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GESTÃO

 DE  RECURSOS  HÍDRICOS  

Operação  e  Manutenção  de  


Açudes  
Carlos  de  Oliveira  Galvão  
Carlos  Lamarque  Guimarães  
Celso  Augusto  Guimarães  Santos  
Isnaldo  Cândido  da  Costa  
Klécia  Forte  de  Oliveira
Luiz  Simão  de  Andrade  Filho  
Normando  Perazzo  Barbosa    
Raimundo  Leidimar  Bezerra  
Washington  Moura  de  Amorim  Júnior  
 
 
 
 
 
UFCG/UNESCO  
© dos autores
1ª edição: 2004

Capa: Krysnamurty Vynycyus de Souza


Editoração eletrônica: Euriclides Góes Tôrres, Marília Silva Dantas
Revisão: Zédna Mara de Castro Lucena Vieira

Este material didático foi produzido no contexto da Cooperação UNESCO/SEMARH, Projeto 704BRA2040
Recursos Hídricos – PB. As opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos(s) autor(es) e não refletem
necessariamente a visão da UNESCO sobre o assunto.

O61 Gerenciamento de bacias hidrográficas / Carlos de Oliveira Galvão et al.


2004 – Campina Grande: UFCG/UNESCO, 2004.
152 p. – (Gestão de Recursos Hídricos, 4)

Inclui bibliografia

1.Gestão de recursos hídricos I. Galvão, Carlos de Oliveira


II. Título

CDU: 556.18

 
 
Autores  

Carlos  de  Oliveira  Galvão  


Professor do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Campina Grande, Engenheiro Civil
pela Universidade Federal da Paraíba (Campina Grande-PB), Mestre em Engenharia Civil pela Universidade
Federal da Paraíba (Campina Grande-PB), e Doutor em Engenharia de Recursos Hídricos e Saneamento
Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (Porto Alegre-RS).

Carlos  Lamarque  Guimarães  


Supervisor de Monitoramento de Mananciais e Sistemas de Informações Geográficas Aplicados a Recursos
Hídricos (LMRS – Laboratório de Meteorologia e Recursos Hídricos e Sensoreamento Remoto do Estado da
Paraíba); Engenheiro Civil pela Universidade Federal da Paraíba (Campina Grande-PB).

Celso  Augusto  Guimarães  Santos  


Professor do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba, Engenheiro Civil, Tecnólogo em
Processamento de Dados e Especialista em Engenharia Civil/Recursos Hídricos pela Universidade Federal da
Paraíba (Campina Grande-PB), Mestre em Engenharia Civil e Doutor em Engenharia de Produção pela Ehime
University, EHIME, Japão, com Pós-Doutorado na mesma universidade.

Isnaldo  Cândido  da  Costa  


Supervisor da Rede Pluviométrica do Estado da Paraíba (LMRS – Laboratório de Meteorologia e Recursos
Hídricos e Sensoreamento Remoto do Estado da Paraíba); Engenheiro Agrônomo e Especialista em Irrigação e
Agribusiness pela Universidade Federal da Paraíba (Areia-PB).

Klécia  Forte  de  Oliveira


Engenheira Civil e Mestranda em Engenharia Civil e Ambiental pela Universidade Federal de Campina Grande
(Campina Grande-PB).

Luiz  Simão  de  Andrade  Filho  


Professor do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba, Engenheiro Mecânico pela
Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa-PB), Especialista em Sistemas Mecânicos e Materiais e
Processos de Fabri pela mesma universidade, Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da
Paraíba (João Pessoa-PB), e Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba (João
Pessoa).    

Normando  Perazzo  Barbosa  


Professor do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba, Engenheiro Civil pela Universidade
Federal de Pernambuco (Recife-PE), Mestre em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (Rio de Janeiro-RJ), e Doutor em Mecânica Aplicada às Estruturas pela Université Pierre et Marie Curie,
UPMC, França Livre Docência.

Raimundo  Leidimar  Bezerra  


Professor do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba, Engenheiro Civil pela
Universidade Federal do Ceará (Fortaleza-CE), Mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal da
Paraíba (Campina Grande-PB), e Doutor em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Washington  Moura  de  Amorim  Junior  


Professor do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Pernambuco, Engenheiro Civil pela
Universidade Federal de Pernambuco (Recife-PB), Mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro (Rio de Janeiro), e Doutor em Engenharia Civil pela Universidad Politécnica de Madrid,
(U.P.MADRID*, Espanha).
Sumário

1 Introdução ao Estudo de Barragens ................................................................... 1


1.1 Generalidades ............................................................................................................ 1
1.2 Definição..................................................................................................................... 1
1.3 Finalidades ................................................................................................................. 1
1.4 Tipos de Barragens .................................................................................................... 2
1.4.1 Segundo os Materiais Constituintes .......................................................................................2
1.4.2 Segundo a Submergência ......................................................................................................5
2 Projeto d e Barragens de Terra ........................................................................ 15
2.1 Princípios Básicos de Projeto ................................................................................... 15
2.2 Dados Necessários ao Projeto ................................................................................. 16
2.3 Determinação da Capacidade do Reservatório........................................................ 17
2.3.1 Generalidades.......................................................................................................................17
2.3.2 Fórmula do Engenheiro Aguiar (DNOCS).............................................................................17
2.4 Determinação da Cota da Soleira do Sangradouro.................................................. 18
2.5 Dimensionamento do Sangradouro .......................................................................... 19
2.5.1 Cálculo da Descarga Máxima - Metodologia do Engº Aguiar (DNOCS)...............................19
2.5.2 Cálculo da Largura do Sangradouro.....................................................................................20
2.6 Cálculo da Folga da Barragem ................................................................................. 20
2.6.1 Cálculo da Altura da Onda....................................................................................................21
2.6.2 Cálculo da Velocidade da Onda (Gaillard)............................................................................22
2.6.3 Fórmula Compilada para o Cálculo da Folga Mínima...........................................................22
2.7 Cálculo da Revanche................................................................................................ 23
2.8 Cálculo da Cota do Coroamento .............................................................................. 23
2.9 Cálculo da Altura da Barragem................................................................................. 23
2.10 Cálculo da Largura do Coroamento.......................................................................... 23
2.10.1 Fórmula de Preece .........................................................................................................24
2.10.2 Fórmula de Knappen ......................................................................................................24
2.10.3 Fórmula do Bureau of Reclamation ................................................................................24
2.11 Inclinação dos Taludes ............................................................................................. 24
2.11.1 Recomendações do DNOCS ..........................................................................................24
2.11.2 Recomendações do Bureau of Reclamation ..................................................................25
3 A Construção de Barragens de Terra e seu Controle....................................... 27
3.1 Generalidades .......................................................................................................... 27
3.2 A Compactação de Solos ......................................................................................... 28
3.2.1 Generalidades.......................................................................................................................29
3.2.2 Compactação de Solos em Laboratório................................................................................29
3.2.3 A Compactação de Solos no Campo ....................................................................................32
3.3 Especificações da Compactação.............................................................................. 33
3.4 Aterros Experimentais .............................................................................................. 34
4 Diretrizes Para Inspeção de Barragens de Terra.............................................. 36
4.1 Generalidades...........................................................................................................37
4.2 Tipos de Inspeção.....................................................................................................38
4.2.1 Inspeção Rotineira ou Informal ............................................................................................ 38
4.2.2 Inspeção Periódica............................................................................................................... 38
4.2.3 Inspeção Formal................................................................................................................... 38
4.2.4 Inspeção Especial ................................................................................................................ 39
4.2.5 Inspeção de Emergência...................................................................................................... 39
4.3 Tipos de Recomendações Geradas pelas Inspeções...............................................39
4.4 Freqüência das Inspeções ........................................................................................40
4.4.1 Inspeções Rotineiras ou Informais ....................................................................................... 40
4.4.2 Inspeções Periódicas ........................................................................................................... 40
4.4.3 Inspeções Formais ............................................................................................................... 40
4.4.4 Inspeções Especiais............................................................................................................. 41
4.5 Equipe de Inspeção ..................................................................................................41
4.5.1 Inspeção Rotineira ou Informal ............................................................................................ 42
4.5.2 Inspeção Periódica............................................................................................................... 42
4.5.3 Inspeção Formal, Especial e de Emergência....................................................................... 42
4.6 Lista de Verificações Durante as Inspeções de Barragens ......................................42
4.7 Anomalias Apresentadas em Barragens de Terra pela Falta de Manutenção .........50
4.7.1 Proteção Inadequada dos Taludes ...................................................................................... 50
4.7.3 Árvores e Arbustos............................................................................................................... 52
4.7.4 Tocas de Animais................................................................................................................. 53
4.8 Referências Bibliográficas.........................................................................................54
5 Vertedouros e sua Operação.............................................................................57
5.1 Introdução .................................................................................................................57
5.2 Vertedores.................................................................................................................58
5.3 Deterioração dos Vertedoros ....................................................................................60
5.3.1 Erosão .................................................................................................................................. 61
5.3.2 Cavitação ............................................................................................................................. 62
5.3.3 Medidas Preventivas ............................................................................................................ 64
5.3.4 Bacias de Dissipação de Energia......................................................................................... 65
5.3.5 Manutenção das Bacias de Dissipação ............................................................................... 69
5.4 Referências ...............................................................................................................69
6 Operação e Manutenção de Outros Dispositivos Hidráulicos............................71
6.1 Medições de Pressão, Velocidade e Vazão em Condutos Forçados .......................71
6.1.1 Fundamentos de Hidráulica ................................................................................................. 71
6.1.2 Medidores de Pressão ......................................................................................................... 74
6.1.3 Medição de Velocidade Local – Tubo de Pitot ..................................................................... 75
6.1.4 Medição de Vazão Volumétrica............................................................................................ 76
6.2 Válvulas.....................................................................................................................79
6.2.1 Classificação ......................................................................................................................... 80
6.2.2 Válvulas de Gaveta Convencionais...................................................................................... 81
6.2.3 Válvulas de Gaveta com Cunha de Borracha ...................................................................... 82
6.2.4 Válvulas de Esfera ............................................................................................................... 83
6.2.5 - Válvulas de Macho.............................................................................................................. 84
6.2.6 - Válvulas de Regulagem ...................................................................................................... 84
6.2.7 - Válvulas Esféricas ou Rotoválvulas .................................................................................... 86
6.2.8 - Válvulas Borboleta .............................................................................................................. 86
6.2.9 Válvulas que Permitem o Escoamento em Um só Sentido. Válvulas de Retenção ............. 86
6.2.10 Válvulas de Controle da Pressão de Montante,.Válvula de Alívio ou Válvula de
Segurança ...................................................................................................................................... 87
6.2.11. Válvulas de Inclusão ou Expulsão de Ar ("Ventosas") ................................................... 87
6.2.12 Válvulas de Redução de Pressão .................................................................................. 88
6.2.13 Válvulas Dispersoras ......................................................................................................88
6.3 Comportas ................................................................................................................ 89
6.3.1 Comportas para Vertedouros................................................................................................89
6.3.2 Comportas de Tomada D’água.............................................................................................90
6.3.3 Comportas de Fundo de Barragem ......................................................................................91
7 Levantamento Batimétrico Automatizado ......................................................... 92
7.1 Introdução................................................................................................................. 93
7.2 Metodologia .............................................................................................................. 94
7.2.1 Calibração.............................................................................................................................94
7.3 Produtos Obtidos ..................................................................................................... 97
7.4 Estudo de Caso: Batimetria Automatizada do Açude Bodocongó............................ 97
7.4.1 Introdução .............................................................................................................................98
7.4.2 Objetivos ...............................................................................................................................99
7.4.3 Material Utilizado ..................................................................................................................99
7.4.4 Metodologia Adotada ..........................................................................................................102
7.5 Referências Bibliográficas ...................................................................................... 105
8 Assoreamento de Reservatórios e Açudes..................................................... 106
8.1 Considerações Iniciais............................................................................................ 107
8.1.1 Fontes e Sorvedouros de Sedimentos................................................................................108
8.1.2 Hidrologia............................................................................................................................108
8.1.3 Características da Erosão-Sedimentação de Pequenas Bacias.........................................108
8.1.4 Erosão nas Cabeceiras.......................................................................................................109
8.2 Modelos de Produção de Sedimentos.................................................................... 109
8.2.1 A Equação Universal da Perda de Solo (USLE) .................................................................111
8.2.2 A USLE Modificada (MUSLE) .............................................................................................112
8.2.3 Modelos Fundamentais.......................................................................................................112
8.3 Ligando um Modelo de Erosão a um Modelo Hidrológico ...................................... 113
8.4 Otimização.............................................................................................................. 114
8.5 O Modelo KINEROS ............................................................................................... 115
8.5.1 O Modelo de Infiltração do Solo..........................................................................................115
8.5.2 Escoamento Superficial ......................................................................................................116
8.5.3 Escoamento no Canal.........................................................................................................116
8.5.4 Erosão nos Planos e Canais...............................................................................................117
8.5.5 Parâmetros de Entrada do Modelo KINEROS2 ..................................................................119
8.6 Referências Bibliográficas ...................................................................................... 120
9 Operação de Açudes e Reservatórios ............................................................ 123
9.1 O Balanço Hídrico do Reservatório ........................................................................ 124
9.2 Modelos de Simulação para Operação de Reservatórios ...................................... 124
9.2.1 Componentes dos Modelos ................................................................................................124
9.2.2 Políticas de Operação.........................................................................................................125
9.3 O Nível de Alerta .................................................................................................... 125
9.4 Exemplo: Níveis de Alerta para o Reservatório Gramame-Mamuaba.................... 126
9.4.1 O Sistema Gramame-Mamuaba .........................................................................................127
9.4.2 A Definição dos Níveis de Alerta ........................................................................................127
9.4.3 Simulação ...........................................................................................................................128
9.4.4 Otimização ..........................................................................................................................129
9.4.5 Discussão ...........................................................................................................................130
9.4.6 Conclusões ............................................................................................................. 131
9.5 Planejamento da Operação Versus Operação em Tempo Real ............................ 131
9.6 Previsão Meteorológica e Operação de Reservatórios.......................................................131
9.6.1 Previsão Climática no Nordeste...........................................................................................132
9.6.2 Uso da Previsão de Precipitação para Prever o Armazenamento em Reservatórios.........136
9.6.3 Exemplo ...............................................................................................................................139
9.7 Exemplo: Operação do Reservatório Boqueirão, Campina Grande .......................141
9.7.1 Caracterização do Problema.............................................................................................. 141
9.7.2 Metodologia de Análise ....................................................................................................... 144
9.7.3 Resultados e Discussão...................................................................................................... 144
9.7.4 Conclusão .......................................................................................................................... 147
9.8 Referências Bibliográficas.......................................................................................148

 
1  
Introdução  ao  

Estudo  de  Barragens  


Raimundo  Leidimar  Bezerra  

1.1     Generalidades  

No Nordeste brasileiro, tradicional e inevitavelmente atingido por crises climáticas, cujos efeitos se
processam de modo calamitoso, os períodos de prolongadas estiagens geram na região um pendor natural, que
traduz quase como norma, em se acumular a água, através da construção de barragens, para suprir as
deficiências observadas nos períodos de extrema aridez que ocorrem de maneira aleatória.

1.2     Definição  

Barragem é toda estrutura destinada a barrar, superficial ou subterraneamente, uma corrente natural de
água, como forma de provocar a sua acumulação.

1.3     Finalidades  

As principais finalidades a que se destinam as barragens são:

• Abastecimento humano, animal e industrial;

• Irrigação;

• Energia hidroelétrica;

• Piscicultura;

1
• Controle de cheias;

• Regularização de rios;

• Navegação;

• Recreação

• Saneamento;

• Contenção de rejeitos (ex.: de mineração);

• Etc.

É importante frisar que um mesmo açude pode ter várias finalidades e que o seu estudo deve estar
perfeitamente integrado na problemática sócio-econômica do vale a que pertence.

1.4     Tipos  de  Barragens  

1.4.1     Segundo  os  Materiais  Constituintes  

• Rígidas

São monoblocos necessitando de dispositivos especiais para fazer frente a agentes tais como:
temperatura, pressão, etc. Cite-se, por exemplo as juntas de dilatação. Por exemplo:

• barragens de alvenaria (de pedra, concreto, concreto compactado com rolo) (Figura 1.1);

• barragens em arco (Figura 1.2);

• barragens em contraforte (Figura 1.3).

Figura 1.1 Barragem de concreto.

2
Figura 1.2 Barragem em arco.

Figura 1.3 Barragem com contrafortes.

• Deformáveis

São as constituídas por materiais mais ou menos plásticos ou constituídas por blocos com movimentos
independentes dentro do conjunto. As primeiras são as barragens de terra; as segundas são barragens mistas
ou de enrocamento.

Barragens de Terra

• Homogêneas – são constituídas de um só material (Figura 1.4);

• Zoneadas – são constituídas fundamentalmente de um núcleo de terra impermeável, situado entre


zonas permeáveis que prestam estabilidade ao conjunto (Figura 1.5);

• Mistas – são barragens de terra zoneadas,.onde o núcleo (tipo diafragma) é constituído de um


material rígido, como o concreto armado (Figura 1.6).

3
Figura 1.4 Barragem de terra homogênea.

Figura 1.5 Barragens de terra zoneada (ou de enrocamento).

Figura 1.6 Barragem de terra mista.

Barragens de Enrocamento

• Enrocamento com núcleo de argila - são constituídas de espaldares de enrocamentos lançados ou


compactados nos espaldares e um núcleo de solo argiloso compactado (ver Figura 1.5);

4
• Enrocamento com face de montante de concreto.- são constituídas de enrocamentos lançados ou
compactados, com uma face estanque apoiada sobre o talude de montante do maciço de
enrocamento. Essa face estanque pode ser concreto, concreto betuminoso, metal, etc.

Figura 1.7 Barragem de enrocamento com face de concreto.

1.4.2     Segundo  a  Submergência  

• Submersíveis

São as barragens projetadas para funcionar, eventualmente, submersas. É o caso dos vertedouros tipo
ogiva.

Figura 1.8 Barragem tipo ogiva.

• Insubmersíveis

São as barragens que devem funcionar sempre com seus extravasores, com lâmina máxima de
descarga, em cota inferior à do coroamento da barragem. É o caso das barragens de terra. Estas jamais devem
ser submergidas (ver Figura 1.4).

5
1.4.3  Segundo  o  fluxo  barrado  

• Sobrejacentes

São as barragens de superfície, ou seja, aquelas que se situam acima do terreno natural.

• Subterrâneas

São as que se destinam a barrar eventual fluxo através do manto poroso existente no subsolo
de um curso d´água. Geralmente este manto poroso ocorre em solos de origem sedimentar.

Figura 1.9 Barragem subterrânea.

1.5   Seleção  do  Tipo  de  Barragem  

1.5.1     Generalidades  

A escolha do tipo mais adequado de barragem a ser projetada para um determinado local de um curso
d’água, depende de uma série de fatores. Estes fatores, condicionando imposições técnico-econômicas,
determinam o tipo de barragem indicado para cada caso.

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Somente em condições excepcionais pode-se afirmar que um único tipo de barragem é viável ou mais
econômico para um certo local. Com exceção dos casos onde a definição do tipo de barragem é óbvia, deverão
ser realizados projetos preliminares e estimativas de custos para diversos tipos, a fim de orientar a escolha da
melhor solução do ponto de vista dos custos diretos e de outros fatores. Uma obra poderá resultar
indevidamente onerosa se as decisões para a escolha do tipo de barragem não forem baseadas em estudos
adequados, com auxílio da experiência de engenheiros especializados. É também importante contar-se com a
colaboração de um geólogo experiente, para verificar se as fundações do local são compatíveis com os tipos de
estruturas considerados. Em diversos casos, os custos para as obras de proteção das descargas de vertedouros
e os problemas de desvio do rio durante a construção são fatores importantes para a seleção do tipo de
barragem.
A escolha final do tipo de barragem geralmente deve ser feita após a consideração das características
de cada tipo, relacionadas com as feições físicas do local e a sua adaptação para atender o objetivo para o qual
será construída, observando-se os aspectos de economia, de segurança e outras limitações pertinentes.
Geralmente o fator determinante na escolha final do tipo de barragem é o custo de construção. Os fatores mais
importantes na definição do tipo de barragem a construir, serão discutidos a seguir.

1.5.2     Topografia  

Em primeira aproximação a topografia é quem dita a escolha inicial do tipo de barragem. Um vale
apertado, situado entre paredes de rochas altas, sugere uma barragem de concreto. Por outro lado, um vale
aberto, de ombreiras de inclinação suave, sugere uma barragem de terra. Para condições intermediárias, outras
considerações também têm maior importância, mas, como regra geral, uma boa concordância da barragem com
as condições naturais é um princípio primário e seguro.
A locação do vertedouro é um item importante que poderá ser amplamente governado pela topografia
local e poderá ter um peso significativo na seleção final do tipo de barragem.

1.5.3   Condições  Geológicas  e  Geotécnicas  das  Fundações  

As condições das fundações estão relacionadas às características geológicas do seu maciço, até uma
profundidade susceptível de sofrer a influência do peso da barragem e da percolação da água do reservatório.
Enquanto as fundações rochosas são favoráveis a qualquer tipo de barragem, os solos permeáveis e
profundos não favorecem a implantação de barragens de concreto. Neste caso, a fim de distribuir as cargas
numa área maior e diminuir as perdas por percolação através da fundação, projetam-se barragens de terra. As
diferentes fundações comumente encontradas para construção de barragens são as descritas a seguir.

• Fundação em Rocha

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Devido a sua relativamente alta capacidade de carga e resistência à erosão e percolação, oferece
poucas restrições a qualquer tipo de barragem que se queira construir. Assim, o fator preponderante na escolha
passa a ser o custo global de cada tipo considerado. Pode ser necessária a remoção da rocha alterada e a
injeção de cimento nas fendas e fraturas existentes.

• Fundação em Cascalho

Geralmente compacto, este material é aceitável para barragens de terra, de enrocamento e até
pequenas barragens de gravidade de concreto. Como essa fundação é sujeita a forte percolação de água,
devem ser tomados cuidados especiais para sua impermeabilização.

• Fundação em Silte ou Areia Fina

Pode ser usada para barragens de gravidade de pequena altura e para barragens de terra. É entretanto
inadequada para barragens de enrocamento. Os principais problemas são recalques, “piping”, perdas excessivas
de água e proteção da fundação contra erosão no pé de jusante.

• Fundação Argilosa

Pode ser usada para apoio de barragem de terra, mas requer tratamento especial. Como podem dar
origem a grandes recalques, a fundação em argila não é adequada para a construção de barragens de
enrocamento. Os materiais de fundação devem ser ensaiados para se verificar a sua adequabilidade para
suportar as cargas que serão impostas pela barragem.

1.5.4   Materiais  de  Construção  

Antes do início do projeto deve ser catalogado como um dos trabalhos preliminares o estudo das
jazidas de solo para os aterros, areia para os enrocamentos e “rip rap”, e agregados para concreto, a fim de se
avaliar as quantidades disponíveis e a qualidade dos materiais. Estes materiais, em função de sua existência e
da distância à obra, influenciarão na escolha do tipo de barragem a projetar.
Uma redução na distância de transporte, especialmente para os materiais que são usados em grande
quantidade, representa uma considerável redução no custo total da obra. O tipo de barragem mais econômico
pode ser justamente aquele cujos materiais se encontram em grande quantidade dentro de uma distância
razoável do local de construção. Muitas vezes, a necessidade de se escavar grande quantidade de rocha, para a
implantação das estruturas de concreto em profundidades razoáveis ou para a abertura de túneis, pode orientar
a escolha de uma barragem do tipo enrocamento, aproveitando-se a disponibilidade desse material já escavado.

1.5.5   Dimensões  e  Locação  do  Vertedouro  

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O estreito inter-relacionamento existente entre barragem e vertedouro leva o projetista a definir o tipo
de barragem a projetar, em função do sangradouro. Sendo um fator preponderante, a localização do vertedouro
terá estreita correlação com a barragem.
Assim, se existe somente um boqueirão e sendo anti-econômica a construção de um sangradouro do
tipo usual, ou seja, um canal escavado numa das ombreiras, torna-se necessário projetar uma barragem do tipo
vertedouro ou similar, sendo indicada uma de concreto.
Normalmente não se considera a possibilidade de construir o vertedouro sobre o aterro ou sobre o
enrocamento devido a uma série de problemas, tais como: recalques diferenciais provocados pelo adensamento
não uniforme do maciço da barragem ou da sua fundação após o enchimento do reservatório; a necessidade de
cuidados especiais para se evitar fissuramento do concreto e a abertura de juntas, que permitiriam a fuga d’água
através do contato com o aterro, provocando “piping” ou a lavagem dos materiais circunvizinhos; atrasos para o
início do enchimento do reservatório, pois o vertedouro somente seria construído após a conclusão da barragem.
Nos arranjos comuns para a implantação do vertedouro que utilizam um canal escavado em uma das
ombreiras, além dos limites da barragem, nesses casos o maciço pode ser de terra ou de enrocamento,
completamente independente da estrutura do vertedouro.

1.5.6   Condições  do  Meio  Ambiente  

Nos últimos anos as considerações do meio ambiente tem assumido grande importância no projeto de
barragens. A principal influência que o meio ambiente pode exercer sobre a escolha do tipo de barragem diz
respeito à necessidade de máxima proteção para a região que pode ser afetada pelo tipo de barragem, suas
dimensões, locação do vertedouro e demais obras pertinentes. Em certos casos, o custo das providências para a
proteção do meio ambiente pode acrescer substancialmente o custo total da barragem.

1.5.7   Condições  Climáticas  

As condições climáticas podem influir significativamente na escolha do tipo de barragem. Nas regiões
de grande pluviometria a compactação de aterros argilosos fica bastante prejudicada pelo excesso de umidade
que é transmitido ao solo, tanto nas áreas de empréstimos como no local da barragem. Nesses casos, pode ser
mais vantajosa a seleção de uma barragem de enrocamento com núcleo delgado de argila ou com paramento de
concreto a montante.
No caso de barragens de concreto, as modificações climáticas afetam as estruturas, de modo que se
faz necessário seu conhecimento a fim de que a introdução de dispositivos técnicos empreste às mesmas a
segurança esperada.

9
1.6   Escolha  do  Local  para  Implantação  da  Barragem  

O primeiro fator a ser considerado na escolha do local para a implantação de uma barragem é a
topografia. Procura-se inicialmente adaptar o eixo da barragem em um local onde o vale do rio se apresenta
mais estreito, com o objetivo de minimizar o seu volume. São assim escolhidas diversas variantes que são
analisadas, considerando-se também os demais fatores, para que se chegue a melhor solução técnico-
econômica.
As condições geológicas-geotécnicas do local são muito importantes, pois determinam os tratamentos
necessários para atender os problemas de estabilidade, de percolação e de deformabilidade da barragem. Assim
sendo, um local, que a primeira vista parece ser mais vantajoso, por corresponder a uma barragem de menor
comprimento, poderá requerer tratamentos extremamente onerosos de escavações, injeções de
impermeabilização, drenagens, etc, que venham a se constituir em uma parcela considerável no custo total da
barragem.
A distância de transporte e a qualidade dos materiais de construção também são fatores a se
considerar na escolha do eixo da barragem. As condições de implantação das estruturas de concreto, como o
vertedouro, a tomada d´água, a casa de força, eclusas para navegação, etc, também são importantes. O desvio
do rio, durante o período de construção da barragem, as vezes é um fator condicionante para a escolha do local:
um local muito estreito requer a construção de túneis para o desvio do rio, enquanto que um vale mais largo
permite a escavação de um canal, que posteriormente será fechado pela barragem, ou a construção de galerias
de concreto armado, que serão cobertas pela barragem e fechadas por tampões de concreto.

1.7   Estudos  Necessários  ao  Projeto  de  uma  Barragem  

Ao se projetar uma barragem são necessários vários estudos que servirão para definir todas as
características da obra a projetar. Esses estudos tornarão possível a análise das considerações técnicas da
obra, bem como do comportamento sócio-econômico decorrente da sua construção. A seguir são descritos
esses estudos.

1.7.1   Estudos  Topográficos  

Analisa as características geográficas e topográficas do curso d´água a ser barrado. A função desse
levantamento é a de preparar plantas topográficas que permitam verificar as seções transversais mais favoráveis
para a implantação da barragem, calcular a área de inundação das seções escolhidas e obter o perfil longitudinal
do curso d’água. As plantas topográficas são elementos indispensáveis ao projeto de uma barragem e
desempenham papel preponderante desde os primeiros estudos, quando da fase exploratória, até a construção.

1.7.2   Estudos  Geológicos  


10
Os trabalhos de geologia realizados em uma área onde se pretende implantar uma barragem,
constam de se fazer um mapeamento geológico da área, estudo da rocha de fundação e estudo dos materiais de
construção.

1.7.3   Estudos  Hidrológicos  

Visa estudar as condições afluentes na bacia hidrográfica, com finalidade de determinar as condições
de acumulação, e as condições de escoamento das ondas de cheia para assegurar a segurança da obra.

1.7.4   Estudos  Geotécnicos  

Trata-se da caracterização dos solos e rochas, sob o aspecto geotécnico, para suas utilizações na
construção de barragens. Trata-se, portanto, da execução de ensaios sobre amostras em laboratório e a
realização de ensaios “in situ”.

1.8   Procedimento  dos  Estudos  

A seguir, serão mostrados os procedimento gerais a serem adotados para a implementação do projeto
de uma barragem.

1.8.1   Estudos  Preliminares  

Definidos os objetivos a atingir com a construção da barragem, ou seja, as finalidades a que se destina,
e o estudo das restrições e condicionantes que do mesmo resultam, a etapa seguinte corresponde à pesquisa do
local mais adequado a satisfazer tais objetivos.

1.8.2   Pesquisa  do  Local  mais  Adequado  

Os fatores que, de um modo geral, influenciam na escolha do local da barragem são:

• Finalidade a que se destina (abastecimento d’água, hidrelétrica, navegação, etc.);

• Topografia local;

• Condições geológicas;

11
• Condições geotécnicas;

• Condições hidrológicas;

• Materiais de construção disponíveis;

• Problemas construtivos e econômicos;

• Fatores político-econômicos.

