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MACROECONOMIA DAS

ECONOMIAS ABERTAS:
CONCEITOS BASICOS
Quando voce decide comprar urn carro, pode comparar os modelos mais recentes
oferecidos pela Ford e Toyota. Quando tirar suas proximas ferias, podera optar entre
passa-las nas praias da Florida ou nas praias do Mexico. Quando comecar a pou-
par para sua aposentadoria, pode escolher entre urn fundo mUtuo que compre
acOes de empresas dos Estados Unidos e outro q-ue compre acoes de empresas
estrangeiras. Em todos esses casos, voce esta participando nao so da economia dos
Estados Unidos, mas de economias de todo o mundo.
Ha claros beneficios em se estar aberto ao comercio internacional: o comercio
permite que as pessoas se dediquem a producao daquilo que sabem fazer melhor
e consumam a gr, ande variedade de bens e servicos produzida em todo o mundo.
De fato, urn dos Dez Principios de Economia destacados no Capftulo 1 é o de que o
comercio pode melhorar a situacao de todos. Como vimos no Capitulo 3, o corner-
cio internacional pode elevar os padraes de vida em todos os 'Daises, permitindo
que cada pais se especialize na producao dos bens e seiyicos nos quais dispoe de
vantagem comparativa.
Ate aqui, nosso estudo da macroeconomia praticamente ignorou a interacao da
economia corn outras economias do mundo. Na maioria dos assuntos macroeco-
nemicos, os problemas internacionais sdo perifericos. Por exemplo, quando discu-
676 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

timos a taxa natural de desemprego, no Capitulo 28, e as causas da inflação, no


Capitulo 30, os efeitos do con-iercio intemacional puderam ser ig,norados sem difi-
culdades. De fato, para manter suas analises simples, a maioria dos macroccono-
economia fechada mistas freq-Lientemente assume uma economia fechada — uma economia que n'ao
uma economia que naC interage con-i as outras economias.
interage com outras Contudo, alg-umas novas quesU5es macroeconmicas surgem em uma econo-
economias do mundo
mia aberta — que e aquela que interage livremente com outras economias no
mundo. Este capitulo e o pr6ximo, 1.-)ortanto, oferecem uma introclu o à macroe-
-‘
e conomia aberta conomia da economia aberta. Comearemos, neste capitulo, discutindo as variaveis
l
uma economia que interage rnacroecon6micas chave que descrevem as interac;5es de uma economia aberta nos
livremente com outras
mercados rnundiais. Voce talvez tenha reparado nas meNC'Ses a essas variaveis —

ei economias do mundo
:-- Cki -k. (X A
exporta0"es, importg5es, balaNa comercial e taxas de cârnhio — ao ler o jomal ou
ao assistir ao noticiario noturno na TV. Nossa primeira tarefa sera a de entender o
que esses dados significam. No prximo capitulo, vamos desenvolver um modelo
para explicar como essas variaveis s'ao detern-iinadas e como s'ao afetaclas pelas
diversas politicas governamentais.

exportaccies
bens e servicos produzidos OS FLUXOS INTERNACIONAIStE BENS E CA
internamente e vendidos no
exterior Uma economia aberta interage com as demais economias de duas maneiras:
prando e vendendo bens e servic;os nos mercados mundiais de produtos e
.
importa95es comprando e vendendo ativos de capital, como a"(5es e titulos, nos mercados finan-
bens e servicos produzidos ceiros mundiais. Aqui, discutiremos essas cluas atividades e a estreita relaylo que
no extenor e vendidos
ha entre elas.
internamente

exportacOes liquidas
0 Fluxo de Bens: Exportaces, importaces e Exportaces Liquidas
o valor das exportaces de Como observamos no Capitulo 3, as exporta es s'a- o bens e servios produzidos
um pais menos o valor de internamente e venclidos no exterior, ao 1,-)asso que as importaes s'ao bens e ser-
suas importac(jes; tambem vic;os produzidos no exterior e vendidos intemamente. Quando a Boeing, a fabri-
chamado de balanca cante cle aeronaves dos Estados Unidos, constrcii um av-i o e o vende para a Air
comercial France, a venda é uma exportKlio dos Estados Unidos e uma importK ao -
da
Franyi. Quando a Volvo, a fabricante sueca de automOveis, procluz um carro e o
balanca comercial vencle a um residente. dos Estados Unidos, a venda é uma importK"ao dos Estaclos
-
o valor das exportaces de Uniclos e uma exportay-io da Suecia.
um pais menos o valor de As ex~s liquidas~uer pais s'a- o o valor das suas exporta es
rne'i s valor das suas importa es. A venda realizada pela Boemg aumenta as
suas Importa0es; tambem
exportaies liquidas dos 'Estados Unidos, e a vencla realizacla pela Volvo reduz
chamado de exportaces
as exportK5es liquidas dos Estaclos Unidos. Como as exporta es liquidas nos
liquidas dizem se um pais e, no total, um comprador ou um vendedor nos mercados mun-
diais cle bens e servi os, elas são tambe.m denon-iinadas balaNa comercial. Se as
superavit comercial -
exportK 15es líquidas seTio positivas, as exporta es s'cio maiores do que as importa-
um excesso de exportaces
es, indicando que o pais vende ao exterior mais bens e servi os do que compra
sobre as importac'Oes \k) n de outros paises. Nesse caso, diz-se que o pais tem um superi vit comercial. Se as
-
exportg cies liquidas negativas, as exporta(;5es s'a- o menores do que as impor-
deficit comercial
tK5es, indicando que o pais vende menos bens e servios ao exterior do que com-
um excesso de importaces pra de outros paises. Nesse caso, diz-se que o pais tem um d g icit comercial.
sobre as exportaces (\I\ Quando as exporta es liquidas são iguais a zero, as exporta(;6'es e importa6es
exatamente iguais e diz-se que o pais tem equilibrio comercial.
equilibrio comercial
No prximo capitulo, desenvolveren-tos uma teoria que explica o equilibrio
uma situaca- o em que as comercial de uma economia, mas mesmo nesse estkgio inicial é fácil 1,-)ensar em
exportaces são iguais as muitos fatores que odem influenciar as exporta6es, as importK 6- . es e as exporta-
importaces ,t,N es liqui as de um pais. Esses fatores incluem _ os segifintes:
CAPiTULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 677

As preferencias dos consumidores por bens produzidos intema e extemamente


Os precos dos bens internamente e no exterior 0
A taxa de cambio a qual as pessoas podem usar moeda interna para comprar ce
moedas estrangeiras v,
ce
As rendas dos consumidores internamente e no exterior P-

0 custo do transporte dos bens de pais para pais M


ce

As politicos do governo corn relacao ao comercio internacional


00
A medida que essas variaveis se alteram corn o passar do tempo, o volume de
comercio internacional tambem muda. 0
z
TA,k. cat, 0,6-171tc, 0z
Estudo de Case Was nao estamos falando
0
apenos do compra de urn
A CRESCENTE ABERTURA DA ECONOMIA DOS ESTADOS UNIDOS carro - estamos falando ern
Talvez a mudanca mais drastica na economia dos Estados Unidos nas Ultimas cinco combater o deficit comercial
decadas tenha sido a crescente importancia do comercio e das finangas intemacio- do pals em face do Japao."
nais. Essa mudanca 6 ilustrada na Figura 1, que mostra o valor total dos bens e ser-
vicos exportados para outros poises e importados de outros poises como percentual
do produto interno bruto. Na decada de 1950, as exportacaes de bens e servicos
eram, em media, menos de 5% do PIB. Hoje, sao mais que duos vezes esse nivel. As
importagoes de bens e servicos tambem reg,istraram urn crescimento semelhante.
Esse aumento do comercio internacional deve-se, em parte, as melhorias no
transporte. Em 1950, um navio mercante medio carregava menos de 10 mil tone-
ladas de cargo; hoje, os muitos navios carregam mais de 100 mil toneladas. 0 jato
de longa distancia foi introduzido em 1958, e o jato wide-body, em 1967, tornando
o transporte aereo mais barato. Por causa desses avancos, bens antes produzidos
localmente podem agora ser comercializados em todo o mundo. Por exemplo, hoje
em dia flores sao cultivadas em Israel e transportadas por via aerea para serem

FRIORA 1

01 1 I I I I 1 Fonte: Departamento do
1950 1955 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 Comercio dos Estados Unidos.

ty) x titt ..CAJ '


678 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

-
vendidas nos Estados Unidos. Frutas e legumes frescos que sO s a"o cultivados no
vero podem, hoje, ser consumidos tambem no inverno porque podem ser embar-
cados de paises do Hemisferio Sul para os Estados Unidos.
0 aumento do comercio internacional tambem tem sido influenciado por avan-
-
y)s das telecomunicg 6es, que tem permitido às empresas alcanc;ar clientes distan-
tes com maior facilidade. Por exemplo, o primeiro cabo teleffinico transaffiintico
foi instalado en-t 1956. Ate 1966, a tecnologia s6 permitia efetuar 138 chamadas
sin-iu Hneas entre a America do Norte e a Europa. Hoje, os satelites de telecon-iu-
nica o permitem que mais de um rnilhão de chamadas ocorran-i ao mesmo tempo.
0 progresso da tecnologia tambem favoreceu o comercio internacional mudan-
do os tipos de bens que as economias produzem. Quando n-laterias-primas volumo-
sas (como o go) e bens pereciveis (como alimentos) representavam uma grande
parte da produ o mundial, o transporte de bens era freqUentemente caro e às vezes
.
impossiwl. Por outro lado, bens produzidos com tecnologia moderna s &), freqiien-
temente, leves e fkeis de transportar. Os produtos eletr6nicos, por exemplo, tem
pouco peso por cada dOlar de seu valor, o que faz com que seja fácil produzi-los
un-1 pais para serem vendidos em outro. Um exemplo ainda mais extremo é o da
indirstria do cinema. Uma vez que um estildio de Hollywood tenha produzido um
filme, ele pode enviar c6pias para todo o mundo a custo quase zero. E, de fato,
os filmes s" "o um dos principais produtos de exportgo dos Estados Unidos.
As politicas comerciais do governo tambem têrn sido importantes para o
aumento do comercio internacional. Como vimos anteriormente, os economistas
há muito acreditam que o livre-comercio entre paises é mutuamente benefico.
Com o tempo, os formuladores de politicas de todo o mundo passaram a aceitar
essa conclusio. Acordos internacionais, como o Acordo de Livre-Comercio da
America do Norte (Nafta) e o Acordo Geral de Tarifas e Comercio (GAF1), tem
reduzido g,radualmente tarifas, cotas de importa o e outras barreiras con-ierciais.
0 padr'a- o de comercio crescente ilustrado na Figura 1 é um fen6meno que a
ria dos economistas e formuladores de politicas endossa e incentiva. •

0 Fluxo de Recursos Financeiros: Fluxo Uquido de Capitais Externos


Ate aqui, discutimos como os moradores de uma economia aberta participam dos
mercados mundiais de bens e servios. Alem disso, os residentes de uma economia
aberta participam, tambem, dos mercados financeiros mundiais. Um residente dos
Estados Unidos que tenha $ 20 mil poderia usar esse clinheiro para comprar um
carro da Toyota; mas poderia, alternativamente, usar o dinheiro para comprar a. '"(5es
da empresa Toyota. A primeira transa o representaria um fluxo de bens, enquan-
to a segunda representaria um fluxo de capital.
fluxo liquido de capitais 0 termo fluxo líquidodecapitaisexternos, tamb&-n chamado de investimen-
externos
to externo liquido', refere-se--compra- d—e ativos estrangeiros por residentes inter-
a compra de ativos
nos menos a compra de ativos internos por estrangeiros. Quando um residente dos
Estados Unidos compra ac-5:6es da Telmex, a companhia teleffinica do Mexico, a
estrangeiros por residentes
aquisi o aumenta o invesfimento externo liquido dos Estados Unidos. Quando
internos menos a compra um residente do Japo compra um titulo ernitido pelo govemo norte-an-iericano, a
de ativos internos por compra reduz o investin-lento externo de liquido dos Estados Unidos.
estrangeiros. 0 mesmo que Lembre-se de que o investimento extemo assume duas formas. Se o McDonald's
investimento externo abrir uma lanchonete na RtIssia, trata-se de um exemplo de investimento externo dire-
to. Alternativamente, se um norte-americano comprar a(-5. 5- es de uma empresa russa,
esse é um exemplo de investimento externo em carteira. No primeiro caso, o propriet-
rio norte-americano adn-iinistra ativamente o investimento, ao passo que, no segun-

1 N.R.T: Utilizaremos, de agora em diante, o termo Investimento Externo Liquido em lugar de


Fluxo Liquido de Capitais Extemos.
CAPETULO 31 11/1ACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 679

do, o proprietario norte-americano tern urn papel mais passivo. Nos dois casos, resi-
dentes dos Estados Unidos compram ativos localizaclos em outro pais, de modo que
as duas compras aumentam o investimento extemo liquid° dos Estados Unidos.
Desenvolveremos, no proximo capitulo, uma teoria para explicar o investimen-
to extern° liquid°. Aqui, vamos considerar rapiciamente algumas das principais
variaveis que influenciam o investimento extern° liquido:
• As taxas de juros reais pagas sobre os ativos estrangeiros
• As taxas de juros reais pagas sobre os ativos internos
• Riscos econemicos e politicos percebidos de se manter ativos nd exterior
• As politicas governamentais que afetam a propriedade de ativos intemos por
estrangeiros
Suponha, por exemplo, investidores norte-americanos decidindo se devem
comprar titulos do govern° mexicano ou titulos do govern() americano (lembre-se
de que urn titulo é, na pratica, urn IOU - urn acordo escrito para devolucdo de uma
divida dado pelo emitente). Para tomar essa decisao, os investidores dos Estados
Unidos comparam as taxas de juros reais oferecidas pelos dois titulos. Quanto mais
alta a taxa de juros real de urn titulo, mais atraente ele sera. Enquanto fazem essa
comparacao, entretanto, os investidores dos Estados Unidos tambem precisam
levar em conta o risco de que urn desses governos possa se tomar inadimplente em
relacao a sua divida (ou seja, deixar de pagar os juros ou o principal no tempo devi-
do), bem como quaisquer restricoes que o governo mexicano tenha imposto ou
venha a impor no futuro sobre os investidores estrangeiros no Mexico.

A Igualdade das Exportacoes Liquidas e Investimento Extern° Liquido


Vimos que uma economia aberta interage corn o resto do mundo de duas maneiras
- nos mercados mundiais de bens e servicos e nos mercaclos financeiros mundiais.
As exportacoes liquidas e o Investimento Externo Liquid° rnedem, cada urn, urn
tipo de desequilibrio nesses mercados. As exportacoes liquidas medem urn desequi-
librio entre as exportacCies e as importac5es de urn pais. 0 investimento externo
liquid° mede um desequilibrio entre o total de ativos estrangeiro ompfa b's
ados por estrangeiros.
residentes internos e o total de ativo-s-internos-co-m-p-r —
Urn fato importarite,-poren-i-sutil, da contabilidade afirrna qUe-,--13-ara—unia econo-
mia como urn todo, esses dois desequilibrios devem compensar urn ao outro. Ou seja,
o investimento extemo 11. ido (IE de e s sr al a_e_2 ortaca (EL):
la./.. ..
IEL = EL

Essa equacao é valida porque todas as transacoes que afetam urn lado da equa-
(do tambem clevem afetar o outro lado pelo mesmo montante. Essa equacao é uma
identidade - uma igualdade que é mantida pela maneira como suas variaveis sac)
definidas e medidas.
Para ver por que essa identidade contabil é verdadeira, consiciere urn exemplo.
Suponha que a Boeing, a fabricante de aeronaves dos Estados Unidos, venda
alguns avioes para uma companhia aerea japonesa. Nessa vencia, uma empresa
norte-americana entrega avioes a uma empresa japonesa e uma empresa japonesa
entrega ienes como pagamento a uma empresa norte-americana. Observe que as
duas coisas ocorrem simultaneamente. Os Estados Unidos venderam parte de sua
producao (os avi5es) a urn estrangeiro e essa venda aumenta as exportac5es liqui-
das dos Estados Unidos. Alem disso, os Estados Unidos adquiriram alguns ativos
estrangeiros (os ienes) e essa aquisicao aumentou o investimento extern° liquid°
de capitais dos Estados Unidos.
Embora a Boeing provavelmente nao fique corn os ienes que adquiriu corn essa
venda, quaisquer transacoes subseqUentes preservadio a igualdade entre as expor-
680 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

tK6'es Ifquidas e o investimento externo liquido. Por exemplo, a Boeing pode tro-
car seus ienes por dlares com um fundo mtuo americano que deseja os ienes
para comprar ações da Sony Corporation, a fabricante japonesa de produtos eletr3-
nicos. Nesse caso, as exportaC5es liquidas de avi5es da Boeing são iguais ao inves-
ti mento externo líquido em KCies do fundo mUtuo cla Sony. Portanto, EL e IEL
aumentam pelo mesmo montante.
Alternativamente, a Boeing pode trocar seus ienes por d1ares com outra
empresa dos Estados Unidos que deseje comprar computadores da Toshiba, a fabri-
cante japonesa de computadores. Nesse caso, as importK5es dos Estados Unidos
(de computadores) compensam exatamente a exportg.5o dos Estados Unidos (de
avi es). Juntas, as vendas da Boeing e da Toshiba não afetam nem as exportgc5es
liquidas nem o investimento externo liquido dos Estados Unidos. Ou seja, EL e IEL
são os mesmos que eram antes da realiza(; a: - o das duas transK-6es.
A ig,ualdade das exportKes liquidas e investimento extemo liquido decorre do
fato de que cada transK5o internacional é uma troca. Quando um pais vendedor
transfere um bem ou servic;o para um pais comprador, o pais comprador entrega
alg-um ativo para pagar por tal bem ou servio. 0 valor desse ativo iguala o valor do
bem ou servic;o vendido. Quando somamos tudo, o valor liquido dos bens e servi-
ws vendidos por um pais (EL) deve ser igual ao valor liquido dos ativos adquiridos
(IEL). 0 fluxo intemacional de bens e servios e o fluxo intemacional de capital
dois lados da mesma moeda.

