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DADOS DE COPYRIGHT

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"Quando o mundo estiver


unido na busca do
conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder,
então nossa sociedade
poderá enfim evoluir a um
novo nível."
PAULO GHIRALDELLI
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

REPÚBLICA BRASILEIRA:
de Deodoro a Bolsonaro
 
 
 
 
 
 
2ª Edição

CEFA Editorial
2021
Segunda edição: Mariangela
Cabelo
Preparação: Hugo L. Oliveira e
Marlin RoseJones
Revisão: Paula Ramos Ghiraldelli
Ilustração e capa: Juan Vilas
Diagramação: Rafael Sanzio
 
 
 
  CONSELHO EDITORIAL
  Hugo Lopes de Oliveira – UFRRJ e CEFA
José Ildon Gonçalves da Cruz – CEFA
É vedada a reprodução de Ladislau Dowbor – PUC- SP
qualquer parte deste livro sem Leandro Sousa Costa – UNESPAR e UNIUV
a expressa autorização da Luma S Miranda – Universidade
editora. EötvösLoránd
  Mariangela Cabelo – UFMS e CEFA
Marisa Souza Neres – UFT
  Olgária Chain Feres Matos - USP
Paulo Ghiraldelli – CEFA
Todos os direitos Rubens RussomannoRicciardi – USP
reservados à CEFA
EDITORIAL
 
 
 
 
_______________________________________________
__________________
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
 
Ghiraldelli, Paulo. 1957 –
República Brasileira: de Deodoro a Bolsonaro / Paulo Ghiraldelli. – São Paulo:
CEFA EDITORIAL, 2021.
99 p.
 
ISBN 978-65-990994-1-0
 
1. República 2. Deodoro 3. Bolsonaro I. Título
 
CDD - 100
 
Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia e disciplinas relacionadas 100
 
Impresso no Brasil - Primavera de 2021
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para Mariangela Cabelo, com amor verdadeiro
Para a Esquerda Reflexiva que solicitou essa obra
Sumário
Prefácio da segunda
edição.......................................................................................................
Prefácio da primeira
edição.......................................................................................................
Introdução...................................................................................................................
..............
1. Abolição da
escravidão.........................................................................................................
2. O fim do
Império...................................................................................................................
3. De Deodoro a Dom Pedro
II.................................................................................................
4. A República e o
positivismo.................................................................................................
5. A República dos
coronéis......................................................................................................
6. O liberalismo na
berlinda......................................................................................................
7. A galinhada
verde.................................................................................................................
8. O mito
Vargas.......................................................................................................................
9. Carlos
Prestes........................................................................................................................
10. A vocação da
UDN.............................................................................................................
11. A “Revolução de 1964”
.....................................................................................................
12. O regime
militar..................................................................................................................
13. A brisa varguista no pós-
64.................................................................................................
14. A candidatura do
corpo.......................................................................................................
15.Neoliberalismo,
FHCeLula..............................................................................................
16. Betinho e Lula: da compaixão ao
consumo........................................................................
17.
Lula.............................................................................................................................
........
18. Impeachment de
Dilma.......................................................................................................
19. Impeachment ou golpe? Ora, que tal manter os
dois?........................................................
20. General Villas Boas e a revisão da
história.........................................................................
21.
Minorias......................................................................................................................
........
22. Marielle e outras
atrocidades..............................................................................................
23. O PSOL, Boulos e a praga do
identitarismo......................................................................
24. A distopia de
Bolsonaro......................................................................................................
Apêndice I - Por que Bolsonaro se
elegeu?.............................................................................
 
Apêndice II - Carta Testamento Getúlio
Vargas.................................................................
Apêndice III - Cronologia do
Golpe..................................................................................
Apêndice IV - Tortura no regime
militar.................................................................................
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prefácio da segunda edição
 
“A filosofia é para todos, mas não é para qualquer um”
Paulo Ghiraldelli, filósofo
 
Alinhados ao pragmatismo de Richard Rorty, padrinho fundador do Centro
de Estudos em Filosofia Americana (CEFA), levamos a sério Hegel e Darwin e,
portanto, levamos a sério o tempo. Com isso consideramos que a postura do
filósofo deve se afastar do papel social exercido por sacerdotes/sábios, e se alinhar
ao papel exercido por médicos e por engenheiros. Sacerdotes não precisam levar o
tempo a sério, as contingências podem ser tomadas, por eles, como desprezíveis, e
até mesmo como ilusórias. Rorty os vê em comunhão com os filósofos que
seguem a filosofia inaugurada por Platão. Ambos, sacerdotes e filósofos
tradicionais, desconsideram o futuro desse mundo e buscam o conhecimento de
um outro mundo. Possuem uma agenda fixa. Richard Rorty, como
pragmatista,redescreve a função da filosofia, ao dizer que os filósofos devem
compartilhar com os médicos e com os engenheiros a possibilidade da mudança na
agenda; devem estar aptos a atender novos casos e oferecer novas soluções, afinal,
os problemas podem mudar a cada dia. Desse modo, o filósofo não deve estar
alheio aos problemas sociais, ele deve estar mergulhado no mundo e sentir as
dores da sociedade. Seu papel deve ser daquele que busca a construção de um
futuro diferente do passado. Por isso, é válido lembrar que esse livro vai além da
descrição factual da República brasileira, e visa oferecer ferramentas aos que
sonham e aos que lutam por uma Democracia Participativa.
A segunda edição dessa obra, bem como a sua impressão, foi um pedido da
Esquerda Reflexiva[1] ao Canal do Filósofo e ao CEFA Editorial. Para muitos, um
livro digital nunca poderá substituir a silhueta palpável do livro físico. Desse
modo, levando em consideração a opinião dos leitores, o interesse e a repercussão
da obra, é com grande satisfação que lançamos a segunda edição de A República
Brasileira - de Deodoro à Bolsonaro.
Nesse livro preparamos uma surpresa: trouxemos para cá o Canal do
Filósofo! Na tentativa de ampliar suas possibilidades de estudo, criamos um
vínculo entre o conteúdo escrito e o audiovisual. Os vídeos do professor Paulo
Ghiraldelli estão codificados em imagem: um Qrcode que, ao ser escaneado pela
câmera do celular, exibe uma URL. Então, basta clicar nesse link para abrir um
vídeo que possui relação com o assunto sublinhado no texto. Desejamos nos
conectar com você, leitor, em uma conversação contínua. Aceite nosso convite,
permita-se ser instigado e provocado a pensar continuamente. Dê interlocuções a
essas narrativas, acesse, comente, faça parte das redes do Canal do Filósofo.Mas
saiba de antemão: não o trataremos como “café-com-leite”. Em geral, você será
contrariado.  Lembro aos que ainda não conhecem a metodologia do autor, que
encontrarão nos textos e nos vídeos um conteúdo deliberadamente provocativo.
Durante a exposição de um tema, Ghiraldelli busca construir uma ou mais
narrativas com o intuito de conduzir o internauta/leitor à reflexão e ao “espanto
filosófico”.  
Mas saiba, pertencer à Esquerda Reflexiva é saber que temos o poder de
decidir qual futuro queremos. Não pense que uma comunidade de Internet ou um
canal de Youtube não pode se fazer em carne e osso; discurso é presença e cenário
de combate, e nosso discurso tornou-se um corpo mais ainda concreto nas
manifestações pelo Impeachment em 2021. Nós elegemos a Democracia
Participativa como o elemento necessário para mudar o presente da República
brasileira. Entretanto, para agir no mundo, é necessário aporte teórico, a mudança
não está dissociada do estudo. Portanto, comece a ler agora mesmo e nos ajude a
reeditar essas linhas quantas vezes forem necessárias.
 
Oferecemos essa obra aos amigos da esquerda reflexiva.
 
 
 
Mariangela Cabelo
(edição)
 
 
 
 
“Daqui a pouco a gente volta”.
 

Prefácio da primeira edição


 
Podemos dizer que a democracia é originalmente grega, e a república, por
sua vez, é romana. Democracia tem a ver com as palavras gregas demos e kratos,
respectivamente “povo” e “governo”. Trata-se do “governo do povo” ou “governo
popular”. A república tem a ver com o latim  res publica, que quer dizer “coisa
pública”, e significa governo voltado para o interesse de todos os cidadãos. Muitas
vezes, essas duas palavras aparecem de modo intercambiável.    Mas, nesse caso,
todo cuidado é pouco!
A diferença semântica aponta para uma diferença conceitual que foi se
estabelecendo na tradição dos estudos em filosofia política, dos antigos até nós.
Na ‘democracia’ o povo é o agente e o objeto. Como agente, o povo governa;
como objeto, o povo recebe a atenção especial do governo. Nesse sentido, o povo
é entendido como sendo a maioria. Em uma democracia, as formas pelas quais o
povo governa variam, mas em geral isso se faz pelo sistema representativo, através
de eleições. Diferentemente, na ‘república’, o agente governamental deve proteger
o que é público, interessando-se mais pelas instituições estatais e seu
funcionamento adequado.Nesse caso, a ideia de eleiçãopode estar presente, mas
associada à cidadania. Pode-se pensar, então, em apenas um conjunto restrito de
pessoas como tendo status de cidadãos, ou seja, apenas um grupotem a
prerrogativa de escolher oagente governamental. No Brasil, a república está
associada à democracia, uma vez que a tendência sempre foi a de ampliar a
condição de cidadão pleno para o maior número de pessoas.
O exemplo mais corriqueiro a respeito dessa diferença entre república e
democracia, no âmbito da prática política, se apresenta nos dois grandes partidos
dos Estados Unidos. O Partido Democrata tem a tendência de criar políticas que
favoreçam as chamadas classes populares ou os interesses da maioria, enquanto o
Partido Republicano se preocupa mais com questões fiscais, atento para gastos que
poderiam colocar em risco o funcionamento estatal, mantendo o foco no cuidado
com o que é o bem público. Os americanos enxergam que o trabalho do segundo é
mais conservador que o do primeiro.  
Mas o exemplo americano pode nos trazer problemas, já que nem sempre o
que é republicano é conservador. Podemos pensar, como no caso brasileiro, que
lidar bem com a coisa pública, com as instituições republicanas enquanto
instituições estatais, é o melhor modo de fazer funcionar a democracia, e de torná-
la bem azeitada no sentido de servir a população mais pobre. 
A república lida com ritos,liturgias, práticas e diretrizes legais. Instituições
republicanas podem ser identificadas como sendo a estrutura sobre a qual a
democracia se assenta e melhor funciona. A divisão de poderes em Executivo,
Judiciário e Legislativo tem a ver com a república, e cada uma dessas instituições
– inclusive sua arquitetura física – deve funcionar por si e em harmonia com as
outras. Assim diz nossa Constituição: a lei que rege as instituições republicanas
internamente e os ritos e as liturgias dos homens que estão na sua guarda
edesenvolvimento devem ser preservadas. Cuidar da “coisa pública” é cuidar para
que o Estado não se deteriore. Cuidar da democracia é tornar as instituições
populares da sociedade em agentescapazes de bom uso das instituições
republicanas, fazendo-as de catapulta para políticas sociais amplas.  Se as políticas
sociais se tornam políticas públicas, dizemos que elas se institucionalizaram,
entraram para o campo daquilo que queremos que seja estrutural, que não estejam
mais ao sabor das mudanças de governo. 
Resumindo ao máximo esses conceitos: a democracia representativa diz
respeito ao voto periódico; a democracia participativa diz respeito aos canais de
variados tipos que a população deve continuamente criar para fazer valer ideias e
desejos que nem sempre são ouvidos pelos representantes eleitos pelo voto, em
especial quando os partidos falseiam suas democracias internas. Não raro,
sabemos bem, os partidos oferecem à população um cardápio pronto de
candidatos; esse cardápio é tirado, em geral, do bolso de colete de caciques
políticos.
Nesse livro, apresento flashes da história da República brasileira, de 1889
aos nossos dias, dando ênfase aos aspectos políticos institucionais. Ao final dos
capítulos, há um apêndice mais explicativo sobre as razões dos resultados da
eleição presidencial de 2018.É um livro para todos, mas em especial para aqueles
quequerem construir uma esquerda reflexiva e crítica, capaz de atuar em favor de
uma sociedade mais justa. Além do mais, dentro desses propósitos, acreditamos
que a democracia representativa só pode bem funcionar se agregada à democracia
participativa. Essa diretriz pode ser uma boa chance de a esquerda fazer vingar seu
projeto de justiça social em associação com a liberdade do cidadão.
Os pontos aqui eleitos para constar emA república brasileira: de Deodoro
a Bolsonaro foram escolhidos a partir de consulta aos que frequentam o Canal do
Filósofo. Dentre os temas e tópicos sugeridos,foram selecionados os mais
necessários no sentido de ir além do senso comum escolar vigente.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Introdução
 
Platão nunca se deu bem com a democracia. Foi ela que condenou à morte
seu mestre, Sócrates, em um julgamento tomado por Platão como profundamente
injusto. Por que os homens, a partir de deliberações momentâneas, demonstrariam
de fato sabedoria ao decidir sobre as coisas da cidade? Teriam eles recebido
poderes especiais dos deusespara julgarem a si mesmos? A sabedoria do homem
seria apta a lhe dar garantias de como decidir sobre o certo e o errado na cidade?
Platão buscou responder a tais questões através do “mito de Protágoras”,
contado em seu livro cujo título levou o nome do sofista. Esse mito traz a história
de Prometeu e Epimeteu, dois demiurgos designados por Zeus a criarem os seres
vivos sobre a Terra. Prometeu era inteligente, “pensava adiante”. Epimeteu
“pensava atrasado”, tinha dificuldades bem visíveis. Prometeu pediu a Epimeteu
que criasse os seres vivos e lhes desse habilidades. Epimeteu criou então cada
animal com seus dotes: o touro com chifres, o urso com garras e a gazela com
pernas velozes. Nessa tarefa, gastou todas as habilidades disponíveis e, enfim,
quando criou o homem, o fez completamente frágil. Não havia o que colocar no
homem que pudesse lhe dar proteção. Prometeu ficou zangadíssimo com
Epimeteu. Como solucionar o problema de se ter criado um ser sem quaisquer
habilidades? Então, resolveu roubar dos deuses o fogo para dar aos homens. Seria
um paliativo. E assim começou a humanidade. Os homens usavam o fogo contra
os outros animais e todos se especializaram em alguma arte, tendo sempre como
ponto de partida o domínio das labaredas. Fizeram a agricultura, a indústria e
aperfeiçoaram a linguagem. Todavia, quando se juntavam em cidades para ampliar
a autoproteção, acabavam brigando uns com os outros. Voltavam a se dispersar e,
isolados, novamente corriam perigo. A humanidade ia mal, pois podia se
extinguir. Zeus resolveu agir: mandou Hermes dotar cada homem de duas
qualidades: a vergonha (pudor) e o senso de justiça. Eram virtudes tipicamente
políticas, isto é, de convivência na polis. Zeus disse que nenhum homem poderia
ficar sem seu quinhão dessas virtudes, e que se algum falhasse nisso, poderia ser
morto em seu nome.
Platão sempre desconfiou da funcionalidade desse mito. Quem poderia
garantir que o senso de justiça e de pudor, pertencente a cada homem, seria mesmo
o necessário para a vida urbana? Além disso, por que teríamos de colocar fé no
que cada homem, em sua individualidade, viesse a afirmar sobre tais dotes, mesmo
sendo dados em igual parcela pelos deuses?Se assim fosse, a humanidade jamais
teria feito julgamentos errados. E o que não falta na história são julgamentos
errados! Sócrates sofreu um julgamento errado. Platão advogou a ideia de que
seria melhor que alguns homens, bem treinados intelectualmente, pudessem
conviver com a Justiça, e não ter em si mesmos o “senso de justiça”. Esses
homens bem treinados seriam os filósofos, e um deles seria o Rei-filósofo, capaz
de sempre julgar corretamente os desajustes da cidade, exatamente por estar diante
da Justiça (em si), e não apenas como portador de um senso de justiça. O
importante era construir a cidade justa por si mesma, e que o seu rei conhecesse a
Justiça, de modo a não deixar a cidade justa descarrilhar de seu propósito.
Pode-se ver nissoo início da tradição do pensamento político ocidental,
cuja base, sem dúvida, tem como texto central a República de Platão. Desse modo,
nossa tradição não deriva só do pensamento sofista, de amores com a democracia.
Nossa tradição também deriva, e talvez principalmente, da crítica à democracia, e
esse papel coube ao filósofo, inimigo do sofista. E, no caso de Platão, alguém
desconfiado a respeito de dotes atribuídos de modo aleatório pelos deuses aos
homens, sem a participação efetiva humana. Platão fez a crítica da democracia,
levando em consideração que dotes humanos deveriam vir da razão humana
enquanto partícipe de uma razão cósmica, e do envolvimento do homem em uma
pedagogia da recordação dessa sua participação.
Desse modo,é medíocre a posição dos que dizem que, para seguirmos
nossa tradição, devemos sempre aperfeiçoar a democracia, mas jamais negá-
la.Nossos começos se deram já com a crítica da democracia, com a sua negação
completa. Podemos, então, ser democratas por opção, por gosto moderno, nessa
nossa época que une democracia e liberalismo, mas não podemos querer justificar
isso intelectualmente invocando nossa tradição filosófica. E talvez nisso sejamos
de fato democráticos, poissomos aqueles que iniciaram o pensamento da filosofia
política por meio de uma prerrogativa da própria democracia: a crítica – a crítica
da democracia.
Os sofistas lutaram pela democracia, mas os filósofos – Platão e Sócrates à
frente – começaram pela crítica à democracia. Leitores que vieram a advogar
Platão como um autoritário, talvez não tenham entendido o real propósito
necessariamente crítico da filosofia.
Nos nossos tempos atuais, referimo-nos muito à democracia grega, mas
não pensamos nela quando a elogiamos ou mesmo quando a tomamos como
paradigma do que é certo em termos de organização da cidade. Nossa mente nãose
dirige para a democracia, mas para a democracia fundida ao liberalismo moderno.
Se estivéssemos com a democracia grega na cabeça, falaríamos a respeito da
performance na discussão pública, e também sobre o direito de voto e as escolhas
de representantes por meio da sorte (os gregos, não raro, escolhiam representantes
por meio de sorteio). Mas a prova de que estamos pensando em democraciano seu
modelo liberal, é que dirigimos nossa atenção para questões como “direitos
humanos”, “liberdade de imprensa”, “liberdades individuais”, “liberdade de
expressão”, “igualdade de oportunidades através da escola”e “cuidado com
minorias e vulneráveis”. Essa atenção para com o indivíduo depende do
liberalismo, na sua mira especial voltada para a propriedade e para a iniciativa
individual ou privada. Democracia para nós modernos, na prática, é algo que
pouco tem a ver com a democracia grega.
Com o liberalismo, veio o novo modelo de democracia e, nesse caso,
reinaugurou-se uma instituição (relativamente) não grega, mas romana: a
república. Em cima de princípios republicanos, ou derivados deles, fez-se a
democracia liberal moderna. A democracia seria a atenção para com osdemos – as
diversas partes do povo –, enquanto a república daria atenção à res publica – a
coisa pública. A república, desse modo, organiza os poderes e as instituições sobre
as quais pode assentar (de modo melhor, dizem uns) a democracia. A preocupação
com o povo é obra da democracia, a preocupação com as coisas materiais e
institucionais é obra da república. Não à toa, partidos ligados mais à
democraciasão condescendentes com a ajuda aos mais pobres por meio de
dinheiro público; enquanto partidos mais ligados à república nunca se esquecem
do fisco, das finanças do estado e seus gastos.
O cuidado com a coisa pública, ou seja, a prática da república, é o cuidado
com as instituições e, por isso mesmo, com interesses de grupos restritos que se
acreditam mais herdeiros do que é público do que a população em geral. Já a
democracia não implica em cuidados, mas em direção de políticas: a população, o
povo, e as minorias em especial, devem receber atenção, de modo que a
administração da cidade não descuide dos desejos humanos. O liberalismo que
está acoplado à democracia, no âmbito moderno, não é só uma doutrina política,
mas também é uma doutrina econômica, que busca expor o capitalismo em seu
começo e, ao mesmo tempo, normatizá-lo. Trata-se aí de um freio às corporações
medievais e, de certo modo, um aviso ao Estado, paraque ambos mantenham a
regra do mercado liberto de restrições. Foi a doutrina do liberalismo que permitiu
ao capitalismo se aproximar da democracia, mesmo que de modo dúbio. A
liberdade do liberalismo apareceu assim de dois modos, ora como liberdade
política do indivíduo, diante dos poderes do estado, ora como liberdade do capital
(e de certo modo do trabalho), diante dos poderes de quem viesse a se opor ao
livre comércio. Muito da crítica ao liberalismo foi baseada nas disparidades e
contradições geradas por essa dubiedade do uso da palavra liberdade.
Os gregos falavam em liberdade em relação às cidades. O homem livre era
o habitante da cidade que não era dominada por uma potência estrangeira. Os
modernos passaram a falar em liberdade em relação ao indivíduo, e não raro, em
relação ao mercado, ao capital e, talvez,ao trabalho. Essa dubiedade dos modernos
se deu exatamente porque o capitalismo se fez presente no contexto doutrinário do
liberalismo, e a liberdade do indivíduo começou a se cruzar, em vários sentidos,
com a liberdade do indivíduo-empresário de investir em X e não em Y, e a
liberdade do indivíduo-trabalhador em vender sua força de trabalho para X e não
para Y. Boa parte da crítica de Marx ao liberalismo se fez a partir dessa dubiedade.
O filósofo alemão soube explorar o que chamou de “falsas promessas” do
liberalismo.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 1
Abolição da Escravidão
 
Em 1888, com a abolição do regime escravista, os negros caíram em
festas.Situação efêmera, claro, mas documentada. Mas logo após a euforia, muitos
foram levados para o centro do Rio de Janeiro, onde permaneceram
completamente nus, bêbados, com as famílias destroçadas, urinando e defecando
pelas ruas da capital. Era o último ano do Império e, quando veio a República, em
1889, eles já estavam morando em casebres, em lugares em que todo tipo de
doença os pegava.Tentaram se empregar, mas malvestidos, exalando cheiro de
pinga barata – única forma de suportar a vida – e descalços, eles não conseguiam
ser ouvidos por nenhuma dona de casa. Os já absorvidos pelas casas dos brancos
eram o suficiente. Ninguém queria os saídos da senzala. Afinal, como mão de
obra, os tais “imigrantes” estavam para chegar! Todos diziam.
Para substituir a mão de obra escrava, não se queria a mão de obra do
negro, então livre.O Brasil montou escritórios de imigração na Europa e seduziu
italianos pouco informados sobre a nossa Terra. Nossa propaganda fez questão de
vender a imagem do Brasil como sendo o paraíso, afinal, tratava-se da “América”.
Era vir com toda a família para cultivar a terra e viver sem perigo de guerras! Isso
soou como música aos ouvidos dos mais pobres na Itália.
Os imigrantes que chegarameram pobres,mas estavam de terno e gravata.
Não tinham o “cheiro de preto” – diziam as senhoras cariocas. Até poderiam viver
fora das senzalas, “quase como humanos” – disseram outras senhoras. Aos negros
nunca foi dada a condição de possíveis humanos. Então, o capitalismo brasileiro
se integrou na narrativa do capitalismo internacional: trabalho assalariado para
todos,menos para os negros. Eles foram decretados não como os “sem-trabalho”,
mas como “vagabundos”. Nasceu daí o preconceito. Ser negro passou a ser
alguém que só poderia trabalhar a ferros. Uma vez livre, o negro entraria para a
vida da bebida e da bandidagem. Dizia-se: “é de índole”. As negras, então,
deixaram de lado a função de amas de leite para enveredar pela prostituição
barata, uma vez que a prostituição menos degradante era aquela não regada a
sífilis, mas apenas ligada à simples gonorreia transmitida pelas polacas.
A memória oral preservou muito da história dos negros, bem mais que a
historiografia oficial. Bisavós brancas e negras nos deixaram as “histórias da
escravidão”. São contos de negros livres, sempre muito marcantes. Na verdade,
quando o negro livre parou de apanhar no pelourinho da praça, logo ganhou o
massacre nas prisões das delegacias de todo o país. De nossos antepassados não
muito distantes, isso sem contara literatura, ficaram as histórias das peregrinações
dos que procuraram carpir terrenos e, depois, dormindo na praça, foram pegos pela
polícia e postos para fora da cidade ou mesmo presos. Eram negros que, até então,
haviam carregado o cocô dos padres para as fossas. Quando a escravidão acabou,
esses mesmos padres reclamaram: “nós mesmos temos que ir às fossas, e lá
fazermos nossas necessidades, isso é degradante”. Diziam isso e em seguida
xingavam a Imperatriz. Eles mesmos tinham de defecarsem a ajuda dos pretos– e
isso era horrível para eles.
O Império sacrificou o negro através do barbarismo da escravidão. A
República o degradou, jogando-lhe nas costas adjetivos que geraram o
preconceito, mas isso, dito assim, não basta. Não conta toda a história. A
degradação moral do Brasil se fez sentir pelas ações dos mais ricos de então. Os
donos de fazendas começaram a ameaçar o estado republicano por meio do pedido
de indenização. Afinal, o estado havia feito a mercadoria afro humana sair das
mãos deles, os proprietários! Rui Barbosa, então ministro da Fazenda do
presidente Deodoro da Fonseca, tomou uma medida imediatista, que determinou
grande parte da nossa história: mandou queimar todos os documentos relativos aos
escravos. Ninguém conseguiu mais provar compra de escravo algum. Logo, se
isso fez o governo economizar dinheiro e colocar os mais ricos para um canto,
também proporcionou aos brasileiros negros o desconhecimento de sua história
africana.
Os que negam hoje a necessidade e legitimidade da política de cotas, e
insistem em não criar uma política de integração étnica capaz de afastar o
preconceito, são os agentes do cinismo. Procuram fingir que não sabem dessa
história toda, de como o preconceito foi gerado, e insistem que, no Brasil, as cotas
seriam um privilégio, uma odiosa mancha no liberalismo que, por sua vez, dá
realmente a todos a garantia de igualdade perante a lei. Ora, alguém pode
realmente dizer que o negro é realmente igual perante a lei no Brasil? Como
acreditar em liberais brasileiros?
A cantilena da igualdade perante a lei tornou-se um mantra. As
experiências no exterior, em especial nos Estados Unidos, mostram que o
preconceito só vai diminuir se o branco puder ver o negro em várias situações
sociais (em cargos executivos, de modo habitual e costumeiro, e não somente em
favelas ou cargos pouco remunerados), mais rapidamente do que temos
conseguido fazer até agora. As políticas vindas das chamadas “ações afirmativas”,
e que não devem ser confundidas com o chamado “identitarismo”[2], não são
prêmios individuais, não são políticas para dar diploma ou melhorar a renda do
negro. Quem as vê assim, de fato não entendeu os seus reais objetivos. Elas são
políticas para arrefecer o preconceito. Os liberais não querem entender isso por
uma razão simples: Locke era um liberal escravocrata. Nosso neoliberalismo atual
é escravocrata. Nosso liberalismo desconhece John Rawls ou John Dewey, pois é
um liberalismo tradicional que ainda prega a abstenção diante das necessidades
dos mais pobres, por boa parte dos intelectuais do país, inclusive.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 2
O fim do Império
 
