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Escola Tomista – Apenas para uso dos alunos Página | 1

Escola Tomista
Professor Carlos Nougué
Aula 87
Bem-vindos, caríssimos, à aula 87 de nossa Escola Tomista. Estamos no
Tratado da Física Geral IX, Sistema das Causas III.

Uma curiosidade: estive calculando hoje, tirando uma média das


transcrições, e vi que até hoje temos cerca de 1250 páginas de transcrição.
Imaginem quando chegarmos às 250 aulas que constituirão, que constituirá o
fim da Escola Tomista. Temos aí uma obra imensa didática e não posso senão
ficar feliz com isso. Eu não calculava de antemão que as aulas dariam tantas
páginas transcritas. Enfim, fico feliz pela obra didática que estou promovendo na
Escola Tomista.

Mas hoje continuamos nosso sistema das causas e permito-me continuar


com meu mesmo livro Da Arte do Belo. O que começaremos a estudar hoje, para
os que têm o livro e o queiram ler, embora eu o vá ler e comentar saltando coisas
desnecessárias ao nosso intuito aqui, o que eu começarei a tratar hoje começa
a partir da página 275 de Da arte do Belo. Então comecemos a ler e comentar
do modo que acabo de dizer: saltando, emendando, complementando segundo
a necessidade de nosso Tratado aqui. O livro é sobre a arte do belo, mas desde
o início deste ponto venho dizendo que há que fazer constante analogia entre a
arte do belo e a natureza. Isso tanto se se olha do ângulo da arte do belo – como
é o caso de meu livro – como se se olha do ângulo da natureza – que é o caso
do livro do Padre Calderón La naturaleza y sus causas.

Vamos, então, ao assunto. Vejamos quais são os princípios nas coisas


artificiais, ou seja, resultantes da arte.

Pois bem, trata-se de que a arte é princípio, trata-se da arte como princípio.
Leio-o.

Se se trata das coisas artificiais, a arte diz-se princípio do artifício ou


artefato, porque da arte começa o movimento para a construção ou fabricação
deste (deste artefato, deste artifício). Mas ainda deve conceder-se arte aqui em
duplo sentido: no de hábito intelectual, e no de ideia ou exemplar. Daquele (ou
seja, do hábito intelectual) decorre esta (ou seja, a ideia), e desta a forma
plasmada na matéria. E isto vale para todas as artes, incluída, é claro, a arte do
belo. – Observe-se, ademais, que as artes arquitetônicas (ou seja, a arquitetura,
o cinema, etc.) são as que se dizem maximamente princípios. Por quê? Porque
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imperam sobre todas as demais artes; e isto também naquele duplo sentido
(duplo sentido que acabo de dizer).

Justamente todavia porque as coisas artificiais partem da arte na mente do


artista mas terminam plasmadas numa matéria (aqui é o que nos interessa), é
que elas (ou seja, as coisas artificiais) têm outros três princípios, compartidos,
compartilhados com as coisas da natureza.

Agora tratarei aqui as coisas na natureza e as coisas artificiais segundo três


princípios comuns a ambas.

1º - Os princípios da mudança e do ente móvel.

Escreve Aristóteles no seu livro As categorias:

“Há seis espécies de movimento [ou mudança – ou mudança sou eu


quem pus]; há seis espécies de movimento [entre colchetes “ou mudança”]:
geração, corrupção, aumento, diminuição, alteração, mudança de lugar. [...]
De maneira absoluta, o movimento [ou mudança] é contrário ao repouso;
entre os movimentos particulares, em contrapartida, o contrário da geração
é a corrupção, e do aumento a diminuição; quanto à mudança de lugar,
parece opor-se-lhe maximamente o repouso num lugar e, em todo caso, o
caminho para o lugar contrário [...]. Quanto ao movimento restante [ou seja,
a alteração], não é fácil assinalar qual poderia ser seu contrário, senão que,
ao que parece, não tem nenhum contrário, a não ser que alguém opusesse
também em seu caso o repouso segundo o qual (transcritores, põem este
“qual” em itálico; entre colchetes, palavras minhas) [ou seja, a ausência de
alteração qualitativa], ou a mudança para o contrário do qual – “qual” outra
vez em itálico; entre colchetes, palavras minhas [ou seja, a aquisição de
uma qualidade contrária à anteriormente possuída].”