NOTkIAS
COMO OS CHINESES AJUDAM OS COMPRADORES DE CASAS PRI5PRIAS
NOS ESTADOS UNIDOS
Este artigo descreve como o capital esta fluindo do China para os Estados Unidos.

A China Envia Capital para os Estados Unidos e ajudam a manter baixas as vezes, as restrices chinesas ao envio de
taxas de juros americanas. E a China prova- capital. Assim, enquanto a crise financeira
Estados Unidos
velmente continuará a comprar muita divida transformou o restante da Asia Oriental em
Por Craig S. Smith
dos Estados Unidos nos pr6ximos anos. um buraco que suga capital, a China tornou-
Xangai, China — Um gigantesco pais em Cracas a altas taxas de poupanca inter- se uma fonte que jorra capital.
desenvolvimento cercado por um atoleiro na, a um influxo continuado de investimen- a primeira vez que urn pais em
econmico seria uma fonte improvi vel de to estrangeiro e a um firme controle das desenvolvimento envia para o exterior fun-
capital para as potencias industrializadas do despesas internas, a China está transbordan- dos que poderiam ser usados internamente
mundo. Mas a China, com grandes supe- do de capital. 0 supevit de capital do ano de maneira produtiva..Freqentemente esse
vits comerciais e enormes reservas de passado (...) atingiu uma estimativa de $ 67 dinheiro estava fugindo da instabilidade,
moeda forte, está comprando titulos do como foi o caso da America Latina na deca-
governo dos Estados Unidos, principalmente A China poupa mais da metade disso da de 1980, da Rssia na decada de 1990
titulos do Tesouro e titulos emitidos pela em reservas em moeda est •angeira, as quais e da Africa em ambas as decadas.
Fannie Mae e pela Freddie Mac. são investidas no exterior. As empresas chi- Usualmente, entretanto, os paises em
Isso é bom para os Estados Unidos. nesas canalizam grande parte do restante desenvolvimento investem seu capital em
Esses investimentos aumentam a liquidez diretamente para o exterior por meio de suas prc5prias economias crescentes. E
do mercado imobiUrio residencial dos transferencias bandrias — ignorando, por alguns dirigentes chineses acreditam que
CAPiTULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 681

Poupanca, Investimento e Sua Reiacao corn os Fluxos Internacionais


A poupanca e o investment° de uma nac5o sao, como vimos cm capitulos ante-
riores, cruciais para seu crescimento economic° de longo prazo. Vamos, portant°,
analisar como essas variaveis se relacionam CO m os fluxos intemacionais de bens
e capital, tais como medidos pelas exportacoes liquidas e investment° extern°
liquid°. Podemos fazer isso mais facilmente corn a ajuda de urn pouco de matemzi-
tica simples.
Como voce deve se lembrar, o termo exportacoes liquidas surg,iu anteriormente
neste livro quando discutimos os componentes do produto intern° bruto. 0 pro-
duto intern° bruto da economia (Y) divide-se em quatro componentes: consumo
(C), investment° (I), compras do govern° (G) e exportacoes liquidas (EL). Isso
pode ser escrito como
"Y =C+I+G+EL
A despesa total na producao de bens e servicos da economia é a soma das des-
pesas de consumo, investment°, compras do govern° e exportacoes liquidas.
Como cada Mar de despesa é classificado em urn desses quatro componentes,
essa equac5o é uma identidade contEibil: deve ser verdadeira por causa da manei-
ra como as variaveis so definidas e medidas.

isso o que a China deveria estar fazendo 37% antes que seus gastos excessivos a China ajudasse seus vizinhos quando eles
tambem. Urn antigo executivo do banco r,ninassem as economias desses 'Daises (...) se viram ern dificuldades: Pequim confiou
central chines disse ser "escandalosoli que "Eles ja estao investindo tanto quanto $ 1 bilhao as operacoes de socorro do Fun-
urn pais de camponeses pobres esteja finan- podem absorver", diz Andy Xie, urn econo- do Monetario Internacional na Tailandia e na
ciando o investimento de uma potencia mista da Morgan Stanley Dean Witter & Co. Indonesia. A maior parte do dinheiro, contu-
industrializada como os Estados Unidos. de Hong Kong. do, vai para titulos do Tesouro americano. A
Outros queixam-se de que a China nao Mas embora o investimento esteja China nao diz quanto, mas as estimativas
esta sequer recebendo urn born retorno enfrentando restricOes, a poupanca continua chegam a ate 40%.
sobre seus investimentos. 0 pais paga, ern crescer. A porcentagem de pessoas ern E o banco central chines, como 50
media, 70/b a 8% sobre sua divida externa idade economicamente ativa na populacao outros pelo mundo, empresta dinheiro para
de $ 130 bilhoes, mas obtern apenas cerca aumentou de 51% para 62% nos ultimos a Fannie Mae e a Freddie Mac, que usam os
de 5% sobre os $ 140 bilhOes ern reservas 30 anos. E esses trabalhadores, a quern fre- fundos para comprar emprestimos hipoteca-
quentemente so e permitido ter urn filho dos concedidos por bancos e outras institui-
investidas no exterior. Isso se deve, ern
corn o qual gastar, estao atingindo seus anos cOes financeiras a norte-americanos co-
parte, ao fato de que os rendimentos sobre
de maior poupanca. Corn baixo consumo, o muns. A enxurrada de dinheiro mantern a
a divida norte-americana — amplamente
aciimulo de dinheiro empurra o capital para liquidez do mercado e reduz as taxas de
considerada como os titulos de mais baixo
o exterior. juros pagas pelos compradores de imoveis
risco — sao relativamente baixos.
Resultado: o capital chines esta se espa- residenciais nos Estados Unidos.
Mas a China tern bons motivos para
lhando para todos os lados. 0 pais é urn
enviar certa quantidade de seu capital para o Fonte: The Wall Street Journal, 30 mar. 1998, The
grande comprador de campos petroliferos,
exterior. Seu investimento ern ativos fixos Outlook, p. 1. ,g) 1998 Dow Jones & Co. Inc.
por exemplo, tendo empenhado mais de $ 8 Reproduzido corn permissao de Dow Jones & Co. Inc.
como porcentagem do produto interno bruto bilhOes ern concessoes no Sudao, na no formato livro-texto via Copyright Clearance Center.
ern 1996, o éltirno ano para o qual he dados Venezuela, no Iraque e no Cazaquistao.
disponiveis, foi extraordinariamente elevado, Capital da China continental tambern che-
de 34%. E pouco provavel que a China possa gou a Hong Kong, onde ajudou a inflar os
aumentar essa proporcao sem desperdicar precos dos imoveis antes que a crise do
dinheiro ou estimular a inflacao. A proporcao Leste Asiatico comecasse a estourar essa
da Tailandia era de 40% e a da Coreia era de bolha. 0 excesso de capital ate permitiu que
682 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

-
Lembre-se de que a poupaNa nacional é a renda da ng k) que resta aps
terem sido pagos o consumo corrente e as compras do govemo. A poupaNa nacio-
nal (S) é ig,ual a Y - C - G. Se reorganizarmos a equa o acima para refletir esse
fato, obteremos
Y-G-G=I+EL
S = I + EL
-
Con-io as exportg6. es liquidas (EL) s k) tambem iguais ao investimento extemo
liquido, essa equa o pode ser reescrita con-to
IEL

o PoupaNa Investimento Investimento


)< interno externo
Essa equaylo mostra que a poupanyi de uma nayio deve ser igual ao seu inves-
timento intemo mais o investimento externo líquido. Em outras palavras, quando
1-1 os cidaffios dos Estados Unidos poupam um dólar de sua renda para o futuro, esse
dOlar pode ser usado para financiar a acumula o de capital intemo ou para finan-
\r ciar a compra de capital no exterior.
)
Essa equaYio deve lhe parecer familiar. Anteriormente, quando analisamos o
papel do sistema financeiro, consideramos essa identidade para o caso especial de
uma economia fechada. Numa economia fechada, o investimento extemo
zero (IEL = 0), de modo que a poupaNa e ig,ual ao investimento (S = I). Por outro
lado, uma economia aberta tem duas utilidades para sua poupaNa: investimento
interno e investimento extemo liquido.
Como antes, podemos imag,inar o sistema financeiro se situando entre os dois
lados da identidade. Por exemplo, suponha que a familia Smith decida poupar parte
-
de sua renda para a aposentadoria. Essa decis &) contribui para a poupaNa
nal, o lado esquerdo da nossa equa o. Se os Smith depositarem sua poupaNa em
um fundo mtuo, este podeth usar parte do depOsito para comprar ações emitidas
pela General Motors, que usa os recursos para construir uma fEibrica em Ohio.
Alem disso, o fundo mtltuo pode usar parte do depOsito dos Smith para comprar
da Toyota, que usa os recursos para construir uma filbrica em Osaka. Essas
s--
transab'es aparecem do lado direito da equa o. Do ponto de vista da
de dos Estados Unidos, a despesa da General Motors na nova fbrica é investimen-
.
to interno e a compra de g 6es da Toyota por um residente dos Estados Unidos
investimento externo líquido. Portanto, toda a poupanyi da economia dos Estados
Unidos aparece como investimento na economia dos Estados Unidos ou como
investimento externo líquido dos Estados Uniclos.

s'•

ç J Juntando Tudo
A Tabela 1 resume muitas das ideias apresentadas ate aqui neste capitulo. Ela des-
creve as tres possibilidades para uma economia aberta: um pais com deficit comer-
cial, um pais com equilibrio comercial e um pais com supethvit comercial.
Vamos considerar, primeiro, um pais com supervit comercial. Por definição, um
p
sul_ ervit comercial significa que o valor das exporta es excede o das in-iportaY5es.
Como as exporta es liquidas são as exportac,..6. es menos as importa es, as expor-
-
tg c5es liquidas (EL) s".o maiores do que zero. Como resultado, a renda (Y = C + I +
G + EL) deve ser maior do que a despesa intema (C + I + G). Mas se Y é maior do
que C + I + G, ento Y - C - G deve ser maior do que I. Ou seja, a poupana (S =
Y- C - G) deve ser maior do que o investimento. Como o país estE'l poupando mais
CAPiTULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 683

TABELA 1

Deficit Comercial Equilibrio Comercial Superavit Comercial Fluxos lnternacionais de


Exportadbes < Importadbes Exportadbes = Importadbes Exportadbes > ImportadOes Bens e Capital: Resumo
Exportadbes liquidas < 0 Exportadbes liquidas = 0 Exportadbes liquidas > 0 Esta tabela mostra as tres
Y<C+I+G Y=C+I+G Y> C + + G resultaclos possiveis para
Poupanda < lnvestimento Poupanda = lnvestimento Poupanda > lnvestimento uma economia aberta.
lnvestimento externo liquid() < 0 lnvestimento externo liquido = 0 lnvestimento extern° >0

do que investindo, deve estar enviando para o exterior uma parte de sua poupan-
ca. Ou seja, o investimento extern° liquid° deve ser major que zero.
A mesrna logica, porem invertida, se aplica a urn pais corn deficit comercial
(como a economia dos Estados Unidos durante a decada de 1990. Por definicao, urn
deficit comercial significa que o valor das exportacoes é menor do que o valor das
importacOes. Como as exportacoes liquidas so as exportacaes menos as importa-
coes, as exportacoes liquidas (EL) sao negativas. Portant°, a renda (Y = C + I + G +
EL) deve ser menor do que a despesa interna (C + I + G). Mas se Ye menor do que
C + I + G, entdo Y — C — G deve ser menor do que I. Ou seja, a poupanca deve ser
menor do que o investimento. 0 investimento externo liquid° deve ser negativo.
Urn pais corn equilibrio comercial est6 entre esses dois casos. As exportacOes
sdo iguais as importacoes, de modo que as exportac6es liquidas s5o zero. A renda
é ig-ual a despesa interna e a poupanca é ig-ual ao investment°. 0 investment°
extern° liquid() é zero.

Estudo de Caso
0 DEFICIT COMERCIAL DOS ESTADOS UN1DOS E UM PROBLEMA
NACIONAL?

Voce talvez ja tenha ouvido a imprensa se referir aos Estados Unidos como "o
major devedor do mundo". 0 pais tornou-se merecedor da descricao por tomar
pesados emprestimos nos mercados financeiros mundiais durante as duas ultimas
decadas para financiar grandes deficits comerciais. Por que os Estados Unidos fize-
ram isso e por que isso deve ser motivo de preocupacao para os norte-americanos?
Para responder a essas questoes, vamos ver o que as identidades contabeis
macroeconomicas nos dizem sobre a economia norte-americana. 0 painel (a) da
Figura 2 (p. 684) mostra a poupanca nacional e o investimento interno como per-
centual do seu PIB ciesde 1960. 0 painel (b) mostra o investimento extemo liquid()
como percentual do PIB. Observe que, como exigem as identidades, investimento
extern() liquid° é sempre iguala poupanca nacional menos o investment° intern°.
A figura mostra uma mudanca drastica a partir do inicio da decada de 1980.
Antes de 1980, a poupanca nacional e o investimento intern° estavam proximos e,
portant°, o investment° extern° era pequeno. Contudo, depois de 1980, a pou-
panca nacional caiu abaixo do investimento, e o investimento externo liquid° tor-
nou-se urn gande mimero negativo. Ou seja, os estrangeiros estavam comprando
mais ativos de capital nos Estados Unidos do que os norte-americanos estavam
comprando no exterior. Os Estados Unidos estavam se endividando.
A histOria mostra que as alteracoes nos fluxos de capital surgem, algumas vezes,
em decorrencia de alteracoes na poupanca e, em outros casos, em decorrencia de
684 PARTE 11 A MACROECONOM1A DAS ECONOM1AS ABERTAS

FIGURA 2

Poupanca Nacional, (a) PoupaNa Nacional e Investimento Interno (conno porcentagem do PIB)
Investimento Interno e Saida Porcentagem
do PIB
Liquida de Capitais 20
0 poinel (a) mostra a poupanco Investimento interno
nacional e o investimento intemo 18
como percentual do P18. 0 painel
(b) mostra o investimento externo
líquido como percentual do P18. 16
Podemos ver nc figura que, a partir
de 1980, a poupanca nacional 14
relativamente ao que era
antes. Essa queda no poupanca
12 Poupanca nacional
nacional tem-se refletido principal-
mente na reducao do investimento
extemo llquido e nao em uma 10
reducao do investimento intemo. 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000

—1

-2

-3

-4
1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000

altera es no investimento. Entre 1980 e 1987, o fluxo de capital para os Estados


Unidos passou de 0,5`)/0 para 3,0% do PIB. Dessa varig a- - o de 2,5 pontos percen-
tuais, uma queda na poupaNa responde por 2,1 pontos percentuais. Esse declinio
na poupaNa nacional, por sua vez, pode ser atribuido em parte a um declinio na
pouparia pUblica — ou seja, um aumento no deficit oNamentffiio do govemo.
Uma histria diferente explica os acontecimentos na decada seg,uinte. De 1991
a 2000, o fluxo de capital j_-)ara os Estaclos Unidos passou de 0,3% para 3,7% do PIB.
Nada dessa muclana de 3,3 pontos percentuais pode ser atribuiclo a um declinio
na pouparwa; na verdade, a pouparwa aumentou nesse periodo, enquanto o oNa-
mento do governo passou de deficitrio para superavitrio. Mas o investimento
aumentou de 13,4% para 17,9% do PIB quando a economia experimentou um
boont da tecnologia da informa o e muitas empresas estavam ansiosas por fazer
CAPiTULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 685

esses investimentos de alta tecnologia (o boom acabou em 2001, quando uma reces-
sao deprimiu tanto o investimento quanto a poupanca; voltaremos a esse evento
de curto prazo num capitulo futuro).
Esses deficits comerciais sao um problema para a economia dos Estados
Unidos? Para responder a essa questa°, é importante ficar de olho na poupanca e
no investimento da nacao.
Vamos considerar, primeiro, urn deficit comercial causado por uma queda na
poupanca, como ocorreu durante a decada de 1980. Uma menor poupanca signi-
fica que a nacao esti reservando uma parcela menor de sua renda para precaver-
se quanto ao futuro. Uma vez que a poupanca nacional tenha diminufdo, contudo,
nao ha motivo para lamentar os deficits comerciais resultantes. Se a poupanca
nacional caisse sem causar deficit comercial, o investimento nos Estados Unidos
teria de diminuir. Essa queda no investimento, por sua vez, afetaria desfavoravel-
mente o crescimento do estoque de capital, a produtividade do trabalho e os saki-
hos reais. En-1 outras palavras, dado que a poupanca dos Estados Unidos declinou,
é melhor ter investimento estrangeiro na economia norte-americana do que nao
ter nenhum investimento.
Vamos agora considerar urn deficit comercial causado por urn boom de investi-
mento, como o que vimos na decada de 1990. Nesse caso, a economia esta toman-
do dinheiro no exterior para financiar a compra de novos bens de capital. Se esse
capital adicional proporciona urn born retomo sob a forma de major producao de
bens e servicos, entao a economia devera ser capaz de arcar corn as dividas que
acumular. Por outro lado, se os projetos de investimento nao proporcionarem os
retomos previstos, o endividamento parecera menos desejavel, pelo menos em
retrospect°.
Nao ha uma resposta simples e correta para a pergunta feita no titulo deste
estudo de caso. Assim como as pessoas podem se endividar de maneira prudente
ou prodiga, as nacoes tambem podem se endividar. 0 deficit comercial nao é urn
problema em si, mas, por vezes, pode ser urn sintoma de urn problema. •

Teste Rapido Defina exportacao liquida e investimento extern° liquido. Explique como se relacionam.

