.


Respiro fundo e fecho os olhos.

— Você e papai se divorciaram.

— Sim, logo depois que seu irmão faleceu. Eu já te contei isso.

— Ela endireita a postura, seus olhos ficam presos em mim, cheios


de pesar. — Por quê?

— Estou só tentando entender. Como foi que meu acidente

aconteceu?

— Eu não sei — revela, e não posso dizer que está mentindo

para mim, porque não está. Seus lábios não tremem. — Não estava

aqui. Como te disse, quando me divorciei, me mudei para


Dashdown e comecei a ajudar sua tia no escritório de advocacia

dela. Você trabalhou na loja de carros do pai do Bryan quando ele

se casou com a Daily. Conheceu Brooks. Emory. Voltou para


Humperville para estudar. Atualmente está morando com suas

amigas, Gravity e Effy. Essa é a história toda.

Os pais de Bryan se divorciaram. Vivian faleceu. Casey se


mudou para Dashdown. Se casou com minha tia. Tiveram uma filha

chamada Aurora e…

— Ai! — reclamo, a dor pontiaguda na minha cabeça volta com

precisão e a ponta dos meus dedos da perna direita se contorcem.


— Cadê a enfermeira? — Ela olha por cima do ombro,

escrutinando a porta e nenhum sinal de Thomas, ou da enfermeira.


— Você fica sozinha por um segundo?

Faço que sim. Ela acaricia minha bochecha uma última vez
antes de se afastar.

Não consigo parar de me esforçar. É impossível manter os

pensamentos sob controle quando tudo que quero é que as peças


desse quebra-cabeça se encaixem. Não aceito o desfecho do meu

relacionamento com Bryan, muito menos o que aconteceu com

Sebastian. Só quero que tudo faça sentido.

Sei que minha mãe só quis ajudar a me encontrar na confusão,

mas o que tentou esclarecer ficou ainda mais confuso.

Não consegui falar com Mack ou Effy desde que acordei.

Nenhuma das duas vieram me visitar.

Essa constatação é quase uma mão em volta do meu pescoço

me estrangulando.

24 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 07H23MIN.


— Você deve voltar ao hospital para tirar o gesso. — Dra. Aylin

verifica sua prancheta, analisando meu estágio de recuperação da


perna e braço. — Em seis dias, mais ou menos. Vamos tirar uma

radiografia deles para saber como estão. Sobre sua memória… —

Ela me encara, como se quisesse descobrir se houve evolução


desde que acordei.

Ando tendo confusão mental e esqueço coisas bobas. Às


vezes, minha mãe precisa repetir à noite o que disse de manhã,

mas honestamente? Estou pronta para sair desse hospital.

— Suas lembranças vão voltar com o tempo.

— Quanto tempo? — devolvo, impaciente.

Irritabilidade. Um dos efeitos de ter dormido por vinte e três


dias.

— É difícil dizer. Não existe uma fórmula para entender nosso


cérebro.

— Isso significa que talvez eu nunca me lembre de nada?

— Existe uma possibilidade, mas existem casos onde as

pessoas recuperam suas memórias dentro de dois anos ou menos

tempo. Seja paciente.


Fecho a mão esquerda em punho.

Dentro do peito, sinto o coração sufocar em angústia.

— Eu recomendo que você anote tudo que se lembrar. É


possível que sua memória sofra oscilações até que se recupere.

Mas, acredite em mim, de todas as pessoas que tratei após um

traumatismo craniano, você está muito bem! Disse ao seu namorado

que você se recuperaria bem. — Meus olhos focam na médica,


confusa. — Você é forte e não tem nenhuma doença pré-existente,

o que facilita muito.

— O que foi que você disse?

— Que você não tem uma doença pré-existente. — Ela me

lança um olhar dócil.

— Não. Antes.

— Ah, sim, sobre seu namorado? Disse a ele que você se

recuperaria.

— Bryan e eu terminamos. Há cinco anos.

É a vez de Aylin ficar confusa. Seu rosto assume uma feição

petrificada.

Estudo a bolsa arroxeada embaixo dos olhos, o cansaço é

transparente. Cada detalhe dela parece incrivelmente melhor do que


os sete quilos que perdi durante o coma ou a palidez da minha pele,

tornando as sardinhas do meu rosto mais nítidas.

— Pensei que sua mãe tivesse tentado te atualizar das coisas


mais importantes — explica, a confusão se espalha, todo seu corpo

indica o nervosismo sobrecarregado. — Aidan Lynch. Seu

namorado. Nos primeiros dias ele esteve aqui quase o tempo todo.
Trazia seu iPod e colocava músicas para você escutar. Ele foi muito

prestativo.

Estou com sorte que minha mãe ainda não chegou ao hospital.
Caso contrário, acho que Maya teria revertido a história porque ao

que parece, meus pais não querem que eu saiba que tenho um

namorado.

— Nos primeiros dias?

— Sim. Nas últimas semanas ele não veio.

— Sabe por quê?

— Sinto muito, não sei. — Ela se apressa para pegar um

cartão de visitas no bolso do jaleco. Escreve alguma coisa nele e

estende para mim. — É meu telefone. Se precisar, pode me ligar.

Vou te atender no meu consultório particular, tudo bem? Se sentir


qualquer mal-estar ou se tiver alguma dúvida sobre seu quadro.
Faço que sim, tentando entender.

As informações andam chegando com muita rapidez e, às

vezes, me perco entre elas. Escuto o som de um rasgo e estendo os

olhos para a médica.

— Analgésicos para a dor. — Estende para mim a receita e

sorri. — Estou torcendo por você, Delilah. Tente não desanimar, está

bem?

Concordo outra vez, sem emitir nenhum som. Ela sai em

silêncio. A muleta que trouxe está escorada na mesa de cabeceira.

Me estico na cama até alcançá-la.

Estou usando um vestidinho básico, de corte reto, rosa claro e

alcinhas. É dezembro, então está nevando. Mas foi tudo que


encontrei em uma sacola que meu pai me trouxe.

Com a ajuda das muletas, cambaleio até a porta do quarto e

meio sem jeito, coloco a cabeça para fora.

Assusto quando vejo dois seguranças, um de cada lado do

caixilho. Estão vestindo terno e gravata preta. Volto alguns


centímetros para dentro e mudo meu percurso para a poltrona.

Desconfio que sou uma prisioneira no quarto, mesmo que a

Dra. Aylin tenha assinado minha alta, estou presa aqui.


Começo a pensar no nome que a Dra. Aylin mencionou.

Como era mesmo? Adam? Aaron?

Aperto os olhos, tentando me lembrar, mas já foi. Meu cérebro

enfraquecido me trapaceando outra vez e não me lembro mais qual

o nome do meu suposto namorado que não veio me visitar uma


única vez desde que acordei.

Quanto mais penso nisso, mais acho que nada faz sentido.

Então reflito sobre os seguranças na porta e de repente, acredito


que faz sim.

Meu pai literalmente me fez prisioneira dele, talvez isso


explique porque não vi ninguém. Ele me afastou de todo mundo,

como sempre faz. Sua desculpa? Estou protegendo você. O mundo

é cruel e desprezível. Você nunca entenderia.

— Oi, me desculpa pela demora! — Minha mãe cruza a porta

arfando, a bolsa colada ao corpo. — A médica já veio?

— Sim.

Faço menção de me levantar e em instantes ela está ao meu


lado para me ajudar.

Encaro-a, esperando que me conte alguma coisa diferente do


que contou antes. Sobre o meu namorado. Porém ela apenas sorri
para mim, em forma de encorajamento.

— Mãe.

— Sim?

— Nós vamos sair por aquela porta e eu vou encontrar minha

vida diferente de antes. Tem mais alguma coisa… — respiro fundo


antes de continuar — qualquer coisa que eu ainda precise saber?

— Não. É tudo como te contei.

Escolho acreditar nela, por enquanto.

Ela tira da bolsa um casaco de inverno preto, que oferece a


mim. Me ajuda a vesti-lo e em poucos segundos estou pronta para
enfrentar a temperatura baixa de Humperville.

Maya vai até a cama e começa a recolher meus pertences,

incluindo a receita médica com os analgésicos.

Ampara sua mão vaga na minha lombar para me ajudar e


antes que possamos cruzar a porta, uma muralha de músculos se

forma diante de mim.

Subo os olhos até encontrar o semblante indiferente dos dois


seguranças.
Sinto minha perna ceder e não tem nada a ver com o fato de
estar machucada, mas com a sensação familiar de medo.

Não consigo respirar, nem mesmo pensar em nada. Sei como

é estar sob o controle dele, mas é como se meu corpo tivesse se


acostumado à liberdade e esses homens barrando a minha
passagem faz com que meu inconsciente entre em defensiva.

Minha mãe aperta meu cotovelo, fica apreensiva e me puxa


devagar para trás. Rumo minha atenção para ela, onde vejo sua
boca se abrir e fechar numa tentativa falha de argumentar com eles.

— Delilah?

Meu nome ressoa por trás do muro de robustez.

Estico o pescoço, mas não vejo nada até que os seguranças


se separam, abrindo uma brecha mínima para me dar visão.

Não conheço o homem. Não deve ser muito mais velho que
meu pai.

Ele olha para os lados, como se me procurasse, até que o azul

dos seus olhos topam comigo. Talvez minha expressão aflita o


choque, o que o faz andar mais depressa em nossa direção.

Os seguranças se unem outra vez, intensificando o forte que


me separa da saída.
— Dou cinco segundos pra vocês se afastarem — ele eleva o
tom. É ameaçador e frio. — Um.

— Vamos ligar pro Thomas — um deles informa.

— Porra nenhuma — o homem do outro lado brada. — Estou


com uma advogada lá fora e a delegada Abernathy. A mulher dentro

deste quarto, Maya Price, me pediu para vir buscá-la. — Viro o rosto
para minha mãe e seus lábios estão tremendo, mas não de medo. É
de vitória. — Dois. Três — ele continua. — Quatro…

Os seguranças se afastam, abrindo a passagem. Minha mãe

não perde tempo e começa a me arrastar para fora do quarto.

— Obrigada por ter vindo, Darnell.

— Disponha. — Ele nos ajuda com a mala.

Minha mãe começa a ajeitar meu casaco e sem que eu

perceba de onde surgiu, passa em torno do meu pescoço um


cachecol branco.

Darnell, como ela o chamou, está com os olhos focados em

mim. Tenho visto muito esse olhar de incredulidade.

Foram vinte e três dias, mas é como se tivesse sido um ano.


No entanto não estremeço, sustento sua fixação ao me encarar e

devolvo.
Como imaginei, está nevando. Assim que atravessamos a

porta, afundo meus pés no chão afofado de neve.

Sinto o gélido na sola do pé porque estou usando um tênis que


não é próprio para o frio. Consigo caminhar até o estacionamento

com a ajuda da minha mãe e do Darnell.

— Você disse que Abe estava aqui fora. — Minha mãe ri, como
se fosse uma piada interna.

— Ah, não. Eu blefei, mas ela estaria disponível se nós

precisássemos. — Darnell ri de volta.

É como se eles se conhecessem há muito tempo, só que


nunca o vi antes.

Quando estamos protegidos da neve, próximo à vaga de


Darnell – acho –, minha mãe refreia e nós paramos.

Tanto ele quanto eu a encaramos com dúvida. Sigo para onde


seu olhar está direcionado e noto uma silhueta no banco de trás de

um Cadillac preto.

Darnell e Maya trocam um olhar. Não entendo, mas é como se


estivessem conversando apenas com o gesto simplório de trocarem

farpas se encarando.
— Vou colocá-la no carro — minha mãe diz, e, sem dizer mais
nada, me ajuda a caminhar para o automóvel.

Fico sem as muletas, me apoiando no teto do carro com uma

mão enquanto Darnell abre a porta de trás para mim.

Vejo minha mãe, o desconforto tomando conta do seu rosto.

— Atrás é melhor para ela. É mais espaçoso se você chegar o


banco para frente — justifica e usa sua mão para proteger minha

cabeça quando me inclino para entrar.

Eu o vejo. Não sei quem é e nem está olhando diretamente


para mim quando consigo me acomodar ao seu lado. Pelo perfil,

posso perceber a mandíbula endurecida. A respiração parece lenta


e pesada, mas, mesmo assim, não vira o rosto para o lado.

Seus dedos estão pavoneados com anéis e preciso me

controlar para não rir porque é extremamente cafona.

Seu cabelo com certeza não é platinado naturalmente, mas


aprecio esse ar rebelde exalando dele através dos anéis, do cabelo,
da jaqueta de couro e o jeans de lavagem clara.

Sobressalto quando Darnell bate a porta do carro e junto com


minha mãe, se afasta para conversar. Assisto tudo através do vidro,
mas não escuto nada.
Minha mãe gesticula com as mãos, sua feição muda de
tranquila para indignada e fico tentando decifrar o que estão

dizendo.

— De onde eles se conhecem? — sussurro, mas não tenho


pretensão de receber uma resposta.

— Humperville é uma cidade pequena.

Viro meu rosto para ele. Os olhos azuis estão centralizados em


mim e por um mísero segundo minha respiração trava e me perco. É
uma expressão de solidariedade familiar. Sua boca está entreaberta

e a língua contorna devagar a protuberância dos lábios.

Experimento cheiro de cereja exalando dele, já que nossa


distância é ínfima. Posso sentir o calor sendo expelido do seu corpo

e contornando minha atmosfera.

— Como você se sente?

— Bem.

— Que bom. — Ele esboça um sorriso e se endireita, voltando

a fixar os olhos nas costas do banco da frente.

— Desculpa. — Volta a me olhar e fico feliz de ter sua atenção


outra vez. — A gente se conhece?
Percebo que seu corpo retrai sob a minha pergunta. Espero
por uma resposta e acho que está prestes a me dar quando abre os

lábios, mas desiste.

Darnell abre a porta do motorista e se senta atrás do volante,


minha mãe ao seu lado no passageiro.

Lanço um último olhar para o cara ao meu lado. Estou


esperançosa de que ele responda minha pergunta.

Sim ou não é suficiente, mas sua boca contida espreme as

palavras.

Apesar da sensação de familiaridade, não é como se ele fosse


alguém.

Não conheço metade das pessoas que estão espalhadas na


sala do apartamento que, supostamente, moro.

Alguns estão sentados no sofá e outros no chão. Mack, Effy e

a garota que se chama Gravity estão em pé – ela de braços


cruzados, com o quadril recostado à mesa de quatro lugares.
Demoro meu olhar nelas porque é como se estivessem

implorando por socorro.

Ninguém deveria viver essa confusão. É cruel e injusto. A vida


que eu tinha antes do coma ficou parada e essas pessoas se

importam comigo para esperarem por mim na véspera de Natal.

A árvore está ali na sala e as luzes piscam. Estou lacrimejando


pela primeira vez desde que acordei, deve ser porque, dessa vez,

minha mãe não está por perto.

Ela quis me dar privacidade para me reencontrar com meus


amigos, como se fosse facilitar tudo.

Meus olhos não param. Saltam de um rosto para outro e eles

se embaralham quando tento ligá-los às lembranças. Não sei se


estão esperando que eu diga alguma coisa, se esse for o caso
então é uma perda de tempo.

Entretanto sou surpreendida quando um deles se levanta do


chão. Ele transpassa os dedos abertos nos cabelos pretos e
caminha em minha direção.

Está usando uma camiseta preta com um diamante branco


estampado nela e, pouco acima, o nome The Reckless. Os olhos
dele miram meu rosto nublado pela confusão.
— Sou Ashton. — Ele estende a mão para mim. — Na sua
vida eu sou tipo: o melhor amigo do mundo inteiro.

— O que quer dizer?

Encaro sua mão levantada e analiso minha situação. É sério

que ele espera que eu aperte a mão dele? Uma mão está ocupada
se apoiando na muleta e a outra está imobilizada pela tala!

Ashton fecha a mão e ri, levando-a até a nuca para coçá-la.

Arqueio uma sobrancelha, estudando-o.

— Puta merda, você pode não me olhar desse jeito? Eu estou


me sentindo bem imbecil por ter estendido a mão.

Ele consegue arrancar um sorriso de mim e, quando percebo,

não somos os únicos rindo da situação.

— Você tem cara de ser imbecil. — Movo a cabeça devagar,


fazendo uma careta.

— E você continua a mesma chata e provocativa de sempre.


— Ele revira os olhos, mas continua rindo. — Pelo menos isso não
mudou. — O silêncio retorna ao cômodo e continuo o encarando,

alternando o olhar entre os outros. — Posso te abraçar? — solta de


repente, me pegando de surpresa. — Tudo bem se você não quiser
é só que…
— Pode — o corto.

Ashton sorri e não faz isso só com a boca. Ele tem brilho nos
olhos, o que me faz perceber que sua felicidade ao me ver está

transbordando.

É meio desajeitado porque tenho uma muleta e uma tala


impedindo que o contato seja próximo, mas Ashton dá um jeito de

me envolver em seus braços. Ele tem um cheiro cítrico masculino


maravilhoso e fecho os olhos, encostando a testa em seu peito.

Estou aconchegada, envolvida e a sensação de lar está em

toda parte nesse abraço. No modo como Ashton expõe a falta que
sentiu de mim em gotas de lágrimas molhando meu ombro.

Sorrio, mas acho que por dentro, estou querendo chorar

também.

É bom ser amada. Não sinto nem por um minuto que minha
relação com Ashton é em teor amoroso. Toda a coisa é virtuosa,

como quando um irmão abraça a irmã. Sebastian.

Solto a muleta e me agarro a Ashton. Ele não é Sebastian.


Tem mais músculos e são rígidos. Não tem o cheiro familiar de Seb
muito menos a sua altura, mas eu preciso do meu irmão. Mais do

que tenho precisado respirar. Mais do que minha mente precisa se


recordar dos últimos anos. Tudo que eu quero e preciso é do meu

irmão.

Meu corpo convulsiona com o choro estrangulado e soluços


que reprimi durante os dias. Minhas unhas se afundam nas costas
de Ashton e meus dedos se fecham no tecido da camiseta.

O único som que se ouve na sala é o da minha garganta


arranhar. Todo o sentimento ruim que guardei para preservar minha
mãe está saindo através do choro. Se eu tivesse escolha e pudesse,

escolheria não viver isso. Nunca. Nem naquela época, muito menos
agora.

O ar começa a se fechar à minha volta, só então percebo que

os outros garotos sentados – incluindo Bryan – estão ao nosso


redor, em um abraço coletivo. Não me importo de não me recordar
dessas pessoas, me sinto aconchegada e amparada. Sinto que, se

precisar fugir para algum lugar quando meu mundo estiver


desabando, irei até eles sem hesitar. Posso não me lembrar de
ninguém, mas a sensação de estar em casa não muda.

— Bem-vinda de volta — Ashton sussurra no meu ouvido,


apenas aceno que sim com a cabeça. — Porra, obrigado, obrigado
por ter voltado, Delilah.
E ele não é o único a me dizer palavras de conforto. Todos

dizem.

Que bom que você está em casa.

Obrigado por ter voltado.

Estou feliz que você esteja bem.

Bem-vinda ao lar.

Nunca mais nos passe este susto outra vez, cacete.

Provavelmente é a cena mais emocionante que já vivenciei na


minha vida.

Eles são incríveis. Meus amigos que não conhecia.

Cada um achou interessante se apresentar e fazer uma breve

retrospectiva de como nos conhecemos, e de algumas lembranças


que eles têm comigo.

Finn discursou que eu não gosto dele e que é recíproco, mas


que se importa o suficiente para vir até aqui e fazer uma cena.
Todos riram no final, até mesmo eu e não consegui encontrar
nada que me fizesse não gostar dele. Mas não vou tentar me
apegar tanto à personalidade esquisitona de Finn.

Minhas lembranças vão voltar em algum momento e aí vou


entender os motivos que fizeram a Delilah de antes não gostar de
Finnick Taylor.

Ashton e eu temos uma história. Ele confiou coisas a mim que


não tinha feito com mais ninguém. Segundo ele, minha missão é

recuperar minhas memórias porque ele se recusa a passar por todo


o drama de novo.

Jeremy Chase, mas eu tenho que chamá-lo de Chase, Jeremy

é demais para ele. A árvore de Natal montada na sala, fomos nós


dois que fizemos tudo. Chase não mora em Humperville e sim em
Handson Wood, uma cidade que nasceu dentro de um vulcão.
Literalmente, segundo ele.

Bryan já conheço, mas ele disse que nossa última boa


lembrança juntos foi quando me deu um sermão sobre Aidan – que
estranhamente não está aqui agora, mas o nome soa familiar – e
que o ajudei a superar seu luto. Fico feliz ao saber disso, mas me
sinto muito magoada quando o vejo beijando Mackenzie, ignorando
que, na minha mente, nós dois ainda estamos juntos.

Gravity conta que brigamos bastante, mas que estávamos


superando nossos problemas e que para se desculpar por ter sido
babaca comigo, está desenhando várias peças de roupas exclusivas
para mim – ela é estudante de moda – e sorri quando termina de
falar.

Mack e Effy dizem que nossas lembranças juntas não mudam


muito, mas tentam me atualizar de suas vidas.

Effy está saindo com um cara, mas não revela quem é. Mack
conta que atualmente mora com Bryan e pronto, me sinto
estupidamente enciumada com essa história que me dá náuseas.

Então me apresentam à The Reckless. É uma banda onde os


meninos tocam juntos e escuto histórias divertidas sobre os shows
que me esqueci.

Mostram vídeos no YouTube e descubro que não são só bons,


mas eles têm potencial para ser uma banda mundialmente
conhecida. Me sinto orgulhosa de Bryan como nunca estive antes e
envio a ele meu melhor sorriso, porque sua voz é incrível. Na
internet a The Reckless já conquistou seu espaço e tem milhares de
visualizações nos vídeos.

São quase duas da tarde e já escutei histórias para me

abastecer até que as lembranças voltem de uma vez. Gosto da


companhia deles e pergunto se é assim sempre.

— É. Estamos sempre juntos ou tentando, pelo menos —

Bryan explica, e sorrio, colocando a mão em cima da sua coxa.

Por um segundo me esqueço de que não estamos juntos e que


Mack é sua namorada, procuro me afastar o mais rápido que

consigo, mas percebo que é tarde quando ela está nos encarando.
Não quero ser babaca, só que é estranho que estejam juntos.

Bryan pigarreia querendo dissipar a tensão que se instaurou


quando toquei inocentemente sua perna.

— Até onde você se lembra? — Mackenzie pergunta, me


encarando.

Não parece chateada, mas está bem perto de ficar


dependendo da minha resposta.

— Minha última lembrança foi a noite no karaokê, que fomos


juntos com Sebastian.
— Você ainda estava namorando Bryan e Seb estava vivo. —
Mack coloca a mão na cintura e passa a mão pelo cabelo. Bryan a

encara, como se estivesse esperando um atrito. — Você se sente


mal, em relação a nós dois? — Bryan vinca a testa para ela.

— É como se meu namorado tivesse duas namoradas —

revelo.

Não quero mentir para Mackenzie, muito menos esconder


meus sentimentos como se não fossem importantes.

Ela suspira.

— Mackenzie. Minha mãe me contou, mas ainda é uma


novidade pra mim. No meu coração — faço uma pausa, analisando
todo o cenário.

Posso dizer a verdade ou não? Quero ser honesta, mas ao


mesmo tempo, me esforço para não magoar ninguém.

— É como se Bryan ainda estivesse nele — digo, e Mackenzie

fecha os olhos como se tivesse sido atingida no estômago. — Mas


não estou pedindo pra vocês… você sabe. Só preciso de um tempo.

— E sobre Sebastian?

Fico em silêncio.
— Não é como se você estivesse sofrendo por ele. Tem
certeza de que está tudo bem?

Mais silêncio da minha parte e sei que Mackenzie não é a


única curiosa. Todos estão.

Meu choro de horas atrás durou uns quinze minutos e depois

estava agindo normalmente, mas eu sempre fui assim. Não é que


não esteja sofrendo, mas minha ficha ainda não caiu.

Não enterrei Sebastian.

Não participei de um memorial dele, como Effy mencionou.

Para mim é como se Sebastian fosse cruzar aquela porta a


qualquer momento e gritar que é só uma pegadinha. Ele está vivo e
bem.

— Onde é o meu quarto?

— Segunda porta à esquerda — Gravity me explica,


gesticulando a mão para o corredor.

— Certo.

Ashton me entrega a muleta e Chase me ajuda a ficar de pé.

Sigo para onde Gravity indicou e encontro o quarto.

Ele está organizado.


Tem uma foto minha e de Seb na mesa de cabeceira.

Me sento na cama, estudo o teto mofado e a parede cinza


atrás da cama com um varal de bolas com luz amarela brilhando na
parede.

Escuto batidas na porta e Bryan coloca a cabeça para dentro.

— Posso entrar?

Assinto, concordando.

Bryan se acomoda ao meu lado.

— É difícil, eu sei — ele sussurra.

Sua voz rouca continua sexy e atraente. Sempre o achei uma


distração em potencial dos meus problemas e eu o amo. Ou amava,

não sei dizer.

A Dra. Aylin disse que eu tinha um namorado, então as


circunstâncias devem ter mudado.

— Nós não funcionamos como antes, mas ainda amo você


como uma irmã.

— Não está ajudando. Na minha mente estou em 2015, Bryan.

Ele atravessa seu braço por cima dos meus ombros e me


permito encostar a cabeça nele. Estou fragilizada, com saudade do
meu irmão e desesperada por conforto.

— Quero Sebastian de volta. Quero ele de volta, Bryan.

— Sinto muito, Delilah. — Ele acaricia meu braço esquerdo. —

Sinto muito que isso tenha acontecido assim.

— O que aconteceu com ele?

— Sua mãe não quer que a gente entre nesse assunto. É


prejudicial para você, para sua recuperação.

Estou ouvindo isso há três dias.

Não estou preocupada com a minha recuperação, mas


desesperada para entender como voltar para a minha vida.
“Olhos vermelhos, como a fumaça que levantamos

Enquanto a vela está queimando lentamente

Confiei em mim como você quiser

Você está brincando comigo?”

AFTERLIFE – HAILEE STEINFELD

Delilah

A Delilah de dezenove anos tem um gosto musical maravilhoso


e me sinto orgulhosa dela. De verdade. Acho que minha eu de antes

do acidente se transformou na melhor versão que foi possível

depois de todas as adversidades da sua vida.

A saudade do meu irmão gêmeo. Minha convivência com


Thomas, que é tóxico e controlador. A separação dos meus pais. Me

mudar de cidade e deixar todos os meus amigos para trás.


Descubro que sou uma garota que costuma anotar tudo e uma

das recomendações da Dra. Aylin era que eu começasse a escrever


as informações importantes porque meu cérebro está na “marcha

lenta”, se recuperando pouco a pouco.

Tenho vários artigos impressos da internet empilhados na

minha mesa de estudos sobre literatura e parece que a minha eu

jovem adulta adora ler. Tem um exemplar de Júlio Verne em cima da


mesa de cabeceira, mais de cinquenta por cento das páginas já

foram lidas.

Além desse, tenho outros livros enfileirados em uma única


prateleira uns setenta centímetros acima da escrivaninha. Sou

estudiosa. Organizada. Tenho determinação – li alguns textos que


escrevi desde que comecei o curso em setembro – e uma sede

insaciável de justiça. Sou impetuosa, talvez um pouco mandona.

Sei lá, são coisas que o meu eu de catorze anos também é,

mas de um jeito mais grosseiro, um pouco mimada e insegura,

reconheço.

A Delilah que eu era antes do coma não está mais aqui,

embora consiga me imaginar nesse quarto e todo o cenário com

amigos novos, engraçados e acolhedores.


Com certeza não posso voltar a ser aquela garota porque
minhas memórias estão encarceradas em alguma parte do meu

inconsciente e não tenho escolha se não seguir em frente.

Estou sentada na minha cama de solteiro há quatro horas.

Minha perna está formigando e estar estagnada por ter fraturado os

ossos não ajuda em nada, mas quando entrei no modo FBI e passei

a vasculhar cada minúsculo pedaço de papel no quarto, tentando


me lembrar de alguma coisa relevante, encontrei um bloco de Post-it

vermelho.

Pelo jeito, o uso bastante. Já usei mais da metade das folhas e

tenho mais dois pacotes fechados na gaveta.

Começo a escrever em cada folha tudo que estou descobrindo


desde que abri os olhos – Sebastian era canhoto e eu sou

ambidestra, por sorte.

Transfiro toda informação que tenho do meu pai, da minha

mãe e dos meus amigos.

Sebastian morreu, mas ainda não sei do que, tenho a impressão de

que vou ter que descobrir sozinha. As pessoas não querem me


dizer, acham que vão prejudicar minha recuperação ou talvez até

piorar meu estado.

Bryan não é mais o meu namorado.

Ashton é meu melhor amigo. Posso contar com ele para qualquer

coisa (ele disse isso hoje várias vezes).

Não gosto de Finn, mas ainda não sei por quê.

Gravity e eu não somos compatíveis, mas ela é legal e vou me

esforçar para me dar bem com ela.

Em 2017, Mack e Effy organizaram um memorial para Seb.

Eu tenho um namorado, mas não me lembro como ele é ou o nome.

A parede do quarto, em volta da cabeceira da cama, está

saindo do seu cinza monótono para vermelho. Estou pregando os


Post-its nela.

Acho que deveria perguntar a Effy ou Mack sobre o meu

namorado, mas é a mesma sensação que tenho em relação a


Sebastian. Todo mundo acha que são assuntos que eu deveria

saber só quando minha mente estiver pronta.

As batidas na porta param minha mão sobre mais uma folha

de Post-it.

Estou usando uma caixa de sapatos como apoio para escrever


e olho para frente, esperando a pessoa entrar. Gravity atravessa a

soleira, sem se importar.

Ainda bem que já tomei banho e estou vestida. Encontrei uma

calça simples de flanela xadrez, uma mescla de roxo e lilás.

O banho foi complicado. Minha mãe quer me dar espaço para


me encontrar com minha “antiga vida” e tive que me virar, mesmo

que Effy, Mack e Vity tenham me oferecido ajuda, quis fazer


sozinha. Preciso voltar a ser independente, me reconectar.

— Por que você ainda não começou a se arrumar? — Gravity


cruza o quarto e anda para o closet.

A porta dele está escancarada, estava procurando pela caixa

de sapato.
— Como assim? — Arregalo os olhos para Effy, buscando
respostas.

— Véspera de Natal. Em que mundo você está?

Vity resmunga, afasta um cabide do outro, atrás de roupa. A


encaro, ela é um pouco invasiva, o que combina com sua

personalidade brusca.

— Num onde eu acabei de acordar de um coma e não sei nem

o nome do meu namorado — replico, Vity para de mexer no closet e


Effy despenca no pé da minha cama, enquanto estuda meu rosto. —

Eu tenho um namorado, certo? A Dra. Aylin disse que ele me


visitava todos os dias no hospital.

— É. Ele te visitava sim — Effy confirma, e cravo meus olhos


nela.

Se apertá-la um pouco, ela me conta tudo.

— Mas ele é ex-namorado. Você terminou com ele — Vity


continua explicando.

Existe um resquício de rancor na sua voz, mas não é nada

ríspido. É como quando um cara magoa a sua amiga e você assume


a dor dela como se fosse sua.

— No dia do seu acidente — prossegue.


— A sua mãe não quer que a gente fique te enchendo com
essas lembranças. O ideal é que você se lembre de tudo sozinha —
Effy expõe.

É como se estivesse dedurando minha mãe por estar tentando

me proteger do que não deveria.

— Mas eu quero saber — insisto, arqueando a sobrancelha


direita para a ruiva.

— Só pra ficar claro: eu nunca concordei com o plano “vamos

poupar Delilah dos detalhes sórdidos”. Eu acredito que não contar

só dificulta sua situação. As lembranças podem não voltar nunca

mais. — Examino Vity, que voltou à sua busca incansável por


alguma peça de roupa para a véspera.

Tinha me esquecido completamente que é véspera de Natal.


Minha mãe não disse se faríamos alguma coisa, mas se Gravity e

Effy estão aqui na missão de me ajudar com a escolha da roupa, é

porque já definiram um destino.

Na maioria dos anos passo o Natal em casa, com meus pais.

Eles vão dormir antes da meia noite, mas sempre fujo para o quarto

de Sebastian e ficamos assistindo a filmes de Natal até o


amanhecer.
— Qual o nome dele? Do cara que eu terminei? — questiono,

olhando de Effy para Gravity.

— Aidan. Aidan Lynch — Gravity fala sem nem olhar para mim.

— Mas vocês terminaram na noite do acidente e você precisa se


recuperar. Então, por mais que não concorde com esse lance de te

poupar da verdade, é melhor que você espere estar se sentindo

melhor pra conversar com ele.

Escrevo no Post-it: Aidan Lynch. O nome do meu ex-

namorado. E me esforço para ficar de pé e colo o papel embaixo de

onde anotei que tinha um namorado.

— Ah, também tem outro. Brooks Montgomery — Effy

acrescenta, rindo.

— Jesus Cristo, quantos namorados eu tive?

— Contando com Bryan? Três. — Vity ri. — E foram poucos.


Eu já saí com tantos caras que parei de contar.

Seu vestido preto e longo, tem um decote quadrado, mangas

longas e bufantes. Ele é totalmente liso e sem nenhum detalhe


chamativo. A gargantilha prateada que adorna seu colo brilha tanto

quanto os brincos de esfera. Gravity está com um coque e algumas


tiras escuras de cabelo estão caindo em torno do seu rosto,

moldando sua mandíbula.

Effy também já está pronta. Seus cabelos vermelhos estão


maiores do que costumavam ser, as pontas onduladas caem por

cima dos seios. O corpo do vestido que está usando é preto, com

caimento nos ombros. A alça são duas tiras médias e fica justo no
quadril, acentuando sua curva. A saia é estampada com rosas

vermelhas, num fundo preto. Ela também está usando gargantilha e

sorri quando percebe que estou olhando para ela.

— Eu sabia! — Gravity brada, um pouco mais animada que

antes. — Você não tem nenhum vestido. Quero que experimente um

modelo que fiz!

Ela corre meio desajeitada para seu quarto que é quase em

frente ao meu.

— Sobre o Aidan — Effy chama minha atenção. — Ele vai

estar na festa hoje. É na casa do pai dele.

— Espera. — Levanto a mão para pausá-la. — Estou indo para

uma festa na casa do pai do meu ex-namorado? Por que eu faria

uma coisa dessas?


— Porque somos amigos, Delilah. Você não deve se lembrar,

mas Bryan o mencionou hoje mais cedo. Aidan. O baterista da The


Reckless.

— Minha mãe…

— Sua mãe foi convidada. Ela estará lá.

— Nossa, isso é muita loucura. Ele sabe da minha situação?

— Sabe.

— Por que é que ele não me procurou?

Effy dá de ombros.

— No começo achei que ele só estava assustado, quer dizer,

vocês dois tinham um relacionamento quase que perfeito. E aí,

muita coisa aconteceu e vocês terminaram. Você sofreu o acidente


e Aidan se sentiu culpado. Então…

— Acho que vermelho combina com você. — Gravity

interrompe, com a peça dobrada no braço e o estende na minha


frente.

É um vestido vermelho, alças grossas, corte reto rente aos


seios e decote quadrado atrás. O charme da peça com certeza é o

volume da saia, que é bem rodado. Vislumbro o desenho, a cor, até


mesmo as dobras na saia que fazem com que ele fique com

movimento.

Estico a mão para tocá-lo e é um tecido grosso, pesado, não


consigo distinguir qual, mas definitivamente é algo que usaria.

— Acho que vou precisar da ajuda de vocês pra me trocar —


digo, e o sorriso no rosto de ambas é acolhedor.

Estico o braço para pegar a muleta e ficar de pé; Gravity me

ajuda na escolha das joias, faz ajustes no vestido quando me ajuda


a colocá-lo. A tala no braço e a bota ortopédica são um saco.

Effy faz ondas no meu cabelo e fica lindo porque as mechas


claras que tenho ficam divididas ao meio e ganham brilho quando

aplica o spray fixador. A maquiagem leve disfarça a palidez do rosto,

mas não esconde que estive internada por quase um mês.

Tive que optar por uma sapatilha preta. Saltos estão fora de

questão.

Gravity e Effy estão esperando por mim na sala.

Pego uma caneta e peço para Effy escrever na palma da

minha mão: Aidan Lynch. Ela me olha confusa, mas não faz
perguntas.
Não sei porque, tenho a sensação de que Aidan é o único que

estará disposto a dar resposta às minhas perguntas.

Então não posso confiar na minha mente para me lembrar do

nome dele. Preciso estar pronta.

Encontrei uma pulseira no closet, daquelas de berloque.


Resolvi colocá-la porque combina com a cor do meu vestido e o

colar com meu nome em prata. Estou agradecida por ter optado por

usá-la.

Manuseio os pingentes como distração para minhas mãos

ansiosas enquanto caminho pela festa e sou reapresentada para

outras pessoas, que eu conhecia, mas não me lembro mais; Faith,


Trycia, Maeve, Bailey, Willa...

Elas conversam comigo como se o acidente ou o coma não

tivessem existido. Sei que estão se esforçando para fazer com que
eu fique à vontade, não me pressionando a ter minhas últimas

lembranças com elas.


Escuto a conversa rolando entre eles; as garotas que acabei
de conhecer, os caras que estavam me esperando hoje mais cedo

no apartamento – exceto por Chase, que vai passar o Natal com a

família, ouvi Ashton explicar.

Minha mãe está me olhando desde que cheguei. Nós

conversamos um pouco. Perguntou como foi me reencontrar com o


pessoal, mas de novo, ela não mencionou Aidan.

Olho ora ou outra para a palma da minha mão, acho que vou

conseguir guardar o nome dele se continuar com o ritual.

— Ashton? — o chamo, tirando sua atenção da conversa com

o grupo. — Vamos pegar uma bebida pra mim? — Ele vinca a testa
porque me trouxe uma long neck de Budweiser, mas não quis. —

Por favor? — insisto e Ashton entende que quero falar com ele a
sós.

Quando finalmente estamos saindo da roda na sala de Darnell


e vamos para a área externa, começo a mexer outra vez na
pulseira. Ashton fixa os olhos nela, mas não diz nada.

Foi uma surpresa descobrir que o pai de Aidan é Darnell. Não


esperava. Ainda mais depois que liguei os pontos.
Quando foi me buscar no hospital e houve toda aquela cena
hostil dele e minha mãe do lado de fora; o garoto sentado ao meu
lado, evitando cruzar seu olhar com o meu. Estou apostando alto

que meu ex-namorado estava naquele carro.

— Que foi? Está tudo bem? — ele indaga e me analisa como


se eu estivesse prestes a desmaiar. — Está sentindo alguma coisa?

Rio e continuo indo em direção ao bar que foi montado para a

ocasião.

Confesso, é uma senhora cobertura em Alphaville. Até para


mim, que não me lembro de todos os detalhes, sei que é um dos

prédios mais luxuosos da cidade.

— Delilah?

Estou usando um casaco de inverno preto por cima do vestido,


embora esteja meio desconfortável por causa do braço quebrado,

que está de fora da manga, não sinto tanto frio. A área foi coberta
por uma tenda, o único espaço aberto é a piscina.

— Quero qualquer coisa sem álcool e com leite condensado —

informo ao barman.

— Você voltou a ter o paladar de uma criança de dez anos —


Ashton me provoca.
Ele faz muito isso, é como um passatempo, mas no fim, nem
me importo.

— Então, o que está rolando?

— Você disse que é meu melhor amigo.

— Eu sou.

— Quero respostas.

— Quer respostas… — Ashton manipula um sorriso tranquilo e

em seguida o coíbe levando o gargalo da cerveja à boca.

Sigo meu instinto que diz que posso tratá-lo como Effy ou
Mackenzie. Agarro sua garrafa de cerveja e a coloco amparada no

balcão do bar.

— Estou falando sério, Ashton. Sou uma pessoa que acabou


de acordar do coma e não estou querendo ser poupada, quero ser
ouvida. Se coloca no meu lugar, existe um buraco na minha vida e

não sei nada sobre mim mesma desde 2015!

— Tá. Entendi — Ele se rende, erguendo as mãos para cima.


— O que é que você está tão desesperada pra saber?

— Meu irmão.
— Exceto isso. — Ashton aponta o indicador no meu rosto e
reviro os olhos para ele, bufando. — É. Sério. Você nem falava

muito dele comigo.

— Não falava? Você não é meu melhor amigo?

— Até melhores amigos têm segredos. Você falou do

Sebastian, mas não tanto quanto falou com Aidan. — Ele percebe o
que disse tarde demais porque a informação já escapuliu e flagrei.

Fico alguns segundos parada, encarando a musculatura do


seu corpo enrijecer.

Ashton resolve pegar a cerveja e continuar bebendo.

— Foi suicídio — revela de súbito e quando me viro para ele,


está descolando o rótulo da garrafa. — Seu irmão cometeu suicídio.

Sinto muito — acrescenta rapidamente, acho que minha expressão


deve ter expelido desconforto e se antes estava pálida, estou pior.

Viro para o barman.

— Pode adicionar vodca.

Ashton me encara, a apreensão nubla seu rosto.

Sebastian era saudável. Fazia exercícios físicos e amava. Se


alimentava bem, fisicamente não tinha nada de errado com ele.
Mas, internamente, eu sabia que Seb não era mais o mesmo e

quanto mais velhos ficávamos, menos feliz ele parecia.

Estou magoada, mas no fundo do meu coração, é como se já


soubesse.

O barman desliza meu drinque pelo balcão. É rosa, tem um

guarda-chuva em cima e um morango na borda.

Pego o drinque, levo o canudo até a boca e sugo o líquido.


Não é muito forte e, honestamente, adoro a combinação doce com

álcool. Em menos de um minuto, consigo diminuir a bebida pela


metade.

Quando volto para Ashton, ele continua me fitando.

— Você está bem?

— Sim. Acho que preciso ir ao banheiro.

Volto para dentro com Ashton atrás, ele fica parado ao lado da
porta enquanto sigo em busca do banheiro.

Olho para os lados, à procura da saída.

Estou fechando os dedos em volta do copo com minha mão


boa, pensando seriamente em gritar com minha mãe e minhas
amigas, que estão tentando me poupar.
A música que toca não tenho certeza que conheço, talvez
nunca tenha ouvido antes, mas gosto da letra, do som, do ritmo.

Sei que Ashton está me seguindo com os olhos soterrados em

minha nuca.

Avalio meus amigos sentados na sala.

Effy está olhando ao redor quando me vê. Acena para mim e


retribuo forçando um sorriso.

Vou para a direita. Não são tantas pessoas, mas o bastante


para me deixar tonta.

Não conheço metade delas, exceto por Dannya, que foi quem
nos recebeu mais cedo, esposa de Darnell – e descobri ser irmã de

Gravity.

— Delilah? — Paro e giro nos calcanhares, encontro minha


mãe me olhando. Seu vestido elegante azul royal brilha sob a luz

branca da sala expansiva. — Tudo bem, querida?

— Por que não me contou sobre Sebastian? — Meus dedos se


afundam em volta do copo de vidro. Estou tremendo. — Por que não

me disse o que aconteceu com ele? Não importa como eu esteja,


mãe, preciso saber de tudo e se você não me contar, vou encontrar
um jeito de descobrir.
— Delilah…

— Não. Estou me sentindo sufocada! Preciso de espaço. —


Estico a mão ocupada para ilustrar. — Desde que acordei você tenta

me proteger de tudo e eu não acho que seja o que preciso.

— Estou te protegendo. Você vai se lembrar de tudo em algum


momento, Delilah. Por que não espera acontecer?

— Já se imaginou acordar e ter grande parte da sua vida


apagada? Droga, essa música é muito boa e eu nem tenho certeza
se a conheço ou não! — Jogo a cabeça para trás, me sentindo

exausta.

— Te dei tudo que precisava saber.

— Não é suficiente! — Estou ansiosa para gritar, mas não


quero fazer uma cena.

Sorvo o ar com paciência, olho a minha volta e percebo um


corredor mais adiante.

Deve existir um quarto ou um banheiro onde possa me

acalmar.

— A gente se fala depois.

— Delilah.
— A gente se fala depois — reforço e com dificuldade, começo
a me afastar.

Odeio essa tala.

Odeio essa bota ortopédica e essa muleta idiota.

Deixo o copo em um aparador que está todo enfeitado com


cores que lembram o Natal.

As pessoas estão preocupadas com as informações que vou


receber agora que meu cérebro é um problema, mas não estão nem
um pouco interessadas em me perguntar o que acho de ter coisas

sobre mim sendo camufladas com sorrisos e abraços.

Tem duas portas fechadas no corredor e uma escada.

Começo pela porta da direita, quando abro, descubro que é

uma suíte para visitas. Tenho dificuldade para cruzá-la com a


muleta, mas assim que consigo, o faço com rapidez e ando em
direção ao banheiro.

Lá dentro, abro a torneira, umedecendo a mão esquerda e

encharco a nuca. Estou corada nas bochechas e sei que não tem
nada a ver com a maquiagem. É a informação que recebi do Seb

que está me enlouquecendo.

Tombo a cabeça para trás, recuperando o ar.


Aos poucos minha respiração fica leve, a cada inspiração

consigo acalmar meus nervos.

Cinco minutos sozinha e pareço ter colocado a cabeça no


lugar outra vez.

Desligo a água e saio do quarto.

No mesmo instante em que fecho a porta, diante de mim outra


se abre.

Reconheço o rosto quase imediatamente. É ele. Está usando

camisa social, calça preta jeans e a gravata está desfeita, pendendo


em seu pescoço. O cabelo platinado respinga água em seus
ombros, marcando toda a camisa.

Seus olhos azuis fazem uma travessia pelo meu corpo e


traçam meu rosto. Fico quieta, esperando que diga alguma coisa,
mas ele não fala nada. Ele encerra o contato e termina de fechar a

porta. Está se afastando aos poucos e não sei porque tenho a


sensação de que ele me evita.

— Ei. — Ele para, sem se virar para mim. — Você sabe o

nome dessa música? — Com um movimento curto, olha por cima do


ombro.
— Afterlife. Hailee Steinfeld. — Ele passa os dedos anelados
pelo cabelo molhado e volta a andar.

Vou arriscar.

— Aidan?

Quando ele para de andar e volta dois passos atrás, se virando


para mim, é certeiro.

A esperança atravessa seus olhos. Ele quer que me lembre e

sinto um aperto no peito por não conseguir dizer o que quer ouvir.

Nós terminamos. Ele não devia estar esperando por mim por
todo esse tempo.

Viro minha palma esquerda para ele. Seu nome está lá e

percebo seus olhos alternarem entre o escrito em minha mão e a


pulseira que estou usando.

— É você, não é? Aidan Lynch?

Aidan pressiona os lábios até que sumam.

— É.

— A gente namorava.

— Sim.

— Por que parece que você não quer que eu saiba disso?
— Como assim? — Ele volta alguns passos e se encosta na
parede, de frente para mim, cruzando os braços.

Faço o mesmo, mas fico diante dele. É um esforço involuntário

e exaustivo tentar me equilibrar em uma única perna.

— Hoje de manhã, perguntei se a gente se conhecia e você…

— Eu não disse nada. — Joga os ombros com indiferença. —

Nem que sim, nem que não.

— Mas fingiu que não me conhecia. Foi tão ruim assim? Nosso
término?

Ele me escrutina. Seus olhos passam pela minha bota

ortopédica e a tala no braço.

— Parece que foi.

— Isso?

Tento mostrar a perna para ele e acabo me desequilibrando,

mas Aidan corre para o meu lado, garantindo que eu permaneça de


pé.

Suas mãos envolvem meu braço esquerdo e o cheiro de cereja

que senti mais cedo continua ali.


Ele umedece os lábios, me encarando. Gotas de água que

pingam de seu cabelo acabam caindo no meu vestido também.

— Você tentou me matar? — brinco, é uma tentativa de


quebrar a tensão entre nós, mas Aidan não ri, diferente de mim.

— Claro que não, Delilah.

Meu nome na boca dele soa muito bem, preciso admitir, e ele é
lindo, o que aponta que tenho um ótimo gosto.

— Minha mãe te fez prometer que não diria nada.

Não é uma pergunta, está na cara que Aidan não teria parado

de falar comigo se não estivesse sendo induzido a fazê-lo.

Suas mãos ainda estão me tocando por cima do sobretudo.


Queria ter a pele exposta para um teste. Talvez se eu sentisse o seu

toque, quem sabe poderia ser um gatilho para acessar minhas


memórias.

— Você me visitou no hospital mesmo depois de termos

terminado. A médica me contou.

— Visitei.

— Por quê? Nós tínhamos terminado, não é?


Aidan afasta as mãos e mantém o olhar intacto sobre mim. Ele

é mais alto que eu, muitos centímetros e fico inclinando o pescoço


para conseguir olhá-lo direito.

— Só porque você terminou comigo não significa que eu não

me importo com você.

— Uau.

— O quê?

— Namorado clichê adolescente de livro de ficção!

Noto o queixo de Aidan tremer, com vontade de rir e acabo


rindo também, porque foi natural. Fazer piada sobre ele não foi
desconfortável ou estranho, aconteceu.

— Fico feliz que você esteja bem!

E ele está mesmo.

— Precisa de alguma coisa? — indaga, sem me dar brechas


para voltar ao assunto do nosso relacionamento.

Preciso de respostas e você é o único, ao que parece, que eu


confiava para contar tudo.

Dou de ombros.
— Eu te amava? — solto, e de todas as perguntas que tenho,
essa pareceu a mais significativa, afinal, não estou falando só dos
meus sentimentos. Ele também deve estar sentindo alguma coisa e

pode ser tão ruim quanto o que eu sinto.

— Você nunca disse.

— Eu nunca disse que te amava?

Não duvido. Criei uma barreira em volta de mim por causa do


meu pai. Não me surpreende que eu não tenha dito nada, mas se
estava com Aidan, eu sentia algo por ele. Independentemente se
era amor ou não.

— Mas você gostava de mim, tenho certeza.

— Por que nós terminamos?

— É complicado. — Aidan coça a nuca e desvia o rosto.

Ele não quer me contar, pelo menos não ainda. E não pretendo
perguntar o porquê, pois está óbvio que todos se reuniram e
decidiram que seria melhor que quando eu perguntasse, não
dissessem nada que “pudesse piorar meu estado”.

— Menti pra você.

Dirijo minha atenção para ele.


— Que tipo de mentira?

— Do tipo que te fez me odiar.

Mas não sinto nada olhando para ele.

Não o amo.

Não o odeio.

— Meu acidente. Eu saí brava, irritada, transtornada — uso a


mesma palavra que ele — e capotei o carro?

— Sim. É isso que você queria saber?

— O que é que você fez, Aidan? Pra me deixar tão…

— Delilah eu não quero…

— Pode parar. Se não me contar o que aconteceu, é o mesmo


que continuar mentindo pra mim. É o que você quer? Não sei o que
rolou entre a gente, Aidan, ou quão grave foi, mas estou aqui e viva
por um milagre. Então é justo que ao menos um de vocês decida
não me deixar no escuro.

O celular dele toca. É a brecha que precisa para fugir de mim.

Começo a me perguntar se ele e as outras pessoas ao meu

redor são confiáveis, porque estão mentindo para mim sobre tudo e
agindo como se eu não fosse forte para suportar.
Ele olha para a tela por um minuto, volta sua atenção para mim
e decide que a ligação é mais importante.

— Oi. Sim, já cheguei. Uhum. Estou indo. Ok.

— Aidan.

— Sinto muito. Estão esperando por mim pra tocar pros


convidados.

— Espera. — Seguro-o pelo pulso, impedindo-o de ir. —

Vamos conversar de novo, por favor, Aidan. Você me deve. — Estou


apelando pelo lado sensível dele. — Preciso de você. Não faço ideia
do que aconteceu, mas Ashton disse que eu te contava tudo. Você
era o meu porto seguro e eu preciso de você de novo.

Seus olhos vão para meus dedos envolvendo seu pulso,


apertando-o. O toque da minha mão deve mexer com ele porque o
sinto ponderar.

Aidan intercala entre buscar meus olhos e estudar meus dedos


finos abraçando seu pulso.

— Não me diz não.

Ele suspira.

— A gente conversa. Depois — acrescenta, se soltando do


meu aperto.
— Depois? Quando?

Ele não responde. Aidan me dá as costas e sai.

Assisto-o se afastar, as costas largas e o corpo esguio

atravessando a sala, em direção aos seus amigos.

Jogo a cabeça para trás, sentindo o peso que é voltar dos


mortos e ter uma família, amigos e relacionamentos tão

complicados.

Mesmo depois de tudo que aconteceu com Sebastian e meu


pai, a Delilah de antes continuou escolhendo caminhos destinados

ao desastre para percorrer.


Eu preciso de você. Se Delilah se lembrasse de tudo, saberia

que esse é o caminho certo para me abalar. É engraçado como

mesmo inconsciente do que está fazendo, consegue obter o que


quer de mim.

Na última vez em que me olhou nos olhos, Delilah me chamou


de jogador e julgou nosso relacionamento como se eu fosse capaz

de magoá-la intencionalmente.

É ao contrário. Ela tem o poder nas mãos e eu ter hesitado,


por um mísero segundo, tornou tudo claro. Agora ela sabe que
independentemente do que tenha acontecido, ainda gosto dela.

Não que seja ruim. Quero mais do que tudo poder abrir o jogo

com Delilah, mas minha conversa com Maya naquela noite não

terminou como imaginei.

Nós começamos bem, achei que estivéssemos chegando a um


lugar que fosse bom para ela e para mim, mas no fim, precisei

ceder.

Maya não se importa se Delilah quiser voltar comigo, contanto

que eu concorde em não forçá-la a se lembrar do que nos levou a


terminar. Muito menos do que a trouxe de volta a Humperville.

Se Bryan não tivesse me ligado e Delilah insistisse por mais

dois minutos, teria quebrado a minha promessa à Maya. Sei que

não sou o único nesse barco. Os outros também estão se


esforçando para manter a boca fechada, em prol de tornar o retorno

de Delilah mais fácil, porém, sinto que ela não está gostando nem

um pouco disso.

Vejo meu pai em uma conversa com Dannya e dois amigos;

preciso admitir que fiquei feliz por ele ter me convidado para ir

buscá-las no hospital. Embora Maya não tenha gostado nem um


pouco de ter me visto lá.

Me forço a andar em direção à The Reckless sem olhar por


cima do ombro para ter certeza que tê-la deixado para trás não a

magoou ou me fez parecer um idiota.

Bryan e Ashton estão me encarando do sofá.

Não preciso que digam nada, entendo que querem saber o que
teria acontecido se Bryan não tivesse nos interrompido. Eles

compreendem que de todos nós, eu sou a da linha frágil entre

Delilah e a verdade. Sou o único que pode ferrar tudo e quebrar a

promessa que fizemos a mãe dela.


Me acomodo entre Mackenzie e Ashton, estico as pernas e
pendo a cabeça para trás.

Está nevando e o termostato aponta que estamos abaixo de

zero, mas estou com muito calor aqui dentro.

Um canto na sala fora reservado para a banda; nossos

instrumentos estão lá.

Não é um show como estamos acostumados a fazer. É casual

e acústico, sinceramente, minha forma favorita de me apresentar,

porque as pessoas conseguem reconhecer nosso talento sem a

necessidade do barulho vibrante da bateria – não que eu não goste

– e toda a loucura com o grito do clube de fãs que a The Reckless

vem conquistando.

Finnick também olha para mim quando termino de me

acomodar no sofá.

Sua namorada, Brianna, a personificação de beleza e poder,

que flui confiança pelos poros, me encara também.

O vestido acentua suas curvas e o batom vermelho harmoniza

com sua pele e postura, evidenciando o seu poder.

A última vez em que nos vimos, estava com os cabelos presos,

hoje estão soltos e cacheados, emoldurando o rosto oval.


Finn sorri mais e fica mais relaxado quando estão juntos. É

como um ponto de paz em meio ao caos da sua vida.

— Que foi? — solto para eles, encarando a todos na roda.

— Você disse alguma coisa? — é Effy quem me questiona,


sentada do outro lado, em uma poltrona.

— Não.

Uma sequência de suspiros ovaciona a roda e fico boquiaberto


em como eles estão tranquilos em não dizer nada para Delilah

quando ela é tão tenaz nos argumentos.

— É melhor que ela se lembre sozinha, cara. — Ashton usa

um tom ameno para tentar me confortar.

Nem parece que mês passado estava prestes a quebrar meus


dentes por causa de Delilah.

— Você contou pra ela do Sebastian. — Gravity se remexe na


outra poltrona ao lado de Effy, fingindo tirar uma cutícula solta do

polegar. — Como pode pensar em julgar alguém sendo que foi o


primeiro a abrir o bico?

Eles estão brigando de novo. No começo todos estavam se

suportando por causa de Delilah e a rotina de brigas e implicância


diminuiu gradativamente.
Não brigam como antes, mas sempre encontram uma brecha

ou uma desculpa para se alfinetarem.

— O que eu poderia fazer? Ela me encurralou. — Ashton


engole o resto da cerveja e deixa a garrafa no apoio de copo sobre

a mesa de centro. — Fiquei sem escapatória! É um inferno ter que


fingir que não sei de nada!

— Você passou a responsabilidade pra mim — rebato. —


Disse a ela que eu sabia de tudo.

— Porque é verdade — Mack o defende. Viro para encará-la e

suas sobrancelhas se arqueiam. — De todos nós, você foi o único


que conseguiu falar com Delilah sobre o passado, presente e os
planos que ela tinha pro futuro. Mas…

— Nós combinamos de não dizer nada — Faith, que nem é tão

próxima assim de Delilah, diz tranquilamente. Ela estica a mão para


frente, analisando as unhas pintadas de azul escuro. — Essa

discussão cansativa de novo?

— Sim, essa discussão cansativa de novo — Maeve intervém,

bufando. — Olha, nós — Ela aponta de si para Faith, Bailey, Trycia e


minha irmã. — Não estávamos tão próximas para saber o que

aconteceu, mas quando nos pediram para não mencionar nada


sobre Delilah, a gente concordou. Vamos seguir com o plano de
deixá-la confortável e as memórias vão voltar naturalmente.

A questão é: elas vão voltar?

Existe uma probabilidade de Delilah nunca mais se lembrar de


nada, então ela teria sorte, mas talvez eu nunca pudesse tê-la de

volta.

Mackenzie desabafou comigo mais cedo, disse que para

Delilah, ela e Bryan ainda estavam juntos num relacionamento e até


a forma como olha para ele está diferente.

Ela realmente acha que o ama.

Doeu pra cacete ouvir isso, mas serei paciente e terei


esperança. Vou confiar que em um momento ou outro Delilah voltará

ao que era.

— Você está com cara de quem precisa de uma cerveja. —


Trycia se levanta de onde está e caminha até mim, estendendo uma
long neck.

Aceito. Ela me envia uma piscadela sob os cílios extensos e

bebo um gole longo.

Rastreio a sala larga da cobertura do meu pai, à procura dela.


Não demoro muito para encontrá-la. Está conversando com Brooks
e eu nem sabia que ele tinha sido convidado.

Volto a beber, uma bicada atrás da outra, cada vez mais

intensa para poder empurrar o nó da minha garganta.

Não devia me importar, mas é como se todas as fases de


insegurança do começo do meu relacionamento com Delilah

estivessem à tona outra vez, porém, ela não sente absolutamente


nada por mim para refrear qualquer sentimento que possa vir a ter

por Brooks.

É um misto de medo, ciúme e culpa em um único lugar,

fazendo caos.

— Vamos tocar alguma coisa. — Ashton se levanta, ajustando

a camisa social e o colarinho. — É Natal, afinal de contas, e a nossa

amiga está de volta. Estamos nos sentindo lixos por não contar
nada a ela? Estamos. Mas nós concordamos que isso seria o

melhor!

Termino de beber minha cerveja e seguimos para o canto da


sala, onde improvisamos um palco com caixotes e os cobrimos com

um carpete de veludo.

Nosso repertório não mudou muito dos shows, mas

acrescentamos uma música ou outra.


Assumo meu lugar no cajón, Ashton no contrabaixo e Finn na

guitarra.

Bryan passa a correia do violão pelo ombro, sentando-se em

um banco alto. Ajusta o pedestal para que o microfone fique a uma


altura confortável para ele.

As garotas se aglomeram diante de nós, o que chama a

atenção dos convidados.

Em festas assim, sabemos que precisamos adaptar o

repertório para o público e a The Reckless não se importa em fugir


um pouco do estilo para agradar.

Meu pai está cercado de pessoas ricas e de influência, que

são importantes para ele e os negócios, então pensamos que


poderíamos nos adequar para todos os gostos.

Bryan dedilha uma introdução no violão e nós levamos menos


de dois segundos para perceber qual música é.

Olho para frente, analiso os rostos que estão próximos. Delilah

tenta ficar mais perto. Mackenzie e Brooks a ajudam a caminhar até


aqui e quando nossos olhos se encontram, é o momento em que

Bryan começa a cantar Talking To The Moon.


— I know you’re somewhere out there, somewhere far away. I

want you back, I want you back…

[1]
— Bryan canta, o som da sua voz rouca preenche a sala.

Ele está de olhos fechados, mas consigo ver com clareza

como Delilah fica surpresa ao ouvi-lo cantar. E não só ela, os


amigos do meu pai também estão espantados com o talento dele.

Torço para Delilah olhar para mim outra vez. Ela é a única de

quem quero e preciso da atenção, mas, infelizmente, seus olhos


estão presos em Bryan.

Uma mescla de surpresa e felicidade estão alterando a


musculatura de seu rosto.

Dói pra caralho ver que esse brilho em seus olhos não tem

nada a ver com a lembrança do que nós fomos, mas de tudo que se
lembra do que viveu com Bryan.

— My neighbors think I’m crazy, but they don’t understand.

You’re all I had, you’re all I had… [2]

— At night when the stars light up my room, I sit by myself…[3]

Os instrumentos se amplificam à medida que Bryan se

aproxima do refrão.
A sincronia do cajón, guitarra e contrabaixo atrai para nós mais

atenção.

Delilah, principalmente, passa a olhar para cada um com mais

cuidado. Quando chega até mim, ela para, me fitando. Um sorriso


tranquilo desenha a linha de sua boca e um calafrio sobe minha

espinha.

A onda frenética de prazer vara meu peito em uma cadência


absurda.

A porra de um único sorriso e estou entregue. Acho que estou


errado, ela não faz a mínima ideia do que é capaz de fazer comigo.

— Talking to the moon, tryna get to you in hopes you’re on the

other side, talking to me too or am I a fool who sits alone, talking to


the moon? Oh, oh…

A primeira vez que disse que a amava estávamos ensaiando


no porão de Ashton.

Delilah estava transmitindo o ensaio ao vivo e nunca soube se

ela conseguiu ler meus lábios, entender o que quis dizer, mesmo
assim, arrisco articular para ela: conversando com a lua, tento

chegar até você na esperança de que você esteja do outro


conversando comigo também ou eu sou um tolo que fica sentado

sozinho, conversando com a lua?

Sua respiração fica mais pesada e se apoia em Gravity. O


fulgor em seus olhos quase me obriga a parar de tocar, quero correr

e ampará-la.

Acho que Delilah foi atingida por uma lembrança profunda pelo

modo como os olhos lacrimejam enquanto me encara e mantenho a

atenção nela, aguentando firme para não ser impulsivo.

Estou prestes a cessar o compasso para ir até lá quando

Gravity a abraça e a acolhe.

No fundo, me sinto aquecido e grato. Às vezes me esqueço

que Delilah não tem só a mim tentando protegê-la.

Apesar de todos os desentendimentos que Vity já teve comigo


ou com Delilah, ela não recusaria apoio a ninguém.

O queixo de Delilah treme ao se esforçar para sorrir. É sua


maneira de agradecer sem ter que expor seus sentimentos.

Ela pode ter se esquecido de mim e todos os últimos cinco

anos de sua vida, mas Delilah continua sendo a garota forte que
conheci e por quem me apaixonei.
Uma discussão começou há dez minutos entre Ashton e

Gravity. É exaustivo para caralho ser testemunha de todas as brigas

deles e não ter firmeza para obrigá-los a se entenderem.

Ashton e Gravity são o que chamamos de campo minado e

nós estamos no meio do fogo cruzado tentando sobreviver. Antes


não brigavam tanto, mas para ser justo os dois só coexistiam, sem

interação.

Estamos reunidos em um círculo. Tocamos umas dez músicas,


comemos, esperamos o relógio virar para comemorar o dia 25 de

dezembro e todos os convidados do meu pai dissiparam

gradativamente até que fôssemos só nós outra vez.

— Tá. Se você acha — Gravity termina a briga.

Nem sei pelo que estão discutindo dessa vez, mas parece ser
assunto que só Gravity teria argumento o bastante para defender.

— Você só está irritada porque estou usando um modelo que


Nicola indicou e não um que você desenhou — ele insiste e Finnick

começa a rir, escondendo o nariz no pescoço de Brianna. — Para

de se irritar por nada.


— Não estou irritada por nada. Só estou dizendo que…

— Já chega, vocês dois. Estamos cansados disso — Effy

interfere antes que a briga deles se torne um espetáculo.

— Tudo bem. — Gravity se rende, estendendo as mãos para

cima.

Joga o corpo para trás, cedendo todo o seu peso contra o

encosto do sofá.

— Nós devíamos ir embora. Todo mundo já foi.

Percorro os olhos pela sala vazia do apartamento.

Refreio minha varredura pelo ambiente em Delilah. Ela está

sentada na ponta do sofá para facilitar seu acesso à mesa de apoio

que fica ao lado. Tem uma tigela de queijo picado e um drinque de


morango pela metade.

Seus dedos da mão esquerda envolvem o canudo da bebida,


ela o roda no fundo do copo, brincando com o gelo e os pedacinhos

de morango.

— Por que vocês não tocam mais algumas músicas? — Trycia


sugere.

Mudo o foco para ela, que está sentada ao chão, a cabeça

caída para trás, ao lado da perna imobilizada de Delilah.


— Melhor não. Darnell e Dannya já foram dormir. — Bryan
observa, fitando o corredor para onde seguiram uma hora atrás.

— É tedioso não ter nada pra fazer — Willa reclama, bufando.

— Eu disse, vamos embora. — Gravity começa a se levantar,

mas a mão de Mack a puxa de volta para o sofá.

— Não quero ir embora ainda — grunhe para Gravity e Bryan


contorna a cintura da namorada com o braço. — Querem jogar

alguma coisa?

Delilah levanta os olhos para Mack, que sorri sugestiva.

— Ninguém está no clima — Ashton rebate a ideia, o que faz


os ombros de Mackenzie cederem ao desânimo.

— Ei, o que vamos fazer no Ano Novo?

Nos últimos anos passei a virada do ano com a The Reckless.


Se tornou uma tradição.

— Não sei, Effy — Ashton responde, nem um pouco

interessado.

— Já que estamos sem fazer absolutamente nada, devíamos


decidir. Que tal uma viagem? — Willa propõe e seu corpo expõe

toda a empolgação com a ideia.


— Maya tinha dito que iríamos nos reunir em Dashdown —
Bryan explica, noto como olha para Delilah em busca de atenção.

Desde Talking To The Moon ela está distraída e quieta.

— Delilah? — Bryan chama, mas ela continua em transe.

— Delilah? — Effy repete.

Delilah se assusta e olha para Effy. Ambas se encaram por


segundos até que Delilah volta a si.

— Que foi?

— Estávamos falando sobre o Ano Novo — Gravity diz.

— E disse que Maya falou sobre voltarmos a Dashdown para o


Ano Novo — Bryan acrescenta, encarando-a com ar de curiosidade.

— Minha mãe disse isso? — Delilah sussurra, fitando-o. Ele


assente. — Bom, então não vou.

Um ato de rebeldia, claro.

Bryan ri.

— Sua mãe não vai gostar disso.

— Minha mãe tem dificultado várias coisas para mim

ultimamente, não faz mal se eu quiser me afastar um pouco.


— Tenta ser mais compreensiva — Mack lhe envia um sorriso
de conforto —, ela passou por muita coisa achando que iria perder

você no último mês.

— Claro, estou sendo compreensiva com ela!

Delilah está irritada e, pelo que li, é muito comum depois de se

acordar do coma.

Naturalmente ela não perde a paciência com facilidade, mas


se pudesse, atacaria Mackenzie com palavras duras, dá para
perceber como repudia a compreensão que Mack tem com Maya.

— Mas ela não está sendo nem um pouco compreensiva


comigo. O que decidirem fazer no Ano Novo, eu topo — finaliza, se
estica para alcançar a muleta recostada atrás do sofá. — Aidan —

ela me chama e fico parado, esperando —, me leva pra casa?

Levo um tempo para processar o que acabou de me pedir.

Mudo o foco de Delilah para Bryan, de Bryan para Ashton e

volto para Effy, em seguida para Gravity, só para ter certeza de que
não fui o único pego de surpresa.

— Você me leva ou não? — indaga, já se apoiando na muleta


sob o braço.

— Hum, claro. Sem problema.


Eu queria ter enchido a cara essa noite, mas estou agradecido

por não ter cedido a vontade de álcool.

— Até amanhã — me despeço deles.

Fico parado ao lado dela. Não sei se ofereço um braço para se


apoiar ou se vai achar toda a cordialidade um saco.

Ignoro todo o pensamento negativo sobre o assunto e mesmo


que seu olhar me puna e nossos amigos também, levo uma mão ao
seu quadril para sustentar seu corpo, guiando-a em direção à porta.

Sinto que amanhã no ensaio serei alvo de perguntas.

Criei uma playlist um tempo atrás, com músicas que são as


favoritas de Delilah.

Demons, de Imagine Dragons, corta o silêncio no carro.

Me sinto desconfortável na mesma proporção em que adoro


poder ouvi-la respirar. Toda vez que descanso a mão no câmbio,

espero que Delilah entrelace os meus dedos como costumava fazer


enquanto me assistia dirigir – e ela amava.
Qualquer toque inocente, não intencionado, é melhor do que
não senti-la de jeito nenhum.

Ter colocado a mão nela para escoltá-la pelo prédio foi o mais

próximo que estive de tocá-la.

Tem muitas coisas que quero perguntar, mas é óbvio que ela
me puxou para uma armadilha.

Delilah só está interessada em descobrir sobre os últimos

anos, nada além disso é importante. Não estou a julgando por isso,
no seu lugar, acho que também iria querer me conectar com a
pessoa que eu era antes de estar entre a vida e a morte.

Estaciono a BMW em frente ao seu prédio. Delilah aprecia a


neve caindo no para-brisa, sua postura orgulhosa não revela nada e
preciso me contentar em estudá-la enquanto a voz de Dan Reynolds

repercute entre nós.

— Gostei da playlist — comenta e de esguelha observo o


canto de sua boca se esticando num sorriso. — Quando eu comprar

um celular novo, me envia ela.

Me pergunto se é o momento ideal para pegar a sacola no


banco de trás e dar a ela. Espero que diga mais alguma coisa, mas

volta a ficar calada.


Então me estico entre os bancos dianteiros para alcançar a
alça da embalagem. Coloco-a no colo de Delilah.

Ela me examina por um tempo e abre uma brecha no papelão

da sacola para descobrir o que tem dentro. Afunda a mão e retira a


caixa do iPhone na mão.

Falling de Harry Styles começa a tocar.

— Feliz Natal. — Forço um sorriso.

Me imaginei em um cenário quase parecido, também no Natal.

Delilah e eu ainda estaríamos juntos, passaríamos em família,


fosse em Humperville ou em Dashdown, não importa, estaria com

ela.

— É um celular — conclui ela, girando a caixa na mão. — Já


estão no iPhone 12? — Ri, balançando a cabeça. — Posso dizer

que não vou aceitar, mas, na verdade, estou precisando muito de


um celular novo… Posso te pagar depois.

Minha risada se estende. É uma gargalhada e tento engoli-la,

mas não consigo, porque é uma conversa familiar.

Delilah bateu no meu carro e fizemos um acordo: ela


trabalharia no Anarchy até pagar a dívida.

— Que foi?
— Só me lembrei de uma coisa!

— Ótimo. Estou precisando me lembrar de algumas coisas! —

Delilah tenta endireitar o corpo para ficar de frente para mim, mas a
tala e a bota impedem, então, eu quem me movo para ficar de frente
para ela. — Me conta.

— Você bateu no meu carro meses atrás e trabalhou um


tempo no Anarchy. — Ela vinca a testa, expondo a confusão, então
explico: — É um clube do meu pai que eu gerenciava na época.

Você topou trabalhar lá para pagar o conserto da Diamond.

— Diamond?

— A BMW.

— Seu carro tem um nome? — Arqueia uma sobrancelha.

Assim como a primeira vez, ela faz parecer ridículo que meu carro
tenha nome. — Nossa, você é mesmo um playboyzinho.

Tudo nela é extremamente familiar e eu só queria compartilhar

isso com ela.

— Assim você me ofende.

— Tenho certeza de que não é a primeira vez que te chamo


assim.

— Não é mesmo.
— Certo, então significa que não mudou tanta coisa assim.

— Mudou tudo — confesso, não sou capaz de continuar


olhando para ela. — Não estamos mais juntos. Você não se lembra
de porra nenhuma que aconteceu entre nós e eu estou tentando não

pirar com isso.

— Desculpa, Aidan.

Volto para ela.

— Pelo quê?

— Por ter me esquecido que você era importante pra mim.

Não consigo sufocar o suspiro e o deixo vir à tona. É um


símbolo para a minha decepção.

Give Me Love inicia e aproveito o primeiro trecho da música

para me manter em silêncio.

— Você não precisa se desculpar, Delilah. A culpa do que


aconteceu não é sua.

— E o que foi que aconteceu?

— Você se lembrou de alguma coisa enquanto Bryan cantava


Talking To The Moon? — ignoro a pergunta dela, Delilah arfa em
frustração, mas não parece ficar chateada com minha mudança
repentina de assunto.

— Não foi uma visão bonita. — Delilah foge com os olhos para

o outro lado. Quero segurar seu queixo e forçá-la a olhar para mim,
mas enredo os dedos em cima do colo. — Eu… vi Sebastian. Ele
estava no banheiro, jogado no chão. O segurei, chamei por ele, tudo

estava acontecendo tão rápido. E me lembro que Talking To The


Moon era uma música que cantávamos um para o outro. Não
importa de que lado do mundo ele está, ele sempre iria me ouvir.

Sebastian queria viajar pelo mundo e eu só precisava de paz.

— Você estava feliz antes do acidente. O que você viu hoje,


todas as pessoas, é tudo que você tem de mais precioso e você

ama cada uma delas.

— Amava, não tenho dúvida.

Tento sorrir para disfarçar a aflição. Ela se refere a nós no


passado, como se não fôssemos mais parte da sua vida. Entretanto,

ainda estamos nos esforçando para mantê-la nas nossas.

— Suas memórias vão voltar aos poucos.

— Você quer que elas voltem?

— Que conversa é essa? É claro que eu quero.


— Porque tenho a sensação de que quando eu me lembrar de
você, isso — ela gesticula pelo espaço vago entre nossos corpos —

vai acabar de uma vez por todas. Depois de ter tido um flash, estou
na dúvida se quero que você me conte ou se prefiro lembrar aos
poucos. Doeu pra caramba ver o meu irmão daquele jeito —

confidencia, a voz se embaraça com o choro. — O que você


prefere? Me contar ou esperar que tudo volte de uma vez?

— Maya me fez prometer.

— Você não parece ser um cara que quebra promessas. —

Delilah esboça um sorriso triste.

É quase sufocante vê-la desse jeito, num impasse. Ela quer


saber toda a verdade, mas depois de experimentar uma de suas

lembranças, não tem certeza se quer ter acesso completo a elas.

Pode ser uma destruição total ou acontecer aos poucos, mas


dos dois jeitos, ela vai sentir. É uma escolha difícil.

— Não sou.

— Parece que você ainda me ama. — Não é uma pergunta,


Delilah está arriscando um palpite.

Posso mentir, mas deve estar na cara que não funcionaria com

ela.
— É porque eu amo.

É melhor abrir o jogo. Esperei quase um mês para poder falar

com ela outra vez e a cada oportunidade que tiver de mostrar que
ainda estou apaixonado por ela, vou aproveitar. Não vou fingir que
não sou afetado pela sua presença. Estava tentando me manter

distante, respeitando Maya e cumprindo a promessa que fiz.

— Você não tentou nem disfarçar — Delilah ri, olhando para o


lado.

Posso garantir que suas bochechas estão coradas.

— Mas estava me evitando antes.

— Estava respeitando seu tempo, mas você quem cruzou a


linha.

— Você é muito direto.

— Não costumava ser. Foi você quem começou com essa


transparência, pra começo de conversa. — É minha vez de sorrir. —

Sempre dando em cima de mim.

— O quê? Eu?

— É. Você — brinco, gesticulando com o queixo para ela. —


Você sempre dava um jeito de colocar as mãos em mim!
— Como era nosso relacionamento?

— Achei que você quisesse esperar as memórias voltarem.

— É, mas fiquei curiosa. Pelo jeito eu era uma namorada


insaciável.

— É, por aí.

— O que mais?