Em uma primeira fase, os estudos de todas as possibilidades aparentes para a implantação do


reservatório serão feitos no escritório, sobre documentação disponível. Utilizar-se-á, basicamente, as fotografias
aéreas, as cartas topográficas, na maior escala possível, e o mapa geológico regional.
Analisada toda a documentação existente, seleciona-se alguns locais onde possivelmente poderia se
construir a barragem. Para cada um dos locais selecionados procurar-se-á estimar, de princípio, os seguintes
pontos:

• Características topográficas do vale e da bacia hidrográfica;

• Morfologia do local da barragem e da bacia hidráulica;

• O eixo presumível da barragem;

• O contorno da bacia hidrográfica;

• Possíveis locais para a implantação do sangradouro;

• Idéia da hidrologia da bacia hidrográfica;

• Dados meteorológicos locais.

Recolhido o máximo de informações sobre os documentos existentes, procede-se então a visita aos
locais previamente escolhidos, com o objetivo de precisar e completar os informes gerais disponíveis.
O reconhecimento dos locais deve ser realizado por técnico experimentado em matéria de barragens,
de preferência o próprio projetista, o qual deverá contar com o auxílio de um geólogo. Pode ser igualmente útil a
participação do topógrafo que irá proceder, em fase posterior, aos levantamentos topográficos. Nessas visitas
devem-se fazer observações tais como:

• Informações a respeito de cheias;

• Aspectos de indenizações;

• Possíveis zonas de empréstimos de materiais;

• Locais de dificuldades particulares, tais como, zonas turfosas ou argilosas, falhas geológicas, etc.

12
Essa primeira visita permite, freqüentemente, ao geólogo propor ao projetista outros locais ou tipos de
obras diferentes, que apresentam menos problemas que aqueles inicialmente escolhidos a partir de critérios
topográficos e hidrológicos.

1.8.3   Escolha  do  Local  

O estudo comparativo dos locais inventariados, tanto do ponto de vista das características técnicas
propícias a cada um deles, quanto de suas vantagens relativas, com respeito ao empreendimento projetado e a
sua inserção no seu ambiente físico, permitirá selecionar um certo número de locais, dentre os quais deve ser
feita a escolha final.
Freqüentemente, a decisão sobre a escolha definitiva do local necessita um conhecimento mais
preciso das características de cada local selecionado. Um levantamento topográfico detalhado do boqueirão e
bacia hidrográfica, um estudo geológico de superfície, um estudo geotécnico simples, uma avaliação dos
deflúvios e das descargas de cheias, a partir de observações locais podem ser indispensáveis.
Uma avaliação sumária dos custos para cada um dos locais selecionados será, além disso,
necessária para encerrar definitivamente o processo de escolha e reconhecer a exeqüibilidade da obra.
Nos casos difíceis de escolha, não será possível pronunciar-se sobre a exeqüibilidade da obra sem se
aprofundar os estudos de base, necessários à elaboração do Ante-Projeto da obra.

13
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

14
2  
Projeto  de    
Barragens  de  Terra  
Raimundo  Leidimar  Bezerra  

2.1   Princípios  Básicos  de  Projeto  

A finalidade básica de um projeto é produzir uma estrutura funcional a um custo mínimo. Deve-se, no
entanto, evitar que a economia no projeto e execução venha causar posteriormente um elevado custo de
manutenção.
Para obter-se um custo mínimo de construção, a barragem precisa ser projetada para a máxima
utilização dos materiais disponíveis, incluindo os materiais que serão obtidos nas escavações para as
fundações, estrutura do sangradouro, etc.
O problema básico ao se projetar um aterro de uma barragem de terra é, essencialmente, determinar
a seção transversal do maciço que, construído com o material disponível, irá comportar-se seguramente no
desempenho de sua função. Para que uma barragem possa ser considerada segura, seu projeto deve atender
alguns princípios considerados básicos para sua segurança, ou seja:

• Segurança contra a possibilidade de transbordamento para a cheia máxima considerada;

• As tensões não podem ser superiores às que a fundação pode suportar;

• Segurança contra o transbordamento por ação das ondas formadas no lago;

• O talude de montante deve ser protegido contra a erosão causada pelas ondas;

• O coroamento e o talude de jusante devem ser protegidos contra a erosão devida às chuvas;

• Os taludes devem ter inclinação suficiente a fim de que haja segurança durante todas as fases de
operação da barragem;

15
• As infiltrações de água através da fundação e corpo da barragem não devem causar erosões internas,
nem nos locais onde emergirem;

• As perdas de água por infiltrações não devem afetar o aproveitamento da obra;

• As estruturas projetadas para o interior do maciço, tais como galerias, etc, não devem afetar as
condições de estabilidade da obra, bem como não devem dar lugar a planos preferenciais de
percolação de água.

2.2   Dados  Necessários  ao  Projeto  

Após realizados os estudos necessários ao projeto, conforme descrito no Capítulo 1, os seguintes


dados são obtidos:

• Determinação da linha de contorno da bacia hidrográfica;

• Levantamento plani-altimétrico da bacia hidráulica;

• Localização do eixo provável da barragem;

• Determinação do provável local do sangradouro;

• Determinação do tipo da bacia hidrográfica;

• Localização dos empréstimos;

• Ensaios geotécnicos com os materiais dos empréstimos;

• Execução de sondagens nos locais da barragem e sangradouro.

Com esses dados obtidos, os seguintes desenhos são elaborados, essenciais ao projeto de uma
barragem de terra:

• Bacia hidrográfica, mostrando o riacho e seus principais afluentes, determinando-se a sua área;

• Bacia hidráulica, incluindo boqueirão e sangradouro, com curvas de nível de metro em metro;

• Perfil longitudinal do boqueirão e transversal do sangradouro;

• Perfil do subsolo nos locais do boqueirão e sangradouro;

• Diagrama das áreas e volumes em função das cotas, e/ou apresentação da tabela correspondente;

• Planta de situação dos empréstimos.

Com a obtenção dos dados e plantas mencionadas acima, dá-se início aos cálculos dos outros
elementos necessários ao projeto.

16
2.3   Determinação  da  Capacidade  do  Reservatório  

2.3.1   Generalidades  

Para o dimensionamento de barragens e obras complementares, tais como sangradouros, tomadas


d´água, descargas de fundo, podem ser empregados métodos hidrológicos racionais e métodos empíricos. Os
métodos racionais utilizam os dados existentes, adicionados a novos dados obtidos, para deduções de leis
hidrológicas que comandam as definições a serem utilizadas no projeto. Os métodos empíricos utilizam os
poucos dados capazes de serem obtidos e aplicam em fórmulas empíricas adaptadas às características locais.
Neste texto, utilizar-se-á somente o método empírico devido ao Engº Aguiar, utilizado pelo DNOCS em
mais de 500 barragens, com resultados satisfatórios. Métodos mais elaborados estão apresentados em materiais
apresentados em outro módulo deste curso.

2.3.2   Fórmula  do  Engenheiro  Aguiar  (DNOCS)  

• Cálculo do Volume Afluente

(2.1)

Sendo:

Va – volume afluente, em m3;


H – precipitação média anual, em m;
R – rendimento da bacia hidrográfica, em %;
U – coeficiente de correção da bacia hidrográfica;
A – área da bacia hidrográfica, em m2.

• Cálculo do Rendimento da Bacia

Para H>1000mm e H<500mm, e entrando-se na Equação 2.2 com H em metros, tem-se:

(2.2)

Para 1000mm ≤ H ≤ 500mm, e entrando-se na Equação 2.3 com H em milímetros, tem-se:

(2.3)

• Determinação do Coeficiente de Correção da Bacia Hidrográfica

Tabela 2.1 Coeficiente de correção da bacia hidrográfica


17
TIPO BACIA HIDROGRÁFICA U
1 Pequena, íngreme e rochosa 1,3-1,4
2 Bem acidentada sem depressões evaporativas 1,2
3 Média 1,0
4 Ligeiramente acidentada 0,8
5 Idem, com depressões evaporativas 0,7
6 Quase plana, terreno argiloso 0,65
7 Idem, terreno variável 0,6
8 Idem, terreno arenoso 0,5

• Cálculo da Capacidade

(2.4)

Essa metodologia justifica-se para a eventualidade do reservatório ser suficiente para suprir um ano
de seca, ou seja, a bacia poderá ficar 18 meses sem realimentação pluviométrica, no caso de um ano seco.
Essa metodologia, assim como a fórmula do Engº Aguiar, são muito criticadas hoje por muitos engenheiros que
trabalham com hidrologia.

2.4   Determinação  da  Cota  da  Soleira  do  Sangradouro  

Com a capacidade do reservatório, entra-se no “Quadro de Cubação da Bacia Hidráulica”, ou no


gráfico “Cotas x Áreas x Volumes” e determina-se a cota da soleira do sangradouro e a área da bacia hidráulica,
também chamada de “área inundada”. Essa cota significa que a partir dessa altura qualquer água adicional que
chegue ao reservatório irá ser extravasada pelo sangradouro.

18
Figura 2.1 Perfil do boqueirão e curvas de nível da bacia hidráulica (exemplo).

Tabela 2.2 Quadro de cubação da bacia hidráulica (exemplo).


COTAS ÁREAS (m2) ∑ ÁREAS (m2) D/2(m) VOLUMES (m3)
PARCIAIS ACUMULADOS
86 933 - - - -
87 3508 4441 0,5 2221 2221
88 6794 10302 0,5 5151 7372
89 12789 19583 0,5 9792 17164
90 20471 33260 0,5 16630 33794

2.5   Dimensionamento  do  Sangradouro  

2.5.1   Cálculo  da  Descarga  Máxima  -­  Metodologia  do  Engº  Aguiar  (DNOCS)  

Existem várias metodologias para a determinação da vazão de cheia, necessária para o


dimensionamento do sangradouro, tais como: Fórmula do Engº Aguiar (DNOCS), Método Racional, Método do
Hidrograma Triangular Unitário, etc. Nesta etapa do curso apresentar-se-á somente a metodologia adotada pelo
DNOCS para este cálculo.

(2.5)

Sendo:

Q – descarga máxima secular, em m3/s;


A – área da bacia hidrográfica, em km2;
L – linha de fundo, em km (igual ao comprimento do riacho principal);
K, C – coeficientes hidrométricos, que dependem do tipo de bacia.

Tabela 2.3 Coeficientes hidrométricos da Fórmula do Engº Aguiar


COEFICIENTES
TIPO BACIA HIDROGRÁFICA
K C

19
1 Pequena, íngreme e rochosa 0,10 0,85
2 Bem acidentada sem depressões evaporativas 0,15 0,95
3 Média 0,20 1,00
4 Ligeiramente acidentada 0,30 1,05
5 Idem, com depressões evaporativas 0,40 1,15
6 Quase plana, terreno argiloso 0,65 1,30
7 Idem, terreno variável 1,00 1,45
8 Idem, terreno arenoso 2,50 1,60

2.5.2   Cálculo  da  Largura  do  Sangradouro  

(2.6)

Sendo:

Q – descarga máxima, em m3/s;


C – coeficiente de descarga;
L – largura efetiva do sangradouro, em m;
H – altura total da água sobre o vertedouro, em m (lâmina máxima de sangria).

Adotando-se um valor de C=1,77, obtém-se a seguinte fórmula para o valor da largura do


sangradouro:

(2.7)

2.6   Cálculo  da  Folga  da  Barragem  

Existem dois tipos de folga: a normal e a mínima. A normal refere-se ao nível de retenção normal das
águas no reservatório; a mínima, ao nível máximo das águas, correspondente à máxima cheia prevista.

20
Figura 2.2 Folgas normal e mínima da barragem.

A folga normal visa assegurar certas condições para longos períodos de retenção, tal como a
prevenção de transbordamento por ação de ondas de rara violência, formadas em condições pouco freqüentes.
A folga mínima visa principalmente a segurança contra o transbordamento por ação de ondas formadas em
ocasiões previstas. A folga mínima pode ser calculada pela seguinte expressão:

(2.8)

Sendo:

fmin – folga mínima, em m;


H0 – altura das ondas, em m;
V0 – velocidade das ondas, em m/s;
g – aceleração da gravidade, em m/s2.

2.6.1   Cálculo  da  Altura  da  Onda  

Fórmula de Stenvenson

P/ F≤18km (2.9)

P/ F>18km (2.10)

Sendo:

H0 – altura das ondas, em m;


F – “fetch” – comprimento máximo do reservatório, medido em linha reta, normal ao eixo da barragem,
em relação ao nível de descarga máxima no sangradouro, em km.

Fórmula de Molitor

21
P/ F<30km (2.11)

P/ F>30km (2.12)

Sendo:

H0 – altura das ondas, em m;


F – “fetch”, em km;
v – velocidade dos ventos, em km/h.

Essa fórmula não é válida para pequenos valores de v, quando F<18km, já que se v=0, acarretaria
H0=0,75m, ainda que não houvesse ventos, o que não é coerente.

2.6.2   Cálculo  da  Velocidade  da  Onda  (Gaillard)  

(2.13)

Sendo:

v0 –velocidade da onda, em m/s;


H0 – altura da onda, em m.

2.6.3   Fórmula  Compilada  para  o  Cálculo  da  Folga  Mínima  

Reunindo-se as Equações 2.8, 2.9 e 2.13, obtém-se a seguinte equação compilada:

(2.14)

O U. S. Bureau of Reclamation recomenda os seguintes valores para a folga, em função do “fetch”,


para velocidades do vento de 100 e 50milha/h, para fnormal e fmin, respectivamente:

Tabela 2.4 Valores das folgas normal e mínima, segundo o Bureau of Reclamation.
Fetch (km) Folga normal (m) Folga mínima (m)
<1,5 1,2 1,0
1,5 1,5 1,2
4,0 1,8 1,5
8,0 2,5 1,8
16,0 3,0 2,5

22
No caso de barragens de terra com o paramento de montante revestido por superfícies lisas, tais
como placas de concreto, asfalto, etc, recomenda-se um aumento de 50% para os valores da Tabela 2.4.

2.7   Cálculo  da  Revanche  

(2.15)

Sendo:

R – revanche da barragem, em m;
hs – altura da lâmina de sangria;
fmin – folga mínima.

2.8   Cálculo  da  Cota  do  Coroamento  

(2.16)

Sendo:

Cc – cota do coroamento;
Cs – cota da soleira;
R - revanche da barragem.

2.9   Cálculo  da  Altura  da  Barragem  

(2.17)

Sendo:

H – altura da barragem, em m;
Cc – cota do coroamento, em m;
CR – cota do riacho, em m.

2.10   Cálculo  da  Largura  do  Coroamento  

A largura do coroamento depende de vários fatores, tais como:

• Natureza dos solos compactados usados;

23
• Comprimento mínimo da linha de percolação através do aterro para o nível de retenção normal do
reservatório;

• Altura e importância da obra e facilidade de execução;

• Utilização como passagem de veículos.

A largura do coroamento normalmente é baseada em casos precedentes, recorrendo-se à fórmulas


empíricas, como será visto.

2.10.1   Fórmula  de  Preece  

(2.18)

Sendo:

B – largura do coroamento, em m;
H – altura da barragem, em m.

2.10.2   Fórmula  de  Knappen  

(2.19)

2.10.3   Fórmula  do  Bureau  of  Reclamation  

(2.20)

2.11   Inclinação  dos  Taludes  

A inclinação dos taludes de uma barragem de terra pode ser pré-fixada através de qualquer
metodologia adotada por órgãos que trabalham com este tipo de construção e, depois, verificada sua
estabilidade para as condições existentes. Desta maneira, as inclinações inicialmente adotadas podem ser
alteradas, para maior ou menor inclinação, dependendo dos resultados da análise de estabilidade dos taludes.

2.11.1   Recomendações  do  DNOCS  

Tabela 2.5 Inclinações dos taludes de barragens homogêneas.


Altura (m) Talude (H:V)
≤ 10 2:1
10 – 15 2,5 : 1

24
15 - 20 3:1
etc

2.11.2   Recomendações  do  Bureau  of  Reclamation  

Tabela 2.6 Barragens homogêneas sobre fundações estáveis.


Símbolo do grupo do
Esvaziamento rápido Montante Jusante
solo
GW, GP, SW, SP Não adequado (Permeável)
GC, GM, SC, SM 2,5 : 1 2:1
Não
CL, ML 3:1 2,5 : 1
CH, MH 3,5 : 1 2,5 : 1
GW, GP, SW, SP Não adequado (Permeável)
GC, GM, SC, SM 3:1 2:1
Sim
CL, ML 3,5 : 1 2,5 : 1
CH, MH 4,0 : 1 2,5 : 1

Diz-se que a barragem está sujeita a um esvaziamento rápido, quando existir a possibilidade da
descida do nível d´água no reservatório com velocidades mínimas de 15cm/dia.

Tabela 2.7 Barragens Zoneadas Sobre Fundações Estáveis.


Sujeita a Solos dos
Tipo Solos do núcleo Montante Jusante
esvaziamento rápido maciços laterais
Enrocamento GC, GM
GW, GP SC, SM
Núcleo mínimo Condição não crítica 2:1 2:1
SW (seixo) CL, ML
SP (seixo) CH, MH
GC, GM 2:1 2:1
SC, SM 2,25 : 1 2,25 : 1
Núcleo máximo Não Idem
CL, ML 2,5 : 1 2,5 : 1
CH, MH 3:1 3:1
GC, GM 2,5 : 1 2:1
SC, SM 2,5 : 1 2,25 : 1
Núcleo máximo Sim Idem
CL, ML 3:1 2,5 : 1
CH, MH 3,5 : 1 3:1

Figura 2.3 Indicações para as inclinações dos taludes da barragem zoneada.

25
Sendo:

1. núcleo mínimo para barragens sobre fundações impermeáveis ou fundações permeáveis com
valas corta-águas (“cut-off”);
2. núcleo mínimo para barragens sobre fundações permeáveis e sem valas corta-águas;
3. núcleo máximo.

 
 
 
 
 

26
3  
A  Construção  de  Barragens  
de  Terra  
e  seu  Controle  
Raimundo  Leidimar  Bezerra    

3.1 Generalidades  

O processo de execução de uma barragem de terra compreende a preparação das fundações e a


construção dos aterros. Esta construção engloba, esquematicamente, as seguintes fases:

• Escavação dos materiais nas zonas de empréstimo previamente selecionadas;

• Transporte dos materiais e deposição nos locais assinalados, de acordo com o projeto;

• Espalhamento em camadas, acompanhado, em certas condições, de adição e posteriores operações


de homogeneização;

• Compactação das camadas, por processos especificados.

Todo o processo de execução deve merecer atenção especial, podendo-se dizer que o sucesso de uma
construção depende tanto da prospecção e do projeto quanto da execução. Assim, é necessário proceder a
vários tipos de inspeção que visem assegurar certas condições. Tais inspeções compreendem, na generalidade,
exames visuais, medições e ensaios.
No que se refere às condições de colocação de solos, há que se dispor de processos que permitam
decidir sobre a qualidade do aterro construído. Então, a aceitação ou rejeição de uma dada camada construída
dependerá dos valores obtidos em ensaios de controle. Tais valores devem ser relacionados com os de um

27
ensaio padronizado que “duplique” a compactação obtida na obra. Ou seja, dado que o estudo dos solos a
aplicar na construção da barragem recorreu à determinação de valores obtidos em ensaios sobre amostras
(valores estes que basearam a elaboração do projeto), há que se assegurar que os solos colocadas exibam as
“mesmas” características das amostras de estudo.
A compactação na obra é obtida à custa de um certo número de passagens de um determinado
equipamento sobre camadas de solo, colocadas com uma dada espessura. Entre os possíveis equipamentos de
compactação podem-se citar os sapos, rolos de pneus, rolos pés-de-carneiro, os tratores e os próprios
equipamentos de transporte. A espessura de uma camada depende da natureza dos solos e do equipamento de
compactação. Por exemplo, no caso de rolos pés-de-carneiro, são comuns as espessuras de 25 a 30cm, antes
da compactação.
O peso específico aparente seco dos solos compactados cresce com o número de passagens do rolo,
até um certo valor; esse valor depende também do peso do cilindro, ou seja, da energia empregada (ver Figura
3.1).

Figura 3.1 Variação do peso específico seco do solo.

O número de passagens necessário para se obter um dado peso específico, depende da natureza dos
solos, do seu teor de umidade e do tipo de equipamento utilizado.
Dado o equipamento de compactação deverão ser, no início da obra, estudadas as condições de
operação, ou seja, devem ser construídos aterros experimentais. Fixada a espessura das camadas e o número
de passagens, deve-se proceder ao seu controle durante toda a construção. A eficiência do processo de
compactação deve sempre ser aferida por meio de um conjunto de ensaios de controle, efetuado periodicamente
e em zonas pré-determinadas.

3.2 A  Compactação  de  Solos  

28
3.2.1   Generalidades  

A compactação de um solo é a sua densificação por meio de equipamento mecânico, geralmente um


rolo compactador, embora, em alguns casos, como em pequenas valetas, até soquetes manuais possam ser
empregados.
Um solo, quando transportado e depositado para a construção de um aterro, fica num estado
relativamente fofo e heterogêneo e, portanto, além de pouco resistente e muito deformável, apresenta
comportamento diferente de local para local. A compactação tem em vista estes dois aspectos: aumentar a
intimidade do contato entre os grãos e tornar o aterro mais homogêneo. O aumento da densidade ou redução do
índice de vazios é desejável não por si, mas porque diversas propriedades do solo melhoram com isto.
A compactação é empregada em diversas obras de engenharia, como os aterros para diversas
utilidades, a construção de barragens de terra, preenchimento com terra do espaço atrás de muros de arrimo, re-
enchimento de valetas, etc. O tipo de obra e de solo disponível vai ditar o processo de compactação a ser
empregado, a umidade em que o solo deve se encontrar na ocasião e a densidade a ser atingida, tendo como
objetivos reduzir futuros recalques, aumentar a rigidez e a resistência do solo, reduzir a permeabilidade, etc.

3.2.2   Compactação  de  Solos  em  Laboratório  

Em fins da década de 1930, Porter, da Califórnia Division of Highways, EUA, desenvolveu um método
para a determinação do “ponto ótimo de compactação” dos solos em laboratório – o ponto de máxima
compactação. Para ele, o resultado da compactação era a redução do volume de ar dos vazios, concluindo que
ela era função da umidade dos solos. Assim, a quantidade de água, considerada através da umidade, é
parâmetro decisivo na compactação dos solos, ao lado da energia de compactação.
O método era empírico e consistia em compactar uma porção de solo em laboratório, com uma certa
energia de compactação, variando a umidade. A curva peso específico seco (γs), em função da umidade (h),
possuía a forma de um sino e permitia definir um ponto ótimo de compactação, como mostrado na Figura 3.2.
Tinha-se, assim, um “peso específico seco máximo” (γs max) e uma “umidade ótima” (hot). Proctor padronizou o
ensaio por volta de 1933 e no Brasil o ensaio foi padronizado pela ABNT (NBR 7.182/86).

29
Figura 3.2 Curva de compactação obtida no ensaio de Proctor.

Assim, para um dado tipo de solo, existe um valor ótimo do teor de umidade para o qual o peso
específico aparente seco é máximo (mínimo volume de vazios). Variando a energia de compactação, variam os
valores ótimos de ensaio. Variando o tipo de solo, para uma determinada energia, variam os valores ótimos do
ensaio. Estes princípios encontram-se representados nas Figuras 3.2 a 3.4 e o formulário necessário para a
obtenção dessas curvas estão apresentadas a seguir.

(3.1)

(3.2)

(3.3)

(3.4)

(3.5)

30
Sendo:
γs – massa específica aparente seca, em g/cm3; Ph – massa do solo úmido, em g;
V – volume do cilindro, em cm3; h – teor de umidade do solo, em %;
S – grau de saturação do solo, em %; Pa – massa de água, em g;
δ - massa específica dos grãos, em g/cm3; Ps – massa do solo seco, em g;
δa - massa específica da água, em g/cm3, igual a 1,00g/cm3; e – índice de vazios do solo.

Figura 3.2 Influência da energia de compactação.

Figura 3.3 Influência do tipo de solo.

31
Para a compactação de solos não coesivos (areias e misturas de areias e pedregulhos) recorre-se a
outros processos de densificação, usando-se a vibração. O ensaio laboratorial é designado por ensaio de
compacidade relativa, obtendo-se o grau de compacidade de uma dada amostra, pela Equação 3.6 ou 3.7.

(3.6)

(3.7)

Sendo:

Dr – compacidade relativa;
emax – índice de vazios máximo;
e – índice de vazios natural;
emin – índice de vazios mínimo;
γnat – peso específico aparente seco no estado natural;
γmint – peso específico aparente seco no estado mais solto possível;
γmax – peso específico aparente seco no estado mais denso possível.

3.2.3   A  Compactação  de  Solos  no  Campo  

A compactação no campo compreende uma série de atividades, que vão desde a escolha da área de
empréstimo até a compactação propriamente dita.

• Escolha da Área de Empréstimo

Na escolha da área de empréstimo, intervêm fatores como a distância de transporte, o volume de


material disponível, os tipos de solos e seus teores de umidade (acerto de umidade). Em princípio, qualquer tipo
de solo serve, excetuando-se os solos saturados, com matéria orgânica e os solos turfosos; deve-se também
procurar evitar os solos micáceos e saibrosos.

• Escavação, Transporte e Espalhamento do Solo

A escavação do solo na área de empréstimo deve ser feita com cuidados especiais quanto à drenagem,
para evitar a saturação do solo em época de chuva, e também quanto à estocagem do solo sub-superficial, em
geral laterizado, que, quando bem compactado, apresenta elevada resistência à erosão. Na superfície aflora
camada de solo orgânico, de pequena espessura, que também pode ser estocado e recolocado após o término
das escavações, para propiciar a recomposição da vegetação natural. Depois de transportado, o solo é
espalhado em camadas tais que sua espessura seja compatível com o equipamento compactador.

32
• Acerto de Umidade e Homogeneização

Através de irrigação ou aeração é feito o acerto da umidade, em função das especificações de


compactação, isto é, do desvio de umidade em relação à ótima, prefixado pelo projetista. Procede-se também à
homogeneização, para distribuir bem a umidade, quando for o caso, e ao destorroamento do solo, se necessário.

• Compactação Propriamente Dita

Segue-se a compactação propriamente dita, com equipamentos e parâmetros adequados ao tipo de


solo, conforme a Tabela 3.1. Para o reaterro de pequenas valas usam-se soquetes manuais ou “sapos
mecânicos”. Enfatiza-se que as informações contidas na Tabela 3.1 são meras indicações, devendo-se verificar
os equipamentos e correspondentes parâmetros mais adequados a cada caso particular.

Tabela 3.1 Equipamentos de compactação.

Para obras de muita responsabilidade, como são as barragens de terra, costuma-se lançar mão de
aterros experimentais, quando então são testados vários equipamentos, compactando solos com diferentes
umidades, diferentes espessuras de camada e diferentes números de passadas dos equipamentos de
compactação. No Item 3.4 será discutido o caso dos aterros experimentais.

3.3 Especificações  da  Compactação  

Em geral as áreas de empréstimos fornecem solos residuais, por vezes capeados com solos
coluvionares. Esses solos são bastante heterogêneos. No horizonte superior costumam ocorrer solos argilosos,

33
laterizados; subjacente, estão presentes solos siltosos e mesmo arenosos. Para dar conta dessa
heterogeneidade, em termos de especificação de compactação, recorre-se a dois parâmetros: o “grau de
compactação” (GC) e o “desvio de umidade” (Δh).

(3.1)

(3.2)

Sendo:
GC – grau de compactação da camada compactada, em %;
γs campo – massa específica aparente seca determinada no campo, em g/cm3;
γs max (lab) - massa específica aparente seca máxima determinada no laboratório, em g/cm3;
Δh – desvio de umidade; em %;
hcampo – umidade determinada no campo; em %;
hot – umidade ótima determinada no laboratório; em %.

Normalmente, as especificações não fixam intervalos de umidade e massa específica aparente seca a
serem obtidos, mas um desvio de umidade em relação à umidade ótima e um grau mínimo de compactação (ver
Equações 3.3 e 3.4). Esta prática decorre do fato que, numa área de empréstimo, o solo sempre apresenta
alguma heterogeneidade.

(3.3)

(3.4)

3.4 Aterros  Experimentais  

Quando se executam obras de grande vulto, justifica-se a construção de aterros experimentais. Um


pequeno aterro com o solo selecionado para a obra, com 200m de extensão, por exemplo, sub-dividido em 4 a 6
sub-trechos com umidades diferentes, é compactado com o equipamento previsto. Depois de um certo número
de passadas do equipamento, determina-se a umidade de cada subtrecho e a massa específica aparente seca
atingida. Repetindo-se o procedimento para diversos números de passadas do equipamento, ou para
equipamentos diferentes, várias curvas podem ser obtidas, ou a eficácia do equipamento pode ser estabelecida.
Os aterros experimentais orientam na seleção do equipamento a utilizar, e indicam as umidades mais
adequadas para cada equipamento, as espessuras de camadas, o número de passadas do equipamento a partir
do qual pouco efeito é obtido, etc. Os aterros possibilitam a observação visual do solo compactado, com

34
eventuais problemas de laminações ou trincas, e deles podem ser retiradas amostras bem representativas para
ensaios mecânicos.

Figura 3.5 Resultados de aterro experimental.