OS PREOS DAS TRANSAOES INTERNACIONAIS: TAXAS DE


CAMBIO REAL E NOMINAL
Ate aqui, discutimos as medidas do fluxo de bens c servicos e do flux° de capital
pelas fronteiras de uma nacao. Alem dessas variaveis quantitativas, os macroeco-
nomistas tambem estudam variaveis que medem os precos aos quais se dao essas
transacaes internacionais. Assim como o preco ern qualquer mercado desempenha
a importante funcao de coordenar compradores e vendedores no mercado, os pre-
cos internacionais ajudam a coordenar as decisoes dos consumidores e dos produ-
tores quando interagem nos mercados mundiais. Aqui, discutimos os dois precos
internacionais mais importantes - as taxas de cambio nominal e real.

Taxa de Cambia Nominal


taxa de cambio nominal
A taxa de cambio nominal e a taxa a qual uma pessoa pode trocar a moeda de urn
a taxa a qual uma pessoa
pais pela de outro. Por exemplo, se voce for ao banco, pode ver anunciada uma taxa
de cambio de 80 ienes por Mar. Se voce der ao banco urn &Aar o banco lhe dara pode trocar a moeda de urn

em troca 80 ienes japoneses; e se voce entregar ao banco 80 ienes japoneses, ele lhe pais pela de outro
686 PARTE 11 A MACROECONOM1A DAS ECONOMIAS ABERTAS

dari um dOlar dos Estados Unidos. (Na pthtica, o banco cobrani pre9os ligeiramen-
te diferentes para a compra e a venda de ienes. As diferenas proporcionam ao
banco algum lucro por oferecer esse servi o. Para os nossos fins, podemos ig,norar
essas difereNas.)
Uma taxa de G:1'mbio pode sempre ser expressa de duas maneiras. Se a taxa de
cimbio for de 80 ienes por dOlar, tambem é ig-ual a 1/80 (= 0,0125) dOlar por iene.
No decorrer do livro, sempre expressaremos a taxa de câmhio nominal como uni-
dades da moeda estrangeira por dOlar dos Estados Unidos, por exemplo, 80 ienes
por dOlar.
Quando a taxa de câmbio muda de modo que um dOlar compre mais moeda
apreciack estrangeira, essa mudaNa é chamada de aprecia o do dOlar. Se a taxa de cârnhio
um aumento do valor de muda cle modo que um dOlar compra menos moeda estrangeira, essa mudaNa
uma moeda medido pela chamada de deprecia o do dOlar. Por exemplo, quando a taxa de cffinbio sobe de
quantidade de moeda 80 para 90 ienes por dOlar, diz-se que o dOlar apreciou. Ao mesmo tempo, como um
estrangeira que ela pode iene japones agora compra menos moeda dos Estados Unidos, diz-se que o iene
depreciou. Quando a taxa de cffiribio cai de 80 para 70 ienes por dOlar, dizemos que
comprar
o dOlar depreciou e que o iene apreciou.
depreciado Voce talvez jEl tenha ouvido a midia relatar que o dOlar est forte" ou "fraco".
uma reduck do valor de Essas descri es usualmente referem-se a alterac-5es recentes na taxa de cffiTibio
nominal. Quando uma moeda se aprecia, diz-se que ela está fortalecida porque
uma moeda medida pela
pode, assim, comprar mais moeda estrangeira. De forma similar, quando uma
quantidade de moeda
moeda se deprecia, diz-se que ela est. enfraquecida.
estrangeira que ela pode Para cada pais, há muitas taxas de cmbio nominais. 0 dOlar dos Estados
comprar Unidos pode ser usado para comprar ienes japoneses, libras britffilicas, pesos mexi-
canos e assim por diante. Quando os economistas estudam as variab'es na taxa de
freqiientemente usam indices que representam uma media dessas diver-
sas taxas de câmhio. Da mesma maneira que o indice de preos ao consumidor
transforma os muitos preos da economia em uma medida Unica do nivel de pre-
c;os, um indice de taxa de cârnhio transforma essas diversas taxas de cârnbio em
uma só medida do valor intemacional da moeda. Desse modo, quando os econo-
mistas falam sobre aprecia o ou deprecia5o do dOlar, freqiientemente est;-io se
referindo a um indice de taxa de dimbio que leva em conta diversas taxas de m-
bio individuais.

==
1› Taxa de Gmbio Real

taxa de dmbio real A taxa de ckribio real e a taxa à qual uma pessoa pode trocar os bens e serviy:is
a taxa à qual uma pessoa de um pais pelos bens e servios de outro pais. Por exemplo, suponha que voce
pode negociar os bens e às compras e descubra que um quilo de queijo suko custa duas vezes mais do que
servicos de um pais pelos um quilo de queijo americano. Poderiamos, ento, dizer que a taxa de c. .mbio real
bens e servicos de outro pais de 1/2 quilo de queijo suio por quilo de queijo americano. Observe que, como a
r
taxa de câmhio nominal, a taxa de cffinbio real é expressa como unidades do item
çAJ
•-V) estrangeiro por unidade do ite.m nacional. Mas, nesse caso, o item e um bem e n". o
uma moeda.
As taxas de cffinbio nominal e real esto estreitamente relacionadas. Para ver por
1, („&) „ X •

(\31'. '" que, vamos considerar um exemplo. Suponha que uma saca de arroz americano
custe $ 100 e que uma saca de arroz japones custe 16 rnil ienes. Qual e a taxa de
mbio real entre o arroz americano e o arroz japones? Para responder a essa per-
gunta, devemos primeiro usar a taxa de cârnhio nominal para converter os preos
em uma moeda comum. Se a taxa de cmbio nominal é de 80 ienes por dOlar, ent',5o
o preQo do arroz americano, de $ 100 por saca, e equivalente a 8 mil ienes por saca.
0 arroz americano custa a metade do que custa o arroz japones. A taxa de cffinbio
real é de 1/2 saca de arroz japones por saca de arroz americano.
CAPITULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 687

Podemos resumir esse calculo da taxa de cambio real corn a seguinte formula:

Usando os ntimeros do nosso exemplo, a formula é aplicada da seguinte forma:

= 1/2 saca de arroz japones por saca de arroz americano.

Portant°, a taxa de cambio real depende da taxa de cambio nominal e dos precos
dos bens nos dois paises medidos em moedas locais.
Por que a taxa de cambio real é importante? Como voce pode adivinhar, a taxa
de cambio real é urn determinante-chave do quanto urn pais importa e exporta.
Quando a Uncle Ben's Inc. decide se deve comprar arroz americano ou arroz japo-
nes para colocar em suas embalagens, por exemplo, ird perguntar qual dos dois é
mais barato. A taxa de cambio real oferece a resposta. Mais urn exemplo: imagine
que voce esti decidindo se deve passar as ferias em Miami, Florida, ou em Cancun,
no Mexico.Voce pode perguntar ao seu agente de viagens o Few de urn quarto de
hotel em Miami (medido em Mares), o preco de urn quarto em Cancun (medido
em pesos) e a taxa de cambio entre pesos e dOlares. Se decidir onde passar suas
ferias por meio de uma comparacao dos custos, sua decisao sera baseada na taxa
de cambio real.
Ao estudar a economia, os macroeconomistas concentram-se no nivel geral de
precos e nao nos precos de itens individuais. Ou seja, para medir a taxa de cambio
real, eles usam indices de precos, como o indice de precos ao consumidor, que
medem o preco de urna cesta de bens e servicos. Usando urn inclice de precos para
uma cesta dos Estados Unidos (P), urn indice de precos para uma cesta estrangei-
ra (P*) e a taxa de cambio nominal entre o Mar norte-americano e as moedas
estrangeiras (e) , podemos calcular a taxa de cambio real geral entre os Estados
Unidos e outros paises da seguinte maneira:

/Taxa de cambio real = (e x P) I P*

Essa taxa de cambio real mede o preco de uma cesta de bens e servicos disponivel
internamente em relacao a uma cesta de bens e servicos disponivel no exterior.
Como veremos em detalhes no prOximo capitulo, a taxa de cambio real de urn
pais é urn determinante-chave de suas exportacoes liquidas de bens e servicos.
Uma depreciacao (queda) da taxa de cambio real dos Estados Unidos significa que
os bens americanos se tornaram mais baratos em relacao aos bens estrangeiros.
Essa alteracao incentiva os consumidores tanto internos quanto estrangeiros a
comprar mais bens dos Estados Unidos e menos bens de outros paises. Como
resultado, as exportacoes dos Estados Unidos aumentam e suas importacaes
caem, e essas duas alteracaes aumentam as exportacoes liquidas dos Estados
Unidos. Inversamente, uma apreciacao (elevacao) da taxa de cambio real dos
Estados Unidos significa que os hens norte-americanos tornaram-se mais caros
em relac5o aos bens estrangeiros, de modo que as exportacoes liquidas dos
Estados Unidos caem.
688 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

Unidos tivesse uma moeda diferente. Toda vez que você cruzasse
uma fronteira estadual, precisaria trocar seu dinheiro e fazer calcu-
los da taxa de cambio como os que foram discutidos no texto. Isso
seria inconveniente e poderia impedir que você comprasse bens e
servicos fora de seu pr6prio estado. Os paises da Europa decidiram
SAIBA MAIS SOBRE... que, como suas economias tornaram-se mais integradas, seria
melhor evitar esse inconveniente.
Até certo ponto, a adocao de uma moeda comum na Europa
0 EURO
foi uma decisao politica baseada em preocupaces que iam al&n
do ambito da economia normal. Alguns defensores do euro que-
você ja deve ter ouvido falar de, ou talvez até mesmo visto, moe-
riam reduzir os sentimentos nacionalistas e fazer com que os euro-
das como o franco franc, o marco alemao ou a lira italiana. Esses
peus percebessem melhor sua hist6ria e seu destino comuns. Uma
tipos de moedas nao existem mais. Durante a dkada de 1990, mui-
s6 moeda para a maior parte do continente, argumentavam, ajuda-
tas naces europ6as decidiram abrir mao de suas moedas nacionais
ria a atingir esse objetivo.
e usar uma moeda comum chamada euro. 0 euro entrou em circu-
Entretanto, existem custos na opcao por uma moeda comum.
lacao em 1 = de janeiro de 2002. A politica monetaria da zona do
Se as nab- es da Europa tiverem somente uma moeda, elas podem
euro é agora estabelecida pelo Banco Central
ter somente uma politica monetaria. Se dis-
Europeu (BCE), com representantes de todos
cordarem a respeito de qual seja a melhor
os paises participantes. 0 BCE emite o euro e
politica monetaria, terao de chegar a algum
controla a oferta dessa moeda, da mesma tipo de acordo, em vez de seguir cada uma
forma que o Federal Reserve controla a oferta
de d6lares na economia dos Estados Unidos.
r 104,4 por seu pr6prio caminho. Como adotar uma
moeda comum tem tanto beneficios quanto
Por que esses paises adotaram uma custos, ha um debate entre os economistas
moeda comum? Um beneficio de uma moeda sobre se a recente adocao do euro foi uma
comum é que ela facilita o com&cio. Imagine 4-2)
boa decisao. Só o tempo dira os efeitos que a
que cada um dos 50 estados dos Estados decisao tera.

Teste R, pido Defina taxa de c mb •o nominal e taxa de c(imbio real e explique como estao relaciona-
das. • Se a taxa de cambio nominal aumentar de 100 para 120 ienes por ddar, o d6lar tera apreciado ou
depreciado?

) 0(-•,#
,r\
UMA PRINWA VEOWA Å DETERWNACAO DA TAXA
, 51*
C\). CAMBIO: PARIDADE DO PODER DE COMPRA
As taxas de cambio variam substancialmente com o passar do tempo. En-i 1970, um
Mar americano poderia ser usado para con-iprar 3,65 marcos alem'aes ou 627 liras
italianas. Em 1998, quando a Alen-ianha e a It1ia pre.paravam-se para adotar o euro
,
..; pandade do poder de como iTioeda comum, um dOlar americano comprava 1,76 marco alemao ou 1.737
compra liras italianas. Em outras palavras, nesse periodo o valor do d6lar caiu em mais da
teoria das taxas de cambio r
metade se comparado ao n-larco e mais do que dobrou se comparacio à lira.
0 que explica essas grandes e diferentes mudancas? Os economistas desenvol-
segundo a qual uma unidade
veram muitos modelos para explicar como as taxas de can-ibio sao determinadas,
. «?) de qualquer moeda dada
cada um dando ênfase a apenas algumas das forcas em ac. o. Aqui, desenvolvemos
deveria ser capaz de comprar'
a mais simples das teorias das taxas de cârnhio, chamada de paridade do poder
a mesma quantidade de de compra. Essa teoria declara que uma unidade de qualquer moeda dada deve-
) bens em todos os paises ria ser capaz de comprar a mesma quantidade de bens em todos os paises. Muitos
CAPETULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 689

economistas acreditam que a paridade do poder de compra descreve as forcas que


determinam as taxas de cambio no longo prazo. Consideraremos agora a logica em
que cssa teoria de longo prazo das taxas de cambio esta baseada e suas implicacoes
e limitacOes.

A Logica Fundamental da Paridade do Poder de Compra


A teoria da paridade do poder de compra se baseia em urn principio chamado lei
do pi-cc-7o unico. Essa lei afirma que urn bem deve ser vendido pelo mesmo 'Drew em
todas as localidades. Caso contrario, haveria oportunidades inexploradas de lucro.
Por exemplo, suponha que o cafe em grad seja mais barato em Seattle do que em
Boston. Uma pessoa poderia comprar café em Seattle por, digamos, $ 4 o quilo e
entao vende-lo em Boston por $ 5 o quilo, obtendo urn lucro de $ 1 por quilo devi-
do a diferenca de preco. 0 processo de tirar vantagem das diferencas de preco em
diferentes mercados é chamado de arbitragem. Em nosso exemplo, a medida que as
pessoas tirassem vantagem dessa oportunidade de arbitragem, aumentariam a
demanda por cafe em Seattle e a oferta de cafe em Boston. 0 preco do café aumen-
taria em Seattle (em resposta a major demanda) e diminuiria em Boston (em res-
posta i major oferta). 0 process() continuaria ate que, finalmente, os precos ficas-
sem iguais nos dois mercados.
Examinemos agora como a lei do Few inico aplica-se ao mercado internacio-
nal. Se urn Mar (ou outra moeda qualquer) pudesse comprar mais cafe nos
Estados Unidos do que no Japao, os negociantes intemacionais podcriam lucrar
comprando cafe nos Estados Unidos e vendendo-o no Japao. Essa exportacao de
cafe dos Estados Unidos para o Jal.-)ao elevaria o preco do café nos Estados Unidos
e o reduziria no Jal.-)ao. De modo inverso, se urn Mar pudesse comprar mais cafe
no Japao do que nos Estados Unidos, os negociantes comprariam cafe no Japao
para vender nos Estados Unidos. Essa importacao de cafe do Japao para os Estados
Unidos reduziria o preco do cafe nos Estados Unidos e o aumentaria no Japao. No
final, a lei do preco unico nos diz que urn dOlar deve comprar a mesma quantida-
de de café em todos os paises.
Essa logica nos leva ii teoria da paridade do poder de compra. De acordo corn
essa teoria, uma moeda deve ter o mesmo pocier de compra em todos os paises. Ou
seja, urn dolar dos Estados Unidos deve comprar a mesma quantidade de bens nos
Estados Unidos e no Japao, e urn iene japones deve comprar a mesma quantidade
de bens no Japao e nos Estados Unidos. De fato, o nome da teoria descreve-a bem.
Paridade significa ig,ualdade e poder de compra refere-se ao valor da moeda. Paridade
do poder de corn pea sig,nifica que uma unidade de todas as moedas deve ter o mesmo
valor real em todos os paises.

