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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

ÂNGELA THAÍS MATTEI CARILA GALDINO DANIEL PLANELE GIL ELIANI PAULA ARAÚJO GISELE CASTRO MICHELE JOCOWSKI REINALDO MIGUEL D. MASSOQUETTI

NEUROCISTICERCOSE

CURITIBA

2010

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ÂNGELA THAÍS MATTEI CARILA GALDINO DANIEL PLANELLES GIL ELIANI PAULA ARAÚJO GISELE CASTRO MICHELE JOCOWSKI REINALDO MIGUEL D. MASSOQUETTI

NEUROCISTICERCOSE

FARMACOLOGIA

Trabalho
 acadêmico
 apresentado
 a
 professora
 Dra:
 Lia
 orientadora
 da
 disciplina
 Seminário
 Integrado
 III
 ‐ 
 Farmacologia
 do
 curso
 superior
 de
 Graduação
 em
 Enfermagem
 da
 Universidade
 Federal
 do
 Paraná
 como
 exigência
 para
 obtenção
 de
 nota
 para
 aprovação
nessa
disciplina. 


CURITIBA

2010

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RESUMO

A cisticercose é causada pela ingestão acidental dos ovos da Taenia solium:

platelminto que tem, como hospedeiros intermediários, os suínos. Indivíduos com teníase, por possuírem em seu organismo a forma adulta da tênia, liberam ovos destes animais, juntamente com suas fezes, podendo contaminar a água ou mesmo alimentos ou mãos. Assim, ao se ingerir os ovos da T. solium, este parasita se encaminha do trato digestório à corrente sanguínea, e se aloja em órgãos como cérebro, olhos, coluna ou músculos. A gravidade da doença depende muito da região infestada. Um cisticerco localizado no cérebro (neurocisticercose), por exemplo, pode causar dores de cabeça, convulsões, confusão mental e até morte sendo, obviamente, o caso clínico mais grave. Alojada na coluna e região muscular, causa dor e dificuldades de locomoção e na região ocular, distúrbios visuais e até cegueira. Como conseqüência desses sintomas os medicamentos básicos para o tratamento da neurocisticercose são os anti-helmínticos praziquantel e albendazol, e medicamentos corticóides.

Palavras-chave: Neurocisticercose. Taenia solium.

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SUMÁRIO

 

1

INTRODUÇÃO

6

2

COMPLEXO TENÍASE-CISTICERCOSE

7

2.1 TAXONOMIA

 

7

2.2 MORFOLOGIA

7

2.3 CICLO BIOLÓGICO

7

2.4 PROFILAXIA

8

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DIAGNÓSTICO PARA NEUROCISTICERCOSE

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3.1 COMO OCORRE A CISTICERCOSE NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL

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3.2 FORMAS DE NEUROCISTICERCOSE EM ACHADOS DE IMAGENS

10

3.3 ESTUDO DO LÍQUIDO CEFALORRAQUIDIANO

10

3.4 PROCEDIMENTOS

 

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ANTI-HELMÍNTICOS

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4.1 ALBENDAZOL

 

14

4.2 PRAZIQUENTEL

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5

CORTICOSTERÓIDES

19

5.1 FARMACOCINÉTICA

 

19

5.2 CLASSIFICAÇÃO

20

5.3 EFEITOS

20

5.4 MECANISMO DE AÇÃO DOS GLICOCORTICÓIDES

21

5.5 REAÇÕES ADVERSAS

 

21

6

ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDAIS

22

 

6.1

AÇÕES FARMACOLÓGICAS

22

 

6.1.1 Efeito antipirético

 

22

6.1.2 Efeito analgésico

22

6.1.3 Efeito antiinflamatório

23

6.2 SÍNETSE DE PROSTAGLANDINA E LEUCOTRIENOS

23

6.3 MECANISMO DE AÇÃO

 

24

6.4 FARMACOCINÉTICA

24

6.5 EFEITOS COLATERAIS GERAIS

25

6.6 ASPIRINA

25

6.6.1 Mecanismo de ação

25

6.6.2 Farmacocinética

25

6.6.3 Os efeitos colaterais mais frequentes da aspirina

26

 

6.7

PARACETAMOL

26

 

6.7.1 Farmacocinética

 

27

6.7.2 Mecanismo de ação

27

6.7.3 Efeitos colaterais

27

6.7.4 Toxicidade

28

7

HIDROCEFALIA

29

7.1 DIURÉTICOS

 

30

7.2 TIPOS DE DIURÉTICOS

31

7.2.1 Diuréticos que atuam diretamente sobre as células do néfron

31

7.2.2 Diuréticos que atuam indiretamente ao modificar o conteúdo do filtrado

32

7.2.3 Diuréticos que atuam sobre o túbulo proximal

33

5

8.1 HISTÓRIA DA EPILEPSIA

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8.2 SINTOMAS

35

8.3 FÁRMACOS

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9 CONCLUSÃO

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REFERÊNCIAS

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1 INTRODUÇÃO

A parasitologia é uma ciência que estuda os parasitos que vivem no interior

ou exterior de um hospedeiro, espoliando nutrientes sendo que esta associação é sempre nociva ao hospedeiro. (CIMERMAN)

Dentre as endoparasitoses será abordado a helmintíase ocasionado pela Taenia solium que é responsável por patogenias como a teníase e a cisticercose. Didaticamente, a teníase e a cisticercose são entidades mórbidas distintas, causada pela mesma espécie, fases de vida diferentes.

A teníase é uma endoparasitose provocada pela presença da forma adulta da

Taenia solium ou Taenia saginata, já a cisticercose é a alteração provocada pela presença da lava nos tecidos de hospedeiros intermediários. (SILVA)

Relevamos neste trabalho a importância do tratamento da cisticercose localizada no SNC: a neurocisticercose humana.

A neurocisticercose é resultante da infestação do sistema nervoso central

pela forma larvária da T. solium, denominado Cystucercus cellulosae, popularmente conhecida como “canjiquinha”. (OLIVEIRA; BEDAQUE, 1999)

O tratamento, após o diagnóstico confirmado de neurocisticercose, baseia-se

na utilização dos anti-helmínticos: Albendazol e praziquantel. estes fármacos são de

amplo espectro, que são eficazes na cisticercose, na qual antigamente não havia tratamento eficaz. (HANG; DALE, 2004) Outros medicamentos auxiliares ao tratamento são os analgésicos esteroidais (AIES), anticonvulsivos, diuréticos, antiinflamatórios não-esteroidais (AINES) os quais são necessários para atenuar os processos sintomatológicos como a inflamação ocasionada pela morte do parasita no sistema nervoso central, desordens psicomotores (convulsões), hipertensão intracraniana (hidrocefalia) e a cefaléia típica, respectivamente. Além do tratamento farmacológico em alguns casos é indispensável a intervenção cirúrgica para a remoção do cisticerco ou drenagem do líquido intersticial.

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2 COMPLEXO TENÍASE-CISTICERCOSE

2.1 TAXONOMIA

Filo Platyhelminthes (trata-se de animais de simetria bilateral, triblásticos, acelomados, com sistema nervoso centralizado, sistema digestivo incompleto e dispondo de sistema excretor e gônadas permanentes). Classe Cestoda (apresenta formato de fita, corpo segmentado dividido em escólex - para fixação - e estróbilo - corpo que é dividido em proglotes. Hermafroditas, obrigatoriamente parasitos de animais, as formas adultas localizam-se no trato digestivo, necessitam pelo menos de um hospedeiro intermediário para completar o ciclo biológico. Sistema digestivo ausente, alimenta-se por perfusão). Família Taeniiade. Gênero Taenia. Espécie T. solium (SCHLEMPER JUNIOR e TREVISOL-BITTENCOURT, 2005).