— Nós moramos juntos por um tempo.

— Jura? Fui tão fraca assim?

— Me deixe explicar.

Nós rimos de novo.

Você percebe que houve um encontro de almas quando tudo


rola de um jeito natural. Com Delilah sempre foi assim.

Independentemente dos nossos interesses pessoais, a rixa

entre nossos pais e todo o drama da nossa adolescência nos


assombrando, quando estávamos juntos, tudo se resumia a nós
dois.

Nos fechávamos no nosso mundo e era perfeito para nós

daquele jeito.
Porém, sabemos que ignorar os problemas que nos rondam é
o caminho mais rápido para o desastre.

Não sei dizer quanto tempo ficamos conversando.

Deixo de lado o começo conturbado do nosso relacionamento;


todo o constrangimento com Mackenzie e Bryan.

Só conto a Delilah como foi que acabamos juntos e fico


esperando que tenha um lapso de memória a qualquer momento,
mas ela está entretida rindo de algumas coisas, como, por exemplo,
a maneira como a pedi em namoro.

Conto que fui eu quem dei a pulseira que está usando, mas
não explico o que cada pingente significa. Delilah diz que a amou no
momento em que a encontrou.

Sua risada traz conforto para o meu coração e todo o


sentimento ruim do início desta noite são encobertos.

Estou feliz que ela esteja bem e se esforçando para voltar à

vida. Não importa que nós dois não continuemos de onde paramos,
ela está bem e isso é tudo.

— Você é mesmo muito cafona, Aidan. — Delilah esfrega os

olhos maquiados e acaba borrando o rímel. — Ah, merda… —


murmura, tentando consertar o estrago, mas só piora.
Dou uma olhada nela, as pálpebras e abaixo dos olhos
assumiram a tonalidade escura do delineador.

Inclino-me em direção ao porta-luvas, sei que ela estocava


lenços umedecidos ali.

Quando abro a porta, encontro o pacote.

— Por que você carrega lenços umedecidos no porta-luvas?

— Eu não carrego. Você quem levava pra todo lugar.

Tiro dois lenços da embalagem e a chamo com o indicador,

para ajudá-la.

— E não me pergunta porquê, a não ser que queira ficar


constrangida.

— Nossa, eu era mesmo uma safada! — Delilah ri, sacudindo


a cabeça.

— Sossega — brinco, passando de leve o lenço em torno dos


olhos.

A ponta do meu dedo, que toca sua bochecha quente, formiga.


A onda estática que percorre meu corpo em seguida precisa ser
controlada, então me concentro em limpar sua pele, ignorando a
sensação familiar.
Delilah fica parada, nossas vozes emudecidas me lembram da
playlist rolando no carro; Hard To Say Goodbye parece soar tão alto
que silencia até meus pensamentos.

Delilah toca as costas da minha mão de leve, seus dedos


passeiam pelas veias saltadas do dorso e deslizam em direção ao
punho.

Estou arrepiado na espinha e cabelos da nuca.

Seus olhos cinzas estão soturnos. Se não a conhecesse diria


que não é nada de mais, mas decorei cada expressão sua e sei que

está com medo do que sente quando a toco.

Quero tranquilizá-la e dizer que tudo bem, conheço essa


sensação. Sei de cor cada efeito que causamos um ao outro.

— Vou ser egoísta agora — faço uma bola com o lenço e o


jogo no assoalho, perto do seu pé.

Descanso a mão em sua perna e fixo meus olhos nela

— Mas foda-se, não tenho nada a perder. — Umedeço os


lábios, fazendo uma pausa. — Se apaixone por mim de novo,

Delilah.
— É um pedido delicado, Aidan — murmura, sua mão

esquerda passeia pelo meu punho gentilmente; os dedos fazem

uma travessia sútil pelos anéis.

Prendo o fôlego, hipnotizado por ela.

Nothing’s Gonna Hurt You Baby está tocando quando imponho


força em sua coxa, meus dedos envolvem sua carne sem restrição.

Ela esfrega os lábios um no outro, acho que está evitando


sorrir.

Preciso munir meu corpo com autocontrole para resistir me


inclinar e beijá-la.

Será que eu poderia?

O questionamento ecoa no fundo da minha mente. Estou a

menos de dez centímetros dos seus lábios. Basta uma olhadela de


autorização e vou cruzar a linha.

— É um pedido sincero — respondo com autoconfiança.

Faço carinho em sua coxa, evitando a barra de seu vestido.


— Quero que me ame de novo. E se você me olhar nos olhos

e disser que quer se lembrar de nós, vou me esforçar pra te trazer


de volta.

— Você sempre foi assim? — ela sussurra.

— Assim?

— De me deixar sem palavras?

Suprimo a risada.

— Foi por isso que você se apaixonou por mim.

Ela contorna os lábios com a língua. A ação não parece uma

insinuação, mas estou inclinado a pender para o lado que diz que
sim, que é um convite para exilar a distância e colar nossas bocas.

Delilah não está recuando, não dá sinais de que pretende se

afastar e eu muito menos.

— Quero te beijar.

— Uhum — rumoreja, fechando de leve os olhos.

É um convite.

Uma confirmação.

E vou ao seu encontro.


Seus lábios estão firmes quando a toco. É como se ela tivesse
voltado ao primeiro beijo e não sabe o que fazer. Se deve abrir os

lábios, seguir o clima ou me deixar comandá-la. Estou na mesma,

porque não sei se posso mover a mão rente à barra de seu vestido

ou se apenas penetro sua boca com a língua. Mas sigo o fluxo,

devagar.

Peço permissão, separando seus lábios com a língua.


Direciono minha mão para seu pescoço, acomodando-a em sua

nuca.

Delilah curva a cabeça para o lado, a língua doce se encontra

com a minha e se movimenta sem pressa, em uma dança sensível.

É um campo nunca habitado por essa nova Delilah.

Ela morde e suga meu lábio inferior, se remexendo sob meu

toque. Seu corpo expele urgência predatória conforme o beijo

intensifica. Ela projeta o quadril para frente, minha mão esquerda

escorrega alguns centímetros com o movimento inusitado, quase

alcanço a extremidade de sua calcinha e arfo contra sua boca.

Eu a beijo com iminência, esguichando a falta que senti dela

ao me aprofundar nesse beijo.


Afundo a ponta dos dedos da mão direita na carne de sua

nuca, fazendo-a estremecer, grunhindo e correspondendo à


necessidade.

Ela para de se mover, de repente descolando nossos lábios.

Sua testa cai sobre a minha e me encara sob a fresta de suas


pestanas.

— Essa música — Delilah sibila, só então dou atenção para o

que está tocando no fundo de nossas respirações pesadas.

Movo a cabeça, me afastando dela e vejo o nome na tela da


multimídia.

Arcade, de Duncan Laurence.

Engolindo em seco, Delilah coloca distância entre nós.

Essa maldita música.

Levo minha mão em direção à tela e desligo o som.

— Você se lembrou de alguma coisa? — murmuro, encarando-

a.

— Não. É só uma sensação.

Delilah tira minhas mãos dela. De sua coxa, de seu pescoço.


Ela lambe os lábios e se encolhe. É como se fosse um animal

indefeso e assustado.

A sensação a seguir é esmagadora, porque a garota que amo


está dando sinais claros de que está com medo de mim e é a última

coisa que espero depois de beijá-la.

— Obrigada pela carona.

— Delilah.

Noto que está procurando uma saída do carro cegamente.

Seus dedos da mão esquerda tateiam a extremidade da porta em


busca de fuga.

— Delilah, espera — grito assim que consegue saltar do carro.

Minha primeira reação é segui-la para fora. Está frio pra cacete
e não tenho nem chance de pegar o agasalho no banco de trás.

Ela não é tão rápida, entretanto. Por causa da perna.

— Pega minha muleta, por favor — o pedido soa como súplica.

— Eu fiz alguma coisa errada?

Envolvo seu pulso, puxando-a para perto.

— Tudo parece errado para mim — confessa, uma máscara de


tristeza cobre seus olhos, o que me faz recuar imediatamente. —
Você. Eu. Meus amigos. Tudo está errado, fora do lugar. E você está
dificultando as coisas.

— Eu pensei que tudo bem se eu te beijasse! Pensei que


quisesse!

— Sim, eu também. — Ela se encolhe, escondendo-se do ar

gélido da temperatura em queda. — Aidan, por favor. Pega minha


muleta. — Se escora no carro, contraída dentro do casaco de
inverno.

Faço o que me pede.

Abro o porta-malas, pego seu apoio e o entrego para ela.

Tenho a intenção de acompanhá-la até o apartamento, quando


para entre os degraus e a calçada do prédio.

— Não precisa. — Delilah nega minha ajuda, o que espreme

meu coração no peito, diminuindo-o de tamanho. — Me viro daqui.


Obrigada por ter me trazido para casa. Melhor você ir!

Aceno com a cabeça, concordando com ela. Só consigo


observá-la de onde estou.

Espero que abram a porta de vidro para que eu finalmente

volte para o carro.

Estou com o queixo tremendo de frio e de coração partido.


Me acomodo atrás do volante.

Assisto a neve cair e manchar o para-brisa.

O vento sopra, uivando do lado de fora.

Volto a ligar o som. In Your Eyes é a próxima música a tocar e

agradeço aos céus por não ser Arcade.

Preciso de alguma coisa para esquecer essa noite ferrada.

Meu celular está no painel do carro.

Me estico para alcançá-lo.

Tem uma pessoa que pode me dar o que preciso.

Já faz anos, depois que minha mãe morreu, prometi a mim

mesmo que não voltaria a entrar em contato com meus amigos de

Grev Willow, mas estou ficando sem opções.

Estou caminhando para o abismo, só falta pular.

Dei um passo na direção errada e acho que consegui afastá-la


ainda mais.
Desde o acidente que os caras não ficam tão felizes com um

ensaio, principalmente Ashton e Bryan. É como se o sol tivesse


voltado a brilhar na vida deles, também estou feliz que ela esteja de

volta, mesmo que nosso beijo tenha sido um divisor de águas.

A madrugada de quinta para sexta foi um pesadelo. Nunca

pensei que um beijo entre nós dois fosse me deixar magoado.

Sinto que preciso contar a Delilah a verdade, que o beijo foi um


impulso. Fui movido pelos meus sentimentos.

Ela estava lá, tão perto e me senti convencido de que queria


aquilo tanto quanto eu, quando, na verdade, não dá para seguir em

frente sem que antes Delilah saiba por que nós terminamos.

Tento não pensar nisso quando estou com a The Reckless,


porque meu rendimento na bateria despenca.

Estamos ensaiando uma música nova para o repertório. Best


Day Of My Life. É a música de abertura que vamos tocar para o

retorno do semestre no campus na primeira semana de janeiro.

É uma conquista utópica para a The Reckless poder tocar no


campus da Universidade de Humperville.

Significa que os calouros e veteranos não só nos acompanham


fora dos limites, mas que eles gritam tão alto que o reitor Callum não
teve escolha senão agendar shows no auditório.

Ele contou para os alunos sobre essas apresentações, dizendo

que apoiava os jovens artistas do campus, embora, dos integrantes


da banda, somente Bryan e eu somos estudantes da HU.

Meu celular está tocando no bolso do jeans há muito tempo.


São mensagens do meu pai, me convidando para um almoço. Disse

que temos muito o que conversar, mas ainda estou tentando

perdoá-lo por ter ido a favor de Thomas.

Começando pelo fato dele nunca ter mencionado o conhecer e

ser um tipo de amigo íntimo para Maya. Caso contrário, por que ela

teria ligado para ele no dia da alta de Delilah?

— Cara, seu telefone não para de importunar! — Ashton

resmunga, puxo o celular do bolso para recusar a milésima ligação


de Darnell.

— Precisa de uma pausa? — Bryan está segurando o

microfone.

Paramos no refrão da música. Estou batendo tão forte nos

pratos da bateria que as baquetas criaram uma rachadura no meio.

— Não, está tudo bem — garanto, volto a guardar o celular no

bolso.
— É o seu pai de novo? — Chase me analisa por um tempo,

um sulco se forma em sua testa.

Não respondo. Só me inclino para o lado para pegar o par de

baquetas novas que deixei no chão.

— É — Finn responde por mim e não ofusco o

descontentamento quando me ajeito no banco de novo. — Que foi?

— Parece que você ficou falante e dedo duro nos últimos dias

— reclamo em tom de desaprovação. — Não é nada importante.

— Você não contou como foi levar Delilah pra casa. Nem o que

conversaram. — Bryan faz um estudo minucioso da minha

expressão ao mencionar o nome dela.

Isso porque passei o dia inteiro de ontem fugindo do assunto e

não apareci para o café da manhã no apartamento das meninas.

Corri sozinho e voltei pro meu apartamento, escapando de

Bryan e Mackenzie.

— Rolou alguma coisa importante? — Bryan questiona.

— Só um fora — conto, omitindo a parte do beijo e o

desconforto em seguida e até mesmo minha escapada para Grev


Willow ontem.

— Como assim um fora? — Ashton questiona, curioso.


— Você já levou um fora, então deve imaginar como é a

sensação.

— Claro, porra — Ashton refuta. — A garota não se lembra de


nada, ela não vai voltar e dizer: Aidan, vamos namorar! — Ele faz

uma imitação mediana da voz de Delilah. — Se toca, cara! Dá um

tempo pra ela!

— Não sei se você percebeu, gênio, mas é exatamente o que

estou fazendo. — Ergo as sobrancelhas para ele. — Sério, vamos

só voltar a ensaiar!

Assim que finalizo a frase, penalizando-os por terem parado a

música por uma discussão inútil, escutamos o barulho da porta do


porão se fechando.

Ficamos em silêncio ouvindo os passos e a conversa

entusiasmada reverberando pelo ambiente.

Noto primeiro Gravity, em seguida Trycia e Willa. Atrás delas,

consigo distinguir sob a pouca luz Mackenzie e Effy ajudando


Delilah a descer os degraus.

Fico apreensivo. Meus músculos dos ombros empedram até

que escuto sua risada ganhar vida por cima das vozes das outras
garotas.
É um martírio pensar nela, ouvi-la e estar tão perto e não

poder agir como antes. E principalmente fingir que aquele beijo não
aconteceu.

— Que é que vocês estão fazendo aqui? — Ash observa a fila

de mulheres cruzando a porta e se ajustando na frente do palco de


paletes.

— Vocês estão ensaiando há três horas. Nós decidimos que


vocês precisam de uma pausa — é Gravity quem explica e lança um

sorriso condescendente para Ashton. — Eu sei que decidiram ficar

sozinhos para melhor desempenho dos ensaios, mas se ficarem

famosos daqui um tempo, reuniões assim será quase impossível e


precisamos decidir o que vamos fazer no Ano Novo!

Gravity está falando e juro que estou me esforçando para dar a


ela atenção, mas só consigo ver Delilah. Ela parece menos tensa

que na quinta-feira, mais à vontade na companhia das garotas e até

mesmo na nossa. Está sorrindo fácil, o que me faz querer sorrir


também.

É nesse momento que entendo como o meu sentimento por

ela é genuíno; se ela está feliz, também estou. Se está se sentindo


bem desse jeito, que assim seja.
A verdade pode detonar tudo de bom que ela está construindo
sem suas lembranças.

Maya pode ter se precipitado, mas ela tem razão. Delilah


precisa se concentrar em ficar bem.

— Nós tivemos uma ideia — a voz da minha irmã ganha minha


atenção, mas o principal motivo é que ela subiu no palco e está tão

empolgada com a ideia com pulos, que faz a bateria se mover.

Seguro os pratos para que parem de fazer barulho. — No seu

parque de diversões. Vamos dar uma festa. — Gesticula para mim,


sorridente.

— Como é? — Levo alguns segundos para digerir a


informação. — No meu parque?

— Sim, que nós carinhosamente o apelidamos de The Icarus.

— Ícaro? Da mitologia grega? — Finnick indaga.

— É, ele mesmo.

— De onde você tirou essa ideia?

Intercalo o olhar para minha irmã fazendo um monólogo e


Delilah, que está se sentando no sofá e escuta tudo com atenção.

— No caminho para cá estávamos escutando a estação de

rádio local e um dos locutores contava a história do Ícaro, filho de


Dédalo — explica Mackenzie. — Dédalo ajudou Ariadne a tirar
Teseu do labirinto de Creta, após ele ter derrotado o Minotauro e
quando soube da traição, o rei Minos mandou prender Dédalo no

labirinto, junto com Ícaro. Para fugirem da ilha, Dédalo teve a ideia
de construir asas feitas com penas de gaivotas coladas com cera de
abelhas.

— E isso funcionou? — Ashton fita minha irmã.

— Claro que funcionou. Você nunca ouviu falar de Dédalo? Ele


quem construiu o labirinto pro Rei Minos e antes ele já era um
artesão e inventor muito famoso — Willa continua. — Vocês

conhecem a mitologia grega? — Ninguém responde e ela bufa. —


Enfim, eles conseguiram fugir da ilha de Creta voando, mas Ícaro

pensou que era tão poderoso quanto um deus e voou mais alto, sem
ouvir os conselhos do seu pai de que ele não devia se arriscar um
voo ousado. O calor do sol acabou derretendo a cera e descolando

as asas. Dédalo assistiu a morte do filho sem poder fazer nada.


Ícaro se afogou no mar de Egeu.

— Uau, é muito dramático — Ash confessa, mas continua


curioso.
— Tá. Mas por que o parque se chamaria The Icarus? —
disparo, para que Ashton não interrompa.

— As pessoas que visitarão o parque irão se lembrar de que

conquistar um grande sonho pode exigir um preço alto — Willa


justifica. — Ícaro ousou voar tão alto que não previu a
consequência. Talvez nós devêssemos ficar no meio termo; nem tão

perto do mar, nem tão acima das nuvens.

Engulo o nó que se forma em minha garganta. Sei que


indiretamente minha irmã está me dando um sermão sobre meu pai.

Não vou perder a minha vida por não o ouvir, mas tem uma
chance de eu cometer erros que podem ser evitados se escolher
escutar os seus conselhos, principalmente quando estamos falando

de negócios. Ele é bom nisso, experiente. E há um bom tempo tem


tentado me alertar dos altos e baixos no mundo dos negócios em
Humperville.

— As pessoas vão amar o The Icarus. Sem sombra de dúvidas


— Gravity emenda, mas ainda estou assimilando a informação
anterior. — Pensamos em passar o Ano Novo no seu parque!

— O quê? — os caras e eu soltamos em coro.


— Qual o problema? A reforma já começou! — Willa
contrapõe, infeliz com a nossa reação.

— Eu disse que eles iam adorar a ideia — Mack zomba lá


atrás.

— Parece um cenário de filme de terror aquele lugar — Chase

acrescenta. — Sem ofensa, mas ficou abandonado por um bom


tempo!

— Escutem, até dia 31 tenho certeza que a construtora que


Aidan e Mathew contrataram para trabalhar no parque vai ter, pelo

menos, transformado essa parte feia e assustadora em algo bom!


Além do mais, não dá pra viajar com a Delilah daquele jeito! — Willa

mostra Delilah com o polegar por cima do ombro e ela rapidamente


empertiga.

— Ei, eu disse que não teria problema! — Delilah se defende,


endireitando a postura. — E está previsto para que eu tire o gesso

no dia 30!

— Sim, mas sua mãe disse: de jeito nenhum, nem em um


milhão de anos você vai viajar nessa situação! — Effy contesta.

Delilah bufa.
— O que você acha? — Trycia cruza os braços, deposita o

peso do corpo na perna direita e me encara. — Você aprova ou


não?

Direciono minha atenção para Delilah mais uma vez.

Eu queria viajar, mas se o único jeito de passar a virada do ano

com Delilah é seguindo as regras da mãe dela, então tudo bem.

— Posso conversar com Math e pedir que priorize algumas


coisas.

Apanho uma garrafa de água próxima ao meu pé.

— Principalmente a casa mal-assombrada. — Willa dá


pulinhos de alegria.

— Casa mal-assombrada? — Chase analisa.

— Eles estão construindo uma casa enooooorme, que será


mal-assombrada! Está ficando incrível — minha irmã explica. —
Precisamos ser os primeiros a estrearem aquele lugar! Devíamos

gravar e postar no dia da inauguração! O que você acha, Aidan?

— Claro — concordo, embora esteja prestando atenção em


Delilah, que empalideceu drasticamente à menção da casa mal-

assombrada.
— Ótimo. Então está decidido. Vamos passar a virada do ano
enchendo a cara e nos divertindo nos brinquedos que estarão
abertos.

Que não são muitos, quero acrescentar para Willa.

— Qual a previsão para a inauguração do parque? — é Finn


quem pergunta.

Ele estava prestando atenção no celular até dois minutos

atrás.

— Março — revelo.

— Tem tempo para pensarmos em detalhes como a logo do


parque e tudo mais. É sério, vai ser o máximo quando você

inaugurar aquele lugar!

Minha irmã está mais animada com o parque do que eu.

Com isso, envio uma mensagem para o meu pai.

Só diz quando. Estarei aí.

Amanhã.

A
Ok. Até amanhã.

Nosso ensaio se tornou um pré-show da The Reckless.

Hoje vamos tocar no Anarchy, como todos os sábados, mas


com a presença das garotas aqui, acabamos transformando nosso
ensaio em um show particular para elas.

Tocamos algumas músicas do nosso repertório novo e elas

aprovam nossas escolhas.

No final abrimos umas cervejas e nos sentamos no chão da


sala de Ashton, com a lareira acesa nos aquecendo do frio

horripilante de Humperville.

Estou recostado no sofá, Effy do meu lado esquerdo e Trycia


no direito.

Giro a garrafa de um lado para o outro, movendo o líquido


espumoso da cerveja.

Uma conversa aleatória acontece no grupo enquanto Die For


You de The Weeknd toca no fundo.
É muito estranho que Delilah esteja aqui. Para ela, eu sou um
estranho, mas ela para mim é a garota que amo.

Gravity faz uma gracinha e todos riem, sigo o fluxo, forçando


um sorriso.

— Bom, já que estamos todos reunidos — Vity pigarreia,

ajustando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Acho que


chegou a hora de contar pra vocês uma coisa.

A tensão paira no ar. Estamos esperando que ela diga algo

como um namorado novo e a relação com Ashton exploda de uma


vez por todas.

Sorri de nervosismo, em uma mescla de felicidade também.


Mackenzie e Effy também estão surpresas, dá para notar pela

maneira como seus corpos ficaram rígidos de um minuto para outro,


que não faziam ideia de que Gravity havia preparado uma novidade

para hoje.

— Vocês se lembram de Amélie Fay? — ela sopra,


mordiscando o lábio inferior, extraindo ainda mais sua excitação
para contar.

Nós assentimentos, despreocupados.


— Recebi uma ligação dela no começo do mês, mas como

Delilah estava internada e as coisas não pareciam melhorar, fiquei


pensando se eu deveria ou não aceitar a proposta dela. — Gravity
segura a ansiedade por um minuto, esquadrinhando os rostos para

fisgar qualquer reação além da curiosidade. — Ela me ofereceu uma


bolsa em Milão, para terminar a faculdade lá. O curso vai se

estender por mais um ano, mas…

— Você aceitou? — Ashton a corta e pelo seu tom, dá para


notar que ele não está nem um pouco feliz por ela.

— Aceitei. Quando Delilah acordou, eu…

— E você não pensou em conversar com a gente antes?

— Conversar com vocês? — A testa de Vity encrespa. — Por


que diabos eu precisaria conversar com vocês para decidir se eu
devo ou não ir para a melhor oportunidade da minha vida?

— Sei lá porra, por que nós somos seus melhores amigos?

Gravity suspira. É visível que está tentando manter o controle


para não estragar o dia legal que estamos tendo.

A discussão rola entre Ashton e Gravity, somos apenas

espectadores de uma história mal resolvida que está prestes a


entrar em colapso.
— Sim, vocês são, mas isso não significa que preciso da
autorização de vocês pra tomar essa decisão!

— Só estou dizendo que você poderia ter pedido nossa

opinião!

— Você quer dizer a sua opinião, Ashton? — Ela ergue uma


sobrancelha, irritada com ele. — Ela deixou de importar lá em Paris!

Ele se levanta de repente. Está puto, a raiva salpicando no seu

rosto. O lábio e o queixo trêmulos.

— É, você tem toda razão. Qualquer coisa que estava


acontecendo acabou na maldita Paris!

— Você quer mesmo lavar a roupa suja aqui? — Gravity deixa


sua garrafa de lado. — Tudo bem. Coloque para fora suas
frustrações, queremos ouvir o que você tem a dizer sobre Paris!

— Você vai ouvir? Porque você é uma teimosa do caralho, só

olha para si mesma e o resto que se foda!

— Gente… — Delilah sussurra.

— Você é tão impossível! — Gravity se levanta, batendo o pé,

a irritação dela evidencia a cada palavra solta.

Ashton se levanta também.


— Beleza. Vamos conversar agora Gravity, sem fugir de merda
nenhuma!

— Tá! — Ela cruza os braços.

Ele revira os olhos e a segura pelo pulso. Gravity salta as


pernas esticadas de Effy no meio da sala. Escutamos o som da
porta do quarto de Ashton bater e o cômodo volta a ficar quieto.

— Vocês são sempre barulhentos assim? — Delilah deixa uma


risada sair.

— Só quando Ashton e Gravity estão no mesmo ambiente. —

Chase dá de ombros e ri.

Eles conversam por mais de uma hora.

Gravity sai furiosa do quarto e vai embora.

Ashton senta no sofá e não para de beber. Como seu amigo,

me sinto na obrigação de me sentar com ele e beber também, afinal,


Ash não é o único com o coração partido.

A luxuosa cobertura de Darnell Lynch estaria silenciosa se não

fosse pela melodia de um piano atravessando as portas de metal do


elevador privativo do prédio.

Como é um almoço com meu pai, não pensei no que vestir,

mas o meu lado que está sempre tentando provar alguma coisa
para ele falou mais alto e acabei pendendo para as roupas sociais
que, até então, estavam mofando no fundo do meu closet.

Assim que as portas do elevador se abrem, a música que era


apenas um suspiro longe, abrange.

Meu pai está parado no hall, encarando a neve cair pela

imponente porta de vidro que dá acesso a piscina.

Ele segura um copo de uísque na mão direita, enquanto


guarda a esquerda no bolso de sua calça social.

Não parece um almoço de domingo comum, que

costumávamos fazer com todos antes dele ser baleado ano


passado. É impessoal.

Estarmos brigando tanto, torna nosso relacionamento ainda

mais artificial.

Conheço o som no fundo, Piano Concerto No. 2 de


Shostakovich. Ele só escutou sonatas depois da morte da minha

mãe. Foram dias até que o som do piano cessasse na mansão


Lynch.
Estudo seu perfil. A mandíbula está rígida e ele segue fitando a

neve lá fora, bebericando do copo sem notar minha presença.

Limpo a garganta na tentativa de chamar sua atenção.


Funciona e ele sobressalta.

— Você chegou — anuncia, meu pai está um pouco abatido,


diferente da noite de Natal, apesar de não ter falado muito com ele
naquele dia, ainda assim, parecia feliz e satisfeito. O oposto do que

estou vendo. — Quer beber alguma coisa? Posso pedir para


Miranda preparar.

— Miranda?

— Sim. Minha nova governanta.

— Onde está Rowan? — Olho em volta, em busca dela.

Rowan trabalhou para a minha família desde que me lembro.

— Se aposentou. — Ele dá de ombros e o sigo. — Uma hora


ela teria que nos deixar.

Darnell força um sorriso, o que é suspeito. Posso notar as


linhas de tensão em seu rosto em evidência.

— Como você está?

— Estou bem — Arqueio uma sobrancelha.


Ele se senta no sofá imenso que ocupa grande parte da sala
de estar.

— Como você está? — retruco, sendo enfático. — Não parece

bem — acrescento, antes que ele possa inventar desculpas.

— Não é nada com que você precise se preocupar. Irá


entender quando seu parque estiver funcionando. — Dessa vez o
gole que meu pai dá em sua dose é intensa. — Miranda! — grita,
por cima do ombro e acima da música.

Escuto o barulho dos passos da mulher através do corredor e


em menos de dois minutos está entre a soleira da sala de estar e o
vestíbulo.

— Por favor, me traga outra dose e uma para o meu filho


também.

— Sim, senhor.

Miranda tem cabelos escuros e lisos, os olhos beiram o tom de

mel. Ela não é tão velha como Rowan, mas não deve ter muito
menos que meu pai.

— Onde está Dannya?

— Em um brunch com Maisie, as irmãs Barnes… Achei que


seria melhor se ela não estivesse aqui hoje. — Outro sorriso forçado
molda seus lábios. — Quer dizer, faz tempo que Dannya não tem
um tempo pra si mesma — a confissão vem seguida de
preocupação. — Tenho medo de que ela se canse de mim.

A fragilidade em sua voz me pega desprevenido.

Não é como se meu pai demonstrasse fraqueza com


frequência ou deixasse suas emoções à mostra. Na realidade, ele
costuma ser prudente em relação a tudo que envolve sentimentos.

— Não tem como ela se cansar de você.

— Você não tem a mínima ideia de como é estar casado


comigo.

Meu pai se inclina até que o fundo do copo alcance a


superfície da mesa de centro. Ele endireita o corpo, voltando-se ao
encosto do sofá.

— É cansativo. Estou cercado de pessoas interesseiras, talvez


até mesmo esperando por um pequeno deslize para se aproveitar
da situação. É frustrante. Dannya sabe das minhas preocupações
com os negócios e tenta me ajudar no que pode, mas para estar

nessa família, você não precisa ser apenas um espírito forte, precisa
de sangue frio.
Quando termina seu monólogo, Miranda volta com duas doses
de uísque em uma bandeja. O gelo boia no copo e o faz tilintar.

Ela posiciona os apoios de copo na mesa de centro e deixa as

bebidas antes de sair.

As sonatas seguem incansáveis ao fundo de nossa conversa.

— Como estão as coisas com Delilah?

Pondero. Não sei até onde posso seguir com honestidade com

meu pai. Ele está vulnerável, provavelmente levaria todos os meus


sentimentos mais a sério do que fez nos últimos meses.

Ainda assim, estou analisando toda a situação com cuidado.

Não sei o motivo de estar aqui, não é um almoço entre pai e filho. É
como se ele estivesse prestes a me propor um negócio.

— Não evoluiu muito desde o Natal.

— Soube que você a levou para casa naquele dia.

Imediatamente penso em Willa. Ela segue firme e fiel ao nosso


pai.

— Foi, mas não aconteceu nada demais — minto, ele finge

acreditar, porque um vinco intenso se forma na pele de sua testa. —


Por que estou aqui?
Me inclino, apoiando os cotovelos nos joelhos. Entrelaço os
dedos entre as pernas abertas e o encaro.

Ele finalmente pesca seu copo de uísque e bebe um gole.

— Acho que finalmente aconteceu — diz, calmamente


enquanto bebe. — O reflexo de tudo que foi exposto na mídia. Meu
nome está em todos os tabloides sobre negócios e o Purple Ride
recebeu uma ordem da justiça para ser fechado, parece que muitos
políticos corruptos visitavam o clube para negociação na área

restrita. Todos os funcionários estão sendo submetidos a


interrogatório. — Ele coça a testa, fico em silêncio na esperança de
que acrescente alguma notícia boa, mas ela não vem.

— Até quando?

— Até que toda a confusão seja esclarecida e não exista mais


nenhuma evidência que coisas ilícitas aconteciam lá.

— Nós dois sabemos que não é verdade.

— Sim, mas sou dono do clube, não o infrator. Eles deviam


estar atrás dos culpados e não tentando me prejudicar!

— Você melhor do que ninguém sabe que essa parte obscura


de Humperville não tem solução. Os inocentes serão julgados como

culpados e nós não temos escolha. Quais evidências eles têm?


— Só algumas fotografias de políticos que estão atrás há um
tempo. Você e eu sabemos que fotos não são suficiente para fechar
um lugar como o Purple Ride. — Ele ergue as sobrancelhas,
sugerindo algo.

— Thomas — digo em voz baixa e a culpa vem com força. —


Você acha que ele disse alguma coisa?

— Pode ter dito.

— Então, por que estou aqui?

— Quero te pedir um favor.

O som das portas do elevador se abrindo outra vez chamam


minha atenção.

Meu pai e eu nos viramos rumo a ele. A visão é uma mistura

de confusão e contentamento.

Delilah tem um braço no de Maya. Ambas caminham devagar


para o centro da sala. Estão rindo e fazendo comentários a

cochichos. Mesmo sabendo que Delilah está chateada com a mãe


por sua superproteção, não acredito que seja o suficiente para
afastá-las.

Vê-la sorrindo, respirando, é uma felicidade que nunca


imaginei que seria capaz de sentir outra vez.
É como ter um milagre caminhando em minha direção.
O almoço parece mais um velório. A mesa é grande e apesar

de termos nos sentado próximos, ainda existe uma distância abrupta

entre nós quatro.

Não sei quais foram as intenções do meu pai ao convidar


Delilah e Maya, mas com certeza o tiro saiu pela culatra.

Maya está sendo educada e ponderada, sorri na hora certa e


enche a boca de comida quando não quer falar de um assunto.

Essa impassibilidade surgiu depois da nossa conversa no Lost


Paradise. É claro que ela tem motivos para hesitar, principalmente

porque não estou me esforçando para cumprir minha promessa.

Na verdade, naquele dia no carro, se Delilah tivesse dito que


queria saber de tudo, não teria escondido nada.

Quando penso nela, me arrisco a encará-la. Não sou direto.

Meu olhar é enviesado, quase indiferente. Parece que sou

melhor do que imagino quando se trata de camuflar os sentimentos


porque ajo como se ela não me afetasse.
Enquanto Maya e Darnell estão concentrados em esvaziar a

caldeirada de Cioppino dos pratos, mantenho os olhos em Delilah,


que está movendo os vôngoles com a colher.

Tem uma diferença entre respeitar seu espaço e entender o


que aconteceu na outra noite. Ela basicamente fugiu de mim e por

mais que tente agir como se não fosse um problema, é sim.

Toda vez que penso na forma como me olhou depois, uma


parte do meu coração esmorece.

Quero uma oportunidade para perguntar a ela o que foi que


aconteceu, o que ela sentiu quando me beijou que a deixou

apreensiva.

— Aidan. — Meu pai me chama. Ele sorri para tentar disfarçar


a desaprovação estampada em seu rosto. — Convidei você, Maya e

Delilah para este almoço porque soube que seu parque tem data

para inauguração.

— É, 20 de março — revelo e solto o talher na louça. — Willa


te contou?

— Sim. Maya me procurou, em busca de trabalho.

Volto minha atenção para Maya, ainda não entendi muito bem

como se tornaram amigos, mas o fato de terem estudado na mesma


universidade e meu pai e Thomas terem sido colegas na época,
deve fazer sentido.

— Você sabe que com toda a situação atual do meu negócio,

não posso me arriscar em novas contratações, mas talvez você

precise de uma advogada para legalizar o parque.

— Math está cuidando dessa parte.

Curvo a sobrancelha, contestando meu pai.

— Uma advogada pessoal seria bom — Maya fala, ela tem um

sorriso adocicado na curva dos lábios. — Não pretendo voltar a

morar em Dashdown. Delilah precisa de mim aqui.

Delilah sorri, mas dá para notar que ela teme que a proteção

da mãe ultrapasse alguns limites.

— Sei que é complicado no começo, até que o negócio

alavanque, mas andei pesquisando. As pessoas em Humperville

sentem um pouco de falta de luz naquela região da West Ville.

Tenho certeza de que será um sucesso! — ela exclama, animada.

Entendo tudo. É um almoço de negócios. Meu pai me ama,

mas continua sendo obcecado por trabalho como sempre. Não sei

se isso me decepciona ou se estou tão acostumado que nem me

espanta mais.
Limpo a boca com o guardanapo e faço que sim com a

cabeça.

É a mãe de Delilah, por mais que ache que Math pode tomar

conta de tudo para mim, não posso negar ajuda a ela.

— Vamos marcar uma reunião com Math então — digo e o


sorriso de Maya se alarga. — Depois do Ano Novo?

Estico a mão para pegar a taça de vinho e bebo um gole. Não

estou habituado a esse tipo de bebida, mas qualquer coisa que faça
com que meus músculos relaxem, serve.

— Ótimo! Obrigada, Aidan.

O almoço não parece mais um velório. Meu pai ter tocado no


assunto faz com que a conversa deslanche.

Eles falam sobre o meu novo empreendimento, meu

crescimento como empresário e em certo momento da conversa


Darnell até admite que está orgulhoso das minhas escolhas, mas é
a mesma sensação de sempre; depender dele para quase tudo.

Às vezes acho que ele confunde cuidado com controle e a

confusão não para de ficar mais profunda com o passar dos anos.

Deveria dar um basta nessa história, mas estou exausto


demais. O almoço era para ser um acontecimento em família
relaxante e acabou se tornando uma reunião de negócios.

— E você, Delilah? Soube que o reitor Callum irá telefonar em

breve, para uma entrevista. — Meu pai beberica de sua taça, os


olhos fixos em Delilah.

Agradeço internamente pela mudança de assunto.

— É? — O sorriso é forjado.

— Pedi uns favores. — Devolve a taça para a mesa. — Ele


disse que iria telefonar. Aidan me contou que você gosta de livros.

Delilah se volta para mim.

— Parece que gosto — diz —, mas não me lembro de ter


passado tanto tempo lendo. Sabe, ainda estou presa lá em 2015.

Sinto que ela tenta rir da situação, levá-la de uma maneira

mais leve.

Sua musculatura facial nem vacila ao dizer que esqueceu tudo

dos últimos anos.

— Eu me sentiria sortudo — meu pai continua — se pudesse


esquecer por um momento os últimos cinco anos.

— É uma oportunidade de criar novas memórias. — Maya se


estica para alcançar o cabelo de Delilah e começa a acariciá-lo.
— Se fossem só as partes ruins, estaria tudo bem, mas até as
boas lembranças se foram.

— Você vai recuperá-las, meu amor. Só precisa dar um tempo,


está bem? — a voz de Maya é suave e esperançosa.

Não duvido que ela queira que a filha recupere as memórias,

mas se pudesse, selecionaria cada uma delas para que Delilah não
tivesse que reviver toda a dor.

— Maya — meu pai a chama, arrastando a cadeira para se


levantar. — Gostaria que você desse uma olhada em uns

documentos do Purple Ride.

— Ah, claro. — Ela se levanta também. — Tudo bem ficar


sozinha por um tempo? — questiona a Delilah.

Delilah faz que sim. Maya dá uma última olhada em mim,


sorrindo e segue meu pai pelo corredor rumo ao escritório.

O silêncio recai como uma pedra sobre nós.

Delilah volta a comer, queria ter algo para me ocupar, mas já


terminei minha refeição. Então fico rodando os anéis do indicador e

polegar, distraído, agindo como se a presença dela não fosse um


dos meus maiores problemas.

— Sinto muito — ela diz.


A voz corta o silêncio e chega até mim como uma flecha.

— Pelo quê?

— Dá pra ver que você está desconfortável com a situação

toda. Seu pai transformando o almoço em uma reunião, minha mãe


se oferecendo para ser sua advogada e eu bem aqui, tornando tudo

mais difícil. Não é o que você tinha programado para hoje.

— Não, não é.

— Então por causa disso, eu sinto muito.

— Você não precisa se desculpar. — Rio, desviando os olhos


para a pedra vermelha do meu anel no dedo médio. — Você não

torna tudo mais difícil, pelo contrário, é você que faz tudo ficar

suportável.

Só percebo o que disse quando Delilah larga a colher no prato

e cora.

Sua primeira reação é se desarmar. Ela desmorona, sendo

sustentado pelo encosto da cadeira.

Estar apaixonado por ela é o que está tornando tudo mais

difícil.

Amá-la é o que me impede de me afastar, dar um tempo,


permitir que ela volte para a sua vida antes de pensar na vida que
tinha comigo.

É tudo um processo e gostar tanto dela está criando mais

situações de constrangimento.

Mas como é que eu posso parar de gostar dela? Como posso

fazer isso se o que sinto por ela é a única coisa que importa?

Fecho os olhos, porque não sou capaz de continuar olhando


para ela.

— Existe uma coisa muito bizarra em perder a memória. —


Delilah conta. Faz uma pausa, enquanto não volto a olhá-la, Delilah

não volta a falar. — Você não faz ideia do que são sonhos ou o que

são memórias. Elas se misturam, tudo fica confuso. São momentos

de tristeza e euforia. Você começa a se perguntar qual deles é real,


se enlouqueceu ou se está quase lá. O pior é que eu sinto que, se a

minha eu de antes pudesse escolher, ela diria que adoraria

esquecer grande parte das coisas. Mas sempre me pergunto se ela


iria querer se esquecer de você.

Sei que existe uma mescla de sensações esvaindo dela, mas

não sou capaz de identificar nada.

Me sinto perdido e acho que prefiro a Delilah transparente, a

que não vem armada com metáforas.


Mas ela percebe como fico confuso e continua:

— O que estou querendo dizer é: dentro desses cinco anos

pode haver coisas que prefiro que continuem apagadas. Mas, sendo
sincera, gostaria muito que as boas memórias voltassem. — Delilah

respira e me encara. — Toda vez que te olho, tenho a sensação de

que a maioria das minhas memórias de felicidade, são com você.

Delilah não está jogando palavras ao vento, está convicta do

que acabou de dizer. Não é nenhuma metáfora que preciso


desvendar.

— Que foi? Você quem ficou sem palavras dessa vez? — Ela

ri, zombando da minha expressão de choque.

— Parece que foi. — Rio, completamente anestesiado por ela.

Delilah pode não ter acesso às memórias, mas continua sendo


sexy, inteligente e absurdamente linda nos seus discursos.

Ela é a mulher com quem vou me casar. Tenho certeza disso.

31 DE DEZEMBRO DE 2020, ÀS 20H01MIN.


— Você pediu para que tirassem a neve? — Willa pergunta

pela milésima vez desde que saímos do seu apartamento.

— Pedi, relaxa.

Dou risada das suas mãos aflitas ancoradas entre as pernas.

Não está nevando, o que significa que a parte interna do

parque continua sem o manto de neve ou resquícios de poça de


gelo.

Ele não está pronto ainda, o que Math disse é que o carrossel,
a montanha russa e a casa mal-assombrada – Math conseguiu

algumas pessoas para trabalharem na Fun House nesta noite –

podem ser utilizadas contanto que um maquinista esteja presente.

Não foi fácil encontrar um que quisesse ficar a noite toda no

controle dos brinquedos, mas para a minha surpresa, Brooks já

trabalhou em um parque de diversões antes, na época da escola.


Ele não se importou quando minha irmã pediu que ajudasse no

monitoramento enquanto estivéssemos usando.

Tem uma pilha de materiais de construção e ferragem na porta


do parque, vejo assim que estaciono no terreno ao lado, onde estão

desaterrando para o estacionamento.

— Quantas pessoas você convidou exatamente?


Observo os seis carros parados no mesmo terreno.

Willa me pediu para convidar uns amigos da faculdade. Não

passou pela minha cabeça negar seu pedido, mas pela quantidade
de carros estacionados, garanto que ela transformou nosso Ano

Novo em uma festa muito maior que o planejado.

— Só alguns, relaxa — parafraseia, se inclinando para beijar

minha bochecha.

— O parque não está pronto ainda — lembro a ela, embora


tenha certeza de que está ciente disso com todos os materiais

intocados na entrada.

— Fica calmo, Aidan. Você tá tenso por nada. Escuta — ela

endireita o quadril e fica de frente para mim — é bom para o negócio

você oferecer a entrada antes do prato principal. Algumas pessoas

da HU estavam ridicularizando o The Icarus quando souberam que


seria reformado. Eles acreditam que o parque de diversões é

obsoleto e nós precisamos mostrar para eles que estão errados.

Parques de diversões podem até ser ultrapassados, mas o The


Icarus não é, porque existem parques de diversões e existe o seu

parque de diversões. Conversei com Paxton, você se lembra dele?

— Lembro. O que é que tem?


— Ele manda bem nas edições e Ashton também é bom com o

computador. Os dois concordaram em trabalhar juntos para montar


um vídeo do The Icarus para divulgarmos na internet. Ah, e você

precisa de uma identidade visual! Dar cara ao lugar faz com que as

pessoas fiquem mais próximas dele!

Escuto as sugestões da minha irmã e preciso concordar que

ela tem razão.

— Quando foi que você, Ashton e Paxton conversaram sobre

isso?

— Na segunda, quando você ficou enfurnado no seu estúdio


do apartamento bebendo e tocando bateria. Aliás, quando é que

isso vai acabar?

Saio do carro sem responder.

Sim, é verdade que Delilah e eu estávamos a um passo de

quebrar o gelo no domingo. Ela disse coisas que eu não esperava


ouvir. Fui pego de surpresa e apesar de ter sorrido depois,

demonstrando satisfação com a iniciativa dela, Delilah não disse

mais nada. Terminou de comer e pediu para ir embora. E a incógnita


voltou.

— Não quero falar desse assunto.


— Por quê?

Vou para a traseira do carro. Tiro as sacolas de papelão com

comida e entrego para Willa. Seguro a caixa térmica com as


bebidas, fecho o porta-malas e caminho em direção à entrada do

parque.

— Você se lembra quando te perguntei se estava brincando

com ela?

Me lembro. No casamento do nosso pai.

Mas não respondo.

— Você mentiu pra mim.

Paro em ímpeto. Willa quase tromba com meu corpo no

caminho.

— Não menti pra você.

— O que é que você fez então? Porque ficou claro pra mim
depois que você mentiu.

— Foi um mal-entendido — reforço com desgosto, mas na

minha língua, sinto o amargor da culpa me penalizando.

— Explica direito, não estou entendendo!


— Eu não a usei, Willa. Sim, a conversa com os investigadores
aconteceu, a gravação é real, mas nunca usei ela. Não me
apaixonei por ela por causa do Thomas, fiquei com ela e a amei por

todo esse tempo pelo que ela é e ponto.

Quando termino meu desabafo, Willa está sorrindo.

Estou cansado de ouvir a palavra “usar” e ainda mais de


continuar me sentindo culpado.

O portão está sem o cadeado quando me deparo com ele. Dei


uma cópia da chave para Bryan mais cedo, caso ele e os outros
chegassem antes de mim, então presumo que devem estar lá

dentro.

Preferi cercar o local com um material diferente do que estava,


mais fechado, para ficar mais intimista.

Empurro uma das folhas do portão e gesticulo para que minha

irmã entre primeiro. Assim que cruzamos a entrada, encontro no


mínimo trinta universitários com cervejas nas mãos e a música

ressoando de duas caixas de som sob a tenda de lona improvisada.


Reconheço-as imediatamente. São as mesmas que usamos para os
shows na casa do Ashton.
Conheço alguns rostos quando olho o lugar com apreensão.
Todos são da HU.

Não consigo evitar um olhar de reprovação para Willa.

Suprimo o suspiro quando ela grita ao correr de encontro a


uma roda de garotas, provavelmente suas amigas de turma da
faculdade.

Deixo o cooler no chão e tiro uma long neck.

— E aí!

Miro minha atenção na voz empolgada atrás de mim.

Bryan está com uma cerveja na mão, o pescoço some dentro

de um casaco acolchoado e cachecol. Não posso nem rir da


quantidade de roupas que está vestindo, porque não estou muito
melhor. A diferença é que uso um suéter preto de gola alta, meu

familiar sobretudo preto e coturnos.

— Sua irmã transformou nossa reunião de Ano Novo em um


evento pré-inauguração. — Bryan brinca e acabo rindo também

porque ele tem razão.

A música Better Now do Post Malone está tocando.

— O pior é que acho que ela tem razão.


— Ela tem. O pessoal está curtindo o que vocês estão fazendo
aqui. — Ele aponta com o polegar para alguns dos brinquedos que

estão em restauração. — Você vai deixar seu legado em


Humperville antes de conquistar o mundo com a The Reckless.

— Espero que sim.

Abro a cerveja.

Ofereço a garrafa para brindar com Bryan e ele aceita.

Viro quase metade em um único gole.

— Vai devagar cara, você não vai querer ficar bêbado. Ia te

pedir pra levar Delilah pra casa depois.

O encaro porque não a vi ainda.

— Gravity não veio dirigindo? Soube que meu pai ia dar um


carro de presente pra ela para parabenizá-la por causa de Milão.

— Ele deu, mas… — Ele acena com o queixo para o centro do


parque, Gravity e Ashton estão conversando. — Não estou muito
certo de que ela vai pra casa hoje. — Dando um gole na cerveja, ele

ri.

— O que rola entre eles?


— Amor e ódio. Reconhecimento um no outro. — Dá de

ombros com desinteresse. — Quem se importa? Gravity está indo


embora, talvez não a vejamos pelos próximos dois anos. Acho que
Ashton não quer perder tempo brigando.

— Dois anos?

— Ela se formaria no ano que vem, mas em Milão ela tem que
fazer mais 12 meses. Tipo uma reciclagem, pelo que entendi. E

acho que Vity não quer ser fiel a ninguém nessa sua fase. Seja com
as amizades ou com o próprio coração.

— Ela sempre foi um espírito livre.

— É por isso que Ashton tinha tanto medo de se relacionar

com ela.

Nós rimos em coro, porque desde o começo ficou claro que


Gravity era um perigo em potencial para o coração de Ashton. É

como um encontro entre fogo e gasolina. O efeito não é bom


quando esses dois ingredientes se misturam.

— E ele tinha razão!

Nós batemos nossa garrafa outra vez, rindo.

— Onde ela está? — Meus olhos estão à procura dela. Não


preciso me explicar, Bryan sabe a quem me refiro.
— Com Brooks, acho. Era para Delilah ter tirado o gesso
ontem, mas a Dra. Aylin achou melhor esperar as festas de fim de
ano.

— Brooks?

— Sim, mas fica tranquilo, não tem nada demais.

Faço que sim com a cabeça, mas no fundo, aquele


desconforto me cutuca.

— Ela está solteira, não posso me incomodar com os caras


que Delilah resolve se envolver.

Termino minha cerveja e aproveito que estou perto do cooler


para pegar outra.

O olhar que Bryan me desfere é de preocupação, mas não dou


a mínima para o que ele está pensando.

— Vou andar por aí, falo com você depois! — grito, por cima

do ombro.

Não sei quantas cervejas bebi, mas fui arrastado para o


carrossel por um grupo de amigos de Willa. O único deles que
conheço é Paxton e ainda assim não conversamos muito como na
última vez que nos encontramos.

Ele fez novos amigos, está interagindo mais, o que é bom para

ele.

Só fui convencido a subir nesse brinquedo porque Delilah ficou


com Brooks a noite toda. Ele não saiu do lado dela nem por um

minuto, fazendo meu estômago embrulhar toda vez que olho para
os dois.

Delilah não poderia entender, ela não se lembra do que Brooks

significou para ela ou o motivo que levou os dois a terminarem.

Estou três cavalos atrás deles no carrossel, Paxton está no


cavalo ao meu lado, cantando junto com Conan Gray a música

Maniac a plenos pulmões. E minha irmã, atrás de nós, está o


ajudando no refrão.

Me pergunto se a voz de Conan não é familiar para ela, se não


lhe traz sensações como Arcade trouxe, mas enquanto a observo

com Brooks descubro que não, não tem nenhum efeito sobre ela.

Brooks está a ajudando a ficar sobre o brinquedo; com sua


perna e braço imóvel ela não conseguiria aproveitar o carrossel,
mas meu coração bate tão forte ao vê-lo colocar a mão em seu
quadril, que tenho a impressão que minha respiração vai parar.

Sinto algo pulsar em minha bochecha e quando me viro para


ver, Paxton está jogando pipocas em mim.

— Tell all of your friends that I’m crazy and drive you mad, that

I’m such a stalker, a watcher, a psychopath and tell them you hate
me and dated me just for laughs. So, why do you call me and tell me
you want me back? — ele cantarola, espremendo os olhos em

minha direção. — You maniac![4]

— Que foi? — grito para ele.

— So, why do you call me and tell me you want me back? —


Paxton balança a cabeça no ritmo da música e fica em pé no cavalo.
— Delilah! — ele a chama e endireito o corpo. — So, why don’t you

call him and say you want him back?[5]

Agarro-o pela barra do suéter e o puxo de volta para o cavalo.

Delilah franze a testa, muda seu olhar de Paxton para mim e a


compreensão anuvia sua expressão.

— Porra, cala a boca — murmuro.

— Estou te dando uma mãozinha. Você deveria agradecer —


ele refuta, sorrindo nem um pouco constrangido.
— Vou ignorar porque você está bêbado.

— Você percebeu o que está acontecendo? O bonitão ali —


Paxton braceja para Brooks — está aproveitando da situação para
se aproximar. Se não começar a agir, Delilah vai se apaixonar pela

pessoa errada.

Olho para os dois.

Delilah está rindo de novo de um comentário que Brooks faz e


eu consigo entender o que Paxton está me dizendo.

Se Brooks está fazendo de propósito ou não, não tenho


certeza, mas Pax está certo, preciso me mover.

— Brooks! — brado, porém ele ignora, não sei se faz de

propósito. — Ei, Brooks! — Dessa vez minha voz ofusca a voz de


Zayn cantando Vibez.

Ele finalmente se vira para mim.

— Pode parar o carrossel? Tem um pessoal querendo subir. —

Mostro com o queixo o grupo esperando em fila.

Brooks reflete por um momento.

— Beleza.
O vejo sussurrar algo para Delilah, ela acena em concordância
e Brooks salta do brinquedo em direção aos controles. Assim que o
carrossel ameaça diminuir a velocidade, encaro Paxton que está

anuindo em incentivo.

Saio do meu lugar e caminho entre os outros cavalos em


direção a Delilah. Me sento onde Brooks estava, seguro a barra de

ferro à frente e quando olho para o lado, noto que seus olhos azuis
estão fixos em mim. Sua íris viaja por meu corpo, me estudando.

— Oi — cumprimento, sorrindo.

— Oi — ela repete, seus lábios se esticam em um sorriso

tranquilo.

— Posso rodar com você?

— Pensei que fosse ficar observando de longe a noite inteira

— Delilah soa provocativa.

Antes que Brooks volte para o carrossel, Delilah estica o


pescoço em busca dele.

— Brooks, vou girar com Aidan um pouco. Obrigada por me

ajudar antes!

Brooks olha para mim. Ele não parece satisfeito com a decisão
dela, mas não se contrapõe. Por dentro me agito em satisfação.
Brooks não volta para um dos cavalos de cerâmica e Willa
assume meu lugar ao lado de Paxton.

Delilah se agarra à barra de ferro como se sua vida

dependesse disso. Preciso refrear minha vontade de me oferecer


para sentar com ela e garantir que não acabe caindo.

Delilah sorri inocentemente de um comentário de Ashton,

alguns cavalos à nossa frente. Não escuto direito porque a música


Cry Baby de The Neighbourhood encobre parte da fala dele, mas
ela o entende e ri, o que é suficiente para me desconcertar.

Quando penso que não poderei tê-la como antes, me lembro


de que até uns dias atrás achava que nunca mais ia escutar o som
da sua risada e me acalmo.

Não me sinto nem constrangido quando Delilah me flagra, no


refrão da música, murmurando a letra para ela. E o tremor acanhado
molda seus lábios em um sorriso.

Me permito não pensar nos meus erros. Só quero curtir esse


momento com ela. Ser testemunha da sua felicidade.
Delilah e eu rodamos por uns vinte minutos no carrossel.

Percebo que nenhum de nós sabe o que falar, então o silêncio é um


fator marcante quando estamos juntos. Se não fosse por uma
playlist extremamente viciante, teríamos ficado entediados no

brinquedo.

Algumas músicas Delilah conhece, sua memória auditiva foi


afetada, mas não tanto quanto as lembranças. Ela reconhece muitas

das canções que tocam alto no parque.

Estamos de pé em uma roda, em frente a Fun House, que


nada mais é que a boca de um palhaço como porta para a casa mal-
assombrada.

Existem três entradas; todas terminam no mesmo destino,


porém, o percurso é diferente.

Estamos em seis pessoas e vamos entrar em duplas. Gravity e

Ashton. Bryan e Mackenzie. Delilah e eu.

Foi Mackenzie quem fez a separação das duplas, tivemos que


nos dividir em três grupos de seis.

É mais interessante se entrarmos em números menores.

De acordo com os cálculos de Math, leva em torno de vinte


minutos para fazer todo o caminho se você não for nem lento, nem
rápido. O tempo pode prolongar se acabar se perdendo.

Conheço Delilah. Sei que ela tem pavor de coisas


assustadoras e filmes de terror, então ainda estou tentando decifrar
seu enigma. Ela não precisa estar aqui. Podia ter recusado

participar, mas quando perguntaram, ela topou, o que foi estranho


pra cacete.

Enfim, sei que a escolha das duplas foi proposital. Mack quer

que Ashton e Gravity se entendam logo, tanto quanto quer que


Delilah e eu façamos o mesmo.

Quando ela anunciou as duplas, esperei que contrariasse, mas

Delilah fez menção concordando e não encontrei nenhum vestígio


de que preferisse entrar com outra pessoa.

Estamos na entrada, esperando o primeiro grupo rodar a casa

inteira e sair pelos fundos. Delilah e eu vamos entrar pela direita,


Mack e Bryan pelo meio, Gravity e Ashton pela esquerda. Uma
risada macabra sai de dentro da Fun House, o que paralisa Delilah

quase imediatamente.

Enfio as mãos no bolso da jeans e abaixo a cabeça para


esconder o sorriso.
— É apavorante. Por que diabos tinha que ser palhaço? —
indaga, e fico na dúvida se está direcionando a pergunta para mim
ou apenas divagando. — Hein?

— Porque é apavorante — explico e o sorriso marca minha


mandíbula.

— É. Deu pra notar que você curte.

— Eu não curto, as pessoas que curtem.

Escutamos um grito saindo da boca do palhaço e Delilah

sobressalta.

Por impulso, estou com uma das mãos segurando seu braço
esquerdo, evitando uma queda.

Pigarreio, me afastando dela e volto a guardar as mãos nos


bolsos.

Ela ainda não se adaptou direito à muleta.

— Eu sei que você detesta qualquer coisa que cause medo.


Nós assistimos Annabelle uma vez — comento rindo, me lembrando

de como ela se agarrou a mim a cada aparição assustadora da


boneca. — Você quase me deixou sem braço e ouvidos.

A inocência com que faço os relatos não me deixa perceber

que Delilah está ao meu lado, boquiaberta. Sem querer, acabo


despertando nela curiosidade.

— Não acredito que fui convencida a assistir a filmes de terror


— bufa, não sei se está totalmente insatisfeita ou incrédula, acho
que uma mistura dos dois.

— Ah, nós não tínhamos muitas opções.

— Imagino que não. Ninguém nunca me convenceu a assistir a


filmes de terror à noite!

Não me lembro de ter dito a ela que assistimos à noite.

Viro-me devagar em sua direção, estudando seu rosto,


qualquer resíduo de choque em sua expressão pode ser um sinal.

— Você se lembrou de alguma coisa? — Giro o tronco, quase

ficando de frente para ela.

— Não. Por quê?

— Não disse que tínhamos assistido à noite.

Delilah morde o lábio inferior, pensativa.

— É uma sensação — confidencia. — Então foi à noite.

A compreensão marca seus olhos acinzentados.

Comprimo os lábios e faço sinal com a cabeça, dizendo que


sim.
Somos interrompidos pelo grupo que está dando a volta na
Fun House.

Willa e Paxton estão pálidos, encolhidos dentro dos casacos.

Faith e Bailey não estão nem um pouco sorridentes também. Trycia


e Brooks saíram cochichando um com o outro. Finn e Bree também
demonstram medo, assim como Effy e Reed – ainda não sabemos
ao certo o que está rolando entre eles – Chase e uma garota,
provavelmente da turma de Willa que não conheço, estão
comentando sobre o trajeto na Fun House.

Todos perambulam em nossa direção.

— Dá muito medo! — Willa faz o comentário inocente, mas


não evita Delilah de enrijecer ao meu lado.

— A gente não precisa ir, se você não quiser — asseguro a

Delilah.

— Precisa sim. — Ela suspira e com esforço se arrasta pela


rampa de acesso até a boca do palhaço.

— Prontos? — Mackenzie se inclina, olhando para nós.

— Vai ser muito fácil — Ashton zomba, rindo.

— Você quem pensa — o desafio, cético.


— Você deve saber o caminho de cabo a rabo. Não tem nem
graça você participar, é meio que injusto — Ashton usa um tom de

briga, mas acaba relaxando em seguida quando Gravity revira os


olhos e entra sem ele.

Espero que Bryan e Mackenzie também cruzem a entrada para

que finalmente Delilah e eu possamos caminhar para a direita.

A Fun House é escura, o piso de madeira range a cada


passada que damos. Risadas fantasmagóricas e que beiram a

realidade ressoam dentro da casa.

Delilah fica mais próxima de mim quando as luzes vermelhas


acendem e apagam, num intervalo de dez segundos.

Sei que em algum momento alguém vai aparecer fantasiado de


palhaço ou caveira para nos assustar e que também, no final do
corredor, tem uma televisão com ilusão de ótica que fará parecer
que estamos sendo seguidos por alguém e quando olharmos para

trás, não terá nada.

Ashton tem toda razão. É muito sem graça andar pela Fun
House comigo porque sei tudo que pode acontecer até a saída.

Quando as luzes acendem de novo, paramos.


Tem um cara fantasiado de palhaço, com dentes amarelados e
afiados girando a cabeça enquanto nos encara.

Delilah grita, sua muleta cai e ela se agarra em mim,


escondendo o rosto no meu peito.

Encaro o palhaço assustador num misto de raiva e desgosto; é

só o trabalho dele, mas a compreensão inunda seus olhos e as


luzes se apagam de novo.

Fico parado pelos segundos seguintes, sentindo a mão boa de

Delilah tremer enquanto se agarra na lapela do sobretudo.

— Eu detesto isso com todas as minhas forças! — murmura,


com a boca contra o meu peito; um arrepio sobe minha espinha.

Com um suspiro pesado, seguro sua mão. Me abaixo para


pegar a muleta e entregar a ela.

— Eu sei o caminho — digo para tranquilizá-la. — Não vamos


demorar nem dez minutos para cruzar a Fun House.

Ela encara a muleta que estendo em sua direção.

— Que nome estranho pra se dar pra uma casa mal-


assombrada — Ela puxa a muleta. Sua raiva é totalmente

transferida para mim. — Por que não Haunted House ou sei lá, Devil
House? Melhor ainda, Clown House. Quer saber? O nome não
interessa, é tudo bizarro!

— A gente pode voltar. — Lembro a ela, apontando por cima


do ombro. — Nem sei por que você quis vir. Você detesta, Delilah.

— Eu pensei que… — Delilah morde o lábio inferior, refletindo


suas próximas palavras. — Sei lá, quando você disse que
assistimos a filmes de terror juntos, achei que qualquer coisa

familiar viria se eu entrasse aqui, mas a única coisa que está me


causando é náusea!

— Se você quer saber de alguma coisa, é só me perguntar.

Seguimos caminhando, mais lento ainda. Felizmente, nenhum


outro personagem fantasiado apareceu. Acho que meu olhar foi
suficiente para o cara entender que não quero outra surpresa

quando as luzes acenderem de novo.

Exceto pelos murmúrios bizarros e os gritos enlatados


ecoando na casa, não aparece mais nada.

— Ainda acho que não estou pronta para saber de grande


parte. — Delilah olha para os lados, para ter certeza de que não
será surpreendida. — Mas, no almoço de domingo, eu falei sobre os
sonhos. Tenho sonhado com tanta coisa e já não sei mais o que é
verdade ou o que é sonho, porque, sinceramente, tudo parece tão
real quando acordo. Estou te contando isso Aidan porque eu sinto…

Sinto que, de nós dois, você é quem mais sofre.

Nós paramos de repente, quando as luzes se apagam.

Um silêncio pesado nos cobre, exceto por nossas respirações


densas.

Sinto sua pulsação quando minha mão toca a sua e o seu


cheiro doce em meio ao odor de madeira velha da casa.

As luzes vermelhas piscam e posso notar como Delilah está


me encarando.

— O que você sonha?

— Alguns são felizes, outros nem tanto. Outra noite, sonhei


com o carro. Ele girava. Girava. Girava. E eu estava dentro dele,
meu estômago embrulhava, minha cabeça doía com um zumbido
fundo e tinha sangue escorrendo do meu nariz. Eu posso sentir. —
Leva o indicador para o nariz e o pressiona. — Posso sentir tudo. A

dor, a pressão, o impacto. Eu, às vezes, até posso sentir como meu
coração estava angustiado. Mas não tenho certeza se é um
pesadelo ou uma lembrança. Se minha falta de ar vem do sonho ou
da realidade. Não consigo me encontrar no meio dessa bagunça,
Aidan.

Quero abraçá-la e eu poderia se não achasse que estou me


apropriando de um momento sensível para Delilah.

A encaro com compaixão e empatia. Se pudesse, seria capaz

de diminuir a sua dor ou, pelo menos, transferi-la para mim.

Sua voz transmite com honestidade como esses sonhos, que


eu sei, são as memórias voltando.

— Minha mãe quer que comece a terapia, ela acha que vai me
fazer bem, mas tenho medo da abordagem que o terapeuta irá usar,
porque não tenho certeza se quero essas lembranças à tona. Elas
doem, Aidan.

— Acho que você devia tentar.

— Com o terapeuta?

— Sim, sei que pode ser difícil no começo, mas não é como se
você estivesse sozinha. Vamos enfrentar isso com você. Mack, Effy,

Gravity, Bryan… eu.

Delilah suspira e volta a andar.

Eu vou atrás dela.


— Obrigada, Aidan.

— De nada.

— A propósito, eu ouvi as mensagens que você deixou na


minha caixa postal durante os vinte e três dias que estive em coma.
— Ela refreia os passos de novo e olha para mim. — Acho que
nunca, em toda a minha vida, me senti tão amada antes. Tenho
certeza que se aquela Delilah não te disse antes, te diria em algum

momento que também amava você.

Não consigo dizer nada. Estou sem palavras para ela de novo.
Meu primeiro impulso é beijá-la outra vez porque o modo como me

olha, é uma exigência, uma súplica para que eu faça isso, mas
contenho minha vontade. Da última vez, ela fugiu de mim.

— Quero beijar você. Quero pra cacete.

— Não é uma boa ideia — diz, solene.

— Eu sei. E é por isso que estou com raiva.

— É melhor que sejamos só amigos por enquanto.

Me agarro ao “por enquanto” como oxigênio. Giro em looping


nessa frase e ela ressoa dentro do meu consciente de forma
viciante.

— É melhor do que nada.


— É melhor do que nada — ela repete, sorridente e
continuamos andando.
01 DE FEVEREIRO DE 2021, ÀS 18H53MIN.

Descobri uma maneira de lidar com a versão superprotetora da

minha mãe. Deixar que participe da minha vida, mesmo nos


pequenos detalhes, faz com que reforce sua confiança na minha
capacidade de voltar à minha vida.

Depois do Ano Novo meu relacionamento com um grupo, até

então desconhecido por mim, se tornou muito agradável e aquela


conversa com Aidan me fez sentir mais segura em relação ao futuro.

Além dela, tive outras conversas complicadas, porém


necessárias com Mackenzie e Bryan, onde ambos foram totalmente

honestos comigo. No começo foi difícil, mas consigo olhar para eles

e entender que, o que Bryan e eu tivemos anos atrás, se foi. E se foi


muito antes de eu estar nessa situação.

Entretanto, Mackenzie não me culpou por ter revivido aqueles


sentimentos por Bryan. Ela sabe que são reflexos de como minhas

lembranças estão em desordem. Apesar de ter acordado achando


que ainda estava nos meus catorze anos, acabei percebendo que

meus amigos não estão mais nessa fase.

Conviver com eles, escutá-los, ser acolhida, tornou todo esse

processo de adaptação suportável. A maturidade que eles


adquiriram com os anos, acabei pegando carona nela e me

inspirando neles. Então, de um modo geral, estou bem.

Estou em estágio de redescoberta.

Qual minha comida favorita? O que gosto de ler? Quais filmes

gosto de assistir antes de dormir?

Coisas que juntas moldam tudo que eu sou. Estou tentando

me reconectar com esses fragmentos espalhados, e assim, voltando

para a minha vida.

Há pouco mais de duas semanas minha mãe oficializou a

mudança para Humperville e pelo menos duas vezes ao longo da

semana, me encontro com ela.

Isso transformou minha liberdade. Nas primeiras semanas

depois de ter acordado do coma, estava me sentindo enjaulada.

Sendo monitorada e guiada pelo que minha mãe achava que eu

devia ou não saber.


Agora, apesar de não ter muito acesso às memórias, nós
conversamos e ela disse que se sentiria mais confortável se eu

tivesse acompanhamento de um terapeuta. Ter alguém que possa

me amparar quando as lembranças me bombardearem.

Relutei no começo, mas percebi que esse relacionamento mãe

e filha é quase como um namoro; é dar e receber.

Levo as tigelas para a mesa redonda atrás da ilha da cozinha

integrada, minha mãe me segue com uma travessa grande de

ensopado de camarão. O cheiro está delicioso e minha barriga

ronca. Minha mãe costuma comer cedo à noite, segundo ela, sobra

mais tempo para a digestão.

E preciso ressaltar o quanto é maravilhoso não depender mais


da muleta, da bota ou da tala. É quase estar cem por cento outra

vez, esperando que o resto chegue no lugar por si só.

Puxo a cadeira para me sentar e minha mãe faz o mesmo. Nós

nos servimos, conversando banalidades de segunda-feira. Ela está

trabalhando para Aidan desde que se mudou, então não faz muito
tempo, mas ela nunca parece cansada ou estressada com o

trabalho.
— Você recebeu uma ligação do reitor Callum? — Ela dá a

primeira colherada no ensopado.

Faço que sim com a cabeça, porque estou com a boca cheia

de camarão.

— Começo semana que vem — conto, esmagando um pouco


da empolgação.

O frio na minha barriga quase me faz perder o apetite.

— Isso é ótimo. Como você tem se sentido? — Minha mãe

segura em torno da taça de vidro, cheia de água e bebe um gole


enquanto analisa minha expressão distorcida.

Conto quase tudo para ela das minhas sessões com a doutora
Carolyn Foster, mas, confesso, deixo alguns detalhes de lado. Acho

que tenho o direito de ficar com algumas coisas só para mim.

A terapeuta está usando um método de “associação livre”.

Conversamos sobre o passado e, às vezes, conseguimos

evocar algo do meu inconsciente, como, por exemplo, a morte do


Seb. Ou tudo o que aconteceu entre a noite do karaokê adiante,

como o divórcio dos meus pais e minha mudança para Dashdown.

— Estou bem — respondo concisa, sem me prolongar, sem


encará-la. — A doutora Carolyn é atenciosa, astuta e gentil.
— E as memórias?

— Tudo sobre depois de Sebastian — confidencio, abafando a

voz com uma colherada da sopa. O superior da língua queima com


o ardor apimentado do caldo. — A carta do Sebastian que a polícia

apreendeu para investigação… — paro de falar para observá-la.

Posso criar estratégias e recuar se sentir que o assunto é um

problema, mas desde a última sessão com Carolyn, não consigo


tirar essa dúvida da cabeça.

— O que tem ela?

— Nós chegamos a pegá-la de volta?

— Na verdade, não.

— Tem certeza? — insisto no assunto. Uma ruga pertinente


crava sua testa enquanto a franze. — Desculpa, é só que não confio

no papai.

— E não deve. Se ele te procurar, por qualquer motivo que

seja, você precisa me contar imediatamente.

Concordo com ela, meneando a cabeça devagar. Porém, fico


pensativa.

As lembranças voltam em fragmentos; nunca completas e


nunca em situações contextualizadas. Preciso desvendar como um
quebra-cabeça de cinco mil peças. E Carolyn concorda que é
provável que grande parte das minhas memórias estejam com
bloqueio devido aos traumas que passei nos últimos anos.

Entre minha mãe e meu pai, entendo que ela é a menos

provável de me contar o que quero saber.

Deixo a possibilidade de falar com Thomas em aberto, não


confio nele, mas com uma boa proposta, ele pode até abrir o jogo.

Esse, entretanto, é um dos pensamentos que me abstenho de


compartilhar com ela ou qualquer um dos meus amigos.

— Hum. Fico feliz que você esteja recuperando as lembranças

do dia em que seu irmão faleceu. É só uma pena que não sejam tão
boas — ela lamenta, aérea. Sempre que o assunto é Sebastian, a
mamãe assume uma postura de derrota e a tristeza transcende sua

feição. É de partir o coração vê-la desse jeito. — Mas então, e a


faculdade?

— Mãe, nós basicamente conversamos disso no sábado. —


Dou risada. — Não mudou absolutamente nada de sábado para

agora. Continuo naquela fase de adaptação. Estranhando os rostos,


os corredores, os professores… Mas gosto do curso, acho que fiz

uma boa escolha.


— É um alívio escutar você dizer isso, juro que por um
microssegundo pensei que você nunca fosse conseguir se
reencontrar em Humperville.

“Eu também pensei”, não digo em voz alta.

A coisa é que quando você perde cinco anos das suas

memórias, nenhum lugar é o seu lugar de verdade. Você busca


pequenas coisas que possam ser familiares para trazer qualquer

chama de conforto no coração, só para no fim do dia se frustrar e


perceber que não existe nada que conheça.

Exceto por uma situação em especial que aconteceu, quase

dois meses atrás, no dia 25 de dezembro.

Quando Aidan Lynch me beijou.

Acho que naquele momento minhas engrenagens pararam e

indubitavelmente, tudo de errado na minha vida cedeu para Aidan.

O encaixe da sua boca na minha foi perfeito, seu toque febril e


o modo como meu corpo se aconchegou ao dele.

Ninguém nunca tinha me abraçado ou me beijado daquela


maneira. O jeito como Aidan se entregou para mim, sem ressalvas,

com certeza mexeu comigo. Não só isso como a música que tocou

no fundo. Me trouxe angústia, como se ainda não estivéssemos


prontos para reviver tudo outra vez. Então precisei afastá-lo, mesmo

que interiormente tudo gritasse o oposto.

O que quer que tenha acontecido entre Aidan e eu foi ruim o

bastante para me trazer até aqui. Não sei se quero descobrir quão
profunda é a dor que guardo desse relacionamento.

— Vamos falar de outra coisa. — Minha mãe interrompe meus

pensamentos.

— Sobre o quê?

— Não sei. Quais são seus planos para esse fim de semana?

— Mãe, ainda é segunda-feira…

— Sim, eu sei, mas ouvi Aidan comentando no trabalho que

hoje é aniversário do Chase. Ele não é o tecladista da The

Reckless?

“Chase é o cara que me ajudou com a árvore de Natal”,

associo o nome ao que ele me contou. As coisas têm funcionado

assim. Estou com uma quantidade exagerada de Post-its colados na


parede do meu quarto desde que comecei a ir atrás das minhas

memórias.

— Ah, é verdade. Ash me falou alguma coisa sobre uma festa

no sábado, para comemorar. Então é, acho que tenho planos para o


próximo fim de semana. — Dou outra colherada para impedir que o

ensopado esfrie antes de terminar de comer. — Mas não me lembro

de nada combinado para hoje. O único desmiolado do grupo é o


Ashton. Se alguém fosse fazer uma festa em plena segunda-feira,

acredito que seria ele.

Mamãe e eu rimos. Consequentemente sua mudança para


Humperville fez com que se aproximasse também da banda.

Ela conhece um pouco cada um deles através dos meus


relatos e alguns encontros esporádicos aos sábados de manhã no

apartamento – a tradição do café da manhã continua.

Aidan, no entanto, não é frequente nesses encontros.

Às vezes sinto que ele me evita. Para mim é fácil dizer que

seguirei em frente, ter sentido algo forte quando nos beijamos não é
como se vê-lo me trouxesse lembranças. O que é o oposto do que

significo para ele. O que ele sente por mim está muito vivo e

escancarado. Ele ainda me ama e quer que eu o ame de volta.

Tá ocupada? Te liguei umas cinquenta vezes, caralho!


Meu celular vibra no tampo da mesa ao lado do meu braço.

Noto a reprimenda nos olhos de minha mãe, mas não me priva de


pegá-lo para responder.

Ashton é um drama em pessoa. Extremamente exagerado.

Reviro os olhos e abro a mensagem para responder.

Você ligou duas vezes, Ashton.

Pra mim parece que foram mais.

Mas não foram.

Tá. Você tá ocupada?


D

Jantar com a minha mãe. Lembra?

Porra. Verdade. Consegui recuperar sua conta no Instagram :)

Sou a porra do melhor amigo do mundo inteiro, não sou?

Delilah

Você é. Pena que não conseguiu proteger a sua conta tão bem,
né? Hahaha.

Ashton teve a conta do Instagram hackeada semana passada.


Lembro como a The Reckless e o grupo de pessoas que os

acompanham fielmente na internet ficaram indignados com a perda

de tempo das pessoas que não curtem o trabalho deles.