ImplicacOes da Paridade do Poder de Compra


0 que a teoria da paridade do poder de compra nos cliz sobre as taxas de cambio?
Ela nos diz que a taxa de cambio nominal entre as moedas de dois paises depencie
do nivel de precos nesses Raises. Se urn Mar compra a mesma quantidade de bens
nos Estados Unidos (onde os precos sao meclidos em Mares) e no Japao (oncie os
precos sao medicios em ienes), entao o niimero de ienes por dolar deve refletir
os precos dos bens nos Estados Unidos e no Japa-o. Por exemplo, se urn quilo
cafe custa 500 ienes no Japao e $ 5 nos Estados Unidos, a taxa de cambio nominal
deve ser de 100 ienes por &Tar (500 ienes/$ 5 = 100 ienes por Mar). Caso contra-
do, o poder de compra do dol.& nao sera o mesmo nos dois Raises.
Para entender melhor como isso funciona, é ütil usar urn pouco de matematica.
Suponha que P seja o preco de uma cesta de bens nos Estados Unidos (medido em
690 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

dOlares), P* seja o pre93 de uma cesta de bens no Japao (medido em ienes) e e seja
a taxa de cambio nominal (o nmero de ienes que um dOlar pode comprar).
Considere agora a quantidade de bens que um dOlar pode comprar nos Estados
Unidos e no exterior. Nos Estados Unidos, o nivel de 1_-)reos é P, de modo que o
poder de compra de $ 1 e 1/P. No exterior, um dOlar pode ser trocado por e unida-
des da moeda estrangeira, que, por sua vez, tem poder de compra de elP*. Para que
o poder de compra do dOlar seja o mesmo nos dois paises, e preciso que:

1/P = elP*

Reorganizando, a equaao resulta

1 = ePIP*

Observe que o lado esquerdo dessa equgao é uma constante e que o seu lado
direito é a taxa de cambio real. Portanto, se o poder de compra do d6lar é sempre o
-
mesmo, seja nos Estados Unidos ou no exterior, ent do a taxa de câiiibio real — o prep rela-
tivo dos bens internos e ex-ternos — niTh pode inudar.
Para ver a implicaao dessa analise para a taxa de cambio nominal, podemos
reorganizar a última equgao resolvendo-a para a taxa de cambio nominal:

c = P*IP
Ou seja, a taxa de cambio nominal é igual à razao entre o nivel de preQos extemos
(medido em unidades da moeda estrangeira) e o nivel de preos intemo (medido
em unidades da moeda interna). De acordo COM a teoria da paridade do poder de COM-
pra, a taxa de cthnbio noi-ninal entre as moedas dos dois paises deve refietir os diferentes
niveis de preps desses dois paises.
Uma implicgao-chave dessa teoria e o fato de que as taxas de cambio nominais
mudam quando os niveis de 1_-)rey3s n-iudam. Con-io vimos no capitulo anterior, o
nivel de preos em urn pais qualquer ajusta-se para equilibrar a quantidade de
moeda ofertada e a quantidade de moeda demandada. Como a taxa cie cambio
nominal depende dos niveis de preos, depende tambem da oferta e da demanda
de moeda em cada pais. Quando o banco central de um pais aun-ienta a oferta de
moeda e provoca uma elevaao no nivel de pre9os, ele tambem provoca a depre-
cigao da moeda do pais em relgao a outras moedas do mundo. Em outras pala-
vras, quando o banco central emite grandes quantidades de moeda, a moeda perde valor,
tanto em termos dos bens e serviffis que pode comprar, quanto em termos da quantidade
de outras moedas que pode comprar.
Agora poden-los dar resposta à pergunta que iniciou esta seao: por que o dOlar
americano perdeu valor comparado com o marco alemao e ganhou valor compara-
do com a lira italiana? A resposta é que a Alemanha seguiu uma politica moneta-
ria menos inflacionaria do que os Estados Unidos, e a Italia seguiu uma politica
monetaria mais inflacionaria. Entre 1970 e 1998, a inflaao nos Estados Unidos foi
de 5,3% ao ano. Por outro lado, a inflgao foi de 3,5% ao ano na Alemanha e de
9,6% ao ano na Italia. Como os pre9os dos Estados Unidos aumentaram em rela-
ao aos da Alemanha, o valor do dOlar caiu em relgao ao rnarco. De forma similar,
como os pre9p s nos Estados Unidos cairam em relgao aos preos na Italia, o valor
do dOlar aumentou em relaao à lira.
Alemanha e Italia te'm, hoje, uma moeda comum — o euro. Isso significa que
os dois paises compartilham uma sO politica monetaria e que suas taxas de
ção estarao estreitamente relacionadas. Mas as lições histOricas da lira e do marco
se aplicarao ao euro da mesma forma. Se o dólar americano claqui a 20 anos ira
CAPiTULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BAS1COS 691

comprar mais ou menos euros do que hoje, depende de o Banco Central Europeu
produzir mais ou menos inflacao na Europa do que o Federal Reserve nos
Estados Unidos.

Estudo de Caso
A TAXA DE CAMBIO NOMINAL DURANTE UMA HIPERINFLACAO*
Os macroeconomistas raramente podem conduzir experimentos controlados. Mais
frequentemente, des clevem extrair aquilo de que necessitam de experimentos
naturais que a histaria lhes proporciona. Urn experiment° natural é a hiperinflacao
— a alta inflacao que aparece quando o governo recorre a emissoes para pagar gran-
des despesas governamentais. Como as hiperinflac5es sao eventos extremos, elas
ilustram claramente alguns principios economicos basicos.
Consiciere a hiperinflacao alema do inicio da decada de 1920. A Figura 3 mostra
a oferta de moeda alema, o nivel de precos alemao e a taxa de cambio nominal
(medida como centavos de Mar dos Estados Unidos por marco alemao) para
aquele period°. Observe que as series se movem de maneira muito proxima.
Quando a oferta de moeda comeca a crescer rapidamente, o nivel de precos tam-
hem decola e o marco alemao deprecia. Quando a oferta de moeda se estabiliza, o
mesmo ocorre corn o nivel de precos e a taxa de cambio.
0 padrao apresentado nessa figura aparece em todas as hiperinflacoes. Isso nao
deixa cinvida de que ha uma ligacao fundamental entre moeda, precos e a taxa de
cambio nominal. A teoria quantitativa da moeda discutida no capitulo anterior
explica como a oferta de moeda afeta o nivel de precos. A teoria da paridade do
poder de compra aqui discutida explica como o nivel de precos afeta a taxa de cam-
bio nominal. •

FIGURA 3

Indices
(Jan. 1921 = 100) Moeda, Precos e a Taxa de Cambio
Nominal Durante a Hiperinflacao
1.000.000.000.000.000 Alema
• Esta figura mostra a oferta de moeda, o
nivel de precos e a taxa de combio (medi-
10.000.000.000 da coma centavos de dolor par marco)
durante a hiperinflacao alema, entre janeiro
Nivel de brews) de 1927 e dezembro de 1924. Observe
100.000 coma essas tres variaveis se movem de
modo semelhante. Quando a quantidade
de moeda comecou a crescer rapidamente,
o nivel de precos a seguiu e o marco se
depreciou em relocao ao dolor. Quando o
banco central alemao estabilizou a oferta
Taxa de cambio de moeda, o nivel de precos e a taxa de
0,00001
cambia tomb& se estabilizaram.
Fonte: Adaptado de Thomas J. Sargent The
0,0000000001 I end of four big inflations. In: Robert Hall (ed.).
1921 1922 , 1923 Inflation. Chicago: University of Chicago Press,
1983, P. 41-93. Reimpresso corn permissao.
692 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOM IAS ABERTAS

Limita0es da Paridade do Poder de Compra


A paridade do poder de compra oferece um modelo simples de como as taxas de
dimbio s5o determinadas. A teoria funciona bem para ajudar a entender muitos
fenOmenos econmicos. Em particular, ela pode explicar muitas tendencias de longo
prazo, como a deprecia o do dOlar em reladio ao marco alernão e a aprecia o do
dOlar em relg' o à lira italiana, discutidas anteriormente. Pode ainda explicar impor-
.
tantes varig c5es clas taxas de câmhio que se ffio durante uma hiperinfla o.
Todavia, a teoria da paridade do poder de compra ri . 0 e totalmente precisa. Ou
seja, as taxas de cârnbio nem sempre se movem de maneira a garantir que um dOlar
tenha o mesmo valor real em todos os paises o tempo todo. Existem duas razes
pelas quais a teoria da paridade do poder de compra nem sempre ocorre na prkica.
A primeira raz e o é que muitos bens não podem ser facilmente comercializados.
Imagine, por exemplo, que os cortes de cabelos sejam mais caros em Paris do que
em Nova York. Viajantes intemacionais poderiam evitar cortar os cabelos em Paris
e alguns cabeleireiros poderiam mudar-se de Nova York para Paris. Todavia, essa
arbitragem provavelmente seria por demais limitada para eliminar as difereNas
nos preos. Desse modo, o desvio da paridade do poder de compra pode persistir
e um dOlar (ou um euro) continuaria a comprar menos corte de cabelo em Paris do
que em Nova York.
A seg-unda raz a- - o pela qual a paridade do poder de compra nem sempre se man-
tem e o fato de que mesmo os bens comercialithveis nem sempre são substitutos
perfeitos quando s'k) produzidos em paises cliferentes. Por exemplo, alguns consu-
midores preferem carros alem - es, e outros preferem carros americanos.Alem disso,
as prefer'encias dos consumidores podem mudar com o passar do tempo. Se os car-
ros alemies subitamente tornarem-se mais populares, o aumento da demanda
elevar o seu prec;.o em reladio aos carros americanos. Mas, apesar dessa difereNa
de preos nos dois mercados, pode rik) haver oportunidade para uma arbitragem
lucrativa porque os consumidores não consideram os dois tipos de carro como
equivalentes.
Portanto, tanto por causa dos bens que rik) são con-iercializveis quanto por
causa de alguns bens que são comercializ eis mas não são substitutos perfeitos em
rela o aos seus semelhantes estrangeiros, a paridade do poder de compra n-a'o
uma teoria perfeita da dete.rn-iinalo cia taxa cle cârnhio. Por essas raz'Oes, as taxas de
dimbio reais flutuam ao longo do tempo. Entretanto, a teoria da paridade clo poder
de compra oferece um primeiro passo útil para a compreens5o das taxas de
A lógica bsica e convincente: à medida que a taxa de cârnbio real se afasta do nivel
previsto pela paridade do poder de compra, as pessoas tem maiores incentivos para
transportar bens atraves c-le fronteiras nacionais. Ainda que as foNas da paridade do
-
poder de compra 1-1 k) fixern completamente a taxa de câmhio real, elas oferecem
-
uma razo para esperar que as varig Oes das taxas de c mbio reais sejam, em geral,
pequenas ou temporkias. Como resultado, movimentos grandes e persistentes das
taxas de dimbio nominais normalmente refletem alterK6es nos niveis de preos
intemamente e no exterior.

Estudo de Caso
0 PADRks HAMB(JRGUER
Quando os economistas aplicam a teoria da paridade do poder de compra para
explicar as taxas de cârnhio, precisam de dados sobre os prec;os de uma cesta de
bens disponivel em diferentes paises. Uma ankise desse tipo e feita pela The
CAPITULO 31 MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 693

Economist, uma revista noticiosa internacional. A revista coleta, ocasionalmente,


dados sobre uma cesta de bens que consiste de "dois hambilrgueres, alface, queijo,
molho especial, cebola c picles num 1:)io com gergelim". A cesta é denominada "Big
Mac" e é vendida pelo McDonald's em todo o mundo.
Uma vez que tenhamos os prec;os do Big Mac na moeda local de dois paises,
podemos calcular a taxa de dimbio prevista pela teoria da paridade do poder de
compra. A taxa de câmhio prevista é aquela que iguala o custo de um Big Mac nos
dois paises. Por exemplo, se o preQb de um Big Mac for de $ 2 nos Estados Unidos cT,
e de 200 ienes no Japão, a paridade do poder de compra 1,-)rev'e' uma taxa de c m-
bio de 100 ienes por dOlar. 0
At que ponto a paridade do poder de con-ipra fu n ciona quando aplicada usan-
do os preos do Big Mac? Eis alg,uns exemplos extraidos de um artigo da The
s
Economist publicado em 25 de abril de 2002, quando o pre o de. um Big Mac era
$ 2,49 nos Estados Unidos: ,
Pais Preco do Big Mac •axa de Cambio Prevista Taxa de Cambio Vigente =
,2-2
Coreia do Sul 3.100 wons 1.245 wons/$ 1.304 wons/$
Japao 262 ienes 105 ienes/$ 130 ienes/$ Nos Estados Unidos, o preco
Sucia 26 coroas 10,4 coroas/$ 10,3 coroas/$ do Bíg Mac é de $ 2,49; no
Mexico 21,90 pesos 8,80 pesos/$ 9,28 pesos/$ Japcio, o preg) é de 262
Regiao do Euro 2,67 euros 1,07 euros/$ 1,12 euro/$ ienes.
Gra-Bretanha 1,99 libra 0,80 libra/$ 0,69 libra/$

Fonte: Copyright t 25 abr. 2002. The Economist Newspoper Ltd. Todos os direitos reservados. Reproduzido com per-
missk. Proibida a reproduck. http://mweconomist.com .

Vo& pode ver que a taxa de câmhio prevista e a taxa de ca'1'mbio real não são exa-
tamente as mesmas. Afinal, a arbitragem internacional em Big Macs não é nada
Mas as duas taxas de c.'mbio est,"-lo usualmente prOximas uma da outra. A
paridade do poder de compra nZio é uma teoria precisa das taxas de câmhio, mas
freqiientemente oferece uma razovel aj,-)roxima o inicial. •

Teste R4ido Nos dtimos 20 anos, a Espanha apresentou uma inflacao elevada, e o Japao, uma inflack
baixa. 0 que você imagina que tenha acontecido com o nUmero de pesetas espanholas que uma pessoa pode
comprar com um iene japons?

CONCLUSAC

0 objetivo deste capitulo foi desenvolver alguns conceitos bsicos que os macroe-
conomistas usam para estudar economias abertas. Agora você deve ser capaz de
entender por que as exportg'Oes liquidas de um pais devem ser iguais ao investi-
mento externo liquido e por que a poupaNa nacional deve ser igual ao investimen-
to interno mais o investimento extemo liquido. Deve entender tamb&T1 o significa-
do das taxas de dimbio nominal e real, assim como as implicações e limitações da
1.-)aridade do poder de con-ipra como teoria da determina o das taxas de
As varffiTeis macroecon6micas aqui definidas oferecem um ponto de partida
-
para a análise das interg Oes de uma economia aberta com o resto do mundo. No
prOximo capitulo, desenvolveremos um modelo que pode explicar o que determi-
na essas varffiTeis. Poderemos, ent5o, discutir como wirios eventos e politicas afe-
tam a balarwa comercial de um pais e a taxa à qual as riac; . 5es fazem trocas nos mer-
cados mundiais.
694 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

RESUMO
• Exportagoes liquidas é a denominacao que se di prey) relativo dos bens e servicos de dois paises.
ao valor dos bens e servicos nacionais vendidos no Quando a taxa de cambio nominal muda de
exterior menos o valor dos bens e servicos estran- maneira que cada Mar compra mais moeda
o-eiros vendidos internamente. 0 investimento estrangeira, diz-se que o dolar esti apreciado ou
externo liquid° é a aq-uisicao de ativos estrangeiros fortalecido. Quando a taxa de cambio nominal
por residentes intemos menos a aquisicao de ati- compra menos moeda estrangeira, diz-se que o
vos internos por residentes no exterior. Como cada Mar esti depreciado ou eilfraquecido.
transacao internacional envolve uma troca de urn • De acorcio corn a teoria da paridade do poder de
ativo por urn bem ou servico, o investirnento exter- compra, urn dolar (ou uma unidade de outra
no liquid° de urn pais é sempre igual as suas moeda qualquer) deve ser capaz de comprar a
exportacoes liquidas. mesma quantidade de bens em todos os palses.
• A poupanca de uma economia pode ser usada Essa teoria implica que a taxa de cambio nominal
tanto para financiar o investimento interno como entre as moedas de dois paises deve refletir os
para comprar ativos no exterior. Portant°, a pou- niveis de precos desses dois Raises. Como resulta-
panca nacional é igual ao investimento intemo do, palses corn inflacao relativamente elevada
mais o investimento externo liquid°. deverao ter sua moeda depreciada e palses coin
• A taxa de cambio nominal é o preco relativo da inflacao relativamente baixa deverao ter sua
moeda de dois Raises, e a taxa de cambio real é o moeda apreciada.

