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Curso Superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas Guia de Estudos Disciplina: Português

Curso Superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas

Guia de Estudos

Disciplina: Português Instrumental. Prof. Abilio Pacheco.

em Análise e Desenvolvimento de Sistemas Guia de Estudos Disciplina: Português Instrumental. Prof. Abilio Pacheco.

Plano da Disciplina

Ementa: Este curso pretende propiciar a competência textual dos alunos de graduação de modo a dar suporte para a leitura crítica e reflexiva de textos, bem como para a produção eficiente de textos.

Objetivos

Possibilitar a aquisição de conhecimentos lingüísticos como fonte de conhecimento e reflexão analítica e crítica para o uso da língua nos diferentes contextos da vida acadêmica e sociocultural.

Estimular a atividade de leitura de textos expositivos como prática de ampliação das formas de raciocínio e preparação para a produção escrita conforme a variante padrão da língua portuguesa.

Proporcionar condições para a escrita e reescrita de textos de gêneros diversos, levando os alunos ao reconhecimento da universidade como lugar de pesquisa e produção intelectual.

Conteúdo Programático Unidade I A(s) língua(s) portuguesa(s) no mundo e no Brasil Variações Lingüísticas Regionais Texto e textualidade: coesão e coerência Funções da linguagem Dissertação e Argumentação

Unidade II Leitura e leituras: tipos, formas, níveis Prática de Leitura e Estratégias de Leitura. Estratégias de escritura: anotações, resumo Questões lingüísticas pertinentes: implícitos, subentendidos

Leitura. Estratégias de escritura: anotações, resumo Questões lingüísticas pertinentes: implícitos, subentendidos 2

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Unidade I

TEXTO: Língua Portuguesa

Texto adaptado

A língua portuguesa, com mais de 215 milhões de falantes nativos, é a quinta língua mais falada no

mundo e a terceira mais falada no mundo ocidental. Idioma oficial de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde,

Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, sendo falada na antiga Índia Portuguesa

(Goa, Damão, Diu e Dadrá e Nagar-Aveli), Macau e Guiné Equatorial, além de ter também estatuto oficial na União Europeia, no Mercosul e na União Africana.

A situação da Galiza e do galego em relação ao português é controversa. De um ponto de vista político

e, portanto, oficial, o galego é uma língua porque assim o determinam os organismos de Estado espanhol e da Região Autônoma da Galiza, com legitimidade democrática. De um ponto de vista científico, a idéia de que o galego é uma variedade dialetal da língua portuguesa -e vice-versa- reúne hoje um vasto consenso, sendo estudado a par com as restantes variedades do português nas universidades e centros de investigação lingüística. Ver o artigo Língua galega. A língua portuguesa é uma língua românica (do grupo ibero- românico), tal como o castelhano, catalão, italiano, francês, romeno e outros. Assim como os outros idiomas, o português sofreu uma evolução histórica, sendo influenciado por vários idiomas e dialetos, até chegar ao estado conhecido atualmente. Deve-se considerar, porém, que o português de hoje compreende vários dialetos e subdialetos, falares e subfalares, muitas vezes bastante distintos, além de dois padrões reconhecidos internacionalmente (português brasileiro e português europeu). No momento atual, o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cem milhões de pessoas com duas ortografias oficiais (note-se que línguas como o inglês têm diferenças de ortografia pontuais mas não ortografias oficiais divergentes), situação a que o Acordo Ortográfico de 1990 pretende pôr cobro.

Segundo um levantamento feito pela Academia Brasileira de Letras, a língua portuguesa tem, atualmente, cerca de 356 mil unidades lexicais. Essas unidades estão dicionarizadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

O português é conhecido como A língua de Camões (por causa de Luís de Camões, autor de Os

Lusíadas), A última flor do Lácio, expressão usada no soneto Língua Portuguesa de Olavo Bilac ou ainda A

doce língua por Miguel de Cervantes. Nos séculos XV e XVI, à medida que Portugal criava o primeiro império colonial e comercial europeu, a língua portuguesa se espalhou pelo mundo, estendendo-se desde a costa Africana até Macau, na China, ao Japão e ao Brasil, nas Américas. Como resultado dessa expansão, o português é agora língua oficial de oito países independentes além de Portugal, e é largamente falado ou estudado como segunda língua noutros. Há, ainda, cerca de vinte línguas crioulas de base portuguesa. É uma importante língua minoritária em Andorra, Luxemburgo, Paraguai, Namíbia, Suíça e África do Sul. Encontram-se, também,

minoritária em Andorra, Luxemburgo, Paraguai, Namíbia, Suíça e África do Sul. Encontram-se, também, 3

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numerosas comunidades de emigrantes, em várias cidades em todo o mundo, onde se fala o português como Paris na França; Toronto, Hamilton, Montreal e Gatineau no Canadá; Boston, New Jersey e Miami nos EUA

História O português nasceu na antiga Gallaecia -Galiza e Norte de Portugal- ao noroeste da Península Ibérica

e desenvolveu-se, na faixa ocidental da mesma incluindo parte da antiga Lusitânia e da Betica romana. O

romance galego-português nasce do latim falado, trazido pelos soldados e colonos romanos desde o século

O contacto com o latim vulgar fez com que, após um período de bilingüismo, as línguas locais

desaparecessem, levando ao aparecimento de uma variedade de Latim com características Galaicas. Assume- se que a língua iniciou o seu processo de diferenciação das outras línguas ibéricas através do contacto das diferentes línguas nativas locais com o latim vulgar, o que levou ao possível desenvolvimento de diversos traços individuais ainda no período Romano. [4] [5][6] A língua iniciou a segunda fase do seu processo de diferenciação das outras línguas românicas depois da queda do Império Romano, durante a época das invasões bárbaras no século V quando surgiram as primeiras alterações fonéticas documentadas que se refletiam no léxico. Começou a ser usada em documentos escritos pelo século IX, e no século XV tornara-se numa língua amadurecida, com uma literatura bastante rica. Chegando à Península Ibérica em 218 a.C., os romanos trouxeram com eles o latim vulgar, de que todas as línguas românicas (também conhecidas como "Línguas novilatinas", ou, ainda, "neolatinas") descendem. Só no fim do século I a.C.os povos que viviam a sul da Lusitânia pré- Romana, os Cónios e os Célticos,começam o processo de romanização. As línguas paleo-ibéricas, como a Língua lusitana ou a Sud- lusitana são substituídas pelo Latim. Estrabão, um geógrafo da Grécia antiga, comenta num dos livros da sua obra Geographia que os Turdetanos adotaram os costumes romanos, e já não se lembravam da própria língua, sendo este o povo mais romanizado da época na península. A língua difundiu-se com a chegada dos soldados, colonos e mercadores, vindos das várias províncias e colônias romanas, que construíram cidades romanas normalmente perto de cidades nativas. Em 409 d.C., assim que o Império Romano entrou em colapso, a Península Ibérica foi invadida por povos de origem germânica e iraniana ou eslava (Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos, Visigodos), conhecidos

pelos romanos como bárbaros que receberam terras como foederati. Os bárbaros (principalmente os suevos e os visigodos) absorveram em grande escala a cultura e a língua da península; contudo, desde que as escolas e

a administração romana fecharam, a Europa entrou na Idade Média e as comunidades ficaram isoladas, o

latim popular começou a evoluir de forma diferenciada e a uniformidade da península rompeu-se, levando à formação de um "Romance Lusitano". Desde 711, com a invasão islâmica da península, que também introduziu um pequeno contingente de saqalibas, o árabe tornou-se a língua de administração das áreas conquistadas. Contudo, a população continuou a usar as suas falas românicas, o moçárabe nas áreas sob o domínio mouro, de tal forma que, quando os mouros foram expulsos, a influência que exerceram na língua foi relativamente pequena. O seu efeito principal foi no léxico, com a introdução de cerca de mil palavras através do moçárabe-lusitano.

seu efeito principal foi no léxico, com a introdução de cerca de mil palavras através do

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Os registros mais antigos que sobreviveram de uma língua portuguesa distinta são documentos administrativos do século IX, ainda entremeados com muitas frases em latim. Hoje em dia, essa fase é conhecida como o "Proto-Português" (falado no período entre o séculos IX e XII). Portugal tornou-se independente em 1143 com o rei D. Afonso Henriques. A língua falada à época, o português antigo (antepassado comum ao galego e ao português modernos, do século XII ao século XIV), começou a ser usada de forma mais generalizada, depois de ter ganhado popularidade na Península Ibérica cristianizada como uma língua de poesia. Em 1290, o rei Dom Dinis cria a primeira universidade portuguesa em Lisboa (o Estudo Geral) e decretou que o português, até então apenas conhecido como "língua vulgar" passasse a ser conhecido como Língua Portuguesa e oficialmente usado. No segundo período do Português Arcaico, entre os séculos XIV e XVI, com as descobertas portuguesas, a língua portuguesa espalhou-se por muitas regiões da Ásia, África e Américas. Hoje, a maioria dos falantes do português encontram-se no Brasil, na América do Sul. No século XVI, torna-se a língua franca da Ásia e África, usado não só pela administração colonial e pelos mercadores, mas também para comunicação entre os responsáveis locais e europeus de todas as nacionalidades. A irradiação da língua foi ajudada por casamentos mistos entre portugueses e as populações locais e a sua associação com os esforços missionários católicos levou a que fosse chamada Cristão em muitos sítios da Ásia. O Dicionário Japonês- Português de 1603 foi um produto da atividade missionária jesuíta no Japão. A língua continuou a gozar de popularidade no sudoeste asiático até ao século XIX. Algumas comunidades cristãs falantes de português na Índia, Sri Lanka, Malásia e Indonésia preservaram a sua língua mesmo depois de terem ficado isoladas de Portugal. A língua modificou-se bastante nessas comunidades e, em muitas, nasceram crioulos de base portuguesa, alguns dos quais ainda persistem, após séculos de isolamento. Encontra-se também um número bastante considerável de palavras de origem portuguesa no tétum. Palavras de origem portuguesa entraram no léxico de várias outras línguas, como o japonês, o suaíli, o indonésio e o malaio. O fim do "Português Arcaico" é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende em 1516. O período do "Português Moderno" (do século XVI até ao presente) teve um aumento do número de palavras originárias do latim clássico e do grego, emprestadas ao português durante a Renascença, aumentando a complexidade da língua. Em março de 1994 foi fundado o Bosque de Portugal, na cidade sul-brasileira de Curitiba; o parque abriga o Memorial da Língua Portuguesa, que homenageia os imigrantes portugueses e os países que adotam a língua portuguesa; originalmente eram sete as nações que estavam representadas em pilares, mas com a independência de Timor-Leste, este também foi homenageado com um pilar construído em 2007. Em março de 2006, fundou-se em São Paulo o Museu da Língua Portuguesa.

com um pilar construído em 2007. Em março de 2006, fundou-se em São Paulo o Museu

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Geografia da língua portuguesa

Geografia da língua portuguesa Em destaque, países e regiões onde o Português é língua oficial O

Em destaque, países e regiões onde o Português é língua oficial

A língua portuguesa é também a língua oficial de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e uma das línguas

oficiais da Guiné Equatorial (com o espanhol e o francês), de Timor-Leste (com o tétum) e de Macau (com o chinês). É bastante falado, mas não oficial, em Andorra, Luxemburgo, Namíbia e Paraguai. Crioulos de base

portuguesa são as línguas maternas da população de Cabo Verde e de parte substancial dos guineenses e são- tomenses.

O português é falado por cerca de 187 milhões de pessoas na América do Sul, 16 milhões de africanos,

12 milhões de europeus, dois milhões na América do Norte e 330 mil na Ásia. A CPLP ou Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é uma organização internacional constituída pelos oito países independentes que têm o português como língua oficial. O português é também uma língua oficial da União Europeia, Mercosul e uma das línguas oficiais e de trabalho da União Africana. A União Latina é outra organização internacional constituída por países de línguas românicas como o português. A língua portuguesa tem ganhado popularidade como língua de estudo na África, América do Sul

e Ásia.

Dialetos

Dialetos da língua portuguesa

A língua portuguesa tem grande variedade de dialetos, muitos deles com uma acentuada diferença

lexical em relação ao português padrão seja no Brasil ou em Portugal [13] [14] [15] . Tais diferenças, entretanto, não prejudicam muito a inteligibilidade entre os locutores de diferentes dialetos.

] . Tais diferenças, entretanto, não prejudicam muito a inteligibilidade entre os locutores de diferentes dialetos.

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Os primeiros estudos sobre os dialetos do Português europeu começaram a ser registrados por Leite de Vasconcelos no começo do século XX. Mesmo assim, todos os aspectos e sons de todos os dialetos de Portugal podem ser encontrados nalgum dialeto no Brasil. O português africano, em especial o português santomense, tem muitas semelhanças com o português do Brasil. Ao mesmo tempo, os dialetos do sul de Portugal (chamados "meridionais") apresentam muitas semelhanças com o falar brasileiro, especialmente, o uso intensivo do gerúndio (e. g. falando, escrevendo, etc.). Na Europa, o dialeto "transmontano-alto- minhoto" apresenta muitas semelhanças com o galego. Um dialeto já quase desaparecido é o português oliventino ou português alentejano oliventino, falado em Olivença e em Táliga. Após a independência das antigas colônias africanas, o português padrão de Portugal tem sido o preferido pelos países africanos de língua portuguesa. Logo, o português tem apenas dois dialetos de aprendizagem, o europeu e o brasileiro. Note-se que, na língua portuguesa, há um dialeto preferido em Portugal e que deu origem à norma-padrão: o de Lisboa (também chamado de Coimbra por ser falado na Universidade de Coimbra, mas que, no entanto, não é falado no resto dessa região). No Brasil, o dialeto de mais prestígio é o falado pelos habitantes cultos das grandes cidades, sendo os mais difundidos na mídia o de São Paulo e o do Rio de Janeiro. Todos os dialetos, contudo, são mutuamente inteligíveis sem nenhuma dificuldade e nenhum pode ser considerado melhor ou mais correto do que os outros.

ser considerado melhor ou mais correto do que os outros. Dialetos de Portugal 1. Dialetos portugueses

Dialetos de Portugal

1. Dialetos portugueses insulares açorianos. Ouvir

registro sonoro recolhido em Ponta Garça (São Miguel). 2. e 3. Dialetos portugueses centro-meridionais:

dialetos do centro interior e do sul. Ouvir registro sonoro recolhido em Serpa (Beja, Alentejo).

8. Dialetos portugueses insulares madeirenses. Ouvir registro sonoro recolhido em Câmara de Lobos.

4. e 10. Dialetos portugueses setentrionais: dialetos transmontanos e alto-minhotos. Ouvir registro sonoro recolhido em Castro Laboreiro (Minho).

9. 6. 5. Dialetos portugueses setentrionais: dialetos baixo-minhotos-durienses-beirões. Ouvir registro sonoro

recolhido em Granjal (Viseu).

7. Dialetos portugueses centro-meridionais: dialetos do centro litoral. Inclui Coimbra, Leiria e Lisboa. Ouvir

registro sonoro recolhido em Moita do Martinho (Leiria).

Dialetos do Brasil Há pouca precisão na divisão dialetal brasileira. Alguns dialetos, como o dialeto caipira, já foram estudados, estabelecidos e reconhecidos por lingüistas, tais como Amadeu Amaral. Contudo, há poucos estudos a

foram estudados, estabelecidos e reconhecidos por lingüistas, tais como Amadeu Amaral. Contudo, há poucos estudos a

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respeito da maioria dos demais dialetos e, atualmente, aceita-se a classificação proposta pelo filólogo Antenor Nascentes e outros.

1. Caipira - interior do estado de São Paulo, norte do Paraná, sul de Minas Gerais, sul de Goiás e leste de

Mato Grosso do Sul

2. Maranhense, Piauiense (Meio Nortista) - Maranhão e Piauí

3. Baiano - região da Bahia

5. Gaúcho - Rio Grande do Sul, com alguma influência do castelhano, como dizer "bueno", "griz",

"cucharra" e "entonces".

6. Mineiro - Minas Gerais

7. Dialetos nordestinos - Conjunto de dialetos falados na Região Nordeste, com exceção da Bahia.

8. Nortista - estados da bacia do Amazonas (ouvir) - (o interior e Manaus têm falares próprios)

9. Paulistano - cidade de São Paulo e proximidades

10. Sertanejo - Estados de Goiás e Mato Grosso. Se assemelha aos dialetos mineiro e caipira.

11. Sulista - Estados do Paraná e Santa Catarina. Este dialeto sofre inúmeras variações de pronúncia de

acordo com a área geográfica, sendo influenciado pela pronúncia de São Paulo no norte do Paraná e do Rio Grande do Sul no oeste do Paraná e em algumas regiões de Santa Catarina. Há pequena influência nas áreas

de colonização alemã com sotaque.

Outras conexões:

Veja sites na Internet sobre o Documentário: ―Língua: Vidas em português‖ http://www.almacarioca.com.br/lingua.htm

http://www.natelona.com/review_c.asp?id=348

http://www.geocities.com/maxpires/meninos/lingua.htm Trailer do filme:

http://tvuol.uol.com.br/cinema/trailers/2004/11/04/ult2489u140.jhtm

Trailer do filme: http://tvuol.uol.com.br/cinema/trailers/2004/11/04/ult2489u140.jhtm 8

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TEXTO: A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Todos os brasileiros sabem que o português é a língua majoritária e oficial do Brasil, e muitos sabem que ele é derivado do latim. Mas a maioria desconhece a história do idioma no país e da sua relação com as diversas outras línguas que aqui se falavam antes da chegada de Pedro Álvares Cabral e com as que vieram durante e depois da colonização. Segundo o lingüista Aryon Rodrigues, do Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília, quando o Brasil foi descoberto pelos portugueses, havia mais de 1.000 línguas no país, faladas por índios de diversas etnias. As numerosas etnias da família Jê haviam migrado para o interior, e só conheceriam o contato com os colonizadores no final do século XVII. Outras, como a dos Aruak e dos Karib, permaneceriam isoladas por ainda mais tempo, especialmente as amazônicas.

A colonização portuguesa começou gradativamente pelo litoral, a partir de 1532, com a instituição das capitanias hereditárias. Nesse período, diversas comunidades da família Tupi e Guarani habitavam o litoral brasileiro entre a Bahia e o Rio de Janeiro. Havia entre elas uma grande proximidade cultural e lingüística. Para estabelecer uma comunicação com os nativos, os portugueses foram aprendendo os dialetos e idiomas indígenas. A partir do tupinambá, falado pelos grupos mais abertos ao contato com os colonizadores, criou- se uma língua geral comum a índios e não-índios. Ela foi estudada e documentada pelos jesuítas para a catequização dos povos indígenas. Em 1595, o padre José de Anchieta a registrou em sua Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Essa língua geral derivada do tupinambá foi a primeira influência recebida pelo idioma dos portugueses no Brasil.

Outro contato que influenciou a língua portuguesa na América foi com as línguas dos negros africanos trazidos como escravos para o país. O tráfico de escravos começou com a introdução do cultivo da cana-de- açúcar na capitania de São Vicente (que corresponde a parte do atual estado de São Paulo), no Recôncavo Baiano e em Pernambuco, no começo da colonização. Ele se intensificou no século XVII, espalhando-se por todas as regiões ocupadas pelos portugueses. Os escravos acabaram aprendendo o português, para se comunicar com os seus senhores. O lingüista Mattoso Câmara Jr., em História e Estrutura da Língua Portuguesa, afirma que, no Brasil, os escravos chegaram a desenvolver um português crioulo, tal como ocorreu nas colônias africanas. Câmara Jr. diz ainda que os africanos também se adaptaram à língua geral de origem indígena, que continuava a ser a mais falada entre os colonos. "Um texto do padre Antonio Vieira, de 1694, diz que a língua que as famílias portuguesas falavam em São Paulo era a dos índios", afirma o pesquisador Jaqueson da Silva, aluno de pós-graduação em Teoria Literária na Unicamp. "E os filhos dessas famílias aprendiam o português na escola", completa.

Após mais de dois séculos de condição minoritária do uso do português no Brasil em relação à língua dos nativos, sua predominância no país começa a se dar a partir da segunda metade do século XVIII. Com a exploração do interior pelos bandeirantes, iniciada no fim do século XVII, e a descoberta das minas de ouro e diamante, aumenta o número de imigrantes portugueses que chega ao Brasil para ocupar os novos centros econômicos. O crescente número de falantes do português começa a tornar o bilingüismo das famílias portuguesas no país cada vez menor. Em 17 de agosto de 1758, a língua portuguesa se torna idioma oficial

das famílias portuguesas no país cada vez menor. Em 17 de agosto de 1758, a língua

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do Brasil, através de um decreto do Marquês de Pombal, que também proíbe o uso da língua geral. No ano seguinte, os jesuítas, que haviam catequisado os índios e produzido literatura em língua indígena, foram expulsos do país por Pombal.

A essa altura, o português já havia tido a evolução natural que sofre toda língua no decorrer do tempo. As mudanças, porém, se deram de maneira distinta em Portugal e no Brasil. Paul Teyssier, em Histoire de la langue portugugaise, conta que no final do século XVIII, o brasileiro já aparece no teatro português como um personagem com peculiaridades em sua fala. Um exemplo que ele apresenta é generalização do uso da forma de tratamento que até hoje se mantém no Brasil, mas que em Portugal era empregada apenas familiarmente: o "você", redução de "voismicê", que por sua vez deriva de "vossa mercê". Além disso, quando Pombal decretou a obrigatoriedade do uso do português no Brasil, os falantes brasileiros já haviam incorporado diversas palavras de origem indígena e africana em seu vocabulário.

Muitos nomes de plantas, frutas e animais brasileiros têm origem no tupinambá. Alguns exemplos são abacaxi, araticum, buriti, caatinga, caju, capim, capivara, carnaúba, cipó, cupim, curió, ipê, imbuia, jaboticaba, jacarandá, mandacaru, mandioca, maracujá, piranha, quati, sucuri e tatu. A toponímia, ciência que estuda a origem dos nomes de lugares, também revela um grande número de palavras indígenas na fala do brasileiro: Aracaju, Avaí, Caraguatatuba, Guanabara, Guaporé, Jabaquara, Jacarépaguá, Jundiaí, Parati, Piracicaba, Tijuca, etc. A influência indígena também acabou propiciando a criação de expressões idiomáticas, como "andar na pindaíba" e "estar de tocaia", que são marcas lingüísticas de uma cultura específica.

Os africanos do grupo banto e ioruba deixaram um legado próprio na cultura do nosso país. A culinária afro-brasileira tem o abará, o acarajé e o vatapá; e o candomblé tem orixá, exú, oxossi, iansã. O quimbundo, língua falada em Angola, emprestou ao português do Brasil palavras do vocabulário familiar, como caçula, cafuné, molambo e moleque. Termos que expressavam o modo de vida e as danças dos escravos, como senzala, maxixe e samba, também se incorporaram ao nosso léxico. Certas comunidades africanas no Brasil, além de falarem o português, preservaram a sua língua de origem, que se mantém viva no país até os dias de hoje. É o caso dos habitantes do Cafundó, um bairro rural do município de Salto de Pirapora, no estado de São Paulo.

Alguns estudiosos afirmam que as influências não se restringiram apenas ao vocabulário. Jacques Raimundo, em O Elemento Afro-Negro na Língua Portuguesa, aponta algumas mudanças fonéticas, iniciadas na fala dos escravos, que ainda se mantêm em algumas variedades do português do Brasil: as vogais médias pretônicas "e" e "o" passam a ser pronunciadas como vogais altas, respectivamente "i" e "u" (mininu, nutiça); as vogais tônicas de palavras oxítonas terminadas em "s", mesmo as grafadas com "z", se tornam ditongos (atrais, mêis, vêis); a marca de terceira pessoa do plural, nos verbos do pretérito perfeito, se reduz a "o" (fizero, caíro, tocaro). Em 1822, Jerônimo Soares Barbosa registrava em sua Grammatica Philosophica, uma peculiaridade sintática, originada na fala dos escravos, que até hoje é apontada como uma das distinções entre o português falado em Portugal e o que se fala no Brasil: a colocação de pronomes átonos antes dos verbos (mi deu, ti falô). Após a independência do Brasil, o tráfico de escravos diminui, até

átonos antes dos verbos (mi deu, ti falô). Após a independência do Brasil, o tráfico de

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cessar por volta de 1850. Muitos índios se miscigenaram e novos imigrantes europeus, como alemães e italianos, chegaram ao país. O novo contato do português brasileiro com outras línguas foi um dos fatores que gerou as diversas variedades regionais existentes hoje no Brasil.