35
 
 
 
 
 
4  
36
Diretrizes  Para  Inspeção  
de  Barragens  de  Terra  
Raimundo  Leidimar  Bezerra    

4.1   Generalidades  

Este capítulo trata das diretrizes para inspeção e avaliação do potencial de risco em barragens, e plano
para ações emergenciais no caso de riscos eminentes em barragens e procedimentos para sua manutenção. No
final deste capítulo são descritas as anomalias mais comuns que surgem em barragens de terra pela falta de
manutenção.
Neste capítulo estão abordados alguns trabalhos elaborados sobre o assunto por técnicos da
Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará – COGERH, que há bastante tempo vem trabalhando
sobre o tema em questão. Estes artigos estão disponíveis, em versão pdf, no site:
www.cogerh.com.br/versao3/segur_barragens.asp. Também foi abordado o trabalho elaborado pela Comissão
de Auscultação e Instrumentação de Barragens do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens.
A avaliação de segurança de uma barragem deve ser um esforço contínuo, que exige a realização
,simultânea e complementar, de vistorias periódicas “in situ” e de análises “pari passu” dos dados da
instrumentação (quando existir), durante toda a vida útil da barragem.
Neste ítem abordam-se procedimentos que devem orientar as inspeções de campo, que têm por
objetivo detectar deteriorações em potencial e alertar sobre condições que podem conduzir as estruturas da
barragem, progressivamente, ao comprometimento da sua segurança. Inspeções cuidadosas e regularmente
conduzidas devem indicar tendências e não apenas valores absolutos, pois as inspeções sempre são
qualitativas.
As inspeções de campo e a instrumentação das estruturas devem ser encaradas sempre como
mutuamente complementares. Os dados das mesmas devem ser analisados conjuntamente, pois muitas vezes
os problemas surgem em regiões não instrumentadas, onde apenas as inspeções de campo podem detectá-los.
Muitas das deteriorações, tais como fissuras no concreto, erosões por abrasão ou cavitações nas superfícies de
escoamento, degradação superficial do concreto, infiltrações ou surgências d´água, etc., só são possíveis de
detectar através de inspeções visuais de campo.

37
As inspeções devem obedecer, preferencialmente, a um programa pré-estabelecido em função de
diversos fatores. Um dos fatores, o “Potencial de Risco” de cada estrutura que, referido à potencialidade de
perdas humanas e/ou danos a propriedades na área da barragem à jusante, na eventualidade de galgamento,
ruptura ou falha de operação da barragem ou das instalações anexas.
Outras variáveis podem contribuir para a fixação das freqüências de inspeção, tais como, por exemplo,
o fato de uma barragem ter sido ou não inspecionada recentemente por especialistas ou ter sofrido reparos
recentes ou, ainda, ser recém-construída. Citam-se alguns fatores fortuitos e raros de ocorrer, quando áreas em
uso contínuo tornam-se visitáveis, por exemplo, no caso de depleção do reservatório.

4.2   Tipos  de  Inspeção  

O objetivo da inspeção é identificar anomalias ou preocupações que afetam potencialmente a


segurança da barragem. Assim é importante inspecionar a superfície completa da área de um maciço. A técnica
geral é caminhar sobre os taludes e o coroamento, tantas vezes quantas sejam necessárias, de forma a
observar a superfície da área claramente. As inspeções em barragens podem ser divididas em cinco tipos
principais, conforme descrito a seguir.

4.2.1   Inspeção  Rotineira  ou  Informal  

Conduzida por pessoal de operação da barragem, consiste em inspeção visual efetuada quando de
suas visitas rotineiras ao local, inclusive para a execução de tarefas diversas ligadas a área de operação. Não
necessita de planilha detalhada para sua execução. Não gera relatório específico, mas apenas comunicações de
anomalias ou eventuais problemas encontrados. É recomendável que tais operadores sejam submetidos,
periodicamente, a treinamento sobre problemas que podem ocorrer em estruturas civis.

4.2.2   Inspeção  Periódica  

Pode ser realizada por equipe do proprietário da barragem ou por terceiros. Deve ser realizada em
datas específicas, podendo para isto, inclusive, ser utilizado pessoal técnico encarregado das leituras da
instrumentação (se houver), sob a supervisão de um técnico especialista. Neste caso, tais técnicos devem estar
devidamente treinados para a tarefa. Inclui um estudo sucinto dos documentos de projeto, registros existentes e
históricos das intervenções, seguido de inspeção de campo que pode ou não incluir os equipamentos
eletromecânicos. Requer planilhas detalhadas para sua execução e entre seus resultados está a geração de um
relatório.

4.2.3   Inspeção  Formal  

38
Deve ser executada por equipe multidisciplinar de especialistas, preferencialmente das áreas de
hidráulica, geotecnia, geologia, estruturas, tecnologia de concreto, elétrica e mecânica. É recomendável que esta
equipe multidisciplinar não pertença aos quadros do proprietário da barragem, devendo seus integrantes ser por
ele assessorados. Há a necessidade de familiarização com o histórico das estruturas e com procedimentos
normalmente empregados nas obras usuais de reparo, bem como ter experiência em inspeção e análise de
barragens. Para atender a estes requisitos, é imprescindível que a equipe efetue um estudo detalhado dos
documentos de projeto, comparando-os com o atual “estado da arte”, dos registros existentes e dos históricos
das intervenções havidas. A inspeção de campo engloba todos os aspectos das estruturas, incluindo detalhes de
operação dos equipamentos mecânicos relacionados com a segurança da barragem. Necessita de planilhas
detalhadas para sua execução. Um dos produtos desta inspeção deve ser um relatório contendo uma análise
das condições de segurança das estruturas, bem como recomendações e conclusões.

4.2.4   Inspeção  Especial  

Consiste na observação de aspectos particulares da barragem e suas estruturas anexas, em ocasiões


tais como, rebaixamento do nível d’água do reservatório e paradas de equipamentos. Encaixam-se neste item as
inspeções subaquáticas e os levantamentos topo-batimétricos. Pode ser realizada por equipe do proprietário ou
terceiros.

4.2.5   Inspeção  de  Emergência  

Consiste na inspeção da barragem, parte dela, ou de estruturas anexas, devido à ocorrência de algum
evento ou anomalia, muitas vezes repentinos, que possam colocar em perigo a situação das estruturas e/ou área
a jusante. Entre esses eventos estão as cheias excepcionais e os sismos. Pode ser realizada pelos mesmos
elementos que realizam as inspeções periódicas podendo, entretanto, haver convocação para a participação de
especialistas que fazem parte das inspeções formais.

4.3   Tipos  de  Recomendações  Geradas  pelas  Inspeções  

Cada tipo de inspeção poderá, eventualmente, gerar:

• recomendações para análises, avaliações, investigações ou instrumentação específica ou ensaios


adicionais, caso as evidências coletadas tanto através do estudo da documentação existente, como
através das inspeções de campo, não sejam conclusivas;

39
• recomendações para execução de ações corretivas imediatas, caso as evidências coletadas indiquem
deficiências de instrumentação de operação, manutenção ou funcionamento, que possam afetar de
maneira adversa a segurança da barragem.

4.4   Freqüência  das  Inspeções  

A freqüência com que cada tipo de inspeção deve ser efetuado varia de acordo com as características
de cada barragem e com os fatores mencionados anteriormente. Além das condições intrínsecas de cada
estrutura, outra variável importante a ser considerada relaciona-se com os técnicos encarregados da tarefa. Na
medida em que estes forem se familiarizando com a barragem e, desde que todas as informações necessárias
estejam disponíveis, a freqüência das inspeções pode variar dependendo, evidentemente, da evolução do
“Potencial de Risco” daquele local em particular.

4.4.1   Inspeções  Rotineiras  ou  Informais  

As inspeções rotineiras ou informais devem ser realizadas com a mesma freqüência das leituras da
instrumentação. No caso de barragens cujas leituras são automatizadas ou que não possuam instrumentação de
auscultação, estas inspeções deverão ser realizadas no mínimo mensalmente, de acordo com o seu “Potencial
de Risco”.

4.4.2   Inspeções  Periódicas  

• semestrais: para as barragens cujo “Potencial de Risco” seja alto;

• anuais: para as barragens de “Potencial de Risco” significativo;

• bienais: para as barragens de “Potencial de Risco” baixo.

4.4.3     Inspeções  Formais  

• uma semana antes do enchimento: 1 inspeção;

• enchimento do reservatório: mensal (nesta fase devem ser previstas inspeções para as várias
paralisações ou estágios de enchimento);

• primeiro ano de operação: trimestral;

• segundo ano de operação:semestral;

40
• operação do reservatório: anual a partir do terceiro ano de operação, podendo paulatinamente ser
reduzida para um mínimo de uma inspeção a cada 5 anos (sua freqüência deve ser adaptada às
condições da barragem em questão, levando em consideração seu “Potencial de Risco”).

Estas classificações e, portanto, a freqüência deste tipo de inspeção, podem ser alteradas em função
de novos dados hidrológicos e geotécnicos, ou em função de avanços nos critérios de segurança de barragens.
Problemas graves detectados quando da realização de outros tipos de inspeção podem também gerar inspeções
formais.

4.4.4   Inspeções  Especiais  

Devem ser efetuadas sempre que surgirem oportunidades. Apenas a título de exemplo, citam-se a
seguir algumas situações que possibilitam ou tornam aconselhável a realização de inspeções especiais:

• inspeção de paramentos e taludes de montante em virtude de rebaixamento excepcional do nível do


reservatório, seja por necessidade de manutenção ou por estiagens prolongadas;

• inspeção das superfícies do concreto dos circuitos hidráulicos (adução e fuga), descarregadores de
fundo e do próprio canal de descarga em função da manutenção de equipamentos eletromecânicos;

• devem, também, ser programadas inspeções especiais, sempre que estiverem voltadas
especificamente para a observação de problemas surgidos tais como surgências inesperadas,
instabilidades, deslocamentos ou deformações inusitadas, etc.

• finalmente, encaixam-se no âmbito das inspeções especiais as subaquáticas. Recomenda-se que a


periodicidade destas últimas seja de uma a cada 5 anos. A mesma periodicidade, recomendável para
levantamentos topo-batimétricos, devendo a freqüência destes últimos ser, por exemplo, trienal nos
casos em que o histórico de ocorrências de uma determinada barragem mostre haver sinais de
assoreamento ou as margens do reservatório se apresentem com áreas desprotegidas ou à jusante,
no caso de erosão ou formação de barras que interfiram nas condições de fluxo.

4.5   Equipe  de  Inspeção  

A quantidade de pessoas envolvidas em cada tipo de inspeção, bem como sua qualificação profissional,
é muito variável. É importante que, a partir da implantação do esquema de inspeções, haja continuidade do
pessoal encarregado de efetuá-las, pois há a tendência que os mesmos fiquem mais familiarizados com a
barragem e suas estruturas anexas. A seguir indica-se, para cada tipo de inspeção, a equipe geralmente
necessária. É claro que o tamanho da equipe está diretamente ligado a importância da barragem.

41
4.5.1   Inspeção  Rotineira  ou  Informal  

• Técnicos do local;

• Engenheiros civis, mecânicos e elétricos do local.

4.5.2   Inspeção  Periódica  

• Técnicos convenientemente treinados;

• Engenheiros.

Dependendo das informações disponíveis e dos estudos prévios realizados, os seguintes profissionais
poderão vir a ser necessário:

• Engenheiro geotécnico;

• Engenheiro de estruturas;

• Engenheiro de tecnologia de concreto;

• Engenheiro hidráulico;

• Engenheiro elétrico;

• Engenheiro mecânico;

• Geólogo especialista em geologia de engenharia;

• Especialista em instrumentação de estruturas civis.

4.5.3   Inspeção  Formal,  Especial  e  de  Emergência  

As inspeções formal, especial e de emergência são em geral realizadas por um grupo contendo todas
as modalidades indicadas acima para a inspeção periódica; a escolha dos participantes vai depender dos
objetivos da tarefa, da urgência e das razões da inspeção e deverá ser estudado caso a caso.

4.6   Lista  de  Verificações  Durante  as  Inspeções  de  Barragens  

Apresenta-se a seguir uma lista de itens a serem verificados durante uma inspeção.

42
Tabela 4.1 Verificações durante inspeção de barragens de terra.

Tabela 4.2 Verificações durante inspeção de barragens de concreto.

43
44
Tabela 4.3 Verificações durante inspeção de estruturas de vertedouros.

45
Tabela 4.3 Verificações durante inspeção de estruturas de vertedouros. (cont.).

46
Tabela 4.3 Verificações durante inspeção de estruturas de vertedouros. (cont.).

47
Tabela 4.4 Verificações durante inspeção de barragens de enrocamento com face de concreto.

48
Tabela 4.4 Verificações durante inspeção de barragens de enrocamento com face de concreto. (cont.).

49
4.7   Anomalias  Apresentadas  em  Barragens  de  Terra  pela  Falta  de  
Manutenção  

Manutenção inclui medidas de rotina a serem tomadas para proteger e manter a barragem. As
anomalias mais comuns em barragens de terra associadas à falta de manutenção ou manutenção inadequada,
incluem:

• proteção inadequada dos taludes;

• erosão superficial;

• crescimento de vegetação;

• tocas de animais.

4.7.1   Proteção  Inadequada  dos  Taludes  

A proteção dos taludes existe para prevenir a erosão dos mesmos. Existem quatro tipos básicos:

“Rip-Rap”

Basicamente é utilizado na proteção dos taludes de montante e é formado por duas camadas de
materiais (ver Figura 4.1):

• camada(s) interna(s) - filtro ou transição, formado por areias e pedregulhos de granulometrias


controladas para prevenir a perda de solo do maciço através dos vazios do enrocamento;

• camada externa – formada por pedras de tamanhos suficientes para não serem carreadas pelas
ondas do reservatório.

Alvenaria de Pedra ou Laje de Concreto (ver Figura 4.2)

• Processo de formação de praias no pé do talude pela deposição do material subjacente à proteção


carreado por vazios ou trincas na laje de alvenaria ou concreto. Pode provocar a remoção/trincamento
ou afundamento da proteção. A continuidade do processo pode: abater o talude; levar ao aumento da
percolação e à instabilidade do talude;

• Degradação da proteção do talude pelo trincamento e quebra da proteção devido ao desgaste


provocado pela ação das ondas. A proteção deverá ser reparada ou reposta.

50
Figura 4.1 Proteção do talude de montante:”rip rap”.

Figura 4.2 Proteção do talude de montante:laje de concreto.

Proteção Vegetal

Falhas na proteção vegetal do talude pode levar a erosões estreitas e profundas que deverão ser
prontamente reparadas. Não é recomendável para ser adotada em regiões áridas (ver Figura 4.3).

Figura 4.3 Proteção do talude de jusante: plantação de grama

51
Proteção com Material Granular

As falhas podem ocorrer por falta de compactação do material do talude, e/ou deficiência da drenagem
superficial.

Ações de Inspeção

• Verificar se a proteção é adequada o bastante para prevenir erosão;

• Procurar a formação de praias, e taludes íngremes e degradação da proteção.

Se a proteção for considerada inadequada, fazer as seguintes ações:

• registrar e fotografar a área;

• determinar a quantidade de material removido;

• reparar a proteção inadequada.

Erosão Superficial

É um dos problemas de manutenção mais comuns de estruturas de aterros. Se não forem corrigidos a
tempo podem tornar-se problemas muitos sérios. As erosões profundas podem acarretar (ver Figura 4.4):

• trincas e brechas no coroamento;

• encurtamento do caminho de percolação devido à redução da seção transversal da barragem.

Figura 4.4 Erosão superficial em barragens de terra.

4.7.3   Árvores  e  Arbustos  

52
O crescimento de árvores e arbustos, tanto nos taludes de montante e jusante, quanto na área
imediatamente a jusante da barragem, deve ser prevenido pelas seguintes razões (ver Figura 4.5):

• permitir o levantamento e inspeção das estruturas e áreas adjacentes, visando observar a percolação,
trincas, afundamentos, deflexões, mal funcionamento do sistema de drenagem e outros sinais de
perigo;

• permitir acesso adequado às atividades de operação normal, de emergência e manutenção;

• prevenir danos às estruturas devido ao crescimento das raízes, tais como encurtamento do caminho
de percolação; vazios no maciço pela decomposição de raízes ou arrancamento de árvores; expansão
de juntas nos muros de concreto, canais ou tubulações, entupimento de tubos perfurados de
drenagem;

• desencorajar as atividades (pela eliminação da fonte de alimentação e habitat) de animais visando


prevenir tocas dentro do maciço e possíveis caminhos de percolação;

• permitir o fluxo livre de água nos sangradouros, tomadas de água, drenos, entrada e saída de canais.

Figura 4.5 Crescimento inadequado de árvores.

4.7.4   Tocas  de  Animais  

Podem até levar à ruptura da barragem por erosão interna (“piping”) quando passagens ou ninhos de
animais ver Figura 4.6):

• fazem a conexão do reservatório com o talude de jusante, ou o encurtamento dos caminhos de


percolação;

• penetram no núcleo central das barragens zoneadas.

53
Buracos rasos ou confinados num lado do aterro, ou tocas na parte inferior do talude, onde a seção
transversal é extensa, são menos perigosos do que buracos em seções mais estreitas.

Figura 4.6 Tocas de animais em barragens de terra.

Ações de Inspeção

• Procurar por evidências de percolação provenientes de tocas no talude de jusante ou na fundação;

• Locar e registrar a profundidade estimada das tocas para comparar com as futuras inspeções, para
verificar se o problema está evoluindo;

• Se representar perigo para a barragem, remover e erradicar as tocas.

4.8   Referências  Bibliográficas  

ABMS. Guia Básico de Segurança de Barragens. Núcleo Regional de São Paulo: Comissão Regional de
Segurança de Barragens: São Paulo, Beo Horizonte: Seminário Nacional de Grandes Barragens, 1999, 77 p.
BOURDEAUX, G. H. M. Barragens de Terra e de Enrocamento: Projeto e Construção. Recife: Clube de
Engenharia de Pernambuco, 1979, 312 p.
BUREAU OF RECLAMATION. Design of Small Dams. Washington, 1974, Third Edition, 860 p.
CARVALHO, L. H. Curso de Barragens de Terra. Fortaleza: DNOCS, 1983, Vol. 1, 173 p.
CBGB. Auscultação e Instrumentação de Barragens de Terra. II Simpósio sobre Instrumentação de Barragens,
Vol. 1, Belo Horizonte: Comitê Brasileiro de Grandes Barragens, 1996, 121 p.
COGERH. Instruções para Inspeção do Maciço. Fortaleza: Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos,
Secretaria dos Recursos Hídricos do Governo do Estado do Ceará, Site www.cogerh.com.br/versao3/segur
barragens.asp, 9 p.

54
COGERH. “Diversos textos”, Site www.cogerh.com.br/versao3/segur barragens.asp.
CRUZ, P. T. 100 Barragens Brasileiras: Casos Históricos, Materiais de Construção e Projeto. São Paulo: Oficina
de Textos Editora, 1996, 647 p.
DNOCS. Instruções a serem Observadas na Construção das Barragens de Terra. Fortaleza: DNOCS, 1981, 2ª
Edição, 225 p.
ESTEVES, V. P. Barragens de Terra. Campina Grande: Escola Politécnica da Universidade Federal da Paraíba,
1964, 300 p.
GAIOTO, N. Barragens de Terra e Enrocamento. São Carlos: Universidade de São Paulo, 1979, 50 p.
MASSAD, F. Obras de Terra: Curso Básico de Geotecnia. São Paulo: Oficina de Textos, 2003, 170 p.
SOUSA PINTO, C. Curso Básico de Mecânica dos Solos em 16 Aulas/2ª Edição. São Paulo: Oficina de Textos,
2002, 355 p.

55
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
56
5  
Vertedouros  e  sua  
Operação  
Normando  Perazzo  Barbosa  

5.1   Introdução  

Estruturas hidráulicas são aquelas destinadas ao armazenamento, controle e transporte de água.


Inúmeras são as estruturas hidráulicas, podendo-se citar as barragens, cuja função principal é o
armazenamento, estruturas secundárias às barragens como tomadas d’água, casas de válvulas, vertedores e
bacias de dissipação, destinadas ao controle da água no sistema e finalmente galerias, canais, adutoras que têm
a finalidade de transportar a água armazenada na barragem para utilização por parte do Homem.
O controle da água pelo Homem remonta a muitos séculos antes de Cristo, porém as estruturas
hidráulicas tiveram enorme desenvolvimento na época do Império Romano. Roma, que chegou a ter mais de um
milhão de habitantes, dispunha de uma rede de mais de quinhentos quilômetros de aquedutos vindos das
montanhas, enormes piscinas e banhos públicos e notável rede de distribuição de água. Por todo o Império
obras notáveis foram feitas, como atesta o aqueduto de Garda, no sul da França, indicado na Figura 5.1.

Figura 5.1– Aqueduto de Garda.

57
Para se poder dispor da água é necessário armazená-la. Para tanto é que são construídas as
barragens dos mais diversos tipos. O volume de água acumulado nas barragens varia conforme o período do
ano, sendo função da pluviometria na bacia onde ela se encontra e também do consumo da água que dela se
retira. Quando se tem períodos intensos muito chuvosos, pode ocorrer de o reservatório da barragem já não ser
capaz de conter o volume de água que nele chega. Para evitar que a água passe por cima da estrutura é que
são criados os sangradouros ou vertedores.

5.2   Vertedores  

Vertedor é qualquer obstrução em um leito onde se processa o escoamento de água que flui por cima
dele ou por orifícios feitos para este fim. No contexto do que aqui se expõe, sangradouros e vertedores são
estruturas hidráulicas destinadas a fazer com que por elas escoe a água que em excesso chega à barragem já
completamente cheia. O escoamento nos vertedores é regido pelas forças gravitacionais.
Há uma enorme variedade de vertedores. Barragens e açudes de terra geralmente têm um canal ao
seu lado, o maciço sendo protegido por muros de concreto ou mesmo de alvenaria em obras menores.
Barragens de concreto massa ou concreto compactado com rolo (CCR) podem ter vertedor diretamente
sobre um trecho do maciço que é chamado trecho submersível (Figura 5.2). É comum nessas últimas barragens
o uso de degraus nos vertedores (steped spillways) para reduzir a energia da água, fazendo-a cair com
velocidade praticamente constante.

Figura 5.2 – Barragem de CCR com vertedor no seu corpo (Barragem de Jucazinho, PE, projeto Eng. Luiz
Hernani Carvalho)

Quando a água passa por cima de um obstáculo, como na Figura 5.3, vê-se que a lâmina d´água
descola do paramento do anteparo. Isto pode gerar sub-pressões significativas. Assim, para evitar a formação de

58
pressões menores que a atmosférica no vertedor, procura-se fazer coincidir a seção do sangradouro com a face
inferior da lâmina vertente [2], como se vê agora na Figura 5.4.

Figura 5.4 – Água passando sob um anteparo [1]

Assim, a água passa a deslizar sobre a estrutura. O trecho do vertedor com essa configuração é
conhecido como Creager e matematicamente o perfil curvo depende da altura H sobre o ponto mais alto do
vertedor e da inclinação do paramento de montante. A vazão Q que sobre ele ocorre pode ser achada pela
equação (5.1).

Q= CLH2/3 (5.1)

sendo L a largura do vertedor, e C um coeficiente de descarga, que varia de 1,66 a 2,26, podendo ser
determinada em ensaios de modelos reduzidos [1]. Os livros de hidráulica apresentam tabela relacionando as
coordenadas (x, y) de pontos da curva.

Figura 5.4 – Perfil do vertedor coincidindo com a lâmina inferior do escoamento

Assim, no topo dos vertedores, mesmo naqueles em degraus, costuma-se fazer um trecho em Creager,
como indicado na Figura 5.5, que corresponde a um caso real.

59
Figura 5.5– Pefil Creager de um vertedor de baragem CCR

Um outro tipo de vertedor é o que se chama em salto esqui (Figura 5.6). No final do vertedor, faz-se um
trecho curvo e a água dá um verdadeiro salto deixando de cair no pé da estrutura.

Figura 5.6 – Vertedor em salto esqui.

5.3   Deterioração  dos  Vertedoros  

Nos vertedores, a água atinge velocidades elevadas. Assim a grande maioria deles é feita em concreto.
No entanto, mesmo o concreto sofre deterioração por desgaste superficial. Esse desgaste leva a uma perda
progressiva de massa do vertedor, estragando a superfície por onde flui a água. Pode-se dizer que os
fenômenos causadores dessa degradação são a erosão e a cavitação.

60
5.3.1   Erosão    

O termo erosão é usado normalmente para descrever o desgaste pela a ação abrasiva de fluidos
contendo partículas sólidas em suspensão [3], como é o caso dos vertedores e pode ser visto na Figura 5.7.
As ações de colisão, escorregamento ou rolagem das partículas sólidas, erodem o concreto carreando
suas partículas e muitas vezes provocando o aparecimento das armaduras (Figura 5.7), contribuindo para sua
deterioração ao longo do tempo. A pasta de cimento não possui alta resistência ao atrito. Assim a vida útil do
concreto pode ser seriamente diminuída sob condições de ciclos repetidos de atrito, principalmente quando o
concreto possui baixa resistência e alta porosidade. A taxa de desgaste do concreto depende, além das suas
resistência e porosidade, da quantidade, tamanho, forma, massa específica, dureza e velocidade das partículas
em movimento [3]. Em geral, diz-se que a água transportando sólidos de pequenas dimensões (da ordem das
partículas de silte), em velocidades de até 1,8 m/s nas vizinhanças do concreto, provoca uma erosão
desprezível. No entanto, à medida que a velocidade aumenta, os efeitos da erosão crescem significativamente.

Figura 5.7 – Partículas sólidas transportadas pela água em vertedor de barragem, armadura exposta devida a
erosão do concreto [4]

Quando existem condições severas de erosão, recomenda-se o uso de agregados graúdos com alta
dureza no concreto. Arenitos e outras pedras fraturadas, de baixa resistência à abrasão, não devem ser
utilizadas. A resistência à compressão deve ser da ordem de 40 MPa aos 28 dias, e uma cura úmida contínua
deve ser efetuada por pelo menos 7 dias [3]. O agregado graúdo, preferencialmente, deve ter dimensão máxima
característica de 19 mm. O uso de adições minerais, como metacaulinita, sílica ativa e outras pozolanas que
pemitam o refinamento dos poros e redução da permeabilidade do concreto é benéfico para assegurar
resistência ao desgaste. O uso de armação é necessário porque o vertedor fica exposto a exposição direta ao
sol. As variações de temperatura a que fica sujeito provocam dilatações e contrações no concreto. As armaduras
então ajudam a controlar a fissuração e sua propagação ao longo do vertedor.
Assim, pode-se dizer que para se ter um vertedor durável, nele deve ser empregado concreto de
qualidade, com controle tecnológico na sua fabricação, cuidados especiais no lançamento, adensamento e cura.

61
5.3.2   Cavitação  

Cavitação é a formação da fase vapor em uma fase líquida [5]. Na água em movimento bolhas de vapor
formam-se no interior da massa quando a pressão absoluta local, em um dado ponto na água, é reduzida à sua
pressão de vapor. Quando as bolhas de vapor que fluem na água entram em uma região de pressão mais
elevada, elas implodem com grande impacto provocado pela entrada de água a alta velocidade nos espaços
antes ocupado pelo vapor, causando severas erosões localizadas [3]. A cavitação causa danos enormes não só
nas estruturas, como nas bombas e mesmo turbinas hidráulicas (Figura 5.8).

Figura 5.8 – Vertedor e turbina danificados pela cavitação [3]

Por conta do caráter explosivo da cavitação, a superfície de concreto afetada por esse fenômeno é
irregular (Figura 5.9), em contraste com as superfícies desgastadas de forma regular pela erosão.

Figura 5.9 - Dano provocado pela cavitação em túnel de concreto de 12,5 m de diâmetro da Barragem
de Glen Canyon, Estados Unidos [3]

Para compreender as variações de pressão que ocorrem na massa líquida em movimento, convém
lembrar que a energia contida por unidade de peso da água em um canal aberto pode ser medida nas três
formas básicas: energia cinética, energia de pressão e energia potencial ou de posição em relação a um plano
de referência. Se v é a velocidade da água, a energia cinética é expressa por v2/(2.g), sendo g a aceleração da
gravidade. A velocidade da água varia para diferentes pontos de uma determinada seção normal ao
escoamento. Nas proximidades do fundo as velocidades são menores devido ao atrito e os valores máximos
ocorrem próximo à superfície na parte central do canal. Assim a energia cinética varia em cada parte da seção

62
transversal. Por isso usa-se exprimir um valor médio para a energia cinética como α. v2/(2.g), sendo α chamado
coeficiente de energia. O valor de α depende de como as velocidades se distribuem em uma determinada seção
do canal, sendo sempre maior que a unidade. Normalmente está compreendido entre 1,05, para velocidades
bem uniformemente distribuídas e 1,30 para velocidades muito irregulares ao longo da seção. Por simplificação,
é comum no caso de escoamentos em canais abertos, tomar-se α=1 e considerar-se v a velocidade média na
seção considerada.
A superfície livre do líquido no canal aberto acha-se exposto à atmosférica, e a pressão na superfície é
constante e geralmente considerada como pressão de referência zero. A energia de pressão é considerada
como contada a partir da superfície livre. Se o percurso da água se dá em um declive retilíneo, a pressão em
qualquer ponto submerso situado à profundidade d é simplesmente p=γd. No entanto, se a água flui sobre uma
superfície curva de eixo normal à superfície vertical como ocorre num vertedor de barragem, surge uma forca
centrifuga que pode aumentar ou diminuir a pressão no ponto considerado da seção, em relação à pressão
resultante medida diretamente considerando apenas a profundidade do ponto.
Numa superfície convexa (Figura 5.10), a força centrípeda age no sentido contrário ao da força de
gravidade e a energia de pressão é menor que a profundidade do líquido de uma grandeza igual a mv2/r, onde
m é a massa da coluna de liquido imediatamente acima de uma área unitária e v2r é a aceleração centrípeta da
massa da coluna de liquido escoando ao longo de uma trajetória com raio de curvatura igual a r. A pressão no
ponto é pois:

p = γd – (γ.d/g).v2/r (5.2)

Se o escoamento ocorrer em superfície côncava, a força centrifuga tem o mesmo sentido da força de
gravidade, havendo acréscimo de pressão:

p = γd + (γ.d/g).v2/r (5.3)

Note-se que (γ.d/g) corresponde à massa de água sobre o ponto considerado.

a) b)
Figura 5.10 - Escoamento em superfícies: a) convexa e b) côncava.