2.2 MORFOLOGIA

A Classe Cestoda é caracterizada por vermes achatados, em forma de fita e de corpo segmentado. Seu corpo é dividido em cabeça ou escólex, colo ou corpo de frutificação e corpo ou estróbilo com diversas proglotes hermafroditas imaturas ou grávidas. Chega a até 9 m de comprimento. Seu escólex é piriforme com dupla coroa de acúleos e quatro ventosas. O ovo mede de 30 a 40 micras de diâmetro, com formato esférico ou ovóide e observa-se uma membrana espessa e estriada transversalmente (embrióforo). No interior do ovo há a oncosfera, que é o embrião com três pares de acúleos. A larva que eclode dentro do hospedeiro após ingestão do ovo é o cisticerco, Cisticerccus cellulosae, com formato ovóide de até 10 mm, são vesículas translúcidas contendo o escólex invaginado (SCHLEMPER JUNIOR e TREVISOL-BITTENCOURT, 2005).

2.3 CICLO BIOLÓGICO

No ciclo biológico, a tenia perde as proglotes maduras que são eliminadas pelas fezes, porém ocorre que algumas proglotes se rompem, por causa da quantidade de ovos, e são eliminados ovos intactos nas fezes. Com esses ovos liberados no ambiente, há o contato com o hospedeiro intermediário, que ingere-os.

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Os embrióforos alcançam o estômago e seus blocos de quitina sofrem ação da pepsina. Em seguida, os sais biliares intestinais e enzimas proteolíticas ativam e liberam a oncosfera de dentro do embrióforo. Então, a oncosfera penetra na vilosidade utilizando os acúleos e permanece no local por até quatro dias para se adaptar ao novo ambiente. Nessa fase o sistema imune compete com o embrião, podendo expulsá-lo do organismo, ou ceder vez a infecção. A oncosfera conquista o sistema circulatório e se instala em diversos tecidos do hospedeiro intermediário. O sistema imunológico, então, demora a agir, mas é persistente. Em qualquer tecido mole é possível o desenvolvimento para cisticerco, mas há preferência pela grande oxigenação e movimentação presentes em língua, masseter, coração e, em exceção, cérebro. Prossegue-se em eliminação dos acúleos e crescimento. Entre quatro e cinco meses é possível atingir doze milímetros em dimensão. Nesse momento ocorre a infecção no homem. Ao mal-preparar a carne o cisticerco permanece viável, sofre reação com o suco gástrico, forma o escólex e fixa-se no intestino delgado, ao longo do tempo, produzindo proglotes e, então, ovos, que novamente se disseminaram pelo ambiente através das fezes, no caso da T. solium. Há outras formas de transmissão que fogem ao ciclo biológico da teníase e geram a cisticercose humana e, no foco desse trabalho, a neurocisticercose. A auto- infecção externa, que ocorre ao levar os ovos à boca pelas mãos ou por cropofagia, a interna, que ocorre quando o peristaltismo muda de direção, assim os ovos alcançam estômago internamente, e a hetero-infecção, deglutição de ovos presentes no ambiente, promove a cisticercose, pois o ser humano atua, portanto, como hospedeiro intermediário (NEVES, 1998).

2.4 PROFILAXIA

Todas as medidas profiláticas que se aplicam a teníase servem também para a cisticercose, já que possuem um agente etiológico comum. Podemos citar:

Saneamento básico: A construção de redes de água e esgoto minimiza o contato de pessoas e animais com fezes infectadas com ovos. Desta forma evita a cisticercose bovina, suína e humana.

Inspeção Sanitária da carne: Exigências legais e um sistema de fiscalização da qualidade da carne nos matadouros evita que carnes contaminadas com cisticercos sejam comercializadas. Acredita-se que o consumo de carne não-

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inspecionada proveniente de abates clandestinos e domésticos sejam as principais causas da teníase na América Latina. Na área rural, onde a fiscalização é mais escassa, isto se torna um problema maior. Entretanto, o cisticerco de T. saginata morre se mantido a menos de -15ºC por pelo menos seis dias, e o de T. solium após 10 a 15 dias a 10ºC.

Cuidados na suinocultura e bovinocultura: Minimizar o contato de suínos e bovinos com fezes humanas onde não há rede de esgoto é uma medida eficaz.

Tratamento dos doentes: O tratamento dos doentes elimina a fonte dos ovos. Pode-se facilmente diagnosticar um paciente com teníase pela presença de proglotes nas fezes ou pela presença de ovos num exame de fezes. É muito importante saber se a infecção é por T. saginata ou T. solium, devido ao risco da cisticercose por auto-infecção por esta última.

Educação Sanitária: Consiste na orientação da população quanto aos hábitos alimentares e defecatórios corretos. Lavar as mãos antes das refeições e após as evacuações é essencial. Evitar comer carne crua e mal passada também se mostra uma medida eficaz. Pessoas comuns ou profissionais da área de alimentação que costumam provar a carne antes de cozinhá-la estão mais expostos.

Lavar frutas, legumes e verduras antes de consumi-los: A lavagem correta destes alimentos elimina ovos de T. solium eventualmente presente neles e pode evitar a cisticercose (GALEMBECK, 2009).


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3 DIAGNÓSTICO PARA NEUROCISTICERCOSE

O diagnóstico da neurocisticercose baseia-se na história epidemiológica do

paciente, associada ao quadro neurológico de crises convulsivas, cefaléia, síndrome de hipertensão intracraniana e/ou alterações psiquiátricas. Quando o paciente

apresenta esses sintomas deve procurar um médico para a realização de uma tomografia computadorizada (TC) do crânio, eventualmente uma ressonância magnética e testes sorológicos no líquido céfalorraquidiano (líquor), para um possível tratamento clínico etiológico e/ou sintomático.

3.1 COMO OCORRE A CISTICERCOSE NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL

O cisticerco migra para o sistema nervoso central e atinge pequenos vasos

sanguíneos, entre a substância cinzenta e a branca, onde se desenvolve em cisto de 3 a 15 milímetros de diâmetro. Os cistos podem se alojar no parênquima, na parede do sistema ventricular, nas meninges, e no espaço subaracnóideo.

3.2 FORMAS DA NEUROCISTICERCOSE EM ACHADOS DE IMAGENS

Forma vesicular: é o cisto viável, onde pode ser observado o escólex. Não há impregnação periférica, nem edema perilesional;

Forma vesicular coloidal: há início de retração da vesícula e aumento da densidade, mas ainda não há impregnação. Começo do edema perilesional;

Forma vesicular granular: há calcificação da periferia da vesícula e do escoléx, que fica inicialmente hipodenso ou isointenso por hidratar-se, e depois calcifica- se.

Forma calcificada: estágio final.

3.3 ESTUDO DO LÍQUIDO CEFALORRAQUIDIANO

Faz detecção de antígenos, anticorpos e de complexos antígenos-anticorpos, e demonstra resultados mais fidedignos, embora existam resultados falso-positivos. As negatividades dos exames não afastam o possível diagnóstico. As técnicas


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imunológicas mais usadas são: hemaglutinação indireta, fixação de complemento, imunofluorescência indireta, Elisa e Imunoblot .

Hemaglutinação indireta: teste provocado por antígeno dirigido contra um antígeno artificialmente ligado à superfície de eritrócitos. É de grande valor diagnóstico, mas pode haver reação cruzada com esquistossomose, hidatidose, colagenose e cirrose hepática. No entanto, títulos superiores a 1:256 são altamente sugestivos de neurocisticercose e nessas concentrações não ocorre reação cruzada com parasitoses ou doenças degenerativas.