Dom Pedro II ganhou a fama de culto, mas ele era apenas um leitor, o que
era, para o tempo e para a Corte brasileira, algo inusitado. Quanto às ideias, ele era
confuso e sonolento – talvez abobalhado. Enquanto o mundo todo chamava
pessoas para falar de evolução e Darwin, ele acolheu aqui o pesquisador suíço
LouizAgassiz. Em 1865, este homem veio para o Brasil chefiando uma expedição
americana. Sua missão era a de buscar provas contra a teoria da evolução. A única
coisa de valor científico que esse Agassiz tinha em seu navio era o jovem William
James, então com 23 anos, que, depois, haveria de se tornar um dos mais
importantes filósofos da América, senão do mundo. De resto, as teses de Agassiz
eram uma tremenda bobagem.
Agassiz chegou a dar cursos na Corte, a convite de Dom Pedro II. Com
isso, as senhoras da elite do Rio de Janeiro puderam ficar sabendo que não
descendiam de “macacos”. Mas isso não lhes causou muita emoção, uma vez que
a maioria nunca havia escutado, até então, qualquer coisa que afirmasse que
poderiam não ter vindo de Adão e Eva. Não entenderam nada. O espetáculo foi
realmente surreal: um reacionário em ciências falando para uma Corte cujo único
cidadão que tinha ouvido falar em evolução era, talvez, o próprio Dom Pedro II.
Claro que ele também não entendia muito do que se tratava.
Esse é o melhor retrato do Império, e que bem justifica a expressão “a
República veio tarde”!
A República veio por “golpe militar”? Não do modo como alguns ainda
adoram afirmar, apenas para criar ironias baratas. A República se fez à medida que
o Império já não sabia mais o que ele próprio era. Dom Pedro II havia desistido do
Brasil, se é que um dia chegou a entender o país que lhe foi dadocomo uma
espécie de brinquedo, quando tinha só oito anos. O fato é que as pessoas se
cansaram da brincadeira sem entusiasmo do menino que ficou barbudo e, enfim,
doente.
Muitos dos que ridicularizam a República enquanto um novo regime saído
das deficiências da Monarquia, assim o fazem porque invocam uma fantasia de
revolução. Para tais pessoas, só teríamos uma República autêntica se ela tivesse
sido feita com sangue e por meio de um levante popular. Esse tipo de brasileiro
acredita que só a guilhotina e a tomada armada de algum palácio podem justificar
mudanças sociais e políticas. Trata-se de uma visão apocalíptica das
transformações políticas. Uma visão pequena.
De fato, havia entre as correntes republicanasno âmbito da vida do
Império, grupos “jacobinos”, ou seja, aqueles que queriam a transformação pelas
armas, na base da insurreição. Mas esses grupos eram minoritários comparadoà
dois outros grupos de republicanos: os cafeicultores paulistas, descontentes com a
política econômica do Império e, inclusive, com o fim da escravidão, e que
fundaram o Partido Republicano Paulista; e o grupo de militares cientificistas, que
cultivavam o positivismo e que passaram à história representados pela figura de
Benjamin Constant, professor de matemática da Academia Militar da Praia
Vermelha, no Rio de Janeiro. Durante os últimos anos do Império, a agitação
republicana cresceu e efetivamente preparou o país para o novo regime. Se não
houve “povo” no dia em que Deodoro da Fonseca disse “avisem que a República
foi proclamada”, isso não quer dizer que não houvesse gente querendo a
República, e com certo conhecimento de causa.
Nas últimas décadas do Império, de fato, o movimento republicano cresceu
em todo o país. A prova disso é que, no célebre “último baile da corte”, feito na
Ilha Fiscal, o conde D’Eu não estava presente. Marido da Princesa Isabel e
apoiador de ideias racistas, ele se ausentou para uma viagem pelo Brasil em aberta
e agressiva “campanha pela monarquia”. Ora, se o Império não estivesse
fortemente contestado nas províncias, não haveria razão para essa viagem tão
pouco agradável. Afinal, o Conde D’Eu adorava a firulas da corte, especialmente
as festas. Só mesmo a ameaça republicana para lhe fazer faltar a uma festa regada
a 12 mil garrafas de vinho e 12 mil sorvetes.
Retomo Dom Pedro II. Como um misto de curioso, ingênuo e bobalhão
metido a reflexões, o Imperador era... favorável à República! Tinha apreço pela
ideia! Lia os jornais dos partidos republicanos e ficava entusiasmado. Esse
comportamento não era fruto de segurança demasiada, e sim, realmente, a
demonstração de a alguém fora do mundo. É como se não percebesse que,
dependendo dos resultados de tal movimento, ele poderia ser degolado! Esse
comportamento de Dom Pedro II também favoreceu a ideia disseminada entre nós,
até hoje, de que não existiu movimento republicano, e que a República
proclamada não passou de uma quartelada do dia 15 de novembro. Dom Pedro II
não se preocupava em fazer frente ao movimento republicano. Ele não se dava
conta de que o que ocorria em seu paísera contra ele!
Essa ingenuidade de Dom Pedro II, junto de sua inércia para tudo, o fez
um homem incapaz de levar a sério as ameaças dos militares e os outros grupos.
Afinal, Deodoro era seu amigo e convicto monarquista. Um imperador
republicano e um iniciador da República monarquista! As coisas estavam
invertidas. E isso gerou mais confusão ainda na cabeça dos brasileiros. Aliás,
quando Deodoro foi empossado como primeiro Presidente da República, ele se
sentiu muito triste por não poder dar títulos aos amigos. Queria fazer como Dom
Pedro II, nomeando condes, viscondes, barões etc. Avisaram-no que os títulos
haviam sido abolidos por ele mesmo. A República, obviamente, não teria corte e,
portanto, nenhum título.
De fato, vingou apenas um título eficaz na República: o de coronel! E esse
já não tinha mais nada a ver com a sua origem na Guarda Nacional, e sim com as
milícias legais e semilegais atreladas ao poder dos donos de terra, em especial, os
paulistas e mineiros. A República do Café com Leite, inaugurada depois de dois
presidentes militares, Deodoro e Floriano Peixoto – período conhecido como
República da Espada – foi exatamente a época dos coronéis. A “república dos
coronéis” marcou nossa vida.
Talvez essa ideia do coronelismo brasileiro esteja em nossas veias, em
nosso DNA. Por isso, quando nos defrontamos com um Brasil cheio de milícias –
que alcançam até mesmo a Presidência da República por meio da família de Jair
Bolsonaro e ele próprio –,talvez seja importante nos lembrar que, desde o
nascedouro da República, nossos setores mais ricos foram incentivadores da
criação de jagunços para todo lado.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 3
Deodoro e Dom Pedro II
 
Era uma praxe de Deodoro da Fonseca se emperiquitar para sair de casa.
Joias, medalhas de mérito e cordões não faltavam em sua farda impecável. O
tempo que levava para pentear a barba não era pequeno, isso sem contar a
dedicação com que a perfumava. Para esse ritual, o Marechal encomendava águas
de cheiro dos lugares mais famosos. Ele imaginava que era um grande herói que
iria sair do quarto, cheirando a flores e impressionando mulheres.
Perdera irmãos na Guerra do Paraguai, e ele próprio atravessou os
pântanos de modo impetuoso em uma campanha honrosa para os tempos – mas
não para a história. De certo modo, a figura bufante que saía dos aposentos para
exibir a farda tinha lá seu valor. No último dia do Império ele saiu como de
costume e foi ter com Ouro Preto, chefe do gabinete ministerial.
Deodoro questionou Ouro Preto sobre os boatos de que haveria reformas
no Exército. Em seguida, para justificar o rompante que viria, falou algumas
palavras sobre sua bravura ao servir a pátria no Paraguai, o que não era mentira, e
então anunciou a dissolução do Gabinete. Era o primeiro passo para que o Brasil
pudesse dispensar o Imperador doente.
Ouro Preto se limitou a ouvir Deodoro e, diante do militar que falava sobre
“sacrifícios” na Guerra, retrucou que também ele, ali, por ter deouvir o Marechal,
passava por “sacrifícios bem maiores”. A conversa não foi adiante. Deodoro
resolveu então organizar as atividades de alguns republicanos amigos, com
Benjamin Constant à frente, de modo a realizar a primeira ordem, já como chefe
do “Governo Provisório”. Uma ordem muito mais para agentes do correio e
boateirosda cidade do Rio de Janeiro do que para qualquer outra instância. Mas,
não se pode mentir, o Marechal a disse solenemente: “avisem o povo que a
República está feita”.
Pode-se imaginar um país do tamanho do Brasil, com uma população
tornada apática pela opressão da “pacificação” levada adiante por Caxias, e, com
meios de comunicação ruins,ter de mudar de regime político a partir de um ato
voluntário de militares do centro carioca? Caso não fôssemos um povo dedicado à
fofoca, talvez até hoje estivéssemos vivendo em vários recantos, acreditando que o
último baile da Corte ainda não havia sido realizado.
Mas, enfim, a população acabou se inteirando da novidade de Deodoro: a
República está feita. Lá fomos nós, todos republicanos, através do monarquista
Deodoro da Fonseca, amigo do Imperador, rasgando a história rumo à ordem e ao
progresso.
Que se criasse um ambiente que não eliminasse o clima da Corte. Que se
arrumasse alguém para avisar o pessoal da Igreja que eles não eram mais governo.
Que alguém falasse com os cafeicultores que iria se dar um jeito na coisa toda.
Que alguém continuasse a empurrar os pretos para os morros, de modo a não
deixar as favelas pararem de crescer. Que se falasse aqui e ali sobre quão grande
seria nossa intelectualidade se Augusto Comte nos mantivesse afrancesados. Que
se garantisse aos bancos ingleses que nosso afrancesamento não iria comprometer
pagamentos de dívidas aos britânicos. E tudo isso tinha de sair da própria cabeça
de Deodoro da Fonseca – já imaginaram o problemão?
Todavia, foi assim que as coisas se deram a partir do Quinze de Novembro
de 1889. Logo no dia seguinte, tínhamos um gigantesco país montado sobre um
sistema político cujo melhor nomeseria a República do Mandonismo, governada
efetivamente por donos de terra capazes de pagar suas milícias. Eram conhecidos
por “coronéis”, e assim ficaram sendo o que já eram até pouco tempo!
Dom Pedro II reagiu de maneira sonolenta ao golpe e à balbúrdia causada
na Corte nos momentos em que o Governo Provisório o chamava para o exílio.
Interpretou tudo aquilo, durante todos os momentos, apenas como uma travessura
de meninos do Exército. Chegou a perguntar para os mensageiros que iam e
vinham algo como “Deodoro está metido nisso é?”. Quando responderam
afirmativamente, retrucou: “que malucos!”.
Já fazia bom tempo que o Imperador nem mais lia jornais e não governava,
passando o dia interessado em descobertas científicas que ele próprio não podia
entender. Uma resistência popular em favor do Império poderia ter sido cogitada,
caso a Princesa Isabel, que realmente tinha apoio popular, alguma vez na vida
tivesse levado em consideração que havia uma população no Brasil. O Conde
D’Eu, seu marido, era mais prático: tratou de pegar um bom dinheiro dos
republicanos, de modo a “pagar as contas da família no exterior”, e apressou todos
para que fossem para a embarcação que os levaria para a Europa. Ele foi o único
que deixou uma carta dúbia. Ao contrário dos outros, que lamentaram, mas
aceitaram o destino e o exílio, o Conde escreveu que “serviria à pátria sob
qualquer governo”. Foram todos deportados.
Quando a embarcação passou por Fernando de Noronha, última porção de
terra brasileira, a família real e amigos tiveram a ideia fantástica de soltar um
pombo com a mensagem “saudades do Brasil”. Como crianças abobadas eles
amarraram a mensagem ao pombo e o soltaram, com aplausos. O pombo subiu o
que pode, e quando chegou suando no ponto crítico, desceu como um bólido
enfurecido em direção ao mar, morrendo afogado. Claro! Era um pombo que
estava no navio para ser comido e, portanto, já tinha suas asas cortadas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 4
A República e o positivismo
 
O positivismo, concepção filosófica de Augusto Comte, foi uma doutrina
forte entre os republicanos, tanto os civis quanto os militares. Veio daí o lema para
a nossa bandeira: “ordem e progresso”.
Mas esse lema não era, na sua origem, composto só por essas duas
palavras. Entrou na bandeira já censurado. Talvez isso tenha ocorrido justamente
porque a primeira parte da frase se mostrasse como pouco viril para pessoas que
deveriam, ao menos naquele momento de criação da República, dar combate ao
Império, em nome da nova ordem. Qual foi a palavra censurada? Bem, a frase
original de Comte era uma maneira de sintetizar sua proposta filosófica: “amor por
princípio, ordem como base e progresso como fim”. Assim, o lema correto era
“amor, ordem e progresso”.
Fazendo da filosofia da história de Hegel um esquema de teoria social,
Comte viu o desdobramento cultural humano segundo três fases: mítico-religiosa,
metafísica e científica. Os homens deveriam ir do mito para a filosofia, e da
filosofia para a ciência. Chegar ao progresso seria algo desejável, claro, e isso
significaria entrar para a última e melhor fase da humanidade. O progresso era
visto por Comte como aquela fase na qual as pessoas deveriam deixar de pensar
miticamente e filosoficamente para abordar os problemas da vida segundo
procedimentos científicos. Mas isso não seria possível de ser realizado sem um
impulso motivacional tomado como princípio e guia: o amor. A força da união
entre as pessoas, um eco da fraternidade da Revolução Francesa, sempre teria de
estar presente. Por sua vez, a ordem deveria ser tomada, por definição, como
contrário do caos, como a harmonia de uma etapa que segue outra.
O antropólogo Darcy Ribeiro soube entender a história republicana no
sentido de tomar o positivismo como uma filosofia menos endurecida do que em
geral ela é compreendida. Ele quis reintroduzir o “amor” em “ordem e progresso”,
de modo a mudar o inscrito na bandeira nacional. Como senador, nos anos
noventa, chegou a conversar com o presidente José Sarney sobre o assunto. O
senador Eduardo Suplicy também fez investidas nesse sentido. Para Ribeiro e
Suplicy, talvez a palavra “amor” viesse mesmo dar sentido à frase de um modo
especial, criando, para o senso comum, a chance de repensar o dístico, de evocar e
invocar a história, apropriando-se da ideia de que a filosofia sempre está em todas
as nossas instituições, não raro em um sentido que visa alguma harmonização.
Não creio que tenham errado. Sempre que um movimento político pode trazer
mais consciência histórica de modo a refazer lições filosóficas, o lucro é certo.
Todavia, o próprio positivismo foi uma doutrina filosófica paradoxal,
poisele nada era senão uma crítica da filosofia, e pedia sua superação.
Muitas vezes, quando vemos alguns criticando a filosofia, dizendo que ela
não serve para nada, há ecos aí do positivismo. Pois, na doutrina positivista o
“momento filosófico”, como o “momento religioso”, nada seriam senão etapas a
serem “superadas” para que o homem viesse a agir sempre segundo as regras da
ciência. A sociologia como ciência. No Brasil há essa mentalidade, mas não tão
diferente da do resto do mundo. Porém, o positivismo original sempre esteve em
uma situação desconfortável, pois ele próprio nunca foi exclusivamente uma
sociologia. A sociologia de Comte, não se pode negar, ela própria é uma filosofia.
Tambémo sentido de reintroduzir o “amor” na bandeira, talvez pudesse mesmo ser
uma boa sugestão. Faria o positivismo que existe em nós todos adquirir uma
maleabilidade mais útil.
O fato é que os republicanos, civis ou militares, ajudaram a divulgar o
positivismo e colaboraram em muito para a mentalidade vigente em todo o
andamento da república, dos primeiros dias até os nossos atuais.
Sob a égide do positivismo, parte dos nossos políticos – os que se
opuseram aos “liberais” – se tornaram não amorosos, mas defensores da “ordem e
do progresso” por meio da ciência e da técnica. Esses políticos advogaram a
utilização da “engenharia social”. Acreditaram que cada homem deveria poder
pensar a vida própria e, também, a vida social segundo os procedimentos do
cientista, e então equacionar as coisas da vida, fazer modelos de solução para a
vida individual e coletiva, e propor políticas com esse intuito. Os liberais
poderiam pensar de tal maneira, eles viam o indivíduo como capaz de resolver
seus problemas sem a religião ou a metafísica, e sim única e exclusivamente com a
ciência. Mas, no Brasil, não foram os liberais que seguiram essa regra. Eles se
colocaram no lado mais conservador. Foram os positivistas que elevaram a
engenharia social ao plano de afazeres do estado, então tornado intervencionista
na vida social e, principalmente, econômica. Os positivistas, assim, foram uma
espécie de protossocial democratas ou prototrabalhistas, encarnando o nacional
desenvolvimentismo dos anos cinquenta, a doutrina de união da intervenção
estatal com a capacidade de planejamento advindo da engenharia social. 
Hoje, não temos mais a disputa “positivistas contra liberais”, como no
início da República. Tal disputa foi substituída pela rivalidade entre as pessoas que
acham que o estado deve ter certo protagonismo na vida da nação, em diversos
aspectos, e as outras pessoas que acham que o mercado não precisa de engenharia
social, ele próprio nos conduz de modo inteligente. Essas últimas pessoas são os
liberais e, no entanto, sempre querem comandar o estado, dizendo que irão torná-
lo menos tentacular em nossas vidas. Querem usar de poder de estado e dos
mecanismos de engenharia social para enfraquecer o estado e abolir qualquer
engenharia social. Isso é, obviamente, um paradoxo.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 5
A República dos coronéis
 
Na historiografia brasileira o período entre 1989 e 1930 é conhecido como
o tempo da “Primeira República”, e não raramente aparece nos livros como a
“República dos Coronéis”. Quem eram os “coronéis”? Chefes políticos que tinham
poder por serem donos de terras e por arregimentarem a seu favor um pequeno
exército de capangas – nada mais que milícias.
Esses homens comandavam o poder político municipal. Não
necessariamente se elegiam prefeitos, mas, com certeza, dominavam os prefeitos e
os garantiam no poder. Isso era feito com dinheiro e armas,já que o voto não era
secreto, ea população ficava à mercê da pressão dos mais ricos. Na zona rural,
portanto, estabeleciam-se os chamados “currais eleitorais”. Morando na região de
influência de um coronel, ninguém era tolo o bastante para desafiá-lo e votar em
qualquer outro candidato que não o indicado por esse chefete local. Caso, em uma
determinada região, as coisas saíssem do controle do coronel mais forte do local,
então as urnas eram claramente fraudadas – após ou mesmo durante as eleições.
Não raro, nomes de mortos apareciam nas listas eleitorais. Defuntos garantiram
vitórias eleitorais esplendorosas, nesse tempo.
Viver na zona rural de modo independente, sem agregar-se a um coronel,
era praticamente impossível. Levando em conta que só no início dos anos sessenta
a população urbana brasileira empatou em número com a população rural,
podemos imaginar o quanto a vida nos primeiros quarenta anos da república foi
moldada pelo coronelismo.
O nome “coronel”, ao menos já nos anos vinte, nada tinha de oficial,
embora sua origem viesse de uma situação gerada pelo Estado brasileiro. Durante
o período em que se esperou que Dom Pedro II ganhasse a maioridade, houve a
chamada “regência”, e foi dessa época a criação da Guarda Nacional, de onde
surgiram os coronéis, oficialmente. Instituída em 1831 pelo Ministro Diogo Feijó,
a Guarda Nacional chegou a ser a verdadeira força policial no Brasil. Uma espécie
de forças armadas. Era obrigatório o alistamento nela, e não no Exército. O
Exército, em comparação com a Guarda Nacional, ficou reduzidíssimo. Os
coronéis da Guarda Nacional nada eram senão chefes de milícias que visavam
garantir o poder dos donos de terras eescravos em cada região brasileira. Essa
estrutura social e de segurança, baseada completamente no mandonismo, deixou
de ser oficial somente em 1918. Mas, na prática, ela permaneceu funcionando até
1930. Somente com a Revolução de 30 é que a política submissa aos coronéis
passou a sofrer os golpes dos tempos modernos e, então, começou a arrefecer de
modo mais claro.
Após 1930, o “coronel” permaneceu vigente como denominação, não
raramente pejorativa, para os chefes políticos locais que abusavam do poder
econômico e da força para comandarem regiões, sempre no interesse conservador
dos proprietários de terras. Mas, com o voto secreto e, depois, com a
industrialização, esses proprietários rurais foram vendo seu poderio diminuir
muito rapidamente. No entanto, se o poder desses proprietários de terras ficou
debilitado, isso não se deu de modo semelhante com a estrutura social gerada no
mandonismo. Essa estrutura social frutificou relações. O mandonismo vigente na
sociedade brasileira nos dias de hoje tem muito a ver com a escravidão, mas não
só:é impossível não ver que ele foi gerado no contexto de uma organização social
regada pelas águas do coronelismo.
Na prática, esse mandonismo na área rural serviu também para fortalecer a
mesma estrutura nas cidades. Imigrantes que se tornaram industriais ricos
procuravam casar seus filhos e filhas com os grandes proprietários de terras. A
união dessas famílias trazia os costumes rurais para o interior das casas da
burguesia brasileira das grandes cidades. Por isso mesmo, os governos da
república vigente, entre 1889 e 1930, declararam que a “questão social” era “caso
de polícia”: greves por melhores salários eram tomadas como afrontas, como
“influência de ideologias estranhas”, “alienígenas”, que deveriam ser combatidas,
não por negociação ou instauração de direitos, mas simplesmente pela força
policial. Desse modo, o mandonismo se fez valer na vida urbana. As greves
operárias dos anos dez e vinte, nas capitais, em especial São Paulo e Rio de
Janeiro, desafiaram os poderes locais, masforam reprimidas com força inaudita,
pois os governos faziam a vontade dos industriais, e esses industriais agiam quase
que como coronéis.
Na base dessas greves estavam ideários de anarco-sindicalistas, socialistas
e comunistas. Em geral os operários que dirigiam tais greves tinham jornais
semanais e alguns deles haviam sido formados politicamente no exterior, na Itália
principalmente. Os italianos mais ricos, na condição de industriais, conheciam
bem essas doutrinas e o antídoto para elas: o fascismo. Muitos industriais
namoraram com o fascismo e se utilizaram do mandonismo local para fortalecê-lo
em todos os ramos contra o operariado. A república dos coronéis foi, no âmbito
urbano, a república da organização dos trabalhadores por eles próprios. Somente
depois de 1930 é que surgiu, com Getúlio Vargas, a chamada “carteira de
trabalho” e a sindicalização do trabalhador a partir do estado.Os pobres saíram das
mãos dos coronéis para cair nas mãos do estado varguista.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 6
O liberalismo na berlinda
 
A disputa ideológica da Primeira República se deu entre positivistas e
liberais. Falando de modo geral: os intervencionistas estatais e os defensores da
liberdade do indivíduo diante de qualquer coerção do estado.  Depois de 1930, o
liberalismo passou a receber críticas de todos os lados. Comunistas, integralistas e
o grupo de Vargas, todos esses tomavam o liberalismo como “doutrina fraca”,
inútil para o Brasil. O liberalismo foi visto com a posição própria dos
“carcomidos”, ou seja, dos que serviram de modo fiel às oligarquias que
comandaram a política de antes de 1930.
Assim, os positivistas deram a base para todos os críticos do liberalismo
pós-30. A doutrina liberal foi vista como inerte, incapaz de adequar a ação estatal
em favor da modernização do país, pois cada corrente propunha uma forma de
modernização. Mas nenhuma delas via o liberalismo como capaz, como nutriente
da ação governamental para fazer o que seria o necessário para tal. A ideia de
deixar a vida sob os auspícios do mercado e de “indivíduos livres” acabou como
sendo um aval a não se fazer absolutamente nada. A maior parte da população, por
razões diferentes, passou a achar que, sem ação governamental incisiva, jamais
seríamos a tal sonhada “civilização brasileira”. Os liberais mais modernizadores,
também eles, apostaram na ação governamental, mesmo que fosse para criar um
mercado pujante, uma democracia menos corrupta, para então poder, um dia, falar
em mercado livre.
É interessante notar que o nacionalismo percorreu as três correntes de
oposição ao liberalismo. Direita, esquerda e Vargas, todos, se diziam nacionalistas.
Aliás, em termos culturais, foi a época de crescimento de uma literatura que
buscava investigar e estabelecer o que seria o “homem brasileiro”. A tal
“identidade nacional” estava no horizonte como um imperativo.
Os comunistas falavam do nacionalismo a partir de um conceito de
nacionalização que implicava o domínio dos meios de produção pela população
trabalhadora. Os integralistas falavam de nacionalismo a partir da idealização de
uma nação que estivesse sob o lema conservador “Deus, Pátria e Família”. Vargas,
por sua vez, foi costurando seu modo de governar segundo o populismo que
oscilava entre teses de esquerda e direita. O importante, para ele, era desenvolver a
“modernização conservadora”. Líderes como Carlos Prestes à esquerda ou Plínio
Salgado à direita eram figuras que ele, Vargas, visava descartar. Vargas colocou o
nacionalismo a seu favor, na medida em que ele próprio foi se tornando aquele que
não queria mais abandonar o poder.
A visão estatizante de comunistas e integralistas nem sempre colaborou
com o discernimento do senso comum em relação às suas doutrinas. Não raro, nos
anos trinta, várias pessoas trocaram de lado, indo do comunismo ao integralismo e
vice-versa. Até hoje, por conta disso, há pessoas que dizem – erradamente – que o
fascismo e o socialismo são a mesma coisa, apenas com sinais trocados. Foi dessa
época que esse equívoco se espalhou. O senso comum, pouco escolarizado,
sempre louvou o liberalismo a partir de uma tese desse tipo. Segundo essa tese, o
liberalismo seria a única força capaz de proteger o indivíduo contra os desmandos
do estado, sendo que esse estado sempre seria o instrumento primordial de
comunistas e integralistas ou fascistas.
Apesar de Vargas querer se fazer distante de integralistas e comunistas, foi
contra os segundos que ele sempre agiu de modo mais decisivo. Aliás, ele criou a
ditadura do Estado Novo, que rasgou a Constituição de 1934 e impôs a
Constituição de 1937[3], a partir da denúncia do Plano Cohen.
O Plano Cohenfoi uma invenção de militares e de pessoas simpatizantes da
Ação Integralista Brasileira. Segundo esse plano, haveria uma ação comunista
para a tomada do poder no Brasil. Mas oplano não tinha nenhum fundamento
lógico. Os comunistas já estavam presos em 1937, uma vez que tinham tentado
um golpe no governo em 1935, a chamada Intentona Comunista. Não estavam em
condições de qualquer rearticulação. Então, para “defender a pátria diante da
agressão comunista”, o governo Vargas instaurou a ditadura do Estado Novo. Foi
durante a vigência do Estado Novo que Getúlio Vargas criou a maior parte das
instituições estatais que caracterizam o esforço do que os historiadores vieram a
denominar“modernização conservadora”.
 