CONCEITOS-CHAVE
economia fechada, p. 676 superavit comercial, p. 676 taxa de cambio nominal, p. 685
economia aberta, p. 676 deficit comercial, p. 676 apreciacao, p. 686
exportacoes, p. 676 equillbrio comercial, p. 676 depreciacao, p. 686
importacoes, p. 676 flux° liquid° de capitais externos, taxa de cambio real, p. 686
exportacoes liquidas, p. 676 p. 678 paridade do poder de compra, p. 688
balanca comercial, p. 676 investimento externo liquido, p. 678

QUESTOES PARA REVISA0

PROBLEMAS E APLICACOES
CAPITULO 31 NIACROECONOMIA DAS ECONONIIAS ABERTAS: CONCEITOS BASICOS 695

e. Um cidadao canadense faz compras em uma 7. Cada um dos grupos a seguir ficaria satisfeito ou
loja no norte do estado americano de Vermont insatisfeito com uma aprecigao do dOlar america-
para evitar o imposto sobre vendas do Canada. no? Explique.
2. 0 comercio internacional de cada um dos produ- a. Fundos de pensao holandeses que mantem titu-
tos a seguir aumentou com o passar do tempo. De los do governo dos Estados Unidos.
algumas razes especificas para explicar 1_-)or clue b. A indstria manufatureira dos Estados Unidos.
isso ocorreu. c.Turistas australianos que planejam uma viagem
a. trigo aos Estados Unidos.
d. Uma empresa dos Estados Unidos que esta ten-
b. servios bancarios
tando comprar propriedades no exterior.
c. programas de computador
8. 0 que esta acontecendo com a taxa de cambio real
d. automOveis
dos Estados Unidos en-i cada uma das situges a
3. Descreva a diferenc;a entre investimento externo
seguir? Explique.
direto e investimento extemo em carteira. Quem a. A taxa de cambio nominal dos Estados Unidos
tem maior probabilidade de fazer investimento permanece inalterada, mas os prec;os aumentam
externo direto: uma empresa ou um investidor mais rapidamente nos Estados Unidos do que
individual? Quem tem maior probabilidade de no exterior.
fazer um investimento externo em carteira? b. A taxa de cambio nominal dos Estados Unidos
4. Como as transac;6es a seguir afetariam o investi- permanece inalterada, mas os preos aumentam
mento externo liquido dos Estados Unidos? mais rapidamente no exterior do que nos Esta-
Indique ainda se cada uma envolve investimento dos Unidos.
direto ou investimento em carteira. c.A taxa de cambio nominal dos Estados Unidos
a. Uma companhia de servi90 teleffinico celular cai e os pre.Qc)s permanecem inalterados tanto
norte-americana abre um escritOrio na nos Estados Unidos quanto no exterior.
blica Checa. d. A taxa de cambio nominal dos Estados Unidos
b. A Harrod's de Londres vende a95es ao fundo de cai e os preos aumentam mais rapidamente no
pensao da General Electric. exterior do que nos Estados Unidos.
c.A Honda exi,-)ande sua fabrica de 9. Liste tres bens para os quais a lei do preo Unico
Ohio. provavelmente se aplica e tres bens para os quais
-
d. 0 fundo miituo Fidelity vende suas g Oes da provavelmente nao se aplica. Justifique suas esco-
Volkswagen a um investidor frances. lhas.
5. Mantendo constante a poupana nacional, um 10. Uma lata de refrigerante custa $ 0,75 nos Estados
aun-iento no investimento externo liquido aumen- Unidos e 12 pesos no Mexico. Qual seria a taxa de
ta, diminui ou mantem inalterada a acumulgao de cambio peso—dOlar na vigencia da paridade do po-
capital interno de um pais? der de compra? Se uma expansao monetaria fizes-
se com que todos os preos no Mexico dobrassem,
6. A seao de economia da maioria dos grandes jor-
de modo que uma lata de refrigerante aumentasse
nais contem uma tabela mostrando as taxas de
para 24 pesos, o que aconteceria com a taxa de
cambio dos Estados Unidos. Encontre uma tabela
cambio peso—dOlar?
como essa e utilize-a para responder as perg,untas
11. Suponha que o arroz an-iericano seja vendido a $ 100
a seg,uir. por saca, o arroz japones seja vendido a 16 mil
a. A tabela apresenta as taxas de cambio nominais ienes por saca e a taxa de cambio nominal seja de
ou reais? Explique. 80 ienes por dOlar.
b. Quais sao as taxas de cambio entre os Estados a. Explique como voce poderia lucrar com essa
Unidos e o Canada e entre os Estados Unidos e situgao. Qual seria o seu lucro por saca de arroz?
o Japao? Calcule a taxa de cambio entre o Se outras pessoas explorassem a mesma oportu-
Canada e o Japao. nidade, o que aconteceria com o preo do arroz
c. Se no ano que vem a inflgao dos Estados no Japao e nos Estados Unidos?
Unidos fosse maior do que a inflac;ao japonesa, b. Suponha que o arroz seja a única mercadoria no
voce esperaria uma apreciaao ou uma deprecia- mundo. 0 que aconteceria com a taxa de cambio
ao do dOlar em relKao ao iene japones? real entre os Estados Unidos e o Japao?
696 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

12. Urn dos estudos de caso do capitulo analisou a a. Para cada pais, calcule a taxa de 6mbio prevista
paridade do poder de compra para diversos 'Daises da moeda local por Mar dos Estados Unidos
usando o preco do Big Mac. Apresentamos aqui (lembre-se de que o preco de urn Big Mac nos
dados para mais alguns paises: Estados Unidos era de $ 2,49). Ate que ponto a
teoria da paridade do poder de compra
Preco do Taxa de Carnbio Taxa de Cambio as taxas de cambio?
Pais Big Mac Prevista Vigente b. De acordo corn a paridade do poder de compra,
Indonesia 16.000 rupias r(ipias/$ 9.430 rupias/$ qual a taxa de cambio prevista entre o shekel
Hungria 459 forintes forintes3 272 forintes3 israelense e o Mar canadense? E qual a taxa de
ReptIlica Checa 56,29 korunas korunas3 34,0 korunas/$ cambio vigente?
Israel 12 shekels shekels3 4,79 shekels3
Canada 3,33 Mares &flares 1,57 Mares
canadenses canadenses3 canadense3
TEORIA MACROECONOMICA DA
ECONOMIA ABERTA

Nas duas tIltimas decadas, os Estados Unidos importaram persistentemente mais


bens e servkos do que exportaram. Ou seja, as exportaies liquidas dos Estados
Unidos tem sido negativas. Embora os econon-listas debatam se esses deficits
um problema para a economia dos Estados Unidos, a comunidade empresarial da
-
na a"o tem uma opinffio s6lida a respeito. Muitos lideres empresariais afirmam que
os deficits comerciais refletem competko desleal: as empresas estrangeiras s",;lo
autorizadas a vender seus produtos nos mercados dos Estados Unidos, dizem eles,
enquanto os govemos estrangeiros impedem que as empresas norte-americanas
vendam seus produtos no exterior.
Imagine que voce seja o presidente e deseje acabar com esses deficits comer-
ciais. 0 que deveria fazer? Deveria tentar limitar as importa es, talvez pela
sição de uma cota sobre a importalo de carros do Jap"o? Ou deveria tentar
influenciar o deficit comercial da na(fo de alguma outra maneira?
Para entender quais fatores determinam a balana comercial de um pais e como
as politicas do governo podem precisamos de uma teoria macroeconmi-
ca da economia aberta. 0 capitulo anterior introduziu alg-umas das principais
variveis macroeconmicas que descrevem a rela o de uma economia com outras
economias — incluindo exporta es liquidas, investimento externo liquido e as
taxas de c'ambio real e nominal. Este capitulo desenvolve um modelo que identifi-
698 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

ca as forces que cieterminam essas variaveis e mostra como essas variaveis se rela-
cionam umas corn as outras.
Para desenvolver esse model° macroeconomic° da economia aberta, ampliamos
nossa analise anterior de dois modos importantes. Primeiro, o model° tome o PIB
da economia como dado. Faremos a suposicao que a producao de bens e servicos da
economia, como medida pelo PIB real, é determinada pelas ofertas dos fatores de
producao e pela tecnologia de producao disponivel que transforma esses insumos
em produto. Segundo, o model° tome o nivel de precos da economia como dado.
Faremos a suposicao, tambem, de que o nivel de precos se ajusta pare equilibrar a
oferta e a demanda de moeda. Em outras palavras, este capitulo tome como pont°
de partida as licoes aprendidas nos capitulos 25 e 30 sobre a determinacao do pro-
duto e do nivel de precos da economia.
0 objetivo do modelo a ser desenvolvido neste capitulo é destacar as forces que
determinam a balanca comercial e a taxa de cambio da economia. Em um sentido,
o modelo é simples: aplica os instrumentos da oferta e da demanda a uma econo-
mia aberta. Porem, o modelo é mais complicado do que os outros que ja vimos por-
que envolve observer simultaneamente dois mercados relacionados — o mercado de
fundos de emprestimos e o mercado de cambio de moeda estrangeira. Depois que
tivermos desenvolvido esse modelo da economia aberta, vamos utilize-lo para exa-
miner como varios eventos e politicas afetam a balance comercial e a taxa de cam-
bio da economia. Entao, estaremos aptos a determiner as politicas do governo que
sao mais apropriadas para reverter os deficits comerciais que a economia dos
Estados Unidos tern apresentado nas duas ultimas decadas.

OFERTA E DEMANDA DE FUNDOS


PARA EMPRESTIMOS E DE CAMBIO
Para entender as forcas que operam em uma economia aberta, devemos nos con-
centrar na oferta e demanda em dois mercados. 0 primeiro é o mercado de fundos
de emprestimos, que coordena a poupanca da economia, o investimento e o fluxo
de fundos de emprestimos do exterior (chamado de investimento extern° liquido).
0 segundo é o mercado de cambio de moeda estrangeira, que coordena as pessoas
que querem trocar a moeda interne pela moeda de outros paises. Neste secao dis-
cutiremos a oferta e a demanda em cada urn desses mercados. Na prOxima secao,
vamos juntar esses dois mercados pare explicar o equillbrio geral pare uma econo-
mia aberta.

0 Mercado de Fundos de Emprestimos


Quando analisamos pela primeira vez o papel do sistema financeiro, no Capitulo 26,
adotamos a hipOtese simplificadora de que o sistema financeiro consiste de apenas
urn mercado chamado niercado de fundos de emprestnnos. Todos os poupadores vao a
esse mercado para depositar sua poupanca e todos os tomadores de emprestimos
vao a esse mercado para obter seus emprestimos. Nesse mercado, he apenas uma
taxa de juros, que C tanto o retorno da poupanca quanto o custo dos emprestimos.
Para entender o mercado de fundos de emprestimos em uma economia aberta,
o pont° de partida é a identidade discutida no capitulo anterior:
S = I + IEL
Investimento Investimento
Poupanca = +
intemo externo liquid°
CAPh- ULO 32 TEORIA MACROECONI5MICA DA ECONOMIA ABERTA 699

--
Sempre que uma ng a o poupa um dc5lar de sua renda, pode usar esse dlar para
financiar a compra de capital interno ou para financiar a compra de 1.1M ativo estran-
geiro. Os dois lados da identidade representam os dois lados do mercado de fundos
de emprestimos. A oferta de fundos de emprestimos vem da pouparwa nacional (S).
A demanda por fundos de emprestimos vem do investimento intemo (1) e do inves-
timento extemo liquido (IEL). Observe que a compra de um ativo cle capital se
acrescenta à demanda por fundos de emprestimos, independentemente de o ativo
estar localizado no pais ou no exterior. Como o investimento externo líquido pode
ser tanto positivo quanto negativo, ele pode tanto ser somado quanto subtraido da
demanda por fundos para emprestimos que decorre do investimento interno.
Con-io aprendemos em nossa discusso anterior do mercado de fundos de
emprestimos, a quantidade ofertada de fundos para emprestimos e a quantidade
demandada de fundos para emprestimos dependem da taxa de juros real. Uma taxa
de juros real mais elevada incentiva as pessoas a poupar e, portanto, aumenta a
quantidade ofertada de fundos para emprestimos. Uma taxa de juros mais elevada
tambem torna os emprestimos para financiamento de projetos de investimento
mais dispendiosos; com isso, desencoraja o investimento e reduz a quantidade
demandada de fundos de emprestimos.
Alem de influenciar a poupaNa nacional e o investimento interno, a taxa de
juros real de um país afeta o investimento externo líquido desse pais. Para ver por
que, considere dois fundos miituos — um nos Estados Unidos e outro na Alemanha
— decidindo entre a compra de um titulo do governo norte-americano e um titulo
do governo alemão. Os fundos mtuos tomariam essa decis"o, em parte, compa-
rando as taxas de juros reais nos Estados Unidos e na Alemanha. Quando a taxa de
juros real dos Estados Unidos sobe, o titulo dos Estados Unidos toma-se mais
atraente para ambos os fundos mtuos. Portanto, um aumento na taxa de juros real
dos Estados Unidos desestimula os norte-americanos a comprar ativos estrangei-
ros e estimula os estrangeiros a comprar ativos dos Estados Unidos. Por essas duas
razes, esses dois motivos, uma taxa de juros real elevada nos Estados Unidos
reduz o investimento extemo líquido desse pais.

FIGURA 1

Taxa de 0 Mercado de Fundos de


Juros Real Emprestimos
Oferta de fundos A taxa de juros, tanto em umo econo-
para emprstimos mia aberta quanto em uma economia
(da poupanca nacional) fechada, é determinada pela oferto e
demanda de fundos para emprti-
mos. A poupanca nacional é a fonte
de oferta de fundos para emprti-
Taxa de mos. 0 investimento intemo e o inves-
juros real timento extemo liquido sao as fontes
de equilibrio
de demanda por fundos para empr ,s-
Demanda por fundos
emprestveis (para timos. A taxa de juros de equilíbrio, a
investimento interno quantio que as pessoas desejam pou-
e para investimento par é exatamente igual à quantia que
externo liquido) as pessoas querem tomor empresta-
do para comprar capital intemo e ati-
Quantidade Quantidade de vos estrangeiros.
de equilibrio fundos para
emprestimos
700 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

Na Figura 1, representamos o mercado de fundos de emprestimos por meio do


ja familiar diag,rama de oferta e demanda. Como em nossa an6lise anterior do sis-
tema financeiro, a curva de oferta tern inclinacao positiva porque uma taxa de juros
major aumenta a quantidade ofertada de fundos para emprestimos e a curva de
demanda tern inclinacao negativa porque uma taxa de juros major reduz a quanti-
dade demandada de fundos para emprestimos. Ao contrario da situac5o em nossa
discussao anterior, contudo, o lado da demanda agora representa o comportamen-
to do investimento intern° e do investimento extern° liquido. Ou seja, em uma
economia aberta, a demanda por fundos para emprestimos vem no so daqueles
que querem fundos para emprestimos para comprar bens de capital internos, mas
tambem daqueles que os desejam para comprar ativos estrangeiros.
A taxa de juros se ajusta para equilibrar a oferta e a demanda por fundos para
emprestimos. Se a taxa de juros estiver abaixo do nivel de equilibria a quantidade
ofertada de fundos para emprestimos seria menor que a quantidade demandada. A
resultante escassez de fundos para emprestimos empurraria a taxa de juros para
cima. De modo inverso, se a taxa de juros estivesse acima do nivel de equilibria a
quantidade ofertada de fundos para emprestimos excederia a quantidade deman:
dada. 0 excess° de fundos para emprestimos levaria a taxa de juros para baixo. A
taxa de juros de equilibria a oferta de fundos para emprestimos é exatamente igual
a demanda por fundos para emprestimos. Ou seja, L'7 taxa de juros de equilibria a
quantia quo as pessoas desejam poupar e exatamente igual a quantidade desejada de
investimento intern° e de investimento extern() liquido.

0 Mercado de Cambia de Moeda Estrangeira


0 segundo mercado em nosso modelo de uma economia aberta é o mercado de
cambio de moeda estrangeira. Os participantes desse mercado trocam Mares ame-
ricanos por moedas estrangeiras. Para entender o mercado de ca'mbio de moeda
estrangeira, comecaremos corn outra identidade apresentada no capitulo anterior:

IEL EL
Investimento extern° liquid() = Exportacoes liquidas

Essa identidade afirma que o desequilibrio entre a compra e a venda de ativos


de capital no exterior (/EL) é igual ao desequilibrio entre exportacoes e importacoes
de bens c servicos (EL). Por exemplo, quando a economia dos Estados Unidos tern
superavit comercial (EL> 0), os estrangeiros est5o comprando mais bens e servicos
nos Estados Unidos do que os americanos est5o comprando bens e servicos estran-
geiros. 0 que os americanos estao fazendo corn a moeda estrangeira que obtem
dessa venda liquida de bens e servicos para o exterior? Eles devem estar compran-
do ativos estrangeiros, de modo que o capital dos Estados Unidos flui para o exte-
rior (IEL > 0). De maneira inversa, se os Estados Unidos tiverem deficit comercial
(EL <0), os norte-americanos estcio gastando mais em bens e servicos estrangeiros
do que est5o ganhando corn as vendas ao exterior. Parte dessa despesa deve ser
financiada corn a venda de ativos norte-americanos ao exterior, de modo quo o
capital estrangeiro fluj para os Estados Unidos (IEL < 0).
Noss° modelo da economia aberta trata os dois lados dessa identidade como
representantes dos dois lados do mercado de c5mbio. 0 investimento externo
lIquiclo representa a quantidade de Mares ofertada para comprar ativos estrangei-
ros. Por exemplo, quando urn fundo mutuo dos Estados Unidos deseja comprar urn
titulo do govern° japones, precisa trocar Mares por ienes, de modo que ele °fere-
ce Mares no mercado de Can-tbio. As exportacoes liquidas representam a quanti-
CAPITULO 32 TEORIA MACROECONCIMICA DA ECONOMIA ABERTA 701

dade demandada de Mares corn a finalidade de comprar exportacaes liquidas de


bens e servicos dos Estados Unidos. Por exemplo, quando uma empresa aerea japo-
nesa deseja comprar urn avid° fabricado pela Boeing, precisa trocar seus ienes por
Mares, de modo que demanda clolares no mercado de cambio.
Qual o preco q-ue equilibra a oferta e a demanda no mercado de cambio? A res-
posta é a taxa de cambio real. Como vimos no capftulo anterior, a taxa de cambio
real é o preco relativo dos bens intemos e dos bens estrangeiros e, portant°, é urn
determinante-chave das exportac6es liquidas. Quando a taxa de cambio real se
aprecia, os bens americanos ficam mais caros ern relacao aos estrangeiros, o que
torna os bens norte-americanos menos atraentes tanto para os consumidores
internos quanto para os consumiclores externos. Como resultado, as exportacoes
dos Estados Unidos diminuem e as importacoes dos Estados Unidos aumentam.
Por ambas as razoes, as exportacoes liquidas diminuem. Conseqiientemente, uma
apreciacao da taxa de cambio real reduz a quantidade demandada de Mares no
mercacio de cambio.
A Figura 2 mostra a oferta e a demanda no mercado de cambio de moeda
estrangeira. A curva de demanda tern inclinacao negativa pela razao que acabamos
de discutir: uma taxa de cambio real mais elevada torna os bens norte-americanos
mais caros e reduz a quantidade demandada de Mares para comprar esses bens.