Fixação de complemento: é feito em duas etapas: Na primeira etapa, o anticorpo (pode ser o soro do paciente), o antígeno e o Complemento (obtido de soro fresco) são misturados e incubados. Se o anticorpo é específico para o antígeno, o complexo antígeno-anticorpo é formado e o complemento é fixado. Na segunda etapa do teste, um complexo formado por hemácia- anticorpo anti-hemácia, o qual também funciona como um complexo antígeno-anticorpo (sistema revelador) é adicionado à mistura. Se o complemento foi fixado na primeira etapa do teste, este não mais estará disponível para atuar no complexo hemácia-anticorpo, e assim as hemácias permanecerão intactas e não serão lisadas. Conseqüentemente, a ausência de hemólise indica que o antígeno e anticorpo da primeira etapa eram específicos um para o outro. Se, por outro lado, o anticorpo não for específico para o antígeno, não haverá formação de imunocomplexos, o complemento não será fixado e permanecerá livre a ativo. Quando o sistema revelador for adicionado, o complemento ativo irá se fixar no complexo hemácia-anticorpo, ativando a cascata e culminando na lise das hemácias. É uma boa técnica para avaliação de LCR, porém errática no soro, sendo o método de detecção de IgM mais sensível e específico que de IgG. A sensibilidade é muito maior em casos de LCR inflamatório. A sua especificidade é boa, mas pode haver reação cruzada com neurossífilis, TB meníngea e, além disso, situações como neoplasias, abscessos do SNC e meningites crônicas podem cursar com FC inespecífica, fraca ou variável. O diagnóstico de NC deve ser firmado apenas se a reação for fortemente positiva.

Imunofluorescência indireta: Este teste consiste na reação de soros ou plasmas humanos infectados, previamente fixados em lâminas de


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microscopia para fluorescência. O soro humano pesquisado é considerado reagente quando, ao entrar em contato com o antígeno, produzir uma reação fluorescente. Essa reação se dá devido à presença de Ac no soro, que pode ser visualizada após a adição de anti-imunoglobulina humana (anti-Ig) conjugada com isotiocianato de fluoresceína, que se liga à reação Ag-Ac produzindo uma reação fluorescente. A reação negativa tem ausência de fluorescência. São utilizados controles positivo e negativo para todas as reações e a leitura da reação é realizada com microscópio de imunofluorescência. É uma técnica com sensibilidade de cerca de 88,1% e especificidade de 87,1%, com títulos numa variação de 1:1 a 1:16. As reações inespecíficas falso-positivas podem ocorrer com outras doenças, como acidente vascular hemorrágico ou síndrome de imunodeficiência adquirida, porém, nesses casos, o LCR terá características peculiares e não indicará Neurocisticercose.

Elisa: Detecta a presença de anticorpo em um soro com o auxílio de uma reação enzimática. Adsorve-se o antígeno na placa de poliestireno. O soro- teste é adicionado na placa, permitindo que os anticorpos específicos liguem- se aos antígenos. Após um período de incubação, a placa é lavada para retirar os anticorpos não ligados. Para detectar os anticorpos ligados a antígenos é utilizado um conjugado (anticorpo anti-imunoglobulina ligado quimicamente a uma enzima). Após um período de incubação, a placa é lavada para retirar os conjugados não ligados. É adicionado um substrato cromogênico para detectar a presença da ligação antígeno-anticorpo. A intensidade da cor desenvolvida pelo substrato é proporcional a quantidade de anticorpos (específicos para o antígeno) presente no soro. A intensidade pode ser analisada por um espectrofotômetro, permitindo uma análise quantitativa. Esse teste é o de melhor sensibilidade e especificidade. Em relação à detecção de antígenos, podem ser utilizadas técnicas com anticorpos IgM e IgG, sendo o IgM mais sensível e específico. Os falso- positivos podem ocorrer por reação cruzada com Equinococus, porém a sensibilidade depende inicialmente do tipo de antígeno usado e do paciente testado, enquanto os falso-negativos são mais freqüentes em Neurocisticercose parenquimatosa.


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Imunoblot: O método permite identificar um antígeno em uma mistura complexa de proteínas. A primeira etapa envolve uma eletroforese do extrato protéico, separando as proteínas (antígenos) por massa molecular e/ou carga elétrica. A segunda etapa é a transferência das proteínas para uma membrana imobilizante. Esta etapa é realizada pela justaposição da membrana com o gel e passagem de corrente elétrica, quando as proteínas são transferidas do gel para a membrana. Na terceira etapa, visualiza-se uma "banda" que permite determinar a presença de anticorpos específicos para um antígeno do extrato protéico.

3.4 PROCEDIMENTOS:

que permite determinar a presença de anticorpos específicos para um antígeno do extrato protéico. 3.4 PROCEDIMENTOS:


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4 ANTI-HELMÍNTICOS

Há duas décadas, a terapêutica medicamentosa da neurocisticercose era restrita ao tratamento sintomático, com adoção de medidas apenas de cunho paliativo. Atualmente, praziquantel e o albendazol têm sido considerados eficazes no tratamento dessa patologia. O uso desses medicamentos é indicado nos indivíduos sintomáticos, apresentando cistos viáveis, múltiplos, após o diagnóstico. O propósito da terapêutica parasiticida é a tentativa de redução da duração dos fenômenos neuroimunológicos envolvidos na neurocisticercose (TAKAYANAGUI; LEITE, 2001).

4.1 ALBENDAZOL

Em 1965 com a descoberta de que o tiabendazol possuía atividade contra os nematódeos gastrointestinais, iniciou-se o desenvolvimento dos benzimedazois como anti-helmínticos. Dentre os diversos derivados encontrados destaca-se o albendazol. O albendazol foi sintetizado somente em 1975, sendo introduzido a princípio na terapêutica de helmintíases de animais em 1976, e só em 1981 foi introduzido na terapêutica humana (TAVARES, 2001).

O albendazol é o mais novo medicamento usado no tratamento das

helmintíases humanas, ele apresenta atividade contra cestódeos adultos, por isso utilizado no tratamento da teníase, assim como também se apresenta ativo contra os cisticercos, o que justifica seu uso no tratamento da cisticercose e da neurocisticercose (TAVARES, 2001). Esse fármaco afeta as células do parasita por agir nos microtúbulos. Os microtúbulos são cilindros ocos, delgados e longos formado pela associação de dímeros protéicos constituídos pelas tubulinas alfa e beta. Esses túbulos ocos são estruturas dinâmicas que estão em constante reorganização, crescendo em uma de suas extremidades, graças à polimerização local, enquanto que na outra

extremidade encurtam-se devido ao predomínio da despolarização. O albendazol é capaz de se ligar as tubulinas beta com altíssima afinidade e impedir a associação dessas tubulinas na extremidade do microtúbulo que está se polimerizando, afetando assim a formação dos microtúbulos (JUNQUEIRA;CARNEIRO,2005).

Os microtúbulos estão envolvidos em vários processos celulares e esse anti-

helmíntico vai afetar todos os processos dependentes dos microtúbulos nas células


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do parasita. Dentre as funções dos microtúbulos, destaca-se seu envolvimento na manutenção da forma celular, uma vez que fazem parte do citoesqueleto, e sua participação na divisão celular no transporte intracelular de organelas e vesículas (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2005). Durante a divisão celular, o material genético além de duplicado deve ser dividido corretamente entre as células-filha, e os microtúbulos irão formar as fibras do fuso mitótico, estrutura responsável pela divisão do material genético recém duplicado. Isso é facilmente perceptível na mitose (JUNQUEIRA;CARNEIRO,2005). A primeira etapa da mitose após a interfase é a prófase. Nessa etapa do ciclo celular os cromossomos iniciam a condensação e os centríolos já duplicados começam a ser envoltos por microtúbulos curtos, formando o áster, que a seguir migra para os pólos da célula, formando o fuso da divisão. Com a fragmentação da carioteca, os cromossomos se ligam as fibras do fuso por meio do cinetócoro. Na próxima etapa do ciclo, na metáfase, todo o material genético está ligado as fibras do fuso formando assim a placa metafásica, que é resultado do alinhamento dos cromossomos na região equatorial da célula. Já na anáfase, observa-se a separação das cromátides-irmãs e a migração do material genético para os pólos da célula, resultado da contração dos microtúbulos. Todo esse processo possibilita que o material genético, após a telófase, fique igualmente dividido entre as duas células- filha (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2005). Além da participação dos microtúbulos na divisão celular, eles também servem de apoio para proteínas motoras pertencentes à família das dineinas e das cinesinas. Essas proteínas motoras são constituídas por dois tipos de componentes, um componente adaptador que se prende, de um lado, a vesículas e organelas a serem transportadas, e por outro, aos segundos componentes que são os componentes motores. Estes por sua vez são capazes de deslizar sobre os microtúbulos levando todo o complexo consigo. Dessa forma, os microtúbulos estão envolvidos no transporte intracelular, e o impedimento de sua polimerização vai afetar tanto o transporte de proteínas que devem ser secretadas pela célula, quanto o transporte de glicose, fonte de energia do parasita (JUNQUEIRA; CARNEIRO,

2005).