Na segunda metade do século XIX, os autores do Romantismo tentam retratar em sua obra uma brasilidade que distingua a ex-colônia de Portugal. Além de exaltar a figura do índio, autores como José de Alencar trazem para a literatura a linguagem própria do brasileiro. O movimento modernista, no começo do século XX, retoma a idéia romântica de resgate das origens e construção de uma identidade própria, com projetos como a Gramatiquinha da Fala Brasileira, pensada por Mário de Andrade.

A discussão sobre as distinções entre a fala de Portugal e a do Brasil se mantêm até hoje. A nossa estrutura gramatical continua bem próxima do português europeu. O brasileiro incorporou empréstimos de termos não só das línguas indígenas e africanas, mas do francês, do espanhol, do italiano, do inglês. Mas a maior parte do nosso vocabulário é idêntica a do português europeu. As diferenças fonéticas são notáveis. E algumas distinções semânticas também se verificam em palavras como "estação" e "trem", que em Portugal são "gare" e "comboio". Para o lingüista brasileiro Mário Perini, professor convidado da Universidade do Mississipi, nos EUA, as mudanças na língua são naturais, e pode até ser que um dia a fala do brasileiro chegue a ser considerada um idioma distinto do português

Extraído de [http://www.comciencia.br/reportagens/linguagem] em 30/05/2008

Variações Lingüísticas

Postal, Jairo & Postal, Márcia Rita Lazzarini. Formas de comunicação e expressão em Língua Portuguesa. São Paulo: Catálise. S/d. p. 87 a 97 (com adaptações).

Uma língua não é estática. À medida que o tempo passa, algumas palavras vão deixando de ser utilizadas e outras, em contrapartida, vão surgindo a fim de satisfazer os avanços tecnológico e científico. Porém, a variação de uma língua não se dá apenas através de sua história. Se observarmos o uso da língua portuguesa em uma determinada época (a do início do século XXI, por exemplo), verificamos que ela apresenta perceptíveis variações, dependendo de alguns fatores como: região, classe social, idade e sexo do falante. Além disso, nota-se também que um mesmo indivíduo, dependendo da circunstância em que se encontra, usa, muitas vezes, um nível de língua diferenciado. Para facilitar o estudo, vamos dividir as variações lingüísticas em quatro modalidades:

de língua diferenciado. Para facilitar o estudo, vamos dividir as variações lingüísticas em quatro modalidades: 11

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1. Variação histórica ou diacrônica

João Ferreira de Almeida, em 1861, traduziu o Novo Testamento do grego para a língua portuguesa. Até hoje, a versão da Bíblia feita por Almeida é uma das mais queridas e apreciadas no Brasil. Transcrevemos abaixo, a título de curiosidade, um trecho do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas, traduzido no século XVII e, logo em seguida, sua tradução em português do século XX.

―Um homem tinha dous filhos. E disse o mais moço delles a seu pae: Pae, dáme a parte que (me) pertence, e elle repartio a fazenda. E depois de naõ muitos dias, ajuntando o filho mais moço tudo, partiose a huã terra muy longe, e ali desperdiçou sua fazenda, vivendo disolutamente. E desque já teve tudo desperdiçado veio huã grande fome n‘aquella terra, e começou a padecer necessidade. E foi, e achegouse a hum dos cidadaõs d‘aquella terra; o qual o mandou a sua quinta, a apascentar os porcos. E desejava encher seu ventre das mondadouras que comiaõ os porcos, e ninguém lhas dava. E tornando em si disse: Quantos jornaleiros de pae tem abundancia de pam, e eu aqui pereço de fome.‖ (Lucas, cap. 15, vs. 11-17, versão Almeida, 1681) [88]

―Um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente.

E,

havendo ele gasto tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades.

E

foi e chegou-se a uma dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a

apascentar os porcos.

E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada.

E, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de

fome!‖

(Lucas, cap. 15, vs. 11-17, versão Almeida, 1995, revista e corrigida)

Como se pode notar, ocorreram várias modificações. Essas variações se devem ao fato de que as línguas se alteram com o passar do tempo. As alterações ocorrem tanto na grafia quando no sentido de muitas palavras.

Vejamos agora o seguinte texto de Carlos Drummond de Andrade:

Antigamente as moças se chamavam mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhe pés-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o

faziam-lhe pés-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua,

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Os mais idosos, depois da janta,

faziam o quilo, saindo a tomar a fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n‘água. (Andrade, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1998)

Observação:

remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia (

)

As palavras que deixam de ser usadas recebem o nome de arcaísmos. As palavras que vão surgindo recebem o nome de neologismos. Neologismo é a denominação dada à palavra recém-criada ou mesmo a

uma palavra que adquire um novo significado: neologismar é o ato de criar neologismos. Por exemplo:

Em 1990, Antônio Rogério Magri, ministro do Trabalho do governo Collor, criou o termo ―imegível‖,

que, na época, foi motivo de risadas pelos puristas da língua. O Dicionário Houaiss, já registrou essa palavra.

Na Revista Imprensa, nº 109, de outubro de 1996, a Telesp publicou a seguinte propaganda: ―A Telesp

está inaugurando 28 mil telefones públicos a cartão. Contamos com você para não desinaugurar.‖ O verbo ―desinaugurar‖ é um neologismo. [ ]

A própria palavra apagão, que se tornou moda no Brasil a partir de 2001 com o processo de racionamento

de energia elétrica, é um neologismo.

Mais uma: hebiatra (de Hebe, deusa da juventude), termo reconhecido pela Associação Médica Brasileira

em 1998, é o médico de adolescentes.

2. Variação social ou diastrática

Os membros de uma comunidade, mesmo que nascidos e criados num âmbito geográfico restrito, não usam as mesmas formas de expressão. Existem diferenças explícitas no uso da língua de acordo com a idade, com a classe social ou com o sexo do falante. É freqüente que indivíduos pertencentes a uma classe sócio-econômica mais baixa, por exemplo, não pronunciem o ‗lh‘ em palavras como mulher, filho, telha etc., pronunciando muié, fio, teia etc. Palavras terminadas em ‗em‘ passam a ‗i‘. Ex: homi em vez de homem. O emprego da forma ‗gracinha‘ restringe-se, em boa parte, à faixa de falantes do sexo feminino. Também caracteriza o falar feminino o prolongamento da primeira vogal no adjetivo maravilhoso (maaaaaaaaaaaaaaaaravilhoso!!!!!). Além disso, temos também expressões tipicamente femininas, como ―menina‖, ―bem‖, ―nem te conto‖, ―uma graça‖ etc. Ex: ―Menina, tenho uma pra te contar!‖, ―Olha, bem, assim você não vai conquistar o Ricardo‖. [90]

3. Variação geográfica ou diatópica

Leia os seguintes textos:

assim você não vai conquistar o Ricardo‖. [90] 3. Variação geográfica ou diatópica Leia os seguintes

13

Texto 1:

Te deita no divã, tchê. disse o analista de Baé.

Pra quê? quis saber o paciente, desconfiado.

Oigalê bicho bem xucro disse o analista com um risada agradável, enquanto torcia o braço do outro e obrigava-o a se deitar. (VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. Porto Alegre: L&PM, 1982.)

Texto 2:

Fale sobre sua vida aqui.

Eu vivi questão de 34 anos prá trás mesmo, indês que eu nasci aqui. Eu interei im vida, indês que

eu nasci, vivo bem graças a Deus, pessoas boa. Falá aqui, dinheiro não é nada, mais a gente usa é dinheiro, né? Nunca sobrô. (VILEFORT, Mariza T. Costa. Aspectos sintáticos do dialeto caipira da região de Morrinhos. Goiânia: Universidade Católica de Goiás, 1985.)

O primeiro trecho apresenta características do falar do Rio Grande do Sul, o segundo trata do falar caipira do interior de São Paulo, e o terceiro registra a fala de um habitante da zona rural de Goiás. Num país de vasta extensão territorial, como é o caso do Brasil, é comum verificarmos o emprego de algumas palavras que são conhecidas apenas em determinadas regiões, caracterizando os chamados regionalismos. Ex: No Maranhão, ri-ri significa zíper; macaxeira ou aipim, no Nordeste, corresponde a mandioca; cacetinho, na Bahia, equivale ao nosso pãozinho [em Belém: pão careca ou apenas careca]. Do ponto de vista fonético, há também diferenças: caracteriza, de certo modo, a pronúncia de toda a região nordestina brasileira a abertura da vogal pré-tônica, como em dezembro, menino e colina, regularmente fechada em outras regiões. Já no Rio grande do Sul, são produzidas as vogais /e/ e /o/ átonas finais, pronunciadas como /i/ e /u/ em São Paulo. Ex: parede (RS), paredi (SP). No sertão baiano, o fonema /t/ é pronunciado como um /tch/; assim, ‗oito‘ se diz ‗oitcho‘. Na região do rio São Francisco, a palavra ‗dama‘, pouco usada em São Paulo, tem o significado de ‗meretriz‘.

Outros regionalismos:

birita (Rio de Janeiro e São Paulo): cachaça. cafundó (Bahia): lugar afastado, de difícil acesso. fifo (Bahia e Minas Gerais): pequeno lampião. Se, no território brasileiro, já existe uma grande variação lingüística regional, o que se dirá ao se comprar a língua portuguesa do Brasil com a língua portuguesa de Portugal. [93]

Abridor de Garrafas tira-cápsulas Aposentado reformado Banheiro casa de banho

Fila bicha Goleiro guarda-redes Meia de homem peúga

– reformado Banheiro – casa de banho Fila – bicha Goleiro – guarda-redes Meia de homem

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Bala rebuçado Band-aid penso rápido Bonde elétrico Cardápio ementa Chiclete pastilha elástica Cinema animatógrafo Conversível descapotável Frentista gasolineiro

Ônibus auto-carro Peruca capacinho. Privada, vaso sanitário retrete Sanduíche sandes Secretária eletrônica atendedor automático Tigela malga Trem - comboio Vitrina - montra

Embora as diferenças de vocabulário entre o português do Brasil e o de Portugal sejam as mais nítidas, não são as únicas. Podemos assinalar ainda algumas diferenças nos campos fonético e sintático.

I Na fonética

1 – A vogal ‗a‘, em Portugal, soa quase como ‗ê‘: Mâria, câjâdo;

2 As vogais /o/ e /e/, em Portugal, quando átonas, soam como /u/ e /i/: uração, Dulores;

3 – No falar lusitano, o ditongo ‗ei‘ equivale a ‗âi‘: câijo (quiejo), dâixo (deixo);

4 – Em Portugal, aparece um /e/ ou /i/ no final das palavras terminadas em ‗l‘ e ‗r‘: lari (lar), pastele (pastel), mari (mar) etc;

5 No Brasil, fala-se com mais vagar, pronunciando-se calmamente as sílabas, ao passo que, em Portugal, fala-se rapidamente e, às vezes, com supressão de vogais: m‘nino (menino), p‘ru (peru).

II Na sintaxe

1 Na língua moderna, o brasileiro prefere o gerúndio, enquanto o português usa o infinitivo preposicionado: estou lendo (no Brasil); estou a ler (em Portugal);

2 – No Brasil, preferimos a preposição ‗em‘ em lugar da preposição ‗a‘: estou na janela (Brasil); estou à janela (Portugal);

3 No Brasil, inicia-se a frase com pronome oblíquo, o que não acontece em Portugal: ―Me dá o livro‖ (Brasil); ―Dá-me o livro‖. (Portugal).

Ouça as variações regionais e depois inicie a atividade ―glossário de expressões regionais‖. Você deve inserir pelo menos cinco palavras por semana.

nicie a atividade ―glossário de expressões regionais‖ . Você deve inserir pelo menos cinco palavras por

15

Questões de textualidade Coesão textual

I - Mecanismo de coesão textual como forma de evitar repetição de palavras

Observe o texto:

Os cientistas do Laboratório Nacional de Sandia, do Novo México, nos EUA, estão desenvolvendo uma pistola que só disparará pelo dono da pistola. A idéia é dotar a pistola de um código eletrônico. A pistola só executará ordens do dono da pistola. O objetivo é aumentar o grau de segurança das pistolas e diminuir os acidentes.

Observe, agora, a nova versão em que se utilizam mecanismos de coesão textual, e, logo a seguir, os recursos adotados, com o auxílio dos números colocados entre parênteses:

Os cientistas do Laboratório Nacional de Sandia, do Novo México, nos EUA, estão desenvolvendo uma pistola (1) que só disparará pelo seu (2) dono (3). A idéia é dotá-la (4) de um código eletrônico. A arma (5) só executará ordens do proprietário (6-7). O objetivo é aumentar o grau de segurança (8) e diminuir os acidentes.

É evidente que há outras versões possíveis para o texto apresentado. Outros mecanismos poderiam ser empregados para se evitar a tão enfadonha repetição de palavras. Os mecanismos de coesão textual são recursos lingüísticos de natureza sintático-semântica que contribuem para a qualidade do texto e servem para solucionar o problema da repetição de palavras.

Observe os seguintes recursos de coesão referencial como mecanismos de construção de texto:

1. EMPREGO DE PRONOMES

pessoal reto:

João Donato recebe hoje o Prêmio Shell. Ele está tocando com Ed Motta, Joyce e Emilio Santiago‖.

pessoal oblíquo:

―Para fazer Lulu Santos ficar sentado, tivemos que desligá-lo da tomada‖.

demonstrativo:

Machado de Assis e Castro Alves são contemporâneos. Aquele se destaca pelos romances; este, pela

poesia‖.

Machado de Assis e Castro Alves são contemporâneos. Aquele se destaca pelos romances; este , pela

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relativo:

A música que nos deixa mais próximo do céu serve para enobrecer a alma‖.

2. EMPREGO DE ADVÉRBIOS

―João Gilberto esteve no Show de João Donato. ele rendeu merecidas homenagens ao músico‖.

3. EMPREGO DE NUMERAIS

―Compositor de rara inspiração, pedra fundamental da bossa nova ao lado de Tom Jobim e João Gilberto

ambos sempre o tiveram como ídolo – , João Donato sobe hoje ao palco para um show‖.

Além desses recursos de substituição, chamados pro-formas pronominais, adverbiais e numerais, podemos utilizar ainda na construção do texto:

ELIPSE TOTAL OU PARCIAL (indicada pelos asteriscos):

a) Desde que Viviane Todeschini trocou a tradicional broca pelo laser para obturações, (*) registrou um

aumento de 40 por cento no número de pacientes, no consultório de Ipanema. (*) Diz ainda que a outra modernidade é um aparelho de anestesia computadorizada que libera gota a gota o produto, no local que

deve ser adormecido.

b) ―Após mau desempenho do Ensino Básico, o MEC divulga amanhã o (*) do Ensino Médio‖.

c) O doutor Antonio Carlos de Abreu se encontra na enfermaria B. Doutor Abreu (*) está ansioso para

ver o novo paciente.

REPETIÇÃO DO MESMO ITEM LEXICAL:

Traga-me cerveja e bolinhos de bacalhau. Olha! a cerveja eu quero bem gelada!

SINONÍMIA

Não é que a criança colocou o dedo no buraco da tomada! Também o menino mexia em tudo que via.

HIPERÔNIMOS E HIPÔNIMOS

A concessionária não recebeu os carros. O cliente vai a agência e não encontra os veículos anunciados.

(É muito comum o hipônimo termo específico preceder o hiperônimo termo geral como forma de evitar a repetição).

EMPREGO DE SIGLAS

O Partido dos Trabalhadores defendeu sua proposta na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. O PT registrou nos anais da ALERJ que os interesses dos trabalhadores sempre foram lesados pelo patronato.

. O PT registrou nos anais da ALERJ que os interesses dos trabalhadores sempre foram lesados

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SUBSTITUIÇÃO DE CONSTITUINTES LONGOS COMO FRASES OU PARTE DELAS (Com o

auxílio de palavras ou expressões do tipo: também, isso, tudo isso, fazer o mesmo, dessa forma, etc.):

a) Meus amigos votaram no partido do governo. Eu não fiz o mesmo.

b) Lúcia foi aprovada no vestibular. Seu irmão também.

II OS TIPOS DE COESÃO TEXTUAL

1. REFERENCIAL: concorre para o texto progredir através da retomada de referentes textuais, utilizando a co-referência. Pode ser por meio de substituição ou reiteração.

1.1. Substituição: um elemento do texto é retomado (anáfora) ou precedido (catáfora) por outro chamado pro-forma (pronome verbo, advérbio, numeral); e, também, por elipse:

Pro-forma pronominal:

a) O mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo

(Alberto Caiero heterônimo de Fernando Pessoa)

b) ―Em sua caça ao indígena, os colonos foram conhecendo melhor a floresta e descobrindo suas potencialidades‖.

c) ―Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo. Quaresma era antes de tudo um brasileiro‖.

(Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma)

d) Pedro e Paulo são bons professores. Este, de História; aquele, de Geografia.

Pro-forma verbal:

Pedro votou nesse candidato. E o pior é que toda sua família fez o mesmo.

Pro-forma adverbial:

Vou-me embora para Pasárgada. sou amigo do rei. tenho a mulher que quero Na cama que escolherei Vou-me embora para Pasárgada. (Manuel Bandeira)

amigo do rei. Lá tenho a mulher que quero Na cama que escolherei Vou-me embora para

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Pro-forma numeral:

Júlia e Joana se inscreveram na maratona. Ambas subiram ao pódio.

Elipse (é a substituição por zero):

A professora de inglês se encontra de licença médica. (*) Será, no entanto, substituída por uma colega.

1.2 Reiteração: repetição que se faz através de sinônimos, de hiperônimos, hipônimos, de expressões nominais definidas, de nomes genéricos.

Sinonímia:

Minha filha ganhou um cachorro. O Cãozinho nem estranhou a nova casa.

Heteronímia // Hiponímia

Pedro gosta muito de doces. Cocada, então, adora. Júlia comprou uma moto. O veículo é a sua mais nova paixão.

Expressões nominais definidas:

O

professor Miguel leciona Latim. É um mestre querido de todos.

Nomes genéricos (coisa, gente, negócio, etc.):

Isto é um dicionário. É uma coisa que contém todas as informações corretas, específicas e precisas para cada

palavra que lhe é consultada.

2. RECORRENCIAL: concorre para o texto progredir através da repetição de termo, de estruturas, de conteúdo semântico e de recursos fonológicos.

Repetição de termos: é a repetição de palavra ou expressão.

Casa entre bananeiras Mulheres entre laranjeiras Pomar amor cantar. (Drummond, Cidadezinha Qualquer)

Repetição de estruturas:

Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. (idem)

Repetição de conteúdo semântico (paráfrase): consiste em dizer a mesma coisa com palavras diferentes.

Quero você no aniversário do meu filho. Já está intimado para a festa.

a mesma coisa com palavras diferentes. Quero você no aniversário do meu filho . Já está

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Repetição de recursos fonológicos: ritmo, rima, aliteração, eco, etc.

Vozes, veladas, veludosas vozes

(Cruz e Sousa)

3. SEQUENCIAL: consiste no estabelecimento de relações semânticas (sindética ou assindeticamente) entre termos da oração, orações ou conjunto de orações.

3.1 Seqüência temporal:

Ordenação linear dos elementos:

Ele chegou, entrou, e pediu silêncio.

Expressão que indica coordenação:

Primeiro avistei os cães, em seguida a tropa.

Partículas temporais:

Não deixe de vir amanhã.

Correlação de tempos verbais:

Pedi que deixasse os livros na biblioteca.

Peço que deixe os livros na biblioteca.

3.2. Seqüencial por conexão (conjunção):

a) Ele morreu, uma vez que tomou a medicação errada.

b) Será demitido, apesar de ser bom funcionário.

c) Só aceitarei o cargo, se me derem plena autonomia.

d) Ele bebeu; não pode, portanto, dirigir o carro.

3.2.1 por oposição: Empregam-se alguns termos com valor de oposição (mas, contudo, todavia, porém,

entretanto, contudo) para tornar o texto compreensível. Estávamos todos aqui no momento do crime, porém não vimos o assassino.

3.2.2

por concessão ou contradição: São eles: embora, ainda que, se bem que, apesar de, conquanto, mesmo

que.

Embora estivéssemos aqui no momento do crime, não vimos o assassino.

3.2.3 por causa: São eles: porque, pois, como, já que, visto que, uma vez que.

Estávamos todos aqui no momento do crime e não vimos o assassino uma vez que nossa visão fora

encoberta por uma névoa muito forte.

aqui no momento do crime e não vimos o assassino uma vez que nossa visão fora

20

3.2.4 por condição: São eles: caso, se, a menos que, contanto que.

Caso estivéssemos aqui no momento do crime, provavelmente teríamos visto o assassino.

3.2.5. por finalidade: São eles: para que, para, a fim de, com o objetivo de, com a finalidade de, com intenção de.

Estamos aqui a fim de assistir ao concerto da orquestra municipal.

Coerência

Ferreira, Marina. Redação: Palavra e arte. 2ª ed. São Paulo Atual, 2006.

[299] Teorizando sobre a Coerência Textual

Diz-se que um texto é coerente se fizer sentido. Sentido para quem fala/escreve e para quem ouve/lê. Os três textos que abrem este capítulo são coerentes para seus produtores, pois eles conhecem a realidade sobre a qual falam e encontraram uma maneira para se expressar condizente com esse conhecimento. Um leitor do ensino médio, que estudou a Segunda Guerra Mundial, que conhece a obra de Drummond e que lê jornais, verá coerência nesses mesmos textos, embora possa dizer que não entendeu bem as metáforas do poema de Drummond.

Não existe o texto incoerente em si, mas que o texto pode ser incoerente em/para

determinada situação comunicativa.[

à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras socioculturais, outros elementos da situação, uso dos recursos lingüísticos, etc. Caso contrário, será coerente. É evidente que a capacidade de cálculo do sentido pelo receptor é fundamental. Pode acontecer que, mesmo o texto sendo bem estruturado, com todas as pistas necessárias ao cálculo do seu sentido, um receptor pode, no nível individual, não ser capaz de determinar-lhe o sentido por limitações próprias (não domínio do léxico e/ou estruturas, desconhecimento do assunto, etc.). Neste caso, não dirá, sobretudo considerando o produtor, que o texto é incoerente, provavelmente seu

O texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo

]

comentário será: "Não consegui entender este texto". (Ingedore G. Villaça Koch e Luiz Carlos Travaglia. A coerência textual. São Paulo:

Contexto, 1993. p. 50.)

Assim, a coerência textual é um processo que inclui dois fatores:

a) o conhecimento que o produtor e o receptor têm do assunto tratado no texto, determinado por sua

visão de mundo, sua classe social, profissão, idade, escolaridade, etc;

b) o conhecimento que eles têm da língua que usam: tipos de texto, vocabulário, recursos

estilísticos, etc. (que depende do fator acima: classe social, escolaridade, etc.).[300]

texto, vocabulário, recursos estilísticos, etc. (que depende do fator acima: classe social, escolaridade, etc.).[300] 21

21

Evidentemente, o tipo de texto influi no processo de construção de sentido. A literatura e a

publicidade, por exemplo, podem manifestar coerência de um modo bem diferente que um texto dissertativo manifesta. Na dissertação, utilizam-se recursos lingüísticos que facilitem a compreensão do assunto; já um poeta não necessita desses mesmos mecanismos, podendo inventar, rebuscar, enfeitar, pois não tem o compromisso de desenvolver um raciocínio lógico-argumentativo, como na dissertação. [ ]

A coerência necessária ao texto narrativo chama-se verossimilhança. Toda narrativa, portanto, deve

ser verossímil (similar à verdade), passando ao leitor uma idéia de possibilidade, que está muito ligada à coerência interna da história que se narra. Assim, mesmo em histórias inventadas, ficcionais, nota-se a verossimilhança ou coerência na articulação de seus elementos personagem, tempo, espaço , em relação

ao contexto a que se refere. Tudo ali faz sentido: as chuvas fora de época, o envolvimento de homens e mulheres em novas atividades, a estocagem de alimentos, o telegrama que comunica a morte, o clima de pesar.