Portanto, quando doravante se falar aqui de mudança, quer nas coisas da


natureza quer nas coisas artificiais, estar-se-á supondo alguma de suas seis
espécies ou todas essas espécies em conjunto.

Por outro lado, porém [isso é meu, a citação terminou em “anteriormente


possuída”]. Então releio o que já é meu: portanto, quando doravante se falar aqui
de mudança, quer nas coisas da natureza quer nas coisas artificiais, estar-se-á
supondo alguma de suas seis espécies ou todas em conjunto.

Por outro lado, porém, quando aqui se falar doravante de princípios, quer
nas coisas da natureza, quer nas coisas artificiais, estar-se-á falando tão
somente de princípios intrínsecos (intrínsecos às coisas tanto da natureza,
quanto as coisas artificiais), princípios intrínsecos, os únicos que se podem dizer
natureza (incluindo, obviamente, a das substâncias sobre as quais se plasmam
as formas artificiais).
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Lembremo-nos que as formas artificiais são acidentais. Elas se plasmam


sobre substâncias já constituídas com sua própria natureza, assim como a
estátua de Michelangelo Moisés se plasma sobre uma substância marmórea,
sobre o mármore que já tem sua própria essência ou natureza.

Pois bem, letra “a”.

É preciso dizer que o longo Tratado do Padre Calderón La naturaleza y sus


causas, dois volumes, na verdade termina aí, ou seja, o Tratado da Física Geral
termina nesses dois volumes do Padre Calderón e terminará aqui com o estudo
das quatro causas em particular, cada uma em particular. Terminado isso, ou
seja, parece que a Física Geral é imensa, é que podemos partir para o que o
Padre Calderón chama Física Especial (ele prefere esse nome ao de
Cosmologia, porque, segundo ele, hoje já ninguém entende a palavra
“cosmologia”, enquanto eu, de minha parte, prefiro o termo “cosmologia”, não sei
se influído pela relação direta que tenho com os alunos; já cansei de explicar
que, de dizer que a cosmologia – parte subjetiva da Física Geral, trata o
movimento local).

Pois bem, a. Resolução dos princípios da mudança.

- Toda mudança – seja natural ou artificial, substancial ou acidental – tem


um sujeito ou matéria, ou seja, aquilo que permanece sob a mudança sem deixar
de ser o que é: porque, com efeito, em toda e qualquer mudança há algo que
existe no termo em latim a quo (ou seja, a partir do qual) e continua a existir no
termo ad quem (ao qual, para o qual).

Isto é óbvio! Apesar dos termos inusitados para talvez a maioria de vocês,
isto é óbvio! Se algo não permanecesse o mesmo ao fim da mudança que era
no ponto de partida da mudança, não haveria mudança. Para que haja mudança,
é preciso que algo mude permanecendo ele mesmo, porque, se não, deixará de
haver mudança propriamente dita.

Vejamos, então, o que permanece sob as mudanças.

Com efeito, nas mudanças acidentais – ou seja, tanto as naturais (como a


da água que passa de fria a quente) como as artificiais (como a da madeira que
passa de tronco a estátua), as quais são as únicas que nos interessam aqui e
agora – permanecem as substâncias que são o sujeito ou matéria de tais
mudanças, e esta, a matéria, é o primeiro princípio da mudança.

Vou reler: com efeito, nas mudanças acidentais – ou seja, tanto as naturais
(como a da água que passa de fria a quente) como as artificiais (como a da
madeira que passa de tronco a estátua), as quais são as únicas que nos
interessam aqui e agora – permanecem as substâncias que são o sujeito ou
matéria de tais mudanças, e esta, a matéria, é o primeiro princípio da mudança.
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Observação. Em verdade, em sentido mais próprio haveria que


chamar “sujeito” ao substrato das mudanças acidentais (naturais ou
artificiais), e “matéria” ao das mudanças substanciais (geração e
corrupção): é a matéria prima, que não se deve confundir com a matéria-
prima das artes [a primeira matéria prima não leva hífen; a matéria-prima
das artes leva hífen; mais adiante voltarei a tratar a matéria prima sem
hífen]. Mas, por enquanto, e em prol da facilidade chamaremos aqui
indistintamente sujeito ou matéria ao que permanece sob as mudanças
artificiais, ou seja, a substância sobre a qual se plasma a forma [isto no
caso das artificiais].