Vê-se, portanto, que um ponto qualquer afastado de y do fundo do canal sofre ao longo do escoamento
sensíveis variações de pressão quando a superfície de escoamento não é reta. Essas variações de pressão é

63
que causam os problemas de cavitação. Veja-se a partir da Equação 5.2 que em curvas convexas de raio
pequeno ou com escoamento de grande velocidade pode acontecer de o segundo termo da equação ser maior
que o primeiro, ocasionando pressões negativas, ou sub pressões.

5.3.3   Medidas  Preventivas  

Um concreto resistente, eficaz para a erosão, pode não ser necessariamente eficaz na prevenção de
danos devidos à cavitação [3]. Párea prevenir esse fenômeno, a melhor solução consiste na remoção das
causas da cavitação, tais como desalinhamentos na superfície, mudanças bruscas de declividade ou de direção
do fluxo de água. Assim deve-se procurar para os vertedores configurações mais suaves possíveis, como
indicado na Figura 5.11. Veja-se que é conveniente a ancoragem da laje superior do vertedor na massa de
concreto inferior do vertedor.

Figura 5.11 – Ancoragem da laje superior do vertedor, feito em curvas suaves.

Quando a velocidade da água é grande, a ocorrência de subpressões nas estruturas hidráulicas pode
ser minimizada pela introdução de aeradores. Eles fazem com que no interior do fluxo de água penetre ar,
minimizando a subpressão. Assim, contribuem para prevenir os efeitos da cavitação. Esses aeradores podem
constar de pequenos ressaltos, como se vê nas Figuras 5.12 e 5.13, com “chaminés” laterais que permitam
movimento do ar. A quantidade exata e a posição dos aeradores não são de simples determinação, devendo
preferencialmente ser obtidas por investigação em modelos reduzidos e análise computacional.

64
Figura 5.12– Sangradouro com saltos de aeração [4]

Figura 5.13 – Detalhe da aeração do vertedor e ele em funcionamento [4]

Na Figura 5.13 vê-se que o fluxo de água no vertedor ocorre com intensa quantidade de ar misturada à
água, assim, as subpressões desaparecem.

5.3.4   Bacias  de  Dissipação  de  Energia  

65
Quando a velocidade do fluxo de água em uma saída de vertedor é muito alta, a energia cinética
elevada da água pode exercer ações destruidoras no canal ou rio a jusante da barragem por onde ela deve ser
encaminhada, provocando intensa erosão em suas margens. Para reduzir a velocidade da água antes de
penetrar no rio, usa-se então uma estrutura intermediária chamada bacia de dissipação ou bacia de
amortecimento.
Para entender a função das bacias de dissipação convém lembrar o conceito de escoamento subcrítico
e supercrítico.
Um escoamento é dito supercrítico, ou rápido, quando uma pequena onda superficial provocada por
alguma perturbação no fluxo é e arrastada para jusante porque a velocidade de escoamento da água é maior
que a velocidade da onda (Figura 5.14 a)
Já um escoamento subcrítico tem a velocidade de fluxo da água menor que a velocidade da onda.
(Figura 5.14 b). Este é conhecido como um escoamento tranqüilo.

a) b)
Figura 14 - a) velocidade supercrítica; b) velocidade subcrítica

Se T é a largura da seção de um canal de escoamento e A é a área da seção transversal do canal,


define-se profundidade hidráulica por:

D = A/T (5.4)

No caso de seções retangulares, D coincide com a profundidade do canal.


Pode ser mostrado que a velocidade de propagação de uma pequena onda na superfície livre de um
líquido é:

vonda = (g.D)1/2 (5.5)

com g sendo a aceleração da gravidade (9,91 m/s2 ao nível do mar).


A relação entre a velocidade da água v e a da onda é, pois, uma grandeza adimensional, conhecida
como número de Froude:

NF = v/vonda

ou seja:

66
NF = v/(g.D)1/2 (5.6)

Assim, o número de Froude define o tipo de escoamento:

NF = 1 - escoamento critico: velocidades de propagação da água e da onda superficial são iguais;

NF > 1 - escoamento supercrítico: a velocidade da água é maior que a da onda, escoamento rápido;

NF < 1 - escoamento subcrítico: a velocidade da água é menor que a da onda, escoamento tranqüilo.

A bacia de dissipação é usada para fazer com que o escoamento da água passe no seu interior do
estado supercrítico ao subcrítico, o qual tem menor poder de provocar danos.
De um modo geral, há certa tolerância, e nenhuma bacia dissipadora é necessária quando o número de
Froude para a água vertida for menor que 1,7 [1]. À medida que o número de Froude aumenta, dissipadores de
energia tais como blocos amortedores e soleiras podem se colocadas no piso da bacia, de modo a possibilitar a
dissipação de energia ao longo de sua extensão relativamente reduzida. Na Figura 5.15 tem-se alguns tipos de
bacia de dissipação indicadas pelo Bureau of Reclamation dos Estados Unidos. As dimensões indicadas podem
ser obtidas a partir do numero de Froude e do nível de água a jusante da bacia, em gráficos organizados para
tal. Na Figura 5.16 tem-se um caso real.

Figura 5.15 – Bacias de dissipação do Bureau of Reclamation

67
Figura 5.16 – Vertedor e bacia de dissipação com blocos da barragem Jenipapo, Pi. Após este vertedor e
quebrada a energia da água, segue-se um outro vertedor semelhante (Projeto Eng. Luiz Hernani
Carvalho, projeto estrutural do autor).

Em alguns casos, a bacia de dissipação é composta simplesmente por uma estrutura que acumula
água, como uma piscina (Figura 5.17). O volume de água nela acumulado é capaz de quebrar sua velocidade
antes de ela penetrar no rio.
No caso do vertedor em salto esqui, um enorme reservatório pode se feito, de forma que o fluxo d’água
cai nele, reduzindo drasticamente sua energia cinética. É o caso do vertedor indicado na Figura 5.18.

Figura 5.17 -Bacia de dissipação de barragem em que a água não atinge velocidade muito elevadas
(Projeto Eng. Luiz Hernani Carvalho, projeto estrutural do autor).

68
Seção transversal do vertedor vista superior do vertedor e da bacia de dissipação
Figura 18 -Vertedor e bacia de dissipação de barragem em que a água atinge velocidade alta saindo do
salto esqui (Projeto Eng. Luiz Hernani Carvalho)

5.3.5   Manutenção  das  Bacias  de  Dissipação  

As bacias de dissipação estão sujeitas a intensos movimentos de água, em geral com partículas sólidas
em suspensão. Nos períodos em que não ocorre a sangria das barragens, pode ocorrer de essas estruturas, de
grandes dimensões ficarem submetidas a intensa radiação solar. O concreto fica submetido a variações térmicas
que provocam pequenas fissuras e seu desgaste. É Pois conveniente que após cada inverno no qual o vertedor
lançou muita água na bacia de dissipação seja feita uma vistoria para avaliação do seu estado. A primeira coisa
a fazer é a limpeza, com retirada de todo o material sólido que se depositou na bacia. Este trabalho deve ser
feito com cuidado, para se evitar o estrago nas estruturas, causados pelos próprios equipamentos que as
limpam. A retirada de fungos e líquens sedimentados também deve ser feita.
Danos ligeiros e localizados devem ser reparados. Para tanto, não unicamente com argamassas de
cimento e areia, mas, quando necessário, devem ser utilizados produtos adequados para recuperação de
estruturas de concreto armado.

5.4   Referências  Bibliográficas  

ASCE HYDRAULIC MODELIN. Concepts and Practice.


ELETROBRÁS. Large Brazilian Spillways. Brasilia, DF.
HWANG, N. H.C. 1984. Fundamentos de Sistemas de Engenharia Hidráulica. Rio de Janeiro: Prentice Hall do
Brasil.
METHA, K; MONTEIRO, P.J.M. 1994. Concreto, Estrutura, Propriedades e Materiais. São Paulo: Editora Pini.
NEVES, E.T. Manual do Engenheiro - Hidráulica, v. l4, Tomo 1. Porto Alegre, RS: Editora Globo.

69
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
70
6  
Operação  e  Manutenção  
de  Outros  Dispositivos  
Hidráulicos  
Luiz  Simão  de  Andrade  Filho  

6.1   Medições  de  Pressão,  Velocidade  e  Vazão  em  Condutos  Forçados  

Esta seção será iniciada com uma breve revisão de Hidráulica e em seguida serão apresentados
alguns métodos e dispositivos de medição de pressão, velocidade e vazão volumétrica em condutos forçados.

6.1.1   Fundamentos  de  Hidráulica  

Hidrostática  

A Hidrostática ou estática dos fluidos trata do fluido em repouso. Como neste caso não existe
cizalhamento, a única tensão existente é a tensão normal, σ, que denota a força normal por unidade de área.
Num fluido estático σ = p, a pressão hidrostática, de modo que:

(6.1)

A investigação da variação da pressão num meio fluido estático em função da posição, mostra que esta
só é função da coordenada vertical, ou seja, a pressão é função apenas da altura. Assim a diferença de pressão
entre dois pontos quaisquer é dada por:

(6.2)

71
onde po e p são, respectivamente, as pressões nos pontos mais alto e mais baixo, ρ é a massa específica (1000
kg/m3 para a água), g a aceleração da gravidade e h a altura que separa os dois pontos.

Equação da Continuidade

Para o escoamento permanente, ou seja, quando suas condições não variam com o tempo, a
conservação da massa permite concluir que o fluxo de massa que passa em qualquer seção é o mesmo. Isto
pode ser escrito como:

(6.3)

onde V a velocidade média, A a área da seção transversal e m é o fluxo de massa ou vazão mássica.
Para fluidos incompressíveis, ρ1 = ρ2 = ρ, e a expressão 6.1 torna-se:

(6.4)

onde Q é a vazão volumétrica que por sua vez pode ser expressa por:

(6.5)

dada em l/s, ou, no Sistema Internacional (SI), em m3/s.

Equação de Bernoulli

Nos escoamentos em regime permanente de fluido incompressível e não viscoso, a sua energia se
conserva:

(6.6)

onde o três termos do primeiro membro representam, respectivamente, as energias referentes à


pressão, energia cinética e energia potencial, todas por unidade de peso de fluido (Nm/N ou simplesmente m no
SI). A constante C é chamada de Constante de Bernoulli.

Equação da Energia ou Bernoulli Generalizado

No escoamento de fluidos viscosos, parte da energia disponível é continuamente perdida por atrito
(Hp)de forma que a energia não mais se conserva. Se, além disso, levarmos em conta a possível presença de
máquinas como bombas, que fornecem energia ao fluido (Hb), ou, contrariamente, extraiam energia ao fluido,
(H,) como as turbinas hidráulicas, podemos generalizar a equação de Bernoulli, na forma:

(6.7)

72
Perda de Carga

A perda de carga total Hp compõe-se de duas parcelas. A primeira, Hl, representa a perda nos
segmentos de tubos. Já a perda adicional que ocorre nos acessórios, tais como válvulas, curvas, joelhos, etc.,
constitui uma segunda parcela chamada de perda singular ou localizada Hs. Assim:

(6.8)

A perda linear é calculada pela fórmula Universal ou de Darcy:

(6.9)

Já a perda singular é dada por:

(6.10)

nas expressões anteriores D é o diâmetro da tubulação, f é um fator empírico que depende das
condições do escoamento (número de Reynolds) e do material do tubo. Σk é a soma dos valores de k, que é
outro fator empírico, disponível na literatura para os várias acessórios presentes na tubulação.
A título de simplificação, podemos escrever a perda de carga total como sendo:

(6.11)

Onde

Curva do Sistema

Considere um grande reservatório d’água tal como um açude, que dispõe de uma tubulação de
descarga que lança água para jusante, diretamente na atmosfera.
A aplicação da equação da energia (6.7) entre um pontos 1 na superfície livre do reservatório e um
ponto 2 localizado no jato de descarga resulta em:

Explicitando V:

73
Ou em função da vazão:

(6.12)

onde Hp pode ser calculado pelas relações 6.9, 6,10 ou , se possível pela relação 6.11. H é a diferença
de nível entre a superfície livre do reservatório e o jato livre.
A relação 6.12, se bem estabelecida, pode ser útil para modelar, ainda que grosseiramente, a vazão
em função de H.

6.1.2   Medidores  de  Pressão  

Pressão manométrica pode ser medida diretamente determinando-se força e área (medidores de peso
morto), medindo-se a deformação de um elemento elástico resultante de um esforço de pressão (medidores de
deformação de sólido) ou medindo-se a altura de uma coluna de fluido de densidade conhecida (medidores de
líquido).
Os manômetros de peso morto têm utilização praticamente restrita à aferição de outros medidores.
Constitui-se basicamente de um sistema pistão-cilindro vertical cuja base é conectada à fonte de pressão, de
modo que esta pode ser equilibrada adicionando vários pesos ao êmbolo. A pressão resultante é calculada pela
relação (6.1).

p1 - p2 = ρgL p1 - p2 = ρgL [ 1 + (d/D)2] p2 - p1 = ρgL [senα + (d/D)2] p = ρg h


(a) Tubo U (b) Cisterna (c) Inclinado (d) Barômetro
Figura 6.1 - Manômetro de Líquido

Os manômetros de colunas de líquido, baseiam-se na relação (6.2). A pressão a ser medida é


equilibrada por uma ou mais colunas de fluido. A altura da coluna pode ser uma leitura direta da pressão de
coluna de fluido (mH2O, mmHg, etc.) ou utilizada para o cálculo desta em dimensões naturais (N/m 2, lb/in2, etc.)
através da Expressão (6.2). A Figura 6.1, mostra os principais medidores que usam este princípio, juntamente
com suas equações.
Os manômetros de deformação de sólido respondem à deformação de um transdutor elástico sujeito à
pressão que se deseja medir. Podem ser de diafragma, de pistão, de fole e de tubo Bourdon, o mais comum
deles. O manômetro de Bourdon, mostrado na Figura 6.2 é sem dúvida o mais popular do manômetros.

74
Constitui-se de um tubo metálico de seção transversal semi-elíptica e forma quase circular (transdutor tipo C).
Sua extremidade aberta é fixada a um suporte e a extremidade livre é fechada e presa a um mecanismo de
relógio. Quando a pressão aumenta o tubo tende a distender-se, este movimento desloca o ponteiro no sentido
horário. Se a pressão diminui, o tubo se contrai movimentando o ponteiro em sentido anti-horário. Caso este
esteja desconcertado, a pressão interna do tubo é igual à externa e o ponteiro acusa zero.

Figura 6.2 – Manômetro de Bourdon

6.1.3   Medição  de  Velocidade  Local  –  Tubo  de  Pitot  

Dentre os medidores de velocidade local em dutos fechados, o mais preciso é o anemômetro de fio ou
de filme quente. Nestes o elemento sensível é um fio ou filme metálico que é aquecido eletricamente por um
circuito eletrônico que permite a medição da potência elétrica fornecida. Esta, por sua vez, está relacionada com
a velocidade do fluido através das leis de convecção de calor. Caracteriza-se por possuir baixíssimo tempo de
resposta sendo ideal para investigação turbulenta. Infelizmente são extremamente frágeis.
O tubo de Pitot é o mais versátil medidor de velocidade local. Vale-se do conceito de pressão de
estagnação para medir velocidade. A pressão de estagnação ocorre quando a energia cinética (velocidade) se
anula. O tubo de Pitot provoca a estagnação pois a partir de sua entrada, todo o fluido contido em seu interior
encontra-se em repouso, ou seja estagnado, figura 6.3 (a).

(a) Tubo de altura de carga total usado como tomada de (b) Tubo Pitot-estático
pressão estática de parede
Figura 6.3 – Tubo de Pitot e tubo de Pitot estático

Escrevendo-se a equação de Bernoulli (6.6), entre os pontos 1 e 2, Figura 6.3(a), obtemos:

75
(6.13)

Como o ponto 2 é de estagnação, v2 = 0, então, explicitando v1:

(6.14)

Assim, determinando-se a diferença entre pressão estática (p1) e total ou de estagnação (p2), obtém-se
a velocidade.
Existem vários tipos de tubos de Pitot. Um tipo muito comum é o estático, Figura.6.3 (b), que difere do
convencional Figura .6.3 (a), por possuir a tomada de pressão estática no próprio Pitot.

6.1.4   Medição  de  Vazão  Volumétrica  

Dentre os vários métodos utilizados para medir vazão temos os diretos (volumétricos, gravimétricos),
por integração, geralmente do campo de velocidades, e os indiretos. Nos indiretos identifica-se uma grandeza
dependente da vazão, e daí, através de uma relação funcional que pode ser obtida experimentalmente, obtém-
se a vazão. Dentre os indiretos os mais comuns são os deprimogênios, que consistem em provocar uma
contração no escoamento e a conseqüente queda de pressão.

Métodos Volumétricos e Gravimétricos

O método volumétrico consiste em se determinar a vazão medindo-se o tempo necessário para encher
um reservatório de volume conhecido. Esse reservatório pode ser um pequeno tanque ou balde, para pequenas
vazões. Para grandes vazões, obviamente surgem dificuldades em se dispor de um reservatório de dimensões
compatíveis.
O método gravimétrico é similar sendo que o volume, ao invés de ser determinado geometricamente, é
calculado pesando se o fluido e dividindo-se sua massa pela densidade.

Medição de Vazão Através da Integração do Perfil de Velocidades

A vazão volumétrica pode ser determinada através do perfil de velocidades:

(6.15)

onde : V é a velocidade média , v a velocidade local e A a seção transversal do tubo.


Os perfis da velocidade v, Figura 6.4, possuem formas distintas para o escoamento laminar e
turbulento. O perfil laminar é deduzido analiticamente, mas infelizmente é raro em escoamentos de água em
condutos forçados. O turbulento não possui forma analítica mas pode ser obtido experimentalmente através de
um medidor de velocidade local como o tubo de Pitot. A vazão pode então ser obtida realizando-se
numericamente a integração da relação (Equação 6.15).

76
Figura 6.4 - Região de entrada e formação o perfil de velocidades

Como o tubo é circular, Figura 6.5 (a), a relação 6.15 pode ser escrita como:

(6.16)

Se dividirmos a seção transversal em n anéis, o raio e a velocidade representativos de cada anel

seriam respectivamente , fig. 6.5 (b), de modo que a relação 6.16 pode ser

discretizada, transformando-se em:

(6.17)

(a) Seção transversal do tubo (b) Divisão da seção transversal do tubo em vários
anéis de raio externo ri
Figura 6.5 – Seção tranversal do tubo e sua divisão em anéis para integração numérica

Medição de Vazão Através de Deprimogênios

Orifícios, bocais e venturis são os mais comuns medidores de fluxo em condutos fechados (Figura. 6.6).
A medida da diferença de pressão resultante de uma conversão de energia de pressão em energia cinética,
provocada por uma redução de seção transversal do fluxo, propicia o cálculo da vazão através do teorema de
Bernoulli.
Aplicando a equação de Bernoulli (6.6) entre as seções a montante e imediatamente a jusante da
contração de um medidor a estrangulamento montado horizontalmente, podemos escrever (Figura 6.6):

77
(6.18)

Considerando o regime permanente, fluido incompressível, a equação da continuidade (6.4) pode ser
escrita como:

V1 = mV2 (6.19)

onde m = A2/A1 é relação entre as áreas da contração e do tubo. Combinando as equações (6.18) e
(6.19) obtemos:

e então:

(6.20)

onde , chamado fator de velocidade de aproximação.


Na dedução da equação (6.20) considerou-se as seguintes hipóteses: (a) Fluido incompressível; (b)
sem atrito (c) Perfil de velocidades e pressão uniforme; (d) seção transversal do fluxo a jusante da contração
(vena contracta) igual a seção da contração.

(a) – Venturi (b) – Bocal (c) – Placa de orifício


Figura 6.6 . Medidores de vazão a estrangulamento ou deprimogênios

Para corrigir tais limitações, a equação (6.20) passa a ser escrita como:

(6.21)

onde Y, fator expansão refere-se à hipótese (a), tendo valor unitário para fluido incompressível, e Cd, o
coeficiente de descarga refere-se às demais hipóteses, (b), (c) e (d).
Cd é determinado experimentalmente e varia para cada tipo de medidor com o número de Reynolds (Re
= VD/ν) e com a relação entre as áreas m. Valores padrões são encontrados na literatura. Para todos os

78
medidores a estrangulamento existe uma certa faixa de o número de Reynolds em que Cd praticamente não
varia. Esta faixa é muito estreita para orifícios e mais larga para venturis. É compromisso de projeto, dimensionar
o medidor para que este trabalhe, sempre que possível, nestas faixas.
Além do coeficiente de descarga permanecer constante para uma grande faixa de números de
Reynolds, o venturi apresenta outras vantagens com relação à placa de orifício, tais como, menor comprimento
de tubo reto necessário a montante e a jusante do medidor, não obstrução devido ao fluxo de partículas em
suspensão, e principalmente, proporcionar uma menor perda de carga localizada (máximo de 30% de h contra
90% para orifício). A perda de carga nesse caso é aquela pressão não recuperada mostrada na Figura 6.7. Suas
maiores desvantagens são os custos, tamanho e dificuldade de construção. O bocal possui características
intermediárias entre o venturi e o orifício.

Figura 6.7 - Queda de pressão através de uma placa de orifício.

A construção de medidores a estrangulamento é normalizada por várias entidades (BSI, ASTM, ISO,
etc.). Quando construídos obedecendo rigorosamente às normas, o coeficiente de vazão do medidor pode ser
obtido de curvas empíricas, contidas nas especificações, e a calibração do instrumento torna-se dispensável. Na
prática, entretanto, medidores fora de especificação funcionam satisfatoriamente, quando previamente
calibrados.

Outros Métodos

Os métodos deprimogênios são, sem dúvida, os dispositivos medidores de vazão mais utilizados em
condutos forçados. Entretanto possuem a grande desvantagem de produzir altas perdas de carga residuais,
particularmente os do tipo placa de orifício. Medidores menos invasivos como por ultra-som, ou magnéticos ou
de efeito Doppler, embora mais caros podem ser a boa solução quando se quer minimizar perdas de carga.
Outra alternativa é medir o fluxo fora dos condutos fechados, utilizando vertedores, calhas Parshall ou
molinetes, medores tratados nos textos de Hidrometria.
Conhecendo-se a curva do sistema, anteriormente discutida, ou outra relação calibrada, a vazão
volumétrica pode ser estimada em função da pressão na tubulação ou o nível do reservatório.

6.2   Válvulas  

Válvulas são dispositivos destinados a estabelecer, controlar e interromper a descarga de fluidos nos
encanamentos. Algumas garantem a segurança da instalação e outras permitem desmontagens para reparos ou

79
substituições de elementos da instalação. As de controle permitem regular vazão ou pressão. Existe uma grande
variedade de tipos de válvulas, e dentro de cada tipo, diversos subtipos, cuja escolha depende não apenas da
natureza da operação a realizar, mas também das propriedades físicas e químicas do fluido considerado,
direção do escoamento e da temperatura a que se achará submetido, e da forma de acionamento pretendida.
Neste texto se apresentará um breve resumo dos principais tipos de válvulas, destacando-se aquelas utilizadas
em tubulações de água.

6.2.1  Classificação  

Segundo a natureza do acionamento, temos válvulas:

Acionadas Manualmente

Podem ser de:

• Volante, de ação direta ou de ação indireta; neste caso, comandadas por correntes, quando a
válvula se acha em local elevado, fora do alcance do operador

• Manivela, acionando sistemas de engrenagens para reduzir o esforço do operador.

Comandadas por Motores

Quando as válvulas são muito grandes, ou se acham em posição de difícil acesso, longe do operador, ou
ainda, quando devam ser comandadas por instrumentos ou equipamentos de controle automático próximos ou
afastados. O comando pode ser:
• Hidráulico, geralmente por servomecanismos oleodinâmicos.
• Elétrico:
- com motor e redutor de velocidade de engrenagens ligados à haste da válvula. Usa-se em válvulas
grandes.
- com solenóide, agindo pela ação de um eletroímã que provocam deslocamento da haste da
válvula. É empregado em tipos de pequenas dimensões.
- pneumático, de tipo diafragma, possibilitando abertura rápida sob ação de ar comprimido ou pelo
efeito de vácuo.

Acionadas pelas Forças Provenientes da Ação do Próprio Líquido em Escoamento

Quando nele ocorre uma modificação no regime, ou pela ação de molas ou pesos, quando tal
modificação se verifica. São designadas pelo nome de válvulas automáticas.
Uma outra divisão das válvulas muito comum é a que estabelece a distinção entre válvulas de bloqueio
e válvulas de regulagem.

80
As válvulas de bloqueio destinam-se a funcionar completamente fechadas ou completamente abertas. O
tipo mais comum e consagrado pelo emprego é a Válvula ou Registro de gaveta (gate valve).
As válvulas comuns acima citadas têm como partes essenciais: corpo, castelo, haste, volante, sede e
contra-sede.

6.2.2   Válvulas  de  Gaveta  Convencionais  

A perda de carga nessas válvulas, quando completamente abertas, é desprezível, mas, quando
parcialmente abertas, produzem perda de carga elevada e assim só eventualmente são utilizadas como
válvulas de regulagem, com abertura parcial.
O inconveniente para certas aplicações é que, em alguns tipos menos aperfeiçoados, sua
estanqueidade não é perfeita, mas isto nem sempre chega a ser um problema.
Devido a sua versatilidade e baixo custo, de modo geral, são as mais empregadas para líquidos. Nas
válvulas de grandes dimensões e para altas pressões, existe um by-pass contornando a gaveta, o qual, por sua
vez, é fechado por um outro registro de gaveta de menor tamanho. Pelo by-pass estabelece-se um melhor
equilíbrio entre as pressões dos dois lados da gaveta, o que reduz o esforço para abrir a válvula.
Á gaveta pode ter as faces paralelas ou não. No primeiro caso, é a pressão do líquido sobre a gaveta
que produz a vedação e não há perigo de a gaveta "emperrar". Nas gavetas em forma de "cunha" (gavetas
cônicas), além da pressão do líquido, atua a força na haste rosqueada, comprimindo as faces da gaveta contra
os assentos, dando, em conseqüência, melhor vedação. A Figura 6.8 apresenta uma válvula de gaveta típica
enquanto a Figura 6.9 apresenta a nomenclatura de seus componentes.

Figura 6.8 – Válvula de gaveta com cunha de bronze

81
No Brasil, entre os grandes fabricantes de registros e válvulas de gaveta, destacam-se os seguintes:
Cia. Ferro Brasileiro, Niagara, IBRAVE INCOVAL, CIVA, DURATEX (válvulas P) e Cia. Metalúrgica Barbará,
sendo, desta última empresa, os registros apresentados na maioria das figuras desse texto.

6.2.3   Válvulas  de  Gaveta  com  Cunha  de  Borracha  

Atualmente são muito usadas as válvulas em que a cunha é feita em borracha. As principais vantagens
são a melhor vedação, menor torque de acionamento e ausência de emperramento. A Saint-Gobain fabrica
válvulas desse tipo até diâmetros de 350 mm, a linha Euro mostrada na Figura 6.10, possuindo vantagens
adicionais permitir reengaxamento (troca dos anéis o´rings) com a rede em carga, estando a válvula totalmente
aberta e manutenção preventiva nula.

Figura 6.9. Nomenclatura dos componentes de uma válvula de gaveta

82
Figura 6.10. Válvula com Cunha de Borracha.

6.2.4   Válvulas  de  Esfera  

São válvulas de uso geral, de fechamento rápido, muito usadas para ar comprimido, vácuo, vapor, gases
e líquidos. Nas adutoras são empregadas em serviços auxiliares, mas não são ligadas diretamente à
tubulação. O controle do fluxo se faz por meio de uma esfera, possuindo uma passagem central e localizada no
corpo da válvula. O comando é, em geral, manual, com o auxílio de uma alavanca.
Essas válvulas não se aplicam a casos em que se pretende variar a descarga, mas apenas abrir ou
fechar totalmente a passagem do fluido.

83
Figura 6.11 – Válvula de esfera Figura 6.12 – Válvula de macho

6.2.5      Válvulas  de  Macho    

Possuem uma peça cônica (macho) com um orifício ou passagem transversal de seção retangular
ou trapezoidal que se encaixa no corpo da válvula, e de tal modo que, quando o eixo geométrico do orifício
coincide com o eixo do tubo, o escoamento é máximo.
Os tipos pequenos são utilizados para operações "liga-desliga" de manobra rápida, como na ligação
de manômetros. Com uma rotação de 90°, a válvula fica completamente aberta ou fechada. O tipo mais
simples, é usado nos ramais prediais de abastecimento de água, colocados no passeio, e só muito raramente
é operado depois de instalado. Não oferece perfeita estanqueidade.

6.2.6      Válvulas  de  Regulagem    

Permitem um eficiente controle do escoamento, graças ao "estrangulamento" que provocam.


Possibilitam também o bloqueio total do líquido. Os tipos mais comuns são considerados a seguir.

Válvulas de Globo

O nome se origina do formato de seu corpo. Possuem uma haste parcialmente rosqueada em cuja
extremidade, oposta ao volante de manobra, existe um alargamento, tampão ou disco para controlar a passagem
do fluido por um orifício. Servem para regulagem da descarga, pois podem trabalhar com o tampão da vedação
do orifício em qualquer posição, embora acarretem fortes perdas de carga, mesmo com abertura máxima.
Conseguem uma vedação absolutamente estanque em tamanhos pequenos, pois o disco se apoia sem folga
no "assento".
São usadas, em geral, para diâmetros até 250 mm, em serviços de regulagem e fechamento que exigem
estanqueidade para água, fluidos frigoríficos, óleos, líquidos, ar comprimido, vapor e gases.