A

coerência num texto dissertativo, [

]

pode ser observada na gradação e aprofundamento de suas

idéias.[ ]

Observações:

Quando você estiver lendo um texto qualquer, veja se é capaz de falar sobre seus pontos mais importantes, se consegue discorrer sobre ele, ligando uma idéia à outra, numa seqüência lógica. Se não

conseguir, é porque ainda não compreendeu esse texto. Nesse caso, tente identificar se sua dificuldade reside nos termos empregados, na organização das frases ou no próprio assunto debatido. Procure lê-lo outras vezes e, se necessário, busque ajuda.

E ao escrever sua redação, antes de passá-la a limpo, observe se há continuidade no desenvolvimento

de suas idéias, se uma "puxa" a outra, se você as percebe globalmente, como um todo, se não há contradição, enfim, se é uni texto coerente. E lembre-se de que fazer rascunhos é muito importante para o exercício da coerência. [301]

Exemplos clássicos no trato com a textualidade:

“Havia um menino muito magro que vendia amendoins na esquina de uma das avenidas de São Paulo. Ele era tão fraquinho, que mal podia carregar a cesta em que estavam os pacotinhos de amendoim. Um dia, na esquina em que ficava, um motorista, que vinha em alta velocidade, perdeu a direção. O carro capotou e ficou de rodas para o ar. O menino não pensou duas vezes. Correu para o carro e tirou de lá o motorista, que era um homem corpulento. Carregou-o até a calçada, parou um carro e levou o homem para o hospital. Assim salvou-lhe a vida.”

“O quarto espelha as características de seu dono:um esportista que adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades intelectuais. Por toda a parte havia sinais disso:raquetes de tênis, prancha de surf, equipamento de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesinha e as obras completas de Shakespeare.”

skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesinha e as obras completas

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KATO, Mary A. No mundo da escrita. Uma perspectiva psicolingüística. 7ª ed. São Paulo: Ática, 2003.

[55] A busca da Coerência

O que queremos dizer quando afirmamos que Fulano é coerente quando fala ou que Nossos alunos

não escrevem coerentemente? Na verdade, o falante e o escritor sempre buscam a coerência de sua fala ou texto, embora nem

sempre sejam bem-sucedidos.

Da mesma forma, o leitor, ao enfrentar o texto, procura a coerência e, no caso de encontrar alguma falha, tenta ajustar a representação desse texto, de forma que ele se torne coerente. Mas afinal o que é essa coerência? Tanto a coerência textual quanto a discursiva dependem de três níveis diferentes: a) a coerência global; b) a coerência local; e c) a coerência temática.

A coerência global tem a ver com a adequação do texto como um todo à nossa visão de mundo, aos

nossos esquemas prévios. É o que se pode chamar também de princípio da realidade. A coerência local tem a ver com a consistência interna. A violação desse princípio da consistência pode tornar o texto falso, levando

o escritor a violar, sem intenção, o postulado da sinceridade.

A coerência temática é aquela que responde pela manutenção do tópico do discurso; pode também

ser chamada de princípio da parcimônia, que procura reduzir o número de participantes no cenário mental que o leitor constrói a partir do texto. A coerência pode ser também uma qualidade atribuída à forma. Um texto que mistura níveis diferentes de linguagem peca pela falta de coerência formal. Determinadas formas discursivas são caracterizadas por um conjunto de convenções a que se tem de obedecer consistentemente. A obediência a umas e não a outras leva também a uma incoerência formal, que pode dificultar a tarefa do leitor, por desviar

sua atenção do conteúdo para a forma. [ 56]

Fatores de que depende a textualidade 1 Texto 1 (fragmento) por Flávio de Aguiar Barbosa (UERJ)

Uma série de elementos favorece o estabelecimento da coerência pelo receptor de um texto. Eles são agrupados diferentemente pelos teóricos, mas são basicamente os seguintes:

Elementos lingüísticos - O conhecimento gramatical (tanto por parte do produtor quanto do receptor de textos) é importante para o estabelecimento da coerência textual: por meio desse conhecimento, o receptor pode detectar no desenvolvimento linear de um texto conexões lógicas que balizam a interpretação da mensagem. A concordância gramatical, a referência pronominal, a elipse, a seleção

1 O título foi atribuído por questões didáticas. Outra possibilidade: ―Fatores adicionais de textualidade‖. [nota do professor]

atribuído por questões didáticas. Outra possibilidade: ―Fatores adicionais de textualidade‖. [nota do professor] 23

23

lexical, o uso de tempos verbais, de elementos dêiticos, de conectivos etc. são recursos da coesão textual, segundo a terminologia predominante. Conhecimento de mundo - Na conceituação de Koch e Travaglia (1993), ―o conhecimento de mundo é visto como uma espécie de dicionário enciclopédico do mundo e da cultura arquivado na memória.‖ Essas informações são armazenadas e organizadas sistematicamente por cada indivíduo em modelos cognitivos que aciona para interagir com a realidade. Esse tipo de conhecimento e principalmente o seu compartilhamento são essenciais no processo comunicativo (ver também o tópico informatividade, a seguir). Fatores pragmáticos - Os que ancoram um texto em uma situação comunicativa determinada, como a situacionalidade (ver subtópico seguinte), características dos interlocutores ou da relação entre eles (posição hierárquica, afetividade, familiaridade com o assunto abordado, entre outras), crenças pessoais,

a função do texto produzido etc.

Situacionalidade - Fator que ancora um texto em uma dada situação comunicativa. É materializada por contextualizadores (assinatura, data, local, elementos gráficos, como disposição da página, fotos, etc., que ancoram o texto na situação comunicativa) e perspectivos ou prospectivos (elementos que avançam expectativas sobre o conteúdo; dependem do conhecimento de mundo do leitor título, autor [seu estilo, dados biográficos, postura política etc.], estilo de época, corrente científica, filosófica, religiosa). Inferência - É o processo cognitivo usado para estabelecer relações não explícitas entre informações de um

texto, que garantem a continuidade de sentido. Tem a ver com o conhecimento de mundo e principalmente com o compartilhamento desse conhecimento. Todo texto é repleto de informações pressupostas que devem ser recuperadas pelo receptor. Intencionalidade e aceitabilidade - O produtor de um texto pode deflagrar o processo comunicativo com uma série de possíveis intenções, desde a simples criação e manutenção do canal de comunicação até a interferência no comportamento ou nas crenças do interlocutor. É necessário que o receptor perceba essa intenção e a adequação do texto produzido à situação comunicativa, considerando-o aceitável e relevante para o propósito almejado. Informatividade - O conhecimento partilhado entre produtor e receptor define a parcela de informações

dadas e novas de um texto. Quanto mais informativo ele for, maior será a dificuldade para se estabelecer

a coerência textual; a situação inversa também pode abalar o cálculo da coerência textual: se houver

muitas informações já conhecidas, o texto não será informativo e o intercâmbio textual será percebido

como irrelevante e sem objetivo; fere-se, nesse caso, o princípio da aceitabilidade. Extraído de [http://www.filologia.org.br/xcnlf/8/04.htm] em agosto de 2007.

Texto 2 (fragmento) - Sandra Sebastião de Andrade

No capítulo Texto e Textualidade, Costa Val (1991) define texto ou discurso ―como ocorrência

lingüística falada ou escrita, de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal‖ (p.3). Para se ter um texto basta ter um enunciado falado ou escrito que, independente de sua

] [

e formal‖ (p.3). Para se ter um texto basta ter um enun ciado falado ou escrito

24

extensão, comunique algo a alguém, em sua forma específica de linguagem; pode-se ter um texto, por exemplo, em um sinal de trânsito ou em um panfleto publicitário.

A autora diz que um texto precisa ser dotado de textualidade: ―conjunto de características que fazem

com que um texto seja um texto e não apenas uma seqüência de frases‖ (p. 5).

Costa Val afirma também que

―a coerência do texto deriva de sua lógica interna, resultante dos significados que sua rede de conceitos e relações põe em jogo, mas também da compatibilidade entre essa rede conceitual o mundo textual – e o conhecimento de mundo de quem processou o discurso‖ (1991, p.6).

Ou seja: para ser um produtor eficiente de textos coerentes, é necessário ter uma visão ampla de conceitos e ainda relacioná-los entre si. Quem processa razoavelmente bem as várias informações e conhecimentos no momento de pensar terá mais chance de escrever coerentemente. Isso vem argumentar também a favor da leitura. Lendo se estabelece relações com o já visto e já lido e, para juntar esses núcleos informativos é preciso coerência no momento da escrita. Se a coerência está mais no âmbito das idéias, a coesão é a parte mais palpável do texto. Val afirma que ―a coesão é a manifestação lingüística da coerência; advém da maneira como os conceitos e relações

subjacentes são expressos na superfície textual (

constrói-se através de mecanismos gramaticais e lexicais‖

(p.6). O uso de anafóricos e conjunções, por exemplo, e a substituição de palavras por expressões sinônimas constituem recursos para manter a coesão dentro de um texto. Textualidade, para Val, é o conjunto, no texto, dos fatores coesão e coerência, e ainda da

intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade. Esses critérios de textualidade são base de estudo dos teóricos Beaugrande e Dressler (1983) e também foram comentados pela autora.

capaz de

satisfazer os objetivos que tem em mente numa determinada situação comunicativa‖ (p.10). O importante, dentro do quesito intencionalidade, é saber para que existe determinado texto e se ficou claro ao leitor o que

se está querendo comunicar.

A aceitabilidade está relacionada ao receptor do texto, se este considera de importância o que leu: ―o

outro lado da moeda é a aceitabilidade, que concerne à expectativa do recebedor de que o conjunto de

ocorrências com que se defronta seja um texto coerente, coeso, útil e relevante, capaz de levá-lo a adquirir conhecimentos‖. (p.11)

O terceiro fator de textualidade, a intencionalidade, está ligado à ―pertinência e relevância do texto

quanto ao contexto que ocorre‖ (p.12). Determinado texto só faz realmente sentido se estiver adequado às exigências do contexto.

A informatividade é a qualidade do texto que ―traz a novidade‖, tem discurso menos previsível e,

portanto, mais informativo (p. 14).

)

A intencionalidade diz respeito ―ao empenho do produtor em construir um discurso (

)

mais informativo (p. 14). ) A intencionalidade diz respeito ―ao empenho do produtor em construir um

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Outro componente da textualidade é a intertextualidade, que é o diálogo com outros textos:

―inúmeros textos só fazem sentido quando entendidos em relação a outros textos‖ (p.15). Segundo Val, tanto esses últimos fatores citados, os pragmáticos, quanto a coerência (aspecto semântico) e a coesão (aspecto formal) só tornarão um texto realmente eficiente se funcionarem conjuntamente. Todos os conceitos da autora, mencionados anteriormente, vêm a contribuir para a idéia de que não se pode imaginar um texto apenas pela ótica da coesão. Ele é resultado de uma série de fatores que contribuem para a sua completude. Porém, este estudo enfocará preponderantemente a análise da coesão nos textos produzidos. [ ] Extraído de [http://www.facosfacad.com.br/pos/lin_lit/docs/12.doc] em agosto de 2007.

Dicas de páginas sobre o assunto:

[http://br.geocities.com/esquinadaliteratura/autores/benedito/index.html]

[http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno11-14.html]

[http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno11-14.html] 26

26

AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM E A PRODUÇÃO DE TEXTOS

Introdução

A partir de agora, vamos estudar as funções da linguagem e sua relação com o ato de produzir textos.

O estudo dessas funções, como você verá, nos fornece subsídios para analisar e incrementar as práticas da

leitura e da redação. Cada função será estudada separadamente, mas isso não significa que elas ocorram de forma isolada nos textos; ao contrário, a todo momento se evidenciam suas inter-relações.

Nosso estudo se encerra com alguns capítulos que interligam as funções da linguagem e os gêneros

redacionais consagrados: narração, descrição e dissertação. Esses capítulos, portanto, lhe darão oportunidade

de aprimorar-se na prática da produção de textos. Reduzimos a exposição teórica ao mínimo indispensável, privilegiando as atividades de leitura e

criação. Dessa forma, você irá enfrentar uma série de problemas de produção de textos que tentará resolver

na prática:

quebrando a cabeça, ensaiando soluções, trocando idéias com seus colegas, consultando o professor Mais uma vez, o sucesso de tudo o que propomos depende de seu interesse e de sua iniciativa.

As funções da linguagem

Quando estudamos a comunicação, verificamos que cada ato comunicativo apresenta seis elementos. Esquematicamente, eles são assim representados:

verificamos que cada ato comunicativo apresenta seis elementos. Esquematicamente, eles são assim representados: 27
verificamos que cada ato comunicativo apresenta seis elementos. Esquematicamente, eles são assim representados: 27

27

Partindo desses seis elementos, o lingüista russo Roman Jakobson elaborou seus estudos sobre as funções da linguagem, muito úteis para a análise e a produção de textos. Foram seis as funções que caracterizou, cada uma delas estreitamente ligada a um dos seis elementos que compõem o ato de comunicação: a função referencial, a função expressiva ou emotiva, a função conativa, a função fática, a função metalingüística e a função poética.

Função referencial

Referente é o objeto ou situação de que a mensagem trata. A função referencial privilegia o referente da mensagem, buscando transmitir informações objetivas sobre ele. Valoriza-se, assim, o objeto ou a situação de que trata a mensagem, sem que haja manifestações pessoais ou persuasivas. É a função que predomina em textos de caráter científico e em grande parte dos textos jornalísticos.

Exemplo:

Em 1665¸ Londres é assolada pela peste negra (peste bubônica) que dizimou grande parte de sua população, provocando a quase total paralisação da cidade e acarretando o fechamento de repartições públicas, colégios etc. Como conseqüências desta catástrofe, Newton retornou a sua cidade natal, refugiando-se na tranqüila fazenda de sua família, onde permaneceu durante dezoito meses, até que os males da peste fossem afastados, permitindo seu regresso a Cambridge. Este período passado no ambiente sereno e calmo do campo foi, segundo as palavras do próprio Newton, o mais importante de sua vida. Entregando-se totalmente ao estudo e à meditação, quando tinha apenas 23 a 24 anos de idade, ele conseguiu, nesta época, realizar muitas descobertas, desenvolvendo as bases de praticamente toda a sua obra. (Antônio Máximo e Beatriz Alvarenga. In. Curso de Física. São Paulo: Harbra, 1992. v. 1, p. 196.)

Função emotiva ou expressiva Por meio da função emotiva ou expressiva, o emissor imprime no texto as marcas de sua atitude

pessoal:

emoções, opiniões, avaliações. Podemos sentir no texto a presença do emissor (que pode ser clara ou sutil). Nas cartas pessoais, nas resenhas críticas, na poesia confessional, nas canções sentimentais predomina essa função.

Exemplo:

Estou tendo agora uma vertigem. Tenho um pouco de medo. A que me levará minha liberdade? O que é isto que estou te escrevendo? Isto me deixa solitária. (Clarice Lispector)

A que me levará minha liberdade? O que é isto que estou te escrevendo? Isto me

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Função conativa

A palavra conativo provém do latim cõnãtus, que significa "esforço ou ação que procura impor-se a uma resistência". Essa função busca organizar o texto de forma a que ele se imponha sobre o receptor da mensagem, persuadindo-o, seduzindo-o. Nas mensagens em que ela predomina (como, por exemplo, as publicitárias), busca-se envolver o leitor com o conteúdo transmitido, levando-o a adotar determinado comportamento. Essa persuasão pode ser construída de forma sutil, utilizando artifícios de linguagem que a mascaram.

Exemplo:

O arauto proclamou:

Meu estimado povo. Que as bênçãos de Deus, Senhor todo-onipotente, desçam sobre vocês. Visando combater os gastos desnecessários e luxo. Visando dar igualdade geral ao país, com objetivo de eliminar invejas, rancores, entre irmãos, o Governo, em acordo com as fábricas de calçados, determinou que a partir deste momento será fabricado para toda a nação um só tipo de sapato, masculino e feminino. Fechado, liso e encontrável apenas na discreta e tão bonita cor preta. (Ignácio de Loyola Brandão, Zero.)

Função fática

A palavra fático vem do grego phátis, que significa "ruído, rumor". Foi utilizada inicialmente para designar certas formas empregadas para chamar a atenção (verdadeiros "ruídos", como psiu, ahn, ei). Essa função ocorre quando a mensagem se orienta sobre o canal de comunicação ou contato, buscando verificar e fortalecer sua eficiência. Para ela contribuem, nos textos escritos, desde a disposição gráfica sobre o papel até a seleção vocabular e as estruturas de frase utilizadas.

Exemplo:

Como vai, Maria?

Vou bem. E você?

Você vai bem, Maria?

Já disse que sim!

Eu também. Está tão bonita!

Ah, bem, é que eu

Ah, é. (Dalton Trevisan)

Função metalingüística

— Eu também. Está tão bonita! — Ah, bem, é que eu — Ah, é. (Dalton

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A função metalingüística se caracteriza pela linguagem que se volta sobre si mesma, transformando- se em seu próprio referente. Dessa forma, nos textos metalingüísticos, a mensagem se orienta para os elementos do código, explicando-os, definindo-os ou analisando-os. É o que acontece nos dicionários, nos textos que estudam e interpretam outros textos, nos poemas que falam da própria poesia, nas canções que falam de outras canções ou de como fazer canções.

Exemplo:

de outras canções ou de como fazer canções. Exemplo: Função poética A função poética da linguagem

Função poética

A função poética da linguagem se manifesta quando a mensagem é elaborada de forma inovadora e imprevista, utilizando combinações sonoras ou rítmicas, jogos de imagens ou de idéias. Nesse caso, a linguagem é manipulada de forma pouco convencional, capaz de despertar no leitor surpresa e prazer estético. A função poética predomina na poesia, mas pode também ser encontrada em textos publicitários, em determinadas formas jornalísticas e populares (linguagem dos cronistas e provérbios, por exemplo).

Exemplo:

Não sinto o espaço que encerro Nem as linhas que projeto Se me olho a um espelho, erro Não me acho no que projeto (Mário de Sá-Carneiro)

Esquematizando tudo o que vimos, temos:

a um espelho, erro — Não me acho no que projeto (Mário de Sá-Carneiro) Esquematizando tudo

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As funções da linguagem e os textos O estudo das funções da linguagem é muito

As funções da linguagem e os textos

O estudo das funções da linguagem é muito importante para percebermos as diferenças e semelhanças entre os vários tipos de mensagem. Analisando o modo como essas funções se organizam nos textos alheios, podemos detectar as finalidades que orientaram sua elaboração. Aplicando-as em nossos próprios textos, podemos planejar o que escrevemos ou expomos oralmente, de modo a fortalecer a eficácia e a expressividade das mensagens. Numa mensagem, é muito difícil encontrarmos uma única dessas funções isoladamente. O que ocorre, de modo geral, é a superposição de várias delas. Há, no entanto, uma ou duas que sobressaem, permitindo-nos identificar o elemento comunicativo a que se dá mais destaque - o que significa dizer que podemos identificar a finalidade principal da mensagem. Assim, por exemplo, num texto que fala sobre as características de um determinado produto a fim de convencer-nos a comprá-lo, temos a função referencial (informações objetivas sobre o produto) e a função fática (elementos do texto - disposição gráfica, ilustrações, palavras ou frases que atraem nossa atenção), mas o predomínio, a orientação principal, é da função conativa (presente no arranjo geral do texto e em fórmulas como "experimente", "não deixe de provar", que são elementos persuasivos). Ao organizar seus textos, você deve considerar esse jogo entre as funções da linguagem a fim de manipular mais eficientemente o material de que dispõe para elaborar a mensagem. Se, por exemplo, você pretende informar seus colegas sobre um novo local para realizarem suas reuniões, deve organizar um texto em que os elementos referenciais sejam dominantes, controlando suas manifestações pessoais; se, no entanto, pretende convencê-los a freqüentar determinado lugar, seu texto deve apresentar uma elaboração tal que privilegie os elementos conativos; se, ainda, pedirem que você exprima sua opinião sobre um local de encontro qualquer haverá, então, necessidade de você se colocar no texto, construindo-o de forma a que a função expressiva da linguagem predomine.

necessidade de você se colocar no texto, construindo-o de forma a que a função expressiva da

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INFANTE, Ulisses. Textos, leituras e escrituras. [adaptado para esta atividade]

Tome nota:

várias funções podem ocorrer, uma vez que, utilizando corretamente

possibilidades de uso do código, entrecruzam-se diferentes níveis de linguagem. A emissão, que organiza os

sinais físicos em forma de mensagem, colocará ênfase em um a das funções e as demais dialogarão em

Na comunicação diária, por exemplo, além da referencialidade da linguagem o que torna a

mensagem oral imediatamente compreendida —, há ―pinceladas‖ de função, conativa, ou seja, de diálogo com alguém, ou através de uma ordem, ou através de um narrar, mas, ao mesmo tempo, esse diálogo vem caracterizado por traços emotivos. (Samira Chalhub, pág. 8)

Numa mesma mensagem (

)

subsídio. (

)

Texto para leitura

O supra-sumo da tecnologia Confira as revolucionárias vantagens do L.I. V.R. O. Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas

O L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo! Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são mantidas unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém em sua seqüência correia. A TPATecnologia de Papel Opaco - permite que os fabricantes usem as duas faces de cada folha de papel, duplicando a quantidade de informações e cortando pela metade os seus custos. Especialistas dividem-se quanto aos novos projetos para aumentar a densidade de informação de suas folhas. É que, para se fazer L.I.V.R.O.S. com mais informações, basta usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de carregar, atraindo críticas dos adeptos dos computadores portáteis. Cada página do L.I.V.R.O. é escaneada oticamente, e as informações são registradas diretamente em seu cérebro. Um simples movimento dos dedos leva à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser retomado a qualquer hora, bastando abri-lo. Ele nunca "dá pau" nem precisa ser reiniciado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. O comando "browse" permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder quando você quiser. Muitos vêm com um índice, que indica a localização exata de qualquer informação selecionada.

quando você quiser. Muitos vêm com um índice, que indica a localização exata de qualquer informação

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O marca-páginas, um acessório opcional, permite que você abra o L.I.V.R.O. no local exato em que

o deixou na última sessão mesmo que ele esteja fechado. O design dos marcadores de página é universal, permitindo que funcionem em qualquer tipo de L.I.V.R.O., não importando a marca. Além disso, um mesmo L.I.V.R.O. pode receber vários marcadores de páginas, caso seu usuário queira selecionar vários trechos ao mesmo tempo. O número de marcadores é limitado apenas pelo número de páginas. Você também pode fazer anotações ao lado de trechos do L.I.V.R.O. com outro instrumento de programação opcional: o L.A.P.I.S. Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo aclamado como a onda de entretenimento do futuro. Milhares de criadores já aderiram à nova plataforma e espera-se para breve uma inundação de novos títulos.

(Texto que esteve circulando na Internet n» final de fevereiro de 1998) Vip Especial, jul. 1998.

Dissertação

Ferreira, Marina. Redação: Palavra e arte. 2ª ed. São Paulo Atual, 2006.