Porém, não demorou muito para eu perceber que a banda não

é do tipo que lamenta. Eles sacodem a poeira, erguem a cabeça e


começam de novo se for necessário. É uma das coisas que faz com

que sejam tão incríveis e tenham tantas pessoas que os amam


verdadeiramente.

Cala a boca, as pessoas me adoram, essa é a questão!

Enfim, vou te enviar o login e a senha. Vê se não perde!

Ashton envia meu login e a nova senha por mensagem.

Salvo em “notas” no celular e o devolvo para a bolsa.

— Estava pensando… Toda quarta-feira fazíamos a noite da

pizza em Dashdown. Queria trazer a tradição para cá. O

apartamento não é muito grande, mas você pode convidar seus


amigos, se quiser.

Maya lança um sorriso amarelado e compreensivo para mim.

Não consigo descrever como meu coração se expande ao ouvi-la


dizer isso.

— Seria ótimo, mãe. Tenho certeza que todo mundo vai topar.
— Que bom! Mas diga a eles que nós fazemos as pizzas, ok?
Nada de delivery! — Rio e aceno, fazendo que sim.

Nós terminamos de jantar. Seguimos falando sobre o fim de


semana e planos para o próximo.

Combinamos de ir ao cinema na sexta, já que não poderei vê-


la no sábado e a noite termina tranquila, exatamente como

começou.

Preciso admitir, adoro não estar em uma montanha-russa de


sentimentos que oscilam entre confusão e insegurança.

Chego em casa por volta das oito e meia.

Effy está no banho, ao cruzar o corredor que liga aos quartos,

escuto o som habitual de Gravity na máquina de costura. Ela


costuma costurar até tarde da noite, às vezes, passa a madrugada
toda trabalhando. E ainda consegue acordar cedo para ir ao ateliê

onde trabalha.

Gravity tem uma personalidade geniosa, mas ninguém pode


dizer que não existe determinação nela. Nunca conheci ninguém – e
na minha situação não é como se eu me lembrasse – com tanto
foco quanto ela. Acho que Mackenzie tem razão quando diz que
depois que Vity for para Milão, talvez não a vejamos pelos próximos

dois anos. Ela é a “desapegada” do grupo, aquela que age como se


nada além dos seus objetivos fosse importante. Isso inclui os
amigos e, principalmente, Ashton.

Embora nenhum deles fale muito, deu para perceber a tensão.


Como eles repreendem os sentimentos. A última vez que os vi
juntos foi no ano novo e tenho certeza de que aquele encontro de

uma noite foi como uma despedida.

Arrisquei perguntar a Ashton algumas vezes, abusei um pouco


da falta de memória, mas ele foi muito convicto ao dizer: é bom se

lembrar, porque não vou repetir nenhuma palavra do que disse


antes.

Tenho certeza que esse é o jeito de Ashton me estimular a


correr atrás das minhas memórias, portanto, não fico nem um pouco

magoada, afinal, ele foi o único que teve coragem de me contar


sobre Sebastian.

Naquele dia em que Ashton disse o que aconteceu com

Sebastian, foi como se eu estivesse em uma realidade paralela. É


muito difícil ser inserida num mundo onde meu irmão gêmeo não faz
mais parte, quando, poucos dias antes, na sua cabeça, vocês
estiveram juntos.

Choro em quase todas as sessões quando falamos de Seb


porque me sinto uma péssima irmã e culpada pelo que aconteceu
com ele. É como se eu não tivesse feito o meu papel de irmã direito.

Mas aos poucos, a cada sessão, sinto que uma ferida se fecha.

Refreio as passadas e paro diante da porta semiaberta de


Gravity. Penso em incomodá-la, mas escuto seu celular tocar e

desisto.

O chuveiro ainda está ligado, então Effy não terminou o banho.

Sigo para meu quarto, tateio a parede à procura do interruptor


e assim que o quarto clareia, me deparo com a parede onde fica a

cabeceira da cama, lotada com Post-its vermelhos.

É um mural grande e recheado de informações importantes.


Cada papelzinho pregado é um reforço para mim mesma que em

algum momento estarei completa outra vez, porque por mais que
tenha todas essas pessoas incríveis me apoiando, não consigo me
sentir inteira. Falta um pedaço de mim, algo que perdi naquele

acidente que foi crucial.


As memórias são importantes, claro, mas não é por causa
delas que me sinto fria e vazia.

Pego o celular e penduro a bolsa no encosto da cadeira em


frente à mesa de estudos.

Tem uma pilha de papéis que estou relendo. Descobri que sou

estudante da matéria de Escrita Criativa na HU, no curso de


literatura e estou relendo alguns textos que escrevi durante o
primeiro semestre.

Abro as notas do celular para pegar o login e a senha nova do

meu Instagram. Estamos há semanas tentando acessá-lo.

Apesar de ter visto algumas fotos do meu perfil, queria ter


acesso a outras coisas, como as mensagens, por exemplo.

Entro no aplicativo, coloco meu login e colo a senha na aba


indicada. Preciso adicionar meu número de telefone.

Ainda não consegui decorá-lo. Olho para a parede onde

circulei os números e digito no celular.

Leva uns três segundos para o Instagram me enviar um código


de confirmação e eu finalmente estar dentro da minha antiga conta.

Minha primeira ação é entrar no meu perfil, onde vejo fotos no

feed. Por curiosidade, havia feito isso antes, mas é ainda mais
estranho ter acesso a essa conta e perceber que eu postei tantas

fotos com Aidan. Tem até mesmo um destaque dos stories com
nossos momentos juntos.

Começo a descer o dedo pela tela e, enquanto isso, busco o

apoio da cama para me deitar.

Recosto à cabeceira e suspiro, passando foto por foto no story.

Minha garganta fica seca a cada momento bonito que tivemos


juntos. A última foto que publiquei e marquei no story, inclusive está

salva no destaque que criei para nós, foi do dia do acidente.

28 de novembro.

Estamos usando roupas sociais. Eu, num vestido em tom de

bronze com mangas compridas e Aidan com as pernas longas em


uma calça cinza de linho e camisa social com botões perolados.

Sua mão esquerda cerca minha cintura, os dedos


ornamentados com os anéis de prata e o tecido fino do meu vestido

afunda com o toque.

Olhando a foto, me atentando no modo como seu braço esguio


me enlaça e sua mão circula minha cintura, quase posso senti-lo.

Fecho os olhos, respirando fundo e toco minha cintura, a


mesma região onde a mão de Aidan me abraça e a aperto.
Abro os olhos de repente, noto como minha respiração se
torna rarefeita com a sensação e encaro a foto outra vez.

Estamos sorrindo para a câmera. O braço direito de Aidan

sustenta o celular. Minha mão está espalmada em seu peitoral sobre


a camisa e observo meus dedos enredados na lapela do tecido.

Me pergunto se vou me lembrar como a Delilah dessa foto


amava o homem que está ao lado dela. Dá para perceber que eu

não tinha nenhuma intenção de esconder meus sentimentos por


Aidan. No modo como meus olhos brilham e o sorriso marca minha

feição, estava estampado para qualquer um que eu o amava.

Contudo, olhar para essas fotos não condiz com a ideia de


“seguir em frente” e de qualquer forma, não estamos mais juntos.

Rastreio a tela com os olhos, em busca do local onde posso

apagar todas as fotos do destaque. Uma por uma, vão sumindo.

Depois passo para as fotos que tenho com ele no feed e pouco
a pouco, as poucas memórias com Aidan, que são vivas e externas,

também se tornam extintas.

Tenho no mínimo umas cinquenta mensagens no direct.


Algumas são marcações de meses atrás, então não consigo ver

quase nenhuma delas.


Outras são mensagens dos fãs da The Reckless. E são muitas
para uma banda local. Mas eles estão estourados na internet, com

milhares de visualizações no YouTube e seguidores nas redes


sociais. Se procurar por The Reckless na barra de pesquisa do
Twitter, por exemplo, com certeza vou encontrar alguma coisa.

E não mencionei a faculdade. É quase impossível almoçar com

Bryan e Aidan no campus. Estão cercados de admiradores. Acho


que depois de presenciar cenas assim foi que me dei conta de como

a banda é reconhecida em Humperville.

Até entendo porque Mackenzie não ficou enciumada com os


meus sentimentos por Bryan, ela já está acostumada a ver o
namorado com uma fila de garotas que estão afim dele.

Eu entendo. É só uma questão de tempo até a The Reckless


deixar de ser uma banda local.

Fico por mais de quarenta minutos dando unfollow em algumas

pessoas do Instagram, que não conheço, e abrindo todas as


mensagens até me deparar com minha conversa com Aidan. Não
falávamos muito. Só enviamos videos engraçados um para o outro,

outras, respondemos com emoji de coração alguns stories.


Saio da conversa num sobressalto quando Effy cruza a porta
do quarto sem bater. Quase deixo o celular novo cair no chão e me

forço a erguer o quadril, aprumando a postura.

— Você não ouviu? — Suas bochechas estão ruborizadas,


talvez pelo vapor do banho. — A campainha está tocando há um

tempão! — Andando até mim, Effy revira os olhos e me lança um


envelope pardo. — É do escritório da prefeitura de Humperville,
chegou hoje de manhã. E temos visitas, vamos! — Gesticula com o

queixo para fora, levo alguns minutos para compreender o que é o


envelope e quem é a visita. — É o vovô Jasper, não demora muito.

Ele não costuma aparecer sempre!

Não sei porquê, mas sinto que Effy está apreensiva com a
visita de Jasper. Ainda assim, deixo o envelope na cama e a sigo
para fora do quarto.

O senhorzinho está sentado no sofá de três lugares, com as


pernas dobradas e segurando uma xícara de chá.

Gravity conversa com ele, está empolgada contando a

novidade sobre Milão, mas a conversa cessa no instante em que


minha presença é notada por ambos.
O senhor Jasper espreita os olhos azuis em minha direção.

Não dá para não notar as olheiras na pele flácida abaixo dos olhos
ou nos leves hematomas arroxeados em sua bochecha.

Pessoas idosas têm facilidade para adquirir ferimentos na pele,

os dele se parecem com arranhões de garrinhas afiadas. Ele deve


ter um gato, presumo. Não me lembro de um animal de estimação
nas poucas vezes que falei com Jasper nas visitas que fiz com

Mack, anos atrás.

Nós trocamos uma olhadela por vários segundos até que eu


fique constrangida e quebre o contato visual.

— Queria ter vindo antes — murmura, a fisionomia abatida


dele me causa pena.

Escuto os passos de Effy logo atrás, me seguindo. Assim que


me acomodo ao lado de Gravity, um silêncio desagradável surge no

cômodo. Tem alguma coisa estranha aqui.

Procuro pelo relógio. Não sei por que a ideia de ter um senhor
de oitenta anos, nos encarando, me traz um sentimento de mal

presságio.

São quase nove e meia. Tenho certeza que Jasper não sairia à
noite, para vir até o apartamento de três garotas, só para uma visita.
— Sinto muito ter aparecido sem avisar, eu devia ter
telefonado.

— Tudo bem, vovô Jasper. O senhor é sempre bem-vindo. —

Gravity é estranhamente doce com ele. — Aconteceu alguma coisa?

— Não. Queria visitar Delilah. — Quando meu nome é


mencionado, me insiro totalmente na conversa. Encaro o senhor

franzino e grisalho, esperando uma explicação. — Soube o que


aconteceu, então imaginei que deveria vir e conversar com você
outra vez. É o mínimo, te devo isso.

Um frio cortante afunda meu estômago. Sua visita não é um

bom sinal, pelo contrário, tenho a sensação de que ele colocará


mais pontos de interrogação na minha cabeça. E não me lembro de

Jasper e eu termos qualquer tipo de relação além de conhecidos.

— Vovô Jasper…

Effy se inclina para que ele veja seu rosto. Ela quer que ele
leia sua expressão, como se dissesse: com certeza não é uma boa

ideia ainda. Mas é tarde. Já percebi o que está acontecendo.

Jasper está aqui para me ver e não é uma visita convencional.


Pelo modo surpreso com que Gravity e Effy o receberam, não é

comum que ele venha.


— Está disponível para que eu te pague um bolo de laranja na
cafeteria da esquina? — Um sorriso doce se desenha em seus

lábios. — E um chá de Jasmim? — Que combinação mais esquisita.

— Hum. Claro — respondo rápido e me espanto. Sequer


pensei no assunto. — Preciso só pegar minha bolsa. — Aponto

rumo ao corredor e me levanto, com pressa.

No caminho para o quarto penso em telefonar para minha


mãe. Contar para ela o que está acontecendo, mas em seguida, a
ideia me escapa, porque ela pode não gostar.

São quase dez da noite quando adentramos na cafeteria com


um letreiro em neon de 24 horas da rua do prédio.

Deixo que ele escolha o lugar em que vamos nos sentar; no


fundo, a mesa encostada à janela.

Ele anda na frente a passos lentos. Cumprimenta as


bartenders que estão atrás do balcão e assim que nos sentamos,

uma atendente se aproxima.


Leio na plaquinha prateada do lado esquerdo do seu peito:

Lyah.

— Dois pedaços de bolo de laranja, duas xícaras de chá de


Jasmim — Jasper cita o pedido.

Não sei se gosto muito da combinação, mas não reclamo. Tem

algo nele muito convincente. Talvez seja o modo confiante como


empina o nariz ou na cautela ao olhar para mim, mas acho que o
que mais me agrada em Jasper é que ele não fala muito nem faz

perguntas.

Todo o percurso do prédio até aqui foi feito em completo


silêncio. Ele não viu necessidade em se lamentar pela consequência

do acidente.

Por alguma razão, quando vovô Jasper me encara, não me


sinto fragilizada por causa da minha condição, nem vulnerável.

— Essa combinação funciona? — grunho, olhando para Lyah

enquanto se afasta.

— Você diz o uniforme lilás com azul? Eu disse a Garrick que


era uma péssima combinação de cores.

— Não. — Rio. — Bolo de laranja e chá de Jasmim.

— As melhores combinações são improváveis.


Uma música baixa ecoa pela cafeteria. Reconheço a voz de

Elvis Presley em Jailhouse Rock.

Fito o rosto inexpressivo de Jasper após sua frase filosófica,


mas está balançando a cabeça no ritmo da música.

Sufoco a risada. É um senhorzinho adorável, confesso.

— Que foi?

— Nada. Só estava aqui pensando que Jailhouse Rock e sua


frase filosófica também não combinam em nada!

— Ah, minha Molly e eu amávamos dançar Jailhouse Rock


quando ficávamos a sós.

— Como vai a Molly?

— Ela já faleceu. Há quase dois anos.

Eu devia saber. Acho que sabia, mas não tinha certeza.

— Sinto muito, minhas memórias estão todas embaralhadas


no momento. — Gesticulo com ambas as mãos, fazendo

movimentos circulares em volta da cabeça. — Lamento que Molly


tenha falecido. Acho que até entendo um pouco como se sente.

— Imagino que sim. Sebastian era parte de você tanto quanto


Molly era uma parte de mim. É como se um pedaço de nós tivesse
ido embora com eles, não é?

— É, acho que sim.

Entrelaço os dedos no tampo da mesa, pensativa.

Continuo imaginando Sebastian entrando pela porta da frente

do apartamento e dizendo que não passa de uma pegadinha, que

ele está bem, que fez de propósito para se vingar do coma. Só para
que eu experimente a dor visceral que ele sentiu nos dias em que
fiquei entre a vida e a morte.

— Deve ser difícil, não é? Não se lembrar dos pontos mais


importantes da sua vida.

— Me sinto uma completa estranha. As pessoas estão


esperando que eu pense e aja como a Delilah que conheceram

antes do acidente e no fundo, quero entregar essa Delilah para eles.


Para compensar toda a dor que causei. Mas… não me sinto mais
como a Delilah de antes. Tenho a sensação de que não sei nem
mesmo como era a Delilah de catorze anos. — Rio para disfarçar a
voz embargada. Abaixo a cabeça, fugindo do seu olhar escrutinador.

— Não faço ideia de quem eu sou.

Jasper fica em silêncio por longos segundos, mas é quebrado


com o nosso pedido sendo depositado na mesa diante de nós.
Ocupo as mãos e a boca levando a xícara de chá aos lábios e
tomando um gole. Está docinho e quente, sorvo o sabor da flor e do
aroma, fechando os olhos.

— Delilah Dakota Linderman. Você tem quase vinte anos.


Estudante de Literatura. Filha de Thomas Linderman e Maya Price.

— Eu sei.

— Essa é a sua base, Lilah. Sua vida não pode girar em torno

do que era, mas precisa decidir o que fazer de agora em diante. Não
se apegue ao que você foi antes do acidente, mas o que vai fazer
no depois. Se apegar ao passado é o pior mal que um jovem pode
fazer por si mesmo. Lide com essa nova fase como uma nova
oportunidade.

— Por que exatamente o senhor queria falar comigo? —


indago, sem nem pensar.

Suas palavras são gentis e sábias, mas não tínhamos


nenhuma relação antes, não vejo motivos de Jasper querer falar
comigo a sós.

— Estive em contato com Aidan ultimamente, mas no fim,


queria ver com meus próprios olhos como você está indo. — Jasper
parte um pedaço do bolo de laranja e o leva à boca. Em seguida,
fecha os olhos, degustando. — Bolo de laranja deveria ser
obrigatório no café, almoço e janta.

Os ombros dele cedem em cansaço e mastiga lentamente em

apreciação. Não me atrevo a atrapalhá-lo perguntando o que Aidan


tem a ver com essa história.

— Ele ainda gosta muito de você — acrescenta, depois de

engolir. — Vocês têm conversado?

— Hum. — Penso a respeito. Conversado? De verdade? —


Não muito — respondo sem relutância. — Nossa história acabou

antes do acidente acontecer.

— Entendo.

— Vovô Jasper.

— Sim, querida?

— Nós nunca fomos muito próximos.

— Isso é verdade — ele pontua com o garfo em minha direção.

— Então por que nós estamos aqui?

— Porque me importo com você.

Semicerro os olhos para ele, em desconfiança. Jasper suspira,


prestes a ceder à minha insistência.
— No dia do acidente aconteceram tantas coisas que você
sequer pode imaginar, minha querida. Se eu pudesse voltar atrás,

reescrever aquela noite…

— Não foi o senhor que disse que preciso decidir o que fazer
de agora em diante? Sem olhar para o passado?

— Você tem razão. Tem toda razão — ele assente repetidas


vezes e volta a comer. — Aidan disse que você quer recuperar suas
memórias sozinha.

— Aidan é muito linguarudo — digo, irritada.

— Aidan se importa com você. Não seja ingrata. — Jogo o


corpo para trás, acho que nunca o vi falar dessa maneira com
ninguém. — Não seja como seu pai. Tão amargo e intragável.

Arqueio as sobrancelhas.

Sinto-me um pouco magoada por ter sido comparada, mas


engulo a irritação para poder continuar essa conversa. Na verdade,

não sei porque concordei em vir. Não é como se de repente fosse


me abrir com Jasper e confiar a ele todos os meus sentimentos.

— Por mais que estejamos dispostos a respeitar suas


escolhas, devo dizer que não concordo. Você está ciente de que

pode nunca se recuperar?


— Estou disposta a correr o risco.

— Você fica vulnerável e suscetível a manipulações.

— Não me importo. Posso lidar com isso.

— Delilah. — Ele desce calmamente a xícara de chá para a


mesa e empertiga a coluna. — Seu pai é o homem mais controlador
que já conheci.

— Você conhece meu pai? — Vinco a testa, tensa. — Desde


quando?

— Ele é prefeito da cidade. Todos o conhecem.

— Sim, todos conhecem o prefeito da cidade, mas nem todo


mundo conhece o meu pai. Você o conhece! — exclamo em tom
acusatório. — É por causa disso que veio me ver, não é? O que

você sabe?

— Pensei que estivesse disposta a recuperar suas memórias


sozinha.

— Essa situação é diferente. Você veio até mim por uma


razão. Qual é o problema?

Jasper fica em silêncio outra vez, mas esta é diferente das


outras. Ele é cortante como o inverno lá fora. Pesa sobre minha
cabeça como concreto e minha respiração ganha força, ficando
entrecortada a cada segundo que espero vovô Jasper terminar de
engolir outro pedaço de bolo.

Quando termina, limpa os farelos com o dorso da mão. Bebe


outro gole do chá e lança o corpo contra o encosto estofado do

assento.

— Sou pai do Thomas, Delilah. Sou seu avô.


— Como é?

Finalmente consigo dizer alguma coisa.

Os últimos dez segundos passamos encarando um ao outro,

sem emitir nenhum som. Devo ter aberto e fechado a boca meia
dúzia de vezes antes que conseguisse formular uma frase curta e
direta. Como é?

— Eu sei que é difícil de entender, nunca tinha me ocorrido ou

até mesmo a Thomas, que contássemos a você, mas quando Aidan


descobriu e contou pra você...

O quê? Jesus Cristo. Ele precisa parar de falar agora mesmo


ou acho que meu cérebro fundirá de vez.

— Pode parar de falar por um minuto?

Fecho os olhos, inspirando e expirando o ar com calma.

Concentro-me na respiração, em sentir o meu peito inflar e os


pulmões trabalharem. Mantenho a concentração na ponta dos meus

dedos contorcidos dentro das botas de inverno, na minha pulsação

irregular e finalmente consigo encará-lo.


A lucidez nos olhos de Jasper, o modo como sua respiração

continua tranquila e controlada, não me deixa dúvidas: ele está


dizendo a verdade.

Tenho certeza de que essa foi uma informação que recebi, que
gostaria de não ter descoberto porque saber que tenho um avô

muda tudo e que ele é Jasper, torna todas as circunstâncias ainda

mais tristes.

— Você está me dizendo que conhecia esse lado monstruoso

do meu pai e que enquanto Sebastian e eu precisávamos

desesperadamente de ajuda, o senhor simplesmente fechou os


olhos e fingiu que nada estava acontecendo?

A raiva cresce dentro de mim à medida que consigo cuspir as


palavras. Sebastian poderia ter sido salvo.

— O senhor está me dizendo que ficou de braços cruzados

vendo Thomas ser um babaca com a família? — a ofensa escapa,

mas não tenho tempo para me corrigir. — Tem coragem de olhar


nos meus olhos e dizer que é meu avô?

Procuro por minha bolsa. Quero sair daqui. Quero ficar longe

dele e de tudo que esteja interligado ao meu pai.


— Aidan tem meu telefone. Se quiser conversar, quando
estiver mais calma, eu posso…

— Pode ficar longe de mim — sussurro ao ficar de pé e passar

a bolsa no ombro, encarando-o com exasperação para que não

sobre dúvidas. — Não me procure mais.

Afasto-me da mesa e dele. Não me permito sentir pena da sua


expressão afetada ou do corpo prostrado em angústia.

Marcho para a saída sem olhar para trás.

Está difícil lidar com as poucas informações que tenho, não

posso, não consigo lidar com mais essa. Meu pai tem um pai.

Sebastian e eu tínhamos um avô, tão perto. Tínhamos refúgio e uma


escolha. Contudo, eles optaram por nos afugentar, como sempre.

Paro do outro lado da calçada. Encaro a rua e os carros

estacionados nela. A neve que cai umedece meu cabelo e ainda

assim, não sinto frio.

Estou naquele estado de inércia, sem conseguir me mover,


sem ir para frente ou para trás. É desse jeito que me sinto em

relação a perda de memória.

Se vou para trás, dói. Se tento seguir em frente, o passado

vem à tona e me paralisa. É como estar em um beco sem saída.


Lido com ele de uma vez por todas ou ajo como se não me afetasse

em nada.

Fico estagnada por longos minutos, até ver um táxi estacionar

na porta da cafeteria 24 horas e Jasper entrar nele.

Está escuro e a neve caindo não permite que ele me veja ali.

Quando vai embora é que sinto duas gotas grossas de


lágrimas rasparem minha pele. Rapidamente levo as costas da mão

para as bochechas, sumindo com elas.

Enfio a mão na bolsa, atrás do celular. Minha lista de contatos


se resume a minha mãe, os caras da banda e as garotas, mas neste
momento, só existe uma pessoa que pode colocar um ponto final

nisso.

Porque Jasper ter surgido muda tudo, inclusive minha decisão


de querer descobrir meu passado sozinha. Trazendo essa revelação
à tona, me faz decidir mudar a direção que estava seguindo.

Preciso de ajuda.

O número de Aidan já estava salvo ali quando ganhei o

aparelho. Ele esperava que eu fosse ligar em algum momento, por


qualquer motivo.

Para a sorte dele, tinha razão.


— Delilah?

Quase não escuto sua voz. Está abafada por uma batida alta e

incessante.

— Está ocupado? — falo um pouco mais alto para que ouça.


— Aidan? — repito quando não responde.

— Estou no Anarchy. É aniversário do Chase.

Merda. Tinha me esquecido.

— Pensei que não fossem comemorar hoje!

— Nós também, mas ensaiamos hoje e decidimos sair pra

beber algumas cervejas. Está tudo bem? — Escuto o barulho de


uma porta se abrindo e depois se fechando, em seguida, a batida

excruciante da música para. — Quer que eu vá até você?

— Não, eu só… — pondero.

— Delilah, o que foi? Qual o problema?

— Eu não devia nem ter ligado — resmungo, olhando para os

lados da rua escura e atravesso. — Desculpa. Vou desligar.

— Espera. Você não quer vir? Effy e Gravity acabaram de


chegar.
Me sinto chateada por não terem me convidado. Já me sinto
excluída por não lembrar de nada, não ser convidada para sair com
eles, só sustenta a ideia de que não me encaixo.

— Ou eu posso ir te ver.

— Não precisa se preocupar.

— Delilah, você me ligou. Me deixa te ajudar.

Suspiro, cansada.

— Jasper veio me ver.

Aidan fica em silêncio por um segundo, hesitando.

— Merda! Você tá bem?

— Vocês conversaram nas últimas semanas.

— Sim, conversamos.

— Falando de mim, Aidan! — brado e por mais que tente não


expor minha chateação, fica claro na entoação da minha voz. — Eu

sei que não posso ficar com raiva, eu te pedi pra me poupar do
passado, mas droga, isso é importante! É muito, muito importante!

— Sinto muito, você disse que queria descobrir sozinha, não


estava pensando que ele fosse mesmo falar com você e não sei…
Merda, me deixa só pagar a conta e te encontro. Onde você está?
Olho para os lados. Não sei nem a merda do nome da rua.
Bufo, frustrada.

— Deixa que eu te encontro.

— Quer que eu vá te buscar?

— Aidan, eu me viro!

Desligo o telefone.

Um misto de chateação e desapontamento me esfola. Estou

com tanta raiva de ser a única pessoa a não entender nada da

própria vida. É injusto, cruel e eu só queria não ter sofrido aquele


acidente, queria voltar no tempo e não ir naquele evento do

Thomas.

A playlist do Anarchy é boa.

Uma mescla de músicas de Zayn, Ariana Grande, Justin

Bieber, Olivia Rodrigo entre outros cantores que já ouvi ao longo das

semanas – ao menos nisso tive que me atualizar –, está tocando.

O segurança me reconhece, porque já trabalhei aqui antes e

nem faz perguntas ao autorizar minha entrada.


Envio uma mensagem para Aidan, avisando que já cheguei.

O lugar está lotado, como sempre. É a segunda vez que venho

aqui desde que acordei. Na primeira, minha cabeça doeu tanto que

foi insuportável. O cheiro de cigarro, álcool e suor são a pior


combinação para quem sofreu uma pancada na cabeça.

Continuo mergulhando no mar de pessoas dançando no meio

do clube. Sei que tem algumas mesas nas laterais do espaço, mas
não vejo Aidan nem as garotas em lugar nenhum.

Até sentir uma mão firme agarrar meu cotovelo, me impedindo


de continuar andando.

Enxergo por cima do ombro que os olhos azuis de Aidan estão

fixos em mim. Estudo sua expressão nervosa, a forma como suas


sobrancelhas dobram ao me encarar me causa arrepios.

Ele umedece os lábios, contornando-os com a língua macia e


me puxa contra seu peito quando um grupo agitado passa atrás de

mim.

Sua mão vai para minhas omoplatas e fica ali até que o grupo
se afaste, e suavemente me distancia.

O encaro por míseros segundos; os cabelos platinados estão


maiores na frente e jogados de forma despojada. Ele agita a franja
para a lateral, ajeitando-a com a mão que contém os anéis.

Faz um tempo que não o vejo, tudo nele parece diferente. Está

mais sério, não consigo decifrá-lo apenas olhando sua expressão


vazia.

Driver’s License toca ao fundo. Em janeiro ela se tornou a


queridinha da minha playlist. Foi a primeira vez que me senti

verdadeiramente de volta à atualidade, porque o mundo pop só

falava dela e eu sabia exatamente de quem se tratava.

— Oi — Aidan cochicha, não entendo o que ele diz por causa

da música, mas consigo ler seus lábios.

— Oi.

— Nós estamos sentados ali. — Ele aponta o indicador para a

esquerda. Sua mão está ocupada com uma cerveja. — Vem.

Aidan começa a abrir espaço para passarmos. Quase sou

movida pelo instinto de segurar sua mão. Mas é quase.

Fecho os dedos em punho nas laterais do corpo para me

controlar e o sigo até que o apinhado de pessoas diminua e


consigamos chegar ao outro lado.

Três mesas foram unidas para que todos coubessem. Bryan,

Chase, Ashton, Finnick, Mackenzie, Gravity e Effy estão sentados


um ao lado do outro.

— Ei! — Mack grita, acenando para mim. — Achamos que

você tinha se perdido no caminho!

— Precisei procurar no Google e esperar pelo Uber — revelo,

rindo. — Feliz aniversário! — cumprimento Chase, que anui

positivamente, agradecido.

Tem dois lugares vagos ao lado de Ashton, é para lá que

caminho. Aidan vem logo atrás. Ash abre mais espaço para que nos

sentemos.

Quando estamos acomodados, voltam a conversar e beber.

Não sei do que estão falando, mas é algo sobre o Youtube e os

vídeos da The Reckless.

— Muito obrigada por ter me convidado, aliás. — Empurro

Ashton com o ombro, fazendo-o quase cair da cadeira.

— Foi mal! Eu não sabia também.

Ash e eu nos aproximamos. Não que eu tivesse facilitado, mas


ele é persistente. Mesmo quando eu dizia que não queria visitá-lo

nem receber visita, ele aparecia com pipoca e refrigerante. Me

obrigava a falar sobre os meus dias, até que eu percebesse que


sim, Ash pode mesmo ser o melhor amigo do mundo inteiro.
— A propósito, vi que acessou sua conta no instagram.

Quantas fotos você apagou? Sumiram várias! — Ash inquire,

sorrindo. É provocativo. — Todas com Aidan?

Desvio. Aidan está do meu lado. Não sei se escuta, não

parece que ouviu, mas aceno, fazendo que sim para Ash. Ele ri,

bebendo cerveja e volta a conversar com Finn.

Não é como se eu quisesse que Aidan sofresse por minha

causa. Estou fazendo tudo que está ao meu alcance para que o

nosso término não seja doloroso para ele.

Pretty Please de Dua Lipa ressoa pelo clube, várias pessoas

cantam à nossa volta e uma delas é Gravity.

— Vamos dançar, por favorzinho — Gravity insiste para Effy,

que recusa seu convite. — Qual é! Você vai sentir minha falta

quando eu estiver em Milão, você tem que abusar de mim agora,


Effy!

— Gravity, não. Eu não sou boa nisso.

— Você não é boa nisso? Por favor, você é quase uma

profissional na pista de dança, Effylin! — Vity choraminga, puxando-

a pelo braço. Dá para notar que Effy está quase cedendo.


— Não me chama desse jeito — Effy resmunga e Ashton

gargalha. — Não ri, a culpa é toda sua desse apelido!

— Eu dou os melhores apelidos, Effylin! — Ash a atiça. — Vai

lá, garota. Quero te ver rebolar, sua gostosa!

— Você é nojento. — Effy pega um guardanapo de papel

embolado e arremessa contra Ash.

Já os vi implicar um com o outro várias vezes. E é palpável

que a relação deles é tão forte quanto a nossa.

Gravity consegue arrastar Effy para a pista. Nós a seguimos


com os olhares até que sumam na multidão.

— E você? Não vai dançar? — Ash acena na direção que elas


seguiram.

— Acho que não! — pondero um pouco.

Eu amo dançar, desde sempre, e a música quando me move

faz com que tudo fique melhor, mas não estou no clima.

— Você ama dançar — Aidan interrompe, me analisando.

— Não estou a fim hoje — confesso.

— Não pedi nada pra você beber. Não tinha certeza se iria

querer cerveja ou refrigerante — Aidan fala, mudando de assunto.


— Vou buscar uma cerveja. — Bryan se levanta de mãos
dadas com Mack. — Se quiser pego pra você.

— Só um refrigerante, Bryan — peço a ele.

Ash, Finn e Chase estão falando da festa que vão dar no

sábado. Uma segunda comemoração a Chase. Não dou tanta


atenção, meus pensamentos ainda estão totalmente voltados para

minha conversa com Jasper, mas não consigo uma brecha para

falar com Aidan em particular.

Bryan e Mack voltam com minha Coca-Cola. Bebo goles

curtos, observando-os conversar. A pista de dança fica mais

movimentada a cada minuto.

Effy e Gravity saíram há um bom tempo e ainda não voltaram.

O DJ já deve ter tocado pelo menos umas cinco músicas desde


Pretty Please.

Aidan e eu não trocamos muitas palavras. Sinto que ele não


sabe como falar comigo e eu muito menos como falar sobre Jasper
na frente de todo mundo.

Estou cogitando arrastá-lo para fora daqui, mas, ao mesmo

tempo, quero dar a todos uma folga dos meus problemas.


Então deixo a noite seguir em frente. Troco farpas com Ash.
Chase está se divertindo, acho que não tinha o visto sorrir tanto e
até Finn parece se divertir.

Bryan e Mack também participam da conversa em grupo, às

vezes falam da banda, em outras da faculdade, do futuro.

Eu descobri porque não gostava de Finn. Por causa de Effy.


Ela não fala tanto dele, mas escutei coisas a respeito dos dois.

— Ei, é verdade que você começa o estágio na biblioteca


segunda-feira que vem? — Bryan chama minha atenção. Engulo o
gole de coca que suguei do canudo e aceno, concordando. —

Cacete, parabéns! Por que você não contou nada?

— Me esqueci. — Dou de ombros, sorrindo como um pedido


de desculpas. — Estava ocupada com a papelada!

— Parabéns — Aidan sussurra. Sei que foi a indicação de

Darnell que me colocou como uma das opções para o reitor Callum.
— Você vai curtir muito trabalhar lá.

— Pois é. Estou animada!

— É, nós só descobrimos porque recebemos a visita do reitor


pessoalmente no apartamento semana passada! — Mack reclama,
ainda me lembro da cara que fizeram por eu ter me esquecido de
contar. — Nem Gravity consegue esconder tão bem as próprias
conquistas! Enfim, o reitor foi nos visitar. Effy e eu quase o
convencemos a conceder uma entrevista pro nosso site!

— É, e eu nunca fiquei tão sem graça em toda a minha vida! —


rosno, insatisfeita ao me lembrar da cara que o reitor Callum fez.

— Nós precisávamos aproveitar a oportunidade. É muito difícil

encontrar o reitor desocupado. Então nós lançamos a proposta! —


Mack não consegue suprimir a empolgação, dá pulos animados na
cadeira enquanto segura a mão de Bryan.

— E ele aceitou? — Chase pergunta.

— Ele disse que ia pensar. É melhor do que nada, não é?

— Sim, linda. É melhor do que nada. — Bryan deixa um beijo


na lateral da cabeça de Mack e sorri para ela. Ele se orgulha da

namorada. O fulgor nos olhos só prova o quanto.

— Argh. Muita exposição de afeto mesa. Vou rodar. — Ash se


levanta, esticando o corpo. — Vocês vem?

— Eu vou. — Chase se levanta também.

— Acho que eu não tenho escolha. — Finn direciona a atenção


para mim e em seguida, para Aidan, voltando-se depois para Mack
e Bryan, emaranhados num abraço.
Eles acenam e em poucos instantes somem também.

Bryan e Mack conversam entre si. Pelo modo como minha

amiga me encara, está sugerindo que eu faça o mesmo com Aidan.


E ela tem razão.

— Você de repente parou de falar comigo. — Não olho para

Aidan, mas tenho certeza que mesmo sob a voz de Zayn em Better,
ele consegue me escutar. Posso sentir o fulgor cortante dos seus
olhos na minha bochecha. — Pensei que a nossa última conversa

na Fun House tinha esclarecido as coisas, mas você está me


evitando.

Ele fica em silêncio. Significa que Aidan não pode negar,

portanto quer dizer que estou certa sobre as minhas suspeitas.


Continuo compreendendo seus sentimentos, mas é doloroso saber
que tem alguém que não consigo consertar ou evitar que sofra.

— Você tem ideia de como me sinto? — ele cospe, minutos

depois ainda sem olhar para mim, mas arrisco estreitar os olhos
para vislumbrar sua mandíbula trincada.

Ele não é ríspido, mas com certeza não é doce como

habitualmente.

— Eu tenho sim.
— Não, você não tem. — Aidan vira um gole da cerveja,

terminando outra garrafa.

— Pode parecer que eu não sei, mas eu sei sim, Aidan.


Poucas semanas atrás estava apaixonada por Bryan.

Consigo fisgar sua atenção ao mencionar o nome de Bryan.

Aidan olha por cima do meu ombro, para garantir que eles não
me escutaram.

— E de repente, precisava reprimir os meus sentimentos

porque cinco anos se passaram. Então eu sei exatamente como


você se sente!

— É sério que você está tentando me consolar dizendo que

estava apaixonada por outra pessoa? Não está funcionando,


Delilah!

Merda. Ele tem razão. Não é o ideal, mas eu não sei como
lidar com Aidan. Ele é uma ponte entre mim e o passado; minhas

memórias, momentos, tudo está direta ou indiretamente ligado a ele.

Como Jasper, por exemplo, dizer que foi Aidan quem


descobriu sobre o passado do meu pai.

— Vim até aqui pra falarmos sobre Jasper — lembro a ele.


— Foi você quem tocou em outro assunto. — Aidan se levanta,
a impaciência marca os músculos de seu rosto. — Vou pegar outra
cerveja, quer alguma coisa?

— Não. Vou pra casa.

Levanto-me também, decidida.

— Tudo bem, Delilah? — Ouço a voz de Mack por cima de


Heartbreak Anniversary.

— Tudo. Só estou cansada. Vou indo na frente. Vejo vocês


amanhã!

Agarro a bolsa no encosto da cadeira, quando a puxo, a força


que imponho é maior que o planejado e a impulsividade em meu

corpo causa desequilíbrio em minhas pernas.

Uma leve vertigem ao girar a cabeça anuvia minha visão e não


enxergo nada além de vultos.

Busco apoio na mesa, mas é como se ela simplesmente


sumisse do meu alcance e minha mão escorrega em falso.

Abaixo a cabeça para sugar o ar. Escuto o som das cadeiras

se arrastando e me agarro ao assento de uma delas como se


fossem minhas pernas.
A voz de Aidan está munida de preocupação ao sustentar meu
corpo quando segura minha cintura.

Sinto seus dedos se prenderem a mim. Cada um deles me

tocando sobre a blusa, mas é como se não houvesse nenhuma


barreira separando sua pele da minha.

Endireito a cabeça, subindo os olhos para o rosto de Aidan. O

azul estalado de seus olhos estão carregados de preocupação e a


boca endurecida de agonia.

Eu reconheço essa expressão.

No mais inerte da minha mente, está cravada lá.

Concentro minha atenção em cada piscada leve de suas


pálpebras, estou sentindo minha mente entrar em transe e não
consigo ver nem ouvir nada que não seja a música Arcade.

O colar que Sebastian me deu anos atrás preso entre os dedos


de Thomas; eu dançando, Aidan me beijando na têmpora e meu
coração transborda a cada demonstração de afeto, em seguida, sou

arrebatada pela sua feição de culpa.

Estou esperando que ele diga que é mentira.

Flashes de câmera disparam contra mim e sou forçada a cobrir


o rosto com as mãos até ser absorvida pela sensação gélida
tocando a ponta dos meus dedos em uma queda de encontro ao
chão.

Meu coração dói e não consigo respirar.

Você pode se aproximar. Uma garota como Delilah tem


buscado por carinho, atenção. Pode fornecer isso a ela e, em troca,

ver se ela te conta algo útil sobre o prefeito.

A voz ecoa no meu consciente, me causando arrepios pelos


braços e espinha.

O que é isso? O que está acontecendo com a minha cabeça?

— Me solta — peço a Aidan, desnorteada.

É diferente de todos os sonhos que já tive ao longo das


semanas que se passaram. É mais real. Afeta cada partícula

sensível do meu corpo.

Queimo, por dentro e por fora. Começo a caminhar sem me


importar com as vozes tentando me impedir.

Uso os cotovelos para abrir o caminho, mas, na verdade, não

sei onde estou. Parece que estou afogando. E eu sei muito bem
como é a sensação de se afogar.

Dessa vez, não é diferente. Tento respirar porque não gosto de

não sentir o ar, o vento e não ter o oxigênio para bombear meu
cérebro. Quero respirar de novo, mas minha coluna e lombar tocam

o chão de ladrilho. A água é quente, mas o fundo da piscina é tão…


frio e ameaçador que desisto. Não dá para respirar embaixo d’água.
Não sei porque tento.

É uma profusão de lembranças? Ou só estou enlouquecendo?

Visualizo Aidan me tirando da água, todo o meu corpo


tremendo de frio depois de ter permanecido submersa por minutos

que pareceram horas.

Travo. Olho à minha volta. Preciso me reconectar com a


realidade.

O odor insuportável de cigarro e suor não me deixam pensar.

Estou prestes a me entregar às lágrimas quando sou puxada.

Nem tento lutar contra, só me deixo ser guiada. Os dedos


longínquos se prendem aos meus com força e por um minuto fico

grata.

Escuto a porta ranger e o frio cortante do inverno ferir minha


pele, mas nada é tão bom como poder respirar o ar fresco.

Pisco para colocar minha visão no lugar, a imagem de Aidan

começa a se encaixar diante de mim e posso vê-lo com clareza. E


finalmente não estou mais naquela bolha de lembranças que deixam
meu coração em frangalhos.

Fico em silêncio, apenas olhando-o apreensiva.

O que foram esses últimos minutos?

O que aconteceu com a gente?

O que aconteceu comigo?

Levo uma das mãos para ajustar os fios de cabelo até que
escuto a porta atrás de nós abrir outra vez.

— Delilah? — É Ash. Consigo reconhecer sua voz.

— Hum? — murmuro e só então me dou conta de que estou


ofegante.

— Está tudo bem?

— Não.

Continuo encarando Aidan.

— Quer que eu te leve pra casa? — Bryan propõe.

— Não — respondo, sucinta. — Aidan e eu precisamos


conversar.

— Lilah, tem certeza? — Mack insiste, mas não consigo nem

me mover para olhá-la e garantir que sim, tenho certeza. — Você


não parece bem.

— Tenho. Podem entrar.

— Delilah… — Effy prossegue.

— Vocês podem nos dar uns minutos? — Aidan move a


cabeça para eles, apontando rígido para dentro.

— Delilah?

— Tudo bem, Ash — reafirmo. — Se eu precisar, vou te

chamar — garanto para tranquilizá-lo.

Espero até que tenham entrado, ainda assim não consigo


verbalizar as sensações estranhas que tomaram posse de mim nos

minutos em que passei presa no passado.

Raiva. Angústia. Dor. Traição.

— O que foi que você fez?

Eu o desarmo de sua postura confiante.

— Eu te amei, Aidan.

— Você me ama, Delilah.

— Não. Eu te amei e você jogou fora!

— Você se lembrou?

— Não preciso me lembrar pra saber que fomos um erro.


— Você tem razão, eu errei. Mas não precisa colocar nosso

relacionamento nessa equação. Você é o que eu tenho de mais


certo na vida.

— Você pode se aproximar. Uma garota como Delilah tem


buscado por carinho, atenção. Pode fornecer isso a ela e, em troca,

ver se ela te conta algo útil sobre o prefeito — repito o que vem à
mente, e Aidan recua. — Você me usou.

— Não — ele nega em voz alta e em gestos. — Não te usei,

eu…

— Você me usou! — acuso, dessa vez aumento a voz.

A compreensão se atenua mais. Não preciso nem me esforçar.

Parece que está intrínseco no meu subconsciente a realidade do


que escutei.

Aidan me usou de alguma forma para se aproximar do meu pai


e ele conseguiu o que queria. Transformou nosso relacionamento

em nada.

Por isso ele descobriu sobre Jasper. Porque estava


investigando meu pai todo o tempo em que estávamos juntos.

— Você. Me. Usou! Uma garota como Delilah… — Rio,


zombeteira e posso ver as lágrimas se formando em seus olhos. —
Eu não sei exatamente o tipo de garota que eu era Aidan, mas não

vou mais baixar a guarda. Eu te garanto, a garota que eu era


morreu.

Estou incendiando em raiva.

Posso não ter lembrado de tudo daquela noite, mas o


sentimento, o que ouvi é real e doloroso. E tudo o que queria
naquele dia era poder feri-lo da mesma maneira que Aidan me feriu.

Nós sustentamos o olhar um do outro por longos minutos antes


que seja a vez dele de me desarmar:

— Eu vou amar qualquer versão sua.

Ele não titubeia.

Nenhuma hesitação.

Nada que indique que irá desistir.

— Você pode me dar uma chance de explicar, Delilah. Pode


me escutar pelo menos desta vez.

— Como posso ter certeza que não está mentindo pra mim?
Você já fez isso antes.

Suspira, a exaustão atinge seus músculos. Fica evidente no


modo como ele foge com as mãos para dentro dos bolsos do
sobretudo e abaixa a cabeça.

— Está tarde. Jasper apareceu e você se lembrou de uma


parte do que aconteceu! Você está cansada e chateada!

— Não posso confiar em você. — Faço uma pausa, pensativa.

Aidan tem todas as cartas, ele sabe de tudo, mas o quanto

posso confiar nele é o que me preocupa.

— Você ficou longe até agora. Pensei que estivesse magoado


porque ainda gosta de mim, mas analisando toda a situação, é

melhor assim.

Quando tive o flash do meu irmão pela primeira vez, sabia que
recuperar as memórias, uma a uma, seria doloroso, mas não previ o
quanto me abalaria.

— Você está absurdamente quieta hoje. — Mackenzie tenta


chamar minha atenção estalando os dedos na frente do meu rosto.

— Você nem contou o que rolou entre você e Aidan depois que
fomos embora!
— Não aconteceu nada. — Movo a massa do prato, de um
lado para o outro. Estou sem apetite.

— Mentira. Aconteceu alguma coisa. Você não comeu direito o


dia todo e está mais calada que o normal! — Effy acusa, deixando o
talher na lateral do prato para se apoiar na mesa.

Estamos almoçando no campus como sempre fazemos.


Sentadas em uma mesa longa do refeitório, cercadas por tantas
pessoas que seria impossível contabilizar.

Poucos metros dali, Bryan e Aidan estão juntos, mas diferente


de nós que estamos sozinhas, estão rodeados por alunos que
adoram a banda.

Ora ou outra, arrisco olhar para a mesa. Foi uma noite longa
para mim. Tive sonhos, mas grande parte deles não posso dizer se
está ligado com a realidade ou se minha mente está projetando
todas as cenas de acordo com os meus sentimentos.

Enviei uma mensagem para a doutora Carolyn. Ela disse que,


provavelmente, houve algo familiar no toque de Aidan que me levou
às memórias. É comum, mas devido ao meu bloqueio, está tudo
embaralhado.
Desde a noite passada, sinto como se estivesse em looping
com os sentimentos. Jasper e Aidan ficam rondando meus
pensamentos. Por mais que a raiva tenha aliviado, a voz não para
de me perturbar:

Você pode se aproximar. Uma garota como Delilah tem


buscado por carinho, atenção. Pode fornecer isso a ela e, em troca,
ver se ela te conta algo útil sobre o prefeito.

— Você sabe que pode contar com a gente, Delilah. — Gravity


está mais amigável hoje também.

É como se elas pressentissem o que aconteceu. Elas sabem,


mas não são corajosas o bastante para me perguntar.

Decido arriscar.

— Vocês sabem o que aconteceu entre mim e Aidan?

— Não. Você não contou! — Mack ri e sei que está se


referindo a noite passada.

— Estou falando de antes. — Arco as sobrancelhas, firmo os


olhos nela. — Antes de eu sofrer o acidente.

— Ah — ela murmura. — Aidan não fala muito sobre o


assunto.

— Mas vocês sabem? — persisto. — Não sabem?


— Por quê? Você lembrou? — Vity lança, me encarando
afiada.

— Alguma coisa, acho que sim.

Elas largam os talheres, abandonando a comida e ganho a


atenção delas.

— Que droga. — Gravity coça a sobrancelha e cruza os braços

em seguida. — Sinto muito.

— Mas não tudo e eu não sei se posso confiar no Aidan pra


me contar.

— Nós não estávamos lá — Effy anuncia. — É difícil dizer


exatamente o que aconteceu. Mas Delilah, Aidan é confiável! Ele
não vai mentir pra você!

— Quem garante?

— Nós garantimos — Mack entra em defensiva, mas Vity fica


em silêncio.

— Gravity? — a chamo.

— Não coloco minha mão no fogo por ninguém, mas não


acredito que Aidan mentiria para você. A situação já está
complicada demais.
— Entendo — sussurro.

Espero por alguns segundos, por qualquer sinal de que elas


vão me dar qualquer coisa para que eu não precise falar com meu
pai.

— Eu quero saber o que aconteceu! Antes estava… adiando o

assunto, evitando não me magoar, mas Jasper veio me ver e me


contou que é pai de Thomas. — Pela expressão abrasiva delas,
tenho certeza de que já sabiam. — E posso ter me lembrado do
motivo que me levou a terminar com Aidan. Então, quero saber.

— Você queria descobrir tudo sozinha… — Mack mordisca o


lábio inferior, concentrada. — E Lilah, eu concordo que você precisa
ir no seu tempo, respeitando os seus sentimentos. É por isso que
nós nunca mencionamos o Jasper.

— Não. Vocês não mencionaram Jasper porque minha mãe


fez com que prometessem.

Não posso culpá-las por se preocuparem comigo e não posso


ficar com raiva por serem leais às promessas que fizeram à minha
mãe com o intuito de me proteger, mas não dá para negar que fere.

— E sobre Aidan — Effy acrescenta depressa — acho que


você deveria falar com ele sobre o que aconteceu naquele dia. Não
é que nós não queiramos contar a você, mas além dele não falar
muito, é algo que só vocês dois podem conversar e tentar resolver.
Tudo que nós sabemos é de uma gravação que seu pai expôs, e foi
pra tevê…

— O quê? Foi pra tevê?

— Seu pai mandou tirar tudo do ar quando soube que você


tinha acordado — Gravity revela, apertando o garfo com força. A

raiva fica exposta na ponta esbranquiçada dos dedos. — É por isso


que você não encontrou nada, pelo menos, não nos jornais locais.

Gravity é interrompida pelo meu celular que vibra incessante

na mesa.

T ( )

Meu motorista e eu estamos te aguardando aqui fora.

Ok.

Junto minhas coisas e coloco na bolsa. Sei que elas estão


observando enquanto organizo tudo.
Ouvir que houve até uma reportagem na tevê faz com que eu
entenda a gravidade da situação.

— Pra onde você vai? — Vity ressoa, espantada por tê-la


cortado.

— Combinei de tomar um café com uma pessoa — digo, sem


demonstrar nenhuma emoção.

— Agora? — Mack rebate.

Paro diante delas, a mão presa na alça da bolsa.

— É, agora.

Sem dizer mais nada, me levanto e caminho para fora do

refeitório.
Meu pai sempre detestou que ficássemos com o celular na

mesa. Não que ele fosse presente e o víssemos o tempo todo como
mamãe, mas quando ele estava lá, nos proibia de mexer no celular.

Qualquer que fosse a urgência, podia esperar.

Contudo, ele era a exceção. Como se nessa equação ele fosse


o único número relevante. Ele podia sair para uma reunião no meio
do jantar, por exemplo, mas nós não tínhamos o direito de
interromper o momento em família.

Meu celular não para de vibrar avisando uma nova mensagem

ou uma chamada perdida.

Entremeio o olhar para Thomas, sentado diante de mim. Paro


a tela do aparelho debaixo da mesa, mantendo-o escondido.

Sei que não preciso temê-lo. Acho que meu pai não ousaria
me machucar depois de todo esse tempo, mas ainda assim, o temor

da Delilah de anos atrás é um marco.

Desde que entrei na sua SUV até um restaurante reservado do

outro lado da cidade, não disse nada.


Durante o percurso, entretanto, senti como se estivesse

evitando até um suspiro. Queria ser invisível, só ser notada quando


fôssemos falar do que realmente importa.

Não falo com meu pai desde a fuga do hospital, com a ajuda
de Darnell. Ele tentou contato com minha mãe, eu sei, apesar de ela

não admitir. Conheço qualquer reação sua quando se trata de

Thomas.

— Você já almoçou? — ele pergunta, sem afastar os olhos do

cardápio.

Eu o convidei para um café, não para o almoço.

— Comi no campus.

Bebo a água que o garçom deixou segundos depois de

chegarmos.

É um lugar diferente de todos que estou acostumada a ir com

meus amigos. É refinado, com excesso de cordialidade e a luz baixa


faz parecer que estamos no fim do dia, mas não são nem duas da

tarde ainda. O homem que nos encaminhou para a mesa até puxou

a cadeira para eu me sentar.

— Fiquei surpreso quando me ligou. — Ele me analisa por

cima do livreto, curioso. — Sua mãe me proibiu de falar com você e


se eu sequer pensar no assunto, segundo ela, acabaria comigo e a
minha “amada carreira política”, mas como foi você quem ligou,

acho que não estou cometendo nenhum pecado, não é?

Observo-o por um segundo. Como ele é bonito, confiante e

age como se nada no mundo fosse capaz de pará-lo.

Confesso, gostaria de ter herdado essa segurança, até, é


claro, algo o irritar e ele mandar o autocontrole para o espaço.

Porém, meu pai sempre soube a hora e o lugar certo de perder a

cabeça; nunca em público. Sua imagem de homem centrado e

emoções comedidas é muito mais importante para ele do que um

segundo de deslize.

— Não quero tomar muito seu tempo, você é ocupado.

— Não estou ocupado para minha filha. Desmarquei todos os

compromissos que tinha essa tarde.

Piada.

— Você não precisa ser esse cara comigo, pai.

— Esse cara? — Um sorriso inocente molda os músculos do

seu rosto. A barba rala sobre a pele se move devagar para cima e

dá notar as rugas nas laterais dos olhos.

Suspiro, cansada desse teatro.


— É. Esse cara. O que age como se realmente se importasse.

— Me fere te ouvir dizer coisas assim, Delilah. Eu me importo.

— Não, você só se importa quando existe um interesse

pessoal. Nós dois sabemos que é assim que você funciona. Tudo
tem um preço, algo em troca. Eu vim até aqui para te pedir um favor,
sabendo que você me pedirá algo em troca.

— Está completamente enganada. Não pretendo pedir nada

em troca. Já tenho tudo de que preciso. Você saiu viva daquele


hospital!

Minhas pestanas batem, sonolentas. Ele não demonstra


qualquer sinal de estar mentindo. Fico frustrada, porque é mais fácil

quando não espero muita coisa dele e ele não me decepciona


sendo o babaca de sempre.

— Você me subestima. — Ele observa, os olhos semicerrados.


— Acha que me conhece, mas ainda consigo te surpreender. Isso é

bom.

— Não. Não é. A sensação é que a cada vez que olho pra


você, estou lidando com uma pessoa diferente.

— Ah, não seja tola. Estou de bom humor, não estrague o meu
dia de folga!
— Qual é a sua?

— Se estivéssemos em casa, eu lhe daria uma lição por falar

com seu pai desse jeito.

— Eu sei, mas você quer manter as aparências, não é?

— Sou o prefeito dessa cidade, Delilah. Estranho seria se

todas as pessoas agissem como realmente são em público. Veja


bem, a maioria das pessoas na internet, por exemplo, são

mentirosas. Usam nomes falsos, com uma personalidade boazinha


para disfarçar o caráter duvidoso e a alma podre que carregam. Só

que no fim do dia, precisam continuar vivendo consigo mesmas,


odiando tudo que realmente são. As pessoas são assim. Todas elas.
Não existe ninguém inocente. Pode haver aqueles que querem

melhorar, mas ainda assim, não podem negar o que são. — Ele
enfim fecha o cardápio e com o indicador, chama o garçom. Pede a

comida e eu só digo que quero experimentar a torta de limão.


Quando o rapaz vai embora, ele prossegue: — E suas memórias?

Conseguiu recuperar algumas?

Quero ir direto ao ponto, não ficar me enrolando com ele.

Nosso encontro é para ser breve e não quero passar mais tempo do
que o necessário com Thomas.
Ele é como uma montanha-russa; pode estar bem agora e
dizendo coisas sábias, mas basta uma palavra errada para que ele
exploda.

— Consegui algumas, com a ajuda da minha terapeuta.

— Hum. É por isso que você está aqui?

Meneio a cabeça enquanto bebo mais um gole de água.

O líquido gélido fere minha garganta, mas não tenho certeza


se é a temperatura da água ou a presença do meu pai.

— É.

— Sabia que você ligaria em algum momento. Seus amigos


estão mentindo pra você. Sua mãe não te conta nada com o

pretexto de te proteger. Já ouvi muitas mentiras com a mesma


desculpa. Seus amigos não querem te poupar, sua mãe não quer te

proteger. Eles querem agir como se nada tivesse acontecido.

— Você também quer fazer isso — rebato, irritada. Sinto minha


pulsação esfolar a têmpora devido ao aumento da frequência
cardíaca. — Você mandou tirar as reportagens que me envolviam da

internet. Por quê? Tenho certeza de que foi você mesmo quem as
colocou lá.
— Acha que eu queria tirar? — Ele arqueia uma sobrancelha e
os sulcos na testa se acentuam ao franzir. — Eu não queria, mas
era parte do acordo que fiz com Darnell.

— O que Darnell tem a ver?

— Posso presumir que você já tenha se lembrado de Aidan,

não é? Caso contrário, não teria me procurado. Não confia nele,


mas confia em mim.

Fico em silêncio. Faz sentido o que ele está insinuando, que

prefiro confiar no meu pai controlador e tóxico, ao invés de confiar

em Aidan, que durante todo esse tempo respeitou o espaço que

pedi e não tentou me invadir.

Por uma fração de segundo, a raiva que sinto dele abranda

como se nunca tivesse existido e começo a questionar a escolha de


procurar por Thomas.

— Não pensei que você fosse acordar sem suas memórias e

queria te proteger do que aquele garoto fez. Darnell e eu fizemos


um acordo. Eu tiraria as reportagens sobre você e Aidan dos jornais

usando minha influência como prefeito, retiraria a queixa contra ele

na delegacia, e Aidan ficaria longe de você. — Meu pai balança a


cabeça, como se essa dor que tanto fala estivesse salientada e
passando em sua mente agora mesmo. — Não sei se você sabe,

mas Aidan foi preso depois de me agredir.

Eu não sabia.

Faço uma nota mental para saber mais sobre isso depois. Não

quero que Thomas pense que pode me manipular com esse

assunto.

— Por que você está me contando tudo isso? Você não é

assim.

— Você pode até ter razão, mas você é a minha única filha.

Seu almoço chega, junto com minha torta de limão.

Nossa conversa finda e ele mastiga em silêncio enquanto eu

saboreio a torta.

Divago sobre Aidan e o que acabei de escutar. Me pergunto se

ele sabe do acordo entre nossos pais, se Aidan tem ideia de que

estamos tão emaranhados um ao outro quanto acredita que

estamos.

— De onde você o conhece? Darnell?

— De muito tempo. Da faculdade. Costumávamos ser colegas.

— Por que nunca ouvimos falar da família Lynch antes?


— Nossa conversa está sendo muito produtiva, não acha?

Acho que nunca conversamos assim.

Não evito o suspiro. Solto o ar com toda força e impaciência


para que ele saiba.

— Por que nunca ouvimos falar da família Lynch?

— Estou mudando de ideia. Quero passar o resto da minha

folga em um novo clube. Talvez queira me acompanhar?

É claro que ele está me enrolando.

— Podemos conversar mais.

Ele joga a isca.

— Prometo que conto tudo que você quer saber.

E eu a pego.

Seb costumava dizer que não há ganho com Thomas sem

ceder e ele tinha toda razão. Meu irmão era inteligente, rebelde e
conseguia driblar as regras do nosso pai, diferente de mim, que

seguia tudo exatamente como ele ordenava. Porque era fraca e

tinha medo das consequências.


No caminho até o novo clube, chamado Field Of Desires,

penso nisso. Penso que cedi, não porque queria saber mais, mas
porque temi o que viria a seguir se me recusasse.

Meu pai me manteve ocupada, fazendo perguntas sobre a


faculdade, estudos, no qual ele nunca esteve interessado. Nós

precisávamos apresentar boas notas e conduta, mas para não

desprestigiar sua imagem política com filhos burros.

Sou guiada por dois de seus seguranças para dentro do clube

enquanto o motorista sai pelo estacionamento em um anexo ao lado

direito da recepção. Percebo, assim que cruzo a porta, que é um


clube para visitantes e mensalistas.

Tento me situar da localização, levo poucos minutos para

perceber que o Field Of Desires não é dentro de Humperville e sim


centralizado em uma floresta entre a Street Powell e a Street

Carbot. Duas ruas principais que se separam em uma rotatória

pouco antes da saída da cidade.

— Não é um lugar bacana? — Meu pai trava ao meu lado,

examinando o lustre imponente sobre nossas cabeças. — Pode-se

dizer que tenho uma pequena porcentagem do lugar.


— O quê? — cochicho, mais para mim mesma do que para

ele.

— Foi só uma ajudinha amistosa. Tenho uma pequena


porcentagem de trinta por cento do lugar, claro. Não iria fazer

negócio sem a garantia de recuperar meu dinheiro a longo prazo.

Mas já temos em torno de cem mensalistas e pouco mais de


duzentos visitantes por fim de semana.

— Por que me trouxe aqui?

— Para conhecer o clube.

Ele indica o caminho, apontando o queixo rígido para uma


porta de vidro que dá acesso à primeira área verde do lugar.

Uma fonte de concreto está no meio do jardim, coberta por

uma camada generosa de neve.

As árvores que provavelmente fazem parte do terreno também

nos cercam e o declínio do terreno mostra a separação dos campos


de golfe.

Ao lado esquerdo, observo um prédio adjacente e pelo cheiro

que vem de lá, presumo que seja o restaurante.

Ao direito, tem uma subida leve para quatro torres de quatro

andares.
Dou uma olhada nos prédios e chego à conclusão de que

provavelmente são quartos para quem se interessar em passar a


noite.

Por que meu pai investiria em um clube desses? Não faço

ideia, mas há muito tempo parei de questionar suas escolhas. Tudo


que vem dele é no mínimo duvidoso.

— Talvez você queira colocar uma roupa apropriada para


experimentar a piscina aquecida? É uma área coberta alguns

metros depois do campo de golfe.

Olho para baixo, vistoriando minha blusa de lã e gola alta


vinho, o casaco de inverno preto e as botas de cano alto. Estou

usando uma touca cinza e luvas para aquecer os dedos que quase

congelaram no percurso.

Dou uma espiada em meu pai, tentando desvendar o que ele

está aprontando. Ele sorri tranquilo, quase como se fosse inocente.

— Eu poderia sugerir golfe, mas estamos no meio do inverno.

Quase ninguém aparece em tempos assim.

— Também não é recomendado entrar na piscina.

Se ele fosse tão presente quanto realmente quer parecer ser,

saberia que eu odeio piscina e tudo que envolve um tanque cheio


d’água.

— Eu não sei nadar — o oriento, com pesar. Sua testa franze.

— Se você fosse um pai um pouquinho mais interessado, saberia


que desde criança tenho pavor de piscina.

A compreensão alcança seus olhos.

É como se Thomas realmente percebesse a sua falha e fica

em silêncio por alguns segundos, tentando encontrar uma maneira

de se redimir, mas não é necessário.

Posso ter esquecido tudo de cinco anos atrás, porém, ainda

tenho muitas lembranças da infância e do pai que ele foi. Precisará


de muito mais que olhares arrependidos e expressão afetada para

que eu o perdoe pela infância de merda.

— Que tal um chocolate quente? Tem uma sala reservada para


os sócios.

Ainda estou aqui para falar com ele sobre Jasper e Aidan. Por

mais aterrorizada que esteja com a ideia de ficar mais cinco minutos
dividindo o espaço com Thomas, ainda preciso dele.

Concordo e em seguida, ele posiciona sua mão direita em

minhas omoplatas, orientando-me no caminho até o prédio à


esquerda, onde acredito que seja o restaurante.
Assim que cruzamos a porta longa de madeira, somos
recebidos por uma hostess simpática.

Thomas fala com ela e pede uma sala privativa no segundo


andar do restaurante.

Emma nos encaminha através de um corredor estreito, no fim,


visualizo uma escada de madeira.

Todo o ambiente tem o ar europeu de antigamente. Em tons

escuros e o chão de madeira é áspero como se estivéssemos


andando sobre o asfalto.

A porta que paramos em frente tem o número 4 pregado nela

em bronze.

Emma abre a sala para nós, apresentando um cômodo


pequeno e aconchegante com lareira, sofá vermelho de três lugares
e uma janela que começa no chão e termina no teto, dando visão

panorâmica do clube.

Na mesa de centro tem balas e marshmallow à vontade. Um


armário com o mesmo teor de antiguidade está posicionado ao lado

da lareira, poucos metros de distância, recostado à parede da


janela.
— Dois chocolates quentes, Emma. — Escuto meu pai pedir.
— Ah, pode adicionar conhaque ao meu — ele acrescenta, antes
que a garota desapareça.

Ouço-a concordar e a porta bate.

Caminho até a janela para vislumbrar a paisagem. É um lugar


lindo, mesmo com a neve cobrindo grande parte das colinas que

circundam nossa cidade. A neve tem lá o seu charme.

Aproveito os minutos de silêncio ininterruptos para pegar o


celular na bolsa.

Enfio minha mão no fundo dela, tateando todo o espaço

pequeno, mas não sinto o aparelho. Meu coração dispara. Tenho


certeza que o guardei antes de sair do restaurante.

Cruzo a sala rumo ao sofá, onde viro a bolsa de cabeça para

baixo, despejando todos os meus pertences; gloss, os remédios


para vertigem e dor de cabeça que a Dra. Aylin me recomendou na
alta, Post-it vermelho e caneta – viraram meus melhores amigos nos

últimos tempos –, mas não o aparelho ou as chaves do


apartamento.

— Nós temos que voltar no restaurante. Deixei meu celular lá

— falo, um pouco mais desesperada do que pretendia.


— Você não deixou. Guardei o celular pra você.

Levanto a cabeça. Minha expressão provavelmente estupefata

com sua confissão.

A postura elevada de Thomas não sofre nenhum impacto ao


notar como o desaprovo. Ele sorri, tranquilo, sem se afetar por

absolutamente nada.

Caminha lentamente para a frente da lareira, movendo os


tocos de madeira com um garfo grande de metal.

Emma entra de repente na sala, fazendo um pedido sutil de

licença. Coloca nossas bebidas na mesinha de centro e vai até a


lareira para finalmente acendê-la, ao perceber que Thomas, na
verdade, só brinca com a lenha.

Em poucos instantes, o fogo trepida.

— Você não parava de receber mensagens ou ligações, então


decidi guardá-lo para você até que tenhamos terminado a conversa.

Sabe como odeio interrupções.

— E as chaves do apartamento?

— As chaves? Na verdade, não sei onde as colocou.

Não acredito em nenhuma palavra que ele diz.


— Aidan ligou pelo menos onze vezes. — Meu estômago

afunda e sinto-o embrulhar, como se tudo que comi ao longo do dia


fosse voltar. — Garoto insistente do caralho.

— Você não muda nunca. — Cruzo os braços, arqueando o

queixo para enfrentá-lo. — É um sequestro?

— Como é que um pai pode sequestrar a própria filha? Me


poupe dos seus dramas, Delilah. — Ele se inclina, segurando a

caneca de chocolate pela alça. Bebe um gole, sorvendo o sabor


com um gemido baixo de prazer. — Garanto a você que quando
terminarmos, terá exatamente o que veio buscar. Respostas.

Primeiro, eu deveria lhe dar umas palmadas por ser malcriada. Não
sei onde errei, tendo filhos como você e seu irmão. Meu único
arrependimento com Sebastian foi não tê-lo mandando para a

escola militar.

Aperto os lábios, impedindo que as palavras grotescas saiam.


Ele já está nervoso o suficiente, não quero causar uma combustão.

— Segundo, queria te colocar agora mesmo em um voo para a

França. Existe um ótimo convento lá, andei pesquisando. Me traria


orgulho ter uma freira na família, religiosa e que cedeu sua vida a

Deus. Todos ficariam orgulhosos, sua mãe, seu avô e assim você
não causaria tantos problemas com rebeldia. — Ergo a sobrancelha,
em questionamento. — Meses atrás fui até você no Anarchy, te
avisei para ficar longe daquela família. Mas o que você faz?

Começa um relacionamento com aquele porco enxerido do Aidan.


— Engulo o nó seco da garganta e me afasto um pouco,
estendendo a distância. — Sabe o que aquele merdinha fez durante

todo esse tempo? Não, você não sabe, porque foi burra demais pra
perceber que estava te usando pra chegar até mim. Aquele filho da
puta…

Já vi Thomas com raiva antes. Várias vezes, porém, o que ele


sente por Aidan está acima do controlável. Me assusta ver as
narinas inflarem ao mencionar o nome dele.

Meus batimentos cardíacos estão em uma frequência elevada,


porque a cada gole no chocolate quente batizado com conhaque
que presencio, sinto que está cada vez mais perto de um colapso

nervoso. E sou a única pessoa nessa sala vulnerável para que


despeje sua raiva.

— O papaizinho o protegeu, mas Darnell tem feito isso o

tempo todo, há muito tempo. Sendo tão enxerido quanto o próprio


filho, se metendo onde não lhe convém! Na porra dos meus
negócios — Thomas grita e meus ombros cedem, fecho os olhos
assustada. Sinto a pulsação acelerada me sufocar. — Eu quase
acabei com eles, por um segundo, quase coloquei fim nessa merda.

— Do que você tá falando? Você enlouqueceu de vez —

murmuro, balançando a cabeça em negação.

— Darnell anda tentando prejudicar meu legado em


Humperville desde que se mudou para cá, como se fosse capaz de

passar por cima de mim. Fiquei feliz que tenha me ligado, quero que
dê um aviso para eles, por mim.

Ele deixa a caneca na mesinha e se aproxima. A cada dois

passos adiante que ele dá, recuo três. Mas Thomas é rápido e me
agarra pela nuca, puxando-me de volta.

Sua massa corporal é quatro vezes maior que a minha. Tudo

que consigo fazer é me debater sob sua mão.

— Pra ficarem fora do meu caminho. Dos meus negócios. Já


perdi tudo por causa daquela família. Perdi minha esposa, minha
filha e não vou perder a porra do meu cargo! — Thomas afunda os

dedos em minha nuca e arqueio a coluna, a dor se expandindo pelo


meu corpo. — Capisce? Sua traidorazinha…

— Entendi. — Tento soltar seus dedos, minha pele lateja no

lugar onde eles afundam mais a cada segundo. — EU ENTENDI! —


berro de volta, e os olhos ardem. Quero chorar. Meu Deus, eu quero
tanto chorar.

— Engole o choro. O que vou te mostrar é ainda pior. — Ele


me solta, finalmente.

E o alívio a seguir é arrebatador, tanto, que me permito chorar.

Thomas me analisa.

— Criei um bando de fracotes.

Ele revira os olhos e pesca o celular no bolso da sua calça.


Leva alguns segundos tateando a tela, a procura de algo.

Estudo quais as chances de sair correndo daqui.

Enfim Thomas parece encerrar sua busca e oferece o aparelho


para mim.

São fotos, uma seguida da outra. Minhas.

É uma versão de mim mesma que odeio. Posso não me

lembrar de tê-las experimentado, mas estou vendo através das fotos


tudo o que eu prometi que nunca seria.

Fraca. Vulnerável. Suscetível ao desastre.

Quando arrasto para o lado mais uma vez, é um vídeo. Subo

os olhos para meu pai, que me incentiva a assistir.


— Dê o play. Veja tudo que sempre te disse sobre aquela

família.

Faço o que ele manda, passando por cima do que minha razão
diz para fazer. Porque meu coração diz que o conteúdo vai me fazer

sangrar como nunca.

Estou parada no hall de entrada da minha antiga casa.


Esperando.

Meu pai está perto.

Repórteres e câmeras estão à minha volta.

Não os vejo, mas estão lá, porque, por alguma razão, a Delilah
daquele vídeo encontra-se entorpecida.

Então escuto:

— Não acho que seja. De verdade, pessoas ruins não decidem


ficar ruins de uma hora para outra. Sempre começam em algum
lugar, por algum motivo, e Dannya não tem nenhuma razão para

querer ferir o seu pai.

— Vamos continuar procurando.

— Quer um conselho, garoto?


— A filha de Thomas Linderman. Você devia… se aproximar
dela, ver se descobre alguma coisa.

— Está sugerindo que eu use a garota pra benefício próprio?

Não reconheço as outras vozes, mas uma delas me atinge

como um tornado e sou lançada para trás.

Sinto o vidro da janela fria tocar meu corpo e espero os


acontecimentos a seguir. Vejo o momento no vídeo em que a dor

espreme meus pulmões até que não seja capaz de inalar o ar.

— Dá pra ver que você não gosta dela e ela muito menos de
você. Você pode se aproximar. Uma garota como Delilah tem

buscado por carinho, atenção. Pode fornecer isso a ela e, em troca,


ver se ela te conta algo útil sobre o prefeito. Eu mesmo faria isso —
o homem falando na gravação ri —, mas seria estranho um cara

velho como eu me aproximar dela.

— Não a conheço direito. Seria… estranho aceitá-la de uma


hora pra outra — Aidan diz, escuto-o com tranquilidade no vídeo.

— É preciso. É possível que Delilah saiba coisas sobre


Thomas, que nem mesmo nós seríamos capazes de alcançar.

Um suspiro ecoa através do celular, a gravação fica em


silêncio por alguns segundos e aí é quando escuto outra vez, revivo
o desastre:

— Acho que posso fazer isso. Posso me aproximar e tentar


descobrir alguma coisa que ajude vocês.

— Vai ser ótimo, garoto.

— Toda informação que eu descobrir dela, repasso pra vocês.

Quando a gravação de áudio no vídeo termina, a câmera foca

em Aidan. Ele está olhando para mim.

Não sei se a Delilah de antes conseguiu perceber, mas eu


noto. Aidan está sofrendo.

Não é uma dor qualquer, não é o sofrimento de um babaca que

usou a namorada. É o sofrimento de alguém que tentou refrear o


erro, mas quando se deu conta, já havia se manchado com o
pecado. Afogado no poço de merda criado por ele mesmo.

É um daqueles erros que você só se dá conta quando está no


meio dele; bem no centro do vórtice.

Você pode querer voltar atrás e uma parte corajosa sua tenta,

mas se dá conta de que está envolvido na própria falha até o


pescoço e sua única opção é sucumbir.

Não fui a única que se partiu em pedaços. Ele também está


dessa maneira. Talvez a raiva tenha me cegado, mas enquanto
assisto o vídeo posso sentir que o mundo de Aidan ruiu, porque eu

era esse mundo.

O instante em que dou as costas para tudo aquilo e saio da


casa no vídeo, Aidan é cercado pelos seguranças.

— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? — grita para meu pai, e os

seguranças o agarram por trás, para impedi-lo de ir em frente.

— Porque você mexeu com a pessoa errada.

— ELA NÃO MERECE, PORRA! ELA NÃO PRECISAVA


SABER ASSIM!

— Você pretendia contar? — Thomas devolve, afiado, e Aidan


se debate nas mãos dos seguranças. — Porque isso foi há meses e
você ainda não abriu o bico.

— PORRA! EU IA! EU A AMO! EU A AMO! DELILAH! — Os


seguranças continuam o impedindo.

Fecho os olhos e desligo o vídeo, devolvo o celular para

Thomas e sigo em direção ao sofá, onde minhas coisas estão


espalhadas.

— Ele é um miserável.

Coloco todos os meus pertences de volta na bolsa, devagar e

ajo como se não o estivesse escutando.


— Você me trouxe até aqui para quê? Jogar na minha cara

que estava certo o tempo todo sobre Aidan ou para me fazer


perceber que, nessa história, o único culpado é você?

Thomas é pego de surpresa com a minha analogia.

— Ele estava sofrendo. Deu pra ver.

— Não apaga que ele te usou pra chegar até mim.

— Você tem toda razão, mas a questão é: por que ele queria
chegar até você?

Coloco a bolsa no ombro.

