Você está na página 1de 4

Formação das fronteiras latino-americanas

às fronteiras com os vizinhos (herdando, inclusive, uma questão


com a Venezuela).

3.41.5 Fronteira Brasil-Suriname (terrestre)


Brasil e Países Baixos firmaram o Tratado de limites, no Rio
de Janeiro, em 5 de maio de 1906, relativo à fronteira daquele
com a colônia neerlandesa do Suriname (ou Guiana Holandesa),
fixando os limites comuns pela Serra do Tucumaque por meio do
divortium aquarum. O Suriname se tornaria independente em 1975,
sucedendo os Países Baixos no acordo de limites com o Brasil.
Assim, a fronteira terrestre Brasil-Suriname se caracteriza,
hoje, como uma fronteira seca, para cuja delimitação se adotou
como critério o divisor de águas. Como resultado, não há
compartilhamento de bacias hidrográficas entre os dois países:
nem o Brasil tem acesso às bacias dos rios Maroni e Corantyne,
que correm para norte e desaguam no Atlântico, nem o Suriname
tem acesso à bacia do rio Amazonas. Trata-se de um raro exemplo
de fronteira latino-americana que se estabeleceu sem atritos e por
um critério tão singelo.

3.41.6 Fronteira Cuba-EUA (marítima)


Cuba e EUA mantêm uma controvérsia territorial acerca da
baía de Guantánamo, na região sudeste da ilha, que remonta à
época da derrota da Espanha na Guerra Hispano-Americana de
1898, quando os EUA tomaram posse dos derradeiros territórios
coloniais desse país, tais como Porto Rico, Filipinas e Cuba. Sob a
presidência de Theodore Roosevelt, os EUA forçaram a aprovação
da chamada “Emenda Platt” à Constituição cubana, que autorizava
a intervenção estadunidense na ilha, que se convertia, assim, em
uma espécie de protetorado estadunidense.551 Foi nesse contexto

551 GARCIA, 2005: 113.

456
Formalização das fronteiras na América Latina

que os EUA e Cuba firmaram, em 1903, um tratado por meio do qual


esta arrendava àqueles a área da baía de Guantánamo, onde hoje se
encontra instalada uma controvertida Base Naval estadunidense.
O governo de Cuba questiona, inclusive em seu texto
constitucional, a validade desse tratado, alegando ter sido celebrado
em situação de desequilíbrio entre as partes, num momento em
que o país se encontrava subordinado ao outro:
Artículo 11 […]
c) […] La República de Cuba repudia y considera ilegales
y nulos los tratados, pactos o concesiones concertados
en condiciones de desigualdad o que desconocen o
disminuyen su soberanía y su integridad territorial.
Las relaciones económicas, diplomáticas y políticas con
cualquier otro Estado no podrán ser jamás negociadas
bajo agresión, amenaza o coerción de una potencia
extranjera.552
Em face do não reconhecimento cubano da soberania
estadunidense em Guantánamo, para além do entendimento da
própria Suprema Corte dos EUA de que não tem jurisdição sobre
esse território, pode-se concluir que não existe uma fronteira
terrestre formalizada entre os dois países.
Quanto à fronteira marítima, Cuba e EUA firmaram um
Maritime Boundary Agreement em 16 de dezembro de 1977, que não
viria a ser ratificado pelo governo deste último país.553 Por conta
disso, a fronteira marítima entre ambos vinha-se regendodo por
um tratado provisório renovado a cada dois anos, originalmente
estabelecido em 1989 por troca de notas entre o governo dos EUA

552 CUBA. Constitución (1976). Constitución de la República de Cuba. 1976.


553 CUBA; UNITED STATES. Maritime Boundary Agreement between the United States of America and
the Republic of Cuba. December 16, 1977.

457
Formação das fronteiras latino-americanas

e o embaixador da Checoslováquia nesse país, como interlocutor e


representante dos interesses cubanos.554
Com relação à delimitação da plataforma marítima ampliada,
na área do Golfo do México conhecida como Polígono Oriental,555
Cuba e EUA firmaram, em 18 de janeiro de 2017, em Washington,
um novo acordo para delimitar suas fronteiras marítimas em
comum, junto com um acordo sobre busca e salvamento aeronáutico
e marítimo. Paralelamente, na mesma ocasião, Cuba firmou com o
México um tratado sobre a delimitação em comum nessa mesma
área.
De acordo com Angel de la Vega Navarro (2007), a política
estadunidense para a fronteira Cuba-EUA, assim como em todos
os demais aspectos econômicos, visaria a alijar Cuba do melhor
aproveitamento de seus recursos petrolíferos:
Cierto es que, hasta ahora, Estados Unidos, un país
que se presenta como el paladín del libre comercio y la
apertura, no ha encontrado durante más de 45 años
mejor actitud con un vecino con el cual comparte una
frontera marítima que dejarlo fuera de importantes
flujos económicos, científicos y tecnológicos. Esto a pesar
de que la proximidad geográfica dictaría una relación
estrecha, por ejemplo para apoyar la renovación completa
de la infraestructura energética cubana.556
No entanto, segundo o autor, a competição com empresas
canadenses e mesmo latino-americanas (caso da Petrobras), que

554 CUBA; UNITED STATES. Agreement to Extend the Provisional Application of the Maritime Boundary
Agreement, Signed December 16, 1977. December 26, 1989.
555 V. item 3.41.9, infra.
556 VEGA NAVARRO, Angel de la. La frontera olvidada: México y Cuba en el Golfo. ¿Cuba será país
exportador de petróleo en la próxima década? La ironía es que algunos escenarios prevén que México
se convertirá en importador de petróleo. Energía a Debate, Tomo IV, n. 20, mayo junio de 2007.

458
Formalização das fronteiras na América Latina

já têm participação na exploração dos recursos petrolíferos da


ZEE cubana, tem forçado as empresas estadunidenses a pleitear
uma revisão da legislação interna do país, em especial do Helms­
‑Burton Act, de modo a abrir uma exceção na aplicação do bloqueio
para companhias energéticas. Em dezembro de 2014, o presidente
estadunidense Barack Obama anunciou as primeiras iniciativas
com vistas ao fim do embargo a Cuba, retomando as relações
diplomáticas mútuas e o intercâmbio comercial de certos bens.

3.41.7 Fronteira EUA-México (terrestre e marítima


bioceânica)
Ao longo do século XIX, adotando uma política de expansão
territorial baseada na doutrina do “destino manifesto”, os EUA
ampliaram seus domínios para oeste do continente adentro,
incorporando ao território nacional cerca de 6.000.000 km2 de
novas terras. Essa expansão se processou por meio de ocupação,
compra, cessão e conquista de territórios. Por exemplo, a Luisiana
foi comprada da França em 1803, a Flórida foi adquirida da
Espanha em 1819 e o Alasca e as Ilhas Aleutas, da Rússia em 1867.

459

Você também pode gostar