[188] Estrutura do texto dissertativo e construção da argumentação

A maneira de estruturar uma dissertação desempenha papel decisivo na articulação das idéias. A

organização dos argumentos utilizados no desenvolvimento desse tipo de texto torna-o mais ou menos convincente. [189]

Leitura e Interpretação

Texto 1

Marginália II

Eu, brasileiro, confesso minha culpa, meu pecado Meu sonho desesperado, meu bem guardado segredo Minha aflição Eu, brasileiro, confesso minha culpa, meu degredo Pão seco de cada dia, tropical melancolia Negra solidão Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte Da fome, do medo e, muito principalmente, da morte Olelê, lalá A bomba explode lá fora e agora, o que vou temer? Oh, yes, nós temos banana até pra dar e vender Olelê, lalá Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo pede a bênção e vai dormir Entre cascatas, palmeiras, araçás e bananeiras Ao canto da juriti

(Gilberto Gil e Torquato Neto, in: http://www.mpbnet.com.br)

palmeiras, araçás e bananeiras Ao canto da juriti (Gilberto Gil e Torquato Neto, in: http://www.mpbnet.com.br) 33

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Aqui, meu pânico e glória, aqui, meu laço e cadeia Conheço bem minha história, começa na lua cheia

E

termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo Aqui é o fim do mundo

Esse poema [essa letra de música] pertence ao Tropicalismo, movimento do final da década de 1960 inspirado na necessidade de assumirmos nossa cultura tropical, porém de maneira crítica. Nesse sentido, expressões como culpa, pecado e aflição referem-se ao fato de o Brasil ser visto como ―o fim do mundo‖, o ―terceiro mundo‖, etc. Para criar um panorama do país, o texto reinterpreta referências culturais, históricas e literárias. O primeiro verso é uma forte referência religiosa, o ato de contrição católico: ―Eu, pecador, me confesso a Deus todo-poderoso‖. ―Ao canto da juriti‖ é uma referência ao livro Iracema, de José de Alencar. ―Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte‖ parodia a ―Canção do Exílio‖, de Gonçalves Dias. [190] Há também inúmeras referências a canções populares, como ―yes, nós temos banana‖ e o refrão ―ô lelê, ô lalá‖; Todo o texto está carregado de ironia.

Texto 2

Diagnóstico da formação da sociedade brasileira

O livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, é uma obra que, em certos aspectos, tem muito a ver com

a realidade atual do Brasil. A importância do livro reside sobretudo no fato de Euclides ter focalizado de

perto o problema das nossas disparidades sociais, regionais, ainda agora bastante visíveis. Euclides não só denunciou um crime (o do Exército contra os canudenses), mas fixou um problema que está na formação da sociedade brasileira - o do desprezo histórico às populações interioranas do País, que ainda agora se deslocam para virar miseráveis nas grandes cidades. E esse fluxo de pessoas para os grandes centros urbanos (que se intensificou desde o início da segunda metade do século 20) é, em grande medida, fruto do modelo econômico, da falta de uma reforma agrária. Se se formula a pergunta: o que faz com que Os Sertões tenha status de literatura e, mais, seja aclamado em seus cem anos como uma das mais importantes obras da cultura brasileira? A resposta é: o estilo de Euclides. Sobre o estilo euclidiano já falaram em ‗jogo antitético‘, em ‗barroco científico‘, etc. É visível em Os Sertões uma mistura dos gêneros literários (o épico, o lírico e o dramático). Além disso, o esforço de

Euclides em decifrar aspectos fundamentais da nossa nacionalidade é um atributo literário de imenso valor. Um outro fator é o da intertextualidade. Ou seja, a grande massa de informações com as quais Euclides trabalha no livro, apoiando-se amplamente nas teorias do seu tempo (algumas delas hoje já reconsideradas). Citando Walnice Nogueira Galvão: ‗Em ‗A Terra‘, são mobilizados peritos em geologia, em meteorologia, em botânica, em zoologia, em física, em química. Em ‗O Homem‘, o mais polêmico e que gera toda espécie

em botânica, em zoologia, em física, em química. Em ‗O Homem‘, o mais polêmico e que

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de conjecturas, são passados em revista escritos de etnologia, de história da colonização, de folclore, de psiquiatria, de neurologia, de sociologia. Na parte de ‗A Luta‘, o autor recorre não somente a suas próprias reportagens e anotações em cadernetas de campo, mas também aos registros de outros correspondentes, às ordens do dia do Exército, aos relatórios de governo.‘ A Guerra de Canudos - que ocorreu entre 1896 e 1897 no interior da Bahia, com quatro expedições militares contra o arraial fundado por Antonio Conselheiro - foi um dos episódios mais sangrentos da nossa história. Ela se dá no momento inicial da República, tornando-se um conflito que revela bem o lado violento da modernidade. [191] Euclides, em Os Sertões, elabora muito bem a ‗inversão de papéis‘ (aspecto que Roberto Ventura comenta com brilho em seu ensaio Euclides da Cunha no Vale da Morte, que consta de O Clarim e a Oração:

Cem Anos de ‗Os Sertões‘, livro que organizei e que foi lançado em agosto último pela Geração Editorial). Ou seja, em certos momentos Euclides caracteriza o Exército como bárbaro e os jagunços como civilizados. Assim, a importância de Os Sertões está ainda no fato de ser uma obra que abre o século 20 fazendo uma das mais importantes interpretações do Brasil a partir da realidade específica do sertão. Uma pergunta que se costuma fazer é: sem o texto de Euclides, a Guerra de Canudos ganharia o alcance que teve? A resposta: é provável que não. O livro de Euclides, por sua construção, por sua qualidade literária, terminou fazendo com que a Guerra de Canudos permanecesse viva, permanentemente lembrada, amplamente discutida. De fato, o alcance do episódio foi muito maior com o relato agudo de Euclides. Se lembrarmos do Contestado, por exemplo, veremos que não houve um ‗livro vingador‘, uma obra com força literária que fizesse com que esse episódio - tão violento quanto o de Canudos - permanecesse vivo como o conflito no interior da Bahia relatado por Euclides. De qualquer forma, a associação mais nítida que se tem feito de Canudos é mesmo com o Contestado, levante que se iniciou em 1912 e foi até 1916 na região Sul (Santa Catarina/Paraná). O líder desse levante, o profeta/curandeiro Miguel Lucena Boaventura, que adotou o nome de José Maria, tinha certas semelhanças com o Conselheiro. O Contestado e Canudos têm pontos parecidos - condenação à República, fundação de uma cidade santa, etc. Um e outro, fundados em bases messiânicas, tiveram como raiz problemas de natureza econômica e política. Mas, repito, o Contestado não teve o Euclides que merecia. [ ] Já a leitura de Os Sertões se torna necessária sobretudo porque, como bem disse Antonio Candido, é uma obra que assinala ‗o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira‘. E que belo começo! (Rinaldo de Fernandes é escritor e professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Paraíba. Organizador de ‗O Clarim e a Oração: Cem Anos de ‗Os Sertões‘ (São Paulo, Geração Editorial, 2002)) In: O Estado de S. Paulo, 1/12/02.

Esse texto, escrito por ocasião do centenário da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, pertence ao gênero resenha e é do tipo dissertativo. Nele, o autor dá destaque especial ao estilo de Euclides da Cunha, que soube traduzir uma quantidade enorme de informações por intermédio da linguagem literária. A articulação de argumentos ao longo do texto dá sustentação à idéia de que a leitura da obra é imprescindível.

articulação de argumentos ao longo do texto dá sustentação à idéia de que a leitura da

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[191] O autor contextualiza a obra que ―abre o século XX‖ e fala da importância de seu conteúdo para a compreensão dos dias atuais, quando as desigualdades sociais persistem em nosso país.

Texto 3

Um Brasil em formação

Quando se fala em um país, é um processo natural a formação de uma idéia estereotipada na mente de qualquer pessoa. Esta associação tende a uma generalização demasiada e raras vezes condizentes com a realidade. A Holanda tem moinhos e liberdade às drogas em Amsterdam. Já a Inglaterra conta com a respeitável Rainha Elizabeth II e também com os Hooligans que aterrorizaram Paris. De forma análoga, o Brasil está associado a mulatas, futebol, natureza exuberante, além de adjetivos recorrentes como ―paraíso fiscal‖ e país pacífico com democracia racial. Mas generalizações, não raro, tendem ao erro. A criação de mitos sempre acompanhou nossa história. O primeiro foi Cabral e sua chegada acidental à costa brasileira. Pesquisas vieram esclarecer que outro navegador chegara antes ao país, fato que desmonta a farsa do desvio na rota de Cabral às Índias. Não obstante, tal desvio sempre fora duvidoso, tendo base nas mudanças no Tratado de Tordesilhas à época da expansão ultramarina. Outro mito que nos pertence é o do ―país sem racismo‖. Nada tão longe da realidade. A disparidade salarial entre negros e brancos é ultrajante. Além disso, os índios, primeiros habitantes dessa terra, hoje, lutam por reservas na floresta Amazônica e enfrentam dificuldades. Algumas tribos permanecem desconhecidas aos brancos, escondidas no interior da selva, e, desta forma asseguram sua sobrevivência. Esse conjunto de dados reais apontam para um Brasil com vários povos ainda não integrados, fugindo à ideal miscigenação que, além de racial, deveria ser cultural. Falta-nos o respeito mútuo. Muito se fala em país pacífico. Não será preciso mencionar a guerra civil que os brasileiros vivem nas ruas diariamente, fugindo de assaltantes, desconfiando da polícia. Todavia, mesmo no plano internacional, não merecemos tal caracterização. O Brasil massacrou o Paraguai na pouco comentada Guerra do Paraguai. Se não carregamos a fama de assassinos como os nazistas alemães, devemos agradecer à inexistência de um Spielberg ―made in Paraguai‖. Há que se citar nossa persistente posição de colônia. Nossa independência foi política, mas nunca financeira. Portugal utilizou nosso pau-brasil [193] para pagar dívidas com a Inglaterra, e, há alguns meses, vendemos nossas estatais visando o pagamento de dívida externa. Por independência econômica, sofremos o imperialismo americano e somos pressionados a aceitar o ALCA. Entretanto, nosso mito mais desonroso está na política. Há no país políticos presenteados com total impunidade para seus atos, que não se esforçam para construir um país melhor. Nossas leis são obsoletas e permitem uma série de ilegalidades pela falta de rigor. A falta de fiscalização nos confere o título de paraíso fiscal, e essa visão é veiculada pelo globo. Mas não podemos deixar de fazer ressalvas. A maioria dos brasileiros quer ajudar a transformar nosso país. Em meio a tantos mitos e verdades perde-se a noção do caminho a seguir. Enquanto dizem que nosso nacionalismo só vem à tona no Carnaval e na Copa do Mundo de Futebol, organizamos campanhas contra a

dizem que nosso nacionalismo só vem à tona no Carnaval e na Copa do Mundo de

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fome e violência. Temos protestos, manifestações, lutamos por um novo país. A falha integração de nossos povos vem dando lugar à unidade em esperanças por mudanças. Em 500 anos de Brasil, ou muito mais quando consideramos o período somente de índios, a realidade do Brasil é extremamente complexa. E é exatamente essa complexidade que garante sermos únicos. Um país com calor humano, gente alegre e sofrida, honesta e desonesta. Somos um país em formação. (Ana Carolina Freire Costa 2 . Vestibular Unicamp, 1999. In:

[http://www.convest.unicamp.br/vest99/redacao/item5.html]

Esse texto foi produzido em situação de exame vestibular, no final de 1998, quando a candidata escolheu um texto dissertativo (havia também uma proposta de narração e uma de carta 3 ) sobre os 500 anos de Brasil. Sua redação foi publicada juntamente com outras consideradas acima da média. A autora defende que o país está em formação e que, como outros países, tem sua imagem estereotipada. Em cada parágrafo, desconstrói os ―mitos‖ que acompanham a história brasileira para, ao final, constatar a complexidade de um lugar ainda em formação e com cidadãos cheios de esperança.

Teorizando sobre a estrutura do texto dissertativo e a construção da argumentação

É da natureza do texto dissertativo o emprego da persuasão, procedimento cujo objetivo é convencer, induzir, aconselhar, indicar, levar a crer. [194] Em menor ou maior grau, o elemento persuasivo está presente em todo tipo de texto, mas é na dissertação que ele aparece explicitamente. A introdução prepara o leitor para uma seqüência de argumentos que irão gradativamente convencê-lo a refletir sobre o assunto em questão e levá-lo a posicionar-se a respeito dele. Ao conjunto de argumentos utilizados para convencer, chamamos retórica. Foram os gregos que, no exercício de democracia, criaram e desenvolveram, com elegância e arte, a retórica argumentativa. Era preciso dominar a palavra, a lógica, para construir um discurso convincente e poderoso. Aristóteles (384-322 a.C.) deixou à humanidade a obra Arte retórica, composta de três livros sobre gramática, lógica, filosofia da linguagem e estilística, ainda hoje consultada por estudiosos do discurso. Tradicionalmente, a dissertação apresenta três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão. E esse formato deixa o autor bastante seguro para expor uma reflexão, pois de uma breve explanação do tema (introdução), parte para um aprofundamento de questões pertinentes, citando exemplos, considerando dados, levantando hipóteses (desenvolvimento) até chegar a um desfecho (conclusão), momento em que o raciocínio se fecha, instigando o leitor a pensar na opinião ali registrada. Esquematizando, são estas as três partes da dissertação:

2

A

autora

hoje

é

Introdução: parte do texto em que se delineiam as idéias, em que se declara brevemente o assunto sobre o qual se vai discorrer, chamando a atenção para sua importância.

em

medicina.

Veja

o

currículo

dela

na

página

do

Lattes.

formada

[http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4770812D6] [ nota do professor] 3 Veja as outras propostas e outros textos na página: [http://www.convest.unicamp.br/vest99/redacao/item5.html] [nota do professor].

propostas e outros textos na página: [http://www.convest.unicamp.br/vest99/redacao/item5.html] [nota do professor]. 37

37

Desenvolvimento: parte mais longa do texto. E aquela em que se desenvolvem as idéias, em que se debate o assunto, em que se argumenta contra ou a favor, de modo que fique bem clara para o leitor a posição assumida pelo autor. Conclusão: parte final do texto, fechamento, o lugar em que as idéias e os argumentos até então introduzidos e desenvolvidos amarram-se, num resumo conciso.

Existem muitos recursos lingüísticos empregados para persuadir: dados ou fatos que podem ser comprovados, verdades inquestionáveis, pronunciamentos de pessoas renomadas, comparações, analogias, raciocínios constituídos de causa e/ou conseqüência, entre outros. O texto l, embora não seja dissertativo, constrói um retrato do país, sem retoques, amargurado. Seu elemento persuasivo, apesar de ser apresentado por meio de uma colagem aparentemente desconexa, está na

fixação dos traços da problemática situação econômico-social ("terceiro mundo", "onde sopra o vento forte da fome, do medo e, muito principalmente, da morte"), disfarçada em meio ao ufanismo das eternas "cascatas, palmeiras, araçás e bananeiras" e do "canto da juriti".

A argumentação no texto 2, "Diagnóstico da formação da sociedade brasileira", evolui

gradativamente, por meio de um raciocínio lógico, próprio da construção do texto dissertativo. Observemos sua seqüência: já no início do texto é feita uma defesa contundente da importância de Os sertões, com o

argumento de sua atualidade. Trata-se de um livro que, escrito há cem anos, "tem muito a ver com a realidade atual do Brasil". Esse argumento introdutório é justificado ao longo do primeiro parágrafo, na seguinte correlação entre passado e presente:

disparidades sociais, que ainda agora são visíveis; [195]

desprezo às populações interioranas do país (problema na formação da sociedade brasileira), as quais ainda agora se deslocam para virar miseráveis nas grandes cidades;

fluxo de pessoas, que se intensificou e é, em grande medida, fruto do modelo econômico, da falta de urna reforma agrária.

Destaca-se, em especial, a relação de causa e conseqüência estabelecida na construção da última correlação apresentada.

Na seqüência do desenvolvimento do tema, a discussão é encaminhada para o estilo literário de

Euclides da Cunha. Aí a defesa do imenso valor da obra está na mistura de gêneros literários: épico, lírico e

dramático. Ainda nesse campo, é ressaltado o fator intertextualidade presente na obra, explicado por meio de uma citação.

No quinto parágrafo, o argumento se apóia na interpretação que Euclides da Cunha faz das relações

sociais no sertão, invertendo os papéis convencionais: "o Exército como bárbaro e os jagunços como civilizados". No sexto parágrafo, na importância do registro literário para manter na lembrança das pessoas e em discussão um fato histórico. A comparação com outro episódio igualmente violento, mas não registrado

em obra, ilustra o argumento.

histórico. A comparação com outro episódio igualmente violento, mas não registrado em obra, ilustra o argumento.

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Na conclusão, o autor da resenha recorre a palavras de outro crítico literário para ressaltar o pioneirismo de Euclides da Cunha na "análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira". O texto 3 inicia-se referindo-se a generalizações que se fazem sobre a identidade de países e que não coincidem com a realidade. Faz isso para poder discutir a situação do Brasil, visto erroneamente como país pacífico, exuberante, das mulatas e do futebol. Em sua argumentação, retoma a história a partir de Pedro Álvares Cabral, passa pelas condições sociais de exploração e discriminação de índios e negros, cita a guerra civil instalada nos grandes centros, lembrando o massacre que foi a Guerra do Paraguai, em relação à qual exagera na comparação com o extermínio do povo judeu pelos alemães. Ressalta nossa condição de povo colonizado e ainda dominado economicamente. Considera que "nosso mito mais desonroso está na política", pois aqui há impunidade, leis obsoletas e fama de "paraíso fiscal". Ao destacar que há uma maioria que luta para transformar o país, admite que, entre mitos e verdades, a nação se perde, mas que ainda estamos em processo de formação. [ 196]

Sobral, João Jonas Veiga. Escrevendo com prática. Ed. Digital. São Paulo: Ed. Iglu. 2000.

[121] ESCREVENDO O TEXTO DISSERTATIVO[

]

A PRODUÇÃO DO TEXTO

Ao produzir um texto dissertativo, você deve considerar os objetivos e o leitor a que o texto pretende atingir. Se pretende persuadir o leitor de que sua opinião a respeito do assunto está certa, seu texto deve conter argumentos convincentes; se apenas pretende externar suas opiniões, basta expor seu ponto de vista sem preocupações de convencer; se o leitor não possui conhecimento prévio sobre o assunto, é melhor situá- lo e depois argumentar; se é uma resposta a um outro texto, você deve colher os [121] argumentos do texto anterior e rebatê-los. Preocupando-se com o objetivo e com o leitor de seu texto, certamente terá êxito em seus propósitos.

A) O PARÁGRAFO DISSERTATIVO Parte introdutória em que o autor apenas mostra como o assunto será abordado. Temos:

Tópico frasal: parte em que o autor generaliza o assunto. Desenvolvimento: parte em que o autor especifica o assunto.

Exemplo:

Tópico frasal: O trânsito torna as pessoas agressivas. Veja que o autor apenas expõe o ponto de vista de modo geral.

frasal : O trânsito torna as pessoas agressivas. Veja que o autor apenas expõe o ponto

39

Desenvolvimento: Ficar horas parado em engarrafamentos perdendo o horário de trabalho, ou mesmo lazer; ouvindo barulho, inalando fumaças; tudo isso gera no indivíduo um desconforto físico e mental que aliado ao estresse das cidades grandes vai tornando as pessoas mais agressivas.

Veja que o autor especificou o que foi exposto no tópico frasal. [

123

]

B) DESENVOLVIMENTO DO TEXTO DISSERTATIVO Pode-se desenvolver o texto dissertativo de diversas maneiras: enumeração, causa/conseqüência, exemplificação, confronto, dados estatísticos e citações. Veremos como trabalhar com esses tipos de desenvolvimento:

1) Enumeração: Consiste em especificar a idéia central através de pormenores, enumerações. ―Para que o aluno sinta-se motivado a estudar, a escola deve oferecer uma série de condições favoráveis. Um prédio amplo, espaçoso cria um conforto físico facilitando o aprendizado, pois é praticamente impossível assimilar algo com desconforto. Atividades constantes e diversificadas quebram a monotonia da classe, aguçando a curiosidade do aluno e por sua vez motivando-o para a aprendizagem. Relacionamento amistoso entre diretoria, professores e alunos proporciona um clima ameno e

favorável para o trabalho. (

)‖

Note que o autor foi enumerando e explicitando cada item de seus argumentos.

2) Causa/conseqüência: É freqüentemente usado este recurso no desenvolvimento dos textos dissertativos; o autor apresenta a [123] causa do problema para em seguida mostrar as possíveis conseqüências. ―Grande parte da população não confia nos políticos, pois a maioria vive discutindo meios que favorecem a perpetuação do poder próprio; e os problemas que atrapalham a vida do povo geralmente são esquecidos.‖ Note que a CAUSA da falta de credibilidade dos parlamentares é que a maioria está preocupada com o poder, trazendo como CONSEQÜÊNCIA o esquecimento dos problemas que afligem a vida da população. O autor desenvolveu seu texto, defendendo os argumentos com causa e conseqüência.

3) Exemplificação: Outro meio de argumentação que facilita o trabalho do autor; nele mostra-se exemplos que comprovam a defesa dos argumentos. ―A pena de morte não deve ser aprovada, pois não é eficaz no combate contra o crime. Em países como os Estados Unidos, onde a lei existe e é aplicada com freqüência, o crime não diminuiu; e, inclusive, é maior que em alguns países em que não há esta lei. A Suécia é um exemplo, onde o índice de criminalidade é muito pequeno.‖

alguns países em que não há esta lei. A Suécia é um exemplo, onde o índice

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Neste texto, o autor utilizou exemplos para defender o seu ponto de vista: ―A não aprovação da pena de morte.‖

4) Confronto: Consiste em comparar seres, fatos ou idéias enfatizando as igualdades e desigualdades entre eles.

―A leitura é muito mais enriquecedora no processo criativo do que o ato de assistir à televisão. No livro o leitor cria, organiza imagens; enquanto na televisão a imagem já vem construída, limitando o trabalho de criação do receptor.‖

Veja que o autor confrontou duas idéias para defender a idéia central. [124]

5) Dados estatísticos:

―Segundo pesquisa do IBGE, publicada na Veja desta semana, de cada dez crianças nascidas no sertão do Norte e Nordeste do Brasil, cinco morrem antes de completar sete anos de idade. Não é possível que um país que acena para a modernidade deixe suas crianças morrerem por doenças facilmente curáveis ou de inanição. Nossos governantes devem dar condições para que a população menos favorecida tenha direito à vida.‖

Perceba que para defender o ponto de vista de que o governo não cuida da saúde e da alimentação das crianças, o autor se apoiou em dados estatísticos confiáveis. Importante: Dados estatísticos só podem ser usados mediante comprovação.

6) Citações: Consiste em citar frases, máximas, trechos ou obras de escritores, intelectuais, políticos, etc. ―A mídia consagra e destrói pessoas num instante com o aval do público, que como gado segue a marcha da maioria; ídolos são trocados com rapidez absurda, políticos esquecidos são ressuscitados, vota-se por programa de televisão e não por programa de governo. A maioria esmagadora é a representação cega e surda da mídia; Nelson Rodrigues, grande fazedor de frases já dizia: ‗Amigos, a unanimidade é burra.‘ Está certo, o Nelson.‖

C) CONCLUSÃO DO TEXTO DISSERTATIVO

O texto não termina quando os argumentos foram expostos, é necessário atar as idéias da introdução com os argumentos. O parágrafo de conclusão tem por finalidade amarrar todo o processo do texto por meio de síntese ou confirmação dos argumentos.[125]

A conclusão pode ser:

1) conclusão-síntese; 2) conclusão-solução;

síntese ou confirmação dos argumentos.[125] A conclusão pode ser: 1) conclusão-síntese; 2) conclusão-solução; 41

41

3) conclusão-surpresa.

1) Conclusão-síntese: É a mais comum entre as usadas, tem por finalidade resumir todo o texto trabalhado em um parágrafo; no entanto, deve-se tomar cuidado ao usá-la para que o texto não se torne repetitivo. (Concluindo o texto do item enumeração. )

―Sendo assim, faz-se necessário que a escola crie meios para que o aluno sinta-se motivado a fim de que seu rendimento seja satisfatório.‖ Note que a conclusão resume as idéias trabalhadas ao longo do texto.