Mas insista-se nisso para que não reste dúvida: o que chamo aqui
indistintamente substância ou matéria, refere-se tanto ao substrato das
mudanças acidentais (tanto naturais como a mudança de fria a quente no caso
da água, como as artificiais como no caso da estátua que se faz a partir da
madeira). Pois bem, isso seria mais propriamente sujeito, enquanto matéria se
referiria antes às mudanças substanciais geração e corrupção: geração de um
novo ser, corrupção de um ente. E isto é o que se chama “matéria prima”,
conceito altamente abstrato, complexo que tratarei mais adiante.

Muito bem, já finda a observação.

- No esquentamento da água, pode dizer-se que o término (em sentido


amplo) é a água quente; mas o que mais propriamente se deve dizer término do
esquentamento é o calor da água. Do mesmo modo, pode dizer-se que, no
entalhamento da madeira, o término (em sentido amplo) é a madeira entalhada;
mas o que mais propriamente se há de dizer término do entalhamento é a estátua
de madeira.

Então repita-se: pode dizer-se que o término do esquentamento da água é


a água quente, mas, mais propriamente falando, o término do esquentamento da
água é o calor da água. Da mesma forma pode dizer-se, menos propriamente,
que o término do entalhamento da madeira é a madeira entalhada, mas, mais
propriamente, deve dizer-se que o término do entalhamento da madeira é a
estátua de madeira.

Pois bem, a este término do esquentamento da água pelo fogo e do


entalhamento da madeira pelo escultor deve chamar-se forma, o segundo
princípio da mudança. O primeiro era a matéria; o segundo é a forma, é o
segundo princípio da mudança. Matéria e forma.

Observação 1. Trata-se, insista-se, de forma acidental e não de


forma substancial, que está para a matéria prima assim como a acidental
está para a substância. Assim, insista-se, aqui se chama forma tanto o calor
da água (forma acidental natural) como à estátua de madeira (forma
acidental artificial).
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A forma substancial, que se distingue da forma acidental, obviamente, é


aquela que faz a coisa ser o que é. O que é que faz com que o homem seja
homem? Sua essência. Mas qual é o principal princípio da essência? A forma do
homem, ou seja, sua alma. O que é que faz a água ser água? Sua essência.
Mas qual é o principal princípio da essência da água? A forma da água. Isto que
faz que a água seja água. Isto é diferente do acidente calor da água. O calor da
água não é o que faz a água ser água, assim como a estátua de madeira não é
o que faz a madeira ser o que é, ou seja, madeira por sua forma substancial.

Espero que esteja clara a distinção entre forma substancial e forma


acidental.

Observação 2. Mas a estátua de madeira – como, aliás, toda e


qualquer forma acidental artificial, ou seja, resultante da arte – pode dizer-
se forma também como quarta espécie do acidente qualidade (forma e
figura). Lembrem-se do par forma e figura. É uma mera observação que já
não nos interessa tanto aqui no tratado da Física Geral.

Fim da observação 2.

- Não é suficiente, no entanto, distinguir o sujeito ou matéria e o término ou


forma para dar a razão de toda mudança. É que, para descrever o
esquentamento da água, não basta pôr que permanece a água como sujeito ou
matéria da mudança e que se tem o calor como forma no termo ad quem ou
término; assim como, para descrever o entalhamento da madeira, não basta
dizer que permanece a madeira com sujeito ou matéria da mudança e que se
tem a estátua como forma no termo ad quem. Com efeito, é preciso ademais
assinalar que no termo a quo (o ponto de partida) a água e a madeira estavam
(com destaque) privadas, respectivamente, de tal calor e de tal estátua. No ponto
de partida do movimento ou mudança para o esquentamento da água, para o
calor da água, a água estava privada de tal calor, assim como no ponto de partida
ou a quo da estátua, da mudança que conduziu à estátua de madeira, a madeira
estava privada desta forma artificial acidental que é a estátua. Se assim não
fosse, não haveria a novidade no ser que constituem tal calor e tal estátua. São
uma novidade no ser. Não havia antes do esquentamento da água e antes do
entalhamento da madeira. Temos assim o terceiro princípio da mudança, a
privação (ou, eis outro nome seu, oposição de privação). Chama-se tanto
privação como oposição de privação. Temos, assim, os três princípios da
mudança: matéria, forma e privação ou oposição de privação.

Observação. Se se trata de mudança substancial, o princípio da


privação requer outras precisões (que não vamos tratar aqui, trataremos
mais adiante, tratarei mais adiante).

B (outro ponto). Se a distinção dos princípios da mudança é de razão


ou real.
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Vocês já conhecem esta distinção entre de razão ou real, esta distinção


entre de razão e real.

- Com efeito, as coisas podem distinguir-se entre si segundo os modos


mesmos de existir. As coisas podem distinguir-se entre si segundo os modos
mesmos de existir. Escreve o Padre Calderón em La naturaleza y sus causas,
tomo 1, página 293:

“Como conhecemos por abstração [é o Padre Calderón], como


conhecemos por abstração, as distinções que fazemos mentalmente pela
simples apreensão [ou primeira operação do intelecto] nem sempre
correspondem a coisas distintas na realidade (apenas na razão) [...]. Daí
que seja fundamental distinguir dois modos de distinção, real e de razão.
‘Distinção real’, secundum rem [segundo a coisa, segundo a realidade], é
aquela que se dá da parte das coisas, anteriormente à e
independentemente da consideração da mente; enquanto ‘distinção de
razão’, secundum rationem (tantum) [segundo a razão (só)], é distinção de
razão, ou seja, secundum rationem (tantum) [segundo a razão (só,
somente)], é aquela que se segue e depende da consideração da mente”.

Isso está tirado pelo Padre Calderón da Suma Teológica de Santo Tomás
de Aquino, parte I, questão 41, artigo 4 ad, ou seja, solução da objeção, 3.

Repita-se: Tomás de Aquino, Suma Teológica, parte I, questão 41, artigo 4


ad 3, resposta à objeção 3.

Agora acabou a citação do Padre Calderón.

Mas a distinção de razão divide-se em duas, ou seja, em raciocinante e em


raciocinada (e esta, a distinção raciocinada, divide-se em perfeita e imperfeita),
enquanto a distinção real se divide em negativa ou impropriamente real e em
positiva ou propriamente real (e esta, propriamente real, em entitativa e em
modal). São distinções muito complexas e sugiro-lhes, para os queiram
aprofundá-la, que leiam o Padre Calderón, La naturaleza y sus causas, tomo 1,
páginas 294-295. Mas voltaremos a ela. O que nos interessa mais aqui, porém,
é se a distinção feita entre os princípios da mudança é de razão ou real, e, se é
real, se é modal ou entitativa.

- Pois bem, a distinção entre os três princípios da mudança não é de razão


(nem raciocinante, nem raciocinada), porque algo realmente permanece sob a
mudança e adquire realmente algo de que antes estava privado. E o que é este
algo de que estava privado e que é adquirido? A forma.

Mas [outro parágrafo] tampouco é real modal. Com efeito, antes da


resolução que encontrou os três princípios da mudança, poder-se-ia dizer que a
distinção entre os termos a quo e ad quem, ou seja, ponto de partida e ponto de
chegada ou término, do esquentamento da água e do entalhamento da madeira,
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ou seja, entre a água fria e quente e entre a madeira não entalhada e entalhada,
fosse modal, ou seja, envolvesse modo. Tratar-se-ia, então, insista-se, de dois
modos distintos em que a água e a madeira podem estar: quente ou fria, não
entalhada e entalhada. Conhecidos já porém aqueles três princípios que nós
vimos (matéria, forma e privação), veem-se agora o sujeito ou matéria, que já
não é tão só a água e a madeira, mas a água e a madeira enquanto abertos a
ser ou não ser com calor ou com estátua, e a forma, que já não é um modo da
água e da madeira, mas uma realidade acidental distinta do sujeito e que se
compõe com ele.

Isto é que é importantíssimo para que se entenda perfeitamente o que é


forma acidental. A forma acidental, tanto a natural como a artificial, não são um
modo apenas: são algo distinto da substância ou matéria e que se, e que, no
entanto, se compõem com ela. A distinção, portanto, deixou de ser modal para
ser entitativa (diz-se ente não só a substância, que é o modo principal de ser
ente, obviamente, mas também o acidente, o acidente é ente, é ente em outro.
Que outro? Na substância). Então, a distinção, portanto, deixou de ser modal
para ser entitativa, e o calor da água e a estátua de madeira mostram-se agora
com certa realidade própria.

Isto é importantíssimo. Em geral, quando se ensina, se ensinam os


acidentes costuma-se equivocadamente dá-los como uma espécie de modo
apenas, não como algo que seja real e distinto, conquanto composto, algo que
seja real e distinto da substância com certa realidade própria, ainda que
composto com a substância.

Observação. Isto obviamente não quer dizer que o calor da água e a


estátua de madeira sejam por si – só podem ser em outro, como acabo de
dizer – nem que tenham essência ou quididade em concreto, como já vimos
desde o início da nossa escola – só a tem quididade ou essência em
abstrato o calor da água, e só a tem na mente do artista a estátua. O calor
da água só tem quididade em abstrato e só tem quididade ou essência a
estátua na mente do artista (tudo isso nós já vimos, como venho dizendo,
repito, insisto, como venho dizendo desde o início da Escola Tomista).

Pois bem, ou seja, a distinção entre os princípios da mudança há de dizer-


se real entitativa. Como todavia o é, ou seja, como é real entitativa é o que é
explicado pelo Padre Calderón em La naturaleza y sus causas, tomo 1, página
296-297. Transcrevo-o:

“A tripla distinção que a resolutio [resolução] acha entre os princípios


da mudança é real. A distinção entre a matéria e a privação, e entre a forma
e a privação, é certamente negativa, porque por privação não entendemos
a matéria privada, mas a privação em si mesma, e uma privação
considerada em si mesma não tem entidade real, mas só de razão. Mas
(obviamente), mas a distinção entre o sujeito ou matéria e a forma é com
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toda a evidência real entitativa – evidência que não alcança senão quem
penetra o ente móvel com o bisturi de sua inteligência”.

O ente móvel, repita-se, é o sujeito da Física Geral. Depois veremos que,


segundo as partes subjetivas da Física Geral, a cosmologia tem por sujeito o
ente móvel segundo o lugar e assim sucessivamente segundo algo para a
química, para a biologia, para a psicologia.

“Mas esta distinção real entitativa é imperfeita. O que no entanto


também se faz evidente é que a matéria ou sujeito e a forma não são duas
realidades completas, com existência própria e separada, mas são partes
do todo que é o ente móvel. Não são entes propriamente ditos, pois nem
da forma, nem da matéria se pode dizer que são ou existem por si mesmos,
senão que são elementos ou princípios do ente móvel. A distinção, então,
entre matéria e forma é real entitativa e imperfeita, entre parte e parte
realmente distintas de uma única e mesma coisa, o ente móvel”.

Agora uma nota minha, uma nota, está em rodapé no livro: o caso da forma
ou alma humana, permita-se-nos o excurso, é particular: também está para a
matéria ou corpo como parte para parte, mas, diferentemente da alma do vegetal
e do animal bruto, sobrevive à corrupção do corpo. Se contudo sobrevive a esta,
é porque é uma parte que é ela mesma substância, ainda que seja substância
de natureza incompleta: só se completa na união com o corpo. – Para isto, e
para a razão por que a alma humana sobrevive à morte do corpo, ver, vide
especialmente a obra de São Tomás de Aquino, Questões disputadas sobre a
alma.