 

CAPÍTULO 7
A galinhada verde
 
Eles vestiam uniforme verde e se cumprimentavam dizendo, em tom forte,
“anauê”. O termo tem origem no Tupi-Guarani, e significa “irmão” ou, melhor
dizendo, “você é meu irmão”. Apelar para a língua nativa era, para essas pessoas,
sinal de nacionalismo. O uniforme verde carregava uma braçadeira com a letra
sigma maiúscula estampada, o símbolo matemático para a somatória.O líder
dessas pessoas era Plínio Salgado, um intelectual que visitou Mussolini nos anos
trinta, trazendo para cá, então, o ideário fascista.
Diferentemente do fascismo italiano, a doutrina de Plínio não era racista
extremada. Admitia-se como grande trunfo a “miscigenação brasileira”. Mas, no
resto, imitava certos preceitos do nazifascismo: ataque ao capitalismo financeiro,
junto da apologia da tríade Deus, Pátria e Família. Com isso, dizia tudo que se
tinha para dizer. Plínio defendia o fim dos partidos políticos e a união da pátria sob
o controle dos integralistas, ou seja, com ele próprio na condição de chefe. O
movimento era claramente político, mas se definia como movimento cultural e de
mudança de costumes.
Eles, os integralistas, poiaram Vargas no golpe que instituiu o Estado
Novo. Todavia, logo depois, se insurgiram contra Vargas, tentando tomar o
governo. Foram presos, o golpe foi desmantelado e seus líderes locais
desapareceram – podem ter sido executados no próprio jardim do Palácio da
Guanabara.
Mas, por que os integralistas foram chamados de “galinhas verdes”? 
Historiadores deixaram registrado um episódio pitoresco. Tudo se passou segundo
uma atividade das esquerdas, a Aliança Nacional Libertadora, braço
revolucionário do Partido Comunista. Uma ruidosa manifestação dos integralistas
foi dissolvida por alguns poucos tiros de membros da Aliança Nacional
Libertadora. Os integralistas fugiram desesperados e, tão logo puderam, tiraram as
suas camisas para não serem identificados, com medo de serem alvejados. Isso foi
o suficiente para gerar o descrédito da população diante dos seguidores de Plínio
Salgado. Eles não eram os grandes corajosos como estavam postos nos seus
panfletos.
Nos jornais do dia seguinte, o jocoso Barão do Itararé desenhou os
integralistas correndo, e colocou os dizeres: eles não correm, voam. Daí a ideia de
“vôo da galinha verde”. Nunca mais puderam ser chamados de outra coisa. O
episódio ficou conhecido na historiografia como “Revoada dos Galinhas Verdes”.
Travestidos de galináceos verdes, os integralistas foram cada vez mais
sendo ridicularizados. Quanto mais eram ridicularizados, mais radicalizavam suas
falas. Plínio Salgado passou a imitar Mussolini em gestos histriônicos. Assim, fez
crescer as sátiras sobre si mesmo. Ao final dos anos trinta, os integralistas já eram
conhecidos pela população como uma espécie de bando pastiche dos grandes
demagogos europeus do período. E se, na Europa, essas pessoas já estavam sendo
ridicularizadas, suas cópias tupiniquins ganharam ainda mais adjetivos
depreciativos de todo tipo.
Por isso mesmo Vargas nunca lhes deu atenção. Quando tentaram golpear
o governo, Vargas simplesmente os colocou na cadeia sem alarde, e não abriu
nenhuma investigação sobre a execução que podia ter havido nos jardins do
Palácio da Guanabara. Os galináceos verdosos foram depenados na panela do
ditador.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 8
O mito Vargas
 
A Revolução de 1930 trouxe o fim do que ficou conhecido como A
República Velha. Uma junta militar tomou o poder, com Getúlio Vargas à frente.
Ele prometeu uma Constituinte, mas os paulistas quiseram apressar as coisas e se
insurgiram contra o governo. Sim, foi uma guerra civil: a Revolução
Constitucionalista de 1932. Os paulistas foram derrotados pelas tropas federais, e
então tentaram manter sua hegemonia no país por uma via mais duradoura: a da
cultura. Em 1934 nasceu a Universidade de São Paulo. Nossa historiografia
costuma repetir que a USP nasceu como uma revanche dos paulistas diante da
“gauchada embrutecida” que havia se instalado no governo, sob o comando de
Vargas.
Levando em conta, hoje, a influência da USP sobre toda a nossa rede
universitária, não há como negar que a tal revanchefoi vitoriosa. São Paulo perdeu
nas armas, mas venceu na cultura.
A USP trouxe a França para o Brasil, pois professores jovens franceses,
que depois se tornaram referências internacionais e quase atemporais, vieram para
cá por meio de acordos e convênios. A cidade de São Paulo ganhou, então, um
aspecto cosmopolita não só no meio popular, por conta da imigração italiana, mas
também no âmbito da cultura erudita – num afrancesamento que até hoje marca os
estudos humanísticos uspianos.
Diferentemente de São Paulo, o Rio de Janeiro, em termos acadêmicos
humanísticos, se abriu para outra influência, a dos americanos. Se em São Paulo
vingou a sociologia de Émile Durkheim, no Rio foi o pragmatismo americano que
ganhou força. John Dewey entrou pela porta carioca. Anísio Teixeira, um baiano,
foi aluno de Dewey e trouxe o pragmatismo e os ideais da Escola Nova para o Rio,
quando foi Secretário de Educação na época do Prefeito Pedro Ernesto. Paulo
Freire recebeu ensinamentos de Anísio Teixeira, e, mais tarde, levou seus ideais de
filosofia da educação mais para a esquerda, inclusive influenciando católicos.
As coisas se complicaram quando a radicalização entre esquerda e direita
apontou sua cabeça na Europa. Vargas pendeu para a direita e instaurou o Estado
Novo em 1937, um regime ditatorial que apoiava o Eixo, as potências Alemanha,
Itália e Japão. Em meio à II Guerra Mundial, Vargas mudou de lado, vindo para o
campo dos Aliados. A guinada não se deu à toa. Submarinos alemães foram vistos
nas costas brasileiras e correu o boato de que haviam atacado comboios nacionais
que levavam mantimentos. O movimento estudantil saiu às ruas cobrando do
governo a entrada na Guerra. Vargas soube negociar com os Estados Unidos sua
alteração de posição, o que mais tarde rendeu ao Brasil o dinheiro para a
construção da siderúrgica de Volta Redonda.
Assim,o Brasil foi lutar na Itália por meio da Força Expedicionária
Brasileira, composta peloschamados “pracinhas”,que desempenharam um papel
significativo no combate.A fama de bons combatentes chegou no país antes do fim
da expedição. Vargas começou a temê-los. Certamente eles apareceriam na cena
pública como heróis populares. Então, quando eles chegaram ao Brasil, tiveram
que entregar as armas e a unidade foi dissolvida no porto. Receberam pouca
atenção do governo, pois poderiam ter se tornado uma força antivarguista efetiva.
Não lhes foi dado a chance de atuar nesse sentido, mas os ecos da campanha
contra o nazifascismo acabaram minando o governo ditatorial de Vargas.
Quando terminou a Guerra, um regime ditatorial em nosso país não mais
se sustentava. Vargas foi deposto e só voltou ao poder quatro anos depois, por
meio de eleições. O nacionalismo de Vargas o fez recompor-se mais à esquerda, e
o símbolo dessa época ganhou substância através da campanha “O petróleo é
nosso”. A ideia básica era a da criação da Petrobrás.
Até hoje se louva Vargas por esse feito. Mas, todosnós sabemos quefoi o
escritor Monteiro Lobato quem descobriu petróleo na Bahia, e o próprio Vargas o
mandou prender, acusando-o de “comunismo”. Por esse fato, Lobato desdenhou o
convite de pertencer à Academia Brasileira de Letras, uma vez que Vargas também
teve assento naquela casa. Ora, Vargas escritor? Desde quando?!
Nos anos cinquenta, no entanto, não havia mais espaço para gente do tipo
de Monteiro Lobato, que tinha amizade com o comunista Carlos Prestes e, ao
mesmo tempo, pensava nos Estados Unidos como um lugar de empreendedores –
algo que ele via necessário no Brasil. Nos anos cinquenta, ou se era varguista e
nacionalista ou se era antitrabalhista e pró-americano– em um sentido liberal
conservador, ou seja, na linha da direita. O Brasil ficou polarizado. O polo liberal
de direita foi ocupado, em termos de liderança, pelo jornalista Carlos Lacerda. Ele
desencadeou uma campanha violentamente antivarguista, algo bastante
semelhante ao antipetismo que vingou no Brasil no governo Dilma e nas eleições
de 2018.
À semelhança do caso do antipetismo em 2018, nos anos cinquenta,
Lacerda manchou a reputação de Vargas insistindo na tese de que o governo era
corrupto. Vargas revidava dizendo que Lacerda era “entreguista”, ou seja, que
favorecia o “imperialismo americano”. Pressionado ao extremo, Vargas então
arquitetou uma jogada de mestre, inauditana política brasileira. Ele cometeu
suicídio. Deixou uma Carta Testamento, denunciando que os inimigos da nação
estavam para tomar o poder, e que só o seu sangue poderia trazer o povo para o
despertar e para a defesa da nação. Deu certo.
Lacerda se dirigia em direção ao Palácio do Catete, sede do governo na
Capital Federal, o Rio de janeiro, quando ficou sabendo do suicídio de Vargas. Ele
entendeu de uma só vez que seu reinado havia acabado, pois o povo iria linchá-lo.
Ele sequer voltou para casa. Ordenou ao motorista, no mesmo momento, que o
deixasse no aeroporto Santos Dumont efugiu para os Estados Unidos.
No enterro de Vargas, a multidão se apoderou do caixão e o seu corpo foi
navegando nos braços de milhares de trabalhadores. Muitas pessoas enfiavam
bilhetes no caixão. Os bilhetinhos eram pedidos de emprego, pedidos de sorte,
declarações de agradecimento e, principalmente, sugestões para que Vargas
conversasse com Deus em favor dos mais pobres. Nascia o mito Vargas,o nosso
único mito político real.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 9
Carlos Prestes
 
Em uma entrevista para o programa de TV do Jô Soares, o velho
comandante Carlos Prestes explicou: formamos a Coluna e percorremos o Brasil,
lutando com as forças dos governos federais e estaduais. Nunca fomos
derrotados,mas essa revolução não continuou eacabei ficando como um general
sem soldados.
Carlos Prestes se tornou então, no título de livro da época escrito por Jorge
Amado, “O cavaleiro da esperança”. O livro ajudou a forjar um mito – menos
duradouro que o de Vargas, mas, na época, de fato um mito político importante:
um dia Prestes chegaria ao Catete para pôr abaixo não mais a República Velha, já
morta, mas sim o próprio Governo Vargas. Nessa época, Prestes já havia se
tornado comunista. Foi tomado por Moscou, sede da III Internacional Socialista,
como o mais importante chefe revolucionário da América Latina, isso não foi à
toa. Afinal, a Coluna Prestes que se insurgiu contra o governo de Arthur
Bernardes, entre 1925 e 1927, fora, de fato, um empreendimento de bravos. 
A III Internacional coordenava os partidos comunistas no mundo todo,
maspara pertencer a ela, era natural que o revolucionário ajudasse financeiramente
a organização e Prestes cumpriu essa regra. Bem mais tarde, escrevendo sobre tal
assunto, o jornalista William Waack (sim, aquele demitido da Rede Globo por
racismo), criou a mentira de que Prestes havia comprado o título de
revolucionário.
Durante o Estado Novo, Vargas prendeu adversários da direita e da
esquerda,engaiolou comunistas e integralistas. Prestes foi preso e teve sua esposa,
a judia Olga Benário, entregue aos nazistas. Mais tarde, relevando esse fato,
Prestes subiu no palanque da campanha “O Petróleo é nosso” junto com Vargas. O
dever cívico pelo comunismo e pela pátria tinha de ser maior que interesses
particulares. A maior parte de nós, hoje, é incapaz de compreender esse tipo de
devoção. Abraçar aquele que levou a esposa para o campo de concentração!
Engolir essa devoção de Prestes à causa do comunismo nunca conquistou as
melhores cabeças. Pode-se dizer: foram tempos de políticos heroicos – trágicos!
Ou talvez: foi um tempo de gente que fez política com a alma envolta em farda.
Na redemocratização do país, após 1945, Prestes se elegeu senador pelo
Partido Comunista, mas sua liberdade política durou pouco. Em um debate no
parlamento, ele caiu em uma armadilha retórica. Perguntado de que lado ficaria
numa guerra entre Brasil e União Soviética, Prestes confirmou que ficaria sob
ordens de Moscou. Após essa fala ele perdeu o mandato. A legislação brasileira
não permitia parlamentares que, em situação bélica, optassem por outra nação.
Logo em seguida, o registro do próprio Partido Comunista foi cassado. Os
políticos comunistas migraram para o PTB, o partido de Vargas, criado em 1945
para a sua política populista de controle dos trabalhadores urbanos. Os setores
mais ricos da sociedade e, claro, especialmente a classe média, sabem muito bem
que o liberalismo é uma força internacional. Atualmente ele tem até sede: Wall
Street. Nunca foi proibido para os setores dominantes se organizarem
internacionalmente, inclusive nas tramoias para a repressão em cada país. Ao
capitalismo internacional, todas as portas estiveram abertas e tidas como legítimas,
mas quando foi o caso de os trabalhadores afirmarem algum internacionalismo, o
qualificativo veio rápido: traição à pátria.
Nossa República padece ainda desse mal. Mais recentemente, as esquerdas
foram condenadas por fazerem “O Fórum Mundial” e o “Foro de São Paulo”. A
direita fez a mesma coisa, com o presidente Jair Bolsonaro aliando-se à figura
deSteve Bannon, o organizador do nacionalismo neofascista americano e que
elegeu Donald Trump. Os liberais conservadores, no mundo todo, estão sempre
irmanados. O fluxo de capital não tem regras de trânsito e traz o movimento de
globalização como uma norma. Então, quando é o caso da direita se organizar
internacionalmente e ferir a soberania nacional, poucos acham isso estranho.
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 10
A vocação da UDN
 
A imagem de Vargas que ficou na memória popular foi, antes de tudo,
aquela propagandeada pelos dias de Jango e Brizola no período pré1964. Essa
imagem ganhou mais tonalidades com a presença de Brizola na política pós-
anistia, já no final do regime militar (1964-1985). A figura de Vargas comandando
o Estado Novo, de caráter fascista, ficou secundarizada e, para alguns,
desapareceu por completo.
Todavia, a geração que viveu os anos de 1945 até a morte de Getúlio, em
1953, viu nele, antes de tudo, um homem obstinado com o seu destino, e com bom
apetite para o poder. Durante esse período, Vargas comandou dois partidos, o
Partido Social Democrático (PSD), criado por aqueles que haviam sido
interventores nos estados durante o Estado Novo, e o Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB), que teve Paulo Baeta Neves, funcionário do Ministério do
Trabalho do Estado Novo, como seu primeiro presidente. Getúlio Vargas ficou
como o presidente de honra de PTB. A União Democrática Nacional
(UDN)tornou-se a sua oposição implacável. O jornalista Carlos Lacerda, que
iniciou na política como comunista, se destacou depois como uma figura
proeminente da UDN, o símbolo do antivarguismo e do antiesquerdismo. Lacerda
chegou a ser governador do estado da Guanabara e um dos principais articuladores
do movimento de 31 de Março que depôs o presidente João Goulart (Jango).
No início, a UDN agregou em seu interior várias forças antivarguistas.
Grupos que não eram necessariamente antitrabalhistas, mas que, certamente,
desconfiavam das intenções democráticas de Vargas, viam nele o velho ditador
que criou o Estado Novo. Os liberais conservadores fizeram par com grupos de
esquerda dentro da UDN. Mas, logo em seguida, o partido se tornou o reduto do
conservadorismo moralista, sendo que os elementos da esquerda saíram do partido
para fundar o PSB (Partido Socialista Brasileiro), formado especialmente por
trotskistas.
Entre 1945 e 1964, a UDN se desesperou diante do poder de conquista de
voto de Vargas e dos varguistas. Em todo esse período, ela só conseguiu vencer as
eleições com Jânio Quadros. Jânio, por sua vez, além de não seguir as diretrizes
dos caciques do partido, e acabou renunciando. A UDN voltou a oposição. Esses
infortúnios eleitorais da UDN fizeramcom que ela se deslocasse para um campo
de flerte com tentativas de golpe. Foi assim que ocorreu o episódio em que a UDN
quis proclamar como ilegítima a eleição de Juscelino Kubitschek, em 1956. O
partido quis impedir a posse de JK, conspirou com militares para que ela não
ocorresse. Essa tentativa de golpe foi debelada pelas tropas comandadas pelo
General Henrique Lott que, mais tarde, em 1960, foi candidato à presidência da
República, nas eleições que, aliás, favoreceram Jânio Quadros.
A maioria dos historiadores concorda em dizer que esse episódio
caracterizou de vez a UDN e, com ela, uma boa parte das elites brasileiras com o
pensamento liberal. Essas elites, no campo do liberalismo, nem sempre cuidaram
da democracia tanto quanto quiseram cuidar da liberdade de mercado. Para tal,
titubearam em cultivar a ideia de que o voto da população (no varguismo e no
trabalhismo) ocorreu de tal maneira por falta de educação. Assim, para conter o
que seria um movimento deseducado dos trabalhadores, ou “fortemente
influenciado por Moscou”, cedo ou tarde,a atitude correta a ser tomada seria a de
reformar a democracia. Fazia-se necessário uma “verdadeira revolução”, alguma
coisa que levasse o nosso país a se parecer mais com os Estados Unidos do que
com qualquer país europeu. Novamente tentou golpe, em 1961, buscando impedir
a posse de Jango no cargo da presidência, quando da renúncia de Jânio. E, mais
uma vez, foi posta na parede pelo General Lott, que havia permanecido ministro
da Guerra de JK.
A Revolução de 64 foi o nome dado pelos membros da UDN que,
seguindo Lacerda, o general Castelo Branco e outros militares, e tendo apoio de
dezenas de outros governadores (até mesmo JK!), rasgaram a Constituição para
criar um novo período na história do Brasil. Por esse episódio, a própria UDN
desapareceu como partido, e seus membros foram tomados pela história como
golpistas.
A UDN era composta basicamente pela classe média, ou seja, profissionais
liberais, donos de pequenos negócios, políticos conservadores e parte da impressa
antivarguista. Seu núcleo de pensamento era, na verdade, menos o ideário liberal
do livre mercado e mais a sanha de acusar todo e qualquer trabalhismo como
sendo a porta aberta para a corrupção. Empresas estatais seriam naturalmente
improdutivas e corruptas. Todo o trabalhismo de Vargas, Brizola, Jango e
simpatizantes era, para a UDN,nada além da institucionalização da corrupção.
Quando não era isso, então, os adversários eram tratados como comunistas que
queriam entregar o país para Moscou, ou como ateus capazes de destruir a imagem
da Nossa Senhora Aparecida, “protetora do Brasil” e, principalmente, da
“tradicional família brasileira”.
É difícil não concordar com os historiadores que, avaliando todo esse
período e o comportamento da UDN, escreveram que o Golpe de 64 sempre esteve
no horizonte do pensamento liberal brasileiro interior a essa agremiação. Esse
período, iniciado em 1964 e tomado posteriormente, quando a Revolução de 31 de
Março já havia ocorrido há alguns anos, pareceu a muitos estudiosos como que
inevitável. Estava escrito nas estrelas. Afinal, havia muitas estrelas: as dos
uniformes dos generais. Eles se deixaram iludir pela sede de poder dos civis,
inicialmente apenas inimigos do governo de Jango. Depois esses generais
adquiriram gosto pelos cargos da administração pública e as mordomias inerentes
a eles, tudo aquilo que eles, antes disso, condenavam. Também a corrupção os
agradou. Claro que, na consciência popular, essa corrupção nem sempre se
estabeleceu com o mesmo tamanho e furor que aquela de outros períodos
comandados por civis.Por uma razão simples: o que fizeram nesse âmbito, na
maior parte, não chegou como informação para a população da época por conta da
censura à imprensa.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 11
A “Revolução de 1964”
 
A participação de órgãos do governo americano no Golpe de 1964 não foi
maior do que o corriqueiro, na tradição intervencionista da época. Nunca houve
intenção real dos Estados Unidos de invadir o Brasil para “fazer 64”.[4] O
deslocamento de navios americanos para perto de nossa costa, por ocasião do
movimento de 31 de Março, que culminou com a deposição do presidente Jango,
não foi realizado senão para “observação”. Caso o Golpe de 1964 desse errado, os
americanos iriam pensar mil vezes, e é provável que decidiriam não aportar.Não
havia planos concretos nesse sentido.
Os Estados Unidos haviam tido um revés em Cuba, no apoio à invasão dos
eLivross, em 1961 – a batalha da Baía dos Porcos. Logo depois, em 1962, ocorreu
a “crise dos mísseis”. Em 1964, discutia-se, nos Estados Unidos, o envio de tropas
para o Vietnã, o que ocorreu em 1965. Haveria uma guerra lá, uma “verdadeira
guerra”, e os americanos sabiam bem o quanto os franceses já haviam apanhado
dos vietnamitas. Por isso tudo, o tal “apoio americano aos golpistas de 1964”
nunca foi levado a sério pelos historiadores mais ciosos: os americanos estavam
por perto, acompanharam tudo e prometeram, claro, mais que solidariedade, mas
não estavam preparados para a ação e nem sequer realmente intencionavam
participar de qualquer coisa para além de serviços estratégicos em benefício dos
militares brasileiros.
Carlos Lacerda fez propaganda de si mesmo, alardeando a presença da
“frota americana” de proteção à “Revolução de 1964”. Cacifou-se perante outros
líderes golpistas com essa história, que ele queria fazer parecer como algo vindo
do seu prestígio junto de autoridades americanas. Ora, existem documentos sobre
tal relacionamento, mas, como vários outros acordos entre Estados Unidos e
Brasil, antes e depois de 1964, também esse não tinha grande solidez. O Brasil
nunca teve qualquer importância para os Estados Unidos que justificasse uma
intervenção planejada com soldados em terra. Além disso, havia a nítida noção,
por parte dos americanos, de que os golpistas brasileiros dariam conta da situação
sozinhos.
A invasão americana não ocorreria também por outra razão: a direção da
CIA nunca levou a sério a “comunização do Brasil”. Os documentos americanos
sobre a “infiltração comunista”, produzidos pela CIA, eram antes de tudo
propagandísticos. A CIA já estava, naquela época, dividida em seções, e a parte do
órgão que cuidava da América Latina sempre exagerava sobre “comunismo no
Brasil”, e isso em pronunciamentos internos e externos. A retórica exagerada tinha
duplo objetivo: primeiro, ajudava na mobilização política conservadora no Brasil;
segundo, aumentava a importância dos que cuidavam da América Latina dentro da
CIA, servindo para que seus salários não caíssem. A burocracia da CIA sempre
cultivou meios de proteger seus salários. Até recentemente, a CIA trabalhou assim
e, em alguns momentos, conforme o governo americano vai para os democratas ou
vai para os republicanos, tenta agir com essa tática de sobrevivência como
qualquer outra instituição burocrática. Cria inimigos para se fazer de importante.
Max Weber estudou as instituições burocráticas e sua capacidade de se fazer de
útil para satisfazer corporações de funcionários.
Os funcionários importantes da CIA falavam de “comunização” do
governo Jango, mas, ao mesmo tempo, tinham um bom mapa a respeito do
potencial real de intervenção de pessoas de esquerda em uma ação de resistência a
um golpe. A CIA tinha informação sobre os grupos ligados a Brizola e sobre o
quanto as nossas Forças Armadas poderiam ou não se dividir no momento de um
golpe. Nenhum funcionário da CIA acreditava na necessidade de uma ação de
apoio ao golpe em terra. Aliás, os contatos entre americanos e golpistas foram
diminutos e frouxos. Castelo Branco e Carlos Lacerda falavam mais do que
realmente faziam, inclusive porque se pavoneavam entre as forças golpistas,
ambos prevendo que um dos dois iria ficar na presidência do país depois da queda
de Jango.
No dia 30 de março de 1964 Jango discursou para sargentos no Automóvel
Clube. Como havia feito no célebre Comício da Central do Brasil, no dia treze do
mesmo mês, defendeu as chamadas “reformas de base”, que incluíam a
desapropriação de terras para a reforma agrária e nacionalização de todas as
refinarias de petróleo. A reação ao comício do dia treze, por parte da classe média
e da imprensa conservadora, foi estrondosa. Ocorreram as “marchas pela família”
no Rio e em São Paulo, todas elas com brados “contra o comunismo”, que diziam
que seria implantado por Jango. Ele era um fazendeiro de comportamento sereno e
nada revolucionário, mas foi demonizado pelos setores conservadores ao imaginar
um Brasil com menos desigualdade social. Na madrugada de 31 de março o
general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, de Juiz de Fora
(MG), colocou as suas tropas em direção ao Rio de Janeiro. Quando os militares
vieram com suas tropas para cima do governo, Jango resolveu não resistir.
O presidente Jango pode ter decidido pela não resistência por índole
pacifista, mas se por um acaso tentasse fazer um chamado popular para uma
reação, não teria ninguém preparado para agir. Os sindicatos não tinham armas e
não estavam de fato organizando qualquer coisa parecida com uma“revolução
comunista”. De fato, a Confederação Geral dos Trabalhadores chamou uma greve,
mas não foi atendida. Dentro do Exército, a tal “insubordinação dos sargentos”
nada era senão um alvoroço, não uma ação organizada capaz de atender um
chamado presidencial ou um apelo de Brizola. Os militares golpistas haviam
adquirido knowhow por obra de outras tentativas de golpe, e trataram de anular as
forças de generais que poderiam fazer o que o General Mott fez na posse de
JK,quando evitou um golpe de direita, por meio de mobilização de tropas sob seu
comando.
A ideia de resistência não tinha sentido. Brizola bateu-se por ela, mas ao
voltar ao Brasil, bem mais tarde, uma vez anistiado, ele evitou insistir nessa
história. Sempre que entrevistado, procurava passar rapidamente por esse
episódio, quase que reconhecendo o quanto teria sido um fracasso qualquer
chamado pela resistência.
Logo nos primeiros dias após o 31 de março de 1964, ficou claro que o
Golpe não tinha sido realizado por conta de uma “presença comunista”, uma
revolução de esquerda que estaria se avolumando no Brasil. Todas as possíveis
células de organização comunista que a mídia mostrou como sendo desmanteladas
não possuíam armamento algum ou qualquer outra coisa que indicasse perigo para
o status quo vigente. Nos poucos sindicatos em que foram encontradas algumas
armas, elas nunca passaram de provas “plantadas” pelos militares golpistas. Nos
meses seguintes, a “Revolução de 1964” teve que começar a reescrever a história
dos últimos anos, insistindo no “perigo comunista”, de modo a manter viva a
justificativa que teria dado legitimidade ao movimento golpista. Era necessário
brindara classe média do Rio e de São Paulo com tais satisfações, fazê-la sentir
que havia feito a “Revolução” e que tudo estava caminhando segundo sua ação
salvacionista.
O principal mote do General Castelo Branco, uma vez presidente, era o de
que os políticos todos eram corruptos e que a política tinha que ser reformada
pelas Forças Armadas. A ideia básica era a de construir aqui no Brasil um sistema
bipartidário, em estilo americano, com dois partidos rezando em cartilhas bem
próximas. Surgiu então diretriz: haveria sim oposição legítima, criada pela
“Revolução”, mas tal oposição não poderia fazer “contestação”. A “contestação”
era o quê? Era negar a democracia liberal formal existente e desejar um regime,
mesmo que democrático, mais à esquerda. Toda e qualquer ideia de política
ideológica passou a ser vista como “comunista”, e assim o linguajar da política
possível se esvaziou de conteúdo muito rapidamente. Ninguém mais podia falar
em “esquerda” e “direita”, mas somente em “situação” e “oposição”,
representadas então pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e pelo
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), pois antes da guerra política, sempre
vem a guerra semântica.
Com uma boa dose de ingenuidade em filosofia política e sociologia,
Castelo Branco queria fazer do Brasil uma espécie de Estados Unidos de
brinquedo. Os Estados Unidos possuem muitos partidos, mas os dois grandes, que
disputam a presidência, não disputam uma mudança de regime econômico. A
democracia e o capitalismo são o chão da América, e as mudanças se dão sobre
esse chão, mas nunca se imagina arrancar esse chão e substituir o assoalho da
casa. Castelo Branco parecia acreditar que tudo isso podia ser montado aqui, como
quem monta um jogo de Lego.
Carlos Lacerda gostava da ideia de Castelo Branco, mas sabia que ela era
impossível de realização e, no limite, via em tal projeto apenas uma bobagem de
um general que havia lido bem menos do que ele, e talvez só mais que Adhemar
de Barros, também um dos “líderes civis da Revolução”.
Castelo Branco tinha um biotipo curioso: homem baixinho, de pescoço
enterrado e cabeça chata. Ele vinha de uma família rica, havia estudado na
Inglaterra e tinha combatido pelas Forças Expedicionárias Brasileiras na Itália,
contra o nazismo. Parecia mesmo acreditar que podia reformar o país a partir de
“atos institucionais”, mesmo contra a tradição e a história da cultura brasileira.
Esse foi o segundo erro dos militares brasileiros, o primeiro, é claro, foi o próprio
Golpe.