2) Conclusão-solução: Esta conclusão apresenta soluções para o problema exposto. (Concluindo o texto do item causa/conseqüência. ) ―Portanto, nossos parlamentares devem dar prioridades aos problemas da população, como saúde, habitação e educação. Itens básicos que ainda não foram solucionados; e, acima de tudo, devem procurar trabalhar mais ao invés de criar ‗lobbies‘ para proveito próprio.‖

Note que, neste caso, o autor mostra o que deve ser feito: indica uma proposta.

3) Conclusão-surpresa: É o tipo de conclusão que exige mais trabalho e talento do autor, pois nela pode-se apresentar uma cita|ção[126], um fato pitoresco, uma piada, uma ironia, um final poético ou qualquer outro que cause um estranhamento no leitor, deixando-o surpreso. (Concluindo o texto do item exemplificação, página 121.) ―É uma pena que pessoas ainda procurem soluções utilizadas há centenas de anos que nada ajudaram a modificar a criminalidade, métodos bárbaros que ferem a inteligência humana. Na verdade, essas soluções são uma pena e de morte.‖ Note que o autor, usando trocadilhos entre ―pena de morte‖ e as expressões ―uma pena‖ e ―de morte‖, faz com que o texto termine de forma jocosa e irônica. [ 127]

Dissertação e argumentação

CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. São Paulo: Ática, 2002. pág. 26.

Signo e ideologia

[26] A consciência da importância de estudar a natureza do signo para reconhecer os tipos de discursos levou Mikhail Bakhtin a formular um dos mais férteis pensamentos sobre o assunto.

reconhecer os tipos de discursos levou Mikhail Bakhtin a formular um dos mais férteis pensamentos sobre

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Em síntese, fala-nos o teórico soviético cm seu Marxismo e filosofia da linguagem que é impensável afastarmos do estudo das ideologias o estudo dos signos, e que a questão do signo se prolonga na questão das ideologias. Há entre ambas uma relação de dependência tal que nos levaria a crer que só é possível o estudo dos valores e idéias contidos nos discursos atentando para a natureza dos signos que os constroem. Assim sendo, os recursos retóricos que entram na organização de um texto [o autor apresentou tais recursos na primeira parte livro] não seriam meros recursos ―formais‖, jogos visando a ―embelezar‖ a frase; ao contrário, o modo de dispor o signo, a escolha de um ou outro recurso lingüístico, revelaria múltiplos comprometimentos de cunho ideológico. Mas, como ocorreria a relação entre signo e ideologia? ―Um produto ideológico faz parte de uma realidade [27] (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia.‖ 4 Vejamos o seguinte exemplo: Um martelo outra função não possui, enquanto instrumento de trabalho, senão o de ser utilizado no processo produtivo. Vale dizer, não extraímos dele nenhum outro significado a não ser o de auxiliar-nos na afixação de pregos, na quebradura de pedras etc. Contudo, o mesmo instrumento posto em outra situação, num contexto em que passe a produzir idéias ou valores que estão situados fora de si mesmo, refletindo e refratando outra realidade, será convertido em signo.

O martelo e a foice que existiam na bandeira da ex-URSS produziam a idéia de que o Estado Soviético era construído pela aliança dos trabalhadores urbanos com os rurais. Assim, a bandeira dizia que a união dos operários com os camponeses tornava possível a existência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. De instrumentos de trabalho que eram, o martelo e a foice transformaram-se em signos, isto é, ganharam dimensão ideológica. A ideologia transitou através dos signos. A idéia final que à bandeira da ex- URSS desejava persuasivamente produzir era a do Estado Soviético sendo determinado pelos interesses dos trabalhadores. Note-se que os signos deram à bandeira a possibilidade de afirmar que, sendo ela a expressão maior da nacionalidade e estando nela as representações dos operários (o martelo) [28] e dos camponeses (a foice), tornam-se estas duas as forças sociais mais importantes da nação.

Há uma enorme série de exemplos de instrumentos, ou até mesmo produtos de consumo, que perderam seu sentido inicial para se transformarem em signos: ou seja, passaram a funcionar como veículos de transmissão de ideologias. O pão e o vinho para os cristãos, a balança para a justiça, a maçã para o pecado, a pomba para a paz etc. É possível, contudo, em qualquer desses exemplos, saber até onde existe instrumento, ou produto de consumo, e onde começa o signo; numa palavra, estamos diante da passagem do plano denotativo para o plano conotativo. O pão, enquanto tal, denota um alimento; porém, no contexto do rito religioso, passa a conotar o corpo de Cristo.

4 BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, Hucitec. 1979. p. 17.

o corpo de Cristo. 4 B AKHTIN , Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo,

43

Para aduzirmos mais uma observação às considerações realizadas até aqui, convém lembrar que o signo nasce e se desenvolve em contato com as organizações sociais. O signo só pode ser pensado socialmente, contextualmente. Sendo assim, cria-se uma relação estreita entre a formação da consciência individual e o universo dos signos. Só podemos pensar a formação da consciência dentro de um prisma concreto, derivado, do embate entre os signos. Se as palavras, por exemplo, nascem neutras, mais ou menos como estão em estado de dicionário, ao se contextualizarem, passam a expandir valores, conceitos, pré-conceitos. Nós iremos viver e aprender cm contato com outros homens, mediados pelas palavras, que irão nos informar e formar. As palavras serão por nós absorvidas, transformadas e reproduzidas, criando um circuito de formação e reformulação de nossas

consciências. Não podemos imaginar, como querem certas filosofias, que a consciência seja uma abstração, uma projeção do ―mundo das idéias‖. Ao contrário, pode-se verificar pelo que foi dito até aqui, que a consciência se forma e se expressa concretamente, materialmente, através do universo [29] dos signos. Pode- se, portanto, ―ler‖ a consciência dos homens através do conjunto de signos que a expressa. As palavras, no contexto, perdem sua neutralidade e passam a indicar aquilo a que chamamos propriamente de ideologias. Numa síntese: o signo forma a consciência que por seu turno se expressa ideologicamente. Com essas observações, é fácil deduzir que o modo de conduzir o signo será de vital importância para a compreensão dos modos de se produzir a persuasão. Vejamos um exemplo:

A rodovia Castelo Branco está próxima.

A primeira impressão é a de que a função do nome Castelo Branco é apenas o de indicar a existência

de uma determinada rodovia. Se assim fosse, estaríamos diante de um nível denotativo da linguagem cujo

raio de ação terminaria no plano meramente indicativo. Porém, se lembrarmos que aquela rodovia poderia ter recebido um outro nome, visto que a possibilidade de homenagear é quase infinita, teríamos que:

a) existiu uma escolha contextualizadora, ou seja, elegeu-se o nome de Castelo Branco e não outro

qualquer;

b) tal escolha foi pautada pela relação da personagem com certos fatos da vida brasileira recente;

c) o homenageado representou (pelo menos dentro da ótica dos que escolheram o nome da rodovia)

um homem que realizou algum grande feito nacional, no caso específico ter coordenado o golpe de 1964, portanto, merece ser lembrado e louvado;

d) o nome de Castelo Branco (um grande homem para designar uma grande rodovia, afinal foi a

primeira auto-estrada brasileira!) colabora no sentido de ajudar a perpetuar os valores ideológicos daqueles

que depuseram o legítimo governo de João Goulart. Castelo Branco seria a síntese de uma glorificação: nele o encontro de um anônimo exército de golpistas. [30] Como se pode notar, até as placas de ruas acabam servindo como veículos difusores de persuasão. Não fosse assim, episódios cômicos e trágicos deixariam de ter sido associados às ruas e aos nomes que as designam. No primeiro caso, é só recordarmos aquele exaltado "revolucionário" de 1964 que desejava trocar o nome da rua Cuba, em São Paulo, visto suas nítidas conotações subversivas. No segundo caso, os

desejava trocar o nome da rua Cuba, em São Paulo, visto suas nítidas conotações subversivas. No

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estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, querendo mudar o nome da rua onde funcionava a escola, a Maria Antônia, para Edson Luís Souto, jovem estudante que havia sido morto no Rio de Janeiro pela repressão política desencadeada no final de 1968. É possível deduzir, portanto, que as placas podem ser indicativas, mas não só, dado que conotam idéias e valores que estão embutidos em sua aparente função exclusivamente designativa. Se, como foi afirmado anteriormente, a palavra nasce neutra (em estado de dicionário), ao se contextualizar, ela passa a expressar valores e idéias, transitando ideologias, cumprindo um amplo espectro de funções persuasivas às quais não faltam a normatividade e o caráter pedagógico.

A troca dos nomes Os debates na televisão, particularmente aqueles que incidem sobre o tema econômico, têm sido pródigos em apresentar a figura do jovem empresário. Esses costumam revelar um perfil de modernos administradores, educados, cordiais, preocupados com as questões sociais, com o nível de renda dos trabalhadores, com o lazer nas empresas que dirigem. Todo esse jorro de elegância e bondade costuma, muitas vezes, revelar o avesso de uma vergonha. Efetivamente, estão eles a dirigir grandes corporações, cujo fim último é o lucro e a ampliação do capital. Tais temas, [31] porém, são pesados demais para serem compartilhados com o grande público, melhor que vivam a tirar o sono apenas dos altos executivos! É muito raro que tal empresário se empenhe numa aberta defesa do capitalismo; palavra aliás da qual fogem como o diabo da cruz. As loas são agora para o regime de livre-empresa como sendo aquele capaz de patrocinar justiça social e justa distribuição da renda. Afinal, por que regime de livre-empresa, e não capitalismo, modo de produção cuja amplitude e significado engloba e transcende aquele? O eufemismo não teria maior importância se deixasse de ser um jogo de mistificação, nascido exatamente pela troca dos nomes. A alteração lexical não é apenas parte de um natural processo sinonímico, mas o desejo de dourar uma pílula cujo desgaste se tornou evidente. A palavra capitalismo ficou muito feia, todos costumam associá-la à exploração do homem, à ganância, a um tipo de relação onde, para relembrar Machado de Assis, impera a filosofia do homem como lobo do próprio homem. Livre-empresa, ao contrário, soa mais angelical, revelando uma forma de organização não contaminada pelas desagradáveis e incômodas lembranças sugeridas pelo capitalismo. Mas, se não há diferença substancial entre um e outro termo, por que trocá-los? Qual o jogo retórico que está por detrás do eufemismo? A resposta nos remete a uma idéia segundo a qual uma das preocupações do discurso persuasivo é o de provocar reações emocionais no receptor. Ou seja, no caso de se deslocar a palavra contaminada (capitalismo), para a angelical (livre-empresa), assegura-se uma recontextualização do signo que passa agora a produzir novas idéias, valores que não são mais associados às primárias formas de

exploração do capitalismo. [

Como se pode ver, são estreitas as relações entre signo, ideologia e construção do discurso

.determinado modo de empregar a linguagem identificou-se

persuasivo. Nas palavras de Umberto Eco: " com determinado modo de pensar a sociedade". 5

]

[32]

5 Eco, Umberto. A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva, 1971. p. 85.

de pensar a sociedade". 5 ] [32] 5 Eco, Umberto. A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva,

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O discurso dominante

Pelo que se leu até aqui é possível afirmar a seguinte, idéia acerca do discurso persuasivo: ele se dota de signos marcados pela superposição. São signos que, colocados como expressões de "uma verdade", querem fazer-se passar por sinônimos de "toda a verdade". Nessa medida, não é difícil depreender que o discurso persuasivo se dota de recursos retóricos objetivando o fim último de convencer ou alterar atitudes e comportamentos já estabelecidos. Isso nos leva a deduzir que o discurso persuasivo é sempre expressão de um discurso institucional. As instituições falam através dos signos fechados, monossêmicos, dos discursos de convencimento. Tanto as instituições maiores o judiciário, a igreja, a escola, as forças militares, o executivo etc. quanto as microinstituições a unidade familiar, a sala de aula, a sociedade amigos de bairro etc. Assim, por exemplo, se o Código Civil determina que a monogamia é o modo de organizar a família no Brasil, não nos é dado espaço para questionar tal enunciado. As leis, a ética, são codificadas em signos tão persuasivos que a monogamia passa a ser aceita como uma espécie de verdade absoluta. Caso tenhamos convicções poligâmicas, [33] todo o esforço das instituições representadas nas mais diversas falas, inclusive dos amigos, dos vizinhos, do padre etc. será no sentido de reverter esse comportamento. Nesse caso, a ação persuasiva será no sentido de alterar uma atitude que afronta as instituições. Mas, se ainda nos mantivermos firmes cm nossa posição poligâmica, afrontando, portanto, a fala institucional, quebrando a normatividade da organização familiar, então poderão ser esgotados os argumentos discursivos e advirão outras formas repressivas, inclusive a física. Os discursos que enunciamos em nosso cotidiano individual, conquanto possam estar dotados de recursos composicionais, estilísticos, até muito originais, não deixam de trazer a natureza sociabilizada do signo. Daí que os signos enunciados por nós revelam as marcas das instituições de onde derivam. Ao absorvermos os signos, incorporamos preceitos institucionais que nem sempre se apresentam tão claramente a nós. É necessário, então, indagarmos um pouco mais sobre a natureza do discurso persuasivo enquanto ponte para as falas institucionais.

O discurso autorizado

Em um artigo 6 muito instigante, Marilena Chauí desenvolveu o conceito de discurso competente 7 . Vamos examiná-lo mais de perto, visto sua utilidade no sentido de ajudar a clarear pontos que foram

levantados até agora. Como é sabido, vivemos em uma sociedade que premia as competências, no campo profissional, intelectual, emocional, esportivo etc. Ao limbo são condenados aqueles que estão ―do lado‖ da

6 CHAUÍ, Marilena. O discurso competente. In; . Cultura e democracia', o discurso competente e outras falas. São Paulo, Moderna, 1981. p. 3-13. 7 ―O discurso competente é um discurso instituído. É aquele no qual a linguagem sofre uma restrição que poderia ser assim resumida:

não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram pré-determinadas para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones de sai própria competência.‖ (CHAUÍ: 1981, p. 07) Nota acrescentada por Abilio Pacheco. Veja também: http://www.espacoacademico.com.br/014/14pol.htm. e http://www.espacoacademico.com.br/013/13res_perisse.htm

também: http://www.espacoacademico.com.br/014/14pol.htm. e http://www.espacoacademico.com.br/013/13res_perisse.htm 46

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incompetência, porque não conseguem [34] subir na vida, ou são instáveis emocionalmente, desgarrados da

família, maus alunos, repetentes nos exames vestibulares, inseguros nas tomadas de decisões. Se olharmos a questão por esse ângulo, veremos que o leque dos fracassados é enorme; os vitoriosos cabem nos pequenos círculos gerenciais.

O parâmetro que irá atribuir medalhas honoríficas a uns e adjetivos pouco nobres a outros é sempre o

da eficiência. Mede-se o sujeito por aquilo que produzirá, quer ao nível material os negócios realizados, os imóveis adquiridos, até as peças que fabrica , quer ao nível espiritual a agudeza com que emite opiniões, os livros que escreve, a harmonia emocional que consegue estabelecer, a capacidade com que convence auditórios inteiros.

O mito da eficiência costuma desconsiderar as naturezas e finalidades dos bens produzidos. Deus e o

diabo podem diferenciar-se na Ferra do Sol, mas, no que diz respeito à organização produtiva, eles se misturam. Não se pergunta para que, para onde, para quem os bens se voltam. Alguém ganhou, alguém perdeu, afirmaram-se individualidades, foram os seres brutalizados, são perguntas improcedentes para o caso. Assim sendo, se, por exemplo, no interior do sistema tecno-burocrático-militar, um pesquisador de física atômica consegue descobrir uma partícula com maior poder de destruição do que as já existentes, então a ele está assegurado o galhardão da competência, pouco importando a natureza ética de tal descoberta: a glória do cientista virá, ainda que pela porta do inferno. Da mesma forma, o policial agraciado com uma nova patente

na polícia por haver desvendado um caso obscuro. É verdade que ele fez uso de várias formas de violência

física e psicológica contra os suspeitos; mas o que está em causa aqui não é perguntar acerca da justeza de uma forma de ação e sim reconhecer a eficiência da polícia, [35] conquanto se tenha comprometido os resquícios de humanidade de torturados e torturadores.

É possível objetar que o biólogo que ajudou a encontrar a cura para o câncer, contribuindo, portanto,

para extirpar um mal que ataca a humanidade, revelou, felizmente, eficácia e competência. O problema não está, obviamente, no fato da eficácia e da competência, mas na sua natureza e no uso alienado que dela se faz. Ao diluir tudo num plano meramente concorrencial e triunfalista, as instituições impedem que se façam

perguntas, que se indague das naturezas das competências. E a quem cabe o papel de uniformizar interesses contraditórios, escamoteando e mascarando as diferenças, impedindo que a sociedade reconheça o profundo

antagonismo existente entre a competência do físico que pesquisou a nova partícula atômica c a do biólogo que descobriu a cura do câncer? A ponte por onde transita a mistificação da competência é a palavra, é o discurso burocrático- institucional com seu aparente ar de neutralidade c sua validação assegurada pela cientificidade. Afinal, quem afirma é o doutor, o padre, o professor, o economista, o cientista etc.! Isso ajuda a perpetuar as relações de dominação entre os que falam a e pela instituição c os que são por ela falados. Os segundos, sem a devida competência, ficam entregues a uma espécie de marginalidade discursiva: um reino do silencio, um mundo de vozes que não são ouvidas.

O discurso autoritário e persuasivamente desejoso de aplainar as diferenças, fazendo com que as

verdades de uma instituição sejam expressão da verdade de todos, é assim colocado por Marilena Chauí: ―O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é,

―O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, 47

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com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir ‖

E lembra a autora que o discurso burguês sofreu algumas transformações. Antes o seu domínio

passava pelo aspecto legislador, ético e pedagógico. Ou seja, as idéias enunciadas eram capazes de normalizar valores e ensinar. Dizia-se acerca do certo e do errado, do que era justo ou injusto, normal e anormal. Existia, portanto, o desejo de se guiar e ensinar. Certas instituições como Pátria, Família, Escola, serviam de referência básica às pessoas. O professor, o pai, o governante, eram figuras legitimadoras de situações. Os textos, e no caso do Brasil se pode ler tal visão através dos escritos pedagógicos de Olavo Bilac, de Rui Barbosa, insistiam nas orações aos moços, nos decálogos do bom comportamento, na ritualização da tradição

e dos bons costumes. Conquanto o discurso burguês não tenha perdido as particularidades acima colocadas, ganhou nova cara: ―Tornou-se discurso neutro da cientificidade e do conhecimento‖. 9 Se é neutro, ninguém o produz; se científico, ninguém o questiona. Quem fala é o Ministério da Fazenda, através do seu corpo técnico; a Sociedade Médica através de seus doutos membros; a grande corporação multinacional através de seus executivos etc. Autorizado pelas instituições, o discurso se impõe aos homens (Indeterminando-lhes uma série de condutas pessoais. Os recursos retóricos se encarregam de dotar os discursos de mecanismos persuasivos: o eufemismo,

a hipér-bole, os raciocínios tautológicos, a metáfora cativante permitem que projetos de dominação de que muitas vezes não suspeitamos, possam escondei se por detrás dos inocentes signos verbais.

A palavra, o discurso e o poder se contemplam de modo narcisista; cabe-nos tentar jogar uma pedra

na lâmina de água.[37 ]

8

10

[Textos persuasivos] No discurso do livro didático 11

[52] Entre a enorme variável dos textos persuasivos, um nos interessa muito de perto, quer por haver perseguido [53] nossa formação escolar, quer pelas implicações ideológicas que possui: o livro didático. Esse tipo de obra costuma estar marcada por duas variáveis fundamentais: a estereotipia e a idealização. Vale dizer, a estandardização dos comportamentos, da ética, dos pressupostos culturais, da visão acerca da família, do papel do Estado, para ficarmos em alguns dos assuntos mais comuns aos livros didáticos, em especial aqueles dedicados ao primeiro grau. Tais livros são organizados em torno de temas como religião, riqueza, pobreza, amizade, felicidade etc. É um procedimento que visa a ensinar as primeiras letras: alfabetização, leitura; particularmente, pretende formar os bons hábitos", despertar a criança para "os valores mais caros à sociedade", o respeito às leis, às tradições, enfim, aquele corpo de preceitos ditados como expressivos e determinantes para a vida futura do

8 Id., ibid., p. 7. Veja nota anterior! [AB].

9 ld., ibid., p 11.

10 No capítulo seguinte, o autor analisa as ―modalidades discursivas‖: ―o discurso lúdico‖, ―o discurso polêmico‖, ―o discurso autoritário‖

11 No capítulo 5 do livro, o autor analisa os textos persuasivos na publicidade, no discurso religioso, no discurso do livro didático, na literatura e no discurso dos justiceiros. A leitura completa é bastante útil, mas por questões didáticas recortei apenas o presente sub- capítulo. [nota de AB]

completa é bastante útil, mas por questões didáticas recortei apenas o presente sub- capítulo. [nota de

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educando. São, portanto, textos de "forja", de artesanato da alma, de inculcação dos modelos que as classes dominantes determinaram como padrão de conduta. Sendo livros idealizados, costumam esvaziar dos conceitos ensinados os traços da História, deixando- nos uma fórmula que parece ter vindo de nenhum lugar e se dirige para lugar algum. Por estarem marcadas pelo estereótipo, tais obras conseguem apresentar modelos que pouco ou nada têm a ver com a realidade da maioria das crianças, refletindo quase sempre formas ligadas ao padrão de vida de uma pretensa classe média. Podemos ver que no livro didático, conquanto nascido para a "neutra" função de alfabetizar, de servir como instrumental de leitura, transita ideologias, configurando uma atitude nitidamente persuasiva. Um dos temas mais caros ao livro didático é o da família. Vejamos como ela é tratada por Yolanda

Marques[54]:

MINHA FAMÍLIA Minha família é formada por meu pai, minha mãe, meus Irmãos e eu. Todos nós moramos na mesma casa. Minha casa é muito importante para mim. Nela eu vivo contente e seguro. Meu pai trabalha para nos sustentar. Minha mãe cuida de nós e da casa. Meus irmãos são meus melhores amigos. Na nossa família todos se querem multo bem. Também fazem parte da minha família: meus avós, meus tios, meus primos etc. Nossa família forma uma comunidade. 12

1. A família em questão é modelar. Tudo funciona perfeitamente. O padrão de conduta de uma certa

classe média contamina os desvãos dessa que, sendo a família de um incógnito, quer servir como referência

para a família de todo mundo. No entanto, é esse o modelo a ser lido, entendido e, quem sabe, desejado pelo jovem aluno.

2. O Narrador é uma criança que fala para outra criança. Tal movimento visa a tornar o discurso mais

carregado de verdade. É um discurso "real", falado interpares, capaz de dar validade ao ar de contentamento e segurança em que vive o pequeno "eu conformado‖.

3. Uma primeira variável do preconceito. A criança está bem porque a família está unida. Esse é o

pressuposto que alimenta a tese do texto, ou seja, inseguros e descontentes estarão os filhos dos casais separados. A solidão e o desapontamento deve assomar àquelas crianças cuja família já não mais se encontra unida. Podemos deduzir que tanta união familiar soa discricionária e preconceituosa, particularmente deslocada historicamente. A enorme massa de casais separados, uma certa naturalidade com que se trata hoje o [55] tema da separação está, obviamente, a léguas do livro didático. No seu desejo de estandardização, o texto tem que propor um modelo, ainda que as conseqüências possam ser risíveis. 4. Uma segunda variável do preconceito. Pelo texto é possível ainda perceber como as relações homem/mulher estão colocadas. Particularmente no que diz respeito à questão do trabalho. O pai trabalha para sustentar a casa. A mãe não trabalha (!), ela apenas cuida da casa, dos filhos, eventualmente do cachorro e dos passarinhos. As atividades domésticas não são consideradas pelo nosso

incógnito Narrador como trabalho, mas tão-somente uma espécie de obrigação feminina. O texto, de novo,

12 MARQUES, Yolanda. A mágica do saber \ 2 a Série. São Paulo, Nacional, 1982.

O texto, de novo, 1 2 M ARQUES , Yolanda. A mágica do saber \ 2

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apresenta uma distorção histórica, pois a mulher, em função inclusive cia crise econômica, cada vez se lança mais para o trabalho fora de casa.