— Você não é inocente e me trazer pra cá — abro os braços,


tentando mostrar todo o teatro que ele armou — só para não ter que

mostrar seu verdadeiro eu para o resto das pessoas só prova que,


entre você e Aidan, acho que prefiro dar a ele uma chance de se
explicar.

— Minha nossa. — Meu pai bate palmas para mim. A cada

estalo, meu corpo sobressalta. — Você é mais inocente do que eu


pensava!

— Tem razão. Sou inocente porque liguei pra você! —

exclamo, o arrependimento sobressaindo a cada palavra que digo.


— Estava com raiva de Aidan, porque lembrei de uma parte
pequena da história. Você causou aquele acidente. Você me
colocou nessa situação. Não ele.

— Sua pirralha ingrata… — Ele estende a mão para me atacar,

mas, desta vez, por incrível que pareça, não fujo.

Lhe entrego o rosto como se merecesse, porque mereço, vim


com ele por vontade própria e idiotice.

— Se colocar um dedo nela, você está morto.

Meu pai para com a mão erguida sobre mim, mas não conclui

seu plano.

O lado direito de seus lábios se levanta em um sorriso


comovido.

— Seu príncipe apareceu, afinal de contas. — Thomas se vira,


fuzilando Aidan parado na soleira.

Meu coração trepida. Não sei quando foi que começou, mas
neste momento, só quero que Aidan me abrace.

Seu olhar é compreensivo, apesar de eu ter tido essa ideia

idiota, ele não está me julgando ou me colocando para baixo, pelo


contrário, ele veio até o inferno para me buscar.

— Não me olha assim. — Aidan tomba a cabeça para me

encarar. — Não vou tirar meus olhos de você por nada. Pode me
odiar, mas ainda vou proteger você.

— Não me olha desse jeito, nem sorri pra mim. Estou bêbado,
posso querer te beijar de novo e acho que concordamos que é
melhor a gente parar.

Pisco devagar. Pode ser uma lembrança ou só o pedaço de


uma delas, mas faz meu coração palpitar de qualquer maneira.

— Não diga bobagens. — Ele ri e olha para a frente, cruzando

os braços na altura do peito. Um tempo se passa antes que ele


prossiga: — Significa que vou te proteger, pelo menos enquanto
você estiver aqui.

— Eu não vou embora, Aidan — murmuro, em um tom

zombeteiro.

É outra lembrança.

— Você disse que iria me proteger enquanto estivesse por


perto — murmuro ao ar, sem ter certeza de que Aidan vai ouvir. —
Obrigada por ter vindo!

Aidan arregala levemente os olhos, como se não acreditasse


em mim, mas, em seguida, a compreensão toma conta dele e
assente.

Só de olhá-lo, sei que está me dizendo para ir até ele.


Faço a curva no meu pai e me afasto, ficando ao lado de
Aidan, que passa os braços por cima dos meus ombros e me puxa
para perto.

A proteção que sinto com esse pequeno gesto não tem


descrição. Me aninho nele como se o que aconteceu entre nós
ontem nunca tivesse existido e a raiva evapora.

— Estou te avisando, melhor não me provocar — Thomas


ameaça, e não sei definir se está falando para mim ou Aidan, mas
um de nós com certeza acaba de ser amaldiçoado.

— Ou o quê? Vai mandar me prender? Você já fez isso.

— Garoto estúpido, não aprende com os próprios erros, não é?


Gosta de agir como se fosse o herói, mas é só a cópia escancarada
do seu pai. Nunca a prioridade de ninguém. — Thomas ri amargo,

provocando-o. Ele vai até a caneca de chocolate quente com


conhaque e bebe o que resta. — Hmmm…

— Não vou mais te procurar — aviso.

— Você vai, em algum momento.

— Não vai — Aidan reafirma. — Vou garantir que ela não


precise nunca mais se aproximar de você.
— Estou falando com a minha filha, moleque — grunhe, a
irritação faz sua mandíbula trincar. — Vou falar seriamente com sua

mãe. Precisamos decidir o que fazer com você. Um convento é uma


boa ideia. Ela não se opôs quando sugeri mandar Sebastian para o
colégio militar.

— Ela não tinha como se opor! Você tinha todas as formas de


controlar nossa vida!

— Acha que ainda não consigo? Quer tentar a sorte?

— Pra ser sincera? Quero sim.

Sem me dar conta, acabo segurando a mão de Aidan. Sua


palma fica quente contra a minha.

Meus dedos deslizam pela superfície áspera até que se

entrelacem.

Vejo um sorriso tranquilizador no canto de sua boca e uma


profusão de sentimentos me consome, simultaneamente, ao corpo

de Aidan sendo lançado contra o meu.

Basta uma fração de segundo para seus braços estarem me


envolvendo e meu rosto ser pressionado contra seu peito em um
abraço aconchegante, protetor.
Escuto o som da porcelana se estilhaçando nas costas de
Aidan, o impacto dela contra seus ossos é como se ele estivesse se
partindo ao meio ao rugir de dor.

Os estilhaços voam para todos os lados por causa da força


imposta no arremesso, mas seus braços em volta da minha cabeça
impedem que os fragmentos atinjam meu rosto.

— AIDAN! — grito, ao instante em que seus joelhos se


dobram, mas não cedem.

Ele mantém os braços firmes em volta de mim, como um


escudo.

Levo os dedos para a região das suas costas que foi lesionada

e sinto um círculo úmido de sangue no tecido fino de sua camisa.


Tento escutar o que o médico diz. Não estou totalmente

interessado nele, mas Delilah sim. Seus dentes cerram na ponta do

polegar, demonstrando nervosismo.

— Como exatamente aconteceu? — o médico pergunta, a


testa vincada enquanto escrutina meu rosto. — Brigou com alguém?
— Ergue um pouco mais o tecido da camisa, se inclinando para

examinar o corte profundo rente as minhas vértebras torácicas. —


Teremos que suturar — ele explica e imediatamente abaixo a
camisa.

— Que nada, foi só um arranhão — grunho, ajeitando a

postura. Minhas pernas pendem da maca da emergência do San


Rosé, olho em volta, mas estou cercado por cortinas.

— O que foi que você disse que o acertou? — Analiso o nome


bordado no jaleco dele: Dr. Hart Buttler.

— Foi uma caneca de porcelana. — Delilah aperta os dentes

com mais força no dedo. Ela se sente culpada pelo que aconteceu,
dá para notar.
— Certo. Uma caneca de porcelana. Escuta Aidan, a caneca

de porcelana funciona como um vaso sanitário. — Uma ruga se


forma entre meus olhos, não sei onde ele quer chegar com essa

analogia, mas Dr. Hart percebe a confusão na minha expressão. —

Quando você sobe em cima dele, por exemplo, ele pode quebrar e a
porcelana se torna uma lâmina extremamente perfurante. A força

que a pessoa impôs ao jogar a caneca fez a mesma coisa que um

vaso sanitário. A caneca quebrou em você, fazendo com que não só


rasgasse sua camisa, mas também perfurasse sua pele num corte

profundo. Se não suturarmos pode infeccionar e trazer um problema

ainda maior. Como médico, minha sugestão é que você feche esse
corte.

Olho para Delilah. Quero ter certeza de que ela não se

machucou, mas a cada segundo, a cada palavra que sai da boca do

médico, ela parece mais ansiosa e tensa. Não quero esse tipo de

emoção mexendo com ela.

— Estou bem Dr. Hart.

Estendo o braço para alcançar meu sobretudo ao lado.

Não paro de pensar que se estivesse o vestindo na hora, não

teria me machucado. O ínfimo movimento de esticar o corpo já faz


com que todas as vértebras doam, mas vou engolir cada fincada de
dor.

— Posso ir agora?

— Tem certeza, Aidan? Dr. Hart disse que você deveria… —

Delilah tira o polegar da boca para falar comigo, examinando meu

rosto e a mancha de sangue na camisa. — Você deveria suturar.

— Faz só um curativo. Tenho certeza que isso vai fechar

sozinho bem rápido.

Dr. Hart suspira, esboçando seu descontentamento com a

minha decisão.

Fico de costas para ele e Delilah, até que termine o curativo.

— Vou te receitar analgésicos para a dor e anti-inflamatório.

Tente trocar o curativo três vezes ao dia e mantenha o ferimento

sempre limpo.

Ele fala durante o tempo em que faz o curativo. Quando


termina, sai do cubículo cercado por cortinas e estou a sós com

Delilah.

São poucas as oportunidades que temos de ficar sozinhos e

por mais que tente me aproximar dela, só consigo afastá-la mais.


Quero fazer as escolhas certas, mas na maioria das vezes, só

me distancio mais. É complicado, porque essa Delilah diante de mim


não é a que eu conheci e por quem me apaixonei.

Dói pra cacete admitir, mas a realidade, aos poucos, está


batendo à porta.

— Por que você fez aquilo? Por que se colocou na minha

frente?

— Só fiz o que achei certo.

— Você se machucou por minha causa.

— Você sofreu o acidente por minha causa também.

— O quê? É uma competição de quem se machuca mais? —

Delilah cruza os braços, a ponta do queixo tirita de irritação. — Não


se coloque em perigo por mim de novo, Aidan. Afinal, o que é que

você estava fazendo lá? Como foi que você passou pelos
seguranças do meu pai e como conseguiu acesso ao clube?

Arqueio as sobrancelhas para ela.

Thomas pode me conhecer. Seus seguranças podem me


conhecer, mas o clube é um empreendimento recente em

Humperville.
Precisei só dar o meu nome que rapidinho a recepcionista

soube de quem sou filho e quanto dinheiro minha família tem para
que me desse uma ficha para preencher. Um cara super interessado

e com perfil para ser cliente vitalício do Field Of Desires.

— Só disse que queria ser cliente do clube e me deixaram


visitar. A garota, Emma, me ajudou a te encontrar. Ela parecia muito
assustada com o tom que Thomas estava usando com você. Acho

que depois disso ela pode ser demitida. — Salto da maca e começo
a vestir o sobretudo, a dor dificulta a passagem dos braços pelas

mangas, mas faço esforço para não demonstrar. — Ela disse aos
seguranças que Thomas tinha pedido que fossem procurar pelas

suas chaves do apartamento no carro.

— Que garota esperta.

— Pois é. Acho que nem todas as pessoas de Humperville

sucumbiram à ganância. — Ajusto a lapela e olho para onde Dr. Hart


saiu minutos atrás.

— Obrigada por ter aparecido.

— De nada.

— A culpa é minha. Sinto muito.


— Então, você promete que nunca mais vai se encontrar com
seu pai sozinha?

— Estamos fazendo promessas um para o outro de repente?

— Não é de repente. Você só não se lembra quando foi que


começou.

Consigo deixá-la corada. Não é um trabalho muito difícil.


Delilah voltou a ser a garota de catorze anos que se surpreende

com poucas demonstrações de afeto.

Dr. Hart volta com o receituário em mãos.

— Aqui está. Se você tiver qualquer problema, deixei meu


telefone embaixo. Pode me ligar.

— Obrigado, Dr. Hart.

— Por nada, garoto. E vê se cuida desse ferimento direito!

Faço que sim, caminhando para fora do hospital

Delilah e eu andamos em um silêncio pesado e recheado de

dúvidas. Sei que ela tem milhares de coisas para perguntar, assim
como tenho várias outras para ela.

Ontem no Anarchy Delilah me deu as costas e foi embora, sem

me dar a chance de me explicar. E hoje, quando a vi sair do


refeitório, não pensei duas vezes, fui atrás.

Queria ao menos um minuto a sós com ela para tentar resolver

toda essa merda. Contudo, vi o carro do prefeito. Se eu tivesse


interferido ou tentado impedi-la, colocaria mais distância entre nós.

Sozinho concluí que ficaria de olho nela, só para garantir que

Thomas não fosse armar nenhuma. E ainda bem que fiz isso, caso
contrário, talvez ele a estivesse fazendo de prisioneira.

Thomas não pretendia me acertar quando lançou a caneca, o

que foi muita sorte. Não tenho certeza se o seu alvo era a própria

filha, mas se não fosse, ia passar de raspão.

A primeira coisa que me veio à mente foi aquele jantar no

domingo, ano passado, onde Thomas arremessou aquele copo de

uísque sem titubear, o que me leva a conclusão de que não dá a


mínima se realmente iria ferir alguém.

Uni minhas forças para lhe dar um aviso. Não precisei

sentenciá-lo com palavras, Thomas soube no instante em que


nossos olhos se cruzaram que se tentasse impedir nossa saída,

nem eu ou meu pai pouparíamos forças para ferrá-lo. Ele ficou lá,

petrificado no lugar, enquanto Delilah e eu saíamos.


Pego a chave do carro para destravar as portas da Diamond.

Delilah para de súbito, me obrigando a parar também.

Não sei o que ela está pensando, mas posso arriscar um

palpite.

— Eu pularia na frente de um carro pra te salvar. Você vai

descobrir isso uma hora ou outra, então não importa. Vou te deixar

em casa. — Dou a volta no carro para abrir a porta do passageiro,


mas Delilah permanece parada. — Qual o problema?

— Estou sem as chaves do apartamento. As meninas não


devem ter chegado em casa ainda.

— Você pode ficar no meu apartamento até as meninas

chegarem.

Abro a porta, esperando que entre. Delilah morde o lábio

inferior, hesitante, mas não preciso argumentar para que comece a


se mover.

Dou a volta no carro para assumir o volante.

— Como foi que você me achou?

— Segui você — confesso.

— Você me seguiu?
Dou partida e entro na estrada.

— Depois de ontem, precisava falar com você. Não pretendia

te seguir. Só queria um minuto a sós, mas o Thomas apareceu e


fiquei pensando que não era um bom sinal.

Ela meneia a cabeça, fazendo que sim, indicando que


entendeu.

Ligo o som para dissipar o silêncio e é apaziguador não ter que

lidar com ele quando Delilah e eu sempre soubemos o que falar em


momentos de tensão.

— Quer beber alguma coisa?

Deixo as chaves na mesa de apoio escorada à parede no hall


do apartamento.

Delilah me segue em silêncio, escrutinando minha casa com


mais apreensão, mas em um modo geral, está organizada.

Meu pai me convenceu a contratar alguém que passa duas

vezes na semana limpando tudo. Porém, sempre fui mais


organizado que Willa em grande parte do tempo.
Além das almofadas da sala que estão espalhadas sobre o

carpete, onde estava assistindo a um filme ontem à noite, não tem


nada fora do lugar para que Delilah me considere um completo

desorganizado.

Caminho em sentido a geladeira para pegar uma cerveja.

Já percebi que Delilah perdeu a habilidade com bebida

alcoólica. Ela nunca foi muito fã em comparação aos outros, mas ela
não bebe quase nada que tenha álcool. Então mesmo sem dizer,

pego água com gás da geladeira – na realidade é tudo que tem para

beber além das cervejas.

— Desculpa, só tenho água com gás.

Abro a garrafa e entrego para ela. Delilah não reclama, bebe


um gole do próprio gargalo e caminha para o sofá que faz a

repartição da sala e cozinha, além do degrau que tem para acessar

o cômodo.

Ela se senta, deixando a bolsa de lado, seguindo com sua

análise minuciosa do apartamento.

Bebo um gole da cerveja sem tirar os olhos dela, sento-me ao

seu lado, mantendo uma distância de dois assentos e me recosto

nele para observá-la.


Delilah parece curiosa rastreando todo o espaço com cautela.

Não tem nada demais, para ser honesto. Não me preocupei nem

mesmo com a decoração. As paredes estão cruas com uma pintura

sem graça em tom arenoso.

Curvo em direção ao controle da tevê para conectar uma

playlist no Spotify. Como disse, é sufocante viver nesse silêncio com


ela. Principalmente porque costumávamos ter muito o que

conversar.

Sempre achei que eu fosse a novidade para essa Delilah que


acordou do coma, mas analisando todos os pontos, é também uma

novidade para mim.

Me habituei a ter uma garota do meu lado onde os olhos

brilhavam toda vez que a olhava, que o corpo se entregava para

mim no mais inocente toque.

Talvez não só Delilah tenha que se apaixonar por mim de

novo, mas eu também preciso me apaixonar por essa sua nova

versão.

Adore You de Harry Styles toca quando Delilah joga a cabeça

para trás, descansando no encosto do sofá. Fico de lado para

observá-la melhor.
Os olhos fechados, o nariz arrebitado e as sardinhas pintando

a pele de porcelana do seu rosto. Adoro cada detalhe dela com


todas as minhas forças, o que prova que amá-la de qualquer jeito

não seria nenhum problema. Por um segundo parece que estou

fascinado por ela sem sequer fazer esforço.

— Fico sem graça com você me encarando desse jeito —

resmunga, com um suspiro e abre os olhos, encarando o teto.

— Te incomoda?

— Pra ser sincera, não, quer dizer — ela sorri — me

incomodava antes, mas acho que acabei me acostumando com


esse seu jeito apaixonado de me olhar. É bom sentir que alguém me

ama e admira por quem eu sou, afinal de contas. E olha que sou a

única ainda sem compreender quem eu sou e o que eu fiz de tão


extraordinário para ser amada.

— Não é sobre o que você faz, mas o que você é. Sua alma,

sua essência, tudo o que faz você ser você.

— Você também sabe o que dizer, como aqueles personagens

de livros com as frases arquitetadas para conquistar a mocinha, mas


não estamos mais jogando aquele jogo, Aidan. Aquele que fez com
que nós dois chegássemos até aqui, então me diz, o que é que você
está fazendo?

— Você não acredita que te usei, não é?

Ela respira fundo, se erguendo e aprumando a postura.

— A pulseira que você estava usando no Natal, com todos


aqueles pingentes, cada um deles representa um momento

importante que passamos juntos. Todos aqueles pingentes podem

resumir a nossa história, mas nenhum deles conta o que você


significa pra mim. A rosa representa a calma e o afeto, a caneta

representa a esperança, a bicicleta representa o seu coração, que

me acolheu como ninguém havia feito antes. O livro e o piano são


como calor e luz, o que você trouxe para minha vida quando chegou

nela. Star Wars significa alegria, porque foi o primeiro momento que
tivemos juntos e nunca me diverti tanto como naquele dia. O

pingente de diamante representa a seriedade com que você trata os


meus sonhos, por sua causa, não desisti da The Reckless. Se você

está me perguntando o que estou fazendo agora, a resposta é


simples: estou te dando todo o meu amor, como você sempre fez.

— Aidan…
— Se você vai me pedir para desistir, é melhor parar. Eu não
vou, baby. — Ela retesa ao me ouvir chamá-la assim, fica tensa, o
seu corpo reage ao apelido carinhoso como uma lembrança viva de

nós.

— Não ia dizer isso — sussurra, me encarando. Tem alguma


coisa nos olhos dela que está diferente desde que saímos do clube.

— Quero que me beije, Aidan.

— O quê?

Heavenly toca no momento em que Delilah se levanta.

Deixa a garrafa de água no chão, tira o casaco de inverno e a

touca, jogando-os no sofá ao lado e caminha com a decisão


minando seus olhos. Ela abre as pernas enquanto se senta, para
encaixar seu corpo no meu tronco.

Apoia as mãos na superfície do encosto do sofá, direcionando

os lábios aos meus. A fragrância do seu perfume e o calor familiar


da sua respiração tocando minha boca é uma tentação invasiva.

Quero segurá-la como se fosse minha, atirá-la nesse sofá e

amá-la como antes, mas preciso seguir o seu ritmo. Dançar no


compasso dela.
Delilah paira a boca sobre a minha, mas não encosta. Está me
provocando como sempre faz, querendo me enlouquecer.

— Sabe por que fugi naquele dia? — rumoreja, a ardência do

seu corpo me desperta. Faço que não, movendo lentamente a


cabeça. — Porque eu senti tudo. Senti você e o que é capaz de
fazer comigo se eu me entregar, se decidir que quero me apaixonar,

Aidan. Você pode me beijar agora ou me mandar pra casa, o que vai
ser?

Eu a devoro.

Não é delicado como aquele dia, pelo contrário, estou a


tomando para mim como um animal. Sugando sua boca
desesperadamente.

Agarro sua cintura, envolvendo-a com os braços, puxando seu

corpo para mais perto.

Levo as mãos para sua bunda, apertando-a, demonstrando a


urgência que sinto dela.

Delilah corresponde da mesma maneira, emaranhando os


dedos nos meus cabelos e me puxando enquanto vira a cabeça
para abrir mais espaço em sua boca. Ela me consome como chama;

de fora para dentro.


Desço as mãos para a barra da sua blusa, faço devagar,
esperando que me pare, mas Delilah não o faz. Segue me beijando,

me fazendo perder a cabeça enquanto rebola em cima de mim.


Dilatando meu desejo a cada segundo.

Toco a pele de sua barriga, sua coluna arqueia e atira o quadril

para frente, me incentivando a seguir adiante. Porra. Ela deve estar


tão molhada.

— Cacete, estava com tanta saudade de você. Tanta.

Estudo seu rosto, em busca de qualquer resíduo de dúvida que

possa cruzar seus olhos astutos, mas nada. Não vejo nada.

— Quer que eu pare?

Delilah sacode a cabeça, negando.

Seguro-a pela cintura, virando nossos corpos no sofá. Passo o

braço para derrubar sua bolsa e o casaco, colando nossas bocas


outra vez, mas me afasto, pairando o rosto sobre o dela e a encaro.

Estou guiando minhas ações de acordo com o quanto desejo

fazer amor com ela outra vez e não o que nosso relacionamento
precisa.

Meu olhar decepcionado parece deixá-la frustrada, mas saio

de cima dela.
Passo os dedos pelos cabelos desgrenhados, assentando-os.

Em seguida, esfrego o rosto, manifestando minha frustração por


parar algo que quero tanto.

Merda. Eu quero tanto estar dentro dela de novo, poder

experimentá-la, mas não consigo.

Não posso.

— Desse jeito, não.

— O quê? Como assim? — Delilah desce os pés do sofá, me

encarando enviesado. — Que foi? Não sou atraente como antes?

— Porra, mas é claro que é. Você é excepcional, Delilah. Tudo


que eu mais quero é fazer isso com você, vai por mim. — Levanto-

me e pego a garrafa para tomar o último gole de cerveja. — É


impossível olhar pra você e não te desejar. Queria te carregar pro
quarto e fazer amor a noite toda, mas…

— Mas?

— Não parece certo.

— Como assim? — Ela ri, vindo atrás de mim até a cozinha. —


Precisamos estar namorando?

— É. Pra começar.
— Nossa.

— Eu não quero só transar com você, tá? Talvez no começo,


quando nos conhecemos e você nem se lembra, mas é diferente

agora. Eu te amo — friso, querendo que ela veja não só as palavras,


mas em ações. — Eu te amo, Delilah.

— Eu ouvi da primeira vez.

— E não quero só dormir com você.

— Também ouvi essa parte.

— Então?

Delilah suspira.

— Que tal se a gente não apressar as coisas? Acabei de

descobrir porquê nós terminamos!

— Por mim, tudo bem. — Dou de ombros. — Vamos começar


do zero. O que você quer? Um encontro?

— Você está me convidando? — Ri, mordendo o lábio inferior.

— Porque se estiver, eu tenho uma contraproposta. — Não


respondo, esperando ela dizer. — Amanhã. Noite da pizza. No
apartamento da minha mãe.

— Fechado.
— Hum. Que tal se vermos um filme? Os últimos dias foram
uma loucura e eu só quero uma pausa de conflitos.

— Nós ainda temos muito o que conversar.

Desisto da cerveja e atravesso o balcão para me encontrar


com ela no caminho.

Delilah fica um pouco constrangida quando abraço sua cintura

e a puxo para perto, depositando um selinho no canto de sua boca.

— Temos, mas, na próxima vez, ok?

O apartamento de Maya é pequeno para a quantidade de

pessoas que ela convidou para visitá-la na noite da pizza.

Estou com a camisa preta toda manchada de farinha e Ash


adorou a parte de fazer o molho porque pôde brincar com a Gravity

de “pintar” o rosto um do outro. O que é, claramente, um desastre.

E para o meu desgosto, Delilah convidou Brooks como se isso


não fosse um problema para o nosso relacionamento-não-
relacionamento.
A noite de ontem foi legal. Nós ficamos no sofá assistindo a
saga de Star Wars até que ela pegasse no sono primeiro, como

todas as vezes e assisti dormir como um idiota.

Depois, ela pegou um Uber sem nem se despedir e não nos


falamos desde então, e o pior, Delilah está agindo como se a noite

de ontem não tivesse existido.

Ontem, quando estávamos no sofá, a adrenalina me levou a


esquecer as pontadas de dor nas costas, mas hoje, ao acordar,

percebi que estou fazendo um esforço extracorpóreo para não me


expor.

Toda vez que um grunhido sobe à garganta para reclamar,

porque alguém colocou a mão lá ou porque não consigo recostar no


sofá, sinto a dor pungente como uma lâmina afiada varando meu
corpo. Exatamente como o Dr. Hart disse: lâmina perfurante.

Bryan e Mackenzie estão picando os tomates.

Delilah e Brooks estão montando as pizzas.

Chase, Finn e eu estamos assistindo a todos na cozinha,


apenas ficamos ao redor deles bebendo enquanto esperamos a

nossa vez de ajudar. Só ajudei com a massa até então, porque são
muitas mãos para pouco espaço. Maya é como a chefe da cozinha,

só dá as instruções.

Estou quase pulando na cozinha porque Brooks não perde a


oportunidade de tocar em Delilah. Ficou um pouco ofendido, para

quem estava super preocupada ontem, ela nem se deu ao trabalho


de perguntar se o ferimento nas minhas costas melhorou.

— Cara, logo todo mundo vai perceber — Chase implica,

tomando um gole da cerveja para abafar a risada.

— Perceber o quê? — contesto, infeliz.

— Esse bicão que você está fazendo — Finn responde,


sacudindo os ombros em desdém.

— Parece que ele está se aproveitando da situação. — Reviro


os olhos com raiva e engulo a cerveja como se fosse uma pedra de
gelo.

— Ele está — Finn diz, sem se prolongar. Ele nem hesita para
me acalentar. — E quer saber? Delilah gosta dele.

— Nossa cara, valeu. Você está me ajudando demais.

— De nada. Somos amigos, o meu papel é te falar a verdade,

sem te iludir.
A campainha toca e Maya corre da cozinha para a porta. A
única que está faltando é a Effy, presumo que seja ela.

O silêncio se instaura no instante em que entra usando um

vestido de alças finas preto, estampado com margaridas e meia-


calça preta.

Como se não bastasse a presença dela que chama a atenção

de Finnick, é a primeira vez que Effy aparece acompanhada. Nas


outras ocasiões, simplesmente aconteceu de Reed e ela se
encontrarem, mas acho que decidiu assumir que alguma coisa está

rolando entre eles.

— Desculpem o atraso. — Effy pendura o casaco de inverno


no encosto da poltrona e adentra, cumprimentando cada um de nós

com um beijo no rosto, exceto por Finn, que ela pula e Chase do
lado quase cospe a cerveja ao rir. — Reed precisou dar uma
passadinha em uma festa da fraternidade. Estão comemorando

porque ganharam o jogo de hoje!

— Foi um baita jogo. — Reed me cumprimenta com um aperto


de mãos e passa para Finn, que, como sempre, faz pouco caso,
mas essa é uma característica dele de sempre ser apático. — O

cheiro está bom, hein, Maya? — Ele beija o rosto dela.


— Sociável — Chase provoca Finn.

— Dá pra calar a boca? Eu tenho namorada.

— É, e um passado não resolvido também — Chase insiste,

ainda sendo provocativo.

— É melhor você ficar quieto se não quiser ganhar um olho


roxo de presente de aniversário atrasado! — Finn o ameaça. —

Babaca — murmura.

— Chase ou Reed? — brinco.

— Até você?

— Desculpa cara, somos amigos, o meu papel é te falar a

verdade, sem te iludir — parafraseio, gargalhando.

— Qual é a piada? — Effy encaixa o tronco entre mim e Finn,


apoiando os cotovelos no encosto do sofá, girandp a cabeça para

intercalar as olhadelas entre nós dois.

— Nada — Finn responde às pressas, como se eu fosse capaz


de dedurar.

— Você, mal-humorado como sempre. — Effy dá palmadas de

consolo no ombro de Finn.


— Ela é muito fofa, cara. — Chase observa Effy. — Eu deveria

ter investido nela. — Uma almofada é lançada em direção ao rosto


de Chase e olhamos para o lugar de onde ela veio.

— Estou bem aqui, babaca! — Effy reclama, com as mãos


pousadas na cintura, encarando Chase. — Mas valeu. — Ela pisca

para ele, satisfeita. — Agora sou comprometida!

— É oficial? — Finn arqueia uma sobrancelha.

— É. — Ela dá de ombros.

Num segundo depois, Effy passa a mão direita pela franja

ruiva, exibindo uma aliança de compromisso.

— Cacete, ele até colocou uma aliança no seu dedo? —


Chase brada, espantado. — Ele não perde tempo mesmo, hein?

— Ufa! Tudo pronto! — Delilah anuncia, voltando para a sala.

Brooks vem logo atrás dela, o restante continua na cozinha


mantendo a conversa animada.

Delilah senta-se sobre o carpete e Brooks a acompanha como

uma sombra.

Que cara chato do caralho!


— Preciso de mais uma cerveja, Ashton! — grito, para meu

amigo na cozinha.

— Você tem pernas, vem buscar, seu playboyzinho


preguiçoso! — esbraveja de volta.

Arquejo ao me levantar, estico a coluna, o que acaba


causando um leve desconforto que não consigo disfarçar. Um leve
gemido escapa da minha boca.

— Ei cara, está tudo bem? — Chase me puxa pela barra da


jaqueta de couro.

— Tudo. É só um desconforto na coluna.

— Já disse que você tem uma péssima postura enquanto toca

— Ash resmunga da cozinha, como se estivesse se sentindo


culpado por ter se recusado a me servir, pega uma cerveja na
geladeira e nos encontramos no caminho. — Se não melhorar,

procura um médico. Não podemos ficar sem você. A agenda da The


Reckless em março está lotada.

— Estou sabendo. — Bebo um gole, voltando para o sofá.

— Aidan, tudo bem? — Delilah fala comigo pela primeira vez


desde que cheguei. Quase quero ficar bravo com ela na frente de
todo mundo.
— Tudo — sou curto, acho que até um pouco rude, mas
ninguém além dela parece notar.

— Querem escutar alguma coisa? — Maya vem até a sala com

o controle da tevê na mão.

— Ah, eu quero. — Gravity corre para tomar posse do controle.


— Já escutaram Dangerously?

Gravity entra no aplicativo do Spotify na tevê e digita o nome


da música e cantora, Angie.

É uma música sensual, com uma mescla de romance.

Uma discussão se inicia para decidirmos se vamos ver


Invocação do Mal 2 ou um romance mamão com açúcar.

A maioria quer terror, mas Delilah não levantou a mão para


opinar.

Pareço mal-humorado, não participo da conversa nem dou


risada quando todos estão rindo, porque definitivamente estou
irritado com o modo como Delilah está agindo. Ok. Ela disse que
não quer apressar as coisas, entendo, mas agir como se nada
estivesse acontecendo? É ferir o meu ego.

A primeira pizza já foi para o forno e o cheiro começa a se


ampliar pelo apartamento.
Levanto-me em um rompante, anunciando que vou ao
banheiro quando olhares inquiridores me sondam.

Rumo para o corredor afunilado, que segue basicamente o


mesmo padrão do prédio em que Delilah mora e a primeira porta à
direita é o banheiro.

Na hora em que termino e saio, sou arrastado para outro


cômodo, em frente ao banheiro e, um segundo depois, a porta é
fechada e trancada.

As luzes acendem e vejo Delilah de braços cruzados e com


certeza, furiosa.

Ótimo, ela está com raiva. Que bom, porque também estou.

— Vira — ordena, movendo o indicador para ilustrar.

Miro seu rosto para que veja que ela não é a única carrancuda
aqui.

— Anda! — vocifera, quando não obedeço.

Mas minha rebeldia dura poucos segundos, porque me viro e


Delilah é rápida em levantar minha blusa e jaqueta para olhar o
curativo coberto por esparadrapo e algodão.

— Onde está doendo?


— Não está doendo.

— Você fez uma cara horrível mais cedo. Está doendo sim! —
exclama e abaixa minhas roupas.

— Não exagera, eu estou bem — brado, ajeitando a jaqueta no


lugar.

— Por que você está tão mal-humorado?

— Por quê? Você não consegue nem adivinhar?

— Sinceramente? Não!

— Porra, Delilah! Ontem foi nossa primeira noite juntos depois


de tanto tempo e você age como se não se importasse! É claro que
eu estou com raiva! Nunca sei se nós demos um passo à frente ou
se estamos andando pra trás!

Ela fica em silêncio, compreendendo tudo que digo.

— Você mal me olhou a noite toda.

— O que é que você quer que eu faça?

— Como assim?

— Quer que eu te beije na frente de todo mundo? Que a gente


saia de mãos dadas? Te pedi pra não apressar as coisas.
— Não estou dizendo que precisamos fazer isso, só pode, por
favor, pelo menos agir como se me conhecesse? E parar de dar

mole pro Brooks na minha cara, isso me irrita.

— Dar mole pro Brooks?

— Ele é seu ex-namorado e não é segredo que ainda é a fim


de você.

— O que você está insinuando?

— Que ele está aproveitando da situação pra tentar se


aproximar.

— É ridículo. Brooks não é assim — murmura, ofendida. —


Você está sendo paranoico e ciumento — salienta. — Sem ter o
direito de se sentir enciumado pelos motivos óbvios. Não estamos

namorando — ela contabiliza, erguendo o dedo — e porque Brooks


é só um amigo.

— Perfeito, então. — Ergo as mãos, me rendendo.

— Ótimo.

— Quer saber? Não sei porque eu vim até aqui. Estou


tentando te entender, mas de verdade, não consigo. Só dou bola
fora!

Destranco a porta para sair.


— Espera.

Delilah suspira.

— A gente come e depois vamos pra sua casa — propõe,


mordendo o lábio inferior. — Se estiver tudo bem pra você.

— Certo.

Aceno e viro nos calcanhares para puxar a maçaneta, mas


segundos antes de conseguir, Delilah me segura pelo punho da
jaqueta e me atrai de volta para ela.

Sua mão segue em direção ao meu pescoço e fica na ponta

dos pés para alcançar minha boca. Quero deter as mãos para me
conter e não tocá-la, porque sempre que começo, é uma luta interna
ter que parar.

— Pode me abraçar? Me beijar?

E aí não sou mais dono de mim ou das minhas ações. Ofereço


a ela o que quiser; corpo, alma e coração.

Envolvo sua cintura, amparando seu corpo e a trazendo para


mais perto. Penetro sua boca com a língua, recebendo um chiar
prazeroso que escapa dela, que faz seu peito vibrar.

Viro-me, encostando-a na porta e aprofundando o beijo.


Delilah impulsiona o corpo para cima, ancorando os calcanhares em
minha lombar.

Seguro-a com um braço e a outra mão se espalma na porta,


para impedir que alguém entre.

Me perco nela, na complexidade dos sentimentos que tenho


por Delilah. São tão intensos que acho que vou enlouquecer por
essa garota a qualquer momento.

— Quando você me beija… — Delilah suga meu lábio inferior


para dentro da sua boca e o morde, de olhos fechados. Ela está
com tesão. — É a melhor coisa do mundo. — Segurando meu
queixo, Delilah dispara em selar nossas bocas várias e várias vezes

em frequência, até que seus pés voltam a tocar o chão e se afasta.

— Melhor a gente voltar. — Sorrio contra seus lábios.

Ela faz que sim com a cabeça.

Seguro a maçaneta e ao abrir a porta, Delilah e eu nos

deparamos com nossos amigos empilhados um em cima do outro


na porta.

Nós os encaramos com indignação e o que era para ser algo

reservado, acaba se tornando público.

Gravity termina de mastigar um pedaço de pizza e começa a


rir.
— Vocês não perdem tempo mesmo — comenta, o que deixa
Delilah desconfortável.

Maya está lá também, mas não consigo decifrar o que seus


olhos estão querendo me dizer. Puta merda, acho que pisei na bola
com ela.

Alguém limpa a garganta, não tenho certeza, mas acho que é


Effy quem dissipa o pessoal até que o corredor paire em silêncio
entre Delilah, Maya e eu.

— Parece que nós três precisamos conversar — diz,


alternando o olhar entre Delilah e eu. — Depois que todos forem
embora. Não vamos cometer os mesmos erros de antes.

Faço que sim, concordando com ela.

Não julgo Maya por querer garantir que Delilah esteja segura e

que eu não estou tramando nenhum plano contra Thomas e usando


sua filha como ponte.

A entendo e por esse motivo aceito qualquer consequência,

contanto que essa não seja abrir mão de Delilah.

Isso está fora de questão.


Por volta das dez da noite estou terminando de lavar os copos

sujos na pia e todos já foram embora.

Maya arranjou uma desculpa para que o filme de terror não


acontecesse hoje. Pude ver o alívio na feição de Delilah ao se livrar

de uma sessão indesejada – por ela – de filme de terror.

Delilah está secando as louças que lavei em silêncio e Maya


está sentada na sala, vendo tevê, mas ora ou outra, perscruta a
cozinha para ter certeza de que Delilah e eu não nos movemos

nenhum centímetro para perto um do outro.

Quando termino, nos direcionamos para a sala.

Maya mantém sua postura ereta na poltrona, enquanto Delilah


e eu nos sentamos no sofá maior, deixando um espaço entre nós.
Não é como se estivéssemos juntos pra valer ainda, mas pelo modo
como Maya me olha, para ela, a partir do momento que toquei sua

filha, tudo mudou.

— Levanta a blusa — exige, gesticulando para mim. — Agora.

Obedientemente levanto a roupa. Testemunho o momento em


que Delilah abaixa a cabeça contra as mãos abertas e suspira.

Fico de costas para Maya e de frente para Delilah.


Movo os lábios em um pedido de desculpa silencioso durante o

escrutínio de sua mãe no machucado em minhas costas.

— O que foi que aconteceu? — Abaixo a blusa e a jaqueta. —


Não mintam. Eu vou saber. Sou advogada, sei exatamente quando

um assassino está dizendo que é inocente, mas tudo aponta


mostrando que ele não é.

— Fui falar com Thomas — Delilah revela. É de uma vez,

como arrancar o Band-Aid da ferida sem nem oscilar.

— Você fez o quê? — Maya grita, irritada, se levantando.

— Aidan apareceu e me tirou de lá, o pai ficou irritado quando


fui… grosseira com ele, então arremessou a caneca de porcelana
contra mim, mas Aidan entrou na frente. Ele acabou se
machucando.

— Por que você foi falar com ele? Por quê? Te mandei ficar
longe, Delilah!

— Não precisaria ter feito isso se você não tivesse proibido


todos os meus amigos, todas as pessoas que eu amo, de me
contarem a verdade!

— Você escolheu, disse que queria descobrir sozinha!


— Sim, isso foi antes de Jasper aparecer e contar que é meu
avô! — Delilah rebate, aumentando a entoação da voz como a mãe.
— E você sabia, não é? — Maya retesa, afastando-se alguns

passos até se sentar outra vez. — É claro que sabia. Preciso te


perguntar de novo. A carta do Sebastian voltou ou não para nós?

Fico em silêncio. Ela deve ter se lembrado. Soube, através de

Mackenzie, que Delilah estava tendo evolução com a terapia.

— Mãe! — berra, ofegando e se levanta também.

— Ela voltou — Maya admite.

Lágrimas começam a jorrar pelo rosto de Maya.

Quero pedir para Delilah parar de pressioná-la, mas ao mesmo


tempo, entendo que está ficando impaciente a cada dia, querendo
respostas e está cansada de ser protegida.

Delilah não quer mais que as pessoas tentem protegê-la da


verdade, mas que tentem compreendê-la. E se for possível, ajudá-
la.

— E cadê a carta? Eu quero ler ela!

— Eu queimei! — Maya grita de volta, elevando o rosto


encharcado para a filha. — Aquela maldita carta… Foram poucos
meses depois que seu pai e eu nos divorciamos. Recebi a carta por
correio e quando li, sabia que precisava dar um fim naquilo. De uma
vez por todas. Nós duas estávamos sofrendo e seu irmão precisava
ficar em paz. Toda a dor que ele sentiu estava sendo transferida
para você e eu tive medo, tá legal? Você não pode me culpar! Tive
medo de te perder como o perdi. Fiquei obcecada em te poupar,

querendo te proteger, sempre preparando o terreno para você,


tornando-o mais leve e feliz!

— O que é que tinha na carta?

— Delilah…

— Mãe. O que tinha na carta? — repete, cada vez menos


tolerante.

— Ele falava sobre você. Era uma carta de despedida para

você!

Tenho um estalo, de repente. Lembro-me da carta que Delilah


me mostrou de Seba, que ele deixou especialmente para ela.

— E no final ele contou que havia descoberto sobre o passado


assombroso do seu pai! Como ele havia sido adotado por Jasper e
Molly e … Que seu pai andava em contato com outra mulher, em
outra cidade. Todas as viagens que ele fazia nos finais de semana,

dizendo que se tratava de negócios! Aquele imundo! — Maya berra,


como se a traição ainda doesse. — Seb descobriu e ameaçou

contar tudo para mim. Foi naquele dia. Aquela briga entre os dois, a
surra que seu pai deu nele, foi o estopim para seu irmão e para mim
também. Naquele dia perdi meu marido e meus dois filhos!

— Delilah ainda estava lá — digo, abalado.

— Você não estava lá. Vi minha filha se perder, se fechar


dentro do próprio luto. Vi minha menininha linda sofrendo as
consequências da escolha de outra pessoa! Eu presenciei você,

Delilah, sofrendo todos os dias pelo seu irmão. Sua dor te afundou!
Levou muito tempo até que pudesse vê-la sorrir com tanta vida.
Quando você acordou do coma e soube o que tinha acontecido com
suas memórias, vi a oportunidade de fazer o que não tinha
conseguido fazer antes; te proteger!

— Não consigo escutar mais nada hoje. — Delilah esfrega o


rosto, nitidamente exausta de ouvir tanto. — Estou cansada.

— Delilah, por favor, você é a minha filha, eu faria qualquer


coisa, qualquer coisa — repete, com eloquência — para te proteger.
Entendo se precisar de um tempo para se acostumar com todas
essas informações, mas por favor, não me afaste.
Delilah suspira, caminhando em direção a mãe. Com ambas as
mãos, segura os ombros de Maya e se ajoelha diante dela, para que
seus olhos fiquem na mesma altura.

— Por mais magoada que eu fique com suas escolhas, como


sua filha, te entendo e te amo por tentar me proteger. — Ela se
levanta outra vez e deposita um beijo na testa de Maya. — Mas não
precisa mais fazer isso. Me sinto mais forte e preparada. Consigo

lidar com mais coisas hoje do que conseguiria antes. Só promete


não esconder mais nada? Se houver qualquer outra coisa que eu
precise saber sobre a morte do meu irmão, você vai me contar?

Maya meneia a cabeça, fazendo que sim.

Delilah acordou outra mulher, definitivamente.

O que Delilah aprendeu com todas as pancadas que recebeu


ao longo da vida, nem mesmo a perda das suas memórias é capaz
de fazê-la regredir.

Acho que nunca, em toda a minha vida, conheci alguém tão


deslumbrante quanto ela.
Quero ser atrevido e segurar a mão dela enquanto dirijo. Era

uma coisa comum entre nós. Poder sentir o toque da sua mão

durante o tempo em que nos guio para casa, era um dos momentos
mais íntimos e estranhamente confortáveis que tinha com Delilah.

Mas não quero arriscar uma regressão nesse relacionamento e ela


está retraída no canto da porta do carro, como se pretendesse fugir
assim que pararmos.

Por esse motivo, estou dando voltas na cidade. Ela não me


pediu, mas a ocasião apontou o que precisa ser feito; Delilah tem

que processar o que descobriu nos últimos dias.

Só posso ficar ao lado dela e falar quando quiser me ouvir.


Não quero exceder ou aproveitar da sua vulnerabilidade para me

aproximar.

Contanto que Delilah me permita ficar ao seu lado, mesmo

sem me envolver muito, está tudo bem para mim.

Faço outra curva e desvio do destino mais uma vez.

Acho que evitei a rua do meu prédio cinco vezes e sem ter dito

nada, sei que Delilah ainda não quer ir para casa, se encontrar com
Gravity e Effy, e ser bombardeada por um monte de perguntas.

O modo como reagiram hoje só provaram que Delilah sequer

contou o que aconteceu ontem para as amigas.

Não posso julgá-la, também não comentei com os caras. Mas,


em minha defesa, estou meio que fazendo tudo que acho que

Delilah espera que eu faça.

Se ela não contou nada, nem mesmo para o Ash, significa que

não quer fazê-lo.

Descobri da pior forma que os segredos que guardamos só


tem uma direção e é a fatalidade. Você acaba magoando as

pessoas com quem mais se importa, àquelas que provavelmente

está tentando proteger.

Estou respeitando sua decisão de querer descobrir tudo

sozinha, mas seus métodos têm sido arriscados, do tipo que

procurar Thomas foi extremamente estúpido. Não preciso verbalizar,

Delilah sabe. E não a julgo por ter ficado irritada comigo e perdido a
confiança, mas por mais que a verdade doa, ainda assim, é a

melhor opção.

Um suspiro cansado vem dela e decido que é hora de parar de

dar voltas e mais voltas na cidade.


— Você quer que te deixe em casa? — Mesmo suspeitando da
resposta, resolvo perguntar.

— Tem problema se me esconder só mais um pouquinho no

seu apartamento? — Delilah arrisca um sorriso, como se dissesse

que não está tão ruim como aparenta.

Quando finalmente estaciono na vaga do prédio no subsolo, os


minutos seguintes seguem em completo pesar. Ela respira mais

pesado a cada inspiração, sem nenhum indício de que pretende sair

do carro.

Fico parado, só fazendo companhia, olhando para o para-

brisa.

— Não sei direito como devo me sentir — murmura, também

fitando o para-brisa. — Estou feliz que minha mãe tenha me contado

algumas coisas. Ela literalmente não falou nada desde que acordei

naquele hospital e a sensação que tenho é que estou no meio de

um jogo de azar. A qualquer momento posso ganhar ou perder tudo.

— Não sei se tenho direito de dizer que te entendo.

— Fiquei com raiva aquele dia no Anarchy. Tudo que eu sentia

era uma dor torturante. Fui transportada para aquela noite de 28 de

novembro. Vivi tudo outra vez, Aidan. Por pelo menos vinte
segundos, voltei a ser aquela Delilah. Voltei para a noite onde nosso

desastre aconteceu.

Delilah cutuca embaixo da unha do indicador direito com o

polegar esquerdo.

Mantenho a atenção nela.

— Por malditos vinte segundos, sei o que senti quando


descobri que você estava investigando meu pai através de mim. Por

causa desses vinte segundos, posso te dizer com toda certeza que
o que sentia por você era intenso. Me desfiz em aflição e
desacreditei, mais uma vez, que fosse possível alguém me amar de

verdade. Sem qualquer detestável interesse pessoal. Não sei se


você se perguntou depois o que foi que senti, porque provavelmente

estava óbvio, mas sendo honesta, acho que seu palpite nem chegou
perto.

Desvia os olhos acinzentados para mim, penetrando minha


alma.

— Estava com raiva, magoada e dando atenção para o

coração estilhaçado dentro do peito, mas reviver aqueles


sentimentos por poucos segundos me fez perceber que quando

estivesse mais calma, teria tentado te entender e dado uma chance


para o que você tinha para me dizer. Perder a memória dos últimos

cinco anos foi mesmo um azar. Para nós dois. — Finaliza com um
suspiro extenuado.

Esfrega o rosto e coça os olhos com os punhos, jogando o

corpo contra o encosto do assento.

Sinto a pulsação pungente na têmpora, se transformando em

vertigem no âmago do meu estômago enquanto a escuto.

Delilah me faz entender o que a levou a conversar com


Thomas: ela vai acreditar até o último minuto que pode existir

humanidade em pessoas como ele.

Não consigo parar de me surpreender com a sua força e

determinação, muito menos posso refrear o que estou sentindo.

Porra, amava Delilah antes, não tinha dúvidas, mas olhando-a


nesse instante; o sorriso enfraquecido pelo cansaço, as sardinhas

respingadas no topo de suas bochechas, os cabelos loiros


ondulados por cima dos ombros, os lábios delicados separados por
uma fenda, onde o ar esgueira-se lentamente.

Tudo nela é ainda mais bonito quando expõe seu coração.

Quando não há defesas me separando de ver sua sensibilidade.


Quando Delilah me permite vê-la de todos os ângulos. Conheço
cada curva do seu corpo, mas sempre existiram mistérios no seu
coração que eu gostaria de desvendar.

— Me desculpa. Por ter te machucado, ter feito você pensar


que não é digna de receber amor ou se te fiz duvidar, por um mísero

segundo, que o que sinto não é real. Sinto muito, porra. Acho que
não vamos viver o suficiente para que eu consiga compensar o que
aconteceu. Aquela conversa que você ouviu na gravação,

aconteceu. Os investigadores que estavam trabalhando para mim


sugeriram que me aproximasse, mas eu quero que saiba que voltei

atrás. Juro Delilah, que não te amei por nenhum outro motivo, se
não pelo que você é.

— Você parece mais honesto que o meu pai, pelo menos. —


Um sorriso matreiro esgueira pelo canto da sua boca. — Te perdoo,

Aidan. Mas mudei de ideia, quero saber de tudo. Desde o começo,


como foi que essa história começou e como terminou. Quero tudo,

em detalhes, e não deixa nada de fora, por favor! — Tomba a


cabeça para trás, murmurando.

— Sem deixar nada de fora, eu prometo.

— É. E se possível, enquanto tomamos chocolate quente.


Estou com tanto frio. — Delilah ajusta o cachecol turquesa que
circunda seu pescoço e salta do carro.

Saio atrás dela. Delilah espera que a alcance e em poucos

segundos estamos caminhando lado a lado, em direção ao elevador.

Pergunto-me se é cedo demais para segurar sua mão ou se


nosso momento legal no carro me dá uns pontos e posso ousar

entrelaçar nossos dedos.

Opto por arriscar e sou surpreendido com uma resposta


positiva quando Delilah segura minha mão.

Não evito o sorriso e ela percebe, porque o devolve com a

mesma intensidade.

Vou para a cozinha preparar os chocolates quentes que Delilah


pediu, enquanto ela zapeia na tevê atrás de algum programa para

passar o tempo.

Observo-a da cozinha, a unha do polegar entre os dentes e a

postura inclinada.

Coloco a quantidade nas canecas e ligo o fogo, despejando o


leite em uma panela pequena.
Escuto a voz de James Arthur, espio por cima do ombro para

descobrir que Delilah desistiu de filmes ou programas e se rendeu


às músicas. A escolhida é Train Wreck e estagnado entre o fogão e

a bancada, observo-a aprumar a postura, contemplando a

luminosidade da tela.

Me encosto na pia, seguro a beirada e escoro a lombar.

Assisto-a retirando o cachecol e esse movimento cauteloso me

deixa apreensivo. Tem um hematoma arroxeado na nuca e


rapidamente, como se eu não tivesse notado, ajeita o cabelo por

cima e o casaco.

Meus dedos trincam em volta do azulejo, aperto com tanta

força que sinto os nós latejarem.

Ele tocou nela. Não fui rápido nem atencioso o bastante, isso
explica ela ter passado a noite toda com o casaco, mesmo com o

aquecedor superaquecendo o apartamento de Maya.

— Ele te machucou. — Delilah sobressalta, sendo pega no

flagra. — Por que não falou nada?

Não vi ontem porque não cheguei a tirar sua blusa e a gola alta
dificultou que notasse.
Delilah massageia com delicadeza a região afetada da nuca,

contorcendo o pescoço.

— Não foi nada — rebate, com frieza e fecha o zíper do


casaco, subindo a gola para me impedir de continuar olhando.

— Como não foi nada? — Cruzo os braços, porque tenho a


impressão de que vou rachar a pia ao meio se continuar

pressionando os dedos desse jeito. — Ele te ameaçou bem na

minha cara, Delilah.

— A gente não pode fazer nada a respeito, tá legal? Ninguém

vai acreditar em mim ou em você. Meu pai é uma influência em

Humperville. Respeitado e adorado, como salvador da pátria! E a


única coisa que ele tem é carisma, educação e dom para manipular

as pessoas. Por mais que eu queira que ele pague por isso —

acaricia a nuca, esticando o pescoço — seria uma guerra perdida


pra mim.

— Merda! — exclamo com irritação.

Desfaço o nó entre os braços e chuto a bancada como se

fosse dissolver a raiva que sinto de Thomas.

— Alguém precisa parar esse cara!


— É. Mas com certeza não vai ser você. — Delilah arqueia

uma sobrancelha. — Você tentou investigá-lo uma vez e viu no que


deu. Por favor, não se mete mais com meu pai. Estou te implorando

pra não o provocar.

Tudo que mais quero é contrariá-la, mas no fundo sei que

Delilah tem razão. O que eu poderia fazer para pará-lo? As únicas

pessoas com potencial para colocar o prefeito no seu devido lugar

são Jasper, Maya e meu pai, com certeza.

Os três conhecem pontos fracos de Thomas que Delilah e eu

nunca poderíamos nem imaginar. Jasper, como pai. Maya, como ex-
esposa e meu pai como quem o conheceu e conviveu com ele. Mas

ao que parece, ninguém está querendo arriscar tudo, porque é como

Delilah disse: uma guerra perdida para o nosso lado.

Porque todos nós tememos.

Porque temos algo a perder.

Diferente dele que abre mão de tudo para se proteger.

— Eu odeio não poder fazer nada — digo com pesar.

— Eu também odeio.

Bufo, a frustração me arrebata de forma que travo no lugar.


Meus pés se enraízam no chão sólido e só no refrão da música

de James que decido pôr fim à paralisia.

Delilah precisa de mim são, estável e confiante. Sei que


sozinha ela pode lidar com tudo, é mais forte do que eu, mas quero

ser alguém para quem ela liga de madrugada se precisar de ajuda.

Não importa para quê ou quando, só preciso me concentrar nisso.

Com essa conclusão, volto para os chocolates.

Finalizo a bebida e sigo para a sala segurando a caneca


fumegante.

Deposito-a no apoio de copo, no braço do sofá e me acomodo


ao seu lado.

— Por onde você prefere que eu comece?

— Por onde tudo começou, quando eu voltei para Humperville.

— Delilah determina o ponto de partida e por mais que pareça difícil

esclarecer as coisas, o chocolate quente ameniza muito.

Em vinte minutos, Delilah já tomou todo o chocolate quente e


estende a caneca pedindo mais.
Não contraponho, volto para a cozinha e preparo mais um

pouco.

Depois de entregar a caneca para ela, retomo de onde parei e

dessa vez ela escuta tudo até o final.

Passamos em torno de três horas falando. Seus olhos ficam

inquietos, saltando de um ponto do meu rosto para outro. Não

consigo desvendar o que estão me dizendo; se está terrivelmente


decepcionada com o desfecho ou se considera que não é tão ruim

quanto parece.

Delilah se rende ao cansaço.

Arremessa o peso do corpo contra o encosto, encara o teto liso

da sala e expele uma rajada de ar quente, com cheiro de chocolate.

Movi o traseiro alguns centímetros para mais perto dela,

durante o tempo em que passei falando. A toquei algumas vezes,

quando me dei conta de que as informações eram demais para ela.


Só que Delilah não me interrompeu nenhuma vez. Não fez

perguntas, não vacilou nem manifestou indecisão. Se preservou

atenta. E estou confuso, porque não faço ideia do que está


pensando.
— Então? — lanço, duvidoso, reclinando o quadril para estudar
seu rosto inabalado.

— É muito pra digerir — revela, pisca devagar e cruza os


dedos sobre a barriga. — Muito mesmo.

— Estou preocupado, se fui longe demais ou…

— Não. Eu estou bem. É só que essa Delilah que você retratou

nas últimas horas, não tenho ideia de quem seja.

— Você acha que não sabe quem ela é, mas Delilah, ela é

você. Decidida, amável, inteligente e confiante. Todas essas

características estão enraizadas em você e não tem acidente no


mundo que te faça perder sua essência. — Ela meneia a cabeça. —

Sobre o Jasper, acho que devia voltar e falar com ele. Você não

contou naquela festa o que foi que conversaram.

— Uma hora ou outra vou ter que enfrentar esse passado.

— Ei, relaxa. Estou aqui com você. Pro que precisar,

entendeu? — Busco sua mão e Delilah encurta a distância tecendo


nossos dedos.

— Obrigada, Aidan.

— Tenho uma coisa pra você.

Levanto e rumo para o meu quarto.


Deixei uma caixa preparada no closet. Delilah e eu moramos
juntos por um tempo, nossas coisas acabaram se misturando e
muitas delas ficaram comigo antes do acidente.

Fotos que tiramos juntos, alguns livros, o iPod de Seb e alguns

dos Post-its que escrevemos um para o outro estão dentro dessa


caixa.

Pelo modo como olha ao me ver carregando a caixa, sei que

está curiosa.

— São algumas das suas coisas que ficou comigo.

Dou de ombros, colocando-a na sua frente.

— Pode levar e talvez você consiga se reconectar com alguma

memória, não sei. Pode ser útil.

— Você tem ideia de onde posso ter guardado a carta do Seb?


— Delilah escrutina a caixa, a procura da bendita carta.

— Não, mas você passava muito tempo com ela. Lia e relia
como se magicamente o que Sebastian queria te dizer fosse
aparecer nas próximas linhas. Delilah, você chegou em Humperville

obcecada por esse segredo. Nós descobrimos que Jasper é seu avô
e eu não quero você se machuque mais com essa história, tá? Se
você quiser podemos procurar o Jasper e até tentar recuperar o
colar que seu irmão te deu, mas acabou.

Delilah encara um dos volumes de Júlio Verne. Segura o livro

na mão, contemplando a capa dura e gasta do volume.

— É. Acabou. — Ela devolve o livro para a caixa e suspira. —


Queria ter tido gatilhos com essa conversa para me lembrar, mas

não veio nada. É hora de seguir em frente — diz, tenaz e recua para
apanhar seu cachecol. — Perdi o celular que você me deu, sinto
muito. — Delilah se levanta, em sinal de que pretende ir embora.

— Podemos ir na loja e acionar o seguro, não tem problema —


digo, para tranquilizá-la.

— Você fez um seguro pro celular? — questiona, abismada.

— Nunca se sabe!

Me levanto também. Não vou deixá-la pegar um Uber às três


da manhã. Poderia oferecer minha cama, mas estou preocupado em
como ela pode estar se sentindo.

Delilah parece cética e inabalável, mas acho que por dentro


está uma bagunça. Por mais que queira ajudá-la, não posso agir
sem o consentimento dela.
— Você é maluco. — Ela ri e antes que possa alcançar a
caixa, a pego. — O que está fazendo?

— Te levo em casa.

— São três da manhã.

— Não vou te deixar pegar um Uber a essa hora.

— Bom, eu estava pensando em passar a noite. — Sacode os

ombros, indicando sua indiferença com a ideia de ficar. — Mas se


for um problema, eu posso ir embora — pontua, erguendo o polegar
por cima do ombro. — Preciso digerir tudo que me contou. —

Delilah belisca o lábio inferior com os dentes, sugando a carne


avermelhada para a boca e me encarando. Ótimo, a deixei
desconfortável, agindo como se não quisesse ela aqui.

— Só pensei que você fosse querer ficar sozinha.

Delilah suspira.

— É o que eu deveria fazer, não é? Ir para casa, me isolar,


abrir essa caixa — indica com o queixo — e tentar desbloquear

minha mente, mas não estou empolgada com esse plano. Não estou
querendo abrir ainda mais essa ferida no meu coração. Quero e
estou disposta a seguir em frente. É como você disse, essa história

acabou. Preciso colocar um ponto final e começar de novo.


Só quero saber se ela está me incluindo nesse plano.

— Eu estou nele? — indago, a dúvida paira na sua feição, —


No seu recomeço? — acrescento.

— É o que nós vamos descobrir. — Oferece um sorriso mélico


e contundido, onde aceito porque estou me subjugando a qualquer

condição.

Não tem como esquecer a visão deslumbrante de Delilah com

o cabelo encharcado dentro de uma das minhas camisetas.

Usou meu xampu e minha pasta de dente. Meu cheiro está


impregnado nela essa noite e nem precisei tocá-la.

— Você tem uma escova de pentear? — Alisa os fios

molhados com a toalha, retirando o excesso de água.

Encaro-a boquiaberto, onde algumas gotas de água violaram


minha camiseta e o tecido se colou na pele suave de seus mamilos

túrgidos.

Comprimo os lábios para esconder a língua que está quase


denunciando o desejo implacável que sinto por ela. Como a
saudade que tenho dos nossos corpos juntos me afeta.

Estou decidido a não me envolver com Delilah antes que


esteja apaixonada por mim de novo. É um desafio poder

reconquistá-la, mas estou determinado a seguir à risca, sem


sucumbir à tentação.

— Tenho. — Levanto-me, passo por ela em sentido à cômoda


onde deixo meus perfumes e alguns anéis.

Pego uma escova de pentear no tampo e me volto para ela.


Meneio o indicador, sugerindo que fique de costas. Vou até a mesa
de cabeceira em busca do secador de cabelo e ligo-o na tomada.

O ar que esguicha em sua nuca faz com que seu corpo retraia
sob o calor. Começo a pentear os fios enquanto seco, devagar,
inalando o cheiro gostoso que emana dela.

Nós estamos tendo alguns momentos bons recentemente, o


que me faz esquecer o porquê chegamos até aqui.

Quando estou com Delilah, é esse o efeito que causa em mim:


a distração. Meu mundo se fecha em torno dela e não quero me

importar com mais nada.

— Você não precisa fazer isso.

— Sei que não preciso, mas quero.


Um suspiro que indica rendimento ressoa dela.

Afasto seu cabelo para o lado, criando uma brecha entre meus
dedos e sua nuca. A marca dos dedos de Thomas estão lá, por toda

a parte, maculando a pele sensível da minha garota.

Sem querer, esbarro os dedos na região, a onda alarmante


que vara meu corpo a seguir, como aconteceu ontem, me obriga a

recuar.

A visão do hematoma em sua nuca me submete a um


pensamento óbvio, mas desastroso: não quero fazê-la sofrer outra

vez, nem ser a consequência de uma escolha impensada.

O que pedi a Delilah ontem não tem nada a ver com sexo sem
compromisso, mas para ter certeza de que escolheu ficar comigo

porque me ama.

Preciso ter a certeza de que não está se envolvendo só para


ter um pedaço do seu passado nas mãos.

Quero que Delilah me escolha, assim como eu a escolho todas

as vezes.

— Aidan, o que foi? — hesita, movendo a cabeça para tentar


me enxergar por cima do ombro.

— Quando te toco, o que sente?


Fica em silêncio, mirando os olhos para outra direção.

Meus dedos vagam pela sua nuca, ternos e atenciosos,

desligo o secador para cessar o barulho e inclino os lábios para


beijá-la.

Escuto-a gemer. É baixo, quase inaudível, mas sua respiração

irregular é uma denúncia e penaliza minha alma. Pode ser só físico.


Não tem nada a ver com o que eu espero causar nela.

Sou tão ambicioso, desejando provocar reações no seu

coração tanto quanto consigo quando toco seu corpo.

A deixo com tesão, mas será que consigo fazer com que o seu
coração também me deseje?

— Não é como se não soubesse. — A risada abafada que ela

deixa escapulir preenche o quarto.

Coloco o secador na cama, seguro sua cintura e a giro,


colocando-a de frente para mim. Suas mãos espalmam meu peito,

enquanto me encara sei que está tentando elaborar uma resposta


menos vazia.

O ar evaporando pela fenda entre os lábios e seu corpo

enrijece ao sentir minhas mãos em volta dela. É mais do que uma


confirmação; é extremamente carnal. Só não quer me dizer porque
sabe como pode me magoar e tenta impedir. Tanto quanto eu evito

machucá-la outra vez.

Nós dois temos medo de sermos um novo e perfeito desastre


um para o outro, entretanto temos motivações diferentes.

Não quero magoá-la porque a amo.

Delilah não quer me magoar porque sabe o que sinto.

Estou chateado, mas uso tudo de mim para esconder,


esculpindo um sorriso ridículo.

Volto a pegar o secador e em silêncio, continuo o que estava


fazendo.

— Tenho algumas perguntas.

Ela nem me dá tempo de ficar mais satisfeito com a quietude.

— Hum? — murmuro, incentivando.

— Qual sua cor favorita?

— Azul.

— Seu prato favorito?

Penso a respeito e não encontro nenhuma resposta.

— Croissants.

— Por causa dos encontros que tivemos?


— Pode considerar que sim.

— Uhum. Você gosta de ler?

— Não tanto quanto você.

— Seu estilo musical?

— A The Reckless responde, não? — rebato, soando mais


ríspido que o pretendido. Certo, minha irritação deve ter ficado
evidente agora. — O que está tentando com essas perguntas?

— Filme favorito?

— Sei lá, Velozes e Furiosos?

— Antigo. Qual seu lugar preferido no mundo inteiro?

— A biblioteca da minha antiga casa.

— Uísque ou cerveja?

— Uísque.

— Calça jeans ou moletom?

— Moletom! — exclamo, impaciente.

— Jaqueta jeans ou couro?

— Couro! Onde você quer chegar? — Reclino a cabeça,


desligando o secador mais uma vez.
— Em menos de vinte segundos conheci pelo menos um por
cento de quem você é. Estou tentando fazer o que me pediu —

Delilah arqueja, revirando os olhos. — Não posso retribuir o que


você sente, sem te conhecer primeiro. Não posso te amar, se tudo
que você faz é tentar me convencer do quão estúpido você foi. As

últimas três horas, por mais lindo que tenha sido nossos momentos,
você se justificava por tudo. Você. Não. É. Perfeito! — esbraveja,
elevando as mãos para a minha nuca. — Entendi suas intenções

comigo e disse que te perdoo, agora preciso te conhecer de


verdade.

— Eu beijo bem.

— É um fato. — Sorri. — E tem habilidade com as mãos, então


é mais um ponto a seu favor. Você precisa que eu te reafirme a cada
segundo como me sinto quando me toca, a verdade é que: sinto

tesão — dá de ombros — e dã, por mais que tenha perdido minhas


memórias, meu corpo é de uma garota de quase vinte anos, eu sei o
que um cara experiente pode me proporcionar. Também sei que

quando me abraça desse jeito — Delilah desliza carinhosamente as


mãos por cima das minhas —, começo a compreender onde foi que
tudo começou. Onde foi que meu coração ingênuo se meteu! Me

lembrei de um dia, você disse que sou uma alma solitária… Mas
sinto que deixei de ser quando o meu desastre se uniu ao seu,

Aidan.

Me sinto mais à vontade para me inclinar e tomar posse da sua


boca, calando-a.

Aperto sua cintura contra meu tronco, me inundando no beijo

mais intenso que demos nas últimas horas, me jogo de cabeça nela,
sendo guiado por suas palavras que tocaram meu coração. E
percebo que, posso ter um grande problema de agora em diante;

será difícil controlar meus impulsos se tratando de Delilah, porque


nada é suficiente para aplacar o desejo crescente de estar com ela
a cada maldita pulsação.

Delilah imerge os dedos nos meus cabelos, trazendo meu


rosto para mais perto. Conduzo-a para trás até as costas de seus
joelhos tocarem às laterais da cama.

Me afasto de sua boca a contragosto para empurrar o secador


para o chão e na urgência premeditada de voltar a tocá-la, derrubo-
a no meu colchão.

Me aproximo dela, flutuo sobre o seu corpo e sinto sua


respiração ardente e aspergindo contra meu rosto.

Eu vou enlouquecer se não poder ir em frente, merda!


Com certeza perderei a cabeça se não puder…

— Quer parar? — Delilah está com os olhos cravados em mim.


— Não quero que você faça algo que não quer fazer, porque não
quero que se arrependa, mas…

— Mas?

— Você está me deixando na vontade desde ontem!

— Sempre foi difícil pra caralho te negar qualquer coisa.

— É um sim? — Ri, mordendo meu queixo.

— É um: estou pensando.

— Ah, merda. Significa que vou ter que esperar.

Faz uns dois dias que estou sentindo uma dor insuportável

onde a porcelana me atingiu. Achei melhor não preocupar Delilah


com isso. Nosso relacionamento está sendo direcionado para um
caminho onde não quero que nada estrague nem mesmo uma dor

incomum nas costas.

Posso esconder dela, que fica ocupada a maior parte do tempo


com os estudos e não me atrevo a incomodá-la quando está lendo
um livro, sentada no sofá da minha sala, porém, não posso mentir
para os caras. Eles me conhecem.

— Desembucha — Bryan insiste no sábado, na primeira pausa

que fazemos no ensaio. — Tem algo te incomodando.

— Fala logo, o que está pegando? — Ash para, cruzando os


braços.

— Nada, caralho. — O empurro com o ombro para ir ao cooler


e pego uma garrafa de água gelada.

— Você não mente tão bem, cara — Chase debocha, franzindo


as sobrancelhas. — É melhor abrir o bico e acabar logo com essa
história.

A dor sobe em espiral pela minha coluna quando me estico,

como um exercício para colocar o corpo no lugar.

Finn analisa meus músculos do rosto se contorcerem, apesar


de quieto, ele é observador. Nada passa sob a minuciosidade com

que lida certas situações.

— Levanta a blusa — ordena, já saindo do lugar para vir para


cima de mim. — Agora — repete e com um meneio audacioso da

cabeça, pede para Bryan e Ashton me segurarem, porque estão


mais perto.
— Me solta — afronto Bryan, que faz que não com a cabeça.
— Porra, Bryan!

— Chase, me ajuda aqui. — Finn gesticula, mostrando com o


queixo minha jaqueta e blusa.

— Não se atreva — ameaço Chase, que me ignora e os dois


começam a puxar minhas roupas.

Tento dificultar para eles me debatendo, mas por fim, me dou

por vencido quando Ashton e Bryan insistem em pôr mais força para
me segurar.

— Mas que porra é essa? — Ashton enfim me larga e balanço


os braços para conseguir me desvencilhar deles.

— Que foi que aconteceu com você? — Bryan pergunta, existe


uma sentença escancarada no seu rosto que diz que tenho poucas
opções aqui.

Posso contar para eles a verdade ou eles vão atrás dela por
vontade própria.

Me arrasto para o sofá no fundo do porão, tomo um gole de


água e espero que fiquem em volta de mim.

Bryan senta-se ao meu lado junto com Finn, enquanto Chase e


Ashton ficam de pé, de braços cruzados. Só para garantir que eu
não tente fugir.

— Foi o Thomas — digo a eles, ao mesmo tempo em que


ocupo a boca com um gole de água.

— Thomas? Thomas Linderman? — Bryan brada, arregalando


os olhos em surpresa.

Assinto devagar, levando o gargalo a boca.

— Como é que você se envolveu nessa merda?

Ergo os olhos para Ashton. Deve ser óbvio para ele. É o


melhor amigo de Delilah, sabe com certeza que fiquei assim depois
que fui atrás dela.

— Era para a caneca ter acertado outra pessoa. Querem


adivinhar quem? — Finalizo a água e é o estopim para os caras
também.

Ashton esmurra o pilar de sustentação mais próximo e Bryan


se levanta, caminhando de um lado para o outro, quase abrindo
uma cratera no chão.

Finn é apático, mas ele não fecha os olhos para a brutalidade


e nem Chase consegue esconder a revolta com as narinas
expandidas de irritação.
— A gente devia quebrar esse filho da puta ao meio! — Bryan
grunhe, passando as mãos pelos cabelos e os desalinhando. —

Que canalha! Alguém precisa parar esse cara!

— Você não pode falar com seu tio? — Finn sugere, mirando o
corpo inquieto de Bryan rastejando pelo porão com raiva.

— Ryan? Nem a pau. Já pedi favores demais pra ele e não


quero me envolver com essa política suja de Humperville! Mas nós
precisamos dar um jeito!

— Você sempre querendo resolver as coisas do seu jeito, com


as próprias mãos — Chase diz em reprovação.

— Delilah não quer que façamos nada — informo a eles, que


estão ignorando por completo que existe uma outra pessoa nessa
história, uma a qual nós precisamos levar em consideração.

— Delilah não está em condições de opinar, cara — Ashton se


opõe. — Ela perdeu as memórias, mal consegue compreender os
próprios sentimentos. E estamos sugerindo fazer alguma coisa sem
que ela saiba, beleza?

— Tipo o quê? Porque eu tentei e a merda explodiu bem na


minha cara, respingando na pessoa mais importante pra mim! —
Levanto em um rompante, irritado com eles.
— Você tentou do jeito errado, usando ela! — Ashton rebate,
tão enfurecido quanto eu.

— Cara você não vai esquecer essa merda? — Eu o peito,


olhando-o fundo. — Porque você precisa. Delilah e eu estamos
tentando!

— Estão tentando? Jura? — Ele ri, em deboche. — O que


estou vendo é você tentar. Delilah quer viver. Ela não se lembra de
ter experimentado a liberdade! Não se lembra de ter feito sexo até
cansar ou de ter conhecido outras pessoas além de nós. Ela pode
até sentir que uma porta se abre com você, mas não é de jeito

nenhum, o que você está pensando!

Aperto a boca e os punhos. Não quero agredi-lo verbal ou


fisicamente. Entendo a raiva de Ashton, sua relutância em aceitar.

Ele é rancoroso e teimoso como uma pedra.

— Tá. A gente precisa se acalmar! — Chase intervém, se


pondo de pé entre nós dois. — Você precisa ir pro hospital — me
empurra com o indicador, afundando-o em meu peito — e você

precisa relaxar! — diz para Ashton, que decide ir para o outro lado,
o mais distante que consegue ficar de mim.
Aceno a cabeça fazendo que sim e ando para as escadas.
Escuto as passadas pesadas atrás de mim, mas não me atrevo a
olhar.

Só me dou conta que é Bryan quando ele se infiltra na

Diamond, passando o cinto de segurança por cima do ombro.

— Posso ir ao hospital sozinho.

— Cara, relaxa. Você não é mais criança, sei que pode se


cuidar sem minha ajuda.

Arqueio uma sobrancelha para ele, dizendo o óbvio; que quero


ficar sozinho.

— Mas na real? Você se isola quando se magoa. Tenho medo

de onde isso pode te levar.

— Pro fundo do poço — confidencio, ligando o carro. — Pro


mais fundo que se é possível chegar.

— Qual é o seu fundo do poço?

Vícios. Quero contar para Bryan que um tempo atrás tive uma
recaída, que estava tão mal comigo mesmo que liguei para um
amigo em Grev Willow e voltei a apostar nas lutas clandestinas.

— Deixa pra lá. — Respiro fundo, tentando encontrar minha


sanidade. — Você acha que Ashton tem razão? Sobre a Delilah?
Que ela quer experimentar a liberdade?

— As pessoas diziam muita coisa sobre mim e Mackenzie,


faziam muitas suposições, mas só você entende o que acontece
quando ficam sozinhos. Só Delilah pode dizer o que sente. — Ele
estica a mão para me acalentar, dando batidas em meu ombro. —
Pergunta pra ela.

— Já perguntei.

— Você foi direto?

— Mais ou menos. Ela tem… fogo. Continua a mesma


insaciável de sempre. Acho que a pergunta foi mais relacionada a

isso!

— Na época do colégio, Delilah era complicada de entender,


do tipo que faz e diz coisas no calor do momento para tentar

equilibrar as emoções. Não é à toa que ela foi embora sem me dizer
nada e basicamente terminou comigo através da Mackenzie. Se
ainda existe um pedaço daquela garota de catorze anos nela,
Delilah pode estar te dizendo o que você quer ouvir e não o que
precisa saber.

Não quero acreditar em Bryan. Quero pensar que só Delilah e


eu sabemos que nossa conexão ainda existe.
Merda.
Não esperava que fosse contar para eles desse jeito. Com

Aidan no hospital, recebendo um sermão do Dr. Hart sobre não ter


suturado outro dia o ferimento. Inflamou e se tivesse ignorado a dor

e os sinais que o corpo de Aidan estava dando, teria levado a uma


infecção e seria ainda mais difícil de tratar.

Ashton está de bico comigo. Acho que porque não contei para
ele sobre Thomas e entendo sua chateação.

Gravity, Effy e Mackenzie não estão diferentes. Levei um


sermão por não ter contado para elas que fui encontrar meu pai e

Aidan acabou se machucando.

Não é para tanto estarmos todos reunidos no hospital, mas


assim que Mackenzie recebeu a mensagem de Bryan, a culpa me

corroeu até o fundo da alma e fiquei tão inquieta que não consegui
mais me concentrar em nada.

Estávamos tendo nosso momento juntas depois de tantos dias

sem ficarmos sozinhas, então era um programa só nosso enquanto


a banda ensaiava.
Estou mordendo a ponta do polegar e descobri que é uma

reação involuntária quando estou muito ansiosa ou nervosa.

Aidan está na emergência, como da última vez, cercado na

maca pela mesma cortina verde e sem graça de antes,


provavelmente Dr. Hart está fazendo uma limpeza no ferimento.

