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Formação das fronteiras latino-americanas

3.10 Fronteira Brasil-Colômbia (terrestre)


Durante suas oito primeiras décadas de independência, os
governos do Brasil e de Nova Granada (mais tarde, Colômbia)
empreenderam diversas iniciativas infrutíferas de discriminar
os seus domínios na vastidão semidespovoada da Amazônia,
sobretudo a posse da região compreendida entre os rios Japurá e
Negro.
Três missões neogranadinas enviadas ao Rio de Janeiro
entre 1826 e 1832 não resultaram em acordo. Em 25 de julho
de 1853, representantes de Brasil e Nova Granada firmaram, em
Santa Fé de Bogotá, o Tratado de amizade e limites, “determinando
a única fronteira que havia a demarcar entre o Brasil e aquela
República”,287 mas que acabou rejeitado por unanimidade pelo
Senado neogranadino, sob o fundamento de que o reconhecimento
da fronteira nele estipulada resultaria no enfraquecimento dos
títulos territoriais de Nova Granada nas controvérsias de limites
com o Peru e o Equador.288 Em 1867, o governo brasileiro enviou
uma missão ao país vizinho, com o objetivo de obter a aprovação
daquele tratado, sem sucesso.289
Segundo A. G. de Araujo Jorge (2012), as negociações para
fixar os limites dessa fronteira malogravam em face da obstinação
do governo de Bogotá em reivindicar os limites traçados pelo
“insubsistente Tratado Preliminar de Santo Ildefonso de 1777,
que, a prevalecer, lhe adjudicaria uma enorme área do nosso estado
do Amazonas, estirada até quase as portas de Manaus, com uma
superfície de 127.060 quilômetros quadrados”.290

287 OLIVEIRA, 1912a: 191.


288 JORGE, A. G. de Araujo. Introdução às obras do Barão do Rio Branco. Brasília: FUNAG, 2012. p. 156.
289 GARCIA, 2005: 75 e 88.
290 JORGE, 2012: 155.

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Formalização das fronteiras na América Latina

Pode-se dizer que governo de Bogotá reivindicava, de início,


o emprego do uti possidetis juris como critério delimitador dessa
fronteira, ao passo que o governo do Rio de Janeiro buscava
assegurar seu uti possidetis de facto sobre as áreas questionadas,
ainda que carente de maior fundamentação, dada sua baixa
densidade demográfica.
Em sua atual configuração, a fronteira colombiano-brasileira
veio a ser estabelecida por dois tratados, de 1907 e 1928.
O Tratado de límites, conhecido como Tratado Vásques Cobo-
-Martins, firmado em Bogotá em 24 de abril de 1907, estabeleceu a
fronteira a partir da ilha de San José até a foz do rio Apapóris no rio
Caquetá, além de reconhecer o direito de livre trânsito entre os dois
países, tanto pelas vias terrestres quanto pelas fluviais, observada
a legislação tributária, policial e de cabotagem pertinentes.291
Celebrou-se, conjuntamente com o Tratado de 1907, um
modus vivendi sobre a navegação do rio Putumayo ou Içá.
Buscando resolver questões de limites em comum, Brasil,
Colômbia e Peru firmaram, junto com EUA, a Ata de Washington,
em 4 de março de 1925, que reconhece a linha Apapóris-Tabatinga
(ou Tabatinga-Apapóris, forma que registram algumas fontes)
como constitutiva da fronteira Brasil-Colômbia.292 Trata-se de
uma fronteira artificial em linha reta ligando a foz do rio Apapóris
no rio Caquetá, na altura da também cidade brasileira de Vila
Bittencourt, à cidade brasileira de Tabatinga, que fica às margens
do Solimões, na atual fronteira trinacional Brasil-Colômbia-Peru.
No mapa do Brasil, é a linha reta ao sul da “cabeça de cachorro”.
Originalmente, a Apapóris-Tabatinga havia sido estipulada como

291 BRASIL; COLOMBIA. Tratado de limites (Tratado Vásques Cobo-Martins). Bogotá, 24 de abril de
1907.
292 BRASIL; COLÔMBIA; ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA; PERU. Acordo de Washington (Ata de
Washington). Washington, 4 de março de 1925. Versões autênticas em português, espanhol e inglês.

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Formação das fronteiras latino-americanas

limite entre Brasil e Equador pelo Tratado de 1904;293 no entanto,


o Equador veio a ceder à Colômbia o território por meio do qual
fazia fronteira com o Brasil.294
Em 15 de novembro de 1928, Brasil e Colômbia firmaram, no
Rio de Janeiro, o Tratado de límites y navegación fluvial, conhecido
como Tratado García Ortiz-Mangabeira, que formalizava o trecho
Apapóris-Tabatinga como limite entre os dois países, além de tratar
da navegação fluvial.295 O pano de fundo desse acordo foi a ferrenha
disputa territorial havida entre Colômbia, Peru e Equador em vista
da indefinição da fronteira amazônica após a dissolução da Grã-
-Colômbia, em especial das terras situadas a sul do rio Japurá ou
Caquetá.
Atualmente, a fronteira Brasil-Colômbia se estende por cerca
e 1.645 km em terras amazônicas. Para a Colômbia é a segunda
maior em extensão, dentre suas quatro linhas de fronteira terrestre,
e foi a primeira a ser delimitada de forma definitiva por meios
diplomáticos. Do lado colombiano confinam os departamentos de
Amazonas, Guainía e Vaupés; do lado brasileiro, fica o estado do
Amazonas.
A zona fronteiriça brasileiro-colombiana, caracterizada pela
indefinição das linhas demarcatórias em meio à floresta, é em sua
maior parte habitada por povoações indígenas, cujos integrantes
trafegam livremente pelos dois lados da linha limítrofe.

293 BRASIL; EQUADOR. Tratado de limites entre o Brasil e o Equador. Rio de Janeiro, 6 de maio de 1904.
In: BARÃO DO RIO BRANCO. Obras do Barão do Rio Branco. V. Brasília: FUNAG, 2012. p. 83-85. Versão
autêntica em português.
294 V. ítem 3.17.1, infra.
295 BRASIL; COLOMBIA. Tratado de límites y navegación fluvial. Rio de Janeiro, 15 de noviembre de 1928.

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