CAPÍTULO 12
O regime militar
 
Durante boa parte do regime vigente entre 1964 e 1985, vigorou a censura
à imprensa. A percepção da população sobre o regime foi moldada por essa
situação. A corrupção não emergia para o ambiente público. Sem TV ou jornais
impressos falando dela, era facilmente varrida para baixo do tapete. As notícias
sobre economia e mesmo os índices de inflação eram manipulados, e muitos que
viveram aquela época construíram uma memória pouco crítica do período. Viram
tudo isso sem espanto, exatamente por teremguardado, a respeito daquela época,
uma imagem deturpada pela desinformação e por uma propaganda ideológica com
relativa eficácia.
Além disso, o regime não se proclamava ditatorial, mas democrático –
claro! Era difícil de acreditar nisso? De certo modo, não! Afinal, as eleições não
desapareceram; elas foram transformadas em indiretas para presidente,
governadores, capitais e municípios considerados de “segurança nacional”
(cidades portuárias, por exemplo). Outras cidades mantiveram eleições diretas. A
agenda eleitoral era pautada por dois partidos: ARENA E MDB. A vida da política
menor, a da política despolitizada, que utilizava um vocabulário sem os termos
“direita” e “esquerda”, era uma constante. A partir de determinado momento, a
política passou a ser mostrada na TV por meio de Alexandre Garcia, um jornalista
da Rede Globo que se especializou em falar de fatos políticos que, no limite, eram
vazios de conteúdo efetivamente político. Ele tentava transformar em notícias
falas vazias: notava a camisa de um ministro ou comentava o quanto outro
ministro havia passado um fim de semana feliz. Por tudo isso, terminado o período
entre1964e1985, muitos foram os que não reconheceram no regime pós-64 uma
ditadura propriamente dita. Mas, efetivamente, foi simuma época de regime
autoritário, em que o poder Executivo se imiscuiu o quanto quis nos outros
poderes, o Legislativo e o Judiciário. Durante todo o tempo a Lei de Segurança
Nacional se manteve vigente. E, mesmo depois da reforma partidária e das
eleições diretas para governos de estado (1982), o aparato autoritário disponível
para o governo federal se manteve intacto.
Durante todo esse tempo a polícia política funcionou atentamente,
silenciando opositores na imprensa, na universidade, nas fábricas, emempresas e
até mesmo nos partidos constituídos pelo próprio regime.  Aliás, os militares
criaram mecanismos legais para o cerceamento do Congresso. Quando o MDB
crescia, vinha sobre seus membros a acusação de “subversão”, de “comunismo”, e
eis que eles tinham seus mandatos cassados. A ARENA voltava, desse modo, a ter
preponderância política no tabuleiro eleitoral.
Os presidentes dessa época foram todos generais, postos no poder por um
colégio eleitoral formado pelo Congresso, mas cerceado e com prerrogativas
naturais cortadas. Além disso, após 1968, o regime recrudesceu. Através do Ato
Institucional Número 5 (o célebre AI-5), as regras ditatoriais se ampliaram e a
repressão aos grupos de esquerda passou a contar, de modo mais efetivo, com o
braço armado de grupos de militares com atuação semiclandestina. Houve tortura,
prisão ilegal e assassinatos praticados por esses militares ou policiaise delegados
associados ao regime.[5]A resistência a tudo isso sempre existiu. E no interior do
próprio governo militar existiramos que passaram a articular o que veio a se
chamar de transição “lenta, gradual e segura” para a democracia e para a entrega
do poder governamental novamente aos civis. Após 1979, com a Anistia Política,
os eLivross puderam voltar e, então, o regime começou a oferecer chances para
uma transição para a democracia.
Em 1982 houve eleições diretas para os governos de estados e o sistema
partidário foi recriado. A partir daí, da força de governadores eleitos, é que surgiu
a Campanha das “Diretas Já”. Foi então que os dias do regime militar começaram
a estar contados. De fato, o último dos presidentes generais, João Figueiredo, ele
própriopassou a enumerar os dias para o término de seu mandato. Nenhum período
da República terminou igual, com as forças derrotadas saindo do governo com
tamanho desprestígio popular. A inflação havia subido e o “milagre econômico”
dos anos setenta, no qual ocorreu um tempo de elevação do consumo, ao final, se
revelou uma grande enganação. Os militares saíram desgastadíssimos do governo,
mas os civis que foram se aliando a eles, nem tanto.
De fato, na redemocratização, muitos líderes civis que foram gerados pelas
forças ditatoriais conseguiram sobreviver na política democrática. O destaque
maior foi para Paulo Maluf e Delfim Neto, políticos sempre bem votados em São
Paulo. Esse fenômeno se repetiu em cada estado, com políticos locais. Não à toa,
no início dos anos noventa, na primeira eleição direta para a Presidência da
República, a direita conseguiu sair-se vitoriosa nas eleições, por meio de um
candidato oriundo desse meio, o jovem Fernando Collor de Mello.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 13
A brisa varguista no pós-64
 
A Campanha das “Diretas Já” não atingiu seu objetivo, pois a Emenda
Dante de Oliveira, que visava instaurar as eleições diretas, foi rejeitada no
Congresso. A saída encontrada por grupos tanto da situação quanto da oposição
que queriam a redemocratização completa, foi encerrar o “período de 64” por
meio de eleições no Colégio Eleitoral. Pela primeira vez a disputa foi entre dois
civis: Paulo Maluf pelo governo (PDS) e Tancredo Neves (PMDB) pela oposição.
Venceu o segundo, tendo como seu vice um dissidente do regime ditatorial, José
Sarney.
Tancredo discursou, dizendo que, ali no Congresso, com a sua eleição,
nascia a “Nova República”. Mas esse novo período ainda devia muito a Vargas.
Vargas havia gerenciado dois partidos, o PTB e o PSD. Com o primeiro,
controlou os trabalhadores urbanos; com o segundo, manteve forte ascendência
sobre as oligarquias agrárias. Com ambos, trouxe sob sua batuta um exército de
funcionários públicos. Na sua morte, a Carta Testamento foi para as mãos de
Jango, o homem do braço sindical varguista; mas a caneta de Vargas ficou com
Tancredo Neves, um fiel escudeiro. Vargas deteve poderes sobre a esquerda e parte
da direita. O “Movimento de 64” derrubou o homem da Carta Testamento[6], e foi
derrotado pelo homem da caneta.
Todavia, Tancredo não tomou posse. Acometido de diverticulite, manteve-
se preocupado demais com a transição e negligenciou sua saúde. Foi atendido no
Hospital de Base de Brasília, onde contraiu “infecção hospitalar”. Seu quadro
agravou-se e ele ficou reduzido a um conjunto de órgãos mantidos artificialmente
por máquinas. Sarney parecia rezar para não ter que tomar posse, pois não tinha
prestígio popular para tal. Todavia, não restou outra saída. Assim, o homem que
efetivamente tomou posse em 1985 foi José Sarney. O seu grande adversário era a
inflação. Todo o resto foi esquecido. Até mesmo o debate internacional sobre a
Queda do Muro de Berlim já não importava mais. O que importava era derrotar a
inflação.
O episódio da morte de Tancredo Neves foi comovente. Multidões se
aglutinaram na porta do hospital diariamente, euma fila enorme de velas dominou
as calçadas. O país inteiro entrou em um contínuo de orações privadas e públicas.
Mesmo quando todos os informes médicos levavam muitos a acreditar que o
presidente talvez nem mais existisse, que ele havia sido reduzido aos seus órgãos
separados, a esperança popular não arredava pé de frente do hospital.Não foram
poucos os que passaram a acreditar que aconteceria um milagre, e que Tancredo
apareceria de novo no parapeito do hospital para, lá de cima, acenar.
O enterro de Tancredo foi televisionado do começo ao fim, ao som de
Coração de Estudante, uma canção que já vinha desde a campanha das Diretas Já
embalando as esperanças de redemocratização do país. Uma multidão espetacular
acompanhou o féretro até o aeroporto. O corpo de Tancredo seguiu para São João
del Rey, em Minas Gerais. Quando o avião apontou o nariz para a arrancada, a TV
deixou apenas a voz de Ulisses Guimarães ao fundo, dizendo “vai então, Tancredo
amigo”. Foi uma época de grandes líderes,uma época de homens que realmente
queriam um Brasil melhor, efoi uma época de destaque para o incansável Ulisses
Guimarães que, sem qualquer orgulho pessoal, cedeu espaço para Tancredo, para
que a transição negociada com os militares pudesse dar certo.
No decorrer do movimento de redemocratização[7], especulou-se que a
transição poderia ser feita por meio de Ulisses, tornando-se ele o novo presidente.
Ele próprio sabia que não. Na campanha pelas eleições diretas, Ulisses Guimarães,
não raro,radicalizou seu discurso, fustigando os militares e enaltecendo certas
posturas consideradas muito à esquerda por eles. O melhor nome para uma
conciliação entre o regime que estava desaparecendo e aquele que viria surgir era,
de fato, o de Tancredo Neves, então governador de Minas Gerais. Apesar de vir do
varguismo, Tancredo sempre se manteve como um conservador em matéria de
costumes, e além disso, pouco antes de se candidatar à presidência pela via
indireta, usando a sigla PMDB, ele havia estado no Partido Popular (PP), uma
sigla nitidamente vinculada aos banqueiros. Inclusive, Tancredo tinha uma visão
liberal em economia, mantendo os setores mais ricos do país em tranquilidade
quanto aos rumos da nova era que deveria abrir no país.
Foi assim que nasceu o que o próprio Tancredo batizou de “Nova
República”, título que, mesmo após seu falecimento, permaneceu nos jornais e deu
marca para o período do governo de José Sarney.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 14
A candidatura do corpo
 
O regime militar terminou em 1985. A Constituinte foi em 1988. A
nova Constituição instituiu novamente as eleições por meio de voto direto,
sem o chamado colégio eleitoral.
O governo de José Sarney começou bem. Por conta do apoio
popular às teses do PMDB, que visava recuperar o poder aquisitivo dos
mais humildes, o novo governo tinha legitimidade e credibilidade. Mas os
planos econômicos não vingaram. Sarney terminou o governo desgastado,
mascontinuou carreira política se elegendo senador pelo Amapá, um estado
com pouca exigência de votos para o senado. Sarney jamais ficou de todo
afastado de postos chaves da política brasileira, desde antes de 1964 até os
dias do governo Bolsonaro, quando então prometeu se aposentar.
Em 1989, Lula e Collor disputaram o segundo turno da primeira
eleição à Presidência da República pelo voto popular direto. Coube a
Collor, de modo inédito, inovar o cenário da política brasileira. Foi com ele
que surgiu aquilo que, na altura, o ator Ney Latorraca notou bem: trata-se
da “candidatura do corpo”.
Jovem, belo, esguio e com fala firme, Collor conquistou muitos pela
sua aparência de disposição e garra. Diferentemente de todos os outros
políticos de antes dele, Collor trouxe, para o palco político, a aposta na
silhueta. Até então, isso tinha pouca ou nenhuma importância. O fenômeno
da aparência como algo decisivo em política ainda era prerrogativa da
América. Foi algo iniciado com Kennedy e, depois, cada vez mais,
espalhado pelo mundo. Aproveitar-se disso na TV tornou-se uma arte e uma
sorte. Collor usou de arte e teve sorte. Afinal, Lula, seu adversário, quanto a
esse quesito imagético, insistiu em manter-se com a aparência do operário.
Não foi boa ideia. O Brasil vinha mudando a passos largos, a imagem do
“operário de fábrica” estava começando a ficar no passado. Não era mais
uma marca significativa para a sociedade, nem para o bem e nem para o
mal.
Uma vez no governo, Collor inaugurou uma prática relativamente
populista, com similaridades ao modelo fascista de culto da ação e da
juventude. Montou um partido inexpressivo, o PRN, Partido da Renovação
Nacional, pois seu segredo era a comunicação direta com os seus eleitores.
A mediação dos partidos e do próprio Congresso não lhe interessava. A
ideia básica era a de que, olhando para o seu corpo, a nação soubesse por
uma espécie de osmose o que viria pela frente, e qual ordem seguir. Assim,
com corpo atlético, Collor acordava cedo e saía para a corrida matinal,
vestindo uma camiseta branca com dizeres normativos. A nação tinha que
ler no seu corpo o que ocorreria no governo. Tínhamos que entender através
dos dizeres da camisa qual o espírito que o povo brasileiro deveria cultivar.
De jet-ski ou de jato da Força Área, Collor dava demonstrações de
habilidade corporal, resistência física, audácia e, em especial, juventude:
um presidente de apenas 40 anos. A regra era manter seu corpo em
evidência, como um outdoor sujeito à periodicidade diária. A cada
camiseta, novos horizontes eram anunciados. Nenhum porta voz, partido ou
amigo: só ele dizia, e não dizia com palavras faladas, mas escritas em seu
próprio peito. A imprensa passou a fazer sua pauta a partir de camisetas!
A ideia de não ter mediações no trabalho da política lhe custou caro.
Ao menor sinal de corrupção, os estudantes saíram às ruas, pintaram os
rostos de verde e amarelo e passaram a minar as bases de apoio de Collor.
Ele tentou revidar, mas se esquecendo do poder do Congresso, descuidou do
pedido de Impeachment que, sendo um instrumento político, o tirou do
poder em seu segundo ano de mandato. A política do corpo perdeu para o
corpo político,ou seja, o presidente perdeu para o Congresso.
Muitos disseram que ele caiu pela corrupção, outros falaram que foi
por não saber negociar no Congresso e, enfim, também existiram aqueles
que apontaram para o choque neoliberal dado pelo presidente como uma
mão pesada, que descontentou a todos. Nunca se deve esquecer o famoso
sequestro da poupança. Entretanto, talvez, sua derrota tenha vindo pelo
mesmo instrumento pelo qual ele venceu e quis governar: o corpo. Em
determinado momento da derrocada, ele tentou mudar a imagem, passou a
carregar livros embaixo do braço – o dicionário de política do pensador
socialista italiano Norberto Bobbio. Mas o seu público básico era avesso a
livros. Seus correligionários o seguiam exatamente pela sua capacidade de
simplificar mensagens, criar pantomimas. Em relação ao Impeachment, o
que conta na política – ou contava – ainda é a atividade parlamentar.
Quando Collor se deu conta que sua presença corporal não mais lhe
ajudava, já era tarde, pois o Impeachmentfoi posto no horizonte eo
empurrou para uma renúncia.
Além de tudo isso, restaram então, na imagem popular, aspectos
sombrios a respeito de seu governo: as bruxarias que teria promovido na
Casa da Dinda, e a relação com seu tesoureiro de campanha, Paulo César
Farias, que acabou preso. Uma vez em liberdade, PC foi assassinado junto
com a namorada, num crime jamais desvendado. A política do corpo não
sobreviveu, mas o ideário que veio no seu invólucro, o neoliberalismo,
começou ali e teve continuidade, paradoxalmente, pelo partido que deveria
ser contrário a ela: o PSDB – Partido da Social-Democracia Brasileira.
Daqueles dias até hoje, o PSDB só caminhou para a direita.
Na verdade, o período de Collor ganhou um final relativamente
trágico. Collor foi duramente afrontado por um movimento de rua,
principiado por estudantes. O líder desses estudantes era Lindbergh Farias,
ironicamente, um garoto muito bonito, que, depois, se tornou senador pelo
PT. Foi uma guerra estética, uma guerra de exibição de juventude, uma
disputa de silhuetas. Foi um período em que o Brasil perdeu para si mesmo,
por conta de um show de narcisismo de jovens.
Collor colocou o Brasil no rumo do neoliberalismo. As forças de
esquerda e o campo democrático de centro o tirou do governo. Ele se
complicou por conta da corrupção. Mas se isso deu fôlego ao movimento
das ruas contra ele, não foi exclusivamente por conta dessas suas diabruras
que ele caiu. Suas medidas econômicas inviabilizaram o país. E o impacto
do “confisco da poupança”, logo no início de seu governo, não só levou o
país a uma recessão, como também não derrubou a inflação. Isso o fez
perder apoio na classe média de um modo geral A população brasileira,
mesmo tendo decidido em seu favor nas eleiçõescontra Lula e, de certo
modo, contra Covas e Brizola, não estava disposta a ceder às reformas
neoliberais. Para muitos, essas reformas soavam, mesmo com a propaganda
da mídia a seu favor, uma perda de direitos que não iria ser recompensada.
 
 
 
 

CAPÍTULO 15
Neoliberalismo, FHC e Lula
 
Na conjuntura vigente naépoca do final do governo de Itamar
Franco, que substituiu Collor, as disputas por reformas neoliberais foram
menos estridentes. Mas não pela perda de força do neoliberalismo no
subterrâneo dos meios acadêmicos e da mídia. Havia espaço para elas,
contanto que, antes, o Brasil resolvesse o seu já crônico problema
inflacionário.
Ao final do governo de Itamar, por conta do Plano Real –
quederrubou a inflação de quase duas décadas –, a vida política lançou para
o estrelato um novo personagem: Fernando Henrique Cardoso. Atuando
como ministro da Fazenda de Itamar, ele organizou a equipe de economistas
que fez o Plano Real e, por isso mesmo, cacifou-se como candidato à
presidência da República. Venceu as eleições, deixando em segundo lugar o
líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.
O Plano Real foi visto por muitos como um plano acima de qualquer
suspeita. Não seria de esquerda ou direita, mas algo “necessário”. A
inflação havia se tornado um inimigo maior. No entanto, é correto dizer que
as medidas de FHC (como Fernando Henrique foi batizado pela mídia)
foram verdadeiramente um plano neoliberal. Fernando Henrique Cardoso
veiono interior de um partido com o nome da Social-Democracia. No
mundo todo, no entanto, a Social-Democracia parecia não saber o que fazer
senão ceder ao neoliberalismo.
A administração americana de Bill Clinton (1993-2001), quase no
mesmo período da presidência de FHC (1995-2003)no Brasil, também se
deixou levar pelo neoliberalismo, ainda que, diferente do Brasil, não tenha
abandonado os programas sociais tradicionais do Partido Democrata.
Naquela época, Fernando Henrique Cardoso, em palestra na Unicamp,
chegou a dizer que diante da “onda neoliberal” faria como fazemos em
banho de mar. Diante da onda, ele abaixaria, deixaria passar e, então,
voltaria a atuar de maneira mais à esquerda. Não foi isso que ele fez. FHC
começou neoliberal, administrou de modo neoliberal e terminou neoliberal.
Os que buscaram justificar o Plano Real, mesmo após seus
problemas começarem a aparecer, argumentaram que, sem esse programa
político,o Brasil não teria entrado para o mundo globalizado. Estaríamos
com um sistema de telefonia da época do telégrafo e com uma “internet
tocada a lenha”. Essas vozes caminharam por uma análise superficial. O
que foi feito pelo Real para nos colocar no interior da tal “globalização
necessária”, como muitos diziam, se realizou segundo um custo social
inaudito. Dizer que não havia outro caminho foi uma mentira. Foi a versão
de Margareth Thatcher para o Brasil. À Dama de Ferro foi atribuída a frase
“Não há alternativa”, quando impôs aos britânicos o modo de viver
neoliberal. No Brasil, essa ideia causou bem mais estragos do que nos
países de economia capitalista desenvolvida.
Em termos mais gerais, o Plano Real foi aceito pela população
porque derrubou a inflação. Ninguém mais aguentava viver sem poder
planejar o dia a dia.
Assim, Fernando Henrique Cardoso chegou à presidência laureado
pelo sucesso inicial do Plano Real. Essa imagem foi a que vingou do ponto
de vista popular, mas do ponto de vista dos escolarizados, a imagem de
FHC mudou, especialmente durante o seu segundo mandato de governo.
Para essa parcela escolarizada da população,ao menos no início do primeiro
mandato, tratava-se de depositar confiança no professor Fernando
Henrique, o sociólogo, e que, na imagem construída por vários, poderia
aparecer como a de um socialista. Essa dupla imagem permaneceu na
impressa durante certo tempo. Mas ela, obrigatoriamente, acabou se
desfazendo.
Não tardou para a imprensa começar a perceber que FHC não iria
pender para a social-democracia, como seria o esperado dado a sua
trajetória. A frase “esqueçam tudo que escrevi”, atribuída a FHC em um
jantar com empresários em 1993, ecoou durante bom tempo na mídia, e deu
margem a todo tipo de especulação. Para uns, era a consciência de que, em
política prática, a teoria sociológica tem que ser relativizada, para outros,
era uma frase cínica, que cedia demais ao realismo político. Para o PT, era a
confissão de que, se um dia FHC foi de esquerda, não era mais o caso. De
certo modo, todas essas avaliações tinham algo de verdadeiro.
O certo é que Fernando Henrique sempre se sentiu livre para tomar
medidas segundo as conveniências do momento. No início, festejando o
sucesso do Plano Real, depois, amargando uma acentuada queda de
popularidade, especialmente no seu segundo mandato, FHC não se fez de
rogado: lutou de modo desesperado no sentido de deixar o seu partido, e
não ele próprio, o responsável pelos descaminhos visíveis. Ao término de
oito anos de mandato e já em meio ao governo Lula, FHC reclamou do fato
de não ter tido a sorte que, enfim, seu sucessor veio a obter logo depois.
Culpou a situação internacional e, em parte, tinha lá sua razão. O cenário
internacional que FHC enfrentou foi, efetivamente, bem pior que o de Lula.
Enquanto este viu a China aumentar as suas necessidades de compra de
commodities do Brasil, aquele só viu os ganhos do Plano Real perderem
efeito. Claro que não foi só isso que deu diferença entre o governo do
PSDB e o governo do PT que o sucedeu. Mas, em parte, essa participação
da China na história brasileira fez valer uma marca na vida do país. Só bem
depois do governo Lula é que os analistas começaram a levar a sério o
papel da China naqueles tempos. Afinal, o aumento de salário-mínimo,
proporcionado pelo comércio com China, marcou época.
O resultado disso, ou seja, a herança de disputas entre o PT e o
PSDB, criou o quadro em que Lula e FHC se projetaram, então, como as
lideranças mais velhas da política. Lula e FHC vieram a se referir um ao
outro de diversos modos, ora com respeito e ora com farpas. De qualquer
modo, ambos construíram formas de governar que deixaram patente uma
verdade, ao menos para aquele tempo: qualquer tipo de esquerda que
quisesse administrar o país teria de ceder muito à direita. Eles tiveram de
cumprir essa cartilha, e isso resultou em um peso enorme no modo como
governaram.
Para governar, FHC teve de trazer Marco Maciel como seu vice, um
político liberal conservador clássico. Para governar, Lula teve que trazer
como vice o empresário José de Alencar, um homem não voltado para a
política, mas sem dúvida um líder entre boa parte do empresariado. Os dois
governos, cada um ao seu modo, cumpriram o programa neoliberal que já
estava dominando o mundo a partir de 1980, e que aqui havia se iniciado
com Collor. Trouxeram o Brasil para o campo das privatizações e da
política integrada ao capitalismo financeiro, vigente no mundo atual.
Alguns teóricos, depois, colocaram as gestões de FHC e Lula como
formando uma única etapa histórica. Assim, em uma avaliação geral, tais
teóricos fizeram questão de frisar que o mérito do primeiro teria sido a
derrubada da inflação, e o do segundo teria sido a melhoria do salário-
mínimo e a implementação de programas sociais. Em nenhum momento
daqueles tempos alguém imaginou o país entregue às mãos de um capitão
reformado do Exército, como o que veio a ocorrer em 2018.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 16
Betinho e Lula: da compaixão ao
consumo
 
Ao final do segundo mandato de Fernando Henrique como
presidente da República, o Plano Real já fazia água por todos os lados eo
aumento da miséria assustou os brasileiros. A miséria se tornou algo capaz
de cortar o coração mesmo dos que não estavam nela. Pela primeira vez a
esquerda resolveu agir de modo extra político. Afinal, a esquerda sempre
pensou a miséria não como um problema que pudesse contar, para ser
amenizado, com a Igreja. Nem mesmo o voluntarismo e ações coletivas
eram de seu interesse. Para a esquerda, tradicionalmente, a miséria deveria
ser um problema do poder, da ação estatal.
A Ação da Cidadania Contra a Fome, levada adiante pelo Betinho, o
sociólogo Herbert de Souza, já existia desde 1993. Mas só ao final do
governo de FHC é que ela foi realmente prestigiada pela população. Da
noite para o dia, muita gente de esquerda começou as fazer doações para a
ONG do Betinho. A ideia era garantir, naquele momento de desespero, ao
menos a sobrevivência. Foi uma campanha bem-sucedida, e preparou o país
para o amadurecimento de uma ideia que acabou comandando a política dos
anos seguintes: a consciência de que era preciso uma ação que desse o
peixe, pois parecia não haver tempo para se ensinar a pescar.
Foi esse movimento, essa mobilização do Betinho, que resultou em
uma consciência nacional de época. Todos diziam: FHC derrotou a inflação,
mas não fez política social. É necessário, agora, um presidente que tenha
conhecido a dificuldade de viver sob duras carências. O eleitorado clamava
por um presidente “com mais sensibilidade social”. Foi por essa via que o
nome do Lula passou a ser contado de modo sério no plano eleitoral.
Apesar de várias derrotas anteriores, Lula agora, então, poderia contar com
o apoio de um número maior do que somente a sempre cativa clientela do
PT.
Não deu outra: Lula tomou posse como presidente e, no discurso de
vitória, disse que sua prioridade era fazer com que nenhum brasileiro
ficasse sem duas refeições diárias. Um de seus primeiros programas foi o
Fome Zero.
No primeiro momento, a ação do Fome Zero foi levada adiante sem
qualquer êxito. Lula amargou dois anos de governo em que nada dava certo
no sentido de satisfazer os seus eleitores, os trabalhadores e os mais
pobres.Depois, com o Brasil vendendo commodities para a China, foi
possível aumentar o salário-mínimo e, de quebra, desenvolver programas
sociais. Aí sim! Nessa etapa, Lula passou a nadar de braçada sobre qualquer
adversário. Nem mesmo o escândalo do “Mensalão”, com toda a confusão
causada, evitou que Lula conseguisse um segundo mandato. Todavia, em
contrapartida, veio novamente a desmobilização popular. As esquerdas
voltaram, então, a acreditar que só ao Estado cabe intervir contra a miséria,
e a campanha de Betinho arrefeceu.
Aliás, tudo arrefeceu. O país caiu inebriado no consumo “sem eira
nem beira”. A propaganda de que Lula tinha produzido um novo país
adquiriu um tratamento superestimado e o presidente começou a acreditar
que ele próprio era inteligente demais, que era um deus. Esse período da
história foi, mais tarde, batizado por alguns analistas como “milagrinho
brasileiro”, em analogia ao “milagre brasileiro” dos anos setenta, outra
época de criação de bolha de consumo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 17
Lula
 
Lula foi eleito presidente da República em 2002 einiciou o governo
em 2003. Durante dois anos o seu governo patinou. Nada saía correto. Em
2005, veio a “crise do ‘Mensalão’”. “Mensalão”? Do que se tratava?
A ideia básica do “Mensalão” era simples. Uma pequena parte da
cúpula do PT entendia que a melhor forma de lidar com certos deputados no
Congresso era simplesmente comprá-los. E assim se fez. Houve o
pagamento a certos deputados, garantindo-lhes um dinheiro mensal extra.
Quando esse esquema de corrupção foi denunciado, o partido perdeu
prestígio e, durante algum tempo, Lula ficou na berlinda. Sairia ou não um
Impeachment?
A venda de commodities salvou a economia brasileira. Junto dela,
algumas políticas sociais de Lula começaram a fazer efeito – em especial o
Bolsa Família. E devemos considerar que, em parte, ele havia conseguido,
já de antes da eleição, um acordo de paz com o setor financeiro do
capitalismo. Esse acordo o ajudou. Lula escapou do Impeachment. O
próprio PSDB, que era oposição, não avançou com o pedido de
Impeachment. Fernando Henrique Cardoso atuou pessoalmente no PSDB
no sentido de evitar que o partido partisse para o ataque direto contra Lula.
Todavia, Lula precisou menos de FHC do que o sociólogo fez questão de
propagar nos bastidores.
O vice de Lula era José Alencar, grande empresário. Ele trouxe parte
das elites econômicas para um apaziguamento em relação ao PT. Antes da
posse, Lula havia redigido a Carta aos Brasileiros. Basicamente, essa carta
dizia que a política dirigida pelas necessidades do capitalismo financeiro,
regrada pelo neoliberalismo, não iria ser alterada. Lula mitigou alguns
estragos da política neoliberal sobre o país, mas não a eliminou. Talvez
tenha sido esse o seu trunfo diante da nação e, de quebra, diante de FHC.
O governo Lula não interrompeu o padrão de acumulação do capital
que veio do vagalhão neoliberal do governo FHC. Em certo sentido, chegou
mesmo a dar continuidade a certas medidas neoliberais que FHC, dado o
desprestígio final de seu governo, não conseguiu implantar. Lula manteve
juros altos e o superávit primário foi até além do que o Fundo Monetário
Internacional (FMI) havia pedido. De quebra, Lula fez a reforma da
previdência do funcionalismo público, impondo perda de direitos aos
trabalhadores do serviço público (o que lhe custou ver surgir uma oposição
interna no PT, cujo resultado foi a criação do PSOL). Também veio, pelas
mãos do governo da época, a reforma da lei de falências. Essa reforma
claramente priorizou os interesses dos credores financeiros.
Lula foi eleito para um segundo mandato. Então, a política de venda
de commodities, desenvolvida em especial pelo crescimento do capitalismo
chinês, realmente deu o efeito positivo. O aumento do salário-mínimo e os
programas assistenciais fizeram o que tinha para ser feito: tiraram muita
gente da extrema pobreza, aqueceram a economia, geraram empregos e uma
ampliação de ganhos culturais. Ao terminar o segundo mandato, a
aprovação popular de Lula era de 87%. Um feito inédito na República até
então.
Mas o PT ganhou, em suas gestões, outro escândalo: o “Petrolão”. O
PT se envolveu em mais erros, e todo o partido parecia estar atrelado aos
esquemas de corrupção dos partidos de direita, aos quais havia se associado
no sentido de obter base parlamentar para atuar. Um partido como o PT,
com certo discurso moralista (“udenismo”, dizia-se) não podia se dar ao
luxo de começar a aparecer, pela segunda vez, envolvido em corrupção. No
entanto, assim apareceu. A imprensa não perdoou. E o prestígio do PT ficou
abalado. Por essa via cresceu a direita, o que culminou no Impeachment de
Dilma e, depois, na eleição de Bolsonaro.
Junto das denúncias sobre o “Petrolão”, as acusações sobre Lula
pesaram em vários sentidos. Ele não poderia ter deixado nenhum fio para se
puxado contra ele, mas deixou. Acusações verdadeiras se misturaram a
acusações e provas pouco consistentes contra ele. A peça toda contra Lula
foi elaborada pela equipe da “Lava Jato”, e eis que Lula amargou mais de
um ano na cadeia. Antes mesmo de ser solto, Lula viu o jornal The
Intercept mostrar gravações em que o juiz Sérgio Moro – responsável por
julgar o caso de Lula na “Lava Jato” – aparecia como quem dirigia
testemunhas no sentido de tornar sua condenação segura e rápida. Lula saiu
da prisão chamuscado e com o PT debilitado, mas de uma maneira a se
mostrar ainda como líder de esquerda.
Seu potencial, no sentido de conseguir votos, era visível. Muitos
duvidavam disso. Não o próprio Lula. Ele se caracterizou como o único
político brasileiro a percorrer o Brasil de ponta a ponta, por razão de
decisão tomada quando terminou seu mandato como deputado federal. Foi
quando decidiu que só seria candidato novamente se fosse para a
presidência da República. Essa sua experiência de viagens pelo Brasil lhe
deu uma confiança fantástica em sua capacidade falar ao brasileiro sobre
necessidades expressas. Além disso, Lula sempre acreditou que seu
programa de “neoliberalismo mitigado” havia obtido sucesso efetivo e de
marketing, diante da gestão de FHC. Apostou nesse dado também contra a
gestão de Bolsonaro.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 18
Impeachment de Dilma
 
Os economistas de diversas tendências registram que o governo do
PT, com Lula, passou a depender demais da venda de commodities para a
China, e quando o país asiático desacelerou sua industrialização, em
especial na crise americana dos subprimes, de 2008, vieram então as
alterações drásticas na política interna do Brasil. Por esse pensamento, o
governo de Dilma Rousseff, desde o início de seu segundo mandato, já
estava predestinado a fracassar.
Já os políticos traçam outros diagnósticos a respeito do que ocorreu
com o PT, especialmente com Dilma. Mas, se há um consenso entre eles
sobre tudo o que se passou por aquela época, trata-se do que é dito a
respeito de Dilma. Ela se mostrou inábil à medida que as dificuldades foram
se ampliando, e foi se isolando perigosamente de todos os lados.
Por sua vez, os analistas políticos mais experientes tendem a
considerar esses dois elementos, o dos economistas e o dos políticos, e
acrescentam mais um: o PT pregou certo udenismo, certa moralização da
política, e quando o próprio partido se viu envolvido em corrupção, atraiu
para si um desencanto maior que aquele que poderia ser provocado por
outros partidos na mesma situação.
O fato é que as coisas ruins decisivas para o PT se deram com
Dilma, pois foi ela quem sofreu o Impeachment, ninguém mais. Muitos
disseram que Dilma passou mais dificuldade que outros em situação
semelhante, por conta do machismo brasileiro.  Comentou-se que por ter
sido uma prisioneira política, atraiu muito mais o ódio de forças
obscurantistas que, enfim, reapareceram nas ruas defendendo até golpe
militar. É difícil não admitir que há algo de verdadeiro nessa avaliação.
Mas o que também pode chamar a atenção a respeito da Era Dilma é
que o seu encerramento se deu por obra de duas mulheres, ambas com
personalidades deliciosas aos caricaturistas. Ao lado de Dilma emergiu sua
carrasca, Janaína Paschoal, uma advogada até então desconhecida,
professora do Direito da USP. Se Dilma foi considerada engraçada falando
e andando, a advogada Janaína era, sem dúvida, um personagem não menos
curioso. Em falas na TV, em entrevistas, ela se mostrava técnica e com certa
sensatez, mas em comícios, Janaína perdia totalmente o bom senso.
Descabelada, ela rodava com a bandeira do Brasil nas mãos, e retorquia
adjetivos ao PT. Chamou Lula de “grande jararaca” e falou do PT como
uma seita que “dominava as mentes das pessoas”. Ao mesmo tempo, para
não deixar dúvidas de que seu entendimento mental nada tinha de
sofisticado, Janaína fazia questão de aplaudir o guruterraplanista Olavo de
Carvalho, a quem atribuía o título de filósofo!
Janaína tanto discursou com a mesma tese, tanto repetiu a cartilha,
que até conseguiu desempenhar o seu papel no episódio final do
Impeachment. Mas o que ela fez foi sustentar uma acusação segundo uma
tese que permaneceu dúbia até o final. A acusação contra Dilma, de ela ter
cometido “pedaladas fiscais”, nunca foi um argumento técnico plausível,
realmente digno de encerrar um mandato de presidente da República.
Todavia, ao contrário do que o PT quis que prevalecesse, isso não
invalidaria o Impeachment. O procedimento do Impeachment sempre é
essencialmente político. É um julgamento político. E Dilma recebeu o
Impeachment, é claro, porque a imagem do PT piorou na sociedade. Ela
descuidou do Congresso, pois acreditou que o PT poderia vencer o embate
nas ruas, e então convencer o Congresso de não aprovar o Impeachment.
Esqueceu-se que, em 2013, as manifestações não foram feitas pela direita,
mas por movimentos libertários e por simpatizantes da esquerda. A direita
presente nos movimentos de 2013 era minoria.Em termo oficiais, o PT se
colocou contra os movimentos de 2013. E aí perdeu suas bases. Quando
chamou seus militantes de volta, para reclamarem contra o Impeachment,
não os conseguiu atrair para as ruas. O PT havia sido abandonado por
muitos de seus eleitores e pagou um preço alto por isso. Talvez o maior
preço não tenha sido o Impeachment, e sim a eleição de Bolsonaro. A
emergência da direita com força nas ruas foi avaliada por muitos eleitores
do PT como um fruto do próprio PT. Sem os descaminhos do partido, sem o
desencanto que provocou, seria difícil de imaginar um tipo como Bolsonaro
na presidência da República.
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 19
Impeachment ou golpe? Ora, que tal
manter os dois?
 
