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REALISMO CRÍTICO: RELEVÂNCIA TEÓRICO-METODOLÓGICA

PARA A GEOGRAFIA

RODRIGO GONÇALVES DE SOUZA1

Resumo

A presente contribuição visa apresentar a o quadro de referência a partir do Realismo Crítico e


discutir sua relevância para o processo de construção do conhecimento científico geográfico,
bem como ampliar suas potencialidades. Tratará de suas implicações epistemológicas, sua
teoria da relação agência-estrutura e como aborda fenômenos de causação. Defenderá sua
pertinência para tratar categorias analíticas e arcabouços conceituais chave, desenvolvidos na
literatura pertinente, especialmente em problemáticas locacionais. Sob tal abordagem, as
pesquisas orientam-se pela atenção em caracterizar elementos, condições e relações estruturais
– e a constituição formadora destas relações. Também se explora pontes epistemológicas entre
a “Geografia Humana” e a “Geografia Física”.

Palavras-chave: Realismo Crítico, Epistemologia, Ciência Geográfica.

Abstract

The present contribution aims to present the theoretical framework approach based on Critical
Realism and to discuss its relevance to the process of construction of geographic scientific
knowledge, as well as to broaden its potentialities. It will deal with its epistemological implications,
its theory of agency-structure relation, and how it approaches causation phenomena. It will defend
its pertinence to treat analytical categories and key conceptual frameworks developed in the
pertinent literature, especially in locational problems. Under such an approach, research is guided
by attention in characterizing structural elements, conditions, and relationships - and the formative
constitution of these relationships. It also explores epistemological bridges between "Human
Geography" and "Physical Geography".

Keywords: Critical Realism, Episthemology, Geographical Science

1 - Introdução e procedimento metodológico

A Geografia integra o leque dos grandes empreendimentos intelectuais


críticos, organizados e sistemáticos. Crítico, posto que de compromisso
assumido de constante auto-avaliação, abertura para o crivo e juizo de trabalhos
e postulados pela comunidade ampla dos pares dedicados à matéria, arcando-
se com o ônus de se expor, sustentar e ratificar postulados.
Nos temas e materiais de seu interesse se contempla e transpassa
temas que hoje são conhecidos também como antropológicos, astronômicos,

1
Doutorando em Geografia pelo Instituto de Estudos Socioambientais da UFG. Membro do
Grupo de Estudos e Pesquisas Trabalho, Território e Políticas Públicas – TRAPPU.
climatológicos, ecológicos, econômicos, históricos, políticos e sociológicos.
Caracteriza-se expressivamente pela preocupação locacional, tanto no sentido
de distribuição quanto de posicionamento dos fenômenos, objetos, processos e
estruturas. Explora-se questionamentos acerca de onde/aonde algo está/ocorre;
por quê nesta localização; como é esta localização, como pode ser delineada e
se há algo próprio dela afetando ou conferindo particularidades ao
acontecimento, à manifestação. Busca-se expedientes para localizar, comunicar
a localização, descrevê-la, representá-la, precisá-la, mensurar variáveis
constituintes da/ou constituídas/associadas com a propriedade locacional.
Analisa-se e constrói possibilidades e arcabouços interpretativos.
A presente contribuição visa apresentar a abordagem teórica a partir do
Realismo Crítico, discutindo sua relevância para o processo de construção do
conhecimento geográfico, bem como ampliar suas potencialidades. Propõe-se a
realizar uma pesquisa teórica, exploratória e bibliográfica.
O Realismo Crítico ainda é relativamente ausente da geografia no
Brasil. Não sendo o espaço para um amplo balanço da repercussão e estado da
arte de seus aportes de profundo alcance em diferentes disciplinas, tratará
concisamente de suas implicações epistemológicas, sua teoria da relação
agência-estrutura, aproximação das relações de causação, além do subsídio
para pontes entre dimensões da chamada “Geografia Humana” para com a
“Geografia Física”. Sob tal abordagem, as pesquisas orientam-se pela atenção
em caracterizar elementos, condições e relações estruturais – e a constituição
formadora destas relações – compreendidas nos problemas de pesquisa. Dentre
contribuições, consta sua denúncia da “falácia epistemológica” em que algumas
orientações podem ocorrer.