84
Figura 6.13. Válvula de globo (esq.) e de agulha (dir.)

Nas estações de bombeamento são usadas para instalações auxiliares ou quando o problema da perda
de carga for irrelevante face à necessidade de uma absoluta estanqueidade, como no caso do bombeamento de
líquidos voláteis em instalações industriais. O custo normalmente é inferior ao dos registros de gaveta.
Os chamados registros de pressão, vide Figura 6.13, são modelos pequenos de válvulas de globo,
usados em instalações de distribuição de água para sub-ramais de aparelhos sanitários, como no caso dos
chuveiros.
As válvulas de globo, quando possuem a extremidade da haste com formato afilado, chamam-se
válvulas de agulha e se prestam a uma regulagem fina da descarga.

Engaxetamento das Válvulas

Tanto as válvulas de gaveta quanto as de globo devem ter, entre a haste e o castelo, gaxetas
apropriadas, sem o que a estanqueidade não se viabiliza. A peça que comprime as gaxetas tem o nome de
preme-gaxetas.
As gaxetas podem ser de seção quadrada ou circular e constituídas por um dos materiais a seguir
relacionados, impregnados com fluido viscoso ou grafite, para melhor aglutinação dos elementos e lubrificação.
Usam-se: fibras torcidas e trançadas de asbestos (amianto), algodão, raiom, náilon, juta, rami, teflon, cobre,
vidro, alumínio, chumbo, mica; fibras tecidas em panos quer enrolados, quer em sanfona ou em laminados; tiras
de cordões de couro; de metal antifricção com pregas ou enrolado em espiral.
Para água fria os tipos mais comuns são asbestos, lona e borracha, semimetálico, algodão plástico.

85
6.2.7      Válvulas  Esféricas  ou  Rotoválvulas  

São válvulas, em geral, de dimensões grandes, empregadas em usinas hidrelétricas, em grandes


elevatórias e centrais de acumulação, como é o caso da Central de Vianden, onde as válvulas são de 2.000
mm, mostrada na Figura 6.14.

Figura 6.14 Válvula esférica Figura 6.15 – Válvula borboleta

6.2.8      Válvulas  Borboleta  

São válvulas que possuem um disco giratório biconvexo ("lentilha") no interior de uma cavidade esférica
e que, conforme a inclinação, possibilita um fechamento estanque ou uma ampla passagem da água, ou ainda
uma graduação intermediária no valor da descarga. São portanto de bloqueio e regulagem. Em instalações de
bombeamento são usadas na linha de aspiração, quando a bomba fica "afogada" em relação ao nível da água de
montante.
Existem válvulas borboleta em centrais hidrelétricas com tubulações forçadas, como órgãos de fecho, de
emergência e segurança, no início da penstock e, até mesmo como órgãos de fecho das turbinas, próximas da
entrada das mesmas nas instalações com quedas médias.
Têm sido fabricadas em diâmetros superiores a 6 metros.
A Figura 6.15 apresenta uma válvula borboleta VOITH com carcaça e a "lentilha" (construção de
chapas soldadas) e arruela de borracha na circunferência da lentilha. Diâmetro de 2.750 mm.

6.2.9   Válvulas   que   Permitem   o   Escoamento   em   Um   só   Sentido.   Válvulas   de  


Retenção  

86
Fecham automaticamente por diferença de pressões provocadas pelo próprio escoamento do líquido,
quando há tendência à inversão no seu sentido de escoamento. A vedação pode ser feita por um tampão,
portinhola, ou esfera.
As válvulas de portinhola podem ser usadas tanto para posição horizontal quanto vertical em alguns
tipos construtivos. São as mais usadas e apresentam a menor perda de carga.
A Figura 6.16 mostra uma válvula de retenção de ferro fundido, tipo portinhola, e outra do tipo pistão ou
tampão.

Figura 6.16. Válvulas de retenção de portinhola (esq.) e de tampão (dir.).

A Figura 6.17 mostra uma válvula de retenção com ralo (válvula de pé com crivo) de uso obrigatório nas
sucção das instalações de bombeamento não afogadas.

Figura 6.17– Válvula de pé com crivo

6.2.10    Válvulas   de   Controle   da   Pressão   de   Montante,Válvula   de   Alívio   ou   Válvula  


de  Segurança  

Em instalações de líquidos são empregadas para diminuir o efeito do golpe de aríete. Em gases funciona
como válvula de segurança descarregando fluido quando a pressão alcança valores críticos. Abre-se, permitindo a
saída do fluido, quando a pressão no interior da tubulação ultrapassa um valor compatível com a resistência de
uma mola calibrada para um certo ajuste.

6.2.11   Válvulas  de  Inclusão  ou  Expulsão  de  Ar  ("Ventosas")  

87
As ventosas servem para permitir a saída do ar que tenha ficado em adutoras por gravidade ou nas
tubulações de recalque, principalmente se a tubulação forma algum sifão. As de duplo efeito permitem também a
entrada de ar. A Figura 6.19 mostra uma ventosa de simples efeito. São colocadas, em geral, na parte alta dos
sifões ou após um trecho horizontal longo ou com pequena declividade.

6.2.12  Válvulas  de  Redução  de  Pressão  

São válvulas que funcionam automaticamente em virtude da atuação do próprio líquido em


escoamento, independentemente da atuação de qualquer força exterior. Tem por finalidade regular a
pressão a jusante da própria válvula, mantendo-a dentro de limites preestabelecidos.
Para atuar obedecendo a valores prefixados da pressão, necessitam de molas, cuja tensão é ajustável.
Uma das aplicações muito comuns dessas válvulas ocorre em instalações de edifícios, em que se
deseja reduzir a pressão em andares mais baixos. A Figura 6.20 mostra a válvula de redução de pressão desse
tipo.

Figura 6.18 – Válvulas de alívio Figura 6.19 – Ventosa Figura 6.20– Válvula de
redução de pressão

6.2.13  Válvulas  Dispersoras  

São válvulas, de controle empregadas em saídas d’água de represas, em geral, de modo a proteger a
bacia amortecedora contra o assoreamento que um jato direto provocaria. É um dispositivo hidráulico eficiente
para controle de altas pressões e dissipação de energia, permitindo operações seguras de fechamento, alívio e
controle de vazão. Os efeitos de cavitação e vibrações associados às grandes velocidades são praticamente
inexistentes nessas válvulas.
O tipo mais comum é o de jato oco. Constituem-se basicamente de um cilindro no interior do qual
desloca-se um cone ou fuso cujo avanço regula a descarga para fora do cilindro. O acionamento pode ser por
motor elétrico ou comando hidráulico. Podem lançar um jato a longas distâncias atingindo vazões de até 100

88
m3/s, proporcionando um belo visual, muitas vezes explorado turisticamente. A Figura 6.21 mostra uma válvula
desse tipo fabricada pela VAG- Armaturen GmbH. A Figura 6.22 mostra sua vista esquemática, onde se pode
observar a seção de descarga que se forma entre os cones interno e externo.

Figura 6.21 – Válvulas dispersora Figura 6.22 – Válvula dispersora – Vista esquemática

As figuras 6.23 e 6.24 mostram, respectivamente, a montagem e teste de uma válvula dispersora de
1.500 mm de diâmetro nominal instalada na barragem do Castanhão, no estado do Ceará.

Figura 6.23 – Instalação de válvula dispersora na Figura 6.24– Teste da válvula dispersora na
Barragem do Castanhão (CE) Barragem do Castanhão (CE)

6.3   Comportas  

As comportas podem ser classificadas em: comportas para vertedouros; comportas para tomada
d'água e comportas de fundo de barragem.

6.3.1   Comportas  para  Vertedouros  

Como o nome indica, visam acumular certo volume de água no reservatório criado pela barragem,
permitindo o sangramento da água pelo vertedouro quando chuvas intensas ou prolongadas oferecerem ameaça
de trasbordamento pela crista da mesma. Os tipos mais usados são:

89
• Comporta de segmento ou radial (cuja seção transversal tem a forma de um segmento circular)
A construção é relativamente simples, Figura 6.25. O segmento gira em torno de mancais
colocados em pilares e o acionamento se realiza com um guincho que traciona um cabo ou uma corrente,
quando é necessário movimentar a comporta, para que a água, escoando por baixo, passe sobre o vertedor.
Essa comporta é impropriamente chamada comporta de setor.
• Comporta de setor
Tem a forma de um setor cilíndrico e os mancais ficam na soleira a jusante, ao invés de ficarem nos
pilares, como ocorre nas comportas radiais.

Figura 6.25– Comporta de segmento ou radial Figura 6.26 –Comporta de setor

6.3.2   Comportas  de  Tomada  D’água  

O tipo de comporta depende da pressão a que a mesma estará submetida e das dimensões da
entrada da tubulação. Quando destinadas ao esvaziamento ou remoção de sedimentos que tendem a
acumular-se no fundo e junto ao paramento de montante da barragem, são denominadas comportas de
fundo.
Em pequenas ou mesmo médias instalações, pode-se usar comportas planas, colocadas faceando a
barragem, figura 6.27. O comando para manobra desse tipo de comportas pode ser manual nas pequenas
instalações ou realizado por sistemas de engrenagens acionados por motor elétrico nos tipos maiores.

90
Figura 6.27 – Pequena Comporta plana Figura 6.28 –Comporta radial de fundo

6.3.3   Comportas  de  Fundo  de  Barragem  

São chamadas também de comportas para descarga de fundo. A escolha do tipo é condicionada ao
tipo de barragem, à profundidade em que serão instaladas, ao sistema de manobra e à finalidade da comporta,
isto é, se deverá funcionar com abertura parcial ou não. No caso de barragens de pequena e média altura têm
sido usadas comportas radiais de fundo, tal como mostra a Figura 6.28.

 
 
 
 

91
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7  
92
Levantamento  
Batimétrico  Automatizado  
Carlos  Lamarque  Guimarães  
Isnaldo  Cândido  da  Costa

7.1   Introdução  

Os recursos hídricos potáveis estão se exaurindo e, sendo assim, é necessário gerenciar as fontes e os
reservatórios de águas potáveis de maneira constante e responsável. Grande parte deste problema deve-se aos
assoreamentos que ocorrem nos reservatórios que abastecem os centros urbanos.
Um grande número de reservatórios brasileiros encontra-se total ou parcialmente assoreado,
principalmente os de pequeno a médio porte.
A erosão é a principal causa do assoreamento em fontes hídricas, e também é a forma mais prejudicial
de degradação do solo. Além de reduzir sua capacidade produtiva para as culturas, ela pode causar sérios
danos ambientais.
Neste contexto, é de grande importância o estudo de métodos que quantifiquem o grau de
assoreamento de reservatórios, rios, lagos, etc. O método tradicional de levantamentos batimétricos, usando
essencialmente teodolitos, está atualmente em desuso, em função de três fatores altamente relevantes na
execução de projetos de engenharia de um modo geral:

• Custo de execução;

• Tempo de execução;

• Grau de confiabilidade dos resultados

Com o avanço, cada vez mais intenso, da tecnologia, surgiu um método de levantamento batimétrico
relativamente de baixo custo, reduzido tempo de execução e de alto grau de confiabilidade. Este método faz uso
de diversos conhecimentos tais como cartografia, posicionamento por satélites, geoestatística, etc.
Denominado de Levantamento Batimétrico Automatizado ou Levantamento Batimétrico Apoiado
por GPS, é, atualmente, o método utilizado para calcular o grau de assoreamento de fontes hídricas e constitui-
se em objeto de trabalho deste curso.

93
Equipamentos  Utilizados  

Os equipamentos que compõem um levantamento batimétrico automatizado são muitos e, por isso,
recomenda-se listá-los antes da execução de qualquer levantamento. Abaixo são sumariados alguns
equipamentos:

• Barcos;

• Ecobatímetro batimétrico;

• Par de GPS topográfico;

• GPS de navegação;

• LapTop;

• Micro-Computadores;

• Softwares específicos;

• Baterias (12V);

• Nível topográfico;

• Mira (4 m);

• Ferramentas em geral.

7.2   Metodologia  

7.2.1     Calibração  

O ecobatímetro é um instrumento que mede a profundidade, via emissão de pulsos acústicos no fundo
do corpo d’água, e mensura o tempo de deslocamento do sinal acústico – pela conversão do intervalo de tempo
da distância percorrida da onda entre o transdutor e o fundo do reservatório. Na prática essa velocidade do som
varia por fatores tais como: temperatura da água, salinidade e turbidez. Assim, para minimizar a influência
desses fatores e para uma melhor precisão das medidas de profundidade, realiza-se uma sistemática de
calibração, duas vezes ao dia, em locais distintos e de 01 a 05 metros de profundidade, com intervalos de metro
em metro, utilizando uma placa metálica (Figura 7.1) que deve ser descida verticalmente, onde se calibra o
ecobatímetro pela alteração da velocidade do som emitido pelo mesmo, de modo que a sonda registre a mesma
profundidade em que se encontra a placa (Figura 7.2).

94
Figura 7.1–Sistemática de calibração do Figura 7.2– Gráfico exemplo da calibração
ecobatímetro, com enfoque para a placa de efetuada para os níveis de 01 a 05 metros de
calibração. profundidade.

7.2.2    Execução  

No trabalho de coleta das coordenadas, utiliza-se uma das técnicas de posicionamento por satélite. O
‘posicionamento relativo cinemático com correção pós-processada’ é atualmente mais utilizado que o
‘posicionamento relativo cinemático em tempo real’ devido a sua maior precisão. Em ambos os casos, é
necessária a utilização dos dados da base, que nada mais é do que outro GPS coletando dados em uma
posição de coordenadas conhecidas.
As linhas batimétricas são planejadas logo após o levantamento do contorno da fonte hídrica, com
distanciamento fixo entre as linhas distribuídas por todo o reservatório. As linhas batimétricas servem de guia
para a coleta das profundidades e devem, quando possível, posicionar-se de forma perpendicular às margens do
reservatório, para facilitar a navegação (Figura 7.3).
Em todo o percurso de coleta de dados de profundidade é recomendado manter uma velocidade
máxima de deslocamento do barco de 10 km/h, pois até esta velocidade consegue-se manter o transdutor e a
antena GPS na posição vertical à lamina d’água, evitando assim, uma inclinação do feixe de ondas acústicas e
conseqüentes erros de leituras.
Para configuração do GPS (Base / Móvel), deve-se manter o mesmo sistema de coordenadas e
também o mesmo datum, no caso de levantamento no Brasil, SAD 69 (South American Datum).
A taxa de armazenamento de coordenadas, da base e do rover, deve – preferencialmente – ser igual.

95
Figura 7.3 – Linhas batimétricas espaçadas a 50 m – Açude Epitácio Pessoa.

Após a análise e correção dos dados levantados, é realizado o processo de interpolação, que é um
procedimento de estimação do valor de um atributo em locais não amostrados, a partir de pontos amostrados na
mesma área ou região, utilizando um software específico pelo método Kriging, que é um método geoestatístico
que leva em consideração as características espaciais de autocorrelação de variáveis regionalizadas, estipula
uma grade de interpolação de m x m metros, e, a partir destes dados interpolados, permite o cálculo do volume
atual do reservatório.
O software para estimação de reticulado, SURFER, utiliza a metodologia de que, fornecidos “n” valores
conhecidos (Z1, Z2,..., Zn) – regularmente distribuídos ou não –, o valor a ser interpolado para qualquer nó da
rede será igual:

Gj = Wij Zi,

onde:

Gj = valor estimado para o nó j


N = número de pontos usados para a interpolação
Zi = valor estimador no ponto “i” com valor conhecido
Wij = peso associado ao valor estimado “i”

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Tal método foi escolhido por apresentar: ótima fidelidade aos dados originais; boa suavidade das curvas
interpoladas; e ótima precisão geral, de acordo com tabela de comparação entre algoritmos,(Tabela 7.1 –
Landim, 2000).

Tabela 7.1 – Tabela de comparação de Algoritimos (Landim, 2000)


COMPARAÇÃO ENTRE ALGORITMOS (1 = melhor 5 = pior)

Fidelidade aos Suavidade das Velocidade de Precisão Geral


Algoritmo
dados originais curvas computação
Triangulação 1 5 1 5
Inverso da distância 3 4 2 4
Superfície/Tendêcia 5 1 3 2
Mínima curvatura 4 2 4 3
Krigagem 2 3 5 1

A única desvantagem do método está na incapacidade de levantamentos acima da cota do nível


d’água, sendo, portanto, recomendável o levantamento batimétrico automatizado em reservatório com a cota de
nível d`água igual à cota da soleira.

7.3    Produtos  Obtidos  

Os principais produtos obtidos através de um levantamento batimétrico automatizado são:

1– Área inundada atualizada do reservatório;

2 – Mapeamento do espelho d’água atual do contorno, assim como, a identificação de todas as ilhas;

3 – Obtenção das respectivas profundidades;

4 – Modelagem do relevo submerso;

5 – Determinação do volume atual do reservatório;

6 – Determinação da tabela cota x área x volume para esse levantamento;

7 – Subsidiar informações aos órgãos competentes, para auxílio nas tomadas de decisões futuras para
o gerenciamento e utilização racionalizada dos mananciais.

7.4   Estudo  de  Caso:  Batimetria  Automatizada  do  Açude  Bodocongó  

Construído e inaugurado entre 1915 e 1916, face à carência de água na cidade de Campina Grande, o
açude Bodocongó é o resultado de uma ação conjunta da Prefeitura de Campina Grande, na gestão de Cristiano
Lauritzen, e do Governo Federal. Na década de 1930, apesar do alto grau de salinidade da água, surgiram, em

97
torno do açude, o Curtume Vilarim, a fábrica têxtil de Bodocongó, o Matadouro e todo um bairro. Em Campina
Grande, os curtumes surgiram, via de regra, às margens dos açudes, fontes supridoras de água, visando limitar
os gastos das empresas às despesas de bombeamento e manutenção. O escoamento das águas residuais dos
curtumes em operação, feito de forma precária, fazia com que as águas servidas fossem lançadas diretamente
nos sangradouros dos açudes em questão. Tal estratégia foi responsável pelo depósito de considerável
quantidade de substâncias orgânicas solúveis e insolúveis, além de substâncias inorgânicas (e.g. arsênico e
cromo), em níveis de concentração perniciosos às vidas vegetal e animal dos referidos reservatórios. Ao longo
dos anos, o uso indiscriminado da água do açude Bodocongó (que, atualmente, recebe resíduos sanitários
domésticos, industriais e até hospitalares) tem comprometido a qualidade de suas águas.
No contexto das iniciativas de avaliação da qualidade da água na bacia hidráulica do Açude
Bodocongó, desenvolvidas pelo DEQ/CCT/UFCG, o presente relatório apresenta uma descrição das atividades
de campo desenvolvidas durante o levantamento batimétrico apoiado por GPS, realizado no referido
reservatório, no período de 09 a 10 de Outubro de 2002. Neste documento é apresentada a metodologia
utilizada tanto no processamento dos dados coletados a partir do trabalho de campo quanto na elaboração de
tabelas e mapas.

7.4.1   Introdução  

Os dados representativos das características geométricas dos açudes (tabela curva cota-área-volume)
datam da época dos projetos dos barramentos (ou seja, mais de 30 anos, em diversos casos). Assim, surge a
necessidade de atualização dos dados que determinam a capacidade do açude e a área do espelho d’água, face
à ocorrência da crescente intervenção humana nas bacias hidrográficas dos açudes, alterando o uso do solo,
favorecendo sua erosão e o transporte por escoamento superficial do material erodido para a bacia hidráulica
dos açudes, na qual vem a se depositar, reduzindo sua capacidade de armazenamento.
Levantamentos batimétricos consistem essencialmente no conjunto de princípios, métodos e
convenções empregados na mensuração do contorno, da dimensão e da posição relativa da superfície
submersa de mares, rios, lagos e canais, proporcionando um acompanhamento das alterações do relevo
submerso. Envolvem tipicamente diversas etapas, que se sucedem desde o planejamento até a apresentação de
resultados numéricos e gráficos, sendo permeados por atividades de coleta de dados no campo e de
processamento dos dados coletados.
Levantamentos batimétricos convencionais envolvem a coleta de dados de profundidade da água em
pontos situados ao longo de diversas seções transversais do reservatório, sendo o posicionamento do barco,
sobre determinado ponto, feito através de equipamentos topográficos convencionais. A cada seção levantada, os
equipamentos são deslocados ao longo das margens do reservatório, muitas vezes em locais de difícil acesso.
Este método requer uma equipe de campo numerosa, além de demandar um grande dispêndio de tempo, devido
à necessidade de locação prévia, a partir de teodolitos, do ponto da seção transversal a ser medido. Tal
procedimento acarreta um elevado acréscimo de custos, inviabilizando, por vezes, o levantamento.

98
O uso do Sistema de Posicionamento Global (GPS) na locação do ponto que se deseja medir, aliado ao
emprego de uma eco-sonda (para a determinação da profundidade do reservatório naquele ponto), permite a
aquisição de um número muito maior de dados, em um intervalo de tempo muito menor e com um custo muito
mais acessível. Os equipamentos são acondicionados em um barco, a aquisição de dados ocorrendo à medida
que o barco se desloca ao longo de diversas seções transversais do reservatório. Esta estratégia de coleta de
dados agiliza o levantamento, permitindo a aquisição de um número maior de pontos em intervalos menores de
tempo do que aqueles exigidos nos levantamentos batimétricos convencionais. Vantagens adicionais concernem
ao aumento da resolução espacial e à precisão do trabalho.
Após a aquisição dos dados no campo, os pontos coletados via receptor de GPS já estão
georreferenciados, de modo que a etapa de processamento dos dados consistirá, grosso modo, da triagem dos
dados, feita com o auxílio de um sistema computacional, seguida da geração das curvas de nível do leito do
reservatório e da determinação das áreas das curvas geradas e do volume correspondente a intervalos fixos de
cota (e.g. a cada metro).

7.4.2   Objetivos  

Geral

Executar o levantamento batimétrico do açude Bodocongó, para fins de análise do grau de


assoreamento.

Específicos

• Avaliar a taxa de assoreamento do açude Bodocongó;

• Determinar a área da bacia hidráulica do reservatório;

• Construir mapas de isolinhas batimétricas e de localização; e

• Construir a curva-chave do manancial (curva cota x área x volume).

7.4.3   Material  Utilizado  

No levantamento batimétrico apoiado por GPS, foram utilizados – basicamente – os seguintes


equipamentos: estação GPS, ecobatímetro e barco. Estes equipamentos são descritos sucintamente a seguir.

Receptor de GPS

99
O Sistema de Posicionamento Global (GPS), desenvolvido pelo Departamento de Defesa, Marinha e
Aeronáutica dos Estados Unidos, tem a denominação oficial NAVSTAR – Navigation System Using Time and
Ranging. Atualmente, conta com uma constelação de 27 satélites, sendo que apenas 24 são usados e três ficam
de reserva. O sistema foi projetado para fornecer posicionamento preciso, 24 horas por dia, em qualquer lugar
da superfície terrestre.
Neste trabalho de campo, foi utilizada uma estação receptora de GPS da marca Ashtech modelo
Reliance (Figura 7.4), cuja precisão na determinação das posições dos pontos coletados é inferior a 1 metro.

Figura 7.4 – GPS da marca Ashtech modelo Reliance.

Ecobatímetro

O ecobatímetro é um equipamento empregado na mensuração da profundidade de superfícies


submersas, cujo princípio de funcionamento se fundamenta na utilização do tempo de percurso de uma onda
sonora emitida por um sensor imerso na água. O cálculo do valor da profundidade baseia-se na velocidade do
som no meio e no tempo gasto pela onda para percorrer a distância de ida e volta entre o sensor e o leito do
reservatório. O sensor deve ser instalado no fundo ou na lateral do barco, ligeiramente abaixo da linha d’água e
voltado para baixo. É fundamental que o ecobatímetro tenha capacidade de enviar dados serialmente para
outros equipamentos e que utilize algum tipo de protocolo padrão.

100
Figura
Figura
7.5 – Ecobatímetro da marca Furuno modelo FCV-668 acondicionado ao barco.

O equipamento utilizado é da marca Furuno modelo FCV-668 (Figura 7.5), o qual, dentre outros
recursos, permite visualizar, em tempo real, o perfil do leito do reservatório e possui função de alarme, que
possibilita uma navegação mais segura em zonas rasas. Com o objetivo de verificar a precisão do equipamento,
alguns testes de calibração foram feitos dentro do açude, em locais de profundidades conhecidas, onde era
possível confrontar as leituras do ecobatímetro e as leituras reais. Estes testes incluíram pontos com até 4 m de
profundidade, onde foi possível manter o barco firmemente ancorado.

Barco

O barco utilizado durante a coleta dos dados é de alumínio modelo Petty, movido a motor de 15 HP
(Figura 7.6)
. Para prover a alimentação necessária aos diversos equipamentos instalados foi utilizada uma bateria
veicular da marca Moura. O barco é dotado de estrutura apropriada para o acondicionamento dos sensores
(antenas do GPS e do rádio e sonda do ecobatímetro) e demais equipamentos utilizados. Os equipamentos mais
sensíveis (estação GPS e a unidade central do ecobatímetro) são acondicionados em uma estrutura que os
protege da radiação solar e da umidade.

101
 

Figura 7.6 – Barco do LMRS-PB, às margens do açude Bodocongó.

7.4.4   Metodologia  Adotada  

As atividades desenvolvidas no contexto deste levantamento batimétrico foram divididas em 03 (três)


etapas, a saber:

• Coleta dos Dados

Desenvolvida no campo, esta etapa englobou duas atividades: a coleta de dados de posição dos limites
do reservatório e a coleta de dados de posição e profundidade de pontos internos do açude.
Em ambos os casos, a estação GPS foi programada para coletar dados a cada 5 s. Os dados foram
coletados para a cota do nível de água na ocasião do levantamento (507,98 m). O deslocamento do barco deu-
se à velocidade de 5,0 Km/h, visando garantir a precisão do trabalho.
A primeira atividade, realizada a pé, visou à determinação do perímetro do reservatório, relativamente
pequeno e de fácil percurso em sua totalidade. Após a obtenção e armazenamento dos dados relativos aos
pontos de contorno, efetuou-se a coleta de dados dos pontos no interior do reservatório, a partir do
deslocamento do barco por linhas transversais aproximadamente eqüidistantes. A distância entre linhas
consecutivas foi de cerca de 10 m. O número total de pontos coletados foi 462, sendo 145 coletados no contorno
do açude e 317 no interior do reservatório.

• Processamento dos Dados

Uma vez obtidos os dados do contorno e do interior do açude, iniciou-se a etapa de interpolação de
pontos, com o propósito de obter uma malha mais densa de pontos com informações de posição e profundidade,
a fim de possibilitar o traçado das curvas de nível ou isolinhas batimétricas da bacia hidráulica do açude (Figura
7.7).

102
Figura 7.7 - Mapa de isolinhas batimétricas.

Figura 7.8 - Mapa de localização do Açude Bodocongó.

As áreas entre as diversas curvas de nível foram calculadas, permitindo a determinação do volume
armazenado entre as mesmas. O volume acumulado até a cota das margens do açude foi inferido do somatório
dos volumes armazenados entre as diversas curvas de nível. Nesta etapa, foi utilizado o Surfer 7, um aplicativo
de software destinado à modelagem tridimensional de dados.

103
Para a construção do mapa de localização da área em estudo foi utilizado o MapInfo 6.5, um SIG que
suporta o processamento de dados brutos exportados pelo aplicativo Reliance no formato mif. Após a
importação dos dados, foram gerados os planos de informações de interesse. O mapa de localização da área é
apresentado na Figura 7.8.

• Geração de Produtos

A partir do processamento dos dados relativos à batimetria automatizada, realizada no açude


Bodocongó, foram gerados, em meio digital e convencional (papel), os seguintes produtos:

 Mapa de curvas de nível da parte com água da bacia hidráulica do açude Bodocongó eqüidistantes
de 1 metro (Figura 7.7);
 Mapa de localização da área de estudo (Figura 7.8);
 Tabela cota-área-volume levantada pela batimetria, abaixo apresentada (Tabela 7.2).

Tabela 7.2- Cota x Área x Volume do Açude Bodocongó


COTA (m) ÁREA (m2) VOLUME(m2)

502,00 - -
503,00 24.918 3.067
504,00 97.608 76.780
505,00 142.667 194.628
506,00 193.618 364.152
507,00 241.274 581.734
507,98 371.897 873.308

A tabela cota x área x volume permite a determinação do volume acumulado do manancial a partir de
simples leituras de cota. Estas leituras são realizadas após a instalação, em campo, de réguas linimétricas
(graduadas em 1 m cada) niveladas e fixadas em estacas de madeiras.
Para aquelas leituras de cotas em que não há um volume correspondente na tabela cota x área x
volume, utiliza-se o método da interpolação linear para a obtenção do volume desejado.
A geração dos produtos supracitados possibilitou a determinação das informações sumariadas na
Tabela 7.3.

Tabela 7.3 Açude de Bodocongó.

104
AÇUDE BODOCONGÓ
Área da bacia hidráulica 3713.897 m2
Perímetro 3.877 m
Volume estimado 873.308 m3
Volume assoreado estimado 146.692 m3
Taxa de assoreamento 14,38%
Profundidade máxima 5,60 m
Média aritmética das profundidades 2,35 m

Estes valores foram obtidos tomando-se como base o levantamento do projeto original feito pelo
DNOCS, que obteve o volume máximo 1.020.000 m3 na cota 508,00 m. A área da bacia hidráulica levantada
está localizada na longitude de 35º 54’ 37,490652” W a 35º 55’ 27,951168” W, e latitude de 07º 12’ 35,419464” S
a 07º 12’ 56,283372” S.