No início de 2018, um professor americano que se qualificava como
“amigo de todo mundo no Brasil, menos de Jair Bolsonaro”, James Green,
iniciou uma coleta de assinaturas para um manifesto contra algumas falas
do ministro da Educação no Brasil, Mendonça Filho. Quais falas? Infelizes
dizeres, informando que iria investigar professores e departamentos das
universidades públicas que estivessem ministrando as então chamadas
disciplinas sobre “o golpe de 2016”.
Qual era o problema identificado pelo nada inteligente Mendonça
Filho? A expressão “golpe de 2016”.
Mendonça Filho acabou entrando numa guerra que ele não percebeu
que não valia à pena – uma guerra semântica. Ou seja, a disputa para
caracterizar a queda de Dilma. Uns queriam chamar de golpe, outros
queriam chamar de Impeachment, como se fossem denominações
exclusivistas, que não poderiam conviver. A ignorância fazia o Ministro não
perceber que era a mesma coisa que havia se dadono episódio da disputa
entre os termos “golpe de 64” e “Revolução de 1964”. Os autores e
apoiadores dos eventos de 64 preferiam “Revolução”, os outros, preferiam
“golpe”. Os historiadores ensinaram, depois, que a narrativa historiográfica
iria usar as duas palavras, segundo a própria trama a ser contada.
A investigação em disciplinas acadêmicas é uma ameaça à
democracia. Todo mundo sabe disso. Mendonça Filho sabia? Creio que
Mendonça se arrependeu de ter falado o que falou. Ele se desgastou
antecipadamente – embora nem tivesse tanto prestígio para poder perder
algo. Muito menos ele tinha poder de antecipar o trabalho que seria o dos
historiadores. Eles é que são, de fato, os que decidem qual será o
vocabulário da historiografia futura.
A maioria dos professores americanos, e, não raro, mesmo os que
têm conhecimento do Brasil, acha que o nosso país não é nada além de uma
republiqueta latino-americana sujeita a golpes. Eles acreditam que Trump e
Bush não foram golpes. Enquanto nós, da esquerda brasileira, talvez
disséssemos que foi! A democracia americana se mostra aos americanos
contínua e sólida, e por isso não passa pela cabeça do americano médio que
uma eleição ou um impeachment, se ocorrem ali nos Estados Unidos, sejam
ilegítimos. Aqui não. A impressão que se tem daqui é diferente. E a
impressão que temos e que reverberamos também é diferente. Aqui, não
raro, acreditamos que todo dia podemos sofrer um golpe (que é a história da
Bolívia e não a nossa). Essa crença se espraia entre a nossa esquerda, e
aparece na cabeça deles, americanos, também como uma história possível
de ser contada.
Pessoas ideologizadas demais sempre caem no ridículo. Green
pareceu para uns como ridículo, e isso por conta do exagero. Mas, é claro,
ridículo mesmo foi Mendonça Filho, por conta de ter deixado transparecer
sua faceta de feitor, não de Ministro. Pessoas preocupadasem reprimir
situações por conta de anzóis semânticos escorregam e caem de traseiro no
palco. Tanto faz se a pessoa é de esquerda ou direita. A ideologia é uma
casca de banana.
O que é um anzol semântico? Green anunciou um: ele perguntava
se, ao dar um curso sobre 1964 no Brasil, o professor deveria denominar o
curso de “Golpe de 64” ou de “Revolução de 64”? Ora, o certo seria não ter
que optar de modo excludente. E isso, claro, não em nome de uma
neutralidade – que não existe – mas em busca de uma faceta de uma melhor
sociologia na universidade. Essas áreas – sociologia e ciência política –
carecem de estudos sobre “guerras semânticas”. Nesses estudos deveriam
estar os anzóis semânticos – palavras que querem agarrar militantes, e, às
vezes, desconcertar posturas.
Um bom curso sobre 1964 começaria pelas semânticas em jogo no
pós-31 de Março. Começaria falando dos agentes em questão e de como
eles começaram a disputa terminológica. Como se deu? O novo governo
falava de “revolução”, os derrotados falavam de “golpe”. Um bom curso
sobre 2016 (queda da Dilma) poderia seguir o estudo dos anzóis
terminológicos, e teria de incluir o manifesto de Green e a fala de
Mendonça como elementos que estão no terreno da luta por hegemonia de
narrativas. Um bom curso de guerras de terminologia seria mais inteligente
que um curso (rasteiro) de militância política. Se a esquerda perdeu na
política, o refúgio dela na universidade é normal – é uma regra isso. A
direita não tem essa saída, quando ela perde, dado que têm poucos
intelectuais, ela faz menos barulho. Mas o barulho é sempre, antes de tudo,
algo da “guerra semântica”, aquilo que não é estudado, pelo menos não até
recentemente.
Cursos de militância política atraem estudantes e professores
militantes. Devem existir nas universidades livres em uma democracia. Mas
também deve existir pessoas que querem ser mais inteligentes que o
militante fanatizado. Os mais inteligentes não suportam esses cursos que
adotam a postura não investigativa, e que tomam como ponto de partida,
sem discussão, uma terminologia acrítica. Isso é maçante. Só mesmo um
Mendonça Filho poderia conseguir dar legitimidade acadêmica a tais
cursos. E ele, com a fala desastrada, assim conseguiu. Diante do que ele
falou, qualquer professor com consciência de professor assinaria o
manifesto de Green.
Os militantes tendem a querer que os livros de história grafem
“Golpe de 2016”, mas isso pode ser mais por mágoa e derrota do que por
consciência crítica de que estão em uma “guerra semântica”. O melhor
papel da universidade inteligente é perceber isso analiticamente, e não
pregar isso de modo a imitar gritos de garotos de diretório estudantil.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Capítulo 20
General Villas Boas e a revisão da
história
 
Em 1982, nós elegemos Franco Montoro governador de São Paulo.
Era uma eleição estratégica. A partir dali, do Palácio dos Bandeirantes
sairia o maior apoio para a movimentação que recebeu o nome de “Diretas
Já”, que desembocou em 1985, no fim do ciclo dos generais militares na
chefia do Planalto. Foram anos politizadores,os vividos entre 1982 e 1985.
O regime iniciado em 1964 estava agonizante. Esperávamos seu fim.
Ao mesmo tempo, na Europa, o debate entre social-democratas,
liberais e comunistas fervilhava, especialmente na Itália e na França. Era da
primeira que vinha nossa literatura em política. Tudo que o Partido
Comunista Italiano fazia era republicado aqui. Os escritos de Gramsci
passaram a exercer enorme influência entre nós. Norberto Bobbio era lido e
relido. Em lugar algum do mundo alguém tinha mínima desconfiança sobre
o que logo ocorreria: que no final da década o comunismo seria varrido da
face da Terra, e que a própria URSS, logo no início dos anos noventa,
desapareceria. A esquerda no Brasil não era mais comunista, era social-
democrata, mesmo que leitora dos textos gramscinianos. É que o próprio
Partido Comunista Italiano (assim como o francês e vários outros partidos
comunistas europeus) havia decidido por uma via próxima da social-
democracia, apelando para a disputa pelo voto, abandonando a via
revolucionária tradicional (a de Lênin e do bolchevismo de 1917) e obtendo
vitórias respeitáveis em pleitos em várias instâncias. A influência dessa
literatura corria solta entre nós, tanto na esquerda do PMDB quanto no PT.
Foi nesse clima que muitos foram ao cinema, em 1984, ver o filme
de Nelson Pereira dos Santos, Memórias do Cárcere. O filme corresponde
ao livro homônimo de Graciliano Ramos. Trata-se da história do autor na
prisão, por conta de sua participação na Intentona Comunista, realizada em
1935. O ator que fez o personagem de Graciliano era Carlos Vereza, então
homem de esquerda, afinado com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Ele contracenou com a Glória Pires. Um grande filme! Pode-se ver, ali, que
havia pouco comunismo na “Intentona Comunista”, e muito mais de
simples militarismo.
De fato, a Intentona Comunista ocorreu porque Vargas colocou a
Aliança Nacional Libertadora (ANL), um conglomerado de grupos de
esquerda capitaneados pelo Partido Comunista, na ilegalidade. O fato é que
havia muitos militares na ANL, chefiados por Carlos Prestes e por Barata
Ribeiro, e esse pessoal resolveu reagir à bala à proibição do governo de
Vargas. Foram todos presos e passaram o diabo na cadeia. Essepessoal não
era propriamente comunista. Eram tenentistas que unificaram positivismo,
militarismo e um pouco de conversa sobre leninismo, e que confundiam
revolução com golpe de estado. Assim, a Intentona Comunista, no que teve
de luta e violência, se fez por conta da militarização dos dois lados. Não foi
uma revolta de rua, mas de quartéis. Não foi uma luta entre socialistas e
não-socialistas, mas um desfecho de uma luta entre grupos militares que
haviam já se indisposto antes de 1930, em vários lugares do Brasil. Só
houve morte nesse episódio porque foi um episódio militar. Os comunistas
civis levaram a culpa por conta da afoiteza dos recém-chegados ao partido,
os militares da Coluna Prestes.
Issotudo se transformou em história, ficou no passado e
transformou-se em matéria de vestibular. Mas alguns militares, mais
recentemente, em 2018, que apoiaram Bolsonaro, certamente não fizeram
vestibular. Nunca entenderam o ENEM. Então, por conta disso, o General
Eduardo Villas Bôas, chefe do Exército, aproveitando o clima bolsonaresco
de 2018, requisitou dos quadros intelectuais das Forças Armadas uma
“análise da Intentona”, de modo a evitar o derramamento de “sangue verde
e amarelo”. O General estava muito doente. Talvez, por isso, a ordem tenha
saído assim, esdrúxula, como se estivéssemos em mundo onde os
comunistas ainda representassem uma força política. Mas, enfim, havia
quem acreditasse nisso? Ora, apenas olavetes(discípulos de Olavo de
Carvalho) e alguns ministros. Ou gente ligada ao Bolsonaro e seus filhos.
Claro, também Janaína Paschoal. Mas, sempre soubemos que essas pessoas
nunca tiveram estabilidade emocional segundo os padrões clínicos de
normalidade.
A ordem do General Villas Boas, do modo que saiu, pareceu ser
uma tentativa de revisão do que ocorreu. Teria sido feita para que do
trabalho de “análise” pudesse sair uma cartilha para o MEC distribuir nas
escolas? Estaria ele pensando em reativar a luta entre comunistas e não
comunistas, ao menos no imaginário da juventude, e com isso gerar mais
pessoas mentalmente destrambelhadas, capazes de se tornarem eleitores
futuros da turma do Bolsonaro? Medida louca, tola e inócua. Besteira.
Mas, talvez, tudo isso tenha tido alguma utilidade. Pode ser que a
recuperaçãodesse tematenha contribuído para se aprender que o sangue foi
derramado, em luta política brasileira, não entre civis ou políticos, mas
sempre quando os grupos em disputa já eram grupos com armas, ou seja,
sempre militares. Na verdade, a Intentona foi um evento de quartel. De fato,
nós – que não somos militares – não temosalgo a ver com isso. Desse
modo, o que Vilas Bôas quis, de fato? Sim, ele se comportou como um
típico revisor da história. Ele sempre quis torcer a história a seu favor.
Depois dele, no governo Bolsonaro, apareceram várias iniciativas parecidas
de revisionismo da história.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 21
Minorias
 
O ano de 2017 acolheu o brado de Ives Gandra da Silva Martins:
‘Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem
guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias
atuais?’ Foi assim que o artigo apareceu no jornal O Estado de São Paulo.
Essa frase não poderia jamais ser pronunciada por uma pessoa escolarizada,
muito menos por um jurista. Para além do problema de perversidade moral,
que já seria suficiente para invalidar para sempre a autoridade de qualquer
um que a proferisse, ela contém um erro intelectual. Trata-se de um pecado
primário de não compreensão do que é uma minoria. Os dois erros estão
imbricados um no outro, e se confirmam no texto e contexto da frase.
Ives Gandra não sabia o que é uma minoria. Será que aprendeu? Ele
imaginou que minoria é um grupo de pessoas formadas aleatoriamente, ou
por traços comuns que ele poderia inventar. Ofensivamente, sua fala agrupa
minorias étnicas junto com o que nada tem a ver com minorias, que são os
“assaltantes”. Ora, gays, índios e negros são postos na mesma fileira de
assaltantes! Não é um simples erro ou descuido de linguagem. Desse modo,
ele mostra a mentalidade pela qual se faz necessária a legislação de
proteção de minorias: as leis são para protegerem as minorias de serem
criminalizadas, exatamente como ele, Ives Gandra, faz em sua frase. Além
disso, ele coloca junto de minorias – gays, negros e índios – os “invasores
de terra”, que não são nem minoria e muito menos aprioristicamente
criminosos. Trata-se aí de um reconhecido movimento popular, com
existência legal, o MST. Agrupar tais coisas é fruto de uma confusão
mental. Minoria é uma coisa e assaltante é outra; e invasor de terras é uma
terceira coisa. E guerrilheiro? De onde ele tirou isso? Onde ele viu
guerrilheiro no Brasil do início do século XXI?
Os pertencentes a qualquer grupo desses realmente minoritários –
gays, negros e índios – não deveriam ter deixado de interpelar o jurista Ives
Gandra nos termos da lei. Aliás, se houvesse denúncias suficientes, a
Procuradoria do Estado de São Paulo poderia tê-lo interpelado. Um homem
que havia sido cotado até para ser ministro do Supremo Tribunal Federal
(STF) não poderia exibir-se como um simplório. Ele deveria ser o primeiro
a conhecer as leis e, por causa disso, já saber de antemão o conceito
sociológico de minoria, e saber também que o que falou é ofensivo.
“Minoria” não corresponde a um grupo de “menor número”.
“Minoria” não é alguma coisa exterior ao conceito geral de Direitos
Humanos. Essas coisas estão ligadas. Minoria sociológica se define por um
tipo de “cultura própria”, que pode se fazer por práticas étnicas,
linguísticas, religiosas, sexuais etc. A proteção das minorias se fez presente
na democracia liberal, principalmente após a Segunda Guerra Mundial,
quando a confirmação de genocídios (judeus, negros, pessoas com
problemas físicos, gays, ciganos etc.) por parte dos nazistas veio à tona no
Tribunal de Nuremberg. Daí para diante, a noção  Direitos Humanos passou
a se aliar à ideia de que o estado precisa ser policiado, pois ele pode destruir
não só o indivíduo, mas todo um grupo de pessoas afinadas culturalmente.
A noção de minoria foi se aprimorando no âmbito da sociologia e do
direito. Notou-se bem, então, minorias definidas interna e externamente,
positiva e negativamente. As leis de proteção de minorias vieram a ser
demandadas nas democracias liberais do mundo todo.
Uma minoria definida positivamente são a dos alemães no Brasil, ou
dos japoneses. Há um reconhecimento de grupos culturais afinados com a
cultura alemã e com a cultura japonesa, e o número de virtudes atribuídas a
tais comunidades, no âmbito da conversação hegemônica no Brasil, é bem
maior do que o número de asserções negativas. Mas não é o mesmo caso
para negros ou indígenas. Também não é o mesmo caso para com gays. Na
situação de negros, gays e indígenas (em certo sentido há ainda “as
mulheres”), o reconhecimento do que são minorias, para seus próprios
membros, se faz por conta do impacto da linguagem pejorativa contra eles,
ou mesmo a violência e a discriminação contra eles. O pertencente a uma
determinada minoria descobre-se como membro dela por decisão exterior e
pejorativa. Nasce sujo para o mundo! A cultura o interpela para lhe dizer
que ele não pertence a nenhuma cultura, mas sim ao campo do que não é
humano. O seu próprio corpo é o que denota isso, e ele só percebe seu
próprio corpo, seu eu corporificado, por causa da existência do dedo
indicador ofensivo do outro.
Nesse segundo caso, a minoria, ao se organizar, pode não conseguir
escapar do ressentimento e, então, gerar comportamentos fascistas. Pode
agir contra a cultura hegemônica de modo a reproduzir práticas xenófobas,
aquelas práticas que se fizeram sentir contra elas próprias – nasce daí o
identitarismo. Mas a minoria, não raro, logo faz brotar internamente
lideranças que percebem esse erro, e se desvia do comportamento
meramente magoado para, então, alcançar as práticas de orgulho próprio, de
valorização, de combate inteligente ao preconceito etc. Os movimentos gay,
negro e indígena no Brasil têm aprendido a agir assim, ainda que, às vezes,
possa alimentar o seu lado sombrio. Mas, de qualquer modo, em termos de
conquistas da lei, estão completamente distantes de terem as facilidades que
Ives Gandra afirma que ele, branco-macho-rico-professor-jurista, também
não tem.
Ou seja, no limite, Ives Gandra acha que não se está obedecendo a
Constituição por tentarmos fazer leis de proteção de minorias ou de
contrabalanço. Ele não entendeu ainda que a lei de filiação de nossa
Constituição, internacionalmente, é a Carta de Direitos Humanos. Leis e
vantagens para grupos que estão aquém da linha de partida da corrida social
não são criação de vantagens, são possibilidades de igualdade perante a lei
no final da corrida.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 22
MarielleFranco e outras atrocidades
 
A ditadura militar sumiu com o Deputado Rubens Paiva e matou o
jornalista Samuel Herzog nas dependências do DOI-CODI. A democracia
sob a onda conservadora de Bolsonaro matou a parlamentar Marielle
Franco. Passados os fatos, aos poucos sobra isso: só as mortes dos mais
famosos. A ponto de a direita falar: ah, foram só três! Não foi isso que,
afinal, o cantorLobão disse no programa do Jô Soares na TV? “Nem houve
tortura, apenas arrancaram umas unhas de uns caras”.
A ditadura militar (1964-1985) torturou mulheres e crianças.
Assassinou pessoas que não tinham qualquer ligação com a chamada “luta
armada”. Torturou índios!
No entorno do assassinato daMarielle e do motorista Anderson,
muitos outros assassinatos ocorreram, e nem chegaram à grande imprensa.
Mais de 24 líderes de movimentos populares foram mortos num período de
quatro anos, antes da morte da vereadora do PSOL. Nem assassinos e nem
mandantes foram presos. A democracia passou a matar mais que a ditadura
combatendo as esquerdas, com uma violência não mais estatal, mas privada.
Não foram mortes de jovens negros em favelas pela polícia – as mortes da
sociedade injusta e preconceituosa. Foram assassinatos políticos tratados
como crimes comuns.
Os mortos pelo regime militar foram esquecidos, os mortos pela
democracia não puderam nem ser esquecidos uma vez que sequer foram
citados. A democracia pode, às vezes, esconder uma brutalidade contra as
esquerdas que é maior que aquela feita na ditadura. A democracia brasileira
de 1985 até 2020 cumpriu bem esse papel.
Mas a democracia brasileira não tem sido só berço de violência
política dos conservadores. Também a violência social cresceu. E a
violência da polícia contra a população comum cresceu de um modo
singular: negros jovens são o alvo preferido. É negro e jovem? Então é
bandido. Assim pensa a polícia da nossa democracia. Junto disso, também
os militares, atuantes como polícia no Rio de Janeiro, mataram crianças,
jovens e até chegaram a um famoso caso: deram oitenta tiros num carro em
que um músico negro levava sua família para uma festinha de crianças. No
Rio, as famosas balas perdidas, que fizeram muitas vítimas, passaram a ser
substituídas por balas intencionais. A polícia não quis mais perder munição,
e passou a não deixar nenhuma bala sem alvo. Qual alvo? As crianças! Até
mesmo dentro de escolas, os policiais as deixaram antes de achar os
bandidos que eles disseram estar procurando.
O caso mais significativo no Rio de Janeiro foi protagonizado pelo
governador Wilson Witzel. Do alto de um helicóptero, ele passou a atirar
em supostos bandidos. Acertou uma tenda de religiosos. Para compor a
ópera irônica final, os religiosos de igrejas foram a base eleitoral da política
fascista desse governador. Isso não mudou em nada a disposição desses
evangélicos em continuarem a apoiar a política de dizimação de Witzel.
Logo depois, esse governador foi destituído por Impeachment e suas
tramoias como corrupto vieram à tona.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 23
O PSOL, Boulos e a praga do
identitarismo
 