2 - Desenvolvimento e discussão

Há um acúmulo de estudos que, com diversas tonalidades e graus de


nuances, apontam que a ciência não parte de “fatos brutos”, “fatos crus”,
captados independentemente de mediações para a representação, mas parte de
proposições, considerações aproximativas (HARRÉ, 1972; TOULMIN, 1974;
PONSER, 1982; LAKATOS, 1986; PUTNAM, 1991; IRZIK; GRUNBERG, 1995;
KUHN, 2012).
Na geografia, estruturas e aparatos gnosiológicos operam na captação
de fenômenos e objetos e na busca de distingui-los, com grande influêcia do
“quando” e “onde” se dão, dos meios que estes “quando” e “onde” proporcionam
e complexos processos que se desenrolam nos mesmos. Tais substratos
epistêmicos, em meio a contextos históricos, subjazem aos elementos,
propriedades e recursos para formulações conceituais, teóricas, para a
disposição de categorias com as quais busca lidar com enigmas, problemas e/ou
apreensão do que se demanda conhecer ou ter por conhecido.
Como formas de controle, facilitação, operacionalização e
sistematização dos dados, fenômenos e compósitos de objetos sobre os quais
formula-se proposições passiveis de serem justificadas, elabora-se técnicas,
constrói-se instrumentos. Tendo em vista a natureza do que se estuda, articulam-
se tais elementos congruentemente em metodologias. Orientando mais
amplamente e estrategicamente, a partir de concepções acerca das
propriedades e delineamentos do conhecimento, dos modos de conhecimento e
possibilidades de conhecimento em graus de rigor, arquitetam-se métodos.
Saliências diferentes podem se destacar diferentemente nos
empreendimentos metódicos de acordo com suas necessidades de reforço para
dar consistência aos seus engenhos e práticas. Permanece sempre a
perquisição se, aquilo com o qual se engaja para tomar ou formar conhecimento,
encaixa-se nos contornos do expediente ou é forçosamente moldado para
preencher os pre-requisitos úteis operacionalmente.
Na história do pensamento da Geografia estas questões estão
refletidas. Moraes (1989) aponta como a geografia moderna necessitou de uma
série de condições históricas, a partir da emergência da obra de polímatos como
Humboldt e Ritter, para despontar como campo autônomo de conhecimento e
depois poder objetivar-se. A tônica se deu em meio a desenvolvimentos
históricos materiais, das ideias, em meio a conflitos sociais, empreendimentos
corporativos e nacionais suscitando desdobramentos epistemológicos. Santos
(2002) acentua a evolução do estudo geográfico em se dando em interface com
campos do conhecimento diversos que influenciaram interesses e focos
especializados da geografia, nos quais se formaram compreensões de naturezas
métricas, espaciais, da cognitividade da natureza e da sociedade, plasmando
pontos de partida categoriais para os geógrafos.
Debates acirrados permearam o percurso da geografia moderna. Várias
formulações procuraram dar respostas se a natureza do pensamento e daquilo
sobre o que o pensamento geográfico se debruça é mais favorecido por
abordagens e preocupações quanto a estudar singularidades, demarcações sui
generis de fenômenos, o decorrer de processos característicos, ou se a
cientificidade seria acentuada pela busca de padrões regulares reproduzíveis
que levassem à formulação de leis gerais. As perspectivas escalares, de recortes
locacionais, premissas epistemológicas, treinamentos de pesquisadores,
pedagogias de ensino, repercutem as necessidades, desenvolvimentos técnicos
e instrumentais proporcionados pelo trabalho com cada perspectiva e suas
ênfases.
Um dos conjuntos em que esta busca se consubstanciou foi a formação
da Geografia Teorética, de ênfase quantitativista, no pós-guerra. Era um
momento conspícuo para avatares da filosofia positivista em grande
proeminência nas ciências chamadas “naturais”, na filosofia da ciência e filosofia
da linguagem. Ganhou terreno nas ciências sociais (ALI; CHOWDHURY, 2015)
com arcabouços metodológicos de linhas hipotético-dedutivas, do empirismo
lógico, do positivismo lógico, do neopositivismo.
Preconizava-se que o conhecimento só pode ser reportado pela
experimentação e na objetividade dos fatos; a busca da unidade do método
científico encarregado de estabelecer leis generalizáveis; a clivagem entre juízos