Apesar de o albendazol se ligar com altíssima afinidade as tubulinas beta, não há nenhum comprometimento aos microtúbulos das células do hospedeiro, desde que utilizada a dose terapêutica, uma vez que para comprometer as células do


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parasita são necessárias concentrações muito menores que as necessárias para afetar a ligação das proteínas mamíferas (LESLIE; WEBSTER, 1991). O albendazol é parcialmente absorvido por via oral, sendo rapidamente metabolizado pelo fígado em fulfoxido de albendazol, por isso não é detectado o albendazol na circulação e sim seu metabólito, com exceção dos cirróticos. A formação de sulfoxido de albendazol é catalisada principalmente pela flavina monooxigenase microssomial, e pelo citocromo P450 em menores proporções. O sulfóxido de albendazol tem potente atividade anti-helmíntica e alcança a concentração sanguínea de 0,24mcg/ml cerca de 2,5 horas após a ingestão de uma dose de 400 mg. Esse derivado exibe cerca de 70% de ligação as proteínas plasmáticas, apresentando uma vida média de cerca de 8 horas, sofrendo posterior hidrólise e oxidação a sulfona, que e farmacologicamente inativo, eliminando-se por via urinária ambos os metabolitos (LESLIE; WEBSTER, 1991). Na neurocisticercose recomenda-se uma dose diária de 15mg/kg por 28 dias, no entanto, a duração da terapia vai depender da apresentação clínica, assim como do número de cisticercos. Além disso, recomenda-se o uso de corticosteróides antes do início da terapia com o anti-helmíntico para reduzir processos inflamatórios resultantes da morte do parasita (LESLIE; WEBSTER, 1991). Com uso do albendazol destacam-se como efeitos colaterais a cefaléia, febre, hipertensão intracraniana, diarréia, tonteira, náuseas. Esse medicamento não deve ser administrado em pacientes com cirrose, nem em gestantes, uma vez que o albendazol é embriotóxico e teratogênico (LESLIE; WEBSTER, 1991).

4.2 PRAZIQUANTEL

Em 1975, a pesquisa conjunta dos laboratórios Bayer e Merck, na Alemanha para a obtenção de novos fármacos eficazes no tratamento da esquistossomose resultou na descoberta de um novo agrupamento químico, o pirazino izoquiloina heterociclicas, eficiente no tratamento dessa parasitose. Durante as pesquisas com o novo agrupamento químico obtiveram-se vários derivados. O que mais se mostrou eficiente foi o EMBAY-8440, conhecido atualmente como praziquantel, verificando a seguir que esse novo medicamento apresentava-se eficaz no tratamento de várias parasitoses. Dentre as parasitoses que o praziquantel mostra-se eficaz destaca-se a teníase, a cisticercose, bem como a neurocisticercose (TAVARES, 2001).


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O praziquantel é uma droga de ação parasiticida capaz de comprometer homeostáse do cálcio no parasita, unindo-se aos locais de ligação reconhecidos da proteina quinase c em uma subunidade B dos canais de cálcio voltagem- dependentes, induzindo o aumento do influxo de cálcio. Além disso, esse medicamento afeta as enzimas que controlam o tráfego do sódio e potássio desencadeando o aumento intracelular de sódio e inibindo a entrada de potássio, no entanto os maiores efeitos deletérios a célula do parasita são resultados do aumento intracelular de cálcio (TAVARES, 2001). Segundo Junqueira e Carneiro (2005), a concentração do cálcio no citosol é bem menor do que a concentração desse íon no espaço extracelular, isso porque a célula possui mecanismos de controle sobre a concentração do cálcio, por exemplo, o retículo endoplasmático liso atua como um reservatório de cálcio nas células musculares. Esse controle sobre a concentração intracelular de cálcio é crucial, pois o cálcio regula a maioria dos processos metabólicos que ocorrem nas células. Dentre esses processos metabólicos destaca-se a contração muscular. Além disso, o aumento de cálcio citosólico ativa inúmeras enzimas com efeitos deletérios sobre as células, destaque para fosfolipases, proteases(que causam dano a membrana), endonucleases (que causam degradação no DNA) e as trifosfatases capazes de degradar ATP (KUMAR; FAUSTO; ABBAS, 2005). Nas menores concentrações eficazes o praziquantel é capaz de aumentar o nível de cálcio intracelular, desencadeando o aumento da atividade da musculatura lisa do parasita, seguida de contração e paralisia espática. A paralisia do verme é muito eficiente no tratamento da cisticercose, porque os vermes afetados desprendem-se do tecido do hospedeiro e, dependendo do local onde estiverem, podem ser expulsos do corpo do hospedeiro, o que ocorre caso o parasita esteja no intestino (LESLIE; WEBSTER,

1993).

O praziquantel também causa dano ao tegumento do parasita, ou seja, o uso do medicamento leva a formação de vesículas na cutícula, as quais se rompem levando a desintegração do parasita e a liberação de substâncias capazes de ativar o sistema imune adaptativo, desencadeando assim um processo inflamatório e levando a morte do verme (TAVARES, 2001). Após a administração oral, é absorvido rapidamente assim como é metabolizado pelo fígado, de forma que seus níveis plasmáticos máximos ocorrem após 1 a 2 horas após a administração,além disso, ele exibe cerca de 80% de


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ligação as proteínas plasmáticas, e uma meia-vida plasmática de 0,8 a 2 horas e a de seus metabólitos de 4 a 6 horas. O praziquantel, no entanto, apresenta apenas 1% de substância ativa que é capaz de alcançar a circulação sistêmica. Os metabólitos não têm ação anti-helmíntica e são eliminados pelos rins juntamente com a substância não-metabolizada (TAVARES, 2001). Não existem relatos de reações tóxicas graves atribuíveis ao praziquantel. As reações adversas são de pouca intensidade e transitórias, ocorrendo várias horas após a administração. As mais comuns são dor abdominal, náusea, diarréia, vômitos, tonteira, sonolência, cefaléia e sudorese aumentada (TAVARES, 2001).

5 CORTICOSTERÓIDES


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São medicamentos que mimetizam os efeitos do cortisol endógeno (efeitos no metabolismo de carboidratos, promovendo gliconeogênese, deposição de glicogênio no fígado e aumento nos níveis de glicose, no crescimento celular, na imunidade e na inflamação e transmissão da dor) e da aldosterona (equilíbrio eletrolítico, retenção de sódio e água, excreção de potássio). Que são hormônios produzidos pelas glândulas supra-renais e apresentam estrutura semelhante ao cortisol, derivado do colesterol.

estrutura semelhante ao cortisol, derivado do colesterol. COLESTEROL 
 CORTISOL 
 DEXAMETASONA 
 BETAMETASONA

COLESTEROL 


ao cortisol, derivado do colesterol. COLESTEROL 
 CORTISOL 
 DEXAMETASONA 
 BETAMETASONA 
 TRIANCINOLONA

CORTISOL 


derivado do colesterol. COLESTEROL 
 CORTISOL 
 DEXAMETASONA 
 BETAMETASONA 
 TRIANCINOLONA 
 Os

DEXAMETASONA 


do colesterol. COLESTEROL 
 CORTISOL 
 DEXAMETASONA 
 BETAMETASONA 
 TRIANCINOLONA 
 Os corticosteróides

BETAMETASONA 


TRIANCINOLONA 


Os corticosteróides apresentam propriedades terapêuticas que aumentam o efeito antiinflamatório e diminuem os efeitos mineralocorticóides.

5.1 FARMACOCINÉTICA

Via de administração: oral, parenteral, intramuscular e tópica;

Meia vida plasmática curta devido ao fato de serem compostos lipofílicos;

Início do efeito: aproximadamente duas horas;

Podem apresentar duração de ação curta (menor ou igual a 12 horas), intermediária (18 a 36 horas) ou longa (36 a 54 horas);

São metabolizados no fígado;

Excretados através da urina.