7.5   Referências  Bibliográficas  

ÁLVARES, M. T.; FERNANDES, S. M. C.; PIMENTA, M. T.; VERÍSSIMO, M. R. 2001. ESIG2001 –


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Hídricos.
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Paraíba, Brasil. Relatório Final.
ELIAS, A. R.; MÔNICO, J. F. G.; IMAI, N. N. Levantamento Batimétrico Apoiado por GPS. Presidente Prudente:
UNESP - Departamento de Cartografia.
Esteio / Engenharia e Aerolevantamentos S. A. Batimetria – Lagoa da Conceição – Florianópolis - SC, Brasil.
Relatório Final.
Fundação Cearense de Meteorologia / Ministério da Ciência e Tecnologia. 1996. Curso de batimetria
automatizada. Fortaleza: FCM/MCT..
LACHAPELLE, C. 1998. Departament of Geomatics Engineering. Lecture Notes # 10016. Hydrography (ENGO
545) FALL 1998, September.
LANDIM, P. M. B. 2000. Introdução aos métodos de estimação espacial para confecção de mapas. Rio Claro:
UNESP - Departamento de Geologia Aplicada – IGCE.
MACHADO, W. C., SILVA, R. A. C., ITAME, O. Y., CAMARGO, P. O., LUIZ, S. 1998. Levantamento Batimétrico
do Reservatório do Rio Santo Anastácio. Presidente Prudente: UNESP – Departamento de Cartografia.
Manual de Instruções - TechGeo, GPS GTRA
Manual de Instruções - TechGeo – GPS GTR1

105
Manual de Instruções - SONARLITE – OHMEX INSTRUMENTS – Sonarlite Portable Echo Sounder System
(System Guide).
Manual do Usuário e Guia de Referência – GARMIN GPS 76.
MONICO, J. F. G. 1998. Posicionamento pelo Navistar – GPS, Descrição, fundamentos e aplicações. Presidente
Prudente: UNESP - Departamento de Cartografia.
Instrução técnica A06-A. Procedimentos para levantamentos hidrográficos (LH) executados por entidades extra
marinha. Brasília: Marinha do Brasil – Diretoria de Hidrografia e Navegação.
Instrução técnica. Procedimentos para LH categoria "A" de batimetria, geodésia e topografia. 2002. Brasília:
Marinha do Brasil – Diretoria de Hidrografia e Navegação.
SIGHT- GPS. 2003. Curso de batimetria automatizada. Boqueirão -PB.
SIGHT – GPS. 2003. Curso de levantamento geodésico e topográfico e utilização dos GPS Techgeo – GTR1 e
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SEMARH / LMRS-PB. 2000. Levantamento batimétrico automatizado do açude Tauá – Guarabira – Paraíba.
Relatório Final.
SEMARH / LMRS-PB. 1999. Levantamento batimétrico automatizado do açude Engenheiro Ávidos – Cajazeiras
– Paraíba. Relatório Final.
SEMARH / LMRS-PB. 1998. Levantamento batimétrico automatizado do açude Engenheiro Arco Verde –
Condado – Paraíba. Relatório Final.

8  
106
Assoreamento  de  
Reservatórios  e  Açudes  
Celso  Augusto  Guimarães  Santos  

8.1   Considerações  Iniciais  

A erosão provocada pela água, chamada de erosão hídrica ou simplesmente erosão, e a sedimentação
incluem o processo de desprendimento, transporte e deposição das partículas sólidas (sedimentos) pelos
agentes de transporte e erosivos do impacto das gotas da chuva e pelos agentes do escoamento superficial
(ASCE, 1975), ou seja, a erosão é a saída de terra, ao passo que a sedimentação é a deposição destas
partículas (FOSTER, 1982).
A erosão é um processo pelo qual o solo e minerais são desprendidos e transportados. Desta forma,
pode-se definir dois estágios distintos, a separação como sendo o desalojamento das partículas sólidas do solo
pelos agentes erosivos e o transporte como sendo a entrada e movimento dos sedimentos de seus locais de
origem. Os sedimentos viajam a partir das fontes a montante através dos canais e devem eventualmente
alcançar o oceano (HOLEMAN, 1968). Sendo que, nem todos os sedimentos atingem o oceano, pois alguns
podem ficar depositados no início de rampas, em reservatórios, e nas planícies de enchentes ao longo do
caminho (ASCE, 1975), a este processo, como visto acima, dá-se o nome de sedimentação, ou seja, a
deposição de partículas quando a força gravitacional supera as forças que causam o transporte. Entretanto, o
sedimento pode apenas ficar depositado temporariamente, e futuras chuvas poderão colocá-lo novamente em
transporte, levando-o a locais mais baixos. Com isso, pode-se definir sedimento como sendo qualquer partícula
que possa ser transportada pela água. Logo, uma pedra pode ser tão bom sedimento, quanto um grão de areia.
O termo é normalmente aplicado para material erodido que tenha sido transportado e depositado pela água, mas
é algumas vezes usado para denotar os depósitos resultantes do vento, gelo e outras forças (FOSTER, 1982),
isto dependerá do texto no qual a palavra está sendo usada.
A erosão causada pela água pode ser classificada em dois tipos gerais; erosão laminar e em canais. A
erosão laminar é o desprendimento do material do solo pelas gotas da chuva e sua saída (remoção)
subseqüente pelo escoamento na superfície. A erosão no canal é a saída (remoção) e transporte do material

107
pelo escoamento concentrado. Uma definição mais detalhada será vista mais adiante, quando for tratado o tipo
da fonte de sedimentos.
O processo de erosão e deposição é de grande importância, podendo trazer sérios problemas, pois a
erosão reduz a produtividade de áreas de cultura, os sedimentos degradam a qualidade da água e podem
carregar sólidos porosos absorvidos com poluentes químicos, e a deposição em canais de irrigação, rios,
reservatórios, açudes, portos e outras estruturas de transporte de água, reduz a capacidade destas estruturas,
requerendo remoção dispendiosa.

8.1.1   Fontes  e  Sorvedouros  de  Sedimentos  

Faz-se necessária a classificação das fontes e sorvedouros, para se poder identificar e avaliar a
extensão da erosão e sedimentação, e, assim, recomendar controles de erosão e sedimentação. As fontes de
sedimentos incluem terras artificiais como as terras agrícolas; locais de construção; aterro, corte e diques de
estradas; minas de superfície; bem como terras naturais. Os tipos de erosão dominantes segundo Hutchinson et
al. (1976) podem ser classificados como: erosão laminar, de córregos, de ravinas, de canal do escoamento, ou
de desmoronamento. Onde a erosão laminar seria a remoção de uma camada fina de sedimento de espessura
relativamente uniforme por qualquer processo sobre toda uma área, a de córrego é a erosão em numerosos
canais pequenos que têm alguns milímetros de largura e profundidade, onde o escoamento se concentra.
Quando os córregos não podem ser destruídos pela lavoura normal, eles são chamados de ravinas, a erosão
de canal é a causada pelo próprio escoamento, e a erosão de desmoronamento é o movimento de sólidos em
massa. Uma observação que deve ser feita neste ponto, é que a distinção entre tais tipos de erosão é função do
modelador fazer, mediante as situações encontradas. Os sorvedouros típicos de sedimentos incluem o ponto
côncavo das rampas, planícies de inundação, e áreas de reservatórios onde a deposição ocorre devido à
capacidade de transporte do escoamento ser reduzida abaixo de sua carga de sedimento (Foster, 1982).

8.1.2   Hidrologia  

Os processos de erosão e sedimentação são dirigidos pelos processos hidrológicos de precipitação e


escoamento. Logo, os fatores que vierem a interferir diretamente a precipitação ou escoamento, afetarão a
erosão e sedimentação, concluindo-se com isto, que qualquer análise de erosão, transporte de sedimentos, ou
produção do mesmo deve considerar a hidrologia.
Hidrologicamente, uma bacia hidrográfica deve ser entendida e modulada como tendo componentes do
escoamento superficial, do escoamento de canal, e do escoamento subterrâneo, onde as áreas do escoamento
superficial e de canal serão as principais, pelo menos enquanto a erosão e a sedimentação sejam o objetivo
principal de tal modulação.

8.1.3   Características  da  Erosão-­Sedimentação  de  Pequenas  Bacias  

108
Uma típica pequena bacia e os componentes que uma análise de modelagem devem envolver
dependem do tipo de aplicação, se a área é uniforme ou se tem segmentos de escoamento superficial
complicado; além disso, também dependerá do número de segmentos de canais. A importância das
características particulares depende de sua presença ou ausência e do grau com que elas influenciam os
processos de erosão e sedimentação. Quatro ilustrações são citadas por Foster (1982).

a. Erosão em um perfil arenoso simples;

b. Produção de sedimento de um campo agrícola típico;

c. Produção de sedimento de um campo com estruturas para conservação;

d. Bacia complexa.

8.1.4   Erosão  nas  Cabeceiras  

Nas cabeceiras ocorrem processos básicos de desprendimento, transporte e deposição. O


desprendimento ocorre quando a força erosiva do impacto das gotas da chuva ou da água em escoamento
excede a resistência do solo à erosão. O transporte é feito através do salpico e do escoamento provocado pelas
gotas da chuva, e a deposição ocorre quando a carga de sedimentação de uma dada partícula excede sua
correspondente capacidade de transporte.
Os principais fatores que afetam os processos de erosão na cabeceira citados por Foster (1982) são os
seguintes:

a. Hidrologia

b. Topografia

c. Erodibilidade do solo

d. Transportabilidade do solo

e. Cobertura

f. Resíduos incorporados

g. Resíduos de terra usada

h. Efeitos subterrâneos

i. Cultivo

j. Rugosidade

8.2   Modelos  de  Produção  de  Sedimentos  

109
Bennett (1974) os define como sendo representações hipotéticas ou estilizadas dos processos físicos
que ocorrem durante a erosão e transporte de sedimento de uma bacia. Podendo ser simples como uma
regressão entre a carga suspensa e a vazão hídrica, ou complexos, contendo componentes para calcular o
escoamento superficial e o escoamento em canais, para estimar a produção de sedimentos das encostas e do
curso d'água (Galvão, 1990).
Os modelos são instrumentos valiosos de previsão que possibilitam a estimativa da extensão da erosão
em uma dada área problema, que por razões físicas ou econômicas, não dispõe de meios para a obtenção de
registros através da medição (Lopes, 1980). Os modelos de erosão e produção de sedimento são classificados
em dois grupos: regressões empíricas baseadas num grande número de dados observados, tal como a
equação universal da perda de solo, e modelos fundamentais que podem ser chamados também de modelos
físicos.
O desenvolvimento de relações gerais foi possível, a partir de dados de estudo de erosão laminar
plotados em gráficos, onde tais relações poderiam ser usadas por projetistas de recursos hídricos, pois,
poderiam prever as taxas de erosão a longo prazo para uma dada situação, e uma das primeiras tentativas para
se estabelecer tal relação foi apresentada por Zingg (1940), onde era relacionado o grau e comprimento da
rampa com a perda de solo.

(8.1)

onde E é a perda de solo em lb, C é um fator de chuva, erodibilidade inerente do solo e cobertura, S é o grau da
declividade em percentagem, e L é o comprimento da rampa em ft.
Vanoni (1975) menciona que outros autores (Smith, 1941; Smith e Whitt, 1947; Van Dore e Bartelli,
1956) consideram outros fatores, por exemplo, a erodibilidade do solo e manejo da terra. Estes fatores foram
mais tarde avaliados e consolidados, e um parâmetro de chuva foi adicionado para obter a equação empírica de
Musgrave (Musgrave, 1947).
Os resultados dos estudos de Musgrave indicam que a perda de solo varia de acordo com a seguinte
relação:

(8.2)

onde E é a perda de solo em acre-in., I é a erodibilidade inerente do solo em in., R é um fator de cobertura, S é o
grau da declividade em percentagem, L é o comprimento da rampa em ft, e P30 é a altura máxima de chuva em
in. num intervalo de 30 minutos com uma frequência de 2 anos.
A partir de então, muitos modelos surgiram na literatura. Equações de erosão do solo, tais como: a
equação universal de perda de solo (Agricultural Research Service, 1961; Wischmeier e Smith, 1958;
Wischmeier, 1960) usada em combinação com uma taxa de liberação de sedimentos (Vanoni, 1970); equações
baseadas nos parâmetros da bacia, tal como a de Flaxman (1972); ou equações baseadas na carga (Bennett e
sabol, 1973; Miller, 1951). Tais equações foram usadas extensivamente por algum tempo por várias agências

110
para prever a produção de sedimento a longo prazo; estes modelos podem ser classificados como modelos
determinísticos do tipo caixa preta (Bennett, 1974). É importante observar que a maioria das equações
apresentadas foi derivada empiricamente com base na análise de regressão convencional. Essas equações têm
em comum o uso da otimização numérica que esconde importantes interações, dificultando a compreensão do
processo, e são somente válidas para os locais para as quais foram desenvolvidas. Além do mais, quando não
são levadas em conta a variabilidade temporal das condições hidrológicas, as relações obtidas primariamente
tornam-se praticamente sem efeito, tornando assim as equações mais restritas à sua aplicabilidade (Lopes,
1980).
Santos et al. (2000) determinaram os expoentes para a equação empírica da perda de solo do tipo da
equação de Musgrave para regiões semi-áridas do nordeste brasileiro, e também testaram a equação proposta
com dados de erosão das parcelas da Bacia Experimental de Sumé, Estado da Paraíba. Esta equação foi
posteriormente usada no desenvolvimento de um modelo conceitual de erosão (Santos et al., 1998). O termo
conceitual tem sido empregado para modelos de erosão, quando os mesmos têm características de modelos
fundamentais e empíricos ao mesmo tempo.
Modelos estocásticos de produção de sedimentos têm aparecido mais recentemente (Murota e
Hashino, 1969; Woolhiser e Todorovic, 1974). Estes modelos fornecem inumeráveis informações com respeito à
variabilidade temporal do fenômeno de produção de sedimentos. Tais modelos, atualmente, podem ser
formulados analiticamente para pequenas áreas onde muitas das variáveis relativas à produção de sedimentos
são uniformes (Bennett, 1974).

8.2.1   A  Equação  Universal  da  Perda  de  Solo  (USLE)  

A USLE (Universal Soil Loss Equation) foi originalmente desenvolvida como uma ferramenta para os
protecionistas do solo usar em desenvolvimento de planos de manejo da terra, para controlar a erosão e manter
o solo produtivo. Mas, depois a USLE começou a ser usada para estimar a produção de sedimentos para projeto
de pequenos reservatórios. Como tem crescido a consciência dos problemas com a qualidade da água, ela tem
sido mais amplamente usada para estimar a produção de sedimentos (Foster, 1982).
A USLE é dada por:

A=RKLSCP (8.3)

onde A é a perda de solo calculada por unidade de área, em t/ha, R é um fator que representa o poder de erosão
da chuva e do escoamento, K é um fator de erodibilidade do solo, L é um fator de comprimento da rampa, S é
um fator de declividade da rampa, C é um fator de cobertura, uso e manejo, e P é um fator da prática de
conservação do solo.

111
É importante lembrar que esta equação é de regressão com unidades não homogêneas que requer
consideração especial quando a mesma é convertida de sua unidade original inglesa para unidades métricas,
observa-se que é uma equação simples. Esta equação foi baseada em 10.000 parcelas-ano de dados, e
eliminando algumas deficiências de equações anteriores, tal como a falta de um fator que represente o poder de
erosão da chuva.
Mas, existem três limitações da USLE que restringem sua aplicação em muitas análises de modelagem.
Primeiro, ela não é tencionada para estimar perda de solos de eventos isolados. Segundo, ela é uma equação
de erosão, e consequentemente ela não estima deposição (Wischmeier, 1976). Terceiro, ela não estima erosão
em ravinas ou em cursos d'água. A USLE é tencionada para estimar a média de perda de solo sobre um
período, i.e., média anual de perda de solo (Foster, 1982).
No Brasil, os trabalhos iniciais sobre a equação de perdas de solo foram desenvolvidos por Bertoni et
al. (1975) utilizando os dados existentes para as condições do Estado de São Paulo (Bertoni e Lombardi Neto,
1985). A partir de então, vários autores vêm tentando avaliar os fatores da equação para outras regiões.

8.2.2   A  USLE  Modificada  (MUSLE)  

A produção de sedimentos é algumas vezes estimada pela estimativa grosseira da erosão com a USLE
e então multiplicada por uma taxa de distribuição para se obter a produção total de sedimento (ASCE, 1975).
Mas é importante observar que tal método, quando aplicado em bacias pequenas, é frequentemente
inadequado, podendo levar a conclusões totalmente falsas. Assim, esta equação deveria ser usada apenas
como uma primeira aproximação.
Williams (1975) modificou a USLE para se obter uma estimativa da produção de sedimentos para
eventos individuais de escoamento de uma dada bacia substituindo o fator R da USLE, tornando-se desta forma
a USLE modificada ou MUSLE (Modified Universal Soil Loss Equation). Este fator R é dado por:

R w = 9,05 VQp 0,56 (8.4)

onde V é o volume do escoamento em m3 e Qp é o pico da taxa da vazão em m3/s.


Embora a MUSLE assuma que a deposição ocorra na bacia, ela apenas dá uma estimativa do total da
produção de sedimentos e não uma estimativa da produção de classes de partículas individuais (Foster, 1982).

8.2.3   Modelos  Fundamentais  

Os modelos fundamentais têm muitas vantagens sobre as equações empíricas, Foster (1982) listou seis
dessas vantagens:

a. Eles são geralmente baseados mais fisicamente e conseqüentemente podem ser mais exatamente
extrapolados;

112
b. Eles representam o processo mais exato;

c. Eles são mais exatos para eventos isolados;

d. Eles podem considerar áreas mais complexas;

e. Eles consideram diretamente os processos de deposição;

f. Eles podem considerar erosão e deposição no canal.

A importância dos princípios fundamentais no processo de erosão foi reconhecida no início dos anos 30
(Cook, 1936). Nos anos 40, Ellison (1947) apresentou uma análise extensiva de vários subprocessos de erosão
que foi uma base importante para modelagens mais recentes da erosão. Meyer e Wischmeier (1969)
formularizaram as análises de Ellison e outros conceitos num modelo. Eles e Negev (1967), quem adicionou um
componente da erosão ao Modelo Stanford Watershed Model, demonstraram o potencial de tais modelos para o
entendimento e estimação do comportamento da erosão do solo (Foster, 1982).
É importante observar que muitos modelos recentes não têm os valores dos parâmetros estabelecidos
para uma variedade de situações, os valores são assumidos ou são obtidos pela otimização dos dados
observados, o que pode tirar um pouco o seu sentido de modelo fundamental ou físico.
O Strathclyde Sediment Erosion Model é um outro modelo conjugado ao Stanford Watershed Model. Tal
modelo simula a erosão do solo por impacto das gotas de chuva e pelo escoamento superficial. Entretanto,
Fleming (1979) lembra que o mesmo não considera erosão por desmoronamento, erosão das margens dos
canais ou erosão pela ação do gelo, nem considera os transportes pelos cursos de água e deposição em
reservatório e nas áreas dos deltas de cursos d’águas (Galvão, 1990).

8.3   Ligando  um  Modelo  de  Erosão  a  um  Modelo  Hidrológico  

Um modelo hidrológico é requerido para dirigir o modelo de produção de sedimentos e erosão.


Usualmente o modelo é algum tipo de modelo cinemático distribuído que dá entradas hidráulico-hidrológicas nos
pontos requeridos no tempo e espaço. Os modelos hidrológicos podem ser formulações matemáticas para
simular o fenômeno natural hidrológico, sendo considerados como processos ou sistemas (Foster, 1982).
Observa-se que as soluções numéricas são normalmente baseadas no método das diferenças finitas
escrito para uma rede retangular, no método de características e no método de elementos finitos. Os métodos de
características e de elementos finitos são mais complexos para entender e programá-los do que os métodos de
diferenças finitas.
O próximo passo seria discretizar espacialmente a bacia a ser modelada. Qualquer modelo de
discretização é uma representação da bacia hidrográfica real. Vários esquemas para representar a bacia têm
sido usados. Foster (1982) cita como exemplo: o conceito de representação da bacia através de tubos (Onstad e
Foster, 1975); um sistema de planos e canais (Curtis, 1976); um sistema de superfícies, planos e canais

113
convergentes (Smith, 1977); e uma representação através de uma rede uniforme (Beasley, 1977). Cada um tem
sua própria vantagem, nenhum esquema em particular pode ser considerado o melhor para todas as situações.

8.4   Otimização  

Muitos modelos requerem calibração para obter os valores dos parâmetros. Vários esquemas de
otimização estão disponíveis, os quais devem ser usados para parâmetros formalmente otimizáveis (Overton e
Meadows, 1976; Pickup, 1977), mas diferentes esquemas de otimização algumas vezes levam a valores
diferentes. Também, como muitos modelos têm muitos graus de liberdade, os valores dos parâmetros
otimizados podem não ser os únicos valores; i.e., mais de um conjunto de valores poderiam dar os mesmos
resultados (Foster, 1982).
Os valores dos parâmetros obtidos pela otimização deveriam ser examinados para se tornarem
razoáveis. Dados de erosão e produção de sedimentos são freqüentemente “perturbados”, o que deve levar a
valores falsos. O uso de um registro de dados que seja muito pequeno ou de uma locação única deve também
guiar a valores pobres. Em alguns dados de erosão, depois de uma grande redução inicial na função objetivo
(e.g., soma dos quadrados dos desvios entre os valores observados e os estimados), grandes mudanças nos
valores dos parâmetros, algumas vezes insensatas, são necessárias para reduções finais na função objetivo. Em
tais casos, é melhor parar com os valores de parâmetros mais sensatos, pois terá um índice maior de
transferência para áreas não garantidas ou para práticas de manejos diferentes.
Quando uma relação funcional é selecionada para ser adequada aos dados observados, o modelador
deverá escolher uma função que seja “bem comportada” nos extremos, e que seja formulada para minimizar
respostas absurdas como a erosão aumentando à medida que a proteção do solo aumenta.
Vários métodos de otimização têm sido testados nos últimos anos na calibração de modelos
fundamentais de erosão, já que os mesmo possuem um grande número de parâmetros para serem
determinados, mas é difícil assegurar que estes métodos fornecem o ótimo global ao invés de apenas um bom
ótimo local; por isso, algoritmos robustos têm sido procurados e testados. Uns dos mais robustos algoritmos
usados hoje em dia são os algoritmos evolucionários, o que é um termo genérico usado para descrever sistemas
computacionais para resolver problemas (computer-based problem solving systems) que usam modelos
computacionais de processos evolucionários como elementos-chave em seus projetos e implementação. Uma
grande variedade de algoritmos evolucionários tem sido proposta, e.g., algoritmo genético, programação
evolucionária, estratégias de evolução, sistemas classificadores, e programação genética. Todos eles
compartilham um conceito básico comum de simular a evolução de estruturas individuais via processos de
seleção, mutação e reprodução. Sendo a evolução natural um processo de otimização baseado na população,
simular este processo em computadores resulta em técnicas de otimização que podem freqüentemente terem
melhores desempenhos do que métodos clássicos de otimização quando aplicados a problemas difíceis do
mundo real. Na calibração de parâmetros, o mais usado é o algoritmo genético, que é basicamente um modelo
de máquina inteligente (machine learning) que deriva seu comportamento de uma metáfora do processo de

114
evolução da natureza. Duan et al. (1992) desenvolveram um algoritmo genético para otimização de modelos não
fundamentais de chuva-vazão chamado Shuffled Complex Evolution (SCE-UA) que Diniz (1999) traduziu para o
português como “Algoritmo de Evolução de Complexos Misturados”, onde “misturado” estaria no sentido de
“embaralhado”. Santos et al. (1999) testaram o modelo na calibração de um modelo de erosão-vazão
fundamental e distribuído, concluindo que o mesmo mostrava um bom desempenho na sua tarefa de otimização.
O método SCE-UA aplica o esquema de procura simplex (Nelder e Mead, 1965) para a evolução de cada
comunidade; assim, para melhorar sua eficiência em termo de como atingir o mínimo global, novos passos de
evolução foram introduzidos no esquema de procura por Santos et al. (2003), assegurando que a área onde o
mínimo global se encontra seja encontrada rapidamente e com mais precisão.

8.5   O  Modelo  KINEROS  

Nesta seção será introduzido o modelo Kineros2, uma versão modificada do modelo Kineros –
Kinematic Runoff and Erosion Model (Woolhiser et al., 1990). Este é um modelo hidrossedimentológico, físico,
distribuído, orientado a evento, que simula os processos de infiltração, escoamento superficial e erosão do solo
numa bacia e nos seus reservatórios e açudes. A bacia hidrográfica é representada no modelo como uma
cascata de planos e canais, incluindo os elementos reservatórios/açudes. Segue-se, assim, uma descrição do
modelo com todos os seus processos, equações e parâmetros.

8.5.1   O  Modelo  de  Infiltração  do  Solo  

A formulação do modelo permite uma aproximação física para a redistribuição da água no solo,
incluindo a capacidade de recuperação de infiltração durante as estiagens, e é um modelo que determina o
percentual de infiltração depois desta estiagem. O modelo de infiltração descreve a capacidade de infiltração fc
como uma função da profundidade infiltrada I e necessita de quatro parâmetros básicos para descrever as
propriedades de infiltração, que são a condutividade hidráulica efetiva saturada Ks (m/s), a capilaridade integral
G (m), a porosidade f, e o índice de distribuição dos tamanhos dos poros l. O parâmetro Cv é opcional e
descreve a variação randômica no espaço das propriedades hidráulicas do solo. Também, existe uma variável
relacionada ao evento que é a saturação relativa inicial da camada superior do solo, igual a qi/f, no qual qi é a
umidade inicial do solo. O modelo geral para a infiltrabilidade fc (m/s) é dado, como uma função de profundidade
infiltrada I (m), por:

115
(8.5)

onde B é igual a (G + h)(θs – θi), combinando os efeitos da franja capilar, G, altura do escoamento, h (m), e
a capacidade de armazenamento unitária, Δθ = (θs – θi), no qual θs é a umidade de saturação do solo. O
parâmetro a representa o tipo de solo; i.e, próximo de 0 para areia, neste caso a Equação 8.5 se aproxima da
equação de Green-Ampt; e α é próximo de 1 para um solo franco misto, em tal caso a Equação 8.5 representa a
equação de infiltração de Smith-Parlange. Neste modelo existe uma redistribuição de água no solo, pois
considera que existindo uma estiagem prolongada durante o evento de chuva o solo deve secar. O método de
redistribuição/reinfiltração usado no modelo é descrito em Smith et al. (1993), e também em Corradini et al.
(1994).

8.5.2   Escoamento  Superficial  

O escoamento superficial é o resultado da interação da precipitação com a bacia hidrográfica. A


modelagem do escoamento superficial em bacias é baseada na resolução de equações diferenciais parciais, na
qual descrevem o fluxo e a profundidade do nível da água como sendo funções do tempo e do espaço. Estas
equações são formadas pela equação de continuidade e de momento; a equação de continuidade é descrita da
seguinte forma:

(8.6)

onde é a vazão (m3/s), é a área da seção transversal do canal (m2), é a entrada lateral do escoamento
(m2/s), é a coordenada espacial (m) e é a coordenada temporal (s). A equação de momento apresenta a
seguinte forma:

(8.7)

onde é a profundidade do escoamento (m), é a aceleração da gravidade, é a declividade do fundo do

canal e é a declividade da linha de energia, e as outras variáveis já foram mencionadas anteriormente.

8.5.3   Escoamento  no  Canal  

O escoamento superficial pode ser observado como um processo de escoamento uni-dimensional no


qual o fluxo é relacionado a uma área de armazenamento unitária por uma relação exponencial simples:

116
(8.8)

onde Q é a descarga por unidade de comprimento (m2/s), e h é o armazenamento de água por unidade de área
(m). Os parâmetros a e m são relacionados à declividade, à rugosidade e ao regime do escoamento, e são
dadas por a = S1/2/n e m = 5/3 onde S é a declividade, n é o coeficiente de rugosidade de Manning. A equação
de continuidade para um plano é dada por:

(8.9)

onde t é o tempo (s), x é a distância na direção da declividade (m), e q(x,t) é a taxa de vazão afluente lateral
(m/s). Para o escoamento superficial, a equação resultante é resolvida usando um método das diferenças finitas
de quatro-pontos. A equação de continuidade para um canal com vazão afluente lateral é dada por:

(8.10)

onde A é a área da seção transversal (m2), Q é descarga no canal (m3/s), e qc(x,t) é a rede de vazão afluente
por comprimento de canal (m2/s). A aproximação cinemática é incorporada na relação entre a descarga do canal
e a área da seção transversal tal que:

(8.11)

onde R é o raio hidráulico (m). Se for usada a equação de Manning, a = S1/2/n e m = 5/3. As equações
cinemáticas para canais são resolvidas por uma técnica implícita de quatro-pontos similar àquela para
escoamento superficial.