de fato e juízos de valor, recusando-se a estes últimos o status de conhecimento.
Junto com a apreensão empírica e rigor lógico, se construiriam modelos e teorias
que se referenciassem pela possibilidade de testar as hipóteses que guiam as
observações e predizer comportamento de fenômenos (SCHAEFER, 1977;
CARR; KEMMIS, 1986). Na geografia esta compreensão manifesta-se em
movimentos para reforçar a matematização das análises dos dados da
experiência, o corpo teorético formalizável, a detecção de padrões
generalizáveis e a incorporação na diligência por um monismo metódico com
todas as ciências, especialmente as mais próximas à física.
Contemporaneamente emergiam críticas contra as matrizes do
pensamento positivista nas ciências. Uma das formas mais representativas se
dá com a “fenomenologia” de Edmund Husserl. Contestou a prerrogativa de que
a tarefa da ciência parte de uma apreensão objetiva de fatos, alegando que, ao
invés de se deparar com objetos passivos de captação por estarem
manifestando suas propriedades na realidade, defronta-se com objetos
constituídos pelos modos como alguém atua intencionalmente para com eles –
intenção não em sentido teleológico, mas de situar coordenadamente
(MARTINS; BOEMER; FERRAZ, 1990; DA COSTA, 2018).
A “ordem social” é concebida como arranjo localmente contextuado de
situações sociais; os “fatos sociais” e “estruturas” passam a ser compreendidos
como derivados de práticas sociais e ações significantes, articulando “produções
de sentido” (GARFINKEL; SACKS, 2012). Na geografia, a fenomenologia
desdobrou-se metodicamente na orientação em que se volta “principalmente
para as percepções, cognições e representações de lugares e paisagens
valorizadas individualmente ou intersubjetivamente” (AMORIM FILHO,
2007. Grifo do autor).
A geografia crítica contemporiza tendo em sua matriz o materialismo
histórico como fundamento filosófico no qual a prática científica se firma.
Apregoa-se que a realidade está em movimento, não totalmente sincrônico,
porém em movimentações interdependentes caracterizadas por contradições.
Os objetos de estudos constituem-se neste processo de movimento dialético em
contradições, no qual há superações de condições pretéritas sem eliminá-las.
Implica-se que o procedimento científico tem de lidar com contextos nos quais
os fenômenos poderão ter sua razão e causas em momentos do processo, não
significando necessariamente a essência permanente. A análise decompõe
objetos epistemologicamente para voltar aos mesmos com o concreto pensado,
elevando-se do abstrato; produz-se os dados e examina-se a maneira como os
fatos desenvolvem-se (CARDOSO, 1990).
Metodologias de análise qualitativas ganham destaque, com o olhar
voltado para a produção do espaço e do território em meio a relações de conflitos
sociais. A pauta da “questão ambiental” chama a atenção para “a compreensão
do ser em relação ao seu entorno” e retoma a “importância da compreensão
socioeconômica nas transformações da natureza”; a análise do meio ambiente
exigindo compreensão das práticas sociais, das ideologias e das culturas
envolvidas”, com a “dinamicidade do espaço geográfico” “representada pelo
movimento” (SUERTEAGAY, 2002, p. 113, 117, 118).
Nos anos da década de 1970 irromperam críticas de matrizes
ontológicas realistas nas quais se discutiu a solidez de argumentos positivistas
para a redução de ciências a outras mais básicas, bem como a concepção
explicativa do funcionamento das leis científicas que lhes concatena
dedutivamente enquanto postulados necessários. Também se criticava
pressupostos do construtivismo. Ao invés, ressaltou-se poderes causais,
formados estruturalmente, operantes nos fenômenos que podem ser ativados,
freados, bloqueados (HARRÉ; MADDEN, 1973). A emergência da obra de
BHASKAR (1975) trouxe à tona insuficiências críticas do sistema de explicação
das relações causais, tributário dos postulados de David Hume: válidos para
condições de isolamento experimental, em sistemas fechados com objetos do
conhecimento estáveis e situados em condições externas constantes – o que
não é o que se apresenta mormente na realidade natural.
Apresentou que a fiabilidade da pesquisa científica, incluindo a atividade
experimental, necessita de uma “realidade transfactual”, na qual os objetos