5. Uma outra idéia cara ao texto é a da harmonia doméstica. Senão vejamos: "Meus irmãos são meus

melhores amigos", "moramos na mesma casa", "Na nossa família todos se querem muito bem". A família sem dissensões, centrada no mito da linearidade, da não contradição. Uma família que não viva graus de tensão interna não existe. Sem qualquer grau de contradição, os membros da família estariam assemelhados às múmias; sem embates naturais inexistiriam as grandes sínteses capazes de provocar os avanços pessoais. 6. Um absurdo conceitual. Por último, nosso texto não poderia deixar de causar um verdadeiro arrepio conceituai, ou seja, passar à criança a idéia de que viver em comunidade é viver em um mundo sem

seres reais. Se a família é também um dos elementos a formarem uma comunidade, ela precisa existir como

realidade histórica e socialmente determinada. Infelizmente, o modelo narrado pelo garoto não faz parte da comunidade, apenas [56] está na cabeça de quem, ao conceber o texto, projetou seus próprios preconceitos ideológicos.

7. Raciocínio. A dedução última do texto é que ele segue um raciocínio silogístico, querendo fazer

passar a tese da estreita relação entre harmonia/felicidade e união familiar. Vejamos como tais raciocínios

podem ser articulados:

A - Premissa maior: A felicidade está ligada à união familiar. Premissa menor: Eu vivo em unia

família unida. Conclusão: Eu sou feliz.

B - Premissa maior: Toda família forma uma comunidade. Premissa menor: Eu vivo em família.

Conclusão: Eu vivo em comunidade. C - Premissa maior: A família harmônica forma uma comunidade. Premissa menor: Nossa família é harmônica. Conclusão: Formamos uma comunidade.

Não é difícil perceber que a maioria desses raciocínios podem ser contestados, sendo inteiramente

falsos alguns deles. [

57][

67]

Fugir da persuasão Caberia colocar uma última observação [

É possível a existência de um discurso não-persuasivo?

Iodos os discursos visam a persuadir acerca de alguma coisa?

1. De início é bom lembrar que persuadir não é sinônimo imediato de coerção ou mentira. Pode ser

apenas a representação do desejo de se prescrever a adoção de alguns comportamentos, cujos resultados finais

apresentem saldos socialmente positivos. Por exemplo, uma campanha de vacinação infantil. Nesse caso, conquanto exista através da propaganda institucional uma preocupação persuasiva, os objetivos terminais encaminham para a formação de atitudes que poderão resultar uma melhoria das condições de saúde das crianças. Claro que esse é um caso extremo e não muito representativo dos fins a que deseja atingir a grande maioria dos discursos persuasivos. Há autores que costumam, inclusive, falar em persuasão negativa e

].

a grande maioria dos discursos persuasivos. Há autores que costumam, inclusive, falar em persuasão negativa e

50

positiva. O assunto nos levaria, contudo, a reflexões que já não estão mais no espírito deste livro. Fica, porém, o lembrete.

2. Para existir persuasão é necessário que certas condições se façam presentes: a mais óbvia é a da

livre circulação de idéias. Em uma ditadura, em um regime que censura, fica uni pouco estranho falar em persuasão, visto que inexistem idéias em choque. Não há pluralidade de mensagens e, portanto, é possível que o discurso nem [68] chegue à sua fase persuasiva permanecendo nos mais baixos extratos civilizatórios. O discurso do tirano é único, daí se está recoberto de mentiras ou engodos, ninguém sabe, ninguém viu. Ademais é freqüente nas ditaduras a dispensa da sutileza da palavra e a adoção do argumento do chicote, da tortura, da pura violência física.

3. É possível imaginar, contudo, que em certas áreas do conhecimento possa imperar uma natureza

discursiva menos persuasiva, até mesmo lúdica, aberta. É o caso dos textos artísticos que, pela sua vocação plurissignificativa, pela ambigüidade que promovem, por romperem com normas preestabelecidas, tendem a uma expressão mais livre, menos preocupada com o convencimento, com o fechamento da mensagem. O

plano da representação simbólica, que está presente cm todo grande texto artístico, possibilita o rompimento com as conclusões fechadas, com o signo unidirecional: o convite para a aventura da descoberta não respeita as normas consagradas.

4. A arte moderna, ou de vanguarda, possui muito desta natureza antipersuasiva. São os jogos de

montar de Júlio Cortázar, a multiplicidade de pontos de vista de um William Faulkner, as alegorias carnavalizadas do E proibido proibir, de Caetano Veloso, as montagens cinematográficas dos romances de Oswald de Andrade, para ficarmos com alguns exemplos. [ 69]

Veloso, as montagens cinematográficas dos romances de Oswald de Andrade, para ficarmos com alguns exemplos. [

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Unidade II

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica. 8ª ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 65-79

Prática da Leitura

1 Conceito Partimos do ponto de vista de que a linguagem não pode ser estudada separadamente da sociedade que a produz e de que para sua constituição entram em jogo processos histórico-sociais. Daí que a linguagem não pode ser considerada um produto. E a leitura é produzida, uma vez que o leitor interage com o autor do texto. Esta noção leva em consideração que o texto é o lugar de interação entre falante e ouvinte, autor e leitor. Além disso, ao dizer algo, ou ao escrever algo, essa pessoa o diz ou escreve de algum lugar da sociedade para alguém que ocupa algum lugar na sociedade. E isto faz parte do sentido. Segundo Eni Pulcinelli Orlandi (1987, p. 180):

O texto não é uma unidade completa, pois sua natureza é intervalar. Sua unidade não se faz

nem pela soma de interlocutores nem pela soma de frases. O sentido do texto não está em nenhum dos interlocutores especificamente, está no espaço discursivo dos interlocutores; também não está em um ou outro segmento isolado em que se pode dividir o texto, mas sim na unidade a partir da qual eles se organizam. Daí haver uma característica indefinível no texto que só pode ser apreendida

se levarmos em conta sua totalidade.[66]

Uma reflexão sobre leitura deve levar em conta aspectos da linguagem que se podem observar pela análise do discurso. Esta, por sua vez, pode ser vista como forma de conhecimento da linguagem., ou uma

forma específica de ver a linguagem. Considerando-o dessa forma, o texto não é objeto pronto, acabado. E aparentemente acabado (tem começo, meio e fim). A análise do discurso traz à tona sua incompletude, suas condições de produção. Ora, como o texto se relaciona com a situação (contexto sociocultural, histórico, econômico, com os interlocutores) e com outros textos (intertextualidade), isto lhe dá um caráter de incompletude, de não acabado.

A legibilidade de um texto depende não só da coesão gramatical de suas frases, da coerência das

idéias com relação ao contexto de situação (consistência lógica das idéias), da sinalização de tópicos, mas também da relação do leitor com o texto e com o autor. Orlandi (1987, p. 183) afirma:

De um lado, a legibilidade não é uma questão de tudo ou nada, mas uma questão de graus, e,

de outro, gostaríamos de dizer que a legibilidade envolve outros elementos além da boa formação de

sentenças, da coesão textual, da coerência. Ou, dito de outra forma, um texto pode ter todos esses

boa formação de sentenças, da coesão textual, da coerência. Ou, dito de outra forma, um texto

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elementos em sua forma optimal e não ser compreendido. Do nosso ponto de vista, então, é preciso considerar, no âmbito da legibilidade, a relação do leitor com o texto e com o autor, a relação de interação que a leitura envolve.

2 Leitor e produção da leitura

Em primeiro lugar, considere-se que a leitura é seletiva e que há vários modos de realizá-la, como:

o que é relevante para o leitor é a relação do texto com o autor (o que o autor quis dizer?);

relação do texto com outros textos (leitura comparativa);

o que é relevante é a relação do texto com seu referente;

relação do texto com o leitor (o que você entendeu?).

Ora, o texto é uma unidade que organiza suas partes; e o contexto é a situação do discurso, ou conjunto de circunstâncias entre as quais se dá um ato de enunciação (oral ou escrito). Essa situação envolve tanto o ambiente físico, como o social em que se realiza o ato referido; da mesma forma, entendem-se por situação os acontecimentos que precederam o ato da enunciação, a troca de palavras em que se insere a enunciação. Por isso é que se diz que, isoladas, as palavras são praticamente neutras, vazias de conteúdo, mas junto com outras ganham sentido. Assim, o contexto é o ambiente lingüístico de um elemento (uma palavra, por [67] exemplo) dentro de um enunciado, isto é, o conjunto de elementos que o precedem e o seguem nesse enunciado; o que vem antes de uma frase e o que vem depois dela. Por essa razão, pode-se afirmar que a maior parte dos atos de enunciação é de interpretação praticamente impossível se não se conhece a situação em que ocorrem. Se faltam os elementos que unificam o processo de leitura, falta o distanciamento necessário para a leitura, o leitor perde o acesso ao sentido. Tal fato ocorre quando o leitor lê palavra por palavra, sentença por sentença e não alcança o sentido global do texto. Se não há distância mínima (conhecimento das condições de produção do texto), o leitor não é capaz de prever, antecipar. Vejam-se outras informações sobre contexto no Capítulo 7, seção 2. 13 Para a compreensão de um texto, levem-se em conta o processo de interação, a ideologia. 14 Por um lado, há um interlocutor constituído no ato da escrita (leitor virtual). Por outro lado, há o leitor real. Há, portanto, um debate de idéias, um jogo entre o leitor virtual e o real. A leitura constitui-se, portanto, em um momento crítico da constituição do texto: momento de interação. Os interlocutores identificam-se como interlocutores e como tais desencadeiam o processo de significação do texto. O leitor real pode distanciar-se pouco ou muito do leitor virtual, ou podem vir a coincidir. Além disso, podem distanciar-se ou não com relação a determinados posicionamentos. Assim, pode-se dizer que autor e leitor têm sua relação afetada pela distância entre o leitor virtual e o real.

13 O capítulo 7 está transcrito nesse material [nota do professor].

14 Para Orlandi (1993, p. 102): ―O homem faz história mas a história não lhe é transparente. Por isso, acreditamos que uma metodologia de ensino conseqüente deve explicitar para o processo de leitura os mecanismos pelos quais a ideologia torna evidente o que não é e que, no contrário, resulta de espessos processos de produção de sentido, historicamente determinados. A ‗naturalidade‘ dos sentidos é, pois, ideologicamente construída.‖

de sentido, historicamente determinados. A ‗naturalidade‘ dos sentidos é, pois, ideologicamente construída.‖ 53

53

Observe-se, por exemplo, o caso do discurso dos que ensinam em sala de aula. Tal discurso tem como interlocutor um aluno considerado padrão: levam-se em conta a idade, o grau de instrução, a instituição, o curso, a classe. O leitor ideal (virtual) e o aluno real coincidem. De modo geral, a escola pouco se preocupa com a compreensão. Se o aluno não dispõe das condições favoráveis à leitura, é levado à imitação, ou ao ato de decorar, posições indesejáveis para um leitor que a escola deveria fazer crítico. Finalmente, para a legibilidade de um texto a gramaticalidade e o nível de coesão textual não são suficientes. A relação autor/leitor precisa ser conhecida. O autor não será sujeito absoluto de seu discurso nem o leitor estará isento de formações ideológicas. As condições de produção de leitura devem ser consideradas, bem como se deve ter presente que o texto é constituído da interação do autor/leitor, que relativiza a noção de sujeito de ambas as partes. A leitura é caracterizada como um discurso que exige, portanto, interação. [68] Na interação do leitor com o texto, podem ocorrer variadas leituras, com significados diferentes; pode ocorrer um simples reconhecimento de um sentido único até leituras que permitam uma variação de sentidos de maneira bastante ampla.

3 Fatores que constituem as condições de produção da leitura

O sentido de um texto provém de sua formação discursiva, que, por sua vez, nos remete a uma formação ideológica. A formação ideológica é constituída por um conjunto de atitudes e representações que não são individuais, mas reportam às posições de classe. Por seu lado, a formação discursiva, que se relaciona diretamente com formação ideológica, é constituída por aquilo que pode ser dito ou não diante de determinada situação. 15 Assim, ilusoriamente se pode falar em sujeito, uma vez que aquilo que ele diz é determinado pela classe de que faz parte e sua interpretação daquilo que lê é realizada segundo a ideologia da classe a que pertence. Quando passam de uma formação discursiva para outra, as palavras ganham novos sentidos, ou mudam de sentido. Fiorin (1990, p. 28) afirma: ―Para entender com mais eficácia o sentido de um texto, é preciso verificar as concepções correntes na época e na sociedade em que foi produzido.‖ As condições de produção da leitura são a relação do texto com outros textos, com a situação, com os interlocutores. Enquanto se explicita o funcionamento do discurso, enquanto se mostra como um texto funciona, apresentam-se subsídios metodológicos para a prática da produção da leitura. Antes de tudo, a leitura é produzida. Ela é ―o momento crítico da constituição do texto, pois é o momento privilegiado do processo da interação verbal: aquele em que os interlocutores, ao se identificarem como interlocutores, desencadeiam o processo de significação‖ (ORLANDI, 1987, p. 193). É pela interação que os interlocutores constituem o espaço da discursividade. A noção de funcionamento do discurso exige que se levem em conta as condições de produção, o que nos remete à exterioridade do discurso, como a situação (contexto de enunciação e contexto sócio-

15 Para Fiorin (1988, p. 32), ―a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializam uma dada visão de mundo‖. Tema é definido como elemento semântico que indica seres do mundo não natural (exemplos: honra, poder, obediência, solidariedade). Já figura é o elemento semântico que designa seres do mundo natural (exemplos:

casa, escola, fábricas, homem, mulher). Na história de Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, a menina representa uma figura, enquanto a obediência é o tema.

Na história de Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, a menina representa uma figura, enquanto a obediência é

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histórico). Ora, tal fato nos leva a pensar o texto como algo incompleto. E essa incompletude que caracteriza qualquer discurso é resultado da multiplicidade de sentidos possível. Assim, o texto não resulta da soma de segmentos, de frases, nem é resultado da soma de interlocutores: o sentido de um texto resulta de uma situação discursiva. Por isso, a neces|sidade [69] de preenchimento dos espaços que existem no texto; esta incompletude é gerada por toda espécie de implícitos (pressupostos e subentendidos). Um deles é a intertextualidade, que vem a ser a relação de um texto com outro. Em uns ele tem sua origem; para outros ele aponta. Ora, como um texto tem sua origem em outros, é necessário considerar também aquilo que poderia ter sido produzido em condições diversas daquela em que ele foi elaborado. Isto é, deve-se levar em conta aquilo que os textos poderiam ter dito e não disseram, sobre determinadas condições de produção. Para Platão e Fiorin (1990, p. 241), pressupostos são ―idéias não expressas de maneira explícita, mas que o leitor pode perceber a partir de certas palavras ou expressões contidas na frase". Assim, se o texto informa que "semana que vem ainda não teremos motivos de alegria", a expressão ainda indica que o atual momento é de tristeza, de adversidades. Se nos dizem que continuará fazendo calor amanhã, o verbo continuar é um pressuposto de que a temperatura anda elevada. Há informações implícitas em todos esses exemplos. O leitor ou ouvinte pode questionar ou discordar da afirmação explícita, mas sobre o pressuposto não. Se o pressuposto é falso, não tem razão de ser a informação explícita. Em geral, os pressupostos advêm de advérbios (ainda, já), de verbos (continuar, torna-se, chegar, fazer e centenas de outros que nos informam implicitamente sobre fatos ou acontecimentos que o texto explícito silencia), adjetivos (se você diz, por exemplo, que "os políticos honestos se reelegerão", está informando sobre a existência de corruptos que não se reelegerão). Já os subentendidos são "insinuações contidas por trás de uma afirmação" (FIORIN, 1990, p. 244). Se o pressuposto não pode ser discutido, já o subentendido depende do ouvinte ou leitor. O emissor, ao subentender, coloca-se numa posição de segurança. Conforme a reação do leitor ou do ouvinte, poderá dizer que o sentido de suas palavras era o literal e não o que foi entendido. Suponha-se que alguém, numa festa de casamento, diga que gosta muito de caipirinha quando está na praia. A frase pode levar ao subentendido de que essa pessoa considera que lugar de caipirinha não é em festa de casamento. Se a audiência aborrecer- se, ela poderá acrescentar que também não desgosta de caipirinha nas demais situações: ”estava apenas afirmando que gosto de caipirinha quando estou na praia”. Outro fator de grande influência na leitura é o viés, que é o resultado da escolha dos fatos ou acontecimentos que se faz no momento da emissão de uma mensagem. Assim, quando o jornalista seleciona determinados fatos para noticiar, já aí nesse momento a neutralidade perde espaço para a subjetividade. A ênfase que se atribui a determinados fatos ou pormenores gera o viés. Por exemplo, quando se destacam apenas qualidades de um administrador e se escondem seus defeitos, a audiência pode ter uma informação distorcida, porque incompleta. E essa incompletude interfere na mensagem. A incompletude do texto é intervalar, já que ele é incompleto porque o discurso instala o espaço da intersubjetividade. Ele é constituído pela relação de in|teração [70] que instala. Assim considerado, o texto não é lugar de informações, mas processo em que o significado vai-se formando, é um lugar de sentidos.

o texto não é lugar de informações, mas processo em que o significado vai-se formando, é

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O conhecimento das condições de produção do discurso contribui para a reflexão sobre legibilidade:

o tipo, o contexto e o sujeito, a leitura parafrástica e a leitura polissêmica.

A estratégia de leitura leva em conta o tipo de discurso (lúdico, polêmico, autoritário) que o leitor

tem diante de si, pois o que é relevante em um tipo pode não sê-lo em outro. O discurso lúdico tende para a

polissemia, o autoritário para a paráfrase e o polêmico para o equilíbrio, o jogo entre a polissemia e a

paráfrase. Visto do prisma das funções da linguagem, o discurso autoritário é referencial, o lúdico é poético e

o polêmico se volta para a referência e a verdade é disputada pelos interlocutores. No discurso autoritário, a verdade é imposta; no lúdico, não há preocupações com a verdade.

O leitor, portanto, deve ser capaz de reconhecer os tipos de discurso e estabelecer a relevância de

certos fatores para a significação do texto objeto de sua leitura. Assim, um texto de ficção exige do leitor

diferente atuação de leitura que teria em relação a um texto científico; um texto lúdico exige do leitor postura diferente da que teria em relação a um texto polêmico. Quanto ao contexto, devem ser levados em conta: o sujeito do enunciado (sintático: sujeito da oração), o sujeito da enunciação (autor) e o sujeito textual (contexto social). No exame do sujeito oracional,

o leitor deve ocupar-se da reflexão sobre se o sujeito é explícito ou oculto. Se oculto, por que o é? Se

indeterminado, qual o motivo da indeterminação? Por que a ausência de sujeito? No caso do sujeito da enunciação, de que perspectiva ele narra os fatos, reflete sobre os fatos, descreve-os? De um ponto de vista

neutro, favorável ou contrário àquilo que é objeto de sua produção textual? Para a percepção do sujeito textual, é necessário ver o texto como um todo. Aqui se deve levar em conta a incompletude do texto, sua relação com outros textos, a relação do texto com a experiência do leitor em relação à linguagem, seu

conhecimento de mundo, sua ideologia. Não basta entender palavra por palavra, nem sentença por sentença.

É preciso apreender o texto em sua unidade.

Aqui é, pois, preciso considerar que há variados tipos de leitor. Em primeiro lugar, um elemento que pode caracterizar o tipo de leitor é sua experiência com a linguagem: grau de escolaridade, conhecimento gramatical, capacidade de análise lingüística, capacidade de distinguir formas-padrão. Dito isto, podemos afirmar com Orlandi (1987, p, 200) que diferentes níveis de sujeitos e diferentes tipos de discurso determinam ‖o grau de relação entre o que chamamos leitura parafrástica, que se caracteriza pelo reconhecimento (reprodução) do sentido dado pelo autor, e leitura polissêmica, que se define pela atribuição de múltiplos sentidos do texto‖. [71] Assim, no discurso lúdico a leitura polissêmica pode ocorrer em maior grau; já no autoritário, a leitura polissêmica ocorrerá em menor grau. O discurso poético possibilita leitura polissêmica em maior grau, enquanto o discurso científico reduz a possibilidade de leitura polissêmica. Da mesma forma, o sujeito do enunciado (sujeito da oração) permite grau mínimo de leitura polissêmica; já o sujeito textual (contexto político-socioeco-nômico) permite maior grau de polissemia à leitura. E mais uma vez podemos afirmar que a leitura é produzida, isto é, exige atuação do leitor, é um processo de interação. Destarte, não há por que falar em leitura como recepção (assimilativa) e leitura

criativa, que exige alta capacidade de imaginação. Não há apenas recepção nem criatividade em sentido amplo, principalmente na escola. Há variados graus ou espécies de interferência que vão da paráfrase à

em sentido amplo, principalmente na escola. Há variados graus ou espécies de interferência que vão da

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polissemia. Os objetivos da leitura é que determinam qual leitura será mais adequada: a parafrástica ou a polissêmica. Diferentemente desta postura que considera que não há nem criatividade nem recepção pura, Mary Kato (1990, p. 39-42), em O aprendizado da leitura, afirma a existência de três tipos de leitor:

1. Leitor que privilegia o processamento descendente: apreende facilmente as idéias gerais e principais do

texto, é fluente e veloz. Ponto negativo: tenta excessivamente adivinhar idéias sem confirmá-las com o texto. Valoriza mais seus conhecimentos prévios que os do texto.

2. Leitor que privilegia o processamento ascendente: constrói o significado com base nas informações do

texto. Dedica-se pouco à leitura da entrelinha. Tem dificuldades em sintetizar idéias. Não sabe distinguir idéias principais, relevantes, de idéias secundárias, ilustrativas.

3. Leitor maduro: utiliza ambos os processos anteriores complementarmente. Tem controle consciente e

ativo de seu comportamento.

Segundo o primeiro tipo de leitor, tem-se de contextualizar o autor, o texto, situá-lo no tempo e na corrente de idéias humanas. É o que faz uma leitura do tipo inspecional. Já ao comportamento do segundo tipo de leitor pertence a leitura cuidadosa, atenta às palavras desconhecidas e às ilustrações. Como já se afirmou, o terceiro é o que combina os dois modos de leitura. [ 71]

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica. 8ª ed. São Paulo: Atlas, 2006.

Capítulo 5 - Estratégias de Leitura

1 Leitura e suas técnicas

Científica. 8ª ed. São Paulo: Atlas, 2006. Capítulo 5 - Estratégias de Leitura 1 – Leitura

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A pesquisadora norte-americana Dolores Durking afirma que pouca atenção é dada pelos professores às atividades que visam desenvolver a compreensão de textos escritos (MOLINA, 1992, p. 2). Isto talvez se deva ao fato de que, enganosamente, pais, professores e alunos consideram que o ensino da leitura é atividade restrita à alfabetização e à escola fundamental. Um engano de custo não dimensionável, pois que a leitura é a chave do conhecimento, quer se faça de um texto, quer de realidade mais ampla, o mundo. Para Freire (1985, p. 22), ―a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele‖. Segundo R S. R Williams, autora de ―Reading: the key to independent learning‖ (Apud MOLINA, 1992, p. 19), ―a capacidade em leitura é uma combinação de quatro habilidades: identificação de palavras, vocabulário, compreensão e habilidades de estudo‖. Para W. J. Harker, em ―Reading and study skills: an over-view for teachers‖, no mesmo lugar do livro citado de Molina, há três categorias de habilidades em leitura: identificação de palavras, compreensão e velocidade. [77] Um leitor competente reconhece a incompletude do discurso, leva em consideração pressupostos e subentendidos, o contexto situacional e histórico, a inter-textualidade, explicita os processos de significação do texto, os mecanismos de produção de sentido; enfim, reconhece a formação discursiva (o que é possível dizer) e a formação ideológica. Por isso, tal tipo de leitor é crítico e não mero reprodutor daquilo que o autor disse (leitura parafrástica); ele confronta as informações do texto com a realidade, constrói a leitura, porque sabe que a linguagem é lugar de confronto ideológico. Segundo Molina (1992, p. 22), um bom leitor seria capaz de praticar os níveis de leitura propostos por Mortiner J. Adler e Charles van Doren, em Como ler um livro: leitura elementar, leitura inspecional, leitura analítica, leitura sintópica. São, pois, níveis de leitura informativa pragmática, funcional, ou seja, leitura que, não obstante possa ser agradável e prazerosa, é empreendida com finalidade prática, pois tem algum tipo de compromisso com o resultado que o leitor espera de seu esforço. Nesse caso, lê-se para aprender. Importa também questionar o que se lê. Vejamos, pormenorizadamente:

1. Leitura elementar: leitura básica ou inicial. Ao leitor cabe reconhecer cada palavra de uma página. Leitor

que dispõe de treinamento básico e adquiriu rudimentos da arte de ler.