FIGURA 2

0 Mercado de Carnbio de Moeda Estrangeira


A taxa de cambia real e determinado pela oferta e pela demanda de cambio. A oferto de dalares a ser
trocados par moeda estrangeira e determinada pelos investimentos externos liquidos. Como o investimento
extern° liquido nao depende do taxa de combio real, a curva de oferta e vertical. A demand° par dolares vem dos
exportocaes liquidas. Como uma taxa de cambia real mais baixa estimula as exportacoes liquidas (e, assim,
aumenta a quontidade de °blares demandado para pagar par essas exportacoes liquidas), o curva de demanda
tem inclinacao negativa. A taxa de cambia real de equilibria, a quantidade de dc5lares que as pessoas ofertam
para comprar as ativos estrangeiros e igual 0 quantidade de acres que as pessoas demandam para comprar
exportacc5es

Taxa de
Carnbio
Real
Oferta de dOlares
(do investimento
externo liquido)

Taxa de cambio
real de equilibrio

Demanda por &flares


(para exportacoes liquidas) 1

Quantidade Quantidade de Dolares


de equilibrio Trocados por Moeda
Estrangeira
702 PARTE 11 A MACROECONOM 1A DAS ECONOMIAS ABERTAS

A curva de oferta é vertical porque a quantidade ofertada de dOlares destinados ao


-.
investimento externo liquido n a o depende da taxa de cambio real. (Como vimos
anteriormente, o investimento externo liquido depende da taxa de juros real. Ao
tratarmos do mercado de cambio, tomamos a taxa de juros real e o investimento
externo liquido como dados.)
A taxa de cambio real se ajusta para equilibrar oferta e demanda de dOlares, da
p
mesma forma que o preQ de qualquer bem se ajusta para equilibrar a oferta e a
demanda do bem em questao. Se a taxa de cambio real estivesse abaixo do nivel de
a quantidade de dOlares ofertada seria menor que a quantidade deman-
dada. A escassez resultante de dOlares empurraria o valor do dOlar para cima. De
modo inverso, se a taxa de câmhio real estivesse acima do nivel cle equilíbrio, a
quantidade ofertada de dOlares excederia a quantidade demandada. 0 excesso de
2
dOlares levaria o valor do dOlar para baixo. ./ 1. taxa de ffirnbio real de equilthrio, a
demanda de d6lares por estrangeiros para conzprar exporta0es Ilquidas de bens e servi-
ffis dos Estados Unidos é exatamente igual a oferta de d6lares por americanos destinados
compra de ativos no exterior.
-
Nesse ponto, vale observar que a divisao das transg6 es entre "oferta"e "deman-
da" nesse modelo e um tanto quanto artificial. Em nosso modelo, as exporta es
liquidas sao a fonte da demanda por dOlares e o investimento externo liquido é a
fonte da oferta. Assim, quando um residente nos Estados Unidos importa um carro
fabricado no Japao, nosso modelo trata a transgao como uma diminuiao na quan-
-
tidade demandada de dOlares (porque as exporta c5es liquidas diminuem), e nao
como um aumento na quantidade ofertada de dOlares. De forma similar, quando um

a teoria da paridade do poder de compra, o com6rcio internacional


reage rapidamente . s diferencas internacionais de precos. Se os
bens forem mais baratos em um pais do que em outro, serk expor-
tados pelo primeiro pais e importados pelo segundo at6 que a dife-
renca de precos desapareca. Em outras palavras, a teoria da parida-
SAIBA MA1S SOBRE... de do poder de compra assume que as exportag5es liquidas reajam
com presteza a pequenas variac6es na taxa de câmbio real. Se as
exportaces liquidas reagissem, de fato, com tanta presteza, a curva
PARIDADE DE PODER DE COMPRA COMO UM
de demanda da Figura 2 seria vertical.
CASO ESPECIAL Portanto, a teoria da paridade do poder de compra pode ser
vista como um caso especial do modelo aqui considerado. Nesse
Um leitor atento deste livro poderia perguntar: por que estamos caso especial, a curva de demanda por câmbio, em vez de ter incli-
desenvolvendo uma teoria da taxa de câmbio aqui? Não acabamos nack negativa, é horizontal no nivel da taxa de c:mbio real que
de fazer isso no capitulo anterior? assegura a paridade do poder de compra interna e externamente.
Como você talvez se recorde, o capitulo anterior desenvolveu
Esse caso especial é um bom ponto de partida para o estudo das
uma teoria da taxa de câmbio chamada de paridade do poder de
taxas de câmbio, mas está longe de ser o final da hist6ria.
compra. Essa teoria afirma que um cl6lar (ou qualquer outra Este capitulo, portanto, concentra-se no caso mais realista em
moeda) deve comprar a mesma quantidade de bens e servicos em que a curva de demanda por câmbio tem inclinack negativa. Isso
todos os paises. Como resultado, a taxa de câmbio é fixa e todas as permite que a taxa de câmbio mude ao longo do tempo, como de
alteraces na taxa de câmbio nominal entre dois paises refletem fato ocorre na vida real.
mudancas nos niveis de precos dos dois paises.
0 modelo de taxa de crnbio desenvolvido aqui está relaciona-
do com a teoria da paridade do poder de compra. De acordo com
CAPiTULO 32 TEORIA MACROECONoMICA DA ECONOMIA ABERTA 703

cidalao japones compra urn titulo do govern° dos Estados Unidos, nosso modelo
trata a transacao como uma diminuicao na quantidade ofertada de c101ares (porque
o investimento extern° liquid° e nao como urn aumento na quantidade
demandada de Mares. Esse uso da ling-uagem pode parecer pouco natural a pri-
meira vista, mas se revelaraütil quando analisarmos os efeitos de varias politicas.

Teste Rapid° Descreva as fontes de oferta e demanda no mercado de fundos de emprestimos e no mer-
cado de cambio de moeda estrangeira.

EQUILiBRIO NA ECONOMIA ABERTA


Ate aqui, discutimos a oferta e a demanda ern dois mercados: o mercado de fundo
de emprestimos c o =cad° de cambio de moeda estrangeira. Vamos agora ver
como esses mercados estao relacionados urn corn o outro.

lnvestimento Externo Liquido: 0 Ho entre os Dois Mercados

Vamos comecar recapitulando o que aprendemos ate aqui neste capitulo. Estivemos
discutindo como a economia coordena quatro importantes variaveis macroccono-
micas: poupanca nacional (S), investimento interno (1), investimento extern°
do (IEL) e exportacoes liquidas (EL). Tenha ern mente as seguintes identidades:

S = I + IEL

IEL = EL

No mercado de fundos de emprestimos, a oferta vem da poupanca nacional, a


demanda vem do investimento interno e do investimento extern° liquid° e a taxa
de juros real equilibra a oferta e a demanda. No mercado de cambio, a oferta vem
do investimento extern° liquid°, a demanda vem das exportacoes liquidas e a taxa
de cambio real equilibra a oferta e a demanda.
0 investimento extern() liquid° é a varidvel que liga esses dois mercados. No
mercado de fundos de emprestimos, o investimento extern° liquid° é uma parte da
demanda. Uma pessoa que deseje comprar urn ativo estrangeiro deve financiar
essa compra obtendo recursos no mercado de fundos de emprestimos. No merca-
do de cambio, o investimento externo liquid° é a fonte da oferta. Uma pessoa que
deseje comprar um ativo em outro pais deve ofertar Mares a fim de troca-los pela
moeda daquele pais.
0 determinante-chave do investimento extern° liquid°, como vimos anterior-
mente, é a taxa de juros real. Quando a taxa de juros dos Estados Unidos esta ele-
vada, a posse de ativos americanos é mais atraente e o investimento externo liqui-
do dos Estados Unidos é baixo. A Figura 3 mostra essa relacao negativa entre a taxa
de juros e o investimento externo liquid°. Essa curva de investimento externo liqui-
do é o elo entre o mercado de fundos de emprestimos e o mercalo de cambio.
704 PARTE 11 A NIACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

Equilibrio Simulfaneo nos Dois Mercados


Podemos agora reunir todas as partes do nosso modelo na Fig,ura 4. Essa fig-,ura
n-lostra como o mercado de fundos de emprestimos e o mercado de c'dmbio deter-
minam, conjuntamente, as importantes varialveis macroeconOmicas de uma econo-
mia aberta.
0 painel (a) da figura mostra o mercado de fundos de en-iprestimos (tirado da
Fig,ura 1). Como antes, a poupari a nacional é a fonte de oferta de fundos para
emprestimos. 0 investimento interno e o investimento externo Iíquido s.o as fon-
tes de demanda por fundos para emprestimos. A taxa cle juros real de equilibrio (ri)
conduz a quantidade ofertada e a quantidade demandada de fundos para empres-
ti mos ao equilibrio.
0 painel (b) da figura mostra o investimento externo liquido (extraido da Figura
3). Ele mostra como a taxa de juros do painel (a) determina o investimento extemo
Uma taxa de juros interna mais elevada torna os ativos internos mais
atraentes e isso, por sua vez, reduz o investimento externo liquido. Portanto, a curva
de investimento externo líquido no painel (b) tem inclina o negativa.
0 painel (c) da figura mostra o mercado de c'&11bio de moeda estrangeira (tira-
do da Figura 2). Como os ativos estrangeiros devem ser comprados com moeda
estrangeira, a quantidade de investimento externo líquido do painel (b) determina
a oferta de dlares a serem trocados por moedas estrangeiras. A taxa de cârnbio real
n - c) afeta o investimento externo líquido, de modo que a curva de oferta é vertical.
A demanda por dOlares vem das exporta95es liquidas. Como a deprecia o da taxa
-
de cârnbio real aumenta as exportg 6es líquidas, a curva de demanda por moeda
estrangeira tem inclina o negativa. A taxa de câmbio real de equilibrio (E i ) con-
duz ao equilibrio a quantidade ofertada e a quantidade demandada de dOlares no
mercado de cârnbio.
Os dois mercados representados na Figura 4 determinam dois preos relativos — a
taxa de juros real e a taxa de câmbio real. A taxa de juros real deten-ninada no painel
(a) é o preo dos bens e servi os no presente em rela o ao prec;o dos bens e servi os
no futuro. A taxa de caimbio real determinada no painel (c) é o prec;o dos bens e ser-
CAPITULO 32 TEORIA MACROECONSMICA DA ECONOMIA ABERTA 705

FIGURA 4

Equilibrio Real em uma Economia Aberta

No pa/net (a), a oferta e a demanda par fundos para emprestimos determinam a taxa de juros real. Na painel (b), a taxa de juros determina o investi-
mento extern° lIquido, que prove a oferta de Mares no mercado de cambio. No painel (c),a oferta e a demanda de Mares no mercado de cOmbio
determinam a taxa de cambia real.

(a) 0 Mercado de Fundos de Emprestimos (b) lnvestimento Externo Liquido

Taxa de Taxa de
Juros Real Oferta Juros Real

ri ri

Demanda lnvestimento
Extern°
Liquido, 1EL
Quantidade de lnvestimento
Fundos de Emprestimos Externo Liquido

Taxa de
Cambio Real Oferta

El

Demanda

Quantidade
de DOlares
(c) Mercado de Cambio de Moeda Estrangeira
Cc)Nit Vf oij-ot wrtmo3') ç.
kUJ 0&_3, t».) 'J
Wn

tz
(W)Niu-ri-wax\\ ) rowb
706 PARTt 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

vi9p s internos em relação aos pre9os dos bens e servic;os estrangeiros. Esses dois pre-
9os relativos ajustam-se simultaneamente para equilibrar a oferta e a demanda nesse
dois mercados. Quando o fazem, eles determinam a poupana nacional, o investi-
mento interno, o investimento exten-io liquido e as exportg5es liquidas. Em breve
usaremos esse modelo para ver como todas essas variveis se alteram quando alg,u-
ma politica ou alg-um acontecimento faz com que uma dessas curvas se desloque.

Teste R4ido No modelo de economia aberta que acabamoš de desenvolver, dois mercados determi-
nam dois precos relativos. Quais s". o os dois mercados? Quais s", ' o os dois precos relativos?

COMO POUTICAS E EVENTOS AFETAM UMA ECONOMIA


ABERTA
Tendo desenvolvido um modelo para explicar como varffiTeis n-lacroeconOmicas
chave são determinadas em uma economia aberta, podemos agora para ana-
lisar como mudaNas de politica econ3mica e outros eventos alteram o equilibrio da
economia. Enquanto avaNamos, tenha em mente que nosso modelo é apenas ofer-
ta e demanda em dois mercados — o mercado de fundos de emprestimos e o n-ier-
cado de cârnbio. Quando usamos o modelo para analisar qualquer evento, podemos
aplicar os trs passos delineados no Capitulo 4. Prin-teiro, determinamos quais das
curvas — a de oferta ou a de demanda — o evento afeta. Segundo, determinamos em
que dire o as curvas se deslocam. Terceiro, usamos os grMicos de oferta e deman-
da para examinar como esses deslocamentos alteram o equilfbrio da economia.

Nficits Orcamentklos do Govemo r-k


Quando discutimos pela primeira vez a oferta e a demanda por fundos para
emprestimos, examinamos os efeitos dos deficits oNamentffi-ios do governo, que
ocorrem quando a despesa do govemo excede sua receita. Como o déficit oNan-ien-
tkio do governo representa uma poupaNa pública negativa, ele reduz a poupaNa
nacional (a soma da poupana pUblica e privada). Portanto, um cleficit oNament-
rio do governo reduz a oferta de fundos para empre.stimos, aumenta a taxa de juros
e desloca o investimento.
Agora vamos considerar os efeitos de um deficit oNamentkio em un-la econo-
mia aberta. Primeiro, qual das curvas em nosso modelo se desloca? Assim como
numa economia fechada, o impacto inicial do deficit oNamentElrio se dá sobre a
1.-)oupaNa nacional e, portanto, sobre a curva de oferta de fundos para empresti-
Segundo, em que direção se desloca essa curva de oferta? Novamente, como
numa economia fechada, um deficit oNamentrio representa poupaNa pUblica
negativa, de modo que ele reduz a poupaNa nacional e desloca a curva de oferta de
fundos para emprestimos para a esquerda. Isso é representado pelo deslocamento
de 01 para 0 7 no painel (a) da Fig,ura 5.
0 terceiro e últirno passo e comparar o novo equilibrio con-i o antigo. 0 painel
(a) mostra o impacto de um deficit oNamentrio dos Estados Unidos sobre o mer-
cado norte-americano de fundos de emprestimos. Com menos recursos clisponi-
veis para os tomadores nos mercados financeiros norte-americanos, a taxa de juros
se eleva de r 1 para r 7 a fim de equilibrar oferta e demancla. Em face de un-ia taxa de
juros mais elevada, os tomadores de emprestimos no mercado de fundos de
emprestimos optam por tomar n-ienos emprestimos. Essa n-iudancs-a é representada
na figura pelo movimento do ponto A para o ponto B ao longo da curva de deman-
da por fundos para emprestimos. Mais especificamente, fan-iflias e empresas redu-
zem suas compras de bens de capital. Como em uma economia fechada, os deficits
oNamentrios deslocam o investimento interno.
CAMTULO 32 TEOR1A MACROECONOMICA DA ECONOMIA ABERTA 707

Os Efeitos de urn Deficit Orcamentario do Governo

Quando o govemo apresenta deficit orcamentario, a oferta de fundos para emprestimos se reduz de 01 pare 02 no painel (a). A taxa de juros omen-
to de ri para r2 para equilibrar a oferta e a demand° par fundos para emprestimos. No painel (b), a taxa de juros mais elevada reduz o investimento
extemo liquido. A reducao no investimento extemo liquido, por sua vez, reduz a oferta de Mares no mercado de cambio, de 01 para 02 no painel (c).
Essa queda no oferta de Mares provoca uma apreciacao do taxa de cambio real de El para E2. A opreciacao do taxa de cambio empurra a balanca
comercial em direcao ao deficit.