Em 2022, o deputado federal Glauber Braga do PSOL (Partido do
Socialismo e Liberdade) passou uma noite inteira esgoelando no Congresso
contra a privatização dos Correios. Não foi a primeira vez que ele gastou
energia contra a pauta das privatizações. Muito menos foi a primeira vez
que ele não deixou de lado o ataque contra todo o programa das reformas
do governo Bolsonaro, idealizado por Paulo Guedes segundo a vontade dos
setores economicamente dominantes: reformas tributária, administrativa,
trabalhista e da previdência.
Diga-se de passagem, aliás, seu partido debutou-se nesse tipo de luta
em episódios semelhantes. A própria criação do PSOL se fez por razões
semelhantes às das lutas contra Bolsonaro, mas no período do governo
Lula. O PSOL nasceu de uma dissidência interna do PT (Partido dos
Trabalhadores) por causa de reforma da previdência encetada sob o
comando de Lula. Era uma reforma que tirava direitos dos trabalhadores, o
que havia sido tentado, com algum sucesso, pelo governo de FHC. O
sistema de previdência baseado na solidariedade, regrado pela Constituição
de 1988, sempre foi uma pedra no sapato das elites econômicas, que
buscaram, em diversos momentos, substituí-lo de uma vez por todas pelo
sistema de capitalização.[8]
Abraçaram o PSOL, vários dos melhores quadros do PT. No início,
parecia que o novo partido funcionaria como “oposição à esquerda” aos
governos de Lula e Dilma. Dariam um colorido maior à democracia
brasileira. Mas nem sempre isso foi possível. Parte da direita percebeu essa
dificuldade e buscou macular o nome do partido chamando-o de
“puxadinho do PT”. Uma referência ao tipo de construção comum no
Brasil, para a ampliação da casa das pessoas mais pobres. O PSOL não
conseguiu evitar esse apelido.
De fato, o PSOL ganhou contornos de braço do PT, e isso por
responsabilidade de figuras que adentraram o partido já pensando em sua
própria viabilidade eleitoral, e não na própria agremiação – Guilherme
Boulous à frente. Uma vez candidato à Presidência da República pelo
PSOL, em debate na TV e com pouco tempo de exposição na mídia, Boulos
abriu sua fala com um sonoro e pouco viril “Boa Noite Presidente Lula”.
Lula estava na cadeia em Curitiba, e esse cumprimento era a praxe do grupo
que havia se fixado nos arredores da sua prisão, repetido para servir de
solidariedade ao chefe do PT, bem como uma forma de motivação
psicológica. Com esse gesto, Boulos descaracterizou de vez sua própria
campanha, e colocou o PSOL quase na lanterninha da eleição de 2018. O
Cabo Daciolo, um candidato visivelmente perturbado por confusões
mentais, teve mais votos que Boulos. O PT não se fez de regado. Ao
perceber a existência de trânsfugas dentro do PSOL, criou deliberadamente
um núcleo de cooptação para trazer parlamentares desta agremiação para o
interior do lulismo oficialmente.
Mas, por qual razão o PSOL, que poderia ter crescido com o fato de
o PT abandonar o movimento social durante seus anos de governo, não ter
conseguido tal feito? Como o PSOL não conseguiu catalisar as energias das
forças sociais antineoliberalistas, vigentes durante os anos noventa e início
do século XXI nos fóruns mundiais antiglobalização? Afinal, a Carta aos
Brasileiros, lançada pelo PT antes mesmo da vitória de Lula nas eleições de
27 de outubro de 2002, era um compromisso neoliberal com o “pessoal dos
mercados”. E o governo do PT, de fato, foi um governo neoliberal. Assim
permaneceu na historiografia, ainda que os historiadores profissionais, não
raro, tenham adjetivado o governo, às vezes, com o nome de
“neoliberalismo desenvolvimentista” e termos semelhantes. O que ocorreu
com o PSOL?
A esquerda toda sofreu no ano de 2018, ano de eleição de
Bolsonaro, com a hegemonia mundial de uma disputa entre liberais pró-
globalização, ligados à financeirização, e conservadores deliberados,
neofascistas, que sempre viram na globalização o perigo do que Marx
chamou de “a missão civilizadora do Capital”. Essa “missão civilizadora”
sempre foi alguma coisa complexa e irritante para o conservadorismo. Às
vezes, no entanto, lhe serviu de motivação para a busca de um candidato
com um discurso antissistema, populista, anti-imprensa livre etc. Não raro,
na confusão de discursos, um tal candidato podia oscilar e se apresentar
com uma pauta privatizante, neoliberal. Mas o central seria, para esse
candidato, a defesa de ideais moralmente conservadores. A vitória de
Trump nos Estados Unidos dava sinais de início de uma era barbaramente
conservadora, exatamente nesse sentido, em nível mundial. Bolsonaro foi
tomado como um tipo de cópia brasileira do estapafúrdico presidente
americano.
Então, podemos recorrer a isso e colocar nas costas de uma suposta
hegemonia conservadora no mundo todas as dificuldades do PSOL,
especialmente em 2018, e, também, de outras agremiações de esquerda,
inclusive o PT?
Uma das explicações a respeito do não crescimento substancial do
PSOL serve não só para este partido, mas também para problemas relativos
à imagem do PT e até do político Ciro Gomes, também concorrente à
presidência eleição de 2018. A esquerda em geral acompanhou o
surgimento do identitarismo americano, trazendo-o para cá
inadvertidamente. Nos Estados Unidos, o identitarismo se confundiu com a
luta por direitos de minorias. Atrapalhou bem os democratas. Segundo
alguns pesquisadores, colocou a cabeça de Hilary Clinton na bandeja,
oferecendo-a a Donald Trump. Muitos comentaristas não se fizeram de
rogados: o Partido Democrata havia sucumbido na defesa de problemas
específicos de minorias, ou mesmo de problemas morais individuais, em
detrimento das necessidades gerais da velha classe operária branca,
relegada a segundo plano no governo Obama. Isso teria determinado a
vitória de um outsider como Trump. No Brasil, um tipo de feminismo
banalmente moralista, não raro se aglutinou a movimentos completamente
artificiais, como o da adoção do gênero neutro ou a sanha de destruir
estátuas que a população mal sabe do que se trata. Essa união promoveu
uma boa indisposição do brasileiro para com a esquerda. Aliás, se não fosse
o identitarismo, boa parte da direita teria menos munição contra a esquerda
durante toda as duas décadas iniciais do século XXI em nosso país.
Uma manifestação de um tipo como Ives Gandra Martins não teria
sucesso na Internet se não fosse pelo identitarismo. Uma vez na oposição à
esquerda, pessoas como ele ganharam voz quando falaram contra a sanha
identitária. Foi assim que outros, visivelmente medíocres, como Olavo de
Carvalho e seu autonomeado discípulo, Luiz Felipe Pondé, puderam em
algum momento vender livros e se fazer influentes em certos setores de
leitores. Não conseguiriam ser ouvidos caso não tivessem sido alimentados,
no volume que foram, pelos identitários. Discursar contra “gente da USP”
que não fala “galera” e sim “galere”, os que usam o tal gênero neutro e se
tornaram uma caricatura ambulante, deu a chance para terraplanista, como
Olavo, e ignorantes do conteúdo do ensino médio, como Pondé, a posarem
altivos em jornais. A esquerda teve dificuldade de responder a eles, pois
não conseguir discernir que a luta pela defesa de minorias é uma luta pela
cidadania em direção a uma sociedade que vá além da meritocracia liberal.
Boa parte da esquerda passou a falar de identidade social como um bem em
si mesmo. Um bem de direito de um indivíduo, que deveria colaborar para o
seu sucesso pessoal individualizado. Um erro crasso.
A esquerda, de fato, por alguns parlamentares e intelectuais, colocou
a identidade social individual, em tom decisivamente neoliberal, como uma
prioridade para o movimento das mulheres, dos negros, da população
LGBT etc. O identitarismo nunca foi de esquerda, e sim de direita.
Apropriado pela esquerda na imprensa, deslizou rapidamente ora para a
recuperação de ideais neoliberais ora para preceitos fascistas. Fez um bom
estrago na imagem da esquerda diante da opinião pública. O brasileiro
sempre odiou a ditadura do cotidiano, e nunca suportou a militância de
esquerda desejosa de lhe ensinar modos de se comportar em mesa de bar.
Principalmente quando esses modos, sem razão, obrigam-no a adoção do
que ele entende como artificial, pedante e, talvez, algo que ele até chamou
de “coisa de débil mental”.
Aliás, faz-se necessário lembrar que, entre os anos oitenta e início
dos anos noventa, o filósofo americano Richard Rorty, alertou para o
movimento de repúdio que muitos na academia começavam a alimentar
contra a esquerda, por ela adotar o que depois veio a se chamar,
principalmente aqui entre nós, de identitarismo. No Brasil, o identitarismo
soou muitas vezes como uma espécie de apreço por aula de Educação
Moral e Cívica, mas com a seta invertida. Essa tal disciplina existiu no
currículo escolar durante o regime militar, e em várias escolas (na maioria)
nunca foi outra coisa além de uma maçante forma de tentar inculcar
“valores da Revolução de 1964” nos jovens. Ao longo de vinte anos, o
resultado foi desastroso para a direita: os jovens criaram uma verdadeira
ojeriza pela disciplina e seu conteúdo.
Mas, afinal, por qual razão o identitarismo passou a dominar as
esquerdas? 
Em um primeiro momento a identidade era de fato a identidade
social. O brasileiro negro é o brasileiro negro, afrodescendente, por
exemplo. O problema das cotas já era de difícil explicação. Todavia,as cotas
eram perfeitamente cabíveis e legítimas – como foi deixado claro no
capítulo 21. Mas, à medida que a política de cotas foi avançando para todo
e qualquer setor além do educacional, paralelamente, o discurso cotista foi
se alterando ou mesmo se adaptando ao ideal empresarial e mercadológico.
O neoliberalismo foi se apropriando do movimento no sentido especial de
cultivar o novo selfmademan, o indivíduo vencedor negro: antes ser um
gerente negro do Magazine Luiza que ser um líder negro capaz de
promover todo um conjunto de trabalhadores negros nas suas
reinvindicações não mais fabris, claro, mas nas reinvindicações de
cidadania, de construção de democracia participativa. Ninguém na esquerda
falaria contra Luiza Trajano em seu correto trabalho de “inclusão”. Mas,
entre não falar contra ela e falar sobre como esse ideal inclusivista estava
confortavelmente encavalado no vetor neoliberal, sempre houve uma
distância que a esquerda não conseguir transpor. Pagou algo preço por isso.
Na verdade, o identitarismo sempre foi fascista em sua essência. Ele
nasceu e se criou em favor de pautas capazes de fazer a defesa do particular
diante do universal, ou ainda no trabalho de absolutização da identidade
social individual. Assim como ser evangélico deveria, para um religioso
desse tipo, valer mais que ser brasileiro, e a Bíblia tinha de substituir a
Constituição. A identidade passou a ser uma fuga da responsabilidade para
com ideais universalizantes que, vindos do Iluminismo, sempre conduziram
o mundo para as grandes cartas atinentes aos Direitos do Homem, e não
direitos de um ou outro individuo segundo idiossincrasias, legítimas ou não.
Diante de um negro agredido por ato racista, os políticos de
esquerda e/ou liberais passaram a ter duas atitudes: escrever nas redes
sociais mensagens de solidariedade ao negro, caso ele não seja pobre; mas,
caso seja pobre, o correto seria localizar algum branco rico capaz de lhe dar
uma moto ou uma bicicleta de presente. O ato é apresentado na mídia como
de grande relevância, e em nenhum momento alguém aparece para lembrar
o papel do universal, ou seja, que o melhor seria que o negro tivesse o
Ministério Público a seu favor, rapidamente, para fazer cumprir a lei, sem a
necessidade de favores. Afinal, é pela lei universal que protege todos que há
a lei contra o racismo na Constituição. Ela é o recurso a ser buscado e
oferecido. Tudo isso pode ser dito da mulher e outros grupos que
abandonaram a defesa das pautas de minorias para adotar o identitarismo
que dá margem para ideais neoliberais ou mesmo fascistas.
Surgiu na sociedade brasileira, junto dessas atitudes, como elemento
de pseudoesquerda, o macho protetor de indivíduos portadores de
identidade. Uma mulher não poderia mais se defender por si mesma, usando
da lei, mas sempre teria que contar com o seu macho de plantão. Esse
sujeito, não raro, do alto dos seus 29 ou 39 anos, teria de compor uma frente
junto de outros machos capazes de incentivar a mulher a “lutar como uma
menina”. Junto dela, ele estaria ali, pronto para o xingamento contra todos
os outros, os “machistas”, os que não trataram a moça supostamente
ofendida como café-com-leite, todos os que não infantilizaram a moça.
O identitarismo roubou a chance das minorias de falar em termos
das leis, as vigentes e as a serem criadas. O identitarismo nasceu como
força reacionária, típica do fato do avanço da financeirização do mundo, do
desdobrar do capital enquanto vetor universalizante. Contra essa força do
capital que torna o mundo mais homogêneo, o identitarismo surgiu e/ou
recuperou força global, alimentando a classe média dominante em cada país
e atraindo o ressentimento individual dos mais pobres que se viram integrar
na classe de trabalhadores precarizados. Não foi diferente no Brasil.
Todas as vezes que o PSOL e as esquerda em geral optaram pelo
identitarismo, e não mais pela defesa de minorias enquanto movimento de
direitos de cidadania, ganhou um olhar menos simpático da sociedade
brasileira.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

CAPÍTULO 24
A distopia de Bolsonaro
 
Após o Impeachment de Dilma Roussef, seu vice, Michel Temer,
tomou posse como Presidente do Brasil. Dois anos depois, se elegeu
presidente o deputado Jair Messias Bolsonaro. Para tal, ele derrotou o PT, o
PDT, outras forças de esquerda, e também os liberais. Foi uma volta ao
conservadorismo, mas algo completamente diferente do que havia se
estabelecido com a eleição de Collor de Mello.
O conservadorismo de Collor se fez a partir da agenda neoliberal,
aquela trazida pelos ventos de Ronald Reagan e Margareth Thatcher para
todo o mundo. O conservadorismo de Bolsonaro adotou essa agenda, mas
em paralelo a uma outra, cunhada de seu namoro com uma postura
antissistema, algo na linha criada por Steve Bannon para a campanha de
Donald Trump. Em português, um disseminador dessas ideias de Bannon
foi Olavo de Carvalho, que o copiava e transmitia tais ideais para os filhos
de Bolsonaro.
Collor não era um agente ideológico obstinado, enquanto Bolsonaro
mostrou-se paranoico e obcecado. Collor queria se passar por um liberal
com traços de social-democrata. Bolsonaro se mostrou como sempre foi,
um agente antiesquerda e, de certo modo, antiliberal diante de pautas de
costumes. Seu objetivo não se fez a partir de um projeto de governo, mas de
um projeto de destruição mais radical da Constituição de 1988, tomada
erroneamente como contendo um programa de esquerda, um programa
socialista.
Bolsonaro anunciou-se tendo os pés em duas canoas, e isso lhe
garantiu a eleição e certa sobrevivência política no governo. Fez o que
Trump não conseguiu fazer.Equilibrou-se, ao menos por um algum tempo.
De que canoas falamos?
Várias das lideranças de direita que surgiram na onda conservadora
que teve Trump seu maior expoente, vieram de um movimento mundial de
reação espontânea ao neoliberalismo globalizante. O capitalismo
transnacional dirigido pela financeirização e digitalização é universalizante.
O capitalismo nacional sustentado pelas velhas fábricas, e que abriga o
operariado branco e mais conservador, tornou-se a base do trumpismo. Essa
reação ressentida de parte dos trabalhadores americanos deu votos a Trump.
Bolsonaro, diferentemente de Trump, procurou surfar em ambas as
tendências postas pelo capitalismo atual, e chegou a forjar uma vertente
própria, que nutriria uma concepção social e política particular: a distopia
do anarcocapitalismo.
Por um lado, Bolsonaro endossou, junto com Paulo Guedes, o
neoliberalismo globalizante. Deveria criar a partir daí uma sociedade
liberal, democrática e, ao mesmo tempo, uma sociedade menos regrada pela
constituição de 1988 e mais afeita às medidas privatizantes e neoliberais
propostas pelas quatro reformas de Guedes. Esse era o projeto de Guedes e
dos empresários que financiaram a campanha de Bolsonaro de 2018. Isso
completaria a Era FHC de desmonte do pacto de 1988. Esse barco conteve
um pé de Bolsonaro.
Por outro lado, o segundo pé do capitão reformado do Exército
esteve no barco de Steve Bannon e Olavo de Carvalho: a distopia do
anarcocapitalismo, a sociedade sem laços sociais, o estado de selvageria em
que Bolsonaro sempre foi vencedor: Rio das Pedras, uma comunidade do
Rio de Janeiro. Bannon nunca fez ideia de que Bolsonaro sabia mais que ele
a respeito do que ele disseminava. A ideia básica da distopia de Bolsonaro
era a de expandir para o Brasil todo o modo de vida de Rio das Pedras, em
que o comando social e político se faz pelas milícias e igrejas evangélicas.
A ordenação maior do país deveria ficar com o capitalismo financeiro e sua
mão quase invisível, uma nuvem distante do cotidiano das cidades tornadas
favelas. A ideia básica era a de que o capitalismo financeiro, “os homens
dos mercados”, não iriam se importar com a deterioração do país ao se
transformarsua totalidade em uma grande Rio das Pedras. Essa foi uma
hipótese só parcialmente correta.
Trump pegou a via do ressentimento do operariado branco das
velhas fábricas, abandonado por Barack Obama e pelo Partido Democrata.
Bolsonaro também pegou a via do ressentimento, aquele presente na classe
média que ficou espremida no governo Lula, uma vez que este deu ganho a
banqueiros e classes populares.
Assim, um pé de Bolsonaro fixou-se na canoa neoliberal e sua
utopia privatizante. O outro pé, marcou seu lugar na canoa da distopia de
Rio das Pedras. Bolsonaro delegou aos filhos o projeto da distopia,
mantendo-se ele mesmo na aliança com Paulo Guedes, o “homem do
empresariado” no governo. Cozinhou Guedes em banho-maria. Até o
discurso na cidade de Bagé, em julho de 2020, reiterou essa posição,
chegando até mesmo a tomar medidas no sentido de atenuar a ênfase no
projeto distópico.
Quem era de fato Paulo Guedes?
O programa econômico do neoliberalismo de Bolsonaro foi deixado
nas mãos de um envelhecido Chicago Boy, Paulo Guedes, um economista
de pouca expressão acadêmica e sem qualquer experiência com a
administração pública. Paulo Guedes teve sua carreira inteira no mercado
financeiro, através do qual enriqueceu. Sua visão de política foi tomada pela
imprensa, em princípio, como desalinhada a de Bolsonaro.Aos olhos do
empresariado que financiou a campanha de Bolsonaro, o novo presidente
até podia ter um comportamento destemperado e irracional, marcado por
teses vistas como destrambelhadas,vindas do guru de seus filhos, Olavo de
Carvalho. Entretanto, o mesmo empresariado via em Guedes o homem que
deveria manter o governo na linha de uma programação racional. Essa
interpretação do empresariado era a mesma da imprensa, e assim ganhou a
classe média mais conservadora e a parcela da população que se guia pelos
jornais, de modo mais superficial. Na verdade,Guedes não era tão diferente
de Bolsonaro. E Bolsonaro, por sua vez, não via tanta diferença entre a sua
proposta antissistema e o que Guedes deveria fazer.
Guedes declarou, um tanto ensandecido, que o Brasil havia sido
governado, desde 1985, por socialistas, e que havia chegado a hora de
experimentar algo diferente. Sua proposta a respeito do “diferente”foi para
o Congresso Nacional. Uma parte foi aprovada.
O projeto Bolsonaro-Guedes foi composto a partir de quatro
reformas e um programa de privatizações: Reforma da Previdência,
Reforma Trabalhista, Reforma Tributária e Reforma Administrativa. As
explicações gerais do governo sobre essas reformas vieram na linha do
enxugamento e eficiência do Estado – a plataforma neoliberal, em seu
melhor estilo. Todavia, nas entrelinhas e até mesmo nas linhas dos
documentos apresentado pelo governo, sempre esteve vigente intenções e
efeitos colaterais nada agradáveis. Sob a mentira de que o país não
suportaria mais ter uma Previdência abrangente, a Reforma da Previdência,
na prática, visou retirar dinheiro do Orçamento da União destinado à
Previdência, de modo a garantir aporte para a faixa destinada ao pagamento
da dívida pública. A Reforma Trabalhista se propôs a ampliar a desoneração
da folha de pagamento do empresariado, intencionando, com isso, acreditar
que as empresas poderiam, assim, ampliar suas contratações. No
capitalismo financeirizado é impossível uma retomada de empregos
formais, principalmente em países como o Brasil, com uma
desindustrialização ritualizada em quatro décadas. Na verdade, a
desoneração de folha de pagamento nada é senão a ampliação do chamado
“precariado”,o crescimento do contingente de trabalhadores jogados na
informalidade. A Reforma Tributária manteve a ideia de reunião de
impostos, um item que pode só complicar a vida dos Estados que, enfim,
possuem uma série de encargos sociais importantes a partir de impostos
determinados. As universidades paulistas, por exemplo, vivem de parcela
do ICMS. A Reforma Administrativa é explicitada por meio de um
conjunto de regras cujo objetivo é a melhoria dos serviços públicos e a
economia do Estado. Ações assim só resultam na criação de uma carreira do
funcionalismo como algo não mais cobiçado. E se a carreira do
funcionalismo perde atrativos, a consequência é a piora do atendimento ao
público: hospitais, escolas, bancos públicos, burocracia de órgãos
governamentais, tudo isso perderá agilidade e capacidade de intervenção.
Essa libertação da sociedade de suas instituições não foi
propriamente um ataque à democracia, mas, certamente, um desastre para a
República. A República foi atingida. Trata-se da “coisa pública” que,
deteriorada, dá vazão para uma sociedade organizada por forças não
institucionais. O programa neoliberal ou, como alguns disseram iliberal, em
uma sociedade como a brasileira, facilitava o “mundo Bolsonaro”, ou seja,
sua distopia. A sociedade posta no horizonte na linha do anarcocapitalismo
de Bolsonaro era uma quase sinônima de uma nãosociedade. Forças como
milícias, igrejas evangélicas caça-níquel, crime organizado e famílias
isoladas e armadas deveriam ser o composto substancial da comunidade
ideal de Bolsonaro.
Os homens do capitalismo financeiro, à primeira vista, imaginaram
que nada disso poderia atingi-los. Não à toa, a elite da Federação Indústrias
do Estado de São Paulo (FIESP), o núcleo da burguesia nacional, apoiou
Bolsonaro! Completamente incapaz de ter um programa de salvação da
indústria nacional, essa burguesia veio cedendo espaço para a hegemonia do
capitalismo financeiro já desde o final dos anos oitenta. No governo
Bolsonaro, não mais disfarçou. Ao menos durante a campanha
presidencial,e também em um primeiro momento do governo, esses setores
comandados pelo capital aderiram ao barbarismo moral do presidente e seus
filhos, ou ficaram quietos. O importante para tais setores era a promessa de
Paulo Guedes de que o projeto ultraliberal seria realizado. A burguesia
nacional imaginava, e em parte estava certa, poder se deslocar para a
Europa e Estados Unidos caso o tecido social do Brasil se deteriorasse. Sim,
se o dinheiro não tem pátria, os seus donos também não.  Há apenas uma
pequena diferença: o dinheiro nada é senão números em uma tela, e a
burguesia ainda depende de pessoas que andam com corpos e, para nosso
espanto, sobre duas patas!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Apêndice I
Por que Bolsonaro se elegeu?
Financeirização mundial e a disputa
interna
entre o Tripé Neoliberal e a Nova
Matriz Econômica
 
I. Por que o Brasil optou por Bolsonaro?
Por que Bolsonaro venceu a eleição de 2018, sendo ele considerado,
por todos os analistas, o candidato menos intelectual e moralmente apto
para o cargo? Essa pergunta pode ser respondida objetivamente. Mas, claro,
há níveis de complexidade para a resposta.
Sabe-se bem o quanto o PT se desgastou no governo. O período do
PT no Palácio do Planalto não foi pequeno: dezesseis anos. Oito anos com
Luiz Inácio Lula da Silva e seis anos com Dilma Roussef, sendo que a
última foi interrompida por um processo de Impeachment que durou,
formalmente, sete meses. O processo se iniciou na Câmara no dia 2 de
dezembro de 2015 e terminou no dia 31 de agosto de 2016. Durante todo
esse tempo, como já vinha ocorrendo praticamente desde 2014, o
sentimento antipetista cresceu conforme a fama que o partido ganhou
quanto ao envolvimento em corrupções, especialmente o que a imprensa
batizou como “Mensalão” e “Petrolão”.
Não foram poucos os analistas do período que apontaram para o
prestígio do juiz Sérgio Moro e da Operação Lava Jato, nos meses que
antecederam as eleições, como sendo um elemento decisivo para o
espraiamento do antipetismo, em especial na classe média, sempre receptiva
em relação às denúncias de corrupção. Ainda não havia grande
desconfiança para com Moro, em ambientes fora do petismo.  A prevenção
contra o juiz vindo de Maringá-Curitiba só surgiu após a eleição do capitão
reformado Jair Messias Bolsonaro, quando então chegou à imprensa as
provas da imparcialidade de Moro no julgamento que condenou Lula à
prisão. Não à toa, boa parte das decisões de Moro foram anuladas por
tribunais maiores, ao longo de 2020/21. Logo depois disso, o enorme
prestígio de juiz se esvaiu como sorvete jogado no asfalto em dia de calor.
O PT dedicou-se a difamá-lo, como ele fez com o petismo, e o
bolsonarismo o rejeitou como traidor. Moro foi de herói de filme a
personalidade decaída em pouco mais de um ano. Em um mea culpa, sua
esposa chegou a amargar publicamente o apoio do casal a Bolsonaro. Já era
tarde demais. Moro foi trabalhar para a iniciativa privada.
Antes de Moro tomar posse no ministério da Justiça do governo
Bolsonaro, seu trabalho tenaz contra certos corruptos calou forte na
população. Boa parte dos brasileiros, seguindo a mídia impressa e televisiva
e, claro, o pensamento típico da classe média, procurou de toda maneira o
seu candidato ideal, que deveria seria o “homem antissistema”. A classe
média só entende a política como sendo o roubar ou não-roubar o erário
público. Sendo assim, o candidato poderia ter sido o próprio Moro. Mas
Bolsonaro já vinha em campanha desde 2017, e o juiz de Curitiba estava em
meio aos processos da Lava Jato.
Por essa época, a preocupação de Moro era a de prender Lula. Isso
já havia se tornado uma obsessão. Era um troféu que ele imaginava poder
pendurar na parede da sala. Moro queria um cargo no governo, talvez até
uma nomeação no Supremo Tribunal Eleitoral (STF). Quem sabe,até
sonhava até em ser o candidato de 2022? Sua ambição em se tornar alguém
ungido pela elite paulista, e não mais um “mero curitibano”, se tornou tão
voraz quanto a de sua esposa. Qualquer dessas benesses, o casal imaginava
que viria pelas mãos do Partido da Social-Democracia Brasileira, o PSDB.
Mas, na dança das cadeiras, com políticos de todos os partidos envolvidos
de alguma maneira em alguma corrupção real ou apenas sendo fruto de
denuncismo midiático, a sobra do melhor aríete contra o petismo caiu no
colo de Bolsonaro. Sua condição de deputado desconhecido mais o
favoreceu que o prejudicou.
O PT perdeu para Bolsonaro tendo como candidato Fernando
Haddad, que havia sido ministro da Educação do petismo e prefeito de São
Paulo. Os números: pelo Partido Social Liberal (PSL), Bolsonaro
abocanhou 55.13% dos votos; e o Partido dos Trabalhadores (PT) ficou com
44.87%. Lula comandou da cadeia em Curitiba a campanha eleitoral.
Analistas mais cuidadosos deveriam ter notado a força de Bolsonaro.
Haddad não tinha projeção nacional, havia ficado no Ministério da
Educação durante duas gestões e não conseguiu fazer avançar índices
educacionais requisitados há muito. Além disso, vinha de uma derrota
eleitoral em São Paulo. Lula, uma vez na cadeia, passava por uma enorme
onda de desprestígio. Assim mesmo, ao ungir Haddad com a sua marca, o
ex-sindicalista e ex-presidente colocou dificuldades para a direita na reta
final da campanha. Lula não pensou em Haddad, mas na continuidade do
PT, na eleição de deputados e, claro, no fundo eleitoral a que o PT teria
direito. O PSL cresceu e se tornou o maior partido na Câmara, mas o PT
ficou em segundo lugar. Lula nunca foi homem de desistir do futuro –
futuro como político. Lula não tem outra existência na vida senão como
homem político. Nisso, ele é como Bolsonaro, que não tem outra coisa na
vida senão o prazer do combate ideológico. Animais políticos desse tipo são
frutos de sociedades como as nossas, ocidentais, inerentemente políticas.
Todavia, ainda pesou sobre o PT, para a derrota diante de Bolsonaro,
o fracasso econômico do governo de Dilma Rousseff. Ela oscilou na sua
política econômica, tomando medidas desparelhadas que, alternadamente,
descontentou trabalhadores aliados, classe média e, enfim, elites
econômicas – tanto o capital dito produtivo quanto o capital dito rentista,
representados pela Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) e pela
parte privada da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN). De fato,
Dilma deixou o governo em uma situação de quebradeira de empresas e
desemprego crescente.
Essa resposta diz tudo o que se pode dizer no âmbito do mais
visivelmente imediato. No entanto, trata-se de uma resposta que não explica
a própria situação a que ela alude: afinal, em que condições o Brasil se
meteu de modo a levar o PT ao desgaste e fomentar uma onda conservadora
tão grande quanto a da eleição de Bolsonaro? Nunca o país havia optado tão
claramente por um candidato tosco. Nesse caso, faz-se necessário uma
abordagem que leve em consideração o plano internacional, no qual o
Brasil se inseriu nesses últimos cinquenta anos. Além disso, com essas
observações em mente, é importante voltarmos para os governos Lula e
Dilma, a fim de notarmos que tipo de conflitos estiveram presentes nesses
anos, determinando a sorte eleitoral de um completo despreparado como
Bolsonaro. É o que segue.
 
II. O capitalismo que temos hoje
 
Para esse tópico, trago aqui um quadro em que podemos ver cinco
grandes tópicos que descrevem os últimos cinquenta anos, e que prepararam
a hegemonia do capitalismo como o vivemos hoje: neoliberalismo, pós-
fordismo, financeirização, biopolítica e adoção da subjetividade maquínica.
A partir dele, visualizaremos o que ocorre sob cada uma dessas condições.
 