— Ele estava estranho esses dias — Mack comenta, para

quebrar o silêncio. — Correu comigo e Bryan fazendo caretas. Ele


nunca foi bom atleta, mas hoje ele quase não conseguia

acompanhar. Será que um corte com porcelana faz isso?

— O médico disse que a porcelana quando quebra é como

uma lâmina. — Mordo o polegar com mais intensidade e escondo o

desconforto ao sentir uma pontada de dor por ter imposto mais força
que o necessário. — E acho que meu pai tinha todas as intenções

de me machucar.

Ashton bufa como um touro e caminha para fora. Pondero se

devo ou não ir atrás dele. Sei que está magoado, mas acabo
mudando de ideia quando Dr. Hart surge pelas portas de correr da

emergência, com Aidan logo atrás.

Tem um receituário em mãos, assim como da última vez em

que estivemos aqui e fica um tempo conversando com Dr. Hart


antes de andar em nossa direção.

— E aí? O que ele disse? — Bryan pergunta, ansioso.

— Me receitou um remédio para prevenir a infecção. — Ele

sacode a receita na frente do nosso rosto. — E me proibiu de beber,

porque o que cortou o efeito do anti-inflamatório foram as cervejas

que tomei nos últimos dias.

— Não se bebe tomando remédios, Aidan — Mackenzie

repudia.

— Eram só uns anti-inflamatórios e analgésicos para dor. —

Revira os olhos, mas sorri no final.

— Você está bem? — é a primeira vez que falo para ser

notada, porque até agora, parece que Aidan estava evitando olhar

para mim.

— Sim, está tudo bem. Vocês não precisavam ter vindo — diz,

gesticulando com o queixo para a saída.

Nós o seguimos. Ele conversa com Bryan. É como se nada

estivesse acontecendo e a culpa está levando meu coração para o

estômago, porque tudo que consigo sentir é a pressão tensa do

órgão dentro do peito. E começo a me sentir pior porque tenho a

sensação que Aidan está me ignorando de propósito.


Vasculho no fundo da minha mente se foi algo que disse nos

últimos dias. Mesmo depois de ter descoberto toda a verdade, decidi


pelo meu próprio bem perdoá-lo e acho que estava tudo certo até

antes do ensaio da The Reckless.

Alguma coisa nesse intervalo de tempo aconteceu, que não

está nem um pouco relacionado a sua vinda ao hospital.

— A gente devia comer alguma coisa! — Gravity sugere. —


Ter vindo até o hospital me deixou com fome.

— Sei lá, quero descansar antes da festa de hoje — Aidan


recusa, e ele nunca recusa um encontro com os amigos, a não ser

que ele esteja querendo ficar sozinho por outro motivo. — Estou um
pouco estressado por ter vindo até aqui de novo.

— Ah cara, qual é! — Ash surge com Finnick e Chase ao lado.

Eles estavam esperando do lado de fora. — Vamos comer uma


pizza ou o que vocês quiserem.

— Eu topo — digo, meio que para incentivá-lo a concordar


também.

Aidan pondera, acho que me acostumei a tê-lo quase sempre

por perto. Ele faz questão de dividir o mesmo espaço que eu em


todas as oportunidades que aparecem e ver como está hesitando

me deixa um pouco… estranha.

Não sei dizer ao certo que sensação é essa, mas estou à beira
das lágrimas. Sensibilidade. Impaciência. Náuseas. Dores de

cabeça. Alguns dos efeitos do coma, eles quase são inexistentes,


mas eles vêm e voltam vez ou outra, depende do momento.

Segundo a terapeuta, está mais ligado ao meu psicológico que


ao coma, de fato. Às vezes me sinto só uma casca, só uma

lembrança viva do que eu poderia ter sido se o acidente não tivesse


acontecido. E em determinadas situações parece que tudo começa

e termina com Aidan.

Por mais que ele tenha me contado tudo, parece só mais uma

história. Se quiser me sentir como a garota por trás de tudo que me


contou, preciso recuperar as memórias.

— Vão vocês — Aidan termina com um sorriso e o meu

coração esmorece. Ele agarra o ombro de Bryan e sorri para


tranquilizá-lo. — Até mais tarde.

— Quer que eu dirija? — Não sei quando é que a frase


escapole de mim, preciso de alguns segundos para compreender

que sim, fui eu que disse isso.


Não só Aidan como os outros me olham espantados.

Desde o acidente não dirijo e estava adiando o momento em

que precisaria sentar atrás de um volante outra vez.

— Você quer dirigir? — Aidan questiona, com a dúvida


pairando os traços do seu rosto. — Mesmo? — Uma sobrancelha se

arqueia. — Tudo bem, Delilah. Posso chegar em casa. — Ele


desenha um sorriso forçado nos lábios. — Vejo vocês na festa,
beleza? — Acenando, se vira para ir embora.

Estou dividida entre ir até ele ou deixar para lá. Fico me

perguntando se a parte que quer ir atrás dele é porque me preocupo


ou se só estou me sentindo culpada.

Independentemente dos porquês, sussurro para eles irem na


frente e o sigo.

A Diamond não deve estar estacionada muito longe, porque

ele reduz as passadas poucos segundos depois de se afastar do


grupo.

— Aidan.

Ele para com a porta do motorista aberta. Acredito que notou


minha presença antes, mas agiu como se não tivesse.

— Que foi?
— Como assim “que foi”? Qual o problema?

— Nenhum problema.

— Você está mentindo. Posso não me lembrar de tudo, mas

não sou idiota. Te conheço o suficiente para dizer que não evita uma
saída com seus amigos, a não ser que você queira se isolar!

Aidan não diz nada. Estou esperando uma desculpa ou um

olhar de carinho que está acostumado a me dar quando me encara


fixamente, mas sob o vento gélido de Humperville e o frio

ultrapassando minhas botas uggs por estarem soterrados na neve,

ele apenas imita o clima. Nenhum olhar caloroso e apaixonado.

— Quero te fazer uma pergunta.

— Certo, vai em frente — incentivo, gesticulando.

— E quero, dessa vez, que você seja completamente sincera

comigo, Delilah, porque posso te amar — ele faz uma pausa para

arfar —, mas, porra, não sou seu brinquedo! — Sou pega de


surpresa por essa entonação ríspida dele. — E não tenho mais

catorze anos pra você brincar com os meus sentimentos.

— Do que é que você está falando?

— Você disse pro Ashton alguma coisa como: não me lembro

de nada e por isso quero aproveitar a minha liberdade? Você fez


parecer que está a fim de conhecer outros caras? — Ele frisa essa

palavra conhecer com tanta ênfase que é de partir o coração.

Não é que eu tenha dito com todas as palavras, mas Aidan

consegue me deixar confusa. Tudo que sinto com ele; o tesão, o


calor do abraço e ser amada é uma coisa que eu gostaria de poder

experimentar mais vezes, com outras pessoas.

Não sei como é gozar nem como é estar perdidamente


apaixonada. E tudo que sei sobre amor e sexo, se resume a ele,

porque só escutei e senti essas coisas com Aidan.

Talvez, em algum momento nos últimos dias, eu tenha dito

algo para Ashton sobre estar com medo de entrar em um

relacionamento com Aidan. Não quero machucá-lo, mas a incerteza

bate à porta quase que o tempo todo.

Se deixá-lo escapar e não encontrar ninguém mais que me

faça sentir assim? Viva? E por outro lado, se ficar só com ele e não
aproveitar todo o resto? Para mim é como um recomeço. Tenho

pensado nisso quase o tempo todo.

Seus dedos cercam à lateral da porta com tanta força que os


nós ficam esbranquiçados. Ele está com tanta raiva e magoado. E

de novo, a culpa é toda minha.


— Pensei que você tivesse dito que queria tentar.

— Eu quero, Aidan… só…

— Não está a fim de fazer isso comigo! — ele conclui.

Uma onda de vapor esvai por entre seus lábios. Ele olha para
os lados, respira fundo e sacode a cabeça, soltando uma risada

ácida.

— Se quer sair com outros caras, tudo bem por mim. Só não
brinca com os meus sentimentos! Não me diz que quer tentar se

não está afim de verdade! Te machuquei e sinto muito, mas essa

não é a Delilah que conheci e por quem me apaixonei. Ela nunca


diria algo que não pretende fazer. E se você está agindo dessa

maneira, significa que nós dois estamos nos enganando.

— Você disse que não ia desistir — sussurro, mais para mim


mesma do que para Aidan.

— Disse, mas não sou idiota! Se você está afim de conhecer


outras pessoas é inútil eu me esforçar.

Ele entra no carro depois de alguns segundos esperando que


eu rebata, o que não faço porque ele tem toda razão.
A pizzaria é uma das mais antigas de Humperville. The Pizza

House tem luzes amarelas e música baixa. O típico calor

aconchegante e o cheiro de massa e molho vermelho. Várias mesas


se uniram no canto da pizzaria para que coubessem todos nós e

mesmo com fome, não consigo parar de pensar nele, o que é uma

droga. Nunca quis machucá-lo e a forma como descreveu toda a


situação me fez sentir vazia e sem coração.

— Eu amo esse cheirinho de pizza saindo do forno. — Effy

inspira, tirando o casaco preto de inverno e o colocando nas costas


da cadeira. — Convidei Reed, mas ele está treinando hoje.

— Mas à noite ele aparece para a festa? — Ash pergunta,


curioso, e se acomoda ao meu lado.

Ótimo. Vou poder dar um sermão nele.

— Sim, ele e os colegas do basquete.

— A propósito, como está indo no time? — Gravity pergunta


para Bryan.

— Daquele jeito. — Ele ri desapontado.

Soube por Mackenzie que Bryan tinha entrado para o time da

faculdade depois de tentar muito, mas só como reserva.


Ele quase não joga, o que é frustrante, ainda assim, Bryan

gosta de saber que pode estar lá pelo time se necessário. Lembro

de como ele gostava do basquete na escola e era muito bom, por

sinal.

Nós fazemos o pedido de quatro pizzas grandes e

refrigerantes para a mesa toda.

Chase está animado para a festa hoje, mas estão preocupados

que neve e acabe estragando os planos do primeiro show aberto da

The Reckless no ano.

— Não tem previsão de nevasca hoje — Ashton tenta

tranquilizá-los.

— É, eu verifiquei também — Finn sustenta a positividade de

Ashton.

— Aidan não vai furar, né? — Chase sopra, meio indeciso,

como se não quisesse apostar todas as fichas em Aidan. — Ele é

muito emotivo. — Sinto que a frase foi direcionada para mim, mas
finjo não estar ouvindo enquanto bebo minha coca.

— Ele pode se isolar quando não está emocionalmente bem,

mas ele é comprometido com a The Reckless. Vocês sabem disso.


— Mack o defende.
Eles estão falando como se o motivo da instabilidade

emocional de Aidan não estivesse presente.

Solto o copo com mais força no apoio, liberando um suspiro.

— O que é que vocês estão querendo saber? — sibilo,


lambendo o resquício doce da coca dos lábios.

— Vocês brigaram? — Mackenzie nem titubeia.

— De novo? — Finnick acrescenta.

— Como se a sua vida amorosa fosse perfeita. — Effy revira


os olhos repudiando o cinismo dele.

— Por sua causa. — Culpo Ashton, que encolhe os ombros.

— Você não pode me culpar por ter feito o que você não faz.

Ser sincera com ele. — Ashton está sério, o que não combina nem

um pouco com seu jeito brincalhão e leve de lidar com as coisas.

— Eu me abri com você! Não tinha o direito de falar nada disso

pra ele!

— Escapou, tá legal? Não planejei ferrar com o não-

relacionamento de vocês! Fiquei puto quando soube que tinham ido

ver Thomas e que esconderam isso da gente — Ashton explode. —


Parece que todo mundo nesse grupo tem segredos.
— É! Faz parte! — esbravejo com mágoa. — Nem tudo precisa
ser compartilhado. Você e Gravity tiveram problemas e adivinha?

Ninguém sabia por quê!

— Gente — Chase murmura e respiro fundo, porque não é

lugar para me irritar com Ashton.

— Ele cometeu uns erros, mas é um cara legal e não merece

ser enganado. Te fiz um favor. — Ele bebe de sua Coca, com

certeza, acreditando que realmente me fez um favor.

Seu pomo de adão desce tão rígido sob a pele que é como

estivesse engolindo cacos de vidro.

— E se está a fim de tentar de verdade, só precisa falar com

ele. Aidan não vai desistir de você porque está um pouco confusa.

Você vai me agradecer depois por ter te ajudado nessa.

A mesa fica em silêncio e decido não discutir mais com

Ashton.

O dia em que falei com ele sobre como me sentia, estava


imersa em um mar de novas emoções. Nunca tinha estado com
ninguém que fosse parecido com Aidan, que se esforça a cada

segundo para tentar entender minhas necessidades, meus


sentimentos, meu espaço.
E isso me assusta, talvez até faça com que sabote minha
própria felicidade.

— Vocês vão conseguir se resolver. — Mackenzie acaricia


minhas costas, me dando força, dizendo com esse gesto que apesar

de tudo, eles estarão do nosso lado.

A previsão do tempo errou e está nevando.

A The Reckless teve que mudar sua estratégia e o modo como

fazem os shows no terreno do Ashton.

Cancelar não era uma opção, então decidiram levar a festa


para dentro da casa. Com a neve, diminuiu potencialmente o

número de pessoas que eles estavam esperando, mas ainda assim,


tem gente o suficiente para encher o porão – onde montaram o
palco e os instrumentos – e a casa.

Não entendo sobre som e a montagem deles, mas arranjaram


uma forma de fazer com que a playlist que toca no porão chegasse
a uma caixa improvisada que está na bancada da cozinha.
Sorry, Blame It On Me está tocando no mesmo ritmo que
minha frequência cardíaca.

Busco um lugar com as meninas para me sentar, já que a

banda foi imobilizada por um fã clube da universidade.

Exceto Aidan, os outros membros da The Reckless já


chegaram e estou quase pegando o telefone para ligar para ele.

Não quero que Chase tenha razão.

Oi. Onde você tá? Será que a gente pode conversar?

Guardo o celular de volta na jaqueta – e sim, felizmente, o


seguro que Aidan acionou por roubo me entregou um celular
novinho – e os dedos de Mackenzie que estão entrelaçados nos

meus me apertam com mais força quando diminuo as passadas.

Meu coração dá um salto quando meu celular vibra no bolso


da jaqueta. Preciso me desvencilhar da mão de Mackenzie mais

uma vez para conseguir pegar o aparelho.


A

Tô chegando.

Estão preocupados que você fosse deixá-los na mão.

Tive que viajar. Foi de última hora.

Tudo bem?

Sim. Foi por causa do The Icarus.

Tô dirigindo.
Devolvo o celular para a jaqueta e seguro a mão de Mackenzie

de novo. Não quero ser motivo para Aidan bater o carro.

— Era o Aidan? — Effy pergunta, sorrindo.

— Sim. Como sabe?

— Você está sorrindo involuntariamente — Gravity pontua,

uma sobrancelha erguida como se fosse óbvio. — Você já sente


alguma coisa por ele, só está se sacaneando de propósito! — ela
revira os olhos, a garota que não tem paciência para enrolação e se

dependesse de Gravity, teríamos nos resolvido há um bom tempo.

Como não encontramos nenhum outro lugar vago, nos


contentamos em ficar na cozinha, separadas pela ilha onde Ashton

colocou a caixa de som que está tocando Akon.

Gravity abre a geladeira como se estivesse em casa – e acho


que pode ser que esteja mesmo – e pega uma cerveja.

— Vocês querem?

Oferece para mim, Mackenzie e Effy.

— Não vai ter uma garrafa de vinho por aí né? — Mackenzie


arrisca, mesmo sabendo que estamos na casa de Ashton e que a

única outra bebida que podemos encontrar nos armários é vodca.


— Desculpa, gata. Só cerveja — Gravity diz, enquanto abre
sua garrafa. — Vão querer ou não?

Mordo o lábio inferior, refletindo. Não bebo muito. O máximo de

álcool que coloquei na boca nos últimos meses foram drinques que
continham mais açúcar que álcool.

— Eu quero. — Inclino-me na ilha, finalmente soltando a mão


de Mack.

— Você quer? — Vity ri, como se fosse uma piada. — Jura?

— Claro, quero experimentar. — Rio de volta, dando alguns


pulinhos de empolgação.

— Já que é assim, vou acompanhar você. — Mackenzie fica

do meu lado, empurrando meu corpo com a lateral do seu ombro.

— Um pra mim também, moça — Effy aceita, brincalhona e


Gravity não perde tempo em nos servir com as cervejas em long

neck.

Nós brindamos e damos risadas ao som de Young and


Beautiful de Lana Del Rey.

— Você e Ashton… — Mack pestaneja, fazendo uma dança


engraçada com as sobrancelhas encarando Vity, que foge do
assunto toda vez que mencionamos Ashton.
— Ah, esse assunto de novo. — Vity vira um gole da cerveja.

— Por favor, você precisa contar alguma coisa. Não pode ir


para Milão sem sanar as nossas dúvidas! — Effy quase implora.

— Só digamos que conversamos e decidimos que é melhor


dar um ponto final nessa história. Nunca daríamos certo mesmo, de
qualquer maneira. Ashton tem os sonhos dele e eu tenho os meus.

Temos objetivos diferentes. Nunca funcionaria. Não quero abrir mão


de ser uma estilista renomada e ele nunca abriria mão da The
Reckless, e sendo bem honesta? Quando chegar o momento, quero

ter uma vida tranquila e ser a namorada de um cara como aquele —


Vity agita o gargalo da garrafa para o apinhado de pessoas ao redor
de Ashton — não é sinônimo de tranquilidade. Ele nasceu para a

fama.

— Então esse é o problema? — rebato, apreensiva. — A fama.

— Em parte, sim. Ashton quer essa vida. Ser amado, quer

milhares de pessoas gritando o nome dele. Ele quer ser aplaudido e


reconhecido pela The Reckless. E eu sou totalmente o oposto.
Gosto dos bastidores.

— Faz todo sentido vocês não terem dado certo. — Assinto,


porque sim, faz sentido.
Se Gravity e Ashton querem vidas diferentes, eles nunca
dariam certo juntos.

Mas, de repente, Mackenzie está em silêncio, olhando para a


mesma direção que Vity.

Quando sigo seu olhar, vejo Bryan, tão cercado de pessoas

como Ashton – em sua maioria, mulheres – e posso sentir o


desconforto emanando dela. Não só sentir. É visual. Ela muda o
peso do corpo de uma perna para outra e suspira.

— Você ainda se incomoda? Com toda essa atenção? —


pergunto a ela, mantendo os olhos na mesma direção.

— O que me incomoda é que daqui um tempo talvez eu só o


veja duas ou três vezes por ano. E você sabe, somos Bryan e

Mackenzie, é quase impossível imaginar uma vida sem tê-lo ao meu


lado todos os dias.

— Vocês apostam tanto no sucesso deles — sopro baixo.

— Você não? Está na cara de que eles vão estourar logo —


Effy comenta, uma pontada de orgulho entoa sua voz. — Eles estão
tão conhecidos na internet que estamos só esperando uma ligação.

Jared McAvoy está em contato com Bryan quase todos os dias.

— Jared?
— Sim. É um possível empresário para a banda — Vity expõe,

seguido de um suspiro.

Mesmo dizendo tudo aquilo sobre Ashton, dá para notar como


se orgulha dele e que nunca lhe passou pela cabeça pedir que

desistisse da The Reckless para ficarem juntos.

— E ele já alavancou outras que estão fazendo sucesso —


continua Effy.

— Então é mesmo só uma questão de tempo — sussurro,

aguardando ansiosa o momento em que meus olhos vão se


encontrar com Aidan dentre todas essas pessoas.

— É sim. — Mackenzie sorve o ar em uma inspiração densa.

— Vou sentir tanta falta disso tudo. Da pré-fama.

Me sinto frustrada por ter perdido todas essas boas


lembranças com eles.

De repente, minha garganta se aperta, querendo chorar.

Realmente sinto que tenho pouco tempo para acumular novas


e boas lembranças. Então acho que devo parar de me preocupar
com as memórias que perdi e correr atrás de novas.

Pego o celular no bolso. Já faz uns quarenta minutos desde a


última mensagem que enviei para Aidan.
D

Queria falar com você antes de subir no palco.

Mas Aidan não responde, o que me deixa mais ansiosa e


preocupada. Sugo o lábio inferior, meus ombros desabam em
frustração.

— Tudo bem, Lilah? — Vity me olha, a preocupação anuvia o

brilho em seus olhos.

Desde que abriu e me entregou a cerveja, não tomei nenhum


gole.

Respiro fundo e apoio o gargalo no lábio inferior, tombo a


cabeça para trás e encho a boca com o líquido gasoso da cerveja,
sentindo as bolinhas explodirem na língua.

Faço uma careta, mas meu paladar até que aceita bem,
porque depois do primeiro gole, o segundo não é mais tão ruim.

— Tudo. Só estou preocupada.

— Ele vai chegar logo. Aidan nunca deixou a banda na mão

antes! — Mack tenta me tranquilizar, mas estou quase machucando


as bochechas de tanto que as mordo por dentro.

Mackenzie defendeu Aidan com razão. Ele sobe ao palco

faltando poucos segundos para iniciarem o show e fica visível o


alívio espargindo no rosto dos outros integrantes.

Aidan está totalmente vestido de preto, como se tivesse

acabado de sair de um funeral.

A camisa de botões, o sobretudo, o jeans de lavagem escura e


os coturnos são sombras enfeitando o tablado, sua expressão e a

suas sobrancelhas se arqueando em ênfase é como se estivesse


angustiado. Tudo nele está tenebroso e anuviando o clima no palco
com os outros meninos.

Sinto um frio estranho subir à espinha, me sentindo culpada


por estragar uma noite que eles estavam esperando para cacete.

Falaram disso a semana toda.

Os almoços na cantina do campus, os encontros que tivemos

no decorrer dos dias, tudo estava voltado para essa noite. Estavam
animados.
Já faz um tempo desde a última festa que a The Reckless fez.

Só estavam subindo aos palcos de forma profissional, sendo


contratados por um bar ou pub, para tocar em festas de casamento
e formaturas. Eles precisavam dessa noite tanto quanto precisam de

ar nos pulmões.

E sinto que Ashton, com sua boca grande, e eu estragamos


tudo. Espero que meu melhor amigo veja meu olhar de

desaprovação e inquietude.

O aperto dos dedos de Mackenzie entrelaçados aos meus


aumenta, querendo chamar minha atenção.

Desvio de Ashton, passando para Aidan que, de forma

desastrada, tenta se sentar no banco da bateria, chamando a


atenção dos outros meninos da The Reckless para si ao segurar o
prato da bateria para se equilibrar.

Merda.

— Ele está bêbado? — Effy diz, em tom de espanto, pelo


modo como abre os lábios em choque, não é uma atitude comum

dele. — Puta merda. Sim, ele está bêbado — sobressalta, dando um


passo rumo ao palco querendo ajudá-los, mas Finnick lança um
olhar duro em sua direção, obrigando-a a se afastar.
— O que será que aconteceu? Ele nunca bebeu tanto a ponto

de ficar bêbado antes de um show — Vity fala, como se fosse um


segredo. — A briga de vocês foi tão feia assim? — direciona a

palavra a mim.

— Foi ruim mesmo? — Mack insiste em saber.

— Não, quer dizer, a gente discutiu sobre o que o Ashton disse


pra ele, mas…

— Bryan me contou que foi pesado — Mackenzie sussurra. —


Pro Aidan, quero dizer. Ele é muito sensível quando o assunto é
você ou o que aconteceu naquela noite. E tudo que envolve o

acidente mexe muito com ele. Nós evitamos falar qualquer coisa
que possa deixá-lo nesse estado. Você soube que ele foi preso, não
foi? Por causa do seu pai?

É. Eu soube. Aidan me contou naquele dia em que pedi para


saber de tudo, mas não entramos fundo nesse assunto. Fiquei
chocada que ele perdeu a cabeça ao ponto de arrebentar com meu

pai.

No fundo, me senti grata, porque nunca tive força o bastante


para afastar Thomas, mas, por outro lado, significa que essa

mancha ficará no seu histórico para sempre e a culpa é toda minha.


O aperto que sinto no coração, ele se pressionando dentro do
peito, me faz sentir que devo a Aidan muitas coisas. Principalmente
a honestidade.

Estou pedindo para todos serem sinceros comigo e não me


contar mentiras, mas estou agindo feito uma hipócrita.

Não quero magoá-lo. Nunca quis. Talvez tenha dito coisas para
ele que não foram totalmente honestas. Disse que iria tentar, mas a
todo tempo pensava no que poderia estar perdendo.

— Sim, soube.

— Ele perdeu a cabeça. Isso o faz entrar nesse estado


imprevisível de superprotetor com as outras pessoas e a
autossabotagem. É triste de assistir. Nos dias em que você ficou em
coma, foi como se estivéssemos o perdendo aos poucos. Não sei
dizer ao certo… — Effy para de falar, respirando fundo. — Mas você

se lembra Mack, quando Darnell foi atingido por aquela bala na


recepção dos calouros?

Mack meneia a cabeça, concordando de maneira contida.

— Ele se transformou em outra pessoa. Ficou irreconhecível.


Acho que é o jeito do Aidan dizer que, por dentro, está tudo
acabado. — Effy termina, dando um gole extenso do gargalo de sua
cerveja.

— Foi uma época muito dramática da vida dele. Precisei


sacudi-lo muitas vezes. O filme parece que está se repetindo… —
Mackenzie não completa sua fala, fica parada, repensando e
olhando para mim.

Sei que não é sua intenção me colocar como culpada e muito


menos fazer com que me sinta assim, mas sem concluir seu
raciocínio, sei que estava falando de mim. Que Aidan está se
esfarelando por minha causa.

Pessoas confusas destroem pessoas incríveis. É o que dizem.

— Oi pessoal. — Bryan segura o microfone no pedestal,


ajeitando-o na altura da boca. — Nós tivemos um pequeno
imprevisto, mas enquanto nos organizamos, que tal um acústico?

Ele sorri para Mackenzie, pedindo em silêncio para que a


namorada seja a melhor amiga de Aidan nesse momento.

Bryan move a cabeça devagar em direção ao baterista, que se

levanta do banco sendo guiado por Ashton.

Mackenzie consente, anuindo para que Bryan veja que ela


entendeu.
— Já volto. — Ela entrega sua cerveja inacabada para Gravity
e anda pela lateral do palco, se esquivando dos jovens que
aplaudem Bryan.

Bryan começa a dedilhar o violão. Chase oferece a ele um


banco alto, onde se acomoda sem perder a linha musical. Ele sorri
em forma de agradecimento e posso ver como estão se esforçando
para que esse deslize de Aidan não desestabilize o show ou que as
pessoas, que vieram esta noite, só para ter um pedacinho da The
Reckless por perto, pensem que não são capazes de contornar uma

situação ruim.

Reconheço a música quase que imediatamente de Aerosmith.


Dream On.

A voz rouca de Bryan, controlada e afinada combina com a


música como nenhuma outra. O som reverbera pelo porão, o público
não está mais dando atenção para a movimentação atrás do palco

quando Bryan explode no refrão, mostrando sua voz rouca e


potente.

— Sing with me, sing for the year. Sing for the laughter and

sing for the tear, sing with, if it’s just for today. Maybe tomorrow the

good lord will take you away.[6]


Ele canta de olhos fechados. É o que faz na maioria das
vezes, quando pretende mergulhar de cabeça na música, nesse seu

universo paralelo que cria quando está nos palcos e mesmo que
não tenha pedido, seu público eufórico está cantando com ele.

As luzes apagam como algo arquitetado e o escuro não

apavora ninguém, apenas faz com que o clima e a música


combinem ainda mais.

Bryan não para de cantar só porque está escuro nem as

pessoas param de acompanhá-lo, posso ver o fecho de luz sendo


criado pelos celulares e aproveito a oportunidade para procurar por
Aidan ou Mackenzie.

A melhor parte da música está prestes a entrar, mas os


instrumentos crescem junto com a voz pujante de Bryan.

A bateria, a guitarra, o contrabaixo e o teclado se unem à


vigorosa energia do público e as luzes piscam ininterruptamente,

deixando-me tonta.

Mackenzie volta para perto de nós e só então noto a presença


de Reed, circulando a cintura curvilínea de Effy por trás.

Volto a olhar para o palco, onde Aidan soca com robustez a


bateria, usando as baquetas.
— Dream on, dream on, dream on, dream until your dreams
come true! Dream on, dream on, dream on and dream until your

dreams come true![7]

Bryan salta do banco e pula de um canto a outro no palco,


curvando-se e vociferando essa parte da música com destreza.

— Eu não sei qual é o seu sonho, o que te move ou o que te

impulsiona a se erguer todos os dias, mas caralho — Bryan ofega


contra o microfone, as luzes param de piscar e o único resquício de
luminosidade volta a ser as lanternas dos celulares acesos. —
Esses caras que vocês estão vendo aqui, se conheceram em um
grupo de terapia. Estávamos quebrados e éramos imprudentes,

precisávamos uns dos outros e ficamos juntos porque nós nos


reconhecemos. Nossas feridas — ele bate contra o peito —
geralmente afastavam as pessoas, mas não fugimos quando foram
expostas. Nós ficamos juntos! E a The Reckless é o nosso sonho, é
o sonho que vamos continuar sonhando até que se torne realidade!
Quero agradecer a eles por serem a minha família, por nunca terem

desistido de mim. Compartilhei meus momentos felizes com vocês e


minhas dores, compartilhei o meu coração e meu suor, e eu
compartilharia muito mais por vocês! — Bryan se vira para eles, que
estão sorrindo em forma de agradecimento. — Obrigada por me
salvarem todos os dias há três anos!

— So if you love me, let me go — Bryan cantarola, a melodia


muda e não estão mais tocando Dream On, mas Snuff de Slipknot.

Fizeram um pout-pourri[8] com essas músicas. — And run away

before I know. My heart is just too dark to care, I can’t destroy what

isn’t there![9]

— Deliever me into my face, If I’m alone, I cannot hate. I don’t


deserve to have you. My smile was taken long ago, If I can change, I

hope I never know.[10]

Bryan para de cantar e deixa que só os instrumentos fiquem no


ar.

— Meu coração já esteve tão sombrio e frio quanto se é


possível estar. Já estive na merda a ponto de achar que ele tinha
até parado de bater. Ano passado, perdi uma das pessoas mais
importantes para mim. Minha mãe. Em um acidente de carro,

porque um filho da puta não respeitou as leis de trânsito, foi


negligente e fodeu com a vida incrível que eu planejava dar para
minha mãe. Passei meses de luto, trancado na minha própria bolha
e quase perdi tudo que era mais importante para mim, até que
aquela garota ali, minha ex-namorada, barra prima, é, eu sei que é
esquisito — ele explica assim que as gargalhadas começam —, mas

aquela garota me ajudou a superar isso e não me senti mais


sozinho. Ela me deu forças para voltar, reconquistar meus amigos e
minha garota, por quem sou perdidamente apaixonado. — Dessa
vez ele aponta para Mackenzie. — Amo você, baby. Obrigada por
nossos dias felizes e espero que eles nunca acabem porque você
sabe que merecemos esses dias de glória! — Ele sorri.

— This is not another story, this is not another drill. I refuse to


be another number now, never staying down, this is something real!
[11]

Bryan muda para Glory, de The Score. Ele pula de um lado


para o outro, deixando claro para quem quiser ver, que está tão feliz
que poderia explodir.

E estou feliz por eles. Porque consigo ver como são unidos e
lutam um pelo outro.

Não sei se Aidan saiu do palco porque realmente não estava


se sentindo bem ou foi uma estratégia para a explosão de
instrumentos e luzes.
Mas sei que esse pout-pourri foi criado de maneira inusitada,
para que não só Aidan saiba, mas eu também, que não estamos
sozinhos.

Nunca estivemos.

E nossos desentendimentos não são o bastante para que se

afastem de mim.
O show termina por volta das três da manhã, com todos se

unindo para cantar parabéns para Jeremy Chase – que faz uma
careta fofa por detestar que o chamem de Jeremy – e em um piscar

de olhos, Aidan fugiu de mim outra vez.

— Vocês viram para onde Aidan foi? — pergunto para Effy,


Reed, Gravity e Mack.

Reed, que é muito mais alto, deve ter mais de um e noventa,


olha bem para cima das cabeças inquietas no porão, tentando
localizá-lo, mas nega, sacudindo a cabeça.

— Desculpa, Lilah, ele saiu tão rápido. — Mack torce o nariz,

desaprovando a reação dele.

— Se a gente se encontrar por aí, avisamos que está

procurando por ele — Reed diz, passando distraidamente os dedos


pelo cabelo cacheado e arregalando as opalas escuras para Effy, de

maneira sugestiva. Ele quer ficar sozinho com ela. Compreensível.

Eles quase não se viram durante a semana. — Posso roubá-la um


pouquinho de vocês?
— É claro. — Vity ri, empurrando a amiga pelos ombros em

direção a escadaria do porão. — Pode roubá-la e fazer sacanagem


com ela até ficarem exaustos! — Vity envia uma piscadela

insinuante para Effy, que falta matá-la com o olhar de fuzil.

— Coitada, quase a transformou num morango de tão

envergonhada que a deixou — Mack comenta, ainda olhando para

onde eles acabaram de sair. — Aidan não estava se sentindo muito


bem — fala para mim, em uma tentativa vaga de me tranquilizar.

Aidan me contou dos sentimentos que tinha por Mackenzie

ano passado, confesso, na hora não me incomodou. Mas vendo


como ele confia nela, fico um pouco abalada, quer dizer, enviei uma

mensagem dizendo que queria conversar com ele, mas na verdade,


Aidan falou com ela e não me deu nenhuma satisfação.

Empurro a pontada incômoda para bem fundo do meu peito e

inspiro, desenhando um sorriso no rosto.

— Ele deve ter decidido ir para casa — Vity emenda, como


que para continuar tentando fazer parecer natural ele estar me

ignorando.

Desde que acordei, até agora, Aidan me ignorou uma única

vez e foi simplesmente por não querer forçar a barra. Dessa vez é
diferente. Ele está fugindo de mim, consciente de que quero falar
com ele.

— Ele bebeu muito, nem sei como conseguiu dirigir até aqui.

— Mack cruza os braços, bufando em censura.

— Ele disse que estava em uma viagem de negócios — conto,

tento acobertar a decepção na voz para que não percebam, mas


assim que Gravity arqueia as sobrancelhas, sei que sacou como

estou me sentindo.

— Ele mentiu — ela determina.

— Aidan? Contando mentiras? — Mackenzie ri com deboche.

— Ele pode omitir as coisas, mas mentir não é da índole dele.


Garanto a você, Delilah. Ele pode só não querer contar agora,

mas…

— Você precisa parar de defender ele — Vity resmunga,

revirando os olhos para Mackenzie. — Precisa aceitar que Aidan

não é perfeito. Ele é um cara orgulhoso e mimado. Você se lembra

de como ele tratava a mim e a minha irmã?

— Olha, a mãe dele faleceu tinha pouco mais de um ano! É

normal que ele se sentisse traído pelo pai por tentar colocar Dannya

no lugar da Eline — Mack refuta, chateada. — Você decidiu não


gostar dele por conta própria. Você perdoou o Ashton, qual o

problema em esquecer o que o Aidan fez?

— Quer saber? — Vity se rende, levantando as mãos. —

Desisto. Discutir sobre Aidan com você é irritante porque todos os


erros dele tem uma justificativa! Luto não é razão pra agir como um

babaca com o mundo! Ele teve sorte, se quer saber, se fosse eu a


estar noiva de Darnell, teria dado um jeito nele muito antes.

— Sorte a nossa que você não é — Mackenzie retruca,

impaciente. — E você tem razão. Sempre vou defendê-lo porque


conheço o coração dele!

Ai, doeu. Por que doeu? Porque Mackenzie o conhece.

— Oi. — Viramos a cabeça em direção a voz doce e baixinha.

Encontro uma garota de olhos escuros, ondas grossas nas


pontas do cabelo comprido, que caem como cascata por cima dos
ombros. Ela afasta uma mecha loira para ajeitá-la atrás da orelha e

sorri matreira.

— Estou procurando por Aidan Lynch — diz. Então somos


duas. — Minha nossa! Você é a garota do hospital, não é? — A loira

me encara, boquiaberta, quase como se eu fosse um fantasma


diante dela. — Que bom que você conseguiu acordar daquele coma!
Gravity e Mackenzie se entreolham, querendo desvendar o

mistério por trás dos olhos da garota.

— Desculpem, meu nome é Olivia. Sou enfermeira no San


Rosé. Aidan e eu nos conhecemos nas infinitas vezes em que foi te

visitar — explica para mim, o sorriso continua intacto.

— Nós não o vimos desde que o show acabou — informo a

ela, e uma bola de saliva densa se forma na minha garganta quando


Olivia deixa transparecer a decepção.

— Hum. Ashton disse que ele poderia ter voltado para cá. —

Olivia vasculha ao redor, as opalas inquietas rastreiam o porão ao


som de Moments de Elhae e Sevyn Streeter.

— A gente não o viu — Vity insiste, olhando ao redor.

— Tudo bem, vou continuar procurando. A propósito, vocês


são?

— Mackenzie, Gravity e… — Mack começa a nos apresentar.

— A garota do coma — eu a corto, sorrindo para Olivia. — É


Delilah. — Mas provavelmente você já sabe.

— É urgente? — Mack pergunta com curiosidade.

— Na verdade, só queria dizer oi. Depois que Delilah recebeu


alta nós nunca mais nos vimos. — Dá de ombros com ar de
indiferença. Mas Olivia parece interessada. O suficiente para
aparecer em um show da The Reckless.

Minha Delilah de catorze anos grita interiormente para dizer a


Olivia que Aidan tem uma namorada e que sou eu, mas meu lado

racional, a Delilah de quase vinte anos e que está buscando um


reencontro com sua antiga personalidade, me penaliza por querer
agir com tanta possessividade.

Para refrear meu desejo interno, pressiono os lábios e peço

licença para elas.

Mackenzie e Gravity me conhecem o bastante para saberem


que Olivia me incomodou, mas a garota, com esse ar inocente e
doce não poderia ver maldade nem em uma serpente prestes a

enforcá-la com o corpo.

Subo para a cozinha, desviando das pessoas acopladas na


escada. Alguns casais estão acomodados ao corrimão, se pegando.

Assim que consigo escapar do porão e o vapor quente, noto


que a cozinha está tão abarrotada e barulhenta como lá embaixo.

Queria poder voltar a dirigir. Recebi todos os meus

documentos no dia em que Jasper apareceu de surpresa no


apartamento e minha carteira de motorista está lá na gaveta da
minha mesa de estudos, pronta para voltar a ser utilizada. Mas
tenho medo. Tanto medo que travei em todas as vezes que Ashton e
Bryan tentaram me ensinar de novo.

É estranho, porque sei que posso fazer isso, mas não consigo.

Dra. Carolyn diz que é um trauma devido ao acidente e que preciso


ir devagar, mas acho que estou começando a entender sobre

independência.

E fui uma idiota por me oferecer mais cedo para dirigir para
Aidan. Não teria conseguido de qualquer forma.

Quero ficar um pouco sozinha. Parar de pensar no passado e

refrear a preocupação com o futuro.

Aidan está me enlouquecendo numa velocidade que meu

coração não consegue acompanhar.

Tenho medo de me envolver e de que possa perder essa

conexão que nós temos e me apavora a ideia de Aidan se interessar

por Olivia. Isso não devia estar acontecendo, nem por um segundo,
eu deveria me sentir mal se ele quiser investir em outras garotas, da

mesma maneira que passou pela cabeça fazer.

A música que toca no momento em que instruo minhas pernas

para caminharem rumo ao corredor, para o banheiro, é Beggin de


Maneskin e os convidados da The Reckless explodem em uma

cantoria vibrante.

Passo ao lado de um grupo que grita na minha cara o começo

da música e me assusto, pulando para o lado.

Giro a maçaneta sem hesitar ou bater para ter certeza que

está vago. Estou fugindo da gritaria e som alto, então nada mais

importa se não um cômodo pequeno e tranquilo para me refugiar.

Minhas pernas bambeiam como duas gelatinas ao descobrir

que o banheiro não está só ocupado, como vejo um Aidan de


cabelos platinados e molhados dentro da banheira de Ashton.

Os punhos estão sendo sustentados pelos joelhos e a cabeça

tomba para trás; os dedos, como sempre, adornados por anéis de


prata e os primeiros botões de sua camisa social preta estão

abertos.

Consigo ver uma corrente descendo pelo meio do seu peitoral,

com o pingente de um diamante na ponta.

Aidan olha para mim e é como se eu fosse a última pessoa


que ele queira ver, bufa, cobrindo os olhos com o antebraço.

— Você está bem? — questiono, esquadrinhando todo o seu


corpo relaxado dentro da banheira vazia.
— Eu pareço bem? — rosna, apertando as pálpebras. — Não

— murmura e seu peito vibra.

Apanho o celular no bolso do meu jeans e envio uma


mensagem para Mackenzie.

— Quem é você? — Aidan cospe, com a voz embolada para

Olivia que curva a cintura para se abaixar ao lado dele. Ela abre um

sorriso compreensivo para ele. — Ei, quem é você? — repete,


impaciente.

— Olivia. Olivia Becket. A gente se conheceu no hospital. —


Olivia começa a desabotoar a camisa de Aidan e não posso nem

medir o quanto isso faz meu estômago embrulhar.

— Espera, o que você está fazendo? — Mackenzie pergunta,


arregalando os olhos para Olivia.

— Tirando a roupa dele — esclarece, com um resmungo, ao


puxá-lo para conseguir tirar as mangas da camisa dele.

— Por quê? — Gravity quase grita, assustada.


— Ele precisa de um banho. Gelado, de preferência. — Olivia

continua e gemo por baixo do orgulho, obrigando-a a olhar para


mim. — Que foi?

— É meio… esquisito que você dê banho nele — explico.

— Não vou deixa-lo totalmente nu. Só quero tirar a camisa. —

Olivia nos encara, aguardando por aprovação.

Olivia é inocente. Ela não vê nenhuma maldade, mas acho que

Aidan se sentiria desconfortável se soubesse uma estranha deu

banho nele.

— Podemos chamar um dos meninos — Mack tenta se

contrapor.

O banheiro fica em silêncio quando Olivia desce a mão pelo

abdômen desnudo de Aidan, os dedos demoram alguns segundo

sobre os gomos do tanquinho e enrijeço.

Merda, maldito Aidan Lynch.

— Eu vou fazer isso.

Antes que eu suba pelas paredes presenciando você fazendo.

Olivia para de mover a mão para me olhar por cima do ombro.


— Tem certeza? — Mack indaga, a surpresa não foge do seu

tom, mas, ao mesmo tempo, posso sentir o resquício de uma risada.

— Se você quiser eu posso fazer — Olivia insiste.

— Não — a corto. — Aidan e eu somos…

Olivia arregala os olhos de maneira exagerada e com rapidez

afasta as mãos do corpo dele.

— Somos íntimos — completo, porque definitivamente não


tenho outra palavra para definir o que nós somos.

— Em resumo, ela já o viu pelado, ou seja, uma visão do


inferno — Gravity zomba, caindo na gargalhada. — Mas ele tem

uma bunda bonita, se quer saber.

Reviro os olhos para ela.

— Mas quero vocês fora — sibilo, mordendo o lábio inferior. —

Por favor — tento ser mais educada e rindo, Mack e Gravity são as
primeiras a saírem.

— Delilah eu sinto muito, se soubesse eu não… — Olivia para

de falar quando Aidan resmunga um palavrão. — Jamais passou


pela minha cabeça fazer isso de outra forma, a não ser profissional.

— Acredito em Olivia, porque ela parece sincera e preocupada que

eu tenha entendido errado.


Sorrio para acalmá-la e, um segundo depois, ela sai.

Encaro Aidan, desacordado dentro da banheira e sem a

camisa. Não importa de quantas formas diferentes eu pense nisso,

tem uma seta apontando para todos os motivos pelos quais eu não

deveria, de jeito nenhum, dar banho nele.

Com um suspiro, me aproximo da banheira. Não importa que

um banho possa acordá-lo, não vou colocá-lo debaixo de uma


ducha gelada.

Apoio uma mão na parte de trás de sua cabeça e com a outra,

empurro sua testa, escorando sua cabeça molhada no azulejo.

Caminho até o armário da pia e me abaixo para pegar algumas

toalhas. Umedeço uma delas na água corrente da torneira e a outra


uso para tornar o azulejo mais confortável.

Começo limpando seu rosto e pressiono o tecido atoalhado

nos olhos fechados de Aidan. Não tenho minhas memórias, mas


não sou feita de pedra e tenho curiosidade. Queria tanto me lembrar

de como éramos. Na cama e na vida. Como ele me amava e como o

retribuía.

Sinto um aperto em volta do pulso, me parando.


— Por que você está aqui? — Ele vira a cabeça para o lado,
cobrindo os olhos para fugir da luminosidade do banheiro.

— Não é óbvio? Cuidando de você. — Me sento na borda da


banheira, encarando-o. — Você não foi viajar coisa nenhuma! —

repreendo, mordendo a boca com raiva.

— Fui, sim. Não pelo motivo que te falei, mas não estava na

cidade.

— Onde você estava?

— Fodendo. A. Minha. Vida — ele sopra cada palavra

pausadamente.

— O que quer dizer?

— Não importa. Você não se lembraria de qualquer forma.

Isso machuca tanto que nem sei dizer.

— Não é minha culpa, Aidan.

— Não disse que era — contesta, tirando o braço para me


enxergar por uma fenda. — Mas é sua culpa eu te amar tanto. —

Soluça, cobrindo o rosto e encolhendo as pernas longas como um


garoto assustado. — Devia ter te expulsado da minha vida quando
tive chance.
Ele está bêbado. Não está falando sério.

— Não é verdade — digo, com um suspiro e tento me esticar


para passar a toalha úmida mais uma vez em seu rosto. — Você
não conseguiria — o desafio a me contrariar, mas os olhos azuis e

inchados de Aidan não desviam.

— E eu estou deixando você saber cada fraqueza minha —


cochicha, enxugando o rosto com o dorso da mão.

— E você não sabe todas as minhas? É injusto, não acha?


Você saber tudo sobre mim e eu viver nessa guerra interna por não
me lembrar de nada que esteja relacionado a você.

— Você pode estar certa.

— Eu estou certa. Pra onde você foi?

— Grev Willow.

— Tão longe — murmuro. — O que foi fazer lá?

Aidan fica em silêncio, analisando se vai me contar ou me

deixará no escuro para adivinhações, mas no fim, fico feliz com o


suspiro que esvazia seus pulmões.

— Uns anos atrás eu tinha um tipo de vício, daqueles que você

só para quando a merda te afunda. — Meu coração congela e não


consigo mais mover a mão. Aidan se aconchega para sentir o calor
do meu punho contra sua bochecha. — Apostava em lutas
clandestinas. Kurt, meu amigo do internato, está nisso há muito
tempo e ele já ganhou tanta grana com essas apostas que

basicamente vive para organizar essa merda. E voltei a telefonar


para ele quando você…

Aidan refreia a história, estudando minha reação.

— Não estou te culpando por isso.

— Eu sei.

— Voltei a apostar quando você entrou no coma. — Ele para,


fita um ponto fixo do azulejo do outro lado. — Não sei como parar.

Da primeira vez parei porque minha mãe morreu, mas não tem nada
que possa me segurar agora — reflete. — E é só pelo prazer de
gastar meu dinheiro.

Pessoas ricas tendem a gostar de queimar o dinheiro com


coisas inúteis.

A música que atravessa as paredes do banheiro é uma versão

lenta e sensual de Can’t Get You Out Of My Head.

— Nós vamos pensar em um jeito de acertar as coisas, Aidan.


— Asseguro a ele, e consigo recuperar sua atenção para mim. —

Sobre mais cedo…


— Estou bêbado demais pra ter essa conversa — admite. —
Se você está a fim de conhecer outros caras, vá em frente. Vou te

deixar em paz e prometo ficar feliz por você.

Que mentiroso.

— Claro. — Forço a toalha contra seu olho.

— Ai, cacete, Delilah — ele resmunga, apertando a têmpora.

— Não acredito que você chegou bêbado pro show e está


sendo condescendente com a ideia de eu sair com outras pessoas!
Qual é o seu problema?

— Qual é o seu problema? — ele rebate.

— No momento é você! Eu disse isso pro Ashton por um


mísero segundo e você está levando ao pé da letra como se eu não
tivesse cumprido o que disse que faria. Estou tentando, droga! —

exclamo, tão brava que sinto as veias do meu pescoço saltarem. —


Estou tentando, Aidan.

Ele tenta se levantar. A primeira vez é falha, ele se

desequilibra, mas faz uma nova tentativa e consegue ficar de pé, se


agarrando ao varão da cortina que rodeia a banheira.

— Você não está tentando direito!


— Que absurdo! — Rio em pura gozação, o que faz suas

narinas inflarem. — Eu não sei mais o que te dizer! A minha palavra


parece que não é suficiente pra você e olha que, nessa relação, não
terminamos porque fui eu quem mentiu.

— Não é justo. — Ele cambaleia, apontando o indicador com


um anel em volta. — Não é justo — repete.

E ele volta a chorar.

Teimoso, emotivo e bêbado. Não tem como essa conversa

estar sendo séria.

Aidan desaba de volta na banheira, com os joelhos embaixo do


queixo.

— Ei, vocês terminaram? Posso dirigir a Diamond até o


apartamento do Aidan! — Mack bate à porta. — Bryan vai até lá me
buscar. É melhor do que essa discussão continuar aí…

— Está bem — grito de volta para Mackenzie.

Minutos depois, estamos a caminho do apartamento de Aidan.


Sua cabeça úmida está apoiada no meu colo no banco de trás e,
devagar, movo os dedos pelos fios esbranquiçados em sua cabeça.

Sua respiração é lenta e regular, está em um sono profundo, e


com certeza não posso considerar que a nossa conversa foi
totalmente honesta.

— Cara, você está pesado — Bryan brada, arrastando Aidan


pelo corredor com a ajuda de Reed. — Quantas cervejas você

bebeu? Você está com um bafo do cão — continua reclamando até


que chegamos ao apartamento 802.

— Cadê as chaves? — Reed pergunta.

Nós nos entreolhamos.

— Bolso — Aidan murmura, a voz emaranhada é quase


inaudível.

Solto um suspiro de desgosto e começo a vasculhar os bolsos

da frente da sua calça jeans. Está enredada à chave da Diamond.

Quando finalmente consigo desfazer o nó que os chaveiros se


tornaram, Bryan e Reed arremessam o corpo amolecido de Aidan

no sofá.

Deixo as chaves na mesa de apoio no hall, examino o


apartamento cheiroso e organizado.
Não reflete em nada como Aidan está agora; o cabelo todo
úmido e desgrenhado, mal conseguindo manter os olhos abertos.

Em parte, enquanto conversávamos no banheiro, achei que

estava fingindo porque parecia muito lúcido, mas assim que


entramos no carro e Mackenzie começou a dirigir, Aidan pegou no
sono.

— Você está de dar pena — Reed brinca, batendo na coxa de


Aidan, que inutilmente, tenta acertá-lo com um chute. — Mas está
ouvindo bem! — gargalha, fugindo da nova tentativa de Aidan de

bater nele. — Que foi que você usou?

Fico apreensiva.

— Meu problema é outro. — Ele abre os olhos azulados,

fixando-os em mim.

— Entendi. Melhoras pra você, cara. — Reed caminha para


segurar a mão de Effy. — Se precisar de mais alguma coisa, é só
ligar. — Manda uma piscadela para Bryan.

Effy acena para nós, deixando-se ser guiada por Reed para
fora do apartamento.

Bryan cruza os braços, olhando para o estado que Aidan se

encontra, enquanto Mackenzie ruma para o banheiro e, um segundo


depois, escuto o chuveiro ser ligado.

— Certo, você pode dar banho nele — ela volta informando ao

namorado.

— Quê? — Bryan salta de susto. — Nem morto!

— Você não quer que eu faça isso, né? — Mack dobra as


sobrancelhas para Bryan.

Ela não daria banho em Aidan de verdade, mas é uma tática


eficaz para convencer Bryan.

Ele revira os olhos para deixar claro que só está fazendo isso

por estar sendo obrigado.

— Colabora comigo, Aidan, nunca te vi pelado e gostaria muito


de continuar sem essa visão.

— Não enche o saco — Aidan responde, fechando os olhos.

— Você pode ir por conta própria ou posso te jogar um balde


de água fria — Bryan rebate, com um riso presunçoso.

— Tá, já estou indo. — Ele apoia as mãos nas laterais do sofá

e com um impulso fraco se coloca de pé, Bryan o ajuda a ir para o


banheiro.
Espero que já tenham entrado no banheiro para finalmente me

jogar no sofá, começando a desfazer o laço das botas e me livrando


do aperto delas.

Mack me lança aquele olhar curioso que estou acostumada a

receber quando está prestes a fazer uma pergunta muito pessoal.

— Eu meio que ouvi a conversa de vocês no banheiro. — Se


senta ao meu lado, tirando a jaqueta de couro que tem o seu nome

bordado nas costas com pedras que brilham. — Ashton falou sério?
Quero dizer, você estava falando sério? Quer ficar solteira por
enquanto?

— Não tenho mais certeza. É estranho, sabe? Acordei de um


coma, tentei olhar para trás e os últimos cinco anos tinham sido
apagados por completo da minha memória. É como se eu estivesse

vivendo a vida de outra pessoa. Meu corpo não é meu corpo, minha
consciência não é minha consciência. E apesar das seções com a
Dra. Carolyn estarem indo bem, sei que preciso ir com calma e por

mais que ela me garanta que conseguirei recuperar todas as


memórias com a associação livre, ainda tenho medo de quão fundo
posso ir nesse mergulho. Tenho um caderno em branco, com

infinitas possibilidades de reescrever a minha história, mas não


tenho certeza se quero ir pelo mesmo caminho, com a mesma
pessoa.

— Só queria te dizer que independentemente da sua decisão,

não magoa o Aidan. Seja honesta com ele. Quando seus pais se
separaram e você foi embora, terminou com Bryan através de mim.
Por mensagem você contou pra todo mundo que te amava que tinha

ido embora sem se despedir. Nós te perdoamos, é claro, mas nunca


superamos. Acho que todo mundo fica esperando o momento em
que você não vai aguentar a pressão e irá embora de novo. —

Posso sentir no timbre aflito de voz de Mackenzie que esse é um


medo real nela. — Era o seu jeito de lidar com as coisas. Você fugia
da dor. Fugia de ver as pessoas com quem se importa se

machucando por sua causa, mas no final, a gente ficou machucado


do mesmo jeito. Não quero te dizer o que deve fazer, só tenta ser
sincera. Ele é muito importante pra mim.

Aquela fisgada de insegurança que me deixa enciumada e


com medo volta a me provocar outra vez. Mackenzie tem toda
razão.

Não posso mais ser uma pessoa confusa que machuca


pessoas incríveis. Não posso mais agir com essa
irresponsabilidade.
Bryan volta, interrompendo nossa conversa e não consigo
verbalizar uma resposta para Mackenzie. Mas sorri de um jeito

compreensivo.

— Ele não quis ajuda. — Bryan ri. — Ainda bem.

Lança o corpo pesado para o sofá, onde suspira com alívio.

Bryan e Mackenzie vão embora assim que Aidan sai do


chuveiro.

Olivia tinha razão quando disse que Aidan precisava de um


banho, ele parece outra pessoa quando cruza o portal que separa o

corredor da sala e da cozinha, enxugando com uma toalha os


cabelos platinados. Parece até que o álcool evaporou porque nem

está cambaleando.

Sinto cheiro de cereja e pasta de dente de menta. É uma


mistura questionável, mas combina com ele.

Estava zapeando no celular segundos atrás e embora sua

presença tenha sido motivo de descontração, finjo que não o notei.


Sigo deslizando o polegar pela tela do aparelho, enquanto atravessa

a cozinha e se serve de um copo de água.

Não sei por quanto tempo ele ficou debaixo do chuveiro, mas
foi um período longo. Bryan até bateu na porta umas três vezes para
ter certeza que ele estava bem.

O som de uma aspirina borbulhando na água me faz lembrar


que ele não podia ter bebido.

— Merda. — Pulo do sofá, assustando-o. E ele para de tomar

o remédio, olhando para mim por cima da boca do copo. — Você


bebeu.

— Bebi. — Ele me encara com a testa vincada.

— Você não podia.

Ele termina de beber a água gaseificada de aspirina e devolve


o copo para a pia.

— Vai cortar os efeitos dos remédios de novo.

Cruzo os braços e apoio o peso do corpo no encosto do sofá,

ficando de frente para ele.

— Não tomei ainda. Vou deixar pra começar amanhã e Bryan


me ajudou com o curativo — informa, com um dar de ombros

desinteressado.
— Você está bem pra conversar?

Aidan espia o relógio digital na porta da geladeira de inox e


não parece estar muito animado quando caminha com os ombros
caídos para a sala.

Ele se senta no sofá e o contorno para me sentar ao seu lado.


Deixa a toalha no encosto e cruza os braços. Em nenhuma dessas
ações ele tentou olhar para mim.

— Me desculpa por ter dito aquilo no banheiro.

— Está desculpada.

— E sinto muito pelo que falei pro Ashton. Magoei você.

— Você não entendeu nada, não é? — Aidan dá uma risada

ácida. Entrelaço os dedos em cima do colo e apoio o peso do corpo


sobre minhas pernas dobradas. — Não suporto a ideia de você ter
dito tudo aquilo pra mim por pena. Faz parecer que eu te pressionei

ou que você sentiu que não podia ser sincera comigo. Quero que
você sinta que pode me dizer qualquer coisa, mesmo que signifique
me machucar. — Ele passa as mãos pelo cabelo, descendo pelo

rosto. — O que é que você quer fazer?

— Faz só dois meses — cochicho para ele. — Ainda estou


confusa. Não sei o que eu quero fazer, mas quero descobrir. Estou
tentando descobrir. Tenho medo de te perder, de perder essa
conexão que a gente tem e, ao mesmo tempo, também estou com
medo de perder a oportunidade de conhecer outras pessoas, outros

sentimentos… E se eu… e se não for você? E se não era para ter


sido você? — disparo, mesmo que sua careta de desconforto

mostre que ele não aprova meu ponto de vista. — E se…

— Não precisa falar mais nada. Já entendi. Eu te faço sentir


viva.

Ele resumiu tudo.

— Você quer recomeçar, mas não entrando em um


relacionamento.

— Sim.

— Entendo e respeito sua decisão, mas só quero que saiba de


uma coisa.

— Pode falar.

— Eu não vou mais esperar por você.


19 DE MARÇO DE 2021, ÀS 19H52MIN.

— Porra, seu pai deve estar orgulhoso. — Ashton arruma o


colarinho da jaqueta de couro. Nunca vi um grupo tão feliz por ser

primavera como o nosso.

— Mas ele teve um puta de um trabalho pra colocar esse lugar

nos eixos de novo — emendo, olhando para a fila que faz curva no
Purple Ride. — Thomas quase acabou com a reputação do meu pai
com a história de que ele poderia estar envolvido com corrupção e

todas essas merdas.

Mordo as laterais da bochecha, querendo engolir a raiva.

— Relaxa cara, o importante é que Maya conseguiu cuidar de

tudo. Sem contar que a delegada Abernathy sempre acreditou na


inocência do seu pai — Bryan me consola. — E olha só pra essa

fila! Nem parece que o Purple Ride ficou mais de um mês fechado!

Um mês longo e desgastante, mas por um lado, foi bom que

meu pai e Maya conseguiram retirar todas as acusações.


Ocupei meu tempo livre ajudando-o a planejar uma estratégia

para a reabertura do lugar, junto com Willa e Dannya, e consegui me


concentrar na inauguração do The Icarus. Caso contrário, estaria

tão fodido quanto é possível ficar depois de um coração partido.

Ele mudou toda a decoração do prédio. Agora o Purple Ride

tem uma placa em neon, num tom de roxo forte, ao invés do lilás

cintilante.

O céu estrelado do túnel da entrada também ganhou uma cor

nova; um azul marinho, com pontos roxos. Willa sugeriu a mudança

do nome do clube, mas nós achamos que, apesar da reputação


manchada depois do Purple Ride aparecer nos jornais de

Humperville, nós apostamos naqueles que acreditam na inocência


do homem por trás de tudo isso.

Ainda não falo com Darnell como antes. Ainda acredito que ele

esconde coisas de mim, coisas que mereço saber. Mas depois do

que aconteceu entre mim e Delilah, decidi que passar um tempo

com a família poderia ser uma boa ideia. E foi.

Estou surpreso com a lotação do Purple Ride. Não

esperávamos tantas pessoas, pode-se dizer que a decisão do meu


pai de tirar as “classes” que separam os andares no prédio pode ter
influenciado.

O terceiro andar ainda é o Tour Heaven, mas qualquer um que

quiser comer e beber, pode passar a noite no Tour Heaven.

— Só para você saber — Finn bate à porta do seu carro velho

– ele finalmente conseguiu juntar uma grana e investir em um Buick


Rivera, ano 65, vermelho. Foi Casey quem conseguiu por um preço

bom para ele —, Delilah vai aparecer. Seria bom se você não

ficasse de mal humor a noite toda.

— Essa noite é importante pro seu pai, Aidan. Ele não falava

de outra coisa. — Chase sai pela porta do passageiro do Buick de

Finn, parando ao meu lado.

Os quatro foram importantes para mim no último mês. Não que

eles já não fossem, mas até Ashton, que tinha todos os motivos do

mundo para aproveitar a oportunidade e degustar do meu

sofrimento, foi compassivo. Acho que se sentiu responsável por sua

parcela de culpa. Se ele não tivesse dito que Delilah não estava a
fim de um relacionamento, talvez ainda estivesse lutando por ela.

Uma luta perdida.


Sei disso agora. Sempre esteve na cara que Delilah precisava

de um tempo para curtir sua vida, se redescobrir, sair com outras


pessoas, só estava apaixonado demais para perceber.

Uma semana depois de nós termos decidido seguir caminhos


diferentes, Delilah começou a sair com um cara. Um tal de Dickson.

Mas não durou muito, então veio o Trevor e Luke.

Ela ficou popular no campus por ser inteligente, por ter notas
acima da média. Por ser divertida. Por adorar dançar e não

esconder isso de ninguém. Por ter tomado a decisão de não se


apegar ao passado, por querer fazer novas lembranças.

Delilah não faltou a nenhuma festa que foi convidada – facilitou


muito o fato de Effy ser a namorada de um dos jogadores de

basquete mais populares. Também não deixou de ir aos shows da


The Reckless e me incomodava, porque Delilah ganhou muita

atenção na universidade, pelos mesmos motivos que me fizeram


ficar apaixonado por ela.

— Estou de boa. — Tranquilizo meus amigos, mas nenhum


deles acredita na minha palavra. — É sério. Eu também convidei

uma pessoa. — Apanho a jaqueta de couro no banco de trás da


Diamond e fecho a porta, dessa vez travo o carro pra valer.
— Você convidou? — Bryan sobressalta, espantado.

Porque tem um mês que não falo com nenhuma garota que

não seja Mackenzie, Effy, Gravity, Willa e Dannya.

Porque decidi barrar o meu coração e me proibir de sentir


qualquer coisa, por qualquer pessoa que não fosse a garota de
olhos cinzas, que está curtindo a vida como meu pai me aconselhou

a fazer também.

— Convidei.

— Quem? — Ashton arregala os olhos.

— Olivia.

— Olivia? — eles respondem em coro.

— A enfermeira? — Chase continua.

— É, a enfermeira.

— Caramba. — Bryan assobia. — Você sabe que a Olivia está


afim de você?

— Sei.

— E que você não vai corresponder esse sentimento? — Finn

emenda. — Não faz essa burrada.


— Eu posso tentar, não posso? — Arqueio uma sobrancelha
para eles. — Ela está tentando, não está? Também tenho esse
direito.

— É diferente. Delilah realmente não sente nada por você —

Ashton lembra.

Sempre que tocamos no nome dela, ele diz a mesma coisa e é


insuportável ouvir do mesmo jeito.

Sorvo o ar ameno de Humperville. Gosto dessa ambiguidade


da temperatura. Nem muito quente, nem muito frio. Estável.

Quero que minha vida fique desse jeito também.

— Só a convidei para agradecer por àquela noite no


aniversário do Chase. Me lembro dela ter se oferecido para ajudar a

cuidar de mim — explico, para acalmar os ânimos dos caras, mas


as expressões desconfiadas só mostram que não acreditam em

mim. — Só não estava com cabeça pra lidar com mais ninguém
antes, mas não dá mais pra adiar falar com ela.

— Tá. Mas, por favor, não se envolve emocionalmente com


essa garota. — O tom de aviso do Bryan é duro. — Estou falando

sério, Aidan. Você já passou por essa e eu já vivi isso uma vez com
Mackenzie. Não dá pra curar um coração partido, partindo o de
outra pessoa.

Eles só sabem da Olivia porque Mackenzie e Bryan são como


unha e carne. Contam tudo um para o outro. Não sei quando eles

chegaram nesse nível do relacionamento, mas se não quer que


Bryan ou Mackenzie saibam de algo, é melhor não contar nada para

nenhum dos dois.

— Bryan, é só um encontro entre amigos — friso, mas não


surte efeito e eles continuam me olhando como se estivesse

cometendo um crime. — Podemos mudar de assunto? Toda vez que

Delilah entra como pauta, nós discutimos.

— Você tem razão! — Ashton passa um braço por cima do

meu ombro e outro em cima do de Bryan. — E quer saber? Faz todo

sentido você querer sair sem compromisso. Tirando Bryan e Finnick,


Chase e eu fazemos isso o tempo todo!

Chase pigarreia.

— Corrigindo, você faz isso o tempo todo — Chase brinca.

— Ainda aposto que você tem uma namorada que não quer
nos apresentar na sua cidadezinha vulcão. Como ela é? — Ashton

implica, me empurrando em direção a fila quilométrica do Purple


Ride que não para de crescer. — Qual é cara! Nós somos a sua

família! O mínimo que você deveria fazer é apresentar a sua gata!

Eles gargalham.

Meu pai quer que a The Reckless volte a tocar aqui, mas

nossa agenda está cada vez mais apertada.

Começamos a viajar para cidades vizinhas. Estamos sendo


contratados para tocar em eventos públicos e privados; festas de

formatura, aniversários, casamentos, eventos beneficentes e

recepções em outras universidades.

Todos os fins de semana deste mês, nós estivemos fora de

Humperville. E para garantir uma vaga na agenda da banda, tive

que contratá-los para a inauguração do The Icarus amanhã. Uma


piada, né?

Nós já somos reconhecidos em Humperville. Ao cruzarmos a


rua, consigo ver as olhadelas que algumas pessoas nos dão quando

entramos no fim da fila. Rindo e brincando uns com os outros.

Implicando como crianças.

— Oi! — Uma garota que está na nossa frente se vira, com o

celular na mão.

— Oi — nós respondemos a ela juntos.


— Vocês são da The Reckless, né?

— Sim! — Ashton aperta meu pescoço com força, rindo. — E

vocês, quem são? — Ele passa os olhos escuros para as amigas da


garota, que abrem um sorriso tímido.

— Stacy — a garota que nos chamou primeiro diz. — Chloe e


Erin. Nós estudamos na HU — conta, animada. — Vemos você e

Bryan no campus o tempo todo. — Stacy gesticula para mim e

Bryan. — Mas como estão sempre ocupados, nós não conseguimos


dizer o quanto adoramos o trabalho de vocês. Pensam em lançar

alguma música própria?

— Claro, Bryan é um ótimo compositor — Ashton conta.

— Seria tão legal. Os covers são ótimos, mas acho que vocês

têm um potencial incrível para criar algo com a cara da The


Reckless. — Chloe é a de cabelos longos e pretos, com ondas nas

pontas. Seus lábios pintados de vermelho esticam em um sorriso

mélico. — O último que vocês postaram do Imagine Dragons, ficou

incrível. Parabéns — acrescenta, e me lembro que gravamos um


vídeo pouco antes do acidente de Delilah. E só nesta semana Bryan

o liberou, depois de Ashton levar semanas para finalizar a edição.


— Tem mais de dois milhões de visualizações! — Erin nos

conta com empolgação.

— Cacete, sério? — Bryan enfia a mão no jeans à procura do

celular. — Puta que pariu! — Ele dá um salto para trás, chamando


nossa atenção. As garotas na fila soltam um grito animado para

comemorar.

— Me deixa ver, caralho! — Ashton rouba o celular da mão de


Bryan. — Caralho! Caralho! — grita, sem esconder sua felicidade.

Tem um sorriso no meu rosto. Meu coração dispara de


empolgação e eles me puxam para um abraço em grupo. Como é

de tradição, impulsionamos o corpo para cima, dando três pulos e

gritamos o nome da banda como um mantra.

— Ainda não consigo acreditar. — Chase tira o celular das

mãos de Ashton. — Dois. Milhões! Porra! — exclama, abismado ao

encarar a página do YouTube, no canal da banda.

— Você devia avisar o Jared — digo para Bryan.

— Vou ligar. — Bryan se afasta da fila para fazer a ligação.

Jared está interessado na The Reckless, quer fazer de nós um

grupo famoso no mundo da música, mas ainda não conseguiu um


contrato que nos fizesse largar tudo e dar o fora. E nós também

sabemos que mesmo que consiga algo, não será tão fácil assim.

Pego meu próprio celular para acessar ao vídeo de Natural, no


canal da The Reckless.

Tentamos gravar em frente à casa de Ashton, em um ambiente


aberto e mais sórdido por causa do inverno. Funcionou. O vídeo tem

uma boa estética e a voz de Bryan é grossa e limpa, alcança

agudos que só nós sabemos como se cobra para alcançar.

Nós merecemos isso. Merecemos esse reconhecimento. Há

três anos estamos indo e vindo. Estamos trabalhando nosso talento,

nos esforçando para melhorar.

No fundo, meu medo é ter que largar tudo em Humperville para

viver esse sonho. Largar Delilah para seguir os caras para o mundo

e fazer com que mais pessoas vibrem pelo nosso sonho. Mas porra,
essa garota só continua jogando na minha cara o quanto está feliz.

Sem mim.

Saio do YouTube para entrar no Instagram. É doloroso todas

às vezes que faço isso, porque Delilah é uma figura muito presente

nos stories da plataforma. Posta o que está lendo, em que festa está

indo – e é por isso que sei que não faltou a nenhuma festa – e ela
não se dá nem o trabalho de parar de me seguir e não tive coragem

de fazer isso também – não posso julgá-la.

Estou tentando ser maduro. É um término. Relacionamentos

começam e terminam todos os dias. Faz parte do ciclo, mas não

consigo superar.

Cheguei.

Uma notificação sobe. Ao tentar apertar na mensagem de


Olivia, acabo reagindo a um story de Delilah com o emoji de fogo.

—Porra! — grito, encarando a tela. — Como apago essa

merda? — Coloco o celular na cara de Finn, que se afasta.

— Cara, você reagiu ao story da sua ex-namorada? — Finn ri,

desviando os olhos de mim para o celular. — Qual é a foto? — Ele


se inclina para ver a tela. — Ah, que merda! — Quando Finn

resmunga, descubro que é uma foto que Delilah postou do vestido

que virá para o Purple Ride. Marcou Gravity como a estilista e o

Instagram do clube.
— Para de torturar o cara. — Ashton ri. Até então, ele estava
quieto porque se distraiu em uma conversa com as garotas que

acabamos de conhecer. — Apaga logo.

— Está bem, espera. — Finn agarra o celular da minha mão e

com apenas dois toques me devolve. — Pronto!

Suspiro em alívio.

— Valeu.

— De nada.

A fila começa a andar e Ashton já se tornou o “melhor amigo”

das garotas na fila. Não sei como ele consegue. Daqui a pouco
Stacy conta toda a sua vida para ele.

Apresento minha identidade na entrada para o segurança, mas


ele me reconhece porque foi um dos que meu pai contratou quando

eu estava junto nas entrevistas.

Ele sorri e me deixa entrar, mal olhando a foto no documento.

O túnel famoso do clube também está aceso e aproveito a

caminhada para responder a mensagem de Olivia.

A
Acabei de entrar.

Não foi difícil encontrar Olivia. Principalmente porque ela me


seguiu no Instagram dois dias depois da festa na casa do Ashton.

Ela curtiu todas as minhas fotos desde então, sempre responde o


que posto e comenta minhas publicações no feed. Quando senti que
estava pronto para falar com ela – não só para agradecer, mas

também para me desculpar –, enviei uma mensagem.

Goosebumps faz minha têmpora pulsar, mas assim que


termino de atravessar o túnel com Finn e Chase atrás, Ashton e

suas novas amigas na frente, me deparo com a pista de dança


alucinada.

Estão pulando no ritmo da música, com canudos em neon e

fumaça de gelo seco sendo cuspida para todos os lados.

Sigo Finn, Chase, Ashton e as garotas para o balcão atrás da


pista de dança, onde três barmans estão preparando bebidas.

— O que vocês vão beber? — Ash pergunta para Stacy, Chloe

e Erin.

Elas dizem, mas não presto atenção. Estou olhando em volta.


A estrutura é a mesma de sempre, mas o ar está mais jovial que
antes.

O antigo Purple Ride, meu pai assumindo ou não, era o covil


dos ladrões. Nesta noite só vejo estudantes universitários e muitos

rostos reconheço do campus.

— Ei cara, o que vai beber?

— Uísque — digo a Ashton, que se vira para o barman.

Na entrada o segurança nos forneceu pulseiras roxas, que

servem como comandas. Podemos beber à vontade e realizar o


pagamento no final da noite.

— Onde estão as garotas? — pergunto, ao notar Bryan se

juntando a nós. — Sua ligação demorou.

— Acabei falando com Mackenzie também. Elas estão


chegando. Como sempre, Gravity estava fazendo os últimos ajustes

no vestido dela. — Chase oferece uma cerveja para Bryan.

— A garota é perfeccionista demais — Ash resmunga, se


referindo a Gravity.

— É o trabalho dela. — Chase dá de ombros. — É igual ao

Bryan com as músicas. Ele nos faz repetir no ensaio até que esteja
perfeito — provoca, com uma gargalhada.
Heartbreak Anniversary começa a tocar quando avistamos as
garotas cruzarem o túnel estrelado.

Uma nuvem de vaias começa no centro da pista de dança,


porque o DJ na cabine suspensa mudou de músicas eletrônicas e
agitadas para as lentas.

Ele deve ser como Delilah. Em um momento quer tentar e no


outro, gostaria de ficar sozinha para ter outras experiências.

Viro a dose do uísque em um gole único. Ah, ótimo. Ela trouxe


o cara da vez. Qual é mesmo o nome dele? Vance? Acho que é

Vance.

Mackenzie já o conhecia, inclusive, o conheceu aqui. É muita


ironia do destino. Como sei disso? Stories.

Essa noite vai ser complicada. Sei disso no instante em que


Delilah entrelaça os dedos nos de Vance Kinsey. O garoto que usa
armação quadrada preta, tem olhos amendoados, cabelos pretos

arrepiados e sempre regulados com gel.

Apesar do estudante de engenharia da HU estar sempre de


moletom e jeans de lavagem clara, hoje Vance optou por calça jeans

escura e uma blusa lisa azul claro.


Preciso admitir, ele é um bom partido. Inteligente. E está pouco

atrás de Delilah com uma das maiores notas. Seu melhor amigo,
Keegan, é popular e um tremendo de um encrenqueiro. Eles são
totalmente opostos, mas Keegan tem aquele ar de bad boy que todo

mundo adora. Sem contar que o cara é um gênio da computação,


então apesar de sempre estar envolvido em assuntos como: bebeu
até ser encontrado pelado na piscina do vizinho da fraternidade, ele

também manda bem nos estudos.

Não o vejo com Vance. No campus, pelo menos, estão sempre


juntos.

Ignoro a aproximação deles e me viro para pedir outra dose de


uísque. O tempo que leva para eles chegarem até nós é o que o
barman leva para preparar minha bebida. I Wanna Be Your Slave de

Maneskin toca alto a ponto de me ensurdecer.

— Não se esquece. Curte a noite, é importante pro seu pai —


Chase murmura perto de mim, forçando um sorriso para o grupo

que acaba de chegar. — E aí, gente! — Acena.

— Oi! — saúdo.

Cumprimento Mack com um abraço quando ela vem até mim,


depois minha irmã, Trycia, Effy que está com Reed e volto para
Gravity, para quem só sussurro um simbólico oi.

Apesar da nossa relação ter melhorado bastante depois do


casamento do meu pai com sua irmã, ela ainda me odeia.

Também nunca fui amigável com ela.

Delilah não me diz nem oi. O mínimo é uma olhadela lateral.


Nem parece que minha língua estava na boca dela um mês atrás e
que quase, por pouco, não foi para outras partes do seu corpo.

Mas não deixo de analisá-la. Como o vestido tubinho de cetim


rosa claro e alças finas abraça seu corpo, evidenciando a cintura.
Acima do decote quadrado, o iluminador marca sua clavícula. Ela

está linda, como sempre. E sou obrigado a desviar antes que seja
pego no flagra a secando.