estudados existam e manifestem-se independentemente da atividade de
apreensão cognitiva. Esta realidade é estratificada.
Quadro 01. Ontologia estratificada de acordo com realismo crítico
Domínio do Real Domínio do Efetivo Domínio do
Empírico
Mecanismos ✔
Eventos ✔ ✔
Experiências ✔ ✔ ✔
Fonte: BHASKAR, 2014
O Realismo Crítico expressou o conceito gerativo de causação relativa
a sistemas abertos, nos quais os mecanismos geradores de poderes causais
não estão isolados; quando acionados, eles operam em conjunto com outros
mecanismos geradores, produzindo um resultado complexo, codeterminado
pelas interações (COLLIER, 1994, p. 62). A maior recorrência de determinados
resultados, no horizonte de eventos possíveis da ação de poderes causais é fruto
de “tendências” de formas diversas (BASKHAR, 2014). A depender do resultado
da interatuação das tendências, “efetiva-se” o processamento dos fenômenos no
curso dos acontecimentos ou instituindo um estado de coisas – logo, podendo
produzir regularidades parciais. Nossas formas e instrumentos para captar as
experiências e as impressões decorrentes e/ou representáveis manifestam-se
no nível “epistemológico”. O “Real”, estrutura na qual se estabelece a existência,
nem sempre se “efetiva”, existindo com suas potencialidades ontológicas mais
ricas do que o domínio fenomenológico.
Este quadro de referência então elabora um dispositivo metódico
chamado “retrodução”. Permite conjugar coerentemente técnicas qualitativas e
quantitativas reportadas à estrutura na qual se manifesta a realidade empírica,
destacando-se um estratagema de “triangulação”. Inter-relaciona-se dados
empíricos e abstrações teóricas por meio de trocas de informações obtidas pelos
instrumentos de observação dos objetos nos procedimentos metodológicos
(DOWNWARD; FINCH; RAMSAY, 2002). Ao inquirir acerca dos fenômenos
possibilitados por operações de mecanismos das estruturas, para caracterizar
os poderes causais, examina-se se ocorrem efeitos que em outras estruturas
não ocorreriam, ou se em estruturas similares ocorrem os mesmos ou diferentes
efeitos (SAYER, 1984; JONES, MURPHY, 2011, p.382-383).
O Realismo Crítico propõe ainda articular um expediente lógico para
captar e conceituar mecanismos geradores: a abstração interativa. Objetiva-se
distinguir mecanismos causais em relação aos fenômenos, tendo em mente que
estes mecanismos manifestam-se na estrutura do Real, não redutíveis ao
Empírico. À medida que vai se produzindo dados empíricos, reforça-se ou revisa-
se as abstrações que centram-se em aspectos parciais dos objetos, pondo em
crivo evidências contraditórias até que, eliminando-as, detecte-se mecanismos
causais (YEUNG, 1997). A abstração interativa realística atua com dois critérios
analíticos básicos de julgamento que podem ser expressos pelos
questionamentos:
1) Quando este mecanismo é ativado sob circunstâncias ou
contingências apropriadas, o fenômeno proposto ocorrerá?
2) Esse fenômeno pode ser causado por outros mecanismos? Se sim,
a proposição não pode ser um mecanismo gerador porque não é
exclusiva (YEUNG, 1997 p.59. Tradução nossa) 2.
Quando uma nova abstração não confere acréscismo significativos de
rigor teórico ao mecanismo gerativo, cuja adequação explicativa para o
fenômeno já está empiricamente consistente, ocorre uma “saturação teórica”.
As categorias locacionais manifestam-se epistemologicamente nas
explorações dos analistas - a dimensão transitiva do conhecimento. Porém, na
dimensão intransitiva, as categorias existem relativas a processos e produtos
sociais de representações, de atribuições de sentido e das práticas dos
sujeitos. As estruturas sobre as quais a análise se debruça, para identificar os
mecanismos causais subjacentes sob condições contingentes da realidade,
possuem naturezas temporais e locacionais. Estruturas que emergem
locacionalmente possuem poderes causais incidentes em seu ambiente. De
mecanismos internos advêm tendências cujo resultado implica em efeitos em
escala. Implica que é essencial, na reflexão sobre a caracterização das formas,
objetos e fenômenos, considerar suas conexões com as estruturas da
locacionalidade e as interrelações entre suas partes, não meramente isolar
epistemologicamente dos demais elementos socioespaciais, abstrair e
categorizar.