5.2 CLASSIFICAÇÃO


 20 


Classe I (ação rápida): Hidrocortisona Classe II (ação intermediária): Prednisona, Prednisolona, Metilprednisolona (utilizado em casos de neurocisticercose), Triancinolona (utilizado em casos de neurocisticercose), Flurandenolida. Classe III (ação prolongada): Betametasona, Dexametasona (utilizados em casos de neurocisticercose), Clobetasol, Halcinonida, Fluocinolona. Os corticosteróides de ação prolongada tendem a apresentar maior potência de ação, com menores doses e menores efeitos mineralocorticóides, quando comparados aos corticosteróides de ação rápida e intermediária. Devido a sua atividade imunossupressora, os corticosteróides devem ser usados nas menores doses eficazes pelo menor tempo possível, sendo que quando for necessário uso prolongado, o paciente deverá ser submetido ao desmame da terapia com glicocorticóides.

5.3 EFEITOS

Ações no metabolismo de carboidratos e proteínas:

Diminuição da síntese protéica e aumento da degradação de proteínas;

No fígado há síntese de glicose a partir de aminoácidos que seriam utilizados na síntese de proteínas que está diminuída;

Maior armazenamento de glicogênio em resposta ao aumento da glicemia. Ações imunossupressoras:

Inibição das manifestações iniciais como: dor, calor, rubor e edema;

Inibição das manifestações tardias como: cicatrização, reparo e reações proliferativas;

São eficazes na doença autoimune e reações de hipersensibilidade;

Supressão da rejeição ao enxerto. Ações antiinflamatórias:

Vasodilatação, permeabilidade vascular resposta imune;

Diminuição da atividade de neutrófilos, linfócitos e macrófagos;

Diminuição na produção de citocinas ( IL-1, TNF α , GM-CSF);

Adesão de leucócitos;

Diminuição de eucosanóides;

Inibição da produção de IgE;

Inibição da proliferação de fibroblastos.


 21 


5.4 MECANISMO DE AÇÃO DOS GLICOCORTICÓIDES

Os glicocorticóides interagem com receptores intracelulares (no citoplasma), estes receptores quando ativados sofrem alterações conformacionais que expõe domínio de ligação ao DNA. O complexo glicocorticóide-receptor forma dímeros e interagem com o DNA modificando a transcrição gênica. Essas modificações alteram a produção de proteínas, estimulando a produção de certas proteínas (anexina-1, MAPk fosfatase-1) que provocam inibição da PLA2, inibição da produção de prostanóides, inibição da produção de citocinas pró-inflamatórias e de moléculas de adesão; ou inibindo a produção de proteínas, ocasionando inibição da produção de citocinas pró-inflamatórias, inibição de enzimas pró-inflamatórias e de moléculas de adesão; ou seja, diminuição da resposta inflamatória.

5.5 REAÇÕES ADVERSAS

Retenção de líquido (devido aos efeitos mineralocorticóides);

Supressão da resposta à infecção ou lesão;

Aumento da suscetibilidade às infecções;

Fraqueza muscular e inibição do crescimento em crianças;

Osteoporose;

Úlcera péptica;

Hipertensão, glaucoma, hipocalemia;

Diabetes;

Supressão da síntese de corticosteróides endógenos;

Síndrome de Cushing.


 22 


6 ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO-ESTEROIDAIS

São fármacos utilizados principalmente para o controle da dor. Usados também para tratar dores de estruturas não tegumentares, como cefaléia e mialgia, disminorréia e alguns tipo dores pós-operatórias. Largamente usados para combater

a febre e a dor aguda ou crônica, podendo promover o alívio da dor associada à

inflamação. Possuem os seguintes efeitos:

Efeito antiinflamatório: modificação da reação inflamatória;

Efeito analgésico: redução de certos tipos de dor;

Efeito antipirético: redução da temperatura corporal patologicamente elevada.

6.1 AÇÕES FARMACOLÓGICAS

6.1.1 Efeito antipirético

A temperatura corporal normal é regulada por um centro no hipotálamo controlador do equilíbrio entre a perda e a produção de calor. Ocorre febre quando há o desequilíbrio deste “termostato” hipotalâmico, o que leva à elevação do ponto de ajuste da temperatura corporal. Os AINEs “reajustam” o termostato, através da inibição da produção de prostaglandinas no hipotálamo. Durante a reação inflamatória, endotoxinas bacterianas promovem a liberação de um pirogênio – a IL- 1 – por parte dos macrófagos, o que estimula no hipotálamo a geração de prostaglandinas E que elevam o ponto de ajuste da temperatura.

6.1.2 Efeito analgésico

São eficazes contra dor leve ou moderada, especialmente aquela originada da infecção ou dor tecidual. Perifericamente, diminuem a produção de prostaglandinas que sensibilizam os nociceptores a mediadores inflamatórios, como

a bradicinina. As lesões inflamatórias aumentam a liberação de prostaglandinas na medula, causando facilitação da transmissão das fibras de dor aferentes para neurônios de retransmissão no corno posterior da medula.

6.1.3 Efeito antiinflamatório


 23 


Reduzem principalmente os elementos da resposta inflamatória e imunológica em que as prostaglandinas desempenham um papel significativo: vsodilatação, edema e dor. Suprimem a dor, o edema e o aumento do fluxo sanguíneo associado à inflamação. Não possuem efeitos sobre outros aspectos da inflamação, tais como a migração de leucócitos, a liberação de enzimas lisossômicas que contribuem para a lesão tecidual.

6.2 SÍNTESE DE PROSTAGLANDINAS E LEUCOTRINEOS

Ao ocorrer uma lesão na membrana celular, que é constituída principalmente por fosfolipídeos, a enzima fosfolipase A2 é ativada por citocinas pró-inflamatórias, como a IL-1, que leva à degradação dos fosfolipídeos, resultando na produção de ácido araquidônico. Este, ao ser metabolizado, forma os leucotrienos, pela ação da enzima lipooxigenase, e as prostaglandinas e os tromboxanos, pela ação da enzima ciclooxigenase (COX) (HILÁRIO; 2006).

pela ação da enzima ciclooxigenase (COX) (HILÁRIO; 2006). A enzima COX possui duas isoformas: • COX-1:

A enzima COX possui duas isoformas:

COX-1: constitutiva, está presente na maioria das células e tecidos normais, principalmente no estômago. Resulta em diversos efeitos fisiológicos, como


 24 


proteção gástrica, agregação plaquetária, homeostase vascular e manutenção do fluxo sanguíneo renal.

COX-2: induzida em condições de inflamação por mediadores pró- inflamatórios. Tem papel na mediação central da dor e da febre, ou seja, responsável pelos efeitos patológicos.

As prostaglandinas e os trombaxanos produzidos pela COX possuem os seguinte efeitos:

PGI2: vasodilatação e diminuição da agregação plaquetária;

PGE2: vasodilação e hiperalgesia;

PGD2: vasodilatação e diminuição da agregação plaquetária;

PGF2 (alfa): broncoconstrição e contração do miométrio;

TXA2: trombogênese e vasoconstrição.

Nas plaquetas predomina TXA2, enquanto no endotélio vascular a PGI2 é o

principal produto.

6.3 MECANISMO DE AÇÃO

A ação dos AINES consiste na inibição das enzimas COXs, com conseqüente

diminuição de prostaglandinas, combatendo, assim, a inflamação, a dor e a febre. Existem antiinflamatórios que inibem de forma mais seletiva ou específica a COX-1 ou a COX- 2. Apenas a COX-1 inibe a formação de tromboxano. A inibição de COX- 1 está associada ao aumento do risco de sangramento e a danos no trato gastrointestinal. Os inibidores seletivos de COX-2 foram desenvolvidos na tentativa de diminuir a incidência de efeitos da inibição da COX-1.