2. Leitura inspecional: caracteriza-se pelo tempo estabelecido para a leitura. Arte de folhear

sistematicamente.

3. Leitura analítica: é minuciosa, completa, a melhor que o leitor é capaz de fazer. É ativa em grau elevado.

Tem em vista principalmente o entendimento.

4. Leitura sintópica: leitura comparativa de quem lê muitos livros, correlacionando-os entre si. Nível ativo e

laborioso da leitura.

Os quatro níveis de leitura são cumulativos. Um leitor competente transita à vontade pelos quatro níveis, com desenvoltura e autonomia. Esse tipo de leitor não se afasta da leitura porque reconhece nela fonte indispensável de novos conhecimentos, que estariam a sua disposição quando necessário. Leitor que aceita

nela fonte indispensável de novos conhecimentos, que estariam a sua disposição quando necessário. Leitor que aceita

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indicações de leitura, mas não se fixa nelas, é capaz de escolher, de buscar novos materiais de leitura, novas informações para fundamentar seus argumentos. Além disso, ressalte-se que não há uma leitura tão-somente, mas diferentes leituras. Há um processo de interação de leitor e texto que possibilita a identificação de múltiplos significados. Também importa lembrar que textos diferentes exigem diferentes estratégias de leitura. Assim, um texto ficcional pede leitura diversa daquela que se realiza de um texto científico. Um leitor competente tem familiaridade com diferentes tipos de texto, enquanto o leitor inexperiente manuseia com pouco desembaraço textos diversos. Dessa forma, quanto mais se lê, mais apto se torna para a leitura. Também se [78] pode dizer com F. Smith (Apud MOLINA, 1992, p. 17-18) que ―o aprendizado da leitura começa com uma palavra e um texto de cada vez, continua com uma palavra e um texto de cada vez, e o aprendizado jamais cessa‖. Uma prática de leitura bastante difundida é a técnica SQ3R, de Morgan e Deese; ela compreende cinco etapas:

1. Survey (levantamento).

2. Question (pergunta).

3. Read (leitura).

4. Recite (repetição).

5. Review (revisão).

Molina (1992, p. 33), por sua vez, apoiando-se nessas técnicas, propõe que a leitura seja feita levando-se em consideração os seguintes passos:

Visão geral do capítulo.

Questionamento despertado pelo texto.

Estudo do vocabulário.

Linguagem não verbal.

Essência do texto.

Síntese do texto.

Avaliação.

1.1 Visão geral do capítulo

O leitor verificará a estrutura do capítulo, os títulos e subtítulos. Observará ainda: grifos, itálico, tamanho e estilo dos caracteres, maiúsculas. Trata-se da leitura inspecional do capítulo. O leitor nesta etapa busca resposta para as seguintes questões:

1. Qual o assunto tratado no capítulo?

2. Qual a ordem das idéias expostas?

1.2 Questionamento despertado pelo texto

1. Qual o assunto tratado no capítulo? 2. Qual a ordem das idéias expostas? 1.2 Questionamento

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Nesse estágio, faz-se um levantamento de perguntas, sem buscar respondê-las. Ensina Molina (1992, p. 36): "Para engajar-se numa leitura ativa é muito importante que o estudante saiba fazer perguntas, a fim de fortalecer a expectativa [79] que forma em relação ao que vai encontrar no capítulo." E acrescenta:

"Questionar é um hábito, e como tal deve ser cultivado." Em seguida, ensina a questionar. Por exemplo, deve-se começar transformando títulos e subtítulos em questões:

"Características do Sol" = "Quais são as características do Sol?" Daí a chegar a uma conclusão é um passo:

"A base do pensamento crítico é a capacidade de interrogar a si próprio e ao mundo em geral" (Molina, 1992, p. 37).

1.3 Estudo do vocabulário Para Molina (1992, p. 38), a melhor forma de despertar o prazer pela leitura e consolidar o hábito de ler é oferecer textos interessantes, não obstante mais difíceis, que levem o leitor a aceitar o desafio neles implícito como meio de alcançar uma recompensa maior. Para ampliar o vocabulário, recomenda: a valorização do dicionário, o emprego de palavras novas e a análise de palavras. O estudante não deve consultar o dicionário imediatamente e atropelada-mente. Inicialmente, fará esforço para compreender a palavra desconhecida dentro do contexto. Às vezes, o próprio contexto oferece o significado, através de uma definição. Suponha-se um texto de estudos literários:

A palavra poesia vem do grego poiesis, de poien: criar, no sentido de imaginar. Os latinos

chamavam a poesia de oratio vincta: linguagem travada, ligada por regras de versificação, em oposição a oratio prosa: linguagem direta e livre (MOISÉS, 1987b, p. 81).

E à página 94 o mesmo autor apresenta o conceito de poesia: "é a expressão metafórica do

'eu', cujo resultado, o poema, pode ser em verso ou em 'prosa'".

O leitor pode verificar que a palavra poesia vem explicitada no próprio texto.

Às vezes, o texto não define o vocabulário imediatamente; o leitor pode chegar a ele por meio da explanação que ajuda a elucidar o texto. Outras vezes, pode-se valer de pistas do texto, que aparecem em expressões como: isto é, ou seja, ou, aposto, ou expressões que aparecem entre parênteses. Outra forma de conhecer o significado das palavras através do contexto é utilizar a inferência. Suponha-se:

A existência de uma única ação, ou conflito, ou ainda de uma única "história" ou "enredo",

está intimamente relacionada com a concentração de efeitos e de [80] pormenores: o conto aborrece as digressões, as divagações, os excessos (Moisés, 1994, p. 41).

de efeitos e de [80] pormenores: o conto aborrece as digressões, as divagações, os excessos (Moisés,

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Ora, mesmo desconhecendo o significado de digressões é possível inferir seu significado:

concentração de efeitos é reunião, concurso, convergência, centralização, condensação de efeitos. Se o conto exige que os efeitos estejam concentrados, condensados, é possível inferir que digressão tem efeito contrário (pois ele aborrece a digressão). Então, digressão será desvio da concentração, divagação. Em vez de um efeito concentrado, há vários, ou efeito disperso.

O significado de uma palavra pode também ser deduzido de um texto, atentando-se para o contraste

de idéias que o texto salienta. Suponha-se:

De onde se segue que a primeira característica estrutural da novela é sua pluralidade dramática: ao invés do conto, que gira em torno de um conflito, a novela focaliza vários. E cada um deles apresenta começo, meio e fim (MOISÉS, 1994, p. 113).

Que é pluralidade dramática? Ora, se o conto focaliza um conflito único, a novela contempla vários núcleos dramáticos. Pluralidade dramática é, portanto, diversidade de dramas, de conflitos. Se o contexto e a análise das palavras não explicitam o significado, corre-se ao dicionário, lembrando-se de que é preciso ler o verbete até o final dele e escolher uma acepção que se encaixa no contexto em que a palavra aparece. Recuse-se, pois, o comportamento da consulta mecânica e da utilização inadvertida da primeira palavra do verbete pesquisado.

O estudante deve ter conhecimento sobre como consultar o dicionário. Examinem-se primeiramente

as páginas introdutórias, a lista de abreviaturas e outras. Considere-se ainda que as palavras estão em ordem alfabética e que as páginas do dicionário têm em seu topo um cabeço. As palavras que aparecem destacadas (negrito) à esquerda e à direita são indicadoras, respectivamente, da primeira palavra da página e da última. Por meio delas se chega rapidamente à palavra que se deseja procurar. Desenvolver, pois, habilidade classificatória é procedimento indispensável. Por incrível que possa parecer, há pessoas que desconhecem a

ordem das letras do alfabeto. Cabe ainda destacar que se deve distinguir termo de palavra. Enquanto uma palavra desconhecida deve ser procurada no dicionário, o termo já aparece definido no próprio texto; ele não oferece possibilidade de ambigüidade. Veja-se:

A palavra papel tem significado variado: folhas finas usadas para escrever, imprimir,

desenhar, embrulhar, limpar

Em Sociologia, é empregada como termo: as maneiras de se comportar que se esperam de qualquer

indivíduo que ocupe cena posição constituem o papel associado com aquela posição (NEWCOMB, apud LAKATOS, 1995a, p. 98).

documento; personagem representada por um ator; dinheiro em notas.

;

Outro exemplo:

apud LAKATOS, 1995a, p. 98). documento; personagem representada por um ator; dinheiro em notas. ; Outro

61

Testemunha é a pessoa que, perante a autoridade judiciária, declara o que sabe a respeito do fato criminoso e de suas circunstâncias (MIRABETE, 1995, p. 254).

E ainda outro:

Cultura organizacional é um conjunto de valores, expressos em elementos simbólicos e em práticas organizacionais, que em sua capacidade de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional, tanto agem como elementos de comunicação e consenso, como expressam e instrumentalizam relações de dominação (FLEURY; FLEURY, 1995, p. 27).

Ao estudar um texto, é preciso estar atento aos termos empregados. Este procedimento desenvolve o vocabulário técnico. Em geral, os termos técnicos são grafados em itálico, negrito (bold), em caracteres

maiúsculos, ou entre aspas, ou com outro destaque. Finalmente, os autores de livros técnicos costumam, em geral, definir ou conceituar os termos técnicos.

O estudo do vocabulário não é atividade que se restringe a estudantes de Letras que o fazem com

base em textos literários. Qualquer livro, de ciências humanas ou exatas, de arte ou de religião, pode oferecer um sem-número de dificuldades vocabulares. E vocabulário desconhecido é sério empecilho para a

aprendizagem. Em seguida, o leitor buscará a palavra do dicionário, lendo todo o verbete e anotando aquela palavra de sentido mais aproximado para o texto. Finalmente, não deve limitar-se à procura de uma palavra tão- somente: verificará as palavras que são da mesma família etimológica. Suponha-se que o estudante deseja saber o que é neurologia. Não deve reduzir sua procura a esse vocábulo, mas ampliar sua pesquisa, consultando os outros verbetes:

Neurologia: parte da medicina que estuda as doenças do sistema nervoso; nevrologia. Próximo a essa palavra, encontram-se:

Neural, neurografia, neurite, neurologia, neurocirurgia, neurônio, neurocirurgião, neuropata, neurofisiologia, neuropatologia, neurogênese,neuropsiquiatria, neurogenia, neurorradiologia [82]

A listagem da família de palavras aqui não é completa; visa apenas mostrar que é muito mais fácil

aprender palavras em conjunto que isoladamente. Acrescente-se que não se trata de memorizar todas as

palavras e que algumas das que estão aí na lista aparecem em conversas; não são, portanto, palavras esdrúxulas. Outro procedimento adequado para a ampliação do vocabulário é pesquisar a etimologia da palavra:

neuro = do grego neúron = nervo logia = do grego lógos = tratado, estudo, ciência

a etimologia da palavra: neuro = do grego neúron = nervo logia = do grego lógos

62

Aprendida a nova palavra, é preciso empregá-la em novos contextos, em frases construídas pelo

estudante. Ensina Molina (1992, p. 39): "Para que as palavras novas se transformem em vocabulário ativo, é preciso empregá-las, incorporá-las aos nossos hábitos lingüísticos."

E acrescenta: "O primeiro passo para conhecer novas palavras e vir a empregá-las depende de se

desenvolver um genuíno interesse pelas palavras." Esse estudo pode ser complementado pela pesquisa sobre formação de palavras, constante das gramáticas de Língua Portuguesa. Paralelamente ao estudo da etimologia de sufixos, afixos e radicais, podem-se estudar processos semânticos de formação de novos significados, como sinédoque, metonímia, metáfora, eufemismos, hipérbole, prosopopéia, perífrase. [ 83 ]

1.4 A Linguagem não verbal

Um texto, porém, oferece outras informações apresentadas por ilustrações (fotos, mapas, quadros, gráficos, tabelas). Ora, não se pode passar por elas superficialmente; é preciso observá-las com atenção para entendê-las.

1.5 Essência do texto

A busca do conteúdo profundo de um texto só se concretiza após realizados os passos anteriores;

estudo da linguagem não verbal, questionamento do texto, visão geral do capítulo. Neste passo, o leitor identifica as idéias principais do texto e situa o autor num contexto ideológico. A comparação de textos de autores diferentes permitirá a elaboração de juízos avaliativos e críticos. São exigências desse estágio da leitura:

apreender as principais proposições do autor;

conhecer os argumentos do autor;

identificar a tese do autor;

avaliar as idéias expostas.

O estudante aplica-se na compreensão das idéias de todos os parágrafos, porque sabe que em cada

um deles há uma idéia que foi desenvolvida. Para Molina (1992, p. 48), "quando o leitor é capaz de encontrar o tópico frasal de cada parágrafo, já tem bastante adiantada a tarefa de resumir, por sua própria conta, o texto lido".

É nesta etapa que o leitor deve sublinhar o texto, e sempre com parcimônia, com economia.

Antecipar a sublinha para fases anteriores, ou até mesmo para a primeira leitura, é correr o risco de fazê-lo exageradamente, como pode ser visto comumente em livros de estudantes que pintam páginas inteiras com

canetas salientadoras (como Lumicolor, Marcatexto). Ora, se tudo é relevante, não há por que utilizar a caneta para sublinhar.[84] A avaliação de um texto compreende: validade das idéias, completude delas, correção dos argumentos, coerência do argumento e suficiência das provas, consecução dos objetivos prometidos. Avaliar significa julgar o que se leu.

do argumento e suficiência das provas, consecução dos objetivos prometidos. Avaliar significa julgar o que se

63

1.6 Resumo do texto

Resumo aqui tem o sentido de recriação do texto original, e só pode ser realizado por quem analisou o texto, dividiu-o em suas partes principais e sabe distinguir o essencial do não essencial. A análise exige

compreensão profunda do texto. [ ]

1.7 Avaliação

A preocupação desta fase é salientar a necessidade de orientar o estudante para o exercício de sua

capacidade crítica, levando-o à independência de seu pensamento crítico. Assim sendo, transforma-se o

estudante em autor de sua aprendizagem.

A etapa de avaliação engloba tanto a resposta às questões feitas pelo leitor no início do estudo do

texto quanto às oferecidas pelo próprio texto. Pergunte-se:

- Que perguntas permanecem sem resposta?

- Como o autor transmitiu suas idéias? A linguagem é direta (denotativa) ou indireta (metafórica, conotativa)? [85]

A crítica é etapa subseqüente ao entendimento das idéias de um texto. Jamais pode precedê-lo.

Afirma Molina (1992, p. 56): "Se o leitor entendeu realmente o livro, nada impede que ele concorde ou discorde do autor." E continua, agora citando Adler e Van Doren: "Concordar sem entender é inépcia. Discordar sem entender é impertinência." E, se houver de discordar de um autor, não há por que fazer da discordância disputa ou querela. É preciso distinguir conhecimento de mera opinião. Pode-se, com base em

fatos, provar desinformação, incoerência, ilogicidade das idéias, ou incompletude delas. Ser cuidadoso com a avaliação demonstra capacidade de raciocínio crítico.

O estudo de um texto completa-se quando se descobrem as idéias do autor e as teses que defende;

quando o leitor enuncia suas próprias questões e avalia cuidadosamente o que o autor prometeu. Assim, avança-se na busca do conhecimento.

Leitor competente, portanto, é aquele que:

é autônomo na busca de novos conhecimentos, no estudo;

tem interesse em aprender;

tem prazer em estudar.

Molina (1992, p. 61) salienta que leitor competente é aquele que, diante de um texto de tipo dissertativo-informativo, é capaz de ―antecipar suas próprias expectativas em relação ao conteúdo, compreender o conteúdo verbal e não verbal do texto, buscando, por seus próprios meios, sanar eventuais dificuldades de compreensão, analisar o texto em suas proposições básicas, sintetizá-lo e avaliá-lo‖. Não basta saber ler um texto, é necessário entendê-lo.

2 Tipos de leitura

sintetizá-lo e avaliá- lo‖. Não basta saber ler um texto, é necessário entendê-lo. 2 Tipos de

64

A leitura pode ser classificada em tipos: skimming; do significado; de estudo; crítica; scanning. A

leitura de skimming procura captar a tendência geral da obra. Nesse caso, o leitor vale-se de uma leitura superficial de títulos, subtítulos, de alguns parágrafos. A leitura do significado procura obter uma visão geral do texto. Faz-se uma leitura rápida, sem se deter, nem retomar parágrafos anteriores já lidos. A leitura de estudo engloba ler, reler, anotar, resumir. A leitura crítica envolve reflexão, avaliação, comparação com o que se leu anteriormente. A leitura classificada como scanning caracteriza-se como aquela em que se procura certo tópico de uma obra. [86] As classificações são muitas e variadas; algumas envolvem aspectos formais; outras, aspectos de conteúdo. No caso de leitura com o objetivo de angariar informações, dados e fundamentações que servirão

de base num trabalho científico, a leitura mais indicada é a informativa, que pode subdividir-se em de

reconhecimento, seletiva, crítica e interpretativa, isto é, não se faz uma leitura somente, mas várias.

A leitura de reconhecimento proporciona ao leitor visão geral da obra; permite-lhe verificar se

encontrará nela as informações de que necessita. A leitura seletiva busca selecionar as informações necessárias. A leitura crítica exige da parte do leitor maiores preocupações, sobretudo quanto ao significado; exige esforço reflexivo. Já a leitura interpretativa visa relacionar as afirmações do autor com os problemas para os quais se busca uma resposta.

3 Aproveitamento da leitura

A formação do sentido de um texto não é produto exclusivo de seu autor. O leitor também produz

sentidos. Compreender não significa atribuir um sentido ou descobrir o sentido que o autor quis dar ao texto

(leitura parafrástica), mas reconhecer os mecanismos de funcionamento do discurso, de um processo de significação para chegar a uma leitura polissêmica, ou seja, de muitos sentidos.

A leitura de um texto, embora não possa ser reduzida a uma questão de técnica, pode ser facilitada

por estratégias utilizadas para sua realização; mas que se tenha sempre presente que um texto não pode ser reduzido às informações que contém, já que ele é o espaço do confronto de ideologias. O resultado do diálogo entre autor e leitor será reproduzido em outros contextos, gerando, assim, textos que se relacionam. Ora, como o pesquisador reproduz as informações que colhe num contexto sociocultural, segundo

determinações históricas, ele deve estar atento ao processo de significação, de constituição do discurso, e ter consciência de que até mesmo a ciência que produz é resultado de formações ideológicas e formações discursivas. O cuidado com a leitura pode trazer benefícios não só para si, como também para toda a sociedade.

A observação dos tópicos seguintes facilita o aproveitamento da leitura:

Determinar um objetivo a alcançar. Esse fato ajuda a selecionar a leitura. Q Fazer leitura de contato com a obra. Deve ser realizada sem interrupção.

Resolver os problemas de decodificação do vocabulário. Esclarecer as dúvidas com o dicionário.

Apreender as idéias principais. Não é conveniente assinalar tudo e tampouco marcar termos isolados. Parece recomendável assinalar os verbos e, em seguida, os sujeitos dos verbos, os objetos que são indispensáveis à compreensão das frases, as conjunções.[87]

seguida, os sujeitos dos verbos, os objetos que são indispensáveis à compreensão das frases, as conjunções.[87]

65

Esquematizar as idéias principais.

Elaborar frases-resumos com base no que foi sublinhado.

A esquematização das idéias de um texto facilita a aprendizagem e a retenção de informações

básicas[

Cabe ressaltar que a profusão de obras impõe ao pesquisador uma seleção. Esta é imperativo do objetivo que se tem em vista. A seleção preocupa-se com obras a serem lidas, autores preferenciais, edições críticas, edições recentes. Às vezes, a última edição revista pelo autor é a preferida, como no caso das obras de Graciliano Ramos: as edições da José Olympio satisfazem ao pesquisador, enquanto as demais edições, que não foram revistas pelo autor, apresentam problemas de fidedignidade textual. Com o Dicionário de Moraes ocorre o mesmo problema: as edições revistas pelo autor são as preferidas.[ ]

3.1 Eficiência e eficácia na leitura Muitas pessoas dizem ter dificuldade de apreensão daquilo que lêem, e tal fato se deve principalmente à velocidade da leitura que imprimem ao texto que têm diante de si. Às vezes, retornam seguidamente ao parágrafo ou idéia precedente, o que prejudica a compreensão e amplia o dispêndio de tempo. Assim sendo, o primeiro obstáculo a vencer é superar a lentidão na leitura; fazer, portanto, uma leitura tão desobstruída quanto possível. Outro extremo seria a leitura superficial, ultra-rápida. Evidentemente, a velocidade de leitura depende de cada um, bem como do gênero de texto que se está lendo. Um tratado de Direito Romano não pode ser lido com a mesma velocidade que um romance policial, por exemplo. A leitura eficaz diz respeito à qualidade, enquanto a leitura eficiente se relaciona com a quantidade. Pela primeira se almeja a exaustividade; pela segunda se busca alcançar maior velocidade.

3.2 Ambiente Fator que não pode ser desconsiderado por quem persegue maior eficiência e eficácia na leitura é o ambiente. Merecem consideração: iluminação, arejamento, ventilação, ausência de ruídos, ou pelo menos daqueles que prejudicam [88] a atenção, uma vez que a concentração se revela requisito básico para a prática da leitura. Além do ambiente, outros fatores devem ser considerados para que a leitura se torne proveitosa:

dicionários, livros de referência, enciclopédias, lápis, papel para anotações.

4 Objetivo da leitura Os objetivos básicos da leitura são a assimilação, a busca de conhecimentos, a preparação intelectual para posicionamentos críticos diante da realidade circundante. Para a concretização desses objetivos, é necessário que o leitor busque, em primeiro lugar, a idéia mestra, o tópico frasal, que indicará a direção das idéias expostas. Daí por que o leitor deve concentrar-se em sua procura, bem como na identificação da hierarquia das idéias expostas.

por que o leitor deve concentrar-se em sua procura, bem como na identificação da hierarquia das

66

Infere-se desse fato a necessidade de exercícios em que se pratique a identificação da idéia principal e a hierarquização das secundárias. Somente com essa prática é possível melhorar a qualidade da leitura, cujo objetivo não é outro que captar, reter, integrar conhecimentos para, posteriormente, reformulá-los, recriá-los, transformá-los. Outro exercício recomendável para a prática da leitura qualitativa é a paráfrase, o refrasear das idéias encontradas, o comentário, a crítica do texto.

Estratégias de escritura: anotações, resumo, resenha

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica. 8ª ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 20-79 16

20] [

Define-se anotação como processo de seleção de informações para posterior aproveitamento. As notas devem permitir redação a partir delas, ou seja, não devem ser tão sintéticas que dificultem o entendimento e não possam ser convertidas em texto. As anotações podem ser de palestras, aulas, consultas bibliográficas.