Têmo-la, temos esta obra magnífica em português publicada pela É


Realizações, com tradução de Luís Astorga, apresentação... (e agora!) salvo
engano de Carlos Augusto Casanova, posso estar errado, Cazanova
(venezuelano), coordenação de Sidinei Silveira e, salvo engano, revisão técnica
minha.

Pois bem, mas isto que acabo de enunciar em nota, nós o estudaremos na
psicologia ou antropologia.

Então repita-se que a distinção que tratamos é real entitativa, mas


imperfeita.

c. Ainda sobre o número dos princípios do ente móvel e do movimento

Considerando agora, por fim, não só as mudanças acidentais e acidentais


artificiais, acidentais naturais e acidentais artificiais, mas também as mudanças
substanciais, há que pôr que só a forma e a matéria são princípios intrínsecos
per se (ou seja, por essência) do ente móvel, porque são princípios não somente
do fazer-se das coisas mas também, e acima de tudo, do ser mesmo delas,
enquanto a privação não é princípio do mesmo ente móvel senão per accidens.
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Mas os três, forma, matéria e privação, são princípios per se da mudança, como
posto mais acima.

Então repita-se esse parágrafo porque é importante, conquanto ele só se


vai entender melhor mais adiante: considerando agora, por fim, não só as
mudanças acidentais naturais e acidentais artificiais, mas também as mudanças
substanciais (geração e corrupção, geração de um novo ser, corrupção deste
ente, geração de um novo ente, corrupção deste ente), há que pôr, há que dizer
que só a forma e a matéria são princípios intrínsecos essencialmente falando,
ou seja, per se do ente móvel, porque são princípios não somente do fazer-se
das coisas mas também, e acima de tudo, do ser mesmo delas, enquanto a
privação não é princípio do mesmo ente móvel senão per accidens. Mas os três,
forma, matéria e privação, são princípios per se da mudança, como posto mais
acima.

Então eles são, estes três princípios, são princípios per se da mudança,
mas do ente móvel, do próprio ente móvel só dois são princípios per se: a matéria
e a forma. Repita-se: do ente móvel são princípios intrínsecos per se, por
essência, tão somente a matéria e a forma, enquanto são princípios per se da
mudança, ou seja, essenciais da mudança, não do próprio ente móvel, a matéria,
a forma e a privação como vimos pondo desde o início desta aula.

Pois bem, vou só anunciar o que começaremos a estudar na próxima aula,


ou seja, o próprio sistema das causas. Não só o sistema das causas, mas o
sistema, o sistema, os modos e a ordem das causas. É isso que estudaremos a
seguir.

Eu alterarei na exposição o modo, a ordem em que esta matéria está


exposta pelo Padre Calderón em La naturaleza y sus causas e não o farei senão
em prol da facilidade. Quem quiser evitar ou, depois da facilidade que lhes
ofereço, voltar a uma complexidade maior, podem recorrer ao livro, mas não é
necessário para o domínio da matéria. O que estou dando-lhes aqui e continuarei
a dar-lhes aqui nas próximas aulas é o suficiente para que vocês possam ler
qualquer tratado de Física Geral, seja a Física de Aristóteles, seja La naturaleza
y sus causas do Padre Calderón, seja a Natureza e as causas de João de Santo
Tomás, obra na qual se inspira grandemente o Padre Calderón em sua La
naturaleza y sus causas, obra em que, por sua vez, me inspiro eu aqui. Há uma
sucessão de inspirações, então, a partir da obra A natureza e as suas causas de
João de Santo Tomás que, neste ponto, critiquei tanto João de Santo Tomás na
Lógica, aqui há que tirar-lhe o chapéu. É um gigante quanto à Física e com toda
a razão 80, 90% da obra do Calderón La naturaleza y sus causas, 80% se
inspiram em João de Santo Tomás. É um gigante neste ponto! Ele já deixaria de
ser gigante se se considerassem as partes subjetivas da Física Geral, mas,
enquanto se trata da Física Geral propriamente dita, temos gigantes diante de
nós e não podemos senão valer-nos dele, ainda que, não posso senão valer-me
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deles, ainda que adaptando-o, adaptando-os ao modo didático-expositivo de


uma aula oral.

Muito obrigado pela atenção e até nossa próxima aula.

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