— Seu pai contratou alguém para tocar hoje? — Trycia

pergunta.

Ela ainda está trabalhando no Anarchy, mas meu pai fechou


todos os outros bares e clubes para que o foco fosse totalmente o
Purple Ride. Todos os funcionários receberam um convite especial

para comparecer à inauguração.

— Só o DJ. Ele não quis que a The Reckless tocasse porque


queria que aproveitássemos a noite — explico, engolindo mais um
gole do meu uísque. — Como você está? E sua mãe?

— Você sabe como funciona. A tendência é piorar, mas meu


pai está aguentando firme — diz, o sorriso triste que esboça me faz

sentir um pouco culpado. Trycia tem uma mãe com esclerose


múltipla e todos os dias tenta ser forte para a família. — Nós
estamos — acrescenta.

O piercing no nariz em pedrinha brilha quando Trycia move a


cabeça. Ela o nariz empinado como se pudesse vencer o mundo,
jogando os cabelos cacheados por cima do ombro.

Me lembro de quando a conheci. Estavam trançados e bem


longos. Combinava com ela tanto quanto o volume dos cachos
cercando seu rosto bonito.

Eu queria não tê-la magoado naquela época.

— Quer beber alguma coisa? — pergunto a ela.

— Não vou ficar muito, Aidan. Não se preocupa. Só queria


passar um tempo com as meninas e apoiar o seu pai. — Ela toca

meu pulso, me parando quando indico que vou voltar para o balcão
do bar. — Não sei se você soube, mas… — Ela morde o lábio
inferior. — Estou me mudando para Milão também.

— Porra, sério? — Arregalo os olhos, chocado.


— Sério. — Ela ri. — Vou transferir meu curso de moda para
Milão. Quero aproveitar a companhia de Gravity e, sei lá, tentar algo

por lá.

— Seu pai concordou com isso? — Dou de ombros, embora


saiba que o senhor Fitzgerald nunca privaria a filha de ter um futuro

brilhante.

— Contanto que eu mantenha minhas notas altas, ele não vai


me privar. Na cabeça dos meus pais, perdi um ano da faculdade por

causa da minha mãe. Por mais que eu não pense dessa maneira,
acho que preciso de um recomeço fora de Humperville.

Por mais que Trycia não diga, existe sim uma marca em seu

coração que está totalmente ligado a mim.

— Sinto muito, Trycia. Eu estraguei essa cidade pra você.

— Que isso, o mundo não gira ao seu redor, cara. — Ela ri,
zombando ao bater no meu ombro com o seu. — Humperville já deu

para muitos de nós. Faith e Bailey também estão indo embora.

— O quê? — Gravity grita, ouvindo nossa conversa. — Como


assim?

— O que achou, Vity? Que todos nós ficaríamos para sempre


nessa cidade de merda? — Trycia arregala as opalas escuras para
Gravity. — Todo mundo quer uma vida melhor e de preferência

longe dessa cidade. Dessa polícia corrupta e esse prefeito de merda


— Trycia fala sem pesar nas palavras, e tanto eu quanto Ashton
desviamos para Delilah, que está escutando tudo em silêncio.

Nós sabemos que Thomas é um merda, mas não ficamos


repetindo isso. Principalmente porque, querendo ou não, ele é pai
de Delilah.

— Desculpa, Delilah. — Trycia ameaça caminhar para perto de


Delilah, mas ela a para.

— Tudo bem, não é nenhuma mentira, afinal de contas. — Ri,

olhando para Vance.

— Achei que elas pelo menos avisariam a gente — Vity


resmunga. — Nem falaram nada.

— Bailey comentou comigo. — Willa encolhe os ombros,

mordiscando o lábio inferior. — Mas foi só um comentário, não deu


certeza.

— Em abril elas voltam para a casa dos pais — Trycia informa.

— Nossa — Willa murmura. Dá para notar nos olhos claros da

minha irmã que Bailey ir embora a está afetando.


As duas tiveram um relacionamento conturbado, mas nem por
isso significa que o amor que tinham uma pela outra não foi intenso
e verdadeiro. Tiveram um período onde se evitavam, detestavam a

presença uma da outra, mas não apaga o que sentiram.

— Você está bem, Willa? — Gravity pergunta para minha irmã.

— Sim. — Ela assente. — Essa noite começou perfeita. Cadê

o Paxton? Ele está sempre atrasado, inferno! — reclama, olhando


por cima do ombro. — Vou ligar pra ele.

Assim que Willa sai para ligar para Paxton, decido enviar uma
mensagem para Olivia.

Estou no bar.

Já te vi.

Aidan

:)
Ashton, Gravity e as três garotas que conhecemos na fila
somem uns vinte minutos depois que Olivia se juntou a nós.

Conseguimos uma mesa no canto direito, sob o patamar do

primeiro andar e ficamos lá até que Effy, Mack e Delilah decidam


sair da mesa para dançar.

Vance, Reed, Finn, Chase, Olivia e eu somos os únicos

entediados, eu acho. Além do álcool e as músicas boas que o DJ


toca, estou a fim de ir para casa. Já vi meu pai andando por aí,
conversando com alguns universitários, como sempre, estudando o

solo. Dannya está ao lado dele e ela é todo sorrisos.

Eles são um ótimo casal. Do tipo que vão se apoiar acima de


qualquer coisa. Não via isso antes porque estava cego de raiva,

muito puto com o tiro e só queria encontrar um culpado.

Dannya era a novidade na nossa vida e parecia lógico que


fosse ela. Mas depois de vê-los juntos, tantas e tantas vezes, como

meu pai e ela estão felizes, dá para notar que Dannya o ama. E não
acho que ela seria capaz de tentar matá-lo.

Olivia rapidamente consegue fazer amizade com Reed, Vance

e Chase. Finn mesmo tendo melhorado bastante sua relação social


depois de começar a namorar Brianna, ainda prefere ficar no seu
canto e não ser incomodado. Amizade com ele ainda é uma luta que

precisa escolher travar todos os dias.

Effy sai da pista de dança com o cropped branco de alça


ombro a ombro marcado de suor. A saia vermelha e rodada que
está vestindo tem respingos de água. Está gargalhando, agarrada a

mão de Delilah e Mack logo atrás, se protegendo do gotejar que


está vindo da pista de dança.

Alguns imbecis começaram a jorrar água para cima.

— Ah, que merda. — Delilah chega gargalhando e pega


guardanapos de papel da mesa para secar entre os seios.

Desvio os olhos para outro lado.

— Você está bem? — Olivia ri, encarando Delilah com o

cabelo úmido em uma mescla de suor e água. — Vai pegar um


resfriado se sair com o corpo quente.

— Está tudo bem, até a hora de irmos embora já devo estar

seca — diz, ainda se engasgando de tanto rir.

É essa Delilah que gosto de ver. Leve. Sem preocupações e


rindo à toa.

— Acho que eu tenho um casaco no carro — Vance se

prontifica, ficando de pé.


— Relaxa, Vance. Vou estar seca em poucos minutos —

Delilah insiste, puxando a cadeira para se sentar. — Está quente


aqui dentro. — Ela sacode a mão, abanando o rosto para diminuir o

calor, mas suas bochechas continuam coradas e úmidas.

— Tem um babaca desperdiçando água — Mack resmunga,


sentando-se ao lado de Bryan, que beija o canto da sua boca. Ela ri
e retribui distribuindo selinhos nele.

— Vou pegar uma bebida no bar. — Me levanto.

Tem umas trinta pessoas na minha frente para pedir a bebida e


quase desisto de continuar na fila, quando Delilah para atrás de

mim, de braços cruzados e olhando para frente.

Eu não falo nada.

Ela não fala nada.

Que merda. Quando foi que decidimos nem nos olharmos

mais?

Delilah move as mãos para a bolsa, tateando o objeto pequeno


em busca de algo.

Quando suas mãos voltam para meu campo de visão, está

segurando o celular. Ela passa segundos, que se transformam em


minutos, agitando os dedos sobre o display até que minha atenção é
fisgada por seu sorriso travesso.

— Aidan — diz, olhando para mim com um ar inquiridor. —

Você gosta da minha roupa?

Abre os braços, como se estivesse apresentando seu vestido.


A encaro, constrangido e sinto o alto das bochechas aquecerem.

Que porra? É claro que gosto da roupa dela, gostaria mais


ainda se estivesse sem ela. Comigo. Entre quatro paredes.

Cansei de esperar por ela, é verdade, mas não significa que o


meu coração não se sinta fraco toda vez que Delilah está por perto.

Delilah não consegue ouvir minha resposta, porque o refrão de


Something Just Like This abafa minha voz. Então repenso minha

resposta.

— Por quê? — repito, me inclinando para perto do seu ouvido.

Para garantir que dessa vez eu esteja sendo claro, mas é a


desculpa perfeita para matar a saudade do seu cheiro.

Delilah ri, dessa vez leva a mão em punho contra os lábios


para suprimir a gargalhada.

— Só fiquei pensando se tinha gostado da roupa que Gravity

fez para mim.


— Tudo fica ótimo em você, Delilah. — Arqueio a sobrancelha
para ela e pelo modo como suas maçãs ruborizam, aposto que não
esperava por essa. — Mas tenho certeza que você não precisa que

eu diga em voz alta, não é?

Porque você sabe que vou te admirar até usando minhas


camisas de banda surradas.

Depois de um mês é como se fôssemos completos estranhos,


mas preciso me lembrar que para ela, sempre fui. E é o que mais
dói quando paro para pensar.

Posso segurar a barra dela experimentando a liberdade,


saindo com outros caras, talvez se apaixonando, mas é impossível
lidar com uma Delilah que sequer acredita que fomos reais um dia.
Porra, essa merda machuca mais que o corte daquela caneca de

porcelana.

— Depois de quase um mês você teve coragem de ter alguma


reação, a qualquer coisa que esteja relacionada a mim. Fiquei me

perguntando o porquê disso.

— Como assim? — rebato, ainda mais confuso.

A gente não se fala há mais de um mês. Não é como se


pudéssemos evitar os mesmos lugares – por mais que eu tenha
tentado –, mas evitamos um ao outro. Dessa vez, não busquei
ignorá-la sozinho. Delilah retribuiu na mesma proporção. Se podia
me evitar, fazia.

E ela é muito boa em agir como se eu não existisse. Muito.

Delilah estica seu celular, até que a tela esteja à altura dos
meus olhos. Compreendo o porquê da pergunta e o motivo da

risada silenciosa que esboçou minutos atrás; a porra do story que


reagi está bem ali, intocado.

Minha reação não foi apagada como pedi que Finn fizesse.

Vou matar o Finnick.


— Foi sem querer — explico, mas está claro que Delilah não

acredita em mim.

Passos os vãos dos dedos no cabelo, bagunçando os fios

platinados úmidos de suor. Está quente demais aqui dentro.

O sorriso brincalhão no rosto de Delilah some e quero me


castigar pela sinceridade. Ela estava se divertindo com a ideia de eu
ter quebrado o gelo entre nós.

Não é a atitude de alguém que estava decidida a aproveitar a


liberdade com tudo que se tem direito.

Acho que entendo os motivos de Delilah dizer que queria

aproveitar sua liberdade, mas não consigo não me sentir magoado.


É como se todas as coisas que me disse tivessem sido para

amaciar meu orgulho e isso é difícil de aceitar. Não posso deixar

que meus sentimentos sobressaiam à razão.

— É sério — reforço e meu tom indelicado a convence. — Não

foi por querer. Olivia me enviou uma mensagem e quando fui


responder, acabei esbarrando na sua foto — justifico, a expressão

insatisfeita de Delilah me faz calar a boca.


Não quero chateá-la.

— Você parece decepcionada — sussurro, mais para mim do

que para ela.

Delilah volta a guardar o celular na bolsa e assente, me


dizendo sem emitir nenhum som que me entendeu.

— Não estou decepcionada — murmura de volta, só consigo


entender porque o DJ faz uma pausa entre a música que estava

tocando e a que está colocando agora. — Foi bom ter te encontrado

hoje. Como a gente não tem se falado ultimamente, fiquei sem jeito
de te enviar uma mensagem. — Espero que ela continue, Delilah faz

uma pausa breve, olhando para os lados verificando se nenhum de

nossos amigos estão por perto. — Seu diário estava no meio


daquela caixa que me entregou outro dia, com todas as minhas

coisas… — Delilah trava, mordendo o lábio inferior como se

estivesse prestes a confessar um pecado.

Ah, merda.

— Você leu? — pergunto, brusco.

Apesar de tudo que contém lá se tratar dela, não me sinto

confortável com todos os meus sentimentos sendo expostos. Pelo

menos, não ainda.


— Li. Uma página — diz, erguendo o indicador para numerar.
— Mas quando percebi do que se tratava, parei. Eu juro, Aidan. Não

li mais nada. — Entra em modo defensivo, provavelmente nota que

não estou feliz em receber essa informação. — E pensei que

pudesse ser um diário meu ou algo assim, por isso comecei a ler.

— Na primeira linha você já se deu conta do que se tratava e

continuou mesmo assim — finalizo por ela.

Sweet Dreams está tocando e não consigo ouvir a resposta de

Delilah. Então ela repete:

— É tudo sobre mim?

— É sempre tudo sobre você — digo, tão baixo que ela não é
capaz de escutar, então mais uma vez, tenho a chance de

reformular: — Grande parte.

— Sinto muito, Aidan. Eu só…

— Só queria saber o que eu pensava sobre você. Gostou do

que encontrou?

Ela aperta os lábios. Sinto que está tentando manter a

compostura, sem perder a paciência.

— Conseguiu ver como me sinto a seu respeito?

— Não li tudo. Eu parei assim que percebi.


— Achou que eu estava mentindo?

— Não! Claro que não — reafirma, mas não consigo identificar

se está falando para mim ou para si mesma. — Estou

enlouquecendo com toda essa situação. Nunca quis magoar você!

— Essa é uma coisa que sempre achei engraçado nas


pessoas. Elas dizem o tempo todo que não querem te magoar, mas

acabam magoando. Não entendo a lógica disso.

Delilah e eu somos uma bomba relógio de sentimentos


reprimidos. Consigo sentir as palavras travadas na garganta, que
deixamos passar por pensar que não era o momento ideal.

A questão é que, nunca existirá o timing certo para mostrar o

quanto você está chateado. Essa mágoa só ganha mais domínio e a


consequência é o desastre.

Ela suspira, se dando por vencida. A fila andou desde que


começamos a conversar, mas nem me dei conta. Está quase na

minha vez. Estou grato por isso.

Na realidade, não estou magoado de verdade por causa do


caderno, mas sim com todo o resto.

Mesmo entendendo os motivos que a levaram a me dizer


aquelas coisas lindas e também a decisão de não ficar comigo,
ainda não paro de pensar como foi cruel da parte dela, de dizer que

queria tentar, quando não estava pronta.

— Sei que esse fim de semana você vai estar ocupado com a
inauguração do The Icarus, então se puder, aparece na biblioteca na

segunda-feira. Vou levar o diário pra você, tá legal?

Faço que sim, sem desviar os olhos para ela.

— Ei! — Olivia surge ao meu lado com um sorriso e sou grato

por ter aparecido, ou um clima estranho me obrigaria a sair da fila.


— Decidi vir ver o que está acontecendo, já tem uns vinte minutos.

— Ela ri, descontraída.

— Ah, a fila. — Olha para as quatro pessoas que ainda estão

na minha frente. — Nossa, seu pai deve estar orgulhoso demais do


sucesso do Purple Ride depois desse tempo fechado.

— Com certeza ele está. — Sorrio para ela e falo como se

Delilah e eu não tivéssemos acabado de ter um momento tenso.

A fila anda mais um pouco e finalmente é a minha vez.

Peço outra dose de uísque e duas cervejas para não ter que

enfrentá-la de novo.

Enrolo em uma conversa banal com Olivia, esperando que


Delilah peça sua Coca e volte para a mesa.
Essa noite vai ser longa.

Para a minha sorte, o DJ é um cara eclético. Toca todos os

estilos e neste momento, brinco com as mãos debaixo da mesa, na


coxa, fingindo que tenho baquetas enquanto Natural, de Imagine

Dragons, faz os universitários vibrarem na pista. Gritando


enlouquecidos como se estivessem em um show.

— Você adora bateria, né? — Olivia ri ao me flagrar tocando


com baquetas imaginárias sob a mesa.

— Pois é. — Devolvo sua risada, empolgado.

Acho que é a única coisa que me salva todos os dias. A


música. A bateria. O baque surdo do bumbo ecoando todos os dias

no meu estúdio improvisado no apartamento.

Para a sorte dos meus vizinhos, mandei isolar as paredes.

— Sempre tive vontade de aprender — Olivia revela, mas o


tom é mais parecido com uma sugestão. — É difícil?

— Não muito. Pra mim é tão fácil quanto respirar — brinco,


encarando os olhos obtusos e recheados de expectativa. — Olivia,
eu queria me desculpar por aquele dia. Merda, foi vergonhoso.
Estava no meu pior dia.

— Em que dia? — Olivia finge não se lembrar.

— Não me faça falar em voz alta, por favor. — Rio, tombando


a cabeça para o lado. Seu rosto bonito esboça um sorriso de

compreensão, que faz meu peito comprimir. — Você sabe, que


estava bêbado na banheira do meu melhor amigo.

— Delilah parecia muito incomodada quando comecei a te

tocar.

Disso eu não sabia.

— Posso perguntar o que está rolando entre vocês?

Olivia sabe que Delilah e eu temos uma história, mas tenho me

poupado de repetir tudo para cada pessoa que pergunta porque

ainda não estamos juntos.

No campus, a maioria sabe que Delilah e eu namorávamos. Os

comentários nas minhas fotos, das pessoas que admiram a banda,

também estão perguntando sobre ela, mas continuo não dizendo


nada.

A sensação é que se eu evitar o assunto, mais longe de

realmente colocar um fim no nosso relacionamento fico.


Com um suspiro derrotado, volto para Olivia. A loira, que tem

as pontas do cabelo ondulado, me fita de volta.

— Nada.

— Não conheço vocês o suficiente, mas acho que sou

experiente quando o assunto é relacionamento. Namorei o mesmo

cara desde o colégio e terminamos quando escolhemos faculdades

diferentes, em cidades diferentes. Você sabe, quando de alguma


forma o caminho de duas pessoas encontra uma intercessão e você

se dá conta de que não tem mais o controle daquilo. Me sentia

assim com o Noah. O amava e ele me amava, só que chegamos em


um ponto decisivo. Queríamos rumos diferentes. Foi difícil, mas

estou bem. Sobrevivi. Vocês não estão se separando porque

precisam seguir caminhos diferentes e sim porque a Delilah ainda

não descobriu o seu próprio. Ela não se lembra de nada. Não sabe
de nada. E tem que descobrir tudo outra vez. Todos os sentimentos,

emoções… No lugar dela, acho que teria enlouquecido. — Olivia faz

uma pausa. — Mas ela está até que indo muito bem.

Encaro Olivia. O modo como fala e parece ter o controle

absoluto das suas emoções me comove. Poderia facilmente me


envolver com ela. Teria menos problemas e acho que seria

correspondido.
— Obrigado, Olivia.

— Que isso, pode me ligar se precisar desabafar. — Ela me

empurra com a lateral do braço. — Agora, o que você acha da gente


dançar?

Quando subo meus olhos para as outras pessoas na mesa,


Delilah está sentada sozinha, sem Vance, e lançando aquele olhar

duro para mim como se eu estivesse cometendo um erro.

Volto-me para Olivia.

— Desculpa, eu não danço — nego.

Olivia gargalha e mesmo me negando a dançar, me segura

pelo pulso, me puxando para a pista de dança.

Escuto Bryan e Mackenzie gargalhar, porque eles sabem que


sou um desastre quando o assunto é dançar.

— Essa música não é bem pra dançar — resmungo com Olivia


quando escuto Bad Things, de Camila Cabello e Machine Gun Kelly.

— Você pode dançar comigo, Aidan. A música com certeza vai

seguir o seu ritmo. — Olivia envia uma piscadela para mim, sob as
luzes psicodélicas da pista.

Ela segura minhas mãos e devagar as posiciona em sua


cintura curvilínea.
Olivia está usando um vestido justo de alcinha e por baixo,

uma blusa fina de mangas compridas. Botas que atingem o limite de


seus joelhos e os cabelos começam a ficar úmidos de suor

enquanto me guia em uma dança lenta, que não combina com a

música.

Estamos no meio da música quando noto que seu rosto fica

mais próximo do meu a cada segundo.

Olivia para de se mover e sou como um espelho, seguindo

seus movimentos. Seus olhos se concentram na minha boca e ela

lambe o contorno da sua, me convidando para beijá-la.

— Olivia… — Balanço a cabeça me negando a fazer isso.

— Aidan, relaxa. Se não gostar, não vou insistir — diz, por


mais que queira me afastar dela, não faço.

Olivia coloca fim na distância entre nós e sua boca macia


domina a minha em um beijo urgente, determinado.

Whitout Me toca no fundo, ofuscando o gemido rouco que ela

deixa escapar contra minha boca.

Levo os dedos para debaixo do manto de cabelos de Olivia,

aprisionando sua língua e travando uma luta para quem domina


quem.
Seus dedos se agarram à minha jaqueta. Sinto como seu

corpo esmorece sob o meu toque, rendendo o domínio para mim.

Olivia se entrega ao beijo como Delilah costumava fazer.

Olivia se derrete sob o meu toque como Delilah se derretia

cada vez que eu a tocava.

Então me afasto dela, minhas mãos ainda sustentando sua

nuca.

— Merda — Olivia murmura. — Vai ser difícil esquecer você.

Sorrio, balançando a cabeça.

— Você vai ser um desastre na minha vida, Aidan — confessa.

— Te avisei. — Encosto minha testa na dela.

— A questão é que não sou muito de escutar as pessoas.

Olivia ri e passa os braços em volta do meu pescoço.

Ouço alguém pigarrear do nosso lado, cortando não só o clima

como a música da Halsey.

Fecho os olhos com impaciência.

Foi o primeiro momento de paz que tive nesse último mês, só


queria que durasse um pouco mais.

Para a minha surpresa, é Gravity.


— Oi? — Cravo meus olhos nela, com pesar. Sua testa

vincada em reprovação me açoita. — Qual o problema?

— Você precisa me dar uma carona.

— Cadê o seu carro? — rebato com desgosto.

— Ele pifou.

— Pifou? Meu pai não te deu um carro novinho, Gravity?

— Pois é. Uma grande merda que isso tenha acontecido. A

Olivia não vai se importar, não é?

Olivia desfaz o laço com as mãos em minha nuca e dá passos

retraídos para se distanciar de mim.

— Claro que não. Tenho que ir também.

— Te deixo em casa — ofereço.

— Não precisa, vim dirigindo. — Sorri amigável para Gravity.

— É Gravity, né?

— Sim. — Vity sorri e nem esconde que está mesmo forçando

cordialidade.

— Espero que não seja nada muito sério com o seu carro.

— Pode ser a bateria, eu acho.

— A gente pode só fazer chupeta nele — sugiro a Gravity.


— Não. Estou cansada demais pra isso. Que droga, Aidan.
Você pode ou não me dar uma carona?

— Não planejava ir embora ainda.

— Ótimo. Que bom que você está concordando. Te espero lá

fora?

Gravity nem me deixa responder quando dissipa as pessoas

na pista de dança para se direcionar à saída.

Olivia ri da atitude dela, mas não parece ofendida ou chateada.

É um bom sinal.

— Foi mal, ela é… difícil.

— Sem problema. Te ligo amanhã? — Olivia pergunta, quer ter

certeza de que pode fazer isso.

Aceno em confirmação e espero por ela, que pega a bolsa no


braço da cadeira onde estávamos sentados.

A acompanho até seu carro, na lateral do Purple Ride.

Preciso cruzar o estacionamento para chegar até Gravity, que

está recostada à Diamond, de braços cruzados e o mau humor


estampado no rosto dela.

— Entra. — Gesticulo para a BMW, destravando as portas.


Gravity faz o que digo e sem nenhuma palavra, transpassa o
cinto de segurança. Faço o mesmo, ajusto a marcha para deixá-lo
no automático e ligo o carro.

Vity não é do tipo que pede permissão para fazer as coisas e

em poucos instantes, conecta seu celular no som e uma playlist de


sua escolha começa com Heathens de Twenty One Pilots.

— A gente precisa conversar — Gravity sibila. Estou pronto

para ouvi-la me dar um sermão sobre Olivia. — É sobre o seu pai.


— Gelo.

Viro o rosto de forma assimétrica; parte da visão foca na

estrada e a outra em Gravity.

Ela bufa, mantendo a postura ereta.

— Dannya está grávida.

Gravity solta e minha única reação é pisar fundo no freio. A

brutalidade faz com que seu corpo seja arremessado para frente,
mas por sorte ela teve a perspicácia de colocar o cinto e ele impediu
seu impacto com o painel.

A encaro, severo e frio.

— O quê?

— Foi o que eu disse.


— E por que você está me contando isso? E por que nós
temos alguma coisa a ver com essa história?

— Porque seu pai ainda não sabe.

— Por que não?

— Dannya está com medo de contar pra ele — Gravity diz, a


voz transmite como ela repudia o que está prestes a dizer. —

Porque o seu pai foi muito, mas muito consistente em dizer que não
queria ter mais filhos. E, em parte, minha irmã concordou com a
ideia. Você e Willa já dão trabalho o suficiente.

— Gravity, vai se foder.

Volto a ligar o carro e começo a dirigir.

— O que é que você quer que eu faça?

— Querendo ou não, o bebê também é seu irmão.

Não posso dizer que não é.

— Escuta, eles são adultos. Nós não podemos nos meter.

— Escuta você. É uma gravidez de risco, tá? — Gravity bufa,


impaciente. — Não sei porque pensei que você fosse entender a
gravidade da situação. Você é um egoísta que só pensa em si

mesmo, no próprio bem-estar, na própria família.


Ignoro suas ofensas.

— Como assim uma gravidez de risco?

— Dannya está quase na casa dos quarenta, Aidan. Fora

todos os problemas de saúde que ela tem como deficiência em


vitaminas e a anemia genética. Somada à preocupação da minha

irmã de perder o bebê com a ideia dela e do filho serem rejeitados


por Darnell.

— Ele não faria uma coisa dessas, Gravity.

— Tem certeza, Aidan? Absoluta? Tem toda essa merda com

Thomas, uma história que não tem começo nem fim, que nunca
entendemos porque essa rivalidade entre eles começou. Olha, só
estou prezando pelo bem-estar da minha irmã e do bebê que ela

está carregando.

— Tá. Qual o seu plano?

— Nós queremos organizar um jantar. Como nos velhos

tempos. Convidar todos os amigos deles e os nossos. Talvez com


mais pessoas de confiança por perto Darnell lide melhor com a
novidade!

— Meu pai tem todos os defeitos do mundo, mas garanto que

ele nunca ficaria infeliz com a ideia de ser pai de novo. Sempre
achei você e sua irmã aproveitadoras — fujo do olhar fulminante que

me lança —, mas meu pai ama Dannya e ele vai apoiá-la. Ela
descobriu quando?

— Tem pouco mais de duas semanas.

— Ela já devia ter contado — murmuro.

— É, eu disse a mesma coisa, mas adivinha? Só soube disso


hoje.

— Certo. Pra quando você quer organizar esse jantar?

— O quanto antes. Delilah vai ajudar.

— Delilah está sabendo? — Olho para ela, espantado. Não


sabia que eram tão próximas.

— Olha, ela era a pessoa mais perto de mim na hora em que

eu soube. Sem contar que Mack e Effy andam ocupadas com a


faculdade, sua irmã só pensa na inauguração do The Icarus e estou
lidando com os últimos detalhes da minha mudança para Milão.

Delilah precisa de outra coisa pra ocupar a cabeça e querendo ou


não, você é o menos ocupado.

— O menos ocupado?

— Sim. Você passa o dia todo só dando ordens — Gravity

provoca, mas posso ver a curva de um sorriso desenhando seus


lábios. — Então, você vai ajudar ou não?

— Tenho escolha?

— Definitivamente, não.

Estaciono em uma vaga próxima à praça, de frente para o

prédio onde Delilah mora com Effy e Gravity.

Desço do carro com a sensação de que vou me arrepender de


ter concordado com Gravity.

Ela está me mandando mensagens desde às cinco da manhã,


deve ter se esquecido que é sábado e esses são dias que saio para
correr com Mackenzie e Bryan – o que ele não tem feito desde que

se ofereceu para ajudar Delilah a treinar direção –, então estou de


pé já tem uma hora.

Confesso, me vi enviando uma mensagem para Gravity no

mínimo dez vezes renunciando meu direito de fazer parte disso.

Mas estou aqui. E não estou cem por cento certo de que estou
fazendo isso por Dannya. Acho que uma parte de mim se sente

satisfeito por passar um tempo com Delilah; um onde não estamos


brigando ou falando do passado. Um tempo de qualidade real com
Delilah. Sem mentiras, sem omissões. Porém, pensar nela agora,

automaticamente me leva a pensar em Olivia.

Merda.

Tê-la beijado noite passada a coloca nessa bola de neve de


sentimentos não resolvidos.

Assim que abro as portas de vidro do prédio, o porteiro me


encara. Já trocaram tantas vezes de funcionário que não tenho
certeza de qual é o nome dele. Forço a me lembrar, mas nenhum

nome está ligado ao rosto do homem atrás do balcão.

Além de um sorriso solícito, ele também carrega uma feição


tranquila. Tem uma barba rala por fazer cobrindo parte do seu rosto

e os cabelos pretos e ondulados são características fortes nele.

Me debruço sobre o balcão e me apresento, informo que vou


no apartamento de Gravity e ele faz uma ligação rápida para o
número do apartamento delas.

Em poucos instantes, uma delas autoriza minha entrada.

Sigo para o elevador, enquanto espero, recebo uma nova


mensagem de Gravity perguntando onde estou. Não são nem oito

da manhã e ela já está me enlouquecendo.


— Já cheguei! — Bato na porta impaciente.

— Oi! — Gravity a abre arfando e corre para dentro do

apartamento outra vez, pulando com um pé só pela sala, enquanto


tenta calçar o outro. — Foi mal, será que você e Delilah podem
resolver isso sem mim? Porque sério, a vaca da minha chefe decidiu

que precisa de mim hoje no ateliê e como são minhas últimas


semanas…

Sua voz some ao entrar no banheiro.

Reparo na sala, em como está organizada e cheirando a café.

Gravity luta para prender o relógio no pulso.

— Puta que pariu! Você pode me ajudar? — ela brada,


esticando a mão esquerda para que eu termine de fechar a correia.

— A gente devia remarcar — digo, assim que termino de


afivelar a pulseira do relógio em seu pulso.

— Por quê? Delilah disse que não tem problema.

Eu vejo vários.

— É o seguinte. — Gravity estica os braços e me segura pelos


ombros. — Estou te entregando uma oportunidade incrível na mão
de resolver as coisas com ela.
Abro a boca para discutir, mas Gravity me silencia ao afundar o

indicador contra minha boca.

— Vocês conversaram, eu sei, mas você estava bêbado e


Delilah confusa. Pelo menos tentem fazer isso agora que estão mais

calmos. Vocês não precisam voltar, só resolvam essa merda.


Parece que tenho que ficar mediando os casais desse grupo! —
Revira os olhos.

Gravity volta para a cozinha, pega uma xícara no armário e se


serve com café. Gravity nem o saboreia, só vira tudo em um gole só.

— Se fizer isso hoje sem mim, prometo te recompensar.

— Eu duvido que você consiga — zombo.

— Quer apostar, Lynch? — Ela arqueia uma sobrancelha.

— Tenho medo de você me oferecer um jantar e me


envenenar.

— Combinado. Te pago um jantar, então. Adeus.

Gravity corre em direção ao cabideiro, onde tira o casaco e a


bolsa.

Ao bater à porta, desabo no sofá.


Faz umas duas semanas que não apareço nesse apartamento.
E mais um de um mês que não toco o corpo de Delilah, que acaba
de entrar no meu campo de visão, usando um camisetão e shorts de

moletom, esfregando os olhos, mostrando indícios de que acabou


de acordar.

Delilah pisca várias vezes na minha direção, como se para

entender se sou uma miragem ou real. Inclina a cabeça para frente,


para ampliar a visão e retrai o corpo, cruzando os braços.

— Que merda. — Move as pernas, desconfortável, e olho para

os lados para evitar que fique mais constrangida. — Cadê a


Gravity?

— Ela disse que tinha falado com você! — exclamo, minha voz

surpresa sobe algumas oitavas. — Sobre o jantar que ela quer


preparar para Dannya contar ao meu pai que está grávida.

— Quê? Dannya está grávida?

— Aquela filha da… — Me levanto, indo em direção a porta.

Não tem nenhuma cópia das chaves na mesa de apoio, perto


do cabideiro.

— Você tem uma cópia?

— Tenho. — Delilah se aproxima. — Deixei aqui ontem.


— Não acredito que caí nessa história.

— O que é que está acontecendo?

— Gravity me pediu ajuda para organizar um jantar pra

Dannya e meu pai, para ela contar da gravidez, disse que faríamos
juntos. — Delilah me encara, ainda com vestígios de confusão
cobrindo seu rosto. — Gravity, você e eu. Nós três. E que você tinha

se disponibilizado para ajudar. Só que hoje…

— Para, já entendi tudo. Aquela filha da mãe — Delilah


murmura, apertando os lábios. — Effy não está no quarto dela.

— Não acredito que elas vão mesmo prender a gente aqui —


resmungo e estou com tanta raiva, que a deixo esvair, direciono um
soco para a porta, e o som oco explode por todo o apartamento.

Busco pelo meu celular no bolso da jaqueta de couro e digito

uma mensagem para Gravity, mas antes que aperte em enviar,


recebo uma dela:

Foi mal. Eu menti, mas não em tudo. Dannya está grávida e eu


realmente preciso da sua ajuda, mas está me enchendo o saco
essa sua história com a Delilah. Vocês têm até a inauguração

do The Icarus. Abasteci os armários e a geladeira.

E antes que me pergunte porque estou fazendo isso…

Delilah é minha amiga e eu sei que o jeito que vocês


terminaram não a deixou feliz, mas a garota ainda está se

reencontrando. É difícil para ela passar por cima do orgulho.

E vi vocês ontem. Olivia também. Não quero que a outra garota

seja arrastada para isso. Então, pelo menos, resolvam direito


dessa vez.

Não estou dizendo para vocês reatarem, só… resolvam sem a

bebida e os ânimos a flor da pele.


Entrego o celular para que Delilah veja as mensagens que
estou recebendo de Gravity.

Ela ergue os olhos para mim, me perguntando se quero fazer

isso.

— Não é como se eu tivesse escolha, não é mesmo? — Me


jogo no sofá outra vez. — Você contou alguma coisa pra ela?

— Não tudo. — Delilah mordisca o lábio inferior, pensativa.

Denvolve o celular para mim.

— A gente se aproximou um pouco por causa das festas.


Posso ter bebido vinho demais uma noite ou outra e ter falado

demais também.

Delilah se senta na mesa de centro, de frente para mim. Ela


me olha sob as pestanas semicerradas e morde o lábio inferior,
sugando-o devagar enquanto apoia as mãos nas laterais da

mesinha.

— Não precisamos conversar, se você não quiser. Não


precisamos nem olhar um pro outro.

— Foi você quem disse que queria sair com outros caras, pra
começo de conversa. Por que parece que você está irritada quando
fui o único sincero desde que você acordou?

— É você quem está com raiva.

— É, eu estou com raiva. Porque achei que você quisesse me

dar uma chance. Fiquei me sentindo enganado. Você só estava


cedendo porque sou uma ligação forte com quem você foi. Uma
ponte direta pra você se reconectar com a antiga Delilah. Porra, só
que… você não tem nada a ver com ela! A minha garota morreu
naquele dia e você é como uma estranha.

Delilah encolhe os ombros, mas não nega.

Cada palavra que cuspo é o que eu estava fugindo de


enfrentar, porque queria acreditar que sou capaz de amar todas as
versões de Delilah, mas não tenho tanta certeza.

Nós dois estamos apegados demais ao passado.

Delilah quer recuperar a sua vida.

E eu quero recuperá-la.

Está mais do que na hora de entender que a minha Delilah

nunca mais voltará. Eu a perdi para sempre naquele maldito


acidente.

Aperto a boca para evitar que qualquer outra palavra afiada

escape quando noto que Delilah está chorando.


— É por isso que nós não vamos funcionar, porque eu estava
tentando voltar a ser aquela Delilah. Aquela que você fala que
amava, aquela que você está apegado e não quer soltar de jeito

nenhum! A garota que você quer que eu me transforme! Aidan, eu


não sou mais aquela garota. Por mais que eu tente, por mais
sessões de terapia que faça, é só uma parte vazia de mim mesma
que não sei se vou conseguir me reconectar. Quero me tornar uma
nova pessoa, alguém melhor, que toma decisões melhores. Por si
mesma e pelas outras pessoas. Fiquei com medo de te dizer que

queria sair com outros porque… estava tentando não te


decepcionar. Me esforçando tanto para ser a garota por quem você
se apaixonou. Mas — ela funga e enxuga o rosto com as costas da
mão —, não sou ela. Sinto muito, mas não sou ela. E você tem
razão quando diz que ela morreu e o que você está sentindo nesse
momento é luto. Então é inteligente nós dois deixarmos que você

viva esse luto. Você precisa deixá-la ir de verdade se quiser voltar a


ser feliz. — Delilah faz uma pausa. — Por favor, me deixa ir.
Aidan passa longos minutos sem dizer nada. Fico encarando-

o, buscando por uma resposta nem que seja corporal.

Estou esperando que diga que me entende, que no meu lugar,


também estaria confuso e vivendo em um looping de incertezas.

Estou sempre me perguntando se a Delilah de antes faria uma


coisa ou outra; o que ela escolheria.

Então comecei a perceber que aquela Delilah morreu junto

com minhas memórias. Camada por camada, fui me desprendendo


da ideia de que precisava voltar a ser aquela garota.

Não preciso. Tenho uma vida inteira de oportunidades.

Quero me apaixonar de novo e sair com pessoas diferentes.

Experimentar comidas novas e decidir qual é minha favorita.

Quero escutar músicas novas até meus ouvidos zumbirem e

ter pela primeira vez contato físico com um cara que me faça subir
pelas paredes. Não quero ser a garota de que todos falam e não

quero me apegar a ideia de que preciso ser ela.

Gravity tem um percentual de culpa nessa história.


Desde aquela noite em que Aidan e eu decidimos “terminar”

nosso relacionamento, coloquei uma meta: não perder nenhuma


chance de me conhecer. E não perdi.

Fui em todas as festas que fui convidada, me aprofundei nos


estudos e me dediquei ao trabalho na biblioteca.

Fui à encontros. Tenho um fraco por caras inteligentes e que

sabem disso, que o QI privilegiado é sexy e me atrai. E Gravity


tratou de estar lá para me “ensinar” como ser uma garota livre na

faculdade.

E ela foi muito consistente em dizer que eu tinha que parar de

tentar ser a antiga Delilah.

Não escondi que estava me divertindo. De ninguém, nem


mesmo dele. Acho que se naquele dia Aidan não tivesse levado a

conversa para um ponto final entre nós, teria continuado tentando

ser a garota de quem ele tanto fala. Mas nós dois estaríamos

vivendo uma mentira.

Apesar de Gravity apoiar a minha decisão de curtir um pouco,

ela não adorou a ideia de Aidan e eu termos decidido isso quando

ele estava bêbado.


As emoções, querendo ou não, ficam um pouco conturbadas.
Então não estou culpando-a por ter me prendido com ele aqui.

Acho que nós dois precisamos dessa e talvez milhares de

outras conversas até que consigamos ficar bem. Mesmo tendo

amigos em comum, nós acabamos agindo na presença um do outro

como se nada tivesse acontecido.

Como se ele, de alguma forma, não tivesse mexido comigo.

Porque ele mexeu e não vou ser hipócrita de mentir na cara dele.

Apesar de sair com outros caras, ainda não encontrei ninguém

que me faça sentir daquela maneira; com milhares de borboletas no

estômago e não só isso. O toque de quem se importa de verdade,

que não está só me beijando por ser prazeroso, mas porque ele
quer que eu me sinta como única.

Ele fez o mesmo com Olivia. Então não é algo que só aconteça

comigo quando meu corpo está sob seu toque. Vi tudo; a maneira

como Olivia arquejou depois que se afastaram, como se a partir de

agora, fosse ter um puta trabalho para conseguir alguém que beije
como Aidan Lynch.

E eu entendo.
Aidan se levanta de súbito e se encaminha para a cozinha,

onde começa a mexer nos armários.

— Aidan?

Ele não vai dizer nada?

— O que está fazendo?

— Tem uma frigideira? Estou morto de fome.

Ele não vai dizer nada.

— Primeira porta à direita. — Mostro com o indicador. —


Aidan?

— Dannya está mesmo grávida. Você acha que pode me

ajudar nisso?

— Te ajudar a organizar o jantar? — Aidan faz um meneio com


a cabeça e coloca a frigideira no fogão, indo para a geladeira para
pegar os ovos. — Posso te ajudar. Mas você sabe que não precisa

fazer isso, né?

— Querendo ou não, o bebê é parte da família agora.

Rio.

— Estou falando do café. — Gesticulo para os ovos que está


adicionando à uma tigela.
— Eu disse que estou com fome. — Ele sorri de volta, então

talvez não esteja tão bravo. — E só consigo pensar direito depois


que não estiver mais com fome.

— Uma hora ou outra nós teremos que conversar.

— Não estou fugindo do assunto.

Ele para de se mover para pegar o avental de Gravity. Tem até


o nome dela estampado próximo ao peito; bordado com lantejoulas

azuis e vários corações pretos em volta. Foi um presente da


Mackenzie, de quando ela se mudou para o apartamento de Bryan.

— Não está?

— Não.

— O que significa tudo isso então? — Debruço sobre o balcão


e apoio o pé na banqueta para me sentar.

— Que estou com fome — insiste, com uma risada fanha.

— Tudo bem então. Vou tomar banho.

Me levanto, Aidan murmura um tudo bem baixinho e me


afasto.

Ele coloca música no aplicativo do Spotify da tevê e acho que


é um jeito muito sutil de dizer que não quer nem mesmo pensar no
assunto.

Pelo menos não agora.

Volto para a cozinha vinte minutos depois e Aidan já pôs os

ovos mexidos, as torradas e o suco na mesa.

Está sentado à cabeceira, zapeando pela tela do seu celular.


Seus dedos são ágeis e posso apostar que está digitando uma
mensagem.

Estou com uma toalha seca e limpa nas costas porque meus

cabelos estão molhados e o secador queimou.

Aidan faz um estudo minucioso da minha aparência enquanto


puxo a cadeira para me sentar; um cropped fino de manga e uma
calça xadrez roxa.

— Que foi? Não vou me arrumar pra ficar em casa. —

Sorrindo, pego uma torrada do prato e dou a primeira mordida.

Ele pigarreia, como se tivesse percebido como está me


encarando.

Coloca o aparelho na mesa e começa a comer.


É um silêncio bem estranho. Não é como se realmente
estivéssemos sendo forçados a ficar trancados aqui dentro; uma
ligação para um chaveiro resolveria todo o problema, mas acho que

não estamos pensando em fazer isso.

A ideia de poder resolver as coisas com Aidan me agrada.


Talvez não da forma como ele gostaria, mas nunca quis magoá-lo.

Nunca quis me tornar a vilã da nossa história e tornar os seus


sentimentos minha arma.

Porque, caramba, ele se colocou na frente de uma caneca de

porcelana por mim. Ele me salvou do meu pai e não foi a primeira

vez.

Será que devo contar a ele que me lembrei do dia no Anarchy?

Que meu pai apareceu no meu expediente e Aidan chegou a


tempo de me ajudar. Por mais que ele tenha me contado tudo,

lembrar é ainda melhor.

Mordo o lábio inferior, optando por não dizer nada ainda.

Não é novidade ter flashes e sonhos com ele, mas, às vezes,

fico confusa se são reais ou não. Só consigo me situar porque Aidan


me contou tudo que podia desde quando voltei para Humperville.
— Sinto muito — Aidan corta o silêncio, observo seus dedos

ornamentados com os anéis chamativos, se moverem de modo


inquieto. — Me desculpa por ter feito você se sentir daquela

maneira. Por ter te pressionado e ter feito pensar que precisava

ser… você sabe. Aquela Delilah. — Ele acrescenta com um sorriso


triste.

— Me desculpa por ter dito que ia tentar, quando no fundo

sabia que não conseguiria. Aidan, eu nunca vou te magoar de


propósito — digo, e sou honesta. Nossos olhos estão cravados um

no outro. — Não quero te magoar. Não tenho certeza de quase

nada, mas disso eu tenho. Não quero que você sofra mais por
minha causa. Se tiver algo que possa fazer, eu quero. Juro que

quero. Contanto que isso não inclua um namoro nessa história.

— Ter você por perto é suficiente — diz, sucinto. — Ver você


feliz, depois de ter te visto entre a vida e a morte, é suficiente pra

mim. — Ele faz uma pausa, refletindo sobre as próximas palavras.

— Eu te amo. — Prendo o ar como se Aidan tivesse pegado meu


coração com as mãos e guardado para si. — E porque te amo,

estou pronto pra te deixar ir.

Tem tanta dor e renúncia nessa frase que, por dentro, estou

em pedaços.
Pensei que precisava escutar isso dele, mas ouvindo, só sinto

mais angústia.

Ele vai mesmo me deixar ir. Contrariando todos os seus


sentimentos, ele vai desistir de mim.

Não reconheço a princípio a música que está tocando, mas é


agitada. Não combina com o ar triste que tomou a mesa, mas a letra

de Told You Soo parece tão propícia.

— Promete que vai fazer de tudo pra ser feliz? — peço a ele,
ignorando a umidade nos meus olhos.

— O cara mais feliz do mundo.

— Por favor, você pode também parar de me tratar como uma

estranha? Sei que não é muito comum ex-namorados serem

amigos, mas é muito estranho pra mim você ser o único que não
converso direito.

— Certo, vou parar de te tratar como uma estranha. — Aidan


ri. Que risada boa. — Acho que pode não ser comum, mas a gente

sabe lidar bem. Vê Gravity e Ashton?

— Eles não namoraram.

— Mas foi intenso, o que é a mesma coisa. — Aidan dá de

ombros com indiferença e termina de comer. — Eles não vão


admitir, mas todo mundo sabe que foi.

Sou a única que sabe tudo que aconteceu em Paris.

Aperto os lábios, para evitar um sorriso que denuncie.

Ashton foi muito categórico ao dizer que não me contaria sobre

Paris, até que um dia, ele bebeu demais e sim, aproveitei da sua

fragilidade para obrigá-lo a me contar.

Gravity nunca me contaria, mas Ashton é outra história.

— Posso te dar um abraço? — Retraio os ombros,

escondendo o pescoço no meio do cropped.

Você pode me abraçar?

Aidan, sem dizer nada, afasta a cadeira para se deslocar e

faço o mesmo.

Ele me olha, de braços abertos. É mais alto que eu muitos

centímetros e ao ser aconchegada por seus músculos é quase

como viver dentro de um casulo que cheira a perfume masculino


forte e marcante.

Afundo o rosto em seu peito, Aidan afaga meus cabelos


molhadas. Sinto sua boca tocando o topo da minha cabeça,

enquanto me aninha dentro de seu abraço.


Ele suspira, dessa vez, sem esconder a dor que sente por não

ter acontecido como ele gostaria.

Nunca é errado se priorizar.

Não posso estar cometendo um erro.

Nosso momento é interrompido pelo toque do seu celular.

Estreito os olhos para a tela e flagro o nome da minha mãe nela.

Fungo e rapidamente me afasto para limpar o rosto, nem tinha


me dado conta que estava chorando.

Aidan me estuda e pondera se deve atender ou me confortar.

— Pode atender.

Ele não repensa, pega o celular e atende à ligação.

— Oi, Maya.

Fica em silêncio para escutá-la.

— Entendi. Aconteceu uma coisa então…

Ela o corta.

Ele bufa para ela.

— Inferno — murmura, coçando a testa. — Tudo bem, vou

ligar para o chaveiro e resolver um problema aqui. Consegue

segurar as pontas até eu chegar? Devo levar em torno de uma hora.


Minha mãe fala mais alguma coisa para Aidan, que o faz coçar

a testa e suspirar de desânimo.

Ele parece tão adulto lidando com assuntos de trabalho.

Totalmente diferente do cara que sobe no palco com a The

Reckless, que tem uma postura mais despojada, usa calças


rasgadas e jaqueta de couro.

Entrelaço meu tronco enquanto espero que termine.

— Conhece algum chaveiro que chegue aqui em menos de

cinco minutos? — ele indaga para Maya, mas está olhando para

mim.

Corro para a mesa de centro da sala para pegar o celular e

digito uma mensagem para Gravity.

Ela não responde porque está no trabalho e Effy com certeza

está com Reed. Merda.

Entro na internet e procuro pelo chaveiro mais próximo.

Encontro um e faço a ligação.

Aidan me escuta conversar com o homem no telefone e ele me

garante que chegará ao apartamento no máximo em dez minutos.

— Consegui um. Ele vai levar um tempo pra chegar aqui, mas
vou para aí assim que sair.
Minha mãe deve estar perguntando o que houve, porque Aidan
me olha articulando a frase “ela quer saber o que está acontecendo”

e faço que não com a cabeça.

— Perdi as chaves do apartamento — mente. — Vou desligar.

Te vejo em uma hora.

Sei que minha mãe se tornou mais do que uma advogada para

Aidan. Ela passa tanto tempo falando do The Icarus e no quanto

está apaixonada pelo projeto que Aidan criou, que os assuntos de

nossas ligações giram em torno disso.

Minha mãe adora trabalhar com Aidan e gosta de poder estar à

frente dos assuntos jurídicos. É como se, pela primeira vez, tivesse
o controle sobre algo que meu pai não pode interferir.

Conheço essa sensação como ninguém.

Mas, apesar disso, nós não estamos nos vendo com tanta

frequência. Disse a ela, depois daquela noite da pizza, que


precisava de um tempo para digerir todas as informações que tenho
recebido de Seb e Thomas. Sei que em parte, Maya não concorda

com a minha distância, mas está respeitando minhas escolhas.

Assim que Aidan desliga o telefone, ele olha para conferir se


estou bem.
— Vocês ainda não conversaram, né? — Nego, balançando
veementemente a cabeça. — Tem que falar com ela, Delilah.

— Eu vou — garanto a ele.

Aidan assente para mim e começa a tirar os pratos da mesa.

— Aconteceu alguma coisa no parque?

— Um dos brinquedos não está funcionando. Fizemos vários


testes antes da inauguração e não tivemos problemas. — Ele coloca
a louça suja na pia. — Mas hoje a roda gigante, que é uma das

atrações principais, não está funcionando. E Maya está tentando


controlar os repórteres curiosos na porta, porque afinal, sou o cara

que foi preso por agredir o prefeito. — Engulo em seco. — Não é


culpa sua — jura, se recostando à pia. — Foi uma merda o que
rolou, perdi a cabeça.

Não conto a Aidan que vi todas as reportagens que falaram

sobre o assunto. Meu pai sumiu com tudo sobre a noite de 28 de


novembro, mas tomou cuidado para manter tudo que fazia de Aidan

um vilão. E a mídia colocou Thomas como o bom homem que só


quer proteger sua filha.

— E Mackenzie conseguiu convencer a editora chefe do Font


News a fazer uma matéria sobre o The Icarus na edição do próximo
mês. Tenho uma entrevista com ela essa semana — Aidan me
conta, enquanto termina de organizar toda a bagunça que fez
enquanto preparava o café. — Angel está lá com os fotógrafos para

fazer algumas fotos para a revista! — Angel é a editora chefe de


Mackenzie. Escuto muito sobre ela, como Angel é perspicaz e

astuta.

— Então — pondero, mordendo o lábio inferior sob o escrutínio


de Aidan ao perceber meu desconforto —, acha que podemos ficar
bem? — finalizo, quando sua expressão se torna terna e

compreensiva. Não quero piorar as coisas. — Sem a parte da


estranheza, de agirmos como desconhecidos e tudo mais.

— Só não me pede pra ser seu melhor amigo. — Aidan sacode

as mãos na pia para se livrar do excesso de água depois de lavar a


louça. — Já é demais pra mim. — Ele sorri, está escondendo algo
por trás desse olhar sagaz.

— Jamais faria uma coisa dessa. Ash com certeza morreria de


ciúme da ideia de ter alguém competindo esse posto com ele. —
Rio, brincalhona.

— Ótimo, sendo assim nós vamos ficar bem.


Aidan começa a se direcionar para a porta, onde pendurou sua
jaqueta e deixou as chaves do carro.

Envolvo com os braços minha cintura, me agarro à barra do


cropped e fico parada na mesma posição.

— Te vejo mais tarde na inauguração?

Faço que sim com a cabeça.

Nós esperamos por mais alguns minutos até que o chaveiro


chegue. Ele é rápido em abrir a porta.

Descobrimos que ela emperra tanto porque está enferrujada e

ele sugere a troca da fechadura. Concordo e Aidan sai para o


parque.

Penso em ligar a tevê, em um canal informativo da cidade,


para saber o que estão falando do The Icarus, quais são as

expectativas dos moradores de Humperville para o novo


empreendimento.

Fico ansiosa esperando que o chaveiro termine o trabalho e

me entregue as novas cópias da chave, enroscando os dedos uns


nos outros. Assim que termina e faço o pagamento para ele, corro
para a sala atrás do controle da tevê.
Até então, ainda estava no aplicativo do Spotify, mas sou

rápida para mudar o canal e assim que faço, me arrependo. Thomas


é quem está todo desenhado na tela plana da tevê, com aquele
sorriso matreiro, mas que por trás, conheço todas as más intenções.

Não tenho mais marcas daquele dia que me senti enjaulada


por ele no seu clube, mas ainda sinto a dor dos seus dedos
afundando na minha pele.

Com isso, levo a mão para massagear a região. Ele está na


frente da nossa antiga casa, vários microfones apontados em sua
direção. A atenção que ele gosta, voltada para ele.

Nunca entendi porque Thomas não quis deixar nossa antiga

casa depois do seu primeiro mandato. Ele poderia viver em uma


região isolada, em uma casa maior e com mais segurança. Mas

não, ele continuou ali.

Olhando para ele, tenho minhas apostas e por conhecê-lo,


posso dizer que sei o motivo.

Meu pai, sendo bem honesta, pode abrir mão de alguns luxos

se isso for lhe fazer ganhar em outras partes, como por exemplo,
vender a ideia de que ele não se importa com uma casa maior ou
mais segura.
Ele foi o único prefeito que preferiu se manter na casa própria,
ao invés de se mudar, isso lhe garante, sem sombra de dúvidas a
fidelidade de alguns eleitores.

— Estou feliz com o novo empreendimento de Humperville.


Apesar de se tratar de um jovem que quase tirou a minha vida. —
Não controlo o meu revirar de olhos e bufo de frustração, lançando o

corpo contra o encosto. — É um bom sinal que garotos como Aidan


estejam determinados a tornar nossa cidade um lugar ainda melhor.
O The Icarus gera emprego, atenção dos turistas por se tratar de um

parque diferente de muitos outros e também da mídia externa.


Desejo sucesso a Aidan Lynch e que ele tenha mais
responsabilidade que seu pai. — É claro que ele abriria uma brecha

para ofender alguém da família Lynch.

— Poderia dar uma declaração sobre a reabertura do Purple


Ride, senhor prefeito? Depois de denúncias que o lugar recebeu.

Meu pai olha para a câmera e desatando um suspiro denso,

diz:

— Quero prometer a todos os cidadãos de Humperville, que


confiaram nossa amada cidade a mim, que nenhum crime será

acobertado ou esquecido. Não importa qual o nível de relevância do


autor nesta cidade. Se Darnell Lynch tiver algo a esconder, nossos
policiais vão descobrir. — E ele finaliza, com um sorriso tão tranquilo

e confiante que me enjoa.

Só me pergunto porquê que meu pai persegue tanto Darnell e


sua família.

— Caramba, dá um sorriso, Delilah! — Willa reclama, a


câmera do celular de Gravity apontada para nós quatro; Mackenzie,
Effy, Gravity e eu.

Estamos na frente do The Icarus e Willa está tentando tirar


uma foto nossa com a fachada do parque.

A conversa do meu pai com os repórteres me deixou


apreensiva e não parei de pensar nisso pelo resto do dia.

Ainda estou tensa, esperando que ele apareça a qualquer


instante e estrague essa noite. Não deveria me importar, Aidan não
é uma preocupação minha, mas cada carro luxuoso que passa na

rua, em frente à entrada do parque, faz com que as moléculas do


meu corpo se agitem.
Forço um sorriso e o flash da câmera dispara. Gravity dá
pulinhos de alegria rumo a Willa, para pegar o celular.

— O que vocês acham de tiro ao alvo primeiro? — Paxton


indaga, colocando o braço no de Willa. — Acho cedo para a Fun
House.

Nós fomos privilegiados de conhecer a Fun House antes de


estar aberta ao público, mas é a única atração que não estou
ansiosa para participar.

Ouvi dizer que aprimoraram ainda mais a mansão


assombrada, depois de algumas sugestões dos convidados da Willa
no ano novo.

Paxton sai puxando Willa para o parque adentro. Ele tem saído

cada vez mais com ela, principalmente depois de Faith e Bailey


anunciarem que estão voltando para a cidade dos seus pais.

Estamos sob o letreiro azul de néon do The Icarus. De dez em

dez segundos, um tom de azul mais escuro acende em torno das


letras e pisca repetidas vezes, iluminando toda a calçada do parque.

Aidan construiu um estacionamento enorme no terreno vazio

ao lado e está lotado. A divulgação de Willa e Paxton no campus foi


ensurdecedora.
O parque foi cercado por muros e a cada dois metros, no topo,

há um desenho triangular, que lembra um castelo da era vitoriana.

Aidan reforçou a segurança com cercas elétricas e alarme. Há


guichês para a compra de ingresso na entrada. Você paga um valor

único e pode apreciar as atrações.

Tem um cartaz enorme da The Reckless pendurado na


entrada, indicando que são a banda de atração da noite.

Os shows com banda ao vivo ficaram fixos aos sábados e sem

ter entrado dá para ver que o The Icarus é um sucesso.

Não sei se a intenção do meu pai mais cedo foi prejudicar a


inauguração, se foi, o estacionamento lotado e os pontos de venda

com filas quilométricas apontam que não se importam com as


declarações do prefeito.

— Merda, nós não devíamos ter comprado o ingresso antes?

— Effy balbucia, analisando a fila para comprar os ingressos de


entrada. — O que é que nós vamos fazer?

— Aidan deu ingressos para a Olivia — Mack explica,

mordiscando o lábio inferior enquanto olha por trás dos meus


ombros, como se para conseguir enxergar.

Ela fica na ponta dos pés, se apoiando em mim.


— Ela ia tentar uma troca de plantão, mas não era certeza —
continua.

— E se ela não conseguir? — Gravity encrespa a testa.

Gravity não falou muito quando chegou em casa.

Só disse que precisava fazer alguma coisa a respeito e que


nos forçar a ter uma conversa foi a melhor ideia que teve, já que,
nas tentativas de me convencer a falar com Aidan, falhou. Não fiquei

brava com ela. Acho que teria ficado se o seu plano tivesse saído
pela culatra, mas como acabamos nos entendendo, vou perdoá-la.

— Então, tenho que ligar pro Aidan. — Mack ri.

— Por que ele não te entregou os ingressos? — Effy


questiona, as mãos na cintura como se estivesse brava.

— Não sei. Acho que eles se encontraram à tarde.

— Os dois estão saindo? — Gravity solta a pergunta que ficou

travada na ponta da minha língua.

Depois de ontem, não tive dúvidas. A forma como ele a beijou


e como Olivia reagiu não deixou vestígios para ninguém questionar

o novo relacionamento deles, ainda assim, uma parte de mim


acreditava que não.
É por esse motivo que às vezes me sinto a antiga Delilah. A
que sente medo, é insegura e quer ser a primeira no coração das

pessoas que estão à sua volta, sem se preocupar em dar nada em


troca.

Eu disse com todas as letras para Aidan que não tem

nenhuma chance de ficarmos juntos, então luto para ser fiel às


minhas palavras.

Não quero machucá-lo. Essa é a frase de incentivo que repito


para mim mesma todas as vezes que penso, sequer por um

segundo, em interferir na vida dele para colocá-lo na minha, que é


só um punhado de bagunça.

— E o Vance? Você o convidou? — Effy lança a pergunta para

mim.

Vance é um cara legal e me faz rir. Inteligente e bonito. Mas


ele é do tipo que prefere livros e estudos à uma noite de sábado

comigo.

— Convidei, mas ele quer estudar, já que saímos ontem.

— Reed disse que talvez apareça mais tarde, mas os pais dele
estão na cidade e ele não quis deixá-los em casa sozinhos. — Se
Olivia não chegar logo, vamos perder o começo do show! — Ela

bate o pé, chateada.

É o mesmo show todas as vezes. Em uma ocasião ou outra a


The Reckless adiciona uma música nova no repertório, mas, na
maioria das vezes, repetem.

— Cheguei! — Olivia surge pela direita, arfando como se


estivesse em uma maratona. — Desculpem o atraso. — Ela começa
a vasculhar a bolsa atrás dos ingressos e retira quatro envelopes,

com o carimbo do The Icarus na abertura.

— Espera. — Gravity observa, da mesma maneira que fiz. —


Está faltando um! — Ela tira, de forma delicada, os ingressos

embrulhados em envelopes de carta. — Nós estamos em cinco.

Olivia parece estranhamente desconfortável enquanto encara


os envelopes.

— Tem o nome nos envelopes — ela esclarece, e em questão

de segundos todos foram distribuídos e no fim, sou a única sem um


ingresso.

— Ele deve ter se esquecido — Mack tenta explicar para mim,

não sei se fui transparente e deixei minha chateação vir à tona. —


Aidan te entregou quantos envelopes, Olivia?
— Não contei na hora. Só peguei e coloquei na bolsa. Estava

no meu horário de café no hospital quando ele veio me ver.

Significa que Olivia estava em horário de trabalho e que Aidan


foi até lá em algum momento entre aparecer no The Icarus e voltar

para casa. Isso me magoa em um grau que não deveria. Decidi que
não quero ficar com ele. O mandei embora todas as vezes e Aidan
só fez todos os meus desejos desde o primeiro momento. Não

posso ficar brava por ele ter se encontrado com ela.

— Pode dar mais uma olhada na sua bolsa? — Effy pede,


gentilmente, sem hesitar, Olivia começa a vasculhar a bolsa mais

uma vez.

— Não tem nada aqui. Ele não me entregou mais nenhum! —


Fecha a bolsa e nos encara. — A gente devia ligar pra ele —

sugere, e Mackenzie começa a vasculhar a própria bolsa atrás do


seu celular.

Cruzo os braços enquanto espero.

Gravity aconchega as mãos nos bolsos da jaqueta de couro,

um short jeans rasgado na coxa e um cropped preto. Ela fica na


ponta dos coturnos pretos e volta a pousar com os calcanhares no

chão, demonstrando impaciência.


Effy está usando longos brincos com melancia cortada nas
pontas. Os cabelos vermelhos estão soltos e mais compridos – o
cabelo dela tem crescido cada vez mais, lembro que na época da

escola Effy preferia o cabelo curto –, foram ondulados pela


chapinha, provavelmente.

O gloss tem brilhos, que você consegue ver perfeitamente

quando ela move os lábios num sorriso.

Está usando um vestido tipo camisa, longo, e a jaqueta de

couro por cima.

Os tênis brancos começaram a manchar com a terra seca do


passeio.

— Ele não atende. — Mackenzie expira e repete a ligação três


vezes.

Mack é a única do grupo que sempre aposta nas meias calças


arrastão. Faz parte da sua identidade e isso, desde o colégio. Está
vestindo um blusão cor-de-rosa com os dizeres “Feelings” em azul,
por cima, colocou uma jaqueta de jeans adornada por bottons de

bandas, filmes e seus livros favoritos. E está usando coturnos


pretos.
Sempre aposto no básico. Escolhi vestido de poá, com
amarração nos ombros. Decote reto e longo. Ele é todo liso até
chegar à altura das coxas, então ele começa a ficar um boho

plissado até os calcanhares. Ele é branco, estampado por florzinhas


amarelas. Coloquei All Star branco e jaqueta jeans por cima.

— Que merda! — Mack vocifera ao terminar a ligação. — Vou


ligar pro Bryan — diz, com a voz raivosa, e até se afasta para que

não vejamos como está brava.

— Se você quiser, pode entrar com meu ingresso. Assim que


vocês encontrarem o Aidan, diz que estou aqui fora — Olivia

propõe, e não vejo nenhum traço de dúvida rondando seu rosto


pálido. — É sério, não me importo de ficar aqui mais alguns minutos
— afirma, nem um pouco pesarosa.

Ela sabe que Aidan e eu já namoramos. A minha presença ou


a ideia de que eu possa atrapalhar o recente relacionamento deles
não a afeta em nada.

— Vamos fazer ao contrário, eu fico aqui e vocês entram —


declaro, esperando a reação de Gravity que está prestes a gritar.
Mas então, com um respiro tranquilo, faz que sim com a cabeça. —
Vou ficar na fila pra comprar um ingresso, caso não encontrem com
ele, está bem? — Effy já está fazendo um aceno para Mackenzie,
que está em uma ligação do outro lado da rua. Nem vi que ela tinha
ido para tão longe.

— Combinado, mas fica com o celular na mão, caso a gente


precise falar com você — Gravity profere, sua mão aperta
delicadamente meu pulso e pego o celular na minha bolsinha
pendurada no ombro.

— Com ele em mãos. — Mostro para tranquilizá-la.

— Está bem. Nos vemos daqui a pouco.

— Até! — Me despeço delas.

Mackenzie finaliza a ligação e se encontra com as outras. Com


certeza estava falando com Bryan. Ele pararia qualquer
compromisso para atendê-la.

Sei disso porque nas raras ocasiões que Mack liga quando ele
está comigo, para me ajudar a treinar a direção, ele me obriga a
parar para atendê-la. E já o vi fazendo outras vezes, quando
estamos na casa do Ashton.

Vou para o fim da fila.

Estou mexendo distraída no celular, escutando a música


Perfect Places de Lorde que está vindo de dentro do The Icarus.
Cantarolo baixinho e inconscientemente, estou movendo o
corpo no ritmo da música.

E é quando recebo uma mensagem, de um número


desconhecido, porém, o conteúdo não deixa de me chamar a
atenção.

Se esse número for de Delilah Linderman, por favor, responda


com um S.

S.

Tenho algo para te contar, que te interessa.

Quem é?
N

E importa?

Em seguida, recebo fotos. São transações que estão com as


siglas A. A. F. O nome não é estranho, tenho certeza que já o ouvi
em algum lugar, mas a princípio não reconheço.

É sobre o seu pai e toda a porra da sujeira de Humperville.

Como conseguiu meu número?

Posso acabar com o seu pai. Posso inocentar Darnell Lynch. E

posso provar quem foi que mandou Jev Adams atirar nele.

D
Por que está me mandando mensagem?

Darnell não é o pai do seu namorado?

Aidan e eu não estamos mais juntos.

E o número desconhecido não volta a me enviar mensagens,

pelo menos, não nos minutos que seguem.

Chego a enviar vários pontos de interrogação, mas não tenho


mais nenhum retorno.

A noite acaba de ficar melhor quando a SUV do prefeito de


Humperville estaciona em frente ao The Icarus e Thomas sai dela,
abotoando o blazer com elegância e, como sempre, o nariz

empinado mantendo o ar de superioridade.


Meu pai não me vê quando atravessa os seguranças do The

Icarus. Estou a uma distância segura dele, mas não deixo de ficar
arrepiada com sua presença.

Desde aquele dia, nunca mais o vi ou tentei falar com ele,

embora Thomas esteja esperando o momento em que vou correr


para seus braços – como ele tem certeza que farei.

Escuto cochichos ao redor. Os universitários estão apreensivos


com a presença do prefeito no The Icarus. Não é comum que ele
apareça em cada novo negócio que abre em Humperville, mas

acontece.

Volto a mirar a última mensagem que recebi do número


desconhecido e decido que Aidan precisa saber dessas mensagens.

Nós dois estamos envolvidos nessa história tanto quanto nossos


pais.

Fico ansiosa, depositando o peso do meu corpo de uma perna

para outra, até que a fila finalmente começa a andar.


Já foram dez minutos ou mais desde que as meninas entraram

no The Icarus. Ainda não recebi nenhuma mensagem ou ligação,


então acho que não encontraram Aidan.

Ele não ter deixado meu ingresso com Olivia me deixa um


pouquinho chateada.

Vou entrar em contato de novo.

Recebo a mensagem minutos depois e a encaro, mas decido


não responder mais.

— Delilah? — Viro-me em direção a voz, cinco pessoas atrás

de mim. — Oi! — Brooks acena, com um sorriso.

Já não o vejo há um tempo. Ainda converso com ele, mas ouvi


dizer que Brooks estava saindo com alguém, então acabamos nos

distanciando.

— Ei, quanto tempo? — Faço um aceno para ele vir até mim,

ele dá uma olhada para nas pessoas, para ter certeza de que não

vão se importar. — Pode deixar que compro um ingresso pra você


— prometo a ele, que sorri em agradecimento. — O que você anda
fazendo? Não te vejo faz um tempão!

— Desculpa, fiquei ocupado com a oficina. Como estão as

coisas?

— Você sabe. Esquecendo algumas coisas, me lembrando de

outras. O de sempre. — Dou de ombros. Estou aprendendo a levar


mais na suavidade essa coisa de ter perdido as memórias e menos

como um castigo do universo. — E você? Ouvi Bryan dizer que

estava saindo com alguém.

— É, estava. Mas não deu certo. — Brooks acomoda as mãos

nos bolsos do jeans, meio sem graça. — E você?

— Saindo com alguns caras — enfatizo, em tom de

brincadeira.

— Jurava que você e Aidan iriam acabar voltando.

— É? Por quê?

— Ah, sei lá, o que vocês tinham era diferente. Vocês eram

muito fiéis um ao outro. Não só por causa do relacionamento e tudo

o mais, até mesmo antes disso. Você queria ficar com ele e ele

queria ficar com você, tinham todos os problemas, as diferenças,

mas era muito pequeno perto do quão grande vocês ficavam


quando estavam juntos. Sabe aquela coisa de se tornar invencível

ao lado de alguém? Vocês eram assim.

Brooks nunca havia me falado de Aidan, o que corrobora mais

uma vez para a teoria de que esse homem diante de mim estava
mesmo tentando se aproximar.

— Via vocês e ficava me perguntando porquê nunca consegui

fazer você sorrir daquele jeito. — Brooks sorri em tom brincalhão e


não sei, escutá-lo dizer isso é diferente de quando escuto de Mack

ou Effy.

É um ponto de vista de um homem que esteve comigo

também, que me amou, mas admite que ele não foi para mim o que
Aidan foi.

Talvez fosse apaixonada por Brooks, mas meu coração só

entreguei mesmo para Aidan e todas as pessoas sabem disso.

Aidan é diferente dos outros.

Um diferente bom.

— Eu…

Sou cortada por uma ligação.

Quando olho na tela, vejo o nome de Aidan.


Passei o mês todo acreditando que nunca mais veria seu

nome na tela do meu celular.

— Oi! — Atendo, olhando para trás, como que para garantir


que ele não está a poucos passos de mim.

— Ei, foi mal. A Olivia acabou de me falar. Seu ingresso ficou


na Diamond.

Consigo respirar aliviada ao escutar isso. Eu poderia comprar

um ingresso, não me importo, mas todas ganharam e não ser parte


desse grupo seria como se uma mágoa gigante ainda estivesse nos

separando.

— Devo ter deixado cair quando fui ver Olivia mais cedo. Onde

você está?

— Estou na fila, prestes a comprar meu ingresso. — Olho para


as pessoas que ainda estão na minha frente. — Posso comprar, não

tem problema.

— Estou quase chegando aí. Me dá um minuto.

— Tudo bem.

Nós desligamos a ligação e Brooks está me encarando.

— É disso que estou falando. Você está sorrindo por causa de


uma ligação boba. — Brooks se diverte com a observação e eu
abaixo a cabeça para esconder o rosto. — O que rolou? Vocês não
estão juntos?

— Não. É complicado. Meio que quero aproveitar a liberdade.

— Delilah, te conheço há um tempo. Você nunca quis


aproveitar a liberdade e sendo bem honesto, que graça ela tem?

Festas, você fica com uma pessoa diferente a cada semana, se


quiser, é claro, e depois começa tudo de novo até que fique cansada
de dizer não para relacionamentos, quando, na verdade, você quer

ficar livre até encontrar uma pessoa legal. Sua pessoa legal pode
ser o Aidan.

— E se não for?

— Só você pode dizer, com o tempo.

— É isso que estou fazendo. Buscando a minha pessoa legal


— ironizo o que ele disse, mas acho que entendo o que Brooks quer

dizer.

Tenho minhas inseguranças que preciso lidar e traumas para

cuidar. Esse é o meu maior incentivador para ficar sozinha. Os


traumas. Eles podem machucar Aidan e a mim mesma. Podem

machucar Vance e os outros caras com quem estive saindo.


Posso machucar as pessoas de um jeito irreversível. Daquele
que um pedido de desculpa arrependido não será capaz de curar.
Palavras de pessoas traumatizadas deixam marcas permanentes na

vida de pessoas como Aidan. E não quero ser uma marca ruim na
vida de ninguém.

— Delilah! — Escuto sua voz ao longe, como um uivo no meio

da multidão.

Aidan está parado próximo à entrada. O peito sobe e desce em


cadência, tentando recuperar o fôlego de uma corrida até ali.

Ancora as mãos na cintura; os cabelos platinados estão

bagunçados como se os dedos o tivessem puxado.

Está usando uma calça jeans de lavagem preta, uma camiseta

da banda Scorpions. A jaqueta de couro por cima, cobrindo seus


braços firmes e os ombros esguios.

Ele faz um aceno para mim e Brooks, nós dois nos

deslocamos em sua direção.

— Não tive tempo de entregar o seu. — Ele estende um

ingresso para Brooks também. — Obrigado por ter vindo hoje.

Olho para ambos, confusa.


— Aidan me ligou hoje para ver o problema da roda gigante.

Que bom que ajudei, cara. — Eles se cumprimentam com um


abraço meio desengonçado, mas me tranquiliza saber que estão se

dando bem.

Brooks caminha na frente. Deve estar louco para se encontrar

com o resto da The Reckless.

— E o seu. — Aidan me estende um envelope branco,


timbrado com a logo do parque no fecho. Exatamente como o das

meninas, tem o meu nome com sua letra redonda e simétrica logo

atrás. Lanço um sorriso para ele. — Desculpa, não vi que tinha


ficado no carro.

As mensagens do número desconhecido continuam me

rondando. Não quero estragar a noite de inauguração do parque,


portanto vou contar a ele em outra ocasião.

— Por um minuto achei que nossa conversa de mais cedo


tinha sido um fiasco — admito, mordo o canto da boca e Aidan

direciona o olhar para meus lábios.

— Sou um homem de palavra. Se disse que estamos bem,


estamos bem — ele garante e me guia pelos ombros para

entrarmos.
O ingresso parece inútil agora. Quem está verificando os

ingressos de entrada não exige o meu só porque estou com Aidan.

A arena onde os brinquedos ficam, tem o chão instável por


causa das britas marrons, mas tem caminhos próprios para

andarmos dentro do parque. Ele é bem iluminado e um manto de

luzes amarelas, que criam uma espécie de túnel, estão sobre


nossas cabeças.

Todos os brinquedos do parque foram pintados em tons de


azul celeste, azul marinho, branco e preto.

O palco onde as bandas vão se apresentar todos os sábados

ficou no final do parque, quase encostado no muro que limita onde o


The Icarus termina. Ficando entre a Fun House e a montanha russa

mais alta e rápida que vi, que foi nomeada como O Voo de Ícaro.

Entre as barracas de tiro ao alvo, ficou posicionada a roda

gigante que carrega o nome de O Sonho de Ícaro.

Tem várias atrações como cabine fotográfica e um espaço com


três salas de karaokê, que Aidan nomeou como Ilha de Creta. E o

restaurante da Princesa Ariadne e quanto mais adentro ao parque,

mais percebo quão grandioso ele é. A parte íngreme, que eleva o


terreno, no topo ficou o carrinho de bate-bate que tem o nome de

Rei Mino.

Cada atração do parque, percebo, carrega um nome inspirado

na história de Ícaro, da mitologia grega.

Acho a ideia genial e não paro de sorrir, porque não sou a

única que está admirando o lugar como se fosse o próprio paraíso.

— O que você achou? — Aidan pergunta para mim, andando

de costas enquanto me estuda.

— Ficou incrível! — Abro a boca, ainda estupefata com tanta

beleza e conceito que o The Icarus carrega.