2
1) When this mechanism is activated under appropriate circunmstances or contingencies, will
the proposed phenomenon occur?
2) Can this phenomenon be caused by other mechanisms? If yes, the proposition cannot be a
generative mechanism because it is not exclusive (YEUNG, 1997, p.59).
Carolan (2005) produz uma discussão com a qual propicia uma tipologia
conceitual que pode oferecer recursos oportunos à preocupação de construir
pontes entre as chamadas geografias “humana” e “física”. Desagrega o que seria
a “realidade natural” em três categorias fluidas de ordem crescente de
“profundidade ecológica”: “natureza”, natureza e Natureza. Descortina a partir
disso possibilidades intelectuais para a compreensão da interrelação dinâmica
entre os “domínios social e natural”. O autor argui que as três categorias
representam “fronteiras híbridas” entre si – relativas a cadeias de associações
de significantes biofísicos e sociais - e analiticamente diferenciadas uma da
outra. A primeira categoria, “natureza”, diz respeito a um “conceito
sociodiscursivo” (CAROLAN, 2005, p.402).
A natureza – sem aspas – é a dos campos, florestas, ventos, energia
solar, organismos, bacias hidrográficas, aterros, do DDT. Ubiquamente, nela se
sobrepõem os domínios sociocultural e biofísico, onde expressões explicativas
da ação social não se cingem do ambiente físico onde ocorrem – que molda em
extensões variáveis a construção de significado, especialmente o senso
locacional. A ecologia desempenha papel mesmo na formação de padrões
sociais e sociopsicológicos no contexto das relações e conflitos geopolíticos.
A Natureza seria a categoria de fenômenos mais profundos, porém
abertos. É o domínio da causalidade física, de influxos permanentes; da
gravidade, da termodinâmica, das dinâmicas ecossistêmicas (que estariam em
nível menor de profundidade em relação à gravidade, à termodinâmica). Mas
estas “camadas” de profundidade retroagem-se e podem participar de dinâmicas
interdependentes com os domínios das duas categorias menos profundas.
Propõe-se inquirir e destacar quantos estratos seriam necessários para
proporcinar uma estrutura conceitual discursiva às dinâmicas sociobiofísicas
mutáveis.
Ainda no arcabouço compreensivo do quadro de referência, Bhaskar
(2014, p.34) argui, a respeito do dilema agência/estrutura, que a estrutura foi
sempre necessária para a agência, ao mesmo tempo a agência reproduziu ou
transformou estruturas (BHASKAR, 2013, p. 276). Archer (2000, p. 465),
propugna que as estruturas sociais são ordinariamente dependentes de
sincronismos de interações e, os efeitos causais das estruturas sociais, sempre
mediados pelas práticas humanas (agência). Jessop (2005) propõe uma
abordagem “estratégico-relacional” na qual a relação agência-estrutura é
pensada em termos de propriedades emergentes, incluindo, além de
coordenadas espaço-temporais, propriedades relativas a padrões seletivos de
restrições, oportunidades e horizontes de ação espaço-temporais.
O Realismo Crítico argui também pelo princípio do “relativismo
epistemológico”, que pondera que mesmo com o comprometimento das
pesquisas a partir do assentimento com a existência – relativamente - autônoma
da realidade que pode ser pensada, dotada de sua natureza particular que arbitra
o emprego metodológico, as possibilidades de conhecimento condicionam-se na
transitoriedade histórica onde se dão descrições particulares. Implica na
falibilidade dos relatos sobre a realidade, o perspectivismo dos critérios de
racionalidade das representações da realidade. Pries (2005, p. 176.Tradução
nossa) assinala que uma perspectiva relativística aplicada à visão geográfica
permite uma melhor discussão sobre mudanças de alcance e escopo,
contemplando “aglomerações pluri-locais, densas e duradouras de práticas
sociais, símbolos e artefatos”3.