6.4 FARMACOCINÉTICA

Maior parte da absorção ocorre no estômago e porção superior do intestino delgado;

Rápida absorção;

absorção é menor quando administrados à noite;

maior parte da dose se liga a proteínas plasmáticas;

ação farmacológica é da droga livre ( não ligada);

A

A

A

O

metabolismo é predominantemente hepático e mais rápido na criança;


 25 


A excreção é renal;

A eliminação é mais rápida em crianças do que

em adultos, exigindo doses

mais freqüentes.

6.5 EFEITOS COLATERAIS GERAIS

Efeitos GI: náuseas, dispepsia, queimação e desconforto abdominais;

Efeitos Renais: retenção de líquido transitório e edema;

Efeitos cardiovasculares: risco de sangramento pós-operatório, infarto do

miocárdio;

Hepatotoxicidade: alterações ventilatórias, acidose metabólica, náuseas, vômitos, hipertermia e letargia.

6.6 ASPIRINA

O

AINEs mais prescrito e utilizado. Possui ligação irreversível com a COX-1 e

COX- 2.

6.6.1 Mecanismo de ação

A aspirina interfere na síntese da prostaglandinas (o hormônio responsável

pela dor e inflamação) por inibir a enzima ciclooxigenase. Os efeitos antipiréticos

resultam da inibição da síntese da prostaglandina no hipotálamo. A aspirina também aumenta a vasodilatação e o suor. A inibição da ciclooxigenase também resulta numa diminuição da agregação de plaquetas no sangue, prolongando o sangramento.

6.6.2 Farmacocinética

É rapidamente absorvida no trato gastrointestinal. O fármaco é parcialmente

hidrolizado para o salicilato na primeira passagem pelo fígado e amplamente distribuído pela maioria dos tecidos. Efeitos tóxicos relevantes somente ocorrem se a dosagem for maior que 400mg/ml de sangue. A aspirina é metabolizada para


 26 


salicilato (99%), e o tempo de meia-vida na eliminação é de 15 minutos. Salicilato e seus metabólitos são excretados primariamente pelos rins.

A meia-vida plasmática da aspirina dependerá da dose, mas a duração de

ação não está diretamente relacionada à meia-vida plasmática, em razão da natureza irreversível da reação de acetilação pela qual o fármaco inibe a atividade

da COX.

6.6.3 Os efeitos colaterais mais freqüentes da aspirina

Irritação do estômago e intestino, provocando azia, dor epigástrica, náuseas, vômitos, sangramentos internos, úlceras e perfurações graves. O uso de bebidas alcoólicas intensifica esses efeitos, incluindo ainda lesões no fígado.

Tinitus (zumbido nos ouvidos) e diminuição da audição, principalmente com doses maiores. Esses efeitos tendem a diminuir com a redução das doses do medicamento.

Alergias - cutâneas e respiratórias. Pode provocar asma em 0,2% das pessoas. Em alguns pacientes provoca sangramento pulmonar.

Síndrome de Reye - provocada em crianças e que, embora rara, pode ser fatal. Particularmente na varicela a aspirina pode provocar a síndrome de Reye.

6.7 PARACETAMOL

O paracetamol é um medicamento que tem propriedade de baixar a febre e

aliviar a dor. Sua ação ocorre dentro dos primeiros 30 minutos e se prolonga por 4 a

6 horas.

É indicado no tratamento sintomático de situações clínicas que requerem um

analgésico ou antipirético, tais como síndromes gripais, outras hipertemias infecciosas, cefaléias, enxaquecas, ou seja, no alívio da dor ligeira a moderada e

alívio da febre.

6.7.1 Farmacocinética


 27 


A atividade do paracetamol é analgésica pela elevação do limiar da dor e antipirética através de ação no centro hipotalâmico que regula a temperatura. Aeu efeito tem início de 15 a 30 minutos após a administração oral e permanece por um período de 4 a 6 horas.

6.7.2 Mecanismo de ação

Analgésico: o mecanismo de ação analgésica não está totalmente determinado. O paracetamol pode atuar predominantemente inibindo a síntese de prostaglandinas ao nível do Sistema Nervoso Central e em menor grau bloqueando a geração do impulso doloroso ao nível periférico. A ação periférica pode ser decorrente também da inibição da síntese de prostaglandinas ou da inibição da síntese ou da ação de outras substâncias que sensibilizam os nociceptores perante estímulos mecânicos ou químicos. Antipirético: O paracetamol provavelmente produz a antipirese atuando ao nível central sobre o centro hipotalâmico regulador da temperatura para produzir uma vasodilatação periférica que dá lugar a um aumento do fluxo de sangue na pele, de sudorese e da perda de calor. A ação ao nível central provavelmente está relacionada com a inibição da síntese de prostaglandinas no hipotálamo.

6.7.3 Efeitos colaterais

O paracetamol pode provocar reações adversas nos diferentes sistemas orgânicos, porém a mais temida reação é a hepatotoxicidade. Embora de incidência extremamente rara, há relatos de êxito letal devido a fenômenos hepatotóxicos provocados pelo paracetamol. Pode ocorrer reação de hipersensibilidade, sendo descritos casos de erupções cutâneas, urticária, eritema pigmentar fixo, broncoespasmo, angioedema e choque anafilático. Em pacientes com comprometimento metabólico, ou mais susceptíveis, pode ocorrer acidúria piroglutâmica.

6.7.4 Toxicicidade


 28 


O paracetamol é um medicamento considerado seguro, se não forem ultrapassados as doses terapêuticas de cerca 4g/dia. quando usado em doses de cerca 10 a 15 g pode exercer toxicidade, quando ingerido em dose única de cerca 20-25g é geralmente fatal. Na intoxicação em grávidas, o paracetamol perpassa a barreira placentária. Como as células do feto são capazes de metabolizar há risco de overdose no feto. no entanto quando ingerido em doses terapêuticas não apresenta risco. Os dois órgãos-alvo da toxicidade do paracetamol são o fígado e rim.

7 HIDROCEFALIA


 29 


Hidrocefalia caracteriza uma doença congênita (desde o nascimento) ou adquirida (como na neurocisticercose), na qual ocorre um acúmulo anormal de líquido (Líquido Céfalo-Raquidiano) em áreas específicas do cérebro chamadas de ventrículos. O líquido céfalo-raquidiano produzido nos ventrículos e nos plexos corióides, circula através de um sistema de canais e é absorvido na corrente sangüínea. O líquor tem grande importância na proteção do SNC, visto que ele auxilia no amortecimento de impacto e por ser completamente estéril não permite também a entrada de qualquer substância ou microorganismo que possa lesar o cérebro. Na hidrocefalia ocorre um desequilíbrio deste líquor em relação a quantidade produzida e a reabsorvida, como consequência acontece aumento do ventrículo e uma pressão intracraniana (JUCÁ, et al.). O cisticerco migra para o sistema nervoso central (SNC) e atinge pequenos vasos sangüíneos entre a substância cinzenta e a branca, onde se desenvolve um cisto de 3-15 mm de diâmetro. Os cistos podem se alojar em diversos locais no SNC: no parênquima, na parede do sistema ventricular ou nas meninges e no espaço subaracnóideo (FILHO, et al.). Dois mecanismos principais são responsáveis pela ação patogênica do parasita no SNC: o efeito mecânico proporcional ao volume e a localização da vesícula e o efeito tóxico neste local, perifocal e à distância. A NC é uma doença pleomórfica, em que o SNC é afetado pela presença do parasito propriamente dito, pela reação inflamatória, pela fibrose residual, pelo granuloma e pela calcificação. O SNC reage com a formação de um tecido inflamatório, o que causa fenômenos degenerativos nos neurônios como desmielinização da substância branca, proliferação glial (células da glia) e infiltração de células (FILHO, et al.). Dentre as formas ativas da neurocisticercose, destacam-se a aracnoidite, a hidrocefalia secundária à inflamação meníngea, os cistos parenquimatosos e subaracnóides, a encefalite, a ventriculite e o infarto cerebral secundário à vasculite, enquanto as formas inativas incluem os granulomas parenquimatosos calcificados e a hidrocefalia resultante de fibrose meníngea (FILHO, et al.). Os mecanismos responsáveis pelas manifestações clínicas dependerão de fatores como a localização e o número de parasitas, a condição do hospedeiro, a resposta inflamatória induzida, a circulação liquórica e a sequela de outras


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infecções. Tais mecanismos determinarão o quadro clínico de um paciente com NC, sendo que esse pode variar e se apresenta das seguintes formas:

Assintomático: representa o menor número de indivíduos, pois é demonstrado que manifestações neurológicas ocorrem aproximadamente entre 60% e 92% das infestações ( FILHO, et al.). NC Parenquimatosa: é a forma sintomática mais freqüente, e os sintomas podem se apresentar como epilepsia, manifestações psíquicas, déficits focais e encefalite. A epilepsia é a síndrome mais freqüente da NC, e esse é o principal causador de seu início na idade adulta nas regiões em desenvolvimento, sendo responsável por 50% dos casos (FILHO, et al.). Os déficits focais, resultantes da compressão cerebral, da destruição ou da irritação pelos cistos, podem ser os mais variados possíveis e se apresentam por sinais piramidais, ataxia cerebelar, movimentos involuntários, déficits sensoriais, entre outros ( FILHO, et al.). NC Subaracnóide: a apresentação mais comum é a síndrome de hipertensão intracraniana (SHIC) na presença de hidrocefalia obstrutiva. Pacientes com C. racemosus presentes nas meninges tendem a desenvolver meningite crônica (FILHO, et al.). NC intraventricular: também se acompanha de SHIC por hidrocefalia obstrutiva resultante da obstrução do LCR por ventriculite ou por grandes cistos ventriculares, particularmente no IV ventrículo, o que produz efeitos de válvula (FILHO, et al.).

7.1 DIURÉTICOS

Diuréticos são medicamentos que auxiliam na liberação do excesso de sódio (sal) e de líquido. Os diuréticos incentivam os rins a expelirem mais sódio pela urina. Em troca, o sódio carrega a água do sangue. Isso reduz a quantidade de líquido nos vasos sangüíneos. Os diuréticos são utilizados para tratar a pressão alta e o acúmulo de líquido no corpo que ocorre em algumas doenças, como insuficiência cardíaca congestiva, doença hepática e doença renal e hidrocefalia (FERGUSON,

2010).

Os diuréticos trabalham através da estimulação dos rins. Estes têm como função produzir urina, filtrando o sangue e eliminando os restos provenientes do


 31 


processo metabólico. Os rins também permitem ao corpo reabsorver substâncias bioquímicas vitais como sais minerais, aminoácidos e água. A unidade de secreção nos rins é denominada de néfron. Cada rim tem um milhão de néfrons e estes consistem basicamente de uma cápsula renal e um tubo renal. No tubo renal água, eletrólitos tais como sódio e potássio, glicose e aminoácidos são absorvidos pelo sangue (PERES, 2006).

7.2 TIPOS DE DIURÉTICOS:

7.2.1 Diuréticos que atuam diretamente sobre as células do néfron

De alça: são os mais poderosos de todos os diuréticos e possuem a habilidade de provocar excreção de 15 a 25% do sódio presente no filtrado. São também conhecidos como diuréticos de alto limiar. Os principais exemplos de diuréticos de alça são a furosemida, bumetanida, piretanida e torasemida. Esses fármacos atuam primariamente sobre o segmento espesso da alça ascendente néfrica, inibindo o transporte de NaCl para fora do túbulo e para o interior do tecido intersticial ao inibir o carreador de Na+/K+/2Cl- na membrana luminal Podem exercer ação vasodilatadora, direta ou indiretamente, através da liberação de um fator renal. Por aumentar a perda de H+ e K+, os diuréticos de alça podem causar alcalose metabólica. Ocorre também aumento na excreção de Ca++ e Mg++, com excreção diminuída de ácido úrico. Os diuréticos de alça são rapidamente absorvidos pelo trato gastrintestinal e também podem ser administrados via intravenosa. Quando administrados por via oral atuam dentro de 1 hora; quando administrados por via intravenosa produzem efeito máximo em 30 minutos. A meia-vida plasmática é de cerca de 90 minutos (mais prolongada na insuficiência renal) e a duração é de 3-6 horas, exceto no caso da torasemida, que apresenta meia-vida mais longa e duração mais prolongada, podendo ser administrada uma vez ao dia (RANG, DALE,

2003).

Diuréticos que atuam sobre o Túbulo Distal: incluem os tiazídicos e fármacos semelhantes. O principal diurético tiazídico é a bendroflumetiazida. Outros tiazídicos importantes são a hidroclorotiazida e ciclopentiazida. Suas ações diuréticas são moderadamente poderosas. Diminuem a reabsorção ativa de Na+


 32 


e

de Cl-, não exercendo qualquer ação sobre a alça ascendente espessa de

Henle. A perda de potássio associada a esses fármacos é significativa e pode ser grave.

Pode ocorrer alcalose hipoclorêmica. Os diuréticos tiazídicos exercem efeito paradoxal no diabetes insípido, em que reduzem o volume de urina.

Exercem algumas ações extra-renais, produzem vasodilatação e podem causar hiperglicemia (que pode exacerbar o diabete melito), aumento do colesterol plasmático (uso prolongado), impotência masculina (reversível com a interrupção do fármaco). Induzem a depleção de K+, aumentam os níveis plasmáticos de ácido úrico (com possibilidade de gota) e induzem a alcalose metabólica. (RANG, DALE, 2003). Diuréticos que atuam nos Túbulos e Ductos Coletores (Poupadores de K+):

Possuem efeito diurético limitado e atuam nos túbulos e ductos coletores inibindo

a

reabsorção de Na+ e diminuindo a excreção de K+. Os principais exemplos são

o Triantereno e a Amilorida, que são também levemente uricosúricos. A principal importância desses diuréticos reside na sua capacidade de poupar o K+. Podem ser administrados com diuréticos perdedores de K+, como os diuréticos

tiazídicos, a fim de manter o equilíbrio do potássio (RANG, DALE, 2003).

7.2.2 Diuréticos que atuam indiretamente ao modificar o conteúdo do Filtrado

Diuréticos Osmóticos: os diuréticos osmóticos são substâncias farmacologicamente inertes (por exemplo, manitol), que são filtrados no glomérulo, mas que sofrem reabsorção incompleta ou que não são reabsorvidos. No interior do néfron, o principal efeito é exercido sobre as partes que são livremente permeáveis à água: o túbulo proximal, o ramo descendente da alça de Henle e no ducto coletor. A reabsorção passiva de água encontra-se reduzida devido à presença do soluto não-reabsorvível no interior do túbulo, exercendo um efeito secundário de reduzir a reabsorção de Na+. Por conseguinte, os principais efeitos dos diuréticos osmóticos consistem em aumentar a quantidade de água excretada, com aumento relativamente menor de Na+.


 33 


Assim, estas substâncias são úteis no tratamento de condições associadas à retenção de Na+, no tratamento da elevação aguda da pressão intracraniana (edema cerebral) e da pressão intra-ocular elevada (glaucoma). Em geral, os diuréticos osmóticos são administrados por via intravenosa. Os efeitos indesejáveis incluem expansão transitória do volume de líquido extracelular e hiponatremia; podem ocorrer cefaléias, náuseas e vômitos (RANG, DALE, 2003).

7.2.3 Diuréticos que atuam sobre o Túbulo Proximal

São inibidores da anidrase carbônica e causam aumento da excreção de bicarbonato, acompanhado de Na+, K+ e água. Não são usados atualmente como diuréticos, mas podem ser administrados no tratamento do glaucoma com objetivo de reduzir a formação de humor aquoso, bem como em alguns tipos de epilepsia. O principal exemplo é a acetazolamida (RANG, DALE, 2003).

8 ANTICONVULSIVOS

8.1 HISTÓRIA DA EPILEPSIA


 34 


As mais remotas descrições da epilepsia são dos egípcios e dos sumérios e datam de 3500 a.C. Por volta de 1.700 a.C., o principal documento que trata de neurologia no Egito Antigo, o Papiro de Smith, cita possíveis crises convulsivas nos trechos que descrevem ferimentos na cabeça. Na Suméria (Mesopotâmia), nessa mesma época, vários textos, em acadiano, registram muito bem as crises epilépticas. Todas as idéias relacionadas à medicina vinculavam-se a fenômenos sobrenaturais, magia e maldições. No século VI, a medicina grega avançou significativamente na compreensão das doenças, entre elas a epilepsia, quando por volta de 400 a.C., Hipócrates, o pai da medicina, afirmou que a causa da epilepsia não estava em espíritos malignos, e sim no cérebro, tentando se desfazer dos mitos sobrenaturais. Os escritos da época foram os primeiros a atribuir causas físicas para as doenças e alterações neurológicas, e identificaram o cérebro como o local chave para o entendimento do comportamento humano. Remédios, dieta e hábitos saudáveis - e não sacrifícios aos deuses, rezas ou magias – é que poderiam tratar os epilépticos. Para fazer o diagnóstico, baseavam-se na observação cuidadosa dos sinais e sintomas do doente. Há descrições, por exemplo, de auras visuais (que em grego significa brisa), auditivas e vegetativas. No final do século XIX e no início do século XX, o estudo das auras se mostrou importante para a localização da região do cérebro geradora de crises. Diversos pesquisadores estudaram a epilepsia, destacando-se Areteus da Capadócia, Galeno de Pérgamo (a maior autoridade médica juntamente com Hipócrates durante o domínio do Império Romano no século II d.C.) e Celso Aureliano. Na Renascença e com a Revolução Científica, a anatomia fundamental para o conhecimento do corpo humano passou a ser realmente estudada, com dissecções e observações meticulosas das estruturas. René Descartes abriu as portas para a pesquisa neurofisiológica experimental e fez vários estudos fisiológicos e anatômicos com animais, investigando exaustivamente o sistema nervoso. Ele afirmava que a epilepsia originava-se no cérebro. Na Idade Média, a epilepsia foi relacionada com doença mental e contagiosa - tabus que persistem até hoje, devido à falta de divulgação de informações corretas. Naquela


 35 


época, freqüentemente tentava-se curar o mal por meios religiosos, porém o neurologista John Hughlings Jackson afirmou, no século XVIII, que a disfunção era causada por uma descarga anormal das células nervosas.

8.2 SINTOMAS

A epilepsia é caracterizada por apresentar convulsões periódicas e

imprevisíveis a qual já foram identificadas mais de 40 formas distintas. As convulsões são alterações comportamentais devido a uma disritmia em determinado

grupo de neurônios cerebrais.

As convulsões podem ser classificadas em convulsões parciais e convulsões

generalizadas. As convulsões parciais são caracterizadas pelo foco na região do córtex cerebral e os tipos são: parcial simples, parcial complexa e parcial progredindo a convulsões generalizadas tipo tônico-clônicas. A do tipo simples possui manifestações relativamente simples, sem a perda da consciência, mas com alterações sensoriais, motoras e autonômica. Já na parcial complexa ocorre a perda da consciência e a presença de alucinações. E a última já caracteriza as

manifestações do tipo generalizadas, quando a crise se espalha para outras regiões do sistema nervoso central.

As convulsões generalizadas envolvem os dois hemisférios do cérebro e os

tipos são: de ausências, mioclônicas e tônico-clônicas. A do tipo ausências, também chamado de pequeno mal, é caracterizada pela perda repentina de consciência, com

olhar fixo e parada de atividade durante aproximadamente 30 segundos. Já as convulsões mioclônicas são identificadas por pequenas contrações rítmicas da musculatura, geralmente de uma extremidade corporal. A do tipo tônico-clônicas, chamada de grande mal, é caracterizada por contrações vigorosas da musculatura e

a perda imediata da consciência. A convulsão ocorre devido ao aumento da excitação do sistema nervoso central causando a liberação de glutamato, sódio e cálcio, porém com a diminuição das vias inibitórias gabaérgicas do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA) e dos íons potássio e cloreto, causa uma despolarização e disparo de potencial de ação de alta frequência.

Os antiepilépticos podem atuar de duas formas: via GABA e por inibição das

funções dos canais de sódio e cálcio. O mecanismo via GABA aumenta a atividade


 36 


inibitória dos neurotransmissores ácido gama-aminobutírico que irá regular a excitabilidade ocasionada pela liberação do glutamato, sódio e cálcio. Geralmente no tratamento das convulsões são utilizados no tratamento a interação de fármacos benzodiazepínicos ou barbitúricos, uma vez que esses medicamentos irão aumentar e melhorar a transmissão dos neurotransmissores nos receptores. O outro tipo de mecanismo de ação dos antiepilépticos é por meio da inibição das funções dos canais de sódio e cálcio. O fármaco inibe o potencial de ação de alta frequência por meio da redução da função dos canais de sódio, consequentemente diminuindo o número de canais disponíveis para gerar potencial de ação. Esse mecanismo vai controlar a excitação da membrana e a permeabilidade iônica.

8.3 FÁRMACOS

O Hidantal e o Topamax são exemplos de medicamentos anticonvulsivos utilizados por pacientes com neurocisticercose. O Hidantal, da família dos hidantoinatos, tem o agente fenitoína. Este fármaco bloqueia o espalhamento da descarga por canais de sódio evitando praticamente todos os tipos de convulsões, com exceção do tipo ausência. É de caráter ácido e de baixa solubilidade. Tem a meia-vida de 1 a 3 horas e é metabolizado no fígado. Pode ser administrado via oral ou intramuscular. Os efeitos adversos do hidantal são principalmente a reação gástrica, distúrbios psiquiátricos e sanguíneos. O Topamax, da família do topiramato, possui o agente sulfamato monossacarídeo. O seu mecanismo de ação é semelhante ao da fenitoína, mas que atua além da inibição dos canais iônicos, com ação no aumento da atividade pós- sináptica dos receptores GABA. O Topamax tem rápida absorção e somente 5% da dose oral é metabolizado e quase totalmente excretado pela urina. O Topiramato é bem tolerado e possui menos efeitos colaterais que a fenitoína, porém apresenta sonolência, confusão, fadiga e perda de peso. É utilizado em convulsões parciais e generalizadas.


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 9 CONCLUSÃO Pode-se concluir a importância de conhecer as características do parasito ou agente
9 CONCLUSÃO
Pode-se concluir a importância de conhecer as características do parasito ou
agente infeccioso e os mecanismos de ação e interação dos diversos medicamentos
envolvidos na terapêutica da neurocisticercose e, consequentemente, na terapêutica
geral. Inicialmente o tratamento é, no Brasil, automedicamentoso, por causa do mau
hábito da população ou ineficiência de atendimento do sistema único de saúde,
através de antiinflamatórios não-esteroidais ou medicamentos sem grupo específico,
como paracetamol e dipirona. De modo geral e irrestrito, quando o caso alcança o
acompanhamento médico e é diagnosticada a neurocisticercose o tratamento é
embasado no uso de albendazol, com boa condução na barreira hematoencefálica,
ou de praziquantel associados obrigatoriamente a corcosteróide, para controle do
edema, ativação de nociceptores, da resposta inflamatória local, evitando sintomas
agudos. Casos como convulsões devem ser minuciosamente estudados, porque as
convulsões não são necessariamente causadas pela infecção, mas por vezes são
apenas coincidentes, sendo que se a causa for a infecção, a intervenção cirúrgica
pode solucionar esse sintoma, ou o tratamento com anti-epilépticos é realizado. A
hidrocefalia sofre intervenção farmacológica ou técnica. É possível realizar a
manutenção da hidrocefalia com drenagens, até a retirada cirúrgica. Muitas vezes é
preferível a terapêutica medicamentosa à intervenção cirúrgica, por se tratar de uma
infecção que pode finalizar-se em prognóstico assintomático e pelos cisticercos
localizarem-se em áreas cerebrais de risco, determinando custo-benefício baixo.


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