1. Urn deficit orcamentario


(a) Mercado de Fundos de Emprestimos reduz a oferta de fundos (b) Investimento Externo Liquido
para emprestimos...
Taxa de Taxa de
Juros Real /01 Juros Real

r 2

/ri
3.... o que, por
2.... o que sua vez, reduz N
aumenta o investimento
a taxa de Demanda externo liquido.
juros real... IEL

, Quantidade de Investimento
Fundos de Emprestimos Externo Liquido

Taxa de
Cambio Real 02 °1
4. A diminuicao
no investimento
extern° liquido
reduz a oferta de
E
dOlares para serem
2 trocados por moeda
z+ estrangeira...
5.... o que causa
a apreciacao da
taxa de
cambio real. Demanda

Quantidade
de Wares

(c) Mercado de Cambio de Moeda Estrangeira


708 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONONHAS ABERTAS

Em uma economia aberta, contudo, a redu o na oferta de fundos para empres-


timos tem efeitos adicionais. 0 painel (b) mostra que o aumento na taxa de juros de
para r7 reduz o investimento externo liquido [essa queda no investimento extemo
liquido e, tambem, parte da dirninuição na quantidade demandada de fundos para
emprestimos que se observa no movimento do ponto A para o ponto B do painel (a)].
Como a poupam,-a mantida internamente agora obtem taxas de retomo mais eleva-
das, o investimento no exterior passa a ser menos atraente e os residentes internos
compram menos ativos estrangeiros. Taxas de juros mais elevadas tambem atraem
investidores estrangeiros, que desejam obter retornos mais elevados oferecidos pelos
ativos americanos. Portanto, quando um deficit oNamentrio eleva as taxas de juros,
o comportamento tanto dos investidores residentes q-uanto dos investidores estran-
geiros faz com que o investimento extemo liquido dos Estados Unidos diminua.
0 painel (c) mostra como os deficits oNamentrios afetam o mercado de
Como o investimento extemo liquido se reduz, as pessoas precisam de menos moeda
estrangeira para comprar ativos estrangeiros, e isso induz um deslocamento da curva
de oferta de d6lares para a esquerda, de 0 1 para 07. A reduo na oferta de d6lares
causa uma aprecia o na taxa de c mbio real de E 1 para E2. Ou seja, o dOlar se valo-
riza quando comparado às moedas estrangeiras. Essa aprecialo, por sua vez, toma os
bens norte-americanos mais caros quando comparados aos bens estrangeiros. Como
as pessoas tanto interna quanto externamente passam a comprar menos dos caros
produtos americanos, as exportg'6es dos Estados Unidos diminuem e as importg5"es
dos Estados Unidos aumentam. Por ambas as razes, as exportaes liquidas dos
Estados Unidos diminuem. Portanto, em uma econonna aberta, os deficits orffimentilrios
governamentais elevam as taxas de juros, deslocam o investimento interno, causam aprecia-
(do do dcilar e empurram a balawa comercial em dire0o (70 de_ficit.
Um exemplo importante dessa Iição ocorreu nos Estados Unidos na decada de
1980. Pouco depois da eleição de Ronald Reagan para a presidCmcia, em 1980, a
politica fiscal do governo federal norte-americano mudou drasticamente. 0 presi-
dente e o Congr, esso aprovaram grandes cortes de impostos, mas não reduziram os
gastos do govemo de maneira sequer pr6xima, de modo que o resultac_io foi
grande deficit oNamentEirio. Nosso modelo da economia aberta prev'e que tal poli-
tica leve a um deficit comercial, o que de fato ocorreu, como vimos em um estudo
de caso do capitulo anterior. 0 deficit oNament. rio e o deficit comercial durante
esse periodo estavam Uio estreitamente relacionados, tanto na teoria quanto na
prEitica, que receberam o apelido de deficits g'emeos. Nth.'o devemos, contudo, enxer-
gar esses g'emeos como sendo idênticos, porque há n-luitos fatores alem da politica
fiscal que podem influenciar o deficit comercial.

Politica Comercial
politica comercial Uma politica comercial e uma politica do governo que influencia diretamente a
uma politica do governo que quantidade de bens e servi9os que um pais importa ou exporta. A politica comer-
influencia diretamente a cial assume diversas formas. Uma politica comercial comum é a tanfa, urn impos-
quantidade de bens e
to sobre bens importados. Outra é a cota de importaffio, um limite sobre a quanti-
dade de um bem que pode ser produzido no exterior e vendido internamente. As
servicos que um pais
politicas comerciais s' 'E) comuns em todo o mundo, embora às vezes estejam dis-
importa ou exporta faradas. Por exemplo, o governo norte-americano algumas vezes pressiona os
fabricantes de autom6veis do JaKio para que reduzam o niimero de carros vendi-
dos aos Estados Unidos. Essas chamadas "restri es voluntffi-ias às exportac;"(5es"
não so realmente voluntrias e, ern essencia, s' - o um tipo de cota de importa o.
Vamos considerar o impacto macroecone)mico da politica comercial. Suponha
que os fabricantes de carros dos Estados Unidos, preocupaclos com a competição
dos fabricantes japoneses, convenam o governo norte-americano a impor uma
cota sobre o n mero de carros que podem ser importados do Jap - o. Ao defender
CAPiTULO 32 TEORIA MACROECONC)MICA DA ECONOMIA ABERTA 709

FIGURA 6

Os Efeitos de uma Cota de Importac-ao

Quando o govemo americano impae umo coto sobre a importacao de carros japoneses, nada ocontece no mercado de fundos empresthveis, no painel
(o), ou com o investimento extemo líquido no painel (b). 0 Cinico efeito é o das exportacaes Ithuidas (exportacaes menos importacaes) para qualquer
taxa de cambio real dada Como resultado, a demanda por dOthres no mercado de cambio aumenta, conforme mostra o deslocamento de D i para D2,
no painel (c). Esse aumento na demando por dalares faz com que o valor do dOlar tenha uma apreciacao de E 1 para E2. Essa apreciacao do dOlar
tende a reduzir as exportocaes líquidas, compensando o efeito direto da cota de importacao sobre a balanca comercial.

(a) Mercadode Fundos de Ernprstimos (b) Investimento Externo Liquido

Taxa de
Juros Real

ri
3. As exporta95es
liquidas, entretanto,
permanecem
inalteradas.
IEL

Quantidade de Fundos Investimento


para Ernpr6timos Externo Liquido

Taxa de
Cknbio Real Oferta
1. Uma cota de
importa0o
aumenta a
demanda por

2.... e faz com


que a taxa de
câmbio real
se aprecie.

Quantidade
de DPIares

(c) Mercado de Cknbio de Moeda Estrangeira


710 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

seu ponto de vista, os lobistas do setor automobilistico afirmam que a restricao


comercial reduziria a magnitude do deficit comercial dos Estados Unidos. Estarao
eles certos? Nosso model°, ilustrado na Figura 6, oferece uma resposta.
0 primeiro passo para analisar a politica comercial é determinar qual a curva
que se desloca. 0 impacto inicial da restricao a importacao se de, naturalmente,
sobre as importacoes. Como as exportacoes liquidas sao iguais as exportacoes
menos as importacoes, a politica tambem afeta as exportacoes liquidas. E como as
exportacoes liquidas sao a fonte da demanda por Mares no mercado de cambio, a
politica afeta a curva de demanda desse mercado.
0 segundo pass° é determinar em que direcao a curva de demanda se desloca.
Como a cota restringe o ntimero de carros japoneses vendidos nos Estados Unidos,
ela reduz as importacoes a qualquer taxa de cambio real dada. Portant°, as exporta-
coes liquidas, que sao iguais as exportacoes menos as importacoes, aumentarao para
qualquer taxa de cambio real dada. Como os estrangeiros precisam de Mares pa-
ra comprar as exportacoes liquidas dos Estados Unidos, ha urn aumento na deman-
da por Mares no mercado de cambio. Esse aumento na demanda por Mares
representado no painel (c) da Figura 6 como urn deslocamento de Di para D2.
0 terceiro passo é comparar o novo equilibrio corn o antigo. Como podemos ver
no painel (c), o aumento na demanda por Mares causa uma apreciacao da taxa de
cambio real, de Ei para E,. Como nada aconteceu no mercado de fundos de
emprestimos, painel (a), rid° he nenhuma alteracao na taxa de juros real. Nao
havendo nenhuma alteracao da taxa de juros real, tambem nao ha alteracao no
investimento externo liquid°, representado no painel (b). E como nao he alteracao
no investimento externo liquid°, nao pode haver nenhuma mudanca nas exporta-
goes liquidas, muito embora a cota de importacao tenha reduzido as importacoes.
A razao pela qual as exportacoes liquidas podem se manter inalteradas enquan-
to as importacZes caem é explicada pela variacao na taxa de cambio real. Quando
o dolar se aprecia no mercado de cambio de rnoeda estrangeira, os bens intemos
tomam-se mais caros em relacao aos bens estrangeiros. Essa apreciacdo estimula
as importacoes e desestimula as exportacoes — e essas duas alteracoes operam no
sentido de contrabalancar o aumento direto das exportacoes liquidas em decorren-
cia da cota de importacao. No fim, uma cota de importacao reduz tanto a importa-
cao quanto a exportacao, mas as exportagnes liquidas (exportacaes menos impor-
tacoes) permanecem inalteradas.
Portanto, chegamos a uma conclusao surpreendente: as politicas comerciais
afetanz a balanca comercial. Ou seja, politicas que influenciam diretamente as expor-
taco-es ou as importacoes nao alteram as exportacoes liquidas. Essa conclusao pare-
cera menos surpreendente se nos recordarmos da identidade contabil:
EL = IEL = S — I
As exportacoes liquidas sao ig,uais ao investimento extern° liquid°, que é igual
poupanca nacional menos o investimento interno. As politicas comerciais nao
afetam a balanca comercial porque nao alteram a poupanca nacional ou o investi-
mento interno. Para quaisquer niveis dados de poupanca nacional e investimento
interno, a taxa de cambio real se ajusta para manter o mesmo equilibrio comercial,
independentemente das politicas comerciais que o governo adote.
Embora as politicas comerciais nao afetem a balanca comercial total de um pais,
elas atingem empresas, inthistrias e paises especificos. Quando o govern° america-
no impoe uma cota de importacao sobre os carros japoneses, a General Motors
enfrenta menos competicao estrangeira e vendera mais carros. Ao mesmo tempo,
como o Mar apreciou, a Boeing, a fabricante americana de aeronaves, tere major
dificuldade em competir corn a Airbus, a fabricante europeia de aeronaves. As
exportacoes de aeronaves dos Estados Unidos diminuirao e as importacoes de aero-
naves dos Estados Unidos aumentarao. Nesse caso, a cota de importacao de carros
CAP1TULO 32 TEORIA MACROECONI5MICA DA ECONOMIA ABERTA 711

NOTIICIAS

0 WICIT COMERCIAL DOS ESTADOS UNIDOS


Como urn pais deve lidar com um grande dfficit comercial? Os economistos Martin e Kathleen Feldstein oferecem uma resposta.

Fechando o Dfficit de $ 1 Por que os estrangeiros estao dispostos nos Estados Unidos. Tudo isso parece
a conceder tanto credito aos Estados benigno. Mas por quanto tempo os estran-
Bilhb por Dia
nidos? Os titulos em d6lar tem sido geiros estarao dispostos a emprestar e
Por Martin e Kathleen Feldstein
atraentes para os estrangeiros porque as investir tanto nos Estados Unidos? E quais
Em contraste marcante com o crescente taxas de juros estao mais elevadas nos serao as conseqencias se e quando eles
superavit do orcamento federal, o deficit Estados Unidos do que na Europa e no decidirem recuar? (...)
comercial norte-americano continua a cres- Japao (onde estao pr6ximas de zero). E Em suma, o aumento acelerado da
cer, aumentando os riscos para a economia empresas como a Dalmler, a Vivendi e a tomada de emprestimos do exterior duran-
dos Estados Unidos. Importando mais do AXA compraram neg6cios nos Estados te a decada passada deixou a economia
que expor-tando e vendendo ativos norte- Unidos porque sk um lugar melhor para a norte-americana em uma situacao delicada.
americanos, a populack dos Estados expansao de suas atividades do que seus Se — ou quando — os estrangeiros decidi-
Unidos consome mais do que pode pagar. paises de origem e outros lugares da rem que nao querem mais emprestar tanto
Tomar emprestimos no exterior ajudou Europa. É s6 na area dos investimentos para os Estados Unidos, o valor do d6lar
-
os americanos a elevar seu padrao de vida, estrangeiros em carteira que as aquisices caira, as taxas de juros aumentar ao ea
mas tambem deixou a economia vulneravel dos Estados Unidos no exterior equiparam- inflacao subira.
se os estrangeiros decidirem reduzir o fluxo se as aquisices estrangeiras nesse pais. Essas nao sao condices sob as quais
de emprestimos e investimentos para os Uma conseqUencia importante desse os americanos tenderao a poupar mais
Estados Unidos. Um objetivo importante do fluxo liquido de investimento para os para substituir os influxos perdidos de
prciximo presidente deveria ser desenvolver Estados Unidos é o aumento do valor do investimento estrangeiro. Para reduzir a vul-
politicas eficazes para reduzir esse perigo, d6lar. Desde 1992, o valor do d6lar subiu nerabilidade, é importante que os america-
aumentando a poupanca nacional a fim de quase 14 0/0 em relacao a um indice amplo nos aumentem sua poupanca agora. Isso
reduzir a dependencia de recursos vindos de outras moedas e ajustado para diferen- significara rever-ter uma duradoura queda
do exterior. cas de inflacao entre os paises. 0 d6lar da poupanca das familias americanas. 0
Embora os Estados Unidos sejam forte tornou os produtos estrangeiros relati- desenvolvimento de politicas para incenti-
tomadores liquidos de emprestimos ha vamente baratos para os compradores var uma maior poupanca familiar deve ser
duas decadas, os valores ficaram realmente
-
americanos e deixou as exportac (ies ameri- uma das prioridades-chave da pr6xima
grandes nos últimos oito anos. Em 1992, canas mais caras para o exterior. Assim administracao e do Congresso.
os Estados Unidos importaram $ 28 bilhes sendo, nao é de surpreender que os estran-
Fonte: The Boston Globe, 18 jul. 2000, p. C4.
a mais do que exportaram. No primeiro tri- geiros tenham reduzido suas compras de
Copyright 2000 by Globe Newspaper Co. (MA).
mestre de 2000, as importaces liquidas — bens americanos, enquanto os americanos Reproduzido com permissk de Globe Newspaper Co.
.ou o excesso das importaces em relack consomem avidamente bens importados (MA) no formato Livro-texto via Copyright Clearance
de todos os tipos, de carros a brinquedos. Center.
as exportaces — chegaram a uma taxa que
corresponde a mais de $ 330 bilhões por Os menores precos das importa0es tam-
ano (...). bem ajudaram a manter a inflacao baixa
712 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

japoneses aumentara as exportacoes liquidas de carros e diminuird as exportacoes


liquidas de aviOes. Alem disso, aumentarao as exportacoes liquidas dos Estados
Unidos para o Japao e diminuirao as exportacaes liquidas dos Estados Unidos para
a Europa. A balanca comercial total da economia dos Estados Unidos, contudo, per-
manecera inalterada.
Os efeitos das politicas comerciais sao, portant°, mais microeconomicos do que
macroeconomicos. Embora os ciefensores das politicas comerciais por vezes afir-
mem (incorretamente) que essas politicas sao capazes de alterar a balanca corner-
cial do pais, eles geralmente estao mais motivados por preocupacOes a respeito de
empresas ou inchistrias especificas. Nao deveriamos ficar surpresos, por exemplo, se
ouvirmos urn executivo da General Motors defender cotas de importacao para os
carros japoneses. Os economistas quase sempre se °poem a tais politicas corner-
ciais. 0 livre-comercio permite que as economias especializem-se naquilo que
fazem melhor, tornancio a vida dos residentes de todos os 'Daises melhor. As restri-
coes ao comercio interferem corn esses ganhos do comercio e, portanto, reduzem o
bem-estar economic° geral.

Instabilidade Politica e Fuga de Capitals

Em 1994, a instabilidade politica no Mexico, inclusive corn o assassinato de urn


proeminente 'icier politico, deixou os mercados financeiros do mundo nervosos. As
pessoas comecaram a ver o Mexico como urn pais menos estavel do que se pensa-
va anteriormente. Decidiram retirar alguns de seus ativos do pais e remeter esses
recursos para os Estados Unidos e outros "portos seguros". Urn movimento tao
fuga de capitals grande e salt° de fundos para fora de urn pais é chamado de fuga de capitais.
uma grande e subita reduc-ao Para entender as implicacoes da fuga de capitais para a economia mexicana, segui-
da demanda pelos ativos remos novamente as tres etapas da analise de uma mudanca no equilibria mas
localizados em urn pals dessa vez aplicaremos nosso modelo da economia aberta do ponto de vista do
Mexico em lugar da perspectiva dos Estados Unidos.
Vejamos primeiro qual das curvas em nosso model° a fuga de capitais afeta.
Quando os investidores de todo o mundo percebem problemas politicos no Mexico,
decidem vender parte de seus ativos mexicanos e usar a receita da venda para corn-
prar ativos dos Estados Unidos. Essa acao aumenta o investimento extern° liquid°
do Mexico e, portanto, afeta os dois mercados do nosso model°. De modo mais evi-
dente, essa acao afeta a curva de investimento externo liquid° e isso, por sua vez,
influencia a oferta de pesos no mercado de cambio de moeda estrangeira. Alem
disso, como a demanda por fundos para emprestimos vem tanto do investimento
interno quanto do investimento externo liquid°, a fuga de capitais afeta a curva de
demanda no mercado de fundos de emprestimos.
Vejamos agora em que direcao as curvas se deslocam. Quando o investimento
externo liquid° a-umenta, ha" major demanda por fundos para emprestimos para
financiar essas compras de ativos de capital no exterior. Portanto, como mostra o pai-
nel (a) da Figura 7, a curva de dernanda por fundos para emprestimos desloca-se
para a direita, de Di para D7. Alem disso, uma vez que o investimento extemo liqui-
do é major para qualquer taxa de juros dada, a curva de investimento extern°
liquid° tambem desloca-se para a direita, de /ELi para IEL7, como podemos obser-
var no painel (b).
Para entender os efeitos da fuga de capitals sobre a economia, comparamos o
novo equilibrio corn o antigo. 0 painel (a) da Figura 7 mostra que o aumento da
demanda por fundos para emprestimos faz que a taxa de juros do Mexico aumente
de ri para r2. 0 painel (b) mostra que o investimento externo liquid() do Mexico
aumenta (embora o aumento na taxa de j-uros tome os ativos mexicanos mais
CAPITULO 32 TEORIA MACROECONI5MICA DA ECONOMIA ABERTA 713

FIGURA 7

Os Efeitos de uma Fuga de Capitais

Se as pessoas conduirem que o 11/16rico é um lugar arriscado para manter suas poupancas, deslocar&) seu capital para portos seguros como os Estados
Unidos, resultando em um aumento do investimento extemo líquido mexicano. ConseqUentemente, o demanda por fundos para empr6timos no Wxico
aumento de D i para D 2, como mostra o painel (a), e isso leva para cima a taxa de juros real mexicana de r i para r2 . Como o investimento extemo
ilquido é maior para qualquer taxo de juros, essa curva tamb677 se desloca para o direita de IEL 1 para 1EL 2 no painel (b). Ao mesmo tempo, no merca-
do de c6mbio, a oferto de pesos aumenta de 0 1 para 0 2, como mostra o painel (c). Esse aumento da oferta de pesos cousa uma deprecia0o do peso
de E i para E 2, de modo que o peso se toma menos valioso quando comparado com outras moedas.