O carrossel que andamos no ano novo tem o nome de Dédalo.


E ele foi inteiramente restaurado para acompanhar as cores

temáticas do parque.

Avisto Olivia e as outras meninas perto do palco onde a The

Reckless irá subir daqui a pouco.

Os instrumentos já estão posicionados e acho que elas estão


perto para garantirem um lugarmelhor. Na maioria das vezes,

acabamos ficando distantes demais.

Bryan está agarrado à Mackenzie e Ashton conversa com

Gravity, Effy e Olivia. Antes de sermos notados, seguro Aidan pela


jaqueta e o puxo de lado, para garantir que não sejamos vistos.

A ideia era contar para Aidan que Thomas está no parque,

mas meu plano quase foge da minha mente quando Aidan evita
meu corpo de sofrer o impacto contra a lataria de uma das cabines

de fotografia.

Seu nariz fica a poucos centímetros do meu e sua boca

vermelha é um convite pecaminoso para eu jogar tudo para o ar.

Principalmente quando ele a umedece, usando a língua aveludada

que já conheço.

Meu peito arqueia em uma respiração densa, Aidan está

apoiando o braço dobrado sobre a minha cabeça, contra a parede


metálica da cabine, e a outra mão sustenta minha cintura.

Seu corpo esguio é uma ponte em declínio sobre o meu. Meus

olhos sambam de modo intercalado entre sua boca atraente e seus


olhos azuis extravagantes, que me desafiam segundo por segundo

a cometer um erro idiota pelo qual irei me arrepender.

— Qual o problema? — Aidan murmura, sem se afastar.

Eu tenho milhares nesse momento.

— É o meu pai. O vi entrar mais cedo.

— Sabia que ele viria. Você não?


— Acho que desconfiei, mas não achei que ele tivesse

coragem de aparecer.

— Seu pai não perde a oportunidade de chamar a atenção.

Seu nariz resvala no meu.

Não sei se está fazendo de propósito ou se está tentando não

se deixar levar, e por isso, é como se nossos corpos sofressem


magnetismo. Quero afastá-lo na mesma proporção em que me

penalizo por não me permitir sentir essa palpitação estranha que

nenhum outro homem conseguiu fazer com que eu sentisse, essa

sensação nauseante de ter borboletas no estômago ao mesmo ritmo


em que meus ouvidos não querem escutar o mundo externo porque

só querem abstrair a respiração de Aidan.

Essa mescla de sensações que só ele é capaz de me fazer

sentir está me enlouquecendo.

Posso me entregar a ele e estragar toda a ideia de


experimentar um mundo que acordei sem conhecer. Esse é o lado

que mais pesa na balança.

Com esse pensamento, apoio as mãos espalmadas contra seu

peito e o afasto.
O modo como seus ombros cedem é capaz de me fazer
estremecer por dentro. Nunca vou querer magoá-lo. E vou repetir

esse mantra até que meu egoísmo aceite que Aidan não é uma

opção para suprir minha carência.

— Quer tirar umas fotos? — proponho, vendo que ao afastá-lo,

o clima entre nós oscilou do quente para o frio em menos de dois


segundos. — Nunca estive em uma cabine fotográfica antes!

— Tenho que voltar. A The Reckless vai subir em cinco

minutos. A gente pode fazer isso depois do show? — devolve a


proposta.

— Sem problema.

— Beleza. Te vejo depois. — Ele se afasta e se une aos

outros.

Aidan não está namorando Olivia. Se estivesse, não teria

quase me beijado, mas não significa que não esteja tentando gostar
dela. Ele está. E pelo modo como sorri e olha para ela, e vice e
versa, não duvido que consiga. Ela é facilmente apaixonante. Tem

energia, determinação e é divertida.

Ela o segura pelo braço e rindo, o puxa para a roda-gigante, e


ele não recua como fez comigo.
Olivia sabe dos sentimentos de Aidan por mim e ainda assim,
ela se mostra decidida, que fará de tudo para que ele me veja
menos e a veja mais.

Como uma roda-gigante perto de uma minúscula cabine

fotográfica.

Effy está cantando That Way, de Tate McRae no karaokê.

O show da The Reckless como sempre foi um sucesso. Os fãs

que a banda fez na cidade são como os maiores apoiadores que


alguém poderia pedir, porque não importa onde ou quando, estão lá,

e cantam as músicas fazendo tanto barulho que a cidade toda


poderia ouvir.

Graças a Deus, Thomas não causou nenhum problema. Ele


chegou, ficou por um tempo, conversou com algumas pessoas e foi

embora.

Minha amiga está tentando me convencer a cantar a música


com ela desde que pegou os microfones, mas me mantive colada ao

sofá forrado em um tom de azul celeste. Ele é grande, foi


emoldurado para caber na parede inteira da sala, incluindo as
curvas da parede e em uma mesinha no centro, tem algumas latas
de cerveja abertas e comida que pedimos no restaurante da

Princesa Ariadne.

— Por favooooor, canta só essa comigo. — Effy para a música


no meio de novo, esticando o microfone para mim.

Minha última lembrança real é do dia do karaokê. Seb ainda


estava vivo. Ainda estava namorando com Bryan e minhas melhores
amigas significavam o mundo para mim. É um pouco parecido com

viagem no tempo. Começar e terminar na mesma cena, porém, em


momentos diferentes da vida.

Ashton e Mack insistem para que eu cante, e é só por causa

deles que me levanto e pego o microfone de Effy.

— Every time we talk, It just hurts so bad. Cause I don’t even


know what we are. I don’t even know where to start, but I can play

the part[12] — Effy canta, olhando para um ponto fixo da sala que não

identifico.

Talvez seja para Gravity ou Ashton, pode ser para Finnick ou


Aidan, porque estão todos alinhasos no sofá.

Ela aponta para mim, para que eu cante a próxima parte.


— We say we’re friends, but I’m catching you across the room.
It makes no sense ‘cause we’re fighting over what we do and there’s

no way that I’ll end up being with you, but friends don’t look at friends

that way.[13] — Subo os olhos para nossa pequena plateia, que se


resume aos nossos amigos. Aidan está olhando para mim. —

Friends don’t look at friends that way![14]

— Can’t even tell if I love or hate you more, you’ve got me

addicted and I can’t tell who’s keeping score.[15] — Effy fecha os

olhos e apoia uma mão no peito.

Repito o refrão. Aidan não desvia o olhar do meu nem por um


minuto e é como se a música se encaixasse no que estamos

fazendo.

Em como estamos lidando com esse relacionamento que não


começa nem termina. Que está corrompido pelo medo e

insegurança.

Effy canta novamente o refrão comigo. Dessa vez, Bryan tira


Mackenzie para dançar e consequentemente, Pax e Willa também
começam. Gravity e Ashton. Finnick, Aidan e Olivia são os únicos

que continuam sentados. Nenhum deles desvia os olhos de mim e


Effy, acho que é porque, não somos assim tão ruins – Mack com
certeza é pior – e estou no refrão outra vez quando Olivia se

levanta, segurando a mão de Aidan e o erguendo para dançar


também.

Effy olha para Finn e em seguida para mim, como se pedisse

autorização para abandonar o barco. Faço que sim e começo a


cantar a música de Tate desde o começo.

A ruiva caminha até Finnick, que endireita a postura em

surpresa ao estudar a mão estendida de Effy em sua direção.

É um pedido silencioso de trégua. Eles não falam muito, mas


muitas coisas são ditas quando Finn aceita. Effy sorri para ele e
acho que entendo.

Apesar de terem seguido caminhos diferentes, eles


começaram sendo bons amigos. As coisas fugiram do controle, os
sentimentos não são como coisas que podemos guardar em um

cofre, eles tomam forma e vida própria, e não há nada que possa
ser feito quando começam a surtir efeito em nós.

Fico em dúvida, de para quem olho enquanto eles dançam.

Pax e Willa, como sempre, são brincalhões um com o outro.


Pax até faz um comentário provocativo sobre a bunda de Aidan,
como é bonita, mas que infelizmente ele não tem desenvoltura com
o corpo para dançar.

Effy e Finn dançam devagar. Ela está com a cabeça apoiada

em seu peito e Finn com a cabeça inclinada em seu ombro,


escondendo o rosto. Bryan e Mack são os mais íntimos e até trocam
beijos no meio da dança.

Gravity está com os braços ao redor do pescoço de Ashton e

eles estão conversando aos sussurros enquanto eu canto a música.

Mas minha atenção fica retida em Aidan e Olivia. No modo


como se encaram enquanto a dança corre.

Não posso culpá-lo, mas, ainda assim, uma parte de mim está
ansiosa para feri-lo com a promessa que me fez de nunca desistir
de mim. E piora quando Aidan se inclina para sussurrar algo no

ouvido de Olivia, que a faz gargalhar.

É uma risada que me causa inveja, porque já faz tempo desde


que alguém me convidou para dançar. E já faz tempo que não rio

daquele jeito.

Queria que Brooks estivesse aqui só para eu ter com quem


dançar, mas ele se encontrou com alguns amigos e não o vimos

mais.
Decido que cantarei pela última vez o refrão da música antes
que as batatas que pedi cheguem.

— We say we’re friends, but I’m catching you across the room.

It makes no sense ‘cause we’re fighting over what we do and there’s


no way that I’ll end up being with you, but friends don’t look at friends

that way. Friends don’t look at friends that way![16]

— Te faço companhia — digo, olhando para Aidan, que está

carrancudo e me sento ao seu lado.

— Não precisa — Aidan responde, ríspido.

Engulo em seco e me afasto.

Não é como as outras vezes em que tenho flashes. Dessa vez

é real ao ponto de sentir a repudia de Aidan por mim.

O encaro dançando com Olivia. É um pedaço de uma


lembrança mais antiga; uma em que Aidan e eu ainda não éramos

um casal.

Minhas memórias estão voltando aos poucos.

O arrepio em minha pele esclarece como me sinto em relação


a isso. Pode acontecer de maneira gradual, com cenas

entrecortadas como agora, ou tudo pode vir de uma vez, como uma
enxurrada de informações para digerir.
Finalizo a música e deixo o microfone na mão de Bryan, que é
o próximo a cantar.

Aviso a Ash que vou ao banheiro e saio da sala.

A Ilha de Creta é grande, com três salas de karaokê e dois


banheiros.

Ainda no banheiro parece que a música está se repetindo

dentro da minha cabeça como um disco arranhado. A pequena cena


em forma de flashes rondando minha mente confusa.

Lavo o rosto e deixo a água correr entre os vãos dos meus

dedos. Prendo os cabelos em um coque para umedecer a nuca e


retiro o excesso de maquiagem com o papel toalha.

Estou prestes a sair do banheiro quando Olivia entra. Forço um

sorriso para ela e desvio em direção a porta, mas ela me para com
uma voz suave e pergunta:

— Te incomoda? Vê-lo com outra pessoa? — Ela me encara

através do reflexo do espelho.

— Sim. — Não tento nem refrear minha língua convencida. —


Me incomoda.

— Então por que não está com ele?

— Ainda não estou bem pra assumir um relacionamento.


Quero acrescentar que não é da conta dela, mas Olivia sempre

foi gentil, nunca demonstrou nenhum tipo de raiva, pelo contrário,


ela é transparente e sincera, o que eu gosto. Então não vejo motivo
para mentir para ela.

— Acho que ele decidiu que não quer mais lutar, que quer que
você lute um pouco por ele, mas também não sou como uma
distração. Não quero ser. Só estou aqui porque realmente gosto

dele e acho que ele vale o esforço.

Olivia sacode as mãos na pia para se livrar das gotículas de


água em excesso. Se estica para pegar um punhado de papel e

enxuga as mãos.

— Só queria ter certeza de que não estou sendo uma


distração.

— Você precisa perguntar para ele — argumento.

— E vou, mas eu sei que Aidan ainda está apaixonado por


você e só estou preocupada que você o queira de volta quando eu
já estiver envolvida. Delilah, eu posso me envolver? Porque não

quero me machucar e pelo jeito como você olha para ele, quando
está comigo…
— Ele está sozinho, Olivia. — Rio, como se essa conversa
fosse uma piada completa. — Está sozinho há meses. Se ainda
quer continuar assim, é uma escolha dele.

— Eu vi vocês perto da cabine fotográfica. — Olivia cruza os


braços e escora o quadril na pia. — Aquilo não foi algo que você
faria se não se importasse mais.

— Você encurrala todas as ex-namoradas dos caras com


quem você sai?

— Só você e só porque me importo. Como te disse, porque ele


vale o esforço. Mas você é uma ex diferente. Porque ele passou

todo aquele tempo indo ao hospital. Eu presenciei todas as crises de


ansiedade e os ataques de pânico que Aidan sofria esperando que

você abrisse os olhos. Gostei dele desde o primeiro momento e


fiquei me perguntando porque um cara como ele seria rejeitado. Se
você não o quer mesmo, minhas dúvidas foram esclarecidas, mas

se você dissesse o contrário, com certeza pularia fora, porque não


vou lutar por ele para você vir e arrancá-lo de mim. — Olivia amassa
o papel que usou para enxugar as mãos, até que se torne uma bola

pequena e a arremessa no lixo.


— Se você tem dúvidas que Aidan ficaria comigo se eu
pedisse, por que está com ele? Se você suspeita que existe a

chance de acontecer, o que está fazendo aqui? — Semicerro os


olhos para ela, confusa.

Olivia esboça um sorriso mélico.

— Sei que parece que sou determinada e segura de mim

mesma, tento parecer ser na maior parte do tempo, mas no fundo,


tem uma garota que sofre com as mesmas inseguranças que você,
Delilah. Mas o que difere nós duas é que não vou deixar de tentar

porque estou com medo e não vou colocar o pé só na borda, vou


me molhar de corpo inteiro.

Finaliza e sem olhar para trás, Olivia sai do banheiro.

Acho que foi a conversa mais estranha que já tive com alguém,
mas por um lado, talvez eu consiga compreender seus medos. Por
trás de toda coragem, existe uma pontada de medo que te faz

refrear, mas, mesmo assim, Olivia está tentando vencer o medo com
determinação e eu estou recuando.
No domingo finalizo todos os trabalhos da faculdade que

faltam e algumas redações. Alguns só preciso entregar no fim do


semestre, mas prometi a mim mesma que colocaria tudo em ordem.

A caixa que Aidan me entregou ficou me chamando durante


todo o domingo, mas decidi que preciso de tempo e calma para

revisitar todas aquelas lembranças.

Por mais que já tenha mexido em algumas coisas, ainda quero


me dedicar só aos Post-its que vieram junto e organizar os livros

nas minis prateleiras do meu quarto.

Na segunda-feira, estou aliviada por ter terminado os trabalhos


e a tarde no meu estágio de meio período na biblioteca do campus é

cansativo.

Começo a organizar os volumes que foram tirados do lugar no


começo da tarde.

A biblioteca fica aberta vinte e quatro horas, de segunda a

sexta, porque alguns alunos preferem estudar aqui, ao em vez de


ficarem nos quartos do campus ou em seus apartamentos.

À medida que o sol dá espaço para a noite, sinto minhas

panturrilhas latejarem. Subi e desci da escada várias vezes, para


organizar alguns livros no alto das estantes.
A biblioteca tem três andares. O térreo é onde ficam os livros

mais buscados, enfileirados em estantes rústicas com aspecto


antigo. No âmago dela, várias mesas de oito lugares estão à

disposição para os alunos.

São quase oito da noite. Meu turno termina às nove e outra


pessoa assume meu lugar. Começo amanhã de novo às três da
tarde.

Parecem dias longos e cansativos, mas é bem rápido para


mim. Quando está menos agitado, acabo atrás da mesa da
bibliotecária, lendo um livro ou fazendo anotações das aulas.

Acontece que mergulhar no universo dos livros e nos estudos


tem sido como um escape. E eu adoro passar mais tempo nisso do
que nas redes sociais.

Vance me convidou para jantar depois de sair da biblioteca,


mas recusei.

Desde que comecei a sair com outros garotos, tento ser


transparente quanto a minha intenção. Sem relacionamentos. Só

encontros esporádicos, alguns amassos e nem isso Vance e eu


tivemos.
Ele faz o tipo tranquilo, que se tiver beijo, tudo bem, se não
tiver, está tudo bem também, mas na maior parte do tempo, estou
muito a fim de dar uns amassos no banco de trás da sua

caminhonete.

O que, é claro, ainda não aconteceu.

Coloco o último volume de Ghandi na prateleira e desço a


escada, já olhando para meu relógio de pulso.

Quase lá, mas Aidan não apareceu. Estou considerando que


ele se esqueceu que pedi para passar na aqui para pegar o seu
diário.

Estou resistindo a tentação de dar uma espiada, mas colei um


bilhete para ele na parte interna da capa. Um pedido sincero de
desculpas e escrevi outras coisas no final, que espero que ele não
se importe. Mas ainda assim, evitei todas as coisas que ele

escreveu. Não li muito, exceto as primeiras linhas da primeira


página.

Foi doloroso, porque tinha tudo a ver com os dias em que

fiquei em coma. Deu para sentir como ele sofreu com isso.

Volto para a minha mesa atrás de um balcão de madeira e


começo a juntar todos os meus pertences.
Coloco meus livros e meu laptop na mochila.

Continuo segurando o diário de Aidan na mão e me sento, olho


outra vez para o relógio de fivela no meu pulso, só para garantir que
estou dentro do horário.

Tem pelo menos oito alunos no térreo e mais uns dez no


primeiro patamar.

A mulher que começa o turno após o meu se chama Norma, e

ela costuma chegar todas as vezes dez minutos antes para se


organizar.

Como sempre, dez minutos antes, avisto Norma passar pelo


segurança e usa seu cartão de acesso para liberar a catraca.

Já fico de pé, com a mochila no ombro, pronta para sair. No


caminho, nos cumprimentamos.

Norma trabalha até às três da manhã, quando outra


funcionária assume. Somos em quatro, sendo Sabrina e eu, as
estagiárias.

Sabrina assume às nove da manhã, quando Annelise vai para


casa.

Despeço-me do segurança, que sempre esqueço o nome,


porque eles também trocam de turnos e a cada vez, tem um
diferente aqui. Ainda não consigo me lembrar de todos, mas, ao
menos, um deles, sei que o chamam de Jim, que é apelido para
James.

Estou descendo as escadarias quando avisto a BMW de Aidan


estacionada do outro lado da rua. Paro, de súbito, porque as luzes
dela estão apagadas, então olho procurando por ele.

Continuo andando e pego o celular para ligar para ele, mas


desisto, porque acabo de descobrir o motivo de não tê-lo visto.
Aidan estava quase escondido atrás da Diamond, com Olivia.

Os dois estão rindo, o que me deixa com o estômago


embrulhado e pelo modo como está limpando o canto da boca pelo
batom manchado, posso dar um palpite do que estavam fazendo.

Uma garota está sentada no colo de Aidan e, com certeza, se

eu tivesse batido a porta ele teria me dispensado sem nem me


escutar. A mulher de cabelos compridos, que batem à altura do
quadril, afasta alguns centímetros e se vira para mim.

Quase engasgo porque essa cena cortada ao meio e que se


transformou em um flash do que um dia foi um momento entre Aidan
e eu, me faz vivenciar as mesmas emoções que senti quando o
flagrei com Elisa na sua sala do Anarchy.
Nesse momento em questão, só queria apontar o dedo na cara
dele e gritar: está demitido!

Toda essa história com Olivia está me enlouquecendo e mais


ainda quando não consigo colocar fim na confusão dos meus
próprios sentimentos.

Estou fugindo do campo de visão deles quando Aidan me grita,


com um aceno e não posso mais ignorá-los.
Delilah está tentando agir como se não nos conhecesse.

A chamo, mas ela continua seguindo pela trilha de concreto do


campus, em direção à rua que liga o prédio da universidade com

seu apartamento.

Está mexendo no celular, alheia à todas às vezes que chamo


por ela.

Fito Olivia e ela gesticula os ombros despretensiosa.

— Você fica aqui? Vou só oferecer uma carona pra ela.

— Pode ir lá. — Olivia cruza os braços e encosta o traseiro no


capô da Diamond.

Está pronta para iniciar o seu turno no San Rosé. Não

esperava vê-la hoje. Estava prestes a ir para o The Icarus quando

recebi sua mensagem perguntando se podíamos comer alguma


coisa juntos antes dela ir para o hospital.

Sendo honesto, Olivia não parece se incomodar com a minha

recente reconciliação com Delilah.


Quando ouvi Delilah outro dia, confessar todas aquelas coisas,

me dei conta de que por mais que a ame e não queira desistir dela,
existe um ponto onde o coração determina que não dá mais para

lutar sozinho.

Ela me fez prometer que seria feliz e estou fazendo o que

posso para seguir em frente. Não que esteja tratando Olivia como

um recomeço, mas preciso confessar, é uma boa companhia para


tentar. Ela é divertida e inteligente. Fala o que pensa, o que der na

telha. Para Olivia, tanto faz o que as outras pessoas vão achar.

Admito, é uma personalidade que me atrai.

Atravesso a rua, dessa vez não tento chamar a atenção de

Delilah, que parece ter aumentado as passadas.

— Delilah? — Me posiciono na frente dela, obrigando-a a

parar. — Oi! — cumprimento, recuperando o fôlego.

— Ah, oi! — Abre um sorriso divertido.

— Impressão minha ou você estava fugindo? — sugiro,


arqueando uma sobrancelha para provocá-la.

— Não estava fugindo, eu só — ela pende a cabeça para o

lado, olhando para Olivia na mesma posição em que a deixei —,


não queria atrapalhar. Vocês pareciam… ocupados. — Franze os
lábios para a direita, escondendo o sorriso.

Olivia acabou me beijando e não tentei recuar. Podia jurar que

ontem, quando a deixei em casa, estava diferente. Estava pronto

para receber um fora dela e por isso fiquei surpreso quando recebi

sua mensagem hoje.

— Vim buscar o diário. — Vejo que ela o está segurando e,

sem graça, gesticulo para ele.

— Ah, é claro. — Ela o estica para mim, posso notar como

seus dedos estão trêmulos e assim que o seguro, Delilah esconde

as mãos nos bolsos da calça jeans. — Desculpa mais uma vez por

ter lido. Não foi minha intenção.

— Tudo bem. — Chacoalho o caderno na frente do rosto,

rindo. — Ele vai acabar indo para o lixo.

— O quê? Por quê?

— Era mais para eu lidar com os ataques de pânico, conseguir


compreender os meus sentimentos, agora está tudo mais calmo.

Nunca fui fã de escrever mesmo.

— Você escreve bem, é uma pena. — Ainda com as mãos nos

bolsos, Delilah arca os ombros.


Nós conversamos e resolvemos, mas sempre vai existir essa

ligação entre nós. Não importa o que aconteça, uma parte de mim
sempre olhará para ela com amor.

Toda vez que seus lábios se repuxarem num sorriso, vou me


lembrar do som da sua gargalhada.

Sempre que ouvi-la fazer uma piada ou uma provocação, vou

me lembrar de como fazia isso comigo.

É engraçado como o coração funciona; em um momento você


daria sua vida por aquela pessoa e no outro você está tão cansado
de lutar pelo amor dela que só quer que acabe.

— Aidan, acho que não é o melhor momento, mas…

— Oi! — Escuto a voz de Olivia atrás de mim, está sorrindo

para Delilah enquanto se aproxima. — Não quer uma carona? Aidan


estava indo para o The Icarus e ia me deixar no hospital.

— Estou perto de casa, prefiro ir andando — assegura, o


sorriso forjado é quase um aviso para Olivia não insistir. Muito

menos eu.

— Você tinha uma coisa pra me dizer? — sondo, tentando


decifrá-la.

— A gente pode conversar outra hora, não tem problema.


Não é tão difícil entendê-la quando está desviando os olhos

para o outro lado da rua, para esconder o descontentamento. Ela


está escondendo alguma coisa.

— Não quero mais atrasar vocês! — Delilah diz, em um tom de

derrota.

No fundo quero confortá-la, mas tomamos uma decisão. Ela

tomou uma decisão.

Delilah se despede de nós com um aceno e a assisto caminhar


para fora do campus.

Olivia envolve seus dedos nos meus. Não sei quando foi que
começou, acho que na dança de ontem, quando sussurrou uma

sacanagem no meu ouvido que me fez rir, mas, ao mesmo tempo,


pensei no quanto estava indo rápido demais.

Sou do tipo que se associa a relacionamentos. Nada de sexo

sem compromisso ou ficar por ficar, e isso me preocupa.

Até antes de darmos o primeiro beijo no Purple Ride, tinha

certeza que não ia rolar nada com Olivia e estou sentindo que é
difícil poder dar um rótulo para nós. Especialmente porque sei que

ela também não é daquelas que quer um relacionamento aberto.


Abro a porta do passageiro para que Olivia entre e uso a mão
para protegê-la de bater a cabeça na borda do teto do carro.

Quando assumo o volante, ela já está procurando por uma


música no aparelho de som. Não encontra nada, portanto inicia uma

busca pela sua playlist do Spotify.

É uma versão de Moral Of The Story, com Ashe e Niall Horan.


Olivia canta baixinho, acompanhando Ashe nas estrofes dela.

Acho que está esperando que eu cante na parte de Niall, mas


não o faço, porque, na real, não sou um bom cantor como Bryan,

embora me lembre da cara que Delilah fez quando cantei uma


música para ela enquanto tocava piano.

Coisas que arrisquei fazer só por causa dela. Uma merda ter
essas memórias como um pesadelo, como diz a música.

Dirijo em silêncio e por mais comentários que Olivia faça para

puxar minha língua, não estou muito empolgado para falatório.

Estaciono em uma vaga do hospital e desligo a BMW. Olivia se

vira para mim, apoiando o cotovelo no alto do encosto para


descansar a cabeça na mão.

— Ela se incomoda de te ver comigo.


— Delilah? — Gargalho, com ironia. — Não, ela está bem
tranquila, te garanto.

— Não, é sério. Ela admitiu pra mim ontem.

— Vocês conversaram? Sobre mim? — enfatizo, com o olhar


perplexo.

— Nós dois já falamos sobre ela, nada mais justo do que nós

duas falarmos sobre você.

— Certo. E aí? Como foi a conversa? — Jogo a cabeça no

descanso, virando o pescoço de modo assimétrico para olhá-la.

— Foi interessante. Você sabe que gosto de transparência.

Não posso começar um relacionamento com alguém que ainda está

preso no relacionamento passado.

Engulo o nó seco que se forma em minha garganta.

— Vamos parar, tá? Você é incrível, Aidan. E sério, eu queria


muito poder… — Olivia morde o lábio inferior, provocativa. — Mas

não vai funcionar. Não enquanto vocês ainda estiverem tão ligados,

quer dizer, vocês estão no mesmo círculo de amigos, se veem com


mais frequência do que qualquer outro casal de ex-namorados que

conheço. Isso significa que vai ser muito difícil para você superá-la e

não quero servir como uma distração para você tentar não pensar
nela. Você tem o meu número, quando tiver resolvido seus

sentimentos, você me liga, pode ser?

Olivia começa a pegar seus pertences do assoalho do carro e

finaliza calçando os sapatos que tirou no caminho. Não estou


surpreso com ela.

— Sinto muito.

— Qual é? Você não estava tão interessado assim pra sentir

muito. Gostei de você desde o primeiro minuto em que te vi no San

Rosé, mas você é complicado demais pra mim. — Ela ri, dando
palmadas em meu ombro. — Me liga pra gente beber junto qualquer

dia. Está bem?

Faço que sim com a cabeça.

Olivia deixa um beijo úmido em minha bochecha e salta do

carro.

Voltei à estaca zero.

A ter relacionamentos que não duram mais que setenta e duas


horas.

Sentimentos rasos. Um coração de aço, que não pode ser


penetrado com tanta facilidade.
Sou o cara solitário que costumava ser antes de Delilah

Linderman entrar na minha vida.

— Nem deu tempo de você gostar dela — Ashton zomba,

colocando o rifle de brinquedo no ombro e mirando o alvo; a boca de


um sapo. — Por que todo o drama para uma reunião com a gente?

Estava prestes a…

— Comer uma gostosa — Finnick, Bryan e eu respondemos.

Por mais que tenha convidado Chase, ele não chegaria de

Handson Wood há tempo. Então recusou o convite, mais chateado


que as outras vezes.

Acho que Chase se sente excluído da The Reckless por não

morar na mesma cidade e não poder participar de algumas


reuniões, como essa, que fazemos em dias aleatórios.

— Eu ia dizer que estava prestes a pedir um hamburger. — Ele


revira os olhos, impaciente e puxa o gatilho, errando pela terceira

vez. — Porra, que difícil!


— Você que é ruim, me dê isso aqui. — Bryan passa sua long

neck para que eu segure enquanto ele faz uma tentativa. — Então,
você não chamou a gente aqui por causa da Olivia. Qual o

problema?

— Dannya está grávida — conto e Bryan desiste de dar o

primeiro tiro, escorando o punho da arma de brinquedo nos pés.

— Sério? E o seu pai reagiu como? — Bryan entreabre os


lábios.

— Ela não contou ainda. Estamos planejando fazer um jantar


pra contar. Dannya está com medo da reação dele.

— Eu também teria. — Finn toma o rifle da mão de Bryan com

um pouco mais de rispidez. — Sempre escutamos seu pai dizer que


dois já eram suficientes.

— Pois é, cara — Ashton murmura, mordiscando o polegar. —


Não dá pra prever a reação dele.

— Não dá. Mas acho que se todo mundo estiver junto, pode

ser mais fácil pra Dannya.

— Agora você gosta dela? — Bryan ri.

— Não, mas não a culpo mais pelo que aconteceu com meu

pai.
— É. Jev está preso e essa história já foi encerrada. — Bryan

continua e tenta atrapalhar a mira de Finn com o rifle.

— Mais ou menos. — Encosto a lateral do corpo no apoio que


sustenta a tenda da barraca. — Vocês acreditam que o Jev fez

aquilo só por fazer? E por que meu pai está trabalhando com o

Fuller?

— Seu pai sempre deu oportunidades pra pessoas como Fuller

recomeçar, eu não acho suspeito — Bryan pontua, mas a ruga firme

no centro de sua testa mostra que ele também tem suas dúvidas. —
O que você acha Finn?

— Acho que Aidan tem razão. Jev foi mandado atirar no


Darnell. O verdadeiro culpado, a gente nunca vai saber.

— Estão vendo? Não enlouqueci, merda. — Aponto para Finn.

— Mas isso não significa que você tem que surtar de novo e

mandar investigadores para tentar descobrir. Já cavou fundo demais

essa merda, esquece. — Finn aperta o gatilho e dispara.

O tiro é certeiro, entra na boca do sapo e derruba um elefante

cor-de-rosa.

— Cacete! Como você fez isso? — Ashton comemora, ele está

tentando acertar desde que chegamos. — Você treina tiro ao alvo?


Você já atirou alguma vez? — A cada pergunta que esvai da boca

de Ashton, é uma careta diferente que Finnick faz para repreendê-


lo.

— Uns namorados da minha mãe já me mostraram algumas

armas, nada demais.

— Mas te levaram pra atirar, Finn? — Bryan indaga,

preocupado.

— Uma vez ou outra. — Ele devolve o rifle para Bryan.

Jessie, que fica na barraca, se aproxima com o urso de


pelúcia. Finn balança a cabeça se recusando a pegar.

— Valeu Jessie, estamos só brincando — agradeço a ela.

A garota de cabelos pretos azulados, em corte reto e chanel,

com tatuagens por toda a extensão de seus bíceps, assente e

afasta para devolver a pelúcia para o lugar.

— Voltando ao assunto, esquece essa merda. Foca na banda,

temos uma reunião com o Jared em algumas semanas. Não vacila!


— Bryan aperta meu ombro. — E, por favor, tenta dar o apoio ao

seu pai. Olivia ter terminado isso antes de começar foi um alívio.

Você sabe que se Delilah te pedir pra voltar, você volta.

— Nós decidimos que não vai acontecer.


— Ouvi essa história — Ashton comenta, pegando de Bryan o
rifle. Ele faz uma breve tentativa e erra. — Mas Delilah está nesse

caminho de querer se reencontrar. É duro pra cacete querer tomar

algumas decisões por ela e não poder. Você sabe, quero protegê-la,
mas estou vendo onde isso vai dar. — Ash dispara, dessa vez ele

acerta e consegue derrubar uma tartaruga.

Jessie, que masca um chiclete, estoura uma bolha e revira os

olhos ao pegar a pelúcia para devolver ao lugar.

— E onde vai dar? — Bryan pergunta, curioso.

— Mais dor, mais mágoa. Entendo que está tentando se tornar

uma versão diferente daquela outra, mas nós estávamos


acostumados com a Delilah de antes. — Ashton me passa o rifle. —

Não estou reclamando, amo aquela garota e estou feliz que ela
esteja de volta, mas essa fase de adaptação parece que nunca

acaba.

Apoio a coronha no ombro e uso a mira para focar na boca do


sapo.

— Ou ela quem está dificultando tudo — desabafo com rancor.

O disparo na boca do sapo é certeiro. Dessa vez, um peixe de


pelúcia cai da rede.
Recomeço a preparação; afasto as pernas, sustento o peso do
rifle no ombro pela coronha e fecho um olho para observar a
dimensão e distância, em seguida, abro o olho e aperto o gatilho,

acertando de novo.

— Desde quando você também atira tão bem? — Ash objeta,


infeliz.

— Preciso ser bom em alguma coisa, né? — Rio, zombando

dele com petulância.

— Você é bom administrando as coisas. Olha só pra esse


parque — Bryan exemplifica, abrindo os braços para mostrar tudo

que construí em poucos meses. — Fora que você é um puta de um


baterista foda. Então nos poupe dessas lamentações! — Bryan toma
um gole da cerveja que devolvi para ele minutos antes de pegar o

rifle. — No que a gente pode te ajudar com o jantar?

— Música, é claro. É um jantar tranquilo. Acha que Casey e a


esposa conseguem vir?

— Posso perguntar.

— Acho que vai ser legal se ele puder trazer a Aurora — Ash
acrescenta.

— Ele vem sim, com certeza.


— Beleza.

Entrego o rifle para Finn e, assim como eu, acerta duas vezes
seguidas.

— Vocês fazem esse tiro ao alvo parecer fácil. — Ashton bufa,


dá para ver o quanto está irritado por não conseguir atirar. — Você
vai mesmo desistir dela? — a pergunta é direcionada a mim.

— Tenho escolha? — grunho, e vejo Bryan se afastar para


comprar mais cervejas.

— Por que você não tenta como os outros caras? Seja menos
invasivo. — Ash respira fundo, para ajudá-lo a se concentrar na

mira, dispara e erra. — CARALHO! Você deve estar roubando essa


merda. — Finn e eu rimos. — Enfim, você foi muito invasivo,
querendo um relacionamento de cara.

— Está dizendo que deveria ficar com ela sem esperar nada
em troca? Não é o meu estilo, Ashton.

— Vocês fizeram isso uma vez e foi o que aproximou os dois.

Só estou dizendo que pode usar os aprendizados a seu favor.

— E se ela não quiser ficar só comigo?

— Tenho certeza que você consegue controlar esse seu


ciúme.
— Fala sério — zombo, nem um pouco interessado nessa
ideia.

Bryan volta com quatro cervejas e entrega uma para cada um


de nós. Ashton decide não tentar mais o tiro ao alvo.

— Eu gosto da Gravity. — Nós paramos, espantados, porque é

a primeira vez que ele admite em voz alta. — Mas estou disposto a
abrir mão dela. A situação é meio complicada pra nós. Ela tem
sonhos e eu tenho os meus. Não vou abandonar as oportunidades

que a The Reckless tem por ela e Gravity não vai abandonar os
sonhos por minha causa. A questão é, alguns sacrifícios valem a
pena. Quer dizer, topar um relacionamento aberto com Delilah pode

te aproximar dela, é só uma ideia. Faz o que você quiser também.


— Ele bebe. — E se vocês jogarem isso na minha cara algum dia,
juro por tudo que é mais sagrado, acabo com vocês!

— Não escutei nada. — Aperto os lábios para ilustrar.

— Relaxa, cara. — Bryan passa um braço por cima dos


ombros dele.

— Sinto que a gente se aproxima cada dia mais — Finn

rebate, bebendo cerveja. — Que merda.


Me despeço dos caras na entrada do The Icarus, por volta da

meia noite. Não dei atenção para o diário até ver um Post-it
vermelho se evidenciando entre as páginas amareladas do

moleskine no banco do passageiro.

Olho por cima do para-brisa, para a rua vazia e a música Teeth


alta dentro do parque abafa meus pensamentos.

Ainda assim, seguro o caderno em mãos e o abro.

A letra de Delilah que eu reconheceria em qualquer lugar, está


no Post-it com tinta preta.

Sinto muito.

Olhe a última página. É importante.

Com amor,

Delilah.

Folheio o caderno até encontrar três páginas inteiras, com uma

carta escrita à mão por Delilah.


Querido Aidan,

Não sou boa com cartas, deveria deixar isso para pessoas
experientes como você.

Hoje é um daqueles dias que eu gostaria de poder ser a antiga


Delilah, sabe? Confiante, determinada, impossível de não se
apaixonar.

Eu sei que disse que não quero mais voltar a ser aquela
garota, não me julgue, mas tem partes dela que quando paro para
refletir, me sinto orgulhosa.

Espero que você leia essas páginas com o coração aberto,

porque as estou escrevendo e me expondo, coisa que detesto.

Você sabe, o amor para mim sempre foi um esforço. Desde


pequena me educo emocionalmente e se não fosse por minha mãe

e todos os seus sacrifícios, talvez eu só conhecesse a palavra amor


e nunca o sentimento.

Do que se trata e porque as pessoas o banalizam.

Já viu como dizem “eu amo” com tanta facilidade? E acho que
é por esse motivo que se tornou algo tão habitual. O amor não é
mais um sentimento, é um estado de espírito.
Engraçado, não é? Costumo pensar bastante sobre você. É,
em noventa por cento do meu tempo, fico pensando por que você

lutaria tanto por uma pessoa como eu, que, assim como tantas
outras, banaliza o amor por nunca tê-lo vivido?

Então penso que existe uma parte minha que só você conhece
e eu te amei, caso contrário por que você cederia tanto para mim?

Percebi que te rejeito – agradeça a Olivia por isso – porque


não criei o hábito de receber amor, sem que me pedissem algo em
troca.

Minha mãe, por não receber esse afeto do meu pai, não soube
como mostrar a mim e a Seb o que esperar de um relacionamento.

Nunca pensei nisso, talvez a outra Delilah tivesse expectativas,

mas só tenho páginas em branco e uma sede enorme de viver.

Me pergunto se o meu pai materializou o amor para mim,


tornando-o parte da sua campanha política – já que nossa família
era sua maior vitrine de aceitação.

É complicado, não é?

Estou lhe escrevendo para dizer que sinto muito por ter me
tornado uma dessas pessoas que banalizam o amor.
Ainda estou rastejando nessa nova vida, mas a cada dia, sinto
que estou mais perto de me tornar quem quero ser.

A cada dia, dou um passo a mais na direção certa.

E quero também te agradecer por ter permanecido ao meu


lado nos vinte e três dias em que não estive aqui. Por ter me

protegido e me amado em cada segundo.

Mesmo sem me lembrar de tudo, as poucas memórias que


estou conseguindo recuperar, provam que você não é o tipo que se

esquece fácil, mas eu fiz isso.

E lamento.

Não que eu esteja esperando que você me perdoe por ter te


magoado, por ter mostrado algo que não estava sentindo, mas

estou te prometendo redenção.

Pela nossa história, não quero que você seja um estranho.

Por tudo que já significamos um pelo outro, desejo que, ao


menos, nós possamos nos olhar com carinho.

Porque o que fui para você e você para mim, não tem trauma
que mude.

Espero que fique bem!


Com amor,

Delilah.

Não é uma carta nos dando uma chance, mas é mais um


passo para que o iceberg entre nós, criado pelo acidente, se rompa.

Estou com vontade de dirigir até seu apartamento, despi-la,


amá-la como nunca, mas a carta é mais do que suficiente por hoje.

Guardo o diário no porta-luvas e ligo o carro.

Dirijo por uma hora antes de estacionar na vaga do meu

prédio.

Subo, ainda sentindo a palpitação acelerada e a inquietude por


tudo que li.

Não que eu esteja esperando que você me perdoe por ter te


magoado, por ter mostrado algo que não estava sentindo, mas
estou te prometendo redenção.

Suas palavras estão cravadas em mim.

Coloco a chave na fechadura e sou pego de surpresa ao


perceber que as luzes estão acesas. A princípio, penso em não
entrar, dar meia volta e ligar para a polícia, mas desisto quando
lembro que Willa tem uma cópia da chave e autorização para subir.

Largo as chaves da BMW no aparador e tiro a jaqueta de

couro.

O ar está ligado, então está fresco, e escuto uma música baixa


na sala.

É Fade In To You, de Mazzy Star.

Mas minha surpresa não é pelas luzes, a música ou o cheiro


cítrico incendiando meu apartamento, é a figura feminina jogada no
meu sofá, com a lateral do rosto colada à minha almofada verde

musgo.

Os sapatos de Delilah criam uma trilha e sua jaqueta jeans


também está no caminho. Não sei se está dormindo, então tento ser

silencioso ao pegar seus pertences para acomodá-los em um canto


fora do campo de visão das outras pessoas e de súbito, ela se
levanta.

Os fios claros de seu cabelo estão desgrenhados e se moldam


ao seu rosto.

— Oi, nossa… — Ela se ajeita. — Sinto muito, eu ia te ligar,


mas fiquei preocupada que estivesse com Olivia e não queria
causar nenhum problema. Willa me entregou as chaves e me deixou
entrar.

— Aconteceu alguma coisa? — Delilah se afasta, abrindo

espaço para mim no sofá.

— Sim, não podia esperar até amanhã.

— O que houve?

— Começou no sábado. Estou recebendo umas mensagens


de um número desconhecido. — Delilah procura o celular que se
perdeu entre as almofadas.

Ela libera a tela do aparelho e o entrega para mim.

Podemos nos encontrar?

É importante o que tenho para te mostrar. Pode colocar seu pai

atrás das grades.

N
Não conte a ninguém. Se souber que contou, terei problemas.

Você terá problemas.

Leio todas as mensagens, as que recebeu no sábado, no


domingo e hoje.

— Você contou pra alguém?

— Claro que contei! Fiquei apavorada. — Dá para notar pelo


jeito como Delilah arregala os olhos que está com medo. — Pode
ser só alguém pregando uma peça.

— Não é. Ele te enviou uma foto de transação financeira. É


melhor a gente trocar o seu número. Você contou pra quem?

— Gravity, Effy, Mackenzie e sua irmã.

Esfrego a testa, preocupado.

— Fiz merda? — ela indaga, mordendo o lábio inferior. —


Arrastei elas pra essa história, não foi?

— Acho que não. É só elas ficarem quietas que não terá

problema. Vou ligar pra Willa. Temos que descobrir quem te enviou
essas mensagens.
Afasto-me para telefonar para minha irmã, ela atende no

primeiro toque e sua recepção é calorosa.

— Você viu as mensagens?

— Acabei de ver.

— A gente tem que falar pro papai.

— Não vai rolar.

— O quê? Aidan, nós estamos falando de uma ameaça à


Delilah. — Me viro para escrutiná-la roendo as unhas, em pavor.

— Dannya está grávida.

— O quê? — Willa grita, afasto o celular para não sofrer uma


lesão nos tímpanos. — Por que caralhos ninguém me conta nada
nessa família?

— Soube na sexta-feira pela Gravity. Estamos planejando


contar para o pai.

— Porra, isso muda tudo, Aidan. Essa história da Delilah estar

recebendo mensagens desse número desconhecido. Você tem ideia


de quem pode ser?

— Não.

— O que faremos.
— Willa, não quero arrastar Delilah pro meio disso.

— Adivinha só, irmãozinho, ela já foi arrastada e você não


precisou nem se esforçar. O pai dela a expôs na tevê várias vezes e

continua fazendo isso. Delilah está mais envolvida nessa história do


que qualquer outra coisa. Effy e Gravity vão ficar comigo por um
tempo, chamei Delilah também, mas meu apartamento é pequeno

pra nós quatro. Se puder, você cuida dela? Vocês já moraram juntos
uma vez, não será problema.

— Não posso forçá-la a morar comigo.

— Nós pensamos em Maya, mas não sei qual desculpa


daríamos para a mulher não decidir pegar Delilah e levá-la para

Dashdown.

Espio por cima do ombro, Delilah continua tensa, com os


ombros rígidos.

— Vou falar com ela. Te ligo amanhã, está bem?

— Está bem. Vou acabar com Gravity por não ter me contado
que Dannya está grávida.

Encerro a ligação ouvindo os gritos da minha irmã,

sentenciando Gravity.
Deixo o celular na bancada e volto para a sala, Delilah está
dura como um pilar de sustentação. Parece pálida e a boca treme.
Está com tanto medo de alguma coisa acontecer que me corta o

coração vê-la nesse estado.

Estendo a mão para ela. A música Fade Into You ainda está
tocando e tem uma vibe boa para dançar.

Delilah encara a palma da minha mão sem entender.

— Uma vez você me disse que dançava para aliviar o


estresse. Só quero te ajudar a não pensar mais nisso.

Ela engole em seco, mas cede.

Sua mão está gelada.

A puxo para mais perto, colando nossos corpos. Não sou bom
em dançar, obviamente, mas acabo aprendendo rápido para
satisfazê-la.

Delilah descansa a lateral do rosto em meu peito, seus braços


me cercam na cintura e a envolvo com os meus, em um aperto
firme, tentando transmitir segurança.

— Aidan, estou com medo.

— Também estou — admito.


Suspira contra mim.

— Pelo menos estamos com medo juntos.

Rio, baixinho.

— Preferia não estar com medo de jeito nenhum.

— Qual o seu maior medo?

Penso a respeito.

— Antes meu maior medo era ficar em uma sala fechada, em


chamas, mas pensando bem, meu maior medo é ter te arrastado

para essa porcaria, que parece não ter fim.

— Do que você está falando?

— Do meu pai.

— Seu pai não é o culpado. É contra o Thomas que o número

desconhecido tem provas.

Permaneço em silêncio. Nossos corpos se movem em


sincronia de um lado para o outro, ela parece mais calma no

decorrer da música.

— Gravity e Effy vão ficar com Willa por um tempo. Para


garantir que nada aconteça.

Ela faz que sim, concordando.


— E você? O que quer fazer? — cochicho, contra o topo de
sua cabeça.

— Posso ficar aqui?

— Você quer ficar aqui?

— Não deve ser tão difícil ex-namorados sobreviverem sob o


mesmo teto por alguns dias, né? — diz, brincalhona, sua risada sai

abafada devido ao rosto preso em meu peito.

Não é tranquilo.

Não quando fico com o corpo em chamas só de pensar em


dividir o mesmo teto com você de novo.
Delilah volta para a sala uma hora depois. Deparei-me com a

sua bagagem estacionada em frente à porta do estúdio – nenhum

de nós imaginou que qualquer dia precisaríamos dormir em quartos


separados depois do nosso relacionamento –, então vou ceder meu

quarto a ela.

Trouxe para a sala, enquanto ela estava no banho, alguns

lençóis, travesseiro e cobertores. É primavera, não estou esperando


me encolher de frio de madrugada.

— Estou me sentindo mal por te fazer dormir na sala. Com


certeza eu caberia muito bem aí. — Gesticula o queixo, apontando

para o sofá que acabei de cobrir com lençol.

— Relaxa, gosto de ver tevê até tarde e na maioria das vezes

acabo dormindo metade da noite aqui mesmo — minto.

Eu quase não vejo tevê. Ainda mais se estiver sozinho.

No meu tempo livre estou em Grev Willow ou tentando destruir

os pratos da minha bateria quando estou tocando no estúdio


improvisado no quarto de hóspedes.
Mas essas são informações que Delilah não precisa ter. Já me

arrependo de ter me aberto para ela naquele outro dia na casa de


Ashton.

— Você precisa de mais alguma coisa? — Delilah abraça o


próprio tronco, em uma tentativa de aquietar a barriga trovejando de

fome. — Não precisa nem responder. — Escondo o sorriso olhando

para o outro lado. — O que você quer pedir? Pizza? Comida


chinesa? Japonesa? Comida mexicana?

— Quero tacos de carne. — Ela pula no sofá onde acabei de

organizar e fica zapeando no controle da tevê atrás de algo para


assistir.

Me afasto da sala para fazer o pedido. Termino cinco minutos


depois, quando volto, os olhos estão fixos em um dos episódios de

Game Of Thrones.

— Seb e eu assistíamos essa série. Escondidos, é claro —

revela, e caminho para perto dela. — Você provavelmente já sabia


disso — zomba.

— Não sabia. — Delilah se volta para mim surpresa.

— Pensei que não houvesse nada sobre mim que não

soubesse.
— Por que você pensaria uma coisa dessa? — Arranco os
sapatos esticando as pernas de modo desleixado.

— Tenho a sensação de que todos à minha volta me

conhecem melhor do que eu mesma. Como se não existisse nada

de novo que eu possa oferecer. — Tem um ar frio de tristeza

exalando de seus olhos azulados.

Aos poucos, acho que consigo compreender as escolhas de

Delilah. Suas decisões erradas e a dificuldade em voltar a viver.

Uma mecha de cabelo molhado está ofuscando a lateral do

seu rosto. Me atrevo a esticar a mão e afastá-la, prendendo-a atrás

de sua orelha.

As pontas dos meus dedos deslizam por sua pele corada do

banho quente.

Delilah dirige sua atenção para mim, umedecendo os lábios

com a língua aveludada, que me faz engolir a bola de saliva presa

na passagem da garganta.

É foda pensar tanto nela quando já tinha me decidido não fazer

mais isso.

É foda pra caralho ser refém dela.


Mas apesar de dizer que não sente nada, posso perceber a

confusão que sombreia seus olhos ou como sua respiração trava ao


sentir meu toque.

Ela sente, sim, alguma coisa. Só está se negando admitir, o


que é ridículo, porque poderíamos estar juntos. Poderíamos estar

bem.

De repente, solta o ar e aos poucos, os puxa de volta, como se


tivesse ficado rarefeito.

A força que Delilah impõe para controlar a própria respiração


me instiga.

Estou ansioso para descobrir o que acontece se minha mão

escorregar para os lábios entreabertos, e é o que faço,


demoradamente corro com o polegar pela superfície macia e úmida

de sua boca.

Delilah engole seco, mas não se opõe ao meu toque. Não

prensa os lábios para fugir de tentá-la. É uma provocação ingênua,


porém deliciosa, que faz com que seu corpo a traia.

— Sempre vai existir algo extraordinário em você que todo

mundo quer descobrir, Delilah. Namoramos por poucos meses, não


tive tanto tempo assim pra escutar todas as suas histórias, descobrir
os seus medos. O que eu sei é pequeno perto de tudo que você tem

para me mostrar — asseguro, vagando com o polegar pelo contorno


de sua boca e querendo muito enterrar os dedos sob a cortina de

cabelos molhados que esconde sua nuca e trazê-la para perto.

Uma mensagem deve ter sido enviada para a intimidade entre


suas pernas, que conhece e adora o meu toque. Por mais inocente
que seja, ainda posso fazê-la pedir por mais.

Posso colocá-la contra a parede e forçá-la a me dizer o que

sente, porque não gosto de joguinhos e não curto essa enrolação


toda.

Mas com Delilah é diferente, porque desde o começo sempre


quis que voltasse para mim porque me ama, porque a deixo tão

anestesiada que é difícil de ignorar.

Delilah pigarreia, se afastando do meu toque. Minha mão fica


suspensa no ar, sentindo falta dela. Viro para o lado para sorrir e

passo a assistir ao seriado com ela.

Por um minuto, esqueci que decidimos não nos envolver.

Queremos coisas opostas.

— Então, vamos assistir a essa série enquanto esperamos

pela comida ou você tem outra coisa em mente? — Ela muda de


assunto, dá para notar as bochechas vermelhas de vergonha.

É, isso também faz parte dela. Bochechas cobertas por

sardinhas e corada por ficar sem graça com as coisas que falo.

Sorrio, tranquilo.

— Se precisar de mais uma dança, você me fala — brinco.

— Por que eu precisaria de mais uma dança?

— Porque você está com as bochechas coradas.

E seu rosto se torna um morango de tão vermelho, com

rispidez, se vira para frente e não descola os olhos da tevê por


minutos.

— Sei lá, às vezes você está ansiosa ou nervosa de novo —


emendo, em tom de brincadeira.

— Talvez você precise de uma dança. — Arqueia uma

sobrancelha, girando o tronco para ficar de frente para mim. — Ou


várias. Você pisou no meu pé pelo menos três vezes! — Estende a
mão, numerando com os dedos. — Você sempre foi desajeitado

assim? Eu sempre adorei dançar, como é que entrei em um


relacionamento com um cara que é totalmente o oposto? — a

provocação reverbera, mas no fim, uma risada escapa dela e sei


que a discussão não é séria. — Com certeza, precisa de aulas de
dança.

— Nem morto.

— Covarde.

— Eu não curto dançar, baby. — O apelido escapa e


rapidamente aperto os lábios para impedi-lo de sair, mas é tarde

demais.

Delilah me encara. Não tem um sorriso brincalhão como o

esperado. Só duas opalas cinzas e penetrantes varando meu corpo.

— Li sua carta. — Corto o silêncio e ela pisca repetidamente

para a visão se atenuar.

— Quando?

— Estava voltando para cá.

Ela coça a testa, as bochechas voltam a ruborizar, então se

encolhe no canto do sofá como um animal indefeso.

— Não sou tão boa como você com cartas, não é?

— Discordo.

— Mesmo que já tenhamos conversado e você tenha dito que


me perdoa, ainda sinto esse desconforto — continua, gesticulando
na frente do peito. — Como se ainda precisasse me desculpar. Foi

cruel ter te dado esperanças.

— Com isso eu concordo.

Delilah se move outra vez, evidenciando seu desconforto.

— Já passou. Não vamos mais falar disso, beleza?

— Mas…

— Sem mas Delilah. Vamos seguir em frente com nossas


vidas. E de um jeito ou de outro, acabamos morando juntos de novo.

— Que tragédia. — Ri, para gerar uma nova discussão entre

nós, mas decido ignorar. — Estou brincando — fala, me empurrando


no ombro —, gosto da sua companhia. E eu espero não estragar

seus planos com Olivia estando aqui.

Posso contar a ela que Olivia não quer mais sair comigo, mas

escolho não fazer.

Nos sentamos em volta da mesinha de centro na sala para

comer os tacos. Conversamos um pouco enquanto comemos. Coisa


que já não fazemos há um tempo.
Delilah me conta como é morar com as meninas. Diz que não

é um cenário que imaginou porque quando mais nova, seus planos

eram outros.

Sair de Humperville. Passar em uma universidade que fosse

tão longe que, seria impossível visitar a cidade, mas, ao mesmo

tempo, dá para notar como a tristeza que a arremete em seguida,


porque ela pensava dessa maneira naquela época, sem considerar

os sentimentos de Maya e hoje, é uma das suas preocupações.

Apesar de a situação entre elas não ser boa, dá para notar que

Delilah se preocupa com a mãe.

Escuto-a atentamente, não interrompo seu monólogo sobre


planos futuros nem para concordar com ela, porque senti falta dessa

naturalidade entre nós.

— Depois que terminar a faculdade, o que você pensa em

fazer?

— Às vezes me pergunto por que é que estou fazendo


faculdade — expresso em tom ameno. — Bryan está estudando

porque era o que a mãe dele esperava que fizesse, mas eu… —

Dou de ombros. — No começo achei que tinha a ver com minha


mãe, porque ela estudou lá. Depois, quando meu pai foi baleado,
pensei que era uma oportunidade de fazê-lo acreditar mais em mim,

que sou capaz de tomar conta dos negócios se for necessário, mas
hoje estou mais perdido. — Rio, mas não é com sinceridade. É

forçado, e Delilah percebe. — Se a banda estourar, se

conseguirmos alguma coisa com Jared, com certeza não tenho


nenhuma intenção de terminar a faculdade.

— Mas você tem o parque. — Delilah joga o corpo para trás,

usando o assento do sofá como apoio para o seu antebraço. —


Você não devia fazer faculdade pensando nos benefícios que traz

para a sua família, mas para o que traz pra você. Não pode mais

pensar que seu pai precisará de você para tomar conta de tudo,
porque, afinal, você tem o seu próprio empreendimento pra tocar.

Além disso, ele tem um novo herdeiro chegando. — Delilah torce um

guardanapo na mão, pensando se foi longe demais, presumo pelo

modo como enruga o centro da testa. — E tem a sua irmã também.

— Willa? Ela quer ser modelo.

— Eu não acredito nisso. Acho que essa foi a ideia que ela

criou para convencer você e seu pai. Darnell te trata como se fosse

incapaz de tomar conta dos negócios, imagina quais são as

expectativas dele para cima da Willa.


Nunca tinha parado para pensar dessa maneira.

Willa sempre se colocou disponível para ajudar com os pubs,

mas nunca notei nenhum interesse além. Pensei que só quisesse


ajudar. Mas tomar conta dos negócios? Ainda que tivesse notado

seu interesse pela administração, nunca pensei que estivesse

mesmo disposta a fazer isso.

— Ela te disse isso?

— Não, mas dá para notar. Ela não se empenha tanto na


faculdade de moda como a Gravity, por exemplo, e juro que não

conheço ninguém tão determinada como ela. Willa fez da

inauguração do The Icarus um sucesso. No campus só se fala do


parque e nós sabemos que ela é sua maior ponte com os

estudantes. Porque mesmo que as pessoas te conheçam por causa

da The Reckless, Willa é sua fã número um. Então acho que Willa

está esperando que vocês notem o grande potencial dela para


administrar os negócios da família.

Fico alguns segundos a observando. Não me importo se vou


deixá-la desconfortável, mas me lembro bem que foi Delilah quem

me sugeriu reabrir o parque. Ela é observadora e é uma

característica dela que o acidente não foi capaz de arrancar.


Willa não precisou dizer nada, Delilah leu suas ações em

poucos meses.

Isso me faz voltar a pensar na carta.

— Na carta você disse que quer que olhemos um para o outro


com carinho. — Estico o braço para tocar a ponta do seu queixo,

com o indicador, forço seu rosto a se erguer. Ainda assim, suas íris

obtusas fogem para o outro lado. — Olha pra mim, Delilah — exijo,
meu tom apesar de firme, não é bruto. — Você sempre será uma

parte importante da minha vida e é por isso que você está aqui. Se

estamos juntos ou não, não vai apagar o que você significou para

mim por todos aqueles meses. Você me resgatou, Delilah, inúmeras


vezes você foi para mim o que mais ninguém conseguiu ser; meu

anjo da guarda.

— Quanto mais coisas assim você me fala, mais me sinto

culpada.

— Quem é que pode te culpar por querer se reencontrar no


meio desse desastre?

Delilah sorri de volta; é afetuoso e faz meu coração


transbordar em paz. Mesmo naqueles dias em que eu podia tocá-la

e beijá-la, não sentia tanta tranquilidade.


É como se, pela primeira vez, Delilah e eu estivéssemos indo
para a direção certa.

Sem mentiras, sem segredos, sem nada para gerar desastre


no final.

— Obrigada, Aidan. Tenho certeza que a pessoa que você


escolher, terá muita sorte.

Não quero estragar o momento com o pensamento ruim de

que não posso escolhê-la no final.

Não porque não quero, mas a nova Delilah nunca me

escolheria e não posso forçá-la a me amar de novo.

27 DE MARÇO DE 2021, ÀS 21H33MIN.

Fizemos dois acordos: busco Delilah todos os dias depois que


sai do seu estágio e ela vai manter o GPS sempre ativado. É uma
precaução, pelo menos até termos certeza de quem é a pessoa por

trás das mensagens do número desconhecido.

Delilah está dificultando com a teimosia de não querer trocar


de número.
O segundo foi que contaríamos para a banda. Mackenzie não
quer mentir para Bryan e Effy também não.

Tivemos várias conversas sobre isso no decorrer da semana e,


para a minha surpresa, Willa não objetou. Ela concorda com Effy

que precisamos contar para mais pessoas.

É sábado e não quero estragar o fim de semana dos caras,


mas estamos em um dos camarins do Anarchy e sozinhos.

Estou estudando o humor deles, principalmente o de Ashton, o


temperamento colérico dele me faz hesitar várias vezes, mas Delilah
também não quer esconder nada do melhor amigo e por um lado,

até entendo.

— Você está com uma cara de quem vai soltar uma bomba
daqui a pouco. — Ash me observa.

Ele está segurando uma garrafa de cerveja na mão direita.

Simultaneamente à sua observação, os outros giram as


cabeças para mim, curiosos. Droga. Poderia ser menos direto.

— Qual é a desgraça da vez? — Chase zomba, rindo, como se

nada pudesse ser pior do que tudo que já aconteceu. — Merda. É


ruim assim?
Bryan está com aquele olhar transparente, entregando tudo.
Ele já sabe. E eu devia imaginar que Mackenzie não esperaria para
que contássemos juntos.

Espio o relógio no pulso, conferindo o horário. Nove e trinta e


cinco. Elas já deviam estar aqui.

Agarro o celular no bolso da jaqueta de couro, atraindo mais a

atenção deles para mim.

Disco o número de Willa, mas cai na caixa postal.

Levanto-me, embora não queira exteriorizar a preocupação


que venho sentindo a semana toda, vai ficando difícil a cada

tentativa de ligação que faço.

Mas assim que a porta bate em um estampido, consigo


respirar tranquilo outra vez. Elas entram, uma atrás da outra, em fila.

Gravity, Delilah e Mackenzie estão conversando, distraídas.


Willa e Effy também. Dá para perceber que são assuntos diferentes
e apesar de eu estar aqui quase abrindo uma cratera no chão, elas

parecem tranquilas.

Delilah recebeu mais três mensagens ao longo da semana.


Todas exigindo um encontro.
Na última vez, deu para notar que ela hesitou, mas não está
respondendo ao número desconhecido como antes.

— Onde vocês estavam? — o tom inquisitivo é ríspido e volto a


me jogar na poltrona que estava sentado antes.

— Não vi suas ligações — Willa explica, ao pegar o celular no

bolso traseiro da calça de couro.

— O que é que está rolando? — Ashton volta a perguntar,


dessa vez, seu olhar desassossegado paira de mim para Delilah, e
de Delilah para Gravity.

É a vez de Delilah tirar o celular do bolso. Está usando uma


minissaia jeans, meia-calça preta e jaqueta de couro.

Ela digita na tela e o entrega para Ashton, os olhos ficam

inquietos passando de uma linha para outra nas mensagens.

— Puta merda — murmura, em seguida, aperta a mão em


punho contra a boca e sobe os olhos preocupados para Delilah. —

Por que é que vocês não mostraram isso antes?

— Estávamos procurando o momento — Gravity explica,


calmamente.

— Bom, pelo menos dessa vez ninguém guardou segredo. —

Finn respira aliviado. Ashton passa o celular para Finn, que lê junto
com Chase e Bryan. — Vocês deviam levar isso pra polícia.

— Todo mundo sabe que a polícia é corrupta. — Bryan revira


os olhos. — Ou vocês se esqueceram que me ferrei muitas vezes
pela falta de justiça?

— Vocês precisam mostrar isso pra alguém. — Chase arqueia

uma sobrancelha.

— Nós vamos — digo, para tentar amenizar o embate que está


prestes a começar no camarim. — Entrei em contato com aqueles

detetives. Vou me encontrar com eles.

— Genial, Aidan. Você está tentando resolver essa porra


sozinho! — Ashton brada.

— Não, dessa vez estou pedindo a ajuda de vocês. — Meus


olhos passam por eles, para os rostos claramente afetados.

— Nós tivemos uma ideia. — Mackenzie caminha para perto


de uma penteadeira estilo camarim e se senta no banco, apoiando

os cotovelos na parte superior dela. — Effy e eu pensamos em


finalmente expor Thomas. Se não for pela corrupção, que seja pelo

pai horrível que ele sempre foi e tenta convencer todo mundo do
contrário.

Pela expressão de Delilah ela não estava esperando por essa.


— É a sua única chance com seu pai e nós podemos ganhar
tempo — Effy continua explicando, quando percebe que nenhum de
nós está feliz com a ideia. É arriscado, porque sabemos atrás de

quem Thomas vem se isso acontecer. — É a sua palavra contra a


do seu pai, Delilah. É arriscado e ele vai te arruinar se puder, mas
nós temos a Angel do nosso lado. Ela não é corrupta e uma história

quente como essa, do prefeito abusando psicologicamente dos


próprios filhos, a revista e os jornais falariam disso por meses.

— Não estou expondo só a mim, Effy. Estou expondo a minha

mãe e Sebastian. — Delilah não está feliz com a ideia, mas pondera
no final, mordendo o lábio inferior. — Mas fora isso, ninguém tem
nenhuma prova de que meu pai está envolvido com propina. Exceto

a foto das transações que recebi. — Delilah continua afundando os


dentes no lábio inferior, pensativa. — Talvez, se eu desse uma
chance pra essa pessoa e conseguisse essas provas…

— Delilah, não — interfiro, a tonalidade da minha voz é severa.

Delilah está prestes a rebater quando Ashton emenda:

— Ele tem razão.

— Mas…

— Sem mas — respondemos em coro.


— A gente já te perdeu uma vez — Gravity diz convincente.

— E não vamos te perder de novo, por nada — Bryan


continua.

— Fujo da minha cidade, mas acabo em um filme de ação —


Chase faz o comentário em um murmúrio, e nós desatamos a rir. —
Que foi? É verdade, cacete. Vocês têm ideia do que estão falando

do prefeito da cidade? Porra, o cara controla praticamente tudo em


Humperville. — Ficamos sérios, de repente, como se a ficha caísse.
— Vocês gostando ou não, não somos nada aqui. E merda, vocês

não estão pensando direito! Ele pode acabar com a The Reckless!
Vocês têm ideia disso? Ele pode prejudicar o negócio do seu pai, o
The Icarus e a banda.

Ficamos em silêncio, pensando no assunto.

— Você lembra o que aconteceu quando ele descobriu que


você estava investigando ele, não lembra? — Chase direciona a

pergunta para mim. — Você se lembra do que ele te fez quando


desobedeceu? — fala para Delilah. — E vocês sabem que isso é só
um pouco do que esse cara pode fazer! Não importa que a polícia é

corrupta, alguém dessa cidade tem que ser honesto.


— Ele tem razão — Finn reflete, olhando para os pés
cruzados. — É arriscar tudo que nós conquistamos até aqui.

— Às vezes, a escolha certa, nos traz consequências


dolorosas — é Ashton quem responde, olhando para Chase e Finn.
— Nós já passamos por uma porrada de coisas juntos. Quase

morremos queimados e por pouco não nos entregamos aos nossos


traumas antes disso. Delilah é parte da família, porra. E por mais
que Thomas e ela não tenham nada a ver, ela está sendo ameaçada

por causa dele. Alguém quer a cabeça do prefeito e nós só estamos


dando um empurrão para ajudar.

Faço que sim com a cabeça, concordando com Ashton.

— Mas eu concordo com Chase. Não podemos fazer isso


como peixes grandes, porque não somos. Você tem que falar com
seu pai, Aidan. Contar pra ele a verdade.

Olho de Ashton para Delilah. Não sei porquê, mas tenho a


sensação de que contar para o meu pai é expô-la mais um pouco.
Sua vida, seus medos e inseguranças. Não vou fazer nada se ela

não estiver de acordo.

— Mas Dannya está grávida — Gravity interfere. — A ideia era


que nos reuníssemos e contássemos para Darnell, mas depois
dessas mensagens nós ficamos… com medo.

— Dannya está grávida? — Chase cochicha.

Ele não estava junto no dia em que contei para os caras.

— Nove semanas — Vity continua.

— Porra, é mesmo! — Ashton exclama, chutando a poltrona.

— E agora? Ele vai surtar se jogarmos essas bombas todas de uma


vez!

— Ou. — Willa nos faz parar. — Pode ser um incentivo pro

papai finalmente nos dizer o que é que aconteceu entre eles durante
todo esse tempo. Qual é? — Ela encara com incredulidade os rostos
afetados. — Todo mundo sabe que rolou alguma coisa. Se antes de

nos mudarmos pra Humperville ou depois, mas precisamos saber


porque o papai nunca quis investigar direito o tiro ou porquê ele
sempre foge das brigas com Thomas. Precisa ter uma explicação

melhor do que “rixa nos negócios”. — Willa revira os olhos grandes


e azuis. — Você tem que falar com ele. — Ela termina enfática,
gesticulando o queixo para mim.

— Por que eu?

— Porque ele te escuta.

— O papai? Me escuta? — Rio sarcástico.


— Aidan, ele te escuta mais do que escuta a mim ou a própria
Dannya. Só você que não percebe. A primeira vez que ele decidiu
enfrentar Thomas, foi para te tirar da cadeia. Então é, você.

O show da The Reckless termina por volta da meia noite.


Quando descemos do palco, somos abarrotados por pequenos

grupos de fãs da banda.

Passamos por uma hora ou mais conversando com


desconhecidos, até Ashton sumir com uma garota que estava no
meio e Chase se despedir porque precisa voltar para a sua cidade.

Finn também se despede e vai embora. Desde que começou a


namorar Brianna, raramente o vemos nas festas pós-show e o
mesmo para Effy, Bryan e Mackenzie.

Sigo conversando com um grupo de garotas próximo ao palco,


um dos garçons do subsolo me serviu uma dose de uísque com gelo
enquanto elas estão bebendo champanhe.

Não consigo encontrar uma brecha na conversa para me


afastar delas.
Coço a nuca suada, demonstrando cansaço. Prometi a Maya
que passaria no The Icarus antes de ir para casa, mas já recebi uma

mensagem dela dizendo que estão fechando, então a minha boa


desculpa para sair foi jogada ao ar.

— Oi, baby. — Viro-me em direção a voz feminina e uma

pontada aguda na costela. Delilah está com um sorriso tranquilo


quando me abraça pelo quadril, fazendo com que o grupo de
garotas que conversam comigo lhe encarem dos pés à cabeça. —

Cansei de esperar, então vim te buscar. Está pronto para ir?

Pigarreio, porque sou pego de surpresa pelos seus dedos se


afundando na carne do meu quadril.

Delilah passa a mão esquerda por cima do meu abdômen e

não resisto, passo os braços por cima dos seus ombros e a puxo
para perto.

— Estou, linda. Desculpa por te fazer esperar.

— É a sua namorada? — a ruiva pergunta, escrutinando


Delilah.

Descobri que pertencer a uma banda já te torna atraente o


bastante. As pessoas querem ficar perto de você e te acham
inteligente e esperto por tocar um instrumento. Se você sabe cantar,

oba, ganhou vários pontos a mais.

— Delilah. — Ela estende a mão para cumprimentar a garota,


seu sorriso não se desmancha e uma onda frenética corre por todo
o meu corpo, com lembranças de quando ela realmente era a minha

namorada.

Meus braços ainda estão envolvendo seus ombros e os seus


ainda circulam minha cintura. Sua cabeça roçando levemente meu

peitoral enquanto se despede das garotas e entrelaça nossos dedos


para me guiar para fora.

Esse toque inocente e tudo o mais estão acabando comigo.

Será que ela consegue ter ideia de como me sinto? Tenho certeza
que não.

Quando finalmente estamos fora do Anarchy respirando ar

puro; sem aquele odor de cigarro, suor e bebida alcoólica exalando


dos banheiros, enfim ela desvencilha os dedos dos meus.

Fico parado, encarando-a rodopiar no meio do passeio,

sorrindo feito uma criança com os braços abertos.

— Ar puro, finalmente — ela geme de satisfação, parando de


girar. — Juro, te esperei por mais de uma hora!
— Foi mal, fiquei preso com elas. — Coloco as mãos nos

bolsos da calça jeans. — Não sabia como dizer que tinha uma
garota me esperando.

Uma que não é minha namorada. Uma que não vou tirar a

roupa e poder transar com ela a noite toda.

Morar com Delilah é delicioso, mas todos os dias é um


lembrete do que poderíamos ser se ela estivesse disposta a arriscar.

— Eu entendo. Como dizer que você mora com uma garota


sem dizer que está dormindo com ela? — Delilah sorri, amigável, e
ela tem feito muito isso durante esses dias.

— O quanto você bebeu? — Rio, observando seus saltos

alegres enquanto caminhamos para a Diamond.

— Quase nada. Só dois drinques com Mackenzie. — Delilah


para de pular e começa a andar de frente para mim, mas de costas

para a rua. — Está se perguntando se estou bêbada por que estou


feliz?

— Mais ou menos. — Semicerro os olhos para ela.

— Não estou bêbada, Aidan. Só estou feliz.

— Mesmo com toda a confusão rolando?


— A confusão ficou tão minúscula perto do que eu tenho com
vocês. Ver aquela reunião antes do show meio que acalmou o meu
coração, quer dizer, vocês estão tentando de verdade acabar com o

Thomas para me proteger.

Em ímpeto, seguro-a pelo pulso e a puxo para perto,


desviando-a do impacto que teria com um grupo de amigos que

passam ao nosso lado.

Seus braços se encolhem na frente do corpo e seu rosto se

choca com o meu peitoral. Ela sobressalta, criando uma distância de


uns vinte centímetros entre seu nariz e meu corpo. Ergue os olhos,
cravando-os em mim.

Estou sério e entediado, porque preciso viver nessa angústia


infinita de conviver com a garota que eu amo, sem poder tocá-la.

Delilah termina nosso contato visual para continuar andando,

dessa vez, não se distrai com pulos alegres ou risadas altas.


Caminha firmemente sem desviar.

Destravo as portas do carro para que entre e dou a volta para

me sentar no banco do motorista.

— Quero te pedir uma coisa, porque não paro de pensar nisso


— Delilah sussurra. — Você tem algo importante pra resolver?
Faço que não.

— Quero ir até Grev Willow.

— O quê? — sobressalto, espantado.

— Você vai dizer que não, mas desde que você confessou que
aposta em lutas clandestinas, não paro de pensar nessa história.
Queria muito ir até lá.

— Não vou te levar em Grev Willow. — Pressiono o botão para


ligar a Diamond.

— Não vai me dizer aquela frase clichê: não é lugar pra você?

— Não é lugar pra você. — Arqueio uma sobrancelha,


decidido.

— Você pode me levar até lá e me fazer companhia, ou posso


ir sozinha. — Delilah passa o cinto de segurança por cima do
ombro. — É você quem decide. Você sabe que se eu quiser

descobrir alguma coisa só preciso perguntar.

— Por que isso agora? — A encaro com firmeza.

— Quero saber onde te encontrar caso você suma outra vez. É


mais uma precaução. — Ela usa a mesma desculpa que usei dias
atrás para convencê-la a ir e voltar do trabalho comigo.
Quero socar o volante.

Quero brigar com ela.

Mas essa é só mais uma característica da Delilah que me


enlouquece e me deixa mais apaixonado por ela.
Grev Willow é a casa de um navio cargueiro. Funciona dessa

maneira desde que a cidade existe, até oito anos atrás, que ele foi
oficialmente desativado, ancorado à orla do canal. Não retiraram o

navio da água porque representa um fato histórico da cidade e está


lá como patrimônio, é o que Aidan explica enquanto caminhamos
rumo ao píer do navio.

Os moradores o apelidaram carinhosamente de Navio


Fantasma. Como não sou adepta a filmes ou histórias de terror, nem

ouso perguntar o porquê, só o deixo me guiar pela passarela.

A luminosidade é baixa, estamos usando as lanternas dos


celulares para indicar o caminho.

Estou logo atrás dele, desviando dos obstáculos como pedras

medianas ou o risco do salto da minha bota enroscar em um


protuberância exposta do píer de cimento. Mas consigo ver as

costas de Aidan; o cabelo platinado e como está desalinhado na

região da nuca.
— O pai do Kurt trabalhava como parte da tripulação do navio

— Aidan segue contando. — E Kurt meio que deu um jeito de ter


acesso ao navio várias vezes. Ele conhece cada entrada estratégica

e como não ser pego. É distante da cidade, a polícia quase não vem

aqui.

— Como é que isso aconteceu? — Na penumbra, consigo ver

o enorme navio cargueiro, em preto e vermelho, de mais ou menos


trezentos metros.

Os containers – provavelmente vazios – na parte superior dele

são como peças de dominó de onde estou, de cores variadas entre


o vermelho, preto, cinza e branco. Empilhados de forma simétrica

para manter o equilíbrio de peso. Eles fazem uma barreira ao redor


do gradil de metal do navio.

Quanto mais próximo estamos, mais sinto a bile subir à

garganta.

É errado. Estamos invadindo uma propriedade histórica da


cidade e não consigo nem imaginar a situação que o tal Navio

Fantasma pode estar por dentro.

— Outros navios de carga foram surgindo — Aidan responde

minha pergunta —, mais atualizados, com GPS integrado e


totalmente automatizado. Esse foi saindo do mercado, sem contar
que novos portos foram surgindo com o passar dos anos. Mais

estratégicos para embarque e desembarque de carga. Grev Willow

ficou na contra mão e entrou em desuso.

— Não seria mais inteligente tirar o navio da água?