8.5.4   Erosão  nos  Planos  e  Canais  

A equação geral usada para descrever à dinâmica dos sedimentos em qualquer ponto ao longo do
escoamento superficial é uma equação de balanço de massa similar àquela para o escoamento cinemático da
água:

(8.12)

onde Cs é a concentração de sedimentos (m3/m3), Q é a taxa vazão (m3/s), A é a área da seção transversal do
escoamento (m2), e é a taxa de erosão do solo do leito (m2/s), qs é a taxa de entrada lateral de sedimentos nos
canais (m2/s). Para os planos, e é assumida como sendo compostas de dois principais componentes, i.e.,

117
produção de solo erodido pelos impactos das gotas de chuva sobre o solo descoberto, e erosão hidráulica (ou
deposição) devido à interação entre a força de cisalhamento da água no solo solto do leito e a tendência das
partículas de solo se sedimentarem sob a força da gravidade. A taxa total de erosão é um somatório da taxa de
erosão pelo impacto das gotas de chuva es e a taxa de erosão hidráulica eh:

(8.13)

A taxa de erosão pelo impacto da chuva é estimada a seguir:

(8.14)

no qual r é a chuva efetiva (m/s), cf é uma constante relacionada ao solo e às propriedades da superfície, e
é um fator de redução representando a redução na erosão causada pelo aumento da altura da água. O
parâmetro ch representa a efetividade do molhamento da água superficial, assumido como sendo igual a 364,0.
A taxa de erosão hidráulica (eh) é estimada como sendo linearmente dependente da diferença entre a
concentração de equilíbrio e a concentração de sedimento corrente e é dada por:

(8.15)

onde, Cm é a concentração na capacidade de transporte em equilíbrio, Cs = Cs(x,t) é a concentração de


sedimento local corrente, e cg é um coeficiente de taxa de transferência (s-1), que é calculado por:

se Cs ≤ Cm (erosão) ou se Cs > Cm (deposição) (8.16)

onde Co é o coeficiente de coesão do solo, e vs é a velocidade da queda da partícula (m/s). O modelo usa a
relação da capacidade de transporte de Engelund e Hansen (1967), e a velocidade da partícula é calculada pela
seguinte equação:

(8.17)

no qual g é a aceleração gravitacional (m/s2), rs é a densidade relativa do sedimento, igual a 2,65, d é o


diâmetro do sedimento (m), e CD é coeficiente de resistência da partícula. O coeficiente de resistência da
partícula é uma função do número de Reynolds:

(8.18)

118
onde Rn é o número de Reynolds, dado por Rn = vsd/n, no qual n é a viscosidade cinemática da água (m2/s). A
velocidade de uma partícula é resolvida nas equações (8.15), e (8.16) para vs. As equações de erosão citadas
são aplicadas para cada um dos cinco tamanhos de classes das partículas, que são usadas para descrever um
solo quando existe uma variação do tamanho das partículas. As equações (8.12–8.18) são resolvidas
numericamente para cada espaço de tempo usado nas equações de escoamento, e para cada classe de
tamanho de partícula.

8.5.5   Parâmetros  de  Entrada  do  Modelo  KINEROS2  

Parâmetros Globais

1. Units: sistema de unidades utilizado para todos os parâmetros (métrico ou inglês).


2. Clen: comprimento característico, cujo valor é dado pelo comprimento do maior canal ou da maior
cascata de planos.
3. Temperature: temperatura em graus Celsius ou Fahrenheit.
4. Diameters: diâmetros representativos das partículas do solo, em milímetros ou polegadas. Limite
máximo de cinco classes.
5. Densities: valores das massas específicas dos diâmetros das classes acima determinadas.

Parâmetros dos Planos

1. Identifier: número de identificação do plano.


2. Upstream: número de identificação do plano à montante (se houver).
3. Length: comprimento (metros ou pés).
4. Width: largura (metros ou pés).
5. Slope: declividade.
6. Manning: coeficiente de rugosidade de Manning.
7. Chezy: coeficiente de Chezy.
8. Relief: altura média do relevo da microtopografia (milímetros ou polegadas).
9. Spacing: distância média do relevo da microtopografia (metros ou pés).
10. Interception: interceptação vegetal (milímetros ou polegadas).
11. Canopy Cover: fração da superfície ocupada por vegetação.
12. Saturation: saturação inicial relativa do solo, razão entre a umidade inicial e a porosidade do solo.
13. Cv: coeficiente de variação da condutividade hidráulica saturada efetiva.
14. Ks: condutividade hidráulica saturada efetiva (mm/h ou polegadas/h).
15. G: valor efetivo do potencial de capilaridade (milímetros ou polegadas).
16. Distribution (λ): índice de distribuição do tamanho dos poros (índice de Brooks e Corey).
17. Porosity: porosidade do solo.

119
18. Rock: fração volumétrica de rochas.
19. Splash (cf): parâmetro que representa a erosão causada pelo impacto das gotas de chuva.
20. Cohesion (co): coeficiente de coesão do solo.
21. Fractions: fração de cada classe de diâmetros representativos do solo.

Parâmetros dos Canais

1. Upstream: número de identificação do elemento (plano ou canal) à montante.


2. Lateral: número de identificação dos planos que contribuem lateralmente para o canal.
3. Length: comprimento (metros ou pés).
4. Width: largura da base (metros ou pés).
5. Slope: declividade.
6. Manning: coeficiente de rugosidade de Manning.
7. Chezy: coeficiente de Chezy.
8. SS1, SS2: declividades laterais.
9. Saturation: saturação inicial relativa do solo, razão entre a umidade inicial e porosidade do solo.
10. Cv: coeficiente de variação da condutividade hidráulica saturada efetiva.
11. Ks: condutividade hidráulica saturada efetiva (mm/h ou polegadas/h).
12. G: valor efetivo do potencial de capilaridade (milímetros ou polegadas).
13. Distribution (λ): índice de distribuição do tamanho dos poros (índice de Brooks e Corey).
14. Porosity: porosidade do solo.
15. Rock: fração volumétrica de rochas.
16. Cohesion (co): coeficiente de coesão do solo.
17. Fractions: fração de cada classe de diâmetros representativos do solo.

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9  
123
Operação  de  Açudes  e  
Reservatórios  
Carlos  de  Oliveira  Galvão  
Klécia  Forte  de  Oliveira  

9.1   O  Balanço  Hídrico  do  Reservatório  

O balanço hídrico de um reservatório de armazenamento de água pode ser representado como:

St+1 = St + Pt + Qt – Et – Rt
onde:

t é o intervalo de simulação atual e t+1 é o próximo intervalo de simulação


St é o volume armazenado no reservatório
Pt é o volume de água precipitado sobre o lago do reservatório
Qt é a vazão afluente ao reservatório
Et é o volume de água perdido por evaporação e infiltração do reservatório
Rt é o volume retirado do reservatório para consumo
Restrições: o volume máximo (ou a capacidade) K e o volume mínimo (ou o volume morto) Smin do
reservatório em cada intervalo de simulação t:
Smin ≤ St ≤ K

9.2   Modelos  de  Simulação  para  Operação  de  Reservatórios  

Estes modelos simulam computacionalmente o balanço hídrico do(s) reservatório(s), de modo a auxiliar
na tomada de decisões sobre sua operação.

9.2.1   Componentes  dos  Modelos  

Os principais componentes dos modelos de simulação para operação de reservatórios são:

124
• Variáveis de entrada: são as quantidades hidrológicas (vazões afluentes, evaporação do lago), as
demandas, os limites operacionais dos níveis do reservatório, etc.

• Variáveis de estado: variam durante a simulação, como os volumes armazenados nos reservatórios.

• Variáveis de saída: respostas da simulação, como as vazões liberadas para atendimento de uma
certa demanda ou a escassez do sistema.

• Parâmetros: variáveis que caracterizam o sistema, como o volume mínimo e a curva cota-área-volume
do reservatório.

• Intervalo de tempo de simulação: intervalos mensais para estudos de conservação e intervalos diários
para controle de cheias são os mais utilizados.

9.2.2   Políticas  de  Operação  

Os modelos de simulação para operação de reservatórios se fundamentam em políticas de operação


que podem incluir um ou mais dos seguintes componentes:

• Níveis e volumes metas: definidos os níveis desejados para o reservatório, o operador tenta mantê-los
enquanto satisfaz as demandas. Esta política é conhecida como curva-guia.

• Curvas-guia condicionadas: as regras operacionais são função não só das curvas-guia como das
previsões de vazões afluentes.

• Zoneamento múltiplo de níveis: várias zonas de armazenamento são definidas e a cada uma
corresponde um critério de liberação de água para consumo. Os reservatórios têm seus volumes
armazenados alocados em faixas horizontais imaginárias, uma das quais é delimitada superiormente
pelo nível de alerta. A política permite definir uma escala de prioridades de armazenamento para cada
zona estabelecida (Figura 9.1).

9.3   O  Nível  de  Alerta  

O manejo de reservatórios de abastecimento de água requer um balanço adequado entre oferta e


demanda, de modo que os usuários sofram reduções mínimas de atendimento em caso de escassez hidrológica.
O conceito de nível de alerta em reservatórios é um dos mais empregados:
quando o volume acumulado no reservatório estiver abaixo do seu "nível ou
volume de alerta", passa-se a racionar água, atendendo apenas uma parcela da
demanda total prevista.

o objetivo implícito no conceito de nível de alerta é o de proporcionar ao


sistema, sempre, o atendimento de alguma demanda, evitando o colapso total.

125
Apesar de haver diversos instrumentos que apoiam ou embasam a definição de um nível de alerta,
como os modelos de simulação ou otimização, o gerente ou hidrólogo responsável pela operação do sistema é
quem toma a decisão final, decisão esta que não está indicada diretamente nos resultados numéricos
apresentados pelos modelos. Um bom conhecimento do comportamento hidrológico do sistema, dos
procedimentos operacionais do reservatório, do comportamento dos usuários em caso de racionamento e dos
modelos utilizados como apoio é requisito mínimo para a tomada de decisão.

Figura 9.1 - Zoneamento múltiplo de níveis de um reservatório.

O nível de alerta pode ser definido através de modelos de simulação e/ou otimização da operação do
reservatório, utilizando séries históricas de vazões afluentes ao reservatório e de evaporação sobre o lago e
demandas de água atuais. O nível de alerta selecionado é aquele que melhor satisfaça critérios e restrições de
boa operação, como: menor escassez de água ao longo do horizonte temporal simulado, maior volume mínimo
armazenado neste horizonte, melhores índices de qualidade da água armazenada, menores volumes
evaporados, maiores benefícios líquidos pelo uso da água, menores custos decorrentes de eventuais déficits,
entre outros. Alguns destes critérios são conflitantes e uma solução de equilíbrio deve ser encontrada.
Não apenas um, mas vários níveis de alerta podem ser adotados. A cada um é atribuído um nível de
racionamento de água, ou seja, de redução do atendimento às demandas desejadas. Em geral, aos níveis de
alerta superiores são associados racionamentos mais brandos, gradativamente aumentados à medida que o
volume armazenado no reservatório diminui e os níveis de alerta inferiores são atingidos.

9.4   Exemplo:  Níveis  de  Alerta  para  o  Reservatório  Gramame-­


Mamuaba  

126
O reservatório Gramame-Mamuaba abastece a região metropolitana de João Pessoa, capital do Estado
da Paraíba. Reproduz-se, a seguir, o estudo realizado para determinação dos seus volumes de alerta (Ribeiro et
al., 1995). Este exemplo discute alguns aspectos que surgem no momento de operacionalmente tomar a decisão
quanto ao nível de alerta a ser adotado. É enfocado o caso dos reservatórios Gramame e Mamuaba, sistema
que abastece a região metropolitana de João Pessoa.

9.4.1   O  Sistema  Gramame-­Mamuaba  

Os reservatórios que compõem o sistema Gramame-Mamuaba, com capacidade máxima de

acumulação de 56,9 milhões de m3, foram construídos para reforçar o abastecimento de água da região
metropolitana de João Pessoa. A operação do sistema teve início em dezembro de 1990 e já é alvo de vários
conflitos de uso, seja a montante, seja a jusante das mesmas. A montante, usuários requerem maiores volumes
de água para viabilizar projetos de irrigação; a jusante há conflitos no sentido de compatibilizar a preservação
dos ecossistemas no trecho de rio compreendido entre as barragens e o Oceano Atlântico, com descargas de
efluentes de indústrias instaladas nas margens do rio. As barragens regularizam o rio Gramame, do qual, cerca
de 8 km a jusante, são alimentadas as estações de tratamento de água de Gramame e de Marés. As vazões
desejadas pelos principais usuários do sistema encontram-se na Tabela 9.1 (Diniz, 1994).

Tabela 9.1 - Demandas para o sistema Gramame-Mamuaba.


Usuário Demanda (l/s)
ETA Gramame 1700
ETA Marés 570
Manutenção do rio Gramame 300
Irrigação a montante 250
Total 2820

Em maio de 1993 o Nordeste, inclusive sua faixa úmida litorânea leste, onde situa-se o Gramame-
Mamuaba, passava por uma seca acentuada. Tal situação levou à adoção de medidas preventivas emergenciais
na operação do sistema, prolongando o seu horizonte de capacidade de abastecimento de quatro meses para
um ano (Diniz, 1993). Na época iniciou-se estudos conjuntos entre a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba,
responsável pela administração dos reservatórios, e a Universidade Federal da Paraíba para definição de níveis
de alerta para o sistema.

9.4.2   A  Definição  dos  Níveis  de  Alerta  

Na definição dos níveis de alerta, além da experiência do hidrólogo responsável pelo sistema, utilizou-
se ferramentas de simulação e otimização de sistemas de reservatórios. A vantagem de um modelo de
simulação, quando comparado com um modelo de otimização, é que a simulação, apesar de não garantir uma
solução ótima, oferece uma riqueza de respostas sobre o comportamento do sistema que suplanta em muito

127
aquelas fornecidas pela otimização. As idéias inerentes ao modelo de simulação podem ser entendidas mais
facilmente que as idéias no modelo de otimização (Loucks e Sigvaldson, 1982). Por outro lado, se o sistema e os
objetivos da operação podem ser razoavelmente representados em um esquema de otimização, o modelo provê
diretamente a "melhor" estratégia, evitando cansativas simulações de alternativas de operação. No caso do
Gramame-Mamuaba tentou-se tirar proveito dos dois métodos. Dispunha-se de 15 anos de dados de vazões
médias mensais (período 1972/86) e adotou-se os cenários de uso da água mostrados na Tabela 9.2.

Tabela 9.2 - Cenários de demanda admitidos (em l/s).


Cenário ETA Gramame ETA Marés Rio Irrigação Total
1 1700 570 300 250 2820
2 1700 570 300 155 2730
3 1700 300 155 2160
4 1700 85 75 1860
5 1700 1700

9.4.3   Simulação  

Para a simulação foi utilizado o modelo HEC-3 (HEC, 1976). A política operacional adotada no HEC-3 é
baseada no zoneamento múltiplo dos níveis. De acordo com esta técnica, os reservatórios têm seus volumes
armazenados alocados em faixas horizontais imaginárias, uma das quais, a "buffer zone", é delimitada
superiormente pelo nível de alerta. A política permite definir uma escala de prioridades de armazenamento para
cada zona estabelecida.
Várias simulações foram feitas considerando individualmente cada cenário de demanda. Nestas
simulações objetivou-se encontrar aquele nível de alerta associado a uma certa demanda (parcela da demanda
total simulada) para a qual houvesse garantia integral do seu atendimento. Para os anos ditos "normais", onde
as afluências ao sistema provocaram extravasamento durante a estação chuvosa, o sistema é capaz de atender
integralmente, inclusive, a maior demanda solicitada. Como a série de vazões afluentes apresenta valores
bastante críticos para o período 1980/84, esta é a época na qual se concentra toda a escassez do sistema
quando simulado com as demandas de 2820 l/s e 2730 l/s.
Para o cenário 1, demanda de 2820 l/s, as simulações mostram, por exemplo, que quando o sistema

atinge o volume de 32 milhões de m3 (volume de alerta) apenas deve-se atender a 2000 l/s. Este racionamento
garante o suprimento de 2000 l/s mesmo nos períodos mais críticos da série utilizada. Se o sistema for operado
atendendo sempre a demanda de 2820 l/s, ou seja, sem o nível de alerta, ocorre o colapso e em determinado
momento não conseguirá atender sequer a demanda de 1700 l/s (ETA Gramame). Trabalhando-se com a

demanda de 2730 l/s (cenário 2), quando o sistema alcançar 28,65 milhões de m3, deve-se reduzir o
atendimento para 2050 l/s. Para o cenário 3 (demanda de 2160 l/s) a escassez apresentada é muito pequena.
Para os dois últimos cenários (1860 l/s e 1700 l/s) o sistema atende integralmente as demandas, inclusive no

128
período mais crítico referenciado anteriormente. Este resultado é coerente com o valor da demanda de garantia
que o sistema atende ao nível de 100%, cujo valor encontrado é de 2130 l/s.
A limitação do HEC-3 é que apenas um nível de alerta pode ser estabelecido. Construiu-se então um
pequeno módulo de simulação adicional para estabelecer outro nível de alerta, adotando a mesma sistemática
de simulação. Estes níveis de alerta foram admitidos constantes ao longo do ano, porque é praticamente inviável
determiná-los por tentativa e erro se variáveis mês a mês. A análise para a adoção de dois níveis de alerta foi
feita apenas para a situação de demanda total igual a 2730 l/s, pois este é o cenário que mais se aproxima da
situação atual da bacia. Para este cenário observou-se que podia-se garantir o atendimento integral da demanda

de 2730 l/s até que o sistema alcançasse o volume de 28,65 milhões m3, assumido como o primeiro nível de
alerta. Com esta situação simulou-se novamente o sistema com o objetivo de encontrar o segundo nível de

alerta. Os resultados mostraram que até o volume de 17,60 milhões m3 (segundo nível de alerta) atende-se
integralmente 2160 l/s e para níveis mais baixos restringe-se o atendimento para 1850 l/s. A Figura 9.2, a seguir,
mostra o zoneamento dos reservatórios, definido pelos dois níveis de alerta.

Figura 9.2 – Zoneamento e níveis de alerta obtidos à partir da simulação.

9.4.4   Otimização  

Na otimização foi utilizado um modelo de programação dinâmica (PD) determinística regressiva,


apresentado por Galvão et al. (1994), minimizando uma função objetivo de escassez no sistema (diferença entre
demanda solicitada e demanda atendida). O resultado da PD é uma tabela indicando os valores adequados para
liberações, mês a mês, representando uma média das liberações ótimas encontradas para cada ano da série de
vazões afluentes (Sargent, 1979).
Na simulação observou-se que o que determina o nível de alerta são os anos críticos. Comparou-se
então os resultados da otimização para várias séries de vazões: (A) a série de 15 anos completa (1972/86), (B)
um período de 3 anos "secos" contínuos desta série (1975/77), (C) um período de 5 anos "secos" contínuos
desta série (1980/84), (D) todos os 5 anos "normais" ou "úmidos" agrupados como se formassem uma única
série (1972/74, 1978/79, 1985/86) e (E) as médias mensais. As Figuras 9.3 a 9.7 mostram o zoneamento

129
estabelecido pelo algoritmo de PD para cada caso acima, indicando também os dois níveis de alerta definidos a
partir da simulação.

9.4.5   Discussão  

Na simulação notou-se que, como os reservatórios sempre "sangram" em anos "normais", a simulação
da operação para situação de escassez ficava sempre mascarada pelos anos úmidos. Esta é uma situação
bastante diferente do semi-árido, onde anos "normais" podem ou não provocar o enchimento total do
reservatório, onde uma seqüência de vários anos é muito importante para a simulação (Ribeiro et al., 1991). Isto
parece claro também nos resultados da PD. Analisando a Figura 9.3, caso (A), pode-se dizer que o segundo

nível de alerta obtido na simulação seria desnecessário, mas o primeiro deveria subir para 35 ou 40 milhões m3.
Para (B), Figura 9.4, vê-se que a melhor estratégia para lidar com 3 anos consecutivos relativamente "secos"
seria menos severa que a estabelecida com simulação. Para lidar com 5 anos "secos" (caso (C), Figura 9.5)

seria necessário subir o primeiro nível de alerta para cerca de 45 ou 50 milhões m3. A análise conjunta de (B) e
(C) parece mostrar que os resultados da simulação e da PD apontam para os dois níveis de alerta estabelecidos
a partir da simulação, que minimizariam a escassez para períodos de seca mais prolongados (entre 3 e 5 anos
nos níveis de vazões observadas nas séries utilizadas). Os casos (D) e (E), mostrados nas Figuras 9.6 e 9.7,
parecem apenas reafirmar os resultados já obtidos anteriormente de disponibilidade hídrica e condições dos
reservatórios de atendimento às demandas atuais em situação de normalidade.

Figura 9.3 – Zoneamento obtidos por otimização: Figura 9.4 – Zoneamento obtidos por otimização:
caso (A) – série completa caso (B) – 3 anos secos

Figura 9.5– Zoneamento obtidos por otimização: Figura 9.6 – Zoneamento obtidos por otimização:
caso (C) – 5 anos secos. caso (D) – anos úmidos.

130
Figura 9.7– Zoneamento obtidos por otimização:
caso (E) – vazões médias mensais.

9.4.6   Conclusões  

As ferramentas de simulação e otimização utilizadas para o planejamento da operação do sistema


Gramame-Mamuaba apresentaram resultados coerentes e se mostraram instrumentos complementares para a
definição do nível de alerta. A programação dinâmica fornece diretamente as liberações mensais, enquanto a
simulação propicia uma sensibilidade maior do comportamento do sistema.

9.5   Planejamento  da  Operação  Versus  Operação  em  Tempo  Real  

A definição dos níveis de alerta é realizada na fase de planejamento da operação do reservatório. São,
portanto, valores de referência para a operação, definidos a priori e reavaliados periodicamente, sempre que o
cenário base de operação se altere, seja por mudança nas demandas, ou por modificação da morfometria do
lago, ou pela aquisição de novos valores de variáveis hidrológicas.
Na operação em tempo real, uma vez que o reservatório encontre-se próximo da zona de alerta, o
gerente deve iniciar procedimentos de gerenciamento da água que proporcionem os menores custos
decorrentes de racionamento. O valor de referência estabelecido para aquele nível de alerta deve ser reavaliado
em função do contexto operacional atual, que inclui, entre outros fatores, o estado psicológico da população e a
previsão climática e hidrológica. Aqui, a simulação do comportamento do reservatório para os próximos meses,
sob várias estratégias operacionais (níveis de racionamento) e vários cenários hidrológicos, pode ser um
importante instrumento para apoio à tomada de decisão.

9.6   Previsão  Meteorológica  e  Operação  de  Reservatórios  

Recentemente, significativo progresso tem sido alcançado no desenvolvimento de sistemas de previsão


meteorológica de longo prazo (uma semana a alguns meses de antecedência). Programas de aquisição de
dados atmosféricos e oceânicos têm fornecido informações inéditas para construção de novas hipóteses sobre
os mecanismos climáticos. O fenômeno El Niño – Oscilação Sul e as conexões climáticas em escala global
passaram a ser melhor caracterizados. Novos modelos de previsão destes processos foram propostos.
Supercomputadores permitem avaliar os modelos de circulação global, utilizando as novas bases de dados, e

131
sua capacidade de reproduzir o clima atual e um clima futuro sob o impacto do efeito estufa. A modelagem
hidrológica distribuída e os sistemas de geoprocessamento contribuem para a integração de dados.
Nas regiões tropicais, os mecanismos oceânicos e atmosféricos que determinam a maior parte da
variabilidade climática interanual já estão razoavelmente caracterizados, dando origem a diversos métodos de
previsão de longo prazo da precipitação. Algumas regiões têm recebido maior atenção dos pesquisadores, por
apresentarem maior previsibilidade ou conexões com a variabilidade climática em outras regiões do planeta.
Entre estas regiões estão o Nordeste do Brasil, o Sahel, o leste e o sul da África, partes da Índia e da Austrália.
Os resultados para elas obtidos são importantes não apenas para aplicação local, mas também funcionam como
referência comparativa no contexto amplo da pesquisa sobre variabilidade climática global.
Esses estudos usualmente tentam explicar e prever o comportamento da precipitação, principal variável
característica do regime climático, nas principais estações chuvosas do ano, normalmente bem demarcadas nas
regiões tropicais. À precipitação total acumulada na estação chuvosa (“precipitação sazonal”) têm-se atribuído
influência de fatores atmosféricos e oceânicos de larga escala, como variações na temperatura dos oceanos.
Esse tipo de previsão tem sido denominado de “sazonal”, “climática”, “climática de curto prazo”, “da variabilidade
interanual”, “de longo prazo”. Métodos estatísticos ou assemelhados (regressão, métodos multivariados, análise
de periodicidades, redes neurais, entre outros), dinâmicos (modelos de circulação global atmosférica), ou
combinação deles, têm sido empregados nesta tarefa. A maioria produz previsões entre um e três meses antes
da estação chuvosa, que se referem a todo o período da estação – três ou quatro meses – e a toda uma região.
As previsões podem eventualmente ser realizadas para escalas temporal e espacial mais detalhadas, ou com
maior antecedência, mas a maioria dos autores reconhece que nestes casos se verifica grande perda da
capacidade preditiva.
Os métodos para aproveitamento, em recursos hídricos, desses avanços na previsão de precipitação
sazonal, ao contrário da previsão de curto prazo, ainda não estão consolidados. A principal razão é a diferença
de escalas, espacial e temporal, entre os processos que controlam o clima no horizonte sazonal e os processos
hidrológicos relevantes ao manejo de recursos hídricos. Outra limitação é a não disponibilidade, na maioria das
regiões tropicais, de registros climáticos e hidrológicos de duração, densidade espacial e qualidade adequadas.
O Nordeste do Brasil é uma região cuja precipitação sazonal já está sendo prevista de modo
operacional. A partir dos meses que antecedem a estação chuvosa, meteorologistas pertencentes aos centros
de previsão da região reúnem-se regularmente para avaliar o quadro climático. Previsões produzidas em
diversos centros de pesquisa nacionais e internacionais, através de métodos estatísticos e modelos de
circulação global, são analisadas e consolidadas em um prognóstico de consenso.

9.6.1  Previsão  Climática  no  Nordeste  

132
Regime Climático do Nordeste

A variabilidade espacial da precipitação no Nordeste do Brasil (NEB), quando considerada em maior


escala, delimita duas regiões, a da zona da mata e a do semi-árido, com áreas de transição (o agreste) e
variações dentro do semi-árido (como o seco Cariri Paraibano, ou o úmido Cariri Cearense), em geral definidas
por acidentes topográficos, como mostrado na Figura X.8. Quando a variabilidade é considerada em menor
escala mostra diferenças (sem padrão definido) entre a ocorrência de precipitação em áreas relativamente
próximas espacialmente. Esta variabilidade em pequena escala é determinada pela natureza convectiva das
precipitações.
A região tem sido dividida em quatro sub-regiões, para fins de análise climática sazonal: o norte, o
leste, o sul do NEB e a pré-Amazônia (Figura 9.8). Estas sub-regiões apresentam regimes climáticos distintos,
condicionados por diferentes fatores atmosféricos. O “norte do Nordeste” (norte-NEB) inclui a região semi-árida
dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e norte da Bahia e é a sub-
região que dispõe de mais estudos relacionados à influência da circulação atmosférica e oceânica sobre a
variabilidade climática da região, possui maior número de reservatórios construídos, apresenta maior
variabilidade interanual de precipitação e maior escassez hídrica, e sua precipitação sazonal tem apresentado
maior previsibilidade. O “leste do Nordeste” (leste-NEB) inclui a faixa úmida litorânea dos estados do Rio Grande
do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e da Bahia. É a área de maior atividade econômica do
Nordeste, abriga cerca de 30% da sua população, e também apresenta grande variabilidade interanual da
precipitação. O leste-NEB tem sido menos estudado, mas alguns estudos já indicam alguma previsibilidade para
sua precipitação sazonal. As sub-regiões “sul do Nordeste” (sul-NEB) e “pré-Amazônia” são mais úmidas,
carecem de estudos e poucos esforços têm sido feitos para melhor caracterizar a previsibilidade sazonal.

Figura 9.8. Sub-regiões climáticas do Nordeste do Brasil (adaptada de Nobre e Molion, 1988, e Cadier, 1994).

133
Mecanismos de Geração de Precipitação

No leste-NEB, as chuvas de outono e inverno (abril-julho) são responsáveis por 60% da precipitação
média anual, enquanto que os meses mais secos são os de setembro a dezembro, que respondem por apenas
10% da precipitação média anual. As frentes frias e os ventos que sopram de sudeste perpendicularmente à
costa, quando convergem com a brisa terrestre que sopra do continente para o oceano, são apontados como o
principal mecanismo gerador de precipitação na região. Durante o período abril-julho, essa convergência atinge
o seu máximo, causando o pico de precipitação. A variabilidade interanual seria causada principalmente pela alta
subtropical no Atlântico Sul, que modula a intensidade e direção dos ventos ao longo da costa; o ENOS
apresenta baixa correlação estatística com essa variabilidade, apesar de que anos de El Niño intenso, como
1983 e 1993, apresentaram também baixa pluviosidade no leste-NEB. Brito et al. (1994) atribuem a conexões de
maior escala a causa da variabilidade climática na região, e identificam uma “zona de convergência secundária”,
que se estende da costa leste do NEB até o meridiano de Greenwich, como um outro fator determinante da
pluviosidade. Esses autores também consideram relevante a influência do ENOS, e incluem as anomalias de
temperaturas da superfície do mar (TSM) no Pacífico equatorial no seu modelo de previsão para o leste-NEB.
No norte-NEB, as chuvas se iniciam eventualmente a partir de outubro, na chamada “pré-estação”,
culminando com uma estação chuvosa concentrada entre fevereiro e maio, quando a zona de convergência
intertropical (ZCIT) no Atlântico Tropical atinge sua posição mais ao sul, próxima do Nordeste. Ao longo do ano,
a TSM é maior no Atlântico Norte, contrastando com temperaturas menores ao sul do equador. Na última parte
do verão austral, porém, a TSM no Atlântico Sul se torna mais alta, o que provoca aumento de instabilidade e
possivelmente também de umidade no fluxo da camada limite atmosférica para o interior do Nordeste,
provocando as chuvas. Nos anos de seca, a ZCIT se localiza anormalmente mais ao norte, os ventos do
Atlântico Norte são reduzidos e o fluxo no sentido sul-norte através do equador é acelerado; as águas do
Atlântico Norte se mantêm aquecidas e as do Atlântico Sul frias. O sistema acoplado oceano-atmosfera no
Atlântico parece ser o principal fator condicionador dos anos secos ou úmidos na região: o padrão de TSM (que
é afetado pelo campo de ventos superficiais) exerce um controle hidrostático na baixa atmosfera, de modo que o
gradiente de temperatura norte-sul leva a um aumento do gradiente de pressão ao sul, inibindo a precipitação.
Os anos secos tendem a coincidir com a fase baixa do ENOS (quando ocorre aquecimento anormal da TSM no
Pacífico Equatorial), porque nesta situação em geral a ZCIT tende a ficar mais ao norte. Nos anos úmidos o
comportamento tende a ser o inverso. Estas hipóteses sobre as causas das anomalias climáticas no norte-NEB
são hoje as mais aceitas. O relevo da região provoca efeitos orográficos significativos sobre a distribuição
espacial da precipitação, que se somam aos efeitos de circulação global descritos acima.