Numa exposição oral, o ouvinte se preocupará com palavras-chaves e com expressões que dividem o

discurso. Exemplo: "Determinado fato pode ser analisado segundo três pontos fundamentais: primeiro , "

segundo

orador. A atenção se concentrará também nos gestos do falante e, se possível, a anotação deve fazer

"nesse momento, o expositor

sorriu". Ao ouvinte cabe buscar compreender o significado específico dos vocábulos usados na exposição. Registrem-se também dúvidas e respostas surgidas durante conferência, aula, palestra. As anotações de textos escritos, como livros e artigos de periódicos, devem ser posteriores a uma leitura rápida e completa do texto e após sublinha das idéias principais. Apontamentos rigorosos, claros, completos evitam a perda de tempo futuro na busca de livros em bibliotecas, ou emprestados de terceiros, mesmo quando estejam próximos. As notas podem ser de três tipos: corridas, esquemáticas ou em forma de resumo. As primeiras registram palavras-chaves que deverão ser transformadas em texto tão breve quanto possível. As esquemáticas ordenam hierarquicamente as partes principais do conteúdo de uma comunicação. O resumo procura sintetizar informações colhidas em livros, ou exposições orais 17 . Feitas as anotações, há necessidade de registrar as informações da fonte: autor, título da obra, lugar, editora, ano da publicação e número das páginas consultadas. Se a nota é resultado de aula ou palestra, anunciam-se o autor das idéias, o local, o mês e o ano em que ocorreu a exposição.[21]

referência a eles: "nesse momento, o expositor ergueu o braço e indicou

O ouvinte atento deve ocupar-se de anotar os três pontos fundamentais segundo o

2 Anotação

,

terceiro

"',

16 Como um leitor atento, você deve ter notado que a ordem dos capítulos está invertida em relação ao original. Logicamente está assim por questões didáticas. [nota do professor.

17 Grifos nossos. [nota do professor]

Logicamente está assim por questões didáticas. [nota do professor. 1 7 Grifos nossos. [nota do professor]

67

As informações são registradas em fichas, que possibilitam a organização e o manejo dos dados com eficiência. Utilize uma ficha para cada anotação; numere-as, se a anotação ocupar mais de uma ficha; dê título a cada ficha e registre a fonte consultada.

2. 1 Anotações corridas Apresenta-se a seguir um texto de Benedito Nunes, que será objeto de anotações corridas. Para fazer esse tipo de anotação, recomendam-se vários procedimentos, como:

leitura total do texto, sem interrupção;

releitura do texto, levando em consideração palavras desconhecidas: localizar verbete no dicionário e escrever à margem do texto estudado o significado mais aproximado da palavra que se procurou;

busca em enciclopédias e almanaques de outras informações relevantes para a compreensão do texto, como históricas, geográficas, gerais;

destaque de trechos e palavras-chaves somente após ter compreendido o texto;

redação da anotação corrida e submetê-la a uma avaliação própria; se houver necessidade de correções, refazer a redação.

Veja-se um exemplo:

Indo mais longe que Platão, Plotíno entende que a imitação dos objetos visíveis é um pretexto para a atividade artística, que tem por fim intuir as essências ou idéias. Mais do que atividade produtiva, a Arte é também um meio de conhecimento da Verdade. As obras de arte são transitivas. Feitas de matéria, é imaterial o que representam; exteriores e sensíveis, possuem significado interior e inteligível. O que importa a Plotino é a Arte como obra do espírito. Os produtos artísticos são signos de uma outra arte, imaterial. Acima da música audível, ondulam harmonias inteligíveis, que o artista deve aprender a ouvir. E, assim, a verdadeira Arte, que não se esgota em nenhuma de suas realizações exteriores, identifica-se com o princípio espiritual que a todos vivifica e supera. Cada obra é apenas um veio provisório aberto no perene manancial da inteligência e da beleza universais, em que a mente do artista se banha, e onde vai encontrar a musicalidade pura, que precede e alimenta a criação musical sensível. O acesso à Beleza proporcionado pela Arte, entendida como atividade espiritual, não é diferente do conhecimento intuitivo do ser e da contemplação da realidade absoluta (NUNES, 1989, p. 31).[22]

Antes de fazer a anotação do texto de Benedito Nunes, há necessidade de procurar no dicionário o significado de algumas palavras, como, por exemplo:

pretexto; intuir; transitivo; inteligível; signo; vivificar; veio; perene; manancial; contemplação.

por exemplo: pretexto; intuir; transitivo; inteligível; signo; vivificar; veio; perene; manancial; contemplação. 68

68

Evidentemente, essa lista pode variar conforme o conhecimento que o leitor tenha do vocabulário da língua. É preciso lembrar ainda que, muitas vezes, se pode conhecer a palavra, mas não o sentido exato que ela tem no texto. Feito o estudo do vocabulário, é preciso localizar numa enciclopédia o verbete que trata de Platão e de Plotino. Se se dispõe de um livro de História da Filosofia, pode-se enriquecer a consulta, observando que ambos têm concepções diferentes sobre a arte: enquanto para Platão a arte é imitação da realidade (que é uma sombra do Mundo das Idéias), para Plotino a Arte é obra do espírito e um caminho para se chegar ao Absoluto. Agora, pode-se passar à etapa da redação da anotação corrida:

Arte para Plotino: conhecimento da verdade; imaterial; obra do espírito. Permite o acesso à beleza e à realidade absoluta.

2.2 Anotações esquemáticas A anotação esquemática deve ser produzida somente após realizado o estudo do texto e feitas as anotações corridas. Quando se queima a etapa anterior, corre-se o risco de perder alguma informação importante. Aqui, a pressa não conduz a resultado positivo. Para fazer anotações esquemáticas, é preciso transformar num esquema vertical as idéias do autor que estão distribuídas horizontalmente no texto. São necessários atenção e rigor para hierarquizar corretamente as idéias.[23] Considerando o texto de Benedito Nunes, pode-se anotar esquematicamente:

1 Imitação na arte para Plotino

1.1 Pretexto para a atividade artística

2 Finalidade da atividade artística

2.1 Arte como meio de conhecimento da verdade

3 Transitividade da obra de arte

3.1 Imaterialidade do objeto artístico

3.2 A arte como objeto do espírito

4 Significado interno e inteligível

4.1 Harmonias inteligíveis

4.2 Inesgotabilidade do objeto artístico

4.3 Obra de arte como veio provisório

4.4 Inteligência e beleza universais

5 Atividade espiritual da arte

5.1 Acesso à beleza

arte como veio provisório 4.4 Inteligência e beleza universais 5 Atividade espiritual da arte 5.1 Acesso

69

5.2 Conhecimento intuitivo

5.3 Contemplação da realidade absoluta

Podem-se também esquematizar as idéias do texto por meio de chaves ou diagramas:

Arte

Platão

Arte é pura imitação de algo que é imitação do mundo das Idéias

A imitação na arte é pretexto para a atividade artística. O objeto artístico é Transitivo, imaterial, inesgotável.

Plotino

Finalidade da arte

Acesso à beleza Conhecimento Intuitivo Contemplação do absoluto

[24]

2.3 Anotações resumidas O resumo é feito após as duas etapas anteriores: a anotação corrida e a realização de um esquema das idéias do texto. Inútil o procedimento de tomar nota de algumas palavras ou expressões como se isto fosse um resumo. O resumo não é uma colcha de retalhos (trechos ou expressões), mas um todo coeso e coerente. Também não se pode fazer um resumo correto após ler o texto apenas uma vez. E preciso reconhecer o assunto (a referência), a idéia que o autor quer defender e que está por todo o texto (tema), como o texto está estruturado. No caso do fragmento de Benedito Nunes:

o assunto é arte;

o tema é valorização da arte em Plotino;

o texto está estruturado pelo contraste entre as idéias de Platão e as de Plotino.

Com estas informações iniciais, pode-se redigir o resumo, sempre com as próprias palavras:

Diferença entre a concepção artística de Platão e a de Plotino. A atividade artística para Plotino visa intuir as essências ou idéias e, assim, se torna um meio de conhecimento da Verdade. A obra de arte tem um significado que vai além da aparência. Ao artista cabe apreender o artístico que está acima da realidade sensível. O objeto artístico é transitório, e por intermédio dele o artista entra em contato com realidades supra-sensíveis, essenciais. A arte é atividade espiritual que proporciona acesso à Beleza e à realidade absoluta.

Reproduzir, parafraseando ou resumindo, o texto que foi objeto da leitura é prática consistente para assimilação de conhecimentos.

ou resumindo, o texto que foi objeto da leitura é prática consistente para assimilação de conhecimentos.

70

As anotações, em geral, são feitas a partir de um esquema que se percebe no texto. Se as idéias principais não tiverem sido grifadas (sublinhadas) criteriosamente, a elaboração do resumo ficará prejudicada. Na produção do esquema, o leitor deverá manter fidelidade ao texto, bem como ater-se ao tema. Assim sendo, depois de identificado o assunto (a referência), deverá o leitor preocupar-se com o tema, com o fio condutor da exposição das idéias, com as idéias que dão unidade ao texto. Na elaboração de resumos, o redator preocupar-se-á em subordinar idéias e fatos. Não é suficiente, pois, reuni-los apenas.[25] Em que consiste o resumo? Consiste na condensação de um texto, reduzindo-o a suas idéias

principais, respeitando-se sua estrutura e a inter-relação das idéias. Note-se que o resumo deve ser composto de um parágrafo em que seja patente a exposição de todo um pensamento, e não de fragmento dele. Portanto, não é recomendável a elaboração de um resumo apenas com os tópicos do texto original e a distribuição dele em vários parágrafos.

A elaboração de resumos proporciona melhores resultados para a leitura, bem como para a própria

redação. Afinal, só consegue fazer um bom resumo quem realmente assimilou as idéias principais do texto.

3 Sublinha

O ato de sublinhar, destacando apenas as idéias principais, revela-se consistente e eficaz quando é

realizado com parcimônia, distinguindo-se o essencial do acessório. Esse processo facilita as revisões de leitura ao término de um parágrafo, de um tópico, de todo o texto. Para um procedimento adequado, recomenda-se não sublinhar à primeira vista, à medida que se faz a leitura inicial. Não se pode determinar o número de leituras de um texto para sua compreensão, mas pode-se afirmar que somente a leitura exaustiva colhe melhores resultados. A divisão do texto em blocos, distinguindo partes dentro de um mesmo texto, a verificação da articulação dessas partes, a esquematização das idéias, a sublinha são todos procedimentos para a prática da leitura eficaz. Não há um código único para sublinhar; não há uma simbologia rigorosa, convencional. Cada pessoa tem sua própria metodologia. Pode-se, no entanto, recomendar aos iniciantes:

sublinhar palavras-chaves apenas depois de feitas várias leituras;

sublinhar somente as idéias principais, as palavras-chaves. Atenção com os instrumentos de coesão que criam idéia de oposição (mas, embora e outros): eles devem ser destacados;

reconstruir o parágrafo a partir das palavras e expressões sublinhadas. Outra não seria a finalidade de sublinhar que possibilitar visualização imediata das idéias principais;

colocar um traço vertical à margem do texto para indicar passagens mais significativas;

havendo passagens obscuras, falhas na exposição dos argumentos, dúvidas, discordâncias, colocar à margem do texto um ponto de interrogação;

para chamar a atenção para uma expressão tópica de todo o texto, usar dupla sublinha. [26]

de interrogação;  para chamar a atenção para uma expressão tópica de todo o texto, usar

71

Exemplo 18 : [

Portanto, para que haja alguma esperança de obter a iniciativa de seus trabalhadores, o administrador deve fornecer-lhes incentivo especial, além do que é dado comumente no ofício. Esse incentivo pode ser concedido de diferentes modos, como, por exemplo, promessa de rápida promoção ou melhoria; salários mais elevados, sob a forma de boa remuneração por peça produzida, ou por prêmio, ou por gratificação de qualquer espécie a trabalho perfeito e rápido; menores horas de trabalho, melhores condições de ambiente e serviço do que são dadas habitualmente etc., e, sobretudo, este incentivo especial deve ser acompanhado por consideração pessoal e amistoso tratamento que somente pode derivar de interesse verdadeiro, posto a serviço do bem-estar dos subordinados. E somente quando é dado estímulo especial ou incentivo desse

gênero é que o patrão pode esperar obter a iniciativa de seus empregados. Sob o sistema comum de administração, tem sido de tal modo reconhecida a necessidade de oferecer ao empregado um estímulo especial que grande número de interessados no problema considera a adoção de alguns modernos esquemas de pagamento, por exemplo, remuneração por peça, plano de prêmios, ou de gratificações como sendo, praticamente, todo o sistema de administração. Sob a administração científica, entretanto, o sistema particular de pagamento que é adotado constitui apenas um elemento subordinado (TAYLOR, 1994, p. 39).

27]

O resultado da sublinha é:

A iniciativa de trabalhadores [depende de] incentivo especial: promoção, salários mais elevados,

prêmio, gratificação, [redução de] horas de trabalho, ambiente, consideração pessoal, tratamento amistoso. [Ressalte-se] : a administração científica [não se reduz à prática de incentivos especiais].

[28]

4 Vocabulário

A qualidade da leitura depende do conhecimento que se tem do vocabulário. O domínio do sentido

exato que a palavra assume no contexto possibilita maior compreensão do texto e maior eficácia da leitura.

A ampliação do vocabulário caminha paralelamente ao desempenho da leitura. Em geral, quem

pouco lê tem vocabulário reduzido. Em princípio, pode-se recomendar buscar no dicionário toda palavra desconhecida que aparece num texto. Outro procedimento é experimentar descobrir o sentido da palavra no contexto. Às vezes,-o significado de uma palavra desconhecida vem logo a seguir por um termo de sentido equivalente. O esforço, portanto, para descobrir o sentido de um vocábulo parece constituir-se em valioso exercício para a ampliação do vocabulário. Não é suficiente, porém, procurar esclarecer apenas as palavras. As referências históricas, geográficas, bibliográficas e outras merecem igual tratamento. Daí a necessidade de textos de referência para

consulta, como dicionários, enciclopédias e outros.

18 Apresentamos apenas um exemplo por questões de espaço. Queira ver demais exemplos no livro. [nota do professor]

8 Apresentamos apenas um exemplo por questões de espaço. Queira ver demais exemplos no livro. [nota

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Quanto aos dicionários, lembramos ao leitor que os há das mais variadas espécies: Administração, Psicologia, Sociologia, Filosofia, Arte, Religião, Geografia, História, símbolos. Os estudantes costumam fazer pouco uso dessas ferramentas. [29] Para Othon M. Garcia (1986, p. 184), vários são os meios de enriquecer o vocabulário: "O mais eficaz, entretanto, é aquele que se baseia na experiência,, isto é, numa situação real, como a conversa, a leitura ou a redação." Salienta que grande parte de nosso léxico ativo é formada pela língua falada, incluindo aí programas de rádio e televisão. E, para ampliar o vocabulário, ensina que o melhor processo é fazer leitura atenta, de lápis na mão para anotar palavras desconhecidas e depois consultar o dicionário, registrando o significado delas. Para transformar tais palavras em vocabulário ativo, é preciso empregá-las, o que é feito por meio de exercícios de redação, como paráfrases, composição livre, amplificação, resumo, tradução, alteração de estruturas fraseológicas (mudança do torneio da frase), adaptação de textos, ruptura de clichês (substituindo-os por expressões novas). Veja-se a seguir um texto de um psicólogo, em que aparecem várias palavras que talvez sejam desconhecidas de um leitor não acostumado com esse tipo de informação:

A criança desajustada que, no final da idade escolar, ainda se encontra inadaptada, dirige-se espontaneamente para a gang. Esse grupo patológico é muito vasto e deve chamar a atenção do psicólogo ou do educador. O grupo patológico é um imenso ancoradouro onde vêm aportar os tipos mais diversos de inadaptados aos grupos normais. Acolhe o débil mental definitivamente desadaptado, o esquizofrênico em vias de desadaptação, o adolescente que o escotismo e os movimentos juvenis foram incapazes de integrar. Pode acolher até mesmo o infantil prolongado, de que falamos atrás, durante sua crise tardia de revolta. Mas todos esses elementos diversos acham-se reunidos por um vínculo comum: a inadaptação desde a idade escolar, na maioria dos casos, e a inadaptação somente ao grupo ou somente ao trabalho escolar. Uns se dirigem para a gang, ao final da idade escolar, outros, mais tarde, depois de ingentes esforços de adaptação ao grupo social que marcou sua adolescência. Mas, em suma, tudo se passa como se, tanto nas crianças como nos adolescentes, a necessidade de ser aceito pelos outros seja tão imperiosa que, na impossibilidade de aceitação por um grupo normal, a evolução para um grupo patológico se torna inevitável (MINICUCCI, 1991, p. 221).

A primeira etapa do estudo do vocabulário consiste em anotar as palavras desconhecidas, que podem

ser:

gang; patológico; ancoradouro; aportar; esquizofrênico; escotismo; [30] vínculo; ingente.

Em seguida, localiza-se num dicionário o significado que se ajusta ao texto onde elas aparecem:

gang (grupo de malfeitores combinados), patológico (relativo ao ramo da medicina que se ocupa da natureza e das modificações produzidas pela doença num organismo), ancoradouro (lugar apropriado para

se ocupa da natureza e das modificações produzidas pela doença num organismo), ancoradouro (lugar apropriado para

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estacionamento de embarcações; evidentemente a palavra foi usada no texto em sentido conotativo, figurado), aportar (estacionar num porto, chegar a um porto, chegar a algum lugar; também utilizada em sentido figurado), esquizofrênico (relativo à demência), escotismo (organização mundial de educação juvenil baseada em valores éticos e vida em grupo), vínculo (ligação), ingente (enorme). Feito o registro do significado das palavras, passa-se ao exercício da construção de frases. Por exemplo, com o adjetivo ingente é possível escrever: "Os políticos brasileiros estão sempre afirmando os ingentes esforços seus na luta pela melhor distribuição da riqueza nacional". O segundo exercício é substituir as palavras desconhecidas do texto pelas de sentido equivalente encontradas no dicionário. Nesse caso, é preciso reescrever todo o texto, fazendo as substituições. O terceiro exercício seria resumir o texto, utilizando as próprias palavras e não as do texto. Outro exercício para a ampliação do vocabulário é a paráfrase. Nesse caso, reescreve-se o texto com outras palavras, procurando manter as idéias originais. Também é possível o comentário crítico, ou avaliativo. Quando o texto permitir, pode-se inverter seu sentido, substituindo determinadas palavras por outras de sentido contrário. [30 ]

Resenha, resumo, paráfrase.

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica. 8ª ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 132-152.

Capítulo 7 - Resumo

1 - Conceito de texto Texto é um tecido verbal estruturado de tal forma que as idéias formam um todo coeso, uno, coerente. A imagem de tecido contribui para esclarecer que não se trata de feixe de fios (frases soltas), mas de fios entrelaçados (frases que se inter-relacionam). Para Orlandi (1987, p. 159), texto é uma "unidade complexa de significação". E continua:

O texto pode ter qualquer extensão: pode ser desde uma simples palavra até um conjunto de frases. O que o define não é sua extensão mas o fato de que ele é uma unidade de significação em relação à situação.

E mais adiante, à página 180: "Texto é o lugar, o centro comum que se faz no processo de interação entre falante e ouvinte, autor e leitor." Todas as partes de um texto devem estar interligadas e manifestar um direcionamento único. Assim, um fragmento que trata de diversos assuntos não pode ser considerado texto. Da mesma forma, se lhe falta coerência, se as idéias são contraditórias, também não constituirá um texto. Se os elementos da frase que possibilitam a transição de uma idéia para outra não estabelecerem coesão entre as partes expostas, o

da frase que possibilitam a transição de uma idéia para outra não estabelecerem coesão entre as

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fragmento não se configura um texto. Essas três qua|lidades[133] - unidade, coerência e coesão - são essenciais para a existência de um texto. Vejamos um exemplo:

O carnaval carioca é uma beleza, mas mascara, com seu luxo, a miséria social, o caos político, o desequilíbrio que se estabelece entre o morro e a Sapucaí. Embora todos possam reconhecer os méritos de artistas plásticos que ali trabalham, o povo samba na avenida como um herói de uma grande jornada. E acrescente-se: há manifestação em prol de processos judiciais contra costumes que ofendem a moral e agridem a religiosidade popular. O carnaval carioca, porque se afasta de sua tradição, está tornando-se desgracioso, disforme, feio.

Trata-se de um fragmento que não se constitui em um texto. Falta-lhe coerência entre a afirmativa inicial e a final. A oração subordinada que se inicia com embora não apresenta coesão em relação à oração principal; não é possível entender o que esse "texto" quer dizer. Como ele apresenta várias informações, várias direções (moral, política, social, religiosa, estética), acaba por não constituir um todo. Não há completude, inteireza, unidade. Esse conjunto de idéias entrelaçadas para formar um enunciado, capaz de transmitir uma informação, ou mensagem, que é o texto, nem sempre aparece revestido de palavras: ele pode também ser constituído por um desenho, uma charge, uma figura. Neste ponto, pode-se lembrar da publicidade, que se vale da utilização de imagens para veicular idéias. Um texto é mais ou menos eficaz dependendo da competência de quem o produz, ou da interação de autor/leitor, ou emissor/receptor. O texto exige determinadas habilidades do produtor, como conhecimento do código, das normas gramaticais que regem a combinação dos signos. A competência na utilização dos signos possibilita melhor desempenho na elaboração de um texto. Deve-se levar em conta também a situação em que o texto foi produzido, ou seja, seu contexto.

2 Contexto Define-se contexto como informações que acompanham o texto, cuja compreensão depende dessas

informações. Assim, não basta a leitura do texto, é preciso retomar os elementos do contexto, em que ele foi produzido. O contexto deve ser visto em suas duas dimensões: estrutura de superfície e estrutura de profundidade. A estrutura de superfície considera os elementos do enunciado, enquanto a estrutura de profundidade considera a semântica das relações sintáticas. Num caso, o leitor busca o primeiro sentido produzido pelas orações; no outro, vasculha a visão de mundo que informa o texto. [134]

A produção e a recepção de um texto estão condicionadas à situação; daí a importância de o leitor

conhecer as circunstâncias e o ambiente que motivaram a seleção e a organização dos signos.

O

contexto pode ser imediato ou situacional.

O

contexto imediato relaciona-se com os elementos que seguem ou precedem o texto imediatamente.

São os chamados referentes textuais. O título de um poema pode despertar determinadas descodificações.

São os chamados referentes textuais. O título de um poema pode despertar determinadas descodificações. 75

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Por exemplo: "Meu sonho", de Álvares de Azevedo, já prenuncia uma visão de mundo centralizada no eu.

Esta subjetividade e individualidade, características românticas por excelência, junto com o tema sonho, também de matiz romântico, endereçam o leitor para uma atmosfera estética romântica.

O contexto situacional é formado por elementos exteriores ao texto. Esse contexto acrescenta

informações, quer históricas, quer geográficas, quer sociológicas, quer literárias, para maior eficácia da leitura que se imprime ao texto. Agora se exige uma postura ativa do leitor. O texto é então enriquecido, às vezes reinventado, recriado. O conhecimento, por exemplo, do choque provocado pelas revoluções políticas e sociais do século XIX permite, muitas vezes, uma leitura mais adequada de textos ditos pessimistas. O próprio escapismo romântico pode ser lido como um desencanto com relação às reformas propagadas, mas

não concretizadas.

3 Intertexto Além do contexto, a leitura deve considerar que um texto pode ser produto de relações com outros

textos. Essa referência e retomada constante de textos anteriores recebe o nome de intertextualidade.

Os procedimentos intertextuais mais comuns são: paráfrase, paródia e estilização.

A paráfrase pode ser ideológica ou estrutural. No primeiro caso, o desvio é mínimo: varia a sintaxe, mas as idéias são as mesmas. Há apenas uma recriação das idéias. Pode-se entender a paráfrase ideológica como simples tradução de vocábulos, ou substituição de palavras por outras de significado equivalente. Nesse caso, a paráfrase registra o menor desvio possível em relação ao texto original. No segundo caso, há uma recriação do texto e do contexto. O comentário crítico, avaliativo, apreciativo, o resumo, a resenha, a recensão são formas parafrásticas estruturais de um texto. Didaticamente, para efeito de exercício de prática de redação, pode-se falar em graus de paráfrase: