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UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS

FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS


CIÊNCIAS SOCIAIS

Letícia Cacho A. de Carvalho

O SER HUMANO REAL

Projeto final apresentado ao curso de Ciências Sociais, da


Universidade Federal da Grande Dourados, como requisito
parcial para aprovação na disciplina Antropologia Clássica,
sob coordenação da Professora Rodrigo Aguiar.

Dourados-MS

2022
A premissa básica da Antropologia nasce como forma de explicar a origem do homem
primevo, isso ocorre com o encontro do Ethos com o Genos, ou seja, quando o “eu”
depara-se com o outro, e ao vê-lo o entende como exotico. Na Europa, essa ideia começa a
difundir-se depois das primeiras viagens marítimas, e as teorias de Lewis Henry Morgan. Este
texto perquire a ideia do humano como um conceito adaptável que muitas vezes através da
ideia idílica de humanidade, que se instaurou um sistema de exploração e estratificação dos
corpos quase humanos, como a escravidão e o genocidio indigena.
Entendia-se que as sociedades primitivas eram os museus vivos da Europa, o berço da
civilizacion, dessa forma as outras sociedades passariam por uma escala evolutiva através dos
processos de produção e organização social, que ao tornarem-se paulatinamente complexas
chegariam ao tão sonhado desenvolvimento civilizatório.
Com o passar do tempo, as ideias do evolucionismo cultural de raça e inferioridade
passam a ser superadas no campo teórico, o culturalismo norte americano, escancara as portas
do relativismo cultural, é com Franz Boas que se inicia um debate sobre a existência das
Culturas. Rompe-se o véu do ideal de uma linearidade na história da humanidade, dado que
ao acreditar-se que o ser humano é uno, desconsidera-se a dicotomia da história de cada povo.
Através da perspectiva Ameríndio, somos humanos pela sensorialidade do corpo que
nos faz pensar que somos seres humanos, assim como outras corporeidades podem gerar esse
sentimento, é como se perguntar se uma onça pode sentir-se humana, fora do debate
antropológico isso pode parecer até escárnio. Mas, Nimuendaju nos ajuda a entender que sim,
uma onça pode sentir-se humana por sentir, por entender como seu corpo ocupa o meio e
através das sensorialidades produzidas por ele, o acúmulo de símbolos, comunicação e
organização, seria o animismo que garante uma essência espiritual de todas as espécies vivas.
Dentro do imaginário coletivo, se o questionamento sobre o que se entende por
humano é levantado podemos então obter as mais variadas respostas que seguem o mesmo
prisma, ser humano é ser racional. O que de fato é uma visão antropocêntrica de que são
apenas os seres humanos que sabem organizar-se e conviver de forma racional, quando
pensamos nisso excluímos que os animais vivem de maneira complexa nos seus sistemas,
assim como usam da racionalidade, de símbolos, do afeto.
Se desconstruirmos portanto a ideia de um ser humano racional no campo dos seres
vivos, que nos resta a pensar senão que, toda a ideia de tecnologia, desenvolvimento e
progresso são nosso reino animal organizado sob as nossas perspectivas construídas dado ao
colonialismo e a globalização.
Quem é o ser humano real? Dentro da escala de progresso o ser humano real possui
uma imagem inexorável de evolução, como aquela escala de quadrúpede à bípede, que nossa
ancestralidade decorre dos macacos. Essas formas de expressar a diferença humana e a
natureza estão dentro de uma maneira de desvincular o ser humano do natural para que assim
possa da natureza ser retirado as “mercadorias”, ao começar pela terra ser a maior delas.
Somos animais dentro dos nossos ecossistemas, sob as nossas florestas de concreto se
estabelecem todos os dias novos parâmetros para ser humano, a extensão do corpo físico ao
ambiente digital é inserida de maneira abrupta e nos torna dependentes não mais do solo, mas
das redes imaginárias de humanidade.
Aqueles que dentro desse arcabouço não se encaixam, seguem tendo o fim do mundo
desde 1500, os quase humanos resistem na selva de humanidade, o genocidio indigina
justificado a priori como maneira de buscar a humanização dos corpos desalmados, a
escravidão vista como obrigação daqueles que escravizavam de acelerar seus processos de
desenvolvimento.
A própria palavra desenvolvimento indica o (des)envolver-se do ambiente, nos
colocamos sempre distantes das fontes originárias numa caminhada na areia movediça da
modernidade, no entanto, por mais que os evolucionistas acreditavam que as culturas
desapareceriam e se adequariam. Eles resistem, se adaptam, se movem como a água dos rios
que lhes são tirados com os processos industriais, vivemos não de possuirmos uma cultura,
mas de ser permeados pelos feixes de diversas culturas, que nunca morrem pois são mundos
inteiros e complexos, que jamais poderão encaixar-se em compartimentos, em unidades.

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