— Seria, mas é como te disse, é um marco histórico na cidade.


Vale mais a pena conservá-lo.

— Isso se seu amigo Kurt não o destruir de uma vez.

— Kurt tem orgulho de Grev Willow e a história que sua família

tem com o navio. Por mais que seja ilegal o que ele está fazendo,

jamais deixaria o navio se acabar. Desde que anunciaram a


desativação do 194, Kurt começou a planejar um jeito de nunca

precisar sair dele.

— Era só ele se tornar piloto de navio. — Arqueio uma

sobrancelha, mesmo apostando que Aidan será incapaz de ver

minha indignação sob a meia-luz. — Se ele for pego…

— Vai ficar um bom tempo preso por violar patrimônio

histórico. — Aidan sorri matreiro, nem um pouco preocupado com a

hipótese.
Paramos de falar quando luzes azuis e vermelhas irrompem de

um ponto distante de onde estamos.

As sirenes da polícia estão mudas, mas Aidan agarra minha

mão, forçando minhas pernas a agilizarem pelo caminho.

A corrida pela passarela parece nunca terminar. E noto a


escada metálica, ancorada à entrada do navio. Não consigo dizer

quantos metros de altura tem, mas posso medir, no mínimo,


dezesseis andares até estarmos no topo.

O medo de sermos pegos me sufoca, mas Aidan não para de


correr até estarmos diante da escada.

— Vai, sobe — ordena, me colocando à frente.

— Nós vamos subir por aqui? — brado, apontando para a

escada enferrujada.

— Você disse que queria ver onde tudo acontece. Sobe! —


exclama, olhando por trás do ombro, para as luzes da sirene que
ficam cada vez mais próximas. — Rápido! — insiste, me agarra pela

cintura para me colocar na escada.

Começo a subir. Degrau por degrau, sem olhar para baixo.

Quanto mais meus joelhos se dobram e a borda do navio se


aproxima, menos acredito que seja uma boa ideia estar aqui.
A cada barra de ferro que agarro, escuto meu queixo tremer de

frio e medo, ao mesmo tempo em que ouço os coturnos de Aidan


fazendo barulho ao subir atrás de mim.

Paro por dois segundos, só para checar a viatura e descubro

que se não for mais rápido, nós seremos com certeza pegos por um
crime que nem cometemos – ainda – e forço-me a subir com mais
agilidade.

Assim que seguro o gradil, impulsiono meu corpo para cima,

lanço-me contra o superior gélido e maciço do navio. Tem um cheiro


grotesco de gasolina e fumaça exalando de algum ponto, mas não

tem nenhum sinal de fogo.

Jogo as costas contra o parapeito metálico, inspirando o ar

com dificuldade.

Fecho os olhos ao inclinar a cabeça, apoiando-a na lateral


enferrujada.

Aidan cai ao meu lado, a respiração desarmoniosa exibe seu


medo.

— Merda, você disse que a polícia não vinha aqui! — acuso,

pressionando o lado esquerdo do peito em uma tentativa de acalmar


os batimentos frenéticos.
— Eles não ficam aqui, mas fazem ronda. — Ele atira a cabeça
contra o ferro atrás de nós e abre a boca para exalar a respiração
densa.

— Cadê os seus amigos?

Mudo de assunto, vasculhando o superior do navio. A

quantidade de containers empilhados é imensurável. Todos com


uma baixa probabilidade de conter qualquer carga, mas estão lá e
nunca vi nada igual de perto. É como estar em um daqueles filmes

de ação que no final o bandido e o policial ficam encurralados em


um labirinto de aço patinável e usam as grandes peças de dominó

como trincheiras.

— Você já esteve no porão de um navio cargueiro? — Os

lábios se repuxam no final da pergunta, demonstrando satisfação.

Aidan olha para cima, em direção ao ponto alto do navio que


posso arriscar dizer que é a torre de comando.

Com o celular em mãos, liga a lanterna e aponta para as


janelas de vidro da torre.

Um segundo depois, escuto o ranger e a vibração sobre o meu

traseiro e uma chapa metálica se arrasta no chão. Ela tem, no


mínimo, uns dez metros de comprimento, mas só abre o necessário
para que uma pessoa atravesse.

Aidan se levanta com a mão estendida para mim, oferecendo


ajuda.

— Não, eu nunca estive num porão de navio cargueiro antes

— Olho para o buraco de mais de vinte metros que se abriu no


centro do navio e volto meus olhos para a torre de comando, onde

consigo ver a silhueta de um homem musculoso e de pelo menos


um metro e noventa. — Caramba! — Fico na beirada, estreito os

olhos para tentar ver o fundo.

— Bem-vinda ao submundo de Grev Willow — Aidan diz, mas


apesar do sorriso satisfeito de minutos atrás, ele não parece nem

um pouco feliz agora.

Ele me ajuda a descer o primeiro lance de escadas.

Meus pés atingem o solo, mas noto mais uma escada em

espiral. Com certeza o tal porão tem no mínimo uns vinte metros de
profundidade e não estou nem chutando tão alto assim.

Encaro Aidan como se buscasse por respostas, afinal, ele


disse que tem um trauma com lugares muito abafados, mas logo

minhas dúvidas evaporam como fumaça.


Tem latões de óleo espalhados em cada ponto do extenso

porão. O chão que pisamos é de puro metal enferrujado, mas


parece estar resistindo ao tempo e ao contato incessante com a

água.

Chamas medianas escapam pelos bocais cilíndricos dos

latões, que é onde o cheiro de álcool está vindo.

Meus olhos correm analíticos pelo porão.

Uma quantidade razoável de pessoas se aglomeram em volta

de um tatame, mas nem todo mundo está realmente envolvido com


a briga no meio do porão.

Algumas pessoas estão distraídas em conversas, outras estão

se beijando de maneira efusiva e ousada. Muitos estão com bebida


nas mãos, então vejo que tem alguns latões de óleo personalizados

em preto, com a escrita em branca dizendo: Navio Fantasma. Sobre

eles, barris de cerveja e copos de plástico vermelhos empilhados ao


lado. Bebida à vontade.

Explica o porquê Aidan chegou tão bêbado na festa de

aniversário do Chase.

Essas são pessoas que Aidan e eu não estamos acostumados

a conviver. São pessoas do passado macabro dele e de repente me


pergunto se Bryan ou os outros chegaram a vir até aqui e conhecer

esse lado sombrio dele.

Estudo o maxilar truncado de Aidan, as mãos afundadas no


jeans escuro da sua calça e na forma como seus olhos rastreiam o

lugar; uma mescla de medo e arrependimento. Por um segundo, me

arrependo de tê-lo convencido a me trazer aqui. Está na cara que


ele não está confortável nem orgulhoso de ter me trazido e aberto o

lado tenebroso de uma vida que ele tenta esquecer.

Consigo ver atrás da tensão dos seus músculos que Aidan

vem até o porão, mas não se sente confortável.

Seu olhar está fixo na luta acontecendo no âmago do navio.

Observo os dois lutadores. Totalmente despreparados. E nem

de longe parece uma luta justa. Um deles está com o nariz trincado
e o outro, acho que perdeu a presa da arcada dentária porque

cospe uma coisa branca no chão.

Eles unem os punhos na frente do rosto e voltam a brigar. É


tanto chute, soco e sangue que não consigo assistir a luta inteira.

— Aidan Lynch!

Aidan e eu, nos voltamos para a voz próxima.


— Você nunca trouxe uma garota para o Navio Fantasma. —

Ele abre os braços para abraçar Aidan, que retribui.

Enquanto conversam, olho para Kurt. Aidan o chama assim,

então sei que é o cara que organiza tudo isso.

Ele tem cabelos platinados como Aidan, anéis nos dedos,

colares e pulseiras de prata.

Está vestindo uma camisa preta e as mangas estão dobradas,

calça cargo preta e larga. Kurt tem tatuagens por toda a extensão

dos braços e algumas despontam da gola da camisa.

— E quem é a garota? — Kurt acena para mim.

Ele é alto; mais alto que Aidan e ele já é bem maior que eu.

Kurt lambe os lábios me analisando dos pés à cabeça, em

seguida, mexe no brinco de argola da orelha.

Ele estica o braço para me tocar. Em defesa, dou um passo

para trás.

Aidan segura o pulso de Kurt e com um tranco, o afasta de

mim.

— Sem joguinhos, River. Delilah é uma amiga — Aidan

acrescenta, sem tirar os olhos de Kurt, que delineia um sorriso

malicioso para mim. — Esse é o Kurt River, Delilah.


Cruzo os braços para deixar claro que não tenho interesse em

cumprimentá-lo com um aperto de mãos ou coisa parecida.

Assinto com a cabeça para anunciar que entendi, mas desvio


os olhos, evidenciando minha desaprovação para o cara.

— Ela é manhosa — Kurt murmura para Aidan. — Vocês estão


transando?

— Já disse que não — Aidan responde conciso, e pelo modo

como sua mandíbula enrijece, está pedindo silenciosamente para


Kurt não fazer nenhuma piada de mal gosto.

— Se não tem sexo nem compromisso, então ela está


desimpedida. Não devia ter trazido ela pra cá — ele emenda, com

um sorrisinho de escárnio. — Sinto o cheiro de papai tem muito

dinheiro de longe. E ela tem cara de que tem um pai com influência

lá em Humperville.

— Só estamos de passagem. Não vou demorar muito.

— Você é sempre bem-vindo, cara. Mas esse é um negócio

que não quero que ninguém atrapalhe, sacou? Nem mesmo a

burguesa que você está comendo.

Kurt me dá nojo.

E não consigo acreditar que Aidan é amigo de um cara assim.


— Fica à vontade, irmãozinho. — Kurt abraça Aidan outra vez,

mas dessa, ele não retribui com tanta vontade como quando
chegamos. — E você, fica atenta. — Envia uma piscadela para mim.

— Esse mundo não é pra você. Tem muita merda rolando nesse

porão, cuidado pra não ser despejada junto pro esgoto.

Kurt faz um barulho com a boca antes de sair, como se

estivesse limpando os dentes. Não sei porque, ele fez com que eu

me sentisse de forma literal, uma merda.

As lágrimas cutucam o canto dos meus olhos porque ele é

desprezível como um rato.

Fito sua nuca como se fosse possível machucá-lo dessa

maneira e quando ele se mescla a multidão, me volto para Aidan,

que até um minuto atrás, estava encarando a mesma direção que


eu.

— Não acredito que você é amigo dele — rumorejo.

— Não sou amigo dele.

— Você é sim! — devolvo, com raiva. — Olha o tipo de lugar


que você frequenta e as pessoas que você está convivendo. Em

Humperville você tem amigos de verdade, uma família que te ama e

te apoia, e…
— Aidan! — Dessa vez é uma voz feminina, aguda e pomposa.

Miro a direção da voz e é uma garota.

Cabelos longos abaixo dos seios aprumados, com ondas

espessas e cheira a morango. Ela pressiona os lábios grossos na

bochecha de Aidan, deixando a marca do gloss rosa como um


carimbo sobre a pele dele.

— Oi, Angie. — Aidan a segura pelos antebraços.

É um toque inocente, no mínimo, nem percebe que está

circulando o pulso dela com os dedos, mantendo-a perto. Deus,

quero vomitar.

— Pensei que não fosse te ver nunca mais depois da última

mensagem.

— É, eu não estava a fim de voltar aqui — Aidan se explica

para ela.

Angie entrelaça os dedos nos dele e ambos se viram para

mim.

— Delilah, Angie. Angie, Delilah. — Ele nos apresenta.

— Oi! — Angie exclama com animação exagerada, mas


mantenho um sorriso indestrutível.
— Oi! — Cedo ao abraço que Angie inclina para me dar.

— E aí, vai apostar quanto hoje? — Angie mexe na lapela da


jaqueta de couro dele.

— Nada. Não vou apostar nada, Angie. — Aidan ri no final da

frase. — Estou de passagem.

— Ah, que pena. Os prêmios estão altos. — Angie morde o


lábio inferior de forma sugestiva e sinto a repugnância fazer minha

língua arder.

Fechando os dedos no tecido da jaqueta de couro de Aidan,


ela o puxa para perto e seu lábio inferior toca o lóbulo de sua orelha.

Angie sussurra alguma coisa que o faz rir, sacudindo a cabeça.

E começo a perceber que Aidan tinha razão.

Não é lugar para mim. Estou me sentindo deslocada e


excluída. Não entendo o que eles falam, o que pretendem com

esses cochichos. Estou quase dando as costas para os dois e indo


pegar uma cerveja quando ela se afasta, depositando outro beijo na
mesma bochecha manchada, deixando outra marca.

— Te vejo na próxima, então? — sugere ela, andando de


costas para nós.
— Na próxima. — Aidan promete e Angie ainda está mordendo
o lábio inferior como se quisesse seduzi-lo quando acena para nós.

Para não ser mal-educada, aceno de volta para ela, mas estou

ansiosa para sair daqui.

A música Heat Waves começa a tocar quando a luta no centro


termina e a plateia alucinada por lutas clandestinas se dispersa.

— Quer beber alguma coisa? — Aidan gesticula para o barril e


faço um aceno. — Vamos lá então.

Ele começa a andar e o sigo como uma sombra. Aidan serve


dois copos: um para mim e outro para ele. Fico estudando-o

enquanto bebe, tentando entender onde foi que o Aidan de


Humperville começou e o de Grev Willow terminou.

Sua história tem um monte de intercessões e se antes não

estava interessada no passado dele – aquele onde o centro é Aidan


e não nós dois como um casal – tudo o que quero agora é entendê-
lo.

Como ele deixou de ser um viciado em apostas para se tornar


o equilíbrio das pessoas que o rodeiam. E porque aqui dentro ele
parece outra pessoa, rodeado de tanta gente que não tem nada a

ver com ele.


Estamos bebendo a goles curtos quando consigo falar.

— Quem é ela?

— É a namorada do Kurt.

— Vocês pareciam íntimos.

— Acredite em mim Delilah, essa é uma parte da minha vida


que você não quer saber e eu prefiro que você não saiba. — Ele

engole a cerveja.

— Por quê?

— Gosto mais de como você me vê agora.

— Acredite em mim, as duas versões que vejo de você estão

brigando entre si dentro da minha cabeça.

— Angie gosta de sexo a três — ele revela.

— Tipo, o namorado dela e outro cara?

— Ou outra garota.

— Era disso que ela estava falando? Se você apostasse e


ganhasse, você, Kurt e ela teriam uma noite juntos?

Aidan não olha para mim e não responde à pergunta. Então sei
que é a resposta que não quero ouvir.
O problema não está em Angie gostar de sexo a três. O

problema é como me incomoda a imagem dele com ela, assim como


pensar em Olivia com Aidan faz um buraco se findar no meu
estômago e o coração acelerar; a sensação de estar perdendo a

cabeça e não saber o que estou fazendo. Porque parece tão certo
não ficarmos juntos, tanto quanto parece óbvio que não quero vê-lo
com mais ninguém.

— Aquele dia que você chegou bêbado no show da The


Reckless, vocês estavam juntos?

— Sim, mas eu não fiquei com ela, se é o que você está me

perguntando. Nós ainda estávamos tentando, lembra? — Aidan se


vira para pegar a cerveja. — E se eu estou com você, então não
estou com mais ninguém. Não importa quais são os meus

problemas, sou leal, Delilah — Aidan sibila, sem nenhum


constrangimento e bebe.

Analiso a forma como esse lugar mexe com ele. Aidan vive em

uma guerra interna entre o certo e o errado. Estar aqui faz parte de
um mundo que ele não quer mais participar, mas de alguma forma,
todas as coisas o levam diretamente para esse passado.

Deixo meu copo no latão e Aidan olha para mim.


— Promete que não vai mais voltar aqui, Aidan.

— Não posso te prometer.

— Por que não? Você não quer voltar. Está na cara que você
odeia a versão que se torna quando vem pra cá.

— Porque eu consigo esquecer de tudo quando estou aqui,


beleza? Da dor de ter perdido minha mãe, de todos os problemas
com meu pai, de me sentir insuficiente o tempo todo! Sendo ruim ou

não, esse lugar me traz um pouco de paz!

— Você voltou a frequentar esse lugar quando entrei em coma,


não foi?

Ele não responde.

Olho para os lados, suspirando.

— Quero te ajudar, Aidan.

Aidan ri com desdém.

— Me ajudar? Não preciso de ajuda, Delilah. Nós estamos

seguindo em frente.

— Pensa no que a Olivia vai sentir quando souber disso tudo.

— Porra! — Aidan coloca o copo ao lado do meu e se vira para


mim, arfando de raiva. — Olivia? Ela não quer mais sair comigo
porque ainda estou apaixonado por você! Você age como se fosse
fácil seguir em frente, pode até ser pra você, mas não é pra mim,

Delilah. É uma tortura ter que olhar pra você todo dia.

Encolho e Aidan esfrega o rosto, apertando os lábios.

— Vamos embora — anuncio, e não espero que ele concorde


para começar a andar até a saída.

Mas quando olho para trás, para ter certeza que Aidan está me
seguindo, ele sumiu.

Vasculho a minha volta e o ar fica rarefeito enquanto o procuro


em desespero por todo o porão. Rostos e mais rostos. Tudo fica em

câmera lenta e não consigo vê-lo em lugar nenhum.

— Aidan? — murmuro, ainda girando no meio daquele monte


de gente que não conheço, procurando pelos olhos pacíficos de

Aidan. — Droga, droga, droga… — repito.

— Oi, gata! — Por cima do ombro, vejo Angie mascando


chicletes.

Ela retocou o gloss que deixou a bochecha de Aidan marcada.

— Kurt roubou seu namorado só por um minutinho. — Angie


me abraça como se fôssemos íntimas. — Não vai levar muito
tempo.
— Para onde eles foram?

— Conversar.

— Por quê?

— Eles estão jogando a merda fora. Me conta sobre você,


enquanto esperamos. Há quanto tempo estão namorando?

— Não estamos namorando.

— Hum. Aidan não deve se lembrar, mas passei mais de uma


hora escutando-o falar sobre você na última vez. Eu que dirigi a
Diamond até Humperville. Ele estava tão bêbado que seria difícil ele

chegar com vida!

Engulo em seco.

— Não estamos mais namorando — reformulo.

— Ele não devia ter trazido você hoje. — Angie balança a

cabeça, estourando uma bolha de chiclete. — Aidan conhece as


regras.

— Que regras? — devolvo bruta.

— Todo mundo que participa do clube de lutas clandestinas

sabe que desconhecidos não são bem-vindos. — Ela me aperta,


mostrando todas as pessoas espalhadas pelo porão. — É

precaução. Não conhecemos você nem sabemos se é confiável.

— Acham que entregaria o clube de luta idiota de vocês? —


Rio maquiavélica. — Acredite em mim, não tenho nenhum interesse

nessa merda.

Tento me desvencilhar do aperto firme de Angie em torno de


mim, mas é uma luta que não venço.

Mantenho os braços e o tronco imóvel, olhando em volta atrás

de Aidan, mas uma nova luta está prestes a começar.

— Me solta, Angie! — grunho, por cima da música e os gritos.

— Relaxa. — Angie passa a língua na minha bochecha, da

lateral do meu rosto até a altura de minha sobrancelha.

Fujo com o rosto para o outro lado, mas sinto o hálito de


cerveja com bala de morango. Ela gargalha, se divertindo com meu

desconforto.

Então o vejo com Kurt.

Aidan está encolhido, com o ombro sob o braço tatuado de


Kurt. O nariz sangrando e a boca com um corte fundo no lábio

superior.

O aperto de Angie finalmente suaviza e consigo me soltar.


A camisa social e branca de Aidan está com respingos de
sangue.

— Foi bom nosso papo — Kurt debocha, e Aidan sacode os

ombros para se livrar dele. — Espero te ver na próxima vez, Aidan.

Ele não vai voltar nunca mais, imbecil.

— Aidan? — Ele cambaleia como se estivesse tonto.

Corro para ampará-lo e posso ver como as íris azuis dilataram.

— O que você fez? — Sentencio Kurt, o fulminando dos pés à

cabeça.

— Só dei ecstasy para ajudar com a dor. — Kurt sacode a


cabeça como se não fosse nada. Angie ri alto e se junta ao

namorado, beijando-o no queixo. — Em seis ou oito horas ele estará


novinho em folha. Se precisarem de um lugar para ficar, mi casa es
su casa, baby.

— Não me chama assim — resmungo com raiva, e Kurt se


diverte se deleitando com uma risada diabólica.

Seguro o rosto de Aidan entre as mãos e o forço a olhar para

mim.

— Vocês conhecem a saída, não é? — Angie diz, apontando


com o queixo duro para as escadas. — Precisa de ajuda para
carregá-lo?

— Não! — recuso com rispidez.

Passo um braço de Aidan pelo meu pescoço e deslizo minha

mão direita por sua cintura.

A cada passo que dou em direção à saída, penso que não vou
conseguir tirá-lo daqui sem que o arremesse na água.

Seis ou oito horas. Foi o que Kurt disse.

— Você precisa me ajudar, tá? — sussurro para ele. — Você


não tem um bom amigo em Grev Willow?

Aidan diz que não, sacudindo a cabeça.

— Consegue me ajudar? Pelo menos para subir às escadas.

Ele assente, concordando comigo.

— Ótimo.

E um pé após outro, conseguimos sentir a brisa do mar. É

salgado e queima minha pele na noite de primavera. Aidan está


rastejando, mas ainda consegue andar e parece que o ar fresco lhe
trouxe um pouco de volta à realidade.

— Não posso dirigir.

— Eu sei.
— Acha que consegue?

— Ainda não.

Coloco as mãos na cintura e volto minha atenção para o cara


que vimos antes de entrarmos no porão, que está na torre de
comando do navio.

Aceno para ele, enquanto arrasto Aidan em direção ao gradil


do navio.

Espio a escada e excluo a possibilidade de descer com Aidan


como fizemos para sair do porão. É alto e arriscado.

— Precisa de ajuda? — Ouço por cima da música, que, antes,


não chegava aqui, acho que o som não penetrava a chapa gigante
que é a porta do porão.

É, com certeza, a silhueta que vi mais cedo.

Os cabelos escuros e espetados, tatuagens pelos dedos e


brincos nas duas orelhas que brilham sob a luz do navio. Mas, é

como se estivesse vendo uma cópia de Kurt bem diante dos meus
olhos. Mesmo nariz e boca; a voz e todo o resto.

— É, eu sei. Sou a cara dele. O que rolou? — Gesticula para


Aidan que está se apoiando na barra de ferro do parapeito.

— Kurt.
— Ele é um babaca — queixa, indo até Aidan. — Ei, cara.

Tudo bem?

— Vou matar seu irmão, juro por Deus.

— Você diz isso há anos. — O homem gargalha. Ele é mais

corpulento que o irmão. — A propósito, sou Killian — Killian diz


para mim, acariciando as costas de Aidan. — Quer que leve você
até seu avô?

— Fred vai ficar decepcionado. — Aidan parece realmente


chateado.

— Frederick não vai te culpar, cara.

Aidan só assente, concordando com Killian.

— Certo, se agarra em mim. Não vou te soltar de jeito nenhum.


— Killian ri, achando graça, mas nos ajuda a descer.

— Obrigada — agradeço ele.

— Que isso. Não é a primeira vez que eu amorteço os

problemas do meu irmão.

— E por que você não está lá embaixo?

— Só estou aqui para garantir que aquele babaca não acabe


na prisão. Irmãos cuidam de irmãos. Essa é a regra.
A pontada de culpa que essa frase desperta em mim me faz
parar pouco antes de terminar de descer a escada.

Lembra-me Sebastian.

É a maldita sensação de não aceitar o término e muito menos


a morte.

Somos inocentes o bastante para acreditar que podemos


vencer as duas coisas, mas, na verdade, a única coisa que
podemos vencer e controlar, somos nós mesmos. Se quisermos
fazer isso.

Frederick Lynch mora em um apartamento dentro do Grev


Willow Beach, um clube onde Darnell arrendou um bar para o pai.
Sei disso porque Killian me atualizou de como anda o avô de Aidan
e até onde escuto, ele está muito bem vivendo sozinho.

Frederick está nos esperando na entrada do clube. Um outdoor


enorme com o nome Grev Willow Beach está amparado em duas
barras de ferro, em cima da guarita que abriga um guarda fardado.
O avô de Aidan acena para o guarda, autorizando nossa
entrada, mas Killian desliga o carro e sai de dentro dele.

Faço o mesmo e me encontro com ele em frente a Diamond.

— Não vou entrar — diz, colocando as mãos dentro do

moletom cinza que está vestindo. — Consegue levar o carro até o


apartamento de Frederick?

— Acho que consigo. — Rio, olhando para as lanternas do

carro que ofuscam minha visão. — Obrigada pela ajuda.

— De nada. E sinto muito pelo meu irmão.

— Sendo sincero, você só nos ajudou para garantir que eu não


conte a polícia, não é?

Killian fica sem graça porque com certeza sua única intenção
em nos ajudar é essa.

— Não se preocupa e mais uma vez, obrigada, Killian.

— Por nada. — Ele olha para o para-brisa. A cabeça de Aidan


está tombada e ele dorme profundamente. — E vê se cuida dele,
tá? Aidan é um cara legal. Fiquei feliz quando ele saiu dessa cidade
e se afastou dessa vida de merda. Queria que meu irmão e eu

tivéssemos essa sorte.


— Se estiver precisando de um recomeço, Humperville é um
bom lugar.

— Já ouvi dizer.

— Vai voltar como?

— Andando. Gosto de andar.

Killian acena em despedida e faço o mesmo.

Quando não consigo mais vê-lo sob a sombra da noite, fito-o


através do para-brisa, onde Aidan dorme tranquilamente.

Fico me perguntando como um cara incrível como ele pôde se


envolver com essas pessoas, mas não posso julgá-lo, apesar de ter
feito isso minutos antes de ele levar uma surra.

Sento-me atrás do volante. Acho que nunca dirigi um carro


automático antes, mas vi Aidan e minha mãe fazerem isso antes.

Já tive aulas de reciclagem de direção e treino quase sempre

com Ashton e Bryan. Não deve ser tão difícil.

A cancela abaixa e empurro o acelerador, só um pouco. E


parece tranquilo dirigir a Diamond.

Frederick está esperando do lado direito e quando paro o


carro, ele entra no banco traseiro.
— Você deve ser a Delilah? — pergunta, colocando a cabeça
entre os bancos dianteiros.

Faço que sim.

— O que foi que aconteceu? Há muito tempo não recebo uma


ligação de madrugada.

— É uma longa história. — Examino Aidan que continua

dormindo. — Só me diz pra onde ir.

— Aidan parece desmaiado. — Fred cutuca a bochecha do


neto. — Ele usou drogas.

— Não por vontade própria — digo, conferindo o retrovisor


mesmo sem nenhuma possibilidade de um carro estar atrás de mim.
— Foi ecstasy — conto, porque não acho justo tirá-lo da cama às

quatro da manhã e não falar a verdade. Aidan pode me repreender


depois.

— Ele andou falando com Kurt outra vez?

— O senhor já sabe?

— Há-há, não há nada que esse garoto já tenha feito que eu


não tenha descoberto. Eu sou pai. Para quem você acha que
Darnell liga quando as coisas apertam? Para mim.

Observo o senhor grisalho se jogar no encosto do assento.


— Vire na primeira à direita.

Ele indica e faço o que manda.


Aidan está levando uma bronca do avô.

Os gritos foram abafados pela parede do escritório do ex-


combatente, mas pela entonação, dá para desconfiar que é um
sermão daqueles.

Fred usa algumas palavras repetidas como


“irresponsabilidade” e “imaturidade”. Essas ele vocaliza tão alto e

em bom som que é impossível não escutar.

Encolho-me a cada reprimenda que ele faz para o neto,


lembrando-me que a ideia de vir aqui foi toda minha. A culpa
começa a me arrasar a cada vez que a voz de Frederick Lynch soa

mais atroz.

Ele acordou Aidan assim que estacionei na rua das torres do

pequeno condomínio do clube. Se parece muito com um vilarejo;


contém cinco prédios enfileirados dos dois lados, separados por

uma viela com gramado e mini coqueiros.

Cada prédio em forma de torre contém quatro andares, cada

andar, dois apartamentos. A maioria dos moradores trabalha no


clube de campo, Grev Willow Beach.

Aidan arregalou as opalas azul-claros assustado ao ver o avô

o penalizando só de encará-lo.

Sinto-me mais culpada lembrando da maneira espantada que


eles sustentaram o olhar um para o outro por longos segundos.

Depois subimos três lances de escada – porque não tem


elevador nos prédios – e Aidan parecia ter recuperado a

estabilidade quando o avô lhe ofereceu um copo de água grande e

gelado. Em seguida, o guiou para o escritório e estão lá desde


então.

Enquanto o sermão não termina, observo o apartamento de

Fred.

Tem um tamanho moderado, com uma decoração apática.

Os tons das paredes variam entre o cinza queimado e o

arenoso. Na parede da sala, com o fundo em cinza queimado,


abriga uma TV de tela plana de 55 polegadas. Ao redor dela,

prateleiras com livros da segunda guerra e assuntos que abrangem

a medicina. E inúmeras plantas artificiais que compõem a

decoração.
O sofá é reclinável e retrátil em um tom de azul marinho; um
carpete e uma mesa de apoio que acomoda o abajur pequeno. Do

lado tem um livro de poesia, com um marca página, acredito que

seja sua leitura atual.

Do lado direito tem uma porta de correr grande que começa no

chão e termina no teto que dá para a varandinha; no esquerdo é

onde estou, tem uma mesa redonda de seis lugares e a cozinha.

O corredor estreito dá acesso ao quarto, escritório e banheiro.

Tudo cheira à limpeza. O senhor Frederick exala hostilidade, mas

sabe ser flexível. Em nenhum momento foi grosseiro comigo, mas

pela maneira como sua voz reverbera do escritório, posso sentir a

pele queimar de nervoso.

Aidan acabou de ingerir uma quantidade generosa de ecstasy,

provavelmente contra sua vontade e sua adrenalina deve estar lá

em cima. A primeira coisa que deveria ser feito era repousá-lo e não

causar mais estresse.

Estou batendo a ponta dos dedos no tampo de vidro da mesa,


a ansiedade quase no pico. Mas então escuto a porta do escritório

abrir e fechar em seguida, e outra porta se abrir e fechar de novo,


logo depois o registro do chuveiro é ligado e Fred volta para o

escritório, onde Aidan com certeza está tomando banho.

Passa em torno de seis minutos até que Fred se junte a mim

na cozinha. E, em silêncio, começa a mexer nas portas de madeira


para reunir utensílios de cozinha.

— Está com fome? — pergunta, sem olhar para mim.

— Não. Ele está bem? — Inclino o quadril para olhar pela

extensão do corredor, mas as portas estão fechadas.

— Vai ficar. O ecstasy vai castigar a serotonina do corpo dele,


vou cozinhar alguma coisa pra ajudar a repor isso. Não acho que
valha a pena oferecer analgésico para rebater a dor nos músculos

que ele irá sentir mais tarde.

— Claro… — respondo aérea, ainda preocupada encarando o


vestíbulo por onde Aidan entrou minutos atrás. — Precisa de ajuda?
— acrescento, me levantando do lugar.

— Não. Relaxe, foi uma noite conturbada, imagino.

— Eu o convenci a me trazer aqui.

— Mas ele é o responsável por ter concordado. Rezei muito

para que Aidan não precisasse voltar nunca mais para essa vida
desde que minha nora faleceu. É uma tristeza que ele esteja
buscando conforto nisso outra vez. — O senhor grisalho quebra dois

ovos em uma tigela e começa a batê-los com o fuê. — Você não vai
se lembrar, mas nos conhecemos no casamento de Dannya e

Darnell ano passado.

— Aidan te contou o que aconteceu comigo?

— Aidan não. Dannya sim.

Fico em silêncio, observando-o cozinhar. Ele frita os ovos e os

separa em um prato fundo, acomodando-o numa bandeja. Coloca


um copo de leite e uma banana junto.

— É uma pena — ele se lamenta. — Você é uma boa garota,


Delilah.

Ele termina a bandeja recheada com comida e a coloca na

bancada da cozinha. Está vestindo um roupão felpudo vermelho e


pantufas pretas. Os cabelos brancos estão desalinhados, espetados

para cima como se tivesse levado um choque.

Fred cruza os braços, recaindo com o quadril para trás e

encosta-se na lateral da pia para me encarar.

Existem várias coisas que o senhor gostaria de me dizer,


posso ver pelo brilho ansioso que lampeja em seus olhos azul-

turquesa, mas não verbaliza nada.


— Não tenho mais um quarto de hóspede — informa, batendo
as mãos para tirar o pó inexistente delas. — Como não tenho visitas
há quase uma década, transformei o quarto de visitas num

escritório. Tenho um colchão inflável que posso colocar no chão


para você e Aidan dormirem.

— Ah, eu posso dormir no sofá. — Aceno para o sofá, mas o


rosto de Fred se contorce em uma carranca em desaprovação.

— Preciso estar de pé em duas horas. Não quero que você

acorde tão cedo. Se você se sentir muito desconfortável, posso te


oferecer o meu quarto.

— Não, não! — exclamo, negando com as mãos para ser mais


veemente. — Tudo bem, o colchão está ótimo.

— Você e Aidan deviam ficar amanhã. É domingo e faz tempo

que não tenho companhia para o almoço. Preciso abrir o bar porque
o clube não fecha aos domingos, mas posso reservar uma mesa

para nós em um dos restaurantes. — Ele me lança uma piscadela


brincalhona. — E quem sabe vocês podem dar uma volta na Karen.

— Karen?

— Comprei um iate, mas, não conte isso para Darnell. Ele


ficaria arrasado se soubesse que ando “colocando minha vida em
risco”. — Ele gargalha, fazendo aspas na última frase. Parece um
adolescente indo contra as regras. — Enfim, sou muito solitário
nessa cidade. Seria bom ter companhia amanhã.

Uma parte de mim grita insistentemente que é uma péssima

ideia ficar e me aproximar de Frederick.

Ele é avô de Aidan, afinal de contas, faz parte da família


Lynch, mas por outro lado, a ideia de tirar um dia de folga e poder

passear por todo o clube enche meus olhos de expectativa.

Acho que Fred percebe, porque acena e pisca os olhos me

incentivando a dizer sim. Além do mais, recusar fazer companhia

para um senhorzinho é de partir o coração.

Faço que sim, concordando com a ideia e o sorriso amarelado

dele faz com que me sinta grata pela escolha.

— Bom, vou forçar meu neto a comer isso. Repor o triptofano

para produzir serotonina e ele acordar novo em folha — explica,

erguendo a bandeja na mão. — Acho que tenho algumas roupas de


Aidan sobrando. De quando ele era mais novo. Vou te arranjar para

dormir mais confortável.

Sorrio em agradecimento e some pelo corredor outra vez.


Analiso minha aparência no reflexo do espelho. Estou com um

coque alto e desgrenhado no cabelo. A pele pálida, as bochechas


marcadas pelos pontos salpicados de sardinha.

Minha boca está levemente vermelha porque acabei de

escovar os dentes e a água estava gelada.

A camiseta antiga de Aidan é do Star Wars. Ainda que ele

tivesse em torno dos seus dezessete anos, ela ficou grande nos
braços e larga dos lados. Sou minúscula perto dele, não dá para

negar. O comprimento é razoável, é como se estivesse usando uma

camisola.

Só estou usando minha calcinha por baixo e me pergunto se é

uma boa ideia dormir com Aidan desse jeito, mas, até meio minuto

atrás, estava totalmente apagado no colchão.

Saio do banheiro e ele está exatamente como antes.

Um braço cobre os olhos, bloqueando qualquer fissura de luz e


o outro está debaixo da nuca.

A respiração pesada e calma é um indicativo que o sono é


profundo.
Aidan está sem camisa porque ficou toda manchada e Fred

disse que colocaria na máquina. Assim que acordarmos, mais tarde,

ela estará limpa e seca para ele usar.

Aidan usa o lençol para cobrir do tronco para baixo e Fred me

deixou outro.

Assim que deito, não consigo evitar encará-lo. Tem

hematomas avermelhados cobrindo sua costela e peitoral. A trilha

com a escoriação não termina ali, posso ver que vai até suas costas
e sinto um aperto no peito, quase como se eu tivesse levado a

surra. O lábio dele também está levemente inchado.

Assisto-o dormir. Como seu rosto parece sereno e solidário; a


boca entreaberta arquejando o ar.

Resisto a vontade de tocá-lo. Circular a protuberância do


contorno dos seus lábios e poder roçar meus dedos suaves na

barba por fazer.

Cubro o quadril com o lençol que o senhor Frederick separou


para mim, fico de lado e apoio a cabeça na mão.

Se ele abrir os olhos, serei pega no flagra, mas por um


segundo, não acho que me importaria.

Ele é tão bonito.


Aidan Lynch é um pacote completo. Daqueles que você não

conseguiria resistir. É gentil, amável, bonito e sexy. Ele seria meu se


eu quisesse. Essa é uma das poucas coisas que sinto que tenho

controle. Ser ou não dele.

Olivia não quis tentar nada com Aidan por minha causa. Não

consigo deixar de pensar que por mais que eu diga que quero seguir

em frente, sou só uma vírgula na vida dele. Nunca um ponto final.

As batidas do meu coração pulsam minha têmpora e aceleram

minha respiração. Estou tendo pensamentos conflituosos, mas não

posso deixar de sentir o frio se erguer por minha espinha como


pedras de gelo sendo arrastadas por cima da pele.

Aproximo-me um pouco mais, o suficiente para sentir o hálito

mentolado da pasta de dente exalando da sua respiração


carregada.

Aperto os lábios e me pergunto quão errado pode ser beijá-lo.

Dobro o pescoço, meus lábios ficam a poucos centímetros de

tocar os dele. Minha boca paira entreaberta e sedenta, e com um

impulso lascivo resvalo a boca na dele.

Ele não reage e me afasto.


Sorrio para ele e me deito; a lateral do rosto fica colada ao

travesseiro e continuo assistindo-o dormir profundamente.

Imagino o que poderia acontecer se ele acordasse no instante


em que minha boca tocou a sua.

Pela primeira vez em muito tempo, os sonhos são leves e não


estão envolvidos com uma pessoa misteriosa tentando me atacar

por causa do meu pai.

A cena típica dos romances é a mocinha acordar emaranhada

aos braços do mocinho quando dividem a cama, mas ao entreabrir


os olhos, estou sozinha no colchão.

Estico os braços, sonolenta, em busca de robustez ou uma

barreira corporal que impeça de me alongar.

Aidan não está na cama. A constatação me faz arregalar os

olhos de vez e me colocar sentada.

Deparo-me com Aidan diante de mim, abotoando a camisa

devagar, um botão perolado após outro.


Tento não apreciar os gomos do tanquinho do seu abdômen,

mas eles estão expostos e é difícil ignorar.

Ergo os olhos, teço um caminho pela trilha de pelos da sua

calça e vou até o peitoral maciço, maculado por hematomas que

começaram a ficar arroxeados.

Aidan está me encarando. Não é um rosto amigável, pelo

contrário, ele parece… bravo?

— Bom dia.

— Oi.

Começo a observar o escritório do senhor Frederick. A mesa

abarrotada com papéis e um computador empoeirado.

As prateleiras com mais livros de estudo e os lençóis que

Aidan e eu dormimos amarrotados.

— Que horas são?

Pigarreio para disfarçar a vergonha. Minha calcinha não está


totalmente exposta, mas dá para ver o elástico branco de renda no

meu quadril. Puxo o lençol na altura dos seios.

— Quase meio-dia.
— A gente dormiu demais — murmuro e viro as pernas para
sair do colchão.

— Não quis te acordar.

— Não, tudo bem.

Calço minhas botas.

— Meu avô deixou um bilhete. Você concordou em ficar?

— Concordei. Fiquei com pena dele.

— Meu avô pode ser bem manipulador quando quer uma

coisa.

— Ele não parecia estar tentando me manipular. — Amarro o

lençol no quadril e puxo os fios do cabelo para trás, para amarrá-los


num coque. — Só perguntou se podíamos passar o dia com ele.

— Ele trabalha o dia todo. — Aidan termina de abotoar a

camisa e puxa a cadeira para se sentar e começa a amarrar os


cadarços dos coturnos.

Está vestindo a camisa social branca de ontem, calça jeans,

coturnos e a jaqueta de couro está no encosto da cadeira. Ele é a


única pessoa que conheço que combina um estilo social com casual
e consegue ficar sexy.
— Enfim, vou esperar você se trocar lá fora. — Ele aponta por
cima do ombro.

Ele soa um pouco agressivo quando abre a porta e a bate.

Permaneço imóvel. O baque oco da porta fica se repetindo no

fundo da minha mente e só consigo me mover segundos depois que


Aidan sai do quarto.

Vou para o banheiro e começo a me trocar. Volto com a saia

jeans, a meia calça e o top preto. Não coloco a jaqueta de couro.


Não é apropriado para um clube.

Escovo os dentes com a escova que o senhor Frederick me

ofereceu na noite passada e lavo o rosto para tirar o resto da


maquiagem que ficou na pele.

Quando saio do escritório, Aidan está mexendo no celular,


sentado à mesa.

É angustiante essa expressão vazia que lança para mim cada


vez que me olha.

— Sobre ontem… — começo, ao puxar uma cadeira para me

sentar. — Eu sinto muito, por tudo. Te convenci a me trazer para cá.

— Só tenho uma pergunta. Você teria acreditado se eu


contasse que te trazer para as lutas poderia causar problemas?
— Não. Eu acharia que você estava tentando me enganar.

Aidan joga a cabeça para trás. Parece desapontado.

— Acho que devíamos ir embora.

— Por quê?

— Porque estou cansado e não quero ficar.

Ele é conciso e ríspido. Não é uma atitude comum dele, mas


tem uma coisa que estou notando; como sempre brigamos.

Pergunto-me se éramos assim antes.

— A gente brigava desse jeito?

— Como é?

— Brigávamos o tempo todo, como estamos fazendo?

Aidan pensa no assunto.

— Não. A gente quase não brigava.

Não sei se essa resposta me deixa feliz ou com raiva. Porque

a antiga Delilah parece mil vezes melhor do que eu e o tempo todo


estou tentando ser melhor do que ela.

— Mas você não precisa se preocupar, porque você sabe, não

sabe? Nós terminamos. Continuamos brigando por idiotice. Não


precisamos ficar juntos e muito menos nos suportar.
As palavras dele me ferem. Sinto as lágrimas brotarem nos
cantos dos olhos e viro o rosto para que não veja.

Ele está magoado comigo.

— Não fala assim comigo.

— Nunca sei o que está acontecendo com você, o que passa


na sua cabeça ou o que você pensa que está fazendo me

confundindo toda maldita vez!

— Desculpa!

— Se você não quer ficar comigo, não me beija! — ele

explode, e arrasta a cadeira para trás com o impulso do corpo.

Então sei que ele não estava dormindo ontem, só pareceu


estar.

Aidan faz bagunça nos cabelos usando os dedos como pente e

inclina a cabeça para trás, parando com as mãos no quadril.

Ele suspira, a exaustão se evidencia em cada átomo do seu


corpo. Noto a tensão nos músculos do rosto e ombros. Como trava

a mandíbula mordendo duro e tenta não olhar para mim.

Ele recupera o fôlego.

— Te espero no carro.
Não concordo com ele. Passo longos minutos pensando no

que fazer. Preciso tomar uma decisão, parar de confundi-lo.

Dá para ver que agir dessa maneira está o destruindo cada


vez mais.

Entro no carro com nossas jaquetas. Coloco-as no banco de


trás e passo o cinto de segurança.

Sem dizer uma palavra, Aidan dá partida e sai da frente do

prédio em que o avô mora.

O porteiro na guarita abre a segunda cancela e passamos


muitos minutos circulando pelo clube com o carro, até que Aidan

estaciona em frente a um restaurante de comidas marinhas.

O restaurante fica quase em cima do mar. Ele tem um deque


amadeirado comportando várias mesas e a parte interna também
parece estar lotada. Vejo o senhor Frederick sentado sob um

guarda-sol no deque do restaurante. Segredos do Mar, é o nome.

Ele está vestindo camisa e bermuda branca e um chapéu de


praia, com uma fita preta em volta. Usa óculos escuros e sandálias.
Aidan e eu parecemos dois adolescentes saídos de um filme
triste. Acho que meus olhos ainda estão vermelhos da discussão e
ele continua carrancudo. Fred acena para nós assim que nos vê.

Subimos os degraus de madeira e seguimos para perto de


Fred.

— Bom dia, dorminhocos — Fred brinca, um sorriso tranquilo


de quem pretende fazer esse dia valer a pena. Não consigo nem

visualizar a decepção dele quando Aidan disser que não vamos


ficar. — Trouxe presentes. — Ele coloca uma sacola de papelão

enorme sobre a mesa, com o símbolo de uma concha com uma


pérola dentro. — As roupas de vocês não são adequadas!

— Vô! — Aidan resmunga, olhando dentro da sacola. — Não


vamos ficar, te falei no telefone.

— Você é malcriado — Fred sentencia. — Cuidei de você, te


recebi na minha casa. O mínimo é vestir essas roupas e fazer
companhia pro seu avô. Tirei o resto do dia de folga.

Aidan arqueia uma sobrancelha, suspeitando da boa intenção


dele.

— Vão se trocar. Já pedi a comida.


Não dou tempo para Aidan discutir. Agarro a sacola e me
levanto, indo em direção ao banheiro externo do restaurante.

Aidan me segue. Desço as mesmas escadas que subimos

minutos atrás e faço o contorno do restaurante ao ver a placa que


indica o toalete.

Antes mesmo de chegar aos banheiros, estou vasculhando a

sacola atrás das minhas peças de roupa.

Fred me comprou um conjuntinho de biquíni preto e uma saída


de praia laranja. Também tem um chapeuzinho no estilo bucket

preto e chinelos.

Para Aidan tem uma bermuda cargo cáqui e uma camiseta


branca leve. Óculos de sol e chinelos.

— Eu sei que você está com raiva — digo, soando sincera.

Seguro as peças que ganhei do senhor Fred contra o peito e paro


diante do banheiro feminino. — E não estou dizendo que você não
tem razão Aidan, porque você tem. Te deixo confuso e sei que estou

te enlouquecendo.

— Com certeza você está.

— Mas será que só por hoje, podemos baixar nossas defesas

e não brigar? — Ele fica em silêncio, me encarando. — Por favor?


Eu preciso de uma folga! E você também!

— Com uma condição.

— Qual?

— Tenho uma pergunta pra te fazer.

Aceno, concordando com ele.

— Por que me beijou?

Sabia que ele iria perguntar e não posso mentir para ele.

— Nunca escondi que você mexe comigo. E quero ser


honesta, se naquele dia, você não tivesse me colocado contra a
parede, não teria desistido de você.

— Então você continuaria mentindo pra mim.

Seus olhos vagam por mim.

— Nós dois cometemos erros. Você quer que eu te ame e eu


só preciso me reencontrar.

— Não pensei desse jeito.

— Você está desesperado porque me perdeu.

Ele engole em seco.

— Sei que você pensa que não te entendo, mas entendo


Aidan. Posso não conhecer sua dor, mas sempre me coloco no seu
lugar. E não quero te magoar, é por isso que recuei. Mesmo sem

querer recuar, eu recuei.

A compreensão limpa sua expressão de derrota e Aidan só


assente para concordar comigo.

Para o bem ou para o mal, nos importamos um com o outro.


Estamos sim em momentos diferentes, ele está preocupado com o
amor e eu em como vou retomar a minha vida.

Somos quase a família perfeita. Aidan parece mais leve, o que


torna o clima na mesa menos denso.

Frederick gosta de fazer piadas e tomar conhaque. E acho

graça nas brincadeiras do avô de Aidan, o que o incentiva a


continuar me fazendo rir.

Uma música baixa está tocando dentro do restaurante, as

caixas de som acopladas à parede de madeira do lado de fora


fazem com que ela chegue ao deque também.

A princípio não reconheço a canção, mas quando chega ao


refrão, sei que é Save Your Tears.
— Que tal um passeio de iate? — Fred sugere, ao limpar os
lábios sujos com molho de mostarda e mel da salada.

— Delilah não é muito fã de água — Aidan conta ao avô.

— É sério? Por quê?

— Longa e complicada história. — Rio para evitar o assunto.

— Ah, mas você precisa conhecer a Karen.

— Meu pai sabe que você comprou um iate e o batizou com o


nome da vovó?

Fred engole a última dose de conhaque do copo.

— Não conto nada se você não contar. — Fred pisca para o


neto em forma de cumplicidade e bebo mais um gole de limonada

para disfarçar a risada.

— Posso tentar. — Aidan se compromete.

É claro que a ideia de estar na água me apavora, mas uma


parte de mim não quer que mais traumas do passado tomem o

controle das minhas decisões. Quero voltar a viver sem esses


traumas e posso começar enfrentando a água.

— Tem certeza? Não precisa, se não quiser.

— Tenho sim.
— Ótimo! — Fred esfrega as mãos com empolgação e se
levanta. — Vocês podem ir na frente, vou acertar a conta do

restaurante. Ah, Aidan, vou te enviar a localização, está bem?

Aidan faz que sim e juntos caminhamos para a Diamond.

— Seu avô é legal.

— Espera até ele ficar bêbado de conhaque e começar a

cantar como um pirata.

— Eu acharia um máximo — brinco.

— Desde que minha avó morreu ele vive ficando bêbado de


conhaque. Se meu pai souber que estive aqui e o deixei beber

conhaque até revirar os olhos, sou deserdado, com certeza.

Falando em Darnell, estou pensando em como ele vai reagir a


notícia de Dannya estar grávida.

— Como estão os planos para contar ao seu pai sobre a


gravidez?

— Estamos tentando encontrar a data certa.

— Como você está com a ideia de ter um irmão?

— Acho que não vou ter tempo de conhecê-lo direito.

— Por que diz isso?


— Sinto que a The Reckless está perto de assinar um contrato

importante.

Ashton me contou que Jared quer agenciá-los como um


produtor, empresário e investidor. Não é a primeira banda que o
homem aposta suas fichas e segundo ele, estão em negociação

para que a The Reckless abra o show de uma outra pessoa famosa,
que entrará em turnê a partir de maio do próximo ano.

A venda dos ingressos para a turnê começa em dezembro,

portanto, eles têm alguns meses para fazer o pronunciamento, caso


a The Reckless seja realmente escolhida.

O agente da banda em turnê está se decidindo entre a The

Reckless e outros três grupos iniciantes. Se der certo, os meninos


terão poucos meses para compor e produzir um álbum que pode ou
não estourar. Mas pelo modo como eles lidam, é mais um desafio

que com certeza vão ultrapassar.

— Você acha que vai dar certo? Que Jared vai convencer o
outro agente a deixar vocês abrirem os shows da banda em turnê?

— As chances são grandes. Nós temos um público que ouve


nossos covers e adoram. Temos fã-clube e tudo o mais. A internet
tem facilitado muito a vida dos agentes. — Aidan dá um sorriso
presunçoso no final da fase, mas tem um lado dele que teme esse

contrato.

— Parece que você tem medo de dar certo. — Franzo o cenho


para ele, curiosa.

— O The Icarus é importante para mim. Ele representa o


momento onde eu parei de depender do meu pai para fazer minhas
escolhas. E tem outra coisa.

— Outra coisa?

Aidan me encara, como se pedisse permissão para ser


honesto comigo.

— Qual outra coisa? — incentivo.

— Você.

— Eu? — Arregalo os olhos, apontando para meu peito. — Por


quê?

— Estou com os dias contados para te convencer a me amar

de novo. — Ele ri, lembrando-se da palavra que usei para me referir


a ele mais cedo. — Não gosto dessa palavra, parece que o amor é
uma obrigação. Gosto mais de… — Pensa a respeito, enquanto

morde o lábio inferior. — Te reconquistar.

— Você parece determinado.


— É porque estou.

— Achei que o plano era sermos amigos — zombo.

— Delilah, nós nunca poderemos ser amigos. Nunca.

Ele é cético quando reafirma o nunca. É uma promessa. Sei

que não estamos de verdade tentando ser amigos, mas se

quiséssemos ficar distantes, também poderíamos nos esforçar mais.

— Você pode me amar como seu homem ou me afastar, mas


amigos? Está longe de entrar no nosso vocabulário.

— Por que não?

— Porque vou acabar surtando na primeira vez que você


aparecer com um namorado. Já faço um esforço danado pra me
segurar quando te vejo saindo com os caras da faculdade. — Ele
faz uma pausa. — Olivia me disse que você se incomodou com nós
dois. É sua vez de ser honesta — provoca, virando o pescoço para
me encarar, mas sem tirar as mãos do volante. — É verdade?

— É sim.

O sorriso de triunfo no rosto de Aidan me desarma. Não


importa o quanto tente fugir dele, ele acaba voltando.
Delilah não está entediada, como estava prevendo. Na

realidade acho que está se divertindo com meu avô porque ele é um

verdadeiro pé de valsa. Ele não pisou no pé dela nenhuma vez nos


últimos quinze minutos que a tirou para dançar.

Está tocando Quelqu’un m’a dit de Carla Bruni e estão


rodopiando sob o assoalho amadeirado do iate. A gargalhada de

Delilah afunda meu estômago em agitação. É bom vê-la leve, feliz.

Meu avô abriu uma garrafa de champanhe e brindamos sem


nenhum motivo especial, mas recusei o álcool.

Ainda estou tendo reflexos da noite anterior; sinto náusea e o


corpo superaquecido, só de imaginar ingerir qualquer coisa que não

seja água, fico enjoado.

Evito me movimentar e contenho as risadas ou vou acabar

denunciando como minhas costelas e os lábios doem. Kurt me


pegou de jeito noite passada e ele me disse: você pode reagir ou

aceitar a punição. No fim, não tive escolha. Era aceitar o castigo ou


enfrentá-lo, mas ele sempre foi covarde, nunca agiu sozinho na

vida. Seria eu contra quatro, minhas chances eram zero.


E depois tive que lidar com a vergonha de aceitar a bronca do

meu avô pelo ecstasy – que fui forçado a engolir – e a culpa


lampejando nos olhos de Delilah, foi uma barra que não pensei que

precisaria lidar. Ainda mais, enfrentar a colisão de dois mundos

diferentes: aquele em que vivo com Delilah e a banda, e o meu


passado, que está munido de problemas e arrependimentos.

Minhas pernas estão esticadas por baixo da mesa de carvalho


de quatro lugares do iate, que fica do lado do ofurô, borbulhando e

chamando minha atenção.

Estaria animado para experimentar todo o luxo do iate se não


me preocupasse. Meu avô com certeza fatura bem com o bar no

clube, mas não tenho certeza se o suficiente para adquirir um iate


de luxo.

Delilah tomou umas duas taças de champanhe e já perdi a

conta de quantas vezes meu avô tomou doses da garrafa de

conhaque que ele mantém escondido sob o colchão do quarto do

iate.

Continuo fitando os dois, em uma dança interminável da

música de Carla, mas meu tédio é recompensado pela risada deles,

se unindo em coro.
Meu avô ancorou o iate próximo a ilha Isabelly. É uma ilha
particular. Não é qualquer pessoa que tem acesso ao paraíso.

Espio por cima do ombro, estamos a muitos metros de

distância, mas até a areia da baía parece mais clara e a água

menos densa.

A brisa fresca sopra contra o iate, fazendo-o balançar. Delilah


agarra o bucket para que ele não siga o fluxo do vento e termina sua

dança com meu avô, dando-lhe um abraço e elogiando como ele é

talentoso para dançar.

— Aidan nunca quis aprender a dançar. — Ele coloca uma

mão sobre a própria barriga e a outra paira o ar, fazendo

encenação, como se estivesse dançando com alguém invisível.

— Ah, ele é péssimo. — Delilah o apoia e se volta para a mesa

onde esteve sentada antes, ao meu lado. — Pisou no meu pé várias

vezes outro dia.

— Precisa de algumas aulinhas. Venha, seu avô vai te ensinar

— braceja, chamando-me para me juntar a ele.

— Não. — Rio, sacudindo a cabeça em resistência. — De jeito

nenhum, vô! — grunho, quando ele insiste mais, agarra meu pulso
me arrancando do lugar. — Qual é… — reclamo, jogando a cabeça

para trás.

— Venha aqui, querida. — Gesticula para Delilah, que abre um

sorriso honesto e volta para o centro do iate.

Estamos na parte coberta, onde o sol não pode nos assolar,


mas os ombros e o colo de Delilah estão avermelhados da

insolação.

Meu avô segura meu braço e o guia para a cintura fina de


Delilah. Ouço as batidas de Dernière Danse, Fred sempre foi fã de
músicas francesas.

Assim como fez comigo, guia o braço esquerdo de Delilah por

cima da minha nuca e o direito ela apoia gentilmente em meu torso.

— Como você é um banana quando se trata de dançar, deixe


Delilah guiar, capisce? — Arqueia as sobrancelhas e pelo tom
impessoal, posso sentir que ele quer me dizer algo além da dança.

— Não é uma música pra dançar a dois.

— É só seguir o ritmo, garoto. Toda e qualquer música é

música para se dançar a dois. — Revira os olhos em reprimenda.

Delilah aperta os lábios para suprimir a risada.


— Fica tranquilo, não vou ser maldosa com você. É um

iniciante! — ela cochicha.

Meu avô toma o lugar onde eu estava sentado minutos atrás e


pesca uma tira de peixe do ceviche com uma rodela de cebola e

coloca na boca.

— Presta atenção. — Delilah recupera minha atenção ao

apertar a carne do meu tronco.

Um sorriso de desculpa se forma em meus lábios.

— Ele é divertido — ela continua sussurrando.

— Você sabe que ele está fazendo isso de propósito, não

sabe?

Sem querer, acabo pisando no pé direito de Delilah. Ela


contorce o nariz de dor, mas não reclama.

— Acho que ele gosta de mim.

— É difícil não gostar.

— Hum. Não flerte comigo depois de pisar no meu pé.

— Não estou flertando.

— Não? — Arca a sobrancelha, de brincadeira.

— Não. Só estou sendo sincero.


— Sua sinceridade me comove.

— É o meu passatempo favorito, te comover.

Quando a música acaba, nós paramos também, mas não

criamos a distância esperada. Continuo com uma mão em seu


quadril e a outra enredada com seus dedos.

Delilah também tem uma mão na minha lombar. É um contato


ínfimo perto de tudo que já vivemos.

Não estou achando tão complicado de entendê-la. Quanto

mais tempo passo com Delilah, mais consigo me colocar no lugar


dela.

Você não escolhe bloquear as memórias importantes, mas


para se proteger, sua mente determina o que é ou não saudável

guardar. E por ironia do destino, eu fui uma das que ela decidiu não
lembrar mais.

Quando nos damos conta de que ainda estamos


emaranhados, em posição de dança, nos afastamos. Busco por meu

avô, olhando o iate por toda a parte e não o encontro.

— Será que ele caiu no mar? — Delilah soa preocupada.

— Ele deve estar em algum lugar.


Começamos a procurá-lo. No convés, por todo o exterior do
iate até que descemos para o dormitório.

Ele está esparramado pela cama, enrolado em lençóis e


abraçado a uma fotografia dele com minha avó. Só consigo pensar

em como Fred se sente solitário e não é da nossa falta que ele


sente.

Não conheci Karen, mas tudo que já escutei tanto dele, quanto

do meu pai, posso apostar que é uma daquelas pessoas que você
fica esperando poder encontrar alguém parecido, mas a cada

alguém novo que se depara, é uma decepção diferente.

— Poxa vida — Delilah sussurra, ao terminar de descer as


escadas e se detém atrás de mim, ficando na ponta dos pés para ter

a visão do meu avô bêbado e roncando. — Ele desmaiou. E agora?

Você sabe pilotar essa coisa?

— Não. — Penso um pouco. — Na verdade, ele me ensinou

há muitos anos, mas não me lembro. É aquilo que você precisa

praticar pra chegar à perfeição.

— É melhor não arriscar, então — decide.

— Vamos deixar ele dormir por umas horas e depois o

acordamos — determino, sacudindo a cabeça em desaprovação


para cada arfada de ar que meu avô dá.

Vamos chegar em Humperville por volta das oito da noite ou

mais, se decidirmos parar para uma refeição ou ir ao banheiro no

caminho. Meu relógio de pulso está indicando que são três da tarde.

— O que vamos fazer enquanto isso?

— É um iate. — Rio, segurando seu ombro para guiá-la


escada acima e voltamos para o convés. — Não tem muito o que

fazer quando você não está bebendo, comendo ou apreciando a

paisagem.

— Qual o plano?

Dou uma boa olhada nela.

Delilah não demonstrou fraqueza quando entramos no iate

nem com a imensidão do mar sob nossos pés. Pergunto-me se falta


um pouco dessa coragem em mim. De arriscar. Desde o começo

quis ser respeitoso, cumprir seus desejos, mas quanto mais o tempo

passa, menos acredito na teoria do bom moço.

— Não faço a menor ideia.

Terminamos de subir e caminhamos para a ponta do iate.

Delilah tira a saída e a estica no assoalho como uma toalha e

se senta sobre ela.


Observo o perfil do seu rosto e a aragem afastando os fios

dourados do seu cabelo. Eles cresceram muito desde que a conheci

e são cheirosos como sempre. Ela toda na verdade exala um cheiro


único e gostoso.

É uma tentação. Não menti nem por um segundo quando disse

que a tortura é real.

— Você fica me encarando — diz ela, as bochechas ficam

levemente coradas de pudor.

— No outro dia, quando conversamos no seu apartamento,

estava decidido que tinha dado pra mim, que ia desistir — ela

engole a saliva e a vejo descer seca sob a pele da sua garganta —,


mas você continua dizendo e fazendo coisas que me confundem.

Me fala, devo ou não desistir? Porque você fala que é o que devo

fazer, mas não age de acordo. Me tira da merda desse limbo. —


Cerro os dentes, sem afastar o olhar cerâmico dela.

As íris brumosas quica da minha boca para os meus olhos e

descem de novo.

A expiração tranquila irradia um hálito fresco de limão, mas a

forma como seu peito levanta e volta ao lugar diz que a coloquei
contra a parede.
— Se não quer nada, não flerta comigo, não me beija

enquanto estou dormindo e não me escreve cartas como àquela.


Você bate na tecla que não quer me magoar, mas me dá esperança

só pra ter o prazer de arrancá-la depois. É covarde e cruel, você

está agindo como a garota mimada de catorze anos que todo


mundo diz que você foi — a última parte sussurro.

Não é minha intenção magoá-la, mas continuo achando que

Delilah está vivendo em uma realidade paralela a nossa.

— Não precisa dizer mais nada. — A camada cristalina de

lágrimas por cima das pupilas indica que está prestes a chorar. —
Já entendi. Você quer uma decisão.

— Quero.

— Mas estou confusa.

— Posso te ajudar.

Delilah pisca e uma lágrima encorpada cruza a bochecha e

para na ponta do seu queixo.

Inclino-me em direção a sua boca.

Uma parte de mim quer que ela recue, porque estou cansado
de lutar sozinho, mas a outra, pede em silêncio que ela corresponda

e isso se torne motivação para que se decida.


Ela suga meu lábio inferior e sua língua afunda em minha

boca, desejosa e inquieta. Delilah agarra minha cabeça entre as

mãos, aprofundando o beijo.

Passo a mão por sua cintura, trazendo-a para perto e a

incentivo a ficar por cima de mim.

Deito devagar enquanto seu corpo, aos poucos, fica sobre o

meu. A ponta dos seios duros como pedra tocam meu peitoral e

deslizo a mão espalmada por suas costas; faço uma travessia lenta

pela curva da sua cintura usando o indicador, rumo a lateral da


calcinha do seu biquíni.

Chego ao limite do laço do biquíni e brinco com o tecido que


está sobrando na lateral, sem interromper o beijo. Estou excitado e

me remexo debaixo dela para não assustá-la, no entanto, ela geme

ao sentir a protuberância entre minhas pernas.

Nos afastamos para recuperar o fôlego.

Delilah morde meu lábio inferior antes de abrir os olhos e, em


seguida, lambe o próprio lábio carnudo, sugando-o para dentro da

boca para me dizer que ainda não está saciada. Delilah com tesão é

uma coisa que eu não esperava ver tão cedo outra vez, mas sua

reação está tornando difícil me afastar.


Delilah apoia as mãos na lateral da minha cabeça e ergue o

tronco, ficando por cima do meu corpo como uma ponte. Uso os
cotovelos para sustentar meu peso e nossos rostos ficam próximos

outra vez.

Sei que tenho que deixá-la para encontrar o que está


procurando, mas a porra do meu coração não está nem um pouco

ansioso para obedecer.

Amor-próprio, Aidan. Minha consciência me sentencia.

— Vou acabar te magoando — Delilah murmura.

— Você não pode falar isso com sua boca a poucos

centímetros da minha.

Seu corpo estremece ao som rouco da minha voz a chamando

pelo apelido.

— Vamos continuar saindo com outras pessoas — Delilah


franze os lábios —, nós temos uma conexão. Você me quer, Delilah.

Mas está com medo de estar perdendo demais estando comigo,

então vou te deixar livre pra sair com quem quiser.

— Não estou conseguindo entender.

— Se eu me apaixonar por outra pessoa e você também,


seguimos em frente, mas, se continuarmos sentindo falta um do
outro, vamos ter um encontro de verdade.

— Isso cheira à desastre.

— Talvez você consiga decidir sobre seus sentimentos. —

Toco sua bochecha e a acaricio devagar. — Isso pode te trazer de

volta pra mim ou posso te perder. Pelo menos não vou carregar no
peito o peso de não ter feito o meu máximo.

— Aidan… — Ela se aninha na palma da minha mão.

— Não precisa se decidir agora.

— Você já dá o seu máximo.

— Não te culpo por carregar incertezas, acho que tem um lado

seu que grita que não sou confiável, por causa do que aconteceu

entre nós. Vamos encarar a realidade. — Continuo acariciando sua


pele. É macia e senti falta de tocá-la. — Você não quer confiar seu

coração a uma pessoa que tinha a intenção de te usar — balbucio e


seu silêncio diz tudo.

Seguro firme sua cintura e a coloco sentada ao meu lado. Fico


olhando para o horizonte.

Precisamos aceitar.

Não importa o quanto a ame e o quanto Delilah deseja retribuir

meus sentimentos, tem alguma coisa que está nos travando no


caminho.

Nosso desastre perfeito causou sofrimento, desgraça e


catástrofe.

Delilah puxa os joelhos para junto do peito.

Ela inspira.

— Uma parte de mim gosta de você, Aidan.

Eu expiro.

— E a outra parte diz que já houve sofrimento demais entre

nós e que precisamos de uma pausa.

O silêncio corrobora para dar a conversa como encerrada.

17 DE ABRIL DE 2021, ÀS 20H17MIN.

Posso apostar que a escolha da playlist para o jantar na casa

do meu pai foi de Mackenzie. Taylor Swift em uma sequência de


músicas românticas; uma após outra e todas da cantora.
Faz duas semanas que Delilah não mora mais comigo, só que
não estamos agindo como se fôssemos estranhos como nas últimas
vezes. Não nos tornamos melhores amigos, mas colocamos todas

as cartas na mesa. Todas as nossas intenções, inseguranças e


desejos.

Delilah terminou com Vance.

Mas saiu com outros dois caras.

Eu tive um encontro semana passada. Nada extraordinário,


mas uma garota que estava no The Icarus passou a noite toda me

encarando, então a convidei para sair.

É aquela coisa de você não saber ao certo como lidar com


uma personalidade nova. Não sabe a comida favorita nem quais
músicas prefere escutar. É tudo uma novidade. Ao mesmo tempo

em que me conforta, fico apavorado, mas não estou esperando que


Delilah bata à minha porta com uma decisão.

Só estou deixando as coisas fluírem.

O jantar para Dannya contar ao meu pai sobre a gravidez


finalmente está acontecendo. Nas duas últimas semanas ele viajou
para ver meu avô. Depois da minha visita, contei para ele como

vovô parecia solitário e o denunciei sobre a Karen. Resultado? Levei


uma bronca do vovô, mas ele não teve coragem de entregar o
motivo que me levou a passar a noite em Grev Willow.

Somos só nós. Os pais de Mackenzie – mesmo divorciados


eles têm uma relação amigável – e a família de Bryan, incluindo a
pequena Aurora, que dentro de alguns meses completará um ano.

A tia de Delilah conta com empolgação como está sendo a


experiência de ser mãe. Maya também veio.

Os pais de Dannya e Gravity enviaram um cartão de


felicitações, mas não vieram. Dannya não pareceu chateada, mas

ficou preocupada que meu pai pegasse o cartão antes dela.

Os caras estão reunidos no lounge conversando e fazendo


piadas. Caminho para me juntar a eles.

A reunião com Jared é na próxima semana e não falamos de


outra coisa senão nisso. Tem uma névoa de ansiedade cobrindo o
nosso grupo. O futuro empresário da The Reckless pode ou não

trazer boas notícias, mas Math está pronto para averiguar as


cláusulas de um possível contrato.

A cobertura de Darnell está cheia de gente, separados por

grupos; as meninas estão para um canto, os mais velhos para outro


e a The Reckless acaba de ficar completa comigo e Chase nos

juntando aos outros.

— Cara, estou acabado. — Ash joga a cabeça para trás, tenso.


— Estou ficando com a agenda lotada com tantos alunos.

— Você sabe que as garotas não vão à aula só para aprender

contrabaixo, né? — Chase provoca.

— Claro que vão. A maioria das minhas alunas são dedicadas,


acontece que desde que a banda começou a ficar falada na cidade,

todo dia tem uma pessoa nova querendo fazer aulas. Tá


desgastante — reclama.

— Ashton Baker reclamando da fama, essa é nova. — Gravity

inclina o tronco entre Ashton e Finnick. — Se você soubesse dizer


não, querido, não estaria tão acabado.

— Não enche, Gravity.

Eles não estão mais naquela disputa para saber quem

consegue ser mais grosseiro um com o outro, mas continuam se


provocando como antes, talvez esteja até pior. Porém, tudo soa com

sarcasmo e leveza. É bom que eles tenham conseguido se


entender.
Mackenzie se aproxima e se junta a Bryan, sentando-se na
perna direita dele e o envolvendo com os braços.

Effy não pôde vir porque Reed tem um jogo importante e não

quis perder, mas, fora ela, o grupo está completo. Não vejo Maeve,
Trycia, Faith e Bailey há um tempo. É estranho, porque houve uma
época onde éramos inseparáveis, mas assim como a nossa vida

está mudando, a delas também está.

Nate vai estudar fora e Maeve quer tentar estudar cinema em


outro estado. Aos poucos, aquele grupo que antes era inseparável,

está encontrando o próprio caminho. Só estão ficando aqueles que


nunca tiveram a intenção de sair de Humperville.

Não tem nenhum problema em querer mudar. A maioria dos


meus amigos da época em que morei no internato não vejo mais e

parece fazer parte.

Ciclos terminam, outros começam. Acredito que se o contrato


com Jared realmente for firmado, muitas coisas irão mudar e muitas

pessoas deixarão de fazer parte da nossa vida.

Delilah também se une a nós. Está usando um vestido de


alcinha verde musgo e sapatos pretos. Os lábios medianos com

uma cobertura espessa de gloss transparente. Não tem muita


maquiagem, mas os cílios estão volumosos com uma camada
generosa de rímel.

Ela me lança um sorriso discreto e devolvo com o mesmo

repuxar delicado dos lábios.

As garotas voltaram para os seus apartamentos. A ideia é que


ficassem fora até que conseguíssemos descobrir quem está

enviando as mensagens para Delilah, mas já faz tempo desde a


última vez que o número desconhecido entrou em contato com ela e
Gravity estava quase encontrando em colapso por morar com Willa,

uma pessoa que definitivamente está acostumada a organizar as


coisas ao seu modo.

No fim, elas decidiram voltar e não tive argumentos para

contestar. E para Delilah, o momento foi oportuno. Tínhamos


acabado de ter aquela conversa no iate.

Voltei para a minha rotina de estudos, ensaios e passar o

tempo na bateria. É o que me mantém são e ocupado. Por incrível


que pareça, esse tempo sem me preocupar com Delilah e os
sentimentos dela, fizeram com que eu me concentrasse mais em

mim.
Até Bryan, Finn, Chase e Ashton perceberam que estou mais
focado. É um bom sinal e me sinto aliviado, porque existem dores

que parecem intermináveis, como se fossem se alojar no seu


coração para sempre. E quando menos se espera a ferida para de

doer.

— Soube que você vai viajar. — Delilah me escrutina, curiosa.


— A negócios.

A banda já está sabendo que depois da reunião com Jared,

preciso ir à Conoway. A ideia de termos um empresário e


assinarmos um contrato começou a me preocupar em relação ao
The Icarus.

Preciso de pessoas interessadas em investir no parque.


Alguém que compre a minha ideia e possa administrá-la comigo.

Maya e Math estão trabalhando juntos há semanas em busca

de investidores e conseguiram marcar duas reuniões com pessoas


em potencial para apostar no meu negócio.

— Vou sim. — Ajeito-me no sofá quando Gravity e minha irmã


me fitam.

— Você parece tão mais adulto. — Vity observa, os olhos


semicerrados me perscrutando. — Acho que está amadurecendo,
playboy.

— Ou você que está amadurecendo e não vê mais problema


em tudo — rebato, com um sorriso presunçoso de provocação.

— Ah, com certeza não estou vendo problema em tudo, mas

continuo vendo vários em você! — alfineta, com a voz maldosa. —


Não vou te fazer chorar, vou?

— Vocês dois continuam os mesmos crianções de sempre. —


Dannya abraça Gravity por trás, deposita um beijo casto na

bochecha da irmã e olha para nós. — Obrigada por organizarem


tudo isso. Será que posso recompensar vocês qualquer dia desses?

— Você só precisa se preocupar em cuidar do bebê — Willa

segreda, olhando para os lados para ter certeza que Darnell não
está aos arredores.

Dannya sorri em forma de agradecimento.

— Pode deixar. — Ela acaricia a própria barriga e se afasta.

— Dannya parece até mais feliz. — Bryan repara, seguindo-a


com os olhos. — Ela sempre quis ser mãe?

— Não tenho certeza — Gravity responde, acompanha a

mesma direção que Bryan, olhando a irmã de costas. — Mas sim,


acho que ela está mais feliz e confiante no casamento.
— O que quer dizer? — Willa indaga com curiosidade.

Gravity pondera ao morder o lábio.

— Dannya acha que Darnell não conseguiu esquecer Eline.


Ela pensou que se vendessem a mansão e saíssem do ambiente

onde eles viveram juntos, poderia tornar tudo mais fácil, mas Darnell
acaba trazendo as lembranças da Eline de volta quase sempre.

— Meu pai faz isso? — questiono com suspeita.

— Sim, seu pai, Aidanzinho — Gravity debocha. — E é


cansativo. Imagine estar com alguém que não para de pensar e
comparar tudo com outra pessoa. E sem ofensa, uma que não vai

voltar!

— Não ofende, porque é verdade — Willa a tranquiliza. — Não


sabia que o papai continuava mencionando o nome da mamãe.

— Vocês não sabem metade das coisas que Danny passou

pra ficar com ele. — Gravity olha por cima do ombro, admirando a
felicidade escancarada da irmã. — Vocês realmente não sabem.

Arqueio as sobrancelhas para ela, ficando a cada segundo

mais curioso. Tenho a impressão que Gravity conhece meu pai


melhor que Willa e eu. E tem um motivo. Diferente de como Darnell
age, Dannya compartilha todos os sentimentos com a irmã; sejam
eles bons ou ruins.

— Enfim — ela bate as mãos espalmadas no encosto do sofá

—, hoje não é dia de falar disso. Minha irmã está feliz e é tudo que
importa.

Uma mesa foi montada do lado de fora, para acomodar todos

os convidados. É como antes, quando nos reuníamos na mansão


Lynch para os almoços de domingo.

Não faz tanto tempo que essa tradição foi esquecida, mas

sinto falta como se fizesse um século. Naqueles dias senti que


finalmente estava superando a morte da minha mãe, então meu pai
levou um tiro e voltamos à estaca zero.

Sem a intenção, meu olhar cruza o de Delilah. Ela não se


constrange por ser pega no flagra olhando para mim.

Um tumulto começa na sala, mas não quebramos o contato

visual.

Meu pai e Dannya estão incentivando todos a irem para a área


externa, para perto da piscina. O mesmo barman que contrataram
para o Natal está servindo drinques no deque.
Chase me alerta para sairmos, é quando Delilah e eu

colocamos fim à queda de olhares.

Sigo eles para fora e mudo o rumo para falar com o barman.
Tenho certeza que está servindo bebidas de dose, meu pai é
apaixonado por uísque.

— E aí — cumprimento, e leio Christopher na placa do avental.


— Christopher — acrescento.

— Boa noite! — Ele sorri amigável. — Pode me chamar de

Chris. Quer beber o quê?

— Meu pai por acaso te entregou uma garrafa de uísque


antes?

Chris ri e se inclina para segurar a garrafa pelo gargalo. A traz

para frente, para que eu examine.

— Maravilha. Quero uma dose,