3 - Considerações finais

Ao interrogar-se nas problemáticas acerca do método, o pesquisador


precisa estar ciente de que parte de uma visão maior que vai orientar seu
procedimento. Deve assim, com consistência, articular critérios e parâmetros na
elaboração do seu discurso, ordenado de forma que pretenda falar algo que se
possa alegar ser verídico e passível de discussão livre.
O esforço tradicional em ciências por constatar “leis” consideradas como
padrões de regularidades depara-se com imbróglio de que sistemas fechados ou

3
“allowing for the formation of pluri-local, dense and durable agglomerations of
societal practices, symbols, and artifacts” (PRIES, 2005, p.176).
que correspondam a ambientes de controle ou simulação correspondem em
baixo grau ao que se pode encontrar na realidade complexa. Também no
domínio da geografia, em sistemas abertos, padrões de regularidades,
dependendo da integração de seus elementos no espaço-tempo que não são
causalmente indiferentes entre si, são transitórios e locacionalmente
circunscritos.
Desta forma, ao invés de dirigir a atenção para as regularidades dos
fenômenos, o Realismo Crítico procura pelos mecanismos e poderes causais,
seu modo de operação e condições de ativação, a natureza da estrutura que
faculta aos mecanismos existirem. A abordagem geográfica encontra uma
profícua oportunidade como campo epistêmico para aproximar-se e situar este
desafio investigativo.
Os fenômenos são compreendidos indagando-se pelas suas causas e
analisados no bojo dos processos em que se desencadeiam e desenvolvem.
Busca-se identificar as estruturas e daí suas potencialidades - as quais norteiam
o curso dos eventos -, bem como a forma característica do funcionamento destas
estruturas e, a partir daí, elucidar os modos de atuação.
Um fenômeno ou conjunto de fenômenos pode ser resultado de ação de
mais de um poder causal, por vezes contraditórios; por sua vez, um poder causal
pode interagir com tendências diferentes levando a fenômenos variados.
Todavia, não se coíbe uma possível referência a uma prioridade causal, dado
que algumas estruturas são mais importantes do que outras em moldar
resultados particulares; o que é mais central ou importante vai depender de quais
objetos do conhecimento está se tentando explicar.
O Realismo Crítico apresenta uma percepção de níveis ontologicamente
estratificados, com camadas diversamente profundas e/ou diversamente amplas
da realidade. O princípio da transitividade do conhecimento possível acerca de
objetos empíricos e fenômenos admite que a apreensão cognitiva da natureza
só é possível por descrições que são, inerentes, social e historicamente
variáveis. Constituem-se como construções epistêmicas expressadas
intersubjetivamente, implicando em nuances de sobreposição das
representações do “natural” e do “sociocultural”. A posição não-reducionista
aborda fenômenos ecológicos enquanto fenômenos sistêmicos abertos,
compreendidos em interrelações estruturais complexas transitivas entre si.
Discutiu-se a abordagem do Realismo Crítico no intuito de permitir
interfaces metodológicas relativas às múltiplas dimensões e facetas que um
problema de pesquisa suscita, situadas numa esfera abrangente, mas coerente
e estruturada de aproximações e tratamentos do problema sob um prisma
geográfico compreensivo.

4 - Referências

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