Taxa de Taxa de
Juros Real Oferta 1' Um aumento
Juros Real
no investimento
externo liquido...
r
2

3.... o que
aumenta
a taxa
Di
de juros.
IEL IEL2
Quantidade de Investimento
2.... aumenta a demanda por Fundos para
fundos para emprstimos... Externo Liquido
Emprstimos

Taxa de
Cthfibio Real 0 02
4. Ao mesmo
tempo, o aumento
do investimento
externo
aumenta a oferta
de pesos...
5.... o que --E2
causa uma
depreciac&)
do peso.
Demanda

Quantidade
de DPIares
(c) Mercado de C&TIbio de Moeda Estrangeira
714 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

atraentes, isso somente compensa parcialmente o impact° da fuga de capitais sobre


o investimento extern° liquido). 0 painel (c) mostra que o aumento do investimen-
to externo lIquido aumenta a oferta de pesos no mercado de cambio de 01 para
Ou seja, conforme as pessoas tentam se livrar de seus ativos mexicanos, hi uma
g,rande oferta de pesos para serem convertidos em Mares. Esse aumento na oferta
faz que o peso deprecie de El para E2. Portant°, a fuga de capitais do Mexico
ta a taxa de juros mexicana e diminui o valor do peso mexicana no mercado de climbio. Foi
exatamente o que observamos em 1994. De novembro de -1994 a marco de 1995, a
taxa de juros dos titulos de curto prazo do govemo mexicano aumentou de 14%
para 70% e o peso depreciou de 29 para 15 cents de Mar por peso.
Essas variacoes de preco que resultam da fuga de capitais influenciam algumas
variaveis macroeconemicas-chave. A depreciacao da moeda toma as exportacoes
mais baratas e as importacbes mais caras, empurrando a balanca comercial em dire-
cao ao super6vit.Ao mesmo tempo, o aumento na taxa de juros reduz o investimen-
to intern°, o clue desacelera a acumulacao de capital e o crescimento econ3mico.
Embora a fuga de capitais tenha seu major impact() sobre o pais de onde o capi-
tal est6 fugindo, ela tambem afeta outros paises. Quando capital sai do Mexico para
os Estados Unidos, por exemplo, ele tern sobre a economia norte-americana efeito
oposto ao que exerceu sobre a economia mexicana. Mais especificamente, o
aumento do investimento extern° lIquido mexicano coincide corn uma queda do
investimento externo lIquido norte-americano. A medida que o peso se deprecia e
as taxas de juros mexicanas sobem, o Mar se aprecia e as taxas de juros norte-
americanas caem. A magnitude desse impact() sobre a economia dos Estados
Unidos é, contudo, pequena, porque a economia desse pais é muito gr, ande se corn-
parada a do Mexico.
Os eventos que descrevemos poderiam ocorrer em qualquer economia do
mundo e de fato eles ocorrem de tempos em tempos. Em 1997, o mundo descobriu
que os sistemas bancEirios de diversas economias asi6ticas, inclusive da Tailandia,
Coreia do Sul e Indonesia, estavam perto da bancarrota, e essa noticia induziu
fugas de capital dessas nacoes. Ern 1998, o govern° russo deixou de pagar sua
da, induzindo os investidores intemacionais a pegar todo o dinheiro que podiam e
promover uma fuga de capitais. Urn conjunto de acontecimentos semelhantes (mas
mais complicados) se verificou na Argentina em 2002. Em todos esses casos de fuga
de capitais, os resultados foram muito semelhantes aos previstos por nosso mode-
lo: aumento das taxas de juros e depreciacao da moeda.
Serzi que a fuga de capitais pode acontecer nos Estados Unidos? Embora a eco-
nomia norte-americana seja he muito considerada uma economia segura para
investir, acontecimentos politicos nesse pais por vezes induziram a pequenas fugas
de capitais. Por exen-iplo, a edicao de 22 de setembro de 1995 do New York Times
informou que no dia anterior o "Presidente da Camara dos Deputados, Newt
Gingrich, ameacara levar os Estados Unidos C inadimplencia em relacao C sua
da, pela primeira vez na historia do pais, para forcar o govern° Clinton a equilibrar
o orcamento de acordo corn as condicoes desejadas pelos republicanos" (p. Al).
Embora a maioria clas pessoas considerasse improv6vel o cumprimento da amea-
ca, o efeito do amincio foi, em menor escala, semelhante ao que o Mexico experi-
mentou em 1994. Durant@ aquele dia, a taxa de juros sobre urn titulo de 30 anos do
govern° norte-americano aumentou de 6,46% para 6,55% e a taxa de cambio caiu
de 102,7 para 99,0 ienes por Mar. Portant°, ate a est6vel economia norte-america-
na é potencialmente suscetivel aos efeitos de uma fuga de capitais.

Test Rapido Suponha que os norte-americanos decidam gastar uma parcela menor de suas rendas.
Qual seria o efeito sobre a poupanca, o investimento, as taxas de juros, a taxa de cambia real e a balanca
comercial?
CAPITULO 32 TEORIA MACROECONC/MICA DA ECONOMIA ABERTA 715

CONCLUSik0
A economia intemacional e um tOpico de in-iportncia crescente. Cada vez mais
cidaffios norte-americanos compram bens produzidos no exterior e produzem
bens para serem vendidos no exterior. Por meio dos funclos nilltuos e cle outras
tituições financeiras, tomam e concedem emprestimos nos mercados financeiros
clo mundo todo. Conseqentemente, uma análise con-ipleta da econon-lia dos
Estados Unidos exige o entendimento de como a economia norte-americana inte-
rage com outras economias do mundo. Esse capitulo ofereceu um modelo
para pensar na macroeconomia das economias abertas.
Embora o estudo da macroeconomia internacional seja valioso, devemos ser
cuidadosos para não exagerar sua importncia. Os formuladores de politicas e os
analistas politicos freqentemente se apressam a culpar os estrangeiros por proble-
mas enfrentados pela econon-lia norte-americana. Os economistas, por sua vez,
entendem que em geral esses problemas tth-n origem intema. Por exemplo, os poli-
ticos n-mitas vezes dizem que a competi o estrangeira e uma amega aos padr^c5es
de vida norte-americanos. Já os economistas tendem a lamentar o baixo nivel de
poupanyl intema. Uma baixa poupaNa impede o crescimento do capital, da pro-
dutividade e dos padres de vida, independentemente de a economia ser aberta ou
fechada. Os estrangeiros são um alvo conveniente para nossos politicos porque
um bom jeito de se eximir de responsabilidades sem ofender quaisquer
eleitores do país. Portanto, sen-ipre que ouvir c.-Iiscusses populares sobre o comer-
cio e as finaNas internacionais, e especialmente importante tentar separar o mito
da realidade. As ferramentas apresentadas nos dois últirnos capitulos devem ser
teis para isso.

RESUMO
• Para analisar a macroeconomia das economias liquido). No mercado de câmbio, a taxa de cârnhio
abertas, dois mercados são centrais: o mercado de real se ajusta para equilibrar a oferta de dOlares
fundos de emprestimos e o mercado de câmhio de (proveniente do investimento externo liquido) e a
moeda estrangeira. No mercado de fundos de demanda por dOlares (proveniente das exporta-
emprestimos, a taxa de juros real se ajusta para 5es liquidas). Como o investimento extemo liqui-
equilibrar a oferta de fundos para emprestimos do e parte da demanda por fundos para empresti-
(provenientes da pouparwa nacional) e a demanda mos e prov/e' a oferta de dOlares para o câmhio, ele
por fundos para emprestimos (provenientes do a vari vel que liga esses dois mercados.
investimento intemo e do investimento externo
716 PARTE 11 A MACROECONOMIA DAS ECONOMIAS ABERTAS

• Uma politica que reduza a poupanca nacional, dada e, assim, aumenta a demanda por Mares no
como um deficit orcament6rio do govemo, reduz a mercado de cambio. Como resultado, o dOlar se
oferta de fundos para emprestimos e eleva a taxa aprecia, tomando os bens produzidos internamen-
de juros. Uma taxa de juros mais elevada reduz o te mais caros em relacao bens estrangeiros. Essa
investimento extemo liquido, o que reduz a oferta apreciacdo contrabalanca o impacto inicial da res-
de Mares no mercado de cambio. 0 Mar se apre- tricao ao comercio sobre as exportacoes liquidas.
cia e as exportacoes liquidas caem. • Quando os investidores mudam suas atitudes em
• Embora as polfticas comerciais restritivas, como as relacao a posse de ativos de urn pais, os efeitos
tarifas ou as cotas de importacao, sejam por vezes para a economia do pais podem ser profundos.
defendidas como meio de alterar o equilibrio Mais especificamente, a instabilidade politica pode
comercial, elas nao tern, necessariamente, esse induzir a fuga de capitals; que tende a aumentar as
efeito. Uma restricao ao comercio aumenta as taxas de juros e provocar a depreciacao da moeda.
exportacoes liquidas, para uma taxa de cambio

CONCEITOS-CHAVE
politica comercial, p. 708 fuga de capitais, p. 712

QUESTOES PARA REVISAO


1. Descreva a oferta e a demanda no mercado de fun- nas roupas fabricadas nos Estados Unidos. Qual o
dos de emprestimos e no mercado de cambio de irnpacto dessa politica sobre a balanca comercial e
moeda estrangeira. Como esses mercados estho a taxa de cambio real? Qual o impact° sobre a
ligados urn ao outro? industria textil? Qual o impact() sobre a inclustria
2. Por que os deficits orcamentarios e os deficits automobilistica?
comerciais sao as vezes chamados de deficits ge- 4. 0 que é fuga de capitais? Quando urn pais apre-
meos? senta fuga de capitais, qual o efeito desse event°
3. Suponha que urn sindicato de trabalhadores na sobre sua taxa de juros e sobre sua taxa de cambio?
inch:Istria textil incentive as pessoas a comprar ape-
CAPITULO 32 TEORIA MACROECONC3MICA DA ECONOMIA ABERTA 717

PROBLEMAS E APLICAOES

1. 0 Japo geralmente apresenta um supervit comer- b. Use um diag,rama de tr' s paineis para mostrar o
cial sig,nificativo. Em sua opinião, isso esti mais efeito desse deslocamento das exportg "c5es
relacionado à elevada demanda externa por produ- liquidas sobre a taxa de dimbio real e a balarR;a
tos japoneses, à baixa demanda japonesa por pro- comercial dos Estados Unidos.
dutos estrangeiros, à alta taxa de poupaNa em c. A afirmalo da imprensa popular e consistente
ção ao investimento do pais, ou a barreiras estrutu- com o modelo apresentado neste capitulo? Uma
rais contra as importa(-;5es para o Explique queda da qualidade dos produtos americanos
sua resposta. teria qualquer efeito sobre o padrio de vida nos
2. Um artigo do The New York Times (14 de abril de Estados Unidos? (Dica: Quando os Estados
1995) a respeito de uma queda no valor do dlar Unidos vendem seus produtos a estrangeiros, o
relatou que "o presidente está evidentemente que recebem como retorno?)
determinado a sinalizar que os Estados Unidos 5. Um economista discutindo a politica comercial na
permanecem solidamente na rota de redu o do revista The New Republic, escreveu: "Um dos bene-
deficit, o que deveria tomar o dOlar mais atraente ficios da remo o das restri es comerciais dos
para os investidores". A reducio do deficit elevaria, Estados Unidos [e] o ganho das indstrias ameri-
de fato, o valor do dOlar? Explique. canas que produzem bens para exportz4o. As
3. Suponha que o Congresso aprove um credito tribu- indilstrias exportadoras tero maior facilidade para
tEirio para investimento que subsidie o investimen- vender seus produtos no exterior — mesmo se os
to interno. Como essa politica afeta a poupaNa outros paises 1-1"o seguirem nosso exeniplo e redu-
nacional, o investimento intemo, o investimento zirem suas barreiras comerciais". Explique, em
externo liquido, a taxa de juros, a taxa de cânihio e texto corrido, por que as indstrias exportadoras
a balaNa comercial? americanas se beneficiarian-1 de uma redu o das
4. 0 capitulo observa que o aumento do deficit restrições às importa-c-ies dos Estados Unidos.
comercial dos Estados Unidos durante a decada de 6. Suponha que os franceses desenvolvam subita-
1980 foi devido, em g,rande parte, ao aumento do mente uma g-rande preferncia por vinhos da
. CalifOrnia. Responda às perguntas a seguir
deficit orament iirio norte-americano. Por outro
lado, a imprensa popular algumas vezes afirma texto corrido e usando um diagrama.
que o aumento do deficit comercial resultou a. 0 que aconteceria com a demanda por d1ares
uma queda da qualidade dos produtos americanos no mercado de dimbio?
em rela o aos estrangeiros. b. 0 que aconteceria com o valor do d1ar no mer-
a. Suponha que a qualidade dos produtos ameri- cado de cffillbio?
canos tenha, realmente, caido durante a decada c. 0 que aconteceria con-i a quantidade de expor-
de 1980. Como isso afetaria as exporta es ta5es liquidas?
das para quahmer tax-a de dimbio dada?
718 PARTE 11 A MACROECONOM1A DAS ECONOM1AS ABERTAS

7. Uma senadora renuncia ao apoio que dera ao pro- muito baixa, esse aumento da pouparia privada
tecionismo no passado: "O deficit comercial ame- terá um efeito grande ou pequeno sobre a taxa
ricano deve ser reduzido, mas as cotas de importa- de c" rribio real norte-americana?
o apenas irritam nossos parceiros comerciais. Se 10. Durante a decada passada, parte da poupaNa
-
em vez disso subsidiarmos as exporta c5es ameri- japonesa foi usada para financiar o investimento
canas, poderemos reduzir o deficit por meio do norte-americano. Isto e, os japoneses compraram
aumento de nossa competitividade". Usando um ativos de capital norte-americanos.
diagrama em tres paineis, mostre o efeito de um
a. Se os japoneses tivessem decidido não mais
subsidio às exportg ,5es sobre as exportg'6es
comprar ativos dos Estados Unidos, o que teria
das e sobre a taxa de crribio real. Voce concorda
acontecido com o mercado de fundos de em-
com a senadora?
prestimos dos Estados Unidos? Mais especifica-
8. Suponha que as taxas de juros reais aumentem em
toda a Europa. Explique como esse fato afetará o mente, o que aconteceria com as taxas de juro, a
investimento externo líquido dos Estados Unidos. poupana e o investimento norte-americanos?
Depois, explique como isso afetaria as exporta-c5es b. 0 que aconteceria no mercado de cffinbio? Mais
liquidas dos Estados Unidos usando a frmula especifican-iente, o que aconteceria com o valor
apresentada neste capitulo e um diagran-ia. 0 que do dc5lar e com a balaNa comercial dos Estados
aconteceria com a taxa de juros e com a taxa de Unidos?
c mbio reais norte-americanas? 11. Em 1998 o governo russo deixou de honrar sua
9. Supordia que os norte-americanos decidam divida, levando a um aumento da preferencia dos
aumentar sua poupaNa. investidores de todo o mundo pelos titulos do
a. Se a elasticidade do investimento externo •-
governo norte-americano, que s o considerados
do dos Estados Unidos em relação à taxa de -
muito sepros. Que efeito, em sua opini a"o, essa
juros real for rnuito elevada, esse aumento da "fuga para a segurarwa"teve sobre a economia dos
poupaNa privada terá efeito grande ou pequeno Estados Unidos? N'a'o deixe de notar o impacto
sobre o investimento interno dos Estados
sobre a 1_->oupaNa nacional, o investimento inter-
Unidos?
no, o investimento externo liquido, a taxa de juros,
b. Se a elasticidade da exporta o líquida norte-
a taxa de cârnhio e a balaNa comercial.
americana em rela o à taxa de c mbio real for
CAPITULO 32 TEORIA MACROECON6MICA DA ECONOMIA ABERTA 1719

12. Suponha que os fundos mlituos norte-americanos investimento norte-americano no Canada dei-
decidam subitamente investir mais no Canada. xaria os trabalhadores canadenses em melhor ou
a. 0 que aconteceria corn o investimento externo em pior situacdo?
liquido, a poupanca c o investimento intern° ca- d. Em sua opinido, isso deixaria os trabalhadores
nadenses? norte-americanos em melhor ou em pior situa-
b. Qual o efeito de longo prazo sobre o estoque c5o? Voce conseg,ue imaginar alguma razdo pela
capital canadense? qual o impact° sobre os ciciaddos dos Estados
c. Como essa mudanca no estoque de capital afe- Unidos geralmente pode ser diferente do impac-
taria 0 mercado de trabalho canadense? Esse to sobre os trabalhadores norte-americanos?

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