   
Financeirização   Sai a produção e os bons
salários, e entra o crédito
   
Pós-fordismo
Sai o homem e entra a
máquina
   
Biopolítica Sai o trabalho fabril, e o
  homem se desloca para a
sociedade para trabalhar em
rede, gerando o General
Intelect
 
Neoliberalismo Sai o Estado e entra o
mercado
  Sai a subjetividade humana e
Subjetividade entra a subjetividade
maquínica
 
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), com o mundo em
frangalhos, os Estados Unidos eram o único país capaz de disponibilizar
recursos para a reconstrução da vida cotidiana, mais ou menos nos moldes
do que se entendia como tal no mundo capitalista de antes do conflito.  E se
colocaram nessa tarefa. Deslocaram enorme soma de recursos que ajudaram
substancialmente na reconstrução da Europa e do Japão. Os povos dessas
terras se embrenharam na reconstrução com a mesma energia que utilizaram
durante cinco anos na destruição.
Na reconstrução, os americanos puseram todo o seu território para
produzir. Nunca as forças produtivas dos Estados Unidos tiveram tão bom
retorno, em todos os sentidos.  O capitalismo desse período, pela primeira
vez e única de sua história, diminuiu distâncias sociais e econômicas entre
camadas diversas da população. Todavia, por volta do início dos anos
sessenta, a tarefa da reconstrução havia praticamente terminado. Então, os
europeus e os japoneses emergiram no cenário industrial e comercial como
competidores dos americanos. Em pouco tempo, a balança comercial se
inverteu: saíam dólares para a Europa e para o Japão por conta do aumento
do consumo americano. Ao mesmo tempo, os gastos do estado americano
com benfeitorias para a população (no sentido de bancar o bem-estar social
e evitar que os trabalhadores fossem seduzidos por algum tipo de
socialismo)e tambéma Guerra do Vietnã obrigaram o aumento da emissão
de dólares. Os anos sessenta assistiram a economia americana apresentar
uma defasagem entre o ouro guardado em Fort Knox, que dava lastro ao
dólar, e o volume de dólar na praça mundial. A sensação do mundo todo,
em relação ao conteúdo de Fort Knox, não era boa! Existiria de fato ouro lá
no Forte, capaz de lastrear o dinheiro no mundo? Essa pergunta,
inicialmente retórica, começou a enervar governantes e empresários no
mundo todo.
Curioso notar que, em 1964, o romance de Ian Flemming, 007
contra Goldfingerse transformou em filme. O eixo central da película era
sobre o plano do vilão Goldfinger de roubar todo o ouro de Fort Knox e
com isso provocar uma crise na confusão das finanças internacionais.
Flemming não fazia ideia de que o próprio presidente americano iria
colocar em prática o que Goldfinger queria, sem ter que enfrentar Sean
Connery como agente da Rainha com “licença para matar”.
Em 1971 o presidente Nixon surgiu abruptamente em cadeia
nacional de TV. De olhos fixos na tela, criando histórias pouco plausíveis
sobre segurança da América e coisas de praxe dentro do conhecido fomento
ao patriotismo americano, Nixon anunciou unilateralmente o rompimento
com o Acordo de Breton Woods. Por esse acordo, realizado em 1944, o
mundo havia chegado, pela primeira vez, a um consenso sobre a economia
do planeta. Entre outras medidas, o Acordo havia fixado o dólar como
moeda universal, mantendo-a referente ao ouro guardado nos Estados
Unidos.  A surpresa foi geral. Daí para diante cada país se viu como tendo
de organizar o câmbio segundo políticas locais. Claro que isso foi um passo
decisivo para especulação com o dólar e criação de derivativos e outros
papeis, impulsionando a financeirização do capitalismo.
Os Estados Unidos não agiram assim no intuito de derrotar outras
economias. Menos ainda atuou nesse sentido para punir países menos
poderosos, mantendo-os sob domínio americano, como seria o caso dos
países da América Latina, que de fato sofreram mais que outros por tais
medidas. Nixon agiu como o fez para resolver um problema da economia
americana.
Com o fim do Acordo de Breton Woods, os países tiveram de adotar
o sistema de câmbio flutuante. Cada país, segundo sua economia, teve de se
acertar com o dólar. Isso fez o chamado mercado financeiro dar passos
largos para se estabelecer como um campo de negócios prioritários no
capitalismo. Ele já estava pujante, uma vez que havia dólares guardados na
Europa, os eurodólares, dinheiro que havia sobrado do tempo do
investimento dos Estados Unidos no continente para reconstruí-lo. Nos anos
setenta, vieram os petrodólares, dinheiro do aumento dos preços de petróleo
por decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP),
em meio aos conflitos do Oriente Médio.
Então, o mercado financeiro ganhou mais um componente para
encorpá-lo. Nasceram os derivativos, ou seja, contratos derivados de outros
contratos. Iniciou-se a prática de estabelecer o contrato de compra e venda e
já, em seguida, a fixação de um contrato derivado, com o objetivo de se
proteger de oscilações do dólar.  Um contrato derivativo nada é senão algo
que visa controlar o futuro. Ele fixa o dólar num valor especulado, para que
comprador e vendedor possam não perder muito unilateralmente em data
futura, quando da entrega da mercadoria e do pagamento. Além disso,
optou-se pela securitização dessas dívidas, ou seja, a possibilidade de
comprar e vender esses derivativos de modo cada vez mais complexo. Aos
poucos, os derivativos viraram papeis negociáveis, sem que os negociadores
soubessem de onde vinham e a que ativos se referiam ao fim de uma cadeia
de compras e vendas. O mercado financeiro se tornou não só um lugar de
comprar e vender ações de grandes companhias, mas de comprar e vender
títulos e dívidas. E de especulações de todo tipo, a respeito desses papeis.
Fazer uma trama de papeis pareceu, inicialmente, ser o caminho de tornar o
mercado algo seguro, pois a interdependência e o gigantismo pareciam ser
fórmulas de “vamos nos manter todos juntos no capitalismo de mesmo
barco”, mas isso se tornou (principalmente em 2008, com a crise do
subprime) o pântano atual do capitalismo.
Na medida em que o mercado financeiro foi se complexificando, no
lado da produção, a própria fábrica também foi se alterando. Entrou a
máquina, que dispensou o homem (pós-fordismo, fim do regime do
taylorismo e sua linha de produção). O homem, então, passou a trabalhar na
cidade, em tempo integral e em rede, deixando de ser atingido pela política
em seu tempo de trabalho. Todo o tempo de vida do homem se tornou
tempo de trabalho. O homem foi inteiramente abocanhado pelos destinos do
capital em toda a sua vida (Biopolítica). Sim, desde o início do século XXI
todos nós trabalhamos em rede, mas sozinhos do ponto de vista de
articulação a algum tipo de proteção social: ficamos sem sindicato, que
enfraqueceram numericamente e, quando não enfraqueceram
espontaneamente, foram quebrados por políticos de direita – Margareth
Thatcher e Ronald Reagan à frente (Neoliberalismo).
Uma vez trabalhando na sociedade, fazendo-se mais
imaginariamente do que realmente “empresário de si mesmo”, ou seja,
trabalhando ainda para empresas segundo a ideia de que não se é
trabalhador, mas “capital humano” (ou mais recentemente, “investidor”), o
trabalhador passou a dispor toda a sua vida no trabalho. A mais-valia da
fábrica deixou de ser interessante diante da mais-valia social, aquela que se
pode tirar do trabalhador que presta serviços e que está sempre conectado.
Ela é parte da produção do que Marx chamou de General Intelect[9], um
saber difuso que todos nós produzimos pelo nosso trabalho colaborativo em
rede, mas que é aproveitado pelos efetivamente ricos, pelo capital, à medida
que esse trabalho privatizado. Os capitalistas o privatizam para gerar a
escassez de produtos – em geral imateriais – forjados pelo saber em rede.
Assim, os capitalistas devolvem esse saber em forma de tecnologia. O caso
da vacina durante a sindemia[10] da Covid tornou-se típico para todos nós
que, enfim, o consumimos. Compramos, não o que produzimos segundo um
salário, como no capitalismo fordista, mas o que produzimos pela simples
atividade de viver em rede, sem receber por isso. Todos são então
trabalhadores e, enquanto trabalham e estão conectados, consomem
também. No ato de consumo, mesmo imaginando estar se divertindo,
estamos todos aperfeiçoando aqueles que nos oferecem entretenimento em
rede. Somos então ‘prosumidores’ – produtores e consumidores ao mesmo
tempo (Biopolítica).
Uma vez em sociedade e não mais na fábrica, o salário de todos os
trabalhadores, no mundo todo, nesses últimos quarenta ou cinquenta anos,
foi deixando de ser regido por negociação coletiva. As perdas salariais
nesses últimos quarenta anos foram enormes, no mundo todo. Todos nós,
hoje, no planeta, ganhamos menos. A sociedade deixou de ser a “sociedade
do consumo” no sentido dado pelo fordismo – cantada e contada pela
sociologia voltada para os anos sessenta e setenta –, para se readaptar a um
novo tipo de regime de consumo. Nasceu a ideia do estoque zero. Só se faz
aquilo que é pedido. A ideia dos tempos do fordismo, de fazer a produção
forçar o surgimento da demanda, perdeu o sentido. Hoje é a demanda que
controla a produção. Com salários menores e com o Estado se dizendo
“estado mínimo”, cedendo suas companhias para a iniciativa privada –
comandada pelo dinheiro ampliado, gerado no mercado financeiro –, a
sociedade emergente dessa situação põe na jogada o sistema de crédito
(Neoliberalismo e Financeirização). Lojas viraram financiadoras de suas
próprias bugigangas. O trabalhador que quer algo, sempre consegue, mas se
endivida e ganha um novo tipo de controle. É controlado agora pelas
dívidas; participa do controle de outros à medida que ele próprio se insere
na rede virtual e exerce identidades que o chamam para o fortalecimento do
senso comum. Isso sem contar que, para estar na rede hoje todos nós
usamos o Google, uma máquina enorme de homogeneização e
conservadorismo da linguagem.[11] Nenhum de nós escapa hoje de trabalhar
para o Google, Facebook, Microsoft ouAmazon – diretamente ou mesmo de
forma indireta. São os quatro grandes monopólios, cujo lucro só aumentou
em tempos de Covid. Não perdem para uma outra que também cresceu, a
indústria farmacêutica, sendo que esta depende daquelas! Não há trabalho
sem participação nas interfaces de máquina e homem, nem subjetividade
que não se adapte à máquina e aos vários softwares que regem nossas vidas.
O que se realizou foi o objetivo maior do capital. E ele, por sua vez,
tem no mercado financeiro a chance fantástica de crescer se livrando da
mercadoria material. Lembrando as equações de Marx, a da produção, que
era D-M-D’ – o dinheiro que gera dinheiro por intermédio da mercadoria. A
equação que o mercado financeiro realiza é D-D´’, o dinheiro que se
reproduz – por juros, efetivamente. Ora, o sonho do capital sempre foi este,
o de obter acumulação sem ter de lidar com a produção, com a vida real das
necessidades humanos. O mercado capitalista nunca foi outra coisa além de
local de acumulação, e não campo de facilitação de necessidades humanas.
Se pensamos que ele assim agiu em algum momento, foi por ilusão nossa
diante de efeitos colaterais que nos foram relativamente benéficos.
Essas alterações trouxeram uma nova forma de subjetividade para
todos nós. Modificou-nos, não por forjar em nós uma nova subjetividade
individual, mas por criaruma nova subjetividade geral na qual fomos
integrados ou, talvez, abduzidos. Uns podem até dizer: sucumbimos.
Do ponto de vista da filosofia social, as análises dessas mudanças
podem bem servistas a partir pensadores vindos do pós-operaísmo italiano.
Toni Negri fala de “sujeito maquínico”. Maurizio Lazzarato fala de
“subjetividade maquínica”. Por sua vez, Franco Berardi nota um
relacionamento patológico entre processos mentais e os processos de rede
virtual. [12]
O sujeito maquínico de Negri se configura, à grosso modo, por um
agenciamento que apanha homem, máquina e uma série de outros
elementos em um só conjunto. Os jovens que estão na internet aglomerados
a algoritmos, plataformas e softwares não são exemplos de sujeito. São
elementos a mais, peças a mais de uma maquinaria. Esses elementos todos
juntos, em interação, são agenciados em funções e trabalhos e, então, se
deixam transparecer como sujeitos. São sujeitos sem identidade. O capital
faz os agenciamentos, claro. Isso é, o capital põe esses elementos em
cooperação para que executem tarefas e estabeleçam relacionamentos.
Subjetividade é, nesse caso, algo relativo a dois processos, o de
subjetivação e o de sujeição. No primeiro caso, o agenciamento produz
subjetividades mediante circuitos autônomos de cooperação social. A
internet é um bom exemplo disso. No segundo caso, é o que se revela pelo
persistente esforço capitalista em reduzir as singularidades expressivas e
cooperativas à condição de sujeitos comandados. A internetapropriada pelo
capitalismo financeiro é um bom exemplo disso.
Lazzarato pode servir de complemento a Negri. No capitalismo, diz
ele, a produção da subjetividade opera de dois modos. São os dispositivos
de sujeição social e servidão maquínica. Há aí, no caso, uma
dessubjetivação para que surja uma ressubjetivação. A servidão maquínica
desmantela o sujeito individualizado. Ela atinge e desmonta sua consciência
e suas representações. Assim o faz agindo no âmbito de níveis pré-
individual e supraindividual. Lazzarato explica esse processo comparando a
sujeição com a servidão maquínica.
A sujeição produz um sujeito que se articula a um objeto externo,
seja ele máquina, mídia, dinheiro, serviços públicos etc. O sujeito faz uso
disso. Ele age com isso e nisso. Na sujeição o indivíduo se comunica ou
trabalha com outro indivíduo por via de uma máquina-objeto. Essa máquina
é um meio. Eis aí o mundo ainda humano. De modo diferente, na servidão
maquínica o indivíduo é o “dividual”, e ele é adjacente às máquinas. Há aí,
então, o homem-máquina. Tudo neles, os homens-máquina, se mostra como
meras partes recorrentes e intercambiáveis de produção, comunicação e
consumo que os ultrapassa e os excede. Nesse caso, constrói-se aí entradas
(inputs) e saídas (outputs), com pontos de injunção ou disjunção nos
processos sociais, econômicos e comunicacionais, na totalidade que se
move em função da servidão. Não há aí qualquer intersubjetividade. Os
agentes e signos existem de fato, mas os agentes não são pessoas e as
semióticas não são representativas. Não o indivíduo, mas o “divíduo”, é
uma peça. É despedaçado. Não se unifica em um ‘eu’. Assim, na narrativa
de Lazzarato, “inteligência, afetos, sensações, cognição, memória e força
física são agora componentes cuja síntese não reside mais na pessoa, mas,
sim, no agenciamento ou no processo”. Esses agenciamentos são levados
adiante por empresa, mídia, serviços públicos, educação escolar etc.
Lazzarato fala que o capital é um operado semiótico. Assim, a
sujeição social e a servidão maquínica trabalham com regimes semióticos
distintos de signos. No primeiro caso, temos semióticas significativas, trata-
se da linguagem que, enfim, é destinada à consciência, que mobiliza
representações e com isso constrói o sujeito individuado. A servidão
maquínica funciona na base de “semióticas a-significantes”. São os índices
de mercado de ações, moeda, equações matemáticas, diagramas, linguagens
de computador, contas nacionais e de corporações. Tudo isso não envolve
nem a consciência e nem, claro, a representação. Não há um sujeito como
referente.
Passa-se ao largo do sujeito com as semióticas a-significantes. Elas
são para agir sobre coisas, podem conectar um órgão, um sistema de
percepção ou uma atividade intelectual diretamente à máquina, ou a
procedimentos, signos, e isso tudo ignorando a representação de um sujeito.
O que se estabelece, nesse caso, é um funcionamento diagramático.
Lazzaratodiz que o“capitalismo depende de máquinas a-significantes”.  “Os
índices de mercado de ações, as estatísticas desemprego, os diagramas, as
funções científicas não fazem discurso nem contam histórias”. “Elas
operam fazendo girar o agenciamento ‘produtivo’ e multiplicando o seu
poder”. “As semióticas a-significantes permanecem mais ou menos
dependentes de semióticas significantes; no entanto, no nível do seu
funcionamento intrínseco, elas escapam à linguagem e às significações
sociais dominantes”. Tudo isso potencializa o sistema atual, baseado na
financeirização.
Por sua vez, Franco Berardi se abstém do uso de termos como
“sujeito maquínico” e “subjetividade máquinica”. A fusão homem-máquina,
para ele, é vista a partir das possibilidades de adaptação da mente e afetos
humanos às máquinas, em especial ao que compõe a Internet, o lugar
próprio do funcionamento de algoritmos. Ele distingue os
termos“conjunção” e “conexão”. No primeiro caso, temos a vida humana
em interação; no segundo caso, a relação homem-máquina, ou homem-
internet ou homem-rede. Na conexão, estabelece-se o descompasso entre
máquina e homem, em especial no âmbito da velocidade. A mente humana
não pode se adaptar ao novo parâmetro de velocidade, e seu stress é notável
nas patologias atuais. Todavia, Berardi também chama a atenção para o fato
que a Internet gerou um excesso de semiótica em detrimento da semântica.
Temos mais signos e símbolos do que efetiva comunicação baseada na
compreensão significativa.
O que Lazzarato descreve através do par “semióticas significativas”
e “semióticas a-significativas”, Berardi descreve por meio da conjunção e
da conexão. Para ele “a conjunção implica um critério semântico de
interpretação”. De modo que o outro, aquele que “entra em conjunção
comigo, envia signos cujo sentido devo interpretar, se necessário, por meio
da leitura de suas intenções, do contexto, das nuances e do não dito”. Ao
passo que “a conexão exige um critério de interpretação puramente
sintático”. Ou seja, “o intérprete deve reconhecer e ser capaz de realizar a
operação prescrita pela “sintaxe geral” (ou sistema operacional)”. Nesse
caso, não pode haver margem para a ambiguidade na troca de mensagens, e
a intenção não pode ser manifestada em suas nuances. “A tradução gradual
de diferenças semânticas para diferenças sintática é o processo que levou o
racionalismo científico moderno à cibernética e que acabou por tornar
possível a rede digital”.
Em suma, os regimes de financeirização pós-fordista, o
neoliberalismo e a biopolítica são coroados por aquilo que é próprio do
capitalismo, desde seus primórdios: a produção de novas subjetividades.
Estamos diante de um novo tipo de sociedade do espetáculo: o garoto que
fica diante dos indicadores da Bolsa, acreditando poder passar alguma
informação, está apenas relatando o que máquinas já decidiram, de modo a
fazer o dinheiro trocar de mãos sem a intervenção humana. Essa
subjetividade gerada na sala, que envolve máquina, algoritmo e homem, é o
espetáculo que não se pode ver, apenas participar sem pode-lo de fato
representar. A racionalidade maquínica suplanta a razão.
 