Previsão de Precipitação Sazonal

Baseados nessas hipóteses, diversos métodos de previsão da variabilidade interanual da precipitação


na região têm sido propostos, utilizando diferentes abordagens: (i) modelos univariados de modelagem de séries

134
temporais; (ii) regressão múltipla e outros modelos multivariados, utilizando como preditores parâmetros
atmosféricos, oceânicos ou a precipitação na pré-estação chuvosa; (iii) Modelos de Circulação Global (MCGs); e
(iv) análise conceitual subjetiva de padrões das principais variáveis atmosféricas e oceânicas sobre as bacias
dos oceanos Pacífico e Atlântico tropicais.
Quanto à antecedência da previsão, alguns métodos a fornecem com até alguns anos antes, mas com
baixa precisão (caso dos modelos univariados de séries temporais). A maioria deles produz previsões entre um e
três meses antes da estação chuvosa e se referem a todo o período da estação – três ou quatro meses – e a
toda a região (o norte-NEB – com cerca de 500 000 km2). Para o norte-NEB, a previsão é anunciada pela
primeira vez em dezembro ou janeiro, para o período fevereiro-maio, a partir da situação dos preditores naquele
momento, e a seguir atualizada mensalmente até o início de fevereiro.
A maioria desses trabalhos não leva em conta a variabilidade espacial e temporal intra-sazonal da
precipitação na região, pois usam um único índice para todo o período chuvoso e para toda a região. Hastenrath
(1998), por exemplo, afirma que a previsibilidade é muito baixa para regiões de pequenas dimensões (menores
que aproximadamente 500 km por 500 km) e para escala temporal menor que a da estação chuvosa. Como
medida de comparação, a bacia do Piancó, com 4550 km2, na Paraíba, ocupa aproximadamente um retângulo
de 100 km x 70 km.
Atualmente, previsões são produzidas rotineiramente pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos
Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – CPTEC/INPE, pelo Hadley Centre for Climate
Prediction and Research, do serviço meteorológico britânico, e pela Universidade de Wisconsin, nos Estados
Unidos. Essas previsões e o estado dos oceanos e da atmosfera em larga escala são analisados por
meteorologistas das agências de previsão do Nordeste (os “núcleos estaduais de meteorologia e recursos
hídricos do Nordeste”), que elaboram um prognóstico de consenso (a previsão subjetiva referida anteriormente).
Pensando em utilização em manejo de recursos hídricos, esses métodos podem mais adequadamente
ser classificados segundo o tipo de informação que fornecem:

1. Categorizados. Estes métodos dividem a amplitude de variabilidade da precipitação sazonal em


várias faixas, ou categorias, e emitem a previsão prescrevendo em qual (ou quais) categoria há maior
probabilidade de ocorrência do total esperado de precipitação para a estação chuvosa. Este artifício
na produção e divulgação da informação é utilizado em virtude da alta incerteza associada às
previsões e é muito empregado atualmente para várias regiões do mundo. Na previsão para o norte-
NEB a maior parte dos métodos usa cinco categorias, mas para o leste-NEB, que apresenta
previsibilidade mais baixa, três categorias têm sido empregadas. Dentre eles dois sub-grupos podem
ser ainda identificados:

1.1. Categorizados probabilísticos. São métodos que prescrevem probabilidades de ocorrência


às categorias de totais precipitados.

135
1.2. Categorizados não probabilísticos. Neste caso, a previsão prescreve a categoria de totais
precipitados mais provável de acontecer, mas não fornece a probabilidade
quantitativamente.

2. Pontuais. Este grupo de métodos fornece os resultados como um valor numérico, associado ou não a
uma medida de variabilidade:

2.1. Pontuais probabilísticos: métodos que fornecem previsões pontuais associadas à sua
variância esperada (ou intervalos de confiança), como os métodos de regressão.

2.2. Pontuais não probabilísticos: métodos que fornecem previsões pontuais sem fornecer uma
medida de incerteza, como as redes neurais.

As previsões subjetivas dos núcleos de meteorologia e recursos hídricos do NEB passaram, a partir de
1999, a adquirir características probabilísticas, quando às categorias foram atribuídas probabilidades de
ocorrência subjetivamente pelo previsor.

Aplicação da Previsão a Operação de Reservatórios

Pouco se utiliza previsões de vazões e/ou volumes escoados sazonais diretamente no planejamento do
uso da água nos reservatórios no Nordeste. Assim, para a maior parte dos reservatórios a estratégia operacional
é estabelecida através de modelos de simulação e/ou otimização, alimentados por séries mensais de vazões
afluentes, históricas ou sintéticas. As estratégias assim estabelecidas são indicadores de longo prazo para a
operação, que podem ser ajustadas ano a ano em função do cenário hidrometeorológico.
A prática corrente na região, executada pelos núcleos estaduais de meteorologia e recursos hídricos do
Nordeste é de disseminar aos usuários, a partir da pré-estação chuvosa, a previsão de precipitação. Para o caso
do abastecimento de água humano, simulam-se cenários hidrológicos possíveis para os reservatórios,
considerando o prognóstico da previsão, identificando riscos de colapso no armazenamento e suprimento
hídrico. Esta prática tem-se mostrado de muita valia e é permanentemente aperfeiçoada, principalmente na
comunicação da informação aos diversos grupos usuários e aos tomadores de decisão no nível governamental.

9.6.2   Uso  da  Previsão  de  Precipitação  para  Prever  o  Armazenamento  em  
Reservatórios  

A precipitação sazonal é uma variável que determina o volume escoado sazonal numa bacia
hidrográfica, a recarga dos seus aqüíferos durante a estação chuvosa, o déficit hídrico (e consequentemente a
necessidade de irrigação) de culturas dependentes de chuva, ou as decisões de gerenciamento de um
reservatório. A um registro histórico de precipitação sazonal correspondem registros (ou valores estimados) dele

136
derivados, como de volume escoado, de volume armazenado no aqüífero, de déficit hídrico para culturas
dependentes de chuva ou de liberações para os diversos usuários de um reservatório.
Nos métodos de previsão de precipitação mais difundidos, a previsão é apresentada em três ou cinco
categorias. Estas categorias podem ser definidas como equiprováveis (cada uma tendo ocorrido com 20% de
freqüência, no caso de cinco) sobre um período de referência no registro histórico. Neste caso, uma análise de
freqüência da série anual de precipitação sazonal define os limites das cinco categorias. Podem também ser
definidas com base em outros critérios e são fornecidas pelo órgão previsor. A previsão da precipitação estima
probabilidades de ocorrência para cada uma das cinco categorias, para a próxima estação chuvosa.
Esse formato é interessante por apresentar, explicitamente, uma medida da incerteza associada à
previsão. Por outro lado, os modelos usuais de simulação e previsão das variáveis derivadas, como vazão ou
volumes armazenados em reservatórios, não utilizam entradas nesse formato. Dentre as alternativas discutidas
recentemente para resolver este problema os métodos de reamostragem estatística parecem adequados.
Com a reamostragem, cria-se uma série sintética de precipitação sazonal e séries das outras variáveis
derivadas, repetindo registros da série histórica de tal modo que a nova série obedeça às probabilidades de
ocorrência estabelecidas pela previsão de precipitação. Assim, os registros pertencentes às categorias que
tiveram maior probabilidade na previsão estarão presentes, na série sintética, em maior número que os registros
pertencentes às categorias com menor probabilidade de ocorrência prevista. A previsão da variável derivada,
também em forma categorizada probabilística, é obtida através da análise de freqüência da sua série sintética.
Aqui, utiliza-se o método de reamostragem proposto por Croley (1996, 2000). Seja um método de
previsão que forneça o prognóstico como probabilidades associadas, por exemplo, a cinco categorias (intervalos
de precipitação) pré-definidas como equiprováveis, tendo como referência os registros climatológicos históricos.
A previsão especifica as seguintes probabilidades para a precipitação sazonal:

(9.1)

onde Q = precipitação sazonal; θ = quantis de probabilidade γ de ocorrência para a estação; e a, b, c, d, e =


γ

probabilidades da previsão.
Uma série sintética de dados suficientemente grande pode ser construída, com freqüências relativas
que satisfaçam à equação (9.1), duplicando os anos no registro histórico, tal que:

; ; ; ;

137
onde, N é o tamanho da série sintética, NA é o número de anos na série sintética com Q ≤ θ0.2, NB é o número de
anos com θ0.2 < Q ≤ θ0.4, etc. A série histórica de precipitação de n anos tem nA anos com Q ≤ θ0.2, nB anos com
θ0.2 < Q ≤ θ0.4, etc. A série sintética é construída duplicando cada um dos nA anos NA/nA vezes, cada um dos nB
anos NB/nB vezes, e assim por diante. Cada ano i (i = 1, ..., n) é duplicado ri vezes. Com a escolha adequada dos
números de repetições (r1, r2, ..., rn), é possível forçar a freqüência relativa de qualquer grupo arbitrário de
cenários na série sintética para tomar qualquer valor desejado. Para N suficientemente grande pode-se
aproximar as probabilidades da previsão em qualquer nível de precisão usando os números inteiros de
repetições ri (Figura 9.9).

Figura 9.9. Representação da construção da série sintética no processo de reamostragem: neste caso,
uma proporção de 10% de certos elementos na amostra original é transformada em 20% via multiplicação pelos
pesos 9 e 4 (Croley, 2000).

Seja uma série histórica derivada da série de precipitação, por exemplo, de armazenamentos em
reservatórios superficiais ao final da estação chuvosa (x1n, ..., xnn), correspondente à série histórica de
precipitação sazonal (q1n, ..., qnn), onde os subscritos (1, ..., n) são os anos do registro histórico. Esta série é
reamostrada seguindo os ri determinados para a série de precipitação, gerando então uma série sintética de
armazenamento de tamanho N, que pode ser considerada como a amostra de previsão de armazenamento.
Descritores estatísticos podem ser expressos em função tanto da série sintética (x1N, ..., xNN) ou da série original
(x1n, ..., xnn). Por exemplo, a média e variância da série sintética do armazenamento xmed e S2, são:

onde os pesos wi dependem, para cada ano i, do valor qi da precipitação sazonal ocorrida naquele ano:

138
A distribuição de probabilidade da série sintética do armazenamento pode ser determinada como as
freqüências relativas dos eventos x :

O procedimento de análise de freqüência utilizado no método de reamostragem pode ser uma análise
simples de proporções. O ajuste de uma distribuição paramétrica de probabilidade teria a vantagem de não
restringir os limites de variabilidade da precipitação ou armazenamento aos observados no registro histórico. Isto
é limitado pela dificuldade de escolha de distribuições que se ajustem satisfatoriamente à distribuição obtida da
reamostragem.

9.6.3  Exemplo  

Em janeiro de 2000, foi divulgada, pelos núcleos estaduais de meteorologia e recursos hídricos do
Nordeste, a previsão de chuvas para o período fevereiro a maio de 2000: “condições favoráveis à ocorrência de
chuvas em torno ou mesmo acima da média histórica, no setor semi-árido do Nordeste do Brasil, no período
fevereiro a maio”. Numericamente, esta previsão foi expressa em termos de probabilidade de ocorrência, com
base nos resultados de simulações dos MCGs do CPTEC e do IRI: 40% de probabilidade de ocorrerem chuvas
“acima da média”, 50% de probabilidade de ocorrerem chuvas “próximo à média” e 10% de probabilidade de
ocorrerem chuvas “abaixo da média”. A previsão de precipitação refere-se a toda a região “norte do Nordeste”,
destacada no mapa da Figura X.10, que tem cerca de 500 mil km2.

139
Figura 9.10. Área de abrangência da previsão categorizada probabilística de precipitação para
fevereiro-maio 2000, para o norte do nordeste brasileiro, com base em integrações de MCGs.

Desejava-se prever o volume armazenado, ao final da estação chuvosa, no reservatório Boqueirão,


que abastece a cidade de Campina Grande, no Estado da Paraíba, para tomar decisões quanto à gestão da
água na bacia e nas áreas urbanas. Na época, a cidade de Campina Grande passava por racionamento de
mais de 50% do volume de abastecimento normal.
Utilizou-se dados de precipitação e vazão na bacia hidrográfica registrados em anos anteriores, da
seguinte forma: o método de reamostragem de Croley, descrito anteriormente, para realizar a previsão de
armazenamento no reservatório, a partir dos

• simularam-se, com os dados de cada um dos anos passados, cenários do volume armazenado no
reservatório em cada mês do ano 2000, considerando o volume realmente observado no início de
fevereiro de 2000, e as afluências de água ao açude observadas nos anos passados;

• classificaram-se os anos passados nas categorias “abaixo da média”, “próximo à média” e “acima da
média”, que exprimiram a previsão de chuvas;

• a previsão dos volumes armazenados para cada mês em 2000 foi obtida através de uma análise de
freqüência estatística, onde cada simulação foi ponderada de acordo com a probabilidade da
previsão de chuvas associada àquele “tipo de ano”, ou seja, com precipitação “abaixo da média”,
“próximo à média” ou “acima da média”.
Os resultados foram obtidos de forma probabilística, como mostrados na Figura 9.11 e na Tabela 9.3.

140
Figura 9.11. Cenários de armazenamento previstos para o reservatório Boqueirão para o ano 2000.

Tabela 9.3. Volumes armazenados (em milhões de m3) no Açude Boqueirão previstos para o início de cada mês
do ano 2000.
fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
melhor cenário 83 155 442 442 442 442 437 432 426 417 408
75% de chance de ser abaixo de 3 9 24 80 72 65 57 48 38 26 15
25% de chance de ser abaixo de 3 9 5 04 00 6 2 8 3 8 3
pior cenário 3 9 5 1 8 5 1 8 4 0 6

O melhor cenário da previsão foi obtido considerando que no ano 2000 as afluências a Boqueirão
seriam iguais às do ano de maior afluência da série considerada (1963-1983). Analogamente, o pior cenário foi
obtido utilizando as afluências do ano mais seco desta série. As duas outras linhas da tabela mostram os
máximos volumes armazenados previstos com probabilidades de 25% e 75% de ocorrência. A incerteza da
previsão é, assim, quantificada, fornecendo informação mais útil aos tomadores de decisão.
Por exemplo, seja o volume armazenado no início de julho 2000, quando a estação chuvosa já teria
terminado. Baseando-se na série de afluências disponível, de 1963 a 1983, e considerando as previsões de
chuva para o ano, poder-se-ia esperar um volume no reservatório entre um mínimo de 65 milhões m3 (apenas
cerca de 14% de sua capacidade, volume observado em dezembro de 1999) e um máximo de 442 milhões m3
(quase cheio); ou que o volume armazenado em julho estivesse entre 96 e 265 milhões m3 (entre 21% e 58% de
sua capacidade), referentes às probabilidades de ocorrência de 25% e 75%. As previsões de precipitação se
confirmaram, e o volume armazenado no reservatório no início de julho de 2000 foi de cerca de 190 milhões de
m 3.

9.7   Exemplo:  Operação  do  Reservatório  Boqueirão,  Campina  Grande  

9.7.1   Caracterização  do  Problema  

No semi-árido brasileiro, localizado em sua região Nordeste, as redes de abastecimento urbano de


água são supridas, em quase sua totalidade, por mananciais superficiais, denominados regionalmente de
açudes. Os recursos de água subterrânea são limitados e, portanto, a oferta de água depende exclusivamente
da reposição dos estoques hídricos dos reservatórios superficiais durante o curto período chuvoso anual, com
duração de dois a seis meses. Recentemente, vários sistemas de abastecimento entraram em colapso ou foram
submetidos a severo racionamento, em virtude de que: a) a variabilidade climática é muito grande; b) as bacias
hidrográficas são, em geral, bastante impactadas por intervenções antropogênicas, como o desmatamento e a
construção descontrolada de reservatórios; c) os reservatórios têm múltiplos e conflitantes usos, inclusive

141
irrigação; d) o monitoramento hidrometeorológico e das demandas de água são imprecisos ou, muitas vezes,
inexistentes; e) as instituições responsáveis pela gestão dos recursos hídricos ainda não estão adequadamente
estabelecidas ou consolidadas.
A cidade de Campina Grande (Figura 9.12) é um centro urbano importante na região semi-árida
brasileira. É a segunda maior cidade do Estado da Paraíba e é um centro acadêmico, tecnológico e cultural.
Seus 350 mil habitantes, junto com cerca de 150 mil habitantes das cidades vizinhas, são abastecidos pelo
Açude Epitácio Pessoa, mais conhecido como Boqueirão, que também atende a demandas de irrigação e
piscicultura. O reservatório, com capacidade estimada em 450 milhões de m3, é alimentado por uma bacia
hidrográfica de cerca de 14 mil km2, cuja precipitação (média anual de 450 mm), concentrada em quatro meses
do ano (fevereiro a maio), é das mais baixas do Brasil e apresenta uma alta variabilidade interanual (coeficiente
de variação de 29%). As vazões afluentes ao reservatório (média das médias anuais de cerca de 6,5 m3s-1)
seguem o regime de precipitação, com variabilidade ainda maior (coeficiente de variação das médias das médias
anuais de 144%). As taxas de evaporação são muito altas (cerca de 2000 mm por ano), mas com pouca
variabilidade interanual. A previsão de precipitação sazonal é realizada para a região, com índices de acerto
relativamente altos.
A última década foi particularmente seca, com dois dos mais severos períodos de estiagem, centrados
entre os anos de 1993 e de 1998. No final de 1999, o Açude Boqueirão apresentou os mais baixos volumes
armazenados e os piores índices de qualidade das águas, desde a sua construção, no final da década de 1950.
Tornou-se um exemplo nacionalmente reconhecido de gerenciamento inadequado dos recursos hídricos (Rêgo
et al., 2000): a irrigação foi interrompida e as retiradas para consumo urbano foram reduzidas a apenas 46%,
com graves conseqüências sociais e econômicas. A operação hidráulica das redes urbanas de abastecimento
também foi prejudicada, em decorrência das sucessivas interrupções e reestabelecimentos de fornecimento. As
receitas provenientes do serviço de abastecimento foram, em conseqüência, bastante reduzidas.

Figura 9.12 – Localização do Estado da Paraíba, da cidade de Campina Grande e do Açude Boqueirão.

142
Figura 9.13 – Armazenamento histórico no Açude Boqueirão.

A Figura 9.13 apresenta os volumes armazenados no reservatório durante a última década e a Figura
9.14 mostra as liberações para abastecimento urbano e irrigação e as perdas por evaporação durante a crise de
1998-1999. O consumo descontrolado, antes da crise, atingiu valores estimados em 1 m3s-1 para irrigação a
montante do reservatório, em 1 m3s-1 para abastecimento de Campina Grande e em cerca de 0,25 m3s-1 para
diversos usos agrícolas e urbanos a jusante do reservatório. Durante a crise, as liberações para suprir a rede de
abastecimento de Campina Grande foram reduzidas, no momento mais crítico (setembro de 1999 a março de
2000) a 46% dos valores usuais, depois de sucessivas reduções, para 77% em novembro de 1998 e para 66%
em abril de 1999; a irrigação praticamente cessou, em fevereiro de 1999, após decisão judicial; as liberações
para jusante foram reduzidas a cerca de 50% no início de 1998 e completamente interrompidas em julho daquele
ano. Em novembro de 1999, o armazenamento no reservatório foi o mais baixo de sua história (68 milhões m3),
cerca de 15% de sua capacidade, e a concentração de sais na água atingiu níveis que inviabilizaram a sua
potabilidade. A estação chuvosa do ano 2000 (janeiro a maio) foi muito intensa e aumentou o nível de
armazenamento para cerca de 50% de sua capacidade e a qualidade da água a níveis razoáveis.

Figura 9.14 – Retiradas de água e perdas por evaporação em 1998-2000 no Açude Boqueirão.

143
Um debate intenso sobre as causas da crise e suas possíveis soluções caracterizou o período. Jornais,
TV e rádios abriram espaço para a discussão, envolvendo políticos, técnicos e o público em geral. Poucas das
propostas enfatizavam ações no lado do controle da demanda, tal como o aumento da eficiência no uso da água,
tanto para irrigação como para consumo urbano. A maioria das propostas pedia um aumento urgente na
disponibilidade hídrica, sem considerar aspectos da sustentabilidade dos recursos. Uma nova barragem foi
projetada (Acauã) a jusante do reservatório (Figura 9.12), no mesmo rio, apontada pelo governo estadual como a
solução “definitiva” para o problema. Também, transferências de água de longa distância foram apontadas como
solução, provenientes do rio São Francisco, nos estados vizinhos de Pernambuco e Bahia, ou do Açude
Coremas, localizado no oeste do estado.

9.7.2  Metodologia  de  Análise  

A análise do problema da sustentabilidade da oferta de água para abastecimento urbano, proposta


neste artigo, foi realizada nas seguintes etapas:

a) Identificação das práticas de gestão de recursos hídricos correntes em 1998-1999, que teriam
levado à crise de abastecimento.

b) Proposição de práticas sustentáveis de gestão de recursos hídricos para a bacia hidrográfica e para
os usuários da água.

c) Simulação, em um modelo matemático de operação do reservatório Boqueirão, de cenários de


gestão refletindo as duas situações acima.

O modelo de simulação realiza o balanço hídrico do reservatório, em intervalos mensais, computando o


armazenamento a partir das vazões afluentes e das retiradas para consumo e pela evaporação. O modelo
permite a representação de critérios de liberação de água para consumo através de regras de decisão, na forma
SE-ENTÃO (Galvão, 1999), que usam como variáveis de decisão os volumes armazenados atuais e futuros, a
previsão hidrometeorológica, o período do ano e o tipo de uso da água e sua prioridade (Galvão et al., 2001). A
simulação é realizada utilizando como base uma série histórica ou sintética de vazões e evaporações, que
represente o clima e hidrologia da bacia hidrográfica. Cenários de mudança do comportamento
hidrometeorológico podem também ser simulados. Indicadores de comportamento do reservatório são
computados pelo modelo para avaliação das políticas operacionais definidas nas regras.

9.7.3  Resultados  e  Discussão  

As práticas de gestão, aqui avaliadas como inadequadas, que levaram à crise de 1998-1999 e ao quase
colapso do abastecimento de água de Campina Grande foram:

144
a) Irrigação descontrolada na bacia hidráulica do reservatório (quantitativa e qualitativamente), altas
perdas na rede de distribuição de água e hábitos de consumo de água incompatíveis com um
ambiente semi-árido. A ausência de uma gestão adequada da demanda levou o uso do reservatório
além de suas possibilidades de atendimento, ou seja, além da sua disponibilidade hídrica.

b) Construção descontrolada de outros reservatórios na bacia hidrográfica a montante do Açude


Boqueirão, causando redução das vazões a ele afluentes, diminuindo assim a sua disponibilidade
hídrica.

c) Monitoramento deficiente, na bacia hidrográfica, das modificações de uso do solo, dos reservatórios
construídos e das vazões afluentes ao reservatório; no Açude Boqueirão, das taxas de evaporação
no lago, do assoreamento da sua bacia hidráulica, das mudanças da relação cota-área-volume e da
qualidade da água; nas áreas irrigadas, do consumo de água, do manejo do solo e da aplicação de
fertilizantes e defensivos agrícolas nas culturas; em Campina Grande e outros núcleos urbanos, do
consumo de água e das perdas físicas na rede de abastecimento.

d) Confuso contexto institucional de gestão de recursos hídricos. O Brasil está passando, atualmente,
por uma grande mudança no seu sistema institucional de gerenciamento de recursos hídricos, o que
contribuiu para a ocorrência de conflitos políticos e administrativos durante o período da crise. Este
conflito institucional levou, por exemplo, ao racionamento de água para consumo humano antes das
limitações das demandas de irrigação, ação contrária ao princípio da prioridade para consumo
humano, estabelecido na legislação brasileira.

As práticas sustentáveis de gestão, que poderiam reduzir o risco de colapso no abastecimento, são:

a) Controle das demandas urbanas, evitando consumo excessivo e perdas na rede de distribuição.
Limitação da irrigação à área a jusante do reservatório e à chamada “irrigação de salvação”, ou
suplementar, empregada apenas durante a estação chuvosa, para evitar o estresse hídrico durante
os chamados “veranicos” (períodos de algumas semanas sem chuva dentro da estação chuvosa).

b) Controle do uso de fertilizantes e produtos químicos nas áreas agrícolas a montante do reservatório,
de modo a preservar a qualidade da água.

c) Controle da ação antrópica na bacia hidrográfica contribuinte ao reservatório, evitando a excessiva


construção de novos reservatórios e evitando perdas de solo por erosão e o conseqüente
assoreamento da bacia hidráulica.

d) Monitoramento adequado da bacia hidrográfica, do reservatório e do uso da água.

e) Criação e consolidação do Comitê da bacia hidrográfica do reservatório, previsto na legislação de


recursos hídricos como a instituição responsável pelo estabelecimento da política de gestão e pela
solução dos conflitos de água.

145
A partir das práticas identificadas, dois cenários de gestão foram criados, para avaliação pelo modelo
de simulação da decisão sobre a operação do reservatório. O cenário I, “corrente”, mantém as demandas de
água atuais e as medidas emergenciais descritas acima e empregadas durante a crise 1998-1999. Uma redução
de 5% no volume afluente ao reservatório foi também considerada neste cenário, como efeito da falta de
gerenciamento da bacia. O cenário II, “sustentável”, assume que:

a) A demanda para abastecimento urbano seria de 1 m3s-1, a provável situação nas próximas duas
décadas, supondo o estabelecimento de um sério programa de gerenciamento da demanda. As
taxas de consumo nos meses imediatamente seguintes à suspensão do racionamento, em abril de
2000, foram de cerca de 0,8 m3s-1, valor que pode ser considerado a demanda urbana “normal”, sem
desperdícios, mas ainda na presença de perdas excessivas na rede de distribuição, que seriam
ainda bastante reduzidas neste cenário.

b) A irrigação seria desenvolvida apenas como suplemento à agricultura dependente de chuva e


praticada entre janeiro e maio de cada ano, em magnitudes que dependeriam do armazenamento no
reservatório e da previsão hidrometeorológica. Por exemplo, se no início de janeiro o nível de
armazenamento for alto e a previsão prescrever grande afluência de vazão, as liberações para
irrigação poderiam ser maiores durante os meses subseqüentes.

c) O armazenamento mínimo permitido no reservatório seria de 100 milhões m 3, necessário para


preservar a qualidade da água no manancial.

d) Não haveria redução nas vazões afluentes nem perda de capacidade do manancial, dado que
haveria um programa eficiente de gerenciamento da bacia hidrográfica e de manutenção
operacional do reservatório.

Utilizaram-se dados de precipitação média, vazões afluentes e evaporação na bacia hidrográfica do


Açude Boqueirão compilados ou gerados no Plano Estadual de Recursos Hídricos da Paraíba - PBRH
(UFPB/ATECEL, 1994). São 21 anos, de 1963 a 1983. Como não existem medições de vazões em seção do rio
próxima à entrada do açude, foram utilizados, no PBRH, dados do posto fluviométrico de Poço de Pedras,
localizado numa sub-bacia da bacia do açude, que cobre uma área bem menor que a da bacia total. O
comportamento hidrológico da bacia do posto Poço de Pedras foi extrapolado para toda a bacia do açude
através de um modelo matemático precipitação-vazão.
A Tabela 9.4 e a Figura 9.15 apresentam o comportamento do reservatório nas condições dos cenários
I e II. O modelo de simulação mostra o armazenamento em níveis mais altos no cenário “sustentável” que no
cenário “corrente”. No cenário “sustentável” a liberação média de água para irrigação é reduzida em cerca de 0,6
m3s-1, já que não há mudança na liberação para o abastecimento urbano.

Tabea 9.4 – Comportamento do reservatório nos dois cenários de gestão.


Indicador Cenário I “corrente” Cenário II “sustentável”

146
Armazenamento mínimo (milhões m3) 44 99
Meses com redução de oferta para abastecimento
24 7
urbano (%)
Redução média da oferta para abastecimento urbano
33 15
(%)
Anos com redução de oferta para irrigação (%) 20 20
Oferta média para abastecimento urbano e irrigação
1,8 1,2
(m3s-1)

Figura 9.15 – Simulação do armazenamento do reservatório nos dois cenários de gestão.

Os resultados da Tabela 9.4 demonstram que as práticas correntes, embora liberando mais água para
irrigação, acarretam no mesmo número (20%) de falhas – meses em que não foi possível atender integralmente
a demanda – para este uso que o cenário “sustentável”. O número de falhas na oferta para abastecimento
urbano, e também a sua magnitude, são bem maiores na prática de gestão atual. Daí se conclui que o
reservatório vem sendo explorado além da sua capacidade. Entretanto, os resultados da simulação mostram que
as demandas para o uso prioritário, abastecimento urbano, podem ser atendidas, mesmo nos níveis excessivos
existentes atualmente.

A variabilidade climática é uma variável bastante importante e a gestão deve considerá-la adequadamente:
durante anos chuvosos, a irrigação deve ser muito explorada, mas interrompida nos anos secos. Esta restrição
deve ser respeitada, de modo a se obter uma gestão sustentada do manancial.  

9.7.4   Conclusão  

A gestão operacional, administrativa e financeira das redes de abastecimento supridas pelo manancial
deve considerar os riscos de redução de oferta calculados na simulação – 7% de ocorrência mensal com
magnitude média de 15% – e planejar-se adequadamente. A representação desses gestores no Comitê da Bacia

147
pode assegurar a sustentabilidade da oferta de água, assim como a representação da sociedade civil no Comitê
tenderá a pressionar os gestores das redes a manter níveis suportáveis de perdas físicas nos sistemas de
distribuição. Os sistemas de apoio à decisão para formulação e simulação de cenários de gestão integrada
oferta-demanda são ferramentas tecnológicas muito úteis na tomada de decisão e resolução de conflitos pelo
Comitê da Bacia.

9.8   Referências  Bibliográficas  

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