III. O panorama nacional
 
Todos os cinco grandes vetores da globalização capitalista –
produção pós-fordista, financeirização, neoliberalismo, biopolítica e
subjetividade maquínica – se instauraram no Brasil durante os anos noventa
e adentraram-se robustos no início do século. A geração Milenium e a
geração Z já ficaram adultas vivendo sob essas condições. O vetor central,
claro, é o da financeirização da economia. Durante os governos Collor e
FHC, criou-se um cipoal legislativo nesse sentido, em associação aos
projetos de desnacionalização da economia.
Nossa economia se financeirizou contra a Constituição de 1988, já
no primeiro dia de sua vigência. A batalha contra o artigo 192 da Carta
Magna é o exemplo mais contundente de como o nosso capitalismo quis
tornar letras mortas, as prevenções que os legisladores presentes na
Constituinte assumiram contra a selvageria do dinheiro.[13]
O célebre artigo 192 cuidava de manter os juros em 12%, além de
incutir no desenrolar do sistema financeiro um sentido de responsabilidade
fiscal. O mundo todo estava de portas abertas para a globalização
capitalista. Nós, aqui, graças aos ventos antipolítica econômica da Ditadura
Militar, fizemos uma Constituição com algumas disposições de caráter
social-democrata. Então, ainda no governo de José Sarney, os setores
neoliberais começaram a agir. Em 7 de outubro de 1988, Sarney aprovou o
parecer do consultor Geral da República, Saulo Ramos, que pedia que
houvesse uma lei complementar a respeito da cláusula dos juros. O
consultor se deu ao direito de dizer que o tabelamento dos juros iria
“desestabilizar a economia”. O parecer de Ramos fez a praxe e o
pensamento jurídico brasileiro não se desviou desse seu aporte. Durante a
década de noventa, o assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), e
o artigo continuou suspenso, esperando a tal “lei complementar” que, claro,
deveria sair pelas mãos do Congresso, o que nunca ocorreu.  Durante o ano
de 1995, uma série de leis foram feitas no sentido contrário da disposição
constitucional, e o neoliberalismo tomou corpo. Em 2003, sob o governo
Lula, finalmente o artigo 192 desapareceu. Sob pressão dos setores do
campo financeiro, o governo acolheu o Projeto de Emenda Constitucional
53, e que foi transformado na Emenda Constitucional número 40, de 29 de
maio de 2003. Essa Emenda foi comemorada pela Federação Brasileira dos
Bancos (FEBRABAN). O grande sindicato dos banqueiros afirmou que
então havia um “avanço regulatório”, e que se tratava de boa medida pois
dava autonomia para vários mercados. Ora, o que ocorreu foi a simples
desregulação e a capitulação da Constituição e do Estado diante do mercado
que, em princípio e pelo desejo da Constituinte de 1988, deveria ser
orientado pelo Estado, e não o inverso.
Durante todo esse período de história do artigo 192, bem como da
selva de leis que vieram no sentido de implantação do neoliberalismo – nos
dois mandatos do governo de FHC, mas também durante os dois mandatos
de Lula –, o que se instaurou na prática foi a disputa entre duas grandes
concepções economia: a ligada ao Tripé Macroeconômico, de origem
neoliberal; e a ligada às teorizações de economistas influenciados pelo
desenvolvimentismo (passado e presente). Jair Bolsonaro viveu todo esse
período como congressista, um tanto alienado dessa temática, como
deputado de direita, incapaz de produzir projetos relevantes e, enfim,
preocupado muito mais com as “Rachadinhas” – a forma de pegar dinheiro
de funcionários fantasmas mantidos por ele e seus filhos na atividade de
parlamentares.
No final de outubro de 2017, já em plena campanha presidencial,
Jair Bolsonaro foi entrevistado pela jornalista Mariana Godoy, na Rede TV!
A jornalista perguntou sobre o Tripé Macroeconômico, e o então candidato
se atrapalhou todo. Não sabia do que se tratava. Deu a desculpa de que não
era economista e que não precisaria entender de assuntos técnicos, que
ficariam afeitos a seus ministros, caso ele fosse eleito.
Na verdade, Bolsonaro deveria sim saber do tripé, uma vez que
ficou trinta anos no Congresso. O tripé foi instituído no governo FHC. Foi
também chamado de Tripé Neoliberal. Estabeleceu-se como uma política
pós-Plano Real, como o coroamento da transição do Brasil para o regime
neoliberal. Bolsonaro deveria conhecer tudo isso, não por dever acadêmico,
mas simplesmente porque o Tripé foi que determinou sua própria
emergência como político. Sem as frustrações geradas pelo regime
neoliberal, é difícil acreditar que Bolsonaro tivesse sido eleito.
Essas frustrações poderiam ter conduzido o país para uma saída
conservadora bem mais cedo do que a obtida com a eleição de Bolsonaro.
Os ventos foram atrasados pela presença de Lula no cenário político, que
colheu o desalento do governo FHC, conduzindo-nos para uma saída mais à
esquerda. No entanto, sabe-se, Lula não rompeu com o neoliberalismo.
Completou-o. Trabalhou com ideias que vieram do que ficou conhecido,
segundo escritos de alguns economistas, como neoliberalismo
desenvolvimentista.
Do que se trata? O Tripé Macroeconômico ou Tripé Neoliberal foi
adotado em março de 1999. Recebeu um adendo importante em 2000, pela
Lei de Responsabilidade Fiscal. Os governos Lula e Dilma não o
abandonaram completamente, embora Dilma tenha tentado romper com a
sua lógica. Os governos Temer e Bolsonaro não propuseram nada para
alterar esse mecanismo, que parece ter se incorporado ao que se entende
como tarefa governamental em economia.
Basicamente, o Tripé corresponde às tarefas de três elementos
interconectados: câmbio flutuante, meta de inflação e meta fiscal.
O câmbio flutuante foi o que se conseguiu adotar, para a maior parte
dos países, a partir do fim do acordo de Breton Woods. O Brasil sobreviveu,
em alguns períodos, com âncora cambial. O governo fixava o câmbio, a
relação entre o dinheiro brasileiro e o dólar. Com o Plano Real e, depois,
com a adoção do Tripé Neoliberal ou Tripé Macroeconômico, instaurou-se
a regra de deixar o câmbio ao sabor da oferta e procura. Assim,
acostumamo-nos a ver a cotação do dólar ser anunciada diariamente.
Meta de inflação: o governo fixa a taxa de inflação anual. Feito isso,
o Comitê de Política Monetária (COPOM) gera reuniões para administrar a
taxa dos juros no país (SELIC). A taxa SELIC tem impacto em muitos
outros aspectos da economia, além dos investimentos. Ela tem ligação
direta com o preço dos produtos e serviços,e também dá o valor da moeda.
São fatores que organizam e determinam o poder de compra da população.
Subentende-se, então, que é a taxa de juros que regula a taxa de
inflação. Em termos grosseiros, mas não errados: há dinheiro segundo o que
se pode obter, segundo o pagamento pelo empréstimo de dinheiro. Em
outras palavras: estabelece-se aí a liquidez da economia brasileira. O
COPOM foi criado em 1996, trata-se de um órgão do Banco Central
composto pelos oito membros da Diretoria Colegiada do Banco Central do
Brasil com direito a voto, e presidido pelo presidente do Banco Central, que
tem o voto de qualidade.
A meta fiscal é a maneira do governo de impor limites às suas
despesas. É uma meta definida pelo Congresso, anualmente. Trata-se aí da
lei orçamentária anual. O governo não pode descumprir tal meta, sob risco
de ser acusado de crime administrativo e Impeachment. Mas o governo
pode solicitar do Congresso o aval para, no decorrer do ano, alterar a meta.
Na prática, o que se quer com essa meta é fixar o superávit primário,
tranquilizando os credores (os que compram títulos do governo no mercado
financeiro), mostrando a eles que o país tem condições de manter o valor
desses títulos, que a dívida pública está controlada. Ou seja: o governo tem
condições de honrar a dívida por conta de um fisco eficiente. Isso acalma o
mercado financeiro.
O Tripé Macroeconômico se fez como consagração do
neoliberalismo. Iniciado por Collor, o neoliberalismo só foi efetivamente
implementado com FHC, segundo a lógica do Plano Real. Boa parte da
historiografia se tornou acrítica em relação ao Plano Real. Ele derrotou a
inflação – este foi seu mérito. Mas os acadêmicos que o levaram adiante
sempre tiveram um apoio da mídia maior que a de qualquer outro grupo de
tipo semelhante. Moldaram a história desse plano pelo seu lado vitorioso, e
não pelo seu fracasso final. De fato, a inflação havia se tornado um grande
problema, e em determinado momento escapou do controle do governo. Em
1986, já no governo Sarney, chegamos a uma inflação de 400%. Não foi
difícil então, para historiadores simpáticos aos acadêmicos de FHC, criarem
uma historiografia alinhavada pela história da inflação, fazendo do Plano
Real um ato exclusivo de heroísmo e inteligência.
A inflação brasileira veio da época do regime militar. O Brasil era
um grande importador de petróleo. Com a crise do petróleo dos anos
setenta, nossa balança comercial sofreu duras penas. Após o fim do Acordo
de Breton Woods, os Estados Unidos passaram a manipular o dólar segundo
seus interesses imediatos, colocando o mundo todo em polvorosa. As
autoridades americanas elevaram os juros. Isso atingiu o Brasil em cheio,
uma vez que havíamos contraído empréstimos para financiar nosso
desenvolvimento. Os empréstimos haviam sido feitos sob juros baixos.
Com o aumento dos juros, a dívida brasileira cresceu assustadoramente e de
modo rápido. Para o refinanciamento da dívida que, diga-se de passagem,
nem sempre ocorreu, o Brasil seguiu o receituário do FMI, cuja primeira
medida pedida era a desvalorização da moeda, de modo a fazer o país se
concentrar na exportação. Assim, se daria uma reprimarização da economia
– um processo que é sempre retomado e que caracteriza agora o Brasil
neoliberal. Depois, o FMI solicitou juros altos no país, para reprimir a
demanda e, assim, atrair o capital externo. A vida da população piorou
rapidamente. As empresas, por sua vez, começaram a tomar o horizonte
como incerto. Afinal, tanto as empresas públicas quanto as privadas,
haviam tomado empréstimos. Para salvar as empresas e não deixar a
economia se desorganizar de vez, o governo, ainda não militar,
praticamente nacionalizou a dívida externa. O Estado brasileiro passou a ser
o devedor. O fisco passou a ser o garantidor da dívida. O governo emitiu
títulos públicos para os seus credores. Claro que as necessidades da
sociedade se mantiveram ou se ampliaram, e o serviço da dívida continuou
a crescer. Assim, ao final, o governo acabou emitindo papel-moeda, e isso
já não mais para qualquer benefício extra, mas apenas para as despesas
corriqueiras. A inflação aumentou, claro. O setor público perdeu sua
capacidade de investimento. Os liberais se aproveitaram disso tempos
depois. Vieram a insistir na privatização, acusando o setor público de
ineficiência.
Durante todo o tempo inflacionário, só interrompido com o Plano
Real, a prática brasileira foi a de lidar com o problema indexando toda a
economia. Salários e preços de todo tipo passaram a seguir a inflação.
O Plano Real veio para resolver o problema inflacionário, mas
também para fazer o Brasil se adaptar ao mundo pós-fim do acordo de
Breton Woods. Foi um plano para nos integrar ao neoliberalismo vigente no
mundo. Seu traçado implicou na adoção de um conjunto de medidas
bastante concatenadas e, em princípio, bem coerentes.
Considerando que, em boa medida, a inflação era inercial, a medida
técnica tomada foi a de proporcionar a desindexação da economia. Preços,
salários etc. estavam atrelados à mensuração da inflação. Para sair disso, ou
seja, desindexar, o governo elaborou um processo de transição regrado pela
URV, a Unidade Real de Valor. Tratava-se de um índice de preços divulgado
pelo governo periodicamente, e que serviu também para realinhar tarifas de
serviços públicos, câmbio, preço de gasolina etc. Em seis meses, os
números ficaram alinhados de vez. A espiral inflacionária havia sido
derrotada. Essa era a parte mais visível do Plano Real, que soou como
mágica para muitos da população, tanto na época quanto depois. Mas, para
sustentar a nova política, medidas mais importantes e mais fundamentais
foram tomadas.
O governo precisava garantir preços baixos, e para tal recorreu ao
preceito liberal: concorrência. Abriu o país para as importações. A ideia
básica era a de trazer produtos baratos para o mercado interno, forçando as
empresas locais a não ampliarem preços, ou mesmo baixá-los. Junto disso,
a equipe de FHC equiparou a nova moeda, o Real, ao dólar. Com tal
valorização da moeda brasileira, facilitou-se a importação. Lateralmente,
fazia-se a propaganda ideológica da chamada “moeda forte”. O Brasil podia
se apresentar perante o exterior como tendo uma moeda pujante, ela deveria
atrair investidores, esses sentiriam confiança no país.
Esse tipo de política de fato segurou preços, mas causou um déficit
enorme na balança comercial. Para compensar essa perda, o governo fez
nova abertura do país, agora em relação ao capital. O dinheiro do exterior
deveria vir para gerar poupança. Foram abolidos os entraves que impediam,
até então, a liberalização dos fluxos do capital internacional. Junto disso, o
governo também facilitou as transações internas relativas ao mundo
financeiro. Os juros altos foram determinados de modo que o dinheiro do
exterior viesse para o campo financeiro brasileiro. O dinheiro veio, mas
financiou antes o consumo do brasileiro – até então fortemente reprimido –,
do que o investimento na produção ou na mudança tecnológica, como era o
esperado. Por fim, instaurou-se um programa amplo de privatizações. FHC
foi quem mais entregou o patrimônio público brasileiro para setores
privados nacionais e/ou estrangeiros. Essa política era necessária, segundo
sua equipe, uma vez que eles atribuíam ao “inchamento” do estado – de fato
uma mentira – o que seriam os tais déficits das empresas públicas. Afinal,
na conta do pensamento neoliberal que dominou a equipe de FHC, tais
despesas das estatais também seriam inflacionárias.
O resultado do Plano Real e a consolidação de seu modo de
pensamento na cristalização do Tripé Macroeconômico levou o Brasil a um
maior empobrecimento. O país acelerou seu processo de
desindustrialização. O Brasil passou de oitava economia mundial para
décima quarta. A indústria não só perdeu força, mas sua diversidade
diminuiu. Os empregos se precarizaram. A rendas per capita do brasileiro
caiu. Algo aparentemente estranho ocorreu nessa época: a produtividade
cresceu e, no entanto, os empregos não se ampliaram.
A subjetividade neoliberal (a ideia de que todos somos, no máximo,
empreendedores em empresas e, no mínimo, “empreendedores de nós
mesmos”) e/ou a subjetividade maquínica (a ideia de que somos parte de
uma subjetividade maior, sem identidade, e que nos coloca junto de
elementos de máquina e similares), se adaptou bem à subjetividade do
brasileiro, então refém do trabalho precarizado. O neoliberalismo foi
implantado por FHC. Caso Lula não tivesse no âmbito da disputa política
brasileira, talvez a solução para o fim do governo FHC fosse uma saída pela
direita. Um tipo como Bolsonaro poderia surgir. Mas a oposição maior a
FHC era de esquerda. Lula catalisou as frustrações da população, levando-
as para um governo menos conservador. O PT conseguiu, assim, atrasar por
mais anos a vinda de Bolsonaro. Na verdade, desde os tempos de FHC, uma
boa parcela da sociedade brasileira vinha sendo preparada para se vingar de
alguém que representasse o “sistema”. O ressentimento havia crescido por
conta do empobrecimento e, também, pelo excesso de experiências em
planos econômicos sucessivos, algo que cansou a população. Mais cedo ou
mais tarde, alguma coisa como Bolsonaro poderia fazer mais votos do que o
de costume. 
Lula assumiu a presidência em 2003. Seu compromisso com o
neoliberalismo não foi algo velado, mas completamente explícito na Carta
aos Brasileiros, em que se comprometia em manter uma política favorável
ao mercado, no sentido da que havia seguido FHC. Isso foi cumprido à
risca. A cereja no bolo dessa promessa foi Henrique Meirelles no comando
do Banco Central.  Ao Banco Central, foi concedida mais autonomia. Nos
dois primeiros anos de governo, as coisas só pioraram. Os índices de
pobreza aumentaram. Os de desemprego também. Mas, ainda no primeiro
mandato de governo, mesmo tendo passado pela crise do “Mensalão”, que
praticamente desestruturou o PT por causa da perda de quadros importantes,
e tendo ficado acossado por um possível pedido de Impeachment que,
enfim, não veio, Lula conseguiu alterar os rumos até então desastrosos
postos pelo neoliberalismo.
Alguns economistas denominaram a política econômica de Lula
como sendo um “neoliberalismo desenvolvimentista”. Ele foi beneficiado
pelo crescimento das exportações. Foram exportações de comodities, e não
de bens manufaturados; e nossa indústria deixou claro que já não era mais a
mesma. O fato é que, com a China movimentando o mundo, a sorte bateu
em nossa casa. Mas o governo Lula não foi comandado apenas pela sorte.
Junto disso, Lula conseguiu aumentar o salário-mínimo e promoveu uma
expansão do crédito que foram sentidos da vida do brasileiro. Também deu
outra ênfase ao serviço público. Colocou dinheiro do fisco em empresas
estatais que reverteram benefícios para o Brasil, como o caso da Petrobrás.
Sua política fiscal trabalhou com incentivos para setores produtivos
privados. O consumo realmente cresceu. A reduções da desigualdade se fez
sentir. Todos os índices sociais do governo Lula contrastaram, para melhor,
com relação aos de FHC. 
Fernando Henrique Cardoso começou a governar em 1995. As
famílias pobres no Brasil eram, então, algo em torno de 35%. Esse número
só se alterou significativamente a partir de Lula. Em 2012, no segundo ano
do primeiro mandato de Dilma Rousseff, este número caiu para 12%. O
saldo positivo apresentado pelo PT, ao menos até o final do primeiro
mandato de Dilma Rousseff, em contraste com o que se fez nos dois
mandatos de FHC, poderiam ter levado o partido a dar voos mais altos. Mas
as denúncias de corrupção voltaram. O desprestígio do partido nos setores
de classe média cresceu assustadoramente. Começou-se a falar em
antipetismo como real força eleitoral. Além disso, o segundo mandato de
Dilma Rousseff comprometeu o Brasil com uma nova crise econômica. O
que deu de fato errado com o PT nas mãos de Dilma?
Talvez o traço fundamental de diferença entre Lula e Dilma tenha
sido a percepção a respeito das possíveis alianças classistas. O governo
Lula levou em consideração a financeirização do capitalismo em nível
mundial. Aceitou o neoliberalismo, em especial o Tripé Macroeconômico
ou Tripé Neoliberal. Em outras palavras: fez uma política de ganho para as
parcelas mais pobres e, ao mesmo tempo, não feriu os interesses do capital
financeiro, não mudou os ganhos dos bancos. Ao contrário, nunca os
bancos ganharam tanto quanto nos mandatos de Lula. Dilma buscou outro
caminho.[14]
Lula tinha como vice o José de Alencar, um empresário que segurou
bem as insatisfações que poderiam surgir contra o PT. Quais? O capital
produtivo e os empresários do âmbito das fábricas não foram contemplados
tanto quanto os bancos, no governo Lula. A Fiesp havia criado uma agenda
política que deveria ser seguida. Foi Dilma quem ficou mais atenta a uma
tal agenda. Satisfaze-la e então traçar uma aliança entre o capital produtivo
e os trabalhadores tornou-se uma meta clara de suas intenções no primeiro
mandato. Mas, afinal, até que ponto existia, para além da cabeça da
presidente e de seus próximos – Guido Mantega à frente – algo que pudesse
ser chamado de “burguesia nacional”, realmente voltada para interesses
produtivos? Existindo ou não, o governo Dilma apostou em um
neoliberalismo desenvolvimentista que secundarizaria o Tripé
Macroeconômico em benefício do que se chamou Nova Matriz Econômica.
A Nova Matriz Econômica foi levada adiante contra o Tripé
Macroeconômico. Três de suas principais medidas anunciaram um novo
rumo. O governo baixou os juros de maneira substancial para que o setor
produtivo não sofresse e conseguisse crédito. Logo em seguida, o governo
desvalorizou o real e ao mesmo tempo tomou medidas no sentido de
restringir a entrada de dinheiro do exterior, que poderia revalorizar nossa
moeda. O objetivo claro dessas medidas cambiais era o de tornar nossas
exportações mais competitivas. Dilma colocou certas dificuldades para
importações que pudessem atrapalhar a indústria nacional e se não bastasse
isso criou um programa de isenção fiscal generoso. Nem a própria Fiesp
pensaria em algo mais benevolente. Com tudo isso, no decorrer do governo,
a Fiesp, que seria o lugar da indústria nacional, passou fácil para o lado dos
banqueiros e para o capital financeiro, comprometendo-se com o candidato
de oposição, Aécio Neves (PSDB), e depois com o Impeachment.
Os economistas e analistas políticos desse período disputam suas
narrativas. Para além dessas disputas, sempre centradas nas divisões entre
setores rentistas e produtivos, que em determinado momento se
desalinharam do pacto com o PT e com os setores organizados dos
trabalhadores, poderíamos levantar uma outra hipótese.
Na verdade, todos concordam que Dilma foi prejudicada por ventos
do exterior. Houve crise financeira na Europa e a China diminuiu seu
crescimento. O Brasil não vendeu mais comodities como fez no governo
Lula. A não concordância dos analistas é sobre todo o resto. No entanto,
vale dizer que a classe média brasileira estava de certo modo se vendo
prejudicada desde o governo Lula: o capital rentista ganhava e os
trabalhadores ganhavam, e estes, ao se aproximarem do status da classe
média, provocou um velho e conhecido rancor. Em todos os lugares do
mundo em que isso ocorreu, uma boa parte da classe média se tornou
reacionária, e buscou ver corrupção em tudo. Quando Dilma passou a
governar, deveríamos nos certificar se de fato os industriais (ou seja, o
capital produtivo), ou por vínculos factuais econômicos ou talvez por
vínculos ideológicos não menos poderosos, já não estavam voltados para os
interesses rentistas. Podemos notar que a ideologia do empreendedorismo
cedeu espaço para a ideologia de aplicação no mercado financeiro, como
proposta para jovens que desejoso de ganhar dinheiro rapidamente. Em
menos de uma década, essa mudança ideológica se fez sentir. Cursos de
empreendedorismo perderam adesão para o que se tornou até charmoso:
curso para jovens investidores, ou seja, aplicadores. 
Somando tudo isso ao fato de Dilma não ser o Lula, e não ter
facilidade com os trâmites da política, ela ainda cometeu um erro crasso:
em seu segundo mandato, logo no início, sabe-se lá por qual razão,
abandonou a ênfase na Nova Matriz Econômica e tendeu a voltar a respeitar
os aspectos contracionistas do Tripé Macroeconômico. Dizem que Lula
havia sugerido algo parecido, pedindo que ela voltasse com Meirelles no
Banco Central. As bases do PT se sentiram traídas nessa situação. Além
disso, as reivindicações de 2013 foram tomadas pelo PT sem uma
interpretação inteligente. Também naquela ocasião Dilma governou
ouvindo Temer, seu vice, menos do que deveria. Muitos petistas tomaram o
movimento como “de direita”, e então Dilma, atônita e sem entender o
momento, perdeu mais ainda as bases vindas de jovens da periferia,
tradicionalmente petistas. Mais tarde, quando do processo de Impeachment,
essas bases fizeram falta nas ruas, para se contrapor à maquinaria paga pela
Fiesp para colocar gente na rua e forçar o Congresso a votar pelo
Impeachment.
Claro que durante todo o governo Dilma se perceberam dois
movimentos de massacre contra a sua gestão, vindos da imprensa. Primeiro,
que a imprensa refletiu logo a ideologia neoliberal. Tão logo Dilma
começou a favorecer ao que ela acreditava ser um desenvolvimentismo que
iria satisfazer os empresários, vieram as críticas sobre seu governo: ele
soava estatista, interventora, descuidada para com inciativa privada. A
política de Dilma foi acusada, mais falsamente do que com base na
realidade, como o que causaria uma grande inflação. Junto disso, a
imprensa deu vazão às verdades e mentiras da Operação Lava Jato, pondo
em idolatria o juiz Sérgio Moro. A cada dia, ministros de Dilma eram
postos na berlinda. A corrupção havia estado mais na base aliada que no PT,
justamente a base aliada que era formada por político de centro e direita, e
que em princípio seriam aqueles ligados à Fiesp! Nessa hora, a imprensa
parece que agiu mais com a ânsia oposicionista necessária para vender
jornal do que para qualquer outra coisa. A TV fez campanha maciça contra
Dilma. O neoliberalismo transformou-se em algo sacrossanto. Pensar fora
dele havia se tornado impossível. Tudo estava aberto para que após o
Impeachment as pessoas pudessem falar algo que durante duas décadas elas
jamais falaram: “eu sou de direita”.
Analistas de esquerda disseram: apareceu uma nova direita no
Brasil. Não! O que ocorreu é que, antes, na política, até Paulo Salim Maluf
tinha de se dizer social-democrata. Após a campanha pelo Impeachment, as
pessoas passaram a se identificar com a direita sem qualquer pudor. Muitos
passaram a dizer abertamente, até com orgulho, que não queriam saber
jamais de justiça social, e que o importante era a liberdade. Falavam isso
referindo-se às liberdades individuais, mas, para a Fiesp e Bancos, a
liberdade verdadeira era a do capital. De fato, a financeirização e a
precarização do trabalho do brasileiro foi o que se recebeu do governo de
Michel Temer.
Na tentativa de escapar do Impeachment, Dilma, após tantos
discursos radicais contra bancos, empunhando a Nova Matriz Econômica,
voltou atrás. Nomeou o conservador Joaquim Levy, no lugar do petista
Guido Mantega, no ministério da Fazenda. Os setores do capital
financeirizado poderiam apoiá-la, mas já não confiavam mais em uma
reordenação do governo a favor do Tripé Macroeconômico. Isso porque,
nesse caso, as bases do PT reclamaram de Dilma e, de certo modo, se
afastaram dela. Então, a presidente se viu isolada por todos. Destituiu Levy
e colocou no seu lugar um professor simpático à social democracia e ao
desenvolvimentismo, Nelson Barbosa. Tudo em vão, as forças política
arrebanhadas pelos Bancos, pela Fiesp, por políticos pouco íntegros que se
aproveitavam do movimento de classe média nas ruas, já havia determinado
que o Impeachment colocaria a primeira mulher presidente para fora do
governo. Assim aconteceu.
Pode-se dizer que as causas do movimento de 2013, que começou
com a reivindicação do Passe Livre, estiveram ligadas a sentimentos
contraditórios. Existiam os que queriam mais melhorias, enquanto outros
percebiam efeito da desaceleração da economia. De um modo geral tratava-
se de uma espécie de “revolução do indivíduo”. Os jovens, principalmente,
fizeram o Brasil se inserir na narrativa de reinvindicações e revoltas no
mundo todo. Além do mais, havia certo inconformismo de pessoas de
esquerda, que entendiam que Dilma havia traído o programa da campanha
em favor de medidas que, enfim, tinham sido anunciadas pelo seu opositor
na campanha eleitoral, Aécio Neves, do PSDB. Pode-se dizer, além disso,
que o PT negligenciou o acompanhamento dos movimentos sociais por
muito tempo, deixando a direita dominar bairros importantes em várias
cidades. Também não é mentira lembrar que, de fato, no governo Dilma,
nem mesmo as descobertas do petróleo ajudaram, diante de crises
internacionais. Tudo isso empurrou Dilma ladeira abaixo. Mas, talvez seja
interessante notar que, nesses anos todos do PT no governo, o perfil da
sociedade brasileira, quanto a trabalhadores formais e informais, foi
alterado substancialmente. A desindustrialização contou forte. As cidades
viraram empresas, as fábricas perderam pessoas, os sindicatos ficaram
enfraquecidos. A nova subjetividade, a subjetividade maquínica dominou as
cidades. A maneira do PT fazer política logo se mostrou obsoleta quando,
diante do Impeachment, o partido tentou chamar sindicatos para protegerem
Dilma. Não deu certo. Uma juventude francamente individualista havia
migrado para a direita. Uma postura pouco comprometida com
transformações havia sido gerada na passividade dos games ou mesmo na
ojeriza a movimentos efetivamente pedantes, como o identitarismo. Mas o
erro de Dilma, em termos efetivos quanto à economia, foi não levar em
conta que talvez a ideia de um acordo entre burguesia nacional e
trabalhadores não existia senão nos sonhos do passado.
Na prática do início do século, principalmente durante os governos
do PT, todos os setores dominantes deram mostras que o Tripé
Macroeconômicoera o que melhor apreciavam. O projeto do neoliberalismo
desenvolvimentista não haveria de ser bem-vindo. Bolsonaro se elegeu à
medida que os setores dominantes não quiseram mais ficar próximos das
experiências encetadas por Dilma com a sua Nova Matriz Econômica.
 
 
 
 
 
 

Apêndice II
Carta Testamento Getúlio Vargas
 
 
“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo
coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam,
insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa.
Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não
continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os
humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e
espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me
chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o
regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços
do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos
grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei
de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da
revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade
nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal
começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi
obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo
dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros
das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de
valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100
milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso
principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma
violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a
ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma
pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo
esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se
queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as
aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o
povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos
humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome
bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e
vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força
para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa
bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na
vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio
respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha
vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse
povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu
sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu
resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do
povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não
abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha
morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da
eternidade e saio da vida para entrar na História”.
Rio de Janeiro, 23/08/54
Getúlio Vargas

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Apêndice III
Cronologia do Golpe
 
MARÇO
13 
O presidente João Goulart participa de comício na Central do Brasil, no
Rio. Entre as propostas defendidas por ele, duas, em especial, irritam os
militares: nacionalização de todas as refinarias de petróleo e desapropriação
de terras para reforma agrária 
19 
Contra as propostas de Jango, centenas de milhares saem às ruas em São
Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Organizadores da
marcha pedem intervenção militar
20
O general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, envia
circular para alguns militares em que trata das ações de Jango como
ameaças à Constituição 
25 
Cerca de 2.000 marinheiros e fuzileiros navais realizam celebração de uma
entidade considerada ilegal. Uma ordem do ministro da Marinha, Sílvio
Mota, para prender os líderes da resistência não é cumprida. Mota deixa o
governo
30 
Em discurso para cerca de mil sargentos pró-governo no Automóvel Clube,
no Rio, Jango volta a defender as reformas de base. É o seu último
pronunciamento como presidente 
31 
                                3h da madrugada  O general Olímpio Mourão Filho,

comandante da 4ª Região Militar, de Juiz de Fora (MG), inicia a


movimentação de tropas em direção ao Rio 
                 Por volta de 22h Comandante do 2º Exército, em São Paulo,

e ex-ministro da Guerra, o general Amaury Kruel pede a Jango que


rompa com alguns nomes da esquerda que integram seu governo. O
presidente nega o pedido, e Kruel adere ao golpe 

 ABRIL
1º 
                 Por volta de 16h No Rio, cinco tanques do 1º Regimento de

Reconhecimento Mecanizado deixam os arredores do Palácio das


Laranjeiras, do governo federal, em direção ao Guanabara, da
administração estadual
                                22h30 Depois de viajar do Rio a Brasília, Jango embarca

para Porto Alegre. Dizendo evitar ações que levem a derramamento de


sangue, ele praticamente não oferece resistência aos conspiradores
2
                 Madrugada Auro de Moura Andrade, presidente do Senado,

declara vago o cargo de presidente da República. Ranieri Mazzilli,


presidente da Câmara dos Deputados, assume a Presidência
interinamente
                                Com apoio do governador Carlos Lacerda, Marcha da

Vitória, no Rio, reúne centenas de milhares de pessoas


                                Costa e Silva cria o Comando Supremo da Revolução,

composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia


de Melo  (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto
Rademaker (Marinha) e ele próprio como representante do Exército 
                                No Recife, o dirigente comunista Gregório Bezerra é

amarrado à traseira de um jipe e puxado por bairros da cidade. No fim


do percurso, é espancado por um oficial do Exército com uma barra de
ferro 
4
Jango desembarca no Uruguai em busca de asilo político
9
É decretado o Ato Institucional nº 1, que, entre outras determinações,
suspende por dez anos os direitos políticos dos opositores ao regime. No dia
seguinte, sai a primeira lista de cassados, que inclui 41 deputados federais
11
Castello Branco  é escolhido presidente da República pelo Congresso
Nacional 
 
Fonte: Folha de S. Paulo 24.mar.2019

Apêndice IV
Tortura no regime militar
Entrevista com professor Ladislau
Dowbor[15]
Thiago Domenici – Começando por sua trajetória de estudante,
militante contra a ditadura até chegar a economista, professor,
escritor…
A minha área, essencialmente, é linguística. Mas eu decidi ir para a
economia simplesmente para entender o que acontece. Esse sentimento de
que há coisas que não se aceitam. E eu estudei na Suíça, com bons
banqueiros, como se deve, mas quando voltei ao Brasil vi que eu estava na
lista de procurados [pela ditadura] porque fiz um curso de russo em uma
associação Brasil-União Soviética. Na mesma época, eu estava assistindo
curso de literatura americana no Roosevelt Institute, mas eu era procurado
porque era prova da ameaça soviética contra a qual os militares nos
defenderiam e coisa do gênero. As coisas se enroscam.
Thiago Domenici – Que idade o senhor tinha?
Eu entro na luta armada com 27 anos, mas já tinha estudado economia, já
tinha entendido o que é desigualdade, já tinha visto que pode ser diferente.
A gente não sabe como as coisas se acumulam – e o momento em que as
coisas rompem. Na época, tinha luta armada por toda parte: em toda a
América Latina, a Guerra do Vietnã, que, para a minha geração, foi um
negócio… Ver aquele bombardeamento químico que eles faziam com
agente laranja. Era uma barbárie. E o golpe aqui, o papel eminente dos
Estados Unidos. Na juventude, às vezes, quando você sente uma coisa
escandalosa, você reage. O pessoal me contatou em Paris, vim aqui para a
Vila Leopoldina e fui preso depois de dois meses em um negócio besta
porque a gente precisava de carro – inclusive, devolvia [depois] porque era
só para fazer uma operação. Mas, em uma dessa, fui preso pelo que viria a
ser o Esquadrão da Morte, o departamento de automóveis, no Deic
[Departamento Estadual de Investigações Criminais]. Éramos quatro, fomos
massacrados de um jeito impressionante. É desumano. O impacto de longo
prazo é o seguinte: você tem uma das coisas mais preciosas que é preservar
os seus companheiros e você tem a dor absolutamente… Eles são
profissionais, tem aparelhos elétricos, esse choque é um negócio… Eu
inventei que tinha um buraco no [viaduto] Santa Ifigênia, que [por ali] eu
recebia mensagens, coisas assim, e [fomos lá com] o Deic, na época tinha
aqueles fusquinhas. A gente desceu porque eu ia mostrar para eles onde eu
escondia as coisas, mas eu já tinha essa ideia, tentei me jogar em cima da
Brigadeiro Tobias. Mas eles tinham me amarrado com uma corda,
enrosquei, fiquei preso. É banal. Mas a morte é muito preferível àquilo que
você passa.
Thiago Domenici – O senhor diz que a morte é preferível a ser
torturado?
Sem dúvida. Junta-se a dor e junta-se o pavor de você entregar outra pessoa.
Muita gente, dos torturados, tem dificuldade de superar esse processo. Na
época, através de uma grana que passaram para um delegado de polícia, o
Milton Dias, a gente depois conseguiu sair, ele liberou a gente. O Exército
não chegou a saber. Aí eu voltei para a luta. Você diz: “Ah, o pessoal entrou
na luta armada”. Bom, frente ao que eles estão fazendo você faz o quê?
Abaixa a cabeça e aceita? Muita gente simplesmente não aceitava. Quando
você tem mais de 10 mil pessoas que colocam a sua vida para tentar mudar
as coisas, é muito amplo, é um processo. Levei dois anos de luta até ser
preso de novo e depois ser trocado pelo embaixador alemão. E [na tortura]
tive o serviço completo porque eles achavam que eu sabia onde estava o
dinheiro, e, para enfraquecer a organização, era esse processo. Quando a
gente saiu da prisão, denunciava a tortura e o governo dizia: “Não existe
tortura no Brasil”. Aí saiu uma foto minha em uma revista alemã que
mostrava um buraco de terceiro grau na minha canela – com o tempo de
choque que você leva, os fios elétricos são enrolados em algodão e
molhados em água para não deixar marca, e o tecido começa a se deteriorar.
Esse buraco levou uns dez anos para se reconstituir. Isso é real.
Depois, na Argélia, quando eu conheci Miguel Arraes, a gente passou a
fazer todo um trabalho de denúncia da ditadura. Aí a gente foi chamado
pela Cruz Vermelha Internacional, fui pra Genebra junto com Apolônio de
Carvalho, porque eles estavam interessados em promover, da mesma
maneira que tem um direito do preso militar, um direito do prisioneiro
político. Acabou não dando em grande coisa, mas ali… não é todo dia que
sai de uma prisão um cara com feridas, com sangue escorrendo, mostrando:
“Olha, é assim que a coisa funciona”. Então a gente tinha o Le Monde,
Tribune de Genève, as televisões, e os militares [brasileiros] mandavam
ministros lá para a Suíça para exigir que a gente fosse expulso. Fomos
chamados pelo presidente do cantão de Genebra e fomos, eu e o Jean
Ziegler, que depois escreveu A Suíça lava mais branco – e não é roupa, um
baita de um livro, é um cara muito corajoso. E o presidente do Cantão disse
pra gente: “Olha, é o seguinte: eu recebi a instrução de Genebra que eu
devo expulsar vocês. Só que vocês vieram aqui a convite da Cruz Vermelha
internacional. São convidados do cantão de Genebra. Eu respeito essa
tradição e portanto eu peço a compreensão de vocês pelo seguinte: eu não
vou encontrar vocês”. A gente esperou mais de uma semana até expirar o
visto dando entrevista, passando na televisão que a polícia não encontrava a
gente. Quando viajamos de volta para a Argélia, o escândalo era tamanho,
naquela altura, que tinha um monte de jornalistas internacionais para
receber a gente.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
E você sabe, nós voltamos mesmo!

[1]
A Esquerda Reflexiva é a comunidade do Canal do Filósofo voltada para a educação
política. Centra-se na ideia de que a esquerda é sempre crítica e, portanto, crítica de si
mesma. Visa preparação teórica e ação prática. A Esquerda Reflexiva elege a Democracia
Participativa como fundamental para a democracia de um modo geral e para qualquer tipo
de regime de esquerda.
[2]
Ver o capítulo 23 sobre identitarismo.
[3]
A Constituiçao de 1934 foi gerada por uma Assembleia Constituinte legitimamente
eleita. A Constituição de 1937 foi escrita por um só homem: Francisco Campos, jurista,
apelidado de Chico Ciência. Este foi o mesmo homem que redigiu o Ato Institucional
Número 1, após o Golpe de 1964.

[4]
Ver Apêndice III - Cronologia do “Golpe de 64”
 
 
[5]
Ver Apêndice IV - Tortura no regime militar
[6]
Ver Apêndice II - Carta Testamento Getúlio Vargas
[7]
A historiografia registra dois momentos denominados de redemocratização. O primeiro
inicia-se com a deposição de Getúlio Vargas da presidência, colocando fim ao Estado
Novo, em 29 de outubro de 1945. O segundo inicia-se em meio ao regime militar que se
instaurou a partir de 31 de Março de 1964. A redemocratização se fez no início do governo
do General João Batista Figueiredo. Dois atos significativos marcaram o período: 1) anistia
aos que haviam sido criminalizados politicamente a partir de 1964; 2) reforma partidária,
de modo que ARENA e MDB desapareceram e novos partidos foram criados.A ARENA
transformou-se no Partido Democrático Social (PDS), o MDB gerou o  PMDB. É dessa
época a criação do PT. Em 1982, ocorreram as eleições diretas para governador de estado.
 
[8]
A previdência no Brasil, posta na Constituição de 1988, é regida pela “repartição
simples”. Trata-se de um regime de solidariedade pactuada entre gerações.  Os
trabalhadores ativos jovens pagam os benefícios dos que estão inativos, os da velha
geração. No regime de capitalização, o próprio trabalhador ativo deverá produzir uma soma
de recursos necessários para sustentar o seu posterior benefício previdenciário. Esse regime
é bem menos vantajoso para o trabalhador em geral, uma vez que fica ao sabor de
mudanças nas taxas de juros, expectativa de vida da população e fatores desestabilizadores
vindos do mercado. Ele é um regime de gosto do capitalismo financeiro, que pode
gerenciar o montante previdenciário dos trabalhadores com maior liberdade.
[9]
Ver: NEGRI, T. Intelecto geral e indivíduo social no MarxianGrundrisse. 2019.
Disponível em <https://ghiraldelli.online/2021/04/13/intelecto-geral-e-individuo-social-no-
marxian-grundrisse>.
[10]
Ver: Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo (organizadores).Pandemia e
Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica noBrasil. São Paulo: CEFA Editorial, 2020.
Disponível gratuitamente em <https://cefa.com.br/publicacoes/>
[11]
Ver: KAPLAN, F. Quando as palavras valem ouro. 2011. Disponível em
<https://ghiraldelli.online/2021/03/29/quando-as-palavras-valem-ouro/>
[12]
Ver:
BERARDI, F. Asfixia. São Paulo: UBU, 2020;
HARDT, M. e NEGRI, A. Assembly. São Paulo: Politéia, 2018;
LAZZARATO, M. Signos, máquinas, subjetividades. São Paulo: SESC e N-1 Edições,
2014.
.
[13]
Ver:
IANONI, M. Ciência Política e sistema financeiro no Brasil: o artigo 192 da Constituição
Federal. Política & sociedade, Volume 9, Nº 17, outubro de 2010;
MEDEIROS, J. A. A propósito dos 32 anos da Constituição de 7 de outubro de 1988. Site
Consultor Jurídico, 13 de outubro de 2020. 
 
[14]
Ver:
SAAD FILHO, A e MORAIS, L. Brasil: neoliberalismo versus democracia. São Paulo:
Boitempo, 2018;
SINGER, A. Cutucando onças com varas curtas: o ensaio desenvolvimentista no primeiro
mandato de Dilma Roussef (2011-2014). Novos estudos, CEBRAP (102), jul. 2015.
 
[15] Entrevista publicada pela Agência Pública, texto de Caio Costa e Thiago Domenici. 
Entrevista completa em <https://apublica.org/2019/09/estamos-destruindo-a-natureza-para-
o-proveito-de-uma-minoria-diz